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A rcflcxz‘io tcéricz c critica, con-
ccitual e mctodolégica, sobre a cons—
ciéncia dc classc, quc scmprc ocupou
11m lugar dc dcstaquc nos classicos da
sociologia moderna e contemporz’inca,
notadamcntc (la corrcnte marxista c
ncomarxista, parccia que seria inexo—
ravclmcntc varrida do campo das in-
vcstigacfics académicas, dcvido a onda
avassaladora do pensamcnto noolihcral
e do avango do proccsso dc glol'Jalizacfio
a partir da década de 1980.
Parcccu, por alguns momcntos, quc
a hegemonia conscrvadora passaria a
ocupar dcfinitivamcntc -— c, portanto,
dc modo monopolistico -— o pcnsamento
social, cconGmico, politico c cultural,
tornando-o globalizado, scm dcixar
ncnhum cspaco altcrnativo para outras
corrcntcs dc rcllcxfio tcérica como mo-
dclos dc interpretacfio critica dos acon-
tccimcntos do mundo contemporz’inco,
tanto da pcrspcctiva regional quanto
da global.
No livro As metamorfoscs da cons-
cié‘ncia do classc, Mauro Iasi rctoma,
com profundidadc c rcfinamcnto tcéri—
co, 0 tcma da consciéncia, ([uc jz’: foi ob—
jcto dc analisc c intcrprctacfio cm sua
dissertaci'io dc mcstrado. Nestc livro,
o autor procura dcslindar a complcxa
questi‘io sobrc o Iugar ocupado pela
consciéncia dc class *: sc cla tcm mora-
dia 11a particularidadc do individuo 011
11a genoralidade da classc. Para Iasi,
o problcma (la consciéncia encontra-
~sc no intrincado fluxo dc mct‘liaci‘ics
articuladoras das dctcrminacocs par—
ticulares c genéricas quc compficm o
movimcnto alimentado pclas rclaciics
dc produci‘io cntrc 0 capital c o traha-
lho, constituindo o scr social. E dentro
dcssc quadro complcxo dc rclacfics so-
Ciais quc a consciéncia dcsponta, ora
como consciéncia do individuo, ora
como cxprcssfio sintctizadora do scr
social do grupo, para dcpois sc configu-
rar como classc, assumindo, cm varios
momcntos histéricos, difcrentcs formas
MAURO LUIS IASI

AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE


0 PT entre a negagio e o consentimento

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MAURO LUIS IASI

AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLAS SE


0 PT entre a negagfio e o consentimento

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1.043.801-5
2a ediqio

EDITORA
l
: EXPREssfio POPULAR
Sfio Paulo — 2012 i ’71“1.19500" E S

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Copyright © 2006, by Editora Expressfio Popular

Revisfio: Maria Elaine Andreoti e Miguel Cavalcanti Yoshida


Projeto grzifico, diagramaga’io e capa: ZAP Design.
Ilustragiio da capa: detalhe do quadro Guerra Alemz’i dc Pdvel F{1671012, onde se
observam o (165c de transmitir dejbrma sensz’uel a dinc’z‘n-zica e 0 was da destruigcfo,
asformas que se degflzzem em cacos para depois novamentejzmtar—se em cristais,
criarzdo variantes.
Impressfio e acabamento: Cromosete

Dados Intemacionais de Catalogagfio-na-Publicacfio (CIP)


Iasi, Mauro Luis
I] m As metamorfoses da consciéncia dc classe (0 PT entIc a negaqfio e
o consentimento)! Mauro Luis Iasi -- Zed—Sic Paulo :
Expressfio Popular,
2012.
584p. : i1.

lndexado em GeoDados - http://www.geodados.uem.br


ISBN 85-7743-014~6

1. Grupos dc classe. 2. Individuo e sociedade. 3. Partido dos


Trabalhadores - Brasil.

CDD 21.ed. 324.281


Ellane M. S. Jovanovlch CRB 9/1250
l

Todos os direitos reservados.


Nenhuma part6 deste livro pode ser utilizada
ou reproduzida sem a autorizagfio da editora.

2:l edigfio: agosto de 2012

EDITORA EXPREssAo POPULAR 1,93-


Rua Aboligz'io, 201 - Bela Vista
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Sumz’irio

PREFACIO
A consciéncia de classe entre a negagfio e o conscntimento ....................................... 9

APRESENTAQAO ................................................................................................ 15

PARTE 1 - AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE


. 23
1. Caminhando para todos os lados do finito ........................................................
classe ........... 73
2- 0 processo de mediacfio particular 6 genérico da consciéncia de
........... ......... 121
3- Da sociedade ao ser social como individuo .................................
... 219
4. Do individuo ao grupo como totalizaofio dialética .......................................
................... 219
4.1. A préxis individual 6 0 grupo ................................................
.......... 262
4.2. Freud e o fenémeno grupal ............................................................
4.3. Sartre e o processo dialético do totalizagz‘io por meio dos grupos:
a serialidade, o grupo em fusfio, a fraternidade-terror, o grupo
ade ............. 284
organizado, a instituioé‘io, a burocracia e o retomo £1 serialid
.............. 313
5. Do grupo 2‘1 classe ..............................................................................

PARTE 2 — 0 PT ENTRE A NEGACAO E 0 CONSENTIMENTO


357
6. As metamorfoses do PT (1980—2002 ................................................................
6.1. Primeiros passos: dos documentos preliminares
................ 376
a0 Manifesto de Fundaoiio (1979/1980) .................................
6.2. Do 1° Encontro Nacional até 0 4° Encontro Nacional;
o .............. 386
caracterizando a sociedade brasileira e buscando um caminh
............. 412
6.3. 0 5° Encontro e a definigi‘io da Estratégia Democrética Popular
6.4. 0 6° Encontro(1989) e o Programa de Agiio de Govemo: o longo
prazo chegou mais cedo .......................................................................... 442

4% 13m: 1 :2. Nam .. grim Cw ii iii: .4 i ii. if 31158 LIMOFECAfiCENTRAL


7..

6.5. O 70 Encontro (1990) o inicio da inflexi‘io moderada............................... 452


6.6. O I Congresso do PT (1991) .................................................................... 462
6.7. 0 8° Encontro Nacional e a Revoluoz‘io Democrética 6 Popular:
uma inflexz’io 2‘1 esquerda no curso de uma trajetoria 2‘1 direita 492
6.8. A retomada da moderaoz'io e o caminho para a vitéria
presidencial em 2002: do 10° ao 12° Encontros Nacionais ...................... 505
7. Consideraofies finais: 0 PT entre a negaoz‘io e o consentimento ....................... 517

BIBLIOGRAFIA.................................................................................................. 569

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Alé'm desm estrolzz, porzsoz', nodo oxide
E old and mo doozzsz‘odo
Bid 6’ somonto nosso dorz'go, o
OZ/M so" 0 ospocto dole!
Bertolt Brecht

— Vocé‘jd ozwz'ufizlor om ‘Kdnjo’?


-— Kan sigm'fico oscudo o roprosonm
o soldzzdo.’]o‘ é costelo...
—- Exotomonto! O soZdodo o’ o oostolo...
— Esto é o modo do sor do odosolo lord.
Emoom sou Costelo ostcjd condonddo,
o soldzzdo jomoz's oodixo o esoudo,
mos ooMpdrtil/yd do destino do sou [or (n)
onto 6’ o modo do 567‘ do guerroz'ro.
Koike e Kojima (Lobo Solitério)

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PREFACIO

A CONSCIENCIA DE CLASSE ENTRE A


NEGAQAO E O CONSENTIMENTO

As metammfoses d4 comcz'é‘m‘irz dc 614556 trata de um dos fe—


némenos mais enigmz’iticos e polémicos da histéria recente: a
trajetoria do Partido dos TrabalhadoresQ A controvérsia, ainda em
andamento, atesta a dificuldade em encontrar explicagées para a
oscilagfio que levou um movimento politico, organizado pelos se—
tores mais combativos do operariado, com forte teor anticapitalista
rtes
e projeto assumidamente socialists, a se tornar um dos balua
do capitalismo no Brasil.
Mauro Iasi descarta as explicagées convencionais e generalizantes
desse fenomeno: seja a tese, de extragfio trotskista, que atribui a res—
nte,
ponsabilidade unicamente 51 agfio pessoal e moral da elite dirige
a teoria da “traigfio das diregées” que pressupée que a classe opere’iria
esteja sempre propensa £1 revolugio; seja o ponto de vista oposto — na
verdade apenas o outro lado da mesma moeda —, atualizado, entre
1163, por Jacob Gorender, com a afirmagiio de que o “proletariado

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AS METAMOIIFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

é ontologicarnentc reformista”. Na pcrspcctiva dc Iasi, a trajcté-


ria do PT devc ser comprcendida como fenémeno social cm sua
singularidade, ou seja, por mcio de suas mediacécs concretas no
interior da socicdade capitalista.
A originalidadc do livro, no entanto, niio sc assenta apcnas
na premissa dc quc se trata de um fenomeno que exigc uma
explicacao particular, mas no viés e no teor da interpretacao
que aprcsenta. Iasi propéc—se a comprccnder as oscilacécs do
PT a partir dos movimentos da “consciéncia dc classc”. Com
plcno dominio teérico e uma vivacidadc impressionantc, atua—
liza, assim, a vertente marxista quc aprescnta a dinamica social
como expressao da luta de classes, isto é, como resul
tantc do
conflito entre burgucsia e proletariado.
Os desdobramentos e 03 difcrentcs momentos da consciéncia
dc classe corporificada no partido sao cxaminados a partir das
resolucées do PT, um arco que abrangc dcsdc as
dcclaracées preli—
minarcs ao “Manifesto de Fundacao” até a “Car
ta aos Brasileiros”
e 03 Programas da campanha que elcgcu Lula presidente cm 2002.
A analise desses documentos, ao contrario do juizo
quc tendc a
desconsidcrz’i-los como meras “cartas dc intencécs
”, possibilita o
acompanhamcnto, mesmo quc em um registro proprio, da inflexao
que levou o partido da negacao ao consentimento.
88?: exame torna visivel, por cxcmplo, as mudancas termi—
nologicas quc estao na base da construcao da
autoimagcm do
partid0- Organizado a partir das lutas concrctas, sindicais, como
um movimento politico de afirmacao da independ
éncia 6 auto—
nomia da classe operaria, 0 PT aprescnta-se, inici
almcntc, como
:epresentante da “classe trabalhadora”; dcpois, do conj
unto dos
trabalhadores”; cm seguida, do “povo”; e, por firn, dos “cida
daos”.
A pfssagem da “classc” a “nacao” atesta a prevaléncia da estra
tégia
d0 gradualismo rcformista” e a subordinacao a tatica elcitoral, quc
redefiniram o horizontc social, politico c cconémic
o do projeto
partidario. Na formula sarcastica dc Iasi, passou-sc dc um progr
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MAURO LUIS IASI

assentado na “nacionalizagao dos meios de produgao” a proposta


de uma “nacionalizagao do consumo”.
Da analise desses documentos, Iasi também desentranha indi—
cagées acerca da reorientagao das formas de organizagao da Vida
partidaria, como a substituioao dos procedimentos da democracia
direta pelas regras da democracia representativa, o fechamento dos
espaeos democraticos de dissenso, a burocratizagao e até mesmo a
submissao das instfincias partidarias a estruturas paralelas de poder.
A moldura histérica desse “amoldamento e conformagao da
classe nos limites da ordem do capital” tern duas dimensées: o
éxito da reestruturagao produtiva empreendida pelo capital a par—
tir dos anos 1980 e a ruina das tentativas de transigao socialistas
na década seguinte, cujo marco maior é o desmoronamento da
URSS. Essa dupla derrota, no chao das fabricas e nas experiéncias
politicas ensaiadas por comunistas ou social-democratas, inverteu
completamente a compreensao da conjuntura por parte da classe
operéria. Passou-se, em poucos anos, da “consciéncia da possibi-
lidade de Vitéria” a “consciéncia da impossibilidade da ruptura”.
cabe
Mas é exatamente esse movimento da consciéneia que
a eco-
explicar, escapando dos esquemas deterministas comuns
tanto,
nomia, a sociologia e a historiografia predominantes. Para
livro,
Mauro Iasi retoma e refina, a0 longo da primeira parte do
eitual
os instrumentos teoricos necessarios a compreensao conc
lecentes
da “consciénCia de classe”. Os modelos analiticos preva
tendem a
no atual ambiente académico 5510 de pouca valia, ja que
sciéncia”
deslocar sua atengao das “classes” para os “atores”, da “con
sentido apenas
para a “identidade”, atribuindo intencionalidade e
das tentativas
aos “individuos”, o que leva ao descarte, sem mais,
concei—
de apreensao de “totalidades”. Iasi recorre entao ao aparato
tual desenvolvido ao longo da histéria do marxismo por Antonio
Gramsci, Gyorgy Lukacs e Jean-Paul Sartre.
A definigao pioneira de “consciencia de classe” desenvolvida
por Lukacs no artigo homonimo, de 1920, coligido em Histo’rizz e

11

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

comrz’éncz'a dc classe, complementada pelos conceitos de “hegemo-


nia” e “senso comum” desenvolvidos por Gramsci nos Cademos
do crz’rcere, adquire uma nova configuragao ao incorporar a teoria
dos “grupos” ensaiada por Sartre em Crz’tz'czz d4 mzzio did/flied.
Esse arsenal teorico permite a Iasi recuperar as mediacoes
dialéticas existentes enrre as dimensées da objerividade e
da
subjetividade, presentes na obra de Marx e Engels e desarticula—
das pelo marxismo vulgar. O proletariado passa a ser concebido
simultaneamente como uma classe do capital e como
uma classe
contra 0 capital. 0 consentimento e a negacao 5510, por
cons eguinte,
possibilidades em aberro, sujeitas as mediacées da pratica
social.
A acao humana, concebida como przixis livre, acaba desencadea
n-
(do uma dinamica prépria. Primeiro, o individuo
liberta-se da sua
‘conformacao em czipsulas individuais que velam
o carater social
do ser” e insere-se no grupo. Sua acao, no entanto,
como membro
d0 grupo ou da classe, logo se objetiva, institucionalizando—se
seja
:omo “burocracia” conformada £1 ordem do capi
talismo, seja como
ruptura revolucionziria”. A construcao historica passa a depe
nder
assim tanto dos condicionantes objetivos
quanto da acao cotidiana
dos seres humanos.
. A consciéncia do individuo, mas também da class
e, surge ini—
c1almente como “consciéncia social herdada
, inercial, resultante
de uma certa ordem social de relacées que
se instituiram sob a
fOrrna de valores, juizos, concepcées de mundo,
partilhadas por
aqueles que convivem numa certa época”. A
singularidade propria
a cada consciencia cristaliza-se ainda mais
na peculiaridade de seus
desclobramentos, no modo como ela age e reage dian
te da confor—
ma‘Eéo social do mundo. Afinal, os seres humanos (e 05 partid
os
politicos) nao encaram o mundo apenas como
uma configuracéo
preexistente, mas como um “pr
ojeto”.
AS mammmfoses dd conscié‘ncz'cz d6 clam) nao se contenta
em
apresentar e desenvolver teoricamente a dialética
da praxis humana
na construcao histérica, resgatando suas diver
sas instancias em

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MAURO LUIS IASI

uma tipologia. Por meio da analise de uma série de entrevistas,


cujo contel’ido impressiona por sua capacidadc de revelar as con—
tradicées da consciéncia social, Iasi mostra como a negaciio e o
consentimento coexistem enquanto possibilidades concretas para
a classe trabalhadora no Brasil.
E a partir dessas balizas, da reconstrucao da teoria marxista
sobre a “consciéncia de classe” e do resgate das determinacoes
principais do conceito de “classe” na obra de Marx, levados a
cabo na primeira parte do livro, que Mauro Iasi apresenta seu
diagnéstico e veredicto acerca das metamorfoses do Partido dos
Trabalhadores.
O balanco do projeto historico do PT resume, assim, nao
uma trajetoria predeterminada, que haveria de se desenvolver
naturalmente, mas congrega em si as oscilacées da consciéncia
da classe operaria que se movem entre a negaciio e o consenti—
mento. Iasi reconhece que o “apagamento de sua feicao socia—
lista” 1150 se explica, por exemplo, apenas pela légica inerente
aos partidos social—democratas, por mais que haja similitudes
entre seu percurso e a dinamica da social—democracia europeia,
tal como dissecada por Adam Przeworski. A experiéncia social
do PT desenvolveu—se em outra época, sob as restricées de outro
contexto historico, o que fica patente quando se mira a politica
economica dc agora e de antes.
Mas, uma vez feitas tais ressalvas, transparece uma grande simi—
litude. A integracz’io do proletariado, seu “amoldamento ao capital”
como Iasi gosta de frisar, desenvolveu—se a partir da conversao de
um projeto socialista em uma politica pautada por uma visao de
mundo completamente distinta. E verdade que uma grande par-
cela dos quadros do PT — em especial os politicos profissionais,
os dirigentes do aparato partidario e mesmo os sindicalistas —— se
alcou a uma nova situacao social. Mas isso importa pouco; 0 de—
cisivo é que o novo projeto do partido repercute a hegemonia da
perspectiva que privilegia a nacéio em lugar da classe, o consenso

13

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DIS CLASSE

e a conciliagzio em vez do conflito entre 0 capital e 03 trabalhadores.


Como bem lembra Iasi, tais caracterfsticas Marx, jzi em 1852,
destacara como préprias da przitica politica e da visio de mundo
da pequena burguesia.

Ricardo Mum, socio’logo, profismr dtz FFLCH ~ USP

14
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APRESENTACAO

Ofm‘uro 50’ 56 tormz respim’vel


qzmndo transgredz'mos aZguma ordem.
Mario Benedetti

Este livro, em que se cruzam tantas historias, tem ele préprio


sua histéria. Em primeiro lugar, deve-se ressaltar que é uma
continuidade direta do esforgo de pesquisa e estudo que se inicia
na coleta de histérias de Vida e militz’incia junto ao programa de
educagfio popular do NEP 13 de Maio (16s 1987, passando pela
primeira sistematizagfio no livro Processo d6 consciéncz'f 6 nos estu-
dos de mestrado publicados com o titulo O dilemzz de Hamlet: 0 567
e 0 mic ser dd conscié‘ncz'a," até os estudos da tese dc doutorado no
Programa de Sociologia da USP, resultando no presente trabalho
que a Editora Expressiio Popular agora publica.

,
Processo dc comeiérzcz’a foi publicado pelo CPV, Silo Paulo (1999, 2001), pela Germinal
Paraguai (2004), e rceditado pela Expressfio Popular.
IASI, Mauro. 0 (Ii/mm dc Hamlet, 0 ser 3 0 Mo ser dd camcz'éncz'a. Sfio Paulo, Viramundo:
2004.

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DIE CLASSE

O tema que me impulsionou nesses quase 20 anos dc estudo foi


0 da consciéncia, mais precisamente do movimento da formacao da
consciéncia e da possibilidade de rompimento com as amarras que
prendem nossas mentes a reproducao da ordcm que nos conforma.
Cada militante que encontrei em todos esses anos foi, para mim,
a prova viva de que é possivel mudar o mundo, que a socicdade
capitalista continua produzindo seus coveiros, nos quais brotam
sempre renovados os germes de uma nova consciéncia.
Em nossos movimcntos, no entanto, estamos sempre diante
dc ciclos que vao desde um momento inicial de alienacao até a
constituicao dc formas coletivas de luta, que buscam se organizar
e que acabam por se institucionalizar e se burocratizar, levando—
—nos novamente a alienacao. Scriam esscs ciclos naturais? Seria
esta a mesma causa dos ciclos historicos que marcam a histéria
da rebeldia dos trabalhadores: lutar contra a ordem para depois se
amoldar novamente?
Em nossos estudos, buscamos compreender que essa aparente
circularidade so pode ser entendida se incluirmos o fenémeno da
consciéncia no conjunto das relacées que determinam o scr socia
l
6 as classes.
A grande polémica que envolve esse tema diz respeito a caracte—
ristica da consciéncia dc classe dos trabalhadores como consc
iéncia
de uma acomodacao a ordem social estabclecida, ou, ao
contrario,
como negacao da ordem, apontando para a transformacao socia
l.
Ao mesmo tempo, alguns estudiosos procuram entender a cons—
ciéncia como fenémcno individual, enquanto outros busca
m suas
dcterminacées nas formas coletivas do grupo até a classe. Para nos,
a consciéncia é um movimento, um fluir que encontra diferentes
mediacées que se expressam em diferentes formas em constante
mutacz‘io.
Desde a formacao da consciéncia nos individuos moldados
por uma determinada forma social estabelecida, ja se manifesta o
caréter dc sr’ntcsc de muitas determinacées, tanto objetivas quanto

16

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MAURO LUIS 1A5:

subjetivas, cujo resultado sale 05 diferentes momentos da conscien—


cia como senso comum dos individuos serializados; como revolta
diante das injusticas e contradicées que cada um enfrenta no curso
de sua Vida; como identidade grupal que se forma quando, em
determinadas situacoes, conseguimos ver no outro nossas préprias
dores e esperancas; como consciéncia de classe em si na luta pela
afirmacao de seus direitos e necessidades; até a possibilidade de
expressao como consciencia de classe para si, que afirma urn projeto
histérico com autonomia e independéncia.
As mutacées da consciéncia faz com que muitos considerem
cada um de seus momentos como formas definitivas, de maneira
que, para alguns, a consciéncia dos trabalhadores esta condenada
ao senso comum, ou, para outros, destinada inevitavelmente a
expressar uma consciéncia revolucionaria. Procuramos entender
0 movimento da consciéncia como expressao do movimento da
prépria classe, pois ela mesma 11510 é um ser fixo e dado de uma
86 vez. As classes nao se definem apenas pela posicao objetiva no
seio de certas relacées de producao e de formas de propriedade,
mas, na concepcao de Marx, as classes se formam e se constroem
em permanente movimento dc negacao e afirmacao, ora como
individuos submetidos a concorréncia, ora como orgaos Vivos do
Capital em seu processo de valorizacéio, ora como personificacao
de interesses de classes em luta, ora como aspectos subjetivos da
contradicao histérica entre a necessidade de mudar as relacées
sociais e a determinacao das classes dominantes em manté—las.
Partindo dessa perspectiva, o destino da consciéncia esta
inevitavelmente ligado a0 destino da classe: se esta consegue, em
seu processo de formacao, se constituir na luta de classes corno
uma forca auténoma, pode produzir momentos de consciéncia dc
classe que expressam tal autonomia; se a classe consegue em sua
acao superar a sociedade do capital, pode gerar as bases para uma
nova consciéncia; mas se a classe sofre uma derrota, se politica-
mente nao consegue ir além dos limites do sociometabolismo do

17

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As METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

capital, a consciéncia acompanha o acomodamento, refluindo e


se desconstituindo novamente em alienagz’io.
O livro A: metamofivses dd camcz'é‘ncz'a d6 clrme divide—so em
duas partes: na primeira parte, um estudo teérico sobre as media-
9663 que cncontramos nos diferentes momentos do movimento
da consciéncia, desde sua formagao nos individuos, no processo
grupal, na conformagao da classe 6 na possibilidade de constituigfio
da classe como um sujeito histérico; na segunda parte, um estudo
de caso que busca ilustrar o movimento reorico analisado através
da trajetéria que levou 0 PT da negagao ao amoldamento a ordem
que esperava superar em sua origem.
O leitor que assirn desejar poderzi se dirigir a segunda part6,
na qual encontrarzi uma descrigéio do movimento que levou 0 PT
da origem socialista até a acornodagiio atual. O estudo de caso a
respeito da trajetéria do PT se deu a partir da pesquisa das resolu—
goes 6 dos documentos partidérios (16s 03 momentos anteriores
2‘1 fundagéo, em 1980, até 0 12° Encontro Nacional, em 2002.
No entanto, se 0 leitor, além de conhecer essa trajetoria, de-
sejar compreendé—la, seria aconselhzivel voltar a primeira parte
do
trabalho e se permitir trilhar um caminho mais longo e arduo,
mas que fornece as pegas teéricas para entender o movimento da
consciéncia de classe, no qual 0 PT é somente um episédio. Por
maior que seja a importancia da analise do PT, ele é apenas uma
etapa de uma longa jornada que nao comegou hoje e que, feliz—
mente, seguira adiante.
A ofensiva pos—moderna que se impés no mundo académico,
6 sons reflexos no campo prético da politica, tenta mandar para
o exilio certos temas, entre eles 0 da formagao da consciéncia de
classe, da forga explicativa do conceito de classes, assim como
da centralidade do trabalho. O presente livro é uma resisténcia
contra essa tendéncia, construido a partir de todas as regras do
universo académico, com o rigor e a objetividade necessarias, mas
com a paixiio e o compromisso que estao costurados em mim,

18

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MAURO LUIS IASI

impossibilitando qualquer tipo de neutralidade. Como disse Silvio


Rodriguez em uma de suas cancées: “romantico, pelo menos are
0 fim... imposmodernizavel”.
Muitas 3510 as pessoas que tornararn possivel este estudo e 3510
seus cumplices. Primeiro, os companheiros e companheiras que
emprestaram suas trajetérias de Vida para servir de rnatérias—primas
das reflexées teéricas que desenvolvemos; centenas de depoimentos,
muitos dos quais nao entraram diretarnente no texto final, mas
contribur’ram muito para que fosse possivel construir nossa analise
sobre o movimento da consciéncia. Mais uma vez, os companheiros
do Nucleo de Educacao Popular 13 de Maio forarn fundamentais
para garantir a publicac'ao através de iniciativas individuais e dos
movimentos e entidades que partilharam ern todos esses anos
nossa jornada de educacao popular. Gostaria de agradecer tam—
bém ao camarada Scapi, a minha grande amiga Leo, pela forca e
pela dedicacéio para que fosse possivel a realizacao do livro, assim
como a todos os companheiros da Editora Expressao Popular, que
acreditaram no trabalho e defenderam sua publicacao. Um espe—
cial agradecimento ao Bill, meu camarada de dissidéncia, por seu
empenho e dedicacao para que este livro fosse publicado, por seu
desprendimento que faz corn que a genre continue acreditando no
ser humano e na possibilidade de uma sociedade nova.
N510 poderia deixar de agradecer :1 Paula e a0 seu amor incon—
dicional que me segura no mundo, impedindo que me perca em
qualquer compromisso abstrato, politico ou intelectual, que nao
seja a tormenta da paixiio e a ternura do acolhimenro.
Quero agradecer aos professores que muito me ajudaram na
formacao teérica deste trabalho, em especial a0 meu orientador, o
professor Sedi Hirano (USP); a0 professor Ricardo Antunes (Uni—
camp), cuja contribuicao teérica foi de fundamental importancia
para constituir as bases deste livro e de todos os meus estudos; a
professora Nadya Castro (USP), por seus comentz’irios pertinentes e
seus puxées de orelha que niio me deixarn esquecer o compromisso

19

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

sociolégico de minha escolha profissional; ao professor José Paulo


Neto (UFRJ), por sua leitura acurada e atenta de meu trabalho e
pela base teérica que é um exemplo de resisténcia para todos nos;
ao professor Paulo Tumolo (UFSC), companheiro de primeira
hora que conheceu este trabalho antes mesmo de ele ser feito, em
nossas noites de debate em Florianopolis; e finalmente ao professor
Ricardo Musse (USP), néo apenas pela leitura profunda e pelos
comentérios que me ajudaram na escolha do caminho teérico da
tese desde a qualificagiio ate’ a defesa, mas tambe’m pelo prefzicio
deste livro, no qual sua especialidade no tema indica com clareza
o caminho a ser seguido pelo leitor.
Por fim, aos camaradas do PCB, casa onde iniciei minha
milifl
tfincia nos anos 1970 e 51 qual agora retorno, e a todos os
socialisras
e combatentes que, estejam onde estiverem, resistem na defes
a dos
Interesses da claSse trabalhadora em que, tenho certeza, um
dia
estaremos todos juntos.

Mauro Luis [asz'


Sofa Bernardo, agosto de 2006.

20

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E . \\-v . ... ...
PARTE 1

AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE


fiMw
\‘zk3
1

CAMINHANDO PARA TODOS OS


LADOS DO FINITO

Se quartz: czzmz'nbarpzzm 0 Infinite:


Andi: para todas 05 [(21105 no Finito.
J. W. Goethe

parque rm boat d4 clam operzz’rz'zz


mic existe a palavm clam opercz’rizz
6..)
parque, portarzto, e’ sempre um 0mm,
sempre um outro
quem fizlcz par (11’,
e porqm’ aquele
do qua! sefa/a
56 min.
Hans Magnus Enzensberger1

Em que lugar podemos encontrar a consciéncia? Nos individuos e


na sua forma particular de pensar, ou na sociedade que os conforma?
Por que a nossa consciéncia como individuos e como classe sofre
tantas metamorfoses, de maneira que ora se apresenta como simples
amoldamento a uma determinada sociedade, ora como consciéncia
rebelde que quer mudar o mundo? Por que aqueles que queriam
mudar o mundo “assistem a tudo em cima do muro”, se rendem on
se vendem amoldando—se novamente 2‘1 ordem do capital?
Alguns buscam esta resposta nos individuos, suas personali-I
dades, suas traieées, enquanto outros langam seus olhos para as
formas gerais da sociedade, a correlagao de forgas das classes em
luta, as determinagées histéricas. Afinal, onde mora a consciéncia:
11a particularidade do individuo ou na generalidade da classe?
Razoes admonals para 03 poems mentlrem.” Ez-tfizlo do: qua mzoflzlam. 5510 Paulo: Bra—
1 u ' .. . . . . ,-

siliense; Instituto Goethe, 1985, p. 90—91.

We . mm mm m : ms \ . saws am Main M a;
is}? {émx gs}, {II-fl. s-gzg péfi 59.»: v“ gsws'...vzy, 9:: Mk _\V :- n1“ _?.V."Q -. 4. s. . . v- x -
6‘. .sm- aww :2 s a 1a was“
s. ac 4?- V \5. -;.- \\ '\€‘" ate: .iu-..|;s:.?.:.' l‘kfi';w‘§\{\'9\§:~zs.>l.I-§:-‘(.'2{z.
AS METAMORFOSBS DA CONSCIENCIA DE CLASSE

A humanidade hoje direciona as lentes de seu Hubble em busca


do Universo e 56 encontra novas partes de um todo sem origem e
sem finalidade. Foi ningue’m menos que Kant, emérito precursor
da astronomia, além de filésofo, que em 1755 descobriu que alguns
amontoados de estrelas nao eram simplesmente partes de nossa
galaxia, mas outras galaxias, como se fossem, em seus termos,
“universos—ilhas”. Ningue’m levou muito a sério sua hipotese, mas
acabou-se por encontrar até 1908 algo em torno de 15 mil dCStaS
ilhas. A L’lnica maneira de conhecer o Infinito continua sendo o
singelo conselho de Goethe: andar por todos os lados do Finito.
O pensamento pés—moderno tenta resolver esse dilema decre—
tando o fitn da “totalidade”. A verdade agora estz’i na parte, no con-
creto concretamente existente, na singularidade do acontecimento.
A totalidade e 05 fantasmas que a materializaram todos esses anos,
Como a histéria, a sociedade, o capitalismo, as classes, 0 socialismo,
0.h0mem, foram desmascarados como meras construcées, como
dlscursos que tentam em va’io reduzir o fluxo vivo do presente em
, esqueletos conceituais compreensivos. Eis que fica assim resolvido
um dilema que assombrou todo o pensamento humano desde os
velhos gregos: a relacao entre o todo e suas partes. E na particula-
ridade que encontramos a existencia, decreta o pensamento p68—
-m0derno, o todo nada mais seria que uma projecéio defensiva na
qual os seres humanos buscam fugir do jogo aleatorio da existéncia.
A consciéncia nada mais seria que a subjetividade que tenta
compreender este movimento partido em polaridades irreconcilia—
Veis, tais como individuo e sociedade, subjetividade e objetividade,
os individuos e suas representacées coletivas entre estas represen—
tacées e as classes sociais. Estamos, na metiifora de Norbert Elias
(1994), numa sociedade de “estatuas pensantes”, para as quais a
realidade é seu pensamento individual e o mundo la fora, nao mais
que uma percepciio individualizada. A totalidade se esfuma numa
abstracao exatamente pelo fato de que é reduzida a uma abstracéio
fundada na relacao entre “individuos”. Desse modo, acabamos nos

24
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MAURO LUIS IASI

cnvolvendo em uma polaridade que nos condena eternamente a


escolher entre determinacées mccanicas: ora os individuos determi-
nam a socicdade, ora é esta quc condiciona a acao dos individuos.
Num caso, os individuos nao passam da matéria—prima moldavcl
da histéria, nao tendo sentido o conceito dc consciéncia a nao ser
como “falsa consciéncia” (fazem, mas nao sabem que fazcm); em
outro, ao contrario, tudo sc compreendc pelo sentido da acao social
tendo como sujeitos OS individuos.
Marx ja dissc que os sores humanos produzem suas relacées
assim como produzem o pano ou o alimento, de forma quc taiS
relacécs adquirem uma objetividadc tao concreta como impalpz’ivel.
Para ele as relacées nao sao simplesmente entre um individuo c
outro individuo, mas relacoes histéricas e particulates, como as que
se dao entre o capitalista e o trabalhador assalariado. Conclui, en—
tao, que: “suprimam estas relacécs c tera sido dcstruida a sociedadc
convencidos
inteira” (Marx, 1976, p. 81). E por isso que estamos
d6 quc o problcma da consciéncia encontra—se no difi'cil jogo d6
que
mediacécs que liga as determinacées particulates c genéricas
consciéncia
COmpéem o movimcnto quc constitui 0 set social. A
é movimento que ora se aprescnta como consciéncia do individuo
isolado, ora como expressao da fusao do grupo, depois da (313586,
podendo chegar a diferentes formas no processo dc constituicao
da classe até a uma consciéncia que ambiciona a universalidade.
Um dos temas mais recorrentcs e complexos do pensamento
iéncia
sociologico é 0 da consciéncia, mais especificamcnte da consc
dc classc. A complexidade do tema 36 dd pelo fato de que o feno—
meno da consciéncia ocorre na fronteira daquilo quc constitui uma
das mais problematicas questocs do pensamento sociolégico, quc é
a relacao entre individuo e sociedade, dc modo quc a consciéncia
é ora atribuida a dimensao pessoal e psicolégica, ora ‘a dimensao
social, ora ao individuo, ora a sua conformacao de classe.
Os estudos dc consciéncia dc classc, como afirma Ricardo Antunes
(1996, p. 103), costumam ser, “em sua grande maioria, dcscricoes e

25
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Wé‘mlli
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

relatos empiricos, mais ou menos sofisticados, de como atuou e atua,


na imediaticidade, a classe trabalhadora”; ou, por outro lado, pecam
pelo desvio inverso concebendo a classe trabalhadora como “uma
construgéio idealizada e a—historica”, acabando por fetichizar a classe
como portadora metafi'sica de uma “misséio historica”, ou, diante da
consratagio empirica das formas imediatas de amoldamento 51 ordem
do capital pela consciéncia dos trabalhadores concretos, fetichizam
o partido como uma consciencia que substitui a classe em seu fazer
histérico. Nosso maior desafio, ainda segundo Antunes, seria:
(...) apreender tanto a dimensio da consciéncia empirica, da sua conscié
ncia
cotidiana e suas formas de manifestagfto (...), como em buscar
compreender
também quais seriam as outras possibilidades de
agiio coletiva, préximas
de uma apreenséio mais totalizante, menos fragmentada
e coisificada do
todo social.2
Esta preocupagz’io de Antunes embasa—se na formulagiio
de
Lukzics sobre a relagiio entre a imediaticidade cotid
iana e a di-
mensiio genérica da aeio humana, ou seja, a afirm
agéo de que a
Vida cotidiana é “a mediagfio objetiva—ontolégica entre
a simples
reprodugzio espontfinea da existéncia ffsica e as formas
mais altas
de genericidade agora ja conscientes” (Lukzics, 1987, (2pm!
Antu-
nes, 1996, p. 100). A Vida cotidiana seria o espaoo
heterogeneo no
qual se inter-relacionam dinamicamente os dois polos hum
anos da
realidade social: 21 particularidade e a
genericidade.
O tema da relage’io entre a classe trabalhadora e sua cons
ciéncia
tern sido uma questéo permanente na reflexfio
sociolégica, tanto
clzissica quanto contemporé‘mea.3 O ponto de
partida da polémica

2 ANTUNES, Ricardo. “Notas sobre consciéncia dc


classe.” in: ______ e REGO, Wal—
qufria Leio (org.). Labia: um galz'leu do se'cu/oXX. Sio
Paulo: Boitempo, 1996, p. 103.
Sfio representantes significativos deste esforqo no Brasil as obras de Juarez
Brandfio Lo—
pes (1967), Leéncio Martins Rodrigucs (1970), Celso Freder
ico (1978, 1979), Ricardo
Antunes (1992, 1996, 1998, 1999), Leéncio Basbaum (1982), assim como os
estudos
cléssicos sobre o tema em Kant, Hegel, Marx, Weber e as obras de Lukzics, Gramsci,
Goldman, Thompson, Althusser, Hobsbawm, Elias, Touraine e tantos outros.

26
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MAURO LUIS IASI

que envolve o terna da consciencia poderia ser assim resumido:


existiria alguma ligagéio comprovavel entre a posigao de classe dos
individuos, ou seja, a posigao em que se encontram no interior de
certas relagées sociais de produgao ou de uma ordem “economical”,
e uma determinada forma de Visao de mundo que poderia levar
te a
a uma consciéncia mais ou menos homogénea relativamen
identidade coletiva, a agao politica e aos fins almejados?
ora.
A simples resposta a esta questao pode nao ser esclareced
Dizer que sirn pode significar que pensarnos, como Weber (1979),
em classes como situagées partilhadas por certo mimero de pessoas
que serviriam de base para a emergéncia de “interesses comuns”,
agoes comunitarias “orientadas pelo sentimento dos agentes de
pertencerem a um todo”, ou, ainda, como urn “ajustarnento de
interesses racionalmente morivado” (idem, p. 212—215). Neste sen—
tido, uma agao homogénea morivada por interesses economicos,
entendidos como posieao diante do mercado, é uma possibilidade,
mas de forma alguma “urn fenémeno universal”, uma vez que,
resisténcias e
segundo Weber, esta aoao pode assumir a forma de
atitudes pontuais amorfas que nao V510 alérn de uma agao reativa,
exigindo para a formagao de agées tipicamente societarias o desen—
tuais,
volvimento de condigées culturais, fundamentalmente intelec
entre causas
assim como a clara percepgao das ligaqées existentes
a consciencia de
e consequéncias. Como se observa, para Weber
a visao de
classe confunde—se com a Wltrzmbammg, ou seja, com
mundo que orienta eticamente o agir no mundo.
éio de
Por outro lado, afirmar a relagao existente entre a situag
classe diante de certas relagées sociais de produgao determinadas
gao da
e uma agao politica de classe orientada para a transforma
cons-
sociedade pode significar, como em Marx, a possibilidade de
tituigao de um sujeito histérico capaz de representar, por meio de
sua consciéncia particular, 08 caminhos de uma emancipaeao geral
e, assim, apontar para uma alternativa societaria diversa da ordem
atual (Marx, 1993, p. 90). A possibilidade deste tipo de agao de

27
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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

classe, nesta Visao, nio estaria ligada apenas 210 desenvolvimento


de fatores dc compreensao intelectual e a intencionalidade dos
sujeitos individuais, ainda que esre seja urn dos mfiltiplos aspectos
dCSte processo, mas a uma dinamica objetiva e subjetiva de luta
de classes dentro da qual uma classe se constitui enquanto classe
(Marx, 1976; Thompson, s/d) e dal’ como sujeito histérico, assim
como esta prépria dinfimica estaria condicionada pela contradi—
c510 entre o desenvolvimento das forcas produtivas e a forma das
relacées sociais de produciio existente.
O que ha de comum entre estas duas visées, teérica e pratica—
mente opostas, é a possibilidade de as classes converterem-se
em
bases reais para a formacao de identidade/consciéncia e acao coleti
-
va, ainda que, na versao weberiana, esta acao coletiva seja resultante
da dinfimica de “interesses” baseada no individuo corno sujeito da
acao social, enquanto em Marx enfatiza—se a dinfimica historica da
luta entre as classes e, porranto, urn sujeito propriamente coletivo
- que atua de forma qualitativamente diversa do individuo.
Urn dos tracos mais marcantes da sociologia contemporanea
rem
sido colocar ern dfwida exatamente esta possibilidade. Com
o per-
gunta Leopoldo Waizbort (1998, p. 67): “é a classe, hoje,
definidora
de identidades coletivas? Ou quais sao, hoje, as principais
estrate’gias
sociais na definicao de identidades coletivas?” Esta mesma indagacao
orientou toda uma geracao de pensadores contemporfineos, desde
Hanna Arendt (2000) e Habermas
(1990, 1983): passando POI
Dahrendorf(l982) e Bell (1977), até Offe (1987) e Gorz (1987).
Evidentemente ha nuancas significativas entre aqueles que,
de
uma forma ou de outra, deslocam a analise das classes para outras
fontes de formacao de identidade coletiva. Waizbort, partindo de
Haberrnas, afirmara que os conflitos que estruturam nossa socie-
dade 3510 ainda conflitos de classe. No entanto, desloca a natureza
e manifestacao deste conflito para fora do eixo capital e trabalho
em direcao as esferas de legitimacao, o que implicarzi a substituicao
da contradicéio entre burguesia e proletariado no eixo central da

28

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MAURO LUIS IASI

atividade produtiva para outras esferas, como a da comunicacéio


on da moral. Isto levaria a contradiciio social para outras formas de
polarizacao, tais como a dicotomia entre empregados e desempre—
gados, ou ainda incluidos e excluidos. Outros, como Dahrendorf
(1982) OH BC” (1977), argumentam que as afirmacées baseadas
na centralidade das classes foram ultrapassadas por aquilo que
denominam “sociedade pés—industrial”, marcada pela diversifica—
ciio, e nao pela suposta homogeneizacao de classes, substituindo
a disputa das classes por recursos escassos pela administracao
politica e institucional da alocac'ao de recursos disponr’veis. Gorz
(1987), ainda que em uma perspectiva diversa, colocara a questéio
na forma de emergéncia de uma “nao classe de niio trabalhadores”
e criticara impiedosamente as pretensoes de Marx e dos marxistas
de estabelecer um vinculo entre 0 desenvolvimento das forcas pro-
dutivas capitalistas e a formacéo de uma classe operaria capaz de,
socializando os meios de producéio desenvolvidos pelo capitalismo,
geri-los na direcao de uma sociabilidade emancipada.
O que ha de comum entre estas aproximacées teéricas tz'io
diversas é a constatacao de que a forma atual do capitalismo alte—
rou radicalmente a composicao e o perfil de classes da sociedade
contempori‘mea a ponto de inviabilizar, numa visao, ou modifica—
—la substancialmente em outras, a alternativa revolucionaria dos
trabalhadores como classe na perspectiva de uma ordem social
além do capital. Aqui, também, as nuancas 11510 5510 menos signi—
ficativas. Para pensadores que tendern ao conservadorismo, como
Bell e Dahrendorf, a impossibilidade de alteracéio revolucionz’iria
da sociedade vem acompanhada de uma defesa das virtudes da
ordem do capital. Podemos encontrar um exemplo deste procedi—
mento na delirante visao de Dahrendorf, que também se apresenta
em Marshall,4 sobre o capitalismo lograr uma igualdade de fato e

'l MARSHALL ,T. H. Cidadxmz’a, classe social 3 status. Rio de Janeiro: Zahar, 1967, apzm’
SAES, Décio. “Cidadania e capitalismo: uma critica 31 concepcfio liberal de cidadania”.
Cn’ticzz marxism, n. 16. 8510 Paulo: Boitempo, 2003, p. 9—38.

29
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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

nao apenas juridica. Ja pensadores corno Gorz ou Habermas, que


mantém a perspectiva critica em relacao ao capitalismo, afirmam
que este sistema foi capaz de desenvolver a faculdade de sobreviver
ao seu mau funcionamento e dominar a “néio soluciio de seus pro-
blemas” (Gorz, 1987, p. 25), de maneira que capital e trabalho, ao
contrario de se antagonizarem, solidarizam—se em interesses agora
comuns, criando novos tipos de conflitos néio mais centrados
na
“produc’ao material” e que, portanto, nao podem ser equacionados
simplesmente na polarizacéo de classes. Como afirma Habe
rmas:
Tais conflitos jzi niio se produzem nos fimbitos da reproducao
material,
ja nao se canalizam através de partidos e associ
acées, nem tampouco
podem ser apaziguados recorrendo a compensacées confo
rme o sistema.
Os novos conflitos surgem antes de ambitos da reproducao cultura
l, da
integracfio social e da socializagfio; (llfisellVOIV‘fln‘Se em
formas de PtSto
subinstitucionais, em todo caso extraparlamentar.S
No entanto, seja mediante a glorificacéio das virtudes da so-
ciedade capitalista liberal, seja por meio da critic
a da centralidade
do trabalho e das classes que se estruturam em torno
da produeiio
ruaterial do valor, dai o deslocamento para esfer
as da acao comu-
nrcativa e da reproducao cultural; o fato é que
se coloca em duvida
0 Piaf-ml tradicional das classes como patamares possiveis de agiio
polluca e de formacéo de identidades e consciéncia
coletivas, assim
corno das formas organizativas que, via de regra,
se associam ao
ser da classe (Sinclicatos, partidos etc.
).
Nps estudos de Norbert Elias (1993, 1994), pod
emos ver,
tialmlmm, a constatacao de que a polaridade de classe tem
sido subs-
titulda por urn campo comum em que a contradic
ao, sem deixar
de exrstir, encontra urn ponto de equilibrio insta
vel. Diz Elias:
Estas duas classes (burguesia e proletariado) se contro
lam mutuamente em
e(lufll'brio amiude precario e sempre instével de tensées. Com a classe ope-
—-——__‘________________
s HQBERMAS, Jurgen. 772mm}! d6! kommzmikatz’ven Hands/m. Frankfu
rt. M.: Suhrkamp,
V' f P- 576: dpud WAIZBORT, Leopoldo. “Classe social, Estado e ideologia”. Yi’mpo
Socml— Rev. Sociol. USP, Siio Paulo, n. 10 (l), p.
78-79.

30
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MAURO LUIS IASI

raria tradicional ainda em posicz‘io mais fraca, mas ganhando lentamente


forcas. (...) Parcialmente como sécios e até certo ponto como adversaries,
os representantes da burguesia industrial e do operariado tradicional
Formam agora a elite das nacées da primeira onda de industrializacéo.
Em consequéncia, a par da consciéncia e dos ideais de classe, e em certa
medida como disfarce para eles, a consciéncia nacional e o ideal de sua
prépria nacao como valor supremo desempenham urn papel de importan—
cia crescente nas duas classes industriais, em primciro lugar na burguesia
industrial, mas crescentemente também no operariado.6
A ideia de um campo comum — no caso, a concepcz’io de
1139510 —-, no qual as classes em luta encontram uma unidade a
ponto de se tornarem a “elite” das sociedades industrializadas, é
um traco constante naqueles que procurarn argumentar que o eixo
central das sociedades contemporaneas é cada vez menos o conflito
de classes, on que este conflito nao é mais entre as chamadas classes
fundamentais, tal como estava presente nas analises do século XIX
e parte do século XX.
Vivemos um longo século XX marcado por um fenomeno
desconcertante para o pensamento revolucioneirio: o amoldamento
da classe trabalhadora em relacao a ordem do capital. 0 carater
ciclico da economia capitalista produziu momentos de crise aberta
e de vigorosa retomada de crescimento do modo de producao ca-
pitalista. A classe trabalhadora viveu momentos claros de ruptura,
tais como no contexto da Primeira Grande Guerra (1914—1918),
por meio das experiéncias revolucionarias na Alemanha, na Italia
e principalmente na Russia; surtos revolucionz’irios combinados
com o processo de descolonizacao da Asia e da Africa; casos de
ruptura revolucionz’iria, como na China.
0 equilibrio da chamada “Guerra Fria” levou a uma certa
correlacao de forcas que permitiu, por um lado, o desenvolVImento

6 ELIAS, Norbert. O processo civilizador (Introducao a edicfio de 1968). Rio de Janeiro:


Zahar, 1993, v. 1, p. 228.

31
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As METAMORFOSES DA CONSCIENCIA 1J1: (:LAssrs

de experiencias de transicz’io socialista e, por outro, o desenrolar da


experiéncia social-democrata, notadamente na Europa Ocidental.
As transicées socialistas e as alternativas social—democratas 350 OS
dois lados da mesma moeda: a tentativa de superacéio seguida do
amoldamento a ordem capitalista que se esperava negar.
No entanto, nao sao experiéncias idénticas. Significativamente,
vivemos durante o século XX trés momentos simultfineos do vir
a ser da classe trabalhadora: a existéncia subordinada ao capital,
a ruptura com a ordem capitalista mediante a socializacao dos
meios de producfio e a constituicéio de um Estado proletario
(aquilo que Mészétos (2002) chamaria de uma tuptura “juridica”
qut‘. niio logrou ir além do sociometabolismo do capital) e o sonho
social—democrata de colocar a servico de um Estado democratico
uma economia capitalista voltada a um tipo de desenvolvimento
que melhorasse gradativamente a qualidade de Vida das camadas
Operarias (Przeworski, 1989). Uma primeira, na qual os traba—
lhadores esperavam sobreviver dentro da ordem do capit
al; uma
Sanda, em que se arriscaram it além dela, mas sem superar seus
horizontes liltimos; e uma terceira, que buscava it além
desta
ordem utilizando-se de seus préprios mecanismos. Intere
ssante é
que todas estas alternativas fracassaram exatament
e naquilo em
u tlverarn sucesso.
Os trabalhadores submetidos diretamente a0 jugo do capital ar—
rancaram significativas conquistas no que tange a direit
os formais;
as esperiéncias de transicao socialista nfio apenas
demonstraram
praticamente a possibilidade de derrotar as forcas capitalistas
como
foram responsiveis por equilibrar o jogo de forcas por quase um
seculo, enquanto a experiéncia social—democratica levou a0 maxi—
mo 21 possibilidade da convivéncia democratica entre as classes por
uln certo periodo. Entretanto, todas fracassaram. A subordinacf
io
diretamente capitalista e a indireta, na forma social—democrata
, nio
conseguiram evitar as crises ciclicas do capital e seus efeitos sobre
as classes trabalhadoras, como demonstrou claramente a emergen-

32
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MAURO LUIS IASI

cia da crise a partir da década de 1980. As transicées socialistas


falharam exatamente pelo fato de deixarem de ser transicées, isto
é, de se cristalizaram em formas além do capitalismo e, muitas
vezes, aquém do capital, produzindo uma curiosa trajetéria que
levou certas formacées sociais pré—capitalistas ao capitalismo pela
Via de uma acumulacao comandada por um Estado socialista.
Nao é de estranhar que a consciéncia de nosso tempo caia no
atual atoleiro da acomodacz’io 2‘1 ordem do capital como um destino
inescapz’wel. Uma das manifestacées mais claras desse pintano é
o ataque as nocoes de classe social, a centralidade do trabalho, £1
proposta de uma sociedade socialista e, principalmente, de uma
alternativa revolucionaria.
Bobbio (2000) contrapoe duas formas societérias, uma de classe
e outra “pluralista e democratica”, levando ao extremo a afirmacao
weberiana segundo a qual a forma de classes da sociedade é uma
possibilidade, e 1130 um Fator eStruturante das relacées sociais sob
o capitalismo. Diz Bobbio:
Em uma sociedade fortemente dividida em classes contrzirias, é provzivel
que o interesse da classe dominante seja assumido e sustentado até mesmo
coercitivamente enquanto interesse coletivo. Em uma sociedade pluralista
e democratica, na qual as decisées coletivas sao tomadas pela maioria (ou
pelos préprios cidadiios, ou por seus representantes), considera—se interesse
coletivo aquilo que foi aprovado pela maioria.7
Fica claro nesta passagem o argumento segundo o qual uma
sociedade — por exemplo, a capitalista -— pode ser organizada como
uma polaridade de classes contrapostas ou uma pluralidade de
interesses individuais harmonizaveis no corpo do Estado conforme
a 0pcao pela forma politica mais ou menos racional. Assim, a di—
nfiimica dos interesses seria pautada por outras demandas que nao
propriamente a de classes, tais como preferéncias politicas, acordos
ou conveniéncias na perspectiva de conquista ou manutencao do

7 BOBBIO, Norberto. Teorz'a geraldapolz’tica. Rio de Janeiro: Campus, 2000, p. 220-221.

33

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AS METAMOIIFOSES DA CONSCIENCIA DE (ILASSI‘I

prestigio e do poder, identidades nacionais ou étnicas, corpora—


tivismos e outras fontes de identificacao individual ou coletiva.
Em certa oportunidade, Kautsky chegou a imaginar que o
imperialismo niio era propriamente uma fase do capitalismo, mas
apenas uma “politica” diante de outras formas pacificas de partilha
do mundo (Lenin, 1976, p. 489). For este raciocinio dc Bobbio,
ficamos cientes de que a sociedade de “classes” é uma das possi—
bilidades politicas do capitalismo ao lado da sociedade “pluralista
e democratica”, como se esta néio fosse uma sociedade de classes.
No campo do pensamento mais conservador, ou mesmo do
liberalismo social, esta constatacao leva a um processo acentuado de
idealizacao da capacidade do Estado de institucionalizar os conflitos
nos limites da ordem. Neste caso, os confliros contemporaneos se—
riam conflitos que contrapoem a ordem (que incluiria 0 capital e o
trabalho) 51 negagao da ordem, como a criminalidade, fazendo corn
que a categoria central da analise volte a ser a anomia nos termos
durkheimianos (Durkheim, 1976, 1995;Adorno, 8., 1998, p. 22—23
).
No campo de um pensamenro mais critico, mas que parte
da
constatacao da inviabilidade do sujeito histérico na forma da classe
trabalhadora, comeca-se a buscar novos sujeitos: desde a estranha
formulacéio de Gorz de uma “nao classe de néio trabalhadores”;
passando pela tentativa de conceituacao de uma nova classe de
trabalhadores assalariados intelectuais (Mallet, 1963;
Gorender,
1999, p. 230); on um novo sujeito, como a “classe expandida” de
Negri (apzzd Lessa, 2002, p. 114—115); a emergéncia de novos sujei—
tos sociais, como parecem indicar Habermas ou Castells (2000); are
a negacao do conceito de um sujeito historico, caminhando para a
afirmacao da multiplicidade de negacées pontuais e microssociais,
como em Foucault (1984a, 1984b, 1995).
Podemos encontrar a formacao deste pensamento em um periodo
muito remoto. Arendt (2000, p. 12) colocava, jz‘i em 1958, algumaS
das questées fundamentais sobre os efeitos da automacao em uma.
sociedade que teria desenvolvido uma verdadeira c‘glorificacao red—

34
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MAURO LUIS last

rica do trabalho” para depois vé—lo desaparecer; assim corno, ainda


na década de 1950, o tema do fim das classes aparece com toda a
nitidez nos ensaios de Robert Nisbet (1959, 1991; dpud Chauvel,
2002,p.58)
Entretanto, o tema ganhou impulso nos anos 1980 e assumiu a
forma de uma quase-unanimidade na década de 1990. Dois fatores
se combinam para produzir este efeito no reino das formulacées
académicas e teéricas, assim como no universo da formulacao
politica. Por um lado, o profundo processo de reestruturacao que
0 capital empreendeu entre 03 anos 1980 e 1990 que mudou a face
da atividade produtiva e culminou na passagem da subordinac’ao
formal para a subsuncao real do trabalho ao capital (Marx, 1867,
1987, 1997; Antunes, 1998, 1999; Chesnais, 1996; Hirata, 1993;
Anglieta, 1982; Castro, 1993), e, por outro lado, o desmonte da
URSS e o consequente fim do chamado “socialismo real” no Leste
europeu, acompanhado pelo recuo da social—democracia na Europa
Ocidental (Mészziros, 2002; Bihr, 1998).
Estes fatos histéricos acabaram por, aparentemente, criar uma
feicfio de comprovacao empirica incontestzivel as teses que questio—
navam a centralidade do trabalho e das classes produzindo a maior
ofensiva teérica que o pensamento marxista ja sofreu em toda a sua
histéria. A forca e o vigor desta ofensiva teérica se explicam néio
apenas pelo embate dos argumentos e sua preciosidade conceitual,
até porque, em sua esséncia, tais argumentos estavam presentes ha
bastante tempo no cenario da luta teérica, mas pela correspon—
déncia entre a ofensiva teérica e as derrotas no campo da relacéo
econémica direta nos locais de trabalho, no centro estratégico da
producao do valor e no fimbito da luta politica e histérica mais
geral da alternativa socialista. Este fenomeno resultou na defensiva
dos trabalhadores, na reorganizacz’io profunda das relacoes de tra—
balho no mundo capitalista, na derrota das transicoes socialistas
e na regressiio de conquistas nos paises onde predominava uma
alternativa social—democrata.

35
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As METAMORFOSES DA CONSCIENCIA n13 (:LASSE

Desta forma, o debate, via de regra, acaba antes mesmo de


comegar pela desqualificagao de qualquer argumento relacionado
as afirmagées marxistas classicas. Isto fica patente nesta afirmagfio
de Offe:
(...) todas as hipéteses e convicgées, encontradas principalmente entre
os teéricos franceses como Foucault, Touraine e Gorz, penetr
aram tio
profundamente em nosso pensamento que a ‘ortodoxia’ marxista
nao rem
mais muita respeittzéilidztde cienttflco-socitzl.8
Este tipo de argumento supostamente cienti'fico néio é propri
a-
mente uma novidade. Me’szaros (1996) jzi afirmava que “a ideologia
dominante tem uma capacidade muito maior de estipular
aquilo
que pode ser considerado como critério legitimo de avalia
gao d0
conflito, na medida em que controla efetivamente as
instituigées
culturais e politicas da sociedade”9 e, a partir dai, pode
desqualificar
todo argumento contrario como “nao cienti’fico” ou
ideolégico.
Como exemplo deste procedimento, o autor hfing
aro nos traz este
brilhante argumento de um dos mais respeitad
os economistas,
John Maynard Keynes:
Como posso aceitar uma doutrina que estab
elece como sua biblia,
acima e além de qualquer critica, urn manual
econémico obsoleto que
reconhego n50 so corno cientificamente
erréneo, mas também sem
interesse ou aplicagz’io para o mundo mode
rno? Como adotar um credo
que, preferindo a lama a0 peixe, exalta o proletariad
o rude acima da
burguesia e da intelligentsia que, apesar de suas falha
s, representam a
prosperidade na Vida e certamente levam consigo
as sementes de todo
o avango humano?10
Observem que 0 critério cientifico para julgar o pensamen
to
de Marx é o reconhecimento por parte do préprio Keyne
s sobre

OFFE, Claus. “Trabalho: categoria sociolégica chave?”. Capitaiisrrzo desorgrmizrzdo. Silo


Paulo: Brasiliense, 1984, p. 195. (grifos nossos.)
9 MESZAROS, Istvzin. Opader dd ideologizz. Sfio Paulo: Ensaio, 1996,
p. 15.
’0 KEYNES, John Maynard. A short view ofRussia [1925], apud MESZAROS, Istvzin.
Mid, p. 16.

