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com/lacanempdf

Charles Melrnan

A Neurose Obsessiva

fuTABELECIMENTO DO TEXTO
joséNazar

TRADUÇÃO
lnesíta Machado

TRANSCRIÇÃO
Romana Maria Costa

EDITOR
José Nazar

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naMÍda,
--�
F'U!Ud
Copyright © Escola Lacaniana dt Psicanálise eÍIJ Rio de Janeiro

EDITORA CAMPO MAT~\1JCO


Proibida a reprodução cotai ou parcial
Conferências realizadas na
Escola lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro
05, 06 e 07 de abril de 2001

EorroRAÇÃO ELETR()N(CA
FA - Editoração Ektrôni<a

REv!SAO T!lCNICA
Fernando Baron

f.srABELECIMENTO DE TEXTO
Jorl NIZZAr

CAPA
FatimaAgra
sobre imagem de Pablo Picasso - Grandes Têtes

EDITOR RESPONSÁVEL
JoslNaur

CoNSElJ-10 EDITORIAL
Bruno Palazzo N1ZZAr
JoslNaz,zr
José Mário Simil Cordeiro
Maria Emília Lobato Lucindo
Pedro Palazzo Nazar
Teresa Palazzo Nazar
Ruth Ftrrtira BasJos

Rio de Janeiro, 2007

FICHA CATALOGRÁFICA
M484n

Mdman, Charles, 1931-


A neurose obssessiva J Charles Melman; ediror: José
Nazar. - Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2004.
130 p.; il; 23 cm

ISBN 85-85717-78-5

1. Psicanálise. 2. Psicologia social. 1. Nazar, José.


II. Título.

CDD: 150.195

editora

ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA


Rua Barão de Sertório, 5 7 - casa
Tcl.: (21) 2293-7166 • (21) 2293-9440
Rio Comprido - Rio de Janeiro
e-mail: ciadefreud@ism.com.br
www.ciadefrcud.com.br
Sumário

Abertura do Encontro ......................................... 7

A neurose obsessiva pelo viés da histeria ............ 8

O inconsciente no Real ..................................... 16

Como se desfazer? ........................................... 20

O pai vivo se autoriza do pai morto .................. 27

A propósito do ensino ....................................... 35

Questões .......................................................... 38

O que se diga fica esquecido por trás


do que se diz naquilo que se ouve .................... 45

Forclusão da castração ..................................... 48

Questões .. . .. . .. . ... .. .. .. .. ... . . .. .. . ... .. . . .. .. .. .. .. . .. .. .•.. . . 5 7

Não é a anatomia que faz o destino ................. 66

Nas novas patologias ....................................... 7 6

Os semblantes .................................................. 87

O pai no final de análise .................................. 89

O pai no real, no simbólico, no imaginário ...... 93

A questão dos ratos ........................................ 102

A relação do obsessivo com o outro ............... 11 7


ABERTURA DO ENCONTRO

TERESA PALAZW NAZAR:


Em nome da Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Ja-
neiro, eu agradeço a todos os presentes. Sabemos da importância
deste evento, prova é o deslocamento de psicanalistas das cidades
mais distantes desse país. Isso se deve a uma transferência à psica-
nálise e ao psicanalista Dr. Charles Melman.
Vocês sabem que vamos começar agora uma maratona, o exer-
cício de uma transferência de trabalho sobre a neurose obsessiva.
Aqui, na Escola Lacaniana de Psicanálise, vimos operando vários
cartéis sobre este tema, como um preparatório de mais de um ano
de estudos para estas Jornadas. Esperamos que tudo corra bem.
Conversei com Dr. Melman e ele solicitou um tempo, que é
o tempo de sua fala, para fazer sua exposição. E ele gostaria que,
uma Vf1 encerrada cada exposição, as pessoas pudessem fazer as
suas intervenções. Eu passo a palavra para o Dr. Charles Melman.

CHARLES MELMAN: Sou obrigado a falar francês com vocês. Infeliz-


mente não posso me dirigir a vocês na sua língua. Eu vou falar
muito lentamente, muito simplesmente. Eu tenho uma excelente
tradutora e acho que vamos nos entender. Se houver dificuldade
eu agradeço que vocês me digam e iremos retomar. Vamos, portan-
to, trabalhar juntos por três dias a questão da neurose obsessiva.

7
Neurose Obsessiva

A NEUROSE OBSESSíVA PELO VIÉS DA HISTERIA

Freud escreve nos "Escudos sobre a Histeria", que a neurose·


obsessiva é muito mais fácil de compreender do que a histeria por-
que na neurose obsessiva não há a passagem ao somático que há
na histeria. Ora, todos aqueles entre vocês que se interessam pela
psicanálise podem constatar que a neurose obsessiva permanece
sempre misteriosa. Não seria excessivo notar que há 100 anos, des-
de Freud, não se fez nenhum progresso na compreensão da neuro-
se obsessiva. Se algum de vocês conhece algum trabalho que traz
alguma coisa de novo sobre a neurose obsessiva, ficaria muito feliz
que pudesse indicá-lo a mim. Vamos portanto tentar juncos, du-
rante estes três dias, trazer novos elementos sobre a neurose obses-
siva, o que deveria possibilitar aos analistas praticantes compreen-
der e responder melhor à neurose obsessiva. Eu assinalei para vocês,
de início, que gostamos de nos ocupar da histeria. Por que? Porque
a histeria ocupa a cena, a histérica coma a cena e pede que nos
interessemos por ela, que nos ocupemos dela. E quando falamos
com a histérica, respondemos ao que ela pede. Mas, como vocês
sabem, quando se explica à histérica porque ela sofre, ela responde
que nossas explicações são muito interessantes, mas que isto não
muda nada; que somos muito sábios e depois? "O que isto faz
comigo?" ela diz.
Estou começando a entrar no problema da neurose obsessiva
pelo problema da histeria porque o modo que a histeria tem de nos
responder é lembrando que o que a interessa não é o discurso de
um mestre, ainda que aquilo que a faça sofrer seja o discurso do
mestre. O que quer a histérica? O que ela gostaria é de um saber
em seu inconsciente que viria ordenar, regular seu próprio desejo.
Quer dizer que ela não agüenta mais estar sempre a serviço do

8
Charles Melmon

desejo dos outros; especialmente do desejo dos mestres. Ela não


agüenta mais estar sempre a serviço do desejo dos outros e ela gos-
taria de ter em seu inconsciente a expressão de seu próprio desejo.
Vocês estão de acordo coro isto? Ou vocês cem objeções? A objeção
é muito importante. E, então, vou dizer para vocês porque é im-
portante a objeção. Porque quando se faz urna objeção, ternos sem-
pre razão, ainda que a objeção não seja bem formulada. Ternos
razão porque todo discurso, ainda que seja muito sábio, é capaz de
anular a existência do sujeito. E o sujeito é aquele que faz objeções.
E quanto mais o discurso é sábio, mais terá tendência a querer
anular qualquer objeção. Isto é, a existência do sujeito, quer dizer,
quanto mais o sujeito tem o direito de se expressar e de dizer:
"atenção, mas ... isto tudo é muito belo ... mas, enquanto sujeito, eu
existo". E é por isto que a objeção da histérica nos lembra que o
discurso do mestre ou os discursos sábios não podem anular a exis-
tência do sujeito, e o sujeito é sempre aquele que diz: "sim, mas ...
sim, mas ... ", ou então aquele que diz: "não, não é isto", porque
corno os analistas o sabem, o que é a causa verdadeira, quer dizer,
isso, o que Lacan chama objeto pequeno a, isto nos escapa sempre.
Portamo, quando o sujeito diz: "não, não é isto", ele merece
ser escutado com atenção e respeito porque, fundamentalmente,
ele tem razão. Observemos, então, o seguinte: a histérica aceita se
tornar o objeto capaz de satisfazer o mestre, o que com frequência
é o caso, porque há muitas histéricas que se devotam, se sacrificam
para que o mestre seja o verdadeiro mestre; que seus desejos sejam
sempre realizados. Então, quando ela aceita satisfazer o mestre des-
ta maneira, o que ela se torna? Ela se torna o falo; ela se torna o
instrumento com que o mestre sustenta o seu poder. Então, ela se
torna indispensável ao mestre para que ele possa exercer seu poder.
Ela se torna o cetro do mestre. Quer dizer que é ela que se torna

