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http://jus.uol.com.br/revista/texto/12624

Publicado em 04/2009

ChristianyPegorari Conte

 

A lei n. 11.719/08 compõe a trilogia de normas que alteram o Decreto -


Lei n. 3.689, de 03.12.1941, o Código de Processo Penal Brasileiro. Referida
norma disciplina alguns aspectos acerca da suspensão do processo,
Ê ÊÊ, Ê e aos procedimentos e passou a vigorar a partir do
mês de agosto de 2008. Nesta esteira, o presente trabalho visa apresentar
algumas discussões e dúvidas interpretativas no tocante às modificações
propiciadas pela norma em epígrafe, notadamente, àquelas atinentes as
formas de citação no processo penal.

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Processo penal; reforma processual, procedimentos, citação.

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A citação é o ato pelo qual se dá ciência ao acusado da ação penal


promovida contra ele. É por intermédio deste ato processual que o réu é
chamado para defender-se, configurando-se, dessa forma, uma garantia para o
exercício da Ampla Defesa e do Contraditório.

A citação pode ser:


 

 , isto é, aquela feita na própria pessoa do acusado e
que se efetiva por meio de mandado judicia l (por oficial de justiça), por
precatória (quando se tratar da hipótese na qual o réu esteja fora do território
do juiz processante, conforme o art. 353 do CPP); por carta de ordem
(determinada pelos tribunais em processos de competência originária,
conforme o teor do parágrafo 1º do art. 9º, da lei n. 8.038/90) e, por fim, por
carta rogatória (no caso do acusado encontrar -se no estrangeiro, de acordo
com o art. 368, do CPP);

 
 
 que se efetiva, conforme a recente reforma
processual, de duas maneiras, quais sejam:
—  
 : cujo leque de possibilidades foi reduzido à uma única
hipótese: quando o acusado não for encontrado (arts. 361 e 363, parágrafo 1º
do CPP);

 

 modalidade que servia apenas ao processo civil e que
passa, de forma inovadora, a ser adotada pelo processo penal, nos casos em
que o réu se ocultar para não ser citado (art. 362 do CPP).

Vale lembrar que a citação válida é ato imprescindível para o processo,


sob pena de nulidade (conforme art. 564, inciso I II, alínea Ê do CPP). Assim,
possui relevância inquestionável para o processo penal. Daí porque o presente
artigo busca abordar de forma crítica as novidades apresentadas pela reforma
processual penal no tocante à citação.

    
 


   —— —!!"

A lei n. 11.719, de 20.06.2008, integra uma série de normas que foram


aprovadas, visando à modificação do Código de Processo Penal Brasileiro.
Além da norma em análise, também foram editadas: a Lei n. 11.690/08, que
altera dispositivos relativos às provas e dá outras providências e a Lei n.
11.689/08, que modifica dispositivos atinentes ao procedimento do Júri.

Assim, vale destacar que a lei em questão não pode ser analisada
isoladamente, vale dizer, ela faz parte de um arcabouço de proj etos de leis que
compõem a Reforma Processual Penal, sendo que alguns destes projetos já se
transformaram em normas positivadas, outros não vingaram e há, ainda,
alguns que se encontram em tramitação no Congresso Nacional. Esta ressalva
é importante, na medida em que a interpretação de alguns aspectos da lei
11.719/08 pode depender de outros dispositivos previstos em normas diversas.

Da leitura da norma percebe -se que a intenção do legislador foi a de


simplificar os procedimentos, garantindo uma maior celer idade ao processo e,
portanto, prestigiando o Princípio da Celeridade Processual, erigido à categoria
de princípio constitucional, previsto no art. 5º, inciso LXXVIII, da Constituição
Federal de 1988. Referida preocupação resta clara quando a lei n. 11.719 /08
concentra numa única audiência, diversos atos processuais.

Além disso, o espírito da lei parece pender para a transformação de um


procedimento tradicionalmente longo, escrito e fracionado, em um
procedimento rápido, oral (o que reforça a preocupação em assegurar a
originalidade do que é produzido em termos de prova) e concentrado numa
única audiência. Outro ponto que parece relevante é que a norma em tela
estimula uma maior participação das partes, colocando o juiz numa posição de
mediador da audiência, salvo em algumas situações expressas (como, por
exemplo, o disposto no art. 156, da lei n. 11.690/98 [01]), reforçando, portanto, o
caráter dialético do processo.

