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Compêndio 

de  análise  institucional  e  outras 


correntes: teoria e prática

Gregorio F. Baremblitt 
 
5ª.ed. 
Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari, 2002 (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2) 

Baremblitt,  Gregorio  F.  (2002)  Compêndio  de  análise  institucional  e  outras 


correntes:  teoria  e  prática,  5ed.,  Belo  Horizonte,  MG:  Instituto  Felix  Guattari 
(Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)

Copyright 1992 by Gregorio Baremblitt 1 ª edição: Editora Record, 1992

 
SUMÁRIO 5

INTRODUÇÃO.............. 11 

CAPÍTULO I: O movimento institucionalista, a auto­análise e a autogestão..............13 
CAPÍTULO 11: Sociedades e instituições..............25 
CAPÍTULO III: As histórias..............37 
CAPÍTULO IV: O desejo e outros conceitos no institucionalismo..............53 
CAPÍTULO V: As tendências mais conhecidas do institucionalismo..............71 
CAPÍTULO VI: Roteiro para uma intervenção institucional padrão..............90 
CAPÍTULO VII: O institucionalismo na atualidade..............108 
GLOSSÁRIO..............133 
APÊNDICE..............174 
POST­SCRIPTUM..............195 
BIBLIOGRAFIA BÁSICA..............205 
BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA..............207 
AGRADECIMENTOS 

No referente à  primeira edição deste livro, o autor dá  aqui 


testemunho  de  sua profunda gratidão: ao Dispositivo Instituinte de 
Minas  Gerais,  Escola  de   Saúde  Pública  de  Minas  Gerais,  João 
Bosco  Castro  Teixeira,  Cibele  Ruas  de  MeIo,  Alfredo  Martin  e 
alunos do curso do qual o livro foi uma versão. 
Nesta quinta edição, o autor exprime seu agradecimento à 
Margarete  A.  Amorim,   que  realizou  inúmeras  tarefas  que   pos 
sibilitaram  sua  publicação  e  distribuição,  assim  como  à  Luisella 
Ancis,  que  fez  a  tradução  de  novos  capítulos,  Nina  Rosa 
Magnani,  que colaborou com  a revisão, e Luciana Tonelli, que fez 
a  revisão  final.  O  autor  também  agradece  aos  membros  e 
funcionários  do  Instituto  Félix  Guattari  de  Belo  Horizonte  pelas 
diversas  contri  buições.  Todos  eles   aportaram  sua  ajuda 
generosamente. 
O  autor  é  grato  a   todos  os  amigos:  professores  universi  tários, 
pesquisadores, profissionais, estudantes e militantes da  autogestão 
que  colaboraram  na  distribuição  das  diversas  edições  deste 
escrito. 

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INTRODUÇÃO 

Este  livro  corresponde  à  versão  escrita  de  um  curso pro ferido em Belo Horizonte no decorrer de 


1990,  organizado  pelo  Movimento  Instituinte  de  Minas Gerais. Curso que, por sua vez, foi requerido para 
atender  ao  crescente  interesse  pelo  Movimento  Institucionalista  ou  Instituinte  no  Brasil  e  facilitar o acesso 
aos  textos  dos  fundadores  das  diferentes  correntes.  Os  seis  primei  ros  capítulos  correspondem  às  seis 
aulas que compuseram o cur so, enquanto o último foi escrito como artigo independente, ain da inédito. 
O  Movimento  Institucionalista  é  um  conjunto  heterogê  neo,  heterológico  e  polimorfo  de 
orientações,  entre  as  quais  é  possível  se  encontrar  pelo  menos  uma característica comum: sua aspiração a 
deflagrar, apoiar e aperfeiçoar os processos auto­ana líticos e autogestivos dos coletivos sociais. 
Essa  vocação  libertária,  o  estatuto  epistemológico  e  jurí  dico  absolutamente  singular  e  a  infinita 
variedade de tendências que compõem o Movimento tornam extremamente difícil a tare fa de ensiná­lo. Se 
se  deseja  ser  coerente  com  os  valores  do  Mo  vimento,  sua  Pedagogia  exige  uma  originalidade  da qual já 
exis tem muitas tentativas, mas que, ao mesmo tempo, ainda está para ser produzida. 
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Este  curso,  proferido  com  uma  metodologia  tradicional,  tem  apenas  o  propósito  de  aproximar  os 
leitores  das  finalidades  e  recursos  mais  conhecidos  e  do  panorama  atual   do   Institucionalismo.  Mais 
informativo  que  formativo,  foi   inspira  do pelo desejo de estender e facilitar um saber e um fazer com plexo 
e arriscado, mas, no meu entender,  importantíssimo para o povo brasileiro. 
Apesar  da  superficialidade  e  rapidez  com  que  os  densos  temas   são  apresentados,  acredito  que 
este  livro  seja  estimulante,  discretamente  esclarecedor   e  ainda  minimamente  instrumental  para  os  futuros 
institucionalistas.  Para  quem  decidir  continuar,  ou,  sejamos  realistas,  começar   verdadeiramente  sua 
formação  nesta  fascinante  proposta,  a  bibliografia  final,  integrada  predo  minantemente  por  textos  em 
português e castelhano encontráveis no Brasil, proverá boa parte da diretriz indispensável para tal fim. 
Entre  as  escolas  não­incluídas  neste  volume  devido  à  sua  proposta  introdutória, devo destacar as 
correntes  latino­ameri  canas  de  Pichón­Riéver,  Bleger,  Ulloa,  Malfe,  Bauleo,  Kaminsky,  Pavlovsky,  De 
Brasi,  Matrajt,  Scherzer  e  tantos  outros  aos  quais  me  proponho  a  destinar,  em  algum  momento,  um  livro  
especial. 
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Capítulo I 

O MOVIMENTO INSTITUINTE, A AUTO­ANÁLISE E A AUTOGESTÃO 

No  início  devemos  esclarecer  que  esse  livro  não  terá  o  nível  que  alguns  esperariam,  pois  se 
procura  apresentar  uma  exposição  de  nível  médio,  para  ser  entendida  pelo  maior  número  possível  de 
pessoas. 
Vamos  tratar  do  chamado  Movimento  Institucionalista  ou  Instituinte  que,  como  o  nome 
aproximativamente   indica,  é  um  conjunto  de  escolas,  um  leque  de  tendências.  Não existe nenhuma escola 
ou  tendência  que  possa  dizer  que  encarna  plenamente   o   ideário  do  Movimento  Instituinte.  Contudo, 
pode­se  encontrar  em  diversas  dessas  escolas  algumas  características  em  comum.  E  é  a  essas 
características  em  comum  que  eu  gostaria  de  referir­me  agora,  da  maneira  mais  simples  e  mais   didática 
possível.  Em  capítulos  sucessivos,  teremos  ocasião  de  complicar  as  coisas...  Agora,  a  intenção  é, 
predominantemente, simplificá­las. 
Entre  as  características  presentes  em  todas  as  tendências  do  Movimento  Instituinte,  há  algumas 
que  são  relativamente  fáceis  de  se  colocar.  Eu  diria  que   existe  o  que  se  chama  de  "ideais  máximos"  do 
Movimento. Podemos chamar a isto também de 
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propósitos  mais  importantes,  os  objetivos  mais  ambiciosos  dessas  escolas.  Os  mesmos  podem  ser 
enunciados  através  de  duas  palavras  aparentemente  simples,  mas  que  são,  como  veremos  depois,  muito 
complexas. 
As  diferentes  escolas  do  Movimento  Instituinte  se  propõem  a  propiciar,  apoiar  e  deflagrar  nas 
comunidades,  nos  coletivos  e   conjuntos  de  pessoas  processos  de  auto­análise  e  de  autogestão.  O   que 
significam essas palavras? 
Depois,  compreenderemos  com  mais  detalhes  que  os  processos  de  interação  humana,  os 
processos  de  funcionamento  social, têm sido sempre muito complexos. Mas em nossa civilização chamada 
industrial,  capitalista  ou  tecnológica, a complexidade da vida social atingiu seu máximo expoente em toda a 
história  da  humanidade.  Se  compararmos,  por  exemplo,  uma  organização  social  dita  "primitiva",  ou  uma 
organização  imperial,  despótica,  ou  uma  medieval  com  a  nossa  sociedade  moderna,  o  grau  de 
complexidade,  de  diversidade  que  as  sociedades  modernas  atingem  é  infinitamente  superior  ao  daquelas 
civilizações,   apesar  delas  não  serem  nada  simples.  Acontece,  então,  que  nossa  época,  nossa  civilização,  
além  de  se  caracterizar  por  uma  grande   diversidade,  uma  grande  complicação  interna,  caracteriza­se 
também  por,  de  fato,  ter  produzido  uma  soma  de  saberes  que  propiciou,  nesses  últimos  duzentos  anos, 
uma  "evolução"  maior  do  que  a  humanidade  havia  conseguido  em  dois  mil  anos;  ou  seja,  houve  um 
processo de produção de conhecimento e de aplicação do mesmo muito intenso. 
Esse  saber,  como  ninguém ignora,  resultou em aplicações tecnológicas que aceleraram o chamado 
"progresso"  em  igual  proporção.  E  o  progresso  trouxe  uma  grande  complexidade.  Além  desses 
conhecimentos  produzidos  pelas  ciências  da  natureza,  ciências  formais,  aplicações  tecnológicas,  existem  
disciplinas  que  versam  sobre  a   organização  social  em  si  mesma.  Ou  seja,  nossa civilização tem produzido 
um  saber  acerca  de  seu  próprio  funcionamento  como  objeto  de  estudo  e  tem  gerado  profissionais, 
intelectuais,  experts  que são  os conhecedores dessa estrutura e  do  processo  dessa sociedade em si. Esses 
conhecedores  têm­se  colocado,  em  geral,  a  serviço  das  entidades  e  das  forças  que  são  dominantes  em 
nossa sociedade. Por exemplo, a serviço daquela instituição que representa o máximo 
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da  concentração  de  poder,  o  extremo  de  concentração  de  controle  e  de  hegemonia  sobre   a  sociedade, 
que  é  o Estado. Além disso, por outro lado, já dentro da sociedade civil, esses experts têm­se colocado a 
serviço  das  grandes  entidades  proprietárias  da  riqueza,  do  poder,  do  saber  e  do  prestígio,  que  são  as 
organizações   corporativas,  as  empresas  nacionais  e  multinacionais  etc.  Essa  situação,  em que os "sábios",  
os  conhecedores  da  estrutura  e  do  processo  da  vida social estão predominantemente a serviço do Estado 
e  das  empresas,  tem  tido  como  conseqüência  que  os  povos  –  em  sentido  amplo,  a  sociedade  civil   –  
têm­se  visto  despossuídos  de  um  saber  que  tinham  acumulado  através  de  muitos  anos  acerca  de  sua 
própria  vida,  de  seu  próprio  funcionamento.  Esse  saber,  criado  e  acumulado  pelas  comunidades  sociais 
durante  tantos  anos  de  experiência  vital,  a  partir  do  surgimento  do  saber  científico  e  tecnológico,  fica 
relegado,  colocado  em  segundo  plano,  como  se  fosse  rudimentar  e  inadequado. Tanto é assim que temos 
técnicos  que  costumam  chamá­lo  de  ideologia,  num  sentido  vago,  geral,  visando  a  qualificá­lo  como  um 
falso  conhecimento,  pobre,  infundado  ou,  no  melhor  dos  casos,  insuficiente.  Então,  as  comunidades  de 
cidadãos  têm  visto  esse  saber  subordinado ao saber dos experts. Junto com seu saber, elas têm perdido o 
controle  sobre  suas  próprias  condições  de  vida,  ficando  alheias  à  espacidade  de  gerenciar  sua  própria  
existência.  Elas   dependem,  então,  quase  incondicionalmente,  dos  organismos  do Estado, empresariais, do 
saber  e  de  serviços  dos  experts.  E  a  quais  experts  refiro­me?  Aos  dos  ramos  produtivos,  primários, 
secundários  e  terciários,  aos  especialistas  de  produção  de  bens   materiais,  ou  seja,  comida,  vestuário, 
moradia,  transporte:  aqueles  bens  materiais  indispensáveis  à  sobrevivência.  Toda  a produção desses bens 
está  dirigida,  gerenciada  por  "especialistas".  Mas  noutro  plano,  refiro­me  aos  problemas  de  saúde,  de 
educação,   aos  assuntos  familiares,  aos  psicológicos  e  subjetivos,  em  geral;  às  questões  relativas  ao  lazer, 
às que atingem a comunicação de massa, aos assuntos próprios da religião. Cada um desses campos, cada 
um  dos  serviços  que  se  prestam  nessas  áreas,  os  bens  que  se  produzem  e  administram  nesses territórios, 
ou  seja,  sua  quantidade,  sua  qualidade, sua necessidade, sua conveniência, tudo é decidido pelos experts, 
é  arbitrado  por  quem  se  supõe  que  saiba  e  conheça  sobre  o  assunto.  O  mesmo  acontece  no  plano  de 
administração da justiça, nos tribunais, com os 
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advogados,  despachantes,  registros  civis,  leis:  tudo  isso feito  por experts e administrado por eles. E o que 


falar  do  exercício  da  força,  no  sentido  literal,  porque todas essas  outras entidades também usam da força, 
senão  da  força  física,  da  força  da  persuasão,  da  força  da  sedução,  mas  o  uso  da  força  física  está 
reservado  a  organizações  como  a  polícia,  as  forças  armadas,  que  também  têm  seus especialistas, oficiais, 
delegados,  guardas  etc.  É  claro  que  os  experts  conhecem   e  decidem  prevalentemente  segundo  os 
interesses das classes, níveis hierárquicos e grupos dominantes aos quais pertencem parcialmente. Mas não 
se  deve  sempre  supor  uma  intenção deliberada dos técnicos nesse sentido. Acontece, como veremos, que 
seu  saber em si mesmo já está produzido por instrumentos e gera resultados que privilegiam os interesses e 
desejos citados. 
Então, o que acontece? 
Há  um  conceito  básico  que  vamos  ver  depois,  na  Análise  Institucional  e  em  outras  escolas  do 
Institucionalismo,  que  se  chama  demanda.  É  possível  afirmar  que  as  comunidades  ou  coletividades  têm 
necessidades  básicas  indiscutíveis  e  universais.  Essas  necessidades  são  colocadas  diariamente  através  de 
demandas  espontâneas,  através  da exigência de produtos e de serviços correspondentes. Essa idéia é uma 
das  tantas  que  vai  ser  questionada  pelo  Institucionalismo,  porque  ele  vai  tentar  mostrar  que  em  todas  as 
épocas  da história, mas particularmente na nossa, não existem necessidades básicas "naturais"; não existem 
demandas  "espontâneas",  pois  em  todas e em cada uma dessas organizações que acabamos de  descrever, 
a  noção  das  necessidades  é  produzida,  assim  como  a  demanda  é  modulada;  isto  é,  aquilo  que  os  povos 
pensam  que  todos  os  membros  de  uma  população  e  todos  os  povos  do  mundo  precisam como "mínimo" 
não  existe.  Esse  "mínimo"  é  gerado  em  cada  sociedade  e  é diferente para cada segmento da mesma. Mas 
ainda  dentro  do  condicionamento  histórico,  as  comunidades  que  têm  alguma  noção  vivencial  acerca  de 
suas  necessidades  a  perdem,  de  modo  que  já  não  sabem  mais  do  que  precisam   e  não  demandam  o  que 
"realmente"  aspiram,  mas  acham  que  necessitam  daquilo  que  os  experts  dizem  que  elas  necessitam  e 
acham  que  pedem   o   que  querem e como querem, mas, na verdade, precisam, querem e pedem o que lhes 
inculcam que devem necessitar, desejar e solicitar. É, então, muito evidente que nossos coletivos estão, 
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atualmente,  nas   mãos de um enorme exército de experts que acumulam o saber que lhes permite fazer com 


o  que  as  pessoas  achem  que  precisam  e  solicitem  aquilo  que  os  experts  dizem  que  precisam  e  que  os 
grupos  e  as  classes  dominantes  lhes  concedem.  Então,  os  coletivos  têm  perdido,  têm  alienado  o  saber 
acerca  de  sua  própria  vida,  a  noção  de  suas  reais  necessidades,  de  seus  desejos,  de  suas  demandas,  de 
suas  limitações  e  das  causas   que  determinam  essas  necessidades  e  essas   limitações.  Eles  têm perdido um 
certo  grau  de   compreensão  e  o  controle  sobre  que  tipos  de  recursos  e  formas  de  organização  devem 
dispor  para  colocar  e  resolver  seus  problemas.  Mal  podem  organizar­se  para  resolver  seus problemas se 
não  conseguem  saber,  com  precisão,  quais  são  seus  verdadeiros  problemas  e  o  que  se  requer  para 
resolvê­los. 
Falei  que  poderíamos  enunciar  dois  objetivos  básicos  do  Institucionalismo,  um  deles  seria  a 
auto­análise  e  o  outro  a  autogestão.  Agora  já  podemos  explicar  um  pouco  melhor  em  que  consistiria  o 
primeiro  deles.  A  auto­análise  consiste  em  que  as  comunidades  mesmas,  como  protagonistas  de  seus 
problemas,  necessidades,  interesses,  desejos  e  demandas,  possam  enunciar,  compreender,  adquirir  ou 
readquirir  um  pensamento  e  um  vocabulário  próprio  que  lhes  permita  saber  acerca  de  sua  vida,  ou  seja: 
não  se  trata  de  que  alguém  venha  de  fora  ou  de  cima  para  dizer­lhes  quem  são,  o  que  podem,  o  que 
sabem,  o  que  devem  pedir   e  o  que  podem  ou  não  conseguir.  Este  processo  de  auto­análise  das 
comunidades  é  simultâneo  ao  processo  de  auto­organização,  em  que  a  comunidade  se  articula,  se 
institucionaliza,  se  organiza  para  construir  os  dispositivos  necessários  para  produzir,  ela  mesma,  ou  para 
conseguir  os  recursos  de  que  precisa  para  a  manutenção  e  o  melhoramento de sua vida sobre a terra. Na 
medida  em  que  essa  organização  é  conseqüência  e,  ao  mesmo  tempo,  um  movimento  paralelo  com  a 
compreensão  dada  pela  auto­análise,  ela  também  não  é  feita  de  cima  para  baixo,  nem  de  fora,  mas 
elaborada  no  próprio  seio  heterogêneo  do  coletivo  interessado.  Essa  auto­análise  e  essa  autogestão  não 
significam  necessariamente  que  os  coletivos  devam  prescindir  por  completo  dos  experts  porque,  sem 
dúvida,  com  sua  disciplina  e  seus  instrumentos,  eles  têm  acumulada  uma  quantidade  de  conhecimento 
importante  e  não   inteiramente  alienado,  não  necessariamente  distorcido,  ou  seja:  produtivo.  Mas  os 
experts 
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devem  submeter  seu  saber,  suas  glórias,  seus  métodos,  suas  técnicas,  suas  inserções  sociais  como  
profissionais  a  uma  profunda  crítica que os faça separar, dentro dessas teorias, métodos e técnicas, dentro 
dos  organismos  aos  quais pertencem, o que é produto de sua origem, de sua pertença ao bloco dominante 
das  forças  sociais  e  o  que  pode  ser  útil  a  uma  auto­análise,  a  uma  auto  gestão,  da  qual  os  segmentos 
dominados  e  explorados  sejam  protagonistas.  Para  poderem  efetuar  essa  autocrítica,  os  experts  não 
podem  fazê­lo  no  seio  de  suas  torres  de marfim, não podem fazê­lo nas academias ou exclusivamente nos 
laboratórios  experimentais.  Eles  têm  que  entrar  em  contato  direto  com  esses   coletivos  que  estão  se 
auto­analisando  e  autogestionando  para  incorporar­se  a  essas  comunidades  desde  um  estatuto  diferente 
daquele  que  tinham.  Esse  estatuto  deve  resultar  de  uma  crítica  das   posições,  postos,   hierarquias  que  eles 
têm  dentro  dos  aparelhos  acadêmicos  ou  jurídico­políticos  do  Estado,  ou  ainda  das diretivas das grandes 
empresas  nacionais  e  multinacionais.  Eles  têm  de  reformular  sua  condição  profissional,  seu  saber 
específico.  E  só  conseguirão  reformulá­los  numa  gestão,  num  trabalho  feito  em  conjunto  com  essas 
comunidades  e  na  mesma  relação  de  horizontalidade  com  que  qualquer membro dessa comunidade o faz. 
Isso  permitirá  que, eventualmente, os experts, quando a comunidade conseguir organizar­se, tenham algum 
lugar  dentro  das  organizações  específicas  que  a  comunidade  se  deu  a si mesma para esses fins. Então seu 
saber,  sua  capacidade  e  sua  potência  produtiva  estarão  plenamente  integrados  ao  movimento  de 
auto­análise  e  auto gestão dessa comunidade. Eles poderão assim reformular, aprendendo e ensinando seu 
saber  e  sua  eficiência  nessa  nova  e inédita situação. À parte dessa reinvenção de sua disciplina, os experts 
poderão  aprender  como  eles  serão  capazes de  propiciar outros movimentos autogestivos e auto­analíticos 
quando forem chamados a participar. 
Esta  é uma explicação sucinta dos propósitos fundamentais do Movimento Institucionalista que são 
sistematicamente compartilhados por todas as tendências que o integram. Ao mesmo  tempo  em que são  os 
objetivos  principais  das  propostas  instituintes,  eles   são  também  os  próprios  meios  para  realizá­las.  Por 
isso,  é  importante  que  esses  dois  objetivos  e  meios  sejam  não  apenas  superficial,  mas  profundamente 
conhecidos pelos leitores. 
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É  óbvio  que  autogestão  e  auto­análise  são  dois  processos  simultâneos  e  articulados.  Por  quê?  
Porque  auto­análise,  para  as  comunidades,  significa  a  produção  de um saber, do conhecimento acerca  de 
seus  problemas,  de  suas  condições  de  vida,  suas  necessidades,  demandas  etc.,  e  também  de  seus 
recursos.  Mas  até   para  que  a  auto­análise  seja  praticada  pelas  comunidades,  elas  têm  que  construir  um 
dispositivo  no  seio  do  qual  essa  produção  seja  realizável.  Elas  têm  que  organizar­se  em  grupos  de 
discussão,  em  assembléias;  elas  têm  que  chamar  experts  aliados  para  colaborarem;  elas  têm  que  se  dar 
condições  para   produzir  esse  saber  e  para desmistificar o saber dominante. Ao mesmo tempo, tudo o que 
elas descobrirem neste processo de auto­conhecimento só terá uma finalidade: a de auto­organizar­se para 
que  possam  operar  as  forças  destinadas  a  transformar  suas  condições  de  existência,  a  resolver  seus 
problemas.  Mas  não  pode  haver  uma  organização  sem  um  saber;  não  pode  haver  um  saber  sem  uma 
organização. São dois processos diferenciados, mas eles são concomitantes, simultâneos, articulados. 
Costuma­se  crer  que   os  processos  autogestivos  implicam  uma  falta  completa  de  denominações, 
hierarquias,  quadros,  especificidades  etc. Na realidade, é  difícil pensar qualquer processo organizativo que 
não  inclua  uma  certa  divisão  do  trabalho  e  que  não  implique  uma  certa  hierarquia  de  decisão,  de 
deliberação.  Esses  são  funcionamentos  inerentes  a  qualquer  processo  produtivo.  Deverão,  então,  existir 
hierarquias,  gerências.  Mas  a  existência  de  hierarquia  não  implica  diferença  de  poder;  não  equivale  a 
privilégio  ou  arbitrariedade na capacidade de decidir. Implica apenas uma certa especialização em algumas 
tarefas,  porque  estes  dispositivos  estão   feitos  de  tal  maneira  que  as  decisões  de  fundo  são  tomadas 
coletivamente. Em todo caso, os quadros hierárquicos não são mais que expressão da vontade consensual. 
São  executores.  Mas  não  são executores do mandato das elites mediatizado por  organismos burocráticos, 
por  correias  de  transmissão.  Na  autogestão  os  coletivos  mesmos deliberam e decidem. Eles têm maneiras 
diretas  de  comunicar  as  decisões.  Existem  hierarquias  moduladas  pela  potência,  peculiaridades  e 
capacidade  de  produzir;  mas  não  há  hierarquias  de  poder,  ou  seja,  a  capacidade  de  impor  a  vontade  de 
um sobre o outro. 
Contudo,  é  evidente  que   o   Institucionalismo,  tanto  quanto  os  processos  auto­analíticos,  são 
produtores de conhecimentos, 

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e  que  todo  saber  envolve,  necessariamente,  um  poder,  e  ambos  não  são  homogeneamente  distribuídos. 
Mas  este  saber  é  um  saber  coletivo,  produzido,  distribuído  e  exercitado  na  vida  coletiva.  Na  topografia 
deste  saber,  existem  alguns  elementos  essenciais  que  são  compartilhados por todo mundo. Então, quando 
esse  saber  compartilhado  é  delegado  a  alguns  que  se  especializam  nessa  questão,  já  não  é  um  saber 
produzido  fora  dos  interesses  e desejos do coletivo, já não é um saber que vai cair de  cima para baixo, de 
fora  para  dentro.  É  já  uma  delegação,  porque  foi  produzido  dentro,  por  alguns  especialistas  no  assunto, 
em  estreita  colaboração  com  os  diretamente  interessados   nos  benefícios  que esse saber e suas aplicações 
terão, uma vez realizados. 
Isso  garante  que  esses  especialistas  são  verdadeiramente  "especiais":  delega­se  a   eles  um  saber 
que  é  a  expressão  dos  interesses  e  das  capacidades  essenciais  do  coletivo. O coletivo conserva um saber 
básico  acerca  de  seu  campo  que  lhe  permite  julgar  quando  o  especialista  está  exercitando  o  seu  poder 
com  sentido  instituinte­organizante,  e  então  a  serviço  do  coletivo,  ou,  pelo  contrário,  de  ambições  de 
segmentos  individualistas  etc.  Vou  dar   um  típico  exemplo  da  medicina,  embora  haja  mil exemplos,  muitos 
dos  quais  não  poderemos  mencionar  aqui  porque  são  muito  complexos  e  extensos  para  expor.  Quem 
conhece  a   situação  da  saúde  no  Brasil  sabe  perfeitamente  que  nosso país não  precisa prioritariamente de, 
digamos,  tomógrafos  computadorizados, pelo menos a nível de sua problemática prevalente atual. O que o 
Brasil  precisa  é  de  uma  política  de  saúde  que  não  começa  nem  acaba  no  campo  da  medicina.  Seus 
problemas,  que  têm  efeitos  médicos,  têm  suas  causas  diretas  nos  problemas  de  habitação,  alimentação, 
vestuário  e  saneamento  básico.  Disso  todos  os   experts  sabem,  o  que não impede que a ênfase da política 
de  saúde  no  Brasil  esteja  colocada  na  assistência  e  não  na  prevenção,  principalmente  se  por  prevenção 
entende  se  algo  que  modifique  radicalmente  as  condições  de   vida  da  população.  Entretanto,  há  muitos 
centros  paulistas  e  cariocas  que  se  orgulham  de  ter  os  mais  modernos  aparelhos  para  resolver  ou 
diagnosticar  uma  problemática  altamente  específica,  circunscrita,  que  afeta  0,5% da população. Acontece 
que  o  povo,  as  organizações  de  base,  não  podem  questionar  de  maneira  eficiente as políticas médicas do 
Brasil porque a primeira coisa 
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que  lhes  seria  respondida  é  que  não  sabem.  Mas  o  que  acontece  quando  o  coletivo  revitaliza  seu  saber, 
revaloriza  o  saber  espontâneo  que  ele  tem  acerca  do  que  precisa?  Os  índios têm, as comunidades negras 
têm,  as  comunidades  das  montanhas  têm,  as  comunidades  da  planície  têm,  todo  mundo  tem  um  saber 
espontâneo  acerca  de  quais  são  os  sofrimentos,  quais  são  as  enfermidades  e   como  devem  ser  tratadas, 
pelo  menos,  basicamente.  Assim,  também  eles  sabem  quais  problemas  devem  ser  abordados  –  mesmo 
que  não  se  exprimam  em  sofrimento,  ou  quando  o  sofrimento  ainda  não  tenha  se  tornado  doença,  não 
devendo  ser  tratado  como  tal.  Desde  logo este saber também desconhece muita coisa, mas isso não pode 
afirmar­se  a  priori.  Só  que  esse  saber  é  permanentemente  desqualificado  pelo  saber acadêmico, que atua 
predominantemente  a  serviço  de  interesses  estatais,  nacionais  e  multinacionais  dominantes  –  um  saber 
consubstancial com esses interesses. 
A  primeira  operação  que  as  comunidades  devem  fazer  é  recuperar,  revalorizar  o  saber  espontâneo  que 
elas  têm  sobre  seus  problemas;  a  segunda  operação  deve  ser  feita  em  conjunto  com  os  experts, 
ajudando­os  a  criticar  essa  orientação  –  essa  medula  dominante  reacionária­que  o  saber  médico   (nesse 
caso)  e  suas  técnicas  têm. Sobretudo em termos de hierarquização de prioridades: o que vem primeiro e o 
que  vem  depois,  o que é prioritário  e o que é secundário. Uma vez que  o  expert,  integrado à comunidade, 
demonstra  a  capacidade  de  contribuir,  em  pé  de  igualdade,  para  este  trabalho  de  reformulação,  pode­se 
delegar  a  ele  algumas  áreas  do  saber  com  menos  perigo  de  que  ele  o  transforme  em  poder,  e  não  numa 
potência  de  colaboração  com  o  coletivo.  Nesse  caso,  o  coletivo  já  não  está  desqualificado  –  ele  sabe 
julgar  o  que  se  faz  e  o  que  se  acha  que  se  sabe.  Isso  não  descarta  que  possam  acontecer  novamente 
problemas  de  concentração  de  saber  e  de  poder,  porque  este  processo  de  auto­conhecimento  e 
autogestão  é  interminável.  Provavelmente,  haverá  necessidade  de  muitas  gerações  autogestivas  e 
auto­analíticas  para  que  o  processo  possa  exercitar­se  em  sua  plenitude.  Se  bem  que  este  caminhar  está 
orientado  por  uma  Utopia  Ativa  que  não  está  colocada  num  futuro  longínquo,  senão  em  cada  ato  do 
cotidiano.  Como  já  dissemos,  existiram  e   existem  numerosas  tentativas  auto­analíticas  e  autogestivas   que 
não  apresentam  o  caráter  purista  que  a  gente  pode  imaginar  em  sentido  abstrato.  Por  exemplo,  as 
comunidades 
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eclesiásticas  de  base:  pode­se  dizer  que  têm  um  espírito  institucionalista  complexamente  integrado  a 
aspectos  libertários  do  Cristianismo,  embora  limitados  pelos  processos  burocráticos  da  Igreja  Católica. 
Isso  abre  um  tema  que  eu  teria  gostado  de  tratar  neste  primeiro  capítulo,  mas  acho que vai complicar um 
pouco  as coisas, porque eu queria enfatizar os conceitos essenciais básicos. Mas, enfim, em que consiste o 
tema  aqui  levantado?  O  Movimento  Institucionalista  reconhece  uma  gênese histórico ­social e uma gênese 
conceitual.  A  primeira  é  a  história  de  todas  as  tentativas  que  houve  na   história   da  humanidade  e  as  que 
hoje  existem  e  exercitam  um  Institucionalismo  espontâneo.  Um  desses  movimentos  é  o  das  comunidades 
eclesiásticas  de  base  no  Brasil  e  em outros países. Mas muitas iniciativas autogestivas já existiram, existem 
e  vão  existir,  e  não  precisam  do  Institucionalismo  para  se  desenvolverem.  O   Institucionalismo  é  alguma 
coisa  assim  como  o  resultado   do   ensinamento dessas iniciativas históricas sobre os próprios experts. Nós, 
os  experts  –  médicos,  engenheiros,  advogados,  comunicólogos,  psicólogos  etc  –,  temos  aprendido  que 
isso  existe  e  que  poderíamos  colaborar  para  seu  desenvolvimento  a  partir  das  experiências  históricas que 
já  existiram  neste  sentido  e  das  que  estão  existindo  e  se  desenvolvem  perfeitamente  ou  dificilmente sem a 
nossa  participação.  Por  outro  lado,  a  gênese  conceitual  refere­se  ao  campo  das  idéias,  conceitos  e  
funções:  todas  aquelas  teorias,  conceitos,  idéias,  categorias  que  têm  sido  produzidas  pela  humanidade  no 
decorrer  da  história  do  conhecimento  e  podem  contribuir  para  dar  base,  para  fundamentar  a  proposta 
institucionalista. 
Agora,  gostaria  de  referir­me  à  última  questão,  muito  importante.  Os leitores compreenderão que 
esses  processos auto ­analíticos e autogestivos se dão em condições altamente  desfavoráveis, severamente 
contraproducentes.  Por   quê?  Naturalmente  porque  os  coletivos  em  questão  não são donos do saber, não 
são  donos  da  riqueza,  não  são  donos  dos  recursos  que  são  propriedade  e  servem  ao  poder  dos 
organismos  e  entidades  de  classe alta e grupos dominantes. Então, a consecução dos  objetivos tem graves 
impedimentos  que  vão  desde  a  privação  de  recursos  (que  são  propriedade  a  serviço  do  poder  dos 
organismos  e  entidades  de  classe  dominante)  até a morte física repressiva. Esses processos autogestivos e 
auto­analíticos são, para a 
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organização  do  sistema,  um  câncer,  uma  peste.  Não  há  nada  que  seja  mais  temido  e  mais  odiado  pelo 
sistema  social,  porque  os  movimentos instituintes têm esse intuito: que os  coletivos presidam a definição de 
problemas,  a  invenção   de  soluções,  a  colocação  dos  limites  do  que  é  possível,  do  que  é  impossível  e  do 
que  é  virtual,  o  que  normalmente  é  feito  pelas  instituições,  organizações  e  saberes  de  grupos  e  outros 
segmentos  dominantes.  Por  isso  a  autogestão  não  é  tarefa  fácil:  a  prova  está  em  que  as  iniciativas 
auto­analíticas  e  autogestivas  não  se  caracterizam  por  seu  sucesso.  Elas  têm  aparecido  muitas  vezes  na 
história  e  muitas vezes têm sido destruídas ou sufocadas. E as que hoje insistem em existir lutam duramente  
contra  um  conjunto  de   imensas  forças  históricas  que  tentam  destruí­las.  E  quando  não  conseguem 
eliminá­las,  tentam  recuperá­las,  incorporá­las.  Isso  faz   com  que  os  objetivos últimos do Institucionalismo 
–  a  auto­análise  e   a  autogestão  – não sejam atingidos nunca de forma definitiva. Eles são atingidos sempre 
na  base da tentativa, do ensaio, da procura. Em geral têm maiores ou menores graus de fracasso. Mas isso 
não  quer  dizer   que  não  sejam  possíveis  ou  inventáveis.  Então,  esta última afirmação que faço refere­se ao 
seguinte:  as  diferentes  escolas  do  Institucionalismo  se  distinguem  entre  si  pelas  teorias,  pelos  métodos, 
pelas  técnicas  com  que  elas  tentam introduzir estes objetivos últimos, e pelo grau de  realização com o qual 
se  conformam.  Quer  dizer:  há  correntes,  escolas"  maximalistas",  que  buscam  a  instalação  plena  da 
autogestão e da auto­análise. Há outras que se satisfazem com a introdução relativa de alguns mecanismos, 
de  alguns  espaços,  de  alguns   temas  de  auto­análise  e  autogestão.  Ou  seja,  no  Institucionalismo,  como  na 
política,  existem correntes reformistas e existem correntes ultra­revolucionárias. De qualquer maneira, nada 
disso  impede  que  as agrupemos em torno desses dois  objetivos e recursos. Eles as diferenciam claramente 
da  enorme  maioria  das  propostas  políticas,  tanto  das  extremistas  quanto  das  propostas 
social­democráticas.  Provavelmente  a  tendência  política  tradicional  que  mais  se  aproxima  das  propostas 
institucionalistas,  e  com  a  qual  o  Institucionalismo está mais que em dívida, seja a de certas orientações do 
anarquismo. 
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO I 
1) Por que o Institucionalismo é um movimento e não uma ciência, uma disciplina ou uma tecnologia? 
2)  O  que  aconteceu  com  o  saber  e  o  saber­fazer  que  as  comunidades  primitivas  ou  os  povos  e  grupos 
leigos em geral produziram e acumularam durante sua experiência de vida? 
3)  O  que  significa"  divisão  social  e  técnica  do  trabalho  e  do  saber",  e  por  que  se  diz  que  as  ciências,  as 
disciplinas e seus experts estão em geral a serviço das classes e grupos dominantes? 
4)  Existem  "necessidades  mínimas  naturais"  cuja  satisfação  é  demandada  pelas  populações,  ou  é  a  oferta 
de bens e serviços que produz certas necessidades e desejos (e não outros) e modula as demandas? 
5) O que significa auto­análise e autogestão? 
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Capítulo II 
SOCIEDADES E INSTITUIÇÕES 

O  Institucionalismo,  à  sua  maneira,  tem  uma  concepção  própria  do  que é a Sociedade e do que é 


a  História,  a  Sociedade   como  forma  organizada  de  associação  humana  e  a  História  como  o  devir  da 
Sociedade no tempo. O Institucionalismo, sem considerar no momento as diferenças doutrinárias de escola 
para escola, afirma que a sociedade é uma rede, um tecido de instituições. E que são as instituições? 
As  instituições  são  lógicas,  são  árvores  de  composições  lógicas  que, segundo a forma e o grau de 
formalização   que  adotem,  podem  ser  leis,  podem  ser  normas  e,  quando  não estão enunciadas de maneira 
manifesta,  podem  ser  hábitos  ou  regularidades  de  comportamentos.  Alguns  autores  sustentam  que  leis, 
normas  e  costumes  são  objetificações  de valores. As leis, em geral, estão escritas; as normas e os códigos 
também.  Mas  uma  instituição  não  necessita  de  tal  formalização por escrito: as  sociedades ágrafas também 
têm códigos, só que eles são transmitidos verbal ou praticamente, não figurando em nenhum documento. 
O  que essas lógicas significam?  Significam a regulação de uma atividade humana, caracterizam uma 
atividade humana e se pronunciam valorativamente com respeito a ela, esclarecendo 
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o  que  deve  ser,  o  que  está  prescrito, e o que não deve ser, isto é, o que está proscrito, assim corno o que 
é  indiferente.  Essas  lógicas,  esses  corpos  discriminativos,  são  vários,  e  é  curioso  que  os  institucionalistas 
têm dificuldades para chegar a um acordo acerca de quais e quantos são. 
Vamos  examinar  algumas  ilustrações  mais  ou  menos  indiscutíveis.  Um  exemplo  de  urna  instituição:  a 
instituição  da'  linguagem.  Ela   caberia  nesta  definição  que  formatamos  quando  a  pensamos  em  termos 
gramaticais.  A  gramática  não  é  nada  mais  que  um  conjunto  de  leis,  de  normas  que  regem  a  combinatória 
de  elementos  fônicos,  de  unidades  de  significação  na  linguagem.  Com  a  combinação  desses  elementos, 
conforme  indicado  por  essas  leis,  pode  construir­se  um  infinito  número  de  mensagens,  de  tal  modo  que 
estas  mensagens  são  compreensíveis  para  qualquer  falante  ou  ouvinte  dessa  língua.  Então,  corno  se pode 
ver,  no  final  das  contas,  urna  gramática  é  urna  instituição  que  explicita  as  opções de acordo com as quais 
se  vão  produzir  mensagens,  consideradas  gramaticais  ou  agramaticais,  os  prescritos  ou  os  proscritos.  É 
claro  que,  no  caso   da  língua,  não  estarão  estipulados  também  os  prêmios  e os castigos para quem usa de 
forma  correta  ou  incorreta  a  língua,  que  é  o  que  acontece  em  outros  tipos  de  instituição. Mas o preço de 
seu  desconhecimento  ou  transgressão  é  óbvio:  a  incomunicabilidade  dentro  do  universo  humano,  pelo 
menos dentro desse universo humano em particular. 
Outro  exemplo  são  as  instituições  de  regulamentação do parentesco, as que definem os lugares tais corno: 
pai,  mãe,  filho,  nora,  genro  etc.  Elas  são  as  que  prescrevem  entre  quais  membros  dessa  classificação 
podem  se  dar  uniões,  entre  quais  membros  não  podem  se  dar  uniões  e  que  tipo,  que  característica  de 
vínculo.  de  descendência  e  aliança  relaciona  cada  uma  destas  posições  com  a  outra.  Isso  também  é  um 
código  que,  formalizado  ou  não,  regula  a  relação  de  parentesco  e  tem  prescrições  –  o  que  é  indicado;  e 
também  proscrições  –  o  que  é proibido; assim como o que é indiferente ou não abrangido por essa lógica. 
Outra  instituição  pouco  discutível  entre  os  institucionalistas  é  a  da divisão do trabalho humano. O trabalho 
humano  está  dividido  segundo  os  momentos  e  as  especificidades  de  cada  tipo  de  produção  e  tarefa 
(divisão  técnica).  Mas,  por  outro  lado,  essa  divisão  vem  acompanhada  de  urna  hierarquia  que  institui 
diferenças de poder, 
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prestígio  e  lucro  –  não  necessariamente  justificadas  pela  importância  produtiva  daqueles  que  detêm  esses 
lugares  (divisão  social).  Por  exemplo:  trabalho  manual  e  intelectual,  do  campo  e da cidade, assalariados e 
autônomos, feminino e masculino etc. 
Há  também  as  instituições  da   educação,  isto  é,  aquelas  leis,  normas  e  pautas   que  prescrevem 
corno  se  deve  socializar,  instruir  um  aspirante  a  membro  de  nossa  comunidade  para  que  ele  possa 
integrar­se à mesma com suas características efetivas. 
Ternos  também  a  instituição  da  religião,  que  é  a  que  regula  as  relações  do  homem  com  a 
divindade,  divindade  sobrenatural  para  uns  ou  imanente  à  vida  terrena  para  outros,  mas  com  respeito  à 
qual  existe  toda  urna  série  de  comportamentos  indicados  e  toda  urna  série  de  comportamentos 
contra­indicados. 
Ternos  também  as  instituições  de  justiça,  as  instituições  da  administração  da  força,  e  assim  por 
diante.  Em  um  plano  formal,  urna  sociedade  não  é  mais  que  isso:  um  tecido  de  instituições  que  se 
interpenetram  e  se  articulam  entre si para regular a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra 
e a relação entre os homens. Agora, entendidas assim, as instituições são entidades abstratas, por mais que 
possam estar registra das em escritos ou conservadas em tradições. 
Para  vigorar,  para  cumprir  sua  função  de  regulação  da  vida  humana,  as  instituições  têm  de 
realizar­se,  têm  de  "materializar­se".  E  em  que  elas  se materializam? Em dispositivos concretos que são as 
organizações.   As  organizações,  então,  são  formas  materiais  muito  variadas  que  compreendem  desde  um 
grande  complexo  organizacional  tal  como  um  ministério  Ministério  da  Educação,  Ministério  da  Justiça, 
Ministério  da  Fazenda  etc.  –  até  um  pequeno  estabelecimento.  Ou  seja,   as  organizações  são  grandes  ou 
pequenos  conjuntos  de  formas  materiais  que  concretizam  as  opções  que  as  instituições  distribuem  e 
enunciam.  Isto  é,  as  instituições   não  teriam  vida,  não  teriam  realidade  social  senão  através  das 
organizações.   Mas  as  organizações  não  teriam  sentido,  não  teriam  objetivo,  não  teriam  direção  se  não 
estivessem informadas como estão, pelas instituições. 
Por  sua  vez,  urna  organização  (que,  como  insisti,  costuma  ser  um  complexo  grande, vultoso) está 
composta  de  unidades  menores.   Estas  são  de  naturezas  muito  diversas  e  é  difícil  enunciá­las  todas.  Mas, 
pelo menos, há algumas que são muito 
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características,  como,  por  exemplo,  os  estabelecimentos.  Estabelecimentos  seriam  as  escolas,  um 
convento,  uma  fábrica,  uma  loja,  um  banco,  um  quartel.  Há  diversos  tipos  de  estabelecimentos,  de 
características muito diferentes. Mas é um conjunto de estabelecimentos o que integra uma organização. 
Os  estabelecimentos,  em  geral,  incluem  dispositivos  técnicos  cujos  exemplos  mais  básicos  são  a 
maquinaria, as instalações,  arquivos, aparelhos. Isso recebe o nome de equipamento. O equipamento pode 
ter  uma  realidade  material  que  coincide  com  o  estabelecimento,  ou  seja,  as  máquinas  de  um 
estabelecimento  –  ou  pode  ter  uma  realidade  muito  mais  ampla,  de  maneira  que forme um grande sistema 
de  máquinas,  um  grande  equipamento.  Isso  é  o  que  acontece,  suponhamos,  com  os  equipamentos  das 
organizações   da  comunicação  de  massa,  que,  por  sua  vez,  são   organizações  que  realizam  as   prescrições 
de uma grande instituição que é a instituição da Comunicação Social. 
Instituição  –  Organização  –  Estabelecimento  –  Equipamento.  Tudo  isso,  naturalmente,  só  adquire 
dinamismo  através  dos  agentes.  Nada  disso  se  mobiliza,  nada  disso  pode  operar  senão  através  dos 
agentes.  Os  agentes  são  "seres  humanos",  são  os  suportes  e  os protagonistas de  toda essa parafernália. E 
os  agentes  protagonizam  práticas.  Práticas  que  podem  ser  verbais,  não­verbais,  discursivas  ou  não, 
práticas  teóricas,   práticas  técnicas,  práticas  cotidianas  ou  inespecíficas.  Mas  é  nas  ações  que  toda  essa 
parafernália  acaba  por  operar  transformações  na  realidade.  Então,  estas  unidades  (instituição  – 
organização  –  estabelecimento  –  equipamento  –  agente  –  práticas)  não  podem  ser  confundidas.  Mas, 
infelizmente,  com   freqüência  isso  ocorre.  E  não  são  confundidas  apenas  pelos  leigos,  mas  também  pelos 
institucionalistas.  Então,  quando  se  estuda  uma  escola  institucionalista,  esta  escola  pode  chamar  de 
instituição  às  organizações;  de  organização a um estabelecimento. Isso não é nada recomendável porque a 
primeira  coisa  a  se   fazer  para  se  entender  este  complexo  panorama  é  criar  uma  nomenclatura  mais  ou 
menos universal e compartilhada. A que proponho aqui é a que grande parte dos institucionalistas aceita. 
Isso  não  é  apenas   o   exercício  de  um  desafio,  mas  algo  importante.  Se  começamos  a  dizer,  por 
exemplo, que essa escola é uma instituição, o assunto se complica, pois essa escola não é 
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uma  instituição,  e  sim  um  estabelecimento  que  faz  parte  de  urna  grande  organização  –  provavelmente  do 
Ministério  da  Educação,  que,  por  sua  vez,  realiza  uma  grande instituição: a instituição da Educação, que é 
uma lógica, uma série de prescrições ou leis. 
Em  uma  instituição  podem­se  distinguir duas vertentes importantes. Uma é a vertente do instituinte, 
e  outra  a  do  instituído.  Apesar  de  as  origens  das  instituições  serem  muito  difíceis  de  se  determinar  –  ou 
seja, fazer a história de uma instituição, particularmente a de seu começo, é urna tarefa às vezes impossível, 
corno  se  costuma  dizer,  "perde­se  no  começo  dos  tempos".   Inclusive  há  muitas  instituições,  como  a 
instituição  da  língua,  das  relações  de  parentesco,  da  religião  e  da  divisão  do  trabalho,  das  quais  não  se 
pode  dizer  qual  veio  primeiro  e  qual  veio  depois.  Mas  podemos  afirmar  que para uma sociedade humana 
existir  é  preciso  haver  no  mínimo  essas  quatro  instituições  humanas,  ou  seja,  humanidade  é  sinônimo  de 
coletivo  regido  por  essas  instituições,   e  essas  instituições  são  sinônimo  de  existência  de  um  coletivo 
humano.  Então,  é  difícil  saber  como  eram  os  coletivos  antes  que  aparecessem  essas  instituições.  É  o 
mesmo  que  perguntar  como  era  o  homem  antes  de  ser  homem,  pelo  menos  como  o  entendemos.  Então, 
situar  a  origem  dessas  instituições  é muito difícil. Só se pode dizer que uma instituição supõe outra, precisa  
da  outra,  e  o  seu  conjunto  é   o   que  constitui  uma  civilização  ou  uma  sociedade  humana.  Agora,  se 
freqüentemente   não  se  pode  dizer  como  essas  grandes  instituições  começaram,  sem  dúvida  se  pode 
distinguir  nelas  uma  potência,  um  movimento  de  transformação  constante  que  tende  a  modificar,  a operar 
mutações  nas  suas  características.  Em  poucas  ocasiões  privilegiadas  pode­se  assistir  historicamente  ao 
nascimento  de  uma   grande  instituição.  Mas,  em  geral,  não  é  isso  o  que  acontece.  O  que  se  pode 
presenciar  são  grandes momentos  históricos de revolução de uma instituição, de profundas transformações 
de  urna  instituição.  Então,   a  esses  momentos  de  transformação  institucional,  a  essas  forças  que  tendem  a 
transformar  as  instituições ou também a  estas forças que tendem a fundá­las  (quando ainda não existem), a 
isso se chama o instituinte, forças instituintes. São as forças produtivas de lógicas institucionais. 
Este  grande  momento   inicial   do   processo  constante  de  produção,  de  criação  de  instituições,  tem 
um produto, geram 
29 ▲

um  resultado,  e  este  é  o  instituído.  O  instituído  é  o  efeito  da  atividade  instituinte.  Se  vocês  prestarem 
atenção  a  esses  nomes,  eles  mesmos  já  estão  dizendo  alguma  coisa  com   relação  à  diferença  entre  o 
instituinte  e  o  instituído.  O  instituinte  aparece  como  um  processo,  enquanto  o  instituído  aparece  como um 
resultado.  O  instituinte  transmite  uma  característica  dinâmica;  o  instituído  transmite  uma  característica 
estática,  estabilizada.  Então,  é  evidente  que  o  instituído  cumpre  um  papel  histórico  importante,  porque  as 
leis  criadas,  as  normas  constituídas  ou  os  hábitos,  os  padrões,  vigoram  para  regular  as  atividades sociais, 
essenciais  à  vida  da  sociedade.  Mas  acontece  que  essa  vida  é  um  processo  essencialmente  cambiante, 
mutante;  então,  para  que  os  instituídos  sejam  funcionais  na  vida  social, eles têm de estar acompanhando a 
transformação   da  vida  social  mesma  para  produzir  cada vez mais novos  instituídos que sejam apropriados 
aos  novos  estados  sociais.  Tem­se que evitar uma leitura do tipo maniqueísta, que pensa que o instituinte é 
bom  e  o  instituído  é  ruim,  embora  seja  verdade  que  o  instituído  apresente,  por  natureza,  uma tendência à 
resistência,  uma  disposição  que  se  poderia  chamar  a  persistir  em  seu  ser,  a  não  mudar,  que  quando  se 
exacerba,  se  exagera,  se  conhece  politicamente  pelo  nome  de  conservadorismo,  reacionarismo.  Pelo 
contrário,  o  instituinte  aparece  como  atividade  revolucionária,  criativa,  transformadora  por excelência. Na 
realidade,  não  é  exatamente  assim,  porque  o  instituinte  careceria  completamente  de  sentido  se  não  se 
plasmasse,  se  não  se  materializasse  nos  instituídos.  Por  outro  lado,  os  instituídos  não  seriam  efetivos, não 
seriam funcionais, se não estivessem permanentemente abertos à potência instituinte. 
Por  sua  vez,  o  mesmo  acontece  a  nível  organizacional.  Existe  o  organizante  e  o  organizado.  Há 
uma  atividade  permanentemente  crítica  e  transformadora, otimizadora das organizações – o organizante. E 
há  o  organizado,  que  se  pode  ilustrar  com  o  famoso  organograma  ou  fluxograma,  que  é  necessário,  mas 
que  tem  uma  tendência  "natural"  a  cristalizar­se  (entre  aspas  porque  nada  tem  a  ver  com  o  natural),  uma 
tendência  histórica  a  esclerosar­se  e  a  adotar  uma  série  de  vícios,  entre  os  quais  o  mais  conhecido  é  a  
burocracia,   embora  não  seja  o  único.  Então,  é  importante  saber   que  a  vida  social  –  entendida  como  o 
processo  em  permanente  transformação  que  deve  tender  ao  aperfeiçoamento  e  visar  a  maior  felicidade, 
maior realização, 
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maior  saúde  e  maior  criatividade  de  todos  os  membros  –  só  é  possível  quando  ela  é  regulada  por 
instituições  e  organizações  e  quando  nessas  instituições  e  organizações  a  relação  e  a  dialética  existentes 
entre  o  instituinte  e  o  instituído,  entre   o   organizante  e  o  organizado  (processo  de 
institucionalização­organização) se mantêm permanentemente permeáveis, fluidas, elásticas. 
Outra  maneira  de  referir­se  a  isso  é  dizer  que  nas  instituições,  organizações,  estabelecimentos,  agentes, 
práticas,  pode­se   distinguir  uma  função  e  um  funcionamento.  Para  poder  entender  essa  terminologia, 
tem­se  que  compreender  que  nas  civilizações  e  nos  conjuntos  humanos,  e  na  vida  humana  tomada  num 
sentido  muito  amplo,  há  a  tendência  a  adquirir  sempre  características  históricas  que  comprometem  este 
objetivo  utópico  ativo.  Essas  características  históricas,  muito  diferentes  de  uma  sociedade  para  outra,  de 
uma  fase  histórica  para  outra,  podem  ser  resumidas  em  três  grandes  situações  viciosas  conhecidas  por 
todo mundo: são os processos de exploração, de  dominação e de mistificação (desinformação ou engano). 
Essas  são  as  deformações  do  percurso  da  vida social e de seus objetivos mais nobres, de suas finalidades 
mais  altas,  que  cada  sociedade  coloca  à  sua  maneira,  e  que  são  chamadas  de  utopias  sociais:  como  uma 
sociedade  tenta,  deseja,  deve  chegar  a  ser.  É   claro  que,  à  exceção  de  algumas  sociedades em particular, 
desde  que  existem  sociedades, as utopias sociais incluem diferentes formas de liberdade, diferentes formas 
de  igualdade, diferentes formas de veracidade e fraternidade, apesar de eu estar usando, para referir ­me a 
isso,  a  utopia  da  Revolução   Francesa,  chamada  de  revolução  burguesa,  que  não  é  nem  a  única  nem  a 
melhor  das  utopias,  mas  é  a  mais  conhecida por nós. Então, cada sociedade, em seus aspectos instituintes 
e  organizantes,  sempre  tem  uma  utopia,  uma  orientação  histórica  de  seus  objetivos,  que  é  desvirtuada  ou 
comprometida  por  uma  deformação  que  se  resume  em:  exploração  de  alguns  homens  pelos  outros 
(expropriação da potência e do resultado produtivo de uns por parte de outros); 
dominação,  ou  seja,  imposição  da  vontade  de  uns  sobre  os  outros  e  desrespeito  à  vontade  coletiva, 
compartilhada,   de  consenso;  e  mistificação,  ou  seja, uma administração arbitrária ou deformada do que se 
considera  saber  e  verdade  histórica,  que  é  substituída  por  diversas  formas  de  mentira,  engano,  ilusão, 
sonegação de informação etc. Assim, se se compreende esta oposição entre a 
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utopia,  o  aperfeiçoamento  da vida social e suas deformações  exploração, dominação, mistificação­, então 


se  pode  compreender  mais  facilmente uma divisão que se estabelece entre função e funcionamento. O dito 
não  significa  que  as  utopias  sejam  sempre  inocentes  e  acabem  traídas,  mas  em  geral  elas  são  mesmo 
traídas. 
As instituições, organizações, estabelecimentos, agentes e práticas desempenham uma função. Esta 
função  está  sempre  a  serviço  das  formas  históricas  de  exploração,  dominação  e  mistificação  que  se 
apresentam  nesta  sociedade.  Toda  instituição,  toda  organização,  todo  estabelecimento  apresenta  esta 
função a serviço dos exploradores, dos domina dores, dos mistificadores. Só que esta função raramente se 
apresenta  como  ela  é,  justamente  por  causa  da  questão  da  mistificação...  A  função  apresenta­se 
deformada,  disfarça  da,  mostra­se  como  o  objetivo  natural,  desejado  e  lógico  das  instituições  e  das 
organizações.   Isto   é,  não  se  manifesta  claramente  ao   nível   do   instituído  e  do  organizado.  Ou  seja,  os 
instituídos  e  os  organizados  apresentam,  predominantemente,  freqüentemente,  funções  a  serviço  da 
exploração,  da  dominação,  da  mistificação.  E as exprimem de tal maneira que as fazem parecer "naturais", 
desejáveis  e  eternas,  ao  passo  que  o  instituinte  e  o  organizante  são  sempre  inspirados  pela  utopia,  estão 
sempre  a  serviço   dos  objetivos  que,   provisoriamente,  chamamos  de  Justiça, de Igualdade e Fraternidade. 
Podem  ser  chamados  de  outra  maneira.  Essas  forças,  esses  processos,  recebem  o  nome  de 
funcionamento.  Então,  o  funcionamento  é sempre instituinte, é sempre transformador,  é justiceiro e tende à 
utopia':  A  função,  ela  é  predominantemente  reacionária,  conservadora,  a  serviço  da  exploração,  da 
dominação  e  da  mistificação,  e  se  apresenta  aos  olhos  não  atentos  como  eterna,  natural,  desejável  e  
invariável. 
Agora,  pode­se  definir  outros  termos  que  temos  aqui  presentes.  O  instituído,  o  organizado, 
enquanto  produtivo,  enquanto  expressão apropriada, enquanto recurso operante o instituinte, é claro que é 
necessário.  Acontece  que,  rapidamente, tendem a cair fora do seu sentido de funcionamento para adotar a 
característica  da  função,  coisa  que  se  compreenderá  melhor  quando  se  entender  que  a  característica 
essencial  do  instituinte,  do  organizante  e  dos  seus  produtos  operantes  é  serem  propícios  à   produção, 
produção que é a geração do novo, daquilo que 
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almeja  a  utopia;  funcionamento  e  produção  são  a  mesma  coisa.  Função   é  sinônimo  de  reprodução:  é  a 
tentativa  de  reiterar  o  mesmo,  de  perpetuar  o  que  já  existe,  aquilo  que  não  é  operativo  para  propiciar  as 
transformações  sociais.  Então:  instituinte  e  instituído,  organizante  e  organizado,  produção  contra 
reprodução, funcionamento contra função. 
Para  concluir,  exporemos  definições  que  são  um  pouco  áridas,  abstratas,  mas  necessárias  para 
entender  os  passos  seguintes  que  vamos   dar:  digamos  em  que  consiste,  como  entender,  como  analisar 
cada  instituição,  cada  organização,  e  como  intervir  para  favorecer  a  ação  do  instituinte  e  do  organizante. 
Não  se  pode  fazer  este  trabalho  sem  ter  claras  estas  definições.  Para  concluir,  os  instituintes­instituídos, 
organizantes­  organizados  que  constituem  a  malha,  a  rede  social,  não  atuam  separadamente,  mas  sim  em 
conjunto.  E  essa  atividade  em  conjunto  pode  ser  enunciada  com  uma  fórmula  pedagógica:  cada um deles 
atua  no  outro,  pejo outro, para o outro, desde o outro. Essa é uma tentativa de enunciar  o  entrelaçamento, 
a  interpenetração  que  existe  entre  todos  os  instituintes  e  instituídos,  entre  todos  os  organizantes  e 
organizados.  Esta  interpenetração  acontece  ao   nível   da  função  e  ao  nível  do  funcionamento;  ao  nível  da 
produção  e  ao  nível  da  reprodução;  ao  nível  daquilo  que  funcionará  a  favor  da  utopia  e  ao  nível  daquilo 
que  está  contra.  Então,  essa  interpenetração  ao  nível  da  função,  do  conservador,  do  reprodutivo, 
chama­se  atravessamento.  Essa  interpenetração ao nível do instituinte, do produtivo, do revolucionário, do 
criativo  chama­se  transversalidade.  Para  dar  apenas  um  exemplo,  vou  mostrar­lhes  um  caso  de 
atravessamento  de  funções  a  nível  organizacional.  Nós  dizemos,  por  exemplo,  que  uma  escola  é  um 
estabelecimento  das  organizações  do  ensino,  que  por  sua  vez  são  uma   realização  da  instituição  da 
educação.   Acontece  que  uma  escola  não  só  alfabetiza,  não  só  instrui,  não  só  educa  dentro  dos objetivos 
manifestos  do  organizado  e   do   instituído,  mas  também  prepara  força  de  trabalho  (alienado), ou seja, uma 
escola  também   é  uma  fábrica.  Por  outro  lado,  uma escola, de acordo com a concepção de ensino que ela 
tenha,  também  consegue  manter  os  alunos  presos  durante  seis a oito horas por dia, e além de ensiná­los a 
ler  e  escrever,  o  que  fundamentalmente  lhes  ensina  é a obedecer, e o que basicamente lhes transmite é um 
sistema de prêmios e punições, especialmente 
33 ▲

de  punições.  Neste  sentido  é  que  uma  escola  é  também  um  cárcere.  Mas,  além  disso,  o  que  a  escola 
ensina  é  uma  série  de  valores  do  que  deve  ser  construído,  do  que  deve  ser   destruído,  ensina  formas  de 
exercício  da  agressividade.  Então,  de  alguma  maneira, também se pode dizer que uma escola é  um quartel 
ou  uma  delegacia  de  polícia.  Então,  vocês  vão  vendo  como  uma  escola,  ao  nível  do  instituído,  do 
organizado,  ao  nível  da  função, ao nível da reprodução, está atravessada pelas outras organizações. Existe 
uma estreita colaboração na tarefa de reproduzir o que está, tal como está, e dessa maneira colaborar para 
a perpetuação da  exploração, da dominação e da mistificação. Mas uma escola também é um  âmbito onde 
se  tem a ocasião de  formar um agrupamento político­escolar,um clube estudantil; uma escola também é um 
lugar  onde  se  pode  aprender  a  lutar  pelos  direitos;  uma  escola  também  é  um  lugar  onde  se  pode integrar 
um  sistema  de  ajuda  mútua  entre  os  alunos;  uma  escola  também  é  um  lugar  onde  se   pode  adquirir 
elementos  para  poder  materializar  as  correntes  instituintes,  produtivas;  numa  escola  também  se  pode 
aprender  a  lutar  contra  a  exploração,  a  dominação,  a  mistificação.  Então,  uma  escola  tem  um   lado 
instituinte,  um  lado  organizante.  Neste sentido, a escola pode ser também, por exemplo, uma frente de luta 
revolucionária,  de   luta  sindical,  um  lugar  de  doutrinamento  para  a  revolução,  um  lugar  de  exercício  da 
solidariedade.  Neste  sentido  é  que  uma  escola  tem  também  um  funcionamento  articulado,  interpenetrado 
com  muitas  outras  organizações,  instituições,  com  muitos  outros  instituintes  e  organizantes  da  sociedade 
que  atuam  nela,  através  dela,  para  ela,  por  ela,  e  ela  por  outras,  e  ainda  entre  os  diversos∙  quadros  e 
segmentos  desse  mesmo  estabelecimento.  Essa  interpenetração  chama­se  transversalidade.  A 
interpenetração  ao  nível  da  função,  da  reprodução,  como  já  vimos,  chama­se  atravessamento.  A 
interpenetração  a  nível  instituinte,  produtivo,  chama­se  transversalidade,  e  esta  se  define  também  como 
uma  dimensão  da vida  social e organizacional que não se reduz à ordem hierárquica da verticalidade nem à 
ordem  informal  da  horizontalidade.  Os  efeitos  da  transversalidade  caracterizam­se  por  criar  dispositivos 
que  não  respeitam  os  limites  das   unidades  organizacionais  formalmente  constituídas,  gerando  assim 
movimentos e montagens alternativos, marginais e até clandestinos às estruturas oficiais e consagradas. 
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Com  isso  temos  definida,  até  certo  ponto,  a  concepção  institucionalista da sociedade. A sociedade é uma 
rede  constituída  pela  interpenetração  de  forças  e  entidades  reprodutivas  e  antiprodutivas  cujas  funções 
estão  a  serviço  da  exploração,  dominação  e  mistificação  (atravessamento),  assim  como  também  está 
constituída  pela  interpenetração  das  forças  e  entidades  que   estão  a  serviço  da  cooperação,  da liberdade, 
da  plena  informação,  ou  seja,  da  produção  e  da  transformação  afirmativa  e  ativa  da  realidade 
(transversalidade). 
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO II 
1) O que são, para o Institucionalismo, as sociedades? 
2)  O que implica dizer que as instituições são lógicas e que podem estar formalizadas  em leis ou normas ou 
que se manifestam em hábitos? 
3)  Quais  seriam  exemplos  de  instituições?  Que  são  as  organizações,  os  estabelecimentos,  equipamentos, 
agentes e práticas? 
4)  O  que  é  o  instituinte  e  o  instituído,  o  organizante  e  o  organizado,  a  função  e  o  funcionamento,  a 
produção, a reprodução e a antiprodução? 
5) O que é o atravessamento e a transversalidade? 
6) De que está composta a rede social? 

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Capítulo III 
AS HISTÓRIAS 

o  que  é  para  o  Institucionalismo  o termo "história"? Nós temos, empiricamente, alguma noção aproximada 


do  que  é  história.  Numa  primeira  instância,  é  importante  diferenciar  História  de  Historiografia.  A 
historiografia  é  o  registro  dos  fatos   históricos  que  a  gente  encontra  nos  arquivos  e,  geralmente,  é  uma 
versão  que  foi  conservada  e  foi  publicada  porque  coincide  com  os  interesses  do  Estado,  das  classes 
dominantes,  do  instituído  e  do  organizado,  que   têm  recursos  para  resgatar e promover estes documentos. 
Naturalmente,  registram  aquilo  que  lhes  convém.  Então,  historiografia  é  esta   versão  que,  em  geral,  se 
apresenta  como  sendo  objetiva,  neutra, impessoal e que, a rigor, é apenas uma versão tão interesseira, tão 
tendenciosa  quanto  qualquer  outra,  mas  que  aparece  como  descritiva,  como meramente narrativa. Agora, 
História, propriamente, não é isso. 
Historiar  é  um  processo de  conhecimento que pretende reconstruir os acontecimentos nos tempos, 
mas  que  o  faz  assumindo  que  qualquer  reconstrução  é  feita  desde  uma  perspectiva, que qualquer registro 
inclui  os  desejos,  os  interesses,  as  tendências  de  quem  faz  História.  Porque  a  versão  que  se  tem  da 
História é sumamente importante, enquanto justifica as ações 
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e  paixões  que  se protagonizam no presente e, geralmente, justifica e  propicia um projeto futuro para a vida 
social,  ou  seja,  todos  os  movimentos  sociais  que  se  deflagram,  que  se  impulsionam  para  chegar  a  este 
porvir.  Algumas  coisas  que  o  Institucionalismo  tem  a  dizer  com  respeito  à  História  podem  ser  resumidas 
em poucas palavras: 
Primeiro:  o  Institucionalismo  afirma  que  a  História  não  é,  apenas,  a  reconstrução  do  que  já 
aconteceu  e  que  já  está,  de  alguma  maneira,  morto,   obsoleto,  definido  –  "o  que  foi,  já foi"­, mas consiste 
em  uma  localização  daquilo  que,  de  alguma  forma,  começou,  teve  início  em  um passado. Mas o interesse 
da  História  institucionalista  é  o  de  reconstruir  o  passado  enquanto  ele  está  vivo  no presente, enquanto ele 
está  atuante  e  pode  determinar  ou  já  está  determinando  o  futuro.  Passado  e  futuro  se  constroem  e 
reconstroem incessantemente desde os valores que inspiram a um presente crítico e revolucionário. 
Segundo:  o  Institucionalismo  afirma  que  não   existe  uma História, uma História que seja como uma espécie 
de  mangueira,  de  modo  que  totalize  todo o devir da vida social em um espaço e em um tempo só; mas diz 
que  existem  "histórias"  –  multiplicidades  econômicas,  culturais,  ideológicas,  do  desejo,  da  afetividade,  da 
vontade,  histórias  raciais,  histórias  das  gerações.  Cada  uma  delas  transcorre  num  tempo  próprio  que  não 
se  pode  uniformizar,  que  não  se  pode  totalizar,  globalizar  em   um  tempo  único;  de modo  que não se pode 
estudar  uma  época  como se essa época fosse um corte transversal,  que se faz num único fluxo da História, 
como se faria no fluxo de um  rio. Trata­se de tentar articular  os diferentes tempos dos diferentes processos 
históricos  em  alguns  momentos,  eras  ou  etapas,  que  são  localizáveis  como  tais,  cronológica  ou 
conceitualmente, no século XVI, no século XI, ou na Idade Antiga etc. Mas isso não significa que  este seja 
o  único  tempo  em  que  se   transcorreram  todos  os  processos.  Quer  dizer,  os  processos  que  constituem  a 
História  são  processos  policronológicos,  cada  um  em  sua  duração,  e  é  preciso  ver  como  cada  um  se 
"adianta"  ou  se  "atrasa"  em   relação  aos  outros.  Outro  aspecto  importante  da  leitura  institucionalista  do 
tempo  é  que  não  é  o  passado  que  engendra  o  presente,  mas  o  passado  está  composto  de  uma  série  de 
potencialidades   que  o  presente  ativa,  que  o  presente  ilumina,  que  o  presente  deflagra.  Não  é  o  passado 
que gera o presente, e sim o presente que explora, que aproveita 
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ou  atualiza  as  potencialidades  do  passado  para  construir  um  porvir.  Por  outro  lado,  a  História  não  é uma 
série  de  etapas  fatais,  ou  mais  ou  menos  determinadas,  cada  uma  das  quais  origina  a  seguinte,  que 
começam  do  zero  e  vão  acabar  em  dez,   cem  ou  qualquer  número  final.  Não  existe  uma  progressão 
predeterminada   das  etapas  históricas  e,  por  conseguinte,  não  existe  um  apogeu  final  dos  tempos.  O 
Institucionalismo  não  aceita   a  idéia  de  uma  escatologia  histórica,  isto  é,  um  final  que  pode  ser  entendido 
como  final  feliz  –  e  que  nesse  caso  confirme  uma  escatologia  positiva,   ou   um  final  catastrófico  ou 
apocalíptico.  Não  existe  finalidade  da  História.  O  que  pode  ocorrer  no  dia­a­dia  não  está  inteiramente  
predeterminado  no  passado  e  nem  é  certo  que vá acontecer no futuro. Segundo alguns institucionalistas, o 
tempo, sempre policronológico, se produz, devém desde um presente em direção ao passado e ao futuro. 
Finalmente,  outra  afirmação  importante  que  o  Institucionalismo  pode aportar à teoria da História é 
que  nós,  com  uma  explicação  claramente  mecânica,  baseada  em  paradigmas  de  ordem  que  se 
desenvolveram  do  século  XVII  em  diante  –  que  têm  como  modelo  a  mecânica  celeste  com  suas 
trajetórias,  suas  parábolas,  suas  órbitas,  e  como  correlato  à  máquina  do  relógio  –,  com  este metamodelo 
mecanicista,   tendemos  a  pensar  a  História  em  função  de  suas  leis,  sendo  que  os  enunciados  legais 
supostamente  dão  conta  dos  processos  repetitivos  que transcorrem na realidade. Somos levados  a pensar 
que  a  História  se desenvolve segundo uma ordem de características  mais ou menos  maquinais, que tende a 
repetir­se  e   que,  em  todo  caso, quando não se repete é porque tem conseguido produzir alguma diferença 
em  relação  a  uma  provável  repetição  do  idêntico   ou   do   igual.   Então,  esta  concepção  da  História  que  faz 
da  diferença  uma  variação  análoga  ou  semelhante  do  igual,  ou  do  idêntico,  não  é  compartilhada  pelo 
Institucionalismo.  O  Institucionalismo  diz que o que,  predominantemente, retoma na História, não é o igual, 
não  é  o  idêntico,  não  é  o  regular, não é aquilo que se pode captar por leis típicas da mecânica física  ou  da 
mecânica  celeste,  do  relógio  ou  do  calendário,  mas  que  o  que  se  repete  na  História  é  a  diferença,  é  o 
acaso,  é  o  inesperado,  o  acontecimento,  o  imprevisível,  o aleatório. E que são estes  grandes ou pequenos 
momentos de repetição do diferente (por exemplo: do instituinte) que depois 

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vão tentar ser capturados pelo instituído, pelo organizado e repetidos como idênticos. 
Bem,  esta  concepção  da  História  que  estou  sintetizando  ao  máximo,  com  contribuições  de  diferentes 
tendências  institucionalistas,  não  é  apenas  um  exercício acadêmico, mas está estritamente relacionada com 
a  concepção  da  práxis,  da  atividade  político­social  desejante  que  o  Institucionalismo  tem,  e  com a utopia 
ativa,  quer  dizer,   o   propósito,  o  objetivo, a  finalidade e os recursos do Institucionalismo. Porque se bem o 
Institucionalismo  interessa­se  em  estudar  as  leis  do  que  tende  a  repetir­se,  ele  está  mais  implicado  em 
assumir  uma  práxis  que  propicie  o  advento  do  inesperado,  do  acontecimento,  da  inovação  absoluta. 
Então,  trata­se  de   entender  como  a  História  é  não  apenas   uma  atividade  ilustrativa,  uma  investigação 
erudita,  mas  uma  tentativa  de  reconstruir  os  grandes  momentos  de  imprevisto,  os  grandes  momentos  de 
acaso  que  transformaram  o  curso  da  humanidade,  para  a  partir  desses  ensinamentos,  produzir estratégias 
que  permitam  propiciá­los  novamente.  A  História  se  estuda  para  aprender  como  militar  a  favor  da 
transformação,   não  de  uma  transformação  previsível,  não  de  uma  transformação  pré­  figurada,  mas  da 
transformação   em  direção  ao  radicalmente  novo  e,  portanto,  absolutamente  desconhecido.  Tentemos 
agora definir outros conceitos importantes. 
O  termo  molar,  outro  termo  que  tínhamos  de  comentar  e  que  se  entende  em   contraposição  ao 
termo  molecular,  é  uma  contribuição  feita  por  algumas  escolas  institucionalistas  e  que  vou  tentar  explicar 
brevemente. 
Para  os  institucionalistas  não  existe  uma  separação  radical  entre  vida  econômica,  vida  política,  vida  do 
desejo  inconsciente,  vida  biológica  e  natural.  O  que  existe  são  imanências  –  isto  é,  a  inerência,  a posição 
intrínseca  de  cada  um  destes  campos  em  relação  aos  outros,  que  só  se  podem  separar  de  uma  maneira 
artificial  para  a  finalidade  de  seu estudo. A rigor funcionam sempre, por assim dizer, um "dentro" do outro, 
incluindo­se  no  outro.  Então,  dentro  desta  concepção  da  vida  social  como  uma   rede, em que os diversos 
processos  são  imanentes  um  ao  outro,  pode  se  distinguir  o  molar,  que,  dito  de  uma  maneira  simples,  é 
aquilo  que  é  grande,  que  é  evidente,  que  tem formas objetais ou formas discursivas, visíveis e enunciáveis. 
Por outra parte temos o molecular, que é o que na física se costuma chamar micro, por 
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oposição  a  macro,  isto  é,  o  mundo  atômico  e  subatômico,  o  mundo  das  partículas,  enquanto  o  mundo 
macro  por  excelência  seria,  por  oposição,  o  universo,  o  cosmos,  que  é   composto  de  grandes  corpos. 
Então,  tomando  esses  ensinamentos  da  microfísica,  da  microquímica,  da  microbiologia,  da  biologia 
molecular,  o  Institucionalismo  afirma  que  as  grandes  mudanças históricas, as macromudanças, são sempre 
resultado  de  pequenas  micromudanças,  e  que  os  grandes  poderes  em  vigor  na  sociedade  são  apenas 
forças  resultantes   de  pequenas  potências  que  se  chocam  e  conectam  em  espaços  microscópicos  de  uma  
sociedade.  Como  até  mesmo  a  física,  a  biologia  e  a  química  descobriram  que  as  leis  que  regem  os 
processos  e  as  entidades  macro  não  são  capazes  de  dar  conta  da  dinâmica  que  acontece  nas   micro.  O 
macro é o lugar da ordem, é o lugar das entidades claras, dos limites precisos, é o lugar da estabilidade, da 
regularidade,  da  conservação.  O  micro,  dito  tanto  no  sentido  físico,  químico,  biológico   quanto  no sentido 
social, político, econômico e  desejante, é o lugar das conexões anárquicas, insólitas, impensáveis. O macro 
é  o  lugar  da  reprodução, e o micro é o lugar da produção;  o  macro  é o lugar da conservação do antigo ou 
da  propiciação do novo previsível, e o micro é o lugar da eclosão constante do novo; o macro é o lugar da 
regularidade  e  das  leis,  o  micro  é  o  lugar  do  aleatório  e  do  imprevisível.  Esta   diferenciação  também  é 
importante  porque,  em  geral,  o  Institucionalismo  confia  em  analisar  e  propiciar  as  mudanças  locais,  as 
transformações microscópicas, as conexões circunstanciais, porque espera delas efeitos à distância que, ao 
generalizarem­se,  resultam  nas  grandes  metamorfoses,  do  instituído  e  do  organizado,  o  detectável  e 
consagrado.  Dito  com  outras  palavras,  o  Institucionalismo  pensa  que  as  pequenas  conexões  locais  são  o 
lugar  do  instituinte,  e  entendê­lo   assim  está estritamente relacionado com as  estratégias de intervenção nos 
âmbitos,  nos  espaços de atuação que o Institucionalismo vai tentar propiciar. Eles são os pequenos lugares 
intersticiais  da  vida  natural­social­técnica  e  subjetiva,  e  não  os  grandes  blocos  representativos  dos 
territórios constituídos. 
Finalmente,  é  importante  definir  o  termo  antiprodução.  Se  não  me  engano,  já  tentamos  reiteradamente 
definir  e  redefinir  o  termo  produção.  Produção  é  aquilo  que  processa  tudo  que  existe,  natural,  técnica, 
subjetiva e socialmente. É a permanente 

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geração,  enquanto  não  se  cristaliza;  é  o  devir,  é  a  metamorfose,  é  o  que,  com  uma  terminologia  ainda 
religiosa,  chamaríamos  de  criação.  Mas  no  momento  em  que  as  forças  produtivas  entendidas de maneira 
muito  ampla,  as  forças  instituintes  ­organizantes,  são  capturadas  em  grandes  organismos  reprodutivos 
como  o  Estado  ou  o  mercado  capitalista,  vigora  a  antiprodução.  Por  exemplo, elas são voltadas contra si 
mesmas,  de  maneira  que  a  produção,  as  energias  não  orientadas,  as  matérias  produtivas  ainda  não 
formadas  são  retidas   pelos  mecanismos,  pelos  equipamentos,  pelos  organismos  e  forças  de  toda  ordem 
que  propiciam  a  reprodução  do  mesmo,  o  impedimento  ou  a  destruição  do  novo,  elas  tornam­se 
antiprodutivas, elas se destroem a  si mesmas. É  o  que subjaz a grandes processos sociais como as guerras; 
é  o  que  subjaz  a  célebres  atitudes  sociais  como  a  de  destruir  os  produtos  porque  o  preço  caiu  no 
mercado;  é  o  que  subjaz  à  geração  de  enormes  contingentes sociais que estão destinados a morrer, e que  
morrem  não  apenas  por  deficiência  da  provisão  ou  da  organização,  mas  por  atitudes  ativas  do  poder 
destinadas  a destruí­los, como é o caso da marginalidade, da mortalidade  infantil, dos preconceitos sexuais 
e  raciais,  do  alcoolismo,  da  tóxico­dependência,  dos  genocídios  coloniais,  neocoloniais  e  planetários 
contemporâneos  etc.   Essas  são  potências,  são  forças  singulares,  produtivas, que a sociedade não está em 
condições  de  incorporar  porque  não  pode  transformá­las  em  mercadoria,  seres, bens, valores, serviços – 
não  pode  assimilá­las  à  lógica  do sistema. Então, ou as deixa morrer, ou as mata por  meio  de mecanismos 
mais  ou  menos  deliberados,  mais  ou  menos  premeditados.  Esse  processo  de  autodestruição  das  forças 
produtivas  naturais,  sociais,  subjetivas  e tecno­industriais que a sociedade faz chama­se antiprodução. Um 
desses  processos  característicos  é  o problema ecológico, que só agora se  está" descobrindo", enquanto já 
era  evidente  desde  meados  do  século  passado  com  o  processo produtivo industrial' mercantil baseado na 
geração  de  mercadorias,  de  bens  de  troca  e  não  de  bens  de  uso,  que  vem  destruindo  o  reservatório 
fundamental  de  matéria­prima  e  de  vida  que  é  a  natureza.  Agora,  isso  se  torna  moda;  mas  foi  sempre 
assim, e é uma das expressões mais radicais da capacidade antiprodutiva do sistema dominante no mundo. 
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Para  qualquer  tendência  sociológica,  científica­política  ou  econômica  clássica, já é completamente 
evidente  que  não se pode pensar os processos característicos de cada área – não se pode conceber o que 
acontece  em   economia,  em  política  ou  sociologia  –  com  independência  do  psiquismo  dos  homens, 
prescindindo  do  que  antigamente  se chamava as almas dos homens. Ou seja, apesar de se  poder acreditar 
que  é  o  econômico  que   determina, em última instância, as características da vida e da morte social, ou que 
se  possa  supor  que  é  o  político  o  tal   determinante,  hoje  se  sabe,  e  ninguém  pode  negá­la,  que  por  mais 
determinados,  por  mais  submetidos  às  leis  econômicas  e  políticas  que  estejam  os  homens,  eles só entram  
nesses  processos  de  dominação,  de  exploração,  de  mistificação  ou,  pelo   contrário,  em  processos 
revolucionários,  se  estes,  de  algum  modo,  coincidem  com  suas  crenças,  representações,  convicções 
acerca  da  vida  social.  E  também  não  entram  se  suas  expectativas,  suas  vontades,  seus  desejos  não  se 
encaminham  nessa  direção.  Isso  é  claríssimo.  O  Institucionalismo  tende a não privilegiar a priori nenhuma 
determinação  mais  que  outra,  isto  é, são tão importantes as vontades, os desejos e as representações com 
que  os  homens  entram  nos  processos  históricos  quanto  as  estruturas  "materiais",  econômicas,  políticas ou 
naturais  que  os  determinam.  Mas  a  isso  temos  de  acrescentar  que  a  partir  da  contribuição  psicanalítica, 
sabe­se  que  as   vontades,  os  desejos  mais  potentes  que  dirigem  a  conduta  ou  a  vida  dos  homens,  são 
inconscientes,  isto  é,  não   fazem  parte  de  seu  saber,  de  seu  querer  deliberado.  Em  última  instância,  os 
homens  entram  nos  processos  históricos  e  sociais   determinados  por  forças  desejantes,  por  vontades  que 
eles  não  controlam  e  não  conhecem,  mas  que  têm  a  ver  com  o  prazer,  que  têm  a ver com o sofrimento e 
têm  a  ver  com  vivências  e mecanismos subjetivos ainda mais profundos. Hoje, por exemplo, está cada vez 
mais  evidente  para  os  economistas  que  o  "melhor"  plano  econômico  não  funciona  se  não  se  consegue 
mobilizar  as  forças  desejantes  dos  integrantes  de  uma  população,  não só seus interesses, para provocar o 
consenso  dos  agentes  em  torno  deste  plano;  e  ainda  mais,  que  o  "pior"  dos  planos  é  capaz  de  funcionar 
quando  se  consegue  essa  mobilização.  E  não  se  trata apenas de conseguir uma adesão consciente ou uma 
credibilidade   voluntária,  mas  de  mobilizar  forças  inconscientes  às  quais se apela, ainda passando por cima 
das crenças e convicções dos agentes 

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sociais.  Isso  também  não  é  novidade.  Já  a  partir  de  Reich,  o  grande  psicanalista  marxista,  nós  nos 
interrogamos  constantemente  porque,  em  lugar  de  colocar­se  o  problema  de  que  ocasionalmente  os 
operários  estejam  em  greve  ou  que  circunstancialmente   os  soldados  se  rebelem  contra  seus  superiores, 
não  nos  perguntamos  porque  os  operários  não  estão  sempre  em  greve,  porque  os  soldados  não se  unem 
para  executar  definitivamente  seus  superiores.  Por  que  os  povos  atuam  contra  seus  reais  interesses  e 
vontades? Então, não se trata apenas de dizer que o fazem por medo, porque os acontecimentos históricos 
demonstram  que  os  povos  quando  se  mobilizam,  quando as forças inconscientes se ativam, não têm medo 
de  nada  e  têm  como  se  fosse uma plena consciência de sua potência. Eles correm perigos tremendos ou – 
combatem  lutas  desiguais,  mas  eles  operam  as  transformações  sociais.  Não  se  trata  também  de  dizer 
apenas  que  os  povos  são  ignorantes,  porque  se  é  certo  que  o  sistema  se  ocupa  de  manter  os  povos  
ignorantes  ou  erradamente  informados,  já  se  tem  visto  processos  históricos em que os povos são capazes 
de  produzir  um  saber   acerca  de  suas  condições  de  existência  que  não  precisa,  passar  pelo  saber 
transmitido  pelos  meios  de  divulgação, nem necessita submeter­se ao saber acadêmico. Os povos checam 
seu  próprio  saber  sobre  suas  condições  de  vida  na  luta  cotidiana  pela  transformação  desses  campos  de 
existência  e  levam à frente movimentos de imenso poderio, de incalculável potência social, sem apelar para 
os  saberes  instituídos  e  estabelecidos.  Então,  o  importante  a  ser  reconhecido  é  a  existência dessas forças 
inconscientes  que  o  Institucionalismo  denomina  desejo,  por  ressonância  ou  por  uma  re­elaboração  do 
conceito  de  desejo  inconsciente  da  Psicanálise.  A  diferença  consiste  em  que  o  desejo  inconsciente  em 
Psicanálise  está  sempre  relacionado  com  uma  estrutura  chamada  Complexo  de  Édipo:  é  um  desejo  que 
atua  primeiro  na  vida  familiar,  nas  relações  ou  nas  fantasias  incestuosas  ou  parricidas  do  inconsciente 
infantil  e  que,  depois,  se   translada  para  a  vida  social  com  as  mesmas  características.  O  desejo segundo a 
Psicanálise  é  um  impulso  que  tende  a  reconstituir  estados  perdidos  a  se  realizarem  em  fantasmas 
imaginários,  é  uma  tendência  reprodutiva,  é  um  anseio  que  tende  a   restaurar  o  narcisismo,  que 
supostamente,  em  algum  momento,  foi  o  estado  em que o proto­sujeito esteve integralmente. O desejo  no  
Institucionalismo não tem essas peculiaridades. O desejo do 
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Institucionalismo  é  imanente  à  produção,  é  (digamos  provisoriamente)  o  aspecto  subjetivo  (mas  não 
apenas  psíquico)  da  mesma   força  que  no  social  é  o  instituinte.  É  uma  força  que  tende  a  criar  o  novo, 
entendido  como  o  imprevisível,  é  uma  força  de  conexões  insólitas,  é  uma  força  de  invenção  e  não  é  uma 
força  restauradora  de  estados  antigos.  Mas  é  inconsciente.  Só  que  este  inconsciente  não  se  entende 
exclusivamente   como  um   inconsciente  edipiano,  familiarista, repetitivo, mas  também como um inconsciente 
pré­pessoal,  pré­social  e  pré­cultural,  objeto  de  um  saber  que  toma  elementos  de  todos  saberes 
existentes;  trata  ­se  de  matérias  não­formadas  e  energias  não­vetorizadas  que  são  capazes  de  gerar 
transformação.   A  força  desse  inconsciente  não  está  submetida  apenas  por  um recalque psíquico, mas por 
um  recalque  complexo  que  é  simultaneamente  político,  libidinal,  semiótico  etc.  Então,  para  o 
Institucionalismo  não  existe  o  que  seria  um  homem  universal,  não  existe  uma  estrutura,  uma 
essência­homem.  Também  não  existe  uma  estrutura,  uma  essência­sujeito,  um sujeito psíquico que seria o 
mesmo  em  todas  as  sociedades,  em  todos  os  momentos  históricos,   em  todas as classes sociais, em todas 
as  raças  etc.  O  que  se  passa é que esse sujeito psíquico, mesmo que se aceite como sendo universal, teria 
representações  ou  teria  recursos  que  variariam segundo a sociedade, segundo a classe social ou o grupo a 
que  pertencesse.  Para  o  Institucionalismo  não  existe  esse  sujeito  eterno  e  universal,  apenas  preenchido 
com  conteúdos  históricos  sociais  variáveis.  Para  o  Institucionalismo,  o  que  existe  são  processos  de 
produção  de  subjetivação  ou  de  subjetividade.  Mais  adiante  explicarei  em  que  consistem  essas  duas 
denominações,  mas  essa  produção  é  absolutamente  contingente,  é  absolutamente  própria  de  cada  lugar, 
de  cada  momento,  de  cada  conjuntura  histórica  etc.  Ou  seja,  produzem­se  sujeitos  em  cada 
acontecimento­devir­sujeitos  para  esse  acontecimento­devir,  sujeitos  variavelmente  protagonistas  desse 
acontecimento,  ou,  se  pode  dizer,  é  o  acontecimento­devir  que  os  produz.  E  podem  existir  analogias, 
podem  existir  semelhanças  entre  esses  sujeitos.  O  que  importa  não  é  a  produção  das  semelhanças  ou  de 
analogias  entre  os  sujeitos,   mas  a  produção  de  diferenças,  a  singularidade  de  cada  sujeito  produzido  em 
cada  lugar,  a  cada  momento.  Então,  quando  nessa  produção  predomina  o  instituído,  a reprodução de um 
sujeito do desejo assujeitado aos interesses dominantes, aos 
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interesses  exploradores,  aos  interesses  mistificantes,  ele  adota  as  características  de  um  sujeito  mais  ou 
menos  universal e eterno.  A isto se  chama produção de subjetividade assujeitada, subjetividade submetida. 
Quando  o  que  predomina  neste  processo  é  a  geração  do  novo  absoluto,  de  subjetivação  absolutamente 
original,  absolutamente  singular,  absolutamente  instituinte,  absolutamente  contingente,  circunstancial  e 
gerada  pelos  eventos  revolucionários,  a  isto  se  chama  produção  de  subjetivação  livre,  não  assujeitada, 
primigênia,  produtiva,  revolucionária,  em  que  o  desejo  se  realiza   em  conexões  locais,  micro,  e  se  efetua 
gerando  o  novo,  não  se  concretiza  restituindo  o  antigo,  processa­se  não  reproduzindo  o  instituído,  o 
organizado, o estabelecido, mas se realiza gerando o instituinte e o organizante. 
Por  que  esta  discriminação  é  importante?  Porque  na  leitura  que  o  Institucionalismo  vai   fazer  de 
cada  organização,  de  cada  estabelecimento,  movimento  ou  proposta,  ele  vai  privilegiar  a  intelecção  de 
dispositivos  que  são  capazes  de  produzir  subjetivações.  E  não vai privilegiar, a não ser para denunciá­los, 
a  leitura  de  aparelhos  ou  equipamentos  que  estão  destinados  a  produzir  a  reprodução  de  subjetividades 
submetidas.  O  mesmo  vai  acontecer  nas  montagens  técnicas,  organizativas,  políticas,  com  as  formas  de 
militância,  com  a  "maquinaria  de  guerra"  que  o  Institucionalismo  pretende  propiciar  em  suas intervenções, 
porque  as  mesmas  têm  de  estar  protagonizadas  por  novas  produções  de  subjetivação,  circunstanciais, 
transitórias,  capazes  de  encarar  o  sentido desejante e revolucionário e depois autodissolver­se para  deixar 
seu  lugar  a  outras.  Evidentemente,  todas  essas  definições  necessitariam  de  exemplos  muito  precisos  que, 
pela  natureza  elementar  deste  livro,  não  poderemos  dar nesta exposição. Mas a discriminação que tem de 
ficar  claramente  estabelecida  é  que  o  Institucionalismo,  em   geral,  não  .se  propõe  "pegar"  um  sujeito 
reprodutivo  que  é  sempre  o  mesmo,  eterno  e  universal  e  invariável  em  todo  tempo  e  lugar,  e  trabalhá­lo 
para  torná­lo  produtivo.  O  objetivo  institucionalista  é  criar  campos  de  leitura,  de  compreensão,  de 
intervenção  para  que  cada  processo  produtivo  desejante, revolucionário, seja capaz de gerar os "homens" 
(ou  sujeitos)  de  que  precisa.  Não ajeitá­los a partir de uma suposição de que já estão feitos, mas aceitar a 
idéia de que os novos homens se fazem a cada momento, em cada circunstância. 
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Essa  exposição  que  se  acaba  de  ler  não  segue  ao  pé  da  letra  as  teorias  sistemáticas  da 
Psicanálise,  o  Marxismo  ou  as  psico­sociologias  de  cunho  fenomenológico,  positivista,  culturalista  ou 
estrutural­funcionalista.  Em  muitas  passagens,  pode  ficar  sincrética  ou  imprecisa  demais. A intenção não é 
dar  uma  série  de  definições  acadêmicas  fiéis  a  seus  textos  de  origem.  Este  é  o  caso,  por  exemplo,  de 
quando  falamos  do  inconsciente  ou  do  desejo.  O  contexto  em  que  falei dessa questão ainda  é um espaço 
teórico  algo  clássico,  que  habitualmente  se  aborda  com  o nome de ideologia. É verdade que há uma certa 
definição  de  ideologia  que  a  considera  como  uma  série  de  representações  erradas,  de  crenças,  de 
convicções  acerca  do  mundo,  que  está  animada  pela  ilusão,  pela  esperança  e  pelo  medo.  Costuma­se 
reconhecer  que  existem ideologias dominantes que são as ideologias da classe dominante, ou seja, que são 
ideologias  conservadoras,  reacionárias.  Por  outro  lado,  existem  ideologias  revolucionárias,  que  são 
ideologias  das  classes,  dos  grupos  que  procuram  uma  drástica  transformação   social.  Em  geral  fala­se 
dessas  ideologias  como  sinônimo  de  consciência  falsa  ou  distorcida.  São  crenças,  convicções  ou 
expectativas  e  desejos  conscientes.  Ademais,  afirma­se  que  a   ideologia  dominante  na  sociedade  é  a 
ideologia  dos  grupos  dominantes,  é  uma  ideologia  que  se  impõe pela ignorância ou a distorção, apesar de 
ser  contrária   aos  interesses  da  maioria.  Então,  costuma­se  dizer  que a  maneira de reverter essa  situação é 
instruir,  é  educar,  é  modificar  essas  representações,  é  criar  outro  tipo  de  expectativa  ou  vontade,  é 
conscientizar  acerca  dos  limites  da  potência que tem a  classe dominante, conscientizar acerca  do  potencial 
de  prazer,  de  gozo,  de  eliminação  do  sofrimento  que  teria  uma  transformação  social  protagonizada  pela 
classe  dominada.  Mas  é  importante  recordar  que  desde  um  bom  tempo  atrás  já  existem  pesquisas  e 
produções  teóricas   que  mostram  que  não  é  apenas  por  medo  ou  esperança,  por  ignorância,  informações 
erradas  ou  manipuladas  que  as  classes,  os  grupos  e  sujeitos  submetem­  se  aos  interesses  das  classes 
dominantes.  Eu  citava  o  célebre  psicanalista  Reich  quando  ele,  estudando   o   movimento  nazista  da 
Alemanha,  afirmava  que  o  povo  alemão  não  estava  desinformado;  talvez  estivesse  incorretamente 
informado,  mas  é  difícil  acreditar  que  o  povo  mais  culto  da  Europa  fosse  capaz  de  acreditar  nas  asneiras  
que estavam sendo ditas; e também 
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não  tinha  tanto  medo,  porque  era  um  povo  muito  orgulhoso,  muito  seguro  de  suas  forças,  com  um 
proletariado  muito  politizado.  E,  sem  dúvida,  este  povo  acabou  aderindo  maciçamente  ao  projeto 
nacional­socialista,  um   projeto  de  dominação  do  mundo,  racista,  machista,  que  reunira  em  si  todos  os 
autoritarismos,  todos  os  paternalismos,  toda  a  capacidade  antiprodutiva  de  uma  sociedade  moderna.  Por 
quê?  O  que  W.  Reich  diz  é  que  foi  devido  não apenas às circunstâncias históricas econômicas, políticas e 
ideológicas  que  todo  mundo conhece, mas também a determinantes, digamos, histórico­eróticos, libidinais, 
que  fizeram  com   que  este  líder  fosse  capaz  de  mobilizar   certos  desejos  inconscientes  da  massa  e  fazê­la 
participar  de  um  projeto  onipotente  e  sádico,  uma  maneira  de  realizar  inconscientemente  esses  desejos, 
desejos  inconscientes  de  domínio,  de  exercício  da  crueldade,  desejos  inconscientes  que,  segundo  Reich, 
eram  maneiras  de  restituir  a  cada  um  deles  o  estado  utópico  narcísico  perdido.  Reich  já  sabia  que  não  é 
apenas  com  a  consciência  que  se  consegue  dominar  os  povos,  fazê­los  operar  contra  seus  potenciais  e 
interesses,  mas  com  outro  tipo  de  mobilização.  O  Institucionalismo  vai  recolher  bastante   de  Reich,  mas 
reformulando­o  segundo  sua  própria  compreensão  do  desejo  –  que  não é o desejo segundo a Psicanálise 
de  Reich;  não  é  o  desejo  exclusivamente  psíquico  ou  inconsciente  (segundo  o  inconsciente  edipiano  da 
Psicanálise),  mas  o  desejo  imanente a todas as forças materiais possíveis de potência produtiva. Não é um 
desejo  que,  por  natureza,  pretenda  restituir  alguma  coisa  perdida,  mas é um desejo que, por substância, é 
revolucionário.  Este  tipo  de  desejo  inconsciente,  que  tem  de  ser  lido  no  campo  da  análise  e  mobilizado 
pelas  intervenções,  pelos   dispositivos  instituintes,  para  que  opere  historicamente  segundo  sua  verdadeira 
essência e não seja encaminhado a animar máquinas reprodutivas e antiprodutivas. 
O  emprego  que  aqui  fizemos  de  uma  verdadeira  proliferação  de  termos  é  uma  peculiaridade  do 
caráter   intertextual  e  descartável  da  terminologia  institucionalista.  É  possível  que  seja  um  tanto  confuso, 
particularmente com relação ao léxico sistemático da Psicanálise ou do Materialismo Histórico. 
Eu  me  surpreenderia  se  estivesse  claro.  Afinal,  tudo  o  que  teria  de   ser  dito  sobre  Psicanálise,  o 
Édipo, a concepção psicanalítica do desejo e o Institucionalismo é muito mais amplo 
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do  que  a  gente  pode  dizer  aqui.  Se  alguém  observa  no  meu  relato  restos  da  nomenclatura  psicanalítica, 
isso  pode  ser  até  uma  espécie  de  interpretação  ou  intervenção  institucionalista  sobre  meu  discurso,  na 
medida  em  que,  por  mais  que  a  gente  se  envergonhe,  a  gente  também  é  psicanalista.  É  evidente  que 
chegamos  ao  Institucionalismo  a  partir  de  identidades  diferentes.  Há  institucionalistas  psicanalistas.  Cada 
um  de  nós  tem  de  lutar  contra  constrições,  restrições  teóricas  e técnicas e "práxicas" que a  sua identidade 
prévia  lhe  impõe.   Porque  ser   institucionalista  implica  uma  tremenda  transformação  do  aparelho  teórico, 
metodológico,  técnico  da  atitude  profissional  e  da  atitude  específica  do  especialista.  Então,  nesta  função 
que  estou  cumprindo  agora,  não  me  surpreende  que  eu  tenha  as minhas vacilações. Não sei se elas foram 
percebidas.  Obviamente  não  são  registradas  por  mim,  que  sou  interessado  e,  portanto  suspeito.  Tenho  a 
impressão  de  que  não  é  tanto  assim:  "Apenas  por  egossintonia."  Mas  o  que  aparece  na  mudança  do 
caminho  é  o  seguinte:  o  Institucionalismo  é  um  saber  intersticial,  é  um  saber  nômade, é um saber errático; 
então,  ele  pega   algum  elemento  de  cada  campo  do  saber  e  do  fazer  e  tenta  agregá­lo  a  novos  contextos 
para  criar  uma  idéia  nova.  Em  compensação,  o  Institucionalismo  não  é  uma  ciência,  não é uma disciplina, 
não tem objeto específico, não tem aparelho teórico conceitual restrito, não tem um objeto formal abstrato. 
Então,  o  que  eu  estava   tentando  explicar  com  referência  ao  desejo  e  ao  inconsciente  é  que  este  é  uma 
idéia  repensada,  porque  o  Institucionalismo  não  a  toma  emprestada,  não  a  importa  (como  se  diz  em 
epistemologia);  o  Institucionalismo  "rouba"  alguma  coisa  de  cada   corpo  teórico  e  se  sente  com  direito  de 
roubar, porque não respeita a propriedade intelectual privada nem específica. Por exemplo: O roubo que o 
Institucionalismo  fez  da  Psicanálise  e  do  conceito  clássico  de  essência  do  desejo inconsciente como força 
capaz  de   gerar  uma  série  de  efeitos,  como  o  valor  do  prazer  e  do  desprazer no campo libidinal, no plano 
das  "escolhas  objetais".  Mas  o  Institucionalismo  vai  transformar  este  conceito.  O  desejo  inconsciente  na 
Psicanálise  é  uma  força  que  insiste  em  restituir  imaginariamente  o  narcisismo  como  estado  inicial  em  que 
coincidem  investimento  e  identificação;  então,  como  é  que  a  Psicanálise  atua?  Ela  o  faz  tentando  impedir  
que  o  desejo  reatualize  a  unidade  imaginária  do  ego  do  sujeito  com  o  objeto  narcísico  por  meio  da 
castração 
49 ▲

simbólica,  orientando  e  fluidificando  o  desejo  através  do  sistema  simbólico.  O  desejo  se  mobiliza  para 
restituir  imaginariamente  o  narcisismo.  A  intervenção  psicanalítica  o  obriga  (mais  que  lhe  possibilita)  a 
animar  o  sistema  simbólico,  a  representar,  a  significar,  a  sublimar.  Por  sua  vez,  o  Institucionalismo  não 
acredita  que  a  essência  do  desejo  seja  restitutiva,  nem  que   deve  ser capturado no sistema simbólico, nem 
obrigado  a  nada.  Ele   pensa  que  o  desejo  é espontaneamente produtivo, revolucionário, inventivo. Apenas 
se  deve  criar  condições  para  que  ele  possa  animar  dispositivos  e  máquinas  revolucionárias  capazes  de 
realizá­la   em  acontecimentos  e  devires.  Para  o  inconsciente  psicanalítico  o  desejo  nunca  se  realiza,  é  da 
característica  do  irrealizado,  só  pode  imaginar­se  e  simbolizar­se.  Para  o  Institucionalismo,  o  desejo 
realiza­se  sempre,  apenas  é  preciso  produzir  condições   históricas  em  que  ele  possa  realizar­se 
produtivamente. Isso inclui engendrar modos de subjetivação que co­protagonizem este processo. 
Para  alguns  institucionalistas,  se  é  que eles aceitariam essa denominação genérica, o inconsciente e 
o  desejo  são  a  substância  mesma  da  realidade  (como  diria  o  filósofo  Espinoza),  da  qual  se  diz  que  se 
repete  como  diferença,  ou  seja,  que  é  o  Ser  do  Devir  sempre  infinitamente  diferente.  Também  se  afirma 
que é a Vontade  de Potência afirmativa e a ação das forças positivas (como postularia Nietzsche) que gera 
o  inter­jogo  de  forças  e  a  origem  de  tudo.  Kant  talvez  diria  que  o  desejo  consiste  em  quantidades 
intensivas,  que  são  prévias  às  quantidades  e  qualidades  de  tudo  que  existe.  Bergson  falaria  das 
virtualidades  –  que  não  existem, mas são reais, e só esperam sua atualização. Para certos institucionalistas, 
o  inconsciente  é  produzido  em  cada  agenciamento,  em  cada  dispositivo  que  se  autogera  para originar um 
acontecimento  e  um  sentido.  Tais  inconscientes  não  são  causados  por  sujeitos  nem  por  objetos,  pelo 
contrário,  eles  podem  processar  modos  de  subjetivação  e  objetivação  que  são  necessários  para  as 
novidades produtivas que os geraram em sua montagem. 
Não  obstante,  nos  propomos  voltar  sobre  o  tema  no  capítulo  seguinte.  Apenas  observemos  que, 
para certas correntes do Institucionalismo, o sujeito é uma organização por  meio  da qual se realizam muitas 
instituições.  Assim  entendido,  o  sujeito  é  produto  de   processos  instituintes,  organizantes,  criadores,  assim 
como de outros repetitivos ou antiprodutivos. É por isso 
50 ▲

 
que  as  diversas  escolas  institucionalistas  tentam  analisar  e  intervir  sobre  o  sujeito­organização  em  suas 
relações  de   atravessamento  e  de  transversalidade  com  outras  organizações: subjetivas ou não (ou seja: no 
trabalho,  na  educação,  na  saúde  etc.),  outras  correntes  institucionalistas  não  dizem  que o sujeito é apenas 
uma  peça  do  processo  de  produção  de  subjetividade  alienada  ou  de  subjetivação  revolucionária.  Esses 
processos  são  imanentes  a   muitos  outros  e  sua   abrangência  e  produtos  são  muito  mais  amplos  e 
complexos do que aquilo que se entende por" sujeito". 
51 ▲

PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 
1. Que diferença existe entre História e Historiografia? 
2)  Existe  uma  História  que   totaliza  todos  os   percursos  dos  processos  sociais­econômicos­subjetivos  e 
naturais? 
3) O que significa Molar e Molecular? 
4) O que se entende por produção, reprodução e antiprodução? 
5) Qual é o papel da repetição e da diferença, do acaso e das regularidades na História? 
6) Qual é a diferença do modo de definir sujeito e desejo: na Psicanálise e no Institucionalismo? 

52 ▲
 
Capítulo IV 
O DESEJO E OUTROS CONCEITOS NO INSTITUCIONALISMO 

Eu  dizia,  em  uma  passagem  do  capítulo anterior, que não me estranharia que  muitos dos conceitos 


do Institucionalismo não fossem fáceis de entender, assim como a essência mesma do Movimento. 
O  filósofo  Gaston  Bachelard   escreveu  um  livro  chamado  "Psicanálise   do   Espírito  Científico".  Na 
realidade,  não  se tratava propriamente de Psicanálise e, por  outro lado, se compreenderá que não se pode 
falar,  em  um  sentido   estrito,   de  "espírito  científico"  –  só  Sé  pode  aceitá­lo  como  uma  metáfora.  O 
mencionado  texto  tratava  de  caracterizar  os  principais  hábitos  do  pensamento  corrente  que,  por  estarem 
muito  arraigados,  produzem  um  efeito  de  convicção  na  "mente"  de  quem  pretende  formar­se  como 
cientista.  Esses  "vícios"  do  senso  comum operam como obstáculos que dificultam ou impedem o estudioso 
de  assumir  as  peculiaridades  de  funcionamento  dos  diversos  métodos  científicos,  cujas  "verdades" 
freqüentemente   contrariam  as  evidências  da  opinião  generalizada.  Bachelard  tentava  um  trabalho 
epistemológico  que  operasse uma  espécie de "cura" dessas crenças para conseguir, assim, a predisposição 
dos 
53 ▲

"espíritos" para a adoção de uma atitude tipicamente científica. 
Não  ignoro  que,  devido  às  deficiências  da  formação  geral  e  universitária  da  qual  padecemos, 
muitos  ainda  não  podem  estar  certos  de  haver  adquirido  o  mencionado"  espírito",  ou  um  outro  melhor 
ainda,  por  isso  torna­se  especialmente  difícil  exigir­lhes,  neste  momento,  que  comecem  a  aprender  a 
criticar­se  enquanto  "científicos",  entendendo  a  singular  proposta  do  lnstitucionalismo.  Cabe  aqui  lembrar 
que,  a  despeito  do  Institucionalismo  nutrir­se  em  grande  parte  das  contibuições  mais  revolucionárias  das 
ciências contemporâneas, tem com elas uma relação contraditória, polimorfa e complexa. 
Um  típico  problema  que  se  apresenta  quando  se  trata  de  ensinar  alguma  ciência  em  particular 
passa­se devido ao fato de que, semanticamente falando, alguns termos teóricos que as ciências empregam 
são  idênticos  aos  utilizados  na  linguagem  cotidiana.  No  entanto,  sabemos  que  essas  palavras,  quando 
importadas  e  processadas  no  seio  de  uma  teoria  científica,  mudam  radicalmente  de  sentido,  não 
conservando  nenhuma   das  denotações  e  conotações  (como  diz   certa  lingüística) que tinham nos discursos 
ou  textos  de origem. Contudo, ainda durante um longo período de sua aprendizagem, os jovens estudantes 
de uma ciência continuam confundindo essas diferentes significações. 
As  diversas  correntes  institucionalistas,  por  sua  parte,  podem  empregar  termos  teóricos  com 
acepções  idênticas  às  utilizadas  pela  ciência  de  onde  um conceito foi tomado, ainda que invariavelmente o 
façam  isolando  esse conceito do contexto sistemático no qual o mesmo foi enunciado  e do qual recebe seu 
valor de origem. 
Em  outros  casos,  o Institucionalismo procede adotando algum termo, mas o faz acrescentando­lhe 
sentidos  que  se  somam  aos  originais,  sem  descartá­las.  Finalmente,  o  Institucionalismo  pode  também 
transformar  um  conceito  em  uma  categoria,  ou  em  uma  noção,  ou  até  em  uma  alusão  vaga,  se  considera 
que, em determinada conjuntura, torna­o revelador. 
Para  concluir,  cabe  recordar  que  o  Institucionalismo  é  a  expressão,  algo  extremada,  de  um 
questionamento  da  hegemonia  do  pensamento  científico  como  tal  e  de  suas  diversas  especificidades, 
defendendo  a  fertilidade  de  todos  os  saberes,  incluídos,  por  exemplo,  os que existem em "estado prático" 
nas 
54 ▲

 
atividades leigas, artísticas, religiosas etc. 
Por  isso,  às  vezes  é  duro,  para  quem  se  aproxima  deste  estudo,  aceitar   e  entender  a  polissemia 
que  adquirem  semantemas  provenientes,  digamos,  da  Psicanálise  (inconsciente,  desejo  etc.),  ou  outros 
originários de algumas escolas do Materialismo Histórico (sobredeterminação e mais­valia, por exemplo). 
Agora,  peço­lhes  que  se  coloquem  um  pouco  no  lugar  do  docente.  Estou  tentando  dar  um  curso 
introdutório  de  um  saber  que  não  tem  limites.  Se  os  profissionais,  especialistas  de  alguma  disciplina, 
queixam­se  da  incrível  aceleração  na  produção  de  conhecimentos  de  cada  saber,  que  faz  com  que  os 
experts  não  consigam acompanhar essa produção – em alguns ramos muito desenvolvidos, como a Física, 
chega­se  a  afirmar  que  o  expert  só  tem  dez  anos  de  vida  útil,  tendo   se  tornado  descartável  como  os 
jogadores  de  futebol,  pois  depois  de  uma  década  já  não  consegue  acompanhar  o  ritmo  de  produção 
teórica  e  tecnológica  de  sua  disciplina  e  não  chega   a  atualizar­se.  Imaginem  vocês  uma  coisa  como  esta, 
que  é  um  composto  de  todos  os  saberes  de  uma  época, inclusive os saberes não­científicos, os artísticos, 
os populares; então a formação de um institucionalista realmente é interminável. 
Estou  tentando  dar  uma   visão  panorâmica  geral,  muito  pouco aprofundada e ambiciosa, de certos 
conceitos,  de  certas  idéias  básicas  e  de  algumas  das  principais  correntes.  Não  nego  que  algumas 
ampliações  sejam  essenciais,  mas  justamente  porque  o  são,  desenvolver  esses  temas, no caso de eu estar 
capacitado  para  fazê­lo,  levaria  a  outros tantos cursos. Este é um pequeno esclarecimento e uma desculpa 
pelo  tratamento  que  tentarei  dar  a  várias  questões,  que  terá  de  ser  breve,  para  que eu possa desenvolver 
este capítulo coerentemente com o resto do texto. 
Comecemos  por  lembrar  que  não  existe  uma  escola  institucionalista,  mas  sim  muitas,  e  existem 
diferenças  teóricas,  metodológicas,. técnicas, políticas entre  elas. O que há como característica comum é o 
interesse  pela produção nas  organizações e instituições, assim como por um funcionamento auto­analítico e 
autogestivo  das  mesmas.  É  o  mínimo  denominador  comum  que  se  consegue  encontrar  entre  as  várias 
tendências.  Agora,   entre  as  muitas  diferenças  existentes  de  uma  para  a  outra,  está  a  definição  dada  a 
"desejo". Boa parte delas reconhece a existência do psiquismo como um campo 
55 ▲

relativamente  autônomo  da  realidade.  A  maioria  delas  aceita,  dentro  desse  campo  chamado  psiquismo,  a 
existência  de  um   espaço,  de  um  sistema  e  de  processos  de  caráter  inconsciente  que  considera do campo 
das  causas,  da  área  dos  motores  do  funcionamento  psíquico,  sendo  que  o  comportamento, a conduta, as 
vivências,  as  representações  e  afetos  são  do  campo  dos  efeitos  deste  psiquismo.  No  entanto,  a  maioria 
deles  atribui  à  Psicanálise  o  mérito  de  ter  descoberto  esta  instância  determinante, que seria o inconsciente 
com  seu  processo  primário  e  a  força  que  anima  essa  instância,  que  é o desejo. Boa parte deles concorda 
com  a  definição  de  desejo  que  seria  predominante  à  colocada  em  muitos  textos  freudianos.  Em  que 
consiste  esta  definição  de  desejo?  Seria  uma  força  insistente,  persistente,  que  procura  restaurar,  reeditar, 
em  último  termo,  um  certo  estado  do  "desenvolvimento"  do  psiquismo  que  se  denomina  narcisismo,  em  
que  o  ego  e  o  objeto  são  um,  em  que  não existe a separação sujeito­objeto – que a  Psicanálise atribui ao 
Complexo  de  Castração.  Então,  a  partir da ruptura desse estado, surge uma força que seria o desejo, que 
tenta  reproduzi­lo.  Quando  a  mesma  é  obrigada  a  passar por outras instâncias, outros dispositivos, outras  
maquinarias  do  psiquismo,  particularmente  por  certa  ordem  de  representações,  ela  acaba  gerando   todos 
os  produtos  chamados  "normais"  da  vida  psíquica,  que  são  rendimentos, resultados dessa trajetória que o 
desejo  faz  em  lugar  da  sua  realização  meramente  "alucinatória",  ou  seja,  de  sua  tentativa  de  restauração 
desse  narcisismo  inicial.  Isso,  como  o  leitor  avaliará,  inclui  uma  definição  restitutiva  do  desejo;  o  desejo 
tem  uma  natureza  conservadora;  ele  parte  de  uma  situação  narcisística  e  tende  a  voltar  a ela;  ele torna­se 
produtivo  apenas  quando  nesse   caminho,  nessa  trajetória,  é  obrigado  a  elaborar,  e  a  sublimar,  devido  à 
sua  subordinação  à  ordem  simbólica,  a  lei  ou  a  sua  inscrição  no  processo  secundário  (como  se  queira 
chamá­lo).  Muitos  institucionalistas  compartilham  plenamente  essa  definição  de  .  desejo   e  a  aplicam  à 
compreensão  dos  aspectos  psíquicos  da vida organizacional, usando­a no entendimento do funcionamento 
da  subjetividade,  assim  definida  nas  organizações,  particularmente   em  seus  aspectos  inconscientes.  Um 
exemplo  característico  de  um  autor  institucionalista  que  é  absolutamente  fiel  a  esta  definição  freudiana  de 
desejo, embora tente articulá­la com uma teoria materialista­histórica da sociedade, da economia, 
56 ▲

 
da  política  e  das   organizações,  é  Gerard  Mendel,  criador  de  uma  corrente  institucionalista  chamada 
Sociopsicanálise,  à  qual  vamos  nos  referir  mais  adiante  porque  está  contemplada  em  nosso  programa.  Já 
uma  definição  menos  fiel  à  freudiana  é a de René Lourau, que recolhe a definição de desejo de uma  forma 
menos  ortodoxa.  Mas  se  a  gente  estuda  a  obra  freudiana  com  amplitude  e  detalhe,  percebe  setores  da 
mesma  em  que  essa  definição  de  desejo,  que  explicamos  anteriormente,  mostra­se  característica,   por 
exemplo,  do  capítulo  VII  da  "Interpretação  dos  Sonhos"  e  da chamada primeira tópica. Entretanto, existe 
a  possibilidade  de  outra   definição  baseada  nas  passagens  freudianas  em  que  o  Id  é  pensado  como  um 
"caldeirão  fervente"  cheio  de  estímulos,  no  qual  a  pulsão  de  vida  funciona  segundo  o  processo  primário. 
Nesse  caldeirão  estão  incluídos  os  impulsos  libidinais  e  desejantes  dessa  "usina"  –  que  têm  por  objetivo 
não  a  restituição  de  estados  perdidos,  mas  propiciar,  de  forma  anárquica,  estados  permanentemente 
novos;  associar,  cada   vez  mais  amplamente,  unidades  vitais;  processar   o   movimento  como  sendo  a 
essência  da  pulsão  de  vida  e  do  desejo  que  dela  emana.  Justamente  a   partir  dessa  definição  surgiu  a 
plêiade de inúmeros autores que impugna a existência de uma pulsão de morte no psiquismo, assim como a 
exclusividade  de  um   modo  de  ser  do  desejo  em  cujo  extremo  está  a  pulsão  de  morte  que  tenta restaurar 
um  estado  imaginário  perdido,   e  com  ele  a  imobilidade.  Estamos  vivendo  uma situação cultural em  que se 
está  impondo  a  hegemonia  de  uma  das  leituras  do  desejo  que  Freud  fez  (a  estruturalista).  Estamos 
assistindo,  mundialmente,  a  uma  certa  fragilidade  das  proposições  do  marxismo  ortodoxo,  assim  como  a 
de  uma  série  de  autores  que  partiam  desse  outro  setor  da obra freudiana para definir a pulsão e o desejo, 
como  por  exemplo,  os  freudo­  marxistas.  Então,  não  é  estranho  que  isto  se  apresente  como  uma 
dificuldade  para   os  interessados  no  assunto,  porque  este  é  um  problema  muito  atual  e  de  muita  disputa 
teórica.  No  entanto,  outros  setores  do Institucionalismo, particularmente Deleuze  e Guattari – os criadores 
desta  orientação   chamada  Esquizoanálise,  muito  pouco  conhecida  e  muito  pouco  implantada  tanto  em 
nosso  meio  como  rio  mundo  inteiro  –,  levam  as  proposições  freudo­marxistas  dessa  outra  definição  do 
desejo  até  extremos  pós­freudianos  e  pós­marxistas  baseados  já  em  outras  contribuições  de  disciplinas 
atuais, como a filosofia, a macrofísica, 
57 ▲
a  microfísica,  a  biologia  molecular  e  certos  campos  das  ciências  formais,  por  exemplo  a  matemática  de 
Rieman.  Os  "descobrimentos"  desses  saberes  têm  dado  origem  ao   que  se  chama  de  uma  mudança  de 
paradigma,  uma  transformação  do  modelo  dominante  no  horizonte atual do conhecimento. Essa mudança, 
em  um  de  seus  aspectos,  consiste  na   promoção  de certo poder criativo da desordem, na reivindicação da 
neguentropia,  ou  tendência  à  autopoiese,  na  defesa  da  produção, da vitalidade, inclusive na ma terialidade 
psíquica  e  seus  determinantes  em  última  instância,  que  seriam  a  pulsão  e  o  desejo.  Então,  Deleuze  e 
Guattari,  também apoiados na literatura, na arte, e ainda  no  discurso delirante, constroem uma definição de 
desejo  como  sendo  não  apenas  a  força que anima o psiquismo, mas uma força  essencialmente produtiva e 
criativa  buscadora  de  encontros  que,  além  de  tudo,  é  imanente  a  outras  forças  animadoras  do  social,  do 
histórico,  do  natural.  O  desejo  não  tem  caráter  restitutivo  –  tem  caráter  essencialmente  produtivo­ 
revolucionário  –  e  não   é  uma  força  separada  das  que  animam  a  vida  social  e  natural.  Por  isso  há  uma 
fórmula  na  Esquizoanálise,  que  afirma  que  a  Esquizoanálise  consiste  em introduzir o desejo na produção e 
a  produção  no  desejo.   Trata­se  de  aprender  a  pensar  um  desejo  essencialmente  produtivo  e  uma 
produção,  dita  no  sentido  amplo,  que  não  pode  ser  senão  desejante  –  à  medida  que  funciona  como  o 
processo  primário  inventado  por   Freud  e  considera  as  subjetivações  essencialmente  envolvidas  nesses 
processos produtivos, tanto quanto na natureza e nas máquinas técnicas e semióticas. 
Outra  questão  a  ser  abordada  diz  respeito  à  determinação  em  última instância. Bom, Marx afirma 
que  a  vida  social  está  estruturada  como  uma  espécie  de  edifício,  em  que  há  os  alicerces  e  há  as  paredes 
superiores  visíveis.  O  que  Marx  insiste  em  afirmar  é  que  a  vida  social  está  finalmente  determinada  pela 
atividade  econômica,  isto  é,  por  processos de produção de bens materiais indispensáveis para a produção 
e  a  reprodução  da  vida  humana  sobre  a  terra.  Dessa  maneira,  a  chamada  infra­estrutura  determina  a 
superestrutura,  apesar  de  que  Marx  nunca  negou  que  a  superestrutura  retroaja  sobre  a  infra­estrutura. 
Assim,  as  resultantes  desse  processo  complexo  não  são  causadas,  de  forma  alguma,  exclusivamente pelo 
econômico, não podendo ser entendidas dessa maneira. E também não seriam modificáveis 
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exclusivamente  a partir do econômico. Um de seus seguidores, Louis Althusser, utilizando outro modelo de 
formalização   da  estrutura  social  –  modelo  esse  tomado  da  matemática  dos  conjuntos  –  representa  a  vida 
social  como  uma  composição  de  três  subconjuntos  que  estão  parcialmente  intersecionados,  de  maneira 
que  algumas  áreas  desses  subconjuntos  têm  autonomia  relativa  e  outras  são  superpostas  ou  imanentes 
entre  si.  Mas  o  conjunto  total,  o  sistema,  que  Althusser  chama  "todo  complexo articulado, diversificado e 
sobredeterminado",  funciona  interpenetrado,  de  maneira  tal  que  haverá  um  determinante  em  última 
instância,  que  em   todos  os  modos  de  produção  é  o  econômico,  uma  instância  dominante  e  uma  instância 
decisória  ou  decisiva.  O  determinante  em  última  instância  é  o  que  define  o  papel  dos  outros  e  da  sua 
participação  causal  na  determinação  dos  efeitos  econômico  ­sociais,  mas  não  exclusivamente,  e  sim 
mediatizado  por   aqueles.  A  instância  chamada  dominante  é  aquela  fundamental  para  a  reprodução  do 
modo  de  produção,  para  que  o  modo  de  produção  se  reproduza  "idêntico"  a  si  mesmo.  A  instância 
decisória  é a fundamental no processo de transformação  de um modo  para sua passagem a outro. Essa é a 
determinação  complexa  pela  qual  todas  as  instâncias  participam  de  todo  e  qualquer  dos  efeitos  e 
resultados.  Althusser  a  denominou  sobredeterminação,  um  modelo  da  causalidade  que  tomou da segunda 
tópica  freudiana,   em  que  ld,  Ego  e  Superego  funcionam  dessa  mesma  maneira  para  determinar  qualquer 
efeito  no  psiquismo:  atos,  formações  do  inconsciente  etc.  O  lnstitucionalisrno,  em  alguns  de  seus  ramos, 
tem  muito  em  comum  com a  proposta althusseriana, à medida que adota essa idéia de sobredeterminação. 
Outros  setores  do  Institucionalismo  têm  sua própria teoria da causalidade social. Por exemplo, no caso de 
Deleuze  e   Guattari,  não  é  uma  teoria  da  sociedade  formada  por  três  subconjuntos  que,  por  sua  vez, 
formam  o  conjunto  total,  mas  uma  sociedade  reticular  formada  por  uma  grade  aberta,  uma  malha  de 
funcionamentos  interpenetrados  que  são  simultaneamente  psíquicos,  tecnológicos,  econômicos,  políticos,  
semióticos  e  naturais  e  estão  ordenados  em  três  superfícies:  de  produção,  de  registro  e  de  consumo. 
Existem  outras  teorias  da  causalidade social próprias de outras tendências institucionalistas, mas todas  elas 
têm  em  comum  a  insistência  em  não  separar  as  determinações  psíquicas  inconscientes  das  econômicas, 
políticas, técnicas, naturais etc. 
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Quanto  aos  principais  recursos  teóricos  do  Institucionalismo,  o  primeiro  a  ser  abordado  será  o 
conceito  de  campo  de  análise.  As  diversas  tendências  do  Institucionalismo  podem  constituir  o  que  se 
chama  –  em  uma  terminologia  discutível  –  um  "recorte"  da  vida  social  que  pode  ser  desde  pequeno  até 
amplíssimo,  desde  um estabelecimento até, por exemplo, o que Deleuze e Guattari chamam o "Capitalismo 
Planetário  Integrado".  Isso  significa  delimitar  um  objeto  ou  um  campo  e  aplicar­lhe  o  aparelho  conceitual 
do  Institucionalismo  para  entendê­lo,  para  saber  como  funciona,  como   estão colocadas e articuladas suas 
determinações,  suas  causas,  como  se  geram  seus  efeitos  etc.  Esse  objeto  pode  estar  constituído  por 
materiais.  muito  heterogêneos  –  por  exemplo,  as  principais  correntes  do  fluxo  de  capitais  no  mundo atual 
–,  e  isso  dará  um  estudo  como  aquele  no  qual  participou  recentemente  Guattari,  que  se  chama 
"Contratempo".  Campos  de  grande  porte  poderão  produzir um livro como  o  que escreveu Lourau, que se 
chama  "O  Estado  e  o  Inconsciente",  uma  tentativa   de  analisar  as  diversas  configurações  que  o  Estado 
adquire  nos  diferentes  modos  de produção no curso da história, nas diferentes civilizações e a forma como 
o  Estado  se  implanta  nos  sujeitos  a  nível  inconsciente.  Esses  campos  de  análise são terrivelmente amplos. 
Mas  podem  ocorrer  campos de análise infinitamente menores, como uma análise do significado da festa no 
Brasil  ou  uma  análise  dos  efeitos  da  comunicação  de  massa  em  Caruaru,  ou  o  funcionamento  dos 
programas  de  estudo  no  vestibular,   ou   da  múltipla  escolha  para  o  processo  de  seleção.  Isso  ainda  não 
implica  necessariamente  uma  intervenção  concreta  sobre  esse  campo  assim  delimitado;  implica  um 
processo  de  compreensão,  de  inteligência  dos  determinantes  desse  campo.   Por  isso  denomina­se  campo 
de análise. 
Outra  coisa  é  o  campo  de  intervenção,  que  é  o  "recorte",  o  espaço  delimitado  para  planejar 
estratégias,  logísticas,  táticas,  técnicas  para  operar  sobre  este  âmbito  e  transformá­lo  realmente, 
concretamente.  É  claro  que  o  campo  de  intervenção   é,  em  geral,  infinitamente  menor  que  o  campo  de 
análise,  porque  neste  momento  é  demasiado  utópico  pensar  o  planejamento  de  uma  intervenção  a  nível 
nacional  continental  ou  planetário,  O  máximo  que  se  consegue  delimitar  são  campos  de  análise 
organizacionais. E óbvio, também, que em qualquer corrente de Institucionalismo, 
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a  constituição  de   um  campo  de  análise  pode  estar  articulada   com  um   campo  de  intervenção.  Só  que  um 
campo  de  análise  é  pensável sem intervenção, mas um campo  de intervenção é impensável sem um campo 
de  análise.  Pode­se  compreender  e  não  intervir,  mas  não  se  pode  intervir  sem  alguma  forma  de 
compreensão.  Em  geral  quando  os  dois  campos  se  constituem,  eles  estão  articulados  entre  si:  à  medida 
que se compreende, se intervém; e à medida que se intervém, se compreende. 
O  ponto  seguinte  é  a  análise  da  oferta  e  da  demanda,  que  também temos de tratar sinteticamente, 
particularmente  dentro  do  enfoque  da  análise  institucional  ortodoxa,  cujos  autores  mais  notórios  são 
Lourau,  Lapassade  e  o  pessoal  que  os  rodeia  dentro  de  sua Sociedade Francesa de Análise Institucional. 
Eles  insistem  em  explicar  que  um   passo  importante  para  começar  a  compreender  institucionalmente  a 
dinâmica  de  uma  organização  é  decifrar,  analisar,  esmiuçar  o  pedido  que  esta  organização  faz  de  uma 
análise  e  de  uma  intervenção.  Para dizê­la provisoriamente: quais são os  aspectos conscientes, manifestos, 
deliberados,  voluntários  deste  pedido,  e  quais  são  seus  aspectos  inconscientes  e/ou  não­ditos.  A  isso 
chamam  análise  de  demanda,  que  é  um  dos  primeiros  passos  para  entender  em  que  consiste  a  conflitiva, 
em  que  radica  a  problemática  desta  organização   solicitante.  Mas  acontece  que,  para  fazê­lo,  o 
Institucionalismo  enfatiza  a  necessidade  de  se  ter  presente  a  idéia  de  que  a  demanda  não é espontânea, a 
demanda  não  é  o  primeiro  passo  de  um  processo:  ela  é  produzida,  de  tal  modo  que  existe  um  passo 
anterior  à  demanda  que  é  a  oferta.  A  demanda   não  existe  por  si.  Quando  alguns  psicanalistas  falam  hoje 
em  análise  da  demanda  como  a  expressão  do  desejo,  eles  não  têm  aparelho  teórico  para  pensar  que  o 
processo  não  começa  aí,  que  essa  demanda  de  análise   foi  produzida  pela  oferta  prévia  de  análise,  e  está 
marcada,  modulada,  determinada,  desde  o  princípio,  por  esta  oferta.  De  modo  que  para  compreender  a 
demanda  de  análise  institucional  de  uma  organização  é  necessário,  antes,  incluir  a  auto­análise,  a 
compreensão  de   como  a  organização  analítica  gerou  esta  demanda;  ou  que  relação  existe  entre  a 
publicidade,  a  divulgação  científica  ou  não­científica,  a   proposição  direta  ou  indireta  dos  serviços  que  a 
organização  analítica  faz  e  que  não  pode  não   ser  causante,  geradora  ou  moduladora  da  demanda  de 
serviços que lhe é formulada. 

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Um  institucionalista  muito  respeitável  e,  no  meu  modo  de  ver,  injustamente  pouco  conhecido,  o 
paulista  que  se  chama  Guilhòn  de  Albuquerque,  tem  uma  fórmula  que não explica todas as situações, mas 
que  é  muito  ilustrativa,  e  que  gosto  muito  de  usar  com  fins  pedagógicos:  ele  diz  que  toda  organização  de 
prestação  de   serviços  transmite  um  recado  de  maneira  mais  ou  menos  consciente ou inconsciente durante 
o  processo  de  oferta  de  suas  prestações,  que  consiste  aproximadamente  em  passar  ao  usuário  uma 
mensagem  que  diz:   "Eu  tenho  o  que  te  falta  e,  além  disso,  você  não  entende,  não  sabe  em  que consiste." 
Essa  mensagem  subjaz,  está   "por  trás"  de  toda oferta de prestação de serviços e, provavelmente, também 
de  bens  materiais.  Então,  quando  essa  oferta gera uma demanda, ela não pode estar modulada senão pela  
própria  oferta.   Quem  demanda,  demanda  alguma  coisa  que  já  lhe  fizeram  acreditar  que  não  tem  e  que  o 
outro  tem.  Mas  é  tão  complexa,  tão  sutil,  tão  técnica,  que ele não sabe o que  é. Portanto, para poder dar 
o  primeiro  passo  em  toda  análise  de  intervenção  institucional  –  que  é  analisar  a  demanda­,  esta  análise 
deve  ser  articulada  com  a  forma  em  que  foi  produzida,  ou  seja,  com  a  oferta.  Isso  exige  por  parte  do 
coletivo  analisante,   o   coletivo  prestador de serviço, um severo processo de auto­análise de como produzir 
a  oferta  de   seus  trabalhos.  Entre  a  organização  analisante,  interveniente,  e  a  organização  analisada, 
intervinda,  vai­se  produzir  uma  interseção  que  gera  uma  nova  organização,  que  é  o  verdadeiro  objeto  de 
análise. Não existe aqui, então, uma posição clássica de objetividade: não  somos os experts que sabem e a 
organização­cliente  não  é  um  objeto  passivo  e  ignorante.  Mas juntos é que vamos tentar  entender como é 
esta realidade nova que se deu na interseção de nosso encontro. 
Outro  termo  fundamental  dentro  do  Institucionalismo  é  analisador.  A  Psicanálise já classicamente, 
concebeu  o  conceito  de  derivados do inconsciente, formações  do  inconsciente, formações transicionais ou 
transacionais  –  todos  esses  termos  são  sinônimos  e  designam  aqueles  fenômenos,  sejam  eles  pontuais  ou 
mais  amplos,  como  sonhos,  atos  falhos,  lapsus  linguae,  chistes,  sintomas,  delírios,  que  são  elementos 
privilegiados  dentro  do  material  que  um  paciente  apresenta  para  ser  analisado.  Esses  produtos  não  são 
resultado linear de uma instância ou de um setor da personalidade, não são efeitos exclusivamente 
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conscientes,  nem  exclusivamente  pré­conscientes,  nem  exclusivamente  inconscientes.  Não  são  dados 
claramente  efetuados  pelo  superego,  nem  pelo  ego  ou  o  id.  São  fenômenos  resultantes  de  uma 
combinação,  de  uma  mistura,  da  articulação  de  uma  transição  ou  de  uma  transação  entre  todas  essas 
instâncias.  Por  isso  é  que  se chamam, segundo uma das denominações, efeitos transacionais ou formações 
transacionais.  Só  que  em  Psicanálise  estes  efeitos  têm  por  característica,  pelo  menos  fenomênica  ou 
técnica,  exprimir  exclusivamente  a  problemática  de um sujeito, manifestá­la, denunciá­la. O analisador, em 
análise  institucional,  é  um  efeito  ou  fenômeno  formalmente  parecido  com  esses  efeitos  privilegiados  do 
material da Psicanálise. Mas as diferenças são as seguintes: 
Primeira:  na  materialidade  fenomênica,  na  aparência  desses  fenômenos,  não  se  privilegiam, 
absolutamente,  os  efeitos  verbais.  Qualquer  materialidade  pode  ser  suporte de um  analisador, ou seja, um 
analisador  não  é  necessariamente  um  discurso,  mas  pode  ser  um  monumento,  a  forma  como  está 
elaborada  a  planta  arquitetônica  da  organização,  pode  ser  uma  característica  dos  modos  de  relação  que 
não  está  formalizada  nem  anunciada  em  parte  alguma,  ou  seja,  pode  ser  um  costume  e  não  uma  norma, 
nem  uma  lei;  pode  ser um arquivo, isto é, a maneira como está organizada a memória de uma organização; 
pode  ser  uma  distribuição  do  tempo  ou  do  espaço  na  organização.  E  é  claro  que  podem  ser  também 
formas  escritas  ou  faladas  do  discurso  organizacional.  Por exemplo, os estatutos, os regulamentos, a carta 
de  princípios,  o  organograma,   o   fluxograma  etc.  E  podem  ser  os  relatos  ou  as  mensagens  verbalmente 
proferidas  pelos  integrantes  nas  entrevistas,  nos  questionários  ou  em  qualquer  forma  de  comunicação 
intersubjetiva.  Os  mitos,  os  rituais,  o uso do dinheiro, do lazer, da sexualidade, do domínio e o cuidado de 
si,  etc.  Então,  a  materialidade  expressiva  de  um  analisador  é  totalmente  heterogênea.  Não  é  que  em 
Psicanálise  não  o  seja,  porque   sabemos  que  em  Psicanálise  os  comportamentos,  as  atitudes  corporais,  a 
couraça  caracterológica  também  são  considerados  formações  do  inconsciente;  só  que  a  Psicanálise  tem 
uma  persistente  predisposição  a  privilegiar  os  efeitos  verbais  como  sendo  os  veículos  predominantes  das 
formações  do  inconsciente,  e  a.  subordinar  os  outros  à  compreensão  verbal.  Isso  é  claro.  Um  analisador 
não é assim. E essa é a primeira diferença. 
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Segunda:  um  analisador  não  é  apenas  um  fenômeno  cuja  função  específica  é  exprimir, manifestar, 
declarar,   evidenciar,  denunciar.  Ele  mesmo  contém  os  elementos  para  se  auto  entender,  ou  seja,  para 
começar  o  processo  de  seu  próprio  esclarecimento.  Isto  não  é  fácil  de  ser  explicado.  Uma  formação  do 
inconsciente  é  um   produto  a  ser  analisado  (com  uma  maior  ou  menor  intervenção  do  analista).  Um 
analisador  é  um  produto  que  pode  se  auto­analisar.  Existem  grandes  analisa  dores   e  pequenos 
analisadores.  Um  grande  analisador  é  a  Revolução  Francesa,  por  exemplo,  revolução  burguesa,  como 
todo  mundo  sabe,  produto  de  determinados  encontros  e  fluxos  de  forças  da  decadência  da  monarquia  e 
da  ascensão  da  burguesia  média,  de  certo  grau  de  migração  do  trabalhador  do  campo  para  a  cidade, 
acumulação  de   capital  mercantil  e  usurário  etc. Mas esse analisador também produziu a inteligência de seu 
próprio  processo com os pensadores da Revolução Francesa e ele foi capaz de autoconduzir­se dentro de  
certos  limites  à  plenitude  da   realização  de  seu  destino  histórico,  que  foi  marcar  o  fim  do  feudalismo  e  o 
início  ou  as  preliminares  do  capitalismo  incipiente  e  do  socialismo  real.  Mas  podem  haver  pequenos 
analisadores,  e  esses  podem  ser  um  conflito  dentro  da  organização,  um  determinado  acidente  numa usina 
atômica  (geograficamente  pequeno,  pelo  menos)  etc.  Só  que  esse  analisador,  colocado  em  condições 
propícias,  tem  a  possibilidade  de  não  apenas  manifestar­se,  mas  também  de   se  compreender;  ele  não 
precisa  ser  analisado  de  fora,  ele  predsa  que  se  lhe  aportem  condições  para  auto­analisar­se,  sendo 
assumido  por  seus  protagonistas.  E  dessa  maneira,  não  apenas  é  capaz  de  enunciar,  como  também  de 
resolver  a  situação  da  qual  ele  é  emergente.  Nesse  sentido,   existem  os   chamados  analisadores  naturais  – 
que  é  uma  expressão  inadequada,  porque  analisadores  naturais  são  os  terremotos,  e,  realmente, a análise  
institucional  nunca  conseguiu  compreender,  pelo  menos  nos  seus  aspectos  geológicos,  este  tipo  de 
fenômeno,  não  está  preparada  para  isso.  "Natural"  quer  dizer  espontâneo,  que  também   é  uma  má 
expressão,  porque   espontâneos  todos  são.  Então,  a  definição  correta  é  dizer  que  são  analisadores 
históricos,  ou  seja,  que  a  própria  vida histórico­social­natural os produz por conta própria como resultado 
de  suas  determinações.  E  existem  analisadores  artificiais  ou  construídos,  que  são  dispositivos  que  os 
analistas institucionais inventam, introduzem 
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nas  organizações  para  propiciar  o  processo  de  explicitação  dos  conflitos  e  de  resolução  dos  mesmos.  É 
importante  enfatizar  que  os analistas institucionais na prática técnica, ao nível de produção de analisa dores 
construídos,  se  valem  de  todo  e  qualquer  recurso,  seja  de  tipo  artístico,  cenográfico,  dramático, 
procedimentos  de  tipo  ativista,  político,  montagens  de  tipo  propriamente  científico,  experimental,  lógico, 
sociológico,  antropológico  e  manobras  do  tipo" convivência prolongada", em que o analisador institucional 
passa  a  fazer  parte  orgânica  do  conjunto  que  vai  estudar,  produzindo  assim  um  artefato  próximo  à  vida 
cotidiana. 
O passo seguinte será falar da análise da implicação. 
Felizmente já antecipamos um pouco sobre ela através da análise da oferta. A implicação se define como o 
processo  que  acontece  na  organização  de  analistas  institucionais,  na  equipe  de  análise  institucional,  a  raiz 
de seu contato, de sua interseção com a organização analisada, intervinda. Também é um conceito que tem 
certa  dívida  com  a  chamada  contra  transferência  da  Psicanálise.  Só  que  a  contra  transferência  em 
Psicanálise  é  a  reação  –  consciente  ou  inconsciente  –  que  o  material  do  paciente  produz  no analista; e na 
análise  institucional  a  implicação  não  é  apenas  um  processo  nem  psíquico  nem  inconsciente,  mas  um 
processo  de  materialidade  múltipla,  complexa  e  sobredeterminada,   um  processo  econômico,  político, 
psíquico  heterogêneo  por  natureza,  que  deve  ser  analisado  em  todas  as  dimensões.  E  não  é  apenas 
reativo,  ou  seja,  não  é   a  resposta  da  equipe  interventora  e  analisadora  ao  contato  com seu objeto, pois é 
prévia  a  este  contato;  não  começa no usuário: é recíproco,  é simultâneo e é parte indissolúvel do processo 
de  análise  da  organização, ou seja, é o contrário de uma análise "objetiva". É, como está  claro nas ciências 
físicas, a análise da  interação, da interpenetração destas duas organizações, uma análise variável da relação 
entre  o  sujeito  e  o  "objeto".  Poder­se­ia  dizer  que  não  deixa  de ser parecida com uma  dás definições que 
Freud  dá  de  contratransferência  como  transferência  recíproca.  Em  continuação,  veremos   rapidamente 
alguns  termos,  sendo  que,  de  alguma  forma,  os  retomaremos  na  exposição  correspondente  aos  itens  que 
compõem  o  roteiro  de  uma  intervenção  institucional  típica,  que  denominamos  standard.  Insistiremos uma 
vez  mais  em  que  estas  definições,  cuja  finalidade  é  basicamente  transmitir  noções  introdutórias  para  os 
principiantes interessados no movimento, 
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seguramente  não  serão  nem  exaustivas  nem  precisas.  As  mesmas  estão  armadas  com  sentidos  diversos e 
heterogêneos  tomados  de  diferentes  obras  e  autores, artificialmente extraídas dos contextos teóricos, mais 
ou  menos  sistemáticos,  em  articulação  com  os  quais  adquirem  seus  significados  prevalecentes.  Sempre 
será  possível  voltar  sobre  estas  noções  nos  textos  da  bibliografia  que  lhes  são  mais  específicos  para 
multiplicar e precisar suas acepções. 
No  Institucionalismo  denomina­se  equipamentos  a  uma  série  de  organizações,  estabelecimentos, 
aparatos,  maquinarias   e  tecnologias  muito  diversificados  e  inclusivos, de grande, médio ou pequeno porte, 
cuja  finalidade  fundamental  (mas  não  única)  está  a serviço da repressão, do registro ou do controle social. 
Uma  das maneiras possíveis de classificá­los é referindo­se ao tipo e grau de  violência que empregam para 
cumprir  sua  função,   enfatizando,  além  do  mais,  que  sua  condição  é  mais  propriamente  determinada  por 
essa  função  que por sua materialidade, estrutura, forma etc. Alguns exemplos conspícuos  de equipamentos 
são  os  que  certa  tradição  marxista  chamava  de  "aparatos".  Estes  cumprem  funções  eliminatórias, 
segregacionistas  ou  punitivas   (como  por  exemplo,  as  Forças  Armadas,  a  Polícia,  a  censura  cultural  ou  a 
Psiquiatria  supressiva).  Outros  apontam  para  a doutrinação ou a informação tendenciosa (certa orientação 
da Religião, da Educação, da Comunicação de massas ou a Família). 
Mas  um  equipamento  pode  ser  também  uma  determinada  organização  beneficente,  ou  certa 
modalidade  de  uso  de  um   meio   de  transporte  ou  de um eletrodoméstico, assim também como técnicas de 
cuidado  e  gerenciamento  da  personalidade  por  parte  das   forças  repressivas.  O  certo  é  que  os 
equipamentos  são  predominantemente  funcionais  ao  poder  (seja  do  Estado  ou  das   entidades  civis  e 
privadas  hegemônicas)  e  a  reprodução  da  ordem  constituída  entendida  como  a  soma  do 
instituído­organizado. 
De  um  dispositivo  pode,  de  alguma  maneira,  dizer­se  que  é  o  contrário  de  um  equipamento. 
Trata­se  de   uma  montagem  (termo  que  freqüentemente  se  utiliza  em  cinematografia,  teatro  ou  nas  artes 
plásticas)  de  elementos  extraordinariamente  heterogêneos  que  podem  incluir  "pedaços"  sociais,  naturais, 
tecnológicos  e  até  subjetivos.   Um   dispositivo  caracteriza­se  pelo  seu  funcionamento,   sempre simultâneo a 
sua formação e sempre 
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a  serviço  da  produção,  do  desejo,  da  vida,  do  novo.  Um  dispositivo  forma­se  da  mesma  maneira   e  ao 
mesmo  tempo  em  que  funciona,  gerando  acontecimentos  insólitos,  revolucionários  e  transformadores. 
Embora  seu  tamanho  e  duração  sejam  tão  variáveis  quanto  as  materialidades  que  o  compõem,  têm  a 
peculiaridade  de  nascer, operar e extinguir­se  enquanto seu  objetivo de metamorfose e subversão histórica 
se  realizam.  Um  dispositivo  em  geral  não  respeita,  para  sua  montagem  e   funcionamento,  os  territórios 
estabelecidos  e  os  meios  consagrados;  pelo  contrário,  os  faz  explodirem  e  os  atravessa,  conectando 
singularidades  cuja  relação  era  insuspeitável  e  imprevisível.  Gera,  assim,  o  que se denomina linhas de fuga 
do  desejo,  da  produção   e  da  liberdade,  acontecimentos  inéditos  e   invenções  nunca  antes  conhecidas. 
Nesse  sentido  é  óbvio  que  os  dispositivos,  também  chamados  agenciamentos,  têm  a  ver  com  a 
transversalidade  (conceito  que já antecipamos e que definiremos mais adiante) e, num sentido restrito, com 
o instituinte­organizante. 
Um grupo político sujeito (quer dizer, que se dá seus próprios meios e leis inseparáveis de seus fins 
e  que  não  pretende  persistir  mais  além  de  seu  objetivo  revolucionário),  uma  obra  artística,  um 
descobrimento  científico,  um  pensador  original  e  libertário,  um  inovador  dos  costumes  sexuais   ou   das 
convicções  éticas   podem  constituir­se  num  dispositivo,  assim  como  podem  sê­lo  certa  arrumação  de 
máquinas técnicas (como as rádios livres) ou de defesa da natureza (como os movimentos ecológicos). Por 
último,  digamos  que  um  dispositivo  não  é  a  obra   de  indivíduos  ou  sujeitos,  ele  os  inclui,  os  constitui  e  os 
"maquina" para concretizar suas realizações. 
Em  diferentes  momentos  da  constituição  de  um  campo  de  análise  e/ou  intervenção,  os 
institucionalistas  efetuam  vários  tipos  de  diagnósticos  –  sempre  provisórios  –  da  estrutura,  dinâmica, 
processos,  contradições  principais e secundárias, opositivas e antagônicas, conflitos, defesas,  mecanismos, 
magnitudes  de  produção,  reprodução  e  antiprodução,  analisa  dores,  potências,  poderes, territórios, linhas 
de  fuga,  equipamentos,  dispositivos  da  área  ou  organização  intervinda.  O  diagnóstico  é  importante  para 
justamente  instituir,  organizar,   planejar,  antecipar,  decidir  os  passos  que  comentaremos  em  seguida,  tais 
como  contrato,  estratégia,  logística,  táticas,  técnicas:  Isso  sem  esquecer  que  boa  parte  do  percurso  é 
imprevisível. 

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Os  institucionalistas,  para  efetuar  análises  –  seguidas  ou  não  de  intervenções,  precisam  fazer 
acordos,  pactos,  convênios   (ou  como  se  queira  chamá­los)  com  as  organizações,  estabelecimentos  ou, 
simplesmente,  com  os  coletivos  de  usuários  "clientes".  A  estes  acordos  costuma­se  denominar  contrato. 
Eles  versam  sobre  os  compromissos  mútuos  em  que  se  explicitam  os  respectivos  deveres  e  direitos  das 
partes  interessadas.   Em  muitos  aspectos  o  contrato  institucionalista  é  semelhante  a  qualquer  outro  de 
prestação de  serviços. Trata principalmente de tempo (duração total, freqüência dos trabalhos), honorários 
ou  outro  tipo  de  retribuição,  delimitação  de  objetivos  e  autorização  de  acesso  aos  materiais  de 
investigação,  promessa  de   sigilo  quanto  à  informação  obtida durante a investigação etc. Como veremos, é 
importante  estar   atento  ao  fato  de  que  nem  sempre  o  contrato  representa um acordo com a totalidade do 
coletivo  intervindo,  mas  com  certos  segmentos do mesmo. Por outro lado, tem especial significação qual  é 
a relação jurídica (emprego, serviço profissional independente,  solidariedade militante etc.) que fundamenta 
o  contrato.  Mas  o  essencial  a  recordar  é  que  o  contrato  no  Institucionalismo  não  é  uma  operação 
comercial  externa  ao  processo  que  a  intervenção  como  serviço  deflagra.  Os  diversos  aspectos  do 
contrato:  tempo,  dinheiro,  contratantes,  objetivos,  expectativas,  são  analisadores,  emergentes  da 
problemática a ser pesquisada. Seu tratamento já é parte ativa da análise e da intervenção. 
Designa­se  por  logística  o  balanço  que  os  institucionalistas  fazem  de  todas  as  forças,  habilidades, 
elementos,  recursos  etc.  de  que  se  dispõe  ao  começar  uma  intervenção;  quer  dizer,  com  que  se  pode  
contar  a  favor  e  contra  para  poder  levar  o  trabalho  adiante  com  um  mínimo  de  possibilidades  de 
realização. 
A  estratégia  sistematiza  os  grandes  objetivos  a  serem  conseguidos  (cuja  máxima   expressão  é  a 
auto­análise  e  autogestão  do  coletivo  intervindo),  assim  como  a  progressão das manobras, dos espaços e 
territórios que se colocarão, a previsão de vicissitudes, opções, alternativas, avanços, retrocessos etc. 
As  técnicas  são  pequenos  segmentos  nos  quais  se  decompõe  a  estratégia.  Para   dar  um  exemplo 
bélico,  totalmente  metafórico:  a  estratégia  decide   se  será  uma  guerra  de  ocupação,   de  fronteiras,  punitiva 
ou de extermínio parcial; se essa guerra se dará por terra, mar ou ar, quais serão os aliados, simpatizantes, 
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  neutros  e  inimigos  etc.  As  táticas   referem­se  a  batalhas  circunscritas,  à  área  onde  se  desenvolvem,  à 
participação  da  infantaria,  cavalaria,  o  horário,   os  movimentos  de  tropas  etc.  As  técnicas,  prosseguindo 
com a metáfora, aludem aos armamentos propriamente ditos: fuzis, morteiros, granadas etc. 
No  Institucionalismo  é  fácil  fazer  a  transposição  do  que  seja  a  logística,   a  estratégia  e  as  técnicas  do 
campo  bélico  ao  campo  da  intervenção,  sem  tomá­las  ao  pé  da  letra.  É  interessante  enfatizar 
drasticamente  que  no  Institucionalismo,  uma  vez  que  se  adquira  uma  base  de  entendimento  do  panorama 
de  uma  organização e se concretizem os primeiros dispositivos para um  contrato e diagnóstico provisórios, 
enquanto  já  se têm,  baseados nisso, esboços de uma logística, estratégia geral e primeiras  táticas, a eleição 
de  técnicas  é  consideravelmente  livre.  Quer dizer; será ditada pela inspiração e o treinamento, assim como 
pelas  predisposições  pessoais  da   equipe  operadora,  objetivo  geral  e  imediato  perseguido  e  momento  e 
peculiaridades do coletivo em pauta. 

Procedimentos interpretativos, informativos,  esclarecedores,  de  sensibilização,  de  expressão,  de 


discussão,  agenciamentos  artísticos,  desportivos,  convivenciais,  lúdicos,  praticados  em  grupos  e  em 
assembléias podem ser adotados segundo as circunstâncias. 
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV 

1)  Qual  é  o  sentido  dos  termos  sujeito,  desejo  e  sobredeterminação  em  suas  teorias  de  origem  e  no 
lnstitucionalismo? 
2) Que diferença existe entre os conceitos de campo de análise e campo de intervenção? 
3) O que significa dizer que a análise da oferta deve preceder a da demanda? 
4) O que é análise da implicação? 
5) O que são: analisador, equipamento, dispositivo, logística, estratégia, táticas e técnicas? 
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Capítulo V 
AS TENDÊNCIAS MAIS CONHECIDAS DO INSTITUCIONALISMO 

Tentarei resumir três modalidades de Institucionalismo que não são as únicas, nem necessariamente 
as  mais  importantes,  mas  são  as   que  mais  notoriedade  têm  atingido.  São  também  as  mais  difundidas, 
particularmente  aqui  no  Brasil.  Terei  de  ser  muito  esquemático.  Tentarei  uma  espécie  discutível  de 
classificação, de graduação entre essas três tendências. 
Em  termos,  digamos,  políticos,  eu  diria   que  da  primeira enunciada – a Sociopsicanálise  de Gérard 
Mendel  –  à  útima  –  a  Esquizoanálise  de Deleuze e Guattari  –,  existe uma graduação à medida que Mendel 
articula  uma   concepção  mais  ou  menos  tradicional  da  Psicanálise  com  uma  igualmente  ortodoxa  do 
Materialismo  Histórico.  Produz,  assim,  uma  forma  de  abordagem  das  organizações e  das instituições que, 
poderíamos  dizer,  é  politicamente  moderada,  se  é  que  tal  termo  exprime  alguma  coisa.  Já  a  Análise 
Institucional  de  Lourau  e  Lapassade  e  a  Esquizoanálise  de  Deleuze  e  Guattari,  eu  diria,  são  propostas 
políticas  mais  subversivas,  mais  enérgicas,  mais  ativas,  com  certos  matizes  diferenciais  entre  elas,  que 
podemos tratar de caracterizar nesta exposição. Então, contar com certo conhecimento de 
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Psicanálise  e do Materialismo  Histórico (entre outros saberes) é necessário  para podermos explicar isto de 
forma breve, introduzindo­os nesta teoria, metodologia e técnica sociopsicanalíticas. 
A  Psicanálise  é  uma  disciplina   que  foi  exigida  pela  prática  clínica.  Ela  se  ocupa  da  psicopatologia 
com uma expectativa de cura, mas, no seu percurso e desenvolvimento, Freud  criou também uma teoria da 
estrutura  e  do  funcionamento  do  psiquismo  "normal".  Nesta  teoria  distinguem­se,  na  constituição  do 
psiquismo,  duas  séries  assim  chamadas:   a  série  disposicional  e  a  série  desencadeante.  Essas  séries 
denominam­se  complementares.  Tudo  que  acontece  na  vida   psíquica,  tudo  que  se  pode  considerar 
fenômenos  ou  efeitos  da  estrutura  do  psiquismo  é  determinado  pela  articulação  entre  estas duas séries. A 
série  disposicional  é  composta  pelos elementos heredogenéticos que um sujeito psíquico tem e que lhe são 
legados  por  seus  progenitores,  ou  seja,  pelos  sujeitos  psíquicos  que  o  geraram.  Acrescente­se  a  isso  as 
experiências  da  infância  precoce.  Então,  o  hereditário  mais  as  experiências  tidas  durante a gestação, mais 
as  correspondentes  ao  parto  e  primeira  infância,  tudo  isso  fica  registrado  e  organiza o psiquismo segundo 
uma  das  séries:  a  série  disposicional.  Mas  com  essa  série  disposicional  e  a  partir  de  quando  começa  a 
chamada  latência,  isto  é,  com  o  fim  do  complexo  de  Édipo  (classicamente  entre  os  cinco  e  seis  anos  de 
idade),  o  sujeito  se  incorpora  plenamente  à  vida  social,  adquire  contato  com  os  grupos  chamados 
secundários,  grupos  de  jogos,  de  estudo,  de  educação,  grupos sociáveis no sentido amplo. Seu Superego 
está  instalado  e  com  ele  o  sistema  de  valores  consciente  e  inconsciente  que  vai  classificar  seu  mundo  de 
significações.  As  marcas  que  têm  deixado  nele  as  experiências  libidinais  e  dolorosas  prévias  adquirem 
retroativamente  sentidos  morais.  Suas  representações  são  secundariamente  recalcadas  e  estão  prestes  a 
retornar  do  recalcado.  Em  seguida,  continuam  sucessivas  incursões  nas  atividades  e  grupos  sociais  que 
fazem  com  que  o  sujeito  atravesse  uma  situação  diferente  atrás  da  outra,  e  que  tenha  de  enfrentar  essas 
circunstâncias  com  a  bagagem  disposicional  que  traz.  Essas  eventualidades  vão  exigir  de  seu  aparelho 
psíquico  uma  série  de  movimentos  e  de  adaptações,  de  criação  e  de  transformação.  Algumas  dessas 
situações são altamente tensionantes, intensamente pressionantes para o 
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psiquismo.  Quando  a  série  dessas  experiências,  constituída  pelas  situações  da  vida,  atua  sobre  a  série 
disposicional  que  o  sujeito  traz,  pode  resultar  numa falha do sujeito no processo de simbolização e reação 
produtiva  diante  dessas  exigências  situacionais.  E  isso  resultará  na  doença   psíquica, em sintomas. Então o 
adoecer  psíquico  –  e  também  a  "normalidade"  –  são produtos desta articulação entre a série disposicional 
e  a  série  desencadeante;  pode  efetuar­se  em  comportamentos  ativamente  adaptativos,  sublimatórios,  ou 
pode  ser  causante  de  processos  patológicos.  Outra  forma  de  referir­se  à  série  disposicional  é qualificá­la 
de  acordo  com  o  grau  em  que  o  sujeito  conseguiu,  durante  sua  primeira  infância,  resolver,  elaborar  –  ou 
não  –  o  chamado  Complexo   de  Édipo,  que  constitui  o  núcleo  central  de  sua  série  disposicional.  Se  não 
resolver,  então  esse  desenvolvimento  vai  ficar  afetado  por  "pontos  de  fixação".  Então,  quando  a  série 
desencadeante  atua  sobre  a  disposicional,  gera no psiquismo um processo de regressão  a esses pontos de 
fixação. O psiquismo vai funcionar de uma maneira primária, arcaica, e isto é que vai resultar no retorno do 
recalcado  como  sintoma.  Logicamente,  cada  sujeito  é  singular,  único,  irrepetível,  e  as  configurações  da 
série  desencadeante  –  que  podem  gerar  patologia,  atuando  sobre  a  série  disposicional  –  são  totalmente 
variáveis.  É  por  isso  que  uma  situação  que desencadeia uma patologia para um sujeito (porque atua sobre 
determinada  série  disposicional),  não  é  patologizante  para  outro  sujeito  (que  tem  uma  série  disposicional 
diferente).  No  entanto,  a Psicanálise costuma dizer que existe uma maneira de sistematizar, de universalizar 
quais  são  os  traços  das  situações   desencadeantes  capazes  de  produzir  patologia  em  geral.  Essas  são 
experiências  de  frustração,  experiências  de  privação,  e  experiências  daquilo  que  em  Psicanálise se chama 
castração.   Apesar  de  não  podermos  desenvolver  agora,  é  importante  assinalar  que  entre  frustração, 
privação  e  castração  existem  diferenças.  Privação  refere­se  à  falta  de  subsídios  para  necessidades 
biológicas, concretas; castração refere­se a um tipo  de falta de caráter libidinal (a castração é castrâção  do  
desejo),  ao  passo  que  a  frustração  é  um  desengano  de  amor.  Ou  seja,   são  exigências  diferentes,  faltas 
diferentes  cuja  elaboração  ou  não gera efeitos diferentes. Elas, em geral, atuam em conjunto. De um ponto 
de vista mais amplo, sociopsicanaliticamente falando, poderíamos resumir esses três 

73 ▲

tipos  de  carências,  esses  três  tipos  de  falta,  em  uma  experiência  de  impotência,  em  uma  experiência  de 
incapacidade,   porque  se  trata  de  um sujeito relativamente indefeso, em estado de menos valia, exigido por 
situações  que  o  tornam  carente.  A  carência,  por  sua  vez,  é  produto  da  regressão  ao  estado  de 
dependência  e  de  impotência  iniciais  do  sujeito.  Então,  o  que  lhe  fazem  sentir  é  sua  impotência  para 
resolver  essas  situações.  Isso  é  o  que  desencadeia  o  processo  regressivo a um ponto de fixação, atuando 
sobre  a  série  disposicional,  e   assim  gerando  a  patologia, os sintomas e os quadros das doenças. O sujeito 
se  refugia  em  soluções  imaginárias  e  fantasmáticas  que  eram  as   únicas  de  que  dispunha  no  seu  estado  de 
criança indefesa. 
Até  agora  ficamos  restritos  ao  campo  estritamente  psicanalítico.  Agora,  acontece  que  as 
formulações  da  Psicanálise  são  elaboradas  para  os  sujeitos  "individuais",  para  os  sujeitos  enquanto 
"pessoas"  isoladas.  Apesar  da  Psicanálise  nunca  ter  pretendido   negar  que  os sujeitos psíquicos não vivem 
isolados,  porque  se  relacionam sempre com um'outro – e é do outro que vem a frustração, a castração e a 
privação­,  na   verdade,  nem  o  sujeito  nem  o  outro  são  pensados  como  coletivo  real,  não  são  concebidos 
como  grandes  conjuntos  humanos,  cuja  existência  depende de uma obrigada e necessária associação. Por 
isso  é  que  Mendel  tenta acrescentar ou articular as postulações psicanalíticas com as postulações clássicas 
do  Materialismo  Histórico. Uma das primeiras afirmações do Materialismo Histórico é que para  produzir e 
reproduzir,  ou  seja,   manter  a  vida  humana  sobre  o  planeta,  os  homens  tiveram  que  associar­  se,  que 
estabelecer  uma  aliança  entre  si  para,  fundamentalmente,  dominar  a  natureza  e  colocá­la  a  seu  serviço. 
Isso porque a natureza  não é espontaneamente benévola com o homem. Ela o agride e lhe nega muitos dos 
elementos  de  que  ele  precisa para sobreviver. Então o homem desenvolveu, nessa associação coletiva, um 
processo  de  trabalho   que  é  um  procedimento  de  transformação,  de  domínio  da  natureza  para  que  ela  se 
lhe  tornasse  propícia.  Todos  sabemos   que  o  homem,  como  animal  biológico,  é  particularmente  fraco:  ele 
não  tem  pêlo,  não  tem  couro,  não  tem  garras  nem  dentes  fortes;  é  lento,  frágil.  Inclusive, no momento do 
nascimento,  o homem é dos animais mais particularmente indefesos e incapazes, tanto que seu processo de 
gestação tem de completar­se depois de seu nascimento, 
74 ▲

 
através  de  uma  longa   criação  totalmente  dependente,  que  leva  pelo  menos  dois  ou  três  anos.  Então  o 
homem  compensou,  e  em   parte  piorou,  essa  sua  fraca  defensividade,  com  seu  processo  histórico  de 
associação  coletiva  para trabalhar em conjunto com  a finalidade de dominar a natureza. Digo que em parte 
compensou  porque  isso  foi  o  que  o transformou naquilo que pitorescamente se chama "o Rei da Criação". 
Também  em  parte  piorou  porque  na  dimensão  em  que  o  homem  se  transforma,  por  sua  associação,  em 
uma  espécie  poderosíssima,  cada  um  de  seus  membros  nasce  cada  vez  biologicamente  mais  fraco.  Na 
medida  em  que  se  desenvolvem  as  máquinas  e  os  elementos  técnicos,  nossa  dotação  biológica  está  cada 
vez  pior.  Talvez   acabaremos  tendo  uma"  grande  cabeça"  e  nada  mais. Neste processo associativo, então, 
o homem tem de lutar não  apenas contra os imensos poderes da natureza (que ele tem chegado a controlar 
em  alta  proporção,   mas  que  está  longe  de  controlar  em  sua  plenitude),  mas  tem  de  aprimorar  o 
desenvolvimento  da  palavra,  da  linguagem  e  outras  formas  de  comunicação  inter  ­humana,  o 
desenvolvimento  da  inteligência,  do  processo  de  pensamento  do  cérebro   humano,  o desenvolvimento das 
máquinas – que em princípio podem ser pensadas como enormes extensões ou ampliações dos membros e 
dos  sentidos  humanos.  O  gênero  humano  adquiriu  um  grande  poder,  mas  ele  não  controla  totalmente  as 
forças  naturais.  Elas  o  ameaçam  sempre.  Não  apenas  as  forças  naturais  externas  a  seu  corpo,  como 
também  aquelas   internas  a  seu  corpo,  que  forma parte da natureza. A natureza é brava, e o corpo  é frágil. 
Mas o homem tem outro inimigo perigoso, que são os problemas  gerados pela própria organização que  ele 
tem  de  se  dar  para  se  converter  numa  entidade  coletiva.   Então,  segundo  a  versão  tradicional,  o  homem, 
para  poder  associar­se  e  formar  essas  fortes  civilizações,  teve  de  aceitar  muitas  restrições,  teve  de 
submeter­se  e  privar­se  de  muitas  coisas  para  atingir  esse  poder   coletivo.  Ou  seja,  o  homem  teve  de 
dar­se  leis,  instituições,  organizações,  aparelhos,  tais  como descrevemos, para preservar esta união, que é 
difícil,  exige  muito  sacrifício  de seus integrantes. Mas o pior de tudo é que nunca funciona bem, geralmente 
é  imperfeita.  E  isso   traz  como  conseqüência  o  fato  de  que  a associação entre os homens não é eqüitativa, 
fraterna  nem  justa,   e  que  a  distribuição  dos  sacrifícios, dos esforços e dos benefícios é desigual entre eles. 
Isso dá lugar 
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a  fenômenos  que  podemos  detectar  como  universais  e  onipresentes  na  história  da   humanidade, que são a 
exploração  de  um  setor  da  humanidade  por  outro,  a  dominação de um setor da humanidade pelo outro, a 
mistificação  e  a  manutenção  da  ignorância  de  um  setor  da  humanidade  por  outro.  Isso  faz  com  que  as 
ameaças  da  natureza  e  do  corpo  se  somem  às  ameaças da organização social, da injustiça ou do fracasso 
da  ordem  civilizatória.  Cada  organização  histórica,  cada  civilização,  cada  modo  de  produção  da  vida 
humana  sobre  a  terra  tem  suas  modalidades  de dominação, de exploração e de mistificação. Mas o modo 
de  produção  capitalista  é  o  modo  de  produção  que  atingiu  o  maior  grau  de  extensão  e  de  universalidade 
sobre  o  planeta.  É  também  o  modo  de  produção  em  que  esta  associação  humana  tem­se  tornado  mais 
poderosa  e  mais  capaz  de  dominar  a  natureza,  produzir  riqueza  e  elevar  o  padrão  de  vida  dos  seres 
humanos.  O  muito  conhecido  filósofo  Marcuse  diz  que  chegamos  à  era  da  abundância,  porque  temos 
adquirido  um  poder  produtivo  inédito  na  história  da  humanidade.  Mas  nem por isso, sabemos muito bem, 
temos  conseguido  superar  os  fenômenos  da  exploração,  dominação  e  mistificação  que  no  capitalismo 
adquirem  características  muito  próprias.  Então,  o  que  acontece?  Os  homens  associados,  cuja  principal 
potência  é  a  capacidade  de  trabalho  coletivo,   encontram­se  diante  do  fato  de  que o fruto de seu trabalho 
não  lhes  retorna  na  medida  em  que  eles  deveriam  ser  seus  legítimos  proprietários.  O  poder  sobre  a 
natureza,  o  poder  sobre  o  controle  dos  fenômenos  da  vida,  também  é  injusta  e  desigualmente  repartido. 
Com  o  saber  acontece  a  mesma  coisa.  A  imensa  maioria  dos; homens que trabalham reunidos  vivem uma 
situação de impotência, e não é apenas a fragilidade perante a natureza, frente  à condição mortal e frágil de 
seu  próprio  corpo,  mas  a  incapacidade  devido  à desigual distribuição da riqueza, do poder, do prestígio e 
do  conhecimento.  Então,  de  uma  forma  ou  de  outra,  poderíamos  dizer   que  se  tomamos  a  formulação 
psicanalítica  de  uma  impotência  fundamental,  que  se converte no elemento central da série desencadeante, 
e  a  articulamos  com  o  Materialismo  Histórico,  podemos  dizer  que,  no  sentido  coletivo,  a  experiência 
universal  de  impotência,  que  gera  os  processos  patológicos,  é  produto  dessa  desigual  distribuição  da 
riqueza,  do  resultado  do  trabalho,  do  poder  e  do  prestígio,  que  faz  com  que  quem  gera esses valores, ou 
seja, a imensa maioria da 76 ▲
 
humanidade  que  trabalha,  não  desfrute  dos  resultados  deste  esforço.   Então,  o  que  Mendel  vai  afirmar  é 
que,  se  isso  é  verdade  (e  é  difícil  admitir  que  não  o  seja),  o  lugar  onde  deve  ser  estudada  a  experiência 
essencial  da  impotência  e  o  desencadeamento  dos  processos  patológicos  é  o  "lugar  natural"  em  que  os 
homens  se  associam  para  exercer  sua  potência,  ou  seja,  nos  âmbitos  de  trabalho.  Para  Mendel,  as 
vicissitudes  individuais  dessa  experiência  de  impotência  não  serão  nunca  compreendidas  se  não  forem 
analisadas  num  sentido  coletivo  e  no lugar pertinente onde elas acontecem, que é no lugar de produção. O 
que  Mendel  diz  é  que  isso  deve  ser  abordado  nas  organizações  de  trabalho,  entendendo  o  trabalho  num 
sentido  muito  amplo,  não  apenas  trabalho  industrial,  mas  também  trabalho  escolar,  médico, comercial, ou 
seja,  não  apenas   produção  de  bens  de  consumo,  mas  também  produção  de  serviços;  e  assim por diante. 
Mendel  diz  que  quando  se  abordam  os  coletivos  que  formam  parte  dessas  organizações,  é  fácil  ver  que 
esses  conjuntos  vivenciam, de mil maneiras diferentes, essa experiência de  impotência devido às condições 
do  trabalho  alienado  no  capitalismo.  E  essa  experiência  de  impotência  gera  neles,  incidindo  sobre  a  série 
disposicional  de  cada  um  deles,  um  processo  regressivo.  Só  que  esta  regressão  não  deve  ser  pensada 
como  sendo  da  ordem  individual,  mas   da  ordem  coletiva.  Por  isso,  a  regressão  que  se  produz  é  uma 
regressão  de  um funcionamento psíquico que Mendel chama psico­social ou psico­institucional  a um outro, 
chamado  funcionamento psico­familiar. Isso consiste num processamento psíquico em que o imaginário  e o 
inconsciente  já   não  estão  em  relação  de  retificação  com  o  real,  ou  seja,  recai­se  num  funcionamento  em 
que  os  sujeitos  vivem  uma  vida  fantasmática  –  e  não  uma  vida  simbólica,  adequada  às  circunstâncias 
concretas  que   os  rodeiam,  com um conhecimento simbolizado do que está acontecendo na realidade. Esta 
experiência  de  impotência  gera  uma  regressão  do  psico­institucional  ao  psico­familiar,  no  sentido  em  que 
os  sujeitos  vão  definir  esse campo real em que estão como se fosse uma situação familiar arcaica pela qual  
já  passaram,  quando  se   estava  construindo  sua  série  disposicional.  Ou  seja,  eles  vão  viver  a  situação  de 
trabalho,  a  situação  organizacional  como  se  essa  fosse  uma  situação   familiar  arcaica.  E  as  figuras 
determinantes  reais  dessa  situação  atual  vão  transformar­se   para  eles  nas  figuras  imaginárias  de  sua 
situação familiar. Em 

77 ▲

conseqüência,  reagirão  de  uma  maneira  irreal   e  fantástica,  como  acontecia  na  sua  infância,  em  que, 
objetivamente,  eles   eram  pequenos,  sós  e  impotentes,  e  não  tinham  outra  forma  de   solucionar  essa 
situação  senão  refugiando­se  num  mundo  de  fantasia.  Devido  a  essa  regressão  que  mencionamos,  o 
coletivo  institucional  como  um  todo  faz  uma  regressão  arcaica,  familiar,  e também se refugia no mundo da 
fantasia.  Tenta  solucionar  seus  problemas  de  impotência  mediante  saídas  mágicas,  imaginárias,  como 
sintomas,  atuações,  inibições,  delírios,  somatizações,  enfim,  como  tudo  quanto  constitui  a  patologia 
biopsico­social.  Então,  se   isso  está  mais   ou   menos  entendido,  a  proposta  de  Mendel  é  a  de  deflagrar 
dentro  dessa  classe  institucional  um  processo  de  auto­análise,  feito  em  colaboração  com  uma  equipe 
interveniente,   que permita  aos integrantes deste coletivo fazer a  crítica e obter a compreensão da regressão 
que  os  afeta,  chegando à ressignificação simbólica de sua regressão imaginária, para poder ter de novo um 
acesso  ao  real  atual,  que  estão  negando,  desconhecendo.  Dessa  maneira,  recuperarão  uma  definição 
correta  das  circunstâncias  que  lhes  permitirão  assumir  seu  verdadeiro  poder  como  classe  institucional, 
porque,  afinal  de  contas,  eles  são  os  produtores  da  riqueza,  eles são os geradores  do  poder e eles são os 
que merecem prestígio. 
Este  processo  opera  teoricamente,  como  já  dissemos,  com  pontos  de  vista  e  postulações 
perfeitamente  clássicas  da  Psicanálise  e  do  Materialismo  Histórico.  A  metodologia  de  intervenção 
conserva  muitas  das  características  da  intervenção  psicanalítica,  sobretudo  o  recurso  interpretativo.   É 
preciso  apenas  sublinhar  que  o  conceito  de  "cura"  não  é  individual,  mas  coletivo,  e  não  passa 
exclusivamente   pela  tomada  de  consciência  e  pela  supressão  dos  sintomas,  mas  exige  um  movimento 
coletivo  concreto  de  recuperação  da  margem   de  poder  possível,  que  se  tem  perdido  devido  à  regressão 
do âmbito psico­institucional ao psicofamiliar. 
Agora  resumiremos  a  posição  de  Lourau,  Lapassade  e  seus  companheiros  –  que  são,  senão  os 
criadores  exclusivos,  pelo  menos   os  que  desenvolveram  esta  proposta que se chama Análise Institucional. 
Tentando  outra  vez   uma  síntese,  que  por  tratar  de  ser  clara  pode  resultar  empobrecedora,  digamos   o  
seguinte: 
Para  a  Análise  Institucional,  uma  sociedade  está  ordenada  por  um  conjunto  aberto  –  quer  dizer, 
não totalizável – de 
78 ▲ 

 
instituições.  Uma  instituição  é  um  sistema  lógico  de  definições  de  uma  realidade  social  e  de 
comportamentos  humanos  aos  quais   classifica  e  divide,  atribuindo­lhes  valores  e  decisões,   algumas 
prescritas  (indicadas),  outras  proscritas  (proibidas),  outras  apenas  permitidas  e  algumas,  ainda, 
indiferentes.  Essas  lógicas  podem  estar  formalizadas  em  leis,  em  normas  escritas  ou  discursivamente 
transmitidas,  ou  podem  ainda  operar  como  costumes,  quer  dizer,  como  hábitos  não­explicitados.  As 
citadas  lóÓgicas  se  concretizam  ou  se  realizam  socialmente  em  formas  materiais  ou  "corporificadas"  que, 
segundo  sua  amplitude,  podem  ser:  organizações,  estabelecimentos,  agentes,  usuários  e  práticas.  Cada 
instituição  é  universal,  ou  seja,  indispensável para toda e qualquer sociedadet mas para realizar­se em suas 
formas concretas passa por um momento de particularidade e outro de singularidade única e irrepetível. 
Se  bem  que  cada  momento  da  instituição  seja  positivo  (digamos:  é  como  ela  sabe  ser  em   si 
mesma),  também  tem  uma  relação.de  negatividade  consigo  mesmo,  com  referência  aos  outros  e  em 
relação  ao  sistema  global  que  as  instituições integram e que, ainda que seja de maneira aberta, as engloba. 
Essa característica faz com que quando se analisa uma instituição, como  por exemplo, uma norma universal 
(digamos  as  relações  de  parentesco),  uma  modalidade  particular  do  matrimônio  poligâmico,  ou  um  caso 
singular  do  casamento  de um casal em uma colônia de mórmons norte­americanos, a  partir da organização  
positiva  e  visível  em  que  essas  relações se concretizam, tende­se a atribuir­lhe funções inteiramente claras, 
eficientes  e  em  geral  consideradas  necessárias,   indispensáveis,  úteis  etc.  Assim  consideradas,  essas 
entidades,  tanto  para  o  saber  espontâneo  de  seus  agentes  sociais  quanto  para  os  experts  que  as 
descrevem,  ocultam  funcionamentos  divergentes,  contraditórios  e  antagônicos  que  só  se  evidenciam 
quando  se  decifra  ou  se  entende  as  maneiras  em  que,  como  dizíamos,  cada  uma  é  negada  pela  outra  ou 
pelo  sistema  integral.  Em  palavras  diferentes,  é  preciso  considerar  como  cada  uma  destas  instâncias  está 
ausente  no  seio  das  demais,  e   essa  ausência  é  registrada  como  um  não­saber,  que  é  parte  do  saber 
espontâneo ou técnico que se tem de cada uma delas. 
A  Análise  Institucional  não   é,  então,  um  super­saber  ou  um  meta­saber  absoluto  que  poderia  dar 
conta de todos estes 
79 ▲

desconhecimentos,  positivando  de  uma  vez  por  todas  o  tecido  social.  Pelo  contrário:  trata­se  de  uma 
investigação  permanente,  sempre  lacunar  e  circunscrita  de  como o não­saber e a negatividade operam em 
cada conjuntura. 
Por  exemplo,  no  caso  das  organizações  do  trabalho,  a  Análise  Institucional parte da idéia de que, 
devido  ao  processo que se chama "divisão técnica e social do trabalho", cada coletivo de uma organização 
está  alienado  no  não­saber,  no  não  conhecer  quais  são  as  condições   reais  em  que  está  trabalhando.  É 
vítima,  digamos  assim,  de  um  desconhecimento  que,  em  parte,  é  um  desconhecimento  devido  à 
desinformação  e  à  estrutura  e  funções  mesmas  de  instituições  e  organizações;  é  a  ausência  de  um 
conhecimento  que  nunca  foi  adquirido.  Mas,  em  parte,  é  vítima  de  um  processo  de  doutrinamento  ativo 
por  parte  das  classes  dominantes que lhe transmitem uma definição do mundo, uma noção do processo de 
trabalho,  dos  objetivos  da  vida,  dos  valores,  do  sentido  da  existência  e  uma  definição  da  função  das 
organizações   que  lhe  é  profundamente  desfavorável  e  que  o  faz compactuar com o poder, com as classes 
dominantes.  É  o  que  o  Marxismo  chamava,  classicamente,  de  Ideologia.  Sobretudo  é   o   aspecto  alienado 
da  Ideologia, entendida num sentido menos amplo e mais restrito às organizações, que o mesmo Marxismo 
não  sabe  decifrar.  Isto  é,  esse  mesmo  processo  de  impotência,  ao   qual  se  referia  Mendel,  existe  nas 
organizações,   porque  quem  é  o  proprietário  dos  meios  de  produção,  dos  meios  de  decisão,  também  é 
proprietário  de  um  saber.  E  cada  saber  envolve  um  poder:  a  propriedade  de  um  saber  possibilita  o 
exercício  do  poder  tanto  nas  organizações  capitalistas  quanto   nas  socialistas.  Esse  poder  é  entendido 
como  a  imposição  da  vontade  das  classes  ou  setores  dominantes  sobre  as classes ou setores dominados, 
das  classes  ou  setores  exploradores  sobre  as  classes  ou  setores  explorados.  Isso  gera,  em  todas   as 
organizações,   o   fato,  como  diria  Mendel,  da  classe  institucional  trabalhadora,  tanto  nas  suas  bases  como 
nos  estratos  que  lhe  são  próximos,  desconhecer  os  principais  vetores  que  ordenam a organização na qual 
está  inserida.  Ela  considera  indiscutivelmente  indispensável  o  papel  do  capital  como  "criador  de fontes de 
trabalho",  ela  considera  absolutamente  necessária  a  organização  da  produção  destinada  a  gerar 
mercadorias  (e  não  a  gerar bens de uso), ou destinada à produção de armamentos exigidos pela belicracia 
de Estado. Ela 

80 ▲
 
considera  necessária  a  existência  de  hierarquia  técnica  e  burocrática  em  que  uma  posição  de maior saber 
dá,  "naturalmente",  uma  posição  de  maior  poder.  E  não  teria  de  ser  assim,  forçosamente. E assim apenas 
porque  a  divisão  técnica  do  trabalho  se  faz  coincidir  com  uma  divisão   social.  Mas  a  divisão  técnica  não 
deveria  implicar  nenhum  privilégio  social.  Então,  trata­se  de  criar  um  dispositivo  no  qual   os  coletivos 
possam  analisar  cada  um   dos  fenômenos  de  mal­estar,  de  conflito,  de  impotência,  de  disfunção  que 
aparece  devido  a  toda  esta  divisão  injusta  e  perversa  do  trabalho.   Isso  constitui  parte  do  não­dito 
institucional.  Em  um  sentido  amplo,  o não­dito compreende a relação de não­saber que cada momento da 
instituição guarda com respeito ao outro e o não­saber que cada saber contém pelo fato de ser específico. 
Esses  analisadores  são  muitos,  como  já  dissemos  anteriormente.  Alguns  deles são" espontâneos", 
outros  são  construídos  pelos  interventores  institucionais.  Mas  os   que  podem  delimitar­se  com  maior 
freqüência   são,  por  exemplo,  o  analisa  dor  "dinheiro",  o  analisador  "sexo",  o  analisador  "prestígio",  o 
analisador  "poder".  São  fenômenos  conflitivos,  são  vivências  sofridas,  são  acontecimentos  mais ou menos 
explosivos,  são  lugares  de  atrito  que estouram nas organizações devido ao fato de elas estarem destinadas 
a  um  trabalho  que  produza  não  apenas  um  produto  cujo  resultado  não  seja  planejado  e  reassumido  por 
aqueles  que  o  produzem,  mas  também  uma  série  de  relações  humanas   distorcidas,  monstruosas,  que 
geram  essa  experiência  de  impotência.  Então,  essas  contradições  vão  estourar  em  fenômenos  como o do 
absenteísmo,  como  o  da  diminuição  da  produção,  incidência  do  alcoolismo,  da  tóxico­dependência,  de 
acidentes  de  trabalho,  conflitos,  brigas,  incomunicabilidade,  rebeldia  e  revolta  estéril,  arbitrariedades   que 
as  classes  dominantes  da  organização  costumavam,  e  ainda  costumam,  solucionar  drasticamente,  com 
medidas  disciplinares;  tudo  isso  as  classes  institucionais  dominadas  podem  também  tentar  solucionar  com 
certo  tipo  de  respostas  individualistas,  desordenadas  ou  autodestrutivas.  Então  as  classes  e  grupos 
dominantes,  na  modernidade, descobriram uma disciplina que hoje se pode chamar de  diversas maneiras – 
Recursos  Humanos,  ou  Psicologia  Organizacional,  ou  Relações  Públicas,  ou Relações Humanas –, que se 
destina a transformar toda essa problemática em uma 

81 ▲
simples  questão  de  negociação  ou  comunicação.  Trata­se  de  colocar  os  quadros  em  contato  para  que 
solucionem  esse  assunto  conversando,  negociando  ou  vivenciando,  relaxando­se,  mas  sem   sair  da  lógica 
do  sistema,  sem  que  se  tome  consciência  de  como  as  determinantes  básicas  da  alienação  são  as 
causadoras  dessa  problemática.  O  que  a  Análise  Institucional propõe é  a criação de dispositivos para que 
o  coletivo  se  reúna  e   discuta,  exaustivamente,  esses  fenômenos,  e  descubra  a  maneira como esses efeitos 
antiprodutivos  são  a  expressão,  a  conseqüência,  tanto  do  não­saber  das  contradições  da  estrutura  e  da 
função  do  sistema,  como  um   desvio das forças críticas, das forças revolucionárias, das forças subversivas. 
Trata­se  de   criar  condições  para  que  possam,  dessa  maneira,  correlacionar  esses  analisa  dores com  suas 
causas  e  dar  conta  delas  –  de  forma  a  adquirir  consciência  de  que  não  vão  poder  solucionar  esses 
fenômenos  sem  uma  ampla  reformulação  da  estrutura  e  do  processo  produtivo  em  si   mesmo,  mas  nas 
formas peculiares que este adquire em seu caso singular. 
O  objetivo,  pode­se  ver,  é  parecido  com  o  de  Mendel.  Em  todos  os  dois  há  certa  semelhança, 
mas  também  diferenças.  O  objetivo  último  é  propiciar  a  auto­análise  e  a  autogestão,  ou  seja,  a 
recuperação  do  poder  de  organização  e  do  autogerenciamento  do  processo  produtivo,  eliminando  as 
situações  de  burocracia,  de  imposição,  de  dissociação  –  não  a  diferenciação  técnica,  que  é  necessária­, 
mas  a  dissociação  e  hierarquização  social  do  trabalho.  Mas  a  Análise  Institucional  é  mais  crítica  com  a 
Psicanálise e o Materialismo Histórico que a Psico­Socioanálise. 
Um  dos  aspectos  importantes  desta  postura  é  a  afirmação  de que a equipe interventora também é 
uma  organização  e  que  ela também pode sofrer os efeitos  desta divisão técnica e social do trabalho. E  que 
também  existe para ela um  certo desconhecimento de como as  características gerais do sistema incidem no 
trabalho  coletivo  que  ela  está  realizando;  a  isso  se  chama  "implicação".  Então,  a  equipe  interveniente 
também  vai  integrar­se  com  a  organização  intervinda  numa  organização  compartilhada, na qual vão poder 
analisar  os  fenômenos  de  alienação  de  uma  e  de  outra.  De  modo   que  esse  processo  autogestivo  e 
auto­analítico,  que  vai  tentar deflagrar na organização intervinda, vai ser ocasião de poder analisar também 
os seus próprios conflitos da mesma natureza. Finalmente, cabe 
82 ▲

 
esclarecer  que  uma  intervenção  pode  fazer­se  "a  frio",  quando  se  pratica  sobre  uma  organização 
circunscrita,  com  uma  conflitiva  mais  ou  menos  moderada,  ou  "a  quente",  quando  se  opera  no  seio  de 
processos  ativíssimos  que  ocorrem  dentro   de  uma  tentativa  de  transformação  autogestiva  generalizada de 
uma sociedade inteira. 
Tentarei  agora  introduzir  a  Esquizoanálise  de  Deleuze   e  Guattari,  tratando  de caracterizar algumas 
diferenças  essenciais.  Creio  que  elas  poderiam  passar  pela  questão  de  que  a  Sociopsicanálise  de  Gérard 
Mendel  e  a  Análise  Institucional  de  Lapassade  e  Lourau,  em  última  instância  –  apesar  de  sua  franca 
inspiração  libertária,  de  sua  enérgica  vocação   revolucionária  –  são  prestações  de  serviço  mais  ou  menos 
tradicionais.  Isto  é,  a  demanda,  o  requerimento  de  uma análise de uma intervenção institucional ou do tipo 
sócio­analítico,  é  feita  por  alguns  setores  ou  pela  totalidade  de  um  coletivo  organizado  a  outro  coletivo 
organizado,  que  oferece  seus  serviços  de  uma  maneira  mais  ou  menos  tradicional,  como  prestação  de 
serviço  profissional.  Isto  é,  os  sociopsicanalistas  e os analistas institucionais, apesar da rigorosa autocrítica 
que  exercitam,  apesar  de  uma  vocação  militante  que  têm  no  seu  trabalho, não deixam de ser experts, não 
deixam  de  ser  técnicos, científicos; não deixam de estar agrupados neste  tipo de  organização característica 
dos  experts  profissionais.  Por  exemplo:  o grupo de Mendel, que se chama Degenettes, trabalha em muitos 
lugares  do  mundo,  mas  tem  uma  espécie  de  central  em  Paris.  Pode­se,  então,   ir  até  lá  e  solicitar  seus 
serviços.  Isso  gera,  entre  a  organização  solicitante  e  a  organização  solicitada,  todo  um  processo  de 
diagnóstico,  prognóstico  e  indicação,  e  um contrato de trabalho. Então, apesar de  todas as ressalvas, auto 
críticas  e  análise  da  implicação,  trata  se  de  uma  prestação  profissional  de  serviço,  na  qual  se  discutem 
honorários,  tempo  e  demais  coisas.  Além  disso,  é  geralmente  um  serviço  apresentado  por  um  coletivo 
organizado  a  outro  coletivo  organizado,  dentro  de  um  marco  mais ou menos convencional, ou seja, a uma 
escola,  a  um  sindicato,  hospital,  fábrica,  convento,  quartel  etc.  Isso,  como  já  dissemos,  se  denomina" 
autogestão  a  frio",  enquanto  a"  autogestão  a  quente"  é  a  gerada  numa  situação  revolucionária  mais  ou 
menos generalizada. 
Deixando  momentaneamente  de  lado  as  características  teóricas  da  Esquizoanálise  de  Deleuze  e 
Guattari, que são muito 
83 ▲

sofisticadas  e  complicadas,  digamos  que  a  relação  de  Deleuze  e  Guattari  com  a  Psicanálise  e  com  o 
Materialismo  Histórico  é  muito  mais   complexa  que  a  de  Lourau  e  infinitamente  mais  distante  que  a  de 
Mendel.  A  posição  de  Deleuze  e  Guattari  é  muito  mais  crítica  com   respeito  a  todos  os  grandes 
monumentos  ocidentais  do  conhecimento  que  a dos outros autores das outras orientações. Eu diria que de 
Mendel  a Deleuze e  Guattari existe, politicamente, todo um abandono paulatino do Liberalismo e da Social 
Democracia  e  até  do  Marxismo,  para  se  aproximar  muito  mais  do  Anarquismo.  Então,  uma  diferença 
técnica  central  é  que  para  Deleuze  e  Guattari  não  existe,  necessariamente,  essa  prestação  de  serviços 
convencionais.  A  Esquizoanálise  pode  ser  feita  por  qualquer  pessoa  e  em  qualquer  lugar.  É  considerada 
não  como  uma  ciência  ou  como  uma  disciplina,  mas  basicamente  como  uma  nova  forma  de  pensar,  um 
modo  de  ser,  ou  uma  maneira  de  viver.  Propõe  algo  assim  como  um  processo  de  análise  permanente, 
generalizado  e  ubíquo,  presente  por  toda  parte,  em  qualquer  momento,  e  protagonizado  por  qualquer 
pessoa que tenha, naturalmente, interiorizados os princípios teóricos desta concepção – que não se reduz a 
nenhuma  das  que  a  precederam.  Não  implica,  necessariamente,  uma  relação  de  contratação.  Não  é, 
indispensavelmente,  desempenhada  por  experts  nem  por  profissionais.  Não  implica  um  lugar   nem  tempo 
determinado.  Não  é  necessariamente  uma  atividade  coletiva,  senão  que  pode  ser  dual  ou  individual. 
Sequer  implica  um  trabalho  de  um  agente  sobre  um  usuário,  mas  que  pode  ser  um  trabalho  feito  por  um 
sujeito  sobre  si  mesmo.  Mas  que  tem  também  um  aspecto  analítico,  ou  seja,  a  compreensão  de  como as 
determinações  alienantes  do  sistema,  responsáveis  pela  dominação,  pela  exploração  e  pela  mistificação, 
estão  presentes  em  cada  uma  de  nossas  atividades  vitais,  as  afetivas,  as  sentimentais,  as  econômicas,  as 
políticas,  as  artísticas,  as  relações  com  os  outros  e  as  relações  conosco  mesmos.  Eu  diria  que  é  uma 
posição  maximalista  ou  extremista  dentro  do  Institucionalismo.  Além  disso,  que  não  tem  técnica  nem 
metodologia  própria  –  características  das  duas  posições anteriores. Para ela, são os princípios teóricos de 
compreensão  que   dão  um  entendimento  que  permite  localizar  a  alienação  e  propiciar,  per  se,  a  invenção 
de  uma  metodologia  e  de  técnicas,  táticas  e  estratégias  absolutamente  singulares  para  cada  caso,  para 
cada situação, e que não podem ser sistematizadas 
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nem transladadas para outra oportunidade. 
Então,  poderia­se  perguntar:  essa  teoria  da  Esquizoanálise  se  aproximaria  mais  da filosofia, é uma 
doutrina,  uma  ideologia,  uma  crença?  A  rigor,  apesar  de  um  de  seus   produtores  ser  considerado o maior 
filósofo  contemporâneo,  na   nossa  opinião  não  se  trata  de  filosofia.  É  alguma  coisa  que  está  além  da 
filosofia  porque  é  um  entendimento  do  mundo,  da  história,  da  vida,  do  psiquismo,  que  pretende  ser  um 
novo  gênero,  não  enquadrável,  nem  como  uma  ciência,  nem  como  ideologia,  mas, na versão dos autores, 
como uma proposta radicalmente nova, que não é redutível a nenhum dos gêneros de saber anteriores. 
Novamente  imagino  que  os   que  já  ouviram  falar de certas idéias  de Deleuze e Guattari, como, por 
exemplo,  aquela  das  máquinas  desejantes,  se  perguntaram  qual  é  a  definição  de  desejo  em  cada  uma 
dessas  escolas  do  Institucionalismo.  É  uma   pergunta  justa  que  vai  ter  uma  resposta  pobre:  em  Mendel,   a 
concepção   do   desejo,  eu  poderia  dizer,  é  rigorosamente  freudiana:  é  a  que  Freud  dá  nas  formas  que,  
segundo  uma  epistemologia  clássica,  são  as  mais  amadurecidas  de  sua  obra.  Em  Lourau  –  apesar  de  ele 
considerar  muitas  propostas  freudianas,  ele  não  dá  muita  ênfase  a   essa  categoria  e  a  esse  conceito.  Não  
lhe  interessa,  particularmente, a participação do desejo, embora reconheça a existência de um  inconsciente 
institucional  e  organizacional,  mas  não  é  um  inconsciente  particularmente  relacionado  com  o  desejo  e  sim 
um  inconsciente  relacionado  com  o  não­dito  e  não­sabido,  da  vida  organizacional,  por  referência  não 
apenas  à  instituição  familiar,  senão  à  do  dinheiro  e  outras.  Em  Deleuze  e  Guattari,  a  coisa  já  muda 
radicalmente,  porque  eles  consideram  a  definição  freudiana  do  desejo;  mas  para  eles  a  questão  se   altera 
por  completo.  Para  Freud,  o  desejo   é  uma  força  inconsciente  que  anima  o  psiquismo,  mas  é  uma  força 
pertencente  a  esse  domínio,  a  esse  campo  completamente  diferente  das  forças  naturais  e  das  forças 
sociais,  entendendo  por  sociais  as   forças  políticas  e  as  econômicas.  Inclusive,  se  aceitamos  que  na 
civilização  moderna  a  esfera  das  máquinas  mecânicas,  elétricas,  eletrônicas  etc.  já  forma  como  que  uma 
terceira  natureza,  podemos  dizer  que  existe  a  "natureza  ecológica",  a  "natureza  humana",  a  "natureza 
social",  a  "natureza  psíquica"   e  a  "natureza  maquínica"  –  a  esfera  maquínica;  só que essa esfera do mundo 
maquínico também tem suas forças animantes. Para Deleuze e Guattari, não se trata de
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domínios  nem  de  esferas  separadas, isoladas entre si, mas entre suas formas molares; no nível molecular, a 


produção  e  o  desejo   são  uma  e  a  mesma  coisa.  É  a  mesma  natureza  com  uma  diferença  de  regime.  A 
proposta  deles  é  introduzir  o  desejo  na  produção  e  a  produção  no  desejo.  Equivale  a  dizer  que  a 
substância  ou  a  matéria  última  de  todo  o  real  –  do  real  social,  do  real  psíquico,  do  real  natural  e  do  real 
maquínico  –  é  a  produção,  é  o  produzir.  Não  a  produtividade,  que  é  a   produção  já  deformada  pelo 
capitalismo,  mas  a  produção  como  processo  de  geração  constante  do  novo.  Então,  eles  dizem  que  se 
consideramos  o  conceito  marxista  de  produção,  tal  conceito  não  consegue  englobar  todas  as  formas  de 
produção  possíveis.  Ao  passo  que,  se  tomamos  o  conceito  freudiano  de  desejo  –  ele,  especificamente 
psíquico,  como  dizíamos,  é  restitutivo,   e  tenta  esterilmente  repetir  um  estado  anterior  –,  esses  autores 
dizem  que  se  se  junta  o  conceito  de  produção  com  o  conceito  de   desejo,  que  são  imanentes  entre  si, 
vai­se  gerar  uma  nova  categoria  de  produção,  que  abrange  todas  as  formas  materiais  corporais  e  
incorporais  de  geração  possíveis,  e  com  essa  característica  de  gerar  sempre  o  diferente  e  em  todas  as 
atividades  possíveis,  incluída  a  psíquica.   Ou  seja,  para  eles  o  desejo  não  é  restitutivo,  o  desejo  é 
produtivo.  A  produção  não  é   apenas  produção  mecânica  social  ou  natural,  mas  é  também  produção 
desejante, segundo as características do processo primário. 
Mais  ou  menos  essas  são  as  diferenças.  Baseando­nos  nelas,  para  concluir,  digamos  que,  por 
exemplo,  em  Mendel,   é  claro  que  o  desejo  e  seus  produtos  devem  ser  decifrados.  Para  quê?  Para  que, 
uma  vez  interpretados,  os   sujeitos  possam  controlá­los,  dominá­los  e  utilizá­los  no sentido de ganhar uma 
margem  de  poder  possível.  Para  Deleuze  e  Guattari  não  há  nada  para  decifrar, porque as representações 
não  interessam  tanto   quanto  as  forças;  o  que  se  tem  de  fazer  é   liberar,  propiciar,  deflagrar  a  potência  da 
produção,  do desejo e  da diferença. Tudo isso justamente por causa da natureza última do desejo que eles 
supõem;  no  caso  de  Mendel,  por  exemplo,  o  desejo  é,  de  uma  natureza  conservadora  que  pode  ser 
encaminhada  para  a  revolução  e  para  a  produção,  enquanto  em  Deleuze  e Guattari,  ele tem uma natureza 
intrinsecamente revolucionária, que só precisa ser veiculada, liberada de suas constrições. 
Para Deleuze e Guattari, a realidade está composta por 

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três  superfícies  imanentes  entre  si:  a da Produção, a do Registro Controle_e a  do  Consumo­Consumação. 
Cada  superfície  (termo  tomado  dos  filósofos  estóicos) tem uma energia própria: Superfície de produção = 
Libido;  Superfície  de  Registro  =  Númen;  Superfície   de  Consumo  =  Voluptas.  A  Superfície  de  Produção 
está,  por  sua  vez,  integrada  pelo  Corpo  sem  Órgãos e pelas Máquinas Desejantes. O Corpo sem  Órgãos 
é  o  contrário  de  um  organismo,  ou  seja,  compõe­se  de  matérias  não­formadas  e  energias  ainda 
não­vetorizadas  como  forças.  Em  si  mesmo  o  Corpo  sem  Órgãos  é  o  grau  zero  de  Intensidades,  mas 
quando  ele  é  ajeitado  como um  Plano de Consistência de um Dispositivo ou Agenciamento revolucionário, 
desejante­produtivo,  as  Intensidades  circulam  por  ele  configurando  as  Máquinas  Desejantes  e  suas 
conexões  criativas,  geradoras  de  tudo  quanto  é  novo.  Este  conceito  compreende  o  de  Instituinte  e  o 
amplia.  O  Corpo  sem  Órgãos  assim  povoado  se  transforma  numa  Nova  Terra,  enquanto  que,  em 
condições desfavoráveis, quando os experimentos do Plano de Consistência fracassam, pode­se  tornar um 
buraco  negro  ao  acelerar­se  ao  infinito  e  levar  à  morte  ou  à  demência.  O  nível  de  funcionamento  da 
Superfície de Produção é sub­microscópico ou molecular. 
Na  Superfície  de   Registro,  o  Corpo  sem   Órgãos  e  suas  intensidades  e  máquinas  desejantes  são 
capturados  como  entidades  molares  (que  correspondem  aproximadamente  aos  instituídos­órganizados: 
Estado,  Igreja,  empresas,  bancos,  dinheiro,  organismos,  representações  e  estruturas  edipianas).  A  este 
nível  cristalizam­se  em  territórios.  É  o  lugar  das  identidades  e  dos  controles  e  da   repressão  generalizada. 
Também  a  ele  pertencem  as  pessoas,  os  indivíduos,  os  sujeitos,  os  códigos,  sobrecódigos  e  axiomáticas 
que  quadriculam  a  vida  biopsico­sociotécnica.  O  Corpo  sem  Órgãos torna­se Corpo Cheio e adquire um 
órgão  centralizador  e  hierarquizado  que,  segundo  se  trate  das  formações  primitivas,  asiáticas  ou 
capitalistas,  será  respectivamente  o  Corpo  da  Terra,  do  Déspota  ou  do  Capital­Dinheiro,  ao  qual 
"milagrosamente" se atribui ser a causa da produção. 
Os  dispositivos  ou  agenciamentos  produtivo­desejante­  revolucionários  gerados  por encontros ao 
acaso  das  intensidades,  ou  máquinas  desejantes,  são  capazes  de  desestruturar  os  estratos  e  territórios da 
Superfície de Registro, 

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propiciando  desterritorializações  e  linhas  de  fuga  pelas  quais  o  desejo  e  a  produção  se  plasmam  em 
novidades  radicais.  Toda   entidade  tem  uma  textura  molar  e  outra  molecular,  um  pólo  paranóide 
(capturante a antiprodutivo) e outro esquizóide (produtivo­desejante­revolucionário). 
Como  se  vê,  apenas  podemos  enunciar  estes conceitos porque sua proliferação  nessa teoria torna 
impossível  defini­los  em  detalhe.  Para  tentar  enriquecer  um  pouco  essas  definições,  sugiro  consultar  o 
glossário deste livro, assim como a bibliografia incluída ao final do mesmo. 
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO V 

1) O que se entende pela Sociopsicanálise de Gêrard Mendel? 
2) O que se entende pela Análise Institucional de Renê Lourau e Georges Lapassade? 
3) O que se entende pela Esquizoanálise de Gilles Deleuze e Félix Guattari? 

4) Qual ê a relação entre estas três tendências, a Psicanálise e o Materialismo Histórico? 
5)  Com  que  movimentos  políticos  poderia­se  relacionar  predominantemente  cada  uma  das  tendências  do 
Institucionalismo descritas neste capítulo? 
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Capítulo VI 
ROTEIRO PARA UMA INTERVENÇÃO INSTITUCIONAL PADRÃO 

Vamos  tra  tar  de  um  roteiro  para  uma  intervenção  institucional  do  tipo  standard,  isto  é,  a  mais 
habitual,  a  mais  corriqueira,  a  mais  conspícua.  Antes  de  começar,  no  entanto,  eu  gostaria  de  fazer  uma 
breve  classificação  –  que,  seguramente,  será  muito  incompleta  e  esquemática  –  de  algumas  formas 
diferentes  de  intervenção, pois me parece que, metodológica e tecnicamente, é uma questão que não estou 
seguro  de  ter conseguido  transmitir no percurso destes capítulos. É um assunto importante, porque quando 
não  fica  claro,  permanece  nas  pessoas  uma  dúvida  enorme  no  tocante  à  condição  de  contratação  deste 
tipo de serviço. Então eu gostaria de, pelo menos, mencionar algumas delas. 
Tendo  em  vista  a  divisão  já   mencionada  dentro  do  lnstitucionalismo  entre  a  configuração  de  um 
campo  de  análise  e  um  campo  de  intervenção,  é  evidente  que  o  campo  de  análise  consiste  apenas  num 
espaço  conceitual  ou  nocional.  Em  outras  palavras,  é  um  tema  do  qual  o  institucionalista   quer  se  ocupar. 
Esse  tema  pode  ser  abstrato  ou  concreto;  pode  ser  contemporâneo,  passado ou futuro.  E pode ser muito 
vasto ou mais restrito. Mas 
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é  um  processo  de  produção  de  conhecimento  com  respeito  a  esse  campo  e  não  implica  necessariamente 
uma  intervenção  técnica;  envolve  apenas  o  fato  de  que  o  institucionalista  vai  tentar  entendê­lo.  Aliás, isso 
pode  abranger  até  mesmo  um  tipo  de  material  que  não  é  propriamente  histórico­social,  no  sentido  das 
formas institucionalizadas­organizadas: pode ser um texto literário ou uma obra arquitetônica, por exemplo. 
Agora,  o  campo  de  intervenção,  como  já  foi  dito,  pressupõe  um  campo  de  análise,  porque  se 
pode  entender  sem  intervir,  mas  não  se  pode  intervir  sem  entender,  embora  durante  a intervenção iremos 
entendendo  cada  vez  mais.  O  campo  de  análise  pode  não  coincidir,  em  termos  empíricos,  com  o  campo 
de  intervenção.  Ou  seja,  pode­se  escolher  como  campo  concreto  de  intervenção  uma  fábrica,  uma 
indústria.  Mas  pode­se  delimitar  um   campo  de  análise  que  não  compreenda  unicamente  o  entendimento 
dessa  fábrica,  e  resolver  estudar  o  processo  histórico  de  implantação  desse  tipo  de  indústria  no  Brasil, 
para poder saber como funciona essa organização concreta, fabril, escolhida como campo de intervenção. 
Partindo,  pois,  dessa discriminação entre campos de análise e campo de  intervenção, digamos que 
as  modalidades  de  intervenção  podem  ser  variadas.  Uma  modalidade  de  intervenção  –  aquela  a  que 
vamos  nos  referir  de  forma  predominante  quando  repassarmos  este  roteiro  standard,  tradicional  –  é  um 
serviço  oferecido  desde  posições  mais  ou  menos  clássicas,  convencionais,  habituais,  dentro do panorama 
social. É o que se dá como serviço oferecido na condição de profissional liberal ou autônomo, na condição 
de  sociedade  cientifica  –  uma  sociedade  científica  de  Análise  Institucional  que  oferece  trabalhos,  por 
exemplo;  é  o  exercício  oferecido  por  um  estabelecimento   de  prestação  de  serviços  privados,  um instituto 
de  Análise  Institucional  que  pode  ser  uma  sociedade  anônima  de  responsabilidade  limitada  ou  uma 
microempresa;  é  o  que  pode  ser  oferecido  por  um  departamento  especial  de  uma  faculdade,  um 
departamento de Análise lnstitucional numa universidade. 
Outra  modalidade  possível   de  prestação deste serviço pode ser feita por parte de uma equipe que 
integra,  que  é  interna  à  organização  na  qual  se  vai  intervir.  É  o  famoso  caso,  por  exemplo,  do 
departamento  de  Recursos  Humanos  de  uma  empresa,  que  tem  de  fazer  uma  intervenção  dentro  de  sua 
empresa mesma, 

91 ▲
ou um departamento de acompanhamento institucional de urna universidade. 
Outra  possibilidade  é  a  de  uma  prestação  de  serviços  feita  de  uma  maneira  parecida  com  esta 
anterior,  que  acabamos  de  expor,  mas menos caracterizada burocrática e profissionalmente. Por exemplo, 
é  o  caso  de  um  sindicato  ou  de  um  partido  político  que,  nos  seus  quadros,  tem  institucionalistas  que  são 
militantes  formais.  Então,  esse  sindicato  ou  esse  partido  político  pede  a  seus  militantes  institucionalistas 
urna  intervenção  em  um  setor,  em  um  segmento,  em  urna  frente,  em  um  espaço  da  vida  e  da  atividade 
partidária,  trabalho  esse  que  pode  ser  ou  não  pago,  contanto  que  seja   considerado  corno  parte  da  vida 
militante.  Mas,  em  todo  caso,  é  um  acordo  muito  definido,  pois  se  trata  de  uma  oferta  e  uma  solicitação 
formais,  em  que  se  reconhece  no  militante  institucionalista  um  saber"  específico",  e  ele  é  procurado  nesta 
condição. 
Urna  outra  possibilidade é aquela pela qual um institucionalista – que não se caracteriza corno tal e 
não  oferece  seus  serviços  corno  tal  –  infiltra­se  em  urna  organização,  à  qual  ele  pode  pertencer 
organicamente  ou  não,  e  o  faz  sob  um  rótulo,  na  condição  de  qualquer  outra  coisa  que  faça  parte  dos 
papéis  formais  existentes  nessa   organização,  mas  que  não  seja  o  de  institucionalista.  É  o  caso,  por 
exemplo,  de  um  morador  numa  associação  de  bairro,  em  que  ninguém  sabe  que  seja  institucionalista, 
ninguém  está  informado   de  que  ele  oferece  serviços  institucionalistas,  mas  que,  dentro  de  seu  papel  de 
morador, opera corno institucionalista, sem explicitar essa condição. 
Existe  urna  última  possibilidade  dentro  desse  espectro  esquemático  que  ainda  é  pobre,  limitado, 
que  consiste  numa  variação  dessa  última  possibilidade.  Urna  variação   que  parece a menos comprometida 
e,  sem  dúvida,  é  a  mais  difícil  de  todas:  é  a  daquele  que  pratica  o  Institucionalismo  na  convivência 
cotidiana.  Ou  seja:   é  aquele  que  nem  oferece  serviços   corno  institucionalista,  nem  é  solicitado  corno  tal, 
nem  se  infiltra  sob  outra   condição  não  formal,  mas  simplesmente é um "cristão", isto é, é um próximo que, 
tendo  assimilado  princípios  teóricos,  formas  técnicas  de  operar,  vive  dessa  maneira,  convive  dessa  forma 
e,  então,  pratica  o  Institucionalismo  com  sua  mulher,  com  os  filhos,  com  os  companheiros,  com  os 
adversários. Em outras 
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palavras:  é  aquele  que  tem.  do  mundo  urna  concepção  institucionalista  e   urna  maneira de viver de acordo 
com  esses  princípios.  Isso  inclui  o  seu  âmbito  de   trabalho,  mas  é  principalmente  na  coexistência,  na 
colaboração cotidiana com seus companheiros, que ele se comporta corno institucionalista. 
Essa  esquemática  sistematização  requer  um  tratamento,  uma  explicitação  e uma abordagem muito 
detalhados  e  complexos  das  peculiaridades  que  adquire  cada  uma   dessas  inserções  possíveis,  o  que  não 
faremos  por  várias  razões;  em  primeiro  lugar,  porque  ela  não  foi  exaustivamente  feita  em  texto  algum  – e 
suspeito  que  jamais  será  feita,  porque  é  demasiadamente  ampla,  heterogênea,  complexa,  inclusive  por 
causa  da  pretensão  institucionalista  de  que  cada  intervenção  tem  de  ser  singular,  tem  de  ter  uma 
característica  de  originalidade,  de  irrepetibilidade,  o  que  torna  a  sistematização  dessas  diferenças 
eventualidades  muito  difíceis   e  improváveis.  Mas,  em  todo  caso,  o  importante  é reter isso, a amplitude de 
possibilidades,  amplitude  essa  que  produz  um  efeito  contraditório  nos  jovens  institucionalistas,  porque 
esses  novatos  são  formados  dentro  de  uma  orientação  disciplinar:  querem  ser  essecialistas,  querem  ser 
profissionais  e  querem  ter  um  corpo  de  saber  e  de  prescrições,  de  estratégias e de táticas, claro, simples, 
limitado  e  preciso.  Querem  saber  quem  são,  que  direitos  têm,  que  deveres  têm,  qual  o  seu  estatuto 
científico,  qual  sua  condição  profissional,  e  querem  ter  uma  teoria   simples,  clara,  assim  corno  opções 
técnicas  não  demasiadamente  numerosas  para poderem saber, com  toda facilidade, o que devem fazer em 
cada  conjuntura.  E   nisso  consiste  a  formação  disciplinar  que  tende  a  produzir  –  técnicos  e,  em  muitas 
ocasiões, embora não em todas, à condição de técnico se acrescenta a de funcionário ou de burocrata. 
Felizmente ou não, o lnstitucionalismo não  é assim;  não é isso o que ele propõe, apesar de que, em 
algumas  ocasiões  infelizes,  possa  vir  a  cair  nisso.  Então,  essa  amplitude  gera   nos  jovens   agentes  uma 
angústia,  um  mal­estar  que pode  derivar numa recusa, que pode levá­los a adotar uma atitude depreciativa 
que  os  conduz  a  dizer:  "Isso  é  muito  vago,  muito  complicado,  muito  impreciso;  não  faço;  deixe­me 
tranqüilo  corno  médico,  corno  advogado,  algo  tradicional  e  não demasiadamente autocrítico." É o famoso 
problema de focalizar isso de maneira otimista ou pessimista. A maneira pessimista é dizer que é muito 
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complicado, muito impreciso, há demasiadas opções. A maneira otimista é dizer:  "Graças a Deus, há tantas 
possibilidades e tantas margens para a invenção... " 
O  que  vamos  desenvolver  agora  é  apenas  uma dessas formas de intervenção,  que é a intervenção 
institucional  standard,  a  qual:  1)  não  é  a  única  (o  que  espero,  tenha   ficado  claro);  2)  nem  sempre  é  a 
melhor  –  apesar  de  costumar  ser  a  mais  clara  e  a  mais  sistematizada;  e  3)  muito  freqüentemente  não  é  
possível,  porque  as  características  da  demanda  não  a  propiciam.  Então, deve­se ter cuidado, porque se a 
gente  se  prende   a  esse  tipo  de  intervenção,  se  se  apega  a  esse  modo  de  operar,  corre  o  risco  de pensar 
que quando ele não é possível, não existem outros que, pelo menos, deixaremos esboçados. 
Ora,  a  intervenção  apresenta  uma  série  de  passos  que  têm  de  ficar  bem explicitados. São passos 
ideais,  aos  quais  deveríamos  prestar  atenção,  tratar  em  separado  a  cada  um  deles  durante  a   intervenção, 
se  houvesse  tempo,  se  houvesse  calma,  se  houvesse dinheiro, se houvesse todas as condições necessárias 
para  fazer  as  coisas  de  maneira  confortável.  Em  geral  essas  condições  não  existem,  então  pulam­se  e 
misturam­se  passos,  e  age­se,  mais  ou  menos,  "como  é  possível".  Se  vocês  querem  um  exemplo 
corriqueiro,  conhecer  esses  passos  e  executá­los  é  como  em  algumas  épocas  gloriosas  da  etiqueta, 
quando  nos  ensinavam  a  caminhar  de  maneira  elegante  e,  então,  se  nos  diziam:  calcanhar  planta­ponta, 
calcanhar­planta­ponta...  Ora,  ninguém  caminha  assim.  Mas  acontece  que  caminhar  assim  resulta  num 
andar  elegante.  Depois,  a  gente  não  vai  mesmo  pensar  nisso,  e simplesmente  caminha mais ou menos, tão 
elegantemente  como  pode.  Ou  como  quando  a  gente  aprende  a  nadar,  que  consiste  primeiro  em  levar  o 
braço direito, depois o braço esquerdo, e bater as pernas coordenadamente, e a cabeça se volta para esse 
ou  aquele  lado...  Quando  a  gente  nada  assim,  só  pensando  nessas  regras,  se  afoga,  apesar  de  ser  a 
maneira mais correta de fazê ­lo... 
O  primeiro  passo  consiste  em  fazer  a  análise  da  produção  da   demanda.  Isso,  em  um  sentido 
particular,  consiste  no  cuidadoso  exame  que  a  organização  ou  a  pessoa  que  está para fazer a intervenção 
institucional  faz  da maneira como ela ofereceu  os serviços; ou seja,  o  estudo da forma como ela produziu a 
demanda que lhe é feita. Temos enfatizado muito que correntes 
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atuais,  tanto  de  Marketing  quanto  de  Psicanálise,  ou  de  Psicanálise  e  Marketing  (que  não  estão  nada 
separados),  têm  insistido  bastante  na  questão  da  demanda  do  usuário:  o  usuário  demanda  isso,  mas  não 
sabe  que,  na  verdade,  demanda  outra  coisa.  Sistematicamente  se  esquece,  nessas  leituras,  nessas 
investigações,  que  não  existe  demanda  espontânea, que toda demanda é produzida, é gerada, e que existe 
um  cruzamento  na  natureza  da  demanda,  de  tal  maneira  que  não  é  necessariamente  a  organização  que 
oferece  um   serviço  a  única  responsável  pela  produção  de  demanda  desse  serviço.  Muitas  vezes,  a 
produção  da  demanda  de  um  serviço,  por  exemplo,  um  serviço de saude, é. "naturalmente", em princípio, 
produzida  pelos  estabelecimentos  de  saúde  que  oferecem  seus  serviços. Mas ela é produzida, igualmente, 
pela  falência,  por  exemplo,  de  outras  ofer,tas  de  outras  organizações  e  dos  serviços  dessas  organizações 
que  são  incompletos,  que  são  distorcidos,  que  são  anacrônicos  e  que  geram  demanda  de  serviços  de 
saúde  porque  não  resolvem  bem  os  problemas  da  sua  especificidade.Em  outras  palavras:  como  as 
organizações   responsáveis  pela  demanda  urbanística,  de  moradia,  realizam  mal  e resolvem mal sua  oferta, 
elas  produzem  uma  demanda  à  qual  não  respondem.  Isso  traz  conseqüências  em  saúde;  os  problemas 
sanitários,  por  exemplo.  Então,  quem  é  que  gerou  a demanda do serviço de saúde? Não foram apenas os 
estabelecimentos  de  saúde.  Foram  também  os  estabelecimentos  de  urbanização,  não por geração de uma 
demanda  de  saúde  coerente,  racional  e  consciente,  articulada  com  a  oferta,  mas pela inconsciência e pela 
falência  de  sua  oferta. Mas esse exemplo que acabo de dar é insignificante, porque, devido às questões de 
atravessamento  e  às  questões  de  transversalidade,  isso  se  torna  um  complexo  mecanismo no qual a gente 
só  consegue  averiguar  algumas  das  determinantes cruzadas  da produção de demanda com a oferta... e em 
geral  se  perdem  muitas.  É  importante  que  isso  fique  claro.  Mas,  em  todo  caso,  o  mínimo  que  podemos  
saber  sobre  isso  é  que   não  existe  demanda  espontânea  e  natural,  nem  universal,  nem  eterna,  mas,  pelo 
contrário,  ela  é   produzida  pela  oferta.  Portanto,  a  primeira  coisa  a  ser  feita  ao  nível  de  um  campo  de 
análise  é  uma  pesquisa,  a  mais  ampla  possível,  de  como  produzimos a demanda de serviços. Nesse caso, 
a demanda de Análise Institucional é, como o leitor compreenderá, nem mais nem menos que o começo da 
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análise  da  implicação.  Porque  se  a  análise  da  implicação  é  a  análise  do  compromisso 
sócio­econômico­político­libidinal  que  a  equipe  analítica  interventora,   consciente  ou  não,  tem  com  sua 
tarefa, ela começa pela análise da implicação existente na oferta, ou sefa, na produção da demanda. 
Na  oferta  ou  produção  de  demanda  há  muitas  características  que  não  podemos  detalhar  aqui 
porque  excede  nossos   propósitos.  Mas  há  uma  que  temos  de  revelar,  ter  presente,  e   eu  gostaria  de 
descrevê­la  de  maneira  pitoresca,  para  que  seja  mais  lembrada  pelos  leitores.  Há  uma  piada  famosa  que 
se  passa  num  forte militar, numa dessas guarnições que ficam lá na fronteira. Um oficial pede a um soldado 
que  suba na torre de controle para ver se os índios estão vindo ou não. É um forte americano, em território 
índio. Então, o vigia sobe, olha e diz: 
"Sim,  os índios estão vindo... São muitos; vêm correndo." O  oficial pergunta: "Mas esses índios são amigos 
ou  inimigos?"  Ao  que  o  soldado  responde:  "Olhe,  devem  ser  amigos,  porque estão vindo todos juntos... "  
Se  a  gente  se  lembra   desta  piada,  fica  mais  fácil  lembrar  que  a  realidade  com  que  trabalhamos  vem  toda 
junta.  A  divisão  em  especialidades,  profissões,  só  existe  dentro  da  classe  ou  da  equipe,  mas  não  nos 
usuários.  A  realidade   "vem  toda  junta":  as  divisões  que  fazemos  são  totalmente  produzidas.  Mas  a 
realidade  vem  junta  e  nós  não  estamos juntos; o mais que conseguimos, às vezes, é estar próximos, um ao 
lado  do  outro.  E  o  que  acontece  é  que  cada  especialidade,  cada  profissão,  acha  que  os  problemas  da 
realidade  são  problemas  de  seu  campo.  Isso  não  é  maldade  dos  agentes;   pode  ser uma desonestidade, e 
muitas  vezes  é,  mas  não  freqüentemente.  Acontece  que  o  aparelho  científico  disciplinar  e  a  condição 
profissional  estão  estruturados  para  isso,  para  encarar  qualquer  problema  da  realidade  e  estar,  em 
princípio,  convencido   de  que  o  problema  é  nosso:  de cada um, do especialista, do profissional. Então, um 
senhor ou uma organização  vem consultar­nos sobre um problema de saúde. Eu sou especialista em saúde. 
Além  disso,  sou profissional. Vivo disso. Adquiri uma série de conhecimentos nos quais confio porque eles 
têm­se  demonstrado  eficazes.  Cabe  lembrar  que  obtenho  todo o meu dinheiro, todo o meu poder social e 
todo  o  meu  prestígio  através  disso  que  eu  faço.  Então  não  tenho  culpa  de  nada.  Se  alguém  me  consulta 
por um problema de saúde, certamente ele tem saúde ou não tem saúde e isso é da minha 
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alçada.  Então:  "Venha  que  esse  problema  é  comigo...  "  Quantos  profissionais,  quantos  cientistas  vocês 
conhecem  que,  após  ouvirem  cuidadosamente  alguma  demanda,   concluem  que  esse  problema  não é para 
eles  resolverem,  e  encaminham  a  alguma  organização  ou  a  outra  especialidade?  Não se  conhecem muitos 
profissionais  assim...  Existem  poucos.  Às  vezes  há  quem  diga:  "Sim,  o  problema  é  meu,  mas  seria 
conveniente  fazer  uma  consulta  a  um  especialista  em  tal  ou qual  área." Isso já é muito, é difícil de se ouvir. 
O  que  é  absolutamente  improvável  de  se  ouvir  é  uma  resposta  do  tipo:  "Permita­me  dizer­lhe  que  esse 
problema  não  é  privativo  de  nenhuma  especialidade.  Esse  problema  tem  de  ser  resolvido  com  seus 
amigos,  seus  companheiros,  seus  colaboradores  ou  sozinho."  Estou  tratando  de  ser  simples.  O  problema 
fundamental  é  esse:  quando  a gente recebe uma demanda, a primeira coisa que ocorre é que a  gente tende 
a  pensar  que  não  tem  nada  a  ver  com a crítica dessa demanda; se o sujeito está demandando em primeira 
instância,  somos  levados  a aceitar que é porque já sabe o que está demandando. E se me procura, estou a 
seu  dispor.  Procura­me  porque  algum  lado  do  problema  tem  a  ver  com  o  que  faço,  e  então  o  atendo, 
esquecendo­me   de  que,  se  ele  me  procura,  é  porque  me  ofereci.  Não  necessariamente  me ofereci a essa 
pessoa  que  me  procura;  pode  ser  uma  oferta  vasta,  ampla,  cruzada. Mas se eu não me oferecer, ninguém 
me  procura.  Se  eu   não  me  constituo  num  lugar  científico,  profissional,  se  não  vendo o que faço, ninguém" 
compra". 
Então,  o  que  tenho  de  fazer  é  analisar,  com  cuidado,  como  foi  que   vendi  isso,  para  que  foi  que 
"vendi",  que  coisas,  realmente,  posso  solucionar,  que  coisas  posso  solucionar  parcialmente  e  que  coisas 
não  devo  solucionar,  devo  encaminhar  noutra  direção  ou devo devolver, dar de volta ao usuário o que ele 
solicita  de  mim.  Essa  é  a  análise  da  implicação  na  produção  da  demanda,  ou  seja,  na oferta. Essa análise 
tem  aspectos conscientes e pré­conscientes formuláveis assim: "Companheiros de equipe, vamos ver como 
foi  que  convencemos  este fulano a nos procurar." Mas tem aspectos  inconscientes, ou seja: que fiz eu, sem 
me  dar  conta,  o  que  foi   que  fizemos  nós  sem  dar­nos  conta,  para"  capturar  este  peixe"?  Mas é claro que 
essa  pergunta  não  tem  uma  resposta  reflexiva  e  voluntária.  A  primeira  coisa  a  ser  feita  para  isso  é 
despojar­se  da  convicção  de  que  a  oferta  de  nossos  serviços  é  lícita,  válida,  resolutiva  etc., porque, pelo 
contrário, o que 

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vivemos fazendo é lutar pela legitimação, pela autorização e pelo reconhecimento social de nosso serviço. 
O  passo  seguinte  é  a  tentativa  de  análise  do  encaminhamento,  isto  é:  quais  foram  os  passos 
intennediá;ios  que  conectaram  o  usuário­demandante  conosco?  Há   muitos,  mas  para  dar  um  exemplo 
simples:  qual  foi  o  cliente  que,  definindo  nossos  serviços  como  eficientes,  chegou  à  conclusão  de  que seu 
próximo  se  beneficiaria  também  com  esse serviço? Quais são as razões válidas e as razões inconfessáveis, 
ou  as  razões  recalcadas  pelas  quais  ele  fez  esta   recomendação?  O  que  acontece  quando  quem  fez  esta 
recomendação  é  um  congênere,  isto  é,  não  é  exatamente  um  colega,  mas  outro  profissional  e  outro 
especialista  que  resolveu  fazer  a  concessão  de  nos  encaminhar  alguém?  São  passos  intermediários  da 
conexão  entre a oferta e a demanda. São as famosas fórmulas: consulta a organização tal ou o fulano de tal 
porque  "é  o  melhor";  consulta  porque  "é  caro";  consulta  porque"  é  bara  to";  consulta  porque  ele  é  "dos 
nossos".  É  preciso  ver  o  que  significa  cada  um  desses  atributos:  qual  é  o  problema  que  agIu  tina  a  quem 
solicita.  Consulta  porque"  é  daqui",  ou  porque  "vem  de  fora".  Tudo  isso  modula  a  demanda,  e  o  faz com 
elementos  conscientes  e  inconscientes  no  usuário,  na  mesma  proporção  neles  e  em  nós,  que  ofertamos  o 
serviço. 
O  passo  seguinte  é  a  análise  da  gestão  parcial.  Isto  é: qual foi o setor da organização que assumiu 
o  papel  de  vir  consultar  nos  ou  fazer  o  contato?  É  o setor de direção? É  o  setor administrativo? É o setor 
financeiro?  São  os  quadros  intermediários?  São  as  bases?  É  o  proprietário?  Ou  seja:  a  gestão  parcial  da 
demanda  de serviços é protagonizada por diferentes. segmentos da organização. E isto é muito importante, 
porque  nos  pode  dar  toda  uma antecipação dos motivos desta consulta, os interesses em jogo, os desejos  
em pauta e, sobretudo, o grau de consenso, de unanimidade que motiva os protagonistas dessa solicitação. 
Não  é  a  mesma  coisa  ser  solicitado  pela  direção  ou  pelos  proprietários  e  ser  solicitado  pelas  bases. 
Costuma  ser,  para  os  institucionalistas,  infinitamente  melhor  serem  solicitados  pelas  bases  do  que  pela 
direção  ou  pelos  proprietários.  Isso,  sem  dúvida,  não  é  nenhuma  garantia,  porque   as  bases  não  são 
homogeneamente  revolucionárias,  nem  homogeneamente  progressistas,   nem  homogeneamente  sinceras. 
Coisa que se constata claramente naquela célebre frase que diz: “A ideologia 
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dominante  é  a  ideologia  das  classes  dominantes."  Então,  as  bases  são,  em   geral,  originais,  singulares, 
solidárias  etc.,  mas  estão  infiltradas  pelos  interesses  e  desejos  dos  setores  dominantes.  Então,  ser 
solicitado por elas não é garantia de uma intenção transparente. Isso também tem de ser analisado. 
O  grupo  que  protagoniza   a  gestão  parcial  em  geral  não  contém  todas   as  partes,  mas  apenas  uma 
delas.  Estamos  falando  de  uma  situação  ideal  em  que,  geralmente, vem  apenas um segmento (apenas uma 
parte  faz   a  demanda).  Por  outro  lado,  uma  organização  numerosa  nunca  virá  toda  para  fazer  uma 
solicitação.  Vem   um  setor,  que  dá  uma  visão  absolutamente  parcial  da  realidade.  A  compreensão  da 
determinação  dessa  parcialidade  é  importante,  pois  o  fato  de  você  considerar  o  parcial  é  que  vai  lhe 
permitir  imaginar  a   existência  de  uma  totalidade  complexa,  contraditória,  desigual,  conflitiva.  Isso,  claro, 
sabendo que uma organização nunca é integralmente totalizável. 
Então,  a  análise  da  gestão  diz  respeito  a  isso:  como  foi  que  esse  grupo resolveu consultar e como 
foi que consultou. O passo' seguinte é a análise do encargo. 
Na  análise  do  encargo  há  um  problema  terminológico  que seria interessante que ficasse claro para 
os  leitores.  Há  uma  discriminação  muito  importante  que  se  estabelece  entre  demanda  e  encargo.  Nessa 
terminologia,  demanda   é  a  solicitação  formal,  consciente,  deliberada,  que  nunca  coincide  com  o  encargo, 
que  é  um  pedido  que  envolve  os  três  níveis  da discriminação que fizemos entre má­fé, desconhecimento e 
recalque.  A  diferença  entre  demanda  e  encargo  pode  passar  por  esses  três  tipos  de  determinações.  A 
demanda  nunca  coincide  com  o encargo. Mas não coincide por  quê? Por má­fé? Pode ser. É claro que as 
pessoas  estão  solicitando  uma   coisa,  mas  o  que  elas  querem  obter  é  outra.  Pode­se  dar  um   exemplo 
clássico,  mas  não  único,  nem  exclusivo:  à  solicitação  de  intervenção  institucional,  na  medida  em  que  a 
Análise  lnstitucional  está  cada  vez  mais  em  moda  e  que  crescentemente  ocupa  lugares  formais,  é  uma 
solicitação  consciente  que,  em  geral,  passa  pela  idéia  confusa  de  que  um  serviço  de  Análise  Institucional 
forma  parte  da  parafernália  de  serviços  característicos  do  progresso,  da  tecnologia  moderna  em  relações 
humanas.  Então,  a  demanda  é  geralmente  uma  demanda   do   tipo:  "Bom,   veja,  viemos  consultá­lo  porque 
sabemos da importância desta disciplina e queremos melhorar o ambiente 
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dos  operários,  da  direção,  ou  queremos  melhorar  o  clima  entre  professores  e  alunos,  a  comunicação,  o 
entendimento,  a  negociação  etc."  Por  quê?  Porque  já  se  sabe  que  existe  uma  tecnologia  modernista  que 
conhece  do assunto e  vai se ocupar disso. Ora, acontece que o encargo  pode não ter nada a ver com isso. 
O  encargo  pode  ter a ver, por exemplo, com algo que acontece quando, na organização, está surgindo um 
grave  conflito  por  problemas  de  condições  de  trabalho,  por  problemas  de nível de salário, por problemas 
de  autoritarismo  na   liderança,  todo  tipo  de  atritos  mais ou menos explícitos. Então, há uma demanda,  num 
plano  manifesto,  de  uma  intervenção  profilática,  progressista,  melhoradora.  O  encargo,  no  entanto,  é: 
"Olhe,  veja  se  acaba  com  esta  revolta,  localiza os líderes, me aconselha como desmontar este movimento, 
como  desmobilizar,  como  fragmentar,  como  paralisar  isto,  ou  como  aumentar  a  produtividade  sem  tocar 
na  questão  do  salário."  Isso  pode ser feito com plena consciência e com  má­fé. Muitas vezes o interventor 
solicitado  tem  uma  trajetória  que  permite  que  lhe  seja  solicitado  isso  com  toda  clareza,  porque  é  um 
corrupto  ou  porque  é  um  reacionário.  Há  especialistas  em  fazer  essas  coisas.  Agora,  quem  tem  fama  de 
institucionalista  dificilmente  será  solicitado  abertamente  para  isso,  porque  já  se   tem  uma vaga idéia de que 
se  ele  não  é  revolucionário,  pelo  menos  é  democrata  ou  humanista.  Então  não  se  lhe  pede  isso 
diretamente. Mas pode­se perceber, perfeitamente, que se diz uma coisa e se está pedindo outra. 
Mas  a  diferença  entre  a  demanda  e  o  encargo  pode  não  passar  pela  má­fé.  Pode  ser  fruto  do 
desconhecimento,  ou  seja,  você  pode  perfeitamente  ter  uma  impotência  sexual  psíquica,  e  procurar  um 
urologista,  que  não  sabe  uma  palavra  sobre isso. O urologista irá receitar, então, cloridrato de ioimbina ou 
viagra,  e  se  isso  não  funcionar,  vai  acabar  implantando  uma  prótese  peniana  para  ver  se  opera,  quando, 
simplificando  humoristicamente,  trata se de algum conflito com a "mamãe"... Não é comum isso? Trata­ se, 
pois,  de  um  problema  de  ignorância.  O  usuário  não  tem  como  saber  qual  é  o  lugar  e  o expert adequado 
(?) para a consulta. 
Mas  pode  ser,  finalmente,  um  problema  recalcado,  inconsciente,  de  quem  vem  consultar  alguém 
que  tenha  reprimido  (em  um  sentido  amplo)  qual  seja  a  diferença  entre  sua  demanda  e  o  encargo 
recalcado, entre o que ele pede e o que ele inconscientemente espera conseguir. 
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Agora  cabe  aclarar  uma  coisa  importante.  Quando se  simplificou isso, anteriormente, no tocante à 
diferença  entre  a demanda e o encargo, em termos de má­fé, de desconhecimento ou de recalque, falou­se 
no  caso  de  quadros  de  proprietários  ou  de  quadros  diretivos  que  pedem  um  serviço.  Mas  se os quadros 
são  de  base,  pode  acontecer  exatamente  o  mesmo:  o  pedido  pode  ser  fruto  de  má­fé,  de 
desconhecimento  ou  de  recalque,  porque  os  quadros  de  base  podem fazer essa solicitação, por exemplo, 
porque  não  querem   trabalhar,  descartado  o  fato  de  que  todo  trabalho  é  alienado,  que  sempre existe uma 
extração  de  mais   valia,  e  que  sempre  há  dominação  etc.  Mas   vocês  devem  ter  ouvido,  com  freqüência, 
estes  grandes  "protestos  revolucionários",  porque  não  se  quer   estudar,  não  se  quer  trabalhar.  Então 
solicita­se  alguma  reivindicação,  mas  tem­se  outro  pedido  como  encargo:   "Dê  um  jeito  para  que  a  gente 
não  trabalhe."  Já  tenho  recebido  demandas  dramáticas,  heróicas,  pelo  fato  de  ter  sido  colocado   o  cartão 
de  ponto.  É  claro, numa sociedade onde o trabalho é alienado, o cartão de ponto quer dizer muita coisa, e 
a  maioria  delas  não  é  boa.  Mas  também  quer  dizer  que  você  tem  um  horário  de  trabalho  que  odeia 
cumprir,  ou  um  estudo  que  não  tem  vontade  de  'encarar,  ou  uma  autocrítica  que  não  consegue  suportar. 
Sem  dúvida  este  desagrado  pelo  trabalho  ou  o  estudo  não  é  produto  de  uma  "natureza  ruim",  ou  de uma 
essência  "vadia".  Os  determinantes  do  "desprazer  ocupacional"  na  nossa  sociedade  são  reais  e 
espantosamente complexos. Freqüentemente a "resistência" à tarefa é uma tática de luta que exprime o fato 
de  que  trabalhamos  por  dever  ou  forçados  pela  sobrevivência.  Mas,  em  todo  caso,  é  bom  que  tais 
manobras fiquem claras para o institucionalista e para o demandante. 
Já  dissemos  do  que  se  trata  a  análise  de  encargo  parcial.  Já  sabemos  o que é encargo, e também 
análise  da  demanda  parcial.  Na  realidade,  não  se   podem  separar  esses  dois  pontos.  Entendendo  a 
demanda  parcial  e  sua  diferença  em  relação  ao  encargo  parcial  –  são  dois  pólos  de  uma   unidade, não se 
pode  entender  um  sem  o  outro  –,  então  temos  de  caracterizar  os  analisadores  "naturais".  Vocês  se 
lembram  do  que  é  analisador  .natural:  é  um  fenômeno  (dito  em  termos  clássicos,  incorretos  e  ilustrativos) 
mais  ou  menos  similar  ao  que  Pichon  Rivière  chama  de  emergente,  que  é  o  que  surge como resultante de 
toda uma 

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série  de  forças  contraditórias  que  se  articulam  neste  fenômeno.  E  são  "naturais",  porque  não  foram 
fabricados  por  um  interventor  institucional.  Então,  suponhamos um analisador chamado natural (criticamos 
a  palavra  natural  porque  nada  é  "natural"):  um  analisador  natural  seria  um  terremoto,  e  nunca  nos 
chamaram  para  analisar  um  terremoto  porque  temos  pouco  para  dizer  a  respeito  disso,  pelo  menos 
enquanto  acontecimento  geológico.  Então,  não  existem  analisadores  naturais  propriamente  ditos.  Na 
verdade  os  analisadores  são  espontâneos  ou  históricos.  Qual  seria  um  analisador  desse  tipo?  Grande, 
pequeno  ou  médio,  poderia  ser  uma  greve,  a  morte  de  um  operário,  o  aumento das doenças de trabalho, 
uma  grande  briga:  esses  são  analisadores  chamados  naturais.  Então,  temos  de  caracterizá­los,  delimitar 
quais  são.  E  quando  tivermos  feito  tudo  isso,  poderemos  chegar  ao  que  se chama diagnóstico  provisório. 
Um  primeiro  entendimento  sobre  o  que  está  acontecendo  lá  na  organização.  Só  que  esse  diagnóstico 
provisório  é  o  que  os  médicos  costumam  chamar  de  "presuntivo",  que  é  uma  hipótese  ainda  especulativa 
sobre  o  quadro.  Mas  então,  temos   de  fazer,  a  esta  altura,  um  contrato  de  diagnóstico.  Este  contrato  já 
implica  a  construção  de  dispositivos  para  ouvir  todas  as  partes.  O  contrato  de diagnóstico é  um acerto, é 
um  convênio  feito  para  poder  construir  um  dispositivo  no  qual possamos ouvir todas as partes. Porque só 
ouvimos  uma,  aquela  que  fez a demanda parcial. Só que é bom fazer este novo acordo, porque ele implica 
que  o  diagnóstico  já  é   uma  operação de intervenção Então já tem de  ser autorizado, legitimado e, no caso 
de  existirem  honorários,  já  devem  ser pagos, Senão, o que acontece? Toda a intervenção pode acabar aí, 
no  entanto  não  é  valorizada  pelos  usuários.  Por  isso,  se  entre  outras  coisas o institucionalista vive disso, é 
interessante  receber  os  honorários,  e  também  porque  um  contrato  de  diagnóstico  lhe  dá  direito  a 
credenciais  para  poder  ter  acesso  aos  lugares  que  têm  de  ser  diagnosticados.  Senão,  se  vai  lá,  entra­se 
para  diagnosticar  e  o  segurança  te manda embora. Depois do contrato de diagnóstico, cria­se dispositivos 
para  recolher  todo  o  materiaI  necessário.  Então,  tenta­se  analisar,  fundamentalmente,  as  defesas,  isto  é, 
quais  foram  as  resistências  que  se  levantaram  nos  outros  setores  que  se  foi  ouvir.  Com  esse  contrato, 
assegura­se  o  respeito  geral  necessário,  pelo  fato  de  que,  em  primeira  instância,  o  institucionalista  foi 
solicitado por um setor, por um segmento qualquer, e não por todo o coletivo. 
102 ▲

 
O  passo  seguinte  consiste  em,  a  partir  desse  diagnóstico  provisório,  poder  planejar  uma  política, 
uma  estratégia,  uma  tônica  e  técnicas  para  começar  sua  intervenção.  Mas  não  foi  concluído  ainda  o 
diagnóstico  provisório.  Ainda  é  um  presuntivo  já  mais   elaborado,  mas  não  é  sequer  o  diagnóstico 
provisório.  Então  vai­se  criar  analisadores  construídos,  ou  dispositivos  para  poder  recolher  todos  os 
dados  do  didgnóstico  provisório.  Por  enquanto,  só  se  ouviu  os  setores  distintamente.   Ouviu­se 
passivamente, mas não se criou condições para cutucar o não dito que queremos investigar, 
Mas  será  que  quando   crio  instrumentos  de  investigação,  de indagação, não estou deixando de ser 
institucionalista no sentido de que faço averiguações ativas sob a minha ótica? Posso correr este risco? Sim 
e  não.  Evidentemente  é  um procedimento ativo e não é "natural"; é "artificial" – já fizemos a diferença entre 
analisadores  naturais  e  analisadores  artificiais.  Mas  talvez  isso  se  possa  entender  um  pouco  melhor 
simplificando  esses  dispositivos  e  analisddores  construídos.  Eles  não  são  tão  indutivos  assim,  porque  se 
trata  simplesmente  de   propor.  Vamos  dar  um  exemplo  fácil.  Depois  que  se  fez  a  investigação  passiva, 
resolve­se  que  o  analisador  artificial  que vai agitar o ambiente e que vai dar­nos o material mais profundo, 
mais  crítico,  mais  comprometido,  é  uma  reunião  de  cineclube.  Cheguei  à  conclusão  de  que  vou  propor  a 
projeção  de  um  filme  e  uma  discussão  sobre  o  mesmo,  e  importante,  porque  é  indireto,  desloca  a 
problemática   da  situação  espontaneamente  referida.  Por  outro  lado,  não  é  demasiadamente  indutivo, 
porque  o  interventor  não  está  baixando  regras,  mas  está  propondo  um  dispositivo  agitador,  um 
agenciamento  ativador.  Os  usuários  podem  aceitar ou não. Se não aceitam,  teremos que pensar em outras 
alternativas.  Uma vez aceito, pode dar certo ou não. Pode ter um resultado rico ou pode não dar em nada. 
Também  se  pode  propor  outra  coisa  bem  interessante:  um  laboratório  prolongado  de  fim  de  semana  em 
um  espaço  diferente  do  habitual:  vamos  nos  reunir todos em um lugar e vamos conviver durante estes  dois 
dias  e  permitir­nos  observar  o  que  acontece  nessa  convivência.  É  muito  recomendável  e  não  é  nada 
autoritário, nada impositivo. 
Depois  que  se  executam  os  dispositivos  do  diagnóstico   provisório,  reúne­se a equipe interventora  
e parte­se para analisar toda a colheita, fazendo­se a análise da demanda e do encargo 
103 ▲

definitivo.  Da  mesma  maneira  que  ativamos  esse  coletivo ou mobilizamos e o colocamos em  condições de 


manifestar­se  muito   mais  livremente,  muito  mais ricamente, também somo's mobilizados, somos igualmente 
ativados,  temos  uma  vivência  de  contato  diferente.  Então,  temos  de  voltar  a  fazer  uma  auto­análise  da 
implicação:  o  que  foi   que  isso   acordou,  despertou  em  nós,  que  não  tínhamos  percebido  em   todos  os 
passos anteriores? Particularmente o material inconsciente. Por exemplo, depois de todo esse novo exame, 
temos  adquirido  solidariedade  ou  cumplicidade  inconscientes  com  segmentos  organizacionais?  Isso agitou 
em  nós  ambições  e  desejos que  não tínhamos e agora percebemos? Por exemplo, quando se mantém uma 
convivência  prolongada,  pode­se  chegar  à  conclusão que dessa  intervenção podem ter origem dezenas  de 
outras  intervenções,  porque  essa  agência  faz  parte  de   uma  cadeia  nacional  de  agências  e  que se a equipe 
fez  uma  boa  intervenção  aqui, vai conseguir outras intervenções noutros lados. É possível não se dar conta 
de  que  essa  ambição  acordou­se  nos  interventores.  Então,  a  análise  da  implicação  significa  pesquisar, 
exaustivamente,   no   coletivo  interventor,  quais  foram  os  inconfessáveis  e  imperceptíveis  ou recalcados que 
foram  ativados.  Nova  análise  da  implicação.  Por  que  é  importante?  Porque  o  passo  seguinte  é  o 
diagnóstico  definitivo  e  o  planejamento  da  intervenção  definitiva.  Nova  política,  novas  estratégias,  táticas, 
técnicas  definitivas,  analisadores  definitivos  e  um  passo  seguinte  fundamental:  proposta   de  intervenção  e 
novo contrato. 
Esse  contrato  definitivo,  que envolve maior compromisso e requer mais retribuição, exige ter muito 
claro  aquilo  com   que  se  está  lidando  e  quais  foram  as  ressonâncias  inconscientes  que  isso.  despertou  na 
equipe  interventora.  Também  será  preciso  definir  qual  a  orientação  geral  que  vai  ser  dada  ao  processo, 
será  necessário  precisar  quais  são  as  estratégias,  os  movimentos  fundamentais   para  conseguir  os 
propósitos  políticos;  será  necessário  desenhar  as  táticas,  os  espaços  onde  se  vai  dar  essa  "guerra",  a 
ordem  dos  mesmos,  a  importância  dos  mesmos  e  as  técnicas,  os  procedimentos:  psicodrama,  técnicas 
expressivas,  qualquer  técnica,  mas  pensada  anteriormente;  uma  festa,  um  cineclube,  uma guerra simulada, 
um  quebra­cabeça  coletivo,  toda  técnica  é  boa,  sempre  que  a  tática, a estratégia e a política estejam bem 
claras e resultem do diagnóstico definitivo e do entendimento da implicação. 
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Depois  temos  a  autogestão  do  contrato  de  intervenção,  isto  é,  vamos  fazer  uma  proposta  de 
contrato  definitivo,  mas  não   vamos  impor   nenhum  dos  termos  e  deixaremos  que  o  coletivo  proponha  se 
quer  pagar  quanto   quer  pagar,  por  que  quer  pagar,  que  tempo  pensa  destinar  ao  trabalho,  que  poderes 
quer  nos  dar  e  porque,  o  que  será  muito  ilustrativo  do  significado  que  a  intervenção  tem  para  cada 
segmento.  O  interventor  institucional  nunca  faz  uma  declaração  assim:  "Eu  quero  um  contrato  por  tanto 
tempo,  eu  cobro  tanto   e  quero  que  se  me  autorize  produzir tais e quais transformações na organização ou 
introduzir  tais  mudanças."  Primeiro  quero  saber  o  que  o  coletivo  propõe  nesse  sentido,  e  porque.  Isso  é 
completamente  diferente  das  prestações  de  serviço  profissionais  habituais,  em  que  o  profissional  diz: 
"Minha  hora  custa  tanto,  o  tratamento  vai  durar  tanto  tempo,  e  quero  que  você  se  deite  e  me  deixe 
examinar  seu  ouvido  esquerdo  com  este  aparelho.  Se  não  for  assim,  não  atendo."  Não  é  esta a idéia. Os 
temas  a  investigar  são: Como você concebe este serviço? Quanto tempo você  acha que vai durar? Quanto 
dinheiro você acha que deve ser pago? E como está distribuído o pagamento? Quando cada um pensa que 
deve  pagar  e  por  quê?  Quais  são os direitos que você nos vai dar para podermos intervir? Podemos estar 
aqui  todos  os  dias?  Podemos  acompanhar  o  trabalho  hora  após  hora?  Podemos  estar  nas  reuniões 
reservadas?  Podemos  ver  os  livros  contábeis  da  organização?  É claro que, depois de analisar a proposta, 
o institucionalista pode fazer uma contráproposta e fundamentá­la, para chegar a um acordo consciente. 
Depois  vem  a  execução  da  intervenção,  tal  como  foi  planejada.  Logo  vêm  as  avaliações 
periódicas,  que  são  momentos  de  parada  para  qualificar  os  resultados  e voltar a analisar a implicação que 
se  vai  gerando  na   equipe  durante  o  processo.  Consideração  dos  índices  de  transferência,  resistência, 
produção,  antiprodução,  atravessamento,  transversalidade,  todos  os  conceitos  que  explicamos  durante  o 
curso e que agora não poderemos tratar em detalhes. 
Quando  acaba  a intervenção temos de fazer um  prognóstico, que poderemos ou não comunicar ao 
coletivo.  Poderemos  ou  não  propiciar  a  implantação  de  um  dispositivo  de  auto­análise  coletiva 
permanente; ou seja, no momento em que saímos da organização, ficará uma disposição e uma 
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instrumentação  de  dispositivos  para  que  esse  coletivo continue fazendo, de forma permanente, o processo 


de  auto­análise  e   o   processo  de  autogestão  que  induzimos,  que introduzimos como hetero. Nós saímos, e 
o  trabalho  continua.   Podemos  fazer  um  acordo  de  acompanhamento,  de  intervenções  periódicas  de 
atualização.  E,  finalmente,  já  por  nossa  conta,  temos  de  discutir,  profunda e exaustivamente, como vamos 
elaborar  todo  o  material,  como  vamos  teorizá­lo  e  o  que  vamos  fazer  com ele, se vamos publicá­lo ou se 
vamos  obter  algum  tipo  de  benefício  com ele: o coletivo no qual intervimos está alheio, mas a implicação e 
os  problemas  éticos,  políticos  e  econômicos  continuam  sendo  importantíssimos,  sobretudo  porque  é  um 
material  que   nos  pertence  muito  relativamente:  é  propriedade  do  coletivo  considerado.  Nossa  decisão 
deverá ser submetida a ele. 
A  intervenção  standard  que  tentei  explicar  tem  milhares  de  variações, tanto que se pode dizer que 
a  regra são as exceções. Mas, em todo caso, é um esquema para se considerar e omitir os passos que não 
sejam  possíveis,  que  não  sejam   recomendáveis,  condensar  tantos  outros  etc.  Em  todo  caso, é importante 
que cada interventor possa inventar um procedimento sui generis para cada situação. 
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO VI 
1) Que modalidades de intervenção institucional você conhece? 

2) Qual é a vantagem do roteiro standard de intervenção institucional?

3) Repasse cada um dos itens do roteiro standard. 
4) Que diferença existe entre um analisador "natural" e um construído? 

5) Qual é a importância da autogestão do contrato? 
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Capítulo VII 
o INSTITUCIONALISMO NA ATUALIDADE 

f) O Institucionalismo e suas vicissitudes 
Convencionamos  denominar   o   Movimento  Instituciona  lista,  ou  Antiinstitucionalista,  ou  Instituinte, 
ou  simplesmente  Institucionalismo,  a  um  conjunto  aberto  e  internamente  diversificado  de  correntes  que 
mostram certos valores em comum, bem como marcadas diferenças. 
Não  é  nossa  intenção   enumerá­las  e  caracterizá­las  todas,  não  só  porque  este  propósito  excede 
em  muito  os  limites  deste  livro,  mas  também  porque   supomos  que   este  universo  seja  não  totalizável.  O 
mesmo  se  incrementa  incessantemente  com  discursos e práticas originais que  podem diferir marcadamente 
dos que cada um considera os mais notáveis e respeitáveis desta agrupação. 
Basta  dizer  que  compreende  numerosos  saberes  e  fazeres  que  tomam  por  objeto  os  coletivos 
sociais  no  que  se  refere  às  lógicas  que  os  regem,  às  formas  concretas  em  que  essas  se  "materializam", às 
finalidades  que  perseguem  e  à  medida  que  as  alcançam,  assim  como  aos  recursos  que  empregam  para  
obtê­las.  Em  outras  palavras:  ocupam­se  das instituições, organizações, estabelecimentos e equipamentos, 
assim como dos agentes e práticas que estes protagonizam. 
Essa  abordagem  tem  o  que   poderíamos  chamar  em  geral,  e  não  sem  ressalvas,  uma  vocação 
crítica, que tenta conceituar de diferentes maneiras. Podemos eleger uma, insistindo que não 
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será  necessariamente  compartilhada.  Trata­se   de  diferenciar  em  cada  uma destas entidades sua função ou 
funcionalidade de seu funcionamento. 
A  função  remete  a  fins  e  meios  declaradamente  universais  e  necessários  para  o  suposto  "bem 
comum".  O  funcionamento  remete  à  virtualidade  que  essas  entidades  detêm  de  um  potencial 
transformador,  a  serviço,  principalmente,  da  produção  de  novas  formas  libertárias  da  vida.  Essa  vaga 
descrição  introdutória  permite  reconhecer  que  o  espectro  de  propostas dos diversos "institucionalismos" é 
classificável  em  uma  escala  que  vai  desde  posições  relativamente  conservadoras,  seguindo  por  outras 
crescentemente  reformistas,  até  chegar  a  concepções  e  ações  alternativas,  marginais,  clandestinas, 
revolucionárias e, até talvez caiba dizer, extremistas. 
Muito  sumariamente  mencionada,  a  gênese  social  desse  Movimento  pode  relacionar­se,  em  seus 
aspectos  conservadores  ou  reformistas,  com  uma  longa  série  de  tentativas  históricas  de  regular 
racionalmente  a  existência  das coletividades. Arbitrária  e muito simplificadamente, proporíamos as grandes 
balizas  da  Revolução  Francesa,  o  Iluminismo  e  o  Enciclopedismo  como  acontecimentos  importantes 
pioneiros  deste  tipo.  Pelo  contrário,   em  suas  versões  mais  drásticas,  o  Institucionalismo  tem  parentesco 
com  todos  os  ensaios  libertários  que   as culturas  e civilizações tenham pensado ou experimentado, desde a 
tribalidade  primitiva  e  nômade  até  as tentativas autogestivas modernas da  Iugoslávia, Argélia e, sobretudo, 
da República durante a Guerra Civil Espanhola. 
Quanto  à  gênese  conceitual,  sabe­se  que  o  Instituciona  lismo  nutre­se  de  linhas  teóricas 
contrastantes,  na  medida  em  que  estas  não  são  homogêneas.  Por  um lado, não pode deixar de se inspirar 
na  filosofia  mais  ou  menos  "oficial"  do  Ocidente:  Sócrates, Platão, Aristóteles, os Escolásticos, Descartes, 
Kant,  Hegel  e  Heidegger.  Por  outro,  adere  com  muito  mais  entusiasmo  ao  espírito  dos  materialistas 
pré­socráticos,  assim  como  aos  sofistas,  megáricos,  epicuros,  estóicos,  Espinosa,  Nietzsche,  Hume,  
Bergson,  Kierkegaard  e  Sartre.  Algo  similar  ocorre  com  os  pensadores  políticos  e  jurídicos  cuja 
nomeação  resultaria  demasiado  extensa.  Basta  mencionar  a  preferência  do  Institucionalismo  pelos 
utopistas  como  Tomas  Morus,  Campanella,  Rabelais,  Fourier  e,  à  sua  maneira,  por  Marx,  Bakunin  e 
outros. 
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Se  é  permitido  falar­se de uma gênese operacional, é sabido que as origens  do  Movimento podem 
fazer­se  partir  de  três  grandes  campos  da  práxis,  a  saber:  o  da  Educação,  o  da  Saúde  Pública 
(especialmente  a  mental)  e  o  da  Indústria.  Poder­se­ia  acrescentar  toda  aquela  atividade  vinculada  aos 
Serviços  Sociais,  os  problemas  da  Urbanização  e  Demografia,  e  assim  por   diante.  Simultânea  ou 
consecutivamente,  esses   limites  se  ampliaram  a  quase  todo  tipo  de  organizações  e  estabelecimentos 
(comerciais, financeiros, partidários, sindicais, eclesiásticos e até militares). Essa difusão culminou com uma 
conflituosa  incorporação  (crítica  ou  não)  dos  recursos  institucionalistas  ao   "planismo"  em  grande  escala, 
quer  dizer,  às  grandes  campanhas  estatais  para  o  gerenciamento  e  a  administração  das sociedades civis e 
das populações em geral. 
As  bases  teórico­técnicas  mais  específicas  do  Institucionalismo  são  surpreendentemente 
numerosas  e  compreendem  não  só  contribuições  de  ciências constituídas  Sociologia, Psicologia, História, 
Economia,  Semiótica  e  Antropologia  –,  como  também  de  disciplinas  como  a  Pedagogia e a Medicina, ou 
interdisciplinas  formal­tecnológicas  como  a  Teoria  da  Comunicação,  dos  Sistemas,  dos   Jogos  etc.  Cada 
um  desses  setores  do  conhecimento,   obviamente,  não  é  homogêneo,  e  nem  sua herança institucionalista o 
é.  Encontramos,  assim,  influências  predominantes  de várias correntes, por exemplo: Comportamentalismo, 
Rogerianismo  ou  Psicanálise (em Psicologia), Funcionalismo, Estruturalismo ou Materialismo Histórico (em 
Sociologia e Economia Política) e assim por diante. 
Desde  logo,  todas  essas  influências  estão  moduladas  segundo  matrizes  filosóficas,  ideológicas   e 
políticas  assumidas  expressamente  ou  não  pelos  teóricos  e  praticantes  institucionalistas,  entre  os  quais 
encontramos,  como  mínimo,  liberais,  marxistas  e  anarquistas.  Sem  contar  que  boa  parte  entende  que  o 
Institucionalismo  é  uma  visão  política   integral  do  mundo  em  si  mesmo  e  que  não  pode  reduzir­se  a 
nenhuma das posições políticas reconhecidas. 
Quanto  ao  estatuto  gnosiológico  pretendido  por cada orientação para a sua práxis, a gama abarca 
desde  as  escolas  que,  aspiram  a  títulos de cientificidade (de acordo, está claro, com a definição de ciência 
que sustentem as epistemologias às quais respectivamente subscrevam) até as que se postulam como 
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afazeres  artesanais  militantes  ou  ainda  não  enquadráveis  em  qualquer  categoria  que  não  seja  uma   nova 
concepção da convivência cotidiana. 
Conseqüentemente,  essa heterogeneidade não pode mais que desembocar em uma quase Torre de 
Babel,  no  que  tange  a  uma  certa  unificação  de  termos  indispensável  para  a  produção  teórica  (coerência, 
consistência,  precisão,   convalidação,  verificação  etc.).  Como veremos mais adiante, o mesmo ocorre com 
as  convicções  requeridas  para  a  articulação  de  uma  Ética,  Estratégia  e  Tática  do  Movimento.  Se  o 
instrumental  teórico,  método  e   objeto  de  estudo  são  tão  proteiformes  e  problemáticos,  o  que  esperar 
acerca  do  arsenal  técnico,  o  qual  se  desdobra  entre  as  ferramentas  clássicas  da  Sociologia  (pesquisas de 
opinião  e  atitude,  análise  de  conteúdo,  entrevistas  livres  ou  dirigidas,  assembléias,  workshops  etc.),  
passando  pelos  procedimentos  informativos,  dramáticos,  sugestivos  ou  interpretativos  das  psicoterapias 
até chegar à doutrinação ou à agitação política segundo padrões mais ou menos tradicionais. 
Em  síntese:  esta  "evolução",  "progressão"  ou,  mais  neutramente  dizendo,  este  "percurso"  de  sua 
gênese  social,  conceitual  e  operativa,  coloca  ao  Movimento  agudos  problemas  pertinentes  a  seu  estatuto 
ético, jurídico­político, gnosiológico e profissional. 
Esses  temas  costumam  aparecer  no  Institucionalismo  em  torno de polêmicas sobre a cientificidade 
e  a  profissionalidade.  Com   a  cientificidade  joga­se  o  reconhecimento  e  a  autorização  das  comunidades 
científicas  e  acadêmicas  (diplomas,  títulos, carreiras, publicações etc.). Com a profissionalidade o que está 
em  jogo  é  a  legitimidade,  legalidade,  ou  o  que  quer  que  se  queira  chamá­lo,  do  Institucionalismo,  com 
relação  aos   códigos  jurídicos  nos   quais  se  enquadra  e  aos  normativos  a  que  se  atém...  e  suas  óbvias 
conseqüências  econômico­políticas  (operações  de  oferta,  demanda  e  contratação  de   serviços, 
possibilidade  de  confissão  dos  objetivos  reais  da  intervenção,  avaliação  de  eficácia,  questões  de 
neutralidade­abstinência ou imparcialidade­indução). 
Essa  conflitiva  do  Movimento  nas  dimensões  da  especificidade  (cientificidade)   e  da 
profissionalidade  já  é  incômoda  mesmo  para  as  modalidades  mais  conservadoras  e  reformistas  na  escala 
de  correntes.  Certas  orientações como a denominada "Desenvolvimento Organizacional" ou a "Cibernética 
Social" são 

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vistas  pelos  setores  acadêmicos  ou  pelos  mais  politizados  como  "penetras",  mercantilistas  e  adaptativas; 
isso  não  impede  que  existam  e  às  vezes  alcancem  um  êxito  mercadológico  e  efetivo  entre  seus  usuários. 
Mas  a  questão  de  fundo  que  se  coloca  é  como  o  "devir" das posições no fazer e saber institucionalista foi 
se pronunciando: 
a. Quanto  à  especificidade,  sobre  uma  crítica  radical  das  cumplicidades  das  leituras  e  intervenções  
científico­ tecnológicas com os sistemas e setores dominantes; 
b. Quanto  à  profissionalidade,  sobre  uma   impugnação  extremada  do  papel  de  certas  prestações  de 
serviços,  cujos  privilégios  corporativos  e  condições  mercantis  contratuais  seriam  reprodutores 
flagrantes  da  divisão  técnico­social  do  trabalho  e  da  alienação­dependência  do  saber­poder  dos 
coletivos de usuários. 
No  extremo,  e  coerentemente,  as  formas  mais  marginais,  alternativas  ou  revolucionárias  do 
Movimento  costumam  compartilhar  uma  utopia  quase  insurrecional  de  ampliação   e  generalização  da 
análise e da intervenção em grandes situações em escala regional, nacional e até planetária. 
Os  setores  tradicionais  do  Movimento,   de  acordo  com  os  países  onde  se  desenvolvem, 
conseguiram  uma  considerável  aceitação  e  até  uma  consagração  que  os  incorpora  (mais  de  fato  que  de 
direito)  à  tecnologia  da  human  engineering  (Psico­Sociologia  das  Relações  Humanas,  Treinamento  em 
Recursos  Humanos  etc.).  Pelo  contrário,  a  faixa  mais  subversiva  do  Movimento,  impulsionada  por  uma 
clara  perseguição  aos  objetivos  de  coletivização  e  generalização  da  auto­análise,  da   autogestão  e  da 
autodeterminação  das  comunidades,  afasta­se  cada  vez  mais dos parâmetros epistemológicos e legais que 
regem as prestações convencionais das quais partiu no início do Movimento. 
Durante  esse  trajeto,  as  orientações  mais  radicais  produziram  "instrumentos"  teórico­técnicos 
valiosos  sob  todos  os  prismas,  tais  como:  implicação,  analisador,  demanda,  encargo,  efeitos:  Mulhman, 
Lukács,  Weber,  frio­quente,  centro­periferia  etc. (ver glossário), que atendem à autocrítica dos valores da 
equipe  de  prestadores  de  serviços  e  da  reconquista,  por  parte  dos  coletivos,  das  potencialidades  acima 
apontadas.  Contudo, as expectativas  de mudanças substanciais e duradouras nas comunidades de usuários 
não foram inteiramente satisfeitas, e 
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muito  menos  as  de  propagação  da  utopia  transformadora  a  vastas  unidades  sociais.  Como  veremos  mais 
adiante,  o  complexo  panorama  do  mundo  atual  nos  mostra  coletivos  brutalmente  submetidos,  ou 
persuadidos  ao  participacionismo,  ou  totalmente  apáticos  e  dispersos.  Isso  tudo  acontecendo  em   um 
estado coisas objetivo de injustiça social que exigiria mais que nunca uma ação conjunta decidida. 
Parece  que  o  Institucionalismo  avançado,  e  mais  ainda  o  "maximalista",  que  não  simpatiza com as 
formas  políticas  "progressistas"  e/ou  revolucionárias  convencionais  (tais  como  partidos  ou  vanguardas 
elitistas),  não  foi  capaz  de  deflagrar  por  si  mesmo  sólidos  processos,  pontuais  ou  amplos,  de  mudança 
libertária.  A  rigor,  não   é  seguro  que  seja  isso  o  que  o  Institucionalismo  avançado  pretende.  Mais 
corretamente,   a  idéia  consiste  em  encontrar  canais  de  conexão,  formais  ou  não,  com  as  iniciativas 
históricas  circunscritas  ou  massivas  que  se  encontram  já  em  andamento,  para  contribuir  com  as  mesmas 
para a plena vigência das modalidades gestionárias singulares que necessitem e decidam dar­se. 
Mas  é  justamente  este  um  dos   pontos  nos quais se  coloca para o institucionalista avançado o mais 
duro  desafio,  radicado  na  elaboração  dos  citados  canais   de  cooperação.  Se  por  um  lado  os 
procedimentos  habituais  de  produção  de  demanda  de  serviços  lhe  estão  dificultados  ou  impedidos  pela 
peculiaridade  de  seus  ideais,  por  outro  as  célebres  categorias  de  inserção  nos  movimentos  e  lutas,  tais 
como as de integrante, colaborador, aliado ou simpatizante lhe são insuficientes. 
Diante  dessa  perspectiva,  o  agente  institucionalista  com  inquietações  militantes  encontra  dilemas 
excruciantes,  nem   sempre  realistas,  que  se  em  um  sentido  podem  constituir  fatores  de  propulsão  ao 
aperfeiçoamento  de  seus  recursos,  em  outro,  ameaçam  submergi­lo  em  uma  certa  paralisia.  René  Lourau 
tratou  lucidamente   desses  impasses  em  dois  capítulos  memoráveis  seu  livro  "El  Estado  y  el  Inconsciente" 
(Ed.  Kairos,  Barcelona,  1980).  Na  segunda  parte  do  citado  texto,  os  capítulos  V  e  VI  intitulam­se:  "El 
Estado  en  el  Analisis  Institucional"  e  "El  Analisis  Institucional  en  el  Estado".  Resume­se  aí  o  drama 
Institucionalismo:  definindo  o  Estado,  soma  do  instituído,  uma  maneira  vasta  e  diversificada  como  "o 
inimigo principal" (a expressão é nossa), o autor tenta sistematizar os obstáculos, 
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possibilidades  e  impossibilidades  que  a  onipresença  do  "Leviatã"  impõe  ao  Movimento  em  todos  os 
campos  de  sua provável atuação. Mas não deixa de assinalar  o  peso das mortíferas determinações estatais 
imanentes  ao  próprio  seio  do  Movimento.   Remetemos  o  leitor  a  essa leitura obrigatória porque queremos 
partir  dela  para  enfatizar  alguns  inconvenientes,  não  por  acreditarmos  que  não  tenham  sido 
abundantemente  tratados  neste  e  em  outros  escritos,  senão  no  tangente   à  nossa  experiência  particular.  O 
primeiro  refere­se  ao  fato  de  que  o  lnstitucionalismo  avançado  e  até  o  "maximalista"  não  são 
suficientemente  conhecidos  devido  à  sua  pouca  difusão, de modo que os pequenos grupos e  organizações 
não  sabem  de  sua  existência.  Por  outra  parte,  a  maioria  dos  grandes  experimentos  "revolucionários" 
massivos  atuais  não  sustenta  integralmente  os  ideais  libertários  antes  mencionados,  sendo  pouco provável 
que solicite a colaboração de um institucionalista, mesmo supondo que conheça sua proposta. 
Isso  reduz  as  demandas  de  trabalho  àquelas  apresentadas  por  organizações  de  pequena  e  média 
envergaduras,  que  na  maioria  das  vezes  confundem  o  serviço  que   procuram  com  qualquer  uma  das 
variedades "normativizantes" anteriormente descritas. 
Também  devido  à   pouca  divulgação  do  Movimento,  o  Institucionalismo  se  vê  forçado  a  recrutar 
quase  exclusivamente  seus   adeptos  praticantes  nos  estabelecimentos  de  formação  acadêmica  de 
especialistas e profissionais. 
As  duas  dificuldades,  a  de   uma  demanda  errada  e  a  de  uma  procedência  logocêntrica  e 
corporativa  dos  agentes,  contribuem  para  o  aggiornamento  da  corrente  no  sentido  das orientações mais 
adaptacionistas  ou  reformistas.  Contudo,  segundo  nossa  experiência  na  América  Latina,  algumas  regiões 
da  Europa  e  (por  referências)  nos  Estados  Unidos,  proliferam  cada  vez  mais  movimentos,  espaços  e 
correntes  idiossincráticos  (de  singularidades  etárias,  sexuais,  raciais,  religiosas  e  até  trabalhistas) 
"naturalmente"  predispostas  a  coletivizações  autônomas,  senão  à  autogestão  generalizada   "a  quente".  Em 
cada  um  desses  âmbitos  ou  nos  interstícios  de  outros  mais  "oficiais",  abrem­se  para  o  institucionalista 
outras tantas oportunidades para reinventar sua "maestria". Trata­se, mediante a auto­análise  da implicação 
despertada pelo encontro com a singularidade do 
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coletivo  intervindo,  de  expurgar  os  emergentes  de  profissionalismo  e  especialismo  que  se  levantam  como 
impedimentos para a plena realização produtiva da intervenção como acontecimento. Fazem­se imperiosos 
para  o  Institucionalismo  estudos  cuidadosos  e  particularizados  da  estrutura  e  estratégias  do  Estado 
(entendido  como  ubíquo,  inconsciente  e  "contínuo")  em  cada  formação  social.  Essa  falência  também  foi 
indicada  por  Lourau  e  outros;  enquanto  essa  não  for  remediada  por  um  extenso sistema de intercâmbio e 
acumulação  de   informações  (chame­se,  por  exemplo,  "Praxiologia",  como  sugerem  alguns),  o 
Institucionalismo  estará  condenado  a  uma  série  de  apreensivas  apostas,  sobre  algumas  das  quais 
voltaremos ulteriormente. 
Sem pretender sequer introduzir o tema de uma "Estatologia Diferencial Institucionalista", queremos 
apenas  observar  que  as  sociedades  opulentas  (em  especial  as  sociais  democracias  européias),  por  um 
lado, parecem propícias ao Institucionalismo devido à sua permissividade e tecnologização dos sistemas de 
controle  social,  ao  elevado  nível  de  padrão  de  vida  e  de  instrução  pública  e  à  preocupação  generalizada 
com  a  ameaça  atômica  e  a  deterioração   ecológica.  No  entanto,  por  outro  lado,  os  Estados  gerentes 
pseudo­exitosos,  modernos  e  eficientes  administradores  de  enormes  riquezas,  persuadiram  as populações 
com  benefícios  concretos  ou  imaginários,  levando­as  a  uma  atitude  de  "conservadorismo  crispado" 
(segundo  F.  Guattari)  ou  de  indiferença  complacente  (que  alguns  entendem  como  formas  de  resistência 
passiva). 
Nos  capitalismos  tardios  latino­americanos  (por  exemplo)  ocorre  algo  diferente.  As  massas 
extremamente  depauperadas,  as  burguesias  nacionais  retrógradas  (aquelas  por  total  falta  de  opções  reais 
de  sobrevivência,  estas  por  quase  absoluto  desinteresse  pelo  cuidado  com  a  força  de trabalho e o cultivo 
do  mercado  interno),  não  são  propensas  às  propostas  institucionalistas.  Ao  mesmo  tempo,  o  brutal 
contraste  entre  o  discurso,  estrutura  e  recursos  estatais  (essencialmente  demagogos,  insuficientes, 
incompetentes e  corruptos) e o trágico nível de carência dos coletivos fazem com que o "planismo" seja  um 
ostensivo  fracasso.  Como  conseqüência,  o  Estado  precisa  urgentemente  de  otimizar  sua  gestão  e  as 
comunidades, profundamente decepcionadas com suas expectativas acerca do 
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providencialismo  estatal,  começam,  penosamente,  a  dar­se  soluções  próprias.  Esta  superfície  mostra 
algumas  brechas  para  o  Institucionalismo,  se  tal  coisa  existe,  para  certo  trabalho  "no  Estado"  e  "com  a 
sociedade  civil".  Nesses  empreendimentos, contudo, a reformulação das  características do agente e de sua 
práxis  se  faz  imperiosa:   a  precariedade  de  meios  de  remuneração  e  a  violência  repressiva  –  como  a 
cooptativa,  sempre  pronta  a  desencadear­se  sobre  o  institucionalista  e  seu  cliente  –  impõem  estratégias e 
táticas infinitamente sutis e cautelosas. 
Essas  questões  não  são,  de maneira alguma, novas para o Movimento. Deu­se para elas respostas 
já  célebres  que  levam  nomes  tão  aceitos  como  vituperados  pelos  diferentes  segmentos  do 
Institucionalismo:  empresarização,  entrismo,  maquiavelismo,  infiltracionismo,  distorção  da  demanda, 
marginalismo,  clandestinismo,  ressingularização  das  práticas  são  alguns  dos  termos  usados  para  designar 
manobras  de  contato  e   entrada  nos  coletivos  de  usuários.  Consagrados  e  repudiados,  esses  modi 
operandi,  como  muitos  outros  referentes  a  uma  diversidade  de  assuntos  do  Movimento,  expressam  a 
permanente  tensão   e  oscilação  que  ocorre  entre  a  conveniência  de  associar  as  diversas  correntes  do 
Institucionalismo  e  seu  horror   à  totalização.  Em  geral,  o  estado  incipiente  dos  intercâmbios  teóricos  e 
casuísticos gera uma exacerbação da crítica fundamentalista operante em uma espécie de "vazio". 
Ao  perigo  de  paralisia  ao  qual  se  aludiu  anteriormente,  causado  basicamente  pelo  poderio,  a 
ubiqüidade  e  flexibilidade  das  forças  reativas  atuais,  acrescentam­se  certos  agravantes  que iremos  apenas 
esboçar  aqui.  Freqüentemente  o  institucionalista,  calouro  ou  experiente,  mais  ou  menos  acostumado  a 
suportar  as  limitações   de  sua  tarefa e a crítica exógena ao Movimento, sofre sérias pressões resultantes da 
crítica  endógena,  ou  seja,  da  crítica  que  nasce  da  luta  entre  as  correntes  internas  (conservadoras, 
reformistas, alternativas, revolucionárias e até "terroristas") da corrente. 
Não  é  nada  estranho  que  assim  seja;  em  outras  palavras:  não  há  nada  de  inesperado  no  fato  de 
haver  dissidências  em  um  Movimento   que  possui   a  estranha  virtude  de  ter  produzido,  em  pouquíssimo 
tempo  e  com  mínima  repercussão  "pragmática",  uma  rica  e  profunda  autocrítica.  Ela  afeta  tanto  as 
disciplinas teórico­técnicas, das quais as tendências institucionalistas se 
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originaram, quanto elas mesmas, independente do grau de desenvolvimento que chegaram a alcançar. 
Essa  crítica  disseca,   metaforicamente  falando,  cada  uma  das  células,  vísceras,  tecidos,  sistemas, 
organismos  e  funções  que  as  integram.  Mas  esse  trabalho  é feito habitualmente em abstrato e não sobre o 
que  alguns  denominam  uma  "clínica  ampla"  do  Movimento.  Tanto  é  assim que capítulos fundamentais, tais 
como  o  da  logística  (avaliação  de  disponibilidades  ou resultados) ou, seguindo com a metáfora, a genética 
(estrutura  e  dinâmica  da  reprodução e mutação), a biotipia (taxonomia de perfis) e a eugenesia (replicação 
de  perfis  ótimos)  ainda  não  foram  escritos.  Cabe  aqui  acrescentar  a  ressalva  de  que,  segundo  certo 
conjunturalismo  ou  improvisacionismo  extremado  de  alguns  institucionalistas,  talvez  não  seja  necessário 
escrevê­los  senão  como  curiosidades  museológicas,  na  medida  em  que  tais  registros  só  seriam 
reconstrutivos  de  experiências  consumadas.  Essas,  triunfantes  ou  falidas,  teriam  uma  singularidade  tal  que 
careceriam de qualquer valor prescritivo ou prospectivo generalizável. 
A  problemática  que  esboçamos  tem,  como  uma  de  suas  áreas  mais  sensíveis,  a da sistematização 
de  uma  "Pedagogia  Institucionalista".  Se  se  admite  que  o  Institucionalismo  é,  em  última  instância,  uma 
modalidade  de  viver  coletivamente,  adquire  sentido a afirmação (um tanto esnobe) de que "não se ensina". 
Dito  de  outra  maneira,  a  proposta  é  que  cada  coletivo  construa  as  condições  para  se  autoconhecer, 
autodeliberar  e   autodecidir  a  forma  sui  generis,  única  e  irrepetível,  que  deseje  dar­se  para  existir.  Este 
processo  prioriza  a  crítica  e  a  dissolução  das  formas  alienadas  das  quais  padece,  incluindo entre elas boa 
porção  dos  conceitos  com  os  quais  as  lê  e  as  avalia.  Nesta  reelaboração,  as  figuras  do  profissional  e  do 
técnico  "em  fazer  isso"  são  forçosamente  demolidas  e,  junto  com  elas,  as  dos  "que  ensinam  a  fazer  isso", 
especialmente se o fazem para formar "experts em fazer isso". 
Mas  se  não  se  admite  um  "especialista  em  autogestão",  deve­se  necessariamente  conceber  (pelo 
menos  doutrinária  e  provisoriamente)  procedimentos  de  inspiração  autogestionária  para  formar  diversos 
especialistas,  fazendo,  no  possível,  uma  clara  discriminação  entre  especificidade  e  especificismo.  A  
redistribuição do saber e do fazer nas gestões autônomas cria 
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condições  para   surpreendentes  descobertas  e  resultados  protagonizados  por  participantes  ou  grupos  dos 
quais  "menos se poderia esperar". Mas isso não implica que se tenha obrigatoriamente de reinventar tudo e  
que  não  exista  alguma  divisão  operacional  e  vocacional  do  trabalho,  assim  como  tampouco  descarta  que 
alguém  que  "passou  por  muitas  gestões"  possa  participar  de  outras  nas  diversas  qualidades  que  acima 
confessamos  não  havermos  conseguido  classificar.  Aludimos,  é  claro,  ao  que  há  algumas  décadas  se 
denominava "acumulação social do saber". 
O  assunto  torna­se  mais  nítido  no  caso  de  coletivos  de  estudantes  de  alguma  disciplina  que 
desejam  aprender  sua  matéria no marco de uma experiência institucionalista e, mais claro ainda, quando se 
trata  de  disciplinas  diretamente  aparentadas  com  as  origens  do  Institucionalismo,  tais  como  Sociologia, 
Psico­Sociologia,  Ciências  Políticas  etc.  A nota em comum, que configura estas comunidades como tais, é 
a  de  associar­se  com  a  finalidade  de  gestionar  uma  forma   coletiva  e  autônoma  para  adquirir o manejo de 
certas  contribuições   teóricas  e  operativas  dos  saberes constitutivos da prática geral do Movimento. Que a 
organização  e  procedimentos  adotados  sejam  "não­diretivos",  "permanentes",  "co­gestivos",  não  é  tão 
importante  quanto  parece.  Tampouco  o é o tanto que a iniciativa seja parcialmente autogestiva (em âmbito  
ideológico,  pedagógico  e  político)  ou  integralmente  autogestiva.  O  ponto  crucial  é  que  o  projeto  esteja 
decididamente  encaminhado,  em  cada  um  de  seus  dispositivos,  a  uma  articulação  e  disseminação  do 
Institucionalismo  com  e  em  outros  coletivos  atuantes.  Esse  objetivo, quando é claramente assumido, exige 
ou  não  a  autodissolução  do  agenciamento  pedagógico,  mas  pressupõe  a  firme  disposição  dos  agentes 
formadores à autodissolução e recolocação de sua "identidade" segundo os novos paradigmas nos quais se 
insiram.  Completando  a  idéia:  impõe  a  não­  reprodução  do  equipamento  e  do  modelo  pedagógico  que o 
gerou.  É  evidente  que   dispositivos  desse  tipo   só  se  justificam,  e  dão  modestos  frutos,  enquanto  a  "frieza" 
do  contexto  social  que   os  contém  não  permite  senão  uma  discreta  transversalização  do  ensinamento com 
as  forças  instituintes  "pesadas"  do  Trabalho  ou  da  Grande  Política.  Só  alguns  extraviados  fanáticos  ou 
duvidosamente intencionados "puristas" confundem o que é 
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"deixar   aprender"  Análise  Institucional  ou  Sócio­Análise   em  um  estabelecimento ou curso isolado, "a frio", 
com  o  que  é  tentá­lo  numa  autogestão  social  generalizada.  No  primeiro  caso,  o  máximo  que  se 
autodissolverá,  e  só  até  certo  ponto,  será  a  assimetria  educacional  entre  professores  e  aprendizes.  No 
segundo,  ambos  deverão  dissolver­se  em  uníssono,  assim  como  sua  organização  mesma,  nas  práxis  dos 
coletivos  que  lhes  ensinaram  "em  ato"  como  e  para  quê  fazê­lo.  Enfim:  como  dissemos,  resulta 
perfeitamente  compreensível  e  ainda  indispensável  que  os  processos  de  auto  exame  e  transformação 
constante  do  Movimento  se  exerçam  sem  pausa  nem concessão alguma. Mas se essa implacabilidade tem 
efeitos  inequívocos  sobre  as  formas  radicais  antecedentes  ou  pioneiras   do   Institucionalismo,  eles  não  são 
tão  límpidos  quando  se  opera   com  indiscriminada  dureza  sobre  a  infinita  variedade  de  propostas 
institucionalistas contemporâneas. 
Tensionado  entre  a  necessidade  de  sobrevivência,  a  de  "autorização" e o desejo produtivo, de um 
lado,  e  os  duros  limites  do  Estado  e  das  forças  reativas do outro, o institucionalista deve ainda enfrentar a 
crítica  interna. Por isso,  não é nada infreqüente encontrá­lo decepcionado, culpado, onipotente ou, o que é 
mais  comum,  perplexo.  Frente  a  esse difícil panorama, três deformações tocaiam o agente institucionalista, 
como outras tantas soluções de compromisso do conflito que o dilacera. 
Um  primeiro  caminho  é  o  regressivo.  O  agente  retrocede  às  modalidades  mercantis, 
adaptacionistas,  burocráticas  e  corporativas  do  Movimento.  Entre  elas  destacam­se  o  empresarismo,  o 
funcionalato  e  o  academicismo.  Só  que  essas  adoções  se  realizam"  em nome do Institucionalismo", e com 
um  verniz  mais  ou  menos  progressista  e  declamatório.  Os  profissionais mais propensos a esse destino são 
os  psicólogos  de  empresa,  administradores,  comunicólogos  e  psicanalistas,  assim  como  professores 
universitários. 
Uma  segunda  vicissitude  é  a  que  resulta  de  uma  espécie  de  falsa  aceleração pela qual o agente se 
lança  às  formas   clássicas  da militância política, sejam as reformistas e eleitoreiras, os ativismos messiânicos 
ou  as  vanguardas  intelectuais  contestatórias  meramente  discursivas.  Sem  que  pretendamos  condenar  a 
pertinência  conjuntural  dessas  estratégias,  urge  se  fazer  constar  que,  em  sua  assunção,  todo  e  qualquer 
"espírito" 
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próprio do Institucionalismo se perde nas estratificações partidárias, sectárias ou facciosas. 
Uma  terceira  escolha,  tão  engenhosa  quanto  discutível,  é  a  que  pedimos  licença  para  denominar 
com  a  pitoresca  metáfora  de  "Tática  do  Tero".  O  tero  é  uma  ave  da  planície  Argentina  que,  segundo  a 
tradição  gaúcha,  "grita  em  um  lugar  e  põe  os  ovos  em  outro",  para  assim  protegê­las  da  voracidade  das 
espécies  predadoras.  Tentamos  ilustrar  assim  a  prática  dissociada  de  alguns   institucionalistas,  que  obtêm 
subsídios  e  apoio  em  estabelecimentos  e  serviços  ostensivos  nos  quais  ensinam,  publicam  ou  intervêm, 
segundo  versões  híbridas,  circunscritas  e  moderadas  do  Movimento.  Ao  mesmo  tempo,  colaboram  ou 
protagonizam,  clandestinamente  ou  não,  mas  em  real  condição  de  implicados  nos  eventos  e 
empreendimentos  mais  puristas  aos  que  têm  ocasião  de  incorporar­se.  Não  nos  parece  que  esta 
composição  seja  das  piores,  mas   sim  que  é  uma  saída  desgastante,  inevitável,  às  vezes,  devido  às 
limitações no desenvolvimento da doutrina e do Movimento antes apresentados. 
Como  quer  que  seja,  e  em  referência  a  esse  terceiro  tipo  de agente, muito nos importa esclarecer 
que  não  deve  ser  confundido  com  outro,  que  cremos  conhecer  muito  bem  e  que  é  urgente  desmascarar. 
Aludimos  a  certos  "pseudo  institucionalistas"  que,  sabendo  das  características  dispersivas,  erráteis  e 
libertárias  que  definem  para  alguns setores (provavelmente os mais criativos)  a essência do Movimento, as 
usam  com os fins mais espúrios que se possa imaginar. Inteirados nominalmente de um punhado de noções 
da  corrente,   as  brandem  como  slogans  para  empreender  um agitacionismo fanático: do "antiautoritarismo" 
(que  desvirtua  toda  autoridade  fundada),  da  "desordem  produtiva"  (que inviabiliza qualquer organização e 
eficácia),  da  "novidade radical" (que impossibilita  qualquer regularidade operacional) da provocação­auto­ 
heterodissolvente  (que  hipostasia  a  negatividade  e  carece  de  propostas  construtivas),  do  saber  ex­nihilo 
(que  proscreve  o  estudo  e  prescreve  um  intuicionismo  inconseqüente)  etc.  Como  notas  secundárias 
caracterológicas,  estes  "anarquistas  de  bar"  costumam  glorificar  "a  paixão"  (que  confundem  com  um 
sentimentalismo  raso),  a  "liberdade  sexual"  (que  para  eles  é  uma  promiscuidade  confusa  e  obscena),  o 
"hedonismo" (que consiste em um consumismo alcoólico, drogadito e parasitário) etc. 
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 Variedades da marginalidade desocupada ou subempregada, originada da lumpenização das faixas  médias 
urbanas  universitárias,  tais  "revoltosos",  líderes,  acólitos  ou  franco­  atiradores, não só "não passam" como 
também  "nem  chegam"  a  encarnar  essas  célebres  figuras  que  a  militância  ortodoxa  qualificava  de 
esquerdosos  festivos.  Em  termos  institucionalistas:  desviantes  organizacionais,  libidinais  ou  ideológicos 
incapazes  de  produção.  Sua  triste  história  consiste  em  que  uma  vez  tenham  destruído  e  saqueado, 
brandindo  "palavras"  instituintes,  qualquer  iniciativa  que  os  tirou  do  anonimato,  dedicam­se  a  dar  rédeas 
soltas  a  sua  "vontade  de  nada",  ou  melhor,  a  reproduzir  caricaturalmente  os  vícios  (sem  as  virtudes)  da 
"imperfeita" entidade de origem. Nem Eros, nem Teros, nem Ananké; em resumo: ladrões de galinhas. 

II) O Institucionalismo e seus valores 
Se  as  aproximações  até  aqui  esboçadas  foram  ilustrativas,  cabe  concluir,  no  mínimo,  que  restam 
muitas  questões  sem  esclarecimento  no  Institucionalismo.  Essa  óbvia  constatação  não  é  proclamada  aqui 
apenas  por  pruridos  éticos,   consciência  epistemológica  ou  autocomiseração  sentimental.  O  motivo 
fundamental  é  estratégico  e  tende  a  propor  e  demonstrar  a  possibilidade  e  conveniência  de  algumas 
medidas a serem adotadas pelo Movimento. Política, logística, estratégia, táticas, técnicas, modalidades de 
divulgação,  implantação,  desenvolvimento,  transmissão, autorização, contratação, avaliação de resultados, 
alianças,  morfologia  organizacional  devem  ser  revistos  no  Institucionalismo.  E  isso  não  significa 
exclusivamente   que  esses   conhecimentos  devam  ser  produzidos,  mas  que  muitos  deles  precisam  ser 
apenas  comunicados,  intercambiados  e  elaborados  coletivamente.  Para  tal,  o  Movimento  deve  dar­se 
dispositivos  formais,  amplos  e  fortes,  com  respeito  aos  quais  tem  uma  proverbial  desconfiança.  Será 
procedente  diagnosticar  nesta  encruzilhada  algo  assim  como   uma  "enfermidade  infantil  do 
Institucionalismo"? 
Alguns  textos  que  conhecemos  procuraram  uma  abordagem  de  conjunto  de  pelo  menos   parte 
desta  problemática.  Muitos  pontos  incertos  são  tocados  e  soluções  interessantes  colocadas  com  rigor  e 
vigor. Experientes institucionalistas exortam 
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seus  colegas  a  um  certo  ecumenismo  bem­entendido,  assim  como  à  subscrição   de  convenções 
normativizadas  e  inteligíveis  para  a  socialização  da  experiência  das  inúmeras  tendências  do  Movimento. 
Dá­nos  a  impressão,  contudo,  de  que  (até  onde  sabemos)  essas  sugestões  ainda  não  reconhecem  nem 
aproveitam  devidamente  os  adiantamentos,  em  alguns  casos  admiráveis,  que  a  crítica  produtiva  de outros 
institucionalistas  já  gerou,  justamente  sobre  os  valores  e  recursos  em nome dos quais se põem em marcha 
tais  entendimentos.  Por  outra  parte,  e  até  há  pouquíssimo  tempo,  não  havíamos  percebido  colocação 
alguma  para  uma  estruturação  internacional  do  Movimento,  apesar  da  lucidez  que  os  institucionalistas 
avançados  e  experientes  demonstram  acerca   da  onda  de  integração  planetária   de  todos  os   processos 
sociais. 
Um  tema  exemplar  para  compreender  essa curiosa  combinação de falta de experiência elaborada 
com  uma  espécie  de  puritanismo  ético  encontra­se  no  capítulo  sobre  as  modalidades  de  contrato  e 
enquadre  das  prestações  de  serviços.  É  óbvio  que  para  os  institucionalistas  mais  "profissionalistas"  e 
"especificistas"  este  ponto  não  significa  problema  algum  enquanto  já  está  regulado  por  leis  ou  normas 
ditadas  por  organismos  acadêmicos,  trabalhistas  ou  jurídicos  externos  ao  Movimento.  Já  para  alguns,   se 
bem  que  esses  requisitos  sejam  indispensáveis,  só  se  exige  que  suas  condições  sejam  rigorosamente 
autogestadas  pelos  coletivos  de  usuários,  compartilhadas  pelas  equipes  intervenientes  e  tomadas  por 
ambos  como  analisadores  construídos  a  serem  cuidadosamente  analisados.  Entretanto,  para as correntes 
puristas,  todo  setting  seria  um  aparato  ou  equipamento  no  qual  se  cristalizariam,  como  tecnologia 
falsamente  "neutra",  as  forças  mais  reativas  do  "especificismo"  e  "profissionalismo".  Afirmam  que  se toda 
intervenção  está   encaminhada  a  propiciar  a  inventiva  e  a  auto­invenção  dos  coletivos,  instituir  um  ponto 
de  partida  contratual  instauraria  uma  espécie  de  "repressão  primária"  inaugural  cujos  conteúdos 
permaneceriam  opacos  para  sempre  aos  "oficiantes"  de  tais  "cerimoniais".  Constituir­se­ia  assim  um 
núcleo  cego,  e  portanto  repetitivo,  que  tenderia  a  reiterar­se como reprodução ou fabricação do mesmo. 
Em  outras  palavras:  da  racionalidade,  do  poder,  do  lucro  e  do  prestígio,  do  saber   e fazer disciplinar que 
dessa maneira ritual se funda. Essa limitação, extremada no 
122 ▲
  caso  de  abordagens  assumidamente  interiores  às  ciências  "humanas"  e  "sociais"  (Psicologia  Social, 
Sociologia  das  Organizações,  Psicanálise  Aplicada  etc.),  existiria  ainda  nos  convênios  de  serviços  da 
Análise Institucional "Clássica" ou da Psico­Socioanálise. 
Via esta questão restrita do contrato e do enquadre, nos introduzimos em uma contradição aguda e 
geral  do  Institucionalismo.  Por  uma  parte,  recordemos  a  verdade  de  Perogrullo,  de  que  a autogestão não 
se  decreta   nem se concede, que não existe uma prescritiva para a invenção e que, como  dizia Bakunin, "só 
a  liberdade  engendra  a  liberdade".  Por  outra   parte,  tenhamos  presente  que  em  quase  todos  os  casos  em 
que  um  institucionalista  "é   chamado"  a  intervir,  isso  ocorre  porque  os  coletivos não conseguem aproveitar 
as  condições  de  liberdade  de  que  dispõem para produzir (inventar), com a autogestão como meio e como 
fim, aquela liberdade que desejam. 
Consideremos  um  coletivo  que  decidiu  dar­se  uma  forma  autogestiva  de  funcionamento.   Se   a 
mesma  é  integral,  ou  seja,  se  compreende os aspectos econômicos, políticos, "culturais" e libidinais de sua 
práxis (e enquanto a tentativa estiver sendo exitosa), não se vê porque um companheiro institucionalista iria 
ser  convocado  a  participar.  Pode  acontecer  que  já  pertença  "naturalmente"  ao  coletivo em questão, caso 
este  que  parece  não  criar  problema  algum,  porquanto  seu  saber  e  fazer  serão  entendidos  como 
pertencentes ao tesouro do conjunto e espontaneamente utilizados. 
No  limite,  cabe  perfeitamente  colocar­se  o  modelo  ideal  de  um   coletivo  autogerido  de  analistas 
institucionais,  o  que  tornaria  difícil, ainda que não impossível, imaginá­lo solicitando os serviços de colegas 
para catalisar uma intervenção sobre si mesmos. 
Por  outro  lado,  uma  iniciativa  autogerida  sólida  e  assumida  não  teria  por  que  privar­se  do 
emprego  crítico  de  qualquer  recurso  tecnológico  contemporâneo.  E  claro  que  ninguém  ignora  a  distância 
que  separa  as aplicações da física à computação, por exemplo,  da human engeneering. Mas se aceita­se 
que  o  paradoxal  "expert" em autogestão tem muito que dizer sobre a implicação institucional dessas duas 
disciplinas  (além  da  própria),  não  se  entende  por  que  não  apelar  a  ele  em  caso  de  necessidade   ou   ainda 
de "luxo", e menos ainda porque seu trabalho não haveria 

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de ser pago. 
O  que  está  em  jogo  neste  ponto,  como  em  qualquer  dos  outros,  é  uma  questão 
político­epistemológica  de  fundo   no   Institucionalismo.  Deve­se  ter  presente  que  o  Movimento  afirma, 
como  um  de  seus  mais essenciais fundamentos,  a convicção de que os coletivos das sociedades modernas 
são  muito  mais  vítimas  que  beneficiários  da  divisão  técnico­social­libidinal  do  trabalho.  O   vertiginoso  
avanço  das  ciências  e técnicas nos últimos cem anos, produtor de seus detentores,  a casta privilegiada dos 
tecno  burocratas,  e  reforçador  ao  infinito  de  seus  "padrões"  dominantes  –  o  Grande  Capital  e  o  Estado 
administrador­gerente  –  submergiu  os povos em um grau de dependência inédito na História Universal. As 
comunidades,  cujas  necessidades,  demandas,  hábitos  de  consumo  e  soluções  são  integralmente 
produzidas  pelas  elites  cientificistas  e  os  equipamentos  de  poder,  ficaram  substancialmente  despossuídas 
de  toda  possibilidade  de  protagonismo  no  conhecimento  das  determinações  que  as  constringem,  assim 
como de seu levantamento pelos recursos que poderiam gerar por si mesmas. O único recurso que restaria 
às  populações  seria   aceitar  as  requisições  do participacionismo, quando não do colaboracionismo, que os 
centros  oraculares  de  poder  se  vêem  obrigados  a  lançar,  quando  a  mesma  entropia  de  sua  arbitrária 
gestão  os  enfrenta   com  a  ineficácia  dos  "planos"  e  a  resistência  passiva  dos  usuários.  Mas  a  certeza  do 
Institucionalismo,  acerca  de  que  toda  desalienação  deve  passar  atualmente  pela  recuperação  do  saber  e 
fazer  dos  coletivos  sobre  seu  destino,  não  consegue  especificar  os  modos  e  graus  em  que  a  riqueza 
científico­tecnológica já produzida deve ser reapropriada pelos movimentos autogestivos. 
Félix  Guattari,  a  quem  se  atribui  fundamentadamente  o  título  de  criador  do  termo  "Análise 
Institucional"   e  de  cuja  vocação  autogestiva  se  torna  difícil  duvidar,  escreveu:  "A  autogestão  como  consigna 
pode  servir  para qualquer coisa. De Lapassade  a De Gaulle, da CFDT aos anarquistas: Autogestão de quê? Referir­se 
à  autogestão  em si, independentemente do contexto, é uma mistificação. Converte­se em algo assim como um princípio 
moral,  um  solene  compromisso  de  que  será em si mesmo, por si mesmo, que se administrará o que é de si mesmo, de  tal 
ou qual grupo ou empresa. A eficácia de tal consigna depende, sem dúvida, de seu efeito de auto­sedução. A 

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 determinação, em cada situação, do objeto institucional correspondente é um critério que deveria permitir esclarecer 
a  questão.  A  autogestão  não  pode ser senão uma  consigna  de agitação transitória que, em definitivo, corre  o risco de 
criar  bastante  confusão  se  não  estiver  articulada  numa  perspectiva  revolucionária  coerente...  Se  'impugna',  no 
imaginário,  a   hierarquia.  A  autogestão,  tomada  como  consigna  política,  não  é  um  fim  em  si  mesmo.  O  problema 
consiste  em  definir,  em  cada  nível  de  organização,  o  tipo  de  relação,  de  formas  que  devem  estimular­se,  e  o  tipo  de 
poder  a  instituir.  A  consigna da autogestão pode converter­se em  uma fachada se substitui massivamente as respostas 
diferenciadas  pelos  níveis  e  setores  diferentes  em  função  de  sua  complexidade  real...  Não  há  uma  'filosofia  geral' da 
autogestão  que  a  torne  aplicável  em  todas  as partes e  em toda situação... " ("Psicanálise e Transversalidade", Ed. 
Siglo XXI, México). 
Poder­se­ia  argumentar que essa citação foi tomada de um texto antigo e que a evolução posterior 
deste  autor  o  conduziu  cada  vez  mais ao espontaneísmo radical e polimorfo que parece caracterizar o que 
me  permitirei  chamar a modalidade mais extremista do Institucionalismo, quer dizer, a "Esquizoanálise". De 
qualquer  maneira,   e  considerando  a  complexidade  do  desenvolvimento  dessa  concepção,  assim  como  a 
infinita  diversidade  de  suas  estratégias,  ela  não  fez  mais  que  contribuir  para  a  pluralização  da  morfologia 
das  iniciativas  autogestionárias  e  o  questionamento  da  autogestão como valor unitário e abstrato. Além do 
mais,  não  descarta  o  apoio  de  tecnologia  alguma,  pelo  contrário.  Guattari  é  um  de  seus  mais  ardentes 
defensores.  O  conceito  de  autogestão  que  acabamos  de  comentar  sucintamente  não  é  mais  que  um  caso 
de  quantas  categorias  o  Institucionalismo  maneja.  Nenhuma  corrente,  mesmo  as  mais   drásticas  do 
Movimento,  assume  que  seus  termos  teóricos  não  sejam  apenas  instrumentos  formais,  mas  também,  no 
sentido mais forte do vocábulo, valores. 
Na  tendência  esquizoanalítica  que  antes  mencionávamos,  assim  como  em   muitas  outras,  os 
máximos  valores  promovidos  predicam­se  como:  Produção  (oposto  à  Reprodução),  Invenção  (oposto  à 
Fabricação),   Afirmação  da  Singularidade,  Diferença,  Potência,  Ser  do  Devir  etc.  (opostos  à 
Generalidade, Negatividade, Identidade­Repetição, Reatividade, Ser como 
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Permanência  etc.)  A  essas  categorias  podem­se  acrescentar  as  de:  Agenciamento,  Dispositivo,  Desejo, 
Máquina  de  Guerra,  Acontecimento,  Simulacro,  que  têm  a  ver  com  o  Instituinte  e  os  Bons  Encontros 
(opostos  às  Formações  de  Soberania,  Objetivações  das  Idéias  Puras  ou  Modelos,  como  sinônimo  do 
Instituído,  dos  Maus  Encontros  etc.).  Toda  a  História  Universal  (a  das  Formações  Econômico­Sociais, 
Civilizações,  Subjetividades  e  ainda  a  do  Pensamento  e  a  da  Natureza)  estaria  atravessada  pela 
miscigenação  entre  modos  sedentários  (territorializados)  e  modos  nômades  (desterritorializados) do Ser e 
do Existir, pensáveis com os critérios mencionados anteriormente. 
Uma  análise  genealógico­epistemológica  de  tais  conceitos­  valores  seria  uma  tarefa  colossal  e 
apaixonante,  que  supera  por  completo  as  fronteiras  de  nossa  capacidade  e  deste  trabalho.  Se  os 
repassamos  aqui  é  apenas  para  referir­nos  a  certas  confusões  que  sua  polissemia  propicia  e  que  levam a 
que  sejam  usados  com  fins  e  resultados   totalmente  alheios  a  seus  propósitos  e,  não  poucas  vezes, 
diametralmente contrários a eles. 
Não  estamos  falando  do  arsenal  nem  das  estratégias  manifestas  e  "molares"  (como  se  chama  na 
"Esquizoanálise")  do  Capital,  do  Estado,  da  Lei,  da  Igreja,  da  Família  ou  da  Corporação.  Já  a  Teoria 
Crítica  Clássica  do  Marxismo  e  do  Funcionalismo  conseguiu  que  os  aparatos,  equipamentos  e  manobras 
capitalistas, fascistas ou "democráticas" nos resultem cada vez mais definidos e visíveis. O Institucionalismo 
(particularmente  com  os  estudos  de Foucault, Deleuze, Guattari, Lourau e outros) contribuiu para detectar 
as formas "micro" desta rede, tornando­a ostensiva. 
Tampouco  nos  referimos  aos  célebres  mecanismos  de  recaptura  com  os  quais  o  Sistema 
reincorpora à torrente da reprodução e do consumo, assim como  ao tabuleiro  do  registro e da dominação, 
as  invenções  dos  movimentos  produtivo­  libertários.  Nós  os  temos  muito  em  conta,  pelo  menos em tese, 
para  precisar  invocá­las  novamente  neste  contexto...  a  não  ser  que  se  considere  recapturas  os  efeitos de 
entorpecimento   e  antiprodução que se geram no seio dos grupos, organizações e práticas institucionalistas: 
é a estes que queremos nos referir. 
No  capítulo  anterior  esboçamos  uma  qualificação  crítica  das  correntes  adaptacionistas  e 
"pseudo­ultra"  do  espectro  de  posições  dentro  do  Institucionalismo  e  descrevemos  algumas  de  suas 
características contraproducentes. Talvez tenhamos deixado 
126 ▲
 
a  impressão  de  que  se   trata  de  setores  patentemente  definidos  que  seriam  simples  de  localizar  e  até 
personalizar.  Desde  logo,  existem  casos  em  que  isso  é  possível,  mas  aqui  nos  interessa  destacar  estes 
perfis  como  tendências   imanentes  a  todos  e  a  cada  um  dos  segmentos  (incluída  a  subjetividade  dos 
agentes)  de  qualquer  corrente  institucionalista.  Convém  precisar  com   respeito  a  suas  propostas teóricas e 
sua  atuação  política  e técnica, que da mesma forma que não  cabe esperar nada de uma "Filosofia Geral da 
Autogestão",  tampouco   corresponde  fazer  uma  "Demonologia  Geral  Abstrata"  desses  desvios. 
Naturalmente,  não  se   trata  de  fomentá­las  nem  de  privilegiá­las,  mas  sim   de  permanecer  abertos  aos 
inesperados  efeitos  revulsivo­produtivos   que  uma intervenção assim conduzida pode causar, como notável 
independência  dos  princípios  que  a  guiam  e  que,  eventualmente,  pode  fazê­la  preferível  a  outras  mais  
tecno­burocráticas,  ou  mais  dissolventes  ainda.  Ninguém  deve  escandalizar­se  frente  à  aparente 
contradição  entre  o  postulado  de  um  juízo  preciso  classificatório  de  uma  corrente  e  a  recomendação  de 
uma  abertura  expectante  no  tocante  a  tolerar  sua  atuação  e  observar seus resultados. Basta compreender 
que  as  séries  opositivas  de valores que antes enumeramos, cujos primeiros termos seriam essenciais a uma 
estimativa  institucionalista,  não  são   nem  axiomas,  nem  evidências.  Não  são  axiomas  justamente  porque  o 
Institucionalismo  insistiu,  desde  diversos  ângulos,  em  dessacralizar  o  tradicional  estatuto  da Teoria em sua 
práxis,  e  mais  ainda  da  Teoria  baseada  em  parti  pris  formalizados.  Pelo  contrário,  insistiu  em  uma 
reivindicação  da  singularidade  das  práticas,  para  as  quais  as   Teorias  funcionam  apenas  como  uma  frouxa 
orientação, quando não se limitam a prover certa intelecção pos' facto. 
Por  outra  parte,  os  valores   mencionados  não  são  evidências,  pois  apesar  da   predileção  do 
Institucionalismo  pelos  atos  e  transformações  concretas  que  sejam  percebíveis  como  tais  para  técnicos  e 
usuários,  sem misteriosas avaliações de seita, a amplitude e ambição que caracterizam a utopia ativa  fazem 
com  que  o  Movimento  distingua­se  bastante  de  todo  positivismo,  empirismo,  pragmatismo  ou 
"intuicionismo". 
Como  quer  que  seja,  compreende­se  que  em  um  Movimento,  no  qual  não  se  pode  apelar  ao 
veredicto de uma Teoria específica nem ao de uma evidência fulgurante, os conflitos 
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e  discordâncias  serão  dirimidos  em função de parâmetros marcadamente sutis, processuais e conjunturais. 
Tudo  isso  se  torna  particularmente  delicado,  algo  assim como um artesanato militante cujos princípios são 
depuradamente contrários aos dominantes. 
Como  já  expressamos  mais  acima,  o  Institucionalismo  tem,  hipoteticamente,  inúmeros  aliados  nos 
coletivos  subjugados  e  explorados,  mas  quem  impera  atual  e  universalmente  (embora  não  sem 
contradições)  são   seus  poderosos  e  ubíquos  adversários  e  inimigos.  Procede  enfatizar  que  o 
Institucionalismo  não  é  somente  opositivo  ao  Capitalismo  e  suas  formas  históricas 
econômico­político­culturais  (tais  como  os  totalitarismos  de  Estado  ou  as  democracias  burguesas),  mas 
também à maioria  das tendências e organizações críticas contrárias a esses sistemas. Por outro lado, ocupa 
similar posição de antagonismo relativo em referência às sociedades "em transição" ao Socialismo. 
Frente  a  um  panorama   tão  desfavorável,  o  Institucionalismo  exige  que suas decisões de  condução 
sejam,  no  possível,  exaustivamente  deliberadas  e  exclusivamente  consensuais,  o  que  torna  sua  gestão 
insuperavelmente  coesa  e  homogeneamente  revolucionária  quanto  às  transformações  de  fundo  e  a  longo 
prazo.  Não  obstante,   resulta  notório  que  esse  principismo  sui  generis,  que  se  nega  a  separar  meios  de 
fins,  não  facilita   as  resoluções  e  execuções  táticas  imediatas,  diante  de  contendedores  tão  ágeis,  fortes  e 
onipresentes.  É  no  campo  dessas  dificuldades  (e  de  outras  que  antes  mencionamos)  que  recrudescem  os 
conflitos,  inerentes  a  todo  Movimento,  que  os  próprios  institucionalistas  contribuíram  tanto  para 
sistematizar. Em algumas de suas formas típicas esses conflitos podem ser descritos assim: 
1)  As  pressões  que  o  mercado  competitivo  exerce sobre as  organizações institucionalistas sobre­exigem 
o   tempo  e  os  esforços  destinados  à  implantação,  sobrevivência  e  crescimento,  digamos,  vegetativo  ou 
infra­estrutural das iniciativas. 
2)  Os  poderes  oficiais,  acadêmicos,  corporativos  ou  simplesmente  profissionalistas  desencadeiam 
campanhas  repressivas,  injuriosas  ou  recuperadoras  sobre a ação ou imagem  dos  institucionalistas. Entre 
essas  manobras  destaca­se  o  que  ironicamente  podemos  chamar   "desvanecimento  e  usurpação  de 
patente". Tudo é "Análise Institucional", logo, "nada o é". 
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3)  Em  conseqüência  do  dito  nas  alíneas  1  e  2,  exacerba­se, no seio das organizações  e dos sujeitos­agentes 


institucionalistas,  a  designação  de  recursos  de  todo  tipo,  para  a  luta  pela  obtenção, apropriação  e "inflação" 
de  "identidade",  "legalização",  "legitimação",  "reconhecimento",  "autorização",  "prestígio",  "solvência 
financeira"  etc.,  valores  estes   que  insensivelmente  fazem  derivar  até  a  luta  pelo  "poder",  o  "lucro",  a  
"primazia"  etc.  Ou  mesmo,  até  um  suposto  contrário: o matiz "beneficente", "caritativo" ou "filantrópico"  das 
prestações de serviços. 
4)  Em  função  de  tudo  isso,  começa  um  questionamento  obsessivo  quotidiano  da  "ética"  da  práxis,  das 
estratégias  e  táticas  externas,  assim  como  das  relações  internas,  de  modo  que  estas  se  enrijecem 
estatutariamente,  se   "assembleízam"  deliberativamente  ou  se "vertiginizam" ativisticamente.  O  organograma 
e  o  fluxograma  internos  se  "piramidalizam"  e  se  dispersam.  O  regime  das  alianças  tende  a  uma  regressão 
filiativa.  Em  resumo:  "paranoidiza­se"  a  verticalidade,  "perversifica­se"  a  horizontalidade  e  "extravia­se"  a 
transversalidade. 
5)  Fica  preparado,  então,  o  ambiente  para  que  o  Movimento  degenere  para  as  diversas  direções  do 
vanguardismo  segregacionista  e  do  sectarismo  hipercrítico,  em  suas  modalidades  de  protopaternalismo, 
fraternidade  do  terror  e,  finalmente,  a  serialidade.  No  plano  da  produção  de  subjetividades,  isso  se  registra 
como  uma  edipianização  geral  com  suas  reterritorializações  neuróticas  e  "psicossomáticas",  perversas  ou 
psicóticas.  Na  terminologia  organizacional:  amadurecem  as  condições  para  a  eclosão  de  certas  figuras 
clássicas  tais  como  a  cisão  de  grupos  dissidentes  e  a  burocratização   –  que  às  vezes  derivam  para  a 
empresarização  ou  para  uma  morfologia  política   convencional   que,  não  por  ser  "menos  pior",  é  a  mais 
desejável:  o  centralismo  democrático.  No  nível  grupal  dessas  configurações  surgem  as  tradicionais 
lideranças "autocráticas" ou laíssez­faíre e os papéis de "bode expiatório", "sabotador" etc. 
6)  Em  resumo:  cedo  ou  tarde,  tais   deformações  (que  no  espaço  da  subjetividade  podem  reduzir­se   aos  
efeitos  do  "narcisismo  das  pequenas  diferenças")  conduzem,  pelo  caminho   do   famoso  "individualismo 
pequeno  burguês",  à  atomização  do  Movimento.  Este  foi  caracterizado  por  perfis  que  talvez ainda  não seja 
hora de descartar como obsoletos: o ativismo, o 
129 ▲
voluntarismo,  o  imediatismo,  o  oportunismo,  o  utilitarismo,  ou  a  corrupção  franca.  Toda  uma  vasta 
produção  bibliográfica  atual  tratou  com  maior  ou  menor  propriedade  dessa  problemática  do 
individualismo  moderno  (L.  Rozitchner,  D.  Riesman,  C.  Lasch,  R.  Sennett,  L.  Dumont)   e  pós­moderno 
(D.  Bell,  G.  Lipovetsky,  J.  Baudrillard,  P.  Virilio  e   outros).  Se  os  primeiros  enfatizam  a  fragmentação 
pulverizante  e  competitiva  do  Capitalismo  Industrial,  os  últimos  sublinham  a  subjetivação  indiferente  e 
abúlica  das  sociedades  pós­industriais.  Coincidem, no entanto, em constatar  a decadência da res publica 
e de quase todas as formas de solidariedade orgânica "a la Weber, Durkheim ou Marx". 
7)  Em  outro  escrito resumimos esta tendência dos  coletivos no conceito  de  "compulsão à  autodissolução" 
("A  Compulsão  à  Dissolução",  publicações  internas  do  Ibrapsi,  Rio,  1988).  Seguimos  acreditando  que se 
trata  de  uma  força  reativa,  como  diria  Nietzsche,  a  ter  muito  em  conta  nas  vicissitudes  do  Movimento 
Institucionalista.  A  rigor,  trata­se  de uma  curiosa exacerbação do que  a teoria  postula como um requisito 
dos  grupos  revolucionários,  quer  dizer,  a  capacidade  deles  de  prever  sua  própria  morte  e  de decidir  sua 
extinção  quando  deixam  de  ser  estritamente  necessários  para  o  processo  transformador  que  lhes  dá 
sentido. 
8)  Se  se  repassa  o  exposto,  especialmente  o  referente  à  "compulsão  à  autodissolução",  os  "desviantes 
ideológicos,  organizacionais  e  libidinais"  e  os  vícios  provenientes  do uso exacerbado  da  autogestão  como 
consigna  abstrata  e  descontextuada  com  finalidade  de  oposicionismo   demagógico, teremos uma imagem 
ilustrativa das deformações que emboscam o Movimento Institucionalista. 
9)  Uma  observação mais  demorada que  compare estas distorções com a  breve enumeração que fizemos 
dos  valores  promovidos  pelo  Institucionalismo  permitirá  constatar  que  as  primeiras  são  com   freqüência 
(como  diriam  Deleuze  e  Guattari)  "coartações"  ou  "acelerações  ao  infinito"  dos  processos  que  os 
segundos  infundem  e  orientam.  Em  outras   palavras:  freqüentemente  os  vícios  do  Movimento  são  uma 
caricatura de suas virtudes. 
10)  Para  fins  de  síntese  e  conclusão,   digamos  que  se  tivéssemos  de  escolher  alguma dessas virtudes  do 
Movimento 
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Institucionalista  na  qual  se  apoiar  para  construir  "o   presente  futuro  de  sua  ilusão"  (no  sentido  de  êxito  da 
Utopia  Ativa),  seria  a  afirmação  de  sua  positividade. Se se  mostou indubitavelmente que  tanto  teórica  quanto 
estratégica,  tática  e  tecnicamente  o  lnstitucionalismo  é  uma  práxis  transversal,  heterogênea,  diversificada, 
intersticial e não – totalizável, qual pode ser sua condição ontológica, axiológica e epistemológica? 
Ontologicamente,  em  que  pode  consistir  sua  "identida  que  não  seja  viver  na  nebulosa  das  "puras 
diferenças",  quer  dizer  no  "simulacro"   das   entidades  estabelecidas  para  forçá­las  até  seu  limite,  para 
cavalgá­las,  incrementando  seu  pólo  progressivo,  para   mimetizá­las,  parodizá­las,  infiltrá­las,  recortá­las  por 
linhas  clivagem  bizarras,  dividi­las  até  o  infinito,  refluidificá­las,  fazê­las  proliferar,  "alternativizar",  diluir­se, 
rachar, etc.? 
Axiologicamente,  que  ética  pode  reger  esta  atividade  não  enquadrável,  mais  que  tudo,  um   "modo  de 
viver"  que  atravessa  qualquer  "forma  de  vida"  indiferente  à  "vida  das  formas",  tentando  exclusivamente 
propiciar  que  "nova  vida"  se   forme?  Como  enunciar  os  postulados  dessa  ética  além  de  exortações  como 
"desejar  o  acontecimento"  ou  "intensificar  a singularidade", segundo a  vontade de potência produtiva, em  todo 
tempo  e  lugar?  Uma  ética  que prescreve  gerar as  próprias leis  para  que cada  vez  mais do realvirtual  se torne  
atualizável.
Epistemologicamente,  parece  indiscutível  que  o  Institucionalismo, longe  de  orientar­se  por  critérios de 
Verdade,  sejam   estes  revelados,  especulativos  ou  experimentais,  dedica­se  a  genealogizar   suas  formas 
históricas  de  produção  para  expor  manifestamente  os  poderes  que  as   envolvem.  Que  outro  recurso  lhe  
compete  além  da  construção de  "verossímeis", "simulações", "efeitos especiais", indecidíveis, indemonstráveis, 
mas  realizados?  Como  pensar  o  radicalmente  novo  senão   com  uma  "nova  maneira  de  pensar",  um 
pensamento "sem fundamento", ou melho,  "não­fundamentalista"? 
Quando  sustentamos  que  a  principal  virtude  do  Institucionalismo  deve  ser  a  afirmação   da  sua 
positividade,  queremos  indicar  sua  capacidade  de  apropriar­se  de  todo  e  qualquer  fragmento  de  código, 
discurso,  organização,  estatuto  ou  prática,  incluídas  aí as específicas  e profissionais,  e remetê ­las a  funcionar 
segundo se produzam, e a produzi­las segundo funcionem. Por conseguinte, ao Institucionalismo não deve 
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interessar  muito  a  negatividade  crítica  e  a  "superação"  dos  instituídos  dentro  do  marco  dos  próprios 
cânones  dos  mesmos.  Melhor  dedicar­se  a  pinçar  neles  cada  elemento  produtivo,  tudo  que  "abra", 
"possibilite"  e  "conecte",  agenciá­la  de  acordo  com  a  lógica  de  seus  "princípios"  e  intensificá­la  até  gerar 
um acontecimento. 
Nada  impede,  pois,  ao  institucionalista,  "devir"  (que  embora  lúdica  não  deixa  de  ser 
revolucionariamente)  sociólogo,  economista,  psicanalista,  engenheiro  de  sistemas,  profissional  liberal  ou 
funcionário,  sempre  que  o  faça  (como  diriam  Deleuze  e  Guattari)  "à  moda"  de  um  bárbaro,  um  artista  ou 
uma criança. 
Se  isso  está  correto,  boa  parte  dos  pruridos,  assim  como  os  purismos  e  desviacionismos internos 
ao  Movimento  que  mais  acima  descrevíamos, são passíveis de ser analisados, avaliados e resgatados para 
um  fortalecimento  geral  do  Institucionalismo  que  precisa  cada  vez  mais  de  dispositivos   fortes,  amplos  e 
numerosos. 
132 ▲

GLOSSÁRIO 

Elaborado por Gregorio F Baremblitt com a participação de Cibele Ruas de MeIo 
Advertências para a leitura deste Glossário 

Devido  ao  caráter  introdutório  deste  livro,  este  glossário  tem  por objetivo apenas informar acerca da existência 


de  alguns  dos  termos  mais  empregados  pelo  Institucionalismo,  bem  como  da  diferente  acepção  que  tomam  outros, 
advindos  de  áreas  onde  seu   uso  foi  consagrado  de  forma  diferente.  Embora  este  propósito  não  baste  para  explicar  as 
limitações do texto, nós, os autores, fazemos questão de explicitá­las mais detalhadamente: 

1)  A  autoria  das definições  e  suas  referências  bibliográficas  não  estão  citadas  literalmente,  pois esse requisito 
excederia as aspirações e possibilidades deste livro. 
2)  Os  autores  crêem  ter  sido  fiéis  aos  significados  mais  aceitos  dos  termos,  mas  se  responsabilizam por toda e  
qualquer omissão ou distorção que as definições impliquem. 
3)  De  forma  coerente  com  o  exposto  anteriormente,  e   como  desculpa  por  qualquer  injustiça  cometida  com  a  
paternidade  ou  a  precisão  dos  conceitos,  os  autores  renunciam  a  qualquer  pretensão  de  originalidade,  ou  seja,  de 
propriedade intelectual dos mesmos. 
4)  E  desnecessário  dizer que este glossário, assim como o volume do qual forma parte, não pretende  haver dado 
conta  nem  da  maioria  dos  autores  nem  dos  termos  que,  segundo  a  definição ampla dada do Movimento, deveriam estar  
nele incluídos. 

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5)  Em  alguns  casos,  como  por  exemplo  no  da  Esquizoanálise,  os autores estão  cientes  de haver incluído e definido 
termos  que  não  estão suficientemente esclarecidos. Êspera­se que o leitor compreenda o dilema que termos pertencentes 
a  teorias  tão  vastas  apresentam  para os  glossaristas:  ou  se  renuncia  por  completo  a  mencioná­las,  o  que empobreceria 
demais  esta  leitura,  que  pretende  ser  panorâmica,  ou  se  os  inclui e define de  uma forma sumária e provisória. Esta última 
opção está destinada a motivar o leitor a procurar a bibliografia de origem para entendê­los e aprofundá­los. 
ACASO:  modo  de   devir  que  se  caracteriza  por  ser  aleatório,  imprevisível  e  incontrolável.  Freqüentemente  se  
equipara  este  termo  ao  que  é  casual,  contingente,  insólito  etc.,  apesar  de os sentidos destes vocábulos serem  variados. 
Nos  paradigmas  ou  modelos  que  partem  da  ordem,   o  acaso  é  considerado  como  uma  vicissitude  probabilisticamente 
possível,  mas  em  geral  indesejável.  Com  o  auge  contemporâneo  dos  paradigmas  ou  modelos  da"  desordem",   este  é  
considerado  o  modo  de  ser do devir dos processos, e se  procura maneiras de pensar e atuar que incluam a  "desordem" e 
sua  potência  produtiva.  No  lnstitucionalismo  (ver  Movimento  Institucionalista   *),   de  modo  geral,  a"  desordem"  e  o 
acaso  que  caracterizam  os   processos  são  considerados  fontes  de  produção*  e  essência  do  desejo*,  geradores  da 
transformação  e  da  novidade  nos  sistemas. Em um sentido estrito do instituído*, o organizado*, o estabelecido tentam a 
repetição do mesmo  (ver  Repetição*), são conservadores, enquanto o lnstitucionalismo se interessa por propiciar a ação 
do instituinte*­organizante*, através da liberação do acaso­radical, deflagrador da diferença, do novo absoluto. 

ACONTECIMENTO:   ato,  processo  e  resultado   da  atividade   afirmativa  do  acaso*.   É  o  momento  de  aparição  do 
novo  absoluto, da  diferença e da singularidade. Estes atos, processos e resultados, conseqüências de  conexões insólitas 
que  escapam  das  constrições  do  instituído*­organizado*,  estabelecido,  são  o  substrato  de transformações de pequeno 
ou  grande  porte  que  revolucionam  a  História*  em  todos   os  seus  níveis   e  âmbitos.  O  acontecimento  atualiza  as 
virtualidades, cuja essência não coincide com as possibilidades. O virtual não existe, mas faz parte da realidade. 

ADAPTAÇÃO:  termo  tomado  da  Biologia  Evolucionista segundo  o  qual  um  órgão  modifica­se,  tornando­se  mais  
apto  para  sua  função.  Usa­se  também  para  referir­se  às  mudanças  que  uma  espécie  animal  adota para sobreviver, como 
reação  a  diversos  fatores  que  obstaculizam  ou  favorecem  seu  desenvolvimento. Nas chamadas Ciências Humanas,  essa 
noção  foi  empregada   com  freqüência,  mas  é  muito  criticada  por  evocar  uma  transformação  dependente,  apesar  de  que 
freqüentem  ente  se  lhe   adicione   o  qualificativo  "ativa".  No  lnstitucionalismo*,  o   vocábulo  adaptação  costuma   ser 
sinônimo de adequação ao instituido* – organizado* e implica acomodação. 

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  AGENCIAMENTO  OU  DISPOSITIVO:  é  uma  montagem  ou  artifício  produtor  de  inovações  que  gera 
acontecimentos*  e  devires,  atualiza  virtualidades  e  inventa   o  novo  radical.  Em  um  dispositivo,   a  meta  a  alcançar  e  o 
processo que a gera são imanentes (ver imanência*)  entre  si.  Um dispositivo compõe­se de uma máquina semiótica e uma 
pragmática  e  se  integra  coneetando elementos e forças (multiplicidades,  singularidades, intensidades)  heterogêneos que 
ignoram  os  limites  formalmente  constituídos   das  entidades  molares  (estratos,  territórios,  instituídos*   etc.).   Os 
dispositivos,  geradores  da  diferença   absoluta,  produzem  realidades  alternativas  e  revolucionárias   que  transformam  o 
horizonte considerado do real, do possível e do impossível. 

AGENTE:   indivíduo­pessoa­sujeito  protagonista  das  práticas*  que  se   desenvolvem  no  complexo  instituído*  –  
organizado*  – estabelecido e seus equipamentos*. Entendido  como produção de subjetivação*, o agente pode ser peça 
especia  lmen  te gerada  para formar parte de um dispositivo (ver agenciamento ou dispositivo*) transformador. De todas 
as  maneiras,  o   agente,  no  lnstitucionalismo,  funciona  mais   como  engrenagem  ou  efeito   dos   processos,  e  não  como 
causa dos mesmos. 

ALIENAÇÃO:  no  sentido  filosófico,  designa  um  processo  pelo  qual  um  ser  perde  sua   identidade  ou  seus  atributos 
essenciais,  "alienando­se"  ou  "transbordando­se"  no  outro,  ou  em  um  "fora de si".  No lnstitucionalismo a significação  
deste  termo  é  próxima  à  da  Sociologia:  os  homens,  ::''TUPOS  ou  classes  sociais  alienam  suas  potencialidades, 
atribuindo­as   a  entidades  sobrenaturais  (os  Deuses),  como  disse  Feuerbach,  ou  a  uma  classe  social   que,   por  ser  a 
proprietária dos  meios  de  produção, se  apropria  do  valor  da  força  de  trabalho não remunerada da classe produtora.  Em  
geral isso lhe permite também acumular poder político e prestígio. 

ALTERNATIVA:  designa­se  assim  as  idéias,  pessoas,  organizações,  movimentos   e  práticas  que   supõem  uma  opção 
para  seus  simétricos  oficiais,  reconhecidos  e  consagrados.  Se  bem  as  propostas  alternativas  possam  reunir  a condição 
de  opositoras,  dissidentes  e  marginais,  não  chegam  a  ser  consideradas  clandestinas,  subversivas  ou  revolucionárias. 
As  forças  e entidades dominantes desaprovam ou desqualificam as  alternativas, mas em  ge~al as toleram ou as  ignoram. 
Excepcionalmente, as recuperam. 

ANALISADOR   ARTIFICIAL  OU  CONSTRUÍDO:  dispositivo*  inventado  e  implantado  pelos  analistas  institucionais  
para  propiciar  a  explicitação  dos  conflitos  e  sua   resolução.   Para  tal  fim,  pode­se  valer  de  qualquer  recurso 
(procedimentos  artísticos,  políticos,  dramáticos,  científicos   etc.),  qualquer  montagem  que  torne  manifesto   o  jogo  de 
forças, os desejos, interesses e fantasmas dos segmentos organizacionais. 

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ANALISADOR  "ESPONTÂNEO"  OU  "NATURAL':  analisado  r de fato, produzido" espontaneamente" pela própria vida 
histórico­social­libidinal e natural, como resultado de suas determinações e da sua margem de liberdade. 

ANÁLISE   DA  DEMANDA:  é  a  análise  e  deciframento  que  se  faz  do  pedido  de   intervenção  por  parte  de  uma 
organização.  É  o  primeiro  e um importante passo para que se comece a compreender institucionalmente a dinâmica  dessa 
organização.  É  o  material  de  acesso  inicial  que  já  contém  valiosos aspectos conscientes, manifestos,  deliberados, assim 
como  todo  um  filâo de aspectos inconscientes e  não­ditos* que remetem a um esboço inicial da conflitiva e problemática 
da  organização  solicitante.  A  demanda  tem   conotação  especial  para  o  lnstitucionalismo,  particularmente  a  de  que  é 
produzida pela oferta (ver Análise de Oferta") de bens e serviços. 

ANÁLISE   DA  IMPLICAÇÃO:  a  implicação  define­se  como  o  processo  que  ocorre  na  organização  analítica,   em  sua 
equipe,  como  resultado  de  seu  contato  com  a  organização  analisada.  É  um  termo  que  tem  certa  semelhança  com  o 
conceito  psicanalítico  de  contratransferência  (reaçâo  –  consciente  e  inconsciente  –  que  o  material  do  paciente  produz 
no  analista),  só  que  no lnstitucionalismo  a  implicação  não  é  um  processo  apenas  psíquico,  nem  inconsciente,  mas  de 
uma  materialidade  múltipla  e  variada,  complexa  e  sobredeterminada  (ver  Sobredeterminação").  É  ao  mesmo  tempo,  um 
processo  político,  econômico,  social,  etnológico  heterogêneo que deve ser examinado em todas  as suas dimensões. Por 
outra  parte,  não  é  apenas  uma reação da equipe interventora ao contato com o objeto de análise. Ela pode até ser prévia 
a  qualquer  contato.  Não  começa  no  "cliente"  e  é,  isso  sim,  uma  interinfluência   recíproca,  simultânea,  que   faz  parte 
integrante  do  processo  de  análise  da  organização.  Análise  de  implicação  é  a  compreensão  da   interação,  da 
interpenetração dessas duas organizações, enfatizando a parte que cabe à intervinda. 

ANÁLISE   DA  OFERTA:   é  um  exercício   de  auto­análise"  ao  qual   a  organização  analítica  tem  de  se  submeter  para 
deslindar  sua  implicação  no  tocante  à  geração  da  demanda. A  publicidade, a divulgação (científica ou não), a proposta 
direta   u  indireta  dos  serviços  da  organização   analítica   têm  necessariamente  uma  relação  de  causalidade  (geração  ou 
modulação)  no  referente  à  formulação  da  demanda  de  seus  serviços.  A  toda  oferta  de  prestação de  serviços  subjaz  a 
duvidosa  mensagem  que  consiste  na  suposição  de  se  saber  e  se  ter  o  que  o  ou  tro  precisa,  que  por sua vez não sabe 
que  não   tem  e  não   entende  o  que  é  porque  é  complexo,  sutil,  técnico.  A  análise  da   demanda*  deve   estar 
necessariamente  articulada  com  a  análise  da  produção  desta  demanda – ou seja, a análise da oferta,  que forma parte da 
implicação dos interventores. 

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ANÁLISE   INSTlTUClONAL:  seus  fundadores   e  principais  expoentes   são  G.   Lapassade  e  R.  Lourau,  apesar  de  a 
denominação  ter  sido  criada  por  F.  Guattari.  Esta  corrente  institucionalista,  uma  das  mais  coerentes  e  empenhadas, 
reconhece  como   seus  antecessores  a  Psico­Sociologia,  a  Dinâmica  de  Grupos,  a  Psicoterapia  e  a  Pedagogia 
lnstitucionais,   assim  como  a  Socioanálise   de  Van  Bockstaele.  Contudo,  a   Análise  lnstitucional   superou  amplamente 
esses  precursores  no  sentido  de  uma  radicalização  de  suas  teorias,  modos  de  intervenção   e  objetivos  últimos. 
Impossível  resumir  aqui  suas   contribuições,  bastará dizer  que  se  propõe  a  propiciar  os  processos  auto­analíticos (ver  
Auto­Análise*)  e  autogestivos  (ver   Autogestão*)   circunscritos  (se  for  o  caso),   mas  tendendo  sempre  a  que  se 
expandam até conseguir um alcance generalizado e revolucionário. 
O  lnstitucionalismo  deve  a  esta  orientação   conceitos  tais  como  insti  tuin  te*  instituído",  institucionalização,  
analisadores  históricos  e   construídos",  demanda­encargo*,  efeitos"  Mulhman,  Lukács   etc.  A  Análise  lnstitucional 
insistiu  particularmente  na  análise da implicação*,  ou  seja, nas resistências econômico­político­ideológico­libidinais dos 
agentes  analistas  aos  processos  autogestivos  durante   as  intervenções  (crítica  da  Sociologia  abstrata  e  "neutra").  A 
Análise  Institucional  considera   a  prática  de  seus  agentes  como  uma   militância,  e   propõe  para  eles  o  perfil  de  um 
intelectual  implicado,  à  diferença  do  intelectual  orgânico  (partidário)  ou  engajado  (freqüentemente  um  tanto 
especulativo).   Como  dispositivo*  de  intervenção,  inclina­se  pela  Assembléia  Geral  Permanente,  na  qual  os  não­ditos* 
institucionais são forçados a expressar­se a té suas últimas conseqüências transformadoras. 

ANSIEDADES:  correntes  institucionalistas, tais  como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana (Elliot 


Jacques,  Pichon  Rivière,  Bleger  e  outros), subscrevem, de diversas formas, a tese de que as organizações são" sistemas 
de  defesa  contra  a  ansiedade".  O  conceito  de  ansiedade  deve  ser  entendido,  nessas  teorias,  como  similar  ao  cunhado 
por  Melanie  Klein  para  sua   concepção  da  personalidade  psíquica,  particularmente  para  sua  descrição  do  "mundo 
interno"  ou  "self  inconsciente"  dos  sujeitos.  As  posições  esquizoparanóides  e  depressivas,  que são as configurações  
que  adquirem  os  variados  elementos  que  compõem  o  self  (pulsões,  objetivos,  defesas,  fantasias)  no  curso  do 
desenvolvimento,  são  acompanhadas  de  vivências  características  denom.inadas  ansiedades.  Assim   se  fala  de 
ansiedades  paranóides,  depressivas,  confusionais  etc.,  sendo  que  as  defesas  que  se  arbitram contra elas (dissociação, 
projeção, idealização, negação etc.) podem tomar os elementos institucionais e organizacionais (contratos, organograma, 
regulamentos) como suportes. 

ANTlPEDAGOGIA: a  partir das idéias questionadoras de  Rousseau, diversos pedagogos  procuraram  reformar, liberalizar 


ou revolucionar as instituições" e sistemas de ensino. Métodos como os de Montessori, 
137 ▲
Pestalozzi,  Freinet  e   outros  deram   origem  a  várias  tentativas  de  desburocratizar  (ver  –  cracias')   e  tornar  a  Pedagogia 
menos  autoritária,  dando  aos  alunos  um  maior  ou  menor  protagonismo  e  liberdade  na gesti10 do processo pedagógico. 
Tais  tentativas  replicam,  ao  nível  da  aprendizagem,  os  exemplos  anarquistas,  marxistas  e liberais  de democratizaçiío (ver 
cracias  *)  ou  franca  libertação  do  trabalho.  Segundo  sua  diferente  inspiração  e  seu  grau  de  radicalidade,  surgiram  as 
experiências  de  Makarenko  na  União  Soviética,  o  Plano  Dalton  e  as  propostas  de  Lewin  e Rogers nos Estados  Unidos, 
assim  como  a  Pedagogia  Institucional  de  F  Oury,  A.   Vasquez,   M.  Labat,  e  outros,  na  França.  Generalizando, pode­se 
dizer  que são tentativas antipedagógicas que pretendem modificar ou destruir  a instituição do ensino, substituindo­a por 
opções  participativas  ou  co­gestivas  (ver  Co­  Gestão*).  Entretanto,  é possível que seja a proposta  de G. Lapassade  e R. 
Lourau  de  uma  autogestão*  pedagógica  (primeiro  parcialmente,  como  contra­instituição,  e  depois generalizada) a  forma  
mais   conspícua   de  antipedagogia  que  se  possa  conceber,  na  qual  os   alunos   assumem  integralmente  o  curso  da 
institucionalização da aprendizagem. 

ANTIPRODUÇÃO:  as  potências  produtivas  de  todo  tipo  – naturais, psíquicas e sociais (em especial as instituintes*) –,  


são  capturadas  pelas grandes  entidades  de  controle  e  reprodução*  (por exemplo: o Estado, o Capital etc.) e suas forças  
são  voltadas  contra  si  mesmas, levando­as à repetição estéril ou autodestruição. As potências singulares, que o sistema 
dominante  não  está  em  condições  de  assimilar  para  transformar  em  bens,  serviços ou valores alienados (mercadorias) e 
incorporá­las  à  sua  lógica,  são  alvos  dos  mecanismos  repressivos  que  eliminam mais ou menos deliberadamente  as que 
não conseguem capturar. 

ANTIPSIQU1ATRIA:  nascido  junto  à  grande  corrente  de  crítica  cultural  e  politica  dos  anos  60  nos  Estados  Unidos  e  
Europa,  este  Movimento,  mais  ou  me  nos  radical,  de  impugnação  do  objeto  (doença  mental)  assim  como  das  teorias e 
métodos  da  Psiquiatria  e  da  Psicopatologia,  impulsionou  uma  profunda  revolução  nesse  campo.  Seus  máximos 
representantes  –  Thomas  Szasz  e  I.  Goffman  nos  Estados  Unidos,  Michel  Foucault, Félix Guattari e  R. Castel na França, 
Ronald  Laing  e  D. Cooper  na Inglaterra,  F. Basaglia na Itália e  E. Pichon Rivière na Argentina – insistiram na idéia de que 
as  qualificações"  científicas"  da  loucura  e  da  parafernália  de  recursos variavelmente violentos destinados  a tratá­la não 
seriam  senão  eufemismos  da  alienação  política,  econômica  e  cultural  da  sociedade  moderna.  A  maioria  desses  autores, 
que  estiveram  reunidos  em  um  Congresso  no  Rio  de  Janeiro,  em  1978,  foram  mentores  ou  participantes  do  Movimento 
Institucionalista *. 

ATRAVESSAMENTO: a rede  social do instituído*­organizado* estabelecido,  cuja função  prevalente é a reprodução do 


sistema, atua em 
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conjunto.  Cada  uma  dessas  entidades  opera  na  outra,  pela  outra,  para  a  outra,  desde   a  outra.  Esse  entrelaçamento, 
interpenetração  e  articulação  de  orientação  conservadora,  serve  à  exploração*,  dominação*  e  mistificação*, 
apresentando­as como necessárias e benéficas. 

AUTO­ANÁLISE:  processo  de  produção  e  re­apropriação,  por parte dos coletivos autogestionários (ver Autogestão*), 


de  um  saber  acerca  de  si  mesmos,  suas  necessidades,  desejos,  demandas,  problemas,  soluções  e  limites. Esse saber se 
acha  em  geral  apagado,  desqualificado  e  subordinado  pelos  saberes  científico­disciplinários,  que  não  só  estão  em  boa 
medida a serviço  das entidades dominantes (Estado, CapitaL Raça ete.), como também operam com critérios de Verdade e  
Eficiência,  que  são  imanentes  aos  valores  de tais entidades. A auto­análise possibilita aos coletivos o conhecimento  e a 
enunciação das causas de sua alienação*. 

AUTO DISSOLUÇÃO: O lnstitucionalismo*  enfatiza que os grupos,  organizações* e movimentos instituintes*  (em outra 


terminologia:  revolucionário­produtivo­desejantes)  devem  constituir   morfologias  sociais  estritamente  funcionais, 
subordinadas  e  coerentes  com  suas  utopias  ativas*.  Um dispositivo* instituinte ou um  grupo­sujeito*,  protagonista de 
um processo  transformador,  deve  ter  sempre  presente  sua  natureza  transitória  e  "finita". Tal  consciência é precondição 
para  seu  bom  funcionamento,  que  implica  conjurar  os  riscos  de  cristalização  do  instituído.   Quando  um  conjunto 
instituinte  cumpriu  todos  os  seus  objetivos,  ou  quando  constata  que  não  está  mais   conseguindo  isso  com  a 
"identidade" que se deu, deve ser capaz de autodissolver­se para não se perpetuar como uma finalidade em si mesma. 

AUTOGESTÃO:  é,  ao  mesmo  tempo,   o  processo   e  o  resultado  da  organização  independente  que os  coletivos  se  dão 
pora  gerenciar  sua  vida.  As  comunidades  instituem­se,  organizam­se  e  se  estabelecem  de  maneiras  livres  e  originais, 
dando­se  os  dispositivos*  necessários  para  gerenciar  suos  condições  e  lnodos   de  existência.  Todo   processo 
instituinte*­organizante*  implica  uma  certa   divisão  técnica  do  trabalho,  assim  como  alguma   especialização   nas 
operações  de  planejamento,   decisão  e  execução.  Essas  diferenças  podem   implicar  hierarquias,  mas  as  mesmas   não 
envolvem  escalas  de  poder.  Os  conhecimentos  essenciais   são  compartilhados  e  as  decisões  importantes  tomadas 
coletivamente.  As   hierarquias  correspondem  a  diferenças  de  potência,  peculiaridades  e   capacidades  produtivas  que 
visam sempre ser funcionais para a vontade comunitária. 

CAMPO  DE  ANÁLISE:  é  o  perímetro  escolhido  como  objeto  para  aplicar  o  aparelho  conceitual  disponível  destinado  a 
entender o campo de intervenção*: a inteligência acerca de como ele funciona, a articulação de 

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suas  determinações,  a forma  como são gerados seus  efeitos etc.  Este aparelho conceitual pode constituir­se de materiais  
teóricos muito heterogêneos, dependendo da sua eficiência para fazer  a "leitura" do campo de intervenção*. O campo  de 
análise  não  está  delimitado  segundo  um  perímetro  que  coincida  com  a  definição  empírica  ou  "oficial"  (instituída  e 
organizada)  de  um  segmento  social.  Quanto  mais  amplo  o  campo  de  análise,  mais  possibilidades  existem  de 
entendimento do campo de intervenção, por mais aparentemente pequeno que este seja. 
CAMPO  DE   INTERVENÇÃO:  é  o  perímetro  que  delimitará  o  espaço  dentro  do  qual  se  planejarão  e  executarão 
estratégias  *,  logísticas  *,  táticas  *  e  técnicas  *  que,  por  sua  vez,  deverão  operar  neste  âmbito  específico  para 
transformá­lo  de  acordo  com  as  metas propostas. Está em estreita dependência do campo de análise*,  desde o qual será 
compreendido,  pensado.  Só  se  intervém  quando  se  compreende,  sendo  que  posteriormente  se  compreende  à  medida  
que se  intervém. O campo de intervenção pode ser muito amplo ou restrito a um estabelecimento ou organização (escola, 
sindicato, empresa etc.). 

CAPTURA  E  RECUPERAÇÃO:   o  instituído*­organizado*­estabelecido,  em  especial  o  Estado,  o  grande  Capital,  as 


classes  e  grupos  dominantes,  procuram  detectar,  classificar  e  apropriar­se  de  toda   e  qualquer  singularidade  e   força 
produ  tiva.  Quando  o  conseguem,  as  incorporam  à  lógica acumulativa do Sistema, fundamentalmente transformando as 
linhas  de  fuga  revolucionário­desejantes  e seus produtos (ver  Desejo*) em mercadorias. Quando o aparato de captura  e 
recuperação  falha,  as  mencionadas  entidades  operam  de  forma  repressiva  ou  supressiva,  inibindo   ou   destruindo  as 
forças produtivas, em especial as instituintes*. 

CLANDESTINIDADE:  remete  a  modos  de  existência  social  cuja  característica  principal  é  serem  sigilosos,  ocultos  ou  
secretos.  As   idéias,  pessoas,  organizações  ou  movimentos  deste  tipo  podem   somar  a  condição  de  opositores, 
dissidentes  ou  marginais,   mas   sua  característica  essencial  consiste  em  que  sua  relação  delinqüencial,  subversiva  ou  
revolucionária  com  a  ordem  dominante  os  torna   indesejáveis,  ameaçadores  ou  francamente  perigosos   para  o 
instituído­organizado.  Reciprocamente,  a  clandestinidade  costuma  ser  condição  de  possibilidade  de  existência  para 
idéias  ou  segmentos  sociais  frente  às  forças  e  recursos  repressivos ou eliminatórios que o sistema no qual atuam pode 
mobilizar contra eles. 

CLASSE  INSTlTUCIONAL:  a  Sociopsicanálise  de  G.  Mendel  designa  o  estatuto  do  conjunto  de  agentes  que  são 
igualmente  responsáveis  por   uma  etapa  ou  um  nível  dentro  do  processo de  produção  de  um  produto  ou  serviço.  Tal 
participação   fica  evidenciada  quando  a  classe  institucional  se  retira  do  trabalho,  interrompendo  o  curso  do  processo 
produtivo em um 
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ponto  determinado.  As  classes  institucionais  de  uma  organização*  são  despossuídas  da  parte  do  poder*  que  lhes 
corresponde   pela  classe  suprajacente  e  despossuem,  por  sua  vez,  à  classe  subjacente.  A  classe  institucional   é  o 
segmento  organizacional  indicado  como  objeto  de  intervenção  sociopsicanalítica  e   não  se  deve  misturar  seus 
integrantes com os menlbros de outros segmentos. 

CO­GESTAO:  dá­se  este  nome  a  um  tipo  de  gestão  organizacional  na  qual  diferentes  segmentos  –  por  exemplo,  de um 
estabelecimento  –  cuja  posição  formal  no  organograma  implica  hierarquias  e  poderes  diversos  e,  portanto,  relações  de  
subordinação  em última instância, elaboram um pacto ou acordo de trabalho ou administração conjunto para realizar uma 
tarefa, sem mnunciar às categorias antes mencionadas. 

COLABORACIONISMO:  costuma­se denominar assim as atitudes e comportamentos de setores oprimidos, explorados e 
mistificados que prestam subserviência, apoio ou cumplicidade às forças ou t'ntidades que os subordinam ou submetem. 

COMUNIDADE:  este  temo  é  usado  com  uma  grande  variedade  de  sentidos  nas  ciências  naturais e  humanas.  Em  geral 
refere­se  a  um  conjunto  de  indivíduos (pequeno, médio  ou  grande) que está vinculado  por algum traço,  característica ou 
atividade  compartilhada.  Esta  peculiaridade  pode  ser  de  espécie,  gênero,  classe,  categoria,  sexo,  idade,  raça,  lugar, 
tempo,  valores  etc.  O  importante  é  que  atribui  uma  singularidade  e/ou  identidade,  assumida  ou  não  pelos  integrantes 
que,  de  uma  forma  ou  de  outra, lhes confere uma certa coesão e solidariedade. Para a Sociologia Clássica, é fundamental 
que  essa  solidariedade  seja  orgânica  (organizada, diversifica da, hierarquizada e articulada), e não  apenas mecânica. J.  P. 
Sartre  distingue  uma  associação  serial  ou  aglutinada  da  resultante  de  uma  fraternidade  do  terror,  e  esta  de   uma  em 
processo  de  institucionalização  que se vai fazendo a  si mesmo. Para o lnstitucionalismo, é essencial que as unificações e 
totalizações  das  comunidades  sejam   invenções   provisórias  e  mutantes,  subordinadas  às  forças  instituintes*  e 
organizantes'" durante o curso da institucionalização. 

CONFLITO:  entendendo  por  conflito  a  oposição  e  luta  dos  contrários  (dito  em  um  sentido  muito  amplo),  para algumas  
tendências  do  Institucionalismo  a  contradição  é  a  fonte  de  todos  os  transtomos  e,  ao  mesmo  tempo,  o  único  motor da 
mudança  nos  sujeitos,  organizações*,  movimentos,  sociedades* e civilizações. Todas as forças, estruturas, instâncias e 
mecanismos  que  compõem  a  realidade  biossocial­libidinal  funcionam  de  forma  conflitiva,  e  da  cristalização  ou  da  
resolução de sua dialética * depende o destino produtivo, reprodutivo ou antiprodutivo (ver Produção*, 

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Reprodução* e Antiprodução*) dos processos históricos. 
Essa  formulação  recolhe,   entre   tantas  outras   origens  teóricas,   Os  princípios  e  fundamentos  da  Psicanálise  e  do 
Materialismo  Histórico  e  Dialético,  até   incluir  certas  raízes  nietzschianas  e  existencialistas  do  pensamento 
institucionalista.   Os  conflitos   entre  instituinte*  –  instituído*,  centro­periferia,  exploradores­explorados, 
dominadores­dominados  são  apenas  alguns  exemplos  da  série  interminável  que  se pode imaginar. Contudo, para outras 
correntes,  os  conflitos,  sua   paralisação  dilemática  ou  sua  resolução  dialética  não  são  do  nível  determinante  do  real, 
porque a substância da realidade é a pura afirmação produtivo­desejante. 

CÓPIAS:  dentro  do  que  interessa  ao  Institucionalismo,  as  cópias  (segundo  o  pensamento  platônico) são as almas  que,  
havendo  tido,  nos  tempos  míticos,  uma  proximidade,  imagem  e semelhança com as Idéias  Puras* ou Modelos, perderam 
a  semelhança  e  só  conservaram  a  imagem,  esquecendo  se   dessa  "queda".   A  maiêutica  socrática  consistiria  em  um  
procedimento  pelo  qual,  mediante  o raciocínio,  se conseguiria  que as almas  recuperassem a memória, e com ela o acesso 
às  Idéias  Puras.  O  método  platônico  da clivisão em gêneros, espécies (etec.) seria uma forma de seleção para cliferenciar 
as  "boas"  das  "más"  cópias, sendo  que  as  primeiras estariam aptas para recuperar sua semelhança com as Idéias Puras. 
As  cópias  são  sinônimos  de  "representações".  Para  a  interpretação  institucionalista  desse  pensamento,  ver  Idéias 
puras*. 

­CRACIAS:  ARISTOCRACIA,  BUROCRACIA,  LOGOCRAClA,  SEXOCRACIA,   TEOCRACIA,  TECNOCRACIA: 


optamos  por  agrupar  e  tratar  em  conjunto  estes  termos  porque,  com  a  finalidade  de  explicitar  seu  interesse  para  o 
Institucionalismo,   esta  abordagem  permitirá  resumir  a   exposição.  O  sufixo  cracia  significa  governo  de   ou   poder  de: 
aristo  (elite  supostamente  integrada  pelos  melhores  membros  de  uma  sociedade,  cuja  condição  de  superioridade  está  
dada   por  uma  linhagem  hereditária);  buro  (categoria  ou  classe  que  se  ocupa  da  administração,  com  freqüência 
supostamente  "científica"  das organizações); tecno (categoria ou classe que detém  e exercita um saber habitualmente de 
cunho  científico);  pluto  (alude  a  classes  ou  grupos  economicamente  opulentos);  logo (alude aos possuidores da razão  
como  saber  discursivo);  sexo  (alude  a  uma  definição  sexual  em  detrimento  das   outras);e  teo  (alude  aos  supostos 
representantes  da clivindade  ou  à  divindade  mesma,  "encarnada"  em  um  indivíduo  ou  grupo).  Aqui  vale  acrescentar  a 
palavra  "nepotismo",  em  que  nepo,  em  sentido  restrito,  alude  aos  filhos  naturais  dos  Papas,  eufemisticamente  
denominados  "sobrinhos".  Em  sua  acepção  ampla,  refere­se  à  designação  de  parentes  de  um  governante  para  cargos 
oficiais. 
Para  o   Institucionalismo,  que  postula  o  autogoverno  dos  coletivos  (sistema  que  só   admite  lideranças  provisórias 
baseadas no afeto, prestígio e 

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exemplaridade),  nenhuma  dessas  condições  e  seus  respectivos   governos  são   aceitáveis,  configurando  vícios  de 
condução que são, por sua vez, causa e efeito da impossibilidade ou incapacidade para uma democracia au togestiva. 
CRISE:  em  sua  origem  grega  e  segundo  os  campos  de  atividade  nos  quais  era  empregada,  a  palavra  krisis  significava: 
interpretação  (por   exemplo,   dos   sonhos),  seleção   (por  exemplo,  das   vítimas  de  um  sacrifício),  juízo  (por  exemplo, 
procedimento  para  chegar  a  um  veredicto),  momento  crucial  das   vicissitudes  ou  do  metabolé  (por   exemplo,   cena  de 
apogeu   numa  tragédia),  fase  de  definição,  no  sentido  da  melhoria  ou  da  piora  do  curso  de  uma  enfermidade. 
Provavelmente  por  extensão da noção médica, o conceito de crise aplica­se a processos de qualquer natureza, nos quais,  
dentro  de  um  andamento  relativamente  regular,  chega­se  a  um  ponto  de  desequilíbrio  (desorganização, desordem) mais 
ou  menos imprevisível na sua  aparição  e em seu  desenlace. Esse estado de crise ocorre,  segundo alguns, por caducidade 
dos  mecanismos  e  recursos  vigentes,  devido  a  seu  desgaste  e/ ou à incidência de forças e acontecimentos positivos ou 
negativos  acidentais,  contingentes,  circunstanciais,  extraordinários  ete.  As  crises são  etapas  de  mudanças  para  o  bem 
ou  para  o  mal,  mas   em  geral  aceleradas   e  radicais.  Alguns   atribuem  as   crises  à  exacerbação  das  contradições  de  um 
sistema  ou  ao  acúmulo  de  mudanças  quantitativas  que  desembocam  em  uma   transformação  qualitativa.  Outros 
sustentam  que  são  períodos ou espaços de  transição entre tempos e lugares precisos e conhecidos, enquanto há os que 
pensam que se trata dos prolegômenos do surgimento do absolutamente novo. 
Para  certos  autores  (por  exemplo,  Marx),  o  Capitalismo é um sistema histórico que existe em crise permanente, posto que 
incorporou  essa  condição a seu modo normal de transcurso. Para o Institucionalismo, tanto enquanto campo  de análise* 
como  de  intervenção  (ver  campo  de intervenção*),  os  estados  de  crise  são  considerados  fecundos,  na medida  em  que  
envolvem  a  falência  do  instituído*  –  organizado*  e  a  emergência  do  instituinte*  –  organizante*  no  seio  da  "desordem 
criadora".  Alguns  institucionalistas,  como  Lapassade,   tentam  intervenções  deflagradoras  de  crise  grupal  ou 
organizacional   (provocação  institucional),   e  a  maioria  prefere  intervir  nos  momentos  críticos,  melhor  ainda  se 
generalizados a grandes segmentos ou à sociedade inteira. 

DEFESAS:  para  as  correntes  institucionalistas  tais  como  as  psicologias  institucionais  de  base  psicanalítica  kleiniana 
(Elliot  Jacques,  Pichon  Rivière,   Bleger  e  outros),  as  posições  esquizoparanóides  e  depressivas  –  as  configurações  
adquiridas  pelos  variados elementos  que  compõem  o  self  (pulsões,  objetos,  fantasmas)  no curso do desenvolvimento­, 
vêm acompanhadas de vivências características denominadas ansiedades * . Assim 

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se  fala  de   ansiedades  paranóides,  depressivas,  confusionais  etc.  Os  mecanismos  que  se  erguem  contra   elas 
(dissociação,   projeção,   idealização,  negação  etc.)   denominam­se  defesas  e  podem  tomar  como  suportes  os  elementos 
institucionais  e  organizacionais  (contratos,  organograma,  regulamentos  etc.).  Por  isso  se  diz  que   as  instituições  são 
"sistemas  de  defesa  contra  a  ansiedade*".  Descritivamente   falando,  isso  explica   os  quadros  psicóticos  que  muitos 
agentes* desenvolvem quando suas organizações entram em crise ou os expulsam. 

DESEJO:   a  Psicanálise  demonstrou  que  os  sujeitos  psíquicos estão  determinados  por  uma  força  inconsciente  sobre  a 
qual  não  têm  conhecimento  nem controle  voluntário. Essa força se  origina, por sua vez,  das pulsões, e tende à busca do 
prazer  e  à  evitação  do  desprazer.  A Psicanálise  postula que o desejo  é uma força do tipo conservador ou repetitivo, que 
procura  restituir  um  estado  arcaico  perdido,  prévio  à  constituição  do  sujeito:  o  narcisismo.  Durante  esses  incessantes 
ensaios,   o  desejo,  que  carece  do  objeto  real,  se  "satisfaz"  ou  "realiza"  animando   fantasmas   (montagens  de 
representações   imaginárias  inconscientes  que  transcorrem  em  "outra  cena"). Em  última  instância,  o  desejo  persegue  o 
gozo  absoluto,   quer  dizer,  sua  própria  extinção  definitiva,  na  qual  se  encontra  com  a  pulsão  de  morte.  O  Complexo  de 
Castração,  que  instaura  a lei no psiquismo, constitui o desejo, ao mesmo tempo em que  lhe permite simbolizar­se e servir  
aos  objetivos  de  vida.  O  desejo,  para  a  Psicanálise,  gesta­se  no  seio  do  Complexo  de  Édipo;  no  início  do 
desenvolvimento,  atua  exclusivamente  na  dramática  da  vida  familiar,  e  só  posteriormente  induz  os  sujeitos  psíquicos a 
entrarem nos processos sociais amplos. 
Algumas  correntes  do  Institucionalismo compartilham a definição psicanalítica de desejo (Sociopsicanálise). Para outras 
(por  exemplo, a Esquizoanálise), o desejo é essencial e imanentemente  produtivo, gera e  é gerado no processo mesmo de 
invenção,  metamorfose  ou "criação" do novo. Sua essência não é exclusivamente psíquica, pois participa de todo o real. 
Corresponde  aproximadamente   ao  que   Nietzsche  denominou  "Vontade  de  Potência",  ao   que  Espinoza  chamava 
"Substância"  e  os  estóicos  "Acontecimento  Incorporal",  que  resulta  do encontro entre os corpos (devir). Igualmente o 
desejo (assim entendido) tem afinidade  com o "virtual" bergsoniano, com as "quantidades intensivas" em Kant e com as 
"impressões  intensivas"  em  Hume.  Esse  desejo  atua  em  todo  e  qualquer  âmbito  do  real, não carece do objeto, ignora a 
lei  e  não  precisa  ser  simbolizado  porque  se  processa sempre de  fomla inconsciente. Não tende à morte porque constitui 
a  essência  da  vida  como  "Eterno   Retomo  das  Diferenças  Absolutas".  Assim  entendido,  o  desejo  também  está 
parcialmente  submetido  a  entidades  repressivas,  mas  estas  não  são  exclusivamente  psíquicas,  e  sim   um  complexo 
conjunto  ao  mesmo  tempo  político,  econômico,  comunicacional etc. Na Esquizoanálise de Deleuze e  Guattari, o desejo é 
imanente à produção, daí o conceito de produção desejante. 

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  DESVIANTE:   nas  organizações  e  movimentos  podem  surgir  sujeitos,  grupos  ou  tendências  que  questionam  o 
instituído* –  organizado,  através  de  diversos  discursos, atitudes  e comportamentos. Protagonizam, assim,  um desvio ou 
afastamento  da  linha  condutora  hegemônica  da  organização.  Sua  dissidência*  ou  discordância pode ser mais  ou  menos  
enérgica,  mas  em  geral  é  predominantemente  reativa,  quer  dizer,  se  bem  impugna  e   denuncia  os  defeitos  do 
instituído­organizado,  não  consegue   fazê­lo  com  consciência  suficiente  e  estratégia  adequada  para  gerar  uma  real 
alternativa  ou  uma  mudança  profunda.O  segmento  desviante  pode  ser  ideológico  (quando  propõe  uma  divergência  ou 
oposição  teórica  ou  dou  trinária),  organizacional  (quando  altera a estrutura ou a dinâmica do organograma e fluxograma) 
ou  libidinal  (quando  apresenta  opções  na  definição  sexual  ou  outras  vinculadas  a  eleições idiossincráticas em torno do 
prazer,  da  moral  etc.).  A  proposta  e  ação  desviante  podem,  eventualmente,  tornar­se  o   gérmen  de  um  processo 
produtivo­desejante­revolucionário. 

DIALÉTICA:  é  um  método  para  pensar   e  discutir  as  realidades  materiais  e  metafísicas  cujas  diferentes  versões  estão 
presentes  em  todo  saber  ocidental,  desde  a  Antiguidade  até  a  época  contemporânea.  É  um pensamento que concebe a 
realidade  material  e  a  espiritual  em  permanente  movimento  e  transformação,  devido  a  sua  essência  intrinsecamente 
contraditória.  Opõe  se  a  todas  as  concepções  que  supõem  o  ser  como estático e invariável, sendo as mudanças que se 
apresentam  apenas   superficiais,  ilusórias  ou  aparentes.  A   dialética   atinge  sua maior  sistematização  com  Hegel,  que  a 
postula  como  método  para  pensar  o  movimento  do  "Espírito  Absoluto",  essência de todo o real. Karl Marx,  o fundador 
do  Materialismo  Dialético  e  Histórico,  de alguma  forma  conserva  a  concepção hegeliana  do  movimento dialético, mas o 
atribui à matéria em suas várias qualidades, e não ao espírito. 
A  dialética  sustenta  que  o   movimento  é   regido  por  três  leis:   1)  Negação  da  negação;  2)  Passagem  da  quantidade  à 
qualidade;  e  3)  Coexistência  dos  opostos  em  cada  unidade.  Isso  implica  uma  total  refutação  das  leis  da  Lógica  Formal 
Clássica,  pois  os  princípios  de identidade, contradição e terceiro  excluído perdem vigência.  Outro aspecto importante da 
dialética  refere­se  aos  denominados  "momentos"  de  análise  da   realidade,  que  pode  ser examinada  como  "universal", 
"geral,   particular"  e  "singular".  Como  nas  leis  do  devir,  cada  momento  nega  o  anterior,  o  supera  e  ao  mesmo  tempo  o 
conserva.  O  conhecimento  da  essência  de  toda  e  qualquer  realidade  circunscrita  deve  ter  em conta  esse  "trabalho  do 
negativo" que não é diretamente apreendido pela consciência. 
Algumas  correntes   do   Institucionalismo  incorporam  recursos  da  concepção  dialética  (Análise  Institucional*),  outras 
entendem  que  a  dialética  ainda  é  uma  maneira  conservadora  de pensar e  conceber o real (a  negação da negação supera, 
mas  também  conserva  o   superado),  postulando,  em  troca,  uma  idéia  do  ser  como  puro  devir  no  qual  retornam 
exclusivamente as 
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diferenças (Esquizoanálise*). 
DISPOSITIVO: ver Agenciamento. 
DISSIDÊNCIA:  costuma­se  empregar  este  termo para referir­se à posição de setores discordantes ou divergentes de uma 
organização  ou  movimento,  sendo  que  tal  divergência  afeta  principalmente  a  linha  teólica ou ideológica. As tendências 
dissidentes podem manter­se no interior da organização­ movimento ou separar­se dele. 

DISSOCIAÇÃO  INSTRUMENTAL:  denomina­se  assim  na Psicanálise, no Grupalismo e  no  Institucionalismo a operação  


pela  qual  o   analista,  a  equipe  interveniente  ou  outros  segmentos  organizacionais  conseguem  simultaneamente 
protagonizar  os  processos  plenamente  implicados  neles  e  distanciar­se  o  suficiente  para  poder  analisá­los   e 
compreendê­los (ver Análise da Implicação*). 

DISTORÇÃO  DA  DEMANDA:  alguns  institucionalistas   consideram  que  certas   demandas   de  intervenção,  que 
expressam  claramente  uma  falta  de  vontade  instituinte*,   ou   mais  ainda,  um  apreciável  encargo  repressivo  ou 
ligeiramente  reformista, podem ser atendidas.  O analista inicia a análise e a intervenção  sobre essas bases, confiando em 
que  durante  o  curso  do  processo  poderá  reverter  o  equilíbrio  de  forças  e   encaminhar  o  andamento  em   direção  à  
autogestão* e à auto­análise * . 

DIVISÃO  SOCIAL  DO  TRABALHO:  todo  processo  de  produção,  particularmente  de  bens  materiais  e  serviços,  exige 
um  trabalho,  e  este,  por  sua  vez,  consome  força   de  trabalho.  Os  processos  de  trabalho   complexos,  em  todas  as 
sociedades  da   História  e  especialmente  na  modernidade  industrial,  estão  diversificados  em  diferentes  tarefas 
articuladas  entre  si.  Essa  composição  conferiu  à  produção  uma  rapidez  e  eficácia  jamais  igualadas. Contudo, devido à 
propriedade  privada  dos  meios  de  produção  e  à  compra  e  venda  injusta de força de trabalho nos sistemas capÍtalistas 
(extração  de  mais­valia),  à  divisão  técnica  do  trabalho  se  superpõe  uma  divisão  social.  Determinadas   tarefas  são 
consideradas  privilegiadas  e  fundam  hierarquias   que  outorgam  riqueza,  poder  e  prestígio.  Coisa  similar  Ocorre   em 
outros   sistemas   de  produção  pela  extração  dos  mesmos  e  dos  outros  tipos  de  mais­valia  ("Socialismo  Real").  Para  o 
Institucionalismo,   a  divisão  técnica  e  social  do  trabalho  é  importante  porque   causa  muitos  dos  conflitos  a  serem 
analisados  e  intervindos.  As  divisões  sociais  do  trabalho mais clássicas são as que separam e subordinam a produção 
manual intelectual, do campo­cidade, masculina­feminina etc. 

DOMINAÇÃO: imposição, por diversos meios (dentro de um espectro de

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violência que vai desde a sedução  até a destruição física), da vontade de indivíduos, grupos ou classes sobre outros. Os 
instituídos* – organizados*  estabelecidos, em especial o Estado e o grande Capital, mantêm seus privilégios dominando 
a  vontade coletiva ou majoritária. A dominação é  simultaneamente política, econômica, jurídica, semiótica, Iibidinal ete., e 
freqüentemente consegue contar com a passividade e também com a colaboração dos dominados (servidão voluntária). 

ECRO:  conceito  da   Psicologia  Social  de  Pichon Rivière  que  é  a  sigla  de  "esquema  conceitual  referencial  e  operativo". 
Refere­se,  em  primeira  instância,  às  teorias,  logísticas,  estratégias, táticas  e  técnicas  que  um  coordenador  de  grupo  ou 
um psicólogo social empregam para pensar e intervir sobre seus objetos' de trabalho. Contudo, o ECRO é muito  mais que 
o   até  aqui  mencionado,  porque  inclui   também  tudo   quanto  seja  acervo  de  vivências,  experiências,   afetos   e  outros 
elementos  que  compõem  a  personalidade de todos os participantes. Por outra parte, a idéia do esquema denota  o caráter 
provisório e marcadamente conjuntural do dispositivo* teórico­técnico utilizado. 

EFEITOS: várias correntes do Movimento Institucionalista* sustentam que a gênese teórica dos conceitos é inseparável 
de  sua   gênese  social.   Em   outras  palavras:  que  a  produção  do  conhecimento  sobre  as  leis  que  dão  conta  dos  fatos 
sociais  está   sempre  ligada  aos  acontecimentos  concretos  que  possibilitaram  e  exigiram  sua  formulação.  Se  bem  esta 
afirmação  não  refute o  caráter universal  e omnivalente das grandes  leis das ciências chamadas "humanas" (por  exemplo,  
a  Lei  do  Valor,  no  Materialismo  Histórico),  o  Institucionalismo  enfatiza o momento "formal concreto" do conhecimento, 
ressaltando  suas  características  singulares  devido  à  condição  única,  irrepetível  e  contingente  do  fato  em  questão.  Por 
isso  prefere  qualificar  esses   acontecimentos  como  "efeitos",  seguindo  uma  orientação  das  ciências  físicas,  enquanto  
esse  termo designa processos e fenômenos com um alcance menos geral e mais local  ou  circunstancial. A lista de efeitos 
que podem ser propostos é, por definição, interminável, mas mencionaremos aqui os mais conhecidos: 

Efeito  Weber:  tem   o  nome  do  grande  sociólogo  Max  Weber.  Refere­se  ao  fato  de  que  quanto  mais"  desenvolvida"  e 
complexa  se  torna  uma  sociedade*  e  quanto  mais  saberes  especializados  produz  acerca  de  si  mesma,  mais  ela  se  torna 
opaca (incompreensível) em seu conjunto para os agentes* sociais que a integram. 

Efeito  Lukács:  recebe  o  nome  do  filósofo  Georg  Lukács.  Refere­se  à  constatação  de  que o não­saber de uma sociedade 
acerca de si mesma é conseqüência do progresso da ciência. Quanto mais formalizada, rigorosa 

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e  quantificada  aparece  uma  ciência,  e  quanto  mais  perde  de  vista   as  condições  sociais  de  seu  nascimento   e 
desenvolvimento  (ou  seja,   quanto  mais  profundamente  realiza  seu  "corte  epistemológico"),  mais  satisfaz  as  exigências 
cientificistas e mais contribui para o não­saber de um conjunto social acerca de sua própria existência. 
Efeito  Heisemberg:  o físico  Werner  Heisemberg sustentava que o que  torna questionável a Teoria da Causalidade a nível 
subatômico  é  a  impossibilidade  física  de  se  medir  objetivamente  valores   exatos,  como,  por  exemplo,  precisar 
simultaneamente  a  velocidade  e  a  posição  de  uma  partícula.  Nos  experimentos  da  mecânica  quântica,  sujeito  e  objeto 
constituiriam  uma  unidade  inseparável  no  seio  da  qual  se  produziria  o  fenômeno. Essa constatação pode conduzir a um 
irracionalismo  (ou  seja,  a  uma  renúncia  a   um  tratamento  sistemático  da   determinação   desses  fenômenos),  ou,   pelo 
contrário,  à  concepção  de  outras  modalidades  da  causalidade.  O  lnstitucionalismo aproveitou  essa  idéia para  abordar a 
problemática  da  implicação,  quer   dizer,  do  intrincamento  que  se   produz  não  só  entre  a  equipe  interventora  e  a 
organização  intervinda, mas também  na construção que o analista institucional faz de  seu objeto de estudo  e intervenção 
e  a   desconstrução  analítica  que  faz  do  mesmo  Em  todos  esses  casos,  cada   um  dos  elementos  mencionados   é  um 
"resultante" do campo que assim se configura. 

Efeito  Frio­Quente:  é  óbvio  que  a  história  das  sociedades  mostra  períodos de  estabilidade e "congelamento" da  ordem 
constituída,  assim  como  outros  de  agitação,  mobilização  e  grandes transformações. Alguns antropólogos pretenderam, 
erroneamente,  que  as   sociedades  chamadas  primitivas,  por  oposição  às  modernas,  seriam  "estáticas",  quer  dizer,  que 
careceriam  de  história.  O  lnstitucionalismo  sustenta  que  é nos períodos "frios" da história que se consolida a  produção 
do  conhecimento  social  científico,  e,  portanto,  o  não­saber  de uma sociedade acerca de  suas capacidades instituintes e  
a  "naturalização"  de  seus  instituídos*.  Em  ou  tras  palavras:  a  separação  entre  a  "consciência  ingênua"  e  o  "saber 
científico".  Nessas  fases,  a  análise  e  as  intervenções  institucionais  só  podem  ser  contratadas  e  circunscritas.  Já  nas 
etapas  "quentes",  em  que  todo  o  saber  social  está  em  ebulição,  ocorre  o  contrário:  as   experiências  sociais  se 
multiplicam,  as  informações  circulam  por  fora  dos  canais  formais  e  criam­se  condições  para  a  apropriação  crítica  por 
parte  dos  coletivos  do  saber  acadêmico.  Também  se  afirma  a  verdade  dos  saberes  espontâneos  e  a vontade de aplicar 
de  imediato  todo  o  apreendido  na  ação  instituinte.  Quer  dizer:  geram­se  processos  de  auto  análise*  e  autogestão* 
espontâneos e generalizados. 

Efeito  Mülhman:  este  sociólogo  das  religiões  descreveu  um  processo  através  do  qual  os  movimentos  messiânicos, 
inspirados por uma profecia libertária, 

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chegam  a  um  ponto  de  seu  desenvolvimento  em  que  alguns  dos  segmentos  que  os  integram  considera­os  
"fracassados".  Essa  "função  de  fracasso" é capaz de provocar a cisão do movimento e a  saída ou a expulsão de facções 
dissidentes.  Isso  permite  aos  setores  remanescentes  institucionalizar  o  movimento  e  capturar  as  forças   vivas  e  o 
potencial  de  origem  em  estruturas  e  normas  organizacionais  "oficiais"  e  burocráticas  rígidas.   O  lnstitucionalismo  
constata que desfechos similares acontecem em todos os movimentos, especialmente nos políticos. 
Outros Efeitos: Lefevre, Einstein, Reich, Artaud, centro­contra­periferia etc. 

EMERGENTE:  na  Psicologia  Social de  Pichon Rivière, denomina­se  "Emergente" a todo e qualquer efeito (suportado em 


materialidades  diversas: "mentais"," corporais" e "sociais") resultante da composição de  forças e elementos presentes e 
atuantes  que  integram  uma  situação  e  um  campo  vital.  Um  emergente  pode  manifestar­se  através  de  um  indivíduo, um 
grupo  ou  uma  organização,  sendo  que  o  efetivador"  escolhido"  pelas  forças  em  conflito  expressa,  por   sua  vez,  as 
tendências  mais  patológicas  e  as  mais  sadias   do   conjunto.  Em  nosso  entender,  a  idéia  de  emergente  tem  uma 
similaridade  com a  de  analisador*,  mas  provém  de  uma  tradição  filosófica  existencialista  ("o  Ser como presença" ou "a 
Verdade que se revela") e não enfatiza a capacidade do analisador de analisar­se a si mesmo. 

ENCARGO:  no  Institucionalismo*,  a  noção  de   encargo  recebe   definições  e  sinônimos  diversos   que  tornam  difícil 
precisar  seu  significado.  Em   gerat   pode­se  dizer  que  este  termo  alude  aos  sentidos  não  explícitos,  não­manifestos,  
dissimulados,  ignorados  ou  reprimidos,  e  que   comporta  uma  demanda  de  bens  ou  serviços.  Em  uma  acepção  ampla, 
refere­se  a  uma  solicitude  ou  exigência  de  soluções  imaginárias  ou  de  ações destinadas a restaurar a ordem constituída 
quando  a  mesma  está  ameaçada.  O encargo nunca coincide com  a demanda e deve  ser decifrado a  partir dela,  sendo que 
seu  sentido  varia  segundo  o  segmento  organizacional  que  a  formula.  De  acordo  com  o  contexto  discursivo  de  que se 
trate, o encargo pode admitir como sinônimos: demanda latente, pedido, encomenda etc. 

ESPECIFICIDADE: a  modernidade  tem  como pré­requisito  e  como  conseqüência  o auge da racionalida de científica e de 


suas  aplicações   tecnológicas,  que   possibilitaram  o  desenvolvimento  da  sociedade  industrial.  A  modalidade  do  saber 
dominante  durante  este  processo   é  a  do  conhecimento  científico,  cujo  procedimento  é,  por  definição,  analítico.  Cada 
ciência, que num sentido acadêmico denomina­se disciplina, tem seu próprio objeto, teoria, método e técnicas, sendo que 
freqüentemente se subdivide, por sua vez, em um número crescente de especialidades. Essa 

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fragmentação  do  saber,  articulada  com  a  Divisão  Técnica  e  Social  do  Trabalho*,  consagrou  a   especificidade  –  a 
delimitação  taxativa  da  correspondência  entre  cada  domínio  teórico  e  um  território  da  realidade  que  lhe  é  procedente  – 
como o valor cognoscitivo mais importante de nossa cultura. 
O  Institucionalismo  estuda  criticamente  os  efeitos  distorsivos  e  alienantes  (ver  Alienação*)  que  essa  cultura  da 
especificidade  radical  tem  sobre  a  reconstrução  gnosiológica  de  um  mundo  humano  integrado.  Sobretudo se  interessa 
sobre  o  efeito  do  não­saber  ou  do  desconhecimento  que  instaura  em  cada disciplina  a  ausência  das  outras e, em todas 
elas, a desvalorização dos saberes não­qualificados (saber artístico, popular, da loucura etc.). 

ESPECIFIClDADE  (OU  ESPECIALIDADE,  OU   ESPECIALIZAÇÃO):  num  sentido  muito  amplo,  é  o  que  corresponde  a 
uma  espécie  de  forma  exclusiva  ou  prevalente.  Em  termos  sociais  e  epistemológicos,  tem  a  ver   com  a  divisão  das 
condições  e  atividades  humanas  em   geral   e  do  trabalho  em  particular.  Essas  diferenciações,  à  medida  que  reduzem  o 
campo  de  atuação  de  cadél  agente  social,  possibilitam  o  incremento  de   sua  competência  e  eficiência,  resultando  no 
aumento  espetacular  de  sua  produtividade.  Por  outra  parte,  redundam  na   fragmentação,   dispersão  e  perda  da   visão 
crítica  e  do  sentido  de  conjunto   das  práticas  que  pode  conduzir  à   "alienação",   ou   seja,  à  incapacidade  de  julgar  e 
conduzir seu andamento. 

No  caso  das  ciências  e disciplinas, sua circunscrição teórica e  sua aplicação tecnológica irrestrita tornaram­se valores  de 


nossa  civilização,  erigindo  a  "verdade"  e  a"  eficiência"  científicas  como  metas  dominantes  e  indiscutíveis.  Isso levou a 
deformações  tais  como  o  operacionalismo,  pragmatismo  e utilitarismo  irreflexivos  que acabam sendo incondicionalmente 
funcionais  à  lógica  acumulativa  e  concentradora   do   Capitalismo  Planetário  Integrado.  As  diversas  modalidades  do 
Movimento  Inslitucionalista,  além  de  insistirem  na  crítica   global  desses  efeitos,  pretendem  resgatar  os  valores 
instituintes*   e  organizantes*,  em  resumo,  revolucionários,  das contribuições  científicas.  Mas,  por  outra  parte,  também 
visa produzir uma abordagem intersticial que dê conta do não­sabido de cada ciência (enquanto as outras estão ausentes 
nela),  assim como seu conjunto  teórico­técnico  carece do aporte de outras formas do saber e  do  fazer (particularmente do 
saber e fazer dos coletivos populares de usuários e consumidores). 

EQUIPAMENTO:  conglomerados  complexos,  montagens  de  diversas  materialidades  (mais  especialmente  de  recursos  
técnicos),  prevalentemente  a  serviço  da  exploração,  dominação  e  mistificação.   Os  equipamentos  podem   pertencer  ao 
Estado*  ou  às  entidades  dominantes  da  sociedade  civil  (empresas,  corporações).  Podem  ser  de  grande   porte  (por 
exemplo,  os   instrumentos  da  comunicação   de  massas)  ou  de  pequena   dimensão  (por  exemplo,  arquivos,  impressoras, 
relógios de ponto etc.). 

150 ▲
  ESQUlZOANÁLISE:  soma  não  totalizável  de  saberes  e  afazeres  praticáveis por qualquer agente,  em qualquer tempo ou 
lugar.  Inventada  por  Gilles  Deleuze  e  Félix  Guattari  e  exposta  pela  primeira  vez  de  maneira  singularmente  sistemática no 
livro  "O  Anti­Edipo"  (1972),  essa corrente  não  é  enquadrável  nos  gêneros de pensamento e ação até agora conhecidos. 
Qualquer  tentativa  de  resumir  essa  amplíssima  leitura  da  realidade  natural­histórico­social­libidinal  e  tecnológica  seria  
estéril.  Mencionaremos  apenas  que, para  essa concepção, tais materialidades são imanentes (quer  dizer, consubstanciais 
ou  inseparáveis  uma  da  outra),  e  mais   ainda,  estão"  precedidas"  por  um  campo  de  materialidades  "puras",   puras 
diferenças intensivas. 
A  essência  do  real  é  a  "produção  desejante",  ou  seja,  a  incessante metamorfose geradora de  diferenças inovadoras que 
se  originam  ao  acaso*.  Nesse  sentido,   o  real  é  constante  e  integralmente   produzido,  podendo­se  distinguir  nele  uma 
produção  de  produção,  uma  de  "registro­controle"  e  uma  de   "consumo­voluptuosidade".  O   processo  produtivo   de 
produção  pode  ser  pensado  segundo  a  lógica  que  caracteriza  o  funcionamento  da  esquizofrenia  (não  como  patologia, 
mas  como  ser do devir), a microfísica  e a biologia molecular. Trata­se de um funcionamento absolutamente livre, infinito e  
imprevisível  que  consiste em  conexões e cortes de fluxos energéticos entre unidades intensivas denominadas "máquinas  
desejantes", cada uma das quais é uma pura e irrepetível singularidade*. As  máquinas desejantes dispõem­se e agenciam 
sobre  uma   matriz  de  gradientes  energéticos  denominada  "corpo  sem  órgãos".  Mas  a  produção  de  produção  de 
novidades  é  capturada  pelos  estratos, territórios e equipamentos da produção de  controle­registro que tende à repetição  
do  mesmo,  colocada  a  serviço  de   uma  entidade  centralizadora,  totalizante,  concentradora  e  acumulativa,  que  varia 
segundo  o  modo  de  organização  histórica  da  produção  de  que  se  trate  ("Corpo  Cheio  da  Terra",  "do  Déspota"  ou  do 
"Capital­Dinheiro").  Na  atividade  de  controle­registro predominam a reprodução e a anti­produção. Uma dessas formas é 
o que a Psicanálise chama Pulsão de Morte. 
Segundo  a entendemos, a Esquizoanálise compreende toda e qualquer  atividade intelectual ou prática que procura liberar 
o   processo  produtivo   ­desejante­revolucionário,  demolindo  as  constrições   da  parafernália  de  controle­registro.  Esse 
conjunto  não­totalizável  de  práxis  singulares  configura  a  "Micropolítica",  em  cujo  âmbito  as  inúmeras  revoluções  são 
feitas  não  apenas  por necessidade  ou dever, mas pelo desejo.  Entendida como procedimento para pensar e compreender  
o  real, a Esqllizoanálise compõe­se de tarefas negativas de crítica e  desconexão de valores dominantes e outras positivas, 
destinadas  a  propiciar  o  livre  fluir   da  .produção  e  do  desejo  na  vida  biológica,  psíquica,  comunicacional,  política, 
ecológica  etc.  A   Esquizoanálise   também  é  definida  com  outras  denominações,   tais  como   "Pragmática  Universal", 
"Análise Nômade" etc. 

151 ▲
ESTADO:  Conglomerado  complexo  de  instituídos*­organizados*­estabelecidos,  agente  e   instrumento  de  persuasão, 
repressão,  coerção  e  até  eliminação  social  a  serviço  prevalentemente  das  classes,  grupos  e  idiossincrasias dominantes. 
Opera  principalmente  através   da  captura  e  recuperação*  de  singularidades  e  forças  produtivas  de  toda   natureza, 
reinvestindo­as  na  lógica do sistema ou suprimindo­as. Seu  principal instrumento é o Direito, corpo estabelecido de leis* 
que  regulam  as  relações  sociais  a  favor  dos  setores  privilegiados, apresentando­se  aparentemente  como  expressão  da  
vontade  majoritária.  Existem  muitos  diferentes  tipos  de  Estado,  mas  o  Estado  moderno  precisa  de  reconhecimento  e 
legitimação,  que  obtém  por  meio  de  sua  concordância  com  a   Lei.  O  Estado  não  se  compõe  apenas  de  grandes 
organismos,  mas  também  de  microagências  instaladas  no  corpo  biológico  e  no  psiquismo   (Estado  contínuo; 
micropoderes  do  Estado).  Não  é  que  o  Institucionalismo  negue  a  existência  de  forças  e  processos  instituintes 
organizantes dentro do Estado, mas privilegia a denúncia de seus aspectos de reprodução e antiprodução. 

ESTRATÉGIA:  trata­se  da  decisão  quanto  à forma da intervenção. É  uma sistematização das metas a serem alcançadas 


(cuja  máxima  expressão  seriam  a   auto­análise*  e   autogestão*),  e  o   planejamento   da  progressão  das  manobras,  a 
previsão de curso, as alternativas viáveis, os avanços esperados, os possíveis retrocessos ete. 

EXPLORAÇÃO:  processo  de  expropriação  das  forças,  meios  e  resultados  dos  processos  produtivos  de  toda  índole, 
efetuado  pelos setores dominantes sobre os produtores. A exploração é possibilitada e reforçada  pelos mecanismos de  
dominação* e mistificação*. 

FANTASMA:  para  a  Psicanálise,  o  fantasma  é  uma  cena  latente  cujo  sentido ou script pode ser decifrado a partir do 


discurso  associativo  de  um  sujeito  e  que  apresenta  o  desejo  inconsciente  como  imaginariamente  "realizado".  Os 
psicanalistas  grupalistas  encontraram  formações  fantasmáticas  "de  grupo"  que  "realizam"  um  desejo  inconsciente 
grupal  que  já  não  se  reduz  ao  de  nenhum  dos  sujeitos  que  o  integram.  Os  sociopsicanalistas  decifram  e  interpretam 
esses  fantasmas  na  classe  institucional  (que  é  o  grupo  organizacional  com   o  qual  preferentemente  trabalham)  e 
confrontam  essa  representação  imaginária com  as  condições  reais  de trabalho,  para  que  a  classe  recupere  a  margem  
real  de  poder  que  sua  posição  objetiva  lhe  possibilita. A  Esquizoanálise  sustenta  uma  complexa  teoria  do  fantasma 
que  o  vincula   com  o  sentido  e  o  acontecimento  e  o  distingue  do  sujeito,  do  estado  de  coisas  às  quais  este  se 
relaciona,  e  ainda  do  significado   do   que  diz.  O  fantasma  (que  sempre  é  grupal)  é  uma  realidade  sui  generis  em  si 
mesma. 

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  FUNÇÃO:  denominação  que  se  dá  aos   propósitos,  procedimentos   e  objetivos  dos  instituídos*­organizados*­ 
estabelecidos,   seus  agentes*  e  práticas*.  A  função  está  sempre,  prevalentemente,  a  serviço   das  diversas   formas  
históricas  da  exploração*,  dominação*  e  mistificação*.  A  função  apresenta­se  às  representações  e   crenças   das 
sociedades  "deformada"   pela  mistificação  como   sendo  uma  atividade  "natural",  eterna,  invariável,  universal,  lógica  e  
necessária. A rigor, opera fundamentalmente como ação reprodutora (ver Reprodução*) dos sistemas. 

FUNCIONAMENTO:  designa  o  movimento  dos  processos  produtivo­desejante­revolucionários  de  qualquer 


materialidade  e  essência (entre eles o instituinte*­organizante*). É o gerador  da diferença, da novidade,  da invenção e  da 
metamorfose.  Entre  seus  produtos  estão  os  instituídos*  ­organizados*­estabelecidos  que  tendem rapidamente a perder 
seu  valor  de  funcionamento  e  adotar  as  características da função* (por exemplo, a  burocracia, a tecnocracia, a belicracia 
etc.). 

GÊNESE  SOCIAL  E  GÊNESE   TEÓRICA:  particularmente  a  Análise   lnstitucional  tem  insistido  em  que  as  teorias  e 
doutriné1s,  sejam  elas  científicas,  ideológicas,  filosóficas  ou  estéticas,  têm  apenas uma autonomia relativa com respeito 
aos  acontecimentos*,  conjunturas, organizações e movimentos histórico­sócio­libidinais no seio dos quais surgiram. Em 
conseqüência,  não  se  pode  analisar   nem  compreender  as origens  e  o  conteúdo  de  discursos  e  textos  postulando  sua 
independência  em  relação  às  condições  concretas  de seu  começo  e  existência  atual.  Do  mesmo  modo,  não  se  entende 
nem  se  avalia  um  movimento  sem  conhecer  o  pensamento  que  o  inspira  e  justifica.  Em  todo  caso,  a afirmação de  que a 
gênese  social  e teórica são inseparáveis entre si, opõe­se a  qualquer crença na neutralidade e universalidade das teorias, 
assim  como  à  crença  de  que  os  "fatos"  sociais  possam  "falar  por  si  mesmos",  prescindindo  de  alguma  leitura  que  os  
torne inteligíveis. 

GRUPO  SUJEITO  E  GRUPO  SUJEITADO:  estes  conceitos  são  de  autoria  do  institucionalista  Félix  Guattari  (ver 
Esquizoanálise*).  Se  um  grupo  constitui­se  com uma Utopia Ativa * capaz de gerar suas próprias leis para realizá­la e  de 
construir  a  si mesmo durante o processo, tendo sempre presente sua finitude e a perspectiva de sua própria morte, então  
é  um  grupo  sujeito  (protagônico).  Pelo  contrário,  um  grupo   alienado  (ver   Alienação*)  em  objetivos,  procedimentos, 
estruturas  e  leis*  que se  lhe impõem desde  outros segmentos ou desde  a totalidade  social, que se empenha em  subsistir 
como  um  fim  em  si  quando  não  cumpre  com  sua  finalidade,  é um grupo sujeitado. Para Guattari, a formação grupal é tão  
importante que o leva a afirmar a existência somente de fantasmas "de grupo", e não "individuais" ou "coletivos". 

153 ▲
HISTÓRIA:  para  o  Institucionalismo,  é um saber que procura reconstruir os acontecimentos do passado, assumindo que 
o  fará a partir dos desejos, interesses e  tendências de quem  protagoniza esse  estudo. Assim entendida, a  História não é a 
investigação  acerca  do  que  já  está  definido,  obsoleto  e  morto,  mas  o conhecimento  de processos vigentes no presente, 
que  começaram  no  passado  e   que  determinam  virtualidades   e  possibilidades  futuras  (Utopia  Ativa*).  Não  existe  um 
processo  em  um  tempo  unitário  que  possa  ser  reconstruído  em  um  relato  único.  Existem  variados  processos,  cada  um 
transcorrendo  em  um  tempo  que  lhe  é  próprio  e  que  pode  ser  relatado  em  uma  história  da  diversidade.  Assim,  existem  
histórias  econômicas,  políticas,  culturais,  biológicas,  geológicas,  raciais, geracionais, sexuais. Pode­se tentar articular os 
diferentes  tempos  dos  variados  processos  históricos  em  uma  leitura  que  caracterize  eras,  etapas,  períodos  ou  épocas  
localizáveis  geográfica  ou  cronologicamente,   mas   sem  perder  de  vista  que  os  resultados  nunca  serão  totalizáveis  nem  
determinados  em  "última  instância"  por  nenhum  dos  processos  assim  agrupados.  A  História,  para  o  Institucionalismo, 
não  é  apenas  um  exercício erudito que estuda o que se repete e  caracteriza o que não se repete. Trata­se da  reconstrução 
dos  grandes  momentos  contingentes  e  imprevistos que  se efetuaram em acontecimentos*  de radical novidade. Por outra 
parte,  não  investiga  como  o  passado  determina  o  presente  e  pode  condicionar  o  futuro,  mas  como  o  presente  ativa  e 
deflagra virtualidades do passado e como propicia os acontecimentos* no porvir. 

HISTORIOGRAFIA:  trata­se  de  um  relato dos fatos históricos,  aparentenlente claro e acessível. Em geral,  é uma versão  


"oficial"  que   foi  conservada  e  divulgada   por  coincidir  com  os  interesses   do   Estado*,  das  classes  dominantes  e  do 
instituído*­organizado*­estabelecido,  que  possuem  mecanismos  para arquivar e selecionar os dados  que lhes convêm. 
Esses  textos  historiográficos   são  apresentados  como  descrições  "objetivas"   neutras  e  preferenciais,  quando   não 
exclusivas.  A  rigor,  consistem  apenas  numa  versão  a mais, tão tendenciosa como qualquer outra, mais importante pelo 
que omite ou disfarça do que pelo que afirma. 

HORIZONTALIDADE:  na  Psicologia  Social  de  Pichon  Rivière, a  horizontalidade  designa  a  dimensão  grupal  atual,  ou 
seja,  o  conjunto  de  elementos  que  coexistem  e  operam,  configurando­se  no  aqui  e   agora  do  campo  grupal.   Na 
Psico­Sociologia*   Organizacional  e  no  Institucionalismo,  a  horizontalidade  define  a  dimensão  da  vida  organizacional 
que corresponde às relações e aos processos informais, ou seja: rumores, intrigas de corredor, vínculos sexuais etc. 

IDÉIAS   PURAS:  no  que  interessa  ao  Institucionalismo,  as  Idéias  Puras,  segundo   Platão  as  concebeu,  são  seres 
idênticos a si mesmos, eternos e invariáveis, modelos de tudo que existe. Delas só se pode predicar sua 

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  própria   essência  (por  exemplo:  a  brancura  é  branca).  O  desejo  dos  corpos  humanos  por  outros  corpos  belos  deve  ser 
encaminhado  como  amor  ao  saber,  à procura  da  Verdade,  que é a visão das Idéias Puras, e essa  é também uma  proposta 
ética,  enquanto  implica  a  virtude  e  o  bem supremo. Diversas correntes do Institucionalismo abordaram criticamente essa  
concepção  como  sendo  a  base  especulativa  dos  sistemas  institucionais (incluídos  os subjetivos) de subordinação a  um 
ideal  ou  modelo,   e  de   hierarquização  e  seleção  dos"  candidatos"  a  funções  de  poder  e  prestígio.  As  Idéias  Puras  são 
sinônimos de "ídolos" para alguns autores. 

IDEOLOGIA:  classicamente  se  entende   por  ideologia  um  conjunto  mais  ou  menos  sistemático  de   representações 
(crenças,   convicções,   valores)  que  os  sujeitos  e  grupos  formam  sobre  a  vida  e  o  mundo.  Essas representações  estão 
animadas  por  vontades  e  desejos.  Quando  configuram  sistemas  amplos,  denominam­se  cosmovisões  ou  visões  do 
mundo.  Enquanto  sistemas  de   representações,  constituem  as  ideologias  teóricas,  mas  podem  ser  também  disposições  
para a ação ou comportamentos concretos (ideologias práticas). 
A ideologia, definida  como oposta à ciência, é entendida  como um sistema de reconhecimento­desconhecimento, ou seja, 
apenas  um  saber  aproximativo  e  viciado  por  erros.  Esses  erros  seriam  provocados pela posição que os sujeitos ocupam 
nos  sistemas  que  se  representam  erroneamente,  ou  por   forças  ativas  (por  exemplo,  as  das  classes   dominantes)  que  
produzem, distribuem e fazem adotar estas crenças equivocadas que favorecem seus interesses. 
Em  outra  direção,  a  ideologia é considerada uma representação imaginária que os homens fazem de sua relação com suas 
condições  reais   de  existência.  Segundo  esse  sentido,  à  ideologia  manifesta  subjazem  fantasmas  inconscientes  que  são 
"realizações" de desejos inconscientes. Esse significado de ideologia a aproxima do anseio ou da ilusão. 
Segundo  seu  matiz  político  ou  ético,  as  ideologias  classificam­se  em  progressivas  (se  sustentam  valores  evolutivos  ou  
revolucionários)  ou  regressivas  (se  são  reacionárias  ou  conservadoras).  Em  geral,  em  uma  sociedade"',  a  ideologia 
dominante  é  aquela   que  os  setores  dominantes  conseguem  produzir  e  difundir.  Para  algumas  correntes  do 
Institucionalismo,  a  ideologia  é  um  conceito  importante  e  operacional  (Sociopsicanálise*,  Análise  Institucional  *); para 
outras, carece de interesse, por pertencer ao espaço da representação e não ao das forças (Esquizoanálise *). 

IMANÊNCIA:  para  alguns  filósofos,  este  termo   designa  a  interioridade  de  um  ser   ao  ser  de  outro.  Opõe­se  à 
transcendência.  Para  o  Institucionalismo,  expressa  a  não­separação  entre  os  processos  econômicos,  políticos, culturais 
(sociais em sentido amplo), os naturais e os desejantes. Todos eles são 

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 inerentes, intrínsecos e só separáveis com finalidades semânticas ou pedagógicas. 
INCONSCIENTE:  em  um  sentido  amplo,  refere­se  a  realidades  e  processos  que  não  são  conscientes.  O  significado 
psicanalítico  designa  instâncias,  processos,  mecanismos,  forças  e  representações,  em  especial o Complexo de Édipo e o  
desejo,  que  são   mantidos  no  espaço   psíquico  inconsciente  pela  força  ativa  do  recalcamento,  especialmente  o 
recalcamento  primário.  Algumas  correntes  institucionalistas  compartilham  a  definição   psicanalítica   (por  exemplo,  a 
Sociopsicanálise).  Para  outras,  o  inconsciente  é   a  qualidade  de  pré­materialidades  e  processos  das   mais  diversas 
essências  que  se  gera  como  espaço  no  ato mesmo da produção do novo. É um campo histórico que sofre uma repressão 
político­econômica e libidinal dada pelo horizonte do possível de cada formação social. 

INFRA­ESTRUTURA:   no   Materialismo  Histórico,  ciência  da   História,  da  Sociologia   e  da   Economia  Política  marxistas, 
denomina­se  infra  estrutura  à  instância  do  todo   social  na  qual   se  desenvolve  o  processo  de  produção,  distribuição, 
apropriação,   troca,  consumo  e   desfrute  de  bens  materiais.  Esse  processo  é  considerado  a  base  material  e  condição  de 
existência  de  toda e  qualquer  sociedade,  operando  a  reprodução* econômica restrita do modo de produção*. Na versão 
clássica do Materialismo Histórico, a infra­estrutura determina a superestrutura*. 

INSTÂNCIAS:  no  Materialismo  Histórico,  particularmente  na  versão  de  Althusser,  denomina­se  instância  a cada região 
que  compõe  o  território  ou  domínio  do  modo   de  produção,  dito  em   sentido  amplo,  de  uma   sociedade  humana.  Essa 
terminologia  resulta  da  importação  do  modelo  da  Segunda  Tópica  freudiana  para  a  teoria  do  Modo  de  Produção,  quer  
dizer,  a  que  apresenta  a personalidade  como  integrada  pelas  instâncias  do  Ego,  Superego  e ld, e também das instâncias 
do aparelho jurídico. 

INSTITUIÇÃO:  são  árvores  de decisões lógicas que regulam as atividades  humanas, indicando o que  é proibido, o que é 


permitido   e  o  que   é  indiferente.  Segundo  seu  grau  de  objetivação  e  formalização,  podem  estar  expressas  em   leis* 
(princípios­fundamentos),  normas  ou  hábitos. Toda instituição compreende um movimento que a gera: o instituinte*; um 
resultado:  o  instituído*;  e  um  processo:  da  institucionalização. Exemplos de instituições são:a linguagem, as  relações de 
parentesco,  a   divisão  social  do  trabalho*,  a   religião,   a  justiça,  o  dinheiro,   as  forças  armadas  etc.  Um  conglomerado 
importante  de   instituições  é,  por  exemplo,  o  Estado*.  Para  realizar  concretamente  sua  função  regulamentadora,  as 
instituições materializam­se em organizações* e estabelecimentos. As 

156 ▲ origens das instituições são difíceis de determinar. Pode­se falar de quatro instituições "fundantes" 
das sociedades humanas (ver sociedade*). 
INSTITUÍDO:  ao  resultado  da  ação  instituinte*  denomina­se  instituído.  Quando  esse  efeito  foi  produzido  pela  primeira 
vez,  diz­se  que  se  fundou uma instituição.  O instituído cumpre um papel histórico importante  porque vigora para ordenar 
as  atividades  sociais  essenciais  para  a  vida coletiva. Para que os instituídos sejam eficientes, devem permanecer abertos  
às  transformações  com  que  o  instituinte*  acompanha   o  devir  social.  Contudo,  o  instituído  tem   uma  tendência  a 
permanecer estático  e  imutável,  conservando  de  juri  estados  já  transformados  de facto e tornando­se assim resistente e 
conservador. 

INSTITUlNTE:  é  o  processo  mobilizado  por forças  produtivo­desejante ­revolucionárias que tende a fundar instituições 


ou  a  transformá­las,  como  parte  do  devir  das  potências  e  materialidades  sociais.  No  transcurso do funcionamento  do  
processo  de  institucionalização,  o  instituinte  inventa instituídos* e logo os metamorfoseia  ou  cancela, de acordo com as 
exigências  do  devir   social.  Para  operar  concretamente,  o  processo  de  institucionalização  deve  ser  acompanhado  de 
outros  organizantes*  que  se  materializam  em  organizações*. Os  dinamismos instituintes e organizantes* são orientados 
pelas Utopias Ativas*. 

INTERESSE:  denomina­se  assim  às  motivações,   desejos,  aspirações,  expectativas  e  demandas  pré­conscientes  e 
conscientes  que  impulsionam   ou   mobilizam  os  agentes,  grupos  ou  classes  na  atividade  social.  Os  interesses 
caracterizam­se   por  serem  conhecidos  e  assumidos  pelos  sujeitos  e  estarem  dotados  de  uma  certa  racionalidade.  Em 
geral,  os  interesses  divergem  ou  se  opõem aos  desejos  e  fantasmas  inconscientes,  e  freqüentemente  se  descobre  que 
sua suposta racionalidade não é mais que uma racionalização. 

INTERVENÇÃO  lNSTITUClONAL:  ação  transformadora  praticada  segundo  uma  ética  e  uma   política  e  formalizada  em 
uma  teoria  aplicada  segundo   certas  regras  metodológicas  e  uma  série  de  recursos  técnicos. Todo  esse  procedimento 
parte  de  uma  avaliação  1ogística  de  disponibilidades  e  é  planificado  segundo  uma  estratégia  que  se  decompõe  em  
táticas.  Seu  objetivo  central  é  propiciar nos  coletivos  intervindos  a  ação  do  instituinte*  organizante*  e, no seu limite, a 
implantação de processos plenos e continuados de auto­análise* e autogestão*. 

LEIS:  consistem  na  formalização  e  explicitação,  em  textos  e/ou  discursos,  das  árvores   de  valores  e  decisões  que 
constituem  as  instituições*.  Quando  expressam  rígida  e  exclusivamente  a   vontade  do  instituído­organizado*  e  se 
apresentam como universais e mais ou menos invariáveis, sendo 

157 ▲
referendadas,  por  exemplo,  pelo  Estado  ou  a  Igreja,  são  apenas  a  justificativa  da dominação* – exploração­mistificação. 
Quando  são  provisórias  e  singulares  e   expressam  realmente  a  vontade   instituinte*­organizante*   que  "se  dá  suas 
próprias   leis",  são   instrumentos  formais  produtivo­desejante­  revolucionários.  O  Institucionalismo  conhece  e  aplica  as 
leis científicas que lhe são úteis, mas aceita e enfatiza o papel do acaso* nos processos de que se ocupa. 

LÍDER:  as  lideranças  são  papéis  específicos  que  adquirem   importância  especial   por  suas  funções  dirigentes  ou  de 
condução.  Os   mais  característicos  são:  o  autoritário,  o  laíssez­faire  e  o   democrático.  Quando  o  líder   é  um  autêntico  
recurso  para o  funcionamento  instituinte,  denomina­se  revolucionário­desejante­produtivo.  Seu  estatuto  não  é  o de um 
modelo, mas o de um exemplo singular. 

LOGÍSTICA:  balanço  dos  recursos  e  forças  disponíveis  no  início  de  uma  intervenção.  Avalia­se  o  que  está  disponível 
para  contribuir  ou  para  dificultar  o  trabalho,  que  se   iniciará   se  houver  um  mínimo   de  possibilidade  de  realização.  A 
logística vai sendo reavaliada durante o percurso da intervenção. 

MARGINALIDADE:  por  referência  a  teorias,  doutrinas,  ideologias,  organizações,  movimentos,  espaços  físicos, 
geográficos  ou  abstratos,  idiossincrasias  (sexuais,  raciais,  etárias,  nacionais,  econômicas,  jurídicas)  etc.,  considera­se 
marginal  a  todo  e  qualquer  elemento  afastado  do  que  se  entende  por  central,  legítimo,  consagrado  ou  autêntico  nos 
campos  correspondentes.  O  marginal  em  geral  adquire  um  matiz  pejorativo  que  denota  ou  conota  tanto  aquilo que está  
desvirtuado  como  até  o  que  se  avalia  francamente  como  negativo  ou  perigoso. Obviamente, o termo marginalidade está 
muito relacionado com a oposição centro­periferia. 

MASSAS:  noção  de  difícil  definição,   que  foi  empregada  de  muitas  maneiras  não  coincidentes.  Num  sentido,  designa 
grandes  segmentos  da  população  que  se  opõem  às  minorias  (particularmente  às  elites)  e  podem  vir  a  ocupar  seu lugar. 
Em  outra  significação,  refere­se  a  conjuntos   humanos   amorfos,  cujos  integrantes  carecem  de  "identidade"  própria. 
Também  se  diz  de  seus   componentes  que  são  dirigidos  por  outros;  e  não  intradirigidos.  Freud  utilizou  o  conceito  de 
massa  como  sinônimo  de  grande  agrupação.  As  massas  efêmeras   dividem­se  naquelas  que   se  fomlam  e   dissolvem 
espontânea  ou  fugazmente  (multidão)  e  nas  que  se  organizam  ocasionalmente  em   torno  de  um  líder.  As  massas 
"estáveis"  são,  de  modo  plausível,  sinônimo  de  organizações;  Freud  dá  como  exemplo  a  Igreja  e o  Exército.  Chama­se 
"Sociedade  de  Massas"   aquela   em  que  as  diferenças  (por  exemplo,  a  de  classes)   se  apagam  em  função  de  outros 
parâmetros (por exemplo, o acesso 

158▲
 
ao consumo de certos produtos). 

MISTIFICAÇÃO:  processo   mais  ou  menos  deliberado  de  produção,  difusão  e  assimilação  de  representações,  crenças, 
convicções  e  valores  que  deformam,  encobrem  ou  falsificam  a realidade natural ou social  com a finalidade de enganar as 
forças  e  agentes*  instituintes*  e  organizantes*  Perpetuam­se  assim  os  instituídos*­organizados*­estabelecidos,  e  com 
eles,  as  formas  históricas  que  adotam  a  exploração"  e  al  dominação*.  Pode­se  considerar  os processos de mistificação 
como  sinônimos  de   produção,  difusão  e  assimilação  de  ideologias  regressivas  ou,  segundo  outra  terminologia 
institucionalista, de máquinas de semiotização de captura e recuperação* . 

MODULAÇÃO   (PRODUÇÃO)  DA  DEMANDA:   O  lnstitucionalismo  questiona  a  crença  de  que  existem  necessidades  
"naturais"  (portanto  universais  e  eternas)  que  se  expressam   em  "demandas  espontâneas".  Uma  sociedade*  tem  
necessidades  que  não  conhece  e  não  consegue definir como tais, assim como supõe ter  necessidades cuja existência foi 
produzida  e  cuja  expressão  em  demandas  foi gerada  e modulada pela oferta. A produção  de objetos suntuosos, bens de 
luxo  e  desperdício  dos  setores  dominantes,  tem  sido  sempre  prioritária.  O  que  resta  da  produção  é  o  que  se  oferece  às 
comunidades,  categorizado  como  "objetos das necessidades básicas".  Dessa  maneira, definem­se tais  necessidades e se 
convoca  e  modula  sua  demanda.   Nas  sociedades  industriais  modernas,  a  construção  de  um  "Estado  beneficente, 
previdenciário,  administrador­gerente­cientista"  e  de  um  mercado  de  bens   e  serviços  submete  a  produção  de 
necessidades  e  a  modulação  das  demandas  à  ação  dos saberes disciplinares e de seus agentes*, os experts. São eles os 
que  decidem  o  que,  como,  quanto,  onde,  porque  e  quando  as  pessoas  "necessitam"  e  "demandam",  no  que  se refere  a 
bens  de  consumo  ou  de  "capital"  e  a  serviços  de  saúde  (física  e  mental),  educação,  transporte etc. Essas decisões e as 
ações  que  elas  orientam  são,  segundo  dizem  os  experts,  "cientificamente"  fundadas,  e  de  acordo  com  a   "vontade 
popular", sempre visando "o bem comum". 
A partir  da Psicanálise, costuma­se afirmar  que o desejo*  mediatiza a relação entre necessidade e demanda. Ou seja, entre 
as  exigências  da  necessidade  e  sua  expressão  significante  atua  o  desejo,  que  a  Psicanálise define como essencialmente 
faltoso  de  objeto  ou  carente  de  resposta  material  possível.  A  necessidade  não satisfeita origina uma privação que pode 
ser  resolvida  com  os  objetos  materiais  correspondentes.  Já a demanda, do ponto de vista psicanalítico, não  é um pedido 
do  que  manifestamente  se  solicita,  mas  de  "amor"  e  "reconhecimento",  sendo  compensável  com  as  respostas  que  a 
complementem.  O  desejo,  em  troca,  pede  uma  impossível  restauração  narcisística,  o  gozo  absoluto.  A  produção  de um 
fantasma pode lhe dar uma satisfação imaginária e transitória, e a simbolização, um destino
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socializável,   enquanto  só  a   morte  pode  conferir­lhe   uma  definitiva.  Algumas  correntes   institucionalistas  questionam 
radicalmente essa concepção do desejo*. 

MOLAR:   para  a  Esquizoanálise*,  este termo  designa  uma  ordem  de  organização  do  real  que  caracteriza  a superfície  de 
registro  e  controle  e  a de  consumo­consumação.  Nessa ordem, as entidades características são os  estratos e os grandes 
blocos  representativos  dos  territórios  constituídos.  É  o  lugar  dos  códigos,  sobrecódigos   e  axiomáticas,  das  formas 
sujeitos  e  objetos  definidos,  dos  organismos  biológicos  e das  grandes  corporações  e  corpos  cheios do Estado*, Igreja 
etc.  Compõe  o  que  em   outra  terminologia  se   denomina  instituídos*­organizados*­estabelecidos.  Nesse  espaço 
constituem­se  as  matérias  formadas  e  as  forças  vetorizadas  (númen  voluptas).  É  o  campo  da  regularidade,  da 
estabilidade,  da  conservação  e da  reprodução*,  onde  operam  os  equipamentos  sedentários  de  captura  e recuperação*. 
Aproxima­se ao que se chama "o mundo do macro". 

MOLECULAR:   para  a  Esquizoanálise,  este  termo  caracteriza  os  elementos  que  compõem  a  superfície  de  produção 
desejante. Essa  superfície está integrada pelo "corpo  sem órgãos" (uma rede  de intensidades puras que se distribuem em 
gradientes  delimitados  por  limiares  a  partir  de  zero)  e pelas "máquinas desejantes"  (rede de singularidades  acopladas de 
maneira  binária  –  máquina­fonte­m.áquina­órgão   –  que  se  conectam  em  todas  as  direções,  segundo  o  acaso*  ou  uma 
lógica  aleatória).  Essas  conexões fazem circular fluxos (devires­esquizias) interrompidos por cortes que, em suas ligações 
anárquicas  locais  ou  à  distância,  resultam  em  uma eclosão do novo ou na metamorfose das  entidades molares,que assim 
se  desestratificam   e  se  desterritorializam  por  linhas  de  fuga.  É  o  lugar  das  matérias  não­formadas  e  das  energias  não 
vetorizadas  onde  as  máquinas  moleculares  se  formam  ao nlesmo tempo em que funcionam. Os dispositivos* e  máquinas 
de  guerra  nômades,  agenciamentos*  que  se  montam  com  especial  permeabilidade  para o  desejo*  e  a  produção*,  estão 
desenhados  para  funcionar  com  esta  lógica  que  produz  o  Desejo*  e  o  lnconsciente libertários. Em outra terminologia, o  
molecular corresponde parcialmente ao instituinte* – organizante*. 

MOVIMENTO  INSTlTUCIONALISTA:  conjunto  não   totalizável  de  escolas   e  correntes  cujas  diversas  tendências 
subscrevem  alguns  objetivos  comuns,  entre  os  quais  os  mais  compartilhados  consisten\  em  propiciar  nos  coletivos 
processos  de  auto­análise* e autogestão*. Essas orientações se diferenciam entre si por suas  teorias, métodos, técnicas, 
estratégias  e  táticas  de  leitura  e  de  intervenção,  assim  C0l110  pelo   alcance  dos   objetivos  que  se  propõem.  Assim 
configuram uma escala que vai desde o refonnismo ao maximalismo. 
160 ▲
 
MUDANÇA:  as  diferentes  civilizações  atribuíam  ou  atribuem  à  permanência  (status  quo)  ou  à  transformação  valores  
diferentes.   Para   algumas  comunidades   primitivas,  o  funcionamento  ideal  de  sua  vida  consistia  em   que  tudo  se 
mantivesse  exatamente  idêntico  em  organização,  costumes  etc.,  para  imitar  o  mundo  e   o  tempo   divinos,  eternos  e 
invariáveis.  No  outro  extremo  da  História,   a  modernidade  caracteriza­se  pela  glorificação  da  mudança   constante  e 
acelerada  dentro  de  uma  trajetória  linear  e  evolutiva  denominada  progresso.  Em  todo caso, a oposição, em  todos e cada 
um dos  aspectos  da  vida, entre  posições "conservadoras" contra outras  "progressistas",  ou, em um sentido mais amplo, 
"transformacionistas"; permeia todos os processos naturais­sociais­libidinais. 
A  Sociologia  e  a   Psico­Sociologia  de  origem  positivista  e  estrutural­  funcionalista  insistiram  muito  na  problemática  da  
mudança  e  da  "resistência  à  mudança",  tal  como  ela  se  apresenta  nos  grupos,  organizações  e comunidades  diante  das 
situações  desconhecidas  e   novas.  A  Psicanálise,  por  sua  parte,  também  tem,  entre  seus  temas  mais  importantes,  a 
questão  da  mudança  –  entendida  como  a  exigência  colocada  ao  sujeito  psíquico  de  dominar  os  efeitos do impulso e da 
compulsão  à  repetição,  que  resulta  da  natureza  conservadora  das  pulsões,  da  insistência  do  desejo  e dos princípios de 
constância  e inércia.  Para  as  diversas  correntes  do  Institucionalismo,  a  problemática  da mudança, ligada a  categorias de 
diferença­repetição,   transferência­resistência,  reação­reformismo­revolução   etc.,  é  tratada  segundo  as   inspirações 
teóricas  e  políticas  às  quais   as  escolas  se  afiliam.  Em  geral,  pode­se  dizer  que,  dentro  de  um  espectro  de  radicalidade 
crescente,  que  vai  desde  posições mais ou menos reformistas  até outras  francamente revolucionárias, ou até extremistas, 
o   Institucionalismo:  a)  confia  em  que  pequenas  mudanças  locais  podem  repercutir  à  distância  ou  propagar­se   como 
reações  em  cadeia;  b)  sustenta  que  as  mudanças,  para  seren1 sólidas, devem  ser integrais, ou seja, simultaneamente bio 
sociolibidinais,  e  não  apenas  econômicas  ou  convencionalmente  políticas;  c)  afirma  que  a  substância  do  real  é  a 
diferença  pura  e  a  produção  desejante,  sendo  que  os arcaísmos e  as  estruturas­tenitórios  conservadores  e  repelitivos 
são  produtos  da  captura  que  a  parafernália  de  controle­registro  dos  sistemas  faz  da  potência  das  singularidades  
pré­pessoais e pré­sociais. 

NÃO­DITO:  no  Institucionalismo,  o  termo  "não­dito"  parece  recolher  todas  as  significações  que  essa  fórmula adquiriu 
nas  ciências  humanas  e  na  cultura  ocidental.  Basicamente,  refere­se  a  todas  aquelas informações que estão omitidas ou 
distorcidas nos discursos, textos, atitudes, comportamentos ou qualquer outra forma de expressão ou manifestação. Essa 
omissão  ou  distorção  pode   ser  voluntária  ou  involuntária,  consciente  ou  não,  assumida  ou  não,  mas  é  considerada  
invariavelmente  fonte  de  mal­entendidos  e  conflitos  que  afetam  a  convivência,  ou  então  causas  ou  efeitos  de  um 
desconhecimento cuja superação se supõe enriquecedora. 
161 ▲
Contudo,  no  Institucionalismo,  o  não­dito  remete  predominantemente  à  ignorância,  à má­fé  ou  à  repressão  no  seio  dos 
discursos, textos, atitudes, comportamentos,  estrutura e dinâmica dos agentes, grupos, organizações e movimentos. Esse 
omitido ou distorcido concerne principalmente ao  instituinte*, que foi  "esquecido" e reprimido pelo  instituído* durante o 
processo  de  institucionalização.  O  não­dito  refere­se  tanto  às  vicissitudes  da  potência  produtiva,  ao  desejo  e  à  vida, 
como  aos  manejos   do   poder,  da  antiprodução*  e  da  morte.  O  não­dito  se  diz  de  maneiras  diretas  ou  disfarçadas  nos 
analisadores históricos ou nos construídos (ver Analisadores Artificiais* e Analisadores Espontãneos*). 

OBJETO  DE  ANÁLISE:  na  interseção  da  organização  analisante  com  a  organização analisada, vai­se  produzir  uma nova 
organização  que  é  o  verdadeiro  objeto  de  análise,  pois  para  o  Institucionalismo  não  é possível uma posição  clássica de 
"neutralidade" ou "objetividade". É na junção que se vai tentar entender essa nova realidade que se produz no encontro. 

OPOSIÇÃO: na  vida  das  organizações  e  movimentos,  chama­se oposição à ação de correntes  que se contrapõem à linha 


de  pensamento  e  de  gestão  da  fração  social  ocupante   do   governo  (situação).  A  oposição  pode   ser  mais  ou  menos 
acirrada,  mas em geral é reconhecida, autorizada, legitimada e ainda necessitada pela lógica institucional do sistema que  a 
integra. 

ORGANIZAÇÕES:  são  as  formas  materiais  nas  quais  as  instituições*  se  realizam  ou"  encarnam".  De  acordo  com  sua 
dimensão,  vão desde um grau complexo organizacional, como um ministério, até um pequeno estabelecimento escolar. Na 
terminologia da Esquizoanálise, correspondem às grandes formas molares da superfície de registro. 

ORGANIZADO:  é  o  produto  dos  processos  organizantes*.  Conjunto  de  ordenamento  dos recursos humanos, técnicos, 


espaciais,  cronológicos  (etc.)  que  configuram  uma  organização  ou  estabelecimento*.  O  organizado  é  ilustrado  no 
esquema  do  organograma  e  do  fluxograma  da  organização.  E necessário para  orientar o funcionamento da entidade, mas 
tem  tendência  a  tornar­se  rigido  e  esclerosar­se,  perpetuando­se  e  tornando­se  um  objetivo  em  si  mesmo.   Assim, 
exagera­se em torno de sua função, adquirindo uma série de vícios; o mais conhecido é a burocracia. 

ORGANIZANTE:  atividade  permanentemente  crítica,   inventiva  e  transformadora  que  tende  à  otimização  das 
organizações  entendidas  como  dispositivos  ou  agenciamentos*.  Esse  processo  exige  das  organizações  a  abertura  para 
efetuar  as  mudanças  necessárias  com  a   finalidade  de  realizar  a  Utopia  Ativa*  que  as  inspira.  Uma  organização*  só  
cumpre com este objetivo se mantém fluida e constante a relação entre o organizante e o 
162 ▲
 
organizado*,   a  ponto  de  admitir  sua  autodissolução*  quando  deixa  de  servir  ao  produtivo­desejante­instituinte  (ver 
Produção*, Desejo* Instituinte*). 

PAPÉIS:  conceito  cunhado  pela  Psico­Sociologia  e  pelo  Psicodrama  que  define  os  lugares  e  funções  sociais  em geral e 
grupais  em  particular,  come  caracteres  de  personagens teatrais. Cada papel ganha  precisão em sua relação  com todos os 
outros   e  carece  de  sentido  fora  desse  vínculo,   consciente  ou  não.  Os  papéis  são  emergentes  de  configurações 
estruturais  que  organizam  a  interação  social  e  mostram  uma  mobilidade  que os faz serem desempenhados por  diferentes 
indivíduos­sujeitos­agentes*  sociais,  segundo  as   circunstâncias.  Quando   um  agente  social  abandona  o  papel  este  se 
expressa  ou  manifesta  através  de  outro  participante.  Pichon­Riviere  detectou  nos  grupos  alguns  papéis  regularmente 
emergentes,  como  o  de  "bode  expiatório",  "seguidor",  "sabotador".  Os  papéis podem  ser  inerentes  (pré­fixados,  como 
"masculino" e "feminino") ou atribuídos (como os acima mencionados). 

PARTICIPAÇÃO:  dá­se  este  nome  a   um  tipo  de  gestão  organizacional  na  qual  os   segmentos  formal  e  efetivamente 
dominantes de uma  organização concedem aos quadros  subordinados diversos graus de possibilidade de  intervenção na 
planificação,  decisão,  execução  e  benefícios   da  atividade.  Isso  não  significa  maiores  modificações  de  fundo  na  
propriedade, na estrutura ou na estratificação hierárquica o organismo em pauta. 

PARTICULARIDADE: ver Universalidade, Particularidade e Singularidade. 

PODER:  embora  no  Institucionalismo  o  termo  "poder"  não  seja  empregado  com significações  unívocas,  em  geral  ele se 
aplica  a  uma  gama  de  recursos  diversos  com grau de violência crescente, destinados a impor a vontade de um segmento  
social  sobre  os  outros  ou  sobre  a  sociedade  em  seu  conjunto.  Michel  Foucault  insistiu  na  idéia  de  que  o poder não se 
possui  ou se detém, mas que se exercita, e não  apenas em um sentido restritivo (de coação  ou  proibição), mas também em 
um sentido positivo de orientação: o poder incita, provoca, convoca, ativa etc. 

POTÊNCIA:  no  Institucionalismo,  emprega­se  o  termo  "potência"  para  referir­se  às  capacidades  virtuais  ou  atuais  de 
produzir,  inventar,  transformar  etc. Em geral, a potência designa a magnitude das forças geradoras do radicalmente novo,  
criador de vida. 

POTENCIAL  HUMANO:  o  movimento  denominado  "Potencial Humano" compreende  um conjunto de correntes  teóricas 


e técnicas, algumas cujas 
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características  comuns  consistem  na  importância  dada  ao  trabalho  corporal,  expressivo  e  dramático  nos  tratamentos 
clínicos,  coordenação  de grupos  e intervenções organizacionais. Entre as tendências que o integram, pode­se mencionar 
a  Bioenergética  (baseada  nas  idéias  de  Wilhelm  Reich),  a  Gestalt  Terapia  (que  partiu  das  postulações  da  Psicologia  da 
Forma)  e  até  algumas  que  incluem a Terapia de Rogers e diversas práticas  orientalistas e africanas. No Institucionalismo, 
a  incorporação  mais  notável  dos  recursos  do  Movimento  de  Potencial  Humano  foi  a  realizada  por  Georges  Lapassade, 
com sua proposta de Transe­Análise. 

PRÁTICAS:  em  um  sentido   epistemológico,  designa  todo  processo  pelo  qual  um  agente,  dotado  de  força  de  trabalho 
qualificada,  a  aplica  com  os  meios  de produção adequados sobre uma matéria­prima, gerando  um produto específico.  Em 
um  sentido  descritivo,  diz­se  das  ações  que  os  agentes*  sociais  realizam  nas  instituições*,  organizações*  e 
estabelecimentos*,  tanto  a  serviço  do  instituinte*­organizante*  quanto do instituído"­organizado*. Em  geral utiliza­se o 
termo  "prática"  para  as  ações  específicas  e  qualificadas,  enquanto  se  usa  a  palavra  "atividades"  para  referir­se  às 
inespecíficas  e  não­qualificadas.  Para  o  Institucionalismo,  com  a  finalidade  de  se  fazer  a  crítica à  profissionalidade*  e à 
especificidade*,  é  importante  considerar  a  frase  de  Max  Weber:  "Uma  prática  social  nunca  é  mais  opaca  em   suas 
determinações que para seus próprios agentes." As práticas dividem­se em discursivas ou teóricas e não­discursivas. 

PRÁXIS:  denomina­se  assim  certo  tipo  de  prática*  na  qual  estão   indissoluvelmente  unidos  o  pensamento  crítico 
esclarecedor e a ação transformadora do real. 

PRODUÇÃO:  geração  do  novo  –  daquilo  que  a  Utopia  Ativa  persegue.  É  equivalente  ao funcionamento*. É aquilo  que 
processa  tudo  que existe  natural, técnica, subjetiva e socialmente. É a permanente geração de tudo  que pode  logo tender 
a cristalizar­se. É o devir, a metamorfose. 

PROFISSIONALIDADE:  em  um  sentido  tradicional,  as  profissões  compreendiam o Sacerdócio, a Advocacia,  a Medicina 


e a Carreira Milita,: 

Eram  as  primeiras  ocupações  com  as  quais  se  podia  subsistir  sem  praticar  propriamente o trabalho manual ou comércio. 
A  ética  das  profissões  tinha  um   marcado  caráter  religioso  ("professar":  atuar  em  prol  de  uma  fé)  e  exigiam  vocação 
"vocare":  chamado  de  Deus).  Tratava­se  de  um  certo  tipo  de  apostolado  cujo  exercício  estava  tingido  de  um  matiz  de 
militância,  e  por  todas  essas  conotações  imbuía­se   de  uma  condição  elevada  de  desprendimento,  assim  como  de 
autonomia  e  independência  relativa.  Apesar  do  já  dito,  a  agrupação  dos  profissionais  nas  corporações  de  grêmios  e 
academias universitárias teve, desde o início, uma dupla natureza – de 
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controle  de  qualidade  dos  serviços,  mas  também  de  exclusividade  e sobrevalorização dos mesmos. Com a modernidade, 
produziu­se uma série de  mudanças  no  status de profissional. Esse título ampliou­se a outros ofícios, antes considerados  
de  segunda  categoria.  As  práticas profissionais,  por  um  lado,  mercantilizaram­se,  visando  o  lucro; por outro, ligaram­se 
ao  poder  do Estado e ao das empresas, formando as  cúpulas tecno­burocrático acadêmicas – mas também se degradaram 
como  conseqüência  do  vínculo  assalariado  e  da  hiperespecialização.  O  Institucionalismo  insiste   no   estudo   e  no 
desmascaranlento  das  formas  sob  as  quais  os  interesses  de   lucro,  poder  e  prestígio  do  corporativismo  e  do 
academicismo  se  ocultam  sob  disfarces  da  "neutralidade"  cientificista,  da  "modernidade" hiperespecialista e da suposta 
independência e suposto apostolado do profissional autônomo ou do funcionário. 

PSICOFAMILIAR:  denomina­se  modalidade  de funcionamento  psicofamiliar à definição fantasmática e imaginária que as 


classes  institucionais  regredidas  fazem,  inconscientemente,  de  suas  condições  reais  de  trabalho  e  do  verdadeiro  poder  
de que dispõem para mudá­as. (ver Psico­Socioanálise *.) 

PSICOLOGIA  SOCIAL:  é uma disciplina  delimitada pela superposição de áreas da Psicologia e da Sociologia que, de uma 


maneira  ou  de  outra,  toma  como  objeto  de  estudo  e  de  intervenção  as  mútuas  determinações  ou  influências  dos 
sujeitos­agentes*  entre  si  (enquanto  sujeitos psíquicos e agentes sociais). Existem várias correntes de Psicologia Social, 
distinguíveis  segundo  pertençam  predominantemente  à  Psicologia  (Psicanalítica,  Comportamentalista,  Gestaltista)  ou  à 
Sociologia   (por  exemplo,  Interacionismo  Simbólico).  De  maneiras  muito  variadas  (por  exemplo,  consciente   ou  
inconsciente),   todas  afirmam  a  constituição,  gratificação,  frustração  de  cada   sujeito­agente  pelo  outro  considerado 
individual  ou  coletivamente.  O  Institucionalismo  toma  muitos  recursos  teórico­técnicos  das  psicologias  sociais,  mas se 
diferencia  delas,  entre  outras  coisas,  por  não  reivindicar  o   caráter  científico  (ou  seja,  "neutro",  instrumental  ou 
operacional) que elas se atribuem. 

RECURSOS  HUMANOS:  desde  o início da  década  de 70, começou­se a empregar a expressão "Recursos Humanos" para  


referir­se,  no  campo  da  Administração,  à  área  de  estudos  e  atividades  que  trabalha  com  questões  relativas  ao elemento 
humano  nas  organizações,  regiões,  nações  etc  ..  Fala   se  de   Recursos  Humanos  como  um   dos  componentes  de   um 
espectro de recursos: físicos, tecnológicos, econômicos e outros. 

REPETIÇÃO:  em  um  sentido  etimológico,  significa  voltar  a  pedir.  No  filosófico,  refere­se à  reiteração ou reapresentação 
de idéias ou de realidades. 
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Toda  a  filosofia  ocidental  parece  estar  dividida   por  uma  polêmica  em  torno  de  se  o  que   se  repete  ou  retoma  é:   1)  o 
idêntico  ou  igual;  2)  o  diferente,  entendido  por relação de negação, analogia ou semelhança com  o idêntico ou o mesmo;  
3)  o  diferente  absoluto,  ou  seja, o que  cada vez é afirmativa  e radicalmente novo. O Institucionalismo sustenta que o  que 
retoma  na  História  não  é  o  idêntico,  o  igualou  o  mesmo,  mas  o  diferencial,  ou  ainda,  a  diferença  absoluta,   que  é 
radicalmente  transformadora  ou  motor  da  História.  Em  conseqüência,  não  interessa  tanto  estudar  as  leis  que  dão  conta 
das  repetições  aparentemente  regulares  que  regem  a  repetição  do  mesmo  com  o   modelo   do   relógio  ou  dos  sistemas 
astronômicos  do  cosmos  ordenado.  Trata­se,  melhor,  de  entender o retorno do diferente, produto do acaso, do aleatório 
e  imprevisível,  tal  como  a  História  o  mostra nos pequenos  ou  grandes acontecimentos* que alteraram seu  curso. Se bem 
seja  certo  que  a  superfície  de  registro,  o  instituído*­organizado*­estabelecido,  tenda  a  capturar  o  retorno  do  diferente 
para  colocar  seu  funcionamento  a  serviço  da   reprodução*  do  sistema,  capturando­o  e  recuperando­o  (ver  Captura  e 
Recuperação), nunca o consegue por completo. 

REPRODUÇÃO:  num  sentido  etimológico,  significa   cópia  ou  imitação.  Na  Filosofia,  na   Sociologia  e  para  o 
Institucionalismo  (ver  Movimento  Institucionalista  *),  designa  as  tentativas  de  reiterar  algo  idêntico, igualou similar ao 
que  já  existe,  cumprindo  sua  função  conservadora.  Dessa  maneira,  procura­se  deter  os  devires,  acontecimentos  e 
transformações naturais, sociais, culturais e subjetivas. 

ROMANCE  INSTITUCIONAL:  por   analogia  com  o   termo  freudiano  "romance  familiar  do  neurótico",   o  romance 
institucional  refere­se  às   diferentes  versões  que   podem  ser  reconstruídas  da  história  de  uma  organização,  grupo  ou 
movimento.  Os  elementos a  partir  dos  quais tal reconstrução se efetua são muito variados. Trata­se  de comportamentos, 
atitudes,  mitos,  documentos,  tradições,  grafitos  ete.  Mesmo  o  Romance  Institucional  sendo  composto  de  dimensões 
simbólicas,  realísticas,  a  tendência  é  vê­lo  como  um  relato  fortemente   influenciado  pelo  desejo*   e  por  ele  tingido  de 
matizes imaginários e fantasmáticos. 

SIMULACROS:  em  que  interessa   ao  Institucionalismo,  os  simulacros  (na  filosofia  platônica)  são  puras  diferenças  que 
não  conservam  nem  a  imagem,  nem  a   semelhança  de  sua  relação  com  as  Idéias   Puras  e,  obviamente,  carecem   por 
completo  de  identidade.  Platão   os  considera  falsos,  demoníacos   e  inclassificáveis.  Não  são  seres,  mas  puro  devir,  e 
podem  disfarçar­se  de  cópias  ou  de  Idéias  Puras  para  confundir  os  espíritos.  Sua  "encarnação" mais  prototipica estaria 
nos  sofistas,  pensadores  que  não   se  interessam  pela  Verdade  ou  a  Virtude  e  que  argumentam  apenas  para  seduzir  e 
convencer Algumas correntes institucionalistas consideram os simulacros platônicos 
166 ▲
 
como  a  essência  do  real,  que  se  compõe  de  diferenças  puras,  fluxos,  singularidades*  intensivas, que são o ser do devir  
ou processo produtivo desejante­revolucionário. 

SINGULARIDADE: ver Universalidade e Particularidade. 

SOBREDETERMINAÇÃO:   tipo  de  causalidade  pela  qual  um  efeito  psíquico  ou  social  é  o   produto  resultante  da 
participação   causal,  desloca  da  e  condensada  de  todas  as  forças,  instâncias  e  representações  que,  sinérgica  ou 
contraditoriamente,  compõem  a  tópica  da  personalidade  ou  o  modo  de produção* de uma  sociedade*,  respectivamente. 
Em  cada  modo  de  produção  (entendido  em   um  sentido  amplo,  não  apenas  econômico)  reconhece­se  uma  instância" 
determinante  última"  (condição de  existência),  uma"  don1inante"  (condição  de  reprodução)  e uma" decisiva" (condição 
de  transformação).  A  ação  causal  conjunta,  complexa,  articulada, hierarquizada e diversifica  da das instâncias é o que se 
denomina sobredetermi nação. 

SOCIEDADE:  o  Institucionalismo  tem   sua  concepção  própria  do  que  é  uma  sociedade.  Define­a  como  uma  rede,  um 
tecido  de  instituições*,  organizações*,  estabelecimentos*,  agentes* e  práticas*.  Alguns  institucionalistas  afirmam  que 
as  sociedades  humanas  estão  constituídas  no  mínimo  por  quatro  instituições:  a  língua,  as  relações  de  parentesco,  a 
religião  e  a  divisão  técnica  e social do trabalho.  As instituições interpenetram se e articulam­se para  regular a produção  e 
a  reprodução*  da  vida  humana.  Como   se  vê,  essa   definição  está  bastante  centrada  no  instituído*,  organizado*, 
estabelecido.  Corresponde  ao  que  a  Esquizoanálise  denomina  socius,  que  pertence  às  formas definidas da superfície de 
registro. É possível, contudo, ampliar essa definição, incluindo o instituinte*, o organizante* e a superfície de produção. 

SOCIOLOGIA  DAS  ORGANIZAÇÕES:  esta  disciplina  começa  com  as  contribuições  de  sociólogos  clássicos  como 
Durkheim  acerca  da  divisão  técnica  e  social  do  trabalho*, assim  como a passagem da solidariedade mecânica à orgânica. 
Igualmente  fundadores  são   os  estudos  de  Max  Weber  sobre  a  burocracia (ver  –  Cracias  *).  No  entanto,  é  a  partir  da 
década  de  20,   Com  o  desenvolvimento  do  Capitalismo  norte­americano  e  os  estudos  de  Elton  Mayo  sobre  a  indústria, 
que  a   Sociologia  das  Organizações  começa  a  definir  seu  objeto  –  como  a  investigação  e  intervenção  sobre  a  empresa 
enquanto  unidade  social  que  recebe  o  nome  de  organização*.  Os  objetivos  desse  enfoque  são  a  racionalização  e 
otimização  da  eficiência  do  funcionamento  de  tais  associações,  sem  questionar  em  nada  sua lógica  ou  suas finalidades. 
Se  é  certo  que   posteriormente  aparecem  alguns  enfoques  menos  pragmatistas,  como  o  de  T  Parsons  e  outros, 
francamente críticos, 

167 ▲
como  os  de  W  Mills  e  W  H.  Whyte,  a  Sociologia  das  Organizações  é  considerada  pelo  lnstitucionalismo  como  um 
enfoque  contrário às utopias* auto­analíticas (ver Autoanálise*) e autogestivas (ver Autogestão*).  Segundo a denúncia 
institucionalista,   a  Sociologia  das  Organizações,  particularmente  uma  de  suas  modalidades,  denominada 
Desenvolvimento  Organizacional,  visa  facilitar  os  mecanismos  culturais,  comunicacionais  e  motivacionais  (do  conjunto 
empresarial e  dos  grupos  que o  integram.)  apenas com fins de melhorar o "clima" ou a "atmosfera", conseguindo, assim, 
diminuir os insumos, aumentando e melhorando a produtividade e o lucro dos proprietários. 
SOCIOINSTITUClONAL:   na  Psico­Socioanálise,  denomina­se  assim  à  percepção,  avaliação  e  comportamentos 
transformadores  que  as  classes  institucionais  em  processo  de  progressão  (resultante  da   intervenção)   produzem   em 
relação a suas condições reais de trabalho e à margem de poder que recuperam. 

SOCIOPSICANÁLISE:  é  uma  das  correntes  que  integram  o  Movimento  Institucionalista*.  Foi  fundada  e  desenvolvida 
por  Gérard  Mendel.  Articula  uma  concepção  relativamente  tradicional  de  Psicanálise  com  outra,  bastante  ortodoxa,  do 
Materialismo  Histórico.  O  resultado  é  uma  abordagem  politicamente  moderada,  cuja  viabilidade  é  considerável.  Mendel 
articula  formulações  psicanalíticas  (elaboradas  para   os  sujeitos  enquanto  indivíduos)  que  postulam  uma   impotência 
fundamental  inerente  ao  ser  humano  (devido  ao estado indefeso no qual nasce, necessitando dos cuidados  de um outro 
para  ter  sua  sobrevivência  garantida).  Essas  formulações  combinam­se  com  as  afirmações  do  Materialismo Histólico de 
que,  num  sentido  coletivo,  a   experiência  universal  de  impotência  é  produto  da  distribuição  desigual  da  riqueza,  do 
resultado  do  trabalho,  do  poder  e  prestígio,  que alienam  (ver Alienação*) quem produz esses valores. Segundo Mendel, 
o   âmbito   ideal  em  que   se  deve  estudar  a  experiência  essencial  de  impotência  e  o  desencadeamento  de  processos 
patológicos  é  o  local  de  trabalho,   onde  as  vicissitudes  individuais  da  experiência  de   impotência  serão  melhor  
compreendidas,  sendo  analisadas  num  sentido  coletivo  no  lugar  mesmo  onde  ocorrem  –   o  lugar  da  produção.  A 
Sociopsicanálise  sustenta   que,   quando  se  abordam  os  coletivos,  pode­se  ver  que  esses  conjuntos  vivenciam  esta 
experiência  de  impotência  devido  às  condições  do  trabalho  alienado  (ver  Alienação*)  no  Capitalismo.  Essa  experiência 
de  limitação  gera  neles,  trabalhadores,  devido  à  sua  série  disposicional  pessoal,  um  processo  regressivo  de  ordem 
coletiva.  Trata­se  de  uma  regressão  do  funcionamento  psico­social  ou  psico­institucional  a   um  funcionamento 
psicofamiliar,  no  qual  os  sujeitos   viven.  uma  vida  preferencialmente  imaginária,  em  vez  de  principalmente  simbólica 
(correspondente às circunstâncias concretas com que se defrontam). A 

168 ▲
 

situação   de  seu  campo  real  vai  definir­se  com  base  numa  situação  arcaica  pela  qual  já  passaram,  o  que  os  levará  a 
vivenciar  a  situação  de  trabalho  como se essa fosse uma reedição de uma situação familiar prima lia, povoada por figuras  
fantasmáticas  de  sua  vida  familiar.  Suas  reações  estarão  tingidas pela  situação de impotência infantil que os levava a se 
refugiar  num  mundo  de  fantasias.  Com  isso,  o  coletivo   institucional  também  passará  a  funcionar  nesse  registro,  
buscando  soluções  mágicas,  contraproducentes,  que  vão  res  ultar  em  sintomas  (atuações,  inibições,  delírios, 
somatizações,   toxicodependências),  enfim,  em  todo  tipo  de  patologia  biopsico­social.  No  plano  da  militância,  esses 
quadros  podem   expressar­se  bastante  bem  no  que   podemos  sintetizar,  com  Lênin,  como  "enfermidades   infantis   do  
trabalho":   voluntarismo,  populismo,   autoritarismo,  messianismo,  clie,ntelismo,   fisiologismo   ete.  A  metodologia  de  
intervenção  sociopsicanalítica  conserva  muitas  características   de  intervenção  psicanalítica,  principalmente   a 
interpretação.  Mas  a  cura  não  é  definida  em  termos  individuais,  e  sim   coletivos,  e  pressupõe  um  movimento  de cada 
classe  institucional  para  a  recuperação  da  margem  de  poder  possível   que  foi  tirada  deles  pelo  sistema  capitalista  de 
trabalho alienado. 

STATUS:  o  status  é considerado  "a  parte  estável  ou  fixa" do papel. Trata­se da condição obtida por um papel dentro de 


uma sistematização hierarquizada dos mesmos. 

SUBJETIVAÇÃO  (PRODUÇÃO DE): Como dizíamos a respeito  da produção de subjetividade*,  para algumas orientações 


do  lnstitucionalismo  não  existe  uma  essência  ou  estrutura  invariável,  ubíqua  e  universal  do  sujeito  filosófico,  social ou 
psíquico.  Do  mesmo  modo  que  não  existe  uma  imagem  do  homem  idêntica a si mesma em qualquer sociedade, momento 
histórico,  classe  social,  raça  ete.  Inclusive,  o  modelo  científico  que  temos  no  Ocidente  como   universal,  invariável  e 
ubíquo  é  produto  de  um  processo  de  produção  complexo  e  de longa  duração  que  culmina  no  que  certos  historiadores 
denominam ilustrativamente como" a formação do homem íntimo". 
Há,  sim,  por  contraposição  ao  processo  de  produção  de  subjetividade  uniforme,  sujeitada  e  submetida,   infinitos  e 
heterogêneos   processos  de  produção  de  subjetivação  livre,  produtiva,  desejante,  revolucionária.  Esses  são 
absolutamente  contingentes,  próprios  de  cada  momento,  lugar  e conjuntura, e geram sujeitos singulares nas margens de 
cada  acontecimento*.  O  lnstitucionalismo  pretende  propiciar,  através  da  análise  e  da  intervenção,  a  montagem  de 
dispositivos* capazes de gerar acontecimentos * e, junto com eles, os modos de subjetivação que os mesmos precisam. 

SUBJETIVIDADE (PRODUÇÃO DE): muitas correntes filosóficas e 

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psicológicas  (entre   elas,  a  Psicanálise),  sustentam  que  existe  uma  forma  universal  e  invariável  de  constituição, 
composição,  transformação,  reprodução e extinção do sujeito (tanto daquele da reflexão filosófica  como o do psiquismo). 
O  que  varia  em  cada  sujeito  seriam  os  conteúdos  (representações  e  modalidades  de  configuração  dos  fantasmas  ou 
função  dos  mecanismos):  nisso  radicaria  a   singularidade  de  um   sujeito.  Algumas  correntes  institucionalistas 
compartilham  essa  concepção  (Sociopsicanálise,  por  exemplo).  Para  outros  Institucionalistas,  não  existe um sujeito com 
uma  estrutura  universal  e  com  variações  apenas  de  desenvolvimento,  conteúdo  ou  estilo.  O que existem são processos 
de  produção de  subjetividade pelos quais as sociedades tendem  a reproduzir sujeitos idênticos ou similares, segundo  os 
padrões  dominantes  do  grupo  ou'  classe  de  que  se  trate  e  de  acordo  com  os  moldes  do  instituído*­ 
organizado*­estabelecido. 

SUPERESTRUTURA:  no  Materialismo  Histórico,   ciência  da  História,  da  Sociologia  e  da  Economia  Política  Marxistas, 
denomina­se  superestrutura  a  instância  do  todo  social  na  qual  se  desenvolvem   os  processos  ideológicos   e 
jurídico­políticos  que  têm  a  seu  cargo  a  produção  de  sujeitos­agentes* ideológicos, assim  como de produção, difusão  e 
assimilação  de  representações  e  valores  ideológicos.  Por  ou  tra  parte, na instância jurídico política é  onde se processam  
os   meios  legais  e  o  uso  da   força  para   a  constituição  e  manutenção  da  ordem  vigente.  Os  processos  superestruturais 
operam  a  reprodução  ampliada  do  modo  de  produção.  Na  versão  clássica  do  Materialismo  Histórico,  a  superestrutura 
reverte ou interaciona causalmente com a infra­estrutura. 

TÁTICAS:   são  pequenos  segmentos  que   compõem  a  estratégia*.  É  o   momento  de  seleção  de   recursos  a   serem 
empregados na etapa imediata, remetendo­sé sempre ao panorama maior delineado pela estratégia. 

TÉCNICAS:  são   recursos  eletivos  que  servirão  para  instrumentar  as  táticas*.  Sua  escolha  é  consideravelmente  livre  e 
dependerá do treinamento e inspiração da equipe  operadora, do objetivo geral e imediato a ser  alcançado  e do momento e 
peculiaridades  do  coletivo  em  questão.  Trata­se  de  procedimentos  (interpretativos,  informativos,   sensibiliza  dores, 
expressivos,  discursivos,  artísticos,  desportivos,  lúdicos,  interrelacionais,  grupais,  coletivos  etc.)  a  serem  adotados  de 
acordo com as circunstâncias, com propósitos diagnósticos e elaborativos. 

TRANSE­ANÁLISE:  modalidade de intervenção institucional e de coordenação de grupos criada por Georges Lapassade 
baseada  nas  experiências  dos  cultos   afro­brasileiros,  tais  como:  Umbanda,   Quimbanda  e  Candomblé.  Consiste 
basicamente  na   provocação  de  regressões  rituais  e  formas  arcaicas  de  comunidade  através  de  estados  de  transe. 
Posteriormente, 
170 ▲
 
as mesmas são elaboradas e incorporadas a novas formas da sociabilidade grupal. 

TRANSFERÊNCIA:  diversas  tendências  dentro  do  lnstitucionalismo  assimilaram  o  conceito  de  transferência  tanto  da 
Psicanálise  freudiana  como  dos  continuadores  de  Freud  (Melanie  Klein,  Lacan,  Reich  e outros).  No Institucionalismo, a 
idéia  de  transferência  pode  ter,  segundo  a  corrente  de que  se trate, uma definição  quase igual à da Psicanálise ou outras 
bastante modificadas, tanto no plano teórico como nas aplicações técnicas. 
Em  geral,  entende­se  por  transferência  um  conjunto  de  processos  repetitivos  conscientes,  pré­conscientes  e 
inconscientes  que  se dão  na  subjetividade  "individual"  e"  coletiva".  O  que  se  repete  são  pulsões,  desejos,  demandas, 
fantasmas,  papéis,  hábitos  comunicacionais,  estereótipos  gestionários,  estruturas   e  até  complexos  destinos 
organizacionais.  No  caso  particular da  corrente  denominada  Psicoterapia  lnstitucional,  que  propõe  a  autogestão*  ou  a  
gestão participativa dentro de cada estabelecimento, considera­se que a transferência se dá entre o coletivo  de internos e 
os variados aspectos da vida institucional como um todo. 
Certas  correntes  do  lnstitucionalismo,  como  por  exemplo a  Esquizoanálise, elaboraram  uma  profunda  reflexão  filosófica 
sobre  a  transferência  em  relação  ao  conceito  de  transversalidade  e  com uma  crítica  da  categoria  de repetição.  Para essa 
orientação,  o  que  se  repete  substancialmente  é   o  diferente,  e,  em  conseqüência,  existiria   uma  transferência  que  não  
funciona como resistência ou obstáculo, mas como motor das transformações. 

TRANSVERSALIDADE:  interpenetração,  entrelaçamento, no rizoma (modelo de uma raiz vegetal que não tem membranas 


celulares  nem   limites  externos  precisos),  que  é  imanente  à  rede   social  das  forças  produtivo 
­desejantes­instituintes­organizantes.  A transversalidade veiculada pelas linhas de fuga do desejo e da produção* é uma 
dimensão  do  devir  que  não  se  reduz  nem  à  ordem  hierárquica  da  verticalidade  nem  à  ordem  informal da horizontalidade 
nas  organizações*.  A  transversalidade  é   capaz  de  provocar  sínteses  insólitas  entre  elementos  incompatíveis,  gerando 
efeitos  à  distância  sem   transmissores  detectáveis,  a  partir  de  conexões  locais.  É  uma  travessia  molecular  dos  estratos 
molares.  Como  montagens,  os  dispositivos  ou  agenciamentos*  heterogêneos  inovadores  que  escapam  aos  limites  de 
estratos,  territórios,  códigos,  sobrecódigos  e   axiomáticas  (em  outra   terminologia:   os  IDE)  formais  e oficiais,  deflagram 
efeitos transversais inventivos e libertários. 

UNIVERSALIDADE,  GENERALIDADE,  PARTICULARIDADE,  SINGULARIDADE:  no  que   interessa  ao 


Institucionalismo,  o  denominado  momento  de  universalidade  do conceito significa que este compreende todos os casos 
particulares e singulares de seu objeto. Contudo, é importante 
171 ▲

diferenciar  um  conceito  universal   abstrato  de  outro  concreto.  Um  juízo  ou  um  conceito  universal  abstrato  é,  em  certa  
medida,  vazio, um  puro produto do pensamento. O  momento da generalidade compreende a  caracterização de um atributo 
abstrato  da  universalidade.  O  momento  de  particularidade  do  conceito  compreende  alguns  casos  abstratos  da 
generalidade.  Pode­se  entender   que  um  conceito  particular  dá  conta  apenas   de  como  alguns  casos  realizam  o  que  já 
estava  compreendido  no  conceito  universal,  mas  também   é  possível  sustentar  que  os   casos  particulares  negam  o 
conceito  universal  enquanto  abstrato  e  lhe  acrescentam  determinações  não  previamente  incluídas  nele.  O  momento  da 
singularidade  do  conceito  compreende  cada caso da universalidade  concreta. Pode­se sustentar que nega  de uma só vez 
a  universalidade   e  a  generalidade  abstratas  e  a  particularidade,  na  medida  em  que  se  refere  a  um  objeto  único,  máximo 
nível  de  determinação  atingível.  Quando  o  conceito  universal  abstrato  é  reformulado  incorporando  as  negações  gerais 
do particular e do singular, é que se torna um universal concreto verdadeiro ou da Razão (segundo Hegel). 
Aplicando  o  lnstitucionalismo  a essas categorias da lógica, cabe sustentar que uma instituição é pensável nesses quatro 
momentos:  a   universalidade  abs  trata  (por  exemplo,  a  linguagem:  a  generalidade  dos  atributos  das  línguas),  a 
particularidade  (por exemplo, as  línguas  indo­européias),  a  singularidade  (por  exemplo,  tal  dialeto  napolitano  e  seu  uso 
concreto,  por  um  falante/ouvinte  desse  dialeto).  Segundo  entendemos a  proposta  de  R.  Lourau,  a Análise Institucional  
estudaria  as  insuficiências  do  conceito  em  seus   respectivos  momentos,  enquanto  cada  um  deles  se  define   por  sua 
afirmação  e  não  é  capaz  de incluir o  que resulta de negar e ser negado  pelos outros. Supõe­se que a intervenção  no  caso 
singular  daria  oportunidade  para  evidenciar  os  efeitos  de  desconhecimento  que  a lógica do conceito gera no discurso e 
no  saber  dos  coletivos  institucionais;  dessa   maneira  possibilitaria   sua  desalienação,   assim  como  contribuiria  para  a 
reformulação incessante do conceito das instituições como universais concretos. 

USUÁRIO:  no  lnstitucionalismo,  entende­se  por  usuário  quem  demanda,  adquire,  se  apropria, possui,  consome, usufrui 
de  bens  ou  serviços  "materiais"  ou  "ideais".  Cabe  acentuar  que  esse  usuário­consumidor  pode   ser  individual  ou 
coletivo,  personalizado  ou  anônimo.  No  caso  de  uma  intervenção  institucional  standard,  freqüentemente  designa­se  o 
conjunto dos usuários como "staff­cliente". 

UTOPIA  ATIVA:  denomina­se  assim  as   metas  e  objetivos  mais  altos  e  nobres  (no  sentido  dado  a  esses  termos  por 
Nietzsche)   que  orientam   os  processos  produtivo­desejante­revolucionários  dos  movimentos  e  agenciamentos*  sociais 
em  seus  aspectos  instituintes*­organizantes*.  Essas  metas  não estão  colocadas  em  um  futuro  remoto  nem  terminal, do 
tipo dos que são 
172 ▲
 
enunciados  como  escatologias  ("Fim  da História" ou "Fim dos Tempos"). Na Utopia  Ativa há uma imanência  entre  fins e 
meios; o processo produtivo desejante­revolucionário é seu próprio fim e meio em cada aqui e agora. 

VERTICALIDADE:  na   Psicologia  Social  de   Pichon  Rivière,  a  verticalidade  designa  a   dimensão  histórico­pessoal  que 
cada  integrante  do  grupo  traz  como  disposição  que  passará  a  fomldr  parte  da  determinação  dos  fenômenos  do  campo  
grupal.  Na  Psico­Sociologia  Organizacional  e  no  Institucionalismo,  a  verticalidade  define  a   dimensão  da  vida 
organizacional que corresponde ao organograma formal, quer dizer: cargos, hierarquias, funções etc. 
173 ▲

APÊNDICE 
O INSTlTUClONALISMO NO FINAL DO MILÊNIO 

O  presente  apêndice  foi  escrito  para  a  terceira  edição  em  português  deste  livro,  em  outubro de 1995.  Optei por 
reproduzi­lo  quase  sem  alterações,  para  que  possa  ser  comparado  com  um  post  scríptum  redigido  especialmente  para a 
quinta  edição.  Parece­me   interessante  que  o  leitor   possa,  desta  forma,  avaliar  acertos  e  desacertos  do  primeiro  texto, 
relacionado­o com o segundo, obviamente a partir de suas próprias convicções. 

Primeira Parte 

O  grande  institucionalista e amigo Félix Guattari costumava repetir que os  escritos tinham que ser datados. Essa 


recomendação  devia­se  não  somente  ao  fato  de  que  situar  um  texto  em  um  calendário  permite  relacioná  ­lo  com  a 
biografia  do  autor,  e  isso  costuma  ser  definido  como  "contexto ou conjuntura  histórica",  mas  também  à  importância de 
marcar  essa  data  com  um  nome  e  um  tempo  que  designam  um  encontro­acontecimento,  ou  seja,  a  individuação  de  um 
real­absolutamente novo – do qual o mesmo texto pretende ser parte. 
Obviamente,  este  apêndice  não  tem  a  pretensão  de alcançar  tal  excelência, contudo  me parece que tem o direito 
de  tentar.  Neste  final   de  milênio   vivemos,  sem  dúvida  alguma,  umepos  peculiar,  composto  dos  seus  próprios  ethos,  
cronos, pathos,  topos,  lagos  e  telos,  expressando  isso  de  uma forma clássica.  Desde já, a existência de uma composição 
sui generis não é exclusiva da nossa fase, sendo que cada período histórico tem, como se 

174 ▲
 
sabe,  a  sua.  Também  cada"  civilização",  porém,  detém  sua  imagem  e  sua  maneira  de   efetivar  aquilo  que  entende  por 
"passado",  "presente",  "cultura",  "espaço",  "movimento",  "permanência",  "troca",   "todo",   "partes",  "valores", 
"pensamento". 
Guattari  propunha  denominar  a  nossa" etapa" de "Capitalismo Planetário Integrado", como aplicação teórica de 
um  termo  matemático  que  qualifica  um  sistema  hipercomplexo  e  heterogêneo  em  movimento,  integrado  por  uma  função 
axiomática  que  equaciona  todas  as  coordenadas  gerais  e   modula   permutas  equivalências  entre  seus  produtos.  Nessa 
designação  há  muita  coincidência  com  aquilo  que  Karl  Marx  antecipou  como  a  chegada  de  "A  fase  Superior  do 
Capitalismo",  sendo  que,  tanto  na  denominação  de  Marx  como naquela  de  Guattari, cabem –  devidamente redefinidos – 
termos  mais  ou  menos  "na  moda",  tais  como  "Globalização",  "Transnacionalização",  "Sociedades  Pós­Industriais", 
"Pós­Classes"  e   "Pós   ­Massas",  ou  "Hipermodernas",  ou  "Pós­Modernas",  ou  "lnformatizadas",  ou  'A.utomatizadas", 
"Multitudinárias" e assim por diante. 
Uma  análise  detalhada  dessas  categorias  seria,  evidentemente,  excessiva neste escrito. Conformarei­me apenas 
em recordar algumas características que se tornou habitual atribuir a este panorama. 
Costuma­se  declarar,  e  porque  não,  constatar,  de  certa  forma,  que: – No lapso  de tempo incluído entre o fim da Segunda  
Guerra  Mundial  e  a  atualidade  tem   havido,  em  setores  localizados  do  mundo,  um  crescimento  enorme  da  "Riqueza"  – 
entendida como meios de produção, de distribuição, de comunicação, de circulação, de troca e de consumo. 
  –   Esse  incremento  inclui  bens  materiais,  incorporais,  serviços,  e  que  esse  aumento  qualitativo  e  quantitativo 
resultou em uma melhora considerável de "qualidade de vida" dos setores por ele beneficiados. 
  –   Nesse   mesmo  lapso,  gerou­se   uma  tendência  ao  desmorona  mento   de  regimes  políticos  totalitários,  
ditatoriais,  autoritários  e  outros,  e  sua  crescente  substituição   por  diversas  modalidades  de  sistemas  democráticos 
indiretos,  representativos  e  eleitorais,  onde  vige,  pelo  menos  formalmente,  o  Estado  de  Direito,  os  Direitos  Civis  e  os 
Direitos  Humanos,  possibilitando,  assim,  tanto  a  existência  como  a  expressão  e  a  militância  de  todos  os  tipos  de 
idiossincrasias  minoritárias,  regionais,  nacionais,  raciais,  sexuais,  de  culto,  de   idade,  de  situação  econômica,  política, 
cultural, geográficas. 
  –  Como  causa  e  efeito  dessas transformações, tem havido o aperfeiçoamento e a consolidação das instituições 
democráticas,  judiciais,  legislativas  e  executivas,  tanto  na  estrutura  dos  Estados  como na  da  Sociedade  Civil,  o  mesmo 
tendo  se  realizado  em  todos  os  campos  e  níveis,  desde  o  local  até  o  mundial.   Isso   propiciou  uma  inclinação  ao 
predomínio  da  negociação  universal  como  método  para  dirimir  as  diferenças  e  conflitos,  no  lugar  da  predisposição  ao 
uso dos recursos violentos e bélicos de quaisquer espécies. 175 ▲
–  Todas essas manifestações de "progresso" desenvolveram­se sobre a base da implantação geral de diferentes 
variedades  do  sistema  econômico  capitalista – preservação da propriedade privada dos meios de  produção, economia de 
mercado,  empresas  livres  e  outros­,  incluindo  nele  as  variedades  político­culturais  do  Liberalismo,  os  Socialismos  
Reformistas,  as  Sociais­Democracias e  ou  tros  similares.  A  mencionada  instauração  geral  acelerou­se após  o  estridente 
fracasso   de  todos  os   ensaio  de  "Comunismo",  "Socialismo   Real",  "Nacional­Socialismo  Nazi­Fascista",   diversos 
"estatismos"  e"  coletivismos"  cujas   conseqÜências   deletérias  demoraram   algumas  décadas,  e  ainda  hoje   continuam 
trazendo prejuízos à vigência plena da proposta histórica à qual nos referimos aqui. 
  –  As  metamorfoses do Capitalismo trouxeram como conseqüência uma tendência à racionalização –  diminuição, 
limitação, compactuação,  eficientização, baratização, democratização, modernização das estruturas, funções e atribuições 
–  dos  Estados Nacionais e da sua responsabilidade perante os  cuidados com a saúde, educação, justiça e ordem pública, 
assim  como  os  aspectos  essenciais  da  infra­estrutura  e  da  soberania  nacional.  Isso  significou  a  vigilância  e  ingerência 
sobre tais poderes, exercícios e benefícios por parte da Sociedade Civil. 
  –  Obviamente,  toda  essa" evolução"  está  em  curso  e  coexiste  com a permanência, em todos e em cada um dos 
processos,  estruturas,  agentes,  usuários,  consumidores,lógicas  e  âmbitos,  de  formas  arcaicas,  todavia  não  superadas," 
em vias de desenvolvimento e de crítica". 
  –   Desde  já, esses  processos  não  são  universais  nem  suficien  temente  implantados,  e  nem  aperfeiçoados.  Por 
isso,  persistem  graves  dificuldades  de  toda  espécie  que  afetam  tanto  algumas  regiões  do  mundo,  assim  como  
determinados  países  e  também  alguns  segmentos  das  nações  prósperas  que, por diversas razões, resistem  em adotar os 
princípios  e  cumprir  com  os  esforços  necessários  para  propiciar  sua  incorporação  à Ordem  e  Progresso  generalizados. 
Esses setores a dificultam devido a vocação, desejos, interesses e açôes contrários a esses desígnios. 
Todos  esses  indicadores  de  "evolução",  que  tendem a realizar­se de forma gradual, crescente e incessante, não 
somente  em  quantidade  como  também  em  amplitude,  podem  passar  em  alguns  momentos  e  lugares  por "conjunturas" 
adversas,  transitórias  e  circunstanciais.  As  mesmas  se  devem  freqüentemente  a  fatores  ainda  incontroláveis,  tais  como 
fenômenos  naturais  de  grande  porte   ou   erros   de  avaliação,  planejamento  e  execução,   que  são  oportunamente  
subsanáveis. 
No  campo   do   social,  cultural  e   subjetivo,   essa  orientação  mundial  dirige­se  ao  treinamento  de 
indivíduos­sujeitos­agentes­produtores  consumidores­usuários  conscientes,  imbuídos  de  um   espírito  de  sociabilidade 
variável e suí generís, porém  invariavelmente inspirados por valores  de cidadania e respeito  à lei,  assim como pelo culto à 
liberdade, à justiça e à competição sadia. 
176 ▲
 
Esse  andamento,  apesar  de   não  ser   a  culminância,  é  a   sólida  confirmação de  que  os  modos  de  produção,  os 
regimes  políticos  e  os  sistemas  de  representação  cultural  que  compôem  este estágio do Capitalismo Mundial Integrado, 
mesmo   frágeis  e  freqüentemente   precários,  demonstram  ser  a  "menos  pior",  senão  a  única  alternativa  possível  para  a 
consolidação histórica dos ideais que animaram os grandes movimentos que deram origem à Modernidade. 
Segunda Parte 
O  que  acabamos  de  ler  no  ponto  anterior  é  uma  tentativa  de  expor, de forma esquemática e prototípica –  e faço 
votos  para   que  não  tenha  sido  irônica  –,  uma  maneira  de  descrever,  entender  e  avaliar  o  panorama  munclial 
contemporâneo.  Está  claro  que  existem  inúmeras  versões  a  respeito  que,  apesar  de  muito mais sofisticadas  e matizadas,  
não deixam de conduzir a conclusões parecidas. 
Quem  investiga  o  mundo  atual   e  também  vive   e  atua  nele  acostuma  se  a  experimentar,  frente  ao  quadro  que 
acabamos de delinear, uma série de impressões que, a meu ver, vale a pena repassar. 
Em  primeiro  lugar,  vem­lhe  à  mente  a  idéia de que deve  haver certo erro ou mal­entendido em algum ponto, pelo 
qual  a  realidade  –  por  mais  relativa  que  seja  sua  aparição  –  não  parece coincidir de modo  algum com  o "retrato" que se 
pinta dela. 
Em  segundo  lugar,  não  se pode evitar a  sensação de que, de acordo com esta leitura do panorama mundial,  uma 
imensa  quantidade  de  conhecimentos  produzidos  nos  últimos  séculos  por  ilustres  autores  especialistas  em  diversos 
conhecimentos   e  também  no   saber  do  sentido  comum  –  parece  ter  perdido  toda e  qualquer  validade,  ou  é  repetida,  de 
forma parcial ou distorcida, como se fosse uma "novidade recém descoberta". 
O  saber  tecno­burocrático­acadêmico  dominante  nestes  tempos  ou  ignora  os  clássicos,  ou  os  cita  apenas  nas 
passagens  em  que  supõe  poder   refutá­las,  ou  bem  os  despreza,  comportando­se  como  se  acreditasse  que  "na  prática 
todas  essas  teorias  são  outra  coisa",  isto  é,  não  servem  para  nada,  ou funcionam somente dependendo do uso peculiar 
que se decide fazer delas. 
Em  terceiro  lugar, isso que acabamos de dizer aplica­se também à memória dos acontecimentos históricos. Estes, 
incluídos  os  considerados  antecedentes  propícios  ou  contrários  ao  horizonte  imperante,  são  tratados  como  se fossem 
inexistentes  ou  irrelevantes, à medida que "o que importa" é a caracterização empírica do que está acontecendo agora, os 
chamados  fatos  –  definidos  como  tais  na  proporção  em  que  são  protagonizados  e  interpretados  por  supostos 
triunfadores. 
O mais grave desta "realidade", da qual estas "impressões" são um 
177 ▲
registro,  é  que   a  versão  que  relatamos   anteriormente  –  que,  por   outro  lado,  os  conhecedores  dos  processos   de 
construção  e  difusão  "ideológica",  de  "opinião  pública"  ou  de  "produção  de  subjetividade"  sabem  de  sobra  –  não  é 
exclusiva  dos  beneficiários  ou  dos  favorecidos  pelo  estado   atual  das  coisas.  A   colossal,  heterogênea  e  onipresente 
maquinária  que  gera esses  efeitos  consegue  que  essas  concepções  –  entendidas  no  sentido  mais  amplo  possível  e  os 
"estilos   de  vida"  e  "de  morte"  que  lhe  são  conseqüentes,  sejam  adaptados  ou  almejados  pela  imensa  maioria  da 
humanidade. 
Os  críticos  mais  implacáveis  desse   panorama  –  especialmente  os  denominados  "de  esquerda"  –,   mesmo  se 
empenhando  em  denunciar   o  que  consideram  flagrantes  contradições,  falsidades  e  flagelos  dessa  Ordem  Mundial, 
acabam  por  compartilhar,  desavisadamente,  muitas  das  suas  categorias,  conceitos,  procedimentos  e  resultados.  Boa 
parte  dessa  conivência  involuntária  –  ou  dessa  cumplicidade  mais  ou  menos  assumida  resulta não só da estupidez e de 
necessidades,  desejos  e  interesses  do  pensamento  crítico,  mas  também  da  difundida  convicção  de  que,  "a  rigor",  não  
existem  reais   alternativas  para  a  situação  imperante,   a  não  ser  aquelas  que  consistem  em  um  aperfeiçoamento  do 
conhecimento e na execução da mesma lógica que a infunde.
Em  quarto  lugar,  é  sabido  e  constatado  que  aqueles  pensadores  militantes,  ou  simplesmente  cidadãos  que 
resolvem  falar,  escrever,  agir  e  coerentemente  viver  de  acordo  com  uma  inteligência  crítica  e  segundo  alguma dessas 
propostas  questionadoras  supostamente   inexistentes,não  apenas  podem  sofrer  as  mesmas  ações repressivas  de  seus 
antecessores  de  todas  as  épocas  –  que,  dependendo  do  país  onde  atuam,  vai  desde  a eliminação física e a tortura até a 
reclusão  ou  o  exílio  –  mas  também  tornar  se  passíveis  de inúmeras modalidades de desqualificação,  desprezo e  exclusão 
mais ou menos sutis. 
Uma outra modalidade parecida que na atualidade adquiriu uma importância bastante considerável é a de ter que 
suportar   a  atribuição  do  status  e  papel  de  "catastrófilos","  catastrólogos",  "catastrofistas",  rótulos  esses  que  servem 
para  etiquetá­los  como  "amantes  ou  cultores"  mórbidos,  ou  como"  especialistas  com  falso  prestígio",  ou  como" 
delirantes   adoradores   "de  um  cataclismo  imaginário  e  inexorável.  A  sentença  mais  draconiana  é  que  "são  inaptos  para 
oferecer algum projeto positivamente útil" e só sabem "criticar e vaticinar o caos". 
Em  verdade,  tudo   depende  de  como  se  define  cada  um  dos  termos:  noções,  funções,  conceitos,  categorias, 
signos,  indicadores,  analisadores  ou  idéias  com   os  quais   se  pensa,  se  avalia  e  se  procede  frente  ao  estado 
contemporâneo  das  coisas.  Em  alguns  campos  do  saber e  da  vida  notoriamente na  Economia,  Sociologia,  Psicologia  e 
Política – as declarações, planos e resultados dos experts chegaram a um grau de hermetismo, obscuridade, refinamento e 
desacordo que, longe de serem sinônimo de inteligência e eficiência, conseguem apenas dissimular sua sistemática 
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inoperância.  Porque,  se  por  um  lado  – como  veremos  mais  adiante – alguns aspectos do mencionado estado das coisas 
são  tragicamente  ostensivos  outros  são  confusos,  ambíguos,  delicados  e   contraditórios.  Prestam­se,  assim  a 
valorizações complexas nas quais a tônica "otimista" ou "pessimista" das estimativas é de difícil decisão. 
Essa  questão   de  "otimismo"   versus  "pessimismo"  é,  evidentemente,  tão  velha  como  o  próprio   mundo,  mas 
segundo  o  meu  entendimento,  tantc  no  passado  como   nas  circunstâncias  presentes,  é  abordada   de  fom,a  errônea  O 
problema  não  consiste  em puxar  conclusões  sobre  se o mundo de hoje  é melhor ou pior, quantitativa e qualitativamente, 
em  todos  ou  em  algum  dos  aspectos  da  existência,  que  na  Idade  Média.  Tampouco,  por  exemplo  consiste  em  cotejar  o 
que  o  Capitalismo  veio  a  ganhar  com  os   desmandoó  do  Socialismo   Real.  Trata­se  de  comparar   o  desenvolvimento 
potencial  e  efetivo   de  todos  os   tipos  de  forças  produtivas  de  uma  época  com  as  realizações   abstratas  ou  concretas 
alcançadas  durante  a  mesma.  Dito  de  outra  maneira,  o  assunto  consiste  no  confronto  entre  o  que  poderíamos  fazer e o 
que realmente fazemos. 
Muitos  autores  enfatizaram  a  velocidade  do  processo  que  o  incremento  das  mais  diversas  potências  adquiriu 
nos  últimos  vinte  anos:  a mesma é tão vertiginosa  que resulta muito maior  que a conseguida  nos recentemente passados 
duzentos  anos.  Frente   a  essa  formidável  escalada,  o  problema  corretamente  posto  reside  em  perguntar   o  que  se 
conseguiu  exatamente  com  essas  disponibilidades.  É  uma  brevíssima  avaliação  dessa  natureza  que  me  proponho 
intentar, a seguir. 
Para  examinar  os  aspectos  mais relevantes dessa comparação,  não citarei muitos dados estatísticos  que,  se bem 
necessários  e  ilustrativos,  tornariam   estas  linhas  intoleravelmente  difíceis  de  serem  escritas  e   lidas.  Por  outro  lado, 
nossos  tempos,  com  respeito  às  estatísticas,  mostram  uma  peculiaridade  surpreendente.  Há  hoje  levantamentos 
estatísticos  acerca  de  "tudo",  e  "todo  mundo"  parece  ter  acesso aos  mesmos.  Contudo,  são  poucos  os  resultados que 
podem  ser   considerados  confiáveis;  não  costumam  coincidir  uns  com  os  outros;  e  os  números  que  verdadeiramente 
interessam   para  tomar  posição  definitiva  acerca  das  questões  mais  cruciais  são  considerados  sigilosos  e  mantidos  em 
secreto. O que parece constatável são algumas conclusões que a seguir apenas menciono. 
As últimas reuniões de cúpula e as informações dos organismos internacionais de grande porte insinuam que: 
  –  Dos  mais  de seis bilhões de  habitantes da  Terra, pelo menos um bilhão vive em um estado que a Organização 
Mundial da Saúde denomina Miséria Absoluta, e outro bilhão e meio vive em um nível de Miséria Relativa ou Pobreza. 
  –  Dois  bilhões de  pessoas  do  globo  terrestre  subsistem  em  um  estado que  contempla apenas racionalmente o 
que – de maneira muito controvertida – denomina­se "satisfação de suas necessidades básicas". 
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  –  Dos  quinhentos  milhões  restantes,  30%  (trinta  por cento) possuem 70% (setenta  por cento) de qualquer tipo 
de riqueza disponível no planeta. 
 –  Até pouco tempo  atrás, o número  reduzido de nações mais poderosas havia acumulado um arsenal bélico  cuja 
capacidade  era  mil  vezes  superior  àquela  necessária  para  destruir  qualquer  indício  de  vida  sobre a face da terra. Devido 
às  diferentes  gestões  internacionais,   que  resultaram  no  fim  da  Guerra   Fria,  o  arsenal  de  armas  atômicas  foi  reduzido; 
continua­se  discutindo,  porém,  se houve  aumento ou não de armas pesadas e de curto e médio alcance. Neste momento, 
estão  em   andamento  quase  cem  guerras  de  tipo  internacional,  limítrofe,  civil,  religioso,   racial  e  outros;  a  cada  ano 
duplicam­se   os  equipamentos  militares  e   policiais   destinados,  supostamente,  à   manutenção  da   ordem  constituída  e à 
segurança  pública,  cujo  foco  principal  é  a  defesa  da  propriedade  privada  e  da  pessoa  dos  proprietários. 
Surpreendentemente  –  como  todos  estão  cansados  de  saber  –  a  criminalidade,  salvo  exceções  locais,  só  vem  
aumentando. 
  –   A  distribuição  da   miséria  absoluta  e  relativa,  à  qual  me  referia  acima,  prejudica  inapelavelm.ente  todo  o 
continente  africano  e,  de  forma  menos  espetacular,  a  Índia,  Oriente  Médio  e  América  Latina.  Ela  se  encontra  – 
desigualmente, mas estrondosamente – em 95% dos países, nos seus respectivos bolsões internos de pobreza. 
  –  Os grandes blocos dos países ricos – EUA, Canadá, CEE e os chamados "Tigres Asiáticos" (Japão, Coréia do 
Sul,  Vietnã,  Indonésia, Malásia, Taiwan e, de maneira muito peculiar, a China Comunista) –,  apesar de serem os  principais 
assentos  de  opulência  mundial,  apresentam  marcados  desníveis  e  reconhecem  que  estão  ameaçados  pela  possibilidade 
de graves crises de diversos tipos, tanto na atualidade como no futuro próximo. 
  –  Os  indicadores  mundiais  de  desemprego certificam constantemente que a desocupação é devido não apenas 
ao  acelerado  processo   de  substituição  da  força  humana  de  trabalho  pela   automação,  mas  também  à  tendência   ao 
esgotamento dos mercados externos e internos, assim como à hiperprodução desregulada e à acumulação de estoques. 
  –   O  aparente  crescimento  econômico  das  chamadas  "economias  emergentes"  –  apesar  dos  casos  serem 
diferentes  e  complexos  –  em  geral  é  fraco  e  instável, e  está baseado  seja  na  venda  da  força  de  trabalho  baratíssima  e 
informal,  sem  direito  laborais  e  sociais,  seja  na  extração  irrecuperável   de  matérias­primas   e  energéticas,  ou  ainda  nas 
condições  contratuais  leoninas  dos  acordos   de  exploração,  remessas  de  lucros,  exceção  de  impostos...  Além  de  tudo 
isso,  o  incremento  da  riqueza  nesses  "capitalismos  nacionais   tardios"  mostra  uma  distribuição  desigual  do  benefício, 
idêntica ou pior à que tinha vigência nas fases coloniais ou neo­coloniais clássicas dessas mesmas nações. 
  –   Os  Estados  Nacionais  –  tanto  os  "democráticos"  como  os  "autoritários",  particularmente  os  dos  países 
chamados"  periféricos",  "em  vias  de  desenvolvimento",  "dependentes"  –  apresentam­se  cada  vez  mais  empobrecidos, 
ineficientes e desprovidos dépoder internacional devido a 
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sua  subordinação  aos  onipotentes  organismos  econômicos  internacionais.  A  decadência  mundial  do  Estado  de  Bem 
Estar  –  causada  fundamentalmente  pela limitação orçamentária imposta à política tributária  pelo Capital  também obedece 
à  privatização  crescente de  sua  funções.  Isso  pela  necessidade  do  Capitalismo  de  incorporar  à  produção  e  ao  mercado 
ganancioso  todas  as  atividades  possíveis  para  compensar  a   tendência  de  queda  da  taxa  de  extração  da  mais­valia 
resultante  das  causas  acima  apontadas.  Esse  problema,  porém,  torna­se  gravíssimo nos  países  "periféricos" por  razões 
óbvias:   as  necessidades   de  serviços  infra­estruturais  como  os  de  educação,  saúde,   seguro­desemprego,  moradia, 
saneamento  básico   e  segurança  pública,  são  infinitamente  maiores  que  nos  países  centrais;  a  distribuição  da  renda  é 
muito  mais  desigual,  o  poder   econômico   dos  lobbies  locais   sobre  os  governos  é  enorme,  a  política  tributária  é 
ridiculamente  favorável   às  grandes  fortunas  e  a  política  fiscal  é  incompetente,  corrupta,  corporativo­burocrática, 
eleitoreira  demagógica.  É  de  se  supor  o  que  ocorre  quando  esses  países  são  afetados   pelo  declínio  próprio  da 
transnacionalização­privatização. 
  –  Certo  incremento  do  acesso  de  setores  mais  an1plos  da  população  a  alguns  produtos e serviços – devido à 
hiperprodução  e  ao  barateamento  da  produção  massificada  dos  mesmos  – deve ser entendido como um resultado muito 
mais  atribuível  ao poderio  tecnológico  dos  parques  industriais  que  ao  efeito  da  ascensão econômica de tais segmentos 
populares.  A  lógica  dessa  melhora  é  parecida  com  aquela  responsável  por  certa  diminuição  dos  índices  de 
morbi­mortalidade:  não  se  trata  de  um  aperfeiçoamento  amplo  e  consistente  de  saúde  popular,  resultante  de uma sólida 
elevação  das  condições  de  vida  e  de  atenção  médica  integral,  e  sim  do  espetacular  e  barato  progresso  da  técnica  
imunológica. 
  –  O  aumento  da  criminalidade,  particularmente  da  organizada  ­empresarial  –  está  se  tornando  não  geométrica, 
mas  exponencial. As chamadas genericamente "máfias", relacionadas ao narcotráfico e ao tráfico de armas,  ao jogo ilegal, 
à  prostituição,  ao  contrabando,  ao  seqüestro,  ao  roubo, à  falsificação  e  assassinato  por  encomenda, têm  adquirido  tal 
poder   financeiro  que  parecem  estar  integrando  formalmente  os  processos  econômicos  e   políticos,  tal  é  seu  grau  de 
interferência no comércio de influência, de proteção e outros. 
Para  não  carregar  demasiadamente  este  texto,  que  não  é  nada  mais  que  um  apêndice,  terei  que  parar  por aqui, 
limitando­me  a  mencionar  problemas  tais  como  a  nomadização forçada das populações miseráveis para os países ricos, a 
sinistra   questão  dos  fundamentalismos,  do  terrorismo  sectário  ou  de  Estado,  o  comércio  de  crianças  e  de  órgãos 
humanos, a total falência dos aparelhos judiciários, policiais, carcerários e assim por diante. 
É esse o "Mundo Feliz" da Globalização do Capitalismo Planetário Integrado em sua "Fase Superior"? 
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 Terceira Parte 

Esse  tema  do  "otimismo"  versus  "pessimismo"  está  intimamente  relacionado  com  o  outro,  o  do  "velho"  e  do 
"novo"  que  mencionei   anteriormente  e  que  poderíamos  reformular  e  ampliar  do  seguinte  modo  apesar  de  que,  devo 
avisar, não poderei definir detalhadamente neste âmbito, como desejaria, todos os termos que utilizarei. 
Quando  se  afirma  que  o  Capitalismo  Planetário  Integrado  – a "Globalização" e a  internacionalização  mundial do 
Capitalismo  em  sua Fase Superior – é resultado  do  "desenvolvimento", do "progresso", da "evolução" do Capitalismo,  o 
mínimo  que  se  pode  fazer  é  analisar  o  significado  exato dessas palavras. É preciso, porém, aclarar que esta análise,  em si 
mesma,  é  parte  da  questão  do  "velho"  e  do "novo", à medida que já  foi antecipada quase exaustivamente por vários dos 
colossais  pensadores  do   século  passado   e  que,  devido  a  um  laborioso  esquecimento   de   seus  detalhes,  nos  vimos  na 
obrigação  de  expor  esta  descrição  como  se  fosse  uma  premissa.  Esses  grandes  trataram,  cada  um  a  seu  modo,  de  
periodizar  as   formações  históricas,  explicando  como  cada  uma  delas   era  e  é  –  à  medida  que  as  mesmas  subsistem  no 
panorama  atual  –  um modo  sui  generis,  digamos,  de  gestar,  administrar  e  destruir  tudo  o  que  compõe  a  realidade,  seja 
como for que ela se defina. 
Cada  formação histórica  compreende, no mínimo, quatro grandes "continentes" ou "territórios",  distribuídos em 
superfícies  (vide  Nota  1):  da  Natureza,  da  Sociedade,  da  Subjetividade  e  da  Maquinária.  Cada  formação  histórica 
caracteriza­se  pela  modalidade  com  a  qual,   em  cada  um  de  seus  territórios  e   em  todos   eles,  dá  andamento  a  quatro 
processos:  de  Produção  da   Produção,  de  Produção  de  Reprodução,  de  Produção  de  Antiprodução   e  de  Produção  de 
Demanda­Consumo e Consumação. 
Em  cada  formação  histórica,  os   territórios  citados   e  os  processos  que  os"  animam"  estão  intimamente 
interpenetrados  entre  si,  e  isso  implica  que  são  parcialmente  diferenciados,  e  também   imanentes.  Nenhum  deles   é 
prescindível,  nenhum  é  causa  última  nem  efeito  exclusivo  do  outro,  apesar  de  que,  em  cada  formação  histórica,  algum 
possa prevalecer e/ou aparecer como sendo assim. 
A  modalidade  e a  prevalência de cada  um desses processos em cada um desses territórios­superfícies  determina  
as  peculiaridades  das  funções,  mais  ligadas  à  reprodução  e  a  antiprodução,  e  dos  funcionamentos, mais relacionados  à 
produção e à consumação, de cada "parte" e do "todo" de cada complexo histórico. 
Uma  nova   definição  de  maquinária  como   conjunto  difuso,  externamente  aberto  e  internamente  heterogêneo, 
heterólogo,  heteromórfico,  auto­producente, em movimento  transformador contínuo, semi­determinado, semi­aleatório de 
"peças" variáveis, dispersas e "oni conectáveis" – ou seja, uma formação histórica que pode ser entendida como 
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uma  Megamáquina,  Maquínica.  Isso  é  diferente  de  dizer  "mecânica"  ou   "automática",  seja  nas  modalidades  das 
máquinas  elétricas  ou  eletrônicas,  cibernéticas  etc.  Dadas  as  características  das  funções   e  do  funcionam  de  cada 
formação  histórica – ou seja, de sua "Totalidade"  ou  Megamáquina – os efeitos deletérios do predomínio da Reprodução 
e  da  Antiprodução  podem manifestar­se através de inumeráveis  índices ou indicadores.  Limitarei­me, porém, a  mencionar 
três  fenômenos:  os  graus  e  tipos  qualitativos  e quantitativos de exploração, dominação e mistificação lhes  são próprios. 
Nestes  indicadores,  mesmo  prevalecendo  os  coletados  no  território   da  sociedade,  também  importam  as   relações  dos 
mesmos com os campos da natureza, da subjetividade e da maquinária. 
Obviamente,  cada  formação histórica possui também  os recursos próprios de pensamento, saber, conhecimento 
e  valores  que,  a  seu  modo,  conseguem  inventar,  definir,   detectar  e  criticar  esses  índices.  Sendo   assim,  a  decisão,  o 
procedimento  e  a  interpretação  dos  resultados  da  comparação  –  de  forma  a  fazer  uma  avaliação  –  de  uma  formação 
histórica  com  outra  são,  por  sua  vez,  outro  indicador   do  tipo  de  formação  histórica  que  assim  o  faz.  Dito  de  outra 
maneira, as avaliações dos dados são valores das sociedades que dominam as sociedades que avaliam. 
Espero  ser  mais  explícito  agora  sobre  porque  devemos comparar  nossa  formação  histórica  atual  –  a  primeira 
que  está  em  vias  de  conseguir  uma  hegemonia  mundial  quase  absoluta  –  não  com  as  outras,  mas  com  as  potências  de 
produção  que  detêm,  assim  como  com  o  grau  de  reprodução  e  anti­produção  que  as  investem,  isto  é: com os  índices de 
exploração, dominação e mistificação que lhes são próprios. 
Se  não  procedermos  dessa  forma,  cairemos  exatamente  em  um  dos  mecanismos  de   mistificação  que  são 
especiais  da  nossa  formação  histórica,  isto  é,  a  falsa  generalização  de  algumas  melhoras  localizadas  –  por  exemplo,  a 
realização de blocos de nações ricas, a qualidade de vida dos países nórdicos e outros. 
Repassando  o  panorama  descrito  na  segunda  parte  deste  apêndice,  trata­se  de  julgar,  não  se  nossos  terríveis 
índices  de  exploração,  dominação  e  mistificação  são  melhores  ou  piores,  por  exemplo,  que  os  do  Feudalismo,  mas  se 
dadas  as  incalculáveis  forças  que  a  humanidade  dispõe,  quanto  deixa  de  fazer  com elas,  ou quanto e como as investe  na 
reprodução  ou  antiprodução  que geram  as  atrocidades  dos referidos  índices.  Isso  precisa  ser  dito,  sem  ignorar que, se 
comparamos  alguns  dos  nossos  indicadores com, por exemplo, os  de algumas formações primitivas tribais – cujas forças 
produtivas  são  ínfimas  –,  seus  tipos  de  exploração,  dominação  e  mistificação  são,  sem  dúvida  alguma,  bem  "menos  
atrozes" que os nossos. 
Considerando  o  que  foi  exposto,  o  que  significam  "Progresso",  "Evolução"   e  "Desenvolvimento"  enquanto 
valores   definidos  pelo  Capitalismo  triunfante?  Por  um  lado,  dado  que  os  indicadores  medidos  como  resultado  da 
aplicação dos critérios da própria lógica do Capital são 
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deploráveis,  isso  significa  que  nosso  "  progresso",  "evolução"  e  "desenvolvimento"  estão  longe  de  tornarem­se 
efetivos.  Por  outro  lado,  julgados  segundo a  potencialidade  produtiva  intrínseca  ao  Capitalismo,  tais  índices  mundiais 
são, sem dúvida, cataclísmicos. 
Por  conseqüência,  a  afirmação  de  que  o   Capitalismo  é  o  modo,   sistema,  regime  que  "melhor"  está 
protagonizando  a realização  gradual  de  uma  certa  maneira  de  gerar  e  relacionar  Produção,  Reprodução  e  Antiprodução 
(assim  como  seus  estilos"  de  vida"  e"  de  morte")  –  tal  como  foi  anunciado na  famosa fórmula da Revolução Francesa e 
do  Iluminismo,  "Liberdade,  Igualdade,  Fraternidade"  –  não  é  apenas  uma  mentira,  um  erro,  um  equívoco,  um  sofisma, 
uma  racionalização  ou  um  delírio  megalomaníaco.  Trata­se  de  uma auto­convalidação da Lógica do Capital,  imanente a 
"todos"  e  a  cada  um  dos  campos  ou  territórios  antes  citados  que,  apesar  do  cinismo  peculiar  do   sistema  de 
representações  dessa  fórmula  mundial,  continua  sendo  um  recurso necessário para sua permanência.  Ou seja, apesar 
da  crítica,  por  exemplo,  da  Esquizoanálise  à  importância  da   ideologia  ou  das  ridículas  afirmações  acerca  de  seu  " 
final", o Capitalismo ainda precisa mentir. 
Cabe  apenas  mencionar  agora,  muito  elementarmente,  uma  série   desses  conhecimentos  do  século  XIX  –  
produzidos  por  autores  de  diferentes  orientações  –  que  parecem  ter  sido  "esquecidos",  ou  que  são  citados  como 
"insuficientes"  ou  "já  superados",   ou   que  são  enunciados  –  prévia  deformação  –  como  "novidades"  funcionais  para 
essa leitura "otimista", "realista", "moderna". 
O  Capitalismo,  estrictu  sensu,   é  um  modo  de  produção­reprodução­  antiprodução­consumação  da  realidade  – 
dito  no  mais  amplo  sentido  já  definido  – que se caracteriza por estar regido por uma integral axiomatizada, supostamente 
geradora,  "animadora"  hierarquizadora,  organizadora,  limitante  e  destruidora   do   "todo"  da   realidade.  Essa  integral  é 
denominada Equivalente Geral Dinheiro. 
O  Equivalente  Geral,   a  Axiomática  do  Capital   –  que  pode  se  expressar  através  de  quantidades  abstratas,  de 
dinheiro­moeda  ou  "letras"  de  diferentes   naturezas,  como  títulos  de   propriedade,  ações,  bônus,  cédulas  ou  registros 
informáticos  –  é  uma  medida  arbitrária  de   valor.  Esse  Equivalente  Geral,   que  se  acumula  como  inumeráveis   forças 
produtivas  não  retribuídas,  torna­se  a  medida  para  a   qual  deve  ser  traduzido  o  resultado  da  extração,  apropriação, 
acumulação e centralização de inumeráveis forças­formas de produção não pagas. 
As  modalidades  clássicas do Capital  são  o  Capital  Latifundiário,  o  Industrial  e  o  Financeiro;  subalternamente, 
porém,  é  possível  falar  também  de Capital de Poder, de Saber, de  Desejo – Consciente e Inconsciente –, de Semiotização, 
e até de Beleza – Dominação e Mistificação. 
Entre  as  principais  forças­formas  dessa   produção  está  a  força­forma  do  Trabalho  "Humano"  –  entendendo 
como tal aquele composto por energias 
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físico­químicas,  biológicas,  psíquicas,  sociais,  subjetivas  –  que   deve  ser  "forçada",  de  maneira  sumamente  variada,  a 
submeter­se  à  citada equivalência  e  a sua valorização e remuneração parcialmente não paga  – Dominação e  Mistificação  
– pela força física ou por modalidades de subjetividade, semiotização e outras. 
As  condições  fundamentais  que  possibilitam  a  produção, distlibuição, possessão, apropriação, troca, consumo 
e  fruição   dos  produtos  de  toda  espécie,  é  a  conversão   crescente  de  tais  produtos  em   mercadorias  bens  de  troca, 
enquanto  interessam  por  seu  valor de  compra­venda,  e só secundariamente pelo  seu valor  de uso­satisfação – pois se o 
processo  de  capitalização   realiza­se  em  cada  passo  desse  circuito,  cada  um   deles  está  informado   pelo  circuito  de 
compra­venda, ou seja, operações de troca mediadas pelo dinheiro. 
O Capitalismo como modo – dito no sentido amplo antes apontado  – está  constituído por contradições famosas  
que  lhe  são  essenciais.  Por  exemplo:  as primárias, que  se estabelecem entre o desenvolvimento das  forças produtivas de 
todo  tipo  e  as  relações   de  produção  de  toda  espécie;  e  as  secundárias,  como  as  que ocorrem  na  competição  entre  as 
diversas  modalidades  do  Capital.  Essas  contradições  são  tanto  produtoras  do  crescimento  produtivo e cumulativo e da 
reprodução  das  condições  restritas  e  amplas  da  existência do Capital quanto demarcadoras de seus  tetos  classicamente 
denominados  limites  internos   e  externos  –  e  de  sua  subsistência.  Os  limites  internos  costumavam  ser  reduzidos  à 
existência  da  força  de  trabalho  disponível,  ou  seja,  comprável  e  vendável  através  do  Capital  chamado  variável, o  qual  
habitualmente era  tido  como sinônimo da existência de  trabalhadores  vivos e produtivos. Era costume atribuir aos limites 
externos a existência de mercados solventes, isto é, de compradores suficientes de mercadorias. 
O  Capital  variável  inclui  também  os  insumos  produtivos:  gastos  de  crédito  de   dinheiro­mercadoria, 
empreendimento,  energéticos  e  territoriais,  de  matérias­primas  e  manutenção  e  aperfeiçoamento  dos  meios  de produção 
propriamente ditos – esses últimos constituindo o Capital fixo. 
Porém,  além  dos   gastos  da  reprodução  ampliada  –  manutenção  das  condições 
jurídico­político­subjetivo­libidinais  do  Capitalismo,  cujo  protagonista  principal  é  o  Estado  –,  dependendo  do  ramo  de 
produção  tratado,  deve  ser  acrescentado   ao  Capital  fixo  e  ao  variável  o  que  podelíamos  chamar  de  gastos  com  a  
produção  de necessidade  de  demandas  de  consumo  e  fruição  propriamente ditos,  isto é, produção de mercado. Entre as 
variadas  situações  nas  quais  essas  contradições  transformam­se  em  aporias  e  conduzem  à celebre crise do Capitalismo, 
as  mais  conhecidas  são  aquelas  que  resultam  das  hiperproduções  –  excesso  de  mercadorias  que  se  barateiam 
"excessivamente"  e  não  compensam  as  inversões  –  ou  do  esgotamento  relativo  dos  mercados,  que  perdem  assim  seu 
poder aquisitivo. Concomitantemente, podem haver crises provoca das, pois as lutas operárias 
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e  camponesas   questionam   a  propriedade  das  diversas  formas  de  Capital  fixo,  incrementam  o  gasto  do  Capital  variável  
através  de  reivindicações  salariais  ou  de  melhores  condições  de  trabalho   ou   chegam,  em  suas  lutas  políticas,  a 
apropriar­se  parcial  ou  totalmente  do  aparelho  de  Estado.  Sabe­  se,  porém,  que  o  Capitalismo  é  um modo histórico que, 
desde   suas  origens,   não  só  aprendeu  a  prevenir   e  resolver  as  crises,  mas  também  viver  com  elas,  nelas  e  delas.  As 
manobras   do   Capitalismo  a  esse  respeito  são  inumeráveis  e,  não   podendo  ampliar  detalhadamente  este  ponto, 
mencionaremos somente algumas essenciais. 
Ao  nível  da  produção,  o  Capitalismo  suplantou  a  extração  de  mais­valia  relativa  –  aumento  das  horas  do 
trabalho  não  remuneradas  –  pela  absoluta  –  aumento  da  produtividade  pela intensificação  do  trabalho  em  si mesmo  ou  
em menos tempo. 
Nisso participa,  se  agrega  e  finalmente  substitui  a exploração típica a extração de mais­valia maquínica,  isto é, o 
aperfeiçoamento  das  máquinas  e   uma  nova  articulação  entre  a  força  de  trabalho   "humano"  e  "não­humano".  Outra 
celebre  tática  é  a  diminuição  deliberada  da  produção,  ou  a  destruição  dos produ tos para aumentar seu  preço. Na esfera 
da  distribuição,  apropriação,  troca  e  consumo,  o  Capitalismo  obteve  uma  enorme  agilidade  e  bara   teamen  to  desses 
processos   mediante  a  informatização  e  a  robotização  dos  mesmos.  Já  a  crise  gerada  pelo  esgotamento  da  expansão  
extensivo  geográfica  dos  mercados   foi  superada  com   a  intensificação   quantitativa  e  qualitativa   da  venda  através  do 
consumo  de  massas.  Esse,  por  sua  vez,  foi  alcançado  com  o  barateamento e  multiplicação  dos  produtos,  assim  como 
através  da  planificação   de  produtos  perecíveis,  facilmente  descartados  e   "melhorados",  mas,  sobretudo,  pelo 
aperfeiçoamento tecnológico da produção de demanda – marketing. 
Não  é  necessário  explicar  como  a  guerra  sempre  foi  um  recurso  complexo  para  superar  as  crises,  pois  atua em 
todos  e  em  cada  um  dos  níveis  dos  processos  do  "Todo  Capitalístico".  A  inflação  é  mais   um  exemplo  de  fenômeno 
provocado:  se,   por  um   lado,  alguns  setores  do  Capital  são  prejudicados,  outros  são   notoriamente  beneficiados.  Por 
último,  o  resultado  de cada  crise  é  uma  redistribuição  de  riquezas,  pela  qual o Capital  – em quaisquer de suas formas de 
existência  –  acaba  por  concentrar­se,  não  necessariamente   em  menos  "pessoas",  senão   em  um  número  real,   não 
explicitamente   formal,  de  entidades  que   são  suas  proprietárias,  megaempresas,  megabancos  e,  enfim,  oligopólios  e 
monopólios. 
De  qualquer  maneira,  é   importante  destacar  que  o  Capitalismo   é  um  modo   –  dito  no  sentido  amplo  definido  
acima  –   em  que  a  inflexão   exploradora,  dominadora  e  mistificadora  que  lhe  é  característica  tende  a  orientar  toda  a 
produção,  a  reprodução,  a  antiprodução e o consumo para a extração de mais­valia econômica. Isso é válido para o lucro, 
renda   e  ganhos,  mas  também  para  o  saber,  o  poder  e  o  prestígio.  Longe  de  conseguir  –  através  do  tipo  de  competição 
generalizada e" de cartas marcadas" que é 
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  sua  característica  –  uma  otimização  das forças  produtivas  de  quaisquer  naturezas  (sejam  as  que  verdadeiramente  o 
mesmo  suscitou,  e  das  que  potencial  e  insolitamente  disporia), esse sistema as paralisa, desaproveita e  destrói em uma 
proporção jamais igualada. 
Tenho dado ênfase à afirmação de que o Capitalismo foi e é assim desde seus albores até os  nossos dias, apesar 
de  que  suas  modalidades  de  produções  de  produção,  reprodução  e  antiprodução variem muito com o tempo e os lugares 
nos  quais  operam  o  diferente  tipo  de  Capital.  Perante  uma assertiva deste porte, torna­se de radical importância  precisar 
quando  e  como  este  Modo  começou  e  quais  foram  suas  sucessivas  ou  simultâneas  transformações.  Partindo  do 
princípio  de  que  o  Capitalismo  é  uma  singular  relação  e  composição  de  substâncias,  energias,  formas  e  maquinaria, 
podemos  admitir,  seguindo  alguns  autores,  que  é  possível  encontrar  seus  antecedentes  nas  formações  histólicas  dos 
séculos  XII  e  XIII,  e  dali  em  diante.  Também  é  possível  aceitar  que  sendo a economia mercantil, o Estado, a vigência de 
uma  sociedade  institucionalizada,   assim  como  de  formas  sui   generis  de  subjetividade,  semiotização   e  parques 
maquínicos  –  condições  essenciais  e  existenciais  de  muitas  formações  históricas  antigas   –,  as  mesmas  podem  ser  
consideradas  como  precursoras  do  Capitalismo.  Pessoalmente,  tendo  a  considerá­las,  à maneira de Marx  e Engels, como 
formações pré capitalistas. 
O  Capitalismo  propriamente  dito  –  cuja  preparação  se  inicia  com  o  fim  do  Feudalismo  e  prossegue no decurso 
da  Renascença,  da  Reforma  e  da  Contra­Reforma  e  das  revoluções  européias  e  norte­americanas  –  culmina  com  a 
instauração  da  indústria  manufatureira  na  Inglaterra,  que  é,  em   minha  opinião,  a  primeira  expressão  "verdadeira"  do 
Capitalismo na História. 
Nestas  linhas,  o  nosso  interesse   está  centrado   em  mostrar  que  as  suas  peculiaridades  essenciais  estavam 
pré­figuradas,   que  continuam  incólumes e  que  as  transformações  acontecidas,  responsáveis  por  nossa  chegada  a  esta 
"Fase  Superior",  embora  sejam  originalíssimas  e necessitem cuidadoso estudo, incluem, contudo,  as anteriores, e não 
têm mudado em sua essência  desde aquelas  até as contemporâneas. Esse  esclarecimento parece­me  imprescindível para 
poder   discriminar  de  forma  convincente  que  o  "novo"  do  Capitalismo  Mundial  Integrado   não  implica  uma 
transformação   substancial  do  "velho".  Pelo   contrário,  o  "novo"  Capitalismo  é,  em  sua  essência,  muito   pior  que  o 
anterior, razão pela qual não justifica nenhum "otimismo", nem nos exime de nenhum tipo de luta pela sua extinção. 
Então,   em  suma,  com   uma  modéstia  conceitual  exigida   por  esta  síntese:  quais  são  as  principais  "novidades" 
apresentadas  pela  atual  "Fase  Superior"?  O processo da produção adquiriu, devido à  revolução tecnológica e industrial, 
uma  velocidade  e  uma  eficácia  totalmente  imprevisíveis  para  os  teóricos  do  século  passado.  As  conseqüências  dessa  
incrível aceleração consistem principalmente no seguinte: 
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–  A  maquinária  da indústria  extrativa,  da agroindústria, da geradora de produtos e serviços está transformando 
e  diminuindo  –  gradual,  porém  firmemente  –  a  participação  da força de  trabalho "humana" nos processos  produtivos. A 
força  de  trabalho   maquinal  e  a  exploração  da  mais­valia  maquínica  vão  suplantando  aquela   humana,  trazendo  como  
conseqüência  desemprego,  subemprego,  emprego  transitório  e   precário,  processo  esse   cujo  aspecto  jurídico  se 
denomina "fIexibilização". 
  –   Os  grandes  grupos  empresariais,  apesar  de  que  seus  ganhos,  lucros  e  renda  parecem  estar  crescendo,  
empenham­se  numa  política  de  diminuição  de  custos  produtivos,  de  Capital  fixo  e  variável.  Algumas  dessas  manobras 
consistem  em  descentralizar  a  produção  de  grandes  complexos  infra­estruturais  caros,  transferindo  a  parte  básica, 
ecologicamente   "suja"  e  altamente  tributada  nos  países  centrais,  para  os  países  periféricos,  com"  mão  de­obra"  e 
impostos baratos. 
–   "Terceirização"  contratual  de  segmentos  da  produção   pouco  rentáveis  para  empresas  menores  ou  para 
trabalhadores  independentes, alguns  dos quais  operam  na  economia  informal ou em  seus  próprios domicílios, havendo 
indiscriminação da jornada de trabalho e do tempo livre. 
  –   Hiperespecialização  e/ou   fIexibilização  dos  poucos  trabalhadores  que  "permanecem"  empregados  com 
incentivos  de  produtividade,  através  da  participação  nos  lucros  e  na propriedade  –  via  compra  de  ações  minoritárias  e 
reciclagem  contínua  da  capacitação  técnica.  Desse modo, formam­se elites ou aristocracias de  trabalhadores que passam 
a  fazer  parte  do  Capital  fixo  da  empresa,  assumindo  a  identidade   e  os  in  teresses  desta,  desfiliando­se  de   qualquer 
organismo  de  classe  ou  luta  coletiva  de defesa de  suas reivindicações trabalhistas. Multiplicação, mudança e anonimato  
crescente  das  sedes  e  proprietários  do  Capital,  que  criam  a  ilusão  participativa,  ocultando  sua  concentração  e  o  poder 
decisório dos tecno burocratas que presidem e gerenciam as estratégias empresariais. 
  –   Ênfase  na  geração   de  produtos  e  serviços  baseados  na  tecnologia  de  ponta  –  informática,  cibernética, 
telemática,  robótica  –,  formados  segundo  planos  artificiosos  e  rapidamente  "aperfeiçoáveis"  que   os  tornam 
imediatamente "perecíveis" e "descartáveis", obrigando a uma substituição incessante. 
Essas  e muitas outras estratégias conduzem a uma  divisão mundial técnica, mas sobretudo econômico­social do 
trabalho,  em  que  –  diferente  do  período  imperialista  fordista  da  produção  –  os  ramos  produtivos  de  bens  e  serviços  
indispensáveis  e   "pesados",  assim  como  aqueles  que  entram  subsidiariamente  nos  produtos   e  prestações   altamente 
remuneráveis,  localizam­se  nos  setores  mundiais  "em  vias  de  desenvolvimento".   Esses  setores   tornam­se,  assim, 
participantes  de  baixíssimos  custos  e,  ao  mesmo  tempo,  também  mercados  pobres  –  compradores  de bens e prestações 
relativamente obsoletos e encarecidos internacionalmente –, porém 
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complementares daqueles centrais já saturados. Um "fordismo periférico". 
Os  processos  de  ordenamento,  distribuição,   apropriação,  troca,  consumo­consumação  –   que  incluem  os  de 
financiamento,  comercialização,  "fabricação"  de  necessidades  e  demandas  (escassez,  falta,  carência)  –  foram 
"hipertecnologizados"  pelos  grandes  mass­media  e  pela  propaganda.  Essa  parafernália  adquiriu  os  níveis  máximos  de 
eficiência,  velocidade,  artifício  e  inutilidade  relativa  para  o  consumidor  –   maiores  ainda  que  os  da  produção  de  bens 
duráveis e não duráveis propriamente ditos­, sendo o mais importante gerador de subjetividade conhecido na História. 
Não  por  sua  real  eficiência,   mas  por  sua  necessidade  expansiva,  o  Capitalismo  atual  provocou  a  privatização, 
profissionalização   e  mercantilização  de  "quase  todos"  os  territórios  e  atividades   recentemente  não­lucrativos  ou 
considerados  "gratuitos"  ou  "públicos".  Alguns  exemplos  ilustrativos  são  os  que,  até  pouco tempo, eram  próprios dos 
mecanismos  de   "reprodução  ampliada":  tarefas   familiares,  aparatos  e  funções  de   Estado  –  energia,  rede  viária, 
comunicações,  moradias  populares,  transporte,  saneamento  básico,  saúde,  segurança,  educação  e  diversão  "públicos",  
preservação  e  restauração  do  "meio  ambiente",   seguros,  previdência,  operações  administrativas  e   contáveis, 
estabelecimentos carcerários e outros. 
No  chamado  "mercado  de  capitais",  o  Capital  financeiro,  devido,  entre  outras razões, ao caráter instantâneo da 
comunicação  e  da informática  e à sua subordinação a núcleos ubíquos, anônimos, às vezes dispersos e condensados do 
Capital   monetário,   acionário,  documentário,  prolifera   geometricamente  –   sobretudo  como  empréstimo  para  as  contas  
correntes  dos  países  "em  desenvolvimento"  ou  emergentes.  Como  se  sabe,  os  mesmos  costumam  ser  governados  por 
demagogos,  corruptos   e  incompetentes  cuja  gestão  acaba  sempre  em  grande  déficit  –  contraído  em  um  montante  de  
dívidas  com  juros astronômicos,  que compõem  os investimentos da  usura "flutuante", "andorinha", transitórios, móveis, 
descomprometidos  e  quase   sempre  não  tributados.  O   lucro  financeiro  puro  possui  seu  mecanismo  mais  pelverso  nos 
citados  interesses  e  no  refinanciamento   eterno  das  dívidas  externas  e  internas  dos  Estados  e  empresas  nacionais 
estatais,  que  elevam  à  enésima potência a devolução da quantidade originariamente emprestada, sendo que, no caso das 
dívidas   externas  do  "Terceiro  Mundo"  por  exemplo,  esses  empréstimos   não  são  nada  mais  que   a  mesma  riqueza 
explorada  pela  força  durante  a  conquista,  o  Colonialismo  e  o  Neo­Colonialismo,  assim  como  capitais dos financistas do 
próprio  país  que  depositam  seu  dinheiro  nos  paraísos  fiscais e o reinvestem com o privilégio dado aos estrangeiros. Por 
outro  lado,  essa  proliferação   torna­se  infinita  no  chamado  "Mercado  de Futuros",  onde  se  negociam  matérias­primas,  
produtos, divisas, títulos inexistentes. 
A  constituição  de  enormes   e  onipotentes  monopólios  nacionais  ou  internacionais –  legalmente  formalizados, 
juridicamente dissimulados ou simplesmente clandestinos, supostamente resultantes e defensores do 
189 ▲
"Livre  Mercado"  e  da  omissão reguladora  do  Estado  e  de organismos  da  sociedade  civil  –  acaba  por  criar  e regular à  
vontade  as convenções  de  custos  e  preços  que  regem esses mercados, assim como a qualidade e quantidade  de  demanda 
e oferta, estritamente segundo seus interesses e nunca segundo os dos consumidores e usuários. 
A  mencionada,  reiteradas  vezes,  hegemonia  do  poder  econômico  –  o  financeiro  e  o  das  grandes  empresas  – 
modula  arbitrariamente  os resultados eleitorais ou porque tal poder é proprietário, ou porque é manipulador dos meios de 
propaganda,  ou  ainda  por  causa  do  poder  de  seus  lobbies  sobre  os  políticos  e  funcionários  do  Estado.  Por  sua  vez,  o 
Estado  fomenta  o  surgimento  de  cartórios  eleitorais,  clientelismo,  fisiologismo,  nepotismo,  burocracia,  e  domina  a 
condução  política  das  nações.  Por  outro  lado,  o  doutrinamento  persuade,  convence  e  corrompe  o  eleitorado  em  si 
mesmo,  criando  os  vícios  conhecidos,  entre  outros,  da  compra  de  votos.  Finalmente,  o Capital, que  como explicamos, já 
dispõe  de  novos  n,eios  para  reproduzir  as  condições  de   sua  existência  e  proliferação  –  produção  de   subjetividade, 
semióticas  econômicas,  políticas,  jurídicas,  institucionais,  culturais  e  libidinais  incorporadas  à  sua   lógica­,  está 
empenhado  no  desmonte,  na  privatização  e   re­significação  da  estrutura   e  das  funções  do  Estado.  Esse   processo  se 
enfatiza  na  dissolução do chamado Estado  Beneficente ou Providencial – cujas  atribuições são demasiado  onerosas para 
o   Capital  –,  em  crise  no  mundo  inteiro.   O  enfraquecimento  do  Estado  realiza­se  em  nome  da  modernização,   da 
racionalização,  da  eficiência  –  o  que  não deixa  de  ter  o  seu  sentido,  dados  os  vícios  de  "nascença" da máquina estatal. 
Não  obstante,  esse  processo,  a  rigor,  objetiva  a   subordinação  das  soberanias  nacionais  e  respectivas  populações  a 
entidades  supranacionais  cujos paradigmas são o  Fundo Monetário lnternacional, a Organização Mundial  do  Comércio e  
o Banco Mundial. 
Em  última  instância,  não  sem  contradição,  crises  autofagicamente  resolvidas   e  também  acontecimentos 
metamorfósicos  irreversíveis  e  incapturáveis  –  toda  essa  grande  transformação que aponta para a assunção voluntária e 
pacífica  por  parte  de  todos  os   agentes,  sujeitos,  indivíduos,  grupos,  comunidades  do  Axioma  que  rege  a  Lógica  do  
Capital  –  vêm  se  impondo  até  o  presente.  Trata­se  de  implantar  nas  nações  o  regime  político  da  democracia  indireta, 
representativa,  competitiva  e  heterogestionária,  que  permita prescindir dos recursos repressivos clássicos, demasiado 
caros e ostensivamente "inumanos". 
Esses  regimes  e  seus  sistemas  de  "representação"  –  num  sentido  amplo de produção  de  subjetividade,  o  que 
segundo  os  clássicos marxistas denominava­se "Democracia Burguesa" – são a garantia do  "bom comportamento" dos 
povos  em  questão.  "Bom  comportamento"  que  implica  uma  administração  completamente  submetida  ao  Capital  
transnacional  – sobretudo o financeiro –,  ao  pagamento" correto" das  dívidas públicas  externas, à privatização a preços 
baixos das empresas e serviços 
190 ▲
  estatais,  à  "livre"   radicação  –  ou  seja,  não  tributada  e salarialmente  flexibilizada  –  das  empresas  transnacionais  e, 
finalmente,  ao  compromisso  incondicional  com as alianças, sobretudo as bélicas, dos países "guardiões" do  patrimônio 
do Capital. 
Ocorre,  porém,  que   a  construção  da  megamáquina  planetária  do  Capitalismo  Global  Integrado   não  pode  
prescindir por  completo dos velhos  equipamentos, procedimentos, agentes e práticas que possibilitavam suas modalidades 
clássicas  de  exploração,  dominação   e  justificação.  Tampouco  lhe  foi  possível  eliminar  totalmente  as  modalidades  de 
resistência  próprias  dos  neoarcaísmos,  tais  como  os  regimes  integralistas,  fundamentalistas  e  os  totalitários  –  que  o 
Capital  supranacional  fomenta  quando  lhe  são  funcionais,  e  depois  tenta  substituí­los  por  democracias  formais  ou 
nominais,  sem dúvida mais "baratas" e mais favoráveis para a produção de mercadorias e a apropriação  de  mercados. Por 
isso, o carro­chefe do Capitalismo Mundial, os EUA,  invadiu Panamá e Granada  e tentou fazer o mesmo com Cuba – sem o 
menor  respeito  pela  autonomia  que  proclama­,  assim  como  subvencionou   as  piores  ditaduras  latino­americanas  e 
africanas,   e  também  as  do  Oriente  Médio,  seja  com  dinheiro  e  armas,  seja  com  a  famosa  participação  direta  de  seus 
"assessores" militares. 
Por  outro   lado,  o  Capitalismo  Planetário  Integrado  tem  que  lidar  com  os  movimentos  separatistas  –  de 
inspiração  socialista  ou  não  –,  revolucionários  ou  genuinamente  reformistas,  de  liberação  das  singularidades  raciais,  
nacionais, culturais, sexuais, etárias, ou pacifistas, ambientalistas, de direitos humanos, religiosos e assim por diante. 
Sem  considerar essas observações como um estudo profundo  da contemporaneidade, no entanto suficientes para 
entender  que,  como  dizia  anteriormente,  se  em  alguns campos e setores  parece que o balanço de todos esses andamentos 
mostra  alguns  "progressos"  estridentes,  os  indicadores  de exploração, dominação e  mistificação sui generis  dessa "Fase 
Superior"  são  inequívocos  sinais  de um tremendo predomínio da reprodução e da  antiprodução sobre a produção possível 
e virtual da qual o mundo seria potencialmente capaz hoje em dia. 
A  geração de um imenso contingente de excluídos da produção  e do consumo,  dos não­inseridos nas instituições 
e  organizações,  despossuídos  de  direitos  e   também  de  qualquer  identidade­miseráveis,  enfermos,  analfabetos,  errantes, 
sem­terra,  sem­casa,  marginalizados,  clandestinos,  delinqüentes  –   é  mais  que  suficiente  para   diagnosticar  e  avaliar  a 
situação  mundial  contemporânea.  A  essa degradação  e  deterioramento,  mais que expressivos da degradação e destruição 
do  "parque  humano",  temos  que  acrescentar  a  destruição  massiva  da  natureza,  a   modulação  supérflua  e  luxuosa  do 
parque  industrial,  a  banalização  ou  obscenidade  da  cultura,  o  crescimento  cancerigeno das  megalópolis,  o esvaziamento 
rural, o mau aproveitamento 
191 ▲
das  fontes  energéticas  e  muito  mais.  Acredito  que  tudo  isso  já  é  conhecido  por  demais  e  serve para caracterizar, sem 
dúvida alguma, o panorama paradoxal e sinistro de decadência. 

Quarta Parte 
Se  essa  entidade  que  denominei  Movimento  Instituinte  existe,  apesar  de  que   duvido  que  ela   mesma  se 
reconheça  como   tal,  acredito  ser  importante  para   o  seu  destino  introduzir  uma   pequena  modificação  no  excelente 
conceito  de  Capitalismo  Planetário  Integrado,  como  foi  chamado  por  Félix  Guattari.  Permito­me sugerir  que seria melhor, 
talvez,  denominá  ­lo  de  "Capitalismo  Planetário  Integralizante".  Pois  "integrado"  é  um  particípio  passado  e  designa  um 
objetivo  já  conseguido,  coisa que o Capitalismo contemporâneo ainda  está longe de alcançar,e vai depender de todos os 
institucionalistas para que não o alcance. 
Quero  aqui  parafrasear   unia  sentença  do  "Anti­Édipo"  –  texto  fundamental  para  o  que  denomino  de 
Institucionalismo  –  que   qualifica  o   Capitalismo  como  sendo"  a  mescla  bizarra  de  tudo  aquilo  no  qual  alguma  vez  se 
acreditou  com  aquilo  no  qual  nunca  se  acreditou  verdadeiramente".  Decididamente,  se  esse  modo  não  é  um  non  plus 
ultra, tampouco se reduz, como dizia Mão, a um "tigre de papel". 
Todas  as  forças  crítico­reformistas­revolucionárias  que  o  enfrentam  atualmente  estão  num  momento de trágico 
desânimo.  O  sistemático  "fracasso"  –  e  escrevo fracasso entre aspas porque, como expressei em outra parte, "não existe 
reparação  possível  para  esse  cataclismo,  a  não  ser  a  convicção  de uma vitória sem fim"; que é quase o contrário de uma 
vitória  futura  final,  complemento  adequado  de  uma  derrota  sempre  presente"  dos  experimentos  socialistas  às   vezes 
impressionam como uma extenuação do élan metamorfósico. 
Dissemos  anteriormente  que  o  Capitalismo  é a  formação histórica que conseguiu não apenas "superar" as  crises, 
senão   viver  nelas  e  delas.  É  exa  tamente  essa   capacidade  de   adaptação   plástica  e  ativa  que  faz  com  que  a  lógica,  a  
máquina  abstrata  geral  e as micro­máquinas concretas pseudo democráticas e cripto­fascistas do Capital sejam não tanto 
"ossos  duros  de  roer",  mas  uma  espécie  de  protoplasma  polimorfo  e  sobrevivente,  presuntivamente  perene. Para  poder 
pensá­lo – com a única finalidade de combatê­lo – são indispensáveis novas maneiras de pensar, sentir, atuar. 
O  estudo  dos  grandes  impérios  históricos  –  o  Chinês,  o  Egípcio,  o  Grego  de  Alexandre  Magno, o Romano, o de 
Carlos  V,   o  de  Napoleão,  o  do  "Socialismo  Real"  – mostra  que  sua  decadência  e  sua  queda  não  sobrevieram  do  seu" 
exterior",  mas"  cresceram  de  dentro".  O  problema,  porém,  é  que  o  Capitalismo  Planetário  Integralizante  não  tem  mais, 
rigorosamente  falando,  "exterior" e  "interior",  no  sentido  geopolítico  que essas palavras adquiriram nesses enunciados. 
Não é que as contradições "internas" e "externas", 
192 ▲
 
primárias,  secundárias  do  Capitalismo não  estejam vigentes  e atuantes, mas que, como também diziam Deleuze e Guattari,  
"ninguém  nunca  morreu  de  contradição".  Se  há  algo  que  ameaça  a  sobrevivência  do  Capitalismo,  é  a  potência  do  que  
Deleuze   e  Guattari  chamam"  Processo   Produtivo  Desejante",   Foucault  designa  como  "Forças  do  Fora",  Nietzsche 
denomina  "Vontade  de  Potência"  e  Bergson  como  "Realidade  Virtual",   fontes  da  invenção   do   radicalmente  novo, 
impensável  e  imprevisível.  O  Capitalismo é demasiado ágil,  hábil, elístico,  ubíquo e versátil, e também sabe – e pode  ir se 
adequando  às  suas   próprias  contradições,  declinação  assintótica   e  indefinida  que  se   apresenta  como  
"desenvolvimento",  "progresso"  e   "evolução".  Esse  apresentar­se  não  se  explica  apenas  pelos  efeitos  da  "ideologia", 
isto  é,  pela  "redação",  difusão  e  apropriação  de  sistemas  de  representações  "imaginárias"  que  "falsificam"  a  realidade, 
e/ou  se  oferecem   como  fantasmas  a  serem  animados  pelo  desejo  inconsciente  ou  pelos  interesses  
pré­conscientes­conscientes  dos  sujeitos­agentes,  engendrando   atitudes  e  ações  conseqüentes.  Não  obstante  a 
"ideologia"  siga  cumprindo  uma  importante  função  nos  circuitos  pré­modernos  e  ainda  nos  modelos  de  reprodução 
ampliada  do  Capitalismo,  está  ficando  evidente  o  que  se  passou  a  chamar  –  muito  discutivelmente  –  de  "cinismo"  da 
Pós­Modemidade  Capitilista.  Por  "cinismo"  se  entende  que  o  "espírito"  do  Capitalismo  Avançado  –  empregando 
literalmente  a  velha  expressão de  M. Weber – já não se empenha demasiado em desconhecer nem ocultar  os mecanismos 
e  efeitos  de  suas  modalidades  peculiares  de  exploração,  dominação  e  mistificação.  Sobretudo  esses  últimos,  os  da 
mistificação,  estão  sendo  essencialmente   reformulados.  Essa  não  é  uma"  descoberta  insólita",   tal   como  já  a   havia 
percebido  W   Reich  quando,  referindo­se  ao  nazismo,  afirmava  que  "o  povo  alemão  não  foi   enganado".  Sabia 
perfeitamente tudo aquilo que a proposta do Terceiro Reich implicava. 
As  cúpulas  proprietárias,  as  camarilhas  tecno­burocráticas,  as  vanguardas   programadoras,  deliberativas  e 
executivas  da  megamáquina  do  Capital  sabem,  com maior  ou  menor  lucidez,  que  são "peças"  de uma lógica – ao mesmo 
tempo  exuberante   e  letal  –  que  as  constitui   em  suas  funções  e  dela  se  vale.  O  extraordinário  é  que  a  assumem,  a 
encarnam, e até a desejam, sem iludir­se a respeito. 
Os  diversos  estratos  e  segmentos  da  subjetividade  e  da  sociabilidade,   em  proporções  e  clarezas  variáveis, 
também  o  sabem,  assumem e desejam, e  assim o Parque Humano  se divide entre os que possuem grandes probabilidades 
de  sobreviver,  os  que  têm  poucas  e  o  enorme  contingente  que  não  tem  nenhuma.  É notório, segundo o que se entende 
por  sobreviver,  que  cada  um  dos  modos  de  subjetividade  sente  que  contém  cada  uma  dessas  divisões  e  contraposições 
dentro de si, afetando aspectos mais ou menos sutis do que se entende por vida. 
Não obstante a Psicanálise  queira explicar esses  efeitos como expressão, por exemplo, da Pulsão de Morte ou do 
Masoquismo Primário, 
193 ▲
em  nível  de  estrutura  e  dinâmica  dos  sujeitos  edipianos  especificamente  considerados  como  objetos  universais  dessa  
disciplina, tal explicação tem validade apenas para uma forma triunfante e dominante de subjetividade. 
É  preciso  compreender  que  o  que  emerge enquanto  subjetividades  e  sócio­institucionalidades  não  são  efeitos 
específicos  e   pontuais   de  mecanismos  "educacionais",  "psíquicos",  "culturais",  "lingüísticos"  ou  "mediáticos",  mas 
afeções  –  como  dizia  Espinoza  –  operadas  em   conjunto  pelo  tipo  de  maquinismo  que  modula  prevalentemente  o 
atravessamento dos territórios da natureza, da sociedade, da subjetividade e das máquinéls dentro dessa megamáquina. 
Indivíduos,  agentes,  sujeitos,  sócius,  instituições,  desejos,  interesses,   práticas,  éticas  e  estéticas  são 
produzidos,  reproduzidos  e  antiproduzidos pela  modalidade  peculiar  da  imanência  que  se  dá  entre  esses  processos  do  
Capitalismo  Planetário   Integrado  contemporâneo.  Por  isso,  é  importante  entender,  por  exemplo,  o  Estado,  a   Igreja,  o 
Mercado,  a  Educação,  o  Trabalho,  o  Tempo  Livre  como  subjetivados  –   de  certo  modo  –  e  as  subjetividades  como 
"infundidas" por um Estado, Igreja e Mercado "íntimos contínuos" – como diria Foucault. 
Cabe  ao  Movimento  lnstituinte  –  levando­se  em  conta  sua  suposta  infinita  heterogeneidade   interna  e  sua 
irrestrita  abertura externa  –  inventar  os  recursos e  as práticas que possam empurrar o Capitalismo  Mundial Integralizante 
além  de   seus  próprios  limites,  tornando­o  permeável  à  irrupção  das  forças  do  "fora"  que   são  capazes,   realmente,  de 
transmutá­lo. 
Quando  lemos  o  panorama  mundial,  como  procurei  fazê­lo  nestas  linhas,  a  rigor  nos  sentimos  tentados,  não 
apenas  a  perguntarmo­nos  –  de  acordo  com  a  famosa  fórmula  –  "Que  Fazer"  para  transfomá­lo, senão antes interrogar: 
"Como  consegue  manter­se hegemônico e aparentemente próspero sem nem  sequer  esforçar­se  demasiado em dissimular 
sua fragilidade e sua contraprodução?" 
Apesar  de  que  a  perplexidade  dos  pensadores   críticos  e   gestores  da  troca  é  ostensiva,  devemos  tomar 
consciência de  que  aquela  dos  experts  e  condutores  do  Capitalismo  não  é menor. Ninguém é capaz  de fazer predições a 
médio  e  longo  prazos acerca do futuro de cada "parte" e desse "todo" infernalmente deletério. Justamente por isso é que 
nos resta apenas avaliar e lutar, incessantemente, em TODOS OS LUGARES E AGORA 
NOTAS 
1   –  A  definição  rigorosa  desses  conceitos  para  torná­los  acessíveis  ao  tipo  de  leitor  ao  qual  este  texto  se  destina 
requereria  um  volumoso   tratado  à  parte.  Para  aproximar­se  do  entendimento  de  alguns  deles,  pode   ser  consultado  o  
Glossário  deste   Compêndio.  De  qualquer  maneira,  devo  advertir  que  muitos  destes  termos  não  são  usados  aqui  no 
sentido estrito de sua bibliografia de origem. 
194 ▲
 

POST­SCRIPTUM 
Janeiro de 1998 

A  releitura  do  apêndice  anterior,   escrito  em  1995,  suscitou  em  mim  impressões  contraditórias.  Se  me  atrevo  a 
comentá­las  com os leitores, não é apenas – como  espero seja possível apreciar mais adiante – por motivos autocríticos  e 
justificantes,  contudo  que  esses também possam existir. Penso que, como sempre  acontece, os três  últimos  anos possam 
ter  trazido  elementos  para  melhor  avaliar  a  pertinência  do  que  se  poderia  qualificar,  com  benevolência,  de cem e do que 
tentei dizer. 
Essas  páginas   de  95  me  parecem  retorcidas,  desgarradas  e  mutiladas  entre  as  exigências  pedagógicas  e 
sintéticas  do  texto,  por  um   lado,  e  suas  pretensões  analíticas,   e  até  vaticinantes,  exorbitantemente  amplas,  por  outro;  
acredito  ter   sido  desde  o  início,  e  involuntariamente,  insuficiente,  assistemático,  às  vezes  pouco  claro  e,  em geral,  não 
suficientemente  fundamentado.  Tão  fortemente acredito nisso que decidi  catalogar este escrito numa simpática categoria 
inventada  por  um amigo, o filósofo brasileiro Peter Pal  Pelbart, segundo o qual o que estamos lendo não é um "ensaio", e 
sim um" globo de ensaios". Não obstante, quero conceder­me os benefícios de um certo paradoxal beneplácito. 
Durante  este  tempo,  à  grave  crise "civilizatória" mundial que muitos já identificavam foi­se agregando uma crise 
econômica  de   incalculáveis  proporções  que,  pelo   que  entendo,  somente  alguns  poucos  prenunciavam.  Não  sei  se  é 
excesso  de  petulância  incluir­me  entre  esses  últimos,  porém  não  pude  deixar  de  constatar  que  o  "pessimismo"  de  cada 
página do "Apêndice" que antecede a este post­scriptum insistia sobre esta predição. 
A crise atual está em desenvolvimento – como o fato precedente do 
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ataque  especulativo  à  lira  italiana  e  à  libra   inglesa  e  o  outro  que  afetou  o  México   –  e  engloba  diretamente  todos  os 
"Tigres   Asiáticos"  –  Malásia,  Tailândia,  lndonésia,   Singapura,  Hong  Kong,   Laos  e,  por  último,  Filipinas;  menos 
drasticamente,  Japão,  Coréia  do  Sul  e,  de   outra  forma,  China e  Taiwan;  e  numa dimensão  mais  ou  menos  ameaçadora, 
todos  os  "capitalismos  emergentes",  sendo  que  em  outra,  ainda  indefinida,  tanlbém  as  grandes  potências  capitalistas. 
Esta é uma realidade clamorosa. 
Obviamente,  não   cabe  aqui  uma  análise  excessivamente  detalhada.  Permito­me  fazer  somente   alguns 
comentários globais que podem reafirmar, eventualmente, uma ou outra tese já postulada neste livro. 
Em  primeiro  lugar,  chama  fortemente  a  atenção,  sem  ignorar  diferenças  nacionais, a cômica discrepância que os  
economistas  e  outros   especialistas   mostram  quando  tentam  explicar   esse  fenômeno  colossal  que  se iniciou  com  uma 
dimensão  regional.  Começamos  pela  admissão  do  FMI  de  que  "se  equivocou"  na  avaliação e condução desse assunto, 
tanto  que  está  chegando  ao  limite  de  sua disponibilidade financeira para" auxiliar" os falidos – isso significa socorrer os 
investidores  especulativos  para  que  não  percam  seu  dinheiro.  Vamos  continuar observando muitos experts atribuírem à 
"falta  de  dados"  –  porque  ocultados  ou  distorcidos  por  parte  das  economias  em  questão  –  a  surpresa e a perplexidade 
que  a   catástrofe  ocasionou.  E  mais:  porque,  entre  essesexperts,  alguns  atribuem  o flagelo  à  cumulação  de  empréstimos 
enviados  aos  países  em  crise,  outros  às  suas  falências  bancárias  ou  à  desenfreada  especulação  imobiliária que ocorreu 
no  seu  território,  ou  ainda à sobrevalorização de sua moeda, e assim sucessivamente... Ou a "todas" essas causas juntas 
e a muitas outras. Essas explicações, a meu ver, podem reduzir­se a três tipos: 
  –  Ou  esse  é  um  erro regional de modelo, cálculo, planejamento que implica dos povos até os governos  – desde 
logo, com uma distribuição muito desigual de responsabilidades. 
  –   Ou  essa  é  uma  fraude  de  magnitude   hemisférica  e  configuração  escalonada  que   vai  desde  os 
produtores­consumidores,  passando  por  todos   os  segmentos  sociais,  econômicos  e  políticos,   até  chegar  aos 
organismos internacionais – desde logo, com uma distribuição muito desigual de responsabilidades. 
  –   Ou  se  trata  de   um  efeito  processual,  substancial,  essencial  e  inerente  ao  Capitalismo  Planetário  em  via  de 
lntegração. 
Com  respeito  à  primeira  hipótese,  no  caso  dela  ser correta, o  mínimo que se  pode considerar é que  o destino  do  
mundo  está  em  mãos  de  presunçosos  incompetentes.  Isso  não  implica  "falha  humana",  senão  principalmente  um  erro  
radical  sobre   os  meios  de  pensar  a  realidade.  A  idoneidade  da  "Ciência  Econômica"  e  da   "Economia  Política"  oficial 
capitalista  não  só  é,  em  muito,  inferior  à  da  Meteorologia,  mas  nem  sequer tem  a humildade de reconhecer o estatuto de 
interfase do sistema caótico  ordenado própria de seu "objeto". 
196 ▲
 
O  erudito  "Científico­Presidente"  do  Brasil,   FH.  Cardoso,  foi  feliz   e  sincero  quando,  solicitado  a  opinar  acerca  das 
conseqüências da crise para a economia do Brasil, respondeu: "Só Deus sabe." 
Pelo  que  se  refere  à  segunda  hipótese,  se  acertada,  temos  que  assumir  que o destino da humanidade este) nas 
mãos de delinqüentes. Fica aberto  o tema da  qualidade e gradualidade de imputabilidade de  cada um dos envolvidos e do 
acordo sobre o critério de legalidade segundo o qual devem ser julgados (veja­se mais adiante). 
Se  a  terceira  hipótese  está  correta  –  e isso  tenho  afirmado  constantemente  nesse  modesto  e  elementar  livro­, 
resulta  evidente  que  as  duas  primeiras  podem  ser  perfeitamente  incluídas  na  última,  porém,  assim  como  as três não são  
excludentes,  tampouco  são  exaustivas.   E   também,  mas  não  somente,   por  estúpidos  e  ladrões  que  os  agentes­sujeitos 
individuais  e   coletivos  do  Capitalismo  assumem  os  lugares,  as  funçôes  e  as  práticas  segundo  os  quais  a  lógica  da 
Máquina Abstrata do Capital os produz e aciona. 
Está  comprovado  –  e  isso  é  o  que  tenho  procurado,  simplesmente,  lembrar  aos  leitores,  uma   vez  que  não 
precisa  ser  demonstrado  porque  já   o  foi   durante   um  século  –  que  a  sábia  ignorância  dos  experts,  tanto  quanto  a 
desonestidade  dos  agentes  e  das  entidades,  não  esgotam  o  repertório  de   riscos  que  caracterizam  as  subjetividades 
capitalistas.  O  que  mais  nos  deixa  pasmos  e  surpresos  no  espectro  das  mesmas  é  o  cinismo,  ao  qual  já  nos  referimos 
reiteradamente;  é  preciso  apenas  definir,  pelo  menos  parcialmente,  em  que  consiste  este  risco.  Não  se  trata,  é  claro,  de 
desconhecimento,  nem  somente  de  uma tendência delituosa de transgredir ou ignorar a Lei – qualquer que seja a Lei da  
qual  estamos  falando,  especialmente  se  nos  referimos a  uma abstração ou hipóstase que se costuma denominar "A Lei",  
com  a  qual  os  psicanalistas  e  outros  teóricos  enchem  a  boca.  Em  um  certo  sentido,  trata­se de cumprir ao  pé da letra as 
leis  vigentes,  ou  de  aproveitar   os  limites   de  seu  império   e  de   suas  falhas  intersticiais  para  pô­la  à  serviço  –  às  vezes  
condicional,  às  vezes   incondicional  –  da  Axiomática  do  Capital,  da  qual  a  ordem  jurídica  imperante  é  uma  engrenagem  
perfeitamente  coerente  (vide  a  plena  vigência  do  Direito  Positivo).  A  lógica  dessa  axiomática  está,  em  última  instância,  
absolutamente  em  sintonia  com   a  racionalidade  ética  e   proposicional  das  leis  nacionais  e  internacionais   –  as 
propriamente  jurídicas  ou  as  "internas"  aos  enunciados  específicos  disciplinares,  científicos  ou  não.  Excepcional  e/ou 
aparentemente,  as  leis  se  contrapôem  a  essa   Lógica,  ou  como  leis  maiores  formais,  "Direitos  Humanos"  que 
concretamente  podem  ou  não  podem  ser  cumpridos  dentro  do  que  se  chama  hipocritamente"  condições  constitutivas, 
direitos  fundamentais  ou  reais"  da  formação  da  soberania em questão, ou como leis menores – decretos, especificações, 
regulamentações, normas... 
Os  célebres  conceitos  e  a  análise  foucaultianos  acerca  do  atravessamento  entre  os  enunciados  –  as 
dizibilidades – e aquilo que o autor 
197 ▲

chama  visibilidades –  os  dispositivos  do  poder,  imanentes ao jogo de forças de uma formação  histórica (por um  lado),  e 
o   diagrama,  complexo   de  forças   informais  (por  outro)  –  dão  conta  admiravelmente  de  alsrumas  das  maneiras  com  as 
quais as funções de reprodução e antiprodução se realizam em cada sistema. 
Entre vários requisitos, essas montagens dão  conta de conferir uma certa inteligibilidade e um certo "moralismo" 
à  Ordem  Capitalista  Constituída,  visando  produzir  as  condições  mínimas  nas  quais   essa  última  possa  subsistir   –  e 
encontrando  viabilidade,  crescer  –,  garantindo  sua  reprodução  simples  e  ampliada  tanto  em  seus  aspectos econômicos 
como  em  todos  os  outros  que  já  mencionamos.  Que  o  lado  "progressista"  dessas  leis  – tanto as  "maiores", puramente 
nominais,  como  as "menores",  que  resultam operantes somente para  matizar, mitigar ou amenizar os  efeitos fundantes da 
Lógica  do  Capital –  expresse,  em  sua  maioria,  o  resultado  de  heróicas  e  cruentas  lutas  da  humanidade,  e  como tais são 
admiráveis,  não  deve   enganar  ninguém.  Principalmente  não  deve  tranqüilizar  ninguém  acerca  da  perfeição  do  modo 
econômico  e  de  seus rebrjmes – jurídico­político subjetivo  e outros. Em sua essência, não são nada mais que estratégias, 
especialmente aquelas  que  se  consideram  concessões  –  geralmente  tão  inevitáveis  quanto  mínimas,  bem  distantes dos 
"ideais",  sempre  considerados   irrealizáveis.  Essas  concessões  são  invariavelmente  tardias  e  de  aplicação  sujeita  ao 
horizonte  do  "possível",  supostamente  apoiado por uma "realidade" que o panorama da Axiomática do Capital delimita e 
modula.  Ao  menos  numa  vertente  dominante  de  sua essência, estão  destinadas a desorganizar, desmobilizar,  fragmentar  
e  recapturar  as  forças  críticas  e  metamórficas,  ou  ainda,  o  que  é  mais  astuto, a  implicá­las  em  dispositivos  nos  quais  a 
modalidade  organizativa  e  os  objetos  a   serem   conquistados  resultam  relativamente  irrelevantes  e/ou  absorvíveis  pelo  
Capital. 
Um  exemplo  ilustrativo  a  esse  respeito  são  as  contendas  entre  os  partidários neoliberais do "Livre Mercado" e  
os   defensores  da  "Regulação   Estatal".   Os  primeiros  fazem   uma  apologia  do  individualismo,  da  imprensa  livre  e  da 
competição  liberal  e  neoliberal,  aos  quais  atribuem  todos  os  méritos  da  Modernidade  –  que,  obviamente,  sempre  foi 
consubstancial  ao  Capitalismo,  pois  não  se  conhece  outra­,  sem considerar os seus defeitos. Os segundos prescrevem"  
uma  quantidade  maior"  da  mesma  Lógica  do  Estado,  que começou  muito  antes  daquela  do  Capital,  possibilitou  o  seu 
começo e ainda lhe é imprescindível. 
Outro  caso  ilustrativo  é  a  luta  da  economia  de  mercado  e  democracias  representativas  contra  as  "massas 
ausentes",  os  neo­arcaísmos  e  o  terrorismo.  O  mérito  relativo  do  pensamento  de alguns autores, como Jean Baudrillard, 
está  na  virtude  de   chamar  a   atenção  –  apesar  de  que  unilateral  e  exagerada   –  sobre  a  estratégia  de  resistência 
não­consumista e eleitoral (indiferença dos votantes) como "neutralização, omissa e passiva" 
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  das  massas,  complementada  pela  irracionalidade  monstruosa,   "absurda"   e  intempestiva  dos  fundamentalismos  e  do 
terrorismo.  Essas  estratégias,  apesar  de  apresentarem  uma  triste  originalidade,  não  deixam  de  ser  uma  resposta  cega às 
manobras  orquestradas  pela  Máquina  Abstrata  do  Capital,  habilmente engenhada para propor e propiciar contendas, de 
maneira  que  os  explorados,  dominados  e  mistificados"  comprem  a  briga",  como  se  diz  pitorescamente  falando,  isto  é," 
entrem numa provocação desviante". 
Perante  essa  constelação,   não  é  pleonástico  repetir  que  o  processo  do  Capital  não  constitui  uma  unidade  
monolítica,  e  muito  menos  estática.  Não  somente  ao  nível  das  contradições  antagônicas  e  agônicas  do  que  Deleuze  e 
Guattari  chamam de  "Superfície de Registro e Controle"   composta por territórios, segmentos, instituições, organizações, 
agentes  dotados  de  uma  identidade  mais  ou  menos  precisa   e  circunscrita.  Veja­se,  senão,  a  ferocidade   das 
contraposições  recentes e  suas conseqÜências entre o Capital Financeiro  "apátrida" volátil,  o Industrial e o Latifundiário 
–   tanto  nos   domínios  "globais"  como  nos  regionais,  nacionais,  locais.  Mas  "ninguém  morreu   de  contradições".  A  
imanência  entre  as  potências  e  processos  de  desterritolialização  e   reterritorialização  capitalistas  movimenta­se  sem 
cessar,  com  uma  velocidade  que  passa  de  geométrica para exponencial. Assim, apenas descritivamente, o mundo atual é 
um  poliverso  vertiginoso,  proteiforme,  heterogêneo,  heteromorfo,  heteróclito  e  bizarro  de  colisões,  que  vão  desde  o 
preciso até o indecidível, mas que têm aprendido a viver em crise e da crise. 
É  claro  que  espero  e  desejo  fervorosamen  te  ser  explícito  dizendo  isso,  sem  a  menor  intenção  de  desvalorizar 
nenhuma  forma  de  luta  tradicional  ou  nova  que  as  forças  da  Vida  vão  inventando,  como  infinitos  agenciamentos  e 
acontecimentos  no  seu  combate  contra  as   equações  variáveis  de  reprodução  e   antiprodução  do  Capital.  "Todas"  as 
Máquinas  de   Guerra  e  as  Linhas   de  Fuga  simultaneamente  econômicas,   políticas,  jurídicas,  filosóficas,  científicas, 
artísticas,  idiossincrásicas  –   na  medida  em  que  são  individuações,   expressões  de  singularidades  intensivas  –,  e  mais 
enfaticamente,  suas   transversalidades,  conexões disjuntivas inclusas, sinérgicas  e potencializantes, seu 
entusiasmo  e  sua  alegria – como dizia Espinoza – foram, são e serão "o sal da terra". As preocupações dos 
militantes  acerca  do  grau   de  capacidade   de  recuperação  que  o  Capital  exerce  sobre  as  mesmas  geralmente  não  são 
mais  do  que  hesitações  compreensíveis,  porém  acidentais,  devido  tanto  às  resistências  que  minam  o  processo  de  suas 
façanhas  quanto  à  dureza  de   suas  vicissitudes.  Diante  de  tudo  isso,  o  pouco  que  proponho  enfatizar  aqui  pode  se 
resumir, creio eu, da seguinte maneira: 
Os  militantes  e  pensadores  instituintes  contemporâneos  passam  por  divergências  e  discussões  dilemáticas  – 
que  freqüentem ente os dissociam nas suas campanhas – acerca de  se a luta deve dar­se a partir de dentro ou de fora  das 
organizações  do  Estado,  do  Capital  ou  da  chamada  Sociedade  Civil  (a  esse  respeito,  vejam­se  os  memoráveis capítulos 
da "Revolução 
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Molecular"  de  F.  Guattari,  os  de  "O  Estado e o Inconsciente" de René Loureau e  até alguns capítulos  deste livro). Outro 
desses  dilemas  é  o  já  célebre  que  se  trava  entre  os  "reformistas"  e  os  poucos  "revolucionários"  que  ainda  sobraram – 
seja  como  for  que  se  defina  revolução.  No  espectro que  vai do pólo  dos" apocalípticos", por um lado,  aos "integrados" 
–   bem  intencionados  –  por  outro,  existem  inumeráveis  posições  intermediárias  que  dão  espaço a  quantas  vontades  de  
transformação  seja  possível  imaginar  assim  como  às  melhores  delas,  que  são  as  que  escapam  a  toda imaginação. Cabe, 
porém,  reforçar  que  a  reivindicação  idiossincrásica  nunca  acaba  de  propagar­se  como  uma  onda extensiva, entre outras  
razões  porque  insiste   em  enfatizar­se  como  intensiva,  confundindo  singularidade  com  isolamento,   linha   de  fuga  com 
evasão,  ubiqüidade  com  fragmentação  dispersiva.  Em   conseqüência   disso,   tanto   os  movimentos  chamados 
"Alternativos"  quanto  a Esquerda tradicional parecem perder de vista os  macro­indicadores inequívocos da deterioração 
do "todo" capitalista, que consegue manter­se porque a única classe verdadeiramente universal é a burguesia. 
Contudo,  se  me  permitem   uma  digressão,  antes  de  concluir  com  uma nova  tentativa  de  síntese,  acrescentarei 
quanto  segue.  Rememoro  que  em  minha  juventude, quando estudava a crítica marxista da Economia Política, tinha sérias 
dificuldades   para  entender  tanto  o  conceito  da  tendência  à  diminuição   da  taxa  de  extração  da  mais­valia  quanto   a 
contestação que  os  economistas  positivistas  faziam  a  essa  teoria.  O argumento principal, se me  lembro bem, baseava­se 
na  tese  de  que  tal  indicador  era in1possível de ser medido empiricamente; e por ser uma hipótese de "alto nível",  inviável 
quanto à operacionalização, verificação e falseamento; por isso carecia de sentido epistemológico. 
Em  função  do  que  foi exposto  acerca  da  crise  presente, reiterarei  que  no  momento  a  mesma tem respeitado, de 
forma  aceitável,  somente  a   nação  que  continua  sendo  o  assento  das  maiores  sedes  centrais  do  Capital  mundial,  assim  
como  de  seu  principal  aparato  bélico­repressivo:  os  EUA.   O  crescimento  de  quase  4%  de  sua   economia  em  97  e  o 
decréscimo  de  seus  índices  de  desemprego,  déficit  interno  e  externo,  apesar  de que isso não o exonere inteiramente das 
conseqüências  imediatas  da  crise,  não  faz  senão  demonstrar  o  uso extorsivo que sabe fazer de sua hegemonia política –  
em  grotesco  contraste  com  suas  declarações  neoliberais  de   "livre­mercado"  e  de  democracia.  Também  Alemanha, 
Canadá,  França   e  Reino  Unido,  Itália  e  Espanha  mantêm­se  relativamente  estáveis,  mesmo  que  todos  os  países 
enumerados  apresentem  altíssimos  índices de desemprego – com mais ou menos proteção estatal­, discretos indicndores 
de crescimento econômico e variados sinais de decomposição social e subjetiva. 
Lembrarei  também  que  alguns  adora   dores  do  neoliberalismo,  bastante  afetados  por  essa  debacle   setorial 
insuspeita, empenham­se em reivindicar que, apesar de tudo, o modo capitalista e seu Sistema 
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Democrático  Nominal conseguiram, desde a Segunda Guerra  Mundial  até hoje, o milagre  inédito de reduzir em quase 50% 
a  pobreza  asiática.  Essa  afirmação  adquire  relevância  pelo  contraste  com  a  decadência  dos   países  do  ex­bloco  do 
Socialismo  real,   o  qual,  como   é  notório,  está  em  pleno  declínio.  De  outro  lado,  sustentam  que  apesar  da  instabilidade 
persistente,  a intervenção dos países prósperos e dos organismos internacionais já está dando conta de controlar a onda 
de falências,moratórias e outros flagelos. As excelsas democracias capitalistas "se ajudam". 
Diante  dessas  afirmações,  torna­se  importante  esclarecer  que,  em  primeiro  lugar,  Alemanha,   Japão  e  Itália 
começaram  seu  crescimento  a  partir  da  inversão  massiva  do  Capital  "aliado"  –  novas  versões  do  Plano  Marshall  e  da 
'Aliança  para  o Progresso"  –  e  nas  condições  políticas  severamen  te  repressivas  das  nações  derrotadas e "ocupadas". 
Em  segundo  lugar,é  apropriado  pontuar  que  boa  parte  do  desenvolvimento  dos  "Tigres  Asiáticos"  processou­se  sob 
governos  ditatoriais  e  autoritários,  como  Coréia  e  Vietnã,  e  teve  uma  base  de lançamento nada depreciável, pelo fato de 
serem  aliados  dos  países  centrais  nas  guerras  anticomunistas.  Por  último:  como não requerer  (apenas porque não sei  se 
isso  já  foi  feito)  um  levantamento  cuidadoso   e  verídico  dos  coeficientes  de  concentração  de  riquezas  que  têm  sido 
realizados  e  perpetrados  nesses  países,  mesnlO  que  uma parte dessa riqueza tenha sido destinada "humanitariamente" à 
geração  de  força  de  trabalho  cnpacitada  e  eficiente e de condições de governabilidade? Que papel cumpre, nas  falências 
atuais,   a  fuga  desse  Capital  acumulado,  destinado  a  inversões  especulativas  em  outros  mercados mais  lucrativos  e/ou 
estáveis? 
Alguns  famosos  economistas  acabam  de  declarar,  por  exemplo,  que  não  precisamos  nos preocupar  demasiado 
com  as falências generalizadas. Afinal, "é bom que as coisas se precipitem, porque assim a  economia mundial se  corrige e 
ajusta".  Outros  têm  manifestado  que,  ao   final,  a  parte  do  Produto   Bruto  Mundial  correspondente  aos  países 
estremecidos  pelo  "sismo"  alcança  somente  6  ou  7%  do  total  mundial.  Ironizam,  assim,  os  mecanismos  de  "contágio" 
sofrido por aqueles que atribuem maior importância às falências e desencadeiam" corridas" na Bolsa... 
Ora:  que  Economia   Mundial  é  essa  que  entra  em  pânico  por  um  "acidente"  que  afeta  apenas   7%  de  sua  
produtividade  anual?  O  verdadeiro  pavor  não  consistirá  de  fato  em que uma das suas  derivações pode ser  a estrepitosa 
baixa  de  preços  dos  produtos  asiáticos  (dumping)  e   o  perigo  iminente  de  benefício  dos  consumidores  e  prejuízo  dos 
inversores?  A  quais  maldades  políticas  terá  que  se  apelar  para  evitar  essa presuntiva "injusta" festa  dos compradores?  
Com  certeza  não  será  "democrática"  nem  "livre­  empresista".  A  iminência   da  segunda  Guerra  do  Golfo  e   da  terceira 
Mundial não é apenas hipótese de ficção científica. 
Em síntese: os mais lúcidos afirmam que a presente crise é, como se 
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diz  eufemisticamente,  "estrutural",  e   se  funda,  "em  última  instância",  no  predomínio  nebuloso  do  Capital  Financeiro 
mundial   –  completamente  independente  de  sua  base  material  –  e  sua  desregulação  total,  que  em  vão  se  reclama  limitar 
jurídica e institucionalmente. 
Como  explicar  esse  império  inquestionável  a  não  ser  pelas  peculiaridades  da  globalização,  que  não   é  outra 
coisa  mais  que  o   pleno  reinado  universal  –   ostensivo,  estridente,  descarado  –  da  Máquina  Abstrata  do  Capital  e  sua 
Axiomática Suprema? 
O  que  manda  é  o  Equivalente Geral, suas  formas monetárias e informáhcas, subordinando à sua força quase 
tudo que existe como realizado no horizonte do existente. 
Pelo  fato  que  já  mencionamos  antes  dessa   interessante  questão  da  correlação  inequívoca  entre  ética, 
"liberdade"  mercadológica  e  "liberdades"  políticas  e  humanas,  não é apaixonante que a Suíça – país que  deve uma parte 
indefinida  de  sua  prosperidade  aos  depósitos  bancários  de  boa  parte  dos  capitais  "espúrios"  do  mundo:  evasão  
tributária,  ditatoriais,  narcotraficantes,  mafiosos  e  delinquenciais  em  geral  –   tenha  um  sistema  político  dotado  de 
Assembléias  Populares  Comunitárias  Cantonais?!  A   "plena"  democracia  suíça  "perpetrou"  um  plebiscito,  segundo  o  
qual  votou  se  a   favor  de  continuar  mantendo  o  segredo  sobre  suas  contas  bancárias.  A  hegemonia  da  Axiomática  do 
Capital consegue, às vezes, incorporar tanto os Círculos de Qualidade japoneses como a Autogestão! 
Segundo  me  parece,  existem  algumas  outras  perguntas­chave que precisamos nos  fazer  nessas circunstâncias, 
sem  descartá­las por serem ingênuas e menos  procedentes. São as seguintes: por  que tomar como  referência comparativa 
e  justificante  das  excelências  liberais  o  Socialismo real – cujas diferenças com um Capitalismo de Estado é um tema  ainda 
digno  de  muita  polêmica?  Por  que  confiar   na  "natural"   afinidade  entre  Capitalismo  e  Democracia  Nominal,  sendo  que 
vários  dos  mencionados  "desenvolvimentos"  capitalistas  realiza  ram­se  duran  te  regimes  cripto  ou  ostensivamente 
despóticos – veja­se em outro  contexto geopolítico a  trajetória do Chile e do Peru. Quanto custará  ao povo desses países 
"novos  ricos"  quebrados  a  hipoteca  dos  anos  vindouros,  que  é  o  preço  de  sua  futura  "recuperação"?  Se  os  experts  e 
seus  organismos  têm  sido  incapazes  de  conhecer  as  cifras  necessárias  ou  de elaborar  os  modelos  e  as  simulações  que 
lhes  perm.itiriam  predizer  essa  "quebradeira",  por  que  devemos  acreditar  que  são  ou  serão aptos a  quantificar, de forma 
convincente,  tanto  as  vantagens  do  caminho capitalista  "eleito"  quanto  o  montante exigido para sua recuperação? Pelo 
visto, não é somente a tendência para a queda da taxa de extração da mais­valia o que não se pode mensurar!!! 
Como  já  advertiram  Deleuze  e  Guattari,  tanto  as  empresas  nacionais  e  transnacionais  quanto  os  organismos 
estatais  e  supra­estatais  operacionalizaram  seus  "modelos"  predominantemente  com  base   em  movimentos  táticos  de 
"invenções" e "sangrias". Movimentos esses 
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  invariavelmente  improvisados  e  incidentais,  cuja  previsibilidade  e  precisão  brilham  pela  ausência  e  são  decididamente 
contrárias à imagem de onipotência e sapiência das quais essas entidades fazem propaganda. 
Como  último  argumento,  existe o hábito de invocar o sereno  bem estar da Suécia, Noruega, Holanda, Dinamarca, 
Finlândia  e  alguns  ou  tros  países  com  fabulosos  índices  de  saúde  e  educação,  sem  considerar com profundidade que a 
tal  prosperidade  é  fruto  da  participação  dessas  nações   na  espoliação  colonial   e  neocolonial  e  da  inexistência  de 
bloqueios  sobre suas economias. Que  Cuba, com o embargo que dura  mais de três décadas e oprimida por uma "Ditadura 
do  Proletariado",  obteve índices  parecidos, ajuda a  demonstrar que, por bem ou por mal, não  tem muita diferença entre as 
variedades   de  Capitalismo  e  de  Socialismo  real.  O  ceme  do  problema  –  por  mais   pobres  e  óbvias  em  que   essas 
observações resultem – reside no seguinte: 
  –   Não  se  deve   confundir  a  lógica   dos  processos  que  Deleuze   e  Guattari  chamam"  Produtivos,  Desejantes, 
Revolucionários"   –  que  são  o  "motor"  da   Produção  ou  a  Produção   em  si  –  com  aquela  dos  reprodu  ti  vos  e 
antiprodutivos.  Não  se  pode  dizer  que  os  dois  segundos  sejam  absolutamente  contraproducentes  e  elimináveis,  mas 
devem estar, porém, rigorosamente subordinados ao primeiro. 
  –   Não  se  deve   confundir  a  morfologia   e  a  dinâmica  das  instituições,   organizações,  estabelecimentos, 
equipamentos,  semióticas,   sujeitos,   agentes   e  práticas,  isto  é,  os  componentes  territorializados,  estratificados, 
hierarquizados,  e  assim  por  diante,  que  constituem  os  domínios  do  real,  do  possível  e  do  impossível,  com  o  âmbito  do 
virtual atualizável. 
  –  Não se deve  confundir a democracia indireta e representativa liberal,  neoliberal, social­democrata  ou  socialista 
"soft",  ou  ainda  a  "popular",  nem  o  saber  e  o  poder de seus políticos profissionais e tecno burocratas, nem  tampouco a 
"participação"  na  democracia  direta,  com  a  auto­análise  e  a auto­gestão, quaisquer que sejam as modalidades históricas 
que os dois termos dessa diferenciação adotem. 
  –  Não  se deve  confundir –  mesmo levando­se em conta as singulari dades históricas das  citadas modalidades – 
a  separação  entre  meios  e  fins  que é  própria  da ética dos modos e sistemas capitalistas com a  imanência entre 
meios e fins que é consubstancial à ética das Utopias Ativas do Movimento Instituinte. 
  –   Não  se  pode  esquecer  jamais,  quaisquer  que  sejam   as  limitações,  mimetizações   e  vacilações  estratégicas, 
logísticas,  táticas   ou   técnicas  históricas  de   cada  iniciativa  produtiva­desejante­revolucionária,  que nunca  o  "espírito" 
das  mesmas  esteve  melhor  resumido  que  na  deslumbrante  fórmula  – "  A  cada  um  segundo  suas capacidades e a todos 
segundo suas necessidades" . 
Folgo  em  dizer  que  o  incremento  das  forças  produtivas  de  todos  os  tipos  –  incluídas  as  forças  teóricas  e 
expressivas – mostra que este enunciado 
203▲
pode  e  poderá  ser   formulado  de  infinitas   novas  maneiras,  e  que  isso  exige  aplicar  às  definições de  capacidades  e  de 
necessidades uma coerência com os valores supremos aqui repetidamente postulados. 
Para terminar, uma variação que me ocorre para a palavra­de­ordem da citada consigna libertá ria é a seguinte: 
''A  cada  qual  segundo   suas  capacidades  de  lograr  que  –  a  todos  segundo  suas  necessidades  –  seja  uma 
necessidade para todos e um desafio para cada um." 
204 ▲

BIBLIOGRAFIA BÁSICA 
Organizada em progressão crescente de possíveis dificuldades de leitura: 
"Apresentação do Movimento Institucionalista", G. Baremblitt, in: 
"Saude loucura" nOl, coord. A. Lancetti. Ed. Hucitec, São Paulo, 1989. 
"O Inconsciente Institucional", coord. G. Baremblitt, apresentação e introdução. Ed. Vozes, Petrópolis, 1984. 
''Análise Institucional: Teoria e Prática", vários autores, in: Revista Vozes n° 4. Ed. Vozes, Petrópolis, 1973. 
''Análise Institucional no Brasil", V R. Kankhagi e O. Saidon (org.). Ed. Espaço e Tempo, Rio de Janeiro, 1987. 
''Alguns  elementos  teoricos  para  pensar  Ia  cuestion  de  Ias  derechos  humanos  y  Ia  violencia institucional",  in:  "Saber, 
Poder, Quehacer y Deseo", G. Baremblitt. Ed. Nueva Vision, Buenos Aires, 1988. 
"[Analyse Institu tionnelle", M. Autlúer e R. Hess. Ed. Presses Universitaires de France, Paris, 1981. 
"Grupos, Organizações e Instituições", G. Lapassade. Ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1977. 
"EI  Sociopsicoanalisis Institucional",  G. Mendel, in: "La  Intervencion Institucional", J. Ardoino (org). Ed. Falias, México,  
1979. 
205▲
"Sociopsicoanalisis lnstitucional", tomos 1 e 2, G. Mendel. Ed. Amorrortu, BuenosAires, 1973. 
'A Análise lnstitucional", R. Lourau. Ed Vozes, Petrópolis, 1975. 
"EI Analisis lnstitucional". G. Lapassade, R. Lourau et aI. Ed. Campo Abierto, Madri, 1977. 
"EI Analizador y el Analista", C. Lapassade. Ed. Cedisa, Barcelona, 1971. 
'Analisis Institucional y Socioanalisis", R. Lourau et ill. Ed Nuevillmagen, México, 1973. 
"LAnalyses InstitucionnelJe en Crise?", J. Cuigon (coord.), in: Rev. Pour, n° 62­63, Paris, 1978. 
'Autogestão: Uma Mudança Radical", A. Cuillerm e Y. Bourdet. Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 1976. 
"Participacion y Autogestion", L. Tomasetta. Ed. Amorrortu, Buenos Aires, 1975. 
"Psicoanalisis y TransversaJidad", F Cuattari. Ed. Sigla XXI, Buenos Aires, 1976. 
'A Revolução Molecular", F Cuattilri. Ed. Brasiliense, São Paulo, 1981. 
"O Inconsciente Maquínico", F Cuattari. Ed. Papirus, Campinas, 1988. 
"Micropolítica – Cartografias do Desejo", F Cuattari e S. Rolnik. Ed. Vozes, Petrópolis, 1986. 
'As Três Ecologias", F Cua ttari. Ed. Papirus, Campinas, 1988. 
"O Anti­Édipo", G. Deleuze e F Cuattari. Ed.lmago, Rio de Janeiro, 1976. 
"Mil Platôs", G. Deleuze e F Cuattari. Ed. Pre­Textos, Valência, 1988. 
206 ▲

BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA 
A  bibliografia  de  consulta é  vastíssima  e  pode  ser  classificada  de acordo com a maior ou menor proximidade que tenha 
com  a   linha  teórico­prática  adotada  neste  livro.  Os  textos  aqui  classificados  são  apenas  os  mais  próximos,  e  não 
pretendem,  em  absoluto,  esgotar  a  lista  dos  possíveis. Por motivo de focalização,  excluímos da literatura  concernente à 
antipsiquiatria, à psicologia organizacional e à psicologia grupal. 
Obras de Georges Lapassade: 
"Chaves da Sociologia", em colaboração com R. Lourau. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1972. 
"La  Entrada  en  Ia  Vida".  Ed.  Fundamentos, Madri,  1973.  'Au  togestion  Pedagógica".  Ed.  Cranica, Barcelona,  1977.  "La 
Bio­Energia". Ed. Cedisa, Barcelona, 1978. 
"Socioanalisis y Potencial Hun'1ano". Ed. Cedisa, Barcelona, 19~O. 
Obras de Gérard Mendel: 
"La  Rebelion  contra  el  Padre".  Ed.  Península,  Barcelona,  1975,  2ª  ed.  "La  Crisis  e  Ias   Ceneraciones".  Ed.  Península, 
Barcelona, 1972. "La Descolonizacion dei Niíi.o". Ed. Ariel, Barcelona, 1974. 
"EI Manifesto de Ia Educación". Ed. Siglo XXI, Madri, 1975. 'Anthropologie Diffierentielle", Ed. Payot, Paris, 1972. 
"l.:Angoise Atomique et les Centrales Nucléaires". Ed. Payot,1975. "Pour une autre Societé". Ed. Payot, Paris, 1975. 
"La Classe lnstitu tionnelle". Ed. Payot, Paris, 1977. 
"Quand  plus  rien  ne  va  de  soi".  Ed.  R.  Lafont,  Paris,  1981.  "Enquete  par  un  Psychanalyste  sur  Lui­Même".  Ed.  Stock, 
Paris, 1981. 
207  "54  Millions d'Inclivid us sans Appartenance"  . Ed.  R. Lafon t, Paris,  1983. "La Crise est Poli tique, Ia Poli tique est en 
Crise". Ed Payot, Paris, 1985. "On est Toujours l'Enfant de son Siecle". Ed. R. Lafont, Paris, 1986. 
Obras de Gilles Deleuze: 
"Para  Ler  Kant".  Ed.  Francisco   Alves,  Rio  de  Janeiro,  1976.  "Empirismo  y  Subjetividad".  Ed.  Granica,  Barcelona,  1977. 
"Diferença  e  Repetição".  Ed.  Graal,  Rio  de  Janeiro,  1988. 'Apresentação de Sacher Masoch". Livraria Taurus Editora, Rio 
de Janeiro, 1983. 
"Proust e os Signos". Ed. Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1987. "Nietzsche". Edições 70, Lisboa/1981. 
"Nietzsche y Ia Filosofia". Ed. Anagrama, Barcelona, 1971. "Lót,rica do Sentido". Ed. Perspectiva, São Paulo, 1974. 
"Kafka/ por uma Literatura Menor", em colaboração com F. Guattari. Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1977. 
"Diálogos", em colaboração com C. Parnet. Ed. Pre­Textos, Valência,19bO. 
"EI Bergsonismo". Ed. Catedra, Madri, 1987. 
"Spinoza: Filosofia PréÍctica". Ed. Tusquets, Barcelona, 1984. 
"La Imagen­Movim.iento", Estuclios 1 y 2. Ed. Pa.idos, Barcelona, 1984. "Foucault". Ed. Paidos, BuenosAires, 1987. 
"Pericles y Verdi". Ed. Pre­Textos, Valência, 1989. 
"EI Pliegue". Ed. Paidos, Buenos Aires, 1989. 
"Espinosa e os Signos". Ed. Res, Porto, 1975. 
"Spinoza  y  el  Problema  de  Ia  Expresión".  Ed.  Muchik, Barcelona, 1975. "Politique et Psychanalyse", com F. Gua ttari. Ed. 
Des Mots Perdus, Alençon,1977. 
"Los Equipamentos de Poder", F Fourquet e L. Murad. Ed. G. Gill, Barcelona, 1976. 
"Deleuze e a Filosofia", R. Machado. Ed. Graal, Rio de Janeiro, 1990. 
Obras de René Lourau: 
"LInstituant Centre I..:Institué". Ed. Antrophos, Paris, 1969. "I..:Illusion Pédagogique". Ed. I..:epi, Paris, 1969. 
'Analyse Institutionnelle ei Pédagogie". Ed. I..:epi, Paris, 1971. "Les Analyseurs de l'Église". Ed. Antrophos, Paris, 1972. 
"Le Analyseur'Lip"'. Ed. UGE 10/18, 1974. 
"Sociologue a Plein Temps". Ed. I..:épi, Paris, 1976. 
"Le  Gai  Savoir  des  Sociologues".  Ed.  UGE   10/18,1977.  "EI  Estado  y  ei   Inconciente".  Ed.  Kairos,  Barcelona,  1979.  
'Autodissolusion des Avant­Gardes". Ed. Galilée, 1980. "Les Lapsus des Intellectuels". Ed. Privat, Toulouse, 1981. 
208 
 
Obras de outros autores 
"Psychiatrie et Psychothérapie Institutionnelle", J. Oury. Ed. Payot, 
Paris, 1976. 
"Hacia una .Pedagogia dei Siglo XX". F. Oury e A. Vasquez. Ed. Siglo XXI, México, 1974, 3ª ed. 
"Introduccion a Ia Terapia Institucional", J. Chazaud. Ed. Paidos, 
Barcelona, 1980. 
"EI Psicoanalisis delas Organizaciones", R. de Board. Ed. Paidos, 
Buenos Aires, 1980. 
'A Reprodução", P. Bordieu e J. C. Passeron. Ed. F. Alves. Rio de 
Janeiro, 1975. 
"Organizações  Modernas",   A.  Etzioni.  Ed.  Pioneira,  São  Paulo,  1976.  "O  Adoecer Psíquico  do  Subproletariado",  W  C. 
Castilho Pereira. Ed. Segrac, Belo Horizonte, 1990. 
"Nuevos Escritos", L. A1thusser. Ed. Laia, Barcelona,  1978. "Ideologia y Aparatos Ideologicos de  Estado",  L. A1thusser. 
Ficha de Ia Nueva Vision, Buenos Aires, 1971. 
"Instituição e Poder", J. A. Guilhon Albuquerque. Ed. Graal, Rio de Janeiro, 1980. 
"Metáforas da Desordem", J. A. Guilhon Albuquerque. Ed. Paz e 
Terra, Rio de Janeiro, 1978. 
"Metáforas do Poder", J. A. Guilhon Albuquerque. Ed. Achiamé 
Socii, Rio de Janeiro, 1980. 
"Sexualidade na Instituição Asilar", J. Birman. Ed. Achiamé/Socii, 
Rio de Janeiro, 1980. 
"La Teoria de Ia Institucion y de Ia Fundación", M. Haurion. Ed. Abeledo­Perrot, BuenosAires, 1968. 
"Perspectives de l' Analyse Institutionnelle", coord. A. Savoye e R. Hess. Ed. Meridiens Klinscksieck, Paris, 1988. 
"Psicohigiene y Psicologia Institucional", J. Bleger. Ed. Paidos, Buenos Aires, 1966. 
"Los  Sistemas  Sociales  como  Defensa  contra  Ia  Ansiedad",  L  Menzies  y   E.  Jaques.  Ed.  Horme,  Buenos  Aires,  1969. 
"Contrainstitucion y Grupos", A. Bauleo. Ed. Fundamentos, Madri, 1977. 
"Psicologia  de  Ias  Instituciones",  F.  Ulloa,  in:  Revista  de  Psicoanalisis,  tomo XXVI,  nº  1,  Buenos  Aires,  jan./mar.  1969.  
"Emergentes de una Psicologia Social Sumergida", A. Scherzer. Ed. de Ia Banda Oriental, Montevidéu, 1987. 
"Salud  Mental  y  rrabajo",  coord,  M.  Matrajt.  UAM,  Cuernavaca,  1986.  "Replanteo",  M.  Matrajt.  Ed.  Nevomar,  México, 
1985. "Subjetividad. Grupalidad. Identificaciones", J. C. De Brasi. Ed Busqueda Grupo Cero, Buenos Aires, 1990. 
209 ▲
"Infâncias  Perdidas  –  O   Cotidiano  nos  Internatos",  S.  Altoé.  Ed.  Xenon,  Rio  de 
Janeiro, 1990. 
"m  Proceso   Grupal  –  Dei  Psicoanalisis  a  Ia  Psicologia  Social",  tomos  1  e  2,  E. 
Pichon­Riviére.  Ed.  Nueva   Vision,  BuenosAires,  4ª  ed.1978.  ''A  Pesquisa­Ação  na 
Instituição Educativa", R. Barhier. Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 1985." 
Les Méres "Fol1es" de Ia Place de Mui", A. Martin. Ed. Renaudot, Paris, 1989. 

Periódicos; 

Bul1etin de Ia Societé D' Analyse Institutionnel1e. Ed. SAI, Paris, cerca de 20 números. 
Revista  Autogestions.  Ed.  Privat, Toulouse, cerca de 30 números. Revista Connexions. 
Ed. Epi, Paris, cerca de 30 números. 
Revista  Sociopsychanalyse.  Ed.  Payot,  Paris,  cerca  de 20 números. Revista Lo Grupal. Ed. Busqueda, Buenos Aires, oito 
números. Revista Saudeloucura, coord. A. Lancetti, quatro números. Fd. Hucitec, São Paulo. 
''As Instituições e os Discursos". Revista Tempo Brasileiro n° 35. Ed. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1974. 
"Sociopsicoanalisis e Institucion", Ed. Hogar deI Libro, Barcelona, 1984. 

210 
O AUTOR 

Da  formação  em  Psiquiatria  à  militância  junto  ao  Movimento  Instituinte  Internacional,  Gregorio   F.  Baremblitt  vem 
traçando  um  longo  e  fecundo  percurso  como  médico   psiquiatra,  psicoterapeuta,  professor,  pesquisador,  analista  e 
interventor  institucional,   esquizoanalista,  esquizodramatista  e  escritor  em  diversos  países  da  América  Latina  e  Europa.  
Esse  percurso  teve  início  há  40  anos,  na  Faculdade  de  Medicina  da  Universidade  Nacional  de  Buenos  Aires,  da  qual é 
livre­docente,  e   foi­se  tornando  mais  rico  e  complexo  a  cada  momento  em  que   o  médico  buscou  o  cruzamento  da  
Medicina  com  outras  áreas.  Movido  pela  inquietação  daqueles  que  não  se  contentam  com  o  conforto  garantido  pelo 
reconhecimento  dado  aos  especialistas   consagrados,  Gregorio  Baremblitt  buscou  sempre  expandir  sua  atuação  até  as 
fronteiras  da  Medicina  com   a  Política,  a  Sociologia,  a  Filosofia,  a  Arte  e  também  os  saberes  populares.  Esse  olhar 
generoso  e  ao  mesmo  tempo rigoroso sobre  os saberes e fazeres do mundo contemporâneo tem rendido não apenas uma 
ampla  produção  intelectual,   mas  também  diversas  ações  nos  planos  de  coletivos  diversos:  em  1970,  Gregorio  foi 
membro­fundador  do  grupo  psicanalítico  argentino  denominado Plataforma, primeira organização no mundo separada da 
Associação  Psicanalítica  Internacional  por  motivos  políticos.  Ao   se  estabelecer  no  Brasil  em  1977,  fundou,  no  Rio  de 
Janeiro  e  em São Paulo,  o Instituto Brasileiro de Psicanálise, Grupos e Instituições (Ibrapsi), e o Instituto  Félix Guattari de 
Belo   Horizonte,  do  qual  é  atualmente  o  coordenador­geral.  Sua  atuação  no  campo  da  saúde  mental  inspirou  outros 
profissionais  a  criarem a Fundação Gregorio Baremblitt, em Uberaba (MG), uma das primeiras  entidades do país  a instituir 
formas  de  tratamento  mental  em  sintonia  com  os  ideais  da  Luta  Antimanicomial.  Gregorio  é autor de numerosos livros e 
artigos  científicos  e  organizador  de  seis  congressos  internacionais  em  sua  área  de  atuação.  Este  Compêndio  é  fruto  de  
um  grande  esforço  para   traduzir  as  temáticas,  correntes  e   questões  do  Movimento  Instituinte  para  aqueles  que  estão  
iniciando seus estudos e ações nesse campo, sempre ancorados em duas palavras­chave: auto­análise e autogestão. 

211 OUTRAS OBRAS DO AUTOR 
"Introdução à Esquizoanálise". Ed. Instituto Félix Guattari, Belo Horizonte, 1998. 
"Lacantroças".  Ed.  Hucitec,  São  Paulo.  Traduzido  para  o  espanhol.  "Cinco  Lições  sobre  a  Transferência".  Ed.  Hucitec, 
São   Paulo,  1991.  "Saber,  Poder,  Quehacer  yDeseo".  Ed.  Nueva  Vision,  Buenos  Aires,  1988.  ''Ato  Psicanalítico,  Ato 
Político". Ed. Segrac, Belo Horizonte, 1987. 
"O  Inconsciente  Institucional",  em  colaboração   com  outros  autores.  Ed.  Vozes,  Petrópolis,  1984.  Traduzido  para  o 
espanhol. 
"Grupos, Teoria e Técnica", em colaboração com outros autores. Ed. Graal Ibrapsi, Rio de Janeiro, 1982. 
"La  Cura".  Ed.  Universidade  Autônoma  do  México, Cidade  do  México, 1980. "Progressos e Retrocessos em Psiquiatria e 
Psicanálise". Ed. Global Ground, Rio de Janeiro, 1978. 
"La  Interpretacion  de  los  Suenos:   Una  Técnica  Olvidada",  em  colaboração  com  outros  autores.  Ed.  Helguero,  Buenos 
Aires, 1976. 
"El Concepto de Realidad en Psicoanalisis", em colaboração com outros autores. Ed. Socioanalisis, BuenosAires, 1974. 
"Psicoanalisis:  Teoria  y   Practica",  em  colaboração   comM.  Matrajt.  Ed.  Centro  Editor  Latinoamericano,  Buenos  Aires,  
1972. 
"Cuestionamos", em colaboração com outros autores. Ed. Busqueda, Buenos Aires,1971. 
Há  também  numerosos  prólogos  e  artigos  publicados  em  revistas  científicas,   culturais,  livros e  jornais  da  América 
Latina e Europa. 
212 
 
INSTITUTO FÉLIX GUATTARI DE BELO HORIZONTE 
O  Instituto  Félix  Guattari  de  Belo  Horizonte (MG) é uma  organização não­governamental fundada  no  ano de 1996. 
Seu   nome  é  uma   homenagem  ao  célebre  intelectual  e  militante  francês   Félix  Guattari,  e  suas  atividades  têm  como 
inspiração  a  Utopia   Ativa  que  guia   a  obra  de  Gilles  Deleuze  e  do  homenageado:  a  Esquizoanálise,  que  é  também  a  do 
Movimento Instituinte Internacional. 
O  Instituto  foi  criado  pelo  autor  deste  Compêndio  –  o  professor  de  Psiquiatria,  terapeuta  e  institucionalista 
Gregorio  Baremblitt,  um  dos  introdutores  das  idéias  desses  autores  em  vários  países  da  América  Latina  e  Europa –  em 
parceria  com  Margarete  Amorim,  psicóloga,  analista  institucional  e  esquizodramatista,  e  junto  a  um  grupo  de  colegas 
institucionalistas. 
O Instituto é uma organização vinculada à Fundação Gregorio F. 
Baremblitt   de  Uberaba  (MG),  estabelecimento  este  que  já  conta  mais   de  uma  década  de   existência   ancorada  em  uma 
orientação e atividades comuns com o Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte, mas com ênfase na prática clínica. 
O  Instituto  desenvolve  atividades  de  prestação  de   serviços  em  análise  e  intervenção   de  organizações, 
movimentos  e  grupos  públicos  e  privados,  governamentais   e  não­governamentais  que   atuam  nas áreas  de  educação, 
saúde, trabalho, justiça, arte, ecologia, políticas públicas etc. 
O  Instituto  Félix  Guattari  de  Belo  Horizonte  (IFG­BH)  também  promove  cursos  e  grupos  de   estudo,  conduz 
pesquisas,  organiza  eventos,  supervisiona   trabalhos  técnicos  e   práticos,  edita  e  distribui  livros  e  gerencia  programas  
sociais, sendo todas as atividades pautadas em sua orientação. 
O  IFG­BH  tem  diversas  parcerias  com  organizações  nacionais  e  estrangeiras  afins,  e  está  aberto a todos aqueles 
que  compartilham  de  seus  ideais.  Os  interessados  em  entrar  em  contato   com  o  Instituto  Félix  Guattari  podem  fazê­lo  
através  dos  telefones  (31)  3284.1083  e  3221.7352  (Fax),  e­mail  guattari.bh@terra.com.br  ou  pelo  site 
www.ifgorg.hpg.com.br . Sua sede fica na Rua Herval, 267 – Serra, Belo Horizonte, MG. Cep 30240­010. 
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