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+ PERDIDOS DE PAIXÃO

Heather warren

Momentos íntimos 37

__ Vocês dois precisam se casar. __ Roarke McCall resmungou, de costas para os


irmãos. __ Assim, poderão controlar os hormônios na cama com suas esposas.
__ Ah, céus! __ Richard disse desgostoso. __ O que está tramando Roarke? Como
podemos nos casar se nem temos namoradas? __ Bateu a caneca com força na mesa,
derramando café. __ Até que a idéia de ter uma mulher esquentando meus pés todas
as noites me agrada. Mas gostaria que deixasse essa decisão ser tomada por mim
mesmo, no meu caso.
Roarke se virou e encarou os dois.
__ As coisas vão mudar nesta casa. Não posso aceitar essas brigas e de bar. Não
agüento mais gastar meu dinheiro suado com os prejuízos. Parece que todo fim de
semana conseguem armar confusão. Por que não se contentam com drinques e flertes?
Está na hora de crescerem. Já são dois adultos!
Roarke tomou um gole de bebida fumegante e olhou os dois. Franziu a testa. Richard
exibia um olho roxo e um corte inchado na face.
Roark sacudiu a cabeça e concentrou-se em Reese. Logo ele, que nunca se metia
nesse tipo de encrenca... Os dois olhos inchados. A testa coberta de hematomas.
Decerto também quebrara algumas costelas.
Reese gemeu ao se levantar com dificuldade.
__ Estou fora, Roarke. As mulheres só trazem problemas. Como acha que começou
essa confusão de ontem?
Roarke e Richard se entreolharam enquanto Reese se dirigia ao fogão para servir-se
de mais café. Voltou e sentou-se devagar na cadeira. Olhou para os irmÃos e suspirou.
__Esqueçam...
Roarke e Richard tornaram a trocar olhares. Reese era sempre o mais quieto.
Melhor não insistir.
Comeram em silêncio até Richard se levantar.
__ Agora que refleti Roarke, sua idéia não me parece tão ruim. O melhor seria se nos
casássemos os três. Faz muito tempo que o Rancho Blue Sky não recebe uma presença
feminina.
__ Estou velho demais para arranjar uma esposa. Vou completar quarenta e um ano
no mês que vem __ Roarke resmungou.
__Sim, mas ainda aprecia uma bela jovem de vez em quando, como fiquei sabendo,
__ Richard voltou a cadeira.
__ De qualquer maneira, não é velho. Muitos homens se casam mais tarde. Além
disso, está com a vida estabelecida e pode oferecer muito mais do que há quinze anos.
Reese bateu a xícara na mesa e gritou:
__ Para vocês dois o casamento pode ser solução, se conseguirem encontrar a
companheira certa! Mas onde iriam viver depois de casados? Esta velha cabana não
serve para mulher alguma. Imagine para três. Não recebe uma pintura há anos, e a
mobília esta caindo aos pedaços. Qualquer uma que entrar aqui vai sair correndo. __
Sacudiu a cabeça e percorreu a cozinha com o olhar. __ E onde pretendem encontrar
uma moça decente neste fim de mundo? As de boa família estão casadas, e as que
restam não servem.
Roarke suspirou enquanto analisava a cozinha. Concluiu que Reese tinha razão. O
piso estava gasto e não era lavado havia muito tempo. Os eletrodomésticos mal
funcionavam. Os armários e balcões encontravam-se desbotados e manchados. O
papel de parede, amarelado e descascando próximo do teto e das portas. As janelas,
imundas como as cortinas. E aquele era o melhor cômodo da residência...
__ Bem, teremos de construir casas novas. Temos condições. Escolheremos o local e
contrataremos um construtor. O imóvel será um atrativo. Que mulher resiste a um
novo lar? __ Roarke se levantou. __ Agora que resolvemos isso, vamos trabalhar.
Precisamos verificar a ala sul, e as vacas e bezerros precisam de cuidados.
__ Espere um instante __ Reese o interrompeu. __ Preciso lhes contar uma coisa, e
como o assunto veio à tona... Já sou casado.
O silêncio se abateu sobre eles, e os irmãos encaravam Reese, atônitos.
__ Onde? Quando?
__ Com Melody Collier, depois da formatura do colegial.
__ Céus! Faz anos. O que aconteceu? __ Roarke indagou.
__ Casamo-nos porque sempre nos amamos. Mas Melody queria seguir a carreira de
cantora. Concordamos que ela teria sete anos para tentar. Mantemos contato, embora
tenhamos nos distanciado. Não sei ainda se temos uma chance depois de tudo. A casa
nova seria um incentivo. Estou certo de que Melody gostaria de voltar para um lar de
verdade.
Os irmãos permaneceram em silêncio.
Reese prosseguiu:
__ Acho que Richard tem razão, Roarke. Vocês dois têm de encontrar uma esposa. E
não me venha com essa conversa de idade. Olhe só o Pete Butter. Tinha mais idade
que você hoje quando se casou. Está com três filhos e é feliz. Se insistir nessa história
de casamento, terá de participar. E, se não conseguir encontrar uma esposa, eu e
Richard o ajudaremos.
Richard riu malicioso, levantou-se e cruzou os braços sobre o peito.
__ Sim, e eu conheço a mulher certa: Betty Rogers.
Reese gargalhou, e tentou se conter para evitar a dor nas costelas feridas. Roarke
dirigiu um olhar sombrio aos irmãos. Betty Rogers tinha cinqüenta anos e seis filhos
de pais diferentes. Pesava mais de cem quilos e tinha uma voz estridente.
__ Pois eu discordo. Meus dias de namoro e romance já passaram. Não posso mudar
minha vida para acomodar uma esposa. Mas gostei da idéia das casas. Estamos velhos
demais para dividir o mesmo teto.
Reese encolheu os ombros.
__ Então, cada um irá procurar um local e, nesse meio tempo, Richard encontrará
uma mulher. Tentarei trazer Melody de volta. E você Roarke... talvez esteja certo,
talvez não. Se eu e Richard podemos nos acomodar, você também pode.
__ Reese tem razão, Roarke. Não é justo termos tudo, esposa e filhos, enquanto fica
sem nada, meu irmão.
Roarke sacudiu a cabeça, levantou-se e colocou o chapéu.
__ Não pretendo me envolver. Encontre uma esposa, Richard, e se ajeite. __ Desviou
o olhar para Reese. __ Vou entrar em contato com um amigo que constrói casas de
madeira. Pedirei que mande alguém. Talvez assim Melody volte. Quanto a mim, não
se preocupem.

Carla Masters costumava ser calma e tranqüila. Mas, hoje, não. Estava na estrada
fazia dez horas e ainda faltavam mais de sessenta quilômetros para chegar ao destino
quando o motor da caminhonete começou a falhar.
Dizer que as coisas iam de mal a pior seria um eufemismo. Em plena montanha, era
difícil pensar que conseguiria ajuda.
Carla manobrou a caminhonete até o acostamento depois da curva, então freou.
Irritou-se com a luz vermelha no painel.
Irada, bateu as mãos no volante e xingou até a raiva se esgotar.
Os longos cachos negros caíram ao redor do rosto, e, por fim, ela encostou a cabeça
na direçÃo. Contou até cem. Só então ergueu-a para avaliar onde estava. O barulho
das gotas de chuva no capô da caminhonete combinado à neblina intensa a fez se
sentir em outro mundo. Naquela altitude, só podia vislumbrar estrada, rochas e névoa.
Não havia sinal de vida, humana ou animal.
Não estaria ali se não tivesse pedido para estar. Andava imprevisível e caprichosa.
Tudo mudara desde pouco antes do Natal. Ser abandonada no altar não era o caminho
certo para alcançar segurança e paz interior. Carla sabia que os pais e os irmãos
estavam mais aborrecidos do que ela com a situação. Por isso, tinham-na escolhido
para essa missão do outro lado das Montanhas Rochosas. Teria de projetar e construir
casas de madeira para amigos do irmÃo de Alex.
Carla entendera a boa intenção de todos. Precisava ficar longe das maledicências.
Contudo, eles também tinham outra motivaçÃo: mantê-la longe de encrencas.
Não era segredo que andava negligente. Voltava para o lar de madrugada. A família
desconhecia que passava as noites sentada à beira do lago.
Carla suspirou e notou que a chuva diminuíra para uma garoa leve. Resignada, saiu
da caminhonete.
__ Era o que faltava! __ Ergueu os olhos e as mãos para o céu. __ Por que eu?!
Subiu no pára-lama e debruçou-se sobre o motor, como vira o pai e os irmãos
fazerem. Só não sabia o que procurar. Examinou a bagunça de cabos e mangueiras.
Como entender tudo aquilo? A sujeira, o óleo e a graxa não ajudavam.
Desceu de onde estava e deu a volta, procurando lembrar o que os irmãos haviam
tentado lhe ensinar milhões de vezes. Sentiu-se derrotada. Teria de esperar alguém
passar por ali. Talvez um guarda florestal.
Chutou um dos pneus do trailer, atrelado à caminhonete, e ele murchou. O mesmo
que havia trocado pela manhã.
__ Oh, outro que furou! Agora só faltava o chuvisco se transformar em tempestade.
Como se em resposta à sugestão, um trovão retumbou no céu, e passou a chover
torrencialmente.
Carla correu à frente do veículo e fechou o capô. Não queria molhar o motor. Com
pressa, acabou perdendo o equilíbrio e caindo sentada na lama.
Inconformada, se levantou e limpou a lama das mãos na calça. Engoliu a raiva e foi
pegar o macaco. Já que estava molhada e suja, poderia pegar o pneu furado.
Com dificuldade, conseguiu colocar o macaco sob o trailer. A chuva a encharcava, e a
lama escorregadia minava suas forças.
Então, surgiu outro problema: os parafusos da roda estavam apertados demais.
Carla chegou ao limite. Não se sentia disposta a arrastar um trailer através do
desconhecido. Nem a passar uma temporada com três irmãos solteirões.
Era uma boa arquiteta e fizera um excelente trabalho no catálogo da firma. As casas
de Madeira Masters tinham ótima reputação, mas, com o catálogo e seus projetos
inovadores, o prestígio aumentara.
No entanto, Roarke McCall havia telefonado. Carla discutira com o pai e os irmãos,
no final, não tivera escolha. Todos achavam que seria o melhor para ela. Assim, ficaria
afastada e num lugar seguro. Entretanto, Carla sabia que seria tedioso.
__ Três solteirões grosseiros, no meio do nada, sabe Deus até quando. Por que não
estou ansiosa? Era tudo o que eu poderia querer __ resmungou.
Um caubói machão chegou pela estrada e ofereceu ajuda, chamando-a de “doçura”.
Aborrecida, ela o encarou e respondeu à altura.
__ Nossa moça! Só queria ajudar. Mas, se tem tudo sob controle, não vou interferir.
__ Subiu no caminhão e partiu.
Carla ficou atônita. Havia dispensado a única ajuda disponível. Lagrimas brotaram
em seus olhos azuis.
Resolveu apanhar a bolsa, e então percebeu o ponteiro do combustível além da
reserva. Era esse o motivo de ter parado. Desceu da caminhonete e passou a andar de
um lado para outro sob os grossos pingos , sem saber o que fazer.
Enfim, deixou-se cair no chão e chorou. A tempestade diminuíra, mas o céu já estava
escurecendo.
Richard McCall se sentia nas nuvens. Eufórico. Tivera um dia fantástico nas
montanhas. Competira no rodeio e recebera a ovação do público feminino. Fora a
melhor feira campestre dos últimos anos. Conquistara a maioria dos prêmios, e se
achava um rei.
Cantarolando uma melodia, entrou na curva em alta velocidade, quase colidindo com
um velho trailer.
“O que isso está fazendo aí? Será que os turistas não usam cérebro? Estacionar o
veículo numa curva... Deve ser algum idiota!”
Parou sua caminhonete na frente do veículo. Suspirou e deu a volta no trailer. Não
viu ninguém, nem nada de errado. Ainda assim, podia ser alguém acampando durante
a noite. Resmungando a respeito da estupidez do proprietário, bateu na porta e
esperou uma resposta.
Carla deu um salto na mesa. O barulho a despertara de um sono profundo. Exausta,
decidira esperar dentro do trailer a chegada de um patrulheiro. Decidira depois de ter
trocado as roupas molhadas e comido alguma coisa.
Tateando no escuro, agarrou a maçaneta e empurrou com força. Dessa vez, a porta
nÃo estava emperrada.
Voando para o lado de fora, caiu nos braços de um homem grande e musculoso.
Deixou escapar um grito assim que os dois perderam o equilíbrio e caíram pela
ribanceira. A queda parecia não ter fim. Rolaram e rolaram, um agarrado ao outro,
até chegaram ao pé do barranco, entre resmungos e gemidos.
Carla engoliu em seco. Podia ouvir a respiração pesada próxima a sua cabeça. Sentiu
a roupa encharcada e dores por todo corpo. Respirou fundo. Não soube o que dizer. O
que acontecera? Num instante estava dormindo, e, no dia seguinte, no fundo de uma
ravina, em cima de um desconhecido.
__ Santo Deus e todos os santos! __ uma voz forte se fez ouvir.
Só então Carla percebeu a posição em que se encontrava. Seu rosto contra o peito de
um estranho, e o corpo estirado de uma forma muito íntima sobre o dele. Era um
homem robusto. De onde se encontrava, podia ver a outra metade de seu peito
musculoso. O nariz se apertava contra densos cabelos pretos. O delicioso perfume de
couro, cavalos e almíscar a invadia, deixando-a tonta.
Carla tentou se mexer, mas um par de mãos fortes e uma imprecação a impediram.
__ Não se mexa, senhora. Além de ter me tirado o fôlego, fez algum estrago nesta
área em que está seu joelho. Por favor, deixe-me voltar a respirar, e então a ajudarei a
se erguer.
Aquele não era o único problema de Richard. A mulher impetuosa que surgira do
trailer o deixara sem ação. O corpinho feminino e sensual causava grande tormento a
uma certa parte de sua anatomia. Que, sem dúvida, não precisava de estímulo naquele
momento.
Foi fácil captar que cada centímetro daquelas curvas transpirava feminilidade. A
cintura sinuosa, os seios e as coxas esguias.
Richard deixava escapar um resmungo à medida que as partes machucadas
respondiam à suavidade daquele contato. Os hormônios, ativos apesar das contusões,
o sangue, quente. Não tinha nenhum controle sobre os pensamentos lascivos que
afloravam. E isso era doloroso.
Carla se encolheu, percebendo o que acontecia.
__ Eu ... eu não... Oh, meu Deus, espero não ter...
Ela se moveu e ouviu outro gemido seguido de um aperto mais forte das mãos
pesadas.
Carla ficou paralisada. O que poderia fazer? E se ele fosse algum degenerado que
gostasse daquele tipo de contato? E se o tivesse machucado? Permaneceu imóvel,
rezando para que Deus tivesse pena e desse logo um fim àquele dia medonho.
Foi em vão, porque, em seguida, sentiu algo subir-lhe pela perna. Ficou aterrorizada.
Não podia ser imaginação. Entorpecida pelo medo, sentiu a coisa subir mais um pouco
e parar. Prendeu a respiração, mas fosse lá o que fosse tornou a se mover. Foi demais.
De um salto, se pôs de pé, apesar dos protestos do caubói.
Sacudiu a perna com violência, mas a coisa continuava a escalar. Pensou em cobras,
sapos e ratos. Arrancou a calça apressada, e, sob a luz do luar, viu o grilo verde saltar
das dobras de seu jeans.
Suspirou, aliviada, e colocou a mão sobre o coração. As batidas voltavam ao normal.
Jamais sentira tamanho pânico. Observou, satisfeita o pequeno inseto se afastar.
Ouviu uma risada discreta. O estranho a fitava. Carla ficou chocada. Lá estava ela,
só de calcinha de seda diante dele, oferecendo um show gratuito. O desconhecido,
claro, se divertia.
__ Como pode acontecer uma coisa dessas bem agora que nem posso aproveitar?
Ela era uma mulher bonita. A lua se refletia nos cabelos negros cacheados espalhados
sobre os ombros. Não era alta, porém, as pernas eram longas e bem torneadas.
Adoraria tê-las ao seu redor enquanto fizessem amor no calor da paixão. Soltou um
grunhido diante dessa perspectiva e desviou a atenção para o rosto. Esse era pequeno
e de contornos perfeitos, emoldurado pelos cachos. Os olhos, mesmo no escuro, eram
grandes, redondos e inocentes. Richard desviou o olhar, constrangido com a reação
dela. Ele a estava assustando.
Sem querer, seu olhar recaiu nos seios, firmes e empinados sob a camiseta branca
encharcada. Constatou que estava inebriado por aquela deusa. Como o corpo podia
traí-lo assim?
Richard tentou sentar-se, mas uma repentina náusea o impediu. Lutava com a dor.
Mal percebeu que a moça se vestia outra vez.
Ajoelhou-se e tornou a tentar levantar. A estranha o atingira em cheio.
O suor desceu por sua testa. Ele voltou a cair no chão, com um gemido agudo.
Precisava afastá-la por algum tempo ou daria vexame.
__ Por favor, senhora, me arranje um copo de água, sim?
Carla viu, consternada, o estranho contorcer-se. Jamais machucara alguém assim, e
saber o que fizera numa parte tão sensível e íntima a deixava mortificada. Esperava
que ele a perdoasse quando se recuperasse.
Hesitou e começou a escalada, parando ao ouvir um grito contundente.
__ Você está bem moço?
Como resposta ela ouviu outro grunhido. Virou-se e correu até o trailer. “Será que o
prejudiquei para sempre? Como pude ser tão desajeitada? O que farei agora?!”
Carla umedeceu uma toalha e apanhou uma garrafa de água na geladeira. Então,
correu morro abaixo, onde o encontrou deitado e imóvel.
__ Você está bem? __ ela perguntou, nervosa.
__ Sim. __Richard ergueu a mão e acenou para que não se aproximasse. __ Fique
onde está. É muito perigosa.
Carla o ignorou e ajoelhou-se a seu lado, colocando a toalha molhada sobre sua testa.
Richard a retirou, zangado.
__ Não é minha cabeça que dói, é meu...
__ Eu sei! Mas não posso colocar uma toalha molhada ali... Aqui está sua água.
Sente-se melhor depois de ter... esvaziado o estômago?
Richard bebeu direto do gargalo e então enxugou a boca com as costas da mão.
__ Ficarei bem se permanecer longe de mim. Olhe, eu parei apenas para avisá-la que
o trailer está muito próximo à curva. Quase bati nele. Precisa avançar uns dez metros.
Devia estar num acampamento. Assim, nada teria acontecido.
Carla se empertigou:
__ Olhe aqui, cavalheiro! Só porque teve um pequeno acidente, que não ocorreu por
minha culpa, devo acrescentar, isto não lhe dá o direito de me dizer essas coisas.
Richard levantou-se com dificuldade. Respirou fundo e sacudiu a cabeça.
__ O que quer dizer? Não é culpa sua?! Não fui eu que saí do trailer como uma bala
de canhão. Não sou agredido assim desde que jogava futebol americano no colégio. Foi
cem por cento culpa sua, sim!
Carla reclamou baixinho e suspirou.
__ Não foi. Qualquer homem inteligente teria se protegido numa queda como essa.
Além do mais, não devia bater na porta das pessoas a essa hora da noite. Eu podia
estar armada.
__ Santo Deus! Teria nos matado! __ Olhou para o céu. __ Como eu podia imaginar o
que ia acontecer? Vocês, mulheres da cidade, são todas iguais. Afobadas e
precipitadas. Não conseguem seguir assumir a culpa e pedir desculpas. Não quero
escutar mais nada. Apenas tire o seu trailer do caminho ou vai acabar sofrendo um
acidente!
Richard escalou o morro como pôde e seguiu até a caminhonete.
__ E se eu fosse você, senhora, colocaria um sino um pescoço para avisar as pessoas
do perigo que representa ao se aproximar!

CAPÍTULO DOIS

Richard estava abatido no dia seguinte quando juntou-se aos irmãos.


__ O que há? Não foi bem no rodeio de ontem? __ Roarke perguntou.
Richard engoliu em seco diante da lembrança do que ocorrera. Devia ter trazido
Carla consigo pra casa. Afinal, mal conseguia dormir. Quando, enfim, adormecer, lá
estava ela em seus sonhos, de pé sobre ele com a calcinha de seda branca e chicote. E
toda vez que Richard se aproximava e sentia seu perfume, um grilo gigante saltava
entre eles e o derrubava morro abaixo.
O sonho se repetira a noite toda, e, ao se levantar pela manhã, sentia-se frustrado.
Aquela era a mulher mais teimosa e temperamental que conhecera. Não gostaria de
reencontrá-la.
Roarke pigarreou, e Richard se viu na berlinda diante dos irmãos.
__ Está um pouco verde, irmão, mas não sinto cheiro de bebida __ Reese disse.
Richard tossiu.
__ Tive um pequeno acidente na curva Mitchell. __ Richard explicou o ocorrido, e
acenou para demonstrar a insignificância.
Os irmãos se encolheram. Ambos haviam passado por situação semelhante, mas
nunca nas mãos de uma mulher.
__ Está melhor? __ Roarke mordeu uma torrada.
__ Vou sobreviver. __ Richard engoliu com dificuldade e torceu para o desjejum
parar no estômago.
Roarke mudou de assunto: __Não sei o que houve com o arquiteto que Alex Masters
mandou. Devia ter chegado ontem.
__ Talvez um de nós devesse ficar aqui para recebe-lo. Alex não mencionou um
trailer? __ Reese sorriu ao ver Richard empurrar o prato, inquieto
__ Diga Richard, não quer ficar aqui e esperar por ele?
__ Fique você, Roarke. Não me sinto muito sociável hoje.Acho que vou verificar o
gado no pasto norte. __ Richard levantou-se devagar, e sentiu náusea.
Aquela desastrada! Já não bastava tê-lo derrubado? Não tinha sofrido o bastante?
Richard ignorou os olhares especulativos, encheu uma garrafa de café, apanhou um
pacote de bolachas e partiu em direção ao celeiro.
Precisava de um pouco de paz, coisa que só tinha nos espaços abertos do campo.
Depois da noite anterior, precisava de tempo para refletir e clarear as idéias.

Na placa em forma de arco se lia “Rancho Blue Sky”. Carla examinou o sinal
entalhado a mão que se estendia de uma árvore a outra. Estava velho e gasto.
O frescor da primavera invadiu a caminhonete. Respirou fundo e suspirou, com um
contentamento repentino apesar de ter estado furiosa algum tempo antes.
Não fosse pelo patrulheiro que a ajudara nessa manhã, ainda estaria presa na
montanha. Bem equipado para emergências como a de Carla, consertara o pneu com
um produto especial, abastecera o tanque com combustível e então a conduzira até o
posto mais próximo.
O patrulheiro conhecia o Rancho Blue Sky e os irmãos McCall. Explicara a ela o
caminho, e em meia hora estava diante da placa.
Enfim, chegara ao destino. Nada mais lhe parecia tão ruim.
Não teria de guinchar a caminhonete e trailer, por sorte. Nem pensava em voltar com
eles. Pediria ao irmão que viesse busca-los.
Carla atravessou o mata-burro e seguiu pela estrada de terra batida. O degelo da
primavera criara poças, e o chão era irregular e acidentado. Entretanto, o ar fresco
compensava o desconforto.
Entrou numa curva mais fechada e deparou com uma vista surpreendente. Parou
para olhar com atenção. No meio do vale avistou um lago azul cristalino, cercado de
pinheiros altos e com uma colina além. O gado de pêlo preto e lustroso pastava sobre a
relva verde.
Carla sentiu uma calma combinada a uma ponta de excitação. Aquele era um
cenário de madeira perfeito para uma casa de madeira Masters. Desfrutou a paisagem
e sorriu. Começava a gostar desse trabalho.
Estava ansiosa para conhecer aquelas pessoas de bom senso. Afinal, tinham optado
por uma casa de madeira, a escolha perfeita.

Roarke saiu da residência e caminhou em direção a caminhonete e ao trailer.


Pressentiu algo familiar, mas não sabia o quê. De imediato, porém, concentrou-se na
linda mulher de longos cachos negros que descia do veículo e se aproximava.
Ela tirou os óculos escuros e abriu um largo sorriso, estendendo-lhe a mão.
__ Olá, sou Carla Masters. Alex me enviou. __ Seus olhos brilhavam. __ Você é
Roark MacCall? Não tinha associado seu nome à pessoa até agora. Estou feliz por
estar aqui.
Roarke se lembrou dela quando criança. Fazia um bom tempo que não via a
irmãzinha de Alex.
Durante a época da faculdade, Roarke fora muitas vezes para casa de Alex no fim de
semana. Ver Carla de novo fazia aflorar essas recordações.
Também se lembrava da linda criança com quem brincara e flertara. Julgou que ela
seria uma beleza quando crescesse, e estava certo.
No correr dos anos, desde a formatura, Roarke e Alex haviam mantido contato.
Assim, Roarke ficara sabendo dos estudos de Carla nas áreas de arquitetura e
engenharia. Também soubera a respeito do casamento malogrado e da mudança de
Carla. Mas Roarke jamais a teria reconhecido se ela não tivesse se apresentado.
Roarke tomou-lhe a mão, com um sorriso.
__ Como está, Carla? Não a vejo desde que tinha uns dez anos de idade. Tornou-se
uma linda mulher. Vou adorar poder conhece-la melhor. __Alex me falou tanto de suas
conquistas ... Acho que posso classifica-la como a melhor da firma.
__ Bem, não gostaria que meu irmão o ouvisse. Mas esta é a época mais
movimentada do ano, e eles acharam que eu precisava de uma folga da cidade grande.
Carla desviou o olhar, evitando encarar Roarke. Não queria que ele percebesse a dor
que ainda sentia nem explicar a história toda.
__ Roarke a contemplou, surpreso por sentir um amor paternal.
__ Roarke você tem um belo pedaço de terra aqui. Fez a coisa certa ao escolher uma
casa de madeira. Este é o lugar perfeito para a beleza neutra da madeira.
__ Que bom Carla! Suponho que Alex já tenha lhe contado. Se meus irmãos
gostarem de suas idéias, também vão querer casas.
__ Sim, Alex me falou, mas eles não têm certeza, certo? __ Carla sorriu. __ Posso me
encarregar de tudo. Não tenho pressa de ir embora. Este é um local maravilhoso. Vou
adorar. Se me mostrar onde posso estacionar meu trailer, poderemos começar.
Carla estava ansiosa para se instalar e investigar a área, seu novo lar de verão.
__ Você pode estacionar o trailer próximo aquele abrigo. Temos saídas de água e de
luz para conectar ao trailer. Além disso, terá a proteção de um forro, se chover. Há
também um banheiro no escritório do abrigo. Pode ficar com os dois. Há muito não os
usamos.
Carla sorriu, assentiu com um gesto de cabeça e virou-se para entrar na
caminhonete, porém a voz de Roarke a deteve:
__ Gostaria que viesse jantar conosco esta noite. Assim, conhecerá meus irmãos.
Traga alguns projetos. __ Roarke piscou, e ela se sentiu de volta a infância.
__ Obrigada, Roarke. Será um prazer. Sei que vou adorar esse trabalho. __ Piscou
também e entrou no veículo.
Roarque ficou parado contemplando-a, com algo a perturba-lo. De repente, as coisas
fizeram sentido. Não seria aquele o trailer com que Richard se deparara na noite
anterior? Não pôde conter um riso sarcástico. Esse seria um verão e tanto...
Lembrava-se de Carla na infância, menina levada e traquinas, que não levava
desaforo pra casa. Ela e seu irmão caçula formariam uma dupla explosiva. Só alguém
como Carla poderia levar a melhor sobre Richard..
Roarke observou-a estacionar sem dificuldade e riu. Seria divertido.
Não fosse a certeza de que as coisas esquentariam, Roarke teria preparado os irmãos
para a convidada. No entanto, preferiu aguardar em silêncio o desenrolar dos
acontecimentos. Na certa o clima esquentaria muito quando Carla partisse, mas então
ela já teria exibido suas habilidades arquitetônicas. Por outro lado, conhecendo
Richard, talvez isso acontecesse antes...
De qualquer maneira, se Carla Masters ainda fosse como a menina que conhecera,
seria ela a primeira a explodir.
Roarke só esperava que Richard estivesse mais bem-humorado. Mas, depois de um
dia na sela do cavalo, decerto estaria mais rabugento que um urso velho com uma
unha encravada.
“Bem, azar dele”, Roarke refletiu com um sorriso irônico. Fazia tempo que não
tinham alguma ação por ali.
Havia um brilho travesso no olhar de Carla que o fazia lembrar-se da mãe, que, sem
dúvida era o chefe da família. Mesmo o pai, grande e forte, estivera sempre a sua
mercê. Como Roarke imaginava que ficariam em torno de Carla. E riu, antecipando o
futuro próximo.
__ O que é tão engraçado? __ Reese perguntou, assim que o irmão entrou. Encheu
um grande copo com água e bebeu de uma vez. __ Ficar em casa o deixou meio louco?
__ Apanhou um pãozinho e passou manteiga.
Roarke continuou rindo.
__ Não, só estava pensando em como esta noite vai ser divertida.
Reese ergueu a cabeça.
__ Divertida?
__ Espere e verá. Nossa arquiteta chegou, e Richard vai ter uma surpresa quando
encontra-la. __ Roarke retirou o assado do forno.
Reese franziu a testa e sacudiu a cabeça, olhando para o irmão sem entender.
__ O que está acontecendo, Roarke?
__ Paciência. Você não perde por esperar...

