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Sociedade e Estado

por Alexsandro M. Medeiros


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postado em 2015

Existem duas teorias que procuram dar conta do conceito de sociedade:


a teoria organicista, cujas origens podem ser encontradas desde a filosofia
grega, que entende que o homem é um ser eminentemente social e por isso não
pode viver fora da sociedade, entendendo o indivíduo como uma parte “orgânica”
da sociedade; e a teoria mecanicista, que entende o homem como um ser
primário que vale por si mesmo e do qual todos os ordenamentos sociais
emanam como derivações secundárias. Para os primeiros, a Sociedade é
definida como “o conjunto das relações mediante as quais vários indivíduos
vivem e atuam solidariamente em ordem a formar uma entidade nova e superior”
(BONAVIDES, p. 64). Já os mecanicistas entendem a Sociedade como um grupo
derivado de indivíduos que buscam objetivos em comum mas que,
individualmente, seriam impossíveis de serem alcançados.
Os mecanicistas criticam essa visão “biologizante” da sociedade, pois,
segundo eles, na sociedade ocorrem fenômenos que não acham equivalente no
corpo humano: as migrações, a mobilidade social e o suicídio, por exemplo. Além
disso, dizem: as partes do organismo não vivem por si mesmas, sendo
impossível imaginá-las fora do ser que a integram e nem podemos admiti-las
noutra posição que não seja aquela que a natureza lhes determinou, bem
diferente do que pode suceder com os indivíduos na sociedade.
Qualquer que seja a visão de Sociedade, mecânica ou orgânica, é preciso
fazer uma distinção entre Sociedade e Estado. O Estado é produto da
Sociedade, mas não se confunde com ela. A Sociedade vem primeiro, o Estado
vem depois: o Estado é uma ordem política da Sociedade. “o Estado moderno
se constitui de um conjunto de instituições públicas que envolvem múltiplas
relações com o complexo social num território delimitado” (RODRIGUES, 2011,
p. 17), dessa forma, o Estado deve ser entendido como a ordem jurídica, o corpo
normativo, “exterior” à Sociedade.
As ações do Estado são definidas por leis ou por atos de governo, que
visam às execuções de tarefas de interesse público e que se realizam
pela administração pública. Esse ordenamento da sociedade com base em um
sistema jurídico que garanta as liberdades fundamentais faz surgir o Estado de
Direito e esse mesmo ordenamento com base em um sistema de proteção social
que garanta o acesso a direitos como a saúde, educação, habitação, entre
outros, como direitos de todo cidadão, dá origem ao Estado de Bem-Estar Social
(Welfare State).

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Teorias do Estado
Durante a modernidade, filósofos e pensadores políticos concentraram
boa parte de suas reflexões sobre o Estado de tal modo que podemos dizer que
a história da política moderna e a história do Estado se confundem. Prova disso,
são as teorias contratualistas que procuram dar conta da reflexão sobre a origem
do Estado e como este surgiu. Além das teorias do liberalismo
político/econômico e do socialismo/comunismo onde o Estado representa um
dos principais pontos de divergência entre estas duas correntes de pensamento.

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De forma geral, alguns autores defendem a ideia de que o Estado representa o
bem comum e os interesses gerais da sociedade. Contudo, esta ideia foi
amplamente criticada pela teoria marxista, segundo o qual, “o Estado é um
instrumento de domínio de uma classe social sobre a outra” (SELL, 2006, p. 111).
Para Marx, que em certo sentido concorda com Rousseau, o Estado surge como
uma forma de apropriação da classe dominante, que primeiro conquista o poder
político através do Estado para apresentar seu interesse como sendo o interesse
geral da sociedade. Ora, é exatamente por isso que Rousseau afirma, em uma
de suas passagens mais célebres, que o primeiro homem que cercou um lote de
terra e disse “isto é meu”, provocou um dos maiores males para a sociedade,
pois o Estado surge a partir de um contrato social, não para garantir o direito de
todos, mas o direito daqueles que detém a propriedade privada. Por isso o
filósofo genebrino afirma que este primeiro contrato não foi legítimo, pois apenas
assegurou o direito dos “ricos”: dos que passaram a ter bens e posses. Da
mesma forma, Marx afirma em sua Ideologia Alemã (apud SELL, 2006) que o
Estado adquiriu uma existência particular como uma forma de organização para
que os burgueses garantissem sua propriedade e seus interesses. Refletindo
sobre a compreensão moderna de Estado (e de modo mais específico os
"Estados nacionais"), Habermas (2002, p. 123-124) define juridicamente como
sendo: “do ponto de vista objetivo, refere-se a um poder estatal soberano, tanto
interna quanto externamente; quanto ao espaço, refere-se a uma área
claramente delimitada, o território do Estado; e socialmente refere-se ao conjunto
de seus integrantes, o povo do Estado”

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Estas teorias, e ainda outras, envolvem basicamente o processo de formação e
consolidação do Estado tal como conhecemos hoje. Ao longo da história o
Estado foi adquirindo características e elementos bem diferentes mas, de forma
geral, podemos entender o Estado como um poder central (estatal) que possui
plenos poderes sobre seu território. Ao longo da nossa História, podemos
identificar alguns “modelos estatais” bem distintos entre si, são eles: o Estado
Absolutista, o Estado Liberal-Democrático, o Estado Totalitário e o Estado de
Bem-Estar Social.
Historicamente a primeira forma assumida pelo Estado foi o modelo
absolutista, na transição da Idade Média para a Idade Moderna. Econômica e
politicamente falando o Estado surge a partir da transição do modelo econômico
feudal para a economia capitalista: a formação do Estado envolve a
centralização do poder de territórios sob o comando de um monarca em
substituição a fragmentação política medieval em diversos feudos. Como o
próprio nome sugere, no Estado Absolutista, o monarca é dotado de poderes
absolutos. Estas monarquias foram se constituindo historicamente por toda a
Europa, desde Portugal, Espanha (com a unificação dos reinos de Aragão e
Castela em 1476), França (a partir do reinado de Felipe IV 1285-1314) e a
Inglaterra (com a monarquia dos Tudor). Com o Estado Absolutista se forma a
noção central do Estado Moderno que é o conceito de “soberania”, teorizada por
filósofos como Jean Bodin, Thomas Hobbes, Rousseau, entre outros: “a
soberania implica a ideia de que o Estado é o poder central de uma determinada
sociedade sob a qual nenhum outro poder pode elevar-se” (SELL, 2006, p. 125).
A construção do Estado Liberal-Democrático envolveu – além de estar
marcada pela construção dos direitos civis e políticos – a submissão das
monarquias nacionais absolutistas ao poder do Parlamento e a regulação
daquela através de Constituições, ou seja, o Parlamento passou a controlar o rei
através da Constituição. Essa luta contra o absolutismo dos monarcas pode ser
facilmente percebida através de pelo menos três grandes movimentos históricos:
a Revolução gloriosa (a luta entre a coroa inglesa, o parlamento e a burguesia
ocorrida na Inglaterra no século XVII), a Revolução americana (a independência
das 13 colônias que se intitularam “Estado Unidos” em 1776) e a Revolução
francesa (com a deposição do Rei Luís XVI e a inauguração da “república
francesa”). O que estas três Revoluções têm em comum e que nos ajudam a
entender o surgimento do Estado Liberal-Democrático é o fato de que todas
proclamaram algum tipo de direitos para os cidadãos: a primeira proclamou a Bill
of rights, a Lei dos Direitos dos Cidadãos (1689), que garantia a proteção de todo
indivíduo diante do governo; a segunda organizou o Estado a partir
da Declaração da Independência que garantia os direitos dos indivíduos e
submeteu o poder da federação à Constituição de 1787; e a terceira redigiu
a Declaração dos direitos do homem e do cidadão (1789) além da Constituição
de 1791 que submetia o poder do rei ao poder do parlamento. Em todas estas
revoluções, o poder do monarca foi sendo limitado pela lei visando preservar a
liberdade e garantir os direitos individuais. Essa garantia das liberdades
individuais é o que dá origem ao conceito de um Estado Liberal. Além disso, com
a garantia dos direitos individuais (civis e políticos), podemos dizer que foi a
construção do Estado Liberal-Democrático que deu origem ao que é conhecido
hoje como o “Estado democrático de direito”.