9
Neurose Obsessivo.

seu mestre, que se torna o mestre do mestre. Porque sem ela, ele é
remetido à impotência que é própria dos mestres. Todos nós co-
nhecemos, seja na vida social, seja na vida familiar ou prática, este
tipo de dispositivo em que é a serva que é a patroa. Vocês sabem
que "A serva-patroà' é o título de uma comédia italiana do século
XVII, que ela mesma retoma comédias de Plauto, que nos mostra
que o problema, quer dizer, a maneira corno os servos podem se
tornar os patrões dos seus mestres e dirigi-los como traídos é um
problema que sempre existiu. Mas a histérica quer outra coisa: ela
gostaria de ter em seu inconsciente um desejo que seria o desejo especí-
fico da mulher. O que seria um desejo no inconsciente que seria o
desejo específico, particular de uma mulher e que viria organizar
e justificar sua existência? Porque senão ela teria sempre a impres-
são de viver a vida dos outros e que não teria nunca sua própria
vida. E, então, por que será que não há em seu inconsciente um
desejo que viesse especificamente lhe testemunhar que seria mes-
·,
........
mo um desejo que a fundasse como mulher? É urna grande ques-
tão contemporânea porque, de certo modo, os homens gostariam
que existisse nas mulheres um tipo de existência que lhes garantis-
se que estão realmente se relacionando com urna mulher. Então, os
homens as encorajam a ter a sua própria existência, um sujeito que
só se fundaria em sua própria especificidade feminina. Mas quan-
do uma mulher deseja, a expressão de seu desejo é forçosamente
viril, por esta razão muito bem mostrada por Freud - que há um
único agente da libido, que a libido é única para o homem e para a
mulher e que a partir do instante em que exprimo um desejo, eu
me refiro, eu me autorizo pelo falo e, então, sou viril; seja eu ho-
mem ou mulher, o referente de meu desejo é fálico. E está aí um
problema: no momento em que a mulher procura a especificidade
da expressão de seu desejo, ela encontra um modo de expressão

10
Charles Melmon

que é viril. Lacan trouxe alguma coisa de novo, de formidável,


quando dizia que há um desejo que é não apenas fálico mas que é
também Outro; que há um gozo Outro - que não gozamos apenas
com o falo, mas que há um gozo Outro. Mas este gozo Outro não
tem referente, ele é Outro em relação ao gozo fálico. E se não há
referente como poderia ser capaz de expressar um Outro gozo?
É importante o que Lacan traz sobre o gozo Outro. Quer
dizer que, para uma mulher, o gozo não é somente fálico mas diz
respeito a um Real, que é um puro vazio, onde não há nada. Para o
homem, no Real há o falo, o que Lacan chama de pelo-menos-um.
Mas, para uma mulher, há não somente no Real o falo, mas há
também o que é Outro ao falo. Ou seja, que o gozo Outro faz
objeção ao falo. E, se vocês tiverem visto o que Lacan faz sobre o
nó borromeano, vocês verão que este gozo Outro ele vai chamar de
gozo da vida. Por que Lacan chama este gozo Outro de gozo de
vida? Será que o gozo fálico é o gozo da morte? Sim, claro. Porque
o sexo está ligado à morte. E é exatamente a reprodução sexuada
que nos leva à morte. E é o gozo fálico que faz com que tenhamos
uma pulsão de morte e que, de certo modo, queiramos a morte.

a vida

falo
inconsciente
alma-em-terceiro s
(a matéria)

morte
R

11
Neurose Obsessivo

Vocês vêem que eu não fiz senão introduzir, a propósito de


histeria, a questão da neurose obsessiva. Agora, vou falar um pou-
co mais sobre a neurose obsessiva. Mas, enquanto isso, compreen-
demos porque Lacan pode dizer que a mulher não existe. Vocês
estão de acordo com tal formulação? Eu garanto a vocês que, na
imprensa francesa, quando os psicanalistas ouviram isso foi um
escândalo. Foi do mesmo modo quando ele disse que não hd rela-
ção sexual. A mulher não existe; mas é isto que a mulher nos diz o
tempo todo: que não há um fantasma que seria especificamente
feminino e que fizesse com que o desejo de mulher lhe fosse pró-
prio, dela mesmo. Eu poderia ser muito mais cru, bruto sobre a
questão mas vamos devagar, serei bruto mais tarde, não tão cedo.
Eu lhes fazia então· observar que a histérica faz objeções ao todo
saber porque é a objeção ao saber enquanto forclui o sujeito, isto é,
o situa no Real; é isto que Lacan diz ao dizer que o sujeito do
inconsciente é o sujeito da ciência; quer dizer, é preciso que se
organize o discurso da ciência, o discurso do saber absoluto, para
que o sujeito se encontre forcluído e venha habitar o real. Quer
dizer, este que é também o lugar do inconsciente. Vocês me di-
riam, onde esteve o sujeito antes, antes da ciência? É por isso que
Lacan fez com que Descartes tivesse este papel essencial na gênese
do sujeito moderno. Porque, o que fez Descartes? Ele disse "eu
posso duvidar de todo saber". O que, diante da religião, é sem
dúvida uma formulação muito grave. Ele diz: "Eu posso duvidar
de tudo mas eu tenho uma certeza: eu existo. E é porque duvido de
tudo que eu ex-sisto, eu existo fora. E, a partir do momento que
duvido de tudo, de todos os fenômenos, de todo mundo, posso
renunciar à certeza e ao apoio que me dava o significante para fazer
urna substituição pelo número e pelos algorítmos. Vocês me di-
riam que esta é uma construção de Lacan.
Charles Melman

Há uma grande civilização, que é a civilização muçulmana,


que não conheceu esta operação. Quer dizer, a forma tomada pela
religião muçulmana não permitiu que se colocasse em dúvida o
conjunto do mundo porque foi Deus que a fundou e que ninguém
poderia mudá-la. E gostaria de dizer que o grande problema hoje
dos povos que vêem desta grande civilização é que eles não conhe-
ceram a grande revolt1ção científica e hoje estão em dificuldade
política em relação ao resto do mundo. O que diz Descartes é que
este sujeito que ex-siste toma a sua garantia de Deus. Quer dizer
que Descartes é salvo da acusação de heresia dizendo que este su-
jeito foi criado por Deus. Mas antes de Descartes, o sujeito do
inconsciente com certeza não tinha a existência que conhecemos
hoje. Portanto, não acreditamos que o inconsciente e a existência
do sujeito no inconsciente seja um dado da natureza. Podemos
muito bem ter um inconsciente sem sujeito. Vamos falar disto no
final, para falar das questões contemporâneas. Em todo caso, a
histérica faz objeção ao obsessivo que pretende tudo saber. Porque
o obsessivo sempre tem a boa resposta para tudo.
Então estávamos dizendo que gostamos muito de nos ocu-
parmos da histérica porque ela é espetacular, tem cores, ela é viva,
faz movimento, perturba, desperta e, às vezes, também incomoda
um pouco ... é a vida! Mas o obsessivo, ele é cinza; ele é anônimo e
não demonstra sobretudo nenhuma singularidade; é como se ele
não tivesse sujeito. E é por isso que há sempre um mal-estar ao
querer estudá-lo, porque ele se esconde. A impressão é que ao que-
rer estudá-lo fazemos efração numa forma bem redonda e plena;
vamos fazer violência contra ele; que vamos fazer uma penetração.
Evidentemente é o que ele quer mas é também do que se protege,
daquilo que se defende. Eu estava muito surpreso por encontrar
em vários obsessivos em análise o fantasma de viver numa espécie

13
Neurose Obsessiva

de caverna com apenas um pequeno orifício e havia sempre, do


exterior, algo que tentava penetrar nesta caverna, e o obsessivo se
defendia contra este objeto que tentava penetrar nesta caverna.
Então, quando somos freudianos, dizemos que é um fantasma
muito claro; é o fantasma da vida inter-uterina. E de que modo o
pequeno feto gostaria logo de impedir o pai de ir lá onde o feto não
gostaria que fosse? Mas sabemos que os fetos são muito inteligen-
tes. É notável. Os fetos são pessoas muito inteligentes porque já se
preparam para tudo o que vai lhes acontecer. Mas não podemos
acreditar que o feto seja consciente do que o pai faz com a mamãe.
Somos portanto levados ao problema da estrutura que explica o
fantasma deste tipo. O obsessivo, e vou dizer assim porque é reali-
dade, é alguém que vai muito bem e que tem, com freqüência,
grande senso moral. Primeiramente, ele é, com freqüência, uma
pessoa religiosa, que respeita a religião; se não for religioso, vai
respeitar bastante a racionalidade. Ele gosta da racionalidade. Ele
quer assegurar o domínio de si mesmo; ele é partidário da discri-
ção; ele é cheio de pudores; tem escrúpulos morais, não quer nun-
ca ferir o outro; com freqüência ele é culto. Nunca coloca antes de
tudo o desejo que lhe é próprio, ou seja, sacrifica sempre seu desejo
pelo bem estar dos outros. E, quero dizer que o obsessivo tem uma
alma de funcionário público, mas também na família; ele é o fun-
cionário do pai. Ele faz tudo o que é preciso, ele trabalha, se sacri-
fica para o bem-estar de sua família e sacrifica seu próprio prazer
em função dos seus. Portanto ele é sempre, um pouco, um funcio-
nário, no sentido de alguém que não procura seu próprio interesse
mas está sempre a serviço público, mesmo na sua família; na sua
família, o público é a sua família. Ele é contra a privatização. En-
tão, talvez vocês reconheçam na minha descrição que o obsessivo é
o melhor entre nós. Em todo caso, é o que quer ser o melhor. E,

14
Charles Me!man

então, como podemos ousar fazer uma imagem patológica daquele


que quer ser o melhor entre nós? Não seria bom. E o que é que nos
permite dizer que é uma figura patológica? Primeiro, porque em
um certo número de casos, eles sofrem terrivelmente. E, quanto
mais tentam ser melhores, mais eles sofrem. Quanto mais tentam
ser morais, tanto mais são parasitados por pensamentos obscenos
e escondem sempre sua doença. A histérica mostra doenças que
não existem; o obsessivo tem um sofrimento verdadeiro que ele
tenta sempre esconder, dissimular. Por que? Podemos dar logo uma
primeira resposta. Porque isto seria mostrar que há uma falha nesta
espécie de felicidade perfeita que ele quer mostrar.
E nós analistas sabemos que se trata de uma figura da patolo-
gia porque se trata de um sujeito que trata de se defender contra
isto que os psicanalistas chamam de castração. E que a defesa con-
tra aquilo que chamamos castração tem sempre conseqüências pa-
tológicas.
Neurose 'obséssivo

0 INCONSCIENTE NO REAL

- Eu queria mais detalhes sobre a questão do inconsciente no


Real...

