Você está na página 1de 14

MODERNIDADE

E REVOLUÇÃO
Perry Anderson
Tradução: Maria Lúcia Montes

New Left Review, 144, Março-Abril 1984

tema da sessão desta noite vem despoja destas qualidades, não equivale
sendo foco de debate intelec- de modo algum a uma avaliação adequa-
tual, e de paixão política, há da da importância e do fascínio da obra
pelo menos sessenta ou setenta como um todo.
anos*. Noutras palavras, tem a esta
altura uma longa história. Ocorre, po-
rém, que no ano passado apareceu um Modernismo, modernidade, * Contribuição à Conferência
sobre o Marxismo e a inter-
livro que reabre o debate com uma pai- modernização pretação da Cultura, realiza
da na Universidade de Illinois,
xão tão renovada, com uma força tão em Urbana-Champaign, julho
inegável, que nenhuma reflexão agora so- O argumento essencial de Berman co- de 1983, na sessão cujo tema
era Modernidade e Revolução.
bre estas duas idéias — "modernidade" meça da seguinte maneira: Há um modo
e "revolução" — poderia evitar urna de experiência vital — experiência do
tentativa de acerto de contas com essa espaço e do tempo, de si mesmo e dos
obra. O livro a que me refiro é All that outros, das possibilidades e perigos da
vida — que é hoje em dia compartilha-
is Solid Melts into Air, de Marshall Ber-
do por homens e mulheres em toda parte
man. Minhas anotações esta noite tenta-
do mundo. Chamarei a este corpo de
rão — muito brevemente — examinar
experiência modernidade. Ser moderno
a estrutura do argumento de Berman e é encontrarmo-nos em um meio-ambien-
considerar em que medida ele nos for- te que nos promete aventura, poder, ale-
nece uma teoria convincente, capaz de gria, crescimento, transformação de nós
conjugar as noções de modernidade e mesmos e do mundo — e que, ao mes-
revolução. Começarei por reconstruir, mo tempo, ameaça destruir tudo o que
de forma comprimida, as linhas gerais temos, tudo o que conhecemos, tudo o
do seu livro para, em seguida, tecer al- que somos. Ambientes e experiências
guns comentários sobre a validade delas. modernos atravessam todas as fronteiras
Como em toda reconstrução deste tipo, de geografia e de etnias, de classe e na-
vai-se sacrificar aqui o ímpeto da ima- cionalidade, de religião e ideologia: nes-
ginação, a amplitude de afinidade cultu- te sentido, pode-se dizer que a moderni-
ral, a força de inteligência do texto, que dade une todo o gênero humano. Mas é
dão a All that is Solid Melts into Air uma unidade paradoxal, uma unidade de
todo o seu esplendor. Com o passar do desunidade: envolve-nos a todos num
tempo, tais qualidades certamente farão redemoinho perpétuo de desintegração e
desta obra um clássico em sua área. Uma renovação, de luta e contradição, de am-
adequada apreciação de todas elas foge bigüidade e angústia. Ser moderno é ser
à nossa tarefa de hoje. Mas é preciso di- parte de um universo em que, como dis-
zer de saída que uma análise do argu- se Marx, tudo o que é sólido se vola- 1 All that is Solid Melts into
Air, p. 15. O título é uma
mento geral do livro, como esta, que o tiliza 1 . frase do Manifesto Comunis-
ta, I.

2 NOVOS ESTUDOS N.º 14


O que gera esse turbilhão? Para Ber- em seus dois sentidos. Por um lado, o
man, trata-se de uma multidão de pro- capitalismo — na inesquecível frase de
cessos sociais — enumera entre eles as Marx no Manifesto, que constitui o leit-
descobertas científicas, as revoluções da motiv do livro de Berman — arrasa todo
indústria, as transformações demográfi- confinamento ancestral e toda restrição
cas, as formas de expansão urbana, os feudal, a imobilidade social e a tradição
Estados nacionais, os movimentos de dos claustros, numa imensa operação de
massa —, todos impulsionados, em últi- limpeza dos entulhos culturais e consue-
ma instância, pelo mercado mundial ca- tudinários por todo o planeta. A esse
pitalista, "em perpétua expansão e dras- processo corresponde uma formidável
ticamente flutuante". A estes processos emancipação das possibilidades e da sen-
ele chama, por conveniência da abrevia- sibilidade do eu individual, que agora
ção, modernização sócio-econômica. A cada vez mais se liberta da fixidez do
partir da experiência nascida com a mo- status social e da rígida hierarquia de
dernização surgiu, por sua vez, o que ele papéis característicos do passado pré-ca-
descreve como a espantosa variedade de pitalista, com sua moralidade estreita e
visões e idéias que visam a fazer de ho- seu limitado raio de imaginação. Por outro
mens e mulheres os sujeitos ao mesmo lado, como salientou Marx, este mesmo
tempo que os objetos da modernização, a avanço do desenvolvimento econômico
dar-lhes o poder de mudar o mundo que capitalista também gera uma sociedade
os está mudando, a abrir-lhes caminho brutalmente alienada e atomizada, di-
em meio ao turbilhão e apropriar-se dele lacerada por uma empedernida explora-
— visões e valores que acabaram por ser ção econômica e uma fria indiferença so-
agrupados frouxamente sob o nome de cial, capaz de destruir cada valor cultural
modernismo. A pretensão de seu livro ou político cujo potencial ela mesma
consiste, então, em revelar a "dialética despertou. De igual modo, no plano psi-
da modernização e do modernismo" 2 . cológico, o autodesenvolvimento só po-
2 Ibid., p. 16.
Entre os dois, encontra-se o termo- deria significar, nestas condições, profun-
médio chave — modernidade —, nem da desorientação e insegurança, frustra-
processo econômico nem visão cultural, ção e desespero, concomitantes com —
mas a experiência histórica, que faz a na verdade inseparáveis de — um senso
mediação entre um e outro. O que cons- de expansão e regozijo, novas capacida-
titui a natureza do vínculo entre ambos? des e sentimentos, liberados ao mesmo
Para Berman, trata-se, essencialmente, do tempo. Esta atmosfera de agitação e tur-
desenvolvimento. Este é, na verdade, o bulência, vertigem e embriaguez psíqui-
conceito central do seu livro, e está na ca, expansão das possibilidades da expe-
origem da maioria dos paradoxos que riência e destruição das fronteiras morais
contém — alguns deles explorados de e dos laços pessoais, auto-expansão e au-
maneira lúcida e convincente em suas toperturbação, fantasmas na rua e na al-
páginas, outros menos considerados ne- ma, escreve Berman, é a atmosfera em
las. Em All that is Solid Melts in to Air, que nasce a sensibilidade moderna 3.
desenvolvimento significa simultanea- Esta sensibilidade data, em suas mani- 3 Ibid., p. 18.
mente duas coisas. De um lado, refere-se festações primeiras, do advento do mer-
às gigantescas transformações objetivas cado mundial — 1500, ou por volta dis-
da sociedade desencadeadas pelo advento so. Mas em sua primeira fase, que para
do mercado mundial capitalista: ou se- Berman vai aproximadamente até 1790,
ja, essencialmente, mas não de modo ex- ainda lhe falta um vocabulário comum.
clusivo, desenvolvimento econômico. De Uma segunda fase estende-se então ao
outro lado, refere-se às impressionantes longo de todo o século XIX, e é aqui
transformações subjetivas da vida indi- que a experiência da modernidade se tra-
vidual e da personalidade que ocorrem duz nas várias visões clássicas de moder-
sob seu impacto: tudo o que está con- nismo, que ele define essencialmente por
tido na noção de autodesenvolvimento, sua constante habilidade de capturar am-
isto é, uma potenciação dos poderes do bos os lados das contradições do desen-
homem e uma amplificação da experiên- volvimento capitalista — ao mesmo tem-
cia humana. Para Berman, a combinação po, celebra e denuncia as transformações
de ambas, sob o ritmo compulsivo do sem precedentes que opera no mundo
mercado mundial, necessariamente cria material e no espiritual, sem nunca con-
uma dramática tensão interior nos indi- verter estas atitudes em antíteses estáti-
víduos que sofrem o desenvolvimento cas ou imutáveis. Goethe nos dá um pro-

