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---------{( o QUE ENSINAR DE MATEMATICA HOJE?

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Maria Tereza Carneiro Soares *

Os altos índices de evasão mática escolar dos desenvolvi- que deveriam ser ensinados.
e repetência nas escolas de 1.o mentos da Ciência Matemáti- Os conteúdos desses guias são
grau denunciam que, tanto nas ca. amplamente conhecidos e sua
escolas públicas quanto nas A tendência à moderni- crítica acompanhou a crítica
particulares, a disciplina que zação da sociedade e a cres- feita à Matemática Moderna,
mais contribui para o fracas- cente industrialização produ- cujos conteúdos foram consi-
so escolar é a Matemática. ziu, no campo da educação, derados por alguns autores,
Essa constatação tem levado uma nova concepção de' en- como Kline, (1976), inade-
professores e especialistas sino que preparasse indiví- quados para o 1.0 grau.
preocupados com esse ensino duos para utilizarem e cola- Apesar das críticas, até
a procurar caminhos que deli- borarem no desenvolvimen- 1986, esses guias cu rricu lares
neiem uma nova prática peda- to das novas tecnologias. impressos e distribu ídos na dé-
gógica. Entre 55 e 66, ocorre- cada de 70, foram pratica-
A questão acima se insere ram no Brasil cinco Congres- mente os únicos documentos
nessa busca levando a rever sos Nacionais de Ensino de oficiais com os quais a esco-
não só conteúdos mas, tam- Matemática onde debates so- la contou para determinar os
bém, a forma de transmissão- bre questões referentes aos conteúdos que deveria ensinar.
assimilação desses conteúdos, conteúdos, métodos, livro di- ~ evidente que durante
como questões indissociáveis dático e aperfeiçoamento do esse período, principalmente
no currículo. professor, de acordo com as na década de 80 mu itas esco-
Após essas considerações, tendências modernas, eviden- las reformularam seus conteú-
uma pergunta fundamental ciaram a preocupação com a dos tendo como base a práti-
deve ser formulada. Será ne- melhoria desse ensino. A im- ca pedagógica de seus profes-
cessário definir uma listagem plantação da Matemática Mo- sores, retirando alguns tópi-
de conteúdos para o 1.0 grau? derna, via livros didáticos e cos e tentando articular ou-
Até os anos 60, o ensino reciclagens, foi intensamente tros. Muitas vezes, essas tenta-
de Matemática era determina- recomendada e, começando tivas se ressentiram da falta
do por programas únicos e ri- pelo 2.0 grau, atingiu em 66, de uma instrumentalização
gidamente seguidos. A Mate- o 2.0 segmento do 1.0 grau teórico-metodológica mais
mática ensinada no 1.0 grau (antigo ginásio). consistente que possibilitasse
(antigo primário e ginásio) No 1.0 segmento do 1.0 clareza com relação ao que
poderia ser classificada co- grau (l,a a 4.a séries). essa era essencial e ao que era
mo pertencente à Aritmé- implantação ocorreu na dé- acessório na seleção e orienta-
tica, Álgebra e Geometria. cada de 70 coincidindo com ção dos conteúdos e metodo-
Essa concepção tradicional de as novas orientações propos- logias.
Matemática salientava o pre- tas pela lei 5692/71. Nessa Algumas Secretarias de
domínio do aspecto lógico so- lei, a Matemática de 1.a à Educação procuraram, nessa
bre o psicológico e o ensino 4.a séries aparece integrada às fase, listar conteúdos m íni-
dessa disciplina se processava Ciências Físicas e Biológicas mos a serem ensinados, numa
com ênfase em mecanismos e e Programas de Saúde sob o tentativa de dar resposta ao
técnicas onde a memória de- título de Iniciação às Ciên-
sempenhava papel principal. cias, uma das grandes áreas ( *) Professora de Matemática na
A partir dessa década, sob a do Núcleo Comum. Escola Municipal Herley Mehl
influência do movimento de Durante esse período, as em Curitiba-PR, Consultora
Matemática Moderna, novos Secretarias de Educação de vá- de Matemática da Secretaria
de Educação do Estado do Pa-
conteúdos foram propostos rios Estados organizaram guias raná, Licenciada em Matemá-
para o 1.0 e 2.0 graus com o curriculares com às diretrizes tica pela PUC/PR e Mestre
objetivo de aproximar a mate- e conteúdos programáticos em Educação pela UFPR