CHARLES MELMAN - Freud sempre se perguntou qual era o lugar


do inconsciente. Onde está? Ele imaginou que ele estava enterra-
do, mergulhado nas profundezas. E vocês sabem sobre todas as
referências que ele fez à arqueologia. Que aquilo que é inconscien-
te estava mergulhado nas profundezas, e ele dizia a seus pacientes,
por exemplo, ao "Homem dos Ratos", porque o "Homem dos
Ratos" dizia: "sim, mas de que me adianta reconhecer que eu ti-
nha ódio por meu pai?", e Freud lhe respondia: "esse desejo de
morte em relação a seu pai é um desejo infantil, ele estava mergu-
lhado no inconsciente. E, é como as pequenas estátuas de terracota
quando são retiradas, elas se desmancham, viram pó. Quer dizer
que aquilo que for retirado do subsolo será destruído". E vocês
sabem, ele tinha sobre sua mesa toda uma coleção de terracotas
egípcias e mediterrâneas. Mas, dizer que o inconsciente está em
profundidade, em nós, é uma concepção imaginária. E quando
Freud escreve a segunda tópica, em 1920, com o eu, o isso e o
super-eu, não é mais o consciente, o pré- consciente, e o incons-
ciente, mas é o eu, o isso e o super-eu. E ele disse que cada uma
destas três instâncias tem uma parte inconsciente. Vemos bem que
isto não dá mais certo com esta idéia de profundidade. Portanto,
uma pergunta que é colocada à todos: qual é o lugar do incons-
ciente? O que Lacan traz com estas três categorias do Real, Simbó-
lico e Imaginário é o seguinte: que o simbólico, isto é, o significan-
te, é simbólico de quê? Do que o significante é um símbolo? O·

16
Charles Melman

que é o simbólico? O que é? Porque somos capazes de esquecer


que o significante é o símbolo de uma pura ausência. Se o jogo dos
significantes não nos remetesse àquilo que é pura ausência, puro
vazio, um puro furo, não teríamos todos os problemas que são os
nossos, porque o significante nos permitiria captar o objeto que
desejamos, e ficaríamos satisfeitos. Mas a propriedade do signifi-
cante é nos levar a um puro furo, e os objetos com os quais nos
satisfazemos são semblantes de objeto. Não são nunca o verdadei-
ro, nunca é o completamente bom, nunca é o perfeito. Há sempre
alguma coisa que faz com que algo não ande. Eu mesmo, para o
meu parceiro, não sou aquilo que ele gostaria que eu fosse. Portan-
to, o símbolo para os psicanalistas não é aquele dos antropólogos,
o dos filósofos ou o daqueles que estudam a religião. Por exemplo,
Freud diz que a bandeira é um símbolo. É verdade, ele tem razão.
Um símbolo significa que a bandeira evoca uma presença essencial
mas é invisível. É a bandeira que é o símbolo desta presença da
pátria mas que é invisível. E se o inimigo tomar a bandeira, os
soldados que estão comigo podem debandar. A cruz, o crucifixo,
por exemplo, é o símbolo de Deus, mas ele não está aqui. Mas ele
está presente graças a este símbolo. E se eu quebrar a cruz, se eu
cometer uma ofensa diante deste símbolo, é uma ofensa maior.
Pessoas foram condenados à morte por terem quebrado uma cruz,
mas era apenas uma cruz ... Portanto, o símbolo dos antropólogos
ou daqueles que estudam a religião reenvia sempre a uma existên-
cia una, essencial. Mas o símbolo dos psicanalistas remete a um
puro vazio. E este vazio é essencial porque, sem ele, não posso de-
sejar; não posso, nem mesmo, falar; não posso, nem mesmo, me
servir do significante.
E quando uma criança teve um ambiente cão oblativo que
não teve nenhuma falta, nenhum furo, então esta criança se torna-

17
Neurose ObsE1ssiva

rá louca, ou se tornará psicótica ou obsessiva. Tudo isto é necessá-


rio para chegar a sua questão. O simbólico é essencial para a nossa
possibilidade de viver, de desejar, de ter relações. Mas tudo o que é
recalcado para onde vai? Porque isto escapa, desaparece do mundo
da realidade. Não somente aquilo que é recalcado, mas Lacan nos
mostra, em sua introdução à "Carta Roubada'', este texto que abre
o volume dos Escritos que em todo manuseio da língua há sempre
letras que caem. Para onde vão? Todas estas letras, tudo o que é
recalcado cai neste buraco cavado no Real pelo Simbólico. É por-
que nós temos sempre a impressão de que há uma rede de
significantes que cerca nosso mundo, que há uma coroa de
significantes em torno de nosso mundo. E o que está aí no Real
pode voltar. Seria necessário explicar isto, mas eu não queria sair
muito de meu tema. Mas o que estou dizendo diz respeito a esta
passagem no Real, diz respeito a um certo número de elementos,
os quais darei o nome daqui a pouco.
Isto vai nos possibilitar voltar à questão da neurose obsessiva.
Mas aquilo que é recalcado volta sempre na realidade; não pode-
mos impedir àquilo que é recalcado de voltar à realidade. Será que,
para voltar à realidade, isto ultrapassa uma borda? Será que há um
corte entre a realidade e o inconsciente, ou será que o inconsciente
está em continuidade com a realidade? É a este propósito que aqui-
lo que Lacan traz com o nó borromeano, mas sobretudo com a
banda de Moebius, é essencial.
O que Lacan traz com a banda de Moebius? Esta banda tem
duas faces e uma única borda. Então, com a banda de Moebius,
Lacan nos mostra como o inconsciente é a dobradura permanente
de tudo o que dizemos, isto é, se faço uma banda de Moebius -
vocês vão ver o inconsciente com seus próprios olhos - eis uma
banda de Moebius!

78
Charles Melman

Vocês vêem que, quando estou no campo da realidade, do


outro lado há aquilo que é inconsciente e que o dobra, e que pode
sempre voltar. Há dois lados mas uma só borda; a borda tornou-se
única. Mas para que o inconsciente possa voltar, ele não precisa
ultrapassar a borda porque ele pode - estou falando e passando por
aqui mas o inconsciente, o meu inconsciente está do outro lado -
pode voltar sem nenhum obstáculo; é por isso que não podemos
nunca nos defender contra aquilo que está recalcado; não pode-
mos impedir que volte.
Então, vocês diriam, sim, mas e o Real? Há, no Real, tudo
aquilo que é não apenas recalcado mas forcluído. Quer dizer, tudo
aquilo que não foi jamais admitido no campo do Real. Não é algu-
ma coisa que veio para o campo da realidade e que recusei. Mas é
algo que jamais entrou no campo da realilade. E o próprio ao que
é forcluído é querer fazer irrupção no campo da realidade, quer
dizer, de fazer efração, penetração, como agora há pouco com o
obsessivo. E o que é forcluído no Real volta sob a forma de efração,
faz irrupção no campo da realidade. Então, como vocês vêem, para
aquilo que é do lugar do inconsciente há que distinguir o que é
forcluído e se encontra no Real e o que é recalcado e que, de certo

19
Neurose Obsessivo

modo, penence à realidade. É simplesmente a outra face da banda


de Moebius. Se esta primeira abordagem não for suficiente, eu re-
tomarei de outra maneira.

COMO SE DESFAZER?