Carla bateu na velha porta de tela e esperou. Precisavam com urgência de uma casa
nova.
Essa poderia ser derrubada apenas por um vento mais forte. Não entendia ainda como
ainda estava de pé.
Roarke surgiu amistoso.
__ Carla, entre! O jantar está quase pronto.
Ele a conduziu para dentro da cozinha mais velha e gasta que Carla já vira em seus
vinte e oito anos de vida.
__ Sente-se. Este é meu irmão Reese. Reese, esta é Carla Masters, a arquiteta.
Permita que eu guarde sua pasta, Carla.
Reese pareceu surpreso, mas os bons modos o impediram de demonstra-lo. Ele se
levantou e lançou um olhar a Roarke. Em seguida, puxou a cadeira para ela.
__ É um prazer conhece-lo, Reese. Disse a seu irmão que vocês tem o cenário perfeito
para um imóvel de madeira. Vou adorar trabalhar nesse projeto, apesar dos
problemas que tive antes de chegar.
Reese encontrou o olhar de Roarke, notando o sorriso cínico do irmão.
__ Problemas? Foi difícil nos encontrar?
__ Não, Reese, não foi isso. Mas a viagem foi um desastre desde o princípio. Peguei a
estrada ontem às seis da manhã. __ Carla começou a contar suas desventuras. Quando
chegou à parte do homem maluco esmurrando a porta do trailer, Richard entrou,
arrastando o corpo cansado e moído. __ VOCÊ!!
Carla levantou-se de um salto, a raiva estampada nos olhos.
__ O que está fazendo aqui?!
Richard olhou para Carla, enfurecida, no meio da cozinha.
__ Oh, Senhor! Morri e fui para o inferno! __ Ele fechou os olhos e torceu para que
fosse um pesadelo. Talvez ela sumisse quando tornasse a abrí-los. Mas não: ainda
estava ali.
Richard não podia acreditar. Seu corpo ficara tenso ao deparar mais uma vez com
aquela que lhe perturbara os pensamentos durante todo o dia.
__ Que você esta fazendo aqui?!
__ Richard! __ Roarke e Reese o repreenderam.
Carla estava tão atônita que nem percebeu que os dois McCall conheciam o estranho.
__ Isso não é da sua conta. Quero saber de você. Por acaso me seguiu? Está
procurando uma reparação pelo desastre da noite passada? __ Carla o encarava,
desafiante.
Roarke e Reese afastaram-se para observar o estouro. Ficou claro que Carla era a
mulher que caíra sobre Richard na noite anterior. Como Roarke suspeitara.
Richard atirou o chapéu e uma garrafa sobre o sofá.
__ Senhora, eu moro aqui. Esta é minha casa. Agora, pode me dizer o que você está
fazendo aqui? __ Richard se debruçou no balcão e cruzou as longas pernas. A dor foi
imediata. Cruzou os braços sobre o peito e esperou em agonia silenciosa por uma
resposta.
__ Sou a arquiteta que o Sr. McCall contratou para construir sua nova casa. __ Carla
procurou soar confiante.
Richard dirigiu o olhar a Roarke em busca de confirmação, e gemeu. Arquiteta. Uma
mulher tentando fazer o trabalho de um homem. O que Roarke arranjara? Ele se
aproximou de Carla e a olhou de cima a baixo.
__ Pelo jeito, conseguiu enganar alguém. Mas, não costumamos brincar de trabalhar
aqui no campo. Trabalhamos duro e queremos resultados rápidos. Pensei que Alex
Masters fosse esperto demais para se deixar render aos encantos de um par de olhos
azuis e um corpo deslumbrante.
Roarke ficou paralisado. Até o momento, divertira-se com o bate-boca do caçula e a
amiga espevitada. Mas precisava fazer alguma coisa urgente, antes que entornasse o
caldo de vez. Mas, antes de poder faze-lo, Carla deu uma resposta a Richard. Ela se
aproximou dele, fazendo-o recuar.
__ Vou lhe dizer uma coisa, seu menino arrogante. Tenho um diploma de engenharia
e sou licenciada em arquitetura. Trabalhei como um burro de carga para chegar onde
estou. Na verdade, muito mais longe do que vocês, homens, que dizem ter um cérebro.
Muitas vezes tive de corrigir erros feitos por vocês, e, estou certa, terei de faze-lo
outras tantas.
Carla deu um passo pra trás, os braços cruzados sobre o busto bem torneado, as
pernas afastadas esperando o contra-ataque.
Era a vida plena, a ira personificada. Mas isso nada mudava para Richard. Estava
empenhado naquela briga. Nada mais importava.
__ Ora sua raposinha! __ disse ele, ameaçador. __ Sabe muito bem que foi culpa
sua. O modo como saiu daquela coisa velha que chama de trailer... Como eu poderia
ter evitado o que ocorreu? Espero que tenha mais bom senso nos projetos
arquitetônicos do que na escolha de um local para acampar, ou teremos problemas.
Carla rangeu os dentes e apertou os punhos. Pela primeira vez tinha vontade de ser
violenta. Mas uma mulher não devia agir assim. Sobretudo com um possível cliente.
__ Seu gorila! Se tivesse aberto os olhos teria visto o pneu furado na “coisa velha”!
Por que mais eu teria estacionado ali, estando quase chegando a meu destino?
Precisei esperar até um patrulheiro passar esta manhã e me ajudar. Além disso, não
deveria esmurrar a porta dos outros no meio da noite. E se eu estivesse armada?
__ Deus me livre! Você precisa usar um sininho no pescoço. __ Richard demonstrou
com as mãos, tocando-lhe o pescoço suave e alvo, o contato causando uma reação
química bombástica.
Afastou os dedos, horrorizado. Percebeu que ela sentira também. .. Estava
encrencado.
Houve um silêncio total e eletrizante.
Então, Carla sentiu-se desconcertada com a cena e tentou apaziguar as coisas.
Dirigiu o olhar a Reese e Roarke.
__ Presumo que já tenham percebido que já nos conhecemos. Embora não tenha sido
numa situação oportuna. __ Virou-se para Richard, evitando encara-lo. Ofereceu-lhe
a mão. __ Sinto muito. Sou Carla Masters, irmã de Alex, projetista-chefe das Casas de
Madeira Masters. Perdoe-me pelo que houve. Foi... um acidente.
Richard não teve escolha se não aceitar as desculpas. Cumprimentou-a e respondeu
numa voz suave e controlada. Era contra seus princípios aceitar rendição, mas
decidira ser educado. A última coisa que precisava era ser repreendido pelos irmãos.
__ Meu nome é Richard McCall. Richard. E aceito suas desculpas. __ Soltou-lhe a
mão macia e dirigiu o olhar aos irmãos. __ Agora, por favor me dêem licença. Vou
subir e tomar um banho de imersão. Devo demorar. Não precisam me esperar.
Richard baixou o chapéu num sinal de cumprimento a Carla e deixou a cozinha,
mancando, com o que lhe restava de orgulho.
Carla o observou. Na véspera, não percebera o quanto Richard era bonito. Preferia
não tê-lo constatado. Fora difícil o bastante manter a cabeça fria com aquele tórax
musculoso perto do seu rosto.
Richard não se parecia em nada com os irmãos. Ele tinha cabelos pretos e era alto,
diferente dos outros McCall. Mais magro e jovem. Sua expressão era indomada, os
ombros largos e as pernas, dois troncos. Os quadris, estreitos e firmes.
Carla jamais fora beijada por um homem assim, e por um instante teve vontade de
saber como seria. A imaginação fértil a levou mais além, e pensou como seria um
contato mais íntimo. Logo interrompeu os pensamentos e voltou sua atenção aos
outros dois.
__ Bem, Carla __ Roarke disse __, o jantar está servido. Terá de desculpar Richard.
Ele costuma ser mais tranqüilo. É que depois de ontem à noite meu irmão anda... __
Ficou vermelho.
__ Sensível __ Reese concluiu, contornando a situação. __ Sente-se Carla. Vamos
jantar. Fale-nos de seus projetos.
Carla olhou para a porta onde Richard saíra e suspirou. Sentia-se péssima com o
ocorrido, e mais ainda com a discussão. As coisas pareciam ficar fora do controle
quando estavam juntos, como se houvesse uma atração estranha entre eles. Mas não
podia ser. Não o permitiria.
Richard relaxou na água morna da velha banheira. Como uma mulher tão pequena e
delicada podia criar tamanho alvoroço? Não acreditaria se lhe contassem. Porém, a
evidência física deixava claro que era a mais pura verdade.
Não ajudava o fato de, quando estava na cozinha, ter se sentido excitado. Fora essa a
razão principal de ter desistido da discussão acalorada.
Richard sacudiu a cabeça. Carla era fogo puro. Seu pai a chamava de “fogueteira”
quando era criança, ele lembrou. Sorriu. Jamais conhecera uma mulher como aquela.
Era pequena em estatura, mas sua energia era contagiante, de temperamento forte e
determinado. Quando se punha na defensiva, então, nem um homem teria chance.
Não fosse a língua ferina, o corpo perfeito já seria o bastante.
Fechou os olhos e pôde vê-la. Ela fora magnífica na raiva, e surpreendentemente
feminina nas desculpas. Jamais conhecera tamanha mistura de personalidade e
contradições em embalagem tão delicada.
Pela primeira vez na sua vida, encontrara uma jovem com coragem para enfrenta-lo.
Apesar de conseguir irritá-lo, não podia negar o quanto se sentia atraído. Decerto,
incendiaria sua cama. E em outras circunstâncias, talvez, Richard tentasse uma
aproximação. Mas, no momento, ela só lhe trazia dor e uma tentação avassaladora.
Mergulhado na água tépida, resmungou baixinho ao perceber a reação do corpo.
__ Ë uma feiticeira. Linda e sexy, com sedosos cabelos negros e pernas bárbaras.
Forçou-se a relaxar e cochilou, imerso na água, fantasiando. Uma mulher de olhos
azuis e calcinha de seda branca veio tentá-lo. E, então, o grilo...

Tarde da noite, depois de um agradável jantar e conversa com Roarke e Reese, Carla
voltou ao trailer.
Durante a tarde, limpara o escritório e o banheiro, e agora pretendia tomar um bom
banho de chuveiro. Precisava de algo que a relaxasse, ou nÃo conseguiria dormir. A
discussão e o sentimento inesperado por Richard McCall a confundira.
Ele parecera abatido ao deixar a cozinha. E não retornara. Entretanto, ouvia seus
passos no andar de cima enquanto mostrava alguns de seus projetos aos irmãos
McCall.
Carla despiu-se e entrou na água em seguida. Não ficaria pensando num caubói
presunçoso que nem sabia se cuidar direito. Não devia ter teimado em passar o dia no
lombo de um cavalo depois do acidente. Até ela o sabia.
Carla procurou afasta-lo da memória. Richard não passava de um machista
espertalhão e convencido de braços e pernas musculosos e ombros largos. Devia saber
como usar aqueles atributos para agradar uma mulher. Seria maravilhoso cavalgar
um garanhão como... O que estava acontecendo?! Carla fechou a torneira e apanhou a
toalha, perturbada.
__ Não vou pensar em Richard McCall! Nem me envolver. Não quero! __ Enxugou-se
e vestiu o roupão favorito.
Não imaginara ter esse tipo de problema. Nem encontrar alguém interessante naquele
lugar.
Carla era honesta demais para negar o quanto Richard McCall era bonito, mas
poderia ignorar este fato.
Afinal, ele era um homem. E estava farta deles. Fora tola de achar que Peter era o
amor de sua vida. Ele a empurrara de um lado para outro, fazendo-a mudar suas
crenças e objetivos para agrada-lo. E Carla o permitira.
EntÃo, a coisa toda explodira. E aprendera que nunca mais se deve subestimar a
intuição. Podia ser fatal. Os homens altos e bonitos só queriam ser adulados pelo resto
de seus dias. E as chances de um compromisso sincero eram limitadas pelo
aparecimento de outra mulher que o adulasse mais.
Carla não tinha tempo nem energia para afagar um ego desse tamanho. Tudo o que
almejava era uma existência partilhada a dois, com amor e respeito. Não um rapaz
como Richard McCall.
Esses pensamentos a convenceram, até que adormeceu. Richard estava em seus
sonhos, esperando por ela, deitado de costas, usando apenas um sorriso.

Logo depois da meia-noite, Carla acordou com o ruído de um carro. Olhou pela
janela e pôde observar um homem de meia-idade entrar na casa, com uma maleta
preta pendendo de uma das mãos. O médico, Carla deduziu, pensando logo em
Richard.
O doutor ficou por mais de uma hora. Pelo visto, Richard estava com dores e
desconforto. Apesar de odiar o fato, Carla teve de admitir que, em parte, era a
responsável.
Atirou-se sobre a cama e suspirou. Que maneira de começar um relacionamento...
qualquer tipo que fosse.

Passaram-se mais dois dias antes de Carla tornar a vê-lo. Trabalhava no projeto da
casa nova de Roarke.
Pelos boatos, soubera que o médico viera mesmo por causa de Richard, embora
ninguém entrasse em maiores detalhes. Todos riam e faziam troça. Menos ela.
Carla tinha certeza que o estado de Richard era grave, e ficava doente só de pensar
que fora a causadora. Quando, enfim, o viu de relance, sentiu-se aliviada. Tanto que
resolveu se juntar a ele ao vê-lo de pé outra vez __ ela cumprimentou-o, sorridente. __
Como esta se sentindo?
Richard a olhou com atenção. Carla era a mesma mulher de seus sonhos febris dos
últimos dias. E tão perigosa... Deixava-o furioso. Esticou o braço para impedir-lhe a
aproximação.
__ Não se aproxime mais. Não posso me arriscar. Não tem idéia do que passei.
__ Sinto muito...
Doía saber que ele a culpava por aquele fiasco. Observou-o a dois metros de
distância. Richard lhe pareceu pálido e cansado.
__ Vai ficar... Quero dizer, você... __ Carla mordeu o lábio.
Richard a olhou com uma ponta de malícia. Ele conseguira constrange-la.
Não era vingativo ou malvado, apenas se deliciava com a cena. Também já estava
farto de permanecer sozinho. Desde que o médico ordenara que ficasse afastado dos
cavalos e do trabalho por uma semana, tinha vontade de conversar com alguém. Mas
nÃo lhe daria o gosto de dize-lo. Isso seria admitir o interesse.
De qualquer modo, era fascinante ver o rosto de Carla mudar de cor, e a forma como
arrastava os pés na terra, evitando seu olhar.
Carla fez nova tentativa:
__ O que estou tentando dizer é... __ Ela ficou vermelha como um tomate. __ Vai
ficar estéril por causa do machucado?
Richard riu, com pena de tê-la feito passar pelo embaraço.
__ Não, não vou ficar estéril. Apenas distendi um músculo ao desmontar do cavalo, e
o inchaço da queda anterior nÃo ajudou em nada. Mas, para ser sincero, foi a gripe
que me derrubou. Agora estou bem melhor, só um pouco dolorido. __ Fez uma pausa,
e sua voz soou mais gentil: __ Olhe, sinto muito se achou que foi a responsável. Venha
aqui, vamos conversar. Fale-me de seu trabalho. Roarke está exultante com seu
projeto e as modificações que fizeram juntos.
Carla hesitou, zangada por ter se constrangido com as partes íntimas dele enquanto
o problema era outro. Mas não deixava de ter uma parcela de culpa. Afinal, tirara
conclusões precipitadas.
Aproximou-se devagar. A última coisa que queria era causar outro acidente. Ficou de
pé diante dele, e conversaram sobre meteorologia e como era belo o local. Richard lhe
sugeriu algumas atrações locais dignas de visita, como uma viagem de dois dias pelas
montanhas.
Quando Richard sugeriu uma bebida gelada, Carla correu à cozinha. Voltou
satisfeita com dois copos de limonada. Entregou um a Richard e sentou-se a seu lado
no balanço. No entanto, as velhas cordas se romperam, e os dois caíram ao chão.

CAPÍTULO TRÊS

Carla ficou paralisada, o copo de limonada ainda intacto na mão. Nenhuma gota
derramada. Olhou para o caubói estendido entre os pedaços de madeira partida. Ele
soltou um urro de dor, seguido de vários gemidos.
Ela se encolheu. Tinha de ser uma coincidência maluca. Já era a segunda vez que o
derrubava.
O cômico da situação a atingiu nesse instante. Mordeu o lábio para evitar a
gargalhada, mas quase se engasgou. Não pôde se conter e desatou a rir.
O gigante a seu lado grunhiu algo incompreensível.
__ Não foi minha culpa! __ Lágrimas de riso escorriam pelas faces de Carla. Era
tudo tão ridículo...
Richard procurou ignora-la. Ele nem recuperara o fôlego e ela já estava se
divertindo. Gemeu de novo, zangado. O que havia de errado com aquela mulher? Se
tinha o intuito de mata-lo, estava se saindo bem. Passo a passo, chegaria ao objetivo.
Richard sentia-se como uma isca no anzol, e Carla achava engraçado faze-lo sofrer
antes de liquidá-lo.
Como se não bastasse o sofrimento dos últimos dias. Estava pagando por todos os
pecados. Não era fácil. Deitado em sua cama, doente, pedira perdÃo pelas muitas
vezes em que judiara dos irmãos.
Também descobrira muitas coisas. Primeiro, não suportava a dor física. Segundo, o
leito era o mais desconfortável do mundo. Curto demais e com um colchão cheio de
calombos.
E então, havia sua imaginação fértil. As fantasias sobre seu tormento, Carla. Estas o
levaram até o limite.
Nas horas de grande desconforto, pensara em se tornar um ser humano melhor, mais
gentil com todos, inclusive com ela. Mas todas as boas intenções se foram diante das
gargalhadas dela.
__ Cale-se! Não percebe que me machuquei? __ A voz de Richard mostrava-se cheia
de fúria. Interrompeu-se quando uma ponta cortante rasgou-lhe a calça e cortou-lhe o
traseiro.
Carla perturbou-se com a ira de Richard.
__ Ora, vamos, McCall! Não pode negar que é engraçado tudo isso. Desajeitada, ela
ficou de pé.
__ Alguém já falou que é uma feiticeira, Carla Masters? __ perguntou, sarcástico.
__ Não.
__ Bem, eu falei!
Carla mordeu o lábio e examinou a situação de Richard com interesse. Por falar em
déja vu, já não o vira nessa posição alguns dias antes? E por que justo agora que
estavam se entendendo?
__ Você está bem? __ Carla quis saber __ Dê-me sua mão, vou ajuda-lo a se levantar.
__ Esqueça. Suma daqui! Vá embora antes que acabe me matando. __ Richard
tentou se levantar, mas nÃo conseguiu. __ Santo Deus!
Tentou puxar o pedaço de madeira da nádega. Além de ter estirado o músculo, estava
preso ao chão por um talo pontudo.
__ Busque alguém para me ajudar, Carla. Alguém grande e forte. E não precisa
voltar. Fique longe de mim!
Carla correu até o celeiro mais próximo. Gostaria de ficar e discutir, mas Richard
precisava de socorro urgente.
Em sua mente, podia vê-lo estirado sobre o balanço quebrado. Não pôde evitar o
remorso e o desespero.

Roarke e Reese não paravam de rir quando Carla veio mais tarde saber notícias
sobre Richard. O médico viera outra vez naquela tarde. Pudera ouvir os grunhidos e
imprecações de Richard durante a meia hora em que o doutor estivera em seu quarto.
Carla se aproximou dos dois homens sentados no degrau da varanda desfrutando a
noite quente com uma cerveja gelada.
__ Ah, olá!
__ Ei, Carla! __ Reese a saudou. __ Você também deve estar dolorida esta noite. Tem
certeza de que está bem? Não se machucou esta tarde, não é?
__ Não, estou ótima. Como vai Richard? __ Ela lembrou-se das palavras ásperas de
Richard quando Roarke o tirou dos destroços do balanço. Corou diante da
recordação. __ Pude ouvi-lo quando o médico esteve aqui. Como ele está?
__ Tudo certo, Carla, e não importa o que Richard tenha dito, a culpa não foi sua.
Este lugar está caindo aos pedaços. O balanço da varanda tem sido um risco há anos.
Richard devia saber. __ Roarke tomou um gole da garrafa, então mudou de assunto.
__ Diga, como
está nossa planta?
Carla trabalhava na revisão das modificações da residência nova de Roarke
enquanto esperavam a chegada da equipe de operários para fazer a fundação.
__ Estou terminando, Roarke. Amanhã estará pronta. Hoje não consegui fazer muito
depois do incidente. __ Torceu o nariz e puxou pra baixo a bainha do short.
__ Não tenha pressa, Carla. Demore o tempo que precisar. E não se preocupe com
Richard. Meu irmão está ótimo.
E por que o ouvi gemendo e xingando quando o médico esteve aqui? __ Carla ergueu
o queixo.
Reese gargalhou, e Roarke procurou manter-se sério, ao explicar o delicado estado
de Richard:
__ Algumas farpas ficaram presas você sabe onde, e o doutor as removeu.
Carla se encolheu.
__ Agora, Richard não poderá cavalgar por uma semana. Nem sentar. É bom vê-lo,
enfim, sentir na própria pele como a vida pode ser desconfortável. Até sua chegada,
Carla, nosso irmãozinho nunca tivera um acidente. __ Reese sorriu.
Os homens possíam uma linha de raciocínio estranha. Carla nÃo conseguia entender
como Reese podia se divertir com as desventuras do irmão.
Roarke se juntou as risadas de Reese, e Carla sacudiu a cabeça, incrédula. Homens...
Pensou ter ouvido um ruído na janela de Richard. Mas não havia ninguém. Decerto
ele já tinha ido dormir. O médico devia ter lhe dado algum tipo de analgésico.
__ Aceita uma cerveja Carla?
__ O que disse? Perdoe_me, estava com o pensamento longe. __ Ela olhou para
Reese, que estava à soleira esperando por uma resposta.
__ Uma cerveja, Carla. Aceita uma? __ Repetiu.
__ Ah, não, já vou me deitar. Obrigada.
Carla desejou-lhes boa noite e seguiu até o trailer, sentindo que era observada por
mais de dois McCall.
Quando chegou, Carla tornou a olhar para a janela de Richard. Lá estava sua
silhueta contra a luz de fundo do quarto. Vestia apenas uma toalha ao redor dos
quadris, o braço do tecido contrastando com o bronzeado. O peito coberto de pêlos,
uma garrafa na mão. Ele a encarava.
Se Carla achasse que Richard poderia vê-la, teria se escondido. Em vez disso, porém,
permaneceu em silêncio, observando-º
“Nossa, como ele é belo! Exemplo magnífico de virilidade.”
Observou-o levar a cerveja aos lábios e tomar um gole. Richard saudou-a com a
garrafa e fez um gesto de cabeça, virou-se e deixou a toalha cair.
Carla suspirou, surpresa. Mesmo a distância, podia ver muito bem o traseiro
musculoso antes que Richard desaparecesse na escuridão.
Ela ficou sentada, pensando, por um longo período. Quisera nunca ter posto os olhos
naquele coubói. O que teria sido uma pena... Em sua cidade, ele seria considerado um
espécime perfeito. Para Carla, era apenas um problema e um destruidor de corações
em potencial. Os homens sempre eram sinônimo de dor e mágoa.
Trabalhara muito para chegar ao topo da firma de arquitetura onde conhecera o
noivo. Projetara prédios magníficos e premiados, e Peter levara o crédito. Mas, por
amor, Carla deixara passar. Então, os pais de Peter haviam feito chantagem para que
a abandonasse. Achavam-na inferior ao filho. Dispuseram-se a comprar a firma se
Peter desmanchasse o compromisso. Ele nem hesitara, feliz por ser dono do próprio
negócio. Descartara Carla sem pensar duas vezes, e por causa do constrangimento
entre os dois, despedira-a por um motivo técnico.
Depois de todos esses meses, a perda do emprego doía mais que o rompimento do
noivado. Tivera de rastejar de volta à firma da família.

A noite estava quente para o mês de junho.


Carla se virava de um lado para outro, o pensamento em Richard. Não o via fazia
algum tempo.
Frustrada e zangada por não tirá-lo da cabeça, decidiu se acomodar do lado de fora e
tomar uma bebida gelada em vez de lutar contra a insônia.
Trabalhara até tarde todas as noites dessa semana. Desenhara as primeiras plantas
da casa de Reese, e a construção de Roarke já estava adiantada.
O ar era úmido e parado. Carla percorreu o céu com o olhar em busca de sinais de
uma tempestade. Perdera a previsão meteorológica do noticiário noturno, e agora era
tarde. A única estação que conseguia pegar na televisão portátil tocava música aquele
horário.
Despiu a camisola de algodão e se abanou com ela. Lembou-se de que tinha outra,
mais fresca, e decidiu entrar e se trocar.
Vestiu um baby-doll de seda rosa, e saiu novamente do trailer. Agora podia sentir a
brisa, e ouviu ao longe os primeiros trovões. A tempestade estava distante. Podia
relaxar.
Sentou-se numa cadeira confortável e aspirou o ar fresco. Adormeceu e se viu nos
braços de um homem forte e musculoso.
Nesse momento, Richard estava na janela do seu quarto, desfrutando da brisa
deliciosa. O calor quase o enlouquecera, e jurou colocar um ar-condicionado em sua
nova residência.
O pior era a proximidade daquela perigosa e sedutora mulher.
Richard a observava havia dias, apesar de saber que não devia. Adorava admirar sua
figura curvilínea, o andar sensual. Desenvolvera uma obsessão por aqueles longos
cachos negros. Mas qual homem não teria a fantasia de se enrolar neles?
Richard a vira correndo todas as manhãs, como se estivesse em busca de algo.
Numa tarde ele a vira vestida num maiô que mal cobria-lhe os seios fartos. Carla se
deitara ao sol e despertara a atenção dos operários. Um deles até assobiara, e Richard
tivera vontade de descer e lhe acertar um soco.Richard a vira na parte traseira do
trailer. Nua.
E agonizara diante daquele corpo perfeito. Nesse momento, sofria de um mal que só
ela podia curar.
Deitado em sua cama, Richard rolou, deitando-se de barriga para baixo para
conseguir uma posição mais cômoda. Os hormônios estavam no comando, e só o
lembravam do que não podia ter.
Virou de um lado a outro até adormecer. Sonhou que tinha Carla sob si, sem fôlego,
incentivando-o com gemidos e sussurros. Richard mergulhava em sua carne quente,
penetrando-a e levando-a ao clímax. Sentiu-se, enfim, relaxar, aliviado.