A modernização e simplificação do Código de Processo Penal fazem


parte do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci).
>ma das ações deste programa, desenvolvido pelo Ministério da Justiça,
tem por escopo facilitar o acesso da população ao Poder Judiciário e acelerar
os trâmites jurídicos - esforços que já vêm sendo feitos pela Secretaria de
Reforma do Judiciário (SRJ) e pela Secretária de Assuntos Legislativos (SAL).
A Fase da reforma Penal deverá ser completada com a aprovação de mais 2
(dois) projetos que alteram as medidas cautelares e o recurso no processo
penal. [02]

Três foram os objetivos que pautaram a reforma processual. Dois deles


comuns ao processo trabalhista, civil e penal, e um voltado, de forma
preponderante, ao processo penal:

I ± redução da litigiosidade repetitiva, protelatória ou decorrente;

II ± racionalização do processamento de demandas;


[03]
III ± adequação legislativa aos preceitos constitucionais de garantia.

A redução da litigiosidade é objetivo relacionado à morosidade do


Judiciário, neste sentido, surgiram estas alterações cujas finalidades são: a
simplificação das regras processuais e a superação de dificuldades que geram,
constantemente, nulidades nas decisões ou atos judiciais [04]. A racionalização
do processo também está relacionada à idéia de celeridade, objetivando -se,
como ideal, o equilíbrio entre a eficiência e a Justiça, isto é, em atendimento à
idéia de Jurisdição Efetiva. Por fim, temos a questão da adequação legislativa
aos preceitos constitucionais de garantia, relevantes, sobretudo, no processo
penal, através da confomação dos dispositivos infraconstitucionais com o texto
constitucional pós-1988.

As intenções sobre as quais se pautaram a reforma processual penal


são dignas de aplausos, entretanto, verificando -se a aplicabilidade prática dos
dispositivos alterados, surgem dúvidas se a b oa vontade que serviu de base
para as alterações realmente alcançará os objetivos almejados.

A lei n. 11.719/08 faz parte deste arcabouço que pretende melhorar o


acesso a Justiça no nosso país. Referido diploma, aborda diversos assuntos.
Além de regulamentar aspectos atinentes aos procedimentos, também possui
dispositivos sobre sentença, sujeitos processuais, comunicações dos atos
processuais, efeitos civis da sentença penal condenatória, dentre outros.

Dentre as suas previsões, serão analisadas, pontualmen te, as


modificações relacionadas à citação no novo processo penal.

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Conforme já mencionado, a citação é o ato que dá ciência ao réu da


ação penal contra ele ajuizada, chamando -lhe para realizar sua defesa,
consoante os Princípios do Contraditório, da Ampla Defesa e do Devido
Processo Legal (art. 5º, incisos LIV e LV, da Constituição Federal Brasileira).
Neste sentido, a citação é uma garantia individual, cuja ausência acarreta em
nulidade insanável.

A citação instaura a relação processual, impondo, a partir de então,


deveres processuais ao acusado. Neste sentido, Ada Pellegrini Grinover,
AntonioScarance Fernandes e Antonio Magalhães Gomes Filho [05] lecionam:

É exigência fundamental ao exercício do contraditório o conhecimento,


pelos interessados, de todos os dados do processo, pois sem a completa
eadequada informação a respeito dos diversos atos praticados, das provas
produzidas, dos argumentos apresentados pelo adversário, a participação seria
ilusória e desprovida de aptidão para influenciar o convencimento do juiz. A
efetividade dos diversos atos de comunicação processual representa condição
indispensável ao pleno exercício dos direitos e faculdades conferidos às partes;
sua falta ou imperfeição implica sempre prejuízo ao con traditório,
comprometendo toda a atividade subseqüente.

Conforme nos ensina Fernando da Costa Tourinho Filho [06]:  

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ÊÊÊ  Ê
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Ê.

A citação constitui seguramente o mais importante ato de comunicação


processual, especialmente em sede penal, pois visa levar ao conhecimento do
réu a acusação que lhe foi formulada, (...), propiciando, assim, as informações
indispensáveis à preparação da defesa. [07]

É ato que comunica a existência da ação penal, bem como chama, por
primeira vez, o acusado a comparecer em juízo em dia e hora designados (art.
396 do CPP). [08] A citação regular torna completa a relação processual e atribui
ao acusado o ônus de comparecer aos atos processuais para os quais for
intimado e também de comunicar ao juízo qualquer mudança de residência,
sob pena de prosseguir o processo sem a sua pres ença (art. 367 do CPP).