A menina, no seu nascimento, reclama porque ela não tem o


pequeno instrumento que seu irmão tem. E o que faz o irmãozinho?
Ele tem só uma idéia: como se desfazer de seu pequeno instrumen-
to. E é assim que ele se torna obsessivo. Vocês me diriam que isto
não está certo, porque os meninos são orgulhosos, eles têm orgu-
lho de seu pequeno instrumento e eles denunciam as meninas por-
que elas são privadas dele. Mas os meninos gostam de brincar en-
tre si, não com as meninas. E as meninas sofrem muito por serem
afastadas do jogo dos meninos. E por que os meninos sempre brin-
cam entre eles e não com as meninas? Porque, justamente, eles
sempre temem pelo seu pequeno instrumento. É preciso que eles
se garantam com os semelhantes que, como eles, têm o mesmo.
Mas quando eles estão em casa, os meninos, como é o caso do
"Homem dos Ratos" e também do "Pequeno Hans", que vai ver
sua mãe e lhe diz que está doente porque teve uma ereção, ou seja,
ele toma a ereção por uma doença e vai pedir à mãe que cuide, que
cure esta doença: quer dizer, entre outras coisas, porque há várias
maneiras de curar uma ereção, mas um dos modos radicais, um
modo absoluto é suprimir o pequeno instrumento. Renunciar à
privatização. É assim que um menininho vai se tornar, mais tarde,
um obsessivo.
Portanto, o obsessivo vai sempre assistir a um mesmo filme.
Este filme se chama "como se desfazer, se desembaraçar deste dese-

20
Charles Melman

jo, deste pequeno instrumento". Quando escrever um livro sobre


esta questão, vou chamá-lo "Como se desfazer?".
Lacan diz, em um de seus seminários, que o obsessivo é vítima
de uma forclusáo da. castração. Isso, devo dizer, é enigmático, por-
que a forclusão só pode dizer respeito a um significante. E qual
poderia ser o significante próprio da castração? Porque, se cada
significante é o símbolo de uma ausência, pode-se dizer que cada
significante é um agente da castração. Portanto, a respeito do ob-
sessivo, Lacan, em todo caso, não fala nem de recalque, nem d
renegação (desmentido), nem de denegação, ou seja, de todos o.·
processos neuróticos habituais. Primeiro, ele fala em forclusão e,
em seguida, de forclusão da castração. Evidentemente que, super-
ficialmente, poder-se-ia pensar então que não se está longe da
forclusão do nome-do-pai e que haveria, portanto, uma certa rela-
ção entre a neurose obsessiva e a psicose. E devo dizer que, quando
eu trabalhava em hospitais psiquiátricos, vi numerosos obsessivos
hospitalizados como se tratasse de psicóticos. E eram obsessivos
puros.
Portanto, vamos relevar por enquanto este enigma daquilo
que é, para Lacan, a forclusão da castração. Para Freud, tudo o que
ele explica para seu paciente, quer dizer, ao "Homem dos Ratos", é
que sua neurose está ligada a seu ódio contra seu pai. É uma afir-
mação muito interessante porque, quando estudamos esta análise
feita por Freud, vemos somente que a este "Homem dos Ratos" -
vamos dar-lhe seu verdadeiro nome, ele se chamava Ernst Lanser, e
seu verdadeiro nome era Lanser, que em alemão quer dizer lanceiro
(aquele que tem a lança) - portanto, quando se lê a observação, vê-
se que Ernst Lanser amava muito seu pai, na realidade. Seu pai era
um antigo militar, que foi manifestamente um bravo homem e um
bon-vivant; ele teve alguns pequenos aborrecimentos, teve que

21
Neurose Obsessiva

deixar o exército porque ele não reembolsou o dinheiro que tomou


no Caixa, mas era uma pessoa que tomava a vida pelo lado bom,
que com certeza gostava das mulheres e que tinha uma relação
muito simpática e cordial com seu filho. O pai tinha a ambição
que seu filho fizesse um bom casamento. Ele gostaria que seu filho
tivesse terminado seus estudos de direito, casasse com essa moça
que estava muito bem, tinha muito dinheiro, e que pudesse ter
uma bela vida. Ele falava com seu filho de modo muito cordial,
muito aberto, simpático, como a um amigo. E nos perguntamos,
mas aonde está este ódio do filho pelo pai de que fala Freud por-
que, na observação, não se vê em nenhum lugar... Quando o pai
morre, o filho tem 21 anos, não terminou seus estudos, ele sofre
muito, e não consegue acreditar que seu pai morreu. E, com
frequência, quando o filho chega em casa, ele pensa: "papai vai
bater na porta, vou lhe contar uma história engraçada e vamos rir
juntos". Então, nos perguntamos, aonde está este ódio pelo pai
que decifra Freud naquilo que Ernst lhe conta? Portanto, estamos
aqui no nível de um enigma e vamos tentar avançar nós mesmos,
tentar resolvê-lo.
O que proponho imediatamente à atenção de vocês é que o
pai que o obsessivo visa é, primeiramente, para o obsessivo, o pai
que está no Outro. É aquele que Lacan chama de ao-menos-um. E
o obsessivo visa este pai que está no Outro, o ao-menos-um. Tam-
bém quer dizer aquele que está no Real, e ele o visa tentando castrá-
lo por seu amor. Castrar o pai por seu amor? Que história é esta?
Esta história é a mesma de nossa religião, o pai que amamos na
religião enquanto ele é puro amor por seus filhos e enquanto re-
nunciou ao sexo. Para os gregos e para os romanos tal coisa nunca
existiu, é uma criação, uma força de nossa religião ter estabelecido
um pai que nos ama, que para nós é puro amor mas que, ele mes-

22
Charles Melman

mo, é fora do sexo. E é por isto que dou esta pequena nota clínica
- com frequência, o obsessivo ama seus avós. Vocês sempre vão
poder verificar isto: ele sempre tem um apego particular pelos avós.
Vocês me dirão, atenção, mas o Deus judeu é um Deus que não é
somente puro amor, é um Deus ciumento e também é um Deus
guerreiro, mas aí está a força própria, a invenção, a criação de nossa
religião - é um Deus fora-do-sexo. E nenhum povo da antiguidade
jamais conheceu uma idêntica colocação. E a este propósito, para
aqueles que têm interesse, posso assinalar que na tradição judaica,
o sexo não tinha absolutamente um lugar privilegiado. Temos qua-
se vontade de dizer justamente - na tradição judaica nos tornamos
os funcionários do sexo. Quer dizer que o exercício sexual não é
feito para o próprio prazer mas é porque é preciso celebrar o poder
fecundador de Deus, não pelo prazer ou pelo gozo que isto possa
trazer mas porque é preciso ilustrar seu poder fecundador. Eu diria
que na tradição judaica, o hedonismo diz respeito muito mais ao
narcisismo, muito mais do que sobre a relação objetal. Quer dizer,
o fato de que na tradição religiosa este povo tenha sido escolhido,
eleito, isto faz com que tenha mais poder narcísico, muito mais do
que, eu diria, engajar num gozo de uma relação objetal. Com o
Cristianismo, que vem depois, é diferente. Em primeiro lugar, não
é mais um Deus guerreiro; com freqüência se fala na palavra de
Jesus que diz: "eu vim trazer a guerra e não a paz".
(É um lapso meu ... aonde estava o inconsciente? Eu aceito,
não recuso. Não se deve recusar estes lapsos).
Ele disse: "eu não vim trazer a paz mas a guerrà', foi isto que
ele disse! Mas o Deus a que ele se refere não é um Deus guerreiro
mas um Deus muito mais pacífico, e que ama todos os seus filhos,
sem nenhum ciúme. E isto é muito importante. É muito impor-
tante porque diferentemente do que se passa com a religião judáica,

23
Neurose Obsessivo

o Deus cristão ama os pecadores, ele nunca recusa seu amor aos
pecadores. Isto não existe de maneira alguma na religião judáica.
Na religião judaica um pecador tem que ser excluído. Há uma
festa do perdão para os pecados que possamos cometer mas, em
todo caso, Deus não tem nenhum amor para com os pecadores.
No entanto, sabemos que, na religião cristã, o pecador é considera-
do como a figura comum do fiel; sabemos que o fiel é o pecador.
Vou explicar rapidamente porque estou fazendo este desvio:
é que tem uma relação muito estreita com o sujeito na neurose
obsessiva. É que a religião cristã reconhece que o sujeito é dividido
pela lei. Quer dizer, que ele não pode respeitar inteiramente, inte-
gralmente a lei e que ele é dividido por ela. Seria preciso, neste
momento, mas não vou fazê-lo porque não vim aqui fazer teolo-
gia, mas aqui seria necessário falar de uma pessoa que tem um
papel considerável nesta questão, que se chama Saul e que se tor-
nou São Paulo. São Paulo, Saul, insurgiu-se contra o fato de que os
fiéis judeus respeitavam todos os rituais religiosos e que uma vez
respeitados estes rituais, isto não os impedia de praticar atos con-
trários à religião. E Saul se revolta contra esta situação e, como
vocês sabem, ele ataca de modo muito violento e que vai ter um
papel muito importante na história, e particularmente, eu diria,
no ódio contra os judeus, ele ataca esta divisão. Como se pode
respeitar os rituais e depois, quando terminam os rituais, compor-
tar-se de um modo perfeitamente imoral? Mas o problema, como
apareceu em seguida no cristianismo, é que este comportamento
imoral deveria ser reconhecido como uma fatalidade da criatura e
que o fato de ser pecador era sempre o que vinha especificar o fiel,
e que Deus amava este pecador apesar desta divisão. Por que eu me
permito, de modo tão rápido, esta excursão ao domínio da reli-
gião? Porque não temos na história nenhum testemunho da exis-

