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MILAGRE ECONÔMICO BRASILEIRO E DESIGUALDADE DE RENDA

Hadjamy Domingos Cunha da Conceição; Renan Cassão Martins

RESUMO

Até o início nos anos 1960, o Brasil vinha de um período de crescimento


econômico expressivo, porém não conseguiu se sustentar, resultando em altos índices
inflacionário e crise política, que culminaram no Golpe Militar de 1964, pondo fim a Era
Populista. Através de fortes investimentos estatais e injeção de capital estrangeiro, o Brasil
alavancou um crescimento econômico nunca visto antes, baseado no consumo de bens
duráveis. Entretanto, esta prosperidade não foi igualitária, beneficiou as elites brasileiras e
aprofundou desigualdades socioeconômicas, sobretudo, através de arrocho salarial, que tanto
privilegiou grandes empresas.

Palavras-chave: Desigualdade de renda; Governo Militar; Milagre Econômico; PAEG.

1 INTRODUÇÃO

Neste artigo, tratar-se-á sobre as questões que resultaram no chamado Milagre


Econômico Brasileiro, período da Ditadura Militar em que houve um espantoso crescimento
econômico, sem, todavia, permitir o desenvolvimento social necessário para beneficiar as
camadas mais carentes da nação. O texto dará início, fazendo-se um apanhado histórico dos
fatos que alicerçaram as bases do Milagre como a muito bem conhecida tomada de poder
pelos militares que pôs fim ao período populista no Brasil. Através das reformas do PAEG, a
herança do Plano de Metas de JK e forte capital estrangeiro possibilitaram o Milagre
Brasileiro numa expansão produtiva de bens de consumo duráveis.
Na parte final do artigo, falar-se-á sobre dicotomia entre crescimento econômico e
desenvolvimento. Apesar do expressivo avanço econômico, as camadas mais pobres não se
favoreceram de todo este crescimento, tendo, inclusive, sua situação agravada. O grande
êxodo rural encheu as cidades de trabalhadores não qualificados que não foram absorvidos
totalmente pelo mercado de trabalho, o salário mínimo real sofreu uma arrochadura deliberada
pelo Governo Militar, alargando ainda mais o abismo entre as elites e a classe trabalhadora,
que se desgastou ainda mais pela má distribuição de toda esta riqueza.

