Você está na página 1de 661

Metalurgia Mecânica

Engenharia Metalúrgica
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
660 pag.

Document shared on www.docsity.com


Document shared on www.docsity.com
Metalurgia Mecânica

G eorge E . D ie te r

P r o fe s s o r o f E n g in e e r in g
C a r n e g ie - M e llo n U n iv e r s ity

A n to n io S e r g io d e S ou sa e S ilv a , M .S c .
L u iz H e n r iq u e d e A lm e id a , M .S c .
P a u lo E m ílio V a la d ã o d e M ir a n d a , M .S c .

P r o fe s s o r e s do P rogram a d e E n g e n h a r ia M e ta lú r g ic a
e d e M a te r ia is da C oordenação dos P rogram as
d e P ó s-G ra d u a ç ã o e m E n g e n h a r ia e d a E s c o la
d e E n g e n h a r ia d a U n iv e r s id a d e F ederal
d o R io d e J a n e ir o
(C O P P E /U F R J -E E /U F R J ).

G U A N A B A R A

DOIS

Document shared on www.docsity.com


Prefácio à segunda edição

No"s doze anos que se sucederam à primeira edição de M e c h a n i c a l M e t a l l u r g y


foram publicados pelo menos 25 livros-texto versando sobre os principais tópicos
abordados neste liyro. Ao menos dez livros relacionados com a mecânica dos proces-
sos de conformação entraram no prelo durante este período, por exemplo. Nenhum
deles, entretanto, cobriu todo o espectro da metalurgia mecânica, desde a compreen-
são da descrição contínua da tensão e da deformação através de mecanismos cristali-
nos e de falha de escoamento e fratura até considerações sobre os principais testes de
propriedades mecânicas e os processos básicos de conformação mecânica.
Neste período, desde a primeira edição, têm surgido processos importantes no
que se refere à interpretação do comportamento mecânico dos sólidos. Excelentes
verificações experimentais conduziram à comprovação de grande parte da teoria das
discordâncias para a deformação plástica, o que proporciona um entendimento melhor
dos mecanismos de endurecimento dos materiais cristalinos. Desenvolvimentos em
áreas como a fratomecânica alcançaram elevados níveis de sofisticação técnica,
revelando-se de grande utilidade para aplicações práticas na engenharia. Uma realiza-
ção importante durante este período foi o "movimento da ciência dos materiais", no
qual sólidos cristalinos, metais, cêrâmicos e polímeros são considerados como um
grupo cujas propriedades são controladas por defeitos estruturais básicos, comuns a
todas as classes de sólidos cristalinos.
Nesta revisão mantiveram-se os objetivos que motivaram a primeira edição deste
livro, preparado de forma a atender alunos já no início dos cursos de pós-graduação.
Foram feitas muitas modificações no sentido de atualizar, introduzir tópicos novos
sobre áreas importantes que surgiram e elucidar algumas seções que se mostraram
mais difíceis ao entendimento dos estudantes. Em algumas seções os assuntos de nível
mais elevado foram impressos em tipo menor, dirigidos especialmente aos estudantes
de pós-graduação. Os problemas foram muito revisados e expandidos, tendo sido pre-
parado um manual de soluções. Foram adicionados dois capítulos novos: um abran-
gendo propriedades mecânicas dos polímeros e outro sobre usinagem dos metais. Os
capítulos sobre métodos estatísticos e tensões residuais foram eliminados. Na reali-
dade, mais da metade do livro foi completamente reescrita.

Document shared on www.docsity.com


Préfácio à primeira edição

A metalurgia mecânica é a área do conhecimento que lida com o comportamento e


a resposta dos metais às forças aplicadas. Como não é uma área definida precisa-
mente, poderá ter significados diferentes para pessoas diferentes. Alguns podem
entendê-Ia como as propriedades mecânicas dos metais ou testes mecânicos, outros
podem considerá-Ia como o campo restrito ao trabalho plástico e conformação dos
metais, enquanto outros podem ainda relacioná-Ia de acordo com seus interesses aos
aspectos mais teóricos do campo, como a física dos metais e a metalurgia física. Outro
grupo pode ainda considerar a metalurgia mecânica ligada à matemática e à mecânica
aplicadas. Ao escrever este livro tentou-se cobrir de alguma forma esta grande diversi-
dade de interesses. O objetivo foi o de incluir todo o escopo da metalurgia mecânica
em um volume abrangente.
O livro foi dividido em quatro partes. A Parte Um, Fundamentos de M ecânica,
apresenta o tratamento matemático necessário à compreensão de muitos dos capítulos
que se sucedem. Os conceitos de tensão e de deformação combinados foram revistos e
expandidos à terceira dimensão. Foram também forneci das considerações detalhadas
sobre a teoria do escoamento e sobre os conceitos de plasticidade. Não se pretendeu,
porém, desenvolver os tópicos da Parte Um de forma completa, o que é necessário
para a resolução de problemas originais. Em vez disto, o objetivo foi o de familiarizar
pessoas de formação metalúrgica com a linguagem matemática encontrada em algumas
áreas da metalurgia mecânica. A Parte Dois, Fundamentos de M etalurgia, lida com os
aspectos estruturais da deformação plástica e da fratura. Dá-se ênfase à atomística do
escoamento e à fratura e à forma pela qual a estrutura metalúrgica afeta esses proces-
sos. O conceito de discordância é introduzido no início da Parte Dois e utilizado sem-
pre a partir daí para fornecer explicações qualitativas para fenômenos tais como o
encruamento, o ponto limite de escoamento, o endurecimento por fase dispersa e a
fratura. Um tratamento mais matemático das propriedades das discordâncias é dado
em um capítulo separado. Os tópicos abordados na Parte Dois referem-se mais à meta-
lurgia física. Entretanto, a maioria deles é discutida em maior detalhe e com uma
ênfase diferente do que quando são apresentados pela primeira vez em um curso nor-
mal de graduação sobre essa disciplina física. Alguns tópicos que são mais sobre meta-
lurgia física do que mecânica são incluídos com o intuito de fornecer uma continuidade
e a base necessária para leitores que não estudaram a metalurgia física moderna.
A Parte Três, Aplicações em Ensaios de M ateriais, aborda os aspectos de enge-
nharia das técnicas comuns de testes da falha mecânica dos metais. Alguns capítulos '
são dirigidos aos ensaios de tração, torção, dureza, fadiga, fluência e impacto. Outros
são compostos por assuntos importantes, tais como tensões residuais e análise estatís-
tica dos dados de propriedades mecânicas. Na Parte Três dá-se ênfase à interpretação

Document shared on www.docsity.com


dos testes e ao efeito de variáveis metalúrgicas no comportamento mecânico, em vez
dos procedimentos para conduzir os testes. Admite-se que o desenvolvimento destes
testes será visto em um curso de laboratório concomitante ou em separado. A Parte
Quatro, Conformação Plástica dos M etais, aborda os processos mecânicos comuns
para a produção de formas metálicas úteis. Dá-se pouca ênfase aos aspectos descriti-
vos desta matéria, uma vez que isto pode ser melhor visto através de visitas a instala-
ções industriais e palestras ilustradas. Por outro lado, a atenção principal é dirigida aos
fatores mecânicos e metalúrgicos que controlam cada processo, tal como forjamento,
laminação, extrusão, estampagem e conformação de chapas metálicas finas.
Este livro é escrito para o estudante de pós-graduação em engenharia metalúrgica
ou mecânica, assim como para engenheiros envolvidos com problemas práticos na
indústria. Embora a maioria das universidades tenha adotado cursos de metalurgia
mecânica ou propriedades mecânicas, há uma diversidade muito grande na matéria
tratada e na formação básica dos alunos que fazem esses cursos. Assim, atualmente
não se pode definir algo como um livro-texto padrão em metalurgia mecânica. Espera-
se que a amplitude e o escopo deste livro forneçam material suficiente para estes requi-
sitos tão diversos. Espera-se, ainda, que a existência de um tratamento detalhado do
campo de metalurgia mecânica estimule o desenvolvimento de cursos que venham a
cobrir toda a matéria.
Como este livro é dirigido a alunos de pós-graduação e a engenheiros práticos das
indústrias, espera-se que ele se torne parte de sua biblioteca profissional. Embora não
se tenha objetivado fazer deste livro um manual, pensou-se em fornecer de forma
abundante referências para a literatura em metalurgia mecânica. Assim, foram incluídas
mais referências do que o normal em um livro-texto comum, todas apresentadas com o
objetivo de ressaltar derivações ou análises além do escopo do livro, para fornecer
informações adicionais a pontos detalhados ou em controvérsia, e para enfatizar tra-
balhos que mereçam ser mais estudados. Além disto, ao fim de cada capítulo
encontra-se uma bibliografia de referências gerais. No fim do volume incluiu-se uma
coleção de problemas, principalmente para o uso do leitor que está envolvido com a
indústria e que deseja verificar sua compreensão da matéria.
O trabalho envolvido na confecção deste livro foi mais o de examinar e classificar
fatos e informações da literatura e dos diversos excelentes livros-textos em aspectos
específicos da matéria. Para cobrir a amplitude do material encontrado neste livro
necessitar-se-ia de partes de mais de 15 livros-texto padrões e um sem-número de
artigos de revisão e contribuições individuais. Foi feito um esforço consciencioso para
dar crédito às fontes originais. O autor se desculpa pelas omissões que ocasionalmente
possam ter ocorrido e agradece aos diversos autores e editores que consentiram na
reprodução de ilustrações, todos mencionados nas respectivas legendas.
Finalmente, o autor gostaria de agradecer aos diversos amigos que o orientaram
na confecção deste trabalho. Em especial ao Professor A. W . Grosvenor, do Drexel
Institute of Technology, ao Dr. G. T. Horne, do Carnegie Institute of Technology,
aos Drs. T. C. Chilton, J. H. Faupel, W . L. Phillips, W . I. Pallock e J. T. Ranson, da
Companhia du Pont, e ao Dr. A. S. Nemy, da Thompson-Ramo-W ooldridge Corpo

Document shared on www.docsity.com


Índice

. Parte I Fundamentos de M ecânica


1 Introdução, 2
2 Relações entre Tensão e Deformação para o Comportamento Elástico, 14
3 Princípios da Teoria da Plasticidade, 62

Parte n Fundamentos de M etalurgia


4 Deformação Plástica de M onocristais, 92
5 Teoria das Discordâncias, 130
6 M ecanismos de Endurecimento, 166
7 Fratura, 213
8 Comportamento M ecânico de M ateriais Poliméricos, 251

Parte lU Aplicações em Ensaios de M ateriais


9 Testes de Tração, 282
10 Testes de Torção, 322
11 Teste de Dureza, 332
12 Fadiga dos M etais, 344
13 Fluência, 385
14 Fratura Frágil e Ensaio de Impacto, 419

Parte IV Conformação Plástica dos M etais


15 Fundamentos de Conformação, 452
16 Forjamento, 497
17 Laminação dos M etais, 518
18 Extrusão, 544
19 Trefilação de Vergalhões, Arames e Tubos, 561
20 Conformação de Chapas M etálicas Finas, 573\
21 Usinagem de M etais, 598 .
Apêndices A O sistema Internacional de Unidades, 623
B Problemas, 626
Índice Alfabético, 646

Document shared on www.docsity.com


Lista de símbolos

A= Área, amplitude
a = Distância linear; comprimento de trinca
ao = Espaçamento interatômico
B= Constante; espessura do corpo de prova
b = Largura ou amplitude
b= Vetor de Burgers de uma discordância
c= Constante geral; calor específico
cu = Coeficientes elásticos
c = Comprimento da trinca de Griffith
D= Diâmetro de grão
E= M ódulo de elasticidade para carregamento axial (módu]o de Young)
e = Deformação linear convencional ou de engenharia
exp = Base dos logaritmos neperianos (= 2,718)
F= Força por unidade de comprimento em uma linha de discordância
G= M ódulo de elasticidade em cizalhamento (módulo de rigidez)
Cf}= Força de extensão da trinca
H= Energia de ativação
h = Distância, geralmente na direção da espessura
( h ,k ,l ) = Índices de M iller de um plano cristalográfico
I = M omento de inércia
J = 1nvariante da tensão desvio; momento de inércia polar
K= Coeficiente de resistência
Kf= Fator de entalhe de fadiga
Kt = Fator de concentração de tensôes teórico
K1c Tenacidade à fratura
k Tensão limite de escoamento em cizalhamento puro
L Comprimento
I, m , n Co-senos diretores da normal a um plano
ln = Logaritmo neperiano
log = Logaritmo na base 10
MB= M omento f1etor
Mr= M omento torsor, torque
m= Sensibilidade à taxa de deformação
N= Número de ciclos de tensão ou vibração
M= Coeficiente de encruamento
M' = Constante geral em termo exponencial
p= Carga ou força externa

Document shared on www.docsity.com


E n e r g ia d e a tiv a ç ã o
P re ssã o
R e d u ç ã o e m á r e a ; f a to r d e c o n s tr iç ã o p lá s tic a ; ín d ic e d e s e n s ib ilid a d e ao
e n ta lh e e m f a d ig a
R a io d e c u r v a tu r a ; r a z ã o d e te n s ã o e m f a d ig a ; c o n s ta n te dos gases
r = D is tâ n c ia r a d ia l
S = T ensão to ta l e m u m p la n o a n te s d o r e b a tim e n to e m c o m p o n e n te s n o rm a l
e c iz a lh a n te
Sij = C o m p liâ n c ia e lá s tic a
s = T ensão d e e n g e n h a r ia
T= T e m p e r a tu r a
Tm = P o n to d e f u s ã o
I = T em po; e sp e ssu ra
Ir = T em po d e r u p tu r a
u=
E n e r g ia d e d e f o r m a ç ã o e lá s tic a
uo
= E n e r g ia d e d e f o r m a ç ã o e lá s tic a p o r u n id a d e d e v o lu m e
U, V, lV = C o m p o n e n te s d e d e s lo c a m e n to n a s d ir e ç õ e s x, y e z
[uvw] = Í n d ic e s d e M ille r p a r a u m a d ir e ç ã o c r is ta lo g r á f ic a
v=
V o lu m e
v V e lo c id a d e
w=T r a b a lh o
z= P a r â m e tr o d e Z e n e r - H a llo m a n
a= C o e f ic ie n te lin e a r d e e x p a n s ã o té r m ic a ; â n g u lo d e f a s e
a, f3, O, ep = Â n g u lo s e m g e r a l
f= T e n s ã o d e lin h a d e u m a d is c o r d â n c ia
y= D e fo rm a ç ã o c iz a lh a n te
.:l= D e fo rm a ç ã o v o lu m é tr ic a o u d ila ta ç ã o c ú b ic a ; v a r ia ç ã o f in ita
0= D e fo rm a ç ã o e m e lo n g a ç ã o ; d e f le c ç ã o ; d e c r e m e n to lo g a r ítm ic o ; d e lta d e
K ro m e c k e s
E = S ím b o lo g e r a l p a r a d e f o r m a ç ã o ; d e fo rm a ç ã o n a tu r a l o u v e r d a d e ir a
€ = D e fo rm a ç ã o v e r d a d e ir a s ig n if ic a n te o u e f e tiv a
E = T a x a d e d e fo rm a ç ã o v e r d a d e ir a
€s = T a x a m ín im a d e f lu ê n c ia
71 = E f ic iê n c ia ; c o e f ic ie n te d e v is c o s id a d e
0= P a r â m e tr o d e te m p o - te m p e r a tu r a d e D o r n
K= M ó d u lo v o lu m é tr ic o d e e la s tic id a d e
'11.= C o n s ta n te d e L a m é ; e s p a ç o e n tr e p a r tíc u la s
JL= P a r â m e tr o d e te n s ã o d e L o d e ; c o e f ic ie n te d e a tr ito
v= C o e f ic ie n te d e P o is s o n ; p a r â m e tr o d e d e f o r m a ç ã o d e L o d e
p = D e n s id a d e
(J"= T e n s ã o n o r m a l; te n s ã o v e r d a d e ir a

(J"o = T e n s ã o lim ite d e e s c o a m e n to o u r e s is tê n c ia a o e s c o a m e n to


(J"~ = T e n s ã o lim ite d e e s c o a m e n to e m d e f o r m a ç ã o p la n a
(J"= T e n s ã o v e r d a d e ir a s ig n if ic a n te o u e f e tiv a
(J " l, (J"2, (J"3 = T e n s õ e s p r in c ip a is
cr' = T e n s ã o d e s v io
(T" = C o m p o n e n te h id r o s tá tic o d a te n s ã o
(J"a = T ensão a lte r n a d a o u v a r iá v e l
(J'm = T e n s ã o p r in c ip a l m é d ia ; te n s ã o m é d ia
(J"r = F a ix a d e te n s õ e s .
ali = T e n s ã o d e r e s is tê n c ia à tr a ç ã o
(J"w = T e n s ã o d e tr a b a lh o
T= T e n s ã o c iz a lh a n te ; te m p o d e r e la x a ç ã o
1>= F u n ç ã o d e te n s ã o d e A ir y
t/J = C a p a c id a d e d e a m o r te c im e n to e s p e c íf ic a

Document shared on www.docsity.com


P a rte I

F u n d a m e n to s d e M e c â n ic a

Document shared on www.docsity.com


Introdução

A metalurgia mecânica é a á re a d a m e ta lu r g ia que tr a ta p r in c ip a lm e n te d a r e s p o s ta dos


m e ta is a fo rç a s o u c a rg a s, que podem s e m a n if e s ta r d u r a n te a u tiliz a ç ã o do m e ta l com o
um c o m p o n e n te ou p a r te de um a e s tr u tu r a ou e q u ip a m e n to . N e s ta s c o n d iç õ e s , há
n e c e s s id a d e de se conhecer os v a lo r e s lim ite s que podem ser s u p o r ta d o s sem que
o c o rra um c o la p s o . O o b je tiv o pode s e r ta m b é m o d e c o n v e r te r um lin g o te f u n d id o em
um a fo rm a u tiliz á v e l, ta l com o um a chapa p la n a , p a ra o que devem ser d e te r m in a d a s
a s c o n d iç õ e s d e te m p e r a tu r a e v a r ia ç ã o d e c a rg a s que m in im iz e m a s fo rç a s n e c e s s á r ia s
à r e a liz a ç ã o do tr a b a lh o .
A m e ta lu r g ia m e c â n ic a nâo é um a m a té r ia que pode ser e s tu d a d a is o la d a m e n te .
Na r e a lid a d e , é um a c o m b in a ç ã o de d iv e r s a s d is c ip lin a s e d if e r e n te s a b o rd a g e n s ao
p r o b le m a d a in te r p r e ta ç ã o da r e s p o s ta dos m e ta is a fo rç a s. É , d e o u tr a fo rm a , a in ic ia -
tiv a u tiliz a d a em r e s is tê n c ia e p la s tic id a d e , onde um m e ta l é c o n s id e r a d o com o um
m a te r ia l hom ogêneo, c u jo c o m p o r ta m e n to m e c â n ic o pode ser d e s c r ito de m a n e ir a p re -
c is a com base apenas em poucas c o n s ta n te s c a r a c te r ís tic a s de cada m e ta l. E s ta a b o r-
dagem é a base p a ra o p r o je to r a c io n a l de c o m p o n e n te s e s tr u tu r a is e peças de m á q u i-
nas. Na P a r te I d e s te liv r o , a r e s is tê n c ia dos m a te r ia is , a e la s tic id a d e e a p la s tic id a d e
são tr a ta d a s sob um p o n to de v is ta m a is g e n e r a liz a d o do que o u s u a lm e n te a p r e s e n ta d o
em um p r im e ir o c u rso d e r e s is tê n c ia dos m a te r ia is . O a s s u n to dos tr ê s p r im e ir o s c a p ítu -
lo s p o d e s e r c o n s id e r a d o com o o f u n d a m e n to m a te m á tic o do qual depende to d o o r e s to
do liv r o . O s e s tu d a n te s de e n g e n h a r ia q u e já tiv e r a m um c u rso avançado em r e s is tê n -
c ia dos m a te r ia is ou p r o je to s de m á q u in a s p o d e rã o p o s s iv e lm e n te tr a n s p o r com f a c ili-
dade e s te s c a p ítu lo s . No e n ta n to , p a ra a m a io r ia dos e n g e n h e ir o s m e ta lú r g ic o s e enge-
n h e ir o s a tu a n te s na in d ú s tr ia , é in te r e s s a n te despender o te m p o n e c e s s á r io p a ra se
f a m ilia r iz a r com a m a te m á tic a a p r e s e n ta d a na P a r te I.
Q uando a e s tr u tu r a do m e ta l s e to r n a um a v a r iá v e l im p o r ta n te e não pode m a is ser
c o n s id e r a d a um m e io hom ogêneo, a s te o r ia s d a r e s is tê n c ia dos m a te r ia is , e la s tic id a d e e
p la s tic id a d e p e rd e m c o n s id e r a v e lm e n te seu p o d e r. O c o m p o r ta m e n to dos m e ta is a
a lta s te m p e r a tu r a s , onde a e s tr u tu r a m e ta lú r g ic a pode v a r ia r c o n tin u a m e n te com o
te m p o , ou a tr a n s iç ã o d ú c til- f r á g il que o c o rre nos a ç o s-c a rb o n o e x e m p lif ic a m ta l f a to .
A p r in c ip a l in c u m b ê n c ia do m e ta lu r g is ta m e c â n ic o c o n s is te em d e te r m in a r a r e la ç ã o
e n tr e o c o m p o r ta m e n to m e c â n ic o e a e s tr u tu r a dos m e ta is , sendo e s ta ú ltim a r e v e la d a
e s s e n c ia lm e n te por té c n ic a s de m ic r o s c o p ia e r a io s X. G e r a lm e n te as p r o p r ie d a d e s
m e c â n ic a s podem ser m e lh o r a d a s ou ao m enos c o n tr o la d a s quando o c o m p o r ta m e n to

Document shared on www.docsity.com


mecânico é interpretado em termos da estrutura metalúrgica. A Parte 2 deste livro
apresenta os fundamentos metalúrgicos do comportamento mecânico dos metais. Já
que a metalurgia mecânica é parte do espectro mais amplo que compreende a metalur-
gia física, os estudantes de metalurgia. já tendo cursado esta matéria anteriormente,
deverão ter um conhecimento bem sedimentado de alguns dos assuntos desenvolvidos
na Parte 2. Entretanto. estes tópicos mostram-se bem mais detalhadamente do que
num curso básico de metalurgia física. Os estudantes de outras áreas, que não cursa-
ram esta cadeira, são auxiliados por tópicos adicionais que se referem mais à metalur-
gia física do que à mecânica, introduzidos com o intuito de proporcionar também uma
melhor continuidade.
Os três últimos capítulos da Parte 2 abrangem principalmente os conceitos atomís-
ticos do escoamento e da fratura dos metais. O trabalho conjunto de físicos do estado
sólido e metalurgistas resulta em vários desenvolvimentos nesta área. que tem apre-
sentado enorme progresso. Um fato de grande importância prática para a verifica-
ção da teoria e de uma análise direcionada foi a introdução do microscópio eletrônico
de transmissão. É feita uma apresentação do conteúdo básico da teoria das discordân-
cias. o que é indispensável ao entendimento do comportamento mecânico dos sólidos
cristalinos.
Os dados referentes à resistência dos metais e medidas para o controle rotineiro
das propriedades mecânicas são obtidos de um número relativamente pequeno de tes-
tes mecânicos radronizados. A Parte 3 desta obra considera cada um dos ensaios
mecânicos mais comuns. cujo enfoque não é dirigido às técnicas exrerimentais como é
usual. mas à consideração do que estes testes fornecem sobre o desempenho de metais
em serviço e como variáveis metalLlrgicas afetam seus resultados. Grande parte do
material apresentado nas Partes I e 2 é utilizada na Parte 3. Admite-se neste ponto que
o leitor já possua um curso convencional sobre ensaios ,de materiais ou esteja parale-
lamente assistindo a aulas de laboratório. onde roderá familiarizar-se com as técnicas
de realização de testes.
A Parte 4 trata dos fatores metalúrgico.s e mecânicos envolvidos na conformação
de metais em formas utilizáveis. Pretendia-se inicialmente apresentar as análises ma-
temáticas dos principais processos de conformação dos metais; entretanto, em certos
casos, isto não foi possível devido à necessidade de um tratamento muito detalhado ou
por estarem estas análises fora dos objetivos reais deste livro. Não se procurou incluir
a extensa tecnologia especializada associada com cada processo de conformação em
particular, como laminadio ou extrusão, embora tenhamos nos esforçado no sentido
de fornecer uma impressão geral sobre os equipamentos mecânicos necessários e fami-
liarizar o leitor com o vocabulário especializado desta área. Uma ênfase maior foi dada
na apresentação de ilustrações razoavelmente simplificadas das forças envolvidas em
cada processo e como os fatores geométricos e metalúrgicos afetam as cargas de traba-
lho e o sucesso dos processos de conformação.

A resistência dos materiais é parte da ciência que lida com a relação entre as forças
internas, a deformação e as cargas externas. O primeiro passo para o método de aná-
lise mais comum utilizado em resistência dos materiais consiste em se admitir que o
elemento está em equilíbrio. As equações do equilíbrio estático são aplicadas às forças
que atuam em alguma parte do corpo para que se obtenha uma relação entre as forças
externas atuando no elemento e as forças internas que resistem à ação das externas. É
necessário transformar as forças internas resistentes em externas, uma vez que as
equações de equilíbrio devem ser expi-essas em termos de forças atuando externa-
mente ao corpo. Isto pode ser conseguido passando-se um plano através do corpo.
pelo ponto de interesse. A parte do corpo situada em um dos lados do plano secante é
removida e substituída pelas forças que ela exercia sobre a região seccionada da outra

Document shared on www.docsity.com


parte do corpo. Já que as forças atuando no "corpo livre" o mantêm em equilíbrio,
podem-se aplicar ao problema as equações de equilíbrio.
As forças internas resistentes são geralmente expressas pela te n s ô o atuante sobre I

uma certa área, de maneira que a força interna é a integral da tensão vezes a área
diferencial sobre a qual ela atua. Para que se possa calcular esta integral deve·se co-
nhecer a distribuição da tensão sobre a área do plano secante. A distribuição de tensão
é obtida observando-se e medindo-se a distribuição de deformação no elemento, visto
que a tensão não pode ser fisicamente medida. Entretanto, já que para pequenas de-
formações a tensão é proporcional às deformações envolvidas na maioria dos traba-
lhos, a determinação da distribuição de deformação fornece a distribuição de tensão.
Substitui-se, então. a expressão para tensão nas equações de equilíbrio e resolve-se
para tensão em termos das cargas e dimensões do elemento.
As hipóteses importantes em resistência dos materiais são que o corpo que está
sendo analisado é contínuo, homogêneo e isotrópico. Um c o r p o c o n tín u o é aquele que
não possui cavidades ou espaços vazios de qualquer espécie. Um corpo é h o m o g ê n e o
se possui propriedades idênticas em todos os pontos. É considerado is o tr ó p ic o com
relação a alguma propriedade se esta não varia com a direção ou a orientação. Uma
propriedade que varia com a orientação com relação a algum sistema de eixos é deno-
minada o n is o tr ó p ic a .
Enquanto materiais comuns na engenharia como aço, ferro fundido e alumínio
satisfazem aparentemente estas condições se observados macroscopicamente, não
apresentam qualquer homogeneidade ou características isotrópicas quando vistos atra-
vés de um microscópio. A maioria dos metais comuns na engenharia é constituída
de mais de uma fase com propriedades mecânicas variadas, apresentando-se heterogê-
neos numa microescala. Além disso, mesmo um metal monofásico possuirá geralmente
segregações químicas e, por conseguinte, as propriedades não serão idênticas a cada
ponto. Os metais são constituídos de um agregado de grãos cristalinos, possuindo pro-
priedades variadas em direções cristalográficas diferentes. A razão pela qual as equa-
ções da resistência dos materiais descrevem o comportamento de metais reais é que
geralmente os grãos cristalinos são de tamanho tão reduzido que em uma amostra. com
um certo volume macroscópico, o material é estatisticamente homogêneo e isotrópico.
As propriedades mecânicas podem, entretanto, tornar-se anisotrópicas em uma ma-
croescala no caso de metais severamente deformados numa certa direção, como na
laminação ou no forjamento. Os materiais compostos reforçados com fibras e os mo-
nocristais constituem outros exemplos de propriedades anisotrópicas. Uma desconti-
nuidade (estrutural) pode ser encontrada em peças fundidas porosas ou naquelas pro-
duzidas por metalurgia do pó e, em nível atômico. em defeitos tais como vazios e
discordâncias.

A experiência mostra que todos os materiais sólidos podem ser deformados quando
submetidos a uma carga externa e que. além disto. até um certo limite de cargas. o
sólido recuperará suas dimensões originais quando a carga for retirada. Esta recupera-
ção das dimensões originais de um corpo deformado quando se retira a carga aplicada
é denominada c o m p o r ta llle n to I 'lá s tic o . Ao valor limite a partir do qual o material não
se comporta mais elasticamente denomina-se lim ite e lá s tic o . Se excedido o limite elás-
tico, o corpo apresentará uma deformação permanente após a retirada da carga apli-
cada. Define-se, então, como d l'fo r llw ç â o p lá s tic a aquela presente em um corpo que
está permanentemente deformado .
.Para a maioria dos materiais a deformação é proporcional à carga. se esta não

IPara as nossas finalidades. [ < 'lI s â " é definida como força por unidade de área. A deformação é definida como a
variação de comprimento por unidade de comprimento. Definições mais completas serão dadas posteriormente.

Document shared on www.docsity.com


excede o limite elástico. Esta relação, conhecida como Lei de Hooke, é mais fre-
qüentemente expressa em termos da te n s ú o p r o p o r c io n a l à d e fo r m a ç â o e define uma
dependência linear entre a carga e a deformação. Isto, no entanto, não implica que
todos os materiais que se comportam elasticamente devem, necessariamente, possuir
uma relação linear entre a tensão e a deformação. A borracha é um exemplo de um
material que apesar de satisfazer as condições de um corpo elástico não apresenta
comportamento linear entre a tensão e a deformação.
As deformações elásticas são bastante pequenas e requerem instrumentos alta-
mente sensíveis para medi-Ias. A utilização de instrumentos u1tra-sensíveis tem reve-
lado serem os limites elásticos dos metais bem menores que os valores geralmente
medidos em ensaios de materiais na engenharia. À proporção que os equipamentos de
medida se tornam mais sensíveis, o limite elástico apresenta-se mais reduzido, de ma-
neira que para a maioria dos metais existe apenas um pequeno intervalo de cargas
onde a Lei de Hooke é rigorosamente válida. Isto, porém, é um aspecto de importância
mais acadêmica. e a lei de Hooke continua caracterizando uma relação de grande
validade para projetos de engenharia.

Para a discussão da tensão e deformação considera-se inicialmente uma barra cilín-


drica e uniforme que é submetida a uma carga de tração axial (Fig. 1.1) e que duas
marcas são colocadas na superfície da barra antes de deformada, sendo L o o compri-
mento inicial entre estas marcas. Uma carga P é aplicada a uma das extremidades da
barra cujo comprimento inicial sofre um pequeno aumento e o diâmetro um decrés-
cimo. A distância entre marcas iniciais cresce de uma quantidade Ô, denominada elon-
gação. A razão da variação de comprimento com o comprimento inicial define a d e -
fo r m a ç â o lin c a r m é d ia , c.
Assim,

8 ó -L L - Lo
e = -= -= -- ( 1 .1 )
Lo Lo Lo

A deformação é uma quantidade adimensional já que tanto Ô quanto L o são expressas


em unidades de comprimento.
A Fig. J.2 mostra o diagrama de corpo livre para a barra cilíndrica apresentada na
Fig. I. J. A carga externa. P . é equilibrada pela força interna resistente, f ( J d A , onde ( J
é a tensão normal ao plano secante e A a área da seção reta da barra. A equação de
equilíbrio é

P = f (j dA ( 1.2)

Fig. 1.1 Barra cilíndrica sujeita a carga Fig. 1.2 Diagrama de corpo livre para a
axial. F ig . I . \ .

Document shared on www.docsity.com


P = (J f dA = (J A

P
(J=-
A

Geralmente, a lensào nào se distribui uniformemente sobre a área A . e a Eq. ( 1 .3 )


representa uma { i 'I 1 S c l O m é d i a . Para que a tensào fosse rigorosamente uniforme. todo
elemento longitudinal da barra teria que apresentar a mesma deformaçào e o limite de
proporcional idade entre a tensào e a deformação deveria ser idêntico para cada ele-
mento em particular. A possibilidade de se possuir uma uniformidade de tensão total
em um corpo de dimensões macroscópicas é eliminada tanto pela anisotropia inerente
entre grãos em um metal policristalino quanto pela presença de mais de uma fase. se o
material é analisado em escala microscópica. Se a barra não for reta ou se a carga não
for aplicada em seu centro geométrico. as deformações não serào as mesmas para
alguns elementos longitudinais e. conseqüentemente, a tensão não será uniforme. Uma
variação brusca da área da seção reta do material determina um concentrado de ten-
sões (ver Seção 2.16), o que implica na obtenção de uma distribuição de tensões não
uniforme.
Nos projetos de engenharia a carga é geralmente medidq em libras e a área em
polegadas quadradas, logo, a tensão é expressa em libras por polegada quadrada (psi)+.
Como é comum para os engenheiros lidarem com cargas na casa dos milhares, por
simplificação, trabalha-se com unidades de 1.000 Ib, denominadas k ip s . Assim. a tensão
pode também ser expressa em unidades de kips por polegada quadrada (ksi). (I ksi =
1.000 psi). Em trabalhos científicos a tensão é freqüentemente expressa em quilogra-
2
mas por milímetro quadrado ou em dinas por centímetro quadrado ( 1 kg/mm = 9 .8 1 x
7 2
1 0 dyn/cm ).
Entretanto, no Sistema Internacional de Unidades (S I), que é uma versão mo-
derna do sistema métrico, a unidade oficial de tensão é o newton por metro quadrado,
N/m 2, que tem sido denominado pascal (Pa). Porém, a tensão em newtons por metro
quaurauo representa valores mu ito pequenos (1 N/ m" = 0.000145 psi); assi m, a
tensão é mais comumente exrressa em meganewtolls por melro quadrado.
I MN/m 2 = lati N/m 2 = 145 rsi.1
A lei de Hooke pode ser considerada válida abaixo do limite elástico, onde a
tensão média é proporcional à deformação média,

(J

- = E = constante (1.4)
e

Os dados fundamentais à análise das propriedades mecãnicas de um metal dúctil são


obtidos de um ensaio de tração, realizado com um corpo de prova com geometria
adequada, ao qual aplica-se uma carga axial crescente até que o material se rompa. A
carga e a elongação são registradas a cada pequeno intervalo de tempo durante o teste
e podem ser expressas em termos de tensão e deformação médias, de acordo com as

+N. do T. Estas unidades são utilizadas apenas nos países de língua inglesa; entretanto, atualmente estão
convergindo para O sistema métrico internacionaL Em outras partes do livro será utilizada a terminologia lb l
pol' em vez de psi.

Document shared on www.docsity.com


equações da seção anterior. (Maiores detalhes sobre o ensaio de tração são dados no
Capo 9.)
Os dados obtidos deste ensaio são geralmente apresentados em uma curva
tensào-deformação. A Fig. 1.3 mostra uma curva tensão-deformação típica para mate-
riais tais como alumínio e cobre. A porção linear inicial da curva, O A , é a região
elástica na qual a lei de Hooke é obedecida. O ponto A é o limite elástico, que é
definido como a tensão máxima que o material pode suportar sem que apresente de-
formação permanente após a retirada da carga. A determinação do limite elástico não é
um simples trabalho de rotina, sendo, na realidade, bastante laboriosa e dependendo
grande mente do grau de sensibilidade do aparelho de medida. Sendo assim, ele é fre-
qüentemente substituído pelo lim ite d e p r o p o r c io n a lid a d e , ponto A ', que é a tensão
para a qual a curva tensão-deformação se desvia da linearidade. O módulo de elastici-
dade é o coeficiente angular à curva tensão-deformação nesta região.
Em engenharia, o limite que descreve o comportamento elástico utilizável é o
/im ite d e I 'S ( 'O { //l1 l'n to c o n v e n c io n a l, ponto B , definido como a tensão que produz uma
pequena quantidade de deformação permanente, geralmente igual a 0,002. Na Fig. 1,]
esta deformação permanente é o e . Quando o limite elástico é excedido, inicia-se a
deformação plástica. À medida que esta aumenta o metal se torna mais resistente,
(encruameuto) e a tensão necessária à eiongação do corpo de prova cresce com o
aumento de deformação, Eventualmente a carga atinge um valor máximo, sendo o
/im ite d e r e s is tê n c ia à tr u ç â o igual à carga máxima dividida pela área inicial do corpo
de prova. Para um metal dúctil, o diâmetro do corpo de prova começa a decrescer
rapidamente ao se ultrapassar a carga máxima; assim, a carga necessária para conti-
nuar a deformação diminui até que o material se rompa. Como a tensão média se
baseia na área inicial do corpo de prova, esta também decresce a partir da carga má-
xima até a fratura.

Os materiais submetidos a uma carga podem ser classificados quanto ao seu compor-
tamento mecânico em dúcteis ou frágeis, dependendo da sua habilidade de suportar ou
nào uma deformação plástica. A Fig. 1.3 é uma ilustração da curva tensão-deformação
de uni material dúctil. Um material completamente frágil se romperia próximo ao li-
mite elástico (Fig. l.4a), ao passo que um llaterial frágil, como o ferro fundido branco,
suportaria alguma deformação plástica (Fig. 1.4&). Uma ductilidade adequada é um
fator de importância em engenharia, pois permite ao material redistribuir tensões loca-
lizadas. Se as tensões localizadas em entalhes ou outros concentradores de tensão
acidentais não precisam ser considerados, pode-se projetar em termos de situações
estáticas com base em tensões médias. Entretanto, as tensões localizadas em materiais
frágeis continuam a aumentar se não existe um escoamento localizado, até que e
desenvolvam trincas em um ou mais pontos de concentração de tensão. que se propa-

Document shared on www.docsity.com


Fig. 1.4 ( a ) Curva tensão-deformação para ma-
terial totalmente frágil (comportamento ideal); ( b )
Deformação D e fo r m a ç ã o curva tensão-deformação para um metal com pe-
(a ) (b ) quena ductilidade.

gam rapidamente por toda a seção. Em um material frágil, mesmo não havendo con-
centradores de tensão, ainda assim a fratura ocorrerá inesperadamente, visto que a
tensão de escoamento e o limite de resistência à tração são praticamente idênticos.
É importante ressaltar que a fragilidade não é uma propriedade absoluta de um
metal. O tungstênio. por exemplo, é frágil à temperatura ambiente, porém se comporta
de maneira dúctil a temperaturas elevadas. Um metal frágil em tração pode apresentar-
se dúctil em compressão hidrostática. Além disto. um metal que seja dúctil em tração à
temperatura ambiente poderá tornar-se frágil na eventualidade de possuir entalhes ou
elementos fragilizantes tal como o hidrogênio ou Ser ensaiado a baixa temperatura ou a
altas taxas de carregamento.

Existem três maneiras genéricas segundo as quais um componente estrutural, ou ele-


mento de uma máquina. pode deixar de cumprir as funções para as quais foi projetado:
I. Deformação elástica excessiva
2. Escoamento ou deformação plástica excessiva
3. Fratura
Para que se faça um bom projeto é importante ter-se conhecimento dos tipos mais
comuns de falhas possíveis de ocorrer, porque é sempre necessário relacionar as car-
gas e dimensões do componente com alguns parâme~ros de significância para o mate-
rial, que limita a capacidade do componente de suportar uma carga. A cada tipo de
falha associam-se parâmetros específicos de expressiva importância.
Em geral. dois tipos de deformação elástica excessiva podem ocorrer:
I. detlexão demasiada sob condições de equilíbrio estável, como no caso de uma
viga sendo gradualmente carregada;
2. detlexão o u f la lllb a g e lll repentinas. sob condições de equilíbrio estável.
A deformação elástica excessiva de uma peça em um equipamento pode significar
uma falha como se esta peça fosse completamente fraturada. Como exemplo. pode-se
citar o rápido desgaste de mancais causado por eixos muito tlexíveis ou a intefierência
ou mesmo dano causado às peças pela excessiva detlexão de partes acopladas em
contato íntimo entre si. O tipo de falha que ocorre como uma tlambagem repentina
pode se manifestar em uma coluna delgada quando o carregamento axial excede a
carga crítica de Euler ou quando a pressão externa atuando em uma cápsula de pare- .
des finas ultrapassa um valor crítico. As falhas devido à deformação elástica excessiva
são controladas nào pela resistência do material. mas pelo seu método de elasticidade.
Geralmente. pouco controle metalúrgico pode ser exercido sobre este parâmetro. A
maneira mais efetiva de se aumentar a rigidez de um componente é variando-se as
dimensões da sua seção reta.
O escoamento ou deformação plástica de um metal ocorre quando seu limite elás-
tico é ultrapassado. O escoamento causa uma mudança de forma permanente. fazendo
com que o elemento não funcione mais adequadamente. O escoamento de um metal
dúctil sob condições de carregamento estático à temperatura ambiente raramente pro-
voca fratura. porque à medida que o metal se deforma ele encrua. e uma tensão cada

Document shared on www.docsity.com


vez maior é necessária para produzir posterior deformação. Para condições de carre-
gamento uniaxial, a falha devido à deformação plástica excessiva pode ser controlada
pelo -limite de escoamento convencional do metal. Este continua a ser o parâmetro
importante em condições mais complexas de carregamento; entretanto, deve-se utilizar
um critério de início de escoamento adequado (Seção 3.4). Os metais nâo mais apre-
sentam encruamento a temperaturas significantemente maiores que a temperatura am-
biente. Em lugar disto, podem-se deformar continuamente à tensão constante, apre-
sentando escoamento dependente do tempo conhecido como flu ê n c ia . Sob condições
de fluência, o critério de início de escoamento torna-se razoavelmente complicado pelo
fato da tensâo não ser proporcional à deformação e também porque as propriedades
mecânicas do material podem variar apreciavelmente quando em serviço. Este fenô-
meno complexo será tratado com maior detalhe no Capo 13.
A formação de uma trinca que pode ocasionar o rompimento completo da conti-
nuidade do componente caracteriza a fratura. Uma peça feita com um metal dúctil,
quando submetida a um carregamento estático, raramente se romperá por fratura como
um corpo de prova, pois primeiramente falhará por deformação plástica excessiva.
Entretanto, os metais falham por fratura de três maneiras: (I) fratura frágil repentina;
(2) fadiga ou fratura progressiva; (3) fratura retardada. Na seção anterior mostrou-se
que um material frágil sob carregamento estático rompe-se sem grande evidência ex-
terna de escoamento. Uma fratura frágil repentina pode também ocorrer em metais
dúcteis sob certas condições específicas. O aço-carbono estrutural é o exemplo mais
comum de um material que apresenta uma transição dúctil-frágil. A mudança do com-
portamento característico de fratura dúctil para o de fratura frágil é favorecida pelo
decréscimo de temperatura, aumento da taxa de carregamento e pela presença de um
estado complexo de tensões causado por um entalhe. Este problema é considerado no
Capo 14.
A maioria das fraturas em componentes de máquinas é devida à fa d ig a . A fratura
por fadiga ocorre em partes submetidas a tensôes alternadas ou flutuantes. O compo-
nente é levado à fratura quando uma trinca diminuta pontualmente localizada, geral-
mente em um entalhe ou concentrador de tensões, gradualmente se propaga pela seção
reta do material. A falha por fadiga ocorre sem nenhum sinal visível de escoamento em
tensões médias ou n o m in a is bem abaixo da resistência à tração do metal. Esta falha é
causada por uma tensão crítica lo c a liz a d a de muito difícil avaliação. Desta forma, os
projetos que levam em conta a falha por fadiga baseiam-se principalmente em relaçôes
empíricas que utilizam tensões nominais. A fadiga dos metais é discutida em maior
detalhe no Capo 12.
Um tipo comum de fratura retardada é a falha de m p tu r a s o h te n s â o , que ocorre
quando um metal é submetido a um carregamento estático a uma temperatura elevada
por um período de tempo longo. Dependendo da tensão e da temperatura pode não
haver escoamento antes da fratura. Um tipo similar de fratura retardada, na qual não
existe uma advertência pelo escoamento antes da fratura, ocorre à temperatura am-
biente quando um aço é carregado estaticamente em presença de hidrogênio.
Todos os materiais utilizados em engenharia apresentam uma certa variabilidade
nas propriedades mecânicas que podem ser influenciadas pelos diversos tipos de tra- "
tamentos técnicos ou processos de fabricação. Além disto, em geral existem incertezas
quanto à magnitude das cargas aplicadas e necessitam-se usualmente de certas apro-
ximações para o cálculo das tensões em todos os componentes, exceto os mais sim-
ples. Deve-se levar em conta a possibilidade de surgimento de cargas acidentais de alta
magnitude. Assim, para que se tenha uma margem de segurança e se evitem falhas
devido a causas imprevistas, é necessário que as tensões permitidas sejam menores do
que aquelas que levarão a falhas. Denomina-se geralmente te n s â o d e tr a b a lh o , ( T il" 'o
valor da tensão para um determinado material utilizado sob certas condições conside-
radas de segurança. Para carregamentos estáticos. a tensão de trabalho de um metal
dúctil é geralmente baseada na tensão de escoamento, (To, e para metais frágeis na
resistência máxima à tração. Os valores das tensões de trabalho são estabelecidos
( T il'

Document shared on www.docsity.com


por agências locais e federais e por organizações técnicas tais como a Sociedade Ame-
ricana de Engenheiros Mecânicos (ASME). A tensão de trabalho pode ser considerada
como a razão ntre a tensão de escoamento ou limite de resistência à tração e um
númerodenominadofálor d I ' s l'g llr a llÇ " a .

0 "0
O" =-
W No

onde a". = tensão de trabalho. kg/mm 2


ao = tensão de escoamento, kg/mm 2
a " = limite de resistência à tração, kg/mm 2
N o = fator de segurança baseado na tensão de escoamento
N u = fator de segurança baseado no limite de resistência à tração

o valor conferido ao fator de segurança depende de uma estimativa de todos os


fatores discutidos acima. U ma consideração especial deve ser dada às conseqüências
resultantes de uma falha. Para as falhas que podem originar perigos de vida, utilizam-
se fatores de segurança maiores. O tipo de equipamento também influencia a determi-
nação do fator de segurança. Em equipamentos militares, onde pouco peso é geral-
mente almejado, o fator de segurança pode ser menor que em equipamentos comer-
ciais, e em qualquer caso dependerá do tipo de carregamento a que será submetido.
Para um carregamento estático. como em um edifício, o fator de segurança seria
menor do que numa máquina que está submetida a vibrações e tensões flutuantes.

A tensão é definida como força por unidade de área. Na Seção 1.4, considerou-se que
a tensão era uniformemente distribuída sobre a área da seção reta do componente,
entretanto, em geral isto não ocorre. A Fig. 1.5a representa um corpo em equilíbrio
sob a ação das forças externas P " P 2 •... , P " . Existem dois tipos de forças externas
que podem atuar sobre um corpo: forças superficiais e forças de corpo. As forças
distribuídas sobre a supelfície do corpo. tais como a força hidrostática ou a pressão
exercida por um corpo sobre o outro, são denominadas fiJ r ç a s s lI p l'r fic ia is . As forças
distribuídas sobre o volume de um corpo, tais como forças gravitacional, magnética ou
de inércia (para um corpo em movimento). são denominadasforÇ"as d I' c o r p o . Os dois
tipos mais comuns de forças de corpo encontradas na engenharia são as forças centrí-

Fig. 1.5 (a ) Corpo em equilíbrio sob a ação das forças externas P I' .... P 5: (b ) forças atuantes na
parte 2.

Document shared on www.docsity.com


Fig. 1.6 Rebatimento da força total em suas
componentes.

fugas, devido a altas velocidades de rotação. e forças devido a gradientes de tempera-


tura no material (tensão térmica).
Na realidade. a força não se distribui uniformemente sobre qualquer seção reta do
corpo ilustrado na Fig. 1 .5 a . Para se obter a tensão atuante em um ponto O do plano
1 1 1 1 1 I. a parte I do corpo é removida e substituída pelo sistema de forças externas atuan-
tes sobre 111/11. permanecendo cada ponto da parte 2 do corpo na mesma posição que
ocupava antes da retirada da parte I. Esta situação é apresentada na Fig. 1 .5 b , onde
podemos supor que uma força t::,p atua sobre uma área L iA em torno do ponto O. O
valor limite da razão t::,p / L iA . à medida que a área L iA tende continuamente para zero, é
a tensão no ponto O do plano 1 1 1 1 1 I da parte 2 do corpo.

. I1 P
ltm - = a (1 .6 )
âA~O I1 A

A tensão estará na direção da força resultante P . formando, em geral. um certo ângulo


de inclinação com a área L iA . A mesma tensão atuante no ponto O do plano 11I11I seria
obtida se o corpo livre fosse construído através da remoção da parte 2 do corpo sólido.
Entretanto. esta tensão seria diferente para qualquer outro plano passando pelo ponto
O, como. por exemplo. o plano 1 1 1 1 .
É inconveniente utilizar uma tensão que seja inclinada a um ângulo arbitrário em
relação à área sobre a qual ela atua. A tensão total pode ser resolvida em duas compo-
nentes, uma te l1 s â o l1 0 r m a l ( 0 ') , perpendicular à área L iA . e uma te l1 s â o c is a lh a n te (7 ),
localizada no plano m l l 1 da área. A Fig. 1.6 ilustra o rebatimento da força P que forma
um ângulo e com a normal z ao plano da área A . A linha tracejada que faz um ângulo 4>
com o eixo." é a interseção do plano que contém a normal e P com o plano A . A
tensão normal é dada por

P
a = - cos 8 ( 1 .7 )
A

P
r = -sen8 (1.8)
A

Esta tensão cisalhante pode ainda ser resolvida em componentes paralelas às direções
x e." do plano.

P
r = A sen e sen 4>

Document shared on www.docsity.com


P
T = - sen ecos 4J
A

Desta forma, um plano pode ter. em geral, uma tensão normal e duas tensões cisalhan-
tes atuando sobre ele.

Na Seção 1.4, a deformação linear média foi definida como a razão entre a variação de
comprimento de uma certa dimensão e o seu comprimento inicial.

fJ t:..L L - Lo
e=-=-=---
Lo Lo Lo

onde e = deformação linear média


8 = elongação

Por analogia com a definição de tensão em um ponto. a deformação em um ponto é a


razão entre a elongação e o comprimento inicial, à medida que este último tende a
zero.
Em vez de se referir a variação de comprimento pelo comprimento original
costuma-se mais freqüentemente definir a deformação como a variação da dimensão
linear dividida pelo valor instantâneo desta dimensão.

A equação acima define a d e J i m l l a ç â o /la ll/m / ou I 'e r d a d e i m . A deformação verda-


deira, que é útil na abordagem de problemas sobre plasticidade e conformação dos
metais, será discutida mais detalhadamente no Capo 3. Para o momento deve-se ressal-
tar que as pequenas deformações. para as quais as equações de elasticidade são váli-
das, as duas definições de deformação fornecem valores idênticos.
A deformação elástica de um corpo ocasiona não apenas uma variação de com-
primento de um elemento linear do corpo, mas pode também resultar numa mudança
do ângulo inicial entre duas linhas. A variação angular em um ângulo reto é conhecida
como d e f o r m a ç â o c is a /h a /lle . A Fig. 1.7 ilustra a deformação produzida por um cisa-
Ihamento puro de uma das faces de um cubo. Com a aplicação da tensão cisalhante o
ângulo em A , que era originalmente de 90°, decresce de uma pequena quantidade e. A
deformação cisalhante y é igual ao deslocamento a dividido pela distância h entre os
planos. A razão a / h é também a tangente do ângulo através do qual o elemento sofreu
rotação. A tangente do ângulo e o próprio ângulo (em radianos) são iguais. para os

f
f
B k -,
I
f
I I
I I

Document shared on www.docsity.com


pequenos ângulos geralmente envolvidos. Assim, as deformações cisalhantes são ge-
ralmente expressas como ângulos de rotação.

a
')I = - = tan (J = (J
h

Crandall, S. H., and N. C. Dahl (eds.): "An Introduction to the Mechanics of Solids,"
McGraw-Hill Book Company, New York, 1959.
Drucker, D. C.: "Introduction to Mechanics of Deformable Solids," McGraw-Hill
Book Company, New York, 1967.
Freudenthal, A.: "Mechanics of Solids," John Wiley & Sons, Inc., New York, 1966.
Gillam, E.: "MateriaIs Under Stress," Butterworths & Co. (Publishers), Ltd., London,
1969.
Housner, G. W., and T. Vreeland: "The Analysis of Stress and Deformation," The
Macmillan..Company, New York, 1966.
Polakowski, N. H., and E. J. Ripling: "Strength and Structure of Engineering Materiais,"
Prentice-Hall, Inc., Englewood Cliffs, N.J., 1964.

Document shared on www.docsity.com


Relações entre Tensão e Deformação
para o Comportamento Elástico

o intuito deste capítulo é apresentar as relações matemáticas que definem a tensão e a


deformação em um ponto e as relações entre a tensão e a deformação em um sólido
que obedece à Lei de Hooke. Embora parte dos assuntos tratados neste capítulo seja
uma revisão das informações abordadas em resistência dos materiais, a matéria se
estende além deste ponto, considerando a tensão e a deformação em três dimensões e
uma introdução à teoria da elasticidade. A matéria incluída neste capítulo é importante
para a compreensãQ da maioria dos aspectos fenomenológicos da metalurgia mecânica,
merecendo especial atenção dos leitores não familiarizados com a disciplina. Devido
às limitações de espaço não foi possível desenvolver ". matéria até o ponto em que se
pudessem resolver problemas mais amplamente. Este material, entretanto, propor-
ciona uma base para melhor compreensão da literatura matemática da metalurgia me-
cânica.
Ressalta-se o fato de que as equações que descrevem o estado de tensões ou
deformações em um corpo são aplicáveis a qualquer material contínuo, seja um sólido
elástico ou plástico, seja um fluido viscoso. Na realidade esta parte da ciência é deno-
minada m e c â n i c a d o c o n t í n u o . As equações que relacionam tensão e deformação
denominam-se e q u a ç õ e s c o n s t i t u t i v a s porque dependem do comportamento do mate-
rial. Neste capítulo só consideraremos as equações constitutivas para um sólido elás-
tico.

Como foi descrito na Seção 1.8, em geral é mais conveniente resolver as tensões
atuantes em um ponto em componentes normais e cisalhantes. Freqüentemente as
componentes das tensões cisalhantes formam ângulos arbitrários com os eixos coorde-
nados, sendo conveniente, então, rebatê-Ias novamente em duas outras componentes.
O caso geral é mostrado na Fig. 2.1. As tensões atuando perpendicularmente às faces
do cubo elementar são identificadas pelo subíndice, que identifica também a direção na
qual a tensão atua. Isto é, (J x é a tensão normal que atua na direção x . Por convenção,
tensões normais de tração são aquelas cujos valores são maiores que zero, sendo com-
pressivas as que possuem valores menores que zero. 1I0das as tensões normais da Fig.
2.1 são trativas.

Document shared on www.docsity.com


Fig. 2.1 Tensões atuantes em um cubo
ay unitário elementar.

Para descrever as tensões cisalhantes são necessários dois subíndices. O primeiro


indica o plano e o segundo a direção na qual a tensão atua. Como um plano é mais
facilmente definido pela sua normal, o primeiro subíndice se refere a esta normal. Por
exemplo, T yz é a tensão cisalhante no plano perpendicular ao eixo y, na direção do eixo
Z, e T y X é a tensão cisalhante no plano perpendicular ao eixo y, na direção do eixo x .
U ma tensão cisalhante é positiva se é dirigida para o sentido positivo na face
positiva de um cubo unitário. (E também positiva se aponta para o sentido negativo na
face negativa de um cubo unitário.) Todas as tensões cisalhantes na Fig. 2 . 2 a são
positivas independentemente do tipo de tensões normais presentes. Uma tensão cisa-
lhante é negativa se é dirigida para o sentido negativo de uma face positiva de um cubo
unitário, e vice-versa. As tensões cisalhantes mostradas na Fig. 2.2b são todas negati-
vas.
A notação para tensões acima apresentada é a utilizada por Timoshenko' e a
maioria dos autores americanos no campo da elasticidade. Entretanto várias outras
notações têm sido utilizadas, algumas das quais estão relacionadas abaixo.
~
(J x (J 1 1 Xx XX P xx

(J y (J 2 2 Y y yy P yy

(J z (J 33 Zz zz pzz

'x y (J 1 2 Xy xy P xy

'y z (J 23 Yz yz P yz

'z x ( J 31 Zx fi pzx

+y +y

Fig. 2.2 Convenção de sinais para a


tensão cisalhante. (a) Positiva; (b)
negativa;

Document shared on www.docsity.com


Pode ser visto, pela Fig. 2.1, que devem ser definidas nove quantidades para que
se estabeleça o estado de tensões em um ponto. Elas são U'x, U'v, U'z, TXY' Txz, Tvx, TyZ'
Tz x e T 11' Entretanto, podem-se fazer algumas simplificações. Se admitirmos que as
Z

áreas das faces do cubo unitário são pequenas o bastante para que a variação de ten-
sões seja desprezada, pode-se então mostrar que, tomando-se a soma dos momentos
das forças em relação ao eixo z , T = Tv x .
X ))

Assim, o estado de tensões em um ponto é completamente descrito por seis compo-


nentes: três tensões normais e três tensões cisalhantes, U'x, U' v' U'z, Txv, Txz, T yz'

Muitos problemas podem ser simplificados ao se considerar um estado de tensões


bidimensional. Isto é feito freqüentemente na prática quando uma das dimensões do
corpo é pequena em relação às demais. Por exemplo, ao se carregar uma chapa fina,
no plano da chapa não existirá tensão atuando na direção perpendicular à superfície da.
chapa. O sistema de tensões será constituído por duas tensões normais U'x e U'v e uma
tensão cisalhante T xv' Denomina-se t e n s ã o p l a n a à condição de se possuir tensões
nulas em uma das direções principais do material.
A Fig. 2.3 mostra uma placa fina cuja espessura é normal ao plano do papel. Para
que conheçamos o estado de tensões no ponto O da placa, devemos ser capazes de
descrever as componentes de tensão em O para qualquer orientação dos eixos coorde-
nados passando através daquele ponto. Para tal, considera-se um plano oblíquo,
normal ao plano do papel, cuja normal faz um ângulo e com o eixo do x . Seja x ' a dire-
ção normal a este plano e y ' uma direção pertencente ao plano oblíquo. Admite-se que
o plano mostrado na Fig. 2.3 está a uma distância infinitesimal de O e que o elemento é
tão pequeno que se desprezam as variações de tensões ao longo dos lados do cle-
mento. As tensões atuantes no plano oblíquo são a tensão normal U' e a tensão cisa-
lhante T. OS co-senos diretores entre x ' e x e x ' e y são, respectivamente, I e m . Pela
geometria da Fig. 2.3, I = cos e e m = sen e . Se A é a área do plano oblíquo, as áreas
dos lados do elemento perpendiculares a x e y são AI e Am.

Document shared on www.docsity.com


S e ja m S x e Slj a s c o m p o n e n t e n a s d ire ç õ e s x e y d a te n s ã o to ta l a tu a n d o n a fa c e
in c lin a d a . T o m a n d o -se o s o m a tó rio d a s fo r ç a s n a s d ire ç õ e s x e y, o b t ê m - s e :

S"A = O "xA 1 + 'x y A r n

SyA = O "yA rn + 'x y A I

Sx = O " x c o s ( ) + 'x y s e n ( )
S y = O " y s e n( ) + 'x y c o s ()

O "x ' = Sx c o s () + Sy se n ()
O "x' = O "Xc o s2 () + O " y s e n 2 ( ) + 2 ,x y se n () c o s () ( 2 .2 )

'x 'Y ' = Sy c o s () - Sxsen ()


2 2
'x 'Y ' = 'x i C O S () -se n () + (O "y - O "Jse n () c o s () ( 2 .3 )

A te n s ã o (J!J' p o d e s e r e n c o n tra d a s u b s titu in d o -s e O + 7 1 '/ 2 p o r O n a E q . ( 2 .2 ) , um a vez


que (J!J' é o rto g o n a l a (J x ' .

O "y' = O " Xc o s 2 (() + n /2 ) + O "y se n 2 (() + n /2 ) + 2 ,x y s e n ( ( ) + n /2 ) c o s ( ( ) + n /2 )

m a s , s e n ( ( ) + n /2 ) = c o s () ecos ( ( ) + n /2 ) = -se n ()

A s E q s . ( 2 .2 ) a ( 2 .4 ) s ã o a s tra n s fo rm a d a s das equações d e te n s ã o q u e fo rn e c e m as


te n s õ e s n o s is te m a c o o rd e n a d o x 'y ' s e s ã o c o n h e c id a s a s te n s õ e s n o s is te m a c o o rd e -
n a d o xy e o â n g u l o O.
P a r a a u x i l i a r n o s c á lc u l o s é c o n v e n ie n te e x p re ssa r as equações d e ( 2 .2 ) a ( 2 .4 ) e m
t e r m o s d o â n g u lo d u p l o 2 0 . I s t o p o d e s e r f e i t o a t r a v é s d a s s e g u in te s id e n tid a d e s :

cos 2 () = c _ o _ s_ 2 _ { )_ + _ 1
2

2 () 1 - cos 2{)
sen = ------
2

2 se n () c o s () = sen 2{)
cos2 () - sen 2 () = cos 2{)

Document shared on www.docsity.com


a ,,+ a y a ,,- a y
a . = --- - --- cos 28 - 't" sen 28 ( 2 .6 )
y 2 2 "y

a y -a "
't " " .y . = - - 2 - sen 28 + 't " " y cos 28 ( 2 .7 )

É im p o rta n te n o ta r-s e que U x' + u y• = Ux + U y• A s s im , a s o m a d a s te n s õ e s n o rm a is


e m d o is p la n o s p e rp e n d ic u la re s é u m a q u a n tid a d e in v a r ia n te , is to é , e la é in d e p e n d e n te
d a o r i e n t a ç ã o o u d o â n g u l o (J.
A s E q s . ( 2 .2 ) e ( 2 .3 ) e s u a s e q u i v a l e n t e s , E q s . ( 2 .5 ) e ( 2 .7 ) , d e s c r e v e m a s te n s õ e s
n o rm a l e c is a lh a n te e m q u a lq u e r p la n o a tra v é s d e u m p o n to e m u m c o rp o s u je ito a u m
e s t a d o p l a n o d e t e n s õ e s . A F i g . 2 .4 a p r e s e n t a a v a r i a ç ã o d a s te n s õ e s n o r m a l e c i s a -
I h a n t e c o m (J p a r a o e s t a d o p l a n o d e t e n s õ e s b i a x i a l m o s t r a d o n o t o p o d a f i g u r a . O s
s e g u in te s fa to s im p o rta n te s podem s e r n o ta d o s n e s ta fig u ra :
I. O s v a lo re s m á x im o e m ín im o d a te n s ã o n o rm a l n o p la n o o b líq u o a tra v é s do
p o n to O o c o rre m quando a te n s ã o c is a lh a n te é n u la .
2 . O s v a lo re s m á x im o e m ín im o p a ra a m b a s a s te n s õ e s n o rm a l e c is a lh a n te o c o r-
re m p a ra â n g u lo s d e fa s a d o s de 90°.
3 . A t e n s ã o c i s a l h a n te m á x i m a o c o r r e em um â n g u lo a m e io c a m in h o e n tre as
t e n s õ e s n o r m a is m á x i m a e m í n i m a .
4. A v a r ia ç ã o das te n s õ e s n o rm a l e c is a lh a n te o c o rre n a fo rm a de um a onda
s e n o i d a l, c o m p e r ío d o (J = 1 8 0 ° . E s ta s re la ç õ e s s ã o v á lid a s p a ra q u a lq u e r e s ta d o
d e te n s õ e s .

t u , = 2 .0 0 0 Ib /p o l'

~t
T P ----!-

C 7j 1 u , . : ~ 6 0 0 0 Ib /p o L '

I~ U";ru- 2.000
----r-- Ib /p o L '

" 1 2 .0 0 0 tO)-

1 0 .0 0 0

o 8 .0 0 0
.e-
fl
,:
6 .0 0 0
"
c.,
.t::
Oi 4 .0 0 0
'" o
" .. ,

~~ I-
2 .0 0 0
Oi
E
oc :
o
O H io

I :
'~

" ,.,::l
c:

I-
o
: 0, graus

o".
E
o
r- 4 5 °----+ -4 5 °--j
()

I_ 90° ·1
- 6 .0 0 0

- 8 .0 0 0

Document shared on www.docsity.com


P a ra q u a lq u e r e s ta d o d e te n s õ e s é se m p re p o s s ív e l d e fin ir u m n o v o s is te m a c o o r-
d e n a d o c u jo s e ix o s s ã o p e rp e n d ic u la re s a o s p la n o s n o s q u a is a s te n s õ e s n o rm a is m á -
x im a s a tu a m e n ã o e x is te m te n s õ e s c is a lh a n te s a tu a n d o . E s te s p la n o s s ã o d e n o m in a -
d o s p la n o s p r in c ip a is , e s u a s te n s õ e s n o r m a is te n s õ e s p r in c ip a is . P a ra a te n s ã o p la n a
b id im e n s io n a l e x is tirã o d u a s te n s õ e s p rin c ip a is , (T, e (T2, q u e o c o rre m e m â n g u lo s d e fa -
s a d o s d e 9 0 ° ( F i g . 2 .4 ) . P a r a o c a s o m a i s g e r a l d e u m a t e n s ã o trid im e n s io n a l, e x is t i r ã o
trê s te n s õ e s p rin c ip a is , (T" (T2 e (T3. Por convenção, (T, é a lg e b ric a m e n te a m a io r d a s
te n s õ e s p r i n c i p a is , e n q u a n to que (T 3 é o v a lo r a lg e b ric a m e n te m e n o r. A s d ire ç õ e s das
te n s õ e s p r in c ip a is s ã o o s e ix o s p r in c ip a is I, 2 e 3 . E m b o ra g e ra lm e n te o s e ix o s p rin c i-
p a is 1 , 2 e 3 n ã o c o in c id a m c o m o s e ix o s c a rte s ia n o s , p a ra d iv e rs a s s itu a ç õ e s e n c o n -
tra d a s n a p rá tic a e s ta c o in c id ê n c ia p o d e e x is tir, d e v id o à s im e tria d e c a rg a e d e fo rm a -
ção. A e s p e c ific a ç ã o d a s te n s õ e s p r in c i p a i s e s u a s d ire ç õ e s p ro p o rc io n a u m a m a n e ira
c o n v e n ie n te d e s e d e s c re v e r o e s ta d o d e te n s õ e s e m u m p o n to .
U m a v e z q u e , p o r d e fin iç ã o , u m p la n o p rin c ip a l n ã o c o n té m te n s ã o c is a lh a n te ,
s u a s re la ç õ e s a n g u la re s c o m re s p e ito a o s e ix o s c o o rd e n a d o s xy p o d e m s e r d e te rm in a -
d a s e n c o n tra n d o -s e o s v a lo re s d e 8 a tr a v é s d a E q . ( 2 .3 ) , f a z e n d o - s e T X 'y ' = O.

T x ic o S 2 8 -se n
2
8) + (<Jy - o -x )se n 8 cos 8 = O

Txy sen 8 cos 8 ·! ( s e n 2 8 ) 1


----- = --- = - ta n 2 8
<J x - <J y cos 2 8 - sen 2 8 cos 28 2

ta n 2 8 = ~ ~
o-x-<Jy

J á q u e ta n 2 8 = ta n (7 1 " + 2 8 ), a E q . ( 2 .8 ) te m d u a s ra íz e s ; 8, e 82 = 8, + 1 1 7 1 " /2 . E s t a s
ra íz e s d e fin e m d o is p la n o s m u t u a m e n te p e rp e n d ic u la re s onde não o c o rre c is a lh a -
m e n to .
A E q . ( 2 .5 ) fo rn e c e rá a s te n s õ e s p rin c ip a is quando o s v a lo re s de cos 28 e sen 28
( d a E q . ( 2 .8 ) ) fo re m n e la s u b s titu íd o s . E s te s v a lo re s d e c o s 2 8 e s e n 2 0 s ã o o b tid o s da
E q . ( 2 .8 ) a t r a v é s d a s re la ç õ e s d e P itá g o ra s :

S u b s titu in d o -s e e s te s v a lo re s n a E q . ( 2 .5 ) , o b t é m - s e a e x p re ssã o p a ra a s te n s õ e s p rin -


c ip a is m á x im a e m ín im a , p a ra u m e s ta d o d e te n s õ e s b id im e n s io n a l (b ia x ia l).

Document shared on www.docsity.com


A d ire ç ã o d o s p la n o s p rin c ip a is é e n c o n tra d a d e te rm in a n d o -se o v a lo r d e 8 n a E q .
(2 .8 ). D e v e -se to m a r u m c u id a d o e sp e c ia l p a ra e sta b e le c e r se 2 8 e stá e n tre O e 7 T /2 ,7 Te
3 7 T /2 ,e tc . A F ig . 2 .5 m o stra u m a m a n e ira sim p le s d e se e sta b e le c e r a d ire ç ã o d a m a io r
te n sã o p rin c ip a l, 0"1' E sta te n sã o d e v e rá lo c a liz a r-se e n tre a te n sã o n o rm a l a lg e b ric a -
m e n te m a io r e a d ia g o n a l d e c isa lh a m e n to . P a ra p e rc e b e r e ste fa to in tu itiv a m e n te c o n -
sid e re q u e , se n ã o e x istisse m te n sõ e s c isa lh a n te s, e n tã o , O"x = 0"1' S e so m e n te a tu a s-
se m a s te n sõ e s c isa lh a n te s, u m a te n sã o n o rm a l (a te n sã o p rin c ip a l) e x istiria a o lo n g o
d a d ia g o n a l d e c isa lh a m e n to . S e a m b a s a s te n sõ e s, n o rm a l e c isa lh a n te , a tu a m n o
e le m e n to , e n tã o 0"1 se lo c a liz a e n tre a s in flu ê n c ia s d e ste s d o is e fe ito s.
P a ra e n c o n tra r a te n sã o c isa lh a n te m á x im a , re to m a m o s à Eq. (2 .7 ),
d ife re n c ia n d o -a e m re la ç ã o à 8 e ig u a la n d o a z e ro .

C o m p a ra n d o c o m o â n g u lo p a ra o q u a l o c o rre m o s p la n o s p rin c ip a is, E q . (2 .8 ), ta 1 1 2 8 n


= 2 7 x j(O " x -
O "y ), v e rific a m o s q u e a ta n 2 8 . é o re c íp ro c o d a ta n 2 8 n c o m sin a l n e g a -
tiv o . Isto sig n ific a q u e 2 8 . e 2 8 " sã o o rto g o n a is e q u e 8 . e 8 n e stâ o se p a ra d o s n o e sp a ç o
p o r 4 5 °. A m a g n itu d e d a te n sã o c isa lh a n te m á x im a é e n c o n tra d a su b stitu in d o -se a E q .
(2 .1 0 ) n a E q . (2 .7 ).

U m m é to d o g rá fic o m u ito ú til p a ra re p re se n ta r o e sta d o d e te n sõ e s e m u m p o n to , n u m


p la n o o b líq u o a tra v é s d o p o n to , fo i p ro p o sto p o r O. M o h r. A s tra n sfo rm a d a s das
e q u a ç õ e s d e te n sã o , E q . (2 .5 ) e E q . (2 .7 ), p o d e m se i" re a rra n ja d a s, fo rn e c e n d o

(J x + (J y (J x -(J y
(J x ' - --2 - = --2 - cos 2 8 + 'x y s e n 28

(J y -(J x
'y 'x ' = --2 - se n 2 8 + 'x y cos 2 8

P o d e m o s re so lv e r p a ra O " x ' e m te rm o s d e 7 X 'y ' e le v a n d o -se c a d a u m a d e sta s equações


a o q u a d ra d o e so m a n d o -a s,

(J x
--2 -
+ (J y ) 2
+ 2
=
((J x
--2 -
- (Jy ) 2
+ 2
( (J x ' - 'x 'y ' 'x y

A E q . (2 .1 2 ) é a e q u a ç ã o d e u m c írc u lo d a fo rm a (x - h ) 2 + y 2 = r2 . A ssim , o c írc u lo


d e M o h r é u m c írc u lo c o m c o o rd e n a d a s O " x ', 7 X'y ' c o m ra io ig u a l a 7 1 1 1 a x e o c e n tro
d e slo c a d o p a ra a d ire ita d a o rig e m d e ( O " x + O " y ) / 2 .
P a ra se tra b a lh a r c o m o c írc u lo d e M o h r, e x iste m a p e n a s a lg u m a s p o u c a s re g ra s
b á sic a s q u e d e v e m se r le m b ra d a s. U m â n g u lo 8 n o e le m e n to físic o é re p re se n ta d o p o r
2 8 n o c írc u lo d e M o h r. O m e sm o se n so d e ro ta ç ã o (a fa v o r o u c o n tra a d o s p o n te iro s
d o re ló g io ) d e v e se r u sa d o e m c a d a c a so . U m a o u tra c o n v e n ç ã o p a ra e x p re ssa r a
te n sã o c isa lh a n te é u tiliz a d a a o se d e se n h a r e in te rp re ta r o c írc u lo d e M o h r. E sta
c o n v e n ç ã o d iz q u e u m a te n sã o c isa lh a n te q u e c a u sa u m a ro ta ç ã o n o se n tid o h o rá rio

Document shared on www.docsity.com


CT
y

--
t TyX= TXY

~jD r~CTx
~t

F ig . 2 .6 (a) C írc u lo d e M o h r p a ra u m e sta d o d e te n sõ e s b id im e n sio n a l; (b) c írc u lo de M ohr


u tiliz a n d o p ó lo d a s n o rm a is.

e m re la ç ã o a q u a lq u e r p o n to n o e le m e n to físic o é re p re se n ta d a a c im a d o e ix o h o riz o n -
ta l d o c írc u lo d e M o h r. U m p o n to n o c írc u lo d e M o h r fo rn e c e a d ire ç ã o e m a g n itu d e
d a s te n sõ e s n o rm a l e c isa lh a n te e m q u a lq u e r p la n o d o e le m e n to físic o .
A F ig . 2 . 6 0 ilu stra o d e se n h o e a u tiliz a ç ã o d o c írc u lo d e M o h r p a ra o e sta d o d e
te n sõ e s e sp e c ífic o m o stra d o a c im a , à e sq u e rd a . A s te n sõ e s n o rm a is sã o re p re se n ta d a s
a o lo n g o d o e ix o d o s x e a s te n sõ e s c isa lh a n te s a o lo n g o d o e ix o d o s y . A s te n sõ e s
c o n tid a s n o s p la n o s n o rm a is a o s e ix o s x e y sã o re p re se n ta d a s c o m o p o n to s A e B . A
in te rse ç ã o d a lin h a AB c o m o e ix o d o s U' d e te rm in a o c e n tro d o c írc u lo . N o s p o n to s D
e E a te n sã o c isa lh a n te é n u la , a ssim , e ste s p o n to s re p re se n ta m o s v a lo re s d a s te n sõ e s
p rin c ip a is. O â n g u lo e n tre U' x e U'l n o c írc u lo d e M o h r é 2 8 . Já q u e e ste â n g u lo é
m e d id o n o se n tid o c o n trá rio a o d a ro ta ç ã o d o s p o n te iro s d o re ló g io , n o e le m e n to físic o
U', a tu a se g u n d o u m a d ire ç ã o q u e fa z c o m o e ix o d o s x u m â n g u lo 8 ta m b é m n o se n tid o
a n ti-h o rá rio (v e r e sq u e m a su p e rio r à d ire ita ). A s te n sõ e s e m q u a lq u e r o u tro p la n o c u ja
n o rm a l fa ç a u m â n g u lo 8 c o m o e ix o d o s x p o d e ria m se r e n c o n tra d a s a tra v é s d o c írc u lo
d e M o h r d a m e sm a m a n e ira .
U m m é to d o ' b a sta n te sim p le s d e se d e te rm in a r a s te n sõ e s e m q u a lq u e r p la n o
a tra v é s d o c írc u lo d e M o h r c o n siste n a d e te rm in a ç ã o d o p o n to d e n o m in a d o p ó l o d a s

'D . C . D ru c k e r, l n l r u d u c l i o n 10 M c c h a n i c s o f D c fo n n a b lc S o lid s , p p . 2 2 6 -2 2 8 , M c G ra w -H ill B ook C om pany,


N e w Y o rk , 1 9 6 7 .

Document shared on www.docsity.com


normais. As tensões nos planos x e y e no maior plano principal estão mostradas
novamente na Fig. 2.6b. O pólo é determinado pela linha que passa pelo ponto A,
paralela ao eixo dos x, e pela linha que passa por B , paralela ao eixo dos y do elemento
físico. Observe que agora uma linha paralela a está inclinada de um ângulo () em
(T I

relação ao eixo dos x, em vez de 2(). Isto se deve ao fato de que a rotação angular em
torno do pólo é a metade da rotação angular em torno do centro do círculo. Assim, a
rotação angular em torno do pólo das normais é exatamente a mesma do elemento fí-
sico. Por exemplo. se quisermos conhecer as tensões que atuam num plano cuja nor-
mal é de 30° com no sentido contrário ao da rotaçâo dos ponteiros do relógio,
(T I

devemos simplesmente desenhar uma linha a partir do pólo de normais e obter as


tensões normal e cisalhante atuando naqu~le plano.

O estado de tensões tridimensional consiste em três tensões principais desiguais


atuando em um ponto. Este é um estado triaxial de tensões. 8'e duas das três tensões
principais são iguais, o estado de tensões é denominado cilíndrico, enquanto que se
todas as três tensões principais são iguais, o estado de tensões é dito ser hidrostático
o u esférico.
A determinação das tensões principais para um estado de tensões tridimensional
em termos das tensões atuando em um sistema de coordenadas cartesiano arbitrário é
uma extensão do método descrito na Seção 2.3 para o caso de duas dimensões. A Fig.
2.7 representa um corpo livre elementar, similar àquele mostrado na Fig. 2. I, com um
plano diagonal J K L de área A . Considera-se que o plano J K L é um plano principal que
corta o cubo unitário. A tensão principal que atua normal ao plano J K L é ( T . Sejam I ,
m e n os co-senos diretores de ( T , isto é, os co-senos dos ângulos entre ( T e os eixos x, y
e z . Já que o corpo livre da Fig. 2.7 deve estar em equilíbrio, as forças que atuam em
cada uma de suas faces devem-se equilibrar. As componentes de (Tao longo de cada
um dos eixos são Sx, Sy e Sz.

Sx = a I Sy = am
I I

Area K O L = AI Area JOK= Am

Document shared on www.docsity.com


-'xvi + ((J - (Jv)m - 'zvn = O (2 .1 3 b )

- 'xz I - 'v z m + ((J - (Jz)n = O (2.13c)

As Eqs. (2.13) são três equações lineares homogêneas em termos de 1 , 1 1 1 e n. A


única solução não-trivial pode ser obtida igualando-se a zero o determinante dos coefi-
cientes de I, 111 e 1 1 , uma vez que I, 111 e n não podem ser todos zero.

(J-(Jx -'vx -tzx

-'xv (J-(Jv -'zv =0


-Txz -'vz (J - (Jz

(J3 - ((Jx + (Jv + (Jz)(J2 + ((Jx(Jv + (Jv(Jz + (Jx(Jz - 'x/ - 'v/ - 'x/)(J

-(Jx(Jv(Jz + 2,xv'vz'xz - (Jx'v/ - (Jv'x/ - (Jz'x/) = O

As três raízes da Eq. (2.14) são as três tensões principais a I , a2 e a3' Para determinar
a direção, com relação aos eixos originais x, y e z, na qual as tensões principais atuam
é necessário substituir a" a2 e a3, uma de cada vez, nas três equações da Eq. (2.13).
As equações resultantes devem ser resolvidas simultaneamente para I , 111 e n, com a
ajuda da relação auxiliar 1 2 + 1112 + n 2= I.
Verifique que existem três combinações de componentes de tensão na Eq. (2.14)
que constituem os coeficientes da equação cúbica. Já que os valores destes coeficien-
tes determinam as tensões principais, eles obviamente não variam com mudanças nos
eixos coordenados. Assim, eles são coeficientes invariantes.

(Jx + (Jv + (Jz = /1

(Jx(Jv + (Jv(Jz + (Jx(Jz - 'x/ - 'x/ - 'v/ = /2


2 'xv'vz'xz-(Jx'vz 2 2 2 /
(Jx(Jv(Jz+ -(Jv'xz -(Jz'xv = 3

o primeiro invariante de tensão, I" foi visto anteriormente para o estado bidimensio-
nal de tensões. Fica, assim, proposta a relação bastante útil de· que a soma das tensões
normais para qualquer orientação no sistema coordenado é igual à soma das tensões
normais para qualquer outra orientação. Por exemplo,

Na discussão acima nós desenvolvemos uma equação para a tensão l num plano
oblíquo especial, um plano principal no qual não existe tensão cisalhante. Desenvol-
vamos agora as equações para as tensões normal e cisalhante em q u a lq u e r plano oblí-
quo cuja normal tem co-senos diretores I, m e n com os eixos x, y e z. Poderemos
utilizar a Fig. 2.7 uma vez mais se compreendermos que para esta situação geral a

Document shared on www.docsity.com


tensão total no plano S não será coaxial com a tensão normal, e que S2 = (J"2 + r. A
tensão total pode, mais uma vez, ser desmembrada nas componentes S x, S y e S z, de
maneira que

Fazendo-se o somatório das forças nas direções x, y e z, chegamos às expressões para


as componentes ortogonais da tensão total:

Sx = (J x l + 'y x m + 'z x n ( 2 .1 7 0 )

Sy = 'x y l + (J y m + 'z y n (2.17b)

Sz = 'x z l + 'y z m + (J z n (2.17c)

Para encontrar a tensão normal no plano oblíquo, é necessário


(J " determinar as
componentes de S x, S y e S z na direção da normal ao plano oblíquo.
Assim,

ou, após substituição das Eqs. (2.17) e simplificando com T XY = T yI , etc.,

(J = (J x 1 2 + (J y m
2
+ (J z n
2
+ 2 ' x y lm + 2 'y z m n + 2 'z x n l

A magnitude da tensão cisalhante no plano oblíquo é dada por r = S 2 - (J"2. Para se


obter a magnitude e direção das duas componentes da tensão cisalhante no plano oblí-
quo é necessário rebater as componentes de tensão Sx, Sy e Sz nas direções y' e z'
contidas no plano oblíquo!. Este desenvolvimento não será realizado aqui porque as
equações pertinentes podem ser mais facilmente derivadas pelos métodos apresenta-
dos na Seção 2.6.
Já que o escoamento plástico envolve tensões cisalhantes, é importante identificar
os planos nos quais as tensões cisa/hantes máximas ou principais ocorrem. Na nossa
discussão do estado de tensões bidimensional vimos que T max ocorria num plano a
meio caminho entre os dois planos principais. Assim, é mais fácil definir os planos
principais de cisalhamento em termos dos três eixos principais 1, 2 e 3. A partir de r
= S2 - u2, pode-se mostrar que

onde I, m e 1 1 são os co-senos diretores entre a normal ao plano oblíquo e os eixos


principais.
As tensões cisalhantes principais ocorrem para as seguintes combinações de co-
senos diretores que dividem ao meio o ângulo entre dois dos três eixos principais:

I m n
,

O
-+JI2 -+JI2 'I =
(J 2 -

2
(J 3

+JI
- 2 O +JI2
- '2 = ---
(J I -

2
(J 3
(2 .2 0 )

<.

+JI2
- +- JI2 O '3 =
(J I -

2
(J 2

Document shared on www.docsity.com


D a ordo com o que foi convencionado, <TI é algebricamente a maior tensão principal
normal. <T3 é algebricamente a menor tensão principal normal e T2 possui o maior valor
d tensão cisalhante. sendo denominada te lls ã o e is a /h a llre m á x im a . T
I I U l . ] '.

:\ tensão cisalhante máxima é importante nas teorias de início de escoamento e nas


operações de conformação metálica. A Fig. 2.8 mostra os planos das tensões cisalhan-
tes principais para um cubo cujas faces são os planos principais. Observe que para
ada par de tensões principais existem dois planos de tensão cisalhante principal que
e localizam na bissetriz do ângulo formado entre as direções das tensões principais.

(T I - (T 2

T3 = -2--

Vários aspectos da análise da tensão, tais como as equações para transformação das
componentes de tensão de um conjunto de eixos coordenados para outro sistema de
coordenadas ou a existência de tensões principais, tornam-se mais simple( quando se
reconhece o fato de que a tensão é um tensor de segunda ordem. Diversas técnicas
para a manipulação dos tensores de segunda ordem não requerem um conhecimento
profundo de cálculo tensorial. Assim, torna-se vantajoso aprender alguma coisa sobre
propriedades dos tensores.
Começaremos considerando a transformação de um vetor (um tensor de primeira
ordem) de um sistema de coordenadas para outro. Considere o vetar S = S/, + 5 2i2 +
5 3 i 3 , estando os vetores unitários i" i 2 , i 3 nas direções Xj, X 2 e X 3 ' (De acordo com a
convenção e por conveniência, ao se trabalhar com quantidades tensoriais os eixos
coordenados serão designados x X 2 , etc., sendo x, equivalente a x, X 2 a .y , etc.) S 10 S 2
I,

e 53 são componentes de 5 em relação aos eixos X l, X 2 e X 3 ' Desejamos agora encontrar

Document shared on www.docsity.com


as componentes de S com relação aos eixosx'"x'2,x'3, Fig. 2.9. A componenteS'1 é
obtida rebatendo-se S" S 2 e S 3 ao longo da nova direção x' I'

onde a 'l é o co-seno diretor entre X 'I e X I> a '2 é o co-seno diretor entre x'J e X2, etc.
Analogamente,

S~ = a21S1 + a22 S2 + a23 S3 (2 .2 2 b )

(2 .2 2 c )
S3 = a31S] + a32 S2 + a33 S3

Podemos notar que o primeiro subíndice para cada co-seno diretor em cada uma das
Eqs. (2.22) é o mesmo; assim, estas equações podem ser escritas como

3 3 3
s; = ; L a ljS j S~ = L a2jSj S~ = L a3jSj
j= 1 j= l j= l

3
S; = LaijS/i = 1,2,3) = a j1 S l + aj2S2 + ai3S3
j= 1

A Eq. (2.23) pode ser escrita de maneira ainda mais compacta, utilizando-se a notação
de subíndices de Einstein,

(2.24)

A notação de subíndices é uma maneira muito útil de expressar os sistemas de eqoa-
ções de uma forma mais compacta, sendo geralmente utilizada na mecânica do contí-
nuo. A repetição de um subíndice em um mesmo termo, como na Eq. (2.24) (neste
caso o subíndicej). representa um somafório em relação àquele subíndice. Exceto com
indicação contrária, o somatório do outro índice é de I a 3.
No exemplo acima i é um subíndice livre e, na forma expandida, diste uma equa-
ção para cada valor de i. O índice repetido é denominado subíndice de operação, e sua
única finalidade é indicar o somatório. As mesmas três equações seriam obtidas se
uma outra letra fosse utilizada como subíndice de operação, por exemplo, S'j = airS,.
significaria a mesma coisa que a Eq. (2.24).

Document shared on www.docsity.com


Nós vimos, na Seção 2.5, que a determinação completa do estado de tensões num
ponto em um sólido requer a especificação de nove componentes de tensão nas faces
ortogonais do elemento no ponto. U ma quantidade vetorial requer apenas a especifica-
ção de três componentes. Obviamente, a tensão é mais complicada que um vetor. As
quantidades físicas que se modificam com os eixos coordenados da maneira indicada
na Eq. (2.18) são denominadas te/1S0res de segunda ordem. A tensão, deformação e
várias outras quantidades físicas são tensores de segunda ordem. Uma quantidade es-
calar, que não se modifica com a transformação dos eixos, requer somente um único
número para a sua especificação. Escalares são tensores de ordem zero. As quantida-
des vetoriais requerem três componentes para a sua especificação, sendo assim tenso-
res de primeira ordem. O número de componentes necessárias para especificar uma
quantidade é de 3", onde n é a ordem do tensor'. A constante elástica que relaciona a
tensão com a deformação num sólido elástico é um tensor de quarta ordem com 81
componentes no caso mais geral.
O produto de dois vetores A e B com componentes (A" A 2, A 3) e (B I> B 2, B 3),
respectivamente. resulta num tensor de segunda ordem. T i} . As componentes deste
tensor podem ser apresentadas numa matriz 3 x 3.

Tu T I2 T I3
T ij = T 21 T 22 T 23
T 31 T 32 T 33

Transformando-se os eixos, as componentes dos vetores se tornam ( A ' I, A ' 2, A ' 3) e


Nós desejamos encontrar a relação entre as nove componentes de T u e
( B ' I, B ' 2, B ' 3)'
as nove componentes de Tu após a mudança de eixos.

A ;B ~ = ( a ij A J ( a k IB [)

T i~ = a ij a k l T j[

Como a tensão é um tensor de segunda ordem, as componentes do tensor-tensão


podem ser escritas como

( )I I ()12 () 13 ()x 'xy 'xz


( ) ij = () 2 1 ()22 () 23 'yx ()y 'yz
() 31 ()32 () 33 'zx 'zy ()z

A transformação do tensor-tensão au do sistema de eixos x I, X2, X3 para os eixos x' I,

é dada por
-,'2, X'3

onde i e j são subíndices de operação e k e I são subíndices livres. Para expandir a


equação tensorial fazemos primeiramente o somatório paraj = I, 2, 3:

IUma relação mais precisa é N = k". onde N é o número de componenles necessárias para a descrição de um
tensor da n-ésima ordem num espaço de dimensâo k. Para um espaço bidimensional, somenle quatro compo-
nentes sâonecessárias para descrever um tensor de segunda ordem.

Document shared on www.docsity.com


(J k l = a k la l1 ( J U + ak1a12 (J 1 2 + a k la 1 3 (J 1 3

+ a k 2 a l1 ( J 2 1 + a k 2 a I2 (J 2 2 + a k 2 a 1 3 (J 2 3

+ a k 3 a l1 ( J 3 1 + a k 3 a Z 2 (J 3 2 + a k 3 a Z 3 (J 3 3

Existirá uma equação similar à (2.27) para cada valor de k e I. Assim, para encontrar a
equação da tensão normal na direção X 'I , seja k = 1 e 1 = 1

(Ju = auau(Ju + aUa12 (J 1 2 + aUa13 (J 1 3

+ a12 au ( J 21 + a12 a12 ( J 22 + a12 a13 (J 2 3

+ a 1 3 a l1 ( J 3 1 + a 1 3 a 1 2 (J 3 2 + a 1 3 a I3 (J 3 3

Pode-se verificar que, escrevendo-se esta equação com a simbologia utilizada na Seção
ela se recluzirá à Eq. (2.18).
2 .5 ,
Analogamente, se desejarmos determinar a tensão cisalhante no plano x', na dire-
ção z ', isto é, Tx,z', seja k = 1 e 1 = 3

(J 1 3 = a U a 3 1 ( J ll + aUa32 (J 1 2 + aUa33 (J 1 3

+ a 1 2 a 3 1 (J 2 1 + a 1 2 a 3 2 (J 2 2 + a 1 2 a 3 3 (J 2 3

+ a 1 3 a 3 1 (J 3 1 + a I3 a 3 2 (J 3 2 + a 1 3 a 3 3 (J 3 3

Talvez valha a pena enfatizar novamente que não importa que letras são utiliza-
das como subíndices na notação tensorial. Assim, a transformada de um tensor de
segunda ordem poderia muito bem ser escrita como T'sl = asr/ltqTpq, onde Tp !, são as
componentes nos eixos originais e T ' si são as componentes referidas aos novos eixos.
A lei de transformação para um tensor de terceira ordem é escrita como

A matéria apresentada até agora nesta seção é, na realidade, pouco mais do que
notação tensorial. Ainda assim, já ganhamos um poderoso método resumido para es-
crever as equações da mecânica do contínuo, que são freqüentemente difíceis de serem
manejadas. (O estudante notará que isto facilitará bastante o problema de memorizar
equações.) Aprendemos também uma técnica útil para transformar uma quantidade
tensorial de um conjunto de eixos para outro. Existem apenas alguns fatos adicionais
sobre tensores que precisamos considerar. O estudante interessado em se aprofundar
um pouco mais neste tópico pode consultar algumas obras de aplicações orientadas em
tensores cartesianos1•
Uma quantidade útil na teoria tensorial é o delta de Kronecker, a i} . O delta de
Kronecker é um tensor isotrópico unitário de segunda ordem, ou seja, tem componen-
tes idênticas em qualquer sistema de coordenadas.

I O
6 ij = O I ~ = {I i=j
i# j
O O I O

A multiplicação de um tensor ou produtos de tensores por O u causa 'uma redução de


dois na ordem do tensor. Isto se denomina contraçiío do tensor. A regra é apresentada

Document shared on www.docsity.com


aqui sem prova, porém, são fornecidos exemplos para que possamos fazer uso disto
em discussões posteriores. Consideremos o produto de dois tensores de segunda or-
dem, A pq B Esta multiplicação produziria um tensor de quarta ordem, nove equa-
u lC '

ções cada, com nove termos. Se multiplicarmos o produto por a,,,1"O este se reduzirá a
um tensor de segunda ordem.

A "regra" consiste em substituir por q e eliminar a


ll' O processo de contração pode
q1c'

ser repetido diversas vezes. Assim, na primeira contração, A B a a se reduz a


pq V lc q lC pv

Ap" B vqa e então a A B


pv pq que é um tensor de ordem zero (um escalar).
pq,

Se aplicarmos a contração ao vetor de tensão de segunda ordem

obteremos o primeiro invariante do tensor (um escalar).


Os invariantes do tensor de tensão podem ser prontamente determinados a partir
da matriz de suas componentes. Uma vez que (T12 = (T21, etc., o tensor áe tensão é um
rensor simérrico.

() 1 1 (}12 (}13

( } ij = (}1 2 (}22 (}23

() 13 (}23 (}33

O primeiro invariante é o traço da matriz, isto é, a soma dos termos da diagonal


principal:

O segundo invariante é a soma dos secundários principais. O secundário de um ele-


mento de uma matriz é o determinante de ordem imediatamente mais baixa que per-
manece quando se suprimem a linha e a coluna do elemento em questão. Assim, to-
mando cada um dos termos principais (diagonal principal) em ordem e suprimindo
aquela linha e coluna, temos:

Finalmente, o terceiro invariante é o determinante da matriz inteira dos componentes


do tensor-tensão.
Como um exemplo das vantagens da contração e conceitos fornecidos pela nota-
ção tensorial derivaremos novamente as equações para a tensão principal, que foram
desenvolvidas na Seção 2.5. O leitor deve notar a facilidade com que se pode perder o
significado físico na manipulação matemática. Um teorema básico da teoria tensorial
afirma que existe uma certa orientação dos eixos coordenados tal que as componentes
de um tensor simétrico de segunda ordem serão todas nulas para i 4=.i. Isto equivale a
dizer que os conceitos de tensão principal e eixos principais são inerentes à caracterís-
tica tensorial da tensão.
As três equações de somatório de forças, Eqs. (2.17), podem ser escritas na forma

onde o subíndice n é usado para denotar que estamos lidando com os ângulos à normal
de um plano oblíquo. Se fazemos com que o plano oblíquo seja um plano principal e a

Document shared on www.docsity.com


Entretanto, uma vez que a tensão principal está na direção da normal ao plano oblí-
quo, a lli = a p i,assim,

Já que a p1 = I, a p2 = /11, e Oji = O quando} f- i , a expansão da Eq. (2.32) fornecerá as


três Eqs. (2.13). Para que a Eq. (2.32) tenha uma solução não trivial em a p;, o determi-
nante dos coeficientes deve desaparecer, o que resulta em

(Jx - (Jp 'xy 'xz


I (Jij - (Jp6 jil = 'yx (Jy-(Jp 'yz =0
'zx 'zy (Jz-(Jp

que leva à equação cúbica (2.14). Os coeficientes desta equação em notação tensorial
são

/1 = (Jii

/2 = t(CTikCT ki - CTii(Jkk)

/3 = i(2(JijCT jk CT ki - 3(JijCT jiCTkk + CTiiCTjjCT kk )

O fato de aparecerem nestas equações apenas subíndices de operação indica a natu-


reza escalar dos invariantes do tensor-tensão.

A discussão sobre a representação de um estado de tensão bidimensional através do


círculo de Mohr apresentada na Seção 2.4 pode ser estendida a três dimensões. A Fig.
2.10 mostra como um estado triaxial de tensões, definido pelas três tensões principais,
pode ser representado pelos círculos de Mohr. Pode ser mostrado! que todas as condi-
ções de tensão possíveis no corpo encontram-se na área sombreada entre os círculos
na Fig. 2.10.
Embora O único significado físico do círculo de Mohr seja o fato de fornecer uma
representação geométrica das equações que expressam a transformação das compo-
nentes de tensão em diferentes conjuntos de eixos, ele representa uma maneira muito
conveniente de visualizar o estado de tensão. A Fig. 2.11 apresenta diversos estados
de tensão comuns, representados através do círculo de Mohr. Verifique que, com a
aplicação de uma tensão de tração (T2, fazendo ângulo reto com uma tensão (TI já
existente (Fig. 2.llc), ocorre um decréscimo na tensão cisalhante principal em dois

IA. Nadai, Theory of FlolV alld Fracture of Solids, 2" ed., pp. 96-98, McGraw-Hill Book Company, New
York, 1950.

Document shared on www.docsity.com


dos três conjuntos de planos nos quais atua uma tensão cisalhante principal. Se tivés-
semos utilizado um círculo de Mohr bidimensional, não ficaria claro o fato de que a
tensão cisalhante máxima não decresce para valores inferiores ao que possuiria em
tração uniaxial. A tensão cisalhante máxima será reduzida apreciavelmente se uma
tensão de tração for aplicada na terceira direção principal (Fig. 2.lld). Para o caso
limite de três tensões triaxiais iguais (tensão hidrostática), o círculo de Mohr se reduz
a um ponto e não existem tensões cisalhantes atuando em nenhum plano no corpo. A
eficácia das tensões de tração biaxiais e triaxiais em reduzir as tensões cisalhantes leva
a um decréscimo considerável na ductilidade do material, uma vez que a deformação
plástica é produzida por tensões cisalhantes. Assim, a fratura frágil está invariavel-
mente associada com tensões triaxiais desenvolvidas em um entalhe ou concentrador
de tensão. Entretanto, a Fig. 2.lle mostra que, se tensões compressivas forem aplica-
das lateralmente a uma tensão trativa, a tensão cisalhante máxima será maior do que
para o caso de uma tensão uniaxial em tração ou compressão. Devido ao elevado valor
da tensão cisalhante em relação à tensão de tração aplicada, o material tem uma exce-
lente oportunidade de se deformar plasticamente sem fraturar quando submetido a este
estado de tensões. Na conformação plástica dos metais faz-se um importante uso deste
fato. Por exemplo, obtém-se maior ductilidade na trefilação de um arame através de
uma matriz do que em simples tração uniaxial, já que a reação do metal com a matriz
produz tensões compressivas laterais.

o deslocamento de pontos em um meio contínuo pode ser resultado da translação;


rotação e deformação de um corpo lígido. A deformação de um sólido pode ser com-
posta de dilataçüo (variação de volume) ou distorçüo (variação de forma). As situa-
ções que envolvem translação e rotação são geralmente consideradas na seção de me-
cânica denominada dinâmica. As pequenas deformações encontram-se no campo da
teoria da elasticidade, enquanto que as deformações maiores são consideradas na plas-
ticidade e na hidrodinâmica. As equações desenvolvidas nesta seção são basicamente
geométricas, sendo, assim, aplicáveis a todos os tipos de meios contínuos.
Considere um corpo sólido em coordenadas fixas x, y, Z (Fig. 2.12) e que uma
combinação de deformação e movimento desloca o ponto Q para Q', cujas novas
coordenadas são x + li, Y + 1', Z + \I'. As componentes do deslocamento são 1 1 , 1', \1',

Document shared on www.docsity.com


6c.
?

Fig. 2.11 Círculo de Mohr (tridimensional) para vários estados de tensões. ( a ) Tração uniaxiaJ;
compressão uniaxial;
(b ) (c ) tração biaxial; tração triaxial (desigual); ( e ) tração uniaxial mais
(d )
compressão biaxial.

~ 'Y I

1, ,:
,
"" !
z + W""" iY + v
, ,
, ,
--------------~
X+ U

Document shared on www.docsity.com


sendo o vetor u(J = f(II, \', \ I ' ) o deslocamento de Q. Se o vetor-deslocamento for
constante para todas as partículas no corpo, então não haverá deformação. Entretanto,
11; é, em geral, diferente de partícula para partícula, sendo o deslocamento uma função
da distância, 11; = }rX j). Para sólidos elásticos e pequenos deslocamentos, lIj é uma
função linear de X j (deslocamentos homogêneos) e as equações de deslocamento são
lineares. Porém, para outros materiais o deslocamento pode não ser linear com a dis-
tância, o que leva a relações matemáticas bastante incômodas.
Para iniciar a nossa discussão sobre deformação, consideremos um caso simples
unidimensional (Fig. 2.13). Antes da deformação os pontos A e B estão separados por
uma distância d x . Quando uma força é aplicada na direção x , A se move para A ' e B
para B '. Uma vez que o deslocamento t i é uma função de x neste caso unidimensional,
B é deslocado um pouco mais que A, já que está mais longe da extremidade fixa. A
deformação normal é dada por

OU
dx + -dx - dx
!J.L A'B' - AB OX
e = -= -----
x L AB OX

Para este caso unidimensional o deslocamento é dado por t i = e ~,r. Para que isto
seja generalizado para três dimensões, cada uma das componentes do deslocamento
deve ser relacionada linearmente com cada uma das três coordenadas iniciais do
ponto.

li = exxx + exyY + exzz


v = eyxx + eyyY + eyzz
w = ezxx + ezyY + ezzz (2.34)

(2.35)

Os coeficientes que relacionam o deslocamento com as coordenadas do ponto no


corpo são as componentes do tensor-deslocamento relativo. Três destes termos podem
ser prontamente identificados como as deformações normais.

ow
ezz =-
oz
Entretanto, os outros seis coeficientes necessitam de maiores considerações.
Considere um elemento no plano x y que foi distorcido devido à atuação de tensões
isalhantes (Fig. 2.14). O elemento sofreu uma distorção angular. O deslocamento dos
pontos ao longo da linha A D é paralelo ao eixo dos x, entretanto esta componente do
deslocamento aumenta em proporção à distância a partir da origem, ao longo do eixo

Document shared on www.docsity.com


_ -,c '
-------- :
o 0 '...._ - - - - C! I
I
I
I
lU
,
I

I exy I

I
,
I

I I
I

! _ - -a-'
I _ ---------- eyx

DD' au
e = --= -
xy DA ay

e
BB'
= --= -
av
yx AB OX

Estes deslocamentos cisalhantes são pOSItIVOSquando provocam a rotação de uma


linha, de um eixo positivo para um outro eixo positivo. Através de métodos análogos,
pode-se ver que as demais componentes do tensor-deslocamento são

au au ou
ax oy az
ex x ex y ex z
eij = ey x ey y ey z
ov av ov (2.39)
ez x ez y ez z
ox ay oz
aw aw ow
-
ax oy oz
Em geral, as componentes do deslocamento, tais como etc., produzem eXY, eyX '

tanto deformação cisalhante quanto rotação do corpo rígido. A Fig. 2.15 ilustra diver-
sos casos. Já que precisamos identificar aquela parcela do deslocamento que resulta
em deformação, devemos subdividir o tensor-deslocamento em uma contribuição da
deformação e outra da rotação. Felizmente, um postulado básico da teoria tensorial
afirma que qualquer tensor de segunda ordem pode ser decomposto em um tensor
simétrico e outro anti-simétrico.

(2 .4 0 )

(2.41 )

1 U i uJ
"C"J' =2 (aax + aax J
.
,
',)
e é denominado tensor-deformação

_ 1(au; _ auj)
e é denominado tensor-rotação
w iJ . =
2 aXj OXi

Document shared on www.docsity.com


y y y
exy = eyx exy = - eyx exy = Y

eyx = O
---7
------ I
---7
I
I
I
I
-1
, I ,
,
I

I
I
I
I
! ~ Y /'....
I I

"
I I

I
I
I
I
I
,
I

I I
I
I I

""
I
I I
I

x x x
--_J
{ai (b l (c )

Fig. 2.15 Alguns exemplos de deslocamento com cisalhamento e rotação. ( a ) Cisalhamento puro
sem rotação; ( b ) rotação pura sem cisalhamento; (c ) cisalhamento simples.

au ~ eu + av) ~ (au + aw)


ax 2 ay ax 2 az ax
ex y ex z
Exx
1 eu av) av ~ eu + aw) (2.42)
eij = ey x ey y ey z
2 ay + ax ay 2 az ay
ez x ez y ez z

~ eu + aw) ~ ev + aw) aw
2 az ax 2 az ay az
o ~eu _ aV) ~ eu _ aw)
2 ay ax 2 az ax
Wx x wx y Wx z

wij= wy x Wy y wy z ~ ev _ au) o ~ ev _ aw) (2.43)


2 ax ay 2 ôz ay
wz x wz y Wz z

~ ew _ au) ~ ew _ av) o
2 ax ôz 2 ay az
Pode-se notar que Sij é um tensor simétrico já que Sij = Sj;, isto é, SI!! = SIZ> etc. Wij é
um tensor anti-simétrico uma vez que Wij = -Wj;, isto é, W;r.v = -W,IJI' Se Wij = O , a de-
formação é denominada irrotacional.
Substitui ndo-se a Eq. (2.41) na Eq. (2.35), obtêm-se as equações genéricas do des-
locamento

Na Seção 1.9, a deformação cisalhante )' foi definida como a variação angular ,
total de um ângulo reto. Referindo-se à Fig. 2.15a, )' = e I!! + e VI = SI!! = 2 SI!!'
+ SYI

Esta definição de deformação cisalhante. )'ij = 2 Sij, é denominada deformação cisa-


Ihanfe de engenharia.

au au
Yxy = ay + ax
aw au
Yxz = ax + az
ôw av
Yyz = ôy + az

Document shared on www.docsity.com


Esta definição de deformação cisalhante é comu.mente utilizada na elasticidade de en-
genharia. Entretanto, a deformação cisalhante definida de acordo com~ a Eq. (2.45)
não é uma quantidade tensorial.
Devido às vantagens óbvias, obtidas nas transformações de tensores pelos méto-
dos discutidos na Seção 2.6, torna-se interessante utilizar o tensor-deformação con-
forme definido pela Eq. (2.42). Uma vez que o tensor-deformação é um tensor de se-
gunda ordem, ele apresenta todas as propriedades anteriormente descritas para a ten-
são. Assim, um tensor-deformação pode ser transformado de um conjunto de eixos
coordenados para um novo sistema de eixos por

Por simplicidade, as equações para deformação, análogas àquelas para tensão, podem
ser escritas diretamente, substituindo-se e por ( J e y/2 por 'T . Assim, a deformação
normal em um plano oblíquo é dada por

[Compare a equação acima com a Eq. (2.18).]


Por completa analogia com as tensões, é possível definir um sistema de eixos
coordenados ao longo dos quais não há deformações cisalhantes. Estes eixos são eixos
de deformação principal. Para um corpo isotrópico, as direções das deformações prin-
cipais coincidem com as das tensões principais'. Um elemento orientado ao longo de
um dos eixos de deformação principal se submeterá a uma extensão ou contração pu-
ras, sem qualquer rotação ou deformação cisalhante. As três deformações cisalhantes
principais são as raízes da equação cúbica

/1 = Bx + By + Bz

/2 = BxBy + ByB z + BzB x - t(yx/ + Yz/ + Yy/)

/ 3-_B xB yBz + l
4YxyYzxYyz
_ l(
4 BxYyz
2 + ByYzx
2 + BzYxy
2)

As direções das deformações principais são obtidas das três equações análogas às Eqs.
(2.13),

2l(B x - B) + myxy + nyxz = O

lyxy + 2m(By - B) + nyyz = O

lyxz + my yz + 2n(B z - B) = O

Continuando com a analogia entre as equações de tensão e deformação, as equações


para as deformações cisalhantes principais podem ser obtidas da Eq. (2.20).

Ymax = Y2 = B1 - B3

Y3 = B1 - B2

IPara uma derivação deste ponto ver C. T. Wang, Applied Elaslicily, pp. 2f>.27, McGraw-Hill Book Company,
New York, 1953.

Document shared on www.docsity.com


Geralmente, a deformação de um sólido envolve variação em volume e 11a forma.
Assim, precisamos determinar quanto desta deformação é devido a estas contribuições.
A deformação l'o/umétrica ou dilatação cúbica é a variação em volume por unidade de
volume. Considere um paralelepípedo retangular de arestas dx, dy e dz. O volume na
condição deformada é (I + e x )(I + e y )(l + e z ) dx dy dz, uma vez que somente as de-
formações normais resultam em mudanças volumétricas. A deformação volumétrica t.-
é

ó. =( _1__+_8x_)_(1__+_8 _)(.1_+_8z_) _dx_dy_dz__-d_x_d_y_dz


y

dx dy dz

a qual para pequenas deformações, após desprezar os produtos de deformações, se


reduz a

Observe que a deformação volumétrica é igual ao primeiro invariante do tensor-


deformação, t.- = e x + Bv + e z = 101 + 102 + 103' Podemos também definir (e x + e J l +
eJ/3 como a dejórmação média ou a componente hidrostática (esférica) da deforma-
ção.

Aquela parte do tensor-deformação que é envolvida em variação de forma em vez


de mudança volumétrica é denominada deformação-desvio e'u. Para se obter as
deformações-desvio, simplesmente subtraímos em de cada uma das componentes da
deformação normal. Assim,

8x - 8m 8 xy 8 xz

cij = 8 yx 8y - 8m 8 yz

8 zx 8 zy Cz - em

A divisão do tensor-deformação total em deformações-desvio e dilatacional é dada em


notação iensorial por

Por exemplo, quando são as deformações principais, (i = j) , as deformações-desvio


EU

são 10'11 = 1011 - e " " 10'22 = 1022 - e m , 10'33 = 1033 - e m ' Estas deformações apresentam
elongações ou contrações ao longo dos eixos principais que mudam a forma do corpo a
volume constante.

Document shared on www.docsity.com


Exceto em alguns casos que envolvem tensões de contato, não é possível medir dire-
tamente as tensões. Desta maneira, medidas experimentais de tensão são, na reali-
dade, baseadas em deformações medidas que são convertidas para tensões por meio da
Lei de Hooke e das relações mais gerais que são dadas na Seção 2.11. O dispositivo
mais empregado para medidas de deformação é o extensômetro SR-4, que opera por
medida de resistência elétrica de um minicircuito colado à amostra.' Estes extensôme-
tros ( s lr a in g a g e s ) são constituídos de vários enrolamentos de fios finos ou folhas finas
de composição especial, que são colados à superfície do corpo a ser estudado. Quando
o corpo é deformado, os fios no extensômetro também se deformam, alternando, as-
sim, a sua resistência elétrica. A variação em resistência, que é proporcional à defor-
mação, pode ser determinada com precisão através de um simples circuito de ponte de
Wheatstone. A alta sensibilidade, estabilidade, relativa resistência mecânica e facili-
dade de utilização tornam os extensômetros à resistência uma importante ferramenta
na determinação de deformações.
Em problemas práticos de análise experimental de tensões, é freqüentemente im-
portante determinar as tensões principais. Se as direções principais forem conhecidas,
os extensômetros poderão ser orientados nestas direções, determinando-se pronta-
mente as tensões principais. Em geral, não se conhecem as direções das deformações
principais, sendo então necessário determinar a orientação e magnitude das deforma-
ções principais através de deformações medidas em direções arbitrárias. Devido ao
fato de que nenhuma tensão age perpendicularmente a uma superfície livre, as medidas
por extensômetros envolvem um estado de tensões bidimensional. O estado de defor-
mações é completamente determinado se CI' cye YIY podem ser medidos. Entretanto,
os extensômetros podem registrar diretamente apenas deformações lineares, enquanto
que deformações cisalhantes devem ser determinadas indiretamente. Assim, utiliza-se
freqüentemente, para a determinação de esforços triaxiais, três extensômetros separa-
dos por ângulos fixos, dispostos em roseta, como mostra a Fig. 2.16. Leituras de ex-
tensômetros com três valores de (J diferentes fornecem três equações simultâneas, si-
milares à Eq. (2.53), das quais se obtêm os valores de CI, Bve YIY' A versâo bidimen-
sional da Eq. (2.47) pode então ser utilizada para determinar as deformações princi-
paIs.

O círculo de Mohr é um método mais conveniente para determinar as deforma-


ções principais através de leituras de extensômetros do que a utilização das três equa-
ções simultâneas a três variáveis. Para a construção de um círculo de Mohr represen-

Fig. 2.16 Extensômetro roseta tí-


pico. (a ) Retangular; (b ) delta.

Para um tratamento de extensômetros e outras técnicas de análise de tensão experimental, ver


1 J. W. Dally e
W. F. Riley, Experimental Stress Analysis, McGraw-Hill Book Company, New York, 1965.

Document shared on www.docsity.com


tativo de deformação, valores da deformação linear e são representados em um gráfico
ao longo do eixo dos x e a deformação cisalhante dividida por 2 ao longo do eixo dos y.
A Fig. 2.17 mostra a construção' de um círculo de Mohr para a roseta de extensôme-
tros ilustrada na parte superior da figura. Três extensômetros, situados nas posições
definidas pelos ângulos arbitrários a e {3,fornecem leituras de ea, eb e eco O objetivo é
determinar a magnitude e a orientação das deformações principais e ] e e 2 '

I. Ao longo de um eixo arbitrário X 'X ' traçam-se linhas verticais aa, b b e cc,
correspondentes às deformações ea, eb e eco
2. De qualquer ponto da linha bb (extensômetro do meio) traça-se uma linha DA
fazendo ângulo a com bb e interceptando aa no ponto A. Da mesma forma,
traça-se D e interceptando cc no ponto e .
3. Constrói-se um círculo através de A, e e D. O centro deste círculo é O, de-
terminado pela interseção dos bissetores perpendiculares a e D e A D .
4. Os pontos A , B e e no círculo fornecem os valores de e e y / 2 (medidas atra-
vés do novo eixo dos x que passa por O) para os três extensômetros.
5. Os valores das deformações principais são determinados pela interseção do
círculo com o novo eixo dos x que passa por O. A relação angular de e ] com o
extensômetro a é metade do ângulo A O P no círculo de Mohr ( A O P = 2 0 ) .

'G. Murphy. J . App/. Mech., vol. 12, p. A209. 1945: F. A. McClintock, Proc. Soco Exp. 5tress Ano/., vol. 9.
p. 209. 1951.

Document shared on www.docsity.com


Após introduzido o conceito de que o tensor de deformação pode ser dividido em uma
deformação hidrostática ou média e uma deformação de desvio, torna-se importante
considerar o significado físico de uma operação similar para o tensor de tensão. Assim,
o tensor de tensão total pode ser dividido em um tensor de tensão hidrostático ou mé-
dia, (Til" que envolve somente tração ou compressão pura, e um tensor-tensão desvio,
( T 'ij, que representa a tensão cisalhante no estado de tensões total (Fig. 2.18). Por ana-
logia direta com a situação apresentada para a deformação, a componente hidrostática
do tensor de tensão produz apenas variações volumétricas elásticas, não causando de-
formação plástica. Medidas experimentais mostram que a tensão de escoamento dos
metais é independente da tensão hidrostática, embora a deformação de fratura seja for-
temente influenciada por esta componente de tensão. Devido ao fato da tensão-desvio
envolver tensões cisalhantes. ela é importante na geração da deformação plástica.
No Capo 3 veremos que a tensão-desvio é útil na formulação de teorias de escoamento.

2CT
x - CT
y - CT
z
'xy 'xz
3

2CT
y - CT
z - CT
x
a~j = 'yx 'yz
3

2CT z - CT x - CT y
'zx 'zy
3

Document shared on www.docsity.com


Pode-se notar prontamente que a tensão-desvio envolve tensões cisalhantes. Por
exemplo, referindo-se a um sistema de eixos principais, tem-se
a - 'ij

e<J! - <Jz) + e<J! - <J3)

onde 7 3 e 7 2 são tensões cisalhantes principais.


Já que é um tensor de segunda ordem, ele possui eixos principais. Os valores
a - 'ij

principais da tensão-desvio são as raízes da equação cúbica'

onde J h J 2 e J 3 são os i nvariantes do tensor da tensão-desvio. J 1 é a soma dos ter-


mos pri ncipais na diagonal da matriz de componentes de a - ' i j .

Até o momento a nossa discussão de tensão e deformação tem sido completamente


geral e aplicável a qualquer meio contínuo. Agora, se queremos relacionar o tensor de
tensão com o tensor de deformação, devemos introduzir as propriedades do material.
Equações deste tipo são denominadas e q u a ç õ e s c O l1 s f if u f iv a s . Neste capítulo conside-
raremos apenas equações constitutivas para sólidos elásticos. Inicialmente, devemos
ainda considerar somente sólidos elásticos isotrópicos.
No Capo I vimos que a tensão elástica se relaciona linearmente com a deformação
elástica através do módulo de elasticidade (Lei de Hooke).

onde E é o módulo de elasticidade em tração ou compressão. Enquanto uma força de


tração na direção x produz uma extensão ao longo daquele eixo, produz também uma
contração nas direções transversais y e z . Encontrou-se experimentalmente que a de-
formação transversal é uma fração constante da deformação na direção longitudinal.
Esta constante, denotada pelo símbolo I', é conhecida como I 1 1 Ó d lllo d e P o t s S O I / .

Document shared on www.docsity.com


Para fins de cálculo utiliza-se somente o valor absoluto do módulo de Poisson que,
para um material elástico perfeitamente isotrópico, é 0,25, mas para a maioria dos
metais seu valor! se aproxima de 0.33.
Consideremos um cubo unitário submetido a tensões normais U 'x , U 'y e U 'z e ten-
sões cisalhantes T X Y ' T y Z e T z x para desenvolvermos as relações tensão-deformação para
um estado de tensões tridimensional. Uma vez que as tensões elásticas são pequenas e
o material é isotrópico, podemos admitir que a tensão normal U 'x não produz deforma-
ção cisalhante nos planos x , y ou z e que uma tensão cisalhante não produz defor- TXY

mações normais nestes mesmos planos. Podemos, então, aplicar o princípio da super-
posição 2 para determinar a deformação produzida por mais de uma componente de
tensão. Por exemplo, a tensão U 'x produz uma defomração normal E x e duas deforma-
ções transversais E = - V E x e E = - v e x o Assim,
y z

D e jim n a ç â o D e jim n a ç ã o D e fo r m a ç ã o
na na na
T ensão
d ir e ç ã o x d ir e ç â o ." d ir e ç ã o z

ax vax vax
ax = --
EX=E
E
,= - - E E
Z E
va, a, va,
a, E x= -7f E=- E z= -E
' E
vaz vaz az
az E x= -7 E
,= - - E ê=-
z E

A constante de proporcional idade G é o l1 1 ó d u lo d e e la s tic id a d e c is a lh a n te ou o I 1 1 Ó -


d u lo d e r ig id e z . Valores de G são geralmente determinados por ensaios de torção.
Vimos que as equações tensão-deformação para um sólido elástico is o tr ó p ic o en-
volvem três constantes, E , G e lJ. Valores típicos destas constantes para alguns metais
estão apresentados na Tabela 2. I.
Uma outra constante elástica é o l1 1 ó d u lo d e c O l1 1 p r e s s ib ilid a d e c ú b ic a ou m ó d u lo
d e e la s tic id a d e v o lu m é tr ic a , K , que é a razão da pressão hidrostática pela dilatação
que esta produz

(J -p 1
K = ~ = -= -
~ ~ fi

'W. Koster e H. Franz, M e ta l/. R e v ., vol. 6, pp. I-55, 1961.


'O princípio da superposição estabelece que duas deformações podem ser combinadas por superposição direta.
A ordem de aplicação não tem influência alguma na deformação final do corpo.

Document shared on www.docsity.com


T a b e la 2 .1 V a lo r e s típ ic o s d a s c o n sta n te s e lá stic a s de
m a te r ia is iso tr ó p ic o s à te m p e r a tu r a a m b ie n te

M ó d lllo de M ó d u lo de C o e fic ie n te
e la s tic id a d e c is a lh a m e n to de
k g /m m ' (X 1 0 -3) k g /m m ' (X IO -3 ) P o is s o n

Ligas de alumínio 7,4 0,31


Cobre 11,2 0,33
Aço-carbono baixa
liga 20.4 0,33
Aço inoxidável
( 18-8) 1 9 ,7 6,7 0 ,2 8
Titânio 12,0 4 ,6 0,31
Tungstênio 4 0 ,8 16.0 0,27

onde - p é a pressão hidrostática e f3 a compressibilidade.


Várias relações úteis podem ser derivadas entre as constantes elásticas E, G, ve

K. Por exemplo, se adicionamos as três equações (2.64),

1 - 2v
Li = -- 30"
E m

K = O"m = E
Li 3(1 - 2 v )

Outra relação importante é a expressão que relaciona E , G e v . Esta equação é desen-


volvida geralmente em um curso básico sobre resistência dos materiais!.

E
G = --
2(1 + v)
Diversas outras relações podem ser desenvolvidas entre estas quatro constantes elás-
ticas isotrópicas. Por exemplo,

9K 1 - 2 G /3 K
E = --- v=
1 + 3 K /G 2 + 2 G /3 K

G = _ 3 (_ I_ -_ 2 _ v )_ K E
K= ---
2(1 + v) 9 - 3 E /G

IPara um desenvolvimento geométrico. ver D. C. Drucker, fn lr o d u c lio n 1 0 M e c h a n ic s o f D e fo r m a b le S o lid s ,


pp. 64-65, McGraw-Hill Book Company, New York, 1967. Para um desenvolvimento baseado em isotropia e
transformação de eixos, ver Chou e Pagano, o p . c il., pp. 58-59.

Document shared on www.docsity.com


Yxy 1 + v v
exy ="2 = ~ T xy - E C Ik k (O )

1+ v 1 1

E 2G
Yxy = G Txy

2 .1 2 CÁLCULO DE TENSÕ ES A P A R T IR DE DEFORM AÇÕES


E L Á S T IC A S

Uma vez que para pequenas deformações elásticas não existe ligação entre as expres-
sões para tensão e deformação normais e as equações para tensão e deformação cisa-
Ihantes, é possível inverter as Eqs. 2.64 e 2.65 e resolvê-Ias para tensão em termos de
deformação. Da Eq. (2.64),

E
C Ix + C Iy + C Iz = -- (e x + ey + ez)
1 - 2v

J + \' v
ex = ~ C Ix - E (C I x + C Iy + C Iz)

E vE
C Iij= 1 + v e ij + (1 + v)(I _ 2 v )e k k é 5 ij

A expansão da Eq. (2.73) fornece três equações para tensão normal e seis equações
para tensão cisalhante. A Eq. (2.72) é escrita freqüentemente de maneira mais resu-
mida, tomando-se

vE
-----= )
(1 + v)(I - 2 v ) .

Document shared on www.docsity.com


hidrostática. A deformação-desvio (distorção) está relacionada com a tensão-desvio
por

, E, ,
(5 ..
IJ
= --
1 + v
f ; '·
IJ
= 2G e·
IJ

Para o caso de te n s ã o p la n a ( 0 " 3 = O), duas equações simples e úteis relacionando


tensão com deformação podem ser obtidas, resolvendo-se simultaneamente duas das
Eqs. (2.64).

Uma situação típica de tensão plana existe em uma folha fina carregada no plano da
folha ou em um tubo de paredes finas carregado por pressão interna onde não existe
tensão normal a uma superfície livre.
Outra situação importante é a de d e fo r m a ç iio p la n a ( e 3 = O), cuja ocorrência típica
é o caso em que uma das dimensões é muito maior que as outras duas, como em uma
barra longa ou um cilindro com extremidades engastadas. É necessário existir algum
tipo de restrição física para limitar a deformação em uma direção, assim,

Portanto, existe uma tensão mesmo que a deformação seja zero. Substituindo este
valor na Eq. (2.64), obtemos

A e n e r g ia e lá s tic a d e d e fo r m a ç c lo U é a energia gasta para deformar um corpo elástico


sob a ação de forças externas. Todo o trabalho efetuado durante a deformação elástica
é armazenado na forma de energia elástica, sendo esta energia recuperada quando se
retiram as forças aplicadas. Energia (ou trabalho) é igual à força multiplicada pela
distância sobre a qual age. A força e a deformação crescem linearmente desde valores
iniciais nulos na deformação de um corpo elástico. Assim, a energia média é igual à
metade do produto da força pela deformação, o que se iguala à área sob a curva

Document shared on www.docsity.com


A energia de deformação elástica para um cubo elementar sujeito somente a uma ten-
são de tração ao longo do eixo dos x é dada por

A Eq. (2.79) descreve a energia de deformação elástica total absorvida pelo elemento.
Uma vez que A d x é o volume do elemento, a e n e r g ia d e d e fo r m a ç ã o p o r u n id a d e de
v o lu m e ou densidade da energia de deformação U o é dada por

Observe que as deformações laterais que acompanham a deformação em tração sim-


ples não entram na expressão para energia de deformação porque não existem forças
na direção das deformações laterais.
Analogamente, a energia de deformação por unidade de volume de um elemento
sujeito a c is a lh a m e n to p u r o é dada por

A energia de deformação elástica para uma distribuição de tensões tridimensional


genérica pode ser obtida por superposição.

Uma expressão para a energia de deformação por unidade de volume expressa so-
mente em termos da tensão e constantes elásticas pode ser obtida substituindo-se as
equações da Lei de Hooke [Eqs. (2.64) e (2.65)] pelas deformações na Eq. (2.82).

I
Uo = 2 E (C 5 x
2
+ C5y
2
+ C5z
2
) - Ev( C5xC5y + C 5yC 5z + C 5xC 5z
)

I 2 2 2
+ 2G ( 'x y + 'x z + 'y z )

A energia de deformação pode também ser expressa em termos de deformações e


constantes elásticas, ao se substituir as Eqs. (2.74) na Eq. (2.82), quando então as
tensões são eliminadas.

É interessante observar que a derivada de U o com relação a qualquer componente


de deformação fornece a correspondente componente de tensão. Por exemplo,

avo
- = À~ + 2G e x = C5
x
a ex

Document shared on www.docsity.com


Da mesma forma, a u o /a c r.r = ê.r' Os métodos de cálculo que utilizam a energia de
deformação para atingir valores de tensões e deformações constituem ferramentas im-
portantes na análise da elasticidade. O teorema de Castigliano, o teorema do trabalho
mínimo e o princípio do trabalho virtual são algumas das técnicas mais conhecidas.

Até o momento consideramos o comportamento elástico sob um ponto de vista feno-


menológico simples, isto é, a Lei de Hooke foi apresentada como uma lei empírica
bem estabelecida e nossa atenção se concentrou no desenvolvimento de relações úteis
entre tensão e deformação em um sólido elástico isotrópico. Nesta seção considerare-
mos o fato de que as constantes elásticas de um cristal variam de maneira marcante
com a orientação. Entretanto, inicialmente é importante discutir de maneira breve a
natureza das forças elásticas entre os átomos.
Quando uma força é aplicada a um sólido cristalino, ela ou separa os átomos ou os
aglomera. Uma resistência à força aplicada é gerada pelas forças de atração ou repu 1-
são existentes entre os átomos. O diagrama energia-distância (Fig. 2.19) é uma ma-
neira conveniente de se analisar estes fatos. Este gráfico representa a energia de inte-
ração (energia potencial) entre dois átomos à medida que a distância a entre estes
aumenta. Quando a força externa é zero, os átomos estão separados por uma distância
igual ao espaçamento de equilíbrio, a = ao. Se se aplicam forças externas pequenas, os
átomos encontram um novo espaçamento de equilíbrio a para o qual as forças internas
e externas se equilibram. O deslocamento do átomo é l i = a - ao. Já que a força é a
derivada da energia potencial com a distância [ver Eq. (2.86)], a força necessária para
produzir um dado deslocamento de equilíbrio é

d 1 J (u )
p = --
du

onde 1 > ( lI ) é a energia de interação a uma distância l i . Assim, a força em uma ligação
atõmica é função do deslocamento l i e para cada deslocamento existe um valor carac-
terístico da força, P ( u ) . Além disso, a deformação das ligações entre átomos é reversí-
vel, e quando o deslocamento retoma a algum valor inicialul> após ter sido estendido a
U2, a força retoma ao seu valor anterior, P ( u , ) .
A energia de ligação é uma função contínua do deslocamento em um sólido elás-
tico'. Podemos, assim, expressar q ; ( u ) como uma série de Taylor.

1J
1 J (u ) = 1Jo + d- ) u + -I (d-2
21J) li
2 + ...
(
du o 2 d ll o

-s
0+
.'"
~ O
c" _

lEste desenvolvimento segue aquele dado por A. H. Cottrell. The M e c h a llic a l P r o p e r tie s o f M a lte r . pp. 84-85.
John Wiley & Sons. Inc .. New York. 1964.

Document shared on www.docsity.com


onde 1>0é a energia em 1 1 = O e os coeficientes diferenciais são medidos em 11 O.
Uma vez que a força é zero quando a = a o , d 1 > /d ll = O

o coeficiente ( d 1 > /d Il )o
2 Z
é a curvatura da curva energia-distãncia em 1 1 = a o . Por ser
independente de 11, este coeficiente é uma constante e a Eq. (2.89) é equivalente aP =
k ll, que é a Lei de Hooke na sua forma original. Quando a Eq. (2.89) é expressa em
termos de tensão e deformação, o coeficiente é diretamente proporcional à constante
elástica do material e possui o mesmo valor tanto para tração quanto para compressão,
já que é independente do sinal de 11. Mostramos, assim, que a constante elástica é
determinada pela agudeza da curvatura do mínimo na curva energia-distãncia, sendo,
então, uma propriedade básica do material, não variando com tratamento térmico ou
defeito estrutural, embora se espere que diminua com o aumento da temperatura.
Além disso, uma vez que as forças de ligação são fortemente afetadas pela distância
entre os átomos, as constantes elásticas variam com a direção na malha cristalina.
A Lei de Hooke pode ser apresentada de uma maneira geral! como

onde S ; j / d é o te n s o r c O ll1 p liâ n c ia '* e C U k l é a rigidez elástica (freqüentemente denomi-


nados apenas constantes elásticas). Tanto S U k l quanto C ; j k l são quantidades tensoriais
de quarta ordem. Se expandirmos a Eq. (2.90) ou (2.91), obteremos nove equações,
cada uma com nove termos, com um total de 8 1 constantes. Entretanto, sabemos que
ambos, e ij e ( T u , são tensores simétricos, isto é, e u = e ij, O que leva imediatamente a
simplificações apreciáveis. Assim, podemos escrever

e ij = S ;jk l (J k l = e j; = S jik l (J k l

S ;jk l = S jik l

Desta forma, devido à simetria dos tensores de tensão e deformação, somente 36 das
componentes do tensor compliância são termos independentes e distintos. O mesmo
acontece com o tensor de rigidez elástica.

1Um excelente livro que lida com as propriedade anisotrópicas dos cristais em notação tensorial é J . F. Nye,
P h y s ic a l P r o p e r tie s
o f C r y s la ls . Oxford University Press, Londres, 1957. Para um tratamento de elasticidade
anisotrópica, ver R. F. S. Hearmon, Ali 1 1 llr o d u e r io ll to A p llie d A llis o tr o p ic E la s tic i/) ', Oxford University
Press. Londres, 1961. Uma discussão razoavelmente concisa mas completa sobre elasticidade cristalina é dada
por S. M. Edelglass. E I I g ille e r illg M a te r ia is 5 c ie llc e , pp. 277-301, The Rona1d Press Company, New York,
1966.
'N.T. Este é um neologismo. Do inglês "compliance".

Document shared on www.docsity.com


Expandindo-se a Eq. (2.91) e levando-se em conta as relações anteriores.
obtém-se
(Jll = Cll11ell + C l1 2 2 e 2 2 + C1l33e33 + C1l23(2e23) + C l1 1 3 (2 e 1 3 ) + Clll2(2eI2)

Estas equações mostram que, em contraste com a situação para um sólido elástico
isotrópico, Eq. (2.72), tanto as deformações normais quanto as cisalhantes podem con-
tribuir para uma tensão normal, quando se trata de um sólido elástico anisotrópico.
Expandindo a Eq. (2.90), podemos expressar as deformações cisalhantes pela de-
formação cisalhante de engenharia y = 2ê, que é mais convencional.

Y23 = 2e23 = 25 2311 (Jll + 25 2322 (J22 + 25 2333 (J33 + 452323 (J23
+ 452313 (J13 + 45 2312 (J12

A convenção usual para designar as componentes da compliância elástica e rigidez


elástica utiliza apenas dois subíndices em vez de quatro e é denominada n o ta ç ü o r e d u -
z id a . Os subíndices simplesmente denotam a linha e a coluna da matriz das componen-
tes a que eles pertencem.

Comparando-se os coeficientes das Eqs. (2.92) e (2.94), (2.93) e (2.95), podemos notar
que

C 2322 = C 42 C l122 = C l2

5 1122 = C 12 25 2311 = C 41

Document shared on www.docsity.com


Infelizmente medidas como esta são difíceis de serem realizadas experimentalmente, já
que se deve restringir mecanicamente o corpo de prova em algumas direções para
evitar deformações tais como 8 2 3 ' É muito mais fácil determinar experimentalmente os
coeficientes da compliância elástica através de equações do tipo

Se as componentes de Su forem determinadas experimentalmente, então as componen-


tes de C u poderão ser determinadas por inversão matricial.
Neste estágio possuímos 36 constantes independentes, porém, uma redução adi-
cional neste número é possível. Podemos mostrar que as constantes são simétricas,
isto é, C u = C se utilizamos a relação dada na Eq. (2.86). Por exemplo,
j;,

Em geral, C u = C e S u = S j;. Das 36 constantes C u restam 30 onde i f. j , já que exis-


j;

tem seis destas onde i = j , mas apenas a metade destas são constantes independentes,
já que C u = C ji•Assim, para o sólido elástico linear anisotrópico geral, existem 30/2 +
6 = 21 constantes elásticas independentes.

Uma simplificação ainda maior do número de constantes elásticas independentes resulta da


consideração da simetria das diferentes redes cristalinas. O caso mais simples e importante é o da
estrutura cristalina cúbica. A Fig. 2.20 mostra que uma rotação de 90° em torno de um dos eixos
produz uma orientação original. Os co-senos diretores para uma rotação de 90° em torno do eixo
dos z são:

x y z

x' a x•x = O a x 'y = 1 a x ,z = O


y' ay,x= -1 a y ,y =O a y ,z = O
z' a z ,x =O a Z 'y =O a z ,z = 1

Document shared on www.docsity.com


Utilizando-se estes co-senos diretores na equação para a transformação do tensor-deformação,
Eq. (2.46), as componentes da deformação nos eixos x ', y ' e z ' são

A tensão normal na direção x' deve-se igualar à tensão normal na direção original y. Da Eq.
(2 .9 4 ),

ax'x' = C Ex'x' + C '2 Ey'y' + C '3 E,'z' + C '4 ')Iy'" + C '5 ')Ix'" + C I6 ')Ix'Y'
"
= C11Eyy + C I2 Exx + C '3 Eu - ')Ixz + C '4 C '5 ')Iyz - C '6 ')IXy

a yy = C 21 Exx + C22 Eyy + C23 Eu + C24 ')Iy, + C25 ')Ixz + C26 ')IXY

C,1Eyy+ Cl2Exx+ C ,3E u - C '4 ')1xz+ C,5')1y,- C,6')1xz

= C21Exx + C22 Eyy + C23 Eu + C24 ')Iyz + C25 ')IX' + C26 ')Ixy

Fazendo uma comparação desta equação termo a termo, podemos concluir que C ll = C,,; C ,Z =
C 21; C 13 =C 23;C I5 = C 24 e C I4 = C I6 = C 25 = C Z6 = O uma vez que -C I4Yu = C 25YxZ, etc. Da re-
lação av,v, = a xx , obtemos os resultados C ll = C Z2 ; C 12 = C 21; C 23 = C I3 e C I4 = C 25 = O (como
acima); C I5 = C24 = O; C I6 = C 26 = O,já que ~C14Yxz = C 25Yxz, etc.
Utilizando as relações entre tensões cisalhantes, podemos eliminar constantes adicionais.
Assim, Tv'z' = -T xz resulta em C 41 = -C 52 = O; C 42 = -C 51 = O; C 43 = -C 53 = O; C 45 = -C 5 ., = O;
C44 = C55; C46 = C 56 · De Tx,z, = TVz, obtemos que C 46 = -C 56 = O.
Assim, pela rotação de 90° em torno do eixo dos z, encontramos que C ll = C 22; C 12 = C 21;
C I3 = C23; C44 = C55 e que as seguintes constantes são nulas: C 14' C 15, C 16' C24' C25, C26, C 41' C42'
C43, C45, C46' C 51, C52' C 53 , C 54 , C 56 . Considerando agora rotações de 90° em torno dos eixosx ey,
encontraremos que as constantes elásticas para um cristal cúbico obedecem às relações

C Il = C 22 = C 33
C l2 = C 13 = C'3(=C 2I = C31 = C 32)
C 44 = C 55 = C 66

com todas as outras constantes iguais a zero. Desta forma, para a simetria cúbica, a matriz das 36
constantes elásticas se reduz a

c,,~ yr"C '2


C I2
C Il
C '2
C l2
o
o
o
o
C '2
o
o
o
C Il

o
o
o
C44
o
o
o
C44
o
o
o 1]
Para um cristal cúbico, as 21 constantes se reduzem a somente três constantes
elásticas independentes. Uma matriz de coeficientes similar é verdadeira para as com-
pliâncias elásticas de um metal cúbico. A Tabela 2.2 apresenta alguns valores típicos
destas constantes para metais cúbicos. Observe que as constantes de rigidez elástica

Document shared on www.docsity.com


Fig. 2.20 Rotação de simetria de um cristal cúbico em torno
do eixo dos z.

Metal C II C12 C •• SI' 5" S ••

Alumínio 10,82 6,13 2,85 1,57 -0,57 3,51


Cobre 16,84 12,14 7,54 1,49 -0,62 1,33
Ferro 23,70 14,10 11,60 0,80 -0,28 0,86
Tungstênio 50,10 19,80 15,14 0,26 -0,07 0,66

Constantes de rigidez em unidades de 10" dynlclI1'.


Compliância em unidades de 10" cm'/dyn.

C u não são simplesmente as recíprocas de Su, mas devem ser determinadas pela inver-
são da matriz Su. Para uma estrutura cristalina cúbica,

-S 12
C l2 = ----------
(Sll - Sd(SIl + 2Sd

Equações análogas para a conversão de rigidezes em compliância podem ser obtidas


pela simples substituição de C por S e S por C.
Já vimos que o número de constantes elásticas independentes decresce com o au-
mento de simetria de estrutura cristalina:

N° de constantes
independentes

Triclínica
Monoclínica
Ortorrômbica
Tetragonal
Hexagonal
Cúbica
Isotrópica

Um sólido isotrópico possui somente duas constantes elásticas independentes. Se


nós trabalhamos com compliâncias elásticas e consideramos as constantes independen-
tes como sendo S I ' e S 12. então podemos chegar a uma equivalência entre as com-
pliâncias e os módulos elásticos mais comuns.

Document shared on www.docsity.com


Da Eq. (2.64),

1
ax = E [O"x - v(O"y + o"z)]

1
i'xz = G 1:xz

1
i'xy = G 1:xy

1 V 1
Sll = - S12 = -- S44 = -
E E G

Já que 5 11 e 5 12 são as duas constantes independentes, elas podem se relacionar com


5 44 através da Eq. (2.68)

E 1
G = --= ----
2(1 + v) 2(1/E + v/E)
1 1
G = -= ----
S44 2(Sll - SI2)
S44 = 2(Sll - S12)

Equações comparáveis, relacionando as constantes elásticas de rigidez, podem ser de-


senvolvidas através das Eqs. ( 2 . 9 5 ) e ( 2 . 7 4 ) .

C 12 = À constante de Lamé
C ll = 2G + À

C 44 = -!(C 1 1 - Cd

Os módulos elásticos técnicos E, IJ e G são geralmente determinados por medidas


estáticas diretas em testes de tração ou torção. Entretanto, quando se deseja fazer me-
didas mais precisas ou quando estas medidas devem ser realizadas em pequenas amos-
tras de monocristais, cortadas ao longo de direções específicas, empregam-se freqüen-
temente técnicas dinâmicas que utilizam medições de freqüência ou tempo decorrido.
As medidas dinâmicas envolvem deslocamentos atômicos muito pequenos e baixas
tensões em éomparação com medidas de módulos estáticos. A velocidade de propaga-
ção de um deslocamento ao longo de uma amostra cristalina cilíndrica é dada por

v
x
= WÀJE
2n
x
p

Document shared on www.docsity.com


onde w é a freqüência natural de vibração de um pulso de tensão de comprimento de
onda À em um cristal de densidade p . As técnicas dinâmicas consistem em medir a fre-
qüência de vibração ou tempo decorrido para um pulso ultra-sônico percorrer a amos-
tra e retomar. Em virtude de os ciclos de deformação produzidos em um teste dinâ-
mico ocorrerem a elevadas taxas, existe pouco tempo para que se processe transferên-
cia de calor. Assim, as medidas dinâmicas de constantes elásticas são obtidas em con-
dições adiabáticas, enquanto que medições elásticas estátic'as são realizadas em condi-
ções essencialmente isotérmicas. Existe uma pequena diferença entre módulos elásti-
cos adiabáticos e isotérmicos 1•

E iso
E iso Trx 2
9c

onde a é o coeficiente volumétrico de expansão térmica e c é o calor específico. Uma


vez que o calor específico de um sólido é grande comparado com o de um gás, a dife-
rença entre os módulos adiabático e isotérmico não é grande e, para fins práticos, pode
ser desprezada.

Os materiais ortotrópicos são uma classe de materiais importantes na engenharia. Um mate-


rial ortotrópico possui três planos de simetria elástica mutuamente perpendiculares. Exemplos de
materiais ortotrópicos são madeira, compensado, compostos poliméricos reforçados com fibra de
vidro e chapas metálicas laminadas a frio com elevada textura. As equações constitutivas para
um material ortotrópico podem ser derivadas da Eq. (2.94) pelo procedimento anteriormente des-
crito para a simetria cúbica. Se os eixos ortogonais x, y e z são os eixos de simetria ortotrópica,
então uma rotação de 180 0 em torno do eixo dos z, seguida por uma outra rotação de 180 0 em
torno do eixo dos x, reduz a matriz de rigidez elástica para

C o o
[eu
C12
C 1Z
C zz C Z3
13

o o

J]
c - Co13
C Z3 C 33 o o
/j-
o o C 44 o
o o (l o Css
o o o o o
Existe uma matriz análoga para as compliâncias elásticas. Assim, as equações tensão-deformação
para um material ortotrópico são dadas por

êx = Slla X + S12 a y + S13 a z


êy = S12ax + S22 a y + S23 a z
êz = S13 a x + S23 ay + S33 a z
êy z = S44 'yz

êxz = S55 'xz

êxy = S66 'xy

Para relacionar a Eq. (2.101) com os módulos elásticos técnicos, consideremos a situação
onde a única tensão é aplicada paralela ao eixo de simetria x.

Document shared on www.docsity.com


Cy S 11 Cy VYX
S 12 = - = Cy - = - S 11 = - -
Ux êx êx Ex

Relações análogas poderiam ser desenvolvidas, aplicando-se tensões nos eixos y e z . Pode tam-
bém ser mostrado' que vyxEx = VxuEy, etc. Desta forma, as equações constitutivas para um mate-
rial ortotrópico envolvem nove constantes independentes,

,1
1
Yxz = G T xz Yxy = G T xy
xz xy

A teoria matemática da elasticidade requer uma consideração mais detalhada das ten-
sões e deformações em um componente carregado do que é norm:\lmente admitido
pelos métodos comuns de análise de resistência dos materiais. As soluções atingidas
pela resistência dos materiais são geralmente simplificadas matematicamente ao se
admitir uma distribuição de deformação no componente carregado, o que satisfaz a si-
tuação física, porém, pode não ser matematicamente rigoroso. Na teoria da elastici-
dade não se fazem suposições simplificadoras no que se refere à distribuição de defor-
mação.
Analogamente à resistência dos materiais, o primeiro requisito para uma solução é
satisfazer as condições de equilíbrio. A Fig. 2.21 ilustra as forças atuantes em um ele-
mento do corpo para uma situação de tensão plana. Fazendo-se o somatório das forças
nas direções x e y, obtém-se:

8a x 8T xy
"LP= ,-+ -= 0
x 8x 8y

8a 8Tx
"L P = -y + -y + pg = O
y 8y 8x

o termo p g é proveniente da consideração do peso do corpo, sendo p a massa por


unidade de volume e g a aceleração da gravidade. As equações acima representam as
eC/uaç!ies de eC/uilihrio para tensão plana. Para um sistema de tensões tridimensional
existirão três equações, cada uma contendo uma derivada parcial da tensão normal e
duas derivadas parciais das tensões cisalhantes.
As Eqs. (2.103) devem ser satisfeitas em todos os pontos através do corpo. Ob-

Document shared on www.docsity.com


Fig. 2.21 Forças atuantes em um ele-
mento de volume.

serve que estas equações de equilíbrio não fornecem uma relação entre as tensões e as
cargas externas aplicadas. Em vez disto, elas fornecem a taxa de variação das tensões
em qualquer ponto no corpo. Entretanto, a relação entre tensão e carga externa deve
ser de tal forma que nas fronteiras do corpo as tensões se tornem iguais às forças
superficiais por unidade de área, isto é, deve satisfazer as condições de contorno.
Um dos importantes requisitos da teoria da elasticidade é que a deformação em
cada elemento deve ser de tal forma que a continuidade seja preservada. Fisicamente,
isto significa que os deslocamentos devem variar suavemente através do corpo, de
sorte que não se formem espaços vazios no interior do material. Para tal, as compo-
nentes do deslocamento Ui devem ser funções contínuas de valores únicos das coorde-
nadas X i' Algumas relações entre as componentes de deformação devem ser satisfeitas
para que este requisito seja alcançado. Estas relações são as equaçôes de compatibili-
dade.
Para o caso bidimensional, por exemplo, temos

Ôu ÔV
8=- 8=-
x ÔX y ôy

Deve haver uma relação definida entre as três' componentes de deformação, já que
estas são expressas em termos de dois deslocamentos u e v . Diferenciando-se a Eq. ( a )
duas vezes em relação a y , a Eq. ( b ) duas vezes em relação ax e a Eq. ( c ) em relação a
X e y , obtém-se:

Existem ainda duas outras equações de compatibilidade do tipo apresentado pelas Eqs.
(2.104) e (2.105), que podem ser obtidas mais facilmente permutando-se os subíndices
x, y e z.
Basicamente, a solução de um problema pela teoria da elasticidade envolve a de-
terminação dos deslocamentos U ;, das deformações e u e das tensões ( T u através do
corpo submetido a um sistema de forças externas específico. Existem então, em geral,
15 incógnitas, mas, em contrapartida, 15 equações que relacionam estas incógnitas no
sistema coordenado x; y , z. Estas equações são: as seis equações que relacionam as
deformações com os deslocamentos, Eqs. (2.42); as seis equações constitutivas rela-
cionando deformação com tensão, Eqs. (2.64) e (2.65); e as três equações de equilíbrio
(2.103). Estas equações de campo devem ser satisfeitas em todos os pontos do sólido

Document shared on www.docsity.com


elástico em equilíbrio. Assim que estas equações forem satisfeitas, as equações de
compatibilidade estarão automaticamente satisfeitas. São realmente formidáveis os re-
quisitos matemáticos para uma solução geral de um problema tridimensional. Entre-
tanto, técnicas matemáticas para obter soluções têm sido estabelecidas, especialmente
para problemas bidimensionais. Técnicas de diferenças finitas e métodos de relaxação
são abordagens úteis para os problemas coin geometria e sistema de cargas complica-
das.
Embora as equações de equilíbrio e as de compatibilidade tenham sido apresenta-
das aqui dentro do contexto da teoria da elasticidade, deve ser enfatizado que estas
são equações gerais aplicáveis a qualquer meio contínuo. Entretanto, as equações
constitutivas são mais complexas para um sólido plástico ou um material viscoelástico
e as soluções completas dos problemas são ainda mais difíceis.

Uma descontinuidade geométrica em um corpo, como um furo ou' um entalhe, resulta


numa distribuição de tensões não uniforme nas proximidades da descontinuidade.
Numa região próxima à descontinuidade a tensão será maior do que a tensão média em
pontos mais distantes da descontinuidade. Assim. uma concentroçâo de tensão ocorre
na descontinuidade ou concentrador de tensôo. A Fig. 2.220 mostra uma chapa con-
tendo um furo circular, submetido a um carregamento uniaxial. Se não existisse o furo,
a tensão estaria uniformemente distribuída sobre a seção reta da chapa e seria igual à
carga dividida pela área da seção reta da chapa. Com a presença do furo, a distribuição
é tal que a tensão axial alcança um elevado valor nas arestas do furo, caindo rapida-
mente à medida que se distancia destas.
A concentração de tensão é expressa por um fator de concentração de tensão
teórico K {. Geralmente, K ( é descrito como a razão da tensão máxima pela tensão
nominal baseada na seção resistente líquida, embora alguns autores utilizem um valor
da tensão nominal baseada em toda a seção reta do componente numa região onde não
exista um concentrador de tensão.
K = (Jmax
I

(Jnominal

Além de produzir uma concentração de tensão, um entalhe também cria uma con-
dição de tensão localizada bi ou triaxial. Para o caso do furo circular numa placa
submetida a um carregamento uniaxial, por exemplo, uma tensão radial e outra longi-
tudinal são produzidas. Da análise elástica', as tensões produzidas numa chapa de
largura infinita, contendo um furo e carregada axialmente, podem ser expressas por

2 4 2

(Jr = - 1 + a- 2) + -
(J ( (J (
1 + 3 a- 4 - 4 a- )
cos 28
2 r 2 r ,.2

2 4
a ) a )
+ ,.2 +
(J ( (J (
(J o = 2" 1 - 2" 1 3 ,.4 cos 28

4 2
a a )
+ 2 -
- (J (
, = - - 1- 3 - sen 28
2 ,.4,.2

Um exame destas equações mostra que a tensão máxima ocorre no ponto A quando ()
= 7T/2 e r = o. Para este caso,

Document shared on www.docsity.com


onde o- é a tensão de tração uniforme aplicada às extremidade da placa. Assim, o fator
de concentração de tensão teórico para uma chapa com um furo circular é igual a 3.
Um estudo mais apurado destas equações mostra que 0-0 = -o- para r = a e () = O.
Desta forma, quando uma tensão de tração é aplicada à chapa, existe uma força com-
pressiva de igual magnitude na aresta do furo, no ponto B , em uma direção perpendicu-
lar à do eixo de carregamento no plano da chapa.

"- •..•..

-
0,2 0,4 0,6 0,8 1,0
d/w

,z
'm 3,4
c:
Q)

.~ 3,0
o
'~2,6 \
-E \
1! 2,2
c:
o
~ 1 J8
'O

~ 1,,4
LL

1,0
O

Document shared on www.docsity.com


3,2
3,0

~ 2,8
,ro
:!1 26 w
2! ' li = 2,00
w V
.jg 2,4
o I I
': 'j, 2,2 w
[" /11 = 1,25
1\
g 2,0
ü
c
o
\ V\ w
1,8
"
" 1,6
-c
\\ '" /
li =1,10

--
o 1"'- "- •..........
<;; 1,4 ~ .•...
LL '< ...
1,2
1,0

o
'ro
~ _ 2,2
cy
"o
g '~ 1,8
""
~o ~ 1,4 •.......

<;;
LL 1,0

°
~3,0
·ro
§ 2 .8
.jg 2,6
o
'rl-24
,
[" ,

~ 2,2
c

f 'f - - ~ 3 -
82,0

~'" 1,8

°
~ 1,6
LL 0,10 0,20
alá

I
",-
O
.~ 3,0 d = 2,~0
c ~ \?
2!
.jg 2,6 \ I
o \ O
á = 1,20
'ro

~ 2,2
v
c \ \ '\

"" I \ . "-
5 1,8 f'... ........ /'
~ = 1,09- -
1\
"
r-... ~ L i-
Q)
-c
""- t-
o
<;;
LL
1,4 1'- ..t..
-
1,0
0,04 0,08
° rlá

Fig. 2.23 Fatores de concentração de tensão teóricos para diferentes formas geométricas. (Se-
gundo O.H. Neugebauer, Prado Eng. (NY), vol. 14, pp. 82-87,1943.)

Document shared on www.docsity.com


Um outro caso interessante para o qual uma solução analítica da concentração de
tensão é viável' é o de um pequeno furo elítico em uma chapa. A Fig. 2.22b mostra a
geometria deste furo. A tensão máxima nas extremidades do furo é dada por

a max = a (1 2~)
+

Observe que para um furo circular ( a = b ), a equação acima se reduz à Eq. (2.108). A
Eq. (2.109) mostra que a tensão aumenta com a razão a/b. Assim, um furo bem es-
treito, tal como uma trinca, normal à direção de tração resultará numa concentração de
tensão bastante elevada.
Dificuldades matemáticas impedem o cálculo dos fatores de concentração de ten-
são elásticos em todos os casos geométricos, com exceção dos mais simples. Grande
parte deste trabalho tem sido desenvolvido por Neuber 2, que fez cálculos para diver-
sos tipos de entalhes. Os fatores de concentração de tensão para problemas práticos
são geralmente determinados por métodos experimentais.:l A análise fotoelástica 4 de
modelos é a técnica mais amplamente empregada. Este método é aplicável principal-
mente a problemas de tensão plana, embora seja possível fazer análises fotoelásticas
tridimensionais. A Fig. 2.23 mostra curvas típicas para o fator de concentração de
tensão teórico de certos elementos de máquina que foram obtidos por métodos fotoe-
lásticos. Grande parte das informações sobre concentração de tensões em componen-
tes de máquinas foram apresentadas por Peterson.;'
O efeito de um concentrador de tensão se apresenta muito mais pronunciado em
um material frágil do que em um dúctil. Num material dúctil ocorre deformação plástica
quando a tensão de escoamento é excedida no ponto de tensão máxima. Um aumento
posterior na carga acarreta um aumento local em deformação na região criticamente
tensionada, com pequeno aumento na tensão. Devido ao encruamento, a tensão cresce
em regiões adjacentes ao concentrador de tensão, até que, se o material é suficiente-
mente dúctil, a distribuição de tensão se torna essencialmente uniforme. Assim, um
metal dúctil carregado estaticamente não desenvolverá totalmente o fator de concen-
tração de tensão teórico. Entretanto, em um material frágil nunca ocorrerá redistribui-
ção de tensão, resultando, desta forma, em um fator de concentração de tensão com
valor próximo ao teórico. Embora concentradores de tensão geralmente não causem
perigo a um material dúctil submetido a um carregamento estático, efeitos apreciáveis
de concentração de tensão ocorrerão neste mesmo material se solicitado em condições
de fadiga ou tensões alternadas. Os concentradores de tensão são muito importantes
na falha de metais por fadiga e serão discutidos mais tarde no Capo 12.

Chou, P. C., and N. J. Pagano: ••Elasticity," D. Van Nostrand Company, Inc., Princeton,
N.J.,1967.
Jaeger, J. C.: "Elasticity, Fracture, and Flow," 2d ed., Methuen & Co., Ltd., London,
1962.
Love, A. E. H.: "A Treatise on the Malhematical Theory of Elasticity," 4th ed., Dover
Publications, Inc., New York, 1949.

'c . E. Inglis. TrallS. Insr. Nav. Areilir., parte I. pp. 219-230.1913.


'H. Neuber. Tileory oINoreil Srresses, J. W. Edwards, Ed., Incorporated. Ann Arbor. Mich .• 1946.
·'M. Hetenyi. Handbook 01/ Experilllellfa/ Srress Ana/ysis. John Wiley & Sons, Inc .. New York, 1950.
·'M. M. Frocht. Phoroelasriciry, John Wiley & Sons, lnc .. New York, 1955.
'R. E. Peterson. Srress-Concenlrarion Facrors, John Wiley & Sons., Inc .. New York, 1974.

Document shared on www.docsity.com


Reid, C. N.: "Defonnation Geometry for MateriaIs Scientists," Pergamon Press, New
York, 1973.
Suh, N. P., and A. P. L. Turner: "Elements of the Mechanical Behavior of Solids,"
McGraw-HilI Book Company, New York, 1974.
Timoshenko, S. P., and J. N. Goodier: "Theory of Elasticity," 2d 00., McGraw-HilI
Book Company, New York, 1951.
Wang, C. T.: "Applied Elasticity," McGraw-HilI Book Company, New York, 1953.

Document shared on www.docsity.com


Princípios da Teoria da Plasticidade

A teoria da plasticidade estuda o comportamento dos materiais a níveis de deforma-


ções em que já não se verifica a Lei de Hooke. A formulação matemática da teoria da
plasticidade torna-se, devido a diversos aspectos da deformação plástica, mais difícil
do que a descrição do comportamento de um sólido elástico. A deformação plástica
não é, por exemplo, um processo reversível como a deformação elástica. A deforma-
ção elástica depende apenas dos estados inicial e final de tensão e deformação, en-
quanto que a deformação plástica depende da maneira segundo a qual é exercida a
solicitação mecânica para se atingir o estado final. Além disso, não há na deformação
plástica uma constante facilmente mensurável relacionando tensão e deformação,
como o módulo de Young na deformação elástica. O fenômeno de encruamento é
dificilmente incorporado à teoria da plasticidade sem que haja introdução de um consi-
derável grau de complexidade matemática. Da mesma forma, diversos aspectos do
comportamento real dos materiais, tais como anisotropia plástica, histerese elástica e
efeito Bauschinger (ver Seção 3.2), não podem ser facilmente tratados pela teoria da
plasticidade. Não obstante, a teoria da plasticidade tem sido uma das áreas mais ativas da
mecânica do contínuo, e foram obtidos progressos consideráveis no desenvolvimento de
uma teoria capaz de resolver importantes problemas de engenharia.
A teoria da plasticidade está relacionada com diferentes tipos de problemas. Do
ponto de vista de projeto, a plasticidade é aplicada à previsão da carga máxima que
pode ser imposta a um corpo sem causar escoamento excessIvo. O critério de escoa-
mento deve ser expresso em termos de tensão, de maneira que seja válido para todos
os estados de tensões. A deformação plástica é também levada em conta pelo proje-
tista em problemas nos quais o corpo é propositadamente tensionado além do limite de
escoamento, até a região plástica. A plasticidade deve ser considerada, por exemplo,
em projetos de processos tais como frenagem por atrito, assentamento a quente e na
limitação de velocidade de discos de rotor. A previsão de pequenas deformações plás-
ticas permite, através do emprego da teoria do projeto limite, que se obtenha economia
na construção civil.
A análise de grandes deformações plásticas é requerida no tratamento da confor-
mação plástica dos metais. Este aspecto da plasticidade será considerado na Parte 4. É
muito difícil descrever o comportamento dos metais sob estas condições, de uma ma-
neira rigorosamente analítica. Desta forma, são geralmente necessárias algumas 'supo-
sições simplificadoras para se obter uma solução matematicamente tratável.

Document shared on www.docsity.com


Um outro aspecto da plasticidade diz respeito à obtenção de uma melhor com-
preensão do mecanismo de deformação plástica dos metais. Neste campo, o interesse
é voltado para as imperfeições dos sólidos cristalinos. O efeito das variáveis metalúr-
gicas, estrutura cristalina e imperfeição da rede é de suma importância no comporta-
mento da deformação. Este aspecto da plastiCidade é considerado na Parte 2.

A curva tensão-deformação obtida por carregamento uniaxial, como no ensaio simples


de tração, é de interesse fundamental na plasticidade quando apresentada em termos
de tensão verdadeira (I e deformação verdadeira 8, entidades que são discutidas na
próxima seção. O objetivo desta seção I é descrever curvas tensão-deformação típicas
para metais reais e compará-Ias com as curvas de escoamento teóricas para materiais
ideais.
A curva tensão-deformação verdadeira para um metal tipicamente dúctil, como o
alumínio, está ilustrada na Fig. 3 . l a . A Lei de Hooke é obedecida até uma determi-
nada tensão ( I o . (O valor de (Io dependerá da precisão com que é medida a deforma-
ção.) Além de ( I o , o metal se deforma plasticamente. A maioria dos metais encrua.
nesta região, assim sendo, maiores deformações necessitam valores mais altos de ten-
são do que ( I o , a tensão inicial de escoamento. No entanto, de maneira diversa da
situação na região elástica, tensão e deformação não se relacionam através de uma
simples constante de proporcional idade. Se o metal for deformado até o ponto A ,
quando a carga é retirada a deformação total decrescerá imediatamente de um valor
( I /E , de 8, para 82, O decréscimo de deformação 81 - 82 é a d e f o r m a ç ã o e lá s tic a

I
I

~
I

I
I

~
I

I
I
I
r

No entanto, a deformação remanescente não é toda ela deformação plás-


r e c u p e r á l 'e l .
tica permanente. Dependendo do metal e da temperatura, desaparecerá com o tempo
uma pequena quantidade da deformação plástica "2 - "3' Isto é conhecido como c o m -
p o r ta m e n to a I / e l á s t i c o . A deformação anelástica é geralmente desprezada nas teorias
matemáticas da plasticidade.
Normalmente a curva tensão-deformação, no descarregamento a partir de uma
deformação plástica, não será exatamente linear e paralela à porção elástica da curva
(Fig. 3.lh). Além disso, ao se recarregar, a curva geralmente irá dobrar-se à medida
que a tensão se aproximar do valor original no qual ocorreu o descarregamento. Após

Document shared on www.docsity.com


uma pequena deformação plástica adicional, a curva tensão-deformação se torna uma
continuação daquela que seria obtida caso não houvesse ocorrido descarregamento. O
comportamento de histerese resultante do descarregamento e carregamento de um
metal em deformação plástica é geralmente desprezado nas teorias de plasticidade.
Se um corpo de prova for deformado plasticamente além do limite de escoamento
segundo uma direção em tração, e depois descarregado até a tensão zero e então recar-
regado na direção oposta em compressão, o limite de escoamento em compressão será
inferior ao de tração. Referindo·se à Fig. 3.1c, U " b < U " a ' Esta dependência da tensão de
escoamento quanto ao caminho e direção do carregamento é chamada e f e i t o B a u s -
c h i n g e r . O efeito Bauschinger é normalmente .ignorado na teoria da plasticidade, e
usualmente se considera que o limite de escoamento em tração e compressão seja o
mesmo.
A curva tensão-deformação verdadeira é chamada freqüentemente de c u r v a d e
e s c o a m e n to , porque ela fornece a tensão necessária para causar o escoamento plástico
do metal a qualquer nível de deformação. Várias tentativas têm sido feitas no sentido
de se ajustar equações matemáticas a esta curva. A mais comum é uma expressão
potencial da forma

onde K é a tensão para 6 = 1,0, e n , denominado coeficiente de encruamento, é a


inclinação do gráfico log-Iog da Eq. (3.1). Esta equação só pode ser válida do começo
do escoamento plástico até a carga máxima, na qual o corpo de prova inicia a forma-
ção do "pescoço" 1 .

Fig. 3.2 Curvas de escoamento idealizadas. ( a ) Material plástico rígido ideal; (b ) material plás-
tico ideal com região elástica; ( c ) material apresentando encruamento linear.

Mesmo a simples equação matemática dada pela Eq. (3.1), para a curva de es-
coamento, pode resultar numa consideravel complexidade matemática quando usada
com as equações da teoria da plasticidade. Desta forma, é prática comum neste as-
sunto empregarem-se curvas de escoamento idealizadas que simplifiquem o tratamento
matemático, não se desviando muito da realidade física. A Fig. 3 .2 a apresenta a curva
de escoamento característica de um metal r í g i d o , p e r f e i t a m e n t e p l á s t i c o . Para este
material idealizado, um corpo de prova de tração é completamente rígido (deformação
elástica nula) até que a tensão uniaxial atinja u"o. Daí por diante o material escoa plas-
ticamente a uma tensão constante (encruamento nulo). Este tipo de comportamento se
aproxi maria ao de um metal dúctil em éondições de elevada deformação a frio. A Fig. 3 .2 h
ilustra a curva de escoamento, com uma região elástica, característica de um material per-
feitamente plástico. Este comportamento é aproximado ao de um material tal como

'N. do T. "Pescoço" é a tradução literal do inglês I l e c k i l l g , comumente utilizado na linguagem técnica brasi-
leira; indica a região onde ocorre a localização da deformação plástica.

Document shared on www.docsity.com


aço-carbono, o qual apresenta uma elongação bem definida em relação ao limite de
escoamento (ver Seção 6.5). Uma abordagem mais realística é aproximar a curva plás-
tica através de duas linhas retas correspondentes às regiões elástica e plástica (Fig.
3.2c). Este tipo de curva implica um tratamento matemático um tanto quanto compli-
cado.

A curva tensão-deformação de engenharia não apresenta uma informação real das carac-
terísticas de deformação do material. Isto porque ela se baseia inteiramente nas dimen-
sões originais do corpo de prova, as quais são continuamente alteradas durante o ensaio.
Em processos de conformação, tais como a trefilação, a peça também experimenta
variações sensíveis na área de seção transversal. Assim sendo, são necessárias medidas
de tensão e deformação que se baseiem nas dimensões a cada instante. Na deformação
elástica, as variações dimensionais são pequenas, o que tornou desnecessárias, no capí-
tulo anterior, estas considerações.
A Eq. (l.l) descreve o conceito convencional de deformação linear unitária, que
significa a variação em comprimento em relação ao comprimento unitário original.

I:i.L 1 L
e = -= - f dL
Lo Lo Lo

Esta definição de deformação é satisfatória para deformações elásticas onde M.., é


muito pequeno. Todavia, as deformações associadas à deformação plástica podem ser
muito grandes, ocasionando variações consideráveis no comprimento do corpo de
prova durante o ensaio mecânico. Ludwik' foi o primeiro a propor a definição de
deformação verdadeira, ou deformação natural c, na qual se evita esta dificuldade. A
variação no comprimento é relacionada ao comprimento instantâneo do corpo de
prova em vez do comprimento original.

+---+ ..
"L I -L o L 2 -L I L 3 -L 2
e = L ,---+ --- 0

L o L I L 2

L dL L
e = f LO
L = ln L o

A relação entre deformação verdadeira e deformação linear convencionaF vem da EC"j.


(l.l ).

l:i.L L -L L
o
e = -= ---= --
L o L o L o

+ 1)
L
e = ln - = In (e
L o

'P. Ludwik, E l e m e n t e d e r t e c h n o l o g i s c h e n M e c h a n i k , Springer-Verlag OHG, Berlim, 1909.


'O leitor deve se precaver contra a confusáo entre as diversas medidas de deformação. Em geral, usaremos e
para deformação. A náo ser quando especificado, estará implícita a deformação verdadeira. Para deformações
elásticas ( e < 0,01) os valores numéricos de e e e sáo idênticos e, ocasionalmente, poderemos usar e para
deformação linear, especialmente onde quisermos definir uma pequena deformação elástica. Em outros livros a
deformação verdadeira é algumas vezes representada por Õ ou e .

Document shared on www.docsity.com


A título de comparação são fornecidos valores de deformação verdadeira e defor-
mação linear convencional:

Deformação verdadeira E 0,01 0,10 0,20 0,50 1,0 4,0

Deformação convencional e 0,01 0,105 0,22 0,65 1,72 53,6

Nota-se que as duas medidas de deformação fornecem valores idênticos até uma de-
formação de O,I.
A vantagem de se usar deformação verdadeira torna-se clara a partir do seguinte
exemplo: considere um cilindro uniforme que é tracionado ao dobro do seu compri-
mento original. A deformação linear seria de e = ( 2 L o - L o ) / L o = 1,0, o que corres-
ponde a 100% de deformação: Para atingir a mesma quantidade de deformação linear
negativa, em compressão, o cilindro teria que ser comprimido até a espessura de zero.
No entanto, intuitivamente, é de se esperar que a deformação produzida ao se com-
primir o cilindro à metade do seu comprimento inicial seja a mesma, com sinal contrá-
rio, necessária para tracioná-lo ao dobro do seu valor. Esta equivalência para os dois
casos é obtida com o emprego da deformação verdadeira. Para extensão ao dobro do
comprimento inicial, temos € = 1n ( 2 L o / L o ) = ln 2. Para compressão à metade do
comprimento inicial, € = 1n [ ( L o / 2 ) / L o J = 1n Yz = -In 2.
Uma outra vantagem de trabalhar com deformações verdadeiras reside no fato de
que a deformação verdadeira total é igual à soma das deformações verdadeiras incre-
mentais. Isto pode ser visto no exemplo seguinte: considere que uma barra de 2 cm de
comprimento seja elongada em três incrementos, cada qual igual a uma deformação
convencional e = 0,1.

2,00
eO _ 1 = 0,2/2,0 = 0,1
2,20
2,42 e, _ 2 = 0,22/2,20 = 0,1
2,662 e,. _ 3 = 0,242/2,42 = 0,1

Podemos notar que a deformação convencional total e O - 3 = 0,662/2,0 = 0,331 não é


igual a e o - 1 + e , - 2 + e 2 _ 3' Contudo, se nós usarmos tensão verdadeira, a soma dos
incrementos se igualará à deformação total.

2,2 2,42 2,662 2,662


80-1 + 81-2 + 82-3 = In - + In -- + In-- = In -- = 80-3
2,0 2,2 2,42 2,0

U ma das características básicas da deformação plástica é o fato de um metal ser


essencialmente incompressível. As variações de densidade, medidas em metais após
terem sido submetidos a grandes deformações plásticas, são inferiores a 0,1 por cento.
Desta maneira podemos considerar, como uma boa aproximação de engenharia, que ó
v o l u m e de um sólido p e r m a n e c e c o n s ta n te durante a deformação plástica.
Na Seção 2.8, determinamos a deformação volumétrica considerando um cubo de
volume inicial d x d y d z , o qual após deformado apresentava um volume d x (I + e x ) d y
(I + e ,J d z (I + e z ) . A deformação volumétrica ~ é dada por

~ = ~ V = (I + e x )(1 + e y )(1 + e z) dx dy dz - dx dy dz
V dxdydz

Document shared on www.docsity.com


Quando determinamos, previamente, Ô para pequenas deformações elásticas, era per-
mitido desprezar produtos de deformação quando comparados com a própria deforma-
ção. No entanto, isto não é possível quando são consideradas grandes deformações
plásticas. Uma vez que a variação de volume na deformação plástica é zero, temos
que:

Ô + 1 = O + 1 = (1 + e ) ( 1 + e y ) ( 1 + e
x z)

ln 1 = O = ln (1 + e + ln (1 + e y ) + ln
x) (1 +e z)

A Eq. (3.5) representa o primeiro invariante do tensor-deformação, quando a deforma-


ção é expressa em termos de deformação verdadeira. É uma relação muito empregada
em problemas de plasticidade. Deve-se notar, particularmente, que a Eq. (3.5) não é
válida para deformações elásticas, uma vez que existe uma apreciável variação de
volume relativa à grandeza das deformações elásticas. Assim sendo, se nós somarmos
as três equações para a Lei de Hooke (2.64),

veremos que Ô será zero apenas para v = V z . Segundo este resultado, para um material
plástico para o qual Ô = O, o coeficiente de Poisson é igual a V z .
Em virtude de ser o volume constante, temos que A o L o = A L , e a Eq. (3.3) pode ser
escrita tanto em termos de deformação como de área.

L Ao
B=ln-=ln- (3.6)
Lo A

A t e n s ã o v e r d a d e i r a é a carga a cada instante, dividida pela área da seção trans-


versal sobre a qual ela é aplicada. A t e n s ã o d e e n g e n h a r i a , ou tensão convencional, é
a carga dividida pela área inicial. Em se tratando de comportamento elástico, não foi
necessário fazer distinções. No entanto, em certos problemas de plasticidade, particu-
larmente quando envolvem os aspectos matemáticos do ensaio de tração (Cap. 9),
torna-se necessária a separação entre estas duas definições de tensão. A tensão verda-
deira será representada pelo símbolo familiar ( T , enquanto que a tensão de engenharia
será representada por s .
p
(1=-
A

p
s = -
Ao

A tensão verdadeira pode ser determinada a partir da tensão de engenharia da


seguinte maneira:

P P Ao
(1=-=--
A Ao A

Document shared on www.docsity.com


Ao L
-= -= e + l
A Lo

p
••• (J = Ao (e + 1) = s ( e + 1) (3.9)

A dedução de relações matemáticas capazes de predizer as condições em que se inicia


o escoamento, quando um material é submetido a uma combinação de tensões qual-
quer, é um importante problema no campo da plasticidade. Sob condições de carrega-
mento uniaxial, como no ensaio de tração, o escoamento plástico macroscópico co-
meça quando é atingida a tensão de escoamento (To. É de se esperar que o escoamento
em casos de atuação de tensões combinadas possa ser relacionado a uma dada combi-
nação particular das tensões principais. Não existe, no momento atual, uma maneira
teórica de calcular a relação entre as componentes de tensão, capaz de correlacionar o
escoamento para um estado tridimensional de tensão com o escoamento no ensaio de
tração uniaxial.
Os critérios de escoamento são relações essencialmente empíricas; todavia, um
critério de escoamento deve ser consistente com certas observações experimentais.
Dentre estas, a mais importante é o fato de não haver escoamento num sólido contínuo
quando submetido simplesmente à pressão hidrostática 1 • Como conseqüência, a com-
ponente hidrostática de um estado complexo de tensões não influencia a tensão na qual
ocorre o escoamento. Desta forma procuramos a tensão-desvio a ser associada ao
escoamento. Além disso, para um material isotrópico, o critério de escoamento deve
independer da escolha dos eixos, isto é, deve ser uma função invariante. Estas consi-
derações levam à conclusão de que o critério de escoamento deve ser uma função dos
invariantes da tensão-desvio. Atualmente existem dois critérios geralmente aceitos
para a previsão do início de escoamento nos metais dúcteis.

Von Mises (1913) propôs que o escoamento se daria quando o segundo invariante da
tensão-desvio, J 2, excedesse um determinado valor crítico.

Para avaliar a constante k e relacioná-Ia ao escoamento num ensaio de tração,


constatamos que no escoamento em tração uniaxial (TI = (To, (T2 = (T3 = O,

I Foi observada uma significante influência da tensão hidrostãtica no escoamento de polímeros vitrificados
como PMMA. S. S. Sternstein e L. Ongchin, P o l y m . P r e p r . A m . C h e l1 1 . S o e . D iv . P o lY I1 1 . C h e l 1 1 ., setembro,
1969.

Document shared on www.docsity.com


Substituindo a Eq. (3.11) na Eq. (3.10), obtemos a forma usual do critério de escoa-
mento de von Mises

A Eq. (3.12) ou (3.13) prevê a ocorrência do escoamento quando as diferenças de tensões


no lado direito da equação excedem o limite de escoamento em tracão uniaxial ( J ' o .
Para determinar a constante k na Eq. (3.10), considere o estado de tensão em
cisalhamento puro, como produzido num ensaio de torção

0 '1 = - 0 '3 = ' 0 '2 = 0

0'/ + 0'/ + 4 0 '/ = 6k


2

0'1 =k

Assim, k representa o limite de escoamento para cisalhamento puro (torção). Desta


forma, o critério de von Mises prediz que o limite de escoamento em torção será
menor que em tração uniaxial porque

1
k = J3 ao = 0 , 5 7 7 ( J 'o

Em resumo, é importante notar que segundo o critério de von Mises o escoa-


mento não depende de uma tensão normal ou cisalhante particular, mas sim de uma
função dos valores das três tensões cisalhantes principais. Uma vez que o critério de
escoamento é baseado em diferenças de tensões normais, (J', - ( J ' z , etc., ele independe
da componente de tensões hidrostática. Em virtude de envolver termos quadrados, o
critério de von Mises apresenta um resultado que independe dos sinais de cada tensão.
Esta é uma vantagem importante, uma vez que não é necessário que se saiba qual a
maior ou menor tensão principal para que se possa aplicar este critério.
Von Mises propôs, originalmente, este critério por causa de sua simplicidade ma-
temática. Mais tarde, outros autores se preocuparam em dar seu significado físico.
Hencky (1924) mostrou que aplicar a Eq. (3.12) seria equivalente a admitir que o es-
coamento ocorre quando a e n e r g i a d e d i s t o r ç ã o atinge um valor crítico. A energia de
distorção é a parcela da energia total de deformação por unidade de volume que é
envolvida na variação da forma que ocorre como oposição a uma variação do volume.

o fato de a energia total de deformação poder ser separada em um termo dependente da


variação de volume e outro dependente da distorção pode ser visto expressando-se a Eq. (2.84)
em função das tensões principais.

Document shared on www.docsity.com


1
U o = 2 E [ /1
2
- 2 /2(1 + v )]
Esta equação será mais significativa se a expressarmos em termos do módulo de elasticidade
volumétrica (variação do volume) e do módulo de cisalhamento (distorção). Da Seção 2.11,

E= 9G K 3 K -2 G
V = ---
3K + G 6K + 2G

U
o
= 1!8LK + ~
6G (/1
2
- 3 /2)

A Eq. (3.17) é importante porque evidencia que a energia total de deformação pode ser desmem-
brada em um termo que depende da variação do volume e um termo dependente da distorção.

Outra interpretação física dada para o critério de escoamento de von Mises é que
ele representa o valor crítico da tensão octaédrica cisalhante (ver Seção 3.6). Esta é a
tensão de cisalhamento nos planos octaédricos, os quais formam ângulos iguais com os
eixos principais. Uma outra interpretação do critério é que ele representa a média
quadrática da tensão cisalhante média para todas as orientações do sólido!.

Este critério de escoamento admite que O escoamento ocorre quando a tensão de cisa-
Ihamento máxima atinge o valor da tensão de cisalhamento no ensaio uniaxial de tra-
ção. A tensão cisalhante máxima é dada pela Eq. (2.21),

onde !T 1 e !T3 são, respectivamente, as tensões principais algebricamente maior e me-


nor.

Document shared on www.docsity.com


Para tração uniaxial, CT 1 = CTo, C T2 = C T3 = O, e a tensão cisalhante de escoamento TO

é igual a CTo/2. Substituindo na Eq. (3.20),

Para um estado de cisalhamento puro, CT1 = -C T3 = k , C T 2 = O, o critério da tensão


cisalhante máxima prediz que o escoamento ocorrerá quando
(Tl - (T 3 = 2k = (T o

k = (T o

Assim, o critério da tensão cisalhante máxima pode ser escrito


(T 1 - (T 3 = (T ~ - (T ; = 2k

Podemos notar que, matematicamente, este último critério é menos complicado


do que o critério de von Mises, e por esta razão é muito utilizado em projetos de
engenharia. Todavia, ele não leva em consideração a tensão principal intermediária;
logo, sua maior dificuldade está no fato de se ter que saber, a princípio, quais são as
tensões principais máxima e mínima. Além disso, a forma geral do critério da tensão
cisalhante máxima, Eq. (3.23), é muito mais complicada do que a do critério de von
Mises, Eq. (3.10); por esta razão, o critério de von Mises é preferido na maioria dos
trabalhos teóricos.

As condições para escoamento em estados de tensões diferentes dos de carregamento


uniaxial e torção podem ser convenientemente estudadas com tubos de paredes finas
Tensão axial e torção podem ser aliadas para produzir várias combinações de tensão
cisalhante e tensão normal, intermediárias entre os valores obtidos, separadamente,
em tração e torção. Por outro lado, uma pressão hidrostática pode ser introduzida, a
fim de produzir no tubo um anel circunferencial de tensão l
.

Para as tensões mostradas na Fig. 3.3, têm-se, da Eq. (2.9), as seguintes tensões
principais:

IVeja. por exemplo. S. S. Hecker. M etal/. Trans" vol. 2. pp. 2077-2086. 1971. Um método singular para
determinação do mapa de escoamentot de uma placa plana foi apresentado por D. Lee e W. A. Backofen,
Trans. M etal/. Soe. A/M E. vol. 236, pp. 1077-1084, 1%6. Este método é bem apropriado para o estudo da
anisotropia de placas laminadas.
t N. do T. Um mapa de escoamento consiste no traçado de uma superfície que corresponde ao lugar geométrico
dos limites de escoamento ao longo da placa.

Document shared on www.docsity.com


Ambas as equações definem uma elipse. A Fig. 3.4 mostra que os resultados experi-
mentais! concordam melhor com a teoria de von Mises.

0 ,4
I§' Fig. 3.4 Comparação entre as teorias
';::, 0,3 da tensão cisalhante máxima e von Mi-
••'< ses .

°° 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5


a x /IT o
0.6

Para a condição de tensão plana, a teoria de escoamento de energia de distorção


pode ser matematicamente expressa por

Esta é a equação de uma elipse cujo semi-eixo maior é Vf(T;; e cujo semi-eixo menor é
Y 213a o.
Um modo conveniente de se comparar critérios de escoamento para um estado

Document shared on www.docsity.com


bidimensional de tensões é com o traçado de mapas de escoamento como indicado na
Fig. 3.5. Deve-se notar que a teoria da tensão cisalhante máxima e a teoria da energia
de distorção predizem o mesmo limite de escoamento para as condições de tensão
uniaxial e tensão biaxial balanceada (u 1 = (2 )' A maior divergência entre as duas
teorias ocorre para um estado de cisalhamento puro (u = - ( 2 ) ' Já vimos que, para
I

cisalhamento puro, o critério de escoamento de von Mises prevê k = uo/0, enquanto


que o critério de Tresca fornece k = uo/2. O critério de von Mises fornece um limite
de escoamento em cisalhamento puro, 2/0 = 1,155, maior do que aquele previsto
pelo critério da tensão cisalhante máxima. Esta diferença de cerca de 15 por cento é a
maior divergência entre os dois critérios de escoamento.

Um método muito sensível de diferenciação entre os dois critérios de escoamento foi ado-
tado por Lode, que determina o efeito da tensão principal intermediária no escoamento. De
acordo com a lei da tensão máxima cisalhante, não deveria haver influência do valor da tensão
intermediária ( h Então, (<TI - <T3)/<TO = I. Para que a teoria da energia de distorção levasse em
consideração a influência da tensão principal intermediária, Lode introduziu o parâmetro IJ-,cha-
mado parâm etro de tensão de Lode.

Fig. 3.5 Comparação dos critérios de


escoamento para tensão plana.

Os dados experimentais se ajustam muito melhor à Eq. (3.29) do que à equação do critério de
tensão cisalhante máxima, indicando que a tensão principal intermediária exerce influência no
escoamento.
Outra contribuição de Lode foi a introdução de um parâmetro de deformação 1 /.

onde !:ie é um incremento finito de deformação. Lançados em gráfico, IJ-e 1/ devem fornecer uma
linha reta a 45° com os eixos, caso o metal se comporte de acordo com as equações de plastici-

Document shared on www.docsity.com


dade de Levy-von Mises (ver Seção 3.9). A maioria dos metais apresentam um pequeno, porém
sistemático, desvio da relação de Lode, /.L = 11.

Os critérios de escoamento até agora considerados admitem que o material seja


isotrópico. Embora es'te possa ser o caso no início da deformação plástica, certamente
não o será após o metal ter sido submetido a uma deformação plástica considerável.
Além disso, a maioria das formas de peças metálicas fabricadas possuem propriedades
anisotrópicas. Assim sendo, é provável que as amostras tubulares usadas nos estudos
básicos dos critérios de escoamento apresentem um certo grau de anisotropia. Certa-
mente o critério de von Mises, como formulado na Eq. (3.12), não seria válido para
uma chapa laminada a frio altamente orientada ou para um material composto refor-
çado com fibra.
HilP formulou o critério de von Mises para um material anisotrópico apresentando
simetria ortotrópica.

F«(Jy - (J,)2 + G «(J, - (J~? + H (ox - (J,)2 + 2L!y/ + 2M !,}

+ 2N !x/ = 1

onde F, G, ... , N são constantes que definem o grau de anisotropia. Para os eixos
principais de simetria,

Se X é a tensão de escoamento na direção I, Y é a tensão de escoamento na direção 2,


Z é a tensão de escoamento na direção 3, então, substituindo na Eq. (3.31), podemos
avaliar as constantes por:

1 1 1
G+H= X2 H + F= y2 F+ G = -
Z2

cr x
200

Fig. 3.6 Mapa de escoamento para


chapa de liga de titânio com textura.
(Retirado de D. Lee e W. A. Backo-
Tensão em 1 0 ' p si
fen, Trans. M etal/. Soco AlM E, vol.
• = 0 ,0 0 2
Ti - 4AI - '/. O,
236, p. 1083, 1966. Com permissão
dos editores.)

Document shared on www.docsity.com


Lubahn e Felgar' apresentaram cálculos de plasticidade detalhados para o comporta-
mento anisotrópico.
Num mapa de escoamento para tensão plana, como o da Fig. 3.5, o escoamento
anisotrópico acarreta a distorção da elipse de escoamento. A Fig. 3.6 apresenta o
mapa de escoamento para uma chapa de uma liga de titânio com alta textura.2 Deve-se
notar que a curva determinada experimentalmente é assimétrica, quando comparada à
curva ideal isotrópica.
Um aspecto importante do escoamento anisotrópico é o endurecim ento por tex-
tura. 3 Considere uma placa com alto grau de textura com a qual se fabrique um vaso
de pressão de parede fina, de maneira que a tensão ( T 3 , ao longo da espessura, seja
desprezível. Da Eq. (3.31), temos:

Fa/ + G a/ + H (a/ - 2a 1 a 2 + a/) = 1


(G + H )a/ + (F + H )a/ - 2H a 1 a 2 = 1

1
(aX )2 +
(a2)y 2
- 2H XY
(ai Y(2)
X = 1

Para simplificar, admitiremos que os limites de escoamento no plano da placa são


iguais, isto é, X = Y. Assim,

1
G =F=-
2Z 2

Contudo, o limite de escoamento Z na direção da espessura da chapa é uma proprie-


dade difícil de se medir. Este problema pode ser contornado medindo-se o valor R , que
é a razão entre a deformação ao longo da largura e a deformação na espessura.

R = In(wolw)
In (tolt)

Desde que (Z)2 = Y2( I + R ). a equação do mapa de escoamento pode ser escrita
Y
da seguinte forma:

Um alto valor do limite de escoamento Z, ao longo de toda a espessura, dá origem a


um baixo valor da deformação na espessura e um alto valor de R. A influência do
efeito de textura no endurecimento pode ser vista na Fig. 3.6. Para um vaso de pressão
esférico = (T2; então, traçando-se uma linha inclinada de 45 na Fig. 3.6, podemos
(T I
0

observar que a resistência ao escoamento aumenta de maneira marcante com valores


crescentes de R .
As relações que foram desenvolvidas para os critérios de escoamento, Eqs. (3.12)
e (3.21), podem ser representadas geometricamente por um cilindro igualmente orien-

IJ. D. Lubahn e R. P. Felgar, Plasticity and C reep o[ M etais. Capo 13, John Wiley & Sons, lnc., New York,
1%1.
'Estas curvas foram obtidas com o método de D. Lee e W. A. Backofen, anteriormente citado.
3W. A. Backofen, W. F. Hosford, Jr. e 1. J. Burke, ASM Trans Q ., vol. 55, p. 264, 1962.

Document shared on www.docsity.com


tado com os eixos ( T " ( T 2 e ( T 3 (Fig. 3.7). Um estado de tensões que dê um ponto dentro
do cilindro representa comportamento elástico. O escoamento começa quando o es-
tado de tensões atinge a superfície do cilindro, a qual é chamada superfície de escoa-
m ento. O raio M N do cilindro é a tensão-desvio. Desde que o eixo do cilindro O M
faça ângulos iguais com os eixos das tensões principais, I = m = n = l/vI3, e da Eq.
( 2 .1 8 ) , (T = «TI + ( T 2 + ( T 3 ) / 3 = ( T m ' Desta forma, o eixo do cilindro é a componente
hidrostática da tensão. Uma vez que a deformação plástica não é influenciada pela
tensão hidrostática, a geratriz da superfície de escoamento é uma linha reta paralela a
O M , e assim sendo o raio do cilindro é constante. À medida que a deformação plástica
ocorre. podemos considerar que a superfície de escoamento se expande mantendo sua
mesma forma geométrica.

A superfície de escoamento mostrada na Fig. 3.7 é um cilindro circular, caso ela


represente o critério de von Mises. Se for passado através desta superfície um plano
paralelo ao eixo ( T 3 , a interseção no plano ( T 1 ( T 2 será uma elipse (ver Fig. 3.5). A super-
fície de escoamento relativa ao critério da tensão máxima cisalhante é um cilindro
hexagonal. Deve ser notado que, apesar da superfície de escoamento ser um impor-
tante conceito na teoria da plasticidade, não há uma quantidade significativa de dados
experimentais concernentes à forma desta superfície. Existe um trabalho que indica l

não ser a superfície de escoamento um cilindro de raio uniforme.

3.6 TENSÃO DE CISALHAMENTO OCTAÉDRICA E DEFORMAÇÃO DE


CISALHAMENTO

As tensões octaédricas são um conjunto particular de funções de tensões, que são


importantes na teoria da plasticidade. Elas são as tensões que atuam nas faces de um
octaedro tridimensional que apresenta a propriedade geométrica de ter os planos das
faces formando ângulos iguais com cada uma das três direções principais de tensão.
Para este sólido geométrico, o ângulo entre a normal e uma das faces e o eixo principal
mais próximo é de 54 0 44', e o co-seno deste ângulo é 1 /0 . É uma situação equiva-
lente aos planos {I li} numa rede cristalina C.F.C.
A tensão atuante em cada face de octaedro pode ser resolvida 2 em uma tensão
octaédrica normal ( T o e I e uma tensão octaédrica cisalhante T o e I ' A tensão octaédrica
normal é igual à componente hidrostática da tensão total.
0 '1 + 0 '2 + 0'3
O'ocl = 3 = O 'm

IL . W. Hu, J . MarkowilZ e T. A. Bartush, Exp. M ech., vaI. 6, pp. 58-65, 1966.


'A. Nadai, Theory of FlolV and Fraclllre of Solids. 2· ed., vol. I, pp. 99-105, McGraw-Hill Book Company,
New York, 1950.

Document shared on www.docsity.com


Uma vez que a tensão octaédrica normal é uma tensão hidrostática, ela não pode
produzir escoamento nos materiais sólidos. Desta forma, a componente de tensão res-
ponsável pela deformação plástica é a tensão octaédrica cisalhante. Sob este aspecto,
ela é análoga à tensão-desvio.
Se é admitido que o escoamento é determinado por uma tensão octaédrica de
cisalhamento crítica, um critério de escoamento pode ser escrito na seguinte forma:

Em virtude de a Eq. (3.34) ser idêntica à equação derivada para a teoria de energia de
distorção, os dois critérios de escoamento fornecem os mesmos resultados. De certa
forma, a teoria octaédrica pode ser considerada o equivalente de tensão da teoria da
energia de distorção. De acordo com esta teoria, a tensão octaédrica cisalhante, cor-
respondente ao escoamento em tensão uniaxial, é dada por

)2-
Toei = 3 "" (J o = O,471<To

Deformações octaédricas são referidas ao mesmo octaedro tridimensional como


as tensões octaédricas. A deformação octaédrica linear é dada por

A deformação octaédrica de cisalhamento é dada por

Yoel = t(8 1 - 82)2 + (8 2 - 8 3 )2 + (8 3 - 8 1 )2]\1;,

Muitas vezes é de grande utilidade a substituição de um estado complexo de tensões


ou deformações através de funções invariantes da tensão e da deformação. Se cons-
truímos a curva plástica de tensão-deformação (a curva de escoamento) em termos dos
invariantes de tensão e deformação, será obtida aproximadamente a mesma curva,
independentemente do estado de tensões. Por exemplo, as curvas de escoamento obti-
das num ensaio de tração uniaxial de um tubo de paredes finas com pressão interna
serão idênticas àquelas obtidas através de um ensaio de torção biaxial, caso sejam
plotadas em termos de funções invariantes de tensão e deformação.
Nadai' mostrou que a tensão octaédrica cisalhante e a deformação cisalhante são
funções invariantes que descrevem a curva de escoamento, independentemente do tipo
de ensaio realizado. Outras funções invariantes freqüentemente utilizadas são a tensão
e deformação efetivas, também chamadas signijical1tes. Quando os eixos coordenados

Document shared on www.docsity.com


coincidem com as direções principais, estas funções são definidas pelas seguintes
equações:
Tensão efetiva ou significante:

Deve-se notar que a tensão efetiva e a deformação efetiva são ambas reduzidas, num
ensaio de tração, às componentes normais axiais de tração e deformação, respectiva-
mente. Estes valores estão também relacionados com a tensão e a deformação octaé-
drica cisalhantes, como pode ser visto se comparamos as equações acima com as Eqs.
(3.33) e (3.37).

~ - f- i -
'OCI - (J
3

Drucker 1 verificou que existe um grande número de diferentes funções de tensão e


deformação que podem servir como parâmetros invariantes de tensão e deformação.
Ele mostrou, por exemplo, que dados experimentais obtidos para tubos de liga de
alumínio, ensaiados com tensão combinada, apresentavam melhor ajuste quando a ten-
são cisalhante equivalente Teq, definida abaixo, era plotada contra a deformação octaé-
drica cisalhante, do que quando plotado Toet contra Yoet.

J
J:
2) Y.
't eq = 't oct
( 1-2.25 3

onde J 2 e J 3 são invariantes da tensão-desvio. Não parece haver qualquer justificativa


teórica ou experimental para que se escolham parâmetros invariantes de tensão e de-
formação, a não ser o melhor ajuste com os dados experimentais e a conveniência
matemática.

Após termos discutido as relações entre o estado de tensões e o escoamento plástico,


torna-se necessário considerar as relações entre tensão e deformação durante a defor-
mação plástica. Na região elástica as deformações são determinadas, através da Lei de
Hooke, unicamente pelas tensões, sem no entanto se levar em conta como foi atingido
aquele estado de tensões. Isto não ocorre para a deformação plástica, pois nesta região
as deformações não são determinadas unicamente pelas tensões, pois dependem de
toda a história do carregamento mecânico. Desta forma, é necessário na plasticidade
que se determinem as diferenciais ou increm entos de deform ação pLástica através de
cada instante do carregamento, para então se obter através de integração ou somatório
a deformação total. Como um simples exemplo, considere uma barra de I cm de com-
primento, a qual é estendida em tração até 1 1/4 cm e depois comprimida até o compri-
mento original de 1 cm.

Document shared on www.docsity.com


l'.4dL dL
=f -L f 1'.4 - -L
1
e + = 2ln 11: = 0,445
1

Para o caso particular de carregamento, no qual todas as tensões aumentam na


mesma razão, carregam ento proporcional, isto é,

as deformações plásticas são independentes da história do carregamento, ou seja, de-


pendem apenas do estado de tensão final.
Existem duas categorias gerais de relações plásticas entre tensão e deformação.
As teorias de escoam ento ou increm entais são aquelas que relacionam as tensões aos
incrementos de deformação plástica. As teorias da deform ação total são aquelas que
relacionam as tensões à deformação plástica total. A aplicação deste último tipo de
teoria facilita a solução dos problemas de plasticidade, mas em geral as deformações
plásticas não podem ser consideradas independentes da história do carregamento 1

Levy (\871) e, posteriormente, von Mises (1913) propuseram que os incrementos de


deform ação plástica estão relacionados com as tensões-desvio por

de x de dez _ de y% _ deu _ de xy _ dÀ
---,- - ----;
_ y _
- -;- - -- - -- - -
(1 x (1y (1% 'y% 'u 'xy

onde d Á . é uma constante positiva que pode variar durante o "caminho" do carrega-
mento. Estas equações se baseiam na hipótese de que os eixos principais dos incre-
mentos de deformação coincidem com os eixos das tensões principais. Uma vez que
não são consideradas as deformações elásticas na Eq. (3.42), elas só se aplicam para
um sólido plástico ideal (rígido) no qual a deformação elástica é pequena comparada
com a deformação plástica. Muitas vezes as Eqs. (3.42) são escritas com0 2

~-~=~-~=~-~=~=~=~=~
(T~ - a; a; - a~ a~ - q~ yZ
't 'txz 't"xY

IForam apresentados argumentos mostrando que as teorias da deformação total poderiam ser válidas para
histórias de calTegamento diferentes do carregamento proporcional por B. Budiansky, J . A p p l. M e c h ., vol. 26,
o
n. 2, pp. 259-264, 1959.
'Estas equações podem tamb!m ser desenvolvidas admitindo-se que os parâmetros de tensão e deformação de
Lode sejam IguaIs. A condlçao para que ISto ocorra. J1 . = v. é chamada cO /1diçüo de 1'0/1 M ises.

Document shared on www.docsity.com


de x = ! dÀ[O"x - t(o"y + 0".)]

dey = ! dÀ[O"y - teo". + O" x)]

de. =! dÀ[O". - t(o"x + O"y)]

Para se avaliar a contante dÀ, utilizamos a deformação plástica invariante, ou seja,


a deformação efetiva, s.

de = \2 [(de x - dey)2 + (dey - de.)2 + (de. - de,l + 6(de xy )2

+ 6(de yz )2 + 6(de x .)2fh

Substituindo as Eqs. (3.44) na Eq. (3.45), temos:

de = ~ dÀ {fi [(O"x - O"y)2 + (o"y - 0".)2 + (O". - O"Y + 6(rx / + ry/ + rx/)]lt,}

2
de = "jdÀã

de
deY a
= -[0 "
Y
-~(o"
Z z
+ 0 ")]
x

o termo d 8/ ã- pode ser calculado a partir da curva-tensão efetiva - deformação efe-


tiva. As Eqs. (3.46) apresentam forte semelhança com as equações da Lei de Hooke,
Eqs. (2.64) e (2.65). Em vez de um módulo de Young fixo, as equações da plasticidade

Document shared on www.docsity.com


têm um módulo plástico variável iT /d e , e o coeficiente de Poisson para estas equaçõe
é 112.

As equações de Levy-Mises, em virtude de desprezarem as deformações elásticas, só


podem ser aplicadas a problemas de grandes deformações plásticas. Para tratar dos
importantes, porém difíceis, problemas na região elastoplástica, é necessário conside-
rar as componentes elásticas e plásticas da deformação. Estas equações foram propos-
tas por Prandtl (1925) e Reuss (1930.
O incremento de deformação total é a soma de um incremento de deformação
elástica d e E e um incremento de deformação plástica d f f .

O incremento de deformação plástica é dado pelas equações de Levy-Mises, que pode


ser escrito como

p 3 de ,
d e ·· = - - u ··
'J 2 ii IJ

1 +v , 1 + 2v dU kk 3 de ,

d e ij = E d U jj +~ -3- b ij +2 ii U ij

As equações de Levy-Mises e Prandtl-Reuss apresentam relações entre os incremen-


tos de deformação plástica e as tensões. O problema básico consiste em se calcular
para um dado estado de tensões qual o próximo incremento de deformação plástica
associado a um aumento incremental das cargas. ·Se são conhecidos todos os incre-
mentos de deformação, então, simplesmente através do somatório será conhecida a
deformação plástica total. Para que isto seja possível, dispomos de um conjunto de
relações plásticas de tensão-deformação, dadas pelas Eqs. (3.46) ou (3.50), de um cri-
tério de escoamento e de uma relação básica em termos da curva iT v e r s u s e , para o
comportamento do material no escoamento. Além disso, uma solução completa deve
também satisfazer as condições de equilíbrio, as relações deformação-deslocamento e
as condições de contorno. No fim deste capítulo, são indicados ao leitor vários textos
de excelente qualidade referentes à plasticidade, para exemplos de soluções detalha-
das'. Apesar da natureza incremental das soluções dos problemas de plasticidade re-

'Vários problemas de plasticidade são apresentados em grande detalhe por Lubahn e Felgar nos Caps. 8 e 9 da
referência anteriormente citada.

Document shared on www.docsity.com


sultar em grande trabalho e, como conseqüência, pouca aplicação das técnicas dispo-
níveis no passado, o atual emprego de computadores digitais torna a análise da plasti-
cidade um problema comum da engenharia. Uma técnica numérica envolvendo apro-
ximações sucessivas! é de grande utilidade na solução de problemas elastoplásticos, nos
quais é considerado o encruamento.

3.9 ESCOAMENTO PLÁSTICO BIDIMENSIONAL. A TEORIA DO


CAMPO DE LINHA DE DESLIZAMENTO

Em muitos problemas práticos, como a laminação ou estiramento de fitas, podem-se


considerar os deslocamentos limitados ao plano x y e, desta forma, desprezar na análise
as deformações na direção z . Isto é conhecido como uma condição de d e f o r m a ç ã o
p la n a . Quando um problema requer uma solução tridimensional exata muito difícil,
pode-se muitas vezes obter uma boa indicação das tensões ao se considerar o pro-
blema análogo para deformação plana.

r:'
x

Metal ~ };.::!i~P"1a""cs""ti c•.•••o~iI'd


~_ . _0

~~PI~áS%ti~CO%~

Matriz

Fig. 3.8 Métodos de produzir


restrição plástica.

U ma vez que um material plástico tende a se deformar em todas as direções, é


necessário que se impeça o escoamento em uma direção a fim de se desenvolver uma
condição de deformação plana. Este impedimento pode ser produzido por uma barreira
externa lubrificada, como a parede de uma matriz, ou pode surgir de Uma situação em
que apenas parte do material é deformada, sendo impedido o avanço da deformação
por um material elástico (rígido) que limite a região plástica (Fig. 3.8b).
Se a deformação plana ocorre em planos paralelos a x y , então,

Uma vez que T x z = T = 0, temos como conseqüência


yZ que U "z é uma tensão principal.
Das equações de Levy-Mises, Eq. (3.44), temos

'A . Mendelson e S. S. Manson, N A S A T e c h . R e p t . R.28, 1959. Veja também A. Mendelson, P la s tic id a d e :


Capo 9, Companhia Macmillan, New York, 1968.
T e o r ia e a p lic a ç ã o ,

Document shared on www.docsity.com


Deve-se notar que apesar da deformação na direção z ser zero, existe uma tensão de
restrição atuando nesta direção.
A Eq. (3.51) poderia perfeitamente ser escrita em termos das tensões principais < T 3
= (<TI + < T 2 )/2 .
Esta tensão principal será intermediária entre <TI e < T2; desta forma o critério de
escoamento da máxima tensão cisalhante é dado por

onde k é a tensão-limite de escoamento em cisalhamento puro.


Se o valor da tensão principal intermediária < T 3 for substituído no critério de es-
coamento de von Mises, Eq. (3.12), este se reduzirá a

o O

t
P {í_P 0 + ,,0 -°+ ,.
P+O
-2 -
t
O
IPI>IOI O+k t
O
(o ) (O + k )-k (bl
t .
10 "'" ~fi-
O+k t
' 0 " '"

(O + k )-k

(c )

Fig. 3.9 Demonstração de que um estado de tensões de deformação plana pode ser expresso pela
soma de uma tensão hidrostática com cisalhamento puro.

Document shared on www.docsity.com


Assim sendo, os critérios da tensão máxima de cisalhamento e de von Mises são equi-
valentes quando se trata do estado de deformação plana. Pode-se considerar que o
escoamento plástico bidimensional começará quando a tensão de cisalhamento atingir
um valor crítico igual a k .
A teoria do campo de linha de deslizamento está baseada no fato de que qualquer
estado genérico de tensões em deformação plana consiste em um c i s a l h a m e n t o p u r o
mais uma p r e s s ã o h i d r o s t á t i c a . Isto poderia ser mostrado se aplicássemos as equações
de transformação de tensões de um conjunto de eixos para outro; no entanto, talvez
seja mais instrutivo ver isto em forma de diagramas. Na Fig. 3.9, suponhamos que o
estado de tensões consista em (T I = -Q , = -P , e
(T 3 (T 2 = ( - P - Q ) / 2 . A tensão máxi-
ma de cisalhamento é dada por

'max = 0"1 - 0"3 = 2k

-Q + P = 2 k

P= Q + 2k

Mas podemos escrever o estado de tensões na Fig. 3 .9 b como representado na Fig.


que por sua vez pode ser escrito como a soma de uma pressão hidrostática e um
3 .9 c ,
estado de tensões biaxial, Fig. 3 . 9 d . Este último é o estado de tensões em torção pura,
o qual, para planos com rotação de 45°, consiste em tensões cisalhantes puras. Desta
forma, um estado geral de tensões em deformação plana pode ser decomposto num
estado de tensões hidrostáticas p (neste caso em compressão) e um estado de cisalha-
mento puro k . Os componentes do tensor de tensões para deformação plana são

p k O
O " ij = k p O
O O p

A representação em círculo de Mohr do estado de tensões dado na Fig. 3.9 é


mostrada na Fig. 3.10. Se = - Q e
(T I = - P , então = (- Q - P ) / 2 = - p . Isto
(T 3 (T 2

ocorre porque

0 " 1+ 0 " 2 + 0 " 3 I( Q P )


P = O"m = --3-- = - 3 Q + "2 + "2 + P
. Q+P
.. P = - 2 - = - 0 " 2

Também o raio do círculo de Mohr é T m a x = k , onde k é a tensão-limite de escoamento


em cisalhamento puro. Então, usando a Fig. 3.10, podemos expressar as tensões prin-
cipais

O "I= -p + k

0"2 = -p

0 "3 = -p -k

A teoria do campo de linha de deslizamento para deformação plana permite a


determinação das tensões num corpo deformado plasticamente, mesmo quando a de-
formação ao longo deste corpo não é uniforme. Além de exigir condições de
deformação plana, esta teoria admite um material plástico ideal rígido, isotrópico e
homogêneo. Para tal material, não susceptível a encruamento, k é constante a cada

Document shared on www.docsity.com


Fig. 3.10 Círculo de Mohr relativo às tensões na Fig.
3 .9 a .

ponto mas p pode variar. O estado de tensões a cada ponto poderá ser caracterizado se
soubermos o módulo de p e a direção de k . As linhas de tensão cisalhante máxima
situam-se em duas direções ortogonais a e (3, e apresentam como propriedade a defor-
mação cisalhante máxima e adeformação linear nula nas tangentes às suas direções. As
linhas de deslizamento indicam a direção de p a cada ponto e, através da rotação da
linha de deslizamento entre um ponto e outro do campo, podem-se deduzir as varia-
ções no módulo de p . Deve-se notar que as linhas de deslizamento a que nos referimos
são apenas construções geométricas que definem as direções características das equa-
ções 'diferenciais parciais hiperbólicas para a tensão, sob condições de deformação
plana. Estas linhas de deslizamento não apresentam qualquer relação com as linhas de
deslizamento observadas num microscópio sobre a superfície de um metal deformado
plasticamente.
Para determinar as equações utilizadas na determinação de tensões através dos
campos de linhas de deslizamento, devemos relacionar ap e k as tensões atuantes num
corpo físico segundo o sistema de coordenadas x y . A Fig. 3. llb mostra a representa-
ção do estado de tensões dado na Fig. 3.lla, através de um círculo de Mohr. As
tensões podem ser expressas como:

I1 x = -p - ksen2cP

l1 y = -p - (-k se n 2 c P ) = -p + ksen 2cP

11% = -p

'X y =k cos 2cP

onde 2 c f> é um ângulo do círculo de Mohr medido no sentido anti-horário desde o plano
x até o primeiro plano de tensão cisalhante máxima. Este plano é conhecido como uma
linha de deslizamento a . Na Fig. 3.llc é apresentada a relação entre o estado de
tensões no corpo e as linhas de deslizamento a e (3"
A variação da pressão hidrostática p com mudança de direção das linhas de desli-
zamento é dada pelas e q u a ç õ e s d e H e n c k y .

p + 2 k c f> = constante ao longo de uma linha a


p - 2 k c f> = constante ao longo de uma linha (3

Estas equações são -desenvolvidas! a partir das equações de equilíbrio em deformação


plana. O emprego das equações de Hencky será ilustrado com o exemplo da compres-

'Veja, por exemplo, W. Johnson e P. B. Mellor, P la s tic ity fo r M e c h a llic a l E llg ille e r s , pp. 263-265, D. Van
Noslrand Company, Inc., Princelon, N. J., 1962.

Document shared on www.docsity.com


F ig . 3 .1 1 (a) E s t a d o d e t e n s õ e s n o c o r p o ; (b) c í r c u l o d e M o h r p a r a (a); (c) r e l a ç ã o e n t r e o c o r p o
e a s lin h a s d e d e s liz a m e n to a e { 3 .

são de um b lo c o espesso com um punção p la n o sem a trito . O cam po de lin h a s de


d e s liz a m e n to m o s tra d o n a F ig . 3 .1 2 f o i s u g e r id o a p rin c íp io p o r P r a n d t l ', em 1920. A s
lin h a s d e d e s liz a m e n to e n c o n tra m a 4 5 0 a s u p e rfíc ie liv re d a in te rfa c e is e n ta d e a trito
e n tre o punção e o b lo c o (v e r P r o b o 3 .1 4 ) . P o d e ría m o s c o n s tru ir o cam po lin h a de
d e s liz a m e n to p a rtin d o d o triâ n g u lo AFB, m as lo g o v e ría m o s que to d a a d e fo rm a ç ã o
p lá s tic a e s ta ria re s trin g id a a e s ta re g iã o , e o m e ta l n ã o s e ria capaz de se m over p o is
e s ta ria e n v o lv id o por um m a te ria l ríg id o (e lá s tic o ). D e s ta m a n e ira , a zona p lá s tic a
d e s c rita p e lo cam po lin h a d e d e s liz a m e n to deve s e r e s te n d id a a o lo n g o d a s u p e rfíc ie
liv re d e AH e BD.
P a ra s e d e te rm in a r a s te n s õ e s p a rtin d o do cam po d e lin h a s d e d e s liz a m e n to , po-
dem os com eçar c o m u m s im p le s p o n to c o m o D. U m a vez que D e s tá s o b re u m a s u p e r-
fíc ie liv re , n ã o e x is te u m a te n s ã o n o rm a l a e s ta , lo g o ,

(1 y = 0= -p + k s e n 2 tjJ
(1 " = -p - k s e n 2 tjJ = -p - p = -2 p

~x
z

'U m o u t r o c a m p o d e l i n h a d e d e s l i z a m e n t o f o i s u g e r i d o p o s t e r i o r m e n t e p o r R . H ill. E s te e s tu d o le v a a v a lo re s
id ê n tic o s d a p re s s ã o d e c o m p re s s ã o , o q u e ilu s tra o fa to d e n ã o s e re m n e c e s s a ria m e n te ú n ic a s a s s o lu ç õ e s d e
c a m p o d e lin h a s d e d e s liz a m e n to .

Document shared on www.docsity.com


"y =0= "\
I
I

A s te n s õ e s no p o n to D são m o s tra d a s na F ig . 3 .1 3 . A tra v é s do c írc u lo de M o h r,


sabem os que p = k. A fim d e u s a rm o s as equações de H encky, p re c is a m o s saber se a
lin h a d e d e s liz a m e n to a tra v é s de D é u m a lin h a a o u { 3 . Is to é fe ito d e m a n e ira m a is
s im p le s a tra v é s d a s e g u in te convenção d e s in a is :
S e ja u m a ro ta ç ã o e m to rn o d o p o n to d e in te rs e ç ã o de duas lin h a s d e d e s liz a -
m e n to re a liz a d a n o s e n tid o a n ti-h o rá rio .
S e p a rtirm o s d e u m a lin h a a , a d ire ç ã o d a te n s ã o p rin c ip a l a lg e b ric a m e n te m a io r,
(T I, se rá c ru z a d a a n te s d e q u e o s e ja u m a lin h a { 3 .
A p lic a n d o e s ta c o n v e n ç ã o , v e m o s q u e a lin h a d e d e s liz a m e n to de D a E é u m a lin h a a .
D e s tÇ l fo rm a , a p lic a -s e a p rim e ira equação de H encky,

A ta n g e n te à lin h a a e n tre E e F so fre u m a ro ta ç ã o d e 7 T /2 r a d . C om o e s ta ta n g e n te


re a liz a um a ro ta ç ã o no s e n tid o h o r á r io , d1J = -7 T /2 . S e e sc re v e m o s a equação de
H encky n a fo rm a d ife re n c ia l, te m o s

dp + 2kd4> =0

(P F - PE) + 2 k (4 )F - 4> E)= O

P F -k + 2 k (-~ -O ) = 0
PF = k(n + 1)

D e v e -se n o ta r q u e e m F' a p re ssã o é a m esm a que em F e m v irtu d e d e s e r re ta a lin h a


d e d e s liz a m e n to . A lé m d is s o , o v a lo r d a p re s s ã o p ta m b é m é o m esm o so b a fa c e d o
punção e m G . (E v ita m o s o s p o n to s A e B, n a s b o rd a s do punção, p o r s e tra ta re m de
p o n to s d e d e s c o n tin u id a d e d a p r e s s ã o .) P a ra c a lc u la r a p re ssã o do punção re q u e rid a

Document shared on www.docsity.com


para comprimir o bloco, é necessário converter a pressão hidrostática na interface do
punção na tensoo vertical G " y .

PF = PF' = Po = k (n + 1)

u y = -P o + k s e n 2 < jJ

Voltando à Fig. 3.llc, vemos que o ângulo 1> é medido no sentido anti-horário, a partir
do eixo x até a linha 0'.

Uy = -k (n + I) + ksen2C:)

Se traçarmos outras linhas de deslizamento, encontraremos da mesma maneira que a


tensão normal" de compressão sob o punção vale 2k(1 + 'T T /2 ), e que a pressão é uni-
forme.
Como k = G " o /y I 3 ,

Isto mostra que a pressão-limite de escoamento, para se realizar a compressão de um


bloco espesso com um punção estreito, vale aproximadamente três vezes a tensão
requerida para causar o escoamento de um cilindro através de compressão sem atrito.
Este aumento na tensão de escoamento é uma r e s t r i ç ã o g e o m é t r i c a resultante da de-
formação localizada sob o punção.
O exemplo acima descrito retrata uma das mais ~imples aplicações de campos de
linhas de deslizamento. No caso mais geral, a escolha do campo de linha de desliza-
mento deve também satisfazer certas condições de velocidade para se assegurar o
equilíbrio. Prager1 e Thomsen2 formularam procedimentos gerais para a construção
dos campos de linhas de deslizamento. Todavia não existe um método simples para se
verificar a validade de uma solução. Através do emprego de técnicas metalográficas3
capazes de delinear as regiões deformadas plasticamente, foram parcialmente verifica-
dos de maneira experimental, em aço doce, campos de linhas de deslizamento deter-
minados teoricamente. Regiões plásticas altamente localizadas podem também ser de-
lineadas por técnica de ataque no aço Fe-3%Si4.

CalIadine, C. R.: "Engineering Plasticity," Pergamon Press Inc., New York, 1969.
Hill, R.: "The Mathematical Theory of Plasticity," Oxford University Press, New York,
1950.
Johnson, W., and P. B. MelIor: "Engineering Plasticity," Van Nostrand Reinhold

'w . Prager, T r a / l s . R . [ / 1 S t . T e c h / l o l . S t o c k h o l m , nO 65, 1953.


'E. G. Thomsen,1. A p p l . M e c h ., vol. 24, pp. 81-84, 1957.
3B. Hundy, M e t a l / u r g i a , vol. 49, nO 293, pp. 109-118,1954.
4 G . T. Hahn, P. N. Míncer e A. R. Rosenfield, E x p . M e c h ., vol. 11, pp. 248-253, 1971.

Document shared on www.docsity.com


Company, New York, 1973.
Johnson, W., R. Sowerby, and J. B. Haddow: "Plane-Strain Slip-Line Fields," Elsevier
Publishing Company, New York, 1970.
Mendelson, A.: "Plasticity: Theory and Application," The Macmillan Company, New
York,1968.
Nadai, A.: "Theory of Flow and Fracture of Solids," 2d ed., voI. I, McGraw-Hill Book
Company, New York, 1950; voI. 11, 1963.
Prager, W., and P. G. Hodge: "Theory of PerfectIy Plastic Solids," John Wiley & Sons,
New York, 1951.

Document shared on www.docsity.com


Parte II

Fundamentos de Metalurgia

Document shared on www.docsity.com


Deformação Plástica de Monocristais

Os três capítulos anteriores diziam respeito à descrição fenomenológica dos compor-


tamentos elástico e plástico dos metais. Foi mostrado o desenvolvimento de teorias
matemáticas formais que tinham como objetivo descrever o comportamento mecânico
dos metais, baseando-se em hipóteses simplificadoras de que estes são homogêneos e
isotrópicos. Qualquer pessoa que tenha examinado a estrutura dos metais com um mi-
croscópio sabe que isto não é verdade; no entanto, para projetos empregando metais
de granulação fina, sujeitos a cargas estáticas dentro do regime elástico, as teorias são
perfeitamente adequadas. No regime plástico as teorias descrevem o comportamento
observado, embora I).ão o façam com a precisão que freqüentemente se deseja. Para
condições de carregamento dinâmico ou de impacto, somos geralmente forçados a con-
fiar firmemente em dados experimentais. À medida que se torna menos sustentável a
suposição de estarmos lidando com um meio homogêneo e isotrópico, decresce nossa
capacidade de prever, através das teorias da elasticidade e da plasticidade, o compor-
tamento dos metais sujeitos a tensões.
Após a descoberta da difração de raios X por cristais metálicos por Von Laue, em
1912, e da constatação de que os metais eram compostos fundamentalmente por áto-
mos arranjados segundo formas geométricas específicas, foram feitas muitas investiga-
ções das relações entre estrutura atômica e comportamento plástico dos metais.
Grande parte do trabalho fundamental sobre deformação plástica dos metais tem sido
realizada com amostras de monocristais, a fim de se eliminar os efeitos complexos de
contornos de grão e as restrições impostas por grãos vizinhos e partículas de segunda
fase. As técnicas de preparação de monocristais têm sido descritas por vários
autores.1-4
Os mecanismos básicos de deformação plástica em monocristais serão discutidos
neste capítulo. Também aqui será introduzida a teoria das discordâncias, a qual de-
sempenha um papel de grande importância nos conceitos modernos de deformação
plástica. A teoria das discordâncias será vista neste capítulo somente a níveis de apro-
fundamento necessários para uma compreensão qualitativa, visto que uma considera-

IR. W. K. Honeycombe, M e r a l l . R e v ., vol4, nO 13, pp. 1-47, 1969.


'A. N. Holden, T r a n s . A m . S o e . M e r ., vol. 42, p p . 319-346,1950.
3W. D. Lawson e S. Nielsen, P r e p a r a r i o n o f S i n g / e C r y s r a / s , Academic Press, Inc., New York, 1958.
4J.1. Gilman (ed.), T h e A r r a n d S e i e n e e o f G r o w i n g C r y s r a l s , John Wiley & Sons, Inc., New York, 1963.

Document shared on www.docsity.com


ção mais detalhada é encontrada no Capo 5. No Capo 6, usando-se a teoria das discor-
dâncias como ferramenta principal, serão vistos os mecanismos de aumento de resis-
tência dos sólidos policristalinos, considerando-se principalmente a deformação por
tração uniaxial. O comportamento fundamental da deformação em fluência e fadiga
será apresentado em capítulos da Parte 3, que sâo voltados especificamente para estes
assuntos. Esta parte encerra com um capítulo sobre os aspectos fundamentais da fra-
tura (Cap. 7) e um capítulo sobre deformação dependente do tempo em metais e polí-
meros (Cap. 8).

A análise de difração de raios X mostra que os átomos de um cristal metálico estão ar-
ranjados numa forma regular e repetida nas três dimensões. Este arranjo atômico dos
metais é representado de maneira mais simples através de uma rede cristalina na qual
os átomos são visualizados como esferas rígidas localizadas em posições particulares
de um arranjo geométrico. '"
A estrutura cristalina mais elementar é a rede cúbica simples (Fig. 4.1). Este é o
tipo de célula da estrutura que ocorre para cristais iônicos tais como o NaCI e o LiF,
mas não para os metais. Três eixos mutuamente perpendiculares são posicionados ar-
bitrariamente através de um dos cantos da célula. Planos e direções cristalográficos
serão especificados com respeito a estes eixos em termos de í n d i c e s d e M i l / e r . Um
plano cristalográfico é especificado em termos do comprimento de sua interseções com
os três eixos, o qual é medido a partir da origem dos eixos coordenados. A fim de sim-
plificar as fórmulas cristalográficas, são usados os recíprocos destas interseções, que
são reduzidos a um mínimo denominador comum para fornecer os índices de Miller
( h k l) do plano. Por exemplo, o plano A B C D na Fig. 4.1 é paralelo aos eixos x e z e in-
tercepta o eixo y em uma distância interatômica a o . Desta forma os índices do plano
são 1/00, l/I, 1/00 ou ( h k l) = (010). O plano E B C F poderia ser denominado como (100),
uma vez que a origem do sistema coordenado pode ser transladada para o ponto G,
visto que cada ponto da rede possui, no espaço, idênticas propriedades de vizinhança.
A barra colocada sobre um dos números indica que o plano intercepta um dos eixos
numa direção negativa. Existem seis planos cristalográficos equivalentes do tipo (100);
dependendo da escolha dos eixos cada um deles poderá ter os índices (100), (010),
(001), (100), (010) e (001). Quando se quer representar todos estes planos como um
grupo, usa-se a representação {IOO}, a qual representa a f a m í l i a d e p l a n o s ( 1 0 0 ) .
As direções cristalográficas são indicadas por números dentro de colchetes, [u v w ],
e não se usam os recíprocos das interseções para determiná-Ias. A direção da linha
F D , por exemplo, é obtida quando se caminha a partir da origem uma distância a o ao
longo do eixo dos x e em seguida uma distância igual na direção positiva y . Os índices
desta direção são [110]. U ma família de direções cristalográficas equivalentes é repre-

I ao
I
I

À -- C Y
/ F ' / J
/ ""-, O /"
ao
a o -..:v

Document shared on www.docsity.com


(IO O )-H A O G (1 0 0 )-H A O G

( ll0 ) - H B C G (1 1 0 )-H B C G

(1 1 1 )-G E C
(1 1 1 ) - G E C

(1 1 2 ) - G J C (1 1 2 )-G J C

sentada por ( u v w ) . Para a rede cúbica, e somente para ela, direções e planos do mesmo
índice são sempre perpendiculares entre si.
Muitos dos metais comumente usados apresentam estrutura cristalina cúbica de
corpo centrado (c.c.c.) ou cúbica de faces centradas (c.f.c.). A Fig. 4.2a mostra uma
célula unitária da estrutura cúbica de corpo centrado, a qual possui um átomo em cada
vértice e mais um átomo no centro do cubo. Cada átomo de vértice está circundado
por oito átomos adjacentes, da mesma forma que o átomo no centro da célula. Desta
maneira, se consideramos as células vizinhas no espaço tridimensional, existem dois
átomos p o r c é l u l a u n i t á r i a da estrutura cúbica de corpo centrado, (8/8 + I). Alguns
metais que apresentam esta estrutura cristalina são o ferro-alfa, nióbio, tântalo, crô-
mio, molibdênio e tungstênio. A Fig. 4.2b apresenta a célula unitária para uma estru-
tura cristalina cúbica de faces centradas. Além de um átomo em cada vértice existe um
átomo no centro de cada face do cubo, os quais pertencem a duas células unitárias.
Desta forma, existem 4 átomos por célula unitária da estrutura cúbica de faces centra-
das (8/8 + 6/2). Alumínio, cobre, ouro, chumbo, prata e níquel são metais cúbicos
de faces centradas.
A terceira estrutura cristalina de metal mais comum é a hexagonal compacta!
(h.c.), representada na Fig. 4.3. A fim de se especificar os planos e direções na estru-
tura h.c., é conveniente que se use o sistema de Miller-Bravais com quatro índices do
tipo ( h k i l ) . Estes índices são baseados em 4 eixos, três dos quais, a i , a 2 e a 3 , situam-se
no plano basal formando entre si ângulos de 120°, e um quarto eixo vertical c que é
normal ao plano basal. Estes eixos e planos típicos da estrutura cristalina hc são mos-
trados na Fig. 4.3. O terceiro índice está vinculado aos dois primeiros através da rela-
ção i = - ( h + k ) .
Tanto a estrutura cúbica de faces centradas como a hexagonal compacta podem
ser construídas a partir de um empilhamento de planos compactos de esferas. A Fig.
4.4 mostra que existem duas maneiras segundo as quais esferas podem ser empilhadas.
A primeira camada de esferas é disposta de forma que cada esfera seja circundada por
outras seis esferas que a tangenciam, conforme representado pelos círculos cheios da
Fig. 4.4. Uma segunda camada de esferas pode ser colocada sobre a primeira de ma-
neira que os centros dos seus átomos cubram a metade do número de vales existentes
nesta primeira. (As esferas da segunda camada estão representadas por círculos ponti-
lhados na Fig. 4.4.) Existem dois modos de se adicionar esferas para se obter um ter-

'Uma revisão detalhada da cristalografia e deformação nos metais h.c. é apresentada por P. G. Partridge, M e-
ta ll. R e v ., n.O 118, e M e l. M a te f. vol. I, n.o 11, pp. 169-194, 1967.

Document shared on www.docsity.com


P la n o basal (0 0 0 1 ) - ABCOEF
P la n o p r is m á tic o (1 0 1 0 ) - FE JH
P la n o s p ir a m id a is
T ip o I, o r d e m 1 (1 0 1 1 ) - GHJ
T ip o I, o r d e m 2 (1 0 1 2 ) - K JH
T ip o 11, o rd e m 1 (1 1 2 1 ) - GHL
T ip o 11, o rd e m 2 (1 1 2 2 ) - KHL
E ix o d ia g o n a l [1 1 2 0 ] - FGC

Fig. 4.3 EstrutUra hexagonal compacta.

ceiro plano compacto. Embora as esferas da terceira camada devam ajustar-se aos
vales da segunda camada, elas podem ser colocadas ou nos vales que se posicionam
sobre aqueles não cobertos do primeiro plano (posições marcadas com ponto na Fig.
4.4) ou sobre os vales posicionados diretamente sobre os átomos do primeiro plano
(posições marcadas com cruz na Fig. 4.4). A primeira possibilidade dá origem a uma
seqüência de empilhamento A R C A R C . . . , a qual é típica dos planos {III} de uma es-
trutura c.f.c. A outra possibilidade resulta numa seqüência de empilhamento
A B A R . . . , a qual se verifica para o plano basal (0001) da estrutura h.c. Para o empaco-
tamento h.c. ideal, a razão c /a é VFf3 ou 1,633. A Tabela 4.1 mostra que os metais
h .c. existentes apresentam um desvio da razão c /a ideal.
As estruturas c.f.c. e h:c. são ambas compactas. Num modelo de esferas rígidas
destas estruturas, 74 por cento do volume da célula unitária são ocupados por átomos,
enquanto a célula unitária c.e.e. tem 68 por cento do seu volume ocupados por átomos
e a célula unitária cúbica simples 52 por cento.

Tabela 4.1 Relações axiais de alguns metais


hexagonais

M e ta l c /a

Be 1,567
Ti 1,587
Mg 1,623
Hc ideal 1,633
Zn 1.856
Cd 1,886

Document shared on www.docsity.com


A deformação plástica é geralmente confinada ao planos de baixos-índices, os
quais possuem uma maior densidade de átomos por área unitária do que os planos de
altos-índices. A Tabela 4.2 alista a densidade atômica por área unitária apresentada
para os planos de baixo-índice comuns. Observe que os planos de maior densidade
atômica são também os planos da estrutura cristalina mais espaçados entre si.

E s tr u tu r a D e n s id a d e a tô m ic a
c r is ta lin a Á to m o s p o r á r e a u n itá r ia

Cúbico de face Octaédrico {lI I} ao/v3


centrada Cúbico {IOO} a 0/2
Dodecaédrico {IIO} ao/2v2
Cúbico de corpo Dodecaédrico {IIO} ao/V2
centrado Cúbico {IOO} ao/2
Octaédrico {lI I} ao/2V3
Hexagonal com- Basal {OOO I} c
pacto

Os cristais reais apresentam desvios da periodicidade perfeita, considerada na seção


anterior, que podem ocorrer de diversas maneiras importantes. Se, por um lado, o
conceito de rede perfeita é adequado para explicar as propriedades independentes da
estrutura dos metais, por outro lado devem-se considerar diversos tipos de defeitos da
rede para que se tenha uma melhor compreensão das propriedades dependentes da es-
trutura. A descrição destas propriedades reduz-se portanto, na maior parte, à própria
descrição do comportamento destes defeitos.

Constantes elásticas Condutividade elétrica


Ponto de fusão Propriedades semicondutoras
Densidade Limite de escoamento
Calor específico Resistência à fratura
Coeficiente de expansão térmica Resistência à fluência

Como é acima sugerido, neste breve quadro, praticamente todas as propriedades


mecânicas são dependentes da estrutura. Somente após a consideração deste fato, em
tempos relativamente recentes, foram feitos progressos realmente importantes na
compreensão do comportamento mecânico dos metais.
O termo d e f e i t o , ou i m p e r f e i ç ã o , é geralmente empregado para descrever qual-
quer desvio de um arranjo ordenado dos pontos da rede. Quando o desvio do arranjo
periódico da rede está localizado na vizinhança de apenas poucos átomos, ele é deno-
minado d e f e i t o p o n t u a l ou i m p e r f e i ç ã o p o n t u a l . Todavia, se o defeito se estende atra-
vés de regiões microscópicas do cristal, ele é chamado de i m p e r f e i ç ã o d a r e d e . As im-
perfeições da rede podem ser divididas em d e f e i t o s d e l i n h a e d e f e i t o s d e s u p e r f í c i e o u
p la n a r e s . Os defeitos de linha são assim chamados porque se propagam no cristal
como linhas ou sob a forma de uma rede bidimensional. As discordâncias em aresta e
espiral que são discutidas nesta seção são os defeitos de linha mais comuns encontra-
dos nos metais. Os defeitos de superfície ocorrem devido ao agrupamento de defeitos
de linha num plano. Os contornos de baixo ângulo e os contornos de grão são defeitos
de superfície (veja Capo 5). A f a l h a d e e m p i l h a m e n t o entre duas regiões compactas do

Document shared on www.docsity.com


cristal que possuem seqüências de empilhamento alternadas (Seção 4.10) e também as
regiões macladas de um cristal (Seção 4.9) são outros exemplos de defeitos de superfí-
cie. É importante notar que mesmo nos lugares onde é quebrada a periodicidade de longo
alcance da estrutura cristalina, como numa discordância ou falhas de empilhamento, isto
só ocorre de determinadas maneiras bem definidas. Sendo assim, os defeitos cristalinos
possuem estruturas e propriedades regulares e reproduzíveis.

A Fig. 4.5 ilustra três tipos de defeitos pontuais. Uma l a c u n a , ou lugar vazio da rede!,
existe quando está faltando um átomo de uma posição normal da rede (Fig. 4 . 5 a ) . Nos
metais puros são criados pequenos números de lacunas por excitação térmica, as quais
são termodinamicamente estáveis a temperaturas maiores do que o zero absoluto. A
fração de lacunas em equilíbrio a uma dada temperatura é fornecida, aproximada-
mente, pela equação

~ = e - E ./ k T (4.1)
N

O O O O O O O O O O O O O
O O O O O O O O O O O O O
O O O O O O
O
O O
• O O O
O O O O O O O O O O O O O
(a ) (b ) {cl

Fig.4.5 Defeitos pontuais. (a ) Lacuna; (b ) intersticial; (c ) átomo de impureza.

onde n é o número de lugares vazios em N lugares da rede e E s é a energia necessária


para mover um átomo do interior de um cristal até a sua superfície. A Tabela 4.3
ilustra como a fração de vazios da rede aumenta rapidamente com a temperatura num
metal. Através de uma têmpera realizada rapidamente a partir de uma temperatura
próxima à de fusão até a temperatura ambiente, é possível aprisionar-se um número de
lacunas maior do que aquele que estaria em equilíbrio nesta temperatura. Concentra-
ções de lacunas superiores à de equilíbrio podem também ser obtidas através de gran-
des deformações plásticas (trabalho a frio) ou através de bombardeamento com partí-
culas nucleares de alta energia. Quando a densidade de lacunas se torna relativamente
grande é possível que elas se agrupem, dando origem à formação de vazios.

500 I X 1 0 - 10
1.000 I X 1 0 -5
1.500 5 X 10-·
2.000 3 X 10-3

IA.C. Damask e G. J. Dienes, P a i1 1 / D e fe c /s i11 M e /a is , Gordon and Breach, Science Publishers, Inc., New
York, 1963.

Document shared on www.docsity.com


Quando um átomo é aprisionado dentro de um cristal num ponto intermediário
entre as posições normais da rede, ele é denominado um á t o m o i n t e r s t i c i a l ou interstí-
cio (Fig. 4 . 5 b ) . O defeito intersticial em metais puros é decorrente do bombardea-
mento com partículas nucleares de alta energia (dano por radiação), podendo dificil-
mente ocorrer como resultado da ativação térmica .
. A presença de um á t o m o d e i m p u r e z a numa posição da rede (Fig. 4 .5 c ) ou numa
posição intersticial acarreta um distúrbio localizado da periodicidade da rede, da
mesma forma que ocorre para as lacunas e os átomos intersticiais.
É importante ter em mente que nenhum material é completamente puro. A maio-
ria dos materiais comercialmente "puros" apresentam geralmente impurezas num teor
de 0,01 a I por cento, enquanto que materiais ultrapuros, como os cristais de germânio
e silício usados em transistores, contêm átomos estranhos introduzidos propositada-
mente na ordem de uma parte em cada 1010. Os átomos estranhos são usualmente
adicionados nas ligas na faixa de I a 50 por cento com o intuito de conferir proprieda-
des especiais.

O defeito de linha, ou bidimensional, mais importante é a d i s c o r d â n c i a . A discordân-


cia é o defeito responsável pelo fenômeno de deslizamento, através do qual se defor-
mam plasticamente a maioria dos metais. Desta forma, uma maneira de se encarar
uma discordãncia é considerá-Ia como uma região de distúrbio localizado da rede, a
qual separa as regiões deslizadas e não-deslizadas do cristal. Na Fig. 4.6, A B repre-
senta uma discordância situada num plano de deslizamento, que é o plano do papel. Se
admitimos que o deslizamento está avançando para a direita, todos os átomos acima da
superfície C terão sido deslocados de uma distância atômica na direção do desliza-
mento, enquanto que os átomos acima de D ainda não sofreram deslocamento. A B
representa, então, o limite entre as regiões deslizadas e não-deslizadas. A linha A B é
apresentada sombreada com o intuito de indicar que a cada lado da linha de discordân-
cia, para pequenas distâncias atômicas, existe uma região de desordem atômica na
qual a distância de deslizamento varia de zero a um (I) espaçamento atômico. _À ~
dida que a discordância se movimenta, o deslizamento ocorre sobre a área na qual este
~ento se realiza. Na ausência de obstáculos~ uma dis~rdância pode se_movimen-
tar com facilidãéle-sob a ação de uma pequena força aplicada, o que vem ex licar
r -por que os cristais reais se deformam muito mais facilmente do que seria esperado para
um cristal perfeito. As discordâncias são importantes não só para explicar o desliza-
mento dos cristais,-como também estão intimamente ligadas com a maiOria dos outros
fenômenos mecânicos tais como encruamento, escoamento descontínuo, fadiga, fluên-
cia e fratura frágil.
As discordâncias podem ser de dois tipos básicos, discordância-aresta e
discordância-espiral. O tipo mais simples foi proposto originalmente por Orowan, Po-
lanyi e Taylor, sendo chamada d i s c o r d â n c i a - a r e s t a ou discordância de Taylor-
Orowan. A Fig. 4.7 apresenta o deslizamento produzido por LImadiscordância-aresta

Document shared on www.docsity.com


num elemento de cristal que possui uma rede cúbica simples. O deslizamento se deu
sobre a área A B C D segundo a direção do vetor-deslizamento. O limite entre a parte do
cristal deslizada (à direita) e a parte ainda não-deslizada (à esquerda) é a linha A D ,
uma discordância-aresta. Deve-se notar que as partes do cristal acima do plano de des-
lizamento foram deslocadas, na direção do deslizamento, em relação às partes do cris-
tal abaixo do plano de deslizamento, de uma quantidade que na Fig. 4.7 está represen-
tada por uma área sombreada. Todos os pontos do cristal que originalmente coinci-
diam através do plano de deslizamento foram deslocados da mesma quantidade uns em
relação aos outros. A extensão deste deslocamento é denominado o v e t o r d e B u r g e r s b
da discordância.
Embora não seja conhecido o arranjo exato dos átomos ao longo de A D , é geral-
mente aceito que a Fig. 4.8 represente, aproximadamente, o arranjo atômico num
plano normal à discordância-aresta A D . Nesta figura, o plano do papel corresponde a
um plano (100) de uma rede cúbica simples, sendo equivalente a qualquer plano para-
lelo à face frontal da Fig. 4.7. Deve-se notar que a rede está distorcida na região da
discordância, existindo mais uma coluna de átomos acima do plano de deslizamento do
que abaixo. Este arranjo atômico ocasiona uma tensão compressiva acima do plano de
deslizamento e uma tensão de tração abaixo deste mesmo plano. Uma discordância-
aresta que apresenta o plano extra de átomos acima do plano de deslizamento, como
na Fig. 4.8, é chamada por convenção de d i s c o r d â n c i a - a r e s t a p o s i t i v a , sendo freqüen-
temente representada pelo símbolo L Se o plano extra de átomos estiver situado
abaixo do plano de deslizamento, a discordância será uma aresta negativa, simbolizada
por T.
Uma discordância-aresta movimenta-se no plano de deslizamento numa direção
perpendicular ao seu comprimento, todavia ela poderá se movimentar verticalmente
através de um processo conhecido como e s c a l a g e m , caso ocorra uma taxa considerá-
vel de difusão de átomos ou lacunas. Para que na Fig. 4.8 seja possível a discordância
se mover para cima (direção positiva de escalagem), é necessário remover o átomo
extra situado diretamente acima do símbolo 1-, ou adicionar uma lacuna naquele lu-
gar. Para cada espaço atômico que a discordância escale, um átomo deste tipo deverá
ser removido. Por outro lado, se a discordância se movimenta para baixo, é necessário
que átomos sejam adicionados ao plano extra. Um átomo do plano extra pode ser
removido através de sua interação com uma lacuna da rede, enquanto no caso de
escalagem negativa um átomo da rede irá por difusão ser incorporado ao plano extra,
criando uma lacuna. Uma vez que o movimento da discordância por escalagem é con-
trolado por difusão, ele é muito mais lento do que o deslizamento e também tem pouca

I
1
1
1
1
1
1 /
I /
}--~
/ /
/ /
/

/ /
/ /

/ /
/ /
/ /

// A
/
/
/
/

Fig. 4.7 Discordância-aresta produzida por deslizamento numa rede cúbica simples. A discor-
dância se encontra ao longo de A D , perpendicular à direção de deslizamento. O deslizamento
ocorreu sobre a áreaABCD. (De W. T. Read, Jr. ,D i s l o c a t i o n s i n C r y s t a l s , p. 2, McGraw-Hill Book
Company, New York. 1953.)

Document shared on www.docsity.com


Velor-
deslizamento
~

-.L

Fig. 4.8 Arranjo atômico num plano normal a uma discordância-aresta. (De W. T. Read, Jr.,
p. 3, McGraw-Hill Book Company, New York, 1953.)
D is lo c a tio n s in C r y s ta ls ,

probabilidade de ocorrer, a não ser em altas temperaturas.


O segundo tipo básico de discordância é a e s p i r a l ou discordância de Burgers, a
qual é representada na Fig. 4.9. Neste exemplo, a parte superior do cristal à direita de
A D sofreu um deslocamento em relação à parte inferior na direção do vetor-
deslizamento. Como não ocorreu deslizamento à esquerda de A D , pode-se dizer que
A D é uma linha de discordância. Desta forma a linha de discordância é paralela ao seu
vetor de Burgers, ou vetor-deslizamento, o que caracteriza por definição uma
discordância-espiral. Se traçarmos na face frontal do cristal um circuito no sentido
horário em torno da linha de discordância, partindo do ponto X , ele será completado
quando atingirmos X ', que está situado no plano atômico atrás daquele que contém X .
Ao fazermos este circuito estamos traçando o caminho de uma rosca direita. Toda vez
que é feito um circuito em volta da linha de discordância, o ponto final é deslocado,
paralelamente ao vetor-deslizamento, de um plano m~ rede. Assim sendo, os planos
atômicos estão dispostos em torno da discordância de modo semelhante a uma escada
espiral ou de uma rosca.
A Fig. 4.10 apresenta o arranjo dos átomos (em duas dimensões) em torno de uma

I
I
I
I
I
I
I

I "
}--.;-
"
"" " "
""
, , "" " x '

Fig. 4.9 Deslizamento produzido por uma discordância espiral numa rede cúbica simples. A dis-
cordância se encontra ao longo de A D , paralela à direção de deslizamento. O deslizamento ocor-
reu sobre a área A B C D . (De W. T. Read, Jr., D i s l o c a t i o n s i n C r y s t a l s , p. 15, McGraw-Hill Book
Company, New York, 1953.)

Document shared on www.docsity.com


·--< : ..-
.........,
-
------.
-
r--- ------.
r---
-
.........,
-
..-
------.
-
r--- ------.
.........,
-
)-
.-< ..--<
-- -< )-

-
- ------.
-<

- ------.
)-

........., f- - - - -
.-(

- ~ . Vetor-
deslizamento
A B

Fig. 4.10 Arranjo atômico em volta da discordância espiral mostrada na Fig. 4.9. O plano da
figura é paralelo ao plano de deslizamento. A área deslizada é A B C D , e A D é a discordância-
espiral. Os círculos abertos representam os átomos imediatamente acima do plano de desliza-
mento; os círculos fechados são os átomos no plano imediatamente abaixo do plano de desliza-
mento. (De W. T. Read, Jr., D i s l o c a t i o n s i n C r y s t a l s , p. 17, McGraw-Hill Book Company, New
York, 1953.)

discordância-espiral numa rede cúbica simples. Nesta figura, estamos olhando de


cima o plano de deslizamento da Fig. 4.9. Os círculos abertos representam os átomos
imediatamente acima do plano de deslizamento, e os círculos fechados são os átomos
imediatamente abaixo daquele plano. Uma discordância-espiral não possui um plano
de deslizamento preferencial como a discordância-arestat, tendo por isto sua movi-
mentação menos restrita do que a da aresta; todavia ela não é capaz de realizar escala-
gemo
A discussão das discordâncias será limitada, por enquanto, aos conceitos geomé-
tricos apresentados nesta seção. No Capo 5, retomaremos à conceituação mais deta-
lhada da teoria das discordâncias após termos discutido de maneira mais completa a
deformação plástica nos monocristais e policristais. Entre os tópicos a serem vistos
estarão o efeito da estrutura cristalina na geometria da discordância, as evidências
experimentais da existência das discordâncias e a interação entre discordâncias.

tN. do T.: O plano de deslizamento da discordância-aresta está definido pela linha de discordância e seu vetor
de Burgers. No caso de discordância-espiral, a linha e o vetor de Burgers sáo paralelos, náo definindo, desta
forma, um plano.

Document shared on www.docsity.com


A deformação plástica ocorre normalmente nos metais através do deslizamento de
blocos do cristal, uns sobre os outros, ao longo de planos cristalográficos bem defini-
dos que são chamados pLanos de desLizam ento. Numa aproximação grosseira, o desli-
zamento, ou escorregamento, de um cristal pode ser considerado análogo à distorção
produzida quando se espalha um baralho sobre a mesa, empurrando uma de suas ex-
tremidades. A Fig. 4.1 I ilustra esta visualização clássica do deslizamento. Na Fig.
4. I Ia é aplicada uma tensão cisalhante num cubo de metal com a superfície superior
polida; o deslizamento ocorre quando esta tensão atinge um valor crítico. Os átomos
movem um número inteiro de distâncias atômicas ao longo do plano de deslizamento,
produzindo um degrau na superfície polida (Fig. 4.1 Ib ) . Quando observamos de cima a
superfície polida através de um microscópio, o degrau aparece rebatido como uma
linha que é chamada Linha de deslizam ento. Se a superfície for repolida após ter ocor-
rido o deslizamento, o degrau será retirado, desaparecendo também a linha de desli-
zamento (Fig. 4.llc).

• • • ~ L in h a de
deslizamento


·, . • • •
S u p e rfíc ie p o lid a

• • I • • • • • • • • • • I •
1
• •
• • • • • • • • • • • • • I •
• •
.1. .1.
• II • I
• • • • • • • • • • • • • •
rl • • .'.
I

• • lr • • • • • • • • .,. I
• •
• •
I
I
• I· • • P la n o d e • • • ,. I
• •
• • •
~ d e s liz a m e n to
I.
• I· • •
• • • 1 •
(a ) (b ) (c)

Fig. 4.11 Desenho .esquemático da idéia clássica de deslizamento.

Devido à simetria translacional da rede cristalina, a estrutura cristalina é perfei-


tamente restaurada após ter ocorrido o deslizamento, desde que a deformação seja
uniforme. Cada átomo na região deslizada do cristal se move adiante o mesmo número
inteiro de espaços da rede. Deve-se notar que as linhas de deslizamento são decorren-
tes de elevações da superfície; desta forma, a superfície deve ser cuidadosamente pre-
parada antes da deformação ocorrer para que se possam observar as linhas de desliza-
mento em microscópio. A Fig. 4.12 mostra linhas de deslizamento retas em cobre.
Através de microscopia eletrônica, tem sido estudado com grande aumento a fina
estrutura das linhas de deslizamento. O que no microscópio óptico aparece como uma
linha, ou melhor dizendo, uma estreita banda, com um aumento de 1.500 vezes, pode
ser resolvido no microscópio eletrônico com um aumento de 20.000 vezes em uma
estrutura de deslizamento lamelar, a qual está representada esquematicamente na Fig.
4.13.
O fato de um monocristal manter sua continuidade estrutural após ser deformado
plasticamente de maneira homogênea impõe certas limitações no modo de se processar
a deformação plástica. O deslizamento ocorre preferencialmente segundo direções e
planos cristalográficos específicos, sendo os planos cristalográficos aqueles de maior
densidade atômica (Tabela 4.2) e a direção cristalográfica a mais compacta deste
plano. Uma vez que os planos de maior densidade atômica são também os mais espa-
çados entre si, a resistência destes planos será geralmente menor que a dos outros
conjuntos de planos cristalográficos. A direção e o plano de deslizamento definem o
sistem a de des/izam elllo.

Document shared on www.docsity.com


.-1-...-- ~~s~~~~ii:amento
-r Região
interdeslizamento

Fig. 4.13 Desenho esquemático da


estrutura fina de uma banda de des-
lizamento. ( a ) Pequena deforma-
ção; ( b ) grande deformação.
Umabanda -..J
de deslizamento
(a )

Nos metais hexagonais compactos, o plano basal (0001) é o único de grande den-
sidade atômica, sendo os eixos diagonais (I 120) as direções compactas. Nos metais
zinco, cádmio, magnésio e cobalto, o deslizamento ocorre no plano (0001) segundo as
direções (1110)'. Uma vez que existe apenas um plano basal por célula unitária e três
direções (I 120), a estrutura h.c. possui apenas três sistemas de deslizamento, e devido
a este número limitado esses metais apresentam uma ductilidade baixa e fortemente
dependente da orientação.
Na estrutura cúbica de faces centradas, os planos octaédricos {li I} e as direções
(I 10) formam os sistemas compactos. Existem oito planos {III} na célula unitária
c.f.c.; no entanto os planos das faces opostas do octaedro são paralelos entre si, o que
acarreta a existência de apenas quatro g r u p o s de planos octaédricos2• Cada plano

'o zircõnio e o titânio, que possuem uma baixa relação c/a, deslizam principalmente nos planos prismáticos e
piramidais segundo a direção (1120).
'Numa estrutura cúbica o ângulo entre dois planos (h,k,I,) e (h,k.,l,) é dado por
h ,h , + k, k, + 1,1,
cos8= (h,' + k,' + I,')Y..(h,'+ k,'+ I,')Y..

Por exemplo, os planos (111) e (fff) são paralelos uma vez que cos (J = 1. Também numa estrutura cúbica, a
direção [hkl] é perpendicular ao plano (hkl). Desta forma, quando a direção de deslizamento [uvw ] pertence ao
plano de deslizamento (hkl), temos o ângulo (J = 90", sendo cos (J = O = hu + kv + Iw . Por exemplo, o plano
(11 f) contém as direções de deslizamento [l01] e [l fO ).

Document shared on www.docsity.com


{I I I} contém três direções (I 10); desta forma, a rede c.f.c. possui 12 sistemas de
deslizamento.
A estrutura c.c.c. não é compacta como a c.f.c. ou a h.c., não apresentando um
plano de densidade atômica predominante como o (I I I) na estrutura c.f.c. e o (0001)
na estrutura h.c. Os planos {I IO} apresentam a maior densidade atômica na estrutura
C.C.C., mas sem grande superioridade a vários outros planos. No entanto, a direção
{I I I) da estrutura c.c.c. é tão compacta quanto a {I 10) do c.f.c. e a {I 120) da estrutura
h.c. Desta forma, os metais c.c.c. obedecem à regra geral de deslizarem segundo a
direção mais compacta, entretanto diferem da maioria dos outros metais por não pos-
suírem um único plano de deslizamento definido. O deslizamento no metal c.c.c. pode
ocorrer nos planos {I IO}, {112} e {123}, enquanto que a direção é sempre a [I I I].
Sendo assim, existem 48 sistemas de desIizamento possíveis, mas como os planos não
são tão compactos quanto os da estrutura c.f.c., são geralmente necessárias maiores
tensões de cisalhamento para produzir deslizamento.
O deslizamento no ferro c.c.c. tem sido particularmente bem estudado'.
Concluiu-se que, neste material, o desIizamento pode ocupar qualquer posição no eixo
de zona [I I I], sendo esta posição determinada pela orientação do eixo da tensão em
relação ao eixo do cristal e pela variação das resistências dos planos ao cisalhamento
na zona de deslizamento. Estes estudos mostraram que existem desvios dos planos de
baixo-índice {J 10}, {I I2} e {I23} que dão suporte à hipótese de que o deslizamento no
ferro a não seja cristalográfico. Outra evidência para esta hipótese está no fato das
linhas de deslizamento neste material serem onduladas2 (Fig. 4.14).
Certos metais apresentam planos de deslizamento adicionais à medida que a tem-
peratura aumenta. A altas temperaturas o alumínio apresenta deslizamento segundo o
plano {IIO}, enquanto que no magnésio acima de 225°C o plano piramidal {IOfI}
exerce um papel importante na deformação por desfizamento. Em todos os casos as
direções de deslizamento permanecem as mesmas, apesar 'dos planos de deslizamento
variarem com a temperatura.

'F. L. Vogel e R. M. Brick, Trans. A /M E , vol. 197, p. 700, 1958; R. P. Steijn e R. M. Brick, Trans. A m . Soe.
M et., vol. 46, pp. 140&-1448,1954; 1. J. Cox, G. T. Horne e R. F. Meh1, Trans. A m . Soe. M el., vol. 49, pp.
118-131,1957.
'J. R. Low e R. W. Guard, A ela M elal/., vol. 7, pp. 171-179, 1959. Estes autores mostraram que linhas de
deslizamento curvas são produzidas no ferro pelas componentes espirais do anel de discordãncia; no entanto,
quando vistas de um plano normal à componente-aresta da discordãncia, estas linhas são retas.

Document shared on www.docsity.com


o deslizamento num cristal iôruco como o NáCI, ou num cerâmico de ligações
covalentes como o MgO, exige a consideração de que sejam satisfeitas as interações
entre átomos da mesma natureza e entre átomos de natureza diversa. No MgO, por
exemplo, a resistência ao deslizamento na direção [100] é maior, porque os íons de
carga igual são levados a um estreito contato entre si (Fig. 4 .1 5 a ) . Já no deslizamento
segundo a direção [110] isto não se verifica, evitando desta forma o desenvolvimento
de grandes forças eletrostáticas. Devido a este fato, muitos cristais iônicos apresentam
deslizamento preferencialmente segundo a direção [110]. A necessidade de levar em
conta as forças eletrostáticas entre íons de espécies diferentes introduz uma forte res-
trição à deformação plástica dos sólidos iônicos. Nestes· materiais existe um número
muito menor de direções de baixa tensão cisalhante crítica do que nos metais cúbicos.

~
O O 0"0 O
O O O O O O O O
r------l O
O~ O O O
O O O 010 O O, 0'>-'
.L I I O O O
O O O
O O L'0_ _ _ _O O -1I O
__
O O O O
O O O O O O O O O
O O O O
~
(a ) (b )

Fig. 4.15 Deformação do MgO. ( a ) Deslizamento na direção [100]; ( b ) deslizamento na direção


[110]. Símbolos: O Mg++, O, 0--. (De L. H. Van Vlaek, P hysical C eram ics for E ngineers,
Addison-Wesley Publishing Company, Ine., Reading, Mass., 1964, p. 132. Com permissão dos
editores.)

Se for considerado que o deslizamento ocorre através da translação de um lano atô-


mico sobre outro, será possível fazer uma razoável e~timatival da tensão de cisalha-
- mento necessária para realizar este movimento numa rede cristalina perfeita (Fig.
4.16). Admite-se que a tensão cisalhante atua no plano de deslizamento ao longo da
direção de deslizamento. A distância interatômica segundo as direções de desliza-
mento é b, enquanto que o espaçamento entre planos adjacentes da rede é a. A tensão
cisalhante provoca um deslocamento x, segundo a direção de deslizamento, entre o par
de planos adjacentes da rede. Quando os dois planos são coincidentes, a tensão inicial
é zero, valor que se repetirá quando os dois planos forem deslocados relativamente de
uma distância b , isto é, quando o ponto 1 do plano superior estiver sobre o ponto 2
pertencente ao plano inferior. A tensão cisalhante é também zero quando os átomos do
plano superior estão situados a uma distância média entre os átomos do plano inferior,
uma vez que esta é uma posição de simetria. Entre estas três posições de tensão nula,
cada átomo é atraído em direção ao vizinho mais próximo da outra fila, tornando a
tensão cisalhante uma função periódica do deslocamento.
~ A relação entre tensão cisalhante e deslocamento pode ser expressa, numa pri-
meira aproximação, através de uma função senoidal:

Document shared on www.docsity.com


Fig. 4.16 (a ) Deslocamento
por cisalhamento de um plano
/ R e la ç ã o s e n o id a l
de átomo sobre outro plano
.--.f , atômico; ( b ) variação da ten-
/ são cisalhante com o deslo-
, Relação realísti ca
camento na direção de desli-
zamento.

r.F
Gx
T=G y=-
a

Para pequenos valores de x , a Eq. (4.2) pode ser escrita


b

Combinando as Eqs. (4.3) e (4.4), obtém-se uma expressão para a máxima tensão
cisalhante na qual o deslizamento ocorreria.

Gb
T = - - (4.5)
m 2 rr a

Numa aproximação grosseira, b pode ser igualado a a, fornecendo o resultado de que a


resistência teórica ao cisalhamento de um cristal perfeito é aproximadamente igual ao
módulo de cisalhamento dividido por 27[.

G
L Tm = 2 rr,.c ....J (4 .6 )

O módulo de cisalhamento dos metais está no intervalo de lO'l a 104 kgf/mm 2 (10"
a 1012 dyn/cm 2). Desta forma, a Eq. (4.6) prevê que a tensão cisalhante teórica estará
no intervalo de 102 a 103 kgf/mm 2, enquanto que os valores reais necessários para
produzir deformação plástica nos monocristais metálicos são da ordem de 10-1 a 101
kgf/mm 2. Mesmo que sejam usados cálculos mais apurados para corrigir a hipótese da
onda senoidal, o valor de T m teórico não se aproximará do valor real observado na
prática. Tyson " utilizando uma solução computacional das equações de forças intera-

Document shared on www.docsity.com


tômicas, obteve 7", = G/16 para um metal c.f.c, 7", = G /8 para a estrutura NaCl e 7m =
G /4 para uma estrutura do tipo diamante com ligações covalentes. Uma vez que a
resistência teórica ao cisalhamento é pelo menos 100 vezes superior ao valor prático.
deve-se concluir que o mecanismo responsável pelo deslizamento não deve ser a sim-
ples translação de planos atômicos uns sobre os outros. Na seção seguinte é apresen-
tado o papel das discordâncias como provedoras do verdadeiro mecanismo.

o conceito de discordância foi a princípio introduzido com o intuito de explicar a


discrepância entre os valores teóricos e experimentais da resistência dos metais ao
cisalhamento. ,Para que este conceito seja válido _é ne~ssário mostrar ~e o movi-
mento de uma discordância através de uma rede cristalina requer uma tensão muito
,"inferior à tensão cisalhante teórica e (2) que o movimento da discordância pro_duz um
. degrau, ou banda de deslizamento, na superfície livre do metal.
Numa rede perfeita todos os átomos abaixo e acima do plano de deslizamento
encontram-se em posições de energia mínima. Quando uma tensão cisalhante é apli-
cada ao cristal, a mesma força de oposição ao movimento atua sobre todos os átomos.
Este foi o modelo apresentado na Fig. 4.16. Quando existe uma discordância no cris-
tal, os seus átomos distantes permanecem em posição de energia mínima; apenas pró-
ximo à discordância é necessário que haja um pequeno movimento de átomos para que
ela se movimente. Tendo como referência a Fig. 4.17a, o plano atômico extra da
discordância-aresta está inicialmente em 4. Sob a ação da tensão cisalhante, um pe-
queníssimo movimento de átomos para a direita permitirá que este semiplano se alinhe
com o semiplano 5', ao mesmo tempo que o semiplano 5 é separado dos seus vizinhos
abaixo do plano de deslizamento. Através deste processo a linha de discordância-
aresta movimentou-se de sua posição inicial entre os planos 4' e 5' para uma nova
posição entre os planos 5' e 6'. Uma vez que os átomos em volta da discordância estão
dispostos simetricamente nos lados opostos do semiplano extra, forças iguais e opostas
se opõem e ajudam o movimento. Desta forma, numa primeira aproximação não existe
uma força resultante sobre a discordância, e a tensão necessária para movimentá-Ia é
zero. A continuação deste processo, sob a ação das tensões representadas na Fig.
4.17, movimenta a discordância para a direita. Quando o semiplano extra atinge a
2l:I.Eerfícielivre (Fig. 4 .l7 b ) , é formado um degrau de deslizamento igual a um vetor de
Burgers, ou uma distância atômica para a rede cúbica simples.
'-- -

23456 7

P la n o d e
deslizamento ~


....,.,
1 I I



l' 2' 3' 4' 5' 6' 7'

(a ) (b )

Fig. 4.17 ( a ) Movimentos de átomos próximos à discordância no deslizamento; (b ) movimento de


uma discordância-aresta.

Document shared on www.docsity.com


Cottrell' propôs uma maneira particularmente instrutiva de se encarar o desliza-
mento através do movimento de discordância. Considere que a deformação plástica
seja a transição de um estado não-deslizado para um estado deslizado (Fig. 4.180).
Desde que o processo seja oposto por uma barreira de energia M., a fim de facilitar o
processo é lógico admitir que a transição não se dará simultaneamente em todo o
material. Para minimizar a energia do processo o material deslizado crescerá às custas
da região não-deslizada, através do avanço de uma região interfacial (Fig. 4.18b). Esta
região interfacial é uma discordância. A espessura (li') é a largura da discordância.
Quanto menor seu valor menor será a energia interfacial, mas quanto mais larga a
discordância mais baixa será a energia elástica do cristal, pois neste caso o espaça-
mento atômico na direção de deslizamento estará mais próximo do seu valor de equilí-
brio. Desta maneira, a largura de equilíbrio da discordância é determinada por um
balanço entre estas duas variações de energia opostas.

~ - - - - ,l- w - l- ,
R e g iã o d e s liz a d a
--- R e g iã o
R e g iã o n ã o .d e s liz a d a
interfacial

Fig. 4.18 ( a ) Variação de energia do estado não-deslizado para o deslizado; (b ) estágios de cres-
cimento da região deslizada.

A largura da discordância é importante porque determina a força necessária para


movimentar umadiscordância através da rede cristalina. Esta força é chamada de
força de P eierls-N abarro. A tensão de Peierls é a tensão cisalhante necessária para
movimentar uma discordância através de uma rede cristalina segundo uma direção
particular S A, I ç I '" ()I, ~

b rJ '- c .~ rl:, -r ( .(' ~ ] C1 r I) ,.. 1':'


2G - 2G "
T ~ __ e- 2 n w / b ~ -- e -(2 n a /(I-v )b l ( 4 .7 )
p
l- v l- v

onde a é a distância entre planos de deslizamentQ e b é a distância entre átomos na


direção de deslizamento. Deve-se notar que a (Íargura ãã-iscordâncià' aparece no

Document shared on www.docsity.com


termo exponencial da Eq. (4.7), o que significa que a tensão de Peierls será muito
sensível às posições atõmicas no núcleo de uma discordância. Estas posições não são
conhecidas com grande precisão, e como a Eq. (4.7) foi desenvolvida para a lei senoi-
daI de força-distância, a qual tem sua validade limitada, ela não deve ser empregada
para cálculos precisos. Todavia ela é válida o bastante para mostrar que é muito baixa
a tensão necessária para movimentar uma discordância em um metal. 1
Apesar destas limitações a equação de Peierls tem um importante valor concei-
tual, pois mostra que materiais que apresentam discordâncias "largas" necessitam de
tensões baixas para movimentá-Ias. Fisicamente isto significa que, quando a disco r-
dância é larga, a região altamente distorcida no núcleo da discordância não está locali-
zada em nenhum átomo particular da rede cristalina. Nos metais dúcteis a largura da_
discordância é da ordem de 10 distâncias interatômicas, no en auto nos materiais ce-
ramicos_com ligações_covalentes direcionais, a energia mterfacial é alta e as disc~
ciãSSão estreitas e relativamente imóveis. Este fato, aliado à restrição imposta nos
planos de deslizamento pelas exigências das forças eletrostáticas, acarreta o baixo grau
de plasticidade dos materiais cerâmicos. Os cerâmicos se tornam mais dúcteis a altas
temperaturas porque a ativação térmica ajuda as discordâncias a vencer a barreira de
energia.
O fato do deslizamento ocorrer nas direções compactas significa que b é minimi-
zado, o que, segundo a Eq. (4.7), implica uma tensão de Peierls mais baixa. Se a < b ,
como ocorreria para planos não compactos de pequeno espaçamento, a tensão de
Peierls seria alta. Assim sendo, a Eq. (4.7) fornece uma base para a observação de
que o deslizamento ocorre mais facilmente nos planos compactos segundo as direções
compactas. Quando a estrutura cristalina é complexa e não apresenta planos e dire-
ções muito compactos, as discordâncias tendem a ser imóveis, o que ocasiona a fragi-
lidade e alta dureza dos compostos intermetálicos.
É interessante calcular a deformação de cisalhamento decorrente do movimento
de uma discordância através de um monocristal. A discordância produz na superfície
um degrau b , o que implica uma deformação cisalhante ( y na Fig. 4.19a) y = b /h . Se a
altura do cristal for de I cm, a passagem de uma única discordância produzirá uma
deformação cisalhante de apenas 3 x 10-8, o que torna óbvio que são necessárias
muitas discordâncias para produzir deformações significantes na engenharia. A defor-
mação plástica macroscópica total é a soma de todas as pequenas deformações, devi-
das à passagem individual de um número muito grande de discordâncias. Desta forma,
se três discordâncias em três planos paralelos movimentarem-se através do cristal, a
deformação cisalhante será de y = 3b/h.
Vamos agora considerar o caso em que uma discordância movimentou-se apenas
de uma determinada distância dentro do cristal, ao longo do plano de deslizamento
(Fig. 4.19b). Uma vez que b é muito pequeno comparado com L ou h, o deslocamento
ô i causado por uma discordância em uma posição intermediária entre X i = O e X i = L
será proporcional a x;/L.

0.= xib
I L

O deslocamento total da face superior do cristal em relação à face inferior, devido à


passagem de muitas discordâncias em planos de deslizamento diversos, s€rá
b N
~= "o.=
1..- -"x.
L 7' I I
( 4 .8 )

'Conceitos recentes sobre a tensão de Peierls foram apresentados por Rosenfield el ai., D islocation D ynam ics,
McGraw-HiII Book Company, New York, 1968.

Document shared on www.docsity.com


I
I

11
I
I
I
I
I
I

_ _ _ _ _ _ _ _i~
_______ I
I ~

-x ;--.j

\---- L- - - - 1

(b )

Fig. 4.19 ( a ) Deformação cisalhante associada à passagem de uma única discordância através do
cristal; ( b ) deformação cisalhante devido ao movimento de uma discordância através de apenas
parte do cristal.

LXi
- 1
X = --
N

bN x
1 '= -
hL

onde p = N lhL. A densidade de discordâncias é o comprimento total de linhas de


discordâncias por unidade de volume ou, ainda, o número de linhas de discordância
que cortam uma área transversal unitária. De qualquer maneira, p possui unidades de
número de discordâncias por centímetro quadrado. O conceito utilizado na obtenção
da Eq. (4.11) aplica-se tanto para discordâncias-aresta como espiral. Contudo, rara-
mente ocorre nos metais reais este movimento extremamente simplificado de discor-
dâncias paralelas; desta forma, a Eq. (4.11) deve ser modificada para levar em conta as
complexidades da geometria e configuração das discordâncias.
É muito comum expressar a Eq. (4.11) em termos da taxa de deformação cisa-
lhante:

d I' dx
y=- = bp - = bpü
dt dt

onde V , velocidade média das discordâncias, é uma grandeza que pode ser medida
experimentalmente de várias maneiras. Da Eq. (4.12) vemos que, se quisermos des-
crever a deformação plástica macroscópica em termos do comportamento das discor-
dâncias, precisaremos saber (I) a estrutura cristalina a fim de calcularmos b , (2) o
número de discordâncias móveis p e (3) a velocidade média das discordâncias v . As

Document shared on www.docsity.com


grandezas p e V dependerão da tensão, tempo, temperatura e da história termomecâ-
nica do material.
As medidas da velocidade de discordâncias' realizadas em diversos cristais iôni-
cos e em metais mostraram que esta é fortemente dependente da tensão cisalhante que
atua no plano de deslizamento. Esta função pode ser dada pela equação v = A T m ',
onde m ' é uma constante que varia de 1,5 até 40 para os diversos materiais. Existe
uma tensão crítica necessária para iniciar o movimento de discordâncias a partir da
qual pequenos aumentos de tensão acarretam grande aumento na velocidade das dis-
cordâncias. Acima de 1 0 cm/s a velocidade aumenta mais lentamente, tendendo a um
limite próximo à velocidade da onda de deformação cisalhante do material.

A extensão de deslizamento num monocristal de ende da magnitude da tensão cisa-


lhante pro uziCla ela ação e cargas externas, da geometria da estrutura cristalina e
< lã orientação dos planos de deslizamento ativos em relação às ten§ões de cisalha-
'lí1eI1to. O deslizamento começa quando a tensão cisalhante no plaoo de deslizamento,
rr; segundõ· a direção de deslizamento, atinge um valor limite denominado tensão cisa-
R c. lhante resolvida crítica. Este valor2 é o equivalente para monocristais, do limite de
escoamento o servado nas curvas tensão-deformação dos policristais, e depende prin-
cipalmente da composição química e da temperatura.
O fato de serem necessárias diferentes cargas de tração para produzir desliza-
mento num monocristal do mesmo material, porém com diferentes orientações, pode
ser explicado pela ação de uma tensão de cisalhamento resolvida de valor crítico,
como proposto originalmente por Schmid3. Para se calcular o valor crítico da tensão
cisalhante resolvida de um monocristal ensaiado em tração, é necessário saber, através
de difração de raios X, a orientação, em relação ao eixo de tração, do plano onde
começa o deslizamento e da direção de deslizamento. Considere um monocristal cilín-
drico de área transversal A (Fig. 4.20). O ângulo4 entre a norm al ao plano de desliza-

flf" y f

TR~/' -....
.....•
/
/
/

Fig. 4.20 Esquema para o cálculo da tensão cisa- D ire ç ã o de )


deslizamento
Ihante resolvida crítica.

'W. G. Johnston e J. H. Gilman, J . A ppl. P hys., vol. 30, p. 129, 1959.


'Na prática é muito difícil determinar a tensáo para a qual são produzidas as primeiras bandas de deslizarnento.
Na maioria dos casos, a tensão crítica cisalhante é obtida pela interseção das regiões plástica e elástica extrapo-
ladas da curva tensão-deformação.
'E. Schmid,Z. E lektrochem ., vol. 37,447,1931.
'Observe que <I>e À só serão ãngulos complementares no caso especial em que a direção de deslizamento esteja
no plano definido pelo eixo da tensão e a normal ao plano de deslizamento.

Document shared on www.docsity.com


mento e o eixo de tração é c j> , enquanto que o ângulo entre a direção de deslizamento e
o eixo de tração é À. A área do plano de deslizamento seráA/cos c j> , e a componente da
carga axial resolvida ao longo do plano de deslizamento é igual a P cos À. Desta
maneira, a tensão cisalhante crítica resolvida é dada por

~co~J: P
TR=--~=-coscj>cosÀ (4.13)

--
, I

t"'5 '.::~ \;" '1 ) < ~ { ,,~ ll{ Ü A /c o s c j> ' A

A Eq. (4.13) fornece a tensão cisalhante resolvida no plano de deslizamento que 1


atua segundo a direção de deslizamento. Esta tensão é máxima quando c j> = À = 45°,
pois assim T R = Yz P /A . Se o eixo de tração for normal ao plano de deslizamento (À =
90°) ou se for paralelo a este (c j> = 90°), a tensão cisalhante resolvida será zero, o que
significa que para estas orientações o deslizamento não ocorre, visto que não há tensão
de cisalhamento no plano de deslizamento. Os cristais próximos a estas orient~
tendem a fraturar em vez de deslizar.
A Tabela 4.4 apresenta valores de tensão cisalhante crítica para uma série de
metais. Nesta tabela podemos observar, para a prata e o cobre, a grande importância
de pequenas quantidades de impurezas no aumento da tensão cisalhante crítica. Os
elementos-liga adicionados possuem um efeito ainda maior do que as impurezas, como
pode ser observado nos resultados obtidos para ligas ouro-prata na Fig. 4.21. É impor-
tante notar que, ligando ouro e prata, obtém-se um grande aumento na resistência ao
deslizamento, apesar da grande semelhança entre seus tamanhos atõmicos e a eletro-
negatividade, que os permite formar uma solução sólida ao longo do intervalo com-
pleto de composições. Nas soluções sólidas em que átomos solutos e solventes dife-
rem consideravelmente no tamanho, observa-se um aumento ainda mais pronunciado
na tensão cisalhante resolvida crítica.
A magnitude da tensão de cisalhamento resolvida crítica de um cristal é determi-
nada pela interação de sua população de discordâncias umas com as outras e também

Tabela 4.4 Sistemas de deslizamento à temperatura ambiente e tensâo cisalhante resolvida


crítica para monocristais metálicos

M etal E strutura P ureza % P lano de D ireção de Tensão de


cristalina deslizam ento deslizam ento cisalham ento
crítica, g/m m 2

Zn h.e. 99,999 (0001) [1120) 18


Mg h.e. 99.996 (0001) [1120) 77
Cd h.e. 99,996 (000 I) [II~O) 58
Ti h.e. 99,99 (1010) [1120) 1.400
99,9 (1010) [1120) 9.190
Ag e.f.e. 99,99 (111 ) [110) 48
99,97 ( 111) [110) 73
99,93 (111) [110) 131
Cu e.f.e. 99,999 ( 111) [110] 65
99,98 (111) [110) 94
Ni e.f.e. 99,8 (111) [110] 580
Fe c.e.e. 99,96 (110) [111] 2,800
(112)
( 113)
Mo c.e.e. (110) [111] 5.000

aD . C. Jillson, Trans. A IM E , vol. 188, p. 1129, 1950.


bE. C. Burke e W. R. Hibbard, Jr., Trans. A /M E , vol. 194, p. 295, 1952.
cE. Schmid, /nternational C onference on P hysics, vol. 2, Physical Society, London, 1935.
dA . T. Churchman, P roc. R . Soe. London Ser. A ., vol. 226A , p. 216, 1954.
'F. D. Rosi, Trans. A IM E , vol. 200, p. 1009, 1954.
IJ. J. Cox, R. F. Mehl e G. T. Horne, Trans. A m . Soe. M et., vol. 49, p. 118, 1957.
°R. Maddin e,N. K. Chen, Trans. A /M E , vol. 191, p. 937, 1951.

Document shared on www.docsity.com


0,6
E

C J>

-"
~ 0,4
u
<D

.,
C

!0'2V~
.. ,
'"
c:
{!!. OX
O
Ag

Fig. 4.21 Variação da tensão cisalhante resolvida crítica com a composição em monocristais da
liga ouro-prata. (De G. Sachs e J. Weerts, Z. P hys.·, vol. 62, p. 473, 1930.)

com defeitos tais como lacunas, interstícios e átomos de impurezas. Esta tensão é,
obviamente, maior do que a tensão necessária. para movimentar uma única discordân-
cia; no entanto ela é consideravelmente menor do que a tensão necessária para produ-
zir deslizamento numa rede cristalina perfeita. Com base neste raciocínio, a tensão
cisalhante crítica deveria decrescer à medida que diminuísse a densidade de defeitos,
desde que o número total de imperfeições não fosse zero. Quando a última discordân-
cia fosse eliminada, a tensão cisalhante crítica deveria aumentar abruptamente até o
valor previsto para a resistência ao cisalhamento de um cristal perfeito. O fato de a
tensão cisalhante resolvida crítica de metais moles poder ser reduzida a menos de um
terço do valor original, aumentando-se a pureza do metal, constitui uma evidência
experimental do efeito da diminuição da densidade de defeitos. Por outro lado, fila-
mentos capilares de monocristais, ou w hiskers, que podem ser fabricados praticamente
isentos de discordâncias, apresentam resistência à tração! que se aproxima da resis-
tência calculada de um cristal perfeito.
A razão entre a tensão cisalhante e a tensão axial é cham adafator de Schm id m .
Para um monocristal carregado em tração ou compressão ao longo do seu eixo, m =
cos ~ cos À. Hartley e Hirth2 apresentaram métodos gráficos para a determinação de
m para qualquer orientação cristalina e sistema de deslizamento.
Observa-se experimentalmente que um monocristal deslizará quando for atingido
um valor crítico da tensão cisalhante resolvida. Este comportamento, conhecido como
Lei de Schmid, é melhor demonstrado com os metais h.c., onde o número limitado de
sistemas de deslizamento permite grandes diferenças na orientação entre o plano de
deslizamento e o eixo de tração (ver Probo 4.8). Nos metais c.f.c., devido à alta sime-
tria, existem muitos sistemas de deslizamento equivalentes, o que só torna possível
obter-se uma variação na tensão de escoamento, decorrente das diferenças de orienta-
ção entre o plano de deslizamento e o eixo de tração, de um fator 2.

A maioria dos estudos de propriedades mecânicas de monocristais são realizados atra-


vés de simples tração uniaxial. No ensaio de tração comum, o movimento do travessão
da máquina de ensaio restringe o corpo de prova ao eixo das garras, uma vez que estas
devem permanecer alinhadas. Desta forma, não é permitido que o corpo de prova se

'S. S. Brenner, J. A ppl. P hys., vaI. 27, pp. 1484-1491, 1956.


'c. S. Har!ley e J. P. Hirth, Trans. M etall. Soe. A IM E , vaI. 223, pp. 1415-1419, 1965.

Document shared on www.docsity.com


Fig. 4.22 ( a ) Deformação em tração de um monocristal, sem restrição; (b ) rotação dos planos de
deslizamento devido à restrição.

deforme livremente, através de um escorregamento unifoOrmeem cada plano de desli-


zamento ao longo da sua seção útil, conforme representado na Fig. 4.22a. Ao contrá-
rio, os planos de deslizamento sofrem uma rotação no sentido do eixo de tração, uma
vez que este permanece fixo, como se observa na Fig. 4.22b.
Como o escoamento plástico ocorre por deslizamento em certos planos e segundo
direções particulares, o aumento verificado no comprimento do corpo de prova, para
uma dada quantidade de deslizamento, dependerá das orientações do plano e direção
de deslizamento em relação ao seu eixo'. A medida fundamental de deformação plás-
tica num monocristal é a deformação cristalográfica de deslizamento y. Deformação de
deslizamento é o deslocamento relativo de dois planos de deslizamento paralelos sepa-
rados de uma distância unitária. As equações que relacionam a deformação de desli-
zamento com a extensão do corpo de prova podem ser retiradas da Fig. 4.23. À me-
dida que o monocristal se alonga, a direção de deslizamento sofre uma rotação para o
eixo de tração. Para simplificar, na Fig. 4.23, os elementos do deslizamento são man-
tidos fixos, enquanto que o eixo de tração sofre rotação à medida que o cristal se
alonga de L o para L I ' Os dois casos são geometricamente equivalentes. Além do mais,
também para simplificar, a orientação do plano de deslizamento é dada pelo ângulo X
entre o eixo da elipse de deslizamento e o eixo de tração, em vez de ser dada pelo ân-
gulo cf> entre a normal à elipse de deslizamento (plano de deslizamento) e o eixo de tra-
ção. Com esta seleção dos ângulos, TR = P IA sen X cos À.
A partir do triângulo A B B ', aplicando a lei dos senos, podemos ver que

LI LI
sen (180 - ,to) = sen ,to

Document shared on www.docsity.com


A deform ação de deslizam ento é definida como sendo a quantidade total de desliza-
mento dividida pela dimensão da porção deslizada

BB'
À=-
AC

BB' = LI sen(Ào - À 1 )
senÀo

Substituindo na expressão da deformação de deslizamento, e realizando considerações


trigonométricas, tem-se que

'Y= _1_ {[(L 1 )2 -sen2 À O]I/2 - COS À O}


senxo Lo

Assim, a deformação cisalhante de deslizamento pode ser determinada a partir da


orientação inicial do plano de deslizamento e direção de deslizamento (Xoe ~) e da ex-
tensão relativa do corpo de prova L1/L o • Esta análise admite que o deslizamento ocorre
num único sistema de deslizamento.
Se a orientação dos elementos de deslizamento (plano e direção) puder ser de-

Document shared on www.docsity.com


Fig. 4.24 Curvas típicas de tensão-deformação de
monocristais.

COS À l COS À o
y = -----
sen Xl sen Xo

A maneira usual de apresentar resultados de ensaios de monocristais é através de


gráficos da tensão cisalhanfe resolvida verslls deform ação cisalhante de deslizam enfo.
A Fig. 4.24 mostra que existem importantes diferenças entre os metais. Os metais
c.f.c. apresentam, tipicamente, maior encruamento que os metais h.c. Detalhes adi-
cionais serão fornecidos na Seção 4.14.

Em virtude de os cristais c.f.c. possuírem alta simetria e 12 sistemas de deslizamento


possíveis, existem várias alternativas para o deslizamento ocorrer. O plano de desli-
zamento não necessitará experimentar uma grande rotação antes que a tensão cisa-
lhante resolvida se torne suficientemente alta em outro sistema de deslizamento {III}
(lI O). O sistema de deslizamento operativo inicial, chamado primário, será aquele COQ1
o maior fator de Schmid, m = sen X cos À. O sistema primário dependerá da orienta-
ção do cristal com relação ao eixo de tração.
A relação entre o eixo de tensão e os 12 sistemas de deslizamento possíveis é me-

Document shared on www.docsity.com


Ihor estudada em projeção estereográfica1 (Fig. 4.25), onde cada um dos triângulos de-
fine uma região em que opera um sistema de deslizamento particular. Existem quatro
pólos (111), A B C D , representando as normais aos planos de deslizamento octaédricos
{J 11}, enquanto que as direções de deslizamento estão indicadas de I a IV. Se um
corpo de prova apresentar seu eixo em P , o sistema operativo será B IV. Os ângulos cPo
e À o são dados pelos grandes círculos que passam por B - P - I V . A projeção estereográ-
fica pode ser usada para acompanharmos a rotação do sistema de deslizamento em di-
reção ao eixo de tração. À medida que o corpo de prova se alonga, À decresce e cP au-
menta. Podemos, todavia, considerar que o sistema de deslizamento permanece fixo e
o eixo sofre rotação.
Durante a elongação da amostra, seu eixo eventualmente atinge a fronteira do sis-
tema [001] - [fi 1] em P '. Neste instante, a tensão cisalhante resolvida é igual no sis-
tem a de deslizam ento prim ário e no sistem a de deslizam ento conjugado (ffl) [011], o
que faz com que a deformação proceda simultaneamente nos dois sistemas de desliza-
mento, produzindo um deslizam ento dúplex ou deslizam ento m últiplo.
Observado em microscópio, o sistema conjugado aparece como um outro con-
junto de linhas de deslizamento interceptando as linhas do sistema primário. O fato de
o deslizamento poder ocorrer igualmente em ambos os sistemas de deslizamento indica
que um encruamento latente deve ter ocorrido no sistema conjugado quando estava
apenas atuando o sistema primário. O eixo do corpo de prova continua sofrendo rota-
ção ao longo da fronteira [001] - [f11] até atingir o pólo [fI2], que está na metade do
caminho entre as duas direções operativas de deslizamento [fol] e [011]. Quando o
pólo é atingido o eixo permanece nesta orientação até que o corpo de prova forme o
pescoço e se rompa. Desta forma, o aparecimento do deslizamento dúplex interrompe
a livre rotação do sistema de deslizamento e conduz a uma menor ductilidade na fra-
tura2 do que no caso dos cristais h.c., nos quais ocorre deslizamento com facilidade em
apenas um sistema até acontecer a fratura. No caso de deslizamento dúplex nos siste-
mas primário e conjugado, a deformação de cisalhamento devido ao deslizamento é
dada por3

y = fi In I + f i cot f3
I + f i cot f30

4 p la n o s .
2 d ire ç õ e s
em cada

Fig. 4.26 Sistemas de deslizamento operatÍvos ao longo das fronteiras do triângulo estereográ-
fico.

'Para uma descrição de projeção estereográfica, veja C. S. Barrett e T. B. Massalski, Structure of M etais. 3."
ed., Capo 2, McGraw-Hill Book Company, New York, 1966; ou A. Kellye G. W. Groves, C rystallography
Capo 2, Addison-Wesley Publishing Company, lnc., Reading, Mass., 1970.
and C rystal D efects,
20 deslizamento dúplex nos materiais policristalinos ocasiona alta ductilidade, por motivos que são discutidos
no Capo 5.
3D. K. Bowen e J. W. Christian, P hilos. M ag., vol. 12, pp. 369-378, 1965.

Document shared on www.docsity.com


onde f3 é o ângulo entre o eixo de tensão e a fronteira [OOI]-[fll].
Os cristais que têm seus eixos ao longo das fronteiras do triângulo estereográfico
representam uma situação especial, porque a tensão resolvida de cisalhamento crítica
será igual em mais de um sistema de deslizamento. Desta forma, a deformação plástica
se iniciará em mais de um sistema de deslizamento, e estes cristais se deformarão ini-
cialmente por deslizamento dúplex. A Fig. 4.26 mostra o número de sistemas de desli-
zamento operativos num cristal cúbico para estas orientações. A deformação por des-
lizamento dúplex resulta, num maior grau de encruamento devido à interação entre as
discordâncias dos dois planos de deslizamento que se cortam. Isto é mostrado na Fig.
4.24 onde Mg e Zn se deformam segundo um único plano de deslizamento (por causa
da geometria h.c.), enquanto que as curvas tensão-deformação para AI e eu dizem
respeito a cristais orientados para deslizamento dúplex.

O segundo mecanismo importante através do qual os metais se deformam é o processo


conhecido por maclação'. Este mecanismo ocorre quando uma região do cristal tem a
sua orientação alterada, estando esta relacionada à orientação do restante da rede cris-
talina de maneira definida e simétrica. A região maclada é uma imagem de espelho da
matriz cristalina, sendo o plano de simetria que as separa chamado p/ano de m ac/ação.
A Fig. 4.27 ilustra o aspecto atômico clássico da maclação. A Fig. 4.27a representa
uma seção perpendicular à superfície numa rede cúbica com um plano de baixo índice
paralelo ao do papel e inclinado em relação ao plano do polimento. O plano da macla é
perpendicular ao papel; caso seja aplicada uma tensão cisalhante, o cristal apresentará
maclação em torno deste plano (Fig. 4.27b). A região à direita do plano de maclação
não sofre deformação, enquanto que à esquerda os planos atômicos são cisalhados de
tal forma que a rede formada através do plano da macla seja uma imagem de espelho
da rede original do cristal. Em uma rede cristalina simples como esta, cada átomo na
região maclada se movimenta através de um cisalhamento homogêneo, em uma quan-
tidade proporcional a sua distância do plano da macla. Na Fig. 4.27b, os círculos aber-
tos representam os átomos que não se moveram, os círculos pontilhados indicam as

'Para uma revisão completa deste assunto, veja E. O. Hall, Tw inning and D i/Jusionless TransJorm ations in
M etais, Butterworth & Co. (Eds.), Lld .. Londres, 1954, R. W. Cahn, A dv. P hys., vol. 3, pp. 363-445, 1954, e
S. Mahagan e D. F. WilIiams, lnt. M etall, R ev., vol. 18, pp. 43-61, junho de 1973. Uma boa apresentação da
cristalografia das macias é dada por R. E. Reed-Hill, P hysical M ettallurgy P rincipies, Capo 15, D. Van Nos-
trand Company, Inc., Princeton,N. J ., 1964.

Document shared on www.docsity.com


posições originais da rede dos átomos que mudaram de posição, sendo suas posições
finais na região maclada indicadas pelos círculos cheios. Deve-se notar que a macia é
visível na superfície polida em virtude da variação de nível da superfície, produzida
pela deformação e também devido à diferença de orientação cristalográfica entre as re-
giões deformada e não-deformada. Se a superfície fosse polida até a seção A A , a dife-
rença de nível da superfície seria eliminada, no entanto a macia permaneceria visível
por possuir uma orientação cristalográfica diferente daquela da região não-maclada.
É importante observar que a maclação difere em muitos aspectos do desliza-
mento. No deslizamento, a orientação do cristál acima e abaixo do plano de desliza-
mento é a mesma antes e depois dele ocorrer, enquanto que o processo de mac ação
acarreta uma diferença de orientação através do plano da macia .. O deslizamento
ocorre segundo distâncias múltiplas do espaçamento atômico, enquanto que na macla-
ção os movimentos atômicos são muito inferiores a uma distância atômica. O desliza-
mento se verifica em planos que são, relativamente, largamente espalhados; já numa
região maclada de um cristal, cada plano atômico está envolvido na deformação.
As macias podem ser produzidas por deformação mecânica ou como conseqüên-
cia de um recozimento realizado após deformação plástica. As do primeiro tipo são
conhecidas como m acias m ecânicas, enquanto que as outras são as m acias de recozi-
m ento. As macias mecânicas são produzidas nos metais c.c.c. e h.c. sob condi.ções de
rápida taxa de carregamento (carga de choque) e baixas temperaturas. Os metai~
cos e faces centradas nãose deformam normalmente por maclação mecânica, embora
as ligas de ouro-prata apresentem macias quando deformadas a baixas temperaturas e
o cobre quando deformado a 4°K ou quando submetido a cargas de choque. As macias
podem formar-se em tempos curtíssimos da ordem de microssegundos, enquanto que
"para o de§lizamenfõ é necessário um intervalo de temPO de vánosmilissegundôs antes
que s_e_forme uma banda de deslizamento. Sob certãS condições, pode ser ouvido um
· ruído agudo acusando a formação de macias. Num ensaio de tração, a ocorrência de_
· maclação dá origem ao aparecimento de serrilhados nacurva tensão-deformação.
Para cada estrutura cristalina existe uma direção definida em um plano cristalográ-
fico específico segundo os quais a maclação ocorre. A Tabela 4.5 indica os planos e
direções de macias mais comuns. Não se sabe se existe uma tensão resolvida de cisa-
Ihamento crítica para a maclação. Todavia, a maclação não é um mecanismo de de-.
formação dominante nos metais que possuem mUitos sistemas possíveis de desliza-
mento, ocorrendo geralmente quando os sistemas de deslizamento são restritos ou
quando, por algum motivo, a tensão de cisalhamento crítica é aumentada, tornando a
. tensão de maclação inferior à tensão necessária ao deslizamento. Isto explica a ocor-=-
· rência de maclação a bãiXãs temperaturas ou altas taxas de deformação nos metais
c.c.c. e c.f.c. ou nos metais h.c. com orientação desfavorável ao deslizamento basal.
São pequenas as deformações que deve sofrer a rede cristalina para que a configu-
ração da macia seja possível; desta forma, a deformação macroscópica total que pode
ser produzida através da maclação é pequena. Por exemplo', a extensão máxima que
pode ser produzida num cristal de zinco, quando todo ele é convertido em uma macia
no plano {1012}, é de apenas 7,39 por cento. A importância da maclação na deformação
plástica não advém da deformação produzida por este proc~sso, mas sim do fato de

c.e.e. a-F e, Ta (112) [111]


h .c . Zn, Cd, Mg, Ti (1012) [TOII]
c.f.c. Ag, Au, Cu (111) [112]

Document shared on www.docsity.com


que as mudanças de orientação resultantes da maclação podem colocar novos sistemas
de deslizamento em orientações favoráveis em relação ao eixo de tensão, tornando
possível a ocorrência de um deslizamento adicional. Assim sendo, a maclação é impor-
tante no processo total de deformação dos metais que possuem poucos sistemas de
deslizamento, como é o caso dos metais h.c. No entanto, deve ser compreendido que
apenas uma fração relativamente pequena do volume total de um cristal é reorientada
pela maclação; por isto, os metais h.c. possuirão, geralmente, menos ductilidade do
que metais que apresentam maior número de sistemas de deslizamento.
- A Fig. 4.28 mostra algumas características metalográficas de macias em vários
sistemas cristalinos diferentes. A Fig. 4.28a é um exemplo de macias mecânicas no
ferro (bandas de Neumann); deve-se notar que a largura da macia pode ser facilmente
observada em microscópio com pequenos aumentos. Os contornos da macia são ata-
cados com uma taxa aproximadamente igual à dos contornos de grão, indicando que
são contornos de alta energia. A Fig. 4.28b mostra as extensas macias em formato de
lente geralmente encontradas nos metais h.c. Observe que as macias não se estendem
além do contorno de grão. A Fig. 4.28c mostra macias de recozimento numa liga de
ouro-prata com estrutura c.f.c. As macias de recozimento são geralmente mais largas e
apresentam contornos mais retos do que as macias mecânicas. A energia dos contor-
nos de macias de recozimento é cerca de 5 por cento da energia média de contorno de
grão. A maioria dos cristais c.f.c. apresenta formação de macias de recozimento,
sendo sua presença uma boa indicação de que o metal tenha sido deformado mecani-
camente antes do recozimento, uma vez que tudo indica que elas cresçam a partir de
núcleos introduzidos durante a deformação.
Um outro processo intimamente relacionado com a maclação é a formação de uma
região m artensítica, que ocorre através de uma transformação que independe de difu-
são atômica e envolve um cisalhamento da rede cristalina. Embora ambos os proces-
sos produzam uma região localizada com nova orientação da rede, a diferença básica
consiste no fato da estrutura cristalina numa placa de martensita ser diferente da estru-
tura da matriz. A força motriz para ocorrer maclação é a tensão cisalhante aplicada,
enquanto na transformação martensítica, a força motriz é a diferença de energia livre
entre a matriz cristalina e a fase martensítica. Esta força motriz termodinâmica pode,
no entanto, ser assistida pela tensão cisalhante aplicada.

Fig. 4.28 Microestruturas de maclas. ( a ) Bandas de Neumann no ferro; ( b ) maclas mecânicas


produzidas por polimento no zinco; ( c ) macIas de recozimento na liga ouro-prata.

Document shared on www.docsity.com


Em uma seção anterior foi mostrado que os arranjos atômicos no plano {III} de uma
estrutura c.f.c. e no plano {OOOI}de uma estrutura h.c. poderiam ser obtidos a partir
do empilhamento de planos compactos de esferas. A seqüência de empilhamento de
planos atômicos para a estrutura c.f.c. é dada por A B C A B C A B C , enquanto que para
a estrutúra h.c. esta seqüência é dada por A B A B A B .
A deformação plástica é capaz de produzir erros, ou falhas, na seqüência de empi-
lhamento na maioria dos metais'. O deslizamento no plano {IlI} de uma rede c.f.c.
produz uma falha de empilhamento através do processo que é mostrado na Fig. 4.29b.
O deslizamento ocorreu entre uma camada de A e uma camada de B , dando origem ao
movimento de uma mesma distância para a direita de cada camada atômica acima do
plano de deslizamento. Desta forma, a seqüência de empilhamento foi transformada
em A B C A :C A B . Comparando esta seqüência de empilhamento falhada (Fig. 4.29b)
com aquela apresentada por uma estrutura h.c. sem falhas (Fig. 4.29d), pode-se notar
que a falha de empilhamento devido à deformação contém quatro camadas de uma
seqüência h.c. Entâo, a formação de uma falha de empilhamento num metal c.f.c. é
equivalente à formação de uma pequena região h.c. no seu interior. Uma outra ma-
neira segundo a qual poderia ocorrer uma falha de empilhamento num metal c.f.c. é
através da seqüência2 mostrada na Fig. 4.29c. A seqüência de empilhamento
A B C A C B o C A é denominada uma falha de empilhamento extrÍnseca ou de macia, na
qual as três camadas A C B constituem a macia. Desta forma, as falhas de empilha-
mento em metais c.f.c. podem também ser consideradas como maclas submicroscápi-
cas de espessura aproximadamente atômica. O fato destas falhas de empilhamento nos
cristais c.f.c. serem muito favoráveis energeticamente explica a razão destes metais

Ao oA 80 08
Co 0/ Ao --0;(
/C
80 Co/
Ao
Co/
°A
/°8
o
Ao
C
o
'o
/
°
o
80/ o
80/ o
A
o
/ Ao/ o
°
A8CA8CA A 8 C A ;C A 8

(a ) (b )

Ao oA
C / oC

,
o
80 / 08 08
/0
Co, oC o ° A
Ao oA 'o 08
Co/
o 0/ o A
80/ o 'o 08
Ao/ o 0/ o A

A 8 C !A C 8 :C A A8A8A8

(e ) (d )

Fig. 4.29 Estruturas falhadas. ( a ) Empilhamento c.f.c.; (b ) falha de deformação em c.f.c.; (c )


falha de macia em c.f.e.; ( d ) empilhamento h.e.

ISâo necessárias medidas acuradas de raios X para detectar a presença de falhas de empilhamento. Ver, por
exemplo, B. E. Warren e E. P. Warekois, A cla M elall. vol. 3, p. 473. 1955.
'c. N. J . Wagner, A cla M elall., vol. 5, pp. 427-434, 1957.

Document shared on www.docsity.com


não apresentarem, quando deformados, propensão à formação de macias mecânicas de
larguras microscopicamente resolvíveis.
No caso da estrutura h.c. a situação é um tanto quanto diferente daquela apresen-
tada pelos metais c.f.c. A Fig. 4.29d mostra que, prosseguindo em linha reta de uma
camada A para uma camada B , não encontramos um outro átomo na camada A se-
guinte. Todavia, o deslizamento pode ocorrer entre dois dos planos, de maneira a
tornar a seqüência de empilhamento A B A B A :C B C B C . Como resultado, quatro cama-
das de átomos B A C B estarão na ordem de empilhamento em linha reta de uma estru-
tura c.Lc., o que significa que a falha de empilhamento num metal h.c. é equivalente à
formação de uma pequena região c.f.c. A formação de falha de empilhamento na rede
c.c.c. é mais difícil do que nas estruturas compactas c.Lc. e h.c. A possibilidade de
fa1has de empilhamento nos planos {112} tem sido investigada teoricamente e foi de-
monstrada por difração de raios X. 1 Falhas de empilhamento já foram observadas em
nióbio através da técnica de "filmes finos" em microscopia eletrônica.2
As falhas de empilhamento ocorrem mais facilmente nos metais c.f.c., tendo sido
por isto estudadas mais extensivamente nestas estruturas cristalinas. É agora conhe-
cido, por exemplo, que as diferenças de comportamento na deformação plástica dos
metais c.f.c. podem ser relacionada,s com as diferenças no comportamento de falha de
empilhamento. Do ponto de vista da teoria das discordâncias, uma falha de empilha-
mento num metal c.f.c. pode ser considerada como sendo uma discordância disso-
dada, consistindo em uma pequena região hexagonal limitada por discordâncias par-
ciais3 (Fig. 4.30). As discordâncias aproximadamente paralelas tendem a se repelir
uma à outra, mas este efeito é contrabalançado pela tensão superficial da falha de
empilhamento que tende a juntá-Ias. Quanto mais baixá a energia de falha de em pi-
lham ento, maior é a separação entre as discordâncias parciais e mais larga a falha de
empilhamento. As energias de falha de empilhamento nos metais c.Lc. têm sido esti-
madas segundo a hipótese de que a energia da falha de empilhamento é igual a duas
vezes a energia de um contorno coerente de uma macia de recozimento. Segundo esta
hipótese, as energias de falha de empilhamento para o cobre, níquel e alumínio são
aproximadamente 40, 80 e 200 erg/cm 2• Uma vez que, quanto mais baixa a energia do
contorno de macia maior é a tendência para a formação de macias de recozimento, as
estimativas de energia de falha de empilhamento estão em acordo qualitativo com as
observações metalográficas da freq~ência de ocorrência de macias de recozimento,
i.e., o alumínio raramente as apresenta. O trabalho em raios X mostrou que a energia
de falha de empilhamento no latão decresce com o teor de zinco, o que está de acordo
com o fato do latão-alfa formar maior número de macias de recozimento do que o
cobre.

IP. B. Hirsch e H. M. Olle, A cta C rysta//og., vol. 10, pp. 447-453, 1957; O. J. Guenter e B. E. Warren, l. A pp/.
vol. 29, pp. 40-48, 1958.
P h y s .,
'A. Fourdeux e A. Berghezen. l.Inst. M et., vol. 89, pp. 31-32, 1960-196J.
'No Capo 5, serão consideradas com maiores detalhes as discordãncias parciais. O desmembramento de discordãn-
cias em parciais separadas lem sido observado em muitos melais através de microscopia eletrônica.

Document shared on www.docsity.com


As falhas de empilhamento influenciam de diversas maneiras a deformação plás-
tica dos metais. Metais com falhas de empilhamento largas encruam mais rapidamente,
maclam facilmente no recozimento e apresentam dependência da tensão de escoa-
mento com a temperatura de maneira diferente da apresentada pdos metais com falhas
de empilhamento estreitas. Este tópico será considerado com maior detalhe no Capo 5.

A deformação de um cristal não sendo homogênea dá origem a regiões de orientação


diferente chamadas bandas de deform ação. Quando o deslizamento ocorre sem restri-
ção, de maneira perfeitamente homogênea, as linhas de deslizamento são removidas
através de um polimento subseqüente da superfície. As bandas de deformação, no
entanto, podem ser observadas mesmo após repetidos polimentos e ataques, visto que
são regiões de orientação cristalográfica diferente. Nos monocristais as bandas de de-
formação podem ter vários milímetros de largura, enquanto nos policristais é necessá-
ria a observação microscópica para identificá-Ias. A tendência para formação das ban-
das de deformação é maior nos materiais policristalinos, uma vez que as restrições
impostas pelos contornos de grão favorecem o aparecimento de diferenças de orienta-
ção dentro do grão duranté a deformação plástica: As bandas de deformação se apre-
sentam, geralmente, irregulares quanto ao formato, mas são alongadas na direção da
deformação principal. O contorno das bandas é quase sempre indistinto e maldefinido,
indicando um desaparecimento gradativo da diferença de orientação. As bandas de
deformação têm sido observadas nos cristais c.f.c. e c.e.e., porém, não são encontra-
das nos metais h.c.
A análise da equação para a tensão cisalhante resolvida crítica mostra que será
difícil deformar um cristal hexagonal quando este apresentar o plano basal aproxima-
damente paralelo ao eixo de tração. Orowan1 mostrou que se um cristal de cádmio,
com esta orientação, fosse carregado em compressão, ele se deformaria através de
súbita flambagem de uma região localizada do cristal para uma posição inclinada, acar-
retando um encurtamento repentino no tamanho do cristal. Esta flam bagem ou do-
bram ento está ilustrada na Fig. 4.31, onde as linhas horizontais representam planos
basais e os planos p são os planos dos contornos da banda de dobramento. Neste caso,
a distorção do cristal está essencialmente confinada na banda de dobramento. Um
estudo mais amplo destas bandas, realizado por Hess e Barrett2, mostrou que elas
podem ser consideradas um simples tipo de banda de deformação. As bandas de do-
bramento foram também observadas em cristais de zinco ensaiados em tração, onde
uma distribuição não uniforme do deslizamento pode produzir um momento fletor
capaz de provocar a sua formação.

~-========~'~====>----\ ~
,
'P

'E. Orowan. N ature. vol. 149. p. 643. 1942.


'J. A. Hess e C. S. Barrett, Trans. M etal/. Soe. A IM E , vol. 185, p. 599, 1949.

Document shared on www.docsity.com


o limite de escoamento convencional de engenharia, determinado a partir de uma de-
formação limite de 0,002, representa uma tensão na qual já se movimentou um grande
número de discordâncias. Do ponto de vista da teoria das discordâncias, esta é uma
medida microscópica do escoamento inicial. Desta maneira, têm sido realizadas muitas
experiências com o intuito de desenvolver técnicas confiáveis para se trabalhar na
região de microdeformação, onde se encontram deformações plásticas inferiores a
0,001. Estudos das propriedades mecânicas em monocristais, para deformações plásti-
cas da ordem de 10-5, são importantes para a obtenção de dados que se aplicam na
caracterização básica do comportamento das discordâncias. A chave para estes estu-
dos! é uma técnica de carregamento com alinhamento quase perfeito e um transdutor,
tal como um transformador diferencial linear variável, que fornece medidas reproduzí-
veis de deformação até o nível de 10-6•
A forma da curva tensão-deformação, obtida com carregamento repetido até altas
tensões no regime de microplasticidade, é mostrada na Fig. 4.32. Para tensões muito
baixas, um ciclo de carregamento-descarregamento produz uma única linha reta, com
o material exibindo comportamento elástico ideal (Fig. 4.32a). Para uma tensão um
pouco maior, T E , chamada lim ite elástico verdadeiro, ocorre um desvio do comporta-
mento elástico ideal (Fig. 4.32b). Acima de T E , o ciclo carregamento-descarregamento
produz um anel fechado de histerese mecânica que se aproxima de um paralelogramo.
O grande módulo elástico inicial corresponde às medidas dinâmicas do módulo, reali-
zadas por métodos de alta freqüência. O módulo menor corresponde ao módulo rela-
xado característico dos ensaios de tração estáticos usuais. Um ciclo de tensão acima
de um dado valor TA ocasiona deformação plástica permanente, uma vez que o ciclo de
histerese não se fecha após o descarregamento (Fig. 4.32d). Esta tensão é conhecida
como limite anelástico TA' Finalmente, para tensões muito superiores, ocorre o escoa-
mento macroscópico. Como exemplo, são apresentados alguns valores típicos para o
molibdênio: TE = 0,05 kg/mm 2, TA = 0,5 kg/mm 2, To (macroescoamento) = 5 kg/mm.

/
L d ' M ó d u lo

T
~ relaxado

Document shared on www.docsity.com


Uma das principais características da deformação plástica dos metais é o fato de a
tensão cisalhante necessária para produzir deslizamento aumentar continuamente à
medida que aumenta a deformação cisalhante. O aumento da tensão necessária para
produzir deslizamento, devido à deformação plástica prévia do material, é chamado
encruam ento. É comum encontrar nos monocristais de metais dúcteis um aumento de
até 100 por cento na tensão plástica devido ao encruamento.
O encruamento é causado pela interação entre discordâncias umas com as outras
e com barreiras que impedem seu movimento através da rede cristalina. O endureci-
mento devido à interação de discordâncias é um problema complicado porque envolve
grandes grupos de discordâncias, e é muito difícil especificar o comportamento destes
grupos de maneira matemática simples. É fato conhecido que o número de discordân-
cias num cristal aumenta com a deformação, para um número superior ao encontrado
no material recozido. A densidade de discordâncias num material perfeitamente reco-
zido é da ordem de 105 a 106 cm-2, enquanto que num material trabalhado a frio é da
ordem de \010 a 1012 cm-2. Esta multiplicação de discordâncias pode advir da conden-
sação de lacunas, de fontes regenerativas que atuam sob a tensão aplicada, tais como a
fonte de Frank-Read ou um mecanismo de deslizamento cruzado múltiplo (ver Capo
5), ou por emissão de discordâncias de um contorno de grão de alto-ângulo.
Um dos primeiros conceitos para explicar o encruamento baseava-se na idéia das
discordâncias se empilharem nos planos de deslizamento, quando bloqueadas por bar-
reiras do cristal. Estes empilhamentos produzem uma tensão de reação que se opõe à
tensão aplicada no plano de deslizamento. A existência da tensão de reação (ou tensão
de recuo) foi demonstrada experimentalmente através de ensaios de cisalhamento em
monocristais de zinco Os cristais de zinco são ideais para estudos experimentais de
l
.

plasticidade porque deslizam somente no plano basal, evitando, desta forma, compli-
cações devido ao deslizamento dúplex. Na Fig. 4.33, o cristal é deformado até o ponto
O, descarregado, e então recarregado na direção oposta à original de deslizamento. É
importante observar que o material escoa, no recarregamento, a uma tensão cisalhante
inferior ao escoamento do primeiro carregamento. Isto ocorre porque a tensão de
recuo resultante do empilhamento de discordâncias em barreiras, durante o primeiro
carregamento, estará auxiliando a movimentação das discordâncias quando a direção
do deslizamento for revertida. Além disso, quando a direção de deslizamento é rever-
tida, podem ser geradas, nas mesmas fontes, discordâncias de sinais opostas' àquelas
responsáveis pela deformação na primeira direção de deslizamento. Uma vez que dis-
(;;)rdâncias de sinais contrários se atraem e se aniquilam mutuamente, o efeito resul-
tante seria um amolecimento ainda maior da rede cristalina. Isto explica b fato de ser a

,,..~ ""'0; ~ 'r


_---
_
{ ) ir e ç ã o d e d e s liz a m e n to ,

I 1
Fig. 4.33 Efeito da reversão completa da direção de deslizamento na curva tensão-deformação.
(De E. H. Edwards, J. Washburn e E. R. Parker, Trans. A /M E , vol. 197, p. 1526, 1953.)

Document shared on www.docsity.com


curva plástica na direção reversa inferior à curva obtida na direção original de carre-
gamento. Esta diminuição da tensão de escoamento, quando após a deformação em
uma dada direção ocorre deformação na direção oposta, é chamada efeito B auschin-
g e r .! Apesar de todos os metais apresentarem o efeito Bauschinger, nem sempre sua
magnitude é da ordem da aqui apresentada para os cristais de zinco. Além disso, nem
todos os metais apresentam suas curvas plásticas, após reversão da direção de desli-
zamento, inferiores às curvas do deslizamento original.
A existência e a importância da tensão de recuo no encruamento dos metais já
foram discutidas. O próximo passo é identificarmos as barreiras ao movimento das
discordâncias nos monocristais. Partículas microscópicas de precipitados e também
átomos solutos podem agir como barreiras, no entanto devem-se encontrar outras bar-
reiras efetivas nos monocristais. Estas barreiras surgem porque as discordâncias que
se movimentam em planos de deslizamento que se intersecionam podem-se combinar
umas com as outras produzindo novas discordâncias que não estejam em direções de
deslizamento. Estas discordâncias de baixa mobilidade que se formam a partir de rea-
ções entre discordâncias são chamadas discordâncias bloqueadas. Uma vez que estas
discordâncias bloqueadas não se encontram no plano de deslizamento de baixa tensão
cisalhante, elas atuam como barreiras à movimentação das outras discordâncias, até
que a tensão atinja um nível suficientemente alto capaz de romper o bloqueio. A rea-
ção de discordâncias mais importante, que dá origem à formação de discordâncias
bloqueadas, é a formação das barreiras de Lomer Cottrell nos metais c.f.c., devido ao
deslizamento em planos {III} que se intersecionam.
Um outro mecanismo de encruamento, além dos expostos acima, ocorre quando
as discordâncias que se movimentam no plano de deslizarnento são cortadas por outras
discordâncias que intersecionam o plano de deslizamento ativo. Estas discordâncias
que atravessam o plano de desliiamento ativo são muitas vezes chamadas de floresta
de discordâncias, e o processo de encruamento é denominado como interseção de uma
floresta de discordâncias.
A Fig. 4.34a mostra que a interseção de discordâncias dá origem a um pequeno

Fig. 4.34 Formação de um degrau J Ca) devido à interseção de uma aresta por uma espiral
quando a primeira desliza de A B para A 'B '; ( b ) através do deslizamento cruzado, de parte de uma
linha de discordância espiral A B , de um plano primário P Q para o plano R 5. C De A. H. Cottrell,
The M echanical P roperties of M alter, John Wiley & Sons, Inc., New York, 1964. Com permis-
são dos editores.)

Document shared on www.docsity.com


degrau na linha de discordância. Este degrau restringe o movimento da discordância,
contribuindo para o encruamento. Os degraus são formados também por
discordâncias-espirais realizando deslizam ento cruzado do plano de deslizamento pri-
mário para um outro plano que contenha a direção de deslizamento comum (Fig.
4 .3 4 b ) .
O fenômeno de deslizam ento cruzado é restrito às discordâncias espirais, porque
sendo paralelos, a linha de discordância e seu vetor de Burgers não definem um plano
específico como na discordância em aresta (onde b é perpendicular à linha de discor-
dância). Para uma discordância-espiral, todas as direçôes ao redor do seu eixo gozam
das mesmas propriedades, e ela pode deslizar em qualquer plano desde que se mova
paralelamente à sua orientação original. O plano de deslizamento de uma
discordância-espiral pode ser qualquer um que contenha a linha de discordância, por-
tanto poderá realizar deslizamento cruzado de um plano para outro, desde que exista
uma direção de deslizamento comum a ambos os planos. Isto permite que as
discordâncias-espirais (ou as componentes-espirais de discordâncias mistas) possam
contornar obstáculos e barreiras que Ihes apareçam. Caso não pudesse ocorrer o desli-
zamento cruzado, o movimento das discordâncias seria impedido logo no início dô
processo de deformação e a taxa de encruamento (a inclinação da curva tensão-
deformação) seria muito alta, dando origem à fratura para valores pequenos de defor-
mação. A formação de degraus nas discordâncias-espirais impede seu movimento, po-
dendo inclusive levar à formação de lacunas e átomos intersticiais, caso os degraus
sejam forçados a se movimentar de maneira não-conservativa. Os degraus não impe-
dem a movimentação de discordâncias-arestas. Todos estes processos necessitam de
um maior consumo de energia, e assim sendo contribuem para o encruamento.
O encruamento devido a um processo de interseção de discordâncias se verifica
devido a forças de curto alcance que atuam sobre distâncias inferiores a 5 a 10 dimen-
sôes interatômicas. Este encruamento pode ser anulado para temperatura finitas com o
auxílio de flutuaçôes térmicas, o que caracteriza estes processos como sendo depen-
dentes da temperatura e da taxa de deformação. Por outro lado, o encruamento devido
a empilhamento de discordâncias em barreiras ocorre para distâncias longas (forças de
longo alcance), sendo por isso relativamente independente da temperatura e da taxa de
deformação. Desta forma, podem ser usados' dados experimentais referentes à depen-
dência do encruamento com a temperatura e a taxa de deformação, a fim de se deter-
minar a contribuição relativa dos dois mecanismos.
Quando as curvas tensão-deformação para monocristais são representadas em
termos da tensão cisalhante resolvida versus deformação de cisalhamento, podem ser
feitas algumas generalizações para todos os metais c.f.c. Segundo a notação proposta
por Seeger2, a curva de escoamento para monocristais puros pode ser dividida em três
estágios (Fig. 4.35).
O estágio I, região de deslizam ento fácil, é um estágio no qual o cristal experi-
menta um encruamento pequeno. Durante o deslizamento fácil, as discordâncias são
capazes de se movimentar por distâncias relativamente longas sem encontrar barreiras.
O pequeno encruamento produzido durante este estágio implica que a maioria das
discordâncias escape do cristal na superfície. Durante o deslizamento fácil, o desliza-
mento ocorre somente em um sistema de deslizamento. Por este motivo, o desliza-
mento no estágio 1 é chamado algumas vezes de escoam ento lam inar.
O estágio 11 é uma região da curva de escoamento, praticamente linear, na qual o
encruamento aumenta rapidamente. Neste estágio o deslizamento ocorre em mais de
um conjunto de planos. O comprimento das linhas de deslizamento ativas diminui com
o aumento da deformação, o que é consistente com a formação de grande número de

'Z. S. Basinski, P hilos. M ag., vol. 4, ser. 8, pp. 393-432, 1959. Para uma revisão detalhada, veja H. C onrad,J.
pp. 582-588,julho de 1964.
M e l. ,
'A . Seeger, em D is/ocations and M echanica/ P roperties o/ C rysta/s, John Wiley & Sons, Inc., New York,
1957.

Document shared on www.docsity.com


Fig. 4.35 Curva de escoamento
genérica para monocristais c.f.c.

r2 r3
Deformação cisalhante resolvida)'

barreiras de Lomer-Cottrell com o aumento da deformação. Durante o estágio lI, a


relação entre o coeficiente de encruamento (a inclinação da curva) e o módulo de
cisalhamento é praticamente independente da tensão e da temperatura, e aproximada-
mente independente da orientação e pureza. O fato da inclinação da curva de escoa-
mento no estágio II ser praticamente independente da temperatura está de acordo com
a teoria que admite o empilhamento de grupos de discordâncias como o principal me-
canismo de encruamento.
Como resultado do deslizamento ocorrer em vários sistemas de deslizamento são
formadas irregularidades na rede cristalina, começando a se desenvolver emaranhados
de discordâncias que eventualmente darão origem à formação de uma estrutura celular
de discordâncias, que consiste em regiões praticamente livres de discordâncias rodea-
das por material de alta densidade de discordância (cerca de cinco vezes a densidade
média de discordâncias). Embora a heterogeneidade da distribuição de discordâncias
torne difícil a realização de medidas precisas, as medidas feitas num grande número de
sistemas mostraram que a densidade média de discordâncias no estágio II está relacio-
nada com a tensão cisalhante resolvida através de

onde T o é a tensão de cisalhamento necessária para movimentar uma discordância na


ausência de outras discordâncias e a é uma constante numérica que varia de 0,3 a 0,6
para diferentes metais c.f.c. e c.c.c.
O estágio III é uma região onde a taxa de encruamento é decrescente. Os proces-
sos que ocorrem durante este estágio são muitas vezes chamados recuperação dinâ-
m ica. Nesta região da curva de escoamento, as tensões são suficientemente altas para
que as discordâncias participem de processos que não são ativados para as tensões
inferiores dos outros estágios. Acredita-se que o deslizamento cruzado seja o processo
principal através do qual as discordâncias empilhadas durante o estágio II possam
libertar-se e reduzir o campo interno de deformação. A tensão na qual se inicia o
estágio llI, T 3 , é fortemente dependente da temperatura. Da mesma forma, a tensão
plástica de um cristal deformado até o estágio III é mais dependente da temperatura
do que se o cristal tivesse sido deformado apenas até o estágio 11. Esta dependência da
temperatura sugere que o mecanismo principal de encruamento no estágio III é a in-
terseção de florestas de discordâncias.
A curva apresentada na Fig. 4.35 representa um comportamento geral dos metais
c.f.c. Alguns desvios da curva de escoamento de três estágios têm sido observados,
como, por exemplo, metais de alta energia de falha de empilhamento, no caso do alu-
mínio, que geralmente apresentam uma região de estágio II muito pequena, em virtude

Document shared on www.docsity.com


de se deformarem facilmente por deslizamento cruzado. A forma e a magnitude da
curva de escoamento de um monocristal, particularmente nos primeiros estágios, de-
pendem da pureza do metal, de sua orientação, da temperatura de ensaio, e da taxa de
deformação. A região de deslizamento fácil é mais proeminente nos cristais h.c. do
que nos metais c.f.c. Uma região de deslizamento fácil na curva de escoamento é
favorecida por deslizamento num único sistema, alta pureza, baixa temperatura, au-
sência- de filmes de óxidos superficiais, orientação favorável para deslizamento simples
e de um método de ensaio que minimize tensões de flexão. A Fig. 4.36 mostra que a
orientação do cristal pode exercer uma forte influência na curva de escoamento dos
monocristais c.f.c. Quando o eixo de tração é paralelo à direção (011), um dos siste-
mas de deslizamento está suportando uma tensão cisalhante maior do que os outros, e
a curva de escoamento apresenta uma região de deslizamento fácil relativamente
grande. Quando o eixo de tração está próximo de uma direção (100) ou (111), a tensão
não difere muito em vários dos sistemas de deslizamento, e a curva de escoamento
apresenta rápidas taxas de encruamento.
O valor da tensão cisalhante resolvida para uma dada deformação de cisalhamento
decresce com o aumento da temperatura. Tanto o estágio I como o estágio I I decres-
cem em extensão com o aumento da temperatura, até que para uma temperatura sufi-
cientemente alta a curva tensão-deformação apresente totalmente o comportamento
parabólico característico do estágio llI.

Fig. 4.36 Efeito da orientação do


corpo de prova no formato da
curva de escoamento para mono-
cristais c.f.c.

BIBLIOGRAFIA
Barrett, C. S., and T. B. Massalski, "Structure of MetaIs," 3rd ed., McGraw-Hill Book
Company, New York, 1966.
Clarebrough, L. M., and M. E. Hargreaves: Work Hardening of MetaIs, in "Progress
in Metal Physics," vol. 8, Pergamon Press, Ltd., London, 1959.
Maddin, R., and N. K. Chen: Geometric Aspects of the' Plastic Deformation of Metal
Single Crystals, in "Progress in Metal Physics," vol. 5, Pergamon Press, Ltd.,
London, 1954.
Nabarro, F . R. N., Z. S., Basinski, and D. B., Holt: Plasticity of Pure Single Crystals,
A dv. P hys., vol. 13, pp. 193-323,1964.
Reid, C. N.: "Deformation Geometry for MateriaIs Scientists," Pergamon Press, New
York,1973.
Schmid, E., and W. Boas: "Plasticity of Crystals," English translation, F. A. Hughes &

Co., London, 1950.


Tegart, W.). McG., "Elements of Mechanical Metallurgy," The Macmillan Company,
New York, 1968.

Document shared on www.docsity.com


Teoria das Discordâncias

Discordância é o defeito linear da rede cristalina, responsável pela maioria dos. aspec-
tos da deformação plástica dos metais. Este conceito foi introduzido no Capo 4, onde
se apresentou a geometria das discordâncias-aresta e espiral, para o caso de uma rede
cúbica simples. Foi mostrado que é necessário a existência de um defeito do tipo da
discordância, para explicar os baixos valores do limite de escoamento observados nos
cristais reais, além de uma abordagem geral dos fatores que impedem o movimento das
discordâncias, conduzindo ao encruamento do material.
Este capítulo tem por objetivo apresentar um tratamento mais completo da teoria
das discordâncias. São discutidas as técnicas de observação destes defeitos e apresen-
tados efeitos de se considerar estruturas cristalinas reais c.f.c., c.e.e. ou h.c. no com-
portamento das discordâncias. São também discutidas a origem das discordâncias,
seus mecanismos de multiplicação, a interação entre discordâncias, interação
discordância-Iacuna e discordância-átomo soluto. Em resumo, este capítulo apresenta
a geometria básica e as relações matemáticas que descrevem o comportamento das
discordâncias. Estas relações serão utilizadas para explicar o comportamento mecâ-
nico e os mecanismos de aumento de resistência nos capítulos subseqüentes deste
livro.

o conceito de discordância foi proposto, independentemente, por Taylor, Orowan e


Polanyi1 em 1934, mas à idéia permaneceu, relativamente, sem se desenvolver até o
fim da Segunda Guerra Mundial. Então, seguiu-se um período de aproximadamente 10
anos no qual a teoria das discordâncias foi extensamente desenvolvida e aplicada a
praticamente todos os aspectos da deformação plástica dos metais. Como não havia
métodos realmente confiáveis para detectar as discordâncias nos materiais, foi neces-
sário construir grande parte desta teoria com base em observações indiretas do com-
portamento das discordâncias. No entanto, nos últimos 10 anos, como resultado de
intensas pesquisas, surgiram várias técnicas para a observação e o estudo das discor-
dâncias nos materiais. Estes estudos não deixam dúvidas quanto à existência das dis-

'G . I. Taylor, P roe. R . Soe. London, vol. 145A, p. 362,1934; E. Orowan, Z. P hys., vol. 89, pp. 605, 614, 634,
1934; M. Polanyi, Z. P hys., vol. 89, p. 660, 1934.

Document shared on www.docsity.com


cordâncias, e ainda m ais, eles forneceram a verificação experim ental para a m aioria
dos conceitos teóricos sobre'a teoria das discordâncias.
O poder de resolução do m elhor m icroscópio eletrônico teria que ser m elhorado
de um fator de 5 a 10, a fim de se observar diretam ente a distorção dos planos da rede
em torno de um a discordância num cristal m etálico!. Praticam ente, todas as técnicas
experim entais de observação de discordâncias utilizam o cam po de deform ação em
torno de um a discordância para aum entar seu tam anho efetivo. Estas técnicas podem
ser classificadas, a grosso m odo, em duas categorias: aquelas que envolvem reações
quím icas com as discordâncias e as que utilizam m udanças físicas na região de um a
discordância z . Os m étodos quím icos incluem técnicas de ataque m etalográfico e técni-
cas de precipitação, enquanto que os m étodos baseados na estrutura física da região da
discordância incluem m icroscopia eletrônica de transm issão de film es finos e técnicas
de difração de raios X.
A técnica quím ica m ais sim ples consiste no uso de um reagente que form a um
ponto de ataque (pite) no lugar onde um a discordância aflora à superfície. Estes pites
são form ados porque o cam po de deform ação que rodeia a discordância causa um
ataque quím ico preferencial. Através desta técnica, Gilm an e Johnston 3 obtiveram
um a grande quantidade de inform ações a respeito do com portam ento das discordân-
cias no cristal iônico LiF. Tam bém com as técnicas de ataque, foram obtidas inform a-
ções im portantes a respeito de discordâncias nos m etais. A Fig. 5.1 m ostra a excelente
resolução obtida a partir de estudos com técnicas de ataque no latão-alfa 4 . Pites distan-
tes apenas 500 Á foram resolvidos. Na região de intenso deslizam ento m ostrada nesta
m icrografia eletrônica, a densidade de discordâncias é 10JO cm - z .
A form ação de pites de ataque em discordâncias, nos m etais, parece ser depen-
dente da pureza do m ateria15. Em virtude da segregação de solutos na linha de discor-
dância, a região em torno de um a discordância se torna anódica em relação às regiões
vizinhas do m etal, recebendo um ataque preferencial. A Fig. 6.4 m ostra um a estrutura
de pites de ataque, num a liga ferro-silício, a qual se tornou visível através da difusão
de átom os de carbono para as discordâncias. As técnicas de ataque são úteis porque
podem ser aplicadas em am ostras espessas que dispensam preparação especial.
Em determ inados sistem as, pode ser possível distinguir entre discordâncias-aresta
e espiral e entre arestas positiva e negativa. Esta técnica perm ite, tam bém , o estudo do
m ovim ento das discordâncias. Todavia, deve-se tom ar cuidado para assegurar que os
pites sejam form ados apenas nos pontos de discordâncias e que sejam reveladas todas
.as discordâncias que afloram à superfície. Em virtude dos pites de ataque possuírem
um tam anho pequeno e apresentarem dificuldade de resolução ao se sobreporem , a
técnica de ataque é lim itada, geralm ente, para cristais com baixa densidade de discor-
dâncias, da ordem de 10 6 cm - z .
Um m étodo sim ilar de detectar discordâncias consiste em form ar um precipitado
visível ao longo das linhas de discordância. Um a pequena quantidade de im purezas é
geralm ente adicionada a fim de form ar o precipitado, após a realização do tratam ento
térm ico adequado. Este processo é denom inado "decoração" de discordâncias, tendo

'Foi possível observar esta distorção da rede, num cristal orgânico de ftalocianina de platina que possui um
parâm etro cristalino m uito grande (12 A ), através de m icroscopia eletrônica. (J. W . M enter, Proe. R. Soe.
London Ser. A; vol. 236A , p. 119, 1956.) Foi obtida um a indicação da distorção da rede causada por discordân-
cias nos m etais, utilizando-se a am pliação das franjas de moiré produzidas por transm issão eletrônica através
de dois cristais finos sobrepostos, com ligeira diferença de orientação ou parâm etros cristalinos. V er G . A .
Bassett, J. W . M enter e D . W . Pashley, Proe. R. Soe. London Ser. A, vol. 246A , p. 345, 1958.
'Foram publicadas vãrias revisões excelentes de técnicas experim entais. V er P. B. H irsch., Metall. Rev., vol.
4, n.o 14, pp. 101-140, 1959; J. N utting, Seeing D islocations, em The Strueture of Metais, Institution of M etal-
lurgists, Interscience Publishers, Inc., N ew Y ork, 1959; S. A m elinckx, The D irect O bservation of D isloca-
tions, Solid State Phys. Suppl. 6, 1964.
'J. J. G ilm an e W . G . Johnston, em Disloeations and Meehanieal Properties ofChrystals, John W iley & Sons,
Inc., N ew Y ork, 1957.
'J. D . M eakin e H . G . F. W ilsdorf, Trans. Metall. Soe. AlME, vol. 218, pp. 737-745, 1% 0.
'U m sum ãrio das técnicas de ataque nos m etais foi realizado por L. C. Low ell, F. L. V ogel e J. H . W ernick,
Met. Prog., vol. 75, pp. % -96D , 1959:

Document shared on www.docsity.com


F ig .
5 .1 Pites de ataque sobre bandas de deslizamento em cristal de latão-alfa (5.000 X). (De J.
D. Meakin e H. G. F. Wilsdorf, TrallS. M etal/. Soe. A/M E. vol. 218, p. 740, 1960.)

sido utilizado pela primeira vez por Hedges e Mitchell' numa liga AgBr, com prata
fotolítica como decorador das linhas de discordância. Desde então, esta técnica tem
sido aplicada a vários cristais iônicos2, tais como AgCl, NaCl, KC \ e CaF2. Para estes
cristais, transparentes opticamente, esta técnica apresenta a vantagem de revelar a
estrutura interna das linhas de discordância. A Fig. 5.2 apresenta um arranjo hexago-
nal de discordâncias, num cristal de NaC!, revelado por decoração. Embora a técnica
de decoração não tenha sido muito aplicada em metais, existem alguns trabalhos sobre
o assunto, aplicados ao sistema AI-Cu endurecido por precipitação e aos cristais de
silício.
O método mais poderoso para detecção de discordâncias nos metais, em nossos
dias, é a microscopia eletrônica de transmissão de folhas finas3. Após a deformação da
amostra, retira-se uma folha metálica fina de menos de I mm de espessura, a qual é
desbastada por eletroerosão até uma espessura de aproximadamente \.000 À. Para
esta espessura, o material será transparente aos elétrons no microscópio eletrônico.
Embora a rede cristalina não possa ser resolvida, as linhas de discordância podem ser
observadas individualmente, porque a intensidade do feixe eletrônico difratado é alte-
rada pelo campo de deformação da discordância. A largura da imagem de difração de
uma discordância. numa folha fina. é de cerca de 1 0 0 A, o que significa que esta
técnica pode ser aplicada para densidades de discordância de até 1011 cm-2• Através
desta técnica, tem sido possível observar arranjos de discordâncias (Fig. 5.3), falhas de
empilhamento, empilhamento de discordâncias em contornos de grão (Fig. 6.\), barrei-
ras de Lomer-Cottrell, e muitas outras características estruturais da teoria das discor-

'1. M. Hedges e J. W. Mitchell. Philos. M ag., vol. 44. p. 223. 1953.


'S. Amelinckx, em D isloeations and M eehanieal Properties oJ C rystals, John Wiley & Sons, lnc., New York,
1957.
3G. Thomas, Transm ission E/eetron M ieroscopy oJ M etais .. John Wiley & Sons. lnc., New York, 1962.

Document shared on www.docsity.com


Fig. 5.2 Rede hexagonal de discordâncias em NaCl detectada por técnica de decoração. (De S.
Amelinckx, em D islocations and M echanical Properties ofC rystals, John Wiley & Sons, lnc., New
York, 1957 - Com permissâo dos editores.)

Fig. 5.3 Rede de discordâncias em alumínio trabalhado a frio (32.500 X). (De P. B. Hirsch, R.
W. Horne eM. J. Whelan, Philos. M ag., ser. 8, vol. I , p. 677,1956.)

dâncias. A movimentação de discordâncias tem sido observada no microscópio eletrô-


nico através da geração de tensões térmicas no filme metálico com o feixe de elétrons
ou utilizando-se acessórios especiais de deformação.
A microscopia eletrônica de transmissão é a técnica mais poderosa, de aplicação
universal, para o estudo das discordâncias nos sólidos. Através da aplicação das teo-

Document shared on www.docsity.com


rias cinemática1 e dinâmica2 de difração de elétrons, é possível realizar uma análise
detalhada das imagens obtidas para determinar o número de discordâncias, seus veto-
res de Burgers e os planos de deslizamento nos quais elas se encontram. Todavia, esta
técnica não é isenta de restrições. Uma vez que é examinado apenas um volume mi-
núsculo do material, deve ser tomado grande cuidado a fim de se obter uma amostra
representativa. Também é possível que a estrutura de defeitos seja alterada durante o
preparo do filme fino, e numa folha muito fina as estruturas de discordâncias podem
ser relaxadas. O maior defeito da microscopia eletrônica de transmissão é o fato de
não ser muito efetiva na detecção de tensões de longo-alcance nem fornecer muita
informação sobre os comprimentos das linhas de deslizamento e as alturas dos degraus
da superfície.
A estrutura de discordâncias de um cristal pode ser detectada por microscopia de
raios X. As técnicas mais comuns são o método de reflexã03 de Berg-Barrett e o
método topográfic04 d e Lang. Infelizmente, a resolução destas técnicas é limitada a
cerca de 1 0 5 discordâncias por centímetro quadrado. Através da análise detalhada do
formato e largura dos picos de difração de raios X, podem ser determinadas algumas
características importantes dos metais deformados5, tais como o tamanho médio dos
domínios de difração coerentes (tamanho de cristalito), as microdeformações dentro
destes domínios, e a probabilidade da rede apresentar falha de empilhamento. Os estu-
dos dos perfis de picos de raios X são indiretos e estatísticos, dependendo de modelos
da estrutura de discordâncias para relacionar seus resultados com o comportamento
das discordâncias.
A última técnica para a observação de estrutura de defeito é através do microscó-
pio de campo-iônico.6 Tendo em vista que sua resolução é de 2 a 3À, podem ser
distinguidos até mesmo os átomos individualmente. Desta forma, trata-se da única
técnica experimental para observação direta de lacunas. No estágio atual de desenvol-
vimento, o microscópio de campo-iônico é limitado a metais que possuam força de
ligação forte, tais como W, Mo ou Pt. Uma vez que a amostra deve ser um arame fino
dobrado até formar uma ponta fina, o método apresenta limitação quanto à flexibili-
dade do metal e examina apenas uma área muito pequena da superfície.

O vetor de Burgers b é o vetor que define a magnitude e a direção do deslizamento,


sendo assim a principal característica de uma discordância. Já foi mostrado que numa
discordância-aresta p u r a , o vetor de Burgers é perpendicular à linha da discordância,
enquanto que para uma discordância-espiralpura, o vetor de Burgers é paralelo à linha
da discordância. Na realidade, as discordâncias existentes nos cristais reais raramente
são linhas ou se encontram num único plano. De maneira geral, uma discordância terá
um caráter parcialmente aresta e parcialmente espiral. Como é apresentado nas Figs.
5.2 e 5.3, as discordâncias normalmente possuem a forma de curvas ou anéis, que
formam nas três dimensões uma rede de discordâncias entrelaçadas. Se considerarmos
um anel de discordâncias num plano de deslizamento, qualquer segmento pequeno da
linha de discordância poderá ser resolvido em componentes-aresta e espiral. Na Fig.
5.4, por exemplo, o anel de discordância é puramente espiral no ponto A e puramente
aresta no ponto B , enquanto que na maior parte de sua extensão apresenta componen-
tes mistas, aresta e espiral. Observe, porém, que o vetor de Burgers é o mesmo ao

I P . B. Hirsch, A. Howie eM. 1. Whelan, Philos. Tra/ls. R. Soe. LO /ldo/l Ser. A, vol. A252, pp. 499-529,1960.
'A. Howie eM. J. Whe1an, Prac. R. Soe. LO /ldo/l Ser. A., vol. A263, pp. 217-237, 1961; Proc. R. Soe. LO /ldo/l
Ser. A, vol. A267, pp. 206-230, 1962.
3C. S. Barrett, Tra/ls. M e/ali. Soe. AIM E, vol. 161, pp. 15-64, 1945.
'A. R. Lang, J . Appl. Phys., vol. 30, pp. 1748-1755,1959.
5B. E. Warren, X-ray Studies of Deformed Metais, Prag. M e/. Phys., vol. 8, pp. 147-202, 1958.
'E. W. Muller, D iree/ O bserva/io/l ollm perlec/io/ls i/l C rys/als, lnterscience Publishers, lnc., New York,
1962.

Document shared on www.docsity.com


lo n g o d e to d o o an el, p o is caso assim n ão fo sse, d u as p artes d o cristal acim a d a reg ião
d eslizad a teriam q u e d eslizar d e q u an tid ad es d iferen tes en tre si, o q u e só seria p o ssív el
se u m a o u tra lin h a d e d isco rd ân cia se m o v im en tasse atrav és d o p lan o d e d eslizam en to .
U m a m an eira co n v en ien te d e se d efin ir o v eto r d e B u rg ers d e u m a d isco rd ân cia é
atrav és d e u m circuito de B urgers. S eja a d isco rd ân cia-aresta p o sitiv a m o strad a n a
F ig . 5.5a. S e in iciarm o s u m circu ito n u m p o n to d a red e, traçan d o n o sen tid o h o rário
u m cam in h o d e áto m o p ara áto m o q u e p erco rra d istân cias ig u ais em cad a d ireção ,
v erem o s q u e ao fim d o cam in h o o circu ito n ão será fech ad o . O v eto r d e B u rg ers, b, d e
u m a d isco rd ân cia m ed e a falh a d e fech am en to d o circu ito , sen d o o rien tad o n o sen tid o
d o fim p ara o in ÍC io d o m esm o . (S e tiv éssem o s feito o circu ito d e B u rg ers em to rn o d a
d isco rd ân cia n o sen tid o an ti-h o rário , o v eto r d e B u rg ers p o ssu iria a m esm a d ireção e
sen tid o o p o sto ao en co n trad o n a F ig . 5.5a.) C aso tracem o s u m circu ito d e B u rg ers em
to rn o d a d isco rd ân cia-esp iral m o strad a n a F ig . 5.5b, v erem o s q u e a falh a d e fech a-
m en to sairá p ara fo ra d a face fro n tal d o cristal. E ste co m p o rtam en to caracteriza u m a
espiral direita, aq u ela q u e, p o r d efin ição , ao realizarm o s o circu ito ao seu red o r, n o
sen tid o h o rário , d escrev erem o s u m m o v im en to h elico id al p en etran d o u m a d istân cia
atô m ica n o in terio r d o cristal.
É p reciso ag o ra q u e sejam o s cap azes d e d istin g u ir en tre u m v eto r d e B u rg ers
p o sitiv o e u m n eg ativ o . P ara isto , d efin im o s o v eto r-tan g en te u n itário t, o q u al é tan -
g en te à lin h a d e d isco rd ân cia em cad a p o n to (F ig . 5 .6 ). A seleção d o sen tid o p o sitiv o
d e t é arb itrária, m as u m a v ez q u e ela é feita p o d e ser fix ad o sem am b ig ü id ad e o sin al
d o v eto r d e B u rg ers. A p ó s selecio n ad o o sen tid o p o sitiv o d o v eto r-tan g en te, assin ale a
lin h a d e d isco rd ân cia n a d ireção p o sitiv a e faça u m circu ito d e B u rg ers n o sen tid o

F ig . 5 .5 C irc u ito d e B u rg e rs. (a) E m to rn o d e u m a d isc o rd â n c ia -a re sta p o sitiv a ; (b) e m to rn o d e


u m a d isc o rd â n c ia -e sp ira l d ire ita .

Document shared on www.docsity.com


horário em torno da linha de discordância para determinar a magnitude e o sentido de
b medido do fim para o início do circuito A partir desta definição teremos que duas
l
.

discordâncias paralelas serão idênticas caso (I) seus vetores-tangentes possuam o


mesmo sentido e seus vetores de Burgers sejam de mesma magnitude e sentido, ou (2)
seus vetores-tangentes possuam sentidos opostos e seus vetores de Burgers sejam de
mesma magnitude e sentidos contrários. Também, de acordo com esta convenção, o
vetor de Burgers de uma espiral esquerda possui o mesmo sentido de seu vetor-
tangente (Fig. 5.7a), enquanto que para a espiral direita, o vetor de Burgers e o vetor-
tangente possuem sentidos contrários (Fig. 5.7b).

cé 'b F im

In íc io l

F ig . 5.7 Convenção para discordâncias-espiral. (a ) Discordância-espiral esquerda; (b )


discordância-espiral direita.

Notamos que o vetor-tangente de uma discordância-aresta e seu vetor de Burgers


definem um plano, o plano de deslizamento. A direção do movimento de uma
discordância-aresta é a direção de b , a qual é normal a t. A posição do semiplano extra
de átomos, em relação ao vetor de Burgers, pode set achada fazendo-se uma rotação
de 900 no sentido anti-horário a partir da direção de b , desde que a discordância seja
assinalada no sentido positivo. (Isto estabelece quando uma discordância-aresta é posi-
tiva ou negativa.) Uma vez que para a discordância-espiral b e t são paralelos, nenhum
plano específico é por eles definido. A discordância-espiral se movimenta numa dire-
ção normal a b , mas é livre para deslizar em qualquer plano que contenha seu vetor de
Burgers. Como as discordâncias-espiral (ou componentes-espiral de discordâncias mis-
tas) são livres de caminhar para fora dos seus planos originais de movimento, elas
podem tomar parte em deslizamento cruzado e em reações complicadas com outras
discordâncias, originando a formação de redes complexas de discordâncias.
O processo de deslizam ento cruzado está ilustrado na Fig. 5.8, e também servirá
para uma aplicação das regra~ discutidas acima. Na Fig. 5.8a. um pequeno anel de
discordância com b , = ao/2 [10I] está se movimentando sobl,"e o plano (111) de um
cristal c.f.c. Seja o vetar t orientado no sentido anti-horário no plano do anel de modo
que este no ponto li' seja aresta positiva pura e ém y aresta negativa pura (aplicando-se
a regra da rotação anti-horária de 900). Em x a discordância é uma espiral direita
(porque b e t são paralelos), enquanto em z o anel de discordância é uma espiral
esquerda pura. Num determinado instante (Fig. 5 . 8 b ) , a tensão cisalhante, provocaf!do
a expansão do anel, tende a movimentar a discordância no plano de interseção (111),
movimento este que será permitido uma vez que a discordância é puramente espiral
INem todas as autoridades em teoria das discordãncias concordam com a definição do vetor de Burgers. Algu-
mas vezes é adotada uma convenção que é equivalente a tomar-se o circuito de Burgers no sentido anti-horârio,
resultando em um vetor de Burgers com sentido oposto daquele dado pela definição acima.

Document shared on www.docsity.com


em z. Na Fig. 5.8c o anel se expandiu sobre o segundo plano, enquanto que na Fig.
5.&1 ocorreu deslizam ento cruzado duplo à medida que o anel deslizou de volta para o
plano (111) original. Note que durante o deslizamento da discordância sobre o plano de
deslizamento cruzado, apenas a componente-espiral do anel se movimentou.
Em virtude da discordância representar a fronteira entre as regiões deslizada e
não-deslizada, é necessário que ela seja um anel fechado ou termine na superfície livre
do cristal ou num contorno de grão, para que possa atender certas considerações topo-
gráficas. De modo geral, uma linha de discordância não pode terminar no interior do
cristal. A exceção para esta regra é o caso de um nó, ponto de encontro de três ou
quatro linhas de discordância. Em um nó, duas discordâncias com vetores de Burgers
bJ e b2 combinam-se entre si para produzir uma discordância resultante b3• O vetor b3 é
dado pela soma vetorial de b1 e b2•
Uma vez que o campo de força periódico da rede cristalina impõe que os átomos
se movimentem de uma posição de equilíbrio para outra, o vetor de Burgers sempre
ligará duas posições de equilíbrio da rede cristalina. Desta forma, a própria estrutura
cristalina determina os possíveis vetores de Burgers. Uma discordância que possua o
vetor de Burgers igual a um espaçamento da rede é chamada discordância de m ódulo
unitário. A fim de atender considerações de energia, as discordâncias com módulos
superiores à unidade são instáveis e se dissociam em duas ou mais discordâncias de
menor módulo. O critério que decide se a dissociação irá ou não ocorrer está baseado
no fato da energia de deformação de uma discordância ser proporcional ao quadrado
do seu veto r de Burgers. Desta maneira, a reação de dissociação bJ ~ b2 + b3 ocorrerá
quando b f > b ~ + b 5 ; por outro lado, caso b I < b ~ + b 5 , a discordância não se
associará.
As discordâncias de módulo menor do que a unidade podem ocorrer nas redes
compactas, pois neste caso as posições de equilíbrio não se limitam às arestas das
células unitárias. Um vetar de Burgers é especificado estabelecendo-se seus compo-
nentes ao longo dos eixos cristalográficos da célula unitária; sendo assim, o vetor de
Burgers que mede o deslizamento numa rede cúbica, de um dos vértices do cubo até o
centro de uma face, possui os componentes ao/2, a o /2, O. O vetor de Burgers é [ao/2
ao/2 O], ou como geralmente é expresso, b = (ao/2)[11O]. O módulo de uma discordân-
cia com vetor de Burgers aoluLW ] é ~ I = a o lu 2 + t f ! + W 2 ]l/2. No caso do vetor de
Burgers acima descrito sua magnitude é dada por ~ I = ao/ v T
A soma de vetores de Burgers é feita adicionando-se separadamente os compo-
nentes correspondentes. Por exemplo, bJ + b = ao[lIO] + ao[211] = ao[321]. Tanto na
2

adição como na subtração dos componentes devem ser empregados vetores unitários

Fig. 5.8 Deslizamento cruzado num cristal cúbico de faces centradas. (De D. H ull,lnlroduclion
1 0 D is/ocalions, p. 56, Pergamon Press. New York, 1965. Com permissão dos editores.)

Document shared on www.docsity.com


comuns, isto é, ao/3[l12] + a o /6 [1 1 \] deve ser expresso como a o /6 [2 2 4 ] + a o /6 [1 1 \] =
ao/6[333J = ao/2Ul Il.
Uma discordância de módulo unitário, ou discordância unitária, possui uma ener-
gia mínima quando seu vetor de Burgers é paralelo a uma direção compacta da rede.
Isto está de acordo com a observação experimental segundo a qual os cristais deslizam
quase sempre segundo as direções compactas. Uma discordância unitária deste tipo é
também chamada de discordância perfeita, porque a translação igual a um vetor de
Burgers produz uma translação de identidade. No caso de uma discordância perfeita
existe um alinhamento perfeito dos planos atômicos abaixo e acima do plano de desli-
zamento do anel de discordância. Uma discordância unitária paralela à direção de
deslizamento não pode mais se dissociar, a não ser que se torne uma discordância
im perfeita, onde uma translação de um vetor de Burgers não resulta numa translação
de identidade. A dissociação de uma discordância em duas outras imperfeitas produz
uma falha de empilhamento. Para uma falha de empilhamento ser estável, o decrés-
cimo de energia devido à dissociação deve ser maior do que o aumento da energia
interfacial da região falhada.

Na rede c.f.c, o deslizamento ocorre no plano {l1I} segundo a direção <110>. O


menor vetor da rede é ( a o /2 ) [110], que liga um átomo em um vértice do cubo com um
átomo vizinho no centro de uma face do cubo. Desta forma, o vetor de Burgers é
( a o /2 ) [lIOJ.
Todavia, se considerarmos o arranjo atômico sobre o plano de deslizamento
{lIl}, veremos que o deslizamento não acontece de maneira tão simples. A Fig. 5.9
representa o empacotamento atômico num plano compacto (111). Já foi mostrado que
os planos {111} estão empilhados numa seqüência A B C A B C . . . . O vetor b, = ( a 0/2)
[IOIJ define uma das direções de deslizamento observadas. Entretanto, caso os átomos
sejam considerados esferas rígidas', será mais fácil para um átomo pertencente a um
plano tipo B mover-se ao longo dos "vales", com um movimento em ziguezague b2 +
ba, do que o fazer sobre o "monte" (esfera do plano A ) que se encontra no caminho do
vetor b,. A reação de discordância é dada por

a; [101] ---> ~o [2II] + ~o [112]

Fig. 5.9 Deslizamento num plano compacto (111) numa rede c.f.c. (De A. H. Cottrell, D isloca-
tions and Plastic FlolV in C rystals, p. 73, Oxford University Press, New York, 1953. Com per-
missão dos editores.)

'F. C. Thompson and W. E. MiUlington,J. Iron Stee/ Inst. London. vol. 109, p. 67,1924; C. H. Mathewson,
Trans. A IM E , vol. 32, p. 38, 1944.

Document shared on www.docsity.com


Para que esta reação se verifique, a soma dos componentes x, y , z do lado direito da
equação deverá igualar-se aos componentes x , y e z da discordância original.

componente x t = i + i
componente y O= - i + i
componente z -t = -i -!
A reação acima é energeticamente favorável, visto que ocorre um decréscimo na ener-
gia de deformação proporcional à variação a 0 2 /2 ~ a 0 2 /3.

Discordância original P r o d u to da reação

Ib I
1 = a o [i + O + il~ I b2 1 = 00['; + - ; . + - ; 'l ~
vz
Ib 1 = T a o
ao ao
1
I b2 1 = v6 Ib 31 = v6
2 2
b 2 _ 00 b 2 _ 00
> 2 -6 3 -6

> b,' + b?

o deslizamento através deste processo de dois estágios cria uma falha A B C A C i


ABC na seqüência de empilhamento. Como mostra a Fig. 5.10, a discordância com
vetor de Burgers b dissociou-se em duas discordâncias parciais b e b Esta reação
1 2 3•

de discordância foi sugerida por Heidenreich e Shockleyl, por isto este arranjo é co-
nhecido como parciais de Shockley, uma vez que são discordâncias imperfeitas que
não produzem translações completas na rede. A Fig. 5.10 representa a situação vista

D is c o r d â n c ia d is s o c ia d a

~
C O

ao [ -]
b2 = " " 6 211

bl = ao
2 [ 1 0 1-]

Document shared on www.docsity.com


de cima de (111), segundo a direção [li 1 ]. A discordância perfeita com vetor de Bur-
gers total, b l> é representada por A R , que se dissocia em discordâncias parciais com
vetores de Burgers b2 e b3 de acordo com a reação vista acima. A combinação das
duas parciais AC e AD é conhecida como discordância estendida, sendo a região que
as separa uma falha de empilhamento que representa uma parte do cristal que experi-
mentou um deslizamento intermediário entre o deslizamento total e o deslizamento
nulo. Em virtude de b2 e b3 formarem um ângulo de 60°, existe entre eles uma força de
repulsão (Seção 6.9), porém a tensão superficial da falha de empilhamento tende a
aproximá-Ios. As discordâncias parciais atingem uma separação de equilíbrio que é
determinada principalmente pela energia da falha de empilhamento. A energia da falha
de empilhamento, como foi visto na Seção 4.11, pode variar consideravelmente para os
diversos metais e ligas c.f.c., exercendo por isto uma influência importante no com-
portamento da deformação destes materiais.
A dissociação das discordâncias unitárias independe do caráter (aresta, espiral ou
mista) da discordância. No entanto, a discordância-espiral estendida, ao contrário da
não-estendida, define um plano de deslizamento específico que é o plano {III} da
região que possui a falha, e seu movimento será restrito a este plano. As discordâncias
parciais se movimentam de maneira solidária, mantendo a largura de equilíbrio da falha
de empilhamento. Uma discordância-espiral estendida, por ter seu movimento restrito
a um plano, não pode realizar deslizamento cruzado, a menos que as parciais se re-
combinem para formar uma discordância perfeita. Esta recombinação das parciais é
possível de ocorrer, embora necessite de energia. Quanto maior for a largura da falha
de empilhamento (ou menor for sua energia) mais difícil será a constrição das parciais.
Isto explica por que o deslizamento cruzado é tão freqüente no alumínio, o qual apre-
senta uma falha de empilhamento muito estreita, e tão pouco observado no cobre, que
apresenta falhas de empilhamento muito largas.
As falhas de empilhamento podem ser facilmente detectadas através de microsco-
pia eletrônica de transmissão. Nos metais c.f.c., a natureza da rede de discordâncias
varia com a energia da falha de empilhamento. O aço inoxidável austenítico, que apre-
senta energia de falha de empilhamento de cerca de 13 erg/cm 2, apresenta redes de
discordâncias apenas ao longo dos planos de deslizamento, mesmo para grandes de-
formações plásticas. O ouro, o cobre e o níquel, que possuem energias de falha de
empilhamento de 30, 40 e 80 erg/cm 2, respectivameme, apresentam a baixas deforma-
ções suas discordâncias arranjadas segundo redes tridimensionais complexas. No en-
tanto, para deformações maiores estes arranjos são alterados, dando origem a subgrãos
maldefinidos. O alumínio, com energia de falha de empilhamento de 200 erg/cm 2, apre-
senta subgrãos quase perfeitos. Esta observação da transição gradativa da maneira
segundo a qual as discordâncias se arranjam está de acordo com a influência que a
energia de falha de empilhamento exerce na capacidade do metal experimentar desli-
zamento cruzado. No aço inoxidável, mesmo para altas deformações, o deslizamento
cruzado dificilmente ocorre porque as discordâncias estão confinadas aos planos de
deslizamento. No ouro, cobre e prata o deslizamento cruzado é possível, embora so-
mente em regiões altamente tensionadas. Desta forma, as discordâncias-espiral reali-
zam o deslizamento cruzado, sendo que para altas deformações, elas tendem a formar
redes de contornos de baixo ângulo a fim de que sua energia de deformação seja dimi-
nuída. No alumínio, o deslizamento cruzado é muito freqüente, e as discordâncias-
espirais podem-se arranjar facilmente em redes de contornos de baixo ângulo.
Frank' verificou que pode existir um outro tipo de discordância parcial na rede
cristalina c.f.c. A Fig. 5.11 mostra um conjunto de planos (111) visto de lado. Está
faltando a parte central do plano A , significando que nesta região se formou uma
discordância-aresta com vetor de Burgers ( a o / 3 ) [ I I I ] . Esta discordância é chamada
parcial de Frank, e seu vetor de Burgers é perpendicular à falha de empilhamento
central ( B C B C ) . Uma vez que o deslizamento deve ser restrito ao plano da falha de

Document shared on www.docsity.com


A
A A
C
C C
B ~ B
A
C
..........----.
C A
C
r (111J
B
B B
A
A A

F ig . 5 .1 1 U m a d isco rd ân cia p arcial d e F ran k o u d isco rd ân cia b lo q u ead a. (D e A . H . C o ttrell,


D islocations and P lastic F low in C rysta/s, p . 7 5 , O x fo rd U n iv ersity P ress, N ew Y o rk , 1 9 5 3 . C o m
p erm issão d o s ed ito res).

em p ilh am en to e o v eto r d e B u rg ers é n o rm al a este p lan o , a d isco rd ân cia p arcial d e


F ran k n ão p o d e m o v im en tar-se p o r d eslizam en to , sen d o p o r esta razão ch am ad a d e
u m a discordância bloqueada. U m a d isco rd ân cia d este tip o só p o d e m o v im en tar-se
atrav és d e d ifu são d e áto m o s o u lacu n as, d e o u p ara a falh a, isto é, atrav és d o p ro -
cesso d e escalag em . C o m o este m ecan ism o n ão o co rre n as tem p eratu ras co m u n s, as
d isco rd ân cias b lo q u ead as to rn am -se o b stácu lo s p ara. o m o v im en to d e o u tras d isco r-
d ân cias. A s d isco rd ân cias q u e p o d em m o v im en tar-se liv rem en te so b re o p lan o d e d es-
lizam en to . co m o as p arciais d e S h o ck ley o u as d isco rd ân cias p erfeitas, são ch am ad as
d eslizáv eis. A co n d en sação d e lacu n as n u m d eterm in ad o p lan o é u m m éto d o q u e ex -
p lica o ap arecim en to d a falh a o b serv ad a n a F ig . 5 .1 1 . E ste fato já fo i co m p ro v ad o
ex p erim en talm en te n o alu m ín io , atrav és d e m icro sco p ia eletrô n ica d e tran sm issão l.
N a red e c.f.c., a in terseção d e d isco rd ân cias p erten cen tes a d o is p lan o s { 1 1 1 } ,
d u ran te o d eslizam en to d ú p lex , p o d e p ro d u zir d isco rd ân cias b lo q u ead as. A d isco rd ân -
cia b lo q u ead a p ro d u zid a atrav és d esta reação é ch am ad a d e u m a barreira de Lom er-
C ottrell. C o n sid ere d u as d isco rd ân cias p erfeitas ao/2 [1 1 0 ] e ao /2 [1 0 1 ] p erten cen tes a
d o is p lan o s { III} d iferen tes, sen d o am b as p aralelas à lin h a d e in terseção d estes p lan o s
(F ig . 5 .1 2 ). E stas d isco rd ân cias se atraem e se m o v im en tam em d ireção à su a lin h a d e
in terseção . L o m er 2 su g eriu q u e elas reag em seg u n d o

a fim d e p ro d u zir u m a n o v a d isco rd ân cia d e m en o r en erg ia, a q u al v em a ser p aralela à


lin h a d e in terseção d o s p lan o s d e d eslizam en to in iciais e p erten ce ao seu p lan o b isseto r
. (1 0 0 ). E sta d isco rd ân cia é aresta p u ra, v isto q u e seu v eto r d e B u rg ers está n o p lan o
(1 0 0 ) e é n o rm al à lin h a d e in terseção . U m a v ez q u e o p lan o (1 0 0 ) n ão é co m p acto n a

'P . B . H irsch , J . S ilco x , R . E . S m allm an e K . H . W estm aco tt, P hilos, M ag., v o I. 3 , p . 8 9 7 , 1 9 5 8 .


'w . M . L o m er, P hilos, M ag., v o I. 4 2 , p . 1 3 2 7 , 1 9 5 1 .

Document shared on www.docsity.com


rede cristalina c.f.c., esta discordância não deslizará livremente. Todavia, ela não
chega a ser uma discordância bloqueada no mesmo sentido da parcial de Frank, por-
que não é uma discordância imperfeita.
Cottrell' mostrou que o produto da reação de Lomer poderia ser estritamente
imóvel, se considerarmos que as discordâncias nos planos {III} de um metal c.f.c.
estão geralmente dissociadas em parciais. As discordâncias parciais líderes de cada
plano de deslizamento interagirão umas com as outras numa reação do tipo

:0 [1 2 1 ] + :0 [I 1 2 ] ~ :0 [0 1 1 ]

Da mesma forma que antes, a nova discordância a 0/6[011] é paralela à linha de interse-
ção dos planos de deslizamento e possui um caráter de aresta pura no plano (100). Esta
barreira tem um formato triangular, com a nova discordância no vértice e duas falhas
de empilhamento limitadas por discordâncias parciais nos planos de deslizamento. A
discordância é bloqueada porque seu vetor de Burgers não pertence a nenhum dos
planos das falhas de empilhamento.
As barreiras de Lomer-Cottrell podem ser superadas a altas tensões e/ou tempera-
turas. Stroh2 realizou uma análise matemática da tensão necessária para romper uma
barreira, quer por deslizamento no plano (100), quer através de uma reação retomando
às discordâncias que deram origem à barreira. No entanto foi mostrad03 que, no caso
de discordâncias-espiral empilhadas em barreiras de Lomer-Cottrell, aquelas conse-
guem, através de deslizamento cruzado, escapar do empilhamento antes que a tensão
se torne suficientemente alta para destruir a barreira. Embora a formação das barreiras
de Lomer-Cottrell seja um mecanismo de encruamento importante, certamente não se
constitui no principal.
Devido à multiplicidade de sistemas de deslizamento na rede c.f.c., podem ocor-
rer diversas reações de discordância dos tipos acima discutidos. Estas reações foram
estudadas detalhadamente por Hirth4• Deve-se ressaltar ainda o tetraedro de Thomp-
son.5, que é um método geométrico muito utilizado para a visualização da geometria
destas reações.

o plano basal da malha cristalina h.c. é um plano compacto com seqüência de empi-
O deslizamento ocorre no plano basal (0001) segundo a dire-
Ih a m e n to _ A B A B A B
....
ção <1120> (Fig. 4.3). O menor vetor unitário da estrutura h.c. possui comprimento
ao e está na direção compacta <llio>. Deste modo, o vetor de Burgers é ao[lliO]. As
discordâncias no plano basal podem reduzir sua energia através da dissociação em
parciais de Shockley de acordo com a reação

A falha de empilhamento produzida por esta reação se encontra no plano basal, e a


discordância estendida que se forma está confinada a deslizar neste plano.

IA. H. Cotlrell, Philos M ag., vol. 43, p. 645, 1952.


'A. N. Stroh, Philos. M ag., vol. I, seco 8, p. 489, 1956.
3A. Seeger, J . Diehl, S. Mader e R. Rebstook, Philos. M ag., vol. 2, p. 323, 1957.
'J. P. Hirth,J. Appl. Phys., vol. 32, pp. 700-706,1961.
'N. Thompson, Prac. Phys. Soe. Londoll Ser. B., vol. B66, p. 481, 1953.

Document shared on www.docsity.com


Na rede cristalina c.c.c, o deslizamento se verifica na direção < 111 > . O menor vetor
da rede se estende de um átomo no vértice do cubo até o átomo do centro da célula
unitária, ocasionando um vetor de Burgers (00/2)[111]. Devemos relembrar que no
ferro observamos linhas de deslizamento nos planos {l1O}, {l12} e {l23}, embora nos
outros metais c.c.c. o deslizamento aconteça de forma predominante nos planos {l10}.
Uma vez que o plano de deslizamento é, normalmente, o (110), devemos observar que
três planos do tipo {1I0} se intersecionam numa única direção [111]. Sendo assim, as
discordâncias-espiral com veto r de Burgers ( o 0/2) [111] podem movimentar-se aleato-
riamente nos planos { 1 1 1 } que estejam submetidos a uma alta tensão cisalhante resol-
vida. Este fato origina as linhas de deslizamento onduladas e maldefinidas que se ob-
servam no ferro (Fig. 4.14).
Nos metais c.c.c. não são observadas comumente as discordâncias estendidas, da
maneira que o são nos metais cLc. e h.c. Embora tenham sido sugeridas1 algumas
reações envolvendo parciais, ainda não existe uma reação bem definida que tenha sido
confirmada por observação experimental.
No entanto, CottrelF sugeriu uma rea~ão de discordâncias que parece conduzir à
formação de discordâncias imóveis na rede c.c.c. Mostrou-se, inclusive, que esta rea-
ção seria um mecanismo de produção de núcleo de trinca para a fratura frágil. Este
mecanismo também é responsável pela produção das redes de discordâncias G o [O O I]
que são observadas no ferro. Na Fig. 5.13, a discordância A com vetor de Burgers
(ao/2) [111] desliza no plano (101), enquanto a discordânciaB com vetor de Burgers( a 0/2)
[111] está deslizando no plano de deslizamento secante (101). As duas discordâncias se
encontram e reagem, a fim de diminuir sua energia de deformação, dando origem a uma
discordância-aresta pura que se encontra no plano (001).

~o [TIl] + ~o [111] ---> 0 0 [0 0 1 ]

Uma vez que o plano (001) não é um plano de deslizamento compacto na rede C.C.C., a
discordância é imóvel. Além disso, o plano (001) é o plano de clivagem ao longo do
qual ocorre a fratura frágil.

Fig. 5.13 Deslizamento sobre planos (110) que se cortam. (De A. H. Cottrell, Trans. AIM E, vaI.
212, p. 196, 1958.)

'Para um sumário, ver J. P. Hirth e J. Lothe, Theory of D is{oeations, pp. 344-353, McGraw-Hill Book Com-
pany, New York, 1968.
'A. H. Cottrell, Trans. M etal/. Soe. A/M E, vol. 212, p. 192,1958.

Document shared on www.docsity.com


Uma discordância é rodeada por um campo de tensões elástico que atua sobre outras
discordâncias dando origem à interação entre discordâncias e átomos solutos. No caso
de uma discordância perfeita pode ser obtida uma boa aproximação para o campo de
tensões através da teoria matemática da elasticidade para um meio contínuo. No en-
tanto, as equações que são obtidas não são válidas próximo ao núcleo da linha de
discordância. As equações dadas abaixo aplicam-se a discordâncias-aresta e espiral,
retas, de um cristal isotrópico.' A tensão em torno de uma discordância reta será uma
boa aproximação daquela em torno de uma discordância curva, para distâncias que
sejam pequenas quando comparadas com o raio de curvatura. Quando se considera um
cristal com constantes elásticas anisotrópicas, surge uma complexidade maior no tra-
tamento da questão.2
A Fig. 5.14 representa a seção transversal de um pedaço cilíndrico de material
elástico, contendo uma discordância-aresta que começa no ponto O e se estende para-
lelamente ao eixo z (normal ao plano da figura). O cilindro original não-distorcido é
mostrado pela linha pontilhada. A discordância foi produzida fazendo-se um corte ra-
dial ao longo do plano y = O (linha O A ) , deslizando-se as superfícies cortadas de uma
distância A A ', uma em relação à outra, e tornando-se a juntá-Ias. Esta seqüência de
operações3 produz uma discordância-aresta positiva situada ao longo do eixo z, com
um campo de tensões idêntico àquele em torno de um modelo de discordância como o
apresentado na Fig. 4.8. Uma vez que a linha de discordância é paralela ao eixo z, as
deformações naquela direção são nulas e o problema pode ser considerado como sendo
de deformação plana.
Para o caso de uma discordância-aresta reta num material elasticamente isotró-
pico, as tensões são dadas, em termos de três eixos coordenados ortogonais, pelas
equações que se seguem. A notação é a mesma utilizada nos Caps. I e 2.

G
'o =
2n(l - v)
bx(x2 _ y2)
, =, o
xy (x2 + y2?

I Para derivações ver F. R. N. Nabarro. Adv. Ph.,·s.. vol. I. nO 3, pp. 271-395. 1952; W. T. Read. Jr., D isloea-
liolls i l l C ryslals, pp. 114-123, McGraw-Hill Book Company. New York. 1953: 1. D. Eshelby, Bril. J . Appl.
Phys .. vol. 17. pp. 1131-1135. 1966.
'J. D. Eshelby, W. T. Read e W. Shockley.Aela M eta" .. vol. I, pp. 351-359.1953.
'U m fato interessante é que este problema foi analisado por Volt erra. em 1907, muito tempo antes de ser
introduzido o conceito de discordâncias. Os detalhes matemáticos podem ser encontrados em A. E. H. Love,
A Trealise 0 1 1 lhe M alhem alieal Theary af Elaslieily. pp. 221-228, Cambridge University Press, New York,
1934.

Document shared on www.docsity.com


Fig. 5 .1 4 Deformação de um círculo contendo uma discordância-aresta. O círculo antes da de-
formação é mostrado por uma linha pontilhada. A linha sólida representa o círculo após a discor-
dância ter sido introduzida.

A tensão normal maior, u x , atua ao longo do eixo x e é compressiva acima do


plano de deslizamento e de tração abaixo deste. A tensão cisalhante é máxima no
plano de deslizamento, isto é, quando y = O.
Em coordenadas polares, as equações são:

-tobsen e
ar = a e = -----
r
b cos e
t re = ter = to --- (5-7)
r

u,. atua na direção radial, enquanto U e o faz num plano perpendicular a r. Note que as
tensões variam inversamente com a distância da linha de discordância. Tendo em vista
que a tensão se torna infinita para r = O, deve ser excluída da análise uma pequena
região cilíndrica r = ro. As estimativas de ro indicam que ele seja da ordem de 5 a 10 Á .
Uma discordância-espiral reta num meio isotrópico possui uma simetria cilíndrica
completa. Para um sistema de coordenadas retangular, apenas dois componentes de
tensão não são iguais a zero.

Gb y
txz = - 2n x2 + y2 (5 -8 )

Gb 2n
ty z = - - - ;x2
- + y2 (5 -9 )

Uma vez que numa discordância-espiral não existe um semiplano extra de átomos, não
atuam tensões normais de tração ou compressão. O campo de tensões é simplesmente
de cisalhamento e sua simetria radial pode ser melhor visualizada quando expressamos
a tensão de cisalhamento num sistema de coordenadas polares.

Gb
te = -
z 2nr

Document shared on www.docsity.com


Num cristal de silício, o campo de deformação em torno de uma discordância-
l
aresta foi observado através de radiação infravermelha polarizada e constatou-se que
a variação de intensidade está de acordo com os resultados previstos pelas equações
do campo de tensões em torno de uma discordância-aresta num meio isotrópico.
A energia de deformação associada à formação de uma discordância-aresta pode
ser estimada a partir do trabalho despendido para o deslocamento da superfície cortada
na Fig. 5.14, de uma distância b ao longo do plano de deslizamento.

1 " 1 "
J
d,
U=2J 'r9 bd ,=-
2
'ob cos8-
'0 2 '0 '

Mas, ao longo do plano de deslizamento y = O, temos que cos () = I; assim a energia


de deformação é dada por

2
u = Gb ln ~
411:(1- v) '0

U = -
1
J '9
'1
b d, = -
G b2 ,
ln ...!.
2'0 z 411:'0

Observe que, de acordo com as hipóteses admitidas até este ponto, a energia de de-
formação por comprimento unitário de discordância é proporcional a G b 2•
A energia de deformação total de uma discordância é a soma da energia de defor-
mação elástica [Eq. (5.12) ou (5.13)] mais a energia do núcleo da discordância. Embora
as estimativas da energia do núcleo sejam muito aproximadas, cálculos de mecânica
quântica indicam que seu valor é aproximadamente 1115 da energia total. A energia do
núcleo pode ser adicionada à energia de deformação elástica, numa boa aproximação,
tomando-se '0 = b. Desta maneira, a energia total por comprimento unitário de
discordância-espiral é dada por

Para um cristal recozido temos, como valores típicos"1 = 10-5 cm e b = 2 X 10-8 cm.
Uma vez que o logaritmo natural de um número grande varia lentamente, para este
intervalo de valores temos ln ( r l/ b ) = 271", e a energia da discordância por comprimento
unitário (desprezando-se as pequenas diferenças existentes nas Eqs. (5.12) e (5.13»
simplifica-se para

G b2
U = -
2

Document shared on www.docsity.com


A energia de deformação de uma discordância é cerca de 8 e V para cada plano
atômico percorrido pela discordância (ver Probo 5.8), enquanto que a energia do nú-
cleo é da ordem de 0,5 e V por plano atômico. Esta grande energia de deformação
positiva significa que a energia livre do cristal é aumentada pela introdução de uma
discordância. Como a própria natureza tenta minimizar a energia livre de um sistema,
um cristal com discordâncias é termodinamicamente instável e tentará diminuir sua
energia Irvre através da eliminação de discordâncias num processo como, por exemplo,
o recozimento. Esta situação deveria ser contrastada com aquela apresentada pelos
defeitos pontuais (lacunas), que são defeitos cristalinos termodinamicamente estáveis.
Para uma dada temperatura, existe uma concentração de lacunas em equilíbrio dada
pela Eq. (4.1).

Quando uma força externa de magnitude suficiente é aplicada a um cristal, as discor-


dâncias se movimentam produzindo deslizamento. Sendo assim, existe uma força
atuando sobre a linha de discordância que tende a dirigir seu movimento. A Fig. 5.15
mostra uma linha de discordância movimentando-se na direção do seu vetor de Bur-
gers sob a influência de uma tensão cisalhante uniforme T . Um elemento da linha de
discordância ds é deslocado na direção do deslizamento, normal a ds, de uma quanti-
dade dI. A área percorrida pelo elemento de linha é ds di, o que corresponde a um
deslocamento médio do cristal acima do plano de deslizamento, em relação ao cristal
abaixo deste, de uma quantidade (ds dl/A)b, onde A é a área do plano de deslizamento.
A força aplicada que dá origem à tensão cisalhante é TA. O trabalho realizado pela
ocorrência deste deslizamento incremental é

ds di)
d W = "{A (A b

A força sobre uma discordância é sempre definida como uma força F por com prim ento
unitário de linha de discordância. Como F = dW /dl e lembrando-se que esta é uma
força por comprimento unitário ( d s ) , temos

dW
F = -- = r:b
di ds

\
\
\
dI \
~\

\ ~ b \
dS\ \
\
\
\
I
I

Document shared on www.docsity.com


Esta força é normal à linha de discordância a cada ponto ao longo do seu comprimento
e é dirigida para a parte não-deslizada do plano de deslizamento. Uma vez que o vetor
de Burgers é constante ao longo de uma linha de discordância curva, se 7 for cons-
tante, o valor de F será o mesmo para todos os pontos da linha de discordância, no
entanto sua direção será sempre normal à linha de discordância. Deste modo, a força
sobre uma discordânciae a tensão aplicada não estão necessariamente na mesma dire-
ção.
Na Seção 5.7, todas as equações referentes à energia de deformação foram ex-
pressas para um com prim ento unitário de discordância. Uma vez que a energia de
deformação de uma linha de discordância é proporcional ao seu comprimento, o au-
mento deste necessita a realização de um certo trabalho. Desta forma, uma discordân-
cia possui uma tensão de linha que tende a minimizar sua energia diminuindo o seu
comprimento. No caso de uma linha de discordância curva, a tensão de linha produz
uma força de restauração que tende a torná-Ia reta. A tensão de linha apresenta dimen-
são de energia por unidade de comprimento, sendo análoga à energia superficial de
uma bolha de sabão ou líquido.
Consideremos a linha de discordância curva na Fig. 5.16. A tensão de linha r
produzirá uma força que tende a endireitar a linha, a qual só permanecerá curva caso
exista uma tensão cisalhante produzindo outra força sobre a discordância que resista à
ação daquela primeira. Nosso objetivo é calcular o valor da tensão cisalhante 7 neces-
sário para manter a linha de discordância com um raio de curvatura R . O ângulo su-
bentendido por um elemento de arco d s é d O = d s /R . A força produzida na linha de
discordância por r é 7b ds. A força de sentido oposto devido à tensão de linha é 2r sen
( d O /2 ) , a qual, para pequenos valores de d O , reduz-se a r d O . Para que a linha de
discordância permaneça curva,

r de = rb ds

r
r = bR

Mas, r é uma energia por unidade de comprimento, e já foi visto na Seção 5.7 que
G b2/2 = r é uma boa aproximação para a energia por comprimento unitário de discor-
dância. Sendo assim, a tensão cisalhante necessária para dobrar uma discordância até
um raio de curvatura R é

Gb
1 ': : : : : : : -
2R

Document shared on www.docsity.com


Discordâncias de sinais opostos pertencentes a um mesmo plano de deslizamento irão
atrair-se entre si até que se encontrem, anulando uma à outra. Isto pode ser visto
facilmente no caso de discordâncias-aresta positiva e negativa (Fig. 4.8) que, ao se
encontrarem num mesmo plano de deslizamento, ocasionam o desaparecimento do
plano atômico extra e, conseqüentemente, da própria discordância. Por outro lado,
discordâncias de sinais iguais, num mesmo plano de deslizamento, irão repelir-se entre
si. Este fato pode ser compreendido quando se consideram as variações de energia.
No caso de duas discordâncias separadas por uma grande distância, a energia de de-
formação elástica associada a esta situação será

2
Gb I rI
2· --- n -
4n(1 - v) '0
Quando as duas discordâncias se encontram muito próximas, esta configuração pode
ser aproximadamente representada por uma única discordância de módulo 2b. Neste
caso, a energia de deformação elástica será

G (2 b )2 I (rI)
4n(l - v) n ;:;; .

Uma vez que este valor é duas vezes aquele observado para o caso das discordâncias
separadas por uma grande distância, estas tenderão a se repelir entre si a fim de que a
energia de deformação elástica total seja reduzida. Quando discordâncias de sinais
contrários se encontram em planos vizinhos muito próximos, não é possível ocorrer
anulação total. Neste caso, elas se combinam dando origem à formação de uma fileira
de lacunas (no caso de~) ou de um átomo intersticial (no caso de ..lT).
A força entre duas discordâncias-espiral paralelas é a situação mais simples de ser
considerada. Em virtude do campo de tensões de uma discordância-espiral ser radial-
mente simétrico, a força entre as discordâncias é uma força radial que depende apenas
da distância de separação r.

G b2
F =te b=-
r z 2nr

Esta força será de atração no caso de discordâncias de sinais opostos (espirais antipa-
raleIas), e de repulsão no caso de discordâncias de sinais iguais (espirais paralelas).
Consideremos agora as forças entre duas discordâncias-aresta paralelas com veto-
res de Burgers iguais. Tendo como referência a Fig. 5.14, as discordâncias-aresta
situam-se em P e Q, paralelamente ao eixo z, com seus vetores de Burgers ao longo do
eixo x. A força entre elas não é uma força central, sendo por isto necessário que se
considere tanto uma componente radial como uma tangencial. A força por compri-
mento unitário é dada por l

G b2 I G b2 sen 28
F = ---- F e= - - - - - - -
r 2n(l - v) r 2n(1 - v) ,

Document shared on www.docsity.com


Em virtude das discordâncias-aresta estarem confinadas ao plano de deslizamento, a
componente de força de maior interesse será aquela ao longo da direção x, que é a
direção de deslizamento.

F x
= F cos () -- Fosen()
r

G b 2 x(x2 _ y2)
2n(1 -- v)(x 2 + y2)2

A Fig. 5.17 mostra a variação de F;r com a distância x, onde x está expresso em
unidades de y. A curva A é para discordâncias de mesmo sinal, enquanto que a curva
B é para discordâncias de sinais opostos. Observe que discordâncias de mesmo sinal
repelem-se entre si quando x > y (8 < 45°) e atraem-se quando x < y (8 > 45°),
ocorrendo o oposto no caso de discordâncias de sinais contrários. F;r é zero em x = O e
x = y. No caso de x = O, onde as discordâncias-aresta situam-se alinhadas uma acima
da outra, verifica-se uma condição de equilíbrio. Desta forma, a teoria prediz que um
arranjo vertical de discordâncias-aresta de mesmo sinal está em equilíbrio estável. Este
é o arranjo encontrado num contorno de grão de baixo ângulo do tipo inclinado. Os
cálculos de forças para situações mais complexas foram discutidos por Read' e tam-
bém por Weertman e Weertman2•

r '\

I \
f \
f \
f \
f \
\
\
\

1y 4y
\ x ---+

\
\ r-xi
\ 11 F x -T _ _-----
\ -L_:f__ _ ,- --- -- B
\ L..-______ _ __
' _

\
"
.•••.... _ --- , . . - - '"
----

F ig .
5 .1 7 Representação gráfica da Eq. (5.21). A curva A é para duas discordâncias-aresta de
mesmo sinal. A curva pontilhada B é para duas discordâncias-aresta de sinais contrários. (De A.
H. Cottrell, D islocations and Plastic FlolV in C rystals. p. 48, Oxford University Press, New
York, 1953. Com permissão dos editores.)

'R ead,op. cit., p. 13I.


2J. Weertman e J. R. Weertman, E lem entary·D islocation Theory, pp. 65-72, The Macmillan Company, New
York. 1964.

Document shared on www.docsity.com


Uma superfície livre exerce uma força de atração sobre uma discordância, tendo
em vista que esta ao escapar do cristal através da superfície reduz sua energia de
deformação. Koehler1 mostrou que esta força é aproximadamente igual àquela que
seria exercida, num sólido infinito, entre a discordância e uma outra de sinal oposto
situada na posição de sua imagem no outro lado da superfície. E sta fo rç a -im a g e m é
igual a

2
Gb 1
F = ----
411:(1 - v) r

para uma discordância-aresta .. No entanto, deve-se notar que as superfícies dos metais
estão muitas vezes cobertas por finos filmes de óxidos. Uma discordância, ao se apro-
ximar de uma superfície coberta por um material mais duro elasticamente, encontrará
uma força-imagem repulsiva ao invés de atrativa.

Uma discordância-aresta só pode deslizar no plano de deslizamento definido pela linha


de discordância e seu vetor de Burgers. Todavia, sob certas condições, uma
discordância-aresta pode sair do seu plano de deslizamento para um plano paralelo a
este situado diretamente acima ou abaixo. Este é o processo de e sc a la g e m d e d isc o r-
d â n c ia . Este tipo de movimento é denominado não-conservativo, quando comparado
ao movimento conservativo realizado pela discordância ao deslizar no seu plano de
deslizamento.
A escalagem de discordância ocorre através da difusão de lacunas ou átomos in-
tersticiais para a discordância, ou ainda, partindo dela. Uma vez que a escalagem é um
processo controlado por difusão, ela é termicamente ativada e ocorre mais facilmente a
altas temperaturas. Na e sc a la g e m p o sitiv a , são retirados os átomos pertencentes ao
semiplano atômico extra numa discordância-aresta positiva; desta forma, este semi-
plano extra sobe uma distância atômica. Na e sc a la g e m n e g a tiv a é adicionada uma
fileira de átomos abaixo do semiplano extra, que assim desce uma distância atômica. O
mecanismo usual de escalagem positiva consiste na difusão de uma lacuna para a dis-
cordância ao mesmo tempo que um átomo do semiplano extra se posiciona no lugar
vazio da rede (Fig. 5.18). Pode também ocorrer que o átomo se desprenda do semi-
plano extra e venha a se tornar um átomo intersticial, sendo este mecanismo, no en-
tanto, menos favorável energeticamente. Para ocorrer escalagem negativa, devem ser
adicionados átomos ao semiplano atômico extra. Isto pode ocorrer através de átomos

• • • • • • • • • •
• • • • • • • •
·
• •
(~ • • •
• • '-'e • •
• ."
.. • •
• ~ :.)• •
• • • • • • • •
• • • • • • • •
(a ) (b )

Fig. 5.18 ( a ) Difusão de lacuna para uma discordância-aresta; (b ) a discordância escala uma posi-
ção atômica da rede.

Document shared on www.docsity.com


da rede vizinha que se juntem ao semiplano extra, criando um fluxo de lacunas par-
tindo da discordância, ou menos provavelmente, pela difusão de átomos intersticiais
para a discordância. O acúmulo de lacunas no núcleo da discordância provoca uma
variação de energia livre que dá origem a u m a fa rç a a sm ó tic a sobre a discordância1•
A existência de uma tensão de compressão na direção de deslizamento causa uma
força no sentido de escalagem positiva. Da mesma maneira, uma tensão de tração
normal ao semiplano extra causa uma força no sentido de escalagem negativa. Quando
além da alta temperatura, necessária para o processo de difusão ocorrer, é superposto
o efeito da aplicação de tensão, verifica-se um aumento na taxa de escalagem.
Dificilmente, no processo de escalagem, são adicionadas ou retiradas fileiras atô-
micas inteiras do semiplano extra. Na realidade, pequenos grupos de lacunas, ou
mesmo lacunas individuais, se difundem para a discordância e a escalagem ocorre
sobre um curto segmento da linha de discordância. Isto dá origem à formação de pe-
quenos d e g ra u s ao longo da linha da discordância. A escalagem se verifica através da
nucleação e movimento de degraus. Existirá um número de degraus por comprimento
unitário de discordância, em equilíbrio termodinâmico, dado por

onde n o é o número de posições atômicas por comprimento unitário de discordância e


Vj é a energia de ativação necessária para nuclear um degrau. Esta energia de ativação
é da ordem de I e V. A energia de ativação para a escalagem é dada por

onde V v =energia de formação de uma lacuna


V III =energia de movimentação de uma lacuna
V
d = energia de ativação para autodifusão
Caso as discordâncias apresentem intensa formação de degraus devido à deformação
plástica anterior (veja Seção 5.11), a nucleação será então desprezada e a energia de
ativação para escalagem será determinada apenas pela energia de ativação para autodi-
fusão. A escalagem de discordâncias é um mecanismo muito importante na fluência
(c re e p ) dos metais, onde a energia de ativação para o estado estacionário de fluência é
igual à energia de ativação para a autodifusão.
A escalagem não diz respeito a discordâncias-espiral, visto que neste caso não
existe semiplano extra de átomos. A discordância-espiral é livre para se movimentar
em qualquer plano que contenha a linha de discordância e seu vetor de Burgers, uma
vez que estes são paralelos. Não é necessário que ocorra difusão de átomos para
permitir que uma discordância-espiral mude de plano de deslizamento, porém, é pre-
ciso que haja uma tensão ou uma energia de ativação maiores, uma vez que a tensão
cisalhante resolvida pode não ser tão alta quanto no plano de deslizamento original.

Uma vez que mesmo os cristais recozidos possuem muitas discordâncias, é freqüente
uma discordância, movimentando-se no seu plano de deslizamento, interceptar outras
discordâncias que o cruzam. Já vimos anteriormente (Seção 4.14) que os mecanismos
de interseção de discordâncias desempenham um papel importante no processo de
encruamento.

Document shared on www.docsity.com


A Fig. 5.19 ilustra a interseção de duas discordâncias-aresta com vetares de Bur-
gers formando um ângulo reto entre si. Uma discordância-aresta X Y com vetor de
Burgers b 1, que está se movimentando no plano P corta a discordância A D com
XY'

vetor de Burgers b 2, a qual se encontra no plano P A interseção produz um degrau


A D '

P P ' na discordância A D , o qual é paralelo a b, mas possui vetor de Burgers b 2, posto


que é parte da linha de discardância A P P 'D . O comprimento do degrau é igual a b].
Pode ser visto que este degrau resultante da interseção de duas discordâncias-aresta
possui uma orientação-aresta, podendo, desta forma, deslizar prontamente com o resto
da discordância. Para determinar qual discordância formará o degrau, devemos notar
que um degrau se forma quando o vetor de Burgers de uma das discordâncias é normal
à linha da outra discordância que a corta (b] é normal a A D e lhe causa um degrau,
enquanto b 2 é paralelo à X Y , onde não se forma degrau).
A Fig. 5.20 mostra a interseção de duas discordâncias-aresta ortogonais com veto-
res de Burgers paralelos. Neste caso ambas as discordâncias formam degrau, sendo b]
o comprimento do degrau p p ' e b 2 o comprimento do degrau Q Q ' . Deve-se observar
que ambos os degraus possuem orientação espiral e se encontram nos planos de desli-
zamento originais das discordâncias, em vez de planos de deslizamento vizinhos como
no caso anterior. Os degraus deste tipo, que se encontram no plano de deslizamento
em vez de normal a este, são chamados normalmente de " d o b r a s " , e são instáveis
porque durante o deslizamento podem-se alinhar com o resto da discordância.

figo 5.19 Interseção de duas discordâncias-aresta. (De W. T. Read, Jr. D is lo c a tio n s in C r y s ta ls ,


\lacGraw-Hill Book Company, New York, 1953.)

Document shared on www.docsity.com


~/
(b )

Fig. 5.20 Interseção de duas discordâncias com vetores de Burgers paralelos. (a ) Antes da inter-
seção; ( b ) depois da interseção.

A interseção de uma discordância-espiral com uma aresta pode ser vista na Fig.
5 . 2 I a . A interseção produz degraus de orientação-aresta em ambas as discordâncias.
A interseção de duas discordâncias-espiral (Fig. 5 . 2 I b ) também produz degraus de
orientação-aresta em ambas as discordâncias. Do ponto de vista de deformação plás-
tica, este é o tipo mais importante de interseção.
Os degraus produzidos pela interseção de duas discordâncias-aresta (de qualquer
orientação de b ) podem deslizar livremente porque se encontram nos planos de desli-
zamento das discordâncias originais. A única diferença entre o movimento de uma
discordância-aresta com degrau e uma discordância-aresta comum está no fato de que
a primeira desliza sobre uma superfície escalonada, enquanto que a segunda o faz ao
longo de um único plano de deslizamento. Desta forma, as discordâncias-aresta pura
não têm seu movimento afetado pela presença de degraus nas suas linhas. Todavia,
todos os tipos de degraus formados em discordâncias-espiral apresentam orientação-
aresta, e uma vez que uma discordância-aresta só pode movimentar-se livremente num
plano contendo sua linha e vetor de Burgers, a única maneira do degrau se movimentar
por deslizamento (movimento conservativo) é ao longo do eixo da discordância-espiral
(Fig. 5.22). A única maneira possível da discordância-espiral deslizar para uma nova
posição MNN'O levando junto seu degrau é através de um movimento não-
conservativo deste degrau, tal como a escalagem. A escalagem de discordância é um
processo termicamente ativado e, sendo assim, o movimento de discordâncias-espiral
que apresentam degraus na linha é dependente da temperatura. Nas temperaturas em
que a escalagem não ocorrer, o movimento das discordâncias-espiral será travado
pelos degraus. Isto é consistente com a observação experimenta]! segundo a qual as
discordâncias-espiral se movimentam mais lentamente através do cristal do que o
fazem as discordâncias-aresta.

®tt CDtt
b

RHS
b, --;

1 b,
~b'

®
RHS
'

t~l t
(2) ® ( j)

Antes Após Antes Após


(o ) (b )

Fig. 5.21 (a ) Interseção de discordância-aresta e espiral; (b ) Interseção de duas discordâncias-


espiral.

IN . K. Chen e R. B. Pondo T r a lls . A IM E , vol. 194, p. 1085, 1952; W. G. Johnston e J. J. Gilman, J. A p p l.


P h y s ., vol. 30, p. 121, 1957.

Document shared on www.docsity.com


Fig. 5.22 Movimento de degrau sobre discordância-espiral. O degrau tem seu movimento restrito
ao plano A A 'B B '.

A formação de degraus nas linhas de discordância acarreta muitas implicações impor-


tantes na teoria da deformação plástica dos metais. Um degrau estável representa um
aumento no comprimento da linha de discordâncias, produzindo, desta forma, um au-
mento na energia do cristal. Uma vez que toda a extensão do degrau se encontra no
material distorcido do núcleo da discordância que o contém, sua energia será pouco
inferior à energia de uma discordância por plano atômico. Como a energia de uma
discordância é a G b 2 (onde a é a ordem de 0,5 a 1,0), a energia de um degrau de
comprimento b 2 numa discordância de vetor de Burgers b 1 é

onde a = 0,2. A energia de um degrau nos metais é cerca de 0,5 a 1,0 eV.
Vimos que a interseção de discordância mais significativa é aquela que ocorre
com duas discordâncias-espiral produzindo degraus não-conservativos. Em todos os
outros casos de interseção, os degraus são capazes de se movimentar juntamente com
suas discordâncias. O movimento não-conservativo de degraus pertencentes a
discordâncias-espiral deve ser discutido com maiores detalhes. A Fig. 5.23 mostra um
corte de um degrau-aresta pertencente a uma discordância-espiral que desliza sobre
um plano paralelo ao da folha de papel, segundo a direção B D ou D B . Para que o
degrau-aresta se movimente não-conservativamente é preciso que ocorra eliminação
de matéria (criação de lacunas) ou criação de matéria (intersticiais). Se o degrau for de
A para B de maneira não-conservativa e depois deslizar ao longo do seu plano de
deslizamento para C, será criada uma fileira de lacunas como mostrado na Fig. 5 .2 3 b .

o Lacuna

• Átomo intersticial

C --J B
t
I
I
I
I

Fig. 5.23 Formação de defeitos pontuais devido a movimento não-conservativo de degraus de


orientação-aresta. (De D. Hull, !n lr o d u c lio n 1 0 D is lo c a tio n s , p. 134, Pergamon Press, New
York. 1965. Com permissão dos editores).

Document shared on www.docsity.com


Estas lacunas pOSSUlrao uma tensão de linha e criarão uma força de arraste no degrau,
porém, caso haja ativação térmica suficiente, as lacunas se difundirão para a rede cris-
talina removendo a força de arraste. Se o degrau for de A para D não-
conservativamente e então deslizar para E (Fig. 5 .2 3 c ), será produzida uma fileira de
intersticiais ao longo de A D .
Geralmente, à medida que uma discordância-espiral se movimenta através do seu
plano de deslizamento, ela encontra uma "floresta" de discordâncias espirais, o que
dá origem a muitas interseções. Algumas destas interseções produzirão degraus nu-
cleadores de lacunas (Fig. 5.23&) e outros degraus nucleadores de interstícios (Fig.
5 .2 3 c ). Estes dois tipos tenderão a deslizar ao longo do comprimento da discordância-
espiral eliminando um ao outro e deixando. uma concentração líquida de degraus com
mesmo sinal que, devido à repulsão mútua que exercem entre si, irão se espalhar ao
longo da linha de discordância com intervalos de espaço aproximadamente iguais. Esta
situação é ilustrada na Fig. 5.24. Sob a ação de uma tensão cisalhante aplicada queT ,

atua na direção de deslizamento, os degraus agirão como pontos bloqueadores do mo-


vimento da discordância que os contém. Devido ao bloqueio, a discordância irá se
curvar entre os degraus (Fig. 5 . 2 4 b ) com um raio de curvatura dado pela Eq. (5.18).
Quando um raio de curvatura crítico R c é atingido, a tensão cisalhante necessária para
continuar a diminuir R torna-se superior à tensão necessária para a ocorrência de esca-
lagem não-conservativa, 0 que permite que a discordância siga seu percurso deixando
atrás de cada degrau uma trilha de lacunas (ou intersticiais). As estimativas da energia
I

necessária para formar uma lacuna ou um átomo intersticial num degrau de um metal
c.f.c. são de 0,7 e V e 4,8 e V, respectivamente.

onde 0'1 = 1,0 para um átomo intersticial e 0,2 para uma lacuna. O trabalho realizado
pela tensão aplicada para movimentar os degraus de uma distância atômica, através da
formação de lacunas ou átomos intersticiais é dado por

onde I é o espaçamento entre degraus. Igualando as Eqs. (5.26) e (5.27), obtemos a


tensão cisalhante necessária para gerar um defeito e mover a discordância na ausência
de ativação térmica.
Gb
't =1X1/

Para elevadas temperaturas, a ativação térmica auxilia a formação de lacunas. A ener-


gia de ativação para o movimento do degrau ou formação de defeitos no degrau será

Uma vez que 0'1 é muito maior no caso de átomos intersticiais do que para lacunas, a
formação destas ocorrerá de maneira preponderante à formação daqueles. O fato de
existir boa concordância entre as cinéticas de lacunas de recozimento nos arames tem-
perados e no recozimento dos arames trabalhados a frio fornece uma forte evidência
experimental de que lacunas são formadas por deformação plástica.

Document shared on www.docsity.com


t Direção do movimento

~ Vetar de Burgers
(o )

Fig. 5.24 Movimento de discordâncias-espiral com degraus. ( a ) Discordância reta sob tensão
zero; ( b ) a discordância se curva entre os degraus, no plano de deslizamento, devido à tensão
cisalhante aplicada; ( c ) movimento da discordância deixando rastros de lacunas atrás dos de-
graus. (De D. Hull, In tro d u c tio n to D islo c a tio n s, p. 136, Pergamon Press, New York, 1965. Com
permissão dos editores.)

Sob determinadas condições em que a tensão é suficientemente alta, os degraus


enfileirados ao longo da linha de discordância podem ser forçados a se agrupar for-
mando um su p e rd e g ra u de altura da ordem de 5 a 3 0 b . À medida que a tensão cisa-
lhante aumenta, a discordância se curva entre os superdegraus (Fig. 5 . 2 5 a ) , gerando
longos segmentos de orientação-aresta. À medida que o processo continua, ocorre a
formação de anéis de discordância alongados ou dipolos de discordâncias (Fig. 5 . 2 5 b ) .
O dipolo, por sua vez, pode diminuir sua energia elástica através da formação de um
anel prismático que posteriormente se rompe formando anéis isolados (Fig. 5 . 2 5 c ) . Os
anéis podem também formar-se a altas temperaturas através do coalescimento (agru-
pamento) de lacunas. O aparecimento nas micrografias de transmissão eletrônica de
marcas em forma de anéis é um resultado direto da formação de degraus-aresta em
discordância-espiral.
Para superdegraus muito grandes, cuja altura é superior a cerca de 200 Â, a dis-
tância entre os dois segmentos da discordância é suficientemente grande para evitar
interação mútua. Neste caso as discordâncias se comportam como fontes simples-
mente apoiadas atuando separadamente (veja Seç. 5.14).

-
5
b

O
O
o
~

figo 5.25 (a ) Discordâncias se curvam entre superdegraus produzindo (b ) dipolos de discordân-


.:ias: (c ) formação de anéis de discordância a partir do dipolo.

Document shared on www.docsity.com


A formação de degraus em discordâncias dissociadas (ou estendidas) é um fenô-
meno complicado'. Para que ocorra interseção em discordâncias dissociadas é neces-
sário primeiro que haja constrição das parciais na região da interseção.

A baixa resistência ao escoamento apresentada pelos cristais puros leva à conclusão


de que devem existir discordâncias nos cristais completamente recozidos e nos cristais
cuidadosamente solidificados a partir do material fundido. A alta energia de deforma-
ção de uma discordância, cerca de 8 e V por plano atômico, exclui a geração de discor-
dâncias por ativação térmica e indica que elas devem ser .produzidas por outros pro-
cessos.
Existe uma diferença importante entre defeitos de linha e defeitos pontuais. É
muito baixa a densidade de discordâncias em equilíbrio térmico com um cristal, não
havendo uma relação geral entre a densidade de discordâncias e a temperatura, como
existe para as lacunas. Uma vez que as discordâncias não são afetadas por flutuações
térmicas a temperaturas inferiores à de recristalização, dependendo de sua história
termomecânica anterior, um metal pode apresentar densidade de discordâncias muito
diferentes. Um material completamente recozido conterá cerca de 10 6 a 10 8 linhas de
discordâncias por centímetro quadrado, enquanto que um metal intensamente traba-
lhado a frio apresentará uma densidade de discordâncias da ordem de 10 12 linhas de
discordâncias por centímetro quadrado.
Todos os metais, à exceção dos finíssimos 'I'h isk e rs, contêm inicialmente um nú-
mero apreciável de discordâncias, produzidas durante o crescimento do cristal a partir
das fases líquida ou vapor. A existência de gradientes de temperatura e composição
pode produzir desalinhamentos entre os braços dendríticos vizinhos que crescem do
mesmo núcleo, que resultam em discordâncias arranjadas em redes (Fig. 5.2) ou em
contornos de grão. Outros mecanismos de nucleação de discordâncias durante o cres-
cimento são: (I) formação de anéis de discordância devido à agregação ou colapso de
lacunas e (2) nucleação heterogênea de discordâncias, resultante de altas tensões loca-
lizadas em partículas de segundas-fases, contornos de grão, ou decorrente de trans-
formação de fases. A nucleação heterogênea é preferida, tendo em vista que para
ocorrer nucleação homogênea é necessária uma tensão de cerca de G/30. Várias têm
sido as observações experimentais apresentadas2 para a nucleação heterogênea de dis-
cordâncias.

A formulação de um mecanismo razoável, segundo o qual novas discordâncias pudes-


sem ser produzidas durante o processo de deslizamento por fontes presentes origin.al-
mente nos metais, foi um dos primeiros obstáculos ao desenvolvimento da teoria das
discordâncias. Este mecanismo é necessário quando se compreende que o desloca-
mento da superfície numa banda de deslizamento é decorrente do movimento de cerca
de 1.000 discordâncias sobre o plano de deslizamento. Desta forma, o número de fon-
tes de discordâncias presente inicialmente num metal não poderia ser responsável
pelos deslocamentos e espaçamentos observados nas bandas de deslizamento, a menos
que existisse uma maneira de cada fonte produzir grandes quantidades de deslizamento
antes de se tornar imobilizada. Além disso, caso não existissem fontes geradoras de
discordâncias, a deformação a frio de um monocristal deveria diminuir sua densidade
de discordâncias ao invés de aumentá-Ia. Assim sendo, deve existir um método de
criar discordâncias ou multiplicar as já existentes para produzir a alta densidade de

1M. J. Whelan, P ro c . R . S o c o L o n d o n S e r. A ., vol. 2 4 9 A , p. 114, 1959; P. B. Hirsch, P h ilo s. M a g ., vol. 7, p.


67, 1962.
'Ver, como exemplo. D. Hull, In tro d u c tio n to D islo c a tio n s, pp. 155-161, Pergamon Press, New York, 1965.

Document shared on www.docsity.com


discordâncias encontrada no metal trabalhado a frio. O mecanismo através do qual as
discordâncias poderiam ser geradas por outras já existentes foi proposto por Frank e
Read e é chamado normalmente d e fa n te d e F ra n k -R e a d .
l
,

Considere uma linha de discordância D D ' situada num plano de deslizamento


(Fig. 5 .2 (0 ). O plano da figura é o plano de deslizamento. A linha de discordância
deixa o plano de deslizamento nos pontos D e D' nos quais ela é imobilizada. Isto
poderia ocorrer se D e D' fossem nós, onde a discordância no plano do papel interse-
ciona discordâncias em outros planos de deslizamento, ou átomos impuros que causas-
sem o ancoramento. Se uma tensão cisalhante 7 atua no plano de deslizamento, a linha
de discordância se abaula e produz deslizamento. Para uma dada tensão a linha de
discordância apresentará um certo raio de curvatura dado pela Eq. (5.18). O valor
máximo da tensão cisalhante acontecerá quando o abaulamento da discordância se
tornar um semicírculo, ou seja,. quando R apresentar o valor mínimo 1 /2 (Fig. 5 .2 6 b ).
Usando a Eq. (5.18) e aproximando r = 0,5 G b 2 , pode-se notar prontamente que a
tensão necessária para produzir esta configuração é

Gb
'! ~ -

Além deste ponto, R crescerá e o anel de discordância continuará a se expandir sob


uma tensão decrescente (Fig. 5 .2 6 c ). Quando o anel atingir o formato da Fig. 5 .2 6 d , os
segmentos e n se encontrarão, anulando um ao outro e formando um anel grande e
111

uma nova discordância DD (Fig. 5 .2 6 e ). O estágio mostrado na Fig. 5 .2 6 d pode ser


melhor compreendido se admitimos que o comprimento original bloqueado D D ' possui
orientação-espiral. Os segmentos e n são de orientação-aresta,
111 porém de sinais

rb
! ! !
I I I ,

D"-'-:-:-:---'D

Fig. 5.26 Representação esquemática da operação de uma fonte de Frank-Read. (De W. T.


Read, lr ., D islo c a tio n s in C ry sta ls, McGraw-Hill Book Company, New York, 1953.)

Document shared on www.docsity.com


opostos, o que ocasionará a anulação mútua. Uma vez que o anel atinge o estágio
formado na Fig. 5 .2 6 c , o anel pode continuar a se expandir sob a ação da tensão
cisalhante e o segmento bloqueado D D ' está posicionado para repetir o processo. Este
processo pode-se repetir numa única fonte várias e várias vezes, cada vez produzindo
um anel de discordância que ocasiona o deslizamento de um vetor de Burgers ao longo
do plano de deslizamento. No entanto, uma vez que a fonte é ativada ela não continua
indefinidamente. O empilhamento das discordâncias no plano de deslizamento produz
uma tensão de recuo, ao longo deste plano (veja Seç. 5.16) que se opõe à tensão
aplicada e faz cessar a fonte quando atinge o valor crítico dado pela Eq. (5.30). Na
Fig. 5.27 é mostrado um excelente exemplo de uma fonte de Frank-Read.
Embora tenham sido observadas fontes de Frank-Read duplamente apoiadas, elas
não ocorrem com grande freqüência. Vários outros mecanismos de multiplicação
foram observados. Uma fonte simplesmente apoiada pode surgir quando uma parte de
uma discordância-espiral encontra-se no plano de deslizamento enquanto outra parte é
imobilizada por estar fora deste plano. A imobilização poderia também ser resultante
de um superdegrau numa discordância-espiral. Se houver rotação do segmento de dis-
cordâncias no plano de deslizamento em torno da parte imobilizada, ocorrerá a forma-
ção de um degrau de deslizamento helicoidal cuja altura é proporcional ao número de
revoluções no plano de deslizamento. Este movimento helicoidal em torno do seg-
mento imobilizado resulta também num aumento do comprimento total da linha de
discordância.
A fonte de Frank-Read biapoiada produz um degrau de deslizamento no plano de
deslizamento, mas seu movimento é restrito a um único plano. Isto não pode explicar
a observação de que as bandas de deslizamento se alargam com o aumento da defor-
mação, nem também o aumento do patamar de deslizamento. Este comportamento é
melhor explicado pela ação de um mecanismo de d e sliza m e n to c ru za d o m ú ltip lo . Na
Fig. 5.8, uma discordância-espiral em A B pode realizar deslizamento cruzado para a
posição C D . Os segmentos-aresta A C e B D no plano de deslizamento cruzado podem
ser considerados como superdegraus que são relativamente imóveis e bloqueiam as
discordâncias nos planos A B e C D . Os segmentos de discordâncias situados neste
plano podem-se expandir como uma fonte de Frank-Read. Quando o deslizamento
cruzado pode ocorrer facilmente, as fontes de Frank-Read podem não realizar um
ciclo completo, e haverá em cada um dos vários planos de deslizamento paralelos uma
linha de discordância contínua conectada por degraus. Este mecanismo gera uma
banda de deslizamento larga.
A temperaturas elevadas, segmentos-aresta duplamente bloqueados podem-se
curvar da maneira descrita para a fonte de Frank-Read, sob a ação de uma força
motriz osmótica devido a um fluxo de lacunas. A temperaturas altas a supersaturação

Fig. 5.27 Fonte de Frank-Read em cristal de silício. (De W. C. Dash. em D is/o c a tio n s and
M e c h a n ic a / P ro p e rtie s o fC ry sta /s. John Wiley & Sons. Inc., New York, 1957. Com permissão
dos editores.)

Document shared on www.docsity.com


de lacunas necessária para operar esta fonte é da ordem de 2 por cento.! Este meca-
nismo de multiplicação é conhecido c o m o fa n te d e B a rd e e n -H e rrin g 2 •

Da mesma maneira que as discordâncias, os átomos solutos isolados e as lacunas são


centros de distorção elástica. Assim sendo, os defeitos pontuais e as discordâncias vão
interagir elasticamente e exercer forças entre si. Para uma boa aproximação
considera-se que as deformações em torno de um defeito pontual distorcem a rede de
maneira esférica, como se uma esfera elástica de raio a ' fosse forçada a ocupar um
buraco de raio a num meio contínuo elástico. A deformação resultante seria g = ( a ' -
a )/a . Caso o defeito pontual seja uma lacuna, o raio a é aquele normalmente encon-
trado na posição da rede, enquanto se o defeito for um átomo intersticial, o raio a
corres ponderá ao raio médio de uma posição intersticial vazia. A variação de volume
produzida pelo defeito pontual é dada por

U ma vez que estamos tratando apenas de distorções esféricas, a interação ocorre so-
mente com a componente hidrostática do campo de tensões da discordância. A energia
de interação elástica entre a discordância e o defeito pontual é

A tensão hidrostática de uma discordância-aresta positiva num ponto situado a r,


e (Fig. 5.14) da discordância é

(I + v )G b sen (}
(J =
m 3 n (1 - v )r

4(1 + v )G b a 3 e sen(}
U ·= ------
I 3(1 - v)r

Esta expressão, no entanto, inclui apenas a energia externa ao defeito pontual.


Quando é considerada a energia de deformação relativa à distorção elástica do átomo
-oluto, a expressão completa para energia de interação é dada por

3 sen (} sen (}
U i = 4 G b a e -- = A --
r r

Hinh e Lothe, o p . c it.. pp. 565-568.


'J Bardeen e C. Herring, em lm p e r fe c tio n s in N e a r ly P e r fe c t C r y s ta ls , p. 261, John Wiley & Sons, Inc., New
York. 1952.

Document shared on www.docsity.com


A Eq. (5.35), por ser derivada da teoria da elasticidade, não é estritamente correta
I

próximo ao núcleo da discordância onde a teoria da elasticidade linear não se aplica.


Como nesta região ocorre a energia de interação máxima, a Eq. (5.35) fornece apenas
uma estimativa do valor real.
Um valor negativo de energia de interação indica atração entre discordância e
defeito pontual, enquanto um valor positivo determina repulsão. Um átomo soluto
maior do que o átomo solvent~ ( e > I) será repelido da região de compressão da
discordância-aresta positiva (O < e < 1T ) e atraído para a região de tração (1T < e < 21T ).
Um átomo soluto menor do que o sol vente ( e < I) será atraído para uma posição na
região de compressão de uma discordância-aresta positiva. Da mesma forma, as lacu-
nas2 serão atraídas para regiões de compressão e os átomos intersticiais para as regiões
de tração.
Uma vez que os campos de deformação em torno de um defeito pontual são de
simetria esférica, este defeito não produz força sobre uma discordância-espiral porque
esta representa um campo de tensões de cisalhamento puro. Sendo assim, não existe
em torno da discordância-espiral um campo de tensão hidrostática que possa ser rela-
xado pela presença de um defeito pontual. Todavia, alguns defeitos pontuais (como os
átomos intersticiais de carbono numa rede c.e.e.) produzem uma distorção não-
esférica3, o que acarretará uma energia de interação entre uma discordância-espiral e o
defeito.
Poderá ocorrer interação do defeito pontual com uma discordância, mesmo que o
volume dos defeitos seja igual ao dos átomos da rede, caso o defeito e a matriz pos-
suam constantes elásticas diferentes4• Se o defeito pontual for mais mole que a matriz
ocorrerá uma atração, e no caso contrário uma repulsão. Para este tipo de interação,
existirá uma força de ligação entre uma discordância-espiral e um defeito pontual de
simetria esférica.
A Eq. (5.35) nos mostra que a energia associada com um defeito pontual é afetada
pela sua proximidade de uma discordância; logo devemos esperar que a concentração
de defeitos na vizinhança da linha de discordância seja diferente. Admitindo-se uma
distribuição de Boltzmann para a concentração de defeitos pontuais, a concentração C
na vizinhança de uma discordância está relacionada à concentração média C o através
da relação

A concentração de defeitos pontuais em torno de uma discordância excede o valor


médio quando Vi é negativo e torna-se inferior a ele quando Vi é positivo. Chama-se
a tm o sfe ra d e im p u re za s ou n u v e m d e im p u re za s a uma grande concentração de átomos
solutos em torno de uma discordância. A concentração C não pode superar um átomo
soluto por posição da rede ou posição intersticial. Para temperaturas tão baixas que
Co e - U i kT
/ exceda a I, isto significa que os lugares próximos ao núcleo da discordância
foram saturados por átomos solutos. Nestas condições diz-se que a atmosfera de im-
purezas está "condensada" sobre as linhas de discordâncias.
A interação de discordâncias com átomos solutos é importante na explicação de
fenômenos tais como o limite de escoamento descontínuo, o envelhecimento dinâmico
e o endurecimento por solução sólida. Estes tópicos serão discutidos com maiores
detalhes no Capo 6.

'1. Weertman e J. R. Weertman, E le m e n ta ry D islo c a tio n T h e o ry , The Macmillan Company, New York, pp.
173-177; B. A. Bilby, P ro c . P h y s. S o c ., L o n d o ll, vol. A63, p. 191, 1950.
'R. Bullaugh e R. C. Newman, P h ilo s. M a g ., v a I. 7, 529, 1962.
'A. W. Cochardt, G. Schoek e H. Wiedersich, A c ta M e ta ll .. vol. 3, pp. 533-537,1955.
'R. L. Fleischer, A c ta M e ta ll., vol. 11, p. 203,1963.

Document shared on www.docsity.com


Freqüentemente as discordâncias se empilham sobre o plano de deslizamento ao en-
contrarem barreiras tais como contornos de grão, segundas-fases ou discordâncias
bloqueadas. Além da tensão cisalhante aplicada, atua também sobre a discordância
líder a força resultante de sua interação com as outras discordâncias do empilhamento.
Isto acarreta uma alta concentração de tensões sobre a discordância líder do empilha-
mento. Quando o empilhamento é formado por muitas discordâncias, a tensão sobre a
discordância líder pode atingir valores próximos ao da tensão cisalhante teórica do
cristal. Este valor alto de tensão tanto pode iniciar o escoamento no outro lado da
barreira como, dependendo das circunstâncias, nuclear uma trinca na barreira. Como
resultado do empilhamento de discordâncias, existe uma te n sã o d e re c u o que se opõe
ao movimento de novas discordâncias ao longo do plano de deslizamento segundo a
direção de deslizamento.
Num empilhamento, as discordâncias tendem a ficar muito próximas umas das
outras na ponta do arranjo e mais largamente espaçadas à medida que se caminha na
direção da fonte geradora (Fig. 5.28). Eshelby, Frank e Nabarro 1 estudaram a distri-
buição de discordâncias de mesmo sinal num empilhamento ao longo de um único
plano de deslizamento. O número de discordâncias que podem ocupar uma distância L
entre a fonte e o obstáculo, ao longo do plano de deslizamento, é

onde 7'8 é a tensão cisalhante resolvida média no plano de deslizamento e k é um fator


próximo da unidade. Para uma discordância-aresta, k = I - v , enquanto que para uma
discordância-espiral, k = I. Quando a fonte se situa no centro de um grão de diâmetro
D, o número de discordâncias no empilhamento é dado por

k 1 t"C
s D
n = 4G b

Fonte •......!- .!. .!..!. .!..l..l.H _ 1 .. _


O 8
l- - - - - L

'J . D. Eshelby, F. C. Frank e F. R. N. Nabarro, P h ilo s. M a g ., vol. 42, p. 351,1951; cálculos para tipos mais
;:omplicados de empilhamentos foram feitos por A. K. Head, P h ilo s. M a g ., vol. 4, pp. 295-302, 1959; uma
;:onfirmação experimental da teoria foi realizada por Meakin e Wilsdorf, o p . c it., pp. 745-752.

Document shared on www.docsity.com


Uma vez que a tensão de recuo que atua sobre a fonte é decorrente de discordâncias
empilhadas em ambos os lados da fonte, aplica-se o fator 4 em vez do fator esperado 2.
Para muitos propósitos, pode-se considerar um arranjo de n discordâncias empi-
Ihadas como sendo uma discordância gigante com vetor de Burgers n b . A tensão de-
vido às discordâncias, para grandes distâncias do empilhamento, pode ser considerada
como sendo originada por uma discordância de módulo n b localizada no centro de
gravidade a três quartos da distância da fonte até a ponta do empilhamento. O desli-
zamento total produzido por um empilhamento pode ser considerado aquele devido a
uma única discordância n b movimentando-se de uma distância 3 L /4 . Na ponta do em-
pilhamento atua uma força muito alta sobre as discordâncias. Esta força é igual a n b T s ,
onde s é a tensão cisalhante resolvida média sobre o plano de deslizamento. Koehler1
T

levantou a hipótese de que altas tensões de tração da ordem de n T seriam produzidas


na ponta de um empilhamento. Stroh 2 realizou um estudo mais detalhado da distribui-
ção de tensões na ponta de um empilhamento de discordâncias. Ele mostrou, utili-
zando o sistema de coordenadas dado na Fig. 5.28, que a tensão de tração normal a
uma linha O P é dada por

(J = -
3 (L)
-
'h
T sen () cos -
()
2 r s 2

T = /3 T s ( L)
-;:
'h

onde f3 é um fator dependente da orientação, próximo da unidade.


O número de discordâncias que podem ser bloqueadas por um obstáculo depen-
derá do tipo da barreira, da relação de orientação entre o plano de deslizamento e as
características estruturais da barreira, do material e da temperatura. O colapso da
barreira pode ocorrer através de deslizamento num novo plano, escalagem de discor-
dâncias contornando a barreira, ou pela geração de tensões suficientemente grandes
capazes de produzir uma trinca.
As equações que descrevem os empilhamentos de discordância são obtidas
utilizando-se o conceito de discordâncias contínuas. Neste método de cálculo,3 discor-
dâncias individualmente distintas, com vetores de Burgers finitos, são trocadas por
discordâncias distribuídas de maneira contínua com vetores de Burgers infinitesimais.
Este conceito fornece um elo entre a natureza individual descontínua das discordân-
cias e a teoria do contínuo, sendo de particular utilidade no estudo de trincas e fratura.
'J. S. Kaehler. P h y s. R e v .. vaI. 85, p. 480. 1952.
'A. N. Stroh, P ro c . R o y . S o e . (L o n d o n ). vaI. 223. pp. 404-414. 1954.
3R. Bullaugh, P h ilo s. M a g .. vaI. 9, p. 917, 1964.

Document shared on www.docsity.com


Cottrell, A. H.: "Dislocations and Plastic Flow in Crystals," Oxford University Press,
New York, 1953.
Friedel, J.: "Dislocations," Addison-Wesley Publishing Company, Inc., Reading, Mass.,
1964.
Hirth, J. P., and J. Lothe: "Theory of Dislocations," McGraw-Hill Book Company,
New York, 1968.
Hull, D.: "Introduction to Dislocations," 2d ed., Pergamon Press, New York, 1975.
Nabarro, F. R. N.:" Theory ofCrystal Dislocations," Oxford University Press, New York,
1967.
Read, W. T., Jr.: "Dislocations in Crystals," McGraw-Hill Book Company, New York,
1953.
Van Bueren, H. G.: "Imperfections in Crystals," Interscience Publishers, Inc., New York,
1960.
Weertman, J., and J. R. Weertman: "Elementary Dislocation Theory," The Macmillan
Company, New York, 1964.

Document shared on www.docsity.com


Mecanismos de Endurecimento

No Capo 4, considerou-se a deformação plástica de monocristais em termos da movi-


mentação de discordâncias e dos mecanismos básicos de deslizamento e maclação. Os
monocristais representam uma condição ideal para este estudo. As simplificações re-
sultantes dessa condição facilitam a descrição do comportamento do material frente à
deformação em termos cristalográficos e defeitos de estrutura. Entretanto, com exce-
ção de componentes eletrônicos, os monocristais são raramente usados em aplicações
de engenharia devido às limitações envolvendo a sua resistência, tamanho e produ-
ção. Invariavelmente os produtos comerciais metálicos são constituídos de um nú-
I

mero incomensurável de cristais individuais, ou seja, grãos. Os grãos individuais dos


agregados policristalinos não se deformam de acordo com as leis simples que descre-
vem a deformação plástica em monocristais, devido ao efeito restritivo dos grãos vizi-
nhos que os envolvem.
O Capo 5 tratou das relações básicas que governam o comportamento das discor-
dâncias. Deve ficar claro que a resistência à deformação está relacionada inversa-
mente com a mobilidade das discordâncias e que, mesmo em monocristais de alta
pureza, existe um número de possíveis fatores que podem afetar a resistência e o
comportamento mecânico. Então, a estrutura cristalina determina o número e os tipos
de sistemas de deslizamento, fixa o vetor de Burgers e determina a tensão de atrito da
rede (tensão de Peierls), a qual estabelece o nível básico de resistência e a dependência
da resistência com a temperatura. Em estruturas compactas, a energia de falha de
empilhamento determina o grau de dissociação das discordâncias, o qual influencia a
ocorrência do deslizamento cruzado e, subseqüentemente, a taxa de encruamento. A
pureza e o método de preparação determinam a densidade e a subestrutura inicial de
discordâncias. Essas poucas variáveis introduzem tal complexidade que o comporta-
mento mecânico não pode ser, em geral, previsto com alto grau de precisão em função
da deformação, taxa de deformação, temperatura e nível de tensão.
Entretanto, a introdução de crescente complexidade é necessária para produzir
materiais de alta resistência e de maior utilidade. Assim, grãos de pequeno tamanho
são geralmente desejáveis para altas resistências, fazem-se grandes adições de átomos

1Uma notável exceção é o uso de monocristais em palhetas de turbinas para motores a jato, onde a eliminação
dos contornos de grão aumenta grandemente a resistência ao choque térmico e à fadiga. Ver F.L. Versnyder e
M.E. Shank. Mater. Sei. E /lg ., vol. 6. pp. 213-243, 1970.

Document shared on www.docsity.com


de soluto para aumentar a resistência criando relações com a nova fase, partículas
finas podem ser adicionadas para aumentar a resistência e transformações de fase tam-
bém podem ser utilizadas para esse fim. Esses vários mecanismos de encruamento e
outros aspectos da deformação de materiais policristalinos vão ser considerados neste
capítulo.

6.2 CONTORNOS DE GRÃO E DEFORMAÇÃO

Os limites entre os grãos num agregado policristalino constituem-se em regiões cristà-


linas perturbadas de somente alguns diâmetros atômicos de magnitude radial. No caso
(
mais geral, a orientação cristalina muda abruptamente na passagem de um grão para
outro através do contorno de grão. O contorno de grande ângulo comum representa
uma região mal-ajustada ao acaso entre as redes cristalinas adjacentes.! Conforme di-
minui a diferença na orientação entre os grãos em cada lado do contorno, o estado de
ordem na região dos contornos aumenta. Para o caso limite de contornos de baixo
ângulo, onde as diferenças de orientação através deles devem ser menores do que o 1.0
(ver Seção 6.4), os contornos são compostos de um arranjo regular de discordâncias.
Os contornos de grão de alto ângulo mais comuns são os de mais alta energia de
superfície. Por exemplo, um contorno de grão em cobre tem uma energia interfacial de
cerca de 6 0 0 ergs/cm 2, enquanto que a energia de um contorno de macia é de cerca de
2S erg/cm 2• Devido a sua alta energia, os contornos de grão atuam como locais prefe-
renciais para reações no estado sólido tais como difusão, transformação de fases e
reações de precipitação. Um importante ponto a considerar é que a alta energia de um
contorno de grão resulta numa maior concentração de átomos de soluto no contorno
do que no interior do grão. Isso cria dificuldades para separar o efeito mecânico do
contorno nas propriedades dos materiais dos efeitos devidos à segregação de impure-
zas.
Quando se deforma um monocristal em tração, ele geralmente é livre para se
deformar num único sistema de deslizamento por boa parte da deformação e mudar
sua orientação pela rotação da rede conforme vai ocorrendo a elongação. Entretanto,
grãos individuais num material policristalino não estão sujeitos a um único sistema de
tensão uniaxial quando este é deformado em tração. Num policristal, a continuidade
da matéria deve ser mantida; então, os contornos entre cristais deformados devem
permanecer intactos. Embora cada grão tente deformar-se homogeneamente em con-
formidade com a deformação do material como um todo, as restrições impostas pela
continuidade causam diferenças de deformação entre as vizinhanças dos grãos e no
interior de cada grão. Estudos da deformação em alumíni02 com grãos grosseiros mos-
traram que a deformação na vizinhança de um contorno de grão difere marcada-
mente da deformação no seu interior. Embora a deformação seja contínua através dos
contornos pode haver um alto gradiente de deformação nessa região. Conforme o ta-
manho de grão diminui e a elongação aumenta, a deformação se torna mais homogê-
nea. Devido às restrições impostas pelo contorno de grâo, o escorregamento ocorre
em vários sistemas, mesmo em baixas deformações, e também em planos não-
compactos nas regiões próximas ao contorno de grão. Tem sido observado no alumínio
policristalino deslizamento nos planos {l00}, {J 10} e {113}. O fato de que diferentes
sistemas de deslizamento podem operar em regiões adjacentes do .mesmo grão resulta
em complexas rotações da rede, as quais originam a formação de bandas de deforma-
ção. Uma vez que mais sistemas de deslizamento operam perto dos contornos de grão,
a dureza será geralmente mais alta ali do que no centro do grão. Conforme o diâmetro
do grão vai sendo reduzido, mais os efeitos dos contornos vão sendo sentidos no inte-

I Para uma revisão dos modelos prepostos dos contornos de grão ver D. McLean. Grain Boundaries in Metais,
Capo 2, Oxford University Press, New York, 1957.
2W. Boas e M. E. Hargreaves,Proe. R. Soe. London Ser. A, vaI. A193, p. 89,1948; V. M. Urie e H. L. Wain,
J . Inst. Met., vaI. 81, p. 153,1952.

Document shared on www.docsity.com


rior do grão. Então, o encruamento de metais com grãos finos será maior do que um
agregado cristalino de grãos grosseiros.
Von Mises' mostrou que, para um cristal sofrer uma mudança integral na sua
forma por deslizamento, ele requer a operação de cinco sistemas independentes de
escorregamento. Isso advém do fato de uma deformação arbitrária ser especificada
pelos seis componentes do tensor de deformação; mas, devido ao requisito do volume
constante ( L lV = O = e l1 + e 2 2 + e 3 3 )' existem somente cinco componentes de deforma-
ção independentes. Cristais que não possuem cinco sistemas independentes de escor-
regamento nunca são dúcteis na forma policristalina, entretanto uma pequena elonga-
ção plástica poderá ser obtida se existir maclação ou uma orientação preferencial favo-
rável. Metais cúbicos geralmente satisfazem esse requisito, o que explica também a
sua alta ductilidade geral. Os metais hexagonais compactos e outros de baixa simetria
não satisfazem esses requisitos e têm baixa ductilidade à temperatura ambiente na
forma policristalina. Amostras policristalinas de Zn e Mg tornam-se dúcteis a elevadas
temperaturas nas quais sistemas de deslizamento não-basais podem tornar-se operati-
vos e aumentar o número de sistemas de deslizamento para ao menos cinco.
Kelly2 levantou a hipótese de que o fato do material possuir cinco sistemas de
deslizamento independentes é uma condição necessária mas não suficiente para a duc-
tilidade policristalina. O outro requisito é a flexibilidade do deslizamento, que é a
capacidade para que os cinco sistemas independentes de deslizamento operem simul-
taneamente em um pequeno volume do metal, da ordem de um mícron cúbico. O
requisito básico para a flexibilidade do escorregamento é que as discordâncias possam
ser capazes de produzir deslizamento cruzado facilmente e que as bandas de desliza-
mento possam ser capazes de se interpenetrarem 'mutuamente. Um exemplo da falta
de flexibilidade de deslizamento ocorre na liga cúbica de corpo centrado FeCo-2% V,
apesar de existirem mais do que cinco sistemas de deslizamento independentes.
Quando a liga se torna ordenada, o deslizamento cruzado não pode ocorrer e a ductili-
dade é reduzida drasticamente. O óxido de magnésio representa um bom exemplo dos
vários requisitos que são necessários para se obter ductilidade em agregados policrista-
linos de ductilidade normalmente limitada. Abaixo de 350°C o deslizamento ocorre no
sistema {lI O} (I f O), mas desde que isso fornece somente dois sistemas independentes
de deslizamento o material é frágil. Acima de 350°C o deslizamento pode ocorrer tam-
bém no plano {001}, e existem cinco sistemas independentes de deslizamento. Entre-
tanto, a tensão cisalhante para causar deslizamento no plano {001} é muito mais do
que a necessária para produzir escorregamento no plano {lI O}, de maneira que a ten-
são de fratura é atingida facilmente e somente cerca de 1% da deformação é atingido
antes da fratura. A razão TOO,/T110 diminui com o aumento da temperatura e se torna
unitária a 1.500°C. Temos agora satisfeitas todas as condições para ductilidade, com
exceção das bandas de deslizamento que não podem se interpenetrar durante o desli-
zamento cruzado. Somente a 1.700oC as bandas de deslizamento atingem essa condi-
ção, e o MgO policristalino se torna completamente dúctil.
Em temperaturas acima de cerca da metade do ponto de fusão, a deformação pode
ocorrer por escorregamento ao longo dos contornos de grão. O escorregamento de
contorno de grão torna-se mais proeminente com o aumento da temperatura e com a
diminuição da taxa de deformação, assim como em fluência. A restrição à deformação
pela região do contorno de grão é uma das fontes primárias da fratura em altas tempe-
raturas. Devido às impurezas tenderem a segregar-se para os contornos de grão, a
fratura intergranular é fortemente influenciada pela composição. Uma maneira gros-
seira de distinguir quando o escorregamento no contorno de grão se torna proeminente
é com a temperatura eqüicoesiva. Acima desta temperatura, a região do contorno de
grão é mais fraca que o interior e a resistência aumenta com o aumento do tamanho de

'R. Von Mises, Z. AngelV. Malh. Mech .. vaI. 8, p. 161, 1928.


'A. Kelly, Strong Solids, pp. 82-85, Oxfard University Press, New Yark, 1966.

Document shared on www.docsity.com


grão. Abaixo da temperatura eqüicoesiva, a região do contorno de grão é uma região
mais resistente que o interior do grão e a resistência aumenta com a diminuição do
tamanho do grão (aumento da área de contorno de grão).

~ "3 ' AUM ENTO D E R E S IS T Ê N C IA D E V ID O AOS CONTORNOS DE GRÃo

Uma evidência direta para o endurecimento mecãnico dos contornos de grão foi forne-
cida por experiências' em bicristais nos quais as diferenças de orientação entre um
contorno de grão longitudinal foram variadas de maneira sistemática. A tensão de es-
coamento dos bicristais aumenta linearmente com o aumento da misorientação através
do contorno de grão, e a extrapolação para a misorientação de ângulo zero dá um valor
próximo da tensão de escoamento de um monocristal. Esses resultados implicam que
um simples contorno de grão tem pouca resistência inerente, e que o endurecimento
devido aos contornos de grão resulta da interferência mútua do deslizamento dentro
dos grãos.
Várias tentativas têm sido feitas para calcular a curva tensão-deformação para um
policristal a partir da curva tensão-deformação de um monocristal. No Capo 4, vimos
que a tensão cisalhante resolvida num monocristal era dada por
(J

T = (J sen X cos A =- (6-1)


M
onde M é um fator de orientação (o recíproco do fator de Schmid). Para um policristal
o fator de orientação varia de grão para grão e é necessário determinar algum fator de
orientação médio M . A melhor estimativa para uma rede cúbica de face centrada é M
= 3,1, obtida por G. I. Taylor2, baseada no uso da condição de compatibilidade de von
Mises e admitindo que todos os grãos sofrem a mesma deformação total. A energia
gasta na deformação de um policristal deve ser igual à soma dos incrementos de traba-
lho realizados em cada um dos 11 sistemas de deslizamento.
n

(J de = I Ti d Y i (6 -2 )
i= 1

Se admitirmos que a tensão crítica de cisalhamento é a mesma em cada sistema de


deslizamento, então,
n

Ild Y il
_ i= _ l =M
de

o valor de M foi obtid03 pela determinação da combinação dos sistemas de desliza-


mento que minimizam o valor de L I d Y i l mas que continuam a satisfazer os requisitos
da continuidade nos contornos de grão. Para atingir uma razoável concordância,
devem ser usadas curvas de monocristais que envolvam os mesmos mecanismos de
deslizamento da amostra policristalina. Desde que policristais envolvam deslizamentos
múltiplos, as curvas de monocristais para metais cúbicos de face centrada devem ter a
oriéntação ( 1 1 0 ou ( 1 0 0 ) para a qual o deslizamento fácil é mínimo. A curva policrista-
Iina é calculada a partir das relações
Y
e =-=
M

lB. C h a l m e r s . P r o e . R . S o e . L o n d o n S e r . A. vol. A193. p. 89.1948: R. Clarke B. C h a l m e r s . A e t a . M e t a l l . . vol. 2. p.


80. 1954.
'G. J . Taylor. J . / n s l . M e t . . vol. 62. p. 307. 1938.
'Essencialmente. o valor de M = 3.1 foi descoberto por um tratamento mais rigoroso. J.F.W. Bishop e R. Hill.
P h i / o s . M a g . , vol. 42. pp. 414-427. 1298-1307. 1951. As abordagens de Taylor e Bishop-Hill têm-se mostrado
equivalentes e foram generalizadas por G. Y. Chin e W. L. Mammel, T r a n s . M e t a l l . S o e . A / M E , vol. 245, pp.
1211-1214.1969.

Document shared on www.docsity.com


Têm-se obtido curvas com boa concordância com essas equações'. Por meio da com-
binação dessas equações encontramos que a taxa de encruamento para um policristal
c.f.c. deve ser cerca de 9,5 vezes maior que para um monocristal.

du = I;:f2 dr: (6 5)
de dy -

Até agora temos enfatizado o papel do contorno de grão na causa da deformação


heterogênea e na introdução do deslizamento múltiplo. F o i estabelecido empirica-
mente por Hall2 e Petch3 que a tensão de escoamento estava relacionada com o tama-
nho de grão por

(To = tensão de escoamento


tensão de atrito que se opõe ao movimento das discordâncias
constante que representa uma medida da extensão do empilhamento de dis-
cordâncias nas barreiras
D diâmetro do grão
Pode-se afirmar que a equação de Hall-Petch expressa a dependência da tensão de
escoamento com tamanho de grão em qualquer deformação plástica até a fratura dúc-
til. Pode-se também dizer que exprime a variação da tensão de fratura frágil com o
~ama o de grão e a dependência da resistência à fadiga com o tamanho de grão.4
~ ~modelos foram envolvidos para explicar a dependência da resistência à de-
? (formação plástica com o contorno de grão.5 O primeiro é baseado no cõf1ceito de q ~ Ü - . . . . -
G:lliJIõrnokgrão atua como barreira para o movimento das disçordâncias?(Sec. 5.16).
A F ig . 6.1 mostra uma micrografia o b tid a em um microscópio eletrônico de transmis-
são de discordâncias empilhadas em um contorno de grão. A fim de acomodar plasti-
camente o cisalhamento associado com as bandas de deslizamento bloqueadas no con-
torno, a concentração de tensões no (ou próximo de) contorno de grão deve ser sufi-
çjente-PillJi-Jludear d~slizamento no grão~Da Eq. (5.41), a tensão de cisalha-
mento num plano de deslizamento numa distância r no outro lado da barreira (Fig.
5 . 2 8 ) é T·= Ts(L/r) 112.P odemos considerar r como sendo a distância da ponta do empi-
Ihamento das discordâncias até a fonte de discordâncias mais próxima no grão vizinho,
e L igual ao diâmetro do grão D. A tensão cisalhante aplicada T s deve superar a resis-
tência por atrito ao deslizamento devido à interação com precipitados finos, átomos de
impurezas ou defeitos da rede cristalina no plano de deslizamento no primeiro grão.
Então, quando o escoamento ocorre, T s = To e

onde T a é a tensão de cisalhamento necessária para nuclear deslizamento no grão vizi-


nho. Exprimindo-se em termos de tensão normais, e admitindo T = (T/2,
r) 1/2
_
uO-Ui+ 2 'd (D _,
-ai+ kD
-1/2

lU. F. Kocks. A e / a M e / o U . . vol. 6. p. 85,1958; para uma análise detalhada ver U. F. Kocks, M e / a li. T r a f ls . ,
vol. I, pp. 1121-1143, 1970.
'E. O. Hall, P r o c . P h y s . S o e . L O f ld o f l, vol. 643, p. 747, 1951.
'N.1. Petch, l. lr e J n . S / e e llf ls / . L O f ld o f l, vol. 173, p. 25,1953.
'R. W. Armstrong. M e / o U . T r a n s . . vol. 1. pp. 1169-1176, 1970.
'Para uma revisão detalhada do desenvolvimento desses modelos, ver 1. C. M. Li e Y. T. Chou, M e t a U . T r a f ls . , vol.
I, pp. 1145-1159. 1970; J . P. Hirth. M e / O U . T r a f ls . . vol. 3, pp. 3047-3067,1972.

Document shared on www.docsity.com


Fig. 6.1 Discordâncias empilhadas contra um contorno de grão como observadas com um mi-
croscópio eletrônico numa folha fina de aço inoxidável (17.500 X). (De M. J . Whelan, P. B.
Hirsch, R. W. Horne e W. Bollman, Proc. R. Soc., Londres. vaI. 240A, p. 524, 1957.)

A equação de Hall-Petch é uma relação muito geral e deve ser usada com alguma
cautela. Por exemplo, se a Eq. (6.7) fosse extrapolada para o menor tamanho de grão
imaginável (aproximadamente 40 À), ela atingiria níveis de tensões perto da resistência
teórica de cisalhamento. Tal extrapolação é um erro, pois as equações das tensões em
um empilhamento no qual a Eq. (6.7) é baseada derivaram-se de grandes empilhamen-
tos contendo mais do que 50 discordâncias. Para pequenos empilhamentos outras
equações devem ser consideradas' .
O fator k ' é a inclinação da reta que é obtida quando se traça < T o contra D - !/2 .
Considerava-se inicialmente que k ' estava relacionado com a libertação (ativação) de
uma fonte de discordâncias que estaria bloqueada pela interação com átomos de so-
luto. Entretanto, para esse mecanismo, T tI variaria com a temperatura, mas
encontrou-se experimentalmente que k' é termicamente independente. Além disso, k'
varia consideravelmente para diferentes metais cúbicos de corpo centrado, o que não
deveria ocorrer se k' medisse a retenção de fontes de discordância. Um mecanismo
alternativo para a propagaçã02 do escoamento plástico é que a concentração de tensão
na ponta do empilhamento seja suficientemente alta, de maneira que as discordâncias
são criadas no contorno de um outro grão. A microscopia eletrônica de transmissão
ilustra a presença de contornos de grão atuando como fontes de discordâncias, e é
possível teoricamente! criarem-se discordâncias em patamares atômicos nos contornos
de grão. Tal mecanismo não será fortemente dependente da temperatura.
O termo < T i é a interseção4 da curva com o eixo dos < T o , do gráfico <To l'e r S l/s D-1I2.
Ele é normalmente interpretado como a tensão de atrito necessária para mover discor-
dâncias não-bloqueadas no plano de deslizamento. Esse termo depende fortemente da
temperatura, deformação e a percentagem de elementos-liga ou impurezas presentes.

'R. W. Amstrong. Y. T. Chou, R. A. Fisher e N. Louat, Philos. Mag., vol. 14, p. 943, 1966.
'A. H. Cottrell, The Relatioll Betll'eell Structltre alld Mechallical Properries of Metais, vol. lI, p. 455. Her
Majesty's Stationery Office, London. 1963.
'J. C. M. Li. Trulls. Metal/. Soco AlME. vaI. 227. pp. 239-247. 1963.
• As diversas técnicas empregadas para se determinar ( T , estão discutidas em R. Phillips e J. F. Chapman.1.
Iroll Steellllst. LOlldoll, vol. 203, pp. 511-513. 1965.

Document shared on www.docsity.com


segundo modelo -ªra a influência do tamanho de grão natensão de escoamento
l[1ão requer a presença de empilhamento de discordãnçias nos contornos de grão. ~
molle-Iõ evita enfoque de tenSüeS"nõS contornos de grão, sendo que, ao contrário,
.' concentra-se na influência do tamanho de grão na densidade de discordância e, dessa
maneira, nas tensões de escoamento. A tensáo de escoamento é dada em termos da
densidade de discordâncias por --'

onde a i tem o mesmo significado que na Eq. (6.6), O' é uma constante numérica, geral-
mente entre 0,3 e 0,6, e p é a densidade de discordâncias. A justificativa para essa
equação foi dada na Seção 4.14. O vínculo com o tamanho de grão é baseado em
observações experimentais! de que p é uma função inversa do tamanho de grão. En-
tão, p = I/D

O tamanho de grão é medido com um microscópio óptico, pela contagem do nú-


mero de grãos contidos numa determinada área, pela contagem do número de grãos
(ou contornos de grão) que interceptam uma linha aleatória com um dado compri-
mento, ou ainda, pela comparação com padrões de tamanhos de grão. A maioria dos
métodos de medida de tamanhos de grão invocam considerações relativas à forma e à
distribuição de tamanhos mas devem ser interpretados com algum cuidado. Como indi-
cado por DeHoff e Rhines2• a técnica mais aplicada é aquela que fornece informações
estruturais que podem ser correlacionadas com propriedades e pode ser realizada por
medidas relativamente simples em superfícies polidas, que deverão ser relacionadas
com as propriedades do material.
A maioria das medidas do tamanho de grão visa correlacionar a influência dos
contornos nas propriedades mecânicas específicas dos materiais. Então, uma medida da
área do contorno por unidade de volume Sv é um parãmetro muito útil. Smith e Gutt-
man3 mostraram que S v pode ser calculado, sem considerações envolvendo a forma e a
distribuição dos grãos, a partir de medidas da média do número de interseções de um
grupo de linhas aleatórias com os contornos de grão por unidade de comprimento da
linha de teste N L'

Para obtermos o diâmetro médio do grão D a partir de S v, temos que admitir grãos
esféricos do mesmo tamanho, sendo que cada contorno é compartilhado por dois grãos
adjacentes.

2S = 4rr(D/2)2
v 4rr/3(D/2)3

3 3
D = -= -
Sv 2N L

1 0 . G. Brandon eJ. Nutting,J. Iron Steel Inst., vol. 196, p. 160, 1960; A. H. Kehe S. Weissman, em G. Thomase
J. Washburn (eds.), Electron Microscopy and Strength ofCrystals, p. 231, John Wiley Sons, Inc., ,New York,
1%3.
'R. T. DeHoff e F. N. Rhines, Quantitative Microscopy, pp. 201-266, McGraw-Hill Book Company, 1968.
'c. S. Smith e L. Guttman, Trans. AIME. vol. 197, p. 81, 1953.

Document shared on www.docsity.com


Um tamanho .de grão médio pode ser obtido também pela medida do número de
grãos por unidade de área numa superfície polida NA' Fullman' mostrou que a área
média num plano de polimento através de esferas de tamanho constante A é

A
2
=3 "2
1t
(D)2 =
1t
6" D
2

Muitos estudos têm considerado o comprimento médio das interseções com


linhas-teste aleatórias como uma medida do tamanho de grão. Essa determinação é
feita pela divisão do comprimento total das linhas-teste pelo número de grãos que elas
interceptam. Por comparação com a Eq. (6.11), pode ser visto que o tamanho de grão
obtido pelo método do comprimento médio das interseções será ligeiramente menor
que o tamanho de grão real.
Um método muito comum de medida do tamanho de grão nos Estados Unidos é a
comparação dos grãos com um dado aumento com as cartas de tamanho de grão da
Sociedade Americana para Testes e Materiais (ASTM). O número de tamanho de grão

N° Diâmetro de grâo
A5TM médio, mm

0.06 I 0.7 1.00


0.12 2 2 0.75
0.25 4 5.6 0.50
0.5 8 16 0.35
I 16 45 0.25
2 32 128 0.18
4 64 360 0.125
8 256 2.900 0.062
8 128 1.020 0.091
16 256 2.900 0.062
32 512 8.200 0.044
64 1.024 23.000 0.032
128 2.048 65.000 0.022
256 4.096 185.000 0.016
512 8.200 520.000 0.011
1.024 16.400 !.SOO.OOO 0.008
2.048 32.800 4.200.000 0.006

ASTM está relacionado com N*, o número de grão por polegada quadrada com um
aumento de 100 x pela relação

A Tabela 6.1 compara os números de tamanho de grão ASTM com várias outras
medidas úteis de tamanho de grão.

Document shared on www.docsity.com


Uma subestrutura definida pode existir dentro dos grãos envolvidos por contornos de
grão de alta energia. Os subgrãos são contornos de baixo ângulo no qual a diferença de
orientação através desse contorno deve ser da ordem de apenas uns poucos minutos de
arco ou, no máximo, uns poucos graus. Devido a essa pequena diferença de orienta-
ção, técnicas especiais de raios X são necessárias para detectar a existência de uma
subestrutura formada por um arranjo desses contornos. Contornos de subgrão são con-
tornos de mais baixa energia do que contornos de grão, e portanto são menos atacados
quimicamente do que os contornos de grão. Entretanto, em muitos metais eles podem
ser detectados em microestruturas por procedimentos metalográficos (Fig. 6.2).
Um contorno de baixo ângulo contém um arranjo relativamente simples de dis-
cordâncias. A situação mais simples é o caso de um contorno de empilhamento de
discordâncias (denominado contorno inclinado). A Fig. 6.3a ilustra dois cristais cúbi-
cos com um eixo rool] comum. A pequena diferença na orientação entre os grãos é

/
1

indicada pelo ângulo 6. Na Fig. 6.3h, os dois cristais foram juntados parq formar um
bicristal contendo um contorno de baixo ângulo. Ao longo do contorno os átomos
ajustam suas posições por uma deformação localizada para produzir uma suave transi-
ção de um grão para outro. Entretanto, uma deformação elástica não pode acomodar
todo o desarranjo, de maneira que alguns planos de átomos devem terminar no con-
torno. Onde um plano de átomos termina existe uma discordância-aresta. Portanto,
contornos de baixo ângulo inclinados podem ser considerados como um arranjo de
discordâncias-aresta. Da geometria da Fig. 6.3h, a relação entre 6 e o espaçamento das
discordâncias é dada por

1 b b
e = 2 ta n - -::::::-
2D D

Document shared on www.docsity.com


onde b é o tamanho do vetar de Burgers da rede.
A validade do modelo de discordâncias de baixo ângulo é fundamentada no fato
de que é possível calcular a energia do contorno de grão em função da diferença de
orientação entre os dois grãos. Desde que o ângulo não ultrapasse 20°, uma boa corre-
lação é obtida entre os valores medidos da energia dos contornos e os valores calcula-
dos com base no modelo das discordâncias. Outra evidência para a natureza dos con-
tornos de baixos ângulos vem de observações metalográficas. Se o ângulo é baixo, de
maneira que o espaçamento entre as discordâncias é grande, é possível observar que o
contorno é composto por uma fileira de pontos de ataque, cada ponto correspondendo
a uma posição de uma discordância-aresta (Fig. 6.4) .

..::...

ib
b

.L

r--

..L

..L I

f----

L .- - l- -

F ig . 6 .3 Diagrama de contornos de grão de baixo ângulo. ( a ) Dois grãos tendo um eixo comum
[001] e uma diferença angular na orientação de O ; ( b ) dois grãos juntados para formar um contorno
de grão de baixo ângulo, produzindo um arranjo de discordãncias em cunha. (De W. T. Read, I r .
D i s l o c a t i o n s i n C r y s t a l s , p. 157, McGraw-Hill Book Company, New York, 1953.)

Subcontornos ou contornos de baixo ângulo podem ser produzidos de várias ma-


neiras!: durante o crescimento do cristal, durante deformação em fluência a alta tem-
peratura, ou como o resultado de uma transformação de fase. Os veios nos grãos de
ferrita são um bom exemplo de uma subestrutura resultante das tensões internas que
acompanham uma transformação de fase. Talvez o método mais comum para produzir
uma rede de subestruturas é pela introdução de pequenos graus de deformação (de
cerca de 1 a 10% de pré-deformação) seguida de um tratamento de recozimento para
rearranjar as discordâncias em contornos de subgrão. A quantidade de deformação e a

Document shared on www.docsity.com


Figo6.4 Estrutura de pites de ataque ao longo de contornos de grão de baixo ângulo em ligas
Fe-Si (1.000 X).

temperatura devem ser baixas o bastante para evitar a formação de novos grãos por
recristalização. Esse processo é chamado de recristalização localizada ou poligoniza-
ção.
O termo poligonização foi usado originalmente para descrever a situação que
ocorre quando um cristal é dobrado com um raiQ de curvatura relativamente pequeno e
depois recozido. O dobramento produz um excessivo número de discordâncias de
mesmo sinal. Estas discordâncias ficam distribuídas nos planos de dobramento, como

-
.J... ...L
~ ----11--
-
.J... .J... ...L

-ti-
,!:-

...L
...L

...L
...L

--ti-
-+ ----+ --
(a ) (b )

Figo 606 Efeito da densidade de subcontornos na tensão


de escoamento. (De E.R. Parker e T. H. Hazlett, Rela-
lion of Properlies 10 Microslruclure, American Society
of Metais, Metais Park, Ohio, 1954. Com permissão dos
editores.)

Document shared on www.docsity.com


mostra a Fig. 6.5a. Quando o cristal é aquecido elas se agrupam em configuração de
mais baixa energia, como as de um contorno de baixo ângulo, onde é envolvido o
processo de escalagem. A estrutura resultante é uma rede de aspecto poligonal de
contornos de baixo ângulo (Fig. 6 .5 b ) .
Já que um contorno de baixo ângulo nada mais é do que um arranjo simples de
discordâncias, um estudo de suas propriedades deverá fornecer valiosas informações
sobre o comportamento das discordâncias. Parker e Washburn' demonstraram que um
contorno de baixo ângulo move-se como uma unidade, quando submetido a uma ten-
são cisalhante, como esperado para um arranjo linear de discordâncias. Descobriu-se
também que o ângulo dos contornos diminui com o aumento da distância de cisalha-
mento, o que significa que os contornos perdem discordâncias quando se movem. Isto
seria esperado se as discordâncias fossem bloqueadas por imperfeições tais como áto-
mos estranhos, partículas de precipitados, ou mesmo outras discordâncias.
A formação de subgrãos num material recozido causa um aumento significante na
resistência. A Fig. 6.6 mostra o aumento da tensão de escoamento do níquel devido ao
aumento da densidade de contornos de subgrão obtido por vários recozimentos de
amostras previamente deformadas. O fato de as curvas do níquel puro e da liga de
níquel se apresentarem praticamente paralelas indica que o endurecimento provocado
pela subestrutura é adicionado ao produzido pelo endurecimento por solução sólida. O
efeito de uma subestrutura de contornos de baixo ângulo numa curva tensão-
deformação de um aço 1020 é apresentado na Fig. 6.7. O material que foi trabalhado a
frio e recozido de maneira a se obter uma subestrutura apresenta maiores limites de
escoamento e tensão de resistência do que o material recozido e do simplesmente
trabalhado a frio. Além disso, a ductilidade do material que contém a subestrutura é
quase tão boa quanto a ductilidade do material recozido.

,cP"
l1f"" " " '- AJ'-
~
") l\.

....• • ' '-'u,


\ .._~
\.Y " 'U

~ ~
-
o;;;
Q. ~ \ b
o

§ 50 'I
ai ~ ~
.~

~
~ 40
g' A ço A IS I C l0 2 0 . a ç o - lig a de q u a lid a d e
a e r o n á u tic a
'" Todos o s corpos de prova inicialmente
~ 30 recozidos a 70CfJC por duas horas
':&
c:
o o Como recozido
Reduzido a frio em 8% na espessura
'"
>-
'"o
Reduzido a frio em 8% , recozido a 7000C
por 1 1 2 h o ra e te m p e r a d o a ó le o

Taxa de d e fo r m a ç ã o , 0 ,0 0 5 c m lm in

I
0,10 0,20
D e fo rm a ç ã o de e n g e n h a r ia

Fig. 6.7 Efeito da subestrutura de contornos de grão de baixo ângulo na curva tensão-
deformação do aço SAE 1020. (De E. R. Parker e J . Washburn, Impurities and ImperfectiO/;s, p.
155. American Society for Metais. Metais Park. Ohio. 1955. Com permissão dos editores.)

Document shared on www.docsity.com


Muitos metais, particularmente os aços de baixo carbono, apresentam um tipo de tran-
sição localizada heterogênea, da deformação elástica para a plástica, produzindo um
escoamento descontínuo na curva tensão-deformação. Em vez de se ter uma curva de
escoamento com uma transição gradual do comportamento elástico para o plástico,
como apresentado na Fig. 3.1, metais com escoamento descontínuo têm uma curva de
escoamento, ou o que é equivalente, um gráfico carga-elongação similar ao da Fig. 6.8.
A carga cresce constantemente com a deformação elástica, cai repentinamente, flutua
em um valor aproximadamente constante, e depois cresce com a continuação da de-
formação. A carga na qual a caída brusca ocorre é denominada limite superior de
escoamento. A carga constante é chamada de limite inferior de escoamento, e a elon-
gação na qual ocorre a carga constante é chamada elongação do limite de escoamento
descontínuo. A deformação que se verifica durante todo o escoamento descontínuo é
heterogênea. No limite superior de escoamento, uma banda discreta do metal defor-
mado, muitas vezes visível a olho nu, aparece em um concentrador de tensões tal
como um filete, e coincidentemente, com a formação da banda a carga cai para o limite
inferior de escoamento. A banda então se propaga ao longo do corpo de prova, cau-
sando a elongação do escoamento. No caso mais geral, várias bandas se formarão em

Limite superior
de escoamento
E lo n g a ç ã o do
escoamento

Fig. 6.8 Comportamento típico do limite de escoamento


descontínuo.

diversos pontos de concentração de tensão. Essas bandas fazem geralmente cerca de


450 com o eixo de tração. São comumente chamadas de bandas de Lüders, linhas de
Hartmann ou nervuras de distensão, e muitas vezes esse tipo de deformação é referido
como o efeito de Piobert. Quando várias bandas de Lüders são formadas, a curva de
escoamento na elongação do escoamento descontínuo é irregular, e a cada perturbação
da curva corresponde à formação de uma nova banda. Depois da propagação das ban-
das de deformação por todo o comprimento da seção útil do corpo de prova, o escoa-
mento crescerá com a deformação da maneira usual. Isso determina o fim da elonga-
ção do escoamento descontínuo.
O fenômeno do escoamento descontínuo foi descoberto originalmente em aços de
baixo carbono. Pode-se obter com esse material, em certas condições, um pronun-
ciado limite superior de escoamento e uma elongação do escoamento descontínuo de
cerca de 10%. Mais recentemente, o fenômeno do escoamento descontínuo tem sido
aceito como um fenômeno geral. já que foi observado em outros metais e ligas. Além
do ferro e aço, o escoamento descontínuo é observado no molibdênio policristalino.

tN. do T. Escoamento descontínuo é usado como tradução de yield-point, cuja versão literal para o português
não expressaria o comportamento fenomenológico do escoamento heterogêneo.

Document shared on www.docsity.com


titânio, e ligas de alum ínio. P ode ser observado ainda em m onocristais de ferro, cád-
m io, zinco, latão-alfa e beta e de alum ínio. G eralm ente o escoam ento descontínuo
pode ser associado com pequenas quantidades de intersticiais ou im purezas substitu-
cionais. P or exem plo, m ostrou-seI que com a quase rem oção da totalidade do carbono
e nitrogênio de um aço de baixo carbono por tratam entos térm icos por hidrogênio com
um idade controlada, suprim e-se o escoam ento descontínuo. E ntretanto, a adição de
som ente 0,001% de qualquer um desses elem entos é suficiente para ocorrer novam ente
o fenôm eno.
U m a série de fatores experim entais afetam o aparecim ento de um acentuado li-
m ite superior de escoam ento, que é favorecido pelo uso de um a m áquina elasticam ente
rígida, um cuidadoso alinham ento da am ostra, o uso de corpos de prova isentos de
concentradores de tensão, um a taxa alta de carregam ento e, freqüentem ente, a realiza-
ção dos testes a tem peraturas inferiores à am biente. S e a prim eira banda de desliza-
m ento for form ada no centro do corpo de prova, sendo esta criação favorecida pela
cuidadosa elim inação de concentradores de tensões, o lim ite superior de escoam ento
poderá ser cerca de duas vezes o seu lim ite inferior. E ntretanto, é m ais com um obter-
se um lim ite superior de escoam ento da ordem de 10 a 20 por cento m aior que o lim ite
inferior.
O início do escoam ento ocorre a níveis de tensões onde a m édia das fontes de
discordâncias pode criar bandas de deslizam ento através de um certo volum e do m ate-
rial. E ntão, a tensão de escoam ento usual pode ser expressa com o

onde (Ts é a tensão necessária para tornar um a fonte de discordâncias efetiva e (T i é a


tensão de atrito representando o efeito com binado de todos os obstáculos para o m o-
vim ento das discordâncias originadas das fontes.
S e a tensão para efetivar as fontes é alta, então a tensão de escoam ento inicial
tam bém é alta. A explicação em term os de discordâncias para o fenôm eno do escoa-
m ento descontínuo veio prim eiram ente da idéia de que as fontes de discordâncias eram
bloqueadas pela interação com átom os de soluto (S ec. 5.15). A explicaçã0 2 para esse
com portam ento foi um dos prim eiros sucessos da teoria das discordâncias. Á tom os de
carbono e nitrogênio no ferro se difundem rapidam ente para as posições de m ínim a
energia, com o as regiões exatam ente abaixo do plano extra de átom os de um a
discordância-aresta positiva. A interação elástica é tão forte que a atm osfera de im pu-
rezas torna-se com pletam ente saturada e se condensa num a fileira de átom os ao longo
do núcleo das discordâncias. A tensão de arranque necessária para em purrar a linha de
discordância através de um a linha de átom os de soluto é

A
(J ~ 1:"""2
b '0
onde A é dado pela E q. (5.35) el"o = 2 X 10- 8 cm é a distância do núcleo da discordân-
cia para a linha de átom os de soluto. Q uando um a linha de discordância é "arrancada"
da influência dos átom os de soluto, o deslizam ento pode ocorrer então a tensões m ais
baixas. A lternativam ente, quando as discordâncias são fortem ente bloqueadas, tal
com o por átom os de carbono e nitrogênio no ferro, novas discordâncias devem ser
geradas para perm itir a tensão de escoam ento cair. Isso explica a origem do lim ite
superior de escoam ento (a queda na carga após o escoam ento ter com eçado). A s dis-
cordâncias que ficam livres no plano de deslizam ento em pilham -se nos contornos de
grão. C om o discutido na S eção 6.3, o em pilham ento de discordâncias produz um a

'J. R . L o w e M . G en sam er, Trans. AlME, v o l. 1 5 8 , p . 2 0 7 , 1 9 4 4 .


'A . H . C o ttrell e B . A . B ilb y , Proe. Phys. Soe. Londoll, v o l. 6 2 A , p p . 4 9 -6 2 , 1 9 4 9 ; v er tam b ém E . O . H all,
Yield Point Phenomena in Metais, P len u m P u b lish in g C o m p an y , N ew Y o rk , 1 9 7 0 .

Document shared on www.docsity.com


concentração de tensão na ponta do empilhamento a qual se combina com a tensão
aplicada no grão vizinho para liberar as fontes (ou criar novas discordâncias), e dessa
maneira uma banda de Lüders se propaga sobre o material. A magnitude do efeito do
escoamento descontínuo dependerá da energia de interação Eq. (5.35), e da concentra-
ção de átomos de soluto nas discordâncias, Eq. (5.36).
Embora o bloqueio das discordâncias pelos átomos intersticiais tenha sido origi-
nalmente desenvolvido como um mecanismo do escoamento descontínuo, pesquisas
posteriores mostraram que um fenômeno de escoamento descontínuo era um compor-
tamento muito geral que foi descoberto em diversos outros materiais, tais como cris-
tais de LiF e Ge e lvhiskers* de cobre. Nesses materiais a densidade de discordâncias
é bem baixa, e o bloqueio pelos átomos de impureza não pode explicar esse efeito.
Uma teoria mais geral foi desenvolvida para todos os materiais que apresentam uma
l

queda na tensão de escoamento, i.e., onde a tensão diminui rapidamente uma vez
começado o escoamento. O bloqueio pelos átomos de impurezas tornou-se então um
caso especial do comportamento do escoamento descontínuo.
A relação entre a taxa de deformação imposta no material e o movimento das
discordâncias é dada por

onde P é a densidade das discordâncias móveis e v é a velocidade média das discor-


dâncias. A densidade de discordâncias aumenta com a deformação e v é grandemente
dependente da tensão

_ ('- )m'
v=
'o
onde To é a tensão cisalhante resolvida correspondente à velocidade unitária. Para
materiais com baixa densidade inicial de discordâncias (ou com forte bloqueio das
discordâncias, como no ferro), a única maneira de b p V igualar-se à taxa de deformação
imposta é possuir v grande. Mas, de acordo com a Eq. (6.19), isso só pode ser reali-
zado em grandes tensões. Entretanto, uma vez que algumas discordâncias principiam a
se movimentar, elas começam a se multiplicar e p au;nenta rapidamente. Embora isso
introduza algum encruamento, este é mais do que compensado pelo fato de que v pode
cair, e com ela a tensão necessária para mover as discordâncias. Então, a tensão re-
querida para deformar o material cai uma vez começado o escoamento (queda do es-
coamento). Finalmente, o aumento da densidade de discordâncias produz um aumento
do encruamento através da interação de discordâncias e a tensão começa a crescer
com a continuação da deformação.
De acordo com esse modelo, os parâmetros controladores são a densidade de
discordâncias móveis e o expoente que descreve a dependência da tensão com a velo-
cidade das discordâncias, m'. Das Eqs. (6.18) e (6.19), podemos expressar condições
nos limites superior e inferior de escoamento pela expressão

'u= (PL)l/m.
TL Pu

Para pequenos valores de m ' ( m ' < 15), a razão TufTL será bem grande e existirá então
uma forte queda na tensão de escoamento. Para o ferro ( m ' = 35), somente ocorrerá
substancial queda na tensão de escoamento se Pu for menor que cerca de 10 cm- 3 2

'(N. do T.) Whiskers são monocristais finíssimos de preparação especial que os torna praticamente isentos de
defeitos.
'W. G. Johnston e J. J. Gilman, J . Appl. Phys., vol. 30, p. 129, 1959. A teoria tem sido ampliada para cobrir o
escoamento no ferro e outros metais c.e.e. por G. T. Hahn, Acta Metal/., vol. 10, pp. 727-738,1962.

Document shared on www.docsity.com


Uma vez que a densidade de discordâncias de ferro recozido é pelo menos de 106
cm-z, isso implica que a maioria das discordâncias devem estar bloqueadas. O blo-
queio pode vir da interação de átomos de soluto com as discordâncias ou pela precipi-
tação de finos carbonetos ou nitretos ao longo das discordâncias. O escoamento des-
contínuo pode ocorrer como um resultado da liberação das discordâncias bloqueadas
através de altas tensões, ou se for o caso de forte bloqueio, pela criação de novas
discordâncias nos pontos de concentração de tensões .

. @ENVELHECIMENTO POR DEFORMAÇÃO

7 ~ E l1 v e /h e c im e l1 to
p o r d e fo r m a ç ã o é um tipo de comportamento normalmente associado
com o fenômeno do escoamento descontínuo, no qual a resistência de um metal é
aumentada e a ductilidade é"diminuída com o aquecimento, a temperaturas relativa-
mente baixas, do metal previamente deformado a frio. Esse comportamento pode ser
melhor ilustrado pela Fig. 6.9, a qual descreve esquematicamente o efeito do envelhe-
cimento pela deformação na tensão de escoamento de um aço baixo-carbono. A região
( A da Fig. 6.9 mostra a curva tensão-deformação para um aço baixo-carbono defor-
mado plasticamente através da elongação do escoamento descontínuo para uma de-
formação correspondente ao ponto X . O material é então descarregado e recarregado
sem uma considerável demora ou qualquer tratamento térmico (região B ) . Nota-se que
no recarregamento o escoamento descontínuo não ocorre já que as discordâncias
foram libertas das atmosferas de átomos de carbono e nitrogênio. Consideremos agora
que o material é deformado até o ponto Y e então descarregado. Se ele for recarregado
depois de um envelhecimento por alguns dias à temperatura ambiente ou por algumas
horas a uma temperatura de envelhecimento de 300°F, o escoamento descontínuo irá
reaparecer. Além disso, o escoamento descontínuo crescerá pelo tratamento de enve-
lhecimento de Y para Z. O reaparecimento do escoamento descontínuo é devido à
difusão dos átomos de carbono e nitrogênio para as discordâncias durante o período de
envelhecimento para formar novas atmosferas de intersticiais, ancorando as discor-
dâncias. O suporte teórico para esse mecanismo reside no fato de que a energia de
ativação para o retorno do escoamento descontínuo no envelhecimento está de acordo
com a energia de ativação para difusão do carbono no ferro-alfa.

Fig. 6.9 Curvas tensão-deformação para


aços de baixo carbono mostrando enve-
lhecimento. Região A , material original-
mente deformado após o limite de escoa-
mento. Região B . material imediatamente
tracionado novamente após atingir o
ponto X . Região C. reapa,ecimento e au-
mento do limite de escoamento após en-
velhecimento a 150°C.

O nitrogênio desempenha um papel mais Importante no envelhecimento pela de-


formação do que o carbono, porque tem uma solubilidade e um coeficiente de difusão
mais altos e produz uma menor precipitação completa durante o resfriamento lento.
Do ponto de vista prático. é importante eliminar o envelhecimento pela deformação na
estampagem profunda do aço porque o reaparecimento do escoamento descontínuo

Document shared on www.docsity.com


pode levar a dificuldades com marcas superficiais ou "nervuras de distensão" (linhas
de Lüders) devido à deformação heterogênea localizada. Para controlar o envelheci-
mento pela deformação é normalmente desejado diminuir a quantidade de carbono e
nitrogênio em solução pela adição de elementos que vão remover os intersticiais da
solução na forma de carboneto ou nitretos estáveis. Para esse fim, usa-se a adição de
alumínio, vanádio, titânio, nióbio ou boro. Apesar de ser possível um certo grau de
controle sobre o envelhecimento por deformação, não existe nenhum aço baixo-
carbono comercial livre de envelhecimento por deformação .. A solução industrial mais
comum para esse problema é deformar o metal até o ponto X por um aplainamento por
rolos ou um passe de encruamento superficial no laminador e usá-Io antes que possa
"envelhecer". A deformação plástica localizada devido à laminação produz suficientes
discordâncias livres de maneira que o escoamento plástico subseqüente possa ocorrer
sem um escoamento descontínuo.
O envelhecimento por deformação é um fenômeno comum que ocorre regular-
mente nos metais. Além de provocar o retorno do escoamento descontínuo e aumentar
a tensão de escoamento, produz também uma redução na ductilidade e um valor baixo
para a sensibilidade à taxa de deformação'. O envelhecimento também pode estar as-
sociado com a ocorrência de serrilhações na curva tensão-deformação (escoamento
descontínuo ou repetido). Esse envelhecimento dinâmico (Fig. 6.10) é chamado de
efeito Portevin-LeChatelier. As serrilhações vêm -de sucessivos escoamentos e enve-
lhecimentos enquanto o corpo de prova é deformado. Se a velocidade de uma linha de
discordância é lenta, ela pode ser capaz de se mover arrastando sua atmosfera de
~rezasYe acordo com Cottrell, a velocidade máxima para a qual isso pode ocor-
rere~

DA
v= --2
kTr
onde A é dado pela Eq. (5.35) e D é o coeficiente de difusão.
Para velocidades maiores, as discordâncias saem da atmosfera acarretando a
queda no escoamento. Desde que a mobilidade dos átomos de soluto é grande nas
temperaturas nas quais o escoamento descontínuo ocorre, novos átomos movem-se
para as discordâncias e as bloqueiam. O processo é repetido muitas vezes causando
serrilhações nas curvas tensão-deformação.2

IA sensibilidade à taxa de deformação é a mudança na tensão necessária para produzir uma certa mudança na
taxa de deformação à temperatura constante (ver Cap. 9); também J. D. Lubahn, T r a f ls . A m . S o e . M e l. , vol.
44, pp. 643-666, 1952.
'Observações e teorias dos serrilhados e do escoamento descontinuo são revistas por B. J. Brindley e P. J.
Worthington, M e l. R e L , n.O 145, M e l. M a le r . , voJ. 4, n.o 8, pp. 101-114, 1970.

Document shared on www.docsity.com


P ara u m aço -carb o n o co m u m o esco am en to d esco n tín u o o co rre em tem p eratu ras
en tre 2 3 0 a 3 7 0 °C . E sse in terv alo d e tem p eratu ras é co n h ecid o co m o a r e g i ã o d a f r a g i -
l i z a ç ã o a z u l , p o rq u e o aço lev ad o a essa tem p eratu ra ap resen ta u m d ecréscim o n a
d u ctilid ad e e n a resistên cia ao im p acto . E ssa faix a d e tem p eratu ras é tam b ém a reg ião
n a q u al o s aço s ap resen tam u m a sen sib ilid ad e m ín im a à tax a d e d efo rm ação e u m g rau
d e en v elh ecim en to p o r d efo rm ação m áx im o . T o d o s esses fato s n o s lev am a crer q u e a
frag ilização azu l n ão é u m fen ô m en o iso lad o , m as sim u m en v elh ecim en to acelerad o .
O fen ô m en o d e en v elh ecim en to p o r d efo rm ação d ev e ser d iferen ciad o d e u m p ro -
cesso co n h ecid o co m o e n v e l h e c i m e n t o p o r t ê m p e r a , o q u al o co rre em aço s d e b aix o -
carb o n o . E n v elh ecim en to p o r têm p era é u m tip o d e en d u recim en to p o r p recip itação
q u e o co rre n o resfriam en to b ru sco a p artir d a tem p eratu ra d e m áx im a so lu b ilid ad e d o
carb o n o e n itro g ên io n a ferrita. O en v elh ecim en to su b seq ü en te à tem p eratu ra am -
b ien te, o u u m p o u co acim a, p ro d u z u m au m en to n a ten são d e esco am en to e d u reza,
assim co m o n o en d u recim en to p o r p recip itação d as lig as d e alu m ín io . A d efo rm ação
p lástica n ão é n ecessária p ara p ro d u zir en v elh ecim en to p o r têm p era.

A in tro d u ção d e áto m o s d e so lu to em so lu ção só lid a n u m a red e d e áto m o s so lv en tes,


in v ariav elm en te, p ro d u z u m a lig a m ais fo rte q u e o m etal p u ro . E x istem d o is tip o s d e
so lu ção só lid a. S e o s áto m o s d e so lu to e so lv en te são ap ro x im ad am en te sim ilares em
tam an h o , o s áto m o s d e so lu to v ão o cu p ar p arte d a red e cristalin a d o áto m o so lv en te,
sen d o ch am ad a en tão d e s o l u ç ã o s ó l i d a s u b s t i t u c i o n a l . S e o s áto m o s d e so lu to são
m u ito m en o res q u e o s áto m o s d e so l v en te, eles o cu p am as p o siçõ es in tersticiais n a
red e cristalin a d o so lv en te. C arb o n o , n itro g ên io , o x ig ên io , h id ro g ên io e b o ro são o s
elem en to s q u e co m u m en te fo rm am as s o l u ç õ e s s ó l i d a s i n t e r s t i c i a i s .
O s fato res q u e co n tro lam a ten d ên cia d e fo rm ação d e so lu ção só lid a su b stitu cio n al
fo ram d esco b erto s p rin cip alm en te atrav és d o trab alh o d e H u m e-R o th ery . S e o tam a-
n h o d o s d o is áto m o s, co m o in d icad o ap ro x im ad am en te p elo p arâm etro d o reticu lad o ,
d ifere em m en o s d o q u e 1 5 % , o fato r d e tam an h o é fav o ráv el p ara a fo rm ação d e u m a
so lu ção só lid a su b stitu cio n al. Q u an d o o fato r d e tam an h o é m aio r q u e 1 5 % , a ex ten são
d a so lu ção só lid a é n o rm alm en te restrin g id a a m en o s q u e I % . M etais q u e n ão têm
fo rte afin id ad e q u ím ica en tre si ten d em a fo rm ar so lu çõ es só lid as, en q u an to m etais q u e
são m u ito afastad o s n as séries eletro q u ím icas ten d em a fo rm ar co m p o sto s in term etáli-
co so A v alên cia relativ a d o so lu to e a d o so lv en te são tam b ém im p o rtan tes. A so lu b ili-
d ad e d e u m m etal co m alta v alên cia n u m so l v en te d e b aix a v alên cia é m aio r d o q u e a
situ ação rev ersa. P o r ex em p lo , o zin co é m u ito m ais so lú v el n o co b re d o q u e o co b re
n o zin co . E sse efeito relativ o d a v alên cia p o d e ser relacio n ad o p ara u m a certa ex ten -
são em term o s d a razão elétro n -áto m o '. P ara certo s m etais so l v en tes, o lim ite d e so lu -
b ilid ad e o co rre ap ro x im ad am en te n o m esm o v alo r d a razão elétro n -áto m o p ara áto m o s
d e so lu to d e d iferen tes v alên cias. F in alm en te, p ara a co m p leta so lu b ilid ad e em to d a a
ex ten são d e co m p o siçõ es o s áto m o s d e so lu to e so lv en te d ev em ter a m esm a estru tu ra
cristalin a.
A o b ten ção d e in fo rm açõ es fu n d am en tais so b re as cau sas d o en d u recim en to p o r
so lu ção so rid a tem sid o u n i p ro cesso len to . O s p ri-;:;;-eiro sestu d o s 2 d o au m en to n a resis-
T ên cia resu ltan te d a ad ição d e áto m o s d e sõ lu to em so lu ção só lid a m o straram q u e o '
en d u recim en to v aria d iretam en te co m a d iferen ça d e tam an h o d e áto m o s d e so lu to e
áto m o s d e so lv en te, o u co m a m u d an ça d o p arâm etro d o reticu lad o resu ltan te d a ad i-
çao e ato m o s. E n tretan to , e ap aren teo fato e q u e o en d u recim en to p o r so lu ção

'P o r ex em p lo , u m a lig a d e 3 0 % d e áto m o s d e Z n em eu tem u m a razáo elétro n -áto m o d e 1 ,3 . (3 x 2 ) + (7 x 1 )


= 1 3 elétro n s d e v alên cia p o r 3 + 7 = 1 0 áto m o s.
'A . L . N o rb u ry , T r a n s . F a r a d a y S o c ., v aI. 1 9 . p p . 5 0 6 -6 0 0 , 1 9 2 4 ; R . M . B rick , D . L . M artin e R . P . A n g ier,
T r a n s . A m . S o c o M e t ., v aI. 3 1 , p p . 6 7 5 -6 9 8 ,1 9 4 3 ; J. H . F ry e e W . H u m e-R o th ery , P r o c . R . S o c o L o n d o n , v aI.
1 8 1 , p p . 1 -1 4 , 1 9 4 2 .

Document shared on www.docsity.com


sólida não pod~€ eXl1licado somente P-cl-<Lf.alor
.de tamanhQ. Podem-se obter melho-
res resultados experimentais' quando além da valência relativa do soluto e do sol~nte
conSl erã=se fambém a distorção do parâmetro da rede. ,A importância da valência é
lffiõStrada na Fig. 6 . 1 1 , onde a tensão de escoamento para ligas de cobre de parâmetro
constante é traçada contra a razão elétron-átomo. ~ Resultados posteriores~ mostram
que ligas com o mesmo tamanho de grão, parâmetro do reticulado e razão elétron-
átomo têm a mesma tensão inicial de escoamento, mas as curvas de escoamento 'são
diferentes para grandes deformações.
Estudos sistemáticos do efeito de elementos de adição em solução sólida nas cur-
vas de escoamento de tração foram feitos para o ferro4, cobre5, alumínio6 e níqueF.
Para o caso do ferro, a liga endurecida por solução sólida é uma função potencial da
liga de adição. Para uma dada percentagem atômica de soluto o aumento da resistência
varia inversamente com o limite de solubilidade.

'; ;
a.
g 50
o

ô40
c
Fig. 6.11 Efeito da razão elétron-átomo na tensão de
~ 30
o
'" escoamento das ligas de solução sólida de cobre. (De
~ 20
W. R. Hibbard, Jr., Trans. Metal/. Soe. A/ME, vol.
212, p. 3, 1958.)
"
"O

.~ 1 0
'"c:
~ O
1,10 1,15 1,20
R azão e lé tr o n -á to m o

A distribuição de átomos de soluto numa rede de solvente não é, em geral, total-


mente aleatória. Há cada vez mais evidências de que os átomos de soluto se agrupam
preferencialmente nas discordâncias, falhas de empilhamento, contornos de baixo ân-
gulo e contornos de grão. Entretanto, mesmo numa rede atômica perfeita, a distribui-
ção dos átomos de soluto não é totalmente aleatória. Para uma solução sólida de áto-
mos A e B , se os átomos B tendem a se agrupar preferencialmente em torno de outros
átomos de B, a situação é chamada de agrupamento. Entretanto, se um átomo de B for
preferencialmente envolvido por átomos de A, a solução sólida apresentará uma orde-
nação de curto alcance. A tendência para o agrupamento ou para a ordenação de curto
alcance aumenta com o aumento da adição de solutos.
O resultado mais comum da adição de solutos é o aumento da tensão de escoa-
mento bem como do nível da curva tensão-deformação como um todo (Fig. 6.12).
Como visto na Seção 6.5, átomos de soluto também produzem freqüentemente um
efeito de escoamento descontínuo. Como a adição de ligas em solução sólida afeta
toda a curva tensão-deformação, somos levados a concluir que os átomos de soluto
têm mais influência na resistência de atrito para o movimento das discordâncias, cri, do
que no bloqueio estático das discordâncias. Os átomos de soluto podem ser classifica-
dos, em relação ao seu efeito relativo do aumento da resistência, em duas categorias.8
Aqueles átomos que produzem distorções não-esféricas, tais como a maioria 'dos in-

'J. E. Dom, P. Pietrokowskye T. E. Tietz, Trans. AlME. vol. 188, pp. 933-943, 1950.
'W. R. Hibbard, Jr., Trans Metal/. Soe. AlME, vol. 212, pp. 1-5, 1958.
3N. G. Ainslie, R. W. Guard e W. R. Hibbard, Trans Metal/. Soe. A/ME, vol. 215, pp. 42-48, 1959.
'c . E. Lacy eM. Gensamer, Trans Am. Soe. Mel., vol. 32, pp. 88-110, 1944.
SR. S. French e W. R. Hibbard, Jr., Trans. AlME, vol. 188, pp. 53-58, 1950.
'Dom, Pietrokowskye Tietz, op. cit.
'V. F. Zackay e T. H. Hazlett, Aeta Me({ll/., vol. I, pp. 624-628, 1953.
'R. L. Fleischer, Solid Solution Hardening in D. Peckner (ed.), The Strengthening o/Metais, Reinhold Publishing
Corporation, New York, 1964.

Document shared on www.docsity.com


terstlclaJS, têm um efeito relativo de endurecimento por unidade de concentração de
cerca de três vezes o seu módulo de cisalhamento, enquanto os átomos de soluto que
produzem distorções esféricas, tais como os átomos substitucionais, têm um endure-
cimento relativo de cerca de C/IO.

Fig. 6.12 Efeito de adições de soluto na curva


tensão-deformação.

( )ÇUm certo número de fatores devem ser considerados como contribuintes para o
I endurecimento por solução sólida. Vários fatores foram estudados em certos sistemas,
mas até agora não envolvem nenhuma teoria coerente. Os fatores mais importantes
que afetam o endurecimento por solução sólida são:
I. F a t o r d e t a m a n h o r e la tiv o e a = I/a (d a /d c ), onde a é o espaçamento interatô-
mico da liga e c é a concentração atômica do soluto. Esse fator leva à interação
elástica através da Eq. (5.35).
2 . F a to r d o m ó d u lo r e la tiv o e 'e = e e / ( l - e e / 2 ) , onde e e = I / C ( d C / d c ) e C é o
módulo de cisalhamento da liga. Fleischerl mostrou que a taxa de mudança da
tensão de cisalhamento com a concentração atômica do soluto quando represen-
tada graficamente contra e 'e - 3 e a dá uma reta para o caso de um grande nú-
mero de soluções sólidas diluídas de cobre.
3 . /n te r a ç â o e lé tr ic a As nuvens eletrônicas tendem a se redistribuir através da
liga já que elas resistem à compressão. Os elétrons tenderão a migrar da região
de compressão de uma discordância em aresta para a região de tração, criando
um dipolo elétrico. Num sol vente monovalente a condução extra de elétrons
introduzi da por um átomo de soluto polivalente tenderá a se desviar, deixando
um excesso de cargas positivas no íon de impureza. Portanto, existirá uma inte-
ração eletrostática de curta distância entre o átomo de soluto e as discordâncias.
Embora não tenham sido feitos cálculos de precisão, estima-se" que a interação
eletrostática é maior que 0,02 e V para um átomo de soluto divalente.
4 . /n te r a ç ã o q u ím ic a (in te r a ç ã o d e S u z u k i) A dissociação das discordâncias nos
sistemas cristalinos compactos em discordâncias parciais afeta o arranjo perió-
dico da matriz, num cristal c.f.c., a região da falha de empilhamento tem um
empilhamento h.c. Suzuki3 observou que a mudança na energia livre com a con-
centração de soluto não será a mesma para a matriz e para a região da falha de
empilhamento, de maneira que existirá uma interação com a discordância esten-

R. L. Fleischer. A e r a M e r a l / . . vol. 11. p. 203. 1963.


. P. A. Flinn. Solid Solution Strengthening in S r r e l l g r h e n i n g M e c h a lli5 m s ill S o l i d 5 . p. 21, American Society for
~1etals. Metais Park. ühio, 1962.
'H. Suzuki. S e i . R e p . R , 's . I I I 5 r . T o l l O k u U l l i v . . vol. 4A. p. 455. 1952.

Document shared on www.docsity.com


dida e os átomos de soluto.
5 . In te r o ç ã o
c o n fig u r a c io n o l ( e f e i t o d e F i s h e r ) As soluções sólidas raramente
têm uma distribuição aleatória, apresentando preferencialmente uma ordenação
de curto alcance ou uma aglomeração. Fisher1 mostrou que o movimento de uma
discordância através de uma região de ordenação de curto alcance irá reduzir o
número de ligações entre átomos de soluto e solvente no plano de deslizamento.
Isso aumenta a energia do sistema uma vez que as ligações solvente-soluto são
preferenciais (no caso de formação de agrupamento, as ligações de átomos da
mesma natureza são preferenciais). O aumento da tensão de escoamento devido
à diminuição da ordenação de curta distância é T = y / b , onde a energia y é
estimada em cerca de 10 erg/cm 2 para o latão.
A resistência ao movimento das discordâncias, que constitui o endurecimento por
solução sólida, pode ser conseqüência de um ou mais desses fatores. Em princípio,
pode parecer que as discordâncias não seriam impedidas pela interação dos átomos de
soluto, uma vez que, em média, muitas interaçães tenderão tanto a promover o movi-
mento quanto retardá-Io (Fig. 6.130). Numa solução sólida aleatória, desde que a dis-
cordância permaneça reta, não existirá nenhuma força resultante na discordância já
que a soma algébrica de todas as interações energéticas será zero. Mott e Nabarr02
forneceram a solução teórica mostrando que as linhas de discordâncias geralmente não
são retas. As linhas de discordâncias s ã o j l e x í v e i s , de maneira que a linha não se move
simultaneamente ao longo da totalidade da sua extensão e pode assumir posições de
mais baixa energia pelo dobramento ao longo de regiões de alta energia de interação.
Como foi mostrado na Seção 5.8, o menor raio de curvatura que a linha da discordân-
cia pode acomodar sobre uma tensão local Ti num átomo de soluto é

Gb
R ;:::;;-
2ri

o
O o O O O
9 9 9 O o
Ó Ó Ó O O
O O O
O
(o)

Fig. 6.13 (o) Linha de discordância reta numa solução sólida aleatória; (b) linha de discordância
flexível.

O grau de interação que a discordância terá vai depender do espaçamento médio À das
partículas. Para átomos individuais distribuídos através da rede cristalina, À é muito
pequeno e é dado por

À=~
I/J
C

onde o é o espaçamento interatômico e c é a concentração atômica do soluto. O espa-


çamento dos campos de tensões locais do soluto será muito menor do que o raio de
curvatura em que a discordância pode ser dobrada por tensões locais. Então, À ~ R e a

1). C. Fisher. A c t a M e t a l / . . voJ. 2. p. 9. 1954.


'N. F. Mott e F. R. N. Nabarro. Repor! on Conference on lhe Strength ofSolids, p. I,Phys. S o e . L o n d o n , 1 9 4 8 .
Esta teoria foi desenvolvida por T. Slefansky e 1. E. Dom. T r a n s . M e t a l / . S o e . A l M E , voJ. 245, pp. 1869-1876,
1969.

Document shared on www.docsity.com


discordância se movimentará em comprimentos muito maiores que À (Fig. 6.13h). Um
cálculo detalhado fornece

para soluções sólidas muito diluídas. Enquanto vários estudos mostram que a depen-
dência da tensão de escoamento com a concentração é linear para soluções muito
diluídas, a Eq. (6.24) prediz valores para a tensão de escoamento que são muito maio-
res.
A teoria de Mott- Nabarro será importante quando considerarmos outras barreiras
para o movimento das discordâncias, tais como precipitados.
Em ligas com ordenação de l o n g o a l c a n c e cada átomo constituinte ocupa uma
posição particular na rede, resultando numa s u p e r - r e d e com uma célula unitária maior
e talvez uma estrutura cristalina diferente dos constituintes. Por exemplo, numa
super-rede de CU3Au os átomos de cobre ocupam os centros das faces da rede c.f.c.,
enquanto os átomos de ouro ocupam as vértices. Uma super-rede é similar a um c o m -
p o s to in te r m e tá lic o I. Normalmente as discordâncias numa super-rede dissociam-se em
dois pares de discordâncias comuns separadas por uma r e g i ã o d e a n t i f a s e . A extensão
da região é o resultado de um equilíbrio entre a repulsão elástica de duas discordâncias
de mesmo sinal e a energia do contorno da antifase. Um deslizamento através de um
contorno de antifase resulta num aumento na área total do contorno. Do trabalho
requerido para fornecer a energia associada com a área adicionaF, a tensão requerida
para mover a discordância é

onde t é a extensão do contorno da antifase e y é a sua energia. Devido à produção


contínua de contornos de antifase conforme o deslizamento vai ocorrendo, a taxa de
encruamento é maior na condição ordenada do que no estado de desordem. Ligas
ordenadas com um domínio pequeno (aproximadamente 50 Â) são mais resistentes que
o estado desordenado nas ligas ordenadas com um grande domínio, que têm geral-
mente uma tensão de escoamento menor do que o estado desordenado.

Somente um número relativamente pequeno de ligas permite uma solubilidade sólida


em toda faixa de composição entre dois ou mais elementos, e apenas um pequeno
efeito de endurecimento pode ser produzido na maioria das ligas pela adição de ele-
mentos em solução sólida. Assim, muitas ligas comerciais contêm uma microestrutura
heterogênea constituída de duas ou mais fases. Várias microestruturas podem ser en-
contradas3, mas geralmente elas se enquadram numa das duas classes ilustradas na
Fig. 6.14. A Fig. 6.l4a representa o agregado do tipo de estrutura bifásica no qual o
tamanho das partículas de segunda fase é da ordem do tamanho de grão da matriz. Isso
é exemplificado por partículas de latão-beta numa matriz de latão-alfa ou por colônias
perlíticas numa matriz ferrítica de um aço recozido (Fig. 15.16). O outro tipo comum
de estrutura é a estrutura onde uma segunda fase é dispersa na matriz (Fig. 6.l4h), na
qual cada partícula é totalmente envolvida por uma matriz de uma única orientação

I A diferença básica é que num composto intermetálico as duas esferas atômicas podem ficar em pontos de
reticulado que são geometricamente diferentes. Para uma discussão completa de compostos intermetálicos ver
J. H. Westbrook (ed.), l n t e r m e t a l l i c C o m p o u n d s , John Wiley & Sons, Inc., New York, 1967.
'P. A. Flinn, Strengthening by Superlaltice Formation in D. Peckner (ed.), T h e S t r e n g t h e n i n g o f M e t a I s , pp.
219-235, Reinhold Publishing Corporation, New York, 1964.
"Para uma discussão bem ilustrada da relaç"ão entre diagrama de fase, microestrutura e propriedades, ver R. M.
Brick, R. B. Gordon e A. Phillips, S t r u c t u r e a n d P r o p e r t i e s o f A l l o y s , 3." ed., McGraw-Hill Book Company,
New York, 1965.

Document shared on www.docsity.com


(grão). Geralmente, nesta fase dispersa, o tamanho da partícula é muito pequeno e
pode ser de dimensões submicroscópicas nos primeiros estágios de precipitação. As
teorias de endurecimento por dispersão têm sido estudadas extensivamente e serão
consideradas na Seção 6.9.
O endurecimento produzido por partículas de segunda fase é normalmente aditivo
ao endurecimento por solução sólida produzido na matriz. Para ligas bifásicas produ-
zidas por métodos que as levam ao seu estado de equilíbrio, a existência de uma se-
gunda fase assegura o máximo endurecimento por solução sólida porque a sua pre-
sença é o resultado da supersaturação da matriz. Além do mais, a presença de partícu-
las de segunda fase numa matriz contínua provoca tensões internas localizadas, as
quais modificam as propriedades plásticas da fase contínua. Muitos fatores devem ser

Fig. 6.14 Tipos de microestruturas de duas fases. (a )


Estrutura agregada; ( b ) estrutura dispersa.

considerados para uma total compreensão do endurecimento devido à presença de


particulas de segunda fase. Esses fatores incluem o tamanho, forma, número e distri-
buição das partículas de segunda fase, a resistência, ductilidade e o encruamento da
matriz e da segunda fase, a coerência cristalográfica entre as fases (orientação rela-
tiva), a energia interfacial e a ligação interfacial entre as fases. É praticamente impos-
sível variar esses fatores independentemente um dos outros em experiências, e é tam-
bém muito difícil medir muitas dessas quantidades com algum grau de precisão.
Numa liga multifásica, cada fase contribui com uma parcela para as propriedades
gerais do agregado. Se as contribuições de cada fase forem independentes, então as
propriedades das ligas multifásicas serão uma média ponderada das propriedades das
fases individuais. Por exemplo, a densidade de uma liga bifásica será igual à soma da
fração volumétrica de cada fase vezes a sua densidade. Entretanto, para propriedades
mecânicas estruturalmente sensíveis, as propriedades do agregado são geralmente in-
fluenciadas pela interação entre as duas fases. Duas hipóteses simples podem ser usa-
das para calcular as propriedades das ligas. bifásicas a partir das propriedades indivi-
duais de fases dúcteis. Se admitirmos que a deformação em cada fase é igual, a tensão
média da liga para uma dada deformação irá crescer linearmente com a fração volumé-
trica da fase dispersa.

A fração volumétrica de fase 1 é fl, e fl + f2 = I. A Fig. 6 .1 5 a mostra o cálculo da


curva de escoamento para uma liga com fração volumétrica da fase 2 de 0,5, baseado
na hipótese da igualdade de deformação de cada fase. Uma hipótese alternativa é ad-
mitir que as duas fases estão submetidas a tensões iguais. A deformação média na liga
a uma dada tensão é então dada por

A Fig. 6. l5b mostra a tensão de escoamento para uma liga com fração volumétrica dos
constituintes de 0,5 baseada na hipótese da igualdade das tensões. Ambas as hipóteses
são simples aproximações, e as resistências de ligas contendo duas fases dúcteis ge-
ralmente estão alguma coisa entre os valores preditos por esses dois modelos.
A deformação de uma liga constituída de duas fases dúcteis depende da fração

Document shared on www.docsity.com


volumétrica das duas fases da deformação total. Experiências mostraram' que nem
todas as partículas de segunda fase produzem endurecimento. A fim de que ocorra
endurecimento devido às partículas, deve haver uma forte ligação entre a matriz e a
partícula. As informações experimentais existentes sobre a deformação de ligas bifási-
cas são limitadas.2 O deslizamento irá ocorrer primeiramente na fase mais fraca, e se
na liga estiver presente muito pouco da fase mais forte, a maior parte da deformação
irá ocorrer na fase mais fraca. Para grandes deformações, o escoamento da matriz

< -
(a )

Fig. 6.15 Tensão de escoamento estimada de ligas bifásicas. ( a ) Mesma deformação; ( b ) mesma
tensão. (De J. E. Dom e C. D. Starr. R e i a l i o l l o f P r o p e r l i e s 1 0 M i e r o s l r u e l u r e , pp. 77-78, Ame-
rican Society for Metais, Metais Park. Ohio. 1954. Com permissão dos editores.)

macia irá ocorrer em volta das partículas da matriz dura. Para cerca de 30 por cento em
volume da matriz dura. a matriz mole não será mais uma fase completamente contínua e as
duas fases tenderão a se deformar com mais ou menos o mesmo grau de deformação. Para
cerca de 70 por cento em volume da fase dura. a deformação é amplamente controlada
pelas propriedades dessa fase.
As propriedades mecânicas de uma liga constituída de uma fase dúctil e uma fase
dura e frágil dependerão de como a fase frágil é distribuída na microestrutura. Se a
fase frágil estiver presente com um envolvente dos contornos de grão, como na liga
cobre-bismuto isenta de oxigênio ou nos aços hipereutéticos, a liga será frágil. Se as
partículas da fase frágil estão distribuídas nos contornos na forma de partículas des-
contínuas, como as obtidas quando se adiciona oxigênio na liga cobre-bismuto ou com
oxidação interna do cobre ou níquel. a fragilidade da liga é um pouco reduzida. A
condição ótima de resistência e ductilidade é obtida quando a fase frágil está presente
como uma dispersão de partículas finas uniformemente distribuídas através da matriz
dúctil. Essa é a situação dos aços tratados termicamente com uma matriz martensítica
temperada.
Um dos primeiros trabalhos correlacionando a microestrutura de uma liga bifásica
e a tensão de escoamento foi feito por Gensamer e colaboradores3 para agregados de
cementita (carboneto de ferro) e ferrita recozida, normalizada e esferoidizada. Para
uma dispersão grosseira dos agregados de segunda fase. eles descobriram que a tensão
de escoamento a uma deformação verdadeira de 0.2 era inversamente proporcional ao
logaritmo do espaçamento médio das partículas· (caminho médio livre da ferrita) (Fig.

'B. l. Edelson e W. M. Baldwin. Jr.. T r a n s . A m . S o e . M e l . . vol. 55. p. 230, 1%2.


'H. Unkel.J. / n s l . M e l . . vol. 61. p. 171. 1937: L. M. C1arebrough e G. Perger.Ausl. J. S e i. R e s . S e r . A . vol.
AS. p. 114. 1952.
'M. Gensamer. E. B. Pearsall. W. S. Pellini e J. R. Low. Jr .. T r a n s . A m . S o e . M e r . . vol. 30. pp. 983-1020.
1942.
'O caminho médio livre de ferrita é dado porp = (I - ! c ) / N L • o n d e j~ é a fração volumétrica da cementita e NL é
o número de partículas de carbonelo interceptadas por unidade de comprimento de uma linha aleatória na
m ic r o e s t r u t u r a .

Document shared on www.docsity.com


~160
o
o
o

Ó
,ro
'"
§120
~Q)
-o
Q)
-o

'"
Ó
E 80
Q)

o
':Jl
c
Q)
f-

4 O • P e r lit a e u t e c t ó id e

o Esferóide

tJ. P e r lit a h ip o e u le c t ó id e

o
3,0 3,4 3,8 4,2 4,6 5,0 5,4 5,8
Log do caminho livre de ferrita, Â

Fig. 6.16 Tensão de escoamento contra o Jogaritmo do caminho livre médio de ferrita e distribui-
ção esferoidal de carbonetos. (De M. Gensamer, E. S. Pearsall, W. S. Pellini e J. R. Low, T r a n s .
A5M , v a I . 30. p . 1003. 1942.)

6.16). Essa relação foi também confirmada para as partículas finas de cementita na
martensita temperada, I partículas grosseiras nas ligas AI-Cu2 superenvelhecidas e aços
esferoidizados,3 e carbonetos Co-WC sinterizados.4 O grau de endurecimento produ-
zido por partículas dispersas é ilustrado pela Fig. 6.17. A curva inferior representa a
solução sólida saturada de AI-Cu. A curva superior é para a solução sólida contendo 5
por cento em volume das partículas finas CuAI2, enquanto que a curva média é para
uma dispersão grosseira para a mesma fração volumétrica.
Ainda não se desenvolveu uma base teórica forte para explicar a resistência de um
agregado bifásico grosseiro. Em termos gerais, a segunda fase bloqueia o desliza-
mento, de maneira que a deformação plástica não é uniforme em toda a matriz. A
deformação na matriz é localizada e maior que a deformação média do corpo de prova.
Isso nos leva a correlacionar o endurecimento com a restrição localizada da deforma-
ção plástica. Um bom exemplo está no relativo endurecimento entre a perlita e a esfe-
roidita nos aços (Fig. 9.22). Para a mesma fração volumétrica da fase cementita, a
estrutura perlítica terá uma maior tensão de escoamento porque a matriz ferrítica pren-
sada entre placas de cementita será mais restringida do que a ferrita envolvendo as
partículas esferoidais na microestrutura esferoidizada. Uma interessante abordagem
desse problema é a aplicação das teorias do projeto limite, da plasticidade do contínuo,
para prever a resistência de modelos de microestruturas5 idealizados.

'A . Turkalo e 1 . R . Low, Jr .. T r a n s . M e ta ll. S o c o A /M E , vol. 212, pp. 750-758,1958.


M.
'c. D. Slarr. R. B. Shaw e J. E. Dom, T r a n s . A m . S o c o M e l., vol. 46, pp. 1075-1088, 1954.
3C. T. Liu e 1. Gurland, T r a n s . M e ta ll. S o c o A lM E . vol. 242. pp. 1535-1542, 1%8.
'J. Gurland e P. Bardzil. T r a n s . A /M E . vol. 203. p. 311. 1955.
5D. C. Drucker. J . M a te r ., vol. I. pp. 873-910,1966; T. W. BUller ~ D. C. Drucker, J . A p p l. M e c h ., vol. 95,.
pp. 780-784. 1973.

Document shared on www.docsity.com


A 5% g ro s s a
.•• 5% fin a

- S o lu ç á o s ó lid a
c o n te n d o 0 .1 9 4
de eu

820 F ig . 6 .1 7 Variação de tensão de es-


o coamento com a temperatura para a
liga AI·eu contendo 5 por cento em
volume de partículas finas e grossas
de segunda fase. (De C. D. Starr, R.
B. Shaw e J. E. Dom, T r a n s . A m .
S o e . M e t . , vol. 46, p. \085, 1954.)

200 300 400 500 600


Temperatura, K

@ E N D U R E C IM E N T O D E V ID O A P A R T ÍC U L A S F IN A S

o aumento da resistência de um material devido a uma segunda fase insolúvel, fina-


mente dispersa na matriz, é conhecido como e n d u r e c i m e n t o p o r d i s p e r s ã o . [ Um fenô-
meno similar a este seria o e n d u r e c i m e n t o p o r p r e c i p i t a ç ã o ou e n v e l h e c i m e n t o , 2 o que
poderia ser produzido por um tratamento térmico de solubilização seguido de têmpera
numa liga na qual uma segunda fase fica em solução sólida em temperaturas elevadas,
mas precipita frente a um resfriamento rápido e envelhece a baixas temperaturas. O
duro-alumínio e as ligas cobre-berílio são exemplos característicos desse fenômeno ..
Para o endurecimento por precipitação ocorrer é nec ssário que a segunda fase seja
solúvel em temperaturas elevadas mas que diminua a sua solubilidade com o decrés-
cimo da temperatura. Ao contrário disso, a segunda fase de sistemas de endurecimento
- por dispersão tem uma Sõlubilidade muito baixa na matriz, mesmo a elevadas tempera--
turas. Normalmente existe uma certa c o e r ê n c i a entre as redes d<LpLe_ciillJ:adoe da
matriz, epguanto nos sis emas e endurecimento por dispersão geralmente não existe.
jillhuma coerência entre as pãrtículas. da segund<t.fase e da matriz, O re uisito
solubilidade decrescente com a temperatura constitui uma limitação do número de
ligas com endurecimento por precipitação de utilidade prátll:Ji..E.or outro lado, é possí-
vel, pelo menos teoricamente, proâuzlr üiTiaTrifinidade de sistemas de endurecimento
por dispersão pela mistura de pós metálicos finamente divididos com partículas de
segunda fase (óxidos, carbonetos, nitretos, boretos, etc.) e consolidá-Ios pelas técnicas
.da-m.etaJut:gia....<kLpó)Tem-se tirado muito proveito deste método para produzir siste-
mas de endurecimento por dispersão, oS quais são termicamente estáveis a temperatu-
ras muito elevadas. Devido à dispersão das partículas finas de segunda fase, essas
ligas são muito mais resistentes à recristalização e ao crescimento de grão do que as
ligas monofásicas. Graças à.baixa solubilidade da seglJnda fase integrante na matri~, as
partículas resistem muito mais ao crescimento ou ao superenvelhecimento do que as
partículas de segunda fase de um sistema de endurecimento por precipitação.

I R . F. Decker, M e ta l/. T runs .. vol. 4. pp. 2495-2518,1973.


'1. W. Martin. P r e c ip ita tio n Pergamon Press, New York. 1968.
H u r d e n in g .

Document shared on www.docsity.com


A formação de um precipitado coerente num sistema de endurecimento por preci-
pitação, tal como AI-Cu, ocorre num certo número de etapas. Após resfriamento rá-
pido desde a temperatura de solubilização, a liga contém regiões de segregação de
soluto, ou agrupamentos (núcleos). Guiner e Preston detectaram pela primeira vez
esse agrupamento localizado com técnicas especiais de raios X, e devido a isso essa
estrutura é conhecida como zona de Guiner-Preston (zona GP). O agrupamento pode
produzir deformação localizada, de maneira que a dureza da GP[ 1] é maior do que a
da solução sólida. Com o envelhecimento a dureza aumenta, favorecida pela ordena-
ção de grandes grupos de átomos de cobre nos planos {100} da matriz. Essa estrutura
é conhecida como G P[2] ou ( J " . Depois, placas definidas do precipitado de CuAI2, ou
( J ', os quais são coerentes com a matriz, formam-se no plano {I a O } da matriz. Os
precipitados coerentes produzem um aumento do campo de deformação na matriz e,
conseqüentemente, um aumento da dureza. Com a continuação do envelhecimento a

Fig. 6.18 Variação da tensão de escoamento com o


tempo de envelhecimento (esquemático).

fase em equilíbrio CuAI2, ou ( J , é formada a partir da transição da fase ( J '. Essas partí-
culas não são mais coerentes com a matriz, e conseqüentemente a dureza é menor do
que no estágio em que a fase coerente (J ' estava presente. Para a maioria das ligas com
endurecimento por precipitação, os primeiros precipitados que são identificados com a
resolução de um microscópio óptico comum são os que já não apresentam mais coe-
rência com a matriz. A continuação do envelhecimento após esse estágio produz o
crescimento das partículas e a conseqüente diminuição da dureza. A Fig. 6.18 ilustra a
maneira pela qual a resistência varia com o tempo de envelhecimento ou com o tama-
nho da partícula. A seqüência dos eventos do sistema AI-Cu é particularmente compli-
cada. Embora outros sistemas de endurecimento por precipitação possam não ter tan-
tos estágios, é muito comum a formação de um precipitado coerente que depois perde
a coerência quando a partícula atinge um tamanho crítico.
A deformação de ligas com endurecimento devido à presença de partículas finas

Envelhecimento
para máxima
dureza

Envelhecido
para formar
zonas GP

Fig. 6.19 Curvas tensão-deformação para monocristais


AI-Cu em várias condições (esquemático).

Document shared on www.docsity.com


dispersas na matriz é bem ilustrada pelas curvas tensão-deformação na Fig. 6.19. Mi-
nuciosos estudos nos cristais AI-4,S%Cu correlacionaram as observações das linhas
I

de deslizamento com o comportamento da deformação. Quando os cristais são trata-


dos por solubilização e têmpera de maneira que a liga contenha todo o cobre supersa-
turado em solução sólida, a tensão de escoamento é aumentada significantemente
sobre a do alumínio puro. A taxa de encruamento (inclinação da curva tensão-
deformação) é baixa e característica de deslizamento fácil. As bandas de deslizamento
são largas e espaçadas. Quando o cristal é envelhecido até formar zonas GP coeren-
tes, a tensão de escoamento é aumentada de modo significativo e ocorre uma queda de
tensão (limite de escoamento descontínuo). A taxa de encruamento continua baixa e as
linhas de deslizamento podem ser distinguidas, embora sejam mais finas e menos espa-
çadas do que na situação anterior. A queda da tensão de escoamento e a baixa taxa de
encruamento sugerem que as discordâncias "cortam" as zonas G P uma vez que a
tensão atinge um valor suficientemente alto. Embora os cristais envelhecidos até o
máximo de dureza mostrem uma ligeira diminuição da tensão de escoamento, a taxa de
encruamento aumenta de maneira significativa. Nessas condições, as linhas de desli-
zamento são muito pequenas ou indistinguíveis na superfície do cristal. Isso sugere
que as discordâncias não cortam mais as partículas para formar bandas de desliza-
mento bem definidas, mas estão se movendo ao redor das partículas de maneira a
ultrapassá-Ias. Na condição de superenvelhecimento, onde as partículas não são coe-
rentes e já relativamente grandes, a tensão de escoamento é baixa mas a taxa de en-
cruamento é muito alta. As discordâncias se acumulam em emara~ados em torno das
partículas durante o processo de passagem entre elas. Isso provoca deslizamento em
sistemas de deslizamento primários e promove também o encruamento da matriz. As
altas tensões, associadas aos anéis de discordâncias ao redor das partículas, tendem a
amoldá-Ias, por deformação elástica, à deformação plástica da matriz. Deformações
elásticas muito grandes são impostas às partículas, e com isso elas suportam uma
grande parte da carga total, da mesma maneira que mateliais reforçados com fibras
(Sec. 6.10). O limite de resistência em ligas superenvelhecidas ou ligas endurecidas por
dispersão é o escoamento ou a fratura das partículas, ou ainda. a separação da matriz
da partícula. Entretanto, uma vez que as partículas são geralmente compostos interme-
tálicos muito finos, elas possuem alta resistência.
O rau de endurecimento resultante da presen a de artíc_ulas de......segundª-.fill;
depende da distribuição dessas partículas na matriz dúctil Além da forma, a dispersão
e segunda fase pode ser descrita pela especificação da fração volumétrica, do diâme-
tro médio das partículas e da distância média entre as partículas. Esses fatores estão
correlacionados, de maneira que não se pode alterar um deles sem afetar os demais
(ver Probo 6.8). Por exemplo. para uma dada fração volumétrica de segunda fase, a
redução do tamanho médio das partículas diminui; conseqüentemente, a distância
média entre elas. Para um dado tamanho de partícula. a distância entre elas diminui
com o aumento da fração volumétrica de segunda fase.
~As ligas mais resistentes são produzidas pela combinação dos efeitos de dispersão
e encruamento. Se antes do tratamento de envelhecimento faz-se uma deformação
plástica prévia, produz-se uma dispersão mais fina quando as partículas nucleiam-se nas
discordâncias na matriz. As ligas mais resistentes parecem ser as que têm as partículas
formadas numa densa estrutura celular de discordâncias da matriz. !Deformação plás-
tica intensa de ligas contendo partículas finas, fortes e dispersas pode resultar em
resistências muito altas. como em arames de aço trefilados a frio.
imos que existem várias maneiras nas quais as partículas finas podem atuar
como barreiras para as discordâncias. Podem atuar como partículas não-coerentes for-
tes e impenetráveis. através das quais as discordâncias só podem mover-se por meio

\G. Greetham e R. W. K. Haneycambe.1. //ls t. M e l .. vaI. 89. p. 13.1960-1961: J. G. Byrne, M. E. Fine e A.


Kelly. P h i l o . L M a g . . vaI. 6. pp. 1119-1143. 1%1.

Document shared on www.docsity.com


de mudanças acentuadas nas curvaturas de suas linhas. Por outro lado, elas podem
agir como partículas coerentes ou não-coerentes através das quais as discordâncias
podem passar, mas somente com tensões muito mais elevadas do que as necessárias
para as discordâncias se moverem através da matriz.
Partículas de segunda fase atuam de duas maneiras distintas para retardar o mo-
vimento das discordâncias. As partículas podem tanto ser cortadas pelas discordâncias
como resistirem ao corte e as discordâncias serem forçadas a contorná-Ias. Um parâ-
metro crítico para a dispersão de partículas é o espaço entre as partículas À. O espa-
çamento entre as partículas tem sido assunto de muitas interpretações e representado
por muitos parâmetros!. Uma expressão simples para o espaçamento médio linear livre
é

4(1 - f) r
À = 3[

onde f é a fração volumétrica de partículas esféricas de raio r .


Quando as partículas são pequenas e/ou macias, as discordâncias cortam e defor-
mam as partículas como mostrado na Fig. 6.20. Existem quatro mecanismos que
podem contribuir para esse tipo de endurecimento. 'Mott e Nabarro2 reconheceram que
o campo de deformações resultante da combinação entre uma partícula e a matriz
poderia ser uma fonte de endurecimento.

onde f é a fração volumétrica da fase dispersa e ê é a medida do campo de deforma-


ções. Uma estimativa3 do endurecimento a partir de deformação coerente resulta em

Kellye Nicholson4 mostraram que um tipo de "endurecimento químico" surgiria


quando uma discordância cisalhasse uma partícula. Quando isso acontece cria-se um
degrau de extensão h em ambos os lados da partícula. Uma vez que esse processo
aumenta a área superficial da partícula, algum trabalho deve ser realizado para cisalhar
a partícula. O aumento na resistência é dado por

2J6 !Y s
t.(J = ----
n r

lC. W. Corti. P. Cotterill e G. Fitzpatrick, /111. M e l. R e l'., vol. 19, pp. 77-88, junho de 1974.
'N. F. Mott e F. R. N. Nabarro, o p . c il.
'V. Gerold e H. Haberkorn, P h y s . S /a /u s o S o /id i, vol. 16, p. 675, 1966.
'A. Kelly e R. B. Nicholson, P r o g r e s s i l l M a te r ia is S c ie n c e , vol. 10, nO 3, Pergamon Press, New York, 1963.

Document shared on www.docsity.com


Muitas partículas finas de segunda fase são compostos intermetálicos que têm estrutu-
ras ordenadas. Neste caso o processo de cisalhamento vai criar também uma nova
interface dentro da partícula. O aumento e x t r a da resistência é dado por

!1 .(J = 2 fy { J
b

onde Y s é a energia da interface partícula-matriz e Y I ' é a energia de desordenação da


estrutura da partícula'. Essa contribuição para o endurecimento é forte em superligas à
base de níquel com alta energia de contorno de antifase.2
Outra fonte de endurecimento por partículas deformáveis é a diferença entre os
módulos elásticos da matriz e da partícula. Isso afeta a tensão de linha da discordância
e uma tensão adicional deve ser aplicada para cisalhar a partícula.3

!1 .(J = 0,8 Gb (I _ E/)1/2


2
À E 2

onde E , é o módulo de elasticidade da fase macia e E 2 é o módulo de"elasticidade da


fase dura.
Finalmente, existirá um aumento de resistência devido à diferença na tensão de
Peierls entre a partícula e a matriz2• Esse termo vari a diretamente com a diferença em
resistência entre a partícula e a matriz a I' a ll/'

Quando a deformação ocorre pelo corte de partículas existe pequeno encruamento. A


deformação é por deslizamento planar comum.
O somatório desses mecanismos de endurecimento leva a um aumento da resis-
tência com o tamanho da partícula (ver o lado esquerdo da Fig. 6.18). Eventualmente,
atinge-se um ponto onde o corte das partículas torna-se muito difícil, e ao contrário, as
discordâncias descobrem maneiras de se mover ao redor das partículas.

1 .- l
1
C!>

C!:>
01
C!)
Fig. 6.21 Desenho esquemático dos
estágios na passagem de uma discor-
dância entre obstáculos largamente
separados, baseado no mecanismo
de endurecimento por dispersão de
Orowan.
(1 ) (2 ) (3 ) (4 ) (5 )

Para o caso de partículas superenvelhecidas não-coerentes, Orowan4 propôs o


mecanismo ilustrado na Fig. 6.21. A tensão de escoamento é determinada pela tensão
de cisalhamento requerida para arquear a linha de discordância entre duas partículas
separadas de uma distância À, onde À ~ R . Na Fig. 6.21, o primeiro estágio mostra
uma linha de discordância retilínea se aproximando de duas partículas. No estágio 2 a
linha começa a se curvar, e no estágio 3 atinge uma curvatura crítica. A discordância
pode então mover-se sem promover diminuição de seu raio de curvatura. Da Eq.

IR. O. Williams. A e l a M e t a l / . . vol. 5. p. 241. 1957.


'H. Gleiler e E. Hornbogen. M a l e r . S e i . E n g . . vol. 2. pp. 285-302. 1967.
"K. C. Russell e L. M. Brown. A c l a M e l a l l . . vol. 20. p. 969. 1972.
'E. Orowan. discussão e m , S y m p o s i u m o n In te r n a l S lr e s s e s . p. 451. [nslilute of Metais. Londres, 1947.

Document shared on www.docsity.com


R = G b /2 T o e À . = 2 R , de maneira que a tensão requerida para forçar a discor-
( 5 .1 8 ) ,
dância entre os obstáculos é

Gb
'o = T
Já que os segmentos de discordâncias que se encontram do outro lado da partícula são
de sinais opostos, eles podem se anular simultaneamente em parte do seu compri-
mento, deixando um anel de discordância ao redor de cada partícula (estágio 4 ) . A
discordância original está então livre para mover-se (estágio 5). Toda discordância
deslizando neste plano de deslizamento adiciona mais um anel ao redor das partículas.
Esses anéis exercem uma contratensão sobre as fontes de discordâncias as quais têm
que superá-Ia para que ocorra u m deslizamento adicional. Isso requer um aumento na
tensão cisalhante, com o resultado de que partículas dispersas não-coerentes causam o
rápido encruamento da matriz. O encruamento devido à tensão de curto alcance pode
ser calculado a partir do modelo de Hart enquanto aquele devido à tensão interna
l
,

média pode também ser determinado2• A taxa de encruamento devido à tensão interna
média é

(7 - 5v) fE

10(1 - V 2) 1 - f
A equação básica de Orowan tem sido modificada pela introdução de estimativas
mais refinadas da tensão de linha das discordâncias'l, pelo uso do espaçamento planar
À . p para o caminho livre médio,4 e por adição de uma correção para a interação entre os
segmentos de discordância em ambos os lados da partícula.5 Isso leva a um certo
número de versões da equação, dentre as quais a mais comum é a equação de
Orowan- Ashby6

O ,1 3 G b r
L1er = --In -
À b

O arqueamento das discordâncias entre as partículas forma anéis de discordâncias


ao redor destas partículas, mas pode também criar uma estrutura celular de discordân-
cia (Fig. 6 . 2 8 b ) . Essa subestrutura surge da geração de discordâncias devido à neces-
sidade de manter a continuidade entre partículas não-deformadas e a matriz. Se a es-
trutura é forte, isto pode resultar num endurecimento do tipo de Hall-Petch em vez de
um endurecimento de Orowan.

A maioria das teorias de endurecimento com partículas de segunda fase são ba-
seadas em partículas esféricas idealizadas, mas a forma da partícula pode ser impor-
tante, principalmente pela mudança em À.. Para frações em volume iguais, bastões e
placas endurecem cerca de duas vezes mais do que as partículas esféricas 7.

tE. w . Hart, A c ta M e ta l/., vaI. 20, p. 272,1972.


'T. Mari e K. Tanaka, A c ta M e ta l/., vaI. 21, p. 571,1973.
"A. Kelly e R. B. Nichalsan, o p . c ito
'U. F. Kachs, P h ilo s . M a g ., vaI. 13, p. 541, 1966.
'M. F. Ashby, A c ta M e ta l/., vaI. 14, p. 679, 1966.
'M. F. Ashby, em P r a c . S e c o n d B o lto n L a n d in g C o n f. o n O x id e D is p e r s io n S tr e n g th e n in g , 1968. Gardan e
Breach, S c ie llc e P u b lis h e r s . lnc., New Yark.
'P. M. Kelly, S e r . M e ta l/., vaI. 6, pp. 647-656, 1972.

Document shared on www.docsity.com


Podem-se produzir materiais de alta resistência e, especialmente, com uma r a z ã o
muito elevada pela incorporação de fibras finas numa matriz dúctil.
r e s is tê n c ia -p e s o
As fibras devem ter grande resistência e um módulo de elasticidade bastante elevado,
enquanto que a matriz deve ser dúctil e não-reativa com as fibras. Devido a sua grande
resistência, l I 'h i s k e r s de materiais, tais como A12 03 , têm sido usados com bons resulta-
dos, mas a maioria dos materiais endurecidos por fibras usam fibras de boro ou grafite,
ou mesmo fios metálicos tais como os de tungstênio. As fibras podem ser longas e
contínuas, ou podem ser descontínuas. Os materiais usados como matriz têm sido
metais e polímeros. Polímeros reforçados com fibras de vidro são os materiais endure-
cidos com fibras mais comuns. Os materiais reforçados com fibra são um importante
grupo de materiais, geralmente conhecido como materiais compostos'.

U ma diferença muito Importante entre os materIaIS reforçados por fibras e os


materiais endurecidos por dispersão é que no caso das fibras o elevado módulo de
elasticidade destas suporta essencialmente toda a carga. A matriz serve para transmitir
a carga para as fitJras, para proteger as fibras dos danos de superfície, para separar as
fibras individuais e moderar trincas que surgem da quebra das fibras. Existe uma ana-
logia íntima entre os materiais reforçados com fibras e o concreto reforçado com bar-
ras de aço. A análise do aumento da resistência desses materiais envolve a aplicação
direta dos princípios do contínuo do Capo 2 para níveis microscópicos2• Não há neces-
sidade de se recorrer à teoria das discordâncias uma vez que o comportamento do
material é essencialmente elástico.
O fato da matriz e das fibras possuírem módulos de elasticidade bastante diferen-
tes acarreta uma distribuição complexa de tensões quando um corpo composto é car-
regado uniaxialmente na direção das fibras. Uma análise rigorosa3 mostra que tensões
cisalhantes se desenvolvem na interface fibra-matriz. A distribuição dessa tensão cisa-
lhante e da tensão de tração axial na fibra u ao longo do comprimento da fibra é dada
T

na Fig. 6.22. A alta tensão cisalhante no fim da fibra significa que uma matriz metálica
irá escoar plasticamente (ou uma matriz de polímero irá se romper) acima de um valor
crítico. A fim de se aproveitar inteiramente a alta resistência da fibra. é necessário que
a zona plástica da matriz não se estenda da extremidade da fibra até a metade do seu
comprimento antes de atingir o rompimento da fibra. Isso nos leva a um comprimento
crítico da fibra L ( . .

'L. J. 8routman e R. H. Krock. M o d e r n C o m p o s ir e M a r e r ia /s . Addison-Wesley Publishing Co .. Reading.


Mass .. 1967; A. Kelly e G. J. Davies. M e r a l l . R e I ' . . vol. 10. p. I. 1965: A. Kelly. M e r a l l . T r a l 1 s . . vol. 3. pp.
2313-2325. 1972.
'A abordagem destes micromecanismos para materiais compostos está bem descrita por H. T. Corten. Micro-
mechanics and Fracture Behavior or Composites. em L. J . Broutman e R. H. Krock. M o d e r n C o m p o s ir e
:l1 a r e r ia /s . ver Capo 2.
3H. L. Coxo S r . J . A p p / . P i l . \ ' S . . vol. 3. p. 72. 1952.

Document shared on www.docsity.com


onde ( T I é a tensão de fratura de uma fibra de diâmetro d numa matriz que possui uma
tensão cisalhante de escoamento T o . Quando o comprimento da fibra é maior que L c , o
material vai romper-se pela fratura da fibra, e o composto assim apresenta todo o seu
potencial de resistência.
As curvas tensão-deformação para compostos com uma única direção para fibras
contínuas ou fibras descontínuas com comprimento maior que L c apresentam 4 está-
gios (Fig. 6.23). No estágio 1, tanto a fibra quanto a matriz sofrem deformação elás-

Fig. 6.23 Estágios nas curvas tensão-deformação das


fibras, matriz e material composto reforçado por fibras.

tica. O módulo de Young para o composto, E c , pode ser determinado a partir de uma
simples "regra de misturas" adicionando-se módulo elástico da matriz e da fibra'

o n d e jj e fm são as frações volumétricas da fibra e da matriz. No estágio 2, a matriz se


deforma plasticamente enquanto a fibra continua no regime elástico. Esse estágio
,~ inicia-se aproximadamente na tensão que corresponde à tensão de escoamento do ma-
I terial que compõe a matriz. Para se calcular E c neste estágio, E m deve ser substituído
pela inclinação da curva tensão-deformação da matriz.

Já que a inclinação da parte plástica da curva tensão-deformação da matriz é menor do


que a da parte elástica E m , O último termo da Eq. (6.41) é pequeno e podemos expres-
sar o módulo do composto como

O composto responde de uma forma quase-elástica no estágio 2. Quando o composto é


descarregado as fibras retomam para seu comprimento original e a matriz é deformada
em compressão.2 O estágio 3 ocorre quando tanto a matriz quanto as fibras se defor-
mam plasticamente. Uma vez que muitas das fibras de alta resistência com grande
módulo de elasticidade são frágeis, como as fibras de boro, elas fraturam no início do
estágio 3, mas fibras de fios de metais apresentam essa região. Finalmente, no estágio
4, a fibra fratura e o composto como um todo fratura rapidamente.

'Essa expressão simples é para o módulo de elasticidade na direção longitudinal das fibras. As expressões para
a direção transversal e outros ãngulos da fibra são mais complexas. .
'H. P. Cheskis e R. W. Heckel. M e /a li. T r a n s .. vol. I. pp. 1931-1942. 1970.

Document shared on www.docsity.com


onde a r é o limite de resistência à tração da fibra (aproximadamente equivalente à
tensão de fratura) e a ' " , é o esforço de tração na matriz quando as fibras atingem a
tensão-limite de resistência. Já que as fibras muito resistentes têm baixa ductilidade, a
deformação na qual a '" , é estimada é baixa e a '" , ~ a r .
Para se obter qualquer beneficiamento com a presença de fibras, a resistência do
composto deve ser maior do que a resistência da matriz encruada, isto é, a o ~ a u .
Então,

o que leva a um v o l u m e c r í t i c o d e f i b r a s que deve ser ultrapassado para que ocorra


endurecimento provocado por fibras.

Para pequenos valores de f r a resistência do composto pode não seguir a Eq.


(6.43). Isso porque não há um número suficiente de fibras para restringir efetivamente
a elongação da matriz, de maneira que as fibras são rapidamente tensionadas ao seu
ponto de fratura. Entretanto, a matriz metálica suportará parte da carga, encruando-se.
Admitindo-se que todas as fibras se fraturam ( a r = O) quando a tensão de fratura das
fibras é atingida, da Eq. (6.43) a resistência do composto é dada por

onde a u é a tensão limite de resistência da matriz. A resistência do composto será dada


pela Eq. (6.43) quando a fração volumétrica da fibra ultrapassar um valor m í n i m o f " 'i l l .,
onde

Quando f r < f " 'i l l . a resistência do composto será dada pela Eq. (6.45). As relações
entre a resistência do composto e a fração volumétrica das fibras com a localização de
f " 'i l l . e f c r i / . estão na Fig. 6.24.

Fig. 6.24 Variação teórica da resistência do composto


com a fração volumétrica da fibra (para reforço com fibras
contínuas).
",'"
" '/ ..•...• ...•...• ,.-Eq.(6.45)
...•...•
'mln. ••••••
••••••••••••.•••••
...•...•

Document shared on www.docsity.com


Fig. 6.25 Variação da resistência do composto com o
ângulo entre as fibras e o eixo de tração.

Deve-se observar que as equações anteriores aplicam-se para fibras contínuas e


admitem que nenhuma alteração no encruamento e no comportamento tensão-
deformação da matriz é introduzida pela presença das fibras. Elas foram desenvolvidas
considerando-se também que todas as fibras têm a mesma resistência. Para fibras des-
contínuas o limite de resistência à ruptura é dado por

onde {3é uma constante igual a 0,5. Isto mostra que as fibras descontínuas irão produ-
zir um menor aumento da resistência do composto do que as fibras contínuas, mas se
L e /L é pequeno, a diferença é insignificante.
O composto com um arranjo unidirecional de fibras é um material com elevada
anisotropia. Quando tal material é carregado com um certo ângulo em relação à dire-
ção das fibras (Fig. 6.25), três parâmetros de resistência devem ser considerados. A
tensão necessária para produzir a ruptura pelo escoamento paralelo à direção das fi-
bras é ( T e , dado pela Eq. (6.43). A tensão cisalhante necessária para produzir a ruptura
por cisalhamento na matriz ou na interface fibra-matriz é T s > enquanto ( T s é a tensão de
tração necessária para produzir a ruptura do composto numa direção normal às fibras.
A tensão de tração para produzir a ruptura de um composto pela fratura das fibras é

Se a ruptura ocorre por cisalhamento na direção das fibras num plano paralelo a estas,
a tensão de fratura é

A ruptura por escoamento da matriz, transversal às fibras, ou limite de ruptura da


interface necessita de uma tensão

Esses critérios estão traçados na Fig. 6.25, onde se vê que a resistência de um com-
posto com fibras unidirecionais cai significantemente para pequenos afastamentos da
orientação das fibras. Esse problema é resolvido na prática pelo uso de chapas finas
laminadas nas quais as fibras têm uma orientação diferente em cada camada. Um
exemplo bem familiar de um materiallaminado que aproximadamente usa esse recurso
é a madeira compensada.

Document shared on www.docsity.com


Na Seção 5.12, mostrou-se que o movimento de degraus produzidos pelas interseções
das discordâncias podiam levar à formação de defeitos pontuais, tanto vazios quanto
átomos intersticiais. Anteriormente foi mostrado que uma têmpera de uma tempera-
tura próxima à temperatura de fusão reteria na matriz um excesso de vazios. Final-
mente, uma concentração apreciável de defeitos pontuais pode ser produzida pela irra-
diação de metais com partículas atômicas de alta energia.
A experência básica I do efeito dos vazios nas propriedades do material foi reali-
zada através da têmpera de monocristais de alumínio a partir das proximidades do
ponto de fusão. A tensão cisalhante resolvida crítica aumentou de 50 para 500 g/cm 2
devido à presença dos vazios induzidos pela' têmpera. Os cristais endurecidos por
têmpera apresentavam bandas de deslizamento grossas se comparados com os cristais
resfriados lentamente. Esses resultados podem ser explicados admitindo-se que o ex-
cesso de vazios migra para as discordâncias e as bloqueiam de maneira similar aos
átomos de soluto.
Partículas atômicas altamente aceleradas criam intersticiais vazios na sua colisão
com o metal sólido. Ignorando-se os detalhes estruturais2 das mudanças na rede crista-
lina induzidas pela radiação de alta energia, é importante notar que a irradiação com
nêutrons pode provocar efeitos marcantes nas propriedades mecânicas dos metais. Na
curva tensão-deformação por tração o limite de escoamento é aumentado de um fator 2
a 4 em comparação com um metal recozido. Metais cúbicos de face centrada, tais
como alumínio e cobre, desenvolvem um limite superior de escoamento descontínuo
bem acentuado depois da irradiação, mas em metais cúbicos de corpo centrado, como
o aço e o molibdênio, o limite de escoamento descontínuo é eliminado. Do ponto de
vista da engenharia, a conseqüência mais séria da radiação de nêutrons é o aumento
substancial da témperatura de transição dúctil-frágil (ver Seco 14.2) nos aços estrutu-
rais.

A transformação de austenita para martensita, através de uma alteração que envolve


cisalhamento da rede e independe de difusão na têmpera de aços, é um dos processos
mais comuns de endurecimento utilizados para materiais de uso comum na engenharia.
Embora as transformações martensíticas ocorram num certo número de sistemas meta-
lúrgicos3• somente as ligas de ferro e carbono apresentam um efeito de endurecimento
pronunciado. A Fig. 6.26 mostra como a dureza da martensita varia com a percenta-
gem de carbono, e compara esse grau de endurecimento com o que é atingido em
agregados dispersos de ferro e cementita.
A grande resistência da martensita implica que existam muitas barreiras fortes
para a movimentação das discordâncias na estrutura. A complexidade do sistema per-
mite uma quantidade considerável de controvertidos mecanismos de endurecimento.
mas parece que existem duas importantes contribuições4 para a alta resistência da
martensita. Kelly e Nutting l identificaram, com a ajuda do microscópio eletrônico de
transmissão, duas estruturas nas ligas ferro-carbono temperadas. A martensita con-
vencional tem uma estrutura de placas com um único plano de hábito e uma estrutura

IR. Maddin e A. H. Cotlrell. P h i l o s . M a g . . vol. 46, p. 735.1955.


'Para uma revisão'ver G. H. Vineyard. Radiation Hardening. em S t r e n g t h e n i l l g M e c h a n is l/ls ill S o l i d s . Ameri-
can Society for MetaIs. Metais Park. ühio. 1962.
3 C . S. Barretle T. B. Massalski. S t r t l c / I I r e o / M e t a / s . 3." ed .. pp. 517-531. McGraw-Hill Book Company. New
York. 1966.
'M. Cohen. T r u n s . M e w l l . S o e . A / M E . vol. 224. p. 638. 1962: W. Leslie e R. Sober. T r a n s . A m . S O ( '. Mel. vol.
60. p. 459. 1967.
'P. M. Kelley e J. Nutling, J . / r o l l S t e e l / l I s t . , vol. 197, p. 199, 1961; também J. Nutling em S t r e l l g t h e n i n g
.\1 e c h a n is l/ls in S o /id s . Capo 4, American Society for Metais. Metais Park. ühio, 1962.

Document shared on www.docsity.com


1.100

1.000

900

800
60
-250
700
ü
3j'" 600 w
o
.~ Fig. 6.26 Dureza de vanos
u
'>
~
u
Q)

"O
produtos de transformação de
50 o aços. (De E. Bain e H. W.
'"
Q)

a: "O
N
Paxton, A l l o y i n g E l e m e n t s i n
:; 500 '" ;f.
Q)

'" S t e e l , 2." ed., p. 37, American


N
o e:J e:
o 'u; Society for Metais, Metais
400 -'o" Park, Ohio, 1961. Copirraite
40
-120 1::Q)
de American Society of Me-
E tais, 1961.)
300 '"
o
30 ~
Q)
Estrutura perlítica
Q)
( r e s fr ia d a ao a r) 20 "O

200 10 .~
E
:::;
100

interna de macias paralelas com cerca de O, I J . L m de espessura dentro das placas. O


outro tipo de estrutura martensítica é a martensita em blocos, contendo no seu interior
uma alta densidade de discordâncias de 10 11 a 10 12 por centímetro quadrado, densidade
esta comparável com a de um metal altamente deformado. Portanto, parte da grande
resistência da martensita advém das barreiras ao deslizamento provocadas pela fina
estrutura de macias ou a alta densidade de discordâncias.
A segunda contribuição importante para o endurecimento da martensita vem dos
átomos de carbono. A Fig. 6.26 mostra que a dureza da martensita é muito sensível à
concentração de carbono abaixo de 0,2 por cento. Com a rápida transformação da
austenita para a ferrita numa têmpera, a solubilidade do carbono no ferro é grande-
mente reduzida. Os átomos de carbono deformam a rede da ferrita e essa deformação
pode ser aliviada pela redistribuição destes átomos por difusão à temperatura am-
biente. Um resultado é que uma forte ligação é estabelecida entre as discordâncias e os
átomos de carbono. Já vimos que isto restringe a mobilidade das discordâncias. Um
outro resultado é a formação de aglomerados de átomos de carbono nos planos {100}.
Esses aglomerados são muito similares às zonas GP discutidas anteriormente na asso-
ciação com o endurecimento por envelhecimento das ligas de alumínio. A contribuição
para a resistência devido às barreiras nas estruturas martensíticas é essencialmente
independente da concentração de carbono, enquanto que o endurecimento devido aos
aglomerados de átomos de carbono e à interação das discordâncias aumenta quase
linearmente com a concentração de carbono.
U ma área de pesquisa de considerável interesse tem sido desenvolvida nos pro-
cessos termomecânicos, nos quais a martensita é formada a partir da matriz austenítica

Document shared on www.docsity.com


que foi previamente endurecida por deformação plástica I. Esse processo é chamado
A deformação da austenita deve ser efetuada sem transformação para
a u s fo r m in g .
perlita ou barianita. Portanto, é necessário trabalhar-se com um aço que apresente
uma região de austenita estável na sua curva tempo-temperatura-transformação (TTT)
(Fig. 6.27). O aço é deformado em quantidades que excedem os 50 por cento, normal-
mente por laminação, e então temperado, a temperaturas abaixo do Ms , para formar
martensita. Para uma dada liga, a temperatura de deformação e a quantidade de de-
formação são as variáveis principais. São obtidas grandes resistências pela maior de-
formação possível na menor temperatura na qual a transformação não ocorre. A den-
sidade de discordâncias de martensita obtida pelo processo de l I u s f o r m i n g é muito alta
(10 13 cm- 2 ) e as discordâncias estão uniformemente distribuídas. A precipitação é mais
importante do que a martensita temperada comum, com os precipitados fornecendo
pontos para a multiplicação e bloqueio das discordâncias 2 . Como um resultado desses
mecanismos de endurecimento, o aço que sofre tratamento de a / l s f o r m i n g pode atingir
limites de escoamento muito altos, de 200 a 300 kg/mm 2 , com redução de áreas va-
riando de 40 a 20 por cento.

Temperatura de
.....austenitização

\\~
Fig. 6.27 Diagrama tempo-temperatura-transforma-
------1
L D e to r m a ç ã o
ção mostrando os passos no processo de a u s f o r m i n g .

~-~
'f T êm pera

4
10
Tempo. s

No Capo 4, O encruamento foi atribuído à interação de discordãncias com outras dis-


cordâncias e com outras barreiras que impediam o seu movimento através da rede.
Toda vez que o deslizamento ocorre em um único grupo de planos paralelos, como em
monocristais ou em metais h.c., ocorre somente uma pequena quantidade de encrua-
mento. Entretanto, mesmo em monocristais, o deslizamento fácil extensivo não é um
fenômeno comum, e em materiais policristalinos não é observado. Devido à interfe-
rência mútua de grãos adjacentes num material policristalino, o deslizamento múltiplo
ocorre preferencialmente, e existe um encruamento apreciável. A deformação plástica
que é realizada numa região de temperaturas, e sobre um intervalo de tempo tal que o
encruamento não é aliviado, é chamada t r a b a l h o l i f r i o (deformação a frio).
O número de discordâncias é aumentado durante a deformação plástica, e devido
às suas interações provocam um estado de elevadas tensões internas. Um metal reco-
zido contém cerca de 10 6 a 10 8 discordâncias por centímetro quadrado, enquanto um
metal grandemente deformado plasticamente contém cerca de 10 12 discordâncias por
centímetro quadrado. Encruamento em trabalho a frio pode ser facilmente detectado
por difração de raios X, embora uma análise detalhada das curvas de raios X em
termos da estrutura trabalhada a frio não seja normalmente possível. O trabalho a frio

IS. V. Radcliffe e E. B. Kula, em F u n d a m e n t a i s a f D e f a r m a t i a n P r a e e s s i n g , Syracuse University Press, 1964.


'O. Johari e G. Thom as, T r a n s . A m . S o e . M e t ., vol. 58, pp. 563-578,1965:

Document shared on www.docsity.com


produz maldefinição, ou um a s t i g m a t i s m o , nos pontos das figuras de Laue. O traba-
lho a frio provoca um alargamento das linhas das figuras de difração de Debye-
Scherrer. O alargamento das linhas de raios X pode ser devido tanto à diminuição do
tamanho da unidade de difração como deveria ocorrer se os grãos fossem fragmenta-
dos pelo trabalho a frio como um aumento da deformação da rede resultante da intera-
ção das discordâncias. Têm-se desenvolvido' técnicas para a análise dos perfis totais

Fig. 6.28 ( a ) Deformado a 10 por cento de deformação. Início da formação de células com ema-
ranhado de discordâncias; ( b ) deformado a 50 por cento de deformação. Tamanho de célula em
equilíbrio com alta densidade de discordância nas paredes da célula (esquemático).

das linhas de raios X e da distinção da contribuição devido à deformação da rede e ao


tamanho da partícula.
Pode-se obter com a microscopia de filmes finos um conhecimento consideravel-
mente detalhado sobre o estado de trabalho a frio. Nos primeiros estágios da deforma-
ção plástica, o deslizamento se dá essencialmente nos planos primários de desliza-
mento e as discordâncias formam então arranjos coplanares. Com a continuação da
deformação, começa a ocorrer o deslizamento cruzado e os processos de multiplicação
de discordâncias começam a ser ativados. A estrutura trabalhada a frio forma regiões
de alta densidade de discordâncias ou e m a r a n h a d o s , os quais logo se desenvolvem em
redes de emaranhados. Portanto, a estrutura característica do estado trabalhado a frio
é uma e s t r u t u r a c e l u l a r na qual as paredes das células são formadas por emaranhados
de alta densidade de discordâncias (Fig. 6.28). A estrutura celular de discordâncias é
normalmente bem desenvolvida em deformação de cerca de 10%. O tamanho da célula
diminui com a deformação para pequenas deformações mas atinge logo um tamanho de
célula fixo, mostrando que, conforme a deformação continua, as discordâncias varrem
as células e se juntam ao emaranhado nas paredes das células. A natureza exata da
estrutura trabalhada a frio dependerá do material, da deformação, da taxa de deforma-
ção e da temperatura de deformação. A formação de uma estrutura celular será menos
pronunciada para baixas temperaturas e altas taxas de deformação e em materiais com
baixa energia da falha de empilhamento (de maneira que o deslizamento cruzado é
dificultado).
A maioria da energia gasta na deformação de um metal por trabalho a frio é con-
vertida em calor. Entretanto, cerca de 10 por cento da energia gasta são armazenados
na estrutura causando um aumento na energia interna. Valores da energia interna pu-
blicados2 estão numa faixa de 0,01 a 1,0 cal/g do metal. A grandeza da energia armaze-
nada aumenta com o ponto de fusão do metal e com a adição de soluto. Para um dado
metal a quantidade de energia armazenada depende do tipo do processo de deforma-

'B. E. Warren, em P r o g r e s s i n M e t a l P h y s i c s , vol. 8, pp. 147-202, Pergamon Press, Lld., Londres, 1959.
'Par •• uma revisão da energia armazenada do trabalho a frio ver M. B. Bever, D. L. Holt e A. L. Titchener,
P rogress in M a te r ia is S c ie n c e , vol. 17, Pergamon Press, Lld., London, 1973.

Document shared on www.docsity.com


ção, por exemplo, trefilação ou tração. A energia armazenada aumenta com a defor-
mação até um certo limite que corresponde a um valor de saturação. Ela aumenta com
a diminuição da temperatura de deformação. Medidas calorimétricas bem acuradas são
necessárias para medir as pequenas quantidades de energia armazenada por trabalho a
frio.
A maior parte da energia armazenada é devida à geração e à interação das dis-
cordãncias durante o trabalho a frio. Os vazios são responsáveis por parte da energia
armazenada em metais deformados a temperaturas muito baixas. Entretanto, os vazios
são muito mais móveis que as discordâncias, de maneira que facilmente escapam da
maioria dos metais deformados à temperatura ambiente. Falhas de empilhamento e
maclas são provavelmente responsáveis por uma pequena fração da energia armaze-

o
nada. Uma redução na ordenação de curto alcance durante a deformação de soluções
sólidas pode também contribuir para a energia armazenada. A energia de deformação
elástica contribui apenas para uma insignificante parte da energia armazenada.

ENCRUAMENTO

Encruamento ou trabalho a frio é um importante processo industrial que é usado para


endurecer ligas ou metais que não são sensíveis a tratamentos térmicos. A taxa de
encruamento pode ser verificada pela inclinação da curva de escoamento. Normal-
mente, a taxa de encruamento é menor para metais h.c. do que para metais cúbicos. O
aumento da temperatura de deformação pode também diminuir a taxa de encruamento.
Para ligas endurecidas por adições em solução sólida a taxa de encruamento pode
tanto aumentar como diminuir, comparada com a taxa de encruamento do metal puro.
Entretanto, a resistência final de uma liga em solução sólida é quase sempre maior do
que a do metal puro que sofreu o mesmo trabalho a frio.
A Fig. 6.29 mostra a variação típica da resistência e da ductilidade com o aumento
da quantidade de trabalho a frio. Uma vez que na maioria dos processos de trabalho a
frio uma ou duas dimensões do metal são reduzidas às custas de um aumento nas
outras dimensões, o trabalho a frio produz a elongação dos grãos na direção principal
de trabalho. Grandes deformações produzem uma reorientação dos grãos numa orien-
tação preferencial (Sec. 6.17). Além das mudanças das propriedades em tração mos-
tradas na Fig. 6.29, o trabalho a frio produz também mudanças em outras propriedades
físicas. Normalmente ocorre uma pequena redução na densidade, da ordem de alguns
décimos por cento, uma diminuição apreciável da condutividade elétrica devido ao
aumento do número de centros espalhadores e um pequeno aumento do coeficiente de
expansão térmica. Devido ao aumento da energia interna no estado de trabalho a frio,
a reatividade química é também aumentada. Isso leva a uma diminuição geral na resis-
tência à corrosão e, em certas ligas, introduz a possibilidade do aparecimento de trin-

Fig, 6,29 Variação das propriedades trativas com a


quantidade de trabalho a frio.

o 10 20 30 40 50 60 70
Redução por trabalho a frio. %

Document shared on www.docsity.com


cas de corrosão sob tensão.
U ma taxa de encruamento alta implica uma mútua obstrução de discordâncias
deslizantes nos sistemas de deslizamento que se interceptam. Isso pode ocorrer (I)
através da interação dos campos de tensão das discordâncias, (2) através de interações
que produzem discordâncias bloqueadas e (3) através da interpenetração de um sis-
tema ele deslizamento por outro que resultam na formação de degraus de discordân-
cias. I f -
J A equação básica que relaciona a tensão de escoamento (encruamento) com a
estrutura é

Tem-se dado muita atenção ao desenvolvimento das teorias do encruamento baseadas


nos modelos das discordâncias. As teorias baseadas em cada um dos três processos
alistados acima resultam' em equações da forma da Eq. (6.51).
As micrografias eletrônicas de filmes finos talvez formem uma impressão errônea
do meio no qual as discordâncias se movem no metal. McLean 2 apresenta uma descri-
ção gráfica da situação envolvendo interações elclsticas entre discordâncias e entre
discordâncias e partículas de segunda fase. Um metal que foi deformado plasticamente
em uma pequena percentagem contém 50.000 km ou mais de linhas de discordâncias
em cada centímetro cúbico de material. Além disso, se esse centímetro cúbico fosse
ampliado para o tamanho de um grande auditório, essas discordâncias pareceriam estar
acomodadas irregularmente como uma teia de aranha tridimensional extremamente
fina, com o espaçamento da malha variando de 0,1 a 1,0 mm. Com esse tipo de estru-
tura uma discordância móvel não poderá evitar a interseção com outras discordâncias
e a transposição do campo de tensões de outras discordâncias. Devido ao fato das
folhas finas utilizadas na microscopia eletrônica representarem uma pequena quanti-
dade de material, elas tendem a omitir a maioria dos nós de discordâncias, dando a
impressão de que a rede de discordâncias é muito menos entrelaçada do que na reali-
dade.

o estado de trabalhado a frio é uma condição de maior energia interna do que o mate-
rial não-deformado. Embora a estrutura celular de discordâncias do material traba-
lhado a frio seja mecanicamente estável, ela não é termodinamicamente estável. Com
o aumento da temperatura, o estado trabalhado a frio torna-se cada vez mais instável.
Eventualmente o metal se recupera e reverte-se para uma condição livre de deforma-
ção. O processo global pelo qual isso ocorre é conhecido como recozimento". O reco-
zimento é comercialmente muito importante porque restaura a ductilidade de um metal
que tenha sido severamente encruado. Assim, pela interposição de operaçôes de reco-
zimento após grandes deformaçôes, é possível conseguir elevadas percentagens de de-
formação para a maioria dos metais.
O processo de recozimento pode ser dividido em três processos distintos: recupe-
ração, recristalização, e crescimento de grão. A Fig. 6.30 ajudará a distinguir esses
processos. A r e c l I p e r a ç â o é normalmente definida como a restauração das proprieda-
des físicas do metal trabalhado a frio sem que ocorra alguma mudança visível na mi-
croestrutura. A condutividade elétrica durante a recuperação aumenta rapidamente
para o valor do material recozido, e a deformação da rede cristalina, quando medida

1 Para uma revisão das teorias do encruamento. ver D. McLean. M e e h a n i c a l P r o p e r t i e s o f M e t a i s , pp. 153-161,
John Wiley & Sons, Inc., New York, 1962.
'D. McLean. T r o n s . M e t a l l . S o e . A 1 M E , vol. 242. pp. 1193-1203, 1968.
"Para uma detalhada revisão do recozimento, ver P. A. Beck. A d l ' . P h y s . , voI. 3, pp. 245-324, 1954; J. E. Burke
e D. Turnbull, em P r o g r e s s i n M e t a l P h y s i e s . voI. 3, Interscience Publishers. Inc., New York, 1952.

Document shared on www.docsity.com


com raios X, é apreciavelmente reduzida. As propriedades que são mais afetadas pela
recuperação são aquelas que são sensíveis aos defeitos pontuais. As propriedades de
resistência, que são controladas pelas discordâncias. não são afetadas nas temperatu-
ras de recuperação. Uma exceção é o caso de monocristais de metais hexagonais com-
pactos que foram deformados somente num grupo de planos (deslizamento fácil). Para
essa situação é possível recuperar totalmente a tensão de escoamento do cristal en-
cruado sem produzir recristalização. A r e c r i s l a l i z a ç â o é a substituição da estrutura
trabalhada a frio por um novo grupo de grãos livres de deformação. A recristalização é

Fig. 6.30 Desenho esquemático in-


dicando a recuperação. recristaliza-
ção, crescimento de grão e as mu-
danças importantes nas propriedades
em cada região.

Fig. 6.31 M udanças na microestrutura de latão 70-30 trabalhado a frio com recozimento. (a) Tra-
balhado a frio em 40 por cento: (b) 440 o C. 15 min: (c) 575°C. 15 min (ISO X). (Cortesia de L. A.
M onson).

facilmente detectada por métodos metalográficos e é evidenciada por uma diminuição


da dureza ou da resistência e um aumento na ductilidade. A densidade de discordân-
cias diminui consideravelmente na recristalização e todos os efeitos do encruamento
são eliminados. A energia armazenada no trabalho a frio é a força motriz tanto para a
recuperação quanto para a recristalização. Se os novos grãos livres de deformação
forem aquecidos a temperaturas maiores que a requerida para causar a recristalização,
ocorrerá um crescimento gradativo no tamanho de grão. A força motriz para o cresci-
mento de grão é a diminuição da energia livre resultante da diminuição da área de con-
tornos de grão devido ao crescimento de grão. A Fig. 6.31 mostra a progressão de uma
microestrutura deformada a frio para uma estrutura com grãos finos recristalizados e,
finalmente, para uma com tamanho de grão maior, devido ao crescimento de grão.

Document shared on www.docsity.com


o processo de recristalizaçãol consiste na nucleação de uma região livre de de-
formação, cujo contorno pode transformar a matriz deformada em um material livre de
deformação conforme vai se movendo. No crescimento do contorno a partir do nú-
cleo, as discordâncias são aniquiladas na região varrida pelo contorno. Para isso é ne-
cessário que o contorno móvel seja um contorno de grande ângulo, de maneira que
tenha um alto grau de "desorientação" para acomodar as discordâncias. Pelo menos
dois mecànismos distintos de nUcleação foram identificados para a recristalização. O
primeiro é denominado m i g r a ç i í o d o c o n t o r n o i n d u z i d a p o r d e f o r m a ç ã o , onde um nú-
cleo livre de deformação é formado quando um dos contornos de grão já existente ca-
minha para dentro do seu vizinho, deixando atrás de si uma região recristalizada e livre
de deformação. O contorno move-se para o interior do grão que tem a maior densidade
de discordâncias localizada. No segundo mecanismo de nUcleação os novos contornos
de grão são formados através do crescimento do subgrão, em regiões de variação
brusca da rede. Esse mecanismo parece predominar a altas deformações, com núcleos
aparecendo nos contornos de grão, nos contornos de macia, ou em inclusões ou partí-
culas de segunda fase. Os núcleos formam-se somente em regiões que, através da de-
formação heterogênea, tenham girado para uma orientação apreciavelmente diferente
daquela da matriz.
Seis importantes variáveis influenciam o comportamento da recristalização. São
elas: (I) quantidade de pré-deformação, (2) temperatura, (3) tempo, (4) tamanho de
grão inicial, (5) composição e (6) grau de recuperação ou poligonização anterior ao iní-
cio da recristalização. Já que a temperatura na qual a recristalização ocorre depende
das variáveis citadas acima, esta não é uma temperatura fixa como uma temperatura
de fusão. Para considerações práticas, a temperatura de recristalização pode ser defi-
nida como a temperatura na qual uma dada liga, num estado altamente trabalhado a
frio, recristaliza-se completamente em uma hora. A relação das variáveis dadas acima
com o processo de recristalização pode ser resumida2 como se segue:
I. É necessário uma quantidade mínima de deformação para provocar a recrista-
lização.
2. Quanto menor o grau de deformação, maior a temperatura requerida para
provocar a recristalização.
3. O aumento do tempo de recozimento diminui a temperatura de recristaliza-
ção. De qualquer modo, a temperatura é muito mais importante do que o tempo.
Dobrar o tempo de recozimento equivale aproximadamente a aumentar a tempe-
ratura de recozimento de 10°C.
4. O tamanho de grão final depende grande mente do grau de deformação e, em
menor escala, da temperatura de recozimento. Quanto maior o grau de deforma-
ção e menor a temperatura de recristalização, menor é o tamanho de grão recris-
talizado.
5. Quanto maior o tamanho do grão original, maior a quantidade de trabalho a
frio necessário para produzir uma temperatura de recristalização equivalente.
6. A temperatura de recristalização diminui com o aumento da pureza do metal.
Adições em ligas de solução sólida sempre aumentam a temperatura de recrista-
lização.
7. A quantidade de deformação necessária para produzir um comportamento de
recristalização equivalente aumenta com o aumento da temperatura de trabalho.
8. Para uma dada redução da seção transversal, diferentes processos de confor-
mação, tais como lami nação, estampagem, etc., produzem graus de deformações
efetivas um tanto diferentes. Por esta razão, comportamentos idênticos da re-
cristalização não podem ser obtidos.

1 Para uma discussão dos mecanismos e da cinética da recuperação, recristalização e crescimento do grão, ver
P. G. Shewmon, T r a l l s f o r m a r i o l l s ill M e r a ls , Capo 3, McGraw-Hill Book Company, New York, 1969; e tam-
bém R e c r y s r a l l i z a r i o l l G r a ill G r o lV lh , a lld T e x llir e s , American Society for Metais, Metais Park, Ohio, 1966.
'R .. F. Mehl. Recrystallization, em M e l l i l s H a l l d b o o k , pp. 259-268, American Society for Metais, Metais Park,
OhlO. 1948.

Document shared on www.docsity.com


Devido à força motriz para o crescimento de grão ser apreciavelmente mais baixa
do que a força motriz para a recristalização, o crescimento de grão irá ocorrer lenta-
mente em temperaturas nas quais a recristalização ocorre imediatamente. Entretanto,
o cresci mento de grão é fortemente dependente da temperatura, e será logo alcançada
uma região de crescimento de grão na qual os grãos aumentam de tamanho muito rapi-
damente. O crescimento de grão é consideravelmente inibido pela presença de uma
fina dispersão de partículas de segunda fase, que restringem o movimento dos contor-
nos de grão.
Sob certas condições. alguns dos grãos de um metal com grãos recristalizados
finos irão começar a crescer rapidamente às custas de outros grãos, quando aquecidos
a uma alta temperatura. Esse fenômeno é conhecido como c r e s c i m e n t o de grão anor-
m a l ou e x a g e r a d o . A força motriz para o crescimento exagerado do grão está na dimi-
nuição da energia de superfície, e não na energia armazenada, mas devido ao fato
deste fenômeno apresentar uma cinética similar à da recristalização, é normalmente
denominada r e c r is ta li;a ç (/o s e c lln d á r ia .

Nas primeiras discussões do encruamento de monocristais foi mostrado que geral-


mente a tensão necessária para reverter a direção de deslizamento num certo plano de
deslizamento é mais baixa do que a necessária para continuar o deslizamento na dire-
ção original. A direcionalidade do encruamento é chamada de efeito de Bauschinger.
A Fig. 6.32 é um exemplo do tipo da curva tensão-deformação que é obtida quando se
considera o efeito de Bauschinger. Este efeito é um fenômeno geral em metais policris-
talinos.
A tensão inicial de escoamento do material em tração é A . Se o mesmo material
dúctil fosse testado em compressão. a tensão de escoamento seria aproximadamente a
mesma. indicada no ponto B da curva pontilhada. Agora, consideremos que um novo
corpo de prova é carregado em tração. passando a tensão de escoamento até C ao
longo do caminho O - A - C . Se o corpo ue prova for então descarregado, ele seguirá o
caminho C - D o sendo desprezado um pequeno efeito de histerese elástica. Se agora uma
tensão compressiva for aplicada. o escoamento plástico irá começar numa tensão cor-
respondente ao ponto E . a qual é apreciavelmente mais baixa do que a tensão com-
pressiva de escoamento do material. Enquanto a tensão de escoamento em tração foi
aumentada pelo encruamento de A até C . a tensão de escoamento em compressão foi
diminuída. Este é o e f e i t o d e B O l l s c h i n g e r . O fenômeno é reversível: para o corpo de
prova originalmente tensionado plasticamente em compressão. a tensão de escoamento

Document shared on www.docsity.com


em tração seria diminuída. Uma maneira de se descrever a quantidade de efeito Baus-
chinger é pela deformação de Bauschinger (3 (Fig. 6.32). Essa é a diferença na defor-
mação entre as curvas de tração e compressão numa dada tensão.
Se o carregamento cíclico na Fig. 6.32 é completado pelo carregamento adicional
até o ponto F , então, descarregado e recarregado novamente em tração, é obtido um
circuito fechado de histerese mecânica. A área sob a curva do circuito depende da de-
formação adicional que se verifica além do limite de escoamento e do número de vezes
que o ciclo é repetido. Se o ciclo é repetido muitas vezes, pode ocorrer fratura por fa-
diga.
O efeito de Bauschi nger pode ter importantes conseqüências na conformação de
metais. Por exemplo, pode ser importante no dobramento de placas de aço', e resulta
num amoleciment02 quando metais severamente trabalhados a frio são submetidos a
cargas de sinal contrário. O melhor exemplo disto é o desempenho de barras estiradas
ou folhas laminadas pela passagem através de rolos que aplicam no material tensões de
dobramento alternadas. Tais operações de aplainamento com rolos podem reduzir a
tensão de escoamento e aumentar a elongação comparadas com o seu valor do estado
trabalhado a frio.
O mecanismo do efeito de Bauschinger ocorre na estrutura do estado trabalhado a
frio. Orowan3 mostrou que durante a deformação plástica as discordâncias vão se
acumulando em barreiras no emaranhado, e eventualmente formam células. Agora,
quando a carga for retirada, as linhas das discordâncias não se moverão apreciavel-
mente porque a estrutura está mecanicamente estável. Entretanto, quando a direção
do carregamento é invertida, algumas discordâncias podem mover-se por uma apreciá-
vel distância sob a ação de tensões cisalhantes baixas porque as barreiras atrás das
discordâncias não são tão fortes e próximas quanto as barreiras imediatamente à sua
frente. Isso provoca um nível de tensão mais baixa para o escoamento quando a dire-
ção de carregamento é invertida.

Um metal que tenha sofrido uma grande quantidade de deformação, como na lamina-
ção ou na trefilação de arames, desenvolve uma o r i e n t a ç ã o p r e f e r e n c i a l , ou textura,
na qual certos planos cristalográficos tendem a se orientar de uma maneira preferencial
com respeito à orientação de máxima deformação. A tendência dos planos de desliza-
mento num monocristal girarem paralelamente ao eixo de deformação principal já foi
considerada previamente. A mesma situação ocorre para agregados policristalinos,
mas a interação complexa entre os múltiplos sistemas de deslizamento faz com que a
análise para a situação de um policristal fique muito mais difícil. Uma vez que os grãos
individuais num agregado policristalino não podem girar livremente, ocorrerá dobra-
mento da rede e fragmentação.
Orientações preferenciais são determinadas por métodos de raios X. A figura de
raios X de um metal de grãos finos orientados aleatoriamente mostra anéis correspon-
dentes a diferentes planos, onde os ângulos satisfazem a condição de Bragg para a
reflexão. Se os grãos estão orientados aleatoriamente, a intensidade dos anéis é uni-
forme para todos os ângulos, mas se existir uma orientação preferencial, os anéis se
quebrarão em pequenos arcos, ou manchas. As áreas densas das fotografias de raios X
indicam a orientação dos pólos dos planos correspondentes ao anel de difração em
questão. A orientação dos grãos de uma orientação cristalográfica particular, com res-
peito à direção principal de trabalho, é melhor interpretada por u m a j i g u r a - p l í l o . Para

's. T. Roll"e. R. P. Haak e 1. H. Gross. T r a I / s . A m e r . S o c o M " c h . E I / g . . 1. B a s i c E I / g .. vol. 90. pp. 403-408,


1968. .
'N. H. Polakowsk.i. Am. Soe. T e s l. M a le r , P r o c . . vol. 63. p. 535.1963.
"E. Orowan. Causes and Etlects 01" Internal Stresses. em I n t " r n a l S lr " S S " S a l/d F a lig u e in M e Ia /s . EIsevier Pu-
blishing Company. New York. 1959.

Document shared on www.docsity.com


u m a d e s c riç ã o d o s m é to d o s d e d e te rm in a ç ã o d e fig u ra s d e p ó lo e a c o m p ila ç ã o d a
fig u ra s d e p ó lo , d e s c re v e n d o a s te x tu ra s d e d e fo rm a ç ã o e m m u ito s m e ta is , v e r B a r-
re tt. 1
U m a o rie n ta ç ã o p re fe re n c ia l p o d e s e r d e te c ta d a c o m ra io s X a p ó s u m a re d u ç ã o d e
2 0 a 3 0 p o r c e n to d a á re a tra n s v e rs a l p o r tra b a lh o a frio . N e s s e e s tá g io d a re d u ç ã o .
e x is te u m a p re c iá v e l e s p a lh a m e n to n a o rie n ta ç ã o d o s c ris ta is in d iv id u a is c o m re la ç ã o à
o rie n ta ç ã o id e a l. O e s p a lh a m e n to d im in u i c o m o a u m e n to d a re d u ç ã o , a té q u e c o m
c e rc a d e 8 0 a 9 0 p o r c e n to d e re d u ç ã o , a o rie n ta ç ã o p re fe re n c ia l e s tá e s s e n c ia lm e n te
c o m p le ta . O tip o d e o rie n ta ç ã o p re fe re n c ia l, o u te x tu ra d e d e fo rm a ç ã o , q u e s e d e s e n -
v o lv e d e p e n d e p rin c ip a lm e n te d o n ú m e ro e tip o d e s is te m a s d e d e s liz a m e n to d is p o n í-
v e is e d a s d e fo rm a ç õ e s p rin c ip a is . O u tro s fa to re s q u e p o d e m s e r im p o rta n te s s ã o a
te m p e ra tu ra d e d e fo rm a ç ã o e o tip o d e te x tu ra p re s e n te a n te s d a d e fo rm a ç ã o .
A te x tu ra d e d e fo rm a ç ã o m a is s im p le s é p ro d u z id a p e la tre fila ç ã o o u la m in a ç ã o d e
u m a ra m e o u b a rra . E la é g e ra lm e n te d e n o m in a d a textura de fibra d e v id o a s u a s e m e -
lh a n ç a c o m o a rra n jo n a tu ra l d e m a te ria is fib ro s o s . É im p o rta n te n o ta r q u e u m a d is tin -
ç ã o d e v e s e r fe ita e n tre o fibralllento crísta/ográfico. p ro d u z id o p o r u m a re o rie n ta ç ã o
c ris ta lo g rá fic a d o s g rã o s d u ra n te a d e fo rm a ç ã o . e o fibramento mecânico, o q u a l é
o b tid o p e lo a lin h a m e n to d e in c lu s õ e s . c a v id a d e s e c o n s titu in te s d e s e g u n d a fa s e n a
d ire ç ã o p rin c ip a l d o tra b a lh o m e c â n ic o . O s fib ra m e n to s m e c â n ic o s e c ris ta lo g rá fic o s
s ã o fa to re s im p o rta n te s n a p ro d u ç ã o d e p ro p rie d a d e s m e c â n ic a s d ire c io n a is d o s p e rfis
m e tá lic o s tra b a lh a d o s p la s tic a m e n te . ta is c o m o c h a p a s fin a s o u b a rra s ." Is s o s e rá d is -
c u tid o n o C a p o 9 .
N u m a te x tu ra id e a l d e a ra m e s . u m a d ire ç ã o c ris ta lo g rá fic a d e fin id a fic a p a ra le la
a o e ix o d o a ra m e . e a te x tu ra é s im é tric a c o m re la ç ã o a o e ix o d o a ra m e o u d a fib ra .
M e ta is c ú b ic o s d e c o rp o c e n tra d o tê m u m a te x tu ra d e fib ra s c o m a d ire ç ã o (1 1 0 ) p a ra -
le la a o e ix o d o a ra m e . M e ta is c ú b ic o s d e fa c e c e n tra d a p o d e m te r u m a te x tu ra d e
fib ra s d u p la te n d o ta n to a d ire ç ã o (1 1 1 ) q u a n to a (1 0 0 ) p a ra le la s a o e ix o d o a ra m e . A
te x tu ra ( I 1 1 ) é fa v o re c id a p e lo d e s liz a m e n to c ru z a d o fá c il e p re d o m in a e m m e ta is c o m
a lta e n e rg ia d e fa lh a d e e m p ilh a m e n to . ta l c o m o o a lu m ín io . A p ra ta e o la tã o , c o m
b a ix a e n e rg ia d a fa lh a d e e m p ilh a m e n to . tê m u m a te x tu ra p re d o m in a n te m e n te (1 0 0 ).
E m m e ta is h e x a g o n a is c o m p a c to s . o s p la n o s b a s a is s o fre m u m a ro ta ç ã o d e m a n e ira
q u e a d ire ç ã o (lo fO ) c o in c id e c o m o e ix o d o a ra m e (p a ra o m a g n é s io ).
A te x tu ra d e d e fo rm a ç ã o d e u m a c h a p a fin a p ro d u z id a p o r la m in a ç ã o é d e s c rita
p e lo s p la n o s c ris ta lo g rá fic o s p a ra le lo s à s u p e rfíc ie d a c h a p a b e m c o m o a s d ire ç õ e s
c ris ta lo g rá fic a s d e s s e s p la n o s q u e s ã o p a ra le lo s à d ire ç ã o d e la m in a ç ã o . D u a s te x tu ra s
d e la m in a ç ã o " p re d o m in a m e m m e ta is e lig a s c ú b ic a s d e fa c e c e n tra d a . D u ra n te a
d e fo rm a ç ã o in ic ia l d e s e n v o lv e -s e u m a te x tu ra { lia } (1 1 2 ) (te x tu ra típ ic a d e la tã o -a ),
m a s s e o c o rre in te n s o d e s liz a m e n to c ru z a d o . e s ta m u d a p a ra u m a te x tu ra { lI2 } (1 Il)
(te x tu ra típ ic a d e c o b re ) c o m o p ro s s e g u im e n to d a d e fo rm a ç ã o p lá s tic a . E x is te u m a
b o a c o rre la ç ã o · e n tre a e n e rg ia d a fa lh a d e e m p ilh a m e n to (d ific u ld a d e re la tiv a p a ra o
d e s liz a m e n to c ru z a d o ) e o tip o d e te x tu ra . A lta e n e rg ia d e fa lh a d e e m p ilh a m e n to e
a lta te m p e ra tu ra d e d e fo rm a ç ã o fa v o re c e m a e s tru tu ra típ ic a d o c o b re , { 1 1 2 } (1 1 I). E m
m e ta i' c ú b ic o s d e c o rp o c e n tra d o . a te x tu ra d e la m in a ç ã o p re d o m i n a n te c o n s is te e m
p la n o s { I a O } o rie n ta d o s p a ra le la m e n te a o p la n o d a c h a p a c o m a d ire ç ã o (I 1 0 ) p a ra le la
à d ire ç ã o d e la m in a ç ã o . m a s o u tro s e le m e n to s d e te x tu ra p o d e m s e r e n c o n tra d o s , ta is
c o m o { 1 1 2 } (1 1 0 ) e { III} (1 1 2 ). P a ra m e ta is h e x a g o n a is c o m p a c to s , o p la n o b a s a l
te n d e a s e r p a ra le lo c o m o p la n o d e la m in a ç ã o c o m (2110) a lin h a d o c o m a d ire ç ã o d e
la m in a ç ã o .
A o rie n ta ç ã o p re fe re n c ia l re s u lta n te d a d e fo rm a ç ã o p lá s tic a é fo rte m e n te d e p e n -

'c. S . B a rre tt e T . B . M a s s a ls k i. The S/ruc/llre o/ Me/ais, 3 a e d ., C a p s . 2 0 e 2 1 , M c G ra w -H ill B ook C om -


p a n y . N e w Y o rk . 1 9 6 6 .
'0 . V . W ils o n . Mel. Techl1o/ .. v o l. 2 . p p . 8 -2 0 . 1 9 7 5 .
" R . E . S m a llm a n . J. 1m/. Mel.. v o l. 8 4 . p p . 1 0 -1 8 . 1 9 5 5 -1 9 5 6 .
'I. S . O ila m o re e W . T . R o b e rts . Me/ali. ReI'.. v o l. 1 0 . n .o 3 9 . 1 9 6 5 .

Document shared on www.docsity.com


dente dos sistemas de deslizamento e de maclação disponíveis para a deformação, mas
não é geralmente afetada pelas variáveis do processo, tais como ângulo da matriz,
diâmetro do rolo, velocidade do rolo e redução por passe. As variáveis mecânicas mais
importantes são a geometria do escoamento e a quantidade de deformação (redução).
Então, a mesma textura de deformação é produzida se uma barra de seção circular é
feita por laminação ou trefilação.
A recristalização de um metal trabalhado a frio geralmente produz uma orientação
preferencial que é diferente e mais forte do que a existente no metal deformado. Isso é
chamado de t e x t u r a d e r e c o z i m e n t o , ou t e x t u r a d e r e c r i s t a l i z a ç â o . Um exemplo mar-
cante é a textura cúbica no cobre, onde o plano ( 100) fica paralelo ao plano de lamina-
ção com a direção (001) paralela à direção de laminação. Já que a existência de uma
textura de recristalização depende da orientação preferencial dos núcleos dos grãos
recristalizados, a textura resultante é fortemente dependente da textura produzida pela
deformação. Outras variáveis importantes que afetam à textura de recozimento são a
composição, o tamanho de grão inicial, a orientação dos grãos da liga, a temperatura
de recozimento e o tempo. Geralmente o fator que favorece a formação de um grão
fino recristalizado também favorece a formação de uma orientação essencialmente
aleatória dos grãos recristalizados. Reduções a frio moderadas e temperaturas baixas de
recozimento são benéficas.
Algumas vezes a formação de uma forte textura numa chapa fina acabada é bené-
fica. Um dos melhores exemplos são as chapas finas de ferro-silício com orientação
cúbica utilizadas em transformadores onde as perdas de energia são minimizadas de-
vido à orientação dos grãos na direção fácil de magnetização. O uso da textura a fim
de resistir ao escoamento em placas de titânio foi discutido no Capo 3, e no Capo 20
consideraremos em detalhe como a textura apropriada pode aumentar grandemente a
quantidade da estampagem profunda dos aços de baixo carbono. Por outro lado, uma
orientação fortemente preferencial resultará numa anisotropia das propriedades mecâ-
nicas no plano da chapa fina. Isso pode resultar numa resposta desigual do material
durante as operações de fabricação e conformação, e deve ser considerado como um
fator no projeto.

Cottrell, A. H: "An Introduction to Metallurgy," Edward Arnold (Publishers) Lld.,


London, 1967.
Felbeck, D. F: "Introduction to Strengthening Mechanisms," Prentice-Hall, Inc., Engle-
wood Cliffs, N.J., 1968.
Honeycombe, R. W. K: "The Plastic Deformation of Metais," Edward Arnold (Pub-
Iishers) Ltd., London, 1968.
Kelly, A: "Strong Solids," 2nd ed., Oxford University Press, London, 1974.
McLean, D: "Mechanical Properties of MetaIs," John Wiley & Sons, Inc., New York,
1962.
Peckner, D. (ed): "The Strengthening of MetaIs," Reinhold Publishing Corporation,
New York, 1964.
Reed-HilJ, R. E: "Physical Metallurgy PrincipIes," 2d ed., D. Van Nostrand Company,
Inc., New York, 1973.
Tegart, W. J. McG: "Elements of Mechanical Metallurgy," The Macmillan Company,
New York, 1966.
Wyatt, O. H. and D. Dew-Hughes: "MetaIs, Ceramics and Polymers," Cambridge
University Press, London, 1974.
Zackay, V. F. (ed): "High Strength MateriaIs," John Wiley & Sons, Inc., New York,
1965.

Document shared on www.docsity.com


Fratura

Fratura é a separação ou fragmentação de um corpo sólido em duas ou mais partes,


sob a ação de uma tensão. O processo de fratura pode ser considerado como consti-
tuído de duas partes, início de trinca e propagação de trinca. A fratura pode ser classi-
ficada em duas categorias gerais, fratura frágil e fratura dúctil. A fratura dúctil é carac-
terizada peja ocorrência de uma apreciável deformação plástica antes e durante a pro-
pagação da trinca. A superfície de fratura apresenta normalmente uma quantidade
considerável de deformação. A fratura frágil nos metais é caracterizada pela rápida
propagação da trinca, com nenhuma deformação macroscópica e muito pouca micro-
deformação, similar à clivagem de cristais iônicos. A tendência para a fratura frágil
aumenta com a diminuição da temperatura, com o aumento da taxa de deformação, e
com a condição triaxial de tensões (geralmente obtida por um entalhe). A fratura frágil
deve ser evitada a todo custo, porque ela ocorre sem nenhuma advertência e normal-
mente provoca conseqüências desastrosas.
Este capítulo apresenta um quadro amplo dos fundamentos das fraturas dos me-
tais. Uma vez que a maioria das pesquisas tem-se voltado para o problema da fratura
frágil, este tópico será dado com maior predominância. Os aspectos de engenharia da
fratura frágil serão considerados detalhadamente no Capo 14. A fratura ocorre de ma-
neiras características, dependendo do estado de tensões, da taxa de aplicação da ten-
são e da temperatura. A menos que se diga o contrário, admite-se neste capítulo que a
fratura é produzida pela aplicação de uma tensão uniaxial. A fratura sob condições
mais complexas será considerada nos próximos capítulos. Exemplos típicos são fratura
por torção (Cap. 10), fadiga (Cap. 12), fluência (Cap. 13) e fratura frágil a baixas
temperaturas, fragilização por revenido, ou fragilização por hidrogênio (Cap. 14).

Os metais podem apresentar muitos tipos diferentes de fratura, dependendo do mate-


rial, do estado de tensões e da taxa de carregamento. As duas categorias amplas de
fratura dúctil e frágil já foram consideradas. A Fig. 7.1 ilustra esquematicamente al-
guns tipos de fratura em tração que podem ocorrer nos metais. Uma fratura frágil (Fig.
7 . I a ) é caracterizada pela separação normal à tensão de tração. Externamente não há
evidência de deformação, entretanto com a análise da difração de raios X é possível
detectar uma camada fina de metal deformado na superfície de fratura. A fratura frágil

Document shared on www.docsity.com


Fig. 7.1 Tipos de fratura observados em metais su-
jeitos a tensão uniaxial. ( a ) Fratura frágil de mono-
cristais e policristais; ( b ) fratura cisalhante em mo-
nocristais dúcteis; ( c ) fratura completamente dúctil
em policristais; ( d ) fratura dúctil em policristais.

tem sido observada em metais c.e.e. e h.c., mas não em metais c.f.c., a menos que
existam fatores contribuindo para a fragilização dos contornos de grão.
A fratura dúctil pode assumir várias formas. Monocristais h.c. podem deslizar em
planos basais sucessivos até o cristal finalmente se separar por cisalhamento (Fig.
7.th). Materiais policristalinos de metais muito dúcteis, como o ouro ou chumbo,
podem ter a sua seção reduzida a um ponto, antes que se rompam (Fig. 7.tc). Na
fratura em tração de metais moderadamente dúcteis, a deformação plástica pode pro-
duzir uma região de deformação localizada (pescoço) (Fig. 7 .td ) . A fratura começa no
centro do corpo de prova e depois se propaga por uma separação cisalhante ao longo
das linhas pontilhadas na Fig. 7 .ld . Isto resulta na fratura conhecida como "taça e
cone".
As fraturas são classificadas com respeito a várias características, tais como de-
formação necessária para ocorrer fratura, modo cristalográfico de fratura e aparência
da fratura. Gensamer1 resumiu da seguinte maneira os termos comumente usados para
descrever a fratura:

Modo cristalográfico Cisalhamento ' Clivagem


Aparência da fratura Fibrosa Granular
Deformação para fratura Dúctil Frágil

Uma fratura por cisalhamento ocorre como resultado de um deslizamento intenso


no plano de deslizamento ativo. Esse tipo de fratura é provocado por tensões cisalhan-
teso A fratura por clivagem é controlada pela tensão de tração atuando normalmente ao
plano de clivagem. A superfície de fratura que é causada por cisalhamento aparenta
ser, quando observada com pequenos aumentos, cinza e fibrosa, enquanto a fratura
por clivagem aparenta ser brilhante ou granular, devido à reflexão da luz nas superfí-
cies lisas de clivagem. As superfícies de fratura freqüentemente consistem numa mis-
tura de fratura fibrosa e granular, e é comum nos referirmos à percentagem da área
superficial ocupada por cada uma dessas categorias. Com base no exame metalográ-
fico, a fratura em amostras policristalinas pode ser classificada como t r a n s g r a n u l a r (a
trinca se propaga através dos grãos) ou i n t e r g r a n u l a r (a trinca se propaga ao longo dos
contornos de grão). A fratura dúctil é aquela que apresenta um considerável grau de
deformação. O limite entre a fratura dúctil e a fratura frágil é arbitrário e depende da
situação a ser considerada. Por exemplo, o ferro fundido nodular é dúctil quando com-
parado com o ferro fundido comum, mas seria considerado frágil quando comparado
com o aço doce. Como um exemplo adicional, um corpo de prova com um entalhe

1M. Gensamer, General Survey of lhe Problem of Fatigue and Fraclure, em F a tig u e , a n d F r a c tu r e o f M e ta is ,
lohn Wiley & Sons, Inc., New York, 1952.

Document shared on www.docsity.com


profundo apresentará pouca deformação microscópica ainda que a fratura possa ocor-
rer por cisalhamento.

Os metais são de grande valor tecnológico, principalmente devido às suas resistências


elevadas combinadas com um certo grau de plasticidade. Em termos básicos, a resis-
tência é devida às forças de coesão entre os átomos. Em geral, forças coesivas altas
são relacionadas com grandes constantes elásticas, altos pontos de fusão e coeficientes
de expansão térmica pequenos. A Fig. 7.2 mostra a variação da força coesiva entre
dois átomos em função da distância que os separa. Essa curva é resultante das forças
atrativas e repulsivas entre os átomos. O espaço interatômico para o material não-
deformado é indicado por a o . Se o cristal é submetido a uma carga trativa, a separação
entre os átomos aumenta. A força repulsiva diminui mais rapidamente com o aumento
da separação do que a força de atração, de maneira que uma força líquida entre os
átomos contrabalança a carga trativa. Conforme a carga de tração é aumentada, a
força repulsiva continua a diminuir. Atinge-se um ponto no qual a força repulsiva é
desprezível e a força atrativa está diminuindo devido ao aumento da separação dos
átomos, o que corresponde ao máximo na curva que é igual à resistência coesiva teó-
rica do material.
Pode-se obter uma boa aproximação da resistência coesiva teórica se admitimos
que a curva da força coesiva possa ser representada por uma curva seno'idal.

2nx
(J = (JmáxsenT (7-1)

onde a - m á x . é a resistência coesiva teórica e x = a - a o é o deslocamento do espaça-


mento atômico numa rede com comprimento de onda À. Para pequenos deslocamen-
tos, s e n x = x , e

T
2nx
(J = (Jmh (7-2)

Se também restringimos a consideração para um sólido elástico frágil, então, da Lei de


Hooke,

Ex
(J = Ee =- (7-3)
ao

À. E
(Jmáx= 2 n ~ (7-4)

Fig. 7.2 A força coesiva como uma função da separa-


ção entre os átomos.

Document shared on www.docsity.com


Quando a fratura ocorre num sólido frágil, todo o trabalho gasto na produção da fra-
tura vai para a criação das duas novas superfícies. Cada uma dessas superfícies tem
uma e n e r g i a s u p e r f i c i a l d e Y s ergs por centímetro quadrado. O trabalho realizado por
unidade de área de superfície, na criação da fratura, é a área sob a curva tensão-
deslocamento.

) '/2 2nx ÀCT '


Uo =
fo CT'
max
sen -
À
dx = ~
n

Mas essa energia é igual à energia necessária para criar as duas novas superfícies de
fratura.

ÀCTmáx 2
-- = Ys
n

(J max
, = (E Y s) Y2

ao

É interessante notar que a resistência coesiva teórica de um sólido frágil pode ser
expressa de maneira tão simples em termos de tais parâmetros básicos. Admitindo
valores típicos para esses parâmetros e substituindo-se na Eq. (7.7),

E = 1,02 X 10 4 kgf/mm 2 (10 12 dyn/cm 2, 1 4 ,5 x 10 6 psi)


ao = 3 x 10-8 cm
Y s = 1()3 erg/cm 2 ( 5 ,7 x 10-3 in-Ib/in 2)

dando um valor de U " m á x . = 1,8 X 10 3 kgf/mm 2 (l,82 x 10 11 dyn/cm 2, 2,6 x 10 6 psi).


Medindo-se em termos de fração do módulo elástico, U " m á x . = E / 5 ,5 . Usando-se outros
valores dos parâmetros e outras espressões para a curva força-deslocamento, as quais
são mais complicadas do que a aproximação da curva senoidal, isto resulta em estima-
tivas de U " m á x . variando de E / 4 a E / I 5 . Uma escolha conveniente poderia ser U " m ú x . =
E /IO .
Experiências com aços de alta resistência mostram que a resistência de fratura de
210 kg/mm 2 é um valor excepcional. Materiais de engenharia típicos têm tensões de
fratura que são de 10 a 1.000 vezes menores do que os valores teóricos. Os únicos
materiais que se aproximam do valor teórico são pequeníssimos w h i s k e r s metálicos
livres de defeitos e fibras de sílica de diâmetro muito pequeno. Isso nos leva a concluir
que trincas ou falhas são responsáveis pelo fato da resistência à fratura nos materiais
de engei1hãria ser mais baixa do que a resistência teórica.
--Ignorando por enquanto a questão da origem das trincas, vemos que é uma exten-
são lógica da idéia de concentração de tensões (Sec. 2.16) a explicação de como a
presença de trincas! resultará numa redução da tensão de fratura. A Fig. 7.3 mostra
uma trinca e1ípt~ca fina numa placa infinitamente larga. A trinca tem um comprimento

Document shared on www.docsity.com


:,~ l;p n Q"-,
I, 2c ,I

2c e um raio de curvatura p, nos seus extremos. A tensão máxima na ponta da trinca


O "m á x ' é dada porl ~

Essa aproximação admite que a tensão coesiva teórica O " m á x . pode ser atingida local-
mente na ponta da trinca, enquanto que a tensão média O " é muito mais baixa. Entre-
tanto. igualando as Eqs. (7.7) e (7.8), podemos achar a equação para O " que é a tensão
nominal de fratura O " f do material contendo trincas.

_ (E Y s) Y,
(fI - -
4c

Substituindo-se uma vez mais por valores práticos na Eq. (7.9),


E = 10 dyn/cm 2,
12 Ys = 10 3 erg/cm 2, ao = 2,5 x 1O~8 cm

Então, vemos que num sólido frágil uma'pequeníssima trinca produz uma grande dimi-
nuição da tensão de fratura.

I C.E. Inglis, T r a n s . l n s / . N a v . A r c h ir ., vaI. 55, pt. I, pp. 219-230,1913. A Eq. (7.8) é equivalente à Eq. (2.109)
desde que para uma elipse p = b 'l a e a = c na Fig. 7.3.

Document shared on www.docsity.com


Griffith' propôs a primeira explicação para a discrepância observada entre a resistên-
cia de fratura dos cristais e a resistência coesiva teórica. A teoria de Griffith é apli-
cada, na sua forma original, apenas para um material frágil perfeito tal como o vidro.
Entretanto, as suas idéias tiveram grande influência no estudo da fratura apesar de não
poderem ser empregadas diretamente para os metais.
)l'." "@riffith propôs que um material frágil tem uma população de trincas finas que
produzem uma concentração de tensões em regiões localizadas de uma grandeza sufi-
ciente para atingir o valor teórico da resistência coesiva, mesmo sob a ação de uma
tensão nominal bem inferior ao valor da tensão teóric;] Quando uma das trincas se
expande para uma fratura frágil ela produz um aumento cfa área superficial das faces da
trinca, requerendo para tal uma energia superior à força coesiva dos átomos, ou di-
zendo de outra forma, requer um aumento na energia superficial. A origem do aumento
da energia superficial está na energia elástica de deformação que é liberada quando a
trinca se propaga. Griffith estabeleceu o seguinte critério para a propagação de uma
trinca: u m a t r i n c a s e p r o p a g a r á q u a n d o a d i m i n u i ç ã o d a e n e r g i a e l á s t i c a d e d e f o r m a -
ç ã o fo r p e lo m enos ig u a l à e n e r g ia n e c e s s á r ia para c r ia r a n o v a s u p e ljíc ie d a tr in c a .
Esse critério pode ser usado para determinar o valor mínimo da tensão de tração que
causará a propagação de uma trinca de um certo tamanho, como uma fratura frágil.
Consideremos o modelo de trinca mostrado na Fig. 7.4. A espessura da placa é
desprezível, de maneira que o problema pode ser tratado como sendo relativo a um
estado plano de tensões. Considera-se que as trincas apresentam seção transversal
elíptica. Para uma trinca no interior do material o comprimento é 2 c , enquanto que
para uma trinca na borda é c. O efeito de ambos os tipos de trinca na fratura é o
mesmo. Inglis2 determinou a distribuição de tensões de uma trinca elíptica. A forma-
ção de uma trinca provoca uma diminuição da energia de deformação. A energia de
.JLeformação elástica por unidade de espessura da placa é igual a ~ - --
2
1 tC (J 2
U E= ---
E

1A. A. Griffith, P h i l o s . T r a n s . R . S o c o L o n d o n . vol. 221A, pp. 163-198, 1920; F im 1 m . C o n g r . A p p l. M e c h .,


p~t, 1924, p. 55, este documento fOI reedltado com anotações em T r a n s . A m . S o c o M e l., vol. 61, pp. 871-906,

'. C. E. Inglis, o p ~ c il: ; a Eq. (7.11) pode ser entendida se nós consideramos que a energia de deformação
Slt/a.se numa regJaO cIrcular de ralO c em torno da trinca. A energia de deformação por unidade de volume é
rr 2 E , de maneira que U , . por urudade de espessura é r r ( 7 T c ') / 2 E . O fator Y.zcai para o caso de uma anãlise mais
ngorosa.

Document shared on www.docsity.com


onde a é a tensão de tração normal à trinca de comprimento 2 c . A expressão tem um
sinal n'e~ativo porgy_~c~escimento da trinca libera energia elástica de deform-ªção. A
energia a superfície devido à presença da trinca é

De acordo com o critério de Griffith, a trinca se propagará sob a ação de uma tensão
aplicada constante a se um aumento in-cremental do comprimento da trinca não produ-
zir mudança na ene~gia total do sistema, isto é, o aumento da energia superficial é
-compensado por uma diminuição da energia elástica de deformação.
,.
Z 2
dM ! =O =~ (4C Y _ 7 té ( )

dc dc S E

27tcu 2
4'1 ---
S E =0

u = e::}h
A Eq. (7.14) dá a tensão necessária para a propagação de uma trinca num ,material
frágil em função do tamanho da microtrinca. Nota-se que essa equação indica que a
tensão de fratura é inversamente proporoional' à raiz quadrada do comprimento da
trinça, portanto um aumento do comprimento da trinca por um fator 4 reduz a tensão

*
de fratura pela metade.
Para uma placa que é espessa comparada com o comprimento da trinca (deforma-
ção plana), a equação de Griffith é dada por

A análise do caso tridimensional, onde a trinca é um esferóide muito achatado resulta l


,

somente numa modificação da constante na equação de Griffith. Desta forma, a sim-o/'


plificação de se considerar somente o caso bidimensional não introduz um grande erro.
Vamos analisar rapidamente a equação da tensão de fratura derivada de um ponto
de concentração de tensões, Eq. (7.9), e a equação de Griffith, Eq. (7.14). A Eq. (7.9)
pode ser escrita como

u = (2E Ys 7t P t )Yz
r 7tC 800

Quando Pc = 3 0 0 , essa equação se reduz à equação de Griffith. Então, Pc = 3 0 0 é o


limite inferior do raio efetivo de uma trinca elástica. Em outras palavras, a r não pode
se aproximar de zero, à medida que p , se aproxima de zero. Quando P t < 3ao a tensão
para produzir fratura frágil é dada pela Eq. (7.14), mas quando P , > 3ao a tensão de
fratura é dada pela Eq. (7.9).
A equação de Griffith mostra que a tensão de fratura é fortemente dependente do
comprimento da trinca. A teoria de Griffith prevê satisfatoriamente a tensão de fratura

Document shared on www.docsity.com


de um material completamente frágil como o vidro. No vidro, a partir da Eq. (7.14),
são colocados valores razoáveis do comprimento da trinca de cerca de I J L m . Para
cristais de zinco, a teoria de Griffith prevê um comprimento de trinca crítico da ordem
de vários milímetros. Esse comprimento médio de trinca poderia ser facilmente maior
do que a espessura da amostra, e portanto a teoria não se aplica.
A importância do termo energia superficial pode ser demonstrada pela obtenção
da fratura em soluções de ativação química das superfícies. A tensão de fratura do
gelo, quando testado em dobramento no ar, é de cerca de 10,6 kg/cm 2. Se o corpo de
prova de dobramento for pulverizado com cloreto de metila, para diminuir Y s, a tensão
de fratura será reduzida para cerca de 5,3 kg/cm 2. A sensibilidade da fratura de sólidos
frágeis às condições de superfície tem sido denominada E feito d e Jo ffe '. O uso de
agentes ativadores da superfície faz com que o broqueamento de rochas se torne mais
fácil. Em sistemas metalúrgicos a energia superficial pode ser reduzida pela adsorção
superficial de um elemento em solução sólida. Por exemplo, a adição de 0,5% de Sb ao
eu reduz a energia superficial de cerca de 1.800 para 1.000 erg/cm 2• Uma vez que a
concentração de soluto cresce nos contornos de grão, isso pode levar a uma fragiliza-
ção intergranular.

Está bem determinado que, mesmo os metais que fraturam de uma maneira completa-
mente frágil, sofrem alguma deformação plástica antes da fratura. Esse fato é substan-
ciado por estudos de difração de raios X da superfície de fratura2 e por estudos meta-
lográficos da fratura (ver Seco 7.7). Portanto, a equação de Griffith para a fratura não
se aplica para metais. Uma maneira de constatar que a tensão de fratura de um mate-
rial que sofre deformação plástica antes da fratura é maior que a de um material total-
mente frágil (elástico) é considerar a Eq. (7.9). Seria de se esperar que a deformação
plástica nas extremidades da trinca diminuísse a agudez da ponta da trinca e aumen-
tasse P t> aumentando assim a tensão de fratura .•.•
'
Orowan 3 sugeriu que a equação de Griffith poderia ficar mais compatível com a
fratura frágil em metais, através da adição de um termo YP' expressando o trabalho
plástico necessário para aumentar as paredes da trinca. ~

O termo da energia superficial pode ser desprezado uma vez que estimativas do termo
do trabalho plástico são de 10 5 a 10 6 erg/cm 2, comparadas com o valor Y s de cerca de
1.000 a 2.000 erg/cm 2•
Uma aproximação similar feita por Irwin 4 criou a fundamentação para a impor-
tante área da m ecâ n ica d a fra tu ra . Irwin propôs que a fratura ocorre a uma tensão de
fratura correspondente a um valor crítico d a Jo rça d e exp a n sã o d a trin ca W c onde a >

Eq. (7.16) é reescrita como --

I A. F. Joffe, T h e P h ysics o f C rysra ls, McGraw-HiU Boak Company, New York, 1928.
2 E. P. Klier. T ra n s. A m . S o e. M et., vol. 43, pp. 935-957,1951; L. C. Chang,J. M ech . P h ys. S o lid s, vol. 3, pp.
212-217, 1955; D. K. Felbeck e E. Orowan, W eld in g 1 . , vol. 34, pp. 570s-757s, 1955.
3 E. Orowan, em F a tig u e a n d F ra ctu re o f M eca ls, Symposium at Massachusetts Institute af Technology, John
Wiley & Sons, Inc., New York, 1950.
4 G. R. Irwin, Fracture, em E n cyclo p ed ia o f P h ysies, vol. VI, Springer, Heidelberg, 1958; G. R. !rwin, J. A.
Kies e H. L. Smith, A m . S o e. T est. M a ter. P ro e .. vaI. 58, pp. 640-660, 1958.

Document shared on www.docsity.com


p

t
o

/
E x te n -
sômetro

A for a deEI2ansão da trinca C § tem unidades de (kgf-mm/mm 2). C § pode ser também
considerada a ta x a -d e e n ú g iã dlideform àçãõ,- isto -é, a taxa de perda de energia do
campo de tensões elásticas para o processo inelástico de propagação da taxa. Nota-se
que a agudeza da trinca p/c não aparece na Eq. (7.17). De fato, esta é parte do valor C §c
que está associado com um material particular.
A Fig. 7.5 mostra como C § pode ser medida. Um corpo de prova com um único
entalhe na borda é carregado uniaxialmente através de pinos. O entalhe mais agudo
possível é produzido pela introdução de uma trinca de fadiga na raiz do entalhe mecâ-
nico. O deslocamento dessa trinca em função da força axial é medido com a pinça de
um extensômelro presa na entrada do entalhe. Curvas carga versu s deslocamento são
determinadas para diferentes comprimentos de entalhe, onde P = M ô . A energia de
deformação elástica é dada por

I p2
V o = -P o =-
2 2M

oVo I P OP
é § = --= ----
oc 2 M oc
é§ = ~ p2 o ( lf M )
2 oc

Document shared on www.docsity.com


Fig. 7.6 Modelo para as equações para as tensões
num ponto perto de uma trinca.

Desta forma, 'f i é uma função da carga e da inclinação da curva! (l/M ) versu s compri-
mento da trinca. O valor crítico da força de propagação da trinca 'fie é calculado 2 pela
carga na qual a curva P -O desvia-se abruptamente da linearidade.
A distribuição de tensões para uma chapa fina de um sólido elástico na ponta da
trinca, em termos das coordenadas indicadas na Fig. 7.6, é dada pelas Eqs. 7.20.

(J :c = (J ( C)2,. 'h [
cos 28 ( I - sen 28 sen"2
38)]

(J y = (J ( C)2r 'h [
cos 8 ( I +sen sen"2
2
8 38)]
2
=
C) 'I:, [ 8 8 38]
sen - cos - cos -
"t
"y
(J
( 2r
-
2 2 2

onde (j = tensão total nominal = P /IV t. Estas equações são válidas para c > r > p.

Para uma orientação diretamente à frente da trinca (O = O),


'12
(J = (J = (J .!!- )
:c y ( 2r

Irwin mostrou que as Eqs. (7.20) indicam que as ten sô es lo ca is perto da trinca
dependem do produto da tensão nominal (j e da raiz quadrada da metade do compri-
mento da trinca. Ele chamou essa relação de fa to r d e in ten sid a d e d e ten sô es K , onde
para uma trinca aguda elástica numa placa infinitamente larga, K é definido como

Nota-se que K tem dimensões incomuns de kg/mm ou psiVíri. ou MN/m ou 3 2


/ ,
3 2
/ ,

MPaYmm. Usando-se essa definição para K , as equações para o campo de tensões na


ponta da trinca podem ser escritas como

(J :c = K [COs~(I-sen~sen38)]
J2nr 2 2 2

, A mesma equação seria desenvolvida para 't i quando a placa fosse submetida a uma carga constante P , . só que
agora V . aumenta com c . enquanto que para o caso de garra fixa. V . diminui com o comprimento da trinca.
, Ver Capo 14 para detalhes adicionais sobre o teste de tenacidade à fratura.

Document shared on www.docsity.com


uy =
K
J2nr
[
cos2
8 38)]
8 ( I +sen2sen"2
K
't"xy = J2nr
( 8 8 38)
sen 2 cos 2 cos "2

o fator de intensidade de tensões K é uma maneira conveniente d e descrever a distri-


buição de tensões em torno da falha. Se duas falhas de diferente geometria têm o
mesmo valor de K , então o campo de tensões em torno de cada uma das falhas é
idêntico. Os valores de K para muitas geometrias das trincas e para muitos tipos de
carregamento podem ser calculados com a teoria da elasticidade. Para o caso geral, o
l

fator de intensidade de tensões K é dado por

onde a é um parâmetfo que depende do corpo de prova e da geometria da trinca. Para


servir de exemplo, a Eq. 7.24 mostra o valor de K para uma placa de espessura 111
carregada em tração com uma trinca de comprimento 2c localizada no centro:

- (111 n c)\tí
K = uJ nc - tan -
nc w

Em relação com o fator de intensidade de tensões existem vários modos de de-


formação que poderiam ser aplicados para a trinca, os quais têm sido padronizados
como mostra a Fig. 7.7. O modo I, modo de abertura da trinca, refere-se à tensão
trativa aplicada na direção y normal às faces da trinca. Esse é o modo usual para o
teste de tenacidade à fratura, e um valor crítico da intensidade de tensões determinada
para esse modo seria designado por K 1 c ' O modo II, modo de cisalhamento frontal,
refere-se a uma tensão de cisalhamento aplicada no plano da trinca normal à aresta
frontal da trinca. O modo III, modo de cisalhamento paralelo, é para tensões cisalhan-
tes aplicadas paralelamente à aresta frontal da trinca. O modo I de carregamento é a
situação mais importante, onde existem dois casos extremos. Com um corpo de prova
do tipo de placa fina ocorre um estado plano de tensões, enquanto que corpos de prova
espessos têm uma condição de estado plano de deformações. A condição plana de

1 Um compêndio excelente dessas relações é dado por P. C. Paris e G. C. M. Sih, em J . E. Srawley e W. F.


Brown (eds.), F ra clU re T o u g h n ess T estin g , p. 30, ASTM STP No. 381, Filadélfia, Pa. 1965.

Document shared on www.docsity.com


deformações representa o estado de tensões mais severo, e os valores de K " são infe-
riores aos obtidos com os corpos de prova com o estado plano de tensões. Valores do
fator de intensidade de tensões crítico K 1C para o caso de deformações planas são
propriedades válidas, independentemente da espessura do corpo de prova, para des-
crever a ten a cid a d e à fra tu ra de materiais resistentes, como aços tratados termica-
mente, ligas de alumínio endurecidas e ligas de titânio. Maiores detalhes dos testes de
tenacidade à fratura são dados no Capo 14.
Enquanto que a força de propagação da trinca 'f i tem um significado físico mais
direto para o processo de fratura, o fator de intensidade de tensões K é preferido em
trabalhos de mecânica da fratura devido ao fato de ser mais viável para uma determi-
nação analítica. Pela combinação das Eqs. (7.18) e (7.21), vemos que os dois parâme-
tros estão relacionados.

(7-25)
(7-26)

A fratura frágil de monocristais está relacionada com a tensão normal resolvida no


plano de c1ivagem. A Lei de Sohncke estabelece que a fratura ocorre quando a tensão
normal resolvida atinge um valor crítico. Considerando-se a situação usada para de-
senvolver a tensão cisalhante resolvida para o deslizamento (Fig. 4.18), a componen-
te da força trativa que atua normalmente ao plano de c1ivagem é P cos ep, onde ep
é o ângulo entre o eixo trativo e a normal do plano. A área do plano de c1ivagem é
A /( c o s e p ) . Conseqüentemente, a tensão crítica para a fratura frágil é

A Tabela 7.1 fornece os planos de c1ivagem para certos metais e os valores da tensão
normal crítica.
Embora a Lei de Sohncke tenha sido aceita por cerca de 25 anos, ela não está
baseada em muitas evidências experimentais. Surgiram dúvidas quanto à sua confiabi-
lidade através do estudo de fraturas! em monocristais de zinco entre -77 e -196°C.
Descobriu-se que a tensão normal resolvida de c1ivagem variava em torno de um fator de 10
para uma grande diferença na orientação dos cristais. Essa variação da lei da tensão normal
pode ser devida à deformação plástica antes da fratura, embora seja duvidoso que isso
possa ser uma razão para a discrepãncia observada.
Muitos modelos de fratura dúctil em monocristais são mostrados na Fig. 7.1. Sob
certas condições, metais hexagonais compactos testados à temperatura ambiente ou
acima desta irão cisalhar somente em um número restrito de planos basais. A fratura
irá ocorrer então por "cisalhamento puro" (Fig. 7.lb). Mais freqüentemente, o desli-
zamento irá ocorrer em outros sistemas, além do plano basal, de maneira que o cristal
estreita-se e reduz-se a quase um ponto antes que a ruptura ocorra. O modelo normal
da fratura em cristais cúbicos de face centrada é a formação de uma região estreitada
(pescoço) devido ao deslizamento múltiplo, seguida por deslizamento num grupo de
planos até a ocorrência da ruptura. O cristal pode reduzir-se a uma aresta fina ou a um
ponto (se o deslizamento múltiplo continua até a fratura). O melhor critério de tensões
para a fratura dúctil em metais c.f.c. parece ser a tensão cisalhante resolvida no plano
de fratura (que é normalmente o plano de deslizamento).

Document shared on www.docsity.com


Tabela 7.1 Tensão normal crítica para a c1ivagem de monocristaist

M eta l S istem a P la n o d e d iva g em T em p era tu ra °e T en sã o n o rm a l


crista lin o crítica , kg /m m 2

Ferro c.c.c. (100) -100 26


-185 27,5
Zinco (0,03% Cd) h.c. (0001) -185 0,19
Zinco (0,13% Cd) h.c. (0001) -185 0,30
Zinco (0,53% Cd) h.c. (0001) -185 1,20
Magnésio h.c. (0001), (101 I)
(1012), (1010)
Telúrio Hexagonal (IOrO) 20 0,43
Bismuto Romboédrico ( 111) 20 0,32
Antimônio Romboédrico (11 T) 20 0,66

tDados de C.S. Barret!, S tru ctu re o fM eta ls. 2.a ed., McGraw-Hill Book Company, New York, 1952; N. J.
Petch, The Fracture of Metais. em P ro g ress in M eta l P h ysics, vol. 5, Pergamon Press, Ltd., Londres, 1954.

o modo de ocorrência da fratura em cristais de ferro c.e.e. é fortemente depen-


dente da temperatura, pureza, tratamento térmico e orientação do cristaJl. Os cristais
localizados perto do vértice [001] do triângulo estereográfico não apresentam nenhuma
ductilidade mensurável quando testados em tração a -196°C, enquanto que cristais
perto das orientações [111] e [011] podem romper-se por uma redução a uma aresta
fina quando testados à mesma temperatura. Um aspecto interessante é que a mudança
da fratura dúctil para fratura frágil é muito abrupta, ocorrendo com a variação na
orientação de cerca de 2° apenas.

Devido à notoriedade da teoria Griffith, tem sido natural para os metalurgistas o uso
dos seus microscópios na procura das trincas de Griffith nos metais. Entretanto, com
base em observações até aumentos possíveis com microscópios eletrônicos de varre-
dura, não há evidências seguras de que as trincas de Griffith existam em metais não-
tensionados. Há, entretanto, uma quantidade considerável de evidências que mostram
que microtrincas podem ser produzidas por deformação plástica.
Já existem há muito tempo evidências metalográficas da formação de microtrincas
em inclusões não-metálicas no aço como um resultado da deformação plástica. Essas
microtrincas não produzem necessariamente a fratura frágil. Entretanto, elas contri-
buem para a anisotropia observada na resistência da fratura dúctil. O fato de os aços
fundidos a vácuo, que possuem um índice muito baixo de inclusões, apresentarem
redução na anisotropia da fratura confirma a idéia das microtrincas serem formadas
nas partículas de segunda fase.
Uma excelente correlação entre a deformação plástica, microtrincas e a fratura
frágil foi dada por Low 2. Ele mostrou que para o aço-doce, com um dado tamanho de
grão testado a -196°C, a fratura frágil ocorre em tensões que têm o mesmo valor das
tensões que são necessárias para produzir o escoamento em compressão. Foram ob-
servadas microtrincas de somente uma ou duas dimensões dos grãos. Estudos mais
detalhados das condições para a formação das microtrincas têm sido feitos3 com testes
de tração em aço-doce em temperaturas subzero bem controladas. A Fig. 7.8 ilustra
uma microtrinca típica descoberta num material antes da fratura.

I N. P. AlIen, B. E. Hopkins e J. E. McLennan, P ro e. R . S o e. L o n d o n , vol. 234A, p. 221, 1956.


'J. R. Low, I.U.T.A.M., Madrid Colloqium, D efo rm a tio n a n d F lo lV o f S o lid s, p. 60, Springer-Verlag OHG,
Berlim, 1956.
3 G. T. Hahn, W. S. Owen, B. L. Averbach e M. Cohen, W eld in g J . , vol. 38, pp. 367s-376s, 1959.

Document shared on www.docsity.com


Fig. 7.8 Microtrinca produzida no
ferro por deformação trativa a -140°C
(250 X). (Cortesia de G. T. Hahn.)

A partir de experiências acuradas, demonstrou-se que as trincas responsáveis pela


fratura frágil do tipo clivagem não estão inicialmente presentes no material, mas que
são produzidas pelos processos de deformação. O fato de que, em temperaturas apro-
priadas, está presente um número apreciável de microtrincas mostra que as condições
para a nucleação de uma trinca não são necessariamente as mesmas para a propagação
da trinca. O processo de fratura por clivagem poderia ser considerado como consti-
tuído de três fases: (1) deformação plástica para produzir empilhamentos de discordân-
cias, (2) nucleação da trinca e (3) propagação da trinca.
A nucleação das microtrincas pode ser grandemente influenciada pela presença e
pela natureza de partículas de segunda fase Uma situação comum é relativa à fissura
l

da partícula durante a deformação. A resistência à fissuração aumenta se as partículas


estão bem ligadas à matriz. Partículas esféricas e partículas pequenas (r < 1 /-L m ) são
mais resistentes à fissuração. Um constituinte frágil nos contornos de grão, tal como
filmes finos de cementita em aços de baixo carbono 2, é uma fonte particularmente
potente de microtrincas. Se a dispersão de partículas de segunda fase é facilmente
cortada pelas discordâncias, então têm-se deslizamentos planos e ocorrem empilha-
mentos relativamente grandes de discordâncias. Isso acarreta altas tensões, fácil nu-
cleação das microtrincas e comportamento frágil. Entretanto, se a segunda fase con-
siste numa dispersão de partículas finas e impenetráveis, a distância de deslizamento é
grandemente reduzida e, correspondentemente, o número de discordâncias que podem
ser sustentadas num empilhamento é também reduzido. Do mesmo modo, uma vez
que as trincas estão formadas elas são forçadas a se curvar entre as partículas, aumen-
tando a energia interfacial efetiva. Portanto, dispersões finas de partículas podem
acarretar um aumento da tenacidade sob circunstâncias próprias. Uma fase dúctil e
macia pode também ceder ductilidade para uma matriz frágil. A fase dúctil deve ser
espessa o suficiente para escoar antes que grandes empilhamentos de discordâncias
sejam criados e atuem contra ela.
A fratura dúctil (Sec. 7.10) se inicia com a nucleação de va zio s, mais comumente
nas partículas de segunda fase. A geometria da partícula, o tamanho e sua ligação com
a matriz são parâmetros importantes. A Fig. 7.9 mostra a influência da segunda fase na
ductilidade de aços.

'R. F. Decker, M eta ll. T ra n s., vol. 4, pp. 2508-2611,1973.


'c. 1. McMahon, Jr., e M. Cohen. A cta M e/a li .. vol. 13. p. 591, 1965.

Document shared on www.docsity.com


2
~
li

:g"
80

'"~ õ"-
.;
Fig. 7.9 Efeito das partículas de '"
c. 70 ~
segunda fase na ductilidade. ~ ""
'Qi
(Extraída de T. Gladman, B. '"
60 "o

x~x -----x
"O

Holmes e L. D. McIvor, E ffect '"


"E S u lte to s
Carboneto
o .'"o
a lo n g a d o s
a f S eca n d -P h a se P a rticles a n '">
o
50 "Ql"
th e M ech a n ica l P ra p erties af .'"o lI:

S teel, p. 78, Iron and Steel Ins- '"E


40
titute, Londres, 1971.) E 30
o'" \ '"" ••••
p la c a s
m 20
10
00 O
5 10
Volume da segunda fase, %

Na Seção 5.6, vimos que o deslizamento em planos secantes ( 1 1 0 ) foi proposto


como um mecanismo para a nucleação de trincas frágeis nos metais c.e.e. Embora isto
não tenha sido bem substanciado nos metais, estão sendo feitas! investigações deta-
lhadas da nucleação das trincas por deslizamento em cristais MgO. A interpenetração
das bandas de deslizamento produz microtrincas. Para os metais, está crescendo o
reconhecimento de que o deslizamento cruzado de discordâncias em espiral alarga as
bandas de deslizamento e toma mais difícil fissurar uma partícula quando a banda de
deslizamento encontra um obstáculo. Por exempl02, a temperatura de transição dúctil-
frágil para os metais c.e.e. nióbio e tungstênio é cerca de -120°C e 300°C, respecti-
vamente. As discordâncias no nióbio mostram intenso deslizamento cruzado, mas não
no tungstênio. Macias mecânicas em metais c.e.e. têm sido mostradas3 como as res-
ponsáveis pela nucleação das microtrincas. A barreira mais efetiva é a interseção de
uma macia móvel com uma macia estacionária.
A maioria das fraturas frágeis ocorre de maneira transgranular. Entretanto, se o
contorno de grão contém um filme de um elemento frágil, como nos aços inoxidáveis
sensitivados ou ligas de molibdênio contendo oxigênio, nitrogênio ou carbono, a fra-
tura ocorre de maneira intergranular. A fratura intergranular pode também ocorrer sem
a presença de precipitados microscopicamente visíveis nos contornos de grão. Aparen-
temente, a segregação nos contornos pode abaixar a energia superficial o suficiente
para acarretar a falha intergranular. A fragilização produzida pela adição de antimônio
no cobre, oxigênio no ferro e a fragilização de revenido nos aços-ligas são bons exem-
plos de causas para a fratura intergranular.
Às vezes pode-se obter uma quantidade considerável de informações pelo exame
de superfícies de fratura com aumentos razoáveis num microscópio óptico. Esse tipo
de exame é conhecido como fra to g ra fia '. Em grandes aumentos, as superficies de
clivagem transgranular contêm, geralmente, um grande número de degraus de clivagem
e uma topografia de trincas ramificadas (river p a ttern ) (Fig. 7.10). Essas são indicações
da absorção de energia pela deformação localizada. As supetfícies de fratura frágil
intergranular são muito mais lisas, com ausência total de degraus de clivagem. Pela
aparência da superficie de fratura podemos ver que a energia absorvida numa fratura
intergranular é muito menor do que numa clivagem transgranular.

1 T. L. Johnson, R. J. Stokes e C. H. Li, P h ilo s. M a g ., vol. 4, p. 1361, 1959.


2 A. R. Rosenfield, E. Votava e G. T. Hahn, em D u etility, pp. 75-76, American Society for Metais, Metais
Park, Ohio, 1968.
3 D. Hull, em D. C. Drucker e J. J. Gi1man (eds.), F ra etu re in S o lid s, pp. 417-453, Interscience Publishers,
Inc., New York, 1963.
4 C. A. Zappfe e C. O. Worden, T ra n s. A m . S o e. M et., vol. 42, pp. 557-603, 1950.

Document shared on www.docsity.com


Fig. 7.10 Degraus de clivagem e
superfície de clivagem .

•. _ J~ ;
•...
- ...•.•.~

Uma técnica muito importante para o estudo da fratura é a réplica de plástico da


superfície de fratura e o exame da sua estrutura num microscópio eletrônico. Não é,
somente o fato do microscópio eletrônico apresentar maior aumento do que o óptico
que o torna importante para o estudo da fratura, mas também a sua grande profundi-
dade de foco (de importância considerável nas superfícies rugosas de fratura). A f r a t o -
g r a f i a e l e t r ô n i c a 1 tem provado ser uma ferramenta tão versátil que foi desenvolvido
até mesmo um manuaJ2 para a identificação da fratura. A necessidade da réplica de
superfícies tem sido eliminada pelo desenvolvimento dos microscópios eletrônicos de
varredura (MEV). O excelente detalhe tridimensional fornecido pelo MEV pode ser
visto na Fig. 7.11.

O processo da fratura frágil é constituído de três estágios:


1. Deformação plástica que envolve o empilhamento de discordâncias em obstá-
culos nos seus planos de deslizamento.
2. A concentração da tensão cisalhante na ponta do empilhamento para nuclear
uma microtrinca.
3. Em alguns casos a energia de deformação elástica armazenada conduz a mi-
crotrinca para a fratura completa, sem posteriores movimentos de discordâncias
nos empilhamentos. Tipicamente nos metais, é observado um estágio de cresci-
mento distinto, no qual um aumento de tensão é necessário para a propagação da
microtrinca.
A idéia de que as altas tensões produzidas na cabeça do empilhamento das discor-
dâncias poderiam produzir a fratura foi primeiramente desenvolvida por Zener3. O

I C. O. Beachem e R. M. N. Pelloux, em F r a c tu r e T oughness T e s tin g a n d fts A p p lic a tio n s . ASTM STP-381,


p. 210, 1964.
2 F r a c to g r a p h y a n d A tla s o f F r a c to g r a p h s . vol. 9, M e ta Is H andbook, American Society for Metais, Metais
Park, Ohio, 1974.
3C. Zener, The Micro-mechanism of Fracture, em F r a c tu r in g o f M e ta is , American Society for Metais, Metais
Park, Ohio, 1948.

Document shared on www.docsity.com


Fig. 7.11 Superfície de fratura de um composto reforçado por fibras. Nota-se a fratura cone-taça
das fibras dúcteis de aço inoxidável e a matriz de alumínio extremamente dúctil que foi afinado
até uma aresta fina. Fratografia obtida em um microscópio eletrônico de varredura (300 X). (Cor-
tesia de A. Pattnaik.)

modelo é mostrado na Fig. 7.12. A tensão cisalhante atuando no plano de desliza·


mento força as discordâncias a se amontoarem. Em algum valor crítico de tensão, as
discordâncias na ponta do empilhamento são empurradas tão próximas umas das ou-
tras que elas coalescem, formando uma trinca em cunha ou uma cavidade de discor-
dâncias de altura n b e comprimento 2 c . Stroh' mostrou que, caso a tensão concentrada

Fig. 7.12 Modelo da formação de uma microtrinca na


ponta de um empilhamento de discordâncias.

IA. N. Stroh, A dv. P h y s . , vol. 6, p. 418, 1957; o desenvolvimento dado aqui segue aquele de A. S. Tetelman e
A. J. McEvily, Jr., F r a c t u r e a f S t r u e t u r a l M a t e r i a i s , Capo 6, John Wiley & Sons, Inc., New York, 1967.

Document shared on www.docsity.com


na ponta dos empilhamentos não seja aliviada por deformação plástica, então a tensão
de tração na ponta do empilhamento será dada pela Eq. (5.39), a qual pode ser igualada
à tensão coesiva teórica, Eq. (7.7). Então,

L) Y2 (E Y s) Y 2
( 'r s-';)
(r
- = -
ao

E rys) Y2
, s =,.+ I
--
( La
o

onde L é o comprimento da banda de deslizamento bloqueada e r é a distância da


ponta da trinca ao ponto onde a trinca é formada. Se consideramos r = a o e E = 2G,
então a Eq. (7.28) torna-se

, = ,. + (2G Y s)Y 2
s I L
Mas, da Eq. (5.36), o número de discordâncias na banda de deslizamento pode ser
expresso como

nb ~ L 's - 'i
G

Essa forma apresentada da equação de nucleação de uma microtrinca foi proposta


por Cottrell', com o significado físico de que a trinca irá se formar quando o trabalho
feito pela tensão cisalhante aplicada para produzir um deslocamento n b igualar-se ao
trabalho feito para movimentar as discordâncias vencendo a tensão de fricção mais o
trabalho para produzir novas superfícies de fratura. É interessante notar que a Eq.
(7.31) não contém o termo do comprimento da trinca 2 c . Então, a trinca irá crescer por
deformação plástica enquanto as fontes de discordâncias continuarem a forçar discor-
dâncias nos empilhamentos. Deve-se atentar para o fato de que somente tensões cisa-
Ihantes estão envolvidas na formação dos empilhamentos. Tensões trativas não estão
envolvidas nos processos de nucleação das microtrincas e, portanto, trincas de cliva-
gem podem ser formadas em compressã02. Entretanto, é necessária uma trinca trativa
para fazer com que as microtrincas se propaguem. O fato de que as tensões normais
(estado de tensões hidrostático) não estão envolvidas na nucleação das microtrincas
leva-nos a concluir que o estágio da propagação da microtrinca é normalmente mais
difícil do que a nucleação das tlincas em metais, uma vez que a experiência mostra que
a fratura é fortemente influenciada pela componente hidrostática da tensão (Sec. 7.14).
A ocorrência de microtrincas que não se propagam reforça também esse ponto de
vista. Modificações3 nas equações de Stroh para permitir um campo de tensões não-
uniforme de ambos os sinais no empilhamento de discordâncias têm mostrado que a
tensão necessária para nuclear uma microtrinca é significantemente mais baixa do que
originalmente se pensava.

'A. H. Cottrell, T r a n s . M e t a l l . S o e . A lM E . vol. 212, pp. 192-203, 1958.


2 A. Gilbert, e t 0 1.. A e t a M e t a l l .. vol. 12, p . 754, 1964.
3 E. Smith e J. T. Bamby, M e t . S e i . J . , vol. I, pp. 56-64, 1967.

Document shared on www.docsity.com


Há uma forte evidência de que, na maioria dos materiais empregados em engenha-
ria, o passo mais difícil é a propagação das microtrincas produzidas por deformação,
através de uma barreira forte tal como um contorno de grão. Portanto, o tamanho de
grão do material terá uma forte influência no comportamento da fratura frágil. Petch1
descobriu que a dependência da fratura frágil com o tamanho de grão no ferro e aço
poderia ser expressa por

Essa expressão é análoga à Eq. (6.7) para a dependência do limite de escoamento e as


tensões de escoamento com o tamanho de grão. Para desenvolver o modelo de discor-
dâncias para a Eq. (7.32), expressamos a Eq. (7.31) em termos da tensão normal,

e adotamos um modelo no qual a fonte de discordâncias está no centro de um grão de


diâmetro D , de maneira que L = D / 2 . Então, substituindo-se a Eq. (7.30) na Eq. (7.31),

Porém, a experiência mostra que as microtrincas são formadas quando a tensão cisa-
lhante iguala a tensão limite de escoamento de modo que, da Eq. (6.7),

Essa equação representa a tensão necessária para propagar uma microtrinca de com-
primento D na fratura frágil.
CottrelF reformulou a Eq. (7.31) de maneira que são facilmente mostradas as va-
riáveis importantes na fratura frágil. Essa equação é

onde Tja resistência da rede cristalina ao movimento das discordâncias


k' um parâmetro relacionado com a liberação de discordâncias de um empi-
lhamento
'ls a energia efetiva de superfície e inclui a energia de deformação plástica
f3 = um termo que expressa a razão da tensão cisalhante para a tensão normal.
Para torção f3 = I; para tração f3 = 1/2; para um entalhe (impacto) f3 =
1/3.
A Eq. (7.35) expressa a condição limite para a formação de uma trinca propagante a
partir de um empilhamento de discordâncias deslizantes. Se o termo à esquerda da
equação for menor que o direito, uma microtrinca poderá ser formada mas não poderá
crescer. Esse é o caso de trincas não-propagantes. Quando o lado esquerdo é maior
que o direito, uma propagação de fratura frágil pode ser produzida com uma tensão
cisalhante igual à tensão limite de escoamento. Portanto, essa equação descreve a
transição dúctil-frágil. Uma vez que a maioria dos parâmetros metalúrgicos muda com

I N. J . Petch, J . Ir o n S te e l In s t. London, vol. 174, p. 25, 1953.


2 CottreU, o p . c ito

Document shared on www.docsity.com


Tam anho de g rã o ASTM a p r o x im a d o

-3 1 3 5 6

x Tensão de fratura

160 O Tensão d e e s c o a m e n to /

O D e fo rm a ç ã o p a ra fra tu ra x

: 120 x x .-L Y -

~ /x ~~~
ó VXO __--o
:";
~ 80 /:??- ~
"
@

J. 0,6
~x ",/ "-o
40Y ",/ ."
0,4 L '

,/
,/
"E

/
/
,/
0,2
"
Q;
o
6 °
Fig. 7.13 Efeito do tamanho de grão no escoamento e na tensão de fratura para aço de baixo
carbono testado em tração a -196°C. (De J. R. Low, em R e l a t i o n o f P r o p e r t i e s to M ic r o s tr u c -
American Society for MetaIs, MetaIs Park, ühio, 1954. Com a permissão dos editores.)
fu r e ,

a temperatura, existiria uma t e m p e r a t u r a d e tr a n s iç ã o na qual a fratura mudaria de


dúctil para frágil.
O parâmetro k ' é importante, uma vez que determina o número de discordâncias
que são fornecidas ao empilhamento quando uma fonte está atuando. Os materiais que
apresentam um grande valor de k ' (ferro e molibdênio) são mais propensos à fratura
frágil do que materiais com valores de k ' baixo (nióbio e tântalo). Mecanismos de
endurecimento que dependem do aprisionamento de discordâncias são favoráveis à
fragilização. A importância do tamanho de grão como um parâmetro na fratura frágil é
mostrada na Fig. 7. 13, onde abaixo de certo tamanhC' de grão existe uma ductilidade
mensurável na fratura. Na realidade, o termo tamanho de grão na Eq. (7.35) poderia
ser interpretado mais propriamente como o comprimento de banda de deslizamento.
Geralmente isso é controlado pelo tamanho de grão, mas numa liga contendo um fino
precipitado, o espaçamento entre as partículas irá determinar a distância de desliza-
mento. Carbonetos muito finos precipitados nos aços temperados e revenidos causarão
uma pequena distância de deslizamento, resultando numa temperatura de transição
baixa para esse material.
Um alto valor da resistência de atrito da rede leva à fratura frágil, uma vez que
devem ser atingidas tensões muito altas antes de ocorrer o escoamento plástico. As
ligações direcionadas nos cerâmicos resultam em grande T i e uma dureza e fragilidade
inerentes bem altas. Nos metais c.e.e., o atrito da rede aumenta rapidamente conforme
a temperatura cai abaixo da temperatura ambienteI, e portanto acarreta uma transição
dúctil-frágil. O termo T i entra na Eq. (7.35) multiplicado por D l / 2 , de maneira que me-
tais com grãos finos podem resistir a grandes T i (baixas temperaturas) antes de se
tornarem frágeis. Muitos dos efeitos da composição do aço na transição dúctil-frágil
são devidos a mudanças de D , k ' ou T i ' Por exemplo, o magnésio diminui o tamanho de
grão e reduz k ', enquanto que o silício produz grandes tamanhos de grão e aumenta T i '
Se a energia efetiva de superfície é grande a uma dada temperatura, então a fra-
tura frágil é suprimida. A contribuição da deformação plástica dependerá do número

I Da Eq. (6.7) resulta que To D'12 = T, D'12 + k ', de maneira que a Eq. (7.35) pode ser escrita na forma Tok' D'12 =
G Y ,f3 .A tensão de escoamento para metais c.e.e. aumenta rapidamente com a diminuição da temperatura.

Document shared on www.docsity.com


de sistemas de deslizamento disponíveis e do número de discordâncias móveis na
ponta da trinca. Então, o zinco é frágil quando tem grandes tamanhos de grão, devido
ao seu limitado número de planos de deslizamento, enquanto metais c.e.e. podem ser
frágeis devido a impurezas que bloqueiam a maioria das discordâncias móveis. Ne-
nhuma dessas condições existe nos metais c.f.c. e eles não são normalmente propen-
sos à fratura frágil. Vários fatores ambientais, tais como a corrosão ou a penetração de
hidro~ênio, podem diminuir a energia de superfície.
E bem conhecido que a presença de um entalhe aumenta grandemente a tendência
para a fratura frágil. Os efeitos complicados de um entalhe serão considerados na
Seção 7.11. O efeito de um entalhe na diminuição da razão da tensão cisalhante com a
tensão de tração é considerado na Eq. (7.35) pela constante {3. A taxa de deformação e
a taxa de carregamento não estão explícitas em nenhum termo da Eq. (7.35), entre-
tanto é bem conhecido que o aumento da taxa de deformação aumenta -tanto T i como
T o . A taxa de deformação se relaciona com o efeito de um entalhe de uma maneira
importante. Devido à deformação ser localizada nas vizinhanças do entalhe, existe um
efeito de concentração de deformação e a deformação localizada é muito mais alta do
que o valor médio ..
Se a fratura tende a ser frágil, a deformação plástica deve ser minimizada con-
forme a trinca se propague. Um fenômeno que é importante para o processo de fratura
frágil é o e s c o a m e n t o r e t a r d a d o , no qual existe uma certa demora antes da deformação
plástica ocorrer. Então, uma trinca de alta velocidade de propagação pode ultrapassar
uma região no metal antes do deslizamento ocorrer. Os tempos de retardamento'
podem ser da faixa de I a 1O-6s, diminuindo com o aumento da tensão e aumentando
com a diminuição da temperatura.

A fratura frágil não é possível a menos que as trincas nucleadas possam se propagar a
altas velocidades através do metal. Mott2 fez uma análise da velocidade de uma trinca
num meio elástico e isotrópico ideal. A força motriz do processo é a energia elástica
que é liberada pelo movimento da trinca. Ela deve ser balanceada pela energia superfi-
cial das novas superfícies que são criadas e a energia c:nética associada com o rápido
deslocamento lateral do material em cada lado da trinca. A velocidade da trinca v é
dada por

V=BVO (I- C
;) (7 -3 6 )

onde B é uma constante e V o = ( E /p ) l/2 é a velocidade do som no material. O termo C c é


o comprimento de uma trinca de Griffith, como avaliada pela Eq. (7.14), e c é o com-
primento atual da trinca. Quando c é grande comparado com c c , a Eq. (7.36)
aproxima-se do valor limite B v o . A constante foi calculada3 para a condição do estado
plano de tensões e achou-se um valor de B = 0,38. A Tabela 7.2 mostra que os valores
experimentais para a velocidade da trinca em materiais frágeis se ajustam muito bem
com a previsão teórica de que a velocidade limite da trinca é dada por

E )Y 2
v = 0J38vo = °138 ( P

Existem basicamente três maneiras pelas quais uma trinca de meio comprimento
Co pode desenvolver-se para uma fratura instável:4

• D. S. C1ark, T r a n s . A m . S o e . M e l . . vol. 46, p. 34, 1954.


2 N. F. Mott, E n g i n e e r i n g , vol. 165, p. 16, 1948.
3 D. K. Roberts e A. A. WeUs, E n g i n e e r i n g , vol. 178, p. 820, 1954.
• Essa seção segue o desenvolvimento de Tetleman e McEvily, citado anteriormente, pp. 58-7!.

Document shared on www.docsity.com


Aço 6.000 0.36
Quartzo fundido 7.200 0,42
Fluoreto de lítio 6.500 0.31

tT. S. Robertson, J . I r a l l S t e e l I l l s t . L O l l d o l l , vaI. 175, p. 361. 1953.


*H. Schardin e W. Struth, G l a s t e c h . S e r .. vol. 16, p. 219, 1958.
§J. J. Gilman, C. Knudsen e W. P. Walsh, J . A p p l . P h y s .. vaI. 29. p. 601, 1958.

I. S i t u a ç ã o i n s t á v e l s o b t e n s ã o a p l i c a d a c r e s c e n t e , Materiais frágeis testados


abaixo da temperatura de transição apresentam uma rápida propagação da fra-
tura frágil quando a tensão aplicada atinge a tensão de fratura < T f (ver Fig. 7. 14a).
2 . C r e s c i m e n t o l e n t o d a t r i n c a s o b t e n s ã o a p l i c a d a c r e s c e n t e . Quando o mate-
rial é menos frágil do que no caso I, a primeira trinca que se forma não pode
propagar-se instavelmente. A trinca se propaga pela formação de uma série de
microtrincas ou vazios que são unidos através da ruptura das seções que os
separam. Na Fig. 7.14b, o crescimento da trinca começa em <T, e se processa
através de uma série de manifestações repentinas do crescimento da trinca, até
que esta se torne extensa o suficiente e o nível de tensões seja bastante aJ.to para
permitir uma propagação instável. Por exemplo, em temperaturas imediatamente
inferiores à temperatura de transição dúctil-frágil, é comum que a fratura comece
como uma ruptura fibrosa e se desenvolva numa fratura de clivagem instável
quando a trinca se torna grande.
3 . C r e s c im e n to le n to d a tr in c a s o b te n s ã o a p lic a d a c o n s ta n te . O crescimento
lento da trinca pode ocorrer sob tensão aplicada constante durante um certo
tempo, quando os materiais são sujeitos a corrosão ou carregamento alternado

'o ", ••" t 'o"',,'


O 'f

Tensáo~

Fig. 7.14 Os três modos de propagação da trinca. ( a ) Fratura frágil instável sem crescimento
lento da trinca; ( b ) crescimento lento da trinca (dúctil) seguido de fratura frágil instável; ( c ) cres-
cimento lento a tensão constante. (Segundo Tetleman e McEvily.)

Document shared on www.docsity.com


(fadiga). Sob essas condições, a trinca cresce lentamente até se tornar grande o
suficiente para se propagar instavelmente no nível de tensão aplicada. O tempo
que é necessário para o crescimento da trinca diminui conforme o nível de ten-
sões aumenta.
Apesar de ser muito rara, mas não totalmente desconhecida, a ocorrência da fra-
tura completamente frágil nos materiais de engenharia (como no caso 1), torna-se
muito importante o desenvolvimento de métodos para descrever analiticamente a for-
mação de uma zona plástica na ponta da trinca e da propagação da trinca como no
caso 2. Esse é um problema muito difícil e somente agora iniciou-se o desenvolvimento
de relações úteis em engenharia. Um critério de fratura adequado deve estar relacio-
nado com a quantidade de deformação plástica que ocorre em pequenas regiões na
ponta da trinca. O conceito do d e s l o c a m e n t o d a p o n t a d a t r i n c a ! considera que o
material à frente da trinca contém uma série de corpos de prova de tração em minia-
tura que têm um comprimento útil I e uma largura IV (Fig. 7.15). O comprimento do
corpo de prova é determinado pelo raio de curvatura da ponta da trinca p , e a largura é
limitada por fatores microestruturais que controlam a ductilidade. Nesse modelo, o
crescimento da trinca irá ocorrer quando o corpo de prova adjacente à trinca se fratu-
rar. Quando a ruptura do primeiro corpo de prova, adjacente à ponta da trinca, causa a
imediata fratura do próximo corpo de prova, então o processo de fratura global é
instável e a propagação da trinca ocorre sob tensão decrescente (Fig. 7 . 1 4 a ) . Por outro
lado, quando cada corpo. de prova não se romper imediatamente, teremos então a
situação do crescimento lento (Fig. 7. 1 4 b ) , onde a tensão aplicada deve crescer para
que a propagação estável da trinca continue.
Se uma placa grossa for carregada em tração (modo I) de maneira a prevalecer a
condição do estado plano de deformações, a deformação plástica na ponta da trinca
ficará confinada a estreitas bandas com uma espessura da ordem do diâmetro da ponta
da trinca 2 p . O deslocamento (deformação) do corpo de prova em miniatura na ponta
da trinca é

A fratura instável ocorre quando a deformação no corpo de prova adjacente à ponta da


trinca atinge a deformação máxima de tração do corpo de prova e f ' Então, o critério de
fratura é

No estado p l a n o d e t e n s õ e s (placa fina) de carregamento, as deformações na


ponta da trinca são distribuídas numa distância da ordem da espessura da folha t;

Fig. 7.15 Modelo do conceito do deslocamento da


ponta da trinca.

1 A. H. eaureU, P r o c . R . S o e . L o n d o n , vaI. 285, p. 10, 1%5; ver também A. S. TeUeman e A. J. McEvi1y, Jr.,
pp. 60-78.
o p . c i t .,

Document shared on www.docsity.com


o deslocamento das faces de uma trinca pode ser medido com um extensômetro e
pode ser relacionado com o deslocamento de abertura da trinca CO D* ( c r u c k - o p e n i n g
d is p la c e m e n / (CO D» ô na ponta da trinca. Medidas do CO D são importantes para
prever a tenacidade à fratura de materiais de alta ductilidade e baixa resistência ao
escoamento (ver Capo 14).
O deslocamento de abertura da trinca para uma trinca de comprimento 2 c , numa
placa infinitamente fina submetida a uma tensão uniforme em um material onde a (J

deformação plástica ocorre na ponta da trinca, é dado por'

<
u = --
8u oC I
n (
sec- nu)
nE 2uo

Desenvolvendo o termo secante e mantendo-se somente o primeiro termo, isto resulta


em

Entretanto, relembrando a definição de energia de deformação liberada e dividindo-se


cada termo por ( J o ,

Uma vez que o comprimento instável da trinca ocorre para um valor crítico do COD,
a tensão necessária para propagar essa trinca [da Eq. (7. 17)] é

Além do mais, comparando-se essa equação com a Eq. (7.16), o trabalho plástico
necessário para manter uma trinca de alta velocidade em movimento é

'(N. do T.) COD é uma notação utilizada pelos estudiosos da fratomecãnica que significa o afastamento das
paredes da trinca ( c r a c k - o p e n í n g d í s p / a c e m e n t ) .
1 G. T. Hahn e A. R. Rosenfeld, A c t a M e t a l l ., vol. 13, p. 293, 1965.

Document shared on www.docsity.com


para o fator de intensidade de tensão K c ) . Ela mostra que, quanto maior o raio da
ponta da trinca e a deformação que pode ser suportada antes da fratura catastrófica,
maior é a absorção de energia no processo de fratura. O ponto fraco dessas equações
que acabaram de ser apresentadas é que elas não contêm nenhum termo definindo a
microestrutura do material. Gerberich sugeriu que uma expressão apropriada seria I

onde IV* é a largura crítica medida a partir da ponta da trinca até onde a deformação
localizada atinge e f ' Essa equação apresentou previsões razoáveis da tenacidade à fra-
tura para um material composto constituído por fibras de metal dúctil e a matriz metá-
lica.
Deve ficar bem claro por agora que a resistência prática de um material de enge-
nharia depende da maneira pela qual o material reage à concentração de tensões, tal
como em uma trinca aguda. Essa propriedade é chamada de tenacidade. Embora a
tenacidade seja definida de várias maneiras, uma abordagem feita por CottrelF é bas-
tante esclarecedora. O t r a b a l h o t o t a l para a fratura por unidade de área pode ser ex-
presso como

onde (I x é a resistência característica de um elemento à frente da ponta da trinca e a é


o deslocamento das faces da trinca. Para uma fratura realmente frágil, ( I x = E /tO e a =
b , portanto y = E b / 2 0 . Para uma fratura realmente dúctil y é tão alto ( > 108 erg/cm 2)
que ocorre deformação plástica generalizada antes da fratura. P.ara um material possuir
tanto uma alta resistência como uma alta tenacidade, (I x e a devem ter valores altos.
Esta é uma situação difícil de se atingir, e normalmente os materiais de engenharia
mais fortes são materiais nos quais se estabeleceu um compromisso entre os dois fato-
res.

\
\
, D is tr ib u iç ã o de

" 1ensões elásticas

"
"
',.•.•.
0 "0 "

,I
, Fig. 7.16 Distribuição da
,
, ••••• 1
.....•. tensão longitudinal uy à
I I.•••.•..•.....
I I ""--. __ frente de uma trinca carre-
U ----~----~------
, 1 gada em tração no estado
1
1
1
, plano de deformação. Ten-

ty---J=l
,
1
1
I
são aplicada normal = u .

Zona
p lã s tic a

I W. W. Gerberich, J . M a t e r . S e i ., vaI. 5, pp. 283-294, 1970.


2 A. H. CattreJl. P r o e . R . S o e . , L o n d o n , vaI. 202, p p . 2-9, 1964.

Document shared on www.docsity.com


A z o n a p lá s tic a q u e s e d e s e n v o lv e n a p o n ta d a trin c a n a m a io ria d o s m a te ria is
frá g e is é u m fa to r q u e te n d e a re s trin g ir a u tiliz a ç ã o d a te o ria d a m e c â n ic a d a fra tu ra .
D e s d e q u e o m e ta l n ã o s e ja tã o d ú c til (c o m o o a ç o -d o c e ) q u e s e fo rm e u m a g ra n d e
z o n a p lá s tic a a p a rtir d a p o n ta d a trin c a , é p o s s ív e l fa z e r-s e u m a c o rre ç ã o p a ra a z o n a
p lá s tic a . A F ig . 7 .1 6 m o s tra a d is trib u iç ã o d a te n s ã o lo n g itu d in a l à fre n te d a trin c a ,
(jy

e m u m a p la c a fin a , s o b u m c a rre g a m e n to e m tra ç ã o n o e s ta d o p la n o d e te n s õ e s . S e o


m a te ria l fo s s e p e rfe ita m e n te e lá s tic o , a d is trib u iç ã o d e te n s õ e s a tin g iria o s v a lo re s
a lto s m o s tra d o s n a c u rv a p o n tilh a d a .

C )Y z
(J =(J-
y ( 2r

E n tre ta n to , o c o rre e s c o a m e n to p lá s tic o n a p o n ta d a trin c a a té r = r y , d e m a n e ira q u e


(j n ã o p o d e u ltra p a s s a r a te n s ã o lim ite d e e s c o a m e n to
y (jo .

E n tre ta n to , a E q . (7 .5 2 ) s u b e s tim a e m m u ito a z o n a p lá s tic a p o rq u e e la n ã o le v a e m


c o n ta o e s c o a m e n to c a u s a d o p e la d is trib u iç ã o d e te n s õ e s e lá s tic a s d e (j y = (jo a té(j =
y

( jm á x .,to rn a n d o e s s a á re a n a F ig . 7 .1 6 ig u a l à á re a s o b (jy= a té
(jo r = ry• P or essa
ra z ã o , a p ro fu n d id a d e to ta l d a z o n a p lá s tic a é R = 2 r e y

A d is trib u iç ã o d e te n s õ e s à fre n te d e u m a trin c a re a l d e m e io c o m p rim e n to c , c o m u m a


z o n a p lá s tic a d e p ro fu n d id a d e R, p o d e s e r c o n s id e ra d a id ê n tic a a o c a m p o d e te n s õ e s
e lá s tic a s n a fre n te d e u m a trin c a fic tíc ia d e m e io c o m p rim e n to c ' = c + R / 2 = c + r y •
P o r e x e m p lo , d a E q . (7 .2 4 ), a te n a c id a d e à fra tu ra d e u m c o rp o d e p ro v a c o m e n ta lh e
n o c e n tro , q u e te n h a s id o c o rrig id o p a ra d e fo rm a ç ã o p lá s tic a n a p o n ta d a trin c a , é

K = (J J -[nc'W nc----; ta n (C- W


+ 2 ~K )]Y z
w(Jo

C o n s id e ra n d o -s e e s ta te n ta tiv a in ic ia l d e in c lu ir a d e fo rm a ç ã o p lá s tic a n o c rité rio


d e fra tu ra , é im p o rta n te n o ta r q u e n e n h u m d o s c rité rio s d is c u tid o s a té a g o ra a p lic a -s e
q u a n d o a fra tu ra o c o rre a p ó s u m c o n s id e rá v e l e s c o a m e n to p lá s tic o . O s c rité rio s p a ra
u m a ru p tu ra c o m p le ta m e n te d ú c til s ã o c o n s id e ra d o s n a S e ç ã o 7 .1 0 .

T e m -s e e s tu d a d o m u ito m e n o s a fra tu ra d ú c til d o q u e a fra tu ra frá g il, p ro v a v e lm e n te


p o rq u e a fra tu ra d ú c til é u m p ro b le m a b e m m e n o s s é rio . A p a rtir d e s s e p o n to , a fra tu ra

Document shared on www.docsity.com


d ú c til te m s id o d e fin id a v a g a m e n te c o m o a fra tu ra q u e o c o rre c o m u m a a p re c iá v e l
d e fo rm a ç ã o p lá s tic a . U m a o u tra c a ra c te rís tic a im p o rta n te d a fra tu ra d ú c til, q u e d e v e -
ria s e r e v id e n te a p a rtir d e c o n s id e ra ç õ e s p ré v ia s d a fra tu ra frá g il, é q u e e la o c o rre p o r
u m le n to ro m p im e n to d o m e ta l c o m o g a s to d e u m a e n e rg ia c o n s id e rá v e l. M u ita s v a -
rie d a d e s d e fra tu ra d ú c til p o d e m o c o rre r d u ra n te o p ro c e s s a m e n to d o s m e ta is e s e u
u s o e m d ife re n te s tip o s d e s e rv iç o . P a ra fin s d e s im p lific a ç ã o , a s d is c u s s õ e s n e s s e
c a p ítu lo s e rã o lim ita d a s à fra tu ra d ú c til d e m e ta is p ro d u z id a e m tra ç ã o u n ia x ia l. O u tro s
a s p e c to s d a fra tu ra e m tra ç ã o s ã o c o n s id e ra d o s n o C a p o 9 . A fra tu ra d ú c til e m tra ç ã o é
n o rm a lm e n te p re c e d id a p o r u m a re d u ç ã o lo c a liz a d a n o d iâ m e tro c h a m a d a e m p e s c o -
ç a m e n to . M e ta is m u ito d ú c te is p o d e m e v e n tu a lm e n te re d u z ir-s e a u m a lin h a o u a u m
p o n to a n te s d a s e p a ra ç ã o . E s s e tip o d e fa lh a é n o rm a lm e n te c h a m a d o d e r u p t u r a .
O s e s tá g io s n o d e s e n v o lv im e n to d e u m a fra tu ra d ú c til d o tip o " ta ç a e c o n e " e s tã o
ilu s tra d o s n a F ig . 7 .1 7 . O e m p e s c o ç a m e n to c o m e ç a n o p o n to d e in s ta b ilid a d e p lá s tic a
o n d e o a u m e n to d a re s is tê n c ia d e v id o a o e n c ru a m e n to c a i p a ra c o m p e n s a r a d im in u i-
ç ã o d a á re a d a s e ç ã o re ta tra n s v e rs a l d o c o rp o d e p ro v a (F ig . 7.17a). Is s o o c o rre n a
c a rg a m á x im a o u q u a n d o a d e fo rm a ç ã o v e rd a d e ira s e ig u a la a o c o e fic ie n te d e e n c ru a -
m e n to (v e r S e c o 9 .3 ). A fo rm a ç ã o d e u m p e s c o ç o in tro d u z u m e s ta d o d e te n s õ e s tria -
x ia l n e s s a re g iã o . U m a c o m p o n e n te h id ro s tá tic a d a te n s ã o a tu a n o c e n tro d a re g iã o d o
p e s c o ç o a o lo n g o d o e ix o d o c o rp o d e p ro v a . F o rm a m -s e m u ita s m ic ro c a v id a d e s n e s s a
re g iã o (F ig . 7.17b), e c o m a c o n tin u a ç ã o d a d e fo rm a ç ã o e la s c re s c e m e c o a le s c e m
n u m a trin c a c e n tra l (F ig . 7.17c). E s s a trin c a c re s c e n u m p la n o p e rp e n d ic u la r a o e ix o
d o c o rp o d e p ro v a a té s e a p ro x im a r d a s u p e rfíc ie d o m a te ria l. E n tã o , e la c o n tin u a a s e
p ro p a g a r lo c a liz a d a m e n te e m p la n o s c is a lh a n te s o rie n ta d o s a 4 5 ° c o m o e ix o lo n g itu d i-
n a l p a ra fo rm a r a p a rte d o " c o n e " d a fra tu ra (F ig . 7 .17d).

I'

.'
o

..
o
I
o

Fig. 7.17 E s tá g io s n a fo rm a ç ã o
d e u m a fra tu ra ta ç a e c o n e .

Document shared on www.docsity.com


Estudos detalhados' dos processos da fratura frágil mostram que a deformação
tende a se concentrar em bandas estreitas de alta deformação cisalhante na ponta da
primeira trinca central que se forma. Essas bandas cisalhantes estão em ângulos de 50
a 60 0 com a direção transversal. Placas de vazios são nucleadas nestas bandas e os
vazios crescem e coalescem numa fratura local. Enquanto a propagação da trinca é em
média radialmente transversal ao eixo de tração, na escala microscópica a trinca faz
um percurso em ziguezague através de um plano transversal pela placa de vazios.
Portanto, o crescimento da trinca na fratura dúctil se dá essencialmente pelo processo
de c o a l e s c ê n c i a d e v a z i o s . A coalescência ocorre pela e1ongação dos vazios e do mate-
rial entre os vazios. Isso leva à formação de uma superfície de fratura 2 constituída de
"cavidades" elongadas, como se tivesse sido formada a partir de numerosos buracos
separados por paredes finas até a fratura.
Os vazios, que são a fonte básica da fratura dúctil, são nucleados heterogenea-
mente em posições onde a compatibilidade da deformação é difícil. Os lugares prefe-
renciais para a formação de vazios são inclusões, partículas de segunda fase ou partí-
culas finas de óxidos, enquanto que em metais de alta pureza os vazios podem se
formar em pontos triplos de contornos de grão. Foi observado que partículas de tama-
nho da ordem de 50 Â nuclearam vazios, de maneira que a ausência de vazios no
exame metalográfico pode não ser um indicador real de que a formação de vazios não
tenha ocorrido. Em tração, os vazios se formam antes da formação do pescoço, mas
depois que ele é formado e se desenvolvem tensões hidrostáticas, a formação de va-
zios se torna mais proeminente. A freqüência de ocorrência de partículas nucleantes
deve ter uma forte influência na fratura dúctiP. Foi mostrad0 4 que a deformação ver-
dadeira de fratura diminui rapidamente com o aumento da fração volumétrica de partí-
culas de segunda fase (Fig. 7.9). Um cuidadoso estudo metalográfic0 5 da fratura dúctil
em aços-carbono contendo perlita mostrou que para iniciar a criação de vazios é ne-
cessária a combinação da tensão de tração aplicada e de uma zona de cisalhamento
concentrada. O mecanismo sugerido está mostrado na Fig. 7.18. Carbonetos que estão
paralelos à tensão de tração aplicada fissuram-se primeiro (Fig. 7.180). Uma zona de
cisalhamento concentrada a cerca de 50 0 com o eixo de tração causa uma fissuração

I H. C. Rogers, T r a n s . M e t a l l . S o c o A l M E , voi. 218, p. 498, 1%6; H. C. Rogers, em D u c t i l i t y , Capo 2,


American Society for Metais, MetaIs Park, ühio. 1968.
2 C. D. Beachem, T r a n s . A m . S o c o M e t., voi. 50, pp. 318-326, 1963.
3 Para uma revisão detalhada, ver A. R. Rosenfield, M e t a l l . R e v . 121, M e t . M a t e r . , abril de 1968, e J. L.
Mogford, M e t a l l . R e v . , voi. 12, pp. 49-60, 1967.
4 B. Edelson e W. Baldwin, T r a n s . A m . S o e . M e l . , voi. 55, pp. 230-250, 1962.
5 L. E. Miller e G. C. Smith, J. l r o n S t e e l l n s t . London, voi. 208, pp. 998-1005, 1970.

Document shared on www.docsity.com


d a s p la c a s d e c a rb o n e to s a d ja c e n te s (F ig . 7.18b). O s v a z io s c re s c e m (F ig . 7 .1 & ) e
c o a le s c e m p a ra fo rm a r a fra tu ra d ú c til (F ig . 7.1&1). A fo rm a d a p a rtíc u la p o d e te r u m a
g ra n d e in flu ê n c ia n a fra tu ra d ú c til. Q u a n d o a s p a rtíc u la s s ã o m a is e s fé ric a s d o q u e e m
p la c a s , c o m o n a p e rlita e s fe ro id iz a d a , a fis s u ra ç ã o d o s c a rb o n e to s é m u ito m a is d ifíc il
e a d u c tilid a d e a u m e n ta . A fis s u ra ç ã o d e c a rb o n e to s e s fe ro id iz a d o s é m a is d ifíc il p o r-
q u e a s d is c o rd â n c ia s n a m a triz fe rrític a p o d e m c o n to rn á -Io s m a is fa c ilm e n te d o q u e o s
c a rb o n e to s e m fo rm a d e p la c a s e , d e s s a m a n e ira , e v ita r q u e s e d e s e n v o lv a m a lta s
te n s õ e s n o s e m p ilh a m e n to s d e d is c o rd â n c ia s . D e v id o ta m b é m à m e n o r á re a d e c o n ta to
e n tre c a rb o n e to s e s fe ro id iz a d o s e a m a triz , a te n s ã o p ro d u z id a n a s p a rtíc u la s s e rá
m e n o r d o q u e p a ra o s c a rb o n e to s la m e la re s . C a rb o n e to s a rre d o n d a d o s m u ito fin o s e m
a ç o s te m p e ra d o s s ã o b e m re s is te n te s à fo rm a ç ã o d e v a z io s , o q u e c o n trib u i p a ra a b o a
d u c tilid a d e d e s s a e s tru tu ra a a lto s n ív e is d e te n s õ e s . F in a lm e n te , d e s d e q u e a s p a rtíc u -
la s d e s e g u n d a fa s e in v a ria v e lm e n te te rã o s u a s fo rm a s d e s to rc id a s p e lo s p ro c e s s o s d e
d e fo rm a ç ã o p lá s tic a , c o m o a la m in a ç ã o , é c o m u m v e rific a r q u e a re s is tê n c ia à fra tu ra
d ú c til (d u c tilid a d e ) v a ria g ra n d e m e n te c o m a o rie n ta ç ã o n u m a c h a p a o u p la c a la m i-
nada.
U m in íc io im p o rta n te n a d ire ç ã o d o d e s e n v o lv im e n to a n a lític o d a fra tu ra d ú c til fo i
fe ito p o r M c C lin to c k l, u s a n d o u m m o d e lo c o n s titu íd o d e b u ra c o s c ilín d ric o s in ic ia l-
m e n te d e ra io bo e e s p a ç a m e n to m é d io 1 A d e fo rm a ç ã o p a ra fra tu ra é d a d a p o r
0,

p a ra u m m a te ria l c o m u m a c u rv a d e te n s ã o -d e fo rm a ç ã o d a d a p o r (T = K e · n . N e s s a
e q u a ç ã o , ( T a e ( T b