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Qoerção

e suas implicações

cMurray Sidman

Livro Pleno
COERÇÃO
E SUAS IMPLICAÇÕES
Murray Sidman

COERÇÃO
E SUAS IMPLICAÇÕES

Tradução
Maria AmáliaAndery
Tereza Maria Sério

Editora Livro Pleno


2009
Título original
Coercion and its fallout
Copyright © ] 989 by Murray Sidman

Conseli .o editorial
Glauci Esteia Sanchez

Tradução
Maria Amalia Andery
Tereza Maria Sério

Coordenação editorial
Glauce Esteia Sanchez

ISBN: 87-87622-22-6

Direitos reservados para a língua portuguesa:

Editora Livro Pleno


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Ç^cwa- mônÁa eó^wóa^j ^Rifa,
•miUto fwóáiv^lmenfej a freátkx
m&nc4> ca&rci/iAMi do 'mund
íVrefácio

Eu escrevi este livro para dizer algumas coisas que de há


muito pensava que precisavam ser ditas, não apenas para colegas
profissionais mas para todas as pessoas que estão preocupadas com
nosso futuro como espécie. Mesmo quando adolescente, de algum
modo tornei-me consciente de que o mundo estava se complicando.
O mundo tinha problemas reais e não os estava enfrentando. Minha
visão era matizada não apenas pela experiência pessoal, que era
bastante limitada. Minha família era relativamente segura e não-
punitiva e a maioria de meus estresses mais severos vieram das
gangs errantes que de tempos em tempos assolavam nossa vizinhan-
ça em busca de garotos para bater. Mas eu era também um leitor
assíduo e o que lia sobre a crueldade sem sentido das pessoas e sua
hipocrisia era quase inacreditável. Como podiam os seres humanos
fazer as coisas que estavam sempre fazendo uns aos outros? Os
temas predominantes nas notícias ou romances eram guerras, assas-
sinatos e outros tipos de violência pessoal, opressão política e religio-
sa; negócios políticos e empresariais inescrupulosos, traições de ami-
gos e amantes, doença mental e egocentrismo mesquinho. E, como se
para confirmar meu desencanto, a II Guerra Mundial começou exata-
mente quando tinha idade suficiente para participar dela.
Logo após a II Guerra Mundial, a maioria de nós ainda não
compreendia a enormidade da força destrutiva que havia sido libera-
da. Nós não havíamos nos resignado à possibilidade de que nossa
geração poderia ser a última. O ceticismo geral sobre se as coisas


poderiam algum dia melhorar ainda não havia se estabelecido. Ain-
da era fácil encontrar companheiros, ou mesmo pessoas mais ve-
lhas, que acreditavam que as coisas não precisavam ser do modo
como eram. E o final da II Guerra Mundial parecia, de algum modo,
marcar um possível recomeço. As forças realmente grandes do mal
pareciam ter sido varridas do mapa: talvez pudéssemos agora conti-
n u a r livrando-nos do resto da violência sem sentido a que caracte-
risticamente submetíamos uns aos outros. Mas não aconteceu deste
modo. Por que não?
A grande questão era: "Como fazer isto?" Como fazer as mu-
danças que nossa sociedade, exausta pela destruição e pelo sofri-
mento, parecia pronta para fazer? A maioria das soluções propostas
envolvia mudanças em nossas instituições. Para alguns, uma nova
forma de governo era a resposta. Outros viam o progresso apenas no
contexto de mudanças no sistema econômico. Outros ainda acredi-
tavam que a educação era a chave. Mas havia uma armadilha em
todas as propostas de reforma econômica, política ou educacional.
Aquelas instituições, aqueles sistemas, não nos eram dados de fora,
prontos. Nós mesmos os fizemos. Quaisquer virtudes e fraquezas
que nossas instituições tivessem eram nossas próprias virtudes e
fraquezas.
Tornou-se claro que os problemas primários não estão em
nossas instituições, mas em nós. De algum modo temos que nos
transformar se pretendemos construir sistemas que sustentem coo-
peração, solidariedade, justiça e, de forma mais geral, abordagens
racionais aos problemas que inevitavelmente surgem quando grande
número de pessoas tem de compartilhar recursos limitados.
Como vamos mudar a nós mesmos? Muitos tipos de propos-
tas têm sido feitas. Há muito tempo, antropólogos reconheceram que
como espécie ainda não completamos nossa adaptação física à nos-
sa postura ereta, à alimentação macia, ao prolongamento da vida
por meio de medidas sanitárias e de medicina preventiva. Sofremos
muitas dòenças e desconfortes porque nossa postura ereta não pro-
vê sustentação adequada nem para nossos órgãos internos, nem
parà os arcos de nossos pés; nossas dietas estão tornando nossos
dentes bastante desnecessários; muitos processos imunológicos não
são mais necessários para nos proteger de mudanças ambientais e,
em vez disso, manifestam-se como alergias e, com a própria saúde
física desempenhando um papel cada vez menor na determinação da
duração de nossas vidas, o envelhecimento traz com ele ainda novas
doenças. Alguns afirmam que restos de nossa herança física geram
sofrimento e miséria, mantendo-nos em luta uns contra os outros.

viii
Eles sugerem que o mundo seria um lugar melhor se nos livrásse-
mos de todos aqueles com os quais é impossível conviver por causa
do sofrimento físico. Suas soluções incluem melhoria da espécie por
meio da eutanásia radical, livrando-se, em vez de prolongar a vida,
daqueles que nasceram com defeitos ou que os adquiriram porque
vivem demais.
Eutanásia extrema, eliminando qualquer um que sofra de
deficiências presumidas, foi tentada em larga escala pelo menos
uma vez. As tentativas dos nazistas tornaram óbvios os horrores
inerentes em definir arbitrariamente o que é considerado "deficiên-
cia", em especificar o que é "um problema" e em determinar o que é
"desejável". A prática requer assassinatos legalizados em larga esca-
la e sem um final à vista. Eliminar apenas os idosos e enfermos —
aqueles que não mais geram e criam crianças — não teria efeito
sobre a evolução da espécie. E se nós tentássemos atingir a "pureza
genética" pelo outro lado — eliminando crianças física e mentalmen-
te deficientes — o processo evolucionáxio levaria ainda centenas de
gerações. Este tempo não está à nossa disposição.
Propostas para produzir uma espécie mais saudável e talvez
mais amigável por meio de cruzamentos controlados têm o mesmo
problema — não temos tempo suficiente. Avanços modernos na ge-
nética indicam que mudanças rápidas tornar-se-ão possíveis em um
futuro não tão distante. Quão próximo é este futuro não podemos
ainda saber com certeza. E sabemos ainda menos sobre como genes
e conduta se relacionam. Que tipos de herança farão com que apli-
quemos toda nossa inteligência em nossos problemas mais críticos?
Que tipo de mudanças genéticas hão de nos fazer responder à frus-
tração com a razão e não com a agressão? Podemos fazer clones de
professores que usarão métodos positivos em vez de coercitivos para
ensinar os jovens? E assim por diante. Mesmo que se prove ser
possível usar nossa crescente compreensão da genética para acele-
rar o processo evolucionário normalmente lento, não está claro, em
absoluto, que descobriremos como fazer isto vantajosamente, antes
que nos envolvamos nisto.
O que poucos têm considerado é a possibilidade de que pode-
mos fazer mudanças comportamentais sem alterar nossos processos
biológicos ou nossa carga genética. Nos últimos cinqüenta anos a
análise comportamental tem nos ensinado muito sobre como o am-
biente influencia o comportamento. Dentro dos limites de nossa
herança biológica atual, nossa conduta é fortemente controlada pelo
seu setting ambiental e suas conseqüências ambientais. E a análise
comportamental também tem nos mostrado que autocontrole é real-

ix
mente controle ambiental; é possível construir mudanças em nosso
proprio ambiente de forma a produzir mudanças em nosso próprio
comportamento. Controlar a nós mesmos é mudar o ambiente de
maneira tal que se mude nossa própria conduta e fazê-lo porque
isso muda nossa própria conduta. Há tantas possibilidades de mu-
dança, mesmo sem manipulação genética, que alterar algumas das
relações críticas entre ambiente e comportamento é o único caminho
prático a percorrer se realmente quisermos mudar nossa conduta
antes que seja tarde demais.
Um ponto de vista bastante difundido mas errôneo afirma
que apenas alterações superficiais podem ser realizadas desta ma-
neira. Muitos ainda acreditam que uma análise das relações entre
nossa conduta e nosso ambiente não atinge nossa natureza real.
Nós gostamos de ver a nós mesmos como agentes independentes,
não como um locus de variáveis controladoras. Para muitos o "eu
real" consiste daqueles sentimentos, pensamentos e anseios, os
mais profundos, que ninguém mais poderá sequer conhecer. E isto é
verdade, ninguém mais pode mesmo conhecer nossa "pessoa inter-
na" por meio de experiência direta. Tomando isto como certo, deve-
mos também reconhecer que na medida em que se considera o resto
do mundo, o que eles podem ver é o "você real". Isto é tudo com que
os outros podem lidar. E o que eles podem ver, aquilo com o que
podem lidar, são nossas ações. Podemos considerar nossa pessoa
interna como nosso verdadeiro self, mas para o restante do mundo,
nós somos o que nós fazemos. Se pretendemos mudar nossas intera-
ções uns com os outros, teremos de mudar o que nós fazemos.
Mudando nossa conduta mudamos a nós mesmos.
Eu tentei, neste livro, indicar um tipo crítico de mudança
que terá que ocorrer em nossas interações sociais se quisermos
mesmo fazer algo construtivo a respeito das misérias que atualmen-
te infligimos uns aos outros, se pretendermos pelo menos pospor a
atual investida em direção à extinção da espécie. Coerção não é a
raiz dé todo mal, mas até que adotemos outros modos, que não o
coercitivo, para controlar a conduta uns dos outros, nenhum méto-
do para melhorar fisicamente nossa espécie impedirá que o timer de
nossa sobrevivência continue andando. Uma ciência do comporta-
mento desenvolvida pode mais uma vez dar às pessoas de boa vonta-
de razão para otimismo sobre nossas chances de sobrevivência.

x
Agradecimentos

Este é um livro melhor do que ele teria sido se eu não tivesse


conhecido, aprendido com e sido encorajado por muitas pessoas
especiais: amigos, parentes, colegas, professores e alunos numero-
sos demais para nomear. Alguns eu preciso mencionar, apesar de
ser impossível agradecê-los na medida certa: Joseph DeRocco fez
uma revisão crítica e construtiva da versão inicial do manuscrito;
sua completude e profundidade dificilmente seriam esperadas mes-
mo do amigo próximo que ele tem sido desde que moramos juntos
na graduação. Eu espero que ele goste das muitas mudanças que
seus comentários e questões sobre estilo e conteúdo produziram.
Rita Sidman pacientemente leu o manuscrito várias vezes, chaman-
do atenção para ambigüidades e tentando — nem sempre com su-
cesso — temperar minhas críticas, algumas vezes agudas, que se
confrontavam com sua natureza gentil. E quando, em alguns mo-
mentos, o livro parecia ter pouca chance de ser realmente publicado,
seu encorajamento me manteve trabalhando. Garth Fletcher, que
começou como meu aluno e se tornou meu professor, guiou-me
através dos intrincados caminhos do computador que, hoje, facili-
tam a publicação. Assim, ele adicionou mais um ato de amizade aos
muitos que já havia praticado.


Sumário

Agradecimento xi
Prefácio vii
Introdução 17
Nós fazemos isso o tempo todo 17
Análise do comportamento 20
Análise do comportamento, punição, terapia e lei 21
A complexidade da conduta desafia a análise 25
O laboratório pode nos dizer alguma coisa? ... 27
Os não-humanos têm algo a nos dizer? 28
Nós já sabemos tudo? 30

CAPITULO 1: ESTE MUNDO COERCITIVO 33


O ambiente hostil .35
A comunidade hostil 39

CAPITULO 2: NEM TODO CONTROLE É COERÇÃO 44


Controle comportamental 44
Comportamento 44
Comportamento e suas conseqüências 48
0 que é coerção? -51
Reforçadores e Reforçamento 51
Reforçamento positivo e negativo . 55
Punição - 59

xiii
CApÍTulo 5: l_Abc>RATÓRÍO Óí MARfilYl OU ESTufA dE VÍdRO? 65
A conduta pode ser analisada? 65
O que significa "fazer um experimento"? 69
Do rato à humanidade 74

CApÍTulo 4 ; A pUNÍÇÃO flJINCiONA? 80


O que há nela para nós? 80
Como se estuda a punição? 83
O que realmente acontece? 85

CApÍTulo 5: ToRNANdo^SE UM CHOQUE 92


Punição tem efeitos colaterais 92
De mal a pior: como novos punidores são construídos 94
A importância da punição condicionada 101

CApÍTulo 6: FuqA 104


Aprendendo por meio da fuga 107
Reforçamento negativo e punição 111

CApÍTulo 7: ROTAS dE fuqA 113


Desligando-se 113
Crise de gerenciamento 114
Deixe o Zé fazer isso 115
Fazer nada 116
Desistindo 117
Desistindo da escola 118
Desistindo da família 124
Desistindo da religião 125
Desistindo da sociedade 129
Suicídio 132

CApÍTulo 3: ESQUÍVA 135


Üma pitada de prevenção 135
As causas da esquiva 136
Choque futuro? 137
'Mitó-#1: "expectativas" como causas 139
Mito #2; "medo" e "ansiedade" como causas 140
Esquiva sem sinais de aviso 144

XÍÜ
CApÍTulo 9: ApRENdEINdo pOR MEÍO Ólk ESQUÍVA... 146
O que mais vem com a esquiva? 149
Mantenha seu nariz longe de problemas 149
Não balance a canoa 150
Mate-os todos 151
Aprendizagem lenta 152
Espere até que doa - 153
Destruiçcio nuclear: ela é evitável? 154
Não pode acontecer comigo 155
Superstições 156
Evitando o inevitável 157
Fuga da esquiva 162

CAPÍTUIO 1 0 : C O M O NOS ESQUÍVAMOS? 165


Esquiva adaptativa 165
Permanecendo fora do mundo 167
Não é problema meu 168
Quem porá a boca no trombone? 173
Se vende, deve ser bom 176

CAPÍTULO 1 1: NEUROSE E doENÇA MENTAI 179


Mecanismos de defesa contra a coerção 179
Fobias 180
Formação de reação - 182
Sublimação 183
Projeção 184
Deslocamento 185
Regressão 186
Obsessões e compulsões 187
Desordens de conversão 189
Amnésia, fuga e personalidade múltipla 190
O que é "anormal"? 193

CAPÍTUIO 1 2 : COERÇÃO E A CONSCÍÊNCÍA 197


Origens da consciência 198
Consciência e controle 202
Podemos confiar na consciência?- 203

CAPÍTULO 1 5 : ENTRE A CRUZ E A CAIXÍEÍRÍNÍHA. 207


Supressão condicionada 208
Fora do laboratório 211
Á economia da ansiedade 216

xu
C-ApÍTulo 14: COERÇÃO QERA COERÇÃO 220
Agressão 220
Contracontrole 224
Quem controla quem? 228

CApÍTulo 1 5: POR QUE ÍAÍEMOS isso? 231


Criaturas do momento . 231
"Coerção é fácil" 232
Alguma coerção é inevitável 233
Atos de Deus 233
Competição 234
Caridade 238
Autodefesa e vingança 241

CApÍTulo 16: EXÍSTE AlqUM OUTRO CAMilNlho? 246


Um princípio norteador 247
Use o reforçamento positivo 248
O reforçamento positivo em casa 250
O reforçamento positivo em instituições 255
O uso incorreto da privação 256
Time out e seus abusos 259
As prisões como ambientes de aprendizagem 261
O reforçamento positivo e a lei 265
A polícia: de que lado está? 266

CApÍTulo 1 7 : EXÍSTE Alquiw OUTRO CAMÍNho? (COINTÍNUAÇÃO) 276


Reforçamento positivo em diplomacia 276
Pombas e águias 276
Generais famintos 278
Boris vizinhos? 279
Tragédia africana 281
Cidadãos do mundo 283
Terrorismo 286
Reforçamento positivo na educação 288
Aprendizagem por tentativa e erro. Tentativa de quem?
Erro de quem? 290
O que ê um programa de ensino? 291

índice remissivo 293

xvi
Introdução

A pena de morte detém assassinos em potencial? A retaliação


dura é a resposta a problemas de disciplina em nossas escolas? A
punição é um meio aceitável de impedir crianças autistas e retarda-
das de destruir a si mesmas e a seu ambiente? É sequer um modo
efetivo de tratar estes problemas? Estas e questões correlatas vêm
gerando atualmente apaixonada controvérsia pública, em geral in-
tensamente polarizada mas raramente baseada em evidências. E
ainda assim, sérios como são, estes problemas representam apenas
a ponta do iceberg. Eles são instâncias isoladas de um fenômeno
muito mais amplo: o uso quase exclusivo de coerção em todas as
esferas de interação humana.
Por coerção eu me refiro a nosso uso da punição e da amea-
ça de punição para conseguir que os outros ajam como nós gostaría-
mos e à nossa prática de recompensar pessoas deixando-as escapar
de nossas punições e ameaças. Precisamos saber mais sobre coerção
porque é como a maioria das pessoas tentam controlar uns aos
outros: "Torça-o até que ele faça certo", ou "Dê-lhe um doce, mas se
ele não fizer o que você quer, tire-o".

Nós fazemos isso o tempo todo


Algumas pessoas acham difícil imaginar qualquer outro cami-
nho; elas nem sempre estão conscientes do que estão fazendo. Todo
mundo, uma vez ou outra, t^nta influenciar por meio de encoraja-
18 Murray Siclman

mento, lisonja, elogio ou recompensa, mas ao mesmo tempo deixan-


do implícito que o não-atendimento às exigências e às expectativas
fará com que mesmo recompensas que já tenham sido ganhas sejam
retiradas. Freqüentemente damos dinheiro, status, reconhecimento e
amor apenas para manter uma vantagem em nossas interações com
os outros; concedemos ou arranjamos estes resultados desejáveis
principalmente de modo que possamos, então, tomá-los de volta se
nosso filho, esposo, sócio ou aluno param de satisfazer nossas pró-
prias necessidades, ou não atingem as exigências que estabelecemos.
Naturalmente, pessoas usam técnicas não-coercitivas, mas quase
sempre inabilmente em combinação com coerção. A aplicação de
formas não-coercitivas de controle tem sido insignificante em compa-
ração com o recurso habitual da humanidade à coerção.
Ainda assim, a evidência derivada da análise do comporta-
mento nos diz que mesmo quando a coerção atinge seu objetivo
imediato ela está, a longo prazo, fadada ao fracasso. Sim, podemos
levar pessoas a fazer o que queremos por meio da punição ou da
ameaça de puni-las por fazer qualquer outra coisa, mas quando o
fazemos, plantamos as sementes do desengajamento pessoal, do iso-
lamento da sociedade, da neurose, da rigidez intelectual, da hostili-
dade e da rebelião.
Realmente podemos levar crianças a aprender punindo-as
por não aprender. Esta é a prática padrão. Mas muitas crianças a
quem ensinamos deste modo crescem menosprezando professores,
odiando a escola e evitando o trabalho de aprender. Mais tarde,
como adultos, podem falar com admiração dos professores que "não
toleravam tolices", mas ao mesmo tempo negligenciam ou evitam
ativamente oportunidades de educação ou treinamento contínuos. E
crianças que tenham sido expostas somente ao ensino coercitivo
provavelmente deverão seguir o mesmo modelo quando elas mesmas
tornarem-se professores ou pais. Práticas coercitivas na educação
formal e no lar continuam de geração em geração, tornando-se en-
raizadas no treino de professores e aceitas pela comunidade.
Em casa, abuso físico e verbal pode, realmente, manter filhos
e esposos subservientes às nossas próprias necessidades e aos nos-
sos desejos. Você pode reger sua família "fazendo cumprir a lei",
punindo todas as infrações. Pais podem expressar desprazer com
crianças e esposos uns com os outros, batendo neles ou isolando-os,
retirando posses e privilégios, ou deixando de se comunicar — impe-
dindo que o ofensor receba seu afeto. Quaisquer destas punições
tomarão a ofensa menos provável de ocorrer novamente. As formas
Coerção e suas implicações 19

mais sutis de desdém intelectual e sexual também podem efetiva-


mente manter o domínio geral de um parceiro sobre o outro.
Mas todas estas formas de coerção familiar tornam o lar um
lugar do qual fugir. Antes que a fuga real seja possível muitos que
são mantidos sob tirania aprendem eles mesmos as maneiras de
coerção e terminam como crianças-problema, apropriando-se de
mais do que é a sua parte do tempo, dos recursos financeiros e
emocionais da família. Mais tarde, como pais, não conhecendo
qualquer outra maneira, tornam-se eles mesmos os tiranos da famí-
lia. A coerção transforma o casamento em escravidão e atos de
amor em meros rituais, formalidades a serem observadas com o
objetivo de manter a paz ou evitar o terror. Muito freqüentemente, o
casamento é uma relação de coerção, não de amizade. Dentre as
conseqüências deste tipo de relação serão encontrados divórcio,
abandono, doença mental e suicídio.
Empregadores podem, realmente, manter seus empregados
em seus lugares ameaçando-os de despedi-los se eles saírem e tra-
balhadores podem assegurar salários maiores ameaçando o patrão
de fazer greve. O sucesso do movimento trabalhista tem, seguramen-
te, reduzido exploração e elevado os padrões de vida, e parece claro
agora que estes objetivos nunca teriam sido atingidos a não ser por
técnicas coercitivas. E ainda assim, a moderna negociação institu-
cionalizada, que ritualizou a dança de guerra da ameaça, da contra-
ameaça e da negociação (sustentada pelas ameaças reais de greve e
lockout), tornou a produtividade do trabalhador uma moeda de bar-
ganha cujo valor não pode exceder o limite especificado no contrato.
Por causa disso, muitos trabalhadores que excedem a cota de pro-
dução são colocados no ostracismo e atacados por seus companhei-
ros de trabalho.
Da parte dos proprietários e da gerência, a negociação insti-
tucionalizada tornou compensação, benefícios indiretos, divisão de
lucros, simples respeito pessoal e preocupação humana geral pelo
bem-estar dos trabalhadores em contramoedas a serem valorizadas
não mais do que o necessário para por fim a uma ameaça de greve
ou encerrar uma paralisação do trabalho. Em uma história que
ainda continua, um empregador a quem se pediu algum sinal de que
ele apreciava o bom trabalho que seus empregados estavam fazendo,
replicou: "O que você quer dizer com apreciar? Eu não estou pagan-
do-os por um bom trabalho?"
Um resultado freqüente desta coerção mútua é um desloca-
mento de energia e atenção dos objetivos originais de uma organiza-
ção para a manutenção de posições de barganha. A produtividade,
20 Murray Siclman

tanto do trabalho quanto da gerência, declina à medida que o em-


pregador e o empregado finalmente passam a fazer pouco mais do
que é necessário para contrabalançar as ameaças um do outro.
Qualquer instância de uma cooperação não-autorizada pode desfa-
zer o delicado equilíbrio da coerção e contracoerção.
Um sistema de justiça que é baseado apenas na punição por
transgredir a lei realmente mantém muitas pessoas no caminho
certo e provê satisfação para aqueles que buscam revanche sobre os
transgressores. Um código legal coercitivo também gera, para muitos
que estão sujeitos ao sistema, subterfúgio e desobediência e, para
muitos que administram e fazem cumprir o sistema, brutalidade.
A maioria das nações, incluindo as superpotências, afirma
estar buscando a paz e armando-se somente para a defesa. Uma
política nacional de manter um "pulso forte" — a ser usada, natural-
mente, só em retaliação contra agressão — pode, realmente, manter
alinhados economicamente e militarmente outros países. Tal coerção
também cria ciúmes, animosidades e eventual contracontrole; o mo-
derno terrorismo é um exemplo extremo.
Mesmo a política, outrora recomendada, de que o "dono do
poder" fale suavemente, ficou pelo caminho; hoje as superpotências
anunciam ostensivamente a quantidade de ogivas nucleares, sub-
marinos nucleares e lançadores de mísseis que possuem, tentando
assegurar que a ameaça de contra-ataque deterá qualquer tentativa
de um primeiro ataque. Esta forma de "diplomacia" produziu a mo-
derna corrida por armas nucleares, com coerção simplesmente pro-
duzindo mais coerção. Quando a sobrevivência passa a depender de
contrapor ameaças, não de produzir e desfrutar das boas coisas que
a vida tem a oferecer, o risco que corremos de iniciar uma agressão
aberta declina, temos menos a perder. Quando um cálculo errado,
um blefe ou um ato de desespero colocará um fim em tudo isto?

Análise do comportamento
Em bases humanitárias, muitos têm questionado a desejabi-
lida.de e a utilidade a longo prazo destes métodos muito utilizados de
controle comportamental; ninguém gosta de ser punido e alguns não
gostam de punir os outros. Mas, podemos fazer melhor do que sim-
plesmente apelar para nossos preconceitos sobre o que é bom ou
mau. A ciência da análise do comportamento contém um corpo de
princípios e dados que podem prover alguma objetividade para deci-
dir sobre punir ou não. A coerção tem sido intensivamente investiga-
da no laboratório comportamental, com fundos públicos — impostos
Coerção e suas implicações 21

— financiando a maioria das pesquisas, mas pouco tem sido conta-


do ao público sobre o que temos descoberto e quais são as implica-
ções para a conduta dos problemas do cotidiano.
A comunicação pobre tem levado às conseqüências usuais:
primeiro, concepções incorretas sobre as questões, métodos, desco-
bertas e importância da pesquisa comportamental; segundo, uma
falta de consciência da informação e técnicas que poderiam impedir
a coerção de continuar a envenenar nossas interações uns com os
outros. Ajudar a estabelecer a comunicação é a principal razão pela
qual eu escrevi este livro.
Um segundo propósito é familiarizar pessoas preocupadas
com a existência de uma ciência que provê métodos para formular e
responder importantes questões sobre a conduta humana. A ciência
da análise do comportamento tem suas raízes na filosofia, então
distinguiu-se como um ramo da emergente disciplina da psicologia e
está agora no processo de desengajar-se dessa psicologia. O progeni-
tor ainda não a deixou ir (nem, neste caso, o avô) e luta para manter
seu domínio administrativo dentro da Academia, mas as linhas de
fratura intelectual estão claras. Psicologia, como o nome sugere, é a
ciência da mente. Análise do comportamento é a ciência do compor-
tamento. Muito do que sabemos sobre coerção, o controle do com-
portamento por meio de punição e de ameaça de punição, veio das
ciências experimental e aplicada da análise do comportamento.

Análise do comportamento, punição, terapia e a lei Embora


tenham muito mais a oferecer, analistas do comportamento são tal-
vez mais freqüentemente chamados para lidar com problemas de
comportamento — autodestruição em retardados ou autistas, des-
truição do ambiente (exceto, naturalmente, quando os exploradores
fazem isto por lucro), violações de normas sociais e condutas que
afligem a família e a comunidade. Na maioria dos casos, eles reali-
zam bem a tarefa, mesmo quando outras abordagens fracassaram.
Aqui, entretanto, é onde o uso de punição tem recebido maior aten-
ção do público. Embora problemas severos de comportamento fre-
qüentemente requeiram medidas de emergência, não podemos lidar
com eles de qualquer forma permanente sem primeiro considerar o
que sabemos sobre o uso de coerção em geral.
Quando olhamos para o quadro geral, retratado no capítulos
subseqüentes, punir ou não punir deixa de ser um problema genuí-
no. A resposta clara é "não".
Naturalmente, casos excepcionais surgem. Algumas vezes
punimos porque somos seres humanos falíveis e cometemos erros.
22 Murray Siclman

Algumas vezes nos falta conhecimento relevante em situações espe-


cíficas e nosso uso sem sucesso de outros tratamentos nos leva a
aplicar punição para salvar alguém de autodestruição. Mesmo quan-
do métodos que não envolvem punição tiveram quase que completo
sucesso em eliminar a agressão de um adolescente de quase 85
quilos, um reaparecimento ocasional de um ataque que coloca em
risco a vida requererá que ele seja "subjugado" e imobilizado até que
o episódio passe. E, como poderemos ver, o efeito supressivo imedia-
to de uma única punição pode, realmente, nos dar uma oportunida-
de para aplicarmos técnicas não-punitivas efetivamente.
Estes tipos de casos marginais não representam problemas.
Desde que eles se mantenham marginais, o senso comum nos diz
que temos que usar quaisquer meios efetivos à mão. Erros, uma
falta temporária de informação relevante, ou uma emergência oca-
sional podem justificar a punição como um tratamento de último
recurso, mas nunca como o tratamento de escolha. Usar ocasional-
mente punição como um ato de desespero não é o mesmo que
advogar o uso da punição como um princípio de manejo do compor-
tamento.
Contrariamente ao quadro difundido por críticos desinforma-
dos, coerção não é a base da análise do comportamento. Além de
nos mostrar que qualquer uso de punição deve ser deplorado, a
análise do comportamento produziu muitas alternativas efetivas.
Uma contribuição única têm sido as incontáveis demonstrações,
dentro e fora do laboratório, de como usar efetivamente o reforça-
mento positivo. Por reforçamento positivo, eu me refiro à prática de
recompensar pessoas não por deixá-las fugir da punição, mas por
deixá-las produzir algo bom. Destacarei mais tarde as conseqüên-
cias fundamentais e a longo prazo desses dois métodos de influen-
ciar a conduta.
Alguns analistas do comportamento, como alguns psicólogos,
alguns psiquiatras e alguns educadores defendem e usam coerção
como técnica terapêutica e educacional. Eles resistem à regulamen-
tação pública, com o argumento razoável de que o tratamento do
doente, do não-educado e do desenvolvimentalmente incapaz não
poderia ser deixado aos políticos ou ao público bem-intencionado
mas desinformado, e sim aos qualificados profissionalmente. Mas,
não é correto para o analista do comportamento reivindicar exceção
da regulamentação pública com base no argumento de que o seu
treino qualifica-o para usar punição e outras formas de coerção.
Unia tal reivindicação é incorreta porque competência na aplicação
de punição não é a marca de um analista de comportamento qualifi-
Coerção e suas implicações 23

cado. Eu não conheço programa de treinamento ou formação, seja


em psicologia, psiquiatria, educação ou análise do comportamento,
que qualifique, quem o cursou, a usar punição.
Aqueles que recomendam e usam choque ou outros instru-
mentos de coerção como uma técnica terapêutica estão agora desco-
brindo que têm de se defrontar com as conseqüências de seu próprio
comportamento. A preocupação pública justificada a respeito dos
padrões de competência e de ética dentro destas profissões está
produzindo tentativas em vários estados para restringir, pela lei, o
uso de técnicas terapêuticas coercitivas. Infelizmente, algumas des-
tas leis proibiriam até mesmo a própria prática de análise do com-
portamento. Este subproduto do uso da coerção deveria ter sido
previsto. Qualquer um familiarizado com a literatura experimental e
qualquer observador experiente da conduta fora do laboratório sabe
que a coerção, se não puder ser enfrentada de qualquer outra ma-
neira, finalmente gera contracontrole. Os que usam coerção podem
esperar retaliação. (Eu espero ter consideravelmente mais a dizer
sobre o contracontrole como uma conseqüência da coerção.)
As boas intenções dos analistas do comportamento não os
eximirão deste princípio empírico. Ainda pior, é provável que a co-
munidade coloque juntos todos os analistas de comportamento sob
o estereótipo de praticantes da coerção. Os perdedores, em última
instância, serão, naturalmente, os clientes. A eles serão negados os
benefícios das muitas técnicas não-coercitivas de análise do compor-
tamento que provaram ser efetivas, freqüentemente as únicas for-
mas efetivas de tratamento.
As suas boas intenções também não eximirão os analistas do
comportamento de outras leis do comportamento. Desde que uma
única instância de punição pareça funcionar, interrompendo o com-
portamento perigoso, ofensivo ou inconveniente de um único cliente,
o uso de punição pelo analista será reforçado. O que quer dizer, ele
ou ela fará isto de novo... e de novo, e de novo, e de novo. O público
esta certo em ficar alarmado. O uso bem-sucedido de um aguilhão
de gado produzirá mais uso e ninguém, nem mesmo o terapeuta,
saberá se ele ou ela está usando choque porque nada mais funcio-
nará ou porque isto funcionou antes em circunstâncias que podem
bem ter sido diferentes. Terapia coercitiva produz terapeutas coerci-
tivos.
Muitos terapeutas estão desejosos de aceitar restrições ao
uso de terapia coercitiva, concordando, por exemplo, que não usarão
coerção exceto quando nenhum procedimento positivo solucionar o
problema. Em princípio, não posso discordar desta condição razoá-
24 Murray Siclman

vel e bem-intencionada. De fato, creio que o pré-requisito — nada


mais funciona — raramente é atendido. Eu iria tão longe a ponto de
dizer a qualquer um que afirmasse ter tentado tudo o mais: "Diga-
me tudo que você fez. Eu, então, sugerirei um procedimento que
você não tentou." Indubitavelmente, eu seria, algumas vezes, inca-
paz de fazer isto, mas, creio, não muito freqüentemente.
Considero com cuidado até mesmo a afirmação do terapeuta
de que ele ou ela usa a supressão temporária pós-punição de com-
portamento indesejável como uma oportunidade para ensinar com-
portamento desejável. Em um videoteipe feito especificamente para
dar suporte ao uso de choque em casos de autodestruição de autis-
tas, vi a criança "tratada" terminar chupando seu dedão em frente
de uma televisão. Gostaria de ter visto mais demonstração de ensino
efetivo no filme, com menos ênfase sobre a sofisticação técnica do
sistema liberador de choque. Com isto eu teria mais confiança que
procedimentos construtivos de follow u.p estivessem realmente em
ação.
Em geral, eu me sentiria mais confortável com o arrazoado
de que nada mais funciona, se aqueles que usam este arrazoado
para justificar o que é chamado "terapia aversiva" considerassem,
em vez disso, cada caso aparentemente intratável como um desafio.
Se eles enfrentassem todo desafio tentando novas abordagens, seria
menos provável que eu suspeitasse de que eles estão desistindo
muito facilmente. Quando eles automaticamente recorrem à coerção,
não consigo me impedir de indagar se eles estão simplesmente con-
formando-se ao padrão de práticas sociais, em vez de fazer a contri-
buição única para a qual sua profissão supostamente os treinou.
Coerção bruta não é análise de comportamento.
Mas sim, eu poderia ser um pouco mais tolerante com rela-
ção à reivindicação de que eles estão usando intervenções coerciti-
vas porque nada mais funciona. Se eu visse, então, não apenas o
comportamento parando, mas comportamento sendo construído,
menos provavelmente eu haveria de considerá-los como usando em
vão o nome de sua ciência, seja ela a psicologia ou a análise do
comportamento.
Vale a pena repetir que punição usada em emergências, ou
por causa de ignorância total ou momentânea de métodos alternati-
vos, não dá à punição o status de um princípio terapêutico. Coerção
não é um princípio da análise do comportamento aplicada. Embora
alternativas à coerção tenham sido freqüentemente planejadas não
para propósitos práticos, mas para o estudo de processos comporta-
mentais fundamentais, os métodos estão disponíveis para aplicação
Coerção e suas implicações 25

fora do laboratório. O fato de que muitas das pesquisas são feitas


com computadores e mesmo com não-humanos não deveria apre-
sentar dificuldades para um bem-treinado observador do comporta-
mento.
As incontáveis demonstrações, dentro e fora do laboratório,
de como usar efetivamente métodos positivos têm sido uma contri-
buição única da análise do comportamento. Princípios gerais e tec-
nologias educacionais e terapêuticas específicas têm evoluído, pro-
vavelmente com documentação mais sólida na literatura experimen-
tal e clínica do que qualquer outra metodologia jamais obteve. Re-
forçamento positivo, não coerção, é a marca da análise do compor-
tamento.
Analistas do comportamento e terapeutas de todo tipo pode-
riam ajudar-se mais e ao mesmo tempo contribuir de forma única
para a sociedade, estimulando restrições sobre o uso de punição
dentro da profissão. Em vez de exigir que um público justificada-
mente cético nos permita fazer o que desejamos, faríamos melhor
tanto para nós mesmos como para o público em geral defendendo,
tornando públicos e ensinando métodos alternativos de educação e
tratamento que nossa ciência tornou disponíveis.
A análise do comportamento é aplicável em contextos muito
mais amplos do que apenas no do comportamento de incapacitados
congênita ou desenvolvimentalmente. Aplicações de punição a aque-
les tipos de problemas de comportamento são exemplos isolados de
um fenômeno muito mais difundido: o uso quase exclusivo de coer-
ção em quase todos os tipos de interação humana. Uma vez que
olhemos para os usos e efeitos de punição em todos os aspectos de
nossas vidas poderemos ver que nossa ciência tem contribuições
positivas a fazer em muitas esferas da atividade humana — educa-
ção, diplomacia, o arranjo da lei, a unidade da família. Em vez de
aceitar automaticamente as práticas tradicionais nessas áreas, estu-
diosos do comportamento poderiam estar alertando o público que
existe evidência considerável a favor de mudança. Em sua prática
profissional, em vez de simplesmente refinar métodos tradicionais de
aplicação de coerção, poderiam estar ensinando alternativas menos
conhecidas e, a longo prazo, mais efetivas.

A complexidade da conduta desafia a análise?


Os fatores que governam nossa conduta cotidiana realmente
interagem de maneiras que são complexas, mutáveis e freqüente-
mente não diretamente analisáveis. Embora este livro descreva al-
26 Murray Siclman

guns métodos e resultados de pesquisa básica, agi, também, com


bastante liberdade ao mover-me do laboratório para o mundo, extra-
polando das condições cuidadosamente controladas que garantem a
confiabilidade dos resultados experimentais. Acredito que as extra-
polações são justificadas; o laboratório tem nos ensinado sobre os
assuntos humanos muitíssimo mais do que até mesmo muitos in-
vestigadores gostariam de reconhecer.
Bolas de aço descendo planos inclinados em laboratórios de
física na graduação parecem não ter relação com folhas caindo de
árvores nas florestas, ainda assim todos os corpos em queda obede-
cem ãs mesmas leis físicas. Podemos dizer, de modo semelhante,
que embora a punição de sujeitos por apertar um botão no laborató-
rio comportamental tenhaf-à primeira vista, pouca semelhança com
o espancamento de uma criança por dizer um "palavrão", ainda
assim, todas as ações punidas obedecem às mesmas leis comporta-
mentais? Naturalmente, uma tal asserção não pode ser provada
experimentalmente; o resto do mundo não é sujeito aos controles do
laboratório. Mas isto também é verdadeiro a respeito de folhas em
queda e era verdadeiro a respeito daquelas extrapolações de resulta-
dos de laboratório que colocaram, pela primeira vez, o homem na
Lua. A prova de tal aplicabilidade não vem de experimentos, mas da
experiência prática.
Teoricamente é possível que algumas dimensões da realidade
(física, química, biológica) sejam suscetíveis de estudo e verificação
científica enquanto o comportamento não. Entretanto, esta teoria,
até onde fomos capazes de testá-la, no laboratório e fora dele, não
funcionou.
Por muito tempo se afirmou que o comportamento era não-
analisável mas, então, alguns pesquisadores pioneiros encontraram
ordem no comportamento de organismos "inferiores" — insetos, ca-
mundpngos, ratos, gatos e cachorros. O grito imediatamente foi lan-
çado. "Sim, mas não pessoas." Então a mesma ordem que foi vista
em não-humanos começou a aparecer em estudos com pessoas e o
grito mudou: "Está certo, pessoas deficientes, talvez — os não-inteli-
gentes e com lesões cerebrais — e mesmo assim, certamente, apenas
em laboratórios artificialmente controlados, escolas primárias, insti-
tuições para doentes mentais ou prisões."
Logo os resultados de laboratório começaram a ser aplicados
com sucesso em ambientes clínicos, universidades e empresas. Mais
úma vez ò grito mudou: "Sim, sim, mas com tipos de comportamento
humano tão simples! E a respeito de linguagem, criatividade, desen-
volvimento mental, o gosto artístico e as coisas intangíveis da vida?"
Coerção e suas implicações 27

E agora que a análise do comportamento começa a se ampliar em


algumas dessas áreas (não todas — as fronteiras jamais desaparece-
rão), os gritos adquiriram um tom de alarme: "Aplicando princípios
gerais ao comportamento humano vocês nos desumanizam!"
A astronomia também já foi acusada de tirar a Terra do
centro de Universo e a biologia evolucionária de destruir nosso sta-
tus como criação especial de Deus. E porque analistas do comporta-
mento bem-sucedidos estão identificando variáveis que controlam
algumas de nossas condutas mais complexas e apreciadas, o públi-
co começa a vê-los — como a outros cientistas — como querendo,
eles mesmos, exercer controle. Eles tornaram-se submetidos ao este-
reótipo popular do cientista louco inclinado a controlar o mundo.

O laboratório pode nos dizer alguma coisa?

A suposição de que resultados do laboratório comportamen-


tal, mesmo de sujeitos não-humanos, podem ser estendidos para o
mundo dos humanos até aqui se confirmou. Generalizações de ob-
servações de laboratório estão se demonstrando bem-sucedidas em
mais e mais áreas da conduta humana e mais uma vez a análise do
comportamento parece estar demonstrando o poder e a utilidade de
uma abordagem cientifica a um objeto de estudo até então recalci-
trante.
Historicamente, o salto da torre de marfim tem se justificado
amplamente. O avanço do conhecimento, desde seus inícios com a
curiosidade humana, seguiu um caminho muito trilhado e demons-
trado. Começando com teoria abstrata e os ambientes artificialmen-
te controlados da arena intelectual, caminhamos para os testes
práticos no mercado comercial e daí para o gerenciamento mais
eficiente de nosso ambiente físico. Agora, finalmente, caminhamos
para a excitante possibilidade de estender e alargar as capacidades
humanas.
Naturalmente, afirmar uma compreensão que não temos é
injustificado e pode ser perigoso. Ainda assim, não compartilhar o
que sabemos pode ser ainda mais perigoso, particularmente quando
esse conhecimento dita a ação. Como enfatizarei seguidas vezes, o
predomínio da coerção é responsável por muitos dos mais sérios
problemas da sociedade; nossa dependência contínua da coerção em
relações internacionais ameaça agora nos levar ao extermínio mú-
tuo. Nestes tempos de crise, cuidado em demasia, não informar
aqueles que financiaram a pesquisa comportamental de que eles
28 Murray Siclman

precisam atentar para os resultados é mais perigoso do que extrapo-


lar muito amplamente.
Além disso, o que vemos nos experimentos dirige nossa ob-
servação fora do laboratório e nos auxilia a encontrar consistência
na aparentemente desordenada vida cotidiana. Isso não é supersim-
plificação; é um modo especial de olhar para o mundo que pode nos
ajudar a compreendê-lo e, freqüentemente, a fazer algo a respeito de
seus problemas. O analista experimental do comportamento, que
tenha visto o quão poderosamente conseqüências influenciam a con-
duta, pode freqüentemente cortar caminho eliminando muitas irrele-
vãncias e determinar exatamente porque uma criança faz birras,
porque um jovem abandona a escola ou porque um terrorista conti-
nua a raptar e a matar. O analista experimental, que tenha visto
pequenas alterações do ambiente interromper uma ação em anda-
mento e imediatamente iniciar novo comportamento freqüentemente
será capaz de parar a auto destruição de um cliente mudando o
ambiente em vez de aplicar coerção. Penso que é importante para
analistas do comportamento, como para cientistas de laboratório de
todos os tipos, partilhar suas maneiras especiais de observar e inter-
pretar eventos cotidianos.
Para promover uma maior compreensão da análise do com-
portamento e de como ela contribuiu para nossa compreensão da
coerção, descreverei alguns arranjos básicos de laboratório. Obser-
var estes experimentos torna familiares, com uma nitidez inesquecí-
vel, os produtos comportamentais de ambas as práticas, coercitivas
e não-coercitivas. Nada é tão instrutivo como as profundas mudan-
ças que ocorrem no comportamento de um sujeito experimental
quando, por exemplo, alteramos levemente a relação entre o que ele
faz e o que acontece subseqüentemente no ambiente. Ler não substi-
tui o ver, mas as descrições ainda podem nos ajudar a nos tornar-
mos cientes de que é possível descobrir como a coerção funciona e
que alternativas estão disponíveis.

Os nãohumanos têm algo a rios dizer? Fora do laboratório


aprovamos a punição e freqüentemente a prescrevemos como o
método indicado para controlar os outros. Na maioria das vezes
infligimos privação, desconforto e dor emocional e física severas
uns aos outros, muitas vezes sem qualquer hesitação, mas recua-
mos quando se trata de punir pessoas em situações controladas de
laboratório. Como um modo de vida, coagir os outros para o en-
grandecimento pessoal ou social é a norma. Coagi-los temporaria-
mente em um experimento, em nome de se obter informação e de
Coerção e suas implicações 29

talvez tornar-se capaz de interagir mais efetivamente uns com os


outros, é proibido. A própria natureza do problema impede o uso de
sujeitos humanos nos estudos de laboratório de punição. Portanto,
sujeitos não-humanos predominaram.
Faríamos uma boa ação para a humanidade se nos proibís-
semos de obter o conhecimento que continuamos a derivar do estu-
do científico de nossos parentes não-humanos? Nós, que somos
afortunados o suficiente para nos mantermos livres de desordens
desconfortáveis, incapacitadoras, ou que ameaçam a vida, podería-
mos ter o poder de negar a possibilidade de saúde e até mesmo da
própria vida para aqueles que nasceram com ou adquiriram doen-
ças?
A maioria dos pesquisadores que infligem dor em seus sujei-
tos com o propósito específico de estudar a coerção não está sendo
impensadamente cruel. Eles são indivíduos comprometidos, preo-
cupados com nossa aceitação impensada e mesmo com nossa práti-
ca casual de infligir dor e outras formas de coerção uns aos outros.
Eles baseiam sua experimentação, primeiramente, no que eles per-
cebem como uma necessidade urgente de informação sobre um
grave problema humano e, em segundo lugar, na convicção de que
os não-humanos fornecerão informações que podem ajudar a preve-
nir sofrimento humano adicional. Obviamente, crueldade fria deve
ser condenada e odiada. A pesquisa comportamental sobre coerção
deve colocar na balança, de um lado, os choques e outros descon-
fortos sofridos por um número relativamente reduzido de sujeitos
não-humanos e, de outro, a prevenção potencial de dor intensa que
infligimos uns aos outros e a redução no número de vidas humanas
destroçadas que são um resultado característico do controle coerci-
tivo.
Naturalmente, este mesmo raciocínio é freqüentemente utili-
zado para justificar algumas formas de coerção humana. Por exem-
plo, punimos criminosos para o benefício da sociedade ou jogamos a
bomba atômica sobre o Japão para terminar a guerra mais cedo e
salvar vidas. Terei muito mais a dizer sobre tais práticas. Tornar-se-
á evidente que, além de seus propósitos claramente afirmados, elas
têm resultados indesejáveis que nem sempre são evidentes, mas que
a pesquisa tornou claramente visíveis. Também estes resultados têm
de ser postos na balança quando pesamos os prós e os contras do
controle coercitivo. O mesmo é também verdade para a experimenta-
ção e até mesmo para a prática terapêutica. Devemos considerar
todos os resultados potenciais. Pesquisa com não-humanos tomou
30 Murray Siclman

possível avaliar os resultados de práticas coercitivas aplicadas por e


contra humanos.
Muitos mantêm a opinião de que animais não-humanos
nada podem nos dizer sobra a conduta humana. O que podemos
aprender sobre nós mesmos observando macacos, camundongos,
ratos, pássaros, cães ou gatos? Mais tarde descreverei em maiores
detalhes como descobrimos se nossas observações realmente se apli-
cam mais generalizadamente. Neste ponto, deixe-me apenas dizer
que, diversamente do que possa parecer para alguns, aprendemos
muito sobre nós mesmos observando outros animais em seu hábitat
e em laboratórios. Não podemos aprender tudo desse modo, mas
não-humanos nos ensinaram muito sobre nós mesmos. Este não é
um tema para debate; é um fato. Muitos processos de aprendizagem
são comuns a todos os mamíferos; as regiões mais antigas de nosso
cérebro, do ponto de vista da evolução, estão intimamente envolvi-
das com comportamento emocional; a linguagem complexa, embora
exclusiva dos humanos, tem muitos aspectos não-verbais que obser-
vamos em não-humanos. Mesmo que se prove haver descontinuida-
des na evolução dos processos comportamentais, seria triste que
preconceitos sobre a superioridade e singularidade dos humanos
nos impedissem de reconhecer as continuidades que realmente exis-
tem de uma espécie para a outra.

Nós já sabemos tudo? Freqüentemente ouvimos a opinião de


que estudos experimentais sobre coerção nada nos dizem que já não
saibamos; portanto, não podemos justificar pesquisa de laboratório
sobre punição sequer como um meio de obter conhecimento e com-
preensão. 'Todo mundo sabe que ser punido provoca fuga e esquiva.
Você tem de machucar macacos para saber que dor provoca agres-
são? Nós não precisamos de pesquisa de laboratório para nos dizer o
que já sabemos." Eu desejaria que tudo isto fosse verdade. Se já
compreendêssemos as conseqüências do controle coercitivo, real-
mente seria desnecessário realizar os experimentos. Se realmente
entendêssemos que nossa aceitação geral da coerção como o meio de
controlar outros produz e perpetua a desconfiança, o medo, a agres-
são e a infelicidade geral que caracterizam tantas relações indivi-
duais e sociais, então, embora pudéssemos não abandonar a puni-
ção, nós a usaríamos uns com os outros parcamente. Mais precisa-
mente, seríamos capazes de tornar o mundo muito mais seguro,
menos ameaçador, menos gerador de estresse e um lugar mais pra-
zeroso para viver do que ele é hojç para milhões de pessoas.
Coerção e suas implicações 31

Com a vantagem das condições controladas do laboratório,


fomos capazes de ver claramente como coerção e conduta estão
relacionadas, de modos não imediatamente aparentes, fora do labo-
ratório. É impossível fugir da conclusão de que se os efeitos da
coerção fossem com certeza amplamente compreendidos ela não
mais seria o método preferido para influenciar os outros, não impor-
ta que chamemos essa influência de educação, disciplina, aplicação
da lei, governo, diplomacia, relações humanas ou terapia. Em cada
uma dessas áreas, e em outras também, vemos a nossa volta evidên-
cia esmagadora de que as conseqüências da coerção não são de
modo algum compreendidas.
1

"Este mundo coercitivo

Nós vivemos em um mundo coercitivo, bombardeados por


sinais de perigo e ameaças. O governo avisa: "Obedecer à lei ou ir
para a prisão." As agências mantenedoras da lei prestam atenção em
nós somente quando fazemos algo passível de punição. Em nossas
igrejas ouvimos: "Que o pecado não te moleste para que tua alma
não sofra no fogo do inferno." O proprietário nunca nos agradece
pelo aluguel mas, se deixamos de pagar, nos diz: "Pague ou vá
embora." Quando os pagamentos de hipotecas são negligenciados, o
banco, usualmente tão compreensivo, ameaça chamar a polícia.
Educadores nos dizem: "Economia de palmatória estraga a criança",
e lamentam a sociedade permissiva que lhes proíbe o uso da palma-
tória e da vara. O patrão ordena: "Esteja aqui na hora ou será
despedido." Opções como "coma as verduras ou nada de sobremesa"
ou "diga isto outra vez e eu lavarei sua boca com sabão" ensinam às
crianças o que é bom para elas. Instituições legais, empresariais e
sociais comunicam-se conosco mais freqüentemente advertindo-nos
sobre o que deveríamos fazer... ou então... O significado comum de
"comporte-se" é "faça o que eu quero que você faça". Coação, puni-
ção— ameaça de punição ou de perda ou verbalizações sobre o que
34 Murray Siclman

temos de fazer para fugir de, ou evitar punição ou perda — é a


técnica predominante para nos levar a "comportarmo-nos".
Algumas vezes as pessoas nos dizem o que elas farão conos-
co se não agirmos como elas querem. Quando aquele que ameaça é
também aquele que deverá aplicar a punição, a coercitividade é
bastante clara. Em outras ocasiões, as pessoas nos avisam das
horríveis conseqüências que virão de alguém mais, talvez mesmo de
uma natureza impessoal; esses avisos, embora tecnicamente coerci-
tivos, são apenas bons conselhos. Quando lembramos a alguém
para levar o guarda-chuva para que evite molhar-se, não temos que
ficar preocupados se estamos coagindo tal pessoa. Mas, mesmo esse
aviso benevolente ilustra de uma maneira simples nossa aceitação
da coerção. Embora possamos não nos preocupar com esse exemplo
leve e sem importância, vale a pena notar que poderíamos chegar ao
mesmo resultado — fazer alguém levar o guarda-chuva — lembran-
do-lhe não que ele evitaria molhar-se, mas que ele poderia ficar
seco.
Em outro extremo, um amigo nos empurra violentamente
para impedir que um objeto que está caindo bata em nossa cabeça.
O empurrão, embora tecnicamente uma forma de coerção, é na
verdade um tipo de "bom conselho" físico, algo com o que aprende-
mos a lidar sem sofrer com os efeitos colaterais indesejáveis com os
quais estarei preocupado durante todo este livro.
Entre esses extremos, temos exemplos como o do médico que
avisa "pare de fumar ou morrerá de câncer" e o dos amigos e paren-
tes cuidadosos ecoando a ameaça. É razoável acusar um médico de
coerção quando ele nos diz dos perigos de continuar fumando? Es-
tou preocupado, neste caso, porque a ameaça poderia ter tomado
uma forma positiva em vez de negativa. Ao contrário de simplesmen-
te nos alertar com relação às lamentáveis conseqüências de fumar, o
médico poderia ter tentado levar nossa família e amigos a serem
especialmente agradáveis conosco quando fizéssemos algo incompa-
tível còm fumar.
É mais provável atingir o objetivo desejado ensinando a um
paciente o que fazer do que alertando-o sobre o que não fazer.
Médiéós que simplesmente alertam um paciente sobre a morte imi-
nente a menos que ele pare de fumar, mais provavelmente descobri-
rão que o paciente continua fumando, mas deixa de vir até o consul-
tório para ser aconselhado. Como mostrarei mais tarde, se puder-
mos, reagimos à coerção evitando ou fugindo daqueles que nos coa-
gem. A esquiva do paciente em relação ao médico mostra que o
conselho, apesar de suas boas intenções, funcionou como ameaça.
Coerção e suas implicações 35

Este livro fala também sobre o predomínio da coerção em


nossas vidas, descreve os efeitos colaterais desastrosos da coerção e,
até mesmo, alerta sobre a catástrofe, se fracassarmos na eliminação
ou redução de nossas práticas coercitivas; o livro em si mesmo
poderia ser considerado, tecnicamente, um exemplo de coerção. En-
tretanto, ele não é apenas ameaça. Ele também fornece princípios
norteadores — em alguns casos, cursos específicos de ação — que
nos permitiriam aplicar técnicas não-coercitivas em vez de recorrer
às "soluções" de coerção quando quiséssemos ou tivéssemos de in-
fluenciar os outros. Porque muito freqüentemente coagimos uns aos
outros, muitos de nós consideramos a punição como ponto pacífico;
não reconhecemos o imenso papel que ela desempenha em nossas
interações. Realmente, a coerção tem seus inícios em nossas intera-
ções com o ambiente físico.

0 ambiente hostil

A própria natureza dá o exemplo. O ambiente físico constan-


temente ameaça nos esmagar com frio, calor, chuva, neve, enchente,
terremoto e fogo. Ele nos diz: "se você não quer congelar, construa
um abrigo"; "construa represas, ou enchentes levarão de roldão suas
casas"; "escassez está chegando, armazene alimentos." Observar os
céus e escutar as previsões de tempo tornaram-se quase uma se-
gunda natureza. Estamos sempre lutando com o ambiente.
A natureza, é claro, nunca nos diz o que temos de fazer se
quisermos evitar desconforto e catástrofe. Logicamente, não pode-
mos atribuir intenções à natureza; sendo impessoal, ela não pode
realmente nos levar a construir represas e a armazenar colheitas. E,
ainda assim, a experiência nos diz que as forças da natureza desa-
barão sobre nós se não tomarmos precauções. Nossa conduta segue
leis gerais que são independentes do caráter pessoal ou impessoal
daquele e da intenção ou falta de intenção daquele que coage. Reagi-
mos a sinais de alerta do ambiente inanimado exatamente como
fazemos com relação à coerção imposta por nossos companheiros;
tendemos também a personificar a natureza, ainda que apenas em
nossa linguagem.
Diante do poder esmagador da natureza, aprendemos a apre-
ciar suas dádivas — os recursos que ela torna disponíveis ao enge-
nho e ao dinamismo e sua beleza estonteante. Mas, ela cobra seu
preço por todas as coisas, ameaçando tomar com uma mão o que
deu com a outra. Escassez sempre segue a fartura.
36 Murray Siclman

Também parecemos incapazes de lidar com muitas das ma-


ravilhas naturais que nossa inteligência descobriu. A energia nu-
clear promete compensar o iminente esgotamento das reservas de
carvão, óleo e gasolina, mas seus resíduos mortais já estão envene-
nando o solo, a água e a atmosfera de nosso planeta. O estoque de
armas nucleares, proposto para prevenir a guerra, requer somente a
ordem de um louco para garantir a fusão final. A hibridização de
plantas tornou possível produzir suficiente trigo, milho e arroz para
alimentar o mundo, mas a redução da diversidade genética deixa
essas fontes críticas de alimentos vulneráveis à completa destruição
em uma única catástrofe rápida.
Também nosso ambiente interno nos ameaça com desconfor-
tos físicos que podem terminar em doença e morte. Os prazeres que
obtemos do álcool e de outras drogas nos tornam dependentes biolo-
gicamente, reduzindo nossa habilidade para nos adaptarmos às rea-
lidades da natureza. Este imperativo biológico, a reprodução sexual,
ameaça produzir superpopulação na Terra, criando pobreza, priva-
ções e tensões sociais que se expressam na guerra.
A medida que envelhecemos, ameaças vindas de nosso inte-
rior se intensificam. Nós nos defendemos contra a coerção de nosso
próprio corpo, sustentando uma imensa e dispendiosa instituição
médica, ao mesmo tempo que nos tornamos vulneráveis à fria mise-
ricórdia de uma indústria de seguros avarenta. A legislação de im-
postos dá abonos de depreciação para a maquinaria, mas não para
corpos humanos.
Porque um grande segmento da sociedade tem sido bem-su-
cedido em superar os estresses externos e internos que o ambiente
natural impõe, muitos de nós perdemos de vista a extensão na qual
a natureza modela coercitivamente nossa conduta. Pagamos espe-
cialistas para agirem como pára-choques entre nós e a natureza;
quanto esforço foi necessário para obter o dinheiro que pagamos a
eles? Qüanto de nosso rendimento é gasto para alugar ou comprar o
telhado sobre nossas cabeças que nos permite ignorar tempestades
e temperaturas desconfortáveis? Quão grande é a parte de nosso
tempo é trabalho que é gasta em reparar goteiras neste telhado, ou
em conservar, embelezar e aumentar a eficiência da estrutura? O
custo crescente do combustível que nos permite evitar temperaturas
que ameaçam a vida é um lembrete de nossa vulnerabilidade à
coerção ambiental e origina medo, mesmo entre os que estão bem de
vida; de que os nossos rendimentos e economias não serão suficien-
tes para garantir proteção futura. O custo da moderna tecnologia
Coerção e suas implicações 37

médica está forçando difíceis decisões sobre quem deve sobreviver e


quem se deve deixar morrer.
Quanto de nosso tempo e trabalho é gasto com vestuário que
nos mantenha confortáveis e secos, não importa quão inclemente
seja o tempo? A manufatura e manutenção de vestuário, que já foi a
principal ocupação da população feminina do mundo, persiste como
um importante segmento da indústria e conserva alto status como
atividade de lazer mesmo entre os afluentes.
Neste país, uns poucos agricultores produzem alimentos
para todos. Outros especialistas dedicam-se à preparação de alimen-
tos e muitas pessoas dependem hoje, para seu sustento, de restau-
rantes, de alimentos pré-cozidos e de refeições prontas. Aumentos
inacreditáveis na produtividade agrícola e eficiência de distribuição,
acompanhados de níveis de rendimento pessoal anteriormente não
sonhados têm tornado possível para a maioria daqueles que vivem
em países economicamente desenvolvidos esquecer a ameaça de pri-
vação excessiva. Entretanto, aumentos de custo, em anos recentes,
têm levado muitos a retornarem ao lazer da jardinagem e da cozi-
nha. O esgotamento do solo e das reservas de água natural a serviço
do aumento da produção de alimentos e a poluição dessas fontes a
serviço da produção de energia aguçaram nossa consciência sobre
as possibilidades de fome extrema em massa.
Companhias farmacêuticas afirmam estar preparadas para
conter esta ameaça, mas seus alimentos artificiais, pípulas de vita-
mina e cápsulas de energia originam novos temores sobre adaptação
biológica e sobre a própria qualidade de vida. A economia de nosso
corpo requer mais do que simples calorias e químicas e, além disso,
quem anseia por refeições que vêm em tubos, comprimidos, em pó e
em cápsulas? E assim, algumas das respostas para a coerção da
natureza parecem por sua vez ter gerado novos tipos de ameaças.
Mesmo se considerarmos apenas abrigo, vestimenta e ali-
mentação, a natureza tem cobrado altos tributos como preço pela
segurança e esquecimento. Embora cada indivíduo possa desempe-
nhar somente um pequeno papel em neutralizar diretamente a coer-
ção da natureza, como ficaria nossa sociedade se as indústrias de
construção, de vestuário e de alimentos fechassem? Moradia, ves-
tuário, agricultura e agropecuária — o brusco desaparecimento des-
tas indústrias e de indústrias associadas e interdependentes, de
redes de distribuição e de empresas comerciais imediatamente expo-
ria nossa vulnerabilidade individual. Como aqueles que vivem em
partes do mundo onde extremos de frio ou calor força-os a uma luta
precária pela existência, todos nós gastaríamos aproximadamente
38 Murray Siclman

todo nosso tempo neutralizando pressões ambientais. A qualidade


ilusória de nossa atual liberdade em relação à coerção da natureza
tornar-se-ia imediatamente evidente. Muitos de nós não sobrevive-
riam.
Porque temos sido suficientemente capazes de relaxar nossa
vigilância, passamos a considerar como gastos bem-justificados o
enorme comprometimento de tempo, esforço e recursos que a socie-
dade devota à superação de formas sempre presentes e normais de
coerção ambiental. Não temos lidado de maneira tão bem-sucedida
com catástrofes naturais, seja porque sua magnitude é avassaladora
ou porque sua intermitência e imprevisibilidade impedem qualquer
sistema prático de controle. Desastres imensos como terremotos,
furacões, incêndios florestais, tornados, enchentes ou erupções vul-
cânicas ocasionalmente relembram-nos nossa vulnerabilidade, mas
tendemos a considerar estas coisas como exceções a nossa prepon-
derante liberdade em relação às pressões ambientais. De fato, eles
são somente casos extremos de ameaças que estão sempre presen-
tes, contra as quais estamos sempre pagando resgate com nossas
reservas de recursos físicos, sociais e biológicos.
Mas aqui, em vez de lutar contra a hostilidade da natureza,
aceitamos isto com uma racionalização filosófica: "Assim é a vida."
Nem mesmo esperamos que companhias de seguro providenciem
reembolso financeiro quando tempestades, enchentes, furacões ou
terremotos deixam-nos desabrigados; desastres naturais são "atos
de Deus". Simplesmente aceitando a inevitabilidade da catástrofe,
nós nos cegamos para seu caráter coercitivo.
Mesmo o simbolismo religioso reflete coerção ambiental. Aos
deuses dos elementos e dos fenômenos naturais — fogo, oceanos,
trovão, fertilidade, estações do ano, ventos — era atribuído tanto
status quanto às divindades que se presumia dirigir e julgar os
valores e práticas sociais humanas — os deuses do amor, da justiça,
da música, do drama e do conhecimento. De acordo com as mais
modernas interpretações da vontade de Deus, Sua ira atinge a hu-
manidade na forma de raios, penúrias, enchentes, erupções vulcâni-
cas, pragas, epidemias e, mais recentemente, Aids.
A coerção ambiental se alojou em nossa linguagem por meio
dos modos com os quais descrevemos e explicamos nossa própria
conduta: alguns de nós estão muito famintos por afeição, sedentos
de conhecimentos, ardentes de paixão ou são friamente lógicos; nós
temos personalidades arejadas, calorosas, tempestuosas ou mesmo
uuicânicas; os jovens que estão a ponto de subir na carreira são
aconselhados a não fazer onda; corredores correm como o vento;
Coerção esuasimplicações 39

pais irados fii/minamseus filhos; idéias iluminamnossas cabeças; a má sorte des


sobre nós; asnuvens da guerra se formam; oradores empolgados dizem palavras
incendiárias, finanças estão estourando, nossas forças armadas atacam como mi
multidões explodem em violência.
Alertas de desprazer iminente, ou tempo catastrófico e outros desastres
naturais permitem-nos preparar defesas e desviar ou reduzir sua severidade; honramos
e recompensamos regiamente os profetas. A indústria da televisão, que cobra milhares
de dólares por segundo e considera o tamanho da audiência como árbitro supremo
de sucesso ou fracasso, dedica milhares de segundos por ano para previsões de
tempo. Ela nos fascina com mecanismos meteorológicos e técnicas de vídeo
maravilhosas e fabulosamente caras. A decisão de despender tal esforço, custo e
engenhosidade para relatar o tempo e, ao mesmo tempo, negligenciar a qualidade
e quantidade de programação em educação, ciências, política, dramaturgia e música
reflete prioridades da comunidade. A despeito de nossa esperança de supremacia,
permanecemos subservientes à natureza mesmo durante nosso lazer.

A comunidade hostil

Talvez a coerção física presente seja responsável também pela


aceitação geral da coerção social como um fato da vida. Tenho visto a
punição defendida como uma técnica de ensino para os incapazes
desenvolvimentalmente com o argumento de que qualquer método que não
envolva punição vai contra o princípio de normalização. "Normalização"
refere-se à noção, comumente bastante razoável, de que deveríamos trazer
de volta os deficientes para o convívio normal em vez de segregá-los. O
proponente da punição, neste caso, argumenta que a sala de aula sem punição
é um ambiente anormal, ao qual ninguém deveria ser exposto. Esta distorção
de Uma noção basicamente decente vem, creio, de uma adaptação não-
percebida ao modelo coercitivo que a própria natureza nos fornece.
Na verdade, coerção social é aceita como natural. Habitantes das
grandes cidades do mundo tomam como certo que devem trancar suas portas,
colocar seus pertences no seguro, carregar uma carteira extra com algumas
poucas notas à mão, para quando se defrontarem com uma faca ou um
revólver, e trancar as portas de seus carros mesmo quando dirigindo, para
que um intruso não pule dentro do carro quando pararem em um sinal.
Nenhuma mulher e somente alguns homens incautos caminham depois que escurece n
40 Murray Siclman

famoso berço da liberdade, o 'Common Boston'; assalto, estupro e


roubo são inevitáveis ali e a polícia reage apenas com desprezo pelo
descuido ignorante das vítimas. Em escala cada vez maior, o terro-
rismo tem se tornado uma expressão-padrão do descontentamento
econômico, religioso ou político em muitas partes do mundo.
Mas não apenas o infrator pratica coerção social. Punimos
crianças e criminosos na esperança de impedir repetições de condu-
tas inaceitáveis. Nosso código legal é na sua maior parte um catálo-
go de penalidades para todo tipo de infração civil e criminal; ele
define conduta desejável principalmente de forma que possamos
reconhecer e punir desvios. Ameaçamos com a guerra para impedir
que outras nações se apropriem de nossas posses e corrompam
nossos valores; a força superior é a base da moderna "diplomacia".
Burlando nós mesmos a lei, negamos emprego, escola e mesmo
hospitalização para pessoas que sofrem de doenças que poderiam
ter ocorrido por meio de comportamento sexual fora de padrão.
Trabalhadores entram em greve para forçar concessões de seus em-
pregadores e companhias ameaçam de falência de forma a anular
acordos previamente negociados. Construtores não hesitam em for-
çar seus inquilinos a saírem de apartamentos que deverão ser trans-
formados em condomínios; a relação proprietário-inquilino transfor-
mou-se em antagonismo.
Nosso sistema de "livre empresa", supostamente baseado em
princípios de oferta e procura, é mais livre para os fornecedores do
que para os consumidores. Em seu próprio interesse, os fornecedo-
res, cujas recompensas são limitadas apenas por sua inteligência,
energia, recursos e desumanidade, sujeitam o resto da sociedade à
coerção. Por sua vez, os consumidores, limitados pela severidade de
suas necessidades, tentam coagir os fornecedores, por meio da regu-
lamentação governamental, a restringir sua busca de riqueza. Nos
anos recentes, este contracontrole tem se tornado cada vez menos
efetivo. Nossa tendência cada vez mais predominante para deixar
que o irrestrito auto-interesse do mercado determine preços, salá-
rios, lucros, taxas de juros, o tamanho e o escopo das corporações e
a conservação de recursos é algumas vezes chamada de darwinismo
àocíal um reconhecimento direto de coerção econômica, análoga à
coerção ambiental que dá origem à "sobrevivência biológica do mais
apto".
Embora pessoas influenciem umas às outras de muitas ma-
neiras, elas recorrem mais rapidamente a meios coercitivos para
produzir resultados do que a outros meios. A imprensa está repleta
de relatos de assassinato e destruição. Dificilmente passa-se um dia
Coerção e suasimplicações 41

sem um registro de violência contra a criança por parte dos pais ou violência
contra os pais por parte de filhos. Temos a expectativa de ser alertados,
intimidados, ameaçados, empurrados e talvez espancados até mesmo por
aqueles que nos empregam, ensinam, protegem, governam ou amam. Ameaças
de punição, privação ou perda são práticas-padrão nos locais de trabalho e
salas de aula, estabelecem uma relação de dominação unidirecional entre
polícia e cidadão, fornecem as bases para atingir objetivos políticos e até mesmo
dão colorido para as interações mais íntimas dentro das famílias.
Em nosso trabalho, estamos acostumados a ser repreendidos por
trabalho malfeito e ignorados por trabalho bem-feito. Nós nos resignamos a
contribuições forçadas para instituições de caridade e mesmo para indivíduos
dos quais não cuidamos. A despeito das leis sobre campanhas eleitorais,
servidores municipais e estatuais estão bastante conscientes das conseqüências
em jogo por não contribuir para campanhas políticas. E segurança no trabalho
é sempre um problema na disputa trabalho-gerência.
Para muitos estudantes notas altas funcionam como recompensas
principalmente porque elas significam a esquiva de notas baixas. Milhões de
alunos fugiriam da escola imediatamente se a lei permitisse; mesmo na
faculdade, com estudantes pagando altas anuidades, professores que não exigem
presença esperam somente que uma fração dos estudantes matriculados
realmente compareça às aulas. Desde a escola primária e durante todo o
caminho, passando pelo colegial, professores preocupam-se mais com técnicas
coercitivas para manter a disciplina do que com métodos efetivos de instrução.
Punimos crimes mas apenas toleramos a legalidade. Supõe-se que a
virtude é sua própria recompensa, mas dentro do código legal, a virtude ser
sua própria recompensa significa simplesmente que ela nos mantém fora da
prisão. E nossa polícia, para a qual deixamos nossa segurança e proteção, é
ensinada a realizar sua tarefa por meio de intimidação, força e punição; ela
passòu a representar um poder a ser temido, uma instituição anteriormente
benevolente que agora demanda subserviência.
Com cínico divertimento, observamos nossos legisladores enquanto se
atacam uns aos outros, em revanche por rebelião contra a liderança ou votos
discordantes. Nos escalões mais altos do governo, indivíduos procuram con-
, solidar seu poder ou prestígio desacreditando rivais, mesmo ao custo de com-
prometer questões de princípio e segurança nacional.
42 Murray Siclman

Nas famílias, a questão de "quem é o chefe" freqüentemen-


te tem que ser decidida antes que atos de doação possam tornar-
se possíveis; intimidação e submissão são freqüentemente os pré-
requisitos para a interação sexual. Coerção familiar começa cedo.
Assim que os bebês começam a mover-se por conta própria, a "me-
xer" nas coisas, adultos recorrem à restrição e punição para estabe-
lecer limites. Não é difícil encontrar pais que raramente falam com
suas crianças exceto para admoestar, corrigir ou criticar. Mesmo
quando bebês, somos expostos ao modelo coercitivo; aprendemos
rapidamente que a coerção é o modo-padrão para fazer com que os
outros façam o que queremos. Isso não acontece porque somos
cruéis ou maus por natureza ou porque queremos inculcar essas
qualidades em nossos filhos, mas porque não conhecemos alternati-
vas efetivas. A natureza raramente fornece outro modelo para que
imitemos.
A vida social de adolescentes entre seus amigos continua e
intensifica o modelo coercitivo. O primeiro cigarro produz tontura; a
primeira bebida alcoólica tem um gosto horrível; o primeiro cigarro
de maconha é desapontadoramente insípido; o primeiro ato sexual é
com freqüência desajeitado e algumas vezes humilhante. No entan-
to, a ameaça de expulsão daqueles que não seguem o grupo é sufi-
ciente para empurrar o iniciante a superar essas barreiras iniciais.
Como a coerção ambiental, a coerção social é tão predomi-
nante que consideramos difícil imaginar a vida sem ela. Liberdade,
um de nossos valores mais prezados, não tem qualidades próprias;
assim como não deveríamos ter necessidade do conceito de plenitu-
de não fosse por nossa experiência de privação, é a ausência de
coerção que dá significado à liberdade. Se todos fôssemos supridos
com as necessidades básicas da vida, o conceito de liberdade da
necessidade jamais teria surgido; liberdade de expressão e liberdade
de imprensa nunca teriam aberto caminho em nosso vocabulário
não fosse pela existência ou ameaça de censura; o princípio de
liberdade dos mares jamais teria sido enunciado não fosse a pirata-
ria e a guerra; a noção de livre empresa é uma reação ao controle
governamental; quando Franklin D. Roosevelt anunciou como uma
meta nacional a obtenção da liberdade do medo, ele tocou em um
desejo universal que se origina de nossa constante exposição a
ameaças sociais e ambientais de todos os tipos.
B. F. Skinner adiantou a tese de que o conceito de liberdade
seria desnecessário, e até mesmo sem significado, se nossa socieda-
de pudesse eliminar as condições pelas quais estávamos sempre
buscando pela liberdade. Se nunca tivéssemos escravizado uns aos
Coerção e suas implicações 43

outros, o ideal de liberdade da servidão não teria sido necessário.


Mais genericamente, se não tentássemos controlar uns aos outros
por ameaças de punição, privação, restrição e perda, todos teríamos
sido livres sem que jamais o conceito de liberdade tivesse surgido.
Liberdade seria então um fato da vida, mas o termo, nas suas
conotações atuais, jamais teria sequer adentrado nossa linguagem.
A noção de que poderíamos, possivelmente, existir sem coa
gir uns aos outros foi tão incompreensível que muitos leitores, de
outros pontos de vista sensíveis, denunciaram Skinner porque acre-
ditaram que ele estava atacando o próprio ideal de liberdade. Na
realidade, ele estava defendendo a eliminação daqueles "fatos da
vida" dos quais todos nós desejamos nos libertar — em particular,
das técnicas coercitivas que usamos para controlar a conduta uns
dos outros.
Controle coercitivo permeia nossas vidas. Porque muitos de
nós subestimamos seu predomínio, é importante destacar que aque-
les que advogam e usam coerção com propósitos terapêuticos —
algumas vezes chamada de "terapia aversiva" — estão agindo de
acordo com normas sociais e costumes bem-estabelecidos e aceitos.
Creio que eles estão errados, mas eles não são as criaturas demonía-
cas e sem sentimentos, que alguns de seus críticos mais virtuosos
pintam.
Entretanto, colocar os praticantes de terapia aversiva no
contexto de uma sociedade na qual controle coercitivo é uma política
estabelecida é destacar que, como cientistas, eles não estão fazendo
descobertas, como terapeutas, eles não estão fazendo nada que re-
queira treino ou competência especiais. Chefes de estado, líderes
militares, membros do poder judiciário e proeminentes membros da
instituição educacional, por exemplo, desde há muito, nos ensina-
ram tudo o que jamais precisaríamos saber sobre como controlar os
outros coercitivamente. Os terapeutas aversivos de hoje, dizendo e
fazendo aquilo que sempre foi dito e feito não estão contribuindo
com nada de novo. Mas, nesse caso, não contribuir é errado; é
errado porque sua ciência tornou possível fazer melhor.
2

9{em todo controk é coerção

Interações coercitivas ameaçam nosso bem-estar e mesmo


nossa sobrevivência como espécie. Para olharmos objetivamente para
o controle coercitivo, com o objetivo de fazer algo a seu respeito,
teremos que desembaraçã-lo do tema controle comportamental, mais
geral e freqüentemente emocional. A noção de controle comportamen-
tal faz com que muitos tremam e, para alguns, é impensável. Ainda
assim, temos uma ciência que reivindica que seu objeto de estudo é a
análise do controle comportamental. Aqui é importante olhar para as
árvores e não apenas para a floresta como um todo. A floresta é
controle.comportamental e um tipo de árvore, dentro dessa floresta, é
controle coercitivo. A árvore da coerção, gerando um fruto amargo e
uma profusão de sementes, ameaça destruir a floresta, deixando
aqueles de nós que nela vivem sem recursos não-coercitivos.

Controle comportamental
Aqueles mesmos críticos que condenaram B. F. Skinner por
querer acabar com o controle coercitivo — que ao produzir fuga
origina , o conceito de liberdade — também condenaram a ciência do
comportamento, que havia revelado claramente que a coerção é indese-
Coerção e suas implicações 45

jável e desnecessária e que havia demonstrado o poder de técnicas


alternativas. Hoje se sabe o suficiente sobre os usos e conseqüências
da coerção — um saber que pode servir como um guia para a
conduta pessoal e políticas públicas. E, ainda assim, o controle
comportamental e a análise do comportamento receberam uma pu-
blicidade ruim, na mídia popular e no mundo mais restrito da Aca-
demia. Por quê?
A publicidade ruim é um produto direto da predominância
do controle coercitivo em nossa sociedade. Porque a coerção é tão
generalizada, a maioria das pessoas considera "controle" e "coerção"
como tendo o mesmo significado. Por essa razão, o conceito de
controle comportamental amedronta as pessoas. Ignorando-o, ou se
opondo a ele, alguns esperam fazê-lo desaparecer.
E porque qualquer ciência do comportamento deve conside-
rar controle comportamental como um dado, muitos vêem a análise
do comportamento como a ciência da coerção. Quando, como nas
controvérsias atuais sobre "terapia aversiva", alguns poucos profis-
sionais defendem a posição de que a punição é uma técnica terapêu-
tica padrão e, portanto, não deveria ser regulamentada, a percepção
do público é validada. A própria intensidade do debate convence o
público em geral de que punição é tudo que há em análise do
comportamento. Muitos psicólogos, porque seu treinamento profis-
sional não os informou como deveria, juntam-se ao público em sua
condenação da análise do comportamento.
Mas, pode-se acabar com controle comportamental? E con-
trole comportamental é o mesmo que coerção? As pessoas que não
estão familiarizadas com a ciência vêem a existência do controle
comportamental não como um problema de fato, mas de opinião,
algo com o que pode-se concordar ou discordar, defender ou opor-
se. Analistas do comportamento vêem controle como um fato da
natureza, a ser investigado e descrito, mas o público vê os analistas
do comportamento como defensores do controle e, portanto, da
coerção.
Seguindo este raciocínio, eles perguntam: "E por que alguém
defenderia o controle da conduta a menos que quisesse ele mesmo
exercer o controle?" Ou, de modo um pouco mais generoso: "Se os
próprios analistas do comportamento não querem controlar o resto
de nós, eles fornecerão justificativa para que outros o façam." E
assim eles igualam os behavioristas aos controladores de Admirável
mundo novo, Laranja mecânica e 1984.
Entretanto, os fatos sobre o controle não vieram de algum
romance ou filme. Admirável mundo novo não inventou o controle,
46 Murray Siclman

nem o fizeram Lararga mecânica, 1984 ou a análise do comporta-


mento. O controle da conduta pelo ambiente físico e social é uma
característica do mundo, exatamente como o controle de objetos físi-
cos, reações químicas ou processos fisiológicos. Somos feitos assim.
Movimentos de objetos no espaço são controlados e a astro-
nomia e a física se devotam a estudar as leis que descrevem tal
controle; onde estará qualquer planeta em qualquer momento dado
é predizível. A combinação e separação de substâncias físicas são
controladas e as leis de tais reações permitem aos químicos saber
exatamente o que esperar quando misturam substâncias. Leis bioló-
gicas e fisiológicas descrevem como nossos processos corporais são
controlados: exercício, por exemplo, tem efeitos predizíveis sobre bati-
mentos cardíacos. A conduta dos seres vivos também é controlada, e
a análise do comportamento considera como sua tarefa a descoberta
e o esclarecimento da legalidade que é subjacente a tal controle.
Portanto, controle comportamental não é uma questão de
filosofia ou de sistemas pessoais de valor a serem aceitos ou rejeita-
dos de acordo com nossa preferência. É uma questão de fato. Não
faz sentido, portanto, rejeitar ou defender o controle comportamen-
tal. Pelo contrário, as leis do controle exigem investigação. A noção
pode nos desagradar e mesmo amedrontar, mas as leis do comporta-
mento são uma característica do mundo em que vivemos; não pode-
mos repeli-las.
Por que tantos parecem tão ansiosos para fazer exatamente
isto — repelir as leis do comportamento? É aí que a coerção volta em
cena. Aqueles que acham que o argumento filosófico pode fazer o
controle desaparecer juntam forças com muitos que reconhecem a
realidade do controle comportamental; considerando todo controle
como coerção, eles se unem pelo medo. Estamos acostumados a ser
coagidos, forçados a fazer coisas que não estamos desejosos de fa-
zer, obrigados a fazê-las em momentos mais convenientes para o
esquema de alguma outra pessoa e compelidos a agir contra nossas
próprias inclinações, de maneiras que consideramos não-naturais,
difíceis ou mesmo desagradáveis. A natureza nos coage, o governo
nos coage, professores nos coagem, amigos e famílias nos coagem.
Estamos sempre à espreita em busca de maneiras de alcançar a
liberdade da coerção e estamos perpetuamente em guarda para pro-
teger aquelas garantias que nossas leis, costumes sociais e estilos de
vida pessoais já conquistaram.
Portanto, tememos o controle. Dada a natureza coercitiva do
controle a que muitos de nós nos acostumamos, este medo deve ser
respeitado. E quando analistas do comportamento, cientistas que
Coerção e suas implicações 47

investigam o controle da conduta, anunciam: "Controle comporta-


mental é um fato da vida", não deveriam ficar surpresos quando as
pessoas reagem a eles como se fossem os arautos dos tempos ruins;
mesmo tapando nossos ouvidos às más notícias, tratamos seus
arautos como se eles as tivessem causado.
Controle existiria mesmo que não houvesse analistas do
comportamento para nos contar a seu respeito. Faz sentido desco-
brir tanto quanto possamos, em vez de ignorá-lo. Justificadamente
tememos o controle comportamental. A validade da questão "Quem
exerce ou deve exercer o controle?" é independente de nossa orienta-
ção filosófica ou científica. Devemos respondê-la de novo e de novo.
A única certeza é que a resposta não pode ser "Ninguém". O controle
está sempre aí, não reconhecê-lo é esconder-se da realidade.
E ainda assim, o controle não precisa ser coercitivo. Se con-
trole e coerção fossem a mesma coisa teríamos que classificar como
coercitivos todos os professores, vendedores, sedutores, secretários,
atores, comediantes e oradores. Todos eles tentam controlar o que
os outros fazem.
Embora não possamos evitar o controle, ele pode assumir
muitas formas, algumas coercitivas, outras não. Coerção é uma
subcategoria do controle. Como veremos, podemos definir objetiva-
mente coerção, identificã-la em situações práticas e fazer algo a
este respeito.
Se ignorarmos a realidade, o controle comportamental sim-
plesmente acontecerá; os controladores exercerão o controle à sua
maneira. Não poderemos opinar sobre se este controle deve ser coer-
citivo. O medo do controle é realista; mas mantermo-nos na ignorân-
cia apenas garantirá que o que tememos passará. Se reconhecermos
a existência do controle comportamental e o estudarmos, podemos
fazê-lo trabalhar em nosso benefício. Quando métodos de controle
existentes forem coercitivos, descobriremos que freqüentemente po-
demos substituí-los por métodos não-coercitivos. Naturalmente, é aí,
na realidade, que a ciência da análise do comportamento entra em
cena.
Os mistérios da natureza são profundos, justificando apenas
humildes reivindicações de progresso, mesmo das ciências mais
avançadas. Comportamento, também, tem muitos mistérios; reivin-
dicar demasiado conhecimento é apenas convidar para um ceticismo
justificado. No entanto, muito é sabido e, neste momento, é mais
importante dizer o que se sabe do que simplesmente maravilhar-se
diante dos mistérios ainda por resolver. O que, exatamente, os ana-
listas do comportamento vêem?
48 Murray Siclman

Comportamento. O que estamos chamando de "comporta-


mento"? Quando falamos sobre comportamento nos referimos a coi-
sas que fazemos: andar, correr, agarrar, cavalgar, dirigir um carro,
relaxar, falar, cantar, escrever, ler, somar, sentar, cozinhar, comer,
ensinar, estudar, entrevistar um candidato a emprego, programar
um computador, vender carros, tratar um doente, comprar alimen-
tos, lavar roupa, lutar, fazer amor, tocar piano, entreter uma au-
diência, esculpir, compor um poema ou uma canção, ouvir música,
ver televisão, ir dormir, levantar, fazer uma lista de presentes de
Natal, pagar o aluguel, tomar remédio, escovar os dentes, relatar
uma dor de dente, fazer um regime, exercitar-se. Todas estas ações
são públicas; outras pessoas podem vê-las, medi-las e descrevê-las.
Uma parte do comportamento é privado, não diretamente acessível a
outros: pensar, falar para si mesmo, prestar atenção, sentir-se triste
ou alegre, preocupar-se, divertir-se, imaginar. Comportamentos pri-
vados colocam problemas especiais de medida e descrição, mas ain-
da permanecem dentro do campo da análise do comportamento.
Nosso nível de interesse em qualquer comportamento parti-
cular usualmente depende de sua importância corrente em nossas
vidas. Pais prestarão atenção ao e se preocuparão com o comporta-
mento em desenvolvimento de seus filhos; pessoas obesas, informa-
das de que também são diabéticas, quererão saber mais sobre o que
as faz comer; compositores e críticos de música freqüentemente es-
peculam de onde vem a criatividade. Outros tipos de comportamento
podem parecer triviais, tão automáticos que raramente adentram
nossa consciência: respirar, andar, pegar algo, até mesmo falar ou
escrever. Mas, quando ocorre um acidente ou uma doença, como
quando um derrame nos impede ou a uma pessoa querida de movi-
mentar-se ou falar, percebemos a extensão na qual somos o que
fazemos. Pessoas que perdem sua habilidade de andar percebem
repentinamente que não mais se espera que contribuam para a
sociedade; pessoas cuja musculatura vocal tornou-se paralisada
descobrem-se sendo tratadas como se não tivessem inteligência. O
mundo não reage a nossos pensamentos e sentimentos, mas àquilo
que rios vê e ouve fazendo.
Muitos cientistas limitam sua atenção a atividades de impor-
tância social, política, médica ou econômica. Em adição a categorias
acadêmicas tradicionais como desenvolvimento infantil, aprendizagem,
personalidade ou linguagem, você pode encontrar livros sobre a "psico-
logia" do esporte, da música, da arte, do mercado de ações, gerencia-
mento pessoal, regime e programação de computador. Entretanto, a
ciência da análise do comportamento é neutra em relação à importân-
cia de qualquer comportamento particular. Idealmente, ela busca leis
Coerção e suas implicações 49

que se apliquem a toda a conduta, embora na prática ela usualmen-


te tenha de especificar limites. No entanto, em muitos casos a ciên-
cia atingiu generalidade significativa. Os princípios mais fundamen-
tais se aplicam a formas muito distintas de conduta e, em grande
medida, a todas as espécies de mamíferos. Eles são independentes
de personalidade, grupo social, background educacional, status eco-
nômico, ocupação, localização geográfica e, dentro de amplos limites,
até mesmo de capacidade intelectual e idade cronológica.
Se a importância cotidiana do comportamento não é seu
aspecto científico mais relevante e se os analistas de comportamento
consideram as distinções acadêmicas usuais artificiais, o que eles
estudam? Todas as ciências se defrontaram com o problema de
definir seu objeto de estudo. Na química, que aspecto de uma subs-
tância é mais fundamental, cor ou peso? A física sé prèocupa mais
com o tamanho absoluto dos objetos ou com sua massa? A análise
do comportamento poderia ter dirigido sua atenção para a importân-
cia pessoal ou social do comportamento, poderia ter-se ocupado em
medir a força, duração ou intensidade de atos, poderia ter conside-
rado como seu dado crítico as afirmações que as pessoas fazem
sobre si mesmas, como em entrevistas e questionários. Em vez de
qualquer dessas alternativas, a análise do comportamento considera
como fundamental a probabilidade de que uma ação ocorrerá. Mede
quão freqüentemente um indivíduo faz alguma coisa — a freqüência
de seu comportamento. A análise do comportamento tenta descobrir
o que torna os nossos comportamentos tão freqüentes ou tão raros.
Muito da linguagem comum sobre a conduta se refere a
freqüências. Chamamos alguns alunos de "falantes", o que observa-
mos é que eles falam bastante. Alguns alunos são "diligentes", ve-
mos que eles estudam muito. Outros alunos são "céticos", eles fre-
qüentemente questionam o professor. Chamamos as pessoas de "fe-
lizes" se elas sorriem e riem freqüentemente, mas se elas carregam
um semblante constantemente sombrio, as classificamos como "ne-
gativas" ou "pessimistas". Todos conhecemos pessoas que "não têm
o sentido do tempo", elas sempre chegam tarde a seus compromis-
sos. Uma criança "mimada" é aquela que controla seu mundo por
meio de birras freqüentes. Caracterizações como "falante", "diligen-
te", "cético" ou "feliz" não explicam o comportamento. Elas simples-
mente refletem a alta freqüência de certas ações.
A ciência da análise do comportamento pergunta: "O que
torna mais ou menos provável que um indivíduo aja de modos parti-
culares? Por que uma pessoa faz certas coisas mais ou menos fre-
qüentemente que outra? O que faz alguém agir de um modo particu-
50 Murray Siclman

lar mais freqüentemente sob certas condições e menos freqüente-


mente em outras?"