2 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DA POLÍTICA NACIONAL


A economia Brasileira sofreu uma enorme desaceleração de 1963 até 1967, com
os índices econômicos em decadência. Segundo Leff, haveria uma grande capacidade
produtiva não aproveitada no setor de bens de capital, em função das próprias características
do setor. Na indústria automobilística, por exemplo, a capacidade ociosa chegou a 50%. Além
disso, houve subestimação da capacidade competitiva das empresas já instaladas e
superestimação das dimensões do mercado nacional. O setor produtor de bens de consumo
duráveis enfrentou dificuldades, pois a demanda não crescia de maneira satisfatória. A
demanda reprimida que o PSI buscou atender esgotou-se rapidamente, em função da baixa
renda per capita e da elevada concentração de renda no país. A inexistência de mecanismos
para o financiamento a longo prazo do consumo trazia ainda mais limitações à demanda.
Segundo Celso Furtado um outro motivo que levou a diminuição do crescimento
econômico teve a ver com a substituição das importações, visto que o pais não possuía a
tecnologia necessária para fabricar os produtos importados em solo nacional, o baixo nível de
acumulação de capital e alta quantidade de mão de obra disponível, dificultavam a criação de
um mercado consumidor, esta situação era ainda agravada pelas empresas monopolistas que
possuíam grandes somas de capital e tecnologia avançada, se apropriando de economias de
escala, daí a tendencia à grande capacidade ociosa da economia e preços elevados, reforçando
a concentração da renda. A economia caminhava para um esgotamento do processo de
substituição de importações e posterior estagnação, as classes conservadoras que mantinham
uma estrutura agrária operando com técnicas rudimentares de cultivo, provocaram a exaustão
da fertilidade da terra, isto resultava nos altos preços dos produtos agrícolas e no baixo nível
de vida da população. Se não se criasse um mercado de base industrial, pouco se podia
esperar da demanda do setor agrícola
Uma explicação mais abrangente sobre a crise de 1962 certamente deveria
considerar os vários aspectos abordados nas análises anteriores. Tratou-se efetivamente de
uma crise cíclica, agravada pelo aumento da instabilidade política e pelas políticas de
estabilização recessivas, como o Plano Trienal, num primeiro momento, e o próprio PAEG, a
partir da política econômica pós-1964. Some-se a isso o fato de que a economia brasileira se
industrializara ampliando a enorme dependência com relação ao setor externo, o que
provocava frequentes crises cambiais. (LACERDA, 2010)
A posse do vice-presidente João Goulart só foi possível com as limitações que
lhe seriam impostas pelo regime parlamentarista, resultado dos vetos militares. Entre 1961 e
1963 houve três gabinetes parlamentares que não conseguiam implementar nenhuma política
econômica consistente, em razão disso, a taxa de inflação alcançou 45,5% em 1962, contra
33,2% em 1961. Celso Furtado elaborou um plano de ações anti-inflacionárias bastante
ortodoxas como resposta à aceleração inflacionária e chamou-o de plano Trienal numa
tentativa de estabilização econômica, mais uma vez foi usada a política de contenção de
gastos públicos e de liquidez. Rapidamente, as reivindicações sindicais e políticas da base de
apoio do governo se impuseram, com a recusa dos assalariados em suportar novamente o peso
do ajuste anti-inflacionário. A tentativa de estabilização fracassou e provocou o crescimento
negativo do PIB per capita: a economia cresceu 6,6% em 1962, mas apenas 0,6% em 1963,
com inflação anual de 83,25%. Em julho de 1963, Furtado deixou o governo e, a partir de
então, o acirramento dos conflitos sindicais e políticos, com a desestabilização política interna
e externa do governo democraticamente eleito, impediu a implementação de qualquer política
de gestão econômica mais articulada. Como resultado, houve aumento das taxas mensais de
inflação. O fim do governo ocorreu com o golpe militar de 1964. (LACERDA, 2010)
A tomada do poder pelos militares, em 1964, pôs fim ao chamado populismo no
país, o regime militar assumiu a direção do país, com uma postura tecnocrático-modernizante,
comprometido com a superação das políticas populistas de João Goulart, consideradas
atrasadas e ultrapassadas. Apesar das críticas ao nacionalismo econômico do governo deposto,
o novo regime manteria um discurso desenvolvimentista, comprometido com a retomada do
crescimento econômico. A prioridade inicial do novo governo foi a normalização das relações
com os organismos financeiros internacionais. A partir de então, todas as ações buscavam
uma integração maior com os países capitalistas desenvolvidos, especialmente os Estados
Unidos. O Brasil assumiu então uma clara subordinação: tratava-se do aprofundamento do
modelo de capitalismo dependente e associado, já hegemônico no país desde o Plano de
Metas de JK. O resultado foi o aumento da internacionalização da economia brasileira com
relação aos capitais externos e a consolidação da oligopolização, com o franco predomínio
das empresas multinacionais (EMN). O aumento da dependência externa, que se refletiu,
sobretudo, no enorme aumento da dívida externa do país, foi determinante para os rumos da
economia brasileira (LACERDA, 2010)