A citação se diferencia de outros atos processuais de comunicação às


partes, quais sejam: a) intimação: que é, grosso modo, ato de comunicação
que dá ciência às partes de um ato processual praticado; b) notificação: é a
comunicação para o comparecimento da parte em um determinado ato
processual.

Quem determina que se proceda à citação é o magistrado, sendo o ato,


via de regra, cumprido pelo Oficial de Justiça. [09]

No processo penal, pode ser citado apenas o indivíduo que se encontra


no pólo passivo da ação penal, vale dizer, o sujeito passivo da pretensão
punitiva. Em se tratando de réu portador de doença mental a citação será feita
na pessoa de seu curador. A citação do funcionário público, por sua vez, é feita
por mandado ou precatória, sendo, ainda, notificado o chefe de sua repartição
(art.359 do CPP). Em relação à citação do preso, esta deve ser feita,
consoante o plasmado no art. 360 do CPP, pessoalmente, o que não obsta a
expedição de ofício requisitório ao Delegado, Diretor do Presídio ou quem faça
suas vezes, para diligenciar sua apresentação ao Fórum, onde será
interrogado. [10][11]

A citação no processo penal, de acordo com o que já foi mencionado


neste trabalho, pode ser 
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 ÷ ÷ ou  
, também
conhecida como  
.

A citação real se concretiza por mandado, por precatória, carta rogatória,


carta de ordem ou ofício requisitório.

O conteúdo da citação está relacionado no art. 352 do CP P (elementos


intrínsecos do mandado citatório). Por sua vez, o art. 357 do CPP colaciona os
requisitos da citação por mandado, isto é, indica as formalidades que devem
ser obedecidas na execução do mesmo.

O artigo 354 do CPP, de outro lado, nos apresenta o conteúdo da carta


precatória:

c Ä  - A precatória indicará:

 - o juiz deprecado e o juiz deprecante;

 - a sede da jurisdição de um e de outro;

 - o fim para que é feita a citação, com todas as especificações;

% - o juízo do lugar, o dia e a hora em que o réu deverá comparecer.

O art. 356 prevê que é possível a citação por carta precatória expedida
por via telegráfica, em casos de urgência. A doutrina também admite a
realização deste tipo de citação por telegrama e, até mesmo, por telefone [12].

Na citação por rogatória, remetida ao exterior, a carta deverá ser


encaminhada ao Ministério da Justiça, a quem caberá solicitar ao Ministério
das Relações Exteriores o seu cumprimento, deste último seguirá a rogatória,
pela via diplomática, à justiça rogada.

A carta de ordem, por sua vez, se assemelha à carta precatória,


distinguindo-se apenas quanto ao órgão do qual emana, consoante já
comentado em outra passagem do presente trabalho. A carta de ordem é
expedida por órgão superior à órgão inferior, nas ações penais originárias dos
tribunais superiores (STF, STJ, TER, TRF e Tribunais de Justiça).

A citação ficta ou presumida se dá por edital ( Ê) ou por hora


certa. Diz-se ficta, posto que não feita na própria pessoa do réu, presumindo -se
o seu conhecimento acerca da ação penal contra ele proposta.

A citação por edital, modalidade de citação ficta prevista no CPP, é, e


continua sendo, objeto de críticas pela doutrina, pois o réu, dificilmente toma
conhecimento da ação penal intentada contra e le, através de publicação na
imprensa ou de edital fixado à porta do Fórum. Neste sentido, para evitar que o
acusado seja julgado e condenado à revelia, temos a previsão do art. 366 do
CPP, corretamente mantida pela reforma, que prevê a suspensão do proces so
e do curso do prazo prescricional, quando da citação realizada por edital.

