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14/02/2018 Pensando as relações entre direito e desenvolvimento | Direito - Economia - Sociedade

Direito – Economia – Sociedade

Análise jurídica e interdisciplinar da política econômica – Legal and


interdisciplinary analysis of economic policy

Pensando as relações entre direito


e desenvolvimento

Daniel Vargas* oferece algumas reflexões sobre relações entre direito e


desenvolvimento (e implicitamente entre direito e economia), que vão reproduzidas
abaixo. Confira.

https://economialegal.wordpress.com/2007/06/18/pensando-as-relacoes-entre-direito-e-desenvolvimento/ 1/6
14/02/2018 Pensando as relações entre direito e desenvolvimento | Direito - Economia - Sociedade

“Título: É possível unir as idéias de direito e desenvolvimento?

A resposta tradicional da academia jurídica é negativa: direito e


desenvolvimento seriam idéias no mínimo inconciliáveis, para não dizer
antagônicas. O direito seria algo estático, determinado, que se tem ou não se tem.
Basta recordar a posição expressa pelo positivismo e pelo liberalismo clássico.
Desenvolvimento, por sua vez, exprime uma idéia de movimento, de processo,
de construção de algo que ainda não existe. A posição tradicional considera a
idéia de desenvolvimento um adjetivo que pode ajustar-se à substância do
direito, mas não um elemento de sua definição.

Tentativas de fundir as duas idéias estão na ordem do dia. O que se busca não é
tanto precisar o conceito de direito em si (mais uma vez, como tentaram e tentam
os positivistas), mas determinar o método mais apropriado de reflexão sobre o
direito – o que gera controvérsias. Em meio à disputa metodológica, três
correntes de pensamento se destacam: (i) a economicista, (ii) a crítica e (iii) a
liberal-desenvolvimentista. Em todas elas, raciocinar sobre o direito é o mesmo
que raciocinar sobre o ideal de desenvolvimento.

A primeira corrente é a economicista. Aqui, a idéia central é a de que o foco das


instituições do Estado na eficiência econômica é o melhor mecanismo para
promoção do bem-estar da sociedade. Em outras palavras: pensar o direito sob o
prisma da eficiência teria o mérito do estimular o desenvolvimento. Richard
Posner, professor da Universidade de Chicago, é provavelmente o mais
conhecido expoente dessa linha de pensamento (cf. Economic Analysis of Law,
New York: Aspen Publishers, 2007). A obra Fairness versus Welfare (Cambridge:
Harvard University Press, 2002), de Louis Kaplow e Steven Shavell, é um atual e
influente exemplo dessa perspectiva.

A segunda é a corrente crítica. A atitude do pensador filiado a esse movimento é


apontar as incoerências e riscos das teorias que tradicionalmente governam o
pensamento jurídico na atualidade. David Kennedy e Duncan Kennedy, ambos
professores de Harvard, têm freqüentemente insistido na irracionalidade e nos
efeitos danosos da tradição positivista, liberal clássica e economicista para
sociedades que aspiram o desenvolvimento. O movimento “Law and
Development”, tal como é hoje divulgado, segue basicamente essa tendência. O
livro The New Law and Economic Development: A Critical Appraisal (Cambridge:
Cambridge University Press, 2006), recentemente editado por David Trubek e
Alvaro Santos, é uma ótima referência dessa perspectiva.

A terceira é a via liberal-desenvolvimentista. Assimilando parte das críticas


apresentadas pelos dois movimentos anteriores, esta linha de pensamento busca
reformular o pensamento liberal clássico e conciliar os ideais de justiça com a
indispensável atenção para os seus efeitos na realidade de cada sociedade.
https://economialegal.wordpress.com/2007/06/18/pensando-as-relacoes-entre-direito-e-desenvolvimento/ 2/6
14/02/2018 Pensando as relações entre direito e desenvolvimento | Direito - Economia - Sociedade

Amartya Sen é uma voz importante nessa perspectiva. A. J. van der Walt,
professor sul-africano de direito de propriedade (cf. Constitutional Property Law,
Cape Town: Juta, 2005) e Frank Michelman, constitucionalista e filósofo de
Harvard (cf. “The Constitution, Social Rights and Liberal Political Justification”, 1
International Journal of Constitutional Law 13 (2003)), tentam incorporar esse
método à teoria do direito.

O interesse desse debate para nós, brasileiros, é muito simples. Optar por uma
ou outra vertente confere ao direito uma responsabilidade diferente, e altera a
maneira de agir do jurista. Por exemplo: qual deve ser o papel do direito no
combate à pobreza no Brasil? E qual o papel do jurista nesse debate?

Segundo o positivismo e o liberalismo clássico, é provável que se diga que a


pobreza é um problema econômico, não jurídico – ao menos, não diretamente.
Se existe fome, isso seria fruto das ‘contingências’ da sociedade: é a economia
que não é forte o suficiente, ou é a política que ainda não aprovou as leis
adequadas para combater a pobreza. Nessa visão, o jurista está, em princípio,
livre da responsabilidade de enfrentar as desigualdades sociais, até que a
economia e a política cumpram seu papel.