24
Charles Melmon

tência da neurose obsessiva antes de nossa religião. E em todos os


escritos que nos restam, e que são muito numerosos, dos gregos,
dos romanos, não temos nenhum traço de manifestação de neuro-
se obsessiva enquanto que, como vocês o sabem, a histeria está
perfeitamente descrita nos papiros médicos egípcios que datam de
centenas de anos antes de nossa Era. Os médicos egípcios, milha-
res de anos antes de nossa Era, tinham perfeitamente identificado
a histeria; era possível aos médicos egípcios distinguir o que era de
uma doença que atribuíam a uma insuficiência de satisfação sexual
entre as mulheres e que não tinha a ver com a doença orgânica.
Eles foram capazes, várias centenas de anos antes de nossa Era, de
distinguir o que era de uma doença orgânica do que para eles era
de uma doença puramente funcional, quer dizer, o que se passava
para uma mulher quando o útero estava ressecado e que isto subia
no corpo. Esta era a explicação que davam, ou seja, que para curar
a histeria o tratamento era o mesmo que para manter seu jardim:
era preciso regar o útero. Se o útero fosse bem regado, não iria ficar
ressecado e a mulher estaria bem. Isto não é uma coisa idiota; eles
não eram bobos, há várias centenas de anos antes de nossa Era.
Mas, temos representações de mulheres histéricas com Aristófanes,
evidentemente com Hipócrates que descreveu perfeitamente as
histéricas, após os médicos egípcios, mas em nenhum lugar temos
manifestações obsessivas que estejam anotadas. Mas, vocês dirão:
"mas então não existiam, se não estão anotadas ... Então, o que lhe
permite dizer que a neurose obsessiva tem relação com a nossa
religião?"
Falo na nossa religião enquanto na origem ela é judaica e se
tornou cristã. Eu sei que existem outras mas falo a "nossa'' porque
esta marca nossa cultura. Eu não recuso as outras. Nunca pensei
que a nossa fosse universal. Digo "a nossa" enquanto está no fim-

25
Nevrose Obsessivo

<lamento da nossa cultura e da nossa neurose. Então, onde vemos


o traço, a pista da neurose obsessiva? Nós a vemos precisamente
nesta divisão do sujeito que se acusa, que se sente como culpável
por não poder integralmente aplicar a lei que ele ama. Isso, quer
dizer, a fabricação do pecador, quer dizer, daquele que existe fora
da lei, esta fabricação está ligada a este esforço moral que represen-
ta a religião enquanto este esforço leva sempre a esta divisão subje-
tiva e faz o sujeito habitar num lugar onde ele se sente sempre
exposto, a trair, a faltar à lei. E o que estou contando para vocês é
evidentemente a ligação íntima da neurose obsessiva com este es-
forço moral representado pela religião. Vocês têm em toda a litera-
tura grega e latina - e aqui falo com Anne que a conhece muito
bem - será que ela pode me desmentir? Será que temos na literatu-
ra greco-latina, que é muito rica, sobre a vida subjetiva, temos al-
guma referência àquilo que seria o tormento do sujeito, seu tor-
mento moral em não estar de acordo com a exigência da lei? E vou
me explicar sobre isto e dizer porque isto é um problema de estru-
tura. Não são problemas de boa ou má vontade, mas são proble-
mas de boa ou má religião; são problemas estruturais que nos inte-
ressam e que lembram que a neurose obsessiva tem sempre uma
relação íntima com essa exigência moral que constitui a religião,
ao ponto de Freud ter dito que a neurose obsessiva era uma religião
privada. Agora há pouco, eu disse que o obsessivo não gostava do
que era privado mas ele vai construir sua neurose como uma reli-
gião privada.
Espero que eu não tenha abordado com vocês assuntos mui-
to sérios e pesados, mas são inevitáveis, se falamos de neurose ob-
sessiva. Então, vou terminar por aqui com uma observação: temos
espontaneamente o desejo de um Deus que seria o regulador de
nosso desejo, ou seja, de um Deus que viria nos indicar o limite

26
Charles Melmon

que não deve ser franqueado, ultrapassado. Eu diria que enquanto


nossas religiões, ou nossa religião, fizerem prevalecer a força deste
Deus, veremos organizarem-se seitas, quer dizer, uma maneira de
reintroduzir a existência de um Deus que seria o regulador, o
interditor, o regulador, o doador de limites ao nosso desejo. Fico
bastante sensibilizado com o fato de vocês terem recebido todas
estas evocações, que não são muito fáceis, mas se queremos ser
médicos ou psicanalistas, ou seja, se quisermos responder correta-
mente ao sofrimento dos sujeitos que vêm nos ver é preciso ter a
coragem de abordar as questões que nos são forçosamente íntimas,
como o fazia Freud, como fazia Lacan, quer dizer, sem procurar
poupar-se. Nesta tarde, e vou fazer isto a cada tarde, ou seja, ama-
nhã e depois de amanhã também, vou mostrar para vocês a leitura
lacaniana que poderemos fazer desta admirável observação de Freud
que é "O Homem dos Ratos" e, em particular, o diário desta aná-
lise. Vocês sabem que é o único caderno de Freud que conta uma
análise: foi o único caderno que nos restou, os outros foram des-
truídos. É um documento sensacional. Então, durante a manhã,
vou fazer uma exposição mais teórica, e, à tarde, faremos clínica,
utilizando estas observações que são pura obra de obra, mostrando
como um lacaniano vem, de modo notável, esclarecê-la. Então, se
em casa, à noite, vocês quiserem retomar esta leitura, vai ser ainda
mais fácil.

Q PAI VIVO SE AUTORIZA DO PAI MORTO

Vamos, portanto, dedicar a parte da tarde à clínica. E eu par-


tiria deste fato clínico que é tão frequente nos obsessivos: a idéia
que cometeram um assassinato sem sabê-lo. É uma coisa ao mesmo

27
Neurose Obsessiva

tempo inacreditável e maravilhosa. De onde pode vir esta idéia


que eles cometeram um assassinato mas não sabem de quem, e eles
são responsáveis. Lembro-me de um obsessivo, um paciente que
vinha me ver e tinha uma hora marcada comigo às 1O horas d.a
manhã; ele chegava às 4 horas da tarde. Por que? Porque, como
vinha de carro, ele era obrigado sem cessar a voltar para ver se em
tal cruzamento ele não tinha matado ou atropelado alguém sem
perceber. Ele chegava esgotado. E eu não podia repreendê-lo pelo
atraso. Como vocês podem observar, é sempre um assassinato que
foi cometido atrás de si, sem que seja culpado mas que, no entan-
to, o cometeu. Sobretudo, ele não tem intenção de matar ninguém
mas ele fez isto. Como compreender tal sintoma tanto mais quan-
do vocês lêem a observação do "Homem dos Raros, Ernst; vocês
vão descobrir que ele sempre tem medo que aconteça algum mal às
duas pessoas que lhe são mais caras no mundo, quer dizer, seu pai
e a mulher que ele ama. Ele pensa que, se algum mal acontecer a
eles, ele cortaria sua garganta.
Quando vocês estudam a neurose obsessiva na criança - por-
que vocês têm a surpresa de encontrar, em crianças de 7 ou 8 anos,
a neurose obsessiva completa - vocês descobrem que esta neurose
obsessiva apareceu em conseqüência da morre de um irrnãozinho
ou de uma irmãzinha; como se a morte do irmãozinho ou da
irmãzinha, diante da qual a criança sentiu muita inveja foi sufi-
ciente para desencadear a neurose. Eis aí, do ponto de vista clínico,
um primeiro mistério que devemos tentar esclarecer. Como vocês
sabem, ternos o hábito de nos referirmos, na teoria lacaniana, ao
pai como sendo o pai morto. Dizemos que o pai vivo, o pai que
está na família, toma sua autoridade do pai morto que se encontra
no Outro. E é muito freqüente que sintamos culpa com relação a
este pai morto como se fossemos nós que o tivéssemos matado,

28
Charles Melman

como se fôs;semos responsáveis por sua morte. Mas, o que quer


dizer - e per_gunto a vocês muito sinceramente - o que quer dizer o
pai morto? J?or que falamos, na teoria lacaniana, o pai morto? Por
que se diz que o pai vivo se autoriza do pai morto? O que significa
este qualificativo?
Primeiramente, acho que podemos notar que cada um de
nós autoriza. sua existência pelo fato de que, na geração preceden-
te, houve um pai que pertence a esta geração, e que morreu. Cada
um de nós quer inscrever-se numa linhagem de ancestrais que são
pais mortos. Podemos já dizer este tipo de coisa: enquanto não
temos uma linhagem que nos precede, não autorizamos necessa-
riamente nossa existência. Se vocês permitem, vou chamar a aten-
ção de vocês para isso. Lacan diz: "o psicanalista só se autoriza por si
mesmo ... e por alguns outros" quer dizer que, no campo do Outro
não há uma autoridade - ainda que seja Freud, Lacan ou seu ana-
lista - de que ele possa reclamar sua existência. Ele só pode se auto-
rizar de si mesmo e, acrescenta Lacan, de alguns outros, quer dizer,
de alguns outros colegas que dizem "sim, aquele ali é um analistà'.
Mas, para a nossa existência de sujeito, é raro que tenhamos cora-
gem e a audácia de só autorizarmos nossa existência de nós mes-
mos. Nós queremos uma linhagem de ancestrais que nos autorize a
existir. Veja que, deste lado, o pai morto já significa alguma coisa.
Com freqüência, vou trabalhar numa ilha de língua francesa, no
Caribe, e vejo, com os meus colegas psicanalistas do Caribe, as
dificuldades que eles têm enquanto sujeitos em não poderem auto-
rizar a própria existência por uma linhagem de ancestrais e como,
em função da história desta região, esta linhagem de ancestrais não
existe, eles querem inventar uma, quer dizer, inventar-se um an-
cestral que, por meio da língua que é especificamente a deles, o
creole, eles querem inventar para si um ancestral comum. Num

