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EXCELENTÍSSIMO SENHOR PRESIDENTE DA SECCIONAL DO DISTRITO FEDERAL DA

ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL, DR. DÉLIO LINS E SILVA JUNIOR.

URGENTE

THAIS MARIA RIEDEL DE RESENDE ZUBA, brasileira, advogada inscrita


na OAB-DF sob o nº 20.001, com escritório profissional no SCN, Qd 02, Bl D, Ed. Liberty
Mall, vem, respeitosamente, perante V. Excelência, por intermédio de seus advogados
que abaixo subscrevem, expor e ao final requerer.

Primeiramente, é fundamental destacar que a “corrida” para as


eleições da OAB/DF já se iniciaram, conforme amplamente divulgado pela mídia 1.

Nessa seara, é de conhecimento geral que Vossa Senhoria, presidente


da OAB/DF, já divulgou publicamente que será candidato à reeleição, inclusive com
lançamento do movimento “OAB NO RUMO CERTO”.

Assim, a requerente demonstra extrema preocupação com o uso


político da máquina da OAB/DF em prol da candidatura da atual gestão, já que a linha
que separa a figura de Presidente da Seccional com a figura de candidato é deveras
tênue.

Neste ínterim, convêm ressaltar que, utilizar-se do status dos cargos


políticos da Ordem para fazer propaganda a favor da atual gestão, da qual fazem parte,

1
https://www.metropoles.com/colunas/janela-indiscreta/delio-lins-e-silva-lanca-pre-candidatura-a-
reeleicao-para-comando-da-oab-df
fere de morte os princípios da impessoalidade, da moralidade eleitoral, da lisura das
eleições e da igualdade.

Porém, nas eleições que se aproximam, não causa preocupação


apenas o fato de que o atual Presidente sua gestão possam se valer do uso da máquina
da Ordem para realizar verdadeiros atos de campanha, mediante o uso de bens e
serviços institucionais para promover a atual gestão, visando à reeleição.

Tal fato por si só já é grave e merece precaução, porém diante das


mudanças que ocorrerão nas próximas eleições, os fatos se tornam ainda mais graves e
merecem atenção. Explica-se.

No dia 24/08/2021, foi aprovado pelo Conselho Federal da OAB a


votação via internet (online) para estas eleições que se aproximam em quatro estados
e o Distrito Federal2.

Foi instituída regra de transição para garantir que as Seccionais, dentre


elas a do Distrito Federal, possam escolher entre a modalidade online ou presencial já
nas eleições deste ano.

Após a aprovação da regulamentação pelo Conselho Federal da OAB


do voto online nas próximas eleições, Vossa Senhoria, na qualidade de atual Presidente
da OAB/DF, confirmou, em suas redes sociais, que as eleições vindouras serão online, o
que “irá trazer economia considerável, levando em conta que as eleições presenciais de
2018 custaram quase R$ 600 mil para os cofres da @oabdf. Ou seja, mais recursos para
novos investimentos para toda a advocacia espalhada pelo DF”.3

Diante dessa notícia, a requerente apresentou requerimento junto à


OAB/DF (nº 07.000.2021.012079-2) em que pleiteou, em prestígio ao princípio da
publicidade, que fosse viabilizado o conhecimento a todos os interessados quanto ao
processo administrativo de contratação da empresa que irá realizar as próximas eleições
da OAB/DF de forma virtual.

2
https://www.conjur.com.br/2021-ago-24/oab-aprova-voto-online-eleicoes-2021-estados
3
https://www.instagram.com/p/CS9_rLgHr84/?utm_medium=copy_link
Pois bem, em resposta ao referido requerimento, a OAB/DF elaborou
o Ofício n. 04/2021, em que alegou que:

“Assim, a fim de viabilizar a votação virtual com toda a segurança que


as eleições requerem, informamos que estamos em fase de consulta
às empresas capacitadas e de auditorias especializadas para prestar
tal serviço à OAB-DF.

Tanto os critérios de escolha como o procedimento de contratação


contarão com a transparência e publicidade que soem permear todos
os atos desta Seccional, sendo certo que não só eventuais indicados
pelas futuras chapas, como toda a advocacia do Distrito Federal serão
informados do processo de escolha do sistema a ser utilizado.”

Ou seja, o atual Presidente da Seccional do Distrito Federal, que será


candidato à reeleição, possuindo total interesse no resultado da eleição, será o
responsável por alterar o atual sistema de votação para o sistema online, sendo também
o responsável pela escolha da empresa que irá realizar as próximas eleições.

