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MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA

RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 123.847 - PARANÁ


RELATOR: MIN. RICARDO LEWANDOWSKI
RECTE.(S): BEATRIZ CORDEIRO ABAGGE
ADV.(A/S): LUCIANO BORGES DOS SANTOS
RECDO.(A/S): MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

Senhor Ministro-Relator,

1. A recorrente foi denunciada, juntamente com outros seis corréus,


perante a Comarca de Guaratuba/PR, pela prática, em tese, dos crimes
tipificados nos arts. e 121, § 2º, I, III e IV, c/c o §4º, 148, §2º, e 211, todos do
Código Penal, pois, teriam sequestrado, matado e ocultado o cadáver do menor
Evandro Ramos Caetano, com 6 anos de idade, cujo corpo foi mutilado em um
ritual de umbanda, em abril de 1992, no balneário de Guaratuba/PR.

2. Após encerrada a instrução processual e pronunciados todos os


acusados, a Juíza de Direito da Comarca de Guaratuba, em 27/10/95, pleiteou o
desaforamento, com base nos argumentos de necessidade de preservação da
ordem pública, suspeitas sobre a imparcialidade do corpo de jurados e
segurança da acusada, ora recorrente. O Tribunal de Justiça do Paraná acolheu,
em 6/8/96, o pedido e determinou o desaforamento do júri para a comarca
contígua de São José dos Pinhais/PR:
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“DESAFORAMENTO. DÚVIDA QUANTO A IMPARCIALIDADE DOS


JURADOS DEVIDO A PAIXÃO EXALTADA DOS HABITANTES CONTRA
OS ACUSADOS. RECEIO À SEGURANÇA DOS RÉUS. REPRESENTAÇÃO
FORMULADA PELO PRÓPRIO JUIZ DE DIREITO LOCAL. DEFERIMENTO
COM APOIO NA REPRESENTAÇÃO CITADA. No desaforamento, a opinião
do Juiz constitui elemento de convicção dos mais valiosos, posto que, próximo
das pessoas e dos fatos em causa, ninguém melhor do que ele para sentir e
dizer, com isenção, da conveniência ou não do seu deferimento.

3. No Juízo da 1ª Vara Criminal, Júri e Execuções Criminais da


Comarca de São José dos Pinhais/PR, iniciou-se o Júri, no dia 23/03/98, que
culminou com a absolvição da recorrente e da corré Celina Cordeiro Abagge,
em 25/04/1998. O Ministério Público, com fundamento no art. 593, III, “a” e “d”,
CPP, insurgindo-se contra o veredicto do Tribunal do Júri, interpôs a Apelação
Crime nº 72.480-7, que foi provida, com base no art. 593, III, “a”, do CPP, pela
Segunda Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Paraná, em 9/3/2000, para
anular o julgamento e submeter a ré a novo Júri.

4. O Ministério Público então fez novo pedido de desaforamento,


agora da Comarca de São José dos Pinhais/PR para a Comarca de Curitiba/PR, o
qual foi negado. Posteriormente, o Ministério Público requereu mais uma vez o
desaforamento do julgamento da Comarca de São José dos Pinhais para a
Comarca de Curitiba, ao fundamento de haver perigo à ordem pública e
demora no julgamento do processo. Pelo acórdão nº 12.358, a 2ª Câmara
Criminal do TJPR, por unanimidade de votos, deferiu a pretensão ministerial. A
defesa então opôs embargos de declaração pleiteando a anulação do
julgamento, uma vez o advogado não foi intimado para se pronunciar acerca do
desaforamento. Os aclaratórios foram acolhidos pelo acórdão nº 12.738 para
anular o julgamento e conceder, consequentemente, oportunidade para que a
embargante se manifestasse nos autos do desaforamento.

5. Daí o segundo pedido de desaforamento do Parquet foi


novamente submetido a julgamento. A defesa pediu que o pedido não fosse
conhecido, pois a recorrente e a corré já teriam sido julgadas e também porque,
pelos mesmos motivos, o TJPR já teria indeferido o desaforamento.
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Argumentou ainda, no mérito, que não teriam sido demonstradas as hipóteses


legais que autorizariam o desaforamento. Contudo o pedido ministerial foi
acolhido na forma a seguir:

“PROCESSO PENAL. JÚRI. DESAFORAMENTO DA COMARCA DE SÃO JOSÉ


DOS PINHAIS PARA UMA DAS VARAS PRIVATIVAS DO TRIBUNAL DO
JÚRI DA COMARCA DE CURITIBA. PEDIDO MINISTERIAL AMPARADO NO
CAPUT (ORDEM PÚBLICA) E NO PARÁGRAFO ÚNICO (DEMORA NO
JULGAMENTO) DO ART. 424 DO CPP. FATOS OCORRIDOS EM 1.992. SETE
RÉUS, TENDO SOMENTE DOIS DELES SIDO JULGADOS. PENDÊNCIA DE
JULGAMENTO DE CINCO RÉUS. JÚRI ANTERIORMENTE DESAFORADO
DA COMARCA DE GUARATUBA PARA A COMARCA DE SÃO JOSÉ DOS
PINHAIS. NOVO DESAFORAMENTO POSSÍVEL (ART. 272, PAR. ÚN., DO
RITJPR). MANIFESTAÇÃO FAVORÁVEL DO MAGISTRADO. DEMORA NO
JULGAMENTO E MOTIVOS QUE AFETAM A ORDEM PÚBLICA
CONSTATADOS. DEFERIMENTO (POR MAIORIA).
1-Justificam o desaforamento a demora do julgamento popular em tempo que ultrapasse
o previsto no parágrafo único do art. 424 do CPP e fatores que afetem a ordem pública,
que compreende o interesse superior da efetiva realização dos julgamentos, com maior
celeridade possível e em condições de serem os veredictos proferidos com isenção e
justiça. 2-Se, em relação à Comarca à qual o julgamento popular for desaforado, se
comprovarem os pressupostos do desaforamento, novo pedido nesse sentido pode ser
formulado (art. 272, par. ún., do RITJPR). […] Desaforado da Comarca de Guaratuba
para a de São José dos Pinhais, o julgamento popular de Osvaldo Marcineiro, Vicente
de Paula Ferreira, Celina Cordeiro Abagge, Beatriz Cordeiro Abagge, Davi dos Santos
Soares, Airton Bardelli dos Santos e Francisco Sérgio Cristofolini, pronunciados pelo
Juízo da Comarca de Guaratuba como incursos nas sanções dos artigos 148, § 2º.; 121,
§ 2o., I, III e IV, e § 4º, última parte; e 211, com aplicação conjunta dos artigos 69,
caput, e 29, caput, todos do Código Penal, e já realizado, na Comarca de São José dos
Pinhais, o júri de Celina e Beatriz Cordeiro Abagge, e indeferido novo desaforamento
para a Comarca da Capital, os dignos representantes do Ministério Público que
presentemente atuam na causa, com base nos artigos 424, parágrafo único, do Código
de Processo Penal, e 271, III, e 272, parágrafo único, do Regimento Interno deste
Egrégio Tribunal, uma vez mais formulam requerimento nesse sentido, aduzindo, em
síntese, excessivo atraso no julgamento dos cinco réus e dificuldades de ordem material,
inclusive de pessoal, o que torna inexequível o julgamento popular pelo Tribunal do
Júri da Comarca de São José dos Pinhais.
O Dr. Juiz de Direito designado para presidir o futuro julgamento manifestou-se
favoravelmente ao desaforamento pretendido (fls. 222/224). Osvaldo Marcineiro,
Vicente de Paula Ferreira e Davi dos Santos Soares, através de seu patrono,
concordaram com o deslocamento do julgamento para a Comarca da Capital (fls.
233/235). Com exceção de Celina e Beatriz Cordeiro Abagge, que, depois, se constatou
não terem sido regularmente intimadas para tanto, os demais réus, instados a se
pronunciar, silenciaram a respeito (fls. 241 e 244). A douta Procuradoria-Geral de
Justiça opinou pelo deferimento do pedido (fls. 249/257). Pelo v. acórdão nº 12.358, esta
E. Câmara deferiu, por unanimidade de votos, a pretensão Ministerial (Rel. o eminente
Des. Gil Trotta Telles) ( fls. 261/270).
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Celina e Beatriz Cordeiro Abagge interpuseram embargos de declaração ao referido