2.1 EXPLANAÇÃO DA SITUAÇÃO ECONÔMICA BRASILEIRA NA DITADURA


MILITAR

Em março de 1967, iniciou-se o governo do general Costa e Silva, com uma


nova equipe econômica liderada por Antônio Delfim Netto. Delfim continuaria responsável
pela política econômica durante a Junta Militar, no período após o impedimento de Costa e
Silva, e ainda durante o governo do general Médici. Delfim Netto assumiu a direção da
política econômica com um novo diagnóstico do processo inflacionário brasileiro: após o
ajuste das contas públicas efetuado pelo PAEG, e com os salários rigidamente controlados, a
inflação passou a apresentar um forte componente de custos, decorrentes da grande
capacidade ociosa existente e dos altos custos financeiros. A solução para a continuidade da
queda da inflação seria a retomada do crescimento econômico, tendência verificada em toda a
economia mundial da época. Para isso, era fundamental que se adotasse uma política
monetária expansiva e que houvesse um grande aumento no crédito ao setor privado,
estimulando a produção para o mercado interno e externo, o novo ciclo de crescimento foi,
mais uma vez, comandado pelos setores produtores de bens de consumo duráveis e de bens de
capital. O crescimento médio do PIB no período 1967-1973 atingiu 11,2% ao ano, com
aumento na abertura estrutural da economia para o exterior, houve aumento das importações,
de 5,4% para 8,6% do PIB, enquanto as exportações mais que dobraram, resultando em uma
balança comercial praticamente equilibrada (LACERDA, 2010)
O grande incremento do endividamento externo a partir do milagre econômico
levou alguns autores a classificar o período como de crescimento conduzido por
financiamento externo. Lacerda (2010), o crescimento de outras economias mundiais permitiu
que o brasil se beneficiasse da abundância de fluxos de caixa e financiasse as suas operações
internas, a dívida externa é uma das consequências das relações econômicas do país com o
resto do mundo. Os dados da balança comercial do Brasil no período aqui considerado (1968
a 1973) mostram que ela está rigorosamente equilibrada. Paulo Davidoff Cruz, analisando o
balanço de pagamentos do país, apontou a ocorrência de um déficit de US$ 2 bilhões
acumulado nesse período nos serviços considerados produtivos, isto é, aqueles relativos a
transporte, seguros e importação de tecnologia.