A mudança do sistema eleitoral de votação desta Seccional, com a


atual gestão sendo a responsável pela escolha da empresa que realizará o processo
eleitoral, cujo Presidente é candidato à reeleição, e evidentemente, possui interesse
direto no resultado da eleição, demonstra a gravidade da permanência do Presidente
da OAB/DF no seu cargo, enquanto estiver sendo realizado o processo de escolha da
empresa que será responsável pelo processo eleitoral, na medida em que ele pode se
valer do seu cargo e poder e, utilizando-se da máquina da OAB, escolher empresa que
poderá beneficiá-lo, eventualmente, nas eleições que se aproximam.

Conforme há muito assentando pelo Supremo Tribunal Federal, em


voto da lavra do Eminente Ministro Eros Grau, “a OAB não está voltada exclusivamente
a finalidades coorporativas. Possui finalidade institucional4”, e como tal deve observar
os princípios da moralidade, impessoalidade, publicidade, transparência e a ética da
legalidade.

4
ADI 3026/DF, Rel. Min. Eros Grau. DJ 29.09.2006.
O princípio da moralidade está relacionado com atuação do
administrador, que deve se pautar pelos ditames da conduta ética, honesta, em que é
necessária a observância de padrões éticos, de boa-fé, de lealdade e de regras que
assegurem uma boa administração.5

O princípio da impessoalidade, por sua vez, está relacionado ao fato


de que não se pode praticar atos que visam aos interesse pessoais ou se subordinam à
conveniência de qualquer indivíduo, mas sim devem ser direcionados à atender aos
ditames legais e, essencialmente, aos interesses sociais.

O princípio da transparência está relacionado com a atuação da


gestão, de modo a tornar sua conduta cotidiana, e os dados dela decorrentes, acessíveis
ao público em geral. Supera, inclusive, o conceito de publicidade previsto na
Constituição Federal de 1988, pois a publicidade é uma questão passiva, de se publicar
determinadas informações como requisito de eficácia. A transparência vai além, pois se
detém na garantia do acesso as informações de forma global, não somente aquelas que
se deseja apresentar.

Permitir que o atual Presidente da OAB/DF permaneça exercendo seu


cargo, quando ele é candidato à reeleição, num contexto de mudança do processo
eleitoral para a votação online, em que a empresa que será a responsável pela realização
da próximas eleições será escolhida pela atual gestão, da qual faz parte o Presidente,
cujo processo de escolha da empresa não possui total publicidade para com a advocacia
do Distrito Federal, é ferir de morte os princípios da moralidade, da impessoalidade e
da transparência.

Fere o princípio da moralidade, na medida em que a permanência do


atual Presidente em seu cargo, sendo ele candidato à reeleição, enquanto há um
processo de escolha de uma empresa para realização das próximas eleições, que será
escolhida e contratada pela atual gestão, que evidentemente possui interesse na
reeleição, parece no mínimo contestável.

5
MARINELA, Fernanda. Direito Administrativo. 1ª ed. Salvador: Juspodivm, 2005, p. 37.
Fere a impessoalidade, na medida em que é a atual gestão a
responsável pela escolha da empresa a realizar as eleições da OAB, que tem todo o
interesse em beneficiar o atual Presidente da OAB que busca a sua reeleição, colocando,
assim, interesses pessoais à frente dos interesses de toda a advocacia.

Fere a transparência quando a atual gestão não fornece todas as


informações devidas quanto ao processo de contratação da empresa que irá realizar as
eleições, não dá publicidade aos requisitos de escolha dessa empresa, não fornece os
valores ofertados por cada empresa, não informa sequer quais empresas estão
participando desse processo de escolha e se limita a afirmar que ‘estamos em fase de
consulta às empresas capacitadas e de auditorias especializadas para prestar tal serviço
à OAB-DF”.

A atual gestão informa que “os critérios de escolha como o


procedimento de contratação contarão com a transparência e publicidade”, porém, de
fato, isso não ocorre.

O Presidente da OAB/DF, conjuntamente com a atual gestão, possuem


a máquina da OAB nas mãos, e, nesse contexto de mudança de processo eleitoral e
escolha de empresa para realizar as próximas eleições, a permanência de um candidato
à reeleição no cargo máximo da OAB/DF é um fato gravíssimo, apto a desequilibrar o
pleito e paridade de armas, na medida em que pode haver efetivamente a utilização da
máquina em prol de interesses pessoais.

Sendo assim, para que as eleições da Ordem tenham equilíbrio entre


os concorrentes, sem que haja uma disputa desleal para com os demais candidatos,
imperioso que o atual presidente da Seccional se afaste de suas funções institucionais
junto à OAB/DF, a fim de evitar que seu cargo influencie de qualquer forma nas
intenções de apoio para o pleito que se avizinha.