Richard acordou de repente, prestes a explodir, o travesseiro comprimindo seu


abdome. Xingou baixinho e desejou que os hormônios lhe dessem uma trégua.
Um trovão fez a casa estremecer, e Richard saltou para o chão. O raio caíra tão
próximo que pôde ver as faíscas junto à janela. A chuva tão esperada caía, torrencial.
O primeiro pensamento foi Carla no velho trailer. Caminhou até a janela e espiou.
Tudo parecia tranqüilo. Os relâmpagos exibiram o trailer ainda intacto, embora
balançasse com as lufadas de vento.
Forçou-se a retornar à cama e deitar-se. A borrasca persistia, barulhenta, do lado de
fora.
Na verdade, Richard apreciava a chuva forte, mas, como fazendeiro, precisava
pensar nas vacas e bezerros à solta. Recordou de certa vez em que ajudara, junto com
os irmãos, a reparar os estragos no celeiro de um vizinho, provocados por um raio.
Todos os animais em seu interior haviam perecido. O fazendeiro perdera tudo. A vida
fora destruída num único golpe.
A natureza era uma poderosa parceira, imprevisível e feroz, mas também podia ser
gentil e generosa.
Resmungando, rendeu-se à preocupação sobre Carla. Vestiu uma camisa de flanela e
uma calça jeans e desceu a escada na ponta dos pés. Era estupidez Carla ficar lá fora e
arriscar-se tanto, à toa. Afinal, não se tratava de uma chuvinha, e aquele velho trailer
estava caindo aos pedaços.
Por que os irmãos não haviam pensado nisso antes? Na certa, tinham assistido à
previsão do tempo antes de ir dormir. Deviam tê-la convidado para passar a noite
dentro de casa.
Esgueirou-se até a cozinha, à procura das botas de Roarke.
Um relâmpago iluminou o cômodo.
Estava próximo à porta dos fundos quando notou uma sombra no sofá no canto da
cozinha. Aproximou-se em silêncio e pôde ouvir soluços.
Ficou paralisado.
Mais um clarão e conseguiu vislumbrar uma figura encolhida sob a coberta. Ela
tremia. Era pequena demais para ser um de seus irmãos. Os soluços femininos
esclareceram tudo.
__ Carla? __ Richard sussurrou, então recuou receoso.
Ela permaneceu imóvel, sem levantar a coberta da cabeça.
__ Vá embora, Richard.
__ Você está bem? __ Era evidente que esse não era o caso.
__ Estou __ afirmou, sem a menor convicção.
__ Nota-se... Não está nada bem, garota. Tire essa coberta da cabeça e fale direito
comigo.
__ Não! __ Carla protestou, chorando. Então, deu um salto com o estrondo do
trovão.
__ Ah, está com medo da tempestade! Não a culpo por isso. Também não estou
gostando. Tire o cobertor e poderemos tomar uma bebida e esperar a chuva passar.
__ Acho que não, Richard. Toda vez que me aproximo de você, acaba se
machucando. Seria melhor se voltasse para o quarto.
Richard sentou-se no sofá ao lado de Carla e descobriu-a . Ela tremia, e seus olhos
estavam arregalados como os de uma coruja.
__ Agora diga-me uma coisa, garota. Não está com medo de trovão, está?
__ E se estiver? O problema é meu! __ Carla pulou de novo com a trovoada. __ Sim,
estou. Eu os odeio. E parecem mais barulhentos aqui nas montanhas. Trazem de volta
más lembranças e muita dor.
Carla se aninhou nos braços de Richard e segurou-lhe os ombros.
Richard ficou atônito com a revelação e confuso pela profusão de lágrimas. Jamais
vira uma mulher chorar, exceto sua tia Ettie. E não fora no seu ombro.
Carla se aproximou mais e tornou a soluçar. “Que faço agora?”, ele pensou.
__ Está melhor assim, Richard? __ A pergunta trouxe mais lágrimas.
__ Olhe não precisa chorar. A chuvarada não vai machuca-la.
__ Eu sei. __ Mas continuava chorando copiosamente, e Richard não sabia o que
fazer. Gostaria de protege-la. Sentiu o corpo todo enrijecer.
Tentou se desvencilhar dela. Não queria que percebesse a reação do seu corpo
através da fina seda do baby-doll.
__ Olhe, querida, sinto muito que esteja assustada, mas não sei mais o que fazer. __
Richard sentia-se desconcertado.
__ Já está fazendo. Você é forte e grande. Agora não tenho nada a temer.
Carla fungou e respirou, e, enquanto Richard pensava no que diria para acalmá-la,
pôde ouvir sua respiração voltando ao normal. Ele a segurou com firmeza, e notou
que estava muito quieta. Na certa, adormecera. Contemplou os cílios longos e úmidos,
as faces pálidas. Sim, Carla dormia. Em seus braços.
Deus, como era bom tê-la assim tão perto! Richard fechou os olhos e desfrutou o
momento. Poderia até se acostumar.
Desde o princípio, soubera que ela seria um problema. Porém, só agora percebia o
tipo. Uma tempestade maior do que a de fora se formava dentro dele. Sentiu o peito
pesado. O coração, descompassado ao admira-la entregue ao sono tranqüilo.
Podia aceitar a atração física, mas não aquela emoção, a paixão que Carla
despertava.
Sempre se mantivera distante das mulheres, do outro lado das muralhas que erguera
para proteger-se do amor. Mas, se não tivesse cuidado, aquela em seus braços
entraria, sorrateira, antes que sequer pudesse pensar em se defender. Precisava
afastar-se. Não poderia usar a máxima de sempre: amá-las e abandona-las. Nesse
caso, não funcionaria.
Teria de manter uma distância segura de Carla Masters. Desde já.
Quando viesse a se casar, não desejava ter de conviver com essa confusão de
sentimentos. Se permitisse, Carla Masters o escravizaria pelo resto de seus dias.
Ele a colocou sobre o sofá, com cuidado. Levantou-se, determinado, mas Carla
sonhadora puxou-o para um beijo incomparável e delicioso. Seu corpo era macio,
quente e proibido, sobretudo quando inseriu a ponta da língua entre os lábios dele.
Ainda com os braços em volta dela, Richard cedeu ao convite e a beijou com paixão.
Ela era doce sexy e quente. Imaginou como seria o êxtase de mergulhar em seu calor.
Perdido em seu deleite, não percebeu a porta da cozinha se abrir. Nem a luz ser
acesa.
Roarke pigarreou.
Richard sentiu o corpo de Carla retesar-se, então o pior aconteceu.
__ O que está fazendo Richard? __ Roarke indagou.
Carla percebeu o que ocorrera. De súbito, estava desperta e ciente de que o beijo não
fora um sonho. Empurrou Richard com força e desferiu-lhe um tapa que ecoou no
cômodo.
__ Como ousa?! __ gritou zangada.
__ Carla, ele não teve a intenção... __ Reese procurou acalmá-la, enquanto Roarke
conduzia Richard para fora da cozinha. __ Ficou tempo demais confinado nesta casa.
Esqueça tudo, por favor.
Carla ficou estática. Enrubesceu ao voltar à realidade. Estava de baby-doll. O que
não teriam pensado Roarke e Reese? Puxou a coberta até o nariz.
Não foi culpa dele. Sinto muito. Também errei. Richard estava me confortando. Devo
ter adormecido. __ Endireitou os ombros, e notou o que dissera.
__ Está bem. Falaremos sobre isso pela manhã. Está cansada. Deite-se e relaxe. Não
quero que volte ao trailer neste temporal.
Carla até esquecera a chuva.
__ Não sei se é uma boa idéia, Reese.
__ Claro que é! Fique aqui. Boa noite __ Reese murmurou e saiu.
Carla permaneceu deitada no sofá, mortificada. Fizera um papelão. Primeiro, agira
como uma criança assustada diante de Richard, para depois seduzi-lo. Será que só
sabia expressar seus sentimentos quando dormia?
Mas o pior tinha sido o tapa. Ela começara tudo e, quando ele correspondera, tivera
aquela reação precipitada. E ainda havia confessado a Reese que estivera sonhando
com Richard. Por que não admitia de uma vez que tinha tantas fantasias com ele, que
já não sabia a diferença entre estar acordada ou dormindo?
“Vamos, Carla, modere-se. A última coisa de que precisa é se apaixonar por um
caubói.”Contudo, parecia ser tarde demais. Ela não era dada a flertes. Sempre fora
sensata. Mas Peter havia mudado tudo.
Agora já não sabia mais como agir com o sexo oposto. E se fosse outro engano? Por
que reagia dessa forma a Richard?Estaria se atirando em seus braços por causa de
Peter? Oh, que confusão!
Pensaria melhor pela manhã. A claridade do novo dia a ajudaria a refletir.
Entretanto, suspeitava que o dia seguinte seria tempestuoso, e não era no tempo que
pensava...

Na manhã seguinte, Richard entrou na cozinha, hesitante, sem saber o que encontrar.
Surpreso, deparou com os irmãos e o jornal de domingo. Um deles, pelo visto, já tinha
ido à cidade.
__ Algum estrago depois do temporal da noite passada? __ Richard indagou, e
serviu-se de café.
__ Nada além do esperado __ Roarke respondeu num tom diferente do usual. __ O
que houve com você ontem à noite? Por que atacou Carla daquele jeito? Prometi a
Alex que cuidaria bem dela, Richard. Carla passou por um mau pedaço, está
vulnerável. Então meu irmãozinho aparece e tenta seduzi-la. O que foi que lhe deu?!
Richard bateu a caneca no balcão e se virou, os olhos cheios de fúria.
__ Eu não a ataquei! Desci para tira-la daquele velho trailer. Como podia imaginar
que já estava aqui dentro? Apenas tentava conforta-la. Foi Carla quem forçou as
coisas.
Roarke deu um murro na mesa e todos ficaram imóveis.
__ Ela não é desse tipo. Qualquer um pode perceber. Carla é pura.
Richard inclinou-se sobre o balcão e falou, num tom ameaçador:
__ Bem, então, meu querido Roarke, você ficou mais do que devia em cima do seu
cavalo e esqueceu como são as mulheres. Carla é tudo, menos pura. Não me diga que
não notou aquele corpo. E ela sabe como usa-lo. Não que vá ter outra chance comigo.
Não quero nada com aquela feiticeira! __ Richard se endireitou, e olhou para os dois
irmãos. __ Não há nada entre mim e ela, e jamais haverá. Portanto, não precisam se
preocupar.
Roarke ficou vermelho de raiva, e estava prestes a retaliAR, QUANDO Reese o
interrompeu:
__ Richard está certo, Roarke. Carla me contou que foi a responsável, que Richard
apenas a confortava. Vamos esquecer o assunto.
Richard apanhou o chapéu e saiu, sem comer. Atravessou o pátio, lançou um olhar
para o trailer e prosseguiu. Foi até o celeiro, selou Golden Bear, apanhou o saco de
dormir e encheu os alforjes de suprimentos diversos. Montou o animal e seguiu,
satisfeito. Depois de mais de duas semanas sem cavalgar, era relaxante estar de novo
sobre a sela do cavalo.
Galopou em direção as colinas do Norte, para um lugar que sabia ser tranqüilo e
sossegado. Era um local onde poderia pensar com calma e extinguir a animosidade
crescente em seu interior.

A pequena lagoa era uma de tantas da região. Não era muito profunda, apenas o
bastante para cobrir o corpo dolorido de Richard.
O sol se punha atrás da montanha. O saco de dormir estendido próximo ao fogo, o
coelho que caçara assando no espeto, o bule de café borbulhando.
Cavalgara o dia todo pra chegar ali. Agora que chegara, a calma do lugar o
contagiava, mas não lhe trazia paz de espírito. Carla ainda o perseguia em
pensamento, macia e vulnerável, aninhada em seu colo.
O que estava acontecendo com ele? Por que ela o deixava tão angustiada? Por que
Não podia parar de pensar naquela mulher?
Richard relembrou as namoradas que tivera. Conhecia bem os caprichos e truques
delas. Mas Carla era diferente, especial, de um modo que ele não sabia precisar.
Talvez se a tivesse uma única vez poderia tira-la da cabeça.
Por outro lado, temia que, se fossem para a cama, jamais conseguiria esquece-la.
Com Carla, teria de casar e ter filhos... Oh, céus, não queria nem imaginar o resto!
Mas a palavra “amor” teimava em persegui-lo. E disso Richard queria distância.
O amor enfraquecia o homem, e ele não queria ser subjugado por uma tentação de
um metro e meio. Nem queria ser o seu fantoche. “Não, senhor, essa história de
envolvimento sério não serve para mim”.
Richard saiu da lagoa, seguiu até o fogo e virou o espeto.
__ Não vou me envolver. Não quero deseja-la!
Richard se levantou. Atirou a cabeça para trás e gritou sua ira e frustração na
escuridão silenciosa. Como resposta, teve o uivo de uma loba distante.
Richard se acomodou no saco de dormir. Mulheres... Elas apenas mexiam com os
hormônios masculinos e traziam angústia.
Apesar desses departamentos, Carla penetrou em seus sonhos.
Então, soube que estava perdido. Ela o invadira onde nenhuma outra ousara chegar,
e sem esforço. Contudo, lutaria até o fim.

CAPÍTULO QUATRO

Carla reuniu coragem e decidiu falar com Richard dias depois.


__ Ouça, quero me desculpar pela outra noite. Não foi o único responsável, e sei que
seus irmãos o estão atormentando.
Richard parecia exausto depois do dia de trabalho duro. Além disso, estava um dia
muito quente. Mas, mesmo suado e sujo, para Carla era irresistível. Havia algo de
muito atraente num homem que fazia trabalho braçal. Pelo menos para Carla.
Richard enfiou a cabeça embaixo da mangueira e lavou-se. Ela era linda, até com as
manchas de suor na camiseta. Ainda exausto e imundo, era afetado pela presença dela.
O sangue fervia, e algo potente e incontrolável tomava conta dele.
Carla o enlouquecia! Aquele corpo o tentava e atazanava mais do que gostaria de
admitir. E, sem dúvida, arrumaria mais encrenca. Precisava ignora-la. No final do
verão, Carla partiria, e Richard voltaria ao normal.
__ Bem... Não vai dizer nada? __ Carla indagou, impaciente.
Richard estava embevecido demais para falar. Encantado com a beleza e
sensualidade de Carla. Precisava fazer alguma coisa para conter aquele desejo
incontrolável.
Mais uma olhada e teve certeza de que seria impossível resistir.
Ele se virou e olhou para as montanhas ao longe.
__ Parece-me que não conseguimos nos entender de maneira civilizada. Será melhor
ficarmos afastados.
Carla sentiu-se ofendida. Afinal, viera até ele se desculpar.
Melhor assim. Também virou-se sem dizer nada. Não precisava dele. Nem sequer
gostava daquele homem. O que precisava era de uma noite de diversão. Música,
dança, talvez um flerte. Já passara tempo demais sozinha.
Depois de Peter, a vontade de se divertir fora esquecida. O ex-noivo não gostava de
freqüentar essas casas noturnas e bares. Mas, agora, não via motivo para seguir as
preferências dele. Era solteira, jovem e livre. Podia desfrutar os prazeres que quisesse.
Até dançar a noite toda! E nada melhor que uma boa noitada.

Pinetar era uma cidade pequena que servia de apoio a umas dez mil pessoas que
viviam nas fazendas em volta. Era próspera, apesar de estar localizada no meio do
nada. Tinha uma comunidade pequena e restrita, apesar dos vizinhos próximos. As
pessoas dali se conheciam e se respeitavam.
Duas igrejas, uma agência de Correio, uma mercearia e dois restaurantes ficavam
numa extremidade. Na outra, uma praça com cinema, duas lojas de departamentos,
um banco e uma confeitaria. Em frente à praça, o armazém e o único bar da região: o
Klancey’s.
Klancey era um velho caubói que vivia brigando com outro morador, Abby
Lancaster. Abby era o vizinho mais próximos dos McCall, o que os colocava no meio
da disputa, mas isso não os impedia de freqüentar o bar.
O Klancey’sestava cheio, a turma de sempre, com um ou dos forasteiros. Richard
sentou-se no banco do bar, e Klancey lhe serviu um chope. Bebeu metade e limpou os
lábios com as costas da mão. No espelho à frente, podia ver o reflexo do conjunto
arrumando os instrumentos. Num canto, havia um grupo de caubóis de um rancho
vizinho, o Circle W> Richard. Conhecia-os, mas essa noite preferia ficar sozinho.
Klancey interrompeu suas atividades de barman.
__ Ouvi dizer que estão construindo casas novas lá no Blue Sky. De madeira, não é?
Richard assentiu com um gesto de cabeça.
__ É, Roarke pôs na cabeça que eu e Reese precisamos nos casar. Ele acha que uma
residência nova será um atrativo a mais na conquista de uma mulher.
__ Sei... Também está à procura de uma esposa? __ Klancey mascou tabaco e cuspiu
na cuspideira de latão.
Richar riu e ergueu o chapéu.
__ Não preciso de uma garota, exceto para uma coisa. __ Sorriu, malicioso. __ Quero
distância de casamento e mulheres. Elas não são mais do que problemas.
Klancey resmungou e se afastou. O conjunto começou a tocar, e logo vários casais
dançavam.
Richard terminou o segundo chope e virou-se para admirar as pessoas na pista. Foi
então que a viu.
“O que ela está fazendo num lugar como este?!” Richard quase caiu do banquinho.
Sempre soubera que Carla era sedutora, mas assim era demais. Aquele jeans tão
apertado mais parecia ter sido pintado no corpo dela. Aquelas pernas esguias e sexies
eram a coisa mais perfeita daquele lado das montanhas. E a blusa que vestira era a
peça mais indecente que já vira, destacando-lhe os seios exuberantes.
Como podia ter feito isso? Reparou que os rapazes do Circle W. estavam com os
olhos grudados nela. E não eram os únicos.
Richard levantou-se e puxou o chapéu sobre os olhos, então dirigiu-se a Carla, quase
batendo em outro caubói no caminho. Pegou o braço dela com firmeza e a arrastou
até o bar.
__ Richard, o que está fazendo?! __ ela indagou, furiosa, e tentou se libertar.
Vou oferecer-lhe uma bebida. __ Ele gesticulou para Klancey e a empurrou no banco
a seu lado. __ Tem idéia do que aqueles homens estão pensando de você, vindo aqui
vestida desse jeito?!
Richard olhou-a de cima a baixo.
Como vestiu essa calça Carla? Acho que nunca vi nada tão justo em minha vida. Está
procurando encrenca, menina.
Ultrajada, Carla balançou o punho para atingi-lo, mas Richard pegou-lhe a mão no
ar.
__ Não preciso ouvir essas coisas de você, caubói. Não é meu dono!
Carla fez menção de se levantar.
Klancey serviu dois chopes e arregalou os olhos quando a viu.
__ Bem, bem, o que temos aqui?
Richard sentiu um nó na garganta. Não era certo Klancey olhá-la daquele jeito, nem
os outros.
__ Esta é Carla Masters. Ela vai passar o verão conosco no Blue Sky.
Klancey ergueu as sobrancelhas e encontrou o olhar de Richard. Em silêncio, uma
mensagem foi passada entre os dois, e Klancey maneou a cabeça.
__ Prazer em conhecê-la, Carla. Espero que goste da região.
__ Estou certa de que vou gostar, assim que tiver chance de conhecer melhor este
lugar. __ Apanhou a caneca de chope e levantou-se.
Klancey seguiu-a com o olhar, enquanto Carla foi sentar-se em uma mesa próxima ao
conjunto. Os olhos de Richard mantinham seu brilho possessivo.
__ Eis uma mulher difícil de se amansar. __ Quando Klancey percebeu a expressão
dele, pigarreou e resmungou que Richard seria o único capaz de fazê-lo.
Mas, no decorrer da noite, Richard passou a ter sérias dúvidas. Não a perdeu de
vista um único instante. Carla bebeu muita cerveja, e flertou e dançou com quase
todos os homens presentes.
Richard pressentia que ela desconhecia o quanto era sexy. Nem parecia notar que era
o centro das atenções masculinas e femininas. As outras mulheres a mediam e até
mesmo imitavam seu jeito de andar.
Richard já estava perdendo a paciência quando a viu muito perto de um sujeito no
bar. Foi a conta. Carla já fizera estrago suficiente. Dirigiu-se até o balcão, pegou-lhe o
braço e a puxou.
__ Vamos, querida. Está na hora de ir pra casa.
Carla o encarou, furiosa.
__ Solte-me, Richard McCall! Não sou sua querida, nem de ninguém. Deixe-me em
paz!
__ Carla, não estou gostando nada disso. Agora, vamos. Já se divertiu bastante.
Carla se virou, livrou o braço e olhou-o no fundo dos olhos. Então, deu-lhe um soco
na barriga.
Richard não esperava uma reação como essa. A dor foi tão aguda que nem pôde
gemer. Todos a sua volta riam. Antes que Carla percebesse, Richard a atirou sobre o
ombro e a carregou pra fora. Ela lutou, mas só conseguiu bater a cabeça no batente.
Foi a situação mais embaraçosa da vida de Carla.
Richard a levou até sua caminhonete nova. Ela se debatia, ensandecida.
__ Não tinha o direito de... __ O resto se perdeu quando ele a calou com um beijo. __
Como ousa seu gorila?!
Richard tornou a beijá-la, com maior determinação. Passou a língua por seus lábios,
forçando-a a afasta-los.
Carla resistiu o quanto pôde, mas já sentia a cabeça rodar e o coração disparar. Não
sabia como explicar, mas suas mãos já estavam no colarinho da camisa dele, os seios,
comprimidos contra o tórax musculoso de Richard. Sabia que seria assim com ele.
Desde o beijo na cozinha naquela noite da tempestade.
Richard diminuiu a pressão da carícia, mas prosseguiu no ataque a todos os
sentidos.
Carla podia sentir a tensão dele contra seu corpo. Richard estava tão excitado
quanto ela.
Enfim, cedeu à língua dele e permitiu que explorasse sua boca, saboreando-a, sem
pressa.
Richard se afastou devagar, fitando-a pelo que pareceu uma eternidade. Sentiu que
ia enlouquecer diante dos movimentos sinuosos dos quadris de Carla. Gemeu e
deixou-a brincar, espantado pela resposta. Baixou a cabeça e sussurou a seu ouvido:
__ Minha senhora, precisamos ter uma longa conversa. Eu quero fazê-la lembrar-se
desta noite para sempre. __ Acentuou as palavras com um movimento que, em outras
circunstâncias, pareceria indecente.
Carla não disse nada. Nem quando ele a ergueu e a colocou no banco do passageiro.
Richard ligou o motor, colocou uma mão na direção e a outra na coxa de Carla, e
seguiu. Ela podia sentir um calor emanando de seu interior, e sabia que ele podia
perceber o quanto estava excitada.

Richard precisava tê-la. Acabaria com aquele martírio, e ambos atingiriam o êxtase.
__ Pare... pare a caminhonete __ a voz de Carla se fez ouvir, e Richard freou
bruscamente.
Ela desceu do veículo mais rápido que um coelho assustado em fuga. Richard não
entendeu até ouvi-la passando mal. Podia dizer adeus à noite de amor e paixão.
Bateu a palma na testa. Não devia ter se deixado levar pelas fantasias. Afinal, sempre
que estavam juntos, o inesperado acontecia.
Richard foi até Carla. Por mais que tivesse vontade, não poderia deixá-la assim no
meio da estrada.
Carla estava agachada no acostamento, o rosto transtornado. Richard se aproximou
com cautela. Já estivera em situação semelhante e não queria ferir seus sentimentos.
__ Está melhor? __ ele perguntou.
__ Sim...
Que situação! Estava pagando caro por sua altivez. Aquele era um constrangimento
além da imaginação.
A noite toda fora um fiasco. Flertara com todos, atentara Richard e se deixara
seduzir, e agora isso. Estava se tornando mestre na área de sedução! “Sim, Carla
Masters! Bem feito! Deixou-o excitado, e agora passa mal!”
__ Venha. Vou levá-la para casa, Carla. Estará melhor amanhã. __ Ele a ergueu em
seus braços fortes, mas Carla começou a passar mal de novo. __ Bem, acho que terei
de fazer o mesmo que Roarke faz comigo quando estou doente.
Richard a pegou no colo e assentou-a na carroceria da caminhonete. Entregou-lhe
um balde e voltou à cabine.
Carla esforçou-se para manter o equilíbrio. A estrada cheia de buracos a jogava de
um lado a outro. Céus, como ele podia agir assim com ela? A náusea já era o bastante.
Precisava puni-la dirigindo tão depressa?
O vento fazia seus cabelos chicotearem o rosto. Afastava-os quando viu a luz de dois
faróis se aproximando. “É tudo que preciso... Esta dor de cabeça e todos sabendo que
voltei pra casa na carroceria de Richard.”
Conseguiu cobrir-se com a lona.
Richard a espiou pelo espelho retrovisor. Ele a havia colocado na traseira para que
não sujasse sua caminhonete nova. Mas não devia Tê-lo feito, apesar de estar farto de
Carla Masters. O show no bar, depois os beijos no estacionamento, quase fizeram-no
perder a cabeça.
Como podia ignora-la se estavam sempre se metendo nessas situações? Não ligava
mais para os irmãos. Não tinha intenção de se casar. Nunca. Eles podiam cair nessa
armadilha, mas ele não.
Quando eles chegaram ao rancho, Carla estava dormindo. Richard não sabia ao
certo o que fazer dela. O melhor seria levá-la até o trailer e coloca-la na cama. Ou
podia leva-la para casa. Ou deixa-la na caminhonete e não tocar na tentação. Essa
parecia ser a melhor opção.
Admirou a lua brilhante no céu claro. Não estava frio, nem com jeito de chuva.
Desviou o olhar para Carla. Era meiga e feminina adormecida. Sentiu vontade de se
deitar ao lado dela. Virou-se. Era melhor deixá-la onde estava.
Caminhou até a varanda de entrada, então voltou. Não conseguiria dormir se a
deixasse ali na caminhonete. Levaria Carla até o trailer e pronto.
Mais fácil dizer do que fazer.
Respirou fundo em busca de controle. Carla era maravilhosa, sem dúvida. Os cabelos
negros esparramados no feno, a lua a realçar os finos traços do rosto... Richard ficou
tenso diante das lembranças dos lábios carnudos e macios. Antes que o corpo se
pronunciasse, tomou-a nos braços.
A coisa errada.
Ela pareceu se enrolar em seu colo e gemeu com candura. O som percorreu-o dos pés
a cabeça.
Richard arregalou os olhos e saltou depressa do veículo. Atravessou o pátio com
Carla em seus braços.
__ Não me deixe __ ela murmurou quando Richard a colocou pra dentro.
Ele a ajeitou sobre a cama, evitando o contato de seus braços. Não ia passar por
outra situaçÃo embaraçosa. Não dessa vez.
Richard respirou fundo e virou-se antes que a tentação fosse forte demais. Carla se
encolheu e resmungou, sonhadora. Richard correu pra fora na hora certa.

