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ENTRE CONCEITOS E PRECONCEITOS: A PATOLOGIZAÇÃO DA HOMOSSEXUALIDADE EM PSYCHOPATHIA SEXUALIS DE RICHARD VON

KRAFFT-EBING

ENTRE CONCEITOS E PRECONCEITOS: A


PATOLOGIZAÇÃO DA HOMOSSEXUALIDADE
EM PSYCHOPATHIA SEXUALIS DE RICHARD
VON KRAFFT-EBING
Between concepts and prejudices: The pathologization of homosexuality in
psychopathia sexualis of Richard Von Krafft-Ebing

Jarbas Dametto¹; Júlia Cristina Schmidt²

¹ Psicólogo, mestre e doutorando em Educação. Professor da Universidade de Passo Fundo e da Faculdade


Anglicana de Tapejara. E-mail: jarbas@upf.br.
² Acadêmica do curso de Filosofia da Universidade de Passo Fundo. Bolsista CAPES/PIBID – Filosofia UPF.

Data do recebimento: 20/07/2015 - Data do aceite: 17/09/2015

RESUMO: Este artigo busca, através de uma revisão de literatura e da análise


de uma obra específica, revisitar criticamente os argumentos que possibili-
taram, em fins do século XIX, a inserção da homossexualidade no campo da
psicopatologia. O livro em questão é Psychopathia Sexualis, no qual o autor
Richard Von Kraff-Ebing (1840-1902) categoriza a homossexualidade como
patologia em 22 de seus casos. Nota-se, na obra, que o autor esforça-se para
arregimentar argumentos e investigar hipóteses que poderiam dar ao homosse-
xual o status de doente e assim incluí-lo no rol dos objetos da medicina, estando
assim, sujeito à sua ação. A crítica proposta visa descontruir os argumentos
deste, a fim de problematizar a questão da homossexualidade, não apenas no
contexto que se daria na época, mas explicitando-a como uma experiência
a ser pensada e refletida. A crítica em questão se alicerça na obra de Michel
Foucault (1926-1984), que constrói suas análises sobre as imbricações entre
os saberes, as experiências sociais concretas e as instituições, expondo os
processos de fabricação do verdadeiro em cada momento histórico. Evidencia-
-se, nesse sentido, a homossexualidade como experiência que transborda os
limites do discurso científico.
Palavras-chave: Psicopatologia. Homossexualidade. Foucault.

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Jarbas Dametto - Júlia Cristina Schmidt

ABSTRACT: The aim of this article is critically revisit the arguments that
made the inclusion of homosexuality in the field of psychopathology possible
in the late nineteenth century. To this end, a literature review and an analysis
of a particular work was performed. The book in question is Psychopathia
Sexualis, in which the author, Richard von Krafft-Ebing, categorizes homo-
sexuality as a pathology in 22 of its cases. According to the book the author
strives to enroll arguments and to investigate hypotheses that could give the
homosexual status of sick and so include him in the list of medical objects,
and also subjected to its action. The objective of this criticism is to deconstruct
the arguments of this book in order to discuss the issue of homosexuality,
not only in the context of that time, but explaining it as an experience to be
considered and reflected. The criticism in question is grounded in the work
of Michel Foucault (1926-1984), who builds his analysis on the overlapping
of the knowledge, the concrete social experiences and institutions, exposing
the building processes of the true in every historical moment. Therefore, ho-
mosexuality is understood as an experience that overflows the boundaries of
the scientific discourse.
Keywords: Psychopathology. Homosexuality. Foucault.