A citação por edital era prevista em três situações: a) quando o réu não
pudesse ser encontrado ou se ocultasse; b) quando o réu estivesse em local
inacessível; c) quando o réu e ra incerto quanto à sua identificação (arts. 362 e
363 do CPP). Com a reforma trazida pela lei n. 11.719/08, a citação por edital
passou a ter uma única hipótese: ð
&   
 . O art.
363 ganhou nova redação, eliminando o leque de possib ilidades de realização
da citação por edital. No tocante à citação por edital, portanto, a reforma não
trouxe muitas novidades. Quando o acusado não for encontrado o processo
ficará suspenso e o prazo para a defesa apresentar resposta [13] começará a
fluir a partir do comparecimento pessoal do acusado ou do defensor
constituído.

A revogação dos incisos do art. 363, que apontavam as outras duas


hipóteses de citação por edital já recebeu críticas, sobretudo em relação ao
inciso I. Neste sentido, Luiz Flávio Gomes, Rogério Sanches Cunha e Ronaldo
Batista Pinto [14]:

Estranha para dizer o mínimo, a revogação dos incisos acima. O inciso I


determinava a citação do réu por edital quando inacessível o local em que sele
se encontrava, em virtude de epidemia, guerra o u outro motivo. O inciso II, de
sua parte, impunha o mesmo chamamento quando incerta a pessoa que tiver
de ser citada. (...) talvez preocupado em inibir pretensões temerárias e
atendendo-se, ainda, ao fato de que, na prática, não se tem notícia dessa
espécie de denúncia, foi o inciso II revogado. Já a revogação do inciso I
encerra evidente equívoco, a ser reparado. Explicamos: o texto original,
aprovado no Congresso e levado à sanção presidencial, previa, em seu art.
366m que a µcitação ainda será feita por edital quando inacessível, por motivo
de força maior, o lugar em que estiver o réu¶, praticamente repetindo, desse
modo, a redação anterior. Ocorre que o art. 366, tal qual constava do projeto,
acabou sendo vetado, sob o inusitado argumento de que µa nova redação do
art. 366 não inovaria substancialmente no ordenamento jurídico pátrio, pois a
proposta de citação por edital, quando inacessível, por motivo de força maior, o
lugar em que estiver o réu, reproduz o procedimento já previsto no CPC e já
extensamente aplicado por analogia, no Processo Penal pelas cortes
nacionais¶.

Os mesmos autores, sobre a revogação dos incisos do art. 363


arrematam:

(...) Da maneira pela qual foi publicado o texto final da lei, não há
qualquer solução para a hipótese de citação do acusado que se
encontre em local inacessível. Da citação por edital não se cogita.
Tampouco a citação com hora certa, sob pena de grave risco de morte
ao oficial de justiça. (...) De resto é torcer para que não tenhamos
epidemias, guerras ou outros moti vos de força maior que impeçam a
citação do acusado.

De outro lado o art. 362 que, anteriormente, também previa uma


hipótese de citação por edital, agora nos apresenta a possibilidade de citação
por hora certa [15].

A Lei n. 11.719/08 não é a primeira regu lamentação que traz inovações


à citação no processo penal. Antes dela, a Lei n. 11.419/06, que dispõe sobre a
informatização do Judiciário, já suscitava questionamentos acerca da
realização de atos processuais de comunicação por meios eletrônicos, dentre
os quais a citação, já que referido diploma legal possui aplicabilidade ao
processo civil, penal e trabalhista, bem como aos juizados especiais, conforme
seu art. 1º, parágrafo 1º.

Muito embora a lei 11.419/06 excetue as citações realizadas em


processo penal, vale dizer, as exclui da possibilidade de serem realizadas de
forma eletrônica, possibilita isso no tocante as cartas de ordem, precatórias e
rogatórias (art. 7º). A realização da citação eletrônica pressupõe adesão prévia
das partes ou de seus advogados, com poderes para receber citação, mediante
a realização de credenciamento no Poder Judiciário, por meio de procedimento
no qual esteja assegurada a adequada identificação presen cial do interessado
ou de seus representantes legais. Fatores estes que tornam, eventualmente,
inviável a citação eletrônica no processo penal.

Contudo, insta salientar, que a novidade agregada pela lei n. 11.719/08,


e que será analisada a seguir com maior profundidade, apresenta -se como a
inovação de maior impacto no processo penal, no tocante aos atos processuais
de comunicação, especificamente da citação.

