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ZINBERG, Norman M. D. Drug, set and setting: the basis for controled intoxicant use.

New York, 1984. pp. 1-18.

Tradução: Selma de Souza1

Carlos é um usuário ocasional de heroína. Ele é solteiro, homem branco, 26 anos de


idade, estudante graduado que imigrou da África do Sul para os E.U.A, quando tinha 18
anos de idade. Seu pai morreu quando ele tinha dois anos e sua mãe casou-se, novamente,
18 meses mais tarde. Seu padrasto, um médico, já tinha um filho e uma filha e teve dois
filhos deste novo casamento. Carlos estima a todos como se fosse sua própria família.
Ninguém na família evidenciava alcoolismo ou envolvimento com drogas pesadas,
incluindo drogas prescritas.
Os pais de Carlos, assim como ele, são ambos bebedores sociais moderados. Eles se
servem de cerveja e vinho nas refeições da tarde e era permitido a Carlos bebericar,
ocasionalmente, desde 10 ou 12 anos de idade. Quando tinha 12 anos experimentou tabaco
e aos 19 já tinha começado a fumar um maço de cigarros ao dia e, ainda, até hoje continua
sendo fumante. Aos 16 anos experimentou maconha, usando-a até três vezes por semana,
mas, somente, no final da noite após o trabalho e os estudos, ou em ocasiões especiais.
Anfetaminas eram comuns no grupo de amigos de Carlos, e entre os 16 e 18 anos de
idade, quando deixou a África do Sul, usou estas drogas com eles, em ocasiões sociais,
sempre uma ou duas vezes por semana. Desde então, ele usou anfetamina somente duas ou
três vezes.
Aos 17 anos, quando Carlos e seu melhor amigo de quem o pai também era médico
já tinham experiências com drogas, pegaram um frasco de sulfato de morfina do consultório
do pai desse amigo. Eles também pegaram seringas descartáveis, e injetaram-na um no
outro, via intramuscular. Ambos acharam a experiência extremamente prazerosa e, daí em
diante, eles a injetaram um no outro, durante os fins de semana, até o frasco se esgotar.
Aos 18 anos, depois de mudar para os E. U. A, Carlos entrou para a Universidade
em São Francisco, onde começou uma amizade com um grupo de usuários de psicodélicos.
Sua experiência psicodélica inicial foi muito prazerosa e no ano seguinte ele “viajava” duas
a três vezes ao mês. Depois, seu interesse naquele tipo de experiência com a droga
declinou. Atualmente ele usa psicodélico, ocasionalmente, não mais que duas vezes ao ano.
Aos 20 anos, quando Carlos estava ensinando no Sul da Califórnia, ele entrou para
um grupo de hippies com quem ele cheirou heroína. Após retornar de São Francisco ele
começou a buscar informações sobre o uso de ópio. Dentro de pouco tempo suas discretas
indagações afinaram-se com um grupo de usuários ocasionais de heroína que incluía um
amigo íntimo, que não havia contado para Carlos sobre o uso desta droga. Carlos começou
a usar com este grupo uma vez ao mês, em média, mas não era um uso em bases regulares.
A irregularidade do uso de heroína por Carlos era devido inteiramente à sua vida
social. Por outro lado se ele estava ocupado e não via seus amigos usuários de droga, ele
usava menos freqüentemente; se os via mais vezes, ele tendia a usar mais freqüentemente.
Este padrão continuou, exceto por dois períodos de duas semanas, quando Carlos estava
visitando Amsterdã, durante uma viagem à Europa. Naquelas cidades “wide open” (onde

1
Aluna especial do Curso de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia/UFBA, julho de 2005.

1
não havia repressão aberta) ele usou possivelmente todos os dias, mas isso não teve efeito
no seu padrão de uso quando retornou para os E. U. A.
Após ter mudado para Boston e entrado na Universidade Carlos, com então 22 anos,
encontrou um novo grupo de usuários ao qual foi apresentado por amigos da Califórnia.Ele
gosta mais de dois ou três deles, mas via-os somente ocasionalmente. Nem seu “melhor”
amigo, um companheiro estudante de graduação, nem seu companheiro de apartamento, um
engenheiro de 31 anos de idade, que não é especialmente seu amigo íntimo sabia sobre o
uso de heroína. “Eu não quero ser ilusório” - Carlos disse, “mas algumas pessoas têm um
medo exagerado de heroína e fazem um grande escarcéu sobre ela. Eu não gosto de ter de
explicar-me. Eu apenas gosto de ficar chapado desta forma, de vez em quando. Isso não é
da conta de ninguém o que eu gosto, e eu não quero ser julgado por isto”.
Seu uso tem lugar somente em um grupo e ele ou a aspira, ou usa a substância
intramuscularmente. “O truque”, ele disse - “é ficar chapado com a menor quantidade
possível. Se eu tomo muito mais, eu tenho náuseas, constipação e tenho problemas para
urinar”. Vindo de uma família de médicos ele está completamente consciente da
possibilidade de infecção, é meticuloso na esterilização de suas seringas e nunca as
empresta para algum outro. Seu plano atual de uso, o preço alto da heroína não representa
privação para o uso da droga. Um de seus amigos, com “boas ligações”, procura a droga e
quando é possível uma “boa compra” é feita. Carlos compra um pouco extra para guardar
para uma outra ocasião. Ele não tem certeza que ele faria isto se seu amigo mudasse para
longe. Ele espera ser capaz de continuar usando de acordo com seu plano atual, o qual ele
tem mantido por seis anos.
Carlos mantém uma vida social muito ativa na qual heroína e maconha ocupam uma
pequena parte. Seus pais mantêm excelentes relações com ele e o têm visitado recentemente
neste país. Primeiro, quando chegou nos E. U. A., ele pensou que poderia ter problemas
com mulheres porque não era agressivo, mas ele teve um relacionamento satisfatório de
longo prazo com uma mulher, antes que ele deixasse a Califórnia. Desde que mudou para
Boston ele tem namorado muito, inclusive mantendo uma relação constante com uma
amiga, por mais de um ano. Quando este relacionamento acabou, ele estava sem saber o
que fazer, mas passados três meses ele tem saído com alguém, e pensa que ela pode ser a
pessoa mais importante da sua vida.
Carlos gostou da sua Universidade na América mais que a Escola Secundária na
África do Sul, a qual ele não gostava social e intelectualmente. Ele gostava da escola de
graduação muito mais. Ele tem uma expectativa de oferta de trabalho em Boston, área que
depende do término da sua tese, antes de setembro, e está trabalhando muito duro em
direção à esta meta.
Até muito recentemente não era reconhecido que Carlos e outros como ele poderiam
usar drogas ilícitas de forma controlada. Mas, estudos que subsidiam este livro no controle
(moderado, ocasional) do uso de maconha, psicodélicos e opiáceos sustentam,
testemunham um novo interesse por pessoas como Carlos que começaram a aparecer
durante os anos 702. Antes, então, presumia-se que por causa de suas propriedades
farmacológicas – psicodélicos, heroína e, era menos estendido à maconha, não poderiam
ser consumidas a longo prazo, em bases regulares sem causar sérios problemas. A condição
lamentável dos adictos de heroína e outros usuários compulsivos era invocada como
“prova” do seu farmacologismo (Szasz,1975). Era amplamente conhecido que estas

