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Copyright ©2021 Jéssica Macedo

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A violação dos direitos autorais é crime
estabelecido na Lei nº 9.610/98 e punido pelo
artigo 184 do Código Penal.

Projeto Gráfico de Capa e Miolo


Jéssica Macedo
Preparação de Texto
Aline Damaceno
Revisão
Ana Roen
Esta é uma obra de ficção. Nomes de
pessoas, acontecimentos, e locais que
existam ou que tenham verdadeiramente
existido em algum período da história foram
usados para ambientar o enredo. Qualquer
semelhança com a realidade terá sido mera
coincidência.
Sumário
Sumário
Sinopse
Prólogo
Um
Dois
Três
Quatro
Cinco
Seis
Sete
Oito
Nove
Dez
Onze
Doze
Treze
Quatorze
Quinze
Dezesseis
Dezessete
Dezoito
Dezenove
Vinte
Vinte e um
Vinte e dois
Vinte e três
Vinte e quatro
Vinte e cinco
Vinte e seis
Vinte e sete
Vinte e oito
Vinte e nove
Trinta
Trinta e um
Trinta e dois
Trinta e três
Trinta e quatro
Trinta e cinco
Epílogo
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Agradecimentos
Sobre a autora
Outras obras
Bônus
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Recomendo que leia antes

Minha por Contrato: Amores por


Conveniência
(Família Mazzi Livro 1)

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Sinopse:
Casar era algo que eu nunca tinha imaginado fazer. A
vida de solteiro me proporcionava muitos benefícios e eu
usufruía muito bem de todos eles.
Nasci numa família influente, dona de uma companhia
aérea, e sempre tive tudo, mas a política me deu poder.
Porém, sempre fui um homem muito ambicioso.
Eu queria mais, almejava a presidência do país.
Acreditava ser a melhor escolha, não apenas pelo meu
ego, mas pelos meus feitos políticos. Entretanto, muitos
membros do partido pareciam discordar da minha
candidatura.
Não era o homem perfeito aos seus olhos, mesmo com
todo o dinheiro e influência. Eles preferiam outro candidato,
alguém que prezasse pelos valores tradicionais, um
homem comprometido com a família.
Eu precisava ser casado.
Mas o dinheiro poderia solucionar tudo, sem que eu
tivesse que mudar meu estilo de vida. Um casamento por
contrato era o que eu precisava.
Penélope é doze anos mais jovem do que eu, ingênua,
pobre e facilmente moldável. Ao meu lado, ela seria a
decoração perfeita. Nunca teve nada e iria se comportar
para manter o mundo que oferecia a ela.
Eu controlaria tudo, como sempre controlei. Mas não
poderia prever que ela seria capaz de se infiltrar nas
barreiras do meu coração.
Sinopse

Excêntrico, insensível, grosseiro, mal-educado.


Esses eram uns dos muitos adjetivos que usavam para me
descrever, contudo poucos me conheciam de verdade.

Nascido em uma família abastada, dona de uma


enorme companhia aérea, sempre estive à sombra do meu
irmão mais velho, porém eu não me importava, pois, ao
contrário do Maxwell, que gostava dos holofotes, eu
preferia me manter afastado do restante do mundo.

Embora a reclusão fosse meu melhor estilo de vida,


minha maior paixão me levou a conviver com as pessoas,
por mais que na maioria das vezes não soubessem lidar
com o meu jeito "estranho".

CEO de uma companhia de dança da Broadway, eu


costumava ser taxado de insensível pela grande dificuldade
de me relacionar com os funcionários. Então ela apareceu,
a ponte entre mim e o restante do mundo.
Aline era bem mais do que apenas uma secretária,
se tornou minha melhor e única amiga. Era uma relação
que eu não queria perder por nada. Não podia deixar que a
atração que eu sentia por ela a afastasse de mim.
Prólogo

Um ano atrás...

Você precisa de um trabalho de verdade. Dança não


vai te dar futuro... A voz do meu pai ainda ecoava na minha
cabeça enquanto eu estava no metrô a caminho do teste
para participar de uma das principais companhias de dança
da Broadway. Desde criança, ser dançarina sempre foi um
dos meus maiores sonhos. Minha mãe me apoiava, mas,
ao mesmo tempo, via razão na fala do meu pai. Uma
família afro-americana e moradora do Harlem tinha outras
preocupações. Eles queriam o melhor para mim, não tinha
dúvidas disso, mas a dança, aos olhos deles, não era o
que me tornaria alguém na vida.

Há duas semanas eu tinha visto uma postagem


compartilhada por amigos do meu clube de dança sobre
uma seleção de bailarinas para a companhia Mazzi. Era
uma oportunidade incrível e única.
Naquela manhã, eu saí determinada a concorrer a
uma vaga. Acreditava que, em um espaço como esse, teria
a oportunidade de provar a mim mesma e a minha família
que a dança era, sim, o meu caminho. Contudo, não foi
necessariamente o que eu disse para eles quando saí de
casa. Minha mãe queria que eu conseguisse um emprego
e era isso o que eu iria fazer, mesmo não sendo o trabalho
que eles esperavam, mas o que eu sonhava com todo o
meu coração.

Desci do metrô a alguns quarteirões do prédio onde


ficava a companhia Mazzi, com uma roupa formal de
escritório. Fiquei olhando em volta e pensando em um
lugar para me trocar, mas não encontrei nenhum. Puxei o
meu celular da bolsa e vi que estava praticamente atrasada
para a minha audição e não queria começar assim. Ainda
bem que estava de calça. Esperava que meus movimentos
não ficassem limitados.

Aproximei-me da entrada do teatro e um segurança


na porta me olhou de cima a baixo com um ar de
estranhamento.
— O que quer aqui, senhorita?

— Eu vim para as audições que estão acontecendo


para o novo espetáculo.

Ele franziu o cenho e me olhou de um jeito que me


deixou amedrontada. Tudo o que me faltava era que ele me
expulsasse antes que eu entrasse e tivesse a oportunidade
de fazer meu teste.

— Pode entrar. — Ele puxou a porta instantes


depois e fez um gesto para que eu passasse.

— Obrigada. — Respirei aliviada. Apertei o passo


para entrar antes que o vigilante mudasse de ideia.

Passei as mãos pelos meus cabelos escovados e os


ajeitei minimante antes de dar alguns passos para frente e
passar pela bilheteria. Assim que empurrei as portas que
levavam as cadeiras da primeira fila do teatro, eu fui
praticamente atropelada por outra mulher. Ela passou por
mim sem nem se dar conta de que eu estava no meio do
caminho, também não se deu ao trabalho de pedir
desculpas.
— Ei! – Eu a repreendi pela atitude grosseira. Ela
havia apenas se chocado comigo, mas poderíamos ter nos
machucado de verdade se eu estivesse me movendo
rápido também.

— Ele é um grosso, um insensível... — A


desconhecida me lançou uma expressão de puro desalento
e desandou a chorar.

Eu fiquei a encarando sem saber o que dizer até que


ela voltou a correr e deixou o prédio.

Não fazia ideia do que havia acontecido com ela


durante a sua audição, mas todas as suas lágrimas foram o
suficiente para me deixar com medo. Ainda assim eu
entrei, não tinha ido tão longe para desistir antes mesmo
de tentar. Eu sempre fui uma pessoa determinada e isso
era um dos meus grandes diferenciais.

Quando pisei no corredor entre as poltronas que


levavam a primeira fila, foi quando eu o vi pela primeira
vez. Um homem levantou-se, se mostrando irritado, e outro
parecia discutir com ele.

— Cansei, não quero mais fazer isso por hoje.


— Josh, não pode simplesmente ir embora assim.

Josh... Quando ouvi o nome, eu o associei a pessoa,


mesmo antes de ver o rosto. Joshua Charles Mazzi, ou
apenas Josh Mazzi, era o dono da companhia e
simplesmente o melhor dançarino de sua geração. Eu o
admirava de longe e já tinha assistido algumas
apresentações dele. Foi uma grande perda para todos
quando ele foi obrigado a se afastar dos palcos devido a
uma lesão.

Ele veio caminhando na minha direção e durante


esses minutos eu não consegui mais respirar, como se ele
houvesse roubado todo o ar do teatro. A cada passo que
ele dava, eu podia perceber que mancava e no seu rosto
havia uma expressão de dor sutil. Era evidente que ainda
havia sequelas do acidente.

— Quem é você? — Parou na minha frente e baixou


seus olhos castanhos até encontrar os meus.

— Eu... é, vim para... — Eu não costumava gaguejar


daquele jeito, pelo contrário. Não tinha medo dos desafios
que apareciam na minha frente, mas não sabia descrever
que tipo de influência ele tinha sobre mim.

Será que foi por isso que a outra bailarina saiu tão
assustada?

— As entrevistas para secretária são só amanhã.


Está adiantada. — Ele prosseguiu, sem me dar tempo para
dizer que não havia ido até ali para trabalhar com isso,
apesar das roupas corporativas que estava usando. — Isso
deve ser bom. Você sabe lidar com pessoas?

— Lidar com pessoas? — Franzi o cenho. — Sim,


tenho um ótimo espírito de equipe.

— Você sabe mentir?

Mentir? Que pergunta era aquela? Fiquei


completamente confusa e continuei o encarando sem emitir
nenhum som.

— Sabe ou não? — Ele insistiu com um tom mais


grosseiro.

— Sim. Se for necessário, mas...


— Ótimo! Então está contratada. Pode começar
amanhã. Eu chego no escritório às nove e não gosto de
café.

— Okay...

Ele passou por mim e seguiu até o fim do teatro até


desaparecer em uma porta, que deveria levar à outras
salas do prédio.

Fiquei olhando para o nada, completamente


estarrecida. Não conseguia compreender direito o que
havia acabado de acontecer. Josh Mazzi tinha me
contratado! Eu conseguira um emprego, mas não era como
dançarina, e não estava sabendo lidar com isso de
imediato.

— Então você vai ser a nova secretária do senhor


Mazzi?

Pisquei os olhos ao perceber que o outro homem


havia se levantado e estava de pé na minha frente. Ele
parecia ter algo em torno dos quarenta anos e me
observava com atenção.
— Secretária? Parece que sim.

— Boa sorte, você vai precisar. — Ele gargalhou e o


seu pequeno terror fez com que eu me arrepiasse. — A
última não conseguiu ficar uma semana no cargo.

— Ele não deve ser uma pessoa tão terrível assim.

— Você verá. — Ele saiu rindo com um ar travesso e


acenou para mim quando já havia se distanciado alguns
passos. — Nos vemos amanhã, menina.

Aquele dia foi no mínimo estranho, mas, ao menos,


eu tinha uma boa notícia para levar para casa. Havia
conseguido um emprego tradicional como o que eles
esperavam, porém eu não fazia ideia dos desafios que isso
me traria.

Com o tempo iria descobrir quem realmente era o


frio e insensível Josh Mazzi.
Um
Dias atuais...

Ouvi o som do despertador e girei na cama,


levantando-me no mesmo instante em que peguei o celular
e desliguei o primeiro alarme do meu dia. Fui até a janela e
puxei a cortina, abrindo uma fresta para que a luz fraca da
manhã de inverno entrasse. Observei o céu nublado e o
clima por alguns minutos até que o meu segundo toque
ressoou.

Fui até o meu closet e o abri, pegando um par de


tênis brancos e limpos, que ficavam sempre no mesmo
local, ao lado do cinza, que era seguido pelo preto.

Deixei o quarto e segui algumas portas pelo corredor


até entrar na minha pequena academia particular. Tomei
um copo de água fresca e peguei os fones de ouvido sem
fio, que estavam em um pequeno móvel na entrada.

Liguei o rádio, na mesma estação de sempre, para


ouvir as notícias da cidade, fiz uns alongamentos e subi na
esteira. Corri os quinze minutos diários, antes de seguir
para o agachamento com pesos, os polichinelos e os
exercícios para panturrilha. Eu tinha uma lista de exercícios
para as pernas, que mudavam, alternadamente, segundo
as instruções de um fisioterapeuta e do personal trainer. Já
fazia pouco mais de dois anos que eu sofrera um terrível
acidente, mas ainda sentia dor na perna fraturada.
Contudo, confesso que os exercícios ajudavam, e não era
difícil fazê-los, pois sempre fizeram parte da minha rotina
desde a minha adolescência. Meu irmão Oliver costumava
dizer que as mulheres adoravam um corpo sarado. Havia
memorizado isso porque ele repetia muito e, com minha
observação através do tempo, podia dizer que estava
certo.

Puxei um colchonete e o coloquei no chão para


começar uma sessão de flexões, mas a voz do locutor do
noticiário foi substituída pelo toque do telefone.

Eu atendi, pois a minha mãe havia me habituado a


sempre atender as ligações que recebia no meu número
pessoal. Segundo ela, algo importante poderia ter
acontecido ou alguém estar precisando de mim.
— Oi.

— Josh, tudo bem, querido?

— Sim. Alguém morreu?

— Credo, graças à Deus, não.

— Está precisando de algo?

— Também não.

— Então por que me ligou vinte e cinco minutos


adiantado?

— Só queria saber se você está bem.

— Estou.

— Está malhando agora?

— Eu estava. Creio que me atrasei cerca de um


minuto por causa da ligação antecipada, posso me atrasar
mais, dependendo do que queira conversar.

— Não farei com que você se atrase.

— Obrigado.
— Bom trabalho para você, filho. Eu te amo.

— Também te amo.

Ela desligou a chamada e eu voltei para a as


flexões. Segui com a minha rotina de exercícios e parei
quando o despertador tocou. Peguei o celular no móvel e
deixei os fones de ouvido na mesma posição em que
estavam.

Voltei para o meu quarto, tirei a vestimenta suada e


fui para o banheiro. Me lavei, fui até o closet e analisei as
minhas roupas. Geralmente elas ficavam separadas por cor
e modelo. A organização primorosa era imprescindível para
que eu conseguisse me localizar e não me perdesse diante
das peças. Desorganização era uma das coisas que mais
me incomodavam, pois eu só me sentia à vontade em um
ambiente que eu conseguia controlar. Peguei uma camisa,
de um modelo muito similar às outras, uma calça preta e
um par de sapatos. Vesti-me diante do espelho e saí do
quarto rumo a cozinha.

— Bom dia, senhor Mazzi. Dormiu bem?


Eu olhei para frente e vi Helena Keller, uma mulher
na casa dos cinquenta anos, que era a minha governanta.
A função dela era manter a minha cobertura em ordem e
garantir que tudo estivesse ao meu alcance quando eu
precisava. Ela trabalhava para mim há mais de dez anos,
desde quando decidi que queria morar sozinho em Nova
York e deixar a Flórida e, por consequência, a casa dos
meus pais. Minha mãe achava importante ter alguém para
cuidar das minhas necessidades enquanto ela estava
longe, e a senhora Keller acabou se mostrando bem útil.
Ela entendia o meu jeito e as minhas particularidades, além
de nunca ter saído correndo e chorando, quando eu abria a
boca para fazer comentários triviais.

Aproximei-me da bancada da cozinha e sentei no


banco de cadeira alta. A senhora Keller pegou um prato e
um copo de suco de laranja, colocando-os na minha frente.

— Por que tem queijo no lugar do bacon no meu


waffle?

— A nutricionista fez uma alteração na sua dieta.


— Ah! — Assenti e peguei os talheres que Helena
estendeu para mim.

A rotina para mim era tudo, inclusive nas refeições,


e qualquer mudança me gerava estranhamento. Eu
gostava de seguir as dietas, pois elas eram previamente
decididas e seguiam um padrão diário.

— Meu almoço também foi alterado?

— A nutricionista encaminhou um e-mail para mim e


para a sua secretária.

— Ótimo.

— Quer que eu prepare a refeição e mande levar


para você na companhia?

— Acho que a Aline pode pedir no mesmo


restaurante de sempre.

— Okay!

Terminei de tomar o meu café da manhã pouco


antes de outro alarme tocar no meu telefone. Era hora de ir
para a companhia.
— Tenha um bom dia, senhora Keller.

— O senhor também, senhor Mazzi.

Voltei para o meu quarto, peguei meu blazer, a


carteira e segui para a garagem do prédio onde ficava
estacionado o meu carro.
Dois

— Eu não posso demorar. — Puxei a cadeira e me


sentei enquanto bebericava um copo de chocolate quente
que tinha nas mãos.

— Aquele seu chefe mala não vai se importar se


você se atrasar só alguns minutinhos. Nem parece que ele
também atrasa às vezes. — Minha amiga Hannah jogou o
cabelo para trás e cerrou os lábios ao me encarar por trás
dos óculos redondos.

— Ele nunca se atrasa.

— Nunquinha?

— A não ser que aconteça alguma catástrofe no


trânsito, não. O apartamento dele também não fica muito
longe daqui.

— Que saco! — Ela bufou antes de quebrar um


pedacinho do biscoito e jogá-lo na boca. — Ele bem que
poderia te dar uma folga.
— Ele não é esse monstro que todo mundo pinta.

— Ele é pior, não é? — Riu.

— Ele é especial.

— Especial?! — Hannah ficou estarrecida. — Aline


do céu, por acaso você ouviu o que acabou de dizer? Só
falta me falar que está apaixonada pelo ogro.

— Eu, apaixonada? — Arregalei os olhos. — Claro


que não! Você está ficando louca?

— É você quem está aí toda derretida, dizendo que


ele é um cara especial, diferente, que tem que entender o
jeito dele.

— É a verdade e não tem nada a ver com ser a fim


dele. Você sabe guardar um segredo?

— Segredo? — Ela arqueou as sobrancelhas finas.


— Eu sou sua melhor amiga. É óbvio que eu posso guardá-
lo.

— Ninguém comenta muito na companhia, apesar


do Josh nunca ter se mostrado contra as pessoas
saberem. Estão todos acostumados ao jeito dele e veem
seu comportamento apenas assim. Mas não é só isso.
Quando eu digo que ele é especial, é porque realmente
não é como qualquer outro cara. Pode até parecer às
vezes, mas para o Josh é sempre oito ou oitenta, ele é
sempre muito sincero, e para ele não tem meio termo ou
panos quentes.

— Percebeu que está enrolando, né? Se você se


atrasar para o trabalho, a culpa será exclusivamente sua.

— Ele... ele...

— Não gagueja agora.

Eu senti um frio na barriga para falar. Hannah era a


minha melhor amiga, mas, ainda assim, não estávamos
conversando sobre algo particularmente meu, e era um
assunto delicado.

— A minha primeira semana de trabalho foi bem


difícil. Principalmente porque os outros funcionários da
companhia tocavam o terror, mas, uns dias depois, a mãe
dele apareceu para fazer uma visita, me levou para
almoçar, e foi muito gentil comigo.
— A senhora Mazzi, a mãe do futuro presidente do
país, levou você para almoçar?

— Vai me deixar continuar?

— Sou toda ouvidos.

— Nós tivemos uma conversa que foi muito


esclarecedora. Ela foi muito simpática e me contou que o
Josh tem Síndrome de Asperger, forma mais leve de
autismo, mas que interfere na forma como ele vê o mundo
e interage com as pessoas. Ela me contou que ele foi
diagnosticado aos doze anos, depois de ter passado por
muitos médicos e ter sido tratado até como bipolar. Ela o
colocou para dançar para que ele pudesse melhorar a
coordenação motora e tivesse interação social, já que
odiava a escola.

— Nossa! — Hannah estava de boca aberta.

— Ele não é grosso, só fala a verdade, doa a quem


doer. E, às vezes, isso soa indelicado.

— Só você mesma para dar conta.


— Ele é um cara legal, Hannah. É só se adaptar ao
jeito dele.

Hannah balançou a cabeça em negativa e sorriu.

— Cada um escolhe a cruz para carregar. Mas você


já está trabalhando para o cara há um ano e parece que
desistiu de vez de ser dançarina.

— Eu trabalho em uma grande companhia para o


dono, tenho acesso a cada novo espetáculo, estou
presente em cada decisão. Acho que é o mais perto que
vou conseguir chegar da dança. Além disso, meus pais
estão contentes com o meu trabalho de verdade e com o
fato de eu estar podendo cuidar de mim mesma além de
ajudar em casa.

— Mas você é uma secretária, Aline, não uma


bailarina.

— É o que consegui por enquanto. — Dei de


ombros.

Meu celular começou a tocar e eu o peguei na bolsa.

— Senhor Mazzi. — Engoli em seco.


— Você está dois minutos atrasada.

— Desculpa. — Olhei para o relógio de pulso e


respirei fundo. Ele tinha razão, exatos dois minutos. Ainda
bem que a companhia ficava do outro lado da rua.

Minha amiga Hannah trabalhava em outro teatro e


era comum nos encontrarmos naquele Starbucks na
esquina antes do expediente, porém eu não costumava
deixar a conversa render ao ponto de perder o horário.
Aquele dia foi uma exceção.

— Eu vim ao Starbucks. Você prefere café ou


chocolate quente?

— Sabe que eu não gosto de café.

— Chocolate então.

— Você está atrasada, Aline.

— Já estou chegando. — Desliguei a chamada sem


deixar que ele continuasse.

— Eu preciso ir. — Peguei meu casaco que havia


deixado escorado na cadeira e dei um beijo na bochecha
da minha amiga.

— Bom trabalho e boa sorte.

— Nos vemos depois. — Fui para perto do caixa e


pedi um chocolate quente antes de sair do café e
atravessar a rua.

Mal esperei o sinal fechar antes de atravessar,


equilibrando o copo bem quente e meu casaco. Deveria
estar uns dois graus celsius, mas nem me dei ao trabalho
de vesti-lo, pois logo cheguei à entrada do prédio onde
ficava o teatro Ana Mazzi e os escritórios administrativos
da companhia.

— Bom dia, John! — Acenei para o porteiro com a


cabeça quando ele gentilmente abriu a porta para mim. —
Muito obrigada!

— Tenha um bom dia, senhorita Lopes. — O sorriso


dele era gentil.

— Para você também! Como está a Diana e as


crianças?
— Diana e a pequena Hilary estão ótimas, só o
James que não está muito bem.

— Oh, o que aconteceu?

— Ele estava andando de patins com os amigos e


acabou quebrando o braço. Coisa de adolescente.

— Ai, tadinho! Eu sinto muito, John. Mande meus


desejos de melhoras para ele. Depois vou tentar descolar
uns ingressos de uma peça infantil para que possa levá-los
para se distraírem um pouco.

— Eu agradeceria muito, senhorita.

Pisquei para ele em meio a um sorriso e me dirigi


para as escadas que levavam a parte administrativa.

— Tenha um bom trabalho, John.

— Igualmente.

Desde que eu havia começado a trabalhar para o


Josh, principalmente depois da minha conversa com a mãe
dele, vivia num esquema de morde e assopra. Quando ele
agia do jeito dele, esbanjando a sinceridade extrema que
deixava as pessoas desconfortáveis, eu remediava da
melhor maneira possível. Assim os funcionários não
pediam demissão e me viam como uma espécie de fada
madrinha. Eu não tinha nada de fada, contudo, ao contrário
das outras secretárias que já haviam trabalhado para o
senhor Mazzi, me dei ao trabalho de entendê-lo e
conseguia traduzi-lo para o restante do mundo.

Acenei para um ou outro funcionário no meio do


caminho e continuei o percurso até a minha mesa diante da
sala do Josh. Larguei meu casaco na cadeira e abri a porta
dele.

Meu chefe estava com os olhos focados na tela do


computador, mas levantou o olhar para me ver quando
entrei na sala.

— Bom dia! — Dei meu melhor sorriso.

— Você está atrasada. — Ele olhou no relógio. —


Sete minutos.

— Eu trouxe chocolate quente. — Levantei o copo e


me aproximei da sua mesa para colocá-lo ao seu alcance.
— Não pedi isso.

— Eu sei, mas achei que pudesse gostar.

— Se atrasou para fazer algo que eu não pedi. Eu


prefiro que chegue no horário e não traga chocolate.

— Mas eu trouxe, por que você não toma?

— Não tem chocolate quente na minha dieta às


nove e dez da manhã. Achei que a nutricionista tinha
encaminhado para você a lista.

— Sim, ela mandou.

— Tinha chocolate lá?

— Não.

— Então por que trouxe chocolate?

— Eu só quis ser gentil.

— Não te pedi para ser gentil.

— É, eu sei. — Inspirei profundamente e repeti


mentalmente o meu mantra. Ele não está fazendo por mal,
só dizendo a verdade. Isso foi o suficiente para que eu
voltasse a colocar um sorriso no rosto.

— Acho que eu posso tomar outro chocolate. —


Peguei o copo de volta. — Você quer que eu faça alguma
coisa específica agora de manhã?

— Sim. Estou respondendo alguns e-mails e


pretendo me reunir com o Ethan mais tarde. Vamos falar
sobre o figurino da próxima apresentação.

— Quer que eu ligue para ele?

— Ele mandou mensagem mais cedo. Vem depois


do almoço.

— Ótimo.

— O ensaio começa em dez minutos.

— Quando você estiver pronto, vamos juntos. —


Caminhei até a porta.

— Aline?

— Sim.
— Sua saia é horrível, não tinha outra?

— Não usa a palavra horrível. Ela é cruel.

— Feia é melhor? — Ele arqueou as sobrancelhas


grossas e me encarou com um ar de reflexão.

— Sim, é um pouco menos ofensiva.

— Sua saia é feia.

— Eu gosto. — Estufei o peito. — É colorida, é


alegre e não tem nenhuma regra que me impeça de vir
com uma saia colorida para o trabalho.

— Eu não gosto.

— Bom, cada um tem uma opinião. O que seria do


colorido se todo mundo gostasse do cinza chato? Eu iria
preferir que você usasse uma gravata laranja ou verde, dar
um pouco de cor a esse seu look sempre tão
monocromático.

— Meus irmãos e o meu pai se vestem assim.

— Mas você é o artista da família, Josh.


Ele ficou me observando. Isso acontecia quando eu
o colocava para pensar. Um ano trabalhando como sua
secretária já havia sido suficiente para que eu aprendesse
algumas coisas, inclusive que o meu chefe precisava de
um tempo para processar informações que fugiam ao
senso comum dele.

— Quando quiser ir para o ensaio, é só chamar.


Estarei lá fora aguardando.

Ele assentiu e eu deixei a sala.


Três

Ouvi uma batida na porta e parei de analisar a


campanha de marketing antes de sussurrar um pode
entrar.

Ethan entrou segurando uma pasta pesada e a


colocou sobre a mesa.

— E aí, Josh, como você está?

— Bem.

Ethan Sartori era o meu melhor amigo. Ao menos, o


amigo que eu mais considerava, apesar de ele ser alguns
anos mais novo do que eu e termos comportamentos
completamente distintos. Minha mãe dizia que tê-lo por
perto era bom, assim como o meu irmão Oliver, porque
ambos me ajudavam a sair da bolha. Eu não sabia ao certo
o motivo, mas eles me acudiram e muito quando eu era
criança.

— Eu também estou ótimo. Sabe no que eu estava


pensando esses dias?
— Em quê?

— Na sua festa de aniversário.

— Não gosto de festas.

— Pode ser uma pequena, particular, com mulheres


interessantes e seminuas.

— Não gosto de pessoas estranhas.

— Ah, Josh! — Ethan bufou e eu franzi o cenho. —


Você é uma peça, cara. É por isso que gosto tanto de ficar
perto de você.

Ele deu a volta na mesa, se aproximou de mim, e


envolveu o meu ombro com os braços. Eu não gostava de
ser abraçado, evitava o contato físico com as pessoas.
Porém, havia dois abraços com os quais eu já havia me
acostumado: os da minha mãe e os dele, pois eram duas
pessoas que me abraçavam tanto, que eu já não conseguia
mais evitar.

— Mas me diz uma coisa?

— Sim.
— Você gosta de mulher, não é?

— Gosto. Só não gosto de estranhas. Aquela mulher


nas fotos que você me mostrou noutro dia e que já veio
com você algumas vezes aqui, ela é bonita. Essa pode vir
na minha festa.

— Essa não, cara. — Ele me soltou do abraço e a


sua expressão mudou.

— Você está transando com ela?

— Não! Jamais transaria com a Joan.

— Eu gostaria de transar com ela. Ela tem


namorado?

— Esquece a Joan, Josh! A sua secretaria é gata,


por que não chama ela para fazer uma festinha com você?

— A Aline?

— Essa mesmo.

— Aline é minha amiga. Ela mantém tudo em ordem


aqui. Se eu transar com ela, vai ser mais uma me
chamando de insensível. Não vai ser bom para a
companhia.

— Você ao menos pensa nos negócios.

— Você não?

— Nem tudo é tão preto ou branco, Josh.

— Eu quero uma gravata laranja. Você pode me


conseguir uma?

— Quê?

— Gravata laranja. A Aline disse que eu só uso


roupa cinza e que deveria usar um pouco mais de cor.

Ethan começou a rir, o que me deixou um pouco


confuso, mas ele não explicou o motivo, apenas deu uns
tapinhas nas minhas costas.

— Vou conseguir para você uma gravata laranja.

— Obrigado.

— É só isso que você quer?

— Sim.
— Deixa eu mostrar para você os desenhos que
fizemos para o figurino da peça que entrará em cartaz
daqui há dois meses. Eu gostaria da sua opinião antes de
mandar fazer os protótipos para apresentarmos ao seu
figurinista na reunião que acontece na semana que vem. —
Ele abriu a pasta e deixou que eu analisasse os desenhos.

— É colorido.

— Sim, é uma peça sobre Alice no País das


Maravilhas.

— A Aline vai gostar, e as pessoas costumam gostar


do que ela gosta.

— Então eu posso mandar fazer o protótipo?

— Sim.

— Ótimo! Eu preciso ir agora. Tenho muita coisa


para resolver na empresa.

— Você vai à casa dos meus pais no final de


semana?
— Por causa da eleição? Claro que sim! Tem que
estar todo mundo lá para comemorar o resultado das
urnas. Você é irmão do futuro presidente, não está
empolgado?

— Não.

— Cara, é por isso que eu te amo. — Ethan voltou a


me abraçar e eu fiquei parado até que ele se afastasse.

— Então nos vemos lá.

— Sim. Boa tarde, Josh. Vai pensando no que você


quer para o seu aniversário que eu vou providenciar.

— Eu sou rico, posso comprar qualquer coisa.

— Não é desse tipo de presente que estou falando,


cara.

— Qual então?

— Vai pensando aí. — Ele deu um apertão no meu


ombro antes de se afastar.

— Até mais.
Ethan deixou a minha sala e eu voltei a atenção
para a mesa a fim de fazer o meu trabalho. Eu não gostava
da burocracia, apesar de saber que era necessária. Sentia
por não poder mais dançar. Era feliz dançando, mas,
depois do acidente, minha perna doía muito quando era
exigida, foram meses sem mal colocar o pé no chão e
outros tantos de fisioterapia. Depois disso, tudo o que eu
podia fazer era coreografar e dirigir. Felizmente eu tinha a
companhia, pois era um jeito de continuar perto dos palcos,
mas eu teria falhado se não fosse pela ajuda da Aline.

Ela era a única, além do Ethan e da minha família,


que não parecia perder a paciência cada vez que eu abria
a boca. Confesso que não gostava de ter pessoas por
perto, na maioria das vezes, nem me esforçava para isso,
mas com a companhia dela, tudo era diferente. Aline me
fazia sentir bem e eu a considerava uma grande amiga.
Quatro

— Você me chamou? — Coloquei a cabeça para


dentro da sala do Josh quando o ouvi falar o meu nome.

— Sim. — Ele levantou da mesa e veio para perto


de mim.

Eu senti o meu coração acelerar e percebi o quanto


era, estranhamente, atraída pelos olhos dele. Ainda que
não fosse comum que ele me olhasse diretamente nos
olhos.

— Eu pedi ao Ethan uma gravata laranja.

— Ah, pediu? — Não consegui esconder a surpresa


no meu tom de voz, mas, felizmente, Josh não percebia
essas nuances.

— Sim.

— Legal.

— Vai combinar com a sua saia.


— É mesmo. — Olhei para a saia com listras
laranjas, que descia até o meio das minhas canelas. —
Vamos ficar bregas juntos.

— Gosto de ficar junto com você.

— Gosta? — Meu sorriso ficou ainda maior.


Principalmente porque eu conhecia o Josh e sabia que
cada palavra que ele dizia, para o bem ou para o mal, era
sempre verdade.

— Sim, você é a minha melhor amiga.

— Nossa! — Aquela exclamação foi a única coisa


que eu consegui dizer, pois não era o que eu esperava
ouvir, mas se tratando do Josh, eu deveria estar
acostumada.

— Já se passaram cinco minutos do seu horário. É


melhor ir ou vai acabar chegando atrasada em casa.

— Obrigada, mas eu cheguei sete minutos atrasada


hoje, então acho que ainda posso ficar por mais dois
minutos.

— Já terminou o que você tinha para fazer hoje?


— Sim.

— Então acho que você já pode ir.

— Obrigada! Até amanhã, chefe.

— Tenha uma boa noite, Aline.

Eu fechei a porta da sala dele com um estranho


sentimento no peito. Deveria estar feliz por Josh me
considerar a sua melhor amiga, isso significava que ele
tinha um carinho por mim, mas não sabia se era isso que
eu queria de verdade.

O que você está pensando? Briguei comigo em


pensamentos. Ele é seu chefe!

Juntei as minhas coisas e caminhei até a escada. As


pessoas já estavam chegando para a apresentação que
aconteceria a noite. Às vezes eu ficava para assistir, mas
em dias como aquele, em que estava cansada ou
simplesmente frustrada, preferia voltar cedo para casa.

Caminhei até o metrô e assim que entrei no vagão,


eu peguei meu celular no bolso e mandei uma mensagem
para a minha amiga.
Aline:

Tem um tempinho?

Hannah:

Pode falar, ainda vai levar uma meia hora para


eu entrar no palco.

Aline:

O Josh disse que eu sou a melhor amiga dele.

Hannah:

Espera! O seu chefe?

Aline:

Sim.

Hannah:

Ah, que merda!

Aline:

Que merda por quê?

Hannah:
Você é a fim do cara e ele te jogou na
friendzone.

Aline:

Não estou a fim dele.

Hannah:

Okay! Mas friendzone não deixa de ser horrível.

Aline:

É bom, ele me considera uma amiga.

Hannah:

Não. Ele te acha tão desinteressante que não


tem vontade nem de trepar com você, então te jogou
logo na zona da amizade para não parecer um
escroto.

Aline:

A minha autoestima agradece. Mas o Josh não


é esse tipo de cara que você está pensando que usa
abusa e joga fora. Não é o perfil dele.
Hannah:

Homens ricos, solteiros, e, principalmente,


irmãos de um forte candidato à presidência, só tem
um tipo: galinha.

Aline:

Não o Josh. Se você o conhecesse melhor, iria


saber.

Hannah:

Tudo bem, amiga! Eu acredito no seu bom


senso. Que ótimo que ele é seu amigo.

Torço para que ele seja um pouco mais gentil


com você.

Vou me preparar aqui.

Aline:

Obrigada. Estou chegando em casa.

Boa apresentação para você.

Hannah:
Obrigada.

Guardei o meu celular na bolsa, pouco antes de


chegar na estação do metrô perto da minha casa.

Quando subi as escadas que levavam até a rua,


senti um vento gelado e me encolhi. Peguei o meu
cachecol na bolsa e o coloquei ao redor do meu pescoço.
Guardei as mãos dentro dos bolsos do meu casaco e
caminhei os quarteirões até a porta de entrada do pequeno
sobrado onde eu morava, desde que me entendia por
gente, com a minha família.

— Boa noite, Aline!

— Boa noite, senhora Cook! — Virei-me e vi uma


mulher conhecida sentada nos degraus de uma casa do
outro lado da rua.

Ela tinha cabelos curtos e grisalhos. Sua expressão


sempre foi muito amigável e, desde que eu era criança,
aquela mulher era um exemplo de solidariedade e carisma.

— Está muito frio aqui fora. Acho melhor a senhora


entrar ou vai acabar congelando.
— Eu gosto da brisa do inverno. Ela me faz bem.

— Ela não fará mais tão bem se suas extremidades


congelarem.

— Ah, menina, se preocupa mais comigo do que os


meus netos.

— A senhora é uma boa pessoa e os seus netos


também. Agora eu vou entrar antes que esfrie mais e
recomendo que a senhora faça o mesmo.

— Está certa. — Ela assentiu e se levantou. —


Tenha uma boa noite, querida.

— A senhora também.

Subi as escadas da minha casa, abri a porta e


quase fui atropelada pelo meu sobrinho antes de entrar.

— Vrum! — Ele passou com um avião perto de mim


e quase me levou junto.

— O que você está fazendo, Jimmy?

— Pilotando o meu avião. — Ele estufou o peito e


parou com o brinquedo no alto.
— Ah, é? — Tirei o meu casaco e o pendurei em um
gancho que ficava no hall de entrada.

— Sim.

— E você tem vontade de se tornar piloto um dia?

— Tenho. Deve ser muito legal.

— Deve ser, sim. — Fiz um cafuné nele e o meu


sobrinho sorriu, mostrando os dentes, com o espaço
faltando de um canino. — Você sabia que o irmão do meu
chefe é piloto de avião?

— Achei que o irmão do seu chefe fosse o candidato


a presidente, que todos falam na escola.

— Também. Ele tem três irmãos. O candidato a


presidente, um piloto e uma bela moça.

— Ah, legal! Quando você encontrar com o piloto


pode perguntar para ele como é?

— Posso, sim!

— Obrigado, tia! — Ele abraçou as minhas pernas.


— Por nada.

— Jimmy, vem aqui meu filho! — Minha irmã


apareceu no fim do hall e fez um gesto para que o menino
se aproximasse. — Deixa a sua titia entrar direito. Ela deve
estar congelando pelo vento do inverno que está soprando
lá fora.

— Oi, irmã. — Passei por ela e afaguei o seu ombro


antes de alcançar a escada e subir para o meu quarto.

Meus pais tiveram três filhos, minha irmã Amanda,


eu e o mais novo, Daniel. Ele, infelizmente, acabou se
envolvendo com as pessoas erradas, gangues, e, para a
total decepção dos meus pais, foi preso por tráfico de
drogas, há uns seis meses. A minha irmã também não teve
muita sorte na vida. Apesar de ter se casado com um
policial, um homem descente e que a amava, ele acabou
sendo morto em serviço, deixando-a sozinha e com um
filho para criar. Amanda não teve outra escolha a não ser
voltar para a casa dos nossos pais e equilibrar a vida de
enfermeira com os cuidados com o Jimmy. Provavelmente
por isso que meus pais torciam tanto para que eu me
saísse bem profissionalmente. Não tiveram muitas chances
na vida e apostaram todas as suas fichas em mim, então
não queria decepcioná-los. Talvez por isso houvesse
abandonado a minha enorme vontade de ser bailarina e me
concentrado no trabalho burocrático como secretária.

Tranquei a porta e tirei a minha roupa, ligando logo o


aquecedor do quarto, e entrei no chuveiro para tomar um
banho relaxante.

Você é a minha melhor amiga... A voz do Josh


voltou a ecoar na minha mente.

Sorri ao pensar na gravata laranja, tinha apenas


brincado com ele, mas acabou levando a sério. Contudo,
fiquei contente por saber que ele havia me escutado o
suficiente para conseguir uma. Eu poderia não ter qualquer
chance de um relacionamento amoroso com ele, mas
amizade e um trabalho satisfatório já era bom.

Puxei a toalha para dentro do box, depois de ter


fechado o chuveiro, e me sequei antes de sair do vapor
quente que havia se acumulado dentro da pequena estufa.
Voltei para o quarto e vesti um pijama quentinho antes de
descer para a sala.

Meu pai estava diante da televisão, assistindo a um


jogo reprisado de beisebol e custou a perceber a minha
presença.

— Oi, pai, boa noite!

— Oi, filha! — Ele girou na poltrona e olhou para


mim. — Chegou cedo hoje.

— Nada, já são quase sete da noite.

— Foi bem no trabalho?

— Sim, fiz mais do mesmo.

— Seu chefe está empolgado para a eleição nesse


final de semana?

— Ele não liga muito para isso.

— Como não?! O irmão dele está concorrendo à


presidência.
— É o irmão dele. Josh é muito diferente do Maxwell
Mazzi.

— Esses homens ricos são todos iguais. — Bufou o


meu pai ao dar de ombros e levantar a cerveja que estava
bebericando e tomar um gole.

Resolvi não discutir, pois antes de trabalhar para o


Josh eu pensava exatamente como o meu pai. Eles eram
assim, tinham a necessidade de que o mundo girasse ao
redor deles, mas não com o meu chefe. Josh não queria
que o mundo girasse ao redor dele, porque simplesmente
não se importava com o mundo.

Deixei o meu pai na sala e caminhei até a cozinha.


Minha mãe estava sentada num canto e parecia distraída
lendo uma velha revista de fofoca. Levou um tempo para
que ela notasse a minha presença.

— Boa noite, filha!

— Oi, mãe.

— Correu tudo bem no seu dia hoje? — Ela ajeitou o


cabelo crespo e grisalho atrás da orelha, antes de fechar a
revista e colocá-la sobre a pequena mesa com espaço para
quatro pessoas que ficava na cozinha.

— Sim.

— Seu chefe deve estar preocupado.

— Ele está lidando bem com a candidatura do


irmão. — Na verdade, ele não está nem aí, completei em
pensamentos.

— Em breve vai ser a secretária do irmão do


presidente. Estou tão orgulhosa de você, Aline!

— Obrigada, mamãe.

Ela estava radiante de tão feliz e imaginava que se


Maxwell realmente fosse eleito no final de semana, o fato
de eu trabalhar para o Josh seria o assunto mais
comentado do salão de beleza nos próximos dias. Parecia
incrível, mas minha mãe iria se gabar muito disso para as
colegas e clientes do espaço onde trabalhava. Contudo, no
fundo, isso em nada faria diferença, pois meu salário não
iria aumentar e meu emprego não mudaria. Josh era bem
reservado, eu sabia mais da família dele pelos tabloides do
que por seus próprios lábios. A pessoa que eu melhor
conhecia era sua mãe, Ana Mazzi, pelo esforço dela para
que eu fosse uma boa ponte entre seu filho e o restante
dos funcionários da companhia de dança.

— Eu estou com fome, tem algo?

— Sim, deixei seu jantar dentro do micro-ondas. Não


sabia que horas você iria chegar. Às vezes você chega tão
tarde.

— Obrigada. — Passei por ela e fui até o


eletrodoméstico. Peguei o meu prato e me sentei ao seu
lado na pequena mesa.

Ela ficou ali até que eu terminasse de comer.


Falamos sobre trivialidades e ela contou algumas fofocas
que tinha ouvido no salão, como se fossem a coisa mais
engraçada do mundo. Eu me esforcei para rir, pois não
gostava que as pessoas ficassem chateadas comigo. Às
vezes eu invejava o Josh, queria ser um pouco mais como
ele, sem me importar tanto com as pessoas que me
rodeavam. No entanto, ele não precisava das pessoas para
se sentir bem, já eu, ficava imensamente sozinha sem o
mínimo de companhia.

Depois do jantar, eu fui para o meu quarto e passei o


restante da noite assistindo séries no computador. Acabei
pegando no sono sem perceber.
Cinco

Eram pessoas demais, barulho demais e eu odiava


isso.

Podia ouvir o som da conversa, dos gritos e do riso


que vinham da sala de estar da casa dos meus pais. Se
fosse por escolha própria, eu jamais teria vindo, mas eu
aprendi, com o passar dos anos e muita observação, que
existiam coisas que eu precisava fazer, independente se eu
gostasse ou se me fazia bem. O que costumava ser muito
natural para todo mundo, não era fácil para mim. Eu não
entendia sarcasmo, não lidava bem com duplo sentido,
mas aprendia e usava o raciocínio para interações sociais.
Diferente das outras pessoas, minhas ações não eram
tomadas em cima de impulsos, mas usando a lógica e
minhas observações. Eu analisava as expressões das
pessoas e geralmente conseguia entender um pouco
melhor o que estavam expressando em suas falas, mas
nem sempre isso dava certo.
Para mim era tudo de um jeito ou de outro, não
existia meio termo. Também não me magoava quando as
pessoas eram sinceras comigo, pois eu era assim e
esperava o mesmo dos outros. Afirmações ou perguntas
sem sentido geralmente indicavam sarcasmo, e eu havia
aprendido, ainda muito jovem, que deveriam ser
respondidas da mesma forma. O fato de ter a minha mãe
sempre por perto me ajudou muito. Já havia conhecido
outras pessoas como eu que estavam em condições muito
piores. Esforçava-me para estar no outro polo. Muitas
pessoas que conviviam comigo nem sabiam da minha
síndrome, e eu passava apenas como sincero demais ou
mal-educado.

Contudo, por mais que eu houvesse aprendido muito


ao longo da minha vida e mantivesse meus sintomas
controlados, ainda havia situações que eram bem difíceis
para mim, como uma sala cheia de políticos e associados,
uns mentirosos sorridentes.

Maxwell e eu sempre fomos muito diferentes, não só


pelo fato de ele ser fisicamente parecido com o nosso pai e
eu com a nossa mãe. Nossas diferenças iam muito além do
cabelo loiro e o castanho, ou da cor dos olhos. Enquanto
eu não conseguia mentir e agia da forma mais sincera e
honesta possível, independente do que as outras pessoas
achassem, ele era o mentiroso nato. Max agradava todo
mundo desde criança, tinha uma legião de fãs e muitas
garotas ainda quando éramos pequenos. Porém, foi com
ele que eu aprendi os conceitos básicos da socialização.
Se em alguns momentos eu conseguia dizer exatamente o
que as pessoas esperavam ouvir, era graças ao Max. Ele
era muito bom nisso.

Tão bom em fingir que até uma esposa falsa ele


arrumou. Dizia que estava apaixonado após o nascimento
da filha, mas eu tinha as minhas desconfianças, já que uma
vez mentiroso, sempre mentiroso. Porém, tinha aprendido
com a minha mãe, depois de ter ido parar na diretoria
muitas vezes, que existiam opiniões que eu deveria
guardar só para mim.

— Você está aqui! Finalmente achei você.


Escondido, como sempre.
Virei a cabeça, mas continuei escorado no guarda-
corpo da varanda. Dali tinha vista para a piscina e do céu
com poucas nuvens e o silêncio reinava.

Meu irmão Oliver apareceu na entrada e caminhou


para perto de mim, escorando-se ao meu lado. Ele encarou
a piscina no horizonte antes de voltar-se para mim.

— Está ficando cheio lá embaixo. Imaginei que o


encontraria escondido em algum lugar.

— O astro do espetáculo de hoje não sou eu.

— Confesso que prefiro muito mais as suas


apresentações de dança. — Moveu os ombros e estalou os
dedos.

— Max parece gostar de tudo isso.

— Ele ama tudo isso. — Oliver riu.

Dei de ombros e voltei meu olhar para a piscina


quando o som que vinha da sala ficou ainda mais alto.

— Você nunca foi muito fã de barulho, não é? —


Oliver voltou a puxar assunto.
Apenas balancei a cabeça confirmando.

— Lembra daquela vez em que tirei você debaixo da


mesa no refeitório da escola quando seus colegas
começaram a brigar?

Fiz que sim, mas permaneci em silêncio por um


tempo, refletindo.

— Barulho é consequência de uma desordem sem


fim. Não gosto de bagunça.

—É, eu sei. Não era à toa que pedia a você para


arrumar o meu quarto. Uma pena que a mamãe descobriu
e me deu uma bela bronca.

— Você sempre foi muito desorganizado.

— Nem todo mundo tem seus dons, cara.

— Tínhamos um trato.

— Eu me lembro disso. Nosso acordo era que eu


defenderia você dos idiotas inconvenientes na escola se
você arrumasse o meu quarto. Foi bom para os dois. — Ele
suspirou. Pela sua expressão ele parecia pensativo, mas
nunca fui bom em tentar adivinhar o que poderia estar
passando pela cabeça de alguém, como as outras pessoas
pareciam fazer tão facilmente.

— Achei você, Josh! — Ethan apareceu na varanda


e eu sorri. — Mandei uma mensagem para o seu celular,
mas parece que você nem viu.

— Não vi.

— Sua gravata está lá no meu carro, depois você


pega comigo.

— Gravata? — Oliver franziu o cenho.

— Josh me pediu uma gravata para agradar a


secretária dele.

— Está comendo a secretária, seu tarado? — Oliver


empurrou o meu ombro, e eu rosnei.

— Não estou. — Passei a mão no local, ajeitando a


manga do meu terno.

— Por que não? Ela é gostosa! Eu a comeria. Não


concorda, Ethan?
— Ela é gata. Já falei isso para o Josh. — Meu
amigo riu.

— Aline é minha amiga.

— Amiga? — Oliver riu alto. — Sério que você está


acreditando nisso? Foi ela quem disse que era a sua
amiga?

— Não. Fui eu. Aline é uma boa secretária e todos


na companhia gostam muito da presença dela. Além disso,
não faz com que ninguém saia chorando, como eu costumo
fazer às vezes. Foi uma das melhores contratações que eu
fiz nos últimos anos. Não quero que ela quebre algo em
mim, vá embora e nunca mais apareça.

— Quem fez isso?

— A Alexa.

— Aquela dançarina que você estava namorando?

