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A lingüística aplicada na era da globalização* B.

Kumaravadivelu

****três "ondas" de globalização que podem ser facilmente associadas com três fases do
colonialismo/imperialismo moderno. A primeira onda centrou-se n as explorações comerciais
regionais lideradas pela Espanha e por Portugal; a segunda ganhou ímpeto a partir da
industrialização liderada pela Grã-Betranha; a terceira derivou do mundo do pós-guerra,
liderada pelos Estados Unidos. Essas três ondas correspondem exatamente aos três estágios
da globalização aos quais o crítico pós-colonial Mignolo (1998: 36) se referiu: "As bandeiras do
cristianismo (ou seja, as colonizações espanhola e portuguesa), a missão civilizadora (ou seja,
as colonizações britânica e francesa) e o desenvolvimento/modernização (ou seja, o
imperialismo dos Estados Unidos)".

A distância espacial está diminuindo.


*As vidas das pessoas - seus empregos, salários e saúde - são afetados por acontecimentos no
outro lado do mundo, freqüentemente por acontecimentos que desconhecem.
• A distância tem?oral está diminuindo. Os mercados e as tecnologias agora mudam com ~ma
velocidade.sem precedente, com atos distantes ocorrendo no tempo real, com impactos nas
vidas das pessoas que vivem longe ....
• As fronteiras estão desaparecendo. As fronteiras nacionais estão se dissolvendo, não
somente em termos de comércio, capital e informação, mas também em relação a idéias,
normas, culturas e valores.

Esse é o motivo pelo qual Jameson ( 19_98: 55) chama a globalização de "um conceito
comunicacional, que alternativamente mascara e transmite significados culturais e
econômicos". Em um desenvolvimento sem precedentes na história humana, a internet
tornou-se uma fonte singular que imediatamente conecta milhões de indivíduos com outros,
mm a_ssociações parti~ulares e com instituições educacionais e agências governamentais,
~ornando as mterações à distância e em tempo real possíveis. E a língua da globalização -
claro, o inglês - está no centro da IA comtemporânea.

*( h membros da primeira escola - representados pelo 1d 11 iw político Barlw1 ( 1996), pelo


sociólogo Ritzer (1993) e outros - acreditam que algum tipo dl' homogeneização cultural está
ocorrendo e que, nela, a culcura norte-american.1 de consumo constitui o centro dominante.
Vêem urna equação simples e dir

**A segunda cola de pensamento é representada pelo sociólogo Giddens, 11 tdtico cultural
Tomlinson e outros. Eles acreditam que cerco tipo de hece111gt•ncização cultural está
ocorrendo, na qual a cultura local e as identidades 1t•ligiosas estão sendo fortalecidas,
principalmente como resposta à ameaça 1t•prcsentada pela globalização.

Giddens (2000) afirma que a globalização está se tornando 1 .ida vez mais descentrada. Ele
inclusive sugere, de forma polêmica que 0 "n·vcrso da colonização" está ocorrendo.

*A terceira escola de pensamento é representada pelo crítico cultural Arjurn Appadurai, pelo
sociólogo Roland Robercson e por outros. A citação, :reqüenternente citada, de Appadurai
(1996: 5), "o problema central da interação global de hoje é a tensão entre h omogeneização
cultural e hecerogeneização cultural", resume a posição desse grupo. Eles acreditam que a
homogeneização e a heterogeneização estão ocorrendo ao mesmo temp11, llll'tg11lh.1mlo o
mu11do cm unu 1cnsao t 11 .111 v,1 1 1 .111111 .1 q11 r H'Milt.1 1111 1111 t· Robl' nso n
chamou de glocalizaçáo, omk o 11,loli.il 1 ,1.1 lm .tl it.ado e 11 loc1I csd globalizado. Acreditam
que a .transmissao uil1111.tl é um proCl'SM> tk· do is modos, no qual as culturas em contato
modclam um.1' ~' outras direta ou indiretamente. Afirmam que as forças da globalização 1· .1s
da localização são tão complexas que não podem ser compreendidas n.1 pl'rspectiva limitada
de uma dicotomia centro-periferia. O global está cm rnnjunção com o local, e o local é
modificado para acomodar o global.
**Apesar de argumentos persuasivos para .1presentar um modo de LA que "procura conectá-
la a questões de gênero, classe social, sexualidade, raça, etnia, cultura, identidade, política,
ideologia e discurso" (Pennycook, 2001: 10), o campo continua a ignorar a proposição
fundamental de que a investigação em LA deve ser intercultural, interlingüística e
interdisciplinar.
**Nenhum texto é inocente e todo texto reflete um fragmento do mundo em que vivemos. Em
outras palavras, os textos são políticos porque todas as formações discursivas são políticas.
Analisar texto ou discurso significa analisar formações discursivas essencialmente políticas e
ideológicas por natureza.Foucaul, 1970

O estudo dos novos letramentos e a linguística aplicada crítica nos propõe uma nova perspectiva da critica
feita por Penokooc, citando Widdowson (2001: 16)sobre a “LA tradicional que é hipócrita por sua
inabilidade ou má vontade de dar conta de questões significativas atuais.

Desta forma, acrecenta, que se “possibilita por meio da LAC todo um novo conjunto de questões e interesses,
tópicos tais como identidade, sexualidade, acesso, ética, desigualdade, desejo ou a reprodução
de alteridade, que até então não tinham sido considerados como de interesse em LA.

E por isso temos a afirmação de que “Utilizo


a noção
de teoria transgressiva para marcar a intenção de transgredir, tanto política como teoricamente, os limites
do pensamento e ação tradicionais.

**a transgressiva não tem a ver tanto com o estabelecimento de uma


pl\temologia fixa e normativa, mas sim com a procura de novos
11q11 ,1dramentos de pensamento e conduta

No propósito de criar as bases para uma nova era do que vou chamar
de uma LA transgressiva, precisamos manter tanto um foco incansável nas
operações do poder como também um questionamento implacável em relação
aos termos que usamos, ou, como Scott sugere, precisamos operar com os
arcabouços críticos tais como os de Frantz Fanon, "o arquiteto revolucionário
por excelência da libertação anticolonial" (Scott, 1999: 200), e também com
o ceticismo epistemológico de Michel Foucault, para perceber que "nunca se
deve permitir que a política descanse sobre a satisfação de sua própria
autoconcepção, sobre as identidades que afirma serem as constituintes de sua
própria comunidade" (Scott, 1999: 207). Por um lado, a urgência e as realidades
do embate político; por outro, a necessidade de questionar sempre
nossas próprias pressuposições, assim como as dos outros.

visão da LA por meio de uma discussão da teoria transgressiva e da LA


.após as viradas lingüística, somática e performativa.

Rajagopalan (2004: 410) discute "a necessidade de compreender


,1 IA como um campo de investigação transdisciplinar", o que significa "atravessar
(se necessário, transgredint:ÚJ) fronteiras disciplinares convencionais com o fim de
desenvolver uma nova agenda de pesquisa que, enquanto livremente informada
por uma ampla variedade de disciplinas, teimosamente procuraria não ser sulialrerna
a nenhuma" (ênfase no original). Isso, então, é um sentido da noção
de transgressão.

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