De acordo com a vertente economicista, o direito deve ser pensado segundo a


máxima utilitarista da felicidade geral. Essa máxima, segundo os economistas,
concretiza-se com a aplicação do critério de eficiência econômica à regulação do
mercado e das relações sociais. Em tese, todos seriam beneficiados
indistintamente: maior produtividade geraria melhores condições de vida para
todos. Cabe ao jurista pensar como é possível garantir as condições de uma
competição livre. E deve o juiz, ao decidir um caso concreto, levar em conta os
objetivos de sua decisão, mais que os valores constitucionais de liberdade e
igualdade que as pressupõe.

Um problema dessa perspectiva (economicista), alertam os críticos, resulta do


distanciamento entre o ideal garantido pela eficiência econômica e as
contingências da vida em sociedade. Se vivêssemos em um mundo perfeito, a
lógica econômica provavelmente alcançaria seus fins. A realidade social,
contudo, é bem diferente. O grande risco é que as promessas de
desenvolvimento do economicismo saiam pela tangente e, em vez de promover o
bem-estar geral, beneficiem apenas uma minoria, e ampliem a desigualdade
social.

Outro problema, segundo os liberal-desenvolvimentistas, é que a máxima da


eficiência econômica possui, se muito, um comprometimento apenas indireto
com os mais necessitados. O combate à pobreza em uma sociedade marcada pela
desigualdade exigiria um ideal de direito comprometido prioritariamente com os
mais fracos.
https://economialegal.wordpress.com/2007/06/18/pensando-as-relacoes-entre-direito-e-desenvolvimento/ 3/6
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Em meio a esse debate, forma-se uma interessante sintonia. Economicistas,


críticos e liberal-desenvolvimentistas disputam a melhor compreensão do
direito. Mas todos concordam em que a resposta correta deve tratar direito e
desenvolvimento como algo integrado.

O que é atrasado no discurso acadêmico contemporâneo é alimentar a crença de


que essas idéias podem ou devem ser dissociadas, e que se pode identificar a
essência do direito. Em vez de buscar essa essência, ganharíamos mais se
atentássemos para uma pergunta muito mais relevante: Qual a melhor maneira
de se pensar juridicamente o processo de desenvolvimento social e econômico
em um país?

A essa questão, adicione uma pitada da realidade brasileira e se tem um prato


cheio para reflexão: Como se deve compreender o direito, de modo a promover o
desenvolvimento social e econômico em uma sociedade marcada pela pobreza
extrema e pela radical desigualdade social? Eis o rumo correto dos debates.”

–––––––

* Daniel Vargas é Mestre em Direito pela UnB e pela Universidade de Harvard.

Veja matérias correlatas neste blog:

o
“Política econômica: os instrumentos prêt-à-porter não nos servem
(h ps://economialegal.wordpress.com/2007/06/13/politica-economica-os-
instrumentos-pret-a-porter-nao-nos-servem/)“

o
“Em debate: abordagens opostas sobre direito e economia
(h ps://economialegal.wordpress.com/2007/05/28/em-debate-abordagens-
opostas-sobre-direito-e-economia/)“

o
“Formas de propriedade, pluralismo institucional e desenvolvimento
(h ps://economialegal.wordpress.com/2007/05/17/formas-de-propriedade-
pluralismo-institucional-e-desenvolvimento/)“

o
“Pluralismo institucional, direitos e economias
(h ps://economialegal.wordpress.com/2007/05/12/pluralismo-institucional-
direitos-e-economias/)“

https://economialegal.wordpress.com/2007/06/18/pensando-as-relacoes-entre-direito-e-desenvolvimento/ 4/6
14/02/2018 Pensando as relações entre direito e desenvolvimento | Direito - Economia - Sociedade

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This entry was posted on Monday, June 18th, 2007 at 7:48 PM and is filed under
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4 Responses to Pensando as relações entre direito


e desenvolvimento

Qual a relação entre Direito e Desenvolvimento? « Blog do Jantalia says:


March 3, 2008 at 10:36 PM

https://economialegal.wordpress.com/2007/06/18/pensando-as-relacoes-entre-direito-e-desenvolvimento/ 5/6
14/02/2018 Pensando as relações entre direito e desenvolvimento | Direito - Economia - Sociedade

[…] Pesquisas em Direito e Economia da UnB. Dentre as valiosas contribuições


que ali estão, há um artigo, cuja leitura recomendo, que explica as diferentes
correntes de pensamento sobre o […]

Reply
Direito e economia: relações em movimento « Direito – Economia – Sociedade
says:
August 29, 2009 at 5:00 PM
[…] que se mobilizaram para afirmar um movimento chamado o “New Law and
Development” (ver aqui, aqui e […]

Reply
STF organiza seminário de Análise Econômica do Direito e divulga
perspectiva conservadora de Direito e Desenvolvimento como se fosse a única
« Da Planície says:
August 29, 2011 at 8:36 PM
[…] três das mais importantes, presentes no debate americano, foram
sistematizadas pelo Daniel Vargas aqui. “Law and Economics” e “Law and
Development” não são sinônimos; v., […]

Reply
STF organiza seminário de Análise Econômica do Direito e divulga
perspectiva conservadora de Direito e Desenvolvimento « Da Planície says:
August 29, 2011 at 8:37 PM
[…] três das mais importantes, presentes no debate americano, foram
sistematizadas pelo Daniel Vargas aqui. “Law and Economics” e “Law and
Development” não são sinônimos; v., […]

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