2
Para uma checagem das pesquisas em relação aos adicto, abuso e controle de drogas, ver apêndice C.

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substancias perigosas eram quase sempre procuradas por pessoas com profundas desordens
de personalidade. Muitas pesquisas sobre droga foram fortemente influenciadas por visões
moralistas, acreditando que todo uso de droga ilícita era, portanto, “má”, inevitavelmente
prejudicial, por criar dependência psicológica ou física, e que a abstinência era a única
alternativa (Zinberg and Harding, 1982).
Não é de surpreender que os estudos sobre o consumo de droga, os quais cresceram
repentinamente durante os anos 60 tenderam a equacionar o uso (qualquer tipo de uso)
como abuso, e algumas vezes o uso ocasional ou uso moderado no relato de um padrão
viável (Heller, 1972). O pouco que se reconhecia a possibilidade de um uso não abusivo
era trata-lo como um estágio breve e transitório levando ou à abstinência ou (mais
comumente\) ao uso compulsivo. Pesquisadores procuraram, primeiro, determinar as
potencialidades dos efeitos prejudiciais das drogas ilícitas, para então estudar as desordens
de personalidade resultantes do uso destas substâncias – desordens as quais, ironicamente
eram consideradas responsáveis pelo uso da droga, em primeiro lugar.
Ainda, antes dos anos 60, entretanto, sabia-se que para entender como o controle de
uma substância ingerida poderia ser desenvolvido, mantido, ou perdido, diferentes padrões
de consumo tinham que ser comparados.Há muito este princípio vinha sendo aplicado em
estudos comparados de padrões de uso de álcool: alcoolismo como o oposto ao beber social
e moderado. Foi somente após os anos 70 que as mesmas estratégias de pesquisa vieram a
ser rigorosamente aplicadas aos estudos do uso de drogas ilícitas e somente depois da
metade da década de 70 foi reconhecida pela comunidade científica a existência e a
importância de uma gama ainda mais abrangente de padrões de uso .

UMA NOVA PERSPECTIVA DE CONTROLE

O novo interesse no estudo comparado de padrões de uso e abuso de droga são


atribuíveis a, no mínimo, dois fatores: o primeiro é que apesar do enorme crescimento do
consumo de maconha a maioria das antigas preocupações sobre os riscos à saúde tem
provado ser infundada. E, também, o maior uso de maconha tem sido encontrado em
padrões moderados e ocasionais mais do que em intensivos ou crônicos (Josephson, 1974);
National Institute on Drug Abuse, 1977; Marijuana and Health, (1982). Estimava-se, por
exemplo, que 63% de todos os americanos que usavam maconha em 1981 eram somente
usuários ocasionais (Miller and Associates, 1983). Estes desenvolvimentos têm encorajado
o reconhecimento público e profissional da possibilidade de que substancias ilícitas podem
ser usadas com moderação, e que a questão de como controlar opera nos vários níveis de
consumo e merecem muito mais pesquisas. Um segundo fator responsável por novas
perspectivas de pesquisa é o trabalho pioneiro de poucos cientistas que estiveram mais
marcados pela lógica de seus próprios resultados do que pela visão dominante do uso de
droga ilícita. O trabalho que mais tem influenciado é o de Lee N. Robins, que pesquisou o
uso de droga entre os veteranos do Vietnan, e indica que o consumo de heroína (a mais
perigosa droga ilícita) nem sempre conduzia para a dependência ou uso disfuncional, e que
quando a dependência ocorria era muito mais reversível do que se acreditava ( Robins,
1973, 1974ç; Robins et al, 1979).
Já que diminuiu a crença de que as drogas ilícitas eram uma categoria em si
mesmas, eles começaram a comparar com drogas lícitas e outras substancias. Ao mesmo
tempo, foi tomando lugar uma mudança de atitude contrária em relação às substancias
lícitas. Pesquisas indicaram que uma variedade grande destas substancias – tabaco, cafeína,

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açúcar e outros aditivos de alimentos – eram potencialmente perigosas à saúde (Pekhanen
and Falco, 1975; Marcovitz, 1969). Outra pesquisa demonstrava que drogas prescritas, se
não usadas da forma como o médico indicava poderiam ser perigosas e poderiam constituir
um grande problema de saúde pública. Então, o público começou a estar mais consciente a
respeito dos conselhos dos médicos – drogas “boas” usadas por “boas razões” podem ser
difíceis de controlar. Isso demonstrou, justamente, que o mito de que as drogas ilícitas eram
prejudiciais ia perdendo terreno, da mesma forma, também que o mito de que muitas
substancias lícitas eram também benignas. O resultado foi um novo interesse em descobrir
formas de controle do uso de uma extensa variedade de substancias, ambas lícitas e ilícitas.
Comecei a dar valor a estas mudanças de perspectiva, através das minhas próprias
pesquisas. Em 1973, quando o Conselho de Abuso de Droga (The Drug Abuse Council)
passopu a dar apoio a meus estudos sobre os usuários de drogas controladas, a atitude
convencional das agências de pesquisa era que deveria-se procurar maneiras de prevenir o
abuso de droga, o que neste tempo significava prevenir qualquer uso de droga ( Zinberg,
Harding and Apsler, 1978).Desde 1973, maconha, psicodélicos e opiáceos eram as causas
de grandes preocupações; estas foram as drogas que eu escolhi para estudar. O ano de 1973
foi crucial por muitas razões. Ele precedeu justamente o uso elevado e visível de cocaína,
bem como uma publicidade enorme dada ao PCP, embora o uso de PCP (sob o pseudônimo
de “pó de anjo” e THC) era bastante difundido. Aconteceu exatamente no ano no qual
NORML – Nacional Organization on for the reform of Maconha Laws começou os
esforços formais para discriminalizar o uso privado de maconha. Foi, também, o último ano
no qual o uso da droga psicodélica aumentou numa grande proporção (131%, de acordo
com a Comissão Nacional de Marijuana e Abuso de Droga – National Commission on
Marijuana and Drug Abuse, 1973. E, finalmente, marcou o declínio do pensamento
opressor sobre “epidemia” de heroína).
As duas hipóteses relacionadas que sustentavam esse projeto eram muito mais
controvertidas em 1973 do que seriam hoje, embora elas ainda não sejam geralmente
aceitas. Eu defendi, primeiro, que para se entender o que impele alguém a usar drogas
ilícitas e como elas afetam seus usuários, três determinantes devem ser considerados: Drug
( droga, a ação farmacológica da substância em si mesma), Set (a atitude da pessoa ao
tempo do uso, incluindo sua estrutura de personalidade) e Setting (a influência do contexto
físico e social, no qual ocorre o uso) (Will, 1972; Zinberg and Robertson, 1972; Zinberg,
Harding and Winkeller, 1981).Então, a segunda hipótese, derivada da primeira, era que o
contexto social, através do desenvolvimento de sanções e rituais, é que traz o uso de drogas
ilícitas sob controle.
O uso de algumas drogas envolve, tanto valores e regras de conduta (os quais
tenho denominado de “sanções sociais”) quanto padrões de comportamento (os quais tenho
chamado de “rituais sociais”); estes dois, juntos, são conhecidos como “controles sociais
informais”. Sanções sociais definem se e como a droga em particular poderia ser usada.
Podem ser informais e partilhados por um grupo, como uma regra comum associada ao uso
do álcool – “conheça seu limite” e “não dirija quando tiver bebido”, ou eles podem ser
formais, como várias leis e políticas apontadas na regulação do uso da droga.Tem a ver
como o uso da droga os métodos de procura e de administração da droga, a seleção do
contexto físico e social para o uso, as atividades iniciais e depois que a droga for
administrada e as formas de prevenir os efeitos desagradáveis da droga.Rituais, então,
servem para sustentar, reforçar sanções simbólicas. No caso do álcool, por exemplo, o
convite comum “Let’s have a drink” (vamos tomar um drink), automaticamente, exerce