36
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MAURO LUIS “231

o carater c‘cientificamente erréneo” e a falta de aplicabilidade


pratica da obra de Marx para os tempos presentes. Sua percepcz’io
é o critério da verdade, a mesma percepcao que escolhe o peixe
da burguesia e descarta a rude lama proletaria. A mesma incri—
Vel percepcao “cientifica” que encontra na burguesia a “semente
de todo avanco humano”, apesar de pequenas “falhas”. Entre
as pequenas falhas nesse caminho inelutz’ivel de prosperidade,
ocorreram no tempo histérico, em que foram proferidos estes
juizos, objetivamente neutros, a Primeira Guerra Mundial, a
Crise de 1929 e a Segunda Guerra Mundial, tudo isto feito por
“filhos instruidos, honrados e inteligentes da Europa Ocidental”,
como dizia o economista, que nao apenas desprezavam o “refugo
confuso das livrarias vermelhas” como fizeram questiio de quei-
mar estes “livros vermelhos” e proibir seu estudo na moderna
inquisiciio do nazismo alemao ou, posteriormente, nos golpes
militares da América Latina; evidentemente, tudo em nome dos
mais altos “valores” e do “avanco humano”.
Tanto hoje, mediante a prova empirica do desmonte do bloco
socialista, como antes, por meio de Estados nacionais que deveriam
ser uma transicao, mas que de fato nao transitavam para uma
sociedade sem classes, a experiéncia socialista do século XX rem
se constituido em um poderoso arsenal contra as teses centrais do
pensamento marxista. Evidente que estas experiencias niio se redu—
zem apenas nisto, mas, paradoxalmente, foram e 5510 manifestacées
histéricas que comprovam a possibilidade de uma alternativa além
do capital, até mesmo por aquilo que nao completaram.
O termo que associa “respeitabilidade cientifico—social”, nas pa—
lavras de Offe, parece indicar a correspondencia entre as afirmacées
teéricas e o papel politico e social que as principais ideias marxistas
desempenharam durante todo o século XX e sua aceitacao academica
em uma época na qual ser “marxista” era uma espécie de amuleto que
indicava que mesmo os “filhos honrados” da intelligentsia burguesa
possuiam uma “alma” com preocupacées sociais.

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA [)E CLASSE

No entanto, os estudos sociologicos recentes, nas décadas


de 1980 e 1990, pouco a pouco deixaram o terreno das teorias
explicativas do Brasil —- como formagao social integrada a or—~
dem capitalista e a natureza desta integracao, incluindo suaa
consequencias para uma particular estrutura de classes (seja na
perspectiva marxista de caracterizacao capitalista da formacao
social brasileira, seja na dicotornia arcaico/moderno de insa
piracao weberiana, seja nas sinteses que levaram £1 dicotornia
desenvolvimento/subdesenvolvimento) — em direcz’io a temas
que buscavam a analise do microcosmo da producao e dos
processos de trabalho, das atitudes operarias e manifestacoes
coletivas para aspectos da subjetividade.11 Gradativamente, a
terminologia muda de classes para “atores”, de consciéncia para
“identidade”. Poderiamos até dizer que se produz urn Vigoroso
questionamento da perspectiva de “totalidade” e, naquilo que
nos interessa diretarnente, contra a suposicao de que esta tota-
lidade se orienta por certa intencionalidade e sentido12 que niio
aquela centrada na aciio dos individuos no ambito singular dos
acontecirnentos.
Este movimento ocorre, entre outras coisas, pelo fato de 03
sociélogos terem desenvolvido a impressz’io de que os conceitos
disponiveis nao 5510 05 mais adequados 2‘1 percepcao daquilo que
chamariamos de consciéncia de classe. Esta inadequacao residiria,
segundo esta aproximacao, na dificuldade dos conceitos tradi~
cionais, normalmente ligados a Marx, de compreender a relaciio
entre os aspectos objetivos e subjetivos, mais precisamente de nao

Ver :1 respeito desta mudanca de enfoque: CASTRO, Nadia Araujo; LEITE, Marcia de
Paula. “A sociologia do trabalho industrial no Brasil: desafios e interpretacées”. Bofetz'm
Informativo e Bib’liogrzz’fico, Rio de Janeiro, n. 37, p. 39-59, 1° sem. 1994; PAOLI, Maria
Célia; SADER, Eder; TELLES, Vera da Silva. “Pensando a classe operaria: os trabalha~
dores sujcitos ao imaginério académico”. Revista Brasileira de Histo’ria, Silo Paulo, USP,
1983.
‘2 Ver a respeito: “Foucault, 0 general da tatica”, in: IASI, Mauro. 0 dilemrz dc Hamlet: 0
ser 6 o mic ser dd comcz'é‘mz'a. Sio Paulo: Viramundo, 2002, p. 140-167.

38
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MAURO LUIS IASI

dar a atencéio necessaria aos aspectos subjetivos, assim como das


dificuldades em encarar o grande desafio de ccirwestigar e teori—
zar os microfundamentos dos macroprocessos de transformacao
social” (Guimaraes, A. S.; Castro, Nadia; Agier, M. 1995).13
A principal Virtude deste caminho foi recuperar para a analise
sociolégica o terreno proprio da mediacao em que se produz e
reproduz o fenomeno da consciéncia em sua imediaticidade coti—
diana, pautando temas antes relegados como as questées de género,
o papel da cultura e dos aspectos étnicos, assim como a dimenséo
psicologica do fenémeno da consciéncia. Buscar o terreno concreto
da mediacao nos adverre que o nosso principal objetivo r1510 é opor
uma fraseologia a outra, mas “partir da terra para atingir o céu”,
nas palavras de Marx e Engels; partir dos hornens e mulheres reais,
de carne e 0330, c‘daquilo que 3510 ml realidczde, isto é, tal como
trabalham e produzem materialmente”.” Caso nos detivéssemos
apenas neste aspecto, nao haveria maiores discordancias entre esta
nova perspectiva e um processo de revigoramento do marxismo.
No entanto, a maioria dos autores compreendeu neste movimen—
to uma ruptura metodolégica ern relacao ao marxismo, on, no
limite, uma insuficiéncia destc referencial no sentido de captar as
dimensées subjetivas (Przeworski, 1989, p. 118—119 ; Elster, 1989,
p. 429; Guirnaraes, 1998, p. 23).
Esta busca Conceitual e teérica animou uma infinidade de
estudos que pretendiam tratar as dimensées da objetividade e da
subjetividade, das determinacoes mais gerais e das acoes indivi—
duais de modo menos mecfinico, negando a simples determinacao
material ou economica que caracterizava um tipo de marxismo.
Neste caminho, predominou a conviccfio de que o referencial de
aniilise marxiano é insuficiente; mais ainda, em alguns casos, absolu—

‘5 GUIMARAES, A. S., CASTRO, Nadia, AGIER, M. Imagem e iderztz’dade do trawl/J0.


Sio Paulo: Hucitec; CRSTOM, 1995, p» 11-
” MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologizz alemci. Silo Paulo; Lisboa: Martins
Fontes;1’resenca, [s.d.]., v. 1, p. 24—26.

39

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE (ILASSIE

tamente inadequado para articular os fatores da objetividade e


da subjetividade, pois, segundo o estudo destes autores profun-
damente influenciados pelo chamado “marxismo anall'tico”, o
marxismo classico desembocaria em uma “orientacz’io sobretudo
estruturalizante e totalizante”, além do fato de que “o marxismo
nao desenvolveu uma teoria da subjetividade”.15
Nao por acaso surgem sucessivas tentativas de sintese entre o
marxismo e alguma outra versao teérica que articulasse os aspectos
da subjetividade e da objetividade, tais como a tentativa de Sartre
(1979), do marxismo analr’tico (Roemer, 1986), ou, ainda, naquilo
que se chamou de marxismo weberiano.16
. Habermas (1990) ja haVia tratado do campo comum de catego-
rlas marxistas e weberianas, por exemplo, em Adorno e Horkh
ei—
mer (1997), que combinaria “a critica marxista da ideologia” e o
uso das categorias como reificacao e fetichismo com uma ampla
preocupaciio corn 0 mundo moderno como “mundo integralmen
te

IS
16 igiMAR-AES, A: S. Um son/a0 de clam. Sio Paulo: Hucitec, 1998, p. 16.
. pressao marxrsmo weberrano, segundo Michel Lowy (1995), foi utilizada pela
prunerra V6? por Merleau-Ponty em 1955, em seu livro A: aventums dd diale’tz'ca,
refermdo-se a influéncia dc Weber sobrc alguns autores marxisr
as, notadamente Lukzics
e depors em 318L105 aurores da Escola de Frankfurt, como Adorno e Horkheimer,
Marcuse e outros. Nos Estados Unidos, esta sfntese pode ser vista
em sociologos como
Pamel Bell, Alvin Goudner ou Wright Mills. 0 professor Scdi Hirano,
no Brasil, foi
lnCIUIdo, em uma afirmacfio de Gorender, entre os chamados marxistas
weberianos,
empdetnmemo do fato, no entanto, da obra fundamental de Hirano sobre a compa—
rac‘ao entre os conceitos de classes e estamcntos em Weber e Marx chegar
a conclusfro
erldente sobre a irredutibilidade do método marxista em relacao ao
weberiano e
VlCC-Vcrsa enquanto “metodologias radicalmente diversas” (Hirano, 1975, p. 15). Isto
porque, de maneira absolutamente sintética: a) 05 conceitos sfio historicos
para Marx
e poli-histéricos 0“ trans'hiStéfiCOS para Weber; b) a perspectiva de uma totalidade
integrada dialeticamente em Marx (0 que nos remete a Hegel) e uma perspectiva
neokantiana dc aproximacao ou distanciamento de realidades particulates em relacao
la conceitos tfpicos ideais em Weber; C) ambos autores partem, portanto, de assuncoes
axiolégicas e epistemolégicas absolutamente diversas a respcito da relacao entre sujeito
e objeto, e em Marx “a chave estrutural para a interpretacao das formacées sociais é
a producz'io social historicamente determinada”, enquanto para Weber :1 acfio social,
tendo os individuos como seus sujeitos, é a chave compreensiva das relacées sociais
(Hirano, 1975, p. 128).

40
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MAURO LUIS IASI

racionalizado” e 36 aparcntcmcntc descncantado, pois pairaria sobre


616 “a maldicao da rcificacéo dcmoniaca”.17
Afirmamos em um trabalho anterior18 que o problema desta
busca dc sintcsc improvz’ivcl, como jzi dcmonstrou Hirano (1975), é
quc acaba por nao comprecnder a dialética cntrc as determinacoes
objctivas e subjetivas que compoem a t0talidade do fenémeno da
consciéncia, tal como foi sustentado por Marx. Poderiamos, corn
certo cxagcro, assegurar quc os pcnsadorcs que buscam a rcsposta
sobre como articular as dimensées da objctividade e da subjctivi-
dadc criam o préprio problema para o qual esperam ter uma solu-
cao, na medida cm que separam estas dimensécs corno realidadcs
contrapostas, como, dc certa mancira, critica Elias (1994, 1998).
Esta polarizac‘ao mecanica encontra sua raiz na incompreensao
da forma como em Marx se equaciona a relacao cntrc individuo c
socicdadc. No cntanto, sc é verdade que em Marx, c também cm
Engels, cxista uma clara preocupacao dialética em nao tornar a
socicdadc uma abstraciio buscando a mediacz'io concrcta dos scrcs
humanos concrctos,” é igualrnentc verdade que inflmcros marxistas
transformaram csta dialética numa formula empobrecida de positi-
vismo, cm quc a consciéncia é mero rcflcxo dc condicionantcs objcti—
vas e 03 individuos sz’io moldados simplesmente por uma objetividade
cxterna. Exagerando a afirmacfio marxiana segundo a qual os scres
humanos na producao social da Vida estabeleccm rclacées sociais
necessarias e independentes dc sua vontadc (Marx [1859], 1977,
p. 24), certos marxistas tendem a ver a histéria corno um produto
mcramcntc obj etivo que fogc a comprecnsao e a teleologia humana.
Muitas das reflexécs no campo do marxismo padeceram deste
mal, como descrcve Lowy (1998) a0 56 rcferir a positivisacao do

‘7 HABERMAS, Jurgen. O discursofiloséfico dd modemz’dade. Lisboa: Don Quixote, 1990,


p. 112.
'3 IASI, Mauro. O dilema dc Hamlet, cit.
“lmporta, acima de tudo, evitar que ‘a sociedade’ se considere novamente como uma abstracao
em confronto com o individuo. O individuo é o ser social” (Marx, 1993, p. 195-196)-

41

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE (ILASSE

marxismo. E nesta tradicao que encontramos o fetiche do partido


como portador, no lugar da classe em movimento, da possibilidade
de formacz‘io de uma consciéncia de classe revolucionaria, assim
como a mecfinica relacz’io entre a formacao da classe e 03 momentos
do processo de entificacao da consciéncia numa linear evolucfio
comteana do simples a0 complexo, do imediato a0 geral,
do econo—
mico a0 politico. Este marxismo empobrecido e rudim
entarmente
positivista serviu de espantalho para o desenvolvimen
to da critica
contemporanea contra Marx e tem sido um recurso facil
que evita
o difi’cil caminho de encontrar tais deformac
ées no préprio Marx.
Como procuramos demonstrar em nosso estudo sobre
0 con—
ceito de consciencia de Classe na sociologia
cléssica (lasi, 2002), SE:
0 esforco de defesa dos pressuposros materialistas
de Marx pode
levar a énfase exagerada nos aspectos objetivos
e nas determinacoes
macrossociais e econémicas, é igualmente Verd
ade que o cami-
nho do “individualismo metodolégico” prop
osto pelos marxistas
analiticos, por exemplo, pode conduzir a supe
racao de Marx pela
“16550 (e n'alo simplesmente pela busca de uma sintese) a Webe
r
e a envergadura da vara no sentido do indi
viduo como sujeito da
acao social. A resposta, segundo pensamos, esta
ria ainda na dificil
tarefa de compreender os “microfundamentos
dos macroproces—
SOS” e, para isto, os conceitos e categori
as da dialética materialista
marxiana sao nao apenas Liteis,
mas fundamentals.
Entretanto, a simples combinacao dos aspectos
macro e micros—
sociais niio ajuda na precisiio conceitual que
procuramos. Wright
Mills (in: Weber, 1979) jzi afirmava que o fato
de Weber centrar sua
analise na acao social dos individuos r1510 impede
que o sociélogo
alemao trate de manifestacées coletivas como class
es, estado ou
outras instituicées sociais. Da mesma forma seria equiv
ocado supor
que Marx, por compreender a sociedade como uma totalidade
dinz’imica, nz'io aborda a 21930 dos seres humanos individualmente
ou enquanto classes. A questao ainda é a da determinacao. Para
Weber, a inteligibilidade das acées sociais se reduz, “sem excecao,

42
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MAURO LUIS Iasr

aos atos dos individuos participantes”, enquanto para Marx a


acao dos seres humanos cristaliza—se em produtos sociais que se
autonomizam relativamente a estes, como na troca ampliada de
mercadorias, de forma que o produto da acao coletiva assume uma
racionalidade diversa da acao individual, nao podendo portanto
ser reduzida a inteligibilidade individual.
As palavras 11510 3510 neutras e, portanto, nao se trata de uma
simples combinacao de aspectos e dimensées macro e micros—
sociais, ou das determinacées objetivas e subjetivas. Reparem
que, na aproximaciio apresentada por Castro, Guimaraes e Agier
(1995), o microfimdzzmenm aquilo que no macro se processa. A
questiio, a nosso ver, nao se resolvera tao simplesmente. Aquilo
que no corte da imediaticidade concreta opera como forca cons—
tituinte é, por sua vez, determinado por uma série de variantes
objetivas e gerais que servem de base 6 condicionam a acao dos
seres humanos em cada periodo histérico. Por outro lado, esta
totalidade estruturante nao constitui forca merafisica ou se im—
p6e aos seres humanos como produto da natureza, mas é obra
da prépria humanidade que se apresenta estranhada. O que de—
termina foi antes determinado. Em vez de ficarmos buscando o
inicio desta determinacao, no macro on no micro, na sociedade
a fisica
ou no individuo, devemos aprender, por analogia, com
e de que
moderna, que esta bem perto da constatacfio inquietant
Elias
o universo ns'io teve inicio,20 ou, como na formulacao de

se a relacao de determinacao é entre


2° Em nome da coeréncia, precisariamos afirmar que,
a 39510 dos seres humanos concre tamcnt e definid os e o mundo fisico, seriamos obriga-
dos a modera r nossas pretens oes, uma vez que a Vida 11a Terra, na qual somos apenas
fisica da totalidade material. Esta
uma forma particular, 6 bem posterior :‘1 organizacfio
s de uma toralida de social e histérica que se aprcsenra
questao so tem sentido a0 falarmo
seja produto da acao
como objetividade esrranhada aos seres humanos, pois, ainda que
s que a encontr am dada como
da espécie, mostrad-se como objerividade para as geracée
histérica . Aqui, como em Marx, a palavra “natureza”
patamar “natural” de sua prética
sua objetivid ade contrapo sta ao humano , designa ndo tudo que seria objetivo
aparece em
e, portanto, também, a sociedade (Marx [1857-1858], 1997; p- 32)-

43
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a smi‘ssis‘sgii a? s-s
AS METAMORFOSBS DA CONSCIENCIA DE CLASSE

sobre a sociedade: “dc planos emergindo, mas néio planejada/


movida por propésitos, mas sem finalidade”.21
Neste aspecto, a sintese de Guimariies é representativa desta
polémica e da busca de solucées menos esquematicas:
Em outras palavras [sublinhar o processo de formacz‘io de classes
como
fundamental para a anélise sociolégica] significa transformar
a analise de
classes no espaco teérico onde fatores objetivos e subjetivos, determ
inacées
e opcées se combinam para construir uma explicacfio; onde a objeti
vi-
dade é modificada pela intersubjetividade dos atores e onde
as mtiltiplas
determinacées limitam as fronteiras além das quais
os resultados ja ni-io
siio deterrninziveis.22
Nesta aproximaciio, as estruturas sociais séio
vistas como unida—
de enquanto configuracées de instituicées, fruto dc antig
as acées
intersubjetivas que acabam por limitar o “alca
nce das escolhas
efetivas abertas aos homens” (Mi
lls, 2'72 Weber, 1979). A correta
preocupacfio com a relacao dialética entre
aspectos subjetivos e
objetivos aqui se aproxima do universo
conceitual weberiano.
Guimaraes partilha com os marxis
tas analiticos a impressfio de
que o marxismo nao desenvolveu uma
teorizacao capaz de dar
conta da subjetividade.
Esta polémica, que marcou toda a elab
oraciio teérica das
filtimas décadas e que emetgiu nos ano
s de 1980 e 1990 com
Vigor na chamada critica pés-moderna (Ea
gleton, 1998, 2001;
Touraine, 1994; Anderson, 1994), foi
acompanhada, como
vimos, de uma alteraciio significativa na
forma como o ima—
ginario académico pensou a Classe ope
raria em particular e 08
trabalhadores em getal, assim como orientou
o foco na direcao
de ternas cada vez mais particularizados (Ca
stro e Leite, 1994;
Paoli, Sader e Telles, 1983).

21 ELIAS, Norbert. A sociedczde do: z'ndiw


’duos. Rio de Janeiro: Zahar, 1996, p-
59-
7-3 GUIMARAES, A. S. Um 5071/10 dc clam, cit, p. 22.

44
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MAURO Lurs IASI

Em linhas gerais, ocorre um processo no qual os temas so—


ciologicos, em especial no fimbito da sociologia do trabalho e
das rclacécs industriais, transitam do esforco dc compreensfio do
Brasil 6 da sociedade industrial capitalista cm desenvolvimento
(que podcria ser identificado no termo “macroproccssos”) para a
anzilisc centrada em estudos dc caso c dos processos dc trabalho
no fimbito das fébricas, e dai para os temas da identidade e da
cultura operéiria, naquilo que se complcta fora dcstc universo, por
cxernplo, na realidade urbana, na familia, na cducacao (o que seria
identificado com os chamados “microfundamcntos”).
Nesta trajetéria, o tcma da consciéncia dc classe se transmuta
em cstudos sobre “Visées dc mundo” difercnciadas, quasc em uma
pcrspectiva antropologica, centrados na descricao sobre como
pcnsam os difcrcntcs sctorcs sociais, aparcntemcntc scm ncnhuma
implicacao mais abrangcnte para a conformacfio dc projetos socie—
térios cm luta. No interior dc Goias, existe uma comunidadc quc
acrcdita cm lobisomem; cntre alguns povos indigenas, acredita—se
quc os animais com cinco dedos sao irmz’ios dos seres humanos e,
portanto, nao podem ser cacados; entre os operzirios dc Séio Bernardo,
prevalecc a vontadc dc subir na Vida movcndo—se ascendcntemente
na escala social; entre um pcqueno grupo de pessoas sem rcspcita—
bilidadc cientifica, ocorre frequentemente a crenca na possibilidadc
do socialismo corno alternativa revolucionéria da classe trabalhadora
contra a ordcm do capital, quadro clinico quc é superado assim que
estes scnhores acham um emprcgo em algurn governo local.
A consciéncia rcvolucionziria seria, segundo esta visao, uma
manifestacao particular de um determinado grupo da sociedade:
os “revolucionarios”. Via dc regra associados aos sctores médios e
pequeno-burgueses descontentes, estes individuos desenvolveriam,
projetivarnente, 0 desejo de quc a classe trabalhadora se cmancipe
para realizar rem (da pequena burguesia) objctivos, nao se sabe
exatamentc quais. Enquanto classe, os trabalhadores apresentariam
uma consciéncia muito distinta daqucla espcrada pclos militantcs

45

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA1)E CLASSE

politicos e intelectuais de esquerda. A “visao de mundo” operaria


estaria centrada no trabalho 6 na perspectiva de Vida, eventual-
rnente mobilizando—se coletivamente para atingir tais beneficios
imediatos; e também seria, nao raramente, conservadora na politica
e nas escolhas eleitorais. Opera—so aqui uma interessante inversao:
a proposta socialista é um aspecto da consciéncia da pequena bur-
guesia, enquanto o reformismo é a auténtica consciéncia proletaria.
A consciéncia de classe (operaria), de forma tipica, seria
verificavel em uma situagao particular muito bem definida, ou
seja, na passagem para a forma de produgao baseada na linha de
montagem 6 na gestao fordista-taylorista, processo no interior do
qual os ope-ratios sentiriam uma perda de 5mm: antes fundado
no saber operério de molde quase artesanal (Touraine, 1966).
Assim, consciéncia de classe “tipica” seria aquela que
se apresenta
na passagem para um capitalismo moderno ocorrido
cm socie—
dades vindas de um processo manufatureiro 6 indu
strial em que
se verificava uma subordinagao formal do traba
lho a0 capital,
como a europeia e a estadunidense. Segundo esta apro
ximagi,
parafraseando Marx: existiu consciéncia de class
e, niio exiSte
mais. Quando havia, os pequeno-burgueses desconten
tes podi am
encontrar nesse momento especifico uma classe traba
lhadora
como matéria—prima para suas intengées revolucio
nz’irias, que
seriam melhor explicadas pela psicanalise do que
pela sociologia
ou ciéncia politica.
Todas as afirmagées seriam cercadas do pesquisas e procedi—
mentos cientificos que traduziriam as afirrnagées em
tabelas, por—
centagens, nt’lrneros, estudos de caso e relatos com tons color
idos de
cotidianidade e experiéncia vivida (Lopes, 1967; Rodr
igues, 1970). A
classe operéiria, como possibilidade dc expressao de um ser genérico,
ou seja, como possibilidade de apresentar um projeto alternativo dc
sociedade para além do capital, nz'io existiria; foi inventada por Marx
e partilhada enquanto delirio utépico por algumas geragées dc almas
atormentadas em busca de um conforto quimérico. Segundo Gorz:

46

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MAURO LUIS IASI

A teoria marxista do proletariado nfio se funda em um estudo empirico


dos antagonismos de classe nem em uma experiéncia militante da radi—
calidade proletz’iria.”
Esta surpreendente denfincia, caso consideremos que 05 mo—
menros histéricos que serviram de base para os estudos de Marx
incluem as revolucées de 1848 e nada menos que a Comuna de
Paris, apenas revela a percepcz’io do autor, segundo a qual Marx teria
inventado uma classe para depois lhe atribuir urn papel historico.
Existiria urn abismo entre o ser mesmo da classe e a classe como
sujeito histérico. Segundo Gorender (1999), Marx teria ficado no
meio do carninho em sua pretens'ao de superar o carziter utépico
dos primeiros socialistas, e um dos motivos seria a forma corno
aborda o terna do proletariado, cristianizando-o corno salvador que
personifica, ern sua injustica particular, a injustica pura. “Cedo
[continua Gorender], Marx e Engels tiveram de se defrontar com
o fato de que os proleta‘irios concretos, concretamenre existentes,
nao se comportavam, enquanto classe social, em sua massa, como
portadores da missfio histérica de revolucionamento da sociedade”
(Gorender, 1999, p. 36).
Reapresentawse aqui de maneira invertida, como negaciio, uma
afirmacao extremamente equivocada que permeia largamente
uma certa tradic’ao do pensamento de esquerda. Segundo José de
Souza Martins (1998, p. 135), isto se baseia em uma “suposicéio
equivocada, nem urn pouco marxista, de que 56 o operzirio faz a
histéria” e de que “a consciéncia verdadeira seria, assim, a consciénfl
cia operaria”, como sinénimo de consciéncia revolucionz’iria. Marx
nz’io teve que se confrontar corn 0 fato incémodo de 03 operarios
r1510 expressarem irnediatamente esta consciéncia simplesmente
ern raziio da constatacéio inicial de “que héi uma enorme distincia
entre o sujeito filoséfico e o sujeito da revolucao” (Martins), pelo
simples fato, corno continua o sociélogo brasileiro, de que:
25 GORZ, André. Adam (10 proletrzrz’rzdo (para aie’m do socialismo). Rio de Janeiro: Forense
Universitziria, 1987, p. 27.

47
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AS MBTAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE (ILASSE

(...) nz'io ha a menor possibilidade sociolégica de que um operario se re—


conheca como explorado no préprio ato da exploracz’io. A consciéncia da
exploraciio depende de que o trabalhador se reconheca no fi‘uto alienado da
exploracz’io e de que nesse reconhecimento possa reconstruir os nexos e 08
passos que distanciaram de seu trabalho, e de sua pessoa, o fruto produzido.
Isto implica que, ainda que 0 local central da producao do
capital seja 0 da produciio do valor, o espaco de constituicao da
classe enquanto classe se da na luta politica. Esta luta constitui«se
em um espaco que perpassa a fabrica, mas que vai muito além dela.
Nao ha absolutamente nenhuma contradicz’io nesta afirmacéio, ou
seja, o centro da producéo do capital reside na producao
do valor,
mas o ato de consciéncia so pode voltar retroativamente sobre
este
momento quando retorna emergido de uma luta politica
maior e
de uma visfio teérica que lhe permita reconhecer aquele
momento
particular em todas as suas determinac
ées.
Como as criticas a Marx ignoram esta sutil mediacao
, ora
cobram uma consciéncia historica do oper
ério concreto subsu-
mido as relacées do capital, ora deduzem desta impossibilidad
ea
impossibilidade da consciéncia revolucionéria da classe enqua
nto
classe. Segundo estes autores, teriamos que nos preo
cupar com
os “proleta’irios concretos, concretamente cxistentes”
, e estes nao
querem uma revolucao. Eis que se explica,
segundo se acredita,
algo que assombrou o pensamento marxista por
todo um século:
o reformismo.
As explanacées a respeito da forca do reformismo, embo
ra
esclarecedoras, nao teriam se aprofundado na questéio deten
do-se
nos aspectos da influéncia da ideologia burguesa e dos bene
ficios
materiais distribur’dos a classe operaria pelas burguesias
do centro
do sistema, ou seja, o continuo trabalho de cooptacz'io. O que
estaria no cerne da questao? Vejamos:
Mais a fundo, vamos encontrar algo que os teéricos revolucionarios do
marxismo evitaram admitir e, no entanto, nas circunstfincias atuais, jzi é
impossfvel negar. Isto é, que a classe operaria é orzrologicammte reformis—

48
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MAURO LUIS IASI

ta. Toda a experiéncia histérico-mundial demonstra que, dia 21 dia, no


transcurso cotidiano de sua existéncia, a classe operaria nz'io ultrapassa as
fronteiras da ideologia do reformismo?‘1
A burguesia facilmente cooptaria os trabalhadores para a refor-
ma em Virtude de que, no amago do seu ser, estes sempre foram
reformistas. No entanto, a questfio e’ mais profunda (teria um fundo
neste fundo finalmente desvelado). O fato de esta afirmagao partir
inclusive de figuras com grande respeitabilidade e comprovada
tradicao em defesa do préprio marxismo demonstra a que ponto
o pensamento marxista se encontra na defensiva.
Isto talvez se explique pela referida correspondéncia das afir—
macées que procurarn questionar o pensamento marxista com 0
processo de reestruturacéo do capital no ambito da producéio e com
os processos politicos associados ao desmonte das experiéncias dc
transicao socialista, especialmente a soviética, mas indica, também,
que alguns autores, na tentativa de responder aos questionamentos
contrarios aos pressupostos marxianos, acabaram por assumir
alguns dos pressupostos de seus interlocutores.
Reparem que também na autocritica apresentada no recente
trabalho de Gorender (1999) lanca-se mao do recurso a. verificabi—
lidade empirica. “Toda a histéria mundial” e o “transcurso cotidia-
no” comprovam o carz’iter “ontologicamente reformista” da classe.
Neste sentido, a autocritica é retroativa. Todas as manifestacées
que ocorrem “fora do cotidiano” e que apresentam um comporta—
mento revolucionario da classe seriam apenas meios “”sangrentos
para atingir fins reformistas, ou “acidentes” (zdem, p.227), ilhas
revolucionarias no mar reformista de toda a historia mundial”,
tais como a Comuna de Paris e todas as revolucées do século XX.
A posicao do autor de Escmoz‘smo colonial e significativa de um
comportamento que acomete alguns pensadores de esquerda.E

2" GORENDER, Jacob. [Marxismo 56m utopia. Szio Paulo: Atica, 1999, p. 37—38. (Grifos
do original.)

49

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A3 METAMORFOSES DA CONSCIENCIA Dli CLASSIE

uma autocri'tica sincera, ele realmente é herdeiro e representante


de um pensamento que transformou a classe numa manifestagfio
do espirito absoluto hegeliano, so que Hegel o viu personificado
em um oficial militar de baixa estatura passando pelas ruas de Iena
sobre um cavalo branco, enquanto alguns marxistas juram ter visto
o espectro rondando a Europa, portando bandeiras vermelhas e
um tanto mal vestido. A consequéncia imediata deste tipo parti-
cular de idealismo fetichista é o mito do partido. Uma vez que a
classe idealizada niio corresponds ao seu papel histérico, o partido
entraria como portador da missao, substituindo—a.
Este substitucionismo esta presents em Lukéics de forma
refinada, teoricamente na transposigao do conceito hegeliano de
Sujeito—Objeto idéntico (como veremos mais adiante, o reencontro
do esplrito criador no objeto criado). Nas palavras de Mészaros:
(...) 0 Sujeito—Objeto idéntico de Lukacs — 0 proletariado, com seu ‘ponto
de vista da totalidade’ -— no final terminou sendo nfio a classe
dos traba—
lhadorcs, mas o Partido. Dizia—se que a classe como tal era
prisioneira
dc sua ‘consciéncia psicolégica’. Algo que se opunha a sua
‘consciéncia
imputada’ ou ‘atribufda’, sem a qual, na sua opiniao, a revolugz‘io
niio
podia ter sucesso.25
3 Em Luka’cs, niio hé, evidentemente, a rendigao a qualq
uer
prlnCIpIo ontolégico reformista no proletaria
do enquanto claSSC;
ao contrarlo, ocorre que uma diferenga entre a
consciéncia ime—
dfata dos m3er3nbros da classe e a formagio da classe como sujeito
hftoflio eXIgIa o chamado “trabalho da consciéncia
sobre a cons-
Clenc1a , ou seja, do partido. Uma vez que seria esta
agao politica
sobre a classe que definiria o carater revolucionzirioou
reformista,
a culpa pelo reformismo, para o autor dc Histérz'zz e conscié‘ncz‘cz
d6 6/4556, so poderia ser assumida pelos partidos reformistas da
Segunda Internacional, aproximando, neste ponto, o pensamento

35 MESZAROS, Istvzin. Para (#6722 do capital. Sfio Paulo: Boitempo, 2002, p. 81.

50
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§ 3RR3392:..::-;§3.33g3§a3}= 3 £3,333 {3.33% is. 33.35333 33333 3.31%. 1am» E§.3.%x.§%3a3§o 3.33933 in gawk-{ég‘fixzio 3%: 3%“? “*33323g7‘333
MAURO LUIS IASI

do marxista hfingaro da afirmagao de certos ramos do trotskismo


sobre a chamada traigz’io de classe ou a famosa “crise de diregéio”,
ou ainda, mais precisarnente, sobre as influéncias da orientagz'io da
agao social motivada pela adesao racional a certos valores como
em Weber. 0 termo traioiio, assim corno suas conotagées morais
e éticas, nao séio casuais. Continua Mészz’iros:
(...) o dilema relativo a ‘consciéncia psicolégica’ da classe trabalhadora foi
tambe’m resolvido por Lukacs em termos intelectuais e ideologicos: ao pro—
jetar o sucesso ideolégico do ‘trabalho da consciéncia sobre a consciéncia’.
Este trabalho teria de ser concebido pela agao do partido, defendida por
Lukacs como a ‘encarnagao visivel e organizada da consciéncia de classe’
(Lukacs, 1974) e como a ‘ética do proletariado’.26
O fundamento da forma idealizada de conceber o prole—
tariado em Marx estaria, segundo Gorz, e depois aceito por
Gorender, na triplice raiz de seu pensamento: o hegelianismo,
o cristianismo e o cientificismo. Marx teria herdado de Hegel
a dialética dos movimentos que geram um sentido no todo de
seu desenvolvimento, mas que nao é compreensivel do ponto de
vista daqueles que produzem os momentos particulates desse
desenvolvimento. O espirito absoluto, que orienta todo 0 pro—
cesso e é reencontrado ao final pelo sujeito, é substituido, em
Marx, pelo proletariado. Do cristianismo, ambos guardariam
a metafora da morte e da ressurreigao, da salvagao e redengao
final dos pecados, alérn do mito do paraiso reencontrado, seja no
Estado prussiano on no comunisrno. Quanto ao cientificismo,
fica a referéncia da distancia entre aparéncia e esséncia, além
da teoria corno instrumento de construg’ao de um “sistema”
enquanto totalidade explicativa das leis que revelam no concreto
pensado a esséncia oculta pelo reino da aparéncia. O resultado
é a substituigao do espirito absoluto pela classe proletaria, do
Estado prussiano pelo comunisrno.

26 Ibid. p. 82.

51

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSIE

A critica a esta pretensao de hermenéutica jzi foi realizada com


grande maestria, tocando na questao fundamental do método, por
Foucault (1995). O filosofo francés revela que um dos passatempos
prediletos de certo tipo de discurso do saber cientifico é procurar os
significados ocultos nos espacos que se interpéem entre as palavras
e as coisas. No fundo é esta a acusacao dirigida a Marx; ele teria
substituido o proletariado concreto pelo conceito de proletariado e
atribuido ao conceito o papel historico dos proletarios. A0 tratar da
questao do “método”, tendo por referencia a matriz do racionalismo
de Descartes, Foucault afirmara:
E nisto justamente que consistem o método e seu ‘progresso’: reduzir toda
a medida (...) a uma colocacz’io em ‘série’ que, partindo do simples, faz
aparecer as diferencas como graus de complexidade. (...) Entretanto,
essa
ordem ou comparacao generalizada so se estabelece conforme o encadea
-
mento no conhecimento; o carater absoluto que se reconhcce
ao que é
Simples nao concerne'ao ser destas coisas, mas, sim, a maneira como elas
podem ser conhecidas.27
O que nao é observado por alguns pensadores de esqucrda que
86 apressam em assumir esta critica, ou seja, que Marx tomou
o
- proletariado em si pelo conceito dc proletariado por culpa de
uma
nao superaciio efetiva do sistema hegeliano, é que tal critica
se faz
acompanhar pelo questionamento da totalidade. Nao por
outro
mo‘t‘nIO que,”via de regra, aparece na forma de um questionam
ento
ao Amstema e a “totalizacées estruturantes”. Interessante
que a
Polemioa entre as micro e macrodeterminacées é, também,
dessa
epoca historica, aquela em cujas bases se assentou um tipo de saber
que‘se convencionou chamar “racionalismo”. Uma das ambicées
d0 EétodO”:,é equacionar “pelo jogo das similitudes”, compondo
um srstema exaustivo de enumeracz’io e recenseamento de todo o
conjunto de elementos ordenados em sua totalidade, o que tornaria

27 FOUCAULT, Michel. Aspalavm: e as coims. Silo Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 69.
U1
[0

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MAURO Lurs IASI

possivel superar a antiga infinitude dos elementos, que dava ao saber


um caraiter aberto, por um sistema ordenado. No interior dessa
constituicao do conceito de totalidade é que se buscava equacionar
o dilema do microcosmo e macrocosmo. Vejarnos:
Ademais, o jogo das similitudes era outrora infinito; era sempre possivel des-
cobrir novas similitudes e a L’mica limitacao vinha da ordenaciio das coisas, da
finitude de um mundo comprimido entre o macrocosmo e o microcosmo.28
O sistema racional permitiria, entao, superar a infinitude das
associacées possiveis pela finitude das associagées e similitudes
fechadas nasérie que constitui a totalidade, como na noca’io de
“sistema” de Hegel. Nao é por acaso que Foucault identificara
a dialética como o “esqueleto” que pretende ordenar o aleatério
atribuindo sentido ao acaso.
E por demais significativo que a critica a totalidades estrutu-
ralizantes venha acompanhada da dt’lvida sobre como equacionar
as micro e macrodeterminacoes. Para examinarmos as dimensées
particulates, é necessario responder se sao “partes” que se explicam
por sua insercao em algum tipo de totalidade, dai necessariamente
a ideia de sistema, on se trata de uma dialética das particularidades
em si mesmas, neste sentido operando uma passagem de volta de
Hegel a Kant. Se a particularidade subjetiva nao pode ser captada
por estar diluida numa totalidade objetiva, sofre—se a tentacao de
diluir esta totalidade na materialidade particular em que poderia
set observada a acao subjetiva. Tinha raz’ao Sartre ao afirmar que:
Vimos, mais de uma vez, que um argumento ‘antimarxista’ 11510 6- mais que
o rejuvenescimento aparente de uma ideia pré—marxista. Uma pretendida
‘superacao’ do marxismo nio passarzi, no pior dos casos, de mais uma volta
ao pre’wmarxismo, e, na melhor possibilidade, o redescobrimento de um
pensamento jzi contido na ideia que se acreditava superar.29

2" FOUCAULT, Michel. Asp/1151222725 e as cofms, cit, p. 70.


39 SARTRE, Jean-Paul. “Cuestiones de método”. Critz'az de [a razo’rz diale’ctz'm. Buenos
Aires: Losada, 1979, p. 17-18.

53

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

Ha, ainda, um outro elemento significativo nesra critica fou’


caultiana sobre o discurso do saber racional. Uma vez erigido em
sistema, o saber traria consigo a pretenséo da objetividade e da
neurralidade, marcas inseparz’weis da razao esclarecida. O sistema
ordenado das palavras reveladoras da esséncia das coisas delas se
distancia, de forma que “a linguagem se retira do meio dos seres
para entrar na sua era de transparéncia e neutralidade” (Foucault.
1995, p. 71).
Incrr’vel coincidéncia, os criticos da toralidade, no caso por n65
estudado, o fazem em nome da c‘neutralidade” e da “comprovagfw
empirica”, o que nos leva a supor que nao se trata da desconsrruv
9510 do sistema ordenado que revelaria as determinagées veladas
pela aparéncia, como coerentemente acaba por concluir Foucault,
mas de negar uma totalidade; mantendo um de seus principais
objetivos, a neutralidade cientifica, negam um sistema estrutu'
rante de totalidade por outro, igualmente toralizador, ainda que
nem sempre visivel, ou mergulham na néio finalidade do jogo das
particularidades e do acaso.
“ O equivoco de Foucault é acreditar que o pensamento de Marx
alojou-se sem dificuldades, corno uma figura plena, tranquila e
confortével”, no interior desta ordem epistemolégica do raciona—
lismo, como urn “peixe n’agua”. E verdade que o tempo histérico
de Marx é herdeiro do esclarecirnento cientificista, ne'io por acaso
existe a possibilidade de uma leitura positivista de Marx. No en—
tanto, Marx niio parece aderir ao “sistema hegeliano” substituindo
aperras o espirito absoluto por outro absoluto, a classe proletaria.
E por demais conhecido que Marx nao cai na ilusao de con—
fundir a coisa em 51 com palavras que delas derivam e que buscam
compreendé—la. A adesz‘io a uma perspectiva de totalidade em Marx
nasce da critica a. forma substancial pela qual Hegel estrutura esta
totalidade. Ou seja, para Hegel, o método de se “apropriar do
concreto, de reproduzi-lo como concreto pensado”, era 0 processo
mesmo de constituigflo e génese do real (cabendo aqui perfeitamen—

54
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29‘
MAURO LUIs IASI

re a critica de Foucault); enquanto para Marx este procedimento


“nao 6': de modo nenhum o processo de génese do préprio concreto”
(Marx, 1977, p. 219). Eis que o peixe pula fora d’z’igua. Vejamos
mais detidamente esta questao:
Para a consciéncia e a consciéncia filoséfica considera que o pensamento
-
que concebe consrirui o homem real, e, per conseguinre, o mundo so é real
quando concebido —, para a consciéncia, porranto, o movimento das cate—
gorias surge como aro da producao real que recebe um simples impulso

-
do exterior, o que é lamenrado — cujo resultado é o mundo; e isto (trata-se
ainda de uma tautologia) é exaro na medida em que a totalidade concreta
enquanto totalidade—de—pensamento, enquanto concrero—de—pensamento,
(E de fato um produto do pensamenro, da arividade de conceber; ele niio
é pois de forma alguma o produto do conceito que engendra a si préprio,
que pensa exterior e superiormente 21 observacfio imediara e a representa—
giio, mas um produto da elaboraciio de conceitos a partir da observaciio
imediata e da representacao. O todo, na forma em que aparece no espirito
como todo—do—pensamento, é um produto do cérebro pensante, que se
que
apl‘Opria do mundo do L’mico modo que lhe é possivel, de um modo
difere da apropriacz’io desse mundo pela arte, pela religiz‘io, pelo espirito
prritico. Antes como depois, 0 objeto real conserva sua independéncia
fora do espirito; e isso durante o tempo em que o espirito river atividade
meramenre especulativa, meramente teérica. Por consequéncia, também no
de, esteja
emprego do método teérico é necessario que o objeto, a socieda
constantemente presenre no espirito como dado primeiro.30
Logo, a afirmacao de que Marx parte de uma perspectiva de
totalidade (e, portanto, a ideia do sistema hegeliano permanece
como fundamental no interior de seu pensamento) é absoluta—
mente veridica; no entanto, a conclusz’io que se tira dai é que Marx
nao opera uma ruptura com a teleologia idealista de Hegel, que
se acomoda sem rupturas significativas na tradicao cientificista e

3” MARX, Karl. Corzrrz'buifzio (it crz’tz'm drz Ecorzom'z'zz Politim. 5:10 Paulo: Martins Fontes,
1977, p. 219.

55
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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DIE CLASSE

positivista, desconsidera as “coisas” preterindo—as relativamente aos


conceitos abstratos e teéricos. Nao por acaso a ironia de Gorz de
incluir urn “5510 Marx” a0 lado dos santos Bruno e Stiner. Neste
aspecto, parece niio haver fundamento consistente na critica anti—
marxista contemporanea.
Naquilo que concerne ao conceito dc classe, podemos dizer que
“o objeto real conserva independéncia” e permanece na atividade
do pensamento como “dado primeiro”. Nada mais ilustrativo
desse fato do que a forma como Marx trata a classe historicamente
concreta em seus estudos, sobretudo na Guerra cz'w'l 724 am
on no 18 Bruma’rz'o. Seria muito diffcil encontrar ai' uma classe
como sujeito metafi’sico transcendente ou sua organizagao como
portadora de uma consciéncia que a prépria classe nao possui. O
mesmo se atribui a burguesia, enquanto classe histérica
que se
ergue contra o feudalismo, nas lutas politicas concretas 6 na luta
das ideias, e o papel nem sempre heroico e por vezes ridiculo que
desempenharam os burgueses em varios contextos historicos.
A acusagao de que a classe aparece em 0 capital (16 maneira
um tanto “abstrata” desconhece o ébvio, ou seja, que neste
ambito
trata-se do conceito constitutivo do processo do capital, 6 néio da
formagao histérica. Seria o mesmo que censurar Marx por dizer
que 0 capital nao é feito de came e 0530 e personificado por pessoa
s
que nasceram de mac 6 pai, 6 sim por abs’tragées como “capital
constants” 6 “capital variavel”, alérn do que somente uma leitura
muito preconceituosa pode [1510 ver por trés da abstragao dos con—
ceitos em 0 capital 0 “objeto real” da classe, como nos estudos
sobre a acumulagiio primitiva dc capitais ou o efeito da produgfio
mecanizada sobre o trabalhador.
E interessante 0 carater contraditério desta critica atribufda
a Marx, pois a acusagiio é simultaneamente de “determinismo”
objetivista e de subjetivismo “voluntarista”. A possibilidade nz‘io
compreendida pelos criticos de Marx é que a unidade dos aspectos
objetivos e subjetivos compée uma toralidade de determinagées e

56
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MAURO LUIS IASI

relagoes reciprocas que ora desagrada aos idealistas pela afirmagéo


da determinagéo material, ora aos materialistas mecz’inicos, e aos
empiristas de toda ordem, pela afirmagfio da particularidade da
aefio humana e do processo de consciéneia a ela associado, abrindo
a possibilidade de constituigéio de sujeitos historicos portadores de
uma intencionalidade dotada de um sentido que 56 se compreende
na perspectiva de uma totalidade em movimento.
Segundo alguns dos seus criticos, Marx ignora o papel dos seres
humanos no processo histérico pela afirmagz'io da determinaoéo de
uma objetividade histérica, Vista corno meramente “economica”,
na quai 0 real e externo é um objeto bern ao gosto da estrutura do
funcionalisrno durkheimiano, que molda a agiio e o pensamento
dos seres humanos. Ja para outros, é exatamente o oposro, uma vez
que Marx, desconsiderando os aspectos reais, “os operz’irios reais
realmente existentes”, fantasia um sujeito histérico e sua missfio
redentora de modo que o mundo somente aguardaria que a ideia
de emancipagfzo se produzisse em algum cérebro iluminado para
depois realizar—se na concretude da historia.
Assim, ou perde—se a possibilidade de compreender a conscien—
cia pelo primado de uma materialidade exterior ao sujeiro, ou
pela idealizagiio calcada numa universalidade que nfio encontra
mediagfio empirica na pratica real dos seres humanos reais. Ora
por se ater a um sistema toralizador e abstrato que a poe de fora
do objeto real com pretensoes de cientificidade positivista, ora pela
impossibilidade desta objetividade pela lamentzivel interferénCia
de juizos valorativos deformadores da realidade existente fora e
independente dos seres humanos. Ora por ser positivista, ora por
néo ser suficientemente positivista!
Quanto as classes e it consciéncia de classe, esta dicotomia
se manifesta ora na critica de que Marx trata com desdém a
consciénCia real dos “trabalhadores reais realmenre existenres”,
atribuindo-lhes uma consciéncia que néo confere empiricamente
itquela que eles expressam, jogando todas suas fichas num sujeito

57
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AS METAMORI‘OSES DA CONSCIE’NCIA DE CLASSE

imaginario capaz de fazer a histéria demiurgicamente, despencando


para 0 voluntarismo; ora a acusacao é que, preso as determinacées
materiais das circunstancias, nega 0 espaco de acao dos seres
humanos transformando—os em meros espectadores, condenados
a uma consciéncia fragmentada, estranhada e presa aos Vinculos
imediatos —- naquilo que Gramsci chamou de senso comum. Ora
uma consciéncia imediata moldada sem mediacées por urna ordem
social externa, levando a tese da necessidade de um parrido que faca
pela classe aquilo que ela é incapaz de fazer; ora uma consciéncia
oniporente e voluntarista que, independentemente das condicées
e circunstancias materiais, inclusive relativas a organizacao e a
consciencia, é impulsionada por uma “esséncia” na direciio de sua
inevitavel emancipacao.
Enquanto 0 “espirito” Viaja pelas regiées etéreas da teoria e
da critica da teoria, o objero, a coisa em si de onde
partiu para
seu V00, continua preso a terra e as prosaicas determina
cées de
sua materialidade concrera. As classes nao esperam
o julgamento
d0 espirito teérico para constituir—se, seja como possibilida
de
revolucionaria, seja como amoldamento reformisra. As
classes
ganham sua materialidade na medida em que os seres huma
nos,
a0 produzirem socialmente sua existéncia, encontram
diante de
si relacées que os dividem e lhes atribuem papéis distin
tos, corno
compradores ou vendedores de forca de trabalho, ou
corno objetos
a serern consumidos na producao do valor, ou como aque
le que
acumulara privadamente o valor excedente dai produzido
. As
“classes” e seus comportamentos se materializam em determ
ina—
das relacées de familia, hierarquias de sexo e idade, e em forma
s
particulates de estruturar a personalidade dos individuos
sociais.
As classes ganham existéncia material quando os individuos
en—
contram um emprego, pois se empregar em busca de um salario
é a (mica maneira de garantir sua existéncia.
Mas, para que um veja no assalariamento a possibilidade de ga—
nhar sua Vida, é necessairio que outro tenha encontrado na compra e

58
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MAURO Lurs IASI

no consumo da forca de trabalho a sua forma de existéncia. O fato


de 03 individuos — esta absrracao com a qual o pensamento liberal
envolve o ser social humano — estarem submetidos a determinacées
de classe é que os levam, em certos mementos, a possibilidade de
agir como classe. Assim corno, inversamente, é a individualiaacfro
do processo social, as relacoes e todo o estilo de sua coex1stenc1a
social, que é a base real para que os seres humanos se vejam pa
estranha forma de capsulas individuais (Elias, 1994, p. 103): 6 mm
a natureza on a diversidade de organismos humanos. ,
acao so
O carater reformista ou revolucionério desta classe em
iio
pode ser determinado por esta acao. Ajuda muito pouco a reflex
nao
sociolégica trocar uma metafisica por outra. O pensamento
ma
pode resolver, em si mesmo, a genese do real. Se este é um proble
para quem acredita em uma esséncia revolucionaria, quase sempre
adormecida, nz’io é menos um problema para quem sustenta um
reformismo ontolégico frequentemente negado pela persisténcia da
resisténcia cotidiana e a eventual emergéncia da luta revolucionaria.
Como os momentos de reformismo (diriamos, 05 de acomo~
dacao cotidiana instzivel para diferenciar da expressiio politica e
evitar juizos valorativos) séio mais comuns do que os atos de ques—
ver
tionamento e as explosées revolucionérias, Gorender parece
se amol—
uma certa eficécia preitica maior naqueles que procuram
es
dar aos limites deste suposto ser reformista do que entre aquel
pensamento
que mantém sua fé na esséncia revolucionziria. Tal
mas,
auxilia o autor no acerto de contas com alguns velhos fantas
tros.
evidenternente mantendo sua preferéncia por urn dos espec
Diz Gorender:
para organizar e liderar
Compreende—se a incapacidade cronica do trotskismo
a suposta
movimentos de massa, dada sua insisténcia dogmética em apelar
se mantém surdo
vocaciio revolucionaria do proletariado. Uma vez que este
ao de seita.
aos apelos, os trorskistas nao conseguem ultrapassar a condic
Trata—se de um caso tfpico de amor nfio correspondido. J51 0s partidos comu-
s
nistas filiados a linha soviética se mostraram intuitivamente mals prox1mo

59
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AS METAMORFOSES DA CONSCIE‘NCIA DE (ILASSIi

da realidade e puderam se adaptar 2‘1 propenséio reformista do proletariado.


Por isso mesmo, em vzirios paiscs, conseguiram se tornar grandes partidos,
com forte apoio da massa operziria e influéncia politica ponderdvel.
Aquelas organizagées que souberam, ainda mais que os partidos
comunistas, se aproximar da realidade concreta dos trabalhadores
concretos e perceberam o quanto, para estes, a Vida terrena tem cada
vez menos sentido, passando, entéo, a pregar a salvagiio da alma pela
adesiio ajesus Cristo Nosso Senhor, conseguiram, por este racioci'nio
de Gorender, massas ainda maiores e influéncia “politica” ainda
mais
ponderz‘ivel, enquanto aqueles que acreditavam que o mundo ia ser
destruido por um meteoro no firm da semana passada so trans
forma-
ram em uma seita ainda menor na segunda-feira, podendo
tornar—se
hegeménicos somente no dia da catéstrofe efetiva.
Este raciocfnio
numérico e de eficécia por correspondéncia com
a realidade 1150 ex-
plica nada, pois por meio dele chegamos
2‘1 conclusz’io 11510 da CfiCéCia
politica dos partidos reformistas sobre o trotskismo,
mas que aqueles
que correspondem i1 ordem costumam ser
mais eficientes no curto
P1320 do (1116 quem prega a ruptura com
a ordem.
cc que estzi por trzis desse argumento de Gorender
é que a
preferéncia reformista” néio pode ser julgada
por um aspecto
metamente moral (ainda que os aspectos mor
ais estejam sempre
envolvidos), mas naquilo que o autor chama
de “a61 em que se
definem as propensées ontolégicas” (Go
render, 1999, p. 221)- Nesse
ni'vel, o fato constrangedor é que as lider
angas reformistas teriam
sido produzidas muito mais pela classe operziria do
que pela agfio
de cooptagéio da burguesia ou de suas diregées traidoras
, servindo
mais £1 classe trabalhadora do que propriamente aos
interesses da
burguesia, O que explicaria por que teriam contado com
“apoio
evidente” da classe proletz’iria. Dal’ a meta’fora do amor niio
cor-
respondido entre os trotskistas e a classe.
O ser da classe, intuitivamente captado pelo reformismo
dos
partidos comunistas, segundo Gorender, teria ainda encontrado
confirmagfio na recente experiéncia do Partido dos Trabalhadores

60
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MAURO LUIS IASI

(PT). Mais uma vez, a classe “concreta dos trabalhadores concretos”


se moveu, e a tradigao de esquerda, ainda que nao diretamente de
origem marxista ou ligada aos partidos comunistas, tentou atribuip
—-lhe uma meta anticapitalista e um horizonte socialista. Para 0 autor,
a trajetéria especifica do PT é a mais pura comprovagao de sua tese.
Vejarnos:
Caracteristica e mesmo tipica tern sido a trajetéria do Partido dos Traba—
lhadores (PT). Sua fundagiio, em 1981, nada teve a ver com os comunistas,
nem com os grupos de esquerda dominados por intelectuais. A fundagiio
se deveu aos sindicatos mais combativos de 8510 Paulo e de alguns outros
Estados, dirigentes das grandes greves de 1978—1980 que abalaram a di-
tadura militar, intelectuais e militantes de Varias tendéncias de esquerda
logo aderiram ao partido, colocando—se sob diregao dos sindicalistas, que o
zou
criaram. N0 Brasil e em outros paises da América Latina, 0 PT simboli
a esperanga na atuagio de um partido que nascia desvinculado dos vicios do
passado esquerdista e trazia o certificado da autenticidade operaria. Nunca
tendo assumido, nos documentos oficiais, compromisso com a doutrina
s,
marxisra, ainda assim integram—se a0 PT diversas organizagées marxista
do
inclusive trotskistas. Durante varios anos as resolugoes programaticas
ta. A
partido nao deixaram de colocar enfaticamente o objetivo socialis
da campa—
combatividade esquerdista do PT comegou a arrefecer a partir
do ABC paulista e
nha presidencial de 1989. A base proletaria industrial
consequéncia
de outros centros industriais sofreu baixas consideraveis, em
o produtiva
das prziticas empresariais de enxugamento, da reestruturaga
estrutural, 0 mo—
6 das politicas governamentais. Cresceu o desemprego
um
vimento grevista fraquejou, e a classe operairia adotou decididamente
eleitorais do PT 0
comportamento defensivo. Ao mesmo tempo, os éxitos
fizeram
inseriram na estrutura legislativa e administrativa do Estado e o
tiva
voltar—se cada vez mais para os eleitores de classe média. A perspec
socialista se apagou, e 0 PT assumiu a feigio e o comportamento moderado
7 Ja
- se o filme tantas VCLCS - 31
- 7 Vlsto.
de um partido social—democrata. Repetlu—

3‘ GORENDER, Jacob. Marxismo mm utopia, cit, p. 228-229.

61
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. 3.7 s7 3.“ is}.
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA [)E CLASSE

O que o autor conclui da reprise deste filme tantas vezes ja


visto? A classe proletéria é ontologicamente reformista, isto é\
nao importa o que tenre a vontade revolucionziria atribuir—lhe, a
classe concreta enconrrara um jeito de assumir sua esséncia reforx
mista contra as intengées socialistas. O ser essencial reformiSta
da classe passou por um breve momento papagueando palavra1
socialistas que certos pequeno—burgueses, cristaos radicalizados
e intelectuais lhes ensinaram para depois abandona-las por pa—~
lavras mais adequadas 1 sua esséncia proletaria reformista. Mas
podemos deduzir coisas muito diferentes dessa trajetoria que
Gorender, como neoempirista mais recente, tao precisamente
descreveu. Vejamos.
N510 seria urn fato, no mfnimo passivel de analise, que um
movimento concreto da classe tenha, a partir de lutas sindicais, se
constitufdo em partido politico? Isto em um momenro historico
no qual a influéncia das correntes marxistas estava quase impossi«
bilitada pela agao prévia da ditadura, e que, portanto, “nada
tinha
a ver com os comunistas” ou qualquer outro doutrinador
de uma
esséncia revolucionéria? Um partido que “nunca assumiu comp
ro«
missos com a doutrina marxisra” e, ainda assim, colocou
“enfatica—
meme 0 objetivo socialista”? Nz'io somente “socialism”, pois
essa é
uma palavra vaga que carrega muitos significados, mas
uma meta
socialista enquadrada por uma critica anticapitalista (um
partido
para “organizar os setores explorados pela sociedade capita
lism” e
que nasce da “decisao dos explorados de lutar contra
um sistema
economico e politico que nao pode resolver os seus proble
mas, pois
so existe para beneficiar uma minoria de privilegiado
s”),32 além da
atualizagao de uma afirmaeao da independéncia e autonomia da
classe trabalhadora (“os trabalhadores querem se organizar como
forea politica auténoma (...) ser uma real expressao political d6
IOdOS

53 Trechos do Manifesto de Fundagao do PT aprovado pelo Movimento Pro-PT em


10/2/1980.

62
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5-,;
31- . '.:
MAURO LUIS IASI

os explorados pelo sistema capitalista”, um partido que “nasce da


vontade de independéncia politica dos trabalhadores”).33
Nz'io seria significativo que esre movimento concreto da classe
trabalhadora tenha arribur’do uma qualidade diferente ao processo
de abertura politica em curso e, no momento subsequente, a en—
trada em cena da classe trabalhadora tenha imprimido urna marca
propria no periodo historico de mais de 20 anos que se inicia com
as greves de 1978 até a eleicfro de Lula em 2002, e isto depois de a
ditadura milirar acreditar que, porter derrotado as forgas revolu—
cionzirias e de 0 capital ter criado urn polo de industrializacao no
ABC, haviam quebrado para sempre a possibilidade de um movi—
rnento de carater contestatério de horizontes socialistas baseado na
classe trabalhadora? N510 é revelador que o impeto anticapitalista
e classista tenha “arrefecido” somente depois de praticas brutais de
reestruturacao produtiva do capital e de politicas governamentais
que empurraram o movimento desta mesma classe para o defensi-
Visrno? Que tipo de “essencia ontological” é esta que precisa da ajuda
do capital e de seu Estado para emergir de onde sempre esteve?.
partrdol
N510 seria no minimo interessante saber por que um
e suas
que surge afirmando que “sua participacéo em eleicées
de organr—
atividades parlarnentares se subordinarz’io ao objetivo
zar as massas exploradas e suas lutas”,34 e que, mais adranre, ern
seu 5° Encontro Nacional (1987), afirmou que, “para extrnguu:
lrsra, e
o capitalismo e iniciar a construcao da sociedade socia
necessario, em primeiro lugar, realizar uma mudanca polltlca
em classe
radical; os trabalhadores precisam transformar—se
o
hegemonica e dominante no poder de Estado, acabando com
dominio politico exercido pela burguesia”;35 por que neste par—

” Mid.
3" Ibid.
*5 “Resolucées do 5" Encontro Nacional do PT.” in: ALMEIDA; VIEIRA; CAN'CEI’J‘JI
(org). Resolugo’es de mcomros e congressos. 8510 Paulo: Fundacfio Perseu Abra mo e Drretor‘0
Nacional do PT, 1998.