Balancei a cabeça em afirmativa.

— Relaxa, irmão. — Oliver botou a mão no meu


ombro e eu virei o rosto para encará-lo. — Eu nem tenho
Asperger e vivo tomando tapas na cara. As mulheres são
complicadas e geralmente esperam mais da gente do que
podemos oferecer para elas. Não concorda, Ethan?

— O Oliver tem razão.

— Não dá ouvidos para esses dois idiotas. — Foi a


vez da Izabel aparecer. A varanda estava ficando cheia
demais. — Josh, você é diferente. Não precisa ser um
babaca destruidor de corações como esses dois.

— A Alexa disse que eu era um insensível —


comentei, ao me recordar do meu último rompimento.

— Viu, irmã? — Oliver se virou para ela. Pela sua


expressão eu conseguia perceber que ele estava
debochando dela. — O Josh não é muito diferente do resto
de nós, Izzi.

— Sabe o que eu acho? — Ela cruzou os braços e


estufou o peito.

— O quê?

— Vocês tinham que fazer igual o Max e o Chad,


arrumarem uma esposa só de fingimento para depois
acabar se apaixonando por elas. Iria fazer muito bem para
vocês.

— Ninguém é tão idiota quanto aqueles dois —


disse Ethan.

Izabel fez bico e o Oliver apertou as bochechas dela,


deixando a nossa irmã caçula ainda mais irritada.

— Eles têm razão. Ninguém é tão idiota quanto o


Max e o Chad. — Surpreendi-me com a presença do
Mason. Ele era o mais velho dos Sartori e há tempos não
frequentava a casa dos meus pais, apenas aparecia em
eventos especiais. Bom, a eleição à presidência do país
que meu irmão concorria era algo no mínimo grande.

— Você não entende! — Izabel passou por ele,


trombando em seu ombro e saiu corredor afora. Não
consegui compreender o motivo da sua irritação tão
instantânea. Era como seu eu tivesse perdido alguma
coisa.

— O que tem entre vocês dois? — perguntei ao


Mason.
— Nada — foi monossilábico e enfático. Não percebi
algo na sua fala, então acabei deixando para lá, mesmo
que a risadinha do Ethan indicasse que o irmão não estava
me falando a verdade.

Independente do que fosse, Izabel era a mais nova


de nós e a mais sensível, mas já era adulta e poderia lidar
com os próprios problemas.

— O que você quer aqui? — Ethan questionou o


irmão.

— Estão terminando de apurar os votos. Farão o


anúncio oficial em breve. Max é o próximo presidente do
país, quem diria?

— Ethan, por que não arrasta o Josh lá para baixo?


Eu preciso conversar com o Mason por uns minutinhos e já
estamos indo.

— Eu não tenho nada para conversar. — Mason


tentou seguir pelo corredor, mas Oliver o parou, colocando
a mão no peito dele.

— Espera aí, cara.


— Vamos descer. — Ethan agarrou o meu braço e
saiu me arrastando para longe.

— Não era melhor ficarmos? — perguntei ao


chegarmos no início da escada antes de descermos para o
andar da sala.

— Deixa o Oliver bancar o irmão superprotetor,


como ele gosta. Vai ser engraçado se o Mason der uns
socos nele.

— Por que o Mason iria bater no meu irmão?

— Você ainda não percebeu?

— Perceber o quê?

— Deixa para lá, Josh. Não se preocupa com isso.


Deixa que se resolvam. Temos os nossos próprios
problemas.

— Tudo bem.

A cada degrau que descíamos da escada, mais alto


ficava o som das conversas que por um instante
diminuíram para se transformar em um grito em coro bem
agudo. Eu pressionei os olhos e me contive para não cobrir
os ouvidos. Odiava muito todo aquele barulho e, se
pudesse, jamais ficaria em um ambiente tão caótico. Ainda
bem que reuniões como aquela não aconteciam com
frequência.

Quando cheguei na sala, eu vi o meu irmão mais


velho rodeado de muitas pessoas que o cercavam e
abraçavam. Todos na sala faziam uma roda ao redor dele
para parabenizá-lo, inclusive os nossos pais.

Dois caras chacoalharam garrafas de champanhe e


as estouraram, provocando outro estrondo incômodo.

— Viva o presidente!

— Parabéns, Maxwell — diziam uns.

— Vai ser um excelente presidente — falavam


outros.

Eu não tinha ideia de quem estava falando a


verdade ou não, mas também não me preocupava com
isso. Esse era o mundo do Max, meu palco era outro. um
do qual eu sentia falta.
Trabalhar na função administrativa da companhia
preenchia o meu tempo e me dava a rotina que eu gostava
tanto, mas sentia muita falta das apresentações, de poder
me conectar com a música e expressá-la através do meu
corpo.

Alguém colocou a mão no meu ombro e eu me


esquivei até perceber que era a minha mãe.

— Tudo bem, Josh?

— Sim.

— Caótico?

— Um pouco.

— Hoje é o dia do seu irmão.

— Ele está feliz. — Voltei-me para a pequena


multidão que se aglomerava ao redor dele e da esposa.

— Max conseguiu tudo o que queria.

— Tomara que seja um bom presidente. O país


precisa.
— Ele será, ou vou para Washington puxar a orelha
dele. — Minha mãe riu e eu continuei a encarando, sem
achar a mesma graça.

Fiquei mais um tempo parado observando Maxwell e


a Penélope. Assim que as pessoas se afastaram para que
eles pudessem respirar minimante, ele segurou o rosto
dela e a beijou.

— Ainda parte da farsa? — Voltei-me para a minha


mãe, que ainda estava ao meu lado.

— Não mais, seu irmão a ama. Ele quase renunciou


à presidência por ela.

— Então ela realmente é importante — pensei


racionalmente —, pois nada é mais importante para o Max
do que a política.

— Agora ele tem duas coisas mais importantes do


que a política. — Minha mãe afagou o meu ombro ao
encarar o filho mais velho. — O que acha de irmos lá ver
como a Mel está?

— Ele trouxe a filha?


— Sim, está lá em cima com uma babá.

— Vamos lá. — Aceitei a sugestão para sair o mais


rápido possível do caos que havia tomado conta da nossa
sala.

Minha mãe me guiou de volta à escada e subimos


até os quartos. Ela bateu na porta de um antes de abri-la. A
primeira pessoa que vi foi uma mulher com um uniforme
branco e rosa sentada em uma poltrona, folheando um
livro.

— Ela está dormindo? — Minha mãe deu alguns


passos em direção ao berço.

— Sim, senhora Mazzi. Está dormindo desde que a


mãe a amamentou. É um amor de bebê.

— Vem aqui! — Minha mãe fez um gesto para que


eu me aproximasse.

Debrucei-me sobre o berço ao lado dela e vi a minha


sobrinha deitada. Era apenas um bebezinho que dormia
calmamente, sem nenhuma preocupação com o caos que
acontecia lá embaixo.
A garotinha abriu os olhos azuis e começou a chorar
quando percebeu a nossa presença.

— Ah, meu amor, não chora. — Minha mãe a pegou


no colo. — A vovó está aqui. — Ninou-a por alguns minutos
até que a menina parasse de chorar.

— Você gosta de bebês?

— Sim. — Ela sorriu. — Por isso tive quatro.

— Não sei se terei bebês um dia.

— Por que acha que não? Você não quer?

— Nunca pensei sobre isso.

— A Melody fez você pensar?

— Sim, mas eu não consigo lidar bem com as


mulheres. Todas acham que eu sou frio e insensível.

— Você certamente é o mais sensível dos três. Se


não conseguiram perceber isso, é porque essas mulheres
não mereciam você.

— Imagino que não.


— Quer segurá-la? — Ofereceu-me a bebê.

— Sim. — Peguei a minha sobrinha no colo e ela


fechou os olhinhos azuis, que lembravam os do Max, e
voltou a dormir.

— Ela gosta de você.

— Sim, gosta. — Sorri.

— Também terá seus próprios filhos um dia, querido.

— Não sou como as outras pessoas, mãe. —


Entreguei a minha sobrinha de volta para ela.

— Oliver é como o Maxwell?

— Não. Eles são bem diferentes.

— Eu tenho quatro filhos. Cada um com suas


particularidades. Nenhum é igual ao outro, mas torço com
todo o meu coração para que cada um encontre a própria
felicidade. Seja como presidente do país ou como bailarino.

— A minha perna ainda dói muito se me esforço


demais. — Abaixei a cabeça. Pensar naquilo me deixava
chateado. A dança era uma parte crucial de mim e me
deixava muito triste ter que me afastar. — O médico acha
que eu não devo voltar a dançar. Outra fratura pode fazer
com que eu não volte a andar direito.

— Você pode não dançar mais, mas não precisa


ficar longe dos palcos. Dirige espetáculos, ensina novos
bailarinos e coreografa números. Todos nós precisamos
nos aposentar um dia.

— Eu só tenho trinta e três. Sou jovem.

— Sim, é jovem. E infelizmente teve que parar de


dançar, mas ainda pode fazer coisas que o deixam feliz.

— Posso?

— Sim. — Ela colocou a minha sobrinha de volta no


berço e afagou o meu rosto. — Como está a Aline?

— Bem.

— Está sendo paciente com ela?

— Acho que ela é que é paciente comigo.

— Isso é muito bom!


— Oliver e Ethan acham que eu deveria transar com
ela.

— Ah! — As bochechas da minha mãe ficaram


vermelhas.

— Disse algo que não deveria, não é?

Minha mãe balançou a cabeça em negativa, mas


sua resposta contrastou com a expressão no seu rosto. Ela
sempre foi a pessoa que mais me apoiou na vida e eu tinha
o hábito de falar de tudo com ela, porém alguns assuntos
pareciam a deixar desconfortável.

— É o que você quer? — Finalmente comentou


algo.

— Gosto dela por perto. É uma boa secretária e é


minha amiga. Além disso, ela não começa a gritar comigo
depois que eu falo qualquer coisa.

— Ela é uma boa moça que te compreende.

— Sim.
— Não brinque com ela. Se tiver certeza de que
quer um relacionamento, seja honesto.

— E se eu não tiver certeza?

— Não iluda ela nem a si mesmo. Não cometa os


mesmos erros do Maxwell, que quase perdeu a Penélope.

— Certo.

— Ah, vocês estão aqui. — Minha cunhada entrou


no quarto.

— Vim ver a minha netinha.

— Ela está bem?

— Chorou há alguns minutos, mas já voltou a


dormir.

— Obrigada, Ana.

— Por nada, filha. O Max está lá na sala?

— Saiu com alguns associados do partido e foi até a


sede, mas disse que voltava logo. Parece que querem
fazer algumas fotos e um brinde oficial lá.
— Ótimo. Você está bem?

— Um pouco cansada, mas sim. Foi uma semana


muito corrida, mas valeu à pena, Max foi eleito.

— Graças a você.

— Graças a família. — Minha cunhada abraçou a


minha mãe e as duas ficaram assim por alguns minutos.

— Parabéns — disse em um ato voluntário, pois era


o que achava que ela esperava de mim.

— Obrigada, Josh. — Penélope me abraçou e me


deu um beijo no rosto.

— Primeira-dama? — Outra mulher, que eu já tinha


visto várias vezes com a minha cunhada, apareceu na
porta do quarto.

— O que foi, Meg?

— Estão procurando pela senhora.

— Diga a eles que vou amamentar a minha filha e já


irei.
— Certo.

— Vamos deixar a Penélope sozinha com a Melody.


— Minha mãe puxou o meu braço e me arrastou para fora
do quarto.

— Eu preciso voltar lá para baixo? — Cruzei os


braços ao encará-la, quando paramos na frente da porta do
meu antigo quarto.

— Não.

— Obrigado. Boa noite. — Entrei sem falar mais


nada.

Fui dormir, pois no dia seguinte pegaria um voo de


volta para Nova York, de volta para o inverno, para a
tranquilidade e o silêncio da minha cobertura em
Manhattan, e para o distrito dos teatros da Broadway, onde
ficava a companhia de dança que fundara há cinco anos.
Quando tomei a decisão de ter a minha própria companhia,
parecia um presságio do meu acidente nos palcos.

Minha mãe tinha razão, eu poderia não estar sob os


holofotes, mas podia trabalhar em outros setores e ensinar
os bailarinos, ainda que não aprecie ser apenas um bom
professor.
Seis

Subi correndo os degraus e cheguei diante da sala


do meu chefe. Ajeitei uma mecha do meu cabelo e respirei
fundo. Felizmente não havia chegado atrasada naquele dia
e nem tomado chocolate quente com a minha amiga.

Meu pai havia comentado de manhã que o meu


chefe nem iria aparecer para trabalhar, porém tinha certeza
que, mesmo com a eleição do irmão como presidente do
país, isso não seria motivo para que ele arrastasse o final
de semana. Durante todo o tempo que trabalhei para ele,
sabia que, independente da ocasião, Josh sempre estaria
ali.

— Senhor Mazzi, bom dia! — Abri as portas da sala


e surpreendi-me com o cômodo vazio.

Meu pai estava certo daquela vez?

Dei mais uns passos para dentro da sala e vi que o


computador estava ligado e o celular carregava em um
suporte. Ele estava ali, ao menos havia estado. Esperei um
pouco para ver se ele saia do banheiro, mas quando isso
não aconteceu, fui verificar e notei que o local estava vazio.

Voltei para a minha mesa e coloquei a minha bolsa


na cadeira antes de pensar onde ele poderia estar. Liguei o
meu computador e vi que alguns documentos foram
deixados sobre a minha mesa. Iria analisá-los, mas depois
que encontrasse o meu chefe.

Segui pelo corredor e entrei na sala do diretor do


teatro, que eu havia conhecido junto com o Josh, no dia em
que cheguei para a audição e acabei sendo contratada
como secretária.

— Senhor Hedges, bom dia.

— Bom dia, senhorita Lopes. Tudo bem?

— Sim, e com o senhor?

— Bem também. Em que eu posso ajudá-la?

— Não queria incomodá-lo, mas cheguei há alguns


minutos e o senhor Mazzi não estava no seu escritório.
Sabe o que aconteceu?
— Mais cedo, eu o vi na sala cinza com os
bailarinos, os auxiliares e os treinadores. Pode ser que ele
ainda esteja lá.

— Obrigada. Irei verificar.

Ele assentiu e voltou seu olhar para a tela do


computador sem dar muita importância a minha presença.

Fechei a porta, esforçando-me para não fazer


barulho e segui até um elevador que levava às salas onde
os bailarinos ensaiavam para os espetáculos que
aconteciam no teatro. Esgueirei-me para dentro do cômodo
com jeitinho para não chamar atenção e atrapalhar o
ensaio.

— Fica no plié mais tempo quando for começar a


volta, assim vai ter mais impulso no giro. — Ouvi a voz do
Josh antes mesmo de vê-lo em meio aos bailarinos.
Cercado daqueles que compartilhavam o mesmo amor pela
dança, ele nem parecia o homem que evitava o convívio
social.

— Mais um pouco. Assim. — Ele demonstrou o


movimento, girando na frente de todos antes de saltar. Os
movimentos dele eram primorosos e invejáveis. Vê-lo
dançando em meio aos bailarinos fez com que eu sentisse
falta do tempo em que eu dançava também. — Lembra-se
dos movimentos?

A bailarina assentiu antes que o Josh segurasse a


mão dela e a conduzisse para o centro do salão. Todos os
outros bailarinos e os auxiliares de coreografia se
afastaram para dar espaço ao grande astro. Aposto que,
assim como eu, estavam todos muito ansiosos para vê-lo
dançar. Eu não era a única que lamentava o acidente que
afastou Josh dos palcos.

Ele olhou para ela e então se afastaram.

A bailarina, que eu me recordava chamar Britney,


começou a se mover graciosamente, como uma flor
desabrochando. Seus braços e pés estavam muito bem
harmonizados com os movimentos das mãos, alternando
entre as posições do balé clássico como ditava a
coreografia, provavelmente, criada pelo Josh.

Foi então que ele se moveu na direção dela e eu


prendi a minha respiração. Josh dançou ao lado dela com
movimentos muito sincronizados aos da bailarina e então
segurou a cintura da moça, erguendo-a no ar, girando-a.
Depois ele a soltou e voltaram a dançar separadamente até
que ele parou. A expressão dele era de dor, mas estava
tentando disfarçar.

Josh deixou a sala sem falar uma única palavra.

— É só isso? — perguntou a bailarina, surpresa.

— Se ele não tivesse gostado, ele tinha falado —


disse para ela. — Você foi ótima!

— Ah, obrigada, senhorita Lopes.

— Por nada. — Sorri amistosamente. — Podem


voltar ao ensaio. — Acenei antes de sair da sala atrás do
meu chefe.

Segui os rastros dele de volta ao seu escritório.

— Você foi completamente incrível lá com os


bailarinos.

— Eu já fui incrível, não sou mais. — Sua voz era


firme, mas consegui perceber o quanto estava chateado.
— Sua perna está doendo. — Fechei a porta atrás
de nós e caminhei para perto dele.

— Dói com os impactos dos pulos. Acho que o osso


deve bater no pino que colocaram no meu tornozelo.

Eu me agachei perto do seu pé no momento em que


ele puxou a calça para ver se a perna estava bem.
Aparentemente estava, mas havia dores que só a gente
sentia e as outras pessoas não conseguiam entender ou
ver.

— Você quer um pouco de gelo?

— Quero.

— Vou buscar para você.

Saí da sala e desci até o refeitório dos bailarinos,


onde imaginei que pudesse encontrar gelo. Entrei numa
porta de acesso restrito e encontrei a senhora Taylor
preparando o almoço balanceado das estrelas do show.

— Olá.

— Oi, senhorita Lopes.


— Pode me dar um pouco de gelo em um pano?

— Algum dos bailarinos se machucou? Sei que você


é muito atenciosa, menina, mas não é melhor chamar o
ortopedista da companhia?

— Não é nada sério. É só o senhor Mazzi que fez


um pouco de esforço, mas ele vai ficar bem. Se continuar
sentindo dor depois do gelo, eu chamo o ortopedista.

— Tudo bem, eu vou pegar para você.

— Obrigada.

Aguardei até que ela fosse até o freezer e pegasse


algumas pedrinhas de gelo, colocando-as em um pano
branco e limpo.

— Aqui está.

— Muito obrigada, senhora Taylor.

— Por nada, querida. Tomara que o patrão fique


bem.

— Ele vai ficar. — Ao menos eu torcia por isso.


Tomei o caminho de volta para a sala do Josh e
quando cheguei lá, vi que ele estava na mesma posição,
examinando a perna que havia machucado anos atrás.
Quando eu comecei a trabalhar para ele, Josh ainda
mancava, mas com o tempo, isso passou e eu até
consegui esquecer do acidente.

— Eu posso? — Estendi a minha mão com o gelo


em direção a canela dele.

— Pode.

Cuidadosamente, pousei o pano sobre a pele dele e


esperei um pouco.

— Dói mais para baixo. — Josh colocou a mão dele


sobre a minha e fez com que ela escorregasse um pouco
até quase perto do pé.

Senti um estranho calafrio provocado pela sua mão


quente e levantei o olhar, encontrando o seu. Fiquei
completamente paralisada enquanto sentia seu calor e não
consegui fazer outra coisa que não fosse encará-lo.

— Chega, Aline! Está queimando.


— Desculpa. — Puxei a minha mão de uma vez e o
impulso fez com que eu cambaleasse para trás, mas antes
que eu caísse sentada, Josh puxou o meu braço e me
trouxe na direção dele.

Antes era apenas o peso do seu olhar que estava


me deixando completamente desconcertada, mas a
proximidade do seu rosto me deixou completamente sem
fôlego. Queria muito sentir o gosto da boca dele. Como
seria beijá-lo?

Josh me encarou de volta e não sei por quanto


tempo passamos assim, com o rosto dele perto do meu,
mas não o suficiente para que nossos lábios se
encontrassem. Precisei conter o meu impulso de levantar a
mão para acariciar sua bochecha. Não conseguia respirar
direito e a única forma de fazer isso parecia ser através da
sua boca.

O que eu estava pensando? Ele era meu chefe!


Havia dito que me considerava sua melhor amiga e eu não
poderia perder aquele emprego.
Esquivei-me da mão dele e saí cambaleando até ter
total controle do meu equilibro.

— Desculpa. Eu preciso checar alguns papéis que


colocaram na minha mesa e ver se eles são importantes
para você.

— Entendi.

— Se continuar doendo me fala, que eu chamarei o


ortopedista.

— Já está melhor.

— Que bom! — Peguei o pano que havia deixado


cair. — Vou devolver isso lá na cozinha.

— Aline? — Ele me chamou antes que eu saísse da


sala.

— Oi.

— Está tudo bem com você? Começou a agir de um


jeito estranho de repente.

— Estou ótima, mais do que bem.


— Isso é bom.

— Obrigada. — Esgueirei-me pela porta e a fechei


atrás de mim antes que o Josh fizesse qualquer outra
pergunta.

Quando eu sentei na minha cadeira, meu coração


ainda estava acelerado e as minhas pernas bambas. Eu
não deveria estar me sentindo tão atraída por alguém que
era o meu chefe e, ainda por cima, me considerava a sua
melhor amiga.

Ao menos ele era solteiro... Aline!

Puxei o envelope de cima da mesa e o abri. Eram


alguns documentos da contabilidade para que o Josh
analisasse e aprovasse. Iria fazer isso primeiro e checar se
estava tudo certo antes de entregar ao meu chefe. Também
era uma desculpa para não ter que encará-lo até que
voltasse ao meu normal. Precisava aprender a me controlar
e rápido.

Meu celular tocou e surpreendi-me com o nome que


apareceu no identificador de chamada. Era alguém que eu
não via há muito tempo.
— Raphael?

— Oi, Line. Como você está, gata?

— Bem e surpresa. Não imaginei que você fosse me


ligar depois de tanto tempo.

— Quatro anos...

— Sim, quatro anos.

— Imagino que muita coisa tenha acontecido.

— Você não faz ideia.

— Sei que está irritada comigo.

— Nem é mais a palavra certa para usar. Já se


passaram quatro anos.

— Esse tempo é suficiente para que você aceite sair


comigo?

— Quê?! — Coloquei a mão na boca logo em


seguida ao meu grito. Não precisava que o meu chefe e o
andar inteiro soubessem que eu estava atendendo um
telefonema pessoal durante o meu expediente. — Ficou
louco? Você terminou comigo há quatro anos para aceitar o
convite para dançar na equipe de um cantor de hip-hop,
sumiu no mundo e agora me liga com a cara mais lavada
do mundo me chamando para sair?

— Você nem está vendo o meu rosto.

Eu comecei a rir, ao perceber que aquele era o tipo


de resposta que o meu chefe daria.

— Pelo visto ainda gosta das minhas piadas


péssimas.

— Por que me ligou, Raphael?

— Eu sinto a sua falta.

— Mentira! Se realmente sentisse, teria me ligado


em algum momento dos últimos quatro anos, você só
desapareceu, como se fosse feito de fumaça.

— Gatinha, era uma oportunidade única.

— Não é mais?

— Faz uns dias que fui aprovado em uma audição


para uma companhia aqui de Nova York. Vou poder
continuar com a dança de rua aqui bem perto de você. Vou
até participar com a equipe de um grande concurso. Não é
na Broadway, mas vou ter um salário descente.

— Foi estupidez voltar por minha causa.

— Só seria se você estivesse com outro cara. Eu


encontrei com a sua mãe ontem e ela disse que você
continua sozinha e está trabalhando para o Josh Mazzi.
Está toda orgulhosa de você por estar perto da família do
presidente.

— A família do presidente vive na Flórida e ele vai


para Washington. O único Mazzi com quem convivo é o
meu chefe — respondi com rispidez, pois não queria render
o assunto.

— O cara era bom.

— Ainda é.

— Achei que ele não dançasse mais.

— Ele ensina.
— Então você largou mesmo os palcos para fazer
trabalho burocrático? Achei que a sua mãe estivesse
inventando história.

— Alguém precisa trabalhar.

— Parece que você mudou.

— Não faz ideia do quanto.

— Então eu passo para pegar você às oito na sua


casa.

— Não aceitei seu convite para sair, Raphael. —


Cerrei os dentes.

Fui do embaraço com o Josh a pura irritação em


alguns poucos minutos só por causa de uma ligação. Meu
ex não poderia ter me abandonado como tinha feito e voltar
para casa anos depois achando que tudo seria exatamente
como antes.

— Por favor, Line. Nós precisamos conversar.

— Dispenso a sua conversa.


— Se é assim, não me resta alternativa que não seja
aceitar o convite da sua mãe para jantar com vocês.

— Eu não acredito que ela fez isso!

— Mary sempre gostou de mim.

— Ainda me pergunto por que, já que ela nunca


considerou a dança um trabalho de verdade.

— E ser secretária é?

— Sim.

— Você sabe que está se iludindo, não é? Não ralou


tanto por aquela bolsa na faculdade de dança para jogar
tudo fora e ficar sentada atrás de uma mesa, servindo café
para um riquinho aleijado.

— Escuta aqui! Ele não é aleijado. Ele só não pode


mais dançar, mas não significa que seja deficiente.
Segundo: Josh não gosta de café.

— Josh? Chama ele pelo primeiro nome? Vocês já


têm essa intimidade toda? Nossa! Até imagino o que faz
com ele quando fica até mais tarde na companhia...
Desliguei na cara dele antes que fizesse qualquer
insinuação que me deixasse muito ofendida.

Idiota! Como tinha coragem de fazer isso depois de


ter me dado um belo pé na bunda há quatro anos?
Namorávamos desde o ensino médio. Eu o amava e
achava que ficaríamos juntos para sempre, mas às
vésperas do meu aniversário de vinte e três anos, ele me
deu de presente um acabou, vou me mudar. Só isso, seco
assim, sem um pingo de consideração pelos quase dez
anos que passamos juntos. Depois o Josh que era mal-
educado.

Tentei me concentrar no trabalho, pois era o melhor


que eu tinha a fazer.
Sete

Estava observando os vídeos com os ensaios,


prestando atenção nos movimentos e no que poderia
aprimorá-los, quando ouvi uma batida na porta.

Olhei para o relógio e vi que já passava do horário


do fim do expediente. O teatro funcionava até a meia-noite
e eu geralmente ficava ali até o fim, mas a minha secretária
trabalhava no horário do escritório.

— Pode entrar, Aline. Já deveria ter ido para casa.

— Sou eu, senhor. — Uma outra mulher entrou na


sala, usando já o figurino para a apresentação, que
começaria em alguns minutos.

— Você deveria estar no camarim.

— Eu sei e já irei descer.

— Por que está aqui?

— Eu...
— Não tem muito tempo, senhorita River.

— Sou muito boa, sabe? — Ela apertou as mãos na


frente do peito e olhou para baixo. Envergonhada, eu diria.

— É por isso que é a primeira bailarina dessa


companhia.

— Sim. — Ela engoliu em seco — Mas o senhor é


incrível. Por isso todos falam que o senhor é o melhor da
última década.

— Veio aqui para puxar o meu saco?

Isso acontecia com uma estranha frequência e eu já


havia me acostumado.

— Não! De forma alguma. Só queria agradecer a


oportunidade de hoje. Não é toda bailarina que tem a
chance de dançar com alguém como o senhor.

— É a minha companhia e eu tenho que passar o


conhecimento que tenho, já que não posso mais dançar.
Agora você precisa ir ou vai acabar se atrasando.

— Bom, sobre isso...


Levantei uma sobrancelha e continuei a encarando.

— Queria saber se o senhor aceita sair comigo um


dia desses. Para conversarmos estritamente sobre as
apresentações.

— Okay!

— Isso é um sim? — Ela mordeu o lábio.

— É um sim, senhorita River. Acho que tenho


conhecimento e posso ensiná-la. Mas a primeira coisa que
deve saber é que eu odeio quando a estrela principal
atrasa toda a apresentação.

— Obrigada, senhor Mazzi. — Ela se apressou em


deixar a minha sala e a fechar a porta.

Minutos depois, eu fechei a tela do computador e


desci para o teatro. Fiquei em um dos camarotes, um que
estava vazio, e assisti a toda apresentação. Era uma
versão das Mil e Uma Noites que eu havia coreografado. A
senhorita River estava indo bem, apesar de cometer alguns
erros pequenos, que eu iria pontuar durante a conversa
para a qual ela havia me chamado.
Oito

Cheguei no mesmo horário de sempre e a senhora


Cook estava sentada nos degraus da sua casa, como
todos os dias, e acenou para mim. Sorri ao retribuir o seu
gesto e entrei em casa. Tirei meu casaco e o pendurei no
hall. A minha rotina estava exatamente igual até que pisei
na sala.

Quando eu o vi sentado no sofá ao lado do meu


sobrinho, contando uma história para a qual não dei a
menor importância, a minha expressão se transformou
imediatamente. A senhora Cook costumava dizer que eu
era a simpatia em pessoa, mas havia ocasiões que nem
com todo o meu esforço conseguia permanecer sorrindo.

— Que cara...

— Aline! — Amanda me interrompeu antes que eu


conseguisse terminar a fala. — Não fala palavrão na frente
do meu filho.
— Raphael, achei que eu tivesse sido bastante clara
no telefone.

— Eu também fui. Sua mãe me chamou para jantar


com vocês e não tenho motivos para recusar. Senti muita
falta do tempo que passei nessa casa. — Ele se levantou
do sofá e caminhou até mim.

Durante alguns minutos eu prestei atenção nele.


Quatro anos haviam se passado desde que eu o vira da
última vez, mas ele parecia exatamente o mesmo que tinha
olhado no meu rosto e dito que seu futuro não era comigo.
Aqueles olhos perfeitamente escuros como o ébano mais
reluzente, a pele negra e charmosa, que por muitas vezes
havia me tirado o fôlego, e a cabeça coberta por um boné
preto.

Ele achava o quê? Que bastava sorrir para mim com


seus dentes perfeitamente brancos que tudo estaria
perdoado?

— Eu quero que você vá embora.

— Aline, a gente ainda nem teve tempo de


conversar.
— Já deixei bem claro que não tenho qualquer
intenção de conversar com você.

— Está sendo exagerada. — Raphael tentou me


tocar, mas eu me esquivei.

Ri sozinha e ele franziu o cenho com as


sobrancelhas grossas. Ainda usava o mesmo corte na
direita de anos atrás.

— Quem terminou foi você. Acha que adianta me


olhar com essa cara como se eu fosse culpada?

— Eu sei que o erro foi meu e estou extremamente


arrependido. Por isso vim até aqui. Aline, eu preciso que
você me escute.

— Não, Raphael! Quem tem que escutar aqui é


você. Se acha que eu fiquei esperando esses anos todos,
está muito enganado. Você seguiu a sua vida e eu
também.

— Sei que não tem outro cara.

— É aí que você se engana.


— Quem é ele? — Raphael tentou segurar o meu
pulso, mas eu me esquivei.

— Você pode ficar aqui. — Dei alguns passos para


trás e voltei para o hall de entrada. — Vou passar a noite
em outro lugar.

— Aline! — Ele veio atrás de mim, mas eu peguei o


meu casaco sem olhar para trás e caminhei até a estação
de metrô.

Num dado momento, Raphael parou de me seguir e


fiquei grata por isso. Sim, estava extremamente chateada
pelo o que havia acontecido entre nós e não seria apenas
uma conversa mansa e aquele sorrisinho cheio de
segundas intenções que mudaria o pé na bunda que me
deu. Além disso, eu não era mais a garota apaixonada que
ele deixou para trás.

Entrei na estação do metrô e esperei um trem que


me levasse para o centro da Chinatown, onde a minha
amiga Hannah morava. Enquanto eu vivia em uma região
com a população de predominância afro-americana,
Hannah tinha pais que descendiam de asiáticos. Era muito
comum em Nova York que as pessoas se aglomerassem
de acordo com suas ascendências.

Assim que entrei e encontrei um banco, peguei o


meu celular na bolsa e mandei uma mensagem para a
minha amiga.

Aline:

Tem algum problema eu passar a noite aí?

Hannah:

Aconteceu alguma coisa?

Aline:

O Raphael apareceu com a cara mais lavada


do mundo como não houvesse terminado comigo
daquele jeito.

Hannah

Que idiota!

Pode vir, meus pais já estão dormindo. Nem


vão notar que você está aqui.
Aline:

Obrigada.

Joguei o celular de volta na bolsa e escorei a cabeça


em uma haste de metal. Fechei os meus olhos e foi difícil
não pensar no que havia acontecido desde que o Raphael
tinha terminado comigo. Admito que se fossem seis meses,
ou até mesmo dois anos, depois do nosso rompimento, eu
o teria aceitado de braços abertos e com o maior sorriso do
mundo. Eu o conhecia desde criança, crescemos juntos e
ele, assim como a dança, eram a minha vida, mas eu havia
descoberto que conseguia viver bem sem os dois.

Quando o trem parou na estação próxima a casa da


minha amiga, eu desci, subi as escadas e andei pela rua
movimentada. Nova York era uma cidade que não dormia e
muitos bares, restaurantes e outros estabelecimentos ainda
estavam abertos. Andar por aquelas ruas era como ser
transportada para o oriente. As placas e faixas de muitos
estabelecimentos estavam escritas em outra língua, mas
não sabia dizer se era em mandarim, japonês ou coreano,
pois o meu conhecimento sobre essas línguas era nulo,
apesar de Hannah ter tentado me ensinar em um ou outro
momento.

Eu e ela havíamos nos conhecido na faculdade de


dança há anos e desde então cultivamos uma amizade.

Encontrei o prédio onde ela morava e toquei o


interfone. Estava ficando cada vez mais frio, mas só notei
quando fiquei imóvel. Meti as mãos dentro dos bolsos do
meu casaco e me encolhi, aguardando.

— Oi, amiga! — Hannah logo apareceu para a abrir


o portão e fiquei grata.

Entrei e subimos os degraus do pequeno sobrado


até o quarto dela em total silêncio. Eu não era a única que
ainda morava com os meus pais.

— Eu não acredito que ele fez isso! — Fechou a


porta atrás de nós. — Foi uma grande idiotice da parte
dele.

— Como o Raphael acha que tudo voltaria a ser


como antes? Eu não posso passar uma borracha no
passado e fingir que nada aconteceu. — Tirei o meu
casaco quando o aquecedor do ambiente me fez sentir
calor. Dobrei-o e o coloquei sobre o divã aos pés da cama
da Hannah.

— Eu não sei o que se passa pela cabeça desses


caras. — Ela mexeu no cabelo preto e muito liso, jogando-o
para trás.

— Nem eu! — Joguei as mãos para cima e caí


sentada sobre a cama dela.

— Quer tomar um banho? Eu posso emprestar um


pijama.

— Adoraria.

Ouvi o meu telefone tocar e o puxei da bolsa para


ver quem era. Quando vi o nome da minha irmã no
identificador de chamada, eu soube exatamente sobre qual
assunto ela trataria, mas eu me arrisquei a atender assim
mesmo.

— Oi, Amanda!

— Onde você está? Todos aqui em casa estão


preocupados. Nos deixou desesperados ao sair daquele
jeito.

— Estou bem e na casa da Hannah. Vou passar a


noite aqui.

— Você não deveria ter saído de casa daquele jeito.

— Dispenso jantares com o Raphael.

— A mamãe só estava tentando agradar. Não


imaginávamos que fosse agir daquele jeito.

— Da próxima vez, me perguntem antes.

— Você o amava.

— Falou certo. Eu amava, não amo mais.

— Irmã...

— Amanda, faça um favor para mim. Diga para o


Raphael não parecer mais, porque eu não quero falar com
ele. — Fui firme e incisiva.

— Tudo bem. — Ela acabou acatando. — Mas você


está bem, né?

— Estou.
— Boa noite. Nos vemos amanhã então.

— Sim.

Desliguei o telefone e Hannah estava parada na


minha frente com um pijama dobrado e uma toalha limpa.
Fui até o banheiro social no hall e tomei um banho rápido.
Quando voltei para o quarto, ela estava segurando um pote
de doce e me entregou uma colher.

— Aceita?

— Claro!

Sentamos uma ao lado da outra na cama e apoiei a


cabeça no seu ombro.

— Você só o dispensou porque está com raiva ou


realmente não sente mais nada por ele?

— Sinto raiva, serve?

Hanna fez uma careta e riu logo em seguida.

— Acho que serve sim.

— Quando ele terminou comigo, eu fiquei muito mal.


— Lembro disso. — Ela enfiou a colher no pote e
comeu uma bela porção do doce.

— Eu sofri pra caramba. Achava que nunca fosse


encontrar outro cara que amasse tanto quanto o amei.

— E achou?

— Não... não sei. Estou bem comigo mesma.

— Isso tem alguma coisa a ver com o seu chefe?

— Com o Josh? — Desviei o olhar para que a minha


expressão não me entregasse. — De jeito nenhum.

— Não é o que parece.

— Por que está dizendo isso? — Afunilei os meus


olhos e a encarei de maneira arredia.

— Você fala nele o tempo todo e estava chateada


pelo cara ter dito que você era a melhor amiga dele.

— Eu não fiquei chateada. Foi você quem disse que


se ele me considera amiga é porque não sou interessante
o suficiente para que queira transar comigo.
— Você quer transar com ele?

— Viu, está torcendo a conversa de novo. — Cruzei


os braços e fechei a expressão. — Eu gosto do Josh me
considerar sua melhor amiga e, apesar de ser grosseiro às
vezes, sei que é a pessoa mais sincera com quem convivo.
Acredito que jamais faria comigo o que o Raphael fez.

— Eu transaria com ele. — Hannah deu uma


risadinha e vi que ela estava mexendo no celular, olhando
fotos do Josh na internet. — Caramba, você já o viu sem
camisa? — Quase esfregou a tela do aparelho no meu
rosto para que eu visse uma foto.

— Você prestou atenção em alguma coisa do que eu


disse? — Empurrei a mão dela para que tirasse o telefone
do meu rosto. Eu não tinha ido até ali para ficarmos
babando juntas em fotos do meu chefe seminu que
rodavam na internet de algum dos muitos ensaios
publicitários que ele havia feito quando estava no auge da
carreira.

— Ele é sincero até demais, sexy, irmão do


presidente e te considera a melhor amiga dele. Já saquei o
porquê o Raphael não tem chances de voltar para sua vida.
Ele deu mole e deixou você se apaixonar por outro cara.

— Não é isso.

— Por que não?

— Não é como se eu fosse namorar o meu chefe.

— Ele não gosta de mulher?

— Ei! — Empurrei o ombro dela.

— Então qual o problema? Segundo a Wikipédia ele


é solteiro e vai fazer trinta e quatro.

— Gosto dele, gosto do meu emprego e das coisas


do jeito que estão. Não quero perder o que eu tenho só
para descobrir como poderia ter sido.

— Mas se você estiver perdendo a oportunidade de


algo bom?

— Eu prefiro o seguro.

— Mas o seguro pode não ser o que a fará feliz.


Assim como na dança, às vezes, precisamos dar saltos
muito altos sem a certeza de onde vamos cair, apenas para
tornar a nossa apresentação mais bonita.

— Está filosofando agora?

— Só tentando colocá-la para cima para depois não


ficar dizendo que eu sou uma péssima amiga. É você quem
vai decidir se vão continuar como amigos ou tentar algo a
mais.

— É que, às vezes, ele parece tão transparente,


mas, ao mesmo tempo, não faço ideia do que está
passando na cabeça dele.

— Nisso o seu chefe não tem nada de especial.


Todos os caras agem exatamente desse jeito.

— Ainda não sei o que fazer.

— Aí é você quem vai ter que decidir.

Balancei a cabeça em afirmativa e tombei o corpo


para trás, caindo deitada sobre o colchão macio da
Hannah. Independentemente do que eu resolvesse fazer a
respeito do Josh, eu não queria o Raphael de volta na
minha vida. Já havia me acostumado a viver sem ele e já
não me sentia mais segura para reatarmos. O que o
impediria de terminar comigo, como havia feito antes, na
primeira oportunidade que aparecesse?
Nove

Depois de ter passado a noite na casa da Hannah,


fui direto para o meu trabalho, pois não teria tempo de
passar em casa, e nem sei se queria, depois do que havia
acontecido na noite anterior. Nem podia culpar os meus
pais por gostarem do meu ex-namorado. Raphael tinha
sido um cara legal que eles viram crescer, mas quatro anos
haviam se passado e eu nem sabia se poderia confiar mais
nele.

Quanto ao meu real interesse no Josh, isso era


outra história. Para ele, eu era a sua melhor amiga e não
queria perder essa relação, além de ser completamente
impensável virar para o meu chefe e dizer que eu gostaria
de ter qualquer tipo de relacionamento romântico com ele.

— Aline? — Surpreendi-me com ele abrindo a porta


da sala e chamando por mim.

— Oi! — Sorri amarelo ao pular de susto na cadeira.


— Bom dia.
— Bom dia. — Ele afunilou os olhos e me observou
com atenção. — Está com a mesma roupa de ontem.

— Ah, sim! Me desculpa, mas eu lavei e sequei.

— Precisa de roupas novas? Eu posso pedir para


que a senhora Keller compre para você, como ela faz com
as minhas.

— Não precisa, obrigada. Eu só dormi na casa de


uma amiga e não tive tempo de passar em casa. — Girei
na minha cadeira e virei-me para observá-lo melhor. Sorri
ao perceber que ele estava usando uma gravata laranja por
debaixo do blazer cinza. Era um detalhe alegre em meio ao
seu corriqueiro estilo monocromático. — Gostei da gravata.

— Eu pedi ao Ethan.

— Ficou legal. — Fiquei estranhamente contente ao


perceber que havia dado atenção a um comentário meu.

— Que bom que gostou.

— Sim, eu gostei.
Na verdade, gostei muito. Ele certamente não teria
feito aquilo se não se importasse com a minha opinião.
Hannah estava errada, ele me considerava como amiga, e
não tinha dito isso apenas para me cortar como uma de
suas possíveis conquistas amorosas.

— É bom saber que eu sou sua amiga.

— Gosto de tê-la como amiga, Aline.

— Obrigada. — Sorri para ele.

— Qual a minha agenda para hoje?

— Só um minuto. — Precisei de alguns segundos


para me estabilizar daquela troca de olhares antes de abrir
a tela do meu computador e consultar a agenda eletrônica.
Josh sempre trocava de um assunto para o outro como se
todos fossem completamente triviais, mas não era algo fácil
de se acostumar. — Daqui a pouco, irão trazer a campanha
de marketing do espetáculo da Alice no País das
Maravilhas para que você aprove. Está marcada para às
dez com a equipe. Conseguiu olhar aquelas planilhas
financeiras que eu entreguei para você?
— Sim, já estão na sua mesa. — Ele apontou para
um envelope pardo sobre a minha mesa, que ainda nem
havia notado.

— Ah, desculpa.

— Algo mais?

— Não, senhor.

— Okay!

Josh estava prestes a voltar para dentro da sua sala


quando Britney River, a primeira bailarina da companhia, a
mulher com quem ele havia dançado no dia anterior,
apareceu no início do corredor.

— Senhor?

— Sim.

— Como não tenho apresentação hoje, queria saber


se podemos ir naquele jantar mais tarde?

— Podemos.

— O senhor pode me pegar em casa?


— Posso.

— Ah, ótimo! — Britney abriu um sorriso do tamanho


do mundo e eu precisei me conter para não murchar na
mesma proporção. — Vejo você mais tarde. — Ela piscou
para ele e só faltou sair saltitando como uma gazela
corredor afora.

Fiquei olhando para aquela cena sem compreender


o que havia acontecido, mas algo revirou dentro de mim.
Ciúme?

— Vai sair com ela? — Eu não deveria fazer esse


tipo de pergunta ao meu chefe, não era da minha conta. No
entanto, como ele me considerava a sua melhor amiga,
talvez achasse que eu tinha o direito de saber.

— Vou.

— Faz tempo que estão saindo juntos? — Deveria


ter parado as minhas perguntas na primeira, mas não
consegui.

— Não. É a primeira vez. A senhorita River me pediu


para passar um pouco mais do meu conhecimento para
ela.

— Quer dizer que ela chamou você para sair?

— Sim. Algum problema? Você está com uma cara


estranha.

— Não. — Balancei a cabeça em negativa. —


Nenhum problema. Desejo um bom jantar para vocês.

— Obrigado. — Ele assentiu e voltou para dentro da


sua sala.

Fiquei imaginando a cara que fiz quando soube que


o Josh iria sair com a Britney. Felizmente, apesar de ter
percebido, ele não era o tipo de cara que fazia muitas
perguntas. Se eu havia dito que não era nada, ele
simplesmente acatava. Não seria fácil explicar para ele que
estava sentindo ciúme ao pensar nele saindo para jantar
com outra mulher. Bom, ele era solteiro e não havia nada
que proibisse, mas não deixava de ser desconfortável,
porque queria que ele estivesse saindo comigo, e não com
ela.
Talvez deveríamos permanecer apenas assim,
amigos. Era seguro e confortável. Eu gostava disso, assim
como o emprego que tinha.
Dez

Saí da companhia logo depois do fim do expediente


da Aline. Fui para o meu apartamento tomar um banho e
organizar algumas coisas antes de ir até o endereço da
senhorita River. Ainda me recordava da expressão que a
Aline fez quando soube que a bailarina havia me convidado
para sair. Perguntei o motivo, ela não disse. Não insisti. Era
parte da minha personalidade sempre acatar o não ou o
sim das pessoas. Eu sempre ia direto ao ponto, sem
rodeios, e esperava que as outras pessoas agissem da
mesma forma.

Fiz a barba, tomei banho e coloquei um terno bem


passado. Havia mandado uma mensagem para a senhora
Keller dizendo que não jantaria em casa e ela não deixou
minha refeição preparada como de costume.

Depois de pronto, chequei as horas no meu relógio e


desci para a garagem do prédio. Entrei no carro e coloquei
o endereço da bailarina no GPS, uma vez que tinha o visto
em sua ficha, mas nunca fora até a casa da moça. Eu
morava no SoHo, um dos bairros de luxo de Manhattan e a
bailarina morava no Upper East Side, a leste do Central
Park.

Eu a levaria para um dos restaurantes que eu


gostava, um mais tranquilo e sem o número exorbitante de
turistas que se acumulavam no raio de alguns quilômetros
ao redor da Times Square.

Parei o carro no horário combinado, mas não desci


do veículo. Iria esperar alguns minutos para que ela
aparecesse antes ligar informando que eu havia chegado.
Poucos instantes depois ela abriu a porta. O cabelo loiro
estava solto, diferente da forma como eu a via na
companhia. Além disso, Britney estava usando um vestido
preto provocante, cujo decote ia até o seu umbigo,
deixando evidente o vale entre seus seios e a curva entre
eles. Achei estanho ela estar tão exposta em pleno inverno.

— Você chegou na hora. — Sorriu ao abrir a porta


do meu carro.

— Eu gosto de rotina, por isso tendo a ser pontual.

— Que ótimo.
— Vamos? — Fiz um gesto para que ela fechasse a
porta.

— Sim. — Ela se acomodou no banco e colocou o


cinto antes que eu desse partida e dirigisse para o
restaurante.

Chegamos e, na entrada, eu fui o primeiro a descer,


dei a volta no carro e abri a porta para ela antes de
entregar a chave para o manobrista.

— Nunca tinha vindo nesse restaurante.

— Ele é calmo. Gosto de lugares tranquilos.

— Percebi que você é bem reservado mesmo.

— Sim.

Seguimos lado a lado até a entrada do restaurante.


Assim que o homem no púlpito me viu, ele se aproximou de
mim com um largo sorriso.

— Senhor Mazzi, é um enorme prazer recebê-lo em


nosso restaurante. Imagino que esteja muito contente com
a vitória do seu irmão.
— O meu irmão ter se tornado presidente não muda
em nada a minha vida.

— Imagino que não, mas ainda assim é um grande


feito.

— Maxwell sempre conseguiu o que quis. Não é


nenhuma surpresa.

— Bom... — Percebi que o maitrê ficou


desconcertado. — De qualquer forma, meus parabéns.

— Obrigado.

— Sigam-me até a mesa, favor. — Fez um gesto


apontando para a frente.

Ele puxou a cadeira para a minha acompanhante e


eu me sentei na da frente. Depois nos entregou o cardápio.

— É verdade, nossa!

— O quê? — questionei, diante da exclamação dela.

— Você é irmão do presidente.


— Um dos meus irmãos é piloto e meu pai é dono
de uma companhia aérea. Minha irmã mais nova trabalha
com ele.

— Ah, sim, mas a presidência, uau! Como você se


sente?

— Deveria me sentir diferente?

— Não é qualquer um que pode ligar ou se


encontrar com o presidente do país quando bem entender.

— Maxwell é um homem muito ocupado.

— Eu imagino que sim, mas não deixa de ser


incrível. Quem sabe você não possa me levar até a Casa
Branca um dia.

— Por que eu a levaria lá?

Britney engoliu em seco.

— Eu iria gostar de conhecer.

— É só uma casa grande cheia de políticos.


— Parece que você não compartilha dos mesmos
gostos por política que o seu irmão.

— Temos pouco em comum.

— Dá para ver.

Um garçom se aproximou de nós e eu fiz o meu


pedido, entregando a ele os cardápios.