Comportamento e suas conseqüências. O comportamento não


ocorre em um vácuo. Eventos precedem e seguem cada uma de
nossas ações. O que fazemos é fortemente controlado pelo que acon-
tece a seguir — pelas conseqüências da ação. Provavelmente, a mais
fundamental lei da conduta é: conseqüências controlam comporta-
mento. Fazemos algo — nos comportamos — e então algo acontece.
As conseqüências do que fizemos determinarão quão provável é que
façamos a mesma coisa novamente.
Quando acionamos um interruptor (comportamento) luzes se
acendem (conseqüência); quantos de nós estaríamos acionando in-
terruptores se nada jamais acontecesse quando o fizéssemos? Conti-
nuaríamos a escrever (comportamento) com uma caneta que não
mais produzisse marcas no papel (conseqüência)? Quão freqüente-
mente falaríamos (comportamento) com alguém que nunca respon-
desse com palavras, gestos ou expresses faciais (conseqüências)?
Tudo que fazemos tem conseqüências. Algumas fazem com que nos
comportemos mais freqüentemente, outras menos freqüentemente e
algumas são neutras.
As conseqüências de nossas próprias ações agora influencia-
rão o que fazemos mais tarde. As conseqüências que aplicamos às
ações de outras pessoas determinarão quão provavelmente elas fa-
rão a mesma coisa novamente. As mudanças em suas ações, por seu
turno, determinarão quão provavelmente aplicaremos as mesmas
conseqüências novamente, a elas e a outras pessoas. Filósofos, ro-
mancistas e escritores teatrais na maioria das vezes consideram
como seu tema o fato de que nossos atos têm conseqüências, algu-
mas trágicas, e que a ignorância das conseqüências não é desculpa.
A consciência das conseqüências é a essência da responsabilidade.
Somos afortunados por nosso comportamento ser sensível a
suas conseqüências. Para onde a evolução teria nos levado se a
probabilidade de agir de qualquer modo particular não fosse afetada
pelo que acontece a seguir? A mariposa freqüentemente se bate con-
tra uma luz acesa e formigas continuam em seu caminho fixo mesmo
sobre os corpos esmagados daquelas que foram pisadas. Padrões de
ação inatos podem ser peculiarmente complexos, mas poderia uma
espécie que não responde às conseqüências de sua própria conduta
ter se adaptado tão efetivamente como os humanos às demandas de
um ambiente constantemente em mudança? (Refiro-me apenas à
adaptação comportamental. Algumas espécies de insetos, mais adap-
Coerção e suas implicações 51

táveis fisiologicamente a mudanças ambientais extremas, podem


muito bem sobreviver a nós em um mundo devastado por explosões
nucleares.)
Conseqüências comportamentais, embora muito freqüente-
mente coercitivas, não precisariam ser assim. Um bebê, aprendendo
a se arrastar, engatinhar e andar está sendo controlado por podero-
sos processos desenvolvimentais e por experiências que seguem
seus novos desempenhos; não classificamos esse controle como
coercitivo. Lemos porque livros e outros materiais nos fornecem in-
formação útil, ou por causa desse fenômeno pobremente compreen-
dido, o "prazer da literatura"; ambos, a informação e o prazer con-
trolam nossa leitura, mas não coercitivamente. É possível aprender,
apreciar e amar sem coerção, mas todas as ações que incluímos
nessas categorias são controladas por pessoas e lugares.

0 que é coerção?
Na linguagem cotidiana, ser coagido é ser compelido sob jugo
ou ameaça a fazer algo "contra nossa vontade". Mas analistas do
comportamento afirmam que todo nosso comportamento é controla-
do e, neste sentido, tudo que fazemos ê "contra nossa vontade".
"Jugo" e "ameaça", entretanto, se aproximam de uma definição com-
portamental de coerção; esses termos se referem a classes de conse-
qüências, reais ou potenciais, que controlam nosso comportamento.
Genericamente falando, há três tipos de relações controladoras entre
conduta e conseqüências: reforçamento positivo, reforçamento nega-
tivo e punição. Controle por reforçamento positivo ê não-coercitivo;
coerção entra em cena quando nossas ações são controladas por
reforçamento negativo ou punição.

Reforçadores e reforçamento. Os reforçadores têm duas ca-


racterísticas definidoras, ambas diretamente observáveis. Em pri-
meiro lugar, um reforçador deve seguir uma ação; em segundo, um
reforçador deve fazer com que essa ação seja repetida ou ocorra
mais freqüentemente. Um reforçador deve demonstrar ter ambas as
características.
Assim, um elemento na definição tem a ver com o tempo; em
uma relação de reforçamento, o ato vem primeiro e o reforçador a
seguir. Elogio que fazemos a Jane depois que ela tenha terminado
seu problema de aritmética pode bem funcionar como um reforçador
-HH- se ele também preencher a segunda parte da definição — mas
elogio dado antes que ela tenha resolvido o problema não reforça
52 Murray Siclman

aquele desempenho particular. O elogio pode dar prazer a Jane e


pode reforçar o sorrir ou o sentar-se quietamente, ou o que quer que
seja que ela estivesse fazendo exatamente antes que disséssemos
coisas agradáveis para ela, mas o efeito do elogio, então, aparecerá
em qualquer outro comportamento que não o seu comportamento de
solução de problemas.
O segundo elemento na definição é funcional. Se o evento
que segue um ato for um reforçador, ele tornará mais provável que a
pessoa faça aquela mesma coisa novamente, em circunstâncias se-
melhantes. Bater nas costas de Zé depois de um desempenho excep-
cional e dizer: "Bom trabalho", não é um reforçador a menos que
faça Zé fazer mais do mesmo tipo de coisa. Para ser classificado
como um reforçador, a conseqüência de uma ação deve levar à
repetição da ação.
Reforçamento, então, segue uma ação e, por seu turno, torna
aquele ato mais provável no futuro. Insistência em ambas as partes
desta definição não ê apenas uma bobagem acadêmica. Pais e pro-
fessores que dão atenção a seus filhos apenas quando eles estão
causando problemas descobrem-se com críanças-problema em suas
mãos; porque não estão cientes do momento critico, sua atenção
reforça o comportamento errado. Reforçando o comportamento erra-
do, eles próprios criam as crianças-problema.
Outros tentam fazer com que uma criança se "comporte"
dando-lhe o que incorretamente assumem ser reforçadores, talvez
usando expressões como "boa menina" e "bom trabalho" e coisas
semelhantes depois que uma criança tenha feito o que eles querem.
Mas, a menos que reforçadores verbais, elogios e gestos simbólicos
sejam apoiados por algo mais substancial, não há razão no mundo
para esperar que estas conseqüências façam a criança se "compor-
tar". Elogios, sorrisos e outros sinais de aprovação tornam-se refor-
çadores apenas depois que tenhamos experienciado as coisas e re-
sultados mais sólidos a que eles levam: guloseimas especiais, opor-
tunidades de brinquedo, realização ou aprendizagem, auxílio para
sair de dificuldades, os gestos de amor e outras conseqüências que
valem a pena por tornar nossos amigos, família e companheiros
felizes. Não compreendendo a necessidade de verificar se qualquer
conseqüência particular realmente funciona como um reforçador, os
professores dizem: "Eu tentei o reforçamento e ele não funcionou."
Embora eles tenham tido boa intenção, eles nunca tentaram reforça-
mento realmente.
Como uma questão prática, conseqüências comportamentais
que chamamos de recompensas usualmente também são reforçado-
Coerção e suas implicações 53

res, mas nem sempre. Oferecer dinheiro a um bom amigo em troca


de um favor, provavelmente, destruirá, em vez de fortalecer, a ami-
zade. A relação inversa também não é consistente; nós nos descobri-
mos relutantes em atribuir valor de recompensa à dor, mesmo quan-
do a dor prova ser, como às vezes o faz, um reforçador. Veremos que
isto acontece mais freqüentemente do que poderíamos esperar.
Nem prazer e reforçamento sempre se correspondem. Fre-
qüentemente descrevemos como prazerosa uma situação na qual
algo que fazemos é reforçado, como quando obtemos um prêmio por
fazer um excelente trabalho. Entretanto, alguns vêem tal reforça-
mento como uma armadilha, mantendo-os envolvidos em uma "cor-
rida de ratos" que eles consideram longe de agradável. No entanto, o
prêmio efetivamente os mantêm na armadilha; a despeito da desa-
gradabilidade da situação, o prêmio é um reforçador, definido objeti-
vamente por seu efeito — manter o comportamento.
As percepções e interpretações das pessoas sobre o que é
recompensador ou prazeroso variam de fato consideravelmente. Es-
tas variações significam que nossas interpretações e percepções de-
terminam se algo é um reforçador? Freqüentemente, nossas crenças,
percepções e interpretações se igualam ao que é objetivamente refor-
çador. Entretanto, mesmo nesses casos, é provável que descubra-
mos que as crenças, em vez de explicar o que é reforçador, são elas
mesmas produtos da mesma história de reforçamento que a dos
eventos que elas supostamente explicam. Não precisamos dizer que
uma aluna vai para a universidade porque acredita que arranjará
um emprego melhor; ambas, a crença e sua permanência na univer-
sidade foram engendradas pelos mesmos reforçadores. Não precisa-
mos dizer que a crença do fanático religioso de que o martírio irá
conduzi-lo ao paraíso torna a crucificação um reforçador, ambos, a
crença e os atos que levam à sua morte vieram da mesma história.
Percepções e crenças são importantes e podem desempenhar
um papel na determinação da conduta, mas são elas próprias com-
portamento. Usá-las para explicar por que algo é um reforçador
somente empurra a necessidade de explicação um passo atrás — o
que produziu aquelas percepções e crenças particulares.
Todas estas considerações falam da desejabilidade de substi-
tuir alguns itens da fala comum — recompensas, prazeres e crenças
— por termos técnicos, reforçador e reforçamento. Embora a medida
do comprimento de um quarto contando o número de vezes em que
colocamos um pé na frente do outro possa fornecer uma estimativa
cora a qual se pode trabalhar, não quereríamos usar essa definição
de pés para determinar os limites de terra que vamos comprar; não
54 Murray Siclman

achamos difícil incorporar o significado técnico de "pé" em nossa


linguagem cotidiana. Similarmente, se não quisermos sofrer com
explicações imprecisas de nossa própria conduta e da conduta de
outros, faremos bem em incorporar o termo preciso, "reforçador", em
nossa linguagem cotidiana.
Reforçadores específicos não são assim predefinidos; nós os
descobrimos. Nossa definição com duas partes permite-nos identifi-
car reforçadores independentemente de quaisquer outras considera-
ções. Simplesmente observamos se conseqüências particulares au-
mentam a probabilidade futura de ações que as precedem. A desco-
berta de reforçadores pode ajudar a responder questões que fre-
qüentemente fazemos sobre a conduta dos outros e a nossa própria.
Quando quer que queiramos conhecer porque alguém age de uma
maneira particular, a primeira coisa a perguntar é: "Quais são as
conseqüências desta ação?" Se pudermos observar conseqüências
consistentes quereremos, então, saber se elas são ou não reforçado-
res — elas são responsáveis pelo comportamento com o qual nos
preocupamos? Como veremos, tendo identificado um reforçador, po-
demos então usá-lo para substituir conduta indesejável por conduta
desejável. O que explicaria as birras freqüentes de uma criança?
Primeiro deveríamos perguntar: "O que acontece imediatamente de-
pois da birra?" Se observarmos cuidadosamente, podemos descobrir
que birras freqüentemente terminam quando é dado à criança um
brinquedo anteriormente retirado, ou quando ela recebe permissão
para fazer algo que tinha sido proibido, ou simplesmente quando ela
obtém a atenção de um pai ou outro membro da família. Tendo
identificado uma conseqüência, a atenção, devemos então pergun-
tar: "Esta atenção é um reforçador? Ela é responsável pela continui-
dade das birras da criança?"
Uma maneira de descobrir seria dar esta mesma atenção
depois que a criança fizesse outra coisa qualquer que não uma birra
e observar se esta outra atividade torna-se mais freqüente. Suponha
que déssemos o brinquedo, ou a permissão, ou simplesmente algu-
ma atenção calorosa e amorosa toda vez que a criança brincasse
calmamente por uns poucos minutos ou brincasse gentilmente com
um irmão. Comportamento aceitável, então, substituiria as birras?
Sè sim, teríamos identificado um reforçador importante; podemos
usá-lo em vez de drogas, psicoterapia ou restrição física para elimi-
nar as birras.
Reforçamento pode ser expresso como uma relação "se,,, en-
tão", uma contingência: se nós agirmos de uma maneira particular,
então um reforçador virá; se agirmos de alguma outra maneira,
Coerção e suas implicações 55

então este reforçador não virá. "Se comportamento 1, então conse-


qüência, mas se comportamento 2, então não-conseqüência." O re-
forçador segue um ato mas não um outro e assim é contingente ao
ato crítico.
Professores dão notas altas (presumivelmente estas são re-
forçadores) contingente a resultados altos — e não baixos — em
exames; somente oferecemos boas referências a sócios ou emprega-
dos se eles agiram de maneiras que julgamos amigáveis, cooperati-
vas e produtivas; respondemos com afeto ao afeto, mas não (usual-
mente) à hostilidade; damos vários sinais de aprovação às crianças
cujas ações são consistentes com — e não conflitantes com — práti-
cas da comunidade e nossos próprios padrões de conduta. Contin-
gências de reforçamento são uma fonte fundamental de controle
comportamental. Embora contingências de reforçamento controlem
comportamento, elas não precisam ser sinônimo de coerção. De fato,
algumas pessoas consideram qualquer tipo de controle como coerci-
tivo. Porque coerção permeia nossa cultura, elas têm sido incapazes
de conceituar controle em quaisquer outros termos. Coerção envolve
a aplicação de conseqüências, mas conseqüências que chamamos de
coercitivas diferem de forma importante daquelas que até aqui temos
chamado de reforçadoras.
Se quisermos entender ou influenciar processos complexos
como motivação, memória, aprendizagem, percepção, interação so-
cial, desenvolvimento da personalidade, cognição e linguagem, um
primeiro passo é identificar contingências de reforçamento que são
fundamentais para cada um deles. Ao fazer isso, descobriremos vá-
rios tipos de contingências de reforçamento e eles fornecerão a base
para uma definição formal de coerção. Conseqüências não são os
únicos tipos de eventos que influenciam a conduta, mas sua classifi-
cação nos permite separar influências coercitivas de não-coercitivas.

jRe/orçamerito positivo e negativo. No reforçamento positivo, a


ação de uma pessoa é seguida pela adição, produção ou apareci-
mento de algo novo, algo que não estava lá antes do ato. No reforça-
mento negativo uma ação subtrai, remove ou elimina algo, fazendo
com que alguma condição ou coisa que estava lá antes do ato desa-
parecesse. Colocar moedas em uma máquina (comportamento) pode
produzir uma barra de chocolate [reforçamento positivo) ou pode
remover a barreira de uma catraca {reforçamento negativo); estudar
pode produzir um 4A' (positivo) ou eliminar um 'incompleto' (negati-
vo): pisar no acelerador de um automóvel pode produzir uma alta
velocidade positivamente reforçadora ou a esquiva de uma colisão
56 Murray Siclman

negativamente reforçadora; ao atravessar uma porta, podemos en-


contrar música bonita ou podemos escapar de cacofonia. Quando
nosso comportamento é reforçado positivamente obtemos algo;
quando reforçado negativamente removemos, fugimos ou esquiva-
mos de algo. Ambos os tipos de conseqüências tornam mais provável
que façamos a mesma coisa outra vez. Ambos são, portanto, reforça-
dores.
Podemos usar contingências positivas ou negativas para en-
sinar comportamento novo e para manter comportamento que está
ocorrendo. Um rato de laboratório, por exemplo, aprenderá a apertar
um botão com seu focinho se dermos a ele um pequeno pedaço de
alimento [reforçador positivo) cada vez que ele fizer isso. Empurran-
do o botão o animal produz o alimento. Enquanto a contingência
positiva prevalecer, o rato continuará apertando o botão.
O rato também aprenderá a apertar o botão se esta for a
maneira pela qual ele pode desligar uma luz brilhante por poucos
segundos [reforçador negativo). Empurrando o botão o animal remo-
ve a luz brilhante. Enquanto a contingência negativa prevalecer o
animal apertará o botão sempre que a luz acender.
O comportamento (empurrar o botão) e as conseqüências
(alimento, ou fuga da luz brilhante) em tais arranjos de laboratório
são mais simples do que as interações humanas nas quais estamos
mais interessados, mas, como demonstrações de laboratório em
qualquer ciência, tais arranjos permitem que processos básicos apa-
reçam mais claramente. Quando nosso rato continua a apertar o
botão, desligando a luz brilhante, temos uma clara demonstração de
reforçamento negativo.
Reforçamento negativo é a primeira de duas categorias maio-
res de controle que eu defino como coercitivo. (A segunda categoria,
a ser discutida mais tarde, é a punição). Ambos, reforçadores positi-
vos e negativos, controlam nosso comportamento, mas eu não cha-
mo reforçamento positivo de coerção. Quando produzimos coisas ou
eventos que usualmente consideramos úteis, informativos, ou agra-
dáveis em si mesmos, estamos sob o controle de contingências posi-
tivas. Mas quando nos livramos, diminuímos, fugimos, ou esquiva-
mos de eventos perturbadores, perigosos ou ameaçadores, reforça-
dores negativos estão no controle; com este tipo de controle eu falo
de coerção. A distinção não é arbitrária. Como veremos seguidas
vezes, controle coercitivo — reforçamento negativo é uma categoria
— engendra efeitos colaterais, freqüentemente não-esperados, que
envenenam nossas relações institucionais e sociais cotidianas.
Coerção e suas implicações 57

Freqüentemente é importante saber se reforçadores positivos


ou negativos são responsáveis por uma conduta particular. É refor-
çador para um menino que lava o carro da família o carro brilhando
e, talvez, a valorização de seus pais, ou é reforçador a esquiva de
admoestações, ou surras que ele receberia se ele não tivesse feito o
trabalho? A diferença, se ela se estende também a outros aspectos
da vida familiar do menino, refletir-se-á em sua personalidade e em
sua adaptação às demandas da sociedade. Se suas interações fami-
liares são mantidas principalmente por reforçamento negativo — por
seu sucesso em desviar-se de censura, desaprovação, ridículo ou
abuso físico — tal controle coercitivo também influenciará suas inte-
rações com outras pessoas e poderá alterar sua visão geral da vida.
Uma pessoa que é amplamente mantida por reforçamento
positivo, freqüentemente produzindo "coisas boas", sentirá a vida de
maneira muito distinta da de uma pessoa que está em contato mais
freqüentemente com reforçamento negativo, tendo constantemente
de fugir de ou evitar "coisas ruins". Como veremos, os efeitos de
coerção, particularmente se reforçamento negativo é forte ou cons-
tante, podem espalhar-se para esferas da conduta aparentemente
não-relacionadas.
Algumas vezes é difícil dizer qual é o controle, reforçamento
positivo ou negativo ou ambos. Suponha que deixemos nosso rato de
laboratório produzir alimento e apagar uma luz brilhante quando ele
apertar o botão. Se quisermos então descobrir o que é responsável
por sua atividade de apertar o botão, a produção de alimento ou a
fuga da luz brilhante, simplesmente poderemos remover essas con-
seqüências, uma de cada vez, e ver se o animal continua a apertar o
botão. As condições restritas de laboratório permitem uma resposta
direta para nossa questão. Descobrir se reforçamento positivo ou
negativo exerce controle fora do laboratório provavelmente não se
mostrará tão simples assim, mesmo que decisões importantes pos-
sam depender da resposta.
Podemos, por exemplo, ter que entrevistar recém-formados
para um emprego em nossa companhia. Embora a jovem agradável
diante de nós não tenha todas as habilidades que o trabalho exige,
suas boas notas escolares provam sua habilidade para aprender.
Mas ela aprenderá? Boas notas nem sempre predizem desempenho
futuro. Uma razão é que as habilidades necessárias para se sair bem
em cursos podem ter sido mantidas por coerção. A candidata obteve
suas notas altas por meio de reforçamento positivo — talvez o novo
conhecimento que levou à obtenção de honras acadêmicas e elogios
familiares e abriu opções de emprego? Ou suas notas altas foram o
58 Murray Siclman

produto de reforçamento negativo — esquiva de desaprovação fami-


liar, humilhação pessoal ou conseqüências econômicas futuras de
um histórico escolar pobre?
Se contingências positivas tiverem prevalecido, então podere-
mos esperar que a jovem continue aprendendo porque o emprego
tornaria os mesmos reforçadores — novos conhecimentos e habilida-
des — disponíveis para ela. Por outro lado, se ela foi coagida na
escola, poderemos esperar que ela aprenda somente na medida em
que necessite evitar perder o emprego. Claramente, é necessário
mais informação sobre a candidata, mas não podemos fazer um
experimento. O rato de laboratório documentou a realidade dos dois
tipos de reforçamento, mas ao fazer tais distinções fora do laborató-
rio, freqüentemente temos de usar toda e qualquer informação que
esteja disponível, apostando na sorte e então esperando para ver o
que acontece.
Poucas de nossas ações produzem sempre seus reforçadores
usuais. Só algumas vezes um estudante obtém um "A" depois de
estudar bastante; nem sempre uma criança consegue fugir da bruta-
lidade correndo. Estas inconsistências tornam difícil identificar as
conseqüências que mantêm a conduta de uma pessoa. Além disso,
estudos de laboratório têm revelado um fato que contraria a intuição
sobre o comportamento: reforçamento inconsistente, longe de enfra-
quecer uma ato, torna-o mais persistente e resistente à modificação.
Se déssemos ao nosso rato alimento apenas ocasionalmente
depois que ele empurrou o botão, e apenas algumas vezes apagásse-
mos a luz brilhante, ele então persistiria empurrando o botão mes-
mo se nós interrompêssemos ambos os tipos de reforçamento — não
mais dando-lhe alimento e deixando a luz acesa não importando o
que ele faça. A menos que um observador conhecesse a história do
animal, sua atividade continuada pareceria bastante misteriosa. Po-
deríamos ter um problema similar para entender a birra aparente-
mente inefetiva de uma criança se não soubéssemos que os pais
reagiram inconsistentemente no passado, algumas vezes cedendo,
algumas vezes não; poderíamos não identificar as origens da lingua-
gem chtila de um executivo, se não soubéssemos que tal linguagem
fez com que os oponentes de sua política ocasionalmente encolhes-
sem os ombros e cedessem; sem ter observado que o lavar a mão
compulsivo de um paciente psiquiátrico algumas vezes produziu sua
liberdade em relação a sua família e a outras responsabilidades
sociais, üin psiquiatra poderia atribuir esta atividade neurótica a um
trauma de treino de toilette na infância. Ao procurar entender por-
que as pessoas agem da maneira como o fazem, raramente podemos
Coerção e suas implicações 59

fazer um experimento no momento. Entretanto, o laboratório tem


nos dado indícios, dizendo-nos que tipos de conseqüências procurar.

Punição. Reforçadores positivos tornam mais prováveis as


ações que os produzem; reforçadores negativos tornam mais prová-
veis as ações que os terminam. Cada tipo de reforçamento tem
também uma contraparte simétrica: algumas vezes fazemos coisas
que terminam reforçadores positivos, algumas vezes produzimos re-
forçadores negativos. Estas contrapartes simétricas de reforçamento
positivo e negativo constituem a punição.
Punição pode, portanto, assumir uma de duas formas. Um
tipo de punição confronta-nos com o término ou retirada de alguma
coisa que comumente seria um reforçador positivo, o outro tipo
confronta-nos com a produção de algo que normalmente seria um
reforçador negativo. Eu defino estas duas contingências de punição
— a perda de reforçadores positivos e a produção de reforçadores
negativos — como coercitivas; punição é a segunda maior categoria
de controle coercitivo.
Como o reforçamento, a punição é uma contingência entre
conduta e conseqüências. Da mesma forma que chamamos de "re-
forçadores" conseqüências que reforçam, chamamos conseqüências
que punem de "punidoras". Como reforçadores, punidores vêm de-
pois do comportamento. Comumente, alimento é um reforçador posi-
tivo, de modo que sua perda é um punidor; a dor é comumente um
reforçador negativo, assim como é um punidor quando produzida.
Reforçamento difere de um modo importante da punição.
Definimos reforçadores — positivo ou negativo — por seu efeito
especial sobre a conduta; eles aumentam a probabilidade futura de
ações às quais seguiram. Mas definimos punição sem apelar para
qualquer efeito comportamental; punição ocorre quando quer que
uma ação seja seguida ou pela perda de reforçadores positivos ou
ganho de reforçadores negativos. Esta definição nada diz sobre o
efeito de um punidor sobre a ação que o produz. Ela não diz que
punição é o oposto de reforçamento. Ela não diz que punição reduz
a probabilidade futura de ações punidas.
Porque a definição nada pressupõe sobre os efeitos de puni-
dores sobre a conduta, ela difere de ambos: da definição técnica de
reforçamento e de nossas preconcepções mais usuais. Sempre que
vemos uma ação produzindo a perda de um reforçador positivo, ou a
produção de um reforçador negativo, dizemos que a ação está sendo
punida. Então, podemos perguntar: "Quais efeitos a punição tem?"
ou, no caso geral: "O que a punição faz ao comportamento?" Os
60 Murray Siclman

efeitos da punição nao sao assunto de definição; temos que desco-


brir o que eles são.
Suponha que tentemos ensinar um cachorro a sentar-se
diante de um comando. Dizemos "sente-se!", e se o cachorro se
senta, nós o deixamos comer de um prato de comida próximo. Uma
vez que o alimento é usualmente um reforçador positivo para um
cachorro faminto, será mais provável que o cachorro se sente quan-
do novamente ordenado.
Suponha que quando dizemos "sente-se!", o cachorro pule
sobre nós. Nós então, jogamos a comida no lixo. Uma vez que ali-
mento é comumente um reforçador positivo, sua remoção é uma
punição; se punição tem o efeito que as pessoas usualmente espe-
ram, será menos provável que, no futuro, o cachorro pule quando se
ordena que se sente.
Neste exemplo, o cachorro aprende a se sentar por causa da
contingência de reforçamento positivo; ele obtém alimento por sen-
tar-se. Mas mesmo se nós coagíssemos o animal por meio de puni-
ção a não pular, nós não o ensinamos, por decorrência, a se sentar.
No melhor dos casos, punição ensina o animal que ele perderá
alimento por pular quando lhe é ordenado que se sente. A punição
não o ensina como obter alimento.
Entretanto, poderíamos usar reforçamento negativo para
coagir o cachorro a se sentar. Suponha que toda vez que ordenásse-
mos, "sente-se!", também batêssemos no animal, continuando a
fazê-lo até que acontecesse de o cachorro se sentar (uma técnica
comum no "treinamento de obediência"). Quando o cachorro se le-
vanta, novamente damos a ordem e batemos, parando somente
quando o animal se sentar outra vez. A surra é comumente um
reforçador negativo, desta forma é provável que o cachorro faça o
que quer que encerre a surra; ele aprende a se sentar quando orde-
nado a fazê- lo. "Sente-se!" torna-se uma ameaça que o cachorro
pode encerrar sentando-se.
Neste exemplo, o cachorro aprende a se sentar por causa da
contingência de reforçamento negativo; sentar-se previne ou termina
a surra. A surra também pune tudo o que o cachorro faz, exceto
sentár-se; todas as outras ações produzem uma surra. Mas apenas
punir o animal por fazer algo mais não o ensina a sentar-se. Quando
muito, punição somente o ensina o que não fazer.
Como os reforçadores, punidores são contingentes às ações.
Isso faz com que punidores freqüentemente tornem as ações parti-
culares às quais se seguiram menos prováveis, mas, como vimos,
isso não é parte de sua definição. Nunca sabemos com certeza o que
Coerção e suas implicações 61

a punição fará, temos que ver por nós mesmos. O que vemos no
laboratório e a toda nossa volta no mundo cotidiano não é conforta-
dor.
Controle por meio de reforçamento positivo, então, não é
coercitivo; controle por meio de reforçamento negativo e punição é. A
maioria das pessoas entende reforçamento negativo e punição sem
dificuldades. "É assim que o mundo é." Reforçamento positivo fre-
qüentemente parece mais difícil de compreender. Muitas pessoas
vêem reforçadores positivos apenas como algo valioso que pode ser
retirado e, desta forma, úteis para coagir outros a se comportarem
como elas gostariam. Para elas, reforçadores positivos são apenas
algo a ser tomado de volta diante de um comportamento inadequa-
do; uma criança que age mal à mesa é obrigada a não comer sobre-
mesa; um aluno desaforado deve fazer sacrifício durante o recreio;
um legislador que vota contra seu partido perde a liderança. Puni-
ção por meio da remoção de reforçadores positivos é bem-compreen-
dida.
Outro mau uso de reforçamento positivo é deliberadamente
criar os tipos de privações que tornam os reforçadores efetivos; pri-
sioneiros primeiro são colocados em solitária e, então, se permite a
eles ter contatos sociais como reforçamento por docilidade; primeiro
submetidos à privação extrema de alimento, eles podem, então, ob-
ter alimento em retribuição por subserviência. Liberdade e alimento
parecem reforçadores positivos, mas quando eles são contingentes à
cessação de privações artificialmente impostas, sua efetividade é um
produto de reforçamento negativo; eles se tornam instrumentos de
coerção.
E para outros, reforçamento positivo é apenas um sonho
"... irreal; o mundo não funciona desta maneira". Alguns professores
consideram-no até mesmo ruim, "nada além de suborno", e em vez
de proverem conseqüências positivas quando seus alunos apren-
dem, eles apenas os punem quando eles falham. Aprender, em vez
de tornar-se um reforçador por si mesmo, funciona para muitos
alunos e estudantes como uma rota de fuga. Não seria surpreenden-
te que muitos deles considerem "aprender por aprender" um concei-
to não-familiar.
Dedicamos muito de nossas vidas a eliminar ou prevenir
estresses atuais e futuros que a natureza e a sociedade nos impõem.
Lutamos para selecionar cursos de ação que ajudarão a nos libertar
dos muitos tipos de restrições físicas, governamentais e sociais a
que estamos constantemente submetidos. Realidades físicas deter-
minam como podemos nos manter protegidos dos elementos da na-
62 Murray Siclman

tureza, nossas leis dizem-nos como nos manter fora da prisão e


costumes sociais codificam as fronteiras comportamentais que nos
permitem desviar da censura de nossos vizinhos. Freqüentemente,
temos poucas opções disponíveis para prevenir ou evitar desprazer
ou situações perigosas. Freqüentemente, somos forçados a ações
que consideramos não-naturais, desagradáveis, ou fora de hora, de
forma a fugir ou esquivar de pressões físicas e interpessoais comuns
e extraordinárias.
Também aceitamos alguma coerção reconhecendo que neces-
sitamos de lei e de seu cumprimento para manter interações civiliza-
das entre pessoas com interesses conflitantes e que regulamenta-
ções de saúde e segurança, embora caras e freqüentemente inconve-
nientes, são proteções necessárias contra os poucos que descuida-
damente colocariam em risco os demais. Entretanto, auto-interesse
algumas vezes produz algumas contradições estranhas. Votamos
contra leis que regulamentam o cinto de segurança em automóveis
considerando-as coercitivas, mesmo que aceitemos leis que nos fa-
zem parar diante de um sinal vermelho; companhias de cigarro
combatem leis antitabagistas rotulando-as como coercitivas, embora
aceitem sem questionar as proibições contra vender arsênico e ou-
tros venenos sem receita; comunidades lutam contra o serviço de
ônibus escolar considerando-o coercitivo, embora abandonar o servi-
ço de ônibus signifique coagir crianças que pertencem a minorias a
freqüentar escolas abaixo do padrão e coagir todas as crianças a um
ambiente social restrito.
Freqüentemente coagidos à ação (ou inação), muitas vezes
nos descobrimos também usando coerção pçira compelir outros a
agir como queremos que façam. Ao controlar outras pessoas coerciti-
vãmente, privamos e magoamos ou ameaçamos privá-las e magoá-
las quando fazem coisas que consideramos indesejáveis; paramos de
privar, machucar e ameaçar somente quando elas agem diferente-
mente, fazendo o que consideramos aceitável. Naturalmente, é uma
experiência comum que algumas coisas feitas pela primeira vez sob
compulsão se demonstram tão prazerosas ou valiosas que, subse-
qüentemente, as perseguimos por elas mesmas. Aprender pelo
aprender pode emergir mesmo a partir de um começo coercitivo, se
descobrirmos que as coisas que aprendemos capacitam-nos a fazer
mais do que apenas esquivar de punição na escola. Novas habilida-
des, desde a leitura até o raciocínio, abrem muitos novos caminhos
para reforçamento positivo. É uma infelicidade que esta descoberta
seja tão freqüentemente deixada ao acaso. Para muitos, a transfor-
mação dá aprendizagem de um mecanismo de fuga para uma fonte
de reforçamento positivo jamais ocorre.
Coerção e suas implicações 63

Alguns líderes religiosos argumentam: "É diabólico pagar


crianças para se comportarem, elas deveriam ser bem-comportadas
porque esta é a coisa certa a fazer e não porque recebem algo em
troca." Então, naturalmente, em vez de dar à criança algo bom
quando elas se comportam adequadamente, aqueles que concordam
com esta versão da moralidade apenas as punem quando elas se
comportam inadequadamente.
Como veremos, em um capítulo posterior, tal treinamento dã
origem a aquilo que gostamos de chamar nossa consciência. Supos-
tamente nosso sentido de certo e errado, isto é, nossa consciência é,
realmente, somente um sentido de errado; ela se desenvolve, inicial-
mente, diretamente do controle coercitivo.
Como as várias liberdades, que significam a ausência de
formas relacionadas de coerção, "certo" pode ser definido somente
em contraste com "errado". Primeiro, aprendemos que podemos fazer
o errado quando, na infância, experienciamos punição por algumas
de nossas ações. Se nunca fôssemos punidos, toda a nossa conduta
seria certa mas, porque errado seria então um conceito desnecessá-
rio, a noção contrastante de certo também jamais surgiria. Nem
surgiria a noção de consciência.
Para muitos — alguns diriam, para a maioria — coerção gera
e perpetua o sentido de errado. Freqüentemente ouvimos dizer, bas-
tante abertamente, que alguma conduta particular é má somente se
for pega no ato. Contudo, aqueles afortunados dentre nós que não
foram sujeitos a muita punição durante seu crescimento, ainda as-
sim têm consciências fortes. Não precisamos ter sido coagidos a
pensar ser errado roubar, mentir ou matar. Alguém educado de
modo amoroso a ser sensível e solidário com outros e a admirar
modelos de virtude, provavelmente, viverá segundo um código moral
forte. Mas, embora a coerção não precise ser diretamente responsá-
vel por nosso sentido de que uma conduta particular é errada, a
própria noção de errado, em si mesma, se enraíza quando a conduta
é punida. Dado o estabelecimento da noção geral por meio de coer-
ção, o rótulo "errado" pode então ser aplicado a casos particulares
sem coerção posterior.
Embora possamos descobrir muitas exceções individuais, a
sociedade, como uma regra geral, tenta manter nossas consciências
utilizando meios coercitivos. Reforçamento positivo como uma ferra-
menta de política pública é raro. Aqueles a quem nós confiamos as
tarefas de monitorar e dirigir nosso comportamento — nossos pro-
fessores, polícia, líderes religiosos, agências sociais e governantes —
levara-nos a nos comportar honesta e eticamente, em conformidade
64 Murray Siclman

com princípios legais e morais que ajudam a assegurar a sobrevivên-


cia da sociedade. Mas, somente o ingênuo espera que nós realmente
nos ajustemos a esses princípios a menos que sejamos obrigados a
fazê-lo. Nossas consciências internas devem ser sustentadas por
coerção externa, por punição e ameaça de punição vindas do exte-
rior. Quão freqüentemente cada um de nós teve a experiência de ter
recebido algo ou a promessa de alguma coisa para, então, descobrir
que temos de enfrentar outras obrigações para que o presente não
seja tomado de volta ou a promessa voltada atrás? E assim nos
tornamos cínicos. Ficamos abismados se nos oferecem uma cenoura
que não tem atrás uma vara.
3

Laboratório de marfim ou estufa de vidro?

A conduta pode ser analisada?


Infligimos dor uns aos outros diariamente com nossas práti-
cas coercitivas e estamos prestes a infligir a dor final a nós mesmos
no futuro próximo. Este estado emergencial de fato empresta uma
certa urgência à necessidade de tomar conhecimento da ciência da
análise do comportamento. Muitos de nossos mais sérios problemas
originam-se de nossa inabilidade para predizer e lidar com o com-
portamento. O que as outras pessoas estão fazendo no momento e o
que estão pretendendo fazer no futuro? Como poderíamos melhor
influenciá-las considerando nosso próprio interesse, seu próprio in-
: teresse ou o interesse da maioria? Trabalhadores podem obter salá-

rios mais altos da direção? O dirigente pode aumentar a produtivi-


dade do trabalhador? As multas e a prisão são necessárias para
impedir os capitães da indústria de poluir nossa atmosfera e rios?
Como podemos levar os militares a parar de envenenar nossa terra e
, oceanos com lixo atômico? Tem sentido manter um aparato militar
tão enorme que suas demandas insaciáveis por recursos ameaçam
destruir a própria forma de vida que supostamente ele defende? O
que faremos para convencer as autoridades de que esta é uma ques-
66 Murray Siclman

tão razoável? E existe alguma maneira de impedir que algum gover-


nante paranóico ou louco pelo poder aperte o botão que destruirá a
todos nós?
Cada um de nós também está preocupado com suas próprias
ações. Todos temos de controlar a nós mesmos. Problemas sérios de
saúde podem estar envolvidos: nós podemos levar nós mesmos a
parar de fumar, a perder peso, a selecionar alimentos mais sabia-
mente, a fazer exercícios? Muitas pessoas precisam aprender habili -
dades sociais básicas: como superar a solidão? Como fechar aquele
acordo de negócios? O tema "como ganhar amigos e influenciar
pessoas" tem sido a fonte de sobrevivência para muitos escritores.
A análise do comportamento lida com o manejo de nosso
próprio comportamento e do comportamento dos outros. Estamos
sempre ajustando nossas ações às demandas do mundo ao nosso
redor. Analisar comportamento é simplesmente estudar esses ajus-
tamentos. Assumindo que pessoas, lugares e coisas estão sempre
controlando as ações de qualquer indivíduo, analistas do comporta-
mento tentam descobrir como estabelecer, facilitar, impedir ou evitar
esse controle. A descoberta de princípios gerais torna possível predi-
zer nossas próprias ações e as de outros e modular o controle que já
existe. Análise do comportamento não defende, mas simplesmente
investiga controle comportamental. Ê tarefa da sociedade determinar
quando o controle deliberado da conduta é desejável e quando ele
não é, e se ela quer ou não tipos particulares de controle. Práticas
pessoais e culturais confirmam nosso reconhecimento geral de que
comportamento pode ser analisado e modelado. Usamos muitos mé -
todos diferentes para mudar nossa própria conduta e a de outras
pessoas.
Ser a favor da educação é reconhecer que o comportamento é
analisável e controlável. O trabalho de um professor é controlar o
comportamento de seus alunos. Eu não estou falando aqui sobre a
disciplina em sala de aula, mas sobre a tarefa fundamental do pro-
fessor de levar os estudantes a dizer e a fazer coisas que eram
incapazes de dizer e fazer antes. Eu chamo isso "dar a eles novo
conhecimento", ou "levá-los a apreciar" o que o mundo tem a ofere-
cer-lhes, mas novo conhecimento e apreciação só podem ser de-
monstrados por novas ações. Um professor bem-sucedido é aquele
que muda o comportamento de seus alunos de maneira que de-
monstrem suas novas capacidades.
A maioria dos pais estabelece mais ou menos claramente
padrões definidos para seus filhos, alguns sabendo exatamente o
que querem que seus filhos se tornem e outros contentes apenas em
Coerção e suas implicações 67

criar seres humanos decentes, felizes. No final das contas, todos nós
queremos que nossos filhos desenvolvam as habilidades que neces-
sitarão para a sobrevivência. Para atingir este fim usamos toda a
influência à nossa disposição para ensinar nossos filhos a comporta-
rem-se adaptativamente.
Também fundamentamos a "autoridade da lei" na controlabi-
lidade da conduta. Leis são afirmações de contingências. Se pessoas
agem de certa maneira, seguir-se-ão certas conseqüências. Nosso
• sistema legal claramente reconhece que manejamos pessoas ligando
conseqüências às suas ações.
Acertando um despertador arranjamos o nosso ambiente
para controlar o nosso próprio comportamento. Também controla-
mos a nós mesmos quando escrevemos lembretes, removemos certos
alimentos de nosso refrigerador, compramos um equipamento de
ginástica, entramos para um clube de encontros, fazemos um curso
de propaganda, nos desfazemos de nosso revólver, desligamos as
luzes na hora de dormir, trocamos uma lâmpada queimada em uma
luminária, ligamos ou desligamos um aparelho de ouvido, percorre-
mos o alfabeto para lembrar o nome de alguém.
Portanto, em muitos aspectos de nossas vidas implicitamen-
te reconhecemos que o comportamento é controlado. O controle tem
que ser coercitivo? Infelizmente, muitos responderão: "O que mais
existe?" Seu conseqüente dissabor com a noção de controle tem
evitado que eles entrem em contato com a análise do comportamen-
to, a ciência que pode ajudá-los a entender a natureza do controle
comportamental. Ignorar as realidades do controle tem impedido que
eles aproveitem os métodos não-coercitivos para produzir mudança
comportamental desejada.
Uma simples afirmação de que familiarizar-se com a análise
do comportamento seria vantajoso subestima perigosamente este
caso. Dados os desastres que nosso mundo está sofrendo por causa
de nosso fracasso em conduzir a nós mesmos e os outros efetiva-
mente, é mais do que razoável afirmar que não podemos sobreviver
sem uma tal ciência. Essa afirmação mais forte deve ser tomada
literalmente: sem uma ciência do comportamento não permanecere-
mos vivos. Naturalmente, não há garantia. Podemos não sobreviver
mesmo com uma ciência do comportamento. Mas, sem uma ciência
para nos mostrar como mudar a maneira de conduzir nossos proble-
mas, o mundo caminhará para a morte por negligência ou suicídio.
Estamos poluindo nosso ambiente em larga escala, queiman-
do combustível fóssil, aumentando o dióxido de carbono na atmosfe-
ra e elevando a temperatura do mundo até o momento em que o
68 Murray Siclman

derretimento das camadas de gelo fará desaparecer nossas civiliza-


ções costeiras. A educação tem talvez aguçado nossa consciência do
perigo, mas não tem fornecido soluções. Evitaremos esse desastre
global somente aprendendo a manejar nosso próprio comportamento
e o comportamento dos outros — também em escala global.
A tecnologia moderna tem originado novos problemas. Esta-
mos armazenando lixo radioativo em containers que garantidamente
vazarão daqui a algumas gerações. A publicidade tem ajudado a
expor o problema, mas a indignação pública das pessoas honradas
não é suficiente para resolvê-lo. Uma ciência de análise do compor-
tamento, consideravelmente mais avançada do que ela é atualmente,
terá que descobrir como podemos fazer com que tais conseqüências
remotas influenciem o comportamento atual de solução de proble-
mas.
Um conflito cada vez maior entre as restrições biológicas e
econômicas tem intensificado a influência coercitiva do ambiente
sobre a condição humana. A população do mundo está se expandin-
do em uma taxa que excede de muito a sua produtividade. Provo-
cando um rápido aumento no número daqueles que nada têm. Nem
um alto interesse iluminado, nem um sentido de fraternidade têm
sido capazes de melhorar a resultante miséria da humanidade. Será
necessário uma ciência da análise do comportamento altamente de-
senvolvida para nos mostrar como ajudar outros a aplicar as infor-
mações tecnológicas que já possuímos, para criar condições de vida
que suportem o crescimento da população.
As superpotências duelam no Oriente Médio realizando ma-
nobras para o acesso continuado ao petróleo necessário para a so-
brevivência de suas máquinas militares. O esgotamento das reservas
de energia da Terra ameaça fazer explodir um conflito internacional
que provavelmente terminará em um holocausto nuclear. Podemos
depender de nosso instinto de sobrevivência ou colocar nossa fé no
espírito e intelecto humanos para cortar este impulso suicida? Con-
siderações econômicas têm nos impedido de dar alta prioridade para
o desenvolvimento de novas fontes de energia. O dinheiro aparente-
mente vence o medo.
O desastre nuclear com que nos defrontamos é de um tipo
que jamais experienciamos e é provável que seremos capazes de
• experienciá-lo apenas uma vez. A despeito de sua magnitude, o fato
de ser remoto lhe dá somente um fraco controle sobre nossas ações.
A ime.diaticidade dos gastos econômicos e dos transtornos dá a estas
conseqüências consideravelmente mais poder sobre nossas condu-
tas do que o mais destrutivo mas também mais distante conflito
Coerção e suas implicações 69

para o qual nos dirigimos. Será necessário tanto uma ciência de


análise do comportamento básica, como uma aplicada para desco-
brir como colocar aquelas conseqüências que são não-familiares e
atrasadas em contato com as formas de política atuais.
Talvez estes problemas não sejam solucionáveis. A ciência da
análise do comportamento tem mostrado que conseqüências atrasa-
das afetam fracamente a conduta. Uma análise rigorosa pode levar à
conclusão de que as leis do comportamento apontam para o nosso
desaparecimento como uma espécie inevitável. Ter a ciência não
fornece garantia de sobrevivência. Ainda assim, o fracasso em forta-
lecer nosso entendimento de nossa própria conduta seguramente
nos privaria de um recurso efetivo na busca de maneiras que estan-
quem a nossa corrida em direção à extinção.

0 que significa "fazer um experimento"?


A análise do comportamento é ambos: uma ciência experi-
mental e aplicada, mas, mesmo na aplicação, analistas mais efetivos
assumem uma abordagem experimental. Experimentos podem ocor-
rer em laboratórios, em clínicas, em salas de aulas e em qualquer
outro lugar. O que faz exatamente o analista do comportamento
quando ele experimenta?
Primeiro de tudo, um experimento não é simplesmente uma
tentativa, um teste apenas para ver o que acontecerá, ou uma busca
para descobrir se algo atingirá ou não seu objetivo. Tocar música
para ver o que acontece com a produtividade de trabalhadores não é
em si mesmo um experimento, nem o é marcar um período tentativo
para novas medidas disciplinares na escola, nem o é o estabeleci-
mento de um currículo novo para faculdade na esperança de au-
mentar o valor da educação liberal. Mera incerteza sobre resultados
não faz um experimento.
Faltam em tais testes os controles necessários para a inter-
pretação clara dos resultados. Uma característica fundamental de
experimentos é que eles produzem dados e técnicas de coleta de
dados acessíveis à avaliação pública. Um experimentador deve dizer
exatamente o que fez e sob quais condições, de modo que seja
possível a crítica informada e a repetição do estudo por outros.
Na análise do comportamento, devemos identificar o compor-
tamento no qual estamos interessados e especificar quaisquer ele-
mentos da situação que acreditamos poder influenciar o comporta-
mento. Primeiro, quais ações mediremos? Se nós estivermos interes-
sados na produtividade do trabalhador, registraremos o número de
70 Murray Siclman

faltas ao trabalho? Horas gastas por dia em uma escrivaninha ou


máquina? A quantidade de energia corporal gasta em cada item
produzido? O número de itens produzidos por hora? O número de
itens defeituosos? Talvez alguma medida que combine todas estas?
Ou simplesmente perguntaremos aos trabalhadores quão produtivos
eles têm sido, ou quão felizes eles são no trabalho? Usaríamos a
média dos dados de muitos trabalhadores ou examinaríamos amos-
tras detalhadas de uns poucos indivíduos?
É necessário, então, especificar as medidas comportamen-
tais. Mas é necessário mais. Devemos também descrever os passos
para ter certeza de que as medidas foram consistentes e acuradas.
Quem fez as medidas? As pessoas que registraram os dados têm
qualquer interesse nos resultados? As observações foram registradas
automaticamente ou manualmente? Se manualmente, alguém mais
também registrou as mesmas ações de forma que dois conjuntos de
observações pudessem ser comparados para avaliar consistência?
Estas especificações tornarão os dados e as técnicas de medidas
disponíveis para avaliação por outros.
Se um teste não deve estar sujeito a interpretações conflitan-
tes, devemos também descrever as condições de teste completa e
acuradamente. O que estamos tentando avaliar? Nossa questão
principal pode ser, "a música afeta a produtividade do trabalhador?"
Mas o que queremos dizer por "música"? Clássica? Orquestra? Jazz?
Rock? Country? Quais compositores e músicos serão apresentados?
Todos os trabalhadores ouvirão a mesma música? Quando, quão
freqüente e por quanto tempo a música tocará? Quão alta ela será?
Devemos também descrever como todas estas características serão
medidas e a fidedignidade das medidas. A não ser que descrevamos
este e outros aspectos da música que podem influenciar a resposta
à nossa pergunta básica, seria melhor que não fizéssemos o estudo;
suas conclusões permanecerão obscuras, sempre sujeitas à discus-
são.
Além de especificar as condições experimentais relevantes,
devemos também descrever outros aspectos do estudo que poderiam
ter influenciado os resultados. Quais eram as condições de ilumina-
ção, a estação do ano e o nível de desemprego predominante naquele
setor particular? A direção fez mudanças, modificações no produto,
melhorias mecânicas ou negociações salariais ocorreram enquanto o
teste estava acontecendo? Os trabalhadores estavam conscientes do
estudo? Um experimento bem-feito tentaria assegurar que nenhum
fatpr importante exceto a música poderia ter influenciado os resulta-
dos. Entretanto, é crítico que outros sejam capazes de determinar
Coerção e suas implicações 71

por si mesmos se as conclusões do experimento são válidas. Se nós


não fornecermos uma descrição completa de todas as condições
experimentais, outros sempre serão capazes de apontar possíveis
contaminações relativas à validade do estudo.
Uma função principal do laboratório é acompanhar todas as
mudanças nas condições experimentais relevantes para a pergunta
que fazemos. Tal restrição permite definição e medida precisas, obje-
tivas, tanto da conduta que nos preocupa como das condições de
observação.
Com o sujeito de laboratório podemos criar uma amostra de
comportamento a ser analisada. Podemos então conduzir estudos
experimentais sem precisar nos preocupar com eventos desconheci-
dos que poderiam influenciar a atividade que escolhemos examinar
' ou que poderiam ter feito isto no passado. Se estivermos preocupa-
dos com os efeitos da punição, por exemplo, poderíamos primeiro
ensinar um sujeito experimental a obter sua comida apertando um
botão. Poderíamos então punir o sujeito por pressionar o botão,
certos de que nada mais que poderia afetar a atividade do sujeito
está acontecendo ao mesmo tempo.
O laboratório nos permite alterar o ambiente de um sujeito e
então retorná-lo a seu estado original. Tal controle sobre as condi-
ções experimentais torna possível descobrir se um evento particular
realmente faz um indivíduo agir diferentemente. Por exemplo, nós
poderíamos continuar punindo o sujeito até que ele pare de apertar
o botão; então nós podemos interromper a punição e ver se o sujeito
volta a apertar o botão. Seguidas vezes podemos reaplicar e remover
a punição. Se as ações do sujeito mudam a cada momento, podemos
estar bastante certos de que a punição e não alguma outra coisa
causou as mudanças.
A possibilidade de estabelecer relações causais é uma vanta-
gem fundamental de experimentos controlados; estudos que não são
de laboratório deixam ambos, ambiente e comportamento, livres
para mudar incontrolavelmente. Ao estudar como políticas públicas,
condições econômicas ou desastres naturais se relacionam com a
conduta das pessoas, eventos incontrolados que não aqueles com os
quais estamos primariamente interessados sempre obscurecerão o
problema. Mas no laboratório, podemos fazer aparecer e desaparecer
as ações particulares de um sujeito aplicando e removendo sucessi-
vamente uma condição relevante. Esse tipo de repetição controlada
nos dá confiança de que a condição que especificamos realmente
causou a mudança. E ver isso acontecer com o comportamento
individual como objeto de estudo é uma das características mais
72 Murray Siclman

excitantes da análise do comportamento; pode-se ver imediatamente


mudanças comportamentais importantes, causadas até mesmo por
pequenas manipulações ambientais, sem ter que esperar até que
dados de grupos de sujeitos tenham sido tratados estatisticamente.
Mas podemos estudar algo como produtividade industrial
no laboratório? A experimentação com não-humanos pode nos
dizer se a dura reprimenda é a resposta aos problemas de discipli-
na nas nossas escolas? Podemos — ou mesmo, devemos — trazer
crianças para o laboratório para estudos controlados sobre a efeti-
vidade da punição? "O laboratório", freqüentemente ouvimos, "isola-
se do mundo real; mantém problemas importantes ao seu alcance
supersimplificando-os não podemos obter dele o tipo de informação
que necessitamos como guia prático."
É verdade que um laboratório não duplica todas as condições
da vida cotidiana. Mas esta é sua virtude primária. As situações
problemáticas cotidianas estão repletas de complicações que freqüen-
temente não têm relevância seja como causas ou como soluções, mas
que, entretanto, impedem respostas inequívocas a nossas pergun-
tas. No pior dos casos, a investigação de laboratório estudará irrele-
vâncias. No melhor dos casos, a pesquisa de laboratório selecionará
das condições da vida cotidiana exatamente aquelas características
que são pertinentes para as perguntas em discussão.
Como podemos saber antecipadamente que condições da
vida cotidiana são pertinentes às perguntas que temos? Claramente,
quando uma investigação começa não podemos saber com certeza o
que é crítico. Mas não temos que jogar uma moeda para decidir para
o que olhar. Se estivermos construindo um corpo de conhecimento
estabelecido, podemos fazer algumas inferências fundamentadas.
Então, à medida que a investigação procede, testamos o conheci-
mento obtido em laboratório aplicando-o fora do laboratório. Nesse
ponto, Somos capazes de validar nossas suposições iniciais sobre o
que é relevante.
O controle experimental torna possível investigar um con-
junto restrito de condições, individualmente e em combinação, e a
descobrir quais dizem respeito a nosso problema. Quando nossas
extrapolações para a vida cotidiana fracassam, começamos de no-
vo; à medida que nossas extrapolações começam a se mostrar bem-
sucedidas, ganhamos mais confiança de que estamos no caminho
certo. Em um certo sentido, o laboratório pode ser mais real que a
vida cotidiana; quando bem-sucedido, ele revela o que é básico,
removendo irrelevâncias e descobrindo as condições fundamentais
Coerção e suas implicações 73

que fazem o mundo operar do modo como ele opera e que nos fazem
agir do modo como o fazemos.
Pilotos de teste voam em novos tipos de aviões com sucesso,
em sua primeira tentativa, ainda que apenas modelos tenham sido
testados previamente nas condições artificialmente controladas de
um túnel de vento. Uma lei básica que governa o movimento dos
corpos em queda poderia ser verificada apenas em um vácuo, uma
condição artificial que não existe em lugar algum da Terra com
exceção dos laboratórios. Ainda assim, a descoberta dessa lei tornou
finalmente possível enviar pessoas à nossa Lua e explorar as frontei-
ras externas de nosso universo. A ciência da genética, que se origi-
nou com o estudo de plantas e flores, chegou a uma nova tecnologia,
mais rápida e até mesmo mais confiável que o acasalamento seleti-
vo, para "manufaturar" novas variedades de animais; é possível, por
exemplo, fazer clones de vacas que são máquinas incrivelmente efi-
cientes de produção de leite. Nossa compreensão dos mecanismos de
hereditariedade está a ponto de produzir uma ciência aplicada da
genética humana que já está originando temores sobre novos tipos
de controle comportamental. Os produtos da pesquisa de laboratório
alteraram profundamente a existência humana. Embora possamos
deplorar muitas das mudanças, não podemos ter dúvidas de que os
resultados de procedimentos refinados de laboratório são aplicáveis
em outros lugares; a torre de marfim não é tão isolada do resto do
mundo como muitos gostariam que acreditássemos.
Pode-se legitimamente perguntar se estamos corretos em ex-
trapolar de pesquisas de laboratório bem-sucedidas em física, quí-
mica e biologia para a pesquisa comportamental; temos o direito de
assumir que a pesquisa comportamental é capaz de aplicações bem-
sucedidas porque as outras o foram? Claramente, esta suposição
não tem necessidade lógica. E, ainda assim, cada uma das outras
ciências já esteve na mesma posição. Em todos os casos, a suposi-
ção de que os dados de laboratório eram extrações da experiência
cotidiana, a despeito de seu status lógico incipiente, recebeu justifi-
cação empírica.
Felizmente, os pioneiros do laboratório de comportamento,
criticamente cônscios do precedente histórico, aceitaram a suposi-
ção de que sua ciência, também, provaria ser aplicável à vida coti-
diana. Tivemos confirmação suficiente desta suposição para conti-
nuar a caminhar em frente. Fracassos em áreas específicas ainda
podem estar por vir, mas negar arbitrariamente ambos, o progresso
já feito e a possibilidade de mais progresso, é colocar-se voluntaria-
74 Murray Siclman

mente em um estado de ignorância que é provavelmente incorreto e,


mesmo, perigoso.

Do rato à humanidade
Em um laboratório de comportamento isolamos nosso sujeito
— digamos, um rato — em um espaço relativamente confinado,
isolado de sons estranhos, com luz, temperatura e umidade cons-
tantes e mobiliado apenas com os itens relevantes ao procedimento
experimental. O que pode esta criatura intelectualmente limitada,
vivendo em um espaço ecológica e socialmente estéril possivelmente
pode nos dizer sobre a conduta humana? Esboçar algumas das
considerações que sustentam tais arranjos experimentais há de nos
auxiliar a ilustrar sua utilidade.
Antes de iniciar um estudo, todo pesquisador tem de decidir:
"O que vou olhar?" Nosso primeiro impulso pode ser observar so-
mente ações que têm "validade de face": se quiséssemos melhorar o
desempenho de cavalos de corrida poderíamos confinar nosso estu-
dos à pista: uma preocupação com criatividade poderia nos levar a
analisar compositores de música; um interesse em coerção poderia
nos induzir a investigar prisões. Muitos pesquisadores observam
apenas essas formas exatas de comportamento que os interessam.
Tais estudos podem levar a informações interessantes e
úteis. Por outro lado, esta abordagem aparentemente direta a longo
prazo limitará severamente nosso entendimento, até mesmo de pro-
blemas práticos altamente específicos. Usar validade de face como
critério para decidir o que observar e medir inibe o desenvolvimento
de uma ciência do comportamento por criar miniciências inde-
pendentes. Encontramos especialistas em psicologia de todas as coi-
sas, de xadrez a sexo, de programação de computadores a doença,
mental, e não podemos fazer generalizações além das fronteiras de
cada área. Cursos universitários proliferam, matrículas e direitos
autorais rolam. Os alunos, infelizmente, não obtêm uma descrição
sistemática da conduta humana que pudessem aplicar a muitas de
suas preocupações, seja diante do problema do manejo de um cava-
lo, seja diante do problema de manejar a si próprios.
Uma alternativa para estudar ações que parecem importan-
tes por si mesmas é fazer exatamente o oposto. Selecionar uma
amostra arbitrária, alguma ação que, porque é delimitada e artificial,
rtáo sofre de quaisquer das limitações e restrições impostas por
nosso julgamento pessoal sobre validade de face. O ganho potencial
é que a ausência de tais restrições pode tornar a amostra arbitrária
Coerção e suas implicações 75

representativa de todo comportamento. Nossos resultados seriam


estendidos, então, para muito além das ações específicas que sele-
cionamos para observação e medida.
Confinar a pesquisa a problemas da suposta aparente valida-
de restringe a generalidade de seus resultados. A descoberta de
princípios gerais, sujeitos a limitações identificáveis, coloca uma
ciência em uma melhor posição para estender sua relevância. Natu-
ralmente, generalidade completa é um ideal, abordável mas inatingí-
vel; qualquer ciência experimental deve conter mecanismos de auto-
correção para especificar limites à generabilidade de seus métodos e
resultados. Nos exemplos seguintes, a análise experimental do com-
portamento não deixa a fidedignidade, validade ou generalidade de
métodos, dados e princípios serem julgados pela opinião ou especu-
lação. Estes são assuntos de teste experimental.
Examinemos o ambiente e a conduta do rato de laboratório
para descobrir o que podemos aprender sobre nós mesmos. O horá-
rio do jantar está se aproximando para nosso sujeito, que está acos-
tumado a comer uma refeição por dia. Uma pequena bandeja se
estende de uma parede da caixa, um dispensador automático do
lado de fora pode dispensar comida na bandeja para o rato. Mais ou
menos duas polegadas acima da bandeja há' um botão iluminado, de
mais ou menos meia polegada de diâmetro. Decidimos observar o
ato de apertar o botão de nosso sujeito — esse ato é nossa amostra
arbitrária de comportamento. Uma vez que nosso interesse geral é
quão freqüentemente as pessoas agem de modos particulares, vamos
registrar quão freqüentemente o animal aperta o botão. Alguns me-
canismos eletrônicos simples dão conta disso e também permitem
que uma pelota de comida imediatamente caia na bandeja quando
quer que o animal aperte o botão.
Isso estabelece nosso experimento. Agora nos sentamos e
esperamos. Antes que passe muito tempo, o registro mostra o ani-
mal pressionando o botão com razoável rapidez, por volta de 30
vezes por minuto. Apertar botões não é um comportamento típico de
ratos, assim nos perguntamos sobre sua causa; a comida poderia
ser responsável? Para descobrir desligamos o dispensador; nosso
sujeito não mais obtém comida apertando o botão. O animal, então,
diminui o ritmo, o registro mostrando intervalos mais e mais longos
antes que ele aperte novamente o botão.
Ficamos instigados. Poderíamos ter descoberto um princípio
geral do comportamento? Vimos o rato apertando o botão quando ele
Obteve comida deste modo e parando quando a comida não mais
76 Murray Siclman

aparecia. Podemos concluir, do que vimos, que o comportamento é


determinado por suas conseqüências?
Antes que possamos tirar tal conclusão, precisamos primeiro
ter certeza de que as pelotas de comida, não alguma outra coisa na
situação, estava mantendo o animal apertando o botão. E assim,
ligamos e desligamos o dispensador muitas outras vezes. Também
pedimos a alguma outra pessoa, que não esteja ciente do que o
animal está fazendo, para conectar e desconectar o dispensador.
Descobrimos que a simples operação de ligar e desligar a conexão
elétrica entre o dispensador de comida e o botão operado pelo rato é
suficiente para iniciar e parar a atividade de apertar o botão do
animal. Estamos razoavelmente certos, agora, de que nossos experi-
mentos identificaram uma relação causai.
Dessas observações, inferimos um princípio geral: "conse-
qüências determinam comportamento". Afirmado sem limitações,
este é realmente um princípio muito geral. Uma vez que ele não
especifica restrições, deve se aplicar a todas as condutas, a todas as
espécies e a todos os tipos de conseqüência. Estas generalizações
são corretas? Estabelecemos, além da dúvida razoável, que nosso
rato apertará um botão se ele obtiver alimento desse modo e parará
se não obtiver o alimento. Podemos concluir daí que qualquer um,
humano ou não-humano, terá maior ou menor probabilidade de
desempenhar um ato de que é capaz, dependendo do que acontece
como conseqüência?
Claramente, um tal princípio geral precisa de mais sustenta-
ção. Sabemos sequer se outros ratos irão se comportar como nosso
primeiro sujeito? Assim, fazemos nosso experimento novamente com
outros ratos; obtemos os mesmos resultados. Descobrimos então
que peixes também apertarão botões que produzem comida, assim
como galinhas, pombos, gatos, cachorros, macacos, chimpanzés e
gorilas. Estes experimentos dão grande generalidade entre espécies
para nosso princípio.
O que dizer de diferentes tipos de comportamento? Para des-
cobrir, removemos o botão da parede da caixa e, em vez disso,
penduramos uma corrente no teto. O rato puxa a corrente freqüen-
temente quando obtém alimento deste modo. Então, dando comida a
um pombo toda vez que ele gira em torno de si mesmo 360 graus,
rapidamente temos um pássaro que gasta seu tempo girando em
círculos. Alimentando um macaco toda vez que ele se limpa, produ-
zimos um animal extremamente meticuloso. Chimpanzés parecem
adquirir grande sabedoria quando obtêm alimento por manipular
símbolos de maneiras que são significativas para humanos. Tais
Coerção e suas implicações 77

experimentos nos dizem que nosso princípio se aplica a muitas


espécies e a muitas atividades diferentes.
Este princípio é válido apenas para atividades que produzem
alimento? Novamente, a experimentação fornece a resposta. Desco-
brimos que ratos apertarão botões, puxarão correntes e farão muitas
outras coisas se fazendo-as podem desligar uma luz brilhante ou
podem aquecer uma caixa fria. Gatos sedentos apertarão repetida-
mente um pedal que faça com que obtenham umas poucas gotas de
água cada vez que o fazem. Macacos machos aprenderão a operar
um tipo especial de fechadura se este for o modo para abrir uma
porta e obter acesso a uma fêmea receptiva. Estes e muitos outros
eventos provaram ser conseqüências efetivas para muitos dos com-
portamentos de vários animais.
Tendo feito estes experimentos, tornamo-nos destemidos o
suficiente para testar a aplicabilidade de nosso princípio a seres
humanos. As conseqüências controlarão também seu comportamen-
to? Fazemos nossos primeiros experimentos com crianças que são
institucionalizadas porque elas não parecem ser capazes de apren-
der muito. Elas fazem poucas coisas que são construtivas, nem
mesmo alimentam-se sozinhas. No almoço, damos a elas uma colhe-
rada de comida toda vez que fazem alguma coisa que observamos
apenas raramente, como dizer claramente uma palavra. Em breve
essas crianças retardadas estão falando.
Reforçamento tem provado ser uma maneira poderosa para
gerar novos comportamentos em pessoas que têm sido consideradas
incapazes de aprender. Novas técnicas instrucionais, baseadas no
uso efetivo de contingências de reforçamento, têm revolucionado a
educação e treinamento de pessoas retardadas.
Crianças normais, seja no laboratório, na escola ou em casa,
também são sensíveis às conseqüências de seus comportamentos.
{ Contingências de reforçamento que professores, pais ou outros esta-
belecem, algumas vezes deliberadamente e algumas vezes sem sa-
ber. podem ensinar a uma criança comportamento desejável ou pro-
blemático. Por exemplo, sem perceber o que estão fazendo, pais
podem aumentar gradualmente as exigências que eles fazem a uma
criança que busca sua atenção. Eles não sabem, mas acabarão
tendo uma difícil criança-problema. Eles começam inicialmente não
prestando atenção, exigindo mais e mais pedidos da criança ("Posso
comer um biscoito... por favor, posso comer um biscoito"), e então,
mais e mais demandas ("Eu quero um biscoito... dê-me um biscoito")
.antes que eles atendam. Eles, então, esperam até que a criança
; choramingue: "Pelo amor de Deus, pare de choramingar!" Endure-
78 Murray Siclman

cendo sua resolução, eles então fazem a criança chorar, berrar e


gritar antes de atendê-la. Depois disso, eles sem saber refinam a
contingência de reforçamento ainda mais, não prestando atenção até
que a criança bata, arranhe, chute e morda. Finalmente, eles con-
sentem apenas quando a criança bate sua cabeça no chão, morde-se
ou se agride de outras maneiras.
Pais que fazem isto descobrirão que eles obtêm o que incons-
cientemente têm pedido para a criança. Estabelecer uma contingên-
cia de reforçamento é uma maneira de dizer não verbalmente à
criança como obter certos fins. Tendo gradualmente escalonado a
violência que eles exigiram antes que a criança pudesse obter sua
atenção, eles então despertam para a existência de um problema —
uma criança que caracteristicamente obtém atenção fazendo birras.
Se entendermos o background comportamental, provavelmente não
instituiremos um programa de terapia infantil sem também tentar
reeducar os pais.
Experimentos, aplicações clínicas e programas educacionais
têm demonstrado repetidamente que o princípio de reforçamento
aplica-se ao comportamento de crianças. A demonstração de que
conseqüências determinam comportamento adulto normal e com
distúrbios estendeu o princípio ainda mais amplamente. Se pergun-
tarmos a um paciente que tem gasto sua vida dentro e fora de
hospitais psiquiátricos, "o que você fez para ser internado desta
vez?", freqüentemente obteremos uma resposta direta: "Bem", o pa-
ciente pode replicar, "ano passado tudo que eu tive que fazer foi
derrubar algumas latas de lixo na rua, mas isto não funcionou mais;
então eles apenas me fizeram levantá-las. Então, eu atirei uma pe-
dra na vitrine de uma loja, mas meu velho amigo, o guarda da
vizinhança, apenas me disse para não fazer mais isto; eu poderia
machucar alguém, e então eles teriam que me levar para a cadeia.
Então eu fui para casa, peguei o martelo de carne e fui atrás da
minha mulher. Isto funcionou e aqui estou eu." As contingências
não poderiam ser descritas mais vividamente; a hospitalização é
claramente um reforçador para algumas pessoas e elas fazem tudo
que for necessário para chegar lá.
Dinheiro é um reforçador poderoso para quase todo mundo.
Quantos de nós continuariam em seu trabalho atual se não houves-
sem mais contracheques? Os poucos que são suficientemente afor-
tunados por serem capazes de fazer o trabalho "por si mesmo", sem
levar em conta considerações monetárias, simplesmente estão sob o
controle de outros tipos de conseqüências: prestígio, influência, po-
der, "trabalhos bons", a descoberta de novos conhecimentos, a cria-
Coerção e suas implicações 79

ção de uma grande obra de arte ou contribuições à sociedade. "Fazer


o que queremos fazer" indica a operação de reforçamento positivo;
"fazer o que temos de fazer" especifica contingências de reforçamen-
to negativo.
E assim, "conseqüências determinam comportamento"; um
princípio básico, que descobrimos observando um rato de laborató-
rio apertando um botão e obtendo alimento, acaba sendo amplamen-
te aplicável, mesmo a seres humanos. Os detalhes diferem de situa-
ção para situação. As espécies podem variar, como podem variar o
ambiente, o comportamento particular e a conseqüência que é con-
tingente ao comportamento, mas o princípio de controle comporta-
mental por contingência de reforçamento é amplamente generalizá-
vel. Experimentação controlada com não-humanos, em ambientes
artificiais, tornou possível explicar muito do comportamento huma-
no identificando as conseqüências de suas ações.
Naturalmente, conseqüências não explicam tudo sobre nossa
conduta; outros fatores também devem ser levados em consideração
e sua generalidade também deve ser testada. E nós, seguramente,
não sabemos como explicar todo comportamento. Porque mistérios
sempre permanecerão, nós poderemos jamais ser capazes de dizer
com certeza que qualquer princípio de comportamento é universal-
mente aplicável. Tanto do comportamento humano é não usual e
raro — como compor Hamlet ou o Lago dos cisnes, ou chegar por
indução ao princípio de que a energia é igual a massa vezes o
quadrado da velocidade da luz, ou circular a terra na Discovery —
que provavelmente nunca seremos capazes de provar como todo ele
apareceu. Podemos indicar determinantes plausíveis que são consis-
tentes com leis comportamentais; este tipo de verificabilidade é fácil,
mas, na ausência de manipulação experimental, não é possível pro-
var que o que é plausível é o que realmente acontece.
Embora não possamos explicar com certeza instâncias espe-
cíficas que já ocorreram, pode ser possível descobrir como produzir
tipos similares de comportamento. Se a sociedade quisesse exercer
sobre a história genética e a história de vida de uma pessoa o tipo de
controle que seria necessário para produzir um grande compositor
de música, ou um físico teórico criativo, ou um explorador do espa-
ço, então, poderia ser possível confirmar a ação de princípios conhe-
cidos, mesmo naqueles casos aparentemente intratáveis. Dado o que
conhecemos agora, seria bastante surpreendente se não descobrís-
semos contingências de reforçamento entre os determinantes mais
poderosos de tais comportamentos.
A punição funciona?

O que há nela para nós?


Por que punimos? O que queremos obter? A principal razão é
controlar outras pessoas. Aqueles que relutam em admitir a possibi-
lidade de controle comportamental deveriam se perguntar porque
desejam ver multas, ordens de prisão e talvez morte distribuídas
para aqueles que praticam crimes contra a sociedade. Se o propósito
da punição não é controlar comportamento — desencorajar infrato-
res e outros criminosos potenciais de fazer a mesma coisa outra vez
— então a motivação para a punição só pode ser revanche. Mas
seguramente não procuramos revanche ao punir a criança que se
comporta mal, ou aquela criança que coloca em perigo a si mesma
ou aos outros ao brincar com o fogo, ou aquela que impulsivamente
atravessa correndo uma rua que tem tráfego intenso. Se não espe-
rássemos impedi-las de se comportar mal, ou de arriscar tolamente
suas vidas, deveríamos encarar a punição de crianças como nada a
não ser crueldade.
• Punimos pessoas baseados na crença de que as levaremos a
agir diferentemente. Usualmente queremos parar ou evitar ações
particulares. Punimos alguém cuja conduta consideramos má para a
Coerção e suas implicações 81

comunidade, má para algum outro indivíduo, ou mesmo má para a


própria pessoa. Queremos colocar um fim á conduta indesejável.
Algumas vezes punimos usando a remoção de reforçadores
positivos: retiramos brinquedos de crianças depois que elas se com-
portaram mal; mandamos infratores para a prisão, isolando-os da-
queles que os amam, de familiares e amigos; respondemos ã agres-
são social, econômica e física de um outro país apropriando-nos de
parte de seu território. Algumas vezes, em vez de retirar reforçadores
positivos, tentamos parar uma atividade aplicando reforçadores ne-
gativos: espancamos, repreendemos ou ridicularizamos uma criança
que se comporta mal, batemos em prisioneiros que desrespeitam as
regras, atiramos bombas em cidades de um outro país em retaliação
por seus ataques. Administramos todos os tipos de punição de for-
ma a controlar outras pessoas a fim de parar ou impedir quaisquer
de suas ações que nos machucam, privam, insultam ou desagra-
dam. Por sua vez, outros usam punição para nos controlar, a fim de
parar ou impedir quaisquer de nossas ações que os machucam,
privam, insultam ou desagradam.
Ninguém gosta de ser punido. Ainda assim, prontamente,
usamos ou toleramos punição. Raramente perguntamos se punição
é a única ou mesmo a melhor maneira de fazer as pessoas agirem
como queremos. Por meio de leis e costumes sociais cada um de nós
tem até mesmo, concordado que punição é uma maneira aceitável
para a comunidade controlar nossas próprias ações. Esperamos que
outros façam justiça e concordamos em fazê-la nós mesmos.
Raramente invocamos justiça como uma razão para dar al-
guma coisa boa para alguém que tenha se comportado bem. Alguém
que obtém "apenas sobremesa" não recebeu algo doce como um
retorno razoável por bom comportamento. Ao contrário, recebeu
uma punição por agir mal. Justiça passou a significar punição. O
princípio, "a justiça prevalecerá", nos faz sentir seguros já que sabe-
mòs que a punição será aplicada a outros que se comportam mal.
Na medida em que o princípio se aplica também a nós, ele é uma
ameaça. O alerta de que seremos ameaçados com justiça serve como
uma muleta para o autocontrole, ajuda-nos a nos manter na linha
quando somos tentados a nos desviar.
Punição é trivial em nosso mundo. Ela funciona? Ela atinge
seus propósitos? Ela é realmente uma maneira efetiva para impedir
ou nos livrar de comportamento?
Seria conveniente se essas perguntas tivessem simplesmente
"sim" ou "não" como respostas. Elas não têm. O tópico é excessiva-
mente complexo. Sua resolução requer algo mais do que mera espe-
82 Murray Siclman

culação, viés filosófico ou emocional, preceitos religiosos, ou postu-


ras morais.
Ninguém gosta de ser punido e alguns descobrem desprazer
em aplicar punição. O argumento de que punição não deveria ser
usada é freqüentemente sustentado por apelos a religião, moralidade
e decência comum. Por outro lado, aqueles que acreditam que a
punição é necessária e desejável também sustentam sua posição por
apelos a religião, moralidade e, se não decência comum, senso co-
mum. Só ocasionalmente ouvimos solicitações de dados. O que real-
mente acontece à conduta que é punida?
Certamente, a punição capital elimina comportamentos —
faz isto bastante diretamente, exterminando aquele que se compor-
ta. O assassinato pela sociedade realmente reduz o assassinato por
indivíduos? Colocar pessoas na prisão também pode eliminar com-
portamentos — é mais difícil, embora certamente não impossível
cometer assassinato, roubo, fraude ou estupro atrás das grades. O
encarceramento impede pessoas de cometer esses crimes depois que
elas saem? Penalidades financeiras podem acabar com o lucro dos
sonegadores. Confiscos ocasionais os mantêm honestos entre audi-
torias ou elimina a evasão de impostos por outros que têm mais a
ganhar?
Estatísticas sociais podem ajudar a responder tais questões,
mas estão notoriamente abertas à manipulação e viés interpretativo.
Se mais assassinatos ocorressem em estados que proibiram a pena
capital, isto significaria que a pena capital é necessária? Não neces-
sariamente. Assassinatos freqüentes poderiam refletir uma econo-
mia em depressão, escolas inefetivas ou simplesmente uma popula-
ção mais densa. Por outro lado, a baixa incidência de crimes violen-
tos em estados que proibiram a pena capital justificaria esta políti-
ca? Mais uma vez, não necessariamente. Talvez a conformidade apa-
rentemente não-coagida dos cidadãos reflita outros tipos de coerção
— o estado pode ter leis estritas de controle de armas ou a polícia
pode realizar um programa de prevenção de crimes mais efetivo.
Inúmeros fatores devem ser considerados. Dados coletados em si-
tuações não-controladas podem fornecer indicações valiosas e hipó-
teses interessantes sobre questões sociais importantes, mas pode-
mos sempre discordar das interpretações e conclusões. Quando opi-
nião pessoal e política pública são sustentadas por estatísticas cor-
> relacionais o ceticismo é justificado.
É aqui que a análise do comportamento pode contribuir. No
laboratório é possível dividir o mundo, descobrir como cada elemen-
to trabalha independentemente dos outros e, então, colocar as par-
Coerção e suas implicações 83

tes juntas novamente, uma de cada vez, para ver como elas intera-
gem umas com as outras. Em vez de basear nossa opinião sobre a
desejabilidade da punição em nossos sentimentos, convicções reli-
giosas ou morais, ou dados incorretos, podemos chegar a conclusões
racionais baseadas em evidência válida. Os dados de laboratório
sustentam fortemente a posição de que punição, embora claramente
efetiva no controle do comportamento, tem sérias desvantagens, e
que nós precisamos desesperadamente de alternativas.

Como se estuda a punição?


Que tipos de experimentos tornam possível analisar os efei-
tos da punição? Uma exigência é um sujeito que esteja fazendo algo
regularmente e previsivelmente; uma linha de base de atividade es-
tável em andamento nos dá um instrumento de medida confiável. Na
medida em que a linha de base é estável, sabemos que nenhum fator
desconhecido está fazendo o sujeito mudar seu comportamento.
Reforçamento é um instrumento poderoso para produzir li-
nhas de base comportamentais que facilitarão a análise e permitirão
generalizações a partir de sujeitos individuais. Um arranjo, por
exemplo, usa pelotas de alimento como reforçadores para ensinar
um rato de laboratório a pressionar um botão — uma barra de metal
montada na parede acima do dispensador de alimentos. Os reforça-
dores alimentares, então, mantêm o animal pressionando a barra
em uma taxa estável. Com este comportamento confiável como uma
linha de base, podemos então punir o animal em vez de (ou em
adição a) dar-lhe alimento quando ele pressiona a barra. A punição
faz com que ele pare de pressionar a barra? Comumente, quando
uma linha de base comportamental permanece constante, podemos
confiavelmente atribuir quaisquer variações a qualquer novo ele-
mento que o experimentador introduza — neste caso, a punição.
Alimento é freqüentemente o reforçador positivo que gera e
mantém a atividade de linha de base de um sujeito. Choque elétrico
é um punidor comumente usado. Choques quase sempre funcionam
como reforçadores negativos para atos que os terminam. E como
punidores para atos que os produzem. (Mais tarde teremos oportuni-
dade de considerar as circunstâncias nas quais choques funcionam
realmente como reforçadores positivos, tornando mais provável o
comportamento que os produz.)
Os choques usados como punidores no laboratório não são
como os choques eletroconvulsivos usados algumas vezes nas tenta-
: tivas para aliviar depressão severa e debilitante de pessoas. Na tera-
84 Murray Siclman

pia eletroconvulsiva, médicos podem repetidamente passar uma cor-


rente elétrica intensa através da cabeça de um paciente, que é forte
o suficiente para causar convulsões e perda de consciência. Na
maioria dos estudos de punição em laboratórios, o choque atravessa
dois pontos da superfície da pele do sujeito e é suficientemente forte
para ser doloroso, mas não causando qualquer reação física exceto o
retraimento reflexo, como quando retiramos a mão de um fogão
quente. Choque eletroconvulsivo, uma terapia controvertida, não é
uma técnica de análise de comportamento aplicada. Se formos punir
uns poucos sujeitos para obter conhecimento que ajudará muitas
pessoas, somos obrigados a usar técnicas de comprovada generali-
dade. Luzes brilhantes, sons altos, lufadas de ar, perda de sustenta-
ção e outros eventos desagradáveis têm sido também usados experi-
mentalmente como punidores, mas seus efeitos são facilmente supe-
rados por aspectos não-controlados da história comportamental de
um sujeito ou por aspectos irrelevantes de um ambiente experimen-
tal. Uma razão importante para usar choque é que seu efeito puniti-
vo mostra ser amplamente generalizãvel entre espécies, tipos de
comportamento e situações.
Além disso, mecanismos automáticos podem liberar choques
exatamente quando o experimento exige. Isto não é apenas um as-
sunto de conveniência de laboratório. O tempo entre o ato e a conse-
qüência determina criticamente os efeitos da punição. Uma inabili-
dade para controlar precisamente esta relação temporal levará o
pesquisador a conclusões que podem ser não apenas não-informati-
vas, mas realmente enganosas.
Experimentos que provocam dor nos sujeitos devem sempre
passar por escrutínio crítico. Qual é o ganho esperado? O alívio de
sofrimento antecipado se sobrepõe ao sofrimento que será infligido?
Temos justificativa para pedir heroísmo?
A primeira consideração ao fazer tais julgamentos não é o
dano potencial para os sujeitos. Em vez disso, devemos primeiro
avaliar a adequação técnica dos experimentos. Se o controle de um
experimentador sobre fatores críticos é frágil a ponto de impedir
interpretação clara dos resultados ou, talvez, a ponto de até mesmo
produzir conclusões enganosas, então, nada pode justificar o experi-
mento. Antes que padrões éticos tornem-se relevantes, um experi-
mento deve atender a padrões científicos. Se, porque sentimos que o
uso de choque elétrico é moralmente repugnante, usarmos formas
de punição que não podemos controlar adequadamente, produzindo
assim dádos que não são claros, nosso trabalho é maldirigido cientí-
fica e moralmente.
Coerção e suas implicações 85

Portanto, adequação técnica é um pré-requisito para avalia-


ção ética. Um experimento que não satisfaz padrões técnicos já não
é ético. É neste contexto que a relativa facilidade de medir choques
elétricos ajuda a justificar seu uso no estudo da punição. Novamen-
te, precisão não é apenas um ritual científico. A quantidade total de
punição que um sujeito obtém influenciará crucialmente o que a
punição produz. Para verificar quanta punição um sujeito recebe,
devemos considerar o número total de punições, junto com a inten-
sidade e duração de cada punição individual. Choque elétrico prove
a precisão de medida que é necessária antes que possamos delinear
conclusões acuradas e generalizáveis sobre o papel que a punição
desempenha no controle da conduta.