2.2 O QUE FOI E O QUE POSSIBILITOU O MILAGRE ECONÔMICO

O que se convencionou chamar de milagre econômico brasileiro foi um período


de intenso crescimento do PIB e da produção industrial entre 1968 e 1973. A economia
brasileira, beneficiou-se do grande crescimento do comércio mundial e dos fluxos financeiros
internacionais para aumentar sua abertura comercial e financeira em relação ao exterior.
Novamente, nesse ciclo expansivo, observou-se a predominância dos setores produtores de
bens duráveis e de bens de capital, a partir da estrutura industrial implantada ainda no Plano
de Metas. Uma das características marcantes desse processo, como já enfatizado, foi a
presença de capital estrangeiro, na forma de investimentos diretos e, especialmente, por meio
de empréstimos. A consequência desse endividamento seria a crise dos anos 1980. Ao mesmo
tempo que ocorreu um intenso crescimento econômico, agravaram-se as questões sociais, com
aumento da concentração de renda e deterioração de importantes indicadores de bem-estar
social. O milagre, no fim das contas, aprofundou as contradições estruturais da economia e os
problemas decorrentes de sua enorme dependência em relação ao capital internacional. As
bases do milagre econômico seriam implementadas pelo regime militar vigente na época que
aprofundou as características do modelo econômico dependente e associado ao capital
estrangeiro e manteve a matriz industrial implementada com o Plano de Metas. O êxito do
PAEG (Programa de Ação Econômica do Governo) também possibilitou que o milagre
ocorresse. (LACERDA, 2010)
O PAEG foi elaborado pelo então recém-criado Ministério do Planejamento e
da Coordenação Econômica. A equipe econômica do governo do marechal Castelo Branco era
liderada por Roberto Campos, ministro do Planejamento, e por Octávio Gouvea de Bulhões,
ministro da Fazenda. Esse plano de estabilização conseguiu reduzir a taxa de inflação de 90%,
em 1964, para menos de 30%, em 1967, invertendo a tendência inflacionária que existia desde
o final dos anos 1930. Entretanto, o aspecto mais importante do PAEG foi o conjunto de
transformações institucionais impostas ao país, consubstanciadas nas reformas bancária e
tributária e na centralização (autoritária) do poder político e econômico. O autoritarismo
permitiu ao governo militar executar uma política econômica de garantia dos investimentos,
estimulando ainda mais o processo de oligopolização. O PAEG mantinha os objetivos básicos
dos discursos desenvolvimentistas: retomada do desenvolvimento, via aumentos dos
investimentos; estabilidade de preços; atenuação dos desequilíbrios regionais; e correção dos
déficits do balanço de pagamentos, que periodicamente ameaçavam a continuidade de todo o
processo. As prioridades imediatas eram, internamente, o controle da inflação e,
externamente, a normalização das relações com os organismos financeiros internacionais. A
avaliação do PAEG como programa de estabilização é positiva, apesar de seus custos para
uma parcela importante da população. O plano reduziu a inflação para a faixa de 20% ao ano
e executou um amplo conjunto de transformações institucionais fundamentais para o grande
crescimento econômico que se seguiria. Em contrapartida, as críticas, como as formuladas por
Bacha, centram-se no diagnóstico de inflação, erroneamente considerada como de demanda, o
que resultou em uma política recessiva com altos custos sociais. Segundo Bacha, a política
monetária restritiva praticada em 1966 foi equivocada, tendo em vista que a ameaça de
retomada do crescimento inflacionário devia-se a pressões dos preços agrícolas, consequência
da quebra de safra por causa da seca. Contraditoriamente, em 1965, a inflação havia sido
declinante, apesar da política monetária claramente expansionista. Outra linha de críticas é
aquela dirigida contra o autoritarismo na implementação das transformações institucionais e
na execução da política de estabilização, demonstrando que o liberalismo econômico
preconizado pelo governo militar não era acompanhado por liberalismo político e democracia
representativa. Criticava-se todo um projeto voltado ao fortalecimento dos grandes
oligopólios e ao aprofundamento da desnacionalização da economia, quando um regime
político ditatorial promovia o aumento da exploração da força de trabalho, agravando ainda
mais a perversa distribuição de renda no país. (LACERDA, 2010)

2.3 DESILGUALDADE DE RENDA DURANTE O MILAGRE

É válido, aqui, destacar a diferença de desenvolvimento e crescimento econômico,


são termos conceitualmente distintos. Crescimento econômico é um conceito que indica o
incremento produtivo, consumo, enriquecimento, etc., de um país como um todo, não
levando, em geral, questões sociais, isto pode ser mensurado, por exemplo, pelas taxas de
variação do Produto Interno Bruto (PIB). Quando se fala de desenvolvimento econômico, o
que é evocado é natureza social, o modo como a economia se desdobra sobre a população no
que concerne à educação, saúde, distribuição de renda, entre outros níveis de desigualdade.
São conceitos intimamente relacionados, porém o fomento de um não necessariamente se
reflete no outro. Como se averigua no Milagre Econômico Brasileiro, houve um crescimento
bastante significativo da economia nacional, sem que isto tivesse impactado positivamente a
toda população, inclusive, existindo agravamento de desigualdades importantes.
É real que a economia brasileira nunca houvera experimentado tamanho
crescimento, sobretudo no setor que industrial que foi o mais beneficiado sob o vigente
aparato ditatorial desenvolvimentista. Entretanto, todo crescimento econômico teve um preço
pago às custas da população mais pobre. O salário mínimo sofreu um arrocho em seu valor
real, dado às mudanças dos cálculos de reajuste e as condições laborais foram prejudicadas
graças ao controle estatal dos sindicatos que perderam sua autonomia. Outro aspecto marcante
do período foi o alargamento da diferença da renda dos mais ricos dos mais pobres. A
disparidade de renda ficou mais evidente quando se averigua o rendimento de empresários e
pessoas como maior escolaridade, sendo esta, efetivamente maior em associação a uma renda
elevada.
Carlos Langoni, um dos autores que tentou explicar a má distribuição de renda no
Brasil naquela época, acusou o próprio crescimento econômico como causa do problema.
Posteriormente, outros defensores da tese de Langoni, também culparam o acréscimo da
demanda por mão de obra qualificada, fazendo com que os níveis dos salários aumentassem,
sobretudo no curto prazo, panorama que beneficiaria, no primeiro momento, quem tivesse
maior escolaridade e qualificação técnica. Logo, seria importante que houvessem mudanças
em algumas variáveis qualitativas, especialmente na educação para atenuação do cenário e
que estas questões seriam corrigidas automaticamente como explicita no trecho a seguir de
Langoni:

Numa economia como a brasileira, com altas taxas de crescimento,


principalmente no setor industrial, é razoável antecipar-se a existência de
desequilíbrios no mercado de trabalho, pois a expansão da demanda tende a
beneficiar justamente as categorias mais qualificadas cuja oferta é relativamente
mais inelástica a médio prazo. Assim é natural encontrar-se várias categorias
profissionais recebendo salários acima do valor de sua produtividade marginal.
Nesse sentido, pode-se dizer que o grau de desigualdade da distribuição atual é
maior do que o grau esperado a longo prazo, quando será possível eliminar-se esses
ganhos extras através da expansão apropriada da oferta (Langoni, 1973, p. 116).

Porém, a tese de Langoni foi rebatida por outros estudiosos que criticaram a
correção automática das desigualdades de renda e também o nível educacional como única
origem da problemática. Como é o caso de Albert Fishlow na coletânea de artigos A
Controvérsia sobre Distribuição da Renda e Desenvolvimento organizados por Ricardo
Tolipan e Arthur Carlos Tinelli presente no artigo A distribuição de renda durante o
“Milagre Econômico” brasileiro: um balanço da controvérsia de Ricardo Stazzacappa
Barone et alii. No trecho a seguir, Fishlow evidencia a importância a educação nas
disparidades de renda, mas também aponta os efeitos encadeados entre renda elevada e
educação:

No caso brasileiro, essa relação [renda – educação] é importante e


tendente a levar a distorções, pois a renda familiar é um dos determinantes
significativos na frequência à escola. (...) a educação a nível superior é
monopolizada por aqueles já ricos, e eles transferem para seus filhos as
oportunidades de controlar a renda dissociada da produtividade real (...). Um
segundo ponto corresponde à persistência da desigualdade, da qual não há menção
no modelo [de Langoni]. O próprio sistema educacional brasileiro, é lógico,
constitui na prática um importante mecanismo para assegurar a manutenção da
estrutura existente, racionando a diplomação não apenas em favor dos já afluentes,
mas também, predominantemente, em favor daqueles com pais educados (Fishlow,
1975, p. 180-181).

Langoni defendia a ideia de que a desigualdade de renda entre os diversos setores


da classe trabalhadora seria automaticamente corrigida com o avançar crescente da economia.
John Wells, em seu artigo em A Controvérsia sobre Distribuição da Renda e
Desenvolvimento organizados por Tolipan e Tinelli, explicita que os reajustes na renda em
países já desenvolvidos não aconteceram de modo natural, havendo, portanto, interferências
sindicais e da excassez da mão de obra:

(...) a experiência dos países capitalistas avançados indica que uma


redução na desigualdade dos rendimentos segue-se ou da formação de um
movimento sindical independente, ou de uma escassez geral de mão de obra numa
situação em que seja bastante rígida a distribuição estrutural de trabalho entre os
setores. (WELLS, 1975, p. 223)