63
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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DIE CLASSES

tido a “feicao socialista apagou”, assumindo a moderada feicéo


e comportamento social—democrata?
Uma explicacao possivel é aquela que nos oferece Gorender:
acabou social-democrata e reformista porque sempre foi, porquo
corresponde a0 ser mesmo do proletariado. Resta saber por que:
por um tempo expressou algo distinto de sua “esséncia”. Talvez
mais um acidente. Outra explicacao é que o produto final esconde
0 processo, e, portanto, nao é possivel julgar o movimento pelo
ponto final aonde ele chegou, artificio muito utilizado por toda
sorte de ideologos que querem justificar toda a historia humana
pelo ponto capitalism final no qual se encontra hoje. N510 nos
parece um procedimento adequado.
E verdade que o desfecho social-democrata -— e adiantamos que
essa é uma visao otimista de desfecho, como veremos —— confirma a
possibilidade de amoldamento e conformacao da classe nos limites
da ordem do capital, como ja teorizou detalhadamente Przeworski
(1989). No entanto, nao e’ possivel supor que o momento da criacao
do PT e do particular movimento concreto da classe entre 0 final
da de’cada de 1970 e inicio da década de 1980 é qualitativam
ente
diferente do contexto de sua degeneracao, ou seja, 0 final da
década
de 1980 e os anos 1990? Nz'io é possivel supor que
nesta trajetéria
houve inclusive uma mudanca de composicao e perfi
l de classe
do préprio partido (sem falar da mudanca de perfi
l da prépria
classe)? Nao é possivel supor que a atual form
a “moderadamente
social-democrata” corresponde muito mais a atual
composicao
pequeno—burguesa e burocratica do que propriamente
a origem
de classe proletaria que marcava a identidade prime
ira? O fato
de ser a prépria classe trabalhadora quem fornece seus eleme
ntos
individuais para format as burocracias sindicais e partidz‘irias,
os
dirigentes e representantes parlamentares que irao conformar—se
como a pequena burguesia burocratica nao significa outra coisa
senao o fato de que as classes se constituem pela subordinacao dos
individuos a certas relacoes sociais, Visées de mundo, relacées de

64
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MAURO LUIS IASI

propriedade, posse de recursos materiais ou simbélicos, e nao por


nascimento, o que implica que um membro de uma classe, dife—
rentemente da ordem estamental, pode mudar de classe ao deixar
certas relacées e assumir outras. A sociologia compreensiva costuma
chamar isto de “mobilidade” social; 05 trotskistas, de “traicao de
classe”; amplos setores do PT, de “pragmatismo”; e alguns restritos
setores da ingenuidade militante, de “incrivel genialidade tzitica”.
O risco implicito nesta aproximacfio é culpar a pequena burgue-
sia pela “traiciio” e preservar a classe como ser incélume do espirito
puro da ética revolucionaria. O individuo era revolucionario en-
quanto proletario, mas foi 56 se transformar em um assessor especial
que ganha alguns mil reais para participar de apenas uma reuniao
por més que ficou “meio metido” e com tendéncias a acreditar que
a sociedade de consumo nao é assim tao ruim.
Nao é verdade. A classe proletaria costuma respaldar suas
criacées muito além do periodo de validade. Costuma ser fiel e
leal a suas criacées muito além do que a prudencia aconselharia,
da mesma forma que os pais consideram aceitaveis seus filhos
ainda que niio tenham saido exatamente como desejaram, ou,
ainda, como o pintor inexperiente que assina o quadro e 0 ex—
o
pée orgulhoso na parede de casa, ainda que seu senso estético
alerte de que r1510 é uma obra de arte. A classe trabalhadora tanto
l
se identifica com aquele que luta corajosamente contra 0 capita
como, também, com aquele que vence na Vida e passa a sair nas
revistas sociais que mostram a Vida de nossa “melhor sociedade”.
Isto pelo simples fato de que a classe trabalhadora e 05 individuos
le
que a compoem sao simultaneamente seres da ordem do capita
seres com a porencialidade de confrontar com esta mesma ordem,
nas palavras de Marx, uma classe mz sociedade civil que nao é uma
classe dz: sociedade civil (Marx, 1993, p. 92)-
Naquele “nivel em que se definem as propensées ontolégicas”, a
classe se faz enquanto classe simultaneamente como urn ser do capital
e como sua possibilidade de negacao. Este espaco tern seu centro nas

65

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AS METAMORFOSES DA CONSCIE‘NCIA DIE (JLASSE

relacées do trabalho, mas nao se reduz a elas. Como ja foi afirmado


por Martins, o universo da fabrica, que podemos estender para 0 da
empresa produtiva no geral, é 0 local do trabalho como ato estranhado
e da formacao da consciéncia reificada e fragmentada, nao por acaso
onde predomina a “cz’ipsula individual”. Nestc iimbito o trabalhador so
é coletivo pela mediacao do proprio capital. Nada mais concreto para
a definicfio do ser da classe que este universe de relacées que constitui
a producéo do capital como capital, 6 neste universo os trabalhadores
se convertem em elemento variavel do capital.
No entanto, enganam—se aqueles que veern nesta dimensao as
razoes ultimas da “propensiio ontologica” para o reformismo on
o “consentimento”, nos termos de Przeworski (1989, p. 161 6 ss).
Isto porque o ser da classe, enquanto capital variavel, portanto
mercadoria submetida ao processo dc valorizacao do valor, im—
plica uma contradicao frontal com um outro Ser, digamos assim,
mais essencial, que é o ser humano. Esta na'io é uma contradicao
filoséfica hegeliana ou uma reflexao existencialista sartreana, mas
assume a forma dramatica existencial tanto enquanto objetividade
como percepc‘ao subjetiva, quando muda a composicao organica
do capital em favor do capital constante e 0 capital varizivel que
resta sern ser usado ainda tern aquelas determinacées prosaicamen—
te humanas como corner, vestir—se, ter habitagiio e outros vicios
adquiridos desde a infancia.
Por isso, e néio por nenhuma esséncia, estzi no ser da classe como
fator muito mais marcante que o consentimento a possibilidade
da resisténcia e da luta contra 0 capital. Muito mais marcante
11510 cm razao de ser mais comum sua ocorréncia, critério pelo
qual o hiperempirismo julga os fenomenos, mas pelo fato de que
a condicao reificada (perdoem—nos os entusiastas da harmonia
social, mas o consentirnento sob 0 capital pressupée a condicfio
do coisificacz’io dos sores humanos) pressupée o humano, mas o
humano nao pressupée a reificacao, pelo mesmo motivo que o
trabalho estranhado pressupée o trabalho, mas a aciio criativa dos

66

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MAURO LUIS lASl

seres humanos como mediagz’io de primeira ordem com a natureza


nao pressupoe o estranhamento. Isro quer dizer, de maneira mais
direta, que tinha razao Brecht, naquela imagem depois traduzida
por Torquato Nero, que, se vocé que’r saber qual a diferenga entre
urn ser humano e um boi, coloque os dois na fila do matadouro...
o que resisrir é o ser humano, mesmo que tenha sido o boi.
Nao porque estaria na esséncia humana resistir e néio se sub—
meter. Qualquer historiador pode confirmar que a regra tern sido
submeter—se (talvez a melhor imagem seria submeter-se resistindo),
mas porque em certo momento do processo de submissio a ordem
fica antagénica com a sobrevivéncia do ser que se submete, o que
nao é senao a mediaeao concreta daquilo que Marx chamou de
contradigao entre o avango das forgas produtivas materiais e a
forma das relagoes sociais de produeiio.
Portanto, nao ha contradigao entre o consentimento, de fato
de
aquilo que prevalece na coridianidade, e o comportamento
contestagao. O consentimento presume que, mesmo que de forma
mutilada, o interesse elementar do ser que se submete esreja garan—
rido. O trabalhador vende sua forga de trabalho para viver e, por
esse ato, se torna mercadoria. Entretanto, se a cotidianidade desse
ato nao garantir a Vida, o ser humano subsumido na mercadona
forga de trabalho reaparece. As relaeoes capitalistas de produgao
e, por—
sao uma forma particular de produgao social da existéncia
nhadae
tanto, so rem existéncia efetiva enquanto, ainda que estra
imperlo
fetichizadamente, garanta esta existencia subumana. Todo
nfio serye
cai quando niio consegue manter Vivo seu escravo, e isto
36 para impérios; as relagoes sociais no ambito de sua reprodueao
disc1pl1na
cotidiana, portanro legitimadas pelos mecanismos da
consenti-
consentida, transformam—se de campo pratico—inerte do
memo em base material para rupturas e questionamentos.
Esse depoimento colhido entre aqueles que servirao de base
ao nosso estudo exemplifica de maneira categérica o argumento
apresentado. Vejamos:

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

Quando comegou 0 PT, naquela época eu jzi estava trabalhando. Eu era


passadeira, numa fabrica muito famosa, fiz curso para isto, e 05 caras me
fodiam a Vida. Eu trabalhava pra caramba com um salario desgragado,
era hom’vel, mas eu estava contente, eu era alguém naquele momento.36
Na época a depoente tinha 15 anos e trabalhava das sete da
manha até as dez horas da noite. Como alguém poderia estar
“contente” corn algo que ela mesma descreve corno “horrivel”?
Pelo fato de que era uma fébrica grande (corn cerca de 3 mil fun—
cionarios e 10 andares), porque ela “era alguém” por ter achado
urn emprego — e, como sabemos, 86 se é alguém no capitalismo
quando se vende a0 capital. 0 mesmo “salario desgragado” é des—
crito em outra parte do depoimento como “muito dinheiro” para
uma menina de 15 anos. Portanto, ela estava contente com aquele
horror, pois era so trabalho, era so 0 meio horrivel para conseguir
ser alguém, conseguir que sua “pessoa negra fosse vista (16 outra
maneira”. Para alcangar seus propésitos (ser alguém), ela precis
a
vender—se ao capital; para 0 capital atingir seus objetivos de valo—
rizagao, é necessario compra-la como mercadoria. Eis a base
de
um consentimento instavel. Neste memento, enquanto membro
da classe, ela nao é sequer reformista, é um individuo conte
nte
por ser explorado pelo capital, mas “ta born”, como ela diz, “tern
o que comer, o que vestir, ta born”.
E neste campo que se cruzam duas possibilidades: a do amol-
damento/consentimento e a da agao humana como praxis livre.
E também neste campo que a genericidade encontra a particula—
ridade, na verdade é onde as particularidades empreendem seu
continuo processo de constituigz’io da universalidade. E por isso
que é o campo aberto da praxis, pois é o espago em que a agao dos
seres humanos pode reproduzir as condigées de sua dominagz’io ou
enfrenté—las. No interior deste processo, a classe trabalhadora pode

5 Depormento de Bearrrz (Bra), mlhtante do PT 6 do Orgamenro Participativo do Porto


6 I o a a n

Alegre, colhido em abril de 1999.

68
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MAURO LUIS IASI

se constituir enquanto classe se, e somente se, 03 seres humanos em


contradicz'io com o processo imediato do capital se encontrarem
em certas condicées coletivas para romper o invélucro individual
6 se verem como seres coletivos, desde a mediacao particular do
grupo até a genericidade da classe.
O momento em que um ser humano r1510 se reconhece naquilo
que é sua mediacao fundamental para a vida, mais precisamente
quando o trabalho como atividade fundamental da existéncia se
torna 56 um mero meio de Vida, pode ser vivido como um m0—
mento de desilusiio, crise existencial, revolta, ou ser um importante
instante dc superacao da serialidade que caracteriza o processo
estranhado da praxis cotidiana em direcao a0 ser do grupo.
O ser humano é um ser social, mas, por motivos que apresen—
taremos mais adiante, se Vé como um individuo, ou, nos termos
de Norbert Elias (1994), partilha de uma autoconsciéncia que
percebe a si mesmo e 03 outros como individuos. O trabalho como
meio individual de Vida esconde o fato de que este trabalho segue
sendo atividade social, no caso, capital. 0 set social do trabalho,
cm determinadas circunstéincias, emerge para a percepcao dos SCI‘CS
humanos envolvidos. .
A sequencia do depoimento daquela operaria pode llUStfaf
este movimento:
icacao de sala-
Teve uma ocasiz'io onde os mais antigos fizeram uma reivind
rio, porque nés produziamos muito, eu tinha assim uma producao mons—
o,
truosa, trabalhava sabado se tivesse que trabalhar, trabalhava doming
nao entro
era uma loucura. Entao eu fiquei assim, ba e agora, eu entro ou
junto? E as guria 13 dizendo, ‘néio, tu tem que entrar’, e eu pensava ‘ai, SC
eu entro e perco meu emprego’, ‘tu é nova mas a genre tern que mudar isto
ai, tu ta chegando agora, mas isto aqui é como se fosse uma escravidao’.
eu podia dizcr, cu era
(33) ‘Tu tern que dizer alguma coisa’, mas o que que
da parte das passadeiras de gola, mas en 1150 sei, so acho que ta errado, eu
sinto que alguma coisa ta errada, eu dizia para elas, nao é normal porque
a genre trabalha, trabalha, trabalha e quando a genre vai conferlr... meu

69
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As METAMORFOSES DA CONSCIENCIA m; (21.13551:

deus, cadé o dinheiro... eu acho que eu ganho pouco por tudo quc cu faco.
(...) Fui no embalo e parci também, seja o que Deus quiser.
O ser humano se enfrenta com uma pluralidade dc escolhas
que sao mais que simples alternativas, pois implicam diferentcs
dimensoes do Set. Enquanto individuo, ela rem que pcnsar que
o trabalho é seu meio de Vida, como diz em seu depoimento, “sc-
eu entro e perco meu emprego”, mas o seu Scr é também “parte
das passadeiras de gola”, que partilha conjuntamente a sina dc ter
que dar conta daquela producéio monstruosa. Enquanto indivi—
duo, sentc que tcm alguma coisa crrada pela confrontacao entre
o quanto trabalha e o quanto recebc. Participar da 339530 abre um
espago da praxis livre diante do campo pratico-incrtc, ainda para
“alcancar scu lugar”, mas ja se constituindo como um ser que
vai além de si mesma, iniciando sua participacao no processo dc
formacao da classe.
Podemos ver, neste pcqueno depoimento, que uma pessoa pode
mediar toda a sintese de uma época. Em um curto intervalo de
tempo, ela passou da plena subordinacao cstranhada ao mundo
do capital 3 contestacao, atravessou a tentacz’io dc mudz’i—lo por
reformas (aumento de salarios, no caso) c, depois, tornar—se—ia uma
militante contra o capitalismo, para no fim encontrar novamcnte
pontos institucionais de adequacao. Ela nz’io é, em si mesma, nem
reformista, nem rcvolucionaria, mas seu ser em movimento cxprcssa
com clareza cada um destes momentos.
O que iremos estudar na continuidade destas reflexées sobre
consciéncia dc classe sao exatamente estas mediacées. No mo—
vimento da classe em seu processo de formacao encontraremos
as mediacées nos momentos da constituicao do ser social como
individuo, o momento da serialidade, da realidade das relacées
sociais bascadas na objetividade estranhada 6 na conformacéio das
czipsulas individuais que velam o carater social do scr. Partiremos
para a compreensz’io das circunstéincias em que esta serialidade se
rompe no momento em que a préxis individual 36 defronta com

70
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MAURO Luzs IASI

urn campo przitico-inerte (Sartre, 1979) que delimita as possibi—


lidades e impossibilidades da aeao e no qual ocorre a primeira
negagao por meio do grupo, e como essa mediaeao particular do
grupo pode, em certas situagoes, instituir agées de uma dimensao
social/historica de classe.
Este movimento da serialidade individual ao grupo e do grupo
a classe leva a transformaeéio da praxis livre em processo e 21 insti—
tuieao da aeao humana em objetivaefio, em organizagao e agao de
classe, em consciénCia de classe em si. Este patamar da agao humana
pode conduzir a duas possibilidades: a uma negagao da negagfio
“regressiva”, ou seja, na qual o grupo—organizagao é o espago de uma
nova conformaefio no interior da ordem do capitalismo, levando a
institucionalizagao e 21 volta a serialidade, agora na forma da buro—
cracia; ou uma negagao da negaeao “progressiva”, no sentido de uma
ruptura revolucionziria.
Esta segunda alternativa eleva a praxis livre a possibilidade de
instauraeao de um novo campo pratico—inerte em aberto, porque
indeterminado por uma praxis ainda livre e pela desconstituigao
inicial da ordern institucional objetiva que delimitava o leque d6
eseolhas aberto diante dos seres humanos. Apesar de estar em
de
aberto, este novo campo carrega as determinagoes da materialida
objetiva, fundamentalmenre expresso em certo grau de avanqo das
forgas produtivas, o que vai condicionar o espaeo de liberdade dos
seres humanos em sua construgao histérica.
Neste sentido, o novo produto da agao humana reapresenta
campo
aqui uma nova dualidade de carninhos possiveis: o novo
socio—
pratico—inerte pode constituir—se como superagao efetiva do
metabolismo d0 capital (Mészaros, 2002), mantendo as condigées
de extensao da praxis humana como emancipagio humana; OH 3
nova construgao humana pode nz'io ir além de uma negagao formal
deste sociometabolismo, abrindo caminho para a volta do estra—
nhamento num ciclo de regressividade dentro da progressividade
alcangada. Esta possibilidade nos remete a permanénCia da insti—

71
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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

tucionalizagfio estranhada do Estado, da burocracia e da volta da


serialidade. Neste movimento, a consciéncia sé pode acompanhar
a dialética do ser social, era :21 frente, ora atrzis, mas sempre em
relagfio a0 ser que a abriga.

72
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2
O PROPESSO DE MEDIACAO PARTICULAR E
GENERICO DA CONSCIENCIA DE CLASSE

P4554 2mm 502201.222 por dionte do mim


Epolzz primez'm oez no Universo on reparo
Que as 60750131725 72:20 tém cor nom mooz’mentoC..)2
A cor é qua tom cor 7m: om: do borooiettb
No mooz'morzto do 202201222 (3’ qua o movimento so 772006.37
Fernando Pessoa

Esta mzmdo, 0 772657720 para todos, norzlmm dos domes,


non/mm do: bomens ofi’z; mos em 3' e 222221230 sempro oioo.
acmdendo—so e opagando—so conformo a medido.”
Heraclito

de si uma
Madeira39 saia do quartel cabisbaixo. Trazia dentro
plicavel. Desde
raiva maior que o mundo e uma angfistia inex
do
sempre alguém lhe impunha ordens. Ainda era crianga quan
passando por
saia de casa para a escola e ouViu o zumbido dc bala
o revolver e dizia
sua cabega, seu pai na porta de casa segurava
irar!” Assim foi no
calmamente: c‘niio é nada 11510... (’5 56 pm te alige
Z2
trabalho, ainda adolescente, quando acertou um direto no capata
ndo castigos
no ritmo infernal da fiibrica. No quartel, sempre paga
por nao se dobrar.

dor de rebanhos”, fragmento


3'7 PESSOA, Fernando (Poemas de Alberto Caeiro). “O guarda
de Janeir o: Nova Fronteira, 1980, p. 160.
XL OAS/1914). Euprofimdo o 05 outros om. Rio
nte dc Alexan dria, Tapeqa rias), 1'72: CHAUL
38 HERACLITO. “Fragmentos” (Cleme
1994, p. 68, v. 1.
Marilena. Introdupzio zi' lJz'sro'rz'rz dzzfiiosofitz. Silo Paulo: Brasilicnse,
5" Operario e militante do PT/RS. Depoimento colhido em 2001.

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

Madeira saia do quarrel cabisbaixo quando olhou para a rua


6 Vin ali, desenhada no chao, na rua, uma grande estrela e den-
tro dela duas letras: PT. O que seria aquilo? Depois soube que a
sigla queria dizer: Partido dos Trabalhadores! Dos trabalhadores?
Aquela estrela tinha sido pintada na rua para 616, esperava por ele
passando aquela manha com sua raiva. Foi até a sede do partido e-
disse decidido: “como faz para entrar neste partido?”.
O partido nz'io esperou o processo do consciéncia deste mi—
litante para 36 formar. Ele o encontrou como uma objer
ividade
ja constituida por uma praxis anterior. No entanto,
enquanto
objetividade, o partido foi constitufdo por um certo
momento de
sintese coletiva de uma consciéncia de classe e, porta
nto, de uma
multiplicidade de processos particulares dc cons
ciéncia em um
determinado contexto historico. O partido era cons
trui'do por
militantes enquanto os construfa como milita
ntes. A consciéncia
de classe niio esté apenas na forma coletiva enqu
anro produto ou
em suas representagées institucionais acab
adas, assim como nao
pode se reduzir a manifestaooes individuais
que compéem estas
formas coletivas, mas no movimento em que uma
s se transformam
nas outras. Nesse movimento é que enconrra
mos os momenros
particulares e as formas genéricas em unidade
6 cm luta.
A classe trabalhadora nao existe como absrragao socio
légica, as-
sim como os partidos que esta classe cria e destréi
em seu continuo
processo de formagao. Do mesmo modo que
nao rem existéncia
o universo em si mesmo fora do choque acid
ental e fortuito dos
elementos materiais que o compéem enqu
anto universo. Nada térn
existéncia fora dc seu processo de mediagao, ou seja,
nada adquire
sua concretude fora do ml’iltiplo processo dc suas deter
minagées.
No interior deste movimento de perpétua constituigao e negag
ao
das formas particulates que constituem o todo, este se expressa
tanto nos momentos particulares que conduzem ao todo como
na forma genérica em que os diferentes momentos particulares
produzem suas sfnteses historicas.

74
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MAURO LUIS IASI

0 set da classe trabalhadora nao esta somente no momento


particular de sua expressao coridiana, nern na abstracao sociolégica
de um sujeito historico, mas precisarnente no movimento que leva
de um até outro. Nao esta num operario andando com suas ma-
goas e incertezas pela rua, nem ern sua classe agindo corno sujeito
de um determinado periodo historico por meio dos instrumentos
criados em sua acao. O ser da classe e, portanto, sua consciéncia
estao no movirnento que leva destas trajetorias particulates até
conformacées coletivas, de modo que estas sao constituidas pela
multiplicidade de acées particulates ao mesmo tempo que as acées
particulates sao constituidas por cada patamar coletivo objetivado.
O ser e a consciéncia da classe, portanto, estao mais no processo de
“totalizacao” do que na “totalidade” enquanto produto (seja na for
ma do produto—individuo ou produto—grupo, seja na forma classe),
pois aqui também o produto costuma esconder o processo. Desta
maneira, podemos compreender a famosa afirmacao hegeliana de

que a verdade esta no “todo”, pois para Hegel: “(...) o todo é somen
imento.
to a esséncia que se implementa através de seu desenvolv
resultado”.40
Sobre o absoluto, deve—se dizer que é essencialrnente
é
O todo 11510 é uma coisa (individuo ou sociedade); 0 todo
imento, “rota-
movimento. Enquanto implementacao em desenvolv
vivo em seu processo de constiturr—
lizagéo” (Sartre, 1979), o todo é
parece indicar
—se enquanto todo. O termo “através” (por meio de)
. Ocorre, no
a categoria, central para nossa analise, da mediagéo
de consti—
entanto, que as mediacoes que dao corpo ao processo
me’dio, pois
tuicao do todo nao se apresentam apenas no termo
uma substanc1a
isto implicaria, corno de fato acontece em Hegel,
se reapresenta
essencial que antecede o processo de mediacao e
assirn corno
ao final, “essencialmente” no resultado. Para Marx,
se implementa
para Sartre, nao existe esta esséncia anterior que
na
no movimento. Para eles, nao ha esséncia ou “natureza” huma

4" HEGEL, G. W. F. Fenomenologz'a do aspirin). Petropolis: Vozes, 1997, p- 31-

75

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$4
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSIE

fora daquela que os seres humanos concretamente determinados


produzem em cada periodo de constituicao de seu ser, isto porque,
para estes pensadores, “a existéncia precede a esséncia” (Sartre,
1978, p. 6), de forma que o “homem primeiramente nao é nada”,
“o homem nao é mais que o que ele faz” (ma).
Assim, 0 set e a consciéncia de classe dos trabalhadores tam-
bém seria aquilo que estes trabalhadores produzem como ser e
consciéncia da classe por meio de sua atividade historica, nao
correspondendo a nenhuma esséncia, seja ela revolucionziria ou
reformista. E no movimento vivo da classe que eSta
se move.
Aquilo que encontra mediacfio, seja na praxis individual dos
seres
humanos, seja na praxis coletiva (que podem ir desde grupos
ime—
diatos até acées de classe), é a singularidade que comp
ée a acao
humana diante do mundo na forma de uma inten
cionalidade que
deve agir comprimida por uma materialidade determin
ada. E a
singularidade do ato do trabalho e da atividade que
se mediatiza
nos seres particulates ou nas manifestacées genéricas
.
Isto implica, para nosso tema, considerar os individuos
e suas
trajetérias particulates como mediacées, uma vez que
neles se sin—
tetizam um momento da totalizacao social e histérica.
N0 entanto,
‘neste sentido, a mediacao nao pode ser reputada
como simples
meio”, uma vez que é esta acao dos seres humanos
concretos que
produz, mediante sua atividade, a implementacao em
processo de
seu ser. A 21950 dos seres humanos, enquanto prax
is individual ou
praxis coletiva, produz novas sinteses objetivas
que passam a me-
diar a acao histérica de um ponto de vista gene’rico,
como classe.
Neste sentido, os seres humanos séio, a0 mesm
o tempo, sujeitos
que constituem patamares de objetividade e objet
o conformado
objetivamente pela acéo de outras geracées. Aquilo que
os indivi-
duos ou suas mediacées coletivas representam nao é a expressz'io
de
nenhuma esséncia, é sempre a expressz'io da praxis humana, seja viva
e livre, seja como produto objetivado de praxis humanas anteriores
que servem de base para a acao presente dos seres humanos no

76

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MAURO LUIS IASI

jogo em aberto da histéria. Isto quer dizer que o fazer histérico se


apresenta simultaneamente em dimensées particulates e genéricas,
como momentos de uma totalizaqao, e nao como polos estanques
de uma determinagéio mecéinica ou transcendente.
Marx e Engels (1976) jéi afirmavam que as premissas de sua
analise sempre foram “os individuos reais, a sua agao e suas condl—
goes materiais de existéncia, quer se trate daquelas que encontrou
jzi elaboradas quando de seu aparecimento, quer daquelas que €16
proprio criou” (117127., p. 18). Entretanto, a estes individuos silo
impostas representagées e formas coletivas, igualmente produto
da agao humana prévia, que os moldam 6 moles imprimem de-
terminado carater, transformando-os, além de individuos, em
personificagées dc ordens, estamentos ou classes.
Sc consrderarmos, do ponto de vista filoséfico, o dese
nvolvimento dos
individuos nas condiqées de existéncia cornum das ordens e das classes
que se sucedem historicamente c nas representagées gerais que
por isso
lhes sao impostas, é dc fato possivel imaginar facilmente que Género ou
Homem se desenvolvem nesses individuos ou que eles desenvolvem o
Homem: visz'io imaginaria que traz a histéria sérias afrontas.“
O que isto quer dizer? Isto significa que os seres humanos nz‘io
estiio executando um projeto de uma Providéncia a0 agirem sobre
o mundo, realizando os designios do Género on do Homem, mas
resolvendo suas necessidades diante dos elementos materiais que
encontram disponiveis, o que para Marx (1977) é determinado por
um certo grau de desenvolvimento das chamadas forgas produtiVaS
materiais, e que Sartre (1979) encontra como 0 pano de fundo
onde agem os seres humanos, um “campo pratico-inerte”. 5510
homens e mulheres que os filésofos escrevem em minfisculas e que
prosaicamente preocupam-se com suas mint’isculas necessidades:
alimentar~se, vestir-se, ter moradia. Sé que, ao realizarem estes

4' MARX, Karl; ENGELS, Friedrich/1ideologirmlemri. 3fl ed. 5510 Paulo; Lisboa: Martins
Fontes; Presenga, 1976, v. 1, p. 79.

77

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

atos minusculos, cotidianos, submetidos a urn nomarca egipcio,


ou como meeiro, ou como arrendatzirio capitalista, como escravo,
ou como proletario assalariado, os seres humanos estao produzindo
mais que alimento, utensilios, roupas ou sapatos; estao produzin—
do histéria, estz'io produzindo os diferentes seres particulares que
compéem o género humano. N510 sao a mediacao de um Homem,
mas a mediacao concreta dos homens e mulheres, da humanidade
em movimento. O préprio fato de se apresentarem hoje como
“individuos” ja indica um certo momento do processo social.
Celso Frederico (1978), em seu estudo pioneiro, na busca da
compreensz’io da pratica e da consciencia de classe dos trabalha-
dores, procurava uma abordagem que definisse o “particular (0
grupo) como mediacao do singular (o operario) e 0 universal (a
classe)” (Frederico, 1978, p. 15). Do modo como expomos nosso
problema, os individuos nz’io correspondem propriamente is ca—
tegoria singular, sz'io uma manifestacao particular do ser social
humano, assim como sao formas particulates o grupo e a propri
a
classe. Sfio momentos do processo de totalizaciio no interior do qual
a praxis humana se converte em sociedade. Ocorre que algumas
destas formas particulates se aproximam mais ou menos do ser
universal, a humanidade. Numa escala, poderiamos
dizer que o
individuo é a forma particular que mais se distancia do universal
(por isso dificilmente seria urn juizo singular), pois fragmenta e
obscurece o caraiter social do ser. 0 grupo revela o ser social, mas
de maneira ainda incompleta e particularizada, enquanto a classe
é a forma particular que melhor evidencia o ser social; contudo,
enquanto classe, so pode se fundir com a genericidade do humano
em periodos histéricos especificos, ou seja, revolucionarios.
Além disso, o singular, do ponto de vista conceitual, é sempre
abstrato, assim como 0 universal, ao passo que o individuo é, em
sua concretude, tudo, menos abstrato. O individuo é uma ma—
nifestacz'io particular do ser social humano. Nao é por acaso que
a prépria palavra “individuo” seja de uso recente e associada a0

78

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MAURO LUIS 1A5]

processo de individualizacéo que se confunde com a emergéncia


da sociedade capitalista (séculos XIV—XVIII) (Elias, 1993, 1994 e
1996). O ser social, uma espécie singular de ser vivo que estabelece
certas relacées sociais de produciio, necesszirias e independentes de
sua vontade, dentro de certas condicoes materiais para produzir sua
existéncia, é o ponto de partida abstrato e geral que encontramos
mediatizado por formas particulares como cépsulas individuais
que se julgam auténomas, on em momentos de fusio coletiva em
grupos, ou acoes coletivas de abrangéncia econémica imediata ou
mais amplamente histérica na forma de classes sociais.
Na viséo marxiana, niio é uma essé‘ncizz que se manifesta nas
diferentes formas particulates ern que os individuos personificam
suas relacoes coletivas, pois, segundo Marx e Engels, “os individuos
partiram sempre de si mesmos, n’ao certamente do individuo ‘puro’
no sentido dos ideologos, mas de si mesmos no fimbito das suas
condicées e das suas relacoes histéricas dadas” (Marx e Engels,
ento
1976, V. 1, p. 80). Ocorre que, no interior do desenvolvim
histérico e de uma certa divisao social do trabalho, se acaba por
produzir uma diferenca entre essa forma individual ou pessoal C
autores
essas personificacoes coletivas. Vejamos nas palavras dos
de A ideologitz alemz’i:
ico, e precisamente pela
Verifica—se no decurso do desenvolvimento histér
avel da divisfio
independéncia que adquirem as relacées sociais, fruto inevit
Vida de cada individuo, na
do trabalho, que existe uma difercnca entre a
a 21 um qualquer
medida em que é pessoal, e a sua Vida enquanto subordinad
ramo do trabalho e is condicées inerentes a esse ramo.42 . .
capitalls—
1330 115.0 quer dizer, alertam os autores, que, enquanto
s burgueses
ta, urn burgués deixe de ser uma pessoa (embora algun
lhe impoe
se empenhem muito para isso), mas que o seu ser coletivo
s classes.
uma personalidade que se manifesta por oposicfio a outra
Antonio é so uma pessoa simpzitica e afz’ivel, com uma personall—

43 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia aiemri", cit, p. 80.

79
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Her-i
As METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

dade forte que traz as marcas da personalidade de seus pais e de


seu temPO; mas diante de seus empregados é Antonio Ermirio de
Moraes, personificaefio do capitalista, e sua personalidade consiste
em 38f valor que quer se valorizar. Nao é mais uma pessoa, e’ algo
impessoal: agora ele é 0 Capital. Estas personificagées de classe
niio seriam estagios pelos quais a esséncia humana encon
trou sua
mediagao, nem expressoes de uma “natureza”, mas
momentos nos
quais os seres humanos se construiam como seres huma
nos. Estes
momentos trazem em si uma unidade que nos interessa:
a unidade
entre a aeao dos individuos enquanto pessoas e enquanto
personifica—
eées cle relagées de classe, assim como um fimb
ito de agao particular,
como individuos ou grupo de individuos, e um
outro em que esta
agao se materializa em formas coletivas
que agem em Home (108
individuos. Veremos mais adiante que a
propria polarizagflo entre
o envoltorio individual e o ser coletiv
o é o tipico produto d6 110333
éPOCa, mas é muito difi’cil imaginar este “individu
o” com0 um “eu
destituido de nos” (Elias, 19
94, p. 9).
Para Hegel, diferentemente, ha uma esséncia, o
Espirito Huma—
no, que se expressa por meio de suas diferent
es agées particulates,
podendo se reencontrar a0 final no obje
to. Nés, simples mortais
destituidos de espirito, poderiamos objetar
que, se a esséncia do
homem se expressa nas suas agées e produtos
, evidente que nfio
haveria dificuldade alguma de “reencontra-la”
ao final, pois seria
um encontro de algo que sempre esteve ali. A complica
gao toda estzi
no fato de que o processo de exteriorz'zagio leva
a0 de objetz'wzgt'io,
ou, de maneira mais simples, a inteneao subjetiva
Vita um objeto
e, enquanto tal, ganha Vida pré
pria.
Eu, precisando descansar minhas pernas, penso em
transformar
algumas madeiras em cadeira e assim procedo corn
meus parcos
conhecimentos de marcenaria. Enquanto projeto, era parte
de mim
e de minha humanidade, mas agora, como objeto, é algo
que niio
sou eu. Como no ato direto descrito trata—se de uma so pessoa e
uma so cadeira, eu precisaria estar passando por uma séria psicose

80

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MAURO LUIS IASI

amnésica para olhar para o objeto que acabei de fazer e perguntar


assombrado: nossa... o que é isto? Mas, se considerarmos o conjunto
dos seres humanos e inseri—los numa dimensiio temporal, é possivel
que o objeto, seja ele prosaicamente uma cadeira ou urn conjunto
complexo de relacées sociais, ganhe autonomia em relacéo ao ser que
o criou, de forma que um outro ser humano pode olhar para o objeto
sem saber do que se trata, ou niio perceber pOI‘ triis dc sua aparéncia
fenoménica a humanidade ou intencionalidade que o fundamenta.
0 set humano r1510 6 apenas um ser—fazedor—de-cadeiras, esta é
apenas uma faceta particular de seu carziter. Ele faz também mesas,
arte, guerras mundiais, poesias, filosofias, sofisticados aparatos de
exterminio em massa, refrigerantes de diversos sabores; portanto,
Hegel afirma que a acéo particular 56 pode expressar uma parte
do todo que seria a esséncia do ser humano. Aquilo que estaria
expresso ora como um senhor feudal, ora como aristocracia escra—
Vista, ora como burgués, era, para o filésofo aleméio, o Homem.
Como era uma esséncia prévia, é possfvel que uma das formas
particulates reencontre esta origem. Para Hegel, este reencontro
se aproximava da era do dominio burgués, seu Estado nacional e
sua forma particular de ser humano: o individuo.
Este reencontro do sujeito com o objeto, ainda segundo Hegel,
so poderia ocorrer na dimenséo genérica, pois os seres humanos
particulates estéio sempre presos a um dos momentos, o que pre—
judica a percepcéo do todo. Como exemplo, ele gostava' muito da
metéfora do bosque e das érvores:
Primeiramente queremos ter uma visio total de um bosque, para dePOES
conhecer demoradamente cada uma das :irvores. Quem considt‘il‘i1 33
zirvores primeiro e somente esté pendente delas 1150 se dé conta de todo o
bosque, se perde e se desnorteia dentro dele.43 _
Como sabemos, o eminente filésofo alemz'io r1510 estava minis—
trando um curso sobre nocées elementares de sobrevivéncia em

“‘5 HEGEL, G. W. F. Introdupzio it bixrdrz'a dafiiosofizz. 85.0 Paulo: Hemus, 1983, p- 25-

81
N.N__ _-; NNNN NNN NNNNN NN EEQE _ : .ENNNNVN._N.NNN N _..N. .N _N EEL'E ENEEEE
E“. ENZEINE
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Er-"uE'E EEE-‘E.E-EEE..EEE EEEEEE-EE E3; EEE EENEEEENEEEEEEEEEEE.
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

bosques, é uma meta’ifora. Para 0 tema especifico que estudava, a


histéria da filosofia, o bosque era “A” filosofia, enquanto as arvores
eram “AS” filosofias. Mas como seria possivel esta visao inicial do
bosque—filosofia fora das expressoes concretas que constituem o
ato préprio de pensar em busca do conhecimento e da Verdade?
Aqui se apresenta um aparente paradoxo, pois foi o proprio Hegel
que nos disse que o “todo” era somente o processo pelo qual a
esséncia se implementa por meio de seu desenvolvimento. Pare—
ceria, entiio, justificado olhar para as arvores-filosofias, que siio o
momento mesmo da mediaeao, e nao o bosque—absoluto, que é
essencialmente resultado. Para reforgar este paradoxo, vejamos a
énfase que Hegel coloca nesta relagao do pensamento como 4940
mediada que produz a filosofia:
O pensamento é ativo somente enquanto se produz. Ele se produz através
desta sua prépria atividade. O pensamento nao é imediato. Existe somente
enquanto se produz a si mesmo. O que ele assim produz é a filosofia.‘M
Tratando—se de nosso tema, poderfamos dizer que a humani-
dade nao é “imediata”, mas se produz por meio de sua atividade
humana, existe somente enquanto se produz a si mesma.
Entao, o juizo singular é um verdadeiro paradoxo! Como pode
existir um ponto de partida anterior e externo a este processo de
mediagéio? Para Hegel, pode e é o que explica o proprio processo.
Conhecer o mundo e buscar a Verdade é um atributo da R4240, e
esta, uma expressao do Espirito do Mundo (Hegel, 1983, p. 23);
as diferentes filosofias sao apenas a manifestagfio, mediagao, desta
busca incessante do espirito. O espirito inicial é uno, assim como
seu resultado, mas as mediaeées sao mt’rltiplas. A filosofia como
juizo singular, o ato singular de 0 espirito procurar a verdade por
meio da razao, se mediatiza mediante as ml’iltiplas formas concretas
de alcangar esta verdade (as filosofias), e o produto deste processo
tornado em conjunto 6': A Filosofia (também una). Aquele que ten-

“ HEGEL, G. W. F. Introdugio (it bisto'rz'd dafilosofia, cit” p. 11.

82
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MAURO LUIS IASI

tasse conhecer a filosofia pelas filosofias, “por culpa das arvores, nao
veria o bosque (...) por culpa das filosofias, nao chegaria a filosofia”
(Hegel, 1983, p. 25); no nosso caso, por culpa dos seres humanos
particulares niio encontraria a Humanidade.
A dialética hegeliana, entéio, equaciona este problema arti—
culando de maneira bastante criativa os juizos do singular, dos
particulares e do universal.45 O singular é um juizo abstrato e so—
mente se eleva ao universal pelas mediacoes particulates, enquanto
0 universal, como sintese de multiplas particularidades, unidade
do diverso, torna-se um novo ponto de partida singular em busca
de novas particularidades, tornando, assim, infinito o movirnento
do conhecimento.
O bosque inicial (a primeira visfio toral do bosque) é o juizo
singular, e, portanto, tiio uno quanto abstrato, que nos afirma
que urna singular disposicao de arvores, com uma relacao prépria
entre zirvores, fungos, plantas e animais, merece uma denominacao
que o distinga de outros fenomenos singulares, como as grandes
florestas tropicais, o jardim la de casa ou urn bonsai. Sabendo do
juizo singular de bosque, posso me debrucar demoradamente so—
bre esras arvores particulates, este tipo particular de fungo, pOSSO
compreendé—lo como manifestacao particular do juizo singular—
—universal de bosque. E por esse procedimento que eu posso erguer
um novo juizo universal; novo porque constituido por novas par—
ticularidades, em que o ser do bosque agora atualizado seja uma
pequena ilha verde cercada pela civilizacéio de plastico C COHCFetO
por todos os lados e objeto de cobica da especulacao imobiliéfia-
Para Hegel, nao seria provavel uma mudanca tao abrupta de
qualidade no juizo universal, uma vez que, tratandoflse de uma
esséncia imutzivel, o Espirito do Mundo, ele deveria permanecer

”‘5 Para uma visao mais abrangente e precisa da diferenca da abordagem de Kant, Hegel e
Marx sobre estes juizos e categorias da dialética, ver Lukacs (1978) ~ Introdumog uma
estéticzz mzzrxz'sm, principalmente o capitulo II, “A tentativa de solucao de Hegel .

83

2222,2222: 2:2 2222222


222:2 223-222-2222,} 2 222222 2'2 2222
2:5: 22:22 2
2 22:22.2,
22 ““222 22222 2"“:
2221322222222
2 2s :22; 22 2:2 2.2.22 22222
“222 2222:2222 {22.222.222.222 222-2232 isms-2:2 222-222 222.2 2222.22222- 22 22,222 1222222§22222§ 2:2:
As METAMORFOSES DA CONSCIE‘NCIA DE CLASSE

em identidade no seu ser—Ourro. Assim, apesar da multiplicidade


de filosofias, persistiria a filosofia. Acompanhando Schiller ao per-
guntar qual filosofia permaneceria entre tantas, ainda poderia dizer:
“a0 sei, porém a filosofia, espero eu, deve existir eternamente”.
Como sabemos, o entusiasmo de Hegel diante desta consta-
tagz’io sobre o bosque—absoluto levou-o a acreditar que, além
d6 0
pensamento produzir a si mesmo por meio de sua ativid
adeE €16
era capaz de produzir a propria realidade. Como o juizo singular é
uma ideia, mais precisamente um conceito, gera—se a ilusao de
que
uma ideia é que se fez materializar em diversas particularidades.
Passou a conceber 0 “real como resultado do pensamen
to, que se
concentra em si mesmo, se aprofunda em si mesmo e se movi
menta
em 31 mesmo” (Marx, [1859]197
7, p. 219).
. Ora, rnas neste caso, paradoxal seria o marxismo
propor um
JUfZO Singular! N210 exatamente, pois Marx dira que este seria
apenas 0 processo pelo qual o pensarnento busca se aproprial’ d0
tea , mas “niio e de modo nenhum o processo de génese
do proprio
concrete” (1.51.616). Os adeptos apressados do materialismo esquecem
que nesta discordancia entre Marx e Hegel hz’i uma
grande confor—
midade, especificamente com a acei
ragiio de que esta é, d6 fato, a
forma de 0 pensamento se apropriar do real, o que de
resto explica
0 porqué de a teoria do conhecimento em Marx ser a dialé
tica
hegeliana; enquanto os criticos modernos do marxismo insistem
que esta concordiincia, obliterada pelos marxistas mec
anicos, revela
rnuito mais que urn espaeo comum na teoria do conhecim
ento e
deduzem interessantes conclusoes sobre um suposto hegelianism
o
mal resolvido em Marx que o faria substituir sem maiores conse—
quéncias o Espirito Absoluto pelo Proletariad
o (Gorz, 1987: P- 303
Gorender, 1999, p. 33).
Isto quer dizer concretamente que Marx, e 03 marxistas de—
pois dele, teriam atribufdo urn sentido 2‘1 Historia, um sentido
transcendental, que independe dos prosaicos seres humanos. O
Sujeito da Historia (parece que quando os autores escrevem em

84

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6 ’EZV‘EY‘ME‘
MAURO LUIS IASI

maifisculas querern indicar a dimensao Universal do termo, livre


de seus inconvenientes particulates; assim, posso falar no des—
tino majestoso do Homem sem levar em consideracao algumas
trapalhadas que o homem concreto tern feito) ficaria igualmente
transcendente, de modo que o Proletariado e sua Missao seriam
algo qualitativamente diverso de um proletario pensando em que
fazer para pagar as contas do més.
Abre—se aqui urn abismo que muitos galées de tinta tentariam
preencher. Existiria uma diferenca essencial e nao redutivel entre a
classe trabalhadora, enquanto sujeito histérico coletivo, e cada um
dos trabalhadores tomados em sua individualidade, pois a classe
so pode ganhar sua materialidade por meio dos corpos concretos
daqueles que a constituem. Os que olham a classe ern rnovimento
na dimensao hisrorica, as revolucées dos séculos XIX e XX, nos
anunciam a inteligibilidade de um processo em que as contradicées
entre as forcas produtivas materiais e as relacées sociais de produ-
céio encontram sua expressao subjetiva numa classe que representa
uma alternativa societaria para além do capital. Os que observam
OS “proletarios concretos, concretamente existentes”, nos trazem o
retrato de um amoldamenro a ordem do capital, de um reformismo
atavico, de uma disputa individual de projetos individuais due faz
do liberalismo darwinista seu principal quadro de referenc1a.
Caso pudéssemos observar esta polémica de fora, poderiamos
chegar a conclusao 1nquietante de que ambos tern razao. E verdade
que as classes tém uma existéncia objetiva e podem, e ern cer’tas
condicoes assim o fizeram, constituir—se enquanto sujeitos hlstor1—
cos. Assim corno é perfeitamente comprovavel empiricamente que
os individuos desta classe 1150 se comportam o tempo todo como
sujeitos historicos. Permanecem boa parte do tempo submersos em
problemas relativos a sua sobrevivéncia, ou simplesmente distraidos
corn pequenas alegrias, grandes prazeres ou angfistias existenciais.
E perfeitamente provavel que diante do futuro emancipado, da
livre associacao dos produtores, um proletario prefira a parte dele

85

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

em dinheiro e agora. Mas esta afirmacao niio faz sentido e nao


nos auxilia em nada. Qualquer crianca sabe que uma zirvore nao
é um bosque, e mesmo o botanico mais desatento nao costuma
confundir um bosque com uma arvore. A questao nao é se existe
uma diferenca entre o todo e as partes, entre a forma individual do
ser social como uma pessoa e seu ser coletivo de classe, mas qual a
relacao, se 6: que existe uma relacao, entre a praxis individual e as
manifestacées coletivas que se produzem em sociedade e que ga—
nham autonomia em relacao aos individuos que as criaram. Como
a praxis coletiva é a interacao de diversas subjetividades, seria ela,
corno produto, inevitavelmente marcada pela intencionalidade
dos diversos agentes individuais? Em caso afirmativo, por que,
entao, o produto costuma se apresentar tao distante das intencées
daqueles que o criaram?
Alguns pensadores que fazem do individuo o sujeito da acao
social, que de uma forma ou de outra se aproximam da sociologia
compreensiva de Weber, passam a buscar a inteligibilidade dos
processos e da acao social como derivados, em ultima instancia,
das praticas individuais. Para estes nao existe propriamente um
“sujeito coletivo” como as classes, apenas que a przitica individual
pode manifestar—se em maior ou menor medida como przitica de
conjuntos, mais ou menos homogéneos, de individuos, acreditando
que, bem analisadas as coisas, é sempre possivel derivar das ma—
nifestacées coletivas o substrato original de acoes individuais. De
certo modo, isto se apresenta também na leitura fenomenolégica
existencialista de Sartre.46 ]a para outros pensadores, entre os quais
se incluem alguns marxistas e quase a totalidade dos funcionalistas
durkheimianos, seria um fato inegz’tvel que certas estruturas sociais
ganham uma objetividade independente dos seres humanos, mol—
dam seus comportamentos e definem a forma de sua acao.

”‘6 “A {mica realidade przitica e dialética, 0 motor de tudo, é a acfio individual” (Sartre,
1979 (v. I), p. 465).

86
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MAURO LUIS IASI

Enquanto os primeiros tém a seu favor o fato de que ninguém


nunca encontrou uma instituieiio que nao tenha sido criada por
seres humanos, os segundos podem argumentar que é igualmente
muito difi’cil encontrar um ser humano que nao tenha sido previa—
mente moldado como tal por uma ou outra instituigao.
Para pensadores que fazem de seu método os elementos fun-
damentais da dialética, o que inclui Hegel, Marx, Sartre e outros,
a coisa néio é tfio simples, pois devem se perguntar sobre o papel
que cada polo tem no sistema geral de contradigées e sempre ter
em mente que um aspecto é ao mesmo tempo seu oposto e que em
certos momentos uma coisa pode se transformar no seu contrario.
Assim, a dicotomia mecz’inica individuo—sociedade niio faz muito
sentido, pois estes formam uma unidade dialética.
Como ja afirmou Elias (1994), aparentemente sabemos mui—
to bem o que queremos dizer quando falamos em sociedade e
individuos, assim como sabemos que um termo diz respeito a
um conjunto e ourro as unidades deste conjunto, mas, quando
nos perguntamos se e’ o conjunto que determina as partes, ou, ao
contrario, 3510 as partes que dao existencia e sentido ao conjunto2
o pensamento humano se enreda numa polemica apamntemeflte
insolt’ivel.47 I
Vejamos de maneira mais profunda este problema. Para Elias,
partindo da constatagao elementar de que costumamos definil’ a
sociedade como c‘todos nos”, ou “uma porgao de pessoas juntaS”,
observamos que essa forma coletiva assume diferentes feigoes
caso a desloquemos no espago (America, Asia on Africa) on no
tempo (a sociedacle do século XVI e a do século XX) e nos depa—
ramos com o fato de que as formas de Vida em comum mudam.
Parece evidente, segundo a posigao do autor, que “a mudancga de
uma forma de Vida em comum para outra nao foi planejada por

”‘7 Este foi um dos eixos de meu estudo passado, por ocasiz'lo do mestrado, que se encontra
publicado no livro jzi citado O dffema dc Hdmiet: a ser (3 a mic ser dd corzsczencm.

87
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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSF.

nenhum destes individuos” (Elias, 1996, p. 13) que compunham


uma sociedade. Diz o autor:
Pelo menos, é impossivel constatarmos que qualquer pessoa dos séculos
XII ou mesmo XVI tenha conscientemente planejado o desenvolvimento
da sociedade industrial dos nossos dias. Que tipo de formagio é essa,
esta ‘sociedade’ que compomos em conjunto, que nfto foi pretendida
ou planejada por nenhum de nos, nem tampouco por todos n63 juntos?
Ela so existe porque existe um grande nfimero de pessoas, so continua a
funcionar porque muitas pessoas, isoladamente, querem e fazem certas
coisas, e, no entanto, sua estrutura e suas grandes transformaqées histéricas
independem, claramente, das intengées de qualquer pessoa em particular.48
0 paradoxo que Elias atualiza e’ o centro de nosso tema. Os
defensores do individuo como sujeito da agéo social resistem ao
fato de que a agz'io dos individuos, quando observada no conq‘IIO,
produz algo que volta como estranho aos seus produtores, ainda
que seja exatamente esta a conclusfio de Weber corn seu raciocinio a
respeito da disciplina e da burocracia como formas de agiio social49
e a de Sartre, sobre o que chamou de “objetivagz’io alienadora de
fins realmente perseguidos” (Sartre, 1979 [V 1], p. 129). Na ver-
dade, aqui se reapresenta uma velha afirmagz’io dos gregos, que é
partilhada pelos pensadores dialéticos e pelos adeptos da psicologia
gesta’ltica, segundo a qual o todo 11510 e a simples soma das partes.
Engels [1890] parece ter indicado este fenémeno quando
afirmou que:
A histéria faz—se de tal modo que o resultado final decorre sempre dos
conflitos que se estabelecem entre muitas vontades individuais, cada
uma das quais é o resultado de uma multidio de condigées de existéncia
particulares. E, pois, de um conjunto inumerével de forgas que se entreu
cruzam, de um grupo infinito de paralelogramos de forgas que diio ern
consequencra uma resultante — o acontecimento histérico — que, p0r sua
A c

4” ELIAS, Norbert. A sociedade do: indz'w’duos. Rio de Janeiro: Zahar, 1994, P- 13-
’” WEBER, Max. Enmz'or de sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

88
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MAURO LUIS IASI

vez, pode ser encarado como produto de uma forca finica, que, como um
todo, atua incomcz'erzte e involuntariamente. Pois o que um deseja tropeca
com a resisténcia oposta do outro, e o resultado de tudo isto é algo que
ninguém desejava.50
O problema aparentemente implicito nesta Visio é a com—
binacio de uma aciio motivada por interesses e orientada por
valores, o que encontraria a mais resoluta concordfincia com os
pensadores weberianos, com um rodo resultante desta aciio que
atuaria como umaforgcz 22mm inconsciente e involuntariamente.
Todo o esforco da sociologia compreensiva e de captar o sentido
da acéo social, ou, nos termos sartreanos, a inteligz’bilz’dade. Pa—
rece que poderiamos encontrar esta relacio de sentido, ou esta
inteligibilidade, no memento em que atuam os individuos, mas
o produto é algo sem finalidade consciente. As pessoas atuam em
sua cotidianidade e juram que seus atos tern um sentido, alizis, via
de regra, bem simples de ser explicado, mas o produto da 3930 do
conjunto dos individuos emerge como algo sem finalidade.‘ Para
enfrentar o paradoxo, alguns propéem estender a inteligibihdade
da acéio individual :10 todo; outros, negar a intencionalidade dOS
individuos moldados por um todo externo a eles; outros alnda
preferem abolir qualquer inteligibilidade e assumir o acaso. Todas
estas iniciativas indicam uma certa dificuldade em compreendfil‘
estas duas manifestacées opostas: a acéo intencional dos Indiw—
duos e a formacio de um todo que se autonomiza destas intencoes,
e mais, aparece como um produto estranho e hostil. De planos
emergindo, mas nz'io planejada. . A .
Elias dzi um tom todo especial e provocativo a esta ex1stenc1a
néio finalista. Vejamos:
Considerados num nivel mais profundo, tanto individuos quanto a so—
ciedade conjuntamente formada por eles sz‘io igualmente desprowdos de

5" ENGELS, Friedrich. Carm de Engels a Bloc/J (21/22 de setembro de 1890)- Obms “‘0‘
Midas. v. 3, p. 284.

8‘)
N... . . N .. __N.__.7.. WNW. N. ..N._ _N... .. ... . N .3... 4.... m...“.
3.3%;miss§§-%§:§§-§..E€:E ii isfié‘aié ifirfi‘r i @3513... i3 {3*};3‘7. iii {32$ ‘2 Eggs-.3533}
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AS METAMOIIFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

objetivo. Nenhum dos dois existe sem o outro. Antes de tudo, na verdade,
eles simplesmente existem o individuo na companhia dc outros, a socie-

-
dade como uma sociedade de individuos —— de um modo tfio desprovido
de objetivo quanto as estrelas que, juntas, formam um sistema solar, ou
sistemas solares que formam a Via Lactea. E essa existéncia nz'io finalista
dos individuos em sociedade é 0 material, 0 tecido basico em que as pes-
soas entremeiam as imagens variziveis de seus objetivos. Pois as pessoas
estabelecem para si diferentes objetivos de um caso para 0mm: C 11510 hi
outros objetivos senao es que elas estabelecem.51
Ha uma grande proximidade entre esta-Visao e a afirmagiio de
Sartre a respeito da determinagao da existéncia sobre a esséncia.
Quando nos referimos a inteligibilidade e sentido, estamos falando,
entao, niio de um sentido do processo em si mesmo, mas daquele
que os seres humanos sobre este fundo, esre “tecido basico”, cons-
troem. N510 por acaso hzi aqui, também, uma coincidéncia com a
relagao figura—fundo da Gestalt. As relagées de sentido seriam a
figura (nos termos de Sartre, as agées significantes) e o processo
concreto e sem finalidade que constitui a sociedade, o fundo em
que estas significagées séio construidas.
Perls (1976), um dos expoentes da psicologia gestaltica, dizia
que 0 “N65 nao existe, mas é composto de Eu e Tu; é uma fronteira
sempre movel onde duas pessoas se encontram”?2 Em principio
:udo bem, mas ha, analisando um pouco mais profundamente,
um exagero aqui. Existe um diferente grau de materialidade entre
0 Nos e 0 Eu on 0 Tu; é evidente que estes liltirnos 3510 de uma
manlfestagao empirica concreta corn muito mais densidade. Para
0.pr0cedimento przitico da pesquisa, elemento essencial para o
hiperernpirismo em que estamos envolvidos, é sempre mais facil
encontrar 0 Tu que 0 N63 para entrevistar. No entanro, levado
ao exagero, o raciocinio de Perls nao atribui uma materialidade

5‘ ELIAS, Norbert. A sociedade dos indiw’duos, at, p. 18.


52 PERLS, Frederick S. Gestalt tempy verbatim (Gestalt tempt}:
exp/iatdtt)- 550 Paulo:
Summus, 1976, P- 9-

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MAURO LUIS IASI

diferente a dimensao do Nés, mas a abole. Seria como se alguém


dissesse que niio existe a zigua, mas somente o oxigénio e 0 hi—
drogénio. Nao é um procedimento pratico aconselhavel pedir a
alguém que se afoga para manter a calma e respirar primeiro todas
as moléculas do oxigénio. 0 Nos nao é apenas uma “fronteira”,
pode adquirir uma densidade t'ao ou mais material, ainda que
nao papavel, do que 0 Eu ou 0 Tu — inclusive, como é o caso do
nosso estudo, acabar por subordinafllos.
A molécula Trabalho encontra—se com a molécula Capital 6:
produzem 0 set do Capital. Certo, considerado abstratamente, 0
set do Capital niio tem existéncia fora das relagées que o compéem,
portanto das relaoées entre as personificagées do capitalista e do
trabalhador assalariado, mas seria um tanto exagerado dizer que
0 Capital r1510 existe, ou que é apenas a fronteira, o encontro. 0
Capital é espesso, “como todo real é espesso”, como diria Joz'io
Cabral de Melo Nero (1979).
O poeta pernambucano nos apresenta em seu conhecido poe—
ma uma gradagao interessante sobre este assunto do 561' espesso.
Vejamos este fragmento:
Espesso
como uma magi é espessa.
Como uma magi
é muito mais espessa
so um homem a come
do que 36 um homem a vé.
Como é ainda mais espessa
so a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
36 I150 a pode comer
a form: que a Vé.”