0 que realmente acontece?


Comecemos com um rato de laboratório que aprendeu a
pressionar uma barra e obter pelotas de alimento que caem em
uma bandeja abaixo da barra. O animal trabalha estavelmente,
ganhando sua vida de acordo com as contingências que seu mundo
estabeleceu.
Esse mundo agora muda suas regras. Pressionar a barra,
antes uma ocupação respeitável, não é mais considerada desejável;
assim, junto com a pelota de alimento o animal recebe um choque
em seus pés quando quer que pressione a barra. O choque é relati-
vamente suave e dura apenas uma fração de segundo. Esta punição
atenderá seu propósito, fazendo com que o animal pare sua ativida-
de "indesejável"?
O animal realmente pára de pressionar a barra. Poucos se
surpreenderão pelo aparente sucesso da punição. A maioria de nós
r;ecebeu um choque acidental de uma fiação elétrica, ou viu alguém
receber um choque e podemos facilmente empatizar com qualquer
um, humano ou não, que sofra uma experiência semelhante. Nós
nos surpreenderíamos ao observar qualquer um mantendo um ato
que produz choques.
Mas a história não termina aqui. O animal finalmente come-
ça de novo. Após um período de supressão, a atividade gradualmen-
te se recupera; o animal acaba pressionando a barra tão rapidamen-
te como sempre, mesmo que receba um choque cada vez que o faz.
A punição funciona? Este tipo de coerção elimina atividades
indesejáveis? Neste primeiro experimento, os choques impediram o
animal de pressionar a barra apenas temporariamente; eles não
eliminaram o comportamento permanentemente. Se não tivéssemos
86 Murray SidmaJi

continuado a observar o animal, entretanto, poderíamos ter concluí-


do que a punição foi um completo sucesso.
Nosso experimento, em vez de resolver o problema original,
apenas colocou uma nova questão que precisamos responder antes
que cheguemos a uma decisão mais fundamentada sobre a efetivida-
de da punição. Vimos que o choque que de início efetivamente parou
o comportamento do animal, então, perdeu esta função. Devemos
agora perguntar: "Como pode um punidor, que originalmente supri-
miu a atividade, tornar-se incapaz de servir ao propósito pretendido?"
Uma resposta possível torna-se clara quando perguntamos:
"Por que, em primeiro lugar, o animal estava tão assiduamente pres-
sionando a barra?" O alimento, naturalmente, era responsável. O
animal estava ganhando todo seu sustento pressionando a barra.
Qualquer coisa que afastasse o animal de seu trabalho apenas o
deixaria mais faminto. As duas conseqüências de pressionar a barra
— alimento e choque — estavam, portanto, em competição direta,
uma tendendo a fazer o animal pressionar mais freqüentemente, a
outra menos freqüentemente. Quanto mais tempo o animal parou,
mais faminto se tornou; finalmente o reforçamento positivo por pres-
sionar a barra tornou-se mais poderoso que a punição. O animal
retornou a sua atividade "ilegal" porque aquela era a sua única
maneira de obter alimento.
Mesmo neste estágio inicial de nossa avaliação da punição, o
ambiente experimental relativamente descomplicado nos permite ob-
servar um mecanismo simples que indiscutivelmente produz muita
criminalidade reincidente. Jovens são libertados de reformatórios e
adultos de prisões com repertórios de comportamentos não mais
aceitáveis para a sociedade do que os atos delinqüentes que os
levaram ao encarceramento. De que outro modo eles irão obter seus
reforçadores? Eles não têm outras barras para pressionar.
Não deveria ser surpreendente que os "choques" que a socie-
dade dá em seus delinqüentes não punam eficientemente. Embora
fatores complicadores modifiquem este quadro simples, nossa pri-
meira observação de laboratório fornece um ponto de partida tão
direto que só podemos nos surpreender com o fato de a sociedade
ter ignorado sua relevância.
Poderíamos checar experimentalmente esta conclusão alte-
rando á efetividade relativa de alimento e choque. Suponhamos, por
exemplo, que nosso sujeito recebesse choques mais fortes. Com pu-
nição mais e mais forte descobriríamos que o animal pára de pres-
sionar a barra por períodos cada vez mais longos. A intensidade do
choque demonstra ter um efeito poderoso. Com choques muitíssimo
Coerção e suas implicações 87

intensos, a atividade não mais se recupera; o animal jamais volta à


sua ocupação anterior. Se ele não pudesse encontrar alguma outra
maneira de obter comida, ele presumivelmente morreria de fome,
embora nenhum experimento tenha ido tão longe.
Então, em competição com reforçamento positivo, finalmente
o choque perde sua efetividade como um agente coercitivo, a não ser
que seja extremamente intenso. Mas, se a punição for suficiente-
mente forte, pode até mesmo por um fim à produção de reforçadores
positivos que sustentam a vida. E assim, vemos uma base para a
aparentemente interminável luta entre aqueles que baniriam puni-
ções cruéis e não-usuais e aqueles que insistem que apenas medi-
das severas podem conter a ilegalidade.
O que freqüentemente não é avaliado é que a eliminação
completa da competição entre reforçamento positivo e punição pode
fazer com que mesmo a punição suave pareça funcionar. Nosso
sujeito de laboratório, por exemplo, voltou a pressionar a barra a
despeito dos choques porque esta era a única maneira que tinha
para obter comida. E se tivéssemos aproveitado a supressão tempo-
rária da atividade do animal causada pela punição e ensinado-lhe
um novo modo de ganhar sua vida? Quando o animal pára tempora-
riamente de pressionar a barra, poderíamos pendurar uma corrente
no teto da caixa; toda vez que ele puxa a corrente obtém alimento,
mas não recebe o choque. Trabalhar para viver puxando a corrente é
uma ocupação "aprovada" e o animal muda de emprego. Ele jamais
volta à sua vida de crimes.
Comportamento inadequado persiste a despeito da punição
porque é também reforçado. A maioria de nós, indiscutivelmente,
preferiria reforçar ações alternativas em vez de utilizar punição para
fazer com que nossos filhos e outros mudassem. Algumas vezes,
entretanto, o comportamento indesejado é tão forte que ele impede o
indivíduo que se comporta inadequadamente de tentar qualquer ou-
tra coisa. O diálogo freqüentemente não os persuade a abandonar
um curso de ação que já funciona. Podemos, então, sentir que a
punição é o único recurso. Se uma ocasião assim surge podemos
usar punição suave. A supressão temporária do ato punido nos dá
uma oportunidade para ensinar ao indivíduo algo novo, alguma ou-
tra maneira de obter os mesmos reforçadores. Tendo parado mo-
mentaneamente um ato indesejável punindo-o suavemente, pode-
mos então substituí-lo por meio do reforçamento positivo de uma
atividade mais desejável.
Devemos reconhecer que se algum modo novo, mas ainda
indesejável, de obter o reforçamento for possível, o indivíduo punido
88 Murray Siclman

pode descobrir esta opção antes que tenhamos a chance de ensinar


nossa alternativa preferida. A nova conduta pode não ser mais do
nosso gosto que a antiga. Podemos punir uma criança por bater em
seu novo irmão, mas se então ela agredisse todas as suas bonecas,
nós ainda teríamos um problema em nossas mãos. Eu direi mais
sobre isto mais tarde, mas vale a pena lembrar que a menos que
tenhamos deliberada e habilidosamente usado o efeito supressivo
inicial da punição suave para instalar a nova conduta que quere-
mos, nada garante que a substituição será desejável.
Como vimos, eventos desagradáveis e dolorosos podem per-
der sua efetividade como punidores quando colocados em competi-
ção com reforçadores positivos poderosos — uma justaposição sufi-
cientemente comum na vida cotidiana. Quando isto ocorre, uma
pessoa que tenha administrado punição, talvez com tristeza e pesar,
terá infligido dor desnecessariamente. A efetividade e mesmo a ética
do uso da punição para controlar a conduta de outros podem ser
temas de debate, mas pode alguém justificar o uso incompetente da
punição?
Podemos ir um passo além. Acreditando incorretamente que
certos eventos são inerente e imutavelmente punidores, podemos
transformar a dor e o sofrimento em reforçadores positivos. Eventos
considerados como punidores então sustentarão, em vez de elimi-
nar, atos que os produzem. O resultado de tal transformação será
uma pessoa que busca a punição. Isto é facilmente demonstrado no
laboratório. Tudo que temos de fazer é tornar o choque uma pré-
condição necessária para comer.
Por exemplo, por querer que nosso sujeito pare de pressionar
a barra, podemos dar-lhe um choque suave e breve quando ele a
pressiona. O animal recebe o choque, o alimento vem a ele, então,
ele o come. No início, o choque pode impedir o animal de pressionar
a barra, mas ele se torna mais faminto e recomeça, voltando para o
trabalho a despeito do choque. Se, então, aumentarmos gradual-
mente a intensidade do choque, em pequenos passos, o sujeito con-
tinuará a pressionar a barra, ainda que o choque finalmente se
torne tão forte a ponto de derrubá-lo. O animal termina pressionan-
do a barra e sempre recebendo um choque intenso imediatamente
antes de comer.
O próprio choque terá se tornado, agora, um reforçador posi-
tivo. Como podemos mostrar isto? Primeiro interrompa ambos: o
alimento e o choque. Agora nada acontece quando o animal pressio-
na a barra e depois de um pouco ele a pressiona apenas raramente.
Agora, reintroduza apenas o choque; a próxima vez que o animal
Coerção e suas implicações 89

pressionar receberá o choque, mas não o alimento. Ele imediata-


mente começa a pressionar a barra rapidamente, mesmo que agora
ela produza nada além de choques intensos. A única razão do ani-
mal para pressionar a barra é o choque conseqüente, que se tornou
um reforçador positivo.
Esta mudança no valor do choque pode ser mostrada ainda
mais conclusivamente se, então, tirarmos a barra e pendurarmos
uma corrente no teto. A primeira vez que o sujeito puxa a corrente
novamente recebe o choque, sem alimento. Ele continua a puxar a
corrente, produzindo um choque cada vez que o faz. O choque tor-
nou-se um reforçador positivo tão efetivo que pudemos usá-lo para
ensinar ao animal algo novo — puxar a corrente — sem prover
qualquer outra conseqüência.
As pessoas freqüentemente trabalham por choques? Todos
conhecemos indivíduos que parecem desabrochar em seu próprio
sofrimento, que parecem sempre trazer sobre si mesmos a ira de
seus colegas de trabalho, famílias, professores ou "autoridades".
Usando punição de modo tal a convertê-la em reforçamento positivo,
uma comunidade coercitiva subverte sua própria racionalidade por
recorrer à punição em primeiro lugar. Um resultado pode ser a
conduta patológica. Psiquiatras há muito estão conscientes das ten-
dências autodestrutivas que caracterizam muitos de seus pacientes
(e mesmo de pessoas que não são pacientes). Sem investigação é
impossível saber se o tipo de história coercitiva que podemos criar
no laboratório também é responsável por estes casos, mas a plausi-
bilidade parece clara.
Evidência mais direta pode ser encontrada no comportamen-
to de auto-injúria de algumas pessoas institucionalizadas. Muitas
crianças retardadas e autistas são comumente ignoradas porque são
consideradas como vegetais emocional e intelectualmente, incapazes
de apreciar ou adaptar-se a seu ambiente. Mas elas às vezes desco-
brem que se causarem danos a si mesmas, batendo, coçando, mor-
dendo, lacerando-se e retirando sangue de si mesmas trazem toda a
comunidade para si, elas se tornam o centro da atenção. Estas
crianças foram ensinadas por seus professores, embora sem o co-
nhecimento deles, a administrar dor a si mesmas como o único meio
de obter atenção. A prova aparece quando então provemos a mesma
atenção por atos construtivos; o auto-abuso cessa. Mas, em alguns
casos o auto-abuso pode continuar. Porque trouxe atenção, a pró-
pria dor torna-se um reforçador positivo, mantendo o auto-abuso.
Nos lares, algumas vezes encontramos pais, sem querer, es-
tabelecendo uma situação semelhante. Eles punem severamente
90 Murray Siclman

uma criança que fez algo inaceitável. Então, sentindo-se culpados,


cobrem a criança com afeto para compensar a punição. Quando isto
acontece freqüentemente a criança aprende: "Já sei, a maneira de
realmente conseguir o afeto de papai é fazer algo ruim, fazer com
que ele me puna e então ele vai me amar."
Podemos ir tão longe a ponto de dizer que masoquismo, o
prazer da dor — particularmente em conjunção com a atividade
sexual — surge de uma fonte semelhante? Experimentos que res-
ponderiam a esta pergunta jamais foram feitos. Uma maneira de
abordar o problema seria um experimento como aquele que acabei
de descrever, mas, no qual, em vez de prover alimento como um
reforçador positivo por pressionar a barra, déssemos ao sujeito aces-
so a um parceiro sexual. Então, após ensinar o sujeito a aceitar
choques como um precursor inevitável do sexo, provavelmente des-
cobriríamos que o próprio choque teria se tornado um reforçador
positivo, assim como quando precede alimento.
Mas suponha agora que déssemos ao sujeito uma escolha.
Uma barra funcionaria como antes, produzindo primeiro um choque
e depois um parceiro sexual; uma outra barra produziria apenas o
parceiro, sem choque. O animal mudaria para sexo sem choque, ou
continuaria também a infligir choques a si mesmo? Um modelo
experimental válido não-humano para masoquismo patológico seria
extremamente útil para descobrir como aliviar parte do sofrimento
que pessoas infligem a si mesmas.
O objetivo mais razoável do uso da punição é parar compor-
tamento indesejável, impedir pessoas de fazer coisas que são perigo-
sas, assustadoras ou que consideramos inadequadas, desvantajo-
sas, imorais ou anormais. Vimos dois modos de usar a punição que
parecem atender a este objetivo. Um é administrar punições muito
fortes: "bater até fazer o gato morto miar". O outro é administrar
punições suaves para fazer a pessoa parar de se comportar inade-
quadamente pelo menos temporariamente e, então, sem interferên-
cia do comportamento inadequado, ensinar-lhe o modo correto de
agir.
Mas estas duas maneiras de usar punição não são recomen-
dações. Que nenhum leitor acredite, neste ponto, que foi aconselha-
do ou que lhe foi dito como usar punição efetivamente. Os experi-
mentos que vimos até aqui não contam toda a história. Além de
suprimir conduta indesejada, a punição faz muitas outras coisas.
Quando levamos em consideração todos os seus efeitos, o sucesso
da puriição em livrar-se de comportamento parece inconseqüente. As
outras mudanças que ocorrem nas pessoas que são punidas e, o que
Coerção e suas implicações 91

é às vezes ainda mais importante, as mudanças que ocorrem naque-


les que executam a punição, levam inevitavelmente à conclusão de
que a punição é o método mais sem sentido, indesejável e mais
fundamentalmente destrutivo de controle da conduta.
Naturalmente, para muitos de nós a punição já é indesejável
simplesmente porque achamos pessoalmente aversivo coagir os ou-
tros. Mas podemos fazer mais que isto. Além de qualquer falta de
inclinação pessoal com a qual podemos começar, olhar além dos
efeitos imediatos da punição fornecerá bases racionais para tentar
alterar a orientação quase universal da sociedade em direção ao
controle coercitivo.
5

Tornando-se um choque

Punição tem efeitos colaterais


Retaliação por meio de brutalidade, terrorismo, destruição de
propriedade e assassinato, ainda que ética e legalmente condenada,
manteve-se comum por toda a história da humanidade até o seu
presente. O conselho freqüentemente ouvido, "Não leve desfeita para
casa", é apenas parcialmente uma brincadeira. A punição em repre-
sália a algum malfeito tem raízes emocionais, assim seus praticantes
não são receptivos à crítica ou a argumentos com base racional ou
factual. Capítulos posteriores considerarão as causas da justiça re~
tributiva e as razões para sua persistência e predominância.
Independentemente de nossas motivações reais para aplicar
punição, mais freqüentemente argumentamos que seu propósito é o
controle de comportamento indesejável — a limitação da destruição,
agressão, imoralidade e loucura. Como vimos, podemos obter este
resultado com punição intensa, ou combinando habilidosamente pu-
nição süave com reforçamento para ações alternativas.
Também se supõe que punir mau comportamento ensina
bom comportamento. Assim, "disciplinamos" crianças espancando-
as ou penalizando-as; nossos governos apontam mísseis para outras
Coerção e suas implicações 93

nações a fim de "ensinar-lhes respeito" e de "mostrar-lhes como


negociar com boa-fé"; uma filosofia educacional predominante afir-
ma que a ameaça do fracasso motiva os alunos a aprender, assim
professores universitários que não reprovam um número "razoável"
de alunos são considerados por seus colegas como tendo dado um
"curso qualquer" que nada ensina. Se a punição pode ou não infun-
dir novo comportamento é um problema sobre o qual falarei mais
adiante.
Se os efeitos da punição fossem confinados aos objetivos
construtivos que se reinvindica para seu uso, então, para se opor a
seu uso seria necessária uma demonstração de alternativas não-
coercitivas que atingem os mesmos objetivos. Alternativas estão
disponíveis, e eu mostrarei algumas no percurso, mas elas são
não-tradicionais, não-familiares, mesmo para a maioria dos psicólo-
gos. Também, alguns métodos não-coercitivos não são tão fáceis de
aplicar ou tão rápidos em sua ação, como uma precisa e intensa
punição ou reforçador negativo. O que os torna necessários, ainda
que eles sejam não-familiares e algumas vezes difíceis de aplicar, é o
vasto catálogo de efeitos colaterais da punição — conseqüências da
punição que cancelam seus benefícios e são responsáveis por muito
do que está errado em nossos sistemas sociais.
Não se pode esperar que qualquer pessoa não-ciente destes
efeitos colaterais considere razoável ou mesmo desejável substituir
controle coercitivo por controle não-coercitivo. Portanto, vou rever
toda a série de efeitos colaterais para mostrar como eles invalidam
qualquer justificativa que a punição possa ter.
O antigo código de Hammurabi prescrevia que um médico
cujo tratamento fracassasse teria o mesmo destino de seu paciente.
Se o paciente perdesse um olho, um braço ou uma perna, também o
perderia o médico. Estas regras duras, que algumas pessoas defen-
dem hoje, podem em alguma medida ter tido sucesso em assegurar
a competência dos praticantes da medicina, mas podemos estar
certos de que a penalidade infligida aos médicos também teve outros
efeitos colaterais. Muitos pacientes, com doenças que não tinham
um tratamento confiável, indubitavelmente sofreram negligência
porque nenhum médico desejava arriscar seu pescoço — ou qual-
quer outra parte do corpo — tentando uma cura. Em casos sem
esperança, muitos médicos provavelmente não desejavam receitar
sequer para alívio da dor e desconforto, uma vez que poderiam ser
acusados da morte do paciente. Alguns jovens brilhantes provavel-
mente evitavam a medicina como uma carreira por causa do perigo
pessoal. A punição severa pode ter tornado os praticantes mais
94 Murray Siclman

cuidadosos, mas, certamente, muito do que eles aprenderam como


uma conseqüência do código de Hammurabi orientou-se para sua
própria sobrevivência, em vez da sobrevivência de seus pacientes.
Efeito colateral é um termo que freqüentemente se refere a
conseqüências não-pretendidas e supostamente pouco importantes
ou improváveis de drogas, mas, como todos sabemos, os efeitos
colaterais de uma droga freqüentemente são sua característica mais
importante. Morfina, uma bênção quando elimina uma dor insupor-
tável, também escraviza seus usuários. Talidomida, que diminuía a
náusea materna durante os primeiros meses de gravidez, tinha um
trágico efeito colateral; no nascimento, muito depois de a mãe ter
parado de tomar a droga, a criança algumas vezes tinha um ou mais
braços e pernas parcialmente desenvolvidos e seriamente deforma-
dos. Tornou-se um fato comum que efeitos colaterais perigosos pro-
voquem a retirada de circulação de drogas que foram introduzidas
no mercado sem testes adequados.
Os efeitos colaterais da punição também, longe de serem
secundários, freqüentemente têm significação comportamental con-
sideravelmente maior que os esperados "efeitos principais". Punição
e outras formas de coerção, como muitas drogas, também foram
introduzidas em nossa cultura sem testes adequados. Talvez uma
avaliação mais completa das práticas coercitivas também fará com
que elas sejam retiradas da lista dos aprovados.
Resultados de testes estão agora disponíveis. A ciência da
análise do comportamento prove uma descrição das conseqüências
da cogrção racional, sistemática. Muitos dos efeitos colaterais da
punição foram isolados planejadamente e estudados no laboratório,
não como fenômenos secundários, mas como processos importantes
por si mesmos.

De mal a pior: como novos punidores são construídos


Usualmente admitimos como certo que determinados eventos
agirão como punidores. Se não, condenamos como anormal uma
pessoa que não mostra as reações esperadas, ou buscamos circuns-
tâncias mitigadoras e a admiramos e respeitamos por disciplina e
autoçontrole incomuns. Esperamos ver pessoas parar de fazer qual-
quer coisa que produza conseqüências que ameaçam a vida, são
dolorosas, provocam extremo calor ou frio, barulhos extremamente
altos ou irritantes ou luzes ofuscantes. Apenas sob condições inco-
muns a maioria de nós ingere alimentos ácidos ou amargos. Crian-
ças rapidamente aprendem a não tocar em um fogão quente. Pes-
Coerção e suas implicações 95

soas que espetam agulhas em si mesmas ou buscam dor e descon-


forto físico o fazem apenas porque algum reforçamento compete com
sucesso com a punição auto-infligida; aqueles que injetam insulina
em si mesmos para evitar comas diabéticos também recebem com-
preensão e simpatia. Quando vantagens para a comunidade supe-
ram o valor que atribuímos a uma vida individual, admiramos e
recompensamos atos de auto-sacrifício; soldados que se ferem no
resgate de camaradas recebem medalhas. Entretanto, encaramos
como anormal e necessitando de tratamento aqueles que buscam
dor em si mesmos infligida por um parceiro sexual.
Exceto sob circunstâncias extraordinárias, confidentemente
esperamos que qualquer estimulação excessiva, incomum, dolorosa,
ou perigosa sirva como um punidor. Estes são os punidores natu-
rais. Sua habilidade para parar comportamento em curso usualmen-
te não depende de qualquer outra circunstância, eles são assim.
Alguns aspectos do ambiente também podem funcionar como
punidores, ainda que não sejam inerentemente aversivos. Eventos
que são usualmente neutros podem tornar-se punidores. A palavra
"Não", tão temida por muitas crianças e mesmo por adultos, é ape-
nas um conjunto complexo de sons que não tem poder em si de
controlar comportamento. Como a palavra adquire este poder? De
que fontes o "0", simplesmente um padrão de linhas sobre o papel,
deriva sua extraordinária habilidade de punir estudantes? Mesmo
reforçadores positivos naturais podem tornar-se punidores. O que,
por exemplo, torna o intercurso sexual repugnante para alguns?
Estes são chamados "punidores condicionados", porque sua
habilidade para nos fazer parar de fazer algo é condicional a outras
circunstâncias. Quais são estas circunstâncias? Como as estuda-
mos?
No laboratório vimos o alimento funcionar como um reforça-
dor, mantendo nosso sujeito diligentemente pressionando a barra
pelo seu pão de cada dia. Também vimos breves choques elétricos
funcionando como punidores, colocando um fim, pelo menos tempo-
rariamente, às preocupações do sujeito com a barra. Mas, apenas no
laboratório um sujeito produz reforçadores ou punidores inde-
pendentemente de outras características do ambiente. Na natureza,
a busca de alimento por um animal nem sempre é bem-sucedida. "O
pássaro madrugador pega a minhoca" descreve uma condição na
qual uma contingência de reforçamento mantém-se verdadeira. Pou-
cas de nossas ações produzem seus reforçadores característicos em
todas as circunstâncias. O relógio nos diz se é provável que o jantar
estçja pronto se formos para casa naquele momento; um sinal na
96 Murray Siclman

porta nos informa se empurrando-a ou puxando-a ela se abrirá;


usualmente falamos apenas na presença de um ouvinte.
O mesmo é verdade para a punição. "Quando os gatos saem
os ratos se divertem" descreve uma condição na qual contingências
de punição são suspensas. Em algumas circunstâncias podemos nos
sair bem com condutas que de outro modo seriam penalizadas. Avós
tradicionalmente deixam crianças fazer coisas para as quais seus
pais franzem as sobrancelhas; crianças rapidamente aprendem a
ajustar suas demandas de acordo com isso. Um macaco de baixa
ordem social no bando pode roubar alimento de um outro ainda mais
inferior na hierarquia, mas, a menos que ele esteja desafiando as
relações de dominância estabelecidas, ele jamais tenta pegar a comi-
da do "macaco líder". Sensibilidade à probabilidade da punição res-
tringirá ou encorajará agressão pessoal e internacional. Em um nível
mais corriqueiro, muitos motoristas consideram sua velocidade ex-
cessiva apenas se uma patrulha policial está à vista; crianças desco-
brem que serão penalizadas por "palavrões" apenas se forem tolas o
suficiente para os dizer na presença de adultos, ou de outras crian-
ças linguarudas; promiscuidade sexual indiscreta pode ser censura-
da em Boston, mas aumenta a reputação e o apelo de bilheteria das
estrelas de Hollywood.
Se vamos ou não obter nossos reforçadores e punidores de-
pende, então, do ambiente físico e social presente. Aprendemos
quais situações levam a e quais situações suspendem contingências
de reforçamento e punição; em um ambiente particular, agimos ou
deixamos de agir de acordo com a probabilidade de que ganharemos
ou sofreremos as conseqüências. Se um elemento situacional sinali-
za a disponibilidade de um reforçador, é provável que realizemos o
ato; se ele sinaliza punição, ê provável que façamos alguma outra
coisa.
A presença ou ausência de alguma característica do ambien-
te nos diz se uma conseqüência particular é provável no caso de
agirmos de um dado modo. Adicionar este terceiro elemento à con-
tingência básica de reforçamento ou punição nos permite descobrir
que características do ambiente ganham controle sobre a conduta.
E, como veremos, além de sinalizar a probabilidade de conseqüên-
cias, particulares, estes ambientes controladores também adquirem
as funções reforçadoras ou punitivas dos eventos que eles sinalizam.
Podemos estudar o processo em um nível simples instalando
uma luz na caixa experimental. Agora, apenas enquanto a luz está
ligada o sujeito pode obter comida pressionando a barra. Se ele a
pressiona enquanto a luz estiver apagada nada acontece. Porque a luz
Coerção e suas implicações 97

controla a contingência de reforçamento, ela também passa a con-


trolar a atividade do animal, e em breve o registro mostra o animal
pressionando a barra apenas quando a luz é ligada, parando assim
que é apagada. Acender e apagar a luz inicia e pára o comportamen-
to do animal.
A luz pode também adquirir controle ao sinalizar punição.
Para mostrar isso, continuamos a dar ao sujeito alimento se ele
pressiona a barra no escuro, mas damos a ele alimento e choque se
ele pressiona enquanto a luz está acesa. Agora vemos o animal
passar a trabalhar quando a luz se apaga e parar assim que a luz se
acende.
Pouca coisa surpreenderá nestes experimentos exceto, talvez,
ver que um organismo tão inferior quanto um rato de laboratório é
tão sensível ao controle ambiental. O processo é bastante geral,
como ele deve ser, para que uma forma de vida tão complexa quanto
o homo sapiens tenha evoluído. Certamente, se uma espécie não
pudesse fazer uso de indicações ambientais para reforçamento e
punição, ela não sobreviveria por muito tempo. Uma ovelha que se
.deite diante de um leão certamente será comida. Aprendemos que
gelo sinaliza uma queda, a menos que andemos cuidadosamente ou
que coloquemos sapatos com cravos; dizer "azul" foi reforçado na
presença de objetos azuis, não de objetos vermelhos; não tocamos
fios descascados com as mãos desprotegidas, não nos enrolamos em
cobertores molhados para eliminar o frio, ou vestimos um maiô em
uma tempestade de neve. A nossa sensibilidade ao controle ambien-
tal torna possível adaptarmo-nos a contingências de reforçamento e
punição variadas e em constante mudança.
Uma vez que um elemento do ambiente adquire controle,
sinalizando um reforçador ou punidor particular, o sinal em si mes-
mo torna-se-á um reforçador ou punidor potencial. Sua função par-
ticular dependerá do tipo de contingência por meio da qual ele pas-
sou a controlar. Conseqüências comportamentais significativas, re-
forçadores e punidores condicionados são criados desta maneira.
Um evento que começa neutro torna-se um reforçador ou punidor
potencial como resultado de nossa experiência com ele. O sinal
torna-se um símbolo, representando uma conseqüência particular
que ele passou a indicar e tendo aproximadamente o mesmo efeito.
Por exemplo, nosso sujeito reagiu à luz trabalhando ou pa-
rando, dependendo da contingência que a luz controlava. A luz em si
deveria agora ser capaz de reforçar ou punir, dependendo de se ela
sinalizasse apenas alimento ou alimento mais choque. Como resul-
tado disso, mesmo o rato de laboratório trabalhará ou parará de
98 Murray Siclman

trabalhar por causa de conseqüências que comumente ignoraria,


mas que se tornaram significativas porque elas sinalizaram reforça-
mento ou punição.
Para descobrir se podemos transformar um evento neutro em
um reforçador, devemos primeiro pendurar uma corrente no teto da
caixa do sujeito. Toda vez que o animal puxar a corrente, a luz se
acende por cinco segundos. Neste ponto o registro mostra o animal
puxando a corrente apenas raramente; a luz não é ainda uma conse-
qüência significativa. Então, ensinamos o animal, como antes, a pres-
sionar uma barra dando-lhe alimento por fazer isso, mas somente
quando a luz está acesa. Assim que observarmos que ele trabalha na
presença da luz e pára quando a luz se apaga, estaremos prontos para-
testar a luz novamente para ver se ela servirá, agora, como um reforça-
dor.
Daqui em diante, damos ao animal algum controle sobre a
luz. A menos que ele puxe a corrente, a luz permanecerá apagada.
Naturalmente, nenhum alimento está disponível no escuro. Toda vez
que ele puxa a corrente a luz se acende por cinco segundos, e
durante este tempo ele pode obter alimento pressionando a barra.
Logo, vemos o animal ajustando-se sensivelmente às novas
demandas de seu ambiente de trabalho. Ele puxa a corrente, acende
a luz, e então trabalha na barra nos próximos cinco segundos. Tão
logo a luz se apaga ele puxa novamente a corrente e começa um
novo período de trabalho.
Porque a luz sinaliza cinco segundos de reforçamento com
alimento para pressionar a barra, ela passa a servir como um refor-
çador para puxar a corrente. Similarmente, nosso contracheque, que
sinaliza todos os reforçadores que uma ida subseqüente às compras
pode obter, também serve como um reforçador que mantém nosso
trabalho semanalmente. Dinheiro é tão poderoso — um reforçador
quase universalmente efetivo — que algumas vezes pensamos ser
natural, mas essas moedas, notas e cheques não têm valor inerente.
Eles adquirem sua habilidade para reforçar quaisquer atos que os
produzem porque eles tornam possível comprar e adquirir inúmeros
outros reforçadores.
Reforçadores condicionados controlam muito daquilo que fa-
zemos. Reações dos ouvintes como "Sim", "É", "Seguramente", ou
uma. balanço de cabeça, uma piscada, um sorriso, um toque, todas
reforçam nossa conversação porque elas sinalizam, em última ins-
tância, simpatia e concordância. Aplauso entusiástico reforça uma
performance no palco porque ele sinaliza críticas favoráveis, admira-
Coerção e suas implicações 99

ção pessoal e trabalhos futuros. Pequenos sinais que indicam em


última instância prazer reforçam investidas amorosas.
O mesmo processo pode criar punidores condicionados? Su-
ponha que nosso rato de laboratório aprendeu que pressionar a
barra lhe trará alimento, mas que pressionar quando a luz está
acesa também produzirá um choque. Alimento está sempre disponí-
vel se o sujeito trabalha por ele, mas quando acendemos a luz, que
sinaliza punição, o animal pára de trabalhar. O animal parará, ago-
ra, de fazer qualquer coisa que produza luz?
Para descobrir, primeiro damos ao animal uma boa razão
para puxar uma corrente, e então vemos se acender a luz fará com
que ele pare. Podemos, por exemplo, deixar o animal pospor.a luz ao
puxar a corrente; puxá-la enquanto a luz está apagada garantiria
que ela permanecesse apagada nos próximos cinco segundos. Se o
animal puxa a corrente com suficiente freqüência — pelo menos
uma vez a cada cinco segundos — ele evitaria que a luz jamais se
acendesse.
Durante esta fase preparatória do experimento, o sujeito
pode sempre obter alimento ao pressionar a barra, esteja a caixa
iluminada ou escura. Depois de cada cinco segundos de escuridão,
uma luz se acende e permanece acesa por outros cinco segundos.
Pressionar a barra na presença de luz ainda leva o animal a obter
seu alimento, mas junto com cada pelota de alimento vem um cho-
que breve. Puxar a corrente enquanto a luz está acesa não tem
conseqüência. Entretanto, o sujeito pode evitar que a luz jamais se
acenda, já que puxar a corrente no escuro assegura que a luz não
aparecerá outra vez pelo menos por cinco segundos.
Ao fim desta fase preparatória, observaríamos o efeito de
todas as contingências. O animal gastaria a maior parte de seu
tempo no escuro pressionando a barra e obtendo alimento. Pelo
menos uma vez a cada cinco segundos e, provavelmente mais fre-
qüentemente, ele deixaria a barra, se dirigiria à corrente e a puxaria
várias vezes antes de voltar a trabalhar na barra. Ocasionalmente,
ele não puxaria a corrente a tempo e a luz se acenderia, levando o
animal a parar de trabalhar até que o escuro retornasse. De vez em
quando ele também pressionaria a barra enquanto a luz estivesse
acesa e levaria um choque, mantendo assim a função sinalizadora
da luz.
Agora estamos prontos para descobrir se um evento que si-
nalizou punição tornou-se ele mesmo um punidor. As observações
preliminares dão um forte indício. Como vimos no início, um refor-
çador negativo, um evento que aumenta a freqüência de ações que o
100 Murray Siclman

encerram ou impedem de acontecer, usualmente punirá qualquer


ação que é seguida por ele. Porque esquiva da luz mantém o animal
puxando a corrente freqüentemente, sabemos que a luz tornou-se
um reforçador negativo. Portanto, é provável que ela também puna
qualquer comportamento seguido por ela.
Podemos conduzir o teste crítico revertendo a função da cor-
rente; em vez de pospor a luz, o animal agora acende a luz por cinco
segundos sempre que ele puxa a corrente. Esta punição fará com
que o animal pare de puxar a corrente? Não demora muito para que
a atividade do sujeito reflita a nova contingência; ele não mais puxa
a corrente. Em vez disso, ele trabalha alternadamente na barra, no
escuro, por cinco segundos e então permanece longe da barra en-
quanto a luz está acesa, nos cinco segundos subseqüentes. A luz,
que sinalizava ao animal que pressionar a barra seria punido, agora
ela mesma pune o animal por puxar a corrente. Ela tornou-se um
sinal para punição e um punidor em si mesma.
A mesma coisa acontece se punirmos por meio da retirada de
reforçadores positivos, em vez de apresentar reforçadores negativos?
Nem sempre administramos conseqüências desconfortáveis ou dolo-
rosas quando queremos colocar um fim às ações de alguém. Fre-
qüentemente tentamos atingir este objetivo impedindo as pessoas de
obter ou manter algo que queiram. Em vez de espancar uma criança
que se comportou mal, podemos retirar seus brinquedos ou fazê-la
"ficar de pé no canto", onde nenhum de seus brinquedos está dispo-
nível. Chicotear, como punição por desfalque ou sonegação de im-
postos foi substituído por multas em dinheiro e confisco de proprie-
dade. Escolas, em larga escala, abandonaram punição corporal em
favor de expulsão, com a conseqüente perda de oportunidades para
aprender. (Naturalmente, ê falacioso assumir que estudantes pos-
sam ser efetivamente punidos privando-os da oportunidade de ser
coagidos a aprender.) A maioria das culturas abandonou práticas
como cortar as mãos de batedores de carteira, castrar estupradores,
cegar aqueles que assistem a rituais proibidos e esticar heréticos
religiosos com instrumentos de tortura. Em vez disso, elas isolam
criminosos e pecadores de reforçadores positivos físicos, econômicos
e sociais que, de outra forma, teriam estado disponíveis para eles.
Essas formas menos brutais e presumivelmente mais humanas de
punição têm também o efeito colateral de tornar os elementos am-
bientais neutros em punidores? Sinais de perda ou retirada de refor-
çadores positivos, como sinais de dor, também tornar-se-iam eles
mesmos punidores potenciais?
Coerção e suas implicações 101

Voltemos ao laboratório para uma resposta. Em vez de dar


choque no sujeito por "mau comportamento", queremos agora desco-
brir se podemos fazê-lo parar, tornando um reforçador positivo não
disponível. Podemos fazer isto retirando a oportunidade de o animal
comer? Suponha que o experimento comece, mais uma vez, com um
animal que aprendeu a ganhar seu alimento pressionando uma barra.
Novamente, períodos de cinco segundos de luz e escuro são alternados,
mas em vez de receber choques, o sujeito simplesmente não obtém
alimento se ele pressiona a barra enquanto a luz está acesa. O animal
rapidamente aprende o significado da luz, parando de trabalhar tão
logo a luz se acenda e voltando a seu trabalho cinco segundos mais
tarde.
Embora a luz termine a atividade de pressionar a barra do
animal, ela não está funcionando ainda como um punidor, já que ela
não é uma conseqüência de qualquer ato. Ela serve apenas como
um sinal de que alimento não mais está disponível. Precisamos,
ainda, descobrir se este sinal também impede o sujeito de fazer
qualquer coisa que o produza.
Daqui em diante, o experimento procede exatamente como
aquele que tornou a luz um sinal de choque, exceto que a luz agora
sinaliza a não-disponibilidade de alimento.
Primeiro, porque o animal pode pospor a luz toda vez que ele
puxa a corrente, ele freqüentemente interrompe seu trabalho na
barra para fazê-lo. A luz funciona como um reforçador negativo; o
animal aprende a fazer algo que a protele.
Já que a maioria dos reforçadores negativos funciona tam-
bém como punidores, não ficaremos tão surpresos com os resulta-
dos na fase final, quando mudamos as regras. Agora, em vez de
pospor a luz puxando a corrente, o sujeito na verdade a acende. O
animal logo pára de puxar a corrente.
Privação da oportunidade para trabalhar por alimento torna-
se, como o choque, uma punição efetiva. A luz, um sinal ambiental
para não-disponibilidade de reforçamento positivo, torna-se ela mes-
ma um reforçador negativo e um punidor.

A importância da punição condicionada


O primeiro efeito colateral da punição, então, é dar a qual-
quer sinal de punição a habilidade para punir por si mesmo. Assim
como um elemento ambiental que leva a reforçamento positivo perde
seu status neutro e torna-se ele mesmo um reforçador positivo, um
elemento que leva à punição, torna-se ele mesmo um punidor. O
102 Murray Siclman

som da lata de biscoitos sendo aberta reforçará um criança por ser


boazinha; uma vez que tenhamos batido em uma criança, a simples
visão de nossa mão erguida será suficiente para parar mau compor-
tamento.
Novos reforçadores e punidores são criados desta maneira —
sinalizando outros reforçadores ou punidores. Por que este efeito
colateral deveria causar qualquer preocupação? Afinal de contas, na
medida em que nosso ambiente ganha novos reforçadores positivos,
nossas vidas tornam-se potencialmente mais gratiíicantes. Opções
novas e satisfatórias tornam-se disponíveis. Aproximação pode pre-
dominar em relação a fuga e esquiva e podemos aprender com base
em conseqüências produtivas, em vez de destrutivas.
Entretanto, com a adição de cada novo elemento punidor em
nosso ambiente, nossas vidas tornam-se menos satisfatórias, mais
desesperadas. Se encontramos punição freqüentemente, aprende-
mos que nosso caminho mais seguro é ficar quietos e fazer tão
pouco quanto possível. Nós nos congratulamos por cada dia que
passa sem catástrofe. As únicas coisas que estamos ansiosos por
aprender são novos modos de evadir ou de destruir objetos e pes-
soas que estão em nosso caminho. O processo é potencialmente
explosivo. Quando quer que sejamos punidos, mais e mais elemen-
tos de nosso ambiente tornam-se reforçadores negativos e punido-
res. Ficamos cada vez mais sob controle coercitivo e dependemos
cada vez mais de contracoerção para nos mantermos à tona.
Ambientes inteiros podem se tornar reforçadores ou punido-
res por si mesmos. Estudantes que são reforçados por notas altas,
respeito de seus professores e admiração de seus colegas provavel-
mente freqüentam regularmente a escola. Estudantes que são puni-
dos por notas baixas, desaprovação e humilhação por parte de seus
professores e falta de reconhecimento e até mesmo desprezo de seus
colegas provavelmente se mantêm fora da escola tanto quanto possí-
vel. A corifiança na punição coloca o selo "Coercitivo" em todo o
sistema e para muitos jovens um segmento importante de seu am-
biente é aversivo. Para alunos que são punidos em classe, a escola
torna-se um punidor. Em vez de fazer com que eles aprendam, a
puriição Os leva a se evadir do ambiente onde a aprendizagem su-
postamente ocorre e talvez, até mesmo, a se esquivar de todo proces-
so de aprendizagem formal.
Aí está porque punição condicionada é um efeito colateral
"tóxico" da punição. Ambientes em que somos punidos tornam-se
eles riiesmos punitivos e reagimos a eles como a punidores naturais.
Não gostamos deles, os odiámos ou tememos, evitando-os completa-
Coerção e suas implicações 103

mente se pudermos, ou escapando deles assim que for possível.


Considerando o choque como o punidor prototípico, podemos dizer
que situações nas quais recebemos choquès tornam-se choques elas
mesmas, capazes de gerar todas as reações que o choque gera.
Punição condicionada é um efeito colateral com o qual não
precisamos lidar muito longamente neste momento. Ele continuará
aparecendo à medida que nosso quadro do controle coercitivo se
desenvolver, uma vez que punidores condicionados gerarão, eles
mesmos, os mesmos efeitos colaterais que os punidores dos quais
derivam. Ameaças de punição, por exemplo, comunicadas em pala-
vras ou ações, são uma experiência universal, muito mais comuns
que as realidades que prognosticam. É crítico, portanto, reconhecer
que uma parte particularmente importante de nosso ambiente é
uma fonte importante de punição condicionada. É o ambiente social.
Tanto de um ponto de vista prático como de um pessoal,
talvez a coisa mais significativa a lembrar sobre o primeiro efeito
colateral da coerção é que as pessoas que usam punição tornam-se
elas mesmas punidores condicionados. Outros as temerão, odiarão e
se esquivarão delas. Se punimos outras pessoas, nós também nos
tornamos punidores. Nossa própria presença será punitiva. Se sim-
plesmente nos aproximamos daqueles a quem costumeiramente pu-
nimos, colocaremos um fim ao que quer que seja que estejam fazen-
do. Se apenas ameaçamos de nos aproximar, eles fugirão. Todos os
efeitos colaterais que os choques geram, nós também geraremos.
Qualquer um que use choque torna-se um choque.
6

Jiifja

Se quisermos entender a conduta de qualquer pessoa, mes-


mo a nossa própria, a primeira pergunta a fazer é: "O que ela fez?" O
que significa dizer, identificar o comportamento. A segunda pergun-
ta ê: "O que aconteceu então?" O que significa dizer, identificar as
conseqüências do comportamento. Certamente, mais do que conse-
qüências determinam nossa conduta, mas estas primeiras pergun-
tas freqüentemente hão de nos dar uma explicação prática. Se qui-
sermos mudar o comportamento, mudar a contingência de reforça-
mento — a relação entre ato e conseqüência — pode ser a chave.
Freqüentemente gostaríamos de ver algumas pessoas em
particular mudar para melhor, mas nem sempre temos controle
sobre as conseqüências que são responsáveis por sua conduta. Se o
temos, podemos mudar as conseqüências e ver se a conduta tam-
bém rriuda. Ou podemos prover as mesmas conseqüências para con-
duta desejável e ver se a nova substitui a antiga.
Esta ê a essência da análise de contingências: identificar o
comportamento e as conseqüências; alterar as conseqüências; ver se
o comportamento muda. Análise de contingências é um procedimen-
to ativo, não uma especulação intelectual. É um tipo de experimen-
tação que acontece não apenas no laboratório, mas, também, no
Coerção e suas implicações 105

mundo cotidiano. Analistas do comportamento eficientes estão sem-


pre experimentando, sempre analisando contingências, transfor-
mando-as e testando suas análises, observando se o comportamento
crítico mudou.
Pais de uma criança com enurese noturna crônica, por
exemplo, se perguntam se molhar sua cama está trazendo a seu
filho algum reforçador positivo que ele não obtém de outro modo.
Observando cuidadosamente, notam que geralmente lhe dão muita
atenção quando ele molha sua cama. Suspeitando que sua atenção
pode ter encorajado a enurese, tentam atrasar os resultados usuais
— lavar, trocar, falar e tocar — até a manha. Em vez disso, guardam
suas interações calorosas e afetivas com a criança para outras oca-
siões, talvez quando ela esteja brincando construtivamente, ou
aprendendo alguma coisa nova e, certamente, quando ela usa ade-
quadamente o banheiro.
Estes pais começaram a analisar as contingências que po-
dem ter mantido a enurese de seu filho. Se sua análise for válida,
eles em breve verão seu filho passando mais tempo em brincadeiras
construtivas e situações de aprendizagem e não mais usando a enu-
rese para obter atenção. Se sua análise não for válida, a continuação
da enurese também tornará isto evidente. Não é necessário haver
trabalho de adivinhação.
Algumas vezes, reforçamento negativo e não positivo é res-
ponsável pelo que fazemos. Podemos fazer algo não porque nos traz
algo bom, mas porque impede ou nos livra de algo ruim. Novamen-
te, a análise de contingências pode nos ajudar a compreender con-
duta problemática e a encontrar uma solução. Atenção, por exem-
plo, usualmente um reforçador positivo para uma criança, pode
colocar problemas delicados depois que a criança tornou-se um
adolescente. Pais que cuidam demais, ou muito intensamente, po-
dem ser vistos como intrometidos e controladores. Atenção, então,
funcionará como um reforçador negativo; é provável que os pais
notem que sua filha de 16 anos não parece mais querer falar com
eles, fica fora de casa tanto quanto possível e, quando em casa,
permanece calada.
Aqui também, a análise de contingências há de se demons-
trar auto-informativa. Se a análise for correta, mudanças nas con-
tingências mudarão a conduta; se for incorreta, a ausência de mu-
dança comportamental demandará uma abordagem diferente. Neste
exemplo, alguns dos reforçadores dos próprios pais — a responsivi-
dade de sua filha a eles e, talvez, seu bem-estar — estão em jogo.
Quando nossos próprios reforçadores estão em risco, nossa visão é
106 Murray Siclman

algumas vezes limitada; tendemos a ver o que queremos ver. Portan-


to, os pais podem precisar da ajuda de um observador não-envolvido.
O observador pode recomendar que eles respondam às confidencias
de sua filha com afetuoso interesse, mas sem bisbilhotar; que eles
mostrem não apenas seus temores em relação ao seu bem-estar,
mas sua confiança em sua integridade e capacidade de julgar. Se
modular sua atenção a transformar um reforçador negativo em um
reforçador positivo, eles descobrirão que a conduta de sua filha
muda. Desligar-se de seus pais, afastar-se deles e evitar comunica-
ção não mais será reforçador. Em vez disso, ela interagirá mais
freqüentemente, compartilhando experiências, confidenciando, con-
fiando, mudando de fuga e esquiva para aproximação.
Infelizmente, muitas pessoas encontram reforçamento positi-
vo cada vez mais raramente à medida que saem da infância. Para
algumas, é raro mesmo durante a infância. A medida que minha
história da coerção se desdobrar, ela mostrará que este triste estado
de coisas tem aumentado enormemente a demanda por psicólogos
clínicos, psiquiatras, assistentes sociais, analistas aplicados do com-
portamento e outros profissionais. Mantendo o olho aberto para
reforçadores negativos, cada um de nós se tomará capaz de com-
preender melhor e, talvez, ajudar uns aos outros.
Reforçamento negativo gera fuga. Quando encontramos um re-
forçador negativo fazemos tudo que podemos para o desligarmos, para
escapar dele. Se o encontramos novamente, faremos o que funcionou
antes. Reforçadores negativos também podem ser usados como puni-
dores. Uma maneira de punir pessoas é atingi-las com reforçadores
negativos como uma conseqüência de algo que tenham feito. (Como
vimos a outra maneira de punir é retirar reforçadores positivos.)
Reforçadores negativos e punidores, portanto, são os mes-
mos eventos funcionando de maneiras diferentes. Podemos fazer
choques desaparecerem — reforçamento negativo; ou podemos to-
mar choques — punição. Reforçamento negativo toma uma ação
mais provável, punição usualmente torna uma ação menos provável.
Se üm bebê pára de chorar quando o pegamos no colo — reforça-
mento negativo — responderemos aos seus choros subseqüentes
pégando-o no colo; mas se pegar a criança no colo faz com que ela
grite ainda mais — punição — tentaremos alguma outra coisa.
Punição e reforçamento negativo, quando trazidos à cena
pelo, mesmo evento, tornam-se ligados em um círculo vicioso. Um
choque do qual fugimos também pune o que quer que tenhamos
feito antes do choque. Ainda que possamos parar o choro da crian-
ça, também teremos cuidado para não fazer barulhos altos que
Coerção e suas implicações 107

produzem choro. Por sua vez, um choque que pune também estabe-
lece o potencial para reforçamento negativo; ele reforçará o que quer
que façamos para desligá-lo ou escapar dele. Ainda que o inicio do
choro puna nosso falar alto, o término do choro reforça pegar a
criança no colo. Punidores, sejam coisas, lugares, eventos ou pes-
soas suprimem ações que os produzem, mas também geram fuga
como um de seus efeitos colaterais. Uma vítima de punição que pode
desligá-la, ou pode de algum modo sair da situação, há de fazê-lo.
Assim, punição, além de seu efeito pretendido usual — redu-
zir conduta indesejável — também aumentará a probabilidade de
outro comportamento; se possível, aquele que recebe punição irá
desligá-la ou fugir. Do ponto de vista daquele que está punindo,
fazer o punido escapar pode ser um resultado não-pretendido e
altamente indesejável.
O punidor pode nem saber da conexão entre a punição e a
fuga. Algumas empresas, por exemplo, ainda que paguem salários
de mercado, experienciam uma alta taxa de turnouer de seu pessoal.
Elas deveriam investigar a possibilidade de que seus empregados
estejam fugindo de práticas coercitivas de supervisão. Incontáveis
casamentos terminam por causa da confiança excessiva em controle
coercitivo por parte de um ou de ambos os parceiros. O punidor,
nestes casos, freqüentemente, fica completamente estupefato diante
do desejo do outro de ir embora; e o punido, que talvez tenha
encontrado um outro amor, freqüentemente, não percebe que o de-
sejo de um novo parceiro é motivado pela fuga. E o que dizer de
vandalismo e de incendiãrios de escolas? Que melhor modo há de
fugir da coerção da sala de aula do que queimar a escola?
Punição está tão enraizada em nossas interações uns com os
outros que freqüentemente sequer sabemos que estamos usando-a.
E então, quando nossos negócios, casamentos, amizades e outros
empreendimentos e relações pessoais importantes repentinamente
fracassam, ficamos desapontados, magoados e bravos. Não com-
preendendo nosso próprio papel como coercedores e não reconhe-
cendo que outros estão na realidade fugindo de nós, os acusamos de
infidelidade, estupidez, deslealdade, vacilação e, até mesmo, neuro-
se. Portanto, é critico que saibamos mais sobre este comportamento
que chamamos de "fuga".

Aprendendo por meio da fuga


A maneira mais direta de estudar a fuga é apresentar refor-
çadores negativos e ao mesmo tempo dar ao sujeito uma rota de
108 Murray Siclman

fuga. Podemos dar um choque em um rato de laboratório usando o


chão da caixa experimental, deixando que o animal desligue imedia-
tamente o choque ao pressionar uma barra. Em pouco tempo, o
animal terá aprendido a pressionar a barra assim que o choque
começa. Este procedimento simples mostra que reforçamento negati-
vo e positivo compartilham pelo menos uma característica: ambos
podem ensinar novo comportamento. Todos nós aprendemos a pres-
sionar muitas barras, algumas porque trazem "alimento" e outras
porque desligam "choques".
Esta demonstração de laboratório nos diz que reforçamento
negativo é uma maneira efetiva de ensinar? Mais geralmente, a coer-
ção por reforçamento negativo é uma maneira efetiva de controlar
conduta? Ela justifica a prática predominante de coerção na família,
nas escolas, no trabalho e em quase todos os lugares?
Aqui chegamos ao ponto crucial da questão. O que é um
ensinar "efetivo"? O que significa controle "efetivo"? Como podemos
dizer se mudamos efetivamente o comportamento de alguém? Nosso
sujeito experimental, coagido por reforçamento negativo a pressionar
a barra, parece ter aprendido muito bem sua lição; ele nunca deixa
que o choque permaneça ligado mais que uma pequena fração de
segundo. Mas, se olharmos mais de perto o animal, podemos nos
perguntar se realmente ensinamos efetivamente.
Suponha que tenhamos programado os choques para aconte-
cer imprevisivelmente. Algumas vezes alguns segundos são o inter-
valo entre choques, algumas vezes muitos segundos, algumas vezes
alguns minutos. Ocasionalmente, choques se seguem em rápida su-
cessão, nem bem o animal desligou um choque e ele deve imediata-
mente pressionar novamente a barra para desligar um outro. Com
tal imprevisibilidade, o animal não pode se arriscar a ir para longe
da barra. Ele realmente não pode se arriscar a fazer qualquer outra
coisa que não seja ficar na barra, pronto para pressioná-la tão
rapidamente quanto possível, ao primeiro sinal de choque. O ani-
mal'-torna-se uma máquina de pressão à barra, fazendo seu traba-
lho devotadamente e com precisão, não se arriscando a nada mais.
Se ele pudesse falar, ele possivelmente diria o ditado: "Melhor pre-
venir dó que remediar."
A contingência de reforçamento negativo certamente ensinou
algo ao animal, mas aconteceu mais do que esperávamos — a me-
nos, naturalmente, que fosse nossa intenção tornar o sujeito um
autômato. Uma contingência de reforçamento simples — o animal
produz comida pressionando uma barra — também ensina, e aqui
também o animal aprende mais do que simplesmente a pressionar a
Coerção e suas implicações 109

barra. Ele permanece relaxado o suficiente para explorar seu am-


biente de tempos em tempos, para descobrir se algo novo está acon-
tecendo, para fazer outras coisas que podem ter sido reforçadas no
passado, ou simplesmente para descansar. A contingência positiva
deixa o animal em posição para tirar vantagem de outros reforçado-
res que podem se tornar disponíveis e de novas oportunidades para
aprender que possam surgir.
Por outro lado, a contingência de reforçamento negativo, que
coage o animal a pressionar a barra para desligar choques, torna-o
incapaz de relaxar sua vigilância. Em posição de não fazer e de não
aprender qualquer outra coisa, ele leva o que podemos chamar de
uma "vida de quieto desespero", seu único critério de sucesso sendo
sua efetividade em reduzir a quantidade de choques que ele toma.
Assim, um julgamento de se reforçamento negativo ensina
efetivamente dependerá, antes de tudo, da completude de nossa
análise. O que o aluno realmente aprende? As contingências que
estabelecemos usualmente ensinarão mais do que planejamos. Am-
bos, reforçamento positivo e negativo, efetivamente ensinarão o que
as contingências especificam, mas elas também ensinarão outras
coisas. É aí que elas diferem. Reforçamento positivo deixa-nos livres
para satisfazer nossa curiosidade, para tentar novas opções. Refor-
çamento negativo inculca um repertório comportamental estreito,
deixando-nos temerosos de novidades, com medo de explorar.
Se julgamos ou não reforçamento negativo um meio efetivo
de controlar a conduta também dependerá de nossas intenções. Se
nosso objetivo for criar um ser que fará exatamente aquilo que
queremos, e nada mais, o caminho é um forte reforçamento negati-
vo. Mas déspotas, sejam eles ditadores militares, tiranos desprezí-
veis ou opressores familiares, têm que permanecer eternamente vigi-
lantes. Finalmente, todos eles caem porque o reforçamento negativo,
como veremos, produz ainda mais efeitos colaterais.
Reforçamento negativo, então, particularmente se intenso e
contínuo, pode restringir estreitamente nossos interesses, até mes-
mo causando uma espécie de "visão de túnel" que nos impede de
atentar para qualquer coisa, exceto o estresse a que estamos, no
momento, sendo submetidos. Nós podemos dar conta muito bem de
rotinas estabelecidas, embora talvez de uma maneira estereotipada,
mecânica ou compulsiva. Em casos extremos, estaremos sempre
olhando por sobre os ombros para ver que novo desastre está a
ponto de desabar sobre nossas cabeças.
Em um segundo efeito colateral, reforçamento negativo conti-
nuado transforma mais e mais pessoas, objetos e lugares à nossa
110 Murray Siclman

volta em reforçadores negativos. O domínio sob o qual estamos su-


jeitos a controle coercitivo se alarga. À medida que desligamos os
vários tipos de choques que nos atingem em certos momentos, em
lugares específicos e em outras circunstâncias distintivas, nosso
ambiente passa a sinalizar a iminência de cada tipo de choque e a
iminência da necessidade de fugir. A fuga ocorre dentro de um
contexto ambiental e finalmente aprendemos os sinais para cada
contingência.
Quando uma situação que começou neutra, ou mesmo bene-
volente, torna-se um sinal de reforçamento negativo, torna-se tam-
bém um reforçador negativo por si mesma. Assim como qualquer
punição torna também punidores as circunstâncias que a acompa-
nham, qualquer reforçamento negativo também estabelece o am-
biente no qual ocorre como um reforçador negativo. Uma vez cria-
dos, estes coercedores condicionados passam a controlar, suplan-
tando os agentes controladores pretendidos e estendendo a coerção
para muito além de seu escopo original.
Poderíamos facilmente demonstrar a transformação de todo
um ambiente em um reforçador negativo fazendo um experimento
que ninguém jamais fez. Será fácil perceber porque não é feito.
Simplesmente remova o teto de uma caixa onde um rato de laborató-
rio está pressionando sua barra para desligar choques. Os instru-
mentos de registro em breve ficariam silenciosos: o animal teria ido
embora — literalmente, pelo teto.
Lugares onde experienciamos reforçamento negativo tornam-
se eles mesmos reforçadores negativos. Assim também se tornam as
pessoas que nos controlam por reforçamento negativo. Se pudermos,
fugiremos de ambos, lugares e pessoas. Prisioneiros fogem da ca-
deia, soldados desertam do exército, trabalhadores fazem intervalos
ampliados e estão fora do trabalho assim que o relógio mostra o fim
do dia de trabalho. Patrões que dizem aos trabalhadores para "pro-
duzir ou..." experienciam um turnover de pessoal mais alto do que
aqueles que simplesmente arranjam promoções, pagamentos maio-
res e tempo livre como resultado da produtividade. Pacientes prova-
velmente abandonarão os cuidados de um médico que lhes diz que
não deveriam comer tanto porque estão muito gordos e procurarão
uin outro que lhes diz o que deveriam comer para tornar-se magros.
Portanto, controle por reforçamento negativo também torna-
rá o ambiente coercitivo. Se conseguimos que outros façam o que
queremos, deixando-os fugir de algo desagradável ou nocivo, eles
também fugirão, se possível, dos lugares onde tal coerção ocorreu —
e tíe nós. Quando fazemos outros cumprirem nossas ordens "aper-
Coerção e suas implicações 111

tando os parafusos" até que eles as cumpram, podemos descobrir,


se formos os proprietários, que nossas vítimas abandonaram seu
apartamento; se formos os patrões, que elas abandonaram o empre-
go; se formos um credor, que elas saíram da cidade.
Qualquer elemento físico ou social de uma situação em que
somos reforçados por desligar ou fugir de algo doloroso, amedronta-
dor ou repugnante, torna-se ele mesmo um lugar ou uma pessoa da
qual fugir. Se controlamos outros por reforçamento negativo, tam-
bém nos tornamos objetos de aversão. Conhecidos, parentes, colegas
de trabalho, qualquer um que não tenha de permanecer em contato
conosco irá embora. Eles descobrirão barras que podem pressionar
para interromper ou descontinuar a relação. Se formos professores
coercitivos, nossos alunos não estarão disponíveis para receber nos-
sa instrução. Se formos pais coercitivos, nossos filhos sairão de casa
assim que puderem. Se formos policiais coercitivos, descobriremos
que o nosso é um caminho solitário.

Reforçamento negativo e punição


As duas formas de coerção — reforçamento negativo e puni-
ção — permanecem de perto relacionadas. Eventos que são reforça-
dores negativos em um momento podem ser punidores em outro,
sendo seu papel particular determinado por sua relação com nossa
conduta. É provável que nos mantenhamos fazendo qualquer coisa
que remova a cara feia do chefe — reforçamento negativo; também é
provável que paremos de fazer qualquer coisa que faça a cara feia
reaparecer — punição.
Na prática, reforçamento negativo e punição estão ainda
mais imediatamente interligados. Para que o término de um evento
seja reforçador, primeiro o evento tem de ocorrer; o choque tem de
acontecer antes que possamos desligá-lo. O que estávamos fazendo
quando o choque apareceu? O que quer que seja, é menos provável
que repitamos esse ato no futuro, ainda que ele não tenha realmente
trazido o choque.
Se o sujeito experimental, desligando choques ao pressionar
uma barra, deixasse a barra para investigar um ruído no fundo da
caixa, ele provavelmente receberia um choque durante sua explora-
ção. E por causa do tempo necessário para o sujeito voltar à barra, o
choque provavelmente duraria mais que o usual. Qualquer interesse
futuro em sons misteriosos seria enormemente reduzido. Embora o
som não tenha causado o choque e nada do que o animal tenha feito
realmente tenha produzido o choque — ele teria vindo naquele mo-
112 Murray Siclman

mento, de qualquer maneira — ambos, o som e o comportamento


exploratório, por acaso precederam o choque. Exploração foi, por-
tanto, punida e o som tornou-se um sinal de aviso.
Estes tipos de conseqüências acidentais — ações e seus
contextos ambientais correlacionados apenas por acaso com o apa-
recimento de um reforçador negativo — podem ser responsáveis por
superstições e por conduta que parece anormal ou mesmo doente;
mais tarde, eu falarei sobre alguns desses efeitos colaterais da
punição e do reforçamento negativo. No momento, a punição aci-
dental que inevitavelmente acompanha reforçamento negativo pode
ser vista como ainda uma outra indicação da íntima relação entre
as duas formas de coerção. Antes que um reforçador negativo possa
fortalecer o que quer que façamos para desligá-lo, ele punirá auto-
maticamente o que quer estejamos fazendo exatamente antes do
seu início.
O elo entre punidores e reforçadores negativos se estende
também a seus efeitos colaterais condicionados. Um ambiente do
qual fugimos punirá qualquer ação que nos coloque de novo em
contato com ele. Se a escola é um reforçador negativo, fortalecendo
nosso comportamento de deixá-la, ela provavelmente é também um
punidor, reduzindo nossa inclinação para nos aproximarmos e en-
trarmos. É provável que um salvamento de afogamento nos reforce
poderosamente por sair da água; a menos que medidas especiais
sejam tomadas para neutralizar o status de punidor recém-adquiri-
do pelo oceano, tenderemos a encontrar outros modos, que não o
nadar, para nos exercitarmos ou nos mantermos sem calor. Pode-
mos até mesmo abandonar barcos como meio de transporte. Uma
criança não aprenderá apenas a fugir do fanfarrão da vizinhança,
talvez correndo mais que ele, mas também a se manter distante de
seu território.
Portanto, aqueles que nos controlam coercitivamente podem
usar os mesmos eventos como punidores para parar o que estamos
fazendo ou como reforçadores negativos para nos obrigar a fazer algo
para fugir. Eles podem nos dar choques por fazermos o que os
desagrada, ou podem nos dar choques até que façamos o que os
agrada. Ao continuar a analisar os efeitos colaterais da coerção será
conveniente juntar estas duas técnicas coercitivas, punição e refor-
çamento negativo.
7

'Rotas de fuga

Um arranjo padrão de laboratório mantém um sujeito rapi-


damente desligando choques ao pressionar uma barra. Fora do labo-
ratório, realizamos uma quase ilimitada variedade de rotinas de
fuga. Com o controle pelo reforçamento negativo e punição predomi-
nantes em praticamente todas as áreas das relações humanas, expe-
rienciamos muitos tipos de choques junto com muitos eventos e
situações que se tornaram equivalentes a choques. Cada um de nós
encontrou muitos tipos de barras com as quais desligá-los.

Dêsligando-se
Freqüentemente desligamos o que quer que nos desagrade. A
uíenos que más notícias demandem ação imediata, tendemos a fugir
tornando-nos cegos ou surdos a elas. Algumas vezes trancamos o
ambiente coercitivo ligando-nos em literatura, teatro e filmes de
"escape". Mesmo reforçadores negativos e punidores suaves, mas
persistentes, podem tornar habitual a fuga. Tendo um pai ou esposo
que fala incessantemente, aprendemos a "fechar nossos ouvidos",
balançando a cabeça ou assentindo ocasionalmente, mas escutando
pouco. Nalguma medida, vemos e ouvimos apenas aquilo que quere-
114 Murray Siclman

mos ver e ouvir, ignorando realidades desagradáveis até que elas se


tornem persistentes ou fortes o suficiente para perfurar nosso escu-
do de insensibilidade.
Podemos salvar uma relação aprendendo a ignorar pequenas
amolações, mas desligar perigo e sinais de perigo não é adaptativo.
Não faz sentido provocar a morte dirigindo um carro em sua veloci-
dade máxima porque "isto não pode acontecer comigo". É bobagem
continuar fumando com o argumento de que "a evidência é apenas
estatística". Ignorar uma curva de vendas decrescente porque "é
apenas o ciclo natural dos negócios" provavelmente levará o negócio
à falência. Por que tão freqüentemente nos engajamos em tal fuga
irreal? Por que desligamos a realidade? Para uma explicação, olhe
primeiro para as conseqüências imediatas em vez das conseqüências
finais. A curto prazo, desligar realmente funciona. Por não apresen-
tar outras reações em relação a alguém que ofende ou a um evento
ofensivo ou perigoso, desligar faz com que o evento ou perigo desa-
pareça da consciência — ele realmente parece sumir.
Mas finalmente a realidade não prevalece? Podemos sobrevi-
ver ignorando o desagradável, o feio ou o perigoso?

Crise de gerenciamento. Algumas vezes desligar parece justi-


ficar-se, mesmo a longo prazo. Todo mundo conhece pessoas que
generalizadamente colocam problemas "no gelo", mas que, então,
aplicam efetivamente suas mais desenvolvidas habilidades de técni-
cas, sociais e de gerenciamento, para lidar com cada um desses
problemas à medida que sua severidade finalmente força sua aten-
ção. Eles se movem de crise em crise. No processo, alguns proble-
mas, ainda que não-trabalhados, realmente desaparecem. E assim,
seu reforçamento negativo imediato por desligar, o reforçamento
ocasional quando um problema negligenciado se resolve sozinho, e
seu sucesso em finalmente lidar com problemas difíceis, tudo isto
produz um ganho final.
Mas, embora possamos fugir das coerções da vida por algum
tempo desligando-as até que demandem nossa atenção, uma carrei-
ra dé gerenciamento de crises é, paradoxalmente, uma existência
completamente coagida. Cada emergência nos mantém em suas gar-
ras, ocupando toda nossa atenção e controlando todas as nossas
ações até que a tenhamos resolvido. Então, a próxima crise nos
agarra. Reforçamento negativo — fuga — domina nossas vidas. O
fracasso, o resultado de uma crise severa ou complicada demais
para resolver, parece uma possibilidade remota. Úlceras, ataques
cardíacos, estafa e outros problemas nos quais a coerção pode de-
Coerção e suas implicações 115

sempenhar um papel são freqüentes na população, mas raramente


atingem qualquer indivíduo particular. Eles, portanto, exercem pou-
ca influência até que realmente aconteçam conosco.

Deixe o Zé fazer isso. Outros reforçadores também podem


sustentar o desligar como um modo de lidar com problemas, ainda
que a lógica nos diga que ignorância da realidade não pode promo-
ver a sobrevivência. Podemos ignorar uma situação perigosa porque
não estamos prontos para enfrentá-la, mas alguém mais, conside-
rando aquele mesmo perigo mais ameaçador, pode lidar com ele
diretamente. E assim temos a solução "deixe o Zé fazer isso" para
problemas desagradáveis. Quando ela funciona, torna-se ainda mais
provável que desliguemos as demandas menos agradáveis da vida.
Nossa sorte finalmente acabará, mas, enquanto isso, temos compa-
nhia; muitos fogem "vendo tudo cor-de-rosa" ou "brincando de Polia-
na", ainda que estas adaptações devam se demonstrar finalmente
autoderrotadas.
No governo, na indústria e nas grandes instituições, "Deixe o
Zé fazer isso" foi formalizado como "Delegação de responsabilidade".
Freqüentemente fugimos ã responsabilidade, passando-a para algu-
ma outra pessoa. Quando decisões requerem conhecimento que não
temos, ou que causarão conseqüências desagradáveis, atribuímos
responsabilidade a Zé ou Maria. Na indústria, esta rota de fuga tem
levado à proliferação de diretores, gerentes, líderes de projetos e
consultores técnicos; no governos a uma emaranhada estrutura ad-
ministrativa de departamentos, secretarias e ministérios; nas uni-
versidades e hospitais a uma "estrutura de suporte" que consome
ela mesma consideravelmente mais recursos que a própria missão
educacional ou de saúde que a estrutura supostamente sustenta.
Cada novo elo na "cadeia de comando" supostamente remove da
atenção imediata do chefe alguma área problemática. É como uma
partida de futebol sem fím, cada jogador habilidosamente passando
a bola para um outro, esperando não ser o desafortunado recebedor
de um passe para o gol.
O crescimento da burocracia industrial e governamental é
usualmente justificado como uma medida de eficiência. Entretanto,
a longo prazo, os benefícios da influência, renda e poder reforçam
nossos líderes por manter e expandir suas burocracias particulares.
A curto prazo, cada delegação de responsabilidade recebe reforça-
mento negativo forte e imediato — fuga dos trabalhos necessários
para se chegar a julgamentos fundamentados e liberdade dos coníli-
116 Murray Siclman

tos que toda decisão gera. E, naturalmente, "deixar Zé fazer isso"


também significa que mais tarde "Zé pode levar a culpa".
Fazer nada. A fuga da solução de problemas torna-se ainda
mais reforçadora quando uma decisão errada poderia produzir ca-
tástrofe. A possibilidade de holocausto nuclear parece ter paralisado
os líderes das nações. Confrontados com estoques de armas nuclea-
res cada vez maiores, eles olham em outra direção. Armas nucleares
estão se tornando crescentemente mais acessíveis a indivíduos que
possivelmente não poderiam compreender seu potencial destrutivo e
que, portanto, não hesitariam em usá-las. Elas também estão se
tornando disponíveis para terroristas, cuja existência marginal lhes
dá pouca razão para temerem sua própria destruição. Ainda assim,
nossos líderes fingem que a catástrofe não pode acontecer. Ou, caso
pudesse, eles afirmam que a possibilidade seria remota; "não há
uma emergência". Um movimento errado pode trazer um desastre
tão enorme que não realizar qualquer mudança parece o caminho
mais seguro. Portanto, eles continuam a ameaçar uns aos outros
com destruição; o único elemento novo é que a ameaçada destruição
de algum modo torna-se mais e mais total.
A chantagem nuclear que poderia se seguir a qualquer de-
sarmamento unilateral impede cada nação de dar esse passo. O
medo de proliferação nuclear não-detectada impede acordos de de-
sarmamento multinacionais. De qualquer modo, a impossibilidade
de restringir o crescimento do conhecimento científico e de engenha-
ria rapidamente tornaria obsoletas as provisões técnicas de qualquer
acordo limitado. Portanto, está fadada ao fracasso qualquer coisa
que não seja a total desistência de todas as aplicações destrutivas
desse conhecimento. Mas, uma desistência total não teria significa-
do sem um monitoramento irrestrito de todos os países signatários.
Incapazes de superar as dificuldades práticas que tal compromisso
total colocaria, líderes nacionais fingem que sabedoria convencional
será suficiente para fazer com que este problema totalmente incon-
vencional desapareça.
E assim eles nada fazem. Fuga da realidade e da responsa-
bilidade continuam. A diplomacia internacional torna-se um enig-
ma sem sentido, repleto de pronunciamentos e posturas de auto-
superioridade, com demonstrações cuidadosas de pêlos eriçados,
grunhidos, ranger de dentes e batidas de pés. O perigo de limitar a
proliferação de armas nucleares faz com que nossos líderes ignorem
o perigo maior de deixar que ela continue. Recusando-se a agir
agora, iludindo-se, acreditando que eles ainda não têm que fazer sua
escolha, eles na realidade escolheram. Sua decisão foi a de autodes-
Coerção e suas implicações 117

truir; apenas a data permanece incerta. Porque o alívio de ter que


tomar uma decisão potencialmente perigosa é imediato, ele os con-
trola mais fortemente do que a conseqüência catastrófica, mas mui-
to atrasada, de não tomar qualquer decisão óbvia.
Este fato do comportamento — conseqüências imediatas nos
influenciam mais fortemente que conseqüências atrasadas — justifi-
ca uma previsão pessimista: a probabilidade de que a espécie huma-
na sobreviverá não é grande. A decisão de nada fazer de construtivo
para promover a sobrevivência fornece alívio imediato da necessida-
de de considerar o impensável; ela nos deixa livres para perseguir
nossas preocupações e problemas cotidianos. Mas colocar a auto-
destruição na gaveta rotulada "supersecreto" de nossa consciência
não a fará desaparecer. Há um pouco de "Deixe o Zé fazer isso" aqui,
com o Zé sendo nossos filhos e netos.
O problema é único na história humana. Aprendizagem vem
da experiência, mas ninguém ainda experienciou o iminente choque
final. Sem ter tido oportunidade de descobrir uma barra que pudes-
se trazer alívio, passamos a pressionar barras que trazem o desastre
para mais perto. Temos aqui uma situação na qual não podemos
esperar que a experiência nos ensine; o reforçamento negativo ne-
cessário para sustentar esta adaptação particular jamais pode ocor-
rer porque ninguém sobreviverá ã primeira experiência.
O problema fundamental é comportamental e a análise do
comportamento o expõe, mas não está claro que nossa espécie esteja
equipada comportamentalmente para resolvê-lo. Podemos reduzir o
controle que contingências passadas e presentes exercem sobre nos-
so comportamento presente? Podemos, em vez disso, nos colocar sob
o controle de uma contingência que ainda não aconteceu? Podemos,
de algum modo, tornar a ameaçada destruição da espécie um deter-
minante mais poderoso de nossa conduta do que nossas preocupa-
ções econômicas e ideológicas atuais? Nossa tendência para enfren-
tar problemas difíceis desligando-nos deles, um produto da excessi-
va exposição à coerção, de algum modo terá que ser contornada. Eu
terei mais a dizer sobre isso mais tarde, ao discutir alternativas à
coerção no controle do comportamento.

Desistindo
Um outro tipo de barra de fuga que muitos aprendem a
pressionar é parecida com a barra de desligar. Em vez de simples-
mente desligar-se, eles realmente desistem. Desistir, com sua mui-
tas nuances de significado, é um importante problema social de
118 Murray Siclman

nosso tempo. Temos desistentes da educação, da família, da religião,


de responsabilidade pessoal e da comunidade, da cidadania, do veio
principal da sociedade, da própria sociedade, da vida.
O elemento comum em todos os tipos de desistência é refor-
çamento negativo. Algumas vezes ele toma a forma de esquiva; nós
nos impedimos de nos envolver. Eu discutirei esquiva, um outro
efeito colateral da coerção, nos próximos capítulos. Em outros mo-
mentos, o reforçamento negativo toma a forma de fuga; tendo nos
envolvido, nós, então, quebramos o contato, saímos.
Desistir de aspectos coercitivos, mas importantes, da vida
pode empobrecer severamente nossa existência. A sociedade tam-
bém é a perdedora quando um indivíduo pára de participar. Usar
uma barra de desistência para fugir da coerção é uma adaptação
não-produtiva. Desistentes não contribuem, seja para o seu bem
estar, seja para o bem-estar geral.