29
Neurose Obsessiva

país como a França, é um pouco o mesmo problema. Porque um


país como a França é feito, é formado por populações muito dife-
rentes e toda ação política do Estado, na França, desde os reis,
sempre foi a de imaginar um ancestral comum à estas populações
que são de língua e origem muito diferentes. Teresa Nazar pergun-
ta se este não é um problema para todos os povos. Nem sempre,
porque, é claro, que o que faz uma eventual unidade espontânea,
quer dizer, não unidade como criação política mas como unidade
que vem da espontaneidade do povo é a comunidade da língua.
Quando se fala a mesma língua, imagina-se sempre que temos um
único ancestral. Na Europa, por exemplo, a Alemanha sempre foi,
como vocês sabem, até Bismark, organizada em pequenos princi-
pados, dividida em territórios politicamente muito diferentes. A
Itália também. Mas a língua era a mesma. E a nação alemã foi
constituída sobre esta unidade linguística. Num país como a Itália,
o inventor da língua foi Dante. Mas foi um inventor! E os patois,
os dialetos italianos foram ricos e numerosos, e o são até hoje. Mas
na França, o poder político sempre exerceu uma força muito gran-
de para unir os povos que tinham línguas e tradições muito dife-
rentes, por exemplo, o provençal, no sul, o celta, no oeste, o nor-
mando um pouco mais ao norte, o franco - os francos que eram
germânicos - que era um pouco mais ao norte, os gauleses que
ocupavam o centro. Portanto, vocês vêem o quanto há espontane-
amente em cada um de nós esta espécie de, para autorizar sua pró-
pria existência, poder referir-se a um ancestral que, de alguma
maneira, daria o direito, a legitimidade de viver. Portanto, vamos
dizer que este ancestral é, efetivamente, o pai morto; fisicamente,
ele morreu. Mas isto pode significar uma coisa mais precisa. E eu
volto ao que dizia hoje, de manhã, sobre a religião: é o pai que
renunciou ao pai. É sempre o pai mas é o pai morto porque renun-

30
Charles Melman

ciou ao sexo; é o pai sublime; é o pai sublimado. O que isto quer


dizer: referir-se a um pai morto? Quer dizer que não posso mais
utilizar-me da linguagem naquilo que seria a espontaneidade das
metáforas e das metonímias porque este jogo espontâneo das me-
táforas e metonímias é organizador desta fenda, falha, desta falta,
desta ausência que sustenta o desejo. Quer dizer que, se respeito o
pai morto, posso apenas me utilizar das palavras consagradas e
estabelecidas de uma vez por todas. É a oração; são igualmente os
atos dos rituais. E como vocês sabem, não tenho o direito de intro-
duzir na oração a mínima diferença. Um dos grandes tormentos de
Ernst Lanser é que, quando ele fazia suas orações, ele via desliza-
rem-se em suas orações a palavra obscena, a palavra sexual. Quer
dizer que, justamente, o que era necessário expurgar da oração,
voltava.
Esta manhã, falei sobre a religião judaica, mas um judeu reli-
gioso passa várias horas por dia na oração. Quer dizer, não diz nada
que não seja fixo, estabelecido. E quando vocês têm um discurso
deste tipo, ele se refere efetivamente a uma instância, ele tem como
referência uma instância que é mesmo uma instância morta, ou
seja, que renunciou a tudo aquilo que seria animador do desejo e
que seria o sexo e a vida. No caso de Ernest, o que vinha deslizar,
introduzir-se nas suas preces era uma palavra admirável, que Freud
compreendeu formidavelmente. Esta palavra que deslizava sobre
suas preces era glejisamen. Mas também, semem, quer dizer, esper-
ma e em Gleji tinha o anagrama de Gisele, ou seja, o nome da
mulher que ele amava. E eis, portanto, como sua prece vinha, ape-
sar dele mesmo e no momento em que queria dizer amém, vinha
se introduzir a idéia de - em francês se diz - foder Gisele. Mas é
exatamente isto. Então, vocês me dirão, mas por que nos sentimos
tão culpados da morte de Deus? Por que nos acusamos da morte

31
Neurose Obsessivo

deste pai? Por que a seqüência de geração faz necessariamente que


haja pais mortos, e nós não somos responsáveis por isto? Então,
por que nos acusamos, como meu paciente obsessivo, por ter ma-
tado sempre alguém atrás de si, sem mesmo se dar conta? Porque
este pai morto, pelo fato de estar morto, responde pelo nosso voto
de que seja morto. É este o voto da morte do pai - que seja morto
- quer dizer, que ao mesmo tempo ele nos desembarace do sexo.
Vocês me dirão: não, nós queremos que seja morto para podermos
justamente viver nossa sexualidade! Isto existe também, mas o prin-
cipal é que temos a noção de que, por sua sexualidade, nosso pai
real não pode ser ideal, que ele mesmo é culpado, que ele mesmo é
um pecador e que a posição de um pai ideal é o pai morto. Em
todo caso, se é possível que eu me sinta culpado pela morte deste
pai, não é somente porque a seqüência das gerações fez com que
obrigatoriamente ele tenha sido levado a morrer mas que ele mor-
reu porque eu pude desejar, eu pude querer. Na observação do
"Homem dos Ratos", Ernst tem medo de fazer mal a duas pessoas
que lhe são muito caras: seu pai e, em seguida, a dama, não somen-
te a mulher que ele ama, mas que ele venera. Este é um termo
muito importante porque ele está face a face a esta dama como se
está diante de Deus. Primeiramente, não é questão ter relações
sexuais com ela; ele tem muito respeito por ela; ele tem muito
amor por ela. E ele não lhe pede nada mais. Mas, vocês me dirão,
qual é a relação desta mulher com o seu pai ou com o pai? Por que
há ao mesmo tempo o pai e esta dama que ele venera? Eu faço com
que vocês observem este ponto: é que o pelo-menos-um de que fala
Lacan, quer dizer, aquele que vem sustentar a imagem do pai, ele é
fundamentalmente bissexuado. E Lacan diz que é necessário chamá-
lo de pelo-menos-uma. Ele é bissexuado porque seu lugar está no
campo do Outro, do grande Outro que é um lugar, o campo do

32
Charles Melman

Outro é um lugar feminino. Não tenham medo, se tiverem algu-


ma dúvida; vou voltar a tudo isto mais tarde. Não são apenas afir-
mações dogmáticas, mas é o que podemos verificar pela estrutura.
A questão do dogmatismo, de que falei agora há pouco a propósito
da religião, é absolutamente idêntica para a teoria analítica. Se vocês
se referirem à teoria analítica como um dogmatismo, quer dizer, se
a tratarem como uma religião, vocês matarão o seu fundador. E é
preciso dizer que é o que fizeram os alunos de Freud. Eles trataram
seu ensino como ensino dogmático, em que nada podia ser tocado
ou mudado, como nas preces, e eles o mataram. Como vocês sa-
bem, hoje, todos os ortodoxos da Associação Internacional de Psi-
canálise (IPA) mataram a psicanálise tal como Freud a inventou.
Vocês sabem, talvez melhor do que eu que, nos EUA, eles não têm
mais lugar na vida cultural nem na vida terapêutica. Eles trataram
Freud como se trata o pai morto. Para Lacan, é bem evidente que
isto pode ser igual. Se Lacan for tratado de um modo dogmático,
ele irá desaparecer. Lacan não era dogmático nem em relação a si
próprio. Ele mudava o tempo todo, ele se deslocava, ele mexia, e
trazia novos conceitos, ele modificava. E agora, quero lhes dizer
qual é o problema fundamental quando se escuda a neurose obses-
siva. O que torna difícil o estudo de Lacan é que não se chega
jamais a capturar nada, nunca. Vocês tentam definir um conceito
lacaniano; sua utilização muda o tempo todo. Vocês tentam apre-
ender o que constituiria o essencial de Lacan mas não alcançarão
nunca. Quando os filósofos lêem Lacan ficam horrorizados por-
que o ensino de Lacan é sempre organizado em torno de um foro.
Quer dizer que os significantes apenas circulam em torno deste
furo e é isso que ele quer ensinar a seus alunos. Pois essa é a lição
que aprendemos com a prática psicanalítica: somos dependentes
de um sistema, que é simbólico, que só nos permite alcançar, pegar

33
Neurose Obsessivo

nada mais que um foro. E como é nesse foro que nossa existência
toma lugar, somos amedrontados porque não há nada que a sus-
tente. Então, passamos a adorar esta pelo-menos-uma que coloca-
mos no faro, e que vai constituir nossa coluna vertebral. Como
vocês sabem, é muito comum termos dores na coluna vertebral.
Então, vou fazer um diagnóstico coletivo - perdoem-me porque
sempre há casos particulares-: quando se tem dor na coluna verte-
bral é que sempre se tem dor na relação com o pelo menos-uma.
Quando a relação com o pelo-menos-uma é uma relação sólida, nos
mantemos bem retos e não temos problemas com a coluna verte-
bral. Parece que estou brincando ... gostaria que isto parecesse uma
brincadeira...
O que quero dizer é que temos uma existência que é muito,
muito estranha; sou sempre surpreendido pela existência que te-
mos porque cada um de nós sabe que a verdade que o habita, sua
própria verdade não é aquela que organiza sua aparência; que a sua
verdadeira verdade está alhures. E, no entanto, todo mundo tenta
esquecer esta verdade, que é a do inconsciente. Quer dizer que
passamos nossa existência a nos defendermos contra este foro, que
é central para nossa vida.
Charles Melman