— Eu a observei na última apresentação e assisti


alguns vídeos com suas exibições e tenho algumas coisas
para pontuar, principalmente na forma como você executa
alguns movimentos, e que poderá torná-los mais fluidos e
bonitos. Por exemplo, durante o arabesque, você pode
buscar uma estabilidade melhor junto ao seu centro de
gravidade. Em alguns momentos você pendulava um
pouco e deu uma impressão sutil que poderia cair. Um
acidente é horrível e espero que você não passe por isso, e
espero que seja uma bailaria melhor.

— Está dizendo que não me acha uma bailarina


boa?
— Só que pode ser uma melhor. Você pediu a minha
opinião, e eu estou dando.

— Sim.

Era estranho quando as pessoas me perguntavam


sobre alguma coisa e reagiam mal a minha resposta. Estão
por que tinham perguntado?

Durante o jantar eu falei e ela ouviu, o que não era


muito comum, mas havia despendido o meu tempo e ido
até ali para conversar com ela sobre a sua performance.
Em alguns momentos, Britney fez expressões de
desconforto, perguntei se ela queria que eu continuasse e
ela disse que sim, então continuei.

Depois da sobremesa e de eu ter pontuado tudo que


julguei necessário, eu me levantei.

— Acho que está na hora de irmos.

— Tem razão. A conversa estava ótima, mas está


tarde.

Eu paguei pelo nosso jantar e guiei a senhorita de


volta ao meu carro. Seguimos o caminho em silêncio até
que parei com o veículo na frente da sua casa. Esperei que
ela se despedisse de mim e saísse, mas não foi o que
aconteceu.

— O que foi, senhorita River?

Ela olhou para mim e ficou me encarando com seus


olhos azuis por longos minutos até que finalmente me disse
algo.

— Não vai me beijar?

— Por que eu a beijaria?

Ela engoliu em seco e abriu a boca, mas levou um


tempo para que pronunciasse algum som.

— Bom, nós saímos juntos, achei que estivesse


interessado em mim.

— Saímos juntos para falar da sua performance


como bailarina. Em nenhum momento eu disse que tenho
interesse amoroso em você.

— Como você aceitou, eu achei que me quisesse.


Não achei possível que você me pagaria um jantar como
aquele para apenas falar de balé.

— Se eu tivesse algum interesse em você, teria


falado.

— Ou não gostou de ter saído comigo e só está


agindo como um grosso mesmo.

— Eu não uso meias palavras ou subterfúgios. Sou


péssimo para perceber sarcasmo e piadas. Então quando
digo uma coisa é exatamente o que eu quero dizer.

Ela cerrou os lábios e soltou o cinto, me olhou


furiosa antes de bater à porta do carro e sair pisando duro.

Britney não foi a única que ficou irritada. Eu odiava


quando as pessoas esperavam que eu adivinhasse o que
estava se passando pela cabeça delas. Por que não
podiam simplesmente dizer?

Liguei o meu carro e manobrei de volta para o meu


apartamento. Esperava que ao menos ela houvesse
considerado as minhas pontuações a respeito da sua
performance como bailarina.
Onze

— Eu não acredito que ele aceitou sair com ela. —


Rolei na cama.

Tinha passado o dia inteiro remoendo o fato de o


Josh ter aceitado sair com a primeira bailarina da
companhia e isso só aumentou ainda mais o meu ciúme.
No entanto, o que eu poderia dizer? Ela era bonita e ambos
estavam solteiros. Depois da forma como haviam dançado
juntos no ensaio, até a mais boba iria torcer para ter uma
chance com ele.

— Quem aceitou sair com quem? — Estranhei a voz


do outro lado da linha e tomei um susto ao perceber que
não era a minha amiga Hannah.

Tirei o telefone do ouvi e vi o número. Era uma das


assistentes do Ethan, o estilista e amigo do meu chefe.
Devo ter esbarrado no contato errado e acabei provocando
aquela confusão ao ligar.

— Joan, mil desculpas, liguei para a pessoa errada.


— Tudo bem, eu precisava de uma desculpa para
parar de encarar esses croquis. Meus olhos já estão
doendo.

— Imagino que o Ethan seja muito exigente.

— Ele tem as suas particularidades, mas não como


o seu chefe. Nem sei como você consegue aturá-lo.

— Josh tem um bom coração, para quem consegue


entendê-lo.

— Se você está falando, eu acredito. — Ela riu. —


Mas me fala, quem aceitou sair com quem? Fiquei curiosa.

— Não sei se deveria contar isso para você.

— Eu sou ótima em guardar segredos, juro.

— É algo delicado.

— Imagino que seja só um encontro. A não ser que


você goste do cara. Gosta?

— Gosto. — Suspirei. — Acho que eu não deveria,


mas gosto.
— Se ele aceitou sair com alguém imagino que não
seja casado.

— Ele não é.

— Então qual o problema? A não ser que...

— O Ethan não pode saber disso, por favor —


apressei-me em dizer antes que ela terminasse a sua
conclusão.

Pelo visto todo mundo era capaz de perceber que eu


estava a fim do meu chefe. Com exceção dele mesmo.

— Relaxa, eu não vou contar.

— Obrigada.

— Eu entendo você. É complicado.

— Nem me fala. — Inspirei profundamente. — Você


e o Ethan...?

— Não temos nada. — Ela se apressou em dizer,


mas só me deu a entender que ela queria que tivessem.

— Achava que ele era gay. — Ri.


— Não, ele não é. Só tem uma visão um pouco mais
sensível de tudo.

— Acho que você deve ser boa para entendê-lo.

— Assim como você ao Josh.

— Sim. Me desculpa por ter ligado sem querer,


Joan. Não queria atrapalhar você.

— De forma alguma. Obrigada por ter ligado e


tomara que ele tenha tido um péssimo encontro.

Eu gargalhei.

— Muito obrigada. Tenha uma boa noite, Joan.

— Você também.

Desliguei a chamada e puxei o travesseiro para cima


do meu rosto. Só para piorar a minha situação, eu havia
ligado para a pessoa errada. Torcia para que Joan
realmente não contasse para o seu chefe sobre o interesse
que eu havia expressado no meu.

Ouvi o som de uma pedra na minha janela e me


levantei para ver quem era, ainda que soubesse muito
bem, pois ele era o único que costumava jogar pedras na
minha janela. Levantei o vidro e coloquei a cabeça para
fora, e por pouco não fui acertada por uma delas.

— O que você quer? — rosnei com uma expressão


de poucos amigos. — Já não fui clara o suficiente?

— Desce aqui! — Ele fez um gesto me chamando


para baixo.

— Não!

— Quero te mostrar uma coisa, Line. Prometo que


não vou falar sobre a gente.

— Qual é a parte do eu não quero vê-lo, você ainda


não entendeu?

— Você vai curtir. Se não, eu prometo que


desapareço.

— Tem certeza de que não é uma armadilha?

— Pode apostar que não.

— Eu vou descer.
— Obrigado!

Eu não deveria ir. Nem queria olhar na cara do


Raphael depois do que aconteceu. Ainda assim, peguei um
xale e o joguei ao redor dos ombros antes de tomar o
caminho para a rua. Todos em casa já estavam dormindo,
inclusive meu pai sentado na frente da televisão, e passei
sem ser questionada. Quando abri a porta da frente, eu o vi
parado com os braços cruzados e uma pose que eu
costumava achar muito sexy.

Ver o Raphael daquele jeito costumava me provocar


borboletas no estômago, mas muita coisa havia mudado,
inclusive o meu interesse por ele. Não era mais a
adolescente perdidamente apaixonada que aceitou o
pedido de namoro, ou a mulher despedaçada que ele
abandonou. Era alguém diferente, que não dependia mais
do seu sorriso para ser feliz.

— Estou ouvindo. — Cruzei os braços.

— Vamos sentar no banco ali do outro lado da rua?

— Não.
— Você costumava ser mais gentil.

— Aprendi muita coisa nesses últimos quatro anos,


e imagino que você também.

— Sei que está chateada comigo e que eu fiz por


merecer.

— Que bom.

— Eu me arrependo.

— Não faz mais diferença para mim. Se isso é tudo,


eu vou voltar para dentro e ir dormir, porque preciso
trabalhar amanhã cedo.

— Aline, escuta! — Ele tirou um papel amassado do


bolso e o entregou para mim.

— O que é isso?

— Só pega.

Dei alguns passos para frente e o puxei da mão


dele. Estava dobrado em quatro partes e amassado, mas
podia ler claramente. Era um concurso de dança que
aconteceria no Brooklyn em um mês.
— Por que está me dando isso?

— O prêmio é uma mixaria, mas é a oportunidade


de você voltar a dançar, de voltarmos a dançar juntos.
Pode não admitir, mas eu sei que sente falta da adrenalina.
Vai ser legal, Line!

— Eu não quero! Além disso, tenho certeza de que a


minha mãe odiaria você por me entregar isso. Não faz ideia
de quanto ela se orgulha do meu trabalho burocrático. —
Estendi o folheto para que ele pegasse de volta, mas
Raphael não o fez.

— Não tem que responder agora. Pensa. Vou deixar


você dormir. — Ele botou as mãos dentro dos bolsos e saiu
andando.

Fiquei parada no início da escada encarando o


horizonte para não olhar o papel nas minhas mãos.
Raphael tinha razão em algo e, por mais que eu odiasse
admitir, sentia falta da adrenalina, de deixar que o meu
corpo se movesse no ritmo da música.
Doze

Cheguei na companhia mais cedo do que o comum


naquela manhã. Acordei antes dos despertadores, e, por
não conseguir mais dormir, acabei fazendo toda a minha
rotina antes que o último deles tocasse.

Fiquei incomodado com o meu jantar da noite


anterior, principalmente pelo fato de que nunca entendia o
que as mulheres queriam exatamente. Era difícil para elas
serem mais diretas, assim como era para mim lidar com
metáforas e insinuações? Parecia que sim.

Eu estava caminhando por um dos corredores


quando ouvi a música vindo de uma das salas do fundo.
Uma pouco usada, pois geralmente era utilizada para
substituir as outras no caso de uma reforma ou em um
evento especial.

Abri a porta e fiquei surpreso com o que vi. Era a


Aline. Ela não estava usando a típica roupa social alegre,
mas sim uma calça legging preta apertada e um top. Nunca
tinha reparado tanto na bunda dela e no quanto suas coxas
eram torneadas até aquele momento. Contudo, não foi o
seu corpo que mais chamou a minha atenção, mas o fato
de estar dançando. Não uma música clássica como as que
comumente eram apresentadas no palco, mas uma música
pop, daquelas que eu ouvia em apresentações de dança
contemporânea e de rua.

Ela se movia rápido, com movimentos precisos que


eram equilibrados por outros mais lentos e sensuais. Suas
mãos passeavam pelo ar enquanto seu quadril remexia e
suas pernas faziam movimentos e giros perfeitos. A forma
como ela dançava e as expressões no seu rosto eram
muito mais sensuais que das bailarinas da companhia e eu
não conseguia parar de olhar, como se estivesse
completamente hipnotizado pelo seu ritmo.

Ela girou na minha direção com o cabelo no rosto e


levou a mão, puxando-o de maneira sensual e
cronometrada com a música. Quando Aline se abaixou
para levantar novamente, foi quando me viu parado na
porta, observando-a.
Seus olhos, negros como a mais profunda das
noites, ficaram arregalados e ela congelou. Como se o
tempo tivesse parado, a música continuou tocando, mas
ela não fez qualquer outro movimento. O sangue fugiu do
seu rosto e percebi que ficou pálida.

— Aline? — Dei um passo na direção dela,


preocupado.

— Jo-Josh... — gaguejou o meu nome. — Eu não


sabia que você tinha chegado. Desculpa por usar essa
sala. O expediente ainda não começou e quase ninguém
vem até aqui.

— Você é boa.

— Do que está falando? — Balançou a cabeça,


confusa.

— Dançando, é muito boa.

— Você é um fofo, está falando isso só para me


agradar.

— Eu nunca falo só para agradar. Sabe disso.


— Obrigada. — Esfregou o rosto quando ele ficou
vermelho como nunca.

— Nunca me falou que dançava.

— Não faço mais há muito tempo.

— Deveria dançar mais.

— Obrigada.

A música no rádio mudou e eu me aproximei o


suficiente para colocar as mãos na sua cintura.

— Josh... — Ela levantou a cabeça e me olhou nos


olhos.

— Dança — sussurrei ao fazê-la rodopiar.

Nós paramos um ao lado do outro e eu passei a


mão na frente do seu corpo, até segurar o centro das suas
costas. Aline abraçou os meus ombros e girou a cabeça
para que meus olhos ficassem fixos nos seus. Nós
giramos, movendo nossos pés em sincronia. Ela levantou a
perna em um movimento rápido e gracioso, e deu alguns
passos para trás que eu acompanhei no mesmo ritmo.
Eu a virei, quando nos aproximamos dos espelhos, e
a coloquei de costas para mim. Seu corpo se grudou ao
meu e eu senti o aroma de amêndoas que tinha o seu
cabelo castanho alisado. Joguei as minhas mãos para
frente e ela as cobriu com as suas. Movi-as para trás até
segurar a lateral do seu corpo, na altura dos seus seios.
Minhas mãos escorregaram pelo contorno até a sua cintura
e Aline as empurrou para trás antes que alcançassem a
sua bunda.

Segurei seu pulso e o ergui, fazendo com que ela


rodopiasse algumas vezes enquanto meus olhos não
fugiam aos seus. A fiz parar ao meu lado novamente e a
puxei comigo. Aline laçou o meu pescoço e tombamos para
o lado, enquanto eu nos equilibrava com a outra perna.
Depois eu a coloquei de pé novamente e me afastei, mas
ainda segurava a sua mão. Demos alguns passos em
sincronia até que eu a puxei para mim e Aline veio girando
até parar junto ao meu peito. Eu a abracei, envolvendo
suas costas e ela tombou a cabeça para trás, expondo o
pescoço. O cheiro que ela tinha era bom e me embriagava.
Quando ela levantou a cabeça e voltamos a nos
escarar, percebi que não conseguia fugir da forma como
me fitava. Desci uma das mãos até a sua coxa, lentamente,
até puxá-la e a colocar ao redor da minha cintura. Aline
pressionou os dedos com firmeza nos meus ombros e
nossos rostos estavam tão próximos que eu podia sentir a
sua respiração.

Antes que voltássemos a nos afastar pela


coreografia da música, Aline esticou a cabeça e os seus
lábios tocaram os meus. Mantive a mão na sua coxa, mas
a outra subiu pelas suas costas e agarrou seu cabelo,
embrenhando-se nos fios. Nossos corpos pararam de se
mover, mas a dança continuou na boca quando nossas
línguas se encontraram. O calor do seu corpo no meu e o
contato dos nossos lábios fez com que a minha ereção
acontecesse instantaneamente. Eu a apertei mais contra
mim e o beijo ficou mais intenso. Aline subiu com as mãos
pela minha nuca e enterrou os dedos no meu cabelo, ao
mover a cabeça para encontrar um encaixe melhor com a
minha boca.
Não contive o meu impulso de movê-la para trás e
pressionei-a contra a parede de espelhos. Aline gemeu
contra os meus lábios, mas não parou de me beijar, nem
quando escorreguei a mão pela sua coxa e apertei a sua
nádega. Ela se esfregou em mim e o meu corpo ficou mais
quente, porém nosso fôlego foi desaparecendo em meio ao
beijo e logo fomos forçados a pará-lo para respirar.

— Josh, desculpa. — Ela abaixou a cabeça, como


se não fosse mais capaz de me fitar.

Antes que eu pudesse perguntar o porquê, ela


esgueirou-se do meu agarre e saiu correndo, passou pela
porta e a bateu, fazendo com que o som ecoasse por toda
a sala e me deixasse ainda mais confuso.

Primeiro ela me beijava, dava todos os sinais de que


estava interessada em mim, depois saia correndo como se
houvéssemos feito algo de errado. Por que era tão difícil
entender as mulheres?
Treze

Fui para a escada de incêndio que margeava o


prédio o mais rápido possível. Meu coração ainda estava
acelerado e a adrenalina me deu a impressão de que eu
me movia mais rápido do que fazia de fato. Botei as mãos
cruzadas sobre o peito, na esperança que pudesse conter
o movimento descoordenado.

Onde eu estava com a cabeça? Beijar o meu chefe


daquele jeito!

Para começar, eu nem tinha que estar dançando em


uma das salas da companhia. Eu poderia ser vista por ele
ou por qualquer outro. Contudo, o que eu não podia
esperar era que ele fosse dançar comigo e deixar o meu
corpo quente daquela forma. Já morria de tesão por ele
sem ter a sua pele esfregando na minha, o seu olhar no
meu e a respiração tão próxima.

O pior é que eu não sabia o que fazer. Josh não era


o tipo de cara que fingia coisas e não iria fingir que nada
havia acontecido. Ele certamente havia correspondido ao
meu beijo, mas eu não conseguia ter certeza do que isso
significava. Meu chefe só tinha se deixado levar pelo clima
ou também sentia algo por mim?

Esfreguei as mãos uma na outra, mas o suor frio


fazia com que escorregassem. Não me lembrava de ter me
sentido tão aflita assim em nenhum outro momento da
minha vida.

O que eu ia fazer?

Ouvi o som de uma janela sendo aberta e Josh


passou por ela, parando na minha frente no início da
escada. Fiquei ainda mais aflita ao notar que ele havia me
encontrado.

— Por que está se escondendo aqui? — A voz dele


era firme, mas, ao invés da repreensão que eu estava
prevendo, havia um ar de confusão.

— Não consigo olhar para você. — Cobri minha face


com as mãos.

— Tem alguma coisa engraçada no meu rosto?


— Não, claro que não.

— Não entendi.

— Mil desculpas pelo o que eu fiz. — Minha voz


soou baixa, mas foi o suficiente para que ele me ouvisse.

— Se não queria, por que me beijou?

— Eu... eu queria — confessei, me arrependendo no


segundo seguinte.

— Então para que se desculpar?

— Não poderia ter o beijado. Certamente você não


queria.

— Acho que cabe a mim decidir o que eu quero ou


não. Posso garantir que raramente faço algo que não
quero.

— Queria me beijar?

— Sim.

— Você é o meu chefe.

— Sou.
— Não deveria beijá-lo.

— Aline, não compreendo aonde você pretende


chegar. Se não queria me beijar, por que me beijou? Não
acha certo, mas beijou assim mesmo. Estou confuso.

— Desculpa. — Balancei a cabeça em negativa.

— Posso me sentar? — Ele apontou para o espaço


vazio ao meu lado no degrau da escada.

Balancei a cabeça em afirmativa e movi um pouco


para o lado, abrindo espaço para que ele pudesse se
acomodar melhor.

— Você é a pessoa que parece melhor me conhecer


dentre todos com que eu convivo, com exceção da minha
própria família, mas, agora, parece que não me entende de
verdade e isso me deixa muito confuso.

— Desculpa, Josh! Eu não queria causar essa


confusão.

— É fácil não me deixar confuso. Seja cem por


cento honesta comigo. Não espere que eu vá adivinhar
alguma coisa ou interpretar suas ações. Para mim tudo é
literal. Se eu ouvir não é um não, é quase impossível para
mim pensar que possa ser alguma outra coisa. Essas
percepções de sutilezas, de gestos, metáforas ou
sarcasmos que são comuns para todas as pessoas, são
completamente complicadas para mim. Sinais conflitantes
me deixam perdido, como você me beijar e depois pedir
desculpas.

— Desculpa.

Ele franziu o cenho e eu comecei a rir.

— É complicado.

— Tudo seria mais simples se as pessoas fossem


mais honestas.

Eu engoli em seco e fiquei ainda mais sem graça.


Josh estava certo, eu não estava sendo honesta com ele.

— Para mim é muito mais difícil, simplesmente, falar


a verdade para todo mundo. Eu me preocupo muito com a
reação das outras pessoas, e o que elas podem pensar de
mim.
— Eu falo a verdade e é o que espero que as outras
pessoas façam comigo.

— Desculpa — falei novamente.

— Pelo que dessa vez?

— Não estar sendo clara com você.

— Então seja. — Josh virou a cabeça na minha


direção e ficou me encarando com seus penetrantes olhos
castanhos.

Queria muito que fosse tão simples para mim quanto


era para ele expressar a verdade. Estava com um nó na
minha garganta que me atrapalhava a respirar e dizer o
que sentia. As palavras estavam na ponta da minha língua,
mas eu simplesmente não conseguia colocá-las para fora.
Sempre carreguei demais o peso da opinião das outras
pessoas nas minhas costas e queria não me importar,
assim como o Josh fazia.

— Aline? — chamou, quando percebeu que eu não


falava nada.
— Eu beijei você porque queria te beijar há muito
tempo. — Finalmente consegui colocar para fora e tive
medo do que iria acontecer logo em seguida, mas o Josh
não fez nada, apenas continuou me encarando, à espera
do que mais eu tinha a dizer. — Estou arrependida por ter
agido por impulso e com medo de você me demitir.

— Por que acha que eu iria demiti-la? Você é a


única que consegue lidar comigo e com o restante da
equipe.

— Você é o meu chefe.

— Não conheço nenhuma lei que impeça que nos


beijemos.

— As pessoas...

— Eu não sou como o restante das pessoas, Aline.


— Ele segurou as minhas mãos ao sorrir para mim, e foi
impossível não sorrir de volta.

— Definitivamente, não. — Ri, ao perceber que era


eu quem estava fazendo tempestade em copo d’água. Com
o Josh era tudo mais simples do que parecia, bastava dizer
a verdade. O que não tornava menos difícil, pois a rejeição
também poderia ser tão sincera quanto os sentimentos que
eu nutria por ele.

— Eu também queria beijar você. — A fala dele tirou


o peso do mundo dos meus ombros e me fez sorrir
involuntariamente. — Adoraria beijar mais vezes. — Josh
correspondeu ao meu sorriso.

Tombei o corpo na sua direção novamente e deixei


que os meus lábios se aproximassem dos seus. Ele tirou
sua mão das minhas e segurou a minha nuca, puxando a
minha cabeça para frente até que as nossas bocas se
unissem. Dessa vez o beijo não começou com toda a
sensualidade da música, mas logo me aqueceu inteira.

Deslizei meus dedos pelo seu cabelo castanho


macio enquanto a mão livre dele segurou a minha cintura,
pressionando o meu corpo com mais força contra o seu.
Nossas línguas se encontraram e eu mergulhei no sabor da
sua boca. Aquele momento foi quase como um sonho, pois
eu acreditava ser impossível que nós dois nos
envolvêssemos daquela forma.
— Temos que ir trabalhar agora — disse Josh,
quando se afastou de mim.

— Sim, nós temos. — Coloquei a mecha do meu


cabelo que havia escapado do coque atrás da minha
orelha.

— Acho melhor você tomar banho primeiro.

— Sim — murmurei, envergonhada diante do jeito


delicado de ele dizer que eu estava suada.

Fazia tanto tempo que eu não dançava que acabei


perdendo o controle, literalmente, de tudo.

— Eu vou para o vestiário das bailarinas. — Saí


meio sem jeito e de uma forma descoordenada, e por
pouco não perdi o equilíbrio ao passar pela janela e voltar
para o corredor do prédio.

Era muita coisa para absorver, principalmente


porque Josh e eu havíamos nos beijado, duas vezes, e
ainda não sabia o que isso significava.

Ao menos a minha atitude impulsiva não tinha


custado o meu emprego e eu poderia lidar com tudo um
passo de cada vez.
Quatorze

Estava sentado na cadeira de um café na Times


Square quando vi o Ethan entrar sorridente no ambiente,
flertando com tudo e com todos. Enquanto eu arrancava
expressões de fúria, ele conseguia, estranhamente, fazer
com que todos rissem. Parecia ter as mesmas habilidades
que o meu irmão mais velho.

— Por que você gosta de vir aqui? É cheio e


barulhento.

— Olha? — Ele fez um gesto com a mão antes de


ajeitar o blazer do terno bordô. — Você não vê?

— Tudo o que eu vejo são pessoas correndo e


gritando, pessoas demais. — Encolhi-me na cadeira.

— Tem pessoas do mundo inteiro com diversos


estilos. É possível sentir a essência do planeta em uma
única rua.

— Algumas fedem.
Ethan riu ao puxar a cadeira e sentar-se diante de
mim.

— Eu sei que a maioria dos novaiorquinos evita a


Times Square, mas eu gosto de vir aqui para me inspirar
quando quero criar modelos diferentes e coleções
inovadoras.

— Aqui me inspira a ter dor de cabeça.

— O que acha de tomarmos um café?

— Não gosto de café.

— É verdade. Um suco, então.

— Pode ser. Por que me chamou aqui?

— Além de ver o meu melhor amigo e saber como


ele está?

Cruzei os braços e continuei encarando-o.

— É só isso.

— Okay! Então posso ir embora. — Comecei a me


levantar, mas Ethan me empurrou pelos ombros de volta a
cadeira antes que eu concluísse o movimento.

— Espera, cara! Nem tudo é tão literal. Não queria


só ver você. Conversar também. Não tem nada que queira
me contar? — Levantou a mão, chamando a atenção de
uma garçonete. — Dois sucos de frutas vermelhas, por
favor — disse quando ela parou ao lado da nossa mesa.

— Sim, senhor. — Assentiu com um movimento de


cabeça e se afastou.

— Aline me beijou.

— Espera. — Ele girou o corpo para me olhar


melhor. — A sua secretária gata?

— Sim.

— Temos um progresso. — Ele riu e tive a


impressão de que bateria palmas, mas, felizmente, não o
fez, porque seria estranho e inadequado para o ambiente
onde estávamos.

— Despois ela saiu correndo.

— O que você fez?


— Fui atrás, mas custei para encontrá-la, pois
estava escondida na escada de incêndio.

— Aposto que o beijo foi péssimo — Ele riu e


percebi pela sua expressão que estava tirando sarro de
mim. Ethan sempre usou sarcasmo para se comunicar com
as pessoas e eu precisava me esforçar, às vezes, para
tentar entender o que ele falava.

— Não foi disso que ela reclamou. Na verdade, ficou


confusa sobre querer e poder me beijar. Por que vocês
complicam tanto?

— Quer dizer as mulheres?

— Você também é complicado de entender. Eu me


esforço, mas fico confuso.

— A Joan que o diga... — Ele sussurrou.

— Ela também te beijou?

— É bem mais complicado do que isso.

— Viu, vocês complicam tudo.


— Como se a sua vida fosse bem mais fácil só
porque é sincero o tempo todo. — Deu de ombros. —
Gosto disso em você, Josh. No entanto, às vezes a gente
precisa aprender a mentir, não dá para ser cem por cento
sincero o tempo todo. Você já tentou?

— Não consigo.

— Então, você e a Aline estão namorando?

Fiquei calado, pois não sabia o que dizer. Depois


dos beijos pela manhã, nós passamos o restante do dia
como se fosse um outro qualquer. Aline não comentou
nada sobre nosso momento e eu também não.

— Não estamos.

— Viu, nem tudo é tão simples, Josh. — Ele deu de


ombros.

— Você parece irritado.

— É porque eu estou, mas não quero estragar seu


dia. Quando será a cerimônia de posse do Max? — Ele se
ajeitou na cadeira quando pegou o copo de suco que a
garçonete trouxe para nós.
— Só em janeiro.

— Então ainda deve vê-lo antes que assuma a Sala


Oval.

— Nos reuniremos no Natal, ou a minha mãe ficará


muito brava. — Levantei uma sobrancelha intrigado
enquanto encarava o meu amigo.

Ethan poderia estar sempre sorrindo e brincando


com todos, nunca fora tão transparente quanto eu.
Contudo, era evidente que havia algo o incomodando.
Imagino que ele tenha escolhido conversar comigo,
justamente, porque sabia que eu não o encheria de
perguntas. Se não queria falar, era um direito dele.

Ficamos mais alguns minutos no café. Ele pagou


pelos sucos e não conversamos sobre nada de relevante.
Quinze

— Está tudo bem, querida?

Pisquei os olhos ao perceber que meus pais me


encaravam profundamente. Acabei focando em um ponto
fixo no relógio na parede atrás deles e deixei que a minha
mente vagasse. Não sei em que momento eu me desprendi
completamente do que acontecia à minha volta e deixei
que os meus pensamentos se distanciassem, e nem por
quanto tempo fiquei inerte.

— Sim, mamãe. — Pisquei os olhos e voltei a fitar o


prato, cuja comida já estava esfriando sem quase ser
mexida.

— Foi tudo bem no trabalho? Está estranha desde


que chegou.

— Maravilhosamente bem. — Finquei o garfo em


uma vagem e a joguei na boca, só para ter uma desculpa
para não continuar falando.

— Fico contente.
— Obrigada.

— Sobre você e o Raphael... voltaram a conversar?


Sei que está chateada, mas ele é um bom rapaz.

— Está do lado de quem? — Elevei o meu tom de


voz e quando percebi, já era tarde demais.

— Do seu, é claro!

— Então para de falar dele.

— Okay! — Abriu um sorriso amarelo e o meu pai


balançou a cabeça em negativa.

— Vou receber amanhã. Depois a senhora pode


fazer uma lista com o que quer que eu traga do mercado?
— mudei de assunto, na esperança de não ter mais que
falar do meu ex-namorado.

— Eu farei.

— Obrigada. — Joguei mais um pouco de comida na


boca e arrematei com umas goladas de suco de laranja. —
A Amanda ainda não chegou?

— Tem plantão no hospital hoje.


— Ah!

— Ela tem trabalhado muito. Não é nada fácil ser


viúva com uma criança pequena para cuidar.

— Ainda bem que a senhora está aqui para ajudar.


— Olhei para o meu sobrinho sentado conosco na mesa.
Ele também parecia completamente alheio ao mundo que
nos cercava.

Minha mãe continuou falando um monte de coisas


as quais não dei a menor importância. Quando terminei de
comer, peguei meu prato, os deles e coloquei tudo na
máquina de lavar louças, antes de subir para o meu quarto.

Quando peguei o meu celular, surpreendi-me com


mensagens da Joan. Será que havia sido a vez dela de
contatar o celular errado?

Joan:

Oi!

Como você está?


Já se livrou da bailarina que estava saindo com
o Josh?

Aline:

Fiz pior.

Joan:

OMG! Matou ela e a jogou em uma lata de lixo


atrás da companhia?

Aline:

Acho que você anda vendo séries de televisão


demais. LOL

Joan:

Assisto, mas prefiro os livros. Apesar de


ultimamente não ter tido tempo para ler. Tem muito
trabalho na ERW. Acabei de voltar para casa.

Aline:

Acho que é você quem está precisando jogar


seu chefe dentro de uma lata de lixo.
Joan:

Faço se você topar fazer com o seu também.

Brincadeira. Rsrsrs

Mas me diz o que de pior você fez? Fiquei


curiosa.

Aline:

Eu beijei o Josh.

Joan:

Nossa! Nem me fale em beijar o chefe...

Aline:

Sério?! Então você é mesmo a fim do Ethan.

Joan:

Não fala isso para ninguém, por favor.

Aline:

Acho que já guardamos segredos o suficiente


uma da outra.
Joan:

Isso é verdade.

Como foi beijá-lo?

Aline:

Bom... mais que bom!

Joan:

Nossa! O que vem agora?

Aline:

Eu não faço ideia. Rsrsrs.

Joan:

Queria que na vida tudo se resolvesse de forma


tão simples quanto nos filmes.

Aline:

Nem me fala.

Joan:
Às vezes, penso que posso ter estragado a
nossa amizade. Não sabia que um abraço poderia ser
tão grandioso, nem que um toque me incendiaria
tanto.

Aline:

Acontece comigo também, mas não queria


voltar ao que tínhamos antes.

Joan:

Meu medo é não ter perspectiva de estar com


Ethan, sendo amiga ou algo mais.

Aline:

Já tentou conversar sobre isso com ele?

Joan:

Acho que não tenho coragem o suficiente para


encarar a realidade depois de tanto tempo vivendo no
mundo platônico.

Aline:
Espero que dê tudo certo por aí.

Joan:

Eu também. Vou deixar você dormir, foi bom


conversar com você.

Aline:

Boa noite, Joan!

Eu estava feliz e ao mesmo tempo muito aflita pelo


que tinha acontecido. Nós dançamos juntos, algo que eu
nunca conseguiria imaginar, pois a música se sentia.

Ao fechar os olhos, ainda era capaz de sentir sua


proximidade, o peso da sua mão e a sensação dele me
guiando no ritmo da música. Estava tão acostumada com a
imagem do Josh associado a dança clássica que nem
cogitava que ele também soubesse dança de rua e tivesse
tamanha desenvoltura com esse ritmo.

Dançar com ele me deixou mais a fim de tê-lo, e foi


simplesmente impossível conter a vontade descomunal de
beijá-lo.
Estava feliz por ter rolado e principalmente por
descobrir que ele também queria me beijar, porém revirava
de angústia na mesma proporção, pois não sabia o que
aconteceria em seguida.

Josh tinha me pedido para ser sincera com ele e


dizer exatamente o que eu queria, mas como fazer isso se
eu mesma não tinha certeza? Depois da forma como o
Raphael havia terminado comigo, era cercada de
inseguranças e achava que todos os caras iriam me deixar,
exatamente como ele havia feito.

Mas o Josh era diferente...


Dezesseis

Não consegui dormir e passei a noite toda olhando


para o teto branco do meu apartamento. A minha insônia
não era apenas pelo fato de ter beijado a Aline, obviamente
era algo que eu queria fazer há um tempo, porém ter
dançado com ela, ainda que por alguns minutos, era o que
estava me deixando inquieto.

Achava que a minha perna fosse doer, assim como


sempre acontecia quando eu tentava passar aos bailarinos
da companhia alguns passos. Apesar da dança de rua e da
clássica terem movimentos muito distintos, quando o
médico havia dito que era melhor que eu não voltasse a
dançar, achei que não pudesse mais tentar nenhum ritmo.

Quando aceitei que não conseguiria dormir, levantei


da cama e atravessei o enorme apartamento até o cômodo
onde ficava uma sala de dança. O local que eu usava para
ensaiar, mas que havia abandonado após o acidente em
que me machuquei no palco.
Eu abri a porta com a sensação de estar sendo
transportado ao meu passado e acendi a luz. A sala não
estava suja e largada as traças, como imaginei que estaria.
A senhora Keller, provavelmente, limpava aquele espaço
como fazia com todos os demais do apartamento, ainda
que eu não o frequentasse mais.

Aproximei-me da barra perto do espelho e encarei a


minha imagem. Meus olhos estavam fundos pela noite mal
dormida, meu cabelo desgrenhado e eu usava uma
camiseta branca larga e uma calça de moletom.

Aproximei-me do som e procurei por alguma música,


mas como a maioria era clássica, tirei da playlist e
sintonizei em uma rádio do Queens, que estava em uma
maratona de cinco horas de música sem interrupção. Era
exatamente o tipo de música que a Aline estava dançando
antes que eu a interrompesse.

Dei alguns passos para trás e senti o chão de


madeira sobre os meus pés descalços.

Eu joguei o meu corpo para um lado e depois para o


outro, me conectando com o ritmo. Levantei os braços e os
movi, lançando-os para baixo e acompanhando o ritmo das
minhas pernas deslizando sobre o chão. Girei, sem fazer o
movimento de ponta, apenas com os pés espalmados no
chão.

Soltei o meu corpo e me desprendi dos medos que


cultivava desde o meu acidente. Criei uma coreografia
naquele momento, enquanto descobria uma nova forma de
me conectar com o que mais me fazia feliz: a dança.

Não sei por quanto tempo fiquei ali. O suor e os


braços dormentes vieram bem antes de que eu me
recordasse de que havia machucado a perna.

Tirei a camisa, que estava grudando ao corpo, a


pendurei na barra e voltei a dançar.

— Josh?

— Mãe? — Cessei os movimentos ao surpreender-


me com ela parada na porta, me observando.

Meu cabelo estava molhado e notei que havia uma


luz entrando pelas janelas que era mais intensa do que a
das lâmpadas. Já era dia e eu nem havia percebido.
— Você estava dançando. — Minha mãe ficou
boquiaberta.

— Sim, mas não balé.

— Como está a sua perna?

— Bem.

— Não está sentindo dor?

— Não. — Balancei a perna, certificando-me de que


estava falando a verdade. — Os movimentos são
diferentes e não me afetam da mesma forma.

— Isso é muito bom, querido. Talvez possamos


conversar com os médicos depois.

— Chega de médicos. — Estava de saco cheio por


ter visitado tantos depois do acidente, que não queria mais
ver nenhum deles. — Só dancei um pouco. Estou bem.

— Dançou tempo o suficiente para se atrasar, e


você quase nunca se atrasa. Deveria estar tomando café
da manhã quando eu cheguei, mas não estava. Quando
não o encontrei no quarto, resolvi vir até aqui.
— Que horas são?

— Quase nove.

— Eu preciso ir trabalhar. — Peguei a minha camisa


suada e passei por ela, seguindo para o meu quarto.

Fechei a porta e tomei um banho. Vesti-me o mais


rápido possível e peguei o meu celular. Havia perdido todos
os alarmes programados. Aquele dia tinha iniciado de
forma atípica e teria que deixar a minha rotina de lado.
Dezessete

Apesar do frio na barriga, estava ansiosa para vê-lo


novamente. Passei a noite inteira tomando coragem e
pensando sobre o que realmente queria com o Josh.

Seja honesta comigo... A voz dele ecoou na minha


mente.

Eu precisava só dizer. Simples! Então por que o meu


coração quase saia pela boca só de pensar em dizer a
frase quero ficar com você?

Cheguei à empresa determinada a me declarar. Por


que não ser amigos e um pouco mais do que isso também?
Contudo, toda a minha certeza foi se esvaindo à medida
que os minutos passavam e ele não chegava. Josh não era
do tipo que se atrasava e algo assim não deveria
acontecer. A não ser que ele estivesse me evitando.

Involuntariamente, comecei a ser tomada por


inseguranças novamente, não era nada fácil controlar isso.
Milhares de coisas estavam passando pela minha
cabeça, inclusive o que poderia ter acontecido com ele, até
que finalmente Josh apareceu no início do corredor. Estava
com o cabelo molhado e o terno um pouco amassado, mas
usava a gravata laranja, o que me fez sorrir, e ele sorriu
para mim de volta quando nossos olhares se encontraram.

— Bom dia, Aline.

— Você se atrasou. — Quis me esbofetear quando


aquela frase saiu da minha boca antes que eu conseguisse
contê-la.

— Desculpa. Perdi a hora.

— Você nunca perde a hora.

— Estava dançando. — Passou a mão pelo cabelo e


o jogou para trás, chamando ainda mais a minha atenção
para os seus olhos.

— Dançando? Mas e a sua perna?

— Está bem. Estava analisando as diferenças entre


a dança de rua e o balé clássico no caminho para cá, e
imagino que os movimentos nas pontas dos pés e os saltos
exijam muito mais do ligamento entre a tíbia e o meu pé,
onde está o parafuso. Ao menos dancei por horas e estou
bem, apenas cansado.

— Ah, Josh! — Levantei-me da minha mesa e joguei


os braços ao redor do pescoço dele. Era mais do que
inapropriado abraçar o meu chefe em um lugar onde
qualquer pessoa poderia passar e nos ver, mas não
consegui pensar duas vezes. — Estou tão feliz por você.

— Adoro o cheiro de amêndoas do seu cabelo. —


Ele fungou o topo da minha cabeça.

Fiquei completamente sem graça, mas não o afastei.


Me permiti ignorar o bom senso, apenas para ter a
sensação dos braços dele ao meu redor. Contudo, não
consegui manter essa bolha por muito tempo e me afastei
dele quando ouvi o som de passos se aproximando no
corredor.

— Não deveríamos estar abraçados assim.

— Você me abraçou.
— Desculpa. — Cobri o rosto com as mãos e Josh
riu. — Eu vou me comportar, senhor Mazzi.

— Somos amigos e você sabe que não precisa me


chamar de senhor.

— Sim. Só estou tentando manter um pouco da


formalidade, já que você ainda é o meu chefe.

— Quero jantar com você em um lugar onde eu não


sou o seu chefe e não precise manter a formalidade.

— Isso é um convite para sair com você?

— Sim. Você quer?

— Quero.

— Busco você às oito. — Ele entrou na sala sem me


dizer mais nada e eu fiquei escorada na mesa, absorta,
enquanto tentava entender o que havia acabado de
acontecer.

Josh me chamou para sair!

Mal tive tempo de me recuperar da surpresa


inesperada quando o meu celular vibrou e tomei um susto
com o nome da mãe dele no visor. Hoje, definitivamente,
era o dia dos Mazzi me surpreenderem.

— Senhora Mazzi.

— Senhorita Lopes, tudo bem?

— Sim. Estou bem. — Sem fôlego, mas ótima,


completei em pensamentos. — E a senhora?

— Também. Eu vim até a cidade para visitar o meu


filho e ver como tudo está por aqui. Gostaria de saber se
não quer almoçar comigo hoje?

— Almoçar? — Ainda estava abobada demais para


processar tudo direito.

— Sim, mas se você estiver muito ocupada,


podemos marcar para outro dia.

— Eu posso almoçar com a senhora, sim. —


Recompus-me e voltei para a minha cadeira.

— Que ótimo. Nos encontramos no restaurante de


sempre?

— Isso.
— Combinado. Vejo você daqui a pouco.

— Até mais, senhora Mazzi.

Eu não deveria estar com as pernas bambas


daquele jeito, e com frio na barriga. Gostava da mãe do
Josh e ela sempre fora muito simpática comigo. Inclusive,
sem a ajuda dela eu não teria sobrevivido a primeira
semana diante da personalidade peculiar do meu chefe,
nem me adaptado ao jeito dele. Contudo, ela me via como
a pessoa que auxiliava o filho na companhia e não como
uma possível nora.

Obviamente não iria falar para ela sobre o que havia


acontecido entre o Josh e eu, e torcia para que ele não
houvesse falado e aguardasse até que a situação ficasse
menos estranha para comentar alguma coisa.

Tentei focar a minha atenção no computador e no


trabalho a ser feito, mas era muito difícil não deixar a
mente passeando. Quando deu o horário do almoço, bati
na porta do escritório de Josh e entrei quando ele
autorizou.
Ele estava tão compenetrado com algo na tela que
demorou para levantar a cabeça e olhar para mim.

— Eu vou sair para almoçar, volto daqui a pouco.

— Okay! — Ele voltou a prestar atenção no que


estava fazendo e eu deixei a sala.

Saí da companhia e caminhei a pé até um


restaurante que ficava a alguns quarteirões, seguindo reto
logo depois da esquina. Era um lugar bem conhecido por
mim, onde eu já havia almoçado com a mãe do Josh várias
vezes ao longo do último ano. Geralmente ela não fazia
perguntas invasivas ou que me deixassem desconfortável.
De modo geral, queria saber como andava o filho e me
dava algumas dicas sobre como me relacionar com ele.
Havia aprendido muito sobre o Josh com sua mãe.

Entrei no restaurante e a localizei sentada na


mesma mesa de sempre, acenando para mim assim que
me viu entrando, com um sorriso amistoso estampado no
rosto. Quando me aproximei, ela se levantou e me deu um
beijo na bochecha.

— Senhorita Lopes.
— Senhora Mazzi, é um enorme prazer revê-la.

— O prazer é meu. Espero que esteja tudo bem com


você.

— Sim, está. — Puxei a cadeira diante dela e me


acomodei. — Imagino que a senhora seja o motivo de o
Josh ter chegado atrasado na companhia hoje.

— Dificilmente consigo interferir na rotina do meu


filho. — Ela riu. — Josh estava dançando quando cheguei
no apartamento dele essa manhã.

— Dançando...

— Sim. E sei que a senhorita tem algo a ver com


isso, porque ele me contou que dançou com você e
percebeu que os movimentos não faziam a perna dele
doer.

— Eu cometi um erro, não deveria estar dançando


na sala reserva antes do início do horário do expediente.
Achei que o Josh não fosse chegar cedo e...

— Aline — a senhora Mazzi se debruçou sobre a


mesa e tocou as minhas mãos enquanto exibia um sorriso
amistoso —, não estou te recriminando. Fazia muito tempo
que eu não via o meu filho tão feliz. Isso foi bom, muito
bom. Se ele realmente estiver certo e não for só
adrenalina, é uma forma do Josh continuar fazendo o que
tanto ama.

— Sim. — Fiquei imensamente feliz quando minha


mente se encheu das lembranças do Josh dançando. —
Josh nasceu para fazer isso.

— Eu sei. Não foi à toa que lutei contra o


preconceito do pai dele e dos irmãos para que pudesse
dançar.

— Fez um ótimo trabalho como mãe.

— Só faço o que eu posso pela felicidade dos meus


filhos.

— Eles estão indo muito longe.

Ela sorriu ao perceber que eu estava me referindo


ao que havia ganhado a presidência.

— Max sempre foi muito ambicioso.


— Ele conseguiu.

— Não apenas a presidência. Acho que o maior feito


do meu filho nessa corrida presidencial foi o casamento.
Penélope faz muito bem para ele. Nem sei descrever o
tamanho do meu amor pela minha netinha.

— Deve ser uma bebezinha adorável.

— Ela é. E me faz pensar em quando os meus


outros filhos também se casarão e terão seus próprios
filhos, meus netos, para que eu possa mimá-los.

— Tem quatro filhos lindos, logo terá muitos netos.

— Ou talvez não tão logo assim. — Fez um gesto


para o garçom, que se aproximou com os cardápios e
escolhemos o nosso almoço. — É provável que o Maxwell
tenha mais filhos em breve, mas o Oliver é como o meu
primogênito, vai precisar de uma mulher que abale as
estruturas dele e tome o seu controle para que ele perceba
que precisa de alguém. Já a Izabel está atolada em
burocracia junto com o pai na companhia aérea e não
namora há muito tempo. E o Josh, bom você o conhece...
Não são todas as mulheres que o compreendem.
— Josh é um bom homem.

— Maravilhoso para quem estiver disposta a


conhecê-lo. Certamente, dentre os três, é o mais honesto,
protetor, cuidadoso, mas com uma sinceridade que beira a
falta de educação. Acredite, dei meu melhor para educá-lo
bem.

Ela fez uma careta e eu não consegui segurar o riso.

— Ele é educado.

— E você, um amor de menina. Sou muito grata por


ele tê-la encontrado. Confesso que não estava sendo nada
fácil manter uma secretária no cargo, mesmo com todos os
meus esforços. A maioria achava que ele era apenas mal-
educado.

— A sinceridade dele tem seus pontos positivos.

— Foi o que eu sempre pensei.

Sorri e a Ana Mazzi afagou a minha mão antes que


o garçom viesse com os nossos pratos.

— Obrigada mais uma vez.


— Eu só estou fazendo o meu trabalho.

— Faz muito mais do que isso e sabe disso. Josh


precisa de pessoas como você perto dele. Apesar de
alguém com Asperger viver bem sozinho e não ter a
mesma necessidade de convívio social que o restante de
nós, ele ainda precisa de amor, carinho e principalmente
compreensão.

— Eu me esforço.

— Faz um ótimo trabalho, senhorita Lopes. E reforço


quanta sorte o meu filho tem de encontrar você.

— Obrigada. — Finquei o garfo no macarrão no meu


prato e fiquei pensando se ela exibiria o mesmo sorriso se
soubesse que iriamos sair mais tarde, em um encontro
amoroso.

Eu tinha uma série de inseguranças, inclusive em


relação a sogras, já que a mãe do Raphael me detestava.

— A senhora vai continuar aqui em Nova York por


muito tempo?

— Vou ficar até o aniversário do Josh, por quê?


— Não, nada em especial.

Deveria falar para ela sobre o encontro ou deixar


que o Josh contasse? Pois, certamente, ela iria saber, mais
cedo ou mais tarde, porém acabei achando melhor não
falar nada. Estávamos em meio a uma conversa agradável
e eu tinha medo de que o clima mudasse se Ana tivesse
conhecimento do meu interesse amoroso no filho dela.

Ficamos ali conversando por mais alguns minutos


depois de almoçarmos, e ela foi muito gentil. Quando
terminamos a sobremesa, ela me acompanhou até a
companhia e assistiu aos ensaios de uma peça que
estavam programados para aquela tarde.

Quando eu voltei para minha mesa e peguei o meu


celular, surpreendi-me com algumas mensagens da minha
amiga.

Hannah:

Sumiu. Está tudo bem?

Aline:
Sim. É que aconteceu algumas coisas nos
últimos dias que me deixaram bastante pilhada.

Hannah:

O quê?

Aline:

Num resumo rápido, Raphael me entregou


um folheto sobre um concurso de dança que vai
ter no Brooklyn. Veio me falar sobre como a
dança era importante para mim e que eu deveria
competir com ele.

Hannah:

E o que você disse?

Aline:

Recusei, é claro! Mas fiquei pensando a


respeito. Difícil não pensar. Acabei chegando
mais cedo na companhia e fui dançar numa sala
que geralmente ninguém usa. Ah, Hannah! Eu
sentia muita falta da dança.
Hannah:

Sempre falei que você podia, mesmo que não


trabalhasse com isso.

Aline:

Isso não é tudo. Josh me viu dançando.


Dançou comigo e eu não consegui me conter,
acabei beijando-o.

Hannah:

Jura?! Finalmente! Não acredito.

Aline:

Depois eu não sabia onde enfiar a minha cara.

Hannah:

Você é uma comédia, Aline. E agora?

Aline:

Vamos sair mais tarde, porém acabei de


almoçar com a mãe dele, mas não contei nada.

Hannah:
Kkkkk Estou rindo alto aqui. Ficou com
vergonha de contar para velha que você está louca
para dar para o filho dela?

Aline:

Ei! Não fala isso.

Hannah:

Não está a fim de transar com o Josh?

Aline:

Vai ser só um jantar.

Hannah:

Que pode muito bem terminar do jeito que você


quiser.

Sei que Raphael foi o último e único cara que


você teve, mas a fila tem que andar. Estamos no
século XXI, amiga. Não tem mais essa de ser de um
homem só para sempre. Ninguém aqui está falando
que você vai se casar com o seu chefe, só curtir o
momento.
Aline:

Eu não sei.

Hannah:

Ele é lindo e solteiro. Se joga!

Aline:

Eu preciso focar aqui agora. Depois conto para


você como foi.

Hannah:

Bom encontro para você.

Hannah tinha razão, depois que o Raphael terminou


comigo, não tentei me envolver com ninguém. Estava
destroçada demais para que sequer quisesse tentar
novamente. No fundo, tinha medo de que tudo acontecesse
de novo e não queria sentir mais uma vez meu coração ser
partido em milhares de pedaços, após eu ter me doado de
verdade para alguém.

Cresci acreditando que o sexo era algo especial,


que deveria ser feito com quem se amava e confiava.
Contudo, como voltar a tentar de novo se o cara ao qual eu
havia me entregue tinha quebrado as minhas expectativas
de um final feliz?

Sabia que o Josh não era como o meu ex-


namorado, no entanto ainda era difícil me livrar de uma
bagagem que carregava há anos.

— Um passo de cada vez, Aline — sussurrei para


mim mesma ao respirar fundo.

Iria deixar que o meu lance com o Josh fluísse


naturalmente, assim como era a dança para nós dois.
Dezoito

Saí do banheiro secando o cabelo em uma toalha


branca e entrei no closet para escolher algo para vestir.
Encontrei um terno azul que o Ethan havia me dado de
presente em alguma ocasião, um aniversário,
provavelmente. Eram peças que eu nunca tinha usado,
mas sairia um pouco do monocromático que a Aline
reclamara.

Coloquei os sapatos sociais e uma gravata num tom


parecido, penteei meu cabelo molhado e deixei o quarto.

Minha mãe estava na cozinha, sentada em um


banco alto, mexendo no celular, mas virou-se para mim
quando apareci no seu campo de visão.

— Eu vou sair.

— Está bonito.

— Obrigado.

— Vai com o Ethan para algum lugar?


— Não.

— Então com quem vai sair? Alguma garota? — Ela


girou na cadeira para me observar melhor.

— Sim, com a Aline.

— Ah, eu a chamei para almoçar comigo hoje. É


uma querida. Vocês vão falar da companhia?

— Não pretendo.

— Então finalmente a convidou para sair?

— Sim.

— Que vocês tenham um ótimo encontro.

— Obrigado.

— Depois quero conversar com você sobre a sua


festa de aniversário. Acho importante comemorarmos...

— Até mais, mãe. — Deixei-a falando e segui para a


garagem do prédio.

Eu não gostava de festas, minha mãe sabia disso,


mas, ainda assim, insistia todos os anos e acabava
fazendo algo surpresa no meu apartamento ou na mansão
Mazzi. Como nunca conseguia vencê-la, isolava-me no
meu canto e deixava que ela e meus irmãos
comemorassem algo que para mim não passava de mais
uma simples passagem de ano.

Liguei o rádio e inseri o endereço da Aline no meu


GPS. Por mais que ela trabalhasse para mim há mais de
um ano, nunca tinha ido até a casa dela. Para ser sincero,
era a primeira vez que eu ia até o Harlem.

Parei o carro na frente do endereço indicado e


esperei. Enquanto isso, fiquei observando a rua a minha
volta. As fachadas das casas eram parecidas e variavam
em ornamentos e cores. Havia um grupo de crianças
brincando na calçada com uma bola e uma senhora,
sentada numa escadaria, observava tudo.

Um grupo de homens que estava andando pela


calçada, caminhou mais devagar para observar o meu
automóvel, mas não chegou perto demais. O vidro era
escuro o suficiente para que não me vissem dentro do
veículo , mas eu os observei dar a volta até que ouvi o som
de uma porta sendo aberta. Virei-me no momento em que a
Aline saia de casa. Ela estava linda em um vestido
vermelho que ressaltava mais a cor da sua pele e seus
cabelos castanhos. Eu não costumava ter um tipo
específico de mulher. Já havia saído com loiras, latinas e
negras, mas achava a Aline a mais bonita de todas.

Abri a porta do carro e deixei que ela entrasse.

— Pontual como sempre.

— Gostei do seu vestido.

— Obrigada! — Ela mexeu no cabelo alinhado e o


colocou sobre o ombro antes de ajeitar o cinto. — Também
gostei do seu terno azul.

— Que bom. Podemos ir?

Ela assentiu e eu dei partida no carro, dirigindo para


fora do Harlem de volta para o pedaço de Manhattan que
eu conhecia melhor.

— Você foi almoçar com a minha mãe hoje?

— Ela falou para você?


— Sim.

— Eu não contei que íamos sair. Fiquei com medo


da reação dela. Eu não sei... — Aline se atrapalhou com as
palavras.

— Minha mãe gosta de você.

— Como sua secretária.

— Não, ela gosta de verdade. Já sabia que eu tinha


vontade de levá-la para sair.

— Hoje?

— Há mais tempo.

— Por que nunca me disse que queria sair comigo?


— Virou a cabeça para me observar melhor, mas mantive a
minha atenção no trânsito.

— Você nunca me perguntou.

Ela cerrou os lábios e voltou a se acomodar no


banco do carona.
— Tinha medo de me insinuar para você e acabar
sendo rejeitada.

— Você é bonita, gentil e minha amiga. Por que eu a


rejeitaria?

— Nem todos tem a mesma segurança que você. —


Ela desviou o olhar para rua e eu continuei dirigindo, sem
saber exatamente o que a Aline esperava que eu dissesse.

Para mim, na maioria das vezes, era muito difícil


compreender os dilemas das outras pessoas, pois eu não
tomava as minhas decisões com medo ou preocupado com
a reação dos outros, apenas fazia o que era lógico.
Pessoas como eu não tinham os mesmos filtros sociais
daqueles que se diziam normais.

Chegamos ao restaurante e eu estacionei o carro,


dei a chave para o manobrista e fiz a volta para abrir a
porta da Aline e ofereci a minha mão para ela.

— Obrigada.

— Por nada.
Entrelacei meus dedos aos dela enquanto
caminhávamos lado a lado até o púlpito na recepção. Ela
olhava tudo em volta muito curiosa, como se nunca
houvesse estado ali.

Nos sentamos numa mesa para dois e um garçom


veio nos entregar os cardápios.
Dezenove

Estávamos em um luxuoso restaurante no SoHo.


Embora trabalhasse para o Josh há bastante tempo, eu
nunca havia estado em um lugar assim. Contudo, apesar
de ser majestoso, ele era calmo, com poucos clientes e
atendimento personalizado. O local exato em que eu
imaginaria que alguém como o Josh viria.

Fizemos nossos pedidos e o garçom trouxe as


bebidas, drinks de fruta não alcoólicos, já que ele não
bebia quando estava dirigindo.

— Aquela senhora fica sempre parada na escada?

Estranhei a pergunta dele, que rompeu o breve


momento de silêncio estabelecido entre nós.

— A senhora Cook?

— Eu não sei o nome dela, mas estava na casa


diante da sua.

— Sim, ela sempre fica ali.


— Está frio.

— Acho que ela já se adaptou. — Ri.

Josh era realmente bem mais observador do que eu


imaginava.

— Eu vi o seu currículo hoje. Não sabia que era


formada em dança.

— Foi em uma faculdade comunitária, não na


Universidade de Nova York, como você.

— Ainda assim eu não sabia.

— Você nunca perguntou — respondi da mesma


forma que ele fazia comigo, e Josh abriu um sorriso sutil.

— Tem razão. Por que não está dançando?

— Cheguei para a audição e você achou que eu era


melhor como secretária.

— Você tinha ido para a audição? — Franziu o


cenho, surpreso com o que eu acabara de revelar.

— Sim.
— Mas estava vestida como uma secretária.

— Meus pais nunca gostaram de eu ter escolhido a


dança. Achavam que eu precisava de um trabalho estável
e mais comum, que me desse mais segurança. Aprovam
que eu seja secretária.

— É o que você gosta de fazer?

Engoli em seco e, por mais desconfortável que


fosse, eu sabia que com o Josh eu podia ser honesta sem
me preocupar com o mesmo julgamento exercido pelas
outras pessoas.

— No início foi difícil, mas eu precisava do trabalho.


Com o tempo, eu me acostumei, consigo ficar perto da
dança e fazer o que os meus pais esperam que eu faça.

— Eu entendo.

— Imagino que o seu sentimento seja o mesmo.

— Sim. — Ele pegou o copo e bebeu um pouco do


drink. — A minha mãe quer que eu veja um médico.

— Sobre a sua lesão?


— Sim.

— Eu acho que seria bom. Você não gostaria de


poder voltar a dançar?

— Sim.

— É uma boa esperança.

— Seria fazer a mesma pergunta esperando


resultados diferentes.

— Isso se chama esperança. — Sorri para ele e


Josh ficou me encarando. Seus olhos castanhos eram tão
serenos, que me traziam uma paz difícil de explicar.

— Você vai comigo?

— Ao médico?

— Isso. Se eu marcar, você me acompanha?

— Claro que sim. — Foi difícil conter o sorriso diante


daquela pergunta. Era um sinal de que o Josh me
considerava o suficiente para que eu estivesse com ele em
um momento tão delicado e importante quanto esse. —
Somos amigos e vou estar lá para apoiá-lo.
— Obrigado.

Estendi a mão sobre a mesa para tocar a dele e


Josh não recuou, ao invés disso, afagou-me e puxou meus
dedos, levando-os na altura dos lábios e depositou um
beijo carinhoso sobre as minhas falanges, que fez com que
o sangue se acumulasse nas minhas bochechas.

— Gosto de que seja a minha amiga, mas também


gosto de beijá-la.

— Ouvi certa vez que a amizade é a base dos


melhores relacionamentos.

Relacionamentos? Fiquei com medo de estar indo


longe demais, porém, quando percebi, aquela frase já
havia escapado pela minha boca. O que me surpreendeu
foi que Josh não reagiu negativamente, como a maioria dos
caras diante de uma indireta como aquela.

— É verdade. Amizade é importante.

— Sim. — Acariciei o rosto dele e Josh tombou a


cabeça na minha mão.
— A minha mãe quer que eu dê uma festa de
aniversário, mas eu não gosto de festas.

— Eu sei. — Ri ao pensar em todos os coquetéis e


celebrações da companhia em que eu precisava contê-lo
para não desaparecer cedo demais, pois os eventos
sociais eram importantes para a imagem da empresa.

— Quero que você esteja lá. Vai ser mais fácil ficar.

— Eu estarei.

— Obrigado.

O garçom trouxe o nosso prato principal e paramos


de conversar um pouco para comer. O molho estava muito
bom e a carne bem macia. Nem me lembrava da última vez
em que tive uma noite tão agradável junto a um cara que
eu gostava.

— Provavelmente não vão me dar muita atenção na


festa, então tudo bem se ela acontecer.

— Você é o aniversariante. Por que acha que não


vão te dar tanta atenção?
— Maxwell sempre atraiu os holofotes para ele. Ele
será oficialmente o presidente no ano que vem e todos vão
querer falar com ele.

— Isso o incomoda?

— Não. Eu gosto. Todos estão sempre focados no


Max e me deixam no meu canto.

— Então isso é bom.

— Sim. Você quer sobremesa?

— Quero.

Ele acenou para o garçom e ele voltou para perto de


nós. Entregou-nos os cardápios e ficou parado ao lado da
mesa, aguardando que fizéssemos nossos pedidos.

— Quero uma torta de chocolate.

— Pode trazer o mesmo para mim —disse o Josh.

Ele assentiu e afastou-se, voltando a nos deixar


sozinhos.

— Obrigada por ter me convidado para jantar.


— Por nada. Eu também estou contente. — Ele
estendeu a mão na direção do meu rosto, mas antes que o
tocasse o garçom apareceu com as nossas sobremesas e
ele se afastou.

Cortei um pedaço da torta e o levei a boca,


ligeiramente irritada pela interrupção do nosso momento.
Voltamos a comer e o silêncio se estabeleceu novamente.

Eu me distraí pensativa até que ele estendeu a mão


novamente e, dessa vez, ela contornou a minha boca e fez
a minha pele ficar ligeiramente quente.

— Você se sujou.

— Ah! Sou atrapalhada.

— É torta de chocolate. É comum as pessoas se


lambuzarem.

— Você tem razão.

Terminei a minha sobremesa e Josh também.

— Vamos embora?

— Sim.
Ele pediu pela conta, pagou-a e me acompanhou de
volta ao seu carro.

— Obrigada pelo convite. Adorei sair com você. —


Puxei o cinto ao me acomodar no banco de couro.

— Podemos fazer isso mais vezes.

— Eu iria adorar. — Meu sorriso era de orelha a


orelha.

Sair com o Josh havia sido muito melhor do que eu


esperava. Sutil, apesar do seu jeito sempre sincero. Se
Hannah ouvisse os meus pensamentos no momento, iria
dizer que eu estava apaixonada pelo meu chefe, e eu
talvez estivesse, mas torcia, com todo o meu coração, para
não me frustrar como no meu primeiro relacionamento.

— Chegamos — disse ele, quebrando o silêncio, e


percebi que já estávamos na minha rua.

Tão perdida em pensamentos, minha noção de


tempo e de espaço ficaram momentaneamente distorcidas.

— Obrigada. — Segurei a maçaneta interna do


carro, mas não queria sair de verdade. Era como se
faltasse algo para a nossa noite ficar ainda melhor. —
Josh...

— Queria levá-la para o meu apartamento, ao invés


de trazê-la de volta para cá, mas a minha mãe está lá.

— É, eu sei... — Suspirei.

Josh era prático e provavelmente não era adequado


estarmos no mesmo ambiente que a mãe dele depois das
minhocas que a Hannah havia colocado na minha cabeça.

— Eu o convidaria para entrar se a minha família


inteira não estivesse aí. — Abri um sorriso amarelo. Por
maior que fosse o meu frio na barriga, não queria que a
nossa noite terminasse naquele momento.

— Um outro dia.

— Sim, um outro dia. — O desapontamento era


evidente na minha voz, mas eu sabia que o Josh não
conseguia perceber essas nuances.

Abri a porta e estava a prestes a sair do carro


quando ele me chamou, fazendo com que eu me voltasse
na sua direção novamente.
— O que foi?

— Quero beijar você.

Eu inspirei profundamente e travei a porta,


certamente era tudo o que eu estava esperando que ele
dissesse.

Josh soltou o seu cinto e tombou o corpo na minha


direção. Eu segurei seus ombros e subi com as mãos pelo
seu pescoço e, finalmente, nossos lábios se encontraram
como fiquei esperando a noite inteira. Aquela ânsia estava
me enlouquecendo e eu provavelmente teria ido dormir
muito frutada se o que eu mais desejasse não se
realizasse.

O beijo começou calmo, delicado e gentil, mas logo


que a língua dele entrou na minha boca, eu me recordei
que Josh também tinha fogo. Pressionei ainda mais meus
dedos na sua nuca e Josh tomou a liberdade de colocar a
mão na minha coxa. Senti a minha perna formigar e o beijo
ficou ainda mais quente.

O sabor dele era doce e quanto mais a sua língua


encontrava a minha, mais eu a queria. Ele passou a mão
pela minha cintura e a escorregou para parte de trás,
descendo até as minhas nádegas, e me puxou.

Sua boca escorregou da minha e subiu pela lateral


do meu rosto para alcançar a minha orelha.

— Senta no meu colo — sussurrou baixinho, e isso


foi o suficiente para me fazer arrepiar inteira.

Juízo? Eu certamente o deixei do lado de fora, pois


permiti que o Josh me puxasse pelo quadril e me contorci
no carro até me acomodar no seu colo, com as costas para
o volante.

Suas mãos eram bem mais pesadas do que eu


imaginava, e quando elas subiram pelas minhas coxas eu
percebi que o meu vestido havia embolado e estava quase
todo para cima. A minha calcinha era a única proteção
entre a braguilha da sua calça e a minha intimidade.

Embora uma parte remota da minha mente


soubesse que eu estava na frente da minha casa e tivesse
medo de algum vizinho, ou mesmo meus pais, visse, o
pudor foi deixado completamente de lado. Não queria que
o Josh parasse de me beijar e quanto mais as nossas
línguas dançavam uma com a outra, mais eu me esfregava
nele. Meu sexo estava pulsando e eu tinha me esquecido
do tamanho daquele desejo.

Talvez Hannah estivesse certa e não fizesse mal


algum curtir o momento.

As mãos do Josh apertaram as minhas nádegas e


eu senti que estava sentada bem em cima da sua ereção.
Eu não posso transar na frente da casa dos meus pais...
Aquele foi o último pensamento racional que eu tive antes
do Josh morder meu lábio inferior e fazer com que eu
soltasse um gemidinho contra a boca dele.

Escorreguei as mãos pelo seu pescoço,


memorizando seu contorno, até segurar os seus ombros.
Pressionei as minhas unhas no tecido do seu blazer e ele
apertou ainda mais minha bunda. Eu deveria me levantar,
mas a vontade de continuar ali era bem maior.

Ouvi uma batida forte no vidro, que me tirou do


transe e fez com que eu batesse as costas no volante e
acionasse a buzina. Tudo o que eu não precisava era
acordar a vizinhança inteira.
— Que porra é essa, Aline?!

Eu saí pela porta do carona, puxando o meu vestido


para baixo e ajeitando o meu casaco. Estava tão
envergonhada como se houvesse sido pega nua.

Olhei para o Raphael parado no meio da rua, com


mais dois caras que mal me recordava os nomes, mas que
eram familiares o suficiente para saber que eram velhos
conhecidos dele.

— Quem é você? — Josh saiu do carro um tanto


confuso.

— O namorado dela, seu playboy! Não deveria estar


aqui. Esse bairro não é para caras como você.

— Ex-namorado. — Rapidamente eu dei a volta no


carro e parei ao lado do Josh. — Ele é meu ex-namorado.
Não temos mais absolutamente nada há quatro anos.

— Então por que ele está tão nervoso? — Josh


encarou-me com um ar confuso.

— Porque ele é um completo idiota. — Cerrei os


dentes.
— Eu sou um idiota? — Raphael riu como se eu
houvesse contado uma piada e ele não possuísse um
pingo de culpa no cartório. — Não tem vergonha, Aline?
Trepar com esse branquelo na frente da casa dos seus
pais? Eu não sabia que você tinha se tornado esse tipo de
mulher.

— Como ousa? — rosnei. Não conseguia acreditar


que o Raphael tinha decido tão baixo ao ponto de me
chamar de vagabunda.

Não sei como aconteceu, mas quando eu vi, o Josh


tinha deferido um soco contra o Raphael. Desde novo, o
meu ex sempre foi conhecico como o valentão, e foi a
primeira vez que eu vi alguém ser corajoso ou estúpido
demais para tentar enfrentá-lo.

— Não a ofenda — disse Josh num tom firme e


sereno, como sempre.

— Perdeu o juízo! — Raphael avançou para cima do


Josh, mas eu fiquei entre eles antes que aquele simples
soco se tornasse uma briga.
Meu ex-namorado parou com o punho a milímetros
do meu rosto, mas não ousou me machucar.

— Não encosta nele. — Empurrei o peito do


Raphael, fazendo com que ele recuasse alguns passos.

— Não acredito que vai defender esse mané, depois


de ele ter me dado um soco.

— Você mereceu — vociferei. — Eu sou adulta,


solteira, independente e posso me envolver com quem eu
bem entender.

— Não sabia que você gostava desse tipo.

— Gosto. Agora saia daqui. Não tem o direito de


transformar isso num escândalo. — Movi a cabeça para
que ele percebesse que os vizinhos haviam saído de casa
para ver o que estava acontecendo na rua.

Raphael balançou a cabeça em negativa e se


afastou alguns passos até ir para o outro lado da rua e se
afastar.

— Você está bem? — Virei-me para o Josh e ele


balançou a cabeça em afirmativa.
— É aquele cara que parece não estar.

— Ele é só um babaca, não precisa se preocupar.

— Okay!

— Acho melhor você ir embora agora — disse


quando percebi que toda a vizinhança ainda estava
olhando para nós.

— Vai ficar tudo bem? — Ele tocou o meu rosto e


mesmo com todas as pessoas encarando, não cogitei
afastá-lo.

— Sim. Eu vou entrar em casa e nos vemos depois.

— Certo. — Ainda que todos estivessem olhando,


ele me deu um selinho e entrou no carro.

Fui para escadaria da minha casa e esperei até que


Josh ligasse o veículo e fosse embora antes de entrar.

Assim que pisei no hall, meus pais e a minha irmã


estavam lá, me encarando de braços cruzados e uma
expressão de poucos amigos.
— O que acabou de acontecer na rua, Aline? —
questionou o meu pai.

— O idiota do Raphael criando confusão. — Bufei.


— Ele não tinha o direito de me confrontar daquele jeito,
nem ao Josh.

— Você está saindo com o Joshua Mazzi? — Minha


irmã cobriu a boca com as suas mãos, mas mesmo assim
não conseguiu abafar o palavrão. — Caralho!

— Ele não era o seu chefe? — questionou o meu


pai, mantendo a expressão severa.

— É meu chefe.

— Você não faz ideia do que homens como ele


fazem com meninas como você.

— Pai, o Josh não é seja lá que tipo de homem o


senhor esteja pensando. Além disso, eu não sou uma
menina.

— Minha irmã está namorando o irmão do


presidente. Nossa!
— Amanda, não estamos namorando. Nós só
saímos uma noite.

— No salão vão pensar que você é uma


interesseira, que está saindo com um branco rico...

— Mãe, pode parar. Eu não sou interesseira e a cor


da pele dele não importa.

— Aline...

— Chega! — Desvencilhei-me deles indo para a


escada. — Não quero ouvir vocês falando mais nada.

— Filha... — Minha mãe veio atrás de mim na


escada, mas eu rosnei, fazendo com que ela parasse no
meio do caminho.

Só o que me faltava era que eles, assim como o


Raphael, achassem que poderiam escolher quem era ou
não melhor para mim.

Bati a porta do quarto e a tranquei, antes de me


jogar na cama e abraçar os travesseiros.
Durante muito tempo depois do término do meu
namoro, eu fiquei torcendo para que o Raphael voltasse e
nossa vida fosse como antes outra vez. Porém, naquele
momento, tudo o que eu queria era que ele fosse embora
para sabe-se lá onde ele passou os últimos quatro anos.

Meu celular vibrou e torci para que fosse a Hannah.


Estava precisando desabafar.

Joan:

Ei!

Aline:

Oi!

Joan:

Momento ruim?

Aline:

Por que as pessoas acham que podem


escolher quem é o melhor para gente?

Joan:
Porque são umas idiotas.

Aline:

Verdade.

Joan:

Você é uma mulher linda, inteligente e sensível


que pode ter quem você quiser.

Aline:

Obrigada!

Posso ligar para você?

Joan:

Sim!

Liguei para a minha nova amiga e contei para ela


tudo o que havia acontecido naquele dia. Do convite para
sair com o Josh, o almoço com a mãe dele e nosso jantar,
que teria sido perfeito se o idiota do meu ex-namorado não
tivesse estragado tudo.
Assim que eu desliguei a chamada com a Joan, ouvi
uma batida na porta que me fez bufar.

— Aline, posso entrar? — A voz da minha irmã


ressoou do outro lado.

— Não quero falar com ninguém agora.

— Fica tranquila, não penso como nossos pais.

Levantei da cama e destranquei a porta.

— Você tem cinco minutos. — Dei alguns passos


para trás e deixei que ela entrasse.

— Não sabia que você era a fim do seu chefe.

— Não estou interessada na conta bancária dele,


como as mulheres do salão e a mamãe vão pensar.

— Eu te conheço, irmãzinha. Sei que você não é


assim. Mas porra! Você vai ser cunhada do presidente dos
Estados Unidos. Nossa!

— Ele é só o Josh. — Dei de ombros e voltei a


abraçar os meus travesseiros.
— Isso é fofo. Você está apaixonada. Achei que ele
fosse estranho. Todo mundo diz que tem algo de diferente
nele. Na Wikipédia fala que ele tem...

— Asperger.

— Isso.

— Ele é sempre sincero e sei que posso acreditar


em casa palavra que diz. Ao contrário do Raphael.
Primeiro, ele falou que ficaríamos juntos para sempre,
depois me deu um belo pé na bunda, e agora aparece se
achando cheio de direito e falando com o Josh como se
ainda fosse o meu namorado. Eu quero mais que ele se...
— suprimi o palavrão, mas foi o suficiente para que a
minha irmã entendesse.

— Eu te dou toda a razão.

— Obrigada.

Amanda sentou ao meu lado na cama e eu me mexi


para continuar encarando-a.

— Eu perdi o cara que eu amava e sei o quanto isso


é ruim. Faria qualquer coisa para que o meu marido
voltasse, mas inexiste o que eu possa fazer. O único
conselho que dou é que você aproveite ao máximo cada
momento ao lado do cara que você realmente quer, porque
você nunca sabe se será o último.

Joguei o travesseiro para lá e envolvi a minha irmã


com os braços, apertando-a bem.

— Sinto muito pelo que aconteceu.

— Eu também, todos os dias. — Ela retribuiu o meu


abraço.

Amanda se fastou de mim e colocou uma mecha do


meu cabelo atrás da orelha antes de me encarar
profundamente.

— O Raphael, você ignora. Ele perdeu você e ainda


não aceitou isso, mas é um problema dele, não seu. Já os
nossos pais, vão parar de encher o saco quando
perceberem que você está feliz. Depois disso, irão se
gabar para todo mundo que você vai ser a cunhada do
presidente.

Ri da careta que ela fez.


— Foi só um jantar, Amanda.

— Vi a forma como se despediram na rua. É só o


primeiro de muitos jantares.

— Eu estou com medo.

— Medo? — Ela franziu o cenho, surpresa com a


minha afirmação.

— Eu não quero me envolver com alguém de novo e


tudo desmoronar, como foi com o Raphael.

— Irmãzinha, quem sabe o dia de amanhã cobra


muito caro por essa informação. O resto de nós mortais,
temos que viver um dia de cada vez. Se ficar pensando
demais, vai deixar de viver o presente.

— Você tem razão. — Voltei a abraçá-la.

— Além disso, ele é um gato!

— Não é?

Nós duas começamos a rir.

— Obrigada.
— Estarei sempre aqui. — Ela me deu um beijo na
testa e se afastou.

— Boa noite, Amanda. — Despedi-me dela antes de


voltar a fechar e trancar a minha porta.

Minha irmã mais velha tinha razão. Precisava me


preocupar com o presente, e tudo o que eu queria era ser
feliz.
Vinte

Naquele dia pela manhã estava com a minha mãe


na porta da clínica ortopédica quando vi Aline caminhar na
minha direção. Abri um sorriso ao vê-la. Havíamos trocado
algumas mensagens depois do nosso encontro, e ela não
tinha falado nada sobre o que aconteceu, eu também não
perguntei, mas esperava que ela estivesse bem.

— Josh. — Havia um sorriso discreto nos seus


lábios quando parou na minha frente. — Bom dia, senhora
Mazzi.

— Bom dia! Pode me chamar de Ana.

— Ah, obrigada!

Não me importei com a presença da minha mãe


quando coloquei a mão na nuca da Aline e a puxei para um
beijo, mas antes que eu colocasse a língua na sua boca,
ela me empurrou.

— Josh?
— O que foi, pensei que...

— A sua mãe está aqui.

Fiquei aliviado ao perceber que o problema não era


eu beijá-la, mas a presença da minha mãe.

— Desculpa. — Aline passou a mão pelo cabelo,


enquanto encarava o chão. Não entendi a dificuldade dela
em olhar a minha mãe nos olhos.

— Tudo bem, querida.

— Desculpa não ter contado para a senhora que


iríamos sair. Fiquei com receio do que poderia pensar e
não quis estragar o almoço.

— Aline, eu só quero ver o Josh feliz, e tenho


certeza de que você é capaz de fazer isso.

— Obrigada.

— Não por isso.

— O médico está nos esperando. — Lembrei a elas.


— Vamos entrar. — Minha mãe fez um gesto para
que seguíssemos na frente e caminhou atrás de nós.

Informei o meu nome na recepção e fui direcionado


para a sala do médico. Ele me levou para fazer algumas
radiografias e deixei a minha mãe e a Aline esperando na
sala dele. Levou um tempo para que os resultados saíssem
e o médico conversasse conosco.

— Os implantes de titânio que colocamos depois do


acidente estão estáveis.

— Isso é bom! — Minha mãe sorriu.

— Eu quero voltar a dançar, doutor — disse sem


rodeios e o homem arregalou os olhos.

— Senhor Mazzi, nós já conversamos sobre isso.


Não recomendo que volte a dançar. Pode parecer bem
agora, mas os movimentos do balé são muito agressivos,
principalmente para o homem, e podem acarretar no
surgimento de novas lesões. Para os homens, há uma
maior quantidade e intensidade de saltos e giros, maior
volume de pas de deux, além dos carregamentos das
bailarinas. Isso sem levar em consideração o mais
importante, os movimentos de ponta, que são
fundamentais nessa modalidade de dança. O tornozelo é o
coração do bailarino e o seu sofreu uma lesão muito grave.

— Sei que não consigo mais fazer os movimentos


de ponta e os saltos. Toda vez que tento, sinto uma dor
muito forte.

— Lamento, mas reforço a minha opinião, o senhor


não deve voltar a dançar.

— Não estou falando do balé.

— Do que então?

— Dança de rua ou de salão. Algo que não exija os


mesmos movimentos do balé.

— Bom, teríamos que acompanhar, mas sem


movimentos de ponta e grandes saltos, pode ser possível.

— Isso é ótimo! — Minha mãe me abraçou.

— Então eu posso voltar a dançar?

Ele abaixou a cabeça e voltou a analisar os meus


exames.
— Leve em consideração as minhas
recomendações sobre os limites do seu corpo.

— Okay.

— Se sentir dor, pare imediatamente e venha até


aqui para que eu possa fazer novos exames. Caso não
sinta desconforto, quero fazer pelo menos uma avaliação
mensal. Acho bom acompanhar de perto para evitar
qualquer incidente desnecessário.

— Muito obrigada, doutor Reed! — Minha mãe


estendeu a mão para ele.

— Acompanhem de perto.

— Vamos acompanhar. — Ela virou-se para a Aline


como se já fossem grandes confidentes.

— Podemos ir? — Levantei-me

— Sim.

— Tenha um bom dia, doutor — minha mãe disse a


ele antes de acompanhar Aline e eu para fora da clínica.
— Podemos fazer de novo. — Segurei o rosto da
Aline quando paramos na calçada perto do meu carro.

Percebi que a minha mãe estava numa distância


suficiente para deixar a Aline mais confortável e dessa vez
ela não recuou diante do meu toque.

— A parte da dança ou depois dela?

— As duas.

Aline sorriu e eu me curvei para dar um selinho nela.

— Não conversamos depois do que aconteceu lá em


casa. Quero pedir desculpas pelo comportamento do
Raphael.

— Você não tem que pedir desculpas pelo que ele


fez. É ele quem tem que pedir desculpas.

— Eu sei, mas ele é um idiota.

— Eu concordo.

— O importante é que está tudo bem e eu gostei


muito do soco que você deu nele.
— Acho que ele mereceu.

— Sim, mereceu. — Ela riu ao colocar as mãos ao


redor do meu pescoço, mas sua expressão ficou mais séria
logo depois. — O nosso jantar, os beijos de agora. O que
tudo isso significa, Josh?

— O que você quer que signifique?

— Quero ficar com você, Josh.

— Eu também.

Aline ficou nas pontas dos pés e eu uni nossos


lábios de novo, mas antes que passássemos dos selinhos,
ela se esquivou dos meus braços e parou ao meu lado.

— Acho melhor eu ir para casa agora.

— Não quer uma carona? — perguntou a minha


mãe.

— O SoHo é para um lado e o Harlem para o lado


oposto.

— Tenho certeza que o Josh não vai se incomodar


de levá-la em casa.
— Não vou. — Abri a porta do carona e fiz um sinal
para que Aline entrasse. — Eu gosto do tempo que passo
com você.

— Eu também. — Ela sorriu ao entrar no carro.

Minha mãe entrou no banco de trás e eu dirigi até o


bairro onde a Aline morava. Como era um sábado, havia
muito mais pessoas na rua, mas eu não me importava com
a forma como olhavam para mim. Geralmente apenas a
opinião das pessoas que tinham real peso na minha vida
importava.

Parei o veículo na entrada da casa, como na noite


do jantar, mas antes que a Aline saísse, eu segurei o seu
braço e a puxei para um beijo, que foi bem mais rápido do
que da vez anterior.

— Eu preciso entrar. — As bochechas dela estavam


coradas e eu achava isso fofo.

— Tudo bem.

— Nos vemos na festa mais tarde? — perguntou a


minha mãe.
— Sim.

— Até mais tarde, querida.

— Até! — Ela se despediu com um aceno e correu


para a entrada da casa, mas ficou esperando até que eu
desse partida no carro.
Vinte e um

Passei a escova pelo meu cabelo e o joguei de lado.


Encarei-me diante do espelho e achei a minha pele pálida
demais, entretanto a verdade era que eu estava muito
aflita. Eu não estava indo a uma das muitas festas que
havia organizado na companhia, mas sim a uma festa na
casa do meu namorado. Se é que eu poderia me referir ao
Josh assim, pois nosso envolvimento era muito recente e
ele não havia usado esse termo, apenas dito que queria
ficar comigo, e isso deveria bastar por enquanto.

Era o aniversário dele e certamente não apenas os


membros da companhia, mas a sua família estaria lá.
Ainda que a mãe do Josh me tratasse muito bem, não
sabia como seria recebida pelo restante deles. Confesso
que os preconceitos idiotas do Raphael ainda martelavam
na minha cabeça.

Saí do meu quarto e bati na porta da minha irmã.

— Pode entrar.
Girei a maçaneta e vi a Amanda se ajeitando para ir
trabalhar. Usando roupa de enfermeira debaixo do casaco,
ela estava prendendo o cabelo.

— Vai trabalhar a noite hoje?

— Plantão.

— Ah!

— Você está bonita.

— Obrigada. — Escorreguei as mãos pela lateral do


meu vestido vermelho, ainda sem jeito. — Acha que não
está exagerado?

— Você está linda, irmã. — Amanda abriu um largo


sorriso. — Vai arrasar na festa. É alguma celebração da
companhia?

— Não. É aniversário do Josh.

— Vai dar tudo certo.

— Estou com borboletas no estômago.


— Você é linda, simpática e com toda a certeza ele
vai ficar muito orgulhoso de exibir você. Então, não precisa
ter medo.

— Obrigada, irmã.

— Vem aqui. — Ela fez um gesto para que eu me


aproximasse e deu um beijo na minha testa. — Eu sou a
pessoa que mais sabe no mundo o quanto é difícil
recomeçar, mas você merece ser feliz.

— Nós duas merecemos — corrigi ela.

— Sim. Agora vai para aquela festa e aproveite. Eu


tenho um batom vermelho que vai ficar incrível com esse
vestido.

— Não acha que é um pouco demais? — Esfreguei


as mãos uma na outra para espantar o suor gelado, mas
não conseguia disfarçar o profundo nervosismo.

— Ele vai ficar perfeito e supercombina com o nosso


tom de pele. — Ela tirou o batom de uma necessaire que
estava sobre a cômoda e o entregou para mim.

— Obrigada.
— Vai dar tudo certo.

— Eu sei. — Passei e o devolvi para ela.

— Agora eu preciso ir e acho que você também —


disse ao olhar em um velho relógio que ficava acima da
porta do seu quarto.

Assenti e saímos juntas do quarto.

Ao chegarmos na sala, vi a minha mãe lendo uma


revista e meu pai brincando com o neto, fazendo pilhas de
blocos de madeira.

— Pai e mãe, eu já vou. Qualquer coisa, vocês ligam


para mim. — Amanda segurou no batente da porta ao
encará-los.

— Bom trabalho, querida... — Minha mãe desviou o


olhar dela e o grudou em mim. — Vai a uma festa, Aline?

— Vou.

— Coisa do trabalho?

— Festa de aniversário do Josh.


— Seu chefe?

— Sim.

— Vocês dois...

— Estamos juntos, mãe – falei antes que ela


começasse inúmeras insinuações.

— Está ficando sério então? — Arqueou as


sobrancelhas negras e arregalou os olhos castanhos.

— Sim.

Eu não via o mesmo abismo entre mim e o Josh que


o restante das pessoas no Harlem. E daí se ele era meu
chefe, qual o problema de ele ser irmão do presidente, ou
se ele era branco e eu negra?

— Tipo ficando?

— Eles estão namorando, mãe. — Amanda


respondeu por mim e meu estômago revirou em desacerto.
Afirmar aquilo era como contar com os ovos antes da
galinha botar. Mas o fato de estarmos juntos já era o
bastante para mim.
— Nossa! As minhas...

— Mãe, nada de espalhar isso no salão. Por tudo


que é mais sagrado — intervi, quase implorando. Tudo o
que não desejava era ser o centro das fofocas, por mais
que soubesse ser difícil evitar que acontecesse.

— Tudo bem, querida. Estou feliz por você estar


feliz.

— Cuidado com caras como... — meu pai começou.

— Boa noite! — Acenei, não deixando que os dois


falassem mais nada. — Não me esperem acordados.

Com um rápido aceno eu saí da frente da porta da


sala e fui até o hall. Peguei meu casaco e a bolsa e me
preparei para enfrentar o frio da noite de inverno.

— Boa festa para você, irmãzinha.

— Obrigada, Amanda. Bom trabalho!

Nós duas saímos juntas. Eu fiquei na entrada de


casa e minha irmã seguiu para a estação do metrô. Aquele
era o meio de transporte mais rápido e eficiente para andar
por toda Nova York, porém, como era uma festa
importante, optei por chamar um taxi, não queria chegar
suada ou amassada no apartamento do Josh.

— Onde vai vestida desse jeito? — Ouvi uma voz


vinda do além e torci para que fosse delírio da minha
mente e, se eu ignorasse, ela iria embora.

Permaneci de cabeça abaixada, encarando o trajeto


do táxi até mim pela tela do meu celular.

— Aline.

— Não te devo quaisquer satisfações de onde eu


vou ou deixo de ir. — Ergui os olhos com dentes cerrados e
encarei aquele que estava se tornando um recorrente
pesadelo.

Raphael estava de pé no início da escada, com as


mãos dentro do moletom velho e os olhos escondidos
debaixo da aba do boné vermelho.

— Já fomos amigos antes de tudo isso.

— Faz tanto tempo que eu duvido que você se


lembre como era.
— Você não?

— Não.

— Vai me dizer para onde vai?

— Já disse que não te devo satisfações. — Passei


por ele quando o táxi parou junto ao meio fio, mas antes
que eu entrasse no carro, Raphael segurou o meu braço e
me fez encará-lo.

— Aline.

— Me solta! — rosnei. — Você está me


machucando. — Puxei o braço, tentando me esquivar do
seu agarre.

— Juro que estou me esforçando para ter você de


volta e para entender o que está acontecendo aqui. Não
era desse jeito comigo antes. O que mudou?

— Tem que ser muito idiota para não entender que


tudo mudou. É evidente que aquela garota que era
completamente apaixonada por você e tomou um belo pé
na bunda não existe mais. Você mudou, eu mudei. Não
quero mais, Raphael. É um tremendo de um babaca se
acha que bastava voltar e estalar os dedos que eu iria
voltar correndo para você. Não vou.

— Sei que errei, mas estou aqui pedindo desculpas.

— Para o inferno as suas desculpas! Agora eu


preciso ir. — Empurrei o seu peito e Raphael acabou me
soltando.

Entrei no carro ofegante e irritada. Bati a porta do


táxi e encarei o motorista.

— Desculpa, senhor.

— Tudo bem, senhorita. Quer que eu chame a


polícia?

— Não precisa. Só me leva para o endereço no


SoHo, por favor.

— Tudo bem. Coloque o cinto.

Atendi a orientação dele antes de olhar pela janela


do veículo e ver que o Raphael ainda estava parado no
mesmo local, encarando-me com uma expressão de
poucos amigos.
Esfreguei o meu braço onde ele havia me segurado
firme. Durante muitos anos, fui completamente apaixonada
por aquele homem, mas, ultimamente, cada vez que o via,
mais me perguntava como havia deixado isso acontecer.

Balancei a cabeça em negativa. Raphael queria


estragar a minha noite que mal havia começado, e eu não
poderia deixar que isso acontecesse.

O trânsito não estava caótico naquele sábado à


noite e levou menos de meia hora para que eu chegasse
diante do prédio suntuoso onde o Josh morava. Havia
vários carros luxuosos parados na rua e outros chegando.
Vi algumas pessoas da companhia, entre elas a primeira
bailarina Britney, que tinha me feito sentir ciúmes por pedir
para sair com o Josh.

— É aqui mesmo, senhorita?

— Sim, muito obrigada. — Despedi-me do motorista


antes de sair do carro.

— Tenha um boa noite.

— Obrigada.
Segui pela calçada até a entrada do edifício. Havia
um homem na portaria, que perguntou pelo meu nome e
informei antes que ele liberasse a minha entrada.

Era a primeira vez que eu entrava naquele prédio.


Vez ou outra, deixava documentos na portaria, mas nunca
o vi por dentro. Aquele bairro era conhecido por galpões
que foram convertidos em enormes apartamentos de luxo.
E só pelo lado de fora, eu poderia imaginar quantas vezes
a minha casa caberia dentro do apartamento do Josh.

Espaço demais para um homem morar sozinho.

— Aline, querida! Eu não sabia que você vinha. —


Britney e outro bailarino da companhia entraram comigo no
elevador e a minha vontade foi ignorá-la.

Geralmente sorria e era muito gentil com todos,


porém aquele não era um bom dia para me provocar.

— Quando a senhora Mazzi me mandou o convite,


eu fiquei sem saber se ela havia chamado todos os
empregados da companhia, mas parece que ela estendeu
o convite para além dos artistas.
— Foi o Josh quem me chamou.

— Ah. — Ela abriu um sorriso amarelo. — Achei que


ele não gostasse de festas. Sempre foi a mãe dele quem
organizou.

— Ele não gosta, mas faz questão da minha


presença.

— Entendi. Tenho certeza que ele te acha uma


ótima secretária.

Olhei para ela com o canto de olho, mas, felizmente,


não fui obrigada a dizer nada, pois a porta do elevador se
abriu num hall amplo com uma iluminação embutida no
gesso e uma mesa de vidro com um belo arranjo de rosas
brancas. No fim do corredor, havia apenas uma porta com
detalhes e entalhes em metal.

Segui para lá e antes que eu a tocasse, alguém


abriu a porta. E a deixou aberta. Era a mãe do Josh, que
me saldou com um sorriso muito amistoso.

— Aline, que bom que você chegou. — Ela me


abraçou e me deu um beijo na bochecha.
— Obrigada.

— Josh está ali no bar, com o Ethan e o Oliver. —


Apontou em uma direção.

— Obrigada.

— Senhorita River e senhor Delis, sejam bem-


vindos, entrem por favor — Falou Ana para os outros dois
que chegaram junto comigo.

Vi Britney entrar atrás de mim e seguir na mesma


direção que eu, o local onde o Josh estava com o irmão
mais novo e o melhor amigo.

Os três bebericavam algo e conversavam quando


me aproximei.

— Josh?

— Aline. — Ele deixou o copo sobre uma bancada e


virou-se para mim com um largo sorriso que me deixou
igualmente contagiada.

Eu o via em roupas sociais todos os dias, mas,


naquela noite, foi como se ele estivesse ainda mais bonito.
Talvez fosse pelo brilho nos seus olhos quando me viu.

— O aquecedor está ligado aqui dentro. Você não


está sentindo calor com esse casaco?

— Um pouco, mas acabei de chegar.

— Me deixa ajudar você. — Josh pegou a minha


bolsa de mão e a deixou ao lado do copo antes de colocar
as mãos nos meus ombros e empurrar o casaco para
baixo, escorregando-o pelos meus braços juntamente com
seus dedos. Arrepiei-me e tive certeza de que não era pelo
clima, pois a sala realmente estava em uma temperatura
agradável. — Você ficou linda nesse vestido — disse ao
me encarar. Precisei me conter para que as minhas pernas
bambas não me fizessem tombar.

Eu conhecia o Josh o suficiente para ter certeza de


que ele não diria aquilo se realmente não houvesse
gostado do meu vestido.

— Obrigada. Você também está lindo.

Josh segurou o meu queixo e, antes que eu


dissesse qualquer coisa, seus lábios vieram parar nos
meus. Ele não se importou com quem ou quantas pessoas
estavam na sua enorme sala de estar, me beijou como se
fôssemos apenas nós dois.

— Sem engolir a garota, Josh — zombou o irmão


mais novo.

Afastou-se de mim e eu olhei para o chão,


completamente envergonhada. Ninguém na companhia
sabia que estávamos nos envolvendo, mas descobriram
naquele momento.

— Você deve ser a Aline da qual meu irmão sempre


fala. — Oliver estendeu a mão para mim e acabei
aceitando. — Linda. — Beijou o dorso e piscou para mim.

— Sem dar em cima de tudo e todas, Oliver —


recriminou-o o estilista.

— Pelo menos eu não finjo de gay para me


aproximar das mulheres — provocou o piloto.

— Não estou fingindo nada ultimamente.

— Tempestade no paraíso?
— Assunto para outra hora. Hoje viemos aqui
celebrar o aniversário do Josh.

— Ah, é você! — Uma mulher loira parou ao meu


lado e eu quase tomei um susto enorme.

— Ah, oi. — Afunilei o olhar ao reparar nela. Seu


rosto era familiar, mas antes que eu me esforçasse para
lembrar quem era, ela mesma se identificou.

— Eu sou a irmã caçula do Josh. Desculpa assustá-


la. Izabel Mazzi, muito prazer, Aline. — Ela me abraçou e
eu apenas retribuí.

— O prazer é meu.

— Mamãe falou tanto sobre você, que eu estava


muito ansiosa para conhecê-la.

— Ela falou? — Foi impossível conter a surpresa.

— Sim, da forma como você entende e se esforça


para ajudar o meu irmão. Não é à toa que ele está
apaixonado por você.
Apaixonado... Aquela palavra ecoou como badalos
de um sino na minha cabeça. Será que o Josh havia
comentado isso com a família ou Izabel estava apenas
falando da boca para fora? Seria difícil saber e eu não teria
coragem de perguntar isso para ele.

— Vamos buscar algo para você beber. — Ela laçou


meu braço e saiu me arrastando para longe dos homens.
— Estou tão feliz que o Josh pode estar se acertando, pois
eu vou confessar, ser a caçula de quatro filhos e ter só
irmãos homens não é nada fácil. Na maior parte do tempo,
eles estão preocupados em controlar a minha vida. O
Oliver para ser mais específica, porque o Max tem o país
inteiro para cuidar agora e uma bebezinha linda, e o Josh
sempre viveu no próprio mundo e certamente foi o menos
pé no saco dos três. Agora o Olie, caramba! Nem o papai
me enche tanto o saco.

— Imagino que ele se preocupe com você.

— Nem faz ideia do quanto. — Ela fez uma careta e


eu ri.

— E a sua cunhada?
— A Penélope?

Balancei a cabeça em afirmativa.

— Ela deve chegar daqui a pouco. É um amorzinho,


você verá. No início, eu tinha dó dela por ter acabado no
caminho do meu irmão, mas, com o tempo, eu percebi que
os dois fazem muito bem um para o outro. Max realmente
se apaixonou por ela, pois para ele estar disposto a desistir
da carreira política dele por alguém, essa mulher tem que
ser muito especial.

— Isso é romântico.

— Muito! — Izabel suspirou. — Ainda bem que


alguém concorda comigo.

— Você não tem namorado? Nunca vi nada na


internet. — Nem sei por que aquela pergunta escapou da
minha boca, mas estávamos tento uma conversa tão
aberta que foi difícil segurar.

Ela correu os olhos pelo salão e por um momento


achei que Izabel estava procurando por alguém, contudo,
ela logo voltou a me encarar com uma expressão triste nos
olhos azuis.

— Quem eu quero não me quer. É uma longa


história. — Deu de ombros.

— Espero que vocês se acertem.

— Às vezes, a gente só precisa seguir em frente. —


Voltou a sorrir.

— Nisso você tem toda razão. — Inclusive meu ex-


namorado precisava aprender essa lição, completei em
pensamentos.

— Vem! Você não conhece o nosso pai, não é?


Porque se depender do Josh, ele não te apresenta para
ninguém.

Fiquei sem jeito, mas deixei que Izabel me


arrastasse. Ela tinha razão, Josh não era do tipo que se
exibia. A opinião dos outros era completamente irrelevante
para ele, pois, do contrário, não teria me beijado na frente
de todos.
— Pai! — Izabel me arrastou para uma roda que
reunia alguns homens mais velhos e me fez parar na frente
do patriarca dos Mazzi. O grande empresário italiano, que
eu já tinha ouvido falar algumas vezes mesmo antes de
trabalhar para o Josh, ou do Maxwell ganhar para
presidente, voltou-se para nós.

— O que foi, Izzi?

— Essa é a Aline Lopes, namorada do Josh.

— Namorada? — Ele arqueou as sobrancelhas


muito loiras e a minha vontade foi de me esconder.

Ele não fazia ideia de quem eu era e tudo o que eu


não precisava era passar carão na frente do pai do Josh.

— Pai! — Izabel cruzou os braços.

— Ah, sim, Aline. A minha esposa me falou de você.


Trabalha para o meu filho, não é mesmo?

— Sim.

— Prazer em conhecê-la, senhorita.

— Obrigada.
Eu ouvi um murmurinho e fiquei grata por isso, pois
o assunto e o clima estranho de apresentação ao pai do
Josh foram completamente esquecidos quando alguns
homens de terno escuro e pontos de escuta entraram pela
porta. Alguns esticaram o pescoço e outros ficaram
completamente estáticos.

Quando vi todos aqueles seguranças, eu sabia que


era o irmão mais velho do Josh chegando antes mesmo de
ele entrar. Aquela pompa toda era somente para o
presidente eleito. Ele entrou no apartamento de braços
dados com a esposa, Penélope Mazzi. Ela tinha um sorriso
gentil e um carisma angelical que me lembrava os
documentários que eu havia assistido sobre a lady Di. Eu
tinha acompanhado de longe os boatos que rodaram pela
mídia sobre o acordo de casamento entre os dois.
Contudo, acredito que, como eu, milhares de outras
mulheres pelo país devem ter se derretido pelo desfecho
daquela história.

— Feliz aniversário, Josh! — Maxwell o abraçou.

— Valeu.
— Penny! — Izabel acenou para ela e a mulher
caminhou até nós.

— Izzi! — As duas se abraçaram, como velhas


conhecidas, sem qualquer pompa ou decoro, como pensei
que pudesse ser necessário.

— Estava morrendo de saudades de vocês. Falei


com o Max que o que eu mais vou sentir falta quando
estivermos morando na Casa Branca é de não poder vê-los
sempre.

— Eu vou morrer de saudades da minha sobrinha


mais linda. Onde ela está?

— Preferi deixá-la no hotel com a babá. Ela dorme


nesse horário e é muito barulho e pessoas demais para um
bebê.

— Você está certa.

— Eu me preocupo muito com ela. É muita


exposição para quem ainda nem começou a falar.

— Eu imagino. — Izabel colocou a mão sobre o meu


ombro. — Penny, essa é a Aline, a namorada do Josh.
— Oi! — Ela esticou os braços e me envolveu.

— Prazer.

— O prazer é meu.

— Estava falando para a Aline o quanto estou


contente em ganhar irmãs — comentou Izabel.

— Bem-vinda a família, Aline. Eles são ótimos.

— Muito obrigada. — Respondi, sem jeito. Eu não


sabia como reagir, pois até o momento, o meu
relacionamento com o Josh não tinha um rótulo claro.

Estávamos distraídas conversando, quando o


Maxwell se aproximou de nós, envolveu os ombros da
esposa e a beijou no alto da cabeça.

— Você comeu alguma coisa? — perguntou.

— Ainda não.

— Amor...

— Eu estou com o estômago embrulhado. Não


quero comer nada. Tudo está me dando vontade de
vomitar, é pior do que da primeira vez.

— Não pode ficar sem comer. — Ele afagou


carinhosamente o cabelo da esposa. — É por vocês dois.

— Espera, você está grávida de novo? — Izabel


perguntou à cunhada, dando pulinhos de alegria.

— Descobri hoje. — Penélope colocou a mão sobre


o ventre, acariciando-o, e sorriu para a irmã do marido.

— Parabéns! — Izzi abraçou-a.

— Sem apertar demais. — Maxwell afastou a caçula


empolgada ao defender o espaço da esposa. — Ela já está
bem enjoada sem pulos e apertos. Não exagera, Izabel.

— Estou muito feliz por vocês.

— Eu também. — O presidente eleito acariciou o


rosto da esposa e deu um selinho carinhoso nela.

— Vão me deixar ser a madrinha de novo?

— Izzi!
— Okay, Max! Vou parar de pedir. — Mostrou a
língua para o irmão e eu me contive para não rir.

Eles, assim como Amanda e eu, tinham seus


momentos infantis quando estavam juntos. Até a família do
presidente era uma como qualquer outra. Além disso, ver o
carinho dele com a esposa, mesmo longe das câmeras,
provou que o amor que demonstrou por ela antes das
primárias é real.

— Sobre o que estão falando? — Ouvi a voz do


Josh pouco antes dos seus braços envolverem a minha
cintura e a sua boca aproximar-se da minha orelha.

Senti as minhas bochechas corarem e cerrei os


lábios para não emitir nenhum som que me deixasse ainda
mais envergonhada.

— O Max e a Penny terão outro bebê — disse


Izabel.

— Achei que você soubesse usar camisinha. —


Josh encarou o irmão seriamente, e sua fala fez com que a
Izabel tivesse uma crise de risos.
A caçula colocou a mão na barriga enquanto se
contorcia de tanto rir. Penélope abaixou o olhar,
envergonhada diante do comentário do cunhado.

— Eu quero filhos, irmão. — Max colocou a mão


sobre o ombro do Josh.

— Ah, então tudo bem.

— Parabéns, Excelência. — Sorri para ele.

— Obrigado. Estamos em família, não precisa me


tratar com formalidade. E se eu exigir isso, a minha mãe
vai me bater.

Penélope e Izabel riram.

— Só Maxwell ou Max, o que você preferir.

— Obrigada, senh... Maxwell.

— Por conseguir aturar o Josh, você ganha o direito


de me chamar pelo nome. Tem que ser muito amor.

Amor?
Fiquei sem saber o que dizer e apenas sorri. Eu
gostava do Josh, não tinha dúvidas disso, e esse
sentimento ia bem além da atração, mas quanto a chamar
isso de amor... eu não tinha certeza, e depois do que havia
acontecido com o Raphael, levaria um tempo para que eu
tivesse.

— Vem dançar comigo — Josh sussurrou ao pé do


meu ouvido.

— Dançar? — Eu estremeci.

— Sim.

— Aqui, com todas essas pessoas olhando?

— Por que não? O médico disse que, desde que


não fosse balé, eu poderia dançar.

— Desde que não forçasse o seu tornozelo e a


perna.

— Não vou forçar...

— Você também dança? — perguntou Izabel,


curiosa.
— Muito bem — Josh respondeu por mim.

— Ele está sendo exagerado. — Tentei tirar o meu


da reta. Não havíamos ensaiado nem nada.

Havíamos sentido uma grande conexão na nossa


primeira dança, mas não tínhamos plateia, e, daquela vez,
além da família dele, havia muitas pessoas da companhia
de dança.

— Se tem algo que o meu irmão não costuma ser é


exagerado — comentou Izabel, jogando mais fogo na
fogueira.

— Você não deveria dançar — repreendeu o


presidente e esperava que fosse o suficiente para que o
Josh mudasse de ideia.

— Eu fui ao médico. Ele disse para ficar longe do


balé. E existem outras modalidades de dança. — Por mais
que o irmão nunca mentisse, Maxwell buscou o meu olhar
para ter certeza. Eu não podia recriminá-lo por se
preocupar com o irmão. Todos sabiam que o acidente do
Josh havia sido grave e ninguém queria que ele
comprometesse o movimento da perna por algum capricho.

— Vamos, quero mostrar para eles que eu ainda


posso.

— Vai lá, Aline. — Izabel me incentivou.

— Tenho vergonha. — Escondi o rosto no ombro


dele.

— Não precisa ter, você é boa.

Sorri diante do incentivo do Josh.

— Vai lá! Quero ver vocês dançarem, eu nunca vi o


Josh dançar. — Penélope se juntou ao coro.

Encarei o Josh e ele balançou a cabeça em


afirmativa.

— Okay! — Acabei cedendo.

Ele segurou a minha mão e me puxou até perto do


sistema de som, mudou a música para algo mais lento, um
pop romântico, que chamou atenção de todos.
De mãos dadas comigo, ele me trouxe até o meio da
sala e as pessoas abriram espaço, curiosas pelo que
aconteceria a seguir.

Josh deixou que meus dedos escorregassem dos


seus e caminhou com o rosto abaixado até a outra
extremidade do semicírculo que havia ao redor de nós. Eu
fui para outra ponta e quando cheguei lá, levantei o rosto,
buscando pelos olhos dele.

Nós caminhamos de volta na direção um do outro


em passos lentos, no ritmo da música, até nos
encontramos no centro. Fiquei na frente dele e Josh se
posicionou atrás de mim e colocou as mãos sobre os meus
ombros, eu pousei as minhas sobre as dele, e Josh puxou
a direita, fazendo com que eu girasse até ficar diante dele.
Beijou o dorso da minha mão e eu dei passos para trás,
fazendo com que ele acompanhasse o movimento dos
meus pés.

Josh girou para trás de mim ainda segurando a


minha mão e movemos a perna direita juntos, em um
semicírculo feito a dois, mas antes que o meu calcanhar
voltasse a tocar o chão, Josh me rodopiou novamente e fez
meu corpo tombar para trás ao segurar a minha cintura.
Com as costas arqueadas, não conseguia fitar outra coisa
que não fosse a imensidão dos seus olhos castanhos e o
quanto eles me dominavam.

Como o exímio dançarino que era, mesmo não


sendo balé, sabia me conduzir muito bem. Ele passou o
braço sobre a minha cabeça e eu esquivei-me dele,
caminhando para longe.

Nos entreolhamos, mas, mesmo distantes, demos


passos e movimentos sincronizados que fizeram as
pessoas que nos assistiam, inclusive os bailarinos da
companhia, prestarem ainda mais atenção.

Ele voltou a se aproximar e, atrás de mim, colocou


as duas mãos na minha cintura. Pendulamos de um lado
para o outro e demos passos para trás. A cada segundo
que passávamos naquela conexão, mais acelerado o meu
coração ficava.

Quando Josh me pegou pela cintura e me fez girar,


eu consegui ver o mundo como ele, um onde ninguém mais
importava e existia, apenas nós dois. Tudo ficou colorido e
o meu coração bateu mais forte do que eu julgava ser
possível. Foi só depois que ele me colocou no chão,
segurou meu rosto e me beijou, e que as pessoas
começaram a bater palmas, que me lembrei da plateia.

— Uau! Vocês foram incríveis. — Izabel estava


coçando os olhos. Parecia emocionada.

— Sua perna está doendo?

— Não. — Josh afagou a minha bochecha.

— Que bom.

— Achei que o senhor não pudesse dançar. —


Britney cruzou os braços ao parar na nossa frente.

— Eu posso, com ela. — Josh segurou a minha


cintura.

A primeira bailarina engoliu em seco e eu precisei


me conter para não rir. Ela se achava melhor do que todos
em muitos aspectos, mas, certamente, não era.
— Me leva para beber alguma coisa — pedi ao
Josh, numa desculpa para sair da frente dela, porque fiquei
com a sensação de que estava se contendo para não me
esganar.

— Sim. — Josh me conduziu até o bar onde Oliver e


Ethan ainda estavam parados no mesmo lugar, mas
Maxwell e um outro homem moreno estavam com eles.

— Agora todo mundo sabe por que você gosta dela.


— Riu Oliver ao bebericar o seu copo. — Tem toda essa
elasticidade na cama também?

— Não sei — respondeu o Josh.

— Como não sabe? Ainda não transaram?

— Não.

Me pergunto se esqueceram de que eu estava ali ou


se Oliver apenas abusou da sinceridade do irmão. De
qualquer forma, a vergonha que senti foi enorme. Contudo,
tentei não expressar nenhuma emoção ou som para não
me notarem.
— Olie, isso não é o tipo de pergunta que se faz na
presença da moça. Vai deixá-la sem graça e atrapalhar a
noite do seu irmão.

— Ah, Chad, dá um tempo! Depois que você e o


Max se casaram, ficam aí pousando de homens decentes,
o que não convence ninguém.

— Eu sou um homem descente e um ótimo pai. —


Deu de ombros sem ceder à provocação.

— Que ganhou a esposa num jogo.

— Num jogo? — Arregalei os olhos e não consegui


mais ficar calada.

— Onde está a descendência nisso? Não acha,


Aline?

— Eu não sei da história direito, não posso opinar.

— Parabéns, Josh. Tem uma namorada sensata, ao


contrário do seu irmão mais novo — comentou o homem
que Oliver estava provocando.
— Venham cantar parabéns! — Ana chamou a
atenção de todos e fiquei grata pelo assunto ter morrido de
uma vez por todas. Não queria que discutissem a minha
vida sexual, ou a falta dela, abertamente.

Raphael foi o único homem que eu tive. Nunca fui do


tipo de garota que conseguia ir para uma balada e transar
com desconhecidos. Não posso dizer que não sentia falta,
mas fui me distraindo com outras coisas e, com o passar
do tempo, era quase como se eu fosse virgem de novo. Já
não fazia mais tanta falta.

Josh foi para detrás de uma mesa enquanto a mãe e


a irmã acendiam as velas de um bolo. Trinta e quatro anos,
sete a mais do que eu, mas, com a idade que estávamos,
nem fazia tanta diferença.

Independente de todas as minhas inseguranças, ir


até a festa dele foi muito melhor do que imaginava. Apesar
da vergonha que um ou outro comentário me fez sentir, a
família dele me recebeu muito bem. Até mesmo o
Salvatore Mazzi, que nos primeiros minutos, não parecia
ter ideia de quem eu era.
Vinte e dois

— Eu vou embora agora — disse quando percebi


que as pessoas na festa estavam minguando cada vez
mais, restando apenas a família.

— Você não precisa ir. — Josh segurou o meu pulso


e fez com que eu o encarasse. Uma corrente elétrica
passou por todo o meu corpo e me deixou balançada.

Ainda bem que o Josh não percebia essas coisas e


não fazia ideia do tamanho da influência que o seu toque
exercia sobre mim.

— Eu preciso. Sua família está toda aqui. Eu não


quero que fique um clima ruim. Nos vemos na segunda-
feira, lá na companhia.

— Eles não dormem no meu quarto.

— Josh...

Ele virou a cabeça para trás e observou as


pessoas sentadas ao redor do enorme sofá felpudo.
Penélope parecia com sono e estava deitada no peito
do marido, enquanto o restante deles conversava.

— Qual o problema, Aline?

— Tenho vergonha.

— Deles?

— Sim.

— Eu não quero que você vá.

— Não posso ficar.

— Então me deixa ir com você. — Acariciou o meu


rosto e eu fechei os olhos, deixando que o carinho dele me
contagiasse.

Como era difícil resistir àquele pedido.

— A minha casa também está cheia da minha


família. Não vamos ficar mais à vontade do que aqui.

— Não precisamos ir para sua casa.

— Você tem razão. — Engoli em seco.

— Você não quer?


Achei que ele não fosse capaz de perceber
sutilezas, ou provavelmente não tivesse sido nada sutil.

— Josh, não é isso. — Segurei as mãos dele. — Eu


quero.

— Então não compreendo. Foi algo que o Oliver


disse?

— Não. Ele me deixou com vergonha, mas não é


por causa disso.

— Continuo sem entender.

— É que eu não faço isso há muito tempo. Depois


que o Raphael terminou comigo, eu não me envolvi com
mais ninguém. Eu fui deixando os relacionamentos de lado
até agora.

— Okay! — Josh sorriu, e confiar na sinceridade


dele fez com que eu não me sentisse uma boba por me
abrir assim. — Quer que eu a leve para casa ou prefere
voltar de táxi?

— Quero que me leve.


— Vou pegar meu casaco.

— Traz o meu também e a minha bolsa, por favor?

— Sim.

Quando o Josh se afastou, a mãe dele saiu do sofá


e veio para perto de mim.

— Já está indo embora, Aline?

— Sim.

— Por que não fica mais um pouco?

— Já é uma da manhã.

— Pode passar a noite aqui.

— Acho melhor não. — Abri um sorriso amarelo.

— Okay! Compreendo a sua vergonha. Foi um


prazer vê-la mais uma vez. — Beijou-me no rosto.

— Obrigada, Ana.

— Josh vai levá-la em casa?

— Sim. Ele foi pegar nossos casacos.


— Vamos? — Josh voltou para perto de nós e parou
ao meu lado.

— Obrigada por tudo, Ana.

— Sou eu quem agradeço, querida, tenha uma boa


noite.

— Você também.

Despedi-me dos outros com um aceno e alguns me


acenaram de volta antes que eu seguisse pelo corredor
para fora do apartamento. Josh colocou a mão no centro
das minhas costas e eu senti um calor gostoso emanando
do seu toque enquanto ele me conduzia até a garagem.

Foi abrir a porta do veículo para mim assim que


saímos do elevador e, em seguida, enquanto eu me
acomodava, deu a volta no carro e assumiu o volante.

Fiquei em silêncio enquanto o Josh manobrava e


deixava o estacionamento do prédio. Era madrugada e,
apesar de Nova York ser uma cidade que não dormia,
havia poucos carros na rua.

— Gostei de conhecer a sua família.


— Está falando isso para me agradar? Pois a sua
cara dizia outra coisa. Não precisa dizer mentiras só
porque acha que eu vou ficar feliz.

— Não, Josh. — Fiquei sem jeito. Já deveria ter me


acostumado com as enquadradas que ele me dava, mas às
vezes era difícil de evitar. — Gostei deles, de verdade. O
Oliver me deixou em algumas saias justas, mas acho que
ele se diverte com isso. A Izabel é empolgada demais, mas
muito gentil e receptiva a sua maneira. Acho que ela se
esforçou para que eu me sentisse em casa no meio deles.
Já o Maxwell é bem melhor do que parecia.

— Ele ficou melhor depois da Penélope.

— Parece que é o que todos dizem.

— Vão ter outro bebê.

— Sim. Eles parecem estar muito felizes com isso.

— É. — Ele continuou dirigindo em silêncio. Tive a


impressão de que ele estava pensativo, mas não disse
mais nada.
Fiquei remoendo meus pensamentos e minhas
decisões sobre aquela noite até chegarmos na porta da
minha casa.

— Pronto.

— Obrigada por ter me trazido.

— Gosto de passar o tempo com você.

— Eu também. — Soltei o cinto e debrucei-me no


banco para aproximar os meus lábios dos dele.

Josh também soltou o dele e segurou meu rosto,


puxando-me para mais perto. Deixei que a minha língua
escorregasse para dentro da sua boca num ritmo só nosso,
como na dança. Ele segurou a minha cintura e me puxou
para mais perto.

Continuei o beijando quando senti a sua mão


escorregar pelo meu quadril e ir até a minha coxa. Eu sabia
que o Josh iria parar se eu pedisse, mas eu não queria que
ele parasse.

— Josh...
— Você pode subir quando quiser — disse contra os
meus lábios enquanto a sua mão lentamente puxava o meu
vestido para cima.

— Eu sei. — Continuei beijando-o e o gosto dos


seus lábios foi ficando cada vez mais quente e viciante.

— Quero sentá-la no meu colo de novo — admitiu.

— E se você me levasse para outro lugar melhor do


que a porta da casa dos meus pais?

— Você disse que não queria.

— Eu quero.

Fato! Era muito mais fácil não transar por quatro


anos quando não se tem nenhum estímulo. Eu não
procurava outros caras e nem eles a mim. No entanto, com
os beijos do Josh e as mãos dele passeando pelo meu
corpo, era muito mais difícil pensar em outra coisa. Eu
poderia não querer, tinha todo direito de descer do carro e
ir embora, mas também poderia querer.

— Me leva para outro lugar.


— Pode ser um hotel?

— Sim.

— Okay. — Ele voltou a prender seu cinto e eu me


recompus no banco do carona.

Josh dirigiu para fora do meu bairro e voltou


algumas ruas, mas ao invés de seguir o caminho para o
seu apartamento, ele foi mais na direção da Quinta
Avenida, e antes de chegar nela, virou algumas ruas,
seguindo até a entrada de um hotel luxuoso.

Descemos do carro, ele entregou a chave para o


manobrista, e seguimos de mãos dadas até a recepção. Eu
estava morrendo de vergonha, com o estômago
embrulhando e ansiosa, tudo ao mesmo tempo.

— Boa noite, eu quero um quarto. — Josh debruçou-


se sobre o balcão.

— Apenas um?

— Sim.
Tentei não encarar a recepcionista demais e fiquei
contente por ela não ter reconhecido o Josh, ou não ter
sido invasiva ao ponto de ter feito qualquer comentário.

— Joshua Mazzi, certo?

De repente eu tive certeza de que ela tinha


reconhecido o Josh, sim, mas permaneceu discreta.

— Sim — respondeu sem se importar.

— O quarto é o mil e dois. — Entregou um cartão


chave para ele. — O serviço de quarto funciona vinte e
quatro horas. Tenham uma boa estadia.

— Obrigado. — Josh me guiou até o elevador


enquanto eu tentava controlar as borboletas que reviravam
no meu estômago.

Será que eu tinha tomado uma decisão precipitada?


Às vezes eu queria que a minha vida fosse sim ou não
como a do Josh, pois o talvez sempre me corroía.

— Sua mão está suando frio — comentou quando


saímos em um corredor moderno e muito bem iluminado.
— Você está bem?
— Estou.

— Sabe que pode ser honesta comigo. Não consigo


adivinhar o que está passando pela sua cabeça nesse
momento.

— Estou nervosa.

— Por quê? Não se sente à vontade comigo? — Ele


segurou a maçaneta da porta, mas não a abriu. Percebi
que estava disposto a ir embora se fosse o que eu queria,
mas não era.

Coloquei a minha mão sobre a dele e puxei a


maçaneta para baixo, abrindo-a.

— Eu me sinto à vontade com você. — Isso era


verdade, pois eu sabia que Josh seria sincero acima de
tudo, e isso me transmitia muita segurança. — Eu só estou
com medo e, ao mesmo tempo, muito ansiosa.

— Também estou ansioso — admitiu em meio a um


sorriso cativante, que poderia me convencer a fazer
qualquer coisa.
Entramos no quarto, fechei e tranquei a porta atrás
de nós. Josh aproximou a sua mão do interruptor, mas eu o
impedi.

— Deixa apagada.

— Como você quiser.

— Obrigada.

Acabei com a pouca distância que havia entre nós


dois e a minha respiração ficou mais urgente. Josh
entendeu aquilo como uma permissão e deslizou as mãos
pela minha cintura, escorregando-as para baixo até que
alcançassem as minhas nádegas. Segurei os seus ombros
e meus dedos afundaram no tecido macio do seu blazer.
Quando fiquei nas pontas dos pés para que meus lábios se
aproximassem dos seus, Josh me puxou, colando nossos
corpos quando nossas línguas se encontraram.

O calor daquele momento fez cair por terra todas as


minhas dúvidas. Queria aquele homem e eu podia tê-lo
naquele exato momento, não havia nada de mal nisso.
O beijo ficou mais profundo e eu subi com as mãos
pelo seu pescoço até puxar o seu cabelo castanho macio.
Trouxe-o para baixo, fazendo com que sua boca colasse
ainda mais na minha, e o ardor da nossa troca de carícias
ficou mais intenso. Dei alguns passos para trás e fui tirando
as sandálias no meio do caminho, mas ao invés de chegar
na cama, choquei-me contra um móvel que me pareceu ser
uma mesa. Josh, que ainda estava com as mãos na minha
bunda, puxou-me para cima e me fez sentar na superfície
de pedra. Soltei um gemidinho de surpresa e expectativa
em meio ao movimento rápido.

Minhas mãos escorregaram para os ombros de


Josh, para que eu me apoiasse, enquanto seus lábios
desciam pelo meu pescoço, provocando calafrios e uma
sequência de efeitos por todo meu corpo. Eu não me
lembrava que um beijo pudesse me fazer experimentar
calor, frio e eletricidade tudo de uma única vez. Tombei a
cabeça para trás e arqueei o corpo quando a língua do
Josh chegou à base da minha garganta e foi descendo
mais até o vale entre os meus seios, exposto pelo decote
do vestido.
— Você tem um cheiro bom. — Fungou o meu
pescoço antes de voltar a beijá-lo.

— Você também. — Equilibrei-me com apenas uma


mão na mesa e usei a outra para voltar a agarrar o cabelo
dele e fazê-lo voltar a me beijar na boca.

Em meio ao movimento frenético e voraz das nossas


línguas, as mãos do Josh subiram pelas minhas pernas e
levantaram o vestido consigo. Minha calcinha estava
completamente exposta e esfreguei-me na braguilha da
calça dele, sentindo o volume que havia se formado ali.

Não parei de beijá-lo enquanto buscava um melhor


equilíbrio para abrir os botões do seu blazer e tirá-lo. A
peça foi parar no chão e mal esperei que caísse para fazer
o mesmo com a camisa.

Só tinha visto o Josh sem camisa através de fotos, a


maioria espalhada pela internet, e com a luz do quarto
apagada, não consegui ver nada de fato, mas eu pude
sentir. Desci os dedos pelo seu peitoral, traçando a linha de
cada músculo até a base do seu abdômen. Era duro,
definido, prova que mesmo após ter parado de dançar,
Josh não parou de cuidar do corpo.

Parei com as mãos ali na cintura por alguns


momentos, até que um impulso me fez finalmente abrir o
cinto e a calça, que caiu nas canelas do Josh. Logo ele
terminou de tirá-la, juntamente com os sapatos.

Josh me puxou para fora da mesa, me botou de pé e


girou-me como fazia na dança. Suas mãos deslizaram
pelas minhas costas até encontrar o zíper do meu vestido,
que ele baixou lentamente à medida que o seu hálito se
aproximava da minha nuca e me arrepiava toda. Puxei o
cabelo para o lado, deixando-me mais exposta, e Josh
mordeu a base do meu pescoço. Soltei um gemido alto
quando o meu vestido escorregou para o chão. Comigo
ainda de costas para ele, Josh abriu o meu sutiã e o tirou.

Não senti vergonha enquanto ele me despia.


Poderia até ser a luz apagada, mas supunha que era pela
forma como fazia com que me sentisse segura.

Voltou a me girar e ficamos de frente novamente,


meus seios friccionando no seu peito nu, sentindo os fios
de cabelo salpicados, deixando-me ainda mais excitada.
Josh levou as mãos de volta para minha cintura e me
puxou, erguendo-me. Dei um salto e envolvi o seu quadril
com as pernas. Voltamos a nos beijar com fogo e calor, e o
volume na sua cueca contra a minha fina calcinha me
deixava ainda mais louca por ele, mal via a hora de nos
tornarmos um só.

Josh foi andando comigo em seu colo e me colocou


na cama, deitando-se sobre mim. Seus lábios contornaram
o meu rosto, seus dentes mordiscaram o meu queixo e sua
boca voltou a descer até que ele abocanhou um dos meus
mamilos. Arqueei o corpo e afundei a cabeça no
travesseiro em meio a um gemido, enquanto Josh sorvia
um dos meus mamilos e apertava o outro.

Eu me esfreguei nele como pude, sua ereção dando


sinais claros de que ele me queria tanto quanto eu o
desejava.

Beijou o vale entre os meus seios e foi descendo


com beijos e deliciosas lambidas pelo meu ventre até a
minha calcinha. Quando alcançou o tecido, Josh colocou
os dedos por debaixo da peça nas laterais do meu corpo e
a puxou, tirando-a. Não sei onde foi parar naquele quarto
escuro e não me importei, minha atenção estava
completamente voltada para algo muito mais interessante.

Josh acomodou a cabeça entre as minhas pernas e


segurou as minhas coxas, movendo-a para o lado e para
cima, abrindo espaço para que tivesse total acesso ao meu
sexo. Ele soprou um ar quente e eu dei um gritinho de
prazer enquanto me retorcia na cama. Finalmente o Josh
afundou a boca e o mundo parou, ao mesmo tempo que o
sangue passou a correr rápido nas minhas veias. Sua
língua contornou os meus lábios, procurou pelo meu clitóris
e me enlouqueceu ao me explorar sem quaisquer
ressalvas. Enquanto me chupava e me lambia, ele
acomodou as minhas coxas sobre os seus ombros e eu
cruzei as pernas nas suas costas, envolvendo o seu
pescoço para que ele não pudesse escapar. Uma tensão
intensa foi crescendo onde Josh me estimulava e logo o
meu mundo foi reduzido a espasmos e a uma deliciosa e
inebriante sensação de prazer. Minhas pernas perderam as
forças e Josh afastou-as para voltar a subir em meu corpo
até que a sua boca encontrasse a minha, capturando os
meus ofegos de prazer.

Nós nos beijamos um pouco mais e Josh acariciou o


meu rosto, me levando de volta ao fundo daquele
fascinante abismo. Estava tão completamente arrebatada,
que chiei quando ele se afastou e saiu da cama.

O quarto era feito basicamente de pontos escuros e


eu não conseguia ver nada. Pelos barulhos, imaginei que
ele estivesse mexendo nas roupas. Felizmente, ele logo
voltou para cama e percebi que a cueca havia sido
removida.

Ele segurou as minhas coxas e voltou a distanciá-


las. Quando senti seu membro, envolto pelo plástico da
camisinha, roçar na minha fenda pulsante, percebi que
faltava pouco para finalmente nos tornarmos um só.

— Aline...

— Sim, eu quero. — Interrompi-o antes que


terminasse a fala.
Josh não falou mais nada nem esperou para
inundar-se em mim. Diferente das minhas poucas
experiências anteriores, eu não senti dor diante da
penetração. Meu corpo se acomodou perfeitamente a
intrusão do Josh, como se fôssemos chave e fechadura. O
encaixe era perfeito e me senti extasiada. Ele apoiou uma
das mãos na cama, afundando o colchão na lateral do meu
corpo, e com a outra segurou a minha coxa antes de
começar a se mover. A fricção era deliciosa, e a cada
impacto eu gemia mais alto.

Subi com as mãos pelas suas costas e segurei seus


ombros enquanto mergulhava sem medo no prazer que
estava sentindo. Em algum momento cheguei até a pensar
que deveria ter me permitido fazer isso antes, porém logo
abandonei qualquer pensamento racional ou lógico, isso
poderia ser deixado para depois.

Josh voltou a me beijar, e nós giramos na cama.


Fiquei por cima dele e tive mais controle dos movimentos,
ainda que as suas mãos na minha bunda tentassem ditar a
forma como eu quicava no pênis cravado em mim.
Percebi a ejaculação dele na camisinha quando
suas mãos me seguraram com mais força, porém não parei
de me mover até que alcançasse o ápice pela segunda
vez. Tombei sobre o peito dele, ofegante e trêmula.

— Isso foi bom, muito bom... — murmurei com a


cabeça no seu peito, ouvindo o seu coração acelerado.

— Fico feliz. — Josh penteou o meu cabelo com as


pontas dos dedos.

— Podemos passar a noite aqui ou você quer voltar


para casa agora? — perguntei a ele.

— Eu quero ficar.

— Também quero. — Aninhei-me nele.

Josh tirou a camisinha e jogou-a fora antes de voltar


para a cama e aninhar-me em seus braços.

Dormir envolvida por ele certamente tornou aquela a


melhor noite que eu tive em muito tempo.
Vinte e três

Resmunguei baixinho quando a luz do sol invadiu o


quarto. Não fechei a cortina, foi o meu primeiro
pensamento pela manhã, antes que eu percebesse o peso
no meu peito e o calor da mulher nos meus braços.

Aline... Sorri ao acariciar o cabelo dela.

Eu não gostava do meu aniversário, principalmente


por causa das festas que a minha mãe sempre fazia,
alegando o quanto era importante que eu socializasse um
pouco, porém a noite havia terminado melhor do que eu
previra.

— Bom dia! — Ela abriu os olhos, mas assim que a


luz do sol os invadiu, voltou a fechá-los e escondeu o rosto
no meu peito.

— Bom dia. — Beijei-a no topo da cabeça.

— Estamos mesmo aqui?


— Por que não estaríamos? — Franzi o cenho,
estranhando a pergunta dela.

— Por um momento, eu comecei a achar que era


um sonho.

— Foi real e você ainda está pelada.

— Josh! — Deu um tapinha no meu peito.

— É verdade. — Passei a mão pela lateral do seu


corpo e apertei a sua bunda.

— Assim você me deixa envergonhada.

— Não precisa. Seu corpo é lindo. Tenho vontade de


fazer de novo.

— Adoraria ficar aqui com você, mas preciso voltar


para casa. Não avisei para os meus pais que iria dormir
fora. Nem sei o que podem estar pensando agora. Podem
ter tentado ligar e eu nem atendi... — Ela se sentou na
cama e começou a olhar em volta. — Onde está o meu
celular mesmo?
— Presumo que tenha deixado na sua bolsa, que
ficou no meu carro.

— Ah, sim. — Passou a mão pelos cabelos


desgrenhados.

Fiquei a observando dentro do seu pequeno


desespero. Mesmo descabelada ao acordar pela manhã,
Aline ainda era linda.

— Vou tomar um banho. — Caminhou para o


banheiro ajeitando o cabelo e o prendeu em um coque,
amarrando-o com os próprios fios.

Levantei-me e fui atrás dela. Entrei no box junto com


ela antes que abrisse o chuveiro.

Quando começou a se ensaboar, peguei o sabão


das suas mãos e o passei pelo seu corpo, para poder tocá-
la mais. Aline soltou alguns suspiros, mas não me afastou.
Tirei-a do rumo do chuveiro e a pressionei contra a parede
de vidro.

— Josh, o que está fazendo?


— Ganhando mais alguns minutos com você. —
Coloquei o sabonete no suporte e desci com a mão até o
seu sexo.

Aline soltou um gemido e rebolou contra o box


quando eu toquei a sua vagina e subi os dedos a procura
do seu clitóris.

— Não sei quantas horas são, mas acho que posso


demorar um pouco mais para voltar para casa. — Ela subiu
com a mão pelo meu pescoço e puxou a minha cabeça na
sua direção.

Nós nos beijamos enquanto eu continuava com os


movimentos circulares com o dedo sobre o seu clitóris. Ela
se esfregou em mim e a minha vontade de tê-la de novo se
tornou ainda mais intensa.

Estava prestes a tomá-la, quando me lembrei de


algo importante. Afastei as minhas mãos e saí do box
pingando.

— Josh! — Aline resmungou antes que eu deixasse


o banheiro.
— Já volto.

Fui até a minha carteira e peguei outra camisinha,


voltando para o banheiro em menos de um minuto.

Antes que a Aline protestasse, peguei-a pela cintura


e levantei a sua perna, colocando-a ao redor da minha. Eu
não tive muita calma para penetrá-la daquela vez, mas os
estímulos que havia feito com os dedos foram o suficiente
para prepará-la para me receber. Gememos juntos quando
comecei a me mover, minhas estocadas a pressionavam
contra a parede de vidro, mas pelos sons que produzia,
Aline estava gostando.

Ela cravou as unhas nos meus ombros e me movi


mais rápido. Logo meus próprios impulsos foram tudo o
que me regeram até que eu gozasse. Assim que cheguei
lá, voltei a tocar Aline com os dedos para que ela se
juntasse a mim.

Ofegante, ela me beijou e acariciou até que sua


respiração se normalizasse e ela concluísse o banho.

— Agora eu realmente preciso ir. — Aline saiu do


banheiro, enrolando-se em uma tolha felpuda.
— Não quer tomar café da manhã antes? — Segui
atrás dela, secando-me também.

— Meus pais devem estar preocupados.

— Você está segura comigo.

— Eles não sabem disso. — Começou a vestir-se.

— Tudo bem, eu vou levá-la em casa.

— Obrigada. — Sorriu para mim de um jeito que me


deixou ainda mais contente.

Havia gostado muito da noite e não queria que ela


acabasse, mas todas as coisas, boas ou não, chegavam ao
fim em algum momento.

Peguei as minhas roupas e me vesti também.


Quando estávamos prontos, descemos para a recepção e
eu paguei pela nossa estadia antes de seguirmos até o
meu carro, onde estavam o seu casaco e bolsa.

— Me ligaram mais de dez vezes — ela comentou,


quando tirou o celular da bolsa após acomodar-se no
banco do carona.
— Já vou deixar você em casa.

— Obrigada, Josh. — Colocou a mão sobre a minha


e sorriu para mim.

— Por nada.

— Pela festa, pela noite e... bom... todo carinho.

— Eu gosto de você, Aline — externei em palavras o


que eu estava sentindo.

— Eu também, Josh. — Ela se curvou para acariciar


o meu rosto.

Teria me virado para beijá-la se já não estivesse


dirigindo rumo ao bairro onde Aline morava. Contudo, eu o
fiz assim que parei o carro na porta da casa dos pais dela.

Aline aprofundou o beijo e nossas línguas ficaram se


tocando por alguns minutos até que ela se afastou e soltou
o cinto.

— Nos vemos amanhã na companhia.

— Sim.
— Obrigada, mais uma vez. — Acenou para mim e
eu assenti.

Aline fechou a porta do meu carro e fiquei


esperando até que ela entrasse em casa antes de seguir
para o meu apartamento.

Assim que cheguei, tirei a chave do bolso e abri a


porta. Tudo estava estranhamente silencioso a não ser pelo
som da televisão. Quando entrei, vi o Oliver no sofá, minha
mãe conversando com a senhora Keller na cozinha e uma
certa bagunça no ambiente onde eu prezava por tudo no
lugar.

— Todos os outros foram embora?

— Ah, Josh, você chegou! — Minha mãe abriu um


largo sorriso ao me ver.

— Sim.

— Seu pai e a Izzi estão dormindo nos quartos de


hóspedes. Max voltou ontem à noite para o hotel onde a
babá estava com a Melody. Imagino que a essa hora já
tenha ido para a Flórida.
— Achei que ele fosse ficar em Washington em
definitivo depois da eleição.

— Ele ainda tem alguns compromissos como


governador para cumprir até a mudança de governo, no
início do próximo ano.

— Entendi. — Virei-me para a minha governanta. —


Senhora Keller, estou com fome.

— Vou preparar o seu café da manhã, senhor.

— Obrigado. — Acomodei-me em um dos bancos.

— Passou a noite inteira transando que eu sei. —


Oliver colocou a mão sobre o meu ombro e o apertou.

— A noite inteira não. Nós também dormimos.

— Josh, você é uma peça, cara. — Ele gargalhou e


eu fiquei sem entender.

— Olie, deixa o seu irmão em paz — recriminou a


minha mãe, encarando-o séria.

— Nós estamos apenas conversando, dona Ana.


— Ele não entende o seu sarcasmo.

— Eu sei, por isso é tão divertido.

— Olie!

— Já entendi, mãe.

— Você é terrível.

— Logo terá mais netos.

— Está falando do novo bebê do Maxwell? —


intrometi na conversa dos dois.

— Não. De você fazendo um com a sua nova


namorada.

— Sei para que a camisinha serve e me lembro de


usá-la.

Oliver voltou a rir e eu franzi o cenho, mais uma vez


confuso. Meu irmão gostava de se divertir com a minha
condição e eu já deveria ter me acostumado com isso.

— Meus filhos adultos falando sobre sexo na frente


da mãe. Realmente o mundo está bem mudado. — Meu
pai saiu do corredor que levava aos outros cômodos do
apartamento, se aproximou de nós e parou ao lado da
minha mãe, dando um rápido beijo no rosto dela.

— Qual é o problema? Ela também é adulta. — Dei


de ombros.

— Josh tem razão. — Oliver continuou rindo. —


Vocês dois fizeram pelo menos quatro vezes. Não é como
se ela não soubesse como funciona.

Meu pai semicerrou os olhos e Oliver parou de falar,


mas continuou rindo baixinho.

— Você não tem um voo de Nova York para São


Paulo hoje?

— Sim, pai, mas é só mais tarde. Vou me trocar aqui


e sigo direto para o aeroporto, mas ainda tenho algumas
horas.

— É melhor que não se atrase. Que exemplo o filho


do dono da companhia passará para os outros se prejudica
o horário dos voos?

— Sou um bom exemplo, pai.


— Por que não vamos todos tomar café da manhã?
— Minha mãe mudou de assunto. — Senhora Keller, pode
nos servir na mesa, por favor?

— Sim, senhora Mazzi.

— Obrigada.

Nos reunimos ao redor da mesa na sala e a senhora


Keller trouxe frutas, pães e um bolo para o nosso café da
manhã. Izabel logo se levantou e juntou-se a nós.

Em alguns momentos, até gostava de ter a minha


família por perto, porém confesso que sentia falta do meu
canto solitário. Foi bom quando todos foram embora e
voltei a ficar sozinho.
Vinte e quatro

Quando cheguei em casa, meus pais me


perguntaram onde eu estava, mas não foram muito
invasivos depois que eu disse que havia dormido com o
Josh. Era adulta, cuidava de mim mesma, e poderia decidir
quando ou com quem passar a noite, ainda que morasse
com eles. Meu pai tinha um receio evidente do Josh, por
todas as nossas diferenças, já a minha mãe estava se
corroendo para contar a todas no salão que eu estava
namorando o irmão do presidente.

— Bom dia. — Os cumprimentei quando os vi na


cozinha na manhã seguinte, assim que desci para tomar o
café da manhã, após me arrumar para ir trabalhar.

— Bom dia, filha. — Minha mãe sorriu para mim


após entregar um sanduíche para o meu sobrinho colocar
na lancheira.

— A Amanda já chegou?

— Sim, de manhãzinha. Está dormindo.


— Ah!

— Como você está?

— Bem.

Percebi que ela me olhava como alguém que se


corroía por dentro, mas não tinha coragem para falar .

— O que foi, mãe?

— O presidente estava na festa?

— É o irmão do Josh, mãe.

— Mas ele parece um homem tão ocupado.

— Na festa, ele era só o irmão do Josh.

— Não tinha seguranças?

— Muitos, mas fora isso ele é um cara como


qualquer outro, que gosta do irmão e é apaixonado pela
esposa. Achei muito fofa a forma como ele estava
preocupado com ela por causa da gravidez.

— Gravidez? A primeira-dama vai ter outro bebê? —


Minha mãe arregalou os olhos eu quis me bater por causa
da minha boca grande.

— Não vá falar disso no salão, por favor. Eu mal


comecei a conviver com eles, não quero de forma alguma
parecer uma grande fofoqueira.

— Ainda não vimos em nenhuma revista ou site na


internet. Seria incrível dar essa notícia em primeira mão lá
para as clientes do salão.

— Mãe, de jeito nenhum!

Ela mordeu os lábios e abaixou os olhos em uma


expressão amuada.

— Vocês precisam parar de pensar que são uma


revista de fofoca.

— Mas então é oficial, vocês realmente estão


juntos? Ele não a apresentaria para a família se estivesse
só brincando com você como se fosse uma qualquer.

— Mãe!

— Estou apenas preocupada com você.


— Sim, eu sou a namorada dele diante da sua
família.

Na verdade, tinha sido a Izabel quem havia me


apresentado assim, mas não se tornava mentira, já que a
caçula havia dito a todos em alto e bom tom que eu era a
namorada do Josh.

Namorada... lembrei-me da noite que tivemos juntos


e o meu coração se aqueceu.

— Ah, estou feliz por você.

— Obrigada, mãe.

— Se vocês estão mesmo namorando, então eu


posso contar lá no salão.

— Mãe! — Cruzei os braços.

— Quanto tempo você acha que demorará para sair


uma foto de vocês dois juntos em algum lugar? Imagina o
que elas vão pensar quando descobrirem que a minha filha
namora o irmão do presidente.

— Ele tem nome, mãe.


— Ah, o bailarino Mazzi.

— Joshua.

— Isso!

— Pode contar sobre o namoro, mas sem falar da


festa de aniversário, que o Max esteve presente ou que eu
dormi fora.

— Max? Ele deixa você chamá-lo pelo apelido?

— Mãe!

— Desculpe-me.

— É melhor apressar o Jimmy ou ele vai acabar


perdendo o ônibus para a escola. Eu vou tomar meu café
da manhã, porque preciso ir trabalhar.

— Pretende continuar trabalhando para ele


normalmente?

— Por que isso mudaria? — Dei de ombros e abri a


geladeira para pegar a garrafa de leite. Tinha que sair logo
ou acabaria me atrasando.
Minha mãe não respondeu a minha pergunta,
apenas saiu e levou o meu sobrinho consigo.

Se o meu relacionamento com o Josh continuasse, o


que eu torcia para que sim, teria que preparar a minha mãe
para conhecê-lo sem que ela me deixasse em uma saia
justa.

Saí a passos largos de casa e tentei chegar no


metrô o mais rápido possível para não correr o risco de
perder o trem, pois se isso acontecesse me atrasaria para
o trabalho. Tinha certeza de que, namorando o chefe, os
olhos de todos estariam ainda mais sobre mim, e eu não
precisava dar a eles motivos para me jogarem pedras.

Assim que entrei no vagão, fiquei surpresa por


encontrar um banco vazio e me acomodei rapidamente
nele antes de pegar o meu celular, que estava vibrando.

Hannah:

Oi, amiga, sumiu!

Como você está?

E o lance com o Josh?


Aline:

Foi um final de semana movimentado.

Hannah:

Me fala mais.

Aline:

Depois que nós saímos, tudo meio que fluiu


naturalmente.

Estamos namorando!

Hannah:

Uau! Parabéns! Finalmente rsrs.

Estou feliz por você amiga.

Aline:

Também estou muito feliz.

No sábado teve o aniversário dele.


Conheci toda a família. Para a minha surpresa,
fui bem recebida, mais do que imaginava. Foram
gentis e me trataram muito bem.
Hannah:

Isso é ótimo! Ninguém merece quando a família


fica enchendo o saco.

Aline:

A festa foi incrível. Você precisava ver só a


cara da Britney quando o Josh me beijou e
depois me chamou para dançar.

Hannah:

Dançar? Achei que ele não podia mais.

Aline:

Balé não, mas pode outros estilos que não


forcem tanto o pé dele.

Hannah:

Quem sabe ele não compete com você naquele


concurso que o Raphael estava querendo só para
deixar seu ex-namorado se roendo?

Aline:
Não quero mais nada com o Raphael, nem o
provocar.

Hannah:

Mas e o concurso?

Aline:

Não sei se o Josh vai querer participar de algo


assim.

Hannah:

Só vai saber se perguntar.

Aline:

Ok! Eu preciso descer agora.

Hannah:

Até mais, amiga.

Cheguei na estação do metrô perto da altura da


Broadway, onde ficava a companhia, e desci. Caminhei o
quarteirão apressada e, felizmente, quando cheguei diante
da entrada e olhei no relógio, vi que ainda faltavam cinco
minutos para o início do meu horário.

— Bom dia, John! — Sorri para o porteiro.

— Bom dia, senhorita Lopes. Você está radiante


hoje.

— O senhor é muito gentil.

— A senhorita quem é. Muito obrigado pelos


ingressos para aquela peça. É muito divertida e os meus
filhos amaram.

— Me deixa muito contente ouvir isso.

— Tenha um bom dia.

— O senhor também.

Passei por ele e segui pela escada que levava aos


escritórios. Contudo, antes que eu chegasse a minha
mesa, Britney passou por mim e deu uma trombada no
meu ombro que me fez ricochetear.

— Não sei o que fez para que ele se interessasse


por você. Na verdade, achava que o senhor Mazzi nem
gostasse de mulher. Porém, seja lá como o hipnotizou, isso
não vai durar por muito tempo.

— Ah, ele gosta de mulher, sim. Pode não ter


gostado de você, mas isso não significa muita coisa.

— Se acha melhor do que eu agora, só porque está


dando para o chefe, não é? — Encarou-me com um olhar
de desprezo, que fez o meu estômago revirar. Sabia que o
mundo do balé era competitivo, mas Britney estava
extrapolando os seus limites. — Você não é melhor, na
verdade nem bailarina é. Essa sua fantasia não vai durar
muito tempo e quando ela acabar, eu vou ser a primeira da
fila para aplaudir de pé.

— Aline! — Ouvi a voz do Josh e Britney e eu nos


viramos para o início do corredor.

Com a aparição dele, não tive tempo de responder a


afronta, mas acho que o Josh se aproximando de mim e
me beijando na frente da primeira bailarina já era o
suficiente para que ela se calasse.

— Bom dia. — Ele afagou o meu rosto.


— Bom dia.

— Olá, senhor Mazzi. — A enxerida tentou se


intrometer entre nós e estourar a minha bolha.

— Não deveria estar na sala ensaiando com os


outros bailarinos, senhorita River?

— Sim, senhor. — Ela fechou a cara e passou por


nós.

— Estava ansioso para ver você.

— Eu também.

Josh segurou o meu rosto entre as suas mãos e me


beijou de maneira mais aprofundada do que quando
estávamos diante da Britney.

— Não deveria me beijar assim aqui na companhia.


— Afastei-me envergonhada.

— Por que não? — Ele pareceu surpreso diante do


meu comentário. — Você é a minha namorada.

— Mas aqui você é meu chefe, as pessoas podem


não entender.
— É a minha companhia de balé. Sou eu quem
mando.

— Para você é tudo tão simples. — Ri, sem graça.

— Não deve se preocupar com o julgamento dos


outros. A opinião deles é só deles.

— Tem toda a razão.

Acariciei o rosto dele e Josh sorriu ainda mais para


mim.

Sim, ele era o chefe e ninguém poderia me demitir


por estarmos namorando, afinal, a companhia era dele.

— O que tem na minha agenda hoje?

— Deixe-me ver. — Fui até minha mesa para


verificar. — Uma reunião com a equipe de marketing agora
pela manhã, uma com a do financeiro à tarde e um almoço
comigo, se você quiser.

— Gosto da parte do almoço.

— Eu também.
— O que a sua família pensou de mim?

— Importa-se com isso?

— Você não? — Assim que as palavras saíram da


minha boca, eu me senti uma idiota por tê-las pronunciado,
pois se conhecia bem o Josh, era óbvio que ele não ligava
para qualquer julgamento alheio.

— Mamãe e Izabel gostam de você. O Oliver diz


coisas idiotas na maior parte do tempo e ri quando eu
respondo o que ele perguntou. Já o meu pai, ele evita fazer
qualquer comentário. Acha que essa parte das nossas
vidas somos nós mesmos quem devemos decidir. E
concordo com ele.

— Seu pai parece uma boa pessoa.

— Ele é.

— Tinha uma visão diferente dele.

— Por quê? — Josh franziu o cenho.

— Vocês são ricos. Tem outro padrão de vida.

— Somos pessoas.
— Isso é verdade. — Fiquei nas pontas dos pés
para dar mais um selinho nele. — Agora, vai para a sua
reunião que eu tenho uns documentos para preparar. Nos
encontramos no almoço.

— Okay! — Josh passou por mim e seguiu pelo


corredor a fim de se encontrar com o diretor de marketing
da companhia na sala de reuniões.

Fiquei olhando para ele até que desaparecesse pela


porta da sala. Eu estava amando cada minuto daquele nós.
A forma como o Raphael havia terminado comigo fez com
que eu me esquecesse completamente de como era estar
ao lado de alguém que eu gostava de verdade e o quanto
isso me fazia sorrir.

Sentei na minha mesa e assim que abri a tela do


computador para checar os e-mails, meu telefone tocou.

— Senhorita Lopes?

— Pois não?

— A senhorita Kemp está aqui. — Ouvi a voz do


John. — Posso deixá-la subir?
— Sim.

— Obrigado.

Ele desligou a chamada e eu ajeitei algumas coisas


na minha mesa enquanto esperava que a Joan subisse.
Logo ela apareceu no corredor e caminhou até mim. Assim
como o Ethan, estava sempre elegante, usando roupas
sóbrias e sofisticadas. Seu cabelo castanho estava ajeitado
em um belo coque e a maquiagem era leve, mas bem feita.

— Olá, Joan! — Levantei-me para abraçá-la e


cumprimentá-la com um beijo no rosto.

— Aline, que bom vê-la.

— E aí, como você está?

— Bem e você?

— Também.

— Parece bem contente.

— Está tudo se acertando. — Apontei para um sofá


que ficava na parede oposta à minha mesa e Joan aceitou
o meu convite para sentar-se lá.
— Fico contente por ouvir isso. Quer dizer que você
e o Josh se entenderam?

— Estamos namorando. — O sorriso não coube nos


meus lábios.

— Nossa! Meus parabéns.

— Obrigada.

— Eu vim trazer alguns modelos que o Ethan queria


que o Josh desse uma olhada. Ele poderia muito bem ter
mandado os croquis por e-mail, mas sei lá, talvez ele não
me queira no ateliê.

— Por quê? O que foi? — Analisei bem a expressão


dela. Joan parecia abatida, talvez chateada. — Você
contou para o Ethan que gosta dele?

— Pior, nós transamos.

— E foi ruim assim?

— Ele está estranho. — Ela esfregou os olhos e eu


não soube dizer se era choro ou se ela estava apenas
tentando espantar as lágrimas.
— Se te consola, eu o vi na festa do Josh, no
sábado, e ele estava sozinho. Evitou todas as garotas que
tentaram se aproximar.

— Obrigada por me contar isso.

— O que está te incomodando? — Segurei as mãos


da Joan entre as minhas e dirigi a ela um sorriso amistoso,
para que se sentisse segura para se abrir comigo.

— Ele era o meu melhor amigo, mas na verdade eu


sempre o amei. Me guardei para ele desde a época do
colégio e agora não sei se tomei a decisão certa.

— Homens são complicados.

— Nem me fale. — Ela bufou.

— Para bem ou para mal, ao menos o Josh é


sincero o tempo todo comigo e eu sei que ele não vai
esconder o que sente.

— Acho que o Ethan está precisando aprender um


pouco disso, porque a especialidade dele é esconder.

Nós rimos juntas.


— Vocês vão se acertar.

— Espero que sim.

— Às vezes, só precisamos de coragem para


colocarmos para fora o que estamos sentindo. É a minha
maior dificuldade com o Josh, porque as outras pessoas,
incluindo eu, não lidam tão bem com a verdade como ele.

— Parece que já aprendeu muito.

— Estou me esforçando. — Dei de ombros.

— Obrigada pela conversa, Aline. Era exatamente o


que eu estava precisando.

— Sempre estarei aqui. — Abracei-a.

— Agradeço. — Ela tirou algo da bolsa e o entregou


para mim. — Depois entrega esse pendrive para o seu
namorado. Soa bem essa palavra, não é?

— Sim.

Nós duas voltamos a rir.

— Pode deixar que eu entrego, Joan.


— Eu preciso ir agora. Tenha um bom dia.

— Você também. Estou torcendo por vocês dois. Me


dê notícias.

— Pode deixar.

Joan se despediu e foi embora. Estava realmente


torcendo para que os dois se acertassem. Contudo,
precisava admitir que era muito mais difícil colocar os
sentimentos para fora do que parecia na maior parte das
vezes.
Vinte e cinco

Puxei a cadeira para que a Aline se acomodasse e


esperei a minha namorada se sentar antes de dar a volta
na mesa e ficar diante dela.

Fazia um bom tempo que eu não namorava e,


certamente, nenhuma dessas relações se equiparava ao
que eu estava vivendo com a Aline, pois ela se esforçava
para me entender, ao invés de simplesmente sair brigando
comigo quando eu dizia algo.

— Gosto de almoçar com você. — Ela sorriu quando


o garçom nos entregou os cardápios.

— Ainda nem começamos a comer.

— É por estar junto.

— Ah, sim. Eu também gosto.

— Josh você acha que o Ethan gosta da Joan?

— Eu não sei. Ele nunca disse.


— Mas é o seu melhor amigo, não é?

— Sim.

— Você nunca percebeu nada?

— Não sou bom em perceber as coisas. Você sabe


disso. — Fechei o cardápio e fiz um gesto para o garçom
anotar o meu pedido.

— Sim, desculpa por perguntar.

— Só me lembro dele não querer que eu transasse


com ela.

Aline ficou em silêncio por alguns minutos e a cor


fugiu do seu rosto.

— Você está bem?

— Você já quis ter algo com a Joan?

— Não. Um dia, o Ethan e eu estávamos


conversando sobre o meu aniversário e ele disse que eu
deveria comemorar em uma festa privada com várias
mulheres. Lembrei a ele de que não gosto de
desconhecidas e falei que achava a Joan bonita e que com
ela eu transaria.

— Ah.

Afunilei os olhos e observei-a melhor.

— Você está com ciúme.

— Não. — Negou, balançando a cabeça, mas o


desconcerto no seu olhar me dizia outra coisa.

— Está,sim.

Ela respirou fundo e sorriu para mim.

— É só um pouco de insegurança.

— Eu gosto de você, Aline.

— Eu sei. — Ela estendeu a mão para tocar a minha


sobre a mesa. — Obrigada por dizer.

— Não posso afirmar que ele gosta da Joan, mas o


Ethan nunca me pediu para ficar longe de uma garota
antes.

— Isso é um sinal.
— Pode ser.

— Torço para que os dois se resolvam. — Ela


mexeu no cabelo e voltou a sorrir.

Apenas assenti com um movimento de cabeça


enquanto a encarava. Aline era linda e eu não me cansava
de observar a forma como a luz refletia no seu cabelo
escuro, ou no tom chocolate da sua pele e nos seus olhos
profundamente escuros como ébano.

— Josh?

— Sim.

— O que acha de participarmos desse concurso de


dança? — Ela pegou o celular e o estendeu para mim a fim
de que eu visse a postagem, em uma rede social, sobre um
concurso de dança de casais que aconteceria no Brooklyn.
— Sei que é só uma disputa de rua e o prêmio é um
punhado de dólares em vales-compra de uma loja, mas
seria mais pela oportunidade de dançarmos.

— Okay! Podemos participar.

— É sério? — Aline arregalou os olhos.


— Você quer participar, não quer?

— Sim!

— Então vamos participar. Gosto de dançar com


você.

— Josh, você é demais! — ela disse com um sorriso


enorme que me alegrava, e eu fiquei a encarando
comemorar até que o garçom trouxesse o nosso almoço.

— As inscrições acontecem no sábado. Você pode ir


comigo?

— Posso.

— Obrigada!

Aline estava muito empolgada com aquela


competição de dança e para mim também seria uma boa
oportunidade de voltar a dançar. Ainda que eu não pudesse
voltar para o balé, a dança de rua seria uma nova
oportunidade de me reconectar com uma parte de mim que
eu gostava tanto.
Vinte e seis

Coloquei um conjunto de moletom e prendi o meu


cabelo em um rabo de cavalo. Olhei-me diante do espelho
e passei o batom vermelho da minha irmã.

Estava ansiosa, e toda vez que isso acontecia, a


minha barriga começava a revirar. Ao mesmo tempo que
parecia uma grande loucura, era uma oportunidade incrível
de dançar com o Josh e me conectar ainda mais com ele.
Nas duas vezes que fizemos isso, foi como se a música
fosse capaz de nos transportar para outra dimensão.

— Vai sair?

— Oi, Amanda! — Virei-me e vi a minha irmã parada


na porta do quarto, reparando-me enquanto eu me
espichava.

— Josh e eu vamos nos inscrever em um concurso


de dança bobo no Brooklyn.

— Não parece tão bobo assim, já que você está


vibrando de empolgação.
— Eu vou dançar... E vou dançar com ele.

— Isso parece incrível.

— Sim. — Suspirei e tinha certeza de que os meus


olhos estavam brilhando.

Estava longe da dança há muito tempo, e aquela


oportunidade unia o útil ao agradável da melhor forma
possível.

— Você está feliz com ele.

— Estou, e muito — respondi, ainda que não fosse


uma pergunta.

— Fico tão contente por você, irmãzinha. A mamãe


também está empolgadíssima.

— Contando aos quatro ventos que o meu


namorado é irmão do presidente eleito, não é? —Mordi o
lábio inferior, receosa.

— Acho que o Harlem todo já sabe. — Amanda


gargalhou.
— Nossa! — Escondi o rosto com as mãos e ela riu
mais ainda.

— Irmãzinha, você já abriu mão demais de coisas


que gosta por medo do que eles vão pensar, ou
simplesmente por acreditar que eles iriam querer outra
coisa de você. Só vai fundo. Se joga na dança e nos
braços do cara. Você merece ser feliz.

— Muito obrigada, Amanda. — Abracei a minha irmã


apertado e nós ficamos assim por vários minutos.

— Agora vai lá. Tenho que ajudar o Jimmy a fazer


um trabalho da escola. Parece que ele tem que montar
uma maquete para a feira de ciências.

— Você é uma ótima mãe, mas também precisa de


um tempo para você.

— Ainda não superei a perda do Gael.

— Sei disso, mas ele não vai voltar, irmã.

— É difícil aceitar.
— Mas não torna menos verdade. Ele se foi, mas
você ainda tem uma vida inteira pela frente.

— Você tem razão, mas agora está na hora de você


ir. — Ao ouvir o som de um carro parando na entrada da
nossa casa, Aline me empurrou para o corredor e não me
deu brecha para continuar falando da vida dela. — Bom
concurso, irmãzinha.

— Não é hoje.

Ela deu de ombros e apenas fez um gesto para que


eu continuasse andando. Sacudindo a cabeça, segui pelo
corredor até a escada. Era sábado e a minha mãe tinha
muitas clientes no salão, mas o meu pai estava com o meu
sobrinho na sala. Passei por eles e apenas acenei, saindo
antes que tivessem tempo de perguntar qualquer coisa.

Quando cheguei na rua, vi o Josh escorado na


lateral do carro preto e luxuoso dele. Usava um sobretudo
cinza grosso por cima de uma calça jeans e uma camiseta
branca. Ele tirou os óculos de sol pretos quando me viu e
sorriu para mim.

— Oi!
— Ei! — Acabei com a distância entre nós dois e
parei na frente dele.

— Dormiu bem? — Acariciou o meu rosto e eu


fechei os olhos, sentindo o calor dos seus dedos, que ele
provavelmente manteve aquecidos nos bolsos do casaco.

— Sim.

— Estava ansioso para ver você.

— Eu também.

Fiquei nas pontas dos pés e Josh segurou a minha


nuca, puxando o meu rosto para o seu enquanto me
beijava com carinho. Estava me acostumando a aqueles
momentos com ele e não queria que acabassem nunca.

— Então você é o tal Joshua Mazzi?

Engoli em seco quando ouvi a voz do meu pai. O


que ele pensava que estava fazendo? Eu não era mais
uma adolescente que precisava de fiscalização.

— Sim — Josh respondeu num tom neutro, como se


não tivesse se importado com a aparição indesejada. —
Joshua Charles Mazzi. Ou simplesmente Josh Mazzi.

— O que um cara como você quer com a minha


filha?

— Pai! — Afunilei os olhos e cerrei os dentes. Era só


o que me faltava, meu pai começar com algum show.
Depois do que o Raphael já havia feito, Josh não precisava
de outra dor de cabeça.

— Estamos namorando. — Josh entrelaçou seus


dedos nos meus.

— E não pretendiam falar nada comigo?

— Eu já disse. — Fiquei ainda mais irritada.

Josh olhou para mim e voltou a encarar o meu pai


antes de dizer qualquer coisa.

— Precisamos sair agora, então não posso ficar


para conversarmos, mas podemos marcar um outro dia.

— Almoço amanhã — disse o meu pai ainda sério.

— Okay! — Josh consentiu, sem ter ideia de onde


estava se metendo.
— Pai, não faz isso.

— Acha que o seu namorado não tem que almoçar


com a sua família, Aline?

Abri um sorriso amarelo. Meu pai realmente não


precisava ter me colocado nessa situação.

— Tudo bem, Aline, vai ser legal almoçar com eles.

— Acho que estou começando a gostar de você —


disse meu pai para ele.

— Obrigado.

Encarei o meu pai e ele me olhou como se não


tivesse feito nada demais. Balancei a cabeça em negativa
e o Josh puxou a minha mão para atrair a minha atenção.

— Vamos?

— Sim.

— Aonde vocês vão?

— Até mais tarde, pai. — Acenei para ele e não


respondi nada. Meus pais não apoiavam minha carreira
como dançarina, e não queria que jogassem um balde de
água fria na minha singela oportunidade de fazer algo que
eu gostava tanto.

Josh deu a volta no carro e assumiu o banco do


motorista. Ele ligou o carro e através do retrovisor eu podia
ver o meu pai nos encarando até que o veículo virasse a
esquina.

— Desculpa pelo meu pai.

— Por quê?

— Não precisava ter colocado você naquela


situação.

— Família é assim. A Izabel não apresentou você


para todo mundo?

— Sim.

— Não quer que eu vá almoçar com eles amanhã?


— Olhou para mim assim que parou em um sinal.

— Só achei que você não fosse querer.


— Quero ficar com você. É a minha namorada,
conviver com a sua família faz parte.

— Você é um fofo. — Espichei-me para beijá-lo na


bochecha. — É impossível não amar você.

Falei sem perceber e, quando me dei conta, aquelas


palavras já haviam saído da minha boca.

Amar você...

Josh continuou concentrado na direção e,


felizmente, não disse nada. Fiquei grata por não ter que
explicar. Ainda não havíamos usado essa palavra e eu não
sabia se era cedo ou tarde para tal.

Enquanto para ele tudo parecia simples e se resolvia


com sim ou não, para mim era muito mais difícil, por medo
de como as pessoas iam reagir ou de ser rejeitada.
Estávamos juntos e isso tinha que bastar por enquanto.

Josh dirigiu até o endereço onde seriam feitas as


inscrições, em um bairro mais afastado. Ele parou o carro
em uma esquina, nós descemos e fomos caminhando até o
local. Havia algumas pessoas paradas na rua, a maioria
dividida em pequenos grupos, conversando. Tinham
negros, asiáticos, latinos e brancos, gente de várias
origens, e apesar de Nova York ser um lugar onde
estávamos acostumados a topar com todo tipo de bizarrice
nas ruas, ainda assim olharam para nós, principalmente
para o Josh, como se fôssemos de outro planeta. Ele não
se importou e de certa forma invejei um pouco o seu jeito
de lidar com o mundo.

— Me dá a mão. — Sorriu para mim ao estender a


sua.

— Obrigada. — Não tinha ideia se ele sabia disso,


mas o seu gesto me deu o pouco de confiança que eu
precisava para enfrentar todos de frente.

— As inscrições devem ser por ali. — Apontou para


uma fila com vários casais.

— Sim.

Seguimos juntos e nos colocamos atrás do último.

Todo mundo sabia que o Josh era filho de um


grande empresário italiano. Todos, certamente,
imaginavam o berço de ouro cheio de oportunidades em
que ele fora criado, porém poucos tinham o privilégio de
conhecê-lo de verdade. Ele tinha um jeito simples de ver a
vida e, apesar da sinceridade que beirava a falta de
educação, Josh era simples, carinhoso e tinha um grande
coração. Eu me sentia muito feliz por ter a melhor parte
dele.

— Está pensativa — comentou e percebi que estava


me encarando.

— Estava pensando em você.

— Em mim? — Franziu o cenho.

Balancei a cabeça em afirmativa.

— No que especificamente?

— No quanto é especial e de como gosto de estar


perto de você.

— Também gosto muito de estar perto de você. —


Afagou o meu rosto e eu suspirei, fechando os olhos.
Josh se curvou e tocou os meus lábios com carinho.
Deixei-me ser envolvida pelo beijo, e até cheguei a me
questionar por que não havia tomado coragem de contar
para ele o quanto era apaixonada muito antes. Porém, me
arriscava a dizer que tudo estava acontecendo como
deveria ser. Estávamos juntos e isso era tudo o que
importava.

— Eu não acredito que você está aqui com esse


cara. — Meu estômago revirou quando eu ouvi a voz do
Raphael.

Era idiotice negar a possibilidade de que o meu ex-


namorado pudesse estar ali, porém me deixei levar pela
fantasia de que nunca mais voltaria a vê-lo. Talvez
estivesse contando com um milagre.

— O concurso não é livre para todos participarem?


— Josh encarou o Raphael com uma expressão firme, sem
se amedrontar diante do negro musculoso de quase dois
metros de altura.

— Cala boca, seu playboy. Não estou falando com


você.
— Deixa de ser idiota, Raphael — rosnei. — Você
me falou do concurso, e eu quis participar. E daí?

— Sério, Aline, que tem coragem de falar desse jeito


comigo?

— Foi você quem começou.

— Eu a chamei para participar desse concurso


comigo. Queria que fizéssemos isso juntos, como nos
velhos tempos. Não poderia imaginar que você apareceria
com esse cara aqui na maior cara lavada, como se não
devesse nada para mim.

— Aí que está, Raphael, eu não devo! Não aja como


se tivesse sido eu quem joguei você de lado, porque a
situação é justamente o contrário.

— Parece que você superou muito rápido com esse


daí.

— Rápido? — Eu ri para não chorar. — Foram


quatro anos! Quem é você para chegar agora e achar que
tem direito de me ter de volta?

— O cara que você ama.


— Ela não ama você. — Josh deu um passo para
frente, mas eu fiquei entre os dois antes que aquele
encontro acabasse em agressão física.

— Eu não perguntei para você, mané.

Estufei o peito e Raphael mudou de ideia antes de


tentar empurrar o Josh.

— Raphael, o que você está fazendo?

Todos nós nos viramos para ver quem era. Notei


uma mulher parada do outro lado da rua, na calçada. Ela
estava com roupas coloridas e tinha traços indianos.

— Me perguntei por que você estaria aqui, já que


não aceitei participar desse concurso com você, mas lá
está a minha resposta.

— Ela não é ninguém importante. — Raphael deu de


ombros. — Só precisava de alguém para dançar comigo.

— Eu não me importo, Raphael. Que se dane as


suas justificativas, só quero que você saia da minha frente.

— A gente não pode terminar desse jeito, Aline.


— Já terminamos quatro anos atrás. — Segurei uma
mão do Josh e ele colocou a outra na minha cintura.

— Espero que você quebre a perna de novo. —


disse ao Josh antes de se afastar.

— Quero dar outro soco nesse cara — falou meu


namorado quando o meu ex se afastou.

— Ele não vale o esforço.

— É um babaca.

— Bota babaca nisso. — Bufei.

A fila seguiu e nós andamos alguns passos. Eu


continuei alerta, olhando em todas as direções para ter
bastante certeza de onde o Raphael estava, para que ele
não fizesse nada contra mim ou ao Josh. Enquanto
namorávamos, ele não costumava ser o tipo de cara
perigoso, porém tudo poderia ter mudado em quatro anos.

Logo nos tornamos os primeiros da fila e nos


aproximamos de um homem que estava anotando dados
em uma lista.
— Os nomes de vocês? — perguntou de cabeça
baixa, analisando a lista.

— Aline Lopes e Josh Mazzi.

— Jo-Josh? — ele gaguejou ao erguer a cabeça e


encarar o meu namorado. — É mesmo você?

— Sim, sou eu.

— Eu nem gosto de balé, cara, mas você era muito


bom.

— Obrigado.

— Anota os nossos nomes. — Apontei para a lista


deles.

— Ah, claro! Nem estou acreditando que é mesmo o


Josh Mazzi. Não tem ideia de quantas pessoas vão vir para
te ver.

— O idiota dançava balé bem, quem se importa. Na


rua as coisas são diferentes, e aposto que ele não sabe
nada — resmungou Raphael, que estava alguns casais
atrás de nós, no entanto, ninguém pareceu se incomodar
com o comentário ofensivo dele.

— A classificatória é em duas semanas e oito casais


serão escolhidos para a final, que acontecerá no sábado
seguinte. Boa sorte para vocês.

— Obrigada. — Sorri para o cara que ainda olhava


para o Josh como se estivesse vendo um deus e um
fantasma, tudo numa mesma entidade.

Puxei o meu namorado comigo e voltamos para o


carro, longe dos olhares de todos e, principalmente, o do
meu ex.

— Talvez não tenha sido uma boa ideia... — Inspirei


profundamente quando me escorei na lateral do carro. — O
Raphael vai estar aqui, além de todas as pessoas que virão
só para ver você.

— Quando eu dançava na companhia, as pessoas


iam só para me ver. — Ele olhou para mim como se não
visse os mesmos problemas que eu.

— Você não se incomoda?


— Desde que você esteja feliz, não.

Eu sorri para ele e espantei mais uma vez os meus


medos e receios.

— Para onde quer ir agora, Aline? Posso levá-la de


volta para casa ou podemos ir a outro lugar.

— Sua família ainda está aqui?

— Não. Todos já voltaram para casa.

— Podemos ensaiar nossa primeira apresentação


no seu apartamento. Definir música e coreografia. O que
acha?

— Tenho uma sala adequada para ensaiarmos lá.

— Imaginei que sim.

Minhas bochechas arderam e eu me senti uma


depravada ao pensar que queria que fizéssemos mais do
que apenas dançar.

Josh e eu tivemos momentos agradáveis ao longo


da semana, porém não chegamos a dormir juntos
novamente. Eu havia sobrevivido muito bem quatro anos
sem sexo, entretanto fazer com ele foi como se houvesse
despertado algo adormecido em mim, me lembrando o
quanto era bom sentir alguém daquele jeito.

— Me leva para o seu apartamento. — Abri a porta


do carro e entrei.

— Okay.

Josh dirigiu para a sua residência e eu fiquei em


silêncio, apenas observando a paisagem da cidade mudar
à medida que nos aproximávamos de um bairro mais
luxuoso. Logo paramos no estacionamento do prédio e eu
esperei o Josh descer primeiro antes de segui-lo rumo ao
elevador.

Era a segunda vez que eu estava naquela cobertura,


mas ela me estonteou mais do que a primeira, pois a
enorme sala de estar, com uma vista magnifica de
Manhattan, não estava cheia de pessoas e parecia ainda
mais vasta. Tudo estava muito bem arrumado e no seu
lugar. Não havia qualquer sinal da festa que acontecera ali
no final de semana anterior.
— Você tem alguma faxineira para cuidar de tudo
isso? — Não contive a minha curiosidade ao examinar tudo
nos mínimos detalhes.

— A senhora Keller é minha governanta. Ela


mantém o lugar limpo, prepara minhas refeições e lava as
minhas roupas.

— Mas ela dá conta de tudo?

— Quando há festas ou mais pessoas, ela traz uma


ajudante.

— Entendi. É um apartamento muito grande.

— Sim. Eu gosto do espaço e tem uma bela vista.

— A vista realmente é maravilhosa. — Aproximei-me


da parede quase que tomada completamente por uma
janela de vidro, de onde eu podia ver altos prédios e o
verde do Central Park.

— Fico contente que você goste. — Ele se


aproximou de mim e me abraçou por trás. Derreti diante do
seu calor e me aconcheguei nele.
— Aqui é tão calmo.

Ele não disse nada, apenas assentiu e abaixou a


cabeça. Acomodou o nariz no meu couro cabelo e sentiu o
cheiro do meu shampoo.

— Estou com fome. Você quer comer algo antes de


começarmos a ensaiar?

— Sim.

Josh me soltou e foi até a geladeira. Olhou por


alguns minutos até que pegou dois sanduíches embalados
em plástico e entregou um para mim, junto com uma
caixinha de suco de laranja.

— Obrigada.

— Os sanduíches da senhora Keller são deliciosos.

Desembrulhei o meu e dei uma mordida,


saboreando o alimento antes de tecer a minha opinião.

— É bom mesmo. A minha mãe faz uma lasanha


incrível.

— Ela pode fazer amanhã.


— É verdade. — Abri um sorriso amarelo ao me
recordar de que o Josh havia aceitado um convite do meu
pai para ir almoçar com a minha família. Convite não, uma
imposição.

Sentei ao lado do Josh nas cadeiras altas diante da


bancada e terminamos de comer. Havia tomado café da
manhã antes de sair com o Josh, mas algumas horas já
haviam se passado e eu realmente estava com fome.

— Agora vem. — Josh estendeu a mão para mim


quando acabamos.

Joguei as embalagens em uma lixeira e o segui pelo


corredor até uma sala, um pouco menor, exatamente como
aquelas que os bailarinos ensaiavam na companhia.

— Uau! Acho que o sonho de todo dançarino deve


ser ter uma sala como essa.

— Eu exigi que tivesse uma quando fizeram a


reforma, antes de me mudar. Todo bailarino precisa de
uma.
— Você tem razão — concordei com ele, apesar de
saber que nem todos os bailarinos tinham condições de ter
uma sala como aquela em seus apartamentos.

— Já decidiu qual música vamos dançar? — Ele


caminhou para perto do rádio.

— Pensei que poderíamos decidir juntos.

— Okay! — Ele mudou as estações do rádio, que


variavam em diversos gêneros musicais e notícias, além de
programas de entretenimento.

— Essa parece boa. — Comecei a mover o meu


corpo de um lado para o outro enquanto me conectava com
a música.

Josh se afastou do rádio e veio para perto de mim,


colocou as mãos na minha cintura e me fez girar, ficando
de frente para ele. Nossos olhos se encontraram, mas
antes que ele fizesse qualquer outro movimento, esquivei-
me por debaixo do seu braço, mas Josh segurou o meu
pulso, fazendo com que eu não fosse longe demais. Movi-
me para um lado e ele para o outro, como se fôssemos
pontas distintas de um cabo de guerra.
Naquele momento não estávamos muito
preocupados com a coreografia, apenas em sentirmos a
música e aquecermos o nosso corpo. Além disso, era
sensual e divertido dançar com ele.

Josh venceu a disputa e nossos peitos se chocaram.


Ele sorriu e eu soltei um suspiro. Tentou tocar o meu rosto
e eu me esquivei, dando uma pirueta para o lado.

Comecei a sentir calor e tirei o meu moletom,


ficando apenas com uma camiseta fina branca. Josh fez o
mesmo com o casaco dele e penduramos as peças na
barra do balé que ficava em uma extremidade, próxima ao
espelho.

Josh me tocou e eu coloquei as mãos sobre os seus


ombros, dei alguns passos para traz sorrindo e ele me
acompanhou antes de me girar.

Quando dei por mim, estávamos parados no centro


da sala e nossos olhares presos um no outro. Tentei mover
a cabeça, mas Josh segurou o meu rosto. Sua mão na
minha cintura me impediu de rodopiar, mas trouxe o meu
corpo para mais perto do seu. Nos esfregamos um no outro
enquanto nos movíamos no ritmo da música, e eu já não
tinha mais certeza se estávamos apenas dançando ou nos
seduzindo.

Movi-me para um lado e o Josh para o outro pouco


antes de eu subir com as mãos pela lateral do seu corpo e
segurar a barra da sua camisa. Eu a puxei para cima e
Josh moveu os braços, deixando que eu a retirasse.

Apenas de jeans e sapatos, ele se moveu para outra


direção e eu me aproximei do espelho. Encarei a minha
imagem refletida e movi minhas pernas e meus braços em
arco antes de fazer um círculo e me deparar com o Josh
atrás de mim, como se houvesse se teletransportado para
lá.

A música no rádio mudou e Josh agarrou a minha


cintura. Antes que ele me puxasse para perto, girei, ficando
de costas para ele, e o impacto fez com que a minha bunda
se chocasse contra a sua pélvis. Um volume se formou ali,
mas eu fingi ignorá-lo.

Rebolei enquanto a mão do Josh subia pelas minhas


costas e alcançava o meu cabelo. Ele puxou o elástico que
o prendia e meus fios caíram selvagem sobre os meus
ombros. A música ficou mais agitada e eu a acompanhei
com os movimentos, assim como o meu namorado. Josh
subiu com as mãos pela lateral do meu corpo enquanto
dávamos passos para um lado e para o outro, até que seus
braços me envolveram logo abaixo dos meus seios e sua
boca veio parar na minha nuca, provocando um arrepio que
me varreu inteira, seguido de um calor com proporções
ainda maiores.

Tentei me libertar do seu agarre enquanto ainda


dançávamos, mas tudo o que consegui foi me esfregar
ainda mais na sua ereção. Logo percebi que havia me
soltado completamente e os meus movimentos ganharam
um cunho provocativo.

Tombei a cabeça para frente e joguei o cabelo,


fazendo-o pendular de um lado para o outro.

Josh me soltou apenas para me fazer girar, imaginei


que iriamos continuar com aqueles movimentos sensuais,
mas ele me segurou e me ergueu no ar. Jogou-me para
cima e eu senti uma intensa onda de adrenalina antes de
ser amparada pelos seus braços fortes. Meu coração
estava acelerado quando segurei nos seus ombros e
voltamos a fitar um ao outro. Percebi que ele estava
prestes a me colocar no chão quando eu segurei a sua
nuca e o puxei para mim. Nossas línguas se encontraram
em um ritmo ainda mais impaciente do que o movimento
dos nossos corpos. Josh retribuiu o meu beijo de uma
forma tão frenética quanto a minha, que deixou evidente
que eu não era a única pegando fogo.

Achei que ele fosse me colocar no chão para que


voltássemos a dançar quando o beijo acabasse, mas, ao
invés disso, Josh sentou-me na barra e as minhas costas
foram amparadas pelo espelho. Suas mãos voltaram a
envolver a minha cintura, mas não foram para me guiar na
dança, mas sim para puxar a minha calça de moletom,
juntamente com a minha calcinha, sem qualquer cerimônia.
Tirei os tênis pressionando os pés um no outro e eles
caíram no chão junto com as minhas roupas. Estava
apenas de camiseta e meias quando abracei sua cintura
com as pernas.
O volume da sua calça esfregou no meu sexo
desprotegido, e Josh se apoiou com uma mão no vidro e a
outra na barra.

Nos beijamos com ainda mais fervor e a dança que


nossas línguas faziam acelerou ainda mais o meu coração.
À medida que os meus lábios ficavam dormentes, maior
era a pulsação entre as minhas pernas, pedindo para que o
Josh se unisse a mim.

Eu me retorci para que a minha mão fosse parar


entre nossos corpos e abri a sua calça. Josh soltou a barra
e colocou a mão no bolso. Pegou a carteira e tirou dela um
pequeno envelope laminado antes de jogá-la para trás,
sem se preocupar com onde havia caído.

Peguei a camisinha das mãos dele e quase deixei


que escorregasse pelos meus dedos. Estava aflita, ansiosa
para que nos conectássemos o quanto antes. Abri o
envelope com os dentes no exato momento em que o Josh
tirou o pênis da cueca. Logo que escorreguei o plástico
pelo seu membro, Josh me segurou com as duas mãos e
me puxou para frente, cravando-se em mim. Gemi alto
quando ele me penetrou.

Rebolei na barra e esfreguei-me no espelho,


pedindo para que ele começasse a se mover e Josh cedeu
aos impulsos do próprio corpo. Elevei a cabeça para
encontrar os seus lábios novamente e o beijei, mas era
muito mais difícil manter o ritmo das nossas línguas com a
vontade alucinada de gemer.

Até cogitei mudarmos de posição, quem sabe


fazemos no conforto da cama, porém, eu não queria que
ele saísse de mim nem por um segundo. Estava gostoso
demais para interrompê-lo. Eu esfregava meu clitóris nele e
os impactos da estocada aumentavam ainda mais o meu
prazer. Não tardei a ser tomada por uma onda muito
intensa e meu orgasmo durou o tempo que Josh precisou
até encontrar o próprio prazer.

Abracei os ombros dele e apoiei a minha cabeça na


do meu namorado até que minha respiração se
normalizasse, assim como o controle sobre as minhas
pernas.
— Desse jeito, vai ser difícil ensaiar. — Josh subiu
com as mãos pelas minhas coxas e beijou a minha testa.

— Você acha? — Ri baixinho.

— É difícil não querer transar com você toda vez


que se esfrega em mim.

— Não vejo mal algum em fazermos um pouco dos


dois. Transarmos e dançarmos.

— Você tem razão. — Josh se afastou, saindo de


mim, e me agarrei à barra, equilibrando-me para não cair.

— Acho que podemos escolher uma música e


pensar em uma coreografia antes de voltarmos a ensaiar.

— É uma boa ideia.

Josh deixou a sala e seguiu até um banheiro social


no corredor para se limpar, e eu fui atrás. Apesar de não ter
gozado dentro de mim, a excitação fora o suficiente para
me deixar muito molhada.

Assim que nos limpamos, voltamos para sala e eu


vesti a minha roupa, mas para a minha felicidade, Josh
continuou sem camisa. Imaginei que ele estivesse com
calor, mas eu só agradeci.
Vinte e sete

Aline não dormiu no meu apartamento, por mais que


eu tivesse pedido. O que me deixava feliz era pensar que
eu teria muitas outras oportunidades para acordar com ela
nos meus braços. Além disso, iria vê-la no meu almoço
com a família dela. Aline não era a minha primeira na
namorada, já havia passado por aquela experiência antes,
no entanto eu estava mais ansioso daquela vez do que me
lembrava de ter me sentido antes. Eu gostava dela, talvez
até mais do que tinha gostado de qualquer outra mulher
com que me envolvi ao longo da vida. Era minha melhor
amiga, a que me entendia, ao invés de ficar tentando me
fazer agir de forma diferente do que eu conseguia. Com a
ajuda de profissionais médicos, da minha família ou por
experiências próprias, tinha aprendido muitas coisas ao
longo da vida que me ajudavam a driblar as dificuldades do
convívio social, porém alguns pontos da minha
personalidade eram imutáveis e Aline não me crucificava
por eles. Somando-se a isso, havia o fato de ela ser bonita,
gentil, amável, sexy e uma ótima dançarina. Queria tê-la e
se tivesse uma chance para fazer com que funcionasse, eu
daria o meu melhor.

Entrei no meu closet e vi as minhas roupas sociais,


assim como a gravata laranja que o Ethan havia me dado.
Contudo, escolhi uma camisa polo, lembrando-me da
própria Aline dizendo que eu não precisava ser formal o
tempo todo. Me vesti e peguei um pesado casaco de
inverno antes de sair do quarto e descer para a garagem.

Assim que o meu carro chegou na rua, percebi que


estava nevando. A neve era comum no início de dezembro,
assim como os enfeites natalinos que tomavam as casas e
os comércios. Izabel sempre aparecia para me fazer uma
visita naquela época do ano, dizia que era por saudades,
mas eu não precisava ser bom em ler as pessoas para
saber que era pelos presentes e a neve, uma vez que a
Flórida era uma parte tropical dos Estados Unidos em que
fazia calor o ano inteiro. Minha mãe gostava, pois a
recordava do país onde havia nascido.

O trânsito no domingo era razoável e não levou


muito tempo para que eu chegasse ao Harlem. Eu me
impressionava como dois bairros na própria Manhattan
poderiam possuir culturas tão diferentes.

Parei o veículo diante da casa da Aline e peguei o


buquê de rosas amarelas, que havia comprado em uma
banca no meio do percurso. Izzi vivia me dizendo o quanto
mulheres gostavam de ganhar flores. Ela, por sinal, recebia
muitas, de diversos admiradores, mas não parecia
corresponder a nenhum deles, pois continuava solteira.

Ajeitei a gola do meu casaco e subi os degraus


salpicados de flocos brancos antes de bater na porta. Não
levou muito tempo para que alguém a abrisse, porém não
era a Aline, como eu esperava.

A mulher mais velha tinha olhos profundamente


escuros como os da minha namorada, a pele um pouco
mais clara e muitos traços no rosto que me lembravam a
Aline, levando-me a deduzir que era a mãe dela.

— Bom dia. — Sorri.

A minha interação fez com que os dentes brancos


dela se alargassem e a mulher deu um grito.
— Ele chegou!

Eu me encolhi, mas me contive para não cobrir as


orelhas.

— As flores são para a Aline?

— Sim.

— Vou colocá-las em um vaso. — Pegou o buquê da


minha mão e seguiu pelo hall.

Fiquei parado na porta sem saber como deveria agir


a seguir. O esperado era que ela me convidasse para
entrar, mas isso não aconteceu.

— Josh! — Aline logo apareceu e eu respirei


aliviado.

Ela ficou nas pontas dos pés e me deu um selinho


antes de segurar a minha mão e me puxar para dentro,
fechando a porta atrás de mim.

— Estava esperando criar raízes lá na frente?

— Hum? — Franzi o cenho.


— Ficar plantado.

— Sua mãe não me chamou para entrar —


respondi, sem saber se era a resposta que ela esperava,
porém Aline apenas riu.

— Às vezes é assim. Está empolgada demais com a


sua presença e sem jeito.

— Entendi.

— Vem comigo! Quero que você conheça uma


pessoa. — Ela entrelaçou os dedos nos meus e me guiou
até a sala de estar.

Apesar da casa parecer relativamente pequena em


relação aos ambientes que eu estava acostumado a
frequentar, era acolhedora. Parei na porta da sala e tirei o
meu casaco, segurando-o no braço até Aline perceber e
pegá-lo para pendurar em um suporte.

Fiquei observando o cômodo. Era uma sala como


qualquer outra, tinha um sofá grande, uma velha poltrona
de couro, que já tinha marcas de seu principal usuário, uma
televisão e uma mesa de centro de madeira escura.
— É um prazer finalmente conhecê-lo
pessoalmente. — Uma mulher saiu do sofá e veio até mim.

— Josh, essa é Amanda, minha irmã — apresentou


Aline.

— Oi. — Estendi a mão para ela, mas, ao invés de


apertá-la, ela me envolveu com os braços e abraçou-me.
Fiquei olhando para frente, sem jeito.

— Cuide bem da minha irmãzinha ou eu castro você


— disse baixinho antes de me soltar. — Recado dado, seja
muito bem-vindo.

— Amanda — recriminou Aline.

— O que foi? — Deu de ombros. — Só estou


protegendo você.

Ouvimos alguém pigarrear e quando nos viramos,


eu vi o pai da Aline parado a alguns passos de nós. Ele me
encarava com uma expressão séria e parecia me analisar
com o olhar.

— Senhor Lopes.
— Você veio.

— Sempre honro os meus compromissos.

— Isso é bom.

— Ronald, não precisa assustar o senhor Mazzi.


Queremos que ele se sinta bem-vindo, não é?

— Ainda estou me decidindo.

— Pai! — Foi a vez da Aline levantar a voz com ele.

— Seja muito bem-vindo, Joshua Mazzi. Estamos


muito contentes em recebê-lo aqui.

— Obrigada, senhora Lopes.

— Pode me chamar de Mary.

— Certo.

— Por que não vamos todos para a mesa de jantar?


— Aline colocou a mão nas minhas costas. — O almoço já
está pronto, não é, mãe?

— Sim.
Chegamos lá e me sentei ao lado da Aline no lugar
que ela indicou, pouco antes de ouvir a sua irmã gritar e
um menino surgir para se juntar a nós.

— Imagino que você esteja muito empolgado para a


cerimônia de posse na Casa Branca no mês que vem —
continuou a mãe da Aline.

— Por que eu estaria?

— A presidência... A Casa Branca... A Sala Oval.


Nossa!

— Meu irmão vai ser o presidente, não eu.

— Mas a sua vida toda vai mudar.

— Vai? Acho que não.

— Mãe. — Aline fez um gesto cortando o pescoço.


— Mãe, para.

— Desculpa. — Mary se encolheu.

— Vou buscar a lasanha. — A irmã da Aline se


levantou e foi até a cozinha, voltando com uma travessa
que colocou no centro da mesa. Estava quente o suficiente
para que eu visse a fumaça branca subindo e sentisse o
vapor.

— Seu pai é italiano, não é? — A senhora Lopes


insistiu em puxar assunto.

— Sim.

— Imagino que ele goste de massa.

— Quem não gosta?

— É verdade. — Ela riu.

— Faz muito tempo que ele se mudou para os


Estados Unidos?

— Ele era criança.

— Então os pais dele vieram?

— Sim.

— Você não é de falar muito.

— Não.

— Parece que as diferenças entre você e nosso


presidente vão além da aparência física.
— Isso é verdade. — Estalei os dedos e me ajeitei
na cadeira. — Você falou para eles? — Virei-me para a
Aline, buscando o olhar dela.

— O quê? — A mãe dela ficou curiosa.

Minha namorada apenas balançou a cabeça em


negativa.

A minha síndrome não era algo que eu saía


contando aos quatro ventos, pois não me sentia inapto a
fazer qualquer coisa, mas a minha mãe dizia que era
importante que as pessoas mais próximas com quem eu
convivia soubessem, para que eu não fosse taxado como
um mal-educado. Não que fosse um grande segredo, pois
constava nas páginas sobre mim na internet.

— Eu tenho Asperger, isso faz com que eu tenha


dificuldades de me relacionar. Não possuo as mesmas
necessidades das outras pessoas de estar sempre
cercado, eu me basto na maior parte do tempo. O que não
significa que eu não crie laços. Sou muito próximo da
minha família e apaixonado pela Aline. Contudo, de modo
geral, eu não me esforço para criar novas interações
sociais, até mesmo as evito. Tenho uma dificuldade muito
grande de compreender sarcasmos e comunicações não
verbais. Para mim, é sempre sim ou não, eu não consigo
chegar a um meio termo. Alternativas demais me
enlouquecem e não consigo decidir. Sou sempre sincero e,
na maior parte do tempo, pareço grosseiro. Por isso é
impossível ser, ao menos, parecido com o meu irmão.

Os pais da Aline ficaram calados, apenas me


encarando.

— Eu sabia, já tinha lido na internet. — A irmã mais


velha quebrou o silêncio.

— Eu estou com fome — disse o garotinho e a Aline


riu.

— Eu só quero que a Aline seja feliz. — A senhora


Lopes finalmente sorriu para mim.

— Também é o que eu quero. — De fato, aquela era


uma enorme verdade.

Aline acariciou a minha mão sobre a mesa e eu virei


a cabeça para beijá-la no rosto.
Depois da minha revelação ter contido as perguntas
desenfreadas da Mary, nós nos servimos da lasanha e
comemos em silêncio. Assim que o almoço acabou e eu
provei do pudim de chocolate de sobremesa, Aline me
puxou pela mão e me levou escada acima para o seu
quarto.

— Você sobreviveu aos meus pais. — Ela acariciou


o meu rosto quando nos sentamos na cama e jogou uma
mexa solta do meu cabelo para trás.

— Acho que eles sobreviveram a mim.

— Um pouco dos dois, talvez. Foi bom ter contado


para eles sobre o Asperger, mesmo tendo certeza que vão
levar um tempo ainda para aprender como tudo funciona
com você.

— Um tempo é melhor do que aqueles que nunca


conseguiram.

— Isso é verdade.

— São os seus pais. Não queria que me achassem


um grande mal-educado. A minha mãe fez o melhor que
pôde.

— Ela criou um homem incrível. — Afagou o meu


rosto e parecia que não conseguia tirar os olhos de mim. —
Josh...

— Sim. — Arrastei meu corpo no colchão para ficar


mais perto do dela.

— Você disse aos meus pais que era apaixonado


por mim.

— Disse.

— Então é verdade?

— Você sabe que sim. — Foi a minha vez de


acariciar o rosto dela.

Sorri quando os seus olhos se iluminaram e Aline


subiu no meu colo. Ela rodeou o meu pescoço com os
braços e apertou-o, pressionando meu rosto contra os seus
seios macios, protegidos pela camiseta e o sutiã de bojo.

— Também sou apaixonada por você. Eu o amo,


Josh. Estou muito feliz por estarmos juntos.
— Você me faz feliz.

Aline puxou a minha cabeça para trás e me beijou.


Nossas línguas se encontraram e ela rebolou no meu colo
e, por reflexo, segurei a sua cintura e apertei-a mais. O
beijo ficou intenso e senti a minha ereção ser apertada por
ela até que um barulho fez com que minha namorada
pulasse do meu colo como se houvesse sido atravessada
por um choque.

— Ei! Vão procurar um hotel — gritou a irmã dela


atrás da porta entreaberta. — Tem criança em casa.

— Desculpa, Amanda. — Aline passou a mão pelo


cabelo e se sentou ao meu lado toda vermelha.

— Posso levá-la para um hotel.

— Hoje não, Josh! — Ela me deu um cutucão e sua


irmã riu.

— Vai embora, Amanda!

— Okay! — Ela fechou a porta e voltou a nos deixar


sozinhos.
— Temos ensaios para a apresentação de Natal
amanhã e precisamos estar na companhia logo cedo.

— Falta bastante tempo para amanhã cedo.

— Não vou dormir fora hoje.

— Tudo bem.

— Mas isso não significa que você não possa ficar


aqui comigo um pouco mais. — Sorriu jogando as pernas
sobre as minhas outra vez. — O que acha de vermos um
filme?

— Qual?

— Podemos escolher algum nos streamings que eu


tenho aqui.

Nós nos deitamos na cama e ela pegou um


notebook. Aconcheguei Aline nos meus braços enquanto
ela escolhia um filme qualquer e passamos o restante da
tarde assim e fui para casa quando a noite caiu.
Vinte e oito

— Tenham todos um ótimo dia. — Entrei na


companhia radiante naquela manhã.

Não faziam ideia do domingo que eu havia passado


com o Josh, ou talvez estivesse estampado no meu olhar.
Eu não tinha o que esconder e, para ser sincera, queria
gritar aos quatro ventos o quanto estava feliz.

— Bom dia, Britney! — Sorri para a primeira


bailarina quando passei por ela na entrada.

— Bom dia. — Ela não tinha metade da minha


empolgação, mas não me importei.

Há muito tempo não me sentia em uma fase tão


boa. Acredito que nem quando Raphael e eu estávamos no
nosso melhor momento, eu consegui ser tão feliz. Poderia
até não ser a dançarina que havia estudado para me
tornar, mas aquele concurso estava me aproximando do
que eu gostava de fazer, além de proporcionar ótimos
momentos ao lado do meu namorado.
Suspirei ao chegar diante da minha mesa e olhar
para a porta da sala do Josh. Precisava me recordar de
que na companhia ele era o meu chefe, e deveria nos
comportarmos como tal, ainda que Josh não fizesse
distinções. Eu precisava ficar bem atenta para que o fato
de sermos um casal não mudasse nada para os demais
funcionários.

Ah, como eu queria beijá-lo... Ri sozinha do meu


pensamento completamente inapropriado.

— Oi! — Josh abriu a porta da sua sala e colocou a


cabeça para fora, fazendo-me tomar um susto e rir logo em
seguida.

— Ei. Dormiu bem? — Ajeitei o meu cabelo e fiz o


máximo para não ficar com um sorrisinho bobo e
apaixonado nos lábios. Pelo menos, tentei.

— Sim, mas teria dormido melhor se você tivesse


dormido comigo.

— Josh! — recriminei-o.

— O que foi?
— Não pode falar isso aqui.

— Por que não? — Franziu o cenho. — Somos


adultos e você é minha namorada.

— Estamos na companhia e eu sou a sua secretária.

— Uma coisa não anula a outra. — Ele tombou o


corpo na minha direção e arrastou-me para dentro da sua
sala.

— O que está fazendo?

— Beijando você. — Trancou a porta.

— Jo... — Nem consegui terminar o seu nome antes


que o peso dos seus lábios suprimisse os meus.

A minha vontade de beijá-lo também era grande e


simplesmente não consegui lutar contra ela para afastá-lo.
Logo foi por água abaixo a minha nobre intenção de manter
uma postura ética de patrão e empregada no ambiente de
trabalho.

Josh deslizou as mãos pela lateral do meu corpo e


segurou firme a minha cintura, prensando-me contra a
porta. Quando a sua língua tornou o nosso beijo mais
esfomeado, suas mãos alcançaram a minha bunda e
apertaram as minhas nádegas. Por puro impulso,
esfreguei-me nele.

Ele contornou meu quadril, no entanto, antes que


alcançasse o zíper da minha calça, bati na sua mão e
esquivei-me pela lateral.

— Aqui não. — Ajeitei o meu cabelo, esperando que


a minha respiração se normalizasse e o rubor saísse do
meu rosto.

— Tudo bem.

— Vamos tentar nos comportar aqui na companhia.

— Como você quiser.

— Assim fica parecendo que eu sou pudica demais?


— Esfreguei o rosto sem jeito.

Estava ali tentando manter o mínimo de


profissionalidade em meio ao trabalho, mas não queria que
o Josh achasse que eu estava o rejeitando.
— Aline, eu não me importo com o que pensam.
Você sim, e tudo bem. Foi a minha ponte com os outros por
muito tempo e vai continuar sendo.

— Obrigada por entender. — Acariciei o seu rosto.

— Você é melhor nisso de lidar com as pessoas do


que eu.

— Às vezes penso que o mundo seria bem melhor


se todos fossem tão sinceros quanto você. — Fiquei nas
pontas dos pés e dei um selinho rápido nele. —
Continuamos o que eu interrompi no seu apartamento, mas
mais tarde.

— Vai voltar comigo? — Josh abriu um sorriso


contagiante.

— Temos que ensaiar e definir algumas coisas da


nossa apresentação.

— Só isso? — Pareceu desapontado e me recordei


que Josh não conseguia perceber as segundas intenções
no meu olhar.
— Eu vou dormir com você e podemos aproveitar
bastante a noite.

— Gosto disso.

— Agora vamos. — Puxei-o comigo para fora da sua


sala.

Seguimos para o ensaio da apresentação de Natal e


eu fingi não perceber as pessoas que olhavam para nós e
murmuravam umas com as outras. Desde o aniversário do
Josh, eu sabia que todos na companhia tinham ciência do
nosso envolvimento. Gostassem ou não, iriam se
acostumar com o tempo, pois eu não iria abrir mão dele.
Vinte e nove

Assim que encerrou meu expediente de trabalho,


segui com o Josh para o seu carro e deixamos a
companhia, que funcionava até tarde da noite com as
apresentações no período noturno.

Enquanto ele dirigia para o seu apartamento, peguei


o meu celular e liguei para a minha mãe. Levou alguns
instantes para que ela atendesse e aguardei com a cabeça
apoiada na janela do carro.

— Aline?

— Oi, mãe, tudo bem?

— Sim e você? Não posso demorar muito porque


daqui a pouco tenho que lavar a tinta do cabelo de uma
cliente.

— Não vou tomar muito do seu tempo. Só liguei


para avisar que não volto para casa hoje.
— Trabalho demais? Filha, agora que o seu chefe é
o seu namorado, precisa dizer para ele não cobrar demais
de você ou não vai dar conta.

— Relaxa, mãe. Já saí da companhia.

— Ah, então para onde está indo?

— Vou passar a noite com o Josh. Só liguei para


avisar e não deixar vocês preocupados por eu não ter
voltado para casa.

— Vocês mal começaram a namorar e já vai....

— Boa noite, mãe — interrompi a frase dela para


não ouvi-la agir como se eu fosse uma adolescente e não
soubesse as implicações de dormir com o meu namorado.

— Tome cuidado, querida.

— Obrigada.

Desliguei a chamada sem me estender e omiti da


conversa o fato de que Josh e eu ensaiaríamos para um
concurso de dança. Estava tão feliz com os últimos
acontecimentos que não precisava dela me colocando para
baixo.

Assim que tirei o telefone da orelha, chegou uma


mensagem da minha amiga.

Hannah:

Como você está?

Aline:

Radiante.

Hannah:

Nossa! O Mazzi está te fazendo bem.

Aline:

Muito! Até enfrentar os meus pais ontem ele foi.

Hannah:

Ounti! Você está apaixonada.

Aline:

Mais do que estava antes.


Ah, vamos participar daquele concurso.

Hannah:

Uau! Pode apostar que eu estarei lá para


assistir. Boa sorte para vocês.

Aline:

Obrigada! Acabei de chegar na casa dele. Nos


falamos mais depois.

Hannah:

Na casa dele? Que safadinha rsrsrs. Vai lá!


Beijos.

Descemos no estacionamento e eu ajeitei o meu


celular na bolsa antes de aceitar a sua mão e caminhar
junto com ele para o elevador.

Josh apertou o botão para a cobertura antes de


tombar-se na minha direção e me espremer contra o
espelho para me roubar um beijo.

— Ei!
— Já não estamos mais na companhia e aqui eu
não sou o seu chefe.

— Isso é verdade. — Acariciei o rosto dele, mas


antes que voltássemos a nos beijar, a porta do elevador se
abriu.

Esperei que ele saísse primeiro antes de seguir logo


atrás.

Josh tirou a chave do bolso, abriu a porta e acendeu


a luz, revelando a enorme sala de estar. Deixei a minha
bolsa no sofá e tirei os sapatos de salto para trocá-los por
sapatilhas na intenção de podermos ensaiar. Ao menos já
havíamos escolhido a música que dançaríamos e já
tínhamos começado a coreografia.

— Isso é um strip-tease? — Josh parou atrás de


mim, me observando.

— Engraçadinho. — Virei-me para ele e cruzei os


braços. — Parece que você também consegue fazer
piadas.

— Realmente queria que fosse.


Mostrei a língua e o Josh riu.

— Eu não posso ensaiar em cima desse salto.

— Trouxe outras roupas?

— Sim. Estão na minha bolsa. Vou ao banheiro


trocar.

— Precisa? — Olhou-me com malícia.

— Se eu quiser ir para sala de dança e não para o


seu quarto, preciso sim.

— Da última vez não fomos para o meu quarto.

— Isso é verdade, mas vamos pelo menos tentar


ensaiar antes que evolua para qualquer outra coisa.
Depois, a noite pode terminar do jeito que você quiser.

Ele sorriu e eu pisquei, antes de puxar a bolsa e


caminhar até o banheiro social que ficava no corredor,
perto da sala de ensaio. Coloquei-a sobre a bancada de
mármore e fechei a porta. Tirei as minhas roupas sociais,
dobrei-as para caberem na minha bolsa e troquei por um
top e uma legging.
Quando saí do banheiro, vi a porta da sala de dança
aberta e segui para ela, e encontrei o Josh na sala se
alongando, vestido apenas com uma bermuda larga.
Escorei-me no batente completamente hipnotizada pelo
seu corpo. As costas largas eram ainda mais ressaltadas
pelos movimentos dos braços. Os músculos e o abdômen
bem definidos me deixavam sem fôlego.

— Oi, Aline. — Voltou-se para mim quando notou a


minha presença.

— Ei!

— Está tudo bem?

— Sim. Só estava observando você. Imagino que


tenha tempo para academia na sua rotina.

— Faço todos os dias pela manhã. Fica na porta a


esquerda.

— Legal.

— Vamos ensaiar?

— Sim.
Josh se aproximou do rádio e colocou a música que
havíamos selecionado para a nossa primeira apresentação
no concurso: Body on Me, da Rita Ora.

Ele pegou um controle para que pudesse ir e voltar


na música quantas vezes fosse necessário.

— Vamos começar distantes?

— Isso — respondi, afastando-me para a outra


extremidade da sala. — Iniciamos virados para a plateia,
mas com o olhar sem foco. Na primeira batida da música,
nós nos viramos um para o outro.

— Certo.

Josh deu play na música e eu olhei para o nada,


passando a mão pelo meu cabelo. Assim que ouvi a
primeira batida da música, eu me girei para encará-lo e
Josh fez o mesmo.

Ele parou e fiquei me perguntando o que poderia ter


feito de errado.

— Consegue fazer esse giro mais rápido para


chegarmos ao mesmo tempo ou eu preciso me mover um
pouco mais devagar?

— Consigo, bom, acho que consigo.

— Se você jogar o corpo um pouco mais para trás


antes de fazer o giro, conseguirá um melhor impulso.

— Vou tentar. Coloca a música do início.

— Pronta?

Fiz que sim e voltamos a posição inicial.

Josh deu play na música novamente e eu fiz o giro.

— Bom.

— Mesmo?

Ele fechou a cara, como fazia toda vez em que eu


duvidava que estava falando a verdade, e eu ri.

— Desculpa.

— Tudo bem. Vamos continuar?

Balancei a cabeça em afirmativa.


— Despois do giro damos três passos na direção um
do outro.

— Ficamos com mais ou menos um metro de


distância um do outro antes de começarmos a nos mover?

— Isso. Assim que a voz começar, fazemos o giro


com os braços e paramos com os punhos próximos na
altura do nariz.

Assenti e o Josh deu play na música novamente.


Girei junto com ele e dei um passo em cada batida da
música. Com aquele olhar que ele me lançava enquanto
caminhava na minha direção era difícil não querer me atirar
nos seus braços na primeira oportunidade.

Fiz os movimentos com os braços acompanhando


os dele, e tentei me recordar dos passos que havíamos
definido em nosso primeiro ensaio.

— Aline. — Josh parou a música de novo.

— Oi?

— Abre um pouco mais o arco do braço. Assim. —


Ele passou a mão pela minha pele e, enquanto seus dedos
escorregavam, eu sentia pequenos formigamentos e
deliciosos calafrios. Soltei um gemido e o Josh baixou o
olhar para me encarar.

— O que foi?

— Continua com as mãos aí.

— Achei que quisesse focar no ensaio.

— Estamos ensaiando.

— Ainda não chegamos na parte da coreografia em


que coloco as mãos em você.

— Sobre isso, estava pensando se não podemos


antecipar essa parte.

Josh segurou o meu pulso e me girou, colocando-


me de costas para ele, e suas mãos escorregaram até a
base do meu quadril. Ele aproximou a boca da minha
orelha, fazendo todas as minhas terminações nervosas
entrassem em colapso com o seu hálito quente.

— Antecipar qual parte?


— Essa mesma. — Voltei a girar e joguei as minhas
mãos sobre os seus ombros. — Intervalo para outro tipo de
dança. — Eu sorri e o Josh apertou a minha cintura.

Escorreguei a mão pelo seu rosto até chegar à sua


nuca e o puxei para mim. Quando nossas línguas se
encontraram, eu estava faminta por ele e rapidamente
fomos envolvidos por um beijo intenso. Ouvi o som do
controle caindo no chão e a música voltou a tocar, mas
nem eu ou o Josh nos demos o trabalho de pará-la.

Suas mãos desceram da minha cintura e ele agarrou


as minhas coxas, enterrando os dedos na minha pele. Dei
um salto e ele me segurou no ar, permitindo que me
movesse para abraçá-lo com as pernas.

Joguei a cabeça para trás e meu cabelo pendulou


no momento em que Josh beijou a minha garganta e subiu
com a língua até o meu queixo.

Ele poderia me deitar no chão daquela sala ou me


pressionar em uma das paredes, não me importava, desde
que nos tornássemos um só logo.
— Vamos para o meu quarto? — Mordiscou a base
do meu pescoço.

— Sim. — Minha voz soou mais como um gemido


em confirmação do que uma palavra.

Josh se virou comigo ainda agarrada a ele e joguei o


meu corpo para frente, pousando as minhas mãos nos
seus ombros e voltei a beijá-lo.

Com a visão periférica, eu o vi atravessar o corredor


e me apoiar na porta do quarto antes de soltar uma das
mãos que me segurava para abri-la. Tombei para trás
quando ela moveu, mas antes que eu perdesse o
equilíbrio, Josh me segurou firme e me levou para a cama.

Meus cabelos se espalharam sobre a colcha creme


e Josh se ajoelhou, afundando o colchão, mas antes que
ele deitasse sobre mim, eu me se sentei, levando as mãos
até a sua bermuda. Desfiz o laço da fita que a prendia e
puxei-a para baixo, juntamente com a boxer branca. Josh
terminou de tirar as peças de roupa e ficou ajoelhado, nu
diante de mim. Envolvi o seu membro entre os meus dedos
e ele sorriu ao me ver curvar o corpo e abrir a boca para
acolhê-lo. Envolvi-o com os lábios e Josh acariciou o meu
cabelo, segurando-o em um rabo de cavalo.

Oral era algo que eu nunca havia me sentido muito


segura para fazer até aquele momento. Olhei para ele e
simplesmente quis, permitindo-me o melhor da experiência.
Eu o suguei, chupei e lambi enquanto Josh acariciava o
meu cabelo e me incentivava a continuar com seus
gemidos.

— Aline — sussurrou o meu nome em meio a um


gemido. — Assim você me faz gozar.

— É essa a intenção. — Ri, maliciosa, antes de


beijar sua glande e voltar a chupá-lo.

— É ótimo, mas eu não quero só a sua boca. —


Puxou gentilmente a minha cabeça para trás,
interrompendo-me.

Josh me empurrou pelos ombros e fez com que eu


voltasse a deitar na cama. Deixei que as sapatilhas
caíssem no chão quando ele enfiou a mão por dentro da
minha calça legging e a puxou, tirando-a pelas pontas dos
meus pés. Voltei a me sentar apenas para que ele tirasse o
meu top e a calcinha ficou por último, quando eu já estava
esfregando as coxas uma na outra, ansiosa para ser
penetrada.

Assim que ele puxou a fina camada de renda que


protegia a minha intimidade, lacei seu pescoço com o
braço e o trouxe de volta para um beijo. O tamanho do meu
desejo tornou os seus lábios ainda mais doces. Esfregava-
me nele e ficava mais quente, ainda que o inverno tomasse
a cidade fora dos ambientes climatizados como aquele.

Josh estendeu o braço e pegou uma camisinha em


uma gaveta do móvel de cabeceira e a colocou antes de
esfregar seu membro na minha entrada. Meu sexo pulsou e
todo o meu interior latejou de ansiedade enquanto ele
apenas esfregava, sem atender a minha vontade de ser
preenchida.

— Josh... — gemi baixinho em tom de súplica. — Eu


quero!

Não precisei pedir novamente, pois, no instante


seguinte, ele me invadiu fazendo com que eu agarrasse os
seus ombros e revirasse os olhos. Quando ele começou a
se mover eu o apertei ainda mais, colando o seu corpo ao
meu e aumentando a fricção dos meus seios no seu
peitoral bem definido.

Estava disposta a ficar daquele jeito a noite inteira,


ou, pelo menos, até que gozasse, mas ele saiu de dentro
de mim e eu chiei. Contudo, antes que eu pudesse dizer
qualquer frase de protesto, Josh me girou na cama,
colocando-me de bruços, com o rosto nos travesseiros.
Isso foi o suficiente para aplacar meus gemidos quando o
meu namorado voltou a encontrar o caminho para o meu
interior. Seus dedos escorregaram pelas minhas nádegas
enquanto ele me penetrava, e aumentaram ainda mais a
minha sensação de prazer, então subiram pela linha das
minhas costas até que uma das suas mãos segurou o meu
ombro e a outra agarrou o meu cabelo, fazendo com que
eu ficasse de quatro na cama.

Afundei as mãos nos travesseiros, enrolando as


fronhas nos dedos, quando os movimentos ganharam mais
velocidade e meus gemidos ficaram mais agudos. A minha
ânsia era tanta que eu não conseguia aguardar pelo
próximo movimento, levando o meu corpo ao dele antes da
estocada seguinte.

A cada vez que o Josh escorregava para fora,


apenas para investir de novo, meus gemidos ecoavam pelo
quarto. A tensão foi crescendo rapidamente no ritmo do
movimento frenético dos nossos corpos e logo explodiu.

Desabei para frente, ofegando contra o travesseiro,


completamente sem forças e Josh se moveu um pouco
mais até se juntar a mim. Ele tombou ao meu lado na cama
e aninhei-me no seu peito, que subia e descia rápido.

— Gosto desses intervalos no ensaio. — Ele me deu


um selinho e ficou acariciando o meu rosto.

— Precisamos voltar. Ainda nem decidimos metade


da música. Esperava ter toda a parte coreográfica hoje.

— Teremos. Só precisamos nos limpar e comer


alguma coisa antes de voltarmos para o ensaio.

— Okay! Preciso de mais alguns minutos para me


recuperar. — Abracei o seu peito na esperança de que ele
permanecesse ali na cama comigo e Josh ficou.
Almejava que aquela fosse a primeira vez de muitas
em que eu poderia simplesmente ficar aninhada no seu
peito após termos feito sexo.
Trinta

Estava empolgado por aquele concurso. Poder


voltar a dançar era algo incrível, pois sempre foi a melhor
parte de mim, algo que eu fazia com maestria, e não
estava atrás do restante das pessoas do meu convívio ou
era julgado por meus comportamentos. O meu corpo falava
por mim e as palavras não eram necessárias.

Se não fosse o suficiente, eu tinha Aline comigo, me


completando e mostrando o quanto funcionávamos bem na
vida, na dança e na cama. Durante a última semana, ela
dormiu todos os dias no meu apartamento e quando não
estávamos na companhia, trabalhando entre burocracias
das apresentações, estávamos no meu lar dançando,
transando ou fazendo os dois ao mesmo tempo.

Eu nunca tinha conseguido me conectar com uma


mulher como havia acontecido com ela, e estava muito feliz
por ter a Aline na minha vida como minha melhor amiga e
minha namorada.
Estacionei no local onde aconteceria o concurso e vi
que muitas pessoas já haviam chegado. Era uma espécie
de quadra a céu aberto, com uma pequena arquibancada
onde o público poderia assistir as apresentações. As
cestas nas laterais indicavam que, usualmente, deveria
abrigar partidas amadoras de basquete.

Aline entrelaçou seus dedos aos meus e


caminhamos juntos para a aglomeração.

— Amiga! — Assustei-me com um grito, antes de


ver uma mulher asiática caminhar até nós.

— Hannah. — Aline me soltou para abraçá-la. —


Você realmente veio.

— Não perderia essa apresentação por nada. — Ela


se afastou da minha namorada e olhou bem para mim,
analisando-me dos pés à cabeça. — É ainda mais gato do
que pelas fotos na internet.

— Ei! — Aline a recriminou.

— É um prazer conhecê-lo, Josh Mazzi.

— Prazer.
— A Hannah é minha melhor amiga e dançarina na
Companhia América. Nós nos conhecemos na faculdade.

— Entendi. Vai competir também?

— Não. Eu vim apenas assistir vocês — respondeu


Hannah.

— Ah.

— Boa sorte! — Ela deu um beijo no rosto da Aline.


— Vou procurar um lugar para sentar ou vou acabar tendo
que assistir de pé. Vejo vocês depois. — Acenou para nós
e desapareceu no meio da multidão.

— Não sabia que a sua melhor amiga também era


dançarina.

— Você nunca me perguntou. — Aline tentou manter


a seriedade, mas caiu na gargalhada segundos depois,
deixando-me confuso. — Viu, também aprendo com você.

— É verdade, eu nunca perguntei.

— Vamos nos apresentar para os organizadores


para saberem que já chegamos. — Ela pegou a minha mão
e me puxou.

Seguimos até um local onde estavam outros casais


e a postura da Aline endureceu quando cruzamos com o
seu ex-namorado.

— Achei que não fossem ter coragem de vir. — Ele


cruzou os braços e nos encarou com uma postura de cão
feroz, mas que não me amedrontava.

— Por que não viríamos? — Eu o encarei de volta.

— Seu lugar não é aqui, mané. — Deu um passo na


minha direção, mas parou no meio do caminho quando
Aline rosnou para ele. — É só um riquinho do SoHo que
nasceu sentado em uma pilha de dinheiro. Deveria ter
vergonha de estar entre nós.

— Não tenho.

— Ter sua própria companhia não significa que você


seja bom, só que é rico, e aqui seu nome e sua conta
bancária não irão ajudá-lo a ganhar.

— Nisso você tem razão.


— Raphael, cala a boca e vai dançar. Não é por isso
que todos nós estamos aqui? — rosnei.

— Deveria estar dançando comigo e não com esse


idiota. Lamento que vocês não vão chegar à próxima fase.

— Isso veremos no fim do dia. — disse Aline,


determinada, ao puxar a minha mão e arrastar-me até a
mesa da organização, onde pegamos um adesivo com o
número quatorze para cada um de nós colar na roupa.

Ficamos esperando o início da competição e o


primeiro casal foi chamado. Eles não eram bons, queria ver
os próximos. Logo depois, foram chamados o Raphael e a
mulher indiana que faria par com ele, Shanti. Eles eram
bons, apesar de alguns erros nos movimentos e falta de
sincronia, problema que poderia ser facilmente resolvido
com um pouco de atenção e mais treino. Porém, percebi
uma certa agressividade na forma como ele dançava. Não
sabia dizer se fazia parte da coreografia ou se ele estava
irritado com a nossa presença.

Quando Raphael deu um giro no ar e caiu de pé, o


público o ovacionou. Todos pareciam ter gostado da
apresentação e ele andou de volta para perto de nós com o
ego inflado, encarando-me. Contudo, não me importei. Ele
não me conhecia o suficiente para saber que não adiantava
nada tentar me tirar do sério com provocações infundadas.

Mais alguns casais se apresentaram. Uns bons, mas


a grande maioria era bastante amadora. No entanto, tinha
ciência de que não poderia esperar muito de um concurso
como aquele.

— Aline Lopes e Josh Mazzi!

A plateia gritou alto quando ouviu o jurado chamar


por nós. Eu sabia do impacto que o meu nome tinha no
mundo da dança e estava acostumado com as pessoas se
reunindo para assistir minhas apresentações. Ao contrário
da maioria das pessoas, lidava bem com isso, pois não me
influenciava com a presença de tanta gente.

Já a Aline estava com a mão suando, o que me fez


perceber o seu nervosismo.

— Ensaiamos bastante. Vamos nos sair bem. —


Puxei a mão dela para o meu rosto e beijei o dorso.
— Eu sei. — Sorriu para mim e me deu um rápido
selinho.

Não esperamos o juiz chamar novamente antes de


caminharmos para o centro da quadra. Nós nos
posicionamos, um em cada ponta e a Aline deu um sinal
para o DJ, que estava em um pequeno palco elevado de
madeira.

Abaixei a cabeça, olhando para o chão, e a ergui


para olhar na direção da plateia quando o som começou.
Com a minha visão periférica, vi Aline fazendo charme,
mexendo levemente no cabelo e atraindo a atenção de
todos, inclusive a minha.

Na primeira batida, nós giramos na direção um do


outro e caminhamos a passos lentos, com nossos olhares
fixos um no outro. A cada centímetro que eu me
aproximava dela, era como se menos influência ou
importância tivessem as pessoas que nos assistiam. Assim
que ficamos a mais ou menos um metro um do outro, o
som da voz da cantora ecoou e nós fizemos os primeiros
passos da coreografia que havíamos decidido juntos.
Movi meus braços em arco, juntei-os na altura do
rosto. Jogamos as mãos rapidamente para trás em
sincronia e demos alguns empurrões no ar antes de subi-
los novamente, cruzando-os, no mesmo momento em que
elevamos os joelhos na altura dos quadris. Coloquei a mão
no rosto e movi minha cabeça para a esquerda duas vezes
e depois para a direita enquanto levava os pés para ficar
lado a lado com a minha parceira. Nossos braços foram
para trás e para baixo enquanto rebolávamos
simultaneamente. Eu podia ouvir as pessoas que nos
assistiam vibrarem, mas não dei qualquer importância a
isso.

Fui para trás da Aline e coloquei as mãos no ventre


dela e minha namorada moveu a cabeça de um lado para o
outro ao passo que nossos pés deslizavam no chão em um
semicírculo como se não houvesse qualquer atrito.

Soltei-a e continuamos a dança, movendo os braços


para cima, para frente e para baixo na mesma sincronia.
Colocamos as mãos na cintura e depois jogamos um braço
para o lado, em direções opostas para que depois se
tocassem e pudessem se entrelaçar. Contudo, não ficamos
muito tempo nos tocando, pois elevamos nossas mãos e
deslizamos para lados distintos, voltando a ficar distantes.
Fizemos a coreografia de costas um para o outro até que
giramos novamente para que nos fitássemos outra vez.

Cheguei perto dela e continuamos a coreografia,


com movimentos um pouco mais rápidos, na batida da
música. Nossos pés e mãos cortavam o ar e pareciam
estar sendo movidos pelas mesmas pessoas de tamanha
sincronia.

Até que segurei sua mão no ar e a puxei para mim,


colando o seu corpo na lateral do meu, bem no momento
em que a música disse: Heyo, heyo, eu só quero sentir seu
corpo em mim, e os gritos da plateia ficaram ainda mais
altos.

Entrelacei meus dedos nos seus e escorreguei a


mão livre pela sua cintura, quadril, deslizando pela lateral
do corpo até parar perto da sua virilha. Enquanto isso a
Aline movia o rosto e eu também, deixando nossos lábios a
milímetros um do outro. Ficamos assim por apenas alguns
segundos, o suficiente para criar a expectativa de um beijo,
mas a Aline afastou-me como parte da coreografia e
voltamos a dançar separados. Nós nos giramos e
movemos durante uns trinta segundos de música. Em
seguida, eu fui para trás dela e coloquei a mão no meio das
suas costas. Ela dançou assim, balançando os cabelos,
então eu a fiz girar e ela parou com as duas mãos no meu
peito. Lançou-me um olhar sensual enquanto esfregava-se
em mim e depois se agachou, parando milímetros de
segundo com o rosto perto da minha braguilha antes de se
levantar e voltarmos a dançar separados.

Fomos nos distanciando até que a música ficou


lenta e me aproximei dela novamente, segurei a sua cintura
e Aline tombou a cabeça para trás, chicoteando as costas
com o cabelo solto. Ela se moveu vagarosamente até voltar
a ficar de pé. Mais uma vez fui para trás dela, com uma
mão na minha perna e a outra no seu ventre. Ela jogou o
cabelo para o lado, passando a mão nele e rebolamos
juntos, até flexionarmos completamente os nossos joelhos.
E nos instantes finais da música, voltamos a ficar de frente
um para o outro e Aline abraçou os meus ombros.
Os gritos da plateia eram ensurdecedores e por
pouco não abafaram a voz do locutor no microfone.

— Vocês viram o que eu vi?! — questionou quem


nos assistia.

— Sim!!! — Gritaram em coro.

— Josh Mazzi, direto dos palcos da Broadway para


vocês! O astro não se aposentou, galera!

Gritaram ainda mais.

— Você foi ótimo. — Aline suspirou. Sua respiração


estava difícil e o suor brilhava na sua testa.

— Fomos ótimos. — Corrigi-a, puxando-a comigo


para fora do local de apresentação.

— Sorte de principiante. — Raphael trombou


comigo.

— Quem é principiante aqui?

— Gosta de provocar, não é, playboy de merda?

— Só fiz uma pergunta. — Dei de ombros.


— Vamos sair daqui, Josh. — Aline segurou o meu
braço e me puxou para longe do ex-namorado. — Ele não
vale o nosso tempo.

— Ficou metida depois que se envolveu com esse


daí.

Aline não respondeu e saímos de perto do Raphael.

— É um idiota!

— Não devemos nos preocupar com ele. — Acariciei


o seu rosto. — Foi muito bom voltar a me apresentar.

— Estou tão feliz, Josh.

— Eu também.

Tombei o meu rosto na direção do seu, mas antes


que os nossos lábios se encontrassem, fomos
interrompidos por um grito.

— Nossa! Estou arrepiada até agora.

— Hannah. — Aline abriu um sorriso amarelo ao


encarar a melhor amiga.
— A química que vocês têm é incrível. Minha nossa!
Quero ver só o que vocês vão criar para a última
apresentação.

— Estamos finalizando a coreografia — respondi.

— Muito ansiosa para assistir. Agora preciso ir


correndo, porque tenho uma apresentação no teatro em
uma hora. Mais uma vez, parabéns para vocês dois. — Ela
deu um beijo em cada um e desapareceu no meio das
pessoas.

Ficamos no concurso até a última apresentação


para aguardar a divulgação dos resultados. Não foi uma
surpresa saber que nós, assim como Raphael e sua
parceira, havíamos nos classificado.
Trinta e um

Girei-me na cama. Ainda estava nua e debrucei-me


sobre o peito do Josh quando percebi que ele já estava
acordado encarando o teto do quarto.

— Ainda bem que hoje é domingo e que não preciso


ir trabalhar.

— Se fosse segunda-feira, mas você me


prometesse que iria continuar na minha cama, não
precisaria ir para a companhia, porque eu também iria ficar
aqui. — Josh acariciou o meu rosto ao mover a cabeça
para me encarar.

— Burlando as regras? Que feio!

— Eu decido as regras.

— Exibido! — Eu ri e ele também. — Josh, a


apresentação de ontem foi incrível!

— Sim.
— Ainda estou cheia de adrenalina. Nossa, parece
um sonho.

— Você é ótima, Aline. Deveria continuar dançando.

— Digo o mesmo para você, senhor Mazzi.

Movi a colcha da cama que nos cobria para poder


subir em cima dele. Josh segurou as minhas coxas e me
acomodou sobre sua pélvis. Tombei sobre ele e levei a
minha boca de encontro a sua.

Havia pouco mais de uma semana que eu estava


ficando na casa dele e criado o perigoso, mas delicioso,
hábito de acordarmos juntos todas as manhãs. Sabia que
tinha que voltar para casa, mas a vontade dizia outra coisa.

Josh agarrou o meu cabelo e eu parei de pensar


racionalmente diante do toque de selvageria que ganhou o
beijo. Rebolei na sua ereção enquanto os meus seios
pendulavam sobre o seu peito. Eu não disse nada para
interromper o nosso caloroso beijo, apenas me levantei o
suficiente para segurar o seu membro e encaixá-lo em
mim. Gemi contra os lábios do Josh e ele segurou os meus
ombros.
— Aline a...

— Estou tomando remédio. — Voltei a beijá-lo para


que não interrompesse o nosso momento.

Josh era bem cuidadoso quanto a isso, mas eu


também não queria uma gravidez no momento em que
estávamos curtindo um ao outro.

Continuei rebolando nele, gemendo contra os seus


lábios e fazendo sexo sem pressa até que o prazer
chegasse de mansinho e me deixasse em êxtase.

— Preciso voltar para casa. — Choraminguei ao


encostar a minha testa na dele enquanto nos
recuperávamos do orgasmo.

— Aqui pode ser a sua casa. — Josh acariciou as


minhas costas.

— Josh! — exclamei por puro reflexo. Acho que ele


não tinha ideia do que havia acabado de dizer, ou talvez
tivesse, mas eu não soube lidar naquele momento com o
impacto das suas palavras se elas realmente fossem
verdade. — Meus pais devem estar preocupados.
— Eles sabem que você está aqui?

— Sabem.

— Então não precisam se preocupar.

— Preciso de mais roupas.

— Eu compro para você.

— Não é tão simples assim. — Levantei-me da


cama enquanto pensava no que usaria para me vestir.

A verdade é que eu não estava sabendo lidar com


aquela possibilidade de simplesmente morar com o Josh.
Era algo bem diferente de passar alguns dias na casa do
meu namorado.

— Por que não? — Ele se sentou na cama e


continuou me encarando.

— Eu preciso pensar um pouco mais, e tenho mais


medo de lidar com tudo do que você.

— Entendi.
— Vou voltar para casa. — Caminhei para o
banheiro.

— Tudo bem.

— Obrigada.

— Pelo quê?

— Por ser tão fofo.

— Aline?

— Oi? — Segurei no batente da porta e fiquei


olhando para ele.

— Eu amo você.

— Também amo você, Josh.

Sorrindo, entrei para o banheiro e Josh apareceu


para tomar banho junto comigo. Depois do café da manhã,
ele me levou para casa e foi o momento de encarar os
meus pais depois de todo esse tempo.

Subi as escadas e olhei para Josh dentro do carro.


Acenei e esperei o meu namorado ir embora antes de abrir
a porta.

— Quem é vivo sempre aparece — resmungou o


meu pai quando ele me viu da sala de estar num ângulo
que dava para enxergar o hall.

— Não é como seu eu tivesse sumido sem dar


satisfações.

— Ligou para a sua mãe e acha que isso é o


suficiente? — Ele cruzou os braços e me encarou com uma
expressão séria.

— Por que não seria? Tenho quase vinte e sete


anos e estava na casa do meu namorado.

— Por mais de uma semana?

— Qual o problema?

— Como se você não tivesse casa.

Era só o que me faltava! Bufei ao pensar que já era


velha demais para ser confrontada daquele jeito ao chegar
em casa.
— Nós sabemos o que você fez, Aline. — Minha
mãe surgiu ao lado dele.

— Transei — não sabia se a minha convivência com


o Josh era a responsável para aquela resposta seca, mal
educada, mas sincera.

— Não deveria falar assim com os seus pais.

— Ah, mãe! Sério isso?

— Você ao menos foi trabalhar esses dias?

— Fui.

— Todo mundo lá no salão está falando sobre você


dançando com ele no Brooklyn. Tem até vídeo na internet.

— Ah, estão irritados por isso. — Ri para não chorar


ao passar as mãos pelos meus cabelos, jogando-os para
trás.

— Eu me preocupo tanto com o futuro dos meus


filhos, mas parece que o que eu faço não é o suficiente.

— Ah, mãe! — Inspirei fundo e cheguei perto dela.


— O que aconteceu com o Daniel não foi culpa sua. Meu
irmão se envolveu com as pessoas erradas e foi parar na
cadeia por conta própria. Vocês também não poderiam ter
feito nada para evitar que a Amanda perdesse o marido,
mas fazem o que podem para acolher ela e o filho aqui,
ajudando a criar o menino. Agora, quanto a mim, sempre
souberam que eu amava a dança. Quando saí naquele dia,
eu não estava procurando um emprego como secretária,
disse aquilo para não me encherem o saco, mas foi o que
eu consegui chegando na Companhia Mazzi usando
aquelas roupas. Não me arrependo. Eu gosto de trabalhar
com o Josh, mas gosto ainda mais de dançar com ele, e
aquele concurso foi uma oportunidade incrível. Ainda que
seja apenas uma brincadeira. Duvido muito que eu deixe
de fazer o trabalho que faço, pois eu sou uma peça
fundamental na engrenagem para manter a companhia
funcionando. Entretanto, eu quero dançar com ele sempre
que possível, nesses ou em outros concursos, ou mesmos
sozinhos, porque é o que me faz feliz.

— Ah, Aline! — Minha mãe respirou fundo e ficou


me encarando por alguns minutos, assim como o meu pai.
Acredito que eles precisaram de um tempo para absorver o
que eu havia acabado de dizer. Então eles finalmente
sorriram e abriram os braços para mim.

Fui me aconchegar neles e me apertaram.

— O importante é que você está feliz.

— Estou, sim.

— E não vai ser presa por isso — completou meu


pai.

— Não vou. — Ri.

Minha mãe esfregou os olhos e percebi que ela


estava tentando disfarçar as lágrimas.

— Desculpa.

— Eu vou ficar bem.

— As clientes do salão falaram que a final da


competição é no sábado que vem. Podemos ir assistir?

— Claro que podem, mãe. — Abri um largo sorriso e


voltei a abraçá-los.
O concurso não havia apenas dado a mim e ao cara
que eu amava a oportunidade de voltarmos a dançar, mas
também me deu a coragem de tentar fazer com que meus
pais compreendessem que aquilo realmente era importante
para mim e aceitassem isso.
Trinta e dois

Depois que levei a Aline para a casa dos pais, voltei


para o meu apartamento e peguei na geladeira uma das
refeições que a senhora Keller deixava pronta para mim
com uma etiqueta identificando o prato, para que eu
comesse nos dias em que ela estava de folga.

Estava sentado na cadeira alta junto a bancada da


cozinha quando o meu celular vibrou e eu o tirei do bolso.

Ethan:

Como está na final de um concurso de dança e


não me conta?

Josh:

Você não perguntou.

Ethan:

Eu sou o seu melhor amigo. Você tem que me


contar essas coisas, cara.
Josh:

Entendi.

Vai acontecer no próximo sábado.

Ethan:

Eu sei! Está todo mundo comentando na


internet. Já comecei a desenhar o figurino de vocês
dois para a apresentação.

Traga a Aline aqui no meu ateliê amanhã


depois do expediente para que vocês experimentem
os trajes e eu possa fazer os ajustes finais.

Josh:

É só um concurso de rua.

Ethan:

É uma grande apresentação depois de você ter


passado anos afastado dos palcos.

A cidade toda, para não dizer o país, vai parar


para assistir você e a Aline. Eu faço questão que
estejam usando uma das minhas criações e você não
pode dizer não para mim.

Josh:

Ok.

Ethan:

Ótimo!

Josh:

Faça algo colorido. Aline gosta de coisas


coloridas e eu gosto dela.

Ethan:

Pode deixar.

Espero vocês aqui amanhã.

Josh:

Combinado.

Deixei o celular sobre a bancada e voltei a comer.


Contudo, não demorou muito tempo para que ele voltasse
a tocar. Cogitei não atender a ligação, queria terminar o
meu prato, porém quando vi o nome do Max, sabia que ele
ou minha mãe me encheriam o saco por não querer falar.

— Oi!

— Irmão, tudo bem?

— Achei que você estivesse ocupado.

— Só assinando papéis e resolvendo algumas


pendências antes de entregar o meu cargo de governador
da Flórida.

— Ah.

— Estão todos comentando sobre a sua


apresentação de ontem.

— O Ethan falou.

— Achei que você não pudesse mais dançar.

— Eu também não, mas eu dancei com a Aline e a


minha perna não doeu. Segundo o médico, o balé exige
mais.

— Então ele deixou você dançar outra coisa?


— Sim.

— Que bom, cara!

— Obrigado.

— Imagina a surpresa dos meus assessores de


gabinete e aliados partidários quando viram você em um
concurso amador, numa velha quadra de basquete do
Brooklyn.

— Aline quis participar, eu também, e não sou o


presidente.

— Tem razão, mas isso não significa que o que você


ou o restante da nossa família faça não reflita em mim.

— Eu vou dançar.

— Imaginei que fosse dizer isso. Na verdade, é até


bom para mim, mostra que, apesar da nossa posição,
estamos dispostos a nos misturar com o povo.

— Hum.

— Queria desejar boa sorte.


— Obrigado. Como está a Penélope? Gosto dela. É
mais honesta do que você.

— Ela está bem, apesar do mal-estar com a


gravidez.

— Cuide dela.

— Pode deixar. Mostre a todos o quanto você é


bom, no sábado.

— Okay.

— Até mais, irmão.

Max desligou a chamada e eu voltei a comer.

Gostava de ficar sozinho e nunca fora um grande


desafio ficar longe da minha família, morando a muitos
quilômetros de Miami. Minha mãe sempre sofreu muito
mais com o meu afastamento do que eu. Entretanto, depois
da Aline ter passado os últimos dias aqui, comecei a sentir
falta dela e achei o meu apartamento estranhamente
silencioso. A queria por perto. Ao menos nos veríamos na
companhia na manhã seguinte, e eu estava ansioso por
isso.
Trinta e três

— Terminou seus compromissos de hoje? —


Surpreendi-me com a pergunta do Josh quando ele
apareceu ao lado da minha mesa, no final da tarde daquela
segunda-feira.

— Só tenho que enviar um e-mail.

— Preciso que venha comigo.

— Para o seu apartamento? — Apertei o botão de


enviar na tela do meu computador antes de ficar de pé e
olhar se ninguém estava nos assistindo antes de segurar a
lapela do blazer do meu namorado.

— Você vai dormir comigo? — Ele sorriu.

— Temos que ensaiar.

— Sim.

— Não é sobre isso que você está me intimando? —


perguntei quando percebi que ele me encarava pensativo.
— Ethan disse que iria fazer o nosso figurino para a
final, e nos espera na ERW para experimentarmos.

— Figurino? Não precisamos de um grande figurino.

— Eu disse isso para ele, mas ele é assim.

— Tudo bem. — Subi a mão e afaguei o rosto do


meu namorado, que sorriu para mim de um jeito gentil. —
Quero ver a Joan e saber como ela está.

— Podemos ir?

— Vou só desligar o computador e pegar minha


bolsa.

— Está bem. — Ele ajeitou a gola da camisa e


atravessou o espaço, sentando-se no sofá que ficava do
outro lado da sala para esperar por mim.

Conferi se havia feito tudo de mais urgente antes de


me ajeitar para ir embora, e estendi a mão para o Josh.
Seguimos juntos até o estacionamento e fomos até a
empresa de moda do seu melhor amigo e completo oposto,
Ethan Sartori. Tirando o fato de os dois terem escolhido
carreiras em ambientes dominados por mulheres, às vezes
eu não entendia a proximidade deles, mas Ethan, assim
como eu, era um dos poucos que compreendia o Josh.

— Meu irmão me ligou ontem para desejar boa sorte


na competição.

Virei o rosto para encará-lo e sorri contente por Josh


estar compartilhando espontaneamente aquela informação
comigo sem que eu perguntasse.

— O Oliver?

— Não, o Max.

— Que legal. Isso é bom, não é?

— Sim. Ele ficou melhor depois que conheceu a


Penélope.

— Foi muito romântico o que ele fez por ela na


emissora de televisão. — Suspirei.

Josh não comentou nada. Apenas parou o carro


diante da grande confecção e abriu a minha porta para que
eu descesse. Coloquei o meu casaco quando o vento frio
do inverno fez com que eu me encolhesse. Eu ficava tanto
tempo dentro de ambientes fechados que até acabava me
esquecendo que estava frio.

Entramos no prédio e seguimos até o balcão da


recepção. O lugar todo era muito luxuoso, mas excêntrico
na mesma medida, um reflexo exato do seu CEO.

— O Ethan está me esperando — disse Josh para a


recepcionista.

— Senhor Mazzi, boa noite. Irei informar ao senhor


Sartori que o senhor chegou.

— Obrigado. — Josh colocou as mãos nos bolsos


da calça social e esperou que a mulher pegasse o telefone
e discasse um dos ramais.

— Podem subir — avisou para nós.

Meu namorado assentiu e me guiou até o elevador.


Eu nunca havia estado naquele prédio antes, mas Josh
parecia conhecer muito bem o local.

Seguimos até um corredor com muitas portas e,


através de uma delas, pude ver pessoas trabalhando em
mesas de desenhos, provavelmente as peças das
próximas coleções que seriam lançadas pela marca.

— Venham aqui. — Joan abriu uma porta e acenou


para que nós dois entrássemos.

— Ethan não está no escritório dele? — questionou


Josh, confuso.

— Estou aqui — respondeu o amigo por si mesmo.

Entramos na pequena sala e eu vi dois manequins


com estatura e tipo físico muito aproximados ao meu e do
Josh. As roupas tinham tons vibrantes, mas trabalhados de
forma harmônica, que me agradaram muito. Eram leves e
finas.

— São lindas! — Fiquei boquiaberta.

— Vamos sentir frio — comentou Josh.

— Imaginei que fosse dizer isso. — Ethan riu. — O


figurino foi feito em um tecido que desenvolvemos em
microfibra que impede que o seu corpo perca calor para o
ambiente, dessa forma, vocês não irão sentir frio.
— Entendi. — Josh continuou analisando as peças,
ainda pensativo.

— Por que não experimentam? — sugeriu Joan. —


Tem um biombo ali e podem se trocar lá trás.

— Podem se trocar ao mesmo tempo, imagino que


já tenham visto tudo um do outro mesmo — brincou Ethan
de um jeito que me deixou vermelha de vergonha.

— Já vimos, mas em locais mais apropriados do que


esse e sem plateia — respondeu Josh como se houvesse
levado a sério o que o amigo disse, e Ethan riu mais ainda.

— Só vão se trocar. — Agradeci a Joan por acabar


com o momento saia justa e tirar os figurinos dos
manequins para que experimentássemos.

Josh e eu fomos para trás do biombo, tiramos as


nossas roupas e vestimos o figurino desenhado pelo casal
de amigos. Eu não sabia se o Josh havia passado as
minhas medidas para eles ou se simplesmente fizeram de
observação, mas coube perfeitamente.
— Eu adorei. — Estiquei-me nas pontas dos pés e
rodopiei, fazendo com que a saia de franjas mexesse junto
comigo. — É bem flexível e não limita em nada os meus
movimentos.

— Pensamos no melhor para a apresentação de


vocês — disse o Ethan.

— Obrigado — falou Josh enquanto ainda analisava


o que estava vestindo.

— Gostou? — Ethan parou ao lado do amigo.

— É interessante.

— Interessante é bom.

— Sim.

— Vocês vão arrasar. — Joan bateu palmas,


empolgada.

Enquanto Josh e Ethan se encaravam, puxei Joan


para um canto da sala, para que pudéssemos conversar.

— Como vocês estão? — Sinalizei para o Ethan


com o canto do olho.
— Nos acertando.

— Isso é ótimo.

— Sim! — Ela sorriu.

— Torço muito para que encontrem o jeito de


funcionarem juntos.

— Muito obrigada.

— Vamos tirar isso e ir embora? — Josh me


chamou, e eu assenti, voltando com ele para trás do
biombo para que colocássemos as nossas roupas de volta.

— Vocês irão nos assistir? — perguntei para a Joan


quando saí do provador ajeitando a minha roupa.

Ela e o Ethan se entreolharam até que a estilista


assentiu.

— Vamos, sim.

— Espero que ganhem essa medalha. — Ethan


apertou os ombros do amigo.
— Nem tem medalha. — Josh franziu o cenho e
todos rimos.

— Boa sorte para vocês.

— Obrigada, Joan.

— Agora, vamos ensaiar. — Josh colocou as mãos


na minha cintura e me conduziu para a porta.

— Ensaiar? Sei... — Ethan debochou, mas o meu


namorado não percebeu, contudo foi o suficiente para me
deixar um pouco envergonhada, pois sabia bem o que
acontecia quando dormia na casa do meu namorado. E,
honestamente, estava ansiosa por isso.

Eu me despedi do casal de amigos e seguimos de


volta para o carro.
Trinta e quatro

Eu estava com um frio na barriga naquele sábado de


manhã, e esse se tornou ainda maior quando Josh e eu
chegamos para a apresentação final. Nunca tinha visto
tantas pessoas reunidas antes, nem nos espetáculos mais
aguardados da companhia. Não havia espaço para passar
e o público se equiparava a espectadores de uma partida
em um estádio. Eu imaginava que nem iriam conseguir
assistir direito, mas ainda assim estavam ali para ver o
grande astro. Depois de anos afastado por causa do
acidente, Josh estava de volta aos palcos. Não eram
apenas os moradores locais que vieram assistir, tinha
gente da cidade inteira e isso se refletia nas roupas que
usavam, porque alguns tinham o estilo sofisticado de
bairros mais caros de Manhattan.

— Está cheio — observou Josh.

— Aposto que fizeram muita propaganda. — Ri e ele


ficou me encarando sem dizer nada.
— Pode ser.

— Josh! — Logo uma pequena multidão se reuniu


ao redor de nós com canetas e camisas.

— Me dá um autógrafo — gritou uma.

— Tira uma foto comigo? — pediu outra.

Admito que aquele assédio todo acabou me


deixando um tanto enciumada. Quando conheci o Josh, ele
não dançava mais, então nunca tinha passado por uma
experiência como essa, e não esperava que seria desse
jeito.

— Deixem eles passar. — Uns dois caras da


organização abriram caminho até nós e praticamente nos
escoltaram até uma área restrita, atrás do pequeno palco,
onde estavam os demais casais que competiriam conosco.

— Parece que o seu namoradinho atraiu bastante


público — comentou Raphael em tom de deboche.

Era contar demais com a sorte esperar que ele não


estivesse ali.
— Ele é bom.

— É só um metido.

— Somos bons juntos. — Josh colocou as mãos na


minha cintura e me fez suspirar.

— Volta para casa! Seu lugar não é aqui. — Raphael


empurrou Josh pelos ombros e fez com que ele
cambaleasse alguns passos para trás. Era inegável que o
meu ex-namorado tinha mais força e estava abusando
disso para tentar assustar o Josh.

— Para com isso, Raphael! Deixa de ser idiota.

— Ou o quê? Pegue esse playboy e vão embora


daqui.

— Temos tanto direito de estar aqui quanto você —


Josh se impôs com firmeza, deixando evidente que a
postura do Raphael não o assustava.

Raphael balançou a cabeça e passou por nós. Ele


trombou no meu namorado com força o suficiente para
derrubá-lo e juro que vi o pé dele pressionando a canela do
Josh. Eu não consegui acreditar que o Raphael era capaz
de ir tão baixo.

— Josh! — Ajoelhei-me ao lado do meu namorado,


que estava sentado no chão.

— Ele pisou na minha perna.

— Eu vi.

— Está doendo?

— Sim. — Josh puxou a barra da calça do figurino


desenhado pelo seu melhor amigo e eu pude ver o
vermelho na sua perna se transformar em roxo.

— Ah, Josh! — Eu o abracei apertado. — Desculpa.

— Não foi culpa sua. — Disse numa voz serena que


me tranquilizaria se eu não conseguisse ver o machucado
que o Raphael havia feito nele.

Com o estômago revirando e o coração doendo,


tombei a cabeça sobre o ombro do meu namorado e
ficamos assim.
— Temos que ir ao médico, não podemos dançar
desse jeito. Consegue se levantar?

— Consigo.

— Vem! Vamos voltar para o carro. Acho que vi o


meu pai e o Ethan na multidão. Eles podem nos ajudar a
levá-lo até o médico.

— Não, Aline! — Josh permaneceu parado e me


encarou com uma expressão firme e decidida. — Nós
viemos aqui para dançar.

— O Raphael machucou você! Eu não quero que


esse seja o seu retorno e a última apresentação ao mesmo
tempo. Para evitar isso, precisamos ir ao médico. — Tentei
puxá-lo comigo, mas Josh não se moveu.

— O que está acontecendo? — Um dos caras da


organização se aproximou de nós.

— O Raphael Burton agrediu o Josh — rosnei, com


a fúria subindo como a fumaça em uma chaleira. Eu queria
esfolá-lo, mas estava preocupada demais com o Josh para
me dar ao trabalho de sujar as mãos.
— Isso é verdade? — O homem arregalou os olhos,
completamente surpreso.

— Sim. — Ouvi uma voz feminina atrás de nós e nos


giramos para ver quem era.

A garota indiana, que fazia par com o Raphael no


concurso, nos encarava de forma séria e parecia tão
revoltada com o que acabara de acontecer quanto eu.

— A senhorita sabe o que uma acusação dessas


significa sobre a participação de vocês dois nesse
concurso?

Santi balançou a cabeça em afirmativa.

— Vou encontrar o senhor Burton e informá-lo de


que estão desclassificados dessa competição.

Ela apenas assentiu em um movimento de cabeça e


eu abri um sorriso amarelo. Estava irritada e ao mesmo
tempo grata pela sinceridade dela.

— Verei se encontro gelo.

— Obrigada, Shanti.
Ela assentiu e se afastou, indo na direção de alguns
food trucks que estavam do outro lado da rua vendendo
comida para os espectadores.

— Josh, precisamos ir ao médico. Você não pode


dançar assim. — Encarei o meu namorado, séria. — Nem é
uma grande competição, não vai mudar em nada a sua
vida. Podemos participar de outra depois.

— Nos propormos a fazer isso juntos, Aline. Vamos


fazer.

— Josh... — Partia o meu coração vê-lo daquele


jeito, ainda que fosse fofa a sua determinação em continuar
dançando comigo.

— Amor — Ele colocou as mãos no meu rosto e


meu coração derreteu ao ouvi-lo me chamar daquela forma
—, danço desde criança. Não vai ser a minha primeira
apresentação com um machucado.

— Você não precisa se forçar a fazer isso.

— Raphael pisou na minha perna direita. Eu


machuquei a esquerda. Ele não tomou distância nem
impulso o suficiente para conseguir quebrar a minha perna.
Se o meu osso estivesse ao menos trincado, eu nem
conseguiria colocar o pé no chão. O gelo vai ajudar.

— Meu amor, não precisa fazer isso. É só uma


competição boba.

— Eu não vim aqui pela competição. Vim para


dançar com você.

Eu não resisti, nem me importei em saber quantas


pessoas poderiam estar nos assistindo. Joguei os meus
braços ao redor dos seus ombros e o puxei para um beijo
que o meu namorado correspondeu com a mesma
intensidade. Só nos afastamos quando eu não consegui
mais respirar.

Movi a cabeça para o lado e percebi que Shanti


estava parada ali com um pano e um copo com água.

— Eu trouxe o gelo e um analgésico.

— Muito obrigada. — Peguei das mãos dela e


entreguei a água e o remédio ao meu namorado enquanto
me agachava para colocar o gelo na perna dele.
Logo as apresentações começaram e fiquei muito
contente por terem nos deixado por último. Imagino que
essa fora uma estratégia para atrair o máximo de
espectadores possível, mas veio bem a calhar naquele
momento.

Depois do anúncio oficial da desclassificação do


Raphael por agressão a outro participante e a
apresentação dos outros seis casais, chamaram por Josh e
eu. Ele foi o primeiro a se levantar do degrau onde
havíamos nos sentado, mas eu segurei a sua mão,
fazendo-o parar.

— Tem certeza que quer fazer isso?

— Tenho.

— Se a dor ficar muito forte, você promete que vai


parar?

— Prometo. Vamos?

Fiz que sim com um movimento de cabeça e segui


com o Josh para o centro da quadra onde todos
aguardavam pela nossa apresentação.
Troquei olhares com o meu namorado e nós dois
nos sentamos no chão, de costas um para o outro, e
abaixamos as cabeças, esperando que a música
começasse. Quando a primeira palavra da letra ressoou,
movemos as costas para trás, ondulando, como a água sob
o efeito do som. Depois viramos o rosto rapidamente,
parando com o nariz a milímetros um do outro e abrimos
um sorriso. Eu tombeei o corpo e bati com a mão no chão.
Josh pousou a sua sobre a minha e a puxei num
movimento ágil, num joguinho, como se estivesse com
vergonha. Ele moveu os dedos no chão, como se andasse
com a mão, e se aproximou da minha, mas esquivei-me
novamente. Até que eu a girei e nossos dedos se
entrelaçaram no ar. Meu namorado me puxou e ficamos de
mãos dadas, com a lateral do corpo colada uma na outra.

Viramos as cabeças para o lado oposto e subimos


as mãos, brincando com os dedos como se eles
dançassem por nós. Então o Josh escorregou a mão pelo
meu braço, segurou meu cotovelo enquanto nossos rostos
se aproximavam lentamente, ficamos a milímetros de nos
beijar até que eu me afastei, escorregando o corpo para
um lado, e ele foi para o outro.

Girei-me para ficar de pé ao passo que a minha mão


escorregava pelo chão num movimento suave, em
sincronia com o do Josh.

Ficamos de pé e nos movemos na direção um do


outro, nossas pernas e braços faziam os mesmos gestos,
no mesmo tempo, e a vibração do público que nos assistia
se tornava cada vez mais enfática. Paramos de frente um
para o outro e demos um giro de 360 graus, como se
fôssemos os lados opostos de um compasso.

Me posicionei e ele ficou logo atrás de mim.


Movimentei meu corpo para um lado, sem sair do lugar e o
Josh na direção oposta. Ele deu um tapinha na lateral da
minha cintura e eu empurrei a sua mão para trás,
continuando com o joguinho, como se encenássemos algo
enquanto dançávamos. Ele tentando me seduzir e eu
recuando. Aquilo era muito divertido e a plateia ovacionava
cada vez mais.
Dei um passo para trás, recuando, enquanto o Josh
andava na minha direção. Ele movia o corpo e sorria. Já eu
me sintonizava com ele, mas com uma expressão um
pouco mais séria. Então segurei os seus ombros e nos
giramos, enquanto nossos rostos se aproximavam de novo.
Eu me esfreguei nele e Josh em mim. Com os narizes se
tocando e os lábios a milímetros, quase nos beijamos mais
uma vez, e o público que nos assistia gritou alto. Mas eu
me afastei um passo para trás e curvei o corpo, fazendo
com que o Josh tentasse me acompanhar com a sua boca.
Até que eu girei e no mesmo momento ele rodou para o
outro lado, nos afastando novamente.

Comecei a dar passos ao redor dele enquanto o


Josh dançava no centro. Cada vez mais sexy, cada vez
mais sensual, de um jeito que mesmo se não fosse louca
por ele, ficaria.

Josh terminou o seu solo e deslizou para perto de


mim. Virei de costas e com uma distância moderada, nós
descemos até o chão.
Voltei a olhar para ele e deslizamos cada um para
um lado de novo. Fizemos a coreografia separados até que
ele puxou o meu ombro e me trouxe para perto. Joguei a
cabeça para trás fazendo charme e ele tombou o corpo
junto, me acompanhando. Suas duas mãos envolveram a
minha cintura e a música ficou mais lenta rumando para o
final. Então eu joguei o meu corpo de volta para cima, na
direção do dele, e nossos lábios unindo-se selaram a
nossa apresentação.

Josh me apertou contra o seu corpo e me beijou


com vontade, independente se estávamos sendo assistidos
ou não. Eu beijei de volta, abraçando os seus ombros e
deixando que a sua língua dançasse com a minha
enquanto ouvia os gritos, as palmas e os suspiros da nossa
enorme plateia.

Quando me afastei em busca de ar, o suor estava


escorrendo pela minha testa e meu peito subia e descia
rapidamente pela respiração ofegante.

— Vocês foram demais! — gritou o locutor.


— Obrigada. — Sorria enquanto observava as
pessoas na plateia, e me emocionei ao ver a minha família
entre eles.

Meus pais ali, aplaudindo de pé, junto da minha irmã


e do meu sobrinho, foi a realização de um sonho.
Certamente, ir trabalhar na companhia do Josh não havia
decidido apenas o meu futuro na dança, mas a minha vida
inteira.

— Alguém tem dúvidas de quem ganhou essa


competição? — perguntou o locutor para aqueles que nos
assistiam e eles gritaram nossos nomes bem alto.

— Dê o prêmio para o segundo colocado — disse


Josh, antes que o homem tivesse a oportunidade de dizer
qualquer outra coisa.

Eu ri quando o meu namorado agarrou o meu pulso


e saiu me arrastando para fora de tudo aquilo. Daquela vez
não impediram nossa passagem. Foi como se o mar de
gente recebesse um comando silencioso e se abria a cada
passo que dávamos, para nos deixar ir.
Só paramos de correr quando chegamos ao lado do
carro dele.

— Como está a sua perna?

— Bem o suficiente para fazer isso. — Ele me pegou


pela cintura e me prensou contra a lateral gelada de metal.

Estremeci inteira.

— Josh, aqui não. — Usei todo o meu bom senso


para extrair aquela frase do fundo da minha garganta.

— Vamos para o meu apartamento. Quero


comemorar na minha cama.

— É uma ótima ideia. — Dei a volta no carro entrei


no banco do carona.

— Espera! — Raphael apareceu na frente do carro e


impediu o Josh de prosseguir, por sorte não o atropelou.
Depois do que tinha feito ao meu namorado, bem que
merecia.

— Sai da frente!
— Calma, Aline. Quero conversar. — Ele deu a volta
e veio até a minha janela.

— Eu não tenho nada para falar.

— Mas eu tenho a dizer. — Ele moveu os olhos


escuros e encarou o Josh. — Como está a sua perna?

— Bem, mas não graças a você.

— Desculpa, eu estava fora de mim. — Ele baixou a


cabeça, como se estivesse arrependido do que tinha feito,
porém não era ao suficiente para me convencer.

— Só tem estado fora de si desde que voltou.

— Isso é verdade — Raphael admitiu. — Vejo que


você está bem melhor sem mim e que eu não deveria ter
voltado.

— Ao menos em algo estamos concordando.

— Desculpa, Aline. Desculpa, play... Josh. Não vou


mais atrapalhar a vida de vocês. Conversei com o meu
agente e consegui uma vaga em outra turnê. Viajo amanhã
e vou sumir de novo.
— Isso é tudo? — perguntei, ainda irritada.

— Sim. — Ele abaixou a cabeça e afastou-se do


carro.

Josh deu a partida novamente e dirigiu para a rua.

— Acha que ele está dizendo a verdade e que vai


embora?

— Espero que ele finalmente tenha entendido que


não tem mais espaço na minha vida. — Observei o
Raphael sumir de vista pelo retrovisor quando o carro se
afastou do local do concurso, antes de me debruçar e dar
um beijinho na bochecha do Josh. — Vamos logo para o
seu apartamento.
Trinta e cinco

Sim, a minha perna estava doendo. Raphael havia


botado raiva ao me pisar, mas felizmente não havia sido o
suficiente para trincar o meu osso ou pior, quebrá-lo. Com
um pouco de repouso iria parar de incomodar. Só de ter
conseguido dançar com a Aline como havíamos planejado,
eu estava feliz. Momentos como aquele com ela eram
muitos preciosos para mim, e o Raphael precisaria de fato
ter quebrado a minha perna para me fazer desistir.

Parei de pensar naquilo quando a porta do elevador


se abriu no meu andar e Aline me empurrou contra a
parede do corredor. Segurei a cintura dela e a apertei
contra o meu corpo enquanto nossas línguas mergulhavam
de encontro uma à outra. Desci com as mãos até as suas
nádegas e Aline rebolou nas minhas palmas, gemendo
contra os meus lábios. Ela estava excitada e eu também.
Com uma mão nela, levei a outra ao bolso, tateando a
procura da minha chave enquanto continuávamos a nos
beijar. Quando finalmente a encontrei, puxei a minha
namorada comigo até a porta, mas levei mais tempo do
que o comum para conseguir abrí-la, pois não estava
prestando atenção na fechadura.

Finalmente empurrei a porta, arrastei Aline comigo e


fechei-a logo em seguida. Segurei na barra da parte de
cima do figurino dela e a ergui. Ela levantou os braços e
permitiu que eu tirasse a peça. Puxei sua calça e a saia de
franja e Aline começou a me despir também. Logo
estávamos apenas de roupas íntimas a caminho do meu
quarto.

Eu a peguei no colo e a sentei sobre a cômoda.


Minhas mãos subiram pelas suas costas até alcançar as
alças do top que cobria seus seios. Tirei a peça e a joguei
no chão enquanto minha namorada sorria para mim.
Curvei-me e dei um beijo em cada um dos seus mamilos
escuros antes de subir com os lábios pelo seu pescoço até
encontrar a sua boca outra vez. Segurei sua nuca, enfiando
os meus dedos no seu cabelo, e tornando o nosso beijo
ainda mais intenso.
Quando Aline voltou a esfregar o corpo em mim,
meu pau pulsou dentro da cueca e eu voltei a pegá-la no
colo. Deitei-a na cama e fiquei entre as suas pernas, ao
passo que as minhas mãos iam para a sua cintura e
puxavam a sua calcinha. Joguei a minúscula peça no
móvel de cabeceira enquanto Aline me puxava para baixo,
fazendo com que eu curvasse o meu corpo sobre o dela e
voltássemos as nos beijar.

Com nossos lábios colados, me contorci para tirar a


minha cueca, depois segurei a bunda dela e a fiz
escorregar na cama, subindo até ficar no meio do colchão.

Aline me envolveu com as pernas e eu tombei mais


sobre o seu corpo ao encontrar o caminho para dentro
dela. Gememos juntos e ela arranhou o meu pescoço
assim que comecei a me mover. As primeiras estocadas
foram devagar, mas logo ganharam ritmo. Com ela tudo
fluía muito fácil, quase como se estivéssemos sempre
dançando.

Eu olhava para ela, beijava sua boca, seu pescoço,


seus seios. Não parei de me movimentar até nós dois
gozarmos.

Tombei para o lado e minha namorada se aninhou


no meu peito.

— Amo você, Josh. — Beijou-me na região do meu


coração.

— Também a amo, Aline.

— Foi incrível esse concurso! Quando podemos


fazer isso de novo?

— Participar de concursos? — Afunilei os olhos,


pensativo.

— Dançar juntos.

— Não sei quando haverá outros concursos, mas,


se você quiser ,podemos dançar juntos na companhia.

— Ensaiar lá? Gosto da privacidade do seu


apartamento. — Riu manhosa e escondeu o rosto no meu
peito.

— Nos apresentarmos para o público.


— É sério? — Ela arregalou os olhos cor de ébano.

— Sim.

— Mas é uma companhia de balé.

— Pode ser uma companhia do que eu quiser.

— Até rimou. — Ela voltou a rir. — Realmente está


pensando nisso?

— Eu gosto de dançar, com você mais ainda. A


companhia sempre representou para mim a possibilidade
de dançar.

— Isso vai ser incrível, Josh. — Os olhos dela


brilharam. — Acho que podemos rever a grade e
acrescentar alguma apresentação mensal.

— Sim. — Beijei-a no alto da cabeça e ficamos


abraçados.

Estava quase pegando no sono quando ouvi o som


de um telefone.

— É o fixo? — Aline franziu o cenho ao se remexer


na cama.
— Sim.

— Alguém ainda usa telefone fixo?

— A minha mãe me obrigou a ter um, para me achar


quando eu esqueço o meu celular em qualquer canto. —
Olhei em volta. — Acho que ele ficou no carro.

— Não vai atender?

— Não.

— Josh, pode ser importante.

Fiz careta e ela riu.

Sua expressão foi o suficiente para fazer com que


eu me levantasse da cama e fosse até a sala. Atendi o
telefone assim que ele começou a tocar novamente.

— Oi?

— Josh, tentei ligar no seu celular e caiu na caixa


postal várias vezes. — Ouvi a voz da minha mãe.

— Ficou no carro.

— Está com a Aline?


— Sim.

— Venham para o apartamento do Ethan. Estamos


todos aqui.

— O que estão fazendo no apartamento do Ethan?


— perguntei, confuso.

— Estávamos na competição e depois viemos para


cá. Não queríamos atrapalhar você e a Aline.

— Obrigado.

— Venham para cá quando puderem.

— Okay! — Coloquei o telefone de volta no gancho.

— Era a sua mãe? — Aline apareceu nua no início


do corredor.

— Sim.

— Aconteceu alguma coisa?

— Ela disse que estão todos na casa do Ethan. Não


vieram para cá para não nos atrapalhar, mas estão nos
esperando.
— Vamos tomar um banho e ir para lá. — Fez um
gesto para que eu me aproximasse.

— Está bem.

Segui com a Aline para o banheiro, tomamos um


banho rápido, nos trocamos e depois seguimos para o
apartamento do meu melhor amigo, que não ficava muito
longe do meu.

Assim que saímos do elevador e fomos em direção


a entrada, já pude ouvir os gritos de comemoração, como
se a plateia do concurso estivesse ali dentro do
apartamento, não apenas a minha família e a do Ethan.

— Por que tudo isso? — Olhei para eles. — Não


ganhei uma Copa do Mundo.

Confesso que me surpreendi ao ver inclusive o Max


e a esposa entre os que se reuniam na sala.

— Você voltou a dançar, irmão. — Oliver envolveu


os meus ombros e me abraçou apertado. — Estamos
felizes para caralho por você. — Ele tentou bagunçar o
meu cabelo e eu o afastei.
— Sabemos o quanto a dança é importante para
você, Josh. Vê-lo dançar de novo deixa todos nós felizes.
— Max caminhou até mim antes de me dar um abraço.

— Obrigado.

— Agora eu posso ligar a música, não é? —


Perguntou Ethan a todos. — Porque não tem festa sem
música.

— Liguem a música! — Minha mãe tentou dançar,


mas só conseguiu fazer todos rirem.

— Menos, Ana. — Meu pai a recriminou.

— Ah, amor. Vem dançar comigo. — Ela puxou as


mãos do meu pai, mas ele continuou sentado na cadeira.

— Outro dia. Sozinhos — disse, sério, e provocou


mais gargalhadas.

— A sua família é divertida. — Aline entrelaçou seus


dedos nos meus.

— Fico feliz que goste deles.


Ela olhou para mim com um sorriso e me deu um
selinho.

Ethan ligou a música e serviu bebidas com a ajuda


da Joan, que depois puxou Aline para um canto para
conversar.

Aceitei uma taça de champanhe e me reuni com os


meus irmãos e com os Sartori, que também vieram de
Miami para me ver e que, de certa forma, considerava
como irmãos. Graças a amizade das nossas mães,
havíamos crescido juntos e éramos muito unidos.

— Josh? — Estava distraído quando senti a mão da


minha mãe no meu ombro.

— Oi.

— Podemos conversar?

Procurei pela Aline na sala e vi que ela estava bem,


interagindo com Joan, Penélope e Mercedes.

Assenti e segui com a minha mãe para um dos


quartos de hóspedes do apartamento do Ethan. Ela foi até
uma bolsa sobre a cama, pegou uma caixa de veludo e a
entregou para mim.

— O que é isso?

— O anel que o seu pai me deu quando me pediu


em casamento, muitas décadas atrás. Sei que a tradição é
entregá-lo ao meu filho mais velho, mas o Max passou com
o carro na frente dos bois.

— Então decidiu que eu deveria ficar com ele? —


Abri a caixa e vi o enorme diamante ladeado de águas
marinhas.

— Você e a Aline se amam, se completam. Ela te


entende e cuida tão bem de você quanto eu. — Minha mãe
colocou as mãos sobre as minhas. — Quando você achar
que é o momento certo, espero que coloque esse anel na
mão dela e a peça para ser a sua esposa.

Ela se afastou e eu voltei a encarar a joia antes de


guardá-la no bolso.

— Obrigado, mãe.
— Achei vocês! — Izabel apareceu na porta do
quarto. — Josh, está todo mundo querendo um bis. Que tal
você e a Aline dançarem para gente agora?

— Está bem.

Assenti e minha mãe e eu voltamos para a sala.

Minha namorada estava me esperando e eu a beijei


antes que voltássemos a nos conectar com a música.
Epílogo

Alguns meses depois...

Poderia parecer engraçado, mas eu nunca havia ido


muito além dos perímetros de Nova York. No máximo, em
alguma competição, tinha viajado para algum estado
vizinho na época em que ainda estava cursando dança.
Talvez por isso fiquei tão empolgada quando o Josh me
convidou para conhecer a casa da família dele em Miami.
Seus pais e irmãos mais novos moravam em uma linda
mansão em uma ilha com acesso restrito.

Como era quente... Abanei-me quando o sol bateu


forte nas minhas costas. Enquanto ainda fazia frio na
minha cidade natal a Flórida era bem quente.

— Lá vou eu! — Oliver gritou antes de sair correndo


da margem e pular com tudo na piscina, espirrando água
em toda a família que estava reunida em espreguiçadeiras
ao redor.
— Idiota! — Izabel resmungou ao meu lado e o
irmão jogou ainda mais água para cima. — Você tem trinta
anos ou três?

— Deixa de ser chata e vem aqui nadar comigo. —


Ele saiu da piscina, mas logo voltou para lá, arrastando a
irmã caçula com ele, até que Izzi parou de espernear e
simplesmente curtiu a água.

— Aline? — Josh apareceu ao meu lado e eu sorri


ao vê-lo.

— Vem comigo que eu quero te mostrar uma coisa.


— Estendeu a mão para mim e eu não pensei duas vezes
antes de aceitar.

Calcei os meus chinelos e caminhei com ele para


além da área da piscina. Seguimos por um caminho na
grama até chegarmos na praia particular. Havia um
coração feito de pétalas de rosas na areia e no centro uma
esteira de palha e algumas velas, além de um balde com
champanhe e duas taças.

— Que romântico, Josh. — Fiquei completamente


encantada.
Segui com ele até o centro do coração e nos
sentamos sobre a esteira. Apoiei a cabeça no ombro dele
enquanto suspirava, vendo o sol que baixava
vagarosamente no horizonte. Ele havia me trazido para
assistir ao pôr do sol.

— Assim fico ainda mais apaixonada.

— É a intenção. — Ele falou sério e eu ri.

— Já amei a viagem e você ainda faz isso —


apontei para as coisas na areia —, deixando tudo ainda
mais romântico.

— Ainda não acabei.

— Tem mais?

Ele tirou algo do bolso e quando percebi que era


uma caixa de veludo o meu coração parou de bater e tudo
congelou, inclusive o pôr do sol.

— Aline, quer se casar comigo? — Ele abriu a caixa


e eu vi o anel digno de uma princesa.
— Sim! Eu quero muito. — Eu não sabia se ria, se
chorava, se simplesmente ficava feliz ou os três ao mesmo
tempo.

Josh colocou o anel no meu dedo e eu o puxei para


mim, disposta a comemorar o pedido com ele me amando
na areia.
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Sinopse:

A irreverência e alegria eram minhas marcas registradas.


Já tinha sido julgado por minhas escolhas, mas nada me
abalava, eu estava em meu melhor momento.
CEO da ERW, a marca de roupas referência no mercado,
eu tinha em minha equipe a melhor estilista. Joan era, além
de excepcional, minha melhor amiga desde o colégio.
Dedicada e, por muitas vezes, solitária, ela atendia as
exigências da supervisora e me acompanhava nas
excentricidades.
Por mais que eu tivesse mulheres para me satisfazer e eu
aproveitava todos os momentos, era com Joan que me
sentia realizado. A dependência dela era justificada pela
conexão que criamos há anos.
Então, o meu bom momento estava prestes a se tornar
caótico quando foi necessária a presença do meu irmão
Ryder. A amizade que tanto prezei com Joan estava se
transformando e, para manter o meu sorriso de sempre
estampado, eu precisaria tomar uma importante decisão.
Restava saber se estava pronto para lidar com as
consequências.
Agradecimentos

Minha gratidão ao carinho por essa nova família e a


conclusão de mais um livro, o segundo de 2021.

Meu agradecimento a todos as minhas leitoras e


leitores, que me motivam a continuar sempre. Todas as
leitoras do meu grupo do Whats “Leitoras da Jessica”:
Karina, Vi, Nil, Nay, Adriana, Tamires, Joana, Andy,
Fernanda, Cleidiane, Vitória, Nadine, Margarete, Andressa,
Lais, Luize, Cristiane, Giorgia, Cristina,Tatiane, Regina,
Viviane, Sthefanie, Naiade, Thamires, Antônia, Vânia,
Thifane, Blanc, Cida e todas as outras. Agradeço também
aos leitores do Instagram e Facebook por todo o carinho e
incentivo constante. Em especial à Micheline, amiga,
apoiadora e leitora pela qual tenho um carinho todo
especial.

Obrigada, Aline e Rosi, por todo seu apoio,


assessoria e suporte, cuja ajuda e o trabalho duro é crucial
para cada um dos meus trabalhos.
Ana Roen, minha gratidão imensa por todo seu
trabalho em cada revisão.

Agradeço meu marido, Gabriel, por estar sempre ao


meu lado e me dado apoio.

Gratidão meus mentores e protetores espirituais!


Que meu caminho até vocês sempre esteja aberto para
que possam me orientar e proteger, para que eu tome as
melhores decisões e nunca desistir dos meus sonhos.
Sobre a autora

Jéssica Macedo é mineira de 25 anos,


mora em Belo Horizonte com o marido e três
gatos, suas paixões. Jéssica escreve desde
os 9 anos, e publicou seu primeiro livro aos
14 anos. Começou na fantasia, mas hoje
escreve diversos gêneros, entre romance de
época, contemporâneo, infanto juvenil,
policial, e ficção científica. Com mais de
cinquenta livros publicados, é escritora,
editora, designer e cineasta. Tem ideias que
não param de surgir, e novos projetos não
faltam.
Acompanhe mais informações sobre
outros livros da autora nas redes sociais.
Facebook -
www.facebook.com/autorajessicamacedo/
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www.instagram.com/autorajessicamacedo/
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Outras obras
Virgem Prometida (Máfia Bellucci
Livro 1)

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Sinopse:

Marco Bellucci é o grande chefe da máfia italiana. Antes de


assumir seu posto, ele foi criado com regras rígidas de
sangue e honra. Ele era um líder que governava com pulso
de ferro e sabia que não existia nada mais importante do
que a família. Sua vida sempre foi em função da máfia e
ele sabia que cada decisão tinha que ser feita pensando
nos seus, inclusive o matrimônio.
Em pleno século 21, casamentos ainda eram contratos,
mulheres não tinham voz e eram tratadas como peça de
barganha que favoreciam homens da máfia. Laís tinha
apenas onze anos quando ficou noiva em um acordo que
traria proteção à sua família em Portugal e beneficiaria os
italianos. Era apenas uma menina quando se tornou posse
do chefe. Levada à Itália, foi colocada em um convento até
que completasse vinte e um anos e pudesse se casar com
um homem quinze anos mais velho e líder de uma das
maiores organizações criminosas do mundo.
A virgem prometida só conhecia o que falavam do seu
futuro marido, a pior face do cruel criminoso e, a caminho
do casamento, ela tomou a arriscada decisão de fugir, para
descobrir que a vida fora do convento não era nada do que
ela imaginava.
Ao ser deixado no altar por uma jovem ingênua que não
tinha ideia do que está fazendo, Marco tinha duas
escolhas: continuar a aliança e encontrá-la ou começar
uma guerra.
Sedução por Vingança

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Sinopse:

Philip Carter é o poderoso CEO da Carter Atlantics, uma


empresa multibilionária com atuação no mundo todo. Rico,
poderoso, frio e solitário, ele tem tudo aos seus pés, mas
nem sempre foi assim... Órfão, precisou conquistar tudo
por seus próprios méritos e não deixar que nada nem
ninguém ficasse no seu caminho.
Vitória vive em um dos bairros mais pobres de Nova York,
perdeu a mãe muito jovem, a irmã mais nova foi tirada do
seu convívio, além de ser obrigada a aturar o pai
alcoólatra, que a fez crescer acreditando que a culpa de
todas as tragédias de sua vida era do CEO da Carter
Atlantics.
Com o objetivo de se vingar de Philip Carter, ela vai se
tornar sua secretária e usar todas as suas armas de
sedução para descobrir o ponto fraco daquele homem que
ela acreditava ser o culpado de todas as mazelas da sua
vida.
Philip não queria se envolver com a secretária onze anos
mais nova, mas a convivência, o desejo, as insinuações e
toda a atração tornarão impossível conter seus instintos. O
que começa com um desejo por vingança pode mostrar a
dois corações feridos o que realmente é o amor.
Minha por Contrato

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Sinopse:

Casar era algo que eu nunca tinha imaginado fazer. A


vida de solteiro me proporcionava muitos benefícios e eu
usufruía muito bem de todos eles.
Nasci numa família influente, dona de uma companhia
aérea, e sempre tive tudo, mas a política me deu poder.
Porém, sempre fui um homem muito ambicioso.
Eu queria mais, almejava a presidência do país.
Acreditava ser a melhor escolha, não apenas pelo meu
ego, mas pelos meus feitos políticos. Entretanto, muitos
membros do partido pareciam discordar da minha
candidatura.
Não era o homem perfeito aos seus olhos, mesmo com
todo o dinheiro e influência. Eles preferiam outro candidato,
alguém que prezasse pelos valores tradicionais, um
homem comprometido com a família.
Eu precisava ser casado.
Mas o dinheiro poderia solucionar tudo, sem que eu
tivesse que mudar meu estilo de vida. Um casamento por
contrato era o que eu precisava.
Penélope é doze anos mais jovem do que eu, ingênua,
pobre e facilmente moldável. Ao meu lado, ela seria a
decoração perfeita. Nunca teve nada e iria se comportar
para manter o mundo que oferecia a ela.
Eu controlaria tudo, como sempre controlei. Mas não
poderia prever que ela seria capaz de se infiltrar nas
barreiras do meu coração.
O CEO viúvo e a babá virgem

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Sinopse:

Um viúvo envolto em sombras, uma jovem babá cheia de


luz e um bebê que precisava de amor e cuidado.

O CEO da Alliance Cars, Bernard Smith, já perdeu demais.


Ele se enclausurou na sua própria dor e afastou a todos.
Viúvo, ele se dedicou a tudo o que mais importava na vida:
seu filho. Assombrado pelo passado, ele não estava
disposto a seguir em frente e a única pessoa que mantém
por perto é a governanta, que cuidou dele desde menino.
Porém, após um AVC, seu único apoio não pôde mais
ajudá-lo a cuidar do filho.
A jovem estudante, Júlia Oliveira, estava determinada a
fazer o intercâmbio dos sonhos na Inglaterra. Para isso, ela
encontrou o emprego como babá em uma mansão, com
um dono recluso e um bebê fofo.
Ela não tinha vivido grandes romances, ainda era virgem,
mas Bernard, apesar de quinze anos mais velho, é o
homem mais bonito que já tinha visto e chamava muito a
sua atenção. Embora a atração entre os dois seja inegável,
um final feliz pode ser um grande desafio para ambos, pois
Bernard não acredita que merece uma segunda chance...
Nick (Dinâmica Perfeita)

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Sinopse:

Nick Rodrigues sempre foi o garoto problema, a ovelha


negra. Contrariando tudo o que os seus pais queriam, ele
se tornou o guitarrista da banda Dinâmica Perfeita. Porém,
o roqueiro badboy, ao lado dos dois melhores amigos,
encontrou o estrelato, fez fama pelo mundo e conquistou
tudo o que sempre quis, ou quase tudo...
A sintonia da banda está prestes a ser bagunçada, porque
ele deseja exatamente o que não deveria cobiçar: a irmã
do melhor amigo, a caçula que o vocalista defenderia a
qualquer preço, inclusive com o fim da banda.

Gabriela sempre foi certinha demais e, ao contrário do


irmão, é tudo aquilo que os pais esperavam dela.
Dedicada, amável, responsável e virgem, ela não queria
atrapalhar o maior sonho do irmão, mas será muito mais
difícil não ser atraída pelo caos em forma de roqueiro do
que ela imaginava.
Bastiaan (Feitiço do Coração)

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Sinopse:

Grosseiro, solitário, insensível e cruel Bastiaan Wass


escolheu as trevas e servia bem esse lado da magia. O
bruxo do clã do sangue é dono de uma boate em
Amsterdam, que atrai pessoas do mundo todo pelos drinks
que serve, verdadeiras poções, sua vertente mágica
favorita.
Bastiaan nunca se envolveu com nada nem com ninguém,
diz coisas estúpidas e cruéis, sem se importar com quem
machuca. Ele jamais se aliaria à rainha da luz cuja
autoridade não reconhece, por isso terá seus poderes
retirados até que aprenda a ser bom, a amar. Contudo, ele
já havia trancado seu coração e destruído a chave.
Blindara-se contra tais sentimentos e prometera, junto com
seus amigos Áthila e Thorent, jamais se apaixonar.
A magia era tudo o que o definia, e sem ela Bastiaan se vê
perdido. Mas estaria ele disposto a pagar o preço para tê-la
de volta?
Agatha tinha uma vida pacata, com pais super protetores e
um irmão mais novo. Porém, uma viagem a Amsterdam
mudará tudo. Perseguidores, que desconhece, irão separá-
la de sua família e ela encontrará abrigo em uma boate
cujo dono é temido por todos. Lá, irá descobrir que o
mundo é muito mais do que ela imaginava e sua vida
mudará para sempre.
A Filha Virgem do Meu Melhor
Amigo

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Sinopse:

Gutemberg Toledo, Guto, sempre se destacou pelo talento


com os números, e transformou um mercadinho familiar em
uma rede de supermercados espalhada por todo o país.
Astuto, determinado, e um empresário incrível, ele
conquistou tudo, menos o que mais ansiava: uma família.
Ao se divorciar, esse sonho parecia estar mais distante do
que nunca.

Sem laços familiares fortes, tudo o que ele tem de mais


importante é a amizade de décadas com o sócio. O que ele
não esperava era que a filha do seu melhor amigo, dezoito
anos mais jovem, nutrisse sentimentos por ele, um amor
proibido. ⠀

Guto vai lutar com todas as forças para não ceder à


tentação. Dentre todas as mulheres do mundo, Rosi
deveria ser intocável; não era permitida para ele. Porém, às
vezes é difícil escapar de uma rasteira do desejo.
Eternamente Minha

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Sinopse:

Vitor Doneli era um playboy e o herdeiro de um império,


mas ele decidiu desafiar o pai e traçar o próprio caminho,
antes que o destino pesasse sobre ele e fosse obrigado a
se tornar o CEO da empresa da família. Cursando Direito
em uma faculdade pública, cercado de amigos e mulheres
de vários níveis sociais abaixo do dele, terá a sua realidade
de cafajeste virada de cabeça para baixo quando uma
caloura atravessar o seu caminho.

Cíntia deixou sua casa, sua família e seu namorado e foi
estudar em uma cidade grande. Determinada a se tornar
uma advogada, ela não queria um relacionamento, mas o
destino estava prestes a surpreendê-la. Cíntia tentou e
lutou com todas as forças para não se aproximar, não se
apaixonar... Vitor era o completo oposto de tudo o que
desejava. Um jovem mimado e rico, que a provocou,
enlouqueceu e roubou seu coração.

Uma gravidez inesperada apenas intensificou o amor entre
eles. Eram o destino um do outro, ou acreditavam nisso.
Porém, o coração deles será partido, promessas serão
quebradas, e todo o amor que viveram se tornará uma
triste lembrança do passado na qual se negarão a
desistir... ⠀
Vendida para Logan (Clube
Secreto)

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Sinopse:

Logan Mackenzie é o herdeiro de um império secular


que rege com maestria. No entanto, por trás do excêntrico
e recluso homem de negócios, que vive em um isolado
castelo no interior da Escócia, há muitos segredos e
desejos obscuros. Ele não se rende a uma única mulher,
tem várias, e com elas explora a sexualidade ao máximo.
Um convite inesperado o levará ao exclusivo Clube
Secreto, um lugar onde todos os pecados podem ser
comprados. O que não imaginava era que se depararia
com um leilão de mulheres. Logan nunca foi uma alma
caridosa, mas até os mais egoístas vivem um momento de
altruísmo. Ele decide salvar uma delas, e por tê-la
comprado tem direito a tudo, inclusive a libertá-la.
Camila já havia experimentado o medo nas suas piores
formas. Lançada a um terrível destino, não esperava
acordar no jato particular de um milionário a caminho do
nada.
Ele já havia feito a sua cota de boa ação, só esperava
que ela fosse embora, mas o que se fazer quando Camila
se recusa, pois não há para onde ir? O lar que ela tinha
havia se transformado em pesadelo e aquele que imaginou
que cuidaria dela, roubou sua inocência e a vendeu para o
tráfico humano.
Logan não queria protegê-la, não estava disposto a
baixar seus muros por mulher nenhuma. Porém, enquanto
ele a afasta, Camila descobre o lado mais obscuro daquele
homem frio, mas também vai perceber que existe uma
chama que pode salvar ambos.

ATENÇÃO! Essa história contém cenas impróprias para


menores de dezoito anos. Contém gatilhos, palavras de
baixo calão e conduta inadequada de personagens.
Trevor: e o bebê proibido (Dark
Wings Livro 1)

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Sinopse:

Diana era o motivo de orgulho para os seus pais adotivos.


Esforçada, estudiosa, cursava medicina, com um futuro
muito promissor, mas um convite para visitar o Inferno vai
mudar tudo.
O Inferno era apenas um bar pertencente a um moto clube,
ao menos era a imagem que passava a quem não o
frequentava. Porém, ele era uma porta para o submundo,
um lugar de renegados, como Trevor. Um dos irmãos que
lidera o Dark Wings é a própria escuridão, nascido das
trevas e para as trevas, que acabará no caminho de Diana,
mudando a vida da jovem para sempre.
Uma virgem inocente que foi seduzida pelas trevas...
Uma noite nos braços do mal na sua forma mais sedutora,
vai gerar uma criança incomum e temida, além trazer à
tona um passado que Diana desconhecia, e pessoas
dispostas a tudo para ferir seu bebê.
Um milionário aos meus pés
(Irmãos Clark Livro 0)

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Sinopse:
Harrison Clark abriu uma concessionária de carros de luxo
em Miami. Se tornou milionário, figurando na lista dos
homens mais ricos do Estados Unidos. O CEO da Golden
Motors possui mais do que carros de luxo ao seu dispor,
tem mulheres e sexo quando assim deseja. Porém, a única
coisa que realmente amava, era o irmão gêmeo arrancado
dele em um terrível acidente.
Laura Vieira perdeu os pais quando ainda era muito jovem
e foi morar com a avó, que acabou sendo tirada dela
também. Sozinha, ela se viu impulsionada a seguir seus
sonhos e partiu para a aventura mais insana e perigosa da
sua vida: ir morar nos Estados Unidos. No entanto, entrar
ilegalmente é muito mais perigoso do que ela imaginava e,
para recomeçar, Laura viveu momentos de verdadeiro
terror nas mãos de coiotes.
Chegando em Miami, na companhia de uma amiga que fez
durante a travessia, Laura vai trabalhar em uma mansão
como faxineira, e o destino fará com que ela cruze com o
milionário sedutor. Porém, Harrison vai descobrir que ela
não é tão fácil de conquistar quanto as demais mulheres
com quem se envolveu. Antes de poder tirar a virgindade
dela, vai ter que entregar o seu coração.
Quando a brasileira, ilegal nos Estados Unidos, começa a
viver um conto de fadas, tudo pode acabar num piscar de
olhos, pois nem todos torciam a favor da sua felicidade.
Uma virgem para o CEO (Irmãos
Clark Livro 1)

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Sinopse:

Dean Clark nasceu em meio ao luxo e o glamour de Miami.


Transformou a concessionária de carros importados que
herdou do pai em um verdadeiro império. Ele é um CEO
milionário que tem o que quer, quando quer, principalmente
sexo. Sua vida é uma eterna festa, mas sua mãe está
determinada a torná-lo um homem melhor.

Angel Menezes é uma moça pacata e sonhadora que


vive com a mãe em um bairro de imigrantes. Trabalhando
como auxiliar em um hospital, sonha em conseguir pagar,
um dia, a faculdade de medicina. As coisas na vida dela
nunca foram fáceis. Seu pai morreu quando ela ainda não
tinha vindo ao mundo, e a mãe, uma imigrante
venezuelana, teve que criá-la sozinha. Porém, sempre
puderam contar com uma amiga brasileira da mãe, que
teve um destino diferente ao se casar com um milionário.

Laura mudou de vida, mas nunca deixou para trás a


amiga e faz de tudo para ajudar a ela e a filha. Acredita que
Angel, uma moça simples, virgem, e onze anos mais
jovem, é a melhor escolha para o seu filho arrogante e
cafajeste, entretanto, tudo o que está prestes a fazer é
colocar uma ovelhinha ingênua na toca de um lobo.

Dean vai enxergar Angel como um desafio, ele quer


mais uma mulher em sua cama e provar que ela não é
virgem. No jogo para seduzi-la, ganhará um coração
apaixonado que não está pronto para cuidar...

Será que o cafajeste dentro dele se redimirá ou ele só


destruirá mais uma mulher?
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Bônus

O Natal daquele ano foi na casa dos Sartori. Eu


estava acostumado e, como frequentava aquele ambiente
desde criança, era como se fosse a minha casa também.
Com nossos pais muito próximos, éramos como primos, ou
mesmo irmãos. Ainda que eu fosse diferente de todos eles,
havia me adaptado. Entretanto, a casa estava mais cheia
do que o comum, pois Aline havia concordado em vir
comigo e Joan estava com o Ethan. Além das esposas
mais antigas, Penélope e Mercedes.

Eu havia acabado de pedir a Aline em casamento e


ao olhar para o Maxwell brincando com a filha com um
olhar diferente de tudo o que eu já havia visto nele, estava
começando a pensar que esquecer de usar os
preservativos não seria algo tão ruim assim.

De mãos dadas com a Aline, passei pela sala de


jantar onde estavam os meus pais, meu irmão mais velho e
o Chad, com as esposas e os filhos, e eles todos
conversavam sobre assuntos que eu esperava entender
em breve.

— Você pensou em uma data para o casamento? —


Minha noiva mexeu no meu cabelo que caia sobre o rosto.

— Ainda não.

— Pode ser na primavera? Eu amo a primavera.

— Pode.

— Ah, eu amo você, Josh! — Ela jogou os braços ao


redor do meu pescoço e me deu um beijo rápido. — Ah!
Ainda nem falei com os meus pais que estou noiva.

— Por que não?

— Estou a muitos quilômetros de Nova York e não


quero dar uma notícia dessa por telefone. Conto para eles
quando chegar em casa.

— Tudo bem. Vamos lá para a televisão. — Apontei


para o cômodo onde se reuniam o Ethan, Joan, meu irmão
Oliver e o recém-aparecido Ryder.
— É tão bom te ver fora do campo e com essa cara
de apaixonado — Oliver comentou com o meu melhor
amigo, enquanto se servia de mais um pouco de bebida.

— Ethan continua com a mesma cara de sempre. —


Eu franzi o cenho tentando entender o que o meu irmão
mais novo havia notado de diferente no rosto do estilista.

— Isso acontece, porque ele sempre me amou, mas


não tínhamos conversado sobre o assunto até alguns
meses atrás. — Joana tentou explicar e eu continuei
confuso.

— Foi uma amizade conturbada. Você me


corrompeu — disse o Ethan e Joan se levantou para ir para
perto dele.

— Santo Ethan Sartori. Quem pode te influenciar,


agora, é o Oliver. — Joan ficou entre o Ethan e meu irmão.
— Ele é todo meu, está enrolado no meu mindinho.

— Sobra mais para mim. — Oliver ergueu o copo e


olhou para o Ryder, sério. — Para nós.
— O que vocês estão fazendo? — o mais jovem dos
Sartori perguntou.

— Mudando de canal para algo mais animado —


Aline esticou o corpo e pegou o controle remoto. — Ou
poderíamos colocar uma música e dançar.

— Eu gosto disso — Joana falou. — Estou


aprendendo alguns passos com a Aline. Para o nosso
casamento.

Oliver saiu e o Ryder o acompanhou. Não dei


qualquer importância. Os dois pareciam se entender muito
bem.

Aline colocou a música e começou a dançar,


puxando-me para junto dela e parei de olhar na direção
onde havia seguido os solteiros. Joana fez o mesmo com o
Ethan que não parecia levar muito jeito. Quis falar para ele,
mas me lembrei da Aline me dizendo que era melhor
guardar algumas opiniões para mim, ainda que eu
discordasse.

— Calma, Ethan. Temos passos certos a serem


seguidos. Vamos treinar para o casamento. — Joan tentou
orientá-lo, mas meu melhor amigo era péssimo.

— Preferia exercitar outra coisa para a nossa festa.


— Ethan disse a Joan.

— Vocês precisam se concentrar — falei sério.

— Ela me distrai completamente. Sou seduzido


todos os dias por essa mulher. — Ethan piscou para ela.

— Acha ruim? — soltou Joan.

— Faz parte do meu charme ser irônico, Josh. —


Ethan se posicionou seguindo as minhas instruções e
puxou Joan para junto dele. — Estou pronto, chefe.

— Siga o tempo da música. Um, dois... — instruí.

Aline e eu dançávamos enquanto o Ethan e Joan


mais se beijavam do que tudo. Não iriam conseguir decorar
os passos daquele jeito.

— Eles estão tão lindos. — Vi Rosimeire aparecer


com um celular na mão, mas eu não me importava com
câmeras.
— Foram feitos um para o outro. — Minha mãe
apareceu ao lado da outra senhora. — Estou animada para
participar do casamento dos dois.

— E eu, esperando mais netos. Pequeno John


precisa de um primo.

— Estou tentando, mãe. Joana que só pensa em


treinar. Ai! — Ethan respondeu a mãe, mas Joan pisou no
pé dele. — Também te amo, capitã.

— Gosta de provocar — Joan fez uma careta.

Parei de me preocupar com a conversa e puxei Aline


para mim, fazendo com que ela se girasse até parar de
frente, com as mãos sobre o meu peito. Ela abriu um
sorriso que me deixava com vontade de sorrir de volta. Até
conseguia entender o Ethan, pois a minha vontade também
foi de apenas beijá-la. Foi o que eu fiz, ouvindo a minha
mãe e a amiga suspirarem ao longe.

Eu tinha ficado dois anos sem a dança, até


consegui, mas havia algo que eu queria fazer para sempre:
beijar a Aline.
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Sinopse:

A irreverência e alegria eram minhas marcas registradas.


Já tinha sido julgado por minhas escolhas, mas nada me
abalava, eu estava em meu melhor momento.
CEO da ERW, a marca de roupas referência no mercado,
eu tinha em minha equipe a melhor estilista. Joan era, além
de excepcional, minha melhor amiga desde o colégio.
Dedicada e, por muitas vezes, solitária, ela atendia as
exigências da supervisora e me acompanhava nas
excentricidades.
Por mais que eu tivesse mulheres para me satisfazer e eu
aproveitava todos os momentos, era com Joan que me
sentia realizado. A dependência dela era justificada pela
conexão que criamos há anos.
Então, o meu bom momento estava prestes a se tornar
caótico quando foi necessária a presença do meu irmão
Ryder. A amizade que tanto prezei com Joan estava se
transformando e, para manter o meu sorriso de sempre
estampado, eu precisaria tomar uma importante decisão.
Restava saber se estava pronto para lidar com as
consequências.

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