Você está na página 1de 2

Moções Espirituais

Sabemos e experimentamos muitos movimentos interiores, a vida espiritual é dinâmica e nos provoca
constantemente, somos seres sensíveis e percebemos muitas coisas cotidianamente, não apenas durante a
oração, dentro de um retiro, onde de repente prestamos mais atenção a esta dinâmica interior, mas na vida
mesmo, no dia-a-dia. Assim, o primeiro passo é sentir, reconhecer, cair na conta das “moções espirituais”:
pensamentos que ocorrem à pessoa e provocam a sua liberdade, chamando a fazer ou não fazer alguma
coisa boa (segundo o Espírito de Jesus e do seu Evangelho) ou má (contra este Espírito), ou ainda fazer
alguma coisa menos boa do que a pessoa se propusera a fazer antes...

Então, as moções são, portanto, pensamentos que ocorrem à pessoa que discerne como que de fora, como
propostas à sua decisão. Elas produzem ou são acompanhadas de emoções, sentimentos: paz ou
perturbação, tristeza ou alegria, etc.

No vocabulário de Santo Inácio de Loyola, “moção do espírito” significa toda e qualquer ação do Espírito
Santo na consciência do exercitante. Esta ação pode se manifestar através de consolação ou desolação.

Consolação Espiritual: alegria, paz, tranqüilidade, ânimo, generosidade, vontade de fazer o bem, sentido
profundo da vida, sentir-se amado por Deus, desejo de prosseguir a caminhada espiritual e superar as
dificuldades. A consolação é dom do Espírito Santo.

Desolação Espiritual: tristeza, ausência de sabor na oração, obscuridade na alma, auto-suficiência,


enfraquecimento da fé, desesperança, falta de caridade, sentimentos de fraqueza e de incapacidade,
impulsos de inveja, cobiça, ambição, arrogância....

Nas anotações, procure registrar as moções que, por ventura, você tenha percebido em sua oração. Essas
anotações poderão ser matéria de diálogo com seu acompanhante espiritual e, ao longo da caminhada,
serem como que “balizas” que vão apontando a direção. Momentos de serenidade na oração também
podem ser muito ricos pela interiorização da Palavra de Deus.

Assim, o importante não é sentir isso ou aquilo. Não pensar que a oração, para ser boa, tenha que ter grandes
emoções! O importante mesmo é ir desenvolvendo uma atitude de abertura de espírito para que Deus possa
agir em sua vida.

É de bom proveito, contudo, perguntar-se sobre as causas que estão levando a uma ausência de moções: se
podem significar um período de tranqüilidade na interiorização da Palavra, podem também ter como causa
a falta de generosidade na prática dos Exercícios ou a não-observância ao método ou à assiduidade,
pontualidade, etc.

Consolação e Desolação

Já no início dos EE, na 6ª anotação se encontra os termos: desolação e consolação: “Quando quem dá os
exercícios sente que o que se exercita não lhe vem alguma moção espiritual, tais como consolação ou
desolação, nem é agitado por vários espíritos, interrogue-o muito se os faz nos tempos marcados e como”
[EE 6].
Santo Inácio nos fala com clareza que não se trata de sentimento, mas de estado de espírito ou de alma. São
moções espirituais, portanto originadas fora de mim, mas que produzem efeito interior na pessoa que reza,
que busca esta intimidade, o conhecimento íntimo de Deus.

Em vários momentos Santo Inácio torna a destacar tanto a consolação quanto a desolação, apontando
possíveis causas e efeitos das mesmas, aconselhando modos de agir, de acordo com o tipo de moção, o
momento dos EE e a pessoa que reza, alertando sempre a quem dá os EE estar atento às moções de quem
os faz.

Tanto a consolação quanto a desolação estão em direta relação com Deus, não apenas com acontecimentos
pessoais ou estados de ânimo, alegria ou tristeza, o que requer atenção e discernimento.

Em algum momento Pe. Adroaldo, SJ ressaltou a etimologia dos termos: con-solação = com solo; des-solação
= sem solo, e nosso solo é Deus! A moção, portanto, é sentida em nosso interior como maior ou menor
proximidade a Deus.

Quando sentimos consolação, proximidade de Deus, seja com ou sem causa, compreendemos os discípulos
de Emaús: “Não ardia nosso coração enquanto Ele nos falava?”(Lc 24,32). Há um ardor, uma paixão, um
aumento no amor, que leva a um aumento da fé, da esperança e do amor: crescem em nós as virtudes
teologais. Só mesmo Deus pode penetrar no mais íntimo de cada pessoa, só Ele pode tocar e provocar tal
fervor e zelo que como resposta gratuita e confiante e o desejo de mais amar (Magis Inaciano), de mais
intimidade, de testemunhar tão grande amor, de fazer algo – há um apelo de abertura a Deus e aos outros.

Tal experiência de Deus deixa marcas, assinala o cristão para o maior serviço de Deus, no concreto de seu
cotidiano. É lembrança viva, memorial, da relação de quem reza e Deus, até a hora é recordada, como lemos
nos Evangelhos várias vezes. A verdadeira consolação remete a Deus e aos irmãos, um único movimento,
que unifica e pacifica, daí o sentimento de paz que a caracteriza.

A desolação, como um negativo da consolação, tem um amargo sabor de pensar-se distante de Deus. Há um
sentimento de solidão, de não pertença, como se não houvesse sentido o que se crê, o que se deseja, a
esperança enfraquece, uma névoa parece encobrir a vida, que pode se tornar uma escuridão. No lugar de
confiança e ânimo instala-se medo, desânimo; ao invés do querer anunciar, o desejo é de se esconder, se
fechar, deixar os planos, como se fossem pouco importantes. A desolação inquieta, incomoda, questiona.

A oração torna-se árida, sem sabor, o tempo parece mais longo. Não se trata, portanto, necessariamente,
de depressão ou simples tristeza, mas de uma moção interior, que pode se manifestar com sentimentos
negativos e fechamento.

Vale ressaltar que alguns pensam ter “rezado mal” por não terem sentido moções durante o tempo de
oração. De fato, Santo Inácio nos alerta para verificar a fidelidade ao tempo de oração, metodologia, pois
pode ser fruto de alguma negligência, mas nem sempre é.

Identificar a desolação e auxiliar a quem reza atravessar este tempo é tarefa delicada e importante, como
nos alerta Pe. Geza,SJ: “ O “tempo sem moções espirituais” na oração implica certa ambiguidade, uma vez
que pode provir de causas diversas (por exemplo: da falta de generosidade ou de uma prova de Deus ou do
“tempo tranqüilo”). É preciso descobrir a causa deste estado interior, para se trabalhar adequadamente.

As moções nos educam, nos fortalecem e nos aproximam do Deus verdadeiro, ajudam a ordenar-se e a
crescer na liberdade, no amor, sem buscar “recompensas” nem temer o desconhecido, mas colocando nossa
confiança apenas em Deus, seguindo as pegadas de Jesus Cristo.

Fonte: Vários autores.

Você também pode gostar