A PROPÓSITO DO ENSINO

O que é que temos para ensinar a nossos próprios filhos? O que é


que podemos lhes ensinar que seja bom para eles? Em geral, o que
lhes ensinamos são as matérias científicas; quer dizer que provoca-
mos a sua divisão com este saber. Há crianças que gostam disso;
gostam de um saber que é puramente matemático, físico, lógico e
que os coloca em posição de sujeitos divididos em relação a este
saber, e depois há outras crianças que recusam este saber porque
não dá nenhum lugar a sua existência de sujeitos. Quando não
respeitamos a existência de alguém com quem se fala, sua existên-
cia, quer dizer, quando o tomamos como indivíduo e não como
sujeito, apenas provocamos sua violência. E quanto mais nosso
ensino pretender ser puramente científico, ou seja, recusando o
reconhecimento da existência de nossos filhos, tanto mais teremos
manifestações de violência. Creio que isso seja completamente cla-
ro. Há uma mulher que vem me ver e cujo trabalho consiste em ir
às Escolas porque nas turmas há manifestações insuportáveis de
violência. Então, os professores se reúnem com a turmas, entre si
mesmos, e lhe dizem: "isto aqui vai ser terrível, eles vão sair, não
vão ficar, você vai ser insultada... "E esta mulher, o que faz? Ela
começa a falar com as crianças, não como se falasse a indivíduos
mas como sujeitos, cada um sendo singular, sendo diferente dos
outros. E depois, ela os convida a se exprimirem a partir da sua
singularidade de sujeito, não pela normalização que a ciência exige
mas com as particularidades de cada um. E então, os professores
ficam completamente estupefatos porque as crianças se tornam aten-
tas, imediatamente, participam e contribuem, ficam interessadas e
contentes. E os professores dizem: "como você faz, qual é o seu
procedimento para chegar a isso?" Ela apenas reconhece que se
35
Neurose Obsessiva

trata de dar a cada criança a possibilidade que sua singularidade,


que sua existência particular possa se exprimir. Porque, se oferecer-
mos à nossas crianças esta imagem, esta idéia de um saber totalitá-
rio, elas só poderão expressar sua existência na efração e na violên-
cia. A questão do ensino dos analistas é uma questão que não está
tão distante: de certo modo, é o mesmo problema.
O que era admirável em Lacan, era que, quando escutava
um analisando, ele nunca dava a impressão de que ele, Lacan, ti-
nha o saber do que se passava com o analisando; ele dava a impres-
são de que ele, Lacan, deveria, sem cessar, construir seu saber a
partir daquilo que o analisando lhe dissesse. E o analisando tinha a
surpresa de estar diante, não de um saber constituído onde todas
as respostas estariam inscritas já de antemão para lhe responder,
mas que, em Lacan, havia este furo de que lhe falei agora há pouco,
o mesmo que havia no analisando e que o único problema seria
chegar a situar este impossível corretamente.
Eu lhes disse, esta manhã, que o pai que nós queremos, que
nós amamos, é o pai morto enquanto aquele que renunciou à se-
xualidade, quer dizer, como se, sua sexualidade, ele houvesse dado
à mim, que sou vivo, e como que eu, de certo modo, deveria devolvê-
la a ele. É o que acontece com Ernst; é uma história de dívida que
ele não consegue pagar, reembolsar. Penso que vocês conhecem o
caso clínico. Ele cumprira o serviço militar como oficial de reserva
e, numa certa etapa, perdeu seu pince-nez, "o que vem entre dois".
Ele perdeu seu pince-nez e telegrafou para que seu oculista lhe
mandasse outro. E o soldado encarregado pelo correio de distri-
buir as cartas disse que ele tinha que reembolsar o lugar-tenente
David. Como conseguir pagar ao lugar-tenente, se não foi ele quem
pagou e que, na realidade, ele deveria pagar à empregada do cor-
reio? Então, ele imagina todo um sistema em que ele iria junto
Charles Melman

com o lugar-tenente ao correio e, para isto, seriam necessários fazer


20 ou 25 quilômetros. Ele dará o dinheiro ao lugar-tenente David
que, por sua vez, o dará à empregada do correio. E como tal, ele
terá reembolsado ao lugar-tenente David e a empregada do correio
será paga. Ele inventa uma construção, que é quase delirante, para
realizar o imperativo que ele ouviu com esta frase: "você tem que
reembolsar o lugar-tenente David com 3 florins e oitenta". E é
nesse momento que ele chega até Freud; ele está completamente
esgotado; e ele havia ido à casa de um amigo, desses bons amigo: .
em Viena, para quem contou toda a sua história e disse como s.
sentia horrivelmente culpado de não ter podido reembolsar o lu-
gar-tenente David. E o seu amigo lhe disse: "escuta, estas são boba-
gens que estão na sua cabeça; há um professor em Viena que se
ocupa de besteiras como essas; você vá lá vê-lo e falar disso com
ele". E foi assim que Ernst chega até Freud. Uma pequena observa-
ção: é que Ernst sabia da existência de Freud porque havia lido ''A
Interpretação dos Sonhos". Ele havia visto que aí haviam coisas
que ele entendia muito bem. Ele poderia ter ido até Freud sozinho.
Mas era preciso que alguém lhe dissesse; era preciso que a ordem
viesse de algum lugar. Foi porque alguém lhe disse: "vá ver o Dr.
Freud", que ele foi consultá-lo. Este é um ponto ao qual vou voltar
amanhã do ponto de vista teórico pois é importante saber de onde
cada um de nós tomamos nossas decisões. Uma palavra antes de
pararmos: este famoso pince-nez é o representante de um gozo
escópico que foi essencial na infância de Ernst, de um gozo escópico
culpado e será a partir disto que retomaremos após uma pausa.

37
Neurose Obsessivo

QUESTÕES

TERESA NAZAR: Eu havia perguntado a ele, quando ele falava sobre


e, "Homem dos Ratos", por que, repetidamente, nós analistas, quan-
do falamos de neurose obsessiva, costumamos nos referir unica-
mente ao "Homem dos Ratos", porque eu encontrei, estudando o
"Homem dos Lobos", vários elementos que me pareceram, justa-
mente, referir o "Homem dos Lobos" mais à neurose obsessiva do
que propriamente à psicose, como é sabidamente apregoado a res-
peito dele. Gostaria que ele retomasse esta questão a partir da fanta-
sia que comparece no sonho de repetição do"Homem dos Lobos".

C.M. - Agradeço a Teresa por sua questão e vou me permitir res-


ponder a partir de um ponto que parece introduzir uma diferença
de estrutura entre o "Homem dos Ratos"eo "Homem dos Lobos".
O que é próprio da neurose obsessiva é que o paciente ouve co-
mandos, ordens e nunca os toma como fenômenos alucinatórios.
Isto é um ponto essencial. Ele não sabe quem fala, não sabe de
onde isso vem, mas ele ouve as ordens formularem-se nele de uma
forma completamente clara e nunca nos diz reconhecê-las como
fenômenos alucinatórios, ou seja, são sempre fenômenos que lhe
pertencem. Então, o "Homem dos Lobos" teve uma alucinação
propriamente dita. Teresa lembra que, quando ele era criança, ele
teve a alucinação de um dedo cortado; este fenômeno basta, em-
bora seja bastante reduzido, para marcar que estamos numa outra
estrutura. Agora, por outro lado, o que é muito interessante, e Te-
resa tem razão, é querer tomar os fenômenos somáticos do "Ho-
mem dos Lobos" como manifestações próprias da hipocondria
obsessiva. Porque, na obsessão, com freqüência, há manifestações
hipocondríacas e vamos falar disto e tentar explicar porquê. Mas,

38
Charles Melman

de minha parte, acho que o que falta ao "Homem dos "Lobos" são
todas as manifestações obsessivas, os rituais, a repetição, a verifica-
ção, a dúvida, quero dizer, toda uma série de traços sintomáticos
que parecem ser a bateria mínima para propriamente se falar de
neurose obsessiva. Em todo caso, este é o meu ponto de vista sobre
a questão. Mas talvez, como ainda nos restam 2 dias, sejamos leva-
dos a dar precisões muito específicas sobre a estrutura obsessiva, as
quais nos permitirão melhor compreender porque, do meu ponto
de vista, o "Homem dos Lobos" é muito mais uma estrutura
psicótica; e vocês sabem, e Teresa sabe melhor do que eu, com o
seu destino, quero dizer, o modo paranóico como ele organizou a
sua relação com os analistas e com a análise, ou seja, sua reivindica-
ção, o "Homem dos Lobos" terminou a sua existência vivendo de
uma reivindicação paranóica no lugar da análise. Vocês sabem como
ele ganhava a vida: ele refazia o desenho dos lobos na árvore e os
vendia ao público. Todos os analistas desta geração tinham, em seu
consultório, um desenho do famoso sonho dos lobos do "Homem
dos Lobos", que eles haviam pago. Vocês se lembram que ele tinha
uma pele doente e esburacada, e ele afirmava que os analistas eram
responsáveis por esta pele esburacada. E depois, ele ganhou a vida
escrevendo contra os psicanalistas e a psicanálise. É um direito dele;
é o testemunho de um certo sentido de realidade social; quero di-
zer que os analistas deram-lhe um meio de ganhar sua vida. A ques-
tão do fantasma, no obsessivo, é uma questão muito especial e
particular; teremos que esperar até amanhã para abordá-la.

