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Paidéia, 2005, 15(30), 11-20

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1 ciência do desenvolvimento, que propõe uma mudan- ração de funções psicológicas, podendo o desenvol-
A CIÊNCIA DO DESENVOLVIMENTO HUMANO: AJUSTANDO O FOCO DE ANÁLISE
ça na forma de pensar o estudo do desenvolvimento vimento ser acelerado ou retardado; (c) que o funci-
Maria Auxiliadora Dessen2 humano (Aspesi, Dessen & Chagas, no prelo). Na onamento psicológico é entendido em termos de or-
Universidade de Brasília primeira parte, discute-se o próprio conceito de de- ganização hierárquica a partir de sistemas dinâmicos
Miriam Teresa Domingues Guedea senvolvimento, com destaque para as noções de es- mais elementares; e, finalmente, (e) que as continui-
Universidade de Sonora - México trutura, temporalidade, mudança, padrões de mudan- dades e mudanças no desenvolvimento resultam de
ça e critérios intelectuais e sociais para distinguir as pressões de forças internas e externas ao organismo.
Resumo: Os avanços ocorridos nas últimas décadas, presentes nos domínios interdisciplinares da mudanças associadas ao desenvolvimento. Na segun- Portanto, para compreender a complexidade
ciência do desenvolvimento, propõem uma mudança na forma de pensar o estudo do desenvolvimento humano, da parte, descrevem-se os conceitos de continuidade do desenvolvimento humano é necessário adotar uma
tendo um forte impacto na pesquisa. Neste artigo, são discutidos princípios e conceitos básicos que têm, e mudança e ressalta-se a necessidade de se adotar perspectiva sistêmica que seja capaz de integrar os
recentemente, norteado a definição do próprio conceito de desenvolvimento humano, dentre eles, estrutura, a abordagem do curso de vida para estudar os pro- múltiplos subsistemas do individuo. Isto requer a con-
temporalidade, mudanças e continuidades. Destaca-se, também, a necessidade de adotar, na prática da pesqui- cessos de desenvolvimento humano. A terceira parte tribuição de diferentes disciplinas, tais como, a biolo-
sa, uma visão sistêmica do processo de desenvolvimento, implicando em análises de sistemas complexos e é dedicada a enfatizar a importância de que as pes- gia e a psicologia do desenvolvimento, a fisiologia, a
integrados em todos os seus níveis: genético, neural, comportamental e ambiental (físico, social e cultural), quisas levem em conta as inter-relações entre os as- neuropsicologia, a psicologia social, a sociologia e a
interagindo ao longo do tempo e traçando trajetórias de caráter probabilístico. pectos biológicos, sociais, culturais e históricos. Na antropologia. Shanahan, Valsiner e Gottlieb (1997)
quarta parte, destaca-se a influência da cultura no propuseram um conjunto de definições heurísticas,
Palavras-chave: ciência do desenvolvimento humano; pesquisa interdisciplinar; fatores biológicos e desenvolvimento e, finalmente, são tecidas algumas referentes a conceitos de desenvolvimento, que pode
culturais, ciclo de vida. considerações a respeito da importância de se adotar ser encontrado paralelamente na maioria dessas dis-
conceitos e pressupostos interdisciplinares para o es- ciplinas, facilitando a comunicação multi e
DEVELOPMENTAL SCIENCE: RETHINKING THE FOCUS OF ANALYSIS tudo de desenvolvimento humano. interdisciplinar. As definições tratam de estrutura,
temporalidade, mudança, padrões de mudança e cri-
Abstract: The interdisciplinary field of developmental science showed a significant progress in the O que é Desenvolvimento Humano? térios intelectuais e sociais para distinguir as mudan-
last decades. This progress has changed the view on the ways of thinking about the study of human development, ças associadas ao desenvolvimento.