53 MELO NETO, Joao Cabral dc. P085id5 complems (1940-1965l- Rio de Janeiro: 10363
Olympio, 1979, p. 317.

91
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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

Parece que as coisas vao ganhando espessura maior, na


imagem poética, quanto mais se aproximam do humane e da
necessidade humana. Evidente que o “sangue de um homem é
mais espesso que o sonho de um homem”, mas aqui se trata da
materialidade palpavel. A maca é mais espessa se um homem a
come do que se ele apenas a observa pelo mesmo metive; porém,
ela ganha ainda mais densidade quando aquele que olha tern £01116
e nae pode comé—la. Esta densidade é de uma natureza diferente,
é relativa ao universe nae palpavel, mas nae menes concrete e
objetivo, das relacées.
O conjunto das relacées que formam uma sociedade é tiio eu
mais concrete, neste segundo sentido, do que es seres que a pro—
duzem. Per isso, come vimos, Marx chega a afirmar que abolindo
tais relacées abolir—se—ia a propria sociedade. Clare que nada mais
objetivo e concrete que os seres de carne e 0530, mas as relacées
per eles criadas ganham seus 03305 e sua came, de tal forma que,
dlante da crise, por exemplo, 0 capital nae hesita em sacrificar
21 came dos homens para salvar 05 05503 do Capital. Assim, este
produto dos seres humanos, que chamamos sociedade, é muito
mars que um simples pane de fundo em que as pessoas costuram
suas relacées de significade.
.Elias esta cerreto em afirmar este caréter nae finalista da ferma
soc1al contra aqueles que querem atribuir, na verdade estender,
a
inteligibilidade individual ao corpo social. Contudo, esta existén—
cia nae finalista que parece aos seres humanos tile natural quanto
a coexrsténcia no espaco das estrelas e planetas, objetivamente
sem nenhuma finalidade, é ainda um produto humane. Caberia
perguntar: por que es seres humanos olham para o seu proprio
produto come alge “sem sentido”? Talvez pelo fate do que é hu-
mane aparecer come um produto nae humane; mais que isto,
inumano, estranhade. Como é possivel que desempenhe algum
papel ativo esta “objetivacao alienante de fins realmente persegui—
dos” (Sartre, 1979)?

92
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Efiiaeeee"iE-Eeefimiejfi E: eweefie efie E Me ea-seEeEefie efiefi-ete- Eeeeee-.%e$eaae ei-fie em Ema-ere e-efie- EeEEEeE- Ea Eaeee Zeeeeiefiea-eeeé arse.
MAURO LUIS 1A5]

Entendendo desta maneira, podemos nos livrar da dicotornia


que ora afirma um sentido, ora uma total falta de inteligibilidade.
Esta dualidade, racionalidade—irracional, é perfeitamente coerente
com a forma “sociometabélica” que assume nossa sociedade con—
temporanea. Ela é, ao mesmo tempo, um produto humano que se
apresenta estranhado e incontrolz’ivel. Esta é a sociedade do Capital.
Como afirma Mészéiros:
Antes de tudo, é necessario insistir que 0 capital niio é simplesmente uma
‘entidade material’ — tambe'm nao é (...) um ‘mecanismo’ racionalmente
controlzivel, como querem fazer crer os apologistas do supostamente
neutro ‘mecanismo de mercado’ — mas é, em ziltz'mzz dmflise, umaforma
incontro/a’ve! (if corztrole socz'omez‘azlyo'lz'co.54
O que o autor hungaro descreve de maneira bem precisa é a
forma como, no campo da teoria, esta incontrolabilidade acaba
virando virtude. Em Hegel é nada menos que o “Espi'rito do Mun-
do” em seu caminho para a “Liberdade”; para Adam Smith é a
11150 invisivel do Mercado, de uma forma ou de outra, nao é a agao
humana que ordena uma certa inteligibilidade. Assim entendemos
porque em Hegel os individuos 3510 a mediagz’io do Espirito: “é por
isso que Hegel — no rastro de Adam Smith — teve de caracterizar
até mesmo os cindividuos histéricos do mundo’ como simplesfl)?-
mmenm: nas maos do ‘Espirito do Mundo’: o unico ser com um
relacionamento nao ilusério entre consciencia e agéio”?5
Na verdade, o Espirito do Mundo ou o Mercado sao apenas
os nomes de uma forga externa em relagao 51 agao humana que a
controla e subordina. O mesmo serve para a Sociedade. Na Visao
destes autores, a agao individual nao desaparece, segue sendo a
base real da mediagz’io por meio da qual a histéria e a sociedade
ganham concretude, mas de uma forma muito prépria e invertida.
Segundo Hegel:

5“ MESZAROS, lstvan. Pam além do capital. Sfio Paulo: Boitempo, 2002, P- 96.
55 117121., p. 140.

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

(...) a busca subjetiva do préprio interesse transforma—se na mediaciio do


particular através do universal, como o resultado de que, ao ganhar e produ—
zir para seu préprio gozo, cada homem esta 60 z'pso produzindo e ganhando
para deleite de todos os demais. A compulséio que produz este ICSUltadO CSUE
enraizada na complexa interdependéncia de cada um em relagéio a todos,
e agora ela se apresenta a cada um como 0 capital permanente universal.56
A afirmacao de que cada um buscando seus interesses produz o
bem geral é um dos axiomas mais elementares da doutrina liberal
e se vé, também, na base do contratualismo e sua concepciio de
“corpo moral” ou da c‘vontade geral”. Aqui o encontramos nas
palavras de Rousseau:
Cada um de nos péc em comum sua pessoa e toda a sua autoridade sob
o supremo comando da vontade geral, e recebemos em conjunto cada
membro como parte indivisivel do todo (...) Logo, a0 invés da pessoa
particular de cada contratante, esse ato de associacéio produz um corpo
moral e coletivo, composto de tantos membros quanto a assembleia de
vozes, o qual recebe desse mesmo ato sua unidade, seu eu comum, sua
Vida e sua vontade.57
Cada um de nos entra com “sua pessoa” e sua “autoridade”,
aliena sua soberania, e ganha, inteiramente gratis, seu “eu comum”
que vai determinar sua “Vida e sua vontade”. Este corpo moral e
coletivo, esta “complexa interdependéncia de cada um em relacao
a todos”, tern uma densidade material considerével, e’ mais espesso
que o sangue, os sonhos e 03 préprios homens, impée como vontade
geral, como “capital permanente universal”, a “Vida e a vontade”
de cada Eu—particular. Assim o ser humano ou estei na abstracio
do individuo egoista ou na abstracfio do ser coletivo. Enquanto ser
concreto é sempre mediacéio, meio ou ferramenta, de algo que se
encontra fora dele, seja da liberdade natural, seja da restricéio da
liberdade no Estado civil.

56 HEGEL, G- W F. ”WP/151050105} ofrz'g/It, p. 129-130, 4pm! Me'szziros, Mid, p. 65.


57 ROUSSEAU, Jean-Jacques. O contmto social Szio Paulo: Cultrix, 1971, P- 31-

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MAURO LUIS IASI

Cada zitomo individual pode estar, segundo seu desejo e inte—


resse, em luta egoista com todos os outros zitomos, como na célebre
metz’ifora de Hobbes sobre a guerra de todos contra todos, que
ainda assim produziria o todo harmonioso por meio da constatagiio
da necessidade da ordem. N50 (5, neste sentido, o somatério das
bondades, mas a resultante rnoralmente positiva do conflito entre
os individuos. De qualquer forma, o todo adquire uma expres—
sz'to diversa daquela que estava na intengz’io dos individuos. Estes
disputam, lutam, querem para si mesmos, mas o resultado é uma
sociabilidade pactuada dentro dos limites da ordem. Nas famosas
palavras de Kant, uma sociabilidade insociz’ivel:
O meio de que a natureza se serve para realizar o desenvolvimento de todas
as suas disposigées é 0 antagonismo das mesmas na sociedade, na medida
ern que se torna ao firm a causa de uma ordem regulada por leis desta socie-
dade. Entendo aqui por antagonismo a irzsocizfvelsociaéz’lz’dade dos homens,
ou seja, a tendéncia dos mesmos a entrar em sociedade que estzi ligada a
uma oposigéio geral que ameaga constantemente dissolver essa sociedade.58
Como vemos, a imagem kantiana, neste aspecto também
hobbesiana, é que a luta de todos contra todos (a insociabilida—
de) se expressa em urn todo ordenado (sociabilidade). O sentidO
encontra—se no todo, seja na natureza que previamente apresenta :-
aos homens suas “disposigées”, seja no produto social. Os seres
humanos séio irracionais, 0 Capital é racional. A “sociedade” quer
manter—se, rnas os seres humanos parecem querer constantemente
dissolvé—la. Hé uma racionalidade da sociedade estranha aos seres
humanos e uma racionalidade humana estranha £1 sociedade.
Ern Adam Smith, de modo um tanto mais amenizado e idea—
lizado do que em Kant, este axioma aparece da seguinte forma:
Assirn como todo individuo se esforga o quanto pode para empregar sell
capital em apoio 21 indfistria nacional e assim orientar essa indfistria de

5” KANT, Immanuel. A ideia de uma bistdrz’zz universal de um ponto de vista: cosmopofim.


85.0 Paulo: Brasiliense, 1986, p. 13.

95
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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSIS

modo a dotar seu produto do maior valor possivcl, cada individuo ne—
cessariamentc trabalha para tornar o rendimento anual da socicdade tiio
grande quanto possivel. Em geral, elc nao tenciona promover o interessc
publico nem sabe o quanto o estzi promovcndo (m) é guiado por uma mio
invisivel para promover um objetivo que néio Fazia partc de suas inrencécs...
ao buscar seu préprio interesse, é comum quc promova 0 d3 socicdadc
com eficz’icia ainda maior do que quando tenciona rcalmcntc promové—lo.59
Assim, magicamente as acées individuais transformam—se em
genéricas, guiadas por uma mao invisivcl mais sabia c eficaz quc
a vontade dos individuos. O fantéstico é que os individuos nao
tinham a intencao dc alcancar cstc interesse publico tz'io altruista,
sao levados por uma mao metafisica a “promover um objetivo que
nao fazia parte dc suas intcncées”!
. Todas e cada uma destas visécs ideolégicas guardam uma
incrivcl correspondéncia com a rcalidade. Realmcnte hzi um abis—
m0 entre a acao dos seres humanos, cm luta constante entrc si,
e o corpo coletivo de sua sociabilidadc, quc parccc adquirir uma
racionalidade prépria independente das vontadcs e intencécs das
pcssoas responséveis por produzi—la e reproduzi—la cotidianamcntc.
Neste sentido, ocorre uma profunda cisao entre o scr gcnéri
co e
0 ser particular. 0 quc aparece como a virtude do corpo moral,
a harmonia do mercado que sc autorrcgula, a Razao da Histéria,
nada mais expressa senao quc o produto social nao é regulaivcl pcla
acao dos seres humanos, néio sao cles que controlam o todo, clc
é
incontrolévcl. Revcla quc dc fato a estrutura do processo Vital da
socicdadc niio esté submetida ao “cont-role consciente e planejado”
dc scres humanos livremente associados (Marx [1867], p-
88)-
O quc succdc aqui se explica por um mecanismo comum ao
fenémeno ideolégico, ou seja, o mecanismo pelo qual urn ccrto
aspecto particular é apresentado como universal. Ao falar do

5” SMITH, Adam. An inquiry into the nature and azure: oftbe wealth ofNations (1863. p-
199-200), apud Mészaros, Pan: 1216'»: do capital, cit, p. 135.

96
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MAURO LUIS IASI

“homem”, d0 “SCI humane”, da “humanidade”, assim como de


“sociedade”, “mundo” ou “realidade”, os pensadores e ideélogos da
ordem capitalista estao falando de um tipo histérico bern deter—
minado, CSfOf‘QafldO-Se para apresenta—lo como expressao universal
do género humano.
Que tipo especifico de ser humano “se esforga o quanto pode
para empregar 3311 capital”; age enquanto um individuo morivado
pm 86118 interesses d6 alCangar o maior lucro possivel produzindo e
ganhando para seu PréPFiO gozo; em concorréncia com outros in—
divdOS; diSPUta a riqueza e o mercado; acredita ser uma forga que
controla seu destino e se faz a si mesmo; cré piamente que sua forma
pequena, arredondada e sebosa é a imagem da humanidade, que
suas pequenas ideias, sua arte pequena, sua filosofia mediocre, sua
histéria COHfUHd-Se com as manifestagées mais puras da alma
humana; cré que sua lingua é a lingua e suas palavras as corretas;
que se fecha num envoltério individual e se arma de muros, grades
e trincheiras contra qualquer contato coletivo, salvo na abstraeéo
do Estado, seu Estado, que julga ser de “todos”; quem escreve em
“nuvens: Eu, li'lnicos”60 e defende seu ego, sua personalidade, sua
conta bancz’iria? Quem senao o “homem—nadegas”, quem seniO
aqueles que “algarismam os amanhés”, quem senéio 0 “p3? de
batatas morais”,61 quem senao o burgué‘s!
A dissolugao da antiga sociedade feudal e dos laqos de depen-
déncia mutua que ligavam os seres humanos entre si nas diferent‘es
ordens foi sendo decomposta até seus elementos mais simples, 0
fundamento,
homem; mas I10 hornem que consistia o seu real
no homem egoista” (Marx, [1843]1993, p. 61). O “homem” que
almeja ser 0 representante genérico da espécie é prec1samente este

‘30 Referéncia ao poema “Breve histéria da burguesia”, de Hans Magnus Enzensberger:


“Jogzivamos pelas janelas concertos de solistas, I chips, orquideas embrulhadas em
celofane. Nuvens/ que diziam ‘Eu’. Unicos” (Eufido do: que ndofizlam. Silo P511110:
Brasiliense, 1985, p. 115).
(’1 Expressées de Mano de Andrade em seu poema “Ode a0 burgues .
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$4
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

homem egoista, o “homem-nz’idegas” andradiano, o burgués. A co-


munidade politica se degrada em simples meio para que OS direiros
desta espécie de ser humano abstrato se perpetuem, e “o citoyen é
declarado como servo do homem egoista” (Mi/1., p. 58). Diz Marx:
(...) a esfera em que o homem age como ser genérico vem degradada para a
esfera onde ele atua como ser parcial; e que, por fim, é o homem como éourgeoz's
(membro da sociedade civil) e naio o homem como citoyen (individuo com
direitos politicos) que é considerado como o homem verdadeiro e auréntico.62
A imagem universal de Homem é sempre uma forma histérica
particular que alcanca uma expressao genérica ou, mais precisa—
mente, que em urn determinado momento histérico fundiu sua
particularidade com o interesse universal da humanidade. Para
Aristoteles, era 0 aristocrata e era a propria natureza que imprimia
nas relacées sociais aquele que era detentor da virtude e da palavra,
daocapacidade do mando, do poder de previsao, consriruia o ser
universal, o Grego, o Homem. Era em relaciio a ele que faziam
sentido as leis e regras da vida politica, era sobre ele que filosofavam
os sabios, era ele que representavam no teatro e na arte. A burgue-
31a, num determinado momento histérico, elevou—se a. condicao
de classe universal, confundiu—se com o conjunto
da sociedade
em movrrnento, diluiu sua prépria emancipacao no movim
ento
de emancrpacao da humanidade. Esta identidad
e prética tinha
que ser acompanhada de uma identidade no cam
po das ideias 6
da consciéncia social.
Corn efeito, cada nova classe no poder é obrigada, quando mais nao seja para
aungir seus fins, a representar o seu interesse como sendo o interess
e comum
a todos os membros da sociedade ou, exprimindo a coisa no plano das ideias,
a dar aos seus pensamentos a forma da universalidade, a representa—los como
sendo os unicos razoaveis, os L‘inicos verdadeiramenre validos.63

MAlfx, Karl. “A questzio judaica [1843]”. Marzmcritos econémico: efi/oséficos. Lisboa:


t...)
Cx

Edlcoes 70, 1993, p. 58—59.


3 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideoiogz'a alemzi, cz't., p. 57.
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MAURO LUIS IASI

Isto significa que a consciénCia social que marca nossa época, a


imensa polémica sobre o grau de intencionalidade da agao humana
e 0 fatO d8 3 SOCiedade apresentar—se como algo “incontrolavel”,
a dicotomia entre as agées individuais providas de sentido e as
objetivagées COICIiVaS e sociais proibidas de serem dotadas de teleo—
logia siio expressées coerentes com a forma histérica das relagées
sociais e da profunda individualizagao dos processos sociais que
caractemzam nossa época.
OS pensamentos dominantes siio apenas a expressiio ideal das relagées
materiais dominantes concebidas sob a forma de ideias e, portanto, :1 ex—
pressao (135 [61519668 que fazem de uma classe a classe dominante; dizendo
de outro modo, 5510 as ideias de seu dominio.“
Mas quais sao estas relagées materiais das quais derivam esta
expresséio ideal que constitui o pensamento dominante de nossa
época? O termo “relagao” parece ocupar aquele espago de fronteira,
O que dificulta sua associagao com o vocabulo “material” que o
acompanha. Um ser humano age sobre a natureza e produz uma
cadeira. 0 set que agiu 6 material, a natureza igualmente, assim
como o produto: a cadeira. Mas a relagéio nao tem este 5mm: de
materialidade. No entanto, mantendo os mesmos trés elementos,
perante
um set humano, a natureza e a cadeira, podemos estar
infimeras relaeées: um artesao, um servo, um escravo grego, um
e social,
trabalhador assalariado. Estamos diante de uma objetividad
ece
ou seja, derivada da relagao dos seres humanos entre si. Acont
a
que esta objetividade é material, ainda que menos palpavel que
cadeira.
de
O fato de meu ato particular de ptodugao ocorrer no interior
a
relagées caracteristicas da produeiio agricola familiar faz da cadeir
apenas um valor de uso, ao passo que, se minha atividade realiza—
—se no interior de uma manufatura, propriedade de outta pessoa
que me contrata e paga um saliirio, esta cadeira, ainda que seja

6-1 15:21., p. 56.

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

a mesma e feita com os mesmos procedimentos récnicos, mudou


de natureza; é agora uma mercadoria. E isto nao é privilégio da
cadeira; o produtor e a prépria natureza mudaram sua personali—
dade. O trabalhador virou capital variavel, elemento constitutiVO
do processo de valorizacao e enquanto tal igualmente mercadoria,
ainda que nz'io tenha deixado de ser um ser humano, assim como
a cadeira nao tenha deixado de ser cadeira, ao mesmo tempo em
que a natureza, sem deixar de ser 0 mesmo subStrato fisico que
era antes, assume a forma de fonre de matérias—primas — em certas
condicoes, ela prépria também transformada em mercadoria.
Isto significa que a relacz'io estabelecida entre os seres humanos
age como realidade material e pode inclusive, em determinadas
condicées, alterar a natureza dos elementos materiais que estiveram
envolvidos em sua constituicao.
Mas nao estamos falando de qualquer relacz’io, mas de uma
relacao que teria a caracteristica de produzir nos seres humanos
envolvidos a estranha cisz’io entre eles como sujeitos e o produto
estranhado de sua acao, de forma que os objeros se fetichizam e
as relac‘oes humanas se reificam, para usar a famosa
expl‘CSSiO d6
Marx: uma relacao social definida, estabelecida entre os home
ns,
assu‘I‘ne a’forma fantasmagérica de uma relacao entre coisas
”, em
que a propria atividade social possui a forma de uma atividade das
corsas sob cujo controle se encontram, ao invés de as controlare
m”
(Marx, [1867], p. 81).
Apesar de Marx localizar este fetichismo na sua forma mais
avancada na sociedade produtora de mercadorias, aringindo
seu
ponto méximo sob a ordem do capital, as raizes deste estranha—
mento encontram—se na prépria divisao social do trabalho. Deve—
mos partir da afirmacao marxiana segundo a qual “a consciéncia
nunca pode ser mais do que 0 Ser consciente; e 0 Ser dos homens
é o seu processo da Vida real”.65 0 fato de encontrarmos uma

(‘5 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemd, cit, p. 25.

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MAURO LUIS IASI

consciéncia csrranhada, uma cisao entre o 561' humano e um nao


reconhecimento das relacoes sociais que constituem a sociedade
como um produto humano sobre scu controlc significa que esta
inversao corresponde a uma inversz'io real quc se produz c rcproduz
na producao da cxisténcia.
Marx c Engels (1976) consideram quc esta producao social da
existéncia envolve cinco momentos articulados dinamicamente.
Enquanto parte da natureza fisica, o organismo humano precisa
comer, beber, abrigar—sc, cm uma palavra, Viver. A Vida enquanto
sobrcvivéncia do organismo ainda nao seria um ato “histérico”, no
scntido propriamentc humano, ou seja, que pode deixar atras de si
uma variacfio dc formas cumulativas ou nao pela qual esta existéncia
foi garantida. E apenas no momento em que o ser humano passa
a produzir meios nao existentes na natureza fisica que completem
ou potencializem seu organismo que surge o primeiro ato historico.
O segundo momento seria urn desdobramento deste, ou scja, a
partir da forma como o ser humano satisfaz suas necessidadcs, dos
meios, instrumentos e procedimentos que usa para tanto, desen—
volvem-se novas necessidades; por cxemplo, agora 11510 6 necessario
somente ter 0 quc comer, mas ter instrumentos dc trabalho quc
permitam plantar, e estes instrumentos tornam-se rao necessarios
para o organismo histérico quanto os nutrientes 5230 para o fisico.
O terceiro aspecto é que os seres humanos renovam sua prépria
cxisténcia cnquanto seres fisicos c histérico—sociais mediante as
relacées de familia (reproducao fisica, relacées dc parentesco, edu—
cacz'io, hierarquias de sexo e idade, padrées psiquicos etc). Ainda
que os autorcs do A ideologia (231677252 nao tenham desenvolvido
todos cstes aspcctos presentes nas relacées familiares, ressaltaram
que néo se podia reduzir a reproducao apenas £1 reproducz'io fisica.
A producao social da Vida é fundamentalmente a producao ma—
terial baseada no interciimbio dos sercs humanos com a naturcza
c a producfio material dos meios necessarios para este aro social.
Entretanto, afirmam que:

s Massimo i m a sss w
issusissssfisss s._ _s.
ma?-§1?“<¢“:?-:$_"“*§£n figs
«am
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». _s ms is. w
_s, s Ms. .w. an s
. . . a s ms. is: s Maw
was - . .s.. . s \ - - -
.W. Ash‘s-“s was
ss 1. 3Hoasiszzrwsusgrs
** N11???“

AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE (ILASSE

(...) nao devemos considerar esse modo dc producz’io deste L’mico ponto de
vista, isto é, enquanto meta reproducao da existéncia fisica dos individuos.
A0 contrario, jzi constitui um modo determinado dc atividade dc tais
individuos, uma forma determinada de manifestar sua Vida, um modo de
vidzz determinado.“
Isto quer dizer que aquilo que se reproduz nas relacées familia—
res nao sao apenas os individuos biolégicos, assim como aquilo que
se reproduz no ato da producao niio séo apenas novas mercadorias,
mas “um modo determinado de Vida”. Mais quc mercadorias, 110
ato da producao se reproduzem as relacécs capitalistas; mais que
novas pessoas, na familia se reproduz o modo de Vida determinado
pela sociedade das mercadorias e do capital.
0 quarto momento que compée esta totalizacao é marcado
pelo fato de que todos os trés primeiros momentos (a produgflO
dos meios, o surgimento de novas necessidades c a reproducao
biolégico—social dos seres humanos) ocorrcm por mcio de uma
relacz'io entre os seres humanos, produzern-se mediante um “modo
de cooperacfio” ou um certo “estado social”. Alguém pOdCfia af-
gumentar que este nz'io seria propriamente um quarto momento,
jé (111,8 perpassaria todos os outros, mas é um pouco mais que isto.
E fato que a producz'io dos meios 63 em si um ato social 6 pres—
supoe as relacées entre os seres sociais, assim como
a pI'OdUGQO d3
novas necessidades implica a relacao entre estcs seres, da mesma
forma que a familia so pode ser compreendida como uma relacao
social; porém, uma forma determinada dc cooperacéio entre OS
seres humanos transforma—se ela prépria em uma “forca produtiva”
como “forga conjugada de varios individuos”.67 Esta implicito neste
raciocinio que a acao coletiva constitui uma forca autonoma, ou
que se toma auténoma em relacéio aos membros particulares que a
compéc. Uma coisa é um ser humano procurando o que comer ou

5“ MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alema‘r, cit, p. 19.


(’7 Mid, p. 35.

102
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.2“
MAURO LUIS IASI

como se abrigar; e outra, bem distinta, é quando isto é realizado


por 166 milhoes de pessoas, néio apenas pela evidente dimensiio
quantitativa, mas porque se opera uma mudanga qualitativa na
qual a forga combinada néio é apenas o somatorio de 166 milhoes
de intengées individuais.
O quinto elemento pressupée o desenvolvimento combinado
dinamicamente dos quatro primeiros. Os seres que produzern so-
cialmente sua existencia e, para isto, alteram a natureza produzindo
meios antes néo disponiveis, criando novas necessidades sociais que
se somam fiquelas naturais; que produzem e reproduzem a si mesmos
como seres sociais de um determinado modo de Vida; que, ao proce-
derern dessa forma coletiva, transformam—se em urna forga produtiva
combinada que é quantitativa e qualitativamente distinta da agfio
individual. Estes seres sociais desenvolvern uma consciéncia social.68
Ern um primeiro momento, esta consciéncia so pode ser a cons—
ciéncia das relagoes que 0 set consciente tem com as coisas e pessoas
situadas fora dele e no espago imediato de sua agéo; nas palavras
de Marx e Engels, “a minha consciénCia é a minha relagao corn o
que me rodeia”. Neste fimbito, nio poderia haver estranhamento
da consciéncia, ainda que exista desde o inicio uma exteriorizagéio
da consciéncia em objeto externo: a linguagem. No entanto, mes—
mo enquanto linguagem he‘i ainda uma correspondéncia entrefla
representagz’io e o conjunto das relagées de produgéio e reprodugao
da Vida real. Mesmo que esta consciéncia alcance uma dimensao
sirnbélica.69 Ninguém pode negar que a palavra cadeira é sirnbélrca
e nela néio podemos nos sentar como no set mesmo que 0 simbolo
linguistico representa, mas é ainda uma representagéo externada
do ser representado, mas nao estranhada.

63 Mid, p. 25, 35 e 36. . .


6" Ver a respeito as reflexées contidas em: “A consciéncia como questfio filoséfica e soc1olo—
gica”, O difemzz de Hamlet, cit" p. 41—55. Vet também: VIGOTSKY, L. 5- A ”WWW”
do penmmem‘o :1 dd [inguagem Sio Paulo: Martins Fontes, 2001-

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

Somente quando o proprio ser da producfio social da Vida Se


fragmenta é que sua consciéncia acompanha a fragmentacao, e este
processo esta intimamente ligado £1 divisz'io social do trabalho. O
trabalho é a protoforma da acao humana (Lukacs, 1981; Anrunes
1999), o que significa que, na arividade do trabalho como ato sin»
gular, encontramos os elementos que caracterizam a propria £19510
humana, para o bem ou para 0 mal; ou seja, SC 113 atividade d0
trabalho o ser humano se hominiza a partir d0 momento em que se
torna um homo-fiber, se por meio desta atividade torna—se um ser
social, é também por meio desta arividade que pode produzir seu
estranhamento. Como disse um poera: “quem forja seu desviver
é o préprio homem”.70 Assim descreve Marx e Engels essa relacao
entre a divisao social do trabalho e seu efeiro sobre a consciéncia:
A divisiio social do trabalho so surge efetivamenre a partir d0 momen
to
em que se opera uma divisz'io entre o trabalho material e intelectual. A
partir deste momenro, a consciéncia pode supor—se algo mais do que a
consciéncia da pratica existente, que representa dc faro qualquer
coisa sem
represenrar algo de real.71
N520 é apenas em razao de a consciéncia ganhar esta autonomia
relativa —- de representar realmente algo sem representar algo
de
real — que se explica o fenomeno do estranhamento como um todo,
alnda que seja a base fundamental para compreender fenémenos
como a religiz'io. Naquilo que nos interessa por ora, a divis
io social
do trabalho opera uma diferenciagao qualitativa na correspondéncia
enrre o ser social e sua expressao coletiva no conjunto das relacées
que‘constltul. A divisao social do trabalho implica a poss
ibilidade
da contradicao entre os inreresses do individuo singular on
da
familia singular e o inreresse coletivo de todos os individuos que
se relacionam entre si” (Marx e Engels, 1976, p. 39). O fato d6
08
individuos sociais agirem na forma de uma forca produtiva coletiva

7° Bero — Poemas, 1982.


7‘ MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemzi, p. 37.

104
«222 w @3125 22222»: 212*222'212 22-2 2222“
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MAURO Lurs IASI

marcada por uma certa divisao social do trabalho e a razao, como


vimos, de esta “forca produtiva” ser qualitativamente diversa da acao
individual abrem a possibilidade de esta “forca” impor aos individuos
suas posicées no interior da divisao do trabalho e expressar uma
“necessidade” coletiva que pode se chocar com as necessidades das
partes que compéern esta coletividade.
Vejamos esta passagem:
(...) a partir do momento em que os homens vivern na sociedade natural:
desde que, portanto se verifica uma cisao entre o interesse particular e
o interesse comum, ou seja, quando a atividade jzi nao é dividida volun—
tariamente, mas sim de forma natural, a 21950 do homem transforma—se
para ele num poder esrranho que se lhe opée e o subjuga, em vez de ser
ele a dominzi-la. Com efeito, desde que o trabalho comeca a ser repar—
tido, cada individuo tem uma esfera de atividade exclusiva que lhe é
imposta e da qual 115.0 pode sair (...) se r1510 quiser perder os seus meios
de subsisténcia.”
Como vemos, a divisiio social do trabalho opera muito mais .-
que uma simples organizacao cooperada da atividade, mas pode
c
alterar a natureza mesma do trabalho como meio de hominizaca
enta-se
da espécie. Isto porque a forca produtiva combinada apres
indivrduos
como um poder estranho que submete e determina os
por
como se fosse uma forca “natural”. E sempre born lembrar que,
do traba—
se colocar de maneira estranhada, esta forca combinada
e, portanto,
lho social total nao deixa de ser um produto humano
mente dlsso
nao natural, mas social e historico. Entretanto, é exata
e soc1al,
que se trata: uma forca humana e, portanto, histérica
controla.
apresenta—se aos seres sociais como algo natural que os

Ideologia.alermz da dual
O termo natural aqui pode ser mal compreendido. Na parte deA
este estrato foi retirado, Marx e Engels acabavam dc falar que, no interlor da d1v1sao
social do trabalho , uma parte apresent a seus interesse s particula res como se fossem
universais e que a expressfio desta universalidade é o Estado. Os seres que Vlvem 50b
a veem como “natura l”. E neste sentido que a Erase deve
esta “universalidade iluséria”
ser entendida.
72 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideofogizz afemd, cit” p. 40-41.

105

“ .22 . 22%.: 2-222 3:21”? \E%:‘.§*2§‘2§2s2.§222 22:32 2.22:2: 2.2.22 "3:22-22M8 :32. i2...§.:2: i§:.?i“2""}§é2rixlklé2
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

Vejamos um pouco mais precisamcnte estc fcnémeno nas


palavras dos autorcs cstudados:
O poder social, quer dizer, a forca produriva multiplicada que é devida £1
cooperacao dos diversos individuos, a qual é condicionada pela divisz'io
do trabalho, r1510 se lhes aprescnta como o seu préprio poder conjugado,
pois essa colaboracao niio é voluntaria 6 sim natural, antes lhes surgindo
como um poder esrranho, situado fora deles e do qual nao conhecem nem
a origem mom 0 fim a quc se propée, que niio podem dominar e que de tal
forma atravessa uma série particular de estzidios dc desenvolvimento tiio
independentes da vontade e da marcha da humanidade que é na verdade
ela qucm dirige cssa vontade e cssa marcha da humanidadc.73
A divisao social do trabalho é condiciio para o processo dc
estranhamento, mas nao é suficicnte. Todo cstranhamcnto tcm
por base uma divisiio social do trabalho, mas nem toda
divisao
social do trabalho é necessariamenre estranhada. E possivcl
supor
' um grupo humano que divida entre si as tarefas que constitucm
a totalidade do trabalho social, mas nem por isto o produtor
particular vé o produto do trabalho total como algo quc nao
a
conscquéncia do trabalho conjugado do qual ale (-3 seu grup
o sao
os sujcitos. E possivel uma segunda hipotcse em quc a ativid
adc do
trabalho partilhado pelo grupo constitua um momento colct
ivo
nao estranhado, ou scja, no qual cada membro particular da
divi—
sao do trabalho se veja como partc do sujeito colctivo quc cheg
ou
1‘1 producéio social total do grupo, mas quc csta atividadc
sc insira
numa divisao do trabalho mais ampla, no interior da
qual aqucle
momento primeiro dcve contribuir corn tal atividadc colct
iva, e
esta insercao mais ampla deve apresentar—se como poder impos
iti—
vo, como a relacao cntrc os monarcas c as comunidades
no Egito
antigo, ou cntre o Império Asteca ou Inca e as coletividades que sc-
subordinavam ao seu dominio. Nestcs casos, a atividade no grupo
nz’io lhc é cstranhada c é visivel — como diz Marx, a “forma direta-

7’ Mid, p. 41.

106
. . . .11 .1 1 1.. . ”1111.1. 1- 11 1..-. 1- 1.1111113 1....’.‘._- 11.; »_ _€ 12-11 «17‘. 1111/1151 & WK 111,2 1111-.- 1113-1;- 1113 931?; .1-_._%1\,_,:11_1- $1.3? 11.111" £1
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1
MAURO LUIS IASI

mente social do trabalho” é a “forma concreta do trabalho”, e 11510


a generalidade abstrata na qual ela se insere como parte. 0 dizimo
page a Igreja no feudalismo “é mais palpavel que sua béncao” ou
qualquer promessa de redencao eterna (Marx [1867], p. 86).
Para que o estranhamento se complete de modo que o préprio
ato do trabalho se fragmente em unidades autonomizadas que se
vejam como individuos diante de um poder que nao controlam,
seriam necessarios, ainda, dois saltos: a sociedade produtora de
mercadorias e a forma capitalista de produzir mercadorias.
A producao de mercadorias pressupée uma avancada divisao
social do trabalho entre produtores “privados” (ainda que estes
possam ser, neste momento, coletividades). Cada produtor coloca
seu produto no mercado e por este ato acaba por “ocultar a relacfio
social entre os trabalhos individuais dos produtores e o trabalho
total, ao refleti—la como relaciio social existente :‘1 margem deles,
entre os produtos de seu préprio trabalho” (Marx [1867], p. 81).
Ha uma diferenca essencial entre uma comunidade que produz
l de seus
valores de uso, mesmo que proceda a alguma troca casua
cionalidade
produtos, e uma coletividade que ja produz com a inten
no
da troca. A distincao esta em que o produto do trabalho huma
ja em si mesma
assume a forma de mercadoria e como tal tem
exatamente no
uma autonomia essencial em relacao ao seu criador,
de troca. O salto
carz’iter social de seu valor que se expressa no valor
diz respeito ao nosso
de qualidade na relacao humana, naquilo que
adorias,
tema, é de grande relevancia. Como produtores de merc
simplesmente como a
os seres humanos nao se relacionam mais
no trabalho total (igual—
conjugacéio do trabalho particular (social)
l pelo fato de ter
mente social). A totalidade nao se mantém socia
paradoxalmente,
por base a acao conjugada de seres sociais, mas,
0 set se torna
esta totalidade abstrata é que torna os seres sociais.
coisas.
social apenas por meio, pela mediacao, do intercfimbio das
e produtos
Objetos liteis se tornam mercadorias por serem simplesment
de trabalhos privados, independentes uns dos outros. O conjunto desses

107

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AS METAMORFOSBS DA CONSCIENCIA DE CLASSE

trabalhos particulates forma a totalidade do trabalho social. Processando~


—se os contatos sociais entre produtores, por intermédio de seus produtos
de trabalho, so dentro desse intercambio se patenteiam as caracteristicas
especificamente sociais de seus trabalhos privados. Em outras palavras,
os trabalhos privados atuam como partes componentes do conjunto do
trabalho social, apenas através das relacées que se estabelecem entre os
produtos do trabalho e, por meio destes, entre os produtores. Por isso, para
os filtimos, as relacées sociais entre seus trabalhos privados aparecem de
acordo com o que realmente sfio, como relacées materiais entre pessoas
e relacées sociais entre coisas, e [1510 como relacées sociais diretas entre
individuos e seus trabalhos.74
Podemos observar que a polaridade contraditéria entre 0
set particular e sua expressao genérica nao é um surto ou
cisz’io
prépria do organismo humano ou de sua psicologia particular,
mas encontra sua justificativa numa forma de
Vida particular
que insere esta dualidade no proprio ato de produca'o socia
l da
existéncia. Na producao de mercadorias, nao apenas
as relacécs
entre os produtos do trabalho assumem caréter
de relacao social,
O que jzi seria assombroso, mas produzem na atividade funda
nte
da sociedade como tal aquilo que sob 0 capital
assumiria a forma
plena da “incontrolabilidade”, nos termos de Mészaro
s (2002). “Os
homens procedem de maneira atomistica no processo
de produgéo
social”, como diz Marx ([1867], p. 103), “e suas relac
ées de pro—
ducao assumem uma configuracao material que
nao depende de
seu controle nem de sua acao consciente indi
vidual”.
Os modos de producao anteriores nao poderiam
levar ao
paroxismo este processo pelo fato de que se base
avam em formas
de trabalho ainda diretamente sociais, como na
exploracao de
comunidades pelos Incas, ou na exploracao Servil no feudalismo
europeu. Somente no capitalismo este fenémeno cind
e 0 prépi
ato do trabalho. A base do trabalho especificamente capitalista

7“ MARX, Karl. 0 capital, Cit, P-


82'83-

108

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MAURO Lurs IASI

encontra—se em elementos nao propriamente capitalistas, mas que


constituem funcionalmente o ser do capital, como a producz'io
generalizada dc mercadorias. Entre estes elementos cncontramos
a cooperacao.
Na cooperacao esta prescnre a caracreristica de que falavamos
anteriormente, segundo a qual a forca social combinada é mais que
simplesmcnte a soma das acées individuais. Em principio, nao faria
a menor diferenca se nos defrontassemos com o produto (16 com tra-
balhadores produzindo individualmente ou com o produto dcstes
mesmos ccrn trabalhadores reunidos. Mas nao é exatamente o que
ocorre no fenomeno da cooperacao. “Nao se trata”, diz Marx, “da
, mas
elevacao da forca produtiva individual através da cooperacao
va”
da criacao de uma forca produtiva nova, a saber, a forca coleti
fato, como vimos, do '
(Marx [1867], p. 374—375). Néio apenas pelo
a-
que a quantidadc altcra a qualidade da acao, mas esta acao qualit
ular 6 a
rivamente diversa sob 0 capital alrera a relacao do scr partic
concrctudc
espécic no préprio aro do trabalho. Lembremos que, na
e se depara
cotidiana do trabalho, segundo Lukacs, a genericidad
forma de
com a particularidadc. Neste caso, a particularidade da
al o que,
trabalho encontra uma universalidade que é a do capit
de humana.
porranto, pode estar em contradicao com a genericida
Vejamos por qué.
xima a aciio
Em um primeiro momento, a cooperacao apro
que por
humana concreta dc sua expressao gcnérica na medida cm
a-
meio dela “desfaz—se o trabalhador dos limites de sua individualid
e
de 6 desenvolve a capacidade dc sua espécie” (ibidu p. 378). Ocorr
n—
que, sob a forma capitalista, esta cooperacao é produto da conce
do,
tracao dos meios do producao nas maos do proprietario priva
c, portanro, a forca produtiva cooperada esta sob o comando do
capital. Inicialmente este comando é formal, ou seja, o capitalista
apcnas refine o trabalho no mesmo espaco, mas 0 controls real
da atividade esta corn 0 saber e o procedimento operéirio. Mas, ja
aqui, opera—so uma mudanca dc relevancia (mica. Vejamos:

1 09

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AS METAMORFOSIZS DA CONSCIENCIA DE CLASSE

Vimos (...) de inicio que o comando do capital sobre o trabalho era a


consequéncia formal de 0 trabalhador trabalhar [1510 para si, mas para
o capitalista e, portanto, sob seu controle. Com a cooperaciio dc muitos
assalariados, o dominio do capital torna-sc uma exigéncia para a execucz‘io
do préprio processo de trabalho, uma condicz’io necessaria da producgz'io.75
Evidente que isso se aprofunda com a manufatura e, mais ainda,
com a aplicac’ao do maquinzirio a0 processo produtivo. Uma coisa é
uma divisao de trabalho na sociedade entrc individuos unidos num
corpo visivel e coletivo do grupo humano, ou entre coletividades
sociais que formam o trabalho total, seja de cooperacao ou mesmo
de exploracfio; e outra bern distinta é uma divisz’io social do trabalho
fundado em unidades, em que o trabalho particular é também
fragmentado em acées particulares. Isto agrava sobremaneira o
processo de estranhamento por uma série dc razées, destacando-
-se entrc elas a divisao dc trabalho na sociedade, que
OCOf1'6 entre
produtos do trabalho humano, enquanto no universo particular
‘. da producao a acao humana se fragmenta em partes de produtos,
o que oblitera sensivelmente a capacidade do ser quc trabalha
cm
. ver na objetivizacao algo externado, mas nao estranhado.
, Cada trabalhador faz uma parte, 6: r1510 apenas a relacao social
so pode ser Vista no processo total como, agora, o proprio produ
to
e subdmdido em partes fragmentadas. O trabalho como atividade
do ser humano so 0 é por meio do produto, transformando o ser
que trabalha em um instrumento do processo dc producao, c
11510 0
inverso.76 Enquanto individuo, o ser humano é uma manifestac
ao
atomizada, em concorréncia uns contra os outros. Ele somente
se torna social, apenas se converte em ser social, como parte
do

75 MARX, Karl. 0 capital, cit, p. 379.


76 “E quc é que caracteriza a divisao manufatureira do trabalho? N510 produzir
0 trabalhador
parcial nenhuma mercadoria. 36 o produto coletivo dos trabalhadores parciais
transforma-
-se em mercadoria. A divisiio do trabalho na sociedade se processa através da compra
e da
venda dos produtos dos diferentes ramos de trabalho, a conexao, dentro da
manufatura.
dos trabalhos pa rciais se realiza através da venda de diferentes forcas dc trabalho ao mesmo
capitalista que as emprega como forca dc trabalho coletiva” (Marx, [1867], p. 406-407)-

110

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hdnuno LUISIAM

processo do trabalho comandado pelo capital, pcla mediacao do


capital. Sob o comando do capital, a cooperacao nao é apenas
potencializacao do trabalho das partcs que a constituem, mas
controle hierarquico da forca dc trabalho, quc a subordina e impée
a atividade, a forma de realizar c 05 fins esperados.
Incrivel coincidéncia entre a afirmacao dc Rousseau, citada
anteriormente, e a rcalidade do controle do capital sobre o tra—
balho. Para 0 velho contratualista, cada pessoa dove abrir mao
dc sua vontadc e interessc particular para submeter—sc a0 “a0
mesmo
supremo comando da vontade geral”, recebendo “desse
ato sua unidade, seu cu comum, sua Vida e sua vontadc”. Nada
mais dcscritivo da subordinacao do trabalho ao capital. Nao é 0
no,
capital quc é social gracas a combinacao do trabalho huma
assim
mas o scr humano que é um ser social gracas ao capital;
osto por
como nao é o Estado urn corpo politico por ser comp
hccido
seres sociais, mas 0 set so torna social apenas quando recon
mos esta defini—
pelo Estado como cidadao. Dai nao estranhar
Estado
cao contida nos manuais dc teoria geral do Estado: “N0
o,
Moderno todo individuo submetido a 616 é, por isso mesm
reconhecido como pessoa”.77
uto, as
Este processo do dissociacao do scr social de seu prod
em podcr
relacées sociais corno totalidadc humana convertida
eragfio,
estranho sobre os seres humanos, comeca com a coop
stria moderna.
desenvolvc—sc na manufatura e completa—se na indu
zindo—sc a uma
Na manufatura, o trabalhador é mutilado, “redu
em
fracao de si mesmo”; na industria moderna, ou seja, naqucla
lho que resistia
que prevalcce o maquinério, o proprio ato do traba
cntas
unitario, ou scja, o proccdimento humano dc utilizar ferram
c meios, é fragmentado em seus clementos componentes pcla inter—
vencao do processo cientifico e técnico no processo dc produgao.

24“ ed. 85.0 Paulo:


77 DALLARI, Dalmo dc Abreu. Elementos d6 Moria gem! do Estado.
Sanfiva,2003,p.99.

111
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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

O ato do trabalho sempre foi a combinaez’io da forga de traba—


lho em interaeao com a natureza, ou uma mate’ria dela derivada,
mediado por meios técnicos ou ferramentas. 0 set humano sempre
foi, neste contexto, o centro do processo, uma vez que ele move corn
sua intencionalidade e saber (mesmo que controlado pela vontade de
outro) a ferramenta. Este ato é cercado de certa dignidade, mesmo
sob a forma do trabalho escravo como “instrumento animado” na
concepgao de Aristételes (1998, p. 10), tendo em vista que, mesmo
sendo o trabalhador uma espécie de instrumento, “uma propriedade
instrumental animada”, era um “agente preposto a todos os outros
meios” (ibiozl). Se, por urn acaso, o que Aristoteles so poderia tratar com
ironia, “cada instrumento pudesse executar pct Si mesmo a vontade
on a intencionalidade do agente”, entiio, neste caso, “os arquitetos nfio
precisariam de operérios, nem os mestres de escravos” (ibial,
p. 10—11)-
Na indt’lstria modema, o maquinario converte—se numa ferramenta
que {move outras ferramentas, relegando 0 set humano a tarefa de Vigiar
a maquina e corrigir seus desvios ocasionais. Enquanto o organismo
hu’matno limita—se ao uso de alguns instrumentos, o mecanismo da
- maquma permite-lhe operar Véirias]8 seja partindo da forga motriz ain—
_ d3 hurnana ou derivada de qualquer outras fonte de energia ou outro
inecamsmo, o que nao altera a natureza do processo descrito. O que
nos
importa aqui é que a atividade do trabalho fragmentou—se nfio
somente
nos tanlos da divisiio social do trabalho, 11510 somente nas partes em
que
86 dmde a Produgao interna a manufatura, mas, agora, fragmenta—se
em um conjunto de agées de ferramentas potencializadas pela maquina
fazendo com que 0 set humano converta—se, ele préprio, em instrumen-
to da maquina.79
73 MARX, Karl. 0 capital, cit, p.—4— 2—6-428.
(
7) uAs conseouenela
. .
s finais sfio obtidas com a mecanizaqfio e discip
linfl d3 Fabrica, ‘3 0
:parato pslcofislc o do homem sc ajusta completamente as exigencias do mu ndo exterior,
’ as fetrafnentas, das maquinas em suma, a uma ‘fungfio’ individual. 0 individuo
-
e destltuldo de seu ritmo natural, determinado pela estrutura dc seu organism
o; seu
aparato psxcossocial é adaptado a urn novo ritmo através de uma especializaqao metédica
de musculos que funcionam separadamente, e estabelece-se uma economia otima
da
forea correspondente is condigées de trabalho” (Max Weber, 1979. p. 301-302)
-

112

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MAURO LUIS IASI

Assim, niio e de estranhar que, na representagz'io ideal destas


relaeées, os seres sociais sejarn expostos primeiro como individuos
e depois se faga destes individuos mera “ferramenta” de uma von—
tade externa. No caso de Hegel, estes individuos sao instrumentos
de um patriio chamado “espi'rito universal”. A consciéncia do ser,
nesre caso, néio pode ultrapassar a particularidade do ser que esta,
por isso mesmo, condenado a ser “orgao inconsciente” de uma
vontade que se encontra fora dele, esta, sim, consciente. Vejamos
nas palavras de Hegel:
No decorrer deste trabalho do espirito do mundo, os Estados, nagées e
individuos surgem animados por seu principio particular que rem sua
interpretagfio e realidade atual em suas constiruigoes e em toda a extenséio
de sua condigz‘io. Embora sua consciéncia seja limitada a estas coisas e eles
entos
esrejam absorvidos em seus interesses mundanos, silo sempre instrum
e orgies inconscientes do espirito universal que arua dentro deles.80
Poderia parecer que esta visao dos individuos como meros
instrumentos de um espirito transcendente reforga o argumento
de que o hegelianismo mal digerido por Marx faz corn que ele
despreze o papel dos individuos reais realmente existentes, sendo
a finica saida voltarmo-nos para o individualismo metodolégico
210
(Przeworski, 1989). No entanto, mesmo em Hegel, que resiste
culto do individuo préprio do esclarecirnento racionalista, a agfio
do individuo continua sendo o substrato ultimo da agiio histérica,
como transparece na continuidade do argumento hegeliano:
os,
Todas as agées, inclusive :2: agées bista’rico—mzmdiazk, culminam com individu
cial.
considerados como sujeitos, que dio realidade atual ao que é substan
$510 03 instrumentos vivos daquilo que é, em substi‘mcia, a agfio do espirito
do mundo, e estao por isso diretamente de acordo com aquela a950, embora
,. seja
. o deles e nao
. escondld - - 31
. nem seu objetlvo.
. seu desejo
ele esteja

3” HEGEL, G. W. F. Ybep/Jilosopby ofrig/Jt, p. 217, flPIIdMESZAROS' 1- Opoder d“


ideologia. Szio Paulo: Ensaio, 1996, p. 515.
3‘ Mid, p. 517. (grifos 1105303.)

113
5 \we- a: -:,-- \. ,2 . : NM \ m. m: \-. J” 2,,. m V- . .
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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

Marx caminha em sentido inverso desta concepcao. Primeiro


porque revela o mecanismo que transforma o ser social na abstracao
do individuo atomizado; segundo porque, a0 fazer iStO: demonstra
que este “espi'rito” ern que consiste a “substancia” que 86 encontra
na mediacao concreta na acao dos individuos é somente uma das
objetivacées alienantes que os seres humanos criaram e que volta a
eles na forma espectral de “espirito do mundo”. Mas toda a ideolo—
gia, como afirma Eagleton (1997), combina a inverséio e falsificacao
com um gran de correspondencia com a realidade, o que explica
ao final sua eficiéncia. Neste caso, a afirmacéo hegeliana, ainda
que inverta descaradarnente o papel da acao humana, corresponde
a realidade da sociabilidade do capital, que usa os seres humanos
como instrumentos para seus fins de valorizacao do valor sem que
rsto seja, de fato, o “desejo e o objetivo” dos seres que servem d6
mstrumentos a este capital.
Mas corno seria, entao, possfvel a superacao deste estranhamen-
to? aeiro, porque é mais do que conhecido que para Marx esta
.8up.eracao mac é um ato de consciéncia. Como a consciéncia, as
1de1as.e representacées estao inseparavelmente ligadas a atividade
matenal, a superacao de uma forma de consciéncia so pode se ligar
a uma agéo pratica. E, ja que a raiz deste estranhamento estaria
numa determinada divisao do trabalho, Marx nao hesita em propor
8113 superagao. Se os momentos da sociabilidade humana acabaram
por desenvolver uma contradicao entre si, ou seja, a acao dos seres
human08.para produzir sua existencia acabou por gerar relacoes
que se objetrvaram em urn produto estranho que se volta contra
eles na forma de um controle sociometabolico incontrolavel, entao:
(...) a possibilidade de que esses elementos (constitufdos pela forca
produtiva, o estado social e a consciéncia) nao entrem em ‘contradieiio
reside unicamente na hipétese de acabar de novo com a divisio social
do trabalho. Consequentemente os ‘fantasmas’ (...) ‘ente superior’, 8510
apenas a expressao mental idealista, a representaciio aparente do indi—
VldUO lSOladO, a representacfio de cadeias e limitacées muiro empiricas

114

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MAURO LUIS IASI

no interior das quais se movem o modo de produciio da Vida e o modo


de troca que este implica.”
Em uma passagem rerirada do manuscrito, os autores com—
pletariam o raciocinio sustentando que esta “expressao idealista”
nao é apenas teérica, implicando, portanto, niio apenas a religiao
ou filosofias, mas “existe na consciéncia pratica” como no Estado.
Seria precisamente a contradiciio entre os interesses particulares
e o interesse coletivo (agora objetivado de forma estranhada) que
faz com que este “interesse coletivo adquira, na qualidade de Es—
tado, uma forma independente, separada dos interesses reais do
individuo e do conjunto e tome simultaneamente a aparéncia de
uma comunidade iluséria”, como vimos no mistico “corpo moral”
rousseauniano.
Esta aproximacéio implica algo essencial. O estranhamento
se estranha. Nao é mais, neste fimbito, 0 conjunto alienado do
produto social total do trabalho social na forma do intercambio
dos produtos do trabalho, mas ganhou materialidade num “corpo
politico” externo e superior aos seres humanos, cujo poder r1510
nte
é nern urn pouco mitico ou transcendente, mas eminenteme
pratico: o Estado.
E por isro, e nao por outro motivo, que em Marx a luta eco—
nomica é, sempre, uma luta politica. Pelo fato de que o estranha—
mento que se prOduz no ambito do trabalho e, por consequénCIa,
se estende as relacoes que constituem a sociabilidade na qual OS
até os
seres humanos produzem e reproduzem sua existéncia volta
seres humanos na forma de um poder politico, na forma de uma
“comunidade ilusoria” na qualidade de Estado.
A emancipacao humana,83 neste sentido, é simultaneamente
a emancipacfio do trabalho como mero meio de Vida, superacfto
da forma mercadoria e da mediagfio do capital como condiciio

33 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemz-E, (it, p. 38.


33 V61' :1 respeito “O problema da emancipacao humana” (Mauro Iasi, 2002 b), Plural,
Sociologia USP, Sfio Paulo, n. 9, p. 43—71, 2° sem. 2002-

115

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As METAMORFOSES DA CONSCIENCIA or; CLASSL‘

primeira da sociabilidade humana e, também, da superacz’io do


Estado. Nesta emancipaciio, 0 set particular transforma-se em ser
genérico sern perder sua singularidade; ao contrario, esta emanci-
pacéio é a condicao para recuperar sua singularidade enquanto scr
social. Vejamos nas palavras de Marx e Engels:
(...) os proletairios, se pretendem se afirmar como pessoas, deVCm abolir a
sua prépria condicz'io de existéncia anterior, que é simultaneamente 3 de
toda a sociedade até os nossos dias, isto é, devem abolir o trabalho. Por este
motivo, eles encontram-se em oposicfio direta 2‘1 forma que os individuos
da sociedade escolheram até hoje para expressio de conjunro, quer dizer,
em oposicao ao Estado, sendo—lhes necesszirio derrubar esse Estado para
realizar a sua personalidade.84
O movimento da consciéncia se expressa, em um primeiro ins—
tante, na consciéncia dos seres sociais submetidos ao estranhamento
drante de um campo pratico—inerte (Sartre) — ou, nos termos de
Hegel, a “efetividade exterior” —, apresentado como objetividade
alienada, submergida na serialidade. Esta é a genericidade de uma
determmada universalidade, aquela relativa ao capital. Esta é uma
comunidade iluséria”, espectral, ainda que baseada na materiali—
dade das relacées que constiruem 0 ser do capital. Iluséria nao no
sentldo de falsa, mas pelo fato de que inverte aquilo que constitui
o carater social do ser, 0 conjunto das relacées de troca entre os
produtos do trabalho (o mercado) ou o corpo politico do Estado
no lugar das relacées humanas entre seres humanos na producao de
sua eXIStencia. Se a consciéncia se move é porque ha contr
adicfio,
e a contradicz'io que move a consciencia é aquela que se expres
sa3
n'este momento do movimento, entre a necessidade da sobrevivén—
cia (aqul em um sentido mais amplo que apenas a sobrevivéncia
fislca) do ser social e a funcao do organismo humano como parte
fragmentada do processo de trabalho do capital na valorizacao do

3“ MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologizz alermi, cit... p. 82-83.

116

33 neww 3. 33333 33.: 33 3,3 3.... 3.33,. 3_ 333333 _.3 333333333, 333. 3. 3., 3..3-3. 3 .3 3 _3, 33 3.3-3. 3.-
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MAURO LUIS IASI

valor, o que néio é senéo a mediacéo przitica e concreta da contra-


digiio entre o avanco das forcas produtivas materiais e as relacées
sociais de produciio.
Como a superacfio da consciéncia é um ato przitico, esta con—
tradicéio se resolve na acéio, mas néio na 219510 individual, prépria
do estranhamento serial, porém num tipo de acéo que permite ao
ser social a primeira negacz’io desta serialidade: a 3.9510 no grupo.
Quando 0 capital nega o ser social por sua fragmentagz’io até a
abstracfio do individuo egoista, o que corresponde é fragmentacéo
do préprio ato produtivo do trabalho, acaba determinando que a
negaciio da negacfio so pode ser a recuperacz’io do ser social subsu—
mido ern suas representacées ilusérias do mercado ou do Estado.
Negar a fragmentacéio do ser implica recuperar 0 set social.
Mas, neste primeiro processo de negaciio, o ser social so pode
aparecer na forma particularizada do grupo, e néio poderia ser de
outra forma. Seria por demais misterioso se esra negagiio desve-
lasse o ser genérico de imediato. Enquanto individuo, o ser social
é a expressiio da fragmentaciio promovida pela diviséio social do
trabalho capitalista e pela sociedade das mercadorias, mas 0 capital
que opera e se reproduz por meio desta fragmentacz’io é ele préprio
eminentemente social 6 néo pode deixar de 5640. Na verdade, ele é
o ser social que unifica na comunidade iluséria o ser que ele prépno
fragmentou. Isto implica que, nesta primeira negacéo, 0 set SOCial
que emerge nada mais é que o proprio ser social do capital antes
velado pela fragmentacz‘io individual: a classe em si. A formacz’io do
ser social enquanto classe em si 6, de fato, 0 final de um processo
que encontra sua materialidade nas negacées particulates no nivel
do grupo.
Ocorre que a emergéncia do ser social corno classe em si abre
uma dupla possibilidade: a da integragz’io £1 ordem do capital pelo
amoldamento/consentimento, ou o enfrentamento de classes.
Como vimos, isto niio pode ser determinado por nenhuma esséncia
ontolégica, e sim por uma contingéncia rnuito precisa.

117
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As METAMORFOSES DA cowscrtm on cmssu

Assim como o individuo submete—se £15 relacées de exploraciio


do capital somente na medida em que esta exploraciio garanta,
ainda que precariarnente, sua existéncia subordinada, as classes
encontrarn seu equilibrio instz’ivel no consentimento tiio so desde
que as classes trabalhadoras possam arrancar do capital 03 meios
necessérios a uma existéncia urn pouco mais digna Sob o regime
de exploracéio capitalista. O que é o fenémeno social-democrata se
nz'io exatamente isto? N510 por acaso todos os mitos, boas intencées
ou brutais ingenuidades, académicas ou prz‘iticas, que imaginam
de algum modo uma certa coexisténcia nz'io conflituosa entre
capital e ttabalho, supée de alguma forma esta barganha, seja
pela insercfio na sociedade de consumo, seja na viséo de Marshall
sobre a evoluce’io linear da cidadania por meio das conquistas
de direitos civis como condicz'io para alcancar direitos politicos,
e estes como patamar para chegar aos direitos sociais,85 ou por
meio de “pactos sociais” pelo crescimento econémico, corn pro-
messas de “distribuicfio de renda” dos atuais socialistas utépicos
ou capitalistas realistas.
Assim como os individuos, as classes se movem quandO
enfrentam no campo social uma impossibilidade (Sartre, 1979)
peremptéria. Esta impossibilidade pressupée a contradicéio plena—
rnente desenvolvida entre a forma das relacées sociais e o avanco
das forcas produtivas, de maneira que a perpetuacao destas relacées
passa a ameacar a producéio social da Vida e a impor urn cardter
destrutivo Es forcas produtivas (Mészziros, 2002). Nestas condi—
goes, uma classe particular pode representar o interesse universal
da humanidade, na medida em que luta contra a classe que repre—
senta a destrutividade e o entrave universal, constituindo—se em
classe para si. E neste momento que a consciéncia pode assumir
uma dimenséio verdadeiramente genérica, pois é a representacao

85 SAES, Décio. “Cidadania e capitalismo: uma critica :‘1 concepcfio liberal de cidadania”.
Crz’tz'm Marxism, Sfio Paulo, 2003, n. 16, p. 9—38.