FEVEREIRO DE 1986 3
MODERNIDADE E REVOLUÇÃO

tótipo da nova visão em seu Fausto, que versal, em que uma civilização feita à
num capítulo magnífico Berman analisa máquina, por si só, garante frêmitos es-
como a tragédia daquele que se desen- téticos e venturas sociais. O que ambas
volve neste sentido dual: abrir as com- as posições têm em comum, aqui, é uma
portas do eu, à custa de represar o ocea- simples identificação da modernidade
no. Tanto o Marx do Manifesto quanto com a própria tecnologia — excluindo
o Baudelaire dos poemas em prosa sobre radicalmente as pessoas que a produzem
Paris podem ser vistos como parentes e são por ela produzidas. Como escreve
próximos na mesma descoberta da mo- Berman: Nossos pensadores do século
dernidade — uma descoberta que, nas XIX eram simultaneamente entusiastas e
condições peculiares de uma moderniza- inimigos da vida moderna, inesgotavel-
ção forçada feita de cima para baixo nu- mente enredados numa luta corpo a corpo
ma sociedade atrasada, se prolonga na com suas ambigüidades e contradições;
longa tradição literária de São Peters- as ironias a respeito de si próprios, as
burgo, de Pushkin e Gogol a Dostoievs- tensões interiores constituíam uma fonte
ki e Mandelstam. Uma das condições desta básica de sua força criativa. Seus
sensibilidade assim criada, argumenta sucessores do século XX cambalearam
Berman, era a existência de um público muito mais para polaridades rígidas e to-
mais ou menos unificado, que ainda con- talizações achatadoras. A modernidade,
servava a memória de como era viver ou é abraçada com um entusiasmo cego
em um mundo pré-moderno. e acrílico, ou então é condenada com um
desprezo e um distanciamento neo-olím-
picos. Em ambos os casos, ela é conce-
o século XX, entretanto, esse bida como um monolito fechado, que os
público expandiu-se ao mesmo homens modernos são incapazes de mol-
tempo em que se fragmentou dar ou mudar. As visões abertas da vida
cm segmentos incomensuráveis. foram suplantadas por outras, fechadas; o
Com isso, a tensão dialética da experiên- tanto isto quanto aquilo foi substituído
cia clássica da modernidade sofreu uma pelo ou um ou outro6. O objetivo do 6 Ibid., p. 24.
transformação crítica. Embora a arte mo- livro de Berman é ajudar a restaurar
dernista registrasse triunfos nunca dantes nosso senso de modernidade pela rea-
alcançados — o século XX, diz Berman propriação das visões clássicas de mo-
numa frase afoita, talvez seja o mais dernidade. Pode ser então que se des-
brilhantemente criativo na história do cubra que voltar atrás seja um modo de
mundo4 —, ao mesmo tempo ela deixava ir em frente: que a lembrança dos mo- 4 Ibid., p. 24.
de se conectar com ou de informar dernismos do século XIX nos possa dar
qualquer vida comum: como diz ele, não a visão e a coragem para criar os moder-
sabemos como usar nosso modernismo5. nismos do século XXI. Este ato de lem- 5 Ibid., p. 24.
O resultado foi uma drástica polarização brar pode ajudar-nos a trazer o moder-
no pensamento moderno sobre a expe- nismo de volta às suas raízes, de modo
riência da própria modernidade, aplanan- a permitir-lhe que se nutra e se renove,
do seu caráter essencialmente ambíguo para enfrentar as aventuras e perigos
ou dialético. Por um lado, de Weber a que tem pela frente7 . 7 Ibid., p. 36.
Ortega, de Eliot a Tate, de Leavis a Mar- Esta é a força-motriz de All that is
cuse, a modernidade do século XX tem Solid Melts into Air. Só que o livro con-
sido incessantemente condenada como tém um subtexto muito importante, que
uma gaiola de ferro de conformismo e
precisa ser notado. O título e o tema
mediocridade, um deserto espiritual em
organizador vêm do Manifesto Comu-
que vagueiam populações sem qualquer
comunidade orgânica ou autonomia vital. nista, e o capítulo sobre Marx é um dos
Por outro lado, contra estas visões de mais interessantes do livro. Mas ele aca-
desespero cultural, em outra tradição ba sugerindo que a própria análise de
que se estende de Marinetti a Le Corbu- Marx da dinâmica da modernidade so-
sier, de Buckminster Fuller a Marshall lapa, no fim das contas, a própria pers-
McLuhan, para não falar dos apologis- pectiva do futuro comunista, ao qual ele
tas declarados da própria "teoria da mo- julgava que ela deveria levar. Pois, se a
dernização" capitalista, tem-se ostensiva- essência da libertação dos entraves da
mente alardeado que a modernidade cons- sociedade burguesa consistisse em se
titui a última palavra em matéria de ex- atingir, pela primeira vez, um desenvol-
citação dos sentidos e de satisfação uni- vimento verdadeiramente ilimitado do
indivíduo — depois de removidos os li-

4 NOVOS ESTUDOS N.º 14


mites do capital, com todas as suas de- A necessidade de periodização
formidades —, o que poderia garantir a
harmonia dos indivíduos assim emanci- Como disse, o argumento de Berman
pados ou a estabilidade de qualquer so- é original e atraente, apresentado com
ciedade por eles composta? Mesmo que, grande perícia e verve literárias. Une
indaga Berman, os operários de fato uma postura política generosa a um ca-
construam um movimento comunista que loroso entusiasmo intelectual por seu te-
tenha êxito, e mesmo que esse movimento ma: tanto a noção do moderno quanto a
dê lugar a uma revolução vitoriosa, do revolucionário saem, por assim dizer,
como conseguirão eles, em meio à maré moralmente redimidas de suas páginas.
cheia da vida moderna, construir uma so- Para Berman, com efeito, o
ciedade comunista sólida? O que impede modernismo é por definição
que as forças sociais que dissolvem o ca- profundamente revolucionário. Como
pitalismo dissolvam igualmente o comu- proclama a contra-capa do livro: Ao
nismo? Se todas as novas relações se tor- contrário do que afirma a crença
nam obsoletas antes que possam ossifi- convencional, a revolução modernista não
car-se, como será possível manter vivas acabou. Escrito de um ponto de vista de
a solidariedade, a fraternidade e a ajuda esquerda, merece a mais ampla discussão
mútua? Um governo comunista poderia e análise por parte da esquerda.
tentar erguer um dique contra a enchen-
te, mediante a imposição de restrições Tal discussão deve começar pelo exa-
radicais não só à atividade e ao empre- me dos termos-chaves de Berman, "mo-
endimento econômicos (todos os gover- dernização" e "modernismo", para pas-
sar em seguida aos encadeamentos que
nos socialistas fizeram isso, exatamente
existem entre eles, através da noção bi-
como todos os Estados de bem-estar ca-
fronte de "desenvolvimento". Se fizer-
pitalistas), mas também à expressão pes-
mos isso, a primeira coisa a chamar a
soal, cultural e política. Mas, na medida atenção é que, embora Berman tenha
em que tal política fosse bem sucedida, captado com inigualável força de imagi-
não trairia ela o objetivo de Marx quanto nação uma dimensão crítica da visão da
ao livre desenvolvimento de todos e de história de Marx no Manifesto Comu-
cada um?8 No entanto — e cito no- nista, ele omite ou considera apenas su- 8 Ibid., p. 104.
vamente — se um compromisso triun- perficialmente outra dimensão, que é não
fante pudesse algum dia passar pelas menos crítica para Marx, e complemen-
comportas abertas pelo livre comércio, tar à primeira. A acumulação do capital,
quem sabe que temíveis impulsos por aí para Marx, com a incessante expansão
também não passariam com ele, ou em da forma mercadoria pelo mercado na
seu rastro, ou embutidos em seu interior? verdade constitui um dissolvente univer-
É fácil imaginar como uma sociedade sal do velho mundo social, e pode ser
comprometida com o livre desenvolvi- legitimamente apresentada como um pro-
mento de todos e de cada um poderia cesso de constante revolucionamento da
desenvolver suas próprias e distintivas produção, de perturbação ininterrupta,
variedades de niilismo. Na verdade, um de permanente incerteza e agitação, nas
niilismo comunista poderia revelar-se palavras de Marx. Notem-se os três adje-
muito mais explosivo e desintegrador tivos: constante, ininterrupto, perma-
que seu precursor burguês — embora nente. Eles denotam um tempo histórico
também mais audacioso e original —, homogêneo, em que cada momento é
pois, enquanto o capitalismo corta as perpetuamente diferente de todos os ou-
infinitas possibilidades da vida moderna tros em virtude de ser o seguinte mas —
nos limites da linha inferior, o comunis- por isso mesmo — é eternamente o mes-
mo de Marx poderia projetar o eu libe- mo, como uma unidade intercambiável
rado em imensos espaços humanos des- num processo de recorrência infinita.
conhecidos e sem qualquer limite. Con- Extrapolada da totalidade da teoria do
clui assim Berman: Ironicamente, por- desenvolvimento capitalista de Marx, esta
tanto, podemos ver a dialética da moder- ênfase pode, de maneira muito rápida e
nidade de Marx reeditar o destino da so- fácil, resultar no paradigma da moder-
ciedade que descreve, gerando energias nização propriamente dita — uma teoria
e idéias que a dissipam em seu próprio antimarxista, evidentemente, do ponto
ar9. de vista político.
9 Ibid., p. 114.

FEVEREIRO DE 1986 5
MODERNIDADE E REVOLUÇÃO

ara o nosso objetivo, no entan- desenvolvimento econômico e o desen-


to, o ponto relevante é que a volvimento individual, que constitui o
idéia de modernização envolve tema central do argumento de Berman,
uma concepção de desenvolvi- quando Marx fala do "ponto de flora-
mento fundamentalmente plano — um ção" da base do modo de produção ca-
processo de fluxo contínuo em que não pitalista, refere-se ao ponto em que ela
há diferenciação real de uma conjuntura pode unir-se ao mais alto desenvolvi-
ou época em relação a outra, exceto em mento das forças produtivas, assim como
termos de mera sucessão cronológica do o ponto do mais rico desenvolvimento
velho e do novo, do anterior e do pos- do indivíduo — ele também estipula ex-
terior, categorias que são elas próprias pressamente: Não obstante, ela ainda é
sujeitas a uma incessante permutação de esta base, esta planta em flor, e portanto
posições numa única direção, à medida ela fenece após a floração e como con-
que o tempo passa e o posterior se con- seqüência de haver florido. (. . .) Tão lo-
verte em anterior, o mais novo em mais go se atinge este ponto, continua, qual-
velho. Este é, naturalmente, um registro quer desenvolvimento ulterior toma a 10 Grundrisse der Kritik der
Politischen Ökonomie, Frank-
preciso da temporalidade do mercado e forma de um declínio 10 . Noutras pala- furt, 1967, p. 439.
das mercadorias que por ele circulam. vras, a história do capitalismo deve ser
Mas a própria concepção de Marx so- periodizada, e sua trajetória determinada
bre o tempo histórico do modo de pro- deve ser reconstruída, se quisermos che-
dução capitalista como um todo era bas- gar a qualquer compreensão sensata do
tante diferente desta: tratava-se de uma que significa realmente "desenvolvimen-
temporalidade complexa e diferencial, to" capitalista. O conceito de moderni-
em que os episódios ou eras eram des- zação obstrui a própria possibilidade de
contínuos em relação uns aos outros, e se fazer isso.
heterogêneos em si mesmos. A maneira
mais óbvia em que esta temporalidade
diferencial entra na própria construção A multiplicidade dos modernismos
do modelo de Marx do capitalismo en-
contra-se, evidentemente, ao nível da
ordem de classe por ele gerada. De modo Passemos agora ao termo complemen-
geral, pode-se dizer que as classes tar de Berman, "modernismo". Embora
enquanto tais praticamente não figuram ele seja posterior a modernização, no
na explicação de Berman. A única exce- sentido de que assinala o surgimento de
ção significativa é uma bela discussão um vocabulário coerente para expressar
uma experiência de modernidade que o
sobre o quanto a burguesia sempre dei-
precedeu, uma vez instalado, também o
xou de se conformar ao absolutismo do
modernismo não conhece nenhum prin-
livre comércio postulado por Marx no
cípio interno de variação. Ele simples-
Manifesto: mas isto tem poucas reper- mente continua a reproduzir-se. É mui-
cussões sobre a arquitetura do livro co- to significativo que Berman tenha de
mo um todo, no qual há muito pouco afirmar que a arte do modernismo flo-
entre economia, de um lado, e psicolo- resceu e continua a florescer como nunca
gia, de outro, exceção feita à cultura do antes no século XX — mesmo quando
modernismo que serve de ligação entre protesta contra as correntes de pensa-
ambas. A sociedade enquanto tal está mento que nos impedem de incorporar
efetivamente ausente. Mas, se conside- adequadamente essa arte em nossas vi-
rarmos a explicação que Marx dá dessa das. Há uma série de dificuldades ób-
sociedade, o que encontramos é algo que vias com esta posição. A primeira é que
está muito distante de qualquer processo o modernismo, como um conjunto espe-
de desenvolvimento plano. A trajetória cífico de formas estéticas, é, de modo
da ordem burguesa é antes curvilínea. geral, datado precisamente a partir do
Ela traça não uma linha reta que avança século XX, sendo mesmo construído tipi-
sempre em frente ou um círculo que camente em contraste com as formas
se expande infinitamente em direção ao clássicas, realistas ou outras, dos séculos
exterior, mas uma nítida parábola. A XIX, XVIII e mesmo dos séculos ante-
sociedade burguesa conhece uma ascen- riores. Praticamente todos os textos lite-
são, uma estabilização e um declínio. rários de fato analisados tão bem por
Nas próprias passagens dos Grundrisse Berman — sejam eles de Goethe ou
que contêm as afirmações mais líricas e Baudelaire, Pushkin ou Dostoievski —
incondicionais acerca da unidade entre o precedem o modernismo propriamente

6 NOVOS ESTUDOS N.º 14


dito, neste sentido usual da palavra: as ções já continha as formações daquelas
únicas exceções são textos de ficção de mesmas polaridades que Berman execra
Bely e Mandelstam que, precisamente, nas teorizações contemporâneas ou sub-
são artefatos do século XX. Noutras pa- seqüentes da cultura moderna como um
lavras, segundo critérios mais convencio- todo. O expressionismo alemão e o futu-
nais, mesmo o modernismo deve ser en- rismo italiano, em suas tonalidades res-
quadrado em alguma concepção mais pectivamente contrastadas, constituem
diferencial de tempo histórico. Um se- um exemplo acabado nesse sentido. Uma
gundo ponto relacionado a este é que, dificuldade final com relação à análise
uma vez tratado deste modo, é surpre- de Berman é que, nos seus próprios ter-
endente o quanto sua distribuição, do mos de referência, ela é incapaz de for-
ponto de vista geográfico, é de fato de- necer qualquer explicação para a di-
sigual. Mesmo no mundo europeu ou vergência, que deplora, entre a arte e o
ocidental de modo geral, existem impor- pensamento, a prática e a teoria da mo-
tantes áreas que praticamente não de- dernidade no século XX. Aqui, na ver-
ram origem a nenhum momentum mo- dade, o tempo se divide em seu argu-
dernista. Meu próprio país, a Inglater- mento, de um modo significativo: ocor-
ra, pioneira da industrialização capitalis- reu algo como um declínio, do ponto de
ta, dominando o mercado mundial du- vista intelectual, que seu livro procura
rante um século, constitui um bom reverter com um retorno ao espírito
exemplo nesse sentido: cabeça de ponte clássico do modernismo como um todo,
para Eliot ou Pound, rumando ao largo capaz de informar igualmente a arte e
até Joyce, ela não produziu nenhum mo- o pensamento. Mas esse declínio per-
vimento nativo de tipo modernista vir- manece ininteligível dentro do seu es-
tualmente significativo nas primeiras dé- quema, uma vez que a própria moderni-
cadas deste século — diferentemente do zação é concebida como um processo
que ocorreu na Alemanha ou na Itália, linear de prolongamento e expansão, que
França ou Rússia, Holanda ou América. necessariamente traz consigo uma reno-
Não foi por acidente que ela devesse ser vação constante das fontes da arte mo-
a grande ausente da sinopse de Berman dernista.
em All that is Solid Melts into Air. Ou
seja, mesmo o espaço do modernismo é
diferencial. A conjuntura sócio-política
Uma terceira objeção à leitura que
Berman faz do modernismo como um to- Uma maneira alternativa de compreen-
do é a de que não estabelece distinções, der as origens e as aventuras do moder-
nem entre tendências estéticas muito nismo consiste em examinar mais de
contrastadas, nem no interior do conjunto perto a temporalidade histórica diferen-
de práticas estéticas que compõem as cial em que se inscreve. Na tradição
próprias artes. Na realidade, é a varie- marxista há um modo famoso de fazer
dade proteiforme de relações com a mo- isto. É o caminho tomado por Lukács,
dernidade capitalista o que mais surpre- a partir do estabelecimento de uma
ende no vasto agrupamento de movimen- equação direta entre a mudança de pos-
tos reunidos de modo típico sob a rubrica tura política do capital europeu após as
comum de modernismo. Simbolismo, revoluções de 1848 e o destino das for-
expressionismo, cubismo, futurismo ou mas culturais produzidas pela burguesia
construtivismo, surrealismo — houve ou no seu âmbito de influência como
talvez cinco ou seis correntes decisivas uma classe social. Na segunda metade do
de "modernismo" nas primeiras décadas século XIX, para Lukács, a burguesia
do século, das quais quase tudo o que torna-se puramente reacionária — aban-
veio depois foi uma derivação ou mu- dona seu conflito com a nobreza, numa
tação. Poder-se-ia pensar que a natureza escala continental, para engajar-se numa
antitética das doutrinas e práticas pe- luta total contra o proletariado. Com is-
culiares a tais correntes fosse por si só so, ela entra numa fase de decadência
suficiente para excluir a possibilidade de ideológica, cuja expressão estética ini-
que tivesse existido uma única Stimmung cial é sobretudo naturalista, mas que vai
característica, capaz de definir a postura dar enfim no modernismo do início do
modernista clássica com relação à mo- século XX. Hoje em dia, este esquema
dernidade. Grande parte da arte produ- é amplamente execrado pela esquerda.
zida de dentro desse conjunto de posi- Na verdade, na obra de Lukács, ele pro-

FEVEREIRO DE 1986 7
MODERNIDADE E REVOLUÇÃO

duziu com freqüência análises locais bas- captá-lo com suficiente precisão. Trata-
tante perspicazes no campo da filosofia se da codificação de um academicismo
propriamente dita: A Destruição da Ra- altamente formalizado, nas artes visuais
zão é um livro que de modo algum pode e outras, o qual, por sua vez, era insti-
ser negligenciado, por mais que seu pós- tucionalizado nos regimes oficiais de Es-
escrito o tenha prejudicado. Por outro tados e sociedades ainda maciçamente
lado, no campo da literatura — a prin- impregnados, não raro dominados, pelas
cipal área em que Lukács o aplica — o classes aristocráticas ou terratenentes:
esquema revelou-se relativamente estéril. sem dúvida, classes economicamente "ul-
trapassadas" em certo sentido, mas que
ainda, em outros planos, davam o tom
notável que não exista nenhu- político e cultural nos países da Europa
ma exploração lukácsiana de antes da Primeira Guerra Mundial.
qualquer obra de arte moder- As conexões entre esses dois fenôme-
nista que se compare, em deta- nos estão graficamente traçadas num tra-
lhe ou em profundidade, ao seu trata- balho fundamental há pouco publicado
mento da estrutura das idéias em Schel- por Arno Mayer, The Persistence of the
Old Regime11, cujo tema central é esta- tence
11
ling ou Schopenhauer, Kierkegaard ou Arno Mayer, The Persis-
of the Old Regime,
Nietzsche; em contrapartida, Joyce ou belecer em que medida a sociedade euro- Nova York, 1981, pp. 189
273.
Kafka — para mencionar apenas duas péia era ainda, até 1914, dominada por
de suas bêtes noires literárias — são classes dirigentes agrárias ou aristocrá-
quase tão-somente invocados, sem nun- ticas (as duas não eram necessariamente
ca serem estudados por si mesmos. O idênticas, como deixa claro o caso da
erro básico da ótica de Lukács consiste, França), em economias onde a indústria
aqui, no seu evolucionismo: isto é, o pesada moderna ainda constituía um se-
tempo difere de uma época para outra, tor surpreendentemente pequeno, tanto
mas no interior de cada época todos os em termos da força de trabalho empre-
setores da realidade social se movem em gada quanto do padrão de produção. A
sincronia uns com os outros, de tal mo- segunda coordenada é um complemento
do que o declínio em um nível deve lógico da primeira: a emergência ainda
refletir-se como descenso em todos os incipiente, e portanto essencialmente nova
outros. O resultado é uma noção de "de- no interior dessas sociedades, das
cadência" claramente supergeneralizada, tecnologias ou invenções-chaves da se-
mas que tem como atenuante o fato de gunda revolução industrial — telefone,
ser enormemente afetada, é claro, pelo rádio, automóvel, avião etc. As indús-
espetáculo do colapso da sociedade ale- trias de bens de consumo de massa ba-
mã e da maior parte de sua cultura esta- seadas nas novas tecnologias ainda não
belecida — na qual ele próprio havia si- tinham sido implantadas em parte algu-
do formado — que se precipitavam no ma da Europa onde, até 1914, a indús-
nazismo. tria do vestuário, de alimentação e mo-
Mas se nem o perenialismo de Berman biliário continuavam a ser esmagadora-
nem o evolucionismo de Lukács forne- mente os maiores setores de produção
cem explicações satisfatórias para o mo- de bens de consumo em termos de em-
dernismo, qual é a alternativa? A hipó- prego e rotatividade.
tese que vou aqui sugerir brevemente é Por fim, devo argumentar que a ter-
a de que deveríamos procurar preferi- ceira coordenada da conjuntura moder-
velmente uma explicação conjuntural para nista foi a proximidade imaginativa da
o conjunto de práticas e doutrinas es- revolução social. A extensão da esperan-
téticas mais tarde agrupadas como "mo- ça ou da apreensão suscitadas pelo pros-
dernistas". Tal explicação envolveria a pecto de tal revolução variava ampla-
intersecção de diferentes temporalidades mente: mas, na maior parte da Europa,
históricas a fim de compor uma confi- estava "no ar" durante a Belle Époque.
guração tipicamente sobredeterminada. A razão disso é, mais uma vez, bastante
Quais seriam essas temporalidades? A clara: formas do ancien régime dinásti-
meu ver, pode-se entender melhor o co, como Mayer as chama, ainda persis-
"modernismo" como um campo cultural tiam: monarquias imperiais na Rússia,
de força triangulado por três coordena- Alemanha e Áustria; uma ordem real
das decisivas. A primeira delas é algo precária na Itália; mesmo na Grã-Breta-
que Berman insinua numa passagem, mas nha, o Reino Unido achava-se ameaçado
situa demasiado atrás no tempo, sem pela desintegração regional e pela guerra

8 NOVOS ESTUDOS N.º 14


civil nos anos que antecederam a Pri- rente de sensibilidade "modernista", as
meira Guerra Mundial. Em nenhum Es- energias e os atrativos de uma nova era
tado europeu a democracia burguesa se da máquina eram um poderoso estímulo
havia completado como uma forma; nem à imaginação: o estímulo que se reflete,
o movimento operário se havia integrado de modo bastante patente, no cubismo
ou cooptado como uma força. As saídas parisiense, no futurismo italiano ou no
revolucionárias possíveis diante de uma construtivismo russo. Contudo, a condi-
destruição eventual da antiga ordem ção desse interesse residia em que as
eram, assim, profundamente ambíguas. técnicas e os artefatos fossem abstraídos
Seria uma nova ordem mais genuína e das relações sociais de produção que os
radicalmente capitalista, ou seria ela so- estavam criando. O capitalismo enquanto
cialista? A Revolução Russa de 1905- tal jamais foi exaltado por qualquer tipo
1907 — que atraiu a atenção de toda a de "modernismo". Mas a extrapolação a
Europa — era emblemática dessa ambi- que se procedia tornava-se possível
güidade: uma sublevação a uma só vez e justamente graças ao caráter incipiente
inseparavelmente burguesa e proletária. de um padrão sócio-econômico ainda im-
Qual a contribuição de cada uma previsível, e que mais tarde iria conso-
dessas coordenadas para a emergência do lidar-se tão inexoravelmente à sua volta.
campo de força que define o modernis- Não era óbvio aonde iriam levar os no-
mo? Em poucas palavras, creio que foi vos dispositivos e as novas invenções.
a seguinte: a persistência dos anciens Daí a celebração, por assim dizer ambi-
régimes, e do academicismo que ia de destra, que deles se fazia, tanto à direita
par com eles, forneceu um conjunto crí- como à esquerda — Marinetti ou Maia-
tico de valores culturais contra os quais kovski. Finalmente, a bruma da revo-
podiam medir-se as formas insurgentes lução social, que pairava sobre o hori-
de arte, mas também em termos dos zonte dessa época, foi responsável por
quais elas podiam articular-se parcial- grande parte do tom apocalíptico daque-
mente a si mesmas. Sem o adversário las correntes do modernismo que rejei-
comum do academicismo oficial, o gran- tavam de modo mais irremissível e vio-
de arco das novas práticas estéticas tem lentamente radical a ordem social como
pouca ou nenhuma unidade: sua tensão um todo, dentre as quais a mais signifi-
com os cânones estabelecidos ou consa- cativa foi sem dúvida o expressionismo
grados que encontram pela frente é cons- alemão. O modernismo europeu nos pri-
titutiva de sua definição enquanto tal. meiros anos deste século floresceu assim
Ao mesmo tempo, porém, a antiga or- no espaço situado entre um passado
dem, precisamente no que ainda tinha clássico ainda utilizável, um presente
de coloração parcialmente aristocrática, técnico ainda indeterminado e um fu-
oferecia um conjunto de códigos e recur- turo político ainda imprevisível. Dito
sos disponíveis, a partir dos quais se de outro modo, ele surgiu na intersec-
poderia também resistir às devastações ção de uma ordem dominante semi-
do mercado como princípio organizador aristocrática, uma economia capitalista
da cultura e da sociedade, aliás unifor- semiindustrializada e um movimento ope-
memente detestado por todas as espécies rário semiemergente, ou semiinsurgente.
de modernismo. Os estoques clássicos da
alta cultura ainda preservados — mesmo
que deformados e amortecidos — pelo Primeira Guerra Mundial alte-
academicismo do final do século XIX rou, com sua chegada, todas
poderiam ser resgatados e dirigidos con- essas coordenadas. Mas não
tra ele, bem como contra o espírito co- eliminou nenhuma delas. Por
mercial da época, como muitos desses outros vinte anos mais, elas continua-
movimentos o caracterizavam. A relação riam a sobreviver, numa espécie de so-
de imagistas como Pound com as con- brevida física. Do ponto de vista polí-
venções eduardianas e com a poesia lírica tico, é claro, desapareceram os Estados
romana, ou, mais tarde, a relação de dinásticos da Europa oriental e central.
Eliot com Dante ou os metafísicos, é Mas a classe dos Junkers conservou gran-
típica de um dos lados desta situação; a de poder na Alemanha do pós-guerra; o
irônica proximidade de Proust ou Musil Partido Radical, de base agrária, conti-
com as aristocracias da França ou da nuou a dominar a Terceira República
Áustria é característica do outro. na França, sem grande mudança de tom;
Ao mesmo tempo, para um tipo dife- na Grã-Bretanha, o mais aristocrático

FEVEREIRO DE 1986 9
MODERNIDADE E REVOLUÇÃO

dos dois partidos tradicionais, o dos to do que, na verdade, se revelaria como


Conservadores, virtualmente eliminou a última das grandes doutrinas da avant-
seus rivais mais burgueses, os Liberais, garde européia — o surrealismo na
passando, a seguir, a dominar todo o França.
período entre as duas guerras. Do ponto
de vista social, persistiu até o fim da
década de 30 um modo de vida distintivo Acaba a estação do Ocidente
das classes altas, cuja marca registrada —
completamente ausente da existência dos Foi a Segunda Guerra Mundial — e
ricos após a Segunda Guerra Mundial — não a Primeira — que destruiu todas
era a "normalidade" de se possuir essas três coordenadas históricas que aca-
criadagem doméstica. Foi a última classe bo de discutir, interrompendo com isso
verdadeiramente ociosa na história a vitalidade do modernismo. Depois de
metropolitana. A Inglaterra, onde tal 1945, tinha definitivamente acabado em
continuidade era mais forte, deveria todos os países a velha ordem semiaris-
produzir a maior representação ficcional tocrática ou agrária, com tudo o mais
daquele mundo na obra de Anthony que compunha seu séquito. A democra-
Powell, Dance to the Music of Time, cia burguesa finalmente se universaliza-
uma remembrança não-modernista da ra. Com isso, alguns laços críticos com
época subseqüente. Do ponto de vista um passado pré-capitalista soltaram-se
econômico, as indústrias de produção em bruscamente. Ao mesmo tempo, o For-
massa, baseadas nas novas invenções dismo chegou com força total. A produ-
tecnológicas do início do século XX, con- ção e o consumo de massa transforma-
seguiram firmar-se um pouco em dois ram as economias da Europa Ocidental
países apenas — a Alemanha, no período segundo o figurino norte-americano. Já
de Weimar, e a Inglaterra no final dos não poderia haver a menor dúvida quanto
anos trinta. Mas em nenhum dos dois ao tipo de sociedade que esta tecnologia
casos havia ocorrido uma implantação consolidaria: instalara-se agora uma
generalizada daquilo que Gramsci cha- civilização capitalista opressivamente es-
maria de "Fordismo" comparável ao que tável, monoliticamente industrial.
já existia nos Estados Unidos há duas Numa passagem maravilhosa de seu
décadas. livro Marxism and Form, Fredric Jame-
Às vésperas da Segunda Guerra Mun- son captou de modo admirável o que
dial, a Europa ainda estava mais de uma isto significava para as tradições da van-
geração atrasada em relação à América guarda que haviam valorizado ao extre-
na estrutura de sua indústria civil e em mo as novidades dos anos 20 e 30, pelo
seu padrão de consumo. Por último, a seu potencial onírico, desestabilizador:
perspectiva de uma revolução estava A imagem surrealista, nota ele, era um
agora mais próxima e tangível do que convulsivo esforço para arrebentar as
nunca — um prospecto que se havia formas-mercadoria do universo objetivo,
materializado triunfalmente na Rússia, ao fazer com que se chocassem umas con-
12 Marxism and Form, Prin-
que havia tocado com suas asas a Hun- tra as outras com imensa força ¹². Mas ceton, 1971, p. 96.
gria, a Itália e a Alemanha logo depois a condição do seu sucesso residia em que
da Primeira Guerra Mundial, e que es- esses objetos — os lugares da chance
tava para assumir uma nova e dramática objetiva ou da revelação preternatural —
"imediatidade" na Espanha, no final são imediatamente identificáveis como os
desse período. Foi nesse espaço, que pro- produtos de uma economia ainda não
longava, a seu próprio modo, um solo plenamente industrializada e sistemati-
anterior, que as formas de arte generi- zada, lsto significa que as origens huma-
camente "modernistas" continuaram a nas dos produtos desse período — sua
demonstrar grande vitalidade. Isolado relação com o trabalho de que são prove-
das obras-primas literárias publicadas nientes — ainda não foram inteiramente
nesses anos, mas essencialmente alimen- ocultadas; em sua produção eles ainda
tado nas anteriores, o teatro de Brecht mostram traços de uma organização arte-
foi um dos memoráveis produtos da con- sanal do trabalho, enquanto sua distri-
juntura do entre-guerras, na Alemanha. buição ainda é assegurada por uma rede
Um outro foi o surgimento, pela pri- de pequenos comerciantes. . . O que
meira vez, de um verdadeiro movimento torna tais produtos preparados para re-
do modernismo na arquitetura, com a ceber o investimento de energia psíquica
Bauhaus. Um terceiro foi o aparecimen- característico do seu uso pelo surrealis-

10 NOVOS ESTUDOS N.º 14


mo é precisamente a marca mal traçada, ratura, na pintura, na música ou na ar-
ainda não apagada, do trabalho humano: quitetura desse período pode ser com-
eles ainda são gesto congelado, não intei- parada com a produção da época ante-
ramente separado da subjetividade, e por rior. Refletindo sobre o que chama "a
isso permanecem potencialmente tão extraordinária concentração de obras-
misteriosos e expressivos quanto o pró- primas literárias por volta da Primeira
prio corpo humano ¹³. Jameson continua Guerra Mundial", em seu livro recente 13 Ibid., pp. 103-104.
então: Basta apenas trocar esse ambiente Signs Taken for Wonders, Franco Mo-
de pequenas oficinas e balcões de arma- retti escreve: Extraordinária por causa
zéns, o marché aux puces e as barracas de sua quantidade, como mesmo a mais
nas ruas, pelos postos de gasolina ao lon- rudimentar das listas pode demonstrar
go das superautoestradas da América, (Joyce e Valéry, Rilke e Kafka, Svevo
pelas fotografias lustrosas nas revistas e Proust, Hofmannsthal e Musil, Apolli-
ou pelo paraíso de celofane de um naire, Maiakovsky); mas até mais que
drugstore americano, para nos darmos extraordinária pelo fato desta abundân-
conta de que os objetos do surrealismo cia de obras (como fica claro agora, de-
desapareceram sem deixar vestígios. Da- pois de mais de meio século) ter consti-
qui para a frente, no que se pode chamar tuído a última literary season da cultura
de capitalismo pós-industrial, os produ- ocidental. Em poucos anos a literatura
tos de que nos abastecemos são inteira- européia deu o melhor de si e parecia
na iminência de abrir novos e ilimitados
mente desprovidos de profundidade: seu
horizontes: ao invés disso, morreu. Al-
conteúdo plástico é totalmente incapaz guns poucos icebergs isolados, e muitos
de servir como um condutor de energia imitadores; mas nada comparável com
psíquica. Desde o início, exclui-se qual- o passado 15.
quer investimento libidinal em tais obje- 15 Signs Taken for Wonders,
Seria um pouco de exagero generali- Londres, 1983, p. 209.
tos, e podemos mesmo nos perguntar se zar este julgamento para as outras artes,
é verdade que nosso universo de objetos, mas — infelizmente — nem tanto. Es-
a partir de então, já não tem mais condi- critores, pintores, arquitetos ou músicos
ções de produzir qualquer símbolo capaz produziram, é claro, individualmente,
de instigar a sensibilidade humana, ou uma obra significativa depois da Segun-
se não nos encontramos aqui em presen- da Guerra Mundial. Mas as altitudes a
ça de uma transformação cultural de pro- que chegaram as duas ou três primeiras
porções notáveis, uma ruptura histórica décadas do século raramente foram de
de um tipo inesperadamente radical14. novo alcançadas, ou nunca mais. Tampou-
14 Ibid., p. 105.

co surgiu, após o surrealismo, qualquer


novo movimento estético de importância
or fim, a imagem ou a esperan
coletiva, capaz de atuar em mais de uma
ça da revolução foram murchan-
forma de arte. Apenas na pintura e na
do no Ocidente. O início da
escultura escolas e slogans especializa-
Guerra Fria e a sovietização da
Europa Oriental cancelaram por todo dos sucederam-se uns aos outros, cada
um período histórico qualquer perspecti- vez com maior rapidez: mas, depois do
va realista de uma destruição do capita- momento do expressionismo abstrato —
lismo avançado pelo socialismo. A ambi- a última vanguarda genuína do Ocidente
güidade da aristocracia, o absurdo do —, eles existiram mais em função de um
academicismo, a jovialidade dos primei- sistema de galerias que necessitava de
ros carros ou das primeiras fitas de cine- um output regular de novos estilos, como
ma, a palpabilidade de uma alternativa materiais para o desfile comercial da
socialista, tinham todos desaparecido ago- temporada, segundo o modelo da haute
ra. Em seu lugar, reinava agora uma couture: um padrão econômico corres-
economia de produção universal de mer- pondente ao caráter não-reprodutível
cadorias, rotinizada e burocratizada, na de obras "originais" nessas áreas espe-
qual consumo de massa e cultura de cíficas.
massa haviam praticamente se tornado Era agora, no entanto, quando tudo
termos intercambiáveis. As vanguardas o que criara a arte clássica do início do
do pós-guerra deveriam definir-se essen- século XX estava morto, que nasciam a
cialmente contra esse pano de fundo to- ideologia e o culto do modernismo. A
talmente novo. Não é necessário julgá- própria concepção de modernismo, como
las do alto de um tribunal lukácsiano coisa de uso corrente, não data de muito
para notar o óbvio: pouca coisa na lite- antes dos anos 50. O que ela prenuncia-

FEVEREIRO DE 1986 11
MODERNIDADE E REVOLUÇÃO

va era o colapso, visível por toda parte, neo no Ocidente é, ao contrário, o fecha-
da tensão entre as instituições e meca- mento de horizontes: sem um passado
nismos do capitalismo avançado, e as apropriável nem um futuro imaginável,
práticas e programas da arte avançada, num presente interminavelmente recor-
que ocorria na medida em que aquele rente.
anexava a esta como decoração ou diver- Isto, evidentemente, não é verdade
são ocasional, ou como seu point d'hon- com relação ao Terceiro Mundo. É signi-
neur filantrópico. As poucas exceções ficativo que tantos dos exemplos do que
do período sugerem a força da regra. O Berman considera como as grandes rea-
cinema de Jean-Luc Godard, nos anos lizações modernistas do nosso tempo se-
60, é talvez o caso mais notável nesse jam tirados da literatura latino-america-
sentido. À medida que a Quarta Repú- na. Pois no Terceiro Mundo, de modo
blica cedia já com atraso seu lugar à geral, existe hoje uma espécie de confi-
Quinta, e a França rural e provinciana guração que, como uma sombra, repro-
se transformava repentinamente por uma duz algo do que antes prevalecia no Pri-
industrialização que, sob o comando de meiro Mundo. Oligarquias pré-capitalis-
De Gaulle, se apropriava das mais novas tas dos mais variados tipos, sobretudo as
tecnologias internacionais, algo como um de caráter fundiário, são ali abundantes;
breve clarão no crepúsculo a refletir a nessas regiões, onde ele ocorre, o desen-
conjuntura anterior, que havia produzi- volvimento capitalista é, de modo típico,
do a arte inovadora clássica do século, muito mais rápido e dinâmico que nas
brilhou ganhando nova vida. A seu mo- zonas metropolitanas, mas, por outro la-
do, o cinema de Godard foi marcado do, está ali infinitamente menos estabili-
por todas as três coordenadas descritas zado ou consolidado; a revolução socia-
anteriormente. Banhado em citações e lista ronda essas sociedades como perma-
alusões a um passado da alta cultura, ao nente possibilidade, já de fato realizada
estilo de Eliot; celebrante equívoco do em países vizinhos — Cuba ou Nicará-
automóvel e do aeroporto, da câmera e gua, Angola ou Vietnã. Foram estas con-
da carabina, ao estilo de Léger; expec- dições que produziram as verdadeiras
tante de tempestades revolucionárias obras-primas dos anos recentes que se
vindas do Leste, ao estilo de Nizan. A conformam às categorias de Berman: ro-
sublevação de maio-junho de 1968 na mances como Cien Años de Soledad, de
França foi o terminal histórico que vali- Gabriel García Marquez, ou Midnight's
dou esta forma de arte. Régis Debray Children, de Salman Rushdie, na Colôm-
descreveria sarcasticamente, após o even- bia ou na Índia, ou filmes como Yol,
to, a experiência daquele ano como uma de Yilmiz Güney, na Turquia. Obras
viagem à China que — como a de Co- como estas, porém, não são expressões
lombo — descobriu apenas a América: atemporais de um processo de moderni-
mais especificamente, desembarcou na zação em constante expansão, mas sur-
Califórnia 16. Isto é, uma turbulência so- gem em constelações bem delimitadas, 16 Régis Debray, A Modest
Contribution to the Rites and
cial e cultural que se enganou a si mes- em sociedades que ainda se encontram Ceremonies of the Tenth Anni-
versary, New Left Review,
ma ao se tomar por uma versão francesa em cruzamentos históricos definidos. O 115, Maio-Junho 1979, pp.
da Revolução Cultural, quando de fato Terceiro Mundo não oferece ao moder- 45-65.
significava não mais que o advento atra- nismo nenhuma fonte da eterna juven-
sado de um consumismo permissivo na tude.
França. Mas foi precisamente esta ambi-
güidade — uma abertura de horizonte,
onde as formas do futuro poderiam assu- Os limites do autodesenvolvimento
mir alternativamente as formas escorre-
gadias tanto de um novo tipo de capita-
lismo quanto da erupção do socialismo Até agora examinamos dois dos con-
— que era constitutiva de grande parte ceitos centrais de Berman — moderni-
da sensibilidade característica daquilo zação e modernismo. Consideremos ago-
que veio a ser chamado de modernismo. ra o termo médio que faz a ligação entre
De modo nada surpreendente, ela não ambos, a própria modernidade. Esta,
sobreviveu à consolidação que se seguiu, deve-se lembrar, é definida como a expe-
com Pompidou, nem no cinema de riência pela qual se passa no interior da
Godard nem em qualquer outra parte. modernização que dá origem ao moder-
Pode-se mesmo dizer que o que marca nismo. Em que consiste esta experiência?
a situação típica do artista contemporâ- Para Berman, é essencialmente um pro-

12 NOVOS ESTUDOS N.º 14


cesso subjetivo de autodesenvolvimento o indivíduo desenvolve o eu, depois o
ilimitado, que ocorre à medida que se eu pode entrar em relações de mútua
desintegram as barreiras tradicionais dos satisfação com os outros — relações es-
costumes ou dos papéis sociais — uma tas baseadas na identificação com o eu.
experiência necessariamente vivida a um As dificuldades que este pressuposto en-
só tempo como emancipação e ordálio, contra, à medida que Rousseau tenta
exaltação e desespero, ao mesmo tempo passar — em sua linguagem — do "ho-
motivo de temor e de júbilo. É o impulso mem" ao "cidadão", na construção de
desta corrida incessante em direção a uma comunidade livre, são então bri-
fronteiras ainda não mapeadas da psique lhantemente exploradas por Berman.
que assegura a continuidade histórico- O que surpreende, porém, é que o
mundial do modernismo: mas é também próprio Berman em lugar algum rejeita
este impulso que parece minar de ante- o ponto de partida dos dilemas que de-
mão qualquer prospecto de estabilização monstra. Pelo contrário, conclui argu-
moral ou institucional sob o comunismo; mentando: Os programas do socialismo
na verdade, parece até mesmo recusar a e do anarquismo do século XIX, do Es-
coesão cultural necessária para que o tado de bem-estar do século XX e a
comunismo possa simplesmente existir, Nova Esquerda contemporânea podem
tornando-o algo como uma contradição ser todos vistos como um desenvolvi-
em seus próprios termos. O que deve- mento ulterior da estrutura de pensa-
mos pensar desse argumento? mento cujas fundações foram lançadas
Para compreendê-lo, precisamos per- por Montesquieu e Rousseau. O que
guntar-nos: donde vem a visão de Ber- esses movimentos tão diferentes parti-
man de uma dinâmica completamente lham em comum é um modo de defi-
ilimitada de autodesenvolvimento? Seu nir a tarefa política crucial que enfren-
primeiro livro, The Politics of Authen- tam: fazer com que a sociedade liberal
ticity, que contém dois estudos — um moderna mantenha as promessas por ela
sobre Montesquieu e outro sobre Rous- feitas, reformá-la — ou revolucioná-la —
seau — nos dá a resposta. Essencialmen- a fim de realizar os ideais do próprio li-
te, esta idéia deriva daquilo que vem beralismo moderno. A agenda do libera-
designado com acerto no subtítulo do lismo radical que Montesquieu e Rous-
livro como o "individualismo radical" do seau criaram há dois séculos continua
conceito de humanidade de Rousseau. A pendente até hoje l9 . De modo análogo, 19 Ib i d ., p . 3 1 7 .

análise de Berman da trajetória lógica em All that is Solid Melts into Air, Ber-
do pensamento de Rousseau, na medida man pode referir-se à profundidade do
em que procurou enfrentar, ao longo de individualismo que subjaz ao comunismo
várias obras sucessivas, as conseqüências de Marx 20 — uma profundidade que, 20 All that is Solid Melts
into Air, p. 128.
contraditórias dessa concepção, constitui nota ele, então com toda a coerência,
um tour de force. Mas para os propósi- deve incluir formalmente a possibilidade
tos de nossa discussão, o ponto crucial de um niilismo radical.
é o seguinte. Berman demonstra a pre- Entretanto, quando examinamos os
sença em Rousseau do mesmo paradoxo próprios textos de Marx, encontramos
que imputa a Marx: se o autodesenvol- em ação uma concepção muito diferente
vimento ilimitado é a meta de todos, da realidade humana. Para Marx, o eu
como será possível a comunidade? Para não é anterior a, mas sim constituído por
Rousseau a resposta, em palavras que suas relações com os outros, desde o iní-
Berman cita, é esta: O amor do homem cio: mulheres e homens são indivíduos
deriva do amor de si. — Estenda-se o sociais, cuja sociabilidade não é subse-
amor de si aos outros e ele se transfor- qüente, mas sim contemporânea à sua
mará em virtude 1 7 . Berman comenta: individualidade. Afinal, Marx escreveu 17 The Politics of Authentici-
ty. Nova York, 1970, p. 181.
Era o caminho da auto-expansão, não o que somente ao viver em comunidade
da auto-repressão, que levava ao palácio com outros cada indivíduo tem os meios
da virtude. . . À medida que cada ho- de cultivar seus dons em todas as dire-
mem aprendesse a expressar-se e a expan- ções: somente na comunidade, portanto,
dir-se a si mesmo, sua capacidade de a liberdade pessoal é possível ²¹. Berman 21 The German Ideology, Lon-
dres, 1970, p. 83; citado por
identificação com os outros homens se cita a frase, mas aparentemente sem ver Berman em ibid., p. 97.
dilataria, sua simpatia e empatia para suas conseqüências. Se o desenvolvimen-
com eles se aprofundaria18 . O esquema to do eu está indissoluvelmente imbrica- 18 Ibid., p. 181.

aqui é bastante claro: em primeiro lugar do nas relações com os outros, seu de-

FEVEREIRO DE 1986 13
MODERNIDADE E REVOLUÇÃO

senvolvimento não poderia consistir ja- natureza humana que o comunismo final-
mais numa dinâmica ilimitada no senti- mente viria emancipar — uma natureza
do monadológico evocado por Berman: muito distante de uma mera catarata de
pois a coexistência de outros sempre desejos sem forma. Apesar de toda a sua
constituiria um limite, sem o qual o pró- exuberância, a versão que Berman dá de
prio desenvolvimento não poderia ocor- Marx, enfatizando de modo virtualmente
rer. Assim, para Marx, o postulado de exclusivo a liberação do eu, acaba por
Berman constitui uma contradição em aproximar-se desconfortavelmente — por
termos. mais radical e decente que seja seu tom
— das suposições da cultura do nar-
cisismo.
utro modo de dizer isto é lem-
brar que Berman não percebeu
— como, aliás, muitos outros O impasse atual
— que Marx possui uma com-
cepção da natureza humana que exclui
esse tipo de plasticidade ontológica infi- Para concluir: onde, com tudo isso,
nita que ele próprio supõe. Isto pode fica a questão da revolução? Berman é
parecer uma afirmação escandalosa, dada bem coerente aqui. Para ele, como para
a origem reacionária de tantas idéias tantos outros socialistas hoje em dia, a
aceitas sobre o que é a natureza huma- noção de revolução se estende em dura-
na. Mas esta é a sensata verdade filoló- ção. Na verdade, o capitalismo já nos
gica, conforme se pode demonstrar com traz a convulsão constante em nossas
toda a evidência mesmo pelo mais su- condições de vida, e neste sentido é —
perficial exame da obra de Marx, e com- como diz ele — uma revolução perma-
forme comprova de modo irrefutável o nente: uma revolução que obriga homens
livro recente de Norman Geras, Marx e mulheres modernos a aprender a aspi-
and Human Nature — Refutation of a rar por mudança: não apenas a ser aber-
Legend 22 . Esta natureza, para Marx, in- tos a mudanças em suas vidas, a nível 22 Norman Geras, Marx and
clui um conjunto de necessidades, forças pessoal e social, mas a demandá-las posi- Human Nature - Refutation
of a Legend, Londres, 1983.
e disposições primárias — o que ele cha- tivamente, procurar por elas de modo
ma, nas famosas passagens dos Grundris- ativo e realizá-las. Eles devem aprender
se sobre as possibilidades humanas sob a não desejar nostalgicamente as rela-
o feudalismo, o capitalismo e o comu- ções fixas, congeladas de um passado real
nismo, de Bedürfnisse, Fähigkeiten, ou imaginário, mas antes devem com-
Kräfte, Anlagen — capazes todas elas de prazer-se com a mobilidade, prosperar
se expandir e se desenvolver, mas não de com a renovação, esperar por desenvol-
se anular ou ser substituídas. Assim, a vimentos futuros em suas condições de
visão de um impulso independente e vida e em suas relações com os outros 24 All that is Solid Melts
niilista do eu em direção a um desenvol- homens, seus companheiros24 . O adven- into Air, pp. 95-96.
vimento completamente ilimitado não to do socialismo não deteria esse proces-
passa de uma quimera. Antes, o genuíno so nem o poria em xeque, mas, ao con-
"desenvolvimento livre de cada um" só trário, viria acelerá-lo imensamente e
pode ser realizado se se efetuar no res- generalizá-lo. Os ecos do radicalismo dos
peito pelo "livre desenvolvimento de to- anos 60 estão aqui presentes de modo
dos", dada a natureza comum daquilo inequívoco. A atração exercida por essas
que constitui um ser humano. Nas pró- noções tem se revelado muito difundida.
prias passagens dos Grundrisse em que Mas elas não são, na verdade, compatí-
Berman se baseia, Marx fala sem o me- veis nem com a teoria do materialismo
nor equívoco do desenvolvimento pleno histórico, entendido em sentido estrito,
do controle humano sobre as forças da nem com o registro da própria história,
natureza — inclusive as da sua própria por mais teorizada que seja.
natureza e da absoluta elaboração (He- Revolução é um termo com um sen-
rausarbeiten) das suas disposições cria- tido preciso: a destruição política, de
doras, em que a universalidade do indi- baixo para cima, de uma ordem estatal,
víduo. . . é a universalidade das suas re- e sua substituição por outra. Não se ga-
23 Grundrisse, pp. 387, 440.
lações reais e ideais²³. A coesão e esta- nha nada ao se diluir no tempo esta no-
bilidade, que Berman se pergunta se o ção, ou ao estendê-la por todas as áreas
comunismo seria capaz de encontrar al- do espaço social. No primeiro caso, ela
gum dia, reside para Marx na própria se torna indistinguível de meras refor-

14 NOVOS ESTUDOS N.º 14


mas — da simples mudança enquanto co, ele não designa nenhum objeto pas-
tal, não importando quão pequena ou sível de descrição por si mesmo: carece
gradual: tal como ocorre na ideologia do completamente de qualquer conteúdo
Eurocomunismo atual ou nas versões positivo. Na verdade, como vimos, o que
cognatas da Social Democracia; no segun- se oculta sob esse rótulo é uma ampla
do caso, ela se reduz a mera metáfora — variedade de práticas estéticas muito di-
podendo ser reduzida simplesmente a versas — de fato incompatíveis: simbo-
não mais que supostas conversões morais lismo, construtivismo, expressionismo,
ou psicológicas, como ocorre na ideolo- surrealismo. Tais práticas, que de fato
gia do maoísmo, com sua proclamação soletram programas específicos, foram
de uma "Revolução Cultural". Contra unificadas post hoc num conceito híbri-
essas desvalorizações irresponsáveis do do, cujo único referente é a oca passa-
termo, com todas as suas conseqüências gem do próprio tempo. Não existe ne-
políticas, é necessário insistir que a re- nhum outro indicador estético tão vazio
volução é um processo pontual e não ou viciado. Pois aquilo que uma vez foi
permanente. Ou seja: uma revolução é moderno logo fica obsoleto. A futilidade
um episódio de transformação política do termo, e a ideologia que o acompa-
convulsiva, comprimido no tempo e con- nha, podem ser vistas, de modo claro até
centrado no alvo que tem um início de- demais, nas tentativas correntes de se
terminado — quando o antigo aparelho apegar aos seus destroços e continuar a
de Estado ainda está intacto — e um fi- nadar com a maré, ainda mais longe, até
nal limitado, quando o antigo aparelho ultrapassá-lo, na cunhagem do termo pós-
é decisivamente destruído e um outro se modernismo: um vazio atrás do outro,
ergue em seu lugar. O que seria distin- numa regressão em série de uma
tivo de uma revolução socialista que cronologia autocongratulatória. Se nos
criasse uma genuína democracia pós-ca- perguntássemos o que a revolução (en-
pitalista é que o novo Estado constitui- tendida como uma ruptura pontual e
ria verdadeiramente transição, rumo aos irreparável para com a ordem do capital)
limites praticáveis de sua própria auto- tem a ver com o modernismo (entendido
dissolução na vida associada da socie- como esse fluxo de vaidades temporais),
dade como um todo. a resposta seria: ela certamente acabaria
com ele. Pois uma genuína cultura socia-
lista seria aquela que não procuraria in-
o mundo capitalista avançado saciavelmente pelo novo, definido sim-
de hoje, é a aparente ausência plesmente como aquilo que vem depois,
de qualquer prospecto desse para logo a seguir ser atirado entre os
tipo como um horizonte próxi- detritos do velho, mas, isto sim, uma
mo ou mesmo distante — a falta, apa- cultura que multiplicaria o diferente,
rentemente, de qualquer alternativa con- numa variedade de estilos e práticas cor-
jecturável para o status quo imperial de rentes muito maior que tudo o que existiu
um capitalismo de consumo — o que antes: uma diversidade fundada numa
bloqueia a probabilidade de qualquer pluralidade e complexidade muito maio-
renovação cultural profunda, comparável res de modos de vida possíveis que qual-
à grande Era das Descobertas Estéticas quer comunidade de iguais, não mais
do primeiro terço deste século. Ainda dividida em classes, raças ou gênero, iria
são válidas as palavras de Gramsci: A criar. Noutras palavras, sob esse aspecto,
crise consiste precisamente no fato de os eixos da vida estética correriam hori-
zontalmente e não na vertical. O calen-
que o velho está morrendo e o novo não
dário deixaria de tiranizar, ou organi-
pode nascer; nesse interregno, aparece
zar a consciência da arte. Nesse sentido,
uma grande variedade de sintomas mór-
a vocação de uma revolução socialista
bidos 25. não seria nem a de prolongar nem a de
25 Antonio Gramsci, Selec-
tions from the Prison Note-
Contudo, é legítimo perguntar: seria realizar a modernidade, mas sim a de books, org. Quintin Hoare e
Geoffrey Nowell-Smith, Lon-
possível dizer de antemão o que poderia aboli-la. dres, 1972, p. 276.
ser o novo? Creio que uma coisa, ao
menos, poderia ser predita. O modernis-
mo enquanto noção é a mais vazia de Novos Estudos CEBRAP, São Paulo
todas as categorias culturais. Ao contrá- n.° 14, pp. 2-15, fev. 86
rio dos termos gótico, renascentista, bar- Perry Anderson é historiador e editor da New Left
roco, maneirista, romântico ou neoclássi- Review.

FEVEREIRO DE 1986 15

Você também pode gostar