acórdão, com pleito para anulação do respectivo julgamento, uma vez que seu advogado
não foi intimado para se pronunciar acerca do desaforamento (fls. 280/282).
Dando provimento aos embargos declaratórios aludidos, esta Câmara anulou o
julgamento pelo acórdão nº 12.738, concedendo-se, de conseguinte, oportunidade para
que as embargantes se manifestassem nos autos (fls. 303/306), o que se realizou à fl. 31.
Assim, devidamente intimados os procuradores das co-rés Celina e Beatriz Abagge, às
fls. 312/338, apresentaram seus argumentos contrários ao desaforamento, alegando, em
suma, que: a)-a Comarca de São José dos Pinhais dispõe de meios necessários para
sediar o julgamento, citando como exemplos um Júri lá realizado há mais de 30 anos e
também o Júri das co-rés; b)- a ordem pública em nada foi abalada, eis que o Ministério
Público não aponta um só ato que tivesse colocado ao menos em risco a paz e a
tranquilidade da sessão; c)-o desaforamento atenta contra a soberania do Júri
anteriormente formado, haja vista a realização do julgamento das rés; d)-as informações
prestadas pelo Dr. Juiz de Direito às fls. 222/224 desmerecem consideração, eis que o
douto magistrado nunca serviu na Comarca de São José e nem mesmo atuou neste
processo, não passando de meras suposições. Pedem que o pedido não seja conhecido,
pois elas já foram julgadas, e também porque, pelos mesmos motivos, já se indeferiu
desaforamento neste Tribunal; e, se conhecido, porquanto não teriam sido demonstradas
as hipóteses legais que o autorizam, manifestam-se pelo indeferimento.
A douta Procuradoria da Justiça ratificou seu anterior pronunciamento favorável ao
desaforamento (fls. 249/257), salientando que os argumentos aduzidos pelas co-rés
Celina e Beatriz Abagge não abalam nem ofuscam as razões que fundamentam o pedido
(fls. 575/577). […] O pedido é de ser acolhido. Segundo o Dr. Juiz de Direito ao
qual competiria presidir o futuro julgamento dos demais réus, vários são os
obstáculos à sua realização na Comarca de São José dos Pinhais, os quais
amparam a pretensão Ministerial calcada na ordem pública e na demora do
julgamento: a)- necessidade da designação de Juiz da Comarca de Curitiba,
uma vez que todos os juízes daquela Comarca, depois de sucessivas
designações da Presidência desta E. Corte, declararam-se suspeitos ou
impedidos para funcionar na causa; b)- necessidade de designação de
servidores da Capital diante da recusa dos de São José dos Pinhais, que
afirmam ligações com as partes envolvidas (fl. 223); c)- grande número de
requerimentos de dispensa formulados pelos jurados; e d)-precariedade da
infra-estrutura da Comarca de São José dos Pinhais para julgamentos desse
porte. Apenas as co-rés se manifestaram desfavoravelmente ao desaforamento,
sendo que com ele anuíram expressamente Osvaldo Marcineiro, Vicente de
Paula Ferreira e Davi dos Santos Soares, permanecendo silentes os demais. As
razões pelas quais as co-rés se mostram contrárias ao desaforamento não
merecem acolhida, pois não vulneram a motivação do pedido, avalizadas com
a autoridade e com a imparcialidade do Magistrado. Frise-se que a atuação
dos Promotores de Justiça no processo e no julgamento das rés, como elas
querem fazer crer, não se relaciona com a postulação do presente
desaforamento, sendo inadequado o cotejo que fizeram do júri do Caso
Evandro com julgamento de menor complexidade e repercussão realizado na
Comarca de São José dos Pinhais há mais de trinta (30) anos. Quanto ao fato
de se tratar de novo desaforamento, a jurisprudência vem proclamando sua
admissibilidade, desde que justificado por novas circunstâncias existentes
quando da segunda postulação.
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Adriano Marrey, Alberto Silva Franco e Rui Stocco observam que pode ser
reiterado o pedido de desaforamento, inexistindo obstáculo a que ele se repita
(quando devidamente justificado), fazendo alusão a decisão do C. Supremo
Tribunal Federal nesse sentido (HC 69.311-RN, j. em 09.06.92, Rel. Min. Marco
Aurélio) (Teoria e Prática do Júri, 6ª ed., São Paulo: RT, 1997, p. 83).
Na espécie, indiscutível a admissibilidade do pleito de um novo
desaforamento, pois os motivos da súplica referem-se à Comarca à qual o
julgamento foi desaforado (São José dos Pinhais), hipótese, aliás, prevista no
parágrafo único do art. 272 do Regimento Interno desta Corte de Justiça,
verbis: Se, em relação à Comarca para a qual o julgamento for desaforado, se
comprovarem os pressupostos do artigo anterior, poderá ser pedido novo
desaforamento.
Acerca da soberania do Júri anteriormente formado para o julgamento das co-
rés, cabe ressaltar que não há argumento plausível capaz de sustentar essa
alegação, posto que não se cuida de desaforamento parcial, relativo apenas ao
demais co-réus ainda não julgados. Ademais, como realçado no parecer da
douta Procuradoria-Geral de Justiça, o desaforamento não afeta o laço de
conexão, alcançando também eventual novo julgamento das co-rés Celina e
Beatriz Cordeiro Abagge (fl. 254).
O presente requerimento de desaforamento fulcra-se no caput (fatores que
afetam a ordem pública) e no parágrafo único do artigo 424 do Código de
Processo Penal (demora no julgamento), aplicável plenamente ao caso
concreto, eis que já se passaram nove anos dos fatos, e somente duas co-rés
foram julgadas pelo Tribunal do Júri, cuja sessão se prolongou por mais de
trinta dias, ocasionando desprestígio à Justiça. No que toca à ordem pública,
que advém da ordem jurídica, mencione-se que ela compreende o interesse
superior da efetiva realização dos julgamentos, com maior celeridade possível
e em condições de que os veredictos sejam proferidos com isenção e justiça.
E, muito embora a orientação desta Câmara no precedente pedido de
desaforamento, não se pode deixar de ceder à realidade dos fatos para o
acolhimento da presente postulação, uma vez que o julgamento dos co-réus
ainda não se realizou, a despeito do decurso de mais de dois (2) anos do das
co-rés Celina e Beatriz Abagge, como demonstrado no parecer da ilustrada
Procuradoria-Geral de Justiça, da lavra do culto Procurador de Justiça e
Professor Luciano Branco Lacerda: Esses julgamentos, envolvendo fatos
delituosos que ocorreram em abril de 1992, com enorme repercussão no Estado
e fora dele, precisam ser efetivamente realizados e com brevidade, sob pena de
desprestígio e descrédito da justiça. (…) Com efeito, se o foro de São José dos
Pinhais não reúne condições para sediar julgamentos tão complexos e de longa
duração, como amplamente demonstrado, é claro que o desaforamento para
comarca que preencha os requisitos necessários será abrangente, atingindo
também o futuro julgamento das duas co-rés, mesmo porque as deficiências
apontadas foram comprovadas exatamente durante o primeiro julgamento
delas, sem que seja afetado o laço da conexão. Pelos motivos alinhados, os
julgamentos na comarca de São José dos Pinhais tornam-se impraticáveis e
desaconselháveis. (…) A fórmula 'se o interesse da ordem pública o reclamar',
empregada no art. 424, 'caput', do CPP, é demasiado vaga, não fornecendo ao
intérprete uma base segura para explanações. Alcança hipóteses muito
especiais que somente as circunstâncias poderão revelar, não sendo possível ao
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comentador prevê-las com segurança, como bem frisou há muitos anos