118
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$4
MAURO Lurs IASI

do ser genérico como “individuos diretamente ligados a histéria


universal” (Marx e Engels, 1976, p. 43).
Da mesma forma que o ser social encontra—se velado pela
fragmentacao do trabalho, o ser genérico acha-se fragmentado por
suas “comunidades ilusérias”, os Estados Nacionais. Mas, ainda
fragmentado 0 capital, continua sendo uma forca social, 0 capital
total 56 pode encontrar sua forma especifica, empirica e prz’itica
enquanto existéncia mundial. Isto implica que a negacao da frag—
mentacao do individuo pela emergéncia do ser social da classe em
si pode, ern certas condicées — na confrontacao do capital como
totalidade —, fazer emergir o ser social genérico: a classe para si,
enquanto c‘hornens empiricamente universais que Vivern de fato a
historia mundial em vez de serem individuos vivendo numa esfera
exclusivamente local” (ibid., p. 42).
For tudo isto, querer atribuir 2mm consciéncia ao ser da classe
trabalhadora é um absurdo impraticzivel, pois seria supor que o ser
da classe trabalhadora é unico, dai os equivocos dc considera-la
em si mesma revolucionaria on em si mesma reformista. O ser da
classe, como alias todo ser, é movimento, e neste movimen to tran—
sita por formas particulares e através destas até formas univer sais.
Neste sentido, a consciéncia so pode encontrar suas mediacées n0
movimento dialético das formas particulates e genéricas, pois, 56
a “COHSCiénCia nunca pode ser mais que 0 Ser consciente”, sua ma—
nifestacao particular ou genérica depende do carater particular on
genérico deste ser. Este caraiter, por sua vez, também é movimento,
nz’io dependendo de nenhuma forma estabelecida ou esséncia pré—
Via, mas se define pelo momento concreto de sua acao, ora mol-
dado pela subordinacao ao capital como peca fragmentada de seu
metabolismo, ora como ser social integrado a esta mesma ordem,
ora como possibilidade do ser social genérico universal. Se 0 ser
estz’i em movimento, 6 natural que sua consciéncia também esteja.
Por fim, como niio ha linearidade neste movimento nern
uma esséncia primeira a ser reencontrada ao final, 0 mecanismo

11‘)
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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

de externagao (Entdussemng) e objetivaofio (Wrgegemtz’z‘ndigung),


mesmo diante de um novo campo pratico—inerte aberto pela praxis
livre dos seres humanos, pode produzir um novo estranhamento
(Emfremdzmg). Isto significa que existe nao apenas a possibilidade
progressiva, no sentido de possibilidade dc emancipagao e supe—
ragéo do estranhamento, contra uma possibilidade regressiva, de
manutengéio das relagées estranhadas, mas ha uma possibilidade de
regressividade dentro da progressividade, ou seja, que no caminho
da emancipagao encontremos momentos de recuo e possibilidade
de novas “objctivaoées alienantes”. Ocorre que isto nio elimina o
movimento, ao contrario, é o que o faz permanente, pois, diante
de um novo campo prético-inerte fechado, as impossibilidades so
reapresentam e a agao se torna possfvel em um novo ciclo dialético
q.ue abre a possibilidade tanto do it além como do recuo. Este tern
SldO o dilema de todas as transigées socialistas tal como tratou
Mészziros (2002).
f). desafio teérico de compreender as mediagées particulates e
generlcas da consciéncia de classe é nao absolutizar cada um destes
momentos abstraindo o movimento de totalizagfio, entendendo
_ os patamares em que esta totalizagz’io se totaliza em barreiras que
-ransforompam a livre praxis humana em novo amoldamento e as
commflIQOCS que impedem que estas barreiras sejam definitivas,
reatuahzando o movimento. E o que estudaremos a seguir.

120
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W“
3
DA SOCIEDADE AO SER SOCIAL COMO INDIVlDUO

Eu, para mim, nascerfoz' muz’to impormnte.


Edenise Santana86
dd
A definiya’io do princzpio dd realidade coma exigérzcz‘zz
sociedzm’e permanecefbrmal 56 71520 acrescmmrmos concremmmte
que 0 princzjaio dd reafz‘dade, 505 afiarmcz qua reveste para 220’:
at'ualmente, 6’ 0 princzlvio dd sociedade capitalism.
\W. Reich”

hiSr
Apesar de a ordem de constituigéio do conceito da praxis
térica da humanidade seguir os cinco momentos descritos por
gfio social
Marx e Engels (1976, V. 1, p. 33—36) — ou seja: 1) a produ
instru—
da existéncia na interagao com a natureza 6 na produgz’io de
como
mentos; 2) a constituigfio destas atividades e seus produtos
ndo-as
novas necessidades que se somam £13 naturais e fisicas, torna
fisica
tfio essenciais come as primeiras; 3) a reprodugéio da Vida
meio
dos seres humanos e a reprodugz’io das relagées sociais por
da familia; 4) a reproduqfio, tanto natural quanto social, de um
determinado modo de Vida, condicionado por um determinado
estzigio de desenvolvimento das forgas produtivas, por uma certa
forma de cooperagiio e das relagées sociais historicamente dadas;

86 Militante do PT da Bahia e do Movimento Negro Unificado.


37 Materialismo dialético epsicmm’lz'se. 3“ ed. Lisboa: Presenga; Martins Fontes, 1977. p. 47.

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.- ._\.. ... .- .\\ e 3.x $15.».- Sal :
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

5) e, finalmente, o desenvolvimento e reproducao de uma certa


consciéncia social — para os seres humanos que se inserem em uma
determinada sociedade, a ordem nao pode ser esta. Quando se trata
da espécie, é evidente que a producfio material da existéncia ante—
cede, mas, para os seres humanos concretos, o primeiro capitulo
desta histéria so pode ser seu nascimento e suas primeiras relacées
de socializacao, e isto se dzi nas diferentes formas de familia.
A maioria dos marxistas costuma fazer uma ligacao direta e
mecfinica, portanto muito pouco dialética, entrc o carater capita—
lista da sociedade, as ideias dominantes e sua reproducfio por meio
da familia. Esta analise mecz’inica caracteriza—se por urn raciocinio
centrado fundamentalmente na repeticao. Uma vez que as relacées
determinantes 5210 de tipo capitalista, os capitalistas controlariam os
meios de producao e a divulgacao de ideias e juizos sobre a socieda—
de, tornando—os mais amplamente difundidos, possibilitando que
os adultos os encontrem nas escolas, nos meios de comunicacao, na
drfusao religiosa, na Vida cultural, na teia das relacées coridianas,
E: repassando estes valores para seus filhos por meio da vivéncia
.na famrlia. Nao é por acaso que se exagera, desta forma, o papel
dos chamados “meios de cornunicagao” e da atividade educacional
como osoprmcipais fatores de manutencao ou de transformaciio
da copscrencia dos individuos. Desta maneira, um grande mimero
tie .mljlitantes acredita que se trata dc “trocar” um
ccconjunto d6
idelas Hpor outro e adere com entusiasmo a missfio redentora da
educapao, evidentemente com a finalidade de “conscientizacao” e
03 mars nobres objetivos de transformacéo social.
Exrstem Varios pontos cegos nesta aproximacao. Primeiro, por—
que reduz o fenomeno da reproduciio ideologica ao ato da repeticao
e comunicacao das ideias ja formadas e articuladas num conjunto
de valores, normas de conduta e Visées de mundo; depois, pelo fato
de que o papel da familia fica diluido como se tratasse dc apenas
mais urn espaco de repeticao destes valores, ressaltado somente o
privilégio de ser 0 primeiro. Poderiamos dizer que, desta maneira, a

122

EEEEEVEE‘NEEEEEEEC‘E E. MERE EEE’E E E’EEE EEMEEEE‘E E‘a E EEEEEEE‘EEE‘EE EEE‘E EE‘ EH EEEE EEEEEEE E:: EEE 123 EEEEEE‘EEEES
MAURO LUIS IASI

analise fica resrrita a “circulacao” e deixa de compreender o processo


mesmo de “producao”88 das concepgées de mundo.
Esta aproximacfio, de certa forma, esta presente em Marx e
Engels quando afirmam que:
entre outras
Os individuos que constituem a classe dominante possuem
; na medida
coisas uma consciéncia, e é em consequéncia disto que pensam
época histérica em
em que dominam enquanto classe e determinam uma
em em todos os
toda a sua extensao, é légico que esses individuos domin
ante como seres
sentidos, que tenham, entre outras, uma posiciio domin
ao e a
pensantes, como produtores de ideias, que regulamentem a produg
ideias sfio, portanto,
distribuicao dos pensamentos da sua época; as was
as ideias dominantes de sua época.89
role dos meios
Reparem que o argumento central é que o cont
o poder dc
de producz’io e distribuicao das ideias dz’i a uma classe
inantes. Ainda
converter suas ideias particulates em ideias dom
ade de producao
que isro seja verdade, notadamente para a ativid
pela qual
de conhecimento sistematizado ou cientifico, a dinamica
e 1321
este processo ganha materialidade na reproducao ideologica
ada Vlsao
aceitacao, pelo conjunto da sociedade, de uma determin
ida. A “producéo
de mundo fica absolutamente velada e obscurec
o” das ideias sistematl—
da ideologia estaria vinculada a “produca
e 210 controle dos
zadas como conhecimento, ou saber cientifico,90

ude de Marx (sem, no entanto,


33 “Num retorno as fontes, ou seja, 515 ohms da juvent
capital), 0 termo produ cao readq uire um sentido'amplo e Vlgorosg
deixar de lado 0
nzio se reduz a fabricacao de produtoso
Sentido esse que se desdobra. A producao
de obras (inclui ndo o tempo 6 o'espaco socrars),
termo designa, de uma parte, :1 criacao acao
outta parte, a produgao rnaterlal, a fabrlc
em resume, a producfio ‘espiritual’, e, de mesmo, no decorrer
humano’ pct 31
de coisas. Ele designa também a producao do ‘ser
a a producao das relayoes 50mm. Enfim,
de seu desenvolvimento histérico. Isso implic
do” (Lefebreve, 1991, p. 37)-
tomada em toda a sua amplitude, o termo envolve reprodug
cit, v. 1, p. 56.
3" MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemd,
saber cientifico é subordinado a0 capital
9” Hirano nos mosrm como, na visio de Marx, cste
e transforma-se em capital fixo: “A produca o, quando jzi é comandada pelo capital, alem
cao e dominacao geral
de produzir mais-valia, também produz um sistema de explora
das propried ades naturais e humana s tendo como suporte a ciéncia. Ou seja, ela realiza a
colocan-
apropriaqio através da ciéncia, nao da violénCia e do poder pessoal,

123
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Hrs:

M‘s-14.

AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

meios de circulagéio destas ideias. Assim, a maioria da sociedade


entraria em contato corn estas ideias na esfera da “circulagao”, ou seja,
como “consumidores”.
Parece um movimento que ocorreria totalmente num {imbi—
to consciente, ou seja, os pais encontrariam mais amplamente
divulgado urn conjunto de valores e ideias que explicariam a
realidade e um certo funcionamento social 6, sem instrumentos
criticos adequados, aceitariam como seus estes Valores, passariam
aos seus filhos e tudo isto seria reforgado pela repetige’io insistente
dos mesmos valores na escola 6 nos meios de comunicagz’io. Al—
thusser (1996) ira levar ao méximo este raciocinio ao dizer que
a escola “martela” uma enorme quantidade dc saberes “embru-
lhados ideologicamente” num momento em que a crianga estaria
fragrlmente “vulneravel”, transitando do aparelho ideolégico
familiar para o cscolar.
,, l‘im esséncia, este argumento, agora aplicado a transformagao, e
nao a manutenqao da sociedade, estaria presente também
em Gramsci,
apesar do out: no comunista italiano o fenémeno de
formagz'io d0 861150
:23;:1:izgzrzuido por Inediagées one enriquecem dialeticamente
“ . , qur tambem vemos Igualmente a énfase no aspecto
a repetrgiio”. Dizia Gramsci (19
77):
(...) nunca cansar—se dc repetir os préprios argumentos (variando a forma-
literéiria),' a re

p tlgao
6
' ' e’ o melo dldatO mals eficaz para atuar sobfe
o o t

a
o 0 '

mentalrdade popular.91

jfieoésjlgreggll-iefigficzsjj:r 5“V190 11% espéoie dc capital fixo, diforcntemente do e'scravo,


. ’fi P meflnte, e nao socralrnente. Essa aproprlagio do conhec1mcnto
filial; :0 "a‘ia (Inga; ao Cipltfill’ O que 11510 ocorre com o cscravo, enquanto uma moda-
da societiezlzaé21(t‘:iénfiafixggifririfazipggfinfa, perante .0 (gapita’l, como ‘sabcr acurnulaolo
E 0 capital somcnte pode se apro riar dacra (1:16 5.6 Given? 6 e Inaterralmente frladora )'
uin . ,,, p POtenc‘i‘a crontlfica (sczmtgfl‘power) mediante
. g 0 da ma q aria (HIRANO, Scdl. Polltrca e economia como formas dc
o empre
dommagfio: o trabalho intelectual cm Marx”. 719mm Social RCV Soc USP 550 Paulo
13(2), p. 1—20, p. 12, nov. 2001). ’ ' ' ’ '

91 GRAMSCI’ Antonio. Quaderm' 46’! m’rcere: edizione critica dell’Instituto Gramsci a


cum di Valentino Gerratana. Torino: Einaudi Editore, 1977, p. 1.392.

124
waawrémw i m a 2 w mm am rmsm ”a a a s 2H s: as imsmm
MAURO LUIS IASI

O que desaparece nesta aproximacao sao exatamente as me—


diacées, os momentos pelos quais uma determinada forma social
estabelecida, e com ela uma certa visao de mundo tornada hegemo-
nica, se interiorizam como Visao de mundo dos seres sociais que a
compéem em cada época histérica. A interiorizac’ao destes valores
nfio ocorre pela simples “comunicacao” racional; seja por meio da
mera socializacz’io da linguagem, seja na forma sistematizada dos
processos educacionais, tampouco sfio interiorizados pela simples
“coercao”, como acredita o pensamento durkheimiano, que segue
acriticamente um certo marxismo positivisado.92
A questz’io central continua esta: como certa ordem de relacées
sociais objetivas, um modo de Vida determinado historicamente,
converte-se em sua expressao ideal na consciéncia dos seres sociais?
a
Quando Marx e Engels afirmam que em um primeiro momento
consciéncia é a linguagem (Marx e Engels, 1976, V 1, p. 36), “COHS'
ciéncia real, pratica”, esquecem que ai ja se encontra urn complexo
processo de mediacées que converteu uma certa objetividade em
representacao simbélica (Vigotsky, 1986, 2001). A pista funda-
é
mental que nos é dada pela aproximacao marxiana, a nosso ver,
outra. A consciéncia é, antes de mais nada, “relacao”, isto é, “minha
antes
consciéncia sfio minhas relacées”, ou ainda, as ideias domin
em
nada mais sao que as relacoes sociais dominantes convertidas
rre
ideias. Muito bem. Mas corno um conjunro de relacées se conve
em ideias? Eu olho uma cadeira e digo: cadeira. Aquilo que era
de
uma objetividade rorna—se uma representacao mediante o uso
pée
simbolos e convencées linguisticas, O que, obviamente, pressu
relacées anteriores no seio das quais estes codigos foram desenvol—
vidos e partilhados. No entanto, niio podemos supor que os seres
sociais olhem para a complexidade das relacées que constituem

”2 Nao é uma mera coincidéncia que também Durkheim data um peso consideravel a arivi-
dade educacional. “A pressfio de todos os instantes que sofre a crianca é a prépria pressao
do meio social tendendo a molda-la 21 sua imagem, pressao de que tanto os pais quanto
os mesrres nfio sfio senio representantes e intermediaries” (Durkheim, 1976, p. 5).

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

nosso atual patamar de sociabilidade e digam: “capitalismo”, pas—


sando aurornaricamente a pensar e estrururar sua visao de mundo
por meio das palavras e valores—chave do pensamenro liberal.
A pista de que a consciéncia é, antes, relacao social que é inte—
riorizada nos leva a urn grau de complexidade um pouco maior que
inevitavelmente nos conduz a diniimica de formacao do psiquismo,
e dai' a centralidade das relacées de familia.
Na ansia de buscar uma base materialista para o processo de
consciéncia, uma certa tradicao marxista, fundamentalmente a
sovie’tica, reduziu este processo aos seus aspectos fisicos e neuro—
légicos, chegando a: teoria do “reflexo psiquico”.93 E, entretantoa
urn soviético que pode nos dar o melhor exemplo sobre a limitacao
desta aproximacao e apontar o caminho correto para supera—la.
VigOESkY ([1929], 2000), parafraseando Marx, dirzi que “a natureza
psicolégica da pessoa é o conjunto das relacées sociais, transferidas
para dentro e que se tornaram funcées da personalidade e formas
da sua estrutura”,94 concluindo que:
1) é ridiculo procurar centros especiais para as funcées psicolégicas su—
periores ou funcées supremas do cortex (partes frontais, Pavlov); 2) deve
explica—Ias nz’io com ligacées internas organicas (regulacao), mas de fora
daquilo a que a pessoa dirige a arividade do cérebro de fora, através de
-
CStl'mUIOS; 3) alas mfo sd’o estrumms naturaz's, mas construgées; 4) o principio
bdsico do trabalho das funcées psiquicas superiores (da person
alidade) é
social do tipo interaciio das funcées, que tomou o lugar da interaca’io das
pessoas.95
' Uma das consequéncias desse modo de ver 0 fenomeno psi—
qurco é que, distanciando—se da visao organicista, o processo de

95
A formacao destes processes e determlnada pelo aparecimento de uma funcao de sinal.
u: "' r u

Assim nasce aaptidfio dos organismos para reHetir as acées da realidade circundante
nas suas llgacoes e relacées objetivas: é o reflexo psiquico” (Leonriev, [1959]: 21)-
9.
ViGZLS(fSKY, Lev S. “Manuscrito de 1929”. Educapzfo e Sociedade, ano 21, n. 71, p. 27.
a».

)u . 0.
95 Mid. (grifos nossos.)

126
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LEE;
MAURO LUIS IASI

construcfio psiquica inverte a determinacfio do individual para 0


social?6 A armadilha da Viséo organicista—ncurolégica do processo
dc consciéncia é quc acaba deduzindo a conduta social pela forma
de atividade e pensamento dos individuos, estes determinados por
amadurecimentos lineares c fisiolégicos,97 por mais que insistam
no aspecto “social” do pensamento e da consciéncia. As conclusées
de Vigotsky levam—no a um caminho distinto:
(...) n65, das formas de Vida coletiva, deduzimos as funcécs sociais. O
ali-
desenvolvimento segue niio para a socializaciio, mas para a individu
funcées
zaczio das funcées sociais (transformacéio das relacécs sociais em
nto infantil
psicolégicas...). Toda psicologia do coletivo no desenvolvime
aqucla crianca se
esté sob nova luz: geralmente perguntam como csta ou
vo cria nesta ou
comporta no coletivo. Nés perguntamos: como o coleti
naquela crianca as funcées superiores?93
Ocorre que apontar para a determinacfio social podc niio
resolver todo 0 problema. O préprio Leonticv insiste que o que é
iéncia é
caracteristico de uma Visfio marxista do processo dc consc
imutzivel,
que cste nfio naturaliza a consciéncia humana como algo
humano é
como a Visiio de W. Wundt, para quem “o psiquismo
em toda parte e sempre o rnesmo”?9 mas afirma quc o “psiquismo
dc maneira
humano, a consciéncia humana, transforma—sc (..)

192? (Bo/6’13”” 62'“


”6 Segundo podemos ver na nota 25 do editor russo dos manuscritos de
Puzircl). UEnfl oufra
Universidade ([6 Moscow, Série 14, Psicologia, n. 1, 1986 —— A. A.
consequéncia é uma profunda reorientacfio do préprio método dc peq}83 pslcologica
de pesasa, nosolltrnltes
por meio de uma “profunda rejeicfio do paradigma experimental
com ajuda de forma especial da atnndadc
do qual o psicélogo em esséncia tenta criar,
engenharia, o ‘experimento’ —- condicée s artificiai s, nas quais seria posswel 21 real-lzacao
modelo ”. No lugar deste paradig ma seriam proposto s metodos T313 ade—
do prescrito
quados h natureza especifica de um objeto definido como “histériCO'Cllltural -
ta, ou
97
“Antes era pressuposto: a Funcfio existe no individuo em forma pronta, semipron
no coletivo ela exercita— se, desenvo lvc-se, torna—sc mais complex a, eleva—se,
embrionéria —
enriqueceuse, freia—se, oprime—se etc. Agora: a funcfio primeiro consrréi-se no coletivo
a da
na forma de relacio entre as criancas, depois conscitui—se como Funcéo psicolégic
personalidade” (Vigotsky, 2000, p. 29)-
98 Mid, p. 28-29.
9" Apud LEONTIEV, Aléxis. O desmvolw'mento do psiquimzo, cit, p. 95.

127
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.2“
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DB CLASSE

qualitativa no decurso do desenvolvimento histérico 6 social”


(Leontiev [1959], p. 95). Este carater dinamico, em contraposigao
2‘1 imutabilidade atribuida a “psicologia burguesa”, derivaria do fato
de que a consciéncia seria agora vista como “reflexo psiquico” da
atividade do 361' humano sobre a narureza (o trabalho), e no caso da
praxis humana esta atividade muda historicamente, modificando
assim sua representagao subjetiva. Logo, conclui corretamente que:
Para descobrir (as) caracteristicas psicolégicas da consciéncia, devemos ab~
solutamentc rejeitar as conccpgées metafisicas que isolam a consciéncia da
Vida real. Devemos, pelo contrério, estudar como a consciéncia do homem
depende do seu modo de Vida humano, da sua existéncia. Isto significa quc
devemos estudar como se formarn as relaqées Virais do homcm em tais e
tais condigées sociais histéricas c que estrurura particular engendra dadas
relagées. Devemos em seguida estudar como a estrutura da consciéncia do
homem se rransforma com a estrutura da sua atividade.100
A atividade humana do trabalho, como eminenternente social,
permitiria que os seres partilhassem de um conjunto dc simbolos e
rooresentagées fonéticas que, além do permirir a comunicagao, pos-
51bllitariam em igual medida a representagfio simbélica da realidade
destas relaoées, um “sistema de significagoes”. Segundo Leontiev
([1959], p- 102), “o homem encontra um sistema de sigm'ficczgo'es
pronto [grifos nossos], elaborado historicamente, e apropria—se dele
tal como se apropria de um instrumento”. N50 é por acaso que
para
este autor “consciéncia” é sinénimo do “psiquismo”,
pois, como
transparece na afirmagao, todo processo é consciente, como 0 use
doum’lnstrumento, o que o leva a afirmar que o ato propriamente
pmcologlco se aproxima de uma escolha “subjeriva e pessoal”, na
nledida em que uma pessoa assimile ou nao um certo conjunto do
Significagées tornando-o parte dc sua personalidade.
Ainda que este conjunto de significagées nao se apresente
sempre e diretamente como uma ideia consciente, do tipo: por

“’0 LEONTIEV, Aléxis. O desem/olz/immto do psiquismo, cit, p. 98.

I28
1111111
191.11,: =11‘12. 1‘11»,
1111111 §-:§-11111-§11§1131 1 111111111321‘.' 1%1
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111111311111-1111111
.21“

1
MAURO LUIS IASI

participar de uma sociedade capitalista e aceitar como parte da


minha personalidade o ideario liberal, me comportarei em meu
trabalho como um individuo profundamente competitivo; isto,
nas palavras do mesmo autor, “niio significa que deixem de ser
conscientes”, mas que “ocupam apenas outro lugar na consciencia;
sao igualmente, por assim dizer, controlados, conscientemente, o,
que significa que, em certas condicées, podem ser conscientes
(Leontiev [1959], p. 113).
E essencial lembrar que o autor estabelece uma diferenciacz’io no
fenémeno da consciéncia entre as chamadas “estruturas do peosa—
mento” e o aspecto propriamente psicolégico. As primeiras serlam
explicadas pelo amadurecimento das chamadas funcées superiorcsc
definidas a partir de uma base fisico—neurolégica; a segunda estafla
ligada as relacOes de sentido e significaca’io, portanto sociais. Podemos
deduzir que a capacidade dos organismos superiores —— por exemPlo,
a memoria, o pensamento abstrato, a capacidade de associacao e
sinteses abstratas -— encontram e ganham forma a partir do desen—
volvimento histérico da atividade humana, mas sao na esséncm, For
terem bases fisiologicas, sempre os mesmos. O que mudaria seila 0
contetido desta forma imutavel, seu aspeCto qualitative, ou seja, 0
sistema de significacées e suas rclacées de sentido. “
Isto leva Leontiev, por exemplo, a sustentar que a trafl‘Of—
condlcoes de
macao essencial que caracteriza a consciéncia nas
desenvolvimento da sociedade de classes é a modificaciio que
sofre a relaciio que existe entre o plano dos sentidos e 0 Flint.) das
significacées nas quais se produz a tomada de consciénCIa ({5s
uma questao de
122). Eis que a consciéncia se toma, mais uma vez,
escolha e assimilacao de ideias e nao, como afirmava Vigotsky (op.
cit, p. 33), que a “personalidade social é o conjunto das relacoes
sociais encarnado no individuo (funcées psicolégicas construidas
pela estrutura social)”.
E por demais significativo que o mesmo Leontiev, que insiste
em seu duelo com a “psicologia burguesa” na dinfimica do psi-

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

quismo contra sua imutabilidade e atribui esta dinfimica a relacéio


deste psiquismo com as mudancas histéricas das relacées sociais,
acaba por se esquecer da relacao social que deveria ser a base deste
processo dc interiorizacao: a familia. Segundo sua concepcao, o
“mundo do trabalho” se transforma em “pcrcepcz'io” subjetiva d0
mundo sem a mediacao de nenhuma relacao social. Em seu livro
sobre o Desenvolw’mento dopsz'qm’smo, com 352 paginas, a familia
so aparecera na pagina 306 e de forma absolutamente abstrata e
a—histérica.
A modificacéio essencial da consciéncia na sociedade de classes,
que segundo o autor encontra—se nas relacées dc senrido 6 na con—-
tradicao aberta entre estas e o conjunto das significacées, reria se
produzido por duas transformacées: a cisz’io operada na atividade
humana entre o trabalho manual 8 o intelectual e a separacfio d0
sujeito da atividade dos meios de producao necessarios a esta, ge—
rando um'a “alienaciio” cujo resultado é que sua propria atividade
“deixa de ser para o homem o que ela é verdadeiramente”. Seriam
estas relacées objetivas ligadas ao desenvolvimenro da propriedade
privada que determinariam “as propriedades da consciéncia hufl
mana nas condicées da sociedade de classes”
(LeontieV, [1959]: P‘
129). Direto da esfera das relacées de producao para a consciéncia
sem escalas.
A consequéncia destas cisoes é que o conjunto das significacées
passaria a nfio refletir mais diretamente a objetividade e a finalida—
dc consciente, mas se autonomizaria. O conjunto de significacoes
refletiria agora outras significacées que manreriam obscurecido
os
sentidos e interesses reais em jogo. Desta maneira, a “apropriacao
de um conjunto de significacoes linguisticas é (to mesmo tempo a
apropriacao de um conteL’ido ideologico muito mais geral” (z'bz'd, p.
139). Os membros da classe dominante estariam condenados a uma
contradicao insolfwel, pois restabelecer o vinculo entre o sentido e a
significacao dcsnudaria o carater da exploracao que lhe é funcional,
ao passo que, para os trabalhadores, conclui o estudioso soviérico,

130

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MAURO LUIs IASI

toma—se vital superar esta “imperfeicao” ou “inadequacao” criando


“um terreno psicologico favoravel a assimilacao de significacées ade—
quadas, de uma ideologia adeqzmdzz [grifos nossos]; cria aquilo que se
manifesta objetivarnente por uma atracao pela ideologia socialista,
pela consciéncia socialista cientifica” (ibid., p. 142).
Marx com toda certeza so poderia reagir com profundo espanto
a busca de uma “ideologia adequada” no caminho da emancipa—
cao humana, principalmente tratando—se de um proletariado que
fez uma revolucao social 6 apresenta certa dificuldade em largar
o Esrado. Mas aqui se trata de uma incompreensao muito maior
(lo que o simples uso incorreto do ambivalente e vago termo
ideologia. Como a consciéncia foi transformada em um conjunto
duos
d6 Significacoes que psicologica e subjetivamente os indivi
assimilam on 11510, 0 proximo passo é a possibilidade de superar
tal consciéncia sem que isto implique superar as relacoes socials
propriamente ditas. Vejamos.
o
Como as classes trabalhadoras Vivem o antagonismo entre
conjunto das significacées burguesas e a “Vida real” e “anseiam” por
ideias que exprimam as “relacées verdadeiras”, o autor conclui que:
ha tracos das
Nestas condicées, que 5510 as da Vida dos trabalhadores, néo
condicées que fixam na sua consciéncia as relacées dominantes (1?). Mesmo
' rcado que mascarava outror ' car {iter
a o verdadelro
’ ' s lacos do patria
os ultimo
destas relacées eStao definitivamente quebrados.(!!!???)101 .
reendlclas
Estas surpreendentes afirmacoes so podem ser comp
ciéncia soc1al
se percebermos que para o autor existiria uma cons
burguesa e o
para cada classe: a burguesia teria uma consciéncia
ior, se—
proletariado, uma consciéncia proletaria. A assertiva anter
gundo a qual a consciéncia social deriva das relacées sociais, perde
todo o sentido, pois as classes que compéem uma certa sociedade
devem por definicao partilhar de uma mesma relacao, ainda que em
polos opostos e por vezes antagomcos. A dommacao Ideologlca se
u g c f u
.

‘01 LEONTIEV, Aléxis. O desenvoivimento do psiqm'smo, cit, p. 141.

131
ii-Kiowa-A -."~: is}
“i iii
iss-E-issi Ems“ ifs-3i i: its is ii;is: isW iii“ '9~\
swiii i it :‘
i xiii iw'."'\'-'s5?‘:}e-‘2essiiis is-fii
ass-figs axis-i we:
viii-sis- i’.’-:sa'i;.-zis=*-"-i- i2"’i"- i"".s'=.
Eissi-isi‘siwsi ssi-sii‘is is: ii :iii:-
9‘s ire-u:”iii-s éziigs-ifi
iii-i- “ski i iii mix
E’a; iii iii-its: ism-ii
Eisiiiiiiéssiiiissi
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DIE CLASSE

reduziria ao fato lamentével de um proletario aceitar como sua uma


ideologia “inadequada”, abrindo caminho para 0 marxismo tornar-se
uma “ideologia adequada’”. Pequenos abalos sfsmicos sz'io detectados
proximos ao cemitério do Londres onde Marx estzi enterrado.
Nao precisamos ir muito longe para buscar um exemplo que
nos mostre a impropriedade destas afirmagées; utilizemos 0 P16"
prio autor, seu pai's (onde os {llrimos lagos do patriarcadO estavarn
definitivamente quebrados) e o momento histérico em que se
encontrava quando escreveu tais assombrosas conclusées, assim
como sua prépria consciéncia. Sabemos que Leonriev produziu
este texto no final da década do 1950 na URSS, asseverando que
a consciéncia é, psicologicamente, a adesao ou 11510 a um conjunto
dc significagées que permitem, como o uso de um instrumento
consciente, servir a uma finalidade desejada. Estamos cientes de
que, ao contrério da imurabilidade atribufda a consciéncia pela
P3iCOlogia burguesa, esta muda conforme as relagées sociaiS e 0
carater da atividade humana alterem sua forma histérica. Vejamos
entfio a descrigao de uma mudanoa na consciéncia operaria sobre
as condiqées de uma transigao socialista:
O Operario socialista, ral como o operzirio da empresa capitalism, tece, fill
Etc. Mas para ele o seu trabalho rem realmente o sentido de tecelagem,
539510 etc. Para ele, o morivo e o produto objetivo do trabalho 11510 550
estranhos um :10 outro, porque ele n50 trabalha para
os exploradOfES) mas
Para ele, para sua classe, para a sociedade.
O Operario socialista recebe um salario em troca de son trabalho; rambém
para file 0 trabalho rem, portanro, uma significagao dc salz‘irio, mas para
estc filtimo nao é senfio um meio para realizar uma parte dos frutos
da
produgz'io social para seu consumo pessoal. O sentido do trabalho
modifica—
—se porque os sous motivos sfio novos.(!!!!)102
Analisemos estas afirmagées detidamenre. Primeiro, remos
que afirmar que Leontiev realmente acredita no que estz‘i diZCH
dO;

10?- 15:22., p. 144.

132
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MAURO LUIS IASI

portanto, cstes valores e ideias fazem parte de sua consciéncia, para


usar sua terminologia, fazem parte de um sistema de significacoes
que ele assimilou e quc compée sua personalidade. Mais que isto,
comporia uma “ideologia adequada” que scria capaz dc romper
a “imperfcicao” do conjunto dc significados burgueses que nao
correspondem as relacoes verdadciras.
Passemos ao final da afirmacao: “o sentido do trabalho mo-
difica—se porque seus morivos sao novos”. De forma alguma! O
scntido do trabalho nao modifica porque scus agentes encontrarn
“motives novos”, mas somente 6 na medida em que mudam as
ato do trabalho.
1'6139568 objctivas que constituem concretamcnte o
Interessante quc varios aspectos desta rclacao objetiva pareccm nao
ter sido alterados, scgundo nos informa o proprio autor. O operano
socialista rece, fia etc, mas para 616 sua atividade “realmente tern
scntido dc tecelagem e fiacao”. Ora, assim como o operario no capi—
talismo, seu trabalho concreto é 0 de tecclagcm e de fiacao. O fafo
de trabalhar ou nao para um proprietario privado capitalista nao
é o que define a finalidade dc seu trabalho (fiacao ou tecelagemla
mas uma certa divisao social do trabalho e as formas espcradas
dc valor dc uso. Dizer que a finalidade do trabalho desalienou—se
significaria dizer que ela restabeleceu a predominancia do valor
dc uso, ou seja, que o operario recs 6 fia porque os membros da
socicdade precisam se vestir. Contudo, esta passagem pare-CC ’11210
tcr ficado muito evidentc pcla prépria continuacz’io do rac10c1n1o
apresentado. '
Por quc o operario socialista tece e fia? Resposta dc Leontlexi:
h'o”,
cc0 operario socialista recebc um salairio em troca dc scu traba’l
e também para ele o trabalho rem uma “significacao dc salano .
Portanto, na finalidade do trabalho para este operario socialista
prevalece o valor dc troca. Em uma palavra, o trabalho é um meio
de Vida. Nao por acaso a “significacao” de trabalho continua a
mesma, pois, ao que parecc, pelo menos neste aspecto, a ativida—
dc em si do trabalho ainda continua sendo um “meio para o seu

133
W.1r-sW11W1-:s;1a
1111,11»
\4111;1s1111‘1123-s'11 1-11-11 1.91 1-11 12.1
11111 1311 11-1 11:}- 1 ’12.” 11 111 1- M k1 111.111.1111 sWs-.-’-‘-=a.~s\.a1 1111
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13-131 1111;11:1- 1‘1 11-111“ " 11.122.11.111
1-13.1- 1111111 11;: 1&3 11.1.»-11111-11131
11:1 11111111111131.
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

consumo pessoal”; nas palavras dc Marx, o trabalho ainda é um


meio de Vida.
A consciéncia destc operario socialista niio mudou, assim como
a do intelectual socialista que aprescnta os fatos c sobrc cles teoriza,
nao porque Leontiev nao forneceu uma “ideologia adequada”, mas
porque, ao que tudo indica, as relacées objctivas niio mudaram,
ao menos em alguns de seus aspectos, 56 11510 quisermos if mais
longe e perguntar se esta divisao social do trabalho se insere ou
nao numa divisao hierarquica do trabalho que tinha por base 0
controle e a subordinaciio da classe trabalhadora.
Podemos entao voltar 6 nos perguntar: nestas condicées, que
5510 as da Vida dos trabalhadorcs, nao ha tracos das condicoes que
fixam na sua consciéncia as relacoes dominantes? Parece que sim.
Mesmo no contexto de uma formacao social que passou por uma
revolucao socialista, um operério acredita que seu trabalho tern a
significacao de salério, meio de Vida e 11:10 primeiro fundamento
da existéncia (Marx). Isto quer dizer que a ideologia burguesa r1510
pode ser acusada de ser “inadequada” ou “imperfeita” porque 11510
corresponde as “verdadeiras relacées”; a0 contrario, ela é ideologia
burguesa exatamentc porque corresponde as verdadeiras relacées
estabelecidas, é a expressao das relacées que fazem da burguesia a
classe dominante (Marx e Engels, 1976, p. 56): as relacées capi—
talistas de produciio.103
Por conseguinte, nossa questéio continua a mesma: mas como
este conjunto de relacées interioriza e forma nos individuos dc uma
certa época sua consciéncia social? Como se dial a transformacao
das relacées sociais em funcées psicolégicas? Qual seria
a causa
da forca destas ideias que operam mesmo nos membros da classe
oprimida, dc modo que estes acreditam scr estas ideias naturais e
universalmente validas? Infelizmente quem nos explica este com—

103
Voltaremos mals adlantc a questao sobre o carater das relacées soc1ais na tranSIcao e a
I O \ ,. ' . . ¢ a

forma da consc1enc1a proprla desta passagem cm que sobrevivcm elementos importantes


do sociometabolismo do capital.

134
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s3; 23‘? i§?¥332§w3331\
MAURO LUIS IASI

plexo processo, ou pelo menos nos indica um caminho promissor,


é a psicologia “burguesa”; mais precisamente, Freud.
Primeiramente, Freud opera uma diferenciagiio que nos é extre—
mamente util quando se trata de nos afastar de um materialismo
mecanico. Para ele, os dois fatos que cornpéem nosso conhecirnento
sobre a Vida psiquica constituem o cérebro, além do sistema ner—
voso como base orgiinica onde ocorre o processo, e os chamados
atos de consciéncia. Segundo o pai da psicanz’ilise, nao haveria
“nenhuma relagao direta” entre estes dois fatos, e a compreensiio
do sistema neurologico nos daria, no maximo, a localizagao destes
processos sem contribuir ern nada com sua compreensao (Freud,
[1938] 1955, p. 69).
se
Quanto ao aspecto metodolégico, o procedimento de Freud
aproxima da fenomenologia e se baseia na observagao e no estudo
do desenvolvimento individual do ser humano. Mediante esta
observagao, Freud deduz a existéncia de uma estrutura psiquica
de um
que é menos descririva de uma objetividade fisica e mais
Desta
movimento, especificamente de uma dinfimica psiquica.
maneira, sua aproximagao é extremamente adequada aqueles que
ura
querem entender o processo psiquico nao como uma estrut
sky.
natural, mas como uma construeao, como nos dizia Vigot
descober—
Wilhelm Reich (1977) afirma que é possivel deduzir das
soes e
tas de Freud, mesmo considerando algumas de suas conclu
,
universalizagées indevidas no que range 2 explicagao sociolégica
uma leitura materialista e uma dinfimica profundarnente diale’tica
da constituigao e do funcionamento do psiquismo.104
er o
Os criticos soviéticos de Freud sempre acreditaram resolv
problema atribuindo urn carater metafisico e, portanto, idealista ao
de “algo concre—
36“ PCflSamento pelo fato de nao partir sua analise

'0" “Neste caso, das duas uma: ou a psicanzilise se opée ao marxismo como método -- neste
caso, ela seria idealista e antidialética -- ou entfio é possivel demonstrar que, em seu domi11io
especifieo, a psicanzilise aplicou de fato o materialismo dialético e desenvolveu teorias corres—
pondentes -— inconscientemente como tantas outras ciéncias naturais” (Reich, 1977, p. 22).

135
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2.22132
A

2- 52-. :2 «Ix
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DIE CLASSL'

to”. Partilhamos corn Reich a compreensao de que o movimento


de entificacz’io psiquica é algo profundamente concreto, ainda que
nao palpavel, que estzi no movimento e nao no substrato fisrco, de
onde se conclui a inutilidade de ficar analisando o cérebro para
encontrar as funcées psicologicas.105
Como se construiria, entao, esta dialética psiquica e de que forma
isto pode esclarecer nosso tema? Apesar de 0 objeto de observacao
e de a esperada cura psicanalitica serem o individuo, a dinamica de
constituicao do psiquismo nao é individual, ao contrario, nao se
explica a nao ser na insercao deste individuo nas relacées imediatas
que estabelece durante a inffincia. Em urn primeiro momento, Freud
supée uma instancia psiquica basica, arcaica, que denomina de id
e que consistiria em tudo aquilo que seria herdado e inato ao ser
humano, ou seja, “sobretudo os instintos originados na organizacao
somatica” (primeiro aspecto da determinacao material) (Freud, 1955,
p. 70). 0 id em verdade nao seria propriamente este conjunto de
instintos, mas a primeira expressao destes na forma de demandas
instintivas que se faria notar por meio de estimulos transmitidos
fisicamente, como a fome ou 0 Bio.106 A primeira contradicfio que
coloca ern movimento a dinfimica que ira resulrar no aparato psiquico
se da entre estes impulsos e o mundo externo (segunda determinacfio
material)_ Nas palavras de Freud:
Sob a influéncia do mundo exrerior e real que nos rodeia, uma parte
do
za’ experimenta uma transformacao particular. Daquilo que era original-

X
105 Nestc campo, as atuais reflexées
de Damésio (1996, 2000) sobre
a relagéo existente
entre cmocées, razz‘io, consciéncia e o cérebro humane sfio significativas e interessantes.
Podem, no entanto, incorrer no antigo erro de tentar localizar fisiologicamente
produtos
sociais no cérebro humano.
'06 Para Freud esta manifestacao do impulso bzisico é destituida de uma forma
social. No
entanto outros autores, como Poster ou Elias, chamarfio a atencao para o fato de que
a
propria forma como se expressa para a consciéncia um impulso
jri o reveste d6 U013 forma
social; por exemplo, nao é possivel rer “fome” no abstrato, e, na medida que e5te impulso
ganha uma forma, isto é, ter fome ao meio-dia, ter fome de salgados ou necessidad
e de
um doce, id 0 impulso estaria revestido de uma profunda influéncia do contexto social e
cultural historicamente determinado.

I36
MAURO LUIS IASI

estimulos C de
meme uma camada cortical datada dC 6rg§os l'CCCptOfCS dc

dispositivos para a protegfio contra estimulagées excessivas, desenvolve—se


paulatinamente uma organizagao especial que desde entao assume uma
fungz‘io mediadora entre 0 id e o mundo externo. A este setor de nossa Vida
psiquica lhes damos 0 nome de ego.‘°7
A 219510 do ego como instancia mediadora se dz‘i mediante qua—
tro procedimentos basicos que tém, em ultimo case, a finalidade
experiéncias
de “autoconservagao”: a) armazena na memo’rz'a as
situagées
Vividas e é capaz de associar estas experiéncias com
apresentam por demais
110V38; b) evita os estimulos que se lhe
odamento
intensos por meio dafugzz; c) busca situagées de acom
;
diante dos estimulos mais moderados por meio da addpmfizb
do exterior mediante
d) e, finalmente, aprende a mudar o mun
a atividzzde (Mid).
conta a realidade
Neste primeiro momento, o ego deve levar em
impulsos,
externa apenas como o meio no qual tera que realizar os
agéio do dCSCjoa
e seu critério é ainda determinantemente a realiz
portanto, p610
ou, mais precisamente, do impulso. Orienta—se,
, segul’ldO
chamado “principio do prazer”. Tal principio nao se baseia
como prazer
0 pensador vienés, em magnitudes absolutas sentidas
ées de estadOS
ou desprazer, mas antes no ritmo e nas modificag
alteragées destas mag—
sentidos pelo ego como sinais de perigo as
e, portanto, malsa
nitudes. O reinado do principio do prazer supé
Julgamento
3

percepgéo sensorial (seja interna ou externa) do que


(‘0

propriamente, o que implicaria valores.108


e ser humano 11510 possui ime-
LOgO apés 0 nascimento, 0 mov os ilo que os psicélog
diatamente esta nogao do “cu”. Passa por aqu

”. Obras complems, XXI. Buenos Aires:


'07 FREU D, Sigmund. “Compendio del psicoanélisis
Santiago Rueda Editores, 1955, P- 70-
de duas forqas materiais (a realidade
“” Podemos observar aqui que 0 psiquismo é sfntese entre duas
pulsional _ ;d_ e 0 mundo externo); 0 ego surge como mediagfio subjetiva
como reagao objetiva, e r1510 como
objetividades. A prépria mediaqiio aparece primeiro
julgamento de valores, como moral.

137
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32”“2%22-
.2“
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DIE CLASSE

chamam de fase pré-objetal, ou seja, nz'io distingue ainda exata—


mente onde acaba seu corpo e onde comega o mundo externo.
Em raziio de que seu organismo estava em unidade com a mile
no periodo de gesraga’io, a percepgéio da ruptura desta unidade
niio é imediata. De certa forma, a crianga imagina o mundo
como um complemento de seu corpo e que pode acioné—lo por
sua vontade. E somente no momento em que a satisfaefio de um
impulso instintiVO dependa de outro que néio ele é que passa
a fazer sentido a ideia do “eu”. Assim, o préprio ego é definido
como sintese entre os impulsos bzisicos de origem somética C um
mundo externo e objetivo.
No entanto, como afirmamos, esta objetividade permanece
ainda externa. E Vista pelo ego em formagiio como barreiras en—
trepostas entre o impulso e sua realizagéio, um campo em que terzi
que aplicar seus instrumentos de autopreservagéio (fuga, adaptagz’io
ou atividade). Todavia, esta objetividade nfio permaneceré extern
a.
Diz Freud:
Como sedimento do longo perfodo infantil, durante o qual
o ser huma-
no em formagéo vive na dependéncia de seus pais, forma—
se no ego uma
instincia especial que perpetua esta influ
éncia parental, 2‘1 qual se dd 0
Home de superego. ”’9
O superego constitui—se, entz'io, na interiorizagiio de
normas, re—
gras, padroes de conduta apresentados pelos adultos
que convivem
com a cnanga, permitindo a esta que leve em conta
as exigéncias do
mundo externo mesmo na auséncia destes adultos.
Juntamente da
manffestagfio dos impulsos bésicos apresentados pelo
id e a tarefa
medladora do ego, o superego completa a tri'ade
que constitui o
aparato psfquico. O salto de qualidade que aqui se verifi
ca é que a
mediagfio do ego agora se dz‘i internamente entre as
duas instfincias
que representam, cada uma £1 sua vez, os impulsos somz
'iticos e a
realidade objetiva.

”’9 FREUD, Sigmund. “Compendio del psicoanzilisis


”, cit, p. 71.

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MAURO LUIS IASI

Freud completa sua apresentaefio do superego asseverando que


este niio se reduz a personalidade dos adultos mais préximos, mas
que estes atuam como representantes de uma certa cultura e uma
certa sociedade. Vejarnos em suas palavras:
indole pessoal
Naturalmente, na influéncia parental nfio somente atuam a
familiares, raciais
dos pals, como também em cerro sentido as tradigées
as demandas do respectivo
e nacionais que estes perpetuam, assim como
curso de sua evolugao
meio social que representam. De igual maneira, no
substitutos e sucessores
individual, 0 superego incorpora aportes dos
nagens exemplares, os
ulteriores dos pais, como os educadores, os perso
.
ideais venerados na sociedade.110
ado por melo
Conforme observamos, aquilo que é interioriz
ser definido como
da formagéio do superego poderia muito bem
m uma culru:
um certo estagio das relaeées sociais que constitue
o verernos, Freud 1ra
ra, ern outras palavras, uma sociedade. Com
al como “a realidade”.
universalizar uma determinada forma soci
o “a” familia, assim
Corn efeito, toma a familia burguesa com
de sociabilidade.111
como a sociedade capitalista corno forma final
ser
e 0 fato de que o que acaba de
NO entanto, isto néio desmerec
l uma certa sociedade
descrito é exatamente o processo pelo qua
, “ideais venerados ,
e suas demandas, regras, padrées de conduta
iduo, e esre passa
passam a fazer parte do universo psiquico do indiv
..
a reconhecer estas demandas e valores como seus.
coberta freudiana vao
A grandiosidade e a relevancia desta des
e.112 Para 0 nosso
muito além do que imaginaria seu préprio artific
ncial. Reparern que
terna, possui pelo menos uma implicagao esse
mediatizadas
a internalizaeao das regras e normas sociais que sfio

“0 Mid.
SL111 71’0”.“ ”5,131.64 (3414177131311,
1” Ver a respeito a critica elaborada pOI‘ Mark Poster (1979) em
principalmente o primeiro capitulo (p. 21—60).
abstrata do desejo, tal como Ricardo
”3 “Freud descobriu a natureza subjetiva ou esséncia
(Deleuze e Guatta ri, apud Poster,
descobriu a natureza subjetiva ou esséncia do trabalho”
op. cit, p. 21).

139
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v '- i ' '--"‘"'--‘-
.2“
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSES

pelos adultos que convivem com a crianga nao ocorre somente pela
comunicagz’io racional e, em grande medida, pode se dar mesmo
antes da aquisigz'io da linguagem, muito provavelmente simultanea—
mente ao desenvolvimento da linguagem. A crianga vive a relagfio
com os adultos e a incorpora antes como carga afetiva, como sinais
de aprovagao ou teprovaoéo que seu ego traduz como estimulos
que ativam seus mecanismos de autopreservagz’io. Isto significa que
um valor jzi pode estar assimilado antes de assumir uma forma
sistematizada de ideia, ou conceito, muito longe, portanto, de um
valor moral ou um saber cientifico.
Vejamos urn exemplo. Segundo estudos, a primeira palavra
que costuma ser realmente incorporada pela crianga é, significati-
vamente, o “1150”. Isto n50 quer dizer que a crianga fale a palavra
“nz'io” (aparentemente contrariando Lacan,113 diriamos que o signi-
ficado antecedeu o significante), a crianga sabe
e usa a nega9510 (por
exemplo, como movimento da cabega) mesmo antes de
pronunciar
o vocabulo que representa o signifi
cante.
Este simples fato pode ter implicagées profundas em nosso
tema. Recordem que, segundo Leontiev, 0 set humano assim
ila
urn conjunto de significagées como que usa um instr
umento. Ora,
a dlnamica descrita nos revela que a base daq
uilo que serzi expresso
num conjunto de significagées (na verdade
significantes) pode jé
estat asmmilada sem que, no nivel conscien
te, o sujeito tenha como
efipressar tal contet’ldo utilizando a linguagem. A dificuldade cor-
riqueira do tipo “eu compreendo mas nao sei
explicar, me faltam
————_-__——'—'——-——

“3 D-izernos apatentemente porque nos parec


—____.

e que também o psica


nalista franCéS Vé esta
dlferenga essencxal entre a palavra e a base dos
conteddos psiquicos que ela expressa.
Quando L’acan afirma que o significante
precede o significado nao estaria SC refer
este'conteudo que se encontra no fundamento da prépri indo a
a linguagem, mas a construgz‘io
de Significados como resultante da série de significante
s e por Ineio da relagao entre eles.
E este aspecto que sera essencial a Zizek (1996), quand
o afirmarzi que a ideologia tem
uma funqa'o de constituir, produzir, o proprio “real”. Diz
Lacan: “Nos designamos por
letra esse suporte material que o discurso concrete empresta
a linguagem. Esta simples
definigiio supée que a linguagem nao se confunde com as diversas
fungées somaticas e
psfquicas que a produzem no sujeito falante” (Jacqu
es Lacan (1992, p. 225)-

I 40
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MAURO LUIS IASI

palavras, sei explicar, mas nao consigo escrever” demonstra que


existe uma diferenga entre a substancia dos contefidos interiorizados
e suas formas de expressao.
36 por analogia podemos nos remeter ao raciocinio efetuado por
Marx para diferenciar valor de rroca e valor. Sabemos que, segundo
o pensador alemao, o valor de troca é mera forma de expresséio do
valor, que constitui sua substancia.“ Ora, para que o valor de tro-
ca possa expressar—se, é necessario que sua substancia tenha prévia
existencia na forma de uma certa quanridade de trabalho humano
abstrato socialmente necessario. Por analogia (6 so por analogia), a
substancia de um valor social (seja uma prescrieéio moral, como“nao
andar por a1 pelado, ou mesmo uma conduta pratica do tlpo nao
coloque o garfo na tomada”) pode estar incorporada corno carga
afetiva e se expressar ou nao no corpo de codigos linguistrcos.
de mundo, uma
Naquilo que nos interessa, uma certa visao
consciéncia social, expressa-se numa linguagem (Gramsa, 1978),
que
mas aquilo que esta expresso encontra sua substancia em algo
dela se diferencia e que a ela nao pode ser reduzida. Isto signlficia qne
a substanc1a.
podemos esrar confundindo a forma de expressao com
(1976) E: extre—
Neste sentido, a elaboragao de Marx e Engels
amentos domi—
marnente reveladora. Segundo estes autores, os pens
riais domlnantes,
nantes sao apenas expresscio ideal das relagoes mate
classe a classe
ou, ainda, expressd‘o das relagées que fazem de uma
mas estas relaeoes
dominante (Marx e Engels, 1976, p. 56). Ora,
ito da produgao
dominantes seriam aquelas que ocorrem no amb
e o vendedor da
do valor, no eixo da relaeao entre o capitalista
em pr1nc1plo,
forga de trabalho. Niio é esta a relagao, pelo menos
que encontramos na familia. .
os pals
Freud ja nos forneceu uma pista ao mencionar que
uma
apresentam, por meio de sua agao, as demandas e valores de

”‘1 “(...) o valor de troca so pode ser :1 maneira dc expressar, a forma de mamfestaeao de
/
(Marx [1867]: P- *3)

distingllll'
- n
uma substancm que dele se pode
A . . .

141

. 222222222
2.22 2222 2:22=2;.‘2:.
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2222222 2:- 2'2- 222
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1222222222222222222
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

certa sociedade. Isto 56 dd evidentemente dc maneira mediada.


Temos que supor, entao, que a substancia de um valor possa ser
transposto para outra forma, neste caso para outra relagao concreta
-— a familia -—, sem que perca sua esséncia (o que de fato OCOHC com
as mercadorias e as metamorfoses do valor).
Para ilustrar esta dinémica, recorreremos mais uma vez a um
exemplo trazido por Leonriev e sua prépria consciéncia. O exemplo
também nos é fitil, pois o autor discorda veernenternente da existéncia
de uma instancia inconsciente, niio podendo ser acusado de disrorcer
os fatos para dar razao aos argumentos psicanalr’ricos de Freud.
Comecemos por recordar que mas relagées sociais descritas pelo
autor, urn operario socialista trabalhava e seu trabalho tinha a signi—
ficagao dc salario, ou seja, em troca de uma quantidade dc trabalho,
recebia uma quantidade de equivalente geral que podia trocar por
bens dirigidos a0 seu consumo. Segundo Leonriev, este operé
rio
trabalhava feliz por nz'io o fazer para urn explorador, mas para
sua
classe e para a sociedade, para a “pétria”. Como serz’i que se desenvol—
Veram neste operario socialista estes valores? Seria em razao de que
outra classe agora controla a “produgao” e 03 meios dc
“circulagao”
de Irovos valores “socialistas”? Parece que nao. Vejarnos a descri
giio
trazrda pelo autor do desenvolvimento desta con
sciéncia numa certa
fase do amadurecimento da crianqa. Tudo com
ega corn uma Clafa
percepgao na crianga em idade pré—escolar: de que ela depe
nde de
OUEIOS que determinam seus sucessos e fracassos. Verifi
quemos as
palavras de Leontiev:
a crranga sente sua dependéncia para com as pessoas com
quem esra di—
rerarnente em contato; deve conrar
com as exigéncias que aqueles que
a
roderam impéem a sua conduta, pois é isro que dcrermina, dc
fato, as was
relagées intimas, pessoais, corn elas. Destas relagées depend
em nz‘io apenas
seus sucessos 6 sons fracassos, mas sfio elas que
encerram igualmente as was
alegrras e suas penas, siio elas que tém valor dc motiv
o.115

“5 LEON TIEV, Aléxis. O deserwolw'mmto do psiqm'mzo,


dz, p. 305-306-

142

“saws as Was-if.._<2\\_;.\ 29- sank-Ea


EEEEE » EELEEEEEE EEEEME‘QE A:-'-s\§'\'*--
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”E. E -E “E iEs E: EEE EEEEEE’EEE‘EEEHE
MAURO LUIS IASI

Resumidamente, a criancga desenvolve a percepgéio de quo de—


pende de outras para satisfazer suas necessidades, mas r1510 para por
ai. Ela precisa accitar as “exigéncias” que estes outros impoem £1 sua
conduta, pois é isto que vai determinar seu “sucesso” ou “fracasso”.
Jz’i seria o suficiente, mas ainda hzi um aspecw importante que néio
fica téio 51 Vista. Uma crianga nesta idadc (supée—se antes dos seis anos)
estz’i muito pouco preocupada com o sucesso ou fracasso na Vida,
mas parece que os mesmos adultos que estabelecem as exigéncias séio
as fontes de aceitagiio, carinho, alegria e cargas afetivas essenciais.
N510 corresponder fits exigéncias é perder esta fonte do afetividade e
do reconhecimento. Niio é possivel compreender o que o tradutor
os
quis dizer com “5510 elas que térn valor dc motivo”, mas podem
dizer que silo estas pessoas que tém o papel do impor VEIlOffiS em
troca da aceitagéo, reconhecimento e trocas afetivas. Diriamos que
0 ego, movido pelo princfpio do prazer, reage negativamente £1 perda
cia;
do reconhecimento e busca o equilibrio adaptando—se it exigén
is
tudo isto, portanto, ainda longe dc juizos valorativos ou mora
conscientes.
Leontiev
Esta crianga estzi descobrindo algo essencial, aquilo que
a em
chama de “fundamento geral” do desenvolvimento da criang
idade pré—escolar, isto é, “a posigfio real da crianga a partir da qual
icionada
ela descobre o mundo das relagées humanas, posigfio cond
ciéncia ainda
pela posigflo quc ela ocupa nestas relagé')es”.“6 Sua cons
nto, basmm al—
gira em torno de uma “coloragiio infantil”; no enta
treinando
gumas “reorganizaooes” nestas atividades para que ela Vé.
plo, “se
sua ccposiqfcio” nas relagées nas quais irz’i so inserir. Por exem
ar,
tiver uma irmz’izinha e a mic se lhe dirigisse como a uma auxili
nte”.“7
entiio o mundo abre—se—lhe de maneira funcionalmente difere
Ai' entio a criancinha vai £1 escola e suas relagées sofrem uma
reorganizagfio das mais significativas, pois pela primeira vez suas

"6 Mini, p. 307.


“7 15:21.