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algum grau de controle pelo uso comum do termo “a drink”. Ao contrário, “ Let’s get
drunk”( vamos ficar bêbados) implica que todo controle foi abandonado.
Controles sociais (rituais e sanções juntos) comandam o uso de todas as drogas, não
somente o álcool e operam em uma variedade de contextos sociais representativos desde a
cultura como um todo, até grupos pequenos e discretos (Harding and Zinberg, 1977).
Certos tipos de uso, em ocasiões especiais, envolvendo grandes grupos de pessoas – cerveja
em bailes, maconha em concertos de rock; vinho nas refeições, coquetéis às 6:00h – apesar
da sua diversidade cultural, tornaram-se tão completamente aceitos que poucas ou
nenhumas restrições legais são aplicadas mesmo que tecnicamente representem uma quebra
da lei. Por exemplo, um policial pode dizer a um grupo de jovens, que estiver bebendo
cerveja em um concerto ao ar livre, para “knock it off” – “dá um tempo”, mas, ele raramente
os prenderá e em muitos estados a reação policial seria similar em igual plano se a droga
fosse maconha (Newmeyer and Johnson, 1982). Se a cultura como um todo, adota
amplamente um ritual social, isto pode, finalmente, ser aceito pela lei , da mesma forma
como o intervalo matinal para o café foi em acôrdos sindicais. O “drink da sexta-feira” após
o expediente pode não estar longe de adquirir um padrão similar.Mas, sanções de pequenos
grupos e rituais tendem ser mais diversificados e mais proximamente relacionados às
circunstâncias. Contudo, algumas advertências podem ser firmemente mantidas: “nunca
fume maconha até que as crianças estejam dormindo”; “beba socialmente nos fins de
semana”; “nunca injete droga até que a última pessoa tenha chegado e as portas estejam
fechadas”.
A existência de sanções e rituais sociais não significam, necessariamente, que eles
serão efetivos, nem que todos os rituais e sanções foram imaginados como mecanismos a
favor do controle. A prática de Booting (o preenchimento da seringa com o próprio sangue
para depois tornar a injetá-lo) pelos dependentes de heroína parece dar um charme ao da
agulha e, portanto, dificulta o controle. Mas isto pode, uma vez, ter servido como
mecanismo de controle, que gradualmente tornou-se pervertido ou degradado. Alguns
usuários antigos, pelo menos, têm proclamado que “booting” originou-se da (errônea)
crença de que puxando o sangue para dentro e fora da seringa, o usuário poderia medir a
força da droga que estava sendo injetada.
Mais importante do que a questão de se a sanção ou ritual foram originalmente
intencionados como um mecanismo de controle é a forma como os usuários manejam o
conflito entre as sanções. Com drogas ilícitas, o mais óbvio conflito é entre controles
sociais formais e informais, quer dizer, entre a lei contra o uso e a aprovação do uso pelo
grupo social. Os adolescentes ao comparecerem a um concerto de rock são, frequentemente
pressionados por seus pares a experimentar maconha que podem insistir que fumar é aceito
naquele momento e lugar específicos e que isso aumentará sua apreciação musical. O
empurrão para o uso pode, também, incluir um controle imaginário, tal como: “já que Joey
não vai fumar porque tem um resfriado, ele pode dirigir”, deste modo honrando a sanção -
“não dirija depois de fumar”. Contudo, a decisão para usar apresenta racionalmente
conflitos com a lei e então pode causar ansiedade no usuário. Tal ansiedade interfere no
controle. Para tratar com o conflito, o usuário pode mostrar-se mais arrogante,
exibicionista, paranóico ou apresentar sentimentos anti-sociais que seria o caso se ele ou ela
tivesse ido a um dos pequenos bares perto do local do concerto. Isto é um tipo de conflito
pessoal e social que torna controlado o uso de drogas ilícitas mais complexo e mais difícil
para efetuar do que o uso controlado de drogas lícitas.

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Naturalmente, a aplicação de controles sociais, particularmente nos casos de drogas
ilícitas, nem sempre conduz ao uso moderado. No entanto, já é dominante a crença cultural
que o uso de droga seria sempre moderado e que esse seria o comportamento socialmente
aceitável. Tal expectativa, não leva em conta variações no uso ou experimentação que é
inevitável na aprendizagem sobre o controle; é a razão principal do poder do contexto
social para regular o uso de substancias psico-ativas, que não têm sido reconhecido e
explorado.Esta expectativa cultural, do “decoro” radica em atitudes moralistas que invadem
nossa cultura e são quase tão marcantes no caso das drogas lícitas como nas drogas ilícitas.
Somente em ocasiões especiais, como nas celebrações de casamento ou no primeiro
experimento dos adolescentes com bebidas é mais aceito um comportamento menos
“decoroso”; é aceitável culturalmente. Embora, tais incidentes não signifiquem,
necessariamente, uma quebra do controle global, eles têm conduzido o pensamento da
abstinência a acreditar que quando é a respeito do uso de droga, há somente duas
alternativas – total abstinência ou excessivo descontrole. Apesar de uma prova massiva e
contrária, muitas pessoas permanecem inabaláveis nesta convicção.
Esta atitude conservadora inibe o desenvolvimento de um entendimento racional do
uso controlado e ignora o fato de que mesmo os mais severamente afetados pelo álcool e os
adictos de droga, que podem ser agrupados em um grupo do espectro do uso de droga,
demonstram algum controle pois eles de fato usam menos das substâncias psico-ativas do
que poderiam usar. Além disto, nossas entrevistas com cidadãos comuns têm mostrado que
os usuários altamente controlados, e, até os abstinentes no outro lado do espectro,
expressam muito mais interesse no uso de substâncias psico-ativas do que é geralmente
reconhecido. Se usar, quando usar, com quem, quanto, como explicar porque um usa e o
outro não usa – estas preocupações ocupam um lugar importante na vida emocional de
quase todo cidadão. Contudo, escondida na cultura americana encontra-se uma profunda
aversão para reconhecer esta preocupação. Como um resultado, tal cultura minimiza a
importância de muitos valores sociais – sanções e rituais – que realçam nossa capacidade
para controlar o uso de droga. Ambas, a existência de um pouco do controle por parte dos
usuários mais compulsivos e a preocupação geral com o uso da droga, por parte dos
usuários mais controlados, são ignoradas. Assim, nossa sociedade fica ansiando por uma
utopia, na qual ninguém poderia querer drogas por efeitos de prazer e não prazer, para
relaxamento e bom companheirismo, ou por escape e esquecimento.
A insistência cultural no decoro extremo super enfatiza os determinantes da droga e
de personalidade, sugerindo que padrões sociais são quebrados pelo poder da droga ou
algum distúrbio de personalidade dos usuários. Esta forma de pensar, que ignora o contexto
social requer considerável domínio psicológico pelos poucos usuários de substancias psico-
ativa que podem constantemente manter a tal autodisciplina.O uso de substancias psico-
ativa tende a variar de acordo com a época da vida, status e localização geográfica. Muitos
que têm feito uso intenso de substâncias tóxicas quando adolescentes, diminuem quando
atingem a fase adulta e mudam seu contexto social (seus amigos e circunstancias), enquanto
alguns adultos, quando eles se tornam mais bem sucedidos podem aumentar seu uso. Por
exemplo, um homem nascido e criado em uma região “seca” do Kansas pode mudar seus
hábitos, significativamente, após mudar para a cidade de Nova York. Os efeitos de tais
mudanças das circunstâncias sociais são prontamente percebidos, mas eles não têm sido
incorporados ao entendimento público, no que se refere à forma como o contexto social
influencia o uso e o controle de tóxicos.

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Enormes variações de uma época histórica para outra podem, também, serem
encontradas no uso social de substanciais psico-ativa, especialmente o álcool, em vários
países. Do ponto de vista do uso de álcool, a história americana pode ser dividida em três
grandes épocas, diferindo o poder dos valores de uso moderado do álcool. Considerando
estas épocas é útil ter em mente a seguinte prescrição social para controle sintetizada pelos
estudos socioculturais cruzados do uso do álcool (Lolli et al, 1958; Chafetz and Demone,
1962; Lolli, 1970; Wilkinson, 1973; Zinberg and Fraser, 1979).
1 – Beber em grupo é claramente diferenciado de bebedeiras e está associado com
celebrações ritualísticas ou religiosas;
2 - Beber está associado com comida e banquetes ritualísticos;
3 – Ambos os sexos e todas as gerações estão incluídas em situações de bebida, caso beba
ou não;
4 – Beber está separado do esforço individual de escapar de ansiedades pessoais ou de
situações sociais difíceis (intoleráveis). Além disso, álcool não é considerado
medicinalmente válido.
5 – Comportamento inapropriado quando bebe (violência, agressão, sexo explícito) é
absolutamente desaprovado e a proteção contra tal comportamento é exercida pelos sóbrios
ou menos afetados. Esta aceitação geral do conceito de controle indica, especialmente, que
bebida é somente uma das muitas atividades e, então, carrega um leve nível de
sentimentalismo.
Durante o primeiro período da história americana, de 1600 a 1770 as colônias
embora estivessem verdadeiramente mergulhadas no álcool, firme e efetivamente proibiam
a bebedeira. Famílias comiam e bebiam juntas em tabernas e beber era associado à
celebrações e rituais.Taberneiros tinham status social, preservando a paz e prevenindo
excessos oriundos da bebedeira que eram tarefas árduas. Virilidade e força não eram
medidas pela extensão do consumo ou por atos de violência resultados disto. Esta sociedade
pré-revolucionária, no entanto, não era amparada por todas as prescrições de controle: um
tipo de cerveja, por exemplo, era tida como medicinal e consumida por mulheres grávidas e
lactentes.
O segundo período de 1770 a 1890, o qual incluiu a guerra, a revolução industrial e
a expansão das fronteiras foi marcado por excesso de álcool. Homens eram separados de
suas famílias e, em conseqüência, começavam a beber juntos e com as prostitutas. Álcool
era servido sem alimento, seu consumo não era limitado a ocasiões especiais e a violência
resultante da bebedeira tornou-se muito mais comum.Diante do aumento da bebedeira e
alcoolismo, o povo começou a acreditar (como era considerado no caso de algumas drogas
ilícitas hoje) que o poder, os danos das propriedades farmacêuticas e a própria substancia
psico-ativa tornava o uso controlado remoto ou impossível.
Embora no início do terceiro período, que se estende de 1890 até a presente data a
moderação no uso de álcool começou a aumentar e esta tendência foi subitamente
interrompida no começo de 1900 pelo “Volstead Act”, o qual levou a uma outra era de
excesso.A sociedade americana não tinha, ainda, se recuperado plenamente do ambiente de
proibição, no qual homens novamente bebiam juntos com prostitutas, alimento era
substituído por álcool e experiências de bebedeira eram tingidas com as cores da ilicitude e
violência.Embora, a renovação do ato de proibição providenciava um alívio do controle
legal excessivo e impopular, deixou a sociedade sem uma herança de sanções e rituais
sociais claros para o controle do uso de drogas.

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SANÇÕES SOCIAIS INTERNALIZADAS

Hoje este vácuo está sendo gradualmente preenchido. Em muitos setores da nossa
sociedade a educação informal sobre o uso do álcool é prontamente disponível. Poucas
crianças crescem sem a consciência de um amplo alcance dos comportamentos associados
com o uso de álcool propagada pela mídia e televisão. Eles vêem festas de coquetéis,
vinhos e refeições, cervejas em bailes, lares desfeitos por bebida, bêbados que moram em
lugares arrasados, bem como com todas as propagandas que apresentam o álcool como
dando um glamour para muitas ocasiões.
Influenciados por filmes, pela mídia impressa, por observações de familiares e
amigos da família e, muitas vezes, por bebericar bebidas misturadas com água dos adultos,
os jovens ganham familiaridade com o álcool.Quando em grupo, com seus pares começam
a beber e até como rito de passagem exagerar, eles sabem quais são as sanções relevantes.
O processo de descoberta do limite é a expressão direta do “conhecer seu limite”. Uma vez
que a sanção é internalizada – e nossa cultura provê maiores e mais amplos horizontes para
os adolescentes do que para os adultos – jovens podem mudar cada sanção, como - “é
incoveniente estar bêbado” e “isto é ok para beber no fim do dia ou umas poucas cervejas
no caminho do trabalho para casa ou em frente da TV, mas não beba no trabalho”
(Zinberg, Harding and Winkller, 1981).
Esta descrição geral dos aprendizados e internalização de sanções sociais não têm
levado em conta as variações de indivíduo pra indivíduo, resultantes de diferenças de
personalidade, background cultural e grupos afins. Sanções específicas e rituais são
desenvolvidos e integrados variando de nível em diferentes grupos (Edward, 1974). A
alguns grupos étnicos, tais como os irlandeses, faltam fortes sanções contra a bebedeira e
eles têm correspondentemente altas taxas de alcoolismo. Em qualquer grupo étnico, a
socialização do álcool dentro da família pode terminar em divórcio, morte ou algum outro
evento perturbador. Certamente, uma criança de Nova York de uma rica e sofisticada casa,
acostumada a ter almoço com pais divorciados no clube 21 terá uma atitude diferente em
relação à bebida do que uma criança de uma pequena cidade, que vividamente lembra-se de
ter acompanhado um dos pais para eventos esportivos, onde o consumo de álcool agia
como um combustível de um excitamento impar entre torcedores.Já um denominador
comum partilhado pela população jovem destes muitos diferentes backgrounds é que o
álcool é usado em eventos e em lugares fora do cotidiano.
Esta espécie de educação sobre o uso da droga é socialmente aprendida, absorvida
informalmente e inconscientemente no dia a dia da vida (Zinberg, 1974). O processo de
aprendizagem é movido pelo reconhecimento, implícito e muitas vezes inconsciente, pro
parte da população jovem, de que o uso da droga é uma área de importância emocional na
sociedade americana e que o conhecimento a seu respeito pode ser absolutamente
importante para seu desenvolvimento pessoal e social. Tentativas feitas no final dos anos 60
e início dos anos 70 para traduzir este processo informal nos cursos formais de educação
sobre droga, principalmente pretendendo desencorajar o uso, falhou (Boris, Zinberg and
Boris, 1978). Tal educação formal sobre droga, paradoxalmente, focalizando o uso da droga
estimulou o uso por parte de populações jovens, que eram previamente
descompromissadas, enquanto agiam para confirmar os receios de muitas que já estavam
excessivamente comprometidas. É possível pela educação formal codificar sanções e rituais
sociais numa razoável forma para aqueles que têm sido desviados pelo processo informal,
ou o moralismo cultural reinante impede a possibilidade de uma discussão social, informal,

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razoável sobre controles que podem fechar os olhos para o uso? Essa questão permanecerá
sem resposta até que nossa cultura tenha aceitado o uso não somente do álcool, mas de
outras substancias psicoativas e que assim os professores serão capazes de explicar como
estas drogas podem ser usadas com segurança e bem. Ensinar o uso seguro não significa
encorajar o uso. Ela é a principal proposta para prevenção do abuso, justamente como as
propostas prioritárias dos poucos bons cursos de educação sexual existentes hoje são de
ensinar a evitar a gravidez indesejada ou doenças venéreas mais do que a discussão sobre
se é ou não bom ter atividade sexual.
O que quer que possa acontecer na educação formal nestas áreas, o processo natural
de aprendizagem social, inevitavelmente, continuará para melhor ou para pior. O poder
deste processo é ilustrado por dois recentes e extremamente importantes eventos sociais: o
uso de psicodélicos no E.U.A . nos anos de 1960 e o uso de heroína durante a guerra do
Vietnan.
Logo após o Conselho de Timothy Leary para “antenar-se”, “sintonizar-se” e “cair
fora” (Turno on, Turn in,Drop out) ser adotado como um slogan da contra-cultura em 1963,
para o uso de psicodélico, este passou a ser o tema de uma histeria nacional. A “revolução
da droga” era vista como a maior ameaça aos valores culturais dominantes, ao trabalho
árduo da família e à lealdade para com o país. Drogas conhecidas, então, como
“psichotomimetics (imitadores de psicoses). Acreditava-se amplamente que elas levavam
para psicoses, suicídio ou mesmo assassinatos (Morgan and Savage, 1954; Robins, Frosh
and Stern, 1967). Era Igualmente publicado o argumento que elas poderiam causar a
reencarnação de espíritos ou a individualidade mística com o universo (Huxley, 1954;
Weil,1972). Certamente ocorreram numerosos casos de psicoses não meramente
passageiras mas, prolongadas após o uso de psicodélicos. Em meados dos anos 60 hospitais
psiquiátricos como Massachusetts Mental Health Center and New Yoirk City’s Bellevue
Hospital, da cidade de Nova York relataram que um terço de suas admissões resultavam da
ingestão destas drogas (Robins, Frosh and Stern, 1967). No final dos anos 60, todavia, a
taxa destas admissões tinham caído dramaticamente. A princípio, muitos observadores
concluíram que o uso de psicodélicos tinha declinado devido ao uso de “táticas de temor” –
os avisos terríveis sobre os vários perigos pra a saúde, quebra de cromossomos, bebês
nascidos com defeitos que eram relatados nos jornais. Esta explanação provou ser falsa
pois, embora as seqüelas disfuncionais tivessem declinado radicalmente, o uso de
psicodélico continuou a ser até 1973 a droga cujo uso crescia o mais rápido América
(National Commission on Marijuana and Drug Abuse, 1973).Então o que mudou?
Descobriu-se que nem as drogas por si só, nem a personalidade dos usuários eram os
mais proeminentes fatores, nos dolorosos casos de 1960. Embora as respostas às drogas
variassem amplamente, antes dos anos 60 elas não incluíam nenhuma das horríveis
conseqüências amplamente publicadas nos meados dos anos 60 (Mcglothlin and Arnold,
1971). Um outro livro, intitulado LSD: Personality na Experience (Barr et al, 1972)
descreve um estudo feito antes da revolução da droga, da influência da personalidade em
experiência com droga psicodélica. Encontraram-se tipologias de respostas para as drogas,
mas não descobriram uma a uma as relações entre reações desagradáveis e distúrbios
emocionais. Em 1967, o sociólogo Howard Becker, num profético artigo, comparou a atual
ansiedade com psicodélicos com a ansiedade em relação à maconha no final dos anos 20,
quando muitas psicoses tinham sido relatadas. Becker levantou a hipótese de que, as
psicoses vinham não das reações das drogas em si mesmas, mas da ansiedade secundária
gerada pela falta de familiaridade com os efeitos da droga e aumentada pela publicidade da

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mídia. Ele sugeriu que as reações desagradáveis não apareciam mais depois que os efeitos
verdadeiros da maconha tinham começado mais amplamente a serem conhecidos, e ele,
corretamente prognosticou que a mesma coisa poderia acontecer no caso de psicodélicos.
O poder da aprendizagem social também trouxe uma mudança na reação daqueles
que esperavam ganhar “insight” e iluminação com o uso de psicodélicos. Entrevistas
(nossas e de outros) têm mostrado que os usuários do início dos anos 60, com suas grandes
esperanças do divino ou do medo do inferno e sua falta de alguma noção do que os
esperava, tinham experiências mais profundas do que os usuários dos anos 70, que tinham
sido expostos à década do interesse em cores, músicas e sensações psicodélicas. Os últimos
usuários, que poderiam comentar, “oh, então é assim que é a cor psicodélica” tinham sido
preparados plenamente, embora inconscientemente pelas experiências, e então, poderiam
responder de uma forma mais moderada.
O segundo exemplo das enormes influências do contexto social e da aprendizagem
social com o uso de droga vem do Vietnan. Estimativas atuais indicam que pelo menos
35% dos homens alistados (EMs) experimentaram heroína enquanto estiveram no Vietnam
e que destes 54% tornaram-se adictos (Robins et al, 1979). Embora o sucesso da maioria
das modalidades de tratamento avaliadas, quando estes veteranos tornaram-se adictos,
(comunidades terapêuticas e programas civis de encontro) não podem ser precisamente
determinadas, avaliações mostraram que recaídas no vício dentro de um ano era o mais
comum, fora que estatísticas em relação à abstinência e reincidência apresentavam tão altas
taxas - 90% eram relatadas (De Long, 1972).Uma das extensões do uso de heroína no
Vietnan tornou aparente o maior receio dos oficiais do exército do governo e estava
baseada no princípio “uma vez viciado sempre será um viciado” – “Once an addict, alwyas
an addict”, que funcionava, e muitos dos especialistas concordavam que este receio era
inteiramente justificado. Centros de tratamento e reabilitação eram instalados no Vietnan e
o slogan do exército que o vício da heroína havia passado “nas terras ao Sul do Mar da
China”, era ouvido em todo o lugar. Possivelmente, todos os observadores concordam que
aqueles programas eram totalmente falaciosos. Geralmente, soldados em serviço usavam
mais heroína nos programas de reabilitação do que quando estavam na ativa (Zinberg,
1972).
Contudo, como Lee N. Robins e seus colegas (1979) têm mostrado, muitos adictos
no Mar do Sul da China pararam seu uso. Adictos que deixaram o Vietnan reincidiram no
vício três anos depois de voltar para os Estados Unidos – aproximadamente 12% -
exatamente, o inverso da previsão dos relatórios (De Long, 1972). Aparentemente, era o
contexto social aborrecido do Vietnan que levava homens que ordinariamente não teriam
considerado usar heroína a usá-la, e muitas vezes voltar a ser adicto dela. Mesmo assim,
eles evidentemente associavam muito seu uso ao Vietnan com certos pacientes
hospitalizados que recebendo grandes quantidades de opiáceos na condição de
medicamento para dor, associavam a droga com esta condição. Os retornos eram muito
mais com aqueles pacientes que usualmente não ansiavam pela droga depois da condição
de ter sido aliviado e eles deixarem o hospital.
Para alguns indivíduos a dependência a qualquer substancia intoxicante disponível
é provável. Mas, a mais generosa estimativa do número de indivíduos não é o bastante para
explicar a extraordinariamente alta taxa do uso da heroína no Vietnan. O número de
personalidades propensas à dependência pode até ter sido mais baixa em relação ao de uma
população normal porque os militares haviam excluído os com piores problemas
psicológicos durante o processo de alistamento. Robins descobriu que o uso da heroína no

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Vietnan estava bem mais relacionado com uma escala de liberdade juvenil. Esta escala
incluía alguns itens que eram relacionados ao set, isto é às dificuldades emocionais
(absenteísmo, abandono ou expulsão da escola, brigas e prisões). Mas, também, incluía
muitos itens relacionados ao setting social (contexto social), tais como raça ou moradia no
centro da cidade, mas mesmo estes respondiam por variações pequenas no uso da heroína
por parte dos jovens.
Uma melhor explicação para a elevada taxa de uso e dependência de heroína no
Vietnan, mais do que os determinantes individuais ou de personalidade pode ser a
extraordinária disponibilidade da droga. Robins verificou que 85% dos veteranos aos quais
foram oferecida heroína no Vietnan consideravam que seu preço era em conta (Robins et al,
1979). Uma outra variáve, o método de administração da droga, pode também ter
contribuído para o uso difundido no Vietnan. A heroína era tão potente e em conta que
fumá-la era um método efetivo e econômico para usá-la, e não há dúvida que isto trouxe
mais atrativos do que a injeção, que tinha sido o primeiro modo de sua administração. Estas
duas variáveis em relação à droga, também ajudam a explicar a diminuição do uso e
dependência de heroína entre os veteranos, quando retornavam para os Estados Unidos. A
diminuição da disponibilidade da heroína nos Estados Unidos (refletida em seu alto preço)
e sua diminuição de potencia (que tornou impraticável fumá-la) fez com que se tornasse
difícil para os veteranos continuar o uso.
Embora a variação da droga pudesse carregar maior poder explicativo no caso do
Vietnan do que as variáveis em relação aos vários indivíduos, ela, também, tem limites.
Pronta disponibilidade de heroína, ao que parece, permite explicar a alta prevalência do seu
uso, sozinha ela não fornece nenhuma explicação suplementar sobre por que alguns
indivíduos tornam-se dependentes dessa substância, assim como a disponibilidade de álcool
também não explica a diferença entre o alcoolista e o bebedor social. A disponibilidade é
sempre entrelaçada com os fatores sociais e psicológicos que criam a demanda por uma
substancia psico-ativa. Uma vez que um razoável número de usuários decide que a
substancia é atrativa e desejada, é surpreendente quão rapidamente a substancia torna-se
abundante. Por exemplo, quando a moral das tropas dos E.U.A . na Alemanha declinou em
1972 grandes quantidades de várias drogas, inclusive heroína, tornaram-se prontamente
disponível, mesmo estando a Alemanha longe das áreas de crescimento dos opiáceos. No
início dos anos de 1980 a cocaína apresentava o maior exemplo de como uma droga era
disponível.
Tanto no caso do uso de heroína, no Vietnan quanto no dos psicodélicos nos anos
60, é preciso levar em consideração os efeitos determinantes do setting , incluindo sanções
e rituais sociais, para se ter uma plena explicação do aparecimento, da magnitude e,
finalmente, da diminuição do uso da droga.
O controle sobre o uso de psicodélicos não estava estabelecido até que se
desenvolveu uma contra-cultura dos rituais e sanções sociais como aquelas desenvolvidas
em relação ao uso do álcool nos ambientes da sociedade, de um modo geral. A sanção “a
primeira vez experimente somente com um guru”, dito para os neófitos ao experimentar a
droga por um usuário experiente, reduziria sua ansiedade secundária sobre o que estava
acontecendo, pela interpretação sobre os efeitos da droga. “Use somente em uma boa hora,
em um bom lugar e com pessoas boas” era um conselho útil para aqueles que tomavam uma
espécie de droga os deixavam altamente sensíveis às sensações interiores e exteriores.
Além disso, transmitia a mensagem que a experiência com droga poderia ocasionar uma
mudança de consciência prazerosa – ao contrário de paraíso ou inferno. Os rituais

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específicos que foram desenvolvidos para expressar estas sanções – justamente quando elas
eram melhores para tomar a droga, como ela deveria ser usada, com quem, qual era a
melhor maneira para voltar, então variava de grupo para grupo, embora alguns rituais se
difundissem entre os grupos.
É mais difícil documentar o desenvolvimento de sanções e rituais sociais no
Vietnan. A maioria das evidências indicou que as drogas eram usadas de forma pesada,
para obscurecer a realidade da guerra, pensando-se pouco em controle. Porém, estudos
posteriores mostraram que muitos EMs usaram heroína no Vietnan sem se tornarem
dependentes (Robins, Davis and Goodwin, 1974; Robins, Helzer na Davis, 1975). No
entanto, a metade dos homens que haviam se tornado dependentes no Vietnan usaram
heroína depois do seu retorno para os Estados Unidos, mas, somente, 12% voltaram a
desenvolver dependência à substância (Robins et al, 1979).
Alguns rituais rudimentares parecem ter sido seguidos por homens que usaram
heroína no Vietnan. A prática de retirar cuidadosamente o tabaco de um cigarro normal,
inserindo o fino pó branco pela abertura, e então, repondo um pouco de tabaco para segurar
o pó antes de acender o cigarro de ópio, parece ter sido por todo o país, mesmo que aquelas
unidades no Norte e nas terras altas não tenham tido contato direto com aquelas unidades
[de soldados] no Delta (Zinberg, 1972). É impossível determinar até que ponto este ritual
serviu para ajudar no controle, mas tendo o observado muitas vezes, sei que era quase
sempre realizado em grupo e que constituía parte da experiência social do uso da heroína.
Enquanto uma pessoa executava o ritual, os outros sentavam calmamente e olhavam em
antecipação.Assim o grau de socialização, logrado através deste ritual, pode ter tido
importantes implicações para o controle.
Meus estudos subseqüentes em relação aos vários padrões de uso de heroína,
incluindo o uso controlado, nos Estados Unidos confirmaram a lição ensinada pela história
do uso de álcool na América, o uso de psicodélicos nos anos 60 e o uso de heroína durante
a guerra do Vietnan. O contexto social com seu controle formal e informal, com sua
capacidade para desenvolver novas sanções e rituais sociais informais e suas várias
maneiras informais de transmitir de informações, é um fator crucial no uso controlado de
qualquer substancia psico-ativa. Isto não significa que as propriedades farmacêuticas das
drogas ou as atitudes e personalidades de seus usuários contam pouco ou nada. As três
variáveis – droga, set e setting – devem ser incluídas em uma teoria válida sobre o uso da
droga. É necessário entender em todo caso como as características específicas da droga e da
personalidade do usuário interagem, e como são modificadas pelo contexto social e seus
controles.

DROGAS ILÍCITAS E APRENDIZAGEM SOCIAL

Nossa cultura não reconhece plenamente, muito menos apóia, o uso controlado de
muitas drogas ilícitas. Usuários são declarados “desviantes”, constituem uma ameaça à
sociedade, ou uma “doença” que necessita de ajuda ou um “crime” com merecimento de
punição. A socialização voltada para o uso, centrada na família não é disponibilizada. Os
pais, quando estão dispostos a ajudar, são incapazes de disponibilizar orientação através do
exemplo (como fazem no caso do álcool), ou de forma não moralizante.
Se os pais contam que seus filhos ou filhas não usam drogas porque elas são
prejudiciais, os jovens não fazem caso dos conselhos porque têm experiências pessoais que
têm mostrado o contrário. Seu grupo de usuários e a cultura da droga reforçam suas

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descobertas pessoais de que o uso da droga per si, não é ruim, nem um mal e que as
previsões do mundo adulto são irreais. Se os pais tentam um diferente ponto e contam à
população jovem que algumas drogas são certas, mas outras têm um alto componente de
risco e deveriam ser evitadas, sua posição fica novamente vulnerável. “Eles estão errados
sobre maconha; “porque deveria eu acreditar o que eles dizem sobre a cocaína?”, pensam
os jovens (Kaplan,1970). Além disso, por aconselhar seus filhos que algumas drogas ilícitas
são “mais certas” que outras, os pais são colocados em posição de ter de aprovar uma
atividade ilegal. Dentro disto, seu papel como transmissores da moral pública é
flagrantemente inconsistente.
As entrevistas realizadas por minha equipe de pesquisa indicam que se os pais
tentam obter conhecimento em primeira mão sobre as experiências com a droga, fumando
maconha, tomando psicodélico ou injetando heroína, dificuldades similares ocorrem. No
mínimo, eles não somente estão fechando os olhos, mas estão eles mesmos se engajando
num ato desviante. Este problema enfraquece, entretanto, aqueles que surgem quando os
pais tentam encontrar onde obter a droga e então como interpretar o “ficar de barato”. Se
eles pedem aos seus filhos para obter a droga para eles, ou para estar com eles enquanto
eles estão experimentando ficar chapado, os papéis tradicionais de instrutor e aluno ficam
invertidos. Enquanto os jovens se divertem com esta nova autoridade, isso os coloca num
papel de zelador extremamente difícil. Acima de tudo, tal situação cria enorme ansiedade
para os pais. Muitos pais, entrevistados por minha equipe, nunca ficaram “chapados” por
causa das dinâmicas das situações sociais, e outros, experimentaram uma grande reação de
pânico que os convenceram que a droga era má e seus filhos estavam realmente no caminho
da destruição (Jacobson and Zinberg, 1975). Pais poderiam evitar esta cilada obtendo a
droga, em questão, de seus próprios pares, mas mesmo assim eles estariam se colocando na
posição de participantes de uma atividade ilegal. Em síntese, o uso de droga ilícita é uma
situação onde ninguém pode vencer, mesmo aqueles que tentam planejar ou dar cursos
úteis sobre drogas.
No caso da mídia, muitas informações dadas são dramaticamente opostas ao uso da
droga e da possibilidade do uso controlado. O consumo de heroína é considerado como
uma praga, uma doença social. Histórias sobre viagens ruins e psicodélicos resultando em
psicoses ou suicídio têm servido, anos a fio, como elementos básicos e mais recentemente
têm existido uma enxurrada de programas horríficos sobre a maconha. No início dos anos
80, quando cuidados extremos foram tomados no sentido de não ofender nenhum grupo
étnico, parece que os usuários de droga e os traficantes, juntamente com psicóticos sem
esperança, foram os únicos vilões a serem caracterizados em numerosas séries - policial e
bandido, mostradas nas séries e filmes na televisão.
Quando pais, escolas e a mídia são todos inábeis em informar os neófitos sobre o
uso controlado de drogas ilícitas, tal tarefa fica completamente a cargo do grupo de pares
do novo usuário,uma substituição inadequada para a socialização inter-geracional de longo
prazo. Uma vez que o uso de droga ilícita é uma atividade que não é abertamente
praticada, os recém chegados não são apresentados a uma gama de grupos de usuários do
qual eles podem escolher e a associação dos usuários controlados é amplamente uma
questão de acaso.No início da sua carreira como usuários, muitos dos indivíduos
pesquisados envolveram-se com grupos cujos membros não eram bem treinados no uso
controlado ou com grupos nos quais o uso compulsivo e o correr risco eram as regras. Tais
indivíduos passaram por períodos, no quais o uso da droga interferia na sua habilidade
funcional e eles freqüentemente experimentavam inconvenientes efeitos da droga.

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Finalmente, estes indivíduos tornaram-se usuários controlados, mas apenas depois de terem
se realinhado por conta própria com novos companheiros – um processo difícil e incerto.
Infelizmente, muitos usuários adolescentes nunca chegam a fazer essa transição.
A oposição cultural complica o desenvolvimento do uso controlado em um outro
caminho: por inadvertidamente criarem um mercado negro no qual a droga vendida é de
qualidade incerta. Com maconha, a variação na droga não se apresenta como um problema
significativo porque a dosagem pode ser determinada (dosada) e elementos adulterados são
extremamente raros. O efeito negativo mais comum do mercado econômico negro é que os
neófitos de maconha pagam mais do que deveriam por um produto pobre. Para outras
drogas, existem grandes variedades na força e pureza da droga que torna a tarefa de uma
dosagem e efeitos controlados mais difíceis. Psicodélicos são, algumas vezes, mal
apresentados: LSD, PCP ou anfetaminas podem ser vendidos como mescalina. Com
heroína, o potencial de compra não é conhecido e o risco de overdose é assim aumentado.
Se elementos adulterados estão presentes o risco de infecção pode ser aumentado quando a
droga é injetada.
A presente política de proibição do uso da droga por meios legais poderia ser
justificada se persuadisse algumas pessoas a não usar drogas e levasse outras a abandoná-
las. Indubitavelmente, proibição desencoraja o excessivo risco, um objetivo com o qual eu
simpatizo. Mas, ninguém sabe se o número de usuários aumentaria se a proibição fosse
revogada. Muitas pessoas que nunca experimentaram drogas ilícitas experimentariam se a
proibição fosse suspensa? Muitos daqueles que experimentaram drogas ilícitas tornar-se-
iam usuários compulsivos?
À parte destes efeitos questionáveis, quanto ao número de usuários de droga, a
política de proibição contribui ativamente para a prevalente dicotomia entre abstinência e
uso compulsivo. Isto torna extremamente difícil para alguém que deseja usar droga
selecionar um padrão moderado de uso. Este resultado pode ter sido aceito antes dos anos
60, quando havia pouco potencial de experimentos com a droga, mas poderá provar-se
catastrófico nos anos 80, quando adolescentes têm acesso a experimentações e,
estatisticamente, demonstram comportamento normal. Desde 1976 mais que 50% de
estudantes dos terceiros anos das escolas secundárias têm usado maconha ou hashish em
algum tempo no passado, e mais de 44% têm experimentado dentro dos últimos dois anos
(Johnston, Bachman and O’Malley, 1982).
Embora, as oportunidades para aprender a como controlar o consumo de drogas
ilícitas são extremamente limitadas, rituais e sanções sociais que promovem o controle
destas existem dentro de subculturas dos usuários de drogas. Nossas entrevistas têm
demonstrado que rituais e sanções de controle funcionam de quatro maneiras básicas e
coincidentes.
Primeiro, sanções definem o que seria uso moderado e condenam o uso
compulsivo. Usuários de opiáceos controlados, por exemplo, têm sanções que limitam
afreqüência de uso a níveis abaixo do padrão necessário para gerar dependência. Muitos
têm sanções especiais tal como “não use todo dia”. Um ritual completando aquela sanção
restringe o uso de opiáceos para fins de semana.
Segundo, sanções limitam o uso em contextos físicos e sociais que são propícios a
experiências positivas ou seguras com a droga. A máxima (o princípio básico) para
psicodélicos é “use em um bom lugar, em uma boa hora e com boas pessoas”. Dois rituais,
consoantes com tais sanções, são: a escolha de localidades campestres aprazíveis para o uso
de psicodélicos e o cálculo do tempo, para evitar dirigir enquanto “viaja”.

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Terceiro, sanções identificam potencialmente os efeitos inconvenientes da droga.
Rituais incluem as precauções que devem ser tomadas antes e durante o uso. Usuários de
opiáceos podem minimizar o risco de overdose usando somente uma porção da droga e
esperando para avaliar seus efeitos antes de usar mais. Usuários de maconha, similarmente,
testam sua dosagem para evitar tornarem-se muito chapados.
Quarto, sanções e rituais operam para compartimentalizar o uso da droga e apoiar as
obrigações e relacionamentos dos usuários não relacionados ao uso da droga. Por exemplo,
usuários podem prever no orçamento uma quantidade de dinheiro para gastarem com droga,
como eles fazem com entretenimento; ou, podem usar drogas somente à noite e nos finais
de semana, para evitar interferir em sua performance no trabalho.
O processo pelo qual rituais e sanções de controle são adquiridos, varia de sujeito
para sujeito. Muitos indivíduos chegam até eles gradualmente, durante o curso das suas
carreiras como usuários de droga. Sem dúvida, a fonte mais importante de preceitos e
práticas para controle é entre os pares dos grupos de usuários. Quase todos os nossos
indivíduos foram alguma vez ajudados por outros usuários não compulsivos na construção
apropriada de rituais e sanções a partir do folclore e das práticas circulando nas suas
subculturas des uso de drogas. O grupo de pares fornecia instruções e reforçava o uso
adequado e, a despeito da imagem popular da pressão dos pares como sendo uma força
corruptora, empurrando os indivíduos fracos em direção ao mau uso da droga, nossas
entrevistas mostraram que muitos segmentos da subcultura da droga têm tomado uma firme
posição contra o abuso dessas substâncias.

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