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A lei n. 11.719/08 altera os artigos 362 e 363 do CPP, que dispunham:

Art. 362. Verificando-se que o réu se oculta para não ser citado, a
citação far-se-á por edital, com o prazo de 5 dias;

Art. 363. A citação será feita por edital:

I ± quando inacessível, em virtude de epidemia, de guerra ou de outro


motivo de força maior, o lugar em que estiver o réu;

II- quando incerta a pessoa que tiver de ser citada.

A nova lei institui a modalidade de citação por hora certa no âmbito


processual penal e revoga os incisos do art. 363, do CPP, conforme se verifica:

Art. 362. Verificando que o réu se oculta para não ser citado, o oficial de
justiça certificará a ocorrência e procederá à citação com hora certa, na forma
estabelecida nos arts. 227 a 229 da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 -
Código de Processo Civil.

Parágrafo único. Completada a citação com hora certa, se o


acusado não comparecer, ser-lhe-á nomeado defensor dativo." (NR)

Art. 363. O processo terá completada a sua for mação quando realizada
a citação do acusado.

I - (revogado);

II - (revogado);

§ 1º Não sendo encontrado o acusado, será procedida a citação


por edital.

§ 2º (VETADO)

§ 3º (VETADO)

§ 4º Comparecendo o acusado citado por edital, em qualquer


tempo, o processo observará o disposto nos arts. 394 e seguintes deste
Código." (NR)

A citação por hora certa é novidade para o processo penal e seguirá as


regras estabelecidas pela legislação processual civil:

c  - Quando, por três vezes, o oficial de justiça houver procurado o
réu em seu domicílio ou residência, sem o encontrar, dever á, havendo
suspeita de ocultação, intimar a qualquer pessoa da família, ou em sua
falta a qualquer vizinho, que, no dia imediato, voltará, a fim de efetuar a
citação, na hora que designar.

c " - No dia e hora designados, o oficial de justiça,


independentemente de novo despacho, comparecerá ao domicílio ou
residência do citando, a fim de realizar a diligência.

)— - Se o citando não estiver presente, o oficial de justiça


procurará informar-se das razões da ausência, dando por feita a citação,
ainda que o citando se tenha ocultado em outra comarca.

) - Da certidão da ocorrência, o oficial de justiça deixarácontrafé


com pessoa da família ou com qualquer vizinho, conforme o caso,
declarando-lhe o nome.

c  - Feita a citação com hora certa, o escrivão enviará ao réu carta,
telegrama ou radiograma, dando -lhe de tudo ciência.

São vários os problemas acarretados pela adoção desta modalidade de


citação no processo penal:
Oriundo do Processo Civil, num lampejo de unificação do Direito Público
com o Direito Privado, o legislador entendeu por bem penalizar o réu que se
oculta para não ser citado com uma modalidade de citação que, mesmo não se
encontrando o acusado, considera -o citado prosseguindo -se, e isso é o mais
grave, com a ação penal à sua revelia. [16]

O questionamento que surge, acerca da adoção desta nova modalidade


de citação, diz respeito a quem (se o oficial de justiça ou o magistrado) avaliará
a existência de intenção do réu em se ocultar.

Esta é uma divergência que já existe no âmbito cível e que, com certeza,
será suscitada na seara criminal [17].

Decorrência do princípio geral de Direito de que ninguém pode se valer


de sua própria torpeza, o acusado será processado e sentenciado pelo simples
fato de um oficial de justiça, e não um magistrado, deci dir, de forma subjetiva,
mas valendo-se das circunstancias fáticas, que o réu se oculta
propositadamente para não receber a citação e desta forma atesta, pleiteando
os rigores do art. 362 do CPP. [18]

Em princípio, ao menos, parece prudente que o juiz aval ie se o acusado


está se ocultando à citação.

Seria temerário, segundo nosso entendimento, deixar essa incumbência


para o oficial de justiça, notadamente, em matéria criminal, procurando -se
evitar, também, futuras nulidades em decorrência da ausência de ciê ncia da
acusação por parte do réu.

Assim, o oficial de justiça deverá noticiar ao magistrado as razões que


possui para suspeitar da ocultação do réu, bem como mencionar os dias e
horas em que procurou o citando.