Desistindo da escola. Desistentes da escola são um exemplo


particularmente trágico. Embora muitas comunidades não deixem
mais os professores usar punição corporal, a coerção ainda é a
principal ferramenta pedagógica. Supõe-se que a aprendizagem pro-
vê suas próprias recompensas, mas ninguém confia no fracasso
como provedor de suas próprias punições. Este se supõe ser o traba-
lho do professor. Fazer com que os alunos aprendam punindo-os
quando eles fracassam.
O chapéu de burro, literalmente e figurativamente, ainda é
de uso comum. Exponha alunos lentos ao ridículo; revele suas ina-
dequações para eles mesmos e para os outros chamando-os em
testes orais; devolva seus trabalhos cheios de comentários escritos
em destaque e com notas baixas para que outros alunos vejam à
medida que passam os trabalhos da frente para trás; fale com eles
rispidamente, ou com paciente exasperação; enfatize suas notas bai-
xas, escrevendo-as em seus boletins com tinta vermelha; sente-os no
fundo da classe, use-os como exemplos do que acontece com alunos
fracassados.
Se eles não conseguem lidar com a carga de trabalho normal,
dê-lhes mais; faça-os passar mais horas na escola e fazer trabalho
extra na escola e em casa; garanta que o fracasso em aprender não
apenas os torna párias sociais, mas os priva também de brincar e de
outros divertimentos. Escolarização não precisa ir longe antes que
as crianças concluam que aprendizagem e prazer são mutuamente
exclusivos, que mais de um significa menos do outro.
Coerção e suas implicações 119

De fato, a fuga é inevitável. Alguns alunos simplesmente se


desligam. Eles e seus professores estabelecem um pacto implícito:
Desde que eles "se comportem", o professor deixará que eles se
percam em seus próprios sonhos. Mas se a coerção aumenta, desli-
gar-se torna-se impossível. Então, a desistência começa, iniciando-
se com andar devagar e se atrasar, mudando para doenças fictícias,
daí para "cabular aulas" e, finalmente, para raramente — ou nunca
— aparecer. O custo de encontrá-los e trazê-los de volta torna-se
exorbitante, assim a comunidade os ignora até que, na idade legal,
eles obtêm a libertação da servidão.
Naturalmente, nem todos os professores praticam a coerção
e muitos merecem admiração por sua dedicação e competência. Mui-
tos rejeitam reforçamento negativo como um método para induzir
alunos a aprender e, em vez disso, usam reforçamento positivo efeti-
vamente. Aqueles que conduzem os seus alunos com sucesso a cada
passo, reforçando positivamente sucessos, em vez de punir fracas-
sos, não criam desistentes; eles não dão aos seus alunos qualquer
razão para fugir.
Mas, professores que rejeitam a coerção como uma ferramen-
ta pedagógica o fazem a despeito de seu treinamento. Embora a
filosofia da educação atualmente ensinada em nossos cursos de
pedagogia seja anticoercitiva, o treinamento prático não usa o que é
sabido sobre o ensinar não-coercitivo. Diz-se a futuros professores
que a coerção é ruim, mas não se mostra a eles como usar alternati-
vas efetivas. As práticas tradicionais persistem.
As crises atuais de disciplina e desistência são o resultado
inevitável de uma história de coerção educacional. Pode-se ter sau-
dades dos dias em que os alunos temiam seus professores, falavam
com eles com respeito, aceitavam trabalho extra como punição, sub-
mètiam-se a serem mantidos na escola depois da aula e até mesmo
se resignavam a apanhar. Mas através dos anos, todas estas formas
iè controle coercitivo estavam semeando a destruição do sistema.
Dnde e quando quer que a coerção seja praticada, o resultado final é
^erda de suporte para o sistema por parte daqueles que sofreram
:om ele. Em todo ambiente coercitivo, o coagido finalmente encontra
lianeiras de voltar-se contra os coercedores. Contracontrole, vere-
rtos mais tarde, é um outro efeito colateral do controle coercitivo.
Jma relação de adversários desenvolveu-se entre alunos e professo-
es, e as vítimas anteriores, agora pais, não mais apoiam o sistema
:ontra seus próprios filhos.
Isto não significa dizer que a coerção no sistema educacional
; a única causa da desistência. A coerção sempre foi praticada nas
120 Murray Siclman

escolas, ainda assim os desistentes tornaram-se um problema agudo


apenas em anos recentes. Não temos qualquer evidência de que
nossas escolas sejam mais coercitivas hoje do que no passado. Cla-
ramente, outros fatores também estão envolvidos. Nos últimos cin-
qüenta anos, a estabilidade geográfica e emocional que a estrutura
familiar costumava prover se deteriorou drasticamente; a sempre
presente ameaça de destruição nuclear foca a atenção dos jovens e
de todos os demais no presente, em vez de focá-la na preparação de
um futuro que pode não existir; o abuso de drogas está afetando
todas as instituições e não apenas as escolas.
E ainda assim, se os elementos coercitivos do sistema educa-
cional não fossem tão avassaladores, este sistema teria se descober-
to capaz de enfrentar as outras pressões. No laboratório e nas situa-
ções familiares em que a aprendizagem supostamente ocorre, a evi-
dência indica que o ensinar bem-sucedido e não-coercitivo mantém
os alunos que estão sob pressão física ou emocional no lugar. Eles
ficam e eles continuam a aprender. Quando o ensinar não é bem-su-
cedido, ou é feito por reforçamento negativo em vez de positivo,
alunos reagem a outros estresses, desistindo.
Quando se impede o desligar-se ou o desistir fisicamente,
surgem problemas de disciplina. Agressão e outros tipos de disrup-
ção são rotas de fuga-padrão, ainda que no início tragam ainda mais
coerção. Permite-se a professores que mantenham a disciplina por
meio de reprimenda, abuso verbal, cancelamento de privilégios, atri-
buição de trabalho extra, relatos ruins para os pais, telefonemas à
autoridade administrativa superior ou à polícia e, até mesmo, quei-
xas penais. A solução mais freqüentemente oferecida para o proble-
ma da disciplina é aumentar a severidade das contramedidas coerci-
tivas, sendo a punição última, a expulsão do sistema. Uma maneira-
padrão de o aluno desistir é conseguir ser expulso.
Não é irônico que alunos que foram bem-sucedidos em fugir
da coerção normal do sistema educacional, causando problemas e
sendo expulsos, ganhem uma permissão legal para não-participa-
Ção? A tragédia é que é negado acesso posterior àqueles que mais
precisam da escolarização, àqueles que por uma razão ou outra não
descobriram as respostas certas em sala de aula. "Negado o acesso?"
pode-se objetar. "Nada é negado a eles. A educação está disponível
para todos. O problema da desistência reflete deficiências dos alu-
nos òu da sociedade mais ampla, não do sistema educacional."
Responsabilidade não é a questão primária. Quando um ob-
jeto çai no espaço, não culpamos alguma força misteriosa dentro do
objeto, nem tentamos remediar as falhas da natureza. Aceitamos a
Coerção e suas implicações 121

inevitabilidade de uma queda como uma conseqüência de qualquer


perda de sustentação física. De modo semelhante, a fuga é uma
conseqüência inevitável da coerção. Desistir é simplesmente uma
das muitas formas de fuga. Neste ponto, intenções, atribuição de
culpa, filosofias da educação e mesmo teorias do comportamento
não são relevantes. Qualquer um, sujeito à coerção, se possível,
cairá fora. A fuga de um organismo vivo, como uma conseqüência da
coerção, não é menos um fato da natureza do que a queda de um
objeto como uma conseqüência de perda de suporte físico. Porque
ela produz fuga, a coerção é uma recusa de acesso tanto quanto o ê
bater a porta da escola na cara do aluno.
A coerção não leva apenas alunos a sair do sistema educa-
cional; professores também estão saindo. Tradicionalmente estabele-
cemos o salário de professores em níveis relativamente baixos, dados
a duração e custo do treinamento requerido, a dificuldade do traba-
lho, e as horas extras necessárias para a preparação das aulas,
correção de trabalhos e atendimento de alunos e pais. Alguns argu-
mentam que os baixos salários indicam o baixo valor que a socieda-
de atribui à profissão de ensinar. Nalguma medida esta interpreta-
ção pode ser verdadeira, mas ela não é suficiente; ela não explica
porque professores se mantiveram como tal a despeito dos salários
inadequados e, talvez, da baixa estima social.
Permanecendo em seus postos, professores mostram que ou-
tros reforçadores, que não dinheiro e prestígio, estão operando. A
maioria dos alunos realmente aprende alguma coisa, e muitos
aprendem muito, algumas vezes como resultado de ensino efetivo e
algumas vezes a despeito de um mau ensino. Para a maioria dos
professores a razão de fundo é o sucesso de seus alunos em apren-
der. Quando os alunos progridem, eles carregam com eles novos
modos de se comportar que não tinham quando começaram? Porque
estes e outros tipos especiais de reforçadores mantêm os professores
ensinando, a sociedade não teve que prover as recompensas finan-
ceiras que teriam sido necessárias se o dinheiro fosse a única razão
de um professor para continuar.
Mas agora, mais e mais professores descobrem-se alcançan-
do aquela tão importante razão de fundo cada vez menos freqüente-
mente. Para um professor, cada desistente é uma outra oportunida-
de perdida para ensinar com sucesso. Aqueles alunos que permane-
cem fisicamente, mas desenvolvem sistemas de contracoerção estão
tornando a fuga uma alternativa ainda mais compelidora para os
professores. Com suas instituições de treinamento fracassando em
lhes fornecer métodos não-coercitivos para manter a disciplina em
122 Murray Siclman

sala de aula, eles estão se descobrindo não apenas fracassando em


ensinar efetivamente, mas incapazes até mesmo de manter um am-
biente que conduza à aprendizagem. Sua taxa de sucesso está decli-
nando; eles mesmos estão se tornando objetos de coerção; as maio-
res recompensas financeiras disponíveis para outros tipos de traba-
lho estão, portanto, tornando-se mais e mais tentadoras. Professo-
res, também, estão se tornando desistentes.
O processo educacional está, ele mesmo, recebendo notas
baixas. Muitos alunos estão aparentemente passando de série a
série sem terem aprendido o básico. A competência em leitura, escri-
ta, aritmética e raciocínio parece estar declinando. E, mantendo
nossa longa confiança na coação para fazer com que nossas crian-
ças aprendam suas lições, líderes da educação propõem resolver
este problema impondo medidas coercitivas ainda mais estritas.
Como um remédio para os males da escola, um recente dirigente da
burocracia educacional em nosso governo, apoiado pelas principais
organizações de professores, vem reivindicando padrões mais altos
nas escolas.
O que se quer dizer com "padrões mais altos"? Quem terá
que atingir estes padrões mais altos? E como vão fazê-lo?
Examinando as propostas, descobrimos que "padrões mais
altos" significam "notas mais altas". São os alunos que devem atingir
as notas mais altas. Mas nada é dito sobre como os alunos vão ser
levados a atingir estes novos critérios de desempenho. Eles simples-
mente deverão ser testados e, ou atingirão níveis mais altos de
competência, ou não serão promovidos. Estamos de volta à educa-
ção por meio da coerção, dizendo aos alunos: "Aprendam, ou..."
Não se pode ter qualquer argumento contra altos padrões
enquanto tal. E há suficiente evidência de que professores que espe-
ram altos níveis de desempenho de seus alunos são provavelmente
os que obtêm melhor desempenho. Mas isto não acontece por mági-
ca. Somente se professores puderem combinar altas expectativas
com altos níveis de competência para ensinar, os alunos poderão
descobrir como atingir as expectativas. E em nenhum lugar das
propostas de rédeas mais curtas para a promoção de uma série para
a próxima existe qualquer sugestão de que escolas de educação
precisam treinar professores mais efetivamente para ajudar alunos a
atingir os novos padrões impostos. As associações de professores
aceitaram a demanda do Ministro de Educação por requisitos de
maior competência dos alunos, mas consistentemente recusaram-se
a aceitar demandas para aumentar a competência do professor.
Coerção e suas implicações 123

Mesmo que os alunos continuem a "ficar para trás", seus professo-


res devem ser promovidos de qualquer modo.
Esta imposição unilateral de melhores níveis de resultados
tornará, portanto, o sistema educacional ainda mais coercitivo do
que já é. Uma vez que educadores não terão que ensinar professores
como instruir mais efetivamente, alunos terão que fazê-lo sozinhos.
Eles devem atingir padrões mais altos ou arcar com as conseqüên-
cias. Teremos mais desistentes do que nunca.
Em princípio, ninguém discorda de que bom ensino deveria
ser reconhecido e recompensado. Ninguém duvida de que alguns
professores são ruins e que alguns maus professores são promovi-
dos. Mas quando tentamos delinear meios institucionais para identi-
ficar os bons e os maus, para promover os primeiros em vez dos
últimos, incorremos nas antiqüíssimas questões que todo professor
consciencioso ainda se faz: como definir bom ensino? Como identifi-
car os bons professores? Quem julgará e quem selecionará e super-
visionará aqueles que julgarão?
O critério mais importante para identificar boa instrução e
bons professores é o comportamento dos alunos. Quando testamos
alunos também estamos testando professores. Poucos parecem
questionar nossa habilidade de identificar bons alunos. Esta suposi-
ção é certamente questionável, mas na medida em que podemos
validamente julgar os resultados dos alunos, podemos também jul-
gar o desempenho de seus professores. Quanto melhor um, melhor o
outro. Cada sucesso do aluno é um sucesso do professor, cada
fracasso do aluno é também um fracasso do professor. Bons profes-
sores sabem disso e cada nota de reprovação que eles têm de dar os
arrasa.
Naturalmente, temos que reconhecer que as causas de al-
guns fracassos estão além do controle de qualquer professor. Mas,
em geral, e com a devida consideração de variações econômicas,
sociais, familiares e regionais na preparação dos alunos para as
demandas sucessivamente crescentes que a escola coloca sobre eles,
não é difícil identificar bons professores. Quanto mais bem-sucedi-
dos os alunos, mais bem-sucedido o professor.
Se queremos diminuir a desistência da escola e aumentar a
participação, um primeiro passo útil seria uma análise comporta-
mental. Desistir é, afinal de contas, comportamento; uma maneira
de torná-lo mais ou menos provável é arranjar conseqüências apro-
priadas. Comece examinando interações entre alunos e professores,
alunos e administradores, alunos e outros alunos; identifique e eli-
124 Murray Siclman

mine os elementos coercitivos que tornam a fuga destas interações


reforçadora.
Treine professores no uso de técnicas instrucionais não-
coercitivas para ajudar alunos a atingirem os padrões desejados.
Isso, também, pode ser feito não-coercitivamente; em vez de propor
punições mais severas para alunos quando fracassam, o Ministro da
Educação poderia ter sugerido reforçadores para educadores que
planejem tecnologias de ensino que façam com que mais alunos
sejam bem-sucedidos. E lembre-se, autocorreção — inteligibilidade
— é parte constitutiva da análise do comportamento. Quaisquer
fracassos na obtenção de resultados desejáveis rapidamente tornar-
se-ão evidentes e podemos tentar novas rotas para obter os resul-
tados desejados. Fracassos e sucessos de professores podem ser
julgados pelos profissionais de ensino, auxiliados por cidadãos
não-profissionais mas interessados, e não precisa envolver coerção
institucionalizada.

Desistindo da família. Um outro fugitivo trágico é o que desis-


te da família. Muitos jovens vivem com punição freqüente em casa.
Se a maior parte da atenção que obtêm vem na forma de punição,
com pouco reforçamento positivo compensatório, é provável que eles
deixem a velha casa paterna assim que surja uma oportunidade.
Eles podem começar prestando pouca atenção ao que é dito a eles e
ainda menos ao que é dito à sua volta em casa; eles não assumem
maiores responsabilidades na casa além das que são forçados; eles
nem dão nem solicitam afeto. Eles primeiro se desligam da vida
familiar e, então, quando se torna possível desistir, eles se vão.
A sociedade provê um conjunto de desculpas aceitáveis para
deixar a família. Ir para escola longe de casa é uma técnica de fuga
aprovada, assim como encontrar um bom emprego muito distante.
Gravidez é um modo tradicional para adolescentes conseguirem per-
missão para se casarem, até mesmo dos pais mais relutantes. Casa-
mento, possibilitado por gravidez precoce, ou por atingir a idade
legal, é uma rota de fuga da família socialmente aceita. Em muitos
estados, ser mãe solteira permite a uma garota fugir de sua família
para os braços da previdência pública, que a sustenta em seu pró-
prio domicílio.
Sair de casa para a escola, o trabalho, o casamento ou a
previdência pode, naturalmente, produzir reforçadores positivos e
nem sempre é o resultado de controle coercitivo. Mesmo quando o é,
tal rota de fuga pode tornar possível uma vida melhor para o fugiti-
vo. Entretanto, não podemos deixar de nos entristecer quando ve-
Coerção e suas implicações 125

mos jovens terem de fugir para as responsabilidades da vida adulta,


freqüentemente muito cedo e despreparados, em vez de serem capa-
zes de aproveitar aquele estágio da vida como uma fonte de novas
satisfações.
Um dos problemas mais difíceis da paternidade é segurar os
filhotes até que eles estejam prontos para voar, nem forçando-os a
ir-se cedo demais, nem fazendo-os ficar tempo demais. Como pais,
sempre temos que estabelecer limites para nossos filhos e esta ne-
cessidade pode facilmente nos jogar na armadilha do controle coerci-
tivo. Mas não precisamos tornar o "Não" um punidor; podemos ensi-
nar nossos filhos a aceitar ambos, "Sim" e "Não", como um conselho
de alguém querido sobre o que funcionará e o que não funcionará,
como um auxílio na aprendizagem das regras pelas quais o mundo
opera. Algumas vezes, entretanto, eles insistem em descobrir coisas
por si mesmos, especialmente quando amigos os convenceram de
que os pais não podem em qualquer hipótese compreender suas
necessidades. Nada podemos fazer quando isso acontece, a não ser
esperar e observar; se já não os tivermos desligado por tentar coagi-
los a fazer as coisas à nossa maneira, então, se eles cometerem um
erro, não hesitarão em vir a nós para ajuda.
O problema se estabelece quando pais desistem da família.
Intuitivamente reconhecendo divórcio e separação como fuga, as
crianças freqüentemente se culpam pela partida de um dos pais.
Mas, mesmo que um dos pais fuja apenas em espírito — por meio de
doenças psiquiátricas incapacitadoras, alcoolismo, excesso de traba-
lho ou excesso de televisão — o modelo de fuga está ali para as
crianças imitarem quando elas criarem suas próprias famílias. Fuga
da família tem um modo de se perpetuar. Podemos fugir do ambien-
te coercitivo de nossa família, mas, a menos que tenhamos um outro
modelo para seguir, criamos nossa própria cópia. E então, nossos
filhos mantêm a tradição coercitiva viva.

Desistindo da religião. Não apenas a escola e a família sofrem


do problema da desistência. Religiões estabelecidas estão descobrin-
do ser mais e mais difícil reter suas congregações e recrutar jovens
para o hábito. Não falo aqui da crença religiosa como tal, mas das
estruturas institucionais que promovem, organizam, governam e, em
geral, buscam controlar a crença e a conduta religiosas.
Poderíamos esperar que a religião organizada fosse a institui-
ção social menos comprometida com a coerção. Religiões clamam
pfomover o amor, o respeito, a paz e a serenidade, todos fortes
126 Murray Sidrnan

fontes de reforçamento positivo. Algumas prometem o reforçamento


último, a vida depois da morte.
Mas os cordões estão amarrados. Somos autorizados a com-
partilhar da glória prometida somente se seguirmos as regras e os
rituais prescritos. A qualquer um que saia do caminho e não faça as
reparações adequadas "através dos canais" são negadas as satisfa-
ções da vida após a morte. No aqui e agora, naturalmente, não
experienciamos estas satisfações, mas apenas a ameaça de que elas
não se tornarão disponíveis. As regras e rituais de nossas igrejas
fornecem forte reforçamento negativo permitindo-nos fugir desse pe-
rigo. Completar um ritual prescrito alivia; sabemos imediatamente
que temporariamente removemos a ameaça. Mas ameaças, não im-
porta se as resolvemos efetivamente ou não, são coercitivas, e con-
trole coercitivo gera fuga. Alguns desistem da religião formal sim-
plesmente porque a consideram repressiva.
O poder coercitivo disponível para uma religião organizada
que reivindica apenas autoridade espiritual é inerentemente instá-
vel. Este aspecto da coerção também auxilia a explicar os desisten-
tes da religião. Como vimos, ameaças — sinais de punição ou
reforçamento negativo iminente — tornam-se elas mesmas refor-
çadores negativos; faremos tudo que pudermos para remover uma
ameaça. Entretanto, para qualquer ameaça manter-se efetiva, a
não-obediência deve, pelo menos ocasionalmente, levar a um cho-
que. A realidade de um choque que pode ocorrer apenas após a vida
mantém-se indemonstrãvel.
Mais do que nunca, hoje somos capazes de examinar e ava-
liar instituições e estilos de vida dos quais estivemos isolados antes.
Muitas pessoas sensíveis buscaram e descobriram, por exemplo, que
as regras e rituais diferem de uma organização religiosa para outra e
de uma seita para outra dentro de uma religião. Cada uma reivindi-
ca uma franchise única, divinamente garantida e nenhuma pode
provar sua autoridade. É possível que todas estejam erradas? Come-
çamos a"'duvidar da habilidade de qualquer igreja para controlar
nosso destino último. Incerteza sobre seu poder enfraquece conside-
ravelmente a força de qualquer religião que recuse garantir passes
para a vida eterna exceto em seus próprios termos.
Com cada religião reivindicando controle exclusivo sobre os
portões do paraíso, podemos realmente nos tornar céticos. Argumen-
tos conflitantes e improváveis enfraquecem enormemente as ameaças
de excluir pecadores e ateus da boa vida após a morte. A menos que
a coerção espiritual seja sustentada por controle secular, as ameaças
são inexeqüíveis. Portanto, alguns desistem não para fugir da coer-
Coerção e suas implicações 127

çáo, mas simplesmente porque a inabilidade da religião de fazer


valer suas ameaças espirituais diminui seu controle sobre sua con-
duta.
Uma das principais soluções da religião para a instabilidade
de seu controle coercitivo tem sido mudar sua base de poder do
futuro espiritual para o presente mundano. Historicamente, a reli-
gião consistentemente se atou à política. Mesmo nos Estados Uni-
dos, onde provisões constitucionais específicas pretendiam manter
religião e governo separados, líderes religiosos camuflam apenas
levemente sermões que pretendem influenciar escolhas eleitorais. E
agora, depois de manter longamente um silêncio cuidadoso fora de
suas igrejas, líderes religiosos de alto escalão estão novamente ativa-
mente no processo político, coagindo publicamente candidatos a
cargos públicos.
Coerção eclesiástica, quando provê reforçamento negativo e
punição tangíveis e presentes, pode ser forte o suficiente para tornar
a fuga difícil e dolorosa. Algumas religiões, combinando seu controle
sobre a vida após a morte com controle temporal, punem os infrato-
res com ostracismo, como em uma comunidade local rigidamente
convencional; com a perda do direito de voto, como em eleições; ou
com a prisão e a morte, como no Irã dominado pelos aiatolás. Fre-
qüentemente tomando o caminho do controle temporal, religiões for-
mais têm acumulado um enorme recorde — por meio de tirania,
guerras e inquisições — de morte, tortura, aprisionamento e cance-
lamento de direitos sociais, econômicos e políticos. Governos pura-
mente seculares, mesmo em guerra, não têm sido capazes de alcan-
çar a selvageria deste recorde.
Uma suposição básica da religião é que a crença é incondi-
cionál e não, como a análise do comportamento argumentaria, de-
pendente das conseqüências do mundo real. A religião espera que
acreditemos a despeito daquilo que a vida traz. Crença, considerada
como comportamento, deve ser contingente à experiência, e não
pode haver dúvidas de que para muitas pessoas o é. Por outro lado,
muitos mantêm a sua fé mesmo confrontados com uma realidade
contraditória. Devemos, portanto, buscar em outro lugar as fontes de
sua força? Alguns peregrinos voltam a Lourdes ano após ano embora
as enfermidades que os tenham levado para lá pela primeira vez não
tenham sido curadas; milhões, nos países do terceiro mundo, saú-
dam: o Papa quando ele lhes diz que o Senhor há de provê-los, ainda
que Ele até aqui de nada tenha provido a não ser de pobreza e
sofrimento físico. Uma análise comportamental pode explicar tal per-
sistência de crença?
128 Murray Sidrnan

Algumas vezes não é difícil identificar reforçadores que pode-


riam plausivelmente manter; uma crença não-realizada. Alguns pere-
grinos de Lourdes continuam a ir, não em busca de uma cura
impossível, mas porque recebem atenção devotada e não-usual du-
rante sua viagem e cuidado afetuoso durante os ritos na gruta.
Alguns também se descobrem nos jornais e na televisão e até mesmo
estrelando em shows populares.
Entretanto, outros exemplos de persistência de afiliação reli-
giosa são mais complexos e não tão facilmente analisados. Certa-
mente, neste assunto estamos fora das fronteiras da ciência compor-
tamental. Como todas as instâncias em que oportunidades para
verificar uma análise são improváveis, estes casos permanecerão
discutíveis. E então, aqueles que argumentam que a crença é inde-
pendente do que acontece no mundo real podem considerar até
mesmo dados observacionais irrelevantes; alguns ainda persistem
acreditando que o mundo é plano. Em assuntos de crença religiosa,
os dados não são nem de perto tão claros.
De qualquer modo, aplicações de análise comportamental à
religião não significam tentativas de abalar a crença de qualquer
pessoa. Não há nada de intrinsecamente coercitivo sobre uma cren-
ça pessoal; apenas quando traduzida em ação social uma crença
qualquer pode se tornar coercitiva. Eu me preocupei aqui com a
possibilidade de que práticas coercitivas dentro de religiões organi-
zadas estejam fazendo com que as pessoas deixem suas igrejas e
talvez, até mesmo, abandonem sua fé pessoal. O fato de que igrejas
ainda sobrevivem não invalida uma análise de suas práticas coerciti-
vas. Entretanto, coerção é apenas um modo de influenciar a conduta
e é apenas uma característica do controle exercido por religiões
formais.
Se os desistentes da religião são fugitivos da coerção, ou se
simplesmente se afastaram porque a coerção não era suficientemen-
te forte, a religião tem tentado inverter a corrente, substituindo
coerção por reforçadores positivos deste mundo. Tradicionalmente,
as igrejas fornecem um foco para atividades sociais da comunidade,
tanto de adultos como de jovens. Elas também oferecem facilidades
físicas e pessoais para ajudar a aliviar o sofrimento e o desconforto
quando surgem desastres naturais ou pessoais. Distribuindo refor-
çamejito positivo no aqui-e-agora de fato, em vez de ameaçar de
punição depois da morte, e agindo contra outras fontes de coerção,
as religiões podem se transformar em distribuidoras de reforçamento
positivo, capazes de influenciar a conduta não-coercitivamente.
Coerção e suas implicações 129

Seria também injusto apontar apenas para a repressão cor-


poral e espiritual, que tem acompanhado as lutas da religião institu-
cionalizada, como recurso para manter e expandir seus domínios. O
outro caminho que a religião tem tomado é representado pela arqui-
tetura, arte, música e literatura magníficas e valiosíssimas que ela
tem inspirado. Podemos apenas ser gratos por este enriquecimento
da vida na terra.
E ainda assim, muito da arte religiosa incorpora valores
coercitivos, como, por exemplo, nas representações do Juízo Final.
Toda catedral medieval contém lembretes dos perigos do fogo do
inferno em maravilhosas esculturas, pinturas, vitrais ou tapeçarias.
Como diz Shelley, "nossas canções mais doces são aquelas que nos
falam dos pensamentos mais tristes". Como podem pensamentos
tristes, presumivelmente reforçadores negativos, se tornarem temas
de artes belíssimas, presumivelmente reforçadores positivos?
Ninguém — psicanalista, analista do comportamento ou
antianalista — pode realmente responder a esta questão. Mas, se
admite a suposição de que a arte é grande na medida em que de
algum modo evoca experiências universalmente compartilhadas, en-
tão a representação da coerção poderia muito bem ser tão freqüente
em grandes trabalhos de arte precisamente porque a coerção real-
mente toca a tantos de nós tão profundamente.
Qualquer que seja a validade dessa suposição, podemos ape-
nas lamentar que a tendência histórica construtiva e positiva das
contribuições religiosas à grande arte pareça ter terminado. A análise
do comportamento não tem uma resposta a questões como "por que
isto aconteceu" ou "por que as tendências negativas e repressivas,
também características da religião formal, persistiram nos tempos
modernos".

Desistindo da sociedade. Fugitivos de um outro tipo desistem


completamente do fluxo principal da sociedade. Alguns apenas flu-
tuam nas águas estagnadas, alguns lutam em águas turbulentas,
alguns tentam mudar a direção da corrente e alguns tentam explodir
os diques e afundar todos nós. Eles vão das crianças "da paz e do
amor" dos anos 60 e seus sucessores guiados por gurus — autocen-
trados, mas pacíficos, perturbadores em sua disposição de ser explo-
rados — ao extremo oposto do continuam de desistentes, os terroris-
tas de hoje — autocentrados e violentos, amedrontadores por causa
de seu total desprezo pela vida humana e pelos seus produtos.
Também encontramos muitos em estágios intermediários. Alguns se
retiraram apenas dos aspectos abertamente competitivos da vida
130 Murray Sidrnan

mas mantêm-se artística ou intelectualmente criativos. Outros devo-


tam suas energias não tanto para a produtividade, como para a
preservação. Ainda outros tentam mudar o sistema por meio de
mecanismos socialmente aceitos como legislação, campanhas publi-
citárias, apoio a candidatos políticos, filiação em partidos ou de-
monstrações não-violentas.
A sociedade, rotulando como caronas aqueles que adotam
estilos de vida não-produtivos, dirige abuso social e político a eles. A
comunidade vê desistentes que encontram segurança nos rituais e
despotismo benevolente de um auto-intitulado profeta como amea-
ças a modos estabelecidos de conduta. Ela interpreta sua fuga como
um tapa na cara dos pais e outros responsáveis por integrar os
jovens na comunidade. Freqüentemente, pessoas que são rejeitadas
pelos desistentes voltam-se contra eles, tentando tirar sua liberdade,
classificando-os como mentalmente doentes ou incompetentes. A so-
ciedade se opõe até mesmo àqueles que podem ser chamados de
desistentes construtivos — aqueles que usam recursos-padrão e mo-
ralidade convencional na tentativa de mudar a estrutura da socieda-
de — invocando os mesmos mecanismos e moralidade socialmente
aprovados para preservar o status quo. Dissidentes, tratados como
desistentes, descobrem-se alvos de abuso verbal, físico e econômico.
"Se as conseqüências de desistir são tão opressivas e mesmo
perigosas", pode-se perguntar, "por que tantos tomam este cami-
nho?" Quando indivíduos insistem em abrir mão dos reforçadores
positivos que uma sociedade torna disponíveis, até mesmo trazendo,
em vez disso, punição severa sobre si mesmos, uma análise compor-
tamental dos indivíduos e sua sociedade torna-se necessária. Histó-
rias individuais revelarão que muitos que são classificados como
desistentes jamais foram realmente admitidos nos grupos dos quais
eles supostamente se retiraram. Eles podem, na verdade, ser fugiti-
vos da coerção, mas podemos chamá-los de desistentes se a socieda-
de nunca os assumiu como membros, para começar? Eles não esco-
lheram uma vida de opressão; eles não tiveram alternativa. Embora
tratados como desistentes, eles realmente são banidos.
É provável que descubramos, então, que muitos que parecem
tér desistido jamais tiveram acesso a reforçadores positivos suposta-
mente disponíveis. Crianças de minorias sociais freqüentemente
crescem sem escolarização efetiva, especialmente se repressão so-
cial, política e econômica impediu sua comunidade de desenvolver
uma tradição de mobilidade social ascendente. Longe de desistir,
elas foram excluídas do grupo.
Coerção e suas implicações 131

Em famílias economicamente bem-sucedidas, o único apoio


paterno que alguns adolescentes conhecem é o monetário e mesmo
esse apoio não é contingente a qualquer coisa que eles façam ou
deixem de fazer. Estes jovens emocionalmente privados, a quem
jamais se ensinou responsabilidade social ou financeira, jogarão fora
seus recursos facilmente obtidos em busca de quaisquer reforçado-
res positivos que passem ao seu alcance. E assim encontramos
muitas crianças privilegiadas, cortadas dos laços familiares normais,
movendo-se para fora de seu vazio social e emocional em direção à
cultura da droga.
Por outro lado, também encontramos muitos para quem pu-
nição e reforçamento negativo anularam quaisquer reforçadores po-
sitivos disponíveis. Eles vão dos que sofreram abusos físicos e se-
xuais a aqueles que simplesmente descobriram como repulsivas as
inconsistências e hipocrisias da civilização. Para eles, sair do fogo
para cair na frigideira pode ser um ato de desespero. Controle coer-
citivo que faz isso desperdiça vidas. O crescimento do indivíduo
cessa e a sociedade perde as contribuições potenciais de seu mem-
bro desistente.
Embora esses desistentes possam apenas trocar uma situa-
ção ruim por outra, eles ainda podem obter acesso a reforçadores
dos quais anteriormente estavam excluídos, ou podem encontrar
novos tipos de reforçadores para substituí-los; estes podem recom-
pensar as novas dificuldades. Ao tentar entender por que os desis-
tentes parecem tão desejosos de trazer para si a ira da sociedade,
temos que considerar todas as alternativas e opções que desistir
torna disponíveis. Amizade e afeição, abertamente dadas e recebi-
das, mesmo em um refúgio onde a fome e o desconforto físico preva-
lecem, podem facilmente contrabalançar um ambiente anterior que
provia todas as necessidades físicas, mas punia calor emocional.
Desistentes de setores privilegiados da sociedade, algumas vezes se
descobre, sacrificaram segurança econômica por segurança emocio-
nal.
< Considera-se que certas drogas "aumentam a consciência",
embora na realidade reduzam a acuidade sensorial, distorçam a
percepção e prejudiquem o julgamento. Entretanto, junto com estas
desvantagens, as drogas também podem produzir esquecimento das
restrições, repressões e agressões da vida. Portanto, drogas podem
ajudar a mitigar ambos, os desconfortos de um estilo de vida alter-
nativo e o abuso adicional que um ambiente coercitivo aplica ao
tentar reclamar de volta seus desistentes.
132 Murray Sidrnan

A longo prazo, sair da sociedade não funciona, seja generica-


mente ou para o indivíduo. A sociedade sobrevive a seus membros e
sua paciente coerção esmaga rebeliões não-construtivas. Embora
aqui e acolá indivíduos realmente encontrem um nicho não-tradicio-
nal para si mesmos, ocasionalmente até tendo sucesso na alteração
de práticas de comunidades, o destino usual de um desistente é a
inefetividade — verdadeiro esquecimento. O desperdício é enorme.
Suicídio. No caso extremo uma pessoa literalmente desiste da
vida. Suicídio é a fuga última das garras de necessidade e coação
repentinamente esmagadoras, ou de uma vida dominada por refor-
çamento negativo e punição. A análise do comportamento não pode,
naturalmente, explicar a autodestruição de um indivíduo apelando
para uma história de reforçamento para o ato; você só pode matar-se
uma vez. Suicídio, não importa sua forma, é um problema especial;
uma vez que ele jamais pode acontecer mais que uma vez, suas
conseqüências não podem preencher a definição de um reforçador.
Precisamos de outros princípios? O cristão que acredita que o martí-
rio o enviará ao céu pode perceber a crucificação como desejável;
sua crença explica por que a crucificação funciona como um reforça-
dor para ele?
Não necessariamente. Suicídio é um ato que tem muitos
componentes; é uma supersimplificação nomeá-lo por seu ponto
terminal — a morte. Uma pessoa que toma o caminho da crucifica-
ção antes pratica atos que a tomam notada pelas autoridades civis
ou religiosas. Ela então faz afirmações provocativas, atrai multidões
a seu julgamento e produz intenso interesse público até o ato final
de seu drama. Ali, ela encara seus algozes com uma postura corajo-
sa, recusando-se a retratar-se. No final, sua agonia produz reações
intensas naqueles que a assistem. É pelo menos plausível que cada
ato individual nesta cadeia de eventos seja um produto da história
de reforçamento de um mártir-por-vir, com cada ação produzindo
seus próprios reforçadores. Se os elementos finais do ato complexo
de ser crucificado são reforçadores não pode ser determinado, a
menos que a pessoa sobreviva. Então, podemos observar se ela con-
tinua ou: não a fazer coisas que a levem a ser crucificado de novo. Se
cia não as faz, então a crucificação não pode ser chamada de um
reforçador para ela, a despeito de sua crença de que é o caminho
para o paraíso.
Uma análise retrospectiva, freqüentemente, revelará algumas
das condições que levaram a um suicídio. Algumas vezes, uma nota
de suicídio enfatiza sentimentos de culpa e indignidade insuportá-
veis.. Se, na realidade, não tivermos cometido crimes, o que mais
Coerção e suas implicações 133

pode ter dado origem a sentimentos de culpa e indignidade? Que


tipo de culpa poderia ser resolvida apenas com a desistência da
vida? Uma fonte óbvia de tal pressão são demandas não-passíveis de
serem satisfeitas colocadas sobre nós pela família, amigos e comuni-
dade. Ao nossos próprios olhos, pelo menos, uma inabilidade para
satisfazer estas demandas nos torna um fracasso.
Ser um fracasso significa que nossas ações, em vez de pro-
duzirem reforçamento positivo — sucesso — têm sido ignoradas ou
punidas — fracasso. Nossa própria conduta torna-se um conjunto
de sinais de iminente punição e reforçamento negativo. Tais sinais
tomam-se eles mesmos punidores e reforçadores negativos, assim,
finalmente, nos punimos por simplesmente nos comportarmos. Tudo
que fazemos se torna um reforçador negativo. E há apenas um modo
de escaparmos de nós mesmos.
Freqüentemente, realmente encontramos uma história de
tentativas de suicídio mal-sucedidas. Mas elas são usualmente mal-
sucedidas apenas por falhar em causar a morte. Se seguirmos a
prática-padrão da análise do comportamento, identificando o que
realmente sucedeu depois das tentativas de autodestruição, é prová-
vel que encontremos o suicida tornando-se um objeto de atenção e
preocupação, o recebedor de afeto e simpatia. A culpa amacia vozes
duras, afrouxa restrições e substitui ameaças por promessas de
ajuda.
Entretanto, à medida que o tempo passa o ambiente coerciti-
vo volta às suas práticas-padrão. Mas a tentativa de suicídio funcio-
nou antes, por que não tentar de novo? E assim, vemos um processo
cíclico, iniciado por pressões coercitivas e então mantido por bonda-
de. Embora bem-intencionada, a bondade é destrutiva. A simpatia
que se torna disponível apenas depois de suicídios "malsucedidos"
torna prováveis novas tentativas. E então, uma dose é malcalculada,
ou a ajuda não chega a tempo e uma tentativa de suicídio se torna
"bem-sucedida".
O próprio suicídio é uma forma de coerção, algumas vezes
não-intencionada, mas freqüentemente deliberada. É uma maneira
de fazer as pessoas se aprumarem e prestarem atenção e mesmo de
fazer com que façam o que se quer. Membros da equipe de uma
clínica psiquiátrica estavam certa vez em uma reunião, quando uma
paciente adentrou a sala e parou em frente do grupo, cortando seus
pulsos com uma lâmina. O líder do grupo gritou: "Saia daqui, você
vai manchar todo o tapete com sangue!" A paciente docilmente virou-
se e saiu da sala. Mais tarde, naturalmente, tomou-se o cuidado de
ciar à paciente a atenção de que ela necessitava — contingente a
134 Murray Sidrnan

ações racionais. Ela não mais precisou de tentativas de suicídio


coercitivas.
Uma pessoa também pode cometer suicídio para punir aque-
les que, na realidade ou imaginação, exerceram coerção insuportá-
vel. Se ou não é assim intencionada, a autodestruição sempre vem
como um choque punitivo para a família, amigos e comunidade.
Então, responsabilidade é algumas vezes injustamente atribuída, ou
mesmo incorretamente aceita. O que é importante depois de um
suicídio não é a atribuição de culpa, mas a admissão da fuga.
Controle coercitivo produz suicídio e, por sua vez, suicídio é ele
mesmo coercitivo. Apenas reconhecendo a existência de pressões
coercitivas teremos uma chance de resolver o problema último de
desistir.
8

!Esquiva

Uma pitada de prevenção...


Uma vez atingidos pela punição, faremos o que puder para
desligá-la ou ir embora. Se não podemos fugir, ou se a situação
prove reforçadores positivos suficientes para contrabalançar os ne-
gativos, podemos apenas nos desligar por algum tempo. Se no.ssa
família, amigos ou colegas de trabalho distribuem choques muito
freqüentemente, ou se seus choques são muito intensos, podemos ir
ao extremo de desistir, mesmo que isso signifique abdicar de refor-
çadores positivos. Não sofreríamos menos se, em vez de esperar
receber um choque para então fugir, pudéssemos impedir o recebi-
mento do choque? Não faríamos melhor esquivando-nos de cho-
ques?
Crianças usualmente não esperam pelo tapa ou pela bronca
dos pais, esperando para fugir depois que a punição tenha começa-
do. Em vez disso, elas se escondem, correm, dão desculpas ou im-
ploram por perdão. Poucos motoristas esperam que seus carros
morram no meio da estrada antes de encher o tanque de gasolina.
Dàmos poder às agências governamentais para construir barragens
para o controle de enchentes e para estocar grãos em antecipacão à
136 Murray Sidrnan

fome. Permitir que choques ocorram antes de fazer algo a seu respei-
to significa desconforto, dor ou desastre. Muito de nosso comporta-
mento negativamente reforçado, portanto, parece sustentado pela
prevenção em vez da cessação dos choques da vida.
Esta é a base para a distinção entre fuga e esquiva. Algo
ruim tem que acontecer realmente antes que possamos fugir; ao
fugir, colocamos um fim a uma situação ruim. Esquiva impede que
um evento indesejado aconteça, em primeiro lugar. Esquiva bem-
sucedida mantém afastados os choques, tornando a fuga desneces-
sária.
Esquiva, então, é uma outra forma de reforçamento negativo.
A coerção não somente gerará e sustentará diferentes tipos de fuga,
mas também fará com que nos esquivemos. Nós necessariamente
não esperamos receber um choque antes de agir; algumas vezes
agimos antes do tempo. No entanto, a despeito de sua aparente
orientação para o futuro, a esquiva realmente acaba sendo compor-
tamento de fuga. Estudos de laboratório têm mostrado que a esquiva
bem-sucedida de choques futuros é uma conseqüência secundária
da fuga de choques que já foram experienciados.

As causas da esquiva
O laboratório expõe um conjunto de características da esqui-
va que seriam difíceis ou impossíveis de observar de qualquer outro
modo. Ele ajuda a esclarecer algumas interações entre esquiva, fuga
e punição que são críticas para a compreensão da coerção.
Em um tipo de experimento uma luz fraca ocasionalmente
ilumina a caixa de um rato de laboratório. O animal receberia um
choque breve se deixasse a luz ficar acesa por cinco segundos, mas
ao pressionar uma barra ele pode desligar a luz e cancelar o choque.
A luz é um sinal de aviso útil. Pressionando a barra em tempo, o
animal pode evitar o choque e por um fim ao sinal. Se o animal não
pressiona a barra dentro de cinco segundos, ele recebe um breve
choque assim que o sinal de aviso termina. Algum tempo depois, a
luz reaparece e, novamente, ou o sujeito receberá um choque depois
de cinco segundos ou pressionará a barra e manterá o choque longe.
O ciclo repete-se de novo e de novo: primeiro, um período de
escuro, um tempo seguro e, então, uma luz fraca, um sinal de aviso.
O animai pode pressionar a barra dentro de cinco segundos, termi-
nar o sinal, impedir o choque e entrar em um período seguro, come-
çando um novo ciclo. Se o animal não pressiona a barra dentro de
cinco segundos após o início da luz, ele recebe um breve choque, o
Coerção e suas implicações 137

sinal termina e, então, um período seguro de escuro inicia o novo


ciclo.
Aprender a manter afastados choques breves usualmente de-
mora mais do que aprender a desligar choques, mas depois de sufi-
cientes exposições ao ciclo, mesmo o organismo inferior, que é o rato
de laboratório, pressionará sua barra quando quer que a luz de
aviso se acenda. Um sujeito experiente responderá ao sinal quase
todas as vezes, conseguindo impedir quase todos os choques amea-
çados.
Não inesperadamente, as pessoas fazem a mesma coisa.
Como a fuga, a esquiva é bastante generalizada entre as espécies.
Nosso ambiente freqüentemente sinaliza a iminência de punição;
por que esperar por ela? Entretanto, adaptativa como é a esquiva,
ela também tem seu outro lado. Recebemos choques de outras
pessoas e a maioria de nós também distribui choques a outros.
Aceitamos punições e ameaças de punição como ocorrências nor-
mais do dia-a-dia: "faça o que eu digo... ou então... zap!" Já vimos
que qualquer um que use punição tornar-se-ã um punidor condicio-
nado. Agora podemos ver que qualquer um que pune também há de
se tornar um sinal de aviso condicionado. Ao primeiro sinal de sua
aproximação, as pessoas que eles geralmente punem afastar-se-ão.
Uma vez que tenham se tornado sinais de aviso, as pessoas vão se
esquivar deles.
Esquiva é geralmente um ajustamento mais adaptativo à pu-
nição do que é a fuga. Faz mais sentido impedir um choque do que
escapar depois que ele tenha começado. Portanto, esquiva parece
antecipatória por natureza, aparentemente controlada pelo não-
acontecimento de algo no futuro. Quando perguntados por que pres-
sionamos nossas várias barras de esquiva, é possível que responda-
mos: "Para manter os choques afastados."

Choque futuro? Se o futuro pudesse controlar o presente, a


ciência seria impossível. Um número infinito de eventos ainda não
aconteceu; muitos tipos de choques mantêm-se não ocorrendo.
Traçar relações causais entre conduta presente e um número infi-
nito de não-ocorrências futuras seria impossível. Quais destes
diferentes tipos de choques que não recebemos está regulando
nossas ações presentes? A vida seria um caos; quando um sinal
de aviso aparece, quais daqueles mil e um choques futuros deve-
mos impedir? Devemos continuamente percorrer todo nosso reper-
tório de esquiva?
138 Murray Sidrnan

A síntese de laboratório do comportamento de esquiva mos-


tra que suas causas verdadeiras não estão no futuro. Não aprende-
mos a pressionar barras de esquiva antes de experienciar choques.*
A primeira causa da esquiva está em nosso passado, nos choques
que já tomamos. Estes nos levaram a fugir ou esquivar; se tivermos
sorte suficiente para encontrar uma barra de esquiva, nós a pressio-
naremos.
Pressionar a barra reduz o número de choques que toma-
mos. Portanto, a segunda causa da esquiva está no presente, na
freqüência reduzida atual de choques. Pressionamos a barra não
porque choques não virão no futuro, mas porque já experienciamos
choques no passado e porque pressionar a barra provoca um menor
número de choques agora.
Ficar sem alimento estabelece o alimento como um reforça-
dor, fortalecendo quaisquer ações que nos ajudem a obtê-lo. Receber
choques estabelece a redução de choques como um reforçador, for-
talecendo quaisquer ações que nos ajudem a tomar menos choques.
As causas de qualquer coisa que façamos devem ser buscadas em
ambos, no que nos aconteceu e no que está nos acontecendo agora
— reforçamento positivo e negativo passado e presente. O laborató-
rio torna os dois conjuntos de fatores causais visíveis. Vemos esqui-
va sendo gerada não por choques que não ocorrerão no futuro, mas
por um decréscimo no número de choques que o sujeito experiência
agora.
Fazer choques virem menos freqüentemente é realmente uma
forma de fuga, de mais punição para menos punição. Impedimos o
acontecimento de choques, mas a aparente antecipação não será
suficiente para explicar nossas ações. Podemos dizer que estamos
pressionando a barra para impedir choques futuros, mas o fazemos
porque é assim que somos bem-sucedidos em fazer com que os
choques venham menos freqüentemente agora. Nossa experiência
estabeleceu relações entre conduta e conseqüência que carregamos
para o presente. Embora o que façamos agora realmente tenha con-

* Nós podemos, com certeza, aprender por meio de regras, em vez de


esperar por conseqüências. Uma criança não tem de ser atropelada por
um carro para aprender que não deve correr na rua: um aviso será
suficiente para mantê-la na calçada. Esquiva governada por regras,
comumente observada fora do laboratório, não requer que realmente
experienciemos os choques, mas o seguir as regras precisa, em princípio,
ser estabelecido por contato com contingências. Análise de laboratório
revela as contingências básicas das quais nós derivamos as regras.
Coerção e suas implicações 139

seqüências futuras, nossa experiência de choque no futuro explica


nossos atos de esquiva atuais. A esquiva é apenas um produto
secundário da fuga.
Esquiva é um produto inevitável da coerção, mas facilmente
podemos não reconhecê-la pelo que ela ê, porque o que ela faz é
raramente visível. Usualmente ficamos intrigados toda vez que uma
pessoa se mantém fazendo algo que não tem uma vantagem óbvia.
Isso sempre nos deveria fazer suspeitar de esquiva. Se uma criança
resiste a ir para a escola todas as manhãs e talvez não apareça na
escola depois de ter sido levada a sair de casa, ela pode muito bem
estar se esquivando da dor e humilhação diárias que o fanfarrão da
escola inflige a ela. O produto presente desta esquiva — o contato
reduzido da criança com seu atormentador — é invisível para nós
porque ele requer comparação com eventos passados, assim, a con-
duta da criança pode parecer misteriosa.
Sempre que tivermos que fazer alguma coisa sobre a nossa
esquiva induzida pela coerção, ou a de qualquer outra pessoa —
começar terapia, defender-nos ou aprender a nos adaptar — nada
conseguiremos fazer a menos que dois passos preparatórios sejam
dados: primeiro, reconhecer o comportamento-problema como esqui-
va; segundo, analisar ambas, as contingências passadas e atuais
que podem estar mantendo o comportamento. As dificuldades fre-
qüentemente encontradas na identificação dessas contingências,
combinadas com a aparente orientação para o futuro da esquiva,
nos levaram a incorporar em nossa linguagem alguns mitos podero-
sos sobre as causas da esquiva.

Mito #J: "expectativas" como causas. Quando defrontados


com a impossibilidade lógica de controle pelo futuro, freqüentemente
usamos um conceito como "expectativa" para trazer o aparente con-
trole futuro de volta ao presente. 'Tudo bem, eu concordo que a
ausência futura de choque não pode controlar o que estou fazendo
agora, mas a experiência realmente me diz agora para esperar um
choque do futuro. Eu realmente tenho esta insuportável expectativa
è me livro dela pressionando a barra." Atribuímos nosso pressionar
a barra, não à sua prevenção de choques futuros, mas à sua redu-
ção de nossas expectativas presentes de choque. Embora o efeito
ultimo seja esquiva do choque, sustentamos que o reforçador negati-
vo presente é a fuga da expectativa de choque.
Buscar as causas da ação no passado e presente, em vez de
no futuro, é um avanço na análise comportamental. Entretanto,
postular expectativa como explicação é um truque verbal. Natural-
140 Murray Sidrnan

mente, podemos afirmar nossas expectativas sobre o futuro e algu-


mas vezes agimos consistentemente com estas afirmações, mas as
mesmas experiências causam nossas expectativas e nossos atos de
esquiva. Em vez de explicar, expectativas requerem explicação.
Seja como conceitos explanatórios, seja como guias para
ação efetiva, expectativas são excesso de bagagem. Ao fazer algo a
respeito de experiências relevantes, simultaneamente afetamos as
expectativas e as ações que as expectativas supostamente causa-
ram. Se quisermos reduzir as expectativas de perseguição pelo fan-
farrão da escola de uma criança, teremos que reduzir a própria
perseguição. Isso diminuirá as expectativas da criança e sua esqui-
va. Nenhuma delas é casualmente relacionada com a outra, cada
uma é um produto independente dos choques — as interações da
criança com o fanfarrão.
Medimos expectativa de choque medindo a probabilidade de
choques e redução de expectativa pela redução de choques. Apenas
se quisermos substituir fato por teoria atribuiremos status causai a
expectativas não passíveis de serem medidas, em vez de a choques e
reduções de choques mensuráveis. Fazê-lo obscurece as causas das
expectativas e das ações. A única maneira de diminuir a expectativa
de dor e desconforto de uma criança no consultório do pediatra é
fazer com que a criança realmente experiencie uma consulta sem
estes acompanhamentos; não chegaremos a lugar algum tentando
reduzir suas expectativas sem primeiro mudar sua experiência.

Mito #2: "medo" e "ansiedade" como causas. Estes conceitos


corriqueiros também encontram seu caminho nos vocabulários da
psicologia e psiquiatria. Em vez de apontar para nossa experiência
com choques para explicar nossos atos de esquiva, muitos psicólo-
gos e psiquiatras postulam fontes internas de controle. Eles susten-
tam que ações aparentemente dirigidas para a esquiva de eventos
futuros permitem-nos, realmente, fugir de ou reduzir estados inter-
nos atuais de medo e ansiedade.
Por que esta formulação profissional parece tão consistente
com o senso comum? O que explica a aceitação quase universal de
medo e ansiedade como explicações para a esquiva — conduta go-
vernada por nossas interações com o mundo externo? Uma razão
importante é a imediaticidade e intensidade das reações internas
qué freqüentemente acompanham nossas ações abertas. Experien-
ciando os estados internos como sentimentos e emoções, tendemos a
negligenciar os choques externos que provocaram a perturbação in-
terna. Em troca, atribuímos status causai aos sentimentos.
Coerção e suas implicações 141

Reforçadores positivos ou negativos fortes ativam processos


internos. Alimento, sexo, dor, calor intenso, frio glacial ou a cessa-
ção súbita de qualquer um deles alterará nossos batimentos cardía-
cos, pressão sangüínea, motilidade intestinal, secreção glandular e
outros sistemas corporais. Sinais para reforçadores fortes, como a
luz que promete alimento ou ameaça choque a nosso sujeito de
laboratório, também produzirão mudanças internas. Quem não sen-
tiu a pancada no coração que acompanha os sinais do retorno do
amado de uma longa ausência, a boca cheia de saliva quando vemos
ou sentimos o cheiro de uma refeição apetitosa, o suor frio brotando
antes de uma punição iminente, o comichão na pele quando entra-
mos em uma situação sinistra e imprevisível, as lágrimas incontrolá-
veis quando somos informados da morte iminente de uma pessoa
querida?
Ao enfrentar presságios claros de um desastre conhecido,
descrevemos nossos sentimentos como medo; quando sinais exter-
nos vagos indicam uma catástrofe iminente mas não-identificada,
provavelmente reconhecemos um sentimento de ansiedade; quando
tudo é indicativo de reforçamento positivo promissor, sentimos im-
paciência. Estes sentimentos, pessoais e privados, são tão íntimos
que tendemos a considerá-los precursores de nosso comportamento
aberto. Ao buscar explicações de nossa própria conduta, damos aos
sentimentos prioridade sobre as contingências externas que eles
acompanham. E assim interpretamos o sentimento de medo — o
estado interno que o sinal externo de choque produz — como a
causa de nossa esquiva.
Algumas vezes não estamos conscientes dos sinais de aviso
em nosso ambiente, apesar disso nos sentimos ansiosos. Podemos
agir apropriadamente, esquivando de choques iminentes sem ser-
mos capazes de dizer o que causou a ansiedade. O coração palpitan-
te ou o súbito suor frio podem ser muito mais salientes do que o
mostrador do relógio ou o passo silencioso que produziram o com-
portamento aberto. Quando os avisos externos não chamam nossa
atenção, tendemos ainda mais a atribuir as causas de nossas ações
a nossos sentimentos, em vez de aos sinais que causam as ações e
os sentimentos que as acompanham.
Como expectativas, estados de medo e ansiedade, embora
bastante reais, não explicam como coerção por punição e reforça-
mento negativo dão origem à esquiva. Os mesmos choques que esta-
belecem o potencial para esquiva também geram medo e ansiedade;
reduzimos medo e ansiedade fazendo os choques surgirem menos
freqüentemente. Sinais de aviso — ameaça — derivam sua habilida-
142 Murray Sidrnan

de de instigar ação de sua relação atual e passada com reforçadores


negativos. Sentimentos e emoções, e sua redução, não podem expli-
car a esquiva porque eles próprios são causados pelos mesmos cho-
ques e a redução do choque é que produz esquiva.
Se quisermos fazer algo sobre o comportamento de esquiva,
nosso curso mais efetivo será identificar as contingências controla-
doras. Aquelas relações entre sinais, comportamento e choques ge-
raram as ações e o medo ou ansiedade e agora mantêm ambos.
Alterar as contingências mudará o ato de esquiva e seus acompa-
nhamentos emocionais. Tentar lidar com os sentimentos sem alterar
as contingências será infrutífero.
Se estamos severamente deprimidos, por exemplo, sofremos
de duas maneiras. Primeiro, fazemos muito pouco, talvez sentados
em casa, falando raramente, exceto para lamentar-se, não nos en-
volvendo em nenhuma das relações familiares nas quais outrora
ocupamos parte importante. Nossa conduta pode estar tão severa-
mente empobrecida que não nos alimentamos ou nos vestimos, ou
mantemos higiene pessoal. Ao esquivar de contato com qualquer
parte de nosso ambiente, conseguimos um tipo importante de suces-
so: mantemos todos os choques longe.
Segundo, permanecemos em um contínuo estado de ansieda-
de, temerosos de todo contato pessoal, de cada demanda ambiental.
Mesmo sem motivo óbvio, ficamos apreensivos ou paralisados com
terror. Sofremos eólicas intestinais, palpitações no coração, calafrios
e dores de cabeça, transpirando mesmo quando frio e chorando sem
causa. Completamente angustiados, atribuímos nossa angústia a
nossos sentimentos.
Por causa de nosso intenso sofrimento interno, a terapia
para nossa depressão provavelmente deve se concentrar em tentar
atenuar nossos sentimentos. Companhias farmacêuticas destinam
imensos orçamentos para o desenvolvimento e teste clínico de dro-
gas antidepressivas. Alguns psiquiatras tornaram-se pouco mais que
passadores de pílulas, prescrevendo drogas para ajudar a atenuar
sentimentos de ansiedade que acompanham a depressão e, então,
prescrevendo drogas adicionais na esperança de eliminar efeitos in-
desejáveis e mesmo perigosos dos agentes ansiolíticos.
Drogas que agem somente para reduzir estados fisiológicos
de ansiedade podem fazer os severamente deprimidos relatarem que
eles sè sentem melhor, mas o remédio não necessariamente restaura
atividade construtiva. Uma droga que acalma o sistema nervoso
autônomo, embora deixando o paciente comportamentalmente de-
primido, pode produzir um comentário como: "Oh sim, o remédio
Coerção e suas implicações 143

ajuda. Eu ainda estou deprimido, mas agora não me incomoda." Não


mais trêmulo, sentindo dor, chorando, o paciente, entretanto, pode
ainda passar todo o dia na cadeira de balanço, evitando com suces-
so choques reais ou imaginários.
A pessoa que padece de ansiedade é talvez uma esposa es-
pancada, ou um membro do grupo cada vez mais reconhecido de
idosos maltratados? Ou ela experienciou recentemente uma série de
mortes na família, fracassou nos negócios, passou por humilhações
pessoais e doenças físicas? Qualquer um de uma série de eventos,
reais ou imaginários, pode tê-la convencido de que o mundo externo
é muito perigoso para se aventurar nele. E, então, ela descobre que
sua família, embora exasperada e magoada com sua indiferença,
ainda há de suportá-la e cuidará dela. A família poderia ter feito
mais por ela sendo insensível, fazendo-a sair daquela cadeira, recu-
sando-se a servir de instrumento para a enfermidade? Se, em vez de
tentar abrandar sua angústia interna, seu terapeuta se concentras-
se em tentar identificar os choques e os reforçadores que estavam
mantendo sua ausência de comportamentos, alguma coisa poderia
ter sido feita para colocá-la de pé e movendo-se novamente.
Naturalmente, esquiva não é sempre ruim; freqüentemente
ela é útil. Se devemos sobreviver, temos que aprender a nos esquivar
de situações potencialmente perigosas. Crianças não devem tocar no
fogão quente, sair da calçada para a rua, patinar no gelo fino ou ir
embora com estranhos. Todos devem aprender quando falar e quan-
do permanecer em silêncio, quando avançar e quando retroceder.
Esquiva útil conduziu à noção de ansiedade útil e à concepção de
que a ansiedade não deve sempre ser eliminada. Aprendemos muitos
tipos de esquiva útil, não por meio da experiência real com os cho-
ques que evitamos, mas por meio do controle verbal de pais, profes-
sores e parceiros. Uma criança que permanece na calçada, na verda-
de não é atropelada por carros, mas está realmente esquivando de
repreensões e outras indicações de desaprovação de seus pais. Dado
um ambiente familiar onde predomina reforçamento positivo, tais
puriições, fracas ou fortes, provavelmente não devem produzir crian-
ças ansiosas ou medrosas.
Entretanto, como veremos, muitos dos efeitos colaterais da
coerção, conceituados por psicólogos clínicos e psiquiatras como
formas de ansiedade, envolvem atos de esquiva que são desnecessá-
rios, irrealistas ou não-adaptativos. Ao considerar se a punição fun-
ciona, temos de levar em conta esses efeitos colaterais. Portanto,
esquiva tem sido um tópico de grande interesse para aqueles que
lidam profissionalmente com patologia comportamental. Entretanto,
144 Murray Sidrnan

hipotetizar medo e ansiedade como causas da esquiva desvia a aten-


ção do terapeuta dos observáveis que causam os estados internos e
a conduta. Este tipo de desvio tem retardado muito o entendimento
prático e o tratamento efetivo de desordens comportamentais.

Esquiva sem sinais de aviso. Um segundo tipo de procedi-


mento de laboratório clareia algumas das causas mais sutis da es-
quiva e fornece um fundamento para entender a análise da coerção
e seus efeitos colaterais a um contexto mais amplo. Nem sempre
somos avisados quando estamos para ser punidos. Algumas vezes,
embora saibamos que estamos em perigo, nenhum sinal específico
nos diz de onde e quando o choque virá. Felizmente, ainda assim,
somos capazes de lidar com choques não-sinalizados.
Nosso rato de laboratório começa recebendo um choque bre-
ve a cada 20 segundos, mas nenhum sinal diz ao sujeito quando o
choque virá. Como de costume, o animal pode usar sua barra para
afastar choques. Toda vez que ele pressiona a barra, ele pospõe o
próximo choque que deveria tomar. Suponha que uma vez que o
sujeito tenha pressionado a barra, nenhum choque possa vir dentro
dos seguintes 30 segundos. Com este arranjo, o animal poderia
receber choques a cada 20 segundos se nunca pressionasse a barra;
pressionando logo após cada choque ele pode diminuir os choques
para um a cada 30 segundos; pressionando mais freqüentemente, a
cada vez pospondo o próximo choque por 30 segundos, o animal
pode evitar receber qualquer choque.
Pressionar a barra permite ao sujeito adaptar-se com êxito.
Agindo de acordo com as demandas de seu ambiente, ele pospõe
choques e reduz sua freqüência total. Se o sujeito fizer qualquer
outra coisa que não pressionar a barra, choques virão mais freqüen-
temente. Sujeitos, desde ratos de laboratório até seres humanos,
têm aprendido a comportar-se adaptativamente nesse tipo de situa-
ção.
Uma vez que tenham aprendido, eles pressionam a barra
com freqüência suficiente para receber choques apenas ocasional-
mente. Macacos ficarão dias sem um choque, raramente diminuindo
o suficiente a velocidade para receber um lembrete da contingência.
Eles comportam-se com uma persistência e uma compulsividade
que sé; assemelha ao comportamento patologicamente rígido e infle-
xível que freqüentemente vemos ao nosso redor — algumas vezes em
pessoas que, quanto ao resto, são normais. Se não se conhecer a
histórià do sujeito, pode-se observá-lo pressionando a barra hora
Coerção e suas implicações 145

após hora sem razão aparente e perguntar-se sobre as fontes de sua


estranha preocupação.
Esta aparente falta de contato com a realidade é uma carac-
terística inevitável da esquiva, criando a ilusão de que a esquiva
difere em princípio da conduta que é consistentemente reforçada por
fuga ou por conseqüências positivas. Raramente se pode ver quais-
quer resultados imediatos do comportamento de esquiva de alguém
mais. Quando choques são sinalizados, pode-se ver que os sinais
são ocasiões para pressionar a barra. Mas, pressionar a barra real-
mente evita o choque, assim o próprio sucesso do ato mantém sua
verdadeira causa escondida. Pode-se somente conjecturar sobre por
que o sujeito pressiona a barra todas as vezes que o sinal surge.
Com esquiva não-sinalizada, o que o sujeito faz parece completa-
mente não-relacionado a qualquer coisa mais.
Se a coerção não é imediatamente evidente mesmo em condi-
ções controladas de laboratório, imagine como tipos semelhantes de
coerção podem continuar não-reconhecidos no mundo exterior. Ob-
servar um sujeito que está se esquivando de choques não-sinaliza-
dos torna claro por que o comportamento de esquiva freqüentemente
parece misterioso e por que mesmo profissionais clínicos freqüente-
mente deixam de avaliar como o controle coercitivo pode gerar con-
duta aparentemente patológica.
9

Aprendendo por meio da esquiva

Aprendendo como se esquivar de choques, sujeitos de labo-


ratório estão também aprendendo muito mais. Todo choque, por
exemplo, pega o rato fazendo algo mais. Porque é menos provável
que ele repita aquele ato, choques subseqüentes hão de encontrá-lo
fazendo alguma outra coisa. Até que o sujeito aprenda a pressionar
sua barra de esquiva, a punição segue mais e mais de suas ações.
Se o animal fracassasse em descobrir sua barra de esquiva, fazer
qualquer coisa, até mesmo sentar-se quieto, finalmente tornar-se-ia
perigoso» Portanto, sujeitos aprendem que não apenas pressionar a
barra, mas qualquer ato que realizam tem algo a ver com o choque.
Tudo qüe eles fazem é relacionado com o que acontece com eles.
Pressionando a barra, o animal desliga o próximo choque. Se
acontece de ele pressionar exatamente quando o choque está para
vir, aquele choque será cancelado. Pressionar a barra é o único ato
que o choque jamais segue. Portanto, mesmo sem sinais de aviso, o
sujeito aprende a tomar o caminho reto e seguro, fazendo a única
coisa que nunca será punida. Pressionar a barra é seguro.
Mesmo o rato de laboratório aprenderá a manter-se sem re-
ceber choques. Usando a vantagem dos sinais de aviso, ele pressio-
Coerção e suas implicações 147

nará sua barra de esquiva exatamente nos momentos certos. Se não


lhe damos qualquer sinal de aviso, mas simplesmente o punimos
por tudo, exceto pressionar a barra, ele seguirá este caminho segu-
ro. O animal não entende linguagem, mas a contingência passa
adiante a mensagem efetivamente: "pressione a barra... ou então..."
Não será uma surpresa, então, descobrir que as pessoas, dentro e
fora do laboratório, podem fazer o mesmo. À medida que experien-
ciamos diferentes sinais de aviso, ou à medida que punições vêm
sem aviso, todos descobrimos quais de nossas várias barras trazem
segurança.
Condensar todo este processo coercitivo em apenas algumas
horas de laboratório nos permite ver diretamente o que de outro
modo é difícil de reconhecer. Fora do laboratório, isso acontece co-
nosco por períodos de tempo mais longos e, se tivermos sorte, não
domina toda nossa existência. Pais que consideram a punição como
o único caminho podem gastar muitos anos para dar choques em
todas as ações indesejáveis de seus filhos, mantendo-os "comportan-
do-se" em casa simplesmente porque nada mais ê seguro; pode levar
uma geração para um tirano matar, torturar e aprisionar pessoas
suficientes para dar choques em todas as ações da existência, exceto
obediência não-questionadora; uma esposa espancada pode tomar
muitos choques antes de descobrir que ir embora é sua única barra
segura.
A variedade de choques, a enorme massa de comportamento
sendo esmagado, as muitas formas de esquiva, o número de pessoas
envolvidas e o período de tempo durante o qual estas e outras
práticas coercitivas cotidianas evoluem as tornam difíceis de anali-
sar. O laboratório mostra as características críticas com impressio-
nante clareza.
Emitimos uma quantidade impressionante de esquiva. Pou-
cos alunos estudam por As, a maioria se esquiva de Fs. Muitos
passam pela escola tão silenciosamente quanto possível, abstendo-
se de situações de sala de aula potencialmente humilhantes — ou
antevendo condenação dos colegas por desempenho superior. Fre-
qüentemente ouvimos descrições de interação sexual em termos de
dominação e submissão. A competência de um trabalhador rara-
mente produz um prêmio ou uma promoção; o retorno mais comum
para um trabalho bem-feito é simplesmente um risco diminuído de
ser despedido. Muitas crianças "comportam-se" em casa porque é o
modo de prevenir abuso verbal e físico. Fora de casa, ações que
, diferem de e, mesmo, conflitam com padrões estabelecidos em casa
impedirão a perda de status no grupo de amigos.
148 Murray Sidrnan

Igrejas nos ameaçam com o fogo do inferno, ou seu equiva-


lente, se não acreditarmos em suas verdades. A polícia ameaça com
prisão, multas, julgamento e encarceramento, se não obedecermos
as leis. Agências governamentais se devotam a evitar sanções econô-
micas ou morais internacionais, prevenindo a perda de território ou
prestígio e evitando a guerra. A maioria das pessoas no mundo
trabalham não para prover a si mesmas com educação, livros, con-
certos, aparelhos de televisão, computadores pessoais, automóveis,
iates e status social, mas para prevenir fome extrema, congelamento
e sede. Se a esquiva não for possível, a fuga é a regra, mas entre as
duas, a esquiva predomina. A maior parte do mundo oferece poucas
alternativas.
Uma vez que percebamos o quanto de esquiva nos é imposto,
não deveria causar surpresa descobrir que fazemos o mesmo com os
outros. Praticamos muito o ameaçar. Coerção por meio de esquiva é
nosso modo mais comum de fazer com que as pessoas façam o que
queremos. "Faça o que eu digo...", "Faça como eu disse...", "Faça do
meu modo...", "Fique na linha...", "Não pergunte porque, apenas
faça...", "... ou então..." Esta é a maneira como mais comumente
ensinamos os outros o que consideramos ser certo, adequado e bom.
Professores ameaçam alunos com Fs, trabalho extra ou ex-
pulsão; alunos ameaçam com disrupção ou violência. Patrões amea-
çam com desemprego seus trabalhadores; trabalhadores ameaçam
fazer greve. Pais ameaçam seus filhos com a privação de seus refor-
çadores; filhos ameaçam fugir de casa. Grupos sociais ameaçam os
não-conformes de expulsão. Aqueles para quem sexo significa domi-
nação mantêm relações sexuais pela ameaça de violência. Padres
lembram seus rebanhos das conseqüências do pecado. Policiais
soam suas sirenes, mostram seus cadernos de multas, levantam
seus cassetetes e empunham seus revólveres. Líderes governamen-
tais respondem à coerção internacional, ameaçando com retaliação.
Fazemos tudo isso e mais com os outros, e os outros o fazem conos-
co.
Usamos extensivamente contingências de esquiva para esta-
belecer, e manter habilidades acadêmicas, interações familiares, prá-
ticas sexuais, relações sociais, costumes grupais, obediência às leis,
àfiliaçÕes políticas, valores morais, associações de negócios e alian-
ças internacionais. Tal coerção é o modo mais efetivo de ensinar
conduta apropriada? E as contingências de esquiva sustentam mais
efetivamente aquilo que foi aprendido? Como em relação às contin-
gências de punição e fuga, a resposta toca em nossa definição de
"efetivo". Contingências de esquiva "funcionam", elas realmente en-
Coerção e suas implicações 149

sinam. Entretanto, quando olhamos mais de perto para o que é


aprendido, podemos achar o que descobrimos perturbador.

O que mais vem com a esquiva?


Mantenha seu nariz longe de problemas. No laboratório, não
vemos apenas que o sujeito impede os choques pressionando sua
barra, mas que também passa a finalmente fazer pouco mais que
isso. Tudo o mais é punido. Um macaco nesta situação não mais
explora, brinca ou se exercita, e raramente come ou bebe. Ele nada
faz que o afaste da segurança de sua barra. Ele gasta seu tempo
pressionando a barra e limpando-se, dois atos que pode desempe-
nhar simultaneamente, um com cada mão. Se não estivéssemos
cientes da história do animal, haveríamos de nos defrontar com a
dificuldade de explicar sua estranha dupla preocupação — pressão à
barra, "ritualística", e limpar-se, "autista".
A contingência cria um desistente real, particularmente,
quando não há sinais de aviso de choque iminente. Avisos explícitos
dão ao sujeito mais liberdade; entre sinais ele pode deixar a barra e
fazer outras coisas em segurança, desde que ele não se afaste para
muito longe. Entretanto, o sinal interrompe tudo o mais, puxando o
animal de volta para a barra como por um elástico.
Um sujeito neste estado é, naturalmente, um caso extremo,
um produto de punição freqüente e intensa. No entanto, fazemos
isso uns aos outros. Existência sob a ameaça de punição freqüente e
intensa não é incomum. Contingências de esquiva podem afinar as
pessoas tão bem que elas se tornam autômatos. Ver isso acontecer
no laboratório faz com que nos apercebamos de que ameaças cons-
tantes podem destruir o potencial para aprender de um ser vivo. As
pessoas podem aprender por meio de contingências de esquiva, o
qüe elas aprendem, no entanto, é a se esquivar e pouco mais. Se sua
aprendizagem se deu principalmente por esquiva, elas vão se confi-
nar ao seguro e previsível, provavelmente fazendo seu trabalho efi-
cientemente, mas incapazes de experimentar e de tirar vantagem de
oportunidades de livrar-se do estabelecido.
Populações inteiras não conhecem outra existência. Quando
ò ambiente natural provê apenas recursos limitados, continuamente
ameaçando de retirada ou diminuição severa desses recursos, a vida
se torna estreitamente restringida. Toda ação passa a ser dominada
pela sempre presente ameaça de calor ou frio excessivos, aridez,
magros rebanhos e colheitas esparsas. Considerando tudo o mais
perigoso, a comunidade se devota ao básico da sobrevivência.
150 Murray Sidrnan

Adaptações às várias ameaças da natureza incluem a quase


sonolência das pessoas nos trópicos (provavelmente também uma
adaptação fisiológica), a vida nômade dos caçadores na calota polar
do Norte ou no deserto, a sociedade agrícola mais estável, mas
primitiva, que freqüentemente produz um único produto, ou reli-
giões, misticismo ou metafísica que permeiam todos os aspectos da
existência e ajudam a contrabalançar a miséria presente, promoven-
do uma gloriosa vida após a morte. O ambiente físico pode suportar
pouco mais. Esquivar-se de desconforto severo ou de desastres na-
turais — atos de Deus — torna-se a preocupação que tudo consome
das pessoas. Tentativas de aprender qualquer outra coisa desviam a
atenção e recursos das sempre presentes contingências de esquiva.
A comunidade, vendo a maior parte das inovações prontamente pu-
nidas pelo ambiente hostil, condena afastamentos da conduta tradi-
cional como pecaminosos ou heréticos.
Governos repressivos criam existências similarmente confi-
nadas e estreitas. Eles exercem controle estabelecendo contingên-
cias de esquiva, decretando como ilegal qualquer comportamento
não-desejado ou não-usual e punindo quando um cidadão sai fora
da linha. Eles atacam estudantes e professores violentamente por-
que universidades são lugares onde o pensar ocorre; a última coisa
que uma ditadura civil ou militar quer é um cidadão pensante. A
população, mantendo-se próxima de suas barras de esquiva, tem
pouco tempo ou energia para novas aprendizagens, mesmo que o
regime não tenha punido qualquer destas tentativas como não-
conformidade perigosa. Produtividade torna-se secundária em rela-
ção à segurança. Pessoas envolvidas nesse tipo de coerção aprendem
apenas a sobreviver.

Não balance a canoa. Indivíduos que levam uma vida de


esquiva se tornam negativos e inflexíveis. Esquivadores raramente
fazem o inesperado; ter opções os amedronta. "Regras não foram
feitas para serem quebradas", eles dizem. Nós todos já tivemos con-
tato com administradores que postergam cada decisão interminavel-
mente e. se finalmente colocados na parede, sempre dizem: "Não,
isso não pode ser feito." Nós todos certamente nos lembramos de
professores que insistiam que cada problema que nos davam tinha
apenas',um método de solução. Embora nossos empregadores nos
digam que nosso trabalho é encontrar respostas, ou fornecer servi-
ços, ou ensinar outros como atacar e resolver problemas, ou tornar
possível para outros funcionar efetivamente, muitos de nós têm des-
coberto que outros critérios realmente determinam nossa segurança
Coerção e suas implicações 151

e promoção. Em uma burocracia, decisões são perigosas, mais pro-


váveis de trazer censura do que elogio. Aprendemos a trilhar os
caminhos certos.
Esquivamos de ser culpados por uma decisão errada, não
tomando qualquer decisão; arquive o problema ou passe-o adiante
para outra pessoa. "Não" é mais seguro que "Sim". É muito mais
difícil para os outros apontar um dedo acusador para algo não-feito
do que para uma ação identificável. Se nada fazemos, eles não po-
dem nos culpar por fazê-lo errado. Quando uma promoção depende
de esquiva bem-sucedida da culpa, e não de inovação ou produtivi-
dade, a inação domina a ação. Podemos criar novas maneiras de
esquivar da censura, mas, ao aprendermos novas maneiras de atin-
gir nossos objetivos de trabalho não seremos reconhecidos ou sere-
mos rotulados como causadores de problemas.
Contingências de esquiva criam especialistas em esquiva.
Qualquer aprendizagem que atravessa o caminho de esquiva bem-
sucedida é perigosa. Finalmente, os esquivadores mais bem-sucedi-
dos se tornam os chefes. Como bolhas subindo em um líquido —
apenas aquelas que se esquivam de bater em outras bolhas chegam
ao topo — funcionários de instituições públicas e privadas que con-
seguem escapar de conflitos também chegam ao topo. O sistema é
autoperpetuador.

Mate-os todos. Hoje, a rápida difusão de informação permite


a todos, em todo lugar, ver todas as variedades de existência huma-
na, em todas as partes do mundo. Pessoas extremamente pobres,
vítimas das mais severas coações sociais, políticas e religiosas rece-
bem imagens televisionadas de lazer, conforto e riqueza inimagina-
dos. Elas vêem terras onde a simples sobrevivência raramente está
em questão. Elas vêem culturas nas quais a coerção consiste, mais
comumente, na ameaça da privação da propriedade, segurança, con-
veniência ou liberdade — qualidades da vida que elas jamais conhe-
ceram. Elas vêem a vida humana valorizada por si mesma, não
simplesmente pelo que contribui para a sobrevivência física e econô-
mica do grupo. Com as maravilhas do transporte moderno, trazendo
exemplos vivos deste ilimitado luxo ao alcance das mãos, aquelaJ
pessoas, sujeitas à continuada repressão que ameaça a vida, têm
descoberto e explorado uma nova forma de coerção — o terrorismo.
Elas têm forçado os privilegiados do mundo a pressionar uma barra
de esquiva não-familiar: "Dê-nos o que vocês têm ou destruiremos
tudo que vocês valorizam."
152 Murray Sidrnan

Porque terroristas têm pouco a perder e, freqüentemente,


acreditam que têm muito a ganhar depois da morte, eles estão pron-
tos para destruir mesmo a si próprios no processo de executar suas
ameaças. Dirigidos por pressões naturais e sociais intensas para
praticar esta forma extrema de coerção social, eles possuem o mais
estreitamente restringido de todos os repertórios comportamentais.
Suas opções foram reduzidas à simples represália, dispensando um
único choque coercitivo — matança indiscriminada.
Não podemos fazer com que abandonem essa opção cedendo
às suas demandas; tal reforçamento apenas garantiria mais atos de
terrorismo. Não podemos fazê-los abandonar sua única opção; sem
ela, nãc lhes restaria qualquer esperança, nenhuma maneira de
extorquir alguma parte dos recursos do mundo para si mesmos. Aí
está porque é tão difícil lidar com terroristas. Inevitavelmente, con-
tramedidas tomarão deles essa opção. Eles, então, nada terão em
que se apoiar a não ser desespero. A guerra contra o terrorismo
indiscutivelmente será vencedora, mas deixar um grande segmento
do mundo sem qualquer outro método para melhorar sua sorte não
é humano e não é uma perspectiva confortadora.
Quando os que nada têm, a quem faltam até mesmo as
necessidades básicas, reagem destruindo indiscriminadamente ou-
tros apenas porque eles parecem ter tudo, então as opções dos
privilegiados se tornam restritas também. Orçamentos de defesa das
nações ricas finalmente usurpam os próprios recursos que eles su-
postamente defendem e tornam impraticáveis as qualidades da vida
que supostamente eles preservam. Existências empobrecidas são a
carga de quaisquer cidadãos que têm que gastar seu tempo pressio-
nando barras de esquiva, anulando ameaças e restringindo-se a
ações e empreendimentos que não entrem em competição com a
sempre presente necessidade de esquivar-se. Todo mundo acaba
permanecendo perto do maior número possível de barras de esquiva.
Aprendizagem cessa. Criatividade e produtividade tornam-se coisas
do passado. Quando recorremos à coerção social para manter na
linha aqueles empobrecidos pela coerção natural, empobrecemos a
nós mesmos; ninguém ganha.

Aprendizagem lenta
Contingências de esquiva, então, impostas a uma nação, ci-
dade, escola, sala de aula, hospital, fábrica, loja ou família, estabele-
cem o rígido controle que caracteriza a tirania. Vítimas da tirania,
vivendo sob ameaça constante, raramente causam surpresas. Esqui-
Coerção e suas implicações 153

va, entretanto, não é sempre fácil de ensinar, mesmo para um tira-


no. Quanto mais forte e mais freqüente os choques que tomamos,
mais rapidamente aprenderemos e mais persistentemente continua-
remos a pressionar nossa barra. Entretanto, algumas vezes, falhas
no pressionar nossa barra de esquiva podem apenas raramente tra-
zer uma punição forte. Nesse caso, podemos "aprender nossa lição"
lentamente. Com choques infreqüentes, pode passar um longo perío-
do antes que possamos saber se ou não estamos sendo bem-sucedi-
dos em diminuir a quantidade de punição que obtemos. Podemos ter
que tomar muitos choques antes que possamos estar certos de que
estamos fazendo algum bem para nós mesmos,

Espere até que doa. Esquiva, portanto, embora extremamen-


te forte uma vez que a tenhamos aprendido, pode ser bastante frágil
enquanto estamos no processo de aprendê-la. Aí está por que fre-
qüentemente acabamos esperando pelos choques e então desliga-
mos, em vez de impedir, logo de início, que eles aconteçam. A ime-
diaticidade da fuga nos controla muito mais efetivamente do que os
indicadores atrasados da esquiva bem-sucedida. Os exemplos são
muitos. Ainda baseamos nosso sistema de cuidado com a saúde na
cura em vez da prevenção. O sistema educacional responde de novo
e de novo à falta de engenheiros, cientistas, médicos e professores
com superprodução, ainda não aprendemos a evitar os ciclos de
escassez e excedentes do mercado de trabalho. Quando o pico de um
crescimento populacional passa, transformamos edifícios escolares
em shopping centers e quando o próximo pico de crianças em idade
escolar chega, estabelecemos turnos extras e começamos a construir
novos edifícios escolares; estes, naturalmente, estarão prontos exa-
tamente quando a população escolar mais uma vez declinar. A des-
peito de periódicas faltas de energia, construímos arranha-céus que
poüco utilizam de tecnologias de conservação de energia; cada um
deles consome tanta eletricidade quanto uma cidade razoavelmente
grande. Enquanto isto, a acelerada diminuição de reservas de ener-
gia está inexoravelmente levando à guerra as principais potências
mundiais, guerra que pode apenas temporariamente atrasar a
exaustão final desses recursos, até mesmo para o seu vencedor.
Todo mundo "conhece" essas contingências, ainda assim não
tomamos contramedidas efetivas. Isso porque o conhecimento comu-
mente é indireto. A menos que experienciemos uma ataque cardíaco,
sabemos apenas o que ouvimos os outros dizerem sobre os perigos
do colesterol. Naturalmente, é possível aprender esquivas seguido
regras, mesmo sem jamais ter experienciado o evento temido. Uma
154 Murray Sidrnan

criança não precisa se queimar para aprender, de um comando dos


pais, a não tocar no fogão quente, mas uma pequena queimadura
inquestionavelmente produziria uma aprendizagem mais rápida. Po-
demos parar de fumar sem ter passado por uma cirurgia cardíaca,
mas um ataque cardíaco menor realmente acelera o processo de
aprendizagem. Avisos verbais são freqüentemente inefetivos, refletin-
do a lenta aprendizagem da esquiva que ocorre quando choques,
reais ou ameaçados, vêm apenas pouco freqüentemente.

Destruição nuclear: ela ê evitável? Um exemplo extremo de


aprendizagem lenta por causa de choques infreqüentes é nosso fra-
casso em resolver a mais terrível contingência de esquiva de todas, a
ameaça do holocausto nuclear. Nossa inabilidade em destruir os
instrumentos que tornam a destruição nuclear possível mantém viva
a ameaça. Esta contingência é um caso especial, uma vez que o
choque — a destruição total da humanidade — é de um tipo que
ninguém jamais experienciou. Além do mais, uma vez que o expe-
rienciemos, não teremos uma segunda chance de aprender a evitá-
lo.
Avisos verbais não foram suficientes para manter o nível de
esquiva que as explosões atômicas originais geraram. A análise do
comportamento provê uma boa razão para este fato. É característica
da esquiva que o sucesso origina fracasso. À medida que passamos
mais e mais tempo sem um choque, a esquiva automaticamente
parece menos e menos necessária. Se formos continuar a pressionar
nossa barra de esquiva, devemos ter ocasionalmente algo mais que
um lembrete verbal de que o choque está por vir. E assim, o horror
de Hiróshima e Nagasaki se esvanece à medida que os choques não
recorrem.
Quando a ausência de choques faz com que a esquiva se
enfraqueça, aplicamos o termo técnico, "extinção", diz-se que o ato
de esquiva se extingue. O termo agora adquire um duplo sentido; à
medida que nossa esquiva da guerra nuclear se extingue, aumenta a
probabilidade de a vida humana também se extinguir. O padrão de
coerção da política diplomática aproxima os dois tipos de extinção.
Ameaças de destruição mutuamente asseguradas, apoiadas em fo-
guêtes e mísseis cada "'az maiores e mais poderosos, até aqui funcio-
naram. Entretanto, à medida que estas ameaças fracassem em ser
levadas adiante, sua eficácia automaticamente diminuirá. Finalmen-
te um choque será necessário para reinstalar nossa esquiva de sui-
cídio nuclear. Mas agora, com o quase ilimitado potencial destrutivo
Coerção e suas implicações 155

das armas nucleares, este choque não deixará ninguém para se


preocupar com sua recorrência.
É grave o pensamento de que nosso conhecimento de contro-
le coercitivo por contingências de esquiva deve nos levar a questio-
nar a probabilidade de que seremos capazes de continuar a nos
esquivar da autodestruição nuclear. Destruir arsenais nucleares in-
discutivelmente estenderia o tempo de segurança da humanidade,
mas, como com o abrir a caixa de Pandora, o conhecimento voou
livremente. O know-how para a construção de mecanismos capazes
de destruição universal permanecerá disponível para a manufatura
de substitutos.
Um vez que um choque ocasional, um "lembrete", é necessá-
rio para que atos de esquiva não se extingam, podemos ter que
permitir conflitos "convencionais" ocasionais, usando armamentos
não-nucleares. Esquiva bem-sucedida de toda guerra pode na reali-
dade provar-se auto derrotada, no sentido de que a total ausência até
mesmo de combate convencional enfraquecerá nossa esquiva de
conflitos mais perigosos. Guerras limitadas — limitadas em compa-
ração com a guerra nuclear — serviriam para manter uma linha de
base de choques que fortaleceria nossa esquiva de lutas mais des-
trutivas. Desagradável e pavorosa como é esta alternativa, as leis do
comportamento podem impô-la a nós.

Não pode acontecer comigo. Para indivíduos, também, cho-


ques infreqüentes e atrasados podem reduzir a efetividade das con-
tingências de esquiva. Indivíduos são notoriamente negligentes em
separar dinheiro e outros recursos pessoais para atender a emergên-
cias raras, mas inevitáveis. Conseqüências raras e remotas parecem
irreais, freqüentemente incapazes de apoiar nova aprendizagem
mesmo quando nossa vida está em jogo. O comportamento resultan-
te, embora não-inteligente, e algumas vezes aparentemente venal,
éstá, no entanto, sujeito a leis.
Até que a doença nos atinja de modo suficientemente fre-
qüente ou sério, continuamos a comer em excesso, ainda que a
obesidade aumente a probabilidade de morte prematura; afinal de
contas, apenas sabemos que outras pessoas morrem. Os frios fatos
sobre o tabaco são de conhecimento comum, mas quando o verda-
deiro choque chega é tarde demais para ensinar a nós mesmos
técnicas de esquiva bem-sucedidas; milhões continuam a fumar,
encorajados por um governo que vê as tardias ameaças do tabaco à
saúde como menos compelidoras do que as imediatas ameaças polí-
ticas da indústria do tabaco. Ainda que se saiba que o uso crônico
156 Murray Sidrnan

de esteróides anabolizantes produz falhas orgânicas, incontáveis


atletas de estatura olímpica usam estas drogas para enganar; já se
ouviu de alguns que não se importariam de morrer em alguns anos
se pudessem vencer agora. Alguns mais terão de morrer jovens an-
tes que a conseqüência remota sobrepuje o encanto de uma meda-
lha olímpica e sua conseqüente fortuna em contratos. Quantas mu-
lheres abrem mão do tabaco, álcool e outras drogas enquanto estão
grávidas? O elo entre drogas tomadas durante a gravidez e deformi-
dades, deficiências e retardamento que se torna visível na criança ao
nascimento ou mais tarde é real, mas remoto. Quantas pessoas
aleijam ou matam a si mesmos, a entes queridos ou a estranhos
esquiando em montanhas para especialistas, patinando em gelo
fino, nadando sozinhos, correndo demais em automóveis, dirigindo
bêbados e engajando-se em outras variações de roleta russa? Quan-
do a afirmação "estas coisas só acontecem com os outros" prova-se
falsa, é muito tarde para aprender como impedi-las de acontecer a
nós mesmos.

Superstições
Tentar ensinar estabelecendo contingências de esquiva pode
trazer um outro resultado problemático. Diferentemente de ações
que produzem um óbvio reforçador positivo ou fuga de um punidor,
esquiva bem-sucedida impede que algo aconteça e, portanto, parece
não produzir qualquer efeito imediato, ela parece sem propósito. Um
observador, fundamentado em estudos de laboratório, conhece a
relação precisa entre ação e choque, mas a falta de feedback imedia-
to pode obscurecer a situação para o sujeito. Como resultado, o ato
de esquiva pode se tornar bastante diferente daquilo que o professor
pretendia. Por exemplo, sujeitos verbalmente competentes podem
perguntar: "O que exatamente impede o choque de vir? Eu realmen-
te tenha que pressionar a barra ou é suficiente me aproximar dela?"
A única maneira de descobrir seria se aproximar da barra, mas não
pressioná-la.
Sujeitos sob a ameaça de punição forte provavelmente nunca
tentariam fazer o teste. Uma vez que eles pressionam a barra quan-
do quer que se aproximam dela, nem um dos dois atos jamais é
pünidó; portanto eles acabam emitindo ambos. De fato, ambos po-
dem ser necessários — eles certamente não podem pressionar a
barra sem estar perto dela — mas eles não têm qualquer maneira de
saber se a simples aproximação seria suficiente. Ainda pior, eles
podem estar bastante convencidos de que uma ação ê crítica quando
ela é realmente irrelevante. Como alguns sujeitos, por exemplo, em
Coerção e suas implicações 157

vez de simplesmente sentar e pressionar a barra, eles correm em


volta da caixa, cancelando choques ao pressionar a barra cada vez
que passam por ela. Eles podem até se vangloriar: "Rapaz, eu desco-
bri! Tudo que eu tenho a fazer é ser rápido com os pés, apertando
aquele botão cada vez que passo por ele e eles me deixam em paz."
Eles terão obtido a liberdade dos choques desempenhando um ritual
quase que completamente desnecessário que entretanto "funciona".
Embora a esquiva de choque nos ensine a cumprir ordens, a
especificação de como exatamente cumprir ordens pode ser impreci-
sa. Com tal falta de precisão, contingências de esquiva podem ensi-
nar consideravelmente mais do que é desejável, sobrecarregando-
nos com excesso de bagagem comportamental. É verdade que refor-
çamento positivo também, particularmente quando imprevisível,
pode fortalecer o que quer que aconteça de estarmos fazendo exata-
mente antes que venha um reforçador. Nós então incorporamos a
ação irrelevante ao nosso comportamento aprendido. Esticamos nos-
so braço e, a distância, retiramos a bola de boliche da valeta: bate-
mos na madeira para dar sorte, a noiva veste alguma coisa velha,
alguma coisa nova, alguma coisa emprestada e alguma coisa azul.
Mas em uma situação de reforçamento positivo, não somos
punidos por testar as contingências reais, por tentar novas opções.
Portanto, podemos aprender a descarregar o excesso de bagagem.
Com esquiva, é muito perigoso fazer quaisquer testes. Quão freqüen-
temente um falante compulsivo pára o tempo suficiente para desco-
brir se seus ouvintes discordam dele? Quantos empregados obse-
quiosos pararão de beijar os pés de seus chefes para descobrir se
então serão despedidos? Apenas crianças que ainda não aprende-
ram a lição, continuamente testarão os limites para ver com o que
elas podem se safar. Quando usamos contingências de esquiva para
ensinar filhos, alunos, empregados, prisioneiros, cidadãos ou escra-
vos o que eles devem e o que não devem fazer, é altamente provável
que nós também estejamos sobrecarregando-os com superstições,
rituais e compulsões.