C.M. O José Mário colocou-me duas questões que me mostram


que tenho a sorte de ter ouvido com atenção. Uma das questões diz
respeito ao fato de saber porquê uma criança que tem uma mãe
que dá tudo, que é solícita, que dá tudo à criança, pode ter um

39
Neurose Obsessiva

filho obsessivo. Porque, em geral, o menino obsessivo adivinha a


falta e procura reparar esta falta. Ele procura reparar esta ferida de
sua mãe. Se o menininho compreende que esta generosidade da
mãe em relação a ele é um modo da mãe mascarar sua própria
falta, a dela, quero dizer, ela lhe dá tudo o que ela não tem. Vocês
sabem que, para Lacan, dar o que não se tem é a definição de amor.
Então, se ele percebe que ela faz com que não lhe falte nada, o
menino entende o que é a falta real da mãe e pode querer se com-
portar como um obsessivo e querer reparar esta falta nela. A outra
questão diz respeito ao fato de eu ter dito que a culpabilidade havia
começado com a religião; e, muito acertadamente, ela me lembra
tudo o que faz a força da tragédia antiga, como o herói antigo pode
ser levado a se destruir por causa de sua culpa, como Édipo, por
exemplo. José Mário me fez a objeção que o sentimento de culpa
existe perfeitamente no herói antigo, muito antes da religião. En-
tretanto, a diferença é que o herói antigo cometeu uma falta bem
real. Édipo, por exemplo, ele não sabia mas sua falta é uma falta
bastante real, enquanto o obsessivo não somente não cometeu a
falta mas é tentando realizar seu ideal religioso à perfeição que se
torna culpado, que se sente culpado e tem pensamentos culpados.
Então, o herói antigo comete uma falta e ele pode sentir a culpa
mas no herói moderno, quanto mais ele procura ser perfeito e ideal
mais ele é culpado. É aí que está a diferença e é aí que se chega à
neurose.Ele é como o meu paciente, de agora há pouco, que se
acusa de um crime que nunca cometeu.

MAR.IA CI.ARA- Gostaria que o senhor pudesse re'mmar aquele ponto


da bissexualidade do pelo-menos-uma que entendi como aproxi-
mação do pai com o feminino. Gostaria também que o senhor
falasse um pouco mais sobre a noção de pai real.

40
Charles Melmon

C.M. - Gostaria de agradecer por sua pergunta. Gostaria, de iní-


cio, observar que existem crianças, e até mesmo adultos, que con-
tam, quando estão no divã, que o pai e a mãe eram tão ligados, tão
unidos um ao outro que formavam uma verdadeira unidade. Quer
dizer, a criança não tinha que se relacionar com um pai e com uma
mãe mas que estava diante de uma autoridade única e que era re-
presentada por esta espécie de solidariedade indissociável do pai e
da mãe. Esta é uma primeira observação. A segunda observação
concerne ao problema da estrutura. O problema da estrutura, que
é a instância que chamamos geradora, que podemos também cha-
mar de falo, que podemos chamar de pelo-menos-uma, esta ins-
tância ocupa, tem como lugar o real. É a instância que fazemos
Deus habitar o real. Na medida em que este lugar do real é tam-
bém o lugar que chamamos do grande Outro, lugar que sustenta
nosso desejo, que é o lugar que ocupam as mulheres, as mulheres
vêm ocupar o lugar do Outro. Para um homem, a mulher é seu
Outro. Para uma criança, o seu primeiro Outro é sua mãe. Na
medida em que este lugar é um lugar feminino por excelência, esta
instância fálica que é, portanto, responsável pela virilidade, ela é,
entretanto, não menos feminina já que ela ocupa este lugar que é
ocupado pelas mulheres. Então, podemos ficar surpresos se are-
presentação imaginária que pudermos nos fazer desta instância possa
ser tanto viril, o pai por exemplo, quanto - não pela mãe - mas
por uma dama. Pois o "Homem dos Ratos" chama a mulher que
ele ama "a dama". Por que? Porque a dama funciona para ele como
uma criatura santa, não como uma futura mãe, mas como uma
criatura santa que está sempre à distância, por quem ele faz sacrifí-
cios, quer dizer, ela funciona para ele, absolutamente, como uma
divindade feminina. E assim, temos a surpresa de ver que para
Ernst, as duas representações desta instância podem ser viril e fe-

41
Neurose Obsessivo

minina mas é a mesma instância. Agora, você pede que eu fale


sobre o pai real. Seria como começar um longo romance. Mas, em
todo caso, o que posso falar sobre o pai de Ernst é que ele é muito
mais um bom amigo, não um pai. Mas um bom amigo, muito
mais um irmão mais velho. Veremos, amanhã, a importância da
relação do obsessivo com o amigo, com o irmão mais velho. Vamos
ver como isso se passa. Mas, em todo caso, o pai do Ernst não tem,
de nenhum modo, para ele, atitudes de dignidade, a distância, não
é fonte de respeito que normalmente deve se estabelecer entre pai e
filho. Eles estão muito mais sobre o mesmo terreno, um e outro, e
aí é que iremos falar sobre a forclusão da castração. Podemos dizer
que não há nenhuma separação, nenhum corte entre pai e filho,
mas desenvolverei este ponto mais tarde. O problema do pai real é
que nós o achamos sempre insuficiente, tanto a menina quanto o
menino. Nós o achamos insuficiente quando ele tem uma vida
sexual porque ele priva a criança de sua mãe; achamos que é insu-
ficiente quando não tem vida sexual porque não pode servir de
modelo e suporte para seus filhos. Portanto, se ele é fraco, nós o
repreendemos por sua fraqueza e, se ele é forte, nós o repreende-
mos pela sua força. É raro que encontremos uma relação pai-filho
que seja estabelecida sobre o prazer recíproco e no caráter feliz da
relação. Isto é estranho.

MARIA CIARA - Não poderia jamais, da parte do pai real, haver


uma boa relação pai e filho?

C. M. - Escutem, temos aí um capítulo imenso. Mas se isto inte-


ressa a vocês, vamos encontrar tempo, nestes dois próximos dias,
para dedicar a isto tudo o que merece e para discutir. Falaremos de
3 pais. Cada um de nós tem 3 pais: um pai real, um pai simbólico

42
Charles Melmon

e um pai imaginário. E tentaremos mostrar qual é a diferença


entre ele.

C.M. - Amanhã, juntamente com a questão sobre o pai, falarei


sobre isto.

LIDIA - Quando você estabelece a diferença na tradução entre a


inveja e o ciúme, você está introduzindo a questão do dois e do
três?

C. M. -Com certeza, porque a questão da inveja é a que concerne


ao modo paranóico da constituição do objeto do desejo para cada
um de nós. Por que? Lacan toma o exemplo extraído das Confis-
sões de Santo Agostinho em que o pequeno Agostinho vê uma
criança, seu irmãozinho, grudado no seio de sua mãe e tomando
seu gozo completo. O objeto do desejo, o objeto causa do fantasma
é aquele que o pequeno outro parece possuir enquanto este objeto
lhe dá um gozo perfeito, absoluto, quero dizer, que para cada um
de nós a concepção do objeto do desejo se faz nesta concorrência
com um terceiro outro que rouba o objeto que me satisfaria. E,
portanto, eu diria, na organização do desejo há, para cada um de
nós, uma dimensão de inveja daquele que possui este objeto que
imagino que poderia me satisfazer e uma relação de concorrência
que, eu diria, paranóica com aquele que toma este objeto de mim.
Então, sou uma vítima daquele que o toma de mim. Portanto, aí
está efetivamente como a inveja encontra, no mesmo tempo da
constituição do objeto do desejo, o ciúme e a dimensão paranóica.

PERGUNTA - O Senhor introduziu a questão da importância da


pulsão escópica. Gostaria que o senhor falasse sobre a função da

43
Neurose Obs..ssiva

causa na estruturação do desejo obsessivo, fundamentalmente o


que diz respeito à função das fezes e do que está em jogo na função
escópica, na constituição do desejo obsessivo.

C.M. - Sobre a importância da analidade do obsessivo, vamos fa-


lar disto mais longamente. É evidentemente muito importante.
Sabemos que Freud pensou que a parada no erotismo anal explica-
va o caráter obsessivo. Mas, vamos ter tempo de falar nisto. Por
outro lado, a questão da pulsão escópica no obsessivo é muito me-
nos estudada. No caso de Ernst, houve, na sua infância, um mo-
mento maravilhoso. Para cada criança há um momento em que ela
descobre a significação fálica. Bruscamente, para uma criança, tudo
se organiza. Ela compreende que o não se diz, que aquilo que é
escondido mas também aquilo que é mais importante é isso: o
sexo. E como aquilo, que é anal, é igualmente escondido, e como
a educação da criança a leva a esconder tudo o que é anal, há já aí
um início de assimilