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Aula 84 – SENTENÇA E COISA JULGADA

PROFESSOR MAURÍCIO ZANOIDE


1. Decisão penal

 Apesar de classicamente chamado de sentença penal, o tema será tratado por decisão penal,
pois decisão penal é o gênero do qual sentença penal é espécie.

I – Espécies de Atos Judiciais – art. 800 do CPP

 Despacho de mero expediente


 Atos ordinatórios, sem caráter, conteúdo ou carga decisória;
 Irrecorríveis, embora passíveis de correição parcial caso invertam o fluxo procedimental

 Decisão interlocutória simples: decide questão incidente ou emergente sem pôr fim ao processo
 Possui mínimo cunho decisório, mas pode gerar prejuízo aos interesses de uma das partes;
 Não se relacionam ao mérito da causa penal;
 Irrecorrível, exceto em caso de disposição legal expressa.

 Decisão interlocutória mista (ou “com força de definitiva)


 Possui cunho decisório de questão que, de algum modo, afeta o mérito da causa;
 Pode ser terminativa ou não do processo: encerra o processo sem julgamento do mérito ou
finaliza uma etapa do procedimento;
 Em regra, cabível recurso em sentido estrito.

 Sentença/Acórdão: ato decisório com o qual põe fim ao processo com ou sem julgamento do
mérito.

II – Partes da sentença – art. 381 do CPP

 Tratam-se das partes obrigatórias para que a decisão judicial não seja nula (art. 564, III, ‘m’, do
CPP);
 Deveriam ser obrigatórias, sob pena de nulidade, a toda decisão judicial.

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 Relatório: sem ele temos uma decisão sem contexto (art. 381, I e II, CPP). É facultativo no rito
sumaríssimo (art. 81, §3º, da Lei 9.099/95)

 1ª Parte: identificação das partes (art. 381, I, do CPP)


Acusado – deve seguir a descrição da denúncia (art. 41 do CPP)
Vítima (se houver)
Acusador – público ou privado

 2ª Parte: indicação das teses jurídicas das partes (art. 381, II, do CPP) – não é o momento
de análise, aceitação ou rejeição de qualquer tese, mas apenas a indicação delas.

 Fundamentação: sem ela temos uma decisão sem conteúdo e legitimidade constitucional

 Razões:
- Imposição constitucional cogente sob pena de nulidade: art. 93, IX, da CF; arts. 315, §2º
e 381, III e IV, todos do CPP;
- Política: meio de controle social de legitimidade quanto ao exercício do poder-dever
pelo juiz e meio de controle das partes sobre a efetivação do contraditório.

 Conteúdo:
- Deve analisar criticamente as teses jurídicas, mostrando as razões de fato, com base em
elementos demonstrados de prova constante dos autos (razões jurídicas);
- Vedação de fundamentação “per relationem”;
- Indicação de dispositivos legais ligados ao desenvolvimento do iter racional da
argumentação lógico-jurídica;
- Vide art. 315 do CPP.

 Dispositivo (art. 381, V, do CPP): sem ele temos uma decisão sem um sentido/destinatário

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- Após expor suas razões de decidir, é nesta que reside a ordem jurisdicional a ser cumprida e
por quem, declarando a inocência ou, em caso de condenação, procedente a dosimetria da pena
(art. 387 do CPP) justificando-a, ou, ainda, declarando a extinção da punibilidade;
- Deve ser uma decorrência lógica do até então fundamentado, a fim de se evitar a denominada
“sentença suicida” (contraditória à fundamentação);
- Fixação de valor mínimo para a reparação de danos causados pela infração, tendo como
referência os prejuízos sofridos pelo ofendido (art. 387, IV, do CPP) desde que tenha sido pedido
na denúncia/queixa e sobre ele tenha havido efetivo contraditório e produção de provas.

 Data e assinatura (art. 381, VI, CPP):


- Ao final deve o juiz datar e assinar a sentença, determinando a publicação da sentença. Em
processo eletrônico isso se dará por meio digital (assinatura eletrônica/certificação digital).
- Importância da data: serve para verificação da competência do juiz no momento do ato.