Na manhã seguinte, Richard evitou olhar na direção do trailer de Carla. Atravessou


o pátio a passos largos e entrou na caminhonete sem olhar pra trás.
Manobrou o veículo e entrou na estrada que levava à cidade. Estava mais que
satisfeito por ser sua vez de comprar o jornal e as rosquinhas do desjejum. Mal
pregara o olho, e estava furioso consigo mesmo.
No centro viu um caminhão conhecido diante da confeitaria. Estacionou e deparou
com Buck Wyman.
__ Ei, Richard! Como tem passado?
__ Bem, Buck. Quando voltou?
__ Acabei de chegar. Estamos indo para o rancho. Viajei a noite toda. Trouxe minha
futura esposa. __ Buck fez um gesto em direção à mulher, adormecida no caminhão.
__E você? Soube que teve um pequeno entrevero com uma jovem no bar ontem à
noite.
Richard olhou para o chão e chutou algumas pedras.
__ Oh, aquilo... Apenas uma jovem imatura e mimada. __ Percebeu o olhar
inquisitivo do amigo e desejou fugir o quanto antes. __ espero que seja muito feliz com
sua mulher, Buck.
__ Obrigado. Mas e você? Ouvi falar da casa que estão construindo no rancho. Vai
ter de encontrar uma pessoa e tanto para transformá-la num lar.
Richard maneou a cabeça.
__ De maneira alguma. Uma coisa é apreciar a companhia delas, outra bem diferente
é viver com elas para sempre.
__ Bem, eu também pensava assim antes de conhecer Sandy. Quando encontrar a
pessoa certa, verá tudo de uma nova perspectiva. Um dia mudará de idéia., McCall.
Olhe, preciso ir. Tenho de levar Sandy pra casa. Vejo você no casamento. __ Buck
entrou no caminhão, despediu-se e partiu.
Richard entrou na confeitaria, comprou duas dúzias de rosquinhas e o jornal.
De volta à caminhonete, a caminho de casa, sorriu. Imagine só, Buck Wyman se
casando. O solteirão Buck, avesso a compromisso sério. Devia ser uma mulher muito
especial a tal Sandy para faze-lo casar e se acomodar.
Richard deu de ombros. Não seria apanhado nessa armadilha.

Carla despertara aos poucos. Cada músculo de seu corpo doía. Mexeu a cabeça e viu
tudo rodar. “Oh, Deus, que dor de cabeça!”
Encolheu-se diante das lembranças da véspera. Humilhação e vergonha. Lágrimas
brotaram de seus olhos, mas era inútil se desesperar.

Levantou-se e foi até o espelho. Ainda estava vestida, porém, a blusa se manchara de
graxa.
Parecia ter tido uma noite agitada. Não que se lembrasse de nada, depois de Richard
tê-la colocado na carroceria da caminhonete. Aquele homem...
Pois mostraria a ele uma coisa ou duas. Não ficaria mais sentada se lamentando.
Despiu-se e apanhou o roupão. Uma chuveirada era a primeira coisa a fazer, depois,
um bom sono. Então, Richard McCall teria o troco.
O destino quis que Richard e seus irmãos estivessem cruzando o pátio quando Carla
estava a caminho do banheiro. Ele sorriu.
__ Bom dia srta. Masters. Arrumou alguma briga boa recentemente?
Carla o encarou.
__ Nenhuma que fosse justa. Mas isso vai mudar. Fique esperto McCall.
Entrou no abrigo e tapou os ouvidos, para não ouvir as risadas que ecoaram em sua
cabeça.

Dias mais tarde, logo após o desjejum, Richard surgiu no pátio em seu cavalo Golden
Bear.
Carla retornava da caminhada e meditação matinal, seu único recurso contra o caos
que era Richard.
Procurava ignorar o quanto ele era lindo e sensual, e a vontade incrível de seduzi-lo.
Substituíra o desejo pela necessidade de vingança.
Richard ignorou Carla de propósito ao passar. Já aprendera que devia ter mais
cuidado com ela. Era tentadora demais. Se não se afastasse, ficaria preso em sua teia.
No celeiro, retirou a sela do cavalo e começou a escovar-lhe o pêlo. Aborrecido com a
presença de Carla tão próxima, procurou concentrar-se no trabalho. Como podia
aparentar tamanha inocência e pureza? Devia ser contra a lei aquele short de ciclista
colado ao corpo. Richard sonhava em ficar assim perto dela. E a camiseta folgada com
os seios empinados contra o tecido... Como gostaria de enfiar sua mão por baixo e
acariciá-la!
Richard resmungou. Precisava esquecer Carla. Continuou a lavar o animal, agora
com sabão e uma esponja.
Zangava-se consigo e com o resto do mundo por não conseguir controlar os
pensamentos. Sempre naqueles cachos pretos e longos. A feiticeira lhe lançara algum
tipo de encanto. Brigava com todos por causa de nada e acabaria com uma faca nas
costas se não se emendasse.
Ouviu um gracejo e deu a volta no cavalo para encontrar o pivô de sua angústia.
Carla exibia um olhar desafiador e a mangueira em uma das mãos. Richard a encarou
e torceu para que ela não fosse fazer uma coisa insensata.
__ Parece estar com calor, sr. McCall. Talvez eu possa refrescá-lo. __ Carla levantou
o braço e mirou.
Fazia dias buscava uma forma de dar-lhe o troco. Quanto mais pensava, mais se
irritava. Já era ruim a forma como ele a tratara no bar. Mas depois de ela ter passado
mal... Ele teria feito mais por um cachorro. A lembrança de ter sido jogada na traseira
da caminhonete a enchia de revolta.
Além disso, Richard fizera aquele comentário infeliz no dia seguinte. Se queria
guerra, teria.
Richard passou para trás do cavalo e percebeu o erro que cometera. Estava
encurralado. Carla apareceu e alisou com carinho o animal, e sorriu, maliciosa.
__ Ora, ora, o que temos aqui? Um McCall encurralado? __ Encostou-se na parede.
__ Esteve em alguma boa briga recentemente, sr. McCall?
O grito de guerra fora lançado. Richard deu um passo para trás e mediu a
adversária.
__ Não, mas, pelo seu machucado da testa, aposto que você teve...
A raiva de Carla aumentou.
__ Graças a você. Terei de puní-lo por isso McCall.
Golden Bear se mexeu, indócil, aborrecido com a interrupção do banho. Richard o
afagou e murmurou qualquer coisa para acalmá-lo.
__ Você começou, Carla. Sabia como eu reagiria se continuasse a me provocar, mas
prosseguiu. Foi quase apanhada pela turma do Circle W., e, se tivesse acontecido, teria
muito mais que uma ressaca, orgulho ferido e um hematoma na testa.
__ Quer dizer que me seduziu no estacionamento para me proteger? Vamos,
Richard, nem eu sou tão ingênua. O que mais vai inventar pra se livrar da culpa?
__ Olhe, minha senhora, eu conheço aquele pessoal do Circle W. Eles não tem
respeito algum pelas mulheres. Uma moça sozinha é presa fácil. Teve sorte de eu estar
lá para protegê-la.
Aquela declaração paralisou Carla.
__ Bem, então, obrigada. Mas precisava me jogar na carroceria da caminhonete
daquele jeito, como se eu fosse um cão sarnento? Por isso, terá de me pagar.
__ Você é muito boa com os punhos. Um dia desses... __ Richard respirou, mais
tranquilo. Talvez ela tivesse esquecido a mangueira. __ Quanto a tê-la colocado na
carroceria, não queria que a sujasse. O veículo é novo, sabe? Comprei a menos de dois
meses.
__ Já ouvi o bastante. __ Carla segurou a mangueira com firmeza e a levantou.
Richard ergueu as mãos, tentando se proteger.
__ Carla, pare e pense no que está começando.
Carla ignorou a súplica e prosseguiu:
__ Todos dizem que anda bravo como um urso, McCall. E eu sou a causa. Não posso
ser responsabilizada por tudo. Você bem merece o que vai ter. __ Deu um passo para
trás e apertou o gatilho.
O jato de água acertou Richard bem no peito.
__ Estou farta de ser chamada de feiticeira e de ser apontada como se tivesse culpa
por seu temperamento ruim!
Carla dirigiu o jato em sua boca para impedi-lo de responder.
__ Estou cansada de seu jeito dúbio: amigo num instante, e hostil no outro. Queria
sua amizade, mas não vou implorar.
Carla o atingiu outra vez quando Richard fez menção de agarrar a mangueira. Deu
um passo pra trás e viu a fúria nos olhos de Richard. Teria de enfrentar as
conseqüências.
__ Estou cheia de vê-lo me espionando. E não gostei que tenha mandado todos os
homens da cidade ficarem longe de mim. Não tem esse direito! Eu sei me cuidar. __
Tornou a atingi-lo.
Richard achou que já era o bastante. Tentou tirar-lhe a mangueira, mas Carla lutou
com bravura, molhando-o ainda mais.
Richard estava ensopado. Durante a disputa, ambos se encharcaram. A camiseta de
Carla grudou no corpo, e ele podia ver-lhe o sutiã rendado e os mamilos rijos. A
sensualidade o dominou.
Arrancou a mangueira dela e a pressionou contra a parede, baixando a cabeça.
Ela merecia isso... e ele também.
CAPÍTULO CINCO

Os lábios de Richard cobriram os de Carla. A crueza do ato era erótica demais para
ser ignorada. Colou o corpo no dela como se quisesse senti-la toda naquele contato.
Ela mal podia respirar, mas isso não era importante. O prazer era imenso. Sacudiu a
cabeça, procurando recobrar o controle. Contudo, Richard apenas a comprimia mais,
as mãos firmes nos quadris de Carla. Apertava-a de encontro a si, fazendo-a sentir
toda sua virilidade. Contudo, Carla não queria que fosse assim. Não com ele zangado.
Então, o empurrou. Mas Richard prosseguiu no ataque.
Era uma sensação maravilhosa. Não: excepcional, melhor que qualquer fantasia.
A eletricidade entre os dois era surpreendente. Carla o desejava por inteiro.
Richard sabia que não devia agir dessa forma. A intenção inicial era puni-la e dar-lhe
uma boa lição, não deixa-la assim excitada. Afinal, Carla virara sua vida de cabeça
pra baixo.
Pensou em lhe dar umas boas palmadas, mas seria tentação demais. Beija-la até
deixa-la fora de si parecia ser a melhor solução.
Sentiu-a estremecer e apertou-a ainda mais. Aquilo era um misto de prazer e agonia!
O corpo de Richard estava mais que quente. Prestes a explodir era a expressão
correta. Se não fizesse algo seria um vexame.
Afastou-se um pouco, mantendo o olhar fixo no dela, que mantinha os olhos
semicerrados. Como se todas as respostas estivessem neles. Podia ver paixão e ardor.
Entretanto, havia algo mais aterrorizante. Deu um passo pra trás, então afastou a
mangueira e jogou a esponja longe.
Carla tremia, o corpo encharcado. O sol penetrava pelas frestas do celeiro,
refletindo-se em suas pernas molhadas. Sua respiração era ofegante. Os seios colaram
na camiseta, os mamilos escuros projetavam-se através do tecido transparente.
__ Carla, eu te quero. Toda! Se não quiser se entregar por inteiro, peço que se vá . Já!
Richard voltou o olhar para a barriga bronzeada de Carla, onde a camiseta subira.
Teve vontade de toca-la.
O coração disparou, e ele a desejou ainda mais. Os olhos de Carla lhe diziam muito
mais além de sexo, da química. Algo eterno. Então teve medo e exitou.
Carla encarou Richard. Ele era tão grande e forte! O homem que ela desejava. Mas
parecia zangado.
A guerra dos dois transformara-se numa paixão incontrolável. Uma novidade para
ambos.
Uma coisa era fantasia, outra, realidade. E Richard parecia não saber se queria ficar
ou fugir.
__ Seria um erro __ Carla sussurrou. __ Devemos ser apenas bons amigos.
Ela não sabia mais o que pensar. Tinha medo de enfrentar os próprios sentimentos e
aquele ar perdido de Richard. Era difícil ser racional.
Ele permaneceu imóvel, olhando-a se afastar. O que estava acontecendo?
Ultrapassara os limites.
Ainda bem que Carla recuara ou as coisas poderiam ter chegado a um ponto sem
volta. Jamais desejara uma mulher assim, com tamanha volúpia animal.
Se tivessem feito amor ali, não teria sido gentil, nem tomado às devidas precauções. A
idéia o chocou. Sempre fora sensato.Nunca fizera amor sem usar preservativo. E,
dessa vez, quase o fizera sem pensar.
O que Carla estava fazendo com ele? Precisava recobrar o bom senso e ficar distante
da tentação, examinar os próprios sentimentos... antes que fosse tarde.
Richard estava a quilômetros do rancho, consertando cercas, mas, em seus
devaneios, fantasiava estar nos braços da feiticeira de cabelos pretos. O vento fresco o
despertou de súbito.
Uma tempestade se formava no horizonte.
Mesmo tendo encontrado uma mulher disposta a lhe dar carinho na noite anterior,
não conseguira esquecer os momentos compartilhados no celeiro com Carla. Ninguém
era igual a ela.
O que não faria por uma única noite em seus braços? Uma noite em que pudesse
viver todas aquelas fantasias... mas era impossível. Carla era do tipo casamento e
filhos.
Apesar de querer se casar, Richard não esperava fazê-lo assim. Com envolvimento
emocional seria devastador.
Sacudiu a cabeça. Precisava descartar a palavra “amor”. Não existia amor recíproco.
Richard recolheu as ferramentas e as colocou na caminhonete. Ainda avaliava a
questão dos sentimentos ao entrar no veículo. A chuva estava próxima.
Desde pequeno aprendera a não entrar de cabeça nos assuntos do coração. Esse tipo
de coisa só levava à dor. Os pais haviam morrido e o deixado, certo? Por que deveria
se arriscar a sofrer? Não, não se permitiria esse envolvimento. Com Carla, tinha de
ser apenas uma coisa física.
Deu partida no motor e foi seguindo o traçado da cerca. O que mais o assustava em
Carla era aquele sentimento incompreensível, a vontade incontrolável de protegê-la.
Lembrou dos beijos, um misto de doçura e fogo. Que loucura provocavam em seu
corpo e mente!
Desviou a atenção para o gado pastando satisfeito na relva seca, indiferente à
proximidade da borrasca.
Suspirou fundo. Já chovera bastante, mas precisavam de mais chuva para manter a
lavoura produtiva. Uma tempestade muito forte poderia arrasar tudo. Torceu para
que a natureza fosse generosa, e também misericordiosa.
Espiou o espelho retrovisor. Estava distante da chuvarada. Mas, sem duvida, ela
chegaria até ele.
Parou o veículo e examinou os campos. Amava suas terras, apesar dos problemas.
Podia confiar nelas. Sempre estariam ali. Ao contrário de uma mulher.
A imagem de Carla invadiu-lhe a memória, e Richard a repeliu.
Então seguiu em seus devaneios a caminho de casa.
Carla cavalgou até o cume da colina a quilômetros de distância do celeiro. Precisava
de paz e liberdade depois das horas gastas na escrivaninha. Além disso, daquela
distância podia ver todas as construções de Blue Sky, o que a ajudava nos projetos.
Roarke escolhera o lugar perfeito para sua casa. Ficava no topo de uma colina onde o
rio desaguava num pequeno lago. A paisagem era tão linda que mexia com sua alma.
Esse seria um projeto de que teria orgulho, com três varandas e conceito moderno. As
salas de estar, jantar e íntima ficariam ao redor de uma lareira de múltiplas faces.
Roarke havia optado por uma cozinha enorme, um pequeno escritório e jardim de
inverno com banheira de hidromassagem. O ideal para o final de um dia de trabalho
no campo. No andar superior, três dormitórios e mais uma suíte completa. A mulher
que se casasse com Roarke McCall teria um lar maravilhoso, além de um homem
bom.
Por que, ela refletiu, não podia se interessar por alguém como Roarke? Ele tinha
muitas qualidades, e decerto sabia como tratar uma mulher. Jamais a abandonaria
quase no altar. Nem ficaria furioso por causa de um simples acidente. Nem provocaria
um turbilhão de emoções e desejos, como seu irmão caçula, Richard.
Interrompeu a linha de pensamentos, chocada com o rumo que estava tomando. Sim,
Richard fazia coisas maravilhosas com ela. Mas não se deixaria envolver. A última
coisa de que precisava em sua vida era um caubói convencido e arrogante.
Com certeza, era lindo. Qual mulher não se renderia aos encantos físicos de
Richard? Não era sua culpa ele ter aqueles olhos castanhos penetrantes. Nem um
tórax largo e forte recoberto de pêlos escuros. E aquele perfume másculo... E os jeans
moldados àquele corpo perfeito. As pernas musculosas, o caminhar seguro. Tudo nele
era magnífico.
Por isso sonhava com Richard todas as noites. E as coisas que ele fazia em suas
fantasias.
Nos sonhos, Richard era o marido ideal, que trazia flores do campo e massageava-
lhe os pés e as costas no fim do dia. Partilhava um banho de espuma e depois a
carregava no colo até a imensa cama de casal, onde faziam amor lenta e divinamente.
Era o amigo, marido e amante.
Seria uma tola se acreditasse que um relacionamento podia ser assim. Era um
devaneio, nada mais.
Os homens eram todos iguais, apaixonados num instante, indiferentes logo depois. O
amor verdadeiro era lenda. Havia o desejo, o sexo, e o empenho para conseguir
alguma coisa. E havia aquilo que sentira por Peter: aquele em que só um se entregava,
e o outro só se aproveitava. Jamais passaria por isso outra vez.
Estava livre, sem nenhum homem para controla-la.
Carla acomodou-se sob um pinheiro e desfrutou o sol.
Adorava a vida presente. Quem poderia pedir mais? O lugar era tão lindo e pacífico!
E nem precisava se preocupar com mais nada. Logo, flutuava num sono leve e nos
sonhos de Richard...
Ele vestia um smoking. Esperava por Carla, os olhos cheios de volúpia. Carla
caminhou de braço dado com o pai para entregar-se a ele.
Richard virou-se para o padre e perguntou se podia prova-la antes de prosseguir.
Então, removeu-lhe o longo vestido de noiva. Parecia não notar a presença dos
convidados. E Carla estava nua, só com o véu e as flores.
__ O que vai me dar? __ Richard perguntou.
__ Meu coração e meu amor.
Ele ergueu as sobrancelhas e riu.
__ Não obrigado. Não tem mais nada a oferecer?
Ela sacudiu a cabeça em negativa.
A risada de Richard ecoou através da igreja, e a multidão gargalhava diante dela nua
e abandonada no altar. E, quando olhou para Richard, viu que ele conversava com
Peter. E os dois partiram juntos, rindo.

Carla despertou, chocada com as primeiras gotas de chuva. Um trovão soou a


distância. Ela sentiu-se e mergulhou a cabeça entre os joelhos. Céus, que pesadelo!
Talvez fosse um aviso. Esfregou os olhos e se levantou.
Devia ser um aviso. Não se renderia aos encantos de Richard McCall.
Montou na pequena égua e virou na direção do celeiro. Foi então que viu um
cavaleiro se aproximando. Suspirou, aliviada, pois estava preocupada com a
tempestade iminente.
Carla se surpreendeu ao reconhece-lo. Mesmo com o chapéu abaixado, cobrindo-lhe
parte do rosto, foi fácil.
Ela gemeu. Deveria lutar? Apesar de tudo, seu corpo traidor teimava querer o que
não podia ter.
A chuva aumentou, mas não foi esse o motivo de Carla estar tremendo. Foi a
sensualidade dele combinada a sua zanga. Ela não respondeu à pergunta.
Era uma imagem estonteante. Só quando Richard chegou mais perto, ela resolveu se
manifestar:
__ O que disse? Eu cavalgava quando a chuva começou. Já estava voltando...
Antes de poder terminar a frase, uma lufada de vento os atingiu. O cavalo de
Richard empinou, mas ele controlou o animal. Esticou o braço e agarrou a rédea da
montaria de Carla.
__ Há uma tempestade terrível vindo nesta direção. Não percebeu pelo céu?
Carla olhou ao redor e engoliu em seco. O firmamento estava pior do que quando
despertara.
Outro trovão soou, dessa vez mais próximo. Carla dirigiu o olhar a Richard, sabendo
que ele percebera seu temor.
__ Distraí-me...
__Mulheres da cidade...Não sabe que pode se machucar? O que diríamos a seu
irmão? __ Sem falar no seu nervosismo quando chegou ao Blue Sky e não a encontrou.
__ Venha.Precisamos ir andando antes que piore. Já está encharcada.
Richard tirou a camisa e a jogou sobre as costas de Carla.
Ela admirou seu peito nu, os pêlos agitados pelo vento. Os músculos dos ombros
tensos enquanto ele virava o cavalo na direção da casa.
__ Espere, Richard. Não preciso disto. Não deve ficar sem camisa. Pode pegar um
resfriado.
__ Acredite-me mocinha, você precisa mais do que eu. Se tiver de olhar mais para
seus seios, será bem pior. Agora, abotoe logo essa coisa e vamos.
__ Ora, que comentário infeliz.
__ Não acredita em mim? __ Richard a segurou pelo pesco;co e a beijou com
ferocidade.
Carla gemeu quando ele lhe mordeu o lábio. Richard passou a língua para conforta-
la.
“Santo Deus, o homem é letal!”
Carla fechou os olhos. Os pensamentos racionais deram lugar ao sabor masculino. A
chuva apertou, e os cavalos ficaram inquietos. Richard se afastou.
__ Este é o momento...agora. __ Ele tomou as rédeas de Carla e a conduziu, atônita,
até o celeiro.
Não havia como escapar. E, sendo sincera, nem queria.
Foi como se um raio a atingisse. Todos os circuitos ficaram confusos e foram
queimados pela força do beijo dele. Richard tinha razão, era o momento.
Carla o acompanhou com o olhar através da borrasca. Ele parecia sensual e
selvagem, montado naquele cavalo.
Como podia resistir? Era a fantasia de toda mulher. Parecia um deus pagão.
De repente, ela sentiu-se confusa. Era sonho ou realidade? Tornou a olha-lo. Era
realidade. E naquele instante, Carla viu que fora derrotada. Esqueceria os sonhos, as
vozes e os avisos. Queria Richard McCall.
E se ele não correspondesse a seus anseios? Por outro lado poderia tira-lo da cabeça
de vez. “Mas e se ele corresponder?”, uma voz irritante a incomodou.
“Será que ela sabe como está sensual?”, Richard procurou se conter e olhou
adiante, fugindo da hipnótica beleza de Carla. E então, tornou a fita-la.
Os cabelos sedosos, escorridos nos ombros e voando no vento, acariciavam-lhe o
corpo como um amante antigo.Como ele gostaria de fazer. Os lábios, inchados depois
de seus beijos, os olhos azuis tempestuosos de desejo.
Ela permanecia ereta, acompanhando o movimento do cavalo, como uma perfeita
donzela cherokee.
Richard sentia-se como se estivesse no meio de uma fogueira.
Jamais desejara mulher alguma assim. Abriu o portão e virou-se para ela, os olhos
traindo a força de seus sentimentos.
__ Eu te quero, Carla Masters, e vou tê-la. __ ele disse, como advertência.
E a viu tremer quando tomou suas rédeas e a guiou na direção do celeiro.
Outro trovão encheu o ar. E depois, mais três.
Carla tirou a sela do cavalo. A camisa de Richard deslizou-lhe nos ombros e caiu ao
chão.
Richard tomou-lhe o braço e a arrastou para dentro, deixando os cavalos para trás.
Estes podiam esperar, ele não. Enfim, teriam a chance de explorar o sentimento
estranho que os perturbava.
Carla debateu-se enquanto ele a arrastava até a escada.
__ Para onde está me levando?
__ Vamos até o palheiro, onde poderemos gritar e dar fim a essa febre longe do resto
do mundo. __ Richard empurrou-lhe o bumbum gracioso para cima da escada
estreita.
O cheiro doce do feno inebriou os sentidos de Carla. O clarão dos relâmpagos
iluminavam ambiente a todo instante. Ouviu-se um estrondo ecoar nas colinas, em
seguida o silêncio.
Eles se entreolharam, arfantes, o retrato do desejo prestes a ser libertado.
Carla esperou. Richard a beijou... com delicadeza. Segurou-lhe os ombros com
firmeza, mas ela não tinha intenção de fugir.
Ele a instigava, fazendo-a querer sempre mais.
O ar estava carregado de eletricidade. Dos relâmpagos, e do desejo entre eles.
Ele acariciou-lhe a nuca por baixo dos cabelos fartos, e Carla cedeu, comprimindo o
corpo contra o dele.
__ Santo Deus, como você é linda!
Richard respirava com dificuldade. Até aquele instante, pudera agüentar. Mas agora,
não tinha escolha. Precisava dar vazão ao que sentia.
__ Meu Deus, como te desejo! Todo este tempo, e agora, enfim... __ Ele abriu o zíper.
Carla suspirou, maravilhada, deliciando-se.
Richard sentou-se e arrancou uma das botas, sem tirar os olhos de Carla. Então,
tentou se livrar da outra. Puxou com mais força, e a bota voou. E Richard
desapareceu dentro do feno.

CAPÍTULO SEIS

Carla piscou, incrédula diante da cena.


O barulho seco embaixo foi seguido de um gemido. Carla vestiu a camiseta, que
Richard tirara, e olhou através do buraco do feno. Richard jazia sobre uma pilha de
feno. Cobria um dos olhos com a mão, enquanto o cavalo puxava os ramos onde
estava estendido.
Richard encolheu-se, e resmungou. Olhou para cima.
Carla recostou-se na parede, com as mãos trêmulas. Essas coisas só aconteciam com
ele. Jogou a bota para Richard. Ele reclamava tentando fechar a calça.
__ Não tive culpa, Richard McCall! __ Carla gritou. __ E pare de resmungar!
__ Feiticeira! Cresci neste celeiro e nunca havia caído assim. Você é uma feiticeira!
Como pude acreditar que seria diferente? Sempre tem de acontecer algum desastre.
Vá embora e fique longe de mim!
Carla ficou de pé.
__ Muito bem! __ Gostaria de chamá-lo de um nome feio, mas não podia imaginar
nenhum bastante apropriado. __ Arrume uma criança que goste de suas
brincadeirinhas infantis. Já me enchi de você!
Carla desceu a escada e saiu do celeiro deixando a porta aberta.
Uma lufada de vento bateu no corpo quente de Richard. Colocou o calçado com
dificuldade e sacudiu a cabeça. Fazer amor com Carla era tão difícil quanto esquece-
la. Que desastre!