143

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E--. EEEE-WEEE
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EEEEE E’EEE EEE EE-EE. EEEE E E EE EEE EE EE‘ EEEEEEEEEE
$4
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DIE CLASSE

“obrigacées” deixam dc scr para com ela e as pessoas mais intimas


e tornam—se obrigacées em rclacz’io a sociedadc, c scu dcscmpcnho
definira “o scu lugar na Vida, a sua funcao e scu papel social”
(ibid, p. 307). A forma pratica quc assume este treinamento sao
sons dcveres .
‘( 3)

A0 fazer seus deveres, a crianca rem, pela primeira vez, sem drivida, a
impressfio de fazer qualquer coisa dc verdadeiramente importante. Proibc
os menores de a perturbar c 05 préprios adulros sacrificam por vezcs suas
atividades para quc ela possa tram/bar. Que diferenca das suas ocupacées e
de scus jogos precedentes. O proprio lugar da sua atividadc na Vida adulta,
a Vida loam a verdade’que a rodeia, se tornou diferente [grifos nossos].118
Esta espantosa descricao do entusiasmo da crianca diante de
suas tarefas, que so poderiam ser pronunciadas por um adulto que
esqueceu dc sua inlffincia,119 é por outro lado reveladora. A crianca
estz’i sendo treinada para o trawl/90, para o lugar que vai
assumir
na Vida ‘joam a verdade”, acabaram os jogos, “cstarzi amanha nas
fileiras dos entusiastas da producao dc
vanguarda” (Leonticv,
[1959], P 309). Ela agora serzi submetida a uma avaliaciio, e esta
avaliag;é'10120 ganhara uma cxpressz’io numérica, “a nota
cristaliza

"3 Em
119
p. 307-308.
Mid-2ontra pass
agem Leontiev f‘
briaedo 21 crianga mas n: a (ill-ma que “ podemos acerrar
« ou recusar compaar um:
(Leonticv [1959] ’308) 30 p0 emos recusar comprar—lhe um manual, um ca erno
120 “A 68 :1 rev 1 " P. l.
c apdCtermifliiiioéggusfiull, com a organizacao hierarquizada dos postos de tralfalho
das . . . f3 31103 e de son Significado social, cresce muito a ImportanCIa
pratlcas dc avalia cao como selecao também do setor rivado
As hierar uias sociais
correspondem as hierarquias dos 0 d P , .' l’ . q .
poder pfiblico, Na escola s p stos e trabalho ou de cxercrcro po Itrco no Sistema d_ e
de um nivel. A pratica 63:0?8f1tuem as classes como grupo socral dcfiomdo em fupcao
on deveres para os alurlls cgaigelcs que mars se tornou comuna COHSIStla em excrcrcros
atribuicées dc noras Des’env ln 0 aos professores as correcoes e as correspondentcs
. _' . 0 VC-Se, entao, o esquema dc notacfio, Fortalecendo-se
:95 fruicanrsmos de hierarqurzagao, classificacéo e rcconhecimento do valor social dos
mdl‘fldUOS numa estrutura escolar quc crescentementc valoriza a
meritocracia c dela
se cxrge guardar esrreira corrcSPOIIdéncia com o sistcma economico” (Dias Sobrinho,
2092’ p. 125). V6: tamb‘ém Perrenoud (1999, p. 57): “(...) a avaliacao é scmpre muito
mars que uma medida. E uma representagéo, construida por alguém, do valor cscolar
ou intelecrual de outro individuo. Inscrcve-sc, pois, em uma relacao social
especifica,
que une avaliador e um avaliado”.

144
".

$332“ 2:212“ 32:33.3‘23233‘ 2 $2.222 2a» N331 322323223 .3 2232223 Nifio 3%?22322s2a 232.22%. 3.333- :32 3-2.3 2 :32. 3,. “22:3 3232:3232a:
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MAURO LUIS IASI

em 51, por assim dizer, as novas relagoes, uma nova forma de co-
rnunicagao em que a crianga entrou agora” (rm, p. 308). Mesmo
que ela tenha um comportamento “acima de qualquer censura”, ou
seja, “jamais deixar bater a tampa da carteira, nao conversar com o
vizinho durante a aula, aplicar—se com todas as forgas e ganhar as
boas gragas do professor”, mesmo assim podera receber uma nota
baixa porque colocou o nome das flores e do sol em letra maifiscula.
N510 podera argumentar, como no jardim da inffincia, que nao fez
por mal, néio pode escapar daquilo que “os adultos chamam de
objetividade da apreciagao escolar” (ibid.).121
A crianga socialista esta quase se convertendo em um operario
seus
socialista, mas nela resiste ainda a crianga, e, apesar de ver nos
deveres as primeiras coisas realmente importantes que jé fez na Vida,
ia. Uma
frequentemente a crianga quer fazer coisas sem importanc
treinamenro
pequena e significativa atitude completara o nosso
para “a verdade”.
gue entregar—se aos
Suponhamos que um aluno da primeira n50 conse
r o memento em que terfi
seus deveres. Tenta por todos os meios afasta
nte se disrrar com outra
que fazé—los, e ainda mal comegou jzi imediatame
o preparar as ligées,
coisa. Acaso compreende ele ou saberzi que lhe é precis
dever, que sem isso niio podera
aprender é uma obrigaqfio para ele, que é seu
que a crianga normal—
tornar—se realmente 1’1til a sua piitria et<:..p Por certo
e’ suficiente para levar a se
menre desenvolvida sabe tudo isso, e ainda n50
que se diz a crianga:
entregar ao seu trabalho escolar. Suponhamos agora
brincar. Esta observagao faz
enquanto n50 fizer os teus deveres, nao vais
efeiro e a crianga entrega—se ao trabalho.(!!)122

objetivo inquestiondvel do
121 “Desta forma o conceito fetiche é a revelagfio de um carfiter quem
o aluno, o ser passivo para
qual o professor é apenas o insrrumento que comunica e
é comunicada a sentenga . Assumindo a forma de fetiche, o conceito, contraditoriamente,
ade que revela
oscila entre duas naturezas antagonicas, ora converrendo—se em uma objetivid
do processo que o desconhe ciam, ora como pura
o segredo do desempenho aos sujeitos
a servigo do julgamen to discricion zirio do professor ” (Iasi, 2002, p. 92—93).
subjetividade
122 LEONTIEV, Alexis. 0 derenvolvimmto do psiquismo, cit-v P- 317.

145

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DIE CLASSIE

Evidente que a crianga “normalmente desenvolvida” sabe em


sua consciéncia que rem que fazer os deveres e obter boas notas, mas
estes motivos sfio, segundo o autor, psicologicamente ineficientes;
o morivo que age “verdadeiramente é 0 do obter a possibilidade
dc ir brincar” (ibid., 318). Eis que nosso operario esta pronto, ja
sabe que so so rem acesso a urn valor de uso mediante um valor
de troca e pode agora se entregar as “fileiras dos entusiastas da
produgao”... de mercadorias.
Reparem que havia urn valor em substancia transitando em
diferentes formas que lhe serviram de expresséio. No processo d6
trocas afetivas na infancia, no mercado da avaliagiio na Vida escolar,
nas relagées assalariadas no universo da produgao. Desvendemos
oprocesso agora de trais para frente. Um operario se insere numa
dlvisao hierarquica do trabalho, numa determinada posigéio e no
Interior de certas relagées sociais do produgao, tern um dever a
comprir e perfeita consciéncia de sua responsabilidade para com
a
patria e o Estado, mas gostaria de estar fazendo outra coisa. Seus
preceltos morais séio psicologicarnente ineficientes, mas é so lembrzi—lo
de que peu trabalho é a condigao para que receba seu salz’irio, e este,
a condlgao para que compre os meios necessarios a sua existéncia
que ele se entrega a tarefa. Mudou a forma: onde esrava brincar esta
agpra comer, vestir, morar. Mas a equagéo dc troca é em si mesma
1dent1ca. Brincar ocupa o lugar do desejo e, significativamente, as
condigées de sobrevivéncia ocupam o lugar do brincar. O trabalho
ainda é meio de Vida, atividade imposta no intervalo do qual OS
seresfi homanos vivem. No lugar da pessoa adulta que apresenta
as
exrgencras sociais 6 cm relagao a qual a crianga busca o reconheci—
mento e a troca afetiva, esté depois o professor, agora é so colocar
“a sociedade”, “a classe”, o Estado, os “ideais venerados”.
O trabalho do psiquismo se deu em todos estes momentos,
obedecendo a equagao: impulso — exigéncias e limitagées do mundo
externo - trabalho de mediagao do ego levando em conta que a
fonte das demandas e exigéncias é também :1 fonts da afetividade

I46

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_9.s..
MAURO LUIS IASI

ou a garantia da sobrevivéncia —— adaptagz’io, fuga, atividade — amol—


damento e interiorizaeao de exigéncias externas como se fossern do
préprio sujeito. A crianga aprende procedimentos e atua em outras
situagées com base nesta referéncia priméria.
Freud descreve este procedimento em um texto chamado
“Recordar, elaborar e repetir”,123 no qual afirma que as relagées
primarias podem ser revividas em outras situagées por meio da as—
sociagao. Neste caso, nao sao propriamente repetidas ou recordadas,
mas ocorre uma “atuadagao”, ou seja, nos nossos termos, a forma,
as circunstfincias, as pessoas mudam, mas a esséncia da vivéncia é
recordada e reapresenta-se por meio de uma atitude, procedimento,
medo, culpa ou qualquer outra forma. Assim, a substi‘mcia de um
valor — por exemplo, todo valor de uso se obtém mediante um valor
de troca — pode permanecer a mesma e expressar—se em diferentes
contextos, ainda que de maneira inconsciente e sem que o sujeito
tenha que descrevé—la com as ferramentas da consciéncia.
No entanto, uma questao parece ficar sem resposta. Se aquilo
que 0 id demanda vem de suas cargas pulsionais e instintivas, por
que o ego opta pela aceitagéio da exigencia apresentada desde fora em '
detrimento do desejo, supostamente mais essencial ao organismo
Vivo? A resposta esta naquilo que, na constituigao da forma deste
trabalho psiquico, Freud destaca como uma dinamica essencial:
o complexo de Edipo.
Guardadas as conhecidas criticas sobre a universalizagao desta
dinamica psiquica (Reich [1932]; Poster, 1979), sua l‘gunciOImlidfilC'le
aqui é evidente. Uma vez que as pulsées 11510 5310 de natureza iden-
tica, ou seja, algumas delas sao ligadas a urn conjunto de instintos
relacionados diretamente a sobrevivéncia fi'sica do organismo vivo
(comer, respirar, manter a integridade fisica, beber etc.), nao podem
ser burladas pelos mecanismos de adaptagao do ego, nem deslocadas

”'5 FREUD, Sigmund. “Recordar, elaborar e repetir”. 017m: psicoldgims complettzf. Rio de
Janeiro: Imago, 1976, v. 12.

147

‘: eras 4.2% szs:.Y.Agsgs»?:s.rs.-=sas\s


a; a? 1%?K‘2gs’imill’ge‘,
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

ou substituidas, enquanto outros, de ordem mais afetiva e ligados


a sexualidade, se prestam a estas agées do egam Segundo Freud,
como sabemos, na relagao familiar triangular, que ele edifica como
universal, a crianga escolhe um objeto externo e identifica nele seu
“ideal do ego”, fantasiando sua plena integragiio afetiva com 65“?
objeto. O terceiro elemento que de fato disputa com a crianga esta
atengéio afetiva e emocional recebe a projegao de toda a carga negativa
de destrutividade. Melaine Klein 16% esta dinz’imica de maneira a nos
informar que eStas cargas (afetividade e destrutividade, amor e édio)
coexistem na crianea, mas, por se tratar de uma contradieiio que
produz no psiquismo uma ansiedade por seu carater ambivalente,
ela projeta para fora estas cargas em objetos separados. Nesta disputa
desigual com os adultos, a plena realizagiio da integragao emocional
e afetiva com um dos componentes da familia provocaria a reagao
do terceiro, desencadeando todo um conjunto de ameagas reais ou
simbélicas, entre as quais Freud enfatizou o medo da castraeao. O
fato é que, diante deste impasse, a crianea, devido a natureza mais
malezivel dos impulsos sexuais afetivos, os reprime em Home
d3
autopreservagao fisica. A substancia filtima desta dinamica é que na
luta entre o desejo e a sobrevivéncia a crianga abre mao do desejo.
Como vemos, ainda que a forma social se altere substancialmente e
possamos mesmo falar em inexisténcia do complexo de Edipo em
determlnadas sociedades, sua funcionalidade para a inserg
ao dos
individuos numa divisao hierarquica do trabalho parece ser evidente.
A base, ou mais precisamente, a condigao para o desenvolvimento
do complexo de Edipo parece ser uma relagiio de identidade restrita
a algumas pessoas, uma rigida diferenciagéio de papéis
sexuaiS 6 uma
ameaga, muito mais que simplesmente simbélica, contra as manifes-
tagées da sexualidade infantil. Mark Poster (1979) argumenta que
estas precondigées nao estao dadas para a espécie humana meramen—
te pelo fato de que as criangas sao em qualquer época ou contexto

124 FREUD, Sigmund. Compendio dclpsz'coam


z’lisis, cit, p. 72.

148

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‘2 323:? ~33“ 3331.3.533'3‘3’W"
MAURO LUIS IASI

social criadas por adultos e que a ameaea s sexualidade infantil é


uma constante. Segundo este autor, esta generalizaeéio é tao indevida
quanto a tentativa de universalizar o capitalismo pelo fato de que
“os seres humanos sempre produzem e consomem” (Poster, 1979, p.
39). O chamado complexo de Edipo pressupée, ao contrario, uma
certa relagao de poder e autoridade, vivida pela crianga primeiro
como uma forga externa que se impée aos seus desejos pulsionais,
de maneira que uma ccansiedade inicial da crianga confrontada por
uma ameaga é agora substituida por uma ansiedade interna (culpa)”
(552%., p. 40). O fundamento de todo o argumento desenvolvido por
Poster é a diferenea entre o efeito psicolégico quando o impulso é
confrontado com uma forea externa, o que geraria “vergonha”, e
quando se confronta com uma forga interna, levando s culpa. E
extremamente relevante a homologia que existe entre este argumento
e a afirmaeao de Norbert Elias (1993), segundo a qual o desenvol—
vimento daquilo que chama de processo civilizador coincide com a
mudanea do controle externo para o “autocontrole”:
Freud, no entanto, nao naturaliza o complexo de Edipo atribuin-
do—o a mecanismos biolégicos ou organicos. Para ele, é evidente que
esta poderosa dinamica psiquica depende das relaeées familiares.
Vejamos nesta passagem:
desem-
As criangas pequenas 85.0 amorais... O papel que mais tarde sera
penhado pelo superego esta no comeeo entregue a um poder externo, a
oferecendo
autoridade parental. A influéncia dos pais governa a crianga,
sinais
provas de amor e ameagando com punieoes que silo, para a crianga,
rea—
de perda de amor e estao fadadas a causar medo nela. Essa ansiedade
lista é a precursora da subsequente ansiedade moral... Somente mais tarde
é que a situagz’io secundaria se desenvolve (que todos nés estamos dispostos
a considerar a situagao normal), quando a coergao externa é internalizada
, parental.1 2 5
e o superego toma o lugar da aeao

125, FREUD, Sigmund. New introductory lecture: on Psychoanalysis. Nova York, 1964, “P“d
M. Poster (1979, p. 40). Edieao brasileira: Novas confiréncids introdutorias more pszca-
mflz’se. Rio de Janeiro: Imago, 1973, v. 22.

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$4
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

Como vemos, uma das condigées é uma identidade entre o


sujeito do amor e odio, a administragao das “provas de amor C
ameagas de punigao” pelo mesmo objeto externo. Como argumen—
tara Poster, e que nos parece obvio, este nao é um dado invariavel,
ao contrario, depende da forma de familia na qual a crianga se
insere. O fundamento da ansiedade produzida na crianga, e que
deve mobilizar suas defesas o suficiente para que reprima o desejo
pulsional, encontra—se no fato de que sua agressividade dirige-se
para o mesmo objeto do amor. Vimos no raciocinio kleiniano que a
crianga tende a projetar separadamente suas cargas de afetividade e
agressividade em objetos distintos. Suponhamos uma familial como
a camponesa ou aristocrética dos séculos XVI e XVII, tal como
nos apresenta Poster (1979); o que as caracterizava eram as relagées
com uma multiplicidade de adultos evidenciadas pelo baixo grau
de afetividade entre os membros, menos ainda em relagao aos pais
blolégicos. Esta estrutura permitiria o livre deslocamento da raiva
e da afetividade, inclusive na forma de impulso sexual, entre esta
rn’ultiplicidade de objetos, Ievando ao fato de que, diante de uma
nao correspondencia com alguma norrna externa, o individuo apre-
sentasse sentimentos de vergonha e nao propriamente de culpam
’ A condigao para a emergéneia do complexo de Edipo, portanto,
e a confluencia de algumas variantes: a redugfio ou quase—exclusivi—
dade dos objetos de identificagao, a identidade de objetos de amor
e Ol, a ambivalénCia dai resultante e, fundamentalmente, uma
contradlgfio .que oponha realidade e desejo, pulséio e normatizagfio
socral restrrtlva.127 Diante disto, Mark Poster 36 pode concluir que:

. x . . ' ‘

3‘: 60mm“ ‘16 “do “‘0 flifereme- Se s16


126 u f.

(1513:3131?133331 giftiniwaflffi‘bpi‘mit‘m
,b . . ”I 3 5} mesmo a culpa, mas ao seu fenehe, que obv1a;
menten50 cum ri
p 1:13:q 0 “5:19:10, f33P11C3-1h6 uma surra em vez de pumr a $1 mesmo
, . , 15-lgmun
(FREUD . Mal-estar na crvilizagao”, apud POSTER, Mark, op. cit, p. 41).
127
Q proprlo Freud, como argumenta Poster, chega a cada uma destas determinagées, passando
na maioria das vezes o
ind-USN? pelo argumento de que a ameaga dc CRStraqfio pode ser, e
6: SImEEOIICa.‘ D12, Freud que “nz'io é uma questiio de a castragéo ser realmente executada;
0 (it? e decrsrvo C que 0 pcrlgo consista em uma ameaea vinda de fora e a crianea acredita
nela (FREUD, Sigmund. New introductory", cit, p. 86), N3 época dc Freud estas ameaqas

150
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.2“
MAURO LUIS IASI

O segredo do Edipo estzi aqui localizado; nao nos belos mitos da Grécia
antiga, mas no prosaico lat burgués. Pois a combinagao de um amor in-
tenso e de uma severa repressiio nas mesmas pessoas, uma combinagiio que
comegou na familia burguesa condiciona o desenvolvimento do superego.
A severa repressfio, que provavelmente encontrada em numerosas situagées
de familia, nao é bastante. Na familia burguesa havia o controle total dos
filhos pelos pais e, :10 mesmo tempo, uma dominagiio e modelagao extrema
da conduta da crianga. Soma—se a isso urn grau extremo de ternura.128
N510 temos instrumentos suficientes para afirmar ou negar a tese
segundo a qual poderi'amos sustentar a inexisténcia do superego
como instancia psiquica em certas sociedades, tese da qual Poster
muito se aproxima; porém podemos dizer com uma margem d6
seguranga que é pouco proveivel que o superego tenha forma inva—
riavel, uma vez que depende diretamenre do grau de ambivaléncia
entre as cargas pulsionais e restrigées sociais impostas.
Freud tem razao em supor que sempre havera uma certa restri—
tiVidade social em confronto com a plena realizagao do desejo, mas
SC equivoca quando universaliza o grau antagénico que esta contra—
digéio chegou sob a forma burguesa. A questao néio é propriamenre
de existéncia ou nao do superego, uma vez que todos concordamos
que 1150 se trata de um “aparato objetivo”, 6 sim de um m0m€flt0
dentro de um movimento dialético de entificagao do psiquisrn02
produto da sintese entre as pulsées e o mundo externo. Assim, no
interior deste continuum, poderiamos falar em intensidades maiOI'
0L1 menor de internalizagao das normas sociais restritivas, on, p610
inverse, de uma exterioridade maior ou menor destas normas2 0
que poderia nos levar ao raciocinio de Elias sobre a passagem d0

nfio cram assim rao simbélicas e estavam ligadas ao horror que a masturbacfiloDinflfan'tl1
provocava nos adultos. Ao final, Freud chega a uma definigio mais centrada 119- dmaflmlca
essencial do que na forma, afirmando que: “0 sentimento de culpa é uma expressao do
conflito devido 22 ambivaléncia, :‘1 eterna luta entre Eros e o instinto de destruigao ou
morte” (FREUD, Sigmund. “Mal—estar na civilizagao”, apud POSTER, Mark, Op. Cit,
p. 41) . Logo em seguida, Freud generaliza a afirmagao para dizer que isto ocorre “logo
que os homens se defrontam com a tarefa de viver juntos” (Mid).
”3 POSTER, Mark, op. cit. p. 42-

151

229 2222-2 222. 23222222273212 2 22 2.2 .222. 2...- 22 2 2.22.22... 2... 22.2132 2.2222 22223-212 $2222222222 22.2.2232 2.22 “2:222 ”22$;- $2$§2§22L2 $3: $222322 122:2 22222222322222 2
AS METAMORFOSES DA CONSCIRNCIA DE (ILASSIS

controle para o autocontrole.129 Seja como for, parece evidente que,


tratando-se de nossa sociedade contemporanea, estamos diante de
uma intensa introjecz’io das normas restritivas e de um controle
externo transformado em “autocontrole”.
Na frase citada de Freud, ele denomina este controle de “moral” e
estz’i disposto a considera-lo “normal” (“todos n68 estamos dispostos a
considerar a situacao normal quando a coercz’io cxrerna é internaliza-
da e o superego toma o lugar da acao parental”). Isto permitiria uma
transicao importante na forma de acao do ego: passaria do principio
do prazer para o princfpio da realidade. Em varias passagens Freud
associa esta atitude com o que chama de pratica civilizada, cultura,
contrapondo a elas a “barbaric”, o “primitivismo”, a “selvageria”.
Como vemos, niio sao apenas os “belos mitos” que Freud herdou
da velha Grécia. O que estzi no fundo de tal construciio teérica é a
famosa conclusiio freudiana de que nz'io ha civilizacao sem repressfio,
expressando com outras palavras que a plena realizaciio pulsional
impede a Vida em sociedade e as manifestacées mais elevadas da
cultura, incluindo 0 pensamento cientifico.130
“Wilhelm Reich tem razz’io quando nos lembra, na frase referida
no 1ni'cio deste capftulo, de que “o principio da realidade como exi—
géncia da sociedade permanece formal se nz'io acrescentar concreta-
mente que o princfpio da realidade, sob a forma que reveste para nés

3. r . (ldeev1sto,
' " Aqurlo . . por um aspecto se apresenta como um processo de individualizacio
crescente, ewsto, por outro, um processo de civilizaciio. Pode-se considerar caracteristico
de certaofase deste processo que se intensifiquem as tensées entre os dirames
e as proibi-
coes soc1als, internalizadas como autocontrole, e 05 impulsos espontfineos reprimidos”
(ELIAS, Norbert.A50ciea’ade do: z'ndz'w’duos. Rio deJaneiro,
1994, p. 103)- VCY mmbém’
do mesmo autor, O processo civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 1993,
2 V-a P- 244'247-
Voltaremos a este ponto essencial ainda nestc capitu
lo.
O anlmal compoe—se pnmerro de uma alma, depois de um corpo:
'50 K ' u n .

a primelrfl. POI‘
sua natureza, comanda e o segundo obedece. Digo ‘por sua natureza’, pois é preciso
considerar o mais perfeito como tendo emanado dela, e 11:10 o que é degrado e sujeito
51 corrupcao. O homem, segundo sua natureza, é aquele bem constitufdo de alma e de
corpo. Se nas coisas viciosas e depravadas o corpo nfio raro parece comandar a alma,
é cerramente por erro e contra a natureza” (ARISTOTELES. A polz’tz'm. Sfio Paulo:
Martins Fontes, 1998, p. 12—13).

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;§a%’2t2‘22\22x2 2-222 E‘s-*2 2;; sank-“2% riflxéemifslm
MAURO LUIS IASI

atualmente, é o principio da sociedade capitalista” (Reich, 1977, p.


47). A ambivalencia amor—édio, o antagonismo desejo-sobrevivéncia,
a propria contradicéio individuo—sociedade néio siio préprios do ser
humano, mas de um tipo muito bem determinado de sociabilidade
sso
humana, aquela que parece ter um sentido evidente de um proce
loomo clau—
de individualizacao, de autocontrole de predominfincia do
afetiva,
sus (Elias, 1993, p. 242). O que é internalizado como carga
d), 11:10 3:10
“agressividade” devida a “frustracao do instinto” (Freu
“demandas”
apenas relacées, mas as relacées capitalistas. N50 5510 as
da sociedade, mas de “uma” sociedade.
o 561‘ social esta—
Assim, podemos concluir que as relacées que
se confundem com
belece sfio introjetadas como cargas afetivas que
ra simultaneamente as
a diniimica psiquica, na qual o ego administ
tividade social.131 Aqui
exigencias pulsionais e as demandas da obje
histéria, mas nao a
também silo os seres humanos que fazem sua
como um mediador
fazem como querem. O ego em formacao atua
ionais ou sociais, que
diante de demandas objetivas, sejam puls
mente sua existéncia.
moldam sua 219210 e contextualizam historica
a das relacées sociais
Nossa afirmacz’io é que a substancia filtim
ns significantes mes—
dominantes encontra sua expressiio ideal em algu
internalizados como
tres132 que em sua substancia siio transmitidos e
rego. Esta substancia se
cargas afetivas, e nao meramente ideias, no supe
l passa nas
mantém a mesma nas metamorfoses pelas quais 0 set socia
da pessoa. A familia,
relacées que comporz’io o conjunto do ciclo vital
is que se
mais do que simplesmente a primeira ordem de relacées socia
s relacées
apresenta, é aquela na qual é possivel a internalizacao desta

0 id, e o superego tém uma


”1 “Adverte-se que, apesar de todas as diferencas fundamentais,
; 0 id, as herdadas; O
coisa em comum: ambos representam as influéncias do passado
recebid as dos ouros, enqua nto 0 ego é determinado princi—
superego, essencialmente as
dizer, pelo que é atual e acidental”
palmente pelas vivéncias préprias do individuo, quer
(FREUD, Sigmund. Compondx’o delpsicormo’lisis, cit, p. 71).
relacées com o conceito
”3 Aquino sentido lacaniano do termo “significante mestre” e was )
(2002, p. 121—122
de equivalente geral de Marx, tal como esmbelecem Paulo Silveira
C Salvoj Zizek (1996, p. 324),

66.66. 1666666636 6 666. 6:66 66666


:3: 3;: - i6“): 63;“: 3%n i633: _ :f‘” "V-\\“\\“o>'-.$'¥?g n: aw“ _\V:'__\.-.\\ m _Lv'. .. ,
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6.66 “.3666 6666- “666.663 2%.; 66:6 momfifiimd
.‘ewjfij - 4. - ._ . .
AS Mli'I'AMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSIE

como cargas afetivas,133 e esra socializacao primaria serve dc base,


uma matriz psicolégica, ainda que o processo de internalizacao nao
se reduza a somente este momentoffi para todo o desenvolvimento
futuro da consciéncia. De fato, a formacio do superego e’ o ponto no
qual uma ordem societaria converte-se em visz'io subjetiva do mundo.
Caso considerassemos a adesao a uma ideologia simplesmente um
conjunto de ideias, teriamos que supor um zirduo trabalho de comu—
nicacz‘io e educacao de cada um dos valores que comporiam a Viséio
de mundo dominante em cada época, assim como uma complexa
socializacao de uma elaboracao logica que fornecesse a0 conjunto destes
elementos unidade e coeréncia apropriadas. A forma como tentarnos
apresentar o fenomeno nos permite supor que, sobre uma estrutura
basica e um conjunto de significantes mesrrcs, e’ possivel constituir
toda a Visflo de mundo que é posteriormente relcmbrada pela pessoa
nas acées que se seguem, nas quais vao se agregando e se completando
aquilo que em substancia ja é uma totalidade coerente (aquilo que
toraliza uma totalidade impossivel, que solda impossibilidades). E
evxdente que as relacées futuras do ser social podem alterar ou entrar
ern contradicao com esta visao dc mundo e, em cerras situacé
es, até
mesmo com sua estrutura basica e o conjunto dos significantes
mesrres.
Retomaremos este ponto posteriorme
nte.

”3 A familia 3“ locus
'L da estruturacao da Vida pmqurca. h a mancna pecullar com que
0 ‘ a f ' r o '1 . -

:{Zfigfi 3;§:::::t::lfifluifloxfiisonal de seus membros que [he permite transformar a


f _ . a0 dc mundo, em um codlgo de conduras e de valores
gllfgzldgjjlltlfilfigil:([1:1n pelos ind‘ivfdlios” (Jose Roberto Tozoni Reis, 1989,
, . ‘ ' ’ P~ 161), famlha é o Iugar onde so forma a estrutura
[”91qc Ollde 11 expenéncia se caracteriza, em primciro Iugar, por pad rées emocionais.
A foncao dc SOCIalizagao estzi claramente implicita nesta definiciio, mas a Familia nfio
esta sepdo conceptualizada primordialmcnte como uma insriruicfio investida na funcfio
de soc1allzacfio, Elfl 6’ em vez disso, a localizacao social onde a estrutura psiquica é
proeminente dc um modo sumamente decisive”.
13
Poster F1979) apresenta, neste sentido, os argumentos dc Erik Erikson (I976)
4.».

segundo
os quals o desenvolvimcnto do ego, ao contrario das afirmacées de Freud e cstudos
posteriorcs dc Melainc Klein, 11:10 limita a formacéo do complexo dc Edipo, por volta
dos cinco anos. Erilcson amplia sua reoria para todo o ciclo vital, canto na idade
adulta
quanto na illfiincia (ERIKSON, (2pm! POSTER, Mark. op. cit, p. 85-86)

154
‘V’VV: V 'V . VVa 29:. aV
mafia-swag “V; VamaV’ astute
afiafifia liaiaiaéaa
522 . afi-ia-‘a. i?V Ema
Va ;V-.~as-iaé‘a akin
z“? a?a: a: i“? -=Momma
-<. .aV.Va as {V V
MAURO LUls IASI

A pista que aqui vamos seguir é que existiria uma homologia en—
tre a teoria do significante em Lacan e a analise da forma mercadoria
em Marx (Silveira, 2002; Zizek, 1996). Dadas a complexidade da
quest’ao e nossa quase-ignorfincia sobre alguns de seus fundamentos
(notadamente na parte relativa a Lacan), somente poderemos nos ater
aqui a urn dos seus aspectos. O argumento central de Paulo Silveira,
para
partindo das contribuicées de Zizek, é que a divida de Lacan
o
corn Marx vai muito além de uma passagem marginal na qual
mas
psicanalista francés atribui a Marx a “invencao do sintorna”,135
explicativa da
se remete ao modo como Marx constroi sua teoria
k, 1996).
mercadoria e o papel que atribui 2: “formal” do valor (Zize
ficado,
Segundo Silveira, para Lacan o significante precede o signi
nao possui
uma vez que urn significante considerado isoladamente
s”, na re-
nenhum significado, e somenre na “cadeia de significanre
ponto
lacao com outros, ele poderia “produzir significados”. E neste
uma mercadoria
que residiria a homologia, uma vez que o valor de
mercadorias
so se revelaria na equacao do valor de troca, na série de
ssi'vel a uma delas
postas em relacao de equivaléncia, sendo impo
anto série
isoladamente estabelecer “sen” valor (Marx [1867]). Enqu
ita e acidental;
de mercadorias, a equacao do valor continua fortu
gencia do
como uma “totalizacfio impossivel”, é somente com a emer
, numa
“equivalente geral”136 que a série se fecha numa possibilidade
“totalizacao”. O mesmo ocorre com o significante:

de sinroma
‘35 “Se 0 real manifesta—se na analise, e niio somente na analise, se :1 1109510
de alguma
Foi introduzida por Marx, bem antes de Freud, de forma a torna-lo signo
termos, somos capazes de operar sobre 0
coisa que nfio vai bem no real, so, em outros
, é enquan to o sintoma é ef’eito simbolico no real” (Lacan, 1975, p. 7, apud,
sintoma
deve ser buscada
Silveira, 2002, p. 119). On ainda: “a origem da nocao de sintoma nao
em Hipécrates, mas em Marx, na ligacao que ele faz entre capitalismo e aquilo a que
chamamos o tempo Feudal” (Mid, p. 37, apud Silveira, p. 119).
oria torna a outra equiva-
1}
“A forma relativa do valor, simples ou isolada, de uma mercad
C’\

forma extensiv a do valor relativo exprime o valor de uma mercadoria


lente singular. A
particula res diferentes. Por fim,
em todas as outras que recebem a forma de equivalentes
geral, em virtude
uma especie particular de mercadoria adquire a forma de equivalente
e geral de
de todas as ourras mercadorias converterem-se em material da forma {mica
valor que consagram” (Marx [1867], p. 76).

155
1A.“; 33.9%. gm}: $2: 5:5. I??? : m)?» 3%:532,923 (9:: gag, _\V .- $.03 "“5,- éh ,, .z‘N: ..’..- §\\ \ x. x -- w 9 , ,, ' , 'é ' ' , c‘c
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’iu'v'.&2%\\\.92(~2:.:3.\1".\I.’fi;3’z.
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

Com 0 significante ocorre algo cxatamcnte homélogo. Conforms seu em-


parelhamento com outro on com outros significanrcs, seu significado estarzi
sempre dcslizando numa série infinita dc emparelhamentos; portanto, im-
possivel de ser totalizada, isto (5, dc produzir um significado L’lnico, acabado,
assim, bem-sucedido. Para que esta série infinita seja interrompida, é assim
necessario que um dos significantes seja ‘escolhido’ e retirado da série de
‘todos os outros’ significantes (...). A0 significantc que produz essc: ‘bastea—
mento’, essa ‘totalizagz‘io’, da série, Lacan denominara signz'fzmrzte-rrzesrre.”7
A0 que nos parece, algumas “palavras”, que silo mais
(1116 P313"
was3 funcionam como esta espécie de equivalents geral, ou seja, uma
vez mseridas na série do significantes, os transformam em
valores
relatrvos que so podem ser compreendidos por equivaléncia a uma
detormmada totalizagao. Estes “significantes-mesrres” correspon—
derlami segundo nosso argumento, a esséncia das relagées sociais
determlnantes em uma certa ordem societa’ria. As
relagées que
comlpoem uma certa sociabilidade, e quc (1510 a (:19. seu carate
r par—
tlcu ar, 56 apresentam em diferentes formas, nas
relagées familiares,
na escolaznoogrupo dc amigos, no trabalho etc.,
dc maneira que, em
sua::1bstflanc1a, representem uma “totalizac;iio
possivcl”. Fora dCStfl
ulna I’zagao, ostatos que compoem as ago
es cotidianas permanecem
a earorlos e ac1dentais. Quando olhamos para uma dcsta
s atitudes
rsoladamente, ela perde tod
o o sentido.
Vemos all um ser humano, vestido com trapos,
e (:16 puxa uma
carmgj chela dc tralhas retiradas do lixo cujo
peso parece SCI muito
:efjf:d::r:aa:i:1li:dt:E-le ocupa o lugar
que em uma carrO‘Ea
' gao, um cavalo, um burro ou um bor. O
conjuntoi animal (16 tragiio e carroga, compée um valor dc
uso para
.o’qual eXIStem instrumentos cuja tecnologia até entfio desen
volvida
)3 nos oferece: uma caminhonete, por exemplo. Portanto, diante
de toda a evidéncia, esta atitude isolada néo faz o menor scntido, é
uma srtuagao 1nd1gna contra a qual deveriamos todos reagir com a

‘57 SILVEIRA, Paulo. “Lacan e Marx: a ideologia em pessoa”. Critiaz flfrzrxism, Silo Paulo:
Boitempo, n. 14, p. 121-122,:1br. 2002.

156
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E-EEE-E-EE-EEE-‘EE- 4E
MAURO LUIS IASI

mais pronta e decidida agio. Basra entretanto inseri—la numa série


um peuco maior que seu sentido comega a se revelar. O hemem é
pobre, aquele é seu trabzzlbo, a tralha tem um valor de troca que 86
de
converteri em equivalente geral e, per sua vez, assumiri a forma
alguns hens de consume que manteri aquele erganismo vivo em
condigées cle puxar a carroga no dia seguinte. Entio... tude bem.
Ele é igual a todos nos, trabalha para viver. E melhor que muites de
nos... tem seu proprio negecie. Nie é mais um ser humane numa
l.
situagie miserivel de animalidade, é 36 um set humane... norma
significantes em
O que é “ser” humane afinal? Depende da série de
igie prévia
que se encontra. No case, ser humane é trabalhar, cend
outta apro-
da existéncia, ainda que seja puxande carrega. Em uma
ga, nesta,
ximagie, ele perde sua humanidade per puxar uma carre
al”, ele adquife
que “estamos tedes dispostos a assumir come norm
a condigio humana justamente per puxi—la!
Um adultO
Uma crianga quer brincar em vez de fazer seus deveres.
amigos, em
ameaga a crianga, a profbe de brincar e encontrar seus
, circere privadO
case extreme poderi inclusive agredi—la. Sequestre
ela mais ama educandefla
seguido de agressie? Nie. E a pessea que
entar que
para que ela “seja alguém na Vida”. Alguém pederia argum
censide rar inad equadas
um julgamente humanista, “ético”, pederia
lutamente cerriqueire e
as duas cenas. Entie imaginemes alge abso
Olhe uma magi na banca do
dentre dos mais altos preceites morais.
meu henrado trabalho de
feirante, pego meu dinheiro ganho com
dar aulas, compro a magi e a come. Weber diria, ji que o exemplo e
UOS
dele, que hi um sentide nesta agio social, investide pelOS indiVid
pedago d6 papd
que dela sie sujeites, sentide este que atribuiu a um
aceitivel de 56 se
o valor de ser um meie de treca e e precedimento
aparentemente,
pegar a magi tende o dinheire necessirio. Nie hi,
i sem pagar per
nada de errado neste are. Errade seria pegar a mag
ssive do
ela, e contra tal atitude reagiriam e feirante, o aparato repre
al” seria
Estado e, quigi, e sistemajudiciirio. No entanto, 0 are “norm
pegar a magi e cemé—la sem a mediagio de um equivalente geral, pois

157
.

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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DIE (ILASSE

corresponde a uma medicao de primeira ordem enrre o ser humano


com fome e o valor de uso capaz de sarisfazer esta necessidade. O are
corriqueiro, e que nz'io causa espanto, supée a maca como mercadoria,
seu valor definido na relacao corn outras mercadorias na abstracao do
trabalho social toral no qual os seres humanos ficam de fora, num
mundo governado pelos produtos e [1510 pelos produtores, na mesma
medida em que o comprador da maca vendeu sua forca de trabalho
para adquirir a quantidade de dinheiro necessaria, tornou—se ele préprio
mercadoria. Por que o que é humano virou crime e o que é reificador
e fetichizante tornou—se 0 “real”, 0 aceitzivel... 0 normal?
Pelo simples fato de que as aritudes, os comportamCmOS, as
ideias e 03 valores de uma certa visfio de mundo nz’io deslizam numa
série aberta de significanres, mas encontram—se totalizados por um
universo simbélico que, neste ambiro, “institui” 0 “real”, fecha a
serle das impossibilidades numa toralidade estruturada.138 Somos
obrigados a dizer que esta ordem simbélica institui 0 “real” (Zizek
),
mas nap é ela que produz a inversao que aparece totalizada como
real. A inversao estava antes produzida no corpo das relacées, que
no caso constituem a sociedade capitalista produtora de mercado—
nas. Neste sentido, 0 “real” insriruido simbolicamente corresponde
ao real constituido pelas relacées sociais de
produgiiO; 0 primeiro
aparece como inverséo porque o segundo de fato é umainversiio.139
Os Signlficanres mestres que servem a este fim, porranro, corres-
pondflem as relacées sociais determinantes; 5:10 a expressiio ideal das
relacoes que: fazem de uma classe a classe dom
inante; 8510 218 ideias
de seu dommro, seu dominio converrido em ideias. Mas quais siio,

3. a 1'0 ' I .t e ' t,

(1997, p. 27): “Per esse movimento essencial do esperriculo, que consisre em


retomar
nele rudo o que existia na atividade humana em estado
Huido, para possuf-lo em estado
coagulado, como coisa que se rornou o valor exclusivo em virtude dafieula
pdo pelo
(206550 do valor vivido, é que reconhecemos nossa velha inimiga (...): a mercadoria”.
‘59 “Mas 0 homem r1510 é um ser abstrato, acocorado fora do mundo. O homem é o
mundo
do homem, o Esrado, a sociedade. Este Estado e esta socicdade produzem a religiao, uma
consciéncia invertida do mundo, porque eles :do um mundo invertido” (Marx, [1844], 1993,
p. 77).

158
9.9; it?“ “1M3? ‘4} W231. ;*“'.'“?“\\“':j-.z_$.m i‘_:= m; .}§:_-:.§-;maw-v~'§ a. -t five -_-’-‘-.-:_<2\\_;.\ r. ’?-é_‘"._“7'§:< W“ $313; a a 9v. r»:
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an?“
MAURO LUIS IASI

entao, estes “equivalentes gerais” que “soldam impossibilidades”, cuja


substancia espectral estzi presente nas relaeées familiares primarias,
reaparece na escola, manifesra-se no trabalho, pragueja no senso
comum, seduz o eonhecimento académico, esgueira—se mesmo nos
partidos socialistas, materializa-se nos cultos religiosos, emerge nas
segées de psicanzilise e frequenta nossas melhores universidades?
N510 estraguemos a surpresa. Permitam—me descrever o processo
pelo qual uma experiéncia priitica evidenciou a incrfvel e repetida
incidéncia de certas ideias—chave.
Quando nossa equipe de educadores populares do Nucleo de
Educagao Popular 13 de Maio140 preparava 0 material para o desafio
de formar educadores populares, o organizador do curso, Humber—
to Bodra, incluiu enrre os textos alguns capitulos de A polz’ticrz de
Aristételes. A inreneao inicial de Bodra era destacar as passagens
em
em que Arisrételes discorria sobre o método (decompor 0 todo
partes e recompé-lo por meio das associagées novamen‘te em tora;
lidade) e a parte em que apresentava a diferenga entre a economla
e a “crematistica”, extrato no qual antecipava, como indicado pot
Marx, conceitos que comporiam a analise da mercadoria, mals
precisamente o valor de uso e o valor de troca.141
Sabiamos de onde partiamos e sabiamos aonde queriamos chegar
er os elementos
(formar educadores populares capazes de compreend
no entan—
fundamentais da critica da economia politica). Alcaneamos,
lrem
to, destinos insuspeitziveis. Apesar de as primeiras rurmas cumpr

, foi fundadO‘Cm
”0 O NEI’ 13 de Maio, que rem esre'nome por ser :1 data de sua formaefio
a movnpentos
1983, desenvolvendo um programa de cursos e atividades educarrvasjunto
sociais, sindicatos, partidos e pasrorais em todo o Brasil. A expcrlfincla que deserevpremosx
se dcu nos esforeos de nossa equipe em formar educadores populates, cu]a mlcmuva L
primeira forma coube ao professor Humberto Bodra. Hoje (2003) 0 NEP 3‘3 encotrtra na
18‘ turma nacional de monitores sediadas em 3510 Paulo, além d6 dCSCHVOIVCI mlcranvas
turma
similares no Rio Grande do Sul, Nordeste, no Paraguai e, recentemente, uma
especial junro aos educadores do MST. .
I211
“Cada coisa que possufmos rem dois usos (...). Por exemplo, 0 use proprlo de yum sa;
pato é calgar; podemos também vendémlo ou troczi-lo para obter dinl'1e1r0 ou pao (..)
(Aristételes, 1998, p. 23).

15‘)
W22
‘ We 2 a ixW222
21:322- 22223322 W:flag-2.21s- EEfi-w‘finw
r222 WW2: 1"“.2“§.
mafia if:* 2:ab
2 22:222%22-222
§§§rfi§a we: 22W héaafi’e‘n’s
:2:- aiséaé 12a- 22622
AS ME'I'AMORFOSES DA CONSCIENCIA DIi CLASSES

a tarefa proposta por Bodra e chegarem aos vestigios arqueolégicos da


economia politica, notamos uma enorme resisténcia por parte dos par—
ticipantes diante do texto de Aristételes. Esta resisténcia se expressava
ora num debate acalorado contra o autor, por vezes £1 beira da rebelia'o
aberta, ora numa sonolenta tarefa burocratica. Como Humberto
faleceu no infcio de nossa 4“l turma de monitores, Luiz Carlos Scapi
e eu assumimos a coordenacao dos trabalhos, oportunidade impar
para averiguar de onde provinha aquela resisténcia.
Scapi sempre funcionara como uma espécie de “ego-auxiliar”, ou
seja, interrompia algumas exposicoes que pareciam ter solucionado
as dt’ividas e levantava outras, remexendo socraticamente o grupo e
encurralando provocativamente suas certezas. Quando Bodra coor-
denava os trabalhos, sua maestria e quase—obsessao em nz’io deixar
nenhuma pergunta sem resposta impunham limites a este trabalho
maiéuoticom2 de seu companheiro. Em comum acordo resolvemos
Pesqulsar mais a atitude do grupo partindo da seguinte questao:
O que mobiliza no grupo esta resisténcia? Nossa suposicao era de
que 0 gruPo possui'a dificuldades para ler teoricamente, epistemo-
{ogrcamenta um texto, partindo para reacées emocionais quanto
as conclusoes do autor, desconsiderando seu método,
pressupostos,
contexto historico, coeréncia interna etc. O que seria revela
do niio
estava ai', mas exatamente na forma “emocional” da reacao.
In1c1almente, o grupo, tentando encarar o desafio da leitura, a
contextualizaca'o historica, a linguagem, os pressupostos, deixava-se
envolver pelo texto. I’ouco a pouco e com as devidas provocacées
mareutlcas, faziamos emergir a opiniao dos participantes. Esta

'42 A
maleutlcas OCF ;ltlca acabou
'l
- por scr
'
. um aspecto Fundamental do rnetodo
I I
, , .
: ) (ti/11:10 - . pedagoglco
:ZrNéirgt: e um 13strumento valioso de pesquisa, como ten'taremos demons-
. p o proce lmento de Socrates para buscar o conhecunento e s1gmfica
llteralrnente: am: de EIZCFPWWL O part0 aqui é usado como metafora da a rte de ajudar
30 nascnnento d3 verdade que esraria dentro de cada um, mas obstrufda pelo falso co-
flhCClmCIltO, ou a'opdiniao. Assim, pot meio do didlogo, Sécrates ia induzindo a pessoa
aefpt‘essar sua opmrao enquanto a colocava em dfivida mediantc a eiro'nez’a (i tonia), isto
e, refutacao, com a finalidade de qucbrar a solidez aparente dos preconceitos” (Chan 1',
1994, p. 144). Vet mais em Maiéurim, a arte do part0 (Iasi, 2000).

160
9:9. 33.9% ($3.; {.315 ‘3 \{E it};§_ RIM-fifvvff-a-Y"?! 2):. 23's: .}::_':.§-;-\‘|aw-V~'§ ~§'-_ :t I‘N: -_-’-‘-.-:§\\_;.\ r: >§fi5~wg A:.22::\2:y‘;.§5_ 2% ,wks'xg m. -._ my»; .9: fig ans-fl: \f- :??='=-r.‘\\ .m. 2. ”:53 -:.€.“-' $32515: §§,-.__m,s:___Q-\_
EdiakEKwEEENECE E; E133 3‘2 REE E 2x352; iaéfimfi‘a 322323215 EEEa§§é2K2E2 E3332; EH 2&2 2 $2 33:23 W» E::-. EEE 1E3 EEEEEEEEMES
.2“
MAURO LUIs IASI

apatecia como veementes criticas acompanhadas de desabafos do


tipo: é um “absurdo”, “mas este cata é muito machista”, “quetia que
estivesse aqui para dizer—lhe algumas vetdades”, “muito me admira
vocés do 13 usarern urn texto destes”, “o cara defende a escravidéio
como naturall”. As passagens que mais provocavam estas reagées,
€11t outras, cram CStflS:

Deve—se, antes de tudo, unit dois a dois os seres que, como o homem e a
Ha
mulher, niio podem existir um sem 0 outro, devido 21 reprodugao (...)
urn set que
também por obra da natureza 6 para conservagao das espécies
capaz
ordena e um ser que obedece. Porque aquele que possui inteligéncia
mais
de previsz’io tern naturalmente autoridade e poder de chefe; o que nada
obedecer e
possui além da forga fisica para executar deve, forgosamente,
(...) Os anlmals
servir — e, pois, o interesse do senhor é o mesmo do escravo
o é menos,
sfio machos e fémeas. O macho e’ mais perfeito e governa; a fémea
.l 43
e obedece. A mesma lei aplica—se naturalmente a todos os homens
familia e antes de cada
Na ordem da natureza, 0 Estado se coloca antes da
(....)
individuo, pois o todo deve, forgosamente, set colocado antes da part6
desde o momento em
Todas as coisas se definem pelas suas fungées; e,
dizet que sejam as
que elas percam os seus caracten’sticos, jzi nao se podera
da natureza e antes do
mesmas (....) Evidentemente o Estado esta na ordem
individuo (...).l'M
o escravo é cont 1'33
(...) outros sustentam que 0 poder do senhor sobre
livre e 0 es—
natureza. $6 a lei -— dizem —- impée diferenga entt e o homem
[No entanto] sem objetos
cravo; a natureza a nenhum deles distingue. (...)
e, o que é mais,
de primeira necessidade, os homens nfio saberiam viver
se, a uma ordern
viver Felizes. (...) Corn efeito, se cada instrumento pudes
entao os atquitetos nao
dada ou apenas prevista, executar sua tarefa (...),
r de escravos. (...) Dos
teriam a necessidade de trabalhadores, nem o senho

, propositalmente unia
1‘” Aqui reproduzimos as passagens segundo a apostila utilizada
traduqfio “popula r” (livros de B0150 da Ediouto) e em seguida indicamos a referénaa
na edigao da Editora Martins Fontes (Aristételes, 1998, p. 2 e 13).
Fontes
”4 ESta passagem encontra-se na tradugéo utilizada na edieao da Editora Martins
na p. S.

161
m ‘6 .3 m..t‘._._a\}._Q a. -_ W M WMWW fiaw as. 5 a a3 3:1”: a.
s s ‘.-v\'.': ‘. =.-=:'-. \. ”.922i. 43:3?“. 9'.t. ‘--""i=--\$'-.
gwéfis_-§g_~,-:I3.352.
\ _ _. __. \._. . _:_’§,»h A 2‘» say. .__\j_ 15.__ i 3. a: : ;-'\_;<
ash Nam-.aaaaa gags mg“:- no 2%.};- é‘aiiasfi- -is;\ am 1:54;?- Fm ”winks t.
AS MI‘ZTAMORFOSIES DA CONSCIIENCIA DE CLASSIE

instrumenros, um 5:10 animados, outros inanimados, (...) do mesmo mode


a propriedade é um insrrumenro essencial 21 Vida, a riqueza e a multiplicida-
de de instrumenros, e o escravo uma propriedade viva. Como instrumento
o trabalhador é sempre 0 primeiro entre eles. (..) Os instrumenros sfio
propriamente de produqao. A propriedade, a0 contrario, é simplesmenre
uso (...) A Vida 6 use e nfio produeao, eis por que 0 escravo 56 serve para
Facilitar 0 use (...). Fica demonstrado claramente O que 0 escravo 6 cm si,
e O que pode vir a ser. Aquele que r1510 se pertence, mas pertence a outro,
no entanto, é um homem, esse é escravo por narureza. Ora, 5e um homem
pertence a outro, é uma coisa possuida, mesmo sendo homem. E uma coisa
possuida é um instrumenro de uso, separado do corpo a0 qual pertence.”
Mas ha ou nz'io tais homens? Existira alguém para quem seja justo 6 (mil
ser escravo? (...) A autoridade e a obediéncia nao sao 56 coisas necessarias,
mais ainda coisas liteis. Alguns seres, ao nascer, se veem destinados a
obedecer; outros, a mandar. (...) Vé—se, pois, que a discussao que vimos
de sustenrar tern algum fundamenro; que ha escravos e homens livres
pela prépria obra da narureza; que essa distingao subsiste em alguns seres,
sempre que igualmente parega Litil e justo para alguém ser escravo, para
outrem mandar; pois é preciso que aquele obedega e este ourro
ordene,
segundo seu direito natural, isto é, com uma auroridade absoluta. (...) E
por isso que exisre um interesse comum e uma amizade reciproc
a enrre o
amo e o escravo, quando a prépria natureza os julga dignos um do
ourro,
da—se a0 contrario quando 11510 é assim, mas apenas em virrude da lei, e
por efeito da Violéneia."16
[Na democracia] 0 Estado cai no dominio da multidao indigen
te e se Vé
subtraido a0 império das leis. Os demagogos calcam-na com
os pés c fazem
predominar os decretos. Tal genrallla é desconhecida nas politeias onde a lei
governa. (..) O povo torna-se tirano. Trata-se de um ser composro de varias
cabegas; elas dommam niio cada uma separadamenre, mas todas junras.”7

”5 ARIS’I‘O'I‘ELES, 0]). at. p. 10-11-


ME 15:21., p. 12-17.
W 15221., p. 125.

MES-9”“ $“l?—:E‘-i"i.§=‘;§ WEE. 2“”'.""\‘“‘\§3§"‘.“” 3::- ‘5""'“ ‘:5-.-:_§_E_E®_M§ (y. :E “W lit-132:3: _E: “,5?“ 55.2%: V353? ficwkgtwi if»... Eff-9‘3 Ens 32:5; EE-I._\\.__E. 925$]: 9:. .". .!,_:5E 4.332. {Eff23;;:\\§23:$I;.:I“"'-z‘-=_:.<‘\'§._
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’13";
”’2“
....»

WM
MAURO LUls IASI

Existia algo nestas afirmagées que provocava a ira do grupo.


Salta aos olhos que alguma coisa nas afirmagoes de Aristételes nos
incomoda. Basra que o leitor pare urn minuto a leitura do presente
texto e verifique em 81 mesmo este incémodo. Olhos treinados
teoricamente tendem a se livrar rapidamente do problema com
mecanismos de defesa do tipo: trata—se do Aristoteles, da velha
Grécia, siio afirmagées condicionadas historicamente, o que me
e dos
importa é a brilhante antecipaqao do pensamento racional
instrumentos da légica, o método de partir de um todo, decompo—
u em
—10 em suas partes e reconstrui-lo enquanto todo nz'io nasce
tanto, os
Hegel e Marx, mas alguns milhares de anos antes. Entre
o trabalho pe—
olhos dos educadores ern formagao, ainda que com
insistiam na vontade
dagogico chegassem as mesmas constatagées,
de discordar das conclusoes do velho filésofo que qualificavam
como “absurdas”.
urdas”? Aris—
Langamos, entéo, o seguinte desafio: por que “abs
por
tételes é um pensador “unitario e coerente” (afirmaeao esta que
), seus pressupostos estao
si mesma jé gerava uma enorme polémica
tos, e estes levam
presentes no desenvolvimento de seus argumen
ramos combatéfllo
coerentemente as suas conclusées. Caso quei
(111313
devernos buscar, igualmente, unidade e coeréncia, ou seja,
mentos e com estes
o
3510 nossos pressupostos, quais nossos argu
entes das do autor?
nos conduzem a conclusoes que julgamos difer
a Aristételes”. Con-
Declaramos aberta :1 “temporada de caga
car as afirmagoes
trolando nossa ansiedade em responder ou retru
fluir dos argumentos con-
d0 grupo, nos permitimos ouvir o livre
r no discurso,
trarios as afirmaeées aristotélicas, tentando identifica
sua coeréncia.
sem revelar aos participantes, seus pressupostos e
prin-
Como era esperado, o alvo das contra—argumentagoes eram
imos
cipalmente as passagens citadas. E preciso registrar que repet
de forma sistematizada esre procedimento nas 13 turmas que se
seguiram (alérn de algumas turmas extras realizadas fora de 8510
Paulo, o que totaliza, aproximadarnente, umas 18 experiéncias) e

163
\ ism w a?“ :s r3333 %; E3x§swtx 233% is eufiiizeéim 3%: 33% 153 sfiéfi‘im‘}?
. . . M .\ ..: \. . .-.>- . 2: . ,.-.: . V}: ..Q".' .-\..\'.:'5-...').\ ".\. W zf-
AS: METAMORFOSBS DA CONSCIE‘NCIA DE (ILASSE

em todas, com pequenas variagées, o foco do debate concentrou—


-se em alguns pontos—chave recorrentes: a questao da mulher, a
natureza justa e fitil da escravidiio, a natureza da desigualdade, no
carater geral da sociedade e no papel do individuo diante dela (e
do Estado), o que levava its formas justas de governo etc.
Em linhas gerais, podemos dizer que os argumentos eram,
na esséncia, os mesmos. Os participantes alegavam que seria um
absurdo148 atribuir 22. natureza uma diferenga quanto a inteligéncia,
capacidade de previsio e, portanto, derivar daf uma posigao de
mando ou obediéncia para homens e mulheres. O mesmo argu—
mento serviria para discordar que a natureza pudesse definir papéis
sociais como 03 de senhor ou escravo. A postura pedagégica de
Scapi neste momento foi essencial. Assumindo a defesa das teses
aristotélicas, instigava o grupo procurando coloca-lo em dt’lvida ou
f“3“}3fldo para que buscassem coeréncia em suas afirmagoes. Por
exemplo, nao basta afirmar que a natureza nao atribui difereneas
€103 SCFSS; entao corno explicar as diferengas reais entre senhor e
escravo? Aristoteles as inventou ou realmente existiam na Grécia
antiga?
(.3.u de fato ocorria é que, com o trabalho maiéutico, os
part1c1pantes eram levados a, na medida do possivel, buscar
uma
unldade e coeréncia de seu pensamento e construir uma afirmaez‘io,
ppr aSSlm dizer, por inteiro. Se em um primeiro momento procu—
ravampsevitar a reaeao emocionada colocando em seu lugar urn
rac10c1n10 epistemologico, agora operzivamos no sentido oposto,
indo diretamente ao emocional. E possivel imaginar a reaeiio de
um grupo de educadores populates, que sempre incluiu um certo
ntimero de militantes feministas, diante da afirmagz’io “mas r1510 ha
uma diferenea natural entre homens e mulheres”, ou “niio esraria

srstlmos
1-18 I n ''
aqur' no termo u absurdo , p015 parece lIldlCflI’ que, para os partmpantes,
t. j 3, n . .
OS
u -

argumentos contrarlos a Arlstoteles seriam obvios. A naturalidade com que os partici—


pantes expressavam suas oplnloes foram para nos uma importante pista na compreensfio
do senso comum.

164
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EEMEEEEEEEEI’EEE:
MAURO LUIS IASI

Aristételes certo a respeito da superioridade do homem quanto a


inteligéncia on a posicéio de mando?”.
Pouco a pouco emergia a opiniiio do grupo, e com ela os
argumentos, pressupostos e conclusées de um discurso articula—
do objetivando se contrapor as afirmacées de Aristételes. Nesta
contraposicao, aquilo que aparecia de maneira reiterada eram, em
sintese, os seguintes argumentos:
a) contra a afirmacfio arisrotélica de que a natureza produz os seres com
diferencas fundamentais e que isto define a posiciio social dos seres huma—
ento;
HOS, 0 grupo constréi o argumento da igua/dade natural de nascim
b) instigado sobre se esta igualdade geraria seres absolutamente iguais, a
resposta do grupo é que nao, pois haveria aptidées diferentes, ‘talentos’,
mas todos os z'rzdz'm’duos teriam ‘potencial’ para se desenvolver, e a posicfio
social a ser ocupada nao depende da natureza, mas da ‘organizaciio social’,
assim como das ‘condicées’ oferecidas a0 individuo e suas capacidades
inatas (talentos, dons, aptidoes etc);
C) quanto 21 escravida'io, os participantes consideravam-na ‘antinatural’,
assim como injusta a atribuicao de um papel subordinado de qualquer
a0
pessoa sob a vontade absoluta de outta. Contrapunham este estado
da liberdaa’e e o atribuiam como um direito de todos que so podia SCI
subtraido pela injusrica e pela forca;
ordem natural,
d) 0 gtupo reagia 2‘1 afirmaciio de que o Estado estaria, na
antes do indivz’duo, e este deveria se submeter ao todo independentemente
de sua vontade ou esforco préprio, chegando a asseverar que a posiciio que
,
cada um deve ocupar depende do esforco do individuo, e r1510 da natureza
nem da itnposicz‘io do Estado;
e) niio chegavam a uma contraposicao nitida quanto a questao da proprie—
dade, insisrindo que era a propriedade que definia as diferencas sociais, e
niio a natureza;”9

"‘9 Algumas vezes aparecia com forca a ideia da propriedade como causa das diferencas
e sua contraposicao com a socializacao da propriedade. No entanto, era 56 exigir um
pouco mais de profundidade que esra afirmaciio se mostrava “vazia”, ou seja, ora ia
para o direito de todos terem propriedadc, ora permanecia como um vago sentido dc
socializacao da propriedade porque seria mais “jUSto”.