III – Publicação da sentença (art. 389 do CPP)

 A sentença só passa a ser ato do poder jurisdicional quando é tornada pública. Até a
publicação, ela é ato pessoal do juiz, sem relevância jurídica, podendo por ele ser alterada a
qualquer momento, como fases do seu iter racional-decisório.
 Importância: é a data de referência para cálculo prescricional e para verificação de
competência judicial para o ato.
 Se houver divergência entre a data da sentença e da publicação, prevalece a última.
 Efeito: encerra a atividade jurisdicional do juiz prolator naquele feito, podendo este alterá-la
apenas para corrigir equívocos e erros formais.

IV – Sentença absolutória e seus efeitos

 Natureza jurídica:
- Ato jurisdicional declaratório da prevalência do estado de inocência sobre a imputação
deduzida e com eventuais consequências desconstitutivas na hipótese de haver medida

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cautelar (pessoal ou real) determinada no curso da persecução penal e ainda mantida até sua
prolação.

 Espécies:
- Própria: é a sentença penal cujo conteúdo é liberatório da imputação, fazendo com que não
subsista qualquer efeito ou sanção aplicável na esfera penal;
- Imprópria: é a sentença penal que, a despeito de reconhecer causa excludente de
culpabilidade ou que isenta o imputado de pena, não deixa de reconhecer a prática de um
injusto penal atribuído ao imputado e que, inclusive, gera a necessidade de aplicação de uma
medida de segurança em nome de seu “tratamento”.

 Fundamentos – incisos do art. 386 do CPP

 Efeitos da sentença absolutória – art. 386, parágrafo único, do CPP

V – Sentença condenatória (art. 387 do CPP)

 Natureza jurídica: ato jurisdicional de conteúdo condenatório e impositivo de pena criminal


prevista em lei.

 Conteúdo: reconhecida materialidade e a autoria da infração na fundamentação, o juiz:

- Aplicará a pena criminal em quantidade e forma de cumprimento: na parte dispositiva


calculará a quantidade da pena pelo sistema penal trifásico e fixará o regime inicial de
cumprimento sempre considerada eventual detração penal;
- Fixará “o valor mínimo para reparação dos danos causados” (art. 387, IV, do CPP): para
não haver violação ao contraditório e a ampla defesa, tal dispositivo somente poderá ser
aplicado se: a) requerido na denúncia/queixa; b) tiver sido objeto de prova e debates sobre o
“an debeatur” e seu “quantum” mínimo no curso da instrução e debates;

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- Medidas cautelares pessoais (art. 387, §1º, do CPP): em capítulo próprio da sentença, o juiz
deverá decidir fundamentadamente sobre a necessidade de se manter ou decretar medida
cautelar pessoal prisional ou dela diversa com base na demonstração do periculum libertatis,
uma vez que o fumus comissi delicti (materialidade e autoria) já está demonstrado no
decreto condenatório.

 Efeitos da condenação penal definitiva: somente aqueles previstos em lei e específico para
cada tipo penal.

VI – Intimação da sentença (art. 391 e 392 do CPP)

 Intimação do MP: deve ser feita pessoalmente;


 Intimação do querelante e assistente;
 Intimação do defensor;
 Intimação do acusado;
 Intimação por meio eletrônico (Lei n. 11.419/2006).

VII – Início do prazo recursal: começa a fluir a partir do primeiro dia útil posterior à intimação válida.

LEITURAS RECOMENDADAS
 QUEIROZ, Paulo. Sentença Penal. Disponível em: https://www.pauloqueiroz.net/sentenca-penal-aula-
1/
 QUEIROZ, Paulo. Sentença Penal. Disponível em: https://www.pauloqueiroz.net/sentenca-penal-aula-
2/
 GLOECKNER, Ricardo Jacobsen. Três teses sobre a inconstitucionalidade substancial do art. 383
do CPP: por que o réu não se defende (apenas) dos fatos. Disponível em:
http://www.ibraspp.com.br/revista/index.php/RBDPP/article/view/21/43

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