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fracasso escolar bastante evi nhecimento que é produzido BIBLIOGRAFIA
dente em Matemática a partir nas relações sociais, que tem
da 2.a série do 1.0 grau. A sido elaborado privadamente 1. DUARTE, Newton. A Re-
análise desses programas per- .e que atingiu um alto nível laçao entre o Lógico
mite perceber que ao serem de objetividade permitindo- e o Histórico no Ensi-
definidos conteúdos mínimos, lhe características universais. no da Matemática Ele-
que muitas vezes não foram os Tais características, de mentar. São Carlos,
básicos, ocorreu uma maior objetividade / universalidade, Tese de Mestrado,
fragmentação dos conheci- não devem ser confundidas 1987.
mentos a serem ensinados, com a neutralidade, como pre- 2. KUNE, Morris. O Fracas-
com o conseqüente esvazia- tendem os positivistas, pois so da Matemática Mo-
mento de conteúdos significa- fatores ideológicos intervêm, derna, São Paulo, Ibra-
tivos na escola de 1.0 grau. de forma extrínseca, na pro- sa, 1976.
Nos últimos anos, bus- dução desse conhecimento. 3. OUVEI RA, Betty A. et aI.
cando-se superar tanto a con- No entanto, a aceitação da Socialização do Saber
cepção tradicional quanto a existência desse componente Escolar_ São Paulo,
da Matemática Moderna, pro- ideológico não deve levar à Cortez/Autores Asso-
põe-se a retomada dos conteú- negação da objetividade/uni- ciados, 1986.
dos numa visão mais articula- versalidade do conhecimento (Coleção Polêmicas do
da do conhecimento matemá- matemático. Nosso Tempo. 18)
tico. Essa nova concepção re- Cabe, portanto, aos pro- 4. CURITIBA, Secretaria Mu-
articula os conteúdos tendo fessores e especialistas em nicipal da Educação,
como referencial o conheci- Matemática, tendo presente Jornal Escola Aberta
mento matemático historica- a necessidade da reflexão so- ano IV n.o 9,1987.
mente produzido e a lógica bre estas questões, unirem 5. MINAS GERAIS, Secreta-
de sua elaboração como fato- esforços na discussão das pro- ria de Estado de Edu-
res intrinsicamente ligados. postas hoje presentes, em bus- cação, Superintendên-
Eles são propostos sob três ca de conteúdos essenciais cia de Ensino, Propos-
eixos norteadores: números, que permitam a síntese entre tas Curriculares das
geometria e medida (consti- a Matemática como Ciência e Delegacias Regionais
tuindo-se o último no tema a Matemática como disciplina de Ensino, 1986.
articulador entre o número e escolar. 6. SÃO PAULO, Secretaria de
a geometria!. A apropriação pelo aluno Estado de Educação,
A dinamlcidade dessa no- do saber concreto (produzido Coordenadoria de Es-
va concepção está nas rela- históricamente e já sistemati- tudos e Normas Pe-
ções que se estabelecem entre zado) se tornará possível a dagógicas, Proposta
os conteúdos de cada eixo e partir da superação da dico- Curricular para o En-
entre os três eixos. São es- tomia conteúdo-forma, ten- sino de Matemática,
tas relações que vão garantir do por base a realidade vivida 1.0 grau, 1987.
a organicidade da proposta. pelo professor e pelo aluno e 7. SÃO PAULO, Prefeitura
Sendo assim, entende-se que a o saber socialmente produzi- Municipal. Departa-
definição dos conteúdos é fa- do, ambos ponto de partida mento de Planeja-
tor fundamental para que, os e de chegada ao conhecimen- mento e Orientação.
conhecimentos matemáticos to. Programa detalhado
anteriormente fragmentados, de Matemática, 1.a
sejam agora vistos como "um NOTAS DE REFERÊNCIA e 2. a séries, 1985.
todo ricamente articulado"! • KOSI K, Karel. A dialética
Nessa definição, está impl íci- do Concreto. Rio de
ta uma forma que permita a Janeiro, Paz e Terra,
todos a apropriação desse co- 1969.

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