Naquela noite, a terra ainda exalava o cheiro da relva molhada. O ar estava pesado e
silencioso. O céu, ainda se mostrava encoberto, mas a brisa parecia ter dispersado a
chuva.
Carla juntou seus projetos e saiu do trailer. Segurou-os com firmeza ao atravessar o
passeio escorregadio. Não gostaria de encontrar Richard, mas não poderia evita-lo se
estivesse na casa.
A luz da porta dos fundos estava acesa. Reese veio recebe-la.
__ Carla! Fico feliz de não ter ficado presa na tempestade. Foi uma borrasca
daquelas.
Ele olhou pela janela, para a colina onde pretendia construir sua residência. Por um
instante, Carla teve a impressão de testemunhar um anseio enorme.
Será que aquele homem forte e musculoso também sentia-se tão vulnerável quanto
ela? Era pouco provável.
Roarke entrou na cozinha e foi encher as canecas de café.
__ Sente-se, Carla. Richard já vai descer. Fico contente por ter sobrevivido ao
temporal. Mas posso esperar para ver a planta do meu novo lar. Por enquanto,
gostaria de lhe fazer um convite. Estamos planejando um fim de semana nas
montanhas. Algumas reses estão perdidas. Gostaria de nos acompanhar numa
jornada?
Os olhos de Carla iluminaram-se.
__ Adoraria! O tempo deve firmar, e será ótimo conhecer um pouco mais do Blue
Sky. Obrigada pelo convite, Roarke.
__ Ora, Carla! É o mínimo que posso oferecer depois de tudo que sua família fez por
mim. E esses projetos fantásticos! Já terminou as revisões?
__ Sim, e, se posso dizer, as duas casas vão ficar maravilhosas. Adorei suas sugestões.
Pensou até nas visitas...
Richard entrou na cozinha e ouviu o final.
__ Quem vem nos visitar? __ Ele quis saber.
Vestia o tradicional jeans desbotado e justo, camisa clara, mas estava descalço. A
lembrança do que acontecera entre eles invadiu a memória de Carla, e ela corou. Pelo
olhar de Richard, ele também se lembrou.
Na testa, Richard exibia um hematoma, pequeno se comparado ao machucado do
olho. Carla ficou constrangida.
Richard a encarou, e ela fugiu de seu olhar. Não queria sentir pena. Ele não merecia.
__ Ninguém vem nos visitar, Richard. Carla referia-se aos projetos. __ Roarke
distribuiu as canecas de café. Percebera a troca de olhares entre os dois. Sorrindo,
sentou-se entre Carla e Richard. Seu palpite de que o ferimento novo de Richard
estava ligado a Carla lhe rendera vinte dólares. Cortesia de Reese.
__ Muito bem __ Richard disse. Vamos ver as idéias.
Os planos eram bem superiores ao que Richard esperara. Ela era boa. A casa era
perfeita para Roarke, grande e espaçosa. Cada ambiente fora planejado com detalhes.
Era como se Carla lesse a mente do cliente.
__ Está incrível. Não sei o que dizer. Belo trabalho. __ Richard não desviou o olhar
das plantas um minuto sequer, ou teria visto o prazer de Carla se transformar em
embaraço.
Mas Roarke e Reese perceberam. Entreolharam-se sorrindo.
__ É perfeita, Carla. Quanto demorará para a realização?
__ Bem, Carla usava um tom profissional __, a equipe da fundação já fez a fôrma, e o
cimento deve chegar amanhã. Calculo uma semana. Depois disso, os trabalhadores da
construção deverão chegar e se ocupar dos materiais que já encomendei. Com sorte,
teremos a fundação de Reese pronta para iniciarmos a obra também. O grupo irá
trabalhar as partes interna e externa simultaneamente. Creio que no verão estará
tudo pronto.
__ Já planejou tudo, Carla! __ Reese sorriu. __ É bom saber que alguns profissionais
ainda respeitam o cliente. Agora, se não se importa, gostaria de dar mais uma olhada
na minha casa.
Richard observou com atenção cada movimento de Carla pelo resto da noite,
surpreso com sua postura e sua experiência.
Discutiram os projetos e esvaziaram dois bules de café. Richard continuava
hipnotizado por Carla. Decepcionou-se quando ela se levantou e bocejou. Parecia
exausta e louca para se ver livre dele.
Ele olhou ansioso para os irmãos. Reese e Roarke bem que podiam dizer alguma
coisa para ela ficar. Mas nem um dos dois se mexeu. Então, de um salto, Richard
levantou-se.
__ Acompanharei você até o trailer __ ofereceu-se.
Carla franziu a testa.
__ Posso atravessar o pátio sozinha. Não precisa se incomodar.
__ Oh, não, será um prazer. Além disso, o piso é irregular, pode tropeçar e cair. __
Richard não se importava de bancar o bobo. Nem notou os olhares e risos velados dos
irmãos.
Carla o encarou, impaciente.
Não há nada de errado com o piso. E, para ser franca, você é a última pessoa de
quem quero ajuda. Está sempre sujeito a acidentes. __ Carla virou-se para Reese e
Roarke, desejou-lhes uma boa noite e saiu para a escuridão.
Richard sentiu-se um idiota. O que foi agravado pelas gargalhadas dos irmãos.
__ Ah, o amante perfeito enfim encontrou alguém que não está disposta a se jogar a
seus pés! __ Reese enxugou as lágrimas do riso. __ Como é doce ver a queda dos
poderosos! O melhor foi ter visto sua expressão quando ela o recusou.
__ Essa vai lhe dar trabalho, garotão __ Roarke brincou. __ Pela primeira vez, não
terá tudo à mão.
Reese se dobrava de rir.
Richard saiu pela porta dos fundos. Roarke o seguiu e falou em tom suave:
__ Nem pense em magoá-la, Richard. Não vá atrás dela se não tiver boas intenções.
Alex disse que Carla está muito vulnerável.
Richard virou-se e o encarou, sarcástico.
__ Qual nada! Carla é a mulher mais segura que já conheci. Viu como me trata?
Como se não bastasse, toda vez que se aproxima de mim, passo a correr perigo mortal.
__ Alisou a testa.
Roarke examinou a postura determinada do caçula.
__ Ela é vulnerável, eu insisto. Foi abandonada no altar há sete meses. Para
completar, o sujeito comprou a firma em que trabalhava e a demitiu. Está começando
a se recuperar agora. Não a magoe, Richard. Se gosta mesmo dela, vá com calma.

Richard permaneceu sentado no degrau da varanda por muitas horas. Observava o


trailer e refletia sobre as revelações de Roarke. Devia ter sido horrível ser traída pela
pessoa em quem confiara o bastante para querer um compromisso. Ficou triste por
Carla e furioso com o patife que a fizera sofrer. Não seria ele o próximo a aumentar-
lhe a dor. Talvez fosse melhor manter-se distante. Agora a compreendia melhor. Então,
por que a desejava ainda mais?

Carla estava de pé junto às arvores em volta do local onde seria a casa de Reese.
Observava os operários com atenção, que terminavam de limpar a bagunça. Haviam
acabado de aplicar a última camada de cimento da fundação.
Richard surgiu de repente, e ela se deu conta de que não o via fazia duas semanas.
Tivera de conviver com o sentimento de culpa por tê-lo magoado no último encontro.
A saudade era imensa.
Depois de falar com Roarke e Reese, soubera que Richard estava nas montanhas, nos
limites da terras, consertando cercas e outros estragos causados pelas chuvas. Como
sentira a ausência de sua beleza masculina e forte... O surgimento dele, assim, sem
avisar, a agitou.
Devia ser sua imaginação, mas Richard parecia mais alto. Depois de tê-lo apreciado a
contento, aproximou-se, disfarçando.
__ Olá, estranho, é bom tê-lo de volta.
Richard deu meia-volta. Fora pego de surpresa. Sentiu um aperto no peito. Toda
vontade de evita-la se anulou.
__ Como tem passado, Carla? Parece cansada.
__ Também parece cansado. Conseguiu terminar todo o trabalho? __ Carla não
queria brigar. Não dessa vez.
__ Sim, acabei tudo. Ah... __ Ele hesitou ao contemplá-la. “Oh, céus, estou perdido.
Esses lábios...” Prendeu a respiração ao perceber a faísca de desejo nos olhos de Carla,
que logo desapareceu, deixando-o confuso. Virou-se na direção da obra.
__ Produziu bastante na minha ausência, Carla.
__ Sim. __ Ela se sentiu desapontada com a reação dele. Como pudera desperdiçar
tantos dias pensando naquele homem intratável? Será que nunca aprenderia?
Richard percebeu a mudança. Passara de amável a indiferente. Não queria vê-la
recuar agora.
__ Senti sua falta, minha feiticeira. __ Ele pousou a mão em sua nuca e a puxou,
beijando-a de maneira possessiva.
Richard sabia, que apesar de ter negado, estava apaixonado. Voltar a beijá-la
despertara emoções profundas. Carla era doce como o pecado, o mel, as manhãs nas
montanhas e º.. amor?
Ele se afastou e a contemplou. Aquela era a última mulher a quem devia... Deus, não
podia nem pensar na palavra. Não podia ser verdade!
Richard sacudiu a cabeça, o rosto transparecendo desespero.
Carla sentiu um frio na espinha. “Não vou me envolver com você, Richard McCall!
“Embora não soubesse por que, tinha certeza de que Richard a machucaria.
Testemunhara o desapontamento seguido de excitação nas feições dele. Sabia como
seria fácil ser seduzida outra vez.
Como se pudesse ler seus pensamentos, Richard deu um passo para trás e
resmungou:
__ Não.
“Como ele ousa?!”Carla desferiu-lhe um tapa no rosto. O estalido ecoou pela
montanha, destruindo a paz de antes.
__ Por que fez isso?! __ Richard indagou, esfregando a face atingida.
__ Só dei o que mereceu. Pegue seu “não” e sua expressão chocada e... Não sou uma
de suas conquistas, Richard McCall. Espero ser tratada como igual, não como um
brinquedo. Daqui em diante, mantenha suas mãos e lábios longe de mim! __ Carla se
virou e partiu com passadas largas.
__ Ora, de todas as... Você gostou tanto quanto eu! Só é orgulhosa demais para
admitir! __ Richard gritou. __ Mas vai ter de implorar antes que eu a beije outra vez!
Ele franziu o cenho.
__ Mulheres... Carla quis o beijo. E vai querer muito mais! __ Interrompeu-se,
horrorizado. O que estava dizendo?
Virando-se, estabanado, bateu num pinheiro e tropeçou numa raiz. Caiu ao chão e
ficou ali gemendo e xingando.
Roarke e Reese controlar o riso e socorre-lo. Mas não antes de Richard vociferar
suas intenções de onde estava.
__ Cuidado, Carla Masters. Quando eu a pegar, vai pagar por isso.
Carla pôde ouvi-lo, apesar de já estar bem adiante, e respondeu com uma
gargalhada.
Richard disse algo ininteligível quando os irmãos o levantaram. Envergonhado por
ter feito uma cena na frente de todos, fugiu por entre os arbustos.
A feiticeira o deixava maluco. Mas o que podia fazer? Quando estavam juntos,
brigavam. Separados, ele a desejava.

Richard não sabia mais como controlar a excitação, e a culpa era dela. Carla e aquele
corpo gracioso sobre a sela do cavalo. De quem fora a brilhante idéia de convida-la
para uma viagem com pernoite na montanha?
Já seguiam viagem havia mais de quatro horas com um único intervalo para
descanso. Foi quando tudo começou. Ela fora atrás de um arbusto como todos eles, e
depois lavara o rosto e as mãos agachada no riacho. A água deslizara-lhe pelo pescoço
e desaparecera entre os seios.
Foi então que Richard confirmou suas suspeitas: Carla estava sem sutiã. Fora o
bastante para despertar-lhe a libido. Em seguida, ela montara no cavalo com um
delicado maneio nos quadris, e ele não pudera mais raciocinar direito.
Era muito desconfortável ficar excitado sobre a montaria.
Por sorte, o acampamento estava próximo, e havia um riacho fresco por perto.
Poderia afogar seu desconforto físico com privacidade.

Carla puxou a rédea para a direita e se juntou ao grupo. Estavam todos parados no
cimo da montanha. Já a escalavam fazia duas horas. Sua respiração ofegante encheu o
ar. Logo abaixo estava o vale, cortado por um rio luminoso cercado de vegetação em
diversos tons de verde. Viam-se árvores, rochas e plantas silvestres de todo tipo. E
existia, sem dúvida, muita paz. Por um instante, Carla sentiu-se como uma pioneira a
vislumbrar a terra prometida, contagiada pela liberdade e beleza selvagem.
__ Ainda existem áreas inexploradas __ Reese afirmou, com reverência.
__ Carla, veja lá em cima, à direita.
Carla, veja lá em cima à direita.
Carla levantou-se na sela e virou-se na direção indicada por Roarke.
__ Oh, é lindo! Magnífico! __ gritou quando avistou a cachoeira de águas cristalinas.
Richard resmungou sua opinião, mas ninguém prestou atenção.
Logo chegaram ao local do acampamento, e Carla desmontou com dificuldade, por
causa das costas doloridas. Havia anos não sentia estas dores, e não ia se render agora.
Faria o de sempre: uma caminhada e água gelada para aliviar os músculos.
Andou em volta do animal como se o examinasse. Pior que a dor seria despertar a
piedade dos outros.
Retirou a sela do cavalo e o prendeu no curral provisório sem exibir sua aflição.
Reese acendeu o fogo e desembalou panelas e alimentos. Ia preparar a refeição.
Roarke apreciava o pôr-do-sol.
Uma leve brisa soprava refrescando os viajantes cansados e acalorados.
Carla esticou os braços e se espreguiçou, aliviando as costas. Suspirou, satisfeita. O
melhor seria mergulhar no riacho, se houvesse um local privado e conveniente.
Ela se aproximou devagar de Roarke. Admiraram o crepúsculo enquanto
conversavam. Roarke lhe falou de uma parte mais funda do riacho, porém avisou que
Richard já se dirigira ao local para relaxar.
Carla decidiu esperar e ir mais tarde.

Jantaram uma suculenta refeição composta de churrasco, batatas assadas e feijões.


Carla comeu tanto quanto os homens, o que os surpreendeu. Pelo visto, os McCall
estavam acostumados a mulheres que comiam como passarinhos.
A escuridão era completa. Reese apanhou seu violão e começou a tocar. Cantava
baixinho uma melodia tranqüila e relaxante, a forma perfeita de encerrar o dia.
As brasas na fogueira cintilavam. De vez em quando, ouvia-se um crepitar seguido de
uma fagulha no ar. As estrelas pontilhavam o céu. Carla amava aquela sensação de
liberdade, os espaços abertos, a novidade daquele mundo.
Reese continuou a tocar, agora atendendo a pedidos especiais. Carla solicitou uma
música romântica, e ele a tocou com sentimento. Devia estar apaixonado.
Carla refletiu que, se encontrasse um homem que a amasse como Reese à sua amada,
seria uma mulher de sorte.
O silêncio se seguiu à última nota. Carla percebeu a dor nos olhos Reese.
Ele recomeçou a tocar, agora uma melodia cigana, que fez Carla dançar. Ela puxou
Roarke do chão para acompanha-la.
Estava vivendo a música. Balançava os quadris, em passos de dança que aprendera
na infância. Sorriu ao ver como Roarke se esforçava para imita-la. Richard também
ria, então Carla também o puxou.
Reese e Roarke o incentivaram.
Ele admirava a sensualidade dos movimentos dela. Poderia ficar com ela assim horas
a fio. Ao mesmo tempo, queria que Carla parasse. Não gostava de dividi-la assim com
os irmãos. Desejava-a só para si.
__ Se soubesse que gostavam de dançar, teria tocado esta música antes.
__ Concordo, Reese. __ Roarke estava quase sem fôlego. __ Acho que agora vai
querer se refrescar no riacho, Carla. Richard, pode leva-la com a lanterna?
__ Boa idéia. Também vou me refrescar. __ Richard parecia satisfeito por poder ficar
a sós com ela.
Carla seguiu Richard através dos arbustos.
A água parecia relaxante. Richard pendurou a lanterna num galho e se retirou,
deixando-a à vontade.
__ Pronto. Assim terá luz suficiente. Se precisar, é só gritar.
Ele a olhou, hesitante, e Carla reparou que estava mordendo o lábio inferior.
__ Não sei se quero ficar sozinha nesta escuridão. E se aparecer um animal
selvagem? __ Encarou-o de olhos arregalados.
__ A lanterna os manterá afastados, Carla. Estarei aqui atrás. Se precisar, pode
chamar.

Carla trançou os cabelos. Podia ouvir Richard assobiando.


__ Está composta? __ ele gritou de onde estava.
__ Sim.
Carla o ouvira atravessar os arbustos. Depois, mais nada. Virou-se e pôde vê-lo.
__ Há algo errado? __ Carla olhou para a roupa de ginástica que ele vestia.
__ Não. __ Richard a encarou. __ Quero beijá-la.
Carla permaneceu em silêncio. Ele se aproximou e baixou a cabeça. Seus lábios
tocaram os dela de leve, bem diferente das outras vezes em que a tomara à força.
Dessa vez, foi meigo como um amante.
O turbilhão de sentimentos a invadí-los foi avassalador. Carla sabia que jamais
esqueceria aquele momento. Relaxou o corpo nos braços dele e aproveitou o prazer
extremo proporcionado pelo contato. Então, relutante, afastou-se. Sacudiu a cabeça.
__ Não! Não, Richard. Já passamos por isso antes. Nem sequer gostamos um do
outro. Vamos parar antes que seja tarde.
Richard acariciou-lhe a nuca e a trança.
__ Tem razão. Está sempre me tentando, docinho. E, então, esqueço tudo e... Parece
um feitiço.
__ É. Até você já percebeu.
__ Oh, sim... Como percebi.

O fogo do acampamento ainda estava aceso quando voltaram. Roarke saboreava


uma caneca de café.
__ Onde está Reese? __ Richard quis saber.
__ Foi dar uma volta. Sabe como ele fica depois de cantar.
Richard juntou-se ao irmão e serviu-se do resto da bebida quente. Carla estendeu o
saco de dormir.
Reese está apaixonado.
__ Quem, Carla? __ Richard e Roarke perguntaram em uníssomo.
__ Reese, ora bolas! Está claro pela forma como canta. E sofre. Quem é a moça?
Richard e Roarke entreolharam-se.
__ Pelo que sabemos, é uma vizinha. Mas eles mal se vêem. Até se casaram. Mas ela
foi tentar a sorte no mundo, e Reese espera seu regresso. Nosso irmão é diferente.
Sensível como mamãe dizia. __ Roarke olhou para o fogo.
__ Lembra-se daquela briga no klance’s, Roarke? Na manhã seguinte, Reese disse
que a causa era uma mulher. Aposto que falaram mal de Melody.
Roarke assentiu.
__ Sim, faz sentido.
__ Carla está certa. Ele está sofrendo. Carla? __ Richard olhou em sua direção, e
constatou que ela estava dormindo, deitada de frente para o fogo, aparentando
completa inocência.
Ninguém acreditaria se contasse o quanto Carla o provocara minutos antes, para
depois mudar de idéia.
Roarke sorriu malicioso.
__ Está na mesma situação que Reese. E já sei quem é a responsável.
__ Ora, Roarke! Você não sabe de nada! __ Richard atirou o resto do café na
fogueira.
Roarke sacudiu a cabeça e riu. Levantou-se e deu um tapinha nas costas de Richard.
__ Acho que vai ser o primeiro a se “amarrar”. Parece que o cupido o pegou de
verdade.
A manhã nas montanhas era úmida e fresca.
Carla acordou revigorada, apesar de ter sonhado a noite toda com Richard. Não
lutaria mais contra suas fantasias, decidiu. Respirou fundo e espreguiçou-se. Então,
ficou imóvel ao perceber o que acontecera.
Olhou ao redor e sentiu-se aliviada por estar só. Não queria que a vissem assim.
Sobretudo Richard. Se pelo menos conseguisse levantar-se e ficar de pé. Entretanto,
primeiro precisava de auxílio para sair do chão. Se tivesse sorte, superaria o problema
antes de Richard voltar.
Mas não foi esse o caso. Richard surgiu logo em seguida, os braços cheios de lenha.
Dirigiu um olhar a ela e colocou os galhos no chão.
__ Bom dia, Carla. Já estava na hora de acordar. Cheguei a pensar que a jornada de
ontem a havia esgotado. __ Enquanto falava, dispunha a lenha e acendia o fogo para
preparar o café.
Carla permaneceu imóvel, observando-o, sem saber como lidar com a situação. Era
impossível sair do saco de dormir e ficar de pé sem sua ajuda.
__ Onde estão Roarke e Reese?
__ Foram procurar reses perdidas. Devem voltar daqui a uma ou duas horas para o
desjejum. Ficará o dia todo aí, ou vai se levantar? O café vai ficar pronto num
instante.
Richard se voltou e a encarou. Carla se encolheu toda. Teria de dizer a verdade. Não
podia esperar mais.
__ Estou com um problema, Richard.
__ Sim, quê?
Ele ainda se recuperava da rejeição da noite anterior. Não se sentia nada disposto a
ser generoso. Na verdade, estava de mau humor, com ódio do mundo e dele mesmo.
Carla ignorou o tom e prosseguiu:
__ Quando estava no ginásio, fui com minha classe a um passeio como este. Houve
uma tempestade, e o guia não conseguia encontrar um abrigo adequado. Quando, por
fim, achou um lugar, os cavalos já estavam ariscos. Fui uma das últimas a chegar. E,
antes que pudesse desmontar, um relâmpago cortou o céu, assustando minha
montaria. O animal me derrubou, e fraturei a coluna em dois lugares. Às vezes ainda
tenho problemas. Hoje não consigo nem me mexer. Preciso ficar de pé para endireitar
as costas. __ Carla o fitou, esperando uma solução.
Richard permaneceu parado, o pensamento distante. Enfureceu-se com a estupidez
do guia. Era esse o motivo da forte reação de Carla à tempestade na casa naquela
noite. Ainda assim, não sabia o que fazer.
__ Não é um dos seus truques, é?
Os olhos de Carla ficaram marejados.
__ Pensei que fôssemos amigos, Richard. Sinto que esteja magoado comigo, mas isto
é sério. Vai me ajudar ou terei de esperar a volta de seus irmãos? __ indagou,
impaciente.
Richard hesitou. Como poderia ajuda-la sem toca-la? E como o faria sem desejá-la?
Sacudiu a cabeça inconformado.
__ Está bem. O que devo fazer? Espero não ter de pôr a mão em você.
__ Ora, claro que terá! __ A voz dela não escondia o desespero. __ Precisará me tirar
deste saco de dormir e me levantar. Como pode faze-lo sem me tocar?
Richard bufou. Não lhe restava escolha.
__ Espero que esteja vestida aí dentro, porque não sei o que...
__ Estou vestida! Venha. Abra o saco e me puxe para fora. Preciso... __ Ela corou.
“Deus, como é terrível estar à mercê dele!”
Richard desviou o olhar. Odiava a forma como Carla mordia o lábio. Tinha vontade
de beijá-la. Respirou fundo e abriu o zíper do saco de dormir. O perfume de Carla o
invadiu, e seu corpo teve a reação já esperada.
__ Coloque as mãos nos meus ombros, Carla. Vou ergue-la e colocá-la de pé.
__ Certo. Mas não me solte antes que eu peça.
Richard a ergueu sem dificuldade. Surpreendeu-se ao vê-la empalidecer. Escorava-se
nele como se lutasse pela vida.
Ele a segurou com firmeza, trêmula e frágil. Percebeu que Carla fechava os olhos.
Devia estar sentindo imensa dor. Aos poucos, notou que recobrava as forças e
relaxava.
Enfim, ela suspirou.
__ Já pode me soltar, Richard.
__ Você está bem? __ Ele não a soltou. Não tinha coragem, aborrecido que estava por
não ter percebido antes a seriedade da situação.
__ Estou. __ Agora, preciso andar um pouco.
Richard a soltou, mas ficou por perto.
Depois de recobrar o equilíbrio, ela se afastou.
__ A natureza me chama, Richard. Volto já. __ E desapareceu atrás dos arbustos.
__ Não vá muito longe! Grite, se precisar!
Depois de ela ter sumido, Richard mergulhou em pensamentos.
Como Carla podia viver daquele jeito, sem saber se conseguiria se levantar na
manhã seguinte? Tudo por causa de um guia estúpido que não soube fazer seu
trabalho direito.
Lembrou-se da noite em que a vira chorar por causa dos raios. Agora entendia.
Precisava protegê-la. Carla já sofrera bastante com a agonia do acidente, a
fisioterapia e tudo o mais. E depois o rompimento com o noivado quase no altar.
Sentiu-se culpado. Não a tratara como merecia.
Carla precisava de um protetor. Por que não ele?
Estava encrencado. Reconhecera os sentimentos desde quando ela chegara. A raiva,
claro. O ardor o desejo. Mas ignorara os mais sutis: a atração irrefreável e a vontade
de faze-la feliz.
Estaria amando? As coisas fugiam do controle. Antes que se desse conta, estaria
compromissado para sempre.

Carla e Richard sentaram-se diante do fogo e comeram bacon, batatas e ovos. Ela, de
pernas cruzadas, as costas retas, sorrindo.
__ Desde quando está com esse problema,Carla?
__ Desde o acidente. Eu tinha doze anos. A cirurgia ajudou, mas ainda tenho recaídas
de vez em quando. Fiquei tempo demais na sela ontem. Devia ter parado mais vezes
para descansar. __ Carla comeu mais uma garfada. O campo lhe abria o apetite.
__ Por que veio se sabia que podia ser prejudicial?
__ Porque gosto de cavalgar, e fazia anos que não tinha esse problema. Pensei que
estivesse curada. Mas valeu a pena. Adoro este ar fresco e esta paz.__ Olhou ao redor.
__ De qualquer modo, não sou do tipo que se conforma com facilidade. Gosto de fazer
o que quero.
__ Sua maluca! Podia ter se machucado de verdade. __ Richard maneou a cabeça e
terminou de comer. __ Disseque fez cirurgia?
Carla assentiu.
__ Algumas vértebras foram danificadas na queda. Além disso, o cavalo me pisoteou.
Tiveram de colocar alguns pinos de metal onde os ossos se partiram. Estas partes é
que me incomodam. Mas posso andar e falar. E daí se disparo os alarmes de bagagem
no aeroporto? Pelo menos sobrevivi.
Richard a olhou, admirado. Com certeza, ela sofrera muito até chegar a esse ponto.
__ É muito corajosa, Carla.
O comentário a surpreendeu.
__ Não, acho que não. Sou uma pessoa nervosa e estouro com facilidade. Não foi só o
acidente. A vida me deixou assim, cheia de incertezas.
__ Como a respeito de fazer amor comigo?
Carla o encarou.
__ Sim. __ Não o fitou. Não queria ver piedade em seus olhos.
__ Talvez eu tenha de decidir por você. __ Sua voz era sombria. __ Não posso aceitar
só amizade. A química entre nós é forte demais.
Ouviram os passos que se aproximavam. Carla levantou-se e falou, baixinho:
__ Talvez seja a única maneira de eu escapar desta prisão que criei. Uma vez pode
nos curar de vez.
Virou-se para saudar Reese e Roarke, mas Richard continuou sentado em silêncio.
Ela teria falado sério?

Carla pediu para usar a banheira da casa do rancho. Precisava daquele banho de
imersão. Então, desfrutou cada instante na água tépida e perfumada.
Quando saiu do banheiro, enrolada na toalha, encontrou Richard à espreita.
__ Venha aqui, Carla.
Ela hesitou ao se lembrar da conversa desta manhã.
__ Não, acho que não devo, Richard.
__ Não vou fazer nada de mais. Apenas uma massagem. Se você quiser...
__ Não fica bem. Seus irmãos...
__ Foi sugestão deles. De qualquer modo, então lá fora na varanda. Venha, Carla.
Por que é tão difícil?
__ Está bem.
Ela o seguiu até um cômodo amplo e bagunçado. Viam-se roupas, livros e
equipamentos de montaria espalhados por toda parte, menos na cama.
Carla deitou-se de bruços sobre o colchão firme. O perfume dele a deixou tonta. Sem
dúvida, era a cama de Richard. “Não pense nisso”, repreendeu-se.
Como podia deseja-lo tanto e ainda temer aquele querer? Sentiu a cama se mexer e
viu que ele se sentara. Como podia ter permitido aquela situação?
__ Não tenha receio das cicatrizes, Richard. Elas não doem mais.
Richard retirou a toalha de suas costas e suspirou, aliviado ao ver que Carla estava
de calcinha. Entretanto, hesitou ao ver a extensa cicatriz. Havia mais de uma, e ele
estremeceu. Detestava vê-la assim, tão machucada. Nem se lembrou de que Carla
estava nua sobre sua cama.
Richard soubera que seria difícil toca-la. Mas, depois que Carla passou a gemer e
suspirar, foi bem pior. Com mãos experientes, aliviou-lhe as dores e tensões.
Os gemidos o excitaram sobremaneira, e mal podia se conter, certo de que se Carla
gemesse mais uma vez ele explodiria. Porém, ela ficou silenciosa, e, então, percebeu
que adormecera.
A respiração tranqüila o enfeitiçava. Suas emoções e pensamentos criavam um caos
em sua cabeça. Ela dormia calma e relaxada, linda e vulnerável. Precisava protege-la
do mundo e também dele mesmo.
Carla fora magoada, e às vezes, parecia ter dificuldades em não se entregar à dor.
Teria de deixa-la e não a buscaria mais. Só que a desejava mais do que nunca.
O que fazer? Por que se sentia desse jeito? Seria amor? Estaria se afundando em
suas garras? Devia se entregar ao inevitável?
Cobriu-a e limpou as mãos sujas de óleo. Antes que a tentação sobrepujasse, escapou
para o corredor e fechou a porta.
__ Ela está dormindo? __ Reese perguntou ao subir a escada.
__ Sim, deve estar exausta. Vou deixa-la descansar em minha cama. Posso ficar com
o sofá.
Viu Reese parado, olhando a porta fechada. Testemunhou a tristeza de que Carla
falara. Estava certa. Reese sofria por amor.
Por um instante entreolharam-se, mas Reese desviou-se e falou em tom melancólico:
__ Agarre-a enquanto pode, antes de perde-la e a sua alma.

Carla se esgueirou entre os arbustos até uma pequena lagoa, longe dos possíveis
curiosos. Despiu o jeans e ficou só de maiô. O dia todo sonhara com um mergulho
refrescante, mas os operários haviam trabalhado até mais tarde. Agora, ao entardecer,
queria nadar um pouco antes de ir pra casa.
A água fresca a envolve-la era o céu, Carla pensou. Seria perfeito se Richard estivesse
presente.
Nos últimos dias, em verdade, desde aquela manhã em que acordara na cama dele,
decidira dar uma chance ao que havia entre eles, ou poderia se arrepender para
sempre. O ardor partilhado era potente demais para ser ignorado.
Assim que tomara essa decisão, Richard desaparecera. Nem se despedira. Mas por
que devia? Nem podiam se considerar amigos, que dirá amantes. Mas Carla
presumira que haviam se tornado mais próximos na viagem.
Ele a enlouquecia. Não conseguia refrear as fantasias e os sonhos.
Seria amor? A sensação de estar incompleta na ausência dele era paixão? E a
preocupação quando ele viajava? E o ciúme de imaginar que Richard estaria com
outra?

Richard suspirou. Como estava cansado! A viagem o esgotara. Mas valera a pena.
Comprara os dois touros de que precisavam, além de um terceiro, melhor que os
outros dois.
Tivera bastante tempo para pensar em Carla e tomar decisões importantes.
Resolvera arriscar, como todos faziam.
Nesse instante, só pensava em convida-la para nadar na lagoa. Foi direto ao trailer.
Desapontado, constatou que ela não estava. Seguiu até a lagoa para se refrescar
antes de procura-la e acertar as coisas entre eles.
Carla se encontrava sentada na margem oposta e pôde ver quando Richard se
despiu. A luz era fraca, mas suficiente. Admirou aquele homem magnífico em toda sua
virilidade.
Queria Richard McCall. Aquela noite tinha a intenção de superar seus temores e se
entregar a ele.
Sentada em silêncio, observou-o nadar de um lado a outro várias vezes. Então, ele se
virava flutuando. Repousava tranqüilo enquanto Carla reunia coragem suficiente
para se aproximar.
Satisfeito, Richard vestiu o jeans. Foi então que viu Carla entre as sombras.
__ Carla? O que está fazendo aqui? __ Reparou no maiô molhado e riu. __ Ou devo
perguntar desde quando está aí?
Ela sorriu.
__ Viu tudo o que queria, doçura? Ou virou de costas, como uma boa menina?
Carla encolheu os ombros e sacudiu a cabeça. Preferia deixa-lo em suspense.
__ Talvez eu deva mostrar outra vez. Sempre aconselho a não se comprar o que não
se viu. __ E começou a abrir o zíper.
Carla veio a seu encontro.
__ Acho que não se refrescou o bastante. __ Ela colocou as mãos no peito dele e o
empurrou, mas Richard agarrou-a e a trouxe junto.
Carla emergiu e nadou até Richard, que fugia para o outro lado. Ela mergulhou na
superfície escura. Richard a procurou, sem sucesso. Ficou surpreso quando Carla
emergiu bem a sua direita.
__ Bem- vindo ao lar, Richard. __ Envolveu-o com os braços e o beijou.
O corpo quente dela colado ao seu provocou uma reação imediata. Mas, antes que
pudesse agarrá-la, Carla já estava longe. Ele mergulhou atrás e a puxou pelo pé.
__ Que beijo de boas vindas foi esse? __ Richard a envolveu com seus braços fortes,
beijando-ª
A eletricidade foi instantânea. Carla já sentia o corpo se preparando pra ele. Sem
temor. Apenas desejo.
Ela gemeu e correspondeu ao carinho com ardor. Dessa vez, pretendiam ir até o fim.
Aproximou-se mais e mordeu-lhe a nuca.
Richard a levou até margem e continuou a beijá-la. Ansiosa em partilhar seus
sentimentos, Carla o empurrou, e ele escorregou e sumiu na água escura. Carla
suspirou, chocada.
Richard sentou-se na margem, os olhos brilhantes como brasas. Levantou-se e
murmurou, numa voz ameaçadora.
__ Muito bem, garota. Agora basta...
Carla relaxou diante do tom zombeteiro. Ele sabia que ela não o empurrara de
propósito.
__ O que vai fazer a respeito, caubói?
__ Vou lhe mostrar. __ Richard terminou de se despir.
__ Vai fugir?
__ Não, quero ver o que você vai fazer. __ Carla ficou imóvel, embora por dentro se
sentisse derreter.
O jeans caiu ao solo, e Richard estava ali, magnífico e excitado à luz filtrada através
das árvores. Não fosse pela cueca samba-canção.
Carla desatou a rir.
Richard a encarou , sem entender.
__ Por que a graça? __ ele indagou, zangado.
__ Desculpe-me, é a sua cueca. Ninguém mais usa esse modelo. E o tecido... __ Mal
podia conter as gargalhadas.
__ Os caubóis usam, sim, senhora. Não importa a embalagem, o importante é o
conteúdo. __ Ele se aproximou, e Carla olhou para baixo.
__ Então, vamos examinar. __ E tocou-o com toda intimidade.
Carla arregalou os olhos.
Sua mão era pequena, e estava gelada. Ainda assim, foi como uma labareda na alma
de Richard. Ele não podia desviar o olhar dela, inocente e cheio de desejo. Só rezava
para que Carla não mudasse de idéia. Afinal, ela começara tudo.
“Que situação!” Os dedos delicados o acariciavam. Richard gemeu, sem ação.
Ela sorriu e sussurrou:
__ Eu te quero Richard.
Ele morrera e estava no paraíso, só podia ser isso. Assentiu e engoliu em seco.
__ Eu também a quero, meu amor. Desde a primeira vez que a vi. __ Sua voz falhava.
Carla livrou-o da cueca, e agora ele estava nu. Sua pele era morena, exceto na virilha
e nos quadris. O contraste acentuava ainda mais sua masculinidade.
__ Você é um homem lindo, Richard. __ Acariciou-lhe o tórax.
Seus lábios se encontraram, e os dois se uniram num abraço apertado.
Beijaram-se com fervor, as línguas travando uma verdadeira batalha, num misto de
entrega e exigência.
Carla gemeu baixinho, e Richard a deitou no solo, cobrindo-a com seu corpo. Ela
resistia.
Ele insistiu até Carla se render.
Richard persistiu nas carícias e nos beijos, fazendo-a perder todo o controle.
Rolaram devagar, sem se separar, os carinhos cada vez mais ousados.
Carla julgara ter alguma experiência nessa área, porém agora precisava admitir que
tinha muito a aprender. Mal começaram, e Richard já lhe mostrava coisas suas que
nem pudera imaginar. Lugares secretos onde o simples toque dele a fazia delirar.
Estava ansiosa para aprender o que mais Richard pudesse lhe ensinar. Como seria
dali a dez minutos?
Toda ela tremia, mas não se moveu de cima dele.
Richard alisou-lhe o cabelo com ternura.
__ Eu a assustei? __ ele quis saber, meigo.
Carla fitou os olhos escuros cheios de paixão.
__ Um pouco...
__ Eu jamais a magoaria, Carla. __ Prosseguiu nas carícias. __ Pode me pedir que
pare quando quiser. Respeitarei sua vontade.
Richard passou os dedos nos mamilos, e sentiu-os tornarem-se ainda mais rijos.
__ Quer fazer amor comigo, Carla?
__ Sim. Sim, eu quero!

CAPÍTULO OITO
Era estranho como todo o mundo desaparecera à volta deles. Bem distante, Carla
podia ouvir os pássaros noturnos e o farfalhar das folhas. O pungente perfume da
relva e dos pinheiros invadia-lhe os sentidos. Porém. Carla estava ciente apenas do
aroma másculo de Richard e do amor deles.
Richard a puxou e comprimiu-lhe os lábios, levando-a a um mundo novo de
prazeres. Ela sentia-se inebriada pelo ardor de seus beijos.
__ Oh, querida, como pode fazer isso comigo? __ Richard murmurou, mordiscando-
lhe a orelha. Então, abriu-lhe os botões na frente do maiô.
Carla não exercia mais nenhum controle sobre o corpo.
Richard mordeu-lhe a curva do pescoço, deliciando- a. O grito dela encheu o
silêncio, implorando por mais.
Rendeu-se às carícias e afagos de Richard, confusa, em estase total. A brisa fresca
beliscava sua pele ardente. Já não distinguia realidade da fantasia.
Richard livrou-a da roupa de banho e sorveu a beleza estupenda de seus seios.
Encheu as mãos com eles, atiçando os mamilos escuros e rijos.
Carla era meiga e doce como o mel. Não se cansava de admirar-lhe as formas
perfeitas, a textura macia da pele, o olhar inocente e cheio de malícia.
Carla estremeceu e deixou escapar sons incoerentes que o transtornaram. Richard
abaixou-se e pressionou a boca contra seu colo, satisfeito por estar sendo capaz de
repartir todo aquele prazer com ela.
__ Céus, você é fabulosa, Carla! Venha mais perto meu amor. __ ele sussurrou com
frenesi, e puxou- a .
Carla, agora sobre ele, pôde fitá-lo nos olhos e testemunhar seu deleite. Não media
esforços para agradá-la. Agora, ela lutava contra a pressão crescente em seu interior.
No instante em que pensou que morreria de prazer, ele recuou. Permaneceu, imóvel a
seu lado, decepcionada, os quadris em movimento sinuosos enquanto Richard lhe
acariciava o corpo quente.
__ Ainda não, meu anjo. Tenho tanto para lhe oferecer antes disso... Relaxe um
pouco. __ Richard tornou a beijá-la.
Carla surpreendeu-se por ele perceber que estava perto do êxtase. Jamais tivera um
amante tão atencioso.
Com Peter, fora diferente. Ele pouco se importava se ela atingia ou não o clímax.
Pelo visto, Richard sentia-se responsável.
__ Levante-se, amor. Existem muitas coisas a nos separar. __ Richard ajudou-a a se
despir.
Carla sentiu-se desprotegida, de pé na escuridão, com o maiô na cintura.
Richard ajoelhou-se diante dela, e ela se cobriu com as mÃos. Ele sacudiu a cabeça.
__ Não, não se esconda de mim. É linda demais. Tão sensual...
Com delicadeza, afastou-lhe os braços e a acariciou. Então, se deteve na barriga e
beijou-lhe o umbigo. Baixou o maiô, aos poucos revelando centímetro por centímetro
de seu corpo.
Suspirou admirado diante da nudez total de Carla.
Os seios fartos, a cintura bem torneada, os quadris cheios. Era mais linda que em
seus sonhos. Tornou a beijar-lhe a barriga, em seguida, os cachos macios.
Carla dobrou os joelhos, mas Richard a segurou com firmeza.
__ Sente-se antes que cais. __ Conduziu-a até uma pedra. __ Permita que eu a
admire mais um pouco.
Carla quase caiu. Trêmula, não sabia mais o que esperar.
Richard afastou-lhe as coxas e ajoelhou-se, reverente, entre elas. Então, tomou-lhe o
rosto e a beijou com paixão. Desceu os lábios por todo seu corpo, e Carla se rendeu
sem resistência.
Apenas quando sentiu a respiração quente e ofegante no interior de sua coxa se deu
conta do que ele estava fazendo. Antes que pudesse detê-lo, Richard passou a língua
na parte mais sensível, e ela achou que ia morrer. A última coisa de que teve
consciência foi a rigidez do próprio corpo.
Tomada pela explosão de prazer, Carla sentiu como se flutuasse e gritou o nome dele.
Esse era o êxtase de que todos falavam, e nunca sentira.
Flutuando nos braços de Richard, compreendeu que, na verdade, estavam deitados
sobre a relva, tão próximos que podia sentir cada curva e nuance do corpo dele.
Gostaria de dizer alguma coisa, mas não conseguia.
__ Foi bom? __ Richard sorriu, então a beijou devagar.
Logo Carla estava excitada e ansiosa de novo.
Richard rolou sobre ela, o corpo enorme comprimindo-a. Carla o encarou.
__ Não me machuque __ Sussurrou, sabendo que nem precisava pedir.
__ Nunca, meu amor, nunca. __ Richard contorceu-se, e ela pôde sentir a força de seu
desejo.
__ Faça amor comigo, Richard. __ Ergueu os quadris para acolhe-lo.
__ Este é só o começo, amor. Relaxe e me receba por inteiro.
Ele ficou imóvel até ela se acostumar a seu tamanho, então passou a mover-se. Carla
acompanhava-lhe o ritmo.
Os gemidos dela encheram o ar, e Richard não pôde mais se conter. Acelerou os
movimentos, e ela retesou o corpo todo, gritando.
Richard moveu-se mais uma vez e a preencheu com a essência de sua vida. Dor e
prazer, e também ele estava perdido num lugar reservado apenas aos amantes.
Carla abriu os olhos, o corpo ainda latejando.
Richard estava deitado a seu lado, um braço sobre os olhos e o outro retendo-a, como
se temesse que ela fosse lhe escapar.
__ Sabia que seria uma explosão, mas não esperava... Está tudo bem com você? __
Ele rolou de lado e passou a mão sobre o corpo de Carla.
__ Estou ótima. Mais que isso. Maravilhosa! Jamais imaginei...
__ ...que pudesse ser tão bom? __ Richard afastou-lhe os cabelos do rosto. __ Não
fique envergonhada, Carla. Nem eu esperava. Você foi uma revelação inédita pra
mim.
Carla sorriu, provocando uma reação imediata numa parte de Richard que devia
estar exausta.
__ Vamos arranjar uma cama. __ Ele se levantou, sem se preocupar em esconder a
excitação evidente. Retraiu-se diante do olhar dela. __ Eu a quero de novo. O que
posso fazer?
__ É melhor irmos para o meu trailer. Fica perto e oferece maior privacidade. Além
disso, nem precisaremos nos vestir. Venha!
__ Vamos devagar, menina. Quero namora-la por todo o caminho.
__ Ótimo!
Reuniram as roupas e, de braços dados, seguiram de volta ao trailer entre beijos,
risadas e carinhos.
__ Você é uma mulher muito sensual, sabia? __ Richard mordiscou-lhe a orelha.
Carla cobriu-lhe a boca com os dedos.
__ Quieto! Vem vindo alguém __ ela sussurrou e puxou-o para trás dos arbustos.
Ficaram em silêncio enquanto Roarke e Reese passavam. Richard teve de beija-la
para abafar o risinho nervoso que Carla não conseguia controlar.
Ela era tudo que sempre desejara numa mulher. Bonita, feminina e sexy. Como
resistir?
__ Oh, amor... __ ele murmurou ao seu ouvido.
__ Venha para meu trailer, Richard. Os mosquitos estão me devorando!
__ Estou morrendo de inveja... __ Richard tornou a juntar as roupas e a conduziu
pelo caminho.
__ Pensei que não tivesse pressa... __ Carla riu.
__ Isso foi antes de ver como é perigoso andar por aí nu com você rindo. Venha, eu a
quero muito.

A noite partilhada foi cheia de suspiros e frases doces. Pernas entrelaçadas


transmitiam mensagens impossíveis de serem expressadas em palavras. Beijos
ardentes falavam de um sentimento incompreensível até então.
A luz do luar encheu o pequeno cômodo, refletindo-se nos corpos esguios e nus.
__ Vamos tomar uma chuveirada para nos refrescar __ Carla sugeriu, depois de
terem feito amor mais uma vez.
Caminharam por trás do trailer e chegaram ao banheiro. Carla cuidou da
temperatura da água, e os dois entraram juntos no chuveiro. Richard a esfregou com
carinho.

Vire-se para eu lavar suas costas __ Carla pediu, e ele obedeceu.


Não entendo por que elas estão coçando assim. __ Ele se virou e puxou Carla. __ Mas
sei por que sinto tanto calor.
Beijou-lhe os lábios, e suas línguas se envolveram com lubricidade.Fechou as
torneiras e abraçou Carla mais uma vez.
__ Venha, vamos voltar.
__ Aprovado! __ Carla o beijou, e ele a segurou no colo, levando-a de volta ao ninho
de amor.
Nas primeiras horas do dia seguinte, Richard se levantou e se vestiu, sob os protestos
de Carla.
__ Preciso ir, minha querida. Não quero que meus irmãos pensem mal de você. Volte
a dormir. Ainda teremos muitas noites de amor.
Carla observou-o atravessar o pátio, com as botas nas mãos, e voltou a se deitar. Na
cama, poderia desfrutar o perfume dele. Nunca estivera tão feliz.
Recordou a maneira como se amaram, vez após outra, a delicadeza e atenção de
Richard. Ele jamais a magoaria como Peter. Sentia que a amava tanto quanto ela a
ele. Mesmo sem Richard ter dito as palavras. Sabia-o por suas atitudes e dedicação.
Jamais conhecera amor igual. As coisas só podiam melhorar. Era evidente que
haviam superado as áreas de problema de relacionamento. Dali para a frente, era só
deixar a natureza se encarregar do resto. Não tinha sentido lutarem contra a química
e os sentimentos.
Adormeceu e sonhou com o casamento e os filhos correndo pelo jardim. Richard, do
seu lado, completamente apaixonado.

Richard não voltou a dormir naquela manhã. Sua cabeça estava cheia demais com
imagens de Carla em seus braços. Com certeza aquilo era amor. Jamais se sentira
assim, como se tivesse perdido uma parte de si para outra pessoa.
Lembrou-se do pai, que não conseguia tirar os olhos da mãe. Tudo o que ela
precisava fazer era sorrir, e seu pai se desdobrava em mil para atender-lhe ao menor
dos caprichos. E quando ela falecera, ele a seguira.
Esse tipo de emoção o aterrorizava. Desejava apenas alguém que lhe esquentasse o
leito, lhe desse filhos e tomasse conta da casa. E não teria nada disso com Carla
Masters. Não sem um preço alto demais.
Mas ela lhe enchia o coração e incendiava seu corpo. Ainda podia ouvir os gritos e
sussurros ecoando em seus ouvidos. Tornou a coçar as costas, então percebeu que a
coceira se espalhara pelas pernas.

Havia um sedã preto no pátio quando Carla despertou. “O carro do médico?” Bem,
pelo menos dessa vez não era por sua culpa.
Seguiu até a residência com uma rosca de canela para assar. Roarke a deixava usar o
forno, e sabia que esse era o doce favorito de Richard.
Entrou pela porta dos fundos e encontrou Roarke e Reese às gargalhadas.
__ Bom dia, Carla. __ Reese enxugou os olhos e espiou a guloseima na assadeira. __
Rosca de canela! Acho melhor ficar em casa hoje para cuidar de Richard. Tomarei
conta disso para você.
__ Esqueça. __ Sorriu. __ Eu mesma preparo. Por que Richard precisa de cuidados?
Roarke limpou a garganta e falou, em tom solene:
__ Ele teve contato com algum tipo de planta e pegou alergia. O médico está lá em
cima com Richard. Disse que foi na lagoa, mas nunca vi nenhuma planta venenosa
naquele lugar.
Carla podia imaginar o que acontecera. Na certa, eram os arbustos onde se
esconderam. Fora idéia dela. Que horror!
Reese riu e Roarke também.
__ Como Richard se mete nessas situações? A maioria das pessoas tem este tipo de
coceira nas pernas, não no traseiro!
Gargalharam de novo e Carla deu de ombros.
__ Ora, até agora você sempre esteve por perto das mazelas de Richard. Também
está se coçando, Carla? __ Reese zombou.
Ela enrubesceu.
__ Ah, não, não... Nunca tive esse tipo de problema.
Roarke atravessou o cômodo e passou o braço à volta dela.
__ Sinto muito. Não a estamos responsabilizando pelos acidentes de Richard.
Estávamos só brincando. Você parece aborrecida.
__ Não, está certo. Eu estive presente na... __ Carla foi interrompida pela chegada do
médico, que parecia preocupado.
__ Richard tem mais que uma simples alergia a hera. Parece que entrou em contato
com alguma seiva venenosa e, pelo jeito, é mais sensível que a maioria.
Vou ter de levá-lo para o hospital. Vai precisar de um tratamento intravenoso.
Precisamos controlar o inchaço.
__ Posso vê-lo? __ Carla perguntou.
__ Bem, querida, ele está se vestindo, e, devo dizer, muito irritado. Sugiro que fiquem
longe dele. Vou levá-lo para Lethbridge neste instante. Podem ligar para o hospital
hoje à noite para ter notícias.
__ Algum efeito colateral? __ Roarke indagou, preocupado.
__ Algumas pessoas tem problemas respiratórios com alergias deste tipo. Às vezes o
veneno entra direto na corrente sanguínea. Por enquanto, Richard me parece estável.
A estada no hospital nos dirá se terá mais alguma reação.
__ Quanto tempo terá de ficar lá?
__ Imagino que uns dois ou três dias. É necessário controlar a coceira e o inchaço.
Ah! Eis nosso homem!
Richard entrou na cozinha caminhando devagar. Evitou a todos e seguiu até o carro
do doutor, onde se instalou no banco de trás.
__ Richard? Oh, querido, sinto muito. Vou visitá-lo esta tarde. __ Carla se debruçou
na janela do veículo.
__ Não! Fique longe de mim! Sempre que estou perto de você, acontecem coisas
terríveis. Não se aproxime! __ Gemeu e rangeu os dentes.
Carla se afastou. Com certeza, Richard não falava sério. Devia ser a dor, pois nenhum
homem podia passar de amante carinhoso a monstro grosseiro em tão curto período.
Até o rosto estava inchado, e Carla não entendeu como uma simples planta podia
fazer tamanho estrago.
Era fácil perceber o grande desconforto de Richard. Ele xingou os irmãos e fechou a
janela do carro. Disse qualquer coisa sobre estar enfeitiçado.
As lágrimas brotaram nos olhos de Carla, e ela deu um passo para trás, esbarrando
em Reese. Ele a abraçou, enquanto viam o médico e Richar partirem. Ela se soltou de
Reese e correu ao trailer onde chorou todo sofrimento por aquela traição.
Era a segunda vez que se decepcionava com um homem.
E agora sabia que a dor e a desconfiança não passariam.

Uma hora mais tarde, uma batida suave na porta a despertou do torpor. Assoou o
nariz e foi atender.
__ Se tiver café, a rosca já está pronta.
__ Reese... __ Carla suspirou e deixou-o entrar.
Reese tomou-lhe o rosto banhado em lágrimas e franziu a testa.
__ Venha. Vamos conversar. Acho que precisa de um amigo.
Ela hesitou a princípio, mas concordou.
Depois de juntar as canecas e o bule de café, Carla seguiu-o até a casa. Ocupou-se de
ajeitar a mesa e serviu a bebida fumegante. Reese pegou-lhe o pulso com firmeza e a
puxou.
__ Não quer me contar?
Carla o encarou. Houve um período de silêncio, então sentou-se a seu lado.
__ Sim. __ Enxugou as lágrimas.
__ para começar, está apaixonada pelo meu irmão, o malcriado __ reese sugeriu.
__ Não! Está bem, estou. Apaixonei-me por Richard. Pelo menos, era assim. Como
posso me meter nessas situações? __ desviou o olhar para esconder a dor.
__ richard não estava falando sério. Você verá. Quando estiver melhor, vai implorar
seu perdão.
__ Não sei. Estava furioso. __ Carla maneou a cabeça. __ Pensei que tivéssemos
superado essas coisas. Não posso me envolver em outro relacionamento assim. Talvez
seja melhor pôr um ponto final enquanto é tempo.
Carla olhou para longe.
__ Não vou agüentar sofrer outra vez, Reese. __ Enxugou as lágrimas.
__ Isso só você pode decidir. Mas devo alertá-la. Pense bem no que vai fazer. Vai ter
de viver com a decisão pelo resto de seus dias. E se for a errada... Se o ama de
verdade, fique firme. Posso garantir que será recompensada. Acho que Richard está
meio assustado. Esse período de separação vai ser bom para os dois.
__ Obrigada por se importar e por suas sábias palavras, Reese. __ Carla pegou-lhe a
mão, e ele a beijou na testa.
__ Bem, preciso ir. Quero dar uma olhada na fundação da casa depois de minhas
tarefas. __ Reese parou à soleira. __ Sábias não, Carla, experientes...

Richard permaneceu deitado. Estava vivo, pelo que devia agradecer. Por outro lado,
esse dia, se fosse ser igual à véspera, talvez preferisse morrer. Aquele fora o pior dia de
sua vida, e com certeza o mais humilhante. Tivera de passar por inúmeros banhos de
aveia e aplicações de cremes pelas enfermeiras. Não teria sido ruim se todas não
fossem senhoras quase idosas e conseguissem deixar de fazer caretas enquanto
aplicavam o creme em suas partes íntimas.
O veneno o contaminara por inteiro. Não apenas no local onde tivera o contato
inicial, nas costas. Devia ter se espalhado enquanto fazia amor com Carla na cama, e
depois no banho, quando ela lhe esfregou o corpo todo. Então, penetrara na corrente
sanguínea e espalhara-se. Mas o pior eram os locais mais delicados e seu orgulho.
Estava todo inchado e irritado. Além de ter de ouvir os gracejos das enfermeiras por
trás das portas a respeito de como ele teria se contaminado. Os irmãos e Carla
também deviam estar rindo a sua custa.
No instante em que resolvera se entregar a ela, acontecia uma coisa dessas. Não ia se
recuperar tão cedo.
Na noite anterior, Reese o recriminara por magoar Carla. Mas ninguém sabia o que
ela vinha fazendo com ele. Em seus braços, pensara ter superado todos aqueles
acidentes. Contudo, agora tinha certeza: Carla lhe trazia má sorte. Seria preciso uma
plantação de arruda para se livrar disso.
Teria de esquecê-la. Apesar de ela excitá-lo como ninguém, não podia se arriscar de
novo.
Entretanto, no fundo do coração, sabia que era apenas uma desculpa para fugir de
um relacionamento que o dominaria.
Carla estava sentada, de maiô, desfrutando do sol de verão enquanto examinava a
planta da casa de Roarke. No dia seguinte, a primeira equipe ia colocar o telhado, e a
segunda começaria a erigir as paredes do novo lar de Reese.
Os projetos haviam gerado grande interesse na vizinhança. Muitas pessoas vinham
acompanhar os trabalhos. Roarke e Reese mostravam ambas as casas, com toda
paciência. Carla mantinha-se distante.
Esperavam a volta de Richard. Ele reagira bem ao tratamento e pretendia se
recuperar de vez no Blue Sky. Ela receava sua chegada e as conseqüências. Não
gostaria de terminar o namoro, mas também não queria mantê-lo se fosse ser
permeado de tantos aborrecimentos.
Carla se ressentia das últimas palavras dele. Era como Peter. Tomara o que queria
para depois descartá-la.
Precisava admitir que o fizera com maior elegância. Levara-a ao paraíso, afinal de
contas. E nem pensara em precaução. E agora, só o que lhe faltava era uma gravidez
sem marido. Não sabia se estava segura ou não. Seu ciclo não era regular. Os homens
sempre se safavam, sem problemas. Restavam às mulheres as conseqüências.
Não importava. Podia lidar com qualquer coisa. Manteria a cabeça erguida e
seguiria em frente, acontecesse o que acontecesse.
Não precisava de Richard McCall, nem de nenhum outro. Ficaria bem. Mas lá no
fundo sentiu um aperto, pois, se não fosse Richard McCall, não queria mais ninguém.

CAPÍTULO NOVE
Carla atravessou o pátio na manhã seguinte bem na hora em que Richard chegou de
carro com Reese. Ela hesitou, então seguiu seu caminho. Olhou para trás e viu um
Richard muito doente descer da caminhonete. Ele lhe lançou um olhar ameaçador, e
Carla soube que jamais se livraria dele. Já estava cravado em seu coração.
Precisavam resolver suas diferenças. E agora era o momento mais que apropriado.
Virou-se e voltou na direção da dupla, que entrava devagar na casa. Reese se virou
ao ouvir seus passos e lhe endereçou um sorriso de incentivo.
__ Olá, Carla. Veio ver o velho rabugento? __ ele zombou, procurando atenuar os
ânimos.
Carla sorriu sem convicção e pigarreou.
__ Preciso falar com Richard. Pode nos deixar a sós por uns instantes, Reese?
Richard reprovou a sugestão:
__ esqueça. Não quero ficar sozinho com ela. Fique aqui, meu irmão.
Reese encarou-o, muito zangado.
__ Acho que precisam conversar, Richard. Estarei aqui fora. Pode me chamar
quando quiser subir.
__ Podemos ir pra cima já. Não tenho nada para conversar Carla! __ Richard gritou,
mas Reese fingiu não ouvir, saindo pela porta sem dizer mais nada.
Carla tomou fôlego antes de começar a falar:
__ Eu sei que não está se sentindo bem, mas precisamos conversar. Não vão demorar.
Isso não foi minha culpa.
__ Não foi? Oh, sim, foi, garota! Você me levou para trás daqueles arbustos. Eu devia
ter imaginado que algo não daria certo. __ Queria se livrar logo dela, antes que
derretesse diante daquele olhar de menina. __ Por que não volta para sua casa e
esquece o que houve entre nós? Será mais seguro para todos.
Richard virou-se, procurando fugir antes que Carla o abalasse emocionalmente. Mas
tropeçou no degrau da sala. Carla correu em seu socorro, mas os dois caíram, ela por
cima dele.
__ Déjà vu __ Richard resmungou. __ Vá embora antes que acabe me matando!

Dali em diante, as coisas pioraram. Carla evitava Richard, tanto quanto ele a ela. E
ambos pareciam dois ursos enfurecidos.
__ Vai ou não vai querer que Carla construa seu novo lar? __ Roarke indagou. __ O
meu já está pronto do lado de fora, e o de Reese só precisa do telhado e alguns
retoques.
Tenho certeza de que ela já pode passar ao outro projeto.
Richard resmungou e continuou comendo.
__ Faz algumas semanas que voltou do hospital. Já teve tempo de repensar as coisas.
Pare de ser tão teimoso. Não vai prosseguir com sua vida? Por que não esclarece essas
coisas? Seria bem melhor para todos.
__ Ela foi contratada para ficar durante o verão, mas, se não estiver satisfeito com
ela, podemos deixa-la seguir com outros serviços que arranjou na região. __ Reese
recostou-se na cadeira e observou o caçula.
Richard levantou-se e serviu-se de mais café, só porque não queria deixar
transparecer a dor que era vê-los falarem da partida de Carla. Sabia que não podia tê-
la, mas isso não diminuía a necessidade de vê-la todos os dias. Nem sequer se falavam.
Mantinham apenas a civilidade fazia três semanas, desde que voltara do hospital.
Richard estava grato por escapar daquele relacionamento. E Carla parecia sentir o
mesmo.
Embora não tivesse tido a intenção de magoá-la, não entendia como Carla não
demonstrava algum tipo de sofrimento. Será que era o único a sofrer? E a dor, seria
menor no futuro? Cada dia sem Carla era pior do que o anterior.
Os vizinhos não se cansavam de adula-la, fazendo elogios a seu trabalho, a suas
habilidades como arquiteta.
Muitos caubóis solteiros da região a admiravam. O ciúme o torturavam, mais que a
vontade de esquece-la.
E ali estava, agarrado ao balcão da cozinha, consumido em seu anseio por Carla.
Reese interrompeu-lhe os pensamentos.
__ Então? Vai querer que ela construa sua casa, Richard?
__ Oh, sim. Já escolhi o modelo e o local da construção.
__ ora, precisa falar com ela. __ Roarke levantou-se e colocou o chapéu. __ Vou até os
campos do leste ver como estão os bois. Quero que resolva tudo com Carla ainda hoje.
Seja gentil, ou poderá se arrepender.
Richard colocou o chapéu e baixou a aba. Teria sorte se ela o recebesse. Conhecia
uma mulher zangada. E se olhares pudessem matar, já teria morrido muitas vezes.
Ora, já que precisava faze-lo, seria melhor se fosse logo. Desceu a escada da varanda
e seguiu a passos largos em direção ao trailer. Por dentro, estava aterrorizado.

Carla despertou com as batidas na porta. Passara a noite toda acordada e só de


madrugada conseguira pegar no sono. Ergueu a cortina e viu o motivo de sua insônia.
Olhou no espelho a camiseta que usava como camisola, então desceu da cama e abriu
a porta.
__ Bom dia. Eu a acordei? __ Richard procurou agir com naturalidade, embora a
visão de Carla sonolenta o afetasse sobremaneira.
Tentava ignorar o desejo de atira-la sobre a cama e fazer amor até se esgotarem.
Porém, algo lhe disse que ela não o queria mais ali.
Carla deixou a proteção de tela entre eles. Percebera o olhar ansioso dele. Não era
tão bom em esconder os sentimentos como imaginava.
__ Sim, Richard, mas precisavava me levantar. Tenho de receber a nova equipe que
vai cuidar do interior da casa de Roarke. __ Bocejou. __ Quer alguma coisa?
“Se eu quero alguma coisa?!” Era uma pergunta séria? Ali estava ela, toda linda e
sensual, e ainda perguntava se ele queria alguma coisa.
__ Sim, quero. Roarke pediu que lhe mostrasse o local onde desejo construir.
Precisarei de uma residência. Não posso esperar que mulher alguma aceite morar
comigo naquela espelunca que chamamos de lar. Isso é...
__ Entendo o que quer dizer, Richard McCall __ Interrompeu-o, fria.
Ele a fitou, e soube que estava furiosa. Mas não entendia por quê. Dissera algo
errado? Nem se lembrava com exatidão das palavras. Ficava tonto quando estava
perto dela.
__ Já viu os projetos? Tem alguma preferência? __ Carla não deixava transparecer o
que pensava. Ainda tinha seu orgulho.
__ Escolhi um de seu catálogo. Sem alterações. Não vai ser problema.
Qualquer coisa que construísse para ele seria um problema.
__ Ótimo. Vou dar uma espiada no local e ver se o projeto é apropriado.
Richard ficou na defensiva.
__ Por que não seria? Basta nivelar o solo, e pronto.
__ Não é bem assim. É necessário escolher uma área mais ou menos plana, e que não
seja local de drenagem. Tem de ter acesso fácil ao maquinário e uma área em volta
onde possamos cavar. Também levamos em conta a queda do terreno, o suprimento de
água e a viabilidade da fossa séptica.
Richard a olhou, aborrecido. Na certa queria brigar. Mas estava cansada demais até
para isso.
__ Espere um minuto, Richard. Vou me vestir e iremos juntos até o local. __ Fechou a
porta do trailer antes que ele pudesse responder.
Vestiu bermuda e camiseta verde-escura, calçou as botinas de couro e observou a
imagem. Estava bonita e mais magra. A bermuda lhe caía muito bem, com os quilos a
menos. Sentiu-se mais sexy.
Azar o dele se ficasse excitado.

Caminharam em silêncio pelo passeio. Carla adorava passear pelo rancho, mas
Richard, taciturno, diminuiu seu prazer.
__ Como tem passado, Carla? __ Ele sabia a resposta. Podia vê-la nas olheiras
escuras sob seus olhos. Estava tão abatida quanto ele.
Tinham muito em comum. E acima de tudo, o orgulho. Nem um dos dois se permitia
exibir a própria dor.
__ Estou ótima. Adoro o desafio de estar fazendo mais de uma casa por vez,
sobretudo por serem meus projetos. __ E ficou em silêncio.
Os sons da natureza enchiam o vazio dentro de Carla. Então, lembrou-se da noite em
que fizeram amor na margem da lagoa.
Richard parou e se voltou para ela de punhos cerrados.
__ Eu quero pedir desculpas pelas coisas que disse a você, Carla. Sei que a magoei, e
não tive a intenção.
Carla lançou-lhe um olhar e se virou, maneando a cabeça. Não podia deixá-lo ver as
lágrimas quentes brotando de seus olhos.
__ Está certo. Suas palavras me magoaram. Mas acho que foram mais que meras
palavras, Richard. Acho que queria fugir do relacionamento e usou a primeira
oportunidade disponível. Isso doeu ainda mais. __ Voltou-se para encará-lo, e ele
corou.
Foi a vez de Richard desviar o olhar.
__ Sabe, esperava que me dissesse tudo às claras. Não tenho muita experiência com
os homens, mas não entendo por que não podem ser sinceros com uma mulher. Por
que fez aquela encenação? Podia ter me dito em particular em vez de me humilhar na
frente de todos. Agora, acabou. Não precisa se preocupar. O que tivemos foi apenas
sexo. Como disse, às vezes uma vez é o bastante. Voltemos aos negócios.
Richard queria morrer. Sabia que a machucara. Mas ele também estava ferido.
Porém, não podia ouvi-la chamar todo aquele amor de “apenas sexo”. Odiava a
mulher fria e distante em que Carla se transformara.
Com um nó na garganta, continuou andando. Jamais recebera o troco desse jeito.
Destruíra o relacionamento deles, mas não era o que queria?
Richard parou e tornou a encará-la.
__ Não posso amá-la, Carla. O amor enfraquece. Eu vi acontecer com meus pais. Não
quero me arriscar. Desejava uma coisa simples e descomplicada. E você não é assim.
Carla hesitou. Que podia dizer? Ele disse que a amava, mas não podia aceitar o
sentimento. O amor o enfraquecia, e ela não era simples. Lançou-lhe um olhar confuso
e zangado.
__ É um sujeito esquisito, Richard. As pessoas não escolhem o tipo de amor que
querem sentir. Não é assim. Também não enfraquece, o amor fortalece. Torna-se parte
da gente. Não há nada de simples nisso. Mas sabe de uma coisa? __ Ela se aproximou
e apontou o dedo em seu peito. __ Não vou ficar esperando por você. Tenho coisas
melhores para fazer. Não possuo mais ilusões. Sim, você me magoou como ninguém,
mas não vou deixar que aconteça outra vez. É preciso crescer e encarar as coisas como
adulto, e não se deixar levar pelas impressões da infância.
Carla se virou para ir embora, mas Richard a deteve.
__ Aonde vai? __ Agora que testemunhara seu desabafo, Richard queria mais.
Pensaria mais tarde nas palavras dela. No momento, faria qualquer coisa para ficar
mais um pouco perto de Carla. __ Não vamos ver meu terreno? Ainda vai construir
minha casa, não é?
__ Tenho um trabalho a fazer, e o farei.
Richard suspirou e seguiu pelo passeio mais uns cinco metros.
__ Bem, é aqui. __ Ele indicou a área que terminava num muro natural de rocha.
Um pouco abaixo, Carla viu um riacho e suspeitou que a nascente devia sair da
rocha. O Blue Sky era cheio de riachos e cachoeiras. A vista era linda, sendo o único
obstáculo uma fileira de pinheiros. Um local ideal para piqueniques românticos e
encontros íntimos.
Carla tentou não pensar nas muitas mulheres que deviam ter ido ali e sido
seduzidas. Corou diante da malícia de seus pensamentos, e fugiu do olhar de Richard.
__ Não sei se este lugar vai servir. É lindo, mas existem alguns fatores a considerar.
__ Ela parecia brava.
Richard não entendeu a agressividade. Impaciente, exibiu seu próprio
temperamento:
__ O que há de errado com minha escolha?
__ Primeiro, o muro de rocha é instável. Segundo, existe um riacho subterrâneo uns
cinco metros abaixo daqui. __ Carla esperou Richard se localizar e prosseguiu: __ Isso
pode significar uma porção de coisas, como uma área de drenagem natural, o que
torna o solo problemático. Ou uma nascente. Nesse caso, estamos sobre rocha maciça,
o que torna inviável a construção de um porão ou fossa séptica. Terá de escolher outro
local.
Carla virou-se e foi voltando pelo passeio.
Richard correu atrás dela, o ego atingido.
__ Acho que está inventando coisas pra não construir minha residência. Tem medo
de que eu tente alguma coisa e você não tenha forças para resistir. Está fugindo,
Carla. __ Ele se odiava por ter de se rebaixar tanto para chamar-lhe a atenção.
__ Não, Richard, não estou. Sou uma arquiteta responsável. Uma casa de madeira é
para sempre. Não posso erigi-la sobre solo instável.
Carla sacudiu a cabeça. Estava farta das brigas e da tensão entre eles.
__ Preciso voltar aos outros afazeres e ver como estão os empregados. Acho que vai
chover antes do meio-dia, e preciso certificar-me de que a obra de Reese estará
coberta. __ Retomou a caminhada, mas parou ao ouvir as palavras seguintes de
Richard:
__ Pode fugir. Não precisa se preocupar comigo. Não vou tentar seduzi-la. É a última
mulher da face da terra com quem desejo repartir minha cama. Quase entendo por
que o sujeito a abandonou no altar. Quem agüentaria sua língua ferina, arrogância e
habilidade em criar confusão? Vou contratar outra pessoa para fazer o que quero.
Carla ficou paralisada, os ombros tensos diante das frases duras. No final, afastou-se
com o orgulho que restava, determinada a não deixar homem algum machucá-la como
Richard acabara de fazer.

Dentro do trailer, Carla chorou muito. Pensou que superara o ponto em que ele podia
magoá-la, mas se enganara. Talvez nunca conseguisse.
Continuava apaixonada por Richard McCall. Estava tudo acabado, e o sofrimento
era terrível.
Recomposta, voltou ao trabalho. O empreiteiro antecipara a chuva e reunira as duas
equipes na cobertura da casa de Reese. Tudo corria conforme o esperado.
Os trabalhadores riam da história de Roarke McCall sobre as casas. Não era a
primeira vez que Carla a ouvia, mas agora se aborrecera. Imagine só casar-se para
ficar longe das brigas de bar... Não deviam as pessoas adultas se casar por outros
motivos? Talvez Richard tivesse se mostrado doce e apaixonado para arrumar uma
esposa e seguir com os planos dos irmãos.
Será que fizera papel de boba desde o princípio? Quantas vezes mais entraria em
relacionamentos unilaterais? Poderia encontrar um homem que a amasse sem
subterfúgios? Depois de verificar tudo, partiu.
A chuvarada molhou-lhe as roupas e cabelos a caminho do trailer. Seus pensamentos
se alteravam entre amor e ódio. Não podia aceitar a idéia de Richard se casar com
outra.
Carla não se casaria nunca. Nem com Richard, nem com ninguém. Soltou o corpo
pequeno no sofá. A chuva martelava o teto. Estava cansada de tudo.
Precisava de umas férias num lugar distante e exótico. Estava no limite. Era hora de
parar e pensar, ou cometeria sempre os mesmos erros.

Richard não entendia como podia ter sido tão perverso com Carla. As coisas que
dissera... Jamais se vingara daquele jeito. Nunca agredira alguém como fizera com
ela.
Era assombrado pela expressão chocada de Carla e seus passos ao se afastar. Estava
doente de arrependimento.
Carla o deixava maluco. Era compelido a dizer coisas impensadas e agir de forma
estúpida. Agora, teria de viver com as conseqüências de sua língua comprida.
Sentado na varanda, no escuro, pensou nela. Nada de novo, pois sempre pensava
nela. Tinha de admitir: Carla era uma mulher e tanto. Apesar do fiasco na vida
pessoal, continuava a realizar sua tarefa com profissionalismo.
Presumira que Carla fugiria, mas não. O som de sua risada ou a visão dela saindo do
banheiro o transtornava. Mal podia suportar. Sentia muito por tê-la magoado, mas
era melhor assim. Estava cortando o mal pela raiz. Embora se sentisse morto por
dentro.
Carla mergulhou na poltrona e fechou os olhos, exausta. Mais uma tempestade de
verão. Já se acostumara a elas. Eram tantas... Não tinha mais medo como antes.
Sentia orgulho disso, e das construções.
Apanhou uma pilha de cartas que Reese lhe entregara, do pai, da cunhada e de Alex.
Havia também um catálogo de um concorrente e o jornal de sua cidade. Leu primeiro
a carta do irmão, sabendo que seria a mais nova informativa.
Alex estava satisfeito com as casas e os quatro novos contratos que Carla obtivera na
região. Sugeriu que montasse um escritório se os negócios continuassem bons. Carla
era contra. Viver tão perto de Richard McCall não era boa idéia.
Alex incluíra os cheques de pagamento dos homens e o dela, com bônus para todos.
Carla separou o seu. Dinheiro não era problema. A conta no banco estava recheada, e
nem tinha onde gastar naquele lugar.
Seu irmão também a lembrava do casamento de prima Marietta no próximo fim de
semana. Não tivera a intenção de ir, mas seria ótimo se ausentar do Blue Sky por
algum tempo. Um fim de semana inteiro de compras, festa e conversa fiada era
perfeito.
Quando a borrasca parou, dirigiu-se à obra de Roarke. Ambas as equipes
trabalhavam ali naquela tarde. Distribuiu os cheques e deu-lhes uma folga de quatro
dias. O trabalho estava adiantado, e os homens poderiam rever suas famílias.
Carla encontrou Roarke no escritório e falou sobre seus planos.Antes de poder
mudar de opinião, já fizera as malas e estava na estrada.

O casamento foi como Carla esperava: formal e familiar. Como o seu deveria ter
sido. A noiva vestia branco, e Carla podia apostar que fazia jus à cor.
Detestou cada minuto. Principalmente os olhares piedosos dos familiares. Sentiu-se
mortificada quando o pai apertou sua mão e chorou quando o casal foi declarado
marido e mulher. Quis sumir diante dos comentários e sugestões, além da insistência
dos irmãos em apresentá-la a todos os solteiros disponíveis da festa. Mas o pior era ver
o rosto de Richard em cada um deles, assombrando-as a noite toda.
Bebeu vinho demais e foi levada para casa pelos irmãos superprotetores, antes que se
metesse em encrencas.
Os sonhos foram povoados de casamentos e parentes. Num deles se viu grávida,
vestida de noiva diante do padre. Os irmãos haviam amarrado Richard e o
mantinham na mira de um revólver. As equipes de construção estavam atrás dela
como uma torcida organizada. Enfim, soltaram Richard e a deixaram só com o pai e o
padre para se explicar.
Carla acordou com dor de cabeça. Mais uma vez jurou que não se casaria, e muito
menos com Richard McCall.
Que tipo de vida teria? A melhor que pudesse ter.

Carla estava sentada no deque de madeira. Curava a ressaca do dia anterior.


A casa do pai estava silenciosa e vazia, o que era raro. Domingo era dia de reunião
familiar na piscina. Talvez depois da festa estivessem todos cansados demais.
Deitou-se na espreguiçadeira após tomar o terceiro comprimido para dor de cabeça.
Entre sonhos assustadores e a notícia no jornal do enlace de Peter com a rica herdeira
Linda McGlauglin, deprimia-se.
Alex e a esposa, Claire, chegaram, e Carla precisou se recompor.
__ Está se sentindo melhor, Carla? Podia ter me dito que queria vir embora. Eu sei
como essas festas podem ser aborrecidas.
Carla sorriu.
__ Estava me divertindo, Alex. __ Virou-se para a cunhada grávida. __ Como se
sente, querida?
Claire sorriu e contou as novidades do bebê.
__ Que história é essa sobre você e um caubói nas montanhas? __ Claire se recostou,
esperando uma conversa longa.
Carla lançou um olhar ameaçador para Alex, sabendo que ele começara com o
falatório.
__ Que caubói, Alex Masters?
Alex aparentou inocência.
__ Roarke me falou que você e Richard não estão se entendendo, e pensei que havia
algo mais, irmãzinha.
Carla se levantou e apoiou-se no balaústre.
__ Não.
Ele pareceu preocupado.
__ Claire e eu acabamos de ver papai saindo do motel com sua mais recente
namorada. Acho que passaram a noite lá.
Carla virou-se e sorriu.
__ Parecem apaixonados. Teremos uma madrasta nova em breve.
Alex se absteve de comentar o fato. Logo em seguida, Paul Masters e Lucy entraram
na casa e saíram no deque.

No geral, foi um dia agradável. Lucy era uma senhora muito simpática. Ela exibiu
um anel de diamantes e anunciou que ela e Paul se casariam no outono. Carla foi a
primeira a lhe dar boas-vindas à família, o que lhe rendeu muitos pontos com o pai.
Mais tarde, em sua cama, Carla lembrou-se de Richard, como sempre fazia antes de
dormir. Admitiu que sentia falta do rancho, dos espaços abertos, do cheiro de pinho e
dos ruídos do gado. Precisava resolver as coisas de vez. Tentaria mais uma vez falar
com Richard.
CAPÍTULO DEZ

Richard andava de um lado para o outro no quarto, como fazia toda a noite desde a
partida de Carla. O que descobrira sobre si o fizera infeliz.
Ele estava, pela primeira vez em sua vida, apaixonado. Embora não quisesse uma
mulher, tinha Carla. Tornava-se cada vez mais difícil viver sem ela. O sentimento
devorava-lhe a alma. Enlouquecia dia a dia, sem esperança de cura.
Não podia desposá-la ou ficaria fraco igual ao pai, a sua mercê. Porém, a simples
idéia de não tê-la por perto o deixava triste e desesperado.
Não podia sair e encontrar uma esposa enquanto amasse Carla.
Enfiou-se na cama e olhou o teto manchado de mofo. O aposento lhe pareceu
solitário, pequeno e ... vazio?
Se pelo menos os irmãos não estivessem tão inflexíveis com a história do casamento...
Via-se preso numa armadilha, pois concordara a princípio. Pensou que eles
esqueceriam a coisa toda, mas nÃo. Agora, sentia-se encurralado.
Passava da meia-noite quando chegou a solução: por mais fraca que fosse, restava-
lhe uma esperança. Resolveria tudo pela manhã.

Os irmãos se mostraram irredutíveis. Teimosos como mulas emplacadas.


__ Vejam, vocês não estão entendendo. Não quero mais fazer parte disso. Não vou me
casar nunca. E não acho justo brincar com uma coisa séria assim. Estávamos todos
felizes antes dessa história do casamento. Vamos esquecê-la. Nenhum de nós esteve
perto de um bar de uns tempos pra cá. __ Richard insistiu.
Reese franziu a testa.
__ Concordamos em construir as casas e colocar dentro delas nossas famílias. __
Roarke sabia muito bem o que perturbava Richard, e não ia lhe dar trégua.
__ Então, pode começar a procurar uma esposa pra mim, porque eu não o farei. Já
agüentei o bastante. Não sou bom com as mulheres.
O cômodo ficou silencioso, e Reese encarou Richard..
__ Bem, eu, se tivesse de escolher uma esposa para você, seria Carla. Teríamos de ser
cegos para não percebermos que há algo entre vocês. O que houve?
Roarke observou o irmão com atenção.
Richard ficou imóvel.
__ Não existe nada entre Carla e mim. E se insistirem, terei de deixar o rancho. Não
posso casar com ela. De jeito nenhum!
Richard saiu da cozinha com passos largos e pôde ouvir o comentário de Reese.
__ Ele a ama profundamente. Tanto quanto pai amou a mãe. Está fugindo porque
tem medo.

Naquela noite, Richard foi ao Klancey’s e bebeu muito. Embriagado como estava,
arrumou logo confusão e brigou.
Klancey ligou para Roarke depois das duas da manhã e pediu que fosse buscá-lo e
pagasse os prejuízos.
Roarke não ficou nada satisfeito, e Richard teve de ouvir um sermão até chegar ao
lar. A única coisa de que Richard se lembrava era de ter visto a luz no trailer de Carla
se acender ao chegarem no Blue Sky. Ela voltara. Graças a Deus!
Tentara ir até Carla, mas Roarke o arrastara para a casa. Enfiou a mão de Richard
numa tigela com gelo e lhe passou mais um sermão, enquanto o obrigava a tomar café
amargo bem forte.
Richard não tirava os olhos do trailer. Então, Roarke lhe deu uma trégua, e ele pôde
despejar todos os problemas np irmão mais velho.
__ Estraguei tudo. Eu a magoei muito. Carla jamais vai me perdoar depois das coisas
que eu disse. Não posso viver sem ela! __ E desmaiou.

Naquela semana, Carla inspecionou a conclusão dos trabalhos na obra de Roarke. O


interior estava quase pronto. Os armários da cozinha, acabamentos e as portas seriam
instalados nesse dia. Roarke parecia uma criança na véspera do Natal. Não se cansava
de visitar sua casa nova, e Carla lhe recomendara uma decoradora, sua amiga.
A casa se encaixava com perfeição ao cenário, majestosa sobre o vale e lagoa, como se
sempre tivesse estado ali.
Carla teria orgulho desse projeto para sempre. Dessa vez, ela se superara.
Richard não ficou muito satisfeito com a conclusão da tarefa, nem pensava mais em
construir um lar, pois não pretendia se casar. Se os irmãos insistissem, deixaria o Blue
Sky.
Inquieto por natureza, ficava transtornado cada vez que via Carla, numa mistura de
culpa e desejo. O pulso fraturado na briga de bar não era consolo. A simples idéia de
ficar engessado nas próximas seis semanas o enfurecia. Como se já não tivesse
problemas suficientes... A única alegria é que preparavam os touros e bezerros para as
vendas em setembro.
O outono estava chegando. Richard contemplou as colinas, onde as cores da nova
estação já eram evidentes. Logo, o inverno viria, e Roarke e Reese teriam companhia
em suas novas residências. Roarke andava saindo bastante, sempre perfumado e
impecável, e até Reese sumia com freqüência.
“Passarei o inverno sozinho na espelunca?”
Naquele instante, pôde ver Carla vindo do abrigo. Os longos cabelos pretos estavam
úmidos, e escorriam pelo agasalho de ginástica. Quase podia sentir seu perfume floral.
Caminhava ereta, como sempre, e ele se lembrou da manhã no acampamento, quando
tivera problemas nas costas. Queria poder protegê-la.
Era estupidez, Carla estava ali, Richard a queria, e no passado recente ela também o
quisera.
Dirigiu-se ao trailer pensando em abraçá-la mais uma vez. Notou que havia um
pedaço de madeira cobrindo a janela da porta, e bateu.
A porta abriu, e a maçaneta acertou-lhe o nariz. Caiu para trás e se estatelou na
cadeira de jardim, que logo virou, e Richard foi para o chão.
Carla resmungou diante da cena. Acontecera tão rápido... Não sabia que Richard
estava ali.
Apanhou uma toalha e foi socorrê-lo.
__ Não ouse me culpar por isso, Richard McCall. Não era eu que estava com o nariz
grudado na porta.
Ela limpou o sangue de seu rosto, então segurou a toalha sob seu nariz.
__ Oh, Deus! __ Richard gemeu e relaxou o corpo. O que podia fazer?
Roarke e Reese apareceram a cavalo de trás do celeiro, e Carla os chamou. Vendo
Richard caído, desmontaram e correram até ele.
O sangramento parara, mas o nariz estava inchado e ficando roxo. Agradeceram a
Carla e o arrastaram para dentro da casa.
Mas Carla pôde ouvir:
__ Ela fez outra vez...

Na noite seguinte, Carla foi devolver algumas panelas na casa, e se encontraram. O


rosto de Richard estava feio e inchado. Carla se virou, para não demonstrar como
sofria por ele.
__ Não quer ficar um pouco e conversar? __ Richard perguntou, sentado à mesa.
Carla hesitou. Já havia decidido que precisava dar um jeito no relacionamento deles.
Os olhos de Richard se iluminaram.
__ Senti sua falta, Carla.
__ De verdade? __ Carla o encarou, e ele assentiu com um gesto de cabeça.
Houve um período de silêncio.
__ Gostaria de dar um passeio? __ Richard se levantou. Carla suspirou, aliviada.
__ Seria ótimo.
Caminharam pela alameda até a estrada, a quietude do entardecer cercando-os.
Carla queria falar de tudo o que acontecera com eles, mas a espontaneidade acabara.
Ainda assim, queria tentar mais uma vez.
__ Sinto muito pelo que aconteceu ontem, Richard.
Richard tocou o nariz inchado. Pensara muito a respeito desse machucado e dos
outros que tivera durante o verão. Sabia que não eram culpa dela. Mas por que
sempre acontecia quando estava por perto?
__ Tudo bem. Vai sarar logo.
__ Não acredita que fui a causadora? __ Carla colocou as mãos nos lábios. A
hesitação dele em responder a deixou zangada.
__ Bem, eu...
Ela o interrompeu com palavras duras e seguiu pela vala estreita. Richard a reteve,
mas Carla não queria ouvir.
__ Pare! Carla, pare. Deixe-me...
Mas ela correu como um trem descarrilado. Então Richard fez a única coisa que
sabia poder detê-la: alcançou-a e beijou seus lábios com paixão. Isso impediu o ataque
verbal, bem como o físico. Assim que se afastou, ela o empurrou.
Richard sentiu-se grato por não cair dessa vez.
Carla se apressou e seguiu para casa. Desistira de tentar uma aproximação.
Richard suspirou, aliviado. Mas sua sorte ia mudar.
Seguindo Carla, tropeçou em algo preto de listra branca. Logo, Richard estava
retrocedendo diante do odor fortíssimo.
__ Meu Deus... __ Richard tossiu, enquanto o cheiro impregnava suas roupas.
Arrancou a camisa e atirou-a na direção do gambá.
__ Céus! Ela fez outra vez! __ Richard saiu da vala. __ Agora, chega! Estou cheio.
Dela e de todas as mulheres!
Mais adiante, encontrou a mamãe gambá e seus quatro filhotes. Eles fizeram
barulhos estridentes e ameaçadores, e Richard decidiu ficar sentado esperando. A
última coisa que precisava era outro confronto. E se fossem todas fêmeas?
Richard fez de tudo para se livrar do cheiro do gambá antes de recorrer aos irmãos.
Em vez de lhe oferecerem simpatia, riram e zombaram dele. Ainda mais quando
souberam que Carla estivera por perto. Por fim, prepararam-lhe um banho com
ervas, Richard sentou na mistura, pensando, mais uma vez enfurecido, na feiticeira.

Demorou dois dias para o cheiro passar. Roarke e Reese contaram a Carla a última
desventura de Richard, e todos riram, embora ela se sentisse constrangida. Agora,
mais que nunca, teria de ficar longe dele.
Richard a surpreendeu uma noite quando Carla levava uma cenoura a sua égua
predileta. Richard estava lavando sua sela, e ela não teve escolha, precisou encará-lo.
__ Olá, feiticeira __ cumprimentou-a num tom amigável. __ Quer conversar?
__ Não, obrigada. Estou muito cansada. Vou me deitar.
__ Espere! Vai embora do Blue Sky? __ Richard segurava a porta aberta.
Carla o olhou bem de frente e ergueu as sobrancelhas.
__ Sim. Não tenho mais motivos para ficar. As casas já estão prontas, exceto por
alguns detalhes na de Reese. O outono está chegando, não terei o que fazer aqui.
Tenho novos projetos para começar e preciso tirar uns dias de férias antes.
__ Mas e a minha? Pensei que fosse...
__ Você não quis, lembra?
Richard o encarou, solene, o olhar mendigando afeto.
__ Às vezes não se consegue tudo o que se quer, Carla. Às vezes é difícil demais e ...
Carla lutou contra as lágrimas e fechou os olhos para não ver a angústia dele.
__ Algumas coisas se aprendem e não se esquecem, Richard. Nada acontece sem um
motivo. É melhor dizermos adeus.
Carla foi até a porta e fugiu de Richard e de tudo o que ele representava. Talvez a
separação definitiva fosse o único remédio.
O sol estava quente, e os sons do mar acalmavam os nervos de Carla. Ela merecia
esse descanso. Não se arrependia de ter gasto tanto dinheiro para viajar de primeira
classe. Estava no melhor hotel da ilha de Molokai, com direito a todos os luxos.
Quilômetros e quilômetros de praias de areias brancas. Nada além de dormir, comer e
relaxar.
Apesar de determinada a esquecer Richard McCall,a lembrança a perseguia. Não
havia como escapar.
Aquilo era o amor. Carla suspirou e apreciou o crepúsculo. Como podia superar
aquele sentimento?
Saber que ele estava no Blue Sky e que ainda a desejava doía muito. Por que então
teimava em afastá-la?
O que aconteceria? Estava apaixonada por um homem que a amava, mas não a
queria. Precisava esquecê-lo e parar de se torturar.
Tinha de continuar sua vida. Sem ele.
__ Olá. Notei que estava sozinha. Posso me sentar? __ uma voz com sotaque
britânico perguntou.
Carla olhou para cima, viu um cavalheiro alto e sorriu.
__ Esteja à vontade.
Era um homem bonito, de cabelos castanhos bem cortados. Vestia um short azul-
marinho e uma camiseta pólo branca. Seu sorriso era deslumbrante.
__ Meu nome é Crane Maxxum. Sou de Londres. Estou hospedado no hotel. E você?
Carla esperou sentir alguma ponta de emoção. Mas nada.
__ Carla Masters. De Vancouver, Canadá. Também estou no hotel.
__ Bem, Carla, gostaria de jantar comigo esta noite? Ouvi dizer que há um show
noturno muito bom.
Carla assentiu, melancólica. Não tinha vontade nenhuma de aceitar, mas precisava se
distrair. Um jantar não seria nada de mais.
__ Sim, adoraria. __ Carla aceitou-lhe a mão e se levantou. __ Encontro-o no salão
de refeições às oito.
__ Excelente! Será maravilhoso ter a companhia de uma linda mulher. __ Crane fez
uma reverência ligeira e se afastou.

Carla olhava para o espelho. Seu vestido era clássico, porém sexy. Por um instante
pensou no que Richard acharia. Precisava esquecê-lo. No restaurante, havia um
cavalheiro esperando-a, e pretendia se divertir.
Crane se levantou quando o garçom conduziu Carla à mesa de canto com luz de
velas. Ele tomou-lhe a mão e sorriu.
__ Está magnífica. Como Branca de Neve. Essa cor lhe cai muito bem. __ Virou-se e
apanhou um buquê de orquídeas, e entregou-o a Carla. __ Rosa, para combinar com a
formosura de sua cútis. Sente-se, por favor.
Crane puxou a cadeira e deu início a uma noite de adulação. Aquele homem sabia
como tratar uma mulher.

Os dias se passaram. Carla estava sempre ao lado do gracioso Crane. Eles velejaram,
fizeram compras e viram diversas atrações juntos. Nadaram e conversaram. Mas, à
noite, Carla ficava acordada pensando em Richard.

Carla bebeu o último gole do suco de frutas que Crane havia pedido.
__ Diverti-me muito, Crane. Foi ótimo ter me convidado.
__ Não podia deixá-la passar sua última noite aqui no quarto. Quer dar um passeio?
__ Claro. __ Carla levantou-se e cobriu-se com o xale. O vestido novo era bastante
decotado, mas a cor malva a encantara.
Crane a levou até uma praia deserta, onde Carla teve um momento de temor.
Procurou se controlar. Afinal, ele se mostrara sempre um cavaleiro.
Caminharam de mãos dadas em silêncio até a beira do mar. Carla tirou as sandálias
e enterrou os pés na areia quente.
__ É uma jovem fora do comum, Carla Masters. Jamais conheci uma mulher que
falasse tão pouco de si mesma. Gostaria de saber mais de você. Tem uma vida secreta?
Carla permaneceu em silêncio, olhando o horizonte. Lágrimas se formaram em seus
olhos. Piscou. Gostaria muito de aproveitar a companhia de Crane. Ele era bondoso e
meigo, mas não era Richard.
Crane a tomou nos braços e baixou a cabeça. Nada aconteceu. Ele a beijou. Seus
lábios tocaram os dela com doçura. Mas Carla não sentiu absolutamente nada.
Crane se afastou e a contemplou.
__ Um amor perdido... __ Crane concluiu, melancólico, enxugando uma lágrima
furtiva do rosto de Carla.__ Por que você? De todas as mulheres que conheci, a
escolhida foi você!
Houve um longo silêncio, e Carla lutou para recuperar o controle, abalada pelas
palavras doces dele.
__ Se ainda o ama, Carla, deve voltar e lutar por seu amor. Caso contrário, sua vida
será cheia de mágoa e tristeza.
Crane segurou-lhe o rosto entre as mãos e a beijou de leve nos lábios.
__ Meu anjo perdido... Deve ser um homem muito especial o que você ama. E, sem
dúvida, um felizardo.

Estava escuro lá fora. Richard apreciou a imensidão, então voltou-se às brasas


mortas do fogo. A dor fora sua única companheira desde a partida de Carla. Faltava-
lhe um pedaço, que ela levara consigo. Talvez nunca o recuperasse.
Ficou deitado no chão admirando as estrelas. Havia milhões delas, mas a solidão era
a mesma. Por isso fora até aquele lugar. Para ficar só. Não que precisasse viajar para
isso, pois estava sempre sozinho.
Carla o deixara assim. Mas como?
Estava apaixonado. Era a única explicação lógica, e não queria acreditar.
Como acontecera? Só fizeram amor uma única noite... mas, nesse caso, fora mais que
o bastante. Uma parte de sua alma, algo vital, fora embora com Carla. Agora estava
num imenso vazio com sua partida.
Richard virou-se de lado, com uma dor contundente no coração.
E ele era o único responsável.
Lembrou-se daquela noite no trailer, a pele rosada depois do amor, os olhos tomados
de desejo, e ao mãos pequenas alisando seu corpo. A reação foi a de sempre. Toda vez
que pensava em Carla, ficava excitado.
Precisava fazer algo a respeito. Mas como consertar o dano que causara àquele
relacionamento?
Planejara arranjar uma esposa que esquentasse sua cama, lhe desse filhos e cuidasse
da casa. Como odiava essa idéia! Soava tão mal... parecia que procurava uma
reprodutora e doméstica, não uma esposa. Por que não lhe ocorrera antes que sua
visão de casamento era distorcida e egoísta?
O que fazia um homem quando se apaixonava por uma mulher que não podia ter? O
que faria de seu amor por Carla? Qual era o significado de tudo aquilo?
Richard fechou os olhos e sentiu o ardor das lágrimas. Lágrimas! Não chorava havia
anos, e não ia se entregar. Virou para o outro lado e adormeceu.
Depois de algum tempo, relaxou. E Carla veio em seu socorro. Suspirou e se agarrou
à fantasia.

Carla apanhou uma das muitas caixas de seu escritório. Precisava empacotar tudo.
Quão cansativo era ter de se mudar outra vez...
Seu irmão e seu pai haviam decidido abrir um escritório na costa oeste e colocá-la
como encarregada. Compraram até um prédio de dois pavimentos para que pudesse
morar no apartamento de cima. Como se não bastasse, Paul pusera a casa à venda. Ia
se mudar para a residência de Lucy, agora sua esposa.
Carla rangeu os dentes. Não precisava de mais esse problema agora. Voltara exausta
da viagem e queria descansar.

Roarke McCall elogiara seu trabalho em toda a região, e Carla recebera muitas
consultas para projetos. A imprensa local fotografara as obras e fizera uma
reportagem. Alex havia ampliado uma cópia e deixado sobre sua mesa: os três irmãos
diante da casa de Roarke.
Sua vida estava sendo destruída por causa do machismo dos homens. Os irmãos e o
pai tomavam decisões, sem consultá-la, que afetariam sua vida.
E, acima de tudo, havia o amor que sentia por Richard. A saudade... Odiava-o por ter
feito amor com ela daquele jeito. As lágrimas foram inevitáveis.
Alex entrou no cômodo e fechou a porta. Despejou uma pilha de papéis sobre sua
mesa e a abraçou.
__ Ah, irmãzinha, pode chorar... Foi difícil, não? Por que precisa lutar contra tudo
em sua vida? Até mesmo no amor? __ Alisou-lhe as costas. __ Se a faz se sentir melhor,
saiba que ele está tão infeliz quanto você.
Carla o empurrou e aceitou o lenço que Alex ofereceu.
__ Quem?
Alex sorriu.
__ Richard McCall. Para quem mais seria todo esse pranto?
Carla virou-se de costas e xingou baixinho, mas Alex a ouviu.
__ Carla, por que não fala com Richard? É óbvio que o ama.
__ Eu não o amo. Eu o detesto. E também tudo o que me fez.
Alex se aproximou.
__ Ele não...
__ Não é da sua conta. Posso cuidar de mim mesma.
__ É que você nos ameaçou com uma gravidez. Carla, você não... __ Alex segurou-a
pelos ombros, os olhos cheios de desespero.
__ Alex, deixe-me em paz! __ Afastou-se dele. __ Saia daqui! Preciso arrumar minhas
malas. Vou partir amanhã.
Carla o pôs para fora do escritório, sem querer admitir o que tinha quase certeza.
Talvez fosse melhor assim, ainda que tivesse de viver na cidade de Richard.
Conseguiria sobreviver.
CAPÍTULO ONZE

__ Por que não vai procurar Carla e resolve tudo? __ Reese indagou.
Richard endereçou-lhe um olhar sombrio.
__ O que Carla tem a ver com isto? __ Ergueu o pulso engessado.
__ Sabe muito bem que não me refiro a seu machucado __ Reese prosseguiu,
aborrecido. __ Estou farto de vê-lo reclamando e xingando. Seus passos todas as noites
estão me enlouquecendo. Por que não pode aceitar que a ama antes de nos deixar
malucos? Do que tem tanto medo?
Richard sentou-se diante da mesa e olhou pela janela. A chuva era constante. O
outono chegara.
__ Jamais quis amá-la. Ainda não quero. Seja paciente comigo Reese, vai passar.
__ O que está dizendo? __ Roarke indagou.
Richard fugiu ao olhar dos dois. Fitou a fotografia pendurada atrás da porta. O pai e
a mãe abraçados, suas testas unidas. Riam de algum segredo particular. Estavam tão
apaixonados...
__ Nunca quis amar uma mulher como papai amou mamãe.
__ O quê? __ Roarke levantou a cabeça.
__ Não quero ser prisioneiro do amor como papai o foi da mamãe. Ela o tornou
fraco.
__ Ora, não é a coisa mais idiota que já ouviu, Reese?! __ Roarke levantou-se de
repente e bateu a mão com força no tampo, olhando para Reese e depois para
Richard. __ Esse tolo pensa que o amor de uma mulher enfraquece. Pois ouça bem. Se
eu pudesse ter a sorte de encontrar uma migalha do amor que papai e mamãe
tiveram, seria meu tesouro. Eu o cultivaria bem dentro de meu coração, e jamais
abriria mão dele. Sentimento assim é coisa rara, ao qual devemos nos pegar e nos
agarrar, isso sim. Por que acha que estamos neste mundo, senão pelo amor?!
Roarke se acalmou, ainda muito sério.
Richard ficou estático em sua cadeira.
__ Toda minha vida tenho visto meus amigos se apaixonarem e ficarem juntos
através de tempos difíceis, Richard. A única coisa que os manteve em harmonia foi o
amor. Pode pensar que a devoção de papai por mamãe era uma fraqueza. __ Maneou
a cabeça. __ Não, era carinho. Felicidade. Jamais conheci um homem mais feliz que
papai. Era o primeiro a admitir que, se não fosse por mamãe, não seria metade da
pessoa que era. Se ama Carla Masters desse jeito, irmãozinho, já deve saber que
jamais estará completo sem ela.
Roarke encarou a face pálida de Richard.
__ E jamais será feliz se não a tiver para sempre. Se a ama, Richard, pare de ser
teimoso e vá atrás dela.
Richard pensou do vazio dentro de si e de como ele aumentava dia após dia. Mal
dormia, e o apetite desaparecera. Carla levara uma parte dele, e sem ela nunca seria
completo.
Mas não tinha mais esperança. Dissera-lhe coisas terríveis. Como Carla poderia
perdoá-lo? Ele a amava mais que a vida. O que fazer?
Richard suspirou. Não conseguia encarar o irmão, pois a culpa e a dor eram grandes
demais.
__ Não posso, Roarke. Carla deve me odiar. Eu disse coisas terríveis e a magoei.
Estava com medo. Como posso esperar que me perdoe se eu mesmo não consigo me
perdoar? __ Foi até a janela e contemplou as nuvens negras no céu. Elas ecoavam o
que sentia: um arrependimento sombrio.
Reese falou, do outro lado do cômodo:
__ Carla vai perdoá-lo. Ela o ama, e já faz tempo. Contou-me depois que você foi
para o hospital no verão. Achei que já soubesse.
Roarke acrescentou:
__ Alex me falou que Carla está tão infeliz quanto você. Vá atrás dela, Richard, antes
que seja tarde. Eu o invejo.
Richard fez um esgar de incredulidade, mas uma ponta de esperança enchia-lhe o
coração. Explicaria tudo a Carla. Precisava dela em sua vida.
Ele a amava.
Pela primeira vez depois de semanas pôde sorrir. Olhou para os irmãos, aliviado, e
sorriu.
__ Acho melhor fazer as malas. Preciso trazer minha esposa para casa. Acho que
serei o primeiro a cumprir nosso trato.
__ Boa sorte. __ Roarke lhe deu um tapinha no ombro.
Richard enxugou uma lágrima.
Richard McCall era um homem grande, com determinação no caminhar. Alex
Masters soube quem ele era no minuto em que adentrou seu escritório.
Alex ofereceu a mão, e então desistiu do cumprimento quando viu o gesso.
__ Sou Alex Masters. Você deve ser Richard McCall.
__ Richard McCall. Prefiro Richard.
__ Certo. Sente-se.
__ Não, obrigado. Procuro por Carla. Ela está?
__ Sinto muito. Carla se foi. __ Alex observava o caubói com interesse.
__ Para onde?! __ Richard bradou como um leão feroz.
__ Acalme-se. Mudou-se para nosso mais novo escritório. Na verdade, estou
surpreso, pois fica bem perto de suas terras. Carla vai morar num apartamento em
cima do escritório. Já deve estar lá. __ Olhou o relógio. __ A transportadora saiu
daqui de madrugada. Posso lhe dar o endereço.
Richard suspirou e enxugou o suor da testa.
__ Sim, por favor. Perdoe minha explosão. Ando meio nervoso ultimamente.
__ Tudo bem. Eu sei como é o amor. Torna-nos irracionais e tolos, mas vale a pena.
__ Alex riu e rabiscou um papel.
Richard sorriu.
__ É tão evidente?
__ Sim. Também passei por isso. Mas logo terá mais traquejo. Vá logo, minha irmã
precisa de você.
Richard apanhou a folha, agradeceu e dirigiu-se a saída.
__ Se a magoar outra vez, terá de se ver comigo McCall.
Richard riu.
__ Não se preocupe. Carla tem muito mais poder sobre mim do que o contrário. Eu a
amo, Alex. Jamais farei com que sofra de novo. Carla me fortaleceu. Tornou-me um
homem melhor.
Depois que Richard saiu, Alex pegou o telefone e ligou para Roarke.
__ Missão cumprida, amigo.

Carla não conseguia dormir naquela noite. Estava exausta com a mudança e
decepcionada. Por algum motivo pensara que Richard viria vê-la.
Por que tinha de amá-lo? Cansara de tentar esquecê-lo. E, além disso, havia o
pequeno segredo que levava em seu ventre.
Demorara a aceitar. Um simples teste de farmácia confirmara as suspeitas depois de
dois meses sem menstruação. O fruto daquele amor crescia dia após dia dentro dela.
Sessenta dias passaram-se desde a noite de paixão partilhada com Richard. Não
poderia mais ignorar o que anelara por tantos anos.
Recostou-se no travesseiro e colocou a mão sobre a barriga. Um bebê... Prova viva de
que partilhara com o homem da sua vida.
E não se arrependia de nada. Sempre quisera amar alguém grande e forte, com bons
valores e uma vida estável. Sonhara em partilhar sua existência com esse homem, dar-
lhe um filho ou dois. Encontrara essas qualidades em Richard, e agora tinha o bebê.
Mas não estavam juntos.
Como o amor era estranho, ela pensou. E resolveu deixar suas considerações para o
dia seguinte.
Acordou com alguém esmurrando a porta. Embora o apartamento fosse no segundo
piso, a entrada era no térreo, no final da escada. Ouviu de novo o barulho. Teve medo.
Saiu da cama e correu até a cozinha.
Era nova na cidade. Não conhecia ninguém, e um indivíduo batia a sua porta à meia-
noite. O único telefone ficava no andar de baixo. Não podia nem chamar a polícia. Por
um momento, pensou que podia ser Richard, mas era tolice.
As batidas cessaram, então, se tornaram mais persistentes. Ouviu um estrondo, e a
porta foi derrubada.
Voltou para o quarto e escondeu-se, tremendo. O que fazer? Precisava se proteger.
Mas como? Apanhou um bastão de beisebol que um amigo lhe dera de presente e
voltou ao esconderijo. Ouviu os passos avançarem pela escada, cada vez mais
próximos. O invasor se aproximou. Carla se encolheu e ergueu o bastão.
O sujeito entrou no quarto, olhou o colchão sobre o assoalho e resmungou.
Carla balançou o taco no ar e acertou-lhe a cabeça. Ele caiu como uma tonelada de
tijolos.
Ela estava em pânico ao passar por cima do corpo. Acendeu a luz.
__ Oh, meu Deus! __ Reconheceu-o de imediato... Richard McCall. Ajoelhou-se a seu
lado e colocou sua cabeça no colo. __ Richard, querido. Perdoe-me! Vou buscar ajuda.
Estava sonhando, Richard tinha certeza. Só um sonho podia ter aquele perfume e
calor. E a voz de Carla a confortá-lo.
Mexeu a cabeça e sentiu a dor cortante. Gemeu. Carla devia estar por perto.
Precisava falar com ela.
__ Carla?
__ Sim, Richard. Eu sinto muito. Pensei que fosse um ladrão. __ Carla chorou ao
tocar-lhe o peito e o braço.
Outra voz se juntou à dela:
__ Para trás, Carla. Deixe o doutor terminar a sutura.
__ Reese, o que está fazendo... __ Richard tentou se mexer, mas Roarke o impediu. __
Ai!
__ Fique quieto, Richard. Deixe o doutor acabar esse último ponto.
__ Doutor? Carla, o que fez comigo dessa vez?
O cômodo se encheu de gargalhadas. Richard ficou agitado ao tentar se lembrar dos
fatos. Ele quebrara a fechadura porque Carla não viera atender às batidas. Achou que
alguma coisa terrível tivesse acontecido com ela. Mas, ao chegar ao piso superior,
encontrara uma única porta fechada. Abria-a, e Carla não estava na cama. Depois
disso, não se lembrava de mais nada.
Roarke o ajudou a se erguer. Sentia-se tonto e confuso. Abriu e fechou os olhos
diversas vezes. Roarke e o médico estavam ao lado. Carla abrigara-se nos braços de
Reese, ao pé da cama. Estava pálida e vestia um robe azul. Richard ficou furioso, e
partiu pra cima de Reese.
__ Ora, seu traidor...
Roarke e o médico o puxaram para a cama.
__ Cuidado com o pulso, rapaz! Acho que vai precisar de um calmante, ou ninguém
poderá dormir. Reese, venha me ajudar. __ O doutor estava exasperado.
__ Não, seu traidor... Carla é minha! Sabe que é minha! __ Richard gritou, lutou e
chutou
até que a agulhe perfurou seu braço. Então relaxou, incapaz de lutar contra o potente
sedativo.
__ Sim, eu sei que ela é sua. E metade da cidade acaba de saber. Relaxe __ Reese
consolou o irmão caçula.
Richard virou-se para Reese.
__ Por que está abraçando minha mulher?
__ Carla está triste porque o derrubou. Eu só estava lhe dando meu apoio. Carla,
venha aqui e esclareça as coisas, sim?
Com Carla na cabeceira da cama os outros se foram.
__ Oh, Richard, eu sinto muito! Não queria machucá-lo. Perdoe-me, meu amor. Eu te
amo. __ As lágrimas de Carla umedeceram a face de Richard, ele a enlaçou com
ternura.
__ Eu também te amo, querida.
Richard adormeceu.
Carla olhou ao redor do quarto vazio, surpresa por estar sozinha com ele. Richard
era seu amor, seu homem, o único. Deitou-se ao lado dele e o abraçou. E dormiu
profundamente.

“Que sonho!”, Richard pensou. Devia estar se recuperando de uma ressaca. Ali, a seu
lado, estava Carla, toda meiga e doce. Ela suspirou e se ajeitou mais próxima a ele,
murmurando seu nome.
Richard abriu os olhos e viu que não era sonho, embora a cabeça doesse. Carla
estava mesmo a seu lado. O que mais podia esperar? Ela era assim. Onde estava, as
coisas aconteciam. Mas ele a amava, e era só o que importava.
__ Carla? Querida? __ Richard beijou-lhe a testa e a puxou.
__ Hum... __ Ela recuou um pouco, e então voltou ao seus braços. __ Richard?
__ Eu vim pedir que seja minha esposa e me ame para sempre. Quero que você me
fortaleça com seu amor. Eu te amo... só você. Aceita?
Carla não precisava nem refletir.
__ Sim, sim! Eu te amo, Richard McCall. Eu te amo!
__ E eu te amo, apesar dos pontos na minha cabeça. __ Ele a tomou em seus braços e
a beijou com todo o amor que reprimira. Sentia-se em casa. __ Minha querida, quase
a perdi. Eu não queria amá-la Tinha medo desse amor me tornar fraco. Não entendia
que ele dá força e coragem. Vi meu pai morrer tentando salvar minha mãe. Estava tão
desesperado em não perdê-la que perdeu a própria vida. Disse que preferia morrer a
viver sem ela. Agora eu entendo, mas naquela época era muito criança. Achei que foi
tolo em arriscar-se. Contudo, se tivesse de fazer a mesma coisa por você, agiria como
papai. Tenho sido um idiota
__ Idiota, não. Assustado, talvez confuso. Também tive medo da grandeza do nosso
sentimento.
Richard passou o braço em volta de Carla e sentiu-se feliz como nunca.
__ Não posso me lembrar de ninguém que tenha me atropelado e surrado como você.
Daqui a cinqüenta anos vou poder contar a meus netos que a avó deles me derrubou
logo no primeiro encontro, e que teve de me bater com um taco de beisebol para eu me
casar com ela.
Carla sorriu.
__ Acho que devo lhe revelar uma coisa. Poderá contar todas essas coisas a nosso
filho em menos de um ano.
Richard hesitou e apanhou alguma coisa no bolso da calç jeans.
__ Filho? Nosso? __ ele perguntou com candura.
Carla colocou a mão dele sobre sua barriga.
Richard tomou fôlego.
__ Santo Deus! Vou ser pai. E você... você vai ser mãe __ ele disse. __ Está tudo bem?
Carla assentiu, e Richard a abraçou e beijou.
__ É mais um motivo para eu lhe dar isto. __ Entregou-lhe duas caixas pequeninas.
__ Obrigada, querida. Jamais poderei lhe agradecer o bastante por toda alegria que
trouxe a minha vida.
Carla quase chorou ao abrir a primeira caixinha. Era um anel, um diamante cercado
por safiras azuis. Richard o removeu da caixa e colocou no dedo de Carla.
__ Eu te amo. Case-se comigo, Carla. __ E a beijou nos lábios.
Carla não pôde evitar as lágrimas.
__ Sim, meu amor.
Richard enxugou-lhe o pranto e a beijou de novo. Em seguida, abriu a segunda caixa
e esperou sua reação.
Dessa vez Carla deixou escapar uma gargalhada. A caixinha continha uma fina
corrente de ouro com um sino como pingente. Richard colocou a jóia o pescoço dela e
também riu.
__ Eu avisei que precisava de um desses muito tempo atrás. Mas estou lhe dando por
um motivo diferente. Quero que use para eu saber que você está por perto. Eu te amo,
Carla, minha feiticeira.

_____________________FIM________________________
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