CÂMARA LEAL (Comentários ao Código de Processo Penal Brasileiro, III/117,
ed. 1942). (...) Neste multifacetário conceito de 'ordem pública' da lei
processual penal está compreendido, evidentemente, o interesse superior da
efetiva realização dos julgamentos, com a maior brevidade possível e em
condições de que os veredictos sejam proferidos com isenção e justiça. A
indeterminação dos julgamentos (só duas co-rés foram julgadas), apesar de o
processo haver chegado na comarca de São José dos Pinhais em 6/6/97, o
afastamento dos diversos Juízes de Direito da Comarca, a dificuldade de
designação de magistrado com a necessária experiência para presidir
julgamentos de tal envergadura, a sistemática desistência de jurados, a falta
de serventuários e a carência de recursos materiais, em todos os aspectos, para
abrigar julgamentos que se prolongarão com certeza por muitos dias, como
bem argumentaram os requerentes e o magistrado designado, estão a exigir o
desaforamento para a Capital, por imposição da própria ordem jurídica. A
respeito da deficiente e precária infra-estrutura do Juízo de São José dos
Pinhais para dar seqüência aos julgamentos, incluindo a própria sede do
Fórum, são relevantes as precisas informações do Dr. Juiz de Direito designado
(fls. 222-224).(...) Esses fatos supervenientes, que são incontestáveis, legitimam
novo pedido de desaforamento, conforme copiosa jurisprudência, inclusive do
STF (cf. Mirabete, Código de Processo Penal Interpretado, p. 970, 7ª ed. 2.000).
E como afirmamos em pronunciamentos anteriores, o STF e o STJ aprovam o
desaforamento para a Comarca da Capital, com exclusão de comarcas mais
próximas, desde que devidamente justificado (fls. 39-43, 63-71). Julgado mais
recente do Pretório Excelso ratifica essa orientação (RTJ, 168/491). Enfim,
seguindo a trilha da Suprema Corte, o Tribunal de Justiça é o árbitro da
conveniência do desaforamento e da escolha da comarca para o novo
julgamento (RTJ, 92/126-128, 80/467, 79/390, 66/711) (fls.249/257). Assim sendo,
e com adoção, também, do aludido parecer da d. Procuradoria-Geral de Justiça
como razão de decidir, defere-se o pedido de desaforamento para uma das
Varas Privativas do Tribunal do Júri da Comarca de Curitiba, mediante
regular distribuição. […] Desse modo, Acordam os Magistrados integrantes da
2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Paraná, por maioria de votos,
em deferir o desaforamento postulado, nos moldes da fundamentação do
acórdão. O julgamento foi presidido pelo Excelentíssimo Desembargador Gil Trotta
Telles, sem voto, e dele participaram os Excelentíssimos Desembargadores Telmo
Cherem e Newton Luz, vencido, com voto em separado. Curitiba, 16 de agosto de 2.001.