Ficando constatada a má-fé do oficial de justiça, responderá processo


disciplinar e o ato será anulado, refazendo todo o processo desde a citação,
entretanto, trata-se de uma análise subjetiva feita pelo agente público que
dificilmente poderá ser contestada no caso concreto. [19]

Em relação à citação por hora certa, não haverá suspensão do


processo, nos moldes do art. 366, CPP, que restou apenas para a citação por
edital. Aliás, um dos motivos que levou a inclusão da citação por hora certa no
processo penal foi a questão da suspensão do processo em c aso de revelia, já
que o réu, muitas vezes, se furtava da citação para que houvesse a suspensão
do processo.

Agora, a realização da citação por hora certa permite o prosseguimento


do processo, sendo nomeado defensor dativo, se o acusado não comparecer
(art. 362, parágrafo único).

Parece-nos, contudo, inconstitucional a previsão do art. 362 do CPP, por


violação aos princípios do contraditório e da ampla defesa, pois a ampla defesa
abarca a defesa técnica e a autodefesa, ficando esta última prejudicada em
face da continuidade do processo, cujo procedimento citatório fora por hora
certa.

Há uma incongruência do sistema que, por um lado, admite a suspensão


do curso do processo e do prazo prescricional, notadamente após a muito bem -
vinda alteração trazida pela le i 9.271/96, e por outro permite que o processo
continue sem a presença do acusado, ainda que lhe seja nomeado defensor
dativo.

A citação por hora certa somente tem cabimento no processo civil, cujos
direitos discutidos são, em sua grande maioria, disponíve is, sendo, dessa
forma descabido no processo penal.

 
 *


A pretensão deste trabalho foi apontar as linhas gerais acerca das


alterações trazidas pela lei n. 11.719/08, tratando, pontualmente, das
modificações relacionadas à citação, enquanto ato processual de comunicação
e instauração de instância no processo penal.

A reforma processual penal apresenta, indubitavelmente, alterações


relevantes, que se coadunam com a boa intenção do legislador em tentar
solucionar as dificuldades relacionadas à morosidade do poder judiciário
brasileiro e garantir a efetividade da jurisdição.

Por outro lado, não está imune às críticas, que, aliás, devem ser feitas
com o objetivo de melhorar ou corrigir os pontos falhos que passaram
despercebidos às vistas do legislador.

Dúvidas não pairam de que a intenção do legislador foi a melhor


possível ao elaborar um arcabouço de normas que promoveram uma
verdadeira revolução no nosso arcaico Código de Processo Penal e cujas
alterações, apesar de algumas imperfeições, condizem mais com um processo
penal moderno e tentam se enquadrar no ideal garantista que ganhou vulto,
sobretudo, após a CF/88.

A lei 11.719/08 se insere neste contexto, apresentando objetivos,


desdobramentos e diretrizes relacionadas à otimização do pr ocesso penal,
promovendo as mais diversas alterações, dentre outras, no tocante aos
procedimentos.

É nesta seara que discutimos as alterações efetuadas pelo diploma legal


retromencionado no tocante à citação no processo penal, notadamente, nas
realizadas em relação às modalidades de citação ficta, quais sejam: por edital e
a novidadeira citação por hora certa.

Parece-nos que o legislador não caminhou bem ao transportar a citação


por hora certa, modalidade de citação ficta do processo civil, para o processo
penal (art. 362 do CPP), tendo em vista que este último lida com um bem
indisponível: a liberdade. É inadmissível que o réu seja citado por hora certa e,
mesmo que não haja tomado ciência da ação penal contra ele promovida, seja
processado, julgado e conde nado, ainda que a lei lhe garanta a nomeação de
defensor público. Há inquestionável inconstitucionalidade deste dispositivo que
viola, indubitavelmente, o princípio do devido processo legal e, sobretudo, do
contraditório e da ampla defesa. Além disso, have rá dificuldades para aferição
sobre a real vontade de ocultação do réu e dúvidas acerca de quem verificará
esta ocultação, bem assim, como isso será analisado.

O ato de legislar é algo complexo, pois pressupõe a elaboração de


novos mandamentos legais e a conexão destes à regramentos pré -
estabelecidos, tarefa esta, portanto, nada fácil e que deve ser realizada com
cautela por parte do legislador, levando -se em consideração todo o sistema
jurídico em vigor. Não é possível desconsiderar os mandamentos legais j á
existentes, notadamente, os relacionados às garantias individuais.

Assim, diante de uma lacuna ou uma situação não antevista pelo


legislador, nos resta apenas aguardar o posicionamento da jurisprudência, que
com a sua prudência nos indicará os caminhos d a sensatez.