Tal pedido encontra respaldo, na medida em que a Comissão Eleitoral


do CFOAB já puniu, por mais de uma vez, não só o Presidente da Seccional, como
também o grupo político do qual faz parte, em razão da realização de condutas vedada,
em que se utilizaram da máquina da OAB/DF para promoção pessoal:

Processo n. 49.0000.2021.005803-6/CEN
“(..) Julgou parcialmente procedente a representação, nos termos do
voto do relator, reconhecendo como conduta vedada a distribuição de
máscaras cirúrgicas com tonalidade (in casu, laranja) que remeta à
campanha anterior de determinado grupo político, nos termos do art.
10, §5o, do Provimento 146/2011/CFOAB, notadamente em evento
institucional da Ordem, o que caracteriza conduta vedada nos termos
do inciso I, do art. 12, do mesmo suporte legal, reconhecendo a autoria
(...)”

Processo n. 49.0000.2021.005710-4/CEN

“(..) por unanimidade, foi dado parcial procedência à representação,


nos termos do voto do relator, para reconhecer, em parte, como
condutas vedadas as contidas e representadas nas imagens publicadas
na conta oficial do Instagram da Subseção de Guará/DF, sendo
determinada sua imediata retirada, no prazo máximo de 24h. (vinte e
quatro horas) da intimação oficial desta decisão, sob pena de
imposição de multa na ordem de 01 (uma) anuidade (cf. art. 10, §1º,
do Provimento 146/2011/CFOAB). Determinando a notificação de
advertência apenas à segunda representada, Presidente da Subseção
de Guará/DF, para que se abstenha da prática de atos do mesmo jaez,
e rejeitando a representação no que diz respeito à alegação de conduta
vedada pela segunda representada quanto ao uso de vestes na cor
laranja”

Processo n. 49.0000.2021.005677-3

“(...) unânime, julgou parcial procedência à representação, nos termos


do voto do relator, para, mantendo os fundamentos da decisão em
sede de tutela provisória, reconhecer como conduta vedada as três
postagens publicadas na conta pessoal do representado no Instagram,
advertindo-o de que o uso de ações e obras da Ordem dos Advogados
do Brasil, sem as insígnias, cores e símbolos da Instituição, com a
aposição de logomarca pessoal, configura autopromoção vedada no
art. 12, I, do Provimento n. 146/2011/CFOAB, rejeitando, no mais, a
representação formulada.”

Ressalta-se, ainda que, tal pedido além de ser feito em contexto muito
mais grave do que o que se deu na eleição de 2018, eis que agora há mudança no sistema
de votação, leva em conta ainda pedido semelhante realizado por Vossa Senhoria em
2018 onde, sem qualquer evidencia de interferência, apenas por participarem de
processos de disputa interna para escolha de nomes, solicitou o afastamento dos Drs.
Jacques Veloso (secretário-geral à época) e Cleber Lopes (secretário-geral adjunto há
época).

Assim, em atenção aos princípios constitucionais e eleitorais que visam


resguardar e garantir a democratização da lisura do pleito bem como a legitimidade das
eleições como um todo, requer:

a) Que V. Senhoria, Presidente, Dr. Délio Lins e Silva Junior, em respeito aos
princípios da moralidade, impessoalidade e transparência, afaste-se de sua
função junto à OAB/DF, a fim de evitar que seu cargo influencie de qualquer
forma as intenções de apoio para o pleito que se avizinha, especialmente diante
de um contexto em que o sistema eleitoral foi alterado para a votação online e
a empresa que será a responsável pela realização das eleições será escolhida
pela atual gestão;
b) que se abstenha de produzir qualquer publicidade e propaganda por esta
Seccional na cor Laranja, fazendo alusão ao Movimento “OAB NO RUMO CERTO”,
do qual faz parte, e nem tampouco usar o número 20 (vinte), uma vez que
historicamente (pelo menos nas últimas três eleições) referida cor e número
foram utilizados pelo grupo político do qual faz parte;
c) que se abstenha de praticar a conduta vedada de utilização dos serviços e
atividades realizadas pela OAB/DF de forma eleitoreira, a fim de promover a
reeleição da atual gestão da qual faz parte, e com isso desequilibrar o pleito, com
imposição de multa em caso de reincidência, podendo, ainda, tal conduta ser
analisada, quando do registro da chapa, sob o viés do abuso de poder;
d) seja instado a não utilizar os serviços prestados pela OAB/DF como meio de
promoção pessoal em suas redes sociais;
e) que, caso o mesmo não se afaste ou não seja afastado, ao menos haja indicação
de que não participe de palestras, almoços, cursos, dentre outros eventos a
serem realizados pela OAB/DF, e, especialmente, nas entregas de carteiras aos
novos advogados, a fim de evitar exposição desleal aos demais grupos políticos.

Brasília/DF, 15 de setembro de 2021.

RODRIGO DE SÁ QUEIROGA

OAB-DF 16.625

BIANCA MARIA GONÇALVES E SILVA

OAB-DF 23.097

BLENDA LARA CARVALHO FONSECA

OAB-DF 51.338

DANIEL RIBEIRO DOS SANTOS

OAB-DF 67.151