A desigualdade de renda no Brasil, entretanto, não teve sua origem no período do


Milagre Econômico. Ela se sucedeu num longo processo histórico desde o período colonial,
em que o carácter monoprodutor agrícola latifundiário não abriu caminho, nem haveria de
interessar-se por isto, para uma distribuição adequada de renda ou desenvolvimento social.
Sendo a desigualdade social e de renda anterior ao Milagre, todo este novo regime
econômico-produtivo foi beneficiado pelas questões pré-existentes. Pessoas com maiores
condições de educação e aperfeiçoamento profissional, que são aqueles com maior renda
disponível a gastar com isto, logo tiveram melhores oportunidades de emprego e salários
melhores. Outro ponto que ajudou a agravar a desigualdade, foi a demanda de bens duráveis e
de luxo, o que beneficia apenas uma parcela mais rica da população, excluindo a outra grande
parcela de ter acesso a esses novos bens, ainda mais distantes pela política de regressão
salarial. Aliando-se a isto, o êxodo rural que encheu as cidades de gente, nem sempre tão
qualificadas quanto as empresas desejavam o que acabavam não sendo integrados ao trabalho
formal.

3 CONCLUSÃO
É notório o quão estrondoso foi o crescimento econômico nesse período do Brasil
e nunca mais o país haveria de experimentar tal êxito em seus índices de crescimento. Na
época houve muitas tomadas de empréstimos, que futuramente compactuariam com a crise da
década de 1980, e também grande entrada de capital estrangeiro no país, motivado pela
efervescência da economia global naquele período. Outra questão que também beneficiou os
eventos do Milagre Econômico, foram a reformas do PAEG que introduziram mudanças
institucionais, reformas no setor tributário e bancário. Todo este conjunto de eventos e
medidas, convergiram para o desenvolvimento industrial brasileiro, especialmente no setor de
bens duráveis.
Todavia, o crescimento econômico não sendo o mesmo que desenvolvimento,
grande parcela da população mais pobre sofreu as consequências. A mão de obra trazida
através do êxodo rural para os grandes centros urbanos, não puderam ser totalmente
absorvidas, tanto pelo grande contingente, tanto pela falta de qualificação. O salário mínimo
foi propositalmente reduzido pela reformulação dos cálculos, o que de algum modo segregou
a camada mais pobre a participar do desenvolvimento da indústria de bens duráveis. Também
alargando a diferença de renda entre mais ricos e mais pobres
REFERÊNCIAS

BARONE, Ricardo Stazzacappa. A distribuição de renda durante o “milagre econômico”


brasileiro: um balanço da controvérsia. Instituto de Economia UNICAMP, Campinas,
fevereiro de 2015. Disponível em:
https://www.eco.unicamp.br/images/arquivos/artigos/3386/TD251.pdf. Acesso em: 20 de
março de 2021.

VELOSO, Fernando A. Determinantes do "milagre" econômico brasileiro (1968-1973): uma


análise empírica. Revista Brasileira de Economia, Rio de Janeiro, abr/jun 2008. Disponível
em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71402008000200006.
Acesso em: 20 de março de 2021.

PAULINO, Ana Elisa Lara. O impacto do “milagre econômico” sobre a classe trabalhadora
segundo a imprensa alternativa. Revista Katálysis, Florianópolis, set/dez 2020. Disponível
em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-
49802020000300562&tlng=pt. Acesso em: 20 de março de 2021.

FURTADO, Celso. Análise do Modelo Brasileiro. Editora Civilização Brasileira, São


Paulo, vol.12 no.4, Out./Dez. 1972. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?
script=sci_arttext&pid=S0034-75901972000400013. Acesso em: 20 de março de 2021.

LACERDA, Antônio Corrêa de; REGO, José Márcio; BOCCHI, João Ildebrando; BORGES,
Maria Angélica; MARQUES, Rosa Maria. ECONOMIA BRASILEIRA. 4. ed. São Paulo:
Saraiva, 2010.

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