having a strong impact in the research designs. This article aims to discuss basic concepts and principles that A ciência do desenvolvimento humano propõe A respeito da ‘estrutura’, as disciplinas reco-
recently guide the definition of the human development concept such as structure, temporality, changes and princípios ou enunciados, visando estabelecer um acor- nhecem que o desenvolvimento ocorre em um siste-
continuities. It is also emphasized the necessity of adopting a systemic approach to study the developmental do acerca do que é entendido como desenvolvimen- ma estruturado hierarquicamente, tanto vertical quan-
process. It means that it is important to analyze the complex and integrated systems considering the genetic, to. Magnusson e Cairns (1996) destacam sete princí- to horizontalmente, existindo relações bidirecionais
neural, behavioral, and environmental (physical, social, and cultural) levels interacting across time and forming pios básicos que devem nortear as pesquisas nesta entre eles, isto é, relações de influências mútuas e
probabilistic trajectories of development. área. O primeiro deles estabelece que a pessoa se recíprocas. Na biologia, por exemplo, se assume que
desenvolve e funciona psicologicamente como um a hierarquia vertical do organismo parte do nível mais
Key-words: developmental science; interdisciplinary research; cultural and biological factors; life organismo integrado, em que os elementos de baixo (fenômenos intra-nucleares), passando por cé-
course. maturação, experiência e cultura se fundem na lulas, tecidos, órgãos, organismos e seu ambiente,
ontogenia. O segundo ponto enfatiza que a pessoa envolvendo até outros organismos e o ecossistema
Desenvolvimento Humano: Ajustando o Foco de liza a ontogênese dos processos evolutivos, destacando em desenvolvimento funciona de acordo com uma físico. A diferenciação horizontal ocorre com base
Análise as trajetórias no ciclo de vida do indivíduo, conside- dinâmica contínua, em um processo de interação com nas interações entre os próprios níveis de cada siste-
rando-o como ser biológico inserido em determinado seu ambiente, incluindo as relações com outras pes- ma. Já, na sociologia, a diferenciação vertical abarca
A ciência do desenvolvimento refere-se ao tempo e espaço, o que implica enfatizar as mudanças soas e grupos sociais e culturais. Já, o terceiro desta- desde as díades (ex.: professor-aluno) e grupos pe-
conjunto de estudos interdisciplinares que se dedicam biológicas, temporais, culturais e sociais. O seu foco ca que o funcionamento individual depende de influ- quenos (ex.: sala de aula) até organizações formais
a entender os fenômenos relacionados com o desen- de análise varia desde os eventos genéticos até os ências recíprocas de interação entre subsistemas da (ex.: escolas) e instituições (ex.: sistema educacio-
volvimento humano, englobando as áreas social, psi- processos culturais, desde os fisiológicos até as própria pessoa, tais como os sistemas cognitivo, emo- nal), enquanto a diferenciação horizontal considera
cológica e biocomportamentais (Magnusson & Cairns, interações sociais, com os padrões de adaptação sen- cional, fisiológico, morfológico, conceitual e as conexões entre os níveis contidos em cada siste-
1996). Como tal, a ciência do desenvolvimento foca- do entendidos mediante interações dos níveis inter- neurobiológico. Todos esses sistemas agem ao longo ma. A estrutura pode favorecer ou dificultar os pro-
nos e externos ao indivíduo. do tempo. cessos de desenvolvimento.
1
Artigo recebido para publicação em 20/09/2004; aceito em 23/12/ Este artigo tem como objetivo discutir alguns Os demais princípios indicam (a) que novos Quanto à ‘temporalidade’, há consenso de que
2004. conceitos em psicologia do desenvolvimento huma- padrões de funcionamento individual surgem durante as análises em desenvolvimento devem expressar os
2
Endereço para correspondência: Maria Auxiliadora Dessen, Colina-
UnB, Bloco E, Apto 205, Campus da Universidade de Brasília-UnB no, considerando os avanços ocorridos nas últimas a ontogenia; (b) que as variações no desenvolvimen- acontecimentos prévios, ou seja, os eventos em sua
Brasília-DF, CEP: 70904-105, E-mail: dessen@unb.br décadas, presentes nos domínios interdisciplinares da to produzem diferenças na organização e na configu- seqüência histórica, com o tempo operando em dife-
A Ciência do Desenvolvimento Humano 1 3 1 4 Maria Auxiliadora Dessen
rentes níveis dentro do sistema. Cada disciplina utili- padrões de continuidades, ambos representados nos monstrado que as células têm uma multipotencialidade, tes a experiências significativas vivenciadas pelo in-
za escalas de tempo diferentes e conceitos próprios estágios e transições durante o curso de vida. o que possibilita o seu desenvolvimento em qualquer divíduo e que tendem a evocar comportamentos e
para abarcar a noção do tempo. Por exemplo, os so- Embora o conceito de desenvolvimento esteja parte do corpo, de acordo com a interação que man- respostas emocionais similares. Por último, os ‘efei-
ciólogos têm estudado a heterocronologia, que se re- ligado à mudança, nem toda mudança é considerada têm com as outras células ao seu redor e essa ten- tos cumulativos’ que tratam da continuidade no com-
fere ao descompasso do tempo social e do tempo desenvolvimento (Valsiner & Connolly, 2003). Segun- dência se repete em todos os níveis. portamento, mantida pela progressiva acumulação de
pessoal e às transições que ocorrem antes ou depois do estes autores, os processos de mudanças, para Essa noção de que cada aspecto do ambiente conseqüências do próprio comportamento. Estes
do tempo esperado. Segundo Cairns (conforme cita- serem considerados ‘desenvolvimento’, do ponto de poderá ter influências no desenvolvimento com re- mecanismos trazem embutidas as noções de estágio
do por Shanahan, Valsiner & Gottlieb, 1997), aspec- vista científico, requerem a identificação de uma di- sultados tão diversos, denominada de ‘norma de rea- e transição que caracterizam o desenvolvimento hu-
tos filogenéticos podem ser observados no tempo reção a ser seguida ao longo do tempo, embora tal ção’, indica claramente que a pesquisa empírica ain- mano ao longo do curso de vida.