Evitando o inevitável
Como vimos, o próprio sucesso da esquiva garante que ela
finalmente enfraquecerá e cessará. É necessária a punição para
conseguir que comecemos a nos esquivar e, mais tarde, é necessário
um lapso ocasional, com uma retomada de punição, para manter a
esquiva funcionando. Esta semente congênita de sua própria des-
truição tem sido chamada o paradoxo da esquiva. Se nos esquiva-
158 Murray Sidrnan

mos com tanto sucesso que os choques jamais voltam a ocorrer, a


esquiva finalmente se enfraquece e precisamos experienciar o cho-
que de novo antes que o ato de esquiva seja reinstalado.
O paradoxo da esquiva revela uma diferença crítica entre
reforçamento positivo e reforçamento negativo por esquiva. Com a
esquiva, sucesso origina fracasso; o comportamento enfraquece e
parará a não ser que outro choque o traga de volta. Com reforça-
mento positivo, sucesso origina mais sucesso; o comportamento
continua. Se a única razão para um aluno estudar for impedir a
reprovação, um fracasso eventual, ou quase fracasso, será necessá-
rio para mantê-lo estudando. Um aluno que estuda por causa das
opções que uma nova aprendizagem toma disponíveis parará apenas
se os produtos da aprendizagem se tornarem irrelevantes. Se cidadã-
os mantêm-se na lei apenas porque isto os mantêm fora da cadeia,
eles eventualmente excederão o limite de velocidade, roubarão em
sua declaração de imposto de renda, darão ou aceitarão caixinhas
ou pior. Cidadãos que se mantêm na lei por causa dos benefícios de
participar de uma comunidade ordenada não se defrontarão com
tentações cíclicas de burlar a lei.
Uma vez aprendida, a esquiva é inerentemente cíclica. De-
pois de receber um choque, trabalhamos assiduamente para manter
choques distantes. Então, gradualmente nos tornamos mais descui-
dados, esperando mais e mais antes de pressionar nossa barra;
finalmente um outro choque vem, nos levando de novo a esquivar
eficientemente. Os intervalos entre choques podem se tomar bastan-
te longos, particularmente, se antes evitamos choques por longos
períodos com sucesso, mas falhas ocasionais no esquivar são neces-
sárias para manter a esquiva funcionando.
O paradoxo da esquiva toma possível um tipo de controle
coercitivo que é horrível até mesmo de se pensar sobre ele. Uma vez
que tenhamos nos tomado tão eficientes na esquiva que choques
vêm apenas raramente, o paradoxo da esquiva toma disponível uma
poderosa arma para qualquer um interessado em nos manter no
caminho da esquiva. Se eles tiverem controle sobre o choque, podem
eliminar completamente a função adaptativa de nosso comporta-
mento de esquiva e, assim, estranhamente, torná-lo ainda mais for-
te.'-.-".. ;
Remover seu componente realista original pode tomar a es-
quiva em uma preocupação que a tudo consome. O experimento
básico tem um sujeito esquivando de choques pressionando uma
barra; cada vez que ele pressiona, garante um período livre de cho-
que de duração variável e imprevisível, algumas vezes alguns segun-
Coerção e suas implicações 159

dos, algumas vezes muitos minutos. Então, uma vez que o sujeito
tenha aprendido a impedir os choques, o experimentador toma para
si o controle real sobre os choques. Agora, um choque ocasional-
mente vem, a despeito do que o rato estiver fazendo. Aqueles poucos
choques, inevitáveis, são agora os únicos que o sujeito recebe; ele
não receberia outros mesmo que ele parasse de pressionar a barra.
Se os choques inevitáveis forem infreqúentes, de modo que o
sujeito tenha pouca oportunidade de descobrir que eles viriam não
importa o que ele tenha feito, ele continuará a agir indefinidamente
como se estivesse realmente esquivando de choques. Ele sentará ali.
hora após hora, dia após dia, paciente e calmamente pressionando
sua barra, estoicamente aceitando sua rara punição. Afinal, a expe
riência lhe ensinou que tudo o mais, exceto pressionar a barra, é
perigoso. Agora um choque ocasional vem logo depois que ele tenha
pressionado a barra, mas, ainda assim, esse ato usualmente não é
punido. A maioria dos choques ainda continuam aparecendo após
um período durante o qual ele não pressionou a barra. Até onde o
sujeito pode dizer, ele continua bem-sucedido a maior parte do tem-
po.
Assim ele passa todos os seus dias esquivando-se de cho-
ques que de qualquer maneira jamais viriam. Os pouco choques
"imerecidos", ainda que não estejam de modo algum sob seu contro-
le, são suficientes para mantê-lo na linha. O principal efeito de cada
choque agora é restabelecer as condições que de início levaram à
esquiva.
Manter a esquiva funcionando com punições que são na
verdade inevitáveis certamente pareceria contra-intuitivo. "Esquiva"
persistente do inevitável não é um resultado da punição tão óbvio
que alguém previsse antes que os experimentos fossem feitos. E,
ainda assim, a técnica de primeiro gerar esquiva real e então aplicar
punição indiscriminadamente era usada fora do laboratório muito
antes que tenha sido observada e estudada experimentalmente. As-
sim como se pode cozinhar sem nada conhecer de química, ou jogar
basquete habilidosamente sem conhecer física, ou ensinar efetiva-
mente sem ter qualquer conhecimento formal de análise do compor-
tamento, as pessoas têm usado esta técnica para controlar o com-
portamento humano, sem qualquer compreensão científica do que
estão fazendo.
O controle que a punição indiscriminada torna possível, tão
simplesmente e sem esforço, é aterrorizador. Seus praticantes foram
e são os mais brutais e desumanos seres humanos. Aí está porque
160 Murray Sidrnan

todos devem compreender a técnica e devem aprender a detectar seu


uso.
Por exemplo, era costume dos carcereiros nos campos de
concentração nazistas selecionar arbitrariamente algumas vítimas
para destruição em momentos imprevisíveis e inesperados. Estes
eram os choques inevitáveis por meio dos quais mantinham controle
sobre seus prisioneiros. Entretanto, no início, eles selecionavam
pessoas baseados no que elas tinham feito ou não, distribuindo a
punição última para quaisquer atos não-conformes, ameaçadores,
conturbadores ou inconvenientes. Os prisioneiros aprenderam a se
esquivar de destruição agindo como se supunha que deviam.
Uma vez que os carcereiros tivessem estabelecido este com-
portamento de esquiva "apropriado", eles então simplificavam seu
trabalho. Aplicando choques ocasionais indiscriminadamente — ar-
bitrariamente selecionando uns poucos e enviando-os para fora para
nunca mais retornar — eles se livravam da necessidade de realmen-
te observar os prisioneiros. Estes choques, não-relacionados com
qualquer coisa que as vítimas fizessem ou deixassem de fazer e,
portanto, na realidade inevitáveis, eram suficientes para manter os
prisioneiros cujo momento ainda não havia chegado, pressionando
suas barras de esquiva assiduamente. Do ponto de vista dos carce-
reiros, o procedimento era extremamente efetivo. Eles também po-
diam realizá-lo com uma esquisita economia de esforço.
Não tendo visto este tipo de controle no laboratório, pode-se
facilmente subestimar seu poder. A não ser que tenhamos observado
como choques não-contingentes podem usurpar o controle que con-
tingências de esquiva válidas tenham originalmente estabelecido,
podemos erradamente concluir que os sujeitos estão infligindo cho-
ques inevitáveis em si mesmos. De maneira semelhante, alguns co-
mentadores têm criticado os judeus nos campos de concentração
por ter se deixado levar como ovelhas, sem resistência, aos fornos.
Se não entendermos a significação comportamental das contingên-
cias históricas e presentes a que os judeus cativos estavam submeti-
dos, podemos facilmente não reconhecer que aqueles desafortuna-
dos não tinham escolha. As leis do comportamento estavam traba-
lhando contra eles.
Se os choques tivessem simplesmente sido dolorosos, os ju-
deus poderiam ter resistido, acolhendo a morte como a fuga última.
Entretanto, com a própria morte como o choque, a fuga da morte era
a contingência controladora. Aquele choque, liberado freqüentemen-
te, com a rudeza de uma máquina, era de início contingente às
ações dos prisioneiros. Mais tarde, os choques não guardavam qual-
Coerção e suas implicações 161

quer relação com qualquer coisa que eles realmente fizessem ou


deixassem de fazer. Porque as contingências originais haviam gerado
o comportamento de esquiva requerido — docilidade — os subse-
qüentes choques não-contingentes mantiveram essa forma de esqui-
va acontecendo. Um observador de fora, ou um historiador, podia
ver que sua quieta marcha para o forno era inútil. A mudança nas
regras aconteceu sem aviso, entretanto, e aqueles que estavam a
ponto de serem assassinados estavam simplesmente fazendo o que
as contingências originais os havia ensinado como sendo necessário
para a sobrevivência.
Apenas raramente encontramos controle por punição não-
contingente sendo praticado em situações abertas a escrutínio pú-
blico. Mas se quisermos olhar, podemos ver este tipo de controle
mais próximo de casa. Ele ocorre mais freqüentemente em institui-
ções para onde enviamos aqueles que não queremos ver intrometen-
do-se em nossas vidas cotidianas, pessoas que confiamos a "guar-
diães". Esquiva é um produto característico do controle coercitivo
em prisões, cadeias, "escolas" para retardados, "hospitais" para os
mentalmente doentes e casas de "repouso" para os idosos. Natural-
mente, assassinatos em massa não ocorrem nestas instituições, mas
encontramos outros tipos de punições severas usadas, primeiro,
para intimidar os internos a adquirir formas de esquiva que tornam
o trabalho dos guardiães mais simples e que, então, são aplicadas
não-contingentemente para manter a docilidade, cooperação e "res-
peito pela autoridade".
Em prisões, o confinamento em solitárias, a remoção de pri-
vilégios, abuso físico que não deixa marcas, e olhar para o outro
lado quando internos atacam uns aos outros são maneiras-padrão
de punir qualquer um que ameace a segurança dos carcereiros.
Confinamentos, privação, abusos e falha em proteger os internos
uns dos outros, administrados por infrações sem importância, ou
pór nenhuma razão aparente, também são práticas-padrão; estes
choques arbitrários reduzem eficientemente sérias violações das re-
gras. Em instituições para retardados, doentes mentais e idosos,
pessoal sobrecarregado e sem treinamento ainda usa violência física,
abuso verbal e isolamento social não-contingente para reduzir a
disrupção de sua própria rotina diária.
Ocasionalmente, tais práticas chamam a atenção de um gru-
po de defesa dos direitos humanos ou de um jornalista. O clamor
público subseqüente produz nova legislação, edifícios modernos ou
uma mudança na equipe da instituição. À medida que o problema
desaparece mais uma vez das vistas do público, as velhas práticas
162 Murray Sidrnan

retornam. A ausência de supervisão pública estabelece terreno apro-


priado para formas de punição cruéis e incomuns que criam docili-
dade e submissão facilmente garantidas.

Fuga da esquiva
Certamente podemos controlar conduta estabelecendo con-
tingências de esquiva, conseguindo que pessoas evitem punição.
Mas, tal controle também produz todos os efeitos colaterais da puni-
ção. Uma vez que nossos prisioneiros, alunos, pacientes ou filhos
tenham aprendido a se esquivar de punição severa, a fuga automa-
ticamente ainda se torna mais reforçadora que a esquiva. Se for
possível para eles ir embora, eles irão.
Este resultado é familiar para todo mundo; as pessoas estão
sempre fugindo das prisões e de outras instituições. Freqüentemente
lemos sobre fugas de escolas para retardados e reagimos com pena;
tendemos a atribuir estas ações aparentemente não-adaptativas à
falta de inteligência do fugitivo. O nome "escola", entretanto, quando
aplicado a tais instituições é muito freqüentemente um eufemismo.
A sociedade, embora ocasionalmente preocupada com o ambiente
físico em suas escolas para retardados, não monitora o que é ensi-
nado ali ou como é ensinado. Por causa da equipe freqüentemente
jjialtreinada e da ausência de prestação de contas pública, os resi-
dentes de tais "escolas" aprendem a adaptar-se a contingências de
esquiva que os funcionários estabelecem para sua própria conve-
niência. Eles aprendem pouco mais. Fuga deste ambiente nem sem-
pre indica pouca inteligência. Também pode representar um ajuste
perfeitamente racional a controle coercitivo. Deveríamos ver a fuga
dos retardados como gritos, não por piedade, mas por ajuda.
,' Quando lemos que um assassino condenado fugiu da peni-
tenciária e é perigoso e que está na lista dos "mais procurados",
podemos nos perguntar por que alguém escolheria a existência inse-
gura e necessariamente breve de um animal caçado, em vez da
relativa segurança da prisão. Interpretamos a escolha do fugitivo
como evidência adicional de sua depravação. Ocasionalmente estare-
mos corretos. Ainda assim, em muitos desses casos, podemos razoa-
velmente supor que as contingências de esquiva dentro da prisão
erajh tão severas que tornaram a fuga, ainda que temporária e
provável de terminar em morte, um poderoso reforçador. Natural-
mente, nossa suspeita algumas vezes seria infunda, mas este é o
primeiro lugar para onde olhar procurando uma explicação. Coerção
desumana, proibida por lei, é, no entanto, tão predominante nas
Coerção e suas implicações 163

instituições penais que' se tornou a norma de fato entre os funcioná-


rios a serviço da justiça. Muitos dos que não praticam eles próprios
a brutalidade mantêm seus empregos olhando para o outro lado.
Aparentemente, fuga irracional algumas vezes reflete a depravação
dos carcereiros, não dos fugitivos.
Aqueles a quem confiamos, seja em seu próprio benefício,
seja para nos proteger, usualmente são incapazes de fugir. Eles
podem adotar rotas alternativas de fuga. Suicídio, assassinato e
outras formas de violência são comuns em instituições penais e
outras instituições. Se não se pode fugir fisicamente, que outro
modo melhor há de terminar a coerção do que terminar com o
coercedor? Sujeitos a estupros e a outros tipos de violência e humi-
lhação, prisioneiros, pacientes e os deficientes que são incapazes de
homicídio podem descobrir o suicídio como mais factível.
A sociedade precisa algum dia acertar as contas com seu
próprio papel em criar tais ambientes. O que queremos de nossas
instituições penais e mentais? Elas devem servir como latas e cestas
de lixo nas quais jogamos nossos refugos e os esquecemos? Preten
demos que as prisões apenas punam os que burlam a lei, que nos
protejam contra aqueles que se mostraram perigosos e que sirvam
como instrumento de revanche? Queremos que aqueles a quem con-
finamos saiam sem mudanças, tendo aprendido apenas o que era
necessário para a sobrevivência dentro das instituições ou gostaría-
mos que eles tivessem aprendido a funcionar com sucesso do lado
de fora? As posições públicas em relação a esta questão têm sido
inconsistentes e, freqüentemente, diferem completamente dos tipos
de instituições que de fato criamos.
Uma análise comportamental não pode, em si mesma, tomar
as decisões necessárias, mas pode mostrar quais as conseqüências
prováveis de qualquer decisão. Está claro que as políticas mais pre-
dominantes — negligência com o deficiente e revanche com o crimi-
noso — gerarão o tipo de ambiente coercitivo que hoje predomina. É
previsível que muitos dos responsáveis que contratamos serão tão
brutais em suas tarefas quanto o permitirmos e que muitos dos
rejeitados que confinamos vão se vingar tão brutalmente quanto
possível de seus guardiães. Apenas um fio de cabelo distingue a
conduta de alguns carcereiros da conduta de seus prisioneiros e
distingue as ações de alguns funcionários das instituições mentais
das ações de seus pacientes.
Tendo criado esses ambientes, devemos aceitar responsabili-
dade pela desumanidade que acontece dentro deles. As leis do com-
portamento nos permitem prever os resultados de qualquer que seja
164 Mwray Sidman

o tipo de ambiente que criamos. Quando as perguntas surgem, a


análise do comportamento pode sugerir maneiras de encontrar as
respostas. Assim como dizem os guardiães de nosso sistema legal
quando inadvertidamente saímos da linha, "a ignorância da lei não é
desculpa", o mesmo pode ser dito das leis comportamentais. Quando
nossas decisões determinam se outros devem viver ou morrer, ou se
suas vidas devem ser plenas ou vazias, pacíficas ou violentas, a
ignorância dos efeitos de nossas decisões sobre os outros é indescul-
pável.
10

Como nos esquivamos?

Como a fuga, a esquiva tem muitas faces. Nenhum ato parti-


cular define a esquiva; todos temos muitos tipos de barras para
prevenir vários tipos de choques. Ainda assim, algumas formas de
esquiva são mais problemáticas que outras. Se quisermos entender
e, talvez, fazer algo a respeito da esquiva, primeiro temos que reco-
nhecê-la.

Esquiva adaptativa

Parte de nossos comportamentos mais úteis são de esquiva:


nos preparamos para extremos de temperatura vestindo-nos pesada-
mente no inverno e levemente no verão; evitamos acidentes de auto-
móveis "dirigindo defensivamente"; evitamos de nos queimar usando
um creme protetor; prevenimos infecções colocando soluções anti-
sépticas em cortes e arranhões; mantemos distância das superfícies
quentes de fogões e lareiras; evitamos o esquecimento "amarrando
um barbante no dedo"; impedimos fracassos ensaiando um desem-
penho no palco ou uma apresentação de negócios; fazemos seguros
166 Murray Sidrnan

e investimos em fundos de aposentadorias. Estas são as ações de


pessoas que "são prevenidas" e "mantêm o controle".
Estas características de personalidade não explicam nossas ações. As causa
de nossa antevisão devem ser encontradas nas contingências de esquiva arranjadas
pelo nosso ambiente. Pessoas prevenidas já conhecem diretamente, ou por instrução
verbal, os "choques" dos quais agora se esquivam tão efetivamente; ou
contingências de esquiva em geral têm regulado suas vidas de tal maneira que
elas agora automaticamente se preparam para o pior.
Alguns choques vêm tão raramente que mesmo esquiva útil é difícil de
aprender ou manter. Muitos gastam todos os seus centavos, incapazes de colocar
de lado qualquer quantia para os inevitáveis "dias difíceis"; milhões ainda fumam
a despeito da perspectiva de doença fatal; ainda é comum encontrar mulheres
grávidas bebendo álcool, fumando e tomando outras drogas, despreocupadas
com os danos causados em seusfilhospor nascer; obesidade permanece sendo
um problema nacional, ainda que seja altamente correlacionada com diabetes e
hipertensão e de ser um convite para a morte prematura.
Alguns de nós que nos descobrimos incapazes de economizar, de parar
de fumar, de desistir das drogas ou de perder pesofreqüentementesuspiramos
por e desejamos um autocontrole mais forte. Entretanto, o problema real não é
um controle fraco pelo self mas um controle fraco pelo ambiente. O que
precisamos não é fortalecer nossa vontade interior, mas rearranjar o ambiente
externo, fortalecendo as contingências de esquiva, ou provendo outros
reforçadores para o comportamento que desejaríamos ter.
Nossos amigáveis gerente de banco, vendedor de seguros e contador
condenam nossa imprevidência comofraquezade caráter. Eles poderiam nos
ajudar mais reconhecendo o problema pelo que ele é, não um traço irremediável
de personalidade, mas uma esquiva fraca que pode ser remediada. Médicos,
também, não são treinados para reconhecer e analisar problemas
comportamentais, assim, pacientes que não conseguem seguir suas
recomendações sobre dietas, drogas e medicação deixam-nos desamparados.
Em vez de prescrever uma dose de autocontrole, médicos fariam melhor
apelando para o ambiente social do paciente — amigos e família — em busca
de apoio para obediência. Contadores e médicos não foram ensinados como
obter mudanças comportamentais e, de qualquer maneira, diriam que não
têm tempo suficiente para tanto. Mas manter-se sem ciência da natureza
comportamental do problema não atende aos interesses de seus clientes e pacientes
Coerção e suas implicações 167

Permanecendo fora do mundo


Uma vez que desistentes tenham fugido de suas famílias,
escolas, ou comunidades coercitivas, eles mantêm sua distância.
Tendo se libertado de um ambiente aversivo, eles então fazem tudo
que estiver ao seu alcance para impedir que esse ambiente restabe-
leça seu domínio. Manter-se sem envolvimento é um ato de esquiva.
Jovens desistentes podem adotar um estilo de vida tão dife-
rente daquele do qual fugiram que sua comunidade original os julga
como tendo se tornado indesejáveis e até mesmo perigosos. Ambien-
tes pobremente mantidos e insalubres trazem perigos para os fugiti-
vos mas servem para uma importante função; eles mantêm o resto
da sociedade a uma certa distância. Famílias, considerando a nova
filosofia, os novos costumes, o novo ambiente e a aparência física de
seus filhos objetáveis e assustadores, abandonam tentativas de tra-
zer de volta a ovelha desgarrada.
Tendo fugido de indivíduos e instituições sociais coercitivos,
desistentes freqüentemente são atraídos para comunidades "margi-
nais" que afirmam que reforçadores mundanos, como pagamento
por trabalho ou talento, são incompatíveis com reforçadores como o
amor, a afeição e o compartilhar que se originam de relações pes-
soais não-egoístas. Juntando-se a uma comunidade com estilo de
vida alternativo, eles se oferecem a um líder carismático para explo-
ração, em troca de proteção contra a sociedade que rejeitaram. Toda
a renda vai para o guru que é, presumivelmente, incorruptível por
dinheiro e pelos confortos que ele torna disponíveis.
O que isto significa é que a sua abdicação de responsabilida-
de e de tomada de decisões permite aos membros de cultos ignorar
e, portanto, se esquivar de pressões para voltar à cena da qual eles
desistiram. Uma atração importante de comunidades e seitas margi-
nais é seu sucesso em proteger membros daquele outro mundo onde
suas vidas foram dominadas por fuga e esquiva. Pode levar tempo
pafa que eles descubram que seus novos reforçadores também são,
na sua maioria, negativos.
Quando a dor de um choque é atrasada, a aprendizagem da
esquiva será lenta; podemos ter de aceitar muitos choques antes de
aprender a evitá-los. Com drogas, também, um longo tempo pode se
passar entre causa e efeito. Drogas que causam adição têm compo-
nentes reforçadores que tornam ainda mais difícil aprender a se
esquivar delas. Também relações pessoais destrutivas freqüente-
mente contêm elementos positivos que por algum tempo sobrepujam
nossas inclinações de nos esquivarmos de situações aversivas. Viver
utria vida de isolamento social ou intelectual pode impor privações,
168 Murray Sidrnan

desconfortos físicos e estresses biológicos que terminam em doença


e inabilidade para manter nossa independência. Desistentes do veio
central da sociedade freqüentemente sofrem desses resultados atra-
sados. Eles descobrem que seu novo ambiente desaprova curiosida-
de intelectual, faz com que se sintam culpados por qualquer sinal de
individualidade e considera desconforto e doença como formas de
distinção. Aquilo que primeiro pareceu afetuoso paternalismo torna-
se uma outra forma de exploração. Quando os elementos destrutivos
de seus novos estilos de vida se tornam óbvios o suficiente para
gerar um novo ciclo de esquiva, jovens desistentes podem já ter se
prejudicado irrecuperavelmente.
Mesmo que se mantenham saudáveis, portas terão se fecha-
do para eles, fechando seu acesso à oportunidade para inde-
pendência intelectual, econômica ou política mais convencionais,
ainda assim mais construtivas. Os componentes aversivos de suas
novas vidas podem finalmente tomar-se suficientemente fortes para
sobrepujar os atrativos originais, mas freqüentemente é muito tarde
para ação efetiva.
O reconhecimento dos componentes de esquiva na conduta
dos desistentes da sociedade torna-se mais importante quando que-
remos trazê-los de volta. Tendemos a colocar a culpa nas comunida-
des ou contraculturas que atraem os desistentes, ou em seus estilos
de vida alternativos. Mas a falha está na coerção que permeia as
interações sociais "normais". Ainda que um observador não-envolvido
possa ver as novas formas de coerção a que muitos desistentes se
submetem, permanece o fato de que eles consideram a nova coerção,
pelo menos temporariamente, menos aversiva que a antiga.
Se a sociedade pretender ter uma abordagem construtiva
para o problema de ganhar de volta seus membros perdidos, parti-
cularmente seus jovens, um primeiro passo necessário é admitir que
o comportamento de desistir é esquiva. Compreender as origens da
esquiva iria nos levar a examinar nosso próprio ambiente. Então,
poderemos identificar os choques que tornam as barrar de "desistir"
efetivas. A falha corrigível não está na aparente atratividade dos
alternativos, mas na relativa coercitividade da linha de base "nor-
mal". Em vez de perguntar "para onde foram os desistentes?", deve-
mos perguntar: "De onde eles vieram?"

Não é problema meu


A maioria das pessoas se esquiva de participar das responsa-
bilidades da comunidade — um outro tipo sério de desengajamento.
Coerção e suas implicações 169

Em quase todas as eleições, a maioria dos eleitores possíveis deso-


briga-se, fazendo do princípio de governo representativo uma piada.
Um serviço tradicional oferecido por políticos locais é arranjar para
que cidadãos sejam excluídos da tarefa de jurado. Audiências públi-
cas são usualmente tão pouco freqüentadas que políticos e membros
de órgãos reguladores as vêem com desprezo, como gestos vazios de
adesão a procedimentos democráticos, úteis apenas como proteção
contra futuras críticas às suas decisões. Pesquisas de opinião de-
monstram repetidamente a extensão na qual o público se isola do
conhecimento e da compreensão dos eventos locais, nacionais e
mundiais.
Muitos tornaram-se cínicos sobre a possibilidade de qual-
quer conexão positiva entre políticos e o bem público. Aceitam sem
protesto a corrupção daqueles eleitos ou indicados para cargos pú-
blicos, até mesmo fomentando a corrupção quando ela serve a seus
próprios fins.
Médicos, advogados, professores, psicólogos, enfermeiros e
assistentes sociais ativamente resistem ao monitoramento público
de suas práticas. Ao mesmo tempo, raramente agem contra colegas
profissionais incompetentes. Apenas sob intensa pressão estabele-
cem procedimentos disciplinares para proteger o público e, então,
indivíduos se esquivam de indicar ou de voluntariamente se envolver
eles mesmos nestes procedimentos.
No governo, nas forças armadas e nas organizações empresa-
riais hierarquicamente organizadas, trabalhadores subalternos não to-
mam oficialmente ciência dos erros de julgamento, atos de fraude,
quebras nos padrões éticos ou crimes de seus superiores. Eles imitam
os três macaquinhos: "Não vejo nada, não ouço nada, não falo nada."
A filosofia "não meta a colher em cumbuca alheia" é docu-
mentada freqüentemente em nossa própria experiência e nos even-
tos que a mídia relata todos os dias. Experimentos controlados ofe-
recem confirmações impressionantes desse tipo de não-envolvimento
que mostram como indivíduos abandonam uns aos outros quando
ocorrem acidentes de rua, violência e outros problemas.
Mais e mais, nós, os afortunados, estamos colocando distân-
cia emocional e social entre nós mesmos e nossos semelhantes que
estão com problemas. Ironicamente, à medida que as distinções
entre os que têm e os que nada têm se tornam mais visíveis, torna-
se mais fácil negar a existência dos que nada têm do que fazer algo
por eles. Poucos têm prazer com a visão da miséria humana, não
Vê-la é um modo simples de esquivar-se. Lidar com o sofrimento dos
,.outri>s é custoso; custa dinheiro, tempo, esforço e a disrupção de
170 Murray Sidrnan

prioridades pessoais. Se, em vez disso, menosprezamos os famintos,


desabrigados e doentes, considerando-os estúpidos, preguiçosos e
imprevidentes, nós que estamos saciados, abrigados e saudáveis
podemos corretamente nos recusar a vê-los. Assim nos protegemos
da desagradabilidade e inconveniência.
O desengajamento social foi proposto como política nacional.
A "Segunda Revolução Americana" iria remover as algemas que
prendem o governo aos pobres e desafortunados, libertando-os para
terem sucesso por seu próprio esforço e engenhosidade. Disseram-
nos que as necessidades de defesa militar nos proibiam de continuar
a nos preocupar com aqueles que não se fizeram por si mesmos: "de
qualquer modo, eles não têm a quem culpar, a não ser eles mesmos
por seus problemas." Agora que políticos e generais garantiram para
si mesmos amplos benefícios e pensões, não importa quão grande
seja sua incompetência, todos aqueles que não tiveram a mesma
perspicácia podem se virar por si mesmos.
Mais cedo ou mais tarde uma política nacional de evitar a
responsabilidade social deve terminar em catástrofe nacional. A po-
larização econômica inevitavelmente leva à convulsão social violenta.
Evitando problemas atuais, garantimos choques severos mais tarde;
os gatos gordos de hoje estão criando seus filhos e netos para o
desastre. Entretanto, conseqüências atrasadas controlam fracamen-
te: "Deixe que eles se defendam sozinhos."
Abstemo-nos de votar; nos evadimos da obrigação de júri;
nos ausentamos de audiências públicas e de outros mecanismos da
democracia participativa; nos mantemos deliberadamente desinfor-
mados da coisa pública; olhamos para outra direção quando vemos
um roubo, assalto, coerção sexual no trabalho, incompetência em
nossa profissão, apropriação indébita de dinheiro público, solicita-
ção ou aceitação de propinas e atos de humilhação e brutalidade da
polícia. Nada disso nos classifica como desistentes. Talvez seja por
isso que não ver e não agir, diferentemente de desistências abertas,
permitem que nos mantenhamos fora do alcance de visão. Pelo me-
nos, não parecemos desistentes. Mas, nos desengajarmos, permane-
cermos não-envolvidos em questões de políticas públicas, segurança
e integridade é, a longo prazo, mais perigoso para a sociedade do
que qualquer subcultura minoritária. Dando os ombros para a res-
ponsabilidade sobre a comunidade, criamos um vácuo nas institui-
ções de governo representativo, segurança pública, justiça social e
oportunidade econômica. Estes espaços são inevitavelmente preen-
chidos pelos incompetentes, pelos sem-princípio, pelos venais e pe-
los criminosos.
Coerção e suas implicações 171

Freqüentemente consideramos a falta de ação como exemplo


de "não-decisão", mas não há realmente tal coisa como não fazer
nada. A ausência de um "sim", será interpretada como "não"; a
não-proibição será considerada como permissão; "talvez" significará
"sim" para alguns e "não" para outros, completo silêncio freqüente-
mente significa "faça o que quiser, apenas não me incomode". Ao
não se manter informado, um executivo está dizendo a seus subor-
dinados: 'Tomem suas próprias decisões." Recusar-se a tomar uma
decisão é em si mesmo uma decisão; acreditar que realmente nos
abstivemos de envolvimento, que nos isentamos de responsabilida-
de, é uma ilusão. Somos criaturas sociais e mesmo nos refreando de
agir terá seus efeitos em outros.
Se quisermos reverter as tendências atuais que vão em
direção ao egocentrismo, ao isolamento em relação ao envolvimen-
to ativo e evasão de responsabilidade, mantendo-nos desinforma-
dos e fingindo que não existem problemas, então temos de olhar
mais de perto para os determinantes dessa conduta. O que cria o
não-envolvimento? O que o mantém? Quando examinadas de perto,
descobriremos que quase todas as formas de inação via desengaja-
mento contêm fortes componentes de esquiva.
Sempre que outros deixam de fazer o que poderíamos espe-
rar que fizessem, temos razão para suspeitar que punição é a res-
ponsável. Uma análise comportamental nos levaria a perguntar:
"Que choques a participação pode produzir? Manter distância per-
mite a esquiva de choques?"
Punições por nos envolvermos demonstram-se suficiente-
mente fáceis de identificar. Algumas são relativamente suaves. Em-
bora dificilmente comparável a um choque doloroso, a simples in-
conveniência, a perturbação de nossa rotina comum que a participa-
ção freqüentemente impõe é suficiente para explicar muito do não-
envolvimento. Não votando nos esquivamos de ter de rearranjar nos-
sa agenda, esperar na fila, abrir caminho através da boca de urna
feita pelos insistentes candidatos e cabos eleitorais que nos empur-
ram suas filipetas; passamos ao largo do desconforto de andar até a
urna e esperar ali no mau tempo; ou adiamos as difíceis decisões
que votar em um candidato ou um tema freqüentemente requerem.
Podemos fazer nossa esquiva ainda mais cedo não nos registrando
para votar, um processo separado que é freqüentemente mais incon-
veniente que o próprio votar.
Publicidade e encorajamento verbal não serão suficientes
para aumentar o número de eleitores. Contingências comportamen-
tais reais estão envolvidas. Resolver o problema requererá eliminar
172 Murray Sidrnan

ou reduzir a severidade das punições que impedem as pessoas de


colocar seu voto na urna. As melhores maneiras de fazer isto são
bem conhecidas; não é necessário ser um analista do comportamen-
to para ver a efetividade de deixar trabalhadores saírem cedo do
trabalho em dia de eleição, prover transporte conveniente e grátis
para os locais de votação, fornecer guarda-chuvas quando necessá-
rio, distribuir panfletos com antecedência, aumentar o número de
urnas e máquinas, permitir o registro pelo correio e auxiliar aqueles
não-familiarizados com os procedimentos de registro e votação.
A eficácia dessas medidas é atestada pelo vigor com o qual se
resiste a elas. Aqueles que ganharam controle sobre o processo
político nem sempre consideram o sufrágio universal como vantajoso
para a manutenção de seu poder.
A participação naquela instituição democrática fundamental,
o júri, causa inconveniências que são mais difíceis de eliminar.
Quanto mais ganhamos, quanto maior o poder que tenhamos, ou
mais pesadas as responsabilidades sobre nossos ombros, mais seve-
ras são as perdas que provavelmente sofreremos por ter que tirar
tempo do trabalho para o júri. Os mais afluentes, os mais influentes
e os mais proeminentes são os que têm mais a perder. É uma
coincidência que raramente os encontremos em júris?
Também raramente vemos seus crimes sendo trazidos a jul-
gamento pelo júri. Quando eles cometem ofensas civis ou criminais,
seus recursos lhes dão acesso a advogados que são habilidosos em
prolongar o litígio. Finalmente, eles conseguem acordos que garan-
tem a imunidade de acusação. Eles raramente são encontrados em
julgamentos, seja como jurados, seja como réus.
Ao desengajar-se deste modo, esquivando-se das inconve-
niências pessoais relativas ao desempenho de responsabilidades da
comunidade, os ricos, os poderosos e os proeminentes criaram um
sistema de justiça duplo. Aqueles com menos influência e recursos
são, em .certo sentido, tão incomodados quanto os ricos por partici-
par do júri. Também, seus atos ilegais, na média, provavelmente
ferem menos pessoas. Ainda assim, eles mais provavelmente são
forçados a participar do sistema de júri, de um lado ou de outro.
Aumentar a participação no sistema de júri e diminuir a
evasão requer mudanças na conduta. Novamente, o problema fun-
damental é comportamental. Para a maioria, fatores que constran-
gem são, no presente, mais fortes que fatores que encorajam o en-
volvimento. Nenhuma quantidade de exortação sobrepujará as pri-
vações e perdas reais a que muitos estariam sujeitos se aceitassem
constar da lista de jurados possíveis. Esta é uma instância na qual
Coerção e suas implicações 173

as punições por participação não podem ser eliminadas. Uma parte


importante da solução do problema, então, deve ser tornar a esquiva
mais difícil.
Algumas comunidades retiraram o poder dos representantes
eleitos de intervir em favos de qualquer um selecionado como jura-
do. Raramente elas foram tão longe a ponto de retirar esse poder de
todas as autoridades, eleitas ou indicadas, de modo que aqueles
com influência política, financeira ou social ainda podem se manter
não-envolvidos. Para impedir a esquiva do serviço por meio de solici-
tações políticas, pressões sociais ou simplesmente corrupção as co-
munidades terão que eliminar as vias de influência.
Elas também terão de tornar outras formas de evasão mais
difíceis. Por exemplo, tendo sido chamado para compor o júri, pode-
se facilmente não participar em qualquer caso particular fazendo
com que um advogado de defesa ou promotor desconfie de sua
imparcialidade. Pode-se argumentar oposição à pena capital, crença
em que estupro sempre é provocado pela vítima, ser a favor ou
contra o mercado, estar convencido de que televisão incita a violên-
cia, afirmar que insanidade não é desculpa para o assassinato, já ter
formado uma opinião sobre o caso, ou ser filosoficamente um anar-
quista. Uma vez que se tenha sido acusado por causa dos problemas
que tal viés provocará, freqüentemente se está livre de chamadas
posteriores. Para tornar esta rota de esquiva menos vantajosa, aque-
les chamados para participar do júri poderiam ser requisitados a
manter-se disponíveis por um período fixo de tempo. Então, ainda
que recusados em um caso particular, eles não poderiam ir embora
antes daqueles que se permitiram ser selecionados.

Quem porá a boca no trombone?

Geralmente relutamos em "pôr a boca no trombone" em rela-


ção a companheiros de trabalho, colegas e chefes que vemos agindo
irresponsavelmente, incompetentemente ou ilegalmente. Olhar para
o outro lado é uma ato de esquiva, nos mantém fora de problemas.
Trazer tais observações à atenção de estranhos é especialmente peri-
goso. Em agências militares, governamentais e empresariais espera-
se que passemos adiante descobertas, reclamações ou acusações
através dos canais competentes, ainda que exatamente aqueles que
vimos agindo incorretamente terão o privilégio de avaliar nossa preci-
são e julgamento. Os sujeitos de nosso relato serão também seus
juizes.
174 Murray Sidrnan

O mesmo acontece em organizações profissionais. Estas


mantêm uma mística de "irmandade": "O que fere um fere todos,
assim, mantenha tudo em família." Esta regra usualmente é basea-
da mais em economia do que em afeto e respeito mútuos. Embora se
suponha que padrões profissionais impeçam a prática incorreta, a
imposição de padrões é perigosa. Ações disciplinares internas contra
os incompetentes ou os criminosos têm possibilidade de vazar para
a mídia e tornar-se escândalos. Quando medidas contra um colega
colocam em risco a imagem pública de uma profissão, a ameaça ao
prestígio e ã prosperidade torna-se prioritária em relação à proteção
do público. Portanto, organizações profissionais não monitoram rigo-
rosamente o comportamento de seus próprios membros. Manter
uma reclamação "em família" geralmente significa que nada será
feito a seu respeito.
Pessoas que realmente vão a público, vão se descobrir rebai-
xadas, despedidas com desonra ou simplesmente despedidas, ou
transferidas para um local em algum tipo de "Sibéria". O rótulo
"não-confiável" viajará com elas em seus prontuários pessoais. Anti-
gos associados nada terão a ver com elas. Ê surpresa que a reação
mais comum diante daqueles que mentem, enganam, roubam, acei-
tam caixinhas e colocam em perigo a segurança, os direitos civis ou
a saúde de outros seja o comentário, "não é da minha conta" ?
As comunidades até mesmo atribuem um certo estigma mo-
ral àqueles que não praticam este distanciamento. Nós todos perten-
cemos a vários "clubes", unidos aos outros membros por traços de
interesse pessoal ou objetivos comuns. "Dedo-duro", "rato", "traidor"
atribuem deslealdade a membros que escutam o chamado de uma
lei maior que a dos seus clubes. Choque por "pôr a boca no trombo-
ne" exerce controle mais forte do que abstrações como "honestida-
de", "justiça" ou o "bem público". Indivíduos vêem 'tocadores de
trombone* sendo punidos e eles finalmente traduzem esta observa-
ção no imperativo moral: "Botar a boca no trombone é errado."
Relatos nos noticiários sobre abusos nos mais altos níveis do
sistema de defesa aparecem tão regularmente que os incidentes rela-
tados, acidentalmente descobertos ou revelados por um raro 'tocador
de trombone', devem ser apenas a ponta do iceberg: preços extorsi-
vos cobrados pelas contratadas da defesa, assentos de privada de
400 dólares, uso de funcionários como serviçais feito por autorida-
des, planejamento inadequado e incompetência na execução de ope-
rações militares das mais variadas importâncias, discordãncias táti-
cas não-resolvidas entre correntes das forças armadas e falsificações
de dados de testes sobre segurança e eficácia de equipamento. A
Coerção e suas implicações 175

burocracia das forças armadas imediatamente aplica punição justa,


severa e duradoura a qualquer um que exponha incompetência e
desonestidade. O corpo do iceberg mantém-se escondido. A própria
mídia não é imune a ameaças de supressão e outras formas de
retaliação.
Esquiva gerada por coerção que começa no próprio topo é
uma preocupação central de nosso sistema de defesa; as motivações
são em grande parte negativas. Mesmo críticas confinadas a memo-
randos internos, sem vazamento para a mídia, colocarão uma carrei-
ra em risco. Superiores, vendo objeções por meio dos canais compe-
tentes como um primeiro passo potencial para se tornarem públicas,
rapidamente colocam a tabuleta "criador de problemas" no prontuá-
rio pessoal que segue o crítico a todos os lugares.
Esquivando-se de um término prematuro da carreira e da
perseguição de uma burocracia magoada e que não perdoa, aqueles
a quem confiamos nossa segurança pessoal desempenham suas pró-
prias tarefas e mantêm-se alheios às dos outros. Sob o peso desta
coerção, eles subordinam segurança nacional a segurança indivi-
dual. Estão sendo apresentados modelos a carreiristas militares que
não inspiram nem eficiência nem integridade. É fácil para eles per-
ceber que a estrada para o topo está aberta apenas para aqueles que
implicitamente toleram incompetência e desonestidade de superiores
que poderiam impedir sua promoção. A resultante ausência de res-
peito e preocupação mútuos é freqüentemente atribuída à moral
baixa, mas moral é um resultado, não uma causa. As raízes da
conduta que chamamos de "moral baixa" devem ser buscadas nas
contingências coercitivas que dominam todas as interações.
A menos que olhemos mais de perto as contingências, com
uma perspectiva de mudá-las, uma crise verdadeira encontrará nos-
so sistema militar incapaz de fazer o seu trabalho. Infelizmente, a
inépcia militar revela-se apenas quando é muito tarde. Uma ameaça
mais imediata é o apetite dos militares por nossos recursos naturais,
econômicos e humanos. Nosso protetor está se transformando ele
mesmo em uma ameaça para a própria cultura que o criou para
defendê-la.
O governo federal não tem mais recursos para ajudar a edu-
car suas crianças e jovens, para alimentar os subnutridos, para
rétreinar os desempregados tecnológicos, para garantir cuidados
médicos para todos, para conservar recursos naturais, para descon-
taminar águas e terras poluídas, para manter parques nacionais,
florestas e litorais, para apoiar as artes ou para subvencionar a
pesquisa científica. Governos estaduais e municipais podem arcar
176 Murray Sidrnan

com estas obrigações apenas ao custo de diminuir serviços básicos,


como polícia e proteção contra o fogo, suprimento de água, coleta e
disposição de lixo e manutenção de pontes, estradas, edifícios e
parques públicos. O custo de alimentar o protetor já está tornando
impraticáveis muitas das instituições democráticas que ele deveria
ajudar a preservar. Se quisermos fazer com que o sistema militar
passe por uma limpeza, teremos que descobrir maneiras de impedi-
lo de suprimir a crítica.
Apelos ao patriotismo, integridade, ou autopreservação inteli-
gente não são suficientes. Mais uma vez o problema é comportamen-
tal, mas nós nos enganamos se o concebermos como uma necessida-
de de mudar "comportamento institucional". Indivíduos se compor-
tam, não instituições. Para alterar uma instituição temos que mudar
a conduta dos indivíduos que são a instituição.
Não podemos esperar que indivíduos que estão nas forças
armadas aceitem voluntariamente responsabilidade pública. Contin-
gências tradicionais de punição e esquiva dentro da organização
rapidamente destruiriam qualquer tendência deste tipo. Revisão e
avaliação vindas de fora são fortemente recusadas. As altas patentes
argumentam que é necessário proteger-se de críticas amadoras para
que possam fazer trabalho profissional; elas vêem o público como
um intrometido. Embora nosso sistema nominalmente coloque um
civil como seu chefe, sua autoridade, na prática, limitada a indica-
ção de chefes, é tolerada desde que não tente ser o "dono da bola".
No entanto, todas as agências e instituições requerem con-
tingências externamente impostas para estabelecer e manter auto-
controle responsável. Talvez o que necessitemos seja um corpo de
monitores especialmente treinado e tecnicamente competente, mas
responsável apenas para com o público. Apenas controle externo
pode eliminar os tipos de coerção pelos quais as forças armadas se
protegem a si mesmas da vigilância e responsabilidades públicas.

Se vende, deve ser bom


Podemos ver o mesmo tipo de controle coercitivo em instân-
cias legislativas, em departamentos de polícia e de bombeiros, em
conselhos de escolas, em prisões e em outros serviços municipais e
estaduais. Indivíduos agem para proteger seus empregos, assegu-
rando sua própria sobrevivência mesmo com o custo de subverter os
objetivos organizacionais iniciais.
Em grandes corporações, grupos científicos e profissionais,
faculdades, universidades e hospitais encontramos a mera sobrevi-
Coerção e suas implicações 177

vência assumindo a direção como o objetivo da administração. "Mar-


keting" é o mote. Em todo tipo de organização é dito a executivos e
administradores que se preocupam com a qualidade e utilidade de
seus produtos e serviços: "Você não está afinado com a moderna
prática de negócios, lembre-se dela." As contingências são bastante
explícitas: não importa quão inferior o produto, se você puder vendê-
lo será aclamado, admirado e recompensado generosamente; não
importa quão útil, durável, bonito e benéfico seu produto, se você
não puder vendê-lo, ambos, você e seu produto serão desprezados.
Os vendedores assumiram a direção: a qualidade de um produto é
secundária em relação ao sucesso em vendê-ló.
Esta ética da sobrevivência propagou-se para a educação.
Faculdades e universidades agora competem ativamente por alunos.
Vice-reitores responsáveis por admissão de alunos abertamente
classificam o recrutamento de estudantes como um problema técni-
co de marketing. A "venda" de uma faculdade a estudantes poten-
ciais tornou-se independente do produto que, se supõe, a faculdade
põe à disposição: os vendedores assumiram o controle da adminis-
tração universitária.
E assim vemos as missões originais de muitas organizações,
fundadas para manter ou melhorar a qualidade de vida, sendo sub-
vertidas para assegurar a sobrevivência da equipe administrativa e
instalações físicas. Universidades e hospitais modernos estão sobre-
carregados de administradores de empresas que têm pouco ou ne-
nhum conhecimento sobre educação, cuidado de pacientes ou pes-
quisa. A crítica pública de deficiências nessas áreas não-familiares
simplesmente ameaça sua segurança no emprego. Em um de nos-
sos maiores hospitais ouviu-se um administrador financeiro recém-
contratado, munido com um grau de mestre em administração de
empresas, comentar como ele inspecionou o orçamento em exercício
do hospital: "Meu Deus! Vocês gastam urn dinheirão em cuidado
com pacientes."
Administradores de nossas universidades ricas são persegui-
dos por demandas de estudantes e docentes, por reformas educacio-
nais que suas equipes com treinamento especializado em empresas
não entendem nem apreciam. Eles anseiam pelo dia em que possam
excluir todos os estudantes, demitir todos os professores e, então,
livres dos compromissos irrealistas com a educação, possam gastar
seu tempo administrando a dotação. Administradores de hospitais,
aborrecidos e ressentidos com médicos que pressionam por melho-
rias no cuidado com os pacientes, contrariados e irritados com pes-
quisadores que exigem espaço e recursos para desenvolver novos
178 Murray Sidrnan

métodos para a cura e prevenção de doenças e receosos dos riscos


para seus próprios empregos que tais considerações não-familiares
representam, estão gradualmente substituindo objetivos relaciona-
dos à saúde por objetivos financeiros. O lucro está substituindo a
qualidade no cuidado de pacientes e a produtividade da pesquisa,
com a justificativa de continuar existindo.
Costumávamos concordar em pagar impostos voluntaria-
mente e em contribuir privadamente para a manutenção de serviços
cuja integridade necessitava independência de considerações de lu-
cratividade. Agora, esquivando-nos de envolvimento, deixamos o li-
vre mercado determinar a sobrevivência de instituições que surgi-
ram de necessidades públicas e que, portanto, exigem manutenção
pública. Estamos permitindo que o controle coercitivo, orientado
apenas em direção à sobrevivência financeira, substitua a aprecia-
ção e o suporte positivo para o cumprimento de objetivos públicos. O
livre mercado é cruelmente coercitivo. Seus critérios de sobrevivên-
cia e seus frutos — riqueza, prestígio, privilégio e lazer — estão em
conflito fundamental com os objetivos do serviço público.
Não deveria causar surpresa que sobrevivência imediata con-
trolasse a conduta mais poderosamente do que o fazem conseqüên-
cias a longo prazo: "Como podemos proporcionar educação ou cuida-
dos com a saúde de qualidade se nos tornarmos falidos financeira-
mente?" Por outro lado, pode-se perguntar: 'Tem sentido manter-se
financeiramente saudável se o preço é a falência de propósitos?"
Respostas a estas questões não vêm da lógica, mas das leis do
comportamento: as conseqüências financeiras são imediatas e as
conseqüências educacionais atrasadas. Nas estruturas administrati-
vas modernas as pressões coercitivas reprimem quaisquer ações que
ameacem aumentar a qualidade às custas da lucratividade.
11

ÍA[eurose e doença mentaC

Mecanismos de defesa contra a coerção


A esquiva pode tomar formas bizarras ou neuróticas. Sigmund
Freud, reconhecendo a predominância do controle coercitivo, suge-
riu que muitos padrões de comportamento surgem da necessidade
de nos protegermos contra as ansiedades que a coerção provoca. A
maioria de nós se adapta à coerção mais ou menos efetivamente,
lidando com ela por meio de uma ou outra forma de fuga ou esquiva.
Algumas vezes, entretanto, a esquiva pode preocupar tanto uma
pessoa que ela interfere no seu funcionamento cotidiano. O lidar
com a coerção, que toma tempo e atenção incomuns, ou que amigos,
familiares e a sociedade vêem com alarme, não é tão adaptativo.
Mesmo a esquiva bem-sucedida pode levar a custos pessoais e so-
ciais tão severos que uma pessoa é classificada como mentalmente
doente. Por sua dependência do controle coercitivo, a sociedade paga
um preço em termos de sofrimento humano, desajustamento e capa-
cidade reduzida para engajamento construtivo.
Dizer que toda neurose e doença mental é comportamento de
esquiva simplificaria perigosamente estes problemas. Nenhum dos
termos, neurose ou doença mental, significa uma única doença;
180 Murray Sidrnan

nenhuma "bula mágica" jamais curará todas os casos. As origens do


"comportamento doente" e os fatores que o mantém diferem de pes-
soa para pessoa. A química do corpo, a herança e as histórias
comportamentais, todas podem estar envolvidas.
Por outro lado, desconsiderar a possibilidade de que a con-
duta bizarra, neurótica ou, de algum outro modo, desadaptativa,
possa ser um produto de coerção também simplificaria perigosamen-
te o problema; poderia impedir tratamento bem-sucedido e um des-
necessário prolongamento de sofrimento. Quando se tenta salvar
alguém que ultrapassou as fronteiras, freqüentemente é útil buscar
por contingências de esquiva que poderiam estar sustentando o
comportamento desadaptativo. Porque choques evitados com suces-
so raramente ocorrem, eles nem sempre são fáceis de ser encontra-
dos.

Fobias. As várias fobias, supõe-se, representam medos anor-


mais, mas específicos. Se somos tomados de pânico incontrolável
perante o próprio pensamento de estarmos em uma multidão, ou de
nos encontrarmos no alto em relação ao chão, diz-se que temos uma
fobia de multidão ou uma fobia de altura.
Mas nós não "temos" fobias. Medos não são coisas; são no-
mes que sumarizam observações sobre o comportamento. O que nos
faz dizer, por exemplo, que alguém "tem" uma fobia de multidões?
Dois tipos de observações usualmente formam a base para
esse diagnóstico. Primeiro, notamos a ausência de certas ações: a
pessoa com uma fobia de multidões não participa de organizações
sociais, nunca come em restaurantes ou vai a festas, não freqüenta
shows musicais, teatros ou eventos esportivos, não vai a liquidações
em grandes lojas de departamento e nunca usa transporte público.
Segundo, vemos algumas ações ocorrendo mais freqüentemente que
o esperado: a pessoa se vira e corre quando a ponto de encontrar um
grupo na rua, faz longos desvios quando multidões são vistas à
frente, contrata professores particulares em vez de ir à escola, viaja
localmente apenas em táxi ou carros alugados, faz viagens de avião
apenas em horários em que o aeroporto provavelmente está vazio e
cancela a viagem se o avião estiver lotado.
Um tal conjunto de comportamentos — pouca participação
em atividades de grupo, com freqüente fuga e esquiva — deveria nos
fazer suspeitar de uma história de punição. Choques passados —
experiências dolorosas, perturbadoras, embaraçosas ou intensamen-
te desconfortáveis sofridas conjuntamente com grupos sociais —
podem ter tornado multidões uma ocasião para fuga e medo. O
Coerção e suas implicações 181

sofredor, sem conhecimento das experiências particulares que leva-


ram às ações fóbicas, sente apenas o desconforto interno e a pertur-
bação que as multidões evocam. Diz-se que a fobia é causada pela
ansiedade, que é, por sua vez, inferida do tremor incontrolável,
transpiração, palpitações cardíacas, estômago embrulhado e respira-
ção difícil que uma ameaça de envolvimento no grupo traz.
A psiquiatria clássica, afirmando as fobias como defesas con-
tra a ansiedade, tenta descobrir os choques originais responsáveis.
Talvez, como Freud salientou, eles nada tenham a ver com multi-
dões, mas tenham sido, em vez disso, relacionados com atividade
sexual. Esta suposição torna fácil hipotetizar que multidões origi-
nam impulsos sexuais proibidos e estão sendo evitadas por causa
disto. A terapia tradicional concentrar-se-á, então, na descoberta
dos problemas sexuais do paciente.
A análise do comportamento não faz qualquer tentativa de
descobrir que experiências podem ter transformado multidões em
choques. Em vez disso, ela trata os atos de esquiva presentes do
paciente diretamente. Embora a esquiva possa ter começado em
circunstâncias perfeitamente realistas, ela pode persistir por muito
tempo depois de ter se tornado desnecessária; um esquivador bem-
sucedido não tem meios de aprender que o choque original não virá
novamente.
Dado que a fobia é realmente não-realista — aí está porque
na verdade a consideramos anormal — um terapeuta comportamen-
tal ensina o paciente a não reagir a multidões como se elas fossem
choques. Começando a uma distância que não evoca a fuga, o pa-
ciente aprende gradualmente a se aproximar um pouco mais de
pequenos grupos de pessoas, talvez dando um passo por dia nessa
direção. À medida que cada passo não traz choque, ambos, a esqui-
va e os sinais de perturbação interna, se tornam mais fracos. Final-
mente, a pessoa se torna capaz de juntar-se a um grupo pequeno e,
então, progressivamente, a grupos maiores. Agora, as características
positivas da interação social podem começar a tomar o lugar, forta-
lecendo a aproximação enquanto a esquiva diminui. Finalmente, as
reações fóbicas desaparecem.
Esta "dessensibilização sistemática" é hoje tão bem-sucedida
era eliminar fobias que quase pode ser aplicada por fórmulas. O
tratamento destes tipos de "doença mental" é baseado apenas na
reversão do controle coercitivo no ambiente atual do paciente. Tera-
peutas por algum tempo temeram que estivessem tratando apenas
sintomas de uma desordem fóbica subjacente, desordem que então
182 Murray Sidrnan

se manifestaria de outros modos. Tais temores demonstraram-se


infundados.

Formação de reação. Algumas vezes, provocados para agir de


maneiras que produzem ambas, conseqüências positivas e negativas,
somos dilacerados por impulsos conflitantes. Conflitos intensos entre
ações competidoras são altamente prováveis quando temos que su-
primir fortes tendências naturais. Freud enfatizou o período de de-
senvolvimento da sexualidade como a fonte de muitos conflitos; a
implementação inicial (prematura) de proibições culturais contraria o
forte reforçamento positivo que a natureza provê para atividade se-
xual. O que devem fazer as pessoas jovens quando são tentadas a
usufruir de relações sexuais sobre as quais lhe disseram serem sujas
e proibidas? Mais geralmente, as ações hostis ou agressivas de crian-
ças contra seus irmãos, pais e outros adultos são suprimidas com
forte punição e desaprovação por parte dos poderosos mais velhos.
Como um rapaz, que acabou de ser repreendido injustamente por
sua mãe, pode reagir a seu próprio ressentimento e raiva depois de
ter ouvido incontáveis vezes que ele deve somente amar seus pais?
Quando somos fortemente impelidos em direção a uma ação
que inevitavelmente trará um choque, uma maneira efetiva de nos
impedirmos de fazê-lo é fazer o oposto. Isto é "formação de reação".
Podemos ter aprendido quando crianças que exatamente naqueles
momentos em que estamos mais bravos com nossos pais, o único
caminho seguro a seguir é mostrar grande afeição. Ou podemos
contrariar os atrativos proibidos dos prazeres do mundo juntando-
nos a uma ordem religiosa celibatãria. Ou, se nossos pais, incapazes
eles mesmos de demonstrar amor abertamente, puniram nossas ex-
pressões infantis de amor, então, em ocasiões que comumente tra-
riam proximidade e afeição, podemos agir casualmente, parecendo
não-enyolvidos.
' Formação de reação não difere em princípio de qualquer ou-
tra adaptação à coerção. Quando o perigo se aproxima, nós o evita-
mos. Sinais de perigo podem vir do ambiente externo ou de nossas
próprias ações e discursos incipientes. O punho erguido de uma
oütra pessoa pode nos alarmar, assim também o pode nossa própria
inclinação de erguer nosso próprio punho. A forma que a esquiva
toma depende de nossa história, ou de como aprendemos a manter
afastados choques particulares. Seja o punho de uma outra pessoa
ou ò nosso próprio, nossa reação pode ser nos voltar e correr.
Embora a formação de reação possa ser adaptativa, vantajo-
sa para todo mundo, ela também pode limitar nossas opções, impe-
Coerção e suas implicações 183

dindo-nos de nos expor a oportunidades de experiência e crescimen-


to. Aqueles que aprenderam a reagir ao amor com fuga, a responder
à generosidade com desconfiança ou a considerar a sexualidade
suja, estão limitando a qualidade e a amplitude de suas vidas tão
efetivamente quanto se estivessem fisicamente restringidos. As des-
vantagens potenciais de formação de reação são reconhecíveis em
expressões comuns como "medo do sucesso", "renúncia ao prazer",
"inabilidade para receber", "martírio", "pudor vitoriano" ou "negação
da realidade". A freqüência de tais referências em nossa linguagem
sugere uma generalizada familiaridade com os tipos de coerção que
geram formação de reação.

Sublímação. Em vez de nos impedirmos de fazer algo fazendo


o oposto, podemos canalizar a mesma ação ou uma semelhante em
uma direção aprovada. As crianças aprendem por meio da desapro-
vação e outros tipos de punição a brincar com lama, em vez de
fezes; em vez de matar animais selvagens, podemos evitar a conde-
nação e obLer admiração acertando-os com cãmeras; proibidos pelo
costume social e pela lei de bater uns nos outros, assistimos a
futebol americano, luta-livre ou box, bridge, xadrez e damas, que
também são formas socialmente aprovadas de agressão competitiva.
Tais "sublimações" são um modo perfeitamente adaptativo de evitar
a censura.
Um tipo de sublimação não-vista em qualquer laboratório é o
suposto recanalizar de impulsos sexuais proibidos para a criativida-
de artística, científica e de outros tipos. Sob a ameaça de punição
por sexualidade não-restringida, diz-se que as pessoas sublimam
voltando-se para as artes e para as ciências — meios de expressão
socialmente aprovados para suas energias criativas. Tenha ou não
validade, esta noção persiste na teoria psiquiátrica e recorre como
um tema em poesia e literatura. Seu poder de permanência demons-
tra, ainda de um outro modo, a generalizada aceitação de como a
coerção permeia nossas vidas. Se classificados como sublimação,
mesmo os mais altos trabalhos artísticos e intelectuais devem ser
vistos como formas de esquiva, como adaptações à coerção.
Esta visão é a fonte da crença de que agonia e dor devem
nutrir a criatividade artística, que artistas têm que sofrer antes que
possam atingir a grandiosidade. Pode haver alguma verdade nisto,
mas ela não precisa ter nada a ver com sublimação. A grande arte se
remete a experiências universais e o sofrimento, significativo porque
: envolve dor e privação ou perda, é do conhecimento de todos.
184 Murray Sidrnan

Projeção. A realidade nem sempre está em harmonia com os


valores que a sociedade tenta inculcar. Algumas condutas que a
comunidade ameaça punir, portanto estabelecendo-as como ruins,
no entretanto trazem sucesso. Competição social e comercial sub-
reptícias, fraude e mentira em relações políticas, pessoais e de negó-
cios, agressão sexual, promessas não-mantidas e contratos quebra-
dos, burla da lei e desconsideração pelo bem-estar dos outros são
vistos com maus olhos, como ameaças ao fino verniz de civilização
que nos impede de pular na garganta um do outro. Ainda assim, tais
transgressões contra padrões éticos freqüentemente valem a pena.
Segue-se daí que algumas vezes nos encontramos fazendo coisas
que aprendemos a temer nos outros e a desaprovar em nós mesmos.
Uma maneira de esquivar do conseqüente autodesprezo é nos cegar-
mos à nossa própria conduta atribuindo-a a alguém mais, "projetan-
do-a" nos outros.
E assim vemos colegas de trabalho subindo ao topo sobre as
costas ensangüentadas e as carreiras destruídas de seus compa-
nheiros, no entanto acusando todo mundo de traição: 'Todos vocês
estão atrás do meu emprego." Estudantes estão familiarizados com o
macho sexualmente agressivo cujos avanços são públicos e promís-
cuos, mas que reclama: "Eu não consigo estudar; as garotas não me
deixam em paz." Já se disse que mentirosos são punidos não tanto
porque os outros não acreditam neles, mas porque eles não podem
acreditar nos outros.
Embora a projeção não tenha sido mostrada em laboratório,
observações clínicas e cotidianas confirmam sua realidade. Suas
origens não precisam ser coercitivas. Certamente, a freqüentemente
observada projeção das qualidades humanas em plantas, objetos
inanimados e animais não-humanos não são necessariamente enrai-
zadas em coerção. Ainda assim, quando o ávido leitor de pornografia
se torna um estridente defensor da censura, é difícil imaginar o que,
exceto esquiva de auto-ridículo e da desaprovação da comunidade,
poderia ter gerado tais ações contraditórias. De que outro modo, a
não ser como esquiva de auto-reconhecimento, podemos entender a
ação de um professor não-produtivo de negar a um colega promoção
ou estabilidade com base em suas publicações insuficientes? Quan-
do o líder de uma nação poderosa ameaça de retaliação contra a
postura agressiva de um pequeno vizinho, a comunidade internacio-
nal imediatamente reconhece a desajeitada tentativa do agressor de
mascarar suas intenções hostis até mesmo de si mesmo atribuindo-
às à vítima potencial. Não reconhecendo projeção como a esquiva de
autoconsciência, perpetuamos sérios problemas de interação social;
reconhecendo-a pelo que ela é, tornamos possíveis soluções.
Coerção e suas implicações 185

Deslocamento. Em vez de evitar autocondenação ou condena-


ção social, substituindo ações proibidas por ações aceitáveis, ou
atribuindo nossas próprias tendências culpáveis a outros, podemos
simplesmente dirigir a conduta desaprovada a alguém que não é
provável de nos punir. Refreando-nos de descortesia, de usar a mão
pesada da autoridade, da crítica ou da violência em relação a pes-
soas que estão em posição de devolver a agressão com agressão,
"deslocamos" a ação objetável. Nós a recanalizamos em direção a
alguém que não está desejoso ou não pode retaliar.
O pequeno Z, uma criança de dois anos, descobre que tenta-
tivas de tirar de cena sua pequena irmã não serão toleradas. Agora,
a cada oportunidade que tem, ele atinge o cachorro da família, que
rapidamente aprende a sair do caminho de seu antigo companheiro
de brinquedo.
O senhor X teve um mau dia no escritório, perdendo uma
grande venda, discutindo com seus colegas, derrubando café em
papéis importantes, esquecendo um compromisso e vendo um pro-
blema no computador apagar sua folha de dados. O dia de trabalho
termina exatamente quando ele está a ponto de explodir. Quando ele
está saindo, o patrão o chama e o admoesta por algo que não é sua
falta. Ele discute com o patrão por sua injustiça? Ele conta suas
frustrações do dia? Ele bate no patrão ou ameaça de retaliar contra
toda a injustiça? Naturalmente não; ele rapidamente estaria sem
emprego. Assim, ainda fervendo, o senhor X chega em casa e espan-
ca sua mulher e seus filhos.
O professor Y sempre se descobre de algum modo na defensi-
va quando ele critica ou contradiz sua mulher. O bom professor, que
não mais se engaja em argumentos domésticos, é conhecido por
toda a universidade por sua crueldade em relação às estudantes do
sexo feminino.
Porque os choques iniciadores estão escondidos da visão,
pode demonstrar-se difícil identificar uma atividade particular de
deslocamento, como uma forma de esquiva. Agora que o pequeno Z
sempre trata sua irmãzinha com afeto, podemos não reconhecer a
fonte de sua relação mudada com o cachorro. O senhor X, culpado
pela forma como trata sua família, não reconhece que estresses no
trabalho estão sendo despejados em sua vida familiar; o professor Y,
, cuja vida familiar é harmoniosa, se surpreenderia se lhe fosse dito
que ele está pagando o preço por esta harmonia com suas alunas.
Deslocamento pode ser difícil de tratar porque suas raízes não são
óbvias.
186 Murray Sidrnan

Como sugerem estes exemplos facilmente reconhecidos, des-


locamento é, provavelmente, uma adaptação à coerção mais comum
do que alguns de nós admitimos. Ela não necessariamente apresen-
ta dificuldades sérias. Provavelmente é importante descobrir manei-
ras de reagir à frustração e à punição que não nos conduzam a
problemas mais sérios. Entretanto, quando o deslocamento se torna
mal-adaptado, injusto e desgastante requer tratamento.

Regressão. Um adulto algumas vezes agirá como uma crian-


ça, ou uma criança como um bebê. Tal conduta "regressiva" fre-
qüentemente permite evitar punição, privação ou dificuldade. Uma
criança de quatro anos descobre que defecando em suas calças pode
desviar a atenção da mãe dirigida a seu novo irmão; tornando-se
dependente e choramingando, um adolescente evita as tarefas e
responsabilidades que a emergente idade adulta comumente reque-
reria; um aluno de universidade foge da competição por notas, reco-
nhecimento, amizade e afeição deixando a escola e voltando ao calo-
roso e protetor círculo familiar; um homem de meia-idade, sem lar,
que se mantém sujo, veste roupas velhas, fala e faz gestos para si
mesmo em público e tem birras é levado para uma instituição men-
tal onde ele permanece seguro das grandes privações.
Podemos demonstrar facilmente a regressão, primeiro ensi-
nando um sujeito experimental várias maneiras de obter alimento.
Então, punimos ou simplesmente paramos de reforçar o ato que o
sujeito aprendeu mais recentemente. O sujeito rapidamente retorna-
rá a um de seus modos mais antigos de obter alimento. Podemos
ensinar um jovem rato de laboratório a obter alimento correndo em
círculos; depois que ele atinge a idade adulta, nós o ensinamos a
pressionar uma barra — uma ocupação mais madura. Então, se nós
tornarmos a barra improdutiva, o animal retornará ã sua atividade
juvenil de correr em círculos. Se um pombo não pode mais obter
alimento bicando um botão vermelho, ele retomará à sua atividade
anteriormente bem-sucedida de bicar um botão verde.
O processo é bastante normal e razoável, tornando-se "pato-
lógico" somente quando o ajustamento entra em conflito com nor-
mas sociais e expectativas estabelecidas. O problema real não é a
natureza regressiva do comportamento, mas a coerção que a origina.
„ Entender isso é tomar possível tratamento efetivo. Em vez de buscar
fantasias infantis, complexos sexuais ou anormalidades desenvolvi-
mentais, o terapeuta precisa apenas ensinar ao paciente maneiras
•mais efetivas de adaptar-se.
Coerção e suas implicações 187

Obsessões e compulsões. Atos podem se tornar tão freqüen-


tes e autoconsumidores a ponto de serem chamados de "obsessivos"
ou "compulsivos". Obsessivamente repetindo algo seguro, podemos
nos impedir de fazer algo perigoso. Quando se vê uma pessoa exces-
sivamente preocupada, dever-se-ia imediatamente suspeitar de que
esquiva está ocorrendo. O perigo pode ser real ou imaginado, talvez
fóbico, mas coerção social ou outra coerção ambiental é responsável
por muitas obsessões e compulsões. Rigidez repetitiva é tão freqüen-
temente uma forma de esquiva que uma busca por sua base coerci-
tiva freqüentemente fornecerá um bom ponto de partida para se
fazer alguma coisa a respeito.
A senhora Q tem uma debilitante compulsão de lavar as
mãos. Assim que ela toca qualquer coisa, ela precisa imediatamente
dar às suas mãos uma esfregada completa com água quente e sa-
bão. Ela não pode manipular um utensílio de cozinha, um alimento,
um aspirador de pó, uma peça de roupa, um livro, um lápis ou um
telefone sem, então, passar por seu ritual de se lavar; quando quer
que ela toque seu marido ou seus filhos ela precisa imediatamente
se lavar. Com todo este lavar de mãos, ela não consegue terminar
nada que comece. A senhora Q tornou-se física e emocionalmente
não-funcional. Ela e sua família precisam de ajuda.
Podemos ter uma chance melhor de dar ajuda se, em vez de
olhar para sua história, olharmos para as conseqüências imediatas
de seus atos compulsivos. Ironicamente, as conseqüências que tor-
nam o lavar as mãos perturbador — a inabilidade da senhora Q de
interagir com sua família — são o próprio resultado que mantêm
ocorrendo o comportamento problemático. O compulsivo lavar as
mãos da senhora Q permite a ela esquivar-se das tarefas e dos
contatos afetivos que são parte do envolvimento familiar.
Pode ser interessante perguntar por suas experiências de
infância para descobrir porque ela voltou-se para o lavar as mãos
compulsivo, como sua maneira de desengajar-se da família. Mas
esta investigação não resolveria o problema imediato. As condições
que mantêm o comportamento, não a sua forma, são críticas. Para
ajudar a senhora Q e sua família, temos que saber o que torna a sua
esquiva de interações com a família reforçadora. Que punições infli-
gidas à senhora Q pela família tornaram importante para ela tornar-
se não-funcional? Que tipos de coerção tornaram a família da se-
nhora Q choques?
Quando tivermos descoberto, talvez, que o senhor Q é infiel,
que ele é sexualmente violento, que ele reclama incessantemente
sobre sua comida, cuidado da casa e aparência, que ele a humilha
188 Murray Sidrrvan

publicamente e que as crianças seguem sua linha, teremos desco-


berto o que precisa ser feito.
Se o marido realmente quiser a compulsão de sua mulher
curada, ele terá que aceitar terapia para si mesmo; ele terá que
aprender como controlar sua própria conduta. Apenas parando de
distribuir choques ele pode impedir sua mulher de reagir a ele como
a um choque. A compulsão de sua mulher está sendo mantida por
seu sucesso em protegê-la de suas práticas coercitivas. Se o senhor
Q recusa-se a aceitar sua responsabilidade por sua condição, então
a senhora Q pode ter que ser ajudada a fugir de fato.
Compulsividade é um tipo de técnica de autocontrole, aju-
dando-nos a não afundar, mantendo-nos no caminho reto e estreito.
Com moderação, pode ser bastante adaptativa, não necessitando de
tratamento especial. Também, os elementos de um ato compulsivo,
quando não-repetitivos, podem ser perfeitamente razoáveis. Mas,
quando uma compulsão torna-se debilitadora, a terapia efetiva re-
quer a identificação dos choques particulares que estão sendo esqui-
vados. A esquiva bem-sucedida, por sua própria natureza, mantém
os choques afastados, tornando-os difíceis de identificar. Aí está
porque ações que realmente são esquiva podem parecer misteriosas
ou inexplicáveis. Entretanto, a experiência pode dar ao terapeuta
pistas sobre o que procurar.
Observemos o senhor S quando ele começa a sair de seu
apartamento para uma entrevista de trabalho. Assim que ele abre a
porta para sair, ele se pergunta se fechou a torneira da pia do
banheiro, assim ele volta para checar. Então, assegurado em relação
à água e uma vez mais a caminho, ele se lembra, assim que a porta
se fecha atrás dele, que a previsão do tempo previu chuva; ele teria
deixado a janela do quarto aberta? Ele pega suas chaves, destranca
a porta e vai checar a janela. Ele a tinha fechado. Em seguida, já na
metade da escada, o senhor S não consegue se lembrar se ele havia
desligado o fogão, depois de ferver água para o chá; ele sobe de volta
para descobrir. Novamente, tudo está bem. Desta vez, ele chega ao
final da escada antes de parar: "Será que eu ouvi vozes enquanto
checava o fogão? É melhor voltar e me assegurar de que desliguei a
TV." Lá vai ele de volta, pega suas chaves e novamente entra no
apartamento. Ele encontra a TV silenciosa e desligada. Finalmente,
tudo parece em ordem. Agora, a porta da rua se fecha atrás do
senhor S antes que ele se lembre de que a privada, necessitando de
um ajustamento na válvula, tem continuado a correr água depois de
ser dada a descarga. Encontrar as chaves da porta de baixo, subir
as escadas de novo, destrancar a porta do apartamento e checar o
Coerção e suas implicações 189

banheiro. A privada está OK. Entretanto, no meio da escada ele


estala seus dedos: "Eu acabei de deixar acesa a luz do banheiro." De
volta, chave na mão, para checar a luz. Está desligada. Finalmente,
de novo um lance de escadas abaixo, com tudo aparentemente em
ordem, ele pensa ter ouvido o telefone tocar: "Eles devem estar
cancelando a entrevista." Mas quando ele consegue entrar no apar-
tamento, o telefone está silencioso. "Bem", ele decide, "talvez eles
liguem de novo. De qualquer modo, agora é muito tarde, assim não
há por que ir." Ele tira seu casaco, liga as luzes, abre as janelas, vai
ao banheiro, começa a ferver água na chaleira, liga a TV e relaxa.
Se olharmos de perto para o senhor S, veremos este tipo de
coisa ocorrendo repetidamente. Ele raramente consegue sair do pré-
dio. Esta observação define o problema e a solução. A compulsivida-
de do senhor S, perturbadora porque ela o impede de sair para o
mundo, está sendo mantida por esta mesma razão; ela lhe permite
esquivar de contato com o mundo externo. Mais uma vez, a coerção
tomou conta; um ambiente ameaçador tornou o senhor S um autô-
mato.
Que choques esperam pelo senhor S lá fora? Acidentes? Rou-
bos? Assaltos? Fracasso no emprego? Rejeição? Pode não importar.
Saber exatamente o que tornou o seu ambiente em um grande cho-
que pode se provar irrelevante. Talvez, como com outras fobias, um
programa de dessensibilização sistemática seja suficiente para livrá-
lo da esquiva. Se uma ameaça real existe lá fora, entretanto, um
terapeuta deve ter que descobrir o que é antes de ser possível ensi-
nar ao senhor S meios mais adaptativos de manejá-la.

Desordens de conversão. Hipocondria, freqüentemente


aprendida cedo na vida, desde há muito tempo tem sido reconhecida
como uma maneira de se evadir de punição ou de simplesmente se
proteger da desagradabilidade. Doença é presumivelmente incontro-
lável, assim a comunidade aceita-a como uma desculpa legítima
para tratamento especial. Quem, quando criança, não fingiu uma
doença para não ir à escola ou, mais tarde, para pospor um exame,
Um encontro estressante ou uma obrigação difícil? Desenvolver pro-
blemas corporais reais é uma adaptação similar, mas mais incapaci-
tadora, a pressões coercitivas.
Tornar-se cego, mudo ou incapaz de andar pode aliviar al-
guém de todos os tipos de obrigações e responsabilidades. Dor per-
sistente nos ombros ou paralisia nos dedos são maneiras respeitá-
veis, para filhos talentosos de pais ambiciosos, de esquiva da vida
restrita e competitiva de um violinista concertista; "cãibras de escri-
190 Murray Sidrrvan

tor" dão a um autor sem sucesso uma alternativa aceitável para um


beco sem saída na carreira sem ter que admitir o fracasso; convul-
sões de tipo epiléptico têm sido vistas diminuir quando elas deixam
de provocar a solicitude usual da família. Em todos estes casos, um
ajustamento comportamental ao estresse parece ter sido "conver-
tido" em um ajustamento físico. O termo "histeria" é freqüentemente
aplicado.
Uma desordem de conversão não precisa implicar um fingi-
mento consciente. O controle externo sobre a conduta pode ser tão
invisível para o sofredor como o controle dentro do corpo e igual-
mente poderoso. Uma paralisia pode ser histérica, mas a vítima é
tão incapaz de erguer-se e andar como se a causa fosse esclerose
múltipla ou derrame.
Com a falta de uso, o membro pode se deteriorar, "confir-
mando", assim, a base física da doença. Sintomas histéricos sempre
produzem seus próprios desconfortos, desvantagens e mesmo puni-
ções. A continuação de uma desordem de conversão requer que a
coerção sendo evitada permaneça mais problemática do que as pe-
nalidades que a própria desordem impõe. Se a doença realmente se
torna mais aversiva do que a coerção que a iniciou, o paciente pode
estar em uma armadilha. Como livrar-se da doença física sem arris-
car a acusação de fingimento deliberado? A fé no curandeiro provê
um caminho seguro. Quando quer que o "toque da cura" faça com
que paralíticos de longa data saiam de suas cadeiras de rodas, cegos
voltem a ver, ou mudos voltem a falar, é razoável buscar por indica-
ções de que a desordem de conversão havia se tornado mais estres-
sante que suas condições originadoras. Em casos de curas milagro-
sas, sempre deve se suspeitar de desordens de conversão.

Amnésia, fuga e personalidade múltipla. Em vez de reagir a


pressões coercitivas intensas comprometendo alguma função física,
podemos tornar inativa uma função comportamental. Por exemplo,
podemos perder nossa memória. Embora não classificada comumen-
te como Uma desordem de conversão, a perda da memória freqüen-
temente tem as mesmas origens no estresse ambiental que a perda
histérica de uma função corporal. Em vez de esquivar da coerção,
tornando-nos fisicamente incapaz, podemos nos tornar comporta -
mentalmente incapazes.
Todo mundo tende a esquecer seletivamente. É particular-
mente pròvável que lembremos incorretamente de experiências desa-
gradáveis, sendo totalmente incapazes de lembrá-las ou transfor-
mãndo-as e reinterpretando-as. O componente de esquiva do esque-
Coerção e suas implicações 191

cimento seletivo é evidente. Entretanto, algumas vezes experiencia-


mos um conjunto de infortúnios, humilhações ou perdas tão visiveis
para todo mundo que esquecê-los seletivamente não seria obviamen-
te razoável. Podemos então sofrer uma perda geral de memória,
tornando-nos incapazes de lembrar nosso nome, endereço, família e
amigos, história educacional e profissional ou trabalho atual. Uma
tal perda de identidade, tornada legítima pelo diagnóstico médico,
"amnésia", efetivamente tira de cena especificidades insuportáveis
do passado.
Mesmo na amnésia total, muito comportamento permanece.
O indivíduo com amnésia ainda pode conversar, ler, escrever, racio-
cinar, fazer aritmética e nomear as cores, formas e funções dos
objetos; a linguagem usualmente se mantém intocada. Assim tam-
bém o andar, vestir-se, comer, exibir maneiras e costumes usuais e
dirigir um carro. Amnésia não precisa representar fingimento, embo-
ra a distinção possa ser difícil, uma vez que as causas iniciadoras da
amnésia histérica e da amnésia falsa podem ser as mesmas. Entre-
tanto, a seletividade do esquecimento aponta para a utilidade de
considerar, mesmo a amnésia "geral", como um imenso ato de esqui-
va. O terapeuta deve primeiro se assegurar que a perda de memória
não veio de uma recente pancada na cabeça ou de uma doença do
sistema nervoso. Então, torna-se importante tentar descobrir que
choques intensos ou que pressões coercitivas persistentes a amnésia
permite que o sofredor evite.
Uma perda defensiva de memória pode ser mais fácil de
sustentar realmente fugindo do ambiente normal, assumindo uma
nova identidade em um lugar novo. Uma pessoa em tal "estado de
fuga" pode permanecer fora por apenas um breve período, ou pode
desaparecer por tempo suficiente para encontrar um novo emprego e
estabelecer novas relações pessoais, talvez até mesmo casar-se de
novo e começar uma outra família. Se a nova vida finalmente desen-
volve seus próprios estresses insuportáveis, a solução pode ser um
retorno à vida anterior, sem nenhuma memória do que ocorreu
durante a fuga.
O marido ou a esposa por muito tempo ausentes são fre-
qüentemente recebidos de volta na antiga família com os braços
abertos. Mas mesmo quando o retorno é fortemente reforçado, os
estresses que originalmente levaram ã fuga provavelmente voltarão à
tona e, também, a fuga amnésica. A tolerância inicial, altamente
reforçadora, seguida pela retomada do controle coercitivo, pode res-
tabelecer um ciclo recorrente. Temos então o caso, que não é inco-
mum, do membro da família que freqüentemente desaparece e que
192 Murray Sidrrvan

inevitavelmente retorna depois de recuperar sua memória. A respei-


tabilidade psiquiátrica da "amnésia" e da "fuga" torna possível para
a família tolerar este tipo de ajustamento, ainda que "ele esteja
tomando seu pão e o comendo também". Porque os componentes de
fuga e esquiva do ciclo são tão fáceis de detectar, famílias que são
mais informadas sobre a biologia e o comportamento humanos me-
nos provavelmente toleram estados de fuga recorrentes. (O pai que
recebeu de volta o Filho Pródigo talvez tenha sido cuidadoso para
não reintroduzir controle coercitivo e o Filho Pródigo, naturalmente,
não afirmou estar sofrendo de amnésia.)
Na amnésia simples usualmente dividimos nossa vida em
duas zonas de tempo; um período no passado distante não mais
existe para nós. (Uma pessoa cuja amnésia é produto de um dano
cerebral pode se lembrar do passado distante, mas ser incapaz de
lembrar qualquer coisa que aconteceu depois do dano.) Em um
estado de fuga, dividimos nossas vidas, menos em períodos de tem-
po e mais em zonas geográficas, com cada ambiente controlando um
repertório comportamental diferente e impedindo os estresses do
outro ambiente. Naturalmente, por si mesmo, o controle ambiental
não é anormal. Um professor age diferentemente na sala de aula e
em reuniões de departamento, ou em casa, ou em uma festa, mas
diferentemente dos ambientes controladores durante um estado de
fuga, estes não são isolados uns dos outros; o professor pode se
lembrar do que aconteceu em cada um deles.
Em uma terceiro ajustamento amnésico, permanecemos
mais ou menos no mesmo ambiente e na mesma referência de tem-
po, mas dividimos nossa vida em zonas de conduta independentes.
A senhorita X, uma pessoa que maneja de modo maduro e capaz
sua própria vida e a de sua família, algumas vezes — sem qualquer
mudança de localização — torna-se repentinamente infantil. Ela é
agora a senhorita Y, frágil, exigente e dependente física e emocional-
mente de sua família e de seus amigos. Então, freqüentemente, sem
nada que obviamente o provoque, ela se torna a senhorita Z, uma
reclusa que não mais reconhece família e amigos. À medida que os
estresses associados com um padrão de comportamento se tornam
insuportáveis, ela muda para outro, sem seguir qualquer seqüência
particular de tempo. Enquanto engajada em cada padrão particular,
ela seletivamente esquece os outros. Os três modos de conduta são
independentes; as senhoritas X, Y e Z não sabem da existência
ümas das outras. Estes ajustamentos, que acontecem sem qualquer
relação óbvia com tempo ou lugar, são freqüentemente chamados
"personalidade múltipla".
Coerção e suas implicações 193

Como o estado de fuga, a personalidade múltipla é mais


provável de ser aceita sem alarme, e até mesmo reforçada com aten-
ção especial, se os entes queridos são relativamente desinformados
sobre as causas do comportamento. Uma superstição comum sus-
tenta que personalidades são manifestações externas de seres inte-
riores, em vez de resultados de processos biológicos e comportamen-
tais. Esta crença tornou possível para algumas comunidades conti-
nuar vendo a personalidade múltipla como, talvez, um ajustamento
incomum, mas, no entanto, aceitável. Elas certamente não conside-
ram que ela requeira tratamento médico ou comportamental. Uma
publicidade generalizada na mídia e reembolso financeiro por edito-
res exploradores também têm ajudado a perpetuar esse ajustamen-
to.

0 que é "anormal"?
Já deveria ser evidente que a crise comportamental é um
resultado direto de processos de controle normais; conduta anormal,
também, é regida por leis. Assim como a pesquisa sobre reações
corporais normais a ataques virais levou à possibilidade de prevenir
a influenza, a pesquisa sobre ajustamentos comportamentais nor-
mais ao controle coercitivo tem levado à possibilidade de melhorar
algumas formas de doença mental.
Claramente, muitos fatores podem contribuir para a doença
mental e qualquer caso particular requer a consideração de todas as
possibilidades: sociais e individuais, internas e externas. Mas no
final, vemos doença mental na conduta. Compreender e fazer algo
sobre a anormalidade requer análise comportamental. Quando efe-
tuamos essa análise, freqüentemente descobrimos que as leis do
controle coercitivo, atuando por meio de contingências de punição,
fuga e esquiva, fornecem bases efetivas para tratamento.
Embora uma compreensão do caráter ordenado do comporta-
mento possa trazer a prevenção e a cura de muitas doenças men-
tais, muitos psiquiatras e psicólogos agem como se tal compreensão
não fosse possível. Para definir anormalidade eles não especificam
processos comportamentais mas, em vez disso, usam grosseiros cri-
térios estatísticos. Eles vêem com suspeita e tentam curar qualquer
áção que se desvie do usual.
Para onde nos teria trazido a medicina científica se tivesse
considerado a influenza anormal apenas porque era relativamente
rara? A lógica teria nos dito, então, que o problema da influenza
poderia ter sido resolvido do modo mais duro — livrando-se dela —
194 Murray Sidrrvan

ou do modo mais fácil — passando-a para todo mundo e, assim,


tornando-a "normal". A doença mental, também, definida estatistica-
mente, poderia logicamente ser eliminada como um problema tor-
nando todo mundo mentalmente doente.
A definição estatística de anormalidade levanta mais do que
um problema simplesmente lógico. Vivemos em uma sociedade com-
plexa e o que uma comunidade admira ou tolera, uma outra conde-
na ou proíbe. Conduta que seria ricamente recompensada em Los
Angeles, envia os cidadãos de Boston para terapia. Sob a capa do
cuidado acadêmico, encontros universitários encorajam detalhismo
e sofisticação que não seriam tolerados em qualquer reunião de
negócios entre executivos; universidades e empresas atraem pessoas
que não poderiam aceitar ou sobreviver aos costumes uns dos ou-
tros. Quem deve dizer que ambiente, que grupo, é anormal — se
algum o é? Na prisão a sociedade releva e até mesmo encoraja a
mesma violência — pelos que a guardam e a habitam, igualmente —
que condena em todos os outros lugares; ações que são anormais
fora da prisão são normais dentro dela.
Porque não conseguimos nos conformar aos costumes de um
segmento particular da sociedade, isto torna nosso comportamento
doente? Precisamos de tratamento? Seguir estritamente este critério
eliminaria toda criatividade; por definição, criatividade é a produção
do não-usual. Infelizmente, a rotulação da criatividade como anor-
mal realmente ocorre mais freqüentemente na arte, literatura e ciên-
cias do que é comumente assumido. Isto também rotularia todo
desempenho superior como anormal. Mais uma vez, infelizmente, os
mais competentes são freqüentemente rotulados como anormais:
atletas excepcionais freqüentemente são vistos como estranhos, per-
formers para nosso divertimento; os mais capazes dentre os alunos
de segundo grau são colocados no ostracismo e até mesmo persegui-
dos por seus colegas menos intelectualizados; o gênio científico é
estereotipado como superespecializado, limitado na sua adaptabili-
dade geral — um tipo de sábio desligado e idiota.
Tentativas de quebrar o raciocínio circular não-produtivo.
que rotula qualquer coisa não-usual como anormal, têm levado a
outras definições de anormalidade. Algumas organizações profissio-
nais listam critérios absolutos para o que é normal. Usando seus
critérios, elas estabelecem padrões de saúde mental. Estes padrões
absolütos de normalidade, embora baseados nos vocabulários da
medicina e da psicologia, não são, freqüentemente, menos arbitrá-
rios que os critérios estatísticos. Eles quase sempre requerem con-
formidade a crenças que são pouco mais que preconceitos pessoais
Coerção e suas implicações 195

sobre o que é e o que não é saudável. Embora banhados em respei-


tabilidade profissional, eles raramente têm validade científica ou
clínica.
Muitos psiquiatras estão descobrindo que suas teorias sobre
relações "normais" entre sexos, estão sendo desafiadas por mulheres
que se recusam a desempenhar papéis tradicionais. E assim, eles
rotulam o feminismo moderno como não-saudável, necessitando de
tratamento, precisando ser curado. A própria coerção que a socieda-
de coloca sobre as mulheres que seguem caminhos diferentes da-
queles que foram mapeados para elas é citada como prova da anor-
malidade feminista: "Elas estão apenas procurando problemas." Os
padrões absolutos de normalidade feminina são baseados em tradi-
ção cultural, não em análise científica.
Uma situação semelhante existe com relação à preferência
sexual. Muitos psicólogos, refletindo a hostilidade pública em rela-
ção à homossexualidade, a pronunciam como desviante e oferecem
curas. Tentativas de impor critérios absolutos de normalidade se-
xual não consideram que muitos homossexuais se sentem perfeita-
mente bem consigo mesmos e que muitos outros iriam se sentir bem
se não fosse pelas pressões coercitivas que são exercidas sobre eles.
Dizer que as fontes de todo comportamento, normal ou anor-
mal, são elas mesmas normais, não é negar a existência da anorma-
lidade. Algumas condutas chamadas de anormais, ou doentes, po-
dem ser valiosas para a comunidade, ou podem simplesmente ser
diferentes. Nesses casos, o rótulo "doença" mais provavelmente cau-
sará sofrimento, do que curará sofrimento. No entanto, muitas for-
mas incomuns de comportamento nos incomodam não apenas por-
que são diferentes, mas porque realmente causam sofrimento. Ainda
que elas sejam freqüentemente difíceis de classificar, não podemos
negar a realidade da depressão, das fobias e de outros "mecanismos
de defesa" e de vários tipos de esquizofrenia; todas elas precisam ser
tratadas tão efetivamente quanto saibamos.
E, algumas vezes, a segurança da comunidade está em jogo.
Assassinos de massa, espancadores de mulheres, molestadores de
crianças, criminosos sexuais e outros casos de violência patológica
são seguramente anormais com bases outras do que sua relativa
raridade. Também precisamos tratá-los, mesmo que eles não dese-
jem aceitar tratamento. Se não sabemos como chegar às fontes de
suas anormalidades, apenas podemos admitir nossa ignorância e
colocá-los onde eles não possam nos machucar.
Mas se uma anormalidade é desejável ou não, e se deveria
ser tratada, sempre envolve julgamentos de valor. E o mais efetivo
196 Murray Sidrrvan

dos tratamentos sempre surgirá de uma compreensão do estado


normal. Na medicina, a definição de uma doença requer a identifica-
ção de processos internos que estão produzindo os sintomas exter-
nos. Na análise do comportamento, a definição de doença requer a
identificação de processos que estão produzindo e mantendo quais-
quer ações que consideremos como nos incomodando. Identificando
as contingências normais que sustentam o que decidimos ser um
comportamento-problema, abrimos a possibilidade de ir além de
nossos julgamentos de valor.
12

Coerção e a consciência

Usualmente nos movemos suave e facilmente de uma ação


para outra, sem muita atenção ao que estamos fazendo ou se deve-
ríamos fazê-lo. Mas algumas vezes nos sentimos divididos pela inde-
cisão, empurrados de um lado para o outro, de uma ação para
outra: "Devo oü não devo?" Podemos não estar certos sobre como
fazer algo corretamente ou sobre o que acontecerá depois. Mas,
freqüentemente, sabemos exatamente como fazer as coisas que nos
sentimos impelidos a fazer e qual será o resultado de cada opção;
nós vacilamos porque os resultados conflitam.
Podemos encontrar oportunidades de fazer nossa fortuna to-
mando certo caminho, aceitando subornos e deixando outros "se
safarem com assassinato", ou "enganando viúvas e órfãos", ou in-
ventando dados que receberão bolsas de pesquisa e prêmios. Ao
mesmo tempo, corremos o risco de sermos descobertos, de condena-
ção pública, multas e prisão. Ou podemos nos manter no caminho
seguro e estreito, continuando a ter uma existência financeira mar-
ginal, não magoando ninguém mais e mantendo-nos livres do risco
de punição. Conflitos semelhantes surgem quando a lata de biscoi-
tos tenta uma criança, quando um estudante em prova pode ver a
folha do colega, quando um candidato a emprego pode assumir uma
198 Murray Sidrrvan

história educacional não-existente ou quando alguém em regime se


defronta com um cardápio cheio de comidas proibidas.
O conflito entre certo e errado freqüentemente nos atinge
tão fortemente que parece que sentimos o puxar e esticar de forças
interiores. Destas forças, a consciência supostamente nos man-
tém do lado dos anjos. Uma vez que tenhamos uma consciência
bem-desenvolvída, podemos não mais sentir as tentações, mesmo
sem conflito, nos comportamos legalmente, eticamente, decentemen-
te, responsavelmente, empenhadamente e com integridade. Apenas
algum escorregão ocasional desperta as antigas dores de consciên-
cia. Mas lèva tempo até atingirmos aquele estado exaltado no qual
automaticamente rejeitamos toda tentação.
Naturalmente, não sentimos uma coisa chamada consciên-
cia. Sentimos tendências para agir, ações incipientes e tentações,
comportamento preparatório verbal e de outro tipo que precedem
ações abertas. Uma coisa chamada consciência não dirige ou supri-
me nossa atividade; consciência é um nome conveniente, uma ma-
neira resumida de nos referirmos à nossa tendência de fazer a coisa
certa quando contingências conflitantes nos empurram para dire-
ções opostas, particularmente, quando pelo menos uma dessas con-
tingências levariam à punição.
Muitos consideram a consciência, a habilidade para distin-
guir o certo do errado e de rejeitar o errado em favor do certo, como
sendo uma qualidade particularmente humana. Mas ninguém que
tenha observado crianças crescendo pode acreditar que elas te-
nham nascido com uma consciência. Crianças pequenas são basi-
camente egoístas. Durante seus primeiros anos, crianças — pelo
menos aquelas em sociedades economicamente abastadas — man-
têm-se os supremos egoístas, certas de que o mundo gira a seu
redor e existe apenas para satisfazer todas as suas necessidades, os
seus desejos e as suas vontades. Elas não vêm equipadas com
preocupação pelo bem-estar e pelos direitos dos outros. Suas pró-
prias prioridades dominam. Como se desenvolvem as noções de
certo e errado? Como essas noções se traduzem no que chamamos
de consciência, um termo que representa a transformação de uma
criança de um organismo autocentrado em um ser humano ético e
respeitador da lei?

Origens da consciência
As raízes da consciência estão no controle coercitivo. Punição
real .ou ameaçada nos ensina o significado de "ruim". Tendo sido
Coerção e suas implicações 199

punidos nos refreamos de ações más (punidas). Então., atribuímos à


consciência os atos de esquiva que a punição gerou, \
No pensamento freudiano, consciência é simplesmente um
outro nome para o superego, que se supõe surgir dos conflitos que
acontecem dentro de nós à medida que a sociedade impõe sua mora-
lidade sobre nós. Inventamos mecanismos internos como consciên-
cia e superego para ajudar a explicar porque inibimos impulsos
anti-sociais, egoístas, imorais ou antiéticos.
Tendemos a esquecer as fontes primárias de coerção das
quais derivamos a noção de consciência. O conceito freudiano de
superego é valioso porque enfatiza as origens sociais de nossas defi-
nições de certo e errado. Usualmente falamos de consciência quando
pessoas — não o ambiente inanimado — nos aplicaram as punições
que produzem conflitos posteriores. Confiando na "pequena voz inte-
rior" para nos manter no caminho da correção e afabilidade, damos
à voz crédito por nossa conduta ética e moral e culpamos nossos
lapsos por suas deficiências. Esquecemos a história de coerção so-
cial da qual a voz se origina. Consciência é um fenômeno social.
Começando mais uma vez com um rato de laboratório que
aprendeu a pressionar uma barra e obter alimento, podemos real-
mente ver o início da consciência. O animal passa seu tempo traba-
lhando e ganhando a vida respeitavelmente. Se ele pudesse falar,
não há certeza de que ele afirmasse ser feliz, mas ele indiscutivel-
mente diria que estava fazendo a coisa certa: "Quem está falando de
felicidade? Você faz o que tem de ser feito."
Agora, as contingências mudam, como freqüentemente acon-
tece em nosso mundo. Por alguma razão, pressionar a barra se
torna ruim, até mesmo criminoso; não mais deve ser tolerado. Qual-
quer um engajado naquele ato proibido deve ser punido. Assim, em
vez de obter alimento, na próxima vez em que pressiona sua barra, o
animal recebe um breve choque em sua pata — uma palmada na
mão, por assim dizer. Ele tenta a barra mais uma vez e de novo é
punido. O animal se retira para o outro canto da caixa.
Mas, o ato de pressionar a barra tem uma longa história de
reforçamento; a sociedade sempre o encorajou como um modo res-
peitável de ganhar a vida. Portanto, ainda que proibida agora, a
barra continua a tentar o animal. Novamente ele se aproxima, embo-
ra cuidadosamente, e se estica, mas pula de volta como se tivesse
recebido um choque — ainda que ele não tenha realmente tocado a
barra.
O animal continua a vacilar entre aproximação e afastamen-
to, algumas vezes voltando para trás ou mesmo pulando para trás
200 Murray Sidrrvan

depois de dar apenas alguns passos em direção à barra e ocasional-


mente aproximando-se e esticando seu corpo quase até alcançá-la.
Raramente ele vai tão longe a ponto de realmente pressionar a barra
e levar um choque; usualmente ele pára quando a ponto de tocar a
barra.
Nada acontece quando o animal olha para ou se movimenta
em direção à barra. No entanto, ele se retrai fortemente cada vez que
mostra tentação, como o faria em resposta ao choque. Algumas
vezes ele reage como se tivesse levado um choque depois de simples-
mente virar sua cabeça em direção à barra. Notamos que o sujeito
começar a ficar longe da barra, mantendo a tentação à distância.
Logo, vemos o animal se orientando em direção à barra menos e
menos freqüentemente e, finalmente, ele age como se a barra não
mais existisse.
Nosso sujeito, se pudesse falar, agora provavelmente nos di-
ria que ele não estava, afinal de contas, fazendo a coisa certa. Pres-
sionar a barra acabou sendo ruim. Se nosso sujeito fosse um fre-
qüentador de igreja cheio de fé, poderia confessar que havia sido um
pecador, ainda que agora tivesse renascido. Sua consciência tinha
se tornado forte o suficiente para resistir à diabólica tentação da
barra.
O que realmente aconteceu aqui? Por que falar sobre cons-
ciência? Onde está a pequena voz interior?
Agora observe uma criança, que está deixando de ser um
bebê de colo, que nada experienciou a não ser admiração por toda
nova evidência de habilidade sensorial e motora. Encorajada a reagir
a novos sons e objetos vistos, a criança foi abraçada e beijada por
tentar alcançar e tocar a face da mãe, por tentar puxar os dentes do
avô, por virar as páginas de livros, por ligar e desligar botões e
interruptores de luz, por pegar blocos e deixá-los cair através de
buracos. Agora ela se arrasta e engatinha. Seu universo grandemen-
te aumentado coloca a exploradora em contato com inumeráveis
novas formas, cores, luminosidades, barulhos, odores e texturas. A
luz refletida da superfície de um vaso de cristal em uma prateleira
baixa abre novas possibilidades de experiência e o engatinhador está
a caminho para tocar, puxar e empurrar. Que prazeres guarda este
novo objeto?
Mas mamãe, começando a avaliar os danos potenciais no
universo em expansão de seu filho, está mantendo os olhos bem
abertos. Exatamente quando o pequeno está a ponto de empurrar o
vaso, ela dá um pulo, dá uma palmada e grita: "Não, não! Não toque!
. É feio!
Coerção e suas implicações 201

Bem, isto é alguma coisa nova. Removido para o outro lado


da sala, o bebê óíha e vê o vaso, ainda brilhando, ainda inexplorado
e a tentação é forte. Mamãe, olhando exatamente quando a mão de
novo tenta alcançar o vaso, diz rispidamente: "Não! É feio!" O bebê
rapidamente tira sua mão e engatinha em outra direção.
Mas a tentação permanece. Afinal de contas, esta criança
passou grande parte de sua vida explorando; para que mais serve o
mundo? Assim, de volta ao vaso. Mas desta vez, à medida que a mão
se levanta nós ouvimos a criança dizer: "Não, não! Feio! Não toque!"
tendo produzido seu próprio sinal de aviso, o bebê mais uma vez se
afasta.
Continuando a vacilar entre aproximar-se e afastar-se a
criança diz o sinal de aviso mais e mais baixo até que o sinal se
torna completamente silencioso — internalizado. Aproximação, tam-
bém, se torna menos freqüente à medida que o bebê encontra outras
coisas para explorar e manipular. Finalmente, o vaso não mais o
tenta.
Embora as particularidades destes dois exemplos, do rato de
laboratório e da criança, difiram consideravelmente, eles envolvem
os mesmos princípios. Ambos foram punidos e tendências de repetir
seus atos punidos passaram a servir como sinais de aviso. Cada um
deles afastou-se em reação aos avisos que sua própria conduta pro-
via. As reações da mãe, também, avisaram a criança de punição
iminente, aproximar-se do vaso ainda atrativo mas proibido provo-
cou na criança tanto o afastar-se como a reprodução do aviso da
mãe. O animal, naturalmente, não podia falar, mas seus próprios
movimentos em direção à barra tiveram a mesma função de aviso
que teve a fala para a criança.
Ambos, criança e rato, gradualmente reduziram a magnitude
de seus sinais comportamentais de aviso até que estes fossem final-
mente internalizados — não mais visíveis para qualquer outra pes-
soa. A principal diferença está na habilidade da criança de conden-
sar muitos sinais de aviso diferentes em apenas uma poucas pala-
vras: de início, "Feio!" e, quando mais velha, "Ilegal!" ou "Imoral!". A
consciência do rato pode consistir apenas de sinais não-verbalizados
de seu próprio comportamento incipiente, um sinal diferente para
cada ação punida. A consciência da criança é despertada não ape-
nas por tendências à ação diretamente punidas, mas também por
palavras que levam a ou acompanham punição. Daí, a "pequena voz
interior". Entretanto, verbal ou não-verbal, a consciência é composta
de comportamento que serve, ele mesmo, como um sinal de aviso e,
por sua vez, traz à tona a esquiva.
202 Murray Sidrrvan

Atualmente é sabido o suficiente sobre a ação da punição e


sobre seus efeitos colaterais destrutivos, para que questionemos so-
bre o princípio de confiar na consciência, um produto de coerção,
para socializar nossos filhos basicamente egocêntricos. Certamente,
os mais cínicos entre nós hã muito abandonaram a fé na consciên-
cia como um mecanismo para garantir a decência e moralidade
adultas.

Consciência e controle
Monitorar todas as ações de todas as pessoas não é apenas
repugnante por princípio, mas é também impossível. Apenas duran-
te a infância a completa supervisão é mais ou menos factível e o
desenvolvimento da consciência é um dos principais objetivos do
treinamento e educação iniciais. Quando a supervisão direta se tor-
na impossível, confiamos na consciência para manter a integridade
de nossos direitos e liberdades.
Após uma breve "lua de mel", quando impomos poucas res-
trições sobre as crianças, começamos a ensiná-las o que é permitido
e o que não é. Estabelecemos limites. Quase sempre o fazemos
punindo-as quando elas ultrapassam os limites. Raramente lhes
damos algo bom simplesmente por permanecerem dentro dos limi-
tes, simplesmente nos refreamos de puni-las. Cientes de que os
jovens ainda não aprenderam todos os caminhos da civilização — ou
seus perigos — pais, professores e o público em geral mantêm os
olhos constantemente abertos sobre eles, não apenas para proteger
sua saúde e segurança, mas também para eliminar sinais de deso-
bediência, descortesia, desordem, agressão, furto ou destruição de
propriedade e linguagem "feia". Durante a adolescência, a vigilância
se torna de alguma maneira ainda mais cerrada; a emergente sexua-
lidade coloca o adolescente em contato com novos tabus.
Restrições durante a infância e a adolescência, um tema co-
mum ha poesia e no romance, é quase universal. Inculcamos a cons-
ciência cedo, quando o controle direto é factível, punindo toda condu-
ta que não está de acordo com nossos padrões. Como o animal de
laboratório que pressiona sua barra porque é punido por fazer qual-
quer outra coisa, as pessoas, também, aprendem a pressionar quais-
quer barras que não lhes tragam choques. Qualquer ação não-puni-
da sé torna segura; todas as outras vão para o saco intitulado "cons-
ciência".
Assim como o animal de laboratório, que gasta todo seu tem-
po esquivando-se de choques, pessoas que têm uma consciência forte
Coerção e suas implicações 203

podem andar em um curso estreito. Elas obedientemente fazem o


que é esperado, raramente tentando algo novo. Elas são confiáveis,
corajosas, transparentes e reverentes. Junto com estas inquestioná-
veis virtudes pessoais, entretanto, elas freqüentemente consideram
criatividade uma coisa perigosa, desaprovando-a em si mesmas e nos
outros. Elas freqüentemente consideram a singularidade perturbadora;
ação, crença ou aparência não-convencionais ameaçam sua seguran-
ça. E quando as condições mudam, quando a sociedade relaxa algu-
mas contingências e estreita outras, elas freqüentemente são incapa-
zes de adaptar-se; mudanças as ultrapassam. Estes subprodutos
infelizes de coerção "efetiva" também devem ser esperados quando a
comunidade constrói consciências individuais por meio de punição.
Se frutos proibidos continuam a nos atrair, a comunidade
haverá de nos considerar como tendo consciência fraca e sendo,
portanto, perigosos. Mesmo sem burlar a lei, podemos nos descobrir
com problemas. Simplesmente adotar um estilo de vida incomum
pode nos colocar em conflito com a comunidade mais ampla; ela
considera o diferente como não-confiável. Também podemos nos
sentir em guerra conosco quando somos fortemente tentados a fazer
coisas que aprendemos a chamar de "ruins" ou "perigosas", ou
quando nos descobrimos realmente "indo contra nossa consciência".
Não apenas a comunidade deixa de confiar em nós porque não
podemos nos controlar, mas é provável que não confiemos ou que
desprezemos a nós mesmos. Estas características distintivas de de-
sordens de personalidade e de neuroses são subprodutos adicionais
das práticas coercitivas que a comunidade usa para estabelecer a
consciência individual.
Terapeutas podem buscar resolver nossos conflitos interiores
tentando tornar nossa consciência um mediador mais efetivo entre
nossas naturezas predatória e altruísta. Entretanto, nenhum tera-
peuta tem acesso a nossa "natureza". O mundo externo impõe sobre
nós a consciência; ele transforma nossas ações incipientes nesses
sinais de aviso que chamamos de consciência e nos coage para a
esquiva que então chamamos de moralidade ou civilização. Terapia
efetiva terá de lidar não com forças interiores, mas com contingên-
cias reais do mundo, com relações entre conduta e conseqüência.
Essas contingências geram nosso comportamento adaptativo e nos-
so comportamento-problema; a terapia deve chegar a termos com as
causas, não apenas com os resultados.

Podemos confiar na consciência? A sociedade depende da


consciência individual para sobreviver. Ela confia na "voz interior"
204 Murray Sidrrvan

para manter as afabilidades da interação civilizada, a conciliação


prática e a acomodação necessárias para subordinar necessidades
individuais àquelas da comunidade e da cultura. A sociedade tam-
bém alistou a religião organizada para ajudar a construir e a manter
a consciência adicionando a força do comando divino. A consciência
coercitivamente gerada alcançou sua pretendida função? Ela restrin-
ge o indivíduo para benefício da comunidade?
É um segredo bem guardado o de que a psiquiatria, a psico-
logia e a análise do comportamento jamais "curaram" com sucesso
ações como furto, assassinato, fraude, corrupção governamental,
desonestidade nos negócios ou má prática profissional. Supõe-se
que a consciência suprime estes tipos de conduta porque elas bene-
ficiam o indivíduo às custas do grupo. Uma pessoa que tem "uma
consciência defeituosa", "cede à tentação", "ouve o diabo" ou "perde
a batalha contra as forças do mal", demonstra que as contingências
coercitivas da sociedade não atingiram seus pretendidos propósitos.
No caso extremo da "personalidade psicopata", sem qualquer cons-
ciência, a coerção da sociedade fracassou completamente.
Quais são as fontes destes fracassos? Eles são inerentes à
nossa confiança na coerção para contrabalançar os ganhos da auto-
indulgência, agressão e criminalidade. A sociedade desaprova afas-
tamentos de seus códigos morais e legais, mas todos sabemos que
muita conduta ilegal jamais será detectada. Os fortes reforçadores
positivos que a imoralidade e a criminalidade colocam ao nosso
alcance são muito freqüentemente bem-sucedidos em destruir a
consciência coercitivamente inculcada. A voz interior é facilmente
corrompida.
As pessoas podem prontamente descobrir maneiras de se
esquivar da punição ao mesmo tempo que obtêm ganho considerável
por burlar a lei. O fisicamente forte corre mais rápido ou bate na-
queles que os puniriam. Criminosos endurecidos, sob a proteção de
umá organização criminosa, amedrontam punidores potenciais
ameaçando-os ou suas famílias, algumas vezes até mesmo colocan-
do-os fora do caminho por meio de execuções. Uma posição de poder
político ou institucional torna fácil silenciar subordinados e associa-
dos qüe poderiam revelar sua desonestidade. A posse de informação
importante permite considerável ganho ilegal sem que qualquer ou-
tra pessoa sequer saiba o que está ocorrendo. Indivíduos ricos, gran-
des corporações e outras instituições podem ganhar tanto burlando
a lei que mesmo grandes penalidades não têm qualquer significado
prático. Gigantes econômicos mantêm enormes equipes de advoga-
dos, treinados para tirar vantagens de todas as proteções inscritas
Coerção e suas implicações 205

na lei com o propósito de proteger os inocentes, e usam-nas, em vez


disso, para tornar a acusação dos culpados muito difícil e cara,
Descomprometidos com sua própria consciência, eles colocam a
consciência pública contra a comunidade.
Reforçadores positivos fortes mas ilegais podem, portanto,
destruir uma consciência e ao mesmo tempo colocá-la acima da lei.
A moralidade está se tornando obrigatória apenas para aqueles que
têm pouco a ganhar por burlar o código. Mais e mais vemos o
pequeno criminoso, o pobre e o explorado sendo punidos enquanto
que o criminoso do colarinho branco, o rico, o socialmente impor-
tante, os presidentes de corporações que poluem nossa terra, ar, e
água potável em grande escala, e os donos de bancos e empresas
financeiras que enganam o público, todos mantêm os estilos de vida
que seus ganhos tornaram possíveis. A mídia hoje relata tais con-
trastes tão freqüentemente que se torna cada vez mais fácil para o
cínico argumentar que podemos confiar na consciência para manter
apenas os fracos e pobres na linha.
Nossa dependência do controle coercitivo para manter as
afabilidades da civilização trouxe, assim, um duplo padrão. A mora-
lidade é freqüentemente uma ferramenta para manter a consciência
daqueles que não podem correr o risco de serem pegos burlando a
lei. Ela ê apoiada, por esta razão, por aqueles que defendem os
padrões, mas os burlam na prática.
Pode-se confiar na consciência sustentando esta hipocrisia
apenas por um tempo limitado. Em todo o terceiro mundo, o duplo
padrão já está caindo por terra. Mesmo organizações religiosas estão
hoje incitando os até então submissos a buscar sua parte por meio
de apropriação violenta e sangrenta, ações que, se supunha, a cons-
ciência devia suprimir. Os desprivilegiados estão seguindo a pista
dos bem-aquinhoados: "Agarre tudo aquilo com que você puder se
safar. Não permita que ninguém o atrapalhe." Nos centros de terro-
rismo, a consciência já fracassou.
Mais cedo ou mais tarde, a coerção gera contracontrole, com
a consciência individual dando lugar à competição por reforçadores
positivos e negativos mais imediatos. Quando a consciência, já en-
fraquecida, começa a morrer entre a maioria coagida, então a mino-
ria governante não conhece outro caminho para preencher o vazio
além de aumentar sua coerção. A civilização está sentada em muitos
vulcões. A África do Sul corre em direção à sua inevitável batalha
sangrenta, enquanto que os Estados Unidos gradualmente recriam o
mesmo cenário apoiando facções impiedosamente coercitivas na
América Central e América do Sul. Ninguém mais finge que a morali-
206 Murray Sidrrvan

dade é a questão. Controle coercitivo é abertamente justificado como


uma maneira para os fortes se protegerem dos fracos e para os
anteriormente fracos alcançarem seu lugar no topo.
Há algum outro modo, além de coerção, de construir conduta
que sustentará uma coexistência harmoniosa? Alguma forma de mo-
ralidade prática é necessária se a sobrevivência não permanecer
como um privilégio apenas dos mais fortes, mas essa moralidade
terá que ser baseada em algo mais duradouro do que controle coer-
citivo. Não importa com quanto sucesso nos esquivemos de choques,
finalmente faremos o melhor que pudermos para fugir da necessida-
de de esquiva. A vida dominada pela consciência se torna opressiva.
Precisamos de um substituto para a consciência.
13

Entre a cruz e a caCdeirinha

A tal ponto consideramos a coerção como certa que não nos


surpreendemos ao nos encontrarmos do lado que recebe a paulada
ou do lado que maneja o bastão. Para fazer com que as pessoas
parem de fazer coisas que nos desagradam, estabelecemos contin-
gências de punição; batemos nelas, algumas vezes figurativamente,
algumas vezes literalmente. Para fazer com que as pessoas façam
coisas que nos agradam, estabelecemos contingências de fuga e
esquiva; continuamos batendo nelas até que façam o que queremos,
ou ameaçamos de bater se elas fizerem qualquer outra coisa.
Punição, fuga e esquiva raramente ocorrem isoladamente
umas das outras. Mesmo quando pretendemos apenas punir, gera-
mos fuga e esquiva; aqueles que são punidos por nós fogem quando
nos aproximamos. Quando tentamos forçar ações particulares, ou-
tras inevitavelmente se tornam ligadas a elas; alunos que são puni-
dos param de estudar, fazendo, em vez disso, coisas que conduzem
a conseqüências positivas. Todos nós estamos sujeitos às leis do
comportamento, assim, quando uma punição que estabelecemos pa-
rece funcionar, continuamos com mais punição. Guardas peniten-
ciários podem tornar-se monstros, governantes podem tornar-se ti-
ranos; um terapeuta, tendo uma vez curado uma criança desespe-
208 Murray Sidrrvan

rançadamente autodestrutiva aplicando-lhe choques por arranhar


seus próprios olhos e pele, a partir daí prescreve punição para todos
os comportamentos-problema. Quando ensinamos, protegemos ou
curamos por meio de punição, usualmente obtemos mais do que
queremos. Uma grande quantidade de acontecimentos sub-reptícios
ocorre nas contingências coercitivas do mundo cotidiano.
As pessoas reagem ã coerção de maneiras diferentes. Amea-
çadas com a perda de um emprego, uma pessoa trabalha mais duro
e outra desiste. Duas pessoas reagindo diferentemente ao que pare-
ce ser a mesma situação podem sugerir que ambos os atos são
puramente voluntários — que nenhum controle está envolvido. En-
tretanto, se olharmos mais de perto, poderemos descobrir que a
primeira pessoa aprendeu quando criança a combater todo fracasso
e que a segunda pessoa, sempre em disputa com seus colegas de
trabalho, estava, de qualquer modo, a ponto de procurar um novo
emprego.
Inconsistências no modo como as pessoas manejam coerção,
ainda que passíveis de serem traçadas em suas histórias comporta-
mentais, levaram alguns a interpretar a variabilidade como um
sinal de liberdade do controle. Prezando nossa aparente liberdade,
eles desconsideraram a coerção a que todos estamos sujeitos, que
dá significado aos nossos conceitos de liberdade. Uma conseqüên-
cia desta negligência foi o fracasso em reconhecer quão comum o
controle coercitivo realmente é e em avaliar como ele nos mantém
interagindo de maneiras que ameaçam em vez de promover a sobre-
vivência.
Algumas das contingências que o mundo nos impõe nos dei-
xam sem escolhas adaptativas. Elas não nos permitem nem desligar
nem prevenir choques. Podemos estar nos defrontando com morte,
dor, humilhação, desemprego, pobreza ou perda de suporte emocio-
nal inevitáveis. O que acontece quando tais choques intensos nos
ameaçam e somos incapazes de fazê-los desaparecer, quando não
temos lugar onde nos esconder ou para onde correr em busca de
segurança? Esta questão tem recebido muita atenção no laboratório
e os experimentos revelaram um poderoso tipo de controle coerciti-
vo.

Supressão condicionada
No experimento básico, o sujeito, mais uma vez um rato de
laboratório, aprende a obter alimento pressionando uma barra; mas,
como muito de nosso próprio trabalho, o trabalho do animal é pago
Coerção e suas implicações 209

apenas ocasionalmente; ele não obtém alimento toda vez que pres-
siona a barra. Algumas vezes ele pode trabalhar por cinco minutos
sem sucesso, algumas vezes por dois minutos, outras por apenas
dois segundos. Na média, uma vez a cada 30 segundos ele obtém
alimento quando pressiona a barra, mas o tempo entre tentativas
bem-sucedidas é imprevisível. Este esquema mantém o sujeito tra-
balhando estavelmente, um requisito importante porque vamos pro-
curar por variações em sua taxa normal de trabalho quando um
choque inevitável o ameaça. Para que nossas observações sejam
confiáveis precisamos de uma linha de base de produtividade está-
vel, da qual possamos medir quaisquer afastamentos.
Agora, enquanto o sujeito está trabalhando por seu alimento,
ligamos um sinal, um tom que dura um minuto. Ao final do minuto,
assim que o tom cessa, um breve choque (um décimo de segundo)
aparece. Diferentemente do choque que o sujeito pode prevenir, este
é inevitável, nada que o sujeito possa fazer o manterá longe. Embora
desamparado contra o choque iminente, o sujeito pode continuar a
pressionar a barra durante o tom e o alimento ainda virá como
antes.
Onde vemos isto fora do laboratório? O chefe nos ordena
para irmos, dentro de cinco minutos, a sua sala para explicar nossa
decrescente curva de vendas. Estamos livres para continuar ligando
para clientes e assim fazer nossas vendas aumentarem, ou para
conversar com a secretária, ou para beber um copo de água, mas
estamos na mesma posição que o animal, confrontados com um
choque inevitável. Esperamos não encontrar este tipo de situação
com freqüência, Nenhuma restrição física é colocada sobre nós e,
ainda assim, com relação ao choque, não temos opções; não há
maneira de fugir ou esquivar.
No laboratório, depois do tom e do breve choque, passa-se
um intervalo de duração imprevisível antes que o sinal apareça de
novo. Uma vez que ele volte, ele permanece por um minuto e termi-
na com o choque inevitável. De quando em quando, o sujeito expe-
riencia este pareamento entre tom de um minuto e choque breve,
mas pode continuar a obter alimento durante e entre os sinais de
aviso.
Uma vez que o animal nada pode fazer em relação ao choque
iminente, poder-se-ia esperar que ele simplesmente se mantivesse
trabalhando para viver, durante os sinais de um minuto. Se ele
pudesse falar, ele simplesmente poderia dizer: "A vida é assim; por
que lutar contra o mundo?" Mas não é isto que usualmente aconte-
ce, o sujeito não trata o sinal de aviso com tal resignação filosófica.
210 Murray Sidrrvan

Depois de algumas experiências com a seqüência tom/choque, o


sujeito muda drasticamente seu comportamento quando o tom é
ligado. Ainda que ele pudesse continuar a obter alimento, ele pára
de pressionar a barra assim que ele ouve o sinal. Em vez de traba-
lhar, ele agora se agacha tensamente, tremendo, defecando, urinan-
do, seu pelo eriçado. Ele mostra todos os sinais que usualmente
atribuímos à ansiedade avassaladoramente paralisante.
Nós também provavelmente não continuaremos a trabalhar
produtivamente depois que o chefe ligou o sinal de aviso para o
choque que ele está a ponto de infligir. Preocupando-nos, provavel-
mente nos sentaremos tensamente em nossa mesa, talvez com um
pouco de enjôo de estômago, talvez até mesmo sentindo necessidade
de correr para o banheiro.
Depois do choque, o sujeito de laboratório volta a sua ocupa-
ção normal, trabalhando estavelmente até que o tom apareça nova-
mente. O animal trabalha produtivamente entre sinais de aviso,
pára completamente durante cada sinal e, então, recomeça o traba-
lho imediatamente depois de cada choque. O choque parece fazer
duas coisas: primeiro, ele faz com que o sinal de aviso coloque o
animal em pânico, com sua atividade normal completamente supri-
mida; então, ele sinaliza um período seguro, liberando o animal das
garras de sua reação emocional e permitindo que ele recomece o
trabalho produtivo.
Originalmente, o tom não tinha qualquer efeito discernível
sobre o animal. Agora, tendo se tornado um sinal de choque inevitá-
vel, o tom coloca o sujeito em uma severa depressão comportamen-
tal, colocando um fim em sua atividade construtiva. Analistas do
comportamento chamam isto de "supressão condicionada". Usamos
o termo do cotidiano, "ansiedade", quando algo ruim está por acon-
tecer e nada podemos fazer para impedi-lo ou fugir. Não há proble-
ma em chamar de ansiedade a reação, desde que não nos engane-
mos acreditando que o nome explica alguma coisa.
Os sinais de pânico e terror, facilmente visíveis para os ou-
tros e intensamente sentidos por qualquer um confrontado com cho-
ques inevitáveis, são freqüentemente considerados como sendo as
características definidoras da ansiedade. Mas, a supressão não pre-
cisa ser acompanhada por sinais de angústia interior. Drogas ou
cirurgia podem mitigar o pânico, sem aliviar a depressão comporta-
mental. Um paciente que relata sentir-se menos ansioso pode não
reagir ao sinal de aviso mais construtivamente do que antes. Embo-
ra o pânico possa requerer tratamento de emergência, a depressão
de longo prazo requer uma análise comportamental para ser tratada
Coerção e suas implicações 211

com sucesso. Não podemos perder de vista as causas: (1) os sinais


de aviso para (2) choques inevitáveis, sobrepostos a (3) uma linha de
base de atividade positivamente reforçada.
A reação do sujeito ao sinal de aviso de choque inevitável é
tão desadaptada quanto qualquer comportamento visto no laborató-
rio. A ansiedade — o pânico e a cessação de todo comportamento
produtivo :— é contraproducente, levando o sujeito a perder todo o
alimento que teria ganho se continuasse a trabalhar durante o sinal
de aviso.

Fora do laboratório. A supressão condicionada representa a


ansiedade de quem? Infelizmente, não precisamos procurar muito
para reconhecer sinais de eventos severamente aversivos sobre os
quais não temos controle e contra os quais não temos medidas
efetivas.
Podemos descobrir que temos uma doença fatal, ou que al-
guém que amamos vai morrer em breve. A depressão usualmente
acompanha sinais de morte iminente. Tornamo-nos incapazes de
funcionar efetivamente, algumas vezes negligenciando até mesmo
pequenas necessidades de sobrevivência: "eu não tenho apetite";
"por que perder temo vestindo-me, lavando-me, barbeando-me, esco-
vando meus dentes? Não importa mais"; "para que eu preciso de um
agasalho? Que diferença faz se eu ficar resfriado?"; "qual o sentido
de levantar da cama?"; "... quem se importa?"
As ameaças inescapáveis da natureza também podem nos
tornar incapazes de funcionar. Agachados em um abrigo, esperando
pelo furacão que se aproxima para levar nossa casa, podemos ser
incapazes de falar com nossa família, de ler, escrever, jogar ou
comer. Quando o Monte Santa Helena entrou em erupção, algumas
das pessoas que viviam na montanha simplesmente fecharam suas
portas num gesto inefetivo de desafio e esperaram, sem qualquer
comportamento, pelo rio de lava que se aproximava para afogá-los.
Outros sinais de choques inevitáveis vêm de pessoas, fre-
qüentemente como efeitos colaterais não-pretendidos das várias for-
mas de coerção que impensadamente impomos uns aos outros. A
uma secretária, preocupada a ponto de distrair-se por causa de sua
mãe seriamente doente, diz-se: "Mais um erro de datilografia e você
será despedida." Incapaz de datilografar outras cartas naquele dia,
ela acaba sendo despedida.
Na guerra, a coerção internacional última, indivíduos fre-
qüentemente se defrontam com desastre quase certo; pânico e de-
212 Murray Sidrrvan

pressão são bem conhecidos. Preparações para a batalha sinalizam


a inevitável perda de companheiros e possivelmente a própria morte,
perda de membros ou captura. A repentina inabilidade dos indiví-
duos para funcionar efetivamente tem sido um problema importante
para a psiquiatria militar durante todas as guerras.
O mercado financeiro torna disponíveis grandes recompen-
sas pelo sucesso, mas, ao mesmo tempo, impõe penalidades terríveis
ao fracasso. Durante a grande depressão, muitos corretores que
viram seus negócios, suas reputações e seus próprios recursos e os
de seus clientes prestes a serem dizimados, entraram em "parafuso"
emocional, alguns se atirando das janelas de seus escritórios nos
arranha-céus. Gigantes da indústria e das finanças, repentinamente
confrontados com a dissolução de seus impérios, estouram seus
miolos. Mesmo durante recessões econômicas menos severas, a bus-
ca de empregos por um trabalhador desempregado freqüentemente
origina uma sucessão de sinais de rejeição, embaraço e fracasso.
Finalmente, confrontado com o desemprego permanente, enfrentan-
do a perda de status na comunidade e na família e privado da
auto-suficiência que costumeiramente sustenta o auto-respeito, o
antes orgulhoso chefe de família permanece na cadeira de balanço,
incapaz de se comportar para todos os propósitos práticos.
A supressão condicionada não precisa ser confinada a desas-
tres que acontecem apenas raramente. Porque a coerção social é tão
predominante, a ansiedade severa produzida por sinais de aviso de
punição, perda, fracasso ou embaraço inevitáveis também surge fre-
qüentemente em nossas interações cotidianas. Uma criança desobe-
diente a quem se tenha dito: "espere seu pai chegar em casa!", vive o
resto do dia à sombra daquele sinal de aviso de choque inevitável. A
ameaça "funciona"; a criança, em um estado de depressão compor-
tamental, não causa mais problemas naquele dia.
Professores ou pais algumas vezes descobrem que não conse-
guem mais contatar com uma criança a quem puniram severamente.
Arrependidos de sua ação, eles falam gentilmente com a criança,
tentam brincar com ela ou diverti-la e tentam de outras formas
dissipar os efeitos daquilo que acabaram de fazer, mas a comunica-
ção tornou-se impossível; a criança mantém-se passiva. Seu ato de
cóerçãó tornou-os um sinal de aviso para punição inevitável; eles
agora suprimem todo o comportamento adaptativo da criança. A
criança torna-se incapaz de agir construtivamente na presença de
alguém qüe acabou de liberar um choque.
De maneiras semelhantes, muitas pessoas tornam-se su-
pressores condicionados uns dos outros, com suas práticas coerciti-
Coerção e suas implicações 213

vas gerando ansiedade, pânico, paralisia e depressão. Um trabalha-


dor em busca de uma aumento, ou tentando expressar uma crítica,
ou mesmo trazendo uma sugestão positiva, torna-se mudo na pre-
sença do chefe. Um motorista, parado por um policial, torna-se
confuso e tomado por culpa, incapaz de falar racionalmente. Quan-
do descobrimos um erro em nossa conta bancária e o trazemos para
o banco, tornamo-nos obsequiosos e defensivos. Um aluno, ainda
que sabendo a resposta correta, quando chamado em sala de aula,
treme, transpira, gagueja e fala incoerentemente.
Usualmente aplicamos coerção com a intensão de ensinar
nossos filhos, esposos, empregados, alunos, vizinhos ou concida-
dãos como manter-se afastados de serem punidos. Mas nem sempre
estabelecemos as contingências efetivamente; algumas vezes os cho-
ques que queremos que as pessoas evitem se tornam inevitáveis. Aos
olhos de alguns pais, seus filhos não conseguem fazer nada correta-
mente e, então, eles os punem indiscriminadamente. Mesmo quando
bem-intencionadas, nossas contingências de punição, fuga e esquiva
freqüentemente degeneram em situações que sinalizam choques ine-
vitáveis. Coerção da qual não se pode fugir ou que não se pode
impedir traz à tona a debilitação e o desamparo da supressão condi-
cionada. Podemos então nos descobrir punindo os outros mesmo
quando não queremos realmente fazê-lo.
Por causa de uma história de fracassos em provas, um aluno
senta-se paralisado diante de uma prova final para a qual veio bem-
preparado: "Eu sei a matéria, mas não sou bom em provas." O pro-
fessor não tem outra opção que não dar uma nota baixa. Porque o
cumprimento da lei é sinônimo de punição e ameaça de punição, o
uniforme de polícia se tornou sinal de aviso de um choque em aproxi-
mação; com a esquiva impossível, aparece um pânico cego ou uma
submissão resignada. O policial não tem escolha exceto responder
com medidas de autodefesa ou com suspeita diante dos "sinais de
culpa". Com governos mantendo a paz internacional por meio de atos
de agressão e ameaças de guerra, demonstrações de forças de "ma-
nutenção da paz" causam desamparo e desespero entre aqueles que
ainda não passaram a ver a guerra como um sinônimo de paz; sua
"falta de cooperação" produz coerção ainda mais severa.
Se fazemos ameaças não-cumpridas, sua inefetividade vai
nos deixar frustrados, sem qualquer opção a não ser finalmente
colocá-las em efeito: "isto dói em mim mais do que em você", "nós
temos que salvá-lo de você mesmo", "é para seu próprio bem", "eu
cheguei ao final de minha paciência", "é de pequeno que se torce o
pepino". Uma criança pode ouvir continuamente que se ela conti-
214 Murray Sidrrvan

nuar a provocar sua mãe "verá o que lhe acontece", mas tudo que de
fato obtém são mais ameaças. Finalmente, a ponto de apanhar do
pai que está com sua paciência esgotada porque suas ameaças não-
efetivadas não funcionaram, a criança se colaca na mesma posição
do sujeito experimental — diante de um cheque inevitável ao final de
um sinal de aviso. Aqui, o pai é o sinal de aviso; pai seguido por
choque produz uma criança essencialmente sem comportamento na
presença do pai.
O autismo infantil tem muitas causas, mas alguns casos têm
sido atribuídos a uma história de punição excessiva, desumana.
Ocasionalmente, crianças são resgatadas depois de terem passado a
maior parte de suas vidas completamente isoladas em pequenos
quartos ou jaulas. Porque seus pais, que se tornaram sinais de aviso
de choques inevitáveis, são as únicas pessoas com as quais tiveram
contato, encontros com outras pessoas também farão com que as
crianças entrem em um estado de supressão condicionada. Como
outras crianças autistas, elas não demonstram responsividade so-
cial, raramente reagindo construtivamente, exceto, talvez, a coisas
inanimadas. Elas se fecham e sua falta de responsividade social faz
com que pareçam viver em seu próprio mundo privado.
A depressão do adulto também tem muitas causas, mas sua
característica mais consistente é a ausência de comportamento
adaptativo. As prisões e as forças armadas, onde a coerção é explici-
tamente a técnica de controle escolhida, são campos férteis para a
depressão comportamental que sinais de choques inevitáveis criam.
Prisões proíbem a privacidade e não reconhecem qualquer
necessidade de tratar prisioneiros, seja com cortesia comum, seja
com decência humana, exceto ocasionalmente como recompensas
por submissão. Mais ainda, a impossibilidade de realmente observar
todos os prisioneiros em todos os momentos faz com que guardas e
supervisores inseguros e cheios de suspeita distribuam penalidades
que não estão relacionadas com quaisquer atos específicos. A pró-
pria inabilidade dos controladores de exercer supervisão consistente
pode tornar a esquiva adaptativa impossível para os controladores e
trazer, em vez disso, uma supressão condicionada dcsadaptada.
Padrões comuns de justiça são suspensos nestas cidadelas
de cumprimento da lei, de modo que mesmo a conformidade a regu-
lamentos não garante a esquiva de punição. A mais leve suspeita de
qualquer afastamento das regras traz as autoridades como um raio
sobre toda a população interna. Porque a observação constante de
todo mundo não é factível, a atribuição precisa de culpa por instigar
a desordem é impossível. Portanto, indiscriminada e caprichosamen-
Coerção e suas implicações 215

te eles administram as medidas aprovadas de confinamento em soli-


tária, encarceramento, interrogatórios cruéis, revogação de privilé-
gios e maldade sub-reptícia. Os guardas, seus uniformes, o próprio
som de seus passos e todos os aspectos do ambiente da prisão se
tornam sinais de punição inevitável. A depressão é comum entre os
prisioneiros. Ainda assim, porque ela os mantêm "bem-comportados",
não é considerada um problema sério.
Podemos inadvertidamente colocar, mesmo alguém que ama-
mos, em uma situação onde a privação inevitável traz depressão. Por
exemplo, uma mulher idosa, tendo vivido pacificamente, em protegi-
da calma, em uma espaçosa casa de campo pela maior parte de sua
vida, mas que recentemente enviuvou, é persuadida por seu irmão a
mudar-se para um apartamento na cidade, que requereria muito
menos trabalho. Repentinamente, todos os sistemas que sustenta-
vam sua vida se foram. Suas rotinas diárias usuais — dirigir a
preparação das refeições, a limpeza da casa, as compras, o planeja-
mento do lazer, receber visitas, manter correspondência social —
não são mais possíveis; nenhum de seus hábitos costumeiros fun-
cionam mais. Seu marido, que costumava cuidar de todas as ques-
tões financeiras e em torno de cujas atividades de negócios sua vida
social girava, não está mais ali para trazer ordem à sua vida. Todos
os reforçadores desta senhora tornaram-se indisponíveis para ela,
uma privação total repentina que é muito pior que o breve choque
que um sujeito de laboratório experiencia. Ela tornou-se um resto,
que não é necessário a ninguém. Toda ocasião para ação é agora
vazia, uma lembrança de perda e um sinal de fracasso. Ela se torna
uma reclusa, comendo pouco, usando roupas amarrotadas e rotas,
cabelos desalinhados e recusando-se a permitir que antigos amigos
a visitem.
Sem que ninguém pretendesse este resultado, esta mulher
mudou para um ambiente repleto de choques e privações. Sua nova
vizinhança, o prédio, o apartamento com sua mobília nova, tudo
passou a funcionar como sinais sempre presentes de sua inutilidade
e fracasso inevitáveis. O significado do fracasso é a ausência de
reforçamento e o novo ambiente a atinge com fracasso a todo mo-
mento; o comportamento que ela conhecia tornou-se não-funcional.
O mesmo freqüentemente acontece quando colocamos familiares em
instituições para idosos. Mesmo quando eles estão confortavelmente
instalados e tratados com compaixão, a indisponibilidade de seus
reforçadores costumeiros transforma a vida de sucesso em fracasso.
Depressão é uma conseqüência comum, mesmo de institucionaliza-
çáo benevolente.
216 Murray Sidrrvan

A economia da ansiedade. Estranhamente, a supressão con-


dicionada pode, ocasionalmente, se tornar útil. Embora um sinal de
aviso possa nos jogar em uma depressão, nossa própria inabilidade
para funcionar pode algumas vezes levar mais tarde a um grande
reforçador que supera as perdas imediatas. Exemplos elementares
ocorrem nas brincadeiras de filhotes de cachorros, gatos e outros
animais e em combates sérios entre adultos de dadas espécies. Con-
frontados com a certeza de derrota em uma luta de morte por causa
de uma companheira ou território, o animal derrotado cessa de
lutar; embora obviamente aterrorizado, ele adota uma postura de
submissão, como se estivesse pedindo o golpe final. Esta cessação
de toda resistência, deixando o perdedor indefeso, na verdade desli-
ga o atacante. A natureza construiu em muitas espécies um meca-
nismo de rendição que converte supressão comportamental em es-
quiva bem-sucedida; embora renuncie ao prêmio imediato, o perde-
dor protela o desastre último.
A tradição humana, quando oponentes caem ou expõem sua
juguiar é ir para a matança. Portanto, derrotados nunca se rendem
antes de estabelecer algum entendimento com os vitoriosos. Então,
uma demonstração de desamparo — a bandeira branca — traz o
perdão.
Tratando supressão condicionada medicamentosamente, ne-
gligenciando as contingências comportamentais, podemos dar a esta
reação à coerção uma função adaptativa de longo alcance. Tornan-
do-a adaptativa, o tratamento intensifica, em vez de curar o proble-
ma. Nas guerras dos Estados Unidos, as mortes por razões psiquiá-
tricas têm sido uma fonte séria de perda de homens aptos. Partici-
pantes de combates, confrontando-se com ameaças sempre presen-
tes de sofrimento e morte e sobrecarregados com a necessidade de
matar outros, freqüentemente desenvolvem "fadiga de combate". Exi-
bindo depressão incapacitante ou pânico incontrolável, eles repenti-
namente se tornam incapazes de funcionar.
A fadiga de combate usualmente aparece não em meio ao
combate, mas durante a calmaria, quando as forças estão sendo
reagrupadas, novos planos de batalha formulados e os combatentes
têm um descanso momentâneo. Mas, estes são apenas períodos
seguros ilusórios; eles, na verdade, estão cheios de sinais de aviso
do próximo ataque. Quanto mais dura a pausa, mais cedo será o
choque inevitável. Quanto mais próximo estiver o retomo à batalha,
é máis provável que surja a supressão condicionada.
Um antigo e duradouro tratamento para a fadiga de combate
exigia retirar o combatente incapacitado das linhas de frente e colo-
Coerção e suas implicações 217

cá-lo em um hospital de base. Dali, o resultado mais provável era


uma dispensa por incapacidade ou uma realocação para um posto
longe da batalha. Aqui vemos fadiga dc combate, uma forma de
supressão condicionada, servindo para uma função finalmente
adaptativa, esquiva de combate.
Isto não significa que fadiga de combate seja uma forma de
fingimento, embora um bom ator possa fazê-lo. A seqüência precipi-
tadora de sinal de aviso seguida por choque intenso, inevitável, é
suficientemente real; o sofredor é incapaz de controlar a supressão
condicionada e sua conseqüente incapacitação. Na verdade, o trata-
mento tradicional, embora permitisse fuga das condições precipita-
doras, também gerava culpa e perda de auto-respeito naqueles que
haviam fugido. Fazia-se com que eles sentissem que sua própria
fraqueza havia feito com que abandonassem suas responsabilidades
e seus companheiros.
No entanto, a inabilidade de um indivíduo para impedir su-
pressão condicionada por meio de autocontrole não torna a supres-
são imune ao controle ambiental; conseqüências ainda podem exer-
cer sua influência. Finalmente, os psiquiatras militares descobriram
que diminuir a probabilidade de dispensa ou realocação reduzia
enormemente a perda de homens aptos por fadiga de combate. Em
vez de mandar os sofredores de fadiga de combate todo o caminho
de volta para hospitais de base, eles os removiam apenas para esta-
ções de campo, para tratamento. Eles deixavam claro, também, que
o tratamento devia ser breve e que o próximo passo deveria ser um
retorno à unidade de combate. Reconhecendo a realidade do proble-
ma, o tratamento não mais o sustentava. A fadiga de combate per-
deu sua função como um mecanismo de esquiva legítimo. A combi-
nação de respeito para com a integridade do soldado fatigado e a
impossibilidade de fuga e esquiva reduziu enormemente o número
de mortes em batalha atribuíveis à fadiga de combate.
A análise de laboratório da supressão condicionada tornou
possível avaliar vários tratamentos. Terapia eletroconvulsiva, por
exemplo, diminui dramaticamente a supressão condicionada. Depois
desse tratamento, um animal que usualmente entra em um pânico
paralisador na presença de sinais de choques inevitáveis, em vez
disso, desconsidera os sinais e continua a trabalhar. Entretanto,
esta "cura" é apenas temporária, a ansiedade desabilitadora retorna
mais ou menos um mês depois de terminado o tratamento. Também
algumas drogas tranqüilizantes que costumeiramente reduzem ativi-
dade e até mesmo produzem letargia, apesar disto, reinstalarão pro-
dutividade em sujeitos durante sinais de aviso de choques inevitá-
218 Mwray Sidman

veis. Alguns estimulantes, por outro lado, aprofundarão a supres-


são. Estudos quantitativos de intensidade e probabilidade de cho-
que, de freqüência de sinais de aviso e de esquemas e tipos de
conseqüências que mantêm a produtividade normal, todos revela-
ram fatores ambientais que contribuem para a severidade, redução
ou prevenção de ansiedade severa.
Um sujeito cuja conduta usualmente produz reforçadores positivos,
comumente cairá em um estado de inatividade não-produtiva ou de pânico não-
direcionado durante um sinal de choque inevitável. Um sujeito sendo coagido
por contingências de esquiva fará exatamente o oposto, trabalhando ainda mais
diligentemente durante o sinal de aviso. Portanto, o que é chamado de ansiedade
pode se referir a depressão ou a hiperatividade, ambas não-produtivas; nossa
reação a choques inevitáveis dependerá de se nossa conduta é comumente mantida
por contingências positivas ou coercitivas. Alguns ambientes realmente mantêm
as pessoas continuamente se esquivando; ameaças ocasionais de punição inevitáve
em tais ambientes dão origem aos episódios de hiperatividade que vemos em
algumas crianças e adultos? E esta a base para o aparente desejo de crianças de
aumentarem sua conduta objetável diante de uma punição inevitável?
Interações sutis entre supressão condicionada e outras contingências
freqüentemente ajudam a explicar por que um procedimento terapêutico parece
ajudar algumas pessoas e não outras, ou por que varia até mesmo para um
indivíduo. Se uma dose particular de uma droga alivia ou não a supressão
condicionada pode depender, por exemplo, de quãofreqüentese quão grandes
são os reforçadores que comumente mantêm a atividade suprimida. Se nosso
trabalho raramente vale a pena, ou se vale muito pouco, então é maior a
probabilidade de que nossa produtividade cessará sob o estresse de punição ou
perda iminentes.
Acontece que mesmo ratos de laboratório ajustam sua ansiedade à
realidade econômica. Vimos no experimento prototípico que um sinal de
aviso de choque inevitável pode levar um animal à ansiedade
cpntraprodutiva. Ele pára de trabalhar, perdendo todo alimento que teria
ganho, enquanto o sinal está ligado e volta ao trabalho produtivo apenas
depois que o sinal e o choque terminam. Suponha que agora esquematizemos
os sinais para que algumas vezes venham muito freqüentemente e algumas
vezes apenas raramente — um tipo de mudança ambiental que não é prática
em condições cotidianas, mas que o controle de laboratório torna possível.
O que este experimento mostrará? O sujeito tornar-se-á mais
Coerção e suas implicações 219

ansioso quando exposto mais freqüentemente a sinais de aviso e


choques? Menos ansioso? Fará alguma diferença?
Se os sinais aparecem com pouca freqüência, o sujeito pára
de pressionar a barra durante os sinais; como no experimento origi-
nal, vemos a completa supressão da atividade produtiva. Mas, se os
sinais aparecem muito freqüentemente, o sujeito modifica sua rea-
ção; em uma extensão maior ou menor, dependendo da duração
relativa dos sinais de aviso e dos períodos seguros, ele continua a
trabalhar. Quanto mais freqüentemente aparecem os sinais de aviso
e os choques, menos sua atividade produtiva é DISRUPTADA.
De início, ficamos bastante intrigados com este resultado:
sinais de aviso e choques mais freqüentes, menos ansiedade; sinais e
choques menos freqüentes, mais ansiedade. O que estava acontecen-
do ficou claro quando percebemos que o sujeito perdia muito pouco
alimento se ele parasse de pressionar a barra durante os sinais
infreqüentes. Ele passava a maior parte do seu tempo entre sinais
trabalhando em segurança, assim uma reação de ansiedade ocasio-
nal não lhe custava muito. Mas, quando os sinais apareciam fre-
qüentemente, havia pouco tempo seguro disponível; o animal teria
perdido uma porção significativa de sua alimentação se tivesse para-
do completamente de pressionar a barra durante os sinais de perigo.
Este experimento surpreendente mostra o animal ansioso
somente na medida em que ele pode. Mesmo ratos de laboratório
parecem dispostos a deixar que sua ansiedade lhes custe apenas um
certo tanto — nesta situação, apenas uma certa proporção do ali-
mento disponível. Para evitar de perder mais, eles se adaptam a
sinais de aviso freqüentes continuando a trabalhar produtivamente
em vez de entregar-se à sua ansiedade.
Este é um fenômeno bastante delicado, dependente de um
ajustamento bastante fino, mas ele é vigoroso e reprodutível. Muitos
escritores notaram paralelos humanos. Freqüentemente tem se sus-
peitado que a ansiedade incapacitadora é uma doença dos afluentes,
daqueles que podem se dar ao luxo de parar de trabalhar e de cessar
outras responsabilidades quando as coisas se tornam difíceis.
Então, em qualquer momento que uma punição inevitável
seja iminente, seus sinais de aviso podem produzir incapacitação
completa ou parcial, preocupação inútil e sofrimento físico. Freqüen-
temente consideradas como uma forma de ansiedade, estas reações
são usualmente tratadas — raramente com sucesso — com remédios
psiquiátricos e farmacológicos. A supressão condicionada, manifes-
tada grosseira ou sutilmente, constitui um dos efeitos colaterais
mais custosos de nossa sociedade coercitiva.
14

Coerção gera coerção

Agressão
Os estudos de laboratório que temos visto até aqui investiga-
ram os efeitos da coerção sobre indivíduos em ambientes que não
incluíam outros sujeitos. Agora compliquemos um pouco o arranjo,
colocando um segundo sujeito ao lado do primeiro. Veremos alguma
coisa nova. Se aplicarmos um choque em apenas um dos dois sujei-
tos, este atacará o outro. A agressão não é nem ritualística, nem
momentânea: se não separarmos os dois, o ataque terminará com
um assassinato.
Agressão induzida por punição tem sido encontrada em mui-
tas espécies, incluindo a nossa própria. O atacante e o atacado nem
mesmo precisam ser da mesma espécie: um camundongo que rece-
beu iim choque atacará um rato, um rato atacará um gato.
Félizmente, podemos investigar agressão induzida por coer-
ção sem realmente fazer com que os sujeitos tentem matar uns aos
outros. Isto porque se nenhum ser vivo estiver por perto, um sujeito
que recebeu um choque morderá objetos inanimados. Portanto, es-
Coerção e suas implicações 221

tudos modernos tendem a usar "barras de mordida" especialmente


construídas que automaticamente registram a freqüência, força, du-
ração e outras características do ataque.
Punição não precisa ser fisicamente dolorosa para incitar
agressão como um efeito colateral e a maioria dos experimentos hoje
não infligem dor aos sujeitos. Por exemplo, mesmo sem choques,
algo (ou alguém) que sinalize privação iminente lançará ao ataque
um sujeito. Vemos isto acontecer quando um pombo de laboratório
pode obter grãos bicando um disco verde, mas pára quando o disco
se torna vermelho, o alimento se torna não-disponível e o bicar sem
sucesso. O pombo aprende facilmente a bicar o disco quando está
verde e a parar quando ele se torna vermelho. Agora, colocamos um
segundo pombo na caixa. O trabalhador ignora o recém-chegado
enquanto o disco estiver verde, mas quando ele se torna vermelho,
indicando que não há mais alimento, o trabalhador viciosamente
ataca o outro pássaro. De maneira semelhante, um macaco, diante
de um sinal que diz "Não há mais comida" atacará uma barra de
morder. Pessoas em situações semelhantes de laboratório provavel-
mente atacarão objetos inanimados, esmurrando e chutando a pare-
de, uma almofada ou qualquer coisa que esteja à mão, ao mesmo
tempo que apertam seus dentes e contraem os maxilares agressiva-
mente.
Portanto, punição e privação levam a agressão. Mas coerção
induz mais do que apenas o ato agressivo em si mesmo. Depois de
ser punido, um sujeito fará qualquer coisa que possa para ter aces-
so a outro sujeito que ele possa então atacar. O animal punido pode
ser colocado em um compartimento e um par inocente em outro
compartimento, com uma porta fechada entre eles. Se o animal
punido puder chegar ao outro pressionando uma barra para abrir a
porta, rapidamente aprenderá a fazê-lo. Para alguém que acabou de
ser punido, a própria oportunidade para atacar prova ser um refor-
çador positivo.
A maioria das espécies de mamíferos vive em ambientes sur-
preendentemente coercitivos. Um mecanismo de ataque inato, libe-
rado pela experiência de. ou apenas ameaça de dor ou de perda
poderia ter evoluído. A dor em si é um sinal de desastre iminente.
Espécies cujos membros não reagissem adaptativamente ã dor e à
ameaça de dor não teriam sobrevivido por muito tempo. A prevenção
de dor por meio da fuga, se o ataque parecer muito arriscado, e a
prevenção pelo ataque, se fugir for impossível, têm promovido sobre-
vivência. A aproximação de membros de outras espécies, e algumas
vezes de indivíduos das mesma espécie, provê sinais de perda poten-
222 Murray Sidrrvan

ciai de alimentos, territórios, companheiros e parceiros sexuais; ata-


ques a estranhos ou a membros de outros grupos têm sido um
mecanismo de sobrevivência para o indivíduo e a espécie: "A melhor
defesa é um bom ataque."
Um mecanismo de ataque inato não funcionaria se exigisse
identificação acurada da fonte de punição ou ameaça. Qualquer
choque é provável de vir de algo ou alguém próximo; nada além
disso é necessário para que o mecanismo tenha evoluído. Portanto,
uma vez que tenhamos recebido um choque, o objeto do nosso
contra-ataque não precisa ser o verdadeiro culpado: "Atire em qual-
quer coisa que se mova." No laboratório, choque ou privação exter-
namente impostos incitam o ataque, o qual, então, fica sob controle
do ambiente local. O sujeito reage com a agressão contra um indiví-
duo próximo, ainda que aquele indivíduo possa não ter sido de modo
algum responsável pelo choque.
Não-realista? Diga isto para qualquer um que, apenas por ter
estado presente em um momento de dificuldade ou calamidade,
torna-se o bode expiatório, um objeto de contra-agres são imerecida.
Diga isto ao viajante inocente, assassinado por terroristas em reação
à prisão de membros do grupo terrorista. Diga isto para a pessoa
que, por causa do mais leve indício — alguém que se parecia com ele
foi visto nas vizinhanças quando uma criança foi assassinada —
ouve a família chocada exigindo sua vida em troca. Diga isto para
os pacíficos moradores de vilarejos do Líbano e de Israel, cujos
lares e famílias foram totalmente destruídos no ciclo de violência e
contraviolência em que se enredaram seus governos.
Agressão que surge como um efeito colateral próprio da coer-
ção coloca muitas questões que ainda precisam ser respondidas.
Entretanto, mesmo neste ponto, a consciência de agressão induzida
por punição poderia nos fazer parar toda vez que nos encontramos a
ponto de infligir punição. Como punidores, não apenas nos estabele-
cemos como alguém de quem se foge ou esquiva, mas também nos
descobrimos recebendo pagamento em espécie, objetos de contra-
ataque induzido por punição. Isto pode acontecer em nossos papéis
como pais, esposos, professores, policiais, líderes militares, adminis-
tradores, empregadores ou funcionários governamentais — quando
quer que estejamos envolvidos em atividades que se referem a in-
fluenciar a conduta de outros.
Professores que se concentram na disciplina em vez da ins-
trução descobrem-se cada vez mais sujeitos à contraviolência dentro
e fora da sala de aula. Um problema importante para juizes em
julgamentos de divórcio é distinguir entre necessidades econômicas
Coerção e suasimplicações 223

e um esposo rejeitado, faminto por revanche. Figuras públicas, ricas e poderosas,


tendo sua venalidade exposta pelas notícias da mídia, exploram o sistema legal
como um instrumento de revanche, drenando recursos financeiros da mídia que os
ofende.
Práticas coercitivas podem gerar contra-ataque contra indivíduos e grupos
dos quais eles são membros. São necessários apenas uns poucos tiros descuidados
para produzir o ódio de toda uma comunidade sobre toda a força policial; umas
poucas traições da confiança pública para transformar todos os políticos em objeto
de desprezo público; uns poucos casos bem-divulgados de "terapia aversiva" para
originar um clamor público pela abolição da ciência da análise do comportamento.
"Uma laranja podre estraga o resto."
A mera presença da polícia em um piquete é suficiente para liberar violência.
Uns poucos "conselheiros militares" entre grupos revolucionários em um outro
país são suficientes para fazer com que o governo daquele pais se alinhe com inimigo
dos Estados Unidos. Quando milhares de cidadãos de um país governado
coercitivamente desaparecem depois de terem sido levados pela polícia, a descoberta
de "observadores" americanos nas escolas de polícia toma tudo e todo americano
objeto de desprezo, ódio e represália violenta. Políticos atingidos por notícias
desfavoráveis criam legislação para calar a imprensa. Indústrias atingidas por
regulamentos que as forçam a devolver ao público seus lucros excessivos e a limpar
sua própria poluição, montam campanhas lobistas contra "a interferência do estado
na livre competição". Quantos daqueles que, professando o pacifismo e abominando
a violência, têm, entretanto, pensado que poderíamos resolver o problema do lixo
nuclear transformando uma das nações terroristas em uma lata de lixo?
Coerção severa, então, gera uma contra-reação quase automática. Mas
isto não termina aí. Retaliação bem-sucedida prove reforçamento rápido e
poderoso. Aqueles que estavam por baixo tornam-se os poderosos, aqueles
que eram os temidos opressores agora buscam seu favor. É fácil ver como a
agressão poderia tornar-se um novo modo de vida para os inicialmente
subservientes. O próprio sucesso da contra-agressão pode colocar em
movimento uma estrutura autoperpetuadora de um modo de vida agressivo.
Aqueles que anteriormente nada tinham agora tudo têm. A agressão que
levou às novas vantagens pode agora ser usada para ajudar a mantê-las. A
todo momento vemos revolucionários transformarem-se em cópias carbono
dos regimes que derrubaram; o ciclo de coerção e represália repete-se
incessantemente.
224 MurraySidman

Como nosso apêndice, que supostamente uma vez teve uma função útil,
o mecanismo inato de agressão induzida por punição e privação é um anacronismo
evolucionário; ele não mais prove uma vantagem para a sobrevivência e, ao
contrário, envenena seu hospedeiro. A ciência transformou a guerra em um
instrumento de autodestruição. Ela também nos deu o conhecimento técnico
necessário para eliminar a fome e a pobreza que têm freqüentemente instigado a
agressão internacional. A informação pode agora ser transmitida com tal
velocidade que a ignorância não é mais uma desculpa para o conflito. A tecnologia
agrícola tornou possível que todos no mundo tenham alimento suficiente. Materiais
e tecnologia de construção colocaram a habitação adequada ao alcance de todos.
Fome e ausência de habitação tornaram-se tragédias desnecessárias. A análise
científica do comportamento, embora esteja longe de prover todas as respostas de
que necessitamos, mostrou como ensinar efetivamente e como influenciar a conduta
não-coercitivamente. Com tais recursos construtivos disponíveis, a civilização
não pode se dar ao luxo de reações automáticas e impensadas às pressões coercitivas

Contracontrole

A longo prazo, o controle coercitivo continua a funcionar somente se


o controlador tiver uma população cativa. Mas, mesmo se os punidos forem
confinados ou restringidos fisicamente e não puderem escapar, a coerção
inevitavelmente produz um de seus mais proeminentes efeitos colaterais:
contracontrole. Se as pessoas não podem fugir ou esquivar-se, elas descobrirão
uma outra maneira de acabar com punições ou ameaças de punição; elas
aprenderão como controlar seus controladores. Alunos que são punidos por
não aprenderem suas lições, rapidamente aprendem como lidar com a situação.
Seu contracontrole pode ou não envolver agressão aberta: eles fingem doenças,
ou realmente tornam-se doentes; eles copiam de outros alunos; eles distraem
outros alunos e disruptam toda a situação de aprendizagem, tornando
impossível para o professor distingui-los; ou, em uma direção aparentemente
oposta, um estudante explora sua personalidade envolvente, "jogando charme"
e desviando o professor de uma avaliação válida de seu desempenho; ou,
como parece estar acontecendo cada vez mais freqüentemente, alunos atacam
fisicamente o professor. Se o professor é muito forte, ou as autoridades muito
poderosas para que os alunos os enfrentem, à noite eles destroem ou ateiam
fogo na escola. Vandalismo na escola, uma medida de
Coerção e suas implicações 225

contracontrole contra a coercitividade da escola, recebe uma certa


dose de simpatia, mesmo entre aqueles que dizem condená-lo; em
alguns lugares, educação e coerção significam a mesma coisa.
Alunos nos anos básicos e intermediários demonstram todo
seu repertório de contracontrole quando uma professora substituta
assume a aula. Tantos professores usam de coerção como sua técni-
ca-padrão de controle que alunos os pintam a todos com as mesmas
cores. Com professores como um grupo tendo se tornado choques
condicionados, alunos desenvolveram suas próprias medidas-padrão
de contracontrole. Quando um novo professor aparece, sua primeira
prioridade é descobrir o que funcionará melhor e eles fazem com que
o professor passe por seu estoque de contramedidas. Todos os pro-
fessores substitutos sabem e temem o que vão encontrar quando
entram pela primeira vez em uma sala de aula.
Governos repressivos finalmente sucumbem ao contracontro-
le. Supressão contínua e severa das tentativas de indivíduos para
satisfazer suas necessidades econômicas e atingir outros objetivos
pessoais finalmente produz revolta. O ciclo coercitivo — controle,
contracontrole, contracontracontrole e assim por diante — finalmente
leva a uma supressão tão severa que deixa as pessoas com nada a
ganhar por submeter-se e nada a perder por rebelar-se. A deposição
de um governo que controla todos os recursos militares e econômicos
não é fácil; algumas vezes leva mais do que o tempo de vida indivi-
dual, mas contracontrole, de início algo que apenas incomoda aque-
les no poder, gradualmente se acelera até que seja bem-sucedido.
Tiranias não reconhecem que o ciclo de escalada de coerção e con-
tracoerção pode ter apenas um fim.
Nas prisões, populações realmente cativas têm aperfeiçoado o
contracontrole a um tal refinamento que algumas vezes é difícil dizer
quem são os controladores, os guardas ou os prisioneiros. Assassina-
to, estupro e outros tipos de violência física são mantidas em vigor
menos por trancas e barras do que por acordos não-escritos; "você
mantém as drogas entrando e nós manteremos tudo em paz"; "às
2:45, no pátio, olhe em outra direção e ninguém jamais saberá
sequer o que aconteceu. De outra forma, você jamais será capaz de
se virar novamente"; "meus amigos lá fora cuidarão de sua mulher.
Q tipo de cuidado dependerá do que eles souberem de mim. Garanta
que eu tenha um trabalho de escritório com acesso ao telefone".
Mas prisões não são sistemas fechados. Novos prisioneiros,
com novas demandas e suporte de fora, provocam rearranjos de
interesses de grupos entre os prisioneiros e entre prisioneiros e
guardas. Novos administradores, com novas filosofias de justiça e
226 Murray Sidrrvan

punição, instituem restrições mais rígidas. O equilíbrio de poder


nunca é constante. Ã medida que as demandas dos prisioneiros
tornam-se irrazoáveis, ou a repressão torna-se insuportável, uma
rebelião torna-se a técnica de contracontrole escolhida. A violência
indescritível de ambos os lados, durante uma rebelião, assegura aos
prisioneiros divulgação e freqüentemente muda o equilíbrio de po-
der, mais uma vez a seu favor. Inerentemente coercitivas, prisões
transformam mesmo o mais humano dos guardas em um bruto —
aos olhos dos prisioneiros. eO contracontrole inevitável transforma
mesmo o mais gentil dos prisioneiros em um monstro — aos olhos
dos guardas.
Prisão, naturalmente, é em si uma forma de contracontrole
que a sociedade produz contra aqueles que quebram suas regras. A
sociedade também pratica ou sustenta outras formas de contracon-
trole, nem todas elas justificáveis como medidas protetoras. Nas
instituições, onde a pressão pública reduziu enormemente o uso de
restrição física para controlar o retardado ou o psicótico, restrição
química é ainda praticada extensivamente. Drogas têm substituído a
camisa de força como uma maneira de controlar pacientes que não
colaboram.
Pacientes institucionalizados que mostram distúrbio visível
— talvez justificado — com relação à alimentação, a programas
terapêuticos ou à dignidade de suas interações com a equipe prova-
velmente receberão drogas "para acalmá-los". E uma vez que uma
droga se demonstre bem-sucedida em tornar o paciente cooperativo
é improvável que alguém faça mais tarde um teste para determinar
se a dose é muito alta ou se a droga ainda é, de todo, necessária.
Drogas psiquiátricas são, elas mesmas, uma técnica de contracon-
trole particularmente útil para terapeutas que são incapazes de ou
que não estão dispostos a identificar as causas ambientais da con-
duta qUe supostamente devem tratar.
Crianças hiperativas exigem muito de seus ambientes. Elas
disruptam classes, quebram coisas, fogem e criam um estrago gene-
ralizado, coagindo seus pais, professores e terapeutas a prestar-lhes
constante atenção. Mesmo quando a hiperatividade se origina de um
problema orgânico, ela é ainda freqüentemente controlável corapor-
tâmentalmente. Se a criança mostrou uma razoável habilidade para
aprender, reforçamento positivo para atividades construtivas, fre-
qüentemente, reduzirá ou eliminará a hiperatividade perturbadora.
Entretanto, drogas continuam sendo o tratamento usual para crian-
ças superativas. Não-cientes de que técnicas comportamentais estão
Coerção e suas implicações 227

disponíveis, médicos desesperados recorrem à restrição química


como uma última medida de contracontrole.
No ambiente familiar, também, coerção produz contracontro-
le. Lágrimas brilhando nos olhos de uma criança freqüentemente
transformam punição iminente em desculpas. Um silêncio impassí-
vel do transgressor, mantido até que a parte ofendida ofereça um
gesto de reconciliação, esvazia a crítica. Uma esposa reage à chanta-
gem sexual com infedilidade. O aparelho de som a todo volume de
um adolescente impede os pais de confiná-lo em casa. Vomitando na
mesa, uma criança esquiva-se de comer alimentos de que não gosta.
A ameaça de birra de uma criança mimada pode transformar um
"não" em um "sim". Pais que estão desanimados porque a extrema
agressividade de seus filhos os coloca diante de problemas com a lei
poderiam muito bem examinar como eles mesmos controlam o com-
portamento de seus filhos. Filhos de pais extremamente coercitivos,
por sua vez, aprenderão formas de contracontrole excessivo. ^
Contracontrole não é visto no laboratório com freqüência. A
razão é bastante simples: sujeitos não-humanos, enclausurados em
um espaço experimental, não podem atingir o experimentador e su-
jeitos humanos simplesmente são pouco freqüentes. Algumas vezes,
naturalmente, não-humanos reagem. Animais de circo, animais que
vivem em zoológicos e animais de laboratório ocasionalmente vol-
tam-se violentamente contra seus encarregados. Sabe-se que ani-
mais, em apresentações públicas, atiram objetos ou dirigem um
jorro de urina aos espectadores, tomando, assim, uma certa medi-
da de revanche contra observadores que os aborrecem e incomo-
dam. Entretanto, o ambiente de laboratório permite aos sujeitos
não-humanos pouco contato com os experimentadores; contra-
agressão raramente é possível. O fracasso dos cientistas em obser-
var contracontrole no laboratório deve-se em grande parte ao fato de
que suas próprias técnicas de investigação o impedem.
Porque eles têm fracassado em ver e investigar contramedi-
das que seus sujeitos poderiam tomar se fossem menos confinados,
analistas do comportamento freqüentemente desconsideram o con-
tracontrole quando avaliam ou aconselham os outros a respeito de
punição. A pesquisa de laboratório tem sido bem-sucedida em pro-
duzir conhecimento exatamente por causa do controle que permite;
em nenhum lugar fora do laboratório tal controle é possível. Mesmo
humanos cativos finalmente desenvolverão medidas de contracon-
trole. Qualquer consideração de punição como um método de con-
trole comportamental deve levar em consideração este efeito colate-
ral importante.
228 Murray Sidrrvan

Quem controla quem? Analistas do comportamento conside-


ram como certo o controle da conduta, estudando e tentando enten-
dê-lo no laboratório e na clínica. Pessoas que não estão familiariza-
das com a disciplina, ou que se incomodam com a noção de que a
sua própria conduta é determinada algumas vezes vêem analistas do
comportamento como defensores do controle comportamental. Isto é
análogo a ver físicos não como investigadores, mas como "propulso-
res" das leis da gravidade, ou imunologistas como pessoas que ten-
tam "fraudar" o sistema imunológico. Discussões que começam com
a questão "o comportamento é controlado?" freqüentemente termi-
nam com a questão "o comportamento deveria ser controlado?" E,
então, com uma astúcia sarcástica em relação ao analista do com-
portamento, o oponente do controle quase inevitavelmente pergunta:
"Mas quem vai controlar?" Analistas experimentais do comporta-
mento não defendem controle comportamental: eles o estudam. Ana-
listas aplicados do comportamento não tornam a conduta controlá-
vel; dado o controle existente, eles tentam modificá-lo em direções
que indivíduos e comunidade considerem desejáveis.
"Comportamento deveria ser controlado?" é para o analista
do comportamento uma questão sem significado. Comportamento
está sempre sendo controlado; nós não temos opção. Mas a questão
de quem vai controlar permanece uma preocupação para todos, par-
ticularmente quando controle coercitivo predomina. Voluntariamen-
te entregamos amplas áreas de controle sobre nossa própria conduta
a outros, mas aqueles a quem confiamos este controle — os legisla-
dores e os que fazem cumprir a lei, professores, agências regulado-
ras de todos os tipos — algumas vezes abusam de seu poder. E
algumas vezes nos descobrimos sobrecarregados com controle ao
qual não nos submetemos voluntariamente — o governo torna-se
ditatorial, as leis são aplicadas seletivamente, punições cruéis e
não-usüais são administradas, a vigilância de movimentos e da fala
leva à restrição e à censura. Analistas do comportamento são vistos
como suspeitos de querer aplicar este conhecimento em seu próprio
benefício. Estes e outros problemas potenciais causam desconfiança
em relação ao controle comportamental e estão subjacentes à ques-
tão de "quem".
Todas as tecnologias são passíveis de má aplicação e a tecno-
logia comportamental não é exceção. Embora um entendimento
crescente da coerção traga consigo a possibilidade de melhorar mui-
to aquilo que está errado em nossas vidas, ele também torna possí-
vel uma exploração mais fundamentada, fria e efetiva de técnicas
coercitivas. Contracontrole provê o mecanismo corretivo contra tal
Coerção esuasimplicações 229

exploração respondendo à nossa preocupação sobre quem controlará.


Negar a existência do controle não prove resposta segura à questão de
quem controlará. Tal negativa apenas deixa o controle nas mãos daqueles
que coagiriam o resto de nós em seu próprio beneficio. Reconhecer a
universalidade do controle, com seu amplo componente coercitivo, é o
primeiro passo para o contracontrole efetivo.
Mais cedo ou mais tarde, tiranos poderosos e egoístas têm o seu castigo.
Mesmo antes de uma revolução real, um cidadão coagido aplica contracontrole
que ajuda a equilibrar a severidade da repressão governamental. De algum
modo, a colheita não atinge as expectativas; a produção industrial fica aquém
das cotas exigidas; pichações expressam sentimentos hostis; atos-relâmpago
de violência mantêm a polícia e forças militares em posições defensivas;
panfletos, livros e outras publicações "subversivas" evitam a censura por rotas
tortuosas; atletas, escritores e artistas famosos exilam-se em outros países. Os
aplicadores de choques descobrem-se ocupados desviando-se dos
contrachoques. Pode levar muitos anos antes que o contracontrole final seja
bem-sucedido mas, enquanto isto, medidas menores abrem seu caminho.
Nos Estados Unidos, em vez de assumir a tarefa impossível de
eliminar o controle, deliberadamente atribuímos responsabilidade pelo
controle comportamental a indivíduos e instituições específicos. Estes
variam de pais e escolas a representantes eleitos e forças militares. A o mesmo
tempo, introduzimos contracontrole em nosso sistema social e legal.
Estabelecemos mecanismos para excluir do cargo executivos e legisladores
que exploram a confiança neles depositada, mecanismos para ação legal
contra aqueles que executam atos anti-sociais, para proteção policial e
militar contra agressão local e internacional, permitindo que posições
opostas — trabalho e gerenciamento, Leste e Oeste, comércio e preservação,
conservador e liberal — sejam ouvidas, em vez de suprimidas. Os
mecanismos de equilíbrio são frágeis, algumas vezes parecendo pender tão
completamente, que o lado mais pesado começa a aplicar pressões
coercitivas contra o outro. E assim, vemos um presidente, eleito por ampla
maioria, concluindo que ele representa apenas aqueles que votaram nele.
Encontramos empresas afundando por causa de dificuldades econômicas
gerais, ameaçando de falência para coagir seus empregados a aceitarem
reduções em seu salário. Em tempos de receitas municipais decrescentes,
vemos prefeitos e agências públicas sacrificando amplas áreas de suas cida
230 Murray Sidrrvan

des, física, social e esteticamente, para se beneficiar das vantagens


financeiras do desenvolvimento imobiliário. Mas, negro como tem
sido o panorama, para diferente; interesses em vários momentos, a
exploração coercitiva, seja legal ou ilegal, não tem persistido. A longo
prazo, os mecanismos de contracontrole funcionaram. Se eles conti-
nuarão a funcionar ou se serão colocados para operar a curto prazo
pode depender de nossa disposição de estabelecer mecanismos for-
mais de contracontrole que tirem proveito de, em vez de negar a
realidade do controle comportamental.
15

(Por que fazemos isso?

Por que a coerção é tão universal? A punição envenena rela-


ções, empurra crianças para fora da família, subverte a aprendiza-
gem, gera violência e nos torna doentes. O reforçamento negativo
produz vidas de desespero, esmaga a engenhosidade e a produtivi-
dade, transforma a alegria em sofrimento, confiança em medo e
amor em ódio. A coerção é responsável por tanta miséria; por que
ela persiste? Podemos apenas tentar nos adaptar o melhor que pu-
dermos à coerção da natureza, mas devemos ser capazes de fazer
algo mais construtivo sobre a nossa própria coerção. Precisamos
entender nossa própria conduta.

Criaturas do momento
Por que acreditamos tão fortemente na punição? Por que
controlamos os outros levando-os a fugir ou esquivar de punição?
Sempre que quisermos conhecer as razões de qualquer conduta, a
primeira questão a fazer é: "Qual é o reforçador?" Qual é o nosso
pagamento por punir e ameaçar punir? Se pudermos encontrar o
reforçador, teremos dado um enorme passo na direção da compreen-
são de nossa própria conduta e, então, de fazer algo por ela.
232 Murray Sidrrvan

Para descobrir o que nos reforça por punir os outros, olhe


para o que acontece imediatamente depois. Este primeiro efeito pode
ser claro e dramático; punir pessoas as faz interromper o que estive-
rem fazendo. Este é o nosso reforçamento. Embora talvez não per-
manente, a cessação imediata do ato punido é a base para nossa
crença na punição.
Todos os efeitos colaterais vêm mais tarde. Podemos estar
totalmente não-conscientes das repercussões atrasadas — a fuga e a
esquiva, o contracontrole, a supressão, a rigidez e a incapacitação
que nossa punição engendra. O que vemos acontecer primeiro — a
conduta punida pára — influencia-nos mais fortemente. Este é o
sentido no qual somos criaturas do momento. Esta é provavelmente
a principal razão porque nos agarramos à punição como nosso prin-
cipal meio para controlar comportamento; seu efeito imediato é for-
temente reforçador — para nós, como punidores.
É isto que queremos? Podemos ficar satisfeitos quando um
problema parece desaparecer, mas reaparece mais tarde de uma
forma mais séria? Infelizmente, lógica e princípios do comportamen-
to estão em desavença aqui. Uma vez que saibamos o que a punição
realmente faz, a lógica nos diz que deveríamos encontrar algum
outro caminho. Mas, quando se passa para o controle de nossa
conduta, a lógica por si mesma não compete com êxito com o refor-
çamento imediato. A lógica necessita sustentação do ambiente.

"Coerção é fácil"
Uma ação punida pára imediatamente, ajudando a criar a
ilusão de que a punição realmente cumpre sua tarefa. Um tapa
ligeiro, um grito, ou apenas um gesto ou olhar ameaçador podem ser
suficientes para fazer com que crianças, cônjuges ou alunos inter-
rompam o que estão fazendo. Com um esforço mínimo, um refém
aprisionado, um oficial assassinado ou uns poucos cidadãos depor-
tados ou baleados mantêm-se instituições, comunidades e nações
na linha.
A curto prazo, a punição é freqüentemente o caminho fácil,
mas "fácil" é uma coisa relativa. Embora Bobby Fisher fizesse pare-
cer fácil participar de um campeonato de xadrez e Martina Navratilo-
va jogar tênis, não é fácil para nós imitá-los. Coisas feitas por espe-
cialistas sempre parecem fáceis, mas geralmente eles trabalham
duro para fazê-las parecer assim. É possível, também, influenciar
comportamentos de maneiras não-punitivas e fazer isto parecer fá-
cil, mas aprender como fazê-lo exige trabalho. Punição é fácil no
Coerção e suas implicações 233

sentido de que não requer treinamento especial. Entretanto, com


exposição adequada à análise do comportamento, o uso do reforça-
mento positivo e outras técnicas não-coercitivas pode tornar-se a
segunda natureza, parecendo até mesmo tão fácil quanto a coerção e
agindo não menos rapidamente. Não há razão porque maneiras não-
coercitivas para influenciar e guiar uns aos outros precisem perma-
necer restritas a especialistas, exceto talvez em casos como deficiên-
cias desenvolvimentais, nos quais esforços especiais são requeridos.
Eu direi mais sobre isso nos capítulos finais.
E então, quando ampliamos nossa visão, vemos imediata-
mente que a punição não é realmente tão fácil, afinal de contas.
Embora ela pareça funcionar, os problemas que surgem mais tarde
consomem esforço, dinheiro e sofrimento emocional; freqüentemen-
te, é muito tarde para resolvê-los. Os efeitos colaterais atrasados
devem ser contados como custos.
Mas, no presente, estamos atados. Nossas práticas coerciti-
vas solidamente arraigadas tornam difícil que nos libertemos. Como
no golfe, tênis ou piano, uma vez tendo aprendido os movimentos
errados, descobrimos ser difícil mudar. O primeiro efeito de qual-
quer mudança é nos fazer ter um desempenho pior e não melhor.
Similarmente, na época em que atingimos a idade adulta, hábitos de
coerção já se tornaram fixos; a mudança torna as coisas inicialmen-
te piores. Quando aprendidos desde o início, os movimentos corretos
não são mais difíceis que os movimentos incorretos, aqueles que
começam corretamente descobrem ser fácil continuar melhorando.
De algum modo temos que começar com nossos filhos se quisermos
reverter o padrão tradicional que faz com que alternativas à coerção
pareçam impraticáveis.
Existem outras maneiras de fazer o que a punição faz, mas
sem os seus efeitos colaterais? Podemos produzir mudanças em
nossa própria conduta rearranjando nosso ambiente para encorajar
alternativas à punição? Compreender as leis do comportamento é o
primeiro passo. Nos próximos capítulos vou sugerir algumas dire-
ções às quais tal compreensão poderia nos conduzir.

Alguma coerção é inevitável


Atos de Deus. Não podemos ter a expectativa de eliminar
toda a coerção da vida. Por uma razão: a natureza é inerentemente
coercitiva. Junto com sua intrincada beleza, recursos úteis e oportu-
nidades para descoberta e criatividade, a natureza também nos for-
ça a construir e manter salvaguardas contra incêndio, tempestade,
234 Murray Sidrrvan

fome, enchente e doença. Quando apenas defesas triviais são possí-


veis, corro em terremotos, erupções vulcânicas, tornados e ressacas
de marés, dependemos de mecanismos de aviso com antecedência
para nos dar tempo suficiente para escapar. Então, os que têm sorte
heroicamente acorrem para resgatar os menos afortunados, aqueles
cujos "atos de Deus" deixaram feridos, desabrigados ou sem família.
A morte é o coercedor último. Embora inevitável, ela é fre-
qüentemente adiável: escolhemos com cuidado onde construiremos
nossa casa e seguimos padrões de construção que reduzem a pro-
babilidade de desastres fatais; buscamos tratamento médico quando
a doença ameaça e prevenimos epidemias com imunização e aplican-
do padrões de saneamento, preservação e preparação de alimentos;
estabelecemos sistemas de inspeção para garantir a segurança de
aviões, trens, ônibus e automóveis. Alocamos recursos públicos e
privados substanciais para o adiamento da morte.
Mesmo a inevitabilidade da morte controla muito de nossa
conduta. A certeza de deixar este mundo nos engaja em ritual espiri-
tualmente orientado, sob o controle da religião institucionalizada;
ela nos envolve em ritos de testamentos, propriedades e heranças,
sob o controle de advogados e contadores; ela nos coloca contra o
cobrador de impostos que reclamaria de nossos filhos uma porção
considerável de nossos recursos arduamente obtidos depois que nos
formos. A alta probabilidade de desastre natural e a inevitabilidade
da morte são fontes importantes de coerção, determinando como e
quando gastamos muito de nosso tempo, energia e recursos. Muito
freqüentemente, estas lutas contra a natureza também fornecem um
modelo para nossas interações.

Competição. Alguma coerção social também é inevitável. Pro-


vavelmente, ainda somos dirigidos por algumas disposições heredi-
tárias em relação à possessividade territorial e sexual. Recursos
úteis ou valiosos, freqüentemente já limitados em quantidade, estão
se tornando cada vez mais escassos à medida que os proprietários e
üsuários destes bens afirmam seu "direito" de gastá-los. Muitas
oportunidades de desenvolvimento econômico, político, educacional
oü profissional são abertas apenas para uns poucos. Desde que não
há riÇúezas, poder, recursos e sucesso suficiente para ser dividido, o
ganho de uma pessoa significará a perda de uma outra.
Conflitos de interesses pessoais entre indivíduos também são
tão inevitáveis que consideramos a competitividade como um traço a
ser admirado. Nós a promovemos explicitamente por meio da compe-
tição institucional. Idolatramos heróis do esporte; combates atléticos
Coerção e suas implicações 235

de todos os tipos traz grandes somas de dinheiro para os gladiado-


res, dos seus patrocinadores e dos milhões de espectadores. Conce-
demos bolsas de estudos por mérito aos melhores estudantes, dei-
xando os quase-melhores à sua própria sorte. Garantimos prêmios
monetários aos líderes nas artes, ciências e profissões, enquanto
tentamos persuadir o resto de que a honestidade e a objetividade na
busca de conhecimento não têm preço. Concedemos privilégios espe-
ciais para aqueles que subiram ao topo em seus campos, freqüente-
mente ignorando os meios que utilizaram para chegar aí, muitas
vezes até mesmo estendendo a eles licença especial para operar fora
das leis que restringem a todos os outros; o "Chefao" que se tornou
importante por meio de assassinato, corrupção e fraude, explorando
o outro por meio de drogas, prostituição e jogo, recebe deferência,
estima e até mesmo admiração de herói da mídia e de um amplo
segmento do público em geral. Respeitamos vencedores e temos pie-
dade dos perdedores, mas desprezamos aqueles que se recusam a
competir.
Estamos tão ocupados admirando vencedores que não nota-
mos a coercitividade essencial da competição. Seja no esporte, na
política, nos negócios, em exames que dependem quase exclusiva-
mente de nossa posição em relação a outros, ou em um vôo para a
morte em um avião ou a cavalo, ou com um soldado inimigo, o
sucesso competitivo vem às custas de alguém. Nosso troféu, nosso
'10' no curso, nosso escritório político, nosso lucro nos negócios ou
o próprio presente da vida derivam valor — algumas vezes seu único
valor — do fato de terem sido tornados indisponíveis para alguém
mais. Ter ganho significa ter infligido ou ter desviado um choque em
uma outra pessoa, ter sujeitado um outro a privação ou ter tomado
de um outro a vida. É disto que trata a competição.
O reforçador de uma pessoa precisa ser o punidor de uma
outra? Provavelmente não podemos eliminar completamente a com-
petição; mas na medida em que a escassez a sustenta, certamente
podemos reduzir a necessidade de competir pelas necessidades da
vida. Em inumeráveis ocasiões a generosidade realmente prevalece;
aqueles que possuem um excedente de alimento, equipamento ou
competência vêm em auxílio de outros que passam por sofrimento
agudo. Precisamos esperar por emergências antes que compartilhe-
mos nossos recursos?
O compartilhar não precisa depender de altruísmo. Interesse
pessoal, iluminado pelo conhecimento das conseqüências de longo
prazo da privação forçada, torna a distribuição geral de recursos e
tecnologia eminentemente sensata. Porque vencer sempre vem às
236 Murray SícLman

custas de alguém, os perdedores do mundo finalmente reagem a


seus vencedores como o fariam em relação a qualquer fonte de
choques e privações. Os despossuídos de uma comunidade, culpan-
do aqueles que obviamente têm mais por suas próprias desvanta-
gens, agem fora da lei para redirecionar o equilíbrio. Os Estados
Unidos são odiados e temidos mundialmente por aqueles que vêem
sua extraordinária riqueza como sendo possível apenas às custas de
sua pobreza. Eles justificam sua agressão esporádica, porém cres-
cente, e seu contracontrole por meio de terrorismo, como defesas em
espécie contra a morte e violência cotidianas impostas a eles pelos
frios vencedores.
Não adiantará os complacentes vencedores simplesmente se
ressentirem de uma tal visão acusando-a de imprecisa e injusta:
"por que não copiar nossa prosperidade, em vez de tentar destruir-
nos?" Esta justificativa auto-indulgente ignora as realidades de am-
bientes duros e de falta de treinamento que negam a incontáveis
pessoas o acesso a recursos e a ganho potencial. A contínua postu-
lação moral — "a oportunidade está disponível para todos" — apenas
produzirá mais amargura e contracontrole violento. Sorte que não é
compartilhada não continuará. Se a explosão não acontecer em nos-
sa vida, nossos filhos e seus filhos terão de enfrentá-la.
Também não adiantará manter o problema controlado e ma-
nejável criando sistemas policiais e militares poderosos. Dentro de
uma comunidade, fortalecer a força policial apenas intensifica o
conflito. Internacionalmente, a represália militar ao terrorismo, em-
bora provavelmente inevitável agora que se permitiu ao terrorismo
ser tão freqüentemente bem-sucedido, apenas garante a continua-
ção do ciclo de atrocidade e contra-atrocidade.
Ainda pior, comprar proteção militar e policial nos coloca
finalmente sob o controle coercitivo dos protetores; a longo prazo os
executores dominam seus empregadores. Buscando estreitamente
mais e mais poder para cumprir a lei e manter a ordem, a polícia
perde de vista os direitos sociais e pessoais que a lei e a ordem
devem proteger; acaba por tomar a lei em suas próprias mãos,
não apenas protegendo-a, mas fazendo-a. E não importa quão
bem-sucedidas possam ser operações militares globais, a necessida-
de de mantê-las e intensificá-las nos torna perdedores; necessidades
de "defesa" finalmente tornam impossível manter o modo de vida
para cuja proteção estabelecemos o sistema de defesa. O sistema
militar se apropria de todos os recursos para seu próprio uso, bus-
cando também controle político a fim de proteger o que se tornou
seu próprio interesse. Dependência exclusiva da proteção da polícia
Coerção e suas implicações 237

e militar mais cedo ou mais tarde cria um estado policial. Acabamos


subservientes aos nossos defensores.
A questão não é lógica ou moral; o problema é comportamen-
tal. Enquanto outros nos virem como uma fonte de choques, eles
reagirão a nós como ao próprio choque — lógica, precisão e justiça
não importando. Competição é inevitavelmente coercitiva; coerção
produz afastamento, esquiva e, finalmente, contracoerção. Os vence-
dores de hoje se tornam os perdedores de amanhã; as leis do com-
portamento prevalecerão.
Somente alterando as contingências, as interações entre con-
duta e ambiente por meio das quais as leis comportamentais ope-
ram, começaremos a ver cooperação substituir contracontrole. Pode-
ríamos realmente construir uma sociedade que desvaloriza a compe-
titividade, reconhecendo-a como contraprodutiva em última instân-
cia? Ninguém sabe a resposta a esta questão, mas a análise do
comportamento torna clara a dificuldade. Os efeitos destrutivos da
competição e os resultados construtivos da cooperação são freqüen-
temente muito atrasados e a conduta é relativamente insensível a
conseqüências atrasadas. Não achamos fácil agir agora se não ve-
mos os benefícios imediatos.
E ainda assim, o problema não pode ser insolúvel. O que
podemos fazer para ajudar a cobrir o espaço entra ação e conse-
qüência, para colocar o que estamos fazendo agora sob controle de
seus resultados de longo prazo? O que iria nos fazer mudar uma
atividade atual com bt^se em suas conseqüências atrasadas, ainda
que as conseqüências imediatas pareçam vantajosas? Pode-se apon-
tar para pequenas indicações de que processos úteis realmente exis-
tem. A substituição da competição pelo compartilhar aparentemente
teve algum sucesso nos kibbutz de Israel, em algumas comunidades
utópicas e em outros grupos menos estruturados socialmente nos
Estados Unidos e em outros lugares. Estas comunidades relativa-
mente pequenas não resolvem o problema para todos, mas nem seus
sucessos nem seus fracassos têm recebido a análise que merecem.
Não nos beneficiamos das lições que elas têm para nós.
Alguns indivíduos também parecem fortemente orientados
em relação ao futuro, sofrendo dificuldades presentes para tornar as
coisas mais fáceis mais tarde. Muitos pais passam por desconfortos,
inconveniências e até mesmo necessidades para guardar dinheiro
para a educação de seus filhos; muitas pessoas privam-se de gratifi-
cação presente para fazer um seguro contra emergências, muitos
economizam sua renda atual para prevenir-se contra a menor capa-
cidade de obter recursos depois da aposentadoria; grupos ativistas
238 Murray Sidrrvan

procuram deter o previsível esgotamento de recursos naturais, a


destruição da camada atmosférica contra raios danosos e tempera-
turas extremas e a ameaça do holocausto nuclear. Que tipo de
história comportamental foi necessária para que conseqüências mui-
to atrasadas tivessem controle tão poderoso sobre a conduta desses
indivíduos? A análise do comportamento está apenas começando a
tentar responder a esta questão.
Na ciência, questões não-respondidas levam a experimentos.
Dados tornam possível decisões bem-informadas. Com a sobrevivên-
cia da espécie em jogo, poder-se-ia esperar ver experimentação so-
cial sendo efetuada, não para provar qualquer ponto particular, mas
para tornar disponíveis dados que serviriam de base para julgamen-
tos sobre a validade de práticas sociais. Já sabemos o suficiente
sobre coerção para ter certeza de que finalmente ela leva ao desas-
tre, mas não sabemos se a espécie humana é capaz de existir sem
mortal competitividade. Se a capacidade não existir, a questão esta-
rá automaticamente respondida; os humanos hão de se juntar a
seus ancestrais na extinção. Se o potencial existe de fato, temos que
descobri-lo e então explorá-lo.

Caridade. A inerente coercitividade da competição está sufi-


cientemente clara. Um resultado de competitividade desenfreada é o
nosso mundo partido em possuidores e despossuídos, uma estrutu-
ra que agora se prova instável. A caridade institucionalizada e priva-
da e as "redes de segurança" governamentais tentam prover níveis
mínimos de apoio para os mais severamente privados, mas eles nem
impediram o alargamento da lacuna econômica nem reduziram a
ameaça de instabilidade social.
Uma solução muito defendida para o problema de uma socie-
dade dividida em dois é impor a igualdade por meio da redistribui-
ção de toda a riqueza e recursos. Esta proposta toma uma de duas
formas, ambas coercitivas: uma é simplesmente tomar todas as pos-
ses das duas metades e dividi-las entre os despossuídos; a outra é a
pesada taxação pelo governo, o suficiente para prover estabilidade
para todos. Aqueles que exigem uma destas soluções não as pensa-
ram até seus resultados finais.
Redirecionar o desequilíbrio atual confiscando e redistribuin-
do, embora possa apelar para o sentido de justiça de alguns, não
produzirá estabilidade. Dada a continuidade da competitividade,
apenas veríamos ciclos repetitivos de concentração e subseqüente
redistribuição forçada de riqueza. Quais são as contingências aqui?
Vencer, embora seja recompensado de início, é finalmente punido;
Coerção esuasimplicações 239
perder, embora punido de início, é finalmente recompensado. Uma
conseqüência destas contingências serão ondas crescentes de opressão severa
crescente por parte daqueles que ganharam tudo e desejam mantê-lo e
contramedidas crescentemente violentas por parte daqueles que nada têm a
perder.
Tais ciclos de ganho e perda, perda e ganho simplesmente manteriam
eternamente os grupos em disputa, primeiro um dominando e, então, o outro.
Quão freqüentemente vimos este processo se repetindo no terreno da
propriedade? O governo se apropria de toda a terra e a devolve para "o
povo" — os pequenos agricultores. Não demora muito e alguns agricultores
ganharam tudo para si e mais uma vez o governo e os ricos experienciam
ataques violentos de proponentes revolucionários da reforma agrária.
Podemos ver um processo semelhante se iniciando em nossas cidades, onde
a falta de moradia popular está levando governos locais a impor pressões
confiscatórias contra proprietários de terra. A ferramenta coercitiva produzirá
apenas uma nova geração de monopolistas, aqueles que pegaram as menores
parcelas e a juntam novamente para seu próprio beneficio.
A política governamental de bem-estar, que pretende eliminar pelo
menos os extremos de riqueza e pobreza, acabará em uma sociedade dividida
em dois de um outro tipo, não mais satisfatória e produtiva e provavelmente
não mais estável que a atual. Já podemos ver os primeiros resultados da
segurança econômica, habitacional e de saúde que é provida
independentemente de qualquer coisa que o indivíduo faça ou deixe de fazer
— o que quer dizer, sem relação contingente entre conduta e conseqüência.
O que se supõe vir a ser uma sociedade sem classes está a meio caminho de
tornar-se uma nova estrutura de dois níveis, hospedeiro e parasita,
freqüentemente visto na natureza, mas raro, em grande escala, entre humanos.
Isto não é um julgamento de valor, nem um ataque ao liberalismo. É
uma conclusão que a análise do comportamento torna inevitável. Um estado
de bem-estar viola a primeira lei da conduta: o que as pessoas fazem é ditado
pêlo que acontece. Naturalmente, outros fatores modulam esta primeira lei;
conseqüências não agem isoladamente. Mas, é freqüentemente revelador
examinar projeções que não reconhecem como fontes de interferência os
processos básicos de reforçamento. Tais análises podem ser úteis por nos
mostrar para onde nos dirigimos se não modificarmos as contingências.
N o futuro , sem intervenção , quais são os dois níveis a serem
esperados do compartilhar não-contingente de todos os recursos da
comunidade e como surairão estes dois níveis? Um lado da socieda
240 Murray Sidrrvan

de do bem-estar conterá produtores, ou outro, parasitas. Pessoas da


classe trabalhadora irão se engajar interativamente em seu ambien-
te, mudando-o, deixando nele sua marca, construindo repertórios de
conduta variados em resposta às contingências naturais e sociais;
os trabalhadores levarão vidas produtivas e potencialmente satisfa-
tórias. Aqueles da classe de parasitas receberão tudo em troca de
nada, recostados com suas bocas abertas à espera de alimento, não
interagindo com e, até mesmo, alienados de seus ambientes; os
parasitas permanecerão infantis e não-produtivos. Este bem conhe-
cido problema familiar, a criança mimada, há de se generalizar para
toda uma sociedade.
Parasitas, com suas necessidades básicas satisfeitas, têm
pouco incentivo para mudar. Por que ser um produtor quando ou-
tros estão dispostos a fazê-lo por você? Por quanto tempo os produ-
tores vão se manter produtivos nestas circunstâncias? Por quanto
tempo vão se manter dispostos a dividir, quando virem os frutos de
seu trabalho desviado para aqueles que os obtêm simplesmente pa-
rando e esperando? A relação é inerentemente instável.
Problemas que se originam de acesso desigual aos recursos
do mundo não serão resolvidos aplicando-se medidas cada vez mais
severas para manter os despossuídos em seu lugar ou, simplesmen-
te, entregando-lhes uma parte. Ambas as soluções abordam o pro-
blema ao contrário, tentando impedir contra-reações, seja eliminan-
do os despossuídos, seja reforçando a passividade. Vimos que tenta-
tivas para eliminar comportamento são finalmente autoderrotadas.
Caridade não-contingente pode ser igualmente devastadora, tornan-
do doadores em hipócritas e recebedores em seres vegetativos.
A satisfação de nossas necessidades independentemente do
que quer que seja que façamos ou deixemos de fazer tornar-nos-á
essencialmente sem comportamento. Contingências ambientais ge-
ram novo comportamento; quando nossos atos produzem conse-
qüências, nós aprendemos. Quando essas conseqüências vêm inde-
pendentemente do que quer que seja que façamos ou deixemos de
fazer, nós ou não conseguimos aprender ou aprendemos, na realida-
de, a fazer nada.
Embora seja sensato e, freqüentemente, satisfatório compar-
tilhar os frutos do sucesso com os menos afortunados, está longe de
ser càritativo tornar este compartilhar não-contingente. Doar cega-
mente, em nome do humanitarismo, garante que aqueles que preci-
sam de caridade porque não têm capacidades produtivas manter-se-
ão incapazes. Não importa quão desagradável consideremos a noção
de controlar os outros por meio de doação contingente, nós os con-
Coerção e suas implicações 241

trolamos de qualquer modo—inadvertidamente, mas da mesma forma efetivamente


—por meio de caridade que não está relacionada a qualquer coisa que eles aprendam
ou consigam fazer. A caridade não-contingente produz e perpetua a pobreza.
Portanto, a caridade em si mesma não prove solução para os problemas
que a coerção competitiva coloca. Manter as pessoas sem comportamento não é
um favor para elas, as destrói. Uma classe social definida por incompetência e
ignorância, com a conseqüente inabilidade de seus membros para deixar essa classe
ou mesmo para se sustentarem a si mesmos dentro dela, finalmente tornará o
restante da sociedade ressentido. Tendo sido forçados, em nome da humanidade, a
se manterem no mesmo estado que os torna objetos de caridade, elesfinalmentese
tornam alvo de hostilidade e repressão.

Autodefesa e vingança. O poder das conseqüências imediatas garante


que a coerção nunca desaparecerá completamente. O mundo é imperfeito e
assim somos nós. Atingidos por choques, revidamos; esgotaua a nossa
paciência, por uma criança malcomportada, gritamos, estapeamos e
espancamos; acometidos por pânico, pela violência dos outros, retaliamos;
oprimidos por um poder insensato, um governo ambicioso, nos rebelamos e
praticamos revanche sobre nossos antigos exploradores; ofendidos por e
temerosos de conduta não-convencional, fazemos os não-conformistas "andar
na linha, ou assumir as conseqüências"; desesperados por trabalhar
incessantemente para nos afastar da pobreza, nos voltamos contra o sistema.
E demais esperar de nós mesmos que saibamos reagir o mais efetivamente
possível em cada situação, que saibamos agir sempre sabiamente não importa
quais as pressões do momento. E, assim, nós sempre cometemos erros, fazendo
aquilo que traz alívio imediato, a despeito, ou na ignorância, do que possa
acontecer mais tarde.
Erros ocasionais não precisam nos preocupar. Uma repreensão ou
um tapa de pais que são usualmente amorosos, preocupados e protetores
provavelmente não causará qualquer dano. Crianças e alguns adultos estão
sempre testando limites. Com um backgroundde reforçamento positivo, uma
punição defensiva aqui e ali provavelmente será tratada menos como um
choque do que como um sinal de que um limite razoável foi ultrapassado. Os
pequenos erros de momento cuidarão de si mesmos, conquanto que não os
deixemos escapar de controle. De maior preocupação é a necessidade de defesa
de agressão aberta e de alguns dos mais sutis ataques sobre as frágeis acomoda
242 Murray Sidrrvan

ções que permitem às comunidades sobreviverem a despeito de inte-


resses individuais em competição. Estes elementos coercitivos pro-
vavelmente não desaparecerão mesmo em uma utopia comporta-
mental. Os pecados clássicos, favorecidos por pressões ambientais
incontroláveis e por processos biológicos normais, sempre estarão
conosco. Nenhum ambiente, não importa quão não-coercitivo, pode
gratificar todo mundo e alguns sempre demandarão mais do que
outros estão dispostos a dar. A privação é relativa; o que satisfaz
alguns, deixará outros descontentes. Mesmo gêmeos idênticos não
manterão exatamente os mesmos equilíbrios hormonais e ritmos
biológicos, nem experienciarão exatamente o mesmo ambiente. Se
reduzíssemos fuga violenta, esquiva e contracontrole, substituindo
controle coercitivo por não-coercitivo, alguma coerção ainda desliza-
rá por meio do processo de aculturação, colocando em perigo o
resto. Autoproteção contra crime, engano, exploração, incompetên-
cia, ignorância e malícia sempre será necessária.
Temos de nos defender do ataque. Embora indivíduos pos-
sam efetivamente conter violência com não-violência, dar a outra
face não funcionará para a sociedade como um todo. Mesmo quando
nossa própria comunidade é culpada pela violência individual, não
se pode esperar que mergulhemos na culpa e permitamos que a
violência continue incontida. Autodefesa é a única justificativa inte-
ligente para responder à violência com violência, a única função
válida de guerras, prisões e pena de morte. Uma vez que nosso
mecanismo de controle coercitivo tenha produzido contracontrole
violento contra nós, temos de responder à agressão com nossos
próprios métodos de contracontrole. Não poderíamos esperar agir de
outra maneira; ninguém está acima das leis do comportamento.
Meramente escondemos esta verdade sobre nós mesmos,
quando tentamos justificar prisões e pena capital afirmando que
elas reformam criminosos e mantêm outros no caminho certo. Cri-
mes capitais continuam a despeito da pena de morte e prisões pro-
duzem mais crime que previnem. A análise do comportamento torna
claro porque as infrações continuam. Entretanto encarceramos ou
assassinamos transgressores, racionalizando nossa própria violên-
cia, afirmando que estamos reabilitando aqueles que erraram, ou
que estamos estabelecendo um exemplo que impedirá outros de
trilhar aquele caminho, ou que estamos obedecendo a um imperati-
vo moral.
Continuamos a justificar contraviolência como um método de
corrèção e reeducação, a despeito de todas as evidências de que
estes objetivos desejáveis continuam não-atingidos. Novamente,
Coerção e suas implicações 243

olhar para as conseqüências pode tornar nossa conduta compreen-


sível. O que conseguimos, simulando mandar transgressores para o
cativeiro para seu próprio benefício ou afirmando uma justificativa
moral para tirar a vida de um assassino? Estas autojustificações
funcionam como um mecanismo de esquiva. A sociedade proclama
que violência e assassinato são perniciosos; quando ela se compro-
mete com a violência e ela mesma pratica assassinato, ela só pode
reconciliar suas ações com seus padrões simulando estar fazendo
alguma outra coisa. A cultura e religião ocidentais prescrevem vin-
gança; a comunidade, praticando retaliação, disfarça isto em justiça.
A persistência de uma postura moral diante de fatos contraditórios
sugere fortemente uma camuflagem.
Ofensas não-violentas, usualmente não-ilegais, a doutrinas
religiosas, a padrões de conduta sexual e de concepções tradicionais
de relações maritais levam comunidades a uma fúria vingativa, inve-
josa ou ciumenta freqüentemente mais intensa do que suas reações
à violência aberta; elas cerram fileiras na sustentação de leis que
punem mulheres grávidas não-casadas, forçando-as a manter a gra-
videz até o final; elas censuram só aparentemente juizes que punem
mulheres pela audácia de queixar-se que seus maridos as maltra-
tam, e elas fecham seus olhos à perseguição baseada na preferência
sexual. Ignorando a natureza retaliadora de suas leis, a sociedade
assegura que a justiça retributiva continuará a dominar seu trata-
mento de agressores. Justiça passou a significar revanche.
A sociedade descobriria ser mais vantajoso dizer a ela como
ela é. Justificar suas contramedidas repressivas e violentas como
reações defensivas perfeitamente naturais. Reconhecer que prisões
fazem apenas duas coisas: primeiro, concretizar retaliação, privando
os transgressores de confortos, privilégios e liberdades; segundo,
proteger-nos, tirando os agressores de circulação. Admitir que a
perseguição é uma represália para a inveja, ciúme, medo que a
conduta não-padrão origina.
Sua postura moral impede a comunidade de reconhecer o
papel de suas próprias práticas coercitivas na produção de infrações
das quais ela mesma terá que se defender. Suas justificativas auto-
sustentadas afastam-na do exame das causas da conduta anti-so-
cial que ela quer impedir. Mantemos intocadas as práticas coerciti-
vas que iniciam a violência e contraviolência, a infração e contra-in-
fração recíprocas. E assim fechamos nossos olhos a absurdos.
Afirmamos que manter revólveres generalizadamente dispo-
níveis é a única maneira de evitar os crimes que a disponibilidade de
244 Murray Sidrrvan

revólveres torna possível. A propriedade privada de armas de fogo


não evita crime, mas torna a vingança possível.
Julgamos adolescentes incapazes de decidir se sua gravidez
deverá ser interrompida e, em vez disso, as forçamos a tornarem-se
mães. A contradição óbvia sugere que revanche, não-competência, é
a questão aqui.
Solicitamos que nosso tribunais decidam se a morte é uma
punição permissível para qualquer um com menos de 18 anos que
cometa um crime. Crianças — mesmo jovens adultos — pensam que
são imortais, só pessoas velhas morrem. Dizer aos jovens que eles
morrerão por um crime, não os de terá. Retirar seu toca-fitas portátil
seria uma ameaça mais eficaz. Mas revanche é mais fácil que pre-
venção.
Apoiamos leis que proíbem assistência pública para a inter-
rupção da gravidez, citando nossa relutância em pagar pela escolha
privada que levou à gravidez não-desejada. Então, calmamente acei-
tamos os gastos muito maiores de manter a mãe e o filho. A hipocri-
sia aparece claramente se substituirmos "escolha" por "prazer"; a
questão real é represália contra aqueles que se entregam a prazeres
proibidos.
Voltamos nossas costas para jovens vítimas de incesto, fre-
qüentemente justificando nossa inação apelando para a necessidade
de proteger os direitos da família de controle e privacidade. Então,
vamos em frente e culpamos a vítima por desejo de participação, ou
mesmo por sedução; que ela freqüentemente tenha menos de 18
anos parece não invalidar estes argumentos. Práticas coercitivas são
tão freqüentemente a norma que nossa sensibilidade foi embotada.
Só recentemente, quando as vítimas passaram a ser meninos e os
infratores os guardas e não os pais, os meios de comunicação têm
suscitado indignação pública em relação ao que é considerado coer-
ção inaceitável.
Acusamos a televisão de encorajar a violência, embora muito
da violência da tela retrate práticas de cumprimento da lei ou torne
explícita a intimidação-padrão, mas usualmente não-reconhecida,
com a qual a comunidade conta para se proteger, ou exiba a
contraviolência que é a regra, e não a exceção, nas relações nacio-
nais e internacionais. Talvez crianças não devessem ser expostas à
violência do mundo real, em idade precoce, mas iludimos a nós
mesmos quando acusamos a televisão de criar a violência que ela
apenas'imita. Nós mesmos criamos a violência.
Se pudéssemos levar nós mesmos a admitir abertamente que
aprisionamos e matamos transgressores para nos proteger, colocan-
Coerção e suas implicações 245

do-os fora do caminho, e para exigir vingança, poderíamos descobrir


ser possível olhar objetivamente para o que realmente ocorre nas
prisões; poderíamos, então, torná-las verdadeiramente reabilitado-
ras. Admitindo que matamos assassinos para impedi-los de tomar
mais vidas e para vingar as vidas que eles já tomaram, podemos
então tirar o peso do dilema moral sem solução e enfrentar com
determinação o que é necessário para a prevenção real. Reconhecen-
do a inveja e o ciúme que sustentam nosso sentido de deslealdade
quando outros vão contra os códigos tradicionais de conduta, pode-
ríamos nos permitir examinar o conteúdo coercitivo desses códigos,
poderíamos, então, descobrir ser possível estabelecer os mesmos
limites não-coercitivamente?
Admitir a necessidade de autodefesa não é vergonhoso, nem
o é o reconhecimento da vingança como uma reação à coerção. A lei
natural governa nossas ações quando outros nos dão choques. Ten-
do reconhecido isto, podemos revelar nossa auto-ilusão e ir adiante
para fazer algo construtivo em relação às práticas coercitivas que
nos tornam, por sua vez, objetos de contra-agressão e rancor.
16

Existe algum outro caminho?

Empatizamos com as pessoas que sofrem de dor e miséria e


com aqueles que foram mutilados ou privados pela violência e pela
repressão. O interesse pessoal nos lembra que, não fosse a sorte,
poderíamos ter sido os sofredores em vez de sermos os simpatizan-
tes. Por outro lado, também observamos e até mesmo invejamos o
conforto que muitos coercedores desfrutam. Mesmo quando lastima-
mos o sofrimento das vítimas, o interesse pessoal nos diz secreta-
mente que é melhor estar do outro lado. Será que o desejo de
eliminar a coerção de nossas interações mútuas é apenas um viés
pessoal, que não é mais legítimo que seu oposto? Certamente aí
reside uma questão de valor, quer sejamos a favor ou contra o
controle coercitivo.
Mas as objeções à coerção apóiam-se em outros fatores além
dás tendências emocionais. Os múltiplos produtos da punição e do
reforçamento negativo nos fornecem bases racionais para concluir
que estes tipos de controle contribuem para muitos problemas e
enfermidades sociais. O sucesso imediatamente visível da coerção
muitas vezes parece justificar seu uso, mas os efeitos colaterais
não-prétendidos, que algumas vezes aparecem muito tempo depois,
anulam o sucesso imediato. No final das contas, a coerção invalida
Coerção e suas implicações 247

seus próprios objetivos. Os efeitos colaterais podem também possuir


vida própria, continuando a produzir problemas muito depois das
causas iniciais terem desaparecido. A observação e a experimenta-
ção sistemáticas tiram a discussão do domínio dos julgamentos de
valor, impondo uma busca séria de alternativas.
A observação controlada da conduta no laboratório e em
outros lugares forneceu princípios gerais e algumas técnicas especí-
ficas, mas a maioria dos problemas na sociedade em geral são in-
trinsecámente complexos. Pode ser difícil aplicar estes princípios e
técnicas e avaliar seus efeitos. Mas os riscos são muito altos para
continuarmos apostando nas soluções coercitivas que são, na me-
lhor das hipóteses, bem-sucedidas apenas a curto prazo. Sabemos o
que a coerção faz; é hora de examinar o que mais poderia ser utiliza-
do. As sugestões que seguem não salvarão o mundo, mas pequenos
começos podem modelar nosso próprio comportamento em novas
direções.

Um princípio norteador
Já que o predomínio do controle coercitivo nos leva a aceitar
a punição e a ameaça como naturais e inevitáveis, muitas vezes
imaginamos que nossa única opção é o não-controle. Esta incom-
preensão básica do controle comportamental é um motivo para o
fracasso geral da sociedade na exploração e no desenvolvimento de
alternativas para a coerção. Ao descobrirmos e analisarmos as ori-
gens do comportamento cada vez mais complexo, somos obrigados a
concluir que a ausência do controle é uma ilusão. A associação de
influências hereditárias, biológicas, de pessoas e de lugares mode-
lam tudo o que fazemos. A opção de escolha entre o controle coerci-
tivo e o não-controle não está disponível. Uma vez que tenhamos nos
libertado do mito do não-controle, opções genuínas realmente se
evidenciam. Que tipo de controle queremos? Construiremos um am-
biente social coercitivo ou não-coercitivo?
Reforçamento negativo, reforçamento positivo e punição são
três fontes poderosas de controle comportamental. Os reforçadores
negativos fortalecem quaisquer ações que os façam cessar ou desa-
parecer. Os reforçadores positivos fortalecem quaisquer ações que os
tenham produzido. O único aspecto benéfico que o reforçamento
negativo nos proporciona é um sentimento de alívio; alguma coisa
ruim cessou ou foi-se embora. O reforçamento positivo nos deixa
com algo que desejamos, ou em condição de fazer ou obter algo
vantajoso, com comportamentos e recursos que nos ocupam produ-
248 Murray Sidrrvan

tivamente e com sentimentos que não são de alívio, mas de satisfa-


ção. Somos punidos quando acontece alguma coisa que seria negati-
vamente reforçadora se pudéssemos cessá-la — talvez o chefe que
nos repreende após chegarmos atrasados ao trabalho — ou quando
perdemos algo que seria positivamente reforçador se pudéssemos
produzi-lo — o pagamento das duas horas que o chefe descontou.
Coerção é controle por meio de reforçamento negativo e puni-
ção. O reforçamento positivo realmente controla comportamento tan-
to quanto a coerção. Mas ele pode nos ensinar novas formas de agir
ou manter aquilo que já aprendemos, sem criar os subprodutos
típicos da coerção — violência, agressão, opressão, depressão, infle-
xibilidade emocional e intelectual, autodestruição e destruição dos
demais, ódio, doenças e estado geral de infelicidade. Normalmente
punimos com o intuito de evitar uma conduta que consideramos
prejudicial, perigosa ou indesejável por outras razões. Justificamos
a coerção em nome da educação, da civilização, da moralidade e da
defesa própria. "É de pequenino que se torce o pepino"; "aqui se faz
e aqui se paga"; "é preciso comer o pão que o diabo amassou para
ser digno do reino dos céus"; "olho por olho, dente por dente"; "quem
com ferro fere, com ferro será ferido."

Use o reforçamento positivo. Mas não precisamos punir para


evitar ou impedir as pessoas de agirem mal. Podemos alcançar o
mesmo fim com reforçadores positivos, sem produzir os indesejáveis
efeitos colaterais da coerção. Uma maneira de impedir que as pes-
soas façam algo sem puni-las é oferecer-lhes reforçadores positivos
por fazerem alguma outra coisa.
Provavelmente esta e a principal técnica prática não-coercitiva
de controle do comportamento. Em vez de interromper uma conduta
indesejada com um choque, fortaleça as ações desejáveis que substi-
tuirão a indesejável.
A aceitação da coerção é tão difundida que alguns acharão
difícil acreditar que efetivamente poderiam influenciar os outros por
meio de reforçamento positivo. Uma parte incorreta e muito difundi-
da da sabedoria popular afirma que "a cenoura não tem utilidade a
menos que seja apoiada pela vara". Mas se uma pessoa estiver
faminta à cenoura fará o trabalho sozinha. A ameaça não é necessá-
ria. Nem é necessário oferecer a cenoura como um suborno. Qual-
quer um que já tenha recebido cenouras por se comportar de certa
fôrma quando faminto, continuará agindo desta forma, quando esti-
ver faminto.
Coerção e suas implicações 249

Obviamente o reforçamento negativo e a punição não causam


todos os problemas do mundo, nem o reforçamento positivo solucio-
nará todos eles. Além disso, podemos não estar em situação de
controlar estas importantes conseqüências da conduta alheia. Al-
guns argumentariam que tal controle, ainda que possível, não seria
desejável, mas este argumento geralmente apóia-se no pressuposto
de que todo controle é coercitivo. Ele não precisa ser. Tentarei ilus-
trar como o controle não-coercitivo poderia ajudar a minorar ou
prevenir alguns dos problemas que a coerção realmente cria.
A análise do comportamento começou com alguns animais
de laboratório pressionando barras para obter alimento e nos 50
anos seguintes produziu princípios comprovados experimentalmente
e aplicações clinicamente verificadas em muitas áreas da conduta
humana: ensino e aprendizagem em escolas para alunos normais e
deficientes, educação superior, treino de habilidades, reabilitação
criminal, doenças mentais, problemas do comportamento infantil,
aconselhamento de casais, produtividade industrial, lixo em parques
públicos, guagueira, auto-exame para detecção de câncer de mama,
obediência a recomendações médicas, tabagismo, controle de peso e
outros tantos. Uma a uma, todas estas áreas de problemas comple-
xos demonstraram-se tratãveis e se não tiveram completa solução,
pelo menos apresentaram uma melhora por meio dos métodos ba-
seados no reforçamento positivo. Mais recentemente um sucesso
considerável tem surgido na análise da economia, na formação de
conceitos e na linguagem. Com esta história de reforçamento por
seus próprios esforços, naturalmente os analistas do comportamen-
to estão ansiosos por se lançar nas áreas de maior complexidade. Na
realidade, não estarei, a seguir, tentando dizer ao mundo como
resolver todos os seus problemas usando o reforçamento positivo.
Estou simplesmente sugerindo um princípio norteador: o reforça-
mento positivo funciona e a coerção é perigosa.
Procurar algo para reforçar positivamente, em vez de concen-
trar a atenção em algo para punir, não é nossa maneira típica de
interagir uns com os outros. Nossa educação não proporciona condi-
ções para isto. Pais, professores, policiais, terapeutas — todos aque-
les cujo trabalho ê influenciar os outros — aprendem a procurar por
ações indesejáveis e, então, eliminá-las por meio da coerção. Rara-
mente estas pessoas são ensinadas a procurar por ações desejáveis
para, então, fortalecê-las com reforçamento positivo. As poucas pes-
soas que tipicamente utilizam o reforçamento positivo destacam-se.
Professores, pais, líderes religiosos, políticos e outros que trabalham
desta maneira são muito amados, embora controlem nossa conduta
muito efetivamente.
250 Murray Sidrrvan

Se considerarmos a punição como a única forma de influen-


ciar os outros, então, é improvável que prestemos muita atenção a
condutas desejáveis. Automaticamente adotamos uma abordagem
destrutiva para controlar o comportamento. Tentamos eliminar um
comportamento- indesejável, sem perceber a possibilidade de que
poderíamos nos livrar do comportamento indesejado pela simples
construção de um novo comportamento para substituí-lo. Ou então,
construímos um novo comportamento ensinando às pessoas como
impedir ou fugir dos choques que lhes infligimos, deixando escapar
a possibilidade de instalar a mesma conduta desejável reforçando-a
positivamente. Se não perdermos de vista nosso princípio de orienta-
ção, encontraremos muitas ocasiões nas quais podemos alcançar os
resultados que desejamos sem provocar os indesejáveis efeitos cola-
terais que acompanham a coerção.
O reforçamento positivo pode ainda produzir um efeito cola-
teral notável. Se não demonstrássemos, pelo menos ocasionalmente,
nosso apreço por aquilo que funciona e por aqueles que fazem as
coisas funcionarem, facilmente nos convenceríamos de que o mundo
é composto exclusivamente de corrupção, ineficiência e coação por
meio da força. Um pouco de prática de reforçamento positivo ajuda-
rá a nos convencer de que vale a pena tentar salvar nosso mundo.
Quando surge um determinado problema as pessoas respon-
sáveis por resolvê-lo deveriam reconhecer os perigos de tentar recor-
rer às "soluções" da coerção. Qualquer estadista, qualquer professor,
qualquer empresário, qualquer funcionário e qualquer um que exe-
cuta a lei deveriam analisar a situação comportamentalmente (ou
deveriam mandar fazer esta análise) em busca de alternativas. As
sugestões apresentadas a seguir pretendem apenas indicar como
tais análises poderiam revelar caminhos de ação não-coercitivos.
Embora não sejam tradicionais e até aqui não tenham sido testados,
estes caminhos poderiam, por sua vez, conduzir a métodos mais
eficazes para os principais problemas sociais. A princípio, proceden-
do por pequenos passos, aplicando medidas de autocorreção a cada
passo e nos aproximando gradualmente de áreas com problema
cada vez mais amplas podemos surpreender até mesmo os mais
céticos, demonstrando que a complexidade por si própria não é um
empecilho para a efetiva análise do comportamento.

O reforçamento positivo em casa


Tornamo-nos pais sem que ninguém nos tenha ensinado
como dar conta desta responsabilidade. Aprendemos rapidamente
Coerção e suas implicações 251

que as crianças fazem exigências especiais. Antes que possam falar,


elas aprendem a expressar e impor o cumprimento de exigênciàs
pelos únicos meios de que dispõem. A princípio choram e gritam.
Posteriormente, se ainda não aprenderam outras formas de comuni-
cação, trocam o choro e o grito pela agressão, pela destrutividade e
por outras formas mais sutis de mau comportamento. Estes com-
portamentos colocam a satisfação imediata de suas necessidades no
primeiro lugar da lista de prioridades do adulto.
Até mesmo os bebês podem desenvolver um arsenal de práti-
cas coercitivas. Reforçar tais práticas perpetam-nas quase sempre
transformando crianças adoravelmente alegres em objetos dos quais
fugimos, esquivamos e, mais, agredimos. Isso, freqüentemente em
combinação com outros estresses, está por trás dos incidentes de
abuso contra crianças, cada vez mais freqüentemente relatados.
A punição pode produzir a paz que pais desesperados neces-
sitam — às custas dos inevitáveis efeitos colaterais — mas não
oferece à criança qualquer caminho alternativo de ação, nenhum
caminho para adaptar-se construtivamente. Proporcionar uma di-
versão no lugar de uma punição faria a criança interagir alegre e
produtivamente com o meio ambiente. Em vez de repreender ou
isolar uma criança chorosa, muitas vezes podemos parar o choro
com a apresentação de um brinquedo. Os pais que reagem não com
a punição, mas oferecem às suas crianças oportunidades para o
recebimento de reforçadores positivos, deparam-se com crianças feli-
zes, autoconfiantes e competentes. As famílias que praticam reforça-
mento positivo desfrutam de um benefício adicional: raramente sur-
gem motivos para punição.
Se os reforçadores positivos tornam-se disponíveis sempre
que uma criança age mal, isto não transmite uma mensagem? Será
que a criança não aprenderá a comportar-se mal, a agir mais vezes
desta forma? Realmente isto acontece. Qualquer pessoa que tenha
refletido sobre esta possibilidade está no caminho certo para um
entendimento proveitoso de como a conduta é controlada. O princí-
pio foi apreendido com precisão por uma tira de quadrinhos que
apresentava uma criança dizendo para a outra: "Meus pais não
, prestam muita atenção em mim, mas eles são legais. Tudo o que eu
preciso fazer é dizer 'blip' e eles me dão tudo o que eu quero."
Utilizado inabilmente, o reforçamento positivo pode fortalecer con-
duta que é tão indesejável quanto quaisquer efeitos colaterais da
coerção. Se nunca damos atenção, afeição e outros reforçadores,
exceto quando nossas crianças comportam-se mal, o resultado será
mau comportamento contínuo. Não é difícil criar monstrinhos. En-
252 Murray Sidrrvan

tretanto, se o reforçamento positivo geralmente predomina na famí-


lia, o mau comportamento ocasional permanecerá exatamente assim
— ocasional; as crianças aprenderão que não precisam pintar o sete
para fazer com que atendamos aos seus desejos.
Pais atentos aprenderão a reconhecer sinais de problemas
iminentes. As crianças geralmente não irrompem em mau comporta-
mento sem terem dado sinais de que as coisas não vão bem. Elas
podem reclamar, agarrar, rejeitar os brinquedos e as atividades favo-
ritas, irritar o irmão mais novo ou mostrar várias formas de negati-
vismo que caracteristicamente precedem um distúrbio. Pais atentos
não esperarão pelo distúrbio, mas tentarão fazer com que a criança
faça algo bom e então manterão este comportamento com reforça-
mento positivo.
Distribuídos inabilmente, os reforçadores positivos podem
causar problemas. A distribuição de reforçadores independente-
mente daquilo que a criança faz, ensinará a criança que qualquer
coisa funciona. O resultado extremo do prêmio completamente in-
condicional é a criança mimada, que pode continuar assim até a
idade adulta. Todos conhecemos adultos mimados, que esperam que
tudo lhes seja dado, não importa o que tenham ou não feito, que
agem como bem entendem, sem se importar com as conseqüências
que suas ações possam trazer para os demais.
Obviamente não queremos ter com nossas crianças apenas
um relacionamento do tipo "você coçou as minhas costas, eu coçarei
as suas". Queremos usar reforçadores positivos para ensiná-las a ter
uma vida produtiva e feliz, mas sem fazê-las sentir que sempre
precisam fazer algo especial para obter nosso amor e nossa prote-
ção. Queremos que elas se sintam seguras, que saibam que essa
proteção e afeição — todo o conjunto de reforçadores — estarão
ainda disponíveis mesmo se eles fizerem algo errado. Temos que
encontrar o equilíbrio. Temos que manter as contingências positivas
e ao mesmo tempo gerar confiança e segurança. Nossas crianças
devem saber que podem contar conosco mesmo se não conseguirem
enfrentar uma contingência com êxito.
Ninguém nos ensina como fazer isto. Mas, se aprendermos
que os relacionamentos desabrocham com reforçamento positivo,
pelo menos saberemos procurar por formas não-coercitivas de pro-
duzir segurança e autoconfiança em nossas crianças, mesmo en-
quanto estivermos mantendo as contingências. Enquanto conside-
rarmos a coerção necessária, não nos questionaremos a este respei-
to. A análise do comportamento não fornece fórmulas quantitativas,
Coerção e suasimplicações 253

mas realmente formula o problema em termos que permitem sua solução.


O segredo é estabelecer contingências realistas que a criança possa enfrentar
Não exija coisas complexas muito cedo. Não há nada que produza segurança e
autoconfiança como o sucesso. Além disso, distribua reforçadores autênticos,
conseqüências que satisfaçam a criança e não apenas aos pais. As vezes, um afago
na cabeça não é suficiente, pode ser necessário um abraço caloroso. E às vezes, u
biscoito será mais eficaz que um beijo. Finalmente, os inevitáveisfracassosdeveriam
ser usados como oportunidades para ensinar e não para punir. Por si só, o ensino
deveria ser uma interação reforçadora tanto para a criança como para seus pais.
Às vezes as coisas parecem ter ido longe demais para serem tratadas de
outra forma que não a punição. A criança nos enfurece com suas lamentações, o
acessos de raiva estão setornandoassustadores, seus empurrões no bebê estão levan
nossa paciência ao limite. O que devemos fazer? Primeiro, verifique o que a crianç
tem ganhado por agir desta forma; esses reforçadores estão mantendo suas ações.
Suas queixas lhe proporcionam qualquer coisa que queira, seus acessos de raiva a
tornam o foco de atenção, ser malvada com o irmãozinho mantém a mamãe
constantemente atenta.
Deveríamos apenas parar de lhe fornecer esses reforçadores? Apenas
ignorá-la? Esta é uma sugestão comum, mas ela não funcionará. As crianças
encontram meios censuráveis para obter reforçadores porque não podem obtê-
los de outra forma. Elas precisam desses reforçadores. Em vez de ignorar a
criança dê a ela esses mesmos reforçadores quando fizer alguma outra coisa.
Em vez de esperar que ela choramingue antes de ler uma história para ela, leia
quando ela estiver brincando calmamente por algum tempo, em vez de esperar
que ela bata a cabeça contra a parede para obter atenção, aplauda e elogie-a
quando ela recita um verso, dança ou brinca construtivamente, mesmo quando
estiver ocupado com outras coisas mantenha um contatofreqüentecom a criança
inspecionando suas atividades e interagindo com ela; não faça com que ela
ameace o bebê para interagir com ela.
É claro que as coisas podem ir longe demais. As vezes preocupados, às
vezes sem compreender, cometemos erros e acabamos tendo de lidar com uma
descarga emocional que possivelmente nenhum tratamento sensato pode resolver
E, também, surgem emergências que precisam ser resolvidas imediatamente,
senão alguém sairá machucado. Na verdade, a punição pode ser necessária
para colocar um fim rápido a uma situação perigosa. Essas ocasiões não
254 Murray Sidrrvan

são preocupantes. Em um relacionamento baseado em reforçamento


positivo forte e freqüente, uma punição esporádica não causará pre-
juízo alguma a longo prazo. Entretanto, se esses erros ou emergên-
cias começam a ocorrer freqüentemente, eles são sinais de perigo,
indicando um relacionamento que está se deteriorando.
O reforçamento positivo não serve apenas para crianças. O
apoio afetivo, a ajuda, a bondade e todas as amabilidades e respon-
sabilidades recíprocas da vida conjugai manterão a continuidade de
um casamento. Mas, o amor que é dado sob coerção somente man-
terá a continuidade da coerção. Esperar ser coagido a fornecer refor-
çadores é o mesmo que pedir para ser coagido. Como pais que
garantem o mau comportamento de seus filhos por reforçá-lo, espo-
sos que se submetem a um companheiro, ingrato e violento trarão
mais exigência, ingratidão e violência sobre si mesmos. Não deveria
haver surpresa quando um esposo coagido, aproveitando-se de qual-
quer oportunidade de reforçamento negativo, foge para braços mais
compreensivos. Quantos alcoólatras e pessoas que trabalham em
excesso e compulsivamente, viciados em drogas e televisão são, na
realidade, fugitivos da coerção conjugai?
O amor não-contingente também pode mimar um adulto tão
eficientemente quanto mima uma criança. Em qualquer idade, o
amor que é sempre dado incondicionalmente ensinará quem o rece-
be que "dar é uma rua de mão única". Os pais ou avós que desfru-
tam de todos os benefícios da família sem terem que fazer sua parte
podem tornar-se egocêntricos, ingratos, desatenciosos e geralmente
coercitivos, exigindo cada vez mais atenção para suas próprias von-
tades.
Os idosos precisam de reforçamento positivo tanto quanto as
crianças para construir e manter seu próprio senso de segurança e
valor. Pàis jovens, cujos filhos precisam deles, podem receber refor-
çamento positivo quase automático, do progresso de seus filhos,
mas seus próprios pais podem ocupar uma posição anômala. Filhos
mais velhos, não mais dependentes, podem ainda dedicar todo res-
peito e consideração aos pais, mas sem pedir nada em troca. A
menos que os mais velhos tenham uma vida própria bem-sucedida e
reforçadora, um imenso vazio pode surgir em sua existência. Não
sendo mais necessários — sem a comunidade para lhes demonstrar
admiração pelo que podem fazer — eles terão poucos motivos para
se comportar. Eles podem acabar deprimidos e descuidados.
Não adianta tratar os mais velhos apenas com respeito e
bondade, sem nada pedir a eles. Eles precisam dos reforçadores
positivos que sempre vieram do uso de suas habilidades e das inte-
Coerção e suas implicações 255

rações que elas tornavam possíveis. Peça-lhes conselhos, o auxílio


de sua influência, sua ajuda no cuidado das crianças, na adminis-
tração das finanças da casa, nas tarefas da cozinha, nos transpor-
tes, nos consertos, no jardim, nas ligações telefônicas, na correspon-
dência e nas outras obrigações familiares; encoraje e registre recor-
dações e dados da história familiar, faça com que eles participem
das viagens familiares. Mesmo a senilidade de ordem fisiológica pode
ser melhorada em certo grau, por meio de solicitações e até mesmo
exigências que eles possam atender com êxito. A perda de oportuni-
dades para obter reforçadores positivos eqüivale ao choque inevitá-
vel, uma forma de punição não-contingente à qual sem saber sub-
metemos nossos idosos.

O reforçamento positivo em instituições


Aqueles que representam ameaças para si mesmos ou para a
sociedade em geral, freqüentemente, são entregues às instituições.
Ali, permitimos a eles apenas relações sociais limitadas, privamos os
mesmos de liberdade de movimento e de oportunidades de tomar
decisões; proibimos, ainda, a maioria das comodidades que eles
desfrutariam no mundo exterior. Freqüentemente justificamos estas
instituições como instrumentos para mudanças benéficas: "escolas"
para deficientes supostamente ensinam a seus alunos novas habili-
dades para ajudá-los a superar suas limitações, "hospitais" para
doentes mentais supostamente curam-nos, "instituições" correcio-
nais supostamente reabilitam infratores.
Entretanto, a localização destas instalações em áreas relati-
vamente despovoadas e de difícil acesso (pelo menos inicialmente,
antes que as cidades ou subúrbios tenham crescido à sua volta)
indicam o que realmente pretendemos com elas. Espera-se que elas
mantenham o retardado, o louco e o criminoso fora de circulação.
Entregamos estas instalações "humanas" a membros de profissões
assistenciais — médicos, enfermeiros, psicólogos, analistas do com-
portamento, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, professores, assistentes
sociais e funcionários penitenciários — e lavamos nossas mãos dos
problemas.
Seu isolamento geográfico, seus muros, grades, portões e
torres de segurança e a tendência pública de ignorar o simples fato
de sua existência deixam essas instituições quase que completamen-
te sem controle externo. Sejam quais forem os impulsos humanitá-
rios que possam de início ter gerado seu estabelecimento, sua isen-
ção da obrigatoriedade de prestar contas ao público transforma a
256 Murray Sidrrvan

maioria delas em um pouco mais dos que depósitos para os social-


mente desajustados. As prioridades imediatas das equipes de fun-
cionários, a conveniência administrativa, a docilidade do interno e a
obediência às normas e regulamentos substituem os objetivos edu-
cacionais, terapêuticos ou correcionais de longo prazo. A coerção
torna-se a técnica preferida para fazer os internos "se comportarem".
Uma instituição que funciona principalmente para o benefí-
cio do corpo de funcionários dá pouca importância aos nocivos efei-
tos colaterais da coerção. Desta forma, encontramos a predominân-
cia da coerção no tratamento de pessoas retardadas, dos doentes
mentais e de criminosos de todos os tipos. Quando a pressão públi-
ca ou judicial por reforma surge efetivamente, ela é efêmera e geral-
mente ineficaz, já que concentra a atenção nas instalações físicas e
nos procedimentos administrativos. Raramente uma investigação
avalia de fato a racionalidade e a aplicação das técnicas de controle
do comportamento. Por causa da incompreensão e da incompetên-
cia, alguns dirigentes institucionais e membros das profissões assis-
tenciais deturpam e alteram o conceito de reforçamento, tornando-o
irreconhecível, tentando transformar até mesmo o reforçamento po-
sitivo em um instrumento de coerção.

O uso incorreto da privação. Aqueles que designamos para


posições de controle sobre nós mesmos e sobre os demais — profes-
sores, militares, carcereiros, policiais, funcionários públicos — estão
tão acostumados com a coerção que freqüentemente não podem
compreender outro meio. Se tentam o reforçamento positivo, seu
primeiro impulso é subtrair alguma coisa de seus controlados, de
modo que possam devolvê-lo em troca de "bom comportamento". Isto
ê exatamente o que acontecia em alguns sistemas penitenciários
abomináveis que afirmavam estar utilizando reforçamento positivo.
Eles impunham o confinamento em prisão solitária aos detentos e
então os deixavam sair por curtos períodos, desde que eles demons-
trassem o arrependimento adequado; os privavam de alimentos e, se
eles agissem com subserviência, distribuíam-no em pequenas por-
ções; negavam-lhes a privacidade e, então, davam-lhes uns poucos
instantes de intimidade se eles não tivessem sido vistos envolvendo-
se em intercâmbios sociais suspeitos com outros prisioneiros; da-
vam aos detentos tarefas domésticas e os transferiam para um tra-
balho mais agradável se eles a executassem sem reclamação e resis-
tência. E então, a qualquer deslize, real ou imaginário, voltavam a
imperas privações.
Coerção e suas implicações 257

É claro que tais técnicas são completamente coercitivas. Elas


são baseadas na privação socialmente imposta e na fuga e esquiva
que tal privação gera.
A punição por meio de choques ou de privação torna a fuga
reforçadora. Se privamos prisioneiros, alunos, crianças ou outros de
suas necessidades, direitos e privilégios básicos para criar reforça-
dores, esses reforçadores são negativos e não positivos. Eles podem
servir temporariamente para manter a ordem em pavilhões peniten-
ciários, quartéis e salas de aula, mas também produzirão os efeitos
de longo prazo do controle coercitivo.
Contudo, a privação de fato contribui para a efetividade dos
reforçadores positivos: temos pouco interesse por comida logo após
uma boa refeição, mas a comida influencia poderosamente nossas
ações quando a hora da refeição se aproxima; o apetite sexual dos
marinheiros, após uma longa viagem no mar, é lendário; embora os
indivíduos variem muito, o que fazem para ganhar dinheiro e o que
fazemos com o dinheiro ganho depende muito da quantidade de
dinheiro que já possuímos. Entretanto, embora a privação torne os
reforçadores positivos mais fortes, ainda assim não é necessário
impor privações deliberadamente para fazer uso de reforçadores po-
sitivos. Ninguém tem o suficiente de tudo; geralmente não é neces-
sário muito extra para descobrir os reforçadores que já são eficientes
sem privação adicional.
Minha preocupação aqui é o uso da privação como instru-
mento de coerção. Em certos casos extremos, a privação por um
breve período pode produzir conseqüências desejáveis que não são
possíveis de alguma outra forma. Depois que todos os outros já
desistiram ainda se pode conduzir uma criança retardada no cami-
nho da aprendizagem efetiva. Primeiro, deixe-a com fome, então, use
o alimento como reforçador para algum comportamento básico,
como comer sozinho ou seguir instruções simples. Uma vez que a
criança tenha aprendido esses comportamentos, poder-se-á desen-
volver outros reforçadores e suspender a privação de alimento. Em
casos de retardo extremo, ou quando um tratamento anterior incom-
petente tornou uma criança insensível aos métodos-padrão de ins-
trução, tanto a criança como a comunidade acharão a privação
temporária benéfica.
Mesmo nessas ocasiões, usa-se a privação apenas para au-
mentar a atratividade de um reforçador positivo e não para punir o
comportamento insatisfatório. Uma vez que a criança aprenda al-
gum comportamento adaptativo, rapidamente se interrompe a priva-
ção, sem ameaçar utilizá-la novamente. Retirar alimento, bens, pri-
258 Murray Sidrrvan

vilégios ou direitos, apenas de forma que eles possam ser devolvidos


em troca de bom comportamento e então tirados novamente para
punir mau comportamento, subverte o princípio do reforçamento
positivo. Qualquer um que use privação dessa maneira pode esperar
que os controlados fujam, defendam-se e exerçam contracontrole
exatamente como reagiriam a qualquer sistema coercitivo.
Ê muito mais efetivo tirar vantagem das privações que ocorrem
naturalmente. Muitas existem mesmo sem a intervenção social: é as-
sim que o mundo funciona. Alimento, sexo e outras privações biologi-
camente determinadas são inatas. Sem tomá-las ainda mais severas
do que seriam no curso normal das coisas, quase sempre podemos
fazer bom uso destas privações, ensinando habilidades básicas para
iniciantes e para aqueles com deficiências de aprendizagem.
À medida que se aproxima a hora da refeição, por exemplo, o
alimento se toma um reforçador cada vez mais forte. Pessoas retar-
dadas e algumas das mentalmente doentes parecem sensíveis a ape-
nas um pequeno número de reforçadores, mas o alimento é um dos
mais seguros. O uso do alimento como reforçador nas horas da
refeição é uma forma poderosa e comprovada de ensinar habilidades
básicas aos mentalmente retardados. Ele é igualmente útil no ensino
de crianças normais.
Este tipo de ensino não requer que privemos nossos alunos
das refeições se eles não aprenderem. Métodos de ensino que garan-
tem a aprendizagem estão atualmente disponíveis, assim não é ne-
cessário que refeições sejam perdidas por causa do ensino malsuce-
dido. Mesmo que ainda não tivéssemos desenvolvido um programa
institucional completamente eficiente, alunos com dificuldade de
aprendizagem não precisariam ficar com fome. Enquanto aperfeiçoa-
mos nosso plano institucional sempre podemos deixá-los ganhar
uma refeição completa pela repetição daquilo que eles aprenderam
anteriormente.
Por fim, a conduta aprendida durante as refeições permite
aos alunos retardados atuar de maneira adaptativa também em ou-
tras ocàsiões. Suas habilidades recém-descobertas — carregar uma
bandeja do balcão de serviços para a mesa, utilizar um garfo e uma
colher, escolher a comida oferecida dizendo "por favor" e "obrigado"
—-^ tornam possível levá-los a restaurantes e lanchonetes. Nesses
locais, novas escolhas tomam-se disponíveis e eles experienciam
novos ambientes. A caminho do restaurante habilidades de viagem
podem ser ensinadas. Seu mundo começa a se ampliar.
Dessa forma, novos reforçadores tomam-se efetivos à medida
que eles aprendem como interagir com diferentes ambientes e com
Coerção e suas implicações 259

pessoas que são importantes para eles. Eles aprendem a reconhecer


sinais de aprovação como precursores de outros reforçadores, de
forma que as reações das pessoas tornam-se significativas, tornan-
do-se reforçadoras por si só. Quando isso acontece, os reforçadores
positivos, como o alimento, não precisam estar sempre imediata-
mente disponíveis, o atraso da gratificação torna-se possível. O ali-
mento, um dos poucos reforçadores efetivos a princípio, desperta
esses internos aparentemente sem repertório da instituição local
para retardados. Em breve, estaremos aptos a abandonar o alimento
e a usar reforçadores recentemente aprendidos para ensinar com-
portamentos mais complexos.

Time-out e seus abusos. Uma forma discutível de punição


nas instituições para retardados e doentes mentais é o procedimento
de time-out. O que é time-out? O que ele faz? Será que ele difere de
forma significativa de outros tipos de punição?
A característica básica de um time-out é a retirada de reforça-
mento positivo. Isto geralmente significa retirar alguém fisicamente
de um ambiente que torna disponível os reforçadores positivos para
outro local onde nenhum reforçamento é possível. Na prática, time-
out pode variar entre colocar uma criança desordeira num canto até
a colocação de um paciente violento na solitária — a clássica cela
acolchoada. A retirada do reforçamento positivo é tão coercitiva
quanto a aplicação de um choque, mas já que o time-out não inflige
dor é freqüentemente justificado como um tipo de punição benigna.
Este raciocínio eqüivale a justificar o uso de drogas no lugar
das camisas de força, cordas ou correntes para imobilizar um pa-
ciente rebelde. A crueldade encontra-se menos no método do que no
resultado. O isolamento, a restrição física e a restrição química
tiram as vítimas do contato com todos os reforçadores que tornam a
vida significativa e preciosa; as drogas os transformam em zumbis e
as celas acolchoadas os transformam em maníacos selvagens. Os
dois tipos de punição colocam um fim a toda a aprendizagem, exceto
por várias formas de fuga e esquiva que servem como mecanismos
de contracontrole. Quando o poder das autoridades é grande demais
para represália ou fraude, a depressão assume o lugar.
Freqüentemente, esquece-se que até mesmo um time-out re-
lativamente moderado somente será um punidor eficaz se o punido
for retirado de um ambiente positivamente reforçador. É a isto que o
nome time-out se refere, ele significa um período sem reforçamento.
A remoção de uma criança disruptiva para um falso time-out não
impedirá distúrbios futuros a menos que a situação original fosse
260 Murray Sidrrvan

reforçadora, em primeiro lugar. Se não, retirar a criança dessa situa-


ção pode realmente reforçar o comportamento disruptivo.
E então, quando removemos a criança, nossa interação pode
proporcionar reforços positivos mais forte do que qualquer coisa que
a criança estava obtendo na situação original. Quando isto acontece,
o próprio time-out torna-se um reforçador positivo, tornando o com-
portamento disruptivo futuro ainda mais provável. Fortaleceremos a
mesma conduta que pretendemos punir.
Uma criança que precisa ser repetidamente colocada em time-
out está nos enviando uma mensagem: KEu não gosto daqui, preferi-
ria que você me carregasse, gritando e esperneando, até o quarto
vazio ao lado, onde você terá que sentar comigo e me abraçar para
evitar que eu bata a minha cabeça contra a parede." Nossa resposta a
essa mensagem precisa ser um exame de nossa própria conduta.
Se estávamos tentando ensinar, provavelmente descobrire-
mos que não fomos bem-sucedidos. Já que nosso aluno não apren-
dia, fomos incapazes de aplicar o reforço e nosso aluno encontrou
outros caminhos para "ter sucesso". O remédio não é colocar a
criança em time-out, eliminando oportunidades adicionais de apren-
dizagem, mas revisar nosso método de ensino. Volte até a última
coisa que a criança aprendeu com sucesso, de modo que o reforça-
mento positivo torne novamente possível que se comece tudo de
novo. Desta vez, avance mais lentamente e tire vantagem dos mais
recentes métodos disponíveis para reduzir e até mesmo eliminar os
erros do processo de aprendizagem.* de aprendizagem.

* Uma vasta literatura técnica mostra que os erros não são uma parte
necessária do processo de aprendizagem, mas os analistas do
comportamento ainda não ofereceram este material em uma linguagem
mais acessível para leigos. A modelagem do comportamento — ensinar
novo comportamento reforçando gradualmente aproximações sucessivas
ao que ê desejado — pode transformar o método de tentativa e erro em
tentativa e sucesso no ensino de habilidades motoras tais como a
produção de sons em instrumentos musicais ou a pronúncia de palavras.
O ensino de seqüências longas de ações tais como amarrar sapatos,
soletrar palavras ou programar computadores pode avançar sem erros se
o professor parte do final da seqüência e trabalha de trás para frente.
Com. a modelagem ambiental habilidosa — ensinar novas relações entre
comportamento e ambiente, mudando gradativamente o ambiente de
formas familiares para desconhecidas — as crianças podem aprender
sem erros a copiar, escrever e dizer as letras do alfabeto; estudantes de
medicina podem aprender a estrutura básica do sistema nervoso sem
cometer nenhum erro, de modo que a princípio acharão difícil acreditar
Coerção e suas implicações 261

Mais freqüentemente do que se pode imaginar, até mesmo as


crianças clinicamente diagnosticadas como hiperativas participarão
construtivamente na sala de aula por longos períodos, não causando
agitação ou distração contanto que estejam sendo reforçadas pela
aprendizagem bem-sucedida. O ensino efetivo tornará desnecessário
punir a criança por seu comportamento.

As prisões como ambientes de aprendizagem. Algumas priva-


ções não-biológicas são socialmente impostas. Um professor também
pode usar estas privações sem que elas sejam deliberadamente im-
postas. A maior parte dos jovens presos em reformatórios tem reper-
tórios de comportamento empobrecidos. Desde o princípio, mesmo
antes de suas prisões, eles possuíam apenas um conjunto restrito
de habilidades adaptativas. Muitos reforçadores estavam fora de seu
alcance e outros eram desconhecidos. Eles eram efetivamente tão
privados como se tivéssemos deliberadamente retirado a comida, o
abrigo, o suporte financeiro e todas as possibilidades de alcançar as
formas de sucesso que a educação e o treino tornam possíveis.
Isto não quer dizer que a criminalidade está restrita aos
pobres ou aos socialmente marginalizados. Delitos graves ocorrem
em todos os níveis econômicos e sociais. Mas os lares e as comuni-
dades que sofrem as mais severas privações sociais e econômicas, e
ao mesmo tempo não possuem tradição de ascensão econômica,
também reproduzem em larga escala as formas mais visíveis de
criminalidade juvenil. Tais comunidades não valorizam — não forne-
cem reforçadores para — a conversa sobre quaisquer assuntos que
não sejam as necessidades básicas, não lêem mais do que anúncios
e manchetes de jornal, não escrevem nada além de suas assinaturas
e talvez alguns palavrões próprios para pichação, ou não calculam
mais do que as operações mais elementares com dinheiro. Nas re-
giões carentes, os jovens tornam-se adultos incapazes de conversar,
ler, escrever ou fazer contas. O preenchimento de formulários e as
entrevistas de emprego estão fora de cogitação. As ambições são
necessariamente limitadas à resolução imediatamente previsível de

que realmente estão aprendendo algo. Procedimentos que estabelecem


relações de eqüivalência entre palavras faladas, palavras escritas e
figuras proporcionam às crianças vocabulários simples de leitura e de
linguagem que nunca foram explicitamente ensinados e que elas utilizam
corretamente mesmo na primeira vez. Ensinar sem erros é uma área
ativa de pesquisa, com novos métodos e aplicações em rápido desenvol-
vimento.
262 Murray Sidrrvan

contingências coercitivas impostas de um lado pela lei e de outro


pelas privações causadas pela incapacidade. Suas vidas giram em
torno de reforçadores que estão restritos ao alimento, abrigo, álcool,
sexo, drogas e dinheiro para adquiri-los. O que eles aprendem, na
verdade, e o caminho mais seguro — às vezes o único viável — para
a obtenção de reforçadores básicos: tirá-los de outras pessoas.
Quando estes jovens fracassam são enviados para as insti-
tuições "correcionais" que devem "reformá-los". Após cumprir suas
penas eles geralmente voltam para seus antigos territórios, sem te-
rem aprendido qualquer coisa que pudesse ajudá-los a sair daquele
ambiente e até mesmo inconscientes da desejabilidade desta mu-
dança. Se eles tiverem sido de alguma forma reformados, isto terá
acontecido por meio de um aprimoramento de suas habilidades para
escapar da captura.
Muitos realmente são capturados novamente. A ameaça de
prisão não foi suficiente para impedir suas primeiras ações ilegais e
o próprio confinamento não impede sua repetição. Esses fracassos
devem ser esperados; o controle coercitivo não deixa alternativa para
o infrator que carece de certas habilidades socialmente desejáveis.
As privações impostas dentro dos muros das prisões dificilmente são
mais severas do que os conhecidos rigores de fora. Jogados de volta
ao mesmo e antigo cenário, sem um novo modelo de comportamento
e desta vez rotulados como criminosos, sujeitos a restrições ainda
maiores, por que, então, dever-se-ia esperar que eles agissem de
modo diferente do que agiram antes?
A criminalidade é um problema complexo — na realidade,
engloba muitos problemas diferentes e com muitas raízes. Mas em
todas as suas variações ainda é comportamento. Nossa preocupa-
ção não é com o conceito abstrato "criminalidade" mas com as
ações criminosas. Poderia se mostrar incorreto pressupor que as
ações criminosas são sujeitas aos mesmos princípios que controlam
todos os tipos de comportamento. Entretanto, dadas as extensões
bem-sucedidas da análise do comportamento para outros tipos de
conduta humana complexa, não podemos negligenciar essa impor-
tante classe, apenas por causa de noções preconcebidas que pos-
suem pouca ou nenhuma base empírica. Certamente, reduzir a inci-
dência, da criminalidade por meio do replanejamento dos ambientes
que a originam é uma tarefa infinitamente complexa. Raramente é
possível obter o controle necessário dos reforçadores cruciais, elimi-
nar os reforçadores negativos em uso e substituí-los pelos positivos.
Portanto, não ousamos eliminar nossas prisões.
Coerção e suas implicações 263

Contudo, não importa como alguém se sinta quanto à dese-


jabilidade do aprisionamento, seu fracasso em impedir a repetição
do crime representa oportunidades perdidas ou até mesmo tragé-
dias. Prisões e reformatórios controlam reforçadores em uma exten-
são que não é permitida no mundo exterior. Enquanto os infratores
são temporariamente incapazes de se engajar nos atos que os leva-
ram para a prisão é possível usar o reforçamento positivo para
ensinar a eles formas mais aceitáveis e adaptativas de conduta.
Antes de deixar a prisão, o infrator poderia sei4 preparado com novas
opções e meios legais de sobrevivência. A redução do número de
infratores reincidentes também reduziria a crescente necessidade de
novas prisões.
O uso do confinamento como oportunidade de educação al-
cançou tão pouco sucesso que os profissionais responsáveis pelo
cumprimento da lei vêem esta noção com ceticismo quase total; os
proponentes da teoria são "ignorantes bem-intencionados". Contu-
do, a falta de sucesso e o ceticismo daí resultante originam-se da
falsa noção de que o ensino somente pode ser realizado por meio da
coerção, particularmente, quando os alunos são "criminosos". A
maioria dos programas educacionais dentro de prisões fracassou
porque baseava-se no controle coercitivo. Com o reforçamento positi-
vo é possível realizar correções verdadeiras em trajetórias de vida
maldirigidas. Além disso, um programa de reforçamento positivo
autêntico, instituído antes que os jovens tenham se tornado infrato-
res habituais, no final das contas, custa consideravelmente menos
do que sustentar o sistema-padrão de controle coercitivo.
Isto não é apenas teoria impraticável. O reforçamento positi-
vo tem sido usado com êxito para substituir por habilidades cons-
trutivas a incapacidade de infratores juvenis, tornando novos refor-
çadores disponíveis para eles, pela primeira vez. Um extraordinário
projeto de demonstração, que mostrou a eficácia de um sistema de
reforçamento positivo bem-elaborado e competentemente adminis-
trado foi completamente ignorado pelos profissionais da ciência
comportamental e do cumprimento da lei. Neste projeto novas habi-
lidades permitiram que, ao deixar a prisão, os jovens ingressassem
em novos ambientes sem entrar em conflito com a lei. As técnicas
para levá-los ao sucesso não são difíceis. Todos os funcionários
correcionais deveriam ser treinados a usá-las.*

* H. L. Cohen e J. Filipczak. A new leaming enviror rvent São Francisco,


CA: Jossey-Bass, 1971.
264 Murray Sidrrvan

O projeto proporcionou cursos para os prisioneiros, come-


çando com leitura básica, escrita, conversação, cálculo e memória e
então prosseguiu para habilidades mais avançadas que empregavam
esses pré-requisitos. Os conteúdos e as seqüências dos cursos foram
cuidadosamente programados. A garantia de que cada curso prepa-
rava o aluno para o seguinte e a exigência de notas altas para que
eles pudessem avançar asseguraram o sucesso — reforçamento con-
tinuado. Ninguém era forçado a fazer os cursos, a punição não
ocorria para quem preferisse a rotina usual da prisão, em vez de
participar.
Não era suficiente apenas proporcionar os cursos. Afinal, se
os prisioneiros nunca tinham experienciado os benefícios que as
habilidades acadêmicas básicas podem trazer, por que deveriam es-
tar interessados em participar? Portanto, de início, foram necessá-
rios reforçadores artificiais até que as novas habilidades dos alunos
os colocassem em contato com conseqüências mais naturais. Nesta
altura, um aspecto crucial do sistema, reforçamento positivo pela
aprendizagem, entrou em cena.
Para que os prisioneiros se engajassem, o projeto pagava-os
para aprender. Isto tornou possível àqueles que se engajaram no
processo de aprendizagem a obtenção de coisas que, do contrário,
não estariam disponíveis de modo algum, independentemente de
como agissem na prisão. Notas altas no exame beneficiavam o
aprendiz com um espaço privativo. Embora a princípio escassamen-
te mobiliado com uma mesa, uma cadeira, uma prateleira de livros e
uma lâmpada — artigos que tornavam viável a continuidade do
estudo — o espaço poderia ser posteriormente equipado, de acordo
com as preferências pessoais e recursos do proprietário. De que
maneira esperava-se que eles obtivessem esses recursos? Depois de
conseguir o espaço, eles podiam então obter créditos por continuar
mostrando aprendizados em seus cursos. Podiam juntar e usar os
créditos como dinheiro para comprar objetos numa loja. O estoque
da loja era feito sob encomenda, de acordo com as preferências
daqueles que estavam trabalhando pelos créditos.
Pagar os estudantes por aprender simplesmente estabeleceu
a escola como um outro trabalho, que estava disponível para os
detentos. Os créditos, a loja, o espaço privativo e outros privilégios
eram, na verdade, parte do programa escolar — o trabalho — e eram
desfrutados apenas durante as horas de escola — enquanto os pri-
sioneiros estavam no trabalho. O fato de que esses reforçadores que
os participantes desfrutavam eram, na realidade, pagamento, prova-
velmente ajuda a compreender a relativa ausência de ressentimento
Coerção e suas implicações 265

e hostilidade por parte dos prisioneiros que não participavam do


programa. Todos tinham sua oportunidade de trabalho. Ninguém
era impedido de participar. Os reforçadores estavam disponíveis
para qualquer um que optasse por este trabalho como parte de seus
deveres na prisão.
As propriedades privativas criaram novos reforçadores. En-
feites de parede, mobília, aparelhos de som e TV tornaram- se artigos
pelos quais valia a pena trabalhar e a aprendizagem continuou. As
novas habilidades criavam o potencial para mais reforçadores ainda;
a loja tornava-os acessíveis: a habilidade de escrever cartas tornou
os artigos de papelaria e materiais de escrita em bens úteis; a habili-
dade para enfrentar uma entrevista de trabalho tornou determina-
dos tipos de roupas desejáveis para os estudantes que em breve
estariam completando suas penas; a habilidade de leitura gerou um
novo prazer e os livros tornaram-se bens desejáveis. Posteriormente,
quando os estudantes se tornaram capazes de comportamentos no-
vos e mais complexos puderam começar a usar seus créditos para
comprar regalias que antes não podiam imaginar que alcançariam:
chamadas telefônicas, visitas privativas de parentes e amigos, priva-
cidade e passeios externos supervisionados que iniciavam juntamen-
te com os cursos. O valor da aprendizagem, por si só, tornou-se
evidente e os estudantes, por fim, passaram a utilizar alguns de
seus créditos para pagar os cursos que eles solicitavam — uma
exigência que teriam fora dali.
Quando esses estudantes partiram estavam aptos a fazer
coisas que tornavam nóvos reforçadores disponíveis: seu mundo ha-
via se expandido. Obviamente, não havia garantias de que as anti-
gas contingências do ambiente familiar não assumiriam novamente
o controle, mas agora, pelo menos, eles tinham uma chance de fazer
algo diferente. As evidências indicam que muitos investiram em no-
vas oportunidades que a abordagem não-punitiva havia tornado
possível. O retorno à prisão se reduziu.

O reforçamento positivo e a lei


Todas as sociedades realmente fornecem reforçadores positi-
vos para os comportamentos que querem encorajar. Em nosso siste-
ma, o medo do fracasso, da punição ou da desonra é recompensado
pela perspectiva de todos os tipos de recompensas em troca de
concordância, perseverança, espírito inventivo e envolvimento cons-
trutivo. Infelizmente, como podemos constatar todos os dias pela
imprensa, as recompensas por agir fora da lei são ainda maiores.
266 Murray Sidrrvan

Uma vez que as pessoas podem ganhar mais dinheiro, poder e pres-
tígio violando a lei — sem serem presas — do que permanecendo
dentro dela, um sistema legal sem punição continuará impraticável.
Na medida em que as recompensas por vício ultrapassam aquelas
por virtude, o vício permanecerá conosco, apesar dos seus riscos.
Nossa tradição legal aceita a má conduta e o crime como
inevitáveis, como partes da natureza humana. De fato, é natureza
humana. O que mais poderia ser? Mas a natureza humana não é
imutável. Ela é flexível e passível de mudança. Nossa conduta é
sempre o resultado de muitas contingências, algumas positivas e
outras negativas. Alterar as contingências não altera a natureza
humana, mas faz uso da plasticidade da natureza humana.
Até agora, alteramos as contingências em uma única direção.
Incapazes de demonstrar as vantagens materiais da honestidade e
legalidade em relação à ilegalidade encoberta, decretamos que a
virtude deve ser a sua própria recompensa. Assim, apoiados por esse
princípio de honestidade, punimos qualquer pessoa que surpreende-
mos agindo com desonestidade. A tradição da punição torna-se ain-
da mais fortemente marcada quando a sociedade torna a transgres-
são mais custosa para os poucos que ela consegue detectar e acusar
com êxito. Mesmo considerando as restrições práticas óbvias, pode-
ríamos mais efetivamente encorajar a conformidade aos padrões de
conduta civilizada fornecendo reforçamento positivo mais forte e com
maior freqüência, em vez de ameaçando com punição mais severa?

A polícia: de que lado está? A autoridade que cumpre a lei em


uma sociedade ê a polícia. As forças policiais municipais, estaduais
e federais são. geralmente, instrumentos de coerção. Salvo algumas
exceções, as principais tarefas a elas atribuídas são ameaçar de
contra-ataque qualquer pessoa tentada a desviar-se de nossos pa-
drões legais de paz e decência e aplicar a força da repressão contra
qualquer um que realmente se desviar.
O governo cada vsz mais freqüentemente solicita auxílio poli-
cial para proteger segmentos ricos e poderosos da sociedade das
pessoas que são menos favorecidas. Contra um cenário de pobreza,
preconceito racial e outros problemas sociais complexos, a coerção
policial em muitas regiões está se tornando mais severa e violenta do
que erá; E à medida que a contraviolência dos pobres, despossuídos
e dos jovens idealistas aumenta, a polícia também está sendo levada
a agir menos seletivamente, tendendo a tratar qualquer encontro
com ó público em geral como ameaça em potencial para sua própria
segurança.
Coerção e suas implicações 267

Esse aumento de coerção policial vem ocorrendo de forma


mais proeminente em nossas grandes cidades, onde os problemas
que dividem a sociedade se destacam mais visivelmente. Quando á
polícia das grandes metrópoles pára motoristas jovens por violações
de trânsito, automaticamente ordena que eles saiam do carro, en-
quanto inspecionam à procura de drogas; esta é uma experiência
humilhante para muitos jovens. Em situações semelhantes, motoris-
tas negros ou hispânicos são obrigados a assumir aquela posição
aviltante e indigna que todos os telespectadores sabem que é inten-
cional, para dar vantagem à polícia, caso os "suspeitos" tentem fugir
ou contra-atacar. Como alguns infratores suspeitos tentaram atro-
pelar os policiais, a polícia agora considera os carros como arma e
sente-se justificada por atirar em um motorista que não pára quan-
do ordenado.
De um modo mais geral, como a atividade criminosa tornou-
se mais violenta, a ação policial seguiu o exemplo, A polícia não
considera o pressuposto da inocência como uma proteção válida do
público, mas como uma ameaça contra sua própria eficiência profis-
sional e segurança pessoal. Ela preferiria o pressuposto da culpa
como o princípio norteador do cumprimento da lei. Assim, a mera
suspeita de delito justificaria a detenção violenta, a prisão e o uso de
armas. Como nossa polícia torna-se cada vez mais severamente
coercitiva, um número sempre crescente de segmentos da população
está começando a encará-la menos como um dispositivo de proteção
do que como choques e sinais de choque — dos quais se deve fugir,
esquivar e os quais se deve até mesmo tratar como objetos de con-
tra-agressão.
A polícia tem feito apenas aquilo que a maioria dos contri-
buintes exige. Mas como todos os sistemas coercitivos, este também
gerou os costumeiros efeitos colaterais. O aumento da pressão coer-
citiva está levando muitos cidadãos em todas as classes econômicas
e sociais a temer e desconfiar da polícia. Mesmo nas regiões tranqüi-
las e prósperas das cidades, que necessitam de patrulhas policiais
para deter desordeiros, assaltantes, trombadinhas e estupradores
que vêm de regiões vizinhas, os habitantes locais raramente cumpri-
mentam seus defensores, conversam com eles ou demonstram qual-
quer sinal de gratidão por sua presença. Os policiais, por sua vez,
com seus olhos vigilantes e suas expressões de desconfiança, indi-
cam que consideram todo pedestre que se aproxima um agressor em
potencial e provocam medo e ansiedade mesmo entre aqueles que
são gratos por sua presença.
268 Murray Sidrrvan

O objetivo de reconciliar o público com a polícia é um esforço


digno de consideração. Mas o abismo está aumentando. Em respos-
ta ao crescente descrédito de uma comunidade, a polícia torna-se
ainda mais hostil e insolente em relação àqueles que deve proteger.
O público começa a esquecer que necessita da polícia como prote-
ção; a polícia começa a esquecer que deve ser protetora. A contra-
agressão em relação à polícia está se propagando para outros prote -
tores fardados; em alguns bairros os bombeiros não se surpreendem
mais quando são insultados e apedrejados enquanto executam seus
deveres — por certo, apenas um tipo de patologia social em vez de
uma ocorrência habitual, mas que se origina diretamente das intera-
ções coercitivas entre a polícia e a população.
Em muitas comunidades, o pouco apreço pela polícia desen-
coraja inúmeros jovens e pessoas capacitadas de escolher esta car-
reira. Como conseqüência, é difícil distinguir entre os muitos que
escolhem pelo cumprimento da lei e aqueles que atravessam para o
outro lado. Com cada lado dependendo da coerção para alcançar
seus objetivos, a polícia e seus adversários tornam-se cada vez mais
semelhantes.
Na maioria dos países do terceiro mundo, a brutalidade e a
coerção policiais já são admitidas como certas e podemos observar a
evidência de uma tendência semelhante nas nações altamente de-
senvolvidas da Europa. Nos Estados Unidos, a dependência da coer-
ção é menos evidente nas comunidades menores do que nas cida-
des. A polícia urbana está direcionando suas energias menos em
direção à proteção dos cidadãos e mais em direção de sua autoprote-
ção contra a hostilidade pública. Quando algumas cidades não aten-
deram às reivindicações por salários mais altos, a polícia provocou o
apoio da indústria turística ameaçando visitantes e excursionistas;
quando os próprios membros da força policial apresentam-se como
criminosos, o sindicato esmera-se para impedir o processo legal; eles
resistem a. e retardam as investigações de abuso de bebidas alcoóli-
cas e de drogas, de suborno e de outras formas de corrupção e de
fraudes em exames de promoção, dentro de suas próprias tropas.
Com sua continuidade consentida, essa crescente separação
pode perfeitamente atingir seu auge quando os policiais comparti-
lharem sua sorte com um líder político que prometa tirá-los de sua
posição como servidores do público para, em vez disso, colocá-los no
comando. Logo, o público estará sem proteção alguma. É possível
que este processo já tenha começado na campanha presidencial dos
Estados Unidos de 1988, quando os dois candidatos cortejaram
ativamente o apoio das organizações policiais. Ironicamente, o pri-
Coerção e suas implicações 269

meiro grupo policial a apoiar publicamente um candidato foi o mes-


mo que havia afugentado os turistas no aeroporto de Boston.
Será que podemos impedir esta inversão de funções da polí-
cia? Provavelmente, a polícia nunca estará completamente capacita-
da para mudar sua imagem coercitiva; mas será que o uso em maior
escala do reforçamento positivo podéria ajudá-la a pender a balança
em direção ao seu papel original? Não será fácil. É provável que a
polícia atual não aceite uma mudança em seu papel de coercedora
para reforçadores positivos, mesmo que apenas acrescentássemos
técnicas positivas ao seu arsenal, sem retirar seus poderes coerciti-
vos. Afinal de contas, a coerção é familiar e cômoda; com a fonte de
seu poder pendurada em seus cinturões, os policiais estão protegi-
dos das represálias. Por que gastar esforços extras para aprender
novos métodos de controle — quer sobre o tráfego ou sobre o crime
— apenas porque eles devem diminuir a hostilidade? Esses métodos
funcionariam? Todo mundo sabe que "os bonzinhos não têm vez".
Visto que eles carregam uma arma, todas as outras formas possíveis
de controle tornam-se insignificantes.
O coercedor último é o revólver, o ceifador de vidas. Mesmo
embainhados, os revólveres são ameaças e qualquer pessoa portan-
do um revólver é uma ameaça. Não importa a quantidade de reforça-
mento que se distribua, um revólver ao seu lado diz para qualquer
um manter-se na linha, senão... Será que a polícia poderá em algum
momento, algum dia, eliminar sua imagem coercitiva enquanto con-
tinuar portando armas? Provavelmente não.
E contudo, com revólveres generalizadamente disponíveis,
destituir a polícia de suas armas a deixaria exposta a enormes
riscos. Não podemos retirar seus instrumentos coercitivos de prote-
ção se os deixamos sujeitos à mesma coerção por parte de outros.
Talvez um ponto de partida pudesse ser provocado pela mudança de
algumas das concepções tradicionais que subjazem ao trabalho da
polícia. Espera-se, por exemplo, que todo policial esteja, o tempo
todo, pronto para executar todas as tarefas. Será que não podería-
mos repartir as responsabilidades da polícia? Certamente, os revól-
veres não são necessários para controlar o trânsito. Quando este
trabalho é atribuído a um policial, não poderia se tornar a sua única
responsabilidade? Desta forma, se um banco estivesse sendo rouba-
do ou um pedestre sendo assaltado eles não seriam chamados a
intervir. De forma semelhante, poderiam ser atribuídas responsabili-
dades limitadas no cumprimento da lei aos policiais em trabalhos
burocráticos, principalmente àqueles que entram em contato com o
público. Eles também não precisariam de revólveres. E quando eles
270 Murray Sidrrvan

investigam delitos que já foram praticados — arrombamentos, incên-


dios criminosos ou mesmo homicídios — será que eles precisam
portar revólveres enquanto examinam o local e interrogam testemu-
nhas? Os uniformes da polícia poderiam até mesmo variar, depen-
dendo da atribuição em curso: o público rapidamente aprenderia
seus significados e o que esperar de cada um.
A maior parte dos deveres do policial não os coloca em risco
e a maior parte do público é, afinal de contas, respeitador da lei.
Dispensar os revólveres dos policiais enquanto estivessem em tare-
fas de rotina, ajudaria a enfatizar as funções do serviço que mais
freqüentemente coloca a polícia em contato com o público em geral e
desacentuaria seu papel coercitivo. Certamente é um pequeno pas-
so, mas é um começo. Muito embora o poder policial máximo conti-
nue sendo coercitivo, uma redução do potencial para violência aju-
daria a deter o crescente relacionamento de antagonismo entre a
polícia e a população. O desarmamento policial em pequena escala,
a princípio restrito a tarefas seguras e estendendo-se apenas depois
que os "germes" tenham sido descobertos e eliminados, seria um
passo na direção correta. Dada a necessidade geral de reduzir a
freqüência e a força das pressões coercitivas em nossa sociedade,
uma pequena experimentação social não parece fora de hora.
Será que, por fim, seria possível ter uma força policial quase
completamente desarmada? Dados os atuais aspectos práticos, isto
não é provável. Ainda assim, estes aspectos práticos são dignos de
exame, levando-se em consideração as vantagens que poderiam re-
sultar se pudéssemos de alguma forma contorná-los.
O controle de armas deve ser "uma via de mão dupla". Antes
que elas possam ser tiradas da polícia, devem primeiro ser tiradas
de todos os demais. Mas os grupos de pressão pública agiram com
êxito contra as leis que regulamentariam a posse pessoal de armas
de fogo. Esta é uma questão complexa que envolve muito mais do
que simplesmente a coerção policial. Mas, a freqüência e ferocidade
crescentes desta coerção e a conseqüente deterioração da relação
entre protetores e protegidos, geralmente não têm sido consideradas
no debate sobre o controle de armas. A redução da posse privada de
armas poderia também reduzir a necessidade de funcionários da
segurança pública de portar armas no cumprimento de suas respon-
sabilidades.
Uma vez que a violência contra policiais tenha ocorrido, não
podemos, sensatamente, esperar que eles "dêem a outra face" e
respondam de forma pacífica. Por outro lado. é difícil conceber medi-
das não-çoercitivas para tornar armas não-disponíveis para todos os
Coerção e suas implicações 271

demais e desse modo, reduzir a probabilidade de violência contra a


polícia. Poderíamos, talvez, oferecer recompensas substanciais para
as pessoas que entregassem suas armas? Também poderíamos per-
mitir que as pessoas possuíssem armas, mas que elas fossem guar-
dadas pela polícia que, desta forma, poderia controlar sua disponibi-
lidade. Estas e outras medidas semelhantes são provavelmente dig-
nas de uma tentativa, ainda que, como parece provável, não tenham
êxito total. Embora a maior parte daqueles que entregariam suas
armas jamais iriam se envolver violentamente com a polícia, algu-
mas oportunidades de confronto teriam sido eliminadas. Mas os
reforçadores por possuir armas freqüentemente são negativos —
proteção pessoal e da propriedade — e para muitos, nenhum refor-
çador positivo terá mais valor do que este. Além do mais, é óbvio que
existem aqueles cujo "negócio" é a violência contra a sociedade —
aqueles que precisam de armas para salvaguardar suas práticas
coercitivas.
Para lidar com os mais inflexíveis — aqueles cidadãos respei-
tadores da lei que insistirão em se agarrar às suas armas para
autoproteção e aqueles que as utilizam como "instrumento de traba-
lho" — é bem possível ser necessário que nós mesmo tenhamos de
estabelecer algumas novas medidas coercitivas. Poderia ser necessá-
ria uma certa dose de "coerção preventiva" para desarmar parte
suficiente da população, de modo a permitir aos policiais executa-
rem a maior parte de seus deveres desarmados.
A fim de ajudar a evitar que a polícia tenha que responder à
força com a força que lhe é peculiar, nossas leis teriam que especifi-
car penas severas, não só para a propriedade de armas letais, mas
pelo seu porte nas proximidades de equipe policial. Assim, a mera
posse de uma arma na presença de um policial poderia causar
quase a mesma pena que seria estipulada pelo seu uso efetivo.
Uma lei como esta, embora ela própria severamente coerciti-
va, finalmente permitiria à polícia abandonar suas armas com segu-
rança. Isto poderia dar espaço para que o uso do reforçamento
positivo construísse a conduta legal, em vez de apenas punir os que
desrespeitam a lei. O resultado poderia ser uma redução geral do
controle coercitivo. Sem armas — e, é claro, com segurança adequa-
da contra o uso de armas pelos demais — seria possível para a
polícia recrutar jovens que não estivessem ainda comprometidos
com a violência e a revanche como meio de vida. A ausência de
armas poderia ajudar a atenuar a percepção pública de que a polícia
deve ser temida por todos e a reduzir a extensão na qual a polícia
conserva esta imagem coercitiva.
272 Murray Sidrrvan

Novamente, a experimentação social será necessária. Sabe-


mos que a coerção se autoderrota, mas substitutos práticos necessi-
tam de uma avaliação cuidadosa. O reforçamento positivo não fun-
ciona por magia. É simples em princípio, mas difícil de executar na
prática. Nossa avaliação das técnicas de reforçamento positivo deve-
ria começar antes que a subversão da função policial tenha se torna-
do irreversível.
Será que as polícias municipais e estaduais poderiam ajudar
a restabelecer a amizade com suas comunidades, distribuindo refor-
çamento positivo? Assim como os dispensadores de choques tor-
nam-se eles mesmos choques, os dispensadores de reforçadores po-
sitivos tornam-se eles próprios reforçadores positivos. Associações
atléticas patrocinadas pela polícia são exemplos existentes de tenta-
tivas de prevenção da delinqüência, reforçando a conduta desejável
em vez de apenas esperar que os problemas aconteçam para, então,
atacá-los duramente. Tal cooperação entre a polícia e a comunidade
pareceria inteiramente razoável, ainda que nada conhecêssemos so-
bre a análise do comportamento, mas os dados sobre a eficiência da
prática são insuficientes. Precisamos saber se ela é bem-sucedida e
se não for, porque fracassa; as modificações poderiam, então, pro-
porcionar um sucesso crescente, talvez gerando até mesmo exten-
sões do patrocínio da polícia para feiras científicas, mostras agríco-
las, concursos culinários e outras atividades educativas relevantes
para os jovens.
Existem outras áreas nas quais a polícia poderia tentar incli-
nar a balança do controle negativo para o positivo? Atualmente, os
policiais distribuem notificações de multas aos motoristas que são
apanhados dirigindo em alta velocidade, ultrapassando sinal verme-
lho ou parada obrigatória, dirigindo sem usar cinto de segurança,
transportando crianças inadequadamente ou com lanternas e faróis
defeituosos. O que aconteceria se, em vez disso, eles "apanhassem"
os motoristas obedecendo os limites de velocidade, parando no sinal
vermelho e em paradas obrigatórias, usando o cinto de segurança,
transportando as crianças de forma segura ou com as luzes de
sinalização do automóvel em perfeito estado — e distribuíssem in-
gressos gratuitos para eventos esportivos, filmes, peças de teatro,
concertos e museus?
Esta inversão da prática característica da polícia poderia não
sé mostrar tão naturalmente impraticável como parece a princípio.
Ela não exigiria que os policiais aborrecessem os motoristas, paran-
do-os quando estivessem apressados para chegar ao seu destino; o
reforçador seria fornecido enquanto o motorista estivesse parado em
Coerção e suas implicações 273

ura semáforo ou pedágio, ou o policial poderia anotar o número de


sua carteira de habilitação e por meio de um computador localizar
rapidamente o endereço do motorista, para onde o reforçador seria
enviado ou, ainda melhor, o policial poderia levá-lo pessoalmente.
Tampouco seria necessário distribuir reforçadores positives para to-
dos ou mesmo para a maioria dos motoristas que obedecessem à lei;
averigüou-se que os reforçadores fornecidos ocasionalmente mantêm
o comportamento — uma vez que tenha sido aprendido — ainda
mais efetivamente do que os reforçadores oferecidos para toda ocor-
rência de conduta desejável (um fato contra-intuitivo sobre o contro-
le comportamental que tem sido amplamente documentado).
Em outras áreas de responsabilidade da polícia, o reforça-
mento positivo também poderia ajudá-la a atingir seus objetivos. No
controle de multidões — em desfiles, eventos esportivos e manifesta-
ções de vários tipos — em vez de apenas esperar que as pessoas
passem o cordão de isolamento para fazê-las recuar, a polícia pode-
ria ocasionalmente distribuir reforçadores para as pessoas que se
mantivessem dentro dos limites? Poderíamos não apenas solicitar-
lhes que evitassem saques êm episódios de inundações e incêndios,
mas que ajudassem a providenciar comida, roupas e abrigo para
aqueles que necessitam? Na cabine de votação, em vez de apenas
desqualificar as pessoas cujos nomes não constam da lista, não
seria possível ocasionalmente oferecer algo extra para as pessoas
cujos nomes são encontrados? ,
Embora o reforçamento positivo não seja uma função tradi-
cional da polícia, não é difícil produzir novas possibilidades, uma vez
que se tenha acostumado a pensar desta forma. Sem dúvida, casos
individuais se defrontariam com dificuldades práticas, mas quando
se mantém a atitude experimental, então as práticas malsucedidas
são abandonadas, ou melhor, são modificadas até que realmente
funcionem. Temos boas razões para acreditar que o reforçamento
por manter-se dentro da lei funcionaria em muitos casos tão efetiva-
mente quanto o atual sistema de esperar até que a lei seja violada
para então punir. Temos motivos para crer que o reforçamento posi-
tivo para a conduta desejável reduziria a necessidade de punição
para as ações indesejáveis. A evidência do poder das contingências
positivas é forte o bastante para garantir alguns experimentos so-
ciais seguindo esta ótica; eles começariam timidamente, mas chega-
riam a atingir objetivos importantes.
Igualmente importantes seriam os efeitos colaterais — desta
vez, efeitos colaterais de reforçamento positivo. Os carros da polícia
não sinalizariam medo e apreensão, mas a antecipação de encontros
274 Murray Sidrrvan

amistosos e gratificantes, sinais bem-vindos de que tudo está bem.


Como distribuidora de reforçamento positivo, a polícia não geraria a
esquiva, mas a aproximação; não geraria o medo, mas a confiança;
não geraria a hostilidade, mas a amizade. Poderíamos ver o restabe-
lecimento da fé e da confiança pública em nossas instituições prote-
toras. A imagem pública dos policiais como adversários desaparece-
ria, eles passariam a ser admirados, respeitados e dignos de nossa
confiança.
Será que também poderíamos estabelecer um sistema de re-
forçamento positivo que caminhe na outra direção? Poderíamos de
forma mais efetiva mostrar nosso apreço pelos serviços da polícia,
tornando conseqüências visíveis e valiosas contingentes a desempe-
nho desejável? Se o fizéssemos seria mais provável ver tais desempe-
nhos aparecendo novamente.
Atualmente, percebemos nossa polícia principalmente quan-
do detectamos desvios da conduta aceitável e então estamos prontos
para punir. Em vez de apenas reagir àquilo que não gostamos na
conduta dos policiais, poderíamos também reforçá-los positivamente
por aquilo que realmente gostamos. Que tal menções honrosas indi-
viduais, prêmios, folgas e pontos que seriam contados para promo-
ção? Obviamente, teríamos que especificar o que desejamos. Um
sistema eficaz provavelmente exigiria maior precisão do que estamos
acostumados na descrição daquilo que consideramos ser a conduta
desejável. Generalidades como honestidade, lealdade e integridade
proeminentes não serão suficientes. Especificações vagas como .estas
deixam muitas lacunas para julgamentos arbitrários, caprichosos e
até mesmo fraudulentos. Teríamos de descrever o que realmente os
policiais teriam de fazer para justificar uma menção honrosa por
honestidade, lealdade, integridade ou o que quer que seja. Da mes-
ma forma, para evitar que o sistema de tome corrupto, o público
terá que administrá-lo.
Obviamente, seria uma atitude simplista propor o reforça-
mento positivo recíproco como uma panacéia para o relacionamento
deteriorado entre a polícia e a população. As práticas do cumpri-
mento da lei são influenciadas por forças políticas e econômicas de
larga escala, sobre as quais nós, como indivíduos, temos pouco
controle. Entretanto, temos de ser cuidadosos; apelar para tais "for-
çai" pode nos desencorajar de tentar aperfeiçoar nossas práticas
sociais. Apenas as ciências físicas definem força de maneira com a
qual todos podem concordar; nas ciências sociais o termo significa
diferentes coisas para diferentes pessoas. Muito freqüentemente ele
Coerção e suas implicações 275

serve apenas para evitar que tenhamos que especificar as verdadei-


ras variáveis.
O cumprimento da lei é um processo social que envolve inte-
rações entre pessoas. Variáveis comportamentais governam estas
interações. E reforçamento positivo e negativo é um dos fatores mais
poderoso na determinação do que fazemos. Seja qual for o status
causai que queiramos atribuir a "forças sociais", estas forças serão,
elas mesmas, determinadas, pelo menos em parte, pelas variáveis de
reforçamento. Na medida em que a redução da confiança da polícia
nas armas para impor práticas coercitivas possa ajudar a produzir
relações entre a polícia e o público sob controle de reforçadores
positivos, na medida em que a polícia usar o reforçamento positivo
em vez da coerção para cumprir a tarefa a ela atribuída de controlar
nosso próprio comportamento e na medida em que pudermos gerar e
manter a conduta desejável da polícia, fornecendo reforçamento po-
sitivo, as "forças" que influenciam a relação entre a polícia e o
público penderão um pouco menos para o lado da aversão e da
contra-agressão e mais para o lado do respeito mútuo e da coopera-
ção.
17

*E?(iste aígum outro caminho? (continuação)

Reforçamento positivo em diplomacia


Pombas e águias. Nós, do lado dos espectadores, sabemos
pouco sobre o que realmente acontece durante negociações diplomá-
ticas. Recursos militares e econômicos — reforçadores potenciais —
são recrutados a serviço da política externa por meio de rotas miste-
riosas. O segredo torna o processo diplomático difícil de analisar.
Mas não há mistério sobre os resultados. Defendendo a guerra como
uma alternativa viável ã paz, a diplomacia-padrão expandiu um sis-
tema de intimidação, beligerância e agressão assassina que funciona
para satisfazer a ganância econômica e a sede de poder.
Porque poder, recursos e prestígio são reforçadores potentes,
as nações provavelmente sempre terão que manter forças militares
para impedir aqueles que tomariam tudo para si mesmos. "Águias"
defendem uma postura crescentemente agressiva, garantida por um
sistema militar irresistível. Eles argumentam que a prontidão para
atacar é autoprotetora e insistem que apenas a força superior pode
proteger uma nação contra o ataque. "Pombas" que defendem a
amizade internacional, argumentam que a ameaça de agressão gera
contra-agressão e insistem que apenas o desarmamento garantirá a
Coerção e suas implicações 277

paz. As pombas acusam as águias de causar, em vez de impedir, as


guerras, e as águias acusam as pombas de irrealismo, de simples-
mente pedir a autodestruição.
Certamente, nenhum país pode fechar os seus olhos à possi-
bilidade de ataque por um outro e, ainda assim, a noção de força
superior tem, ela mesma, se tornado irrealista; várias nações têm
agora explosivos nucleares suficientes para destruir todo mundo. É
realmente impraticável tentar influenciar outras nações não-coerciti-
vamente? A analogia da pomba-e-águia tem um segundo sentido
curioso. É igualmente natural ser qualquer dos dois tipos de pássa-
ro e ambos têm valor, mas as pombas parecem ser sobreviventes,
enquanto que as águias são uma espécie em extinção.
Reforçamento positivo, embora não gere a inimizade e a con-
tra-agressão que vem atrás da coerção, é, entretanto, uma contin-
gência; não significa dar tudo em troca de nada. Para serem efetivos,
reforçadores positivos devem ser contingentes à conduta e às cir-
cunstâncias em que a conduta ocorre. Embora não-coercitivo, a
menos que o mau uso o transforme em reforçamento negativo, refor-
çamento positivo ainda é controle comportamental.
Como vimos, o dar não-contingente também é uma forma de
controle e pode ser destrutivo, gerando comportamento que não é de
interesse para ninguém. Dar incondicionalmente não é o oposto de
coerção. Se pais dão a seus filhos tudo o que eles querem inde-
pendentemente de como eles agem, as crianças não aprenderão
nada de útil para si mesmas, para seus pais ou para a sociedade em
geral. Uma nação dando a uma outra tudo o que esta outra quer,
independentemente do que esta faça, não conseguirá que a que
recebe funcione produtivamente ou pacificamente na sociedade
mundial. Dar não-contingente não significa generosidade; produz
seus próprios efeitos colaterais destrutivos.
Por outro lado, o paradoxo da esquiva (Capítulo 9) impedirá
qualquer política coercitiva de manutenção da paz de ser completa-
mente bem-sucedida; ninguém pode continuar se esquivando para
sempre sem receber um choque ocasional. Intimidação por meio de
armas nucleares sofre de uma desvantagem especial. Quando o cho-
que inevitável vier, ele colocará um fim em toda a conduta humana.
Por essa razão, uma política exeqüível para intimidação mútua re-
quereria a restrição de armamentos para armas menos destrutivas.
Mesmo com uma paz que mantenhamos pela intimidação mútua, o
desarmamento nuclear seria necessário. Um conflito armado ocasio-
nal que não destrua todo mundo poderia então servir como o lem-
278 Mwray Sidman

brete necessário que nos mantém esquivando de mais guerras por


algum tempo.
Embora provavelmente jamais possamos eliminar completa-
mente a coerção das políticas diplomáticas, não podemos depender
dela como o principal mecanismo de manutenção da paz. No melhor
dos casos, deveríamos mantê-la apenas para emergências. Como
com famílias, um forte ba.ckgrou.nd de reforçamento positivo pode
impedir que um ocasional uso da força produza efeitos colaterais
devastadores. Mas seguidas vezes temos visto controle predominan-
temente coercitivo mais cedo ou mais tarde produzir a própria con-
traviolência que pretendia impedir.

Generais famintos. O sistema militar se apropria e usa uma


enorme porção da riqueza do mundo, transformando-a principal-
mente em suprimentos consumíveis e armas. Instituições militares
não produzem alimento ou abrigo exceto para si mesmas, não ma-
nufaturam bens para uso civil, provêm cuidados de saúde apenas
para os seus, estabelecem escolas quase que exclusivamente para
educação nos métodos e na tecnologia da guerra e estabelecem labo-
ratórios de pesquisa para descobrir novas maneiras e para refinar
antigas maneiras de destruir adversários potenciais. Apenas uma
porção minúscula do orçamento militar vai para a produção de
bens, tecnologia, conhecimento ou educação genericamente úteis. A
maioria dos recursos de que se apropria vai para o lixo; em tempo de
guerra, vidas humanas se escoam pelo ralo, e em tempos de paz,
todas as armas finalmente queimam, explodem ou apodrecem.
O mundo poderia reduzir enormemente este desperdício re-
duzindo o tamanho de seus sistemas militares. Nações ricas e pode-
rosas poderiam descobrir ser possível diminuir suas forças com se-
gurança, substituindo por reforçamento positivo a coerção que
atualmente passa por diplomacia. Coerção internacional, ipsofacto,
requer uma retaguarda militar; retaliação é inevitável. Sustentamos
a diplomacia coercitiva com a construção sempre crescente de um
aparato militar que produz um desperdício ainda maior de recursos
humanos e materiais. Esse círculo poderia ser quebrado substituin-
do cóérção por reforçamento positivo como um instrumento para a
manutenção de interações civilizadas entre nações. Eliminar a ne-
cessidade dè sustentar organizações militares crescentemente mais
vorazes tornaria disponível para todos um conjunto de recursos
significativamente maiores. Para ser exato, a simples disponibilidade
de recursos não significa que eles serão distribuídos igualmente, ou
com um espírito de cooperação internacional, mas pelo menos abri-
Coerção e suas implicações 279

ria uma possibilidade. Compartilhar contingente, então, diminuiria


a necessidade das nações de recorrer à agressão e à contra-agres-
são.

Bons vizinhos? Porque as apostas são tão altas, é desejável a


experimentação preliminar, embora diplomacia baseada em dados
empíricos dificilmente tenha sido uma tradição em qualquer lugar.
Faria sentido para o departamento de estado estabelecer um ramo
de pesquisa que incluísse, entre outros, analistas do comportamento
e especialistas em metodologia científica? Estes "cientistas estra-
nhos ao serviço" poderiam iniciar estudos experimentais, alguns
talvez perguntando se nosso conhecimento em acumulação sobre o
comportamento poderia ser aplicado a serviço da paz internacional.
Em vez de tentar destruir um governo não-amistoso apoian-
do a violência interna e o terrorismo — e, no processo, transforman-
do velhos amigos em inimigos — poderíamos modelar cooperação e
amizade? Modelagem é um procedimento comportamental testado e
verdadeiro. Envolve encontrar alguma conduta que consideramos
desejável e tornar esta conduta mais provável fornecendo reforçado-
res positivos. A primeira conduta reforçável pode ser relativamente
não-importante, mas ela produzirá novas formas de conduta mais
próximas daquela que finalmente queremos. Podemos, portanto,
gradualmente reforçar comportamento que é mais e mais importante
para nós. E, fornecendo reforçadores — algumas vezes mudanças
em nosso próprio comportamento — que satisfaçam as necessidades
da outra nação, o processo se torna recíproco; ambas as nações
gradualmente mudam a natureza de suas interações uma com a
outra.
Em relações internacionais isto significa reunir-se para en-
contrar áreas de concordância. Discordâncias são fáceis de identifi-
car, mas freqüentemente passamos por cima das necessidades de
uma nação não-amistosa que poderíamos satisfazer sem nos colocar
em perigo e não consideramos a possibilidade de que a outra nação
pudesse estar desejosa de concordar com pelo menos algumas pe-
quenas exigências nossas. Uma certa quantidade de mútuo "coçar
as costas" é sempre possível.
Começando com áreas de concordância pequenas e até mes-
mo não-importantes, o reforçamento fortalece conduta desejável e,
no processo, faz com que novo comportamento apareça pela primei-
ra vez. Por exemplo, prover suprimentos médicos em troca de privilé-
gios mínimos em aeroportos comerciais colocaria cidadãos e funcio-
nários do governo de cada país em contato construtivo, dotaria anti-
280 Murray Sidrrvan

gos inimigos de características de reforçadores positivos e estabele-


ceria as bases para a confiança. Tendo feito pequeno progresso,
poderíamos ver então que outras áreas de cooperação poderiam ser
encontradas. Talvez pudéssemos pedir a liberdade de prisioneiros
políticos e, de nossa parte, fornecer oportunidades de educação para
pessoal civil e militar.
Em troca de amizade e cooperação poderíamos fazer mais do
que simplesmente remover pressões coercitivas. Poderíamos enviar
máquinas agrícolas, ajudar a construir fábricas e treinar pessoas
para possuí-las e operá-las, prover suprimentos e médicos para ini-
ciar programas de saúde pública e estabelecer escolas que ajuda-
riam a garantir a autoconfiança do país. Finalmente, qualquer que
seja a ajuda que um governo não-amistoso — digamos, a Nicarágua
— poderia receber da Rússia e Cuba, nós poderíamos facilmente
superá-la e, no processo, atingir nossos próprios objetivos diplomáti-
cos também. Cada nação daria, e cada uma receberia, ambas pode-
riam, portanto, manter seu auto-respeito.
As contingências de reforçamento não deveriam incluir o uso
de força. Mesmo uma ação militar antiamericana não deveria trazer
destruição sobre suas cabeças. Nem deveria a forma ou estilo de
governo ter que ser envolvido nas contingências. Ações amistosas
trariam reforçadores positivos; ações não-amistosas não o fariam.
Em vez das conseqüências de desconfiança e hostilidade que as
práticas coercitivas usuais teriam produzido, amizade e paz pode-
riam prevalecer na área. O governo, aproveitando o apoio de peque-
nos e grandes vizinhos, não mais teria que tolerar a presença de
bases militares estrangeiras potencialmente hostis. Embora a coer-
ção pudesse ter derrubado o governo, ela teria deixado problemas
igualmente sérios em seu rastro. Reforçamento positivo por coopera-
ção poderia provar-se tão efetivo internacionalmente como na família
individual, trazendo com ele um arrefecimento das tensões que o
controle coercitivo somente piora.
Ninguém pode garantir que as coisas funcionariam deste
modo. A riqueza de dados que possuímos do laboratório e das apli-
cações tecnológicas a outros problemas da conduta humana forte-
mente enraizados realmente poderia prover guias para a ação efetiva
ria complexa arena das relações internacionais? Os efeitos desejáveis
do reforçamento positivo sobreviveriam aos predadores, naquilo que
parece, de fora, como uma massa confusa de ganância individual
por poder e riqueza? Poderíamos garantir que reforçadores enviados
a um outro país alcançariam a população em geral, cuja conduta
queremos influenciar? Reforçadores seriam enviados aos mais ne-
Coerção e suas implicações 281

cessitados em países onde os ricos concluíram que sua própria so-


brevivência depende de manter a maioria da população pobre e
não-educada?
Estes e outros problemas previsíveis poderiam ser resolvidos
de várias maneiras, talvez nenhuma delas fornecendo uma solução
completa. Ainda assim, reforçamento positivo poderia mostrar al-
guns de seus efeitos desejáveis. O mesmo poderia ser verdade a
respeito de problemas não-previstos. Não saberemos até que tente-
mos. Dados existentes sugerem que a tentativa valeria a pena. Os
efeitos desastrosos das técnicas de controle atuais na diplomacia
internacional tornam a tentativa necessária.
Mesmo quando políticas coercitivas são bem-sucedidas em
destruir governos não-amistosos, nos descobrimos aliados à corrup-
ção e à maldade. Seguidas vezes pressões coercitivas aparentemente
bem-sucedidas têm levado os Estados Unidos a sustentar governos
que se mantêm a si mesmos por meio da violência, supressão, des-
truição e traição. Portanto, continuamos com muitos dos mesmos
problemas que estivemos tentando eliminar — governos e popula-
ções não-amistosos, não apenas em um país, mas em toda uma
região. Enquanto nossos agentes de coerção regozijam-se pela elimi-
nação à força de uma base militar potencialmente perigosa, nossos
oponentes acumulam enormes lucros. Isolados e sem a confiança de
nossos vizinhos, descobrimos nossa posição de liderança ainda mais
difícil de sustentar. Diplomacia coercitiva nos torna um perdedor
final. Reforçamento positivo poderia não funcionar, mas não pode
piorar.

Tragédia africana. Obviamente, estas sugestões envolvem su-


persimplificações. Mas, de início, a ciência sempre supersimplifica.
Ela, então, gradualmente acrescenta as complexidades que colocam
experimentos controlados em contato com condições não-controladas
do mundo cotidiano. Reforçamento positivo é um poderoso determi-
nante do comportamento. Aplicado em larga escala, seus efeitos
provavelmente vão se mostrar amplamente, ainda que outras variá-
veis rièutralizem sua ação em algumas localidades. Valeria a pena
buscar outras oportunidades para experimentar com reforçamento
positivo como um substituto da coerção em relações internacionais.
Por exemplo, os Estados Unidos e a maioria do resto do
mundo têm apoiado o governo da minoria da África do Sul a despei-
to de sua opressão inominável. Todos nós compramos o argumento
de que na África do Sul apenas os brancos possuem as habilidades
de que o país necessita para manter processos ordeiros. Se os ne-
282 Murray Sidrrvan

gros tomassem o poder, prossegue o argumento, sua falta de habili-


dades de gerenciamento e de tecnologia iria impedi-los de manter as
minas, as fábricas, as escolas, as instituições financeiras, os servi-
ços públicos e o governo em operação. Esta racionalização tem per-
mitido às nações do mundo apresentar o problema como sendo
meramente de atraso político e tecnológico dos negros, quando o
problema é claramente racial. Os brancos, numericamente inferio-
res, mas dominantes, não estão dispostos a compartilhar o poder e a
riqueza com uma maioria negra que eles temem.
É bastante possível que esta racionalização contenha ele-
mentos de verdade. Mas se assim for, nem nós, nem outras nações
fizeram qualquer tentativa para ajudar a retificar esta situação.
Quem sabe se nós e outras nações tivéssemos usado indução positi-
va para persuadir o governo sul-africano a ensinar à maioria negra
as habilidades sociais, técnicas e políticas de que eles necessitariam
para assumir responsabilidade de uma maneira ordenada? Agora é
muito tarde. Nem mesmo desistindo de seu mando voluntariamente
a minoria branca impedirá o iminente derramamento de sangue. O
ciclo de coerção e contracoerção caminha.
As políticas passadas e atuais dos governos brancos do mun-
do para lidar com a África do Sul incluíram uma mistura de métodos
contraditórios para controlar comportamento. O mundo branco ou
deu aos exploradores sul-africanos tudo de que eles necessitavam,
independentemente do que eles fizeram ou deixaram de fazer —
reforçamento positivo não-contingente — ou tentou forçar mudanças
negando apoio econômico — reforçamento negativo. Jamais usou
reforçamento positivo competentemente — contingente à conduta
real. Jamais tornou o apoio dependente de reduções específicas na
política de apartheid, reforçando primeiro pequenas mudanças e
gradualmente acrescentando passos posteriores.
Apoio contingente, embora certamente uma técnica de con-
trole, não precisa incluir os elementos coercitivos da punição e refor-
çamento negativo. Reforçamento positivo não envolve ameaças;
apoio simplesmente vem depois que a conduta desejada ocorreu e
era nenhum outro momento. Conduta indesejável não é punida seja
dando "choques", seja retirando reforçadores que já foram obtidos.
Controle sim, mas não controle coercitivo.
Os objetivos da diplomacia são comportamentais. Sua meta é
influenciar condutas daqueles que governam outras nações — na
África do Sul, a minoria governante. As técnicas de controle compor-
tamental usadas para tentar atingir esses objetivos na África do Sul
provaram ser completamente inefetivas e estão a ponto de chegar ao
Coerção e suas implicações 283

seu término tão temido. O resto do mundo não pode ser responsabi-
lizado pela coerção ali praticada pelo governo branco, ainda assim
nosso fracasso em exercer uma influência efetiva ajudou a garantir
que os dias da minoria branca — seja no poder ou fora dele — estão
contados. Violência sem perdão não é mais evitãvel. Realmente o
governo será tomado por aqueles que não têm habilidades para o
governo, o comércio por aqueles que são tecnológica e gerencialmen-
te não-treinados e a educação por aqueles que não receberam edu-
cação. E porque os Estados Unidos foram percebidos como a nação
mais capaz de impedir que tudo isto acontecesse, permanecerão, no
futuro previsível, como um objeto de ódio naquela parte do mundo.
Talvez nenhum estrangeiro pudesse ter impedido o sofrimento dos
negros sul-afrícanos, mas não podemos ignorar a possibilidade de
que técnicas comportamentais mais efetivas poderiam ter impedido
a tragédia que é iminente. Precisava ter acontecido? Esta experiên-
cia horrorosa levar-nos-á a tentar alternativas?

Cidadãos do mundo. A produção colaboradora e o comparti-


lhar de teorias científicas, dados, tecnologia e outros produtos do
trabalho intelectual estabeleceram uma comunidade mundial de in-
telectuais. Em geral, os reforçadores importantes que mantêm exce-
lência acadêmica são positivos. A noção de que a criatividade cientí-
fica pode ser motivada por punição é tão contrária à experiência que
é risível. Cientistas descobrem seu trabalho como reforçador quando
ele é útil a outros cientistas ou quando adiciona algo ao bem-estar
geral. Os prêmios públicos e prestigiosos por resultados científicos
são amplamente baseados no critério "Quão útil outros cientistas
acharam este trabalho?" Revistas internacionais disseminam os re-
sultados de investigação teórica e experimental a despeito do país
ondè o trabalho foi feito. Cientistas e outros intelectuais viajam
constantemente para todas as partes do mundo para ensinar e
aprender. Como um resultado destas interações positivas, a maioria
dos cientistas considera repugnante o pensamento de se engajar até
mesmo em uma guerra "limitada" contra seus colegas cientistas.
Nas artes, também, reforçamento é positivo, contingente à
beleza e originalidade das criações do artista — pinturas, música,
escultura, romances, dramas, ensaios ou performances. Embora um
artista (e um cientista também) possa levar uma vida dura, o princi-
pal reforçamento por produtividade artística não está no reforça-
mento negativo de fuga do tradicional sótão e da fome, mas no efeito
qUe o trabalho produz sobre uma audiência. Como a audiência da
ciência, a audiência das artes é internacional. Artistas, também,
284 Murray Sidrrvan

viajam constantemente para todas as partes do mundo, ensinando,


aprendendo e divertindo. A comunidade artística internacional,
como a científica, considera o próprio pensamento da guerra odioso.
Aqui estão dois grandes grupos internacionais, artistas e
cientistas, para quem interações pacíficas, baseadas em reforçamen-
to positivo mútuo, tornaram-se um modo de vida. Reforçamento
positivo tem estabelecido relações positivas entre cientistas, entre
outros intelectuais, entre artistas e entre estes produtores de conhe-
cimento e beleza e seus alunos e audiências por todo o mundo. Esta
boa vontade e cooperação mundiais se desenvolveram não por causa
de, mas a despeito da diplomacia-padrão.
O Corpo de Paz jamais foi avaliado por seu sucesso em esta-
belecer e manter boa vontade internacional em relação aos Estados
Unidos. Muitos testemunhos informais sugerem que ele tem sido
enormemente efetivo em contrabalançar as divisões que a diploma-
cia coercitiva oficial cria. Entretanto, o apoio deste país ao Corpo de
Paz torna-se menor todo o tempo.
Um outro mecanismo positivo para encorajar cooperação in-
ternacional, o Programa Acadêmico Fullbright — mantido pelo Con-
gresso americano fora dos canais diplomáticos usuais (e, por esta
razão, sujeito a constantes pressões destrutivas dos funcionários do
Departamento de Estado) — é um pequeno experimento que tem
estado em andamento por anos, mas nós ainda não paramos para
analisá-lo e aprender com ele. Bolsas Fullbright, concedidas como
reforçadores positivos por realizações, têm aumentado significativa-
mente a boa vontade em troca de um investimento financeiro relati-
vamente pequeno.
Por que não aumentar o escopo destes experimentos, esten-
dendo o modelo de reforçamento positivo que funcionou para tecno-
logia internacional, trabalho intelectual e arte a todas as áreas da
atividade humana? Quando problemas e conflitos de interesses sur-
gem, é mais provável que indivíduos com uma história de reforça-
mento positivo recíproco insistam com seus governos para que en-
contrem soluções construtivas e não destrutivas. Quando aqueles na
mesa de negociação não têm laços positivos, eles simplesmente fa-
zem exigências; uma vez que seus cidadãos já tenham estabelecido
interações amistosas e cooperativas, é mais natural propor soluções.
Governos acharão difícil ameaçar ou fazer guerra se seus cidadãos,
mesmo seus soldados, tornaram-se amigos.
Para patrocinar esta meta de criar laços entre indivíduos,
não poderíamos estabelecer institutos internacionais, devotados à
pesquisa, ao ensino e à aplicação de conhecimento e tecnologia
Coerção e suas implicações 285

em áreas caracterizadas por importantes problemas práticos não-


resolvidos? Eles poderiam incluir agricultura, nutrição, prevenção
de doenças, administração de empresas, arquitetura, legislação, tec-
nologia de computadores, educação e muitos outros. Poderíamos
localizar estes institutos em muitas nações, sem exclusão de nenhu-
ma. Cada um convidaria especialistas e leigos para seminários e
conferências internacionais. Todos que comparecessem deveriam ser
capazes de fazer suas próprias perguntas, aprender o que os outros
estão pensando ou descobriram, apresentar seus próprios pensa-
mentos e descobertas e avaliar os méritos relativos de várias solu-
ções para um dado problema. Durante o processo, eles teriam uma
chance de ver o "inimigo" por si mesmos, interagindo durante o
trabalho e o lazer. Tais trocas positivas tornariam difícil para partici-
pantes individuais manter-se como ou tornar-se inimigos.
Interações positivas entre pessoas de nações diferentes tam-
bém poderiam ser patrocinadas por um programa de troca de cida-
dãos. Com apoio nacional e internacional, jovens poderiam viajar
para outros países, vivendo com famílias tempo suficiente para tor-
nar-se realmente familiarizados com uma outra cultura e para for-
mar laços de amizade duradouros. Hospitalidade é um termo que
cobre muitos reforçadores positivos. Significa ser tratado com res-
peito e consideração, como um visitante interessante e valorizado,
sendo "levado para ver a cidade", compartilhando comida e abrigo,
fazendo parte das intimidades da família, aprendendo uma nova
língua e tornando-se familiarizado com habilidades, práticas e cos-
tumes culturalmente específicos que de início pareciam estranhos
ou mesmo amedrontadores. Isto significa adquirir uma extensa his-
tória de trocas positivas que será difícil de ser revertida por qualquer
circunstância. Se fosse possível dar esta história a um número sufi-
ciente de cidadãos, a costumeira diplomacia coercitiva perderia
apoio popular.
Tais trocas claramente não resolveriam os problemas do
mundo. A sugestão não se pretende como a cura para todos os
males, mas como um primeiro passo que poderia, então, tornar
outros passos construtivos possíveis. Em uma larga escala, a troca
seria cara mas se permitisse finalmente uma redução significativa
no custo da manutenção de sistemas militares, a substituição de
uma despesa por outra seria facilmente justificável.
O princípio geral é de que os governos aliviem e impeçam
tensão internacional usando reforçamento positivo para fortalecer
relações positivas entre populações, em vez de reforçamento negati-
vo para levar outros governos a tentar fugir e esquivar de ameaças.
286 Murray Sidrrvan

A técnica é exatamente o oposto de "reuniões de cúpula" nas quais


chefes de estado, tendo feito suas ameaças e contra-ameaças, en-
contram-se para avaliar as sugestões uns dos outros para fugir das
tensões que eles criaram. Eles encontrar-se-iam, em vez disso —
provavelmente com mediadores presentes —- para determinar como
cada nação poderia melhor atender às suas necessidades. O impulso
para a paz viria de baixo, com a população em geral estabelecendo
as regras básicas para a conduta nos negócios internacionais. A
longo prazo, programas que fornecem reforçamento positivo para as
ações construtivas de cidadãos individuais mais do que pagariam a
si mesmos. E a melhoria na qualidade de vida, não-obscurecida pelo
medo da destruição parcial ou total, seria incalculável.

Terrorismo. Reforçamento positivo poderia ajudar a acabar


com o terrorismo também? Talvez, mas não rapidamente. Atividades
terroristas são apenas um efeito colateral de pressões coercitivas
que têm estado presentes por muito tempo (Capítulo 9), e, natural-
mente, o próprio terrorismo é uma técnica coercitiva, assim, ele
também, gera contramedidas. Uma vez colocado em movimento, ci-
clos repetidos de coerção e contracoerção são difíceis de interrom-
per. Cada lado teme que qualquer relaxamento em suas defesas (o
eufemismo usual para ofensas) há de deixá-lo à mercê de um inimi-
go impiedoso.
Reforçamento positivo, usado ineptamente, ajudou a patroci-
nar o terrorismo. O pagamento de resgate, seja em dinheiro, troca de
prisioneiros, transporte, armamentos ou qualquer outro retorno po-
sitivo, tem garantido que o tomar e matar reféns continuará. Res-
ponder a pedidos angustiados das famílias de reféns pagando resga-
te para a libertação de um grupo tem garantido que outros serão
mais tarde tomados como reféns. Este não é um problema de opi-
nião pessoal: é o modo como reforçamento positivo funciona. En-
quanto pagarmos terroristas pelo que eles fazem, eles estarão felizes
em nos agraciar com mais.
Umà outra fonte de forte reforçamento positivo que ajuda a
perpetuar o terrorismo é a intensa cobertura da televisão, do rádio,
do jornal ê de revistas de cada ato terrorista. Terroristas descobri-
ram que jogar uma pequena pedra pode fazer um barulho interna-
cional, com ecos se estendendo não apenas em cada conselho de
estado, mas também em cada casa. O esforço relativamente pequeno
envolvido em tomar alguns reféns pode tirar um grupo do anonima-
to, não importa o quão insignificante e sem poder o grupo possa ser
por qualquer critério usual. Representantes dos mais poderosos go-
Coerção e suas implicações 287

vernos e das mais influentes igrejas permitem ser levados com os


olhos vendados para rudes negociações onde discutem pagamento
com raptores hostis e que os desprezam. A mídia coloca as negocia-
ções no palco central do mundo; apenas as finais de futebol ameri-
cano e de futebol internacional obtêm tanta publicidade.
Imagine o sentimento de poder e grandeza no peito dos terro-
ristas à medida que se vêem e ouvem seus feitos discutidos de canal
em canal e de página em página da mídia. O que deve significar para
pessoas que o mundo tratou com desprezo superior, descobrir que
eles foram capazes de virtualmente varrer do mapa a indústria do
turismo internacional simplesmente detonando algumas poucas
bombas em aeroportos? Há maneira mais simples de tornar conheci-
da sua existência do que raptar e matar alguns poucos indivíduos
sem defesa, ou plantar uma bomba relógio ou metralhar um indus-
trial ou político importante? Os feitos de qualquer herói receberam
mais reconhecimento?
Negociando e pagando resgate e fornecendo publicidade ili-
mitada, governos e mídia têm estado suprindo reforçamento positivo
que garante a continuidade do terrorismo. Talvez seja muito tarde
agora para governos utilizarem reforçamento positivo como deveriam
ter usado originalmente para criar alternativas aceitáveis como
meios de protesto ou para tornar o protesto desnecessário. Dada a
polarização atual, pode ser que governos não tenham qualquer esco-
lha a não ser contracoerção violenta para parar o terrorismo.
O reforçamento do terrorismo pela mídia trouxe de volta o
ressurgimento de uma velha ameaça, a censura. Essa solução para
o problema da mídia é impensável. A livre comunicação de notícias e
opinião ê uma das mais fortes proteções que um povo pode ter
contra aqueles que atingiriam seus objetivos por meio de coerção.
No entanto, o contínuo apoio da mídia ao terrorismo está tornando
difícil para cidadãos conscientes manter sua oposição à censura.
Aqueles que prefeririam, por outras razões, ver nossas fontes de
informação amordaçadas já estão fazendo barulho nessa direção,
apontando como justificação a exploração bem-sucedida da mídia
pelo terrorismo.
O reconhecimento de seu papel no reforçamento dos atos de
terrorismo e de seu próprio perigo deveria, portanto, engendrar uma
certa auto-restrição responsável por parte da mídia. A desculpa de
que toda notícia tem de ser publicada é patentemente falsa; jamais
foi possível relatar tudo e editores sempre tiveram de escolher o que
publicar. O problema real é que a mídia nunca desenvolveu critérios
para decidir o que relatar e o que não dizer. Considerar as conse-
288 MurraySidman

qüências comportamentais de suas práticas auxiliaria a prover bases racionais e


objetivas para tais decisões. O que é importante é que a mídia estabeleça estes
critérios por si mesma.
Quanto à política governamental em relação ao terrorismo, aí também,
a primeira coisa a ser feita é parar o reforçamento. Parar todas as negociações,
mesmo a "diplomacia discreta". Parar de aumentar o prestígio e o poder de
governos que fazem do apoio ao terrorismo uma questão de política nacional.
Usá-los como intermediários para obter concessões dos próprios grupos terroristas
que existem somente por causa de sua proteção, apenas perpetua suas práticas.
Para usar um termo técnico, que é apesar disto adequado, a atividade terrorista e
sua sustentação devem ser extintas e não reforçadas.
Entretanto, dada a história de sucesso do terrorismo, uma política de
extinção — retirada de reforçamento — requererá um tempo considerado para
ter efeito. Um único grande reforçamento é suficiente para manter um ato por
muito tempo. O terrorismo levou a um enorme retorno — muitos reforçadores
grandes; podemos esperar que continue por muito tempo, ainda que nunca mais
seja bem-sucedido. Além disso, o início da extinção trará um aumento temporário
das atividades terroristas. Tendo permitido que as coisas chegassem a este ponto,
podemos não ter outra alternativa além de responder ao aumento da violência
com nossa própria violência.
Ninguém deveria ter a ilusão, entretanto, de que qualquer coisa
permanentemente construtiva possa ser obtida desse modo. A coerção colocou
um grande segmento do mundo em um estado de privação econômica,
humilhação social e repressão política. O resto do mundo terá de rever sua
confiança na diplomacia coercitiva se quiser eliminar a ameaça de contracoerção
desesperada.

Reforçamento positivo na educação

Quando usado efetivamente o reforçamento positivo é a mais poderosa


ferramenta de ensino que temos. Muitos professores sabem disto, ainda que
dificilmente tenham ouvido falar dele em seu treinamento. Desconhecedores da
riqueza de dados confirmatórios de laboratório e de sala de aula que os apoiam,
aqueles que usam reforçamento positivo o fazem apenas porque descobriram que
funciona. Mas eles tiveram de descobrir por conta própria. Raramente o treinament
equipa futuros professores com qualquer proficiência no uso de reforçamento positivo
Coerção e suas implicações 289

O princípio geral para o professor é, primeiro, conseguir que


o aluno faça algo novo e, então, dar-lhe reforçamento positivo tão
rapidamente quanto possível. Quando Zé soletra corretamente uma
palavra, cumprimente-o, dê-lhe pontos para receber um prêmio es-
pecial, escreva um bilhete entusiástico para que ele leve a seus pais;
quando Maria soma e subtrai corretamente, elogie-a por ser tão boa
em aritmética, chame outra professora para que ela possa mostrar
seu talento, coloque alguns mais em um quadro que, quando preen-
chido, lhe dará algo especial.
Finalmente, o professor tem de eliminar todos esses suportes
externos e estabelecer a aprendizagem como sua própria recompen-
sa. Há apenas um modo de fazer isto: dê aos alunos oportunidades
de usar sua nova aprendizagem. Aprender se torna reforçador por si
mesmo quando leva a outros reforçadores. À medida que Joana
começa a ler e a entender o que está lendo, arrume tempo para que
ela leia livros que escolheu; à medida que Zé melhora em aritmética,
deixe-o ir às compras e pagar por algo que esteja querendo; quando
José escrever parágrafos simples, bem-organizados e corretos, deixe-
o expressar sua opinião sobre algo que seja importante para ele em
uma carta para o jornal local; depois que Júlia tiver aprendido os
princípios da eletricidade, mostre-lhe como fazer melhorias elétricas
simples na casa; à medida que o vocabulário de Juanita aumenta,
ensine-a como ensinar estas novas palavras para seus pais em casa.
Reforçadores positivos não são difíceis de encontrar, nem são algo
novo. Os melhores professores sempre os usaram. Entretanto, a
prática mais usual é simplesmente ir de um tópico do currículo para
o seguinte, ignorando os alunos que fazem corretamente a lição e
punindo aqueles que a fazem errado.
Professores têm muito menos oportunidades de dar reforça-
mento positivo do que se pode imaginar. Eles valorizam o pequeno
grupo de rápidos aprendizes em cada classe. O problema se intensi-
fica à medida que as crianças são filtradas pelo sistema educacional.
Nos primeiros anos, a maioria deles aprende com vontade, os poucos
aprendizes relutantes se destacam dos outros. A partir dos graus
intermediários e da escola secundária até a universidade, a balança
muda; estudantes sem vontade predominam. Professores de univer-
sidade admitem abertamente que sua tarefa é tornada suportável
por um ou dois alunos em uma classe que estão a par do material
do curso.
Se os diplomas dependessem de conhecimento do material,
tanto alunos fracassariam que a falência do sistema educacional
tomar-se-ia imediatamente aparente. Isto não é razão para a prática
290 Murray Sidrrvan

comum de atribuir notas "pela curva". Alunos com o resultado mais alto na
prova recebem A, mesmo que só aceitem 50% das questões; e assim, um resulta-
do tão baixo quanto 25% de acerto provavelmente terá uma nota que permite
passar. Dar notas a alunos apenas em relação uns aos outros, abandonando
qualquer pretensão de que suas notas signifiquem competência, torna possível
ao sistema passar para diante um número "respeitável". A maior parte do
reforçamento em educação é negativo — fuga de notas baixas e punições asso-
ciadas; o pouco reforçamento positivo que o sistema prove não é contingente a
aprender.

Aprendizagempor tentativa e erro. Tentativa de quem?Erro dequemTE


tanto mesmo com aprendizes capazes o reforçamento positivo não tirará de
cena a coerção por si mesmo. A razão disto, embora pareça paradoxal, demons-
tra porque o ensinar bem-sucedido envolve mais do que simplesmente dar
reforçamento positivo a alunos que conseguiram aprender algo.
O dito predominante em educação é que aprender ocorre por meio de
tentativa e erro, que aprendemos a partir de nossos erros. Mas um professor
eficiente jamais reforçará erros; este é um modo seguro de perpetuá-los. Aqui é
que a coerção volta à cena: reter reforçamento é punir. Faremos tudo que puder-
mos para sair de uma situação na qual o reforçamento não está vindo. Se não
pudermos fugir, aprenderemos a nos esquivar dela. Se não pudermos nem fugir
nem nos esquivar, contra-atacaremos. Nossos alunos farão o mesmo.
Reforçar o sucesso dos alunos na clássica aprendizagem por tentativa e
erro é mais efetivo que a prática usual de ignorar seus sucessos, mas não elimina
a coerção; a extinção dos erros ainda é necessária na aprendizagem por tentati-
va e erro. Desde que tratemos a educação como um processo de tentativa e erro,
o não reforçamento dos erros manter-se-á um elemento coercitivo. Podemos
resolver este problema? Podemos remover toda coercitividade do processo edu-
cacional?
A única maneira de eliminar a extinção do processo de ensino seria elimi-
nar p fracasso. Naturalmente, nunca eliminaremos completamente os fracassos,
mas desenvolvimentos técnicos têm tornado o objetivo algo que vale a pena perse
guir. Um dos resultados mais estimulantes da análise experimental foi a descober-
ta dè modos de ensinar sem produzir erros. Descobriu-se que aprender não precisa
ser tentativa e erro, alunos podem aprender sem erros. Novas aplicações de técni-
cas de ensino sem erro estão continuamente sendo descobertas e refinadas.
Coerção e suas implicações 291

O que torna a aprendizagem sem erro possível é a programa-


ção efetiva. Isto é algo que o professor tem que fazer, não o aluno.
'Tentativa e erro" ainda existe, mas a possibilidade de aprendizagem
sem erro transferiu tanto a tentativa como o erro do aprendiz para o
professor. Aprendizagem por tentativa e erro realmente acontece,
mas apenas quando não está acontecendo nenhum ensino, ou
quando o ensino não é bem-sucedido. Vezes sem conta mostrou-se
que os erros dos aprendizes vêm do programa de ensino: quando o
programa é mudado, os erros desaparecem.

O que é um programa de ensino? Qualquer coisa a ser apren-


dida tem seus pré-requisitos — todas as outras coisas que o aluno
tem que saber primeiro. Um programa de ensino efetivo garantirá
que antes de ter que aprender algo, o aluno já terá aprendido tudo o
mais que ele tem de saber. É papel do professor arranjar o material
em uma seqüência de passos relacionados, cada passo sucessivo
utilizando o que já foi aprendido. Resulta daí que os alunos que
realmente têm os pré-requisitos para cada passo caminharão sem
quaisquer erros. Deste modo é possível levar um aprendiz sem erros
através de habilidades manuais tais como amarrar sapatos e ali-
mentar-se, através de habilidades manuais, perceptivas e cognitivas
combinadas envolvidas na pronúncia e escrita de letras e palavras e
através do que freqüentemente é chamado de aquisição de conheci-
mento — aritmética, o significado das palavras, a derivação de con-
ceitos ou os conceitos básicos da análise do comportamento, crista-
lografia ou neuroanatomia.*

* Três livros nesta área são especialmente compreensíveis, relevantes e


instrutivos. Um trabalho germinal sobre métodos efetivos de instrução é:
B. F. Skinner. The technology of teaching. Nova Iorque: Appleton-Century
Crofts, 1968. Um sistema que aplica a maioria dos princípios conhecidos
de reforçamento positivo na educação e que acrescenta alguns novos
elementos criativos foi introduzido por Fred S. Keller em um artigo
intitulado "Good-bye. teacher...", uma frase tomada da bem conhecida
canção de liberdade cantada pelas crianças ao final do ano escolar. Este
artigo, junto com outros de interesse, pode ser encontrado em: F. S.
Keller, Summers and sabbaticals. Champaign, Illinois: Research Press,
1977. Um outro livro, fino em número de páginas, mas penetrante em
sua crítica, grande em sua humanidade e generosidade, é um clássico
ainda não-descoberto: F. S. Keller, Pedagogue's progress. Ele pode ser
obtido na ABA, 260 Wood Hall, Western Michigan University, Kalamazoo,
MI 49008.
292 Murray Sidrrvan

Programação efetiva, identificada por seu sucesso em tornar alunos capazes


de novos comportamentos ao mesmo tempo que eliminando erros durante a
aprendizagem, pressupõe a habilidade do professor de especificar o que o aluno
deve aprender. Que comportamento, por exemplo, mostra que alguém entende e
aprecia poesia? Se o professor sabe como dizer se um aluno entende e aprecia
poesia, então é possível planejar e testar programas para ensinar tal apreciação. O
que, objetivamente, é escrever bem? Se o professor pode definir
comportamentalmente a boa redação, então programação efetiva pode ser
realizada. Saber como deverá ser o produtofinalpermite que a programação, ou
qualquer outra técnica seja avaliada. Mas, se não for possível identificar
comportamentalmente boa redação ou a apreciação de poesia, então não será
possível especificar o modo mais efetivo de fazer com que alunos melhorem suas
habilidades de redação ou sua sensibilidade poética.
Uma tecnologia de ensino não pode nos dizer que habilidades ou matérias
deveríamos ensinar, mas uma vez que tenhamos tomado estas decisões, a análise
comportamental pode nos ajudar a dizer se fomos ou não bem-sucedidos. Uma
vez que possamos identificar sucesso oufracasso,podemos então aplicar tecnologia
comportamental para ensinar sem erros.
Aprendizagem sem erros é uma área de pesquisa grande e ativa e ainda
há muito por ser descoberto sobre suas possibilidades e limitações. Sua relevância
aqui é seu potencial para remover os últimos vestígios de coerção do processo
educacional. Eliminar a necessidade de extinguir erros, manter alunos em um
caminho contínuo de sucesso e prover reforçamento positivo para cada passo
bem-sucedido, possibilitaria aos professores fazerem efetivamente seu trabalho.
Também transformaria a escola em uma experiência recompensadora para os
alunos.
Um efeito colateral positivo indiscutivelmente seria um abrandamento
do problema dos desistentes; alunos bem-sucedidos raramente fogem da escola.
Um segundo efeito colateral positivo seria uma mudança de ênfase das escolas
na "disciplina" para uma ênfase renovada na educação. O debate sobre o uso da
punição corporal seria visto como irrelevante no processo educacional. Alunos
qiié estão recebendo reforçamento positivo por aprendizagem bem-sucedida não
têm necessidade de buscar reforçamento negativo por meio de fuga e contracontrole
A busca por novos modos de coagir os alunos a uma conduta ordeira daria
lugar a uma busca por novas maneiras de programar a aprendizagem com sucesso
índice remissivo

Abuso: Alunos, 110, 123, 147-148, 150, 177-178,


do idoso (idosos maltratados), 143 207, 213,264,289-292
econômico, 130 Ambiente de laboratório, 227
físico, 130, 131, 147-148 América Central, 205-206
político, 130 América do Sul, 205-206
sexual, 131 Amnésia, 190-192
social, 130 Análise de contingências, 104, 105
verbal, 130, 147-148 Análise do comportamento, 20, 21
Acesso negado, 121 aplicada, 105
Acuidade sensorial, 131 e coerção, 45-46
Administradores, 150-151 Anormalidade feminista, 195-196
Admirável mundo novo, 45-46 Ansiedade, 140-144, 180-181, 209-210,
Advogados, 168, 234 211,213,216,217,219,267
Afeição, 166-167, 181-182, 251, 252 Apartheid, 282-283
Afogamento, 111-112 Apêndice, 223-224
África do Sul, 205-206, 281-282, 283 Aprendizagem por tentativa e erro,
Agressão induzida por privação, 223-224 289-290, 291
Agressão induzida por punição, 220, 222, Aprendizagem sem erro, 260, 291, 292
223-224 Aqueles que nada têm, 151-152, 169, 235,
Agressão, 183, 220-225, 229, 235, 242, 237-238, 239-240
276, 278-279 Aqueles que tudo têm, 169, 237-238
' Águias, 276 Armas/revólveres, 149, 244, 268-271
Aids, 39 controle de, 82-83,269
Álcool, 35-36, 125, 156, 253-254, 267 Artes e ciências, 183
: Altruísmo, 235 Assembléias municipais, 170
294 Murray Sidrrvan

Ataque, 220, 221,276 Campeonato de futebol americano, 287


Ataques cardíacos, 114-115,154 Campo de concentração, 160-161
Atenção, 104,105,251,252 Campo de concentração/nazistas, 159
Atômico: Caridade não-contingente, 239-240, 241
explosões, 154 Caridade, 237-241
lixo, 65 Casamento(s), 107-108, 125, 243,
ver também Nuclear 253-254
Atos de Deus, 37-38,150, 233 Casas de repouso para idosos, 161-162
Atraso de gratificação, 259 Casos marginais, 21
Audições públicas, 168 Cela acolchoada, 259
Autismo, 17, 89, 214 Celibato, 183
Auto-abuso, 90 Censura, 185, 288
Auto-alimentação (comer sozinho), 256-257 Certo e errado, 197, 198-199
Auto-controle, 65, 66, 166, 175, 188, 217 Chapéu de burro, 119
Auto-engano, 245 Chefão, 234
Auto-interesse (interesse pessoal), 173, Chefe, 110, 111-112, 150-151, 208,
235, 246 209-210, 213
Auto-respeíto, 212, 280 macaco líder, 95
Auto-restríçâo, 288 Choque eletroconvulsivo, 84, 217
Autocomportamento injurioso, 89 Choques futuros, 137-138, 139
Autoconfiança, 280 Choro, 106-107
Autocorreção, 250 Cientistas estranhos ao serviço,278-279
Autodefesa, 213, 241, 242, 245, 247 Ciúmes, 245
Autodesprezo, 184 Classe parasita, 239-240
Autodestruição, 89, 117, 132,133-134, Classe trabalhadora, 239-240
155,223-224-276 Código de Hamurabi, 93
Autojustificação, 243 Códigos de conduta, 245
Autômato, 108, 150, 189 Coerção eclesiástica, 127
Automóveis, 147-148 Coerção:
Avós, 95, 253-254 e controle, 44-64
definição da. 17, 33, 34-35, 51-62, 56, 57
Bandeira branca, 216 da natureza, 34-39
Barras de mordida, 220 ver também Ambiente hostil
Batedores de carteira, 266 da sociedade, 39-43
Bebês, 198-195,250 ver também Comunidade hostil
Bem-estarismó de estado, 238-239 Coercedores condicionados, 109
Birra, 57,77,78,252 Cohen, H. L., 263
Bode expiatório, 221 Colesterol. 154
Bomba atômica» 30 Compartilhar, 166-167, 235, 237-238
Bombeiro, 176, 267 Competição, 226-238, 239
Boston, 95, 268 Comportamento complexo, 247
Boston Common, 40 Comportamento incipiente, 202, 203
cidadãos de,'194 Comportamento inflexível, 145
Comportamento, 48,49
Cadeia, 110, 159-164 e suas conseqüências, 50, 51
Caixa dp Pandora, 155 desordens do, 144, 179-197
Camisa de força, 226, 259 ver também Desordens comportameitais
Coerção e suas implicações 295

historiado, 179,207 Contramedidas, 151-152, 154, 224-225,


ver também História comportamental 228, 238-239, 285-286
medido pela freqüência, 49,50 Contraviolência, 222,244,245,266,
patologia do, 144, 179-197 277,278
amostra de, 74,75 Controle de multidões, 151-152
modelagem do, 260 Controle de peso, 248
tecnologia do, 291,292 Controle verbal, 143
ver também Tecnologia do ensino Cooperação, 161,236,278-281,283
terapeutado, 181-182 Corpo de Paz, 283
ver também Terapeuta comportamental Corretores, 212
Compulsão de lavar as mãos, 186 Corrupção, 168, 267
Compulsões, 144, 157, 187-189 Crença e Conseqüências, 127, 128
Comunidade mundial, 282-283 Crescimento Populacional, 152-153
Comunidades marginais, 166,167 Criança Mimada, 251
Comunidades Utópicas, 237-238, 242 Criança(s)-problema: 52, 77, 78
Conduta anormal, 193-196 Crianças/filhos, 110,149,198-199,202,
Conduta patológica, 89,145,195-196 207,212-214,233,236,245,250,251
Conferencistas, 289,290 abuso contra a criança, 250
Confinamento em solitária, 255-256 molestadores de crianças, 195-196
Conflito, 115-116, 181-182,197, terapia infantil, 78
198-199,203,223-224, 234 Criatividade, 152- 153, 183,184,194,
Conflitos convencionais, 155 203,283
Consciência, 63-64, 197-206 Crime, 243,265,266
Conseqüências atrasadas, 69, 84, 117, prevenção, 82-83
152-153,154,169,177-178,236, criminoso(s), 203-204, 254,262
237-238 criminalidade, 261,262
Conseqüências naturais, 263 reabilitação, 248
punidores, 94, 103 Crise de gerenciamento, 114-115
Conseqüências: Critérios estatísticos de anormalidade,
acidentais, 111-112 193-196
generalidade do controle das, 76-79 Crucificação, 132
Contingente: Cuba, 280
dar, 241 Cúpula, 285-286
compartilhar, 278-279 Curandeiro, 190
apoio, 282-283 Curas milagrosas, 190
Contra-Agressão, 221,223-224,227,245, Curiosidade, 166-167
267,276,278-279
Contra-ataque induzido por punição, 222 Dados, 271-272, 278-279
Contra-atrocidade, 263 Dar não-condicional, 251
Contra-infração, 244 Dar não-contingente, 277-278
Contra-reação, 223-224 Deformidades, 156
Contracoerção, 102,122,226,236, Delegação de responsabilidade, 115-116
285-286,288 Demandas inatingíveis, 132
Contracontrole, 40, 120, 204-205, 223-230, Democracia participativa, 170
235,258 Departamento de estado, 278-279, 284-285
Depravação, 162-163
Depressão, 142,143,195-196, 210-218,259
296 Murray Sidrrvan

Desengajamento, 168, 170 Escola(s), 102, 111-112,120, 139,176,


Desistindo, 118-134, 292 229, 254, 280, 282-283, 292
Desligando-se, 113-117 de educação, 123
Desl ocamento 185,186 para os retardados, 161 -162, 162-163
Desordens de « inversão, 189, 190 vandalismo, 224-225
Déspota(s), 109, 130 Escrever/escrita, 219, 261, 291-292
Dessensibilização sistemática, 181-182, 189 Espancar/espancamento, 100
Diplomacia, 31,40, 117, 276-288 Especialistas em esquiva, 150-151
Disciplina, 31, 120,122, 222, 292 Esposa espancada, 143, 147-148
Discovery, 79 Esquiva não-sinalizada, 144,145
Disposição hereditária, 234 Esquiva, 135-178
Dissidentes, 130 extinção automática de, 154, 155, 157, 158
Ditadura, 150 demonstração de laboratório de, 136,144,
Divórcio, 125 158,159
Docilidade, 160-161, 162 e reforçamento negativo, 135
Doença mental,. 179-196, 248,258 do inevitável, 158-162
Dominação, 147-148, 149 Esquizofrenia, 195-196
Dotação, 177-178 Estado do bem-estar, 239-240
Droga(s), 35-36, 93, 120,131, 142, 143, Estados Unidos, 205-206, 222, 229, 235,
156, 166, 167, 210-211, 217, 218, 226, 267,281-283
227,259,266 Esteróides anabolizantes, 156
abuso de, 267 Estresse, 109, 120, 190, 192, 242
viciado em, 253-254 Europa, 267
cultura da, 131 Excesso de trabalho/trabalho em excesso,
Duplo padrão, 204-205 125,253-254
Expectativa, 139,140, 142
Economia, 177-178,249 Experimento, definição de, 69-74
Editores, 288 Explicabilidade - inteligibilidade
Educação, 31, 66, 67-68, 121-123, (supervisão pública, prestação pública de
147-148, 152-153, 176, 177-178, Contas, responsabilidade pública), 124,
224-225, 247, 248, 262, 280, 288-292 161-362,163, 175, 255-256
Efeitos colaterais, 34-35,92-94,102, 103, Extinção, 154, 155, 237-238,
. 106-107, 109,111-112,118, 120,144, 288,291
161-162, 202, 219,220,222, 224-225,
231-233; 246, 249-250, 255-256, Fadiga de combate, 216,217
256-257,266,273,292 Falência, 230
Emoção(ões), 131,141, 142, 253-254 Família, 41,47, 109, 120, 124, 227,
Empregadores, 40, 147-148, 150-151 250-254
Energia, 69, 152-153 Fanfarrão da vizinhança, 112
Ensinar sem erro, 260, 291 Feminismo, 194
Ensinar, 41, 123, 147-148, 248,260, 291, Filho pródigo, 192
292 Filipczak, J., 263
Entradas/multas, 149 Filosofia, 21, 47
Entrevistas de emprego, 261 da educação, 119
Enurese r.íturna, 104 Fingimento, 191, 217
EnVolvi íue.:to limitado, 155 Fischer, Boby, 232
Esclerose múltipla, 190 Físicos, 228
Coerção e suas implicações 297

Fobia de altura, 179 Humanitarismo, 241


Fobia de multidão, 179 Humilhação, 170
Fobias, 179-182, 189, 195-196
Fogo do inferno, 147-148 Idoso(s), 253-254
Forças armadas, 175, 214 Idosos, 215
exército, 110 Igrejas, 147-148, 287
burocracia, 174 ver também Religião
ver também Militares Imunologistas, 228
Formação de conceito, 249 Incesto, 244
Formação de reação, 181-183 Incompetência, 170, 174,261
Fracasso, 119, 132, 143,215,291 Indústria do turismo, 267, 287
Fraude, 169 Indústria, 115-116,212, 222, 248
Freud, Sigmund, 179-182, 198-199 Influência política, 172
Fuga e esquiva, comparação de, 135 Infratores juvenis, 263
Fuga irreal, 113 Instituição(ões), 115-116, 120,124,
Fuga, 190-192 150-151, 161-164, 177-178, 254*260
Fulbright, 283, 284 Intelectuais, 283
Fumar, 248 Internacional:
negócios, 285-286
Gagueira, 248 comunidade artística, 283
Gêmeos idênticos, 242 instituto, 284-285
Governo, 31,47,65,115-116, 122,127, relações, 245, 280-282
147-150, 169, 173,175, 213, 222-225, 228, finais de futebol, 287
238-239, 255-256, 265, 281-283, 285-288 seminários, 284-285
Gravidez, 124,125, 156, 243, 244 Intimidação mutua, 277-278
Guerra limitada, 283 Irã, 127
Guerra(s), 127, 212, 213, 216, 276, 277-278 Israel, 222, 237-238
Guru, 166-167
Judeus, 160-161
Habilidades cognitivas, 291 Jugular, 216
Hamlet, 76 Juízo Final, 129
Herança, 179, 234 Julgamento pelo júri, 171
Hibridização de plantas, 35-36 Justiça, 81-82, 92, 172, 214, 226,
Hiperatividade, 218, 227, 260 238-239,243
Hipocondria, 189
Hipocrisia, 131 Keller, Fred S„ 291-292
Hippies, 129
ver também Crianças da paz Lago dos cisnes, 79
e do amor Laranja mecânica, 45-46
Hiroshima, 154 Lei, 204-205, 261, 265, 270-271
Histeria, 190 infratores da lei, 163-164, 254
Hollywood, 95 cumprimento da lei, 31, 162-163, 213, 214,
Homossexualidade, 195-196 228, 244, 250, 262, 263, 265-275
Hospitais, 176 lei e ordem, 236
administradores de, 177-178 sistema legal, 40, 66, 163-164, 222, 265
para os mentalmente doentes, 161-162, 254 Leitura, 261
Hospitalidade, 284-285 Líbano, 222
298 MurraySidma

e ordem, 236 Moralidade, 198-199,204-205,206,236, 247


sistema legal, 40, 66, 163-164, 222, 265 dilema moral, 245
Leitura, 261 postura moral, 243, 244
Líbano, 222 moral, 174
Liberdade, 42-45, 202, 208 Morfina, 93
livre competição, 223-224 Morte, 132, 133-134, 143, 210-211, 212,
livre empresa, 40 233-235, 244
mercado livre, 177-178 pena de, 17, 242,243
entradas grátis, 271-272
Limpar-se (autista), 149 Nagasaki, 154
Limpeza, Í49 Natureza humana, 265
Linguagem, 249 Natureza, 47,48, 210-211, 216, 233, 234
Linha de base, 82-83, 84, 208, 210-211 Navratilova, Martina, 232
Lixo radioativo, 67-68 Negócios, 173, 176, 194, 230, 250
Lógica, 232, 236 Nicarágua, 280
Los Angeles, 194 Normatização, 39
Lourdes, 127, 128 Notas "pela curva", 289-290
Nuclear:
Manutenção da paz, 276-281 chantagem, 117
Marketing, 176 destruição, 120, 154, 155
Martírio, 132 intimidação, 277-278
Masoquismo, 90 desarmamento, 277-278
Mecanismo de rendição, 216 desastre, 69
Mecanismos de ataque inatos, 221 energia, 35-36
Mecanismos de defesa, 195-196 explosões, 51, 276
Medalha olímpica, 156 suicídio, 155
Médicos, 93, 110, 166, 168, 177-178, arsenal, 35-36,115-116, 155
227, 254, 280 deposição de lixo, 223-224
Medo, 140-144,267
Mercado, 2 \ 2 Obesidade, 155
Mídia, 128, 174,193,204-205, 222,234, Obsessões, 187-189
244,265,287 Oriente Médio, 69
Militar(es), 65, 173, 229,236,276, 277-278
conselheiros, 222 Padrões de ação inatos, 51
bases, 281, 282 Padrões éticos, 85, 169
orçamento. 277-278 Padrões, 122, 123, 173,184, 194, 195-196,
defesas, 169 203,214,243,265
ditadores, 109 Pais, 66, 105, 110, 146, 149, 212, 213, 229,
sistema, 175, 278-279, 285-286 237-238, 249, 251,253-254
inépcia, 174 Palpitações cardíacas, 142, 180-181
psiquiatras, 217 Pânico, 209-213,217, 218
Ministro da Educação, 123, 124 Paradoxo da esquiva, 158,277-278
Minoria branca, 281 -282 Paraíso, 127
Minorias, 130 Paternidade, 125,250
: Mobilidade ascendente, 130 Pecado, 127, 149, 199
Modelagem, 278-279 Percepção, 131
Monte Santa Helena, 210-211 Perda de memória, 190-193
Coerção e suas implicações 299

Perdedores, 234-236, 238-239, 281-282 Privação emocional, 130


Período seguro, 136, 146-151,209-210, Privação, 151-152, 215, 221, 258
216, 219 econômica, 261
Persistência, 144 de alimento, 256-259
Personalidade múltipla, 190,192,193 socialmente imposta, 256-257, 261
Personalidade psicopata, 203-204 Privacidade, 255-256
Personalidade, 165, 192, 203 Problemas desenvolvimentais, 232
Pesquisa de laboratório: Processos internos, 141, 142
vantagens da, 30, 31, 71, 72, 82-83 Produtividade artística, 283
extrapolações da, 26-29, 72-74 Professor(es), 47, 110,119, 121-124,
generalidade da, 74-79 147-148, 150-151, 212, 213, 222,
Pobreza, 241 224-225, 228, 249, 250, 255-256,
Poliana, 114-115 288-292
Polícia, 40,41, 95, 110, 147-148, 149, professor substituto, 224-225
170, 176, 213, 222, 236, 249, 255-256, Professores, 150, 168, 177-178
265-275 Projeto de demonstração, 263-264
associações atléticas, 270-271 Psicanalista, 129
prática, 271-272, 273 Psicologia, 21, 74, 194, 203-204
responsabilidades, 268, 271-272 psicólogos, 92,105,140,144, 168, 193,
serviços, 273 195-196, 254
estadual, 236 Psiquiatria, 180-181, 184, 203-204, 212
uniforme, 268 casualidades psiquiátricas, 216
Política, 128, 168 doença psiquiátrica, 125
Políticos, 168, 169, 222 remédios psiquiátricos, 219
Poluição, 222 psiquiatras, 89,105, 140, 142, 144, 193,
Pombas, 276 194
População cativa, 223-224 Punição capital, 81-82, 83, 172, 242, 243,
Pôr a boca no trombone, 173-176 245
Pornografia, 185 Punição condicionada, 95,97,98-99,103,
Prática incorreta, 173 136
Prazer/satisfação, 53, 119, 244 demonstração experimenta] do, 98-101
Prazeres mundanos, 181-1182 Punição corporal, 100, 292
Pré-requisitos, 291 Punição não-contingente, 161-162
Pressão à barra (ritualístico), 49 Punição(ões):
Pressão sangüínea, 141 acidental, 111-112
Pressuposto de culpa, 266 e mudança comportamental, 80
princípio norteador, 247-249 e controle, 80
Prisão* 87, 147-148, 161-164, 194, 214, definição, 59-61, 80
215, 226, 242, 243, 245, 261-264 duração de. 85
instituições correcionais, 254, 261 estudos experimentais, 82-91
guardas penitenciários, 255-256, 263 intensidade, 85
guardas, 207, 255-256 número de, 85
gerenciamento, 176 como um princípio de manuseio (controle)
revolta, 226 do comportamento, 22-26
Prisioneiros políticos, 280 supressão temporária por, 87-88
Prisioneiros, 110, 160-161, 163-164, 226, transformação em reforçamento positivo,
263 88-90
300 Murray Sidrrvan

Química do corpo, 179 Sábio idiota, 194


;Raciocínio circular, 194 Sair de mansinho, 114-115
Rebelião, 131 Secreção glandular, 141
Redes de segurança, 238-239 Segunda revolução americana, 169
Redistribuição de riqueza, 238-239 Senilidade, 254
Reféns, 287 Sentimentos, 141, 142
Reforçador positivo condicionado: Serviço do júri, 168, 170-172
demonstração experimental de, 97-99 Sexual:
Reforçamento negativo: coerção, 170
e aprendizagem, 107-110 molestadores 195-196,
e punição, 106-107, 110-112 preferência, 195-196, 243
Reforçamento positivo e negativo, Sexualidade, 181-182, 183,202
108-109 Shelley, 129
Reforçamento, 52-55 Sibéria, 173
artificial, 263 Sinais de perigo, 183, 253-254
e crenças e percepções, 53, 54 Sinal de aviso condicionado, 136
inconsistente, 58, 59 Sinal de aviso, 136, 137-138, 141,142,
e prazer, 53, 54 146,149, 200-203,209-219
positivo e negativo, 55-58 Skinner, B. F., 43, 44-45, 291-292
e pur:ção, 95-97 Sobremesa, 150
e recompensa, 53, 54 Sobrevivência, 69,117, 150, 151-152,
contingências de, 55, 77-79, 95 160-161, 176, 203-204, 205-206, 208,
Reformatório, 87, 261, 262 221, 223-224,237-238
Regime, 166 Social(is):
Regras, 137-138,214, 226 darwinismo, 41
esquiva governada por regras,137-138 não-envolvimento, 169
Regressão, 186, 187 experimentação, 237-238, 269, 270-271,
Relação proprietário-inquilino, 40 273
Relações de equivalência, 260 forças, 274-275
Religião organizada, 125-129 grupos, 149
Religião, 125-129, 203-204, 234, justiça, 170
243,249 ostracismo, 127
Remédios farmacológicos, 219 pressão, 172
Represália e retaliação, 149, 174, ciências, 274-275
223-224, 236, 244 estatura, 147-148
Resolução interior, 166 estatísticas, 82-83
Restrição física, 226, 259 trabalhadores, 105, 168, 255-256
Restrição química, 226, 227, 259 Sociedade agrícola, 150
ver também Drogas Subcuhura, 170
Retardamento, 17,77, 89,156, 226, Sublimação, 183, 184
254-259 ! Submissão, 147-148, 161-162,213, 214
Retribuição e revanchí, 92, 151-152, 222, Subornos, 61, 170, 172,267
227, 243, 244 Subprodutos, 203, 247
fcitual(is), 125-126; 130, 157, 234 ver também Efeitos colaterais
üoleta russa; 156 . Sufrágio universal, 171
íoosevelt, Franklin D., 42 Suicídio, 132, 133-134,162-163
Rússia, 280 Sujeitos não-humanos, 29, 30
Coerçãoesuasimplicaçõcs 301

Superego, 198-199 Tribunais, 244


Superstições, 111-112, 156, 157 Troca de cidadãos, 284-285
Supressão Condicionada, 208-219, 222 Tumores de mama, 248
demonstração experimental da, 208-211 Turnover, 107-108, 110

Tabaco, 155,156,248 Universidades, 150, 176, 177-178,


Talidomida, 93 194
Taxa Cardíaca, 141 Uso indevido da privação,
Televisão, 39,125,128,147-148,172,244 255-259
253-254,266
Terapia, 31, 78,142,188,203,204,207, Validade Aparente, 74,75
227, 249 Vandalismo, 107,108
aversiva, 25,43,45-46,222 Vencedores, 234-236, 238-239
Terceiro Mundo, 204,205,267 Vendedores, 176
Terrorismo, 40,115-116,129,204-205, Vida adulta, 125

221,223-224,235,236, 278-279, Vida após a morte, 125-126, 127,150

285-288 Vida após a morte, 127, 151-152

Time-out, 259-260 Vida eterna, 125-126

Tirania, 127,147-148,152-153,207,226 Vingança, 241,244,245


229 Visão do túnel, 109

Toque de cura, 190 Votar, 170,171,273

Trabalhador(es), 40, 110,149, 212, 213 Voz interior, 198-199,202,

Treino de habilidades, 248 203-204

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