Você está na página 1de 52

UNIVERSIDADE MUSSA BIN BIQUE

FACULDADE DE DIREITO
DELEGAÇÃO DE NAMPULA

AHMED NURO

EFECTIVAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS FACE


CONFLITOS ARMADOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO
MOÇAMBICANO.

NAMPULA
2021
UNIVERSIDADE MUSSA BIN BIQUE
FACULDADE DE DIREITO
DELEGAÇÃO DE NAMPULA

AHMED NURO

EFECTIVAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS FACE


CONFLITOS ARMADOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO
MOÇAMBICANO.

Monografia elaborada como um dos


requisitos para aquisição do grau de
licenciatura em Direito pela Faculdade de
Direito – Universidade Mussa Bin Bique,
tendo como supervisor: M/A. Dinis Torres.

NAMPULA
2021
UNIVERSIDADE MUSSA BIN BIQUE
FACULDADE DE DIREITO

AHMED NURO

EFECTIVAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS FACE CONFLITOS ARMADOS


NO ORDENAMENTO JURÍDICO MOÇAMBICANO.

Nampula, _______, de ___________________ de _________________

Resultado:

___________________________________________________________________________

Membro do Júri

Presidente:

___________________________________________________________________________

Supervisor:
___________________________________________________________________________

Examinador:
___________________________________________________________________________

Estudante:

___________________________________________________________________________
Termo de Autenticidade

Eu, Ahmed Nuro, declaro por minha honra, que o presente trabalho académico, foi elaborado
por mim próprio com ajuda e orientação do meu supervisor. Não se recorreu a quaisquer
outras fontes, para além das indicadas, e todos conceitos e termos usados, quer adoptados
literalmente ou adaptados a partir das suas ocorrências originais (em fontes impressas, não
impressas ou na internet), se encontram adequadamente identificados e citados, com
observância das regras de elaboração dos trabalhos académicos em vigor nesta instituição.

Mais declaro que esta Monografia não foi apresentada, para efeitos de avaliação ou obtenção
de qualquer grau académico, a outra Entidade ou Instituição de Ensino Superior, para além da
(s) directamente envolvida (s) na sua elaboração.

Declaro, finalmente, encontrar-me ciente de que a inclusão, neste texto, de qualquer falsa
declaração terá consequências legais.

Nampula, ______ de _______________________ de _________

Por ser verdade, subscrevo-me.

_____________________________________

(Ahmed Nuro)

I
Epigrafe

“Ser pela liberdade não é apenas


Tirar as correntes de alguém,
Mas viver de forma que respeite
A liberdade dos outros”.

Nelson Mandela. In A Cor da Liberdade,


1ª Edição, Zahar Editora,
Brasil, 2018. Pág. 6

II
Dedicatória

Dedico esta Monografia:

A minha querida mãe, Alima Abdulremane.


A Minha esposa, Zeituna Reiane Momade Nuro.
Aos Meus filhos: Nadir, Ziad e Faira.
As minhas netas: Shanaya e Mohamed.
Aos demais familiares e amigos.

III
Agradecimentos

Tentei dedicar um pouco da minha vida estudantil com muito carinho, humildade e muito
humanismo, e o resultado está aqui, aquele pouco que dei e o muito que recebi, sem merecer.

E tudo que for possível continuar a ser exemplo para a rapaziada mais novo que quer seguir,
cá estou na disposição, tanto na Faculdade, como em outras instituições, e nos campos
Universitários para calcorrearmos, a quem possa pôr a minha experiência a valer, porque a
experiência é essencialmente fruto daquilo que passamos na vida.

Vão os meus agradecimentos especiais ao Professor Doutor Carlos Lopes Bento, e o dr.
Dinis Torres Jamal, pelo suporte no pouco e muito que lhes coube, pelas correcções e
subsídios no desenvolvimento do trabalho.

Agradecer ainda a Universidade, seu corpo docente, Direcção e Administração que


oportunizaram a janela que hoje vislumbro um horizonte superior, eivado pela acendrada
confiança no mérito e a ética.

Aos meus queridos colegas e aos demais amigos, o qual calcorreamos juntos aos campos da
Universidade.

O meu muito, muito obrigado.-

IV
Lista de abreviatura

Art.º – Artigo
CIP – Centro de Integridade Pública
Cit. – Citado
CP – Código Penal
CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa
CRM – Constituição da República de Moçambique
DUDH – Declaração Universal de Direitos do Homem
DIH – Direito Internacional Humanitário
LUSA – Agência de notícias de Portugal
Nº - Número
Ob. – Obra
OUA – Organização da União Africana
Pág. – Página
PDCP – Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos
UA – União Africana

V
Resumo
No presente trabalho monográfico propomo-nos a abordar sobre “Efectivação Dos Direitos Humanos Face
Conflitos Armados No Ordenamento Jurídico Moçambicano”, cujo tema circunscreve-se na área dos Direitos
Humanos. Nos últimos anos, tem-se verificado vários problemas mais significativos de direitos humanos que
incluem: privação arbitrária ou ilegal da vida por parte das forças de segurança; condições severas e
ameaçadoras das prisões e centros de detenção; corrupção oficial; violência contra mulheres e pessoas com
albinismo e esforços governamentais inadequados para investigar, acusar judicialmente ou de outra forma
responsabilizar os perpetradores; tráfico de seres humanos; e trabalho infantil. Mas actualmente, o conflito não é
apenas sinónimo de morte. Constitui um terreno fértil para violações maciças de direitos humanos, incluindo
tortura, desaparecimentos forçados e detenções arbitrárias e ilegais. Os conflitos armados podem ser espoletados
por problemas relacionados com a identidade, a etnia, a religião ou a concorrência para controlar recursos
minerais, entre outros. No âmbito deste trabalho, temos como objectivo geral analisar a efectivação dos direitos
humanos face aos conflitos. Para realização do trabalho, vamos usar o método dedutivo porque para perceber o
problema de pesquisa, é pertinente começar de aspectos gerais para o particular. Por outro, usaremos a pesquisa
qualitativa porque pretendemos interpretar o fenómeno de violação de direitos humanos face aos conflitos
armados.
Palavras chaves: Direitos Humanos; Conflitos Armados; Ordenamento Juridico.

VI
Abstract

In this monographic work, we propose to address the “Effectiveness of Human Rights in the Face of Armed
Conflicts in the Mozambican Legal System”, whose theme is limited to the area of Human Rights. In recent
years, there have been a number of more significant human rights problems that include: arbitrary or illegal
deprivation of life by the security forces; severe and threatening conditions in prisons and detention centers;
official corruption; violence against women and people with albinism and inadequate government efforts to
investigate, prosecute or otherwise hold the perpetrators responsible; trafficking in human beings; and child
labor. But today, conflict is not just death. It is a breeding ground for massive human rights violations, including
torture, enforced disappearances and arbitrary and illegal detentions. Armed conflicts can be triggered by
problems related to identity, ethnicity, religion or competition to control mineral resources, among others.
Within the scope of this work, our general objective is to analyze the realization of human rights in the face of
conflicts. To carry out the work, we will use the deductive method because to understand the research problem, it
is pertinent to start from general aspects to the particular. On the other hand, we will use qualitative research
because we intend to interpret the phenomenon of human rights violations in the face of armed conflicts.
Keywords: Human Rights; Armed conflicts; Legal Ordering.

VII
ÍNDICE

Termo de Autenticidade..............................................................................................................I

Epigrafe......................................................................................................................................II

Dedicatória................................................................................................................................III

Agradecimentos........................................................................................................................IV

Lista de abreviatura....................................................................................................................V

Resumo.....................................................................................................................................VI

Abstract...................................................................................................................................VII

NTRODUÇÃO...........................................................................................................................1

1 CAPÍTULO I: PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DA EFECTIVAÇÃO DOS


DIREITOS HUMANOS FACE CONFLITOS ARMADOS NO ORDENAMENTO
JURÍDICO MOÇAMBICANO..................................................................................................5

1.1 Metodologia.................................................................................................................5

1.2 Método de estudo.........................................................................................................5

1.3 Tipo de pesquisa...........................................................................................................6

1.4 Técnica de recolha de dados.........................................................................................6

1.5 Estratégias de análise de dados....................................................................................7

1.6 Técnica de interpretação de resultados.........................................................................7

2 CAPÍTULO II: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA DA EFECTIVAÇÃO DOS


DIREITOS HUMANOS FACE CONFLITOS ARMADOS NO ORDENAMENTO
JURÍDICO MOÇAMBICANO..................................................................................................8

2.1 Noções gerais...............................................................................................................8

2.2 Popularidade da expressão direitos humanos...............................................................8

2.3 Interpretação e aplicação das normas referentes aos direitos fundamentais................9

2.4 Corrente jusnaturalista................................................................................................10

2.5 Diferença entre conceitos de direitos humanos e direitos fundamentais...................10

2.6 Breve evolução histórica dos direitos humanos.........................................................12


2.7 Características............................................................................................................13

2.7.1 Universalidade....................................................................................................13

2.7.2 Indivisibilidade...................................................................................................14

2.7.3 Interdependência.................................................................................................14

2.7.4 Irrenunciabilidade...............................................................................................14

2.7.5 Inalienabilidade...................................................................................................14

2.8 A questão das Responsabilidades face aos Direitos Humanos..................................15

2.9 Exigências dos Direitos Humanos..............................................................................15

2.10 Instrumentos de protecção dos direitos humanos...................................................16

2.10.1 Declaração Universal dos direitos humanos.......................................................16

1.1.1 O Pacto Internacional De Direitos Civis E Políticos..........................................16

2.11 Partes do pacto internacional dos direitos civis e políticos....................................16

2.11.1 Objectivo.............................................................................................................19

2.12 Convenção internacional sobre a eliminação de todas formas de descriminação


racial 20

2.12.1 Racismo...............................................................................................................20

2.13 Convenção contra tortura e outras penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou


degradantes...........................................................................................................................20

2.14 Convenção internacional sobre a protecção dos direitos de todos os trabalhadores


migrantes e membros das suas famílias................................................................................21

2.15 Responsabilidade da defesa dos direitos humanos.................................................21

2.15.1 Estado..................................................................................................................22

2.16 Exigências dos Direitos Humanos..........................................................................22

2.17 Princípio da dignidade da pessoa humana..............................................................22

2.17.1 A Dignidade Da Pessoa Humana........................................................................22

2.17.2 Teorias da diigadade da pessao humana.............................................................23

3 CAPÍTULO III: APRESENTAÇÃO /ANÁLISE DE DADOS E DISCUSSÃO DE


RESULTADOS.........................................................................................................................24
3.1 Protecção dos Direitos Humanos face aos conflitos armados....................................24

3.1.1 Subsistema de protecção de direitos humanos....................................................24

3.1.2 Sistema Africano.................................................................................................24

3.1.3 Sistema Europeu.................................................................................................25

3.1.4 Conselho da Europa............................................................................................25

3.1.5 A criação do conselho da Europa........................................................................25

3.2 Regras básicas do direito internacional humanitário nos conflitos armado...............27

3.2.1 Conflito Armado.................................................................................................27

3.2.2 Conceito..............................................................................................................27

3.2.3 Reconciliação Nacional, Coexistência Pacífica e Justiça Transicional..............28

3.2.4 Categorias de reconciliação................................................................................28

3.2.5 Regras básicas do direito internacional face aos conflitos armados...................29

3.3 Direito à segurança e direitos humanos face aos conflitos armados..........................32

CONCLUSÃO..........................................................................................................................35

RECOMENDAÇÕES...............................................................................................................37

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS......................................................................................38
NTRODUÇÃO

No presente trabalho monográfico propomo-nos a abordar sobre “Efectivação Dos Direitos


Humanos Face Conflitos Armados No Ordenamento Jurídico Moçambicano”, cujo tema
circunscreve-se na área dos Direitos Humanos.

Os direitos humanos são direitos básicos de todos os seres, são direitos civis e políticos,
económicos e socias, bem como os direitos de fraternidade. Neste contexto, toda pessoa
enquanto estiver dotado do caracter humano é detentor ou titulares destes. Por outro lado, são
direitos, pela essência, serem constantemente invocados em benefício de indivíduos numa
situação de vulnerabilidade1.

Nos últimos anos, tem se verificados vários problemas mais significativos de direitos
humanos incluíram: privação arbitrária ou ilegal da vida por parte das forças de segurança;
condições severas e ameaçadoras das prisões e centros de detenção; corrupção oficial;
violência contra mulheres e pessoas com albinismo e esforços governamentais inadequados
para investigar, acusar judicialmente ou de outra forma responsabilizar os perpetradores;
tráfico de seres humanos; e trabalho infantil2.

Mas actualmente, o conflito não é apenas sinónimo de morte. Constitui um terreno


fértil para violações maciças de direitos humanos, incluindo tortura, desaparecimentos
forçados e detenções arbitrárias e ilegais 3. Os conflitos armados podem ser espoletados por
problemas relacionados com a identidade, a etnia, a religião ou a concorrência para controlar
recursos, entre outros.

As mulheres e crianças são desproporcionalmente afectadas pelo conflito armado, perfazendo


80% de todos os refugiados e deslocados. A violação e outras formas de violência sexual são
perpetradas sistematicamente durante os conflitos.

A Amnistia Internacional não toma partido nos conflitos. Documenta e faz campanha contra
abusos de direitos humanos e violações das leis internacionais, independentemente de quem
os pratica ou onde são cometidos. Além disso, ajuda os sobreviventes a reivindicar justiça.

1
VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Lições de Direitos Humanos, Luís Bitone, Maputo, 2013, pág.10.
2
RELATÓRIO DOS DIREITOS HUMANOS EM MOÇAMBIQUE, 2014. Pág. 1-2.
3
CONFLITOS ARMADOS, disponível in https://www.amnistia.pt/tematica/conflito-armado/, Acesso aos
15/10/2019 - 12:40.
1
Desde a implantação dos projectos de exploração de gás no norte de Moçambique, tem se
verificado que se instalou um clima de terror que deixa muito a desejar ao nível da
comunidade internacional, bem como os próprios investidores.

Os ataques de grupos armados a locais remotos da província de Cabo Delgado, norte de


Moçambique, já terão matado pelo menos 150 pessoas desde Outubro de 2017 e milhares de
pessoas abandonaram as aldeias e as hortas onde cultivavam os seus alimentos, dando origem
a um movimento de deslocados em direcção às capitais de distrito.

Para a Comissão Nacional do Direitos Humanos, o número de mortes deve estar abaixo da
realidade, só que faltam condições, principalmente de segurança, para que entidades
independentes produzam novos dados. Os acontecimentos do terreno sugerem números acima
dos que nos são apresentados. Há eventos que não estão ao alcance das autoridades 4. Neste
contexto, coloca-se em causa o direito à segurança como direito humano e fundamental,
conforme dispõe o artigo 59º nr. 1 da CRM5.

Outro caso que podemos usar como exemplos, são as ameaças que se fazem sentir na zona
centro do país, onde alguns simpatizantes do partido Renamo, estão a praticar actos que
atentam contra os direitos humanos, tais como a vida e segurança das pessoas.

Neste contexto, pelos acontecimentos acima arrolados nota-se há violação dos direitos
humanos, tais como direito a vida, bem como a integridade física e os demais direitos.
Portanto, nesta linha de ideias surge a seguinte questão de partida: Que medidas as Estado
deve tomar para acautelar ou proteger os direitos humanos face aos conflitos armados
em Moçambique?

Para resolução dos problemas que se notam no norte de Moçambique que de certa forma
atentam os direitos humanos lesando deste modo a dignidade da pessoa humana, o Estado
Moçambicano deveria declarar o Estado de emergência, visto que apesar dos investimentos
que estão sendo aplicados nessas regiões, os direitos humanos devem prevalecer sobre estes
interesses com base no princípio da prevalência dos direitos humanos. Por outro lado, isto iria
permitir a limitação dos direitos fundamentais de uma forma legal, tal como preconiza o
artigo 56 n.2 e 3 da CRM.

4
COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS PEDE ESTADO DE EMERGÊNCIA EM CABO DELGADO,
disponível in https://www.dw.com/pt-002/comiss%C3%A3o-de-direitos-humanos-pede-estado-de-emerg
%C3%AAncia-em-cabo-delgado/a-47760688, Acesso aos 15/10/2019 - 13:00.
5
REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE, Constituição da República, (2004) in Boletim da República I serie nº 20
de 24 de Dezembro.
2
Numa segunda perspectiva deve o Estado criar condições no sentido de garantir mais
segurança, pedindo ajuda as outras entidades que tem competência pela tutela dos direitos
humanos, tal como o Conselho de Segurança das Nações Unidas, porque os acontecimentos
que verificam em Cabo Delgado atentam os direitos humanos, e no entendimento da
Comunidade Internacional, atentam aquilo que é a Paz como um direito difuso.

O tema em alusão é bastante fundamental, visto que actualmente o nosso pais encontra-se a
viver situações que deixa muito a desejar, constituindo umas das formas atentadoras da
dignidade da pessoa humana enquanto valores morais inerentes a pessoa humana, neste
contexto, olhando pela situação de conflitos armados que se vivem no norte, há necessidade
de dar um breve olhar aos direitos humanos, de modo que estes possam ser salvaguardados
em função do principio da prevalência.

Quanto a pertinência, o tema é bastante fundamental porque a questão dos direitos humanos,
está em evidência social, face aos acontecimentos horrendos presentes da sociedade, por outro
lado, sendo os direitos humanos, o direito básico tem seus âmagos principais nos valores de
paz, solidariedade, igualdade, dignidade da pessoa humana. Não obstante, perante a situação
que se vive em Cabo Delgado, constitui razão suficiente para desenvolver uma pesquisa
voltada ao tema em alusão.

No concernente aos objectivos, temos como objectivo geral: analisar a efectivação dos
direitos humanos face aos conflitos armados no Ordenamento Jurídico Moçambicano. E tem-
se como objectivos específicos: perceber a protecção dos Direitos Humanos face aos conflitos
armados; demonstrar as regras do direito internacional face aos conflitos armados; e verificar
o direito de segurança e os direitos humanos nos conflitos armados.

Quanto aos procedimentos metodológicos, neste trabalho monográfico deu-se primazia a


pesquisa do tipo qualitativa, bibliográfica e documental, porque para abordar o tema em
alusão, foi pertinente recorrer aos artigos científicos, manuais, relatórios e documentos dos
relatores internacionais dos direitos humanos das Nações Unidas. Sob outra perspectiva, deu-
se primazia a pesquisa do tipo documental porque com a abordagem do tema foi pertinente
recorrer as legislações como: Constituição da República de Moçambique e outros diplomas
legislativos de índole internacional. Do mesmo modo, em relação ao método de estudo,
optou-se pelo método dedutivo, porque pretende-se partir dos aspectos gerais dos direitos
humanos, com vista a percepção do tema em análise.

3
No que concerne a estrutura do trabalho, importa referir que este encontra-se estruturado em
três capítulos, nomeadamente: o primeiro capítulo refere-se aos procedimentos
Metodológicos, neste capítulo trata-se de uma explicação minuciosa, detalhada, rigorosa e
exacta de toda acção desenvolvida no trabalho. Incluindo deste modo, a explicação do tipo de
pesquisa, método de estudo e as técnicas de análise de dados e interpretação de resultados; no
segundo capítulo é da fundamentação teórica, onde consta a contextualização e
conceitualização dos vários aspectos dos direitos humanos, que subsidiará o tema levantando
no âmbito desta pesquisa; e o terceiro capítulo faz menção da apresentação, análise de dados e
discussão de resultados, onde dedicarei a apresentação de dados e a respectiva análise, que
depois de apurar os resultados, irei discutir a luz do marco teórico.

4
1 CAPÍTULO I: PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DA EFECTIVAÇÃO
DOS DIREITOS HUMANOS FACE CONFLITOS ARMADOS NO
ORDENAMENTO JURÍDICO MOÇAMBICANO.

1.1 Metodologia

Metodologia é uma palavra derivada de “método”, do Latim “methodus” cujo significado é


“caminho ou a via para a realização de algo”. Método é o processo para se atingir um
determinado fim ou para se chegar ao conhecimento. Metodologia é o campo em que se
estuda os melhores métodos praticados em determinada área para a produção do
conhecimento 6.

Do ponto de vista de Marconi & Lakatos, pode-se afirmar de forma categórica que os
procedimentos metodológicos é um conjunto de actividades sistemáticas e racionais que, com
maior segurança e economia, permitem alcançar o objectivo pretendido7.

1.2 Método de estudo

Segundo o Bunge, o método científico é a teoria da investigação. Neste contexto, esta alcança
seus objectivos, de forma científica, quando cumpre certas etapas.

Os métodos científicos podem classificar-se em dedutivo, indutivo, hipotético-dedutivo e


dialéctico. Os métodos científicos das ciências sociais podem classificar-se em histórico,
comparativo, monográfico, estatístico, tipológico, estruturalista, etnográfico e clínico.
Importa-nos o estudo do método dedutivo que fundamenta-se no raciocínio dedutivo e
procura transformar enunciados complexos e universais em particulares, em uma ou várias
premissas8.

Quanto ao método de estudo, propor-nos ao uso do método dedutivo, pois é, o tipo de


argumentação que parte dos aspectos gerais para os aspectos particulares. A razão de escolha
deve-se pelo facto, de facilitar trazer todos aspectos dos direitos humanos e os conflitos
armados, no cômputo geral, para perceber a efectivação dos direitos humanos face conflitos
armados no Ordenamento Jurídico Moçambicano.
6
DE ANDRADE MARINA, Marconi, Fundamentos de metodologia científica, 5 edição, São Paulo, Editora,
atlas S.A. 2003, pág. 91
7
MARCONI, Marina de Andrade, LAKATOS, Eva Maria, Fundamentos de Metodologia Científica, 5ª edição,
São Paulo, Editora Atlas, 2003. Pág. 17.
8
OLIVEIRA, Sílvio Luiz de, Metodologia Científica Aplicada ao Direito, Editora Thompson, São Paulo, 2002,
P. 47.
5
1.3 Tipo de pesquisa

Pesquisa é conjunto de actividades que tem por finalidade a descoberta de novos


conhecimentos no domínio científico, literário artístico, admitindo, também, o significado de
investigação ou indagação minuciosa9. Ou seja, a pesquisa é acção racional e sistemática que
tem como objectivo apresentar a solução dos problemas que são propostos.

Quanto ao tipo de pesquisa classifica-se em bibliográfica, documental, estudo de caso,


histórica, levantamento, experimental, participante.10 Pode ser também pesquisa exploratória,
descritiva, correlacionais e explicativa.11

Quanto ao tipo de pesquisa, deu-se primazia a pesquisa de natureza qualitativa, bibliográfica e


documental. A opção da pesquisa qualitativa deriva da sua essência, pois esta procura partir
dos aspectos gerais dos direitos humanos perceber a efectivação dos Direitos humanos face
conflitos armados no Ordenamento Jurídico Moçambicano.

Por outro lado, a escolha da pesquisa bibliográfica deve-se pelo facto de que para explicação
do problema partiu -se da consulta de forma exaustiva e detalhada através dos livros, artigos
científicos e relatórios relativos aos direitos humanos, dignidade da pessoa humana, conflitos
armados e da respectiva adequação à realidade Moçambicana.

Por outro, a pesquisa é de índole documental porque se baseia na investigação de documentos,


legislações e convenções internacionais com a finalidade de descrever os vários aspectos dos
direitos modo que pudesse perceber o problema face ao ordenamento jurídico moçambicano.

1.4 Técnica de recolha de dados

Técnicas são consideradas em um conjunto de preceitos ou processos que serve uma ciência,
por outro lado, são habilidades para usar esses preceitos ou normas para obtenção de seus
propósitos12. Ou seja, é a forma mais segura e ágil de cumprir algum tipo de actividade,
utilizando-se instrumental apropriado.

As técnicas usadas para recolha de dados para este trabalho, é consulta bibliográfica e
documental. A escolha destas técnicas advém pelo facto de nos permitir a consulta de
9
NEVES, Eduardo Borba; DOMINGUES, Clayton Amaral; Manual de Metodologia da pesquisa científica,
CEP, Rio de Janeiro – Brasil, 2007. Pág.14
10
BOAVENTURA, Edvaldo M, Metodologia da Pesquisa, Editora Atlas, São Paulo, 2012, p. 55.
11
RAMOS, Santa Taciana Carrilho; NARANJO, Ermam Santien, Metodologia da Investigação Científica,
Escolar Editora, Lisboa, 2014, p. 14.
12
NEVES, Eduardo Borba; DOMINGUES, Clayton Amaral; Manual de Metodologia da pesquisa científica,
CEP, Rio de Janeiro – Brasil, 2007. Pág. 175.
6
manuais, artigos científicos, relatórios e várias legislações nacionais e convenções/declarações
internacionais, referentes aos direitos humanos, dignidade da pessoa humana, de modo a
perceber os aspectos da efectivação dos direitos humanos face aos conflitos armados, com
vista a obtenção dos resultados pretendidos.

1.5 Estratégias de análise de dados

Quanto a estratégias de análise de dados, deu-se primazia a hermenêutica jurídica, porque


para obtenção dos resultados, é imperioso fazer a categorização dos objectivos específicos,
interpretando os vários aspectos ligados aos direitos humanos.

1.6 Técnica de interpretação de resultados

Quanto a técnica de discussão de resultado, propor-nos pela técnica da triangulação, a opção


se deve pelo facto, de apresentar maior facilidade ao pesquisador uma vez que permite através
dos vários resultados obtidos na análise de dados, discutir os mesmos com base nas
abordagens da fundamentação teórica, trazendo deste modo, a posição do pesquisador13.

13
Idem, Pág. 178
7
2 CAPÍTULO II: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA DA EFECTIVAÇÃO DOS
DIREITOS HUMANOS FACE CONFLITOS ARMADOS NO ORDENAMENTO
JURÍDICO MOÇAMBICANO.

2.1 Noções gerais

A expressão “direitos humanos” frequentemente usada, quer no discurso científico, quer no


discurso político, quer, sobretudo, no contexto da defesa dos direitos dos cidadãos na sua
relação com o Estado ou com outros poderes. Pode até dizer que a expressão “direitos
humanos” popularizou-se pelo seu constante uso, mas, também, desgastou-se pelo excessivo
abuso.

2.2 Popularidade da expressão direitos humanos

No entanto, a popularidade da expressão “direitos humanos” em Moçambique contrasta com o


desconhecimento do ser conceito e conteúdo, sendo certo que ela é, de certo modo, mais
conhecida pelo seu preconceito. Tal preconceito resulta do facto de os direitos humanos, pela
sua essência, serem constantemente invocados em benefício de indivíduos em situação de
vulnerabilidade, nas relações de dominação ou de inferioridade, como sejam as relações de
exercício do poder do Estado sobre o cidadão, nas relações de género nas sociedades
machistas, no poder paternal dos progenitores sobre os filhos, no redor das empresas sobre os
trabalhadores14.

Num contexto de relações de dominação e, vistos como direitos dos mais fracos ou
vulneráveis, os “direitos humanos” não representam muito para as elites económicas, políticas
ou sociais, sendo por essa razão que tal expressão é mais popular pelo seu preconceito do que
pelo seu conceito. Às vezes, mesmo os que promovem e protegem os direitos humanos, como
os que os desafiam, não têm um profundo conhecimento da sua relevância jurídica.

Então, o que são os direitos humanos da pessoa humana. Porém, a simplicidade desta
afirmação contrasta com dificuldade de explicação do seu conteúdo, na medida em que é
difícil definir a dignidade humana. Afinal, em que consiste a dignidade humana.

Ao lado desta inquietação, vem outra que emerge da circunstância de as expressões “direitos
humanos” e “direitos fundamentais” serem usadas em sinonímia, podendo nalguns casos,
serem tratadas com alguma diversidade. É o que acontece, para exemplificar, com a

14
VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Lições de Direitos Humanos, Luís Bitone, Maputo, 2013, pág. 10.
8
Constituição da República de Moçambique que, no artigo 11, determina os objectivos
fundamentais do I Estado, nomeadamente a promoção e defesa dos direitos humanos, pese
embora, o capítulo que trata dos direitos pertinentes ao homem aparecer I com a epígrafe de
direitos fundamentais15.

2.3 Interpretação e aplicação das normas referentes aos direitos fundamentais

No entanto, o artigo 43 da lei mãe estabelece que a interpretação e aplicação das normas
referentes aos direitos fundamentais fazem-se de harmonia com a Declaração Universal dos
Direitos do Homem e a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos. Terá o legislador
constituinte entendido haver uma equivalência mútua entre os dois conceitos ou, pelo
contrário, usa-as consciente da sua diversidade e complexidade estas outras questões são
frequentes para quem se autonomizar inicia no campo científico dos direitos humanos16.

Contudo, apesar de, por um lado, faltar clareza relativamente ao seu conceito e. por outro, do
generalizado preconceito, é indiscutível que a consensualidade dos direitos humanos, como
valores universais, é quase certa, pois, um direito reconhecido como tal é universalmente
respeitado Mas, perante a universalidade de aceitação dos direitos humanos, há uma pergunta
que fica por responder: Será que a legitimidade universal dos direitos humanos resulta,
igualmente, da universalidade e internacionalidade dos instrumentos que normalmente os
consagram, designadamente as convenções e tratados internacionais. Ou pelo contrário, esse
consenso resulta da universalidade da natureza humana? É inquestionável que, apesar da
diversidade racial, cultural e geográfica, o homem é um ser universal, por isso, os valores a
ele inerentes são igualmente universais17.

A tensão permanente é relativa à fonte de legitimação desses valores da dignidade inerente ao


homem, questionando-se se ela é divina ou, pelo contrario, se a sua fonte é o próprio homem.
Tentando superar a ideia a ideia de direitos naturais, seguramente ligada à divindade dos
direitos humanos, uma vez ser o homem a representação de Deus na terra, EMMANUEL
KANT propõe o próprio homem como fonte de legitimação da sua própria dignidade, porque
para ele a dignidade humana resulta do facto de o homem ser um ser que pensa e sente,
entendido este termo na dimensão ampla dos sentimentos; quer dizer, nas já referidas relações
de dominação, o homem não deve ser arbitrariamente submetido a emoções de dor física ou

15
VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Lições de Direitos Humanos, Luís Bitone, Maputo, 2013, Pág. 11-12
16
VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Ob. Cit. Pág. 26
17
MENDES, Victor, Direitos Humanos: Convenções e declarações internacionais, Virslis Editores, São
Paulo,2002. Pág.261
9
moral, nem deve ver as suas escolhas limitadas por alguma imposição externa que não decorra
objectivamente da natureza das coisas.

Em fim, respeitar a dignidade humana é, por um lado, garantir ao ser humano a liberdade de
expressão do seu próprio pensamento, com tudo o que isso pressupõe, como seja a necessária
liberdade de procurar, receber e difundir informação. Por outro, o respeito pela dignidade
humana implica a garantia da genuidade dos sentimentos do homem, também, com tudo oque
isso impõe, nomeadamente, que o sentimento de dor não resulte, por exemplo, de prisões
arbitrárias, de tortura, de escravatura, de fome deliberadamente causada a outrem. Mas, ainda,
que as escolhas e desejos da pessoa humana, quaisquer que sejam, tais como a escolha das
suas relações sociais, de profissão, de filiação sindical, não resultem condicionadas por
qualquer factor de dominação, mas, sim, da própria liberdade do querer do homem.

2.4 Corrente jusnaturalista18

Deste modo, ao consagrar o ideal de que os ” homens nascem livres e iguais”, a Carta da
Revolução Francesa assim como a Declaração Universal dos Direitos do Homem inclinaram-
se para a universalidade da natureza humana, considerando a dignidade humana como
inerente ao homem. Neste sentido, os direitos humanos são pertinentes à própria natureza
humana, cujos valores vão integrando novos conteúdos em função da evolução universal e
civilizacional do homem, donde resulta que, apesar de diversidade cultural entre os homens,
os direitos humanos se apresentam como o mínimo ético universal, isto é, oque em todas as
civilizações e culturas é comummente aceite como oque deve ser, por referência à dignidade
do próprio homem19.

É inquestionável, refira-se, que em qualquer civilização e cultura, a religiosidade do homem é


aceite, dai não repugnar o reconhecimento do direito humano à liberdade religiosa.
Abstraindo das guerras e outro tipo de barbaridades, em todas as civilizações e culturas, a vida
humana é um valor nobre, sendo por isso que o direito à vida aparece, aceite consensualmente
como um direito humano universal.

2.5 Diferença entre conceitos de direitos humanos e direitos fundamentais

Quanto à diferença entre conceitos de direitos humanos e direitos fundamentais, a mesma é


provavelmente melhor explicitada na seguinte afirmação de Vieira de Andrade:

18
MENDES, Victor, Direitos Humanos: Convenções e declarações internacionais, Virslis Editores, São
Paulo,2002. Pág.261
19
VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Lições de Direitos Humanos, Luís Bitone, Maputo, 2013, Pág. 11-12
10
“Fala-se de direitos fundamentais quando se pretende referir os direitos garantidos por cada
Estado aos seus cidadãos, em contraposição a direitos humanos, termo a que se recorre para
designar os direitos do homem que são validos para todos os povos e em todos os tempos,
assumindo, neste ultimo sentido, a dimensão de direitos naturais20

A segunda questão terminológica prende-se com a dicotomia: direitos do homem ou direitos


humanos?

Especialmente nas edições dos instrumentos internacionais em línguas latinas, em que, como
sabemos se inclui o português, ora aparece a designação direitos do homem ora a de direitos
humanos.

Na verdade, trata-se de designações diferentes mas que exprimem o mesmo conteúdo, embora
não seja despiciende notar que, aparentemente, esta disparidade terminológica reflecte uma
certa hesitação relactivamente à questão de saber se o conceito homem é ou não capaz de
abranger os dois géneros, ou seja o homem e a mulher como categorias humanas21

Segundo Gomes Canotilho e Vital Moreira, os direitos humanos “distinguem-se dos direitos
fundamentais porque estes são os direitos constitucionalmente positivados e juridicamente
garantidos no ordenamento jurídico [interno], enquanto os direitos [humanos] são os direitos
de todas as pessoas ou colectividades de pessoas independentemente da sua positivação
jurídica nos ordenamentos político-estaduais”22. Desta forma, os direitos humanos trazem uma
dimensão jusnaturalista-universalista, enquanto os direitos fundamentais possuem um carácter
jurídico-institucionalmente garantido, com uma limitação espaço temporal. De forma
semelhante, José de Melo Alexandrino considera que os direitos fundamentais denotam a
“expressão constitucional que designa as situações jurídicas fundamentais das pessoas
reconhecidas (…) [n]a Constituição” 23.

Por outro lado, este mesmo autor considerados direitos humanos como aqueles que se referem
às situações jurídicas resultantes da natureza ou da condição de ser humano e que o Direito
internacional reconhece. Embora no século XXI a maioria dos padrões dos direitos humanos
se encontrem positivados no direito convencional internacional, a positivação não é uma

20
ANDRADE, De, Jose Carlos Vieira, Direitos Fundamentais, Lisboa/são Paulo, Vol. II,1984
21
MARTINS, Ana Maria Guerra, Direito Internacional dos Direitos Humanos-Relatório, Almedina, Coimbra,
2006,pp.30 e 31.
22
J.J. Gomes Canotilho; VITAL, Moreira, Constituição Da República Portuguesa Anotada, 4.ª Edição, vol. I
(Artigo 1.º a 107.º) (Coimbra: Coimbra Editora, 2007),240.
23
José de Melo Alexandrino, Direitos Fundamentais: Introdução Geral (Principia,2007), 30.
11
característica essencial destas garantias. O mesmo não se pode dizer sobre os direitos
fundamentais, que devem essencialmente estar positivados na constituição, embora possamos
reconhecer como fundamentais direitos que não se encontram consagrados expressamente no
texto da Constituição.

Sem dúvida, tanto os direitos fundamentais como os direitos humanos partilham de


verdadeiras semelhanças, possuindo na sua origem os mesmos valores éticos (de justiça e
igualdade), apresentando características essenciais à natureza humana e tendo como finalidade
comum a protecção da dignidade da pessoa humana.

2.6 Breve evolução histórica dos direitos humanos

A evolução histórica dos direitos humanos coincide com a história da limitação do poder
estadual em vários quadrantes do mundo.

Como bem refere Flávia Piovessan,24Inicialmente, os direitos humanos foram pensados pelos
filósofos do mundo antigo, enquanto simples expressões de pensamentos individuais, serviam
apenas como propostas de actuação do Estado.

Com efeito, as origens dos direitos humanos podem ser encontradas tanto na filosofia grega
quanto nas várias religiões do mundo.

Como ilustra grande parte da história da humanidade, a pessoa humana foi adquirindo, de
uma forma progressiva, os seus direitos e responsabilidades por meio de sua participação
como membro ou parte de um grupo- por exemplo: família, religião, classe social,
comunidade e Estado. A maioria das sociedades teve regras similares, uma das quais a
chamada “ regra de ouro” que significa “ faça aos outros o que gostaria que fizessem a si
mesmo; e não faça aos outros o que não gostaria que lhe fizessem”.

De acordo com a Flavia Piovesan, somente quando ocorre a positivação destas teorias
filosóficas de direitos humanos, enquanto limitação ao poder estatal, é que se pode falar de
direitos humanos, enquanto um autêntico sistema de direitos no sentido escrito da palavra, isto
é, enquanto direitos positivos ou efectivos.

Os Vedas Hindu, o Código de Amurabi da Babilónia, a Bíblia, o Alcorão, e os Anacletos de


Confúcio, são cinco das mais antigas fontes escritas que abordam questões ligadas aos direitos
das pessoas, incluindo os seus deveres e responsabilidades. Na verdade, todas as sociedades,

24
In Direitos Humanos, Volume I, Juruá Editora, 2006, p.56
12
na tradição oral ou escrita, tiveram sistemas de justiças próprias, bem como formas
específicas de cuidar do bem-estar dos seus membros.

2.7 Características

Os direitos humanos têm suas premissas nos conceitos de dignidade e igualdade e são
baseados na convicção de que cada ser humano tem o direito de desfrutar dos seus direitos
sem discriminação.

Os direitos humanos têm características próprias. Porém, não há unanimidade entre autores
sobre o número de características dos direitos humanos, assim como sobre a sua terminologia.
Para efeitos da presente obra elegeram-se algumas características que, em razão de seus
efeitos para a interpretação e aplicação dos direitos humanos, merecem especial atenção, a
saber:

2.7.1 Universalidade

Esta característica revela-se em três planos. No primeiro plano, os direitos humanos tem um
carácter erga omnes. uma vez que o seu titular é o ser humano, não importando qualquer
distinção de raça, credo, sexo, nacionalidade, idade ou qualquer outro elemento que o
distinga25.

No segundo plano, a universalidade centra-se no seu sentido temporal, isto é, que os direitos
humanos não são afectados por desenvolvimentos históricos oú superações tecnológicas. Os
indivíduos têm direitos pelo facto de serem seres humanos independentemente do tempo. O
terceiro plano diz respeito ao âmbito espacial da universalidade em que os direitos humanos
são de alcance internacional, ou seja, reconhecem-se em toda as partes do mundo.

Todavia, o reconhecimento da universalidade dos direitos humanos não é pacífico em face do


relativismo cultural, pois algumas correntes entendem que os direitos humanos são fruto ou
resultado histórico de cada realidade e desenvolvimento cultural de determinado povo ou
nação, ou seja, não se trata de um conceito e delimitação universais. Nesta perspectiva, o
reconhecimento e a efectivação dos direitos humanos, dependeriam do nível de
desenvolvimento económico, político e jurídico de cada sociedade, respeitados ainda os seus
valores e tradições culturais.

25
Veja-se Reinado Pereira c Silva. Novos Direitos: Conquista e Desafios, Juruá editora, 2008, pJl.
13
Apesar disso, a maioria dos Estados reconhece a universalidade como característica essencial
dos direitos humanos26.

2.7.2 Indivisibilidade

Em termos técnicos jurídicos, a característica de indivisibilidade fundamenta-se na não


discriminação, conferindo aos direitos humanos igual importância. Dito por outras palavras,
os Estados não se podem furtar de garantir um direito sob argumento de que determinados
direitos não são justiciáveis. A prática de discriminar os direitos humanos tem a sua história
ligada aquando da aprovação do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto
Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais em 1966.

Porém, o reconhecimento da indivisibilidade como característica essencial de direitos


humanos deu-se, no plano internacional, com a Conferência Internacional sobre Direitos
Humanos de 1968, em Teerão e reafirmado na conferência Mundial de Direitos Humanos de
Viena em 1993.

2.7.3 Interdependência

Os direitos humanos estão relacionados entre si, não sendo possível efectivar uns sem os
outros, Por exemplo, não é possível realizar os direitos económicos, sociais e culturais sem
realizar os direitos civis e políticos27.

2.7.4 Irrenunciabilidade

Os direitos humanos são renunciáveis. na medida em que estão ligados à condição humana.
Renunciar tais direitos implicaria renunciar a própria condição humana.

Os direitos humanos são indisponíveis, pois titular, mesmo que deseje renunciar, não pode
fazê-lo. No nosso direito interno temos uma experiência de irrenunciabilidade de direitos, em
relação, por exemplo, aos direitos de personalidade. Com efeito, o artigo 69 do Código Civil
moçambicano estabelece que ninguém pode renunciar, no todo ou em parte, à sua capacidade
jurídica.

2.7.5 Inalienabilidade

Quer dizer que os direitos humanos não podem ser transferidos, seja a título gratuito, seja por
meio oneroso. Como muito bem refere Reinado Silva e Pereira, esta característica não implica

26
VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Lições de Direitos Humanos, Luís Bitone, Maputo, 2013, pág.14-15.
27
Idem, pág. 15
14
dizer que os direitos subjectivos resultantes da força de trabalho ou ainda que não violem o
princípio da dignidade da pessoa humana não possam ser objecto de transacção, pois, por
exemplo há uma diferença nítida entre a alineação da força de trabalho e do direito do
trabalho. A característica da inalienabilidade dos direitos humanos reporta-se ao seu conteúdo
moral, pessoal e individual inerente à condição humana e que não podem ser alienados28.

2.8 A questão das Responsabilidades face aos Direitos Humanos

A primeira questão que se coloca no que concerne à responsabilidade em face dos direitos
humanos é a seguinte: “a quem cabe respeitá-los ou garantir o seu respeito 29” Parece óbvio
que a responsabilidade primária deva recair sobre o Estado, isto porque a presença e o poder
da autoridade estatal são tão dominantes em todas as esferas de nossas vidas que os direitos
humanos frequentemente são concebidos como um conjunto de princípios, ou pactos, entre o
Estado e os que são governados por ele30.

Desta feita, os principais deveres emergentes de direitos humanos não recaem sobre os
indivíduos, mas sim sobre os Estados entanto que poder ou autoridade pública. Por outras
palavras, os Estados são os principais responsáveis por garantir que todos desfrutem de seus
direitos humanos, isto porque, em princípio, os mais notáveis, abusos, omissões e
transgressões no que concerne aos direitos humanos, são de responsabilidade do Estado, por
via de seus agentes e órgãos (polícia, judiciário, legislativo, serviços públicos e política
externa)31.

2.9 Exigências dos Direitos Humanos

Argumenta-se, no entanto, que os direitos humanos vão além da relação entre o Estado e o
indivíduo, como refere Óscar Vilhena Vieira, por três razões32:

a) Eles exigem submissão individual voluntária a uma obrigação correlata de respeitar o


direito dos outros e criam, portanto, obrigações intersubjectivas;

b) Eles são afectados, tanto positiva quanto negativamente, por autoridades não-estatais;

28
VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Lições de Direitos Humanos, Luís Bitone, Maputo, 2013, pág.14-15.
29
VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Lições de Direitos Humanos, Luís Bitone, Maputo, 2013, pág.14-15.
30
VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Lições de Direitos Humanos, Luís Bitone, Maputo, 2013, pág. 36-37
31
VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Ob. Cit. pág. 34
32
Idem, pág. 34-35.
15
c) O encolhimento dos mandatos dos Estados face ao processo de globalização, promove a
redução do papel da autoridade pública 33.

2.10 Instrumentos de protecção dos direitos humanos

2.10.1 Declaração Universal dos direitos humanos

A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) é um documento marco na história


dos direitos humanos. Elaborada por representantes de diferentes origens jurídicas e culturais
de todas as regiões do mundo, a Declaração foi proclamada pela Assembleia Geral das
Nações Unidas em Paris, em 10 de Dezembro de 1948, por meio da Resolução 217 A (III) da
Assembleia Geral como uma norma comum a ser alcançada por todos os povos e nações. Ela
estabelece, pela primeira vez, a protecção universal dos direitos humanos34.

1.1.1 O Pacto Internacional De Direitos Civis E Políticos

Em 16 de Dezembro de 1966, a Assembleia Geral das Nações Unidas adoptou dois pactos
internacionais de direitos humanos, que desenvolveram pormenorizadamente o conteúdo da
Declaração Universal de 1948: o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e o Pacto
Internacional sobre Direitos Económicos, Sociais e Culturais35.

Ao primeiro deles, foi anexado um Protocolo Facultativo, atribuindo ao Comité de Direitos


Humanos, instituído por aquele Pacto, competência para receber e processar denúncias de
violação de direitos humanos, formuladas por indivíduos contra qualquer dos Estados-
Partes18.

Entretanto, tais pactos somente entraram em vigor em 1976, quando alcançaram o número de
ratificações suficientes.

Quanto aos catálogos de direitos civis e políticos abrangidos pelo pacto, não foram somente
incorporados os já existentes na Declaração, como outros36.

2.11 Partes do pacto internacional dos direitos civis e políticos

33
VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Lições de Direitos Humanos, Luís Bitone, Maputo, 2013, pág. 36-37
34
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, Declaração Universal dos Direitos do Homem, 1948.
35
NAÇÕES UNIDAS, Pacto Internacional Sobre Direitos Civis e Políticos, 1966.
36
PIOVESAN, Flávia, Declaração Universal dos Direitos Humanos: Desafios e perspectivas, 2010. Pág.162
16
A primeira parte do pacto ocupa-se do direito a autodeterminação dos povos, o que
compreende a definição do seu estatuto político e a livre dedicação ao seu desenvolvimento
económico, social e cultural. Ainda, a disposição das riquezas e naturais.

Por forca do princípio da autodeterminação dos povos, os Estados que tem a responsabilidade
de administrar territórios não autónomos e territórios sob tutela, devem fazer tudo quanto seja
possível para permitir a promoção do direito à autodeterminação desses povos37.

A segunda parte do pacto, é referente aos direitos e garantias conferidos as partes dos Estados
partes, que começam referindo que os Estados partes obrigam-se a respeitar e a garantir todos
os indivíduos que se encontrem nos seus territórios e estejam sujeitos a sua jurisdição os
direitos reconhecidos no presente pacto, sem qualquer distinção e, ainda, a adoptar, as
medidas que permitam a adopção de decisões de ordem legislativa ou outras capazes de dar
efeito aos direitos reconhecidos no presente pacto que ainda não estiverem em vigor38.

Análise dos direitos e garantias consagrados no pacto internacional dos direitos civis e
políticos

Entramos desta forma, na análise dos direitos e garantias consagrados no Pacto, sendo
importante referir que, apenas farão parte da presente unidade, os previamente seleccionados
para o efeito, termos em que, não esgotaremos todos os direitos reconhecidos pelo Pacto e,
ainda, que os Direitos civis e políticos estão destinados a protecção do indivíduo, contra
qualquer agressão e, caracterizam-se por impor ao Estado o dever de abster-se de interferir no
seu pleno gozo e exercício, devendo assim o Estado, limitar-se a garantir o livre gozo,
organizando a força pública e, criando mecanismos jurídicas para a sua protecção.

Serão objecto de análise: direito à igualdade, direito à vida, proibição de tortura e penas
cruéis, direito à liberdade, direito a justiça, garantias dos presos.

Direito à igualdade: O Pacto começa por exigir que os Estados partes, garantam que, sem
qualquer discriminação, seja por motivo de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião pública ou
outro, os indivíduos que estejam no seu território, beneficiem dos direitos nele consagrados39.

Para além da consagração do direito à igualdade e, consequente proibição da discriminação


baseado nos motivos atrás referenciados, num artigo isolado, o Pacto ocupou-se única e

37
Vide Pacto internacional dos direitos civis e políticos
38
INGUANE, Faida Hercília, Domingos, Direitos Fundamentais ao Nivel Internacional, regional, nacional, 1ª
edição, Maputo, 2010, pág.20-21
39
Idem, p.20-21
17
exclusivamente do direito à igualdade tendo como foco, o género, assim, refere: "Os Estados
Partes no presente Pacto comprometem-se a assegurar o direito igual dos homens e das
mulheres a usufruir de todos os direitos civis e políticos enunciados no presente Pacto ”32.

Assim, é assegurado aos homens e mulheres a igualdade no gozo dos direitos civis e políticos
constantes no Pacto, mas, chamo aqui atenção ao sentido da palavra igualdade, deve ser
entendido conforme temos vindo a falar, ou seja, que a igualdade significa o tratamento igual
ao que é igual e, diferenciado ao que é diferente.

Existe uma convenção virada a eliminação de todas as formas de tratamentos discriminatórios


contra as mulheres, a qual foi igualmente adoptada pelas Nações Unidas.

Existe uma convenção virada a eliminação de todas as formas de tratamentos discriminatórios


contra as mulheres, a qual foi igualmente adoptada pelas Nações Unidas.

Direito à vida: “O direito à vida é inerente à pessoa humana. Este direito deve ser protegido
pela lei, ninguém poder ser arbitrariamente privado da vida. Sem querer colocar em causa os
outros direitos conferidos à pessoa, arrisco-me a dizer que a vida é o mais alto direito
conferido ao indivíduo pois, é a partir do mesmo que, passamos a ser titulares dos outros
direitos, na medida em que, não se pode conferir direitos a alguém que em momento algum
existiu40.

Assim, para além de consagrar o direito à vida, o Pacto, proíbe qualquer forma arbitrária da
sua privação, sublinhe-se, "forma arbitrária”, não sendo de se enquadrar neste campo, a pena
de morte devidamente institucionalizada, mas, as formas que, não sendo institucionalizadas,
impliquem, a privação da vida. Aqui, enquadra-se perfeitamente o 1 linchamento que vem
ganhando espaço em Moçambique.

Proibição de tortura e penas cruéis: "Ninguém será submetido à tortura nem a pena ou a
tratamentos cruéis, inumanos ou degradantes. Em particular, é interdito submeter uma
pessoa a uma experiência médica ou científica sem o seu livre consentimento”.

Direito à liberdade: Segundo o Prof. Marcelo Caetano, a palavra liberdade tem sido
empregue em várias acepções, sendo importante referir que a acepção que a final
apresentaremos, é a relativa a pessoa enquanto membro de uma sociedade política41.

40
INGUANE, Faida Hercília, Domingos, Direitos Fundamentais ao Nivel Internacional, regional, nacional, 1ª
edição, Maputo, 2010, pág.21
41
Idem, p.22
18
Na primeira acepção, temos o considerado significado originário do termo, em que, a
liberdade é: a faculdade ou poder que a pessoa tem dei adoptar a conduta que bem lhe parecer,
sem que deva obediência a outrem. Este é o sentido da liberdade apresentado no plano social,
como contraposição à servidão. Neste sentido, seria livre a pessoa que segue os seus
interesses segundos a sua razão e vontade, não livre, por força disso, a pessoa que,
pretendendo seguir os seus interesses, deve se conformar com a vontade de outra manifestada
a seu belo fazer.

Na segunda acepção, não serem os indivíduos deixar de fazer o que ela liberdade significava,
obrigados a fazer que a lei não manda, nem não proíbe. Dito doutra forma, o indivíduo
obedece à regra, não às pessoas, é servo das leis e não de certos sujeitos. A liberdade acaba
por esta via se identificando com a legalidade, é o império da lei, rule of law.

A liberdade é tratada ainda como o direito de todos os membros da sociedade política


participarem na produção de diplomas legais, esta é a terceira acepção do termo liberdade. O
fundamento desta concepção estava na falsa ideia de que as leis feitas com a participação de
todos asseguram a justiça de todos. Nesta acepção, a liberdade acaba confundindo-se com a
democracia42.

O sentido de liberdade que pretendemos discutir no presente documento é, o que a seguir


apresentamos que, segundo o Prof. Marcelo Caetano, "...a liberdade de uma pessoa consistirá
na faculdade de determinar a sua conduta em certas zonas da vida social independentemente
de regulamentação pelo poder político”.

2.11.1 Objectivo

O objectivo do Pacto Internacional sobre Direitos Económicos, sociais e Culturais foi


incorporar os dispositivos da Declaração Universal sob a forma de preceitos juridicamente
obrigatórios e vinculantes.

Assim, o objectivo foi criar obrigações aos Estados partes de modo que o descumprimento de
tais obrigações ocasione a responsabilização internacional do Estado violador. Novos direitos
foram incorporados, afora aqueles que a Declaração Universal dos Direitos Humanos
expressamente enunciou. Dentre os direitos reconhecidos despontam, entre outros, o direito a

42
INGUANE, Faida Hercília, Domingos, Direitos Fundamentais ao Nivel Internacional, regional, nacional, 1ª
edição, Maputo, 2010, pág. 22-23
19
trabalho e à justa remuneração, o direito a formar e associar-se a sindicatos, o direito a um
nível de vida adequado, o direito à moradia, o direito à educação, o direito à previdência
social, o direito à saúde e o direito à participação na vida cultural da comunidade. São, na
realidade, deveres impostos aos Estados, fato que o distingue do Pacto sobre Direitos Civis e
Políticos, notável por reconhecer direitos aos indivíduos.

2.12 Convenção internacional sobre a eliminação de todas formas de descriminação


racial

2.12.1 Racismo

Em 1963, a Assembleia-Geral adoptou a Declaração das Nações Unidas para a Eliminação de


todas as Formas de Discriminação Racial. A Declaração afirma a igualdade fundamental de
todas as pessoas e confirma que a discriminação entre os seres humanos com base na raça, cor
ou origem étnica e uma violação dos direitos humanos proclamados na Declaração Universal
e um obstáculo as relações amigáveis e pacificas entre as nações e os povos. Dois anos mais
tarde, a Assembleia adoptou a Convenção Internacional para a Eliminação de todas as Formas
de Discriminação Racial, que obriga os Estados partes a adoptar medidas legislativas,
judiciais, administrativas e outras, para prevenir e punir a descriminação racial43.

2.13 Convenção contra tortura e outras penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou


degradantes

A Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Punições Cruéis, Desumanos ou


Degradantes (1984), com 153 Estados partes, define tortura como um crime internacional,
responsabiliza os Estados partes pela prevenção e exige que punam os perpetradores.

Não podem ser invocadas circunstâncias excepcionais para justificar a tortura, nem um
torturador pode defender-se com base no facto de ter actuado sob ordens. O órgão do tratado
para a monitorização da Convenção e o Comité contra a Tortura. Reve os relatórios dos
Estados partes, recebe e considera petições de indivíduos que afirmam cujos Estados
aceitaram este procedimento, e inicia investigações sobre os países onde acredita que a tortura
e grave e sistemática44.

43
KI’MOON, Ban, factos essenciais, edição revista, Nova Iorque, 2014, pág.223
44
VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Lições de Direitos Humanos, Luís Bitone, Maputo, 2013, pág.14-15.
20
O Protocolo Opcional à Convenção (2002) criou o Subcomité para a Prevenção da Tortura e
permite inspecções nos países de lugares de detenção. O Protocolo também prevê a criação de
mecanismos preventivos nacionais. Possui 68 Estados partes45.

2.14 Convenção internacional sobre a protecção dos direitos de todos os trabalhadores


migrantes e membros das suas famílias

Mais de 175 milhões de pessoas - incluindo trabalhadores migrantes, refugiados, requerentes


de asilo, imigrantes permanentes, entre outros - vivem e trabalham num pais que não e o seu
pais de nascimento ou cidadania. Muitos deles são trabalhadores migrantes. O termo
“trabalhador migrante” é definido no Artigo 2º da Convenção Internacional sobre a
Protecção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas
Famílias (Convenção dos Trabalhadores Migrantes) como “a pessoa que vai exercer, exerce
ou exerceu uma actividade remunerada num Estado de que não é nacional”46.

A Convenção para os Trabalhadores Migrantes foi adoptada pela Assembleia- -Geral, em


1990, depois de 10 anos de negociações. Abrange os direitos tantos dos trabalhadores com
documentos como sem documentos e das suas famílias. Torna ilegal expulsar trabalhadores
migrantes numa base colectiva ou destruir os seus documentos de identidade, autorizações de
trabalho ou passaportes. Dá o direito aos trabalhadores migrantes a receberem a mesma
remuneração, benefícios sociais e cuidados médicos que os cidadãos nacionais; a aderirem ou
participar nos sindicatos; e, depois de terminarem o seu emprego, a transferir os ganhos,
poupanças e bens pessoais47.

2.15 Responsabilidade da defesa dos direitos humanos

A primeira questão que se coloca no que concerne à responsabilidade em face dos direitos
humanos é a seguinte: “a quem cabe respeitá-los ou garantir o seu respeito” Parece óbvio que
a responsabilidade primária deva recair sobre o Estado, isto porque a presença e o poder da
autoridade estatal são tão dominantes em todas as esferas de nossas vidas que os direitos
humanos frequentemente são concebidos como um conjunto de princípios, ou pactos, entre o
Estado e os que são governados por ele48.

45
KI’MOON, Ban, factos essenciais, edição revista, Nova Iorque, 2014, pág.213-214
46
KI’MOON, Ban, Ob. Cit. pág.230
47
VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Lições de Direitos Humanos, Luís Bitone, Maputo, 2013, pág.14-15.
48
VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Lições de Direitos Humanos, Luís Bitone, Maputo, 2013, pág. 25
21
2.15.1 Estado

Desta feita, os principais deveres emergentes de direitos humanos não recaem sobre os
indivíduos, mas sim sobre os Estados entanto que poder ou autoridade pública. Por outras
palavras, os Estados são os principais responsáveis por garantir que todos desfrutem de seus
direitos humanos, isto porque, em princípio, os mais notáveis, abusos, omissões e
transgressões no que concerne aos direitos humanos, são de responsabilidade do Estado, por
via de seus agentes e órgãos (polícia, judiciário, legislativo, serviços públicos e política
externa)49.

2.16 Exigências dos Direitos Humanos

Argumenta-se, no entanto, que os direitos humanos vão além da relação entre o Estado e o
indivíduo, como refere Óscar Vilhena Vieira, por três razões50:

a) Eles exigem submissão individual voluntária a uma obrigação correlata de respeitar o


direito dos outros e criam, portanto, obrigações intersubjectivas;
b) Eles são afectados, tanto positiva quanto negativamente, por autoridades não-estatais;
c) O encolhimento dos mandatos dos Estados face ao processo de globalização, promove
a redução do papel da autoridade pública51.

2.17 Princípio da dignidade da pessoa humana

2.17.1 A Dignidade Da Pessoa Humana

A dignidade da pessoa humana é uma qualidade intrínseca, inseparável de todo e qualquer ser
humano, é característica que o define como tal. Concepção de que em razão, tão somente, de
sua condição humana e independentemente de qualquer outra particularidade, o ser humano é
titular de direitos que devem ser respeitados pelo Estado e por seus semelhantes. É, pois, um
predicado tido como inerente a todos os seres humanos52 e configura-se como um valor
próprio que o identifica. Pode-se trazer à baila a visão antropológica de Leonardo Boff,
quando do ultraje da dignidade:

Nada mais violento que impedir o ser humano de se relacionar com a natureza, com seus
semelhantes, com os mais próximos e queridos, consigo mesmo e com Deus. Significa reduzi-
49
VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Ob. Cit. Pág. 34
50
Idem, pág. 34-35.
51
VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Lições de Direitos Humanos, Luís Bitone, Maputo, 2013, pág. 36-37
52
SARLET, Wolfgang Ingo. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição da
República de 1988. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2002, p. 22.
22
lo a um objeto inanimado e morto. Pela participação, ele se torna responsável pelo outro e con-
cria continuamente Fundamento da xenofobia face a Declaração de Durban e outros
instrumentos jurídicos internacionais.

A explicação de José Afonso da Silva se adere ao entendimento de Ingo Wolfgang Sarlet ao


informar sobre as dificuldades de uma definição precisa e satisfatória de dignidade da pessoa
humana. E como relembra este autor, foi Kant quem definiu o entendimento de que o homem,
por ser pessoa, constitui um fim em si mesmo e, então, não pode ser considerado como
simples meio, de modo que a instrumentalização do ser humano é vedada. Tal definição tem
inspirado os pensamento filosófico e jurídico na modernidade. A dignidade não pode ser
renunciada ou alienada, de tal sorte que não se pode falar na pretensão de uma pessoa de que
lhe seja concedida dignidade, posto que o atributo lhe é inerente dada a própria condição
humana.53 54.

2.17.2 Teorias da diigadade da pessao humana

Flávia Povesan, ao discorrer sobre o processo de universalização dos direitos humanos


esclarece que a formação de um sistema internacional, composto por tratados, é fundada na
acolhida da dignidade da pessoa humana como valor que ilumina o universo de direitos.
Convém destacar a concepção da autora em comento: Todo ser humano tem uma dignidade
que lhe é inerente, sendo incondicionada, não dependendo de qualquer outro critério, senão
ser humano. O valor da dignidade humana se projeta, assim, por todo o sistema internacional
de protecção. Todos os tratados internacionais, ainda que assumam a roupagem do
Positivismo Jurídico, incorporam o valor da dignidade humana. 55

As várias tentativas de conceituação de dignidade da pessoa humana se valem, sobretudo, da


etimologia do termo dignitas, que significa respeitabilidade, prestígio, consideração, estima
ou nobreza.56 Para uma elucidação mais completa, é necessário oferecer uma brevíssima
explicação sobre a conceituação jurídica de dignidade e de como a condição intrínseca da
pessoa humana foi incorporada a diversos textos constitucionais contemporâneos e fazer,
ainda, uma abordagem sobre a inserção da dignidade, enquanto princípio de hierarquia

53
SILVA, José Afonso da. A dignidade da pessoa humana como valor supremo da democracia. Revista de Direito
Administrativo, v. 212, p. 84-94, abr./jun. 1998.
54
SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais. In: LEITE, George Salomão (Org.). Dos
Princípios Constitucionais - Considerações em torno das normas principio lógicas da Constituição. São Paulo:
Malheiros, 2003.
55
PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. In: LEITE, George Salomão (Org.).
Dos Princípios Constitucionais: Considerações em torno das normas principio lógicas da Constituição. São Paulo:
Malheiros, 2003, p. 188.
56
BARACHO, José Alfredo de Oliveira. Direito Processual Constitucional. Editora Fórum: Belo Horizonte, 2006, p. 105.
23
superior, na Constituição pátria de 1988. Para tanto, entende-se a necessidade de perpassar
uma abordagem da teoria dos princípios.

3 CAPÍTULO III: APRESENTAÇÃO /ANÁLISE DE DADOS E DISCUSSÃO DE


RESULTADOS

3.1 Protecção dos Direitos Humanos face aos conflitos armados

Os Direitos Humanos no plano internacional e regional envolvem um grande número de


instituições e normas internacionais. A grande maioria destas normas emana de instituições
pertencentes ao Sistema das Nações Unidas, que congrega a quase totalidade dos países em
escala mundial (actualmente, a Organização das Nações Unidas conta com 192 países-
membros) e de instituições pertencentes ao Sistema Africano, que congrega a quase totalidade
dos países em escala africana (actualmente, são membros da União Africana todos os países
africanos)57.

O Sistema Internacional e Regional dos Direitos Humanos engloba tanto as normas que são
legalmente exigíveis dos Estados que a elas acederam, assim como as normas cujo principal
efeito é uma obrigação moral ou política em relação aos Estados. De entre as normas que
geram as obrigações legais, em sentido estrito, temos os pactos, estatutos, tratados e
convenções internacionais, como também os seus protocolos opcionais; ao passo que
declarações, como as emanadas da Assembleia Geral das Nações Unidas, princípios,
orientações, padrões e recomendações geram apenas obrigações morais e políticas e devem
servir de orientação aos Estados na condução dos seus assuntos públicos.

3.1.1 Subsistema de protecção de direitos humanos

3.1.2 Sistema Africano

Este é o mais recente modo de protecção dos direitos humanos e apresenta os seguintes
documentos que baseiam seus mecanismos: Carta Africana dos Direitos Humanos e dos
Povos de 1986; Organização da Unidade Africana (OUA), actual União Africana (2002), de
1963; Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos; Corte Africana de Direitos
Humanos e dos Povo58.

57
SARLET, Wolfgang Ingo. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição da
República de 1988. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2002, p. 22.
58
MELO, Brielly Santana, Os Sistemas Regionais de protecção dos Direitos Humanos, disponível em:
http://www.publicadireito.com.br/artigos/?cod=d1f2767f75c7a38b, acesso em 27/05/2021/, Pág. 17.
24
3.1.3 Sistema Europeu

A protecção dos Direitos Humanos assume na Europa uma enorme importância. Tendo
começando por ganhar forma no âmbito do conselho da Europa, que de seguida foi se
afirmando posteriormente, ao nível das Comunidades e da União Europeia e por fim, no
âmbito da OSCE, a qual também possui uma dimensão Humana.

3.1.4 Conselho da Europa

Recebe o nome de Conselho da Europa a organização internacional baseada em Estraburgo,


França, cujo objetivo é a defesa dos direitos humanos, o desenvolvimento democrático e a
estabilidade político-social na Europa. Fundada a 5 de Maio de 1949, é a mais antiga
instituição europeia em funcionamento, sendo uma instituição completamente separada da
União Europeia, com personalidade jurídica reconhecida pelo direito internacional59.

Importante não confundir esta organização com o Conselho Europeu, que é o principal órgão
político da União Europeia, criado em 1961 e que tem sua sede em Bruxelas, capital da
Bélgica.

3.1.5 A criação do conselho da Europa

Durante a II Guerra Mundial foi Winstton Churchill quem alertou para a necessidade de
construir uma espécie de ONU Europeia. Que ainda ganhou força no movimento Europeu e,
em Março de 1948, a Bélgica, a França, a Holanda, o Luxemburgo o Reino Unido celebraram
o tratado de Bruxelas, no qual reafirmaram os ideais proclamados na Carta das Nações unidas
e declaram-se decididos a «fortificar e a preservar os princípios da democracia, da liberdade
individual e da liberdade política, as tradições constitucionais e o primado do Direito que são
suas heranças comuns»60.

Eem termos do quadro institucional de promoção e protecção dos Direitos Humanos, bem
como sobre o nível de promoção e protecção dos Direitos Humanos, buscando identificar os
Direitos Humanos menos respeitados e os seus principais prevaricadores.

Assim sendo, constatou-se que somente 13,7% considera que os Direitos Humanos são
promovidos e respeitados em Moçambique, ou seja, para a maioria dos cidadãos a promoção e
protecção dos Direitos Humanos, em Moçambique, ainda está muito aquém do desejado.

59
SANTIAGO, Emerson, Matéria Civil e Comercial | Conselho da Europa. Ob, city.
60
MARTINS, Ana Maria Guerra, Direito Internacional dos Direitos Humanos, Almedina, Ob. City, pág. 192.
25
Há um sentimento de que ainda pouco se está a fazer para promover e proteger os Direitos
Humanos em Moçambique, como afirmaram as Organizações da Sociedade Civil que
trabalham em prol dos Direitos Humanos na província de Cabo Delgado. Estas sentem a
necessidade de reforçar a capacidade dos órgãos locais da Justiça, pois, em alguns casos, os
mesmos não fazem a promoção dos Direitos Humanos por incapacidade material,
principalmente, ao nível distrital onde parte da população necessita uma atenção especial em
relação à língua da promoção (língua local).

Olhando ao nível das Províncias, verifica-se que os cidadãos inquiridos, na província de


Nampula, apresentam maior insatisfação, quanto à promoção e ao respeito dos Direitos
Humanos (cerca de 40%» dos inquiridos). Participantes do grupo focal com as Organizações
da Sociedade Civil que trabalham em prol dos Direitos Humanos em Nampula consideram
que a questão da promoção dos Direitos Humanos ainda não é dada a ênfase necessária por
parte dos governantes, razão pela qual as ONG's e os órgãos de comunicação social têm
apoiado nesta vertente, fazendo alguma promoção dos Direitos Humanos.

Contudo, as Organizações da Sociedade Civil de Nampula admitem que os jornalistas ainda


necessitam de palestras, de modo a melhorar a forma de transmissão de informação, que por
vezes abordam os temas de uma maneira que acaba por encorajar a prática de acções que
violam os DH (por exemplo: divulgando os valores obtidos indevidamente com a prática de
alguns crimes como o tráfico de órgãos).

Entretanto, este quadro relativo à promoção e protecção dos Direitos Humanos pode ser
relativizado, se consideramos que mais de 50% dos cidadãos considera que, ainda que não
sejam promovidos e protegidos na sua íntegra, os Direitos Humanos são, mesmo assim,
parcialmente promovidos e protegidos em Moçambique.

Do conjunto dos Direitos Humanos, os inquiridos consideram que o Direito à liberdade


(21.5%) é o Direito Humano mais violado, seguido de perto pelo Direito Humano à liberdade
de expressão e à liberdade política (21.2%), conforme mostra o gráfico 4.

Este entendimento deixa perceber que os Direitos Humanos civis e políticos são considerados
os menos respeitados, comparativamente aos Direitos Humanos económicos, sociais e
culturais, pois, a título de exemplo, só 1.6 % dos inquiridos é que considera que o Direito à
terra é o principal Direito Humano desrespeitado em Moçambique, numa altura em que se fala

26
de um crescente desrespeito do Direito à terra, em resultado dos investimentos internacionais
nas áreas dos recursos naturais.

Assim sendo, se de um lado, como ficou demonstrado atrás, os Direitos Humanos económicos
e sociais são considerados os mais importantes, por outro lado, estes Direitos Humanos são
considerados menos desrespeitados, comparativamente aos Direitos Humanos civis e
políticos, o que nos permite concluir que aqueles Direitos que são os mais importantes para os
cidadãos moçambicanos, são na óptica destes, menos desrespeitados.

3.2 Regras básicas do direito internacional humanitário nos conflitos armado61

3.2.1 Conflito Armado

3.2.2 Conceito62

Segundo Boulding (1962), o conflito é “uma situação de competição em que as partes estão
conscientes da incompatibilidade das posições possíveis na qual cada uma delas quer ocupar
uma posição que é incompatível com a que a outra parte quer ocupar’’.

Na Concepção subjectiva, segundo Burton (1969), o conflito é “resultado de uma


interpretação errada de uma situação objectiva, entendida em termos de situação
incompatível”.

Os conflitos armados são uma das formas mais extremas de manifestação do conflito. Trata-se
de guerras e podem ser de dimensão intra ou inter-estatais 7. Para ser considerado armado, ele
deve obedecer alguns critérios como é o caso do uso de armas - que podem ser de fogo ou não
- e possuir uma dimensão de durabilidade, abrangência e nível de violência que o coloquem
acima de actos de vandalismo, rebelião ou manifestações63.

De acordo com o Comité internacional da Cruz Vermelha, “[o]s conflitos armados


internacionais existem sempre que há recurso a forças armadas entre dois ou mais Estados. Os
conflitos armados não internacionais são confrontos armados prolongados que ocorrem entre
as forças armadas governamentais e as forças de um ou mais grupos armados, ou entre esses
grupos que surgem no território de um Estado. O confronto armado deve atingir um nível
mínimo de intensidade e as partes envolvidas no conflito devem demonstrar um mínimo de
organização” (CICV, 1949).
61
VARIMELO, Arquimedes, A percepção dos direitos humanos dos cidadãos Moçambicanos, A voz do
cidadão, Maputo, 2018. Pg. 115
62
MARTINS, Ana Maria Guerra, Direito Internacional dos Direitos Humanos, Almedina, Ob. City, pág. 218.
63
MATOS, Narciso, Paz, Educação, Trabalho, Felecidade e bem estar, Maputo, 2018. P. 24-25.
27
3.2.3 Reconciliação Nacional, Coexistência Pacífica e Justiça Transicional64

O termo reconciliação envolve principalmente o combate à impunidade e considera as


demandas e as queixas das vítimas em períodos pós-conflitos. Nenhuma forma única de
esforço de reconciliação é perfeita ou satisfatória para todas as circunstâncias e partes
envolvidas. Embora assuma diferentes formas e papéis em diferentes contextos, a
reconciliação é geralmente entendida como o restabelecimento de relações amistosas que, em
caso de conflitos armados, incorpora a busca por verdade, justiça, perdão e acomodação entre
grupos ou pessoas em conflito implicando por isso uma mudança fundamental nas relações
pessoais e de poder65.

De Gruchy (2002) considera ainda que a reconciliação, não pode ser interpretada como o
retroceder para uma situação pré-conflito ou como impedimento para o processo de paz
devendo por isso se enquadrar na estrutura de transformação de conflitos.

3.2.4 Categorias de reconciliação66

Patrícia Ferreira (2005) sustenta que no debate teórico sobre reconciliação, convivência pós-
conflito e justiça transicional existe uma tensão que se manifesta na escolha da reconciliação
ou da justiça.

Para muitos, estas duas categorias se excluem mutuamente pois, acredita-se que não se poder
pedir que as partes se reconciliem ao mesmo tempo que se pede que se faça justiça. Por um
lado, enquanto se advoga a importância da reconciliação entre antigos beligerantes com a
concessão de amnistias ou perdões sem punição dos responsáveis pelos crimes ou atrocidades
cometidas, por outro se exige a punição judicial dos culpados sem a qual afirmam não ser
possível garantir uma paz duradoura, criando um dilema bastante comum na resolução de
conflitos. Mais grave do que este dilema é a opinião segundo a qual a base da reconciliação é
o perdão refutada pela autora (Brounéus 2003) que afirma que perdoar não é o mesmo que
reconciliar, sustentando portanto que o processo de reconciliação pode envolver o perdão mas
não depende dele.

Diferentes tipos de reconciliação podem abordar e cumprir determinados aspectos de um


processo de construção da paz, entre elas a abordagens de carácter nacional que envolvam
64
VELOSO, Jacinto, A Caminho da paz definitiva, o iceberg, o interesse nacional e a segurança do Estado, JV
Editores, Maputo, 2018. Pg.162
65
VELOSO, Jacinto, A Caminho da paz definitiva, o iceberg, o interesse nacional e a segurança do Estado, JV
Editores, Maputo, 2018. Pg. 142-145
66
WIDON, Wilson, A responsabilidade internacional dos Estados por violação dos Direitos Humanos,
Angola, 2016. Pg. 145-169
28
mecanismos que tentem criar reconciliação trazendo atrocidades à consciência pública por
meio de declarações de verdade, confissão, pedido de desculpas, retribuição e estado de
direito, e fazendo recomendações relativas à prevenção de novos abusos (abordagem top-
down) e aquelas de caráter mais interpessoal que se concentram no trauma passado de
indivíduos e comunidades para não transmitir a raiva entre gerações e causar recorrências
violentas, através de formas tradicionais de aconselhamento e outros processos de cura, que
permitem esquecer ou minimizar o impacto do conflito na vida das comunidades (abordagem
botton-up) cujos objectivos embora diferentes são complementares.

Dan Sinh Nguyen Vo (2008), considera que a reconciliação pode representar uma forma
pragmática de lidar com mudanças profundas que envolvem injustiças passadas, a fim de
alcançar outros propósitos desejados, como construir a paz, fomentar a democracia, promover
os direitos humanos, a justiça, entre outros. Kriesberg (1998), identifica quatro dimensões da
reconciliação como essenciais para transformação de conflitos e construção da paz em
sociedades do pós-conflito:

 Verdade;

 Justiça;

 Consideração; e

 Segurança.

3.2.5 Regras básicas do direito internacional face aos conflitos armados67

As pessoas fora do combate e aqueles que não participam directamente nas hostilidades têm o
direito ao respeito pelas suas vidas e pela sua integridade moral e física. Devem, em todas as
circunstâncias, ser protegidos e tratados humanamente sem qualquer distinção adversa.

É proibido matar ou ferir um inimigo que se renda ou que se encontre fora do combate68.

Os feridos e os doentes devem ser recolhidos e tratados pela parte do conflito que os tiver em
seu poder. A protecção também engloba pessoal médico, estabelecimentos, transportes e
equipamento. Os emblemas da Cruz Vermelha, do Crescente Vermelho e do Cristal Vermelho
são o sinal para tal protecção e devem ser respeitados.

67
VELOSO, Jacinto, A Caminho da paz definitiva, o iceberg, o interesse nacional e a segurança do Estado, JV
Editores, Maputo, 2018. Pg. 170
68

29
Os combatentes capturados e os civis sob a autoridade de uma parte contrária têm direito ao
respeito pelas suas vidas, dignidade, direitos e convicções pessoais. Devem ser protegidos
contra todos os actos de violência e de represália. Devem ter o direito a se corresponder com
as suas famílias e a receber ajuda.

Todos têm o direito a beneficiar das garantias judiciais fundamentais. Ninguém deve ser
responsabilizado por um ato que não tenha cometido. Ninguém deve ser sujeito a tortura física
ou mental, a castigos corporais ou a tratamentos cruéis ou degradantes69.

As partes do conflito e os membros das suas forças armadas não têm uma possibilidade de
escolha ilimitada de métodos e meios de guerra. É proibido utilizar armas ou métodos de
guerra que possam causar perdas desnecessárias ou sofrimento excessivo.

As partes do conflito devem sempre distinguir entre a população civil e os combatentes, de


forma a poupar a população e a propriedade civis. Nem a população civil, enquanto tal, nem
os civis podem ser alvos de ataque. Os ataques devem ser dirigidos só contra alvos militares.

(Nota: Estas regras, delineadas pelo CICV, resumem a essência do DIH. Não possuem a
autoridade de um instrumento legal e de forma alguma procuram substituir os tratados em
vigor. Foram redigidas com o intuito de facilitar a promoção do DIH.)

Nesta senda, verifica-se que O DIH protege os indivíduos que não são, ou já não, participam
nos combates, tais como os civis, os feridos, os doentes, os prisioneiros de guerra, os
náufragos e pessoal do serviço de saúde e religioso. A protecção é garantida ao obrigar as
partes do conflito a assegurar-lhes assistência material e a tratá-los humanamente, em
qualquer circunstância e sem distinções desfavoráveis.

Alguns locais e objectos, tais como hospitais e ambulâncias, também são protegidos e não
podem ser atacados. O DIH define um número de emblemas e símbolos claramente
reconhecidos - em particular, os emblemas da Cruz Vermelha, do Crescente Vermelho e do
Cristal Vermelho - que podem ser utilizados para identificar pessoas e locais protegidos. Os
monumentos históricos, peças de arte ou locais de culto também são protegidos. O uso de tais
objectos no apoio dos esforços de guerra é estritamente proibido. Mais, o ambiente é

69
MATOS, Narciso, Paz, Educação, Trabalho, Felecidade e bem estar, Maputo, 2018. P. 44-75.
30
igualmente uma preocupação do DIH que proíbe métodos e meios de guerra que, intencional
ou execravelmente, causem danos generalizados, duradouros e graves ao meio ambiente70.

Tem de ser feita a distinção entre combatentes e civis na conduta das hostilidades, mas
também entre objectos civis e objectivos militares. Isto significa que não apenas os civis,
enquanto tais, estão protegidos, mas também os bens necessários para a sua sobrevivência ou
subsistência (alimentos, gado, reservas de água potável, etc.).

O DIH protege contra o sofrimento desnecessário, ao proibir o uso de armas cujos efeitos
seriam excessivos relativamente às vantagens militares previstas, tais como, balas explosivas
cujo objectivo é causar feridas impossíveis de tratar. Os princípios de humanidade,
necessidade militar proporcionalidade são essenciais para assegurar o objectivo de proteger os
civis de incidentes ou efeitos colaterais e os combatentes de um sofrimento desnecessário.

Apesar dos princípios do DIH terem obtido uma aprovação quase-universal, podem ocorrer
dificuldades na sua implementação devido a ideias concorrentes no momento em que
manifestações de violência se tornam num conflito armado. A qualificação de um conflito
como armado é de importância primordial já que é o requisito básico para o DIH se aplicar.
Quando os Estados se confrontam com actos de violência no seu território, costumam preferir
lidar internamente com estas ocorrências.

Tal até acontece quando outro Estado está indirectamente envolvido nos incidentes. Aceitar
que está a suceder uma situação de conflito armado significa aceitar que os responsáveis pela
execução da violência podem ser dignos de protecção à luz do DIH, para além da protecção
básica concedida pelo direito dos direitos humanos. De forma não surpreendente, as
autoridades governamentais têm mais tendência para qualificar estes perpetradores como cri-
minosos, bandidos ou terroristas do que como combatentes evitando, assim, as regras do
DIH71.

Uma das formas de tornar o DIH aceitável para os Estados, em tais situações, é garantir que a
aplicabilidade das regras não confere nenhuma legitimação aos grupos envolvidos nas
hostilidades. A abordagem realista e pragmática do DIH é utilizada para proteger as vítimas
dos conflitos, independentemente dos lados envolvidos. É importante sublinhar que o DIH é
um equilíbrio entre conceitos conflituantes: por um lado, a necessidade militar e, por outro
lado, preocupações humanitárias.
70
MARTINS, Ana Maria Guerra, Direito Internacional dos Direitos Humanos, Almedina, Ob. City, pág. 218
71
MARTINS, Ana Maria Guerra, Direito Internacional dos Direitos Humanos, Almedina, Ob. City, pág. 219
31
Por outro lado, nota-se que os combatentes do Al-Shabaab72 atacam regularmente cidades,
vilas e aldeias, matando tanto soldados das FADM como civis. Embora, durante os ataques,
alguns combatentes assegurem aos civis que apenas as instalações e o pessoal do governo são
alvos, Com base na nossa pesquisa subsidiada pela aministia internacional confirmaamos que
os combatentes matam rotineiramente civis, saqueiam as suas casas e depois regam-nas com
gasolina e queimam-nas.

Nos termos do direito internacional humanitário, os civis nunca deveriam ser visados em
ataques. Os assassinatos deliberados de civis, as pilhagens e a destruição deliberada de casas
constituem graves violações do direito internacional humanitário e crimes de guerra. Os
combatentes do Al-Shabaab matam civis com armas de fogo e machetes. Um homem de 75
anos de idade que fugiu dos combates em Naguruvala, uma aldeia situada no litoral, perto da
vila de Quisssanga - disse que os civis que reagiam e combatiam o Al-Shabaab eram
“decapitados” e “esquartejados”. Tal como muitas pessoas que assistiram ataques do Al-
Shabaab, ele utilizou estas duas palavras, “decapitar” e “esquartejar” para diferenciar entre os
dois métodos de assassinato73. O primeiro consiste numa simples decapitação, o segundo imita
o corte de um animal em quatro no talho, que o homem descreveu como ser “dividido como
uma vaca. Por vezes, estas decapitações acontecem em massa; em Novembro de 2020, a
comunicação social informou que mais de 50 civis tinham sido mortos de uma só vez num
campo de futebol em Muidumbe. Contudo, verifica-se que o cenário é alarmante constituindo
as formas gravíssimas de violações de direitos humanos e da dignidade da pessoa humana74.

3.3 Direito à segurança e direitos humanos face aos conflitos armados.

A Constituição da República de Moçambique prevê no capítulo II, do artigo 59º75, o qual está
inserido no Título dos direitos e garantias fundamentais, que a todos aqueles que residem no
Moçambique, sem qualquer distinção, será garantido o direito à segurança76.

O que vincula o direito individual à segurança ao Estado é o fato de que a segurança pública é
um dever estatal e, portanto, a garantia da integridade física do particular é uma tarefa do

72
MARTINS, Ana Maria Guerra, Direito Internacional dos Direitos Humanos, Almedina, Ob. Cit. pág. 220-222
73
MENDES, Victor, Direitos Humanos: Convenções e declarações internacionais, Virslis Editores, São
Paulo,2002. Pág.261
74
AMINISTIA INTERNACONAL 2021, O que vi foi a morte: Crimes de guerra “ Cabo Esquecido” de
Moçambique, Maputo. Pg.2-124.
75
REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE, Constituição da República, (2018) in Boletim da República I série nº 115
de 12 Junho de 2018.
76
NICOLAU JÚNIOR, Mauro. A decisão judicial e os direitos fundamentais constitucionais da democracia.
Jus Navigandi, Teresina, ano 9, n. 763, 6 ago. 2005.
32
Estado. O fato é que mesmo numa ordem constitucional democrática se necessita de direitos
de defesa, na medida em que também a democracia não deixa de ser exercício de poder dos
homens sobre homens, encontrando-se exposta às tentações do abuso de poder, bem como
pelo fato de que mesmo num Estado de Direito os poderes públicos correm o risco de praticar
injustiças.

Conforme Gomes Canotilho, os direitos fundamentais cumprem a função de direitos de defesa


dos cidadãos sob uma dupla perspectiva: (1) constituem, num plano jurídicoobjectivo, normas
de competência negativa para os poderes públicos, proibindo fundamentalmente as
ingerências destes na esfera individual; (2) implicam, num plano jurídico-subjectivo, o poder
de exercer positivamente direitos fundamentais (liberdade positiva) e de exigir omissões dos
poderes públicos, de forma a evitar agressões lesivas por parte dos mesmos (CANOTILHO,
1993, p.552)77.

Como destacou o advogado Nicolau Junior, no contexto de reabertura do Direito


Constitucional ao universo dos valores, a democracia tem de figurar como um elemento
essencial na interpretação jurídica. A democracia é a única forma de governar que trata a
todos com igualdade, na medida em que atribui a cada indivíduo um idêntico poder de
influência nas decisões colectivas que atingirão sua vida. É na democracia que as pessoas são
tratadas como sujeitos e não como objectos, uma vez que apenas no regime democrático se
reconhece em cada indivíduo um cidadão livre e digno.

E é só no regime democrático que ganha concretude o princípio da dignidade da pessoa, o


qual se torna o centro analítico e finalístico de qualquer ordem jurídica constitucional
humanitária. Neste contexto, a função jurídico-objectiva dos direitos fundamentais, conforme
J. Machado, este traduz no reconhecimento que os princípios norteadores da ordem jurídico-
constitucional possuem, sendo “dotados de um efeito irradiante para as relações sociais em
que não participam entidades públicas, ou entidades a que tenham sido atribuídas
prerrogativas de direito público”.

Deste modo, a actuação do Poder Público deve ser no sentido de garantir a efectivação dos
direitos e garantias previstos, mesmo que através de mecanismos de coerção, uma vez que a
intenção constitucional não é no sentido de uma satisfação meramente jurídica. Assim, se

77
FARIA, José Eduardo. O Judiciário e os Direitos Humanos e sociais: notas para uma avaliação da justiça
brasileira. In: José Eduardo Faria. Direitos Humanos, Direitos Sociais e Justiça. São Paulo: Malheiros, 1994,
p.105.
33
procurou manter os direitos fundamentais afastados das variações de interesses políticos,
protegendo-os, inclusive, de uma reforma constitucional. As cláusulas pétreas não significam
que existem direitos absolutos, mas que aqueles direitos considerados a base da sociedade não
sejam corroídos pelos legisladores, os quais representam os interesses políticos em dado
momento histórico. As cláusulas pétreas buscam a vigência futura e permanente de certos
conceitos e ideais da sociedade Moçambicana78.

O reconhecimento de deveres fundamentais diz com a participação activa do cidadão na vida


pública e implica em um empenho solidário de todos na transformação das estruturas sociais,
portanto, reclama um mínimo de responsabilidade social no exercício da liberdade individual
e implica a existência de deveres jurídicos de respeito pelos valores constitucionais e pelos
direitos fundamentais, inclusive na esfera nas relações entre privados, justificando, inclusive,
limitações ao exercício dos direitos fundamentais. Com efeito, as limitações aos direitos
fundamentais não se encontram unicamente fundamentadas na ordem subjectiva das
liberdades ou direitos dos outros particulares, mas também por razões de ordem objectiva,
representadas pelas justas exigências da moral, da ordem pública e do bem numa sociedade
democrática.

Verifica-se que os direitos de defesa costumam ser considerados como previstos em normas
de eficácia plena, ao passo que, na esfera dos direitos a prestações, há, na doutrina majoritária,
principalmente em razão da aplicação da reserva do possível, a presunção de declará-los como
de eficácia limitada.

78
FARIA, José Eduardo. O Judiciário e os Direitos Humanos e sociais: notas para uma avaliação da justiça
brasileira. In: José Eduardo Faria. Direitos Humanos, Direitos Sociais e Justiça. São Paulo: Malheiros, 1994,
p.105.
34
CONCLUSÃO
Após a realização do trabalho monográfico com o tema “Efectivação Dos Direitos Humanos
Face Conflitos Armados No Ordenamento Jurídico Moçambicano” é imprescindível deixar
ficar algumas considerações finais:

As partes do conflito armado em Moçambique estão vinculadas pelo direito internacional


humanitário, também conhecido como o “direito da guerra”, que rege- a condução das
hostilidades e oferece garantias fundamentais aos civis e aos combatentes capturados ou
feridos. As normas pertinentes nos casos das violações discutidas no traabalho nos permitem
percber que fazem parte do direito internacional humanitário consuetudinário e são
vinculativas para todas as partes do conflito armado, independentemente dos tratados que
tenham ou não ratificado. Por outro lado, verifica-se que em Moçambique há situações de
violações de direitos humanos, olhando pelo conflito que se verifica em Cabo Delgado,

Quanto a protecção de direitos humanos face aos conflitos armados, percebemos que os
Direitos Humanos no plano internacional e regional envolvem um grande número de
instituições e normas internacionais. A grande maioria destas normas emana de instituições
pertencentes ao Sistema das Nações Unidas, que congrega a quase totalidade dos países em
escala mundial (actualmente, a Organização das Nações Unidas conta com 192 países-
membros) e de instituições pertencentes ao Sistema Africano, que congrega a quase totalidade
dos países em escala africana (actualmente, são membros da União Africana todos os países
africanos). Pese embora existam estas normas e os sistemas regionais de protecção de direitos
humanos, nota-se a prevalência das violações dos direitos humanos e dificuldades da
efectivação por parte dos Estados, pelo facto destes na ratificarem as convenções e
declarações relativos aos direitos humanos.

Não obstante, Por outro lado, nota-se que os combatentes do Al-Shabaab atacam regularmente
cidades, vilas e aldeias, matando tanto soldados das FADM como civis. Embora, durante os
ataques, alguns combatentes assegurem aos civis que apenas as instalações e o pessoal do
governo são alvos. Nesta senda, pelas normas do direito internacional humanitário, os civis
nunca deveriam ser visados em ataques. Os assassinatos deliberados de civis, as pilhagens e a
destruição deliberada de casas constituem graves violações do direito internacional
humanitário e crimes de guerra.

35
Em fim, percebemos que Constituição da República de Moçambique prevê no capítulo II, do
artigo 59º, o qual está inserido no Título dos direitos e garantias fundamentais, que a todos
aqueles que residem no Moçambique, sem qualquer distinção, será garantido o direito à
segurança. O que vincula o direito individual à segurança ao Estado é o fato de que a
segurança pública é um dever estatal e, portanto, a garantia da integridade física do particular
é uma tarefa do Estado. Neste contexto, em Cabo Delgado não o pleno gozo deste direito sob
ponto de vista da sua efectivação, uma vez que as pessoas enquanto cidadãos moçambicanos
são obrigados a deslocar-se das suas residências para outras regiões movidos por medo de
guerra e a instabilidade. Não obstante, é obrigação do Estado accionar mecanismos para
garantir em primeira mão o pleno gozo deste direito.

36
RECOMENDAÇÕES

Feitas as análises do tema “Efectivação Dos Direitos Humanos Face Conflitos Armados No
Ordenamento Jurídico Moçambicano” e tendo em conta as considerações finais, é pertinente
deixar algumas sugestões que podem ajudar na resolução do problema:

 Respeitar a proibição da tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos e degradantes;

 Criar um mecanismo independente para a monitorização efetiva do tratamento de


pessoas privadas da sua liberdade, incluindo suspeitos militantes do Al-Shabaab que
se encontram detidos sob custódia militar e policial;

 Conduzir investigações independentes, imparciais, exaustivas e transparentes a todas


as alegações credíveis de tortura e maus-tratos a detidos, execuções e mutilação de
corpos e outros crimes de guerra graves cometidos pelos soldados das FADM e
agentes da polícia da UIR em Cabo Delgado;

 Assegurar a formação apropriada das forças militares e policiais, incluindo formação


em direitos humanos e nas normas do direito internacional humanitário, e, em
particular, no tratamento correto dos detidos;

 Assegurar às vítimas de violações do direito internacional humanitário, assim como às


suas famílias, o acesso à justiça e à plena reparação, incluindo restituição,
compensação, reabilitação, satisfação e garantias de não-repetição;

 Permitir o acesso de observadores de direitos humanos a Cabo Delgado;

 Facilitar um maior acesso humanitário a Cabo Delgado e assegurar que as pessoas


deslocadas não sejam privadas dos seus direitos, tais como o direito à habitação
condigna e à educação para as crianças;

 Ratificar o Protocolo à Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos sobre os
Direitos dos Idosos em África e rever a legislação nacional para a harmonizar com as
obrigações previstas no protocolo

37
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Legislação

 REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE, Constituição da República, (2004) in Boletim da


República I serie nº 20 de 24 de Dezembro.
 NAÇÕES UNIDAS, Pacto Internacional Sobre Direitos Civis e Políticos, 1966.
 ORGANIZAÇÃO DA UNIDADE AFRICANA, Carta Africana dos Direitos
Humanos e dos Povos, 1979.
 COMISSÃO DOS DIREITOS HUMANOS, Convenção de Direitos Humanos, 1967.
 NAÇÕES UNIDAS, Pacto Internacional Sobre Direitos Civis e Políticos, 1966.
 ORGANIZAÇÃO DA UNIDADE AFRICANA, Carta Africana dos Direitos
Humanos e dos Povos, 1979.
 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, Declaração Universal dos Direitos do
Homem, 1948.

Doutrina.

 AMINISTIA INTERNACONAL 2021, O que vi foi a morte: Crimes de guerra “


Cabo Esquecido” de Moçambique, Maputo.
 BARRETO, Ireneu Cabral, A Convenção Europeia dos Direitos do Homem Anotada,
Coimbra Editora, Coimbra, 2010.
 BOAVENTURA, Edvaldo M, Metodologia da Pesquisa, Editora Atlas, São Paulo,
2012.
 CANOTILHO, José Joaquim Gomes, Direito Constitucional, 7ª Edição, 13ª
Impressão, Almedina, 2003.
 CASTILHO, Ricardo, Direitos humanos, 2ª edição, Editora Saraiva, São Paulo, 2012
 COLAÇO, David, et al., Direitos, liberdades fundamentais e garantia da
constituição, 1ª edição, ISM Editora, Maputo-Moçambique, 2010.
 COMPARATO, Fábio Konder, A afirmação histórica dos direitos humanos, 3
edição, São Paulo: Saraiva.
 DE ANDRADE MARINA, Marconi, Fundamentos de metodologia científica, 5
edição, São Paulo, Editora, atlas S.A. 2003.

38
 FARIA, José Eduardo. O Judiciário e os Direitos Humanos e sociais: notas para
uma avaliação da justiça brasileira. In: José Eduardo Faria. Direitos Humanos,
Direitos Sociais e Justiça. São Paulo: Malheiros, 1994.

 GOUVEIA, Jorge Bacelar, Direito constitucional - Moçambique, Instituto do direito


da língua portuguesa, Lisboa, 2015.
 GOUVEIA, Jorge Bacelar, O Estado de Excepção Constitucional no Direito
Constitucional: entre a eficiência e a normas das estruturas de defesa
extraordinária da Constituição, Vol. II, Almedina, Coimbra, 1998.
 MARTINS, Ana Maria Guerra, Direito Internacional dos Direitos Humanos,
Almedina.
 MATOS, Narciso, Paz, Educação, Trabalho, Felecidade e bem-estar, Maputo, 2018
 MENDES, Victor, Direitos Humanos: Convenções e declarações internacionais,
Virslis Editores, São Paulo,2002.
 MENDES, Victor, Direitos Humanos: Convenções e declarações internacionais,
Virslis Editores, São Paulo,2002.

 NICOLAU JÚNIOR, Mauro. A decisão judicial e os direitos fundamentais


constitucionais da democracia. Jus Navigandi, Teresina, ano 9, n. 763, 6 ago. 2005.

 OLIVEIRA, Luiz, Trabalho de Metodologia Científica, São Paulo, 1997.


 PIOVESAN, Flávia, Declaração Universal dos Direitos Humanos: Desafios e
perspectivas.
 RAMOS, Santa Taciana Carrilo; NARANJO, Ermam Samten, Metodologia da
Investigação Científica, Escolar Editora, Lisboa, 2014.
 SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais.
In: LEITE, George Salomão (Org.). Dos Princípios Constitucionais - Considerações
em torno das normas princípio lógicas da Constituição. São Paulo: Malheiros, 2003.
 SARLET, Wolfgang Ingo. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na
Constituição da República de 1988. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2002.
 VARIMELO, Arquimedes Joaquim, Lições de Direitos Humanos, Luís Bitone,
Maputo, 2013.

39