geológico, os aspectos ontogenéticos podem ser es- direção não tenha que ser especificada em termos da não tem condições apropriadas para prever as tra- O estágio é definido como “o conjunto de pa-
tudados na perspectiva do curso de vida e os proces- concretos, podendo ser deduzida teoricamente, por jetórias dos fenômenos de desenvolvimento. Portan- drões comportamentais e habilidades características
sos microgenéticos em episódios interativos. exemplo, com o auxílio de recursos estatísticos. No to, as pesquisas contemporâneas precisam incorpo- de uma determinada idade ou fase do ciclo de vida do
Outra variável que faz parte da definição de entanto, para detectar uma mudança de desenvolvi- rar essa noção epigenética e probabilística do desen- individuo e a transição refere-se aos períodos de pas-
desenvolvimento é a ‘mudança’, que é originada da mento é preciso haver a comparação de dados entre, volvimento, a fim de obter resultados empíricos com- sagem de um estágio para outro no ciclo de vida”
ruptura da homeostase nos sistemas, seguida por um no mínimo, dois momentos específicos no tempo, de- patíveis com os avanços conceituais da ciência do (Aspesi, Dessen & Chagas, no prelo). Essas passa-
processo de ajuste que representa a própria mudan- terminados em função dos objetivos do estudo. desenvolvimento. A seguir, discute-se a importância gens acontecem no marco do ciclo de vida, que é
ça (Gottlieb, 2003). As tensões, denominadas de for- Outra noção importante, incorporada recen- dos conceitos de mudanças e continuidades para a entendido como o conjunto de eventos compreendi-
ças de coação, são criadas “no nível estrutural e temente ao conceito de desenvolvimento, é a noção compreensão dos fenômenos de desenvolvimento dos entre o nascimento e a morte e que tem como
funcional do organismo, quando este se depara com de epigênese probabilística do desenvolvimento humano e como a abordagem do curso de vida se referência o processo reprodutivo na sociedade (Elder,
circunstâncias novas ou adversas à manutenção do (Gottlieb, 2003). Em outras palavras, a mudança não mostra apropriada para estudar tais fenômenos. 1996). As sociedades constroem um conjunto de even-
seu equilíbrio” (Aspesi, Dessen & Chagas, no pre- é completamente previsível, pois depende das forças tos associados a cada estágio do curso de vida, im-
lo). De acordo com esta noção, o desenvolvimento de coação recíprocas entre as partes constituintes dos Mudanças e Continuidades no Processo de pondo demandas para as quais a pessoa deve adap-
pode ser produzido (a) por meio de indução, que é a sistemas complexos: genético, neural, comportamental Desenvolvimento: Dois Conceitos Interligados tar-se.