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Apesar de todos estes movimentos, no sentido de proteger as liberdades
individuais e garantir plenos direitos aos cidadãos, isto não impediu o século XX
de ver surgir regimes totalitários que exacerba a noção de soberania e submete
os indivíduos e a própria sociedade ao poder do Estado: são os Estados
Totalitários, como o fascismo (na Itália, com Benito Mussolini), o nazismo (ou o
nacional-socialismo na Alemanha, com Adolf Hitler) e o stalinismo (na Rússia,
com Josef Stálin).
Mussolini chegou ao poder em 1922, quando foi nomeado primeiro-
ministro e defendia a prioridade do Estado diante do indivíduo. “A palavra
‘fascismo’ vem do italiano ‘fascio’ e quer dizer um feixe amarrado por cordas.
Esta imagem resume bem a ideologia do fascismo. Nesta visão, o Estado
funciona como a amarra que mantém a unidade do feixe” (SELL, 2006, p. 127).
Sobre o Fascismo, Noberto Bobbio escreveu uma obra intitulada Dal fascismo
alla democrazia (Do fascismo à democracia), traduzida para o português, que
aprofunda o debate em torno do regime fascista: sua origem, os acontecimentos
que conduziram à gênese e à afirmação do fascismo, sua ideologia, a difusão da
resistência contra o regime, sua queda e a instauração da democracia
constitucional, além de alguns personagens ligados ao regime. “O modo pelo
qual Bobbio reconstrói a natureza do regime e da ideologia fascista, isto é, do
programa italiano da antidemocracia, oferece um parâmetro para a análise
comparativa de muitos fenômenos análogos” (Michelangelo Bovero, prefácio à
edição brasileira apud BOBBIO, 2007).
Em 1932 Hitler chegou ao poder como líder do “Partido Nacional Socialista
dos Trabalhadores Alemães” e, como no fascismo, acreditava que o Estado
precede o indivíduo e tinha também um componente racial, defendendo a ideia
da superioridade da raça ariana diante de outras raças. Antes do fascismo e do
nazismo, a Rússia viveu no começo do século também um período marcado por
revoluções, culminando em 1917 com a Revolução Russa que deu origem a
União Soviética, mas foi só em 1924 que Stalin chegou ao poder e nele
permaneceu até 1953, liderando um processo acelerado de industrialização,
expropriação das propriedades camponesas utilizando-se do poder estatal.
Apesar das diferenças históricas, os estudiosos identificam nos
movimentos e regimes totalitários algumas semelhanças estruturais
que configuram suas características básicas. Entre elas podemos
citar: 1) existência de um partido único de massa, fortemente
hierarquizado; 2) ideologia autoritária, voltada para o culto do
Estado, da força e da figura do poder político; 3) mobilização das
massas através do uso de instrumentos de propaganda; 4)
repressão e perseguição política a todas as formas de oposição
política; 5) direção estatal e centralizada da economia (SELL, 2006,
p. 129).

Já o Estado de Bem-Estar Social (Welfare State) surge para suprir uma


lacuna deixada pelo Estado Liberal-Democrático que, apesar de garantir aos
indivíduos uma série de direitos civis e políticos, não previa a garantia aos
indivíduos do acesso aos benefícios sociais fundamentais
como saúde, educação, trabalho etc. O Estado de Bem-Estar Social tem como
uma de suas características fundamentais, portanto, a implementação de um
conjunto de políticas sociais que pudessem ser financiadas pelo Estado, através
do Governo, visando garantir a seguridade social.

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O Estado no Brasil
O primeiro passo importante para a formação do aparelho estatal no
Brasil se deu com a vinda da família real para o Brasil, em 1806. A vinda da
família real trouxe uma série de mudanças para o Brasil inclusive com a
formação de órgãos e departamentos governamentais. Em 1822, com a
proclamação da independência e em 1889 com a proclamação da República
temos dois momentos históricos importantes de consolidação do Estado no
Brasil: o primeiro correspondendo a uma espécie de Estado “absolutista” (a
monarquia como forma de governo aliado a uma espécie de parlamentarismo) e
após a proclamação da República nós temos o que poderíamos chamar da
gênese do Estado Liberal-Republicano no Brasil (forma de governo republicano
aliado ao presidencialismo), que vai perdurar até 1930, com a origem do que
podemos chamar de Estado Nacional-desenvolvimentista. “O período histórico
do desenvolvimentismo tem como marca fundamental a intervenção ativa do
Estado na promoção da industrialização, ou seja, do desenvolvimento nacional”
(SELL, 2006, p. 140). Entre 1930 até a década de 80, podemos dizer que o
Estado brasileiro adotou como princípio fundamental de sua política a
combinação de crescimento econômico com a promoção da industrialização e a
mudança estrutural do sistema produtivo (de um Brasil agrário exportador para
um Brasil industrial e urbano). É nesse período que são criadas as empresas
estatais como a Vale do Rio Doce (minério) e a Petrobrás (combustível), onde o
Estado passou a tomar o controle de algumas indústrias de base como forma de
acelerar o desenvolvimento econômico. A partir da década de 80, com o
aumento crescente da inflação (em 1988 a inflação chegou próxima dos 2.000%)
e também o aumento da dívida externa (resultado dos grandes empréstimos
tomados pelos governos militares para financiar o desenvolvimento industrial), o
Estado brasileiro entrou em um processo de crise e uma série de medidas foram
tomadas (planos econômicos) com o objetivo de buscar a estabilidade financeira
da economia brasileira. Este foi desde então o grande desafio dos governos a
partir da década de 80: construir um novo modelo de Estado e retomar o
crescimento econômico.

Referências Bibliográficas
BOBBIO, N. Do Fascismo à Democracia: os regimes, as ideologias, os personagens e as culturas
políticas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.
BONAVIDES, Paulo. Ciência Política. 10. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2000.
HABERMAS, J. O Estado nacional europeu – sobre o passado e o futuro da soberania e da
nacionalidade. In: ____. A inclusão do outro: estudos de teoria política. São Paulo: Loyola, 2002,
p. 120-145.
RODRIGUES, Marta M. Assumpção. Políticas Públicas. São Paulo: Publifolha, 2011. (Coleção
Folha Explica).
SELL, Carlos Eduardo. Introdução à Sociologia Política: política e sociedade na modernidade
tardia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.

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