obra que é aqui abordada com o intuito de


Introdução
analisar a inscrição da homoafetividade ou
homossexualidade no âmbito do patológico,
Adentrando à Modernidade, a sexualidade vasculhando os argumentos e premissas teó­
humana tornou-se objeto do discurso aca-
ricas que sustentaram tal proposição, bem
dêmico e científico, sendo uma experiência
como, reconstituir os caminhos genealógicos
encampada pela Medicina, pela Psicologia,
das acepções agora tidas como “preconcei­
pelo Direito, dentre outros campos do saber
tuosas”, e que hodiernamente ainda perpas-
Como aponta Foucault (2001), para além de
sam tal experiência.
qualquer hipótese de repressão generalizada
da experiência sexual, ora ou outra tomada Frente ao intento do ensaio aqui propos-
como verídica, houve, principalmente entre to, foram operadas algumas premissas da
meados do século XIX e início do século análise do discurso que compõem a “fer-
XX, uma efetiva abundância discursiva em ramentaria” foucaultiana enquanto recurso
torno da experiência sexual e a busca por crítico aos campos do saber, bem como
uma apropriação científica desta experiên- se lançou mão de suas próprias incursões
cia, o que redundou em diversas tentativas críticas sobre as problemáticas envolvidas:
de normatização e uma série de argumentos anormalidade e patologização, sexualidade
prescritivos acerca do tema. e domínios de saber-poder. A análise crítica
Um dos mais curiosos e marcantes es- acerca de Psychopathia Sexualis tomou como
forços para uma espécie de “sistematização referência a única edição nacional da obra
taxonômica” da experiência sexual “aber- (KRAFFT-EBING, 2001), que conta com
rante” foi o estudo denominado Psychopa- 238 casos de “sexualidades desviantes”,
thia Sexualis, trabalho de cunho clínico e sendo, dentre esses, 22 casos intitulados
forense, publicado em 1886 pelo psiquiatra como “homossexualidade”, sobre os quais
Richard von Krafft-Ebing (1840-1902). Tal se deram as análises.

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Krafft-Ebing e a [...] primeiro levantamento sistemático


Psychopathia Sexualis e completo das diferentes formas de
perturbação da vida sexual humana, en-
Frente ao propósito deste escrito, cabe caradas a partir de então como transtor-
nos médico-psiquiátricos. Esse célebre
desenhar uma breve apresentação e contex-
Tratado, publicado pela primeira vez
tualização do autor e da obra analisada, para em 1886, foi por certo precedido por
que se possa apreender com maior clareza as inúmeros outros estudos médicos sobre
afirmações e conjecturas deste autor. Richard os comportamentos sexuais tidos como
von Krafft-Ebing foi um psiquiatra alemão doentios. Contudo pela sua importância,
que habitava um contexto ainda “pouco ama- influência, repercussão e rigor descritivo,
durecido” da ciência e da prática psiquiátrica: ela tornou-se uma espécie de paradigma
ele partilha de uma fragilidade epistemoló- da apropriação do erotismo humano pelo
gica e compartilhada por praticamente todos discurso médico e positivista a partir do
os autores desta área que construíram suas século XIX. (p. 380).
teorizações no correr do século XIX. Reto-
mando alguns estudos de Foucault sobre o Oosterhuis (2012) propõe que, nas déca-
tema (FOUCAULT, 2002; 2005; 2006), que das finais do século XIX (a partir de 1860),
remetem ao estado da arte do saber psiquiá- se instituiu a própria forma moderna da
tricos da época, pode-se antever nesta obra a sexualidade, apontando que, com estudos
existência, não somente de um esforço cien- como os de Krafft-Ebing e seus contemporâ-
tífico de classificação e compreensão, mas neos, traçaram-se não somente os discursos
também um efetivo enquadramento moral sobre as perversões ou anormalidades, mas
das experiências relatadas, e por vezes, sua haveria também neste recorte histórico, a
condução para espaços e técnicas disciplina- própria consolidação do modo moderno de
res ou de exclusão social. relacionar-se com o sexual, o que inclui a
A obra em questão se destaca pelo pio- apropriação médico-científica da experiên-
neirismo que representou nos primórdios da cia, que torna-se então, objeto do saber e
psiquiatria científica, ao abarcar um grande da intervenção do médico. Esta construção
número de relatos de casos de “psicopatolo- do objeto sexualidade salta aos olhos frente
gias” envolvendo a conduta sexual. Como aos diversos neologismos emergentes neste
propõe Pereira (2009, p. 381), na Psycho- período: inversão sexual, homossexualidade,
pathia Sexualis, “[...] teremos uma primeira assim como heterossexualidade, são termos
grande síntese das concepções médicas sobre originados nesta empreitada técnica sobre
aquilo que viria a ser concebido tecnicamen- o sexual, a mesma que gerou, como acima
te como ‘perversões’. Na edição analisada, proposto, quase a totalidade da nomenclatura
constam diversos casos supostamente reais ainda hoje utilizada para designar experiên-
e das mais diversas naturezas, sendo que o cias sexuais “desviantes”. Dentro deste en-
autor foi um dos precursores da terminologia quadre discursivo, o sujeito, agora paciente
ainda hoje utilizada ao considerar situações ou caso, não seria vitimado passivamente por
semelhantes. Termos como masoquismo, um poder médico, antes, teria nesses parâme-
sadismo, fetichismo, dentre outros, tiveram tros um elemento que atua junto à construção
nesta obra, e em obras contemporâneas a de sua própria subjetividade. Reconhecer-se
ela, suas primeiras aparições no léxico mé- ou não em um diagnóstico passaria, então, a
dico-científico. Ainda de acordo com Pereira ser um componente identitário em relação à
(2009), este estudo de Krafft-Ebing é o experiência sexual.

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A compilação de casos aqui analisada Sobre os diagnósticos e a


possui pouca interpretação clínica, bem como nosologia psiquiátrica do
frágil prescrição terapêutica, ela debruça-se século XIX:
muito mais sobre uma nosografia e uma
taxonomia patológica, que implica em uma
O que seria uma anormalidade psicológica
descrição pormenorizada das diversas afec-
em sentido geral? Tal questão ainda não foi
ções encontradas em pacientes do próprio
respondida a contento por nenhuma teoria,
médico, bem como casos de colegas que a ele
sempre há lacunas em qualquer definição,
forneceram informações, ou até de relatos da
dada a própria complexidade cultural, afeti-
imprensa policial da época.
va e subjetiva do ser humano que impede a
Em meio aos 238 casos descritos, encon- absolutização de diversos princípios possí-
tram-se 22 casos intitulados como Homos- veis de normatização (o princípio biológico,
sexualidade, que foram objeto primordial o desenvolvimento esperado para a idade
neste debate. Cabe considerar que o autor cronológica, a regularidade estatística, etc.).
incluiu nesta categoria apenas homossexuais Direcionando tal questionamento à vida sexu-
masculinos, os casos de homossexualidade al, tal definição se faz ainda mais imprecisa,
feminina ou o transexualismo foram catego-
senão impossível, principalmente depois dos
rizados de modo distinto.
desdobramentos científicos e culturais da
Ainda sobre a redação da obra, faz-se evi- obra freudiana acerca do desenvolvimento
dente uma escrita perpassada por julgamentos libidinal, que expõe uma sexualidade e ex-
morais, exageros, linguagem apelativa, argu- trapola, em muito, os limites da genitalidade
mentos sexistas, etc., características que não ou da finalidade reprodutiva. Entretanto,
são um “defeito” de Krafft-Ebing, antes, tal diversos esforços foram empreendidos neste
forma de abordar problemas ligados à saúde sentido, antes e depois de Freud, dentre os
mental e ao sofrimento emocional se fizeram quais a obra aqui analisada.
presentes em escritos psiquiátricos até mea-
Foucault (2005) visualizou na psiquiatria,
dos do século XX. Nota-se que, somente a
partir de 1970 houve uma espécie de “higie- em seu estado nascente, no século XVII, até
nização” do discurso psiquiátrico, passaram a sua legitimação e instituição como saber
a evitar, ou escamotear ainda mais, o juízo de em fins do século XIX, um grande esforço
valor acerca das experiências abarcadas por em torno da nosografia (descrição e classi-
este saber, um saber que parece tomar para ficação dos estados decorrentes da doença
si um domínio antes tão somente moral e mental). Como observa Machado (2007), tal
jurídico (a “patologia da sexualidade”, antes, nosografia seria uma espécie de “justificativa
era imoralidade ou crime sexual). Ao reeditar médica” para o hospício, espaço de reclusão
velhas concepções e interdições, com uma de uma imensa e difusa população, espaço
linguagem doravante “científica”, tem-se um que empreendia uma espécie de “terapêutica
grau ainda mais acentuado de aceitação de sem medicina”. Vale lembrar, também, que
tais enunciados enquanto verdade, dado que grande parte da nosografia se deu em meio a
se apresentam como discursos organicamente sujeitos já internados, foi no hospital geral,
tramados às instituições com as quais esta- em meio a uma multidão encarcerada, que o
belecem relações. psiquiatra encontrou os seus doentes (FOU-
CAULT, 2005).
Dar nome ao que se apresentava à percep-
ção médica, experiências que desconforta-

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vam o cotidiano urbano, capitalista e burguês se caracterizou, quais suas justificativas, as


que se consolidava nos países desenvolvidos, possíveis causas, os prognósticos e as curas.
foi uma missão do saber psiquiátrico. A cura Tal análise procura elencar os principais ar-
ou o alívio do sofrimento do paciente não gumentos sobre os quais o discurso médico
compunham a pauta principal deste saber, se apoiou, em fins do século XIX, instituindo
sendo, inclusive, raro nesta época alguém a legitimidade da ação e do saber médicos
efetivamente buscar de modo voluntário tais sobre a experiência homossexual.
serviços; antes, eram a eles encaminhados
por desejo de familiares, por determinação da
polícia ou da justiça, e a terapêutica regular, Homossexualidade em
era a internação por tempo indeterminado. Krafft-Ebing: suas formas
Tal medida francamente higienista, que se e suas etiologias, prognósticos
ocupava das “sobras” de instâncias discipli- e curas
nares como a família, a escola, o exército, o
sistema produtivo industrial, etc., se tornou Nos vinte e dois relatos de casos corre-
trivial no século XIX, e demandou uma jus- lacionados à homossexualidade de Krafft-
tificativa teórica, a construção de “verdades” -Ebing, objetos do presente estudo, nos
que pudessem amparar decisões jurídicas e detemos a observar o que possibilitou ao
morais. Foi neste enredo, que atributos como autor caracterizá-los como casos de ano-
periculosidade, imputabilidade, curabilidade malias psicopatológicas da sexualidade. Tal
ou incurabilidade, terapêuticas e prognósticos abordagem implica em delimitar a origem
foram criados, abarcando as mais diversas e a forma dos enunciados que amparam a
experiências tidas como “desviantes” (FOU- construção discursiva do objeto em questão:
CAULT, 2002). a homossexualidade como doença, e o modo
Com relação às experiências sexuais, hou- articulado com que tais discursos se amparam
ve, de acordo com Foucault (2001), uma in- entre si. Não se supõe que os relatos do psi-
tensa apropriação dessas pelo saber médico, quiatra sejam alheios ao discurso científico
que proferiu discursos que incidiam sobre os de sua época, que eles formem um campo
hábitos da classe burguesa – não um discurso discursivo totalmente novo; pelo contrário, é
repressivo, mas sim disciplinador, sendo esta em um enredo discursivo peculiar, que seus
uma via preferencial de inserção das ações dizeres ganharam sentido. Deste modo, é
do poder disciplinar dentro da intimidade no entrecruzamento de enunciados psiquiá­
das famílias. Versou-se sobre a adequação ou tricos com o discurso moral, legal, médico
inadequação de práticas sexuais, sobre seus e biológico daquele recorte histórico que as
riscos, sobre a educação das crianças, enfim, afirmações do autor ganharam o status de ver-
traçaram-se princípios normativos que colo- dade, sendo sob este viés que os relatos dos
caram o médico em posição de autoridade casos foram aqui analisados. Tendo em mente
privilegiada, sujeito a ser consultado a fim de que rupturas discursivas e epistemológicas
constituir uma população moralmente reta e fizeram com que o discurso psicopatológico
fisicamente sadia. de Krafft-Ebing se diferenciasse do atual,
Sob o viés dos saberes psiquiátricos que sendo concebido como ultrapassado, nós
então encamparam a sexualidade, propôs-se podemos o criticar com certa exterioridade,
a análise da obra em questão, Psychopathia mas mantendo certa suspeita sobre qualquer
Sexualis, a fim de identificar como a patologi- verdade que venha em seu lugar, ou seja, sem
zação da homossexualidade em Krafft-Ebing assumir de antemão qualquer outro discurso

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sobre a questão como mais fidedigno do que era manifesto inicialmente com sonhos e
o então analisado. masturbação estimulada por pensamentos
Ao iniciar a análise crítica, devemos ter ligados a homens, e narra-se que esses fatos
em vista o contexto histórico e a influência ocorriam entre os 7 e os 15 anos de idade. O
cultural presente nos casos descritos (Europa sentimento homossexual descrito em todo
no auge de sua moral vitoriana, contexto que livro, baseia-se na satisfação sexual com
reprovava moralmente e coibia legalmente indivíduos do sexo masculino. A aptidão
manifestações homossexuais). Alguns pa- sexual era estimulada e encontrada quando
cientes admitiam não conseguir sair desta na relação com homens, contrapondo-se a
condição homossexual, talvez nem o dese- experiência heterossexual, a qual mostrava-
jassem, mas apenas gostariam de viver uma se impossível, ou na qual o prazer era menor
vida em sociedade tal qual aquela vivida entre ou inexistente.
os heterossexuais: nota-se que a experiência Os argumentos que levam Richard von
junto à intolerância converte-se em uma Krafft-Ebing a admitir a homossexualidade
espécie de demanda terapêutica. Em de- como anormal estão descritas em tentativas de
poimento, afirmavam procurar “tratamento” justificar uma heteronormatividade, ou seja,
a fim de viver de forma dita como normal, um discurso que ampara somente as relações
como no seguinte caso: “[...] por ocasião entre seres anatomicamente opostos (o macho
de uma consulta, em dezembro de 1889, [o e a fêmea) e que as relações maritais seriam
paciente ‘X’] perguntou-me se havia algum concebíveis somente entre sexos diferentes.
meio de trazê-lo de volta para a condição Nota-se aí, um principio biológico, uma
sexual normal, pois não abominava de fato “naturalização” da experiência sexual huma-
as mulheres e gostaria muito de se casar” na, negando-lhe suas dimensões culturais e
(KRAFFT-EBING, 2001, p.139). Em alguns desejantes, e paradoxalmente, as expressões
casos, de acordo com leis do país, havia pu- de gênero masculino e feminino, evidente-
nição caso o ato homossexual se desse em mente culturais, são hipervalorizadas, e o
flagrante, como no caso de “X. Y., médico que foge aos padrões regulares de conduta é
de uma cidade renomada da Alemanha, [...] ignorado e/ou perseguido num âmbito social:
denunciado por um vigia enquanto cometia a heteronormatividade apoia-se na natureza,
uma contravenção com um camponês num em sentido biológico, a fim de reafirmar os
campo. Estava praticando masturbação ditames culturais. Nesses termos,
nele[...]” (idem p.188). Em um caso mais
Para definir a normalidade em relação
radical, o depoimento consta que o paciente
à qual determinados comportamentos
“[...] procurou ajuda médica para encontrar sexuais serão considerados desviantes,
‘honra e descanso’” (ibid, p.188). O modo Krafft-Ebing buscará recurso à noção bio-
como “as curas” eram buscadas explicita a lógica, portanto natural, de “preservação
condição vivenciada pelos homossexuais: o da espécie”. O prazer obtido da relação
sentimento de impossibilidade em conviver sexual será natural na medida em que con-
em sociedade e dar livre curso a sua forma tribua para a reprodução. Todo erotismo
de expressar a sexualidade. praticado fora desse contexto deverá ser
considerado como desviante. Sob esse
Os casos de homossexuais masculinos
prisma, deverão ser consideradas como
mencionados no livro teriam idades entre “perversão sexual” todas as satisfações
24 e 42 anos, e em alguns casos não foram eróticas cujo objetivo não seja a preser-
mencionadas as idades correspondentes. vação da espécie (LANTERI-LAURA,
Em sua grande maioria, o desejo “anormal” apud PEREIRA, 2009, p.382).

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Ainda na esteira das causas orgânicas, mento físico, mental e moral dessa população
o autor tenta atribuir a algumas doenças (urbana e burguesa).
parentais ligadas à insanidade mental, como Para Krafft-Ebing, a homossexualida-
condições potenciais para o desenvolvimento de era concebida de formas distintas, não
do desejo homossexual. Krafft-Ebing insinua haveria uma forma ou causa única, chegou a
uma “causa orgânica hereditária”, “Sr. X., 35 indiciar que ela poderia ser adquirida através
anos, solteiro, funcionário civil; mãe insana, de estímulos ambientais. Em um caso em
irmão hipocondríaco” (KRAFFT-EBING, específico, o autor insinua que a homossexu-
2001, p.127); “N., 41 anos, celibatário. Pai alidade poderia ter sido adquirida, e a associa
e mãe parentes próximos, mas ambos psi- a um fetiche por pés. Hipótese escancarada
quicamente normais. Um tio do lado paterno no título do caso: “Caso 91. Fetichismo/
era insano” (idem, p. 187); “K, 30 anos, Homossexualidade adquirida”. O autor ar-
na família de sua mãe havia vários casos gumenta que o excesso de masturbação teria
de insanidade” (ibid., p.173). Presente na sido significativo para desencadear desejos
maioria dos casos, essas descrições médicas por homens e pés masculinos, “Sem dúvida
envolviam, além de dados do paciente, his- foi a masturbação excessiva que provocou a
tóricos sobre as condições mentais e físicas neurose e a sexualidade invertida, para a qual
de seus pais, irmãos, tios. Explicita-se uma foi levado pela libido intensa, insaciada pelo
possível associação entre doenças parentais coito e pela visão (acidental ou não) de pés
e a condição do paciente, como possível femininos” (KRAFFT-EBING, 2001, p.97).
causa de desenvolvimento de tal “anomalia Para ele, uma vez que o paciente havia admito
sexual”, uma suposta degeneração orgânica ter sucesso com o sexo heterossexual, esse
hereditária. desejo em relação a homens fazia parte do
Outro aspecto evidenciado pelo autor está fetiche que havia se desenvolvido e, portanto,
em atribuir a alguns atos ou experiências pon- submetendo-se a tratamento poderia manter
tuais as possíveis causas do aparecimento do relações exclusivamente com mulheres. Ape-
desejo homossexual. Como exemplo disso, sar de sucesso no coito, o paciente se manteve
consta a seguinte narrativa: “[...] paciente com a “anomalia”, afirmando o médico que
saudável [...] manifestou poderoso instinto seu estado mental degradado não poderia ser
sexual anormalmente cedo, e ainda era um reestabelecido com a ajuda terapêutica.
menino pequeno quando começou a se mas- Conceber algo como uma doença implica
turbar” (KRAFFT-EBING, 2001, p.138) e na possibilidade de idealizar a cura de tal es-
não raro, em quase todos os casos descritos tado ou condição, constitui-se um objeto para
a masturbação é citada como uma provável o saber e um poder de intervenção correlato a
causa para o homossexualismo. Sobre essa ele. Ao conceber a homossexualidade como
atribuição de um potencial iatrogênico à doença, Kraff-Ebing desenvolveu possíveis
masturbação no século XIX, Foucault (2002) curas e prognósticos sobre a mesma, insis-
realizou grande explanação. Seus estudos tindo em métodos terapêuticos, abstenções
apontam que tal argumento foi uma “ficção e substituições de atividades, como um
médica” que viabilizou o controle sobre a possível tratamento que acreditava viável.
intimidade familiar, principalmente no que se Nos seus escritos, havia algumas recomen-
refere à conduta das crianças. De tal modo, dações, ou prescrições, as quais fazia aos
vigiar os espaços restritos da família burguesa que procuravam sua ajuda, essas consistiam
e confessá-los ao médico, se tornaram uma em “[...] combate enérgico contra os desejos
obrigatoriedade em prol do bom desenvolvi- homossexuais, convivência com senhoras,

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e por fim, coito”. (KRAFFT-EBING, 2001, cimento de parentes próximos objeto de in-
p.174) e “[...] combater arduamente esses vestigação; a masturbação, inquietante fator
impulsos homossexuais, desempenhar seus gerador de toda sorte de doenças; bem como
deveres maritais sempre que possível, abster- as experiências que ora possuem o status de
-se de álcool e masturbação, o que aumenta realização de um desejo, ora de sua causa
os sentimentos homossexuais e mata o amor inicial. Em relação aos “tratamentos”, nota-se
pelas mulheres” (KRAFFT-EBING, 2001, p. uma exigência de repressão do impulso ho-
181). Nota-se que, para o autor, a aniquilação mossexual e o empreendimento de tentativas,
dos desejos homossexuais poderia provir de mesmo que repulsivas, de contato com o sexo
não os praticar, e abster-se de masturbação oposto. Nesta esteira, um prognóstico ruim se
também, uma vez que para o autor, ela se apresenta como destino óbvio para a maioria
mostra como um fator causal da homosse- dos casos apresentados: tal “transtorno” tal-
xualidade. vez seria, em muitos pacientes, incurável. Aí
Outro caso correntemente citado residia reside uma importante incoerência médica, já
na “ajuda terapêutica” que poderia vir a ser apontada por Foucault (2002), o anormal é
encontrada em prostíbulos (a prostituição tomado como objeto de uma intervenção, de
é tema recorrente nos mais diversos casos, antemão, tida como fracassada.
também frente a outras “patologias”), como Por fim, cabe considerar que a forma
relatou um paciente: “[...] como estava cada como Krafft-Ebing manifestou sua apologia
vez mais fraco, devido à perda de sêmen, à natureza orgânica, evidenciando como ade-
e com apetite sexual tornando-se cada vez quadas somente experiências pertinentes aos
mais intenso, passei a procurar casas de indivíduos heterossexuais em relação sexual
prostituição. Mas ali não encontrava satisfa- genital, diagnosticando condições diversas
ção” (KRAFFT-EBING, 2001, p.139), nesse como doenças ou perversões, normatiza a
sentido, as “curas” propostas pelo autor se experiência sexual em limites não-humanos:
mostram ineficientes em grande parte, ainda a amplitude do erotismo em geral, para além
que este alegue ser uma responsabilidade da experiência homossexual, sofre importan-
do paciente não ser possível a realização do te disciplinamento médico e normatização
tratamento indicado. Abater o desejo que nosológica.
encaminhava o sujeito à experiência sempre
se mostrou pouco provável, como em outro
caso analisado: “[...] mas durante o verão Sobre as Críticas Foucaultianas
ainda experimentava impulsos homosse- Acerca do Saber Psiquiátrico:
xuais” (KRAFFT-EBING, 2001, p.174),
essas declarações comprovam que, apesar da De acordo com Machado (2007), se tem
abstenção do ato homossexual e da sujeição em Foucault, primeiro, a narrativa de um
ao coito com mulheres, o tratamento não se embuste empreendido por uma medicina
mostrava efetivamente válido. epistemologicamente frágil, moral e juri-
Em síntese, percebeu-se em Krafft-Ebing dicamente engajada, a psiquiatria, cujos
a articulação de argumentos causais como a parâmetros de ação iniciais não sofreram
“natureza”, entenda-se, a constituição física grandes mudanças até meados do século
dos sujeitos e sua atuação sexual destinada XX, e que se trama em um processo de cisão
prioritariamente para a procriação, realidade política e filosófica entre razão e desrazão,
que seria subvertida pela homossexualidade; empreendido às portas da Modernidade (crí-
a degeneração hereditária, que fazia do adoe­ tica presente na obra História da Loucura

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KRAFFT-EBING

na Idade Clássica, que data originalmente de “perversão do instinto sexual”. (KRAFFT-


de 1961); e logo em seguida, a descrição de -EBING, 2001, p.4).
uma experiência de sucesso do campo mé- Tal estudo também não se justificaria sob
dico, narrando a entrada da medicina geral o argumento de um mero registro histórico,
nos moldes empíricos, em O nascimento da tem-se em mente que mecanismos desta
clínica (obra datada de 1963), na qual Fou- mesma natureza persistem atuando nas con-
cault disserta sobre a desvinculação do ato cepções hodiernas sobre a homossexualidade,
médico do predomínio das representações e mas agora sob o regimento das formações
das teorias, e o direcionamento de seu olhar discursivas de nossa época, das “verdades
sobre a realidade do corpo doente. Nota-se atuais”, que talvez saltem aos olhos à medida
com isso, que Foucault não toma o saber que um olhar retrospectivo seja realizado.
médico como unívoco, não existira em sua Também, viabiliza-se por este meio, a aná-
concepção “a Medicina”, mas práticas e lise daquilo que se tem atualmente como
saberes distintos dentro desta mesma de- “preconceito”, mas que foram noções, em
nominação, também este campo não seria determinado momento, tidas como dignas
uma ciência, no sentido forte do termo, mas de crédito, dado que “verdades” enunciadas
sim um saber, que compreende um arranjo pelo campo médico.
discursivo e extra-discursivo nitidamente
A potência crítica desta abordagem, que
tramado com a experiência social e institu-
implica em um resgate histórico de noções,
cional no momento em que ele ocorre. Deste
em grande medida abandonadas, pode ser
modo, o filósofo francês assumiu esses sa-
resumida nas seguintes palavras:
beres médicos como objetos de uma análise
nomeada por ele como arqueológica, e mais A estratégia de Foucault é utilizar-se da
tardiamente, como genealógica, e não como nossa surpresa de não sabermos o que
objeto de uma epistemologia: não fez um essa descrição poderia mesmo significar
estudo da evolução dos conceitos e teorias, – descrição que já foi uma vez considera-
mas sim uma análise sobre as suas condições da como uma narrativa objetiva séria – e
de emergência, e depois, na fase genealógica, transformar isso em uma crítica devas-
de sua possibilidade de existência. tadora de nossa presunçosa suposição
de que agora, finalmente, a ciência mé-
Tomando este mesmo viés, o presente dica convergiu para a verdade objetiva
artigo não seria um pequeno estudo propria- (DREYFUS e RABINOW, 2013, p.13).
mente epistemológico, não caberia analisar
conceitos do final do século XIX, com o Certo efeito de “desconforto” é imediato
crivo dos conceitos atuais, ou com a moral ao analisarmos um discurso do passado;
atual. Pelos mesmos motivos, não pareceria evidenciam-se, nele, seus pontos de ancora-
possível nem viável reconstituir o desenvol- gem nas instituições, na moral, no sistema
vimento cronológico de uma suposta “ciência legal e produtivo de sua época, bem como
acerca da homossexualidade”. Antes, o in- no léxico técnico, no arranjo “coerente” que
tento seria resgatar os argumentos que foram formam dentro da dimensão propriamente
necessários para que o saber psiquiátrico da sígnica e discursiva. De tal modo, revisitar o
época estudada pudesse encampar esta expe- antigo seria pôr em suspenso o atual, causar
riência e a partir de então, tomá-la como uma no discurso corrente em nossa época algum
doença, como objeto do saber médico, cuja grau de estanhamento: estariam nossas ver-
suposta gênese derivaria, como em tantas dades operando com os mesmos recursos,
outras experiências sexuais, de uma espécie mas por serem “nossas” (permearem as

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Jarbas Dametto - Júlia Cristina Schmidt

instituições atuais, apoiarem-se nos valores indagar até que ponto não estamos às voltas
atuais, serem produzidas nos moldes atuais, com esforços para a superação de preconcei-
etc.), nos pareceriam plausíveis ao ponto de tos derivados do saber científico de outrora,
não percebermos suas inconsistências? Esta (pré)conceitos com uma aguda capacidade
é a indagação que fomenta e justifica esta de impregnar a experiência e desdobrar-se
forma de estudo. em repercussões práticas.
O homossexual, este outro perigoso do
século XIX, que desvirtua o destino natural
Considerações Finais pensado por uma ciência engajada em fer-
vores darwinistas, já teve olhares diversos,
A sexualidade humana, em marcante como por exemplo, o elogio social da
ruptura com a experiência de reprodução dos Antiguidade grega, onde se fazia digno de
demais animais, carrega as marcas da subje- estar explicitamente presente, inclusive nos
tividade, o modo idiossincrático como ela se diálogos platônico-socráticos. Mas antes de
constitui, bem como as marcas da cultura na pensarmos que tal estado seria uma condi-
qual ele emerge – a sexualidade é nomeada, ção de melhor acolhimento da diversidade
classificada, moralmente avaliada, de acor- sexual, cabe ponderar que tal concepção
do com as verdades de seu tempo. Todas as acerca da experiência homossexual era fruto
expressões de sexualidade são constituídas de uma sociedade a tal ponto falocêntrica,
para além dos corpos, em uma dimensão que via a relação com as mulheres como um
discursiva. ultrajante dever.
A obra aqui analisada teve sua pertinência O desafio seria, então, pensar o presente e
em um contexto específico, participando de o que agora se faz desta experiência. Tomá-
um grande esforço de apreensão médico- -la como um objeto filosófico, e não médico,
científica da experiência humana. Embora psicológico ou jurídico como outrora, a fim
hoje soe grosseira ou preconceituosa, ela de problematizá-la em amplo diálogo com
correspondia às verdades de sua época, dia- a realidade cultural, científica e jurídica na
logava de modo coeso com a moral, as insti- qual se insere. Seria como deixar de buscar
tuições e os demais saberes daquele contexto. “a verdade” sobre a homossexualidade, uma
Ao assistimos a uma tentativa de reedi- verdade que enquadra, que torna a experiên-
ção nacional de dispositivos de segurança cia e os sujeitos nela envolvidos objeto de
que visam “salvaguardar a família” ou “a intervenções e classificações, pondo no lugar
infância” de uma supostamente perniciosa deste esforço, o debate sobre as verdades
presença do homossexual, empreendida por que se instituem no regime discursivo atual
parlamentares religiosos, mas que se utilizam e seus impactos sobre os modos de viver a
de termos como anormalidade e cura, caberia sexualidade.

REFERÊNCIAS

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estruturalismo e da hermenêutica. 2.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária: 2013.
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ENTRE CONCEITOS E PRECONCEITOS: A PATOLOGIZAÇÃO DA HOMOSSEXUALIDADE EM PSYCHOPATHIA SEXUALIS DE RICHARD VON
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