canalização do desenvolvimento em uma direção e ambiental, este último subdividido em ambientes fí- Portanto, a continuidade trata dos padrões
mais que em outra; (b) de forma facilitadora, pro- sico, social e cultural (Gottlieb, 2003; Shanahan, As mudanças existem uma vez que os com- relacionais e comportamentais que são transferidos
movendo experiências que facilitam ou aceleram Valsiner & Gottlieb, 1997). Por exemplo, os resulta- portamentos do individuo ocorrem em função de um entre situações, evocando respostas nas outras pes-
estágios consecutivos do processo do desenvolvi- dos orgânicos ou neurais do desenvolvimento podem tempo histórico e de um espaço específico no qual soas inseridas nos novos contextos de interação, re-
mento e; (c) por meio de manutenção, em que é ser conseqüência da coação de, pelo menos, dois com- ele está inserido, enquanto que as continuidades exis- forçando os padrões iniciais, adaptando-os ao novo
mantido o estágio final de um processo de desen- ponentes: pessoa-pessoa, organismo-ambiente, nú- tem, na medida em que permanecem os vínculos en- contexto. As mudanças no desenvolvimento resultam
volvimento já alcançado. cleo-citoplasma, dentre outros. De acordo com esses tre os padrões comportamentais prévios e posterio- de acomodações cognitivas e comportamentais que
Os ‘padrões de mudança’ indicam que os ní- autores, ‘experiência’ é o termo mais utilizado para res (Keller, 1991). A continuidade refere-se à regula- ocorrem de forma simultânea com as mudanças
veis do sistema são co-acionais, isto é, as mudanças referir-se a essas coações e pode ser anatômica, fisi- ridade nos padrões de desenvolvimento, tanto em ter- registradas em outros sistemas orgânicos ou
ocorrem em todas as partes dos sistemas envolvidos ológica e comportamental. mos de estrutura e processos, como em termos de ambientais, em determinados momentos do tempo.
e estão coordenadas funcionalmente. Assim, a com- A noção epigenética propõe que o desenvolvi- mecanismos, o que significa distinguir entre continui- Isto requer que o desenvolvimento seja analisado em
preensão do desenvolvimento é baseada na noção de mento se caracteriza por um aumento na complexi- dade ao nível de construtos teóricos e continuidade termos sistêmicos, ou seja, considerando o dinamis-
que as diferentes estruturas e funções dos sistemas dade da organização em todos os níveis hierárquicos ao nível dos comportamentos observáveis. A conti- mo entre os diferentes sistemas e tempos de reorga-
mudam de modo coordenado para adaptar-se ao - dos genes, citoplasma, células, órgãos, sistema or- nuidade é também vista em termos de padrões previ- nização adaptativa. Uma das abordagens que cum-
desequilíbrio da homeostase, para, em seguida, alcan- gânico, comportamento, até os ambientes social e síveis de relacionamento ou de relações causais en- pre tal requisito é a abordagem denominada de ‘cur-
çar novo equilíbrio (Shanahan, Valsiner & Gottlieb, cultural, e que este aumento em complexidade impli- tre experiências prévias e posteriores. so de vida’, que incorpora as noções de tempo, de
1997). A última proposição heurística aborda os cri- ca a emergência de novas propriedades funcionais, Elder (1996) identifica três mecanismos res- contexto e de processo (Elder, 1996).
térios intelectuais e sociais que definem as mudanças estruturais e de competências (Gottlieb, 1996). A ponsáveis pela mudança e continuidade no desenvol- A noção de curso de vida implica considerar
a serem estudadas em desenvolvimento. Tais mudan- interdependência entre os diferentes níveis que se vimento humano. O primeiro deles é denominado as mudanças e a interdependência das trajetórias do
ças são produto de um processo histórico que permi- influenciam mutuamente, no mínimo de modo ‘interação continuada’ e trata da persistência dos efei- indivíduo vinculadas à idade que, por sua vez, depen-
te refinar e avaliar as teorias e as evidências empíricas bidirecional, leva a abandonar, atualmente, a noção tos comportamentais de determinada experiência, que dem das mudanças que ocorrem nas sociedades. Por
que as fundamentam. Portanto, estudar os processos conclusiva da determinação genética das caracterís- em interação com outras pessoas, tendem a re-criar exemplo, a entrada na escola e o momento de apo-
de desenvolvimento significa estudar mudanças que ticas anatômicas e fisiológicas. Conforme enfatizado as mesmas condições. O segundo, a ‘ativação sentar-se variam entre as sociedades. Segundo Elder
são perceptíveis ao longo do tempo, mas também os por Gottlieb, os experimentos embriológicos têm de- situacional’, refere-se a situações que são semelhan- (1996), para compreender o desenvolvimento, as aná-
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lises deverão incluir evidências do atual funcionamento senvolvimento, uma das tarefas básicas da ciência ção progressiva e mútua entre o organismo humano crever, como primeiro passo, as categorias e concei-
do ambiente, como estrutura social e processo social, do desenvolvimento é compreender como o compor- em desenvolvimento e as mudanças imediatas do tos com capacidade heurística; e (c) vincular a psico-
nos seus diferentes níveis: desde o nível mais macro tamento individual entra em contato com os outros ambiente no qual ele vive, durante o curso de vida. logia do desenvolvimento a outras disciplinas. Hinde,
da organização social até grupos menores como es- elementos significativos do seu entorno, além de des- Isto requer compreender como o processo de desen- além de enfatizar a importância de as pesquisas con-
colas e famílias, incluindo estruturas intermediárias e crever as características desses contatos que são volvimento do indivíduo é afetado pelas relações en- siderarem as redes de relacionamento social entre as
locais como comunidade e vizinhança. relevantes para o desenvolvimento. De acordo com tre os cenários ou entornos imediatos e contextos pessoas, focalizando o indivíduo inserido em seu am-
A abordagem do curso da vida considera quatro Magnusson e Cairns (1996), os comportamentos so- sociais mais amplos (formais e informais). Em seu biente, defende a necessidade da contribuição de di-
princípios paradigmáticos: (a) variações geográficas e ciais organizam os contatos entre o organismo e o modelo, o ambiente ecológico é concebido em estru- versas disciplinas para que os processos de desen-
históricas nas vidas humanas; (b) organização humana ambiente, promovendo seletivamente os processos de turas, cada uma delas contidas em estruturas maio- volvimento sejam, de fato, compreendidos.
e suas restrições sociais moldando as trajetórias do adaptação. Neste sentido, o comportamento passa a res: o microssistema (relação entre a pessoa em de- Pensar o desenvolvimento humano abarcando
desenvolvimento; (c) o papel central do tempo de opor- ser a interface entre as atividades intra e extra-orga- senvolvimento e o ambiente imediato no qual ela está desde os sistemas fisiológicos e psicológicos, de com-
tunidade na estrutura e processo do desenvolvimento; nismo. Para alguns autores, dentre eles Gariépy inserida. Ex: a família, escola, trabalho); o mesossis- portamento individual e de interações entre pessoas,
(d) vidas relacionadas ou interdependentes na matriz (1996), o fato de a integração hierárquica implicar tema (inter-relações entre os cenários principais nos até relações compostas por seqüências de interações
de relações sociais, no tempo (Elder, 1996). Tais prin- em integração funcional entre os níveis de organiza- quais o individuo em desenvolvimento participa. Ex: entre indivíduos, grupos e sociedades, incluindo o sis-
cípios geram, portanto, quatro temas principais a se- ção (desde os genes até o ambiente), não significa relações entre família e escola); o exossistema (es- tema de crenças, valores e mitos e as instituições com
rem estudados: o entrelaçamento das vidas humanas e que se tenha que assumir que o comportamento seja truturas sociais específicas, formais e informais, que seus papéis constituintes, compartilhados pelas pes-
as mudanças históricas e ambientais, as organizações produto dessas interações. Para Gariépy, o compor- têm efeitos sobre os cenários imediatos da pessoa soas da relação, grupo ou sociedade específica, re-
humanas e as tomadas de decisões e as restrições so- tamento constitui a origem dos processos que permi- em desenvolvimento, influindo, delimitando e até de- quer planejamentos de pesquisa orientados por abor-
ciais, o senso de oportunidade das vidas e, por fim, as tem a interação entre condições intra e extra-orga- terminando o que aí acontece. Ex: as instituições da dagens sistêmicas. Em outras palavras, os estudos
vidas em relação. Adotar essa abordagem significa nismo, conduzindo à continuidade e à mudança nos sociedade que operam em um lugar concreto, tais deveriam focalizar as relações de trocas entre o or-
focalizar as mudanças nos padrões de vida, levando processos adaptativos no decorrer da vida. como a secretaria de educação local); e o ganismo em desenvolvimento e o seu ambiente tam-
em conta os seus contextos específicos, enfatizando o Compatível com essa noção, Bronfenbrenner macrossistema (protótipos gerais de uma cultura e bém em desenvolvimento, tendo como pressuposto
papel das mudanças sociais no processo de desenvol- (1992) considera o desenvolvimento humano como sub-cultura que estabelecem o padrão das estruturas básico que, nessas trocas, o organismo age sobre o
vimento do indivíduo. “um conjunto de processos por meio dos quais as pro- e atividades em um determinado nível. Ex: sistemas ambiente, de modo a manter tanto uma coerência in-
Conhecer a trajetória do desenvolvimento do priedades do indivíduo e do ambiente interagem e pro- políticos, sociais e econômicos). terna consigo mesmo, quanto com o próprio ambien-
indivíduo constitui um desafio para os pesquisadores duzem continuidades e mudanças nas características A dimensão temporal do desenvolvimento tam- te, e vice-versa. Deste modo,
de diferentes disciplinas, que necessitam, obviamente, da pessoa e no seu curso de vida” (p. 191). E é pelo bém é considerada no modelo bioecológico, incorpo-
de pressupostos comuns para “entenderem como os processo de desenvolvimento que a pessoa adquire “os organismos em desenvolvimento tornam-
rando tanto os eventos históricos, que retratam as
sistemas múltiplos que influenciam o desenvolvimento uma concepção mais ampla e diferenciada do meio se flexíveis, operando em qualquer nível que
mudanças da sociedade na qual o indivíduo está inse-
individual – dos processos culturais a eventos genéti- ambiente ecológico, tornando-se cada vez mais capaz seja necessário para encontrar as condições
rido, como também as próprias mudanças do indiví-
cos e de processos fisiológicos a interações sociais, de envolver-se em atividades que revelem suas propri- ambientais. A relevância da irreversibilidade do
duo ao longo de seu curso de vida. Portanto, o estudo
vão integrando-se no decorrer do tempo, promovendo edades, sustentem ou reestruturem o ambiente em ní- tempo torna-se óbvia aqui: um sistema em de-
do desenvolvimento humano deve ir além da obser-
o funcionamento saudável e adaptativo ou sua conver- veis de complexidade similares ou maiores, tanto em senvolvimento que encontra as condições
vação do comportamento de uma ou duas pessoas
são” (Magnusson & Cairns, 1996, p. 9). Portanto, para relação ao conteúdo como à forma (Bronfenbrenner, ambientais X, ‘em um dado momento’, neces-
residindo no mesmo lugar, incluindo os sistemas múl-
compreender o desenvolvimento humano, é preciso 1979/1996). Em outras palavras, o desenvolvimento sita adaptar-se não somente àquele estado já
tiplos de pessoas interagindo em cenários diferentes,
considerar a emergência e a evolução do indivíduo, em representa uma reorganização contínua dentro da uni- conhecido das demandas ambientais, mas tam-
levando em conta os aspectos do ambiente e das si-
seus diferentes aspectos interligados: biológicos, psi- dade tempo-espaço, que opera no nível das ações, bém em modos que ‘antecipem as possíveis
tuações imediatas (Bronfenbrenner, 1977).
cológicos, sociais, culturais e históricos. A seguir, des- percepções, atividades e interações do indivíduo com mudanças’ nestas demandas, em um momen-
Para lidar com todos estes níveis de análises,
taca-se a importância de se considerar a influência dos o seu mundo, sendo estimulado ou inibido por meio to subseqüente.” (Valsiner & Connolly, 2003,
simultaneamente, são necessárias descrições e
fatores ambientais no desenvolvimento. das interações com diferentes participantes do ambi- p. 11).
ente da pessoa. categorizações próprias para o fenômeno em ques-
Enfatizando a Inter-Relação Entre Fatores Bi- Coerente com essas noções, Bronfenbrenner tão, abarcando cada nível da complexidade social.
ológicos e Ambientais no Estudo do Desenvol- (1977, 1994, 1979/1996, 1999, Bronfenbrenner & Ceci, Hinde (1992, 1997) propõe três estratégias para lidar
com o desafio que representa tratar o desenvolvimento Dada a relevância da cultura para o desenvol-
vimento 1994; Bronfenbrenner & Morris, 1998) propõe, en- vimento, o tópico a seguir é dedicado a tecer algumas
tão, o ‘Modelo Bioecológico’ para nortear as pesqui- como um todo: (a) enfocar os indivíduos e suas redes
sociais distinguindo os níveis de complexidade social, considerações a respeito da cultura e seu papel no
Seguindo a lógica hierárquica das inter-rela- sas sobre desenvolvimento humano. Esse modelo desenvolvimento humano.
ções entre os diferentes níveis dos sistemas em de- considera o desenvolvimento como uma acomoda- bem como as relações dialéticas entre eles; (b) des-
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Cultura e Desenvolvimento Humano ‘co-variância reativa’ entre pessoa e ambiente. Fo- dos cuidadores, que reflete o sistema de crenças cul- científicas, dentre as quais a biologia, a psicologia, a
calizar essa estrutura como unidade de análise em turalmente organizado acerca do comportamento e fisiologia, a neuropsicologia, a sociologia e a antropo-
De acordo com Chick (1997), existem, na atu- pesquisa implica observar diferenças individuais entre desenvolvimento da criança (‘etnoteorias parentais’). logia. No entanto, a comunicação multi e interdis-
alidade, muitas definições de cultura, porém elas po- grupos e entre culturas. Todos esses componentes do nicho de desenvolvi- ciplinar precisa ser cuidadosa. Lawrence e Dodds
dem ser resumidas em quatro categorias: (a) cultura Existem variações individuais dentro de uma mento merecem atenção dos pesquisadores da área (1997) explicam, por exemplo, que a simples transpo-
entendida como conhecimentos, crenças, idéias, va- mesma cultura e, também, variações de padrões de de desenvolvimento humano, embora, o primeiro de- sição de conceitos de uma disciplina para outra não é
lores, enfim, algo que está na cabeça das pessoas comportamento entre os membros de diferentes cul- les seja de particular importância, uma vez que o con- adequada, pois o uso de conceitos equivalentes entre
das diferentes sociedades; (b) cultura entendida como turas. Essas diferenças resultantes da exposição a texto físico e social delimita as oportunidades de de- disciplinas deve ser antecedido de uma análise cuida-
padrões de comportamento distintivos de sociedades fatores culturais distintos são perceptíveis em todos senvolvimento da pessoa. dosa do termo, para cada uma delas, e pela verifica-
particulares; (c) cultura como expressões materiais e os aspectos do desenvolvimento humano, desde a Não basta estudar os ‘nichos de desenvolvi- ção do suficiente paralelismo desses conceitos entre
comportamentais dos membros de uma sociedade; e cognição até o comportamento social, por exemplo. mento’; é preciso, também, testar as teorias de de- as diferentes áreas. Nesse sentido, acredita-se que
(d) cultura como um sistema de informação compar- A comparação do funcionamento psicológico em con- senvolvimento em ambientes culturais distintos para os princípios e os conceitos básicos sobre os proces-
tilhada pelo grupo. Independentemente da diversida- textos culturais distintos, uma das tarefas da psicolo- evitar vieses provenientes da produção de conheci- sos de desenvolvimento propostos pela ciência do
de de definições sobre o termo, a cultura oferece um gia transcultural, possibilita testar pressupostos uni- mento limitada a populações de países ocidentais in- desenvolvimento humano facilitam a comunicação
sistema de significados compartilhados por meio dos versais acerca do comportamento humano e das re- dustrializados. Tais vieses eurocêntricos e etnocên- entre as disciplinas, provendo uma linguagem comum
quais a pessoa internaliza valores culturais necessá- lações sociais, ressaltando, assim, o papel de culturas tricos, característicos das teorias contemporâneas, para a discussão dos dados empíricos.
rios para o desenvolvimento de competências específicas nesses processos, resultando em dados contradizem os princípios sistêmicos do desenvolvi- A ciência do desenvolvimento tem o desafio
adaptativas. Mesmo aqueles processos biológicos valiosos para os estudos sobre desenvolvimento hu- mento humano (Dasen & Mishra, 2000; van de Vijver de entender como os sistemas múltiplos influenciam
humanos que são considerados universais (ex: pro- mano (Trommsdorff, 2002). & Leung, 2000). o desenvolvimento individual, isto é, como os proces-
dução hormonal durante a adolescência) podem fun- Mas, não se pode deixar de considerar, dentro sos culturais e os eventos genéticos e fisiológicos se
cionar de modo bastante diferente, dependendo do do ambiente, os aspectos subjetivos que, sem serem Considerações Finais integram ao longo do curso de vida, promovendo o
contexto cultural no qual a pessoa está inserida necessariamente tangíveis, têm a capacidade de mu- funcionamento saudável e adaptativo da pessoa
(Trommsdorff, 2002). dar as trajetórias do desenvolvimento do indivíduo e Neste artigo, argumenta-se que o desenvolvi- (Magnusson & Cairns, 1996). Portanto, os estudos
Super e Harkness (1999) destacam que o ele- do ambiente, ao longo do tempo. Alguns exemplos mento precisa ser estudado considerando desde as em desenvolvimento precisam analisar a integração
mento mais importante da cultura em relação ao de- destes aspectos subjetivos são o código de comuni- unidades biológicas até as estruturas sociais, tendo ontogenética considerando o contexto e o tempo. As
senvolvimento humano é o fato de ela constituir-se cação que o indivíduo estabelece para entrar em con- como interface os padrões comportamentais. Isto mudanças temporais são utilizadas para esclarecer
em uma realidade imediata, presente e compartilha- tato com o seu meio, os símbolos que medeiam o seu requer a adoção de um conceito de desenvolvimento os mecanismos do desenvolvimento e demonstram
da pelos membros de uma comunidade, possuindo comportamento e as regras implícitas e explicitas que que reflita os avanços ocorridos nas últimas décadas, sua operação em instâncias concretas de adaptação.
potencial para permear todas as experiências e com- organizam as interações entre as pessoas. Estes ele- em diferentes disciplinas dedicadas ao estudo desta Por exemplo, vínculos mediadores entre a ontogenia
portamentos das pessoas. Para esses autores, as pes- mentos subjetivos do ambiente são basicamente estí- variável, como também a adoção de modelos e os estudos temporais podem ser vistos em análises
soas constroem o ambiente por meio dos costumes, mulos sociais que, ao entrarem em contato com o sistêmicos. Segundo Lawrence e Dodds (1997), o detalhadas dos processos de transmissão e de mu-
dos comportamentos, das situações, das crenças e indivíduo, dão forma à bagagem psicológica. desenvolvimento deve ser visto como “uma estrutura danças entre gerações (The Carolina Consortium on
dos valores, indicando que um determinado ambien- Como é que os elementos da cultura se inte- sistêmica de relações bidirecionais entre níveis verti- Human Development, 1996).
te é formado por uma estrutura sistemática estática gram de forma a influenciar diretamente o desenvol- cais e horizontais, ocorrendo em um tempo social e Embora os conceitos e pressupostos da ciên-
e ao mesmo tempo dinâmica. Estrutura estática re- vimento humano, particularmente nas primeiras fa- pessoal, sendo as mudanças probabilísticas e mani- cia do desenvolvimento humano tenham sido siste-
fere-se às características típicas do ambiente ime- ses do curso de vida? Acerca da organização cultural festadas em padrões de coações coordenadas por matizados na última década do século XX, a sua con-
diato da pessoa (ex: família), em uma dada cultura do desenvolvimento, Super e Harkness (1999) pro- meio de níveis do funcionamento humano” (p. 293). tribuição tem sido notória, particularmente no que tange
ou sub-cultura, que repercutem diretamente no seu põem o conceito de ‘nicho do desenvolvimento’, com- Portanto, é necessário desenvolver planejamentos de às integrações conceituais e à proposição de estraté-
desenvolvimento, tais como a natureza das posto por: (a) contexto físico-social da vida diária da pesquisa que sejam consistentes com a noção de de- gias metodológicas e analíticas para abordar os fenô-
interações verbais e a distribuição de tarefas de criança, entendido como os objetos e pessoas que cir- senvolvimento constituído por mudanças que ocor- menos do desenvolvimento humano (Dessen, no pre-
cuidado no âmbito da família. E são essas regulari- cundam a criança, e que representam riscos e apoios rem em função do tempo e das características do lo). Tais avanços precisam, agora, ser compartilha-
dades ao longo do tempo que dão continuidade à para o seu crescimento, e os tipos de interações que contexto, com as interações entre sistemas internos dos entre os pesquisadores de desenvolvimento, vi-
experiência do desenvolvimento. Por outro lado, a eventualmente ocorrem entre eles; (b) costumes re- e externos ao indivíduo, provocando o surgimento de sando à implementação de projetos de pesquisa que
estrutura dinâmica do ambiente humano refere-se gulados culturalmente sobre o cuidado e educação novos padrões de funcionamento. tragam contribuições relevantes para a compreensão
às respostas diferenciais entre as pessoas, segundo da criança, incluindo as práticas cotidianas, úteis e Para estudar o desenvolvimento de forma in- dos processos de desenvolvimento humano neste sé-
as características próprias de idade, temperamento, significativas, que são aplicadas inconscientemente e tegrada, é necessário reconhecer que sua complexi- culo que se inicia.
sexo, origem racial etc. e que são responsáveis pela que parecem ser óbvias e naturais; e (c) a psicologia dade implica o envolvimento de diferentes disciplinas

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