6. A defesa então impetrou habeas corpus perante o Superior Tribunal


de Justiça, ao argumento de não ser possível novo desaforamento após a
realização do primeiro júri e de não terem sido observados os requisitos do art.
424 do CPP.

7. O writ não foi conhecido com base nos fundamentos abaixo


transcritos:
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“HABEAS CORPUS. DESAFORAMENTO. ART. 427 DO CPP. DECISUM


ADEQUADAMENTE FUNDAMENTADO. MATÉRIA NÃO ANALISADA NO
ACÓRDÃO IMPUGNADO. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. INSURGÊNCIA
MANIFESTADA APÓS NOVE ANOS DO TRÂNSITO EM JULGADO.
PRECLUSÃO. ART. 424 DO CPP, ANTES DA VIGÊNCIA DA LEI N.
11.689/2008.
1. O desaforamento é uma exceção à regra da fixação da competência em razão do lugar
da infração, ratione loci. Tal instituto não fere preceitos constitucionais, já que ele não
colide com o princípio do juiz natural, pois só desloca o julgamento de um foro para
outro, porém a competência para julgar continua sendo do Tribunal do Júri.
2. Nos termos do art. 427 do Código de Processo Penal, o desaforamento para a
comarca de Curitiba/PR, no caso, firmou-se principalmente no interesse da ordem
pública e na demora no julgamento, consoante o parágrafo único do art. 424 do Código
de Processo Penal, vigente à época.
3. A impetração do writ ocorre nove anos após o trânsito em julgado do decisum.
Preclusão consumada.
4. Matéria não decidida no acórdão impugnado impede o exame pelo Superior
Tribunal, em razão da evidente supressão de instância.
5. Habeas corpus não conhecido.
[…] Com efeito, a meu ver, o desaforamento para a comarca de Curitiba/PR
representa a melhor solução jurídica para o caso em concreto porque,
consoante informações dispostas nos autos, a comarca de São José dos
Pinhais não detém infraestrutura mínima para uma sessão de julgamento de
Tribunal de Júri nos moldes peculiares do presente caso, isto é, julgamento de
sete corréus, oitiva de inúmeras testemunhas, grande apelo popular, entre
outros.
Por conseguinte, com base no interesse da ordem pública e na demora do
julgamento dos corréus, encontra-se justificado, in casu, o desaforamento
determinado na origem, nos termos do art. 424 do Código de Processo Penal,
antes do advento da Lei n. 11.689/2008.
Igualmente, friso que a irresignação contra o desaforamento do julgamento
para a comarca de Curitiba/PR ocorre espantosos nove anos após o trânsito
em julgado do acórdão impugnado (18/3/2002), conforme verificado do
andamento processual extraído da página eletrônica do Tribunal de Justiça do
Paraná (Processo n. 000.3842-07.1999.8.16.0000).
Logo, notória a preclusão temporal da matéria, porquanto manifestamente
tardia em razão da inércia da defesa.
Superado o aspecto mencionado, ao verificar o acórdão impugnado (fls.
901/912), concluo que a questão pertinente à irregularidade na distribuição do
processo para o Juízo da 2ª Vara Privativa do Tribunal do Júri da comarca de
Curitiba/PR não foi analisada ou decidida pelo Tribunal estadual,
sobressaindo a incompetência deste Superior Tribunal para o seu exame, sob
pena de indevida supressão de instância.
Afora isso, registro inclusive que, após a presente impetração (19/5/2011), a
paciente foi julgada e condenada pelo Conselho de Sentença, na sessão
plenária da 2ª Vara Privativa do Tribunal do Júri da comarca de Curitiba/PR,
em 28/5/2011, nos termos do art. 121, § 2º, I, III e IV, e § 4º, última parte, do
Código Penal, à pena definitiva de 21 anos e 4 meses de reclusão, em regime
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inicial semiaberto, bem como ao pagamento das custas processuais,


oportunidade na qual foi declarada extinta a punibilidade quanto aos delitos
dos arts. 148, § 2º, e 211, ambos do Código Penal (fls. 1.249/1.297).
Por fim, à guisa de informação, a ora paciente interpôs apelação contra essa
condenação, sendo que o Tribunal de origem, em cognição mais ampla acerca
da lide, enfrentou fundamentadamente a irresignação da defesa e concluiu, em
acórdão posteriormente acostado a estes autos, que as questões controvertidas
– quais sejam: a) a condenação da ré; b) o desaforamento para a comarca de
Curitiba/PR; c) irregularidade na distribuição do processo para o Juízo da 2ª
Vara Privativa do Tribunal do Júri da comarca de Curitiba/PR, além de outros
pontos – não mereciam reforma e manteve a condenação da ora paciente –
ressalto que tal decisum não é objeto da presente impetração, a configurar,
portanto, novo título executivo (fls. 1.403/1.442).
Em face do exposto, não conheço do habeas corpus.” (Grifo nosso)

8. Este recurso ordinário em habeas corpus questiona, em suma, o


desaforamento realizado após a realização do julgamento pelo Tribunal do Júri
da Comarca de São José dos Pinhais.

9. Não assiste razão à recorrente.

10. O veredicto absolutório do Tribunal do Júri da Comarca de São


José dos Pinhais, de 25.04.1998, foi anulado pelo Tribunal de Justiça em
09.03.2000, ao dar provimento à apelação do Ministério Público.

11. Devolvidos os autos à Comarca de São José dos Pinhais, o


Ministério Público, diante do decurso do tempo, ingressou com novo pedido de
desaforamento, invocando o excessivo atraso no julgamento e dificuldades de
ordem material, inclusive de pessoal, motivos suficientes para o deslocamento
do julgamento. Esse pedido foi deferido em 16.08.2001, com determinação de
remessa para a Comarca de Curitiba.

12. O acórdão do Superior Tribunal de Justiça observa que o


protocolo do habeas corpus naquela Corte “ocorreu espantosos nove anos após o
trânsito em julgado do acórdão impugnado”. Donde a notória preclusão.
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13. E o fato da realização do primeiro Júri, que foi anulado, não é


impeditivo à reiteração do pedido de desaforamento, quando presentes fatos
novos. E o excesso de prazo e a falta de condições materiais na comarca são
motivos relevantes para o desaforamento, nos termos do então vigente art. 424
do Código de Processo Penal (o caso é anterior à reforma da Lei 11.689/2008).

14. Como ficou bem explicitado no acórdão do Superior Tribunal de


Justiça “ o desaforamento para a comarca de Curitiba/PR representa a melhor solução
jurídica para o caso em concreto porque, consoante informações dispostas nos autos, a
comarca de São José dos Pinhais não detém infraestrutura mínima para uma sessão de
julgamento de Tribunal de Júri nos moldes peculiares do presente caso, isto é,
julgamento de sete corréus, oitiva de inúmeras testemunhas, grande apelo popular,
entre outros. Por conseguinte, com base no interesse da ordem pública e na demora do
julgamento dos corréus, encontra-se justificado, in casu, o desaforamento determinado
na origem”.

15. Além disso, consta que supervenientemente, em 28 de maio de


2011, foi realizado o julgamento pelo Tribunal do Júri de Curitiba, sendo a
recorrente condenada. E foi negado provimento à apelação interposta pela
defesa, tendo o Tribunal de Justiça recusado as alegações de nulidade, inclusive
quanto ao desaforamento.

16. Isso posto, opino pelo não provimento do recurso.

Brasília, 24 de setembro de 2014

EDSON OLIVEIRA DE ALMEIDA


SUBPROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA

Anthony Brandão

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