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1. Art. 156 ± A prova da alegação incumbirá a quem a fizer, sendo, porém,


facultado ao juiz de ofício:

I ± ordenar, mesmo antes de iniciada a ação penal, a produção


antecipada de provas consideradas urgentes e relevantes, observando a
necessidade, adequação e proporcionalidade da medida;

II ± determinar, no curso da instrução, ou antes, de proferir a sentença, a


realização de diligências para dirimir dúvida sobre ponto relevante.

2. +£,-.#c/0,1c. Disponível em:


http://www.mj.gov.br/reforma/data/Pages/MJ65097B8FITEMID3EBDB47
5768648B1B1D43EDB9C3F1AE7PTBRIE.htm . Acesso em: 21.07.08.
3. BOTTINI, Pierpaolo Cruz. Aspectos Gerais da Reforma Processual.
  . Ano 16, n. 188, julho/2008, p. 26.
4. Ibid, p. 27.
5. GRINOVER, Ada Pellegrini; FERNANDES, AntonioScarance; GOMES
FILHO, Antonio Magalhães. c £
  j j
 . São
Paulo: Revista dos Tribunais, 2006, p. 116.
6. TO>RINHO FILHO, Fernando da Costa. j j
. Vol. III. São
Paulo: Saraiva, 2008, p. 168.
7. GRINOVER, Ada Pellegrini; FERNANDES, AntonioScarance; GOMES
FILHO, Antonio Magalhães. Op. Cit., p.117.
8. c Ê  Ê
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Ê . (TACrimSP,
HC 119.796, RT 578/364).
9. Há casos em que a citação é cumprida por pessoa diversa, como na
citação de militar, que é feita conforme dispõe o art. 358 do CPP (pelo
chefe do respectivo serviço).
10. TO>RINHO FILHO, Fernando da Costa. Op. Cit, p. 183.
11. Na prática é assim mesmo que se procede à citação do preso. Nunca
ficar esquecido deva ser remetido ao diretor do presídio, ou quem suas
vezes fizer, um ofício requisitório, pois, do contrário, o preso não poderá
sair do xadrez. Requisição e citação são coisas diversas, conforme RT
609/345, 703/315, 715/467 e 717/404.
12. Neste sentido ver doutrina de TO>RINHO FILHO, Fernando da Costa.
j j
 . Vol. III. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 180 -181.
13. Art. 396. Nos procedimentos ordinário e sumário, oferecida a denúncia
ou queixa, se não a rejeitar liminarmente, recebê -la-á e ordenará a
citação do acusado para responder à acusação, por escrito, no prazo de
10 (dez) dias.
14. GOMES, Luiz Flávio; C>NHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo
Bastista.    2 
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   ,3  . São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008, p. 322 e
323.
15. Sobre esta nova modalidade de citação comentaremos a seguir.
16. SILVA, Ivan Luís Marques da. 
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 !!" . São
Paulo: Revista dos Tribunais, 2008, p. 20.
17. Neste sentido: "Ao juiz não compete determinar que a citação se faça
com hora certa; ao oficial de justiça é que compete verificar se é caso ou
não de aplicação do art. 227 do CPC" (JTA 120/44). "É acima de tudo ao
juiz que compete o poder de decidir da ra zoabilidade da suspeita de
ocultação alegada pelo oficial de justiça" (RJTJESP 108/287).
18. SILVA, Ivan Luís Marques da. Op. Cit., mesma página.
19. Ibidem.




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BOTTINI, Pierpaolo Cruz. Aspectos Gerais da Reforma Processual.  


 . Ano 16, n. 188, julho/2008.

GOMES, Luiz Flávio; C>NHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo Bastista.


   2 
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,3 . São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008.

GRINOVER, Ada Pellegrini; FERNANDES, AntonioScarance; GOMES FILHO,


Antonio Magalhães. c £
  j j
 . São Paulo: Revista
dos Tribunais, 2006.

N>CCI, Guilherme de Souza. ' ( j j


 
 . São
Paulo: Revista dos Tribunais, 2006.

SILVA, Ivan Luís Marques da. 


j 
j
 !!" . São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2008.

TO>RINHO FILHO, Fernando da Costa. j j


. Vol. III. São Paulo:
Saraiva, 2008.