165
:3. 33m “33%;“: 3:34} a 33‘ . _s.. .Icy.\\\\§\::._ii3'¥?g ‘5 sag; _\::I':_§.E.\\|é\V m3 q... .t W ..’.‘._-_§\\_._:;: _»= -‘€--. «'3‘ A:.'-":\\".\ a: ,\ ,w.,sv.:»‘ r\\\-. -: 5 Ewe-s. : $4.63 9'. s, - 9s- .s;_.+- .553: \. m: ( ‘2' «s. - -. ‘25-. m s. -
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AS METAMORFOSES DA (IONSCIENCIA [)[i CLASSE

f) de forma unanime, os participantes criticavam a preferéncia de Aristo-


teles pela forma de governo aristocrzitica e suas crfticas 2‘1 democracia como
forma ‘degenerada’, sustentando que, segundo a opiniiio deles, a forma de
governo ideal deveria aproximanse da democracia.
E preciso que se diga que ate’ este ponto os participantes jul—
gam que estéio contrapondo Aristételes corn suas préprias ideias;
lembrem—se de que se trata de um grupo de militantes oriundos de
movimentos sociais, sindicatos, partidos politicos de esquerda, ou
seja, pessoas que tém sua autoimagem como militantes de esquerda,
a maior parte deles de setores mais radicalizados da esquerda que
tém como perspectiva o socialismo e acreditam que 0 meio para
alcancé-lo é uma revolucz’io.15°
Uma vez chegada a diniimica a este ponto, deixzivamos livre a
discussz'io e, sempre expondo os argumentos de Aristételes e saindo
em sua defesa, indagévamos sobre o funcionamento da sociedade
partindo destes pressupostos apresentados: “assim n50 ht’Fia
desigualdade”, “como organizar o poder e a tomada de decisées”,
“como garantir uma verdadeira igualdade entre as pessoas?”
A riqueza desta experiéncia é que cada grupo encontrava
caminhos e formas diferentes, ponteados de profissées de fé no
socialismo, para sempre chegar a uma substancia de pressupostos
comuns: “a sociedade deve dar as condicées para que todos igual—
‘r‘nente. tenham as mesmas chances”, “este é o papel do Estado”,
o mals Importante é a educaciio”, “precisamos garantir trabalho
para todos”, “0 problema é que a propriedade é 56 de alguns” etc.

15° Interessante notar que esta mesma dinamica realizada com grupos niio militantes
reproduz essencialmente a mesma reacio no que diz respeito £1 contraposicéo dos va-
lores afirmados por Aristoteles com valores como igualdade, liberdadc, valorizacao do
individuo e outros. No entanto, neste tipo de grupo 0corre também uma :irea maior dc
concordiincia com Aristoteles quanto 21 afirmacéo da necessidade de “mando e submis-
sz'lo” como uma determinante natural que explicaria, por exemplo, a lideranca; assim
como, ainda que n50 expressamente, uma concordz’incia com as diferencns “naturflis” d6
género. Poderfamos afirmar que o senso comum nzio militante mescla mais intensamente
o universo de valores de Aristételes com valores liberais.

I66
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MAURO Lurs [AS]

Quando Viamos que estavam acumuladas afirmacées sufi—


cientes e um certo consenso no grupo sobre as criticas, ainda que
persistisse o duelo entre os participantes do grupo a respeito de
algum aspecto secundario, encaminhavamos aos participantes
um texto que veio a ter 0 efeito de uma bomba. O texto estava
em nosso arsenal didatico para ser utilizado em outro momento e
tratava dos principios do liberalismo.151 Luiz Cunha (1983) inicia
sua exposicz’io afirmando o seguinte:
O liberalismo é um sistema de crencas e conviccées, isto é, uma ideologia.
os ou
Todo sistema de conviccées rem como base um conjunto de principi
verdades, aceitas sem discussao, que formam o corpo de sua doutrina ou
desses
corpo de ideias nas quais ele se fundamenta. Abordaremos alguns
ou valores
principios, os mais gerais, os que constituem os axiomas basicos
liberddde, a
maximos da doutrina liberal. Siio eles: 0 z'rzdz'w'dualismo, a!
propriedade, a iguaidzzde e a derrzocmcz'zz.‘52 cc
Para espanto dos participantes, os cinco principios liberais,
OS

axiomas basicos ou valores maximos” da doutrina liberal, eram


também as mesmas ide’ias—chave que eles haviam utilizado para
contrapor as ideias de Aristoteles. A primeira reacz’io, apés 0 cs—
“nz'io
panto, é a resisréncia que se expressava pela afirmacao de que
dc
foi isto que eu queria dizer”. N0 entanto, a sequéncia do texto
l pelas
Cunha, descrevendo os fundamentos do pensamento libera
palavras de alguns de seus cminentes teéricos,153 quase que repctc
es, por vezes
alguns dos argumentos utilizados pelos participant
os:
literalmente. Apenas para citar uma passagem ilusrrativa, Vejam
cada individuo
A funcz’io social da autoridade (do governo) é a de permitir a
com os demais, ao
o desenvolvimento de seus talentos, em competicz’io

jzi llavia realizado algo se-


'5' Um outro membro dc nossa equipe, Paulo Sérgio Tumolo,
, por isso em nosso material
melllante para evidenciar os principios liberais na educacao
imento
de traballro possuiamos o texto de Luiz Antonio Cunha: Eduazno e desenvolv
social no Brasil. 7" ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983.
152 CUNHA, Luiz Antonio, op. cit.
Em verdade, Cunha apresenta como um bloco so alguns contratualistas como Hobbes
e Rosseau, ao lado de fundadores do liberalismo classico como John Locke.

167

. :22 322222“: 2 2 s22 22 22:222 2222 2222 2a 22


1:2 22222 2 2 222222222
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSES

mdximo da sua capacidade. O individualismo acredita rcrem os difcrentes


individuos atributos diversos e é dc acordo com 6163 quc aringem uma
posigéio social vanrajosa ou nao.'5“
Dada a incrivel correspondéncia com o conrefido, e por vezes
até mesmo na forma, os participantes assumiam varias posturas,
desdc a reflexao mais profunda até a resisténcia aberra. O que ajuda
na dinamica é o fato de que a afirmagao coleriva aparece como urn
produto do grupo; assim, mesmo que resistindo ponrualmenre na
defesa de um ou outro argumenro pessoal, os participanres veem
claramenre no produro colerivo a correspondéncia com 05 fun-
damentos liberais, ideias-chave que séio vistas como “verdades” e
“aceitas sern discussao” e sob as quais o grupo partiu para atacar
Aristételes.
Com a sequéncia das turmas, o exercicio foi sendo aprimorado.
Por exemplo, diante da insisténcia do argumento de “11510 f0i bem
isto que eu queria dizer”, ou “os monitores manipularam o grupo
para que chegassem a estes principios”,155 afirmzivamos que nao
havia problema em recuperar uma palavra e “redefini—la”, ou, COIUO
disse um participante, “ressignificé—la” no corpo de ourra visao do
mundo. Propfinhamos, entao, que cada participanre escolhesse,
entre os cinco principios, alguns corn que concordasse 6 com
eles
fosse escrita uma frase descrevendo uma nova sociedade com
a
qual cada um se identifica. N510 precisamos dizer que aparecia

'54 CUNHA, Luiz Anténio, op. cit.


‘55 No que range a csrc aspecro cm particular, 0 faro dc aprcscnrarmos o texto dc Cunha é
um podcroso insrrumento, urna vez quc j:i csrava pronto antes dc comcgarmos a diniimica
c 11510 pode ser acusado dc repcrir os argumcnros que ainda seriam deserwolvidos pelos
participanres. Além disso, o scnso comum (c 6 disto que sc trara como vcrcmos mais
adianrc) reage dc modo particularmenre diferenre quando as idcias sfio aprcscntad
as
na forma de texto impresso. Com toda ccrteza, o impacro n50 seria o mesmo apenas
comunicando verbalmenrc que havia uma correspondéncia enrrc as afirmagécs do grupo
c 03 principios liberais, como se cornprovou em ccrras oporrunidades em quc renramos
transpor esra dinfimica para outro contexto sem o tempo rlccesszirio para dcsenvolvé—la.
No contexro d0 curso dc monitores, a dinamica ocupa dois dias c uma noire de rrabalho,
algo em torno de 10 on 12 horas.

168
" a? ‘ .~“;a m 33%?
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MAURO LUIS IASI

novamente a utilizagao de todas as palavras—chave; nao em cada


um do grupo, mas, considerando o coletivo dos participantes, todos
os valores se reapresentavam, e as frases giravam no essencial nos
limites da mesma visao de mundo. Por exemplo:156
iguais e a liberdade de
Na sociedade que defendo, socialista, todos serao
cada um terminara onde comega a do outro.
cada individuo serzi
Na futura sociedade que queremos, justa e igualitaria,
livre e a propriedade serzi de todos.
nismo, nao havera exploragz‘io
Diferente da sociedade capitalista, no comu
nem opressiio da mulher pelo
do homem pelo homem, nem escravos,
homem, porque todos os individuos nascem iguais e livres.
s apresentadas;
Poderiamos multiplicar as dezenas as frase
lar que tais termos
notem que isto ocorre mesmo depois de reve
entalmente, mas como
fazem parte da doutrina liberal, nao acid
ha alerta em seu texto que existe
axiomas centrais. O préprio Cun
s liberais”, de manelra
uma “ligagao estreita entre os cinco principio
s implica na impossibilidade
que “a 11510 realizagao de um 56 dele
eitos—chave isoladamente
de todos os outros”. Usar um dos conc
, pois seu significado
11510 0 redefine pela vontade de quem o usou
tinua operando.
estzi preso a uma cadeia de significantes que con
o haviamos antes apre~
Observamos aqui que se revela, com
da série, ern si mesmo,
sentado, o fato de que um significante fora
Mas é exatamente isto que
n50 pode expressar um significado.
sagao de que estao a falar o
os participantes acreditam, dai a sen
“obvio”: ora, “liberdade” quer dizer... “liberdade”.
umento, basta “reme—
Para comprovar a fragilidade desre arg
ificantes total1zado:
termos uma palavra a dois conjuntos de sign
fala dos homens “livres
diferentemente. Quando Aristoteles nos
muito diferente do
em contraposieao ao escravo, o faz de forma
Para ele, a base
use que os liberais fazern da palavra “liberdade”.
os seres
que torna possivel a liberdade é a escravidiio, quelibera

esta dinamica.
‘56 Frases colhidas em algumas das turmas nas quais realizamos

1 6‘)

was We %;:%% %.:s-%.... Q} l: a: 3‘: $2; a; %%‘ i- \ imam arias 3.3%. 0% 47.3% Newman zafis if: "asks ”3%;- %:%i%%% Ea; iaézsé iiSsx§§£m§$
f3
AS ME'I‘AMORFOSES DA CONSCIENCIA DIE CLASSIE

com instinto de mando para a associagz’io politica. Para os liberais,


a liberdade é condicionada pela igualdade natural, 6 ela se funda—
menta exatamente no individuo e em seu direito natural de dispor
de suas propriedades; ou, ainda que nada lhe reste, o direito de
dispor de si mesmo como propriedade inalienz’wel.157
Emparelhados numa série de significantes, estes valores
centrais, ou significantes mesrres, tém o poder de definir cada
palavra que na série se apresenta, mesmo contra a suposta vontade
do formulador, ern uma toralidade coerente, no caso, a dourrina
liberal. De nada adianta acrescentar £1 série uma palavra significa—
tiva de outra Visao de mundo, como “socialismo”, “comunismo”,
“revolugiio” ou qualquer outra. Mas por que cerras palavras tém o
poder de funcionar como “equivalentes gerais” e ourras néio, por
que a inserg'ao na série da palavra “comunismo”, por exemplo, nao
redefine todas as outras em fungao da totalidade de significado
orversa? Por que nz'io rerr’amos, assim, a liberdade comunisra, a
1gualdade socialista, ou, como muitos hoje, com as mais altas e
nobres intengées, alrnejam, uma “democracia social
isra”i>158
Porque niio se trata de uma quesrao linguisrica ou semantica.159
Certas palavras sao determinantes porque correspondem a relagé
es

157 IJOCKE , John . gumlo mm!


SE . 5 ,, ,l _ . ‘ . (
(Os pensadore3)_ 1 c a :0 re ogoz/c’rrzo. 5.10 I aulo. Abrll Cultural, U78, p. 51

'58 Deparamo-nos com um Faro


similar no trabalho r corico. Sabcmos que as palavraS,
so tornarem conceiros de um cer 110
to corpo teérico, deixam de scr simples palavras, e sell
significado so pode ser buscado I 1a relagfio
que esrabelcce com o corpo do qual E12 part6.
Desra Forma, a palavra “solidari e'dade”
ganha significados (listinros quando emprega‘l‘1
159 na
) obra ,de Durkheim. e no relarorlo de uma ONG carolica.
I erguntando-se quals rransformagées
soFre ria o Esrado na transiqfio para uma sociedade
comunista, e, porranro, sem Esrado, Marx
iron izava a pretensio daqueles que como Lassalle
imaginavam resolver a questfio com :1
criariva combinagao de palavras, como na proposta
de um “Estado livre”. Para Marx, upor
mais que combinemos de mil maneiras a palavra
povo e a palavra“ Estado
’ . , n a0 1103 aproximaremos um milimetro da solugao do problema"
-
(MARX, Karl. Crmca :10 programa de Gorha”. 05m: escolbidzzs. Sio Paulo: Alla-Omega,
[S2d-l- V- 22 P2 220321). Seria interessante imaginar o que pensaria o velho filosofo alemfio
d6 [Cfmos como governo democrfitico-popular” com o qual 0 PT imaginava diferenciar
sua proposra de gesriio dos espaqos conquisrados no Estado burgués.

170

W22
‘ W, 2 \\ “2232222,2332 22firs-”Lira- ‘zifi-M‘Wfiivw
ir-séfiis VH2 W22? rags
282 if:
“W 22122222222; gs“ 2i,.§:;;..§ 122,2e2 riéeazi’eh’s
,MWW 2%:2- itiner- 2-,: 22:e
MAURO LUIS IASI

sociais dctcrminantes. A “igualdade e democracia socialistas” sé podern


corresponder a uma transigao cm quc os fundamentos das rclacées
cocxistcm sem que urn possa determinar por complero o outro. Alias,
é cxatamcnte isto que Marx (1875) nos apresenta em uma clas poucas
cao,
vezes que so arvorou a falar um pouco mais detidamentc da transi
passa gem,
em scu Crz’tica no programa de Got/M. Em uma conhecida
do o critério
ole ira afirmar que, ao distribuir o produto social segun
utor, sobrcvive,
da quantidadc dc trabalho oferecida por cada prod
cacao dc uma mesma
“em principio, o direz'ro [mrgués”, isto é, a “apli
“para cvitar todos
medida igual” a individuos dcsiguais, de forma que,
igual, mas desigual”
estcs inconvenientes, o direito r1510 tcria que ser
eriamos, entao, optar por
(Marx, [1875], p. 214). Entretanto, niio pod
pera da tradicao
outro “principio”, por exemplo aquelc quc Marx recu
a cada qual,
socialista utépica: “de cada qual, segundo sua capacidadc;
scgundo suas necessidades”? (ibid, p. 215).
“escolha” do mclhor
N510, pois nao se trata de uma questao dc
produto social, on o mais
principio para regular a distribuiciio do
ccluSIO”, isto porque:
na primcira fase da socicdadc comu—
Estes defeitos, porém, sz'io incvitfweis
talista dcpois de um longo e doloroso
nista, tal como brota da socicdade capi
a ncm
a superior a estrutura economic
parto. O dircito r1510 pode ser nunc
por ela condicionado.160 ”
a0 dcscnvolvimento cultural da sociedade
estrutura economica
A complexa c polémica rclacao entre “a
ela dcterminado” assombrou
e 0 “desenvolvimento cultural por
que aqui sc trata.16‘ Nao é o
os marxistas dcsdc sempre e é disto
sc rcsolveria criando ter—
caso dc inadequacz’io dc palavras, o quc
ibulos correspondcm a certas
mos apropriados, mas que certos voc
das por uma matcrialidade
felagécs sociais, c estas sao condiciona

613.. V. 2, p- 214-
I ” MARX, Karl. Crztzcrz (10 program: dc Got/m,

p I
6

marxisra, mas uma questfio do proprto


““ ESte nfio é somcnte um dilema da tradicao
pcnsamento sociolégico, como demon stra o csforc o de Parsons em buscar um modclo
alldadc e cstruturas soc1a1s
' o . ‘3)

teorlco quc dcssc conta da relaciio cntre “estruturas dc person


n
; .

236).
t3 quc foi criticado por Elias (1993, v. 1, p. 220 e

171

153‘ 1,} f" §~31§§ i {ii wit,” % iii, is iii“


AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSE

que apenas resumidamente podemos identificar com aquilo que


Marx chamava do “grau dc desenvolvimenro das forgas produtivas
materiais”, que corre o risco de apresentar na forma sintética e
simplificada uma complexidade que nao permite simplificagées.
As forgas produtivas materiais 5510 o conjunto dinamico dc trés
fatores, exatamente aqueles que constiruem o trabalho como
protoforma da agao humana: os seres humanos, a materialidade
sobre a qual agem (que inclui a natureza fisica, mas nao apenaS)
e as mediagées criadas pelos seres humanos para atuar sobre esta
materialidade, seja na forma de instrumentos e ferramenras, seja
na forma de saberes, tecnologia e conhecimentos. Existe aqui uma
circularidade que pode desaparecer numa aproximagéio mais meca—
nica..A. agao humana, sua dimensao, por assim dizer, subjetiva, é
cond1c10nada por uma materialidade que inclui esta mesma aqz’io,
sé que objetivada.
Faz parte desta materialidade, portanto, uma certa “cultura”,
urnpa organizagao simbélica no interior da qual se institu
ern as
Yisoes de mundo. Superar ou redefinir o conceito
burgués dc
lgoaldade nao é possivel por meio de uma simples operagiio
sim-
bolrcaou gramatical; por exemplo, adjetivando a
palavra igualdade
como igualdade socialista. Superar a igualdade burguesa,
segundo
as pistas do Marx em seu Critical (to progmmz
z de Got/m, significa
alterar radicalmente as relagées que det
erminam os limires desta
igualdadfz, por exemplo a escravizante sub
ordinagiio dos individuOS
em relagao a uma divisiio do trabalho, a contradiqz
’io entre trabalho
manual 6: intelectual, a caréncia que limira o monrante
do trabalho
social total, 0 iato de .0 ser social ter assumido a esrra
nha c egoista
Eorrrla de Individuos” que rransformam o trab
alho apenas em um
mero de Vida” (Marx [1875], p. 214-21
5).
Totalizada na série do significantes as palavras—chave,
axiomas
centrais do ideario liberal apresentam—se as pcssoas como “a forma

pela qual é possivel construir a represenragao simbolica das relagées
humanas, da mesma maneira como o dinheiro apresenta-se como

172
_I.‘.\ ,x_ p.11): 5: \.;5 x; = ..v, \‘ss_v_ \:: swag; _\\::-:_\.;.o.<«xg..: §..__ .t W ..’.‘._-_§\\_:_\ 7: -‘é_‘".“’i"§ Aw:§:: V31 .§*W\>§W$¢ my '=_ six»;- 9: $3.5; o_-_\;._.= 9' 335,3}: 95;; f or? 435325 $3.;_\'r_.\2.-§z>:§-.:Ml-@_=_..<~\'g.
idififlw‘ifiiwiliii‘iiiifi lifié‘a aiflf F m: ii-sé3'§"}s§:s§k i‘éifiis ‘2 Era-ai-a‘iaix rings; imam- ‘riks 2%.};- iziia-g§= siag skim lashiifiiaimm
2335
MAURO LUIS IASI

“forma natural” de meio de troca. O que se coloca “fora” desta tota-


lizagiio é visto como corpo estranho, ilégico, sem sentido. Equivaleria
a0 argumento de alguém que censurasse Aristételes pelo fato de que
seu raciocinio sobre a natureza de a associagao impor-se do todo até
a parte deixa o “individuo” sem espaqo de agzio e liberdade. Para
Aristoteles e a totalizagéo simbélica dentro da qual opera, 0 “indi—
viduo” n50 tem espago pela simples razéo de que o “individuo” 11510
existe! 0 set so existe na associagfio e se define a partir dela sendo
uma abstragfio absolutamente indevida, uma esséncia individual
separada. No entanto, esta encapsulagiio do homo: 61mm: é condigz’io
essencial para a série simbélica liberal. Dentro dela é impossivel se
referir ao ser social senfio na forma de “individuos”.
Um bom exemplo deste uso “indevido” de uma palavra 110
interior de uma série que totaliza outro significado nos é dado pelos
problemas de verséo que invariavelmente encontrarnos naqueles
que assumem o desafio de traduzir Aristételes. Numa passagem de
A political, Aristételes (1998, p. 4) afirma que “a natureza de uma
coisa é precisarnente seu firn” e que “bastar—se a si mesmo e uma
meta a que tende toda a produez’io da natureza e (E tambérn o mals
.
perfeito estado”. Como a natureza fez dos seres em si incompletoS
estaria em seu fim natural a associagfio, dai a famosa formulaQaO
segundo a qual o “homem é naturalmente feito para a sociedade
gem £01 tra-
politica”. Muito bem. Vejam como esta mesma passa
duzidai’ em outra versiio: .
é de cada um bastar—se a: 51
Alénl disso, o fim para qual cada ser foi criado
é o ideal de todo irzdivz’duo,
mesmo; ora a condigiio de bastar—se a si préprio
e o que de melhor pode existir para ele.162
gz’io,
Existe um abismo entre a afirmagfio original e esta tradu
série de
abismo este que é nada mais do que a distfincia entre uma
se,
significantes e outra. O fim a0 qual a natureza se propée é o bastar—

Janeiro:
”’2 ARISTOTELES. A polz’tz'az. Traduefio de Nestor Silveira Chaves. Rio de
Ediouro, [s.d.], p. 13.

173

:EEE.
*- Em EM."
22*E:E2;*25E2= EEE
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. E...E E.EE..*.‘._._E._EE WE...
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_KE;
AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE (ILASSE

mas os seres, por serem incompleros, somenre podem alcanea—lo por


meio da associaez’io; desra forma, de nenhuma maneira “cada um”
poderia bastar—se “a si mesmo”, muito menos isto tornar-se “o ideal
de todo indiw’duo”. N210 se trata apenas de uma “tradugz’io ruim”?
Parece que nao, pois, de maneira mais sofisticada, o problema per—
siste em outra cuidadosa e reconhecida tradueao, mesmo em um
problema banal, como optar pela forma: “o homem é um animal
politico” on o “homem é um animal civico”. O vocabulo civis é de
origem latina (civizm) e equivale ao rermo grego polis, I10 entanto a
armadilha das palavras leva o tradutor, mais adiante, a tecer a incri—
Vel declaragao de que o homem é “um animal feito para a sociedzzde
civil”.163 Ora, como nao se trata de um tradutor “romano”, mas um
brasileiro que parte da versao francesa, é possivel imaginar que o
telefone sem fio deixou distante a velha Grécia da Polis, passou por
Roma e deslizou para a série de significantes da velha Revolugz’io
Francesa. Um c‘cidada’io” dos tempos presentes entende perfeitamfiflte
que o homem naseeu para a “sociedade civil”, mas seré que €flt€fld€
este termo como o anunciou o velho Arisrételes? Nao sera provzivel
que o msira em sua prépria série de significantes, dando a ele um
srgnificado mais proximo do moderno uso burgués?
N510 existem simples palavras. A0 que parece, cada palavra
:arrega srgnificados que so podem emergir na série totalizada de
Signll’ioantes, e esta série so adquire seu significado como corpo
:ImbOhfofie relagées sociais bem determinadas. As difereneas de
tradugao correspondem £1 diferenga entre as relaeées escravistas
gregas C as modernas relagées de exploragao do trabalho assalariado.
Estas palavras surgem na consciencia das pessoas de forma tz'io
natural como 0 ar que respiramos e 3210 o criterio de representaez’io
e9do Julgamento valorarivo (moral) e da agao (ética) sobre mundo,
amda que nfio apareeam como “palavras”, mas como um valor
em substincia ainda incorpérea. Nao se apresentam como uma

16
5 Haiti, Tradugao de Roberto Leal Ferreira. Silo Paulo: Martins Fumes, 1998, p. 53.

174

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MAURO LUIS IASI

unidade coerente e articulada, digamos, de maneira refletidamente


teonca, mas antes como uma “fungao natural” do cérebro. Elias
(1994), ao refletir sobre o processo de formagz’io de nossa atual
autoconsciéncia, graeas £1 qual desenvolvemos a percepqao de nés
mesmos e dos outros como individuos, afirma que:
muito
Agora que todas estas ideias silo tidas como aceites, talvez nz'io seja
época em
simples nos colocarmos na situagao das pessoas que viveram na
que tais experiéncias consrituiram uma inovagiio, a qual, pouco a pouCO,
os de pensa—
niio sem uma poderosa resisténcia, infiltrou-se nos process
que hoje é quase
mento humanos. Mas recordar uma época em que aquilo
hecido confere relevo
evidente ainda tinha o brilho e o ineditismo do descon
qées fundamentais
mais nitido a algumas caracteristicas de nossas concep
por sua familiaridade,
de nos mesmos e do mundo, concepgées essas que,
Clara.164
normalmente permanecem abaixo do limiar da consciéncia
particular corn as relagées
M38 qual a relagz’io destas ideias em
de” consen—
burguesas e como assumem a forma desta “naturalida
da conscien—
sual, de “familiaridade” que reside abaixo do limiar
Revolugflo
Cia? Por que estas e niio outras? A triade axiomatica da
Francesa falava em liberre, égzzlz'té... fraternité; por que esta filtima
te a proprz'été?
desapareceu e em seu lugar emerge quase onip0ten
stao. De forma absoluta-
VCjamos mais detidamente esta que
d6
mente resumida, o que ha de singular nas relagoes capitalistaS
meios d6
produgiio é o fato de que um proprietario privado de
e a consome em
produgao e dinheiro compra forga de trabalho
ai mais valor do que 0 va—
um processo de produgéio no qual extr
nto, exige certas
lor desta forga de trabalho. Esta telagao, no enta
efetivar. Ocorre que estas
precondigées sem as quais niio pode se
condieées nao sao dadas “naturalrnente”, pois:
dinheiro ou de merca-
A natureza niio produz, de um lado, possuidores de
de trabalho. Esta
dorias, e, de outro, meros possuidores das préprias forqas
uma relagfio social que
relagfio nio tern sua origern na natureza, nem é mesmo

‘6“ ELIAS, Norbert. A sociea’ade do; irzdim’duos, cit.

175

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AS METAMORFOSES DA (IONSCIENCIA DE CLASS-SE

fosse comum a todos os pcriodos histéricos. Ela é evidentcmente o resultado


de um desenvolvimcnto llistérico anterior, o produto dc muitas rcvolucées
economicas, do desaparecimento de toda uma série dc antigas formacées da
producao social.165
As precondicées das relacées que constituem 0 capital siio,
em linhas gerais, um certo desenvolvimento da divisfio social
do trabalho que produza os produtores como irzdz'w’duos, 6, com
a generalizacao da economia mercantil, ou seja, a producao
generalizada de mercadorias, a imprescindibilidade do dinheiro
como forma dc equivalente geral. Para que dois pontos dcsta di—
visao do trabalho dentro dc uma ordem mercantil sc encontrem
como livres proprietzirios dc distintas mercadorias, portanto em
condicées dc igualdade, muita zigua tevc que rolar por debaixo
da ponte da histéria. Primeiramente, a divisz‘io social do tra—
balho, nos marcos da producfio dc valores de uso, enfatiza os
lacos dc dependéncia e evidencia o carater social da producao
da existéncia. Nestes marcos, o isolamento do individuo niio
apenas nao faz sentido, como seria impossivel. Entretanto, com
o desenvolvimento da economia das trocas, a condicz’io mesmo
da existéncia, passa a ser 0 isolamento do produtor privad
o, uma
vez que so pode apresentar £1 troca seu produto com a condicao
dc niio ser comum aos outros produtores.
A inversao essencial que aqui se opera (5 que, no primciro caso3
o trabalho de cada um apcnas tcm sentido como parte do trabalho
social total, e 6- estc que garante aos participantcs do coletivo as
condicées da cxisténcia; cnquanto, no segundo caso, o trabalho
privado isolado é a condicz’io da sociabilidadc conquistada na circu-
13930 das mercadorias. Desse modo, “a circulacao é o movimento
em quc o produto pro’prio é posto como valor dc troca (dinheiro),
ou seja, como produto social, 6 o produto social como préprio (valor
de uso individual, objeto do consumo individual)”.166 0 fato d6

“35 MARX, Karl. 0 capital, cit, v. 1, livro I, cap. 4, p. 189.


'56 [d3 Grzmdrz'sse [1857-1858]. 11“ ed. México: Siglo Veintcuno, 1998.
v. 3, p- 166 [905]-

I76
. . . . . 3. . ..3 33,3- 3- 3: 3.3-. 33- 3.33333. 3....’.‘._- 33.3 3_
3933333333333333 333333313333 3133:3343? 3 33333333333 3313133333353 333._33.._
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333- 333.33 333.3 333 33 33.. 33:3 333-3333333333 3:33
$3.3
Mauuo LUIS IASI

os seres sociais apresentarem seus produtos corno mercadorias nao


é determinado pela vontade do individuo, “nem de sua imediata
condicao natural”, mas de “condicées e relacées historicas em
virtude das quais o individuo ja se encontra determinado social-
mente” (Marx, 1998, p. 167).
Completa Marx seu argumento afirmando que:
pri—
Isto implica: por uma parte, produziu mercadorias como individuo
somente por sua
vado independente, por prépria iniciativa, determinado
si mesmo, niio como
necessidade e suas capacidades, por si mesmo e para
individuo que participa
integrante de uma comunidade natural, nem como
portanto, 11510
de forma imediata —~— enquanto ser social -— na producao e que,
imediata de subsisténcia.
se comporta com seu produto como uma fonte
produto que 56
Por outra parte, entretanto, produziu valor de troca, urn
s de passar por determinado
se converte em produto para si mesmo depoi
conseguinte, produziu jzi
processo social, determinada metamorfose. Por
icées de producao e relacées de
dentro de um contexto, sob certas cond
histérico, mas que 86'
interciimbio que devem sua existéncia 21 um processo
(...) O carater privado da produ—
lhe apresentam como necessidade natural.
de troca se apresenta inclusive como
gfio do individuo produtor de valores
um p0 nro auténorno
produto histérico; seu isolamento, sua conversao em
por uma divisiio do trabalho
no fimbito da producz‘lo, estfio condicionados
que, por sua vez, se funda numa série de condicées economicas, por obra
desde todos os pontos de vista, na
das quais o individuo estzi condicionado,
de existénciafw
sua vinculacfio com os outros e seu proprio modo
“produciio do individuo
A primeira condiciio, portanto, é a
como ser “auténomo”,
produtor de valores de troca”, sua producao
individualizacao do
“isolado”. O processo historico que gerou esta
cao da forma mer—
ser social rem grande impulso com a generaliza
a mercadoria
cantil, porém nao se completa somente nela. A form
cia, e o
pode se desenvolver mesmo mantendo lacos de dependen
cao
intercz’imbio dos produtores privados pressupor ainda a produ

“*7 16:21., p. 167-168.

177

. . -. 3.: . :. . .'\.\‘. a» ".\. "$ ¥-


AS MIi'I‘AMORFOSES DA (IONSCHIZNCIA [Hi CLASSE

com os meios proprios de cada um, convertendo este intercz’imbio


numa troca de produtos do trabalho. Enquanto o ser humano puder
participar do universo das trocas por intermédio do “produto d6
seu trabalho”, nao tera por que vender sua “forga dc trabalho”, C
as relagées capitalistas carecerao de um dos elementos essenciais
a sua constituigz’io. Mais que individuos, é necessario que estes
individuos sejam “livres”. Vejamos:
Duas espécies bem diferentes dc possuidores de mercadoria tém de con-
frontar—se e entrar em contato: de um lado, o proprietiil‘iO de dinheiro, d6
meios de produgz’io e de meios de subsisténcia, empenhado em aumentar
a soma de seus valores comprando a forga dc trabalho alheia, e, de outro,
os trabalhadores livres, vendedores da sua forga de trabalho e, portanto,
de trabalho. Trabalhadores Iivres em dois sentidos, porque niio 5510 part6
direta dos meios de produqao, como escravos e servos, e porque nao sz‘io
donos dos meios de produgao, como o camponés auténomo, estando assim
livres e desembaragados deles. Estabelecidos estes dois polos do mercado,
ficam dadas as condigées basicas da produqao capitalista.168
. A liberdade, aqui como precondigao das relagzées capitalistas, se
dlstancia muito do que Vimos em Aristételes. Para 0 velho filosofo,
tal estado esré ligado ao fato de a pessoa nao servir de instrumento
da vontade de outro; aqui a liberdade se expressa no ato de servir ao
ontro como instrumento, servir livremente, pois baseia—se no ato de
dlspor do que é seu para atingir seus interesses. E nesre sentid
o, comO
transparece Elaramente no texto citado, que a noqfio de liberdade estzi
llgada as de individuo” e de “propriedade”, pois, corno afirma
Marx
([1867], p. 187), “a forga de trabalho so pode aparecer como mercadoria
(...) enduanto for e por ser oferecida ou vendida como mercadoria por
seu propno possuidor, pela pessoa da qual ela é forga de trabalho”,
conclulndo clue para que seu possuidor venda a forga de trabalho como
mercadona é mister que ele possa dispor dela, que seja proprietzirio
livre de sua capacidade de trabalho, de sua pessoa” (z'éz'd, p. 187—1
88)-

”‘3 Id. 0 capital, cit, livro I, v. 2, cap. 24, p. 829-830.

178

“MW W32 *3.“ (2222”,,


§Qim3xw§§m§§$ i; $323232;2.‘_=. £32
~52». was <2: 2
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ixéfimfi‘a 32,222
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“° 3:133?
" V"
ifisxiéfisiimfi
MAURO LUIS IASI

Estc principio ja aparece em Locke ([1690], 1978) quando


afirmara que “é evidente que, embora a natureza tudo nos ofcreca
em comum, o homem, sendo senhor de si proprio e proprierério
de sua pessoa e das acées ou trabalho que executa, teria ainda em
si mesmo a base da propriedade” (56111., 51).
Da mesma forma esta implicita a relacao dc igualdadc pelo fato
-
dc tratar—se de proprietérios, vendedores c compradores dc merca
ram
dorias, mas tambérn pelo fato de que os individuos se enfren
no mercado como possuidores de valor de troca equivalentes, corno
iado” (Marx,
“agentes do mesmo trabalho social geral, indiferenc
1998, p- 175), do modo que:
iimbio se enfrentam, no
Assim como na qualidade de sujcitos do interc
(como sujeitos). Enquanto tal,
aro do mesmo se acreditam a si mesmos
acreditar—se. Se apresentam como
o intercémbio 11510 (E mais que estc
s, e as suas mercadorias como
intercambiantes e, portanto, como iguai
cquivalcntes.169
iguais, as mul—
Por meio deste processo dc. c‘acredirarem—se”
que marcam o ato
tiplicidadcs das singularidades individuais,
“determinada
concreto da producao (como citamos anteriormente:
, “por si 6 para
pelas proprias necessidadcs e capacidades préprias”
equivaléncia. A
si mesmos”), se desvanecern na universalidade da
ldade social, aquilo que
diversidade natural é o “motivo do sua igua
os coloca como sujeitos da troca” (Marx, 1998, p. 176)-
, cada um dos valores
Resulta que, diante do que foi exposto
riedade” '3 H3
cxpressos nas palavras “igualdade, liberdade, prop
amento aparece aqui
forma individual do ser social como fund
fio do capital. 0
como precondicocs para que se estabeleca a relac
gocs séio também
mundo csra cheio dc coincidéncias. Tais precondi
olica, e quando sores
os axiomas centrais da representacao simb
de urna tarefa (como
da ordcm capitalista sfio colocados diante
ar Aristo—
os participantes de nosso curso em seu esforco de critic

W’ MARX, Karl. Grmzdrz'sse..., cit, p. 175 [913l-

179

1 ..11-.=.- 1» 11.1 . ., . . .
1.11:1 1111;» 1'
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2235

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AS METAMORFOSI‘ZS DA (IONSCIENCIA DE CLASSE

tales) sendo obrigados a buscar em suas consciéncias imediaras as


ferramentas ideais para resolVé—la, mais uma coincidéncia, eis que
aparccem de novo estes mesmos valores ccnrrais.
Acreditamos convictamenre que [1510 hi nenhum aspecto
fortuito ou acidental nesre conjunro de “coincidéncias”, mas uma
relagao precisa e bem dererminada. Siio as relagées sociais domi—
nantes converridas em idcias. Diz Marx:
O processo do valor de troca, desenvolvido na circulagfio, nfio $6 respeita,
por conseguinte, a liberdade e a igualdade, como estas 5510 son produro;
é a base real das mesmas. Como idcias puras, sao cxpressées idealizadas
dos diversos mementos desre processo; seu desenvolvimenro em conexées
juridicas, politicas e sociais 11510 6 mais que sua reprodugao clevando—as a
outras poréncias.170
. Tampouco aparecem fortuitamente estes valores nas conscién—
Claa I‘mediatas. Lembremo-nos de que certa ordem dc: relagées
500313 exP1133821 em um “modo de Vida” implica um continuum dc
PEOduQEIO. C reprodugao de si mesmas, ou seja, uma ordem dc rela—
‘POCS que jflClUi Como um momento essencial dc sua continuidade
a produgao .fiSica e espiritual dos seres sociais que a compéem. A0
flfifITIar a hlstoricidade das formas de familia revela—se que esta
lnStltfu‘filO faz parte de uma determinada maneira de organizar
o socrometabolismo que constitui o fundamento de uma
cerra
sociedade.

AS “31.39668 familiares se organizam sem que isro implique


qualquerintencionalidade individual ou mesmo social, de forma a
rePrOdl' 0 fundamento das relagées dererminantes apresentando
este undamento om sua substancia essencial a ser inrernalizada
“)a cargas afotlvas e emocionais, catexizadas na diregfio dc
objeitos dc identlficagao projetiva e introjetiva. Salram aos olhos
33 drferrantes formas dc familia que se aprescntam na historia da
humamdade, e basta transporrar uma destas formas para fora de

:70 MARX, Kari. G'rzmdrisse..., (in. p.


179 [916].

180

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.2“
MAURO LUIS IASI

seu tempo para evidenciar que ela nao produz os mesmos seres
sociais, mas seres de uma ordem de relacées da qual faz parte.”1
Como se imagina a socializacao ideolégica como a transmissao
simples de valores acabados em sua forma sistematizada, costuma-
—se buscat a meta “repeticao” na familia das relagées sociais mais
amplas, como a autoridade do pai e a relacao de obediencia e dis—
ciplina no trabalho. No entanto, as relacoes familiares guardam
uma autonomia relativa, e sua dinamica niio corresponde necessa—
riamente a uma funcionalidade mecanica com a forma social que
a abriga. Ao mesmo tempo, a maneira de organizar as relacoes por
meio de uma particular hierarquia de idade e relacées de género,
a unidade espacial na qual se desenvolvem estas relacées, assim
como uma particular arquitetura funcional das moradias, o modo
de desenvolvimento do psiquismo e sua Vinculacao com as manifes—
tacoes de amor e édio, a maneira de internalizar as normas sociais
externas, os padrées de higiene e manifestacao da sexualidade, as
diferentes formas de familia e sua especifica acao para garantir a
producao material da Vida; 11:10 siio casuais e independentes de uma
sociedade historicamente determinada. Elias (1994) nos diz que:
[As] relacées — por exemplo, entre pai, mile, filho e irmaos numa familia —.
inadas, em suas
por variaveis que sejam em seus detalhes, sao determ
crianca nasce e
estruturas basicas, pela estrutura da sociedade em que a
que existia antes dela.172
mesmo
O autor continua seu argumento afirmando-nos que,
considerando a constituicao natural das criancas recém—nascidas, pre—
senciamos um “desenvolvimento muito diferenciado da consciéncia
e dos instintos, dependendo da estrutura preexistente das relacées
em que eles crescem” (Elias, 1994, p. 28). Repatem que o sociologo

m N510 precisamos ir longe na histéria para ilustrar esu: fato; um membro de uma familia
camponesa que chega 3 cidade nos dias de hoje sofre o que se chama de uma “ inadaptacéo”.
A légica do “preconceito” que se expressa nas formas de falar, vestir, seus padroes de conduta
cotidiana e outros apenas revela que seu ser foi criado por outta forma de socializacao.
'73 ELIAS, Norbert. A sociedzzde do: indiw'duos, cit- p. 28.

181
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3» 3 M. k. ‘5... Ma). .\.\~. 3’
AS ME'I‘AMOIIFOSES DA (IONSCIE’NCIA DE CLASSE

dos processes inclui nesta moldagem a partir das relagées os préprios


“instintos”, querendo indicar que uma carga somatica pulsional, a0
se expressar, ja o faz assumindo uma forma que a condiciona e a dis—
tancia da pura existéncia fisico-natural. Conclui, portanro, Elias que:
Em consoniincia com a estrutura mutzivel da sociedade ocidental, uma crian-
ea do século XII desenvolvia uma estrutura dos instintos e da consciéncia
diferente da de uma crianea do século XX. A partir do estudo do processo
civilizador, evidenciou-se com bastanre clareza a que ponto a modelagem
geral, e portanto a formagio individual de cada pessoa, depende da evolueao
historica do padrzio social, da estrutura das relaeées humanas.”3
A familia nuclear monogamica, inicia sua tarefa por um fato de
transcendental importancia: produz o ser social como “individuos”.
Alguém poderia argumentar que qualquer familia produz “indi—
v-i'duos”, uma vez que esres seriam entendidos como manifestaeao
Singular das unidades que compéem uma sociedade.174 N0 entanto,
por incrivel que possa parecer aos nossos olhos, nem toda sociedade
constréi suas relaeées rendo por unidade singular “individuos”. As
organizaeées sociais estudadas por Malinowski, outras descritas por
Morgan, on mesmo a antiguidade cliissica siio prova disto. A forma
das relagées familiares de nossa sociedade arual caracteriza—se por
uma estrutura que isola, inicialmente, o préprio nticleo familiar,
separa—o da atividade produtiva, rompe a rede de dependéncia que
uma antes os seres sociais, como na familia camponesa descrita por
Poster (1979) ou na aldeia dos povos indigenas no Brasil. Isolado

‘73 Mid.
m (m) :1 “Pam‘EfiO dOS individuos, (la qua] :‘Is vezes se Ella como um fenomeno dado pela
natureza, rem o Inesmo sentido da separaeao de cada pessoa no espaeo. Considerados
como COFPOS: 03 llldiduO-S inseridos por toda a Vida cm cornunidades dc parentesco
cstreltanlente unidas Foram e 5210 separados entre si quanto membros das sociedades
nacronais complexas, O que emerge muiro mais nestas ultimas 3510 o isolamento e a
Snoapsulaeao dos individuos em suas “31396.33 uns com os outros” (Elias, 1994, p. 103).
A idem de individuos decidindo, agindo e existindo com absoluta indcpendéncia um
(l0 OLIEI‘O é llIIl pI‘OClUtO artificial (l0 lIOIIICIIl, caractcrfstico dc um dado cstgigio do

desenvolvimento dc sua autopercepefio” (id. 1993, p. 248)

182
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MAURO LUIS IASI

o nucleo familiar, torna—se exclusivo e restrito, Via de regra, ao par


de adultos e, desta forma, limita o horizonte no qual ocorrera o
processo de identidade. Como nos lembra Poster:
Deve ser tambe'm assinalado que a estrutura da familia burguesa restrin-
giu, como nunca antes, as fontes de identificagiio para a crianca. Somente
os pais da crianca estavam disponiveis como modelos adultos, pelo que a
estrurura emocional ganhou maior e mais decisiva intensidade.175
E esta estrutura que torna possivel o desenvolvimento de um tipo
particular de psiquismo do qual Freud foi o principal intérprete. Como
nos mostrou Melaine Klein e foi recuperado em outro sentido por
Lacan,176 a prépria identidade embrionaria do en 56 se produz por meio
de um objeto externo, no caso psicanalitico —— a miie. Entretanto, em
razfto de este objeto apresentapse de maneira exclusiva neste processo
que Lacan (1996, p. 98) chamou de estagio do espelho -— ou seja, “uma
transformacao produzida no sujeito quando ele assume uma imagem”
numa
e que constituira “a matriz simbélica em que 0 Eu se precipita
forma primordial, antes de se objetivar na dialética da identifi cacao
com o outro” — produz urn efeito dos mais significativos. Vejamos este
efeito pelas préprias palavras do psicanalista francés:
cia do eu, desde
Mas 0 ponto importanre é que esta forma situa a instfin
, para sempre
antes de sua determinacao social, numa linha de ficcéio
que 56 se unirzi assinto—
irredutivel para o individuo isolado -—- ou melhor,
o sucesso das sinteses
maticamente ao devir do sujeito, qualquer que seja
ele tenha que resolver, na condlcao de Eu , Slla
. .. *
' .
dialetlc
'
as pelas quais
.

discordfincia de sua propria realidade.177

‘75 POSTER, Mark, 0 . via, p. 19-4.


'76 LACAN, Jacques. “O estridio do espelho como Formador da Pu 11950 do Eu”, i’1"ZIzEK'
Um may»: dd ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996, p. 97—1032 V3” tambem 0
capitulo “A linguagem da Familia”, , in: Mark Poster, op. cit, p. 104-127-
0 termo Eu, com mait’lscula, é utilizado para indicar a diferenca entre os vocabulos
utilizados por Lac-an para identificar 0 sujeito do inconsciente (je em francés) e 0 en
indicando a instfincia psiquica nos termos freudianos (ego), correspondendo a0 pronome
Frances moi. (Ver nora inicial do tradutor, in: Jacques Lacan, op. cit., p. 97.)
'77 LACAN, Jacques, op. cit., p. 98.

183
. 2 2 - 2.3.2 .-= 2N..
. . i...§:3 2. : .122 222 >222»; 2 ..NN-- 22-. «“6": -:2=-.->- 2 222-2 .-< 222 2 .....
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AS MET'AMORFOSES [)A CONSCIE‘NCIA DE (ILASSE

Esta aproximagao psicanalitica poderia nos levar, no limite, a


universalizar os mecanismos de formagao da personalldade, uma vez
que, reduzida a relagéio mae-bebé, seria possivel uma ultragenerali-
zaeao de uma estrutura invariaivel presente em qualqner forma de
familia, e, o que seria mais grave, uma entificagiio prev1a a qualquer
determinagz’io social.178 Podemos, todavia, consideraroque a forma
basica que torna possivel o estzigio do espelho, ou esra identificagao
prévia por meio de uma matriz simbélica do Eu, pressupoe uma
esrrutura particular de familia cujo produto seja exatamente a con—
formagz'io desta identidade como “individuo”. Sabemos que o fato de
a crianga ser cuidada nos primeiros meses por “uma mile” consiste
em uma manifestagao histérica nao passivel de universalizagées.
Toda a centralidade afetiva e emocional e 05 vinculos da mz’ie e a
crianga pressupéem, primeiro, o isolamento do nt’icleo familiar,
depois uma certa divisao do trabalho com base em papéis sociais
de género.179 Em outras formas de familia, a crianga era cuidada
por uma multiplicidade de adultos, e somos levados a crer que sua
identidade se aproxima mais do 2203* do que do en, ou pelo menos a
ideia de 720’: prevalece como determinante
.
DC qualquer modo, assim como quando se trata da teoria
freudiana, é extremamente revelador que no contexto do estudo
da
formaeiio d0 psiquismo na familia nuclear burguesa, seja ou nfio

‘78 “T31 interpretaqfio, que é a de Jacques Lacan, impediria efetivamente


uma comprccnsfio
historica da estrutura de familia e da personalidade, englobando todas
as estruturas de
familia sob a mesma lei universal e com as mesmas conseq
uencias psicolégicaS” (POSCCK
1979, p. 118).
'7‘) Tudo isto se dd muito recentemente na
histéria, mais ou meme: a partir (103 56‘3”]0
5
XVIII C XIX (REIS, José Roberto Tozoni. [tirnm’fz'm emoprfo e ideologizz. 8" ed. 5510 Paulo:
Brasiliense, 1989). Segundo este autor, que baseia sua amilise na obra citada
dc Poster
(1979), na familia camponesa, nos cuidados com as criangas a mic
era “ajudada por
parentes, por mogas mais novas e também por mulheres mais velhas que
ensinavam e
fiscalizavam as praticas relativas ao tratamento dos bebés” (REIS,
1989, p. 107-108)-
];i a familia tipicamente burguesa que se desenvolveu entre os séculos XVIII
e XIX era
caracterizada acima de tudo pelo “fechamento da familia em si mesma (...)”, marcando
uma nitida “separagz‘io entre a residencia e 0 local de trabalho, ou seja, entre a Vida
ptiblica e a privada (..) 0 lat passou a ser 0 espago exclusivo da Vida emocional, n0 qual
a mulher passaria a Vida em reclusio” (Mid, p. 109410).

184
é‘”. “Em-W Wis: -& W‘s?” - -.\. ; w -e x. s- «.533. .m. \. 3.39:5? is)“ WW3a???3“’§':§%"§§:‘\§
i‘éifiifi is ifisi-ériw W". ““3 1‘“ $3 .“gtfifé Via-r? §gé'i1;:hr-_ $.75; s: . 25:};
rigs is: saws 2-33.: was: s,“ twin is, t a v,
f';=,§‘-,§$§}§,s§\£§a
MAURO LUIS IASI

universalizzivel tal observagao, a forma primordial (pré—narcisismo) da


identidade seja ja individualizada. Este grau de individualizagiio nao
é um dado natural. Partilhamos corn Elias (1995, 1994) a ideia de
que esta individualizaoao e’ fruto de um longo processo, cujo sentido
parece ser um desequilibrio da balanga nos—cu em favor do eu.180
O processo de individualizagao, “encapsulagao dos individuos”,
em
parece seguir a mesma diregiio do aumento da carga restritiva
2‘1
relagao aos instintos e a Vida pulsional antes descritos e que leva
se chamou
internalizagao das normas sociais na formagao do que
lso nas
de “autocontrole”. Todo este processo recebe particular impu
por acaso o
mudangas ocorridas entre os séculos XVI e XVIII, nao
capitalista. A
momento mesmo de transigiio para a ordem burguesa
uma profunda
base deste processo estaria, segundo Elias (1993), em
que compéem a
“diferenciagéio” que toma conta da rede de relagées
sociedade. Segundo o mesmo autor:
até nossos dias, as fungées
Do periodo mais remoto da historia do Ocidente
ram-se cada vez mais diferencia—
sociais, sob pressao da comperigz‘io, torna
vam, mais crescia o numero
das. Quanto mais diferenciadas elas se torna
individuo constantemente
de Fungées e, assim, de pessoas das quais o
ns até as complexas
dependia em todas suas agées, desde as simples e comu
am sua conduta com a de
e raras. A medida que mais pessoas sintonizav
forma sempre mais rigorosa
outras, a teia dc aeées teria que se organizar de
l desempenhasse uma fungao
e precisa, a fim de que cada aqiio individua
lar a conduta de maneira mais
social. 0 individuo era compelido a regu
de que isto nao exija apenas uma
diferenciada, uniforme e estavel. O fato
seguinte foi caracteristico
regulaoiio consciente ja foi salientado. O fato
da civilizagfio: o controle
das mudangas psicolégicas ocorridas no curso
vez mais instilado no
mais complexo e estavel da conduta passou a ser cada
espécie de automatismo,
individuo desde seus primeiros anos, como uma
o que desejasse.
uma autocompulsao £1 qual ele niio poderia resistir, mesm

nos—cu 1nc11nava—se forte—


r . .

(...) Nos estaglos mais prrmltlvos, como afirmel, a balanga


. _ . .
“ r u .
'80

rem pendido intensamente,


meme, :1 principio, para 0 nos. Em épocas mais recentes,
muitas vezes, para 0 en” (Elias, 1994, p. 165).
AS MI-lTAMORFOSIiS DA CONSCIENCIA DE (ILASSL‘

A tcia de agées tornou-se tao complcxa e extensa, o esforgo Ilecesszirio


para comportar—se ‘corrctamente’ dentro dcla ficou tfio grande que, além
do autocontrole conscienre do individuo, um (:c aparelho automatico
dc autocontrole foi firmemente estabelccido. Esse mecanismo visava a
prevenir rransgressées do comportamento socialmcnte aceitzivel mediante
uma muralha dc medos profundamentc arraigados, mas, precisamente
porque operava cegamente e pelo hzibito, elc, com frequéncia, indireta-
mente produzia colisées com a rcalidade social. Mas fosse consciente ou
inconsciente, a direqao dessa transformagao da conduta, sob a forma de
uma regulagao crescentemente diferenciada dc impulsos, era determinada
pela direga‘io do processo dc diferenciado social, pela progressiva divisiio
das fungées e pelo crescimento de cadeias dc interdependéncia nas quais,
direta ou indiretamente, cada impulso, cada agz'io do individuo tornava—
—se integrada.‘81
Ha, como parece indicar a citagao, uma aproximagz’io entre a
Visao de “divisz‘io das fungées” e o processo descrito anteriormente
e fundamentado em Marx sobre a “divisz’io social do trabalho”
com a consequente forma como a ordem mercantil produz uma
inversao baseada na forma privada e autonomizada que assum
em
os produtores,182 de maneira que a autonomizagz’io se completa pela
interdependéncia, e esta ultima é a condigao de reprodugio e
apro—
fundamento da autonomizagiio dos produtores privados.
Devemos
ressaltar, mais uma vez, que aquilo que aparcce como fundamental
é a instituigiio de um autocontrole. Aqui aparcce como que desdo—
brado em mais de um controle consciente, assumindo a Forma
de
um “aparelho automaitico” que, como o préprio Elias
mais adiantc
irz’i estabelecer, corresponds plenamente a0 conceito frendiano dc

“‘1 ELIAS, Norbert. Oprocc’sso civilizzzdor,


via, v. 2, p. 195-196.
”‘3 Hzi igualmcntc uma Clara referéncia a Durkheim e sua tcsc sobrc a difcrcnga
entre
a cllamada solidariedade mccfmica c orgz’inica, notadamcnte cm relagfio
£1 conclusfio
scgundo a qual a coesfio é inversamentc proporcional ao crescimento da solidarieda
dc
organica, que supée a especializaqao das fungées. No entanto, a visao dc “processo”
de Elias e sua critica ao llabito de 0 pensamento sociolégico transformar dinflmica cm
“esrados”, que cabe tame a Parsons como a Durkheim, o distancia dcsta ordcm
teérica.

186
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MAURO LUIS IASI

superego.183 A formacao dos meios deste controle transformado em


autocontrole (consciente ou inconsciente) corresponde ao processo
que ira produzir o encapsulamento do ser social na forma de in—
mento do
dividuos. Assim como na matriz psicanalitica, o pensa
sociélogo dos processos relaciona esta interiorizacao ao controle
dentro
sobre os instintos e pulsées e a agressividade descolada para
na forma de superego.
iduacao
O fato é que, uma vez acentuado este processo de indiv
humanos dos lacos
C €Specializacao crescente, que distancia os seres
rias e outras
diretos presentes no c151, na tribo, nas sociedades agra
s e presenciais
manifestacoes que caracterizam por lacos mais direto
ia durkheimiana
dos grupos de base da sociedade, que a sociolog
iduos um leque
chama de “solidariedade mecanica”, abre—se aos indiv
dir muito mais por
de “opcoes” diante das quais eles “tém que deci
autonomos” (...), nao
si”, nao apenas “podem, como devern ser mais
térn opcao” (Elias, 1994, p. 102).
lizacao, aumenta o
Diante da crescente especializacao e individua
oa para sua insercao
tempo social utilizado para preparar a nova pess
a possibilidade de fra—
nesta divisao complexa do trabalho, abrindo
rdo pensar
casso. Nas sociedades coletivistas, é um verdadeiro absu
que constituem
em urn dos seus membros “fora” da rede de tarefas
grupo enquantO
a producao social da Vida. A relacfio central é do
falha na garantia d3
coletividade e a natureza ou outros grupos, e a
éo de forcas com esta natureza
existéncia é sempre relativa a correlac
o. 1a nas sociedades
incontrolavel ou ao poder maior de um outro grup

autocontrole nestes term os,


te que Marx nao poderla chegar a esta conclus 5.0 do
. .
133
EVIden
. '
tal como so depois iria ser desen-
pois envolve a nocao de Vida psiquica e inconsciente,
desenvolver um raciocinio mais centrado
volvida por Freud. O autor de 0 capital ira
“Nao basta que haja, de um lado,
no desenvolvimento do “habito” ou “costumes”. que nada tém
l e, de outro, seres humanos
condicées de trabalho sob a forma de capita
para vender além de sua forca de trabalho. Tampouco basta forczi-los a se venderem
uma classe trabalhadora
livremente. A0 progredir a producao capitalista, desenvolve—se
costum e aceita as exigencias daque le modo de producao
que por educacao, tradicao e 14,
[1867], cit., livro 1, v. 2, cap.
como leis naturais evidentes”(MARX, Karl. Ocapz'ml
p. 854).

187

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AS MBTAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE (ILA-SSE

chamadas por Elias de “complexas”, a “abundiincia de oportunidades


e metas individuais diferentes nessas sociedades é equiparz’ivel 51$
abundantes possibilidades de fracasso” (Elias, 1994, p- 109)-
O longo processo que levou as sociedades humanas das for-
mas iniciais de sociabilidade até a complexa sociedade capitalista
mundial (recuperando aqui os termos marxistas, uma vez que
Elias prefere ocultar o cariiter capitalista enfatizando 0 aspecto da
“complexidade”) desenvolveu—se patalelamente £1 formacz’io de uma
“auto-imagem” do set humano como preso :‘1 ideia de “um mundo
interior” e “um mundo exterior”, separado “como por um muro
invisivel” (Elias, op. cit, p. 105).
A combinacao dos dois processos, a especializacao—individua—
lizacao acompanhada de uma autoimagem bipartida em uma
realidade interna (o eu) e externa (os outros, a sociedade, a objeti—
Vidade), produz uma sociabilidade em constante tensao e disputa
pelas oportunidades. Na escala social de valores, a independéncia
e autonomia assumem urn papel central, e o ideal dos mem
bros
desta sociedade passa a ser cada vez mais “diferir dos seus
seme—
lhantes de um modo ou de outro, distingu
ir—se —— em suma, 331’
diferente” (5195a,, p. 118). Conscientemente ou néio, as [3688038 8510
inseridas numa “competicéio” em que se torna fundame
ntal para
sua autoafirmacao a énfase nesta ou naquela
qualidade que a difere
de seus semelhantes,184 transformados neste processo em adver
saries
na disputa. Prossegue o autor:
Esse Ideal de ego do individuo, esse desejo de se destacar
dos outros, de se
suster nos proprios pés e de buscar a realizacfio
de uma batalha pessoal em
suas proprias qualidades, aptidées, proprieda
des ou realizacéesa POr CCFtO é
um comportamento fundamental da pessoa individualme
nte considerada
(...). E algo que se desenvolveu nela através da aprendizagem
social. Como

Iodo o prazer e alegna (pl/21y) da mente consmtem


18-1 “r ‘
. . .

em encontrar pessoas que, SC


nos compararmos a elas, nos fazem sentir triunfantes e com motivos para nos
gabar”
(Hobbes, [1642], p. 34).

188

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MAURO LUIS lASl

outros aspectos do autocontrole ou ‘consciéncia’, so emergiu na histéria,


dessa maneira pronunciada e difundida, gradativamente.185
Esse “ideal de ego” que foi se desenvolvendo gradativarnente néio
se apresenta aos individuos como uma das opgées a sua escolha, mas,
ao contrario, universaliza—se como padriio, disfarga—se de “opgao” ou
caracteristica da “personalidade” individual.
Em outras palavras, esse ideal faz parte de uma estrutura de personalidade
so-
que 36 36 forum em conjunto com situaqées humanas especificas, com
pessoal,
ciedades dOtadas de uma estrutura particular. E algo sumamente
mas, ao mesmo tempo, especifico de cada sociedade. A pessoa nao escolhe
a atrai pessoal-
livremente esse ideal dentre diversos outros como unico que
mente. Ele é o ideal individual socialmente exigido e inculcado na grande
, as pessoas
maioria das sociedades altamente diferenciadas. (...) Normalmente
rtamento que
criadas dessa maneira aceitam essa forma de batalha e compo
a acompanha corno evidentes e ‘naturais’.‘36
individuos
Este comportamento r1510 aparece simplesmente nos
“batalha
quando entram no mercado de trabalho, é antes uma
um longo
pessoal aprendida, produzida no individuo” por meio de
tern
“treinamento”. Nesta preparagéio para a competigao, a escola
urn papel, com certeza, dos mais relevantes; basta recordar o que £01
de avaliagao.
dito do contato da crianga corn 0 universo e 03 critérios
Porém é na familia que siio langadas as bases de todo este processo.187
a esta em jogo
E no iimbito das relagées primarias que na troca afetiv
aceitavel,
o reconhecimento, afeto ern troca do comportamento
E por
puniez‘io e desaprovagao contra o que se considera desviante.
de
demais significativo que a estrutura mais profunda do complexo

£72.71 sociedade dos Indivz’duos,


”‘5 ELIAS, Norbert. “A individualizaqfio no processo social...”,
cit., p. 118).
”‘6 ELIAS, Norbert, op. cit, p. 118:119.
lfi'
“Desde a infincia, o individuo é treinado para desenvolver um grau baStante ClCV’ddO
‘N-u

de autocontrole e independéncia pessoal. E acostumado a competir com os outros,


aprende dcsde cedo, quando algo lhe granjeia aprovagao e lhe causa orgulho, que é de-
scjzivel distinguir-se dos outros por qualidades, esforgos e realizagoes pessoais; aprende
a encontrar satisfaefio nesse tipo de sucesso” (Elias, 1994: 120).

18‘)
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“a 3...... M ....., .._ H}... 6.. .. a. a...“ w .._. . a.. . .._... . .. .. .. .
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AS METAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE (ILASSE

Edipo é uma disputa por um objeto de desejo cuja plena realizagao


é impedida pela concorréncia de um terceiro. O que a crianga leva
como aprendizagem para a laténcia é muito mais que os instintos
reprimidos, e o que volta como “sintoma” é a competigfio, o reter
para si mesmo,138 o critério do abrir mao do desejo em nome da
sobrevivéncia, a identificagao com o “vencedor”.
Por varias vezes, Freud insistiu na relagz’io existente entre a perda
relativa aos objetos, que gera agressividade, e a internalizagao desta
agressividade, aparentemente de forma paradoxal, gerando “identi—
dado” com os sujeitos responsiveis pela perda.
(...) o superego parece o herdeiro deste vinculo emocional que é dc tamanha
importfincia na infancia. Com seu abandono do complexo dc Edipo, uma
crianga dove (...) renunciar 21 intensa catexia objetal que depositou nos pais,
e é como uma compensaga‘io por esta perda dc objetos que se verifica tz‘io
vigorosa intensificagiio das identificagées com os pais que, provavelmente,
estavam ha muito tempo presentes em seu ego‘89 (...) Uma consciéncia severa
nasce da operagao conjunta de dois fatores: a frustragz’io do instinto, que
desencadeia a agressividade, e a experiéncia de ser amado, que internaliza a
agressividade e a transmite ao superci'go.190
Assim a familia burguesa n50 apenas “socializa” uma certa ordem
de Valores; ela é o momento no qual as relagées sao recriadas conti-
nLlanr‘I‘ente (portanto, do ponto de Vista do novo ser social, ocorreria
uma produgao”, e nz’io simplesmente “reprodugfio”), por exemplo, na
perpetuagao da forma individual do ser social, no padrz'io associado
a forma individualizada dc competigao 6 na formagz’io do superego
como representante desta ordem de relagées sociais e historicas na
qual a prépria familia se baseou.

I33 ' . .
RCIChr por-exemplo, Identificou cste procedimcnto burgués como uma fixaqao na fase
anal retentlva.
18‘)
F'REUZ; Sigmund. New introductory lectures”, cit. p. 64, (rpm! POSTER, Mark, op.
czt., p. .
'90 FREUI/D, Sigmund. Civilization and its discontents, p. 74, (1pm! POSTER, Mark, op.
cit, p. 12.

190
_.._.—
..., 3,. ..., 3'93M. ,. _ .. ”3333 \ok «._.._... 3335.3 sow-39 3,”,
1' ..t. __m_. ...,.w ‘9x.... .....3. ...... 4..., V.._,..,
Os
.. .3 ...... 3s 3333333333.... 3....._, .23..
31:33 3333. i‘safio ..,,....g
iii’xs‘mnfi 33.
3.33333.- ia‘ “.3333 3-33.3- $33,733}; $23. 3.33.3.3 53:.
fitniifimifsla.
MAURO LUIS IASI

N510 se trata de um jogo no qual as polaridades so igualam, ou


seja, nao se trata da infrutifera polémica sobre so as formas sociais
siio projecoes das dinz’imicas psiquicas ou, a0 contrzirio, sao estas
diniimicas reflexos das formas sociais, nem tampouco da afirma—
9:10 vazia segundo a qual as dinfimicas psicolégicas, assirn como as
formas sociais, determinam cada uma a seu modo. O que parece
ser evidente é que exists uma relaciio entre as formas sociais e 03
padroes de personalidade, diriamos as formas dc consciéncia, e
que a formacéio gradativa no interior de um longo processo aponta
para um sentido que é perfeitamente verificavel, no caso de nosso
estudo, naquilo que Elias chamou de processo do individualizacao.
No entanto, precisamos ir além desta constatacao. O que apareceria
pouco a pouco como padrao do comportamento on ma forma de
ideal do ego dos individuos, o que se afirmaria como “principio da
iéncia social
realidade”, expressandoflse nas Visées de mundo, na consc
de uma certa época manifestando—se nas consciéncias dos individuos
ou
dessa época 6 na forma geral sistematizada como conhecimento
ideologia?
carater
Ampliado o fato pela lento do processo, fica evidente o
historico das formas sociais e como estas representacoes gerais agem
gradativamentc na formacao das relacées que constituiram a base
da consciéncia social. Este é o principal mérito da aproxima9510
do
cri—
Elias; no entanto, este “processo” acaba pct 56 diluir nas Gal-'3“
zacées como “diferenciacao”, “complexidade” ou o polémiCO tel‘mo
“civilizacao”, o carater préprio das relacées sociais quc se constituem
do
no Huir do processo descrito: as relacées capitalistas e o chama
sociometabolismo do capital.
Para que os sores sociais se vissem como individuos isolados envol—
titiva,
vidos, tenham ou nz'io consciéncia disso, numa “batalha” compe
exilados cada um em sua forma egoista, sendo obrigados a escolher
“livremente” o ponto dc inserciio em uma divisao social do trabalho
diversa daquela a qual ele antes se ligava diretamcnte o que era caracte—
rizada pelos lacos do dependéncia mfltua, foi necessario um “processo

191
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AS ME'I‘AMORFOSES DA (IONSCIIENCIA DIE (ILASSE

que retira do trabalhador a propriedade de seus meios de trabalho,


um processo que transforma em capital 05 meios de subsisténcia e 03
de produgao e converte em assalariados os produtores diretos” (Marx,
[1867], V. 2, cap. XXIV, p. 830). Este longo processo e' 0 da acumulagao
primitiva de capitais e se desenvolve entre os séculos XIV e XVIII.
Aquilo que surge no produto final como um processo de dife—
renciagao que resulta no encapsulamento dos individuos é de fato
um longo processo de Violenta expropriagao. Caso pudéssemos
parar em pontos especificos deste processo, veriamos, no século
XV, a espantada rainha Elizabeth viajando por seus dominios C
declarando: pauper ubiquejczcet (o pobre eStzi prostrado em toda a
parte); enquanto Bacon constatava, em 1489, que as queixas sobre
a transformacgao de terras de lavoura em pastos para ovelhas haviam
crescido sensivelmente, exigindo a bondosa e sabia intervengao do
rei Henrique VII para estabelecer a correta proporgiio entre as areas
de lavoura e pastagem (tao infltil quanto o espanto da rainha); veri-
amos Thomas Morus tendo a delirante visao de um pais imaginério
onde as ovelhas devoravam os homens; mais adiante, uma massa
de gaélicos sendo expulsos de suas terras e exprimidos no litoral,
para de 151 serem retirados para as matas e, depois, evacuados para
darem lugar as reservas de Gaga, e assim sucessivamente até que,
em $25, 15 mil gaélicos seriam substituidos por 131 mil ovelha
s;
Henrlque VIII, em 1530, oferecendo licenga aos pobres, velhos e
doentes para mendigar, enquanto os vagabundos sadios eram fla-
gelados e encarcerados; Eduardo VI, em 1547, estabelecendo a lei
segundo a qual aquele que se recusasse a trabalhar seria conduzido
a srtuagao de escravo por aquele que o denunciou, e 05 vagabundos
seriam marcados a ferro com letras que indicassem sua situagao:
V dc vagabundo ou um S de escravo (slave); Elizabeth, em 1572,
cortando as orelhas dos desocupados e enforcando reincidentes;
no reinado de Henrique VIII, 0 enforcamento de 72 mil pessoas
por esta mesma acusagao; alguns rieos senhores arrendando uma
paréquia e lei construindo uma cadeia e, para burlar a lei de ajuda

192
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MAURO LUIS IASI

aos pobres, estabelecendo que nz’io seria dada ajuda fiquele que se
negasse a ser encarcerado. E, depois, avisando a vizinhanga de que
quem quisesse alugar urn pobre para trabalhar deveria apresentar
uma proposta lacrada “com o menor prego pelo qual ficaria com ele”;
outros arrendatarios, proibindo que os pobres rivessem animais sob
0 pretexto de que iriam roubar cereais do celeiro para alimenrzi—los;
uma choupana ardendo em chamas com uma velha que se recusava
a sair; adiante, um bondoso landlord no parlamento dizendo que,
“de modo geral, a situagio das classes inferiores do povo piorou
em todos os sentidos”; em 1703, 03 puritanos da Nova Inglaterra
apresentando uma curiosa tabela de pregos na qual o escalpo de
um “pele vermelha” valia 40 libras esterlinas —— em 1720, esse prego
subiria para 100 libras e, em 1740, seriam 100 libras por escalpo
de um adulto homem (acima de 12 anos), 50 libras por escalpo de
mulher ou crianea; em 1813, uma comissz’io parlarnentar de inquérito
de Londres apurando que os fabricantes empregavam criangas como
aprendizes, transferindo—as de uma fz’ibrica £1 outra, e depois estas
cram encontradas “em completo estado de inanigz’io”, enquanto, em
outro caso, a paréquia firmava contraro no qual se “estipulava que
uma crianga idiota seria inclui'da em cada lore de 20 sadias”; entre
s,
1810 e 1831, seriam expropriados 3.511.770 acres de terras comun
“com os quais, através do Parlamento, os [andiords presentearam os
landlords”, quando, portanto, “perdeu—se naturalmente a lembranga
da conexiio que existia entre agricultura e terra comunal”.191
E O que o magistral rexro de Marx nos revela é que em cada
momento do processo o sentido niio se apresenra claro ‘aquelesque
estio vivendo diretamente este mesmo processo, como nos indrca a
trajetoria absolutamente ineficaz da elaboragfio das leis que buscavam
disciplinar a expropriagflo das terras. Completado o movimento de
expropriagiio, formafise uma classe trabalhadora que, “por educa—

‘91 Exemplos rerirados aleatoriamente do capitulo 24 de 0 capital, :1 assim chamada acu—


mulagio primitiva de capitais (Marx [1867], livro I, v. 2, cap. 24, p. 828-882).

1 93
“333333
333.33 33.3, 333 333 3 3.3.3 3333.3 333 3.....3.3 33 33333
333333
3:3. 33:33. 32.3 3333 33 ““333 233333 3' 3 3’3 :3-3 3 33.323 3.3.333 33:33:33
'9
$3.;

333-3333.333 “‘3‘- 33333‘333‘33 333E313 3 333333333323 333-.3333 333.313 3333“ 3 333 32333333 33,-; 33.333 33333333333333333
AS ME'I'AMORFOSES DA CONSCIENCIA [)Ii (ZLASSIZ

gao, tradigao e costume aceita as exigencias” do modo de produgao


capitalista como “leis narurais evidenres” (Marx, [1867], p. 854), e
disciplinadamenre irzi acordar pela manhz’i e levar a si prépria para o
mercado onde se venderzi. As transformaeées das formas proletarias
de familia transiraram desde uma rede de relagées comunirarias
muito proximas da familia camponesa, passando por rrés estagios
segundo Poster (1979). O primeiro é caracrerizado pela chegada mais
sistematica dos camponeses expropriados as manufaruras no final do
século XVIII e inicio do século XIX; nesra fase manrém—se os lagos
comunirarios e de dependéncia mfitua, o cuidado com as criangas
é parrilhado por uma multiplicidade de adultos; crianqas, mulheres
e homens dividem o trabalho de 14 a 17 horas, e a definigz’io dos
espagos de trabalho e moradia siio rénues. O segundo é caracterizado
pela segunda fase da Revolugz’io Industrial e pela especializagéio d6
serores da classe na segunda merade do século XIX.
Nesse periodo, surgem as preocupaeoes com a Vida familiar
proletaria, uma acentuaeao das preocupagoes com a higiene, in-
centivada pela agao recém—inaugurada das “assisrentes sociais” e
filanrropos de toda ordem. O cuidado com os filhos passa a SCI
uma tarefa domésrica, e a mulher ocupa—se mais da criagao das
crlangas, prevalecendo ainda uma rede de mulheres nos bairros
operzirios. O espago assume uma divisiio Clara entre o rrabalho,
o espago pL’lblico do bar e da rua, e o espaeo privado do lar. O
terceiro estagio é 0 do isolamento da familia em seu nucleo (pai,
mile e filhos), o rompimento das redes femininas, o isolamento da
mulher e sua determinagao como miie na prioridade absolura com
o cuidado com os filhos. Os liabiros de higiene converrem—se em
uma compulsao maniaca, a repressao a sexualidade infantil, antes
livremente expressa, acenrua—se de maneira doentia, e a familia
proletziria assume como seu o modelo da familia burguesa.
Visto por esre fingulo nao ha contradieao entre o processo de
ccdiferenciagiio”/ “individualizagfio” e o processo pelo qual gesta—
ram—se historicamenre as condigées que tornam possivel 0 capital.

1 94
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MAURO Lurs IASI

A individualizaciio do ser social é uma precondiciio para que os


livres vendedores de forca de trabalho se apresentem ao mercado,
assim como é essencial para a forma privada de apropriacfio dos
meios de producfio e, mediante esre ato, também do valor excedente
getado no processo de consumo da mercadoria forca de trabalho.
No reino da igualdade, todos os individuos disputam entre si, seja
uma vaga no mercado de trabalho, seja na livre concorréncia entre
capitalistas, e esta guerra é disciplinada pelas “leis do mercado” e
suas mfios invisiveis.
Vimos como uma certa forma de familia produz individuos e
03 mecanismos afetivos e emocionais que internalizam na pessoa
determinadas normas e demandas da sociedade. Séio bastante
interessantes as “coincidéncias” corn as ideias ditas universais que
aparecem na aurora da sociedade do capital e que servem de fun—
damento para sua visiio de mundo especifica.
ideias
Apenas para ilustrar, podernos nos referir a algumas
este
e argumentos centrais encontrados em Hobbes. Segundo
e
pensador, os seres humanos, aos quais chama indiferentement
almente a
de “homens”. nfto desejariam nem procurariarn natur
companhia dos outros, so 0 fazendo “para dela [receber] alguma
honra ou proveito” (Hobbes [1642], p. 29), de modo que so n08
por amor aos
associamos “para o ganho ou para a gléria, nz’io tanto
nossos préximos, quanto pelo amor a nés mesmos” (£61225, p. 31).192
entre
Como ele supoe os homens todos iguais naturalmente
s”, isto
si e com uma propensz‘io natural de “ferirem uns aos outro
todos contra
levaria it sua famosa formulacéo sobre a “guerra de

forte. Um bom exemplo como


'92 Esta ideia de retirar algum “proveito” da associacfio é bastante
esta cadeia de significantes, assirn totalizad a, pode interferi r na compreensfio equivocada
de Aristételes
de outta cadeia ocorre qua ndo estudamos o primeiro pardgrafo de Apolz'tz'az
cio, e toda associacfio
(1998, p. 1), no qual o autor afirma que todo Estado é uma associa
“rem por fim um bem”, ou que “toda associacéo tern por meta algurna vantagem”. Basra
que nossos olhos, treinados por outra ordem simbélica, vejam a palavra “vantagem” para
esquecermos por complete 03 pressupostos aristotélicos sobre a incompletude natural dos
seres e imaginar um “proveito” proprio dos individuos que se associam.

195
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.22. ..’.‘.,._§\\3/.,.2 _»_ 2g. 2..- .2... :\ _-.~:\\~.\ 2mg... fi ,2»... 9-3.2. 5... .: 5 NY. 9: .22.. . gay”; _M .9; V___. __‘ _ :-
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AS METAMORFOSES DA CONSliNClA [)Ii CLASSE

todos” (Hobbes, [1651] 1979, p. 75). A principal razao, ou a mais


frequente, para que os seres humanos desejem se ferir mutuamente
(...) vem do fato de que muitos, ao mesmo tempo, tém um apetite pela mesma
coisa; que, contudo, com muita frequéncia eles niio podem nem desfrutar
em comum, nem dividir; do que se segue que o mais forte hzi de té—la, e
necessariamente se decide pela espada quem é mais forte.193
Deixemos aos psicanalistas o deleite da interpretacz’io sobre o
uso da imagem félica da espada e contentemo-nos em destacar a
incrivel semelhanca com a eStrutura basica descrita do complexo de
Edipo.194 O autor segue seu texto argumentando sobre os “perigos
corn que os desejos naturais dos homens diariamente os ameagam”
e vaticina que nao deveriamos tratar com desdém a tarefa de “cuidar
de si mesmo”, pois “todo homem é desejoso do que é bom para 616,
e foge do que é mau, mas acima de tudo do maior dentre todos 03
males naturais, que é a morte” (Hobbes, [1642], p. 35).
Como a primeira fundacao do direito natural reside no fato
de que todos tém o direito de se empenhar em “proteger sua Vida
e seus membtos” [sic], e diante da constataciio de que esta mesma
natureza deu igualmente um direito a todos sobre tudo, sem um
slstema de compromissos “por meio de convencoes ou obrigagéesns
0 set humano poderia “fazer o que quisesse e contra quem julgasse
cablvel, e portanto possuir, usar e desfrutar tudo o que quisesse ou
pu‘desse obter” (26:21., p. 37); nao e de surpreender que para Hobbes
0, estado natural dos homens, antes de ingressarem na Vida social,
nao passava de guerra, e esta nao seria uma guerra qualquer, mas
uma’guerra de todos contra todos” (ibid., p. 38).
E pela ansiedade e pelo medo que sentimos uns dos outros, nas
palavras do proprio Hobbes, que passamos a acreditar ser conveniente

i: EEOBBES, Tllonras. Do cz’dzzdrio. Sfio Paulo: Nlartins Fumes, [1642], p. 3435'


ortanto, se dors llomens desejam a mesma cmsa, ao mesmo tempo em que é impossfvel
ela ser gozada por ambos, eles tornam-se inimigos. E no caminho para seu fim (que
prlncipalmeme a prépria COHSCFV‘iGiO: e 513 V6268 apenas seu deleite) esforcam-se por se
destruir ou subjugar um a0 outro” (Hobbes, Lavina? [1651], 1979. p. 74-75).

196
3w, any.
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MAURO L015 11181

“livra rmos desta condicéo” pelo estabelecimento da sociedade civil,


da sociedade regida pelas leis, pelo contrato.195
A ideia do contrato, do instrumento que permite aos hornens
viverem sem se ferirem, em respeito, remete em Hobbes a ideia de
Estado. Os homens, “que amam naturalmente a liberdade e 0 do—
minio sobre os outros”, criarn o Estado baseado no
(...) desejo de sair daquela misera condicz'io de guerra que é consequéncia
necessaria das paixées naturais dos homens, quando niio ha um poder
visivel capaz de os manter em respeito, forcando-os, por meio do castigo,
ao cumprimento de seus pactos e ao respeito aquelas leis da natureza.196
0 set social eStaria se livrando de todos os lacos de dependéncia
mutua que os prendiarn a uma certa forma social para mergulhar na
concorréncia de todos contra todos. O mesmo processo que gera a ex—
propriacao dos seres humanos das condicées e dos meios que garantiarn
sua existéncia os individualiza como seres egoistas, Vé corno exigencra
um maior controle dos impulsos naturais, projeta—se como necessidade
incontornavel de uma forca externa que zele pela ordem e garanta a soc1a—
bilidade. E, na substfincia, o mesmo conceito jzi apresentado por Kanta
respeito da sociabilidade insociavel do ser humano. A mesma substancri
que reaparece na “mao invisivel” de Smith, ou no “Espirito do Mundo
de Hegel, como nos apresentou Mészaros. O Leviatti de Hobbes 6.0
Corztmz‘o social de Rousseau siio apenas os precursores desta conscrencra
social prépria de uma época na qual os seres sociais individualizaram-se,
s
perderam o controle sobre as formas de sociabilidade por eles mesrno
criadas e geraram um modo de controle sociometabélico incontrolavel,
no qual o produto subordinou o produtor.
Esta consciéncia social n50 se reproduz a0 longo dos séculos gra-
cas 22 sua incrivel coeréncia interna e 2 preciosidade dos argumentos

“)5 Veremos no proximo capitulo 0 quanto esta imagem hobbesiana se reap‘resenta no


raciocinio de Freud, segundo o qual a “ansiedade social constitui a essenc1a do que e
cliamado de consciéncia” (Freud [1921], 1976, p. 98).
")6 HOBBIES, Thomas [1651]. Leviatd. 5510 Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 103. (Os pen-
sadorcs.)

1 97
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AS METAMORI‘OSES DA CONSCIENCIA DIE CLASSE

da razao esclarecida, mas pelo fato de que, assim como as relacoes


que lhe servem de base, recriam a si mesmas cotidianamcnte. Da
mesma maneira que as condicées de expropriacao dos meios de
producéio aos produtores diretos silo coridianamente recriadas, o ser
social recriado diariamente como individuo, todos os dias colocado
em luta competitiva contra outros individuos, reiteradamente deve
controlar “suas paixées naturais”, lubrificar seus mecanismos de
autocontrole, submeter—se aos mecanismos externos de controle que
podem a qualquer momento “castiga—lo” e forga-lo a manter—se no
fimbito do pacto e do “respeito as leis da natureza”.
E na familia que encontramos a instituicao que produz nos
seres sociais as condicoes para que assumam esta tarefa cotidiana
como se fossem “naturais”. E também na familia que a primeira
forma de consciéncia ganha seus contornos. Sobrc esta base, cujo
processo de formacao do psiquismo e da identidade inicial (nar—
ClSlsmO primz‘irio) é o fundamento, o novo set social ira constituir
sua primeira “Visao de mundo”. A prépria maneira pela qual se da’.
esta relacao primaria serzi fundamental na constituiciio da primeira
forma da consciéncia.
Nos estudos que consistiram os csbocos iniciais197 da reflexao
que desenvolvemos no presente trabalho, apresentamos sintetica-
mente'as caracterr’sticas desta vivéncia primaria e sua relacao com
a prrmelra forma de consciéncia. Naquela oportunidade reduzimos
estas caracterfsticas a sete pontos:
1. O n ovo ser soc1al
' vwencra
' ' relacoes
' preesrabelecrdas
' e que para 616 SC
apresentam como uma realidade dada;
2. Por se ll‘lSCl’lr
' ' em relacocs
' = preestabelecrd
' as, o novo ser dcscnvolve a per—
cepcao da parte como se fosse o todo, de modo que aquilo que ‘é vivido
partlcularmente como uma realidade pontual toma-se a realidade’. Este
as pecto levar ao mecanl' smo dc ‘ ultragenerallzac
' ao’,
" ou seja,
' a {365503 P353a a
Julgar 0 todo pela parte em que se insere;

“’7 IASI, Mauro. Procesm d6 camcz'émz'a. 2‘ ed. 5510 Paulo: CPV, 2001.

I98
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MAURO Luxs IASI

3. Assim, as relaqées vividas imediatamente perdem seu cararer historico e


cultural e tornam-se ‘naturais’, aspecto este que esta na base da percepgao
de que ‘sempre foi assim e sempre scarf;
4. Devido ao fato de que o novo ser apresenta suas exigéncias pulsionais
num cerro contexto determinado, a satisfagao das necessidades deve respeirar
um conjunto de normatizagées que r1510 sao definidas por quem apresenta
o impulso, mas por urn outro, que, na situagz’io histérica em que nos en-
e de
contramos, unifica no processo de identificagao os objetos de desejo
ade;
punigiio, portanro a realizagz‘io do desejo implica a aceitaqao da autorid
eXterno, mas é inte-
5. Esre conjunto de normatizagées r1210 permanece
rma
riorizado na formagao do superego, a fungao de controle se transfo
comO
em autocontrole, a agressividade concentra-se no superego e tern
. A parrir
complemento a identificagao com a figura de auroridade externa
nais e as restrieées
dai, o ego administra as tensées entre as demandas pulsio
externas como um equilibrio interno, autocontrole;
atual das relagées
6. Devido a natureza distinta dos impulsos, na forma
sso de identificagao em
familiares, a crianga, rendo concentrado seu proce
sentimentos ambivalentes
urn mimero restrito de objetos, se vé enredada em
fisica (ameagada
de amor e odio, em nome do equilibrio e da integridade
da sobrevivéncia;
real on simbolicamente) abre miio do desejo em nome
interiorizados os valo—
7. Submerido as relaqées dadas como reais, uma vez
nta como universal) e
res centrais desre ‘real’ (particular, mas que se aprese
passa a aruar na conti-
passando a assumi-los como seus, o novo ser social
por sua continuidade
nuidade de suas relagées a partir desta matriz, zelando
c reproduqao (Iasi, 2001, p. 17—18). .
crlado
Sem que nenhum destes aspectos seja conscientemente
forma
para este fim, o conjunto assume uma funcionalidade como
inicial de consciéncia. Neste conjunto estao impressas as principals
caracteristicas daquilo que assumira mais tarde a forma de senso
comum, que servira de base para o desenvolvimento da ideologia
como forma de dominagz’io.
Gramsci (1978) descreve 0 361150 comum partindo da afirmagao
de que rodos expressam uma certa “concepgao de mundo”, ainda

19‘)
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”NW._z,.....7 ,7...::_._,...§_, 7%. .7. . N_....N7.77,. .7.-.77. .7. . . N... .73 °:--. 7.... - ., ”H. -=-‘- “A. *‘i'.. \T---
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AS ME'I‘AMORFOSES DA (IONSCIENCIA DE (ILASSE

que de maneira “espontfmea e inconsciente”, por exemplo, por meio


da linguagem. Segundo o marxista italiano:
Pela prépria concepgz’io do mundo, pertenccmos sempre 21 um determi-
nado grupo, precisamente 0 dc todos os elementos sociais que partilham
de um mesmo modo de pensar e de agir. Somos conformistas dc algum
conformismo, somos sempre homens—massa ou homens coletivos.198
A primeira forma da consciéncia s6 pode ser, portanto, aquela
que é produto da insergao imediata do set humano e do was
relagées diretas com as pessoas que o rodeiam num certo con-
texto objetivo.l99 Como Vimos, o ser humano entra em contato
com uma determinada época histérica e um tipo especifico de
sociedade primeiramente por meio de sua inclusao numa certa
forma de familia. O caréter imediato desta relagfio produz nesta
primeira visz'io sobre o mundo um efeito que é 0 dc tomar o todo
pela parte, abrindo caminho para naturalizar esta forma parti-
cular universalizada e, assim, chegar £1 conclusiio de que sempre
foi assim e por este motivo sempre semi.
Esta é uma das caracteristicas constitutivas do chamado senso
comum. Por meio dela 0 set humano toma seus vinculos imedia—
tos e particulates como “realidade dada”, natural, 6 a eterniza.
’Em outra atividade de formagao do NEP 13 de Maio,200 lOgO
apos a explicagao sobre os mecanismos dc exploragao que catac—
tenzam a sociedade capitalista, é apresentada aos participantes
uma questiio: desde quando existiria esta situagiio de uma part6

19H 5:31:15‘ Cibggtom-o.


A conceppffo diale'tim dd bisro'ria. 3" ed. Rio dc Janciro: Civilizagfio
. r11, , p. .12, mom 1. Em outta passagem, Gramsci afirmard que “0 set huma-
no dove-scar concebldo como um bloco histérico dc clementos puramcnte individuais
e SllCUVOS e de elementos dc massa objctivos ou materiais com os quais
0 indidUO
tece uma rclaqfio ativa" (sdemz’ dc! afrcere, cit, p. 1.338.)
.. . .. . .
”J ‘A conscmncm e naturalmcntc, antes de tudo, mcra conexfio limitada com as outras
pcssoas c coisas situadas fora do individuo que se torna conscientc” (MARX, Karl;
ENGELS, Friedrich. A ideologizz alemd, cit., p. 43).
200 ' .v -

0 qso Introdutono do pmgrama dc formagfio politica da entidade chamado Como


funcmna a sociedade.

200
Wmmwss a as. W s M:
="“::\: -‘.i 3mg: m3“ 3 9:55 5‘: J‘??? 5 5 \m;:-¥> g¢§jfi 3% i‘i- Em: ‘33 : .‘ 3.24 .w ?-V"'§ _q_ .
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.m. \. me: Q .: ; _3- gag: Qv _;-:. é»: <«_:\§ ass.“
MAURO LUIS IASI

da sociedade explorar economicamente a outra, enriquecendo um


pequeno grupo e levando ao empobrecimento da grande maioria?
seria
0 monitor coloca entiio na lousa uma linha; seu inicio
o surgimento do ser humano, na forma mais préxima de sua
primei-
constituigao biolégica atual (ou seja, desconsiderando os
os
ros hominideos), e 0 final do segmento de reta representaria
uem onde
dias atuais. Pede-se, entao, aos participantes que indiq
sa ser
teria comegado esta exploragao, ressaltando que nao preci
mais—valia
a forma capitalista (patrao, trabalhador assalariado,
“sempre foi
etc.). Invariavelmente alguém do grupo afirma que
forma de uma
assim”, e por vezes esta afirmagz’io ganha énfase na
do é mundo”, ou
declaragao de que isto ocorre “desde que o mun
“desde o inicio do mundo”.
conhecimento de um
Apesar de esta afirmag’ao revelar o des
pouco mais
fato cientifico, pois sabemos que o mundo é um
a forma humana
amigo que a Vida e esta, bem mais antiga que
gao de que desde o inicio
de Vida, aqui nos interessa a sustenta
loragao”. Aqueles
da agao humana sobre o planeta jzi havia “exp
oragao indicam,
que acreditam que “sempre” houve esra expl
a marcada na lou-
portanto, o trago inicial no inicio da linh
“A”. Outro grupo de-
sa 6 que indicaremos como alternativa
em (1116
participantes assevera que houve um pequeno periodo
maior parte da histéria 1a
niio havia exploragiio, mas depois a
s dc alternativa “B”.
apresenta este fenomeno, que chamaremo
oria absoluta dos
Estes dois grupos via de regra incluem a mai
rnativas oferecendo
participantes. 0 monitor completa as alte
o a historia do ser
a possibilidade de que a linha representand
meio (alternativa
humano na terra seja dividida exatamente no
esponda nz’io mais que
((C”) e, por fim, que esta exploragz’io corr
“D”), alternativa
a parte mais recente da historia (alternativa
os ou
esta que na maioria absoluta dos casos encontra pouc
nenhum adepto. A linha na lousa ficaria entao assinalada corn
estas opgécs assumindo esta forma:

201
9 W w
,\ m“ J
_9... -.'y.\\\\§\>'.3'._$w?, in: 93.23;; _\3 . o «3 3y; . 3. . ..’.‘.. \\ _.. s 9 3.. J.
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3 3:3.333;>'2«333.3.3- 33333333 \«3
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3,333,333: %3333%%C3 .3 33.33 3.3 313333 3 3:32.333.
33; 3;: (3“); {3335 E: 13:33 . .\\-.
3323.3
3
fi.
AS ME'I'AMORFOSES DA (lONSCIi-ZNCIA DE (ILASSIE

(desde que A B C D (hoje)


o mundo é mundo...)

Realizada uma consulta geral, a grande parte dos participantes


concentra suas opinioes entre os seguimentos A e B, e apenas uma
pequena parcela, normalmente duas ou trés pessoas, indica a alter-
nativa D.201 A maioria dos participantes, nos mais diferentes lugares
e composigées possiveis, acredita que sempre foi assim, ou, no me-
lhor das hipéteses, foi assim na maior parte da histéria. Apés este
procedimento, 0 monitor expoe algumas referéncias cronolégicas e
histéricas que indicam de modo mais preciso a proporgz‘io represen—
tada. Por exemplo, o /oomo sopz'em desenvolve-se aproximadamente
hit 25 mil anos, seus antepassados mais préximos estflo todos num
campo temporal que gira em torno de 100 mil anos.202 Os primeiros
registros de sociedades de classes, nas quais poderia caber a descriqiio
da apropriaeiio do produto do trabalho de parte da sociedade em
beneficio de uma pequena parcela, podem ser encontrados
somente
nos L'lltimos 10 mil anos desta histéria (se formos um pouco mais
rigorosos, algo em tomo de 6 mil anos), enquanto o
capitalismO tern
________fi___
20] -

C9n31dderand0 somfme 0 Programa de formagfio d0 NEP, sfio realizadas dezenas destas


dt1 d es por ano. Fomando em conta o conjunto dos monitores formados que realizam
esta atmdade em seus movimentos o ni’unero sobe ncima
do 100 altividades por ano.
Independentemente da composiqio du
turm :1 e do seu gran dc instruefio, verifica-se quc
a mesma maioria acreditaria que a cxploragfio sempre
foi ou pclo mcnos se dcu nu maior
partc da llistoria.
"
A abordagem mats aceita no csrudo da evoluqfio l1u mama alirma quc
.
o ser humano teria
SC.d€S€nV0lvido de um ancestral comum aos chimpanzés, lui aproximadmncnte 5 on 6
rmlhées dc anos na Africa Oriental, mas a maioria dos losseis compro
vados [cm algo
em torno de 4 milhées de anos. Descobertas reccntcs no Cllade, sobre
as quais ainda
palram dL'lvidas sobre :1 relaqfio com os seres humanos, renletcrinm
estu dumqfio para 7
milhées. O aparecimento do género Homo se dzi entrc 2,5 t: 1,8 milhfio dc anos
(Homo
liabilis e Homo rztdoyomz's). O Homo ”condom/Jolson} viveu na Europa e
no Ocste asidtico
cerca de 200 mil =1 30 mil anos atrzis. Apesar de 0 om de talhar objetos de trabalho em
pcdra poder ser remetido :1 are 2,5 milhées dc anos, so para cfeito de uma aproxima
gfio
mars segura, consideremos o Homo mpiorzs que tcve seu aparecimento registrado
em
algum ponto entre 200 e 100 mil anos (WONG, Kate. “Em busca do primeiro homem”.
,S'cz'entafic/lmen'cmz, n. 2: P- 82 2003; C 'I'AT'I‘ERSALL, Ian. “N510 esuivamos sozinhos”,
Scientific American, n. 2, p. 23-27, 2003).

702
:.‘.\ ,\_ -;__.; -.-.x . E's): 5: \.; 5 x; : .. .:.\u \v.y..3-_ \:= (mg; _\V:':_‘.:.\‘|é\~.\-52.v'§. {9: .<, my '."'\'"-."?\\.I-f53 _v: $3 s €".“""s :\ _.'-~\‘\;.\ V3;- .\.'§\’w‘>§ 3:? if\\\-'.- \._
§Jio§$§€§§§§s§%%3§v :{QEVE ggfgxggfifi is»? gsii‘é § if’gj‘bigms “w" i295 {§§$}%§3§ §§k§§§ {Essa §§5 $133?s 51:} is;-&. gag-(wig its? “ling 32%?” :s‘ :s-
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2%
-.x?‘.' 'o so: ism-i;ss- g
A eso-sww
1 5»? a§v§E§M§5fimv}V} {$5 x-
MAURO LUIS IASI

algo préximo de 500 anos (incluindo ai o periodo da acumulacao


primitiva). Indicando as datacées, a linha ficaria assim;

A B C D

Homo sapiens
100 mil anos 50 mil 10 mil
(sociedade de classes)

totali—
0 fato de a maior parte dos presentes ter indicado, 11a
mente que
dade das experiéncias, a alternativa A on B revela clara
tante. Ocorre
0 elemento descrito do senso comum é uma cons
oferecendo—
aqui uma inverséio daquilo que entendemos por real,
comum. 0 “real”
—nos uma pista valiosa para entender 0 sense
oracao, e assim tem
para os individuos é a objetividade da expl
5mm: de real
sido pelo longo periodo da sociedade de classes. Tern
m a atual forma
ainda por corresponder as relacées que sustenta
este real que se
de sociedade. A simples dataclao da linha redefine
em relacao a uma
acreditava eterno e redesenha sua proporcao
ao dos participantes
totalidade antes desconhecida. A primeira reac
is argumentos, como:
é tentar recuperar alguns de seus principa
da natureza humana 0
“mesmo entre os indios 1121 um chefe”, “é
que o mais forte domine o
egoismo”, “bastam duas pessoas para
mais fraco” etc.203
ralizacao de relacées
O que ocorre de maneira clara é uma natu
que silo universalizadas
histéricas e de formas sociais particulares,
ade da dfwida 56
como se sempre houvessem existido. A possibilid
res importa ntes: a figura
SC apresenta pela conjugacao de alguns fato

dinz’imica que ocupa todo 0 segundo dia


2“” Estas reacées 56 85.0 enfrentadas em uma longa s comunitarias que
nte as relagée
da atividade na qual siio recriadas psicodramaticame
a. Esta dini‘lmica é conhecida
marcaram as primeiras formas de sociabilidade human
Faro de que a motiva cao inicial é proper :10 grupo uma
como dinfimica da ilha, pelo
ntes devem resolver os problemas
situacfio de 11 aufrrigio, a partir da qual todos 05 pa rticipa
da sobrevivéncia sem nenhum instrumento ou recurso da sociedade modema.

203

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AS Mlj'I'AMORFOSES DA (IONSCIENCIA DE (ZLASSE

da autoridade do monitor, ou, por exemplo, o uso de argumentos


considerados “cientificos”. O senso comurn encanta—se com palavras
préprias do universo cientifico (hominideos, paleontologos etc.),
assim como tende a transformar em verdade qualquer argumento
que for apresentado por escrito, em livros, revistas ou jornais.
Basra a datagiio sugerida ser—lhe apresentada em uma tabela, destas
que ilustram livros didaticos ou alguma noticia de jornal, para
transformar—se em fato.
Gramsci rem razao ao afirmar que o senso cornum é formado
de maneira “bizarra”, ou seja, amalgamam—se sem necessidade de
uma coeréncia interna elementos dos mais diversos herdados pelas
mais diferentes influéncias que se materializam no campo imediato
de agao dos seres humanos em formagao. No senso comum, o ser
humano forma sua Visz'io de mundo. Segundo Gramsci:
(...) de maneira desagregada e ocasional, (...) ‘participa’
de uma con—
cepgz’io de mundo ‘imposta’ mecanicamenre pelo ambienre exterior,
ou
seja, por um dos vairios grupos sociais nos quais todos estéio automa

ticamente envolvidos desde sua entrada no mund
o consciente (e que
pode ser a prépria aldeia ou provincia, pode se originar
na paréquia e
na ‘atividade intelectual’ do vigzirio ou velho patriarca,
cuja ‘sabedoria’
dita leis, na mulher que herdou a sabedoria das
bruxas on do pequeno
intelectual avinagrado pela prépria estupidez e pela
impoténcia para
a agao) (...).20“
Esta forma “desagregada e ocasional” pode nos levar
2‘1 im-
pressao de que todo processo é acidental, ou seja, que
o individuo
var Vivendo e, entrando em relaeao com os demais, incor
pora ora
urn valor, ora outro, formando uma colcha de retalhos.
Isto é
verdade no senrido de que os valores, ideias, preconceitos,
“ideais
venerados” sao retirados de sistemas articulados coerentem
ente
e aparecem amalgamados numa visz’io de mundo que
niio parte
da mesma sistemzitica de constituigao teérica que estava presente

3"" GRAMSCI, Antonio. A concepfdo dizzle’rim dz: birtdrizz...,


at, p. 12.

204

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EEEEEéaEmi-EEEA,
MAURO LUIs IASI

nos sistemas de origem. Por este procedimento podemos juntar


um juizo aristotélico, por exemplo, a afirmagao de que o “macho
é mais perfeito e governa, a fémea o é menos e deve obedecer”,
com a afirmagao de que “Deus fez todos nés como iguais” sem a
menor necessidade de resolver a contradigao entre os pressuposros
excludentes (diferenga natural — igualdade natural). N0 entanto,
ha uma ordem nesre caos desagregado, e 03 valores nz’io deslizam
numa série totalmente aleatéria e em aberto. Uma dos aspectos
evidenciados em nossas arividades de formaeao é que 0 senso
comum é “liberal”.
Isto r1510 ocorre porque as ideias liberais 5510 as mais encontradas
e difundidas, mas pelo fato antes assinalado de que as relaeées que
constituem a substancia de seus valores siio aquelas que embasam
a experiéncia imediata de Vida das pessoas submetidas a ordem do
qual
capital. As pessoas sabem que estéio numa disputa acirrada na
, sem
OS mais fortes vencem e so 05 que se adaptam sobrevivem
ter a necessidade de ler Adam Smith on Charles Darwin. Caso
z um
encontrem estas afirmaeées por escrito, de imediaro se produ
como desa—
reconhecimento. Desta maneira, aquilo que aparece
de, sem
gregado esconde uma légica substantiva que lhe da unida
que perca a forma desagregada, do mesmo modo que na CfitiCfl
da economia politica a substancia comum do valor nao impede a
variedade de formas do valor de troca.
ite enfrentar—
A compreensfio desta substancia abstrata perm
mos um dos principais dilemas daqueles que lidam com 0 861180
regado
comum. Como ele é formado por este procedimento desag
a costure
e ocasional, é possivel que incorpore uma nova ideia e
seu
em sua velha colcha de retalhos sem que altere a natureza de
senso comum. Uma pessoa que agora conviva com um grupo que
valoriza a militancia e o compromisso politico pode assumir para
si esres valores e considerar—se um “militante”. Pode costurar este
novo valor sobre a base de sua antiga concepeiio de mundo e chegar
a concluséio de que “sempre houve injusrieas” (desde o tempo dos

205

rags l? Ema srfia giro“: £1: ‘M ioni’éii‘iiilx


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AS METAMORFOSES DA (IONSCIE‘NCIA Dir: CLASSE

Faraos, a perseguigao a Jesus Cristo, a escravidao no Brasil etc.) e


por isso “sempre houve militantes”, “individuos” extraordinarios
que se levantavam contra estas injustigas, como Moisés, Jesus,
Zumbi e outros grandes “homens”, assim como ele, agora mili-
tante, espera set um dia e se destacar por suas qualidades sobre os
demais. O novo valor pode se acomodar sem problemas SObI‘e a
Velha Visao de mundo.
Quando falamos que ha uma substancia “coerente” sob esta
aleatoriedade desagregada que aparece no senso comum, quere—
mos com isso indicar nao uma aceitaeao racional consciente, mas
antes urn “reconhecimento”. Aspecto importante do fenémeno
ideolégico, central, por exemplo, para a analise de Althusser.
Este reconhecimento é o que torna possivel £1 pessoa identificar
na objetividade um fator que corresponde a urn valor que orienta
sua subjetividade. Depois de todo o exposto até aqui, podemos
descartar as visées aprioristicas, ao gosto dos apriorz's kantianos,
sobre a existencia de algumas noeées que constituem em si a
consciéncia como dado anterior e natural. Ao que tudO leva
a
crer, aquilo que é interiorizado na formagz’io da consciéncia, que
corno Vimos representa as relagées sociais determinantes, produz
o efeito do reconhecimento quando encontra fora da pessoa a
mesma relaeao.
Este reconhecimento opera, também, como clemento consoli—
dador da visiio de mundo no senso comum. O fato de a concepgao
de mundo ser partilhada pelo grupo imediato fortalece seu 5mm;
de “real”. Para nos isto nao constitui uma novidade, uma vez que a
visao de mundo que a pessoa julga ser sua é construida e interiori—
zada a partir da relaeiio com o “outro”. O efeito de correspondencia
é produzido em razz’io de a pessoa julgar certa consciéncia social
“Como se fosse sua”, autenticamente produzida por sua percepgao
singular do mundo.
Outra caracteristica importante do senso comum, profunda—
mente Vinculada ao fato descrito, se expressa como uma consciéncia

206

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MAURO LUIS 1A5!

do “individuo”.205 Em uma sociedade de individuos encapsulados,


a consciencia imediata so pode assumir a forma de uma consciéncia
do eu. A aeao sobre o mundo, a trajetéria pessoal, a escolha da
profisséio, as experiéncias traumaticas ou edificantes, os acidentes,
tudo, enfim, é visto como uma espécie de sina pessoal. O indivi-
duo enfrenta as situagoes de sua Vida e encontra-se diante daquilo
que Sartre (1979) chamou de “campo de suas possibilidades”,
amoldando—se ao grupo imediato e as relaeées estabelecidas on se
confrontando corn esta realidade.
A agao da pessoa no mundo se apresenta como urn “desdobra—
no
mento determinado”, a busca de suprir uma “falta”, um salto
to”
sentido do “ainda nz'io existente”, nos termos sartreanos: “proje
a niio existente,
(Sartre, 1979, p. 78). Neste salto na diregao do aind
o individuo parte de situagées e condigoes objetivas, uma vez que
o ser humano é “produto de seu produto”, ou seja, “as estruturas
no
de uma sociedade que foi criada por meio do trabalho huma
).
definern para cada um uma situagao objetiva de partida” (£62221
é en—
Ocorre que toda praxis é negatividade, no sentido em que
frentamento para superar esta determinagao, e uma positividade
,
concebida como “relagao da existéncia corn seus possiveis” (£5321
p. 78—79). Uma vez que esta praxis opera no contexto em que
definirnos, a partir de Elias, corno uma sociedade de individuos
encapsulados, os possiveis sociais siio vividos “positiva e nega-
tivamente (...) como determinagoes esquemz’iticas de um pOI'Vif
individual” (Sartre, 1979, p. 80).
l
Sartre, ainda que permanega fiel 2 sua convicgao no pape
ica do
central do individuo, imagina esta pratica como uma dialét

encapsulagao do individuo:
75”" Elias (1994) langa mao de uma parabola para ilustrar esta
: um conjunto
a parabola das “estatuas pensantes”. Em sintese a metafora é a seguinte
de estatuas esta alinhado olhando para a mesma direqao, para urn vale ou para 0 mar.
pode olhar, ouvir e pensar. Tentam, cada uma isoladame nte,
N510 pode mover-3e, mas
compreender o que olham, mas acabam por Formar ideias disrintas. Veem-se como
separaclas clas outras estatuas e do objeto que observam, de forma que a {mica certeza
de existéncia é seu pensamento (A sociedade do: irzdz'm’duos, cit, p. 96).

207
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AS METAMORI‘OSL'S DA (IONSCIENCIA DI'Z (ILASSli

objetivo e do subjetivo, uma dialética na qual o objetivo internaliza—


—se no sujeito e este reexterioriza este contet’ido mediante sua agfio.
E neste ambito que em seu “Cuestiones de método” o autor nos
fala da
(...) necessidade conjunta da ‘internalizagfio do exterior' e da ‘exteriorizagao
do interior’. A praxis, de Faro, é um passo do objetivo ao objetivo por meio
da interiorizagiio; o projeto como superagiio subjetiva da objetividade em
diregiio a objetividade, entre as condieées objetivas do meio e as estrutu—
ras objetivas do campo dos possr’veis, representa em si mesmo a unidade
movente da subjetividade e da objetividade, que 5510 as determinagées
cardinais da atividade. O subjetivo aparece entiio como momento neces-
sério do processo objetivo.206
Esta concepgz’io, que se traduz quanto ao juizo literario na
afirmagao de Sartre segundo a qual “a obra constréi seu proprio
autor ao mesmo tempo que ele cria a obra”,207 nos permite localizar
o momento subjetivo no caminho da praxis do objetivo (deter—
minagées historicas das relagées sociais) em diregao ao objetivo
(materialidade dada que constitui o campo de aeao dos sujeitos).
O “momento subjetivo” e’ a “mediagao” concreta da praxis, ou seja,
a agao do individuo é definida como exteriorizagz’io daquilo que
foi interiorizado. Em outta passagem, Sartre descrevera o mesmo
processo de modo mais direto:
Creio que um homem sempre pode fazer algo a partir do que é feito
dele.
Este é o limite que eu hoje atribuiria 21 liberdadc: o pequeno movime
nu
to que faz, de um ser social totalmente condicionado, alguém
que nfio
devolve completamente aquilo que seu condicionamento lhe deu (...).
O
1nd1v1duo mterrorrza suas determinaeées sociais: interioriza as relagées de

3”“ SARTRE, Jean-Paul. “Cuestiones de método”. Crz’tim de [(1 razo’n


dirzféctiw. 3‘1 ed.
Buenos Aires: Losada, 1979, p. 81.
307 MESZAROS, Istvén. A 05a de Sartre: 6mm dd [Mara/ads. Szio Paulo: Ensaio,
1991, p.
38. Neste mesmo sentido, mas falando diretamente sobre a praxis humana e a historia,
Sartre diria em sua Crz’tica dd razdo dialétim que “nosso Formalismo, que
se inspita 110 de
Marx, consiste simplesmente em recordar que o homem faz a historia na exata medida
em que ela 0 F32”. (SAR'I'RE, Jean-Paul. Crz’rim de [a razo'n dz'dléc‘tim, cit” p. 229).

208
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MAURO LUIS IAsI

produgio, a familia de sua inffincia, 0 passado histérico, as instituigées


contemporaneas e, a seguir, reexrerioriza essas coisas por meio de atos e
opgées que, necessariamente, nos remetem de volta a elas.208
ESte processo dialético que Sartre chamava de “movimento de
totalizaeao” niio poderia ser julgado, ainda segundo 0 mesmo autor,
pela “intengiio”, mas pela objetivaqao desta intengao, por sua “rea—
lizagao”. Este raciocinio implica que o estranhamento encontrar—
—se-—ia no inicio e no fim do movimento de totalizarjio.209 Ocorre
uma negagao da negaeiio, isto é, a agao humana nega, no sentido
da superagfio inicial, a heranea objetiva interiorizada mediante sua
em
219510 e, por meio da mesma atividade, volta a externalizar—se
um produto objetivo que dele se afasta. No entanto, este produto
onde
Objetivo final 11510 e um mero retorno 33 situagao inicial de
partiu o sujeito, mas encontra—se em um patamar superior,210 trans-
formando e carregando as marcas da agfio subjetiva que sofreu.
o desta
A inspiraeao e referéncia imediata de Sartre na construgii
dialética da interiorizagao de uma objetividade e o retorno desta
l,
subjetividade novamente em objetivagao é evidentemente Hege
fo ale—
mas especificamente sua Fenomerzo/ogizz do espz’rito. O filéso
si com
méio, preocupado com a questao da relaefio da consciéncia de
sobre 0
aquilo que chamou de “efetividade exterior”, questionava—se
minadas
tipo de efeito e da influéncia que as “circumstancias deter
iano,
exercern sobre a individualidade”. Segundo o argumento hegel
como
a individualidade diante destas circumstancias estabelecidas
efetividade real e objetiva pode assumir trés posturas:
uma maneira tranquila
l) em ser 0 universal e portanto em confluir de
etc.;
imediata com este universal que estzi presente corno costumes, habltos

3”“ SARTRE, Jean-Paul. Irztz'nemry ofzz thong/It, p. 45, rzpud MESZAROS3 1' A 0677: d"
Sartre”, cit, p. 84.
nada
3"" “A alienagio esta’ dc alguma forma na base e no cume, o agente nunca empreende
do
que niio seja negagfio da alienaqao e volta a cair no mundo alienado. Mas a alienaeio
resultado objetivado 11510 é a mesma da alienaqfio da partida” (Sartre, 1979, P- 83: nota 1)-
2‘” “(...) por esta razfio uma Vida se dcsenvolve em espirais; passa sempre pelos mesmos
pontos mas em distintos m’veis de integragéo e complexidaden (Sartre, 1979:» P- 88)-

20‘)
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3 .3333 .333 3 33 333 3 3333 . 3 33333 333333 3333333
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AS ME'I‘AMORFOSES DA (IONSCIENCIA DE (ILASSI‘Z

2) 6 [a0 mesmo tempo], em comportarvse como oposta a eles, e portanto


em subverté—los; 3) como também em comportar—se, em sua singularidade,
com total indiferenca a seu respeito; nfio os dcixando agir sobre ela, nem
sendo ativa contra eles. (...) 36 da prépria individualidade depende, pois,
o que deve ter influéncia sobre ela, e qual influéncia isso deva ter — o que
vem a dar exatamente no mesmo?”
Neste fragmento observamos claramente a afirmacao de que
a individualidade (Die Irzdz'vz’dzmlz’tz‘it) se Vé diante da relacz‘io livre
com a efetividade do real que encontra como base para sua acao
no mundo e pode “fluir” com este universal enquanto unidade
com ele, se contrapor a ele, ou em relacao a ele ser indiferente, dai
a afirmacao que depende da prépria individualidade a natureza
desta influéncia. No entanto, se conhecemos bem Hegel, nada é
assim tao simples, pois esta individualidade é também uma “in—
dividualidade determinada”. Diz Hegel:
Portanto [dizer] que tal individualidade, mediante esta influéncia, se tor—
nou esta individualidade determinada nz’io significa outta coisa senao que
ela jzi era isso antes. Circunstfincias, situacées, costumes etc. que uma vez
sao indicados corn dados, e outra vez séio indicados nesta individualidade
determinada, somente exprimem a esséncia indeterminada da individua-
lidade — da qual [1510 se trata aqui. O individuo nz'io seria o que 6 se essas
circunstiincias, maneiras de pensar, costumes, estado do rnundo em geral,
r1510 tivessem sido; porque tal substfincia universal é tudo que se acha nesse
estado do mundo.212
Como vemos, o chamado estado do mundo, com tudo o que
este estado pode incluir (costumes, habitos, maneiras de pensar
etc.), estaria nas duas pontas do processo: como efEtividade real
externa (universal) e como singularidade no individuo determina-
do. Entretanto, para poder “particularizar—se neste individuo”, “0
estado do mundo deveria particularizar—se em si e para si mesmo”,

3” HEGEL, G. W. F. wmeno/ogid do espz’rito, cit, parte 1, p. 195.


3'3 Mid.

3 .3 «,3 vm swxw 333336.,- 333 3:333M2-333- 33353333- 3,:3:2.- 333,3333 m:


3 x 333133323333 333333313 333333331333 1:33- 3333333‘
33:33 3333 ,3 3.
3M
MAURO LUIS IASI

de maneira que existiria uma identidade entre 0 universal e sua


expressao particularizada em um individuo, corno, no exemplo
que nos apresenta Hegel, se houvesse uma galeria de quadros
represenrando a determinabilidade completa e as delimitagées
das circumstancias exteriores; e a mesma galeria “traduzida”, nas
palavras de Hegel, “dentro da esséncia consciente” (o individuo),
como uma esfera na qual a superficie é o mundo do individuo
e 0 interior, 0 set consciente que reflete esta superficie mesma.
Assim construido, o argumento de Hegel apresenta uma nova
circularidade na medida em que esta “superficie”, nao por acaso a
exterioridade da esfera, teria uma dupla significagao: a significagao
de ser mundo e a de ser 0 mundo do individuo. Esta duplicidade
nao geraria maiores problemas, uma vez que ambos sao em si
mesmos idénticos e contrarios em unidade. A implicagao maior
do argumento volta, no entanto, a afirmagao de que o centro so
pode ser concebido a partir do individuo mesmo, uma vez que
é ele que pode deixar Huir esta efetividade que o influencia ou
interrompéflla, subverté—la ou inverté—la. Disto resulta que o ind}-
viduo (D115 Individuum) é “em 51 e para si: é para si, on é um aglr
ser
livre; mas também é em si ou tem ele mesmo um determinado
quanto ser fixo
originario (...) tanto movimento da consciéncia
iduo é,
da efetividade fenomenal -- efetividade essa que no indiv
imediatamente, a sua” (Hegel, 1997, p. 197).
Logo, 0 individuo é tanto marcado por sua determinabilidadg,
cularli
por aquilo que o originou como individuo (expressao parti
z de 51
zada do universal), como igualmente aquilo que ele produ
to de Sartre
mesmo. Vemos a total coincidéncia com o pressupos
duas
reforqada quando Hegel concluirz’i que a mediagao entre estas
efetividade
dimensées, a da individualidade determinada e a da
“exterio—
imediata, so pode estar no agir do individuo, o agir como
rizagz'lo como reflexao sobre a exteriorizagao efetiva” (Hegel, 1997,
p. 202). N510 nos estranha, portanto, que a conclusao de Hegel é o
fundamento do existencialismo de Sartre. Conclui Hegel:

211

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§a :iéaiia N31“ §§§é M ii}: i? is; 3‘: £2 gal- §=C E sagas.“ ia-séfirfisgfik lax-Eis- liz§s§ériaiis rigs, Easies- fit: 2%.};- Edie-sie- i’a lialiig Esamiéfigimfl
AS MI‘JTAMORFOSES DA CONSCIENCIA DE CLASSl-l

O verdadeiro ser do homem é, antes, seu ato; nele, a individualidade é


efetiva (...). O ato é isto; e seu ser niio é somente um signo, mas a Coisa
mesma. O ato é isto, e o homem individual ('3 o que o aro (5.2”
Voltando a0 nosso tema direto, a pessoa interioriza as relagées
sociais determinadas de uma certa sociedade e de um tempo histérico.
Por meio da vivéncia subjetiva das relaeées objetivas que constituem a
familia, age no mundo orientada por certa visz’io de mundo partilhada
com seu grupo imediato (nos termos de Hegel: 0 estado do mundo
universal encontra na pessoa sua forma de particularizagao), enfrenta
o campo de possibilidades que se abrem diante de suas opgées, cons—
titui familia e cria seus filhos. Apesar de 0 processo iniciar e culminar
na forma familia, possivelmente carregando a mesma estrutura e
representando as mesmas relagées sociais determinantes, [1'30 6 mais
a “mesma” familia. Sua aeao no campo das possibilidades, 0 jOgO d3
interagao de “seu” projeto com os demais que se chocarn no seu cam—
po de agao, estarao marcados no produto objetivo. Morarz’i agora na
Cidade; a divisao de tarefas e papéis de género se alterou; tera menos
.filhOS; as crianeas nao entrarao no mundo do trabalho na mesma
1dadeque ele; verao televisz'io horas seguidas; o mundo se apresentara
mais integrado e préximo; nao existira a URSS, e 05 filmes de James
Bond terao que garimpar novos
inimigos.
A “(fag-10 da negagao é um processo, a0 mesmo tempo, de
supetagao .6 eonservagfio, de modo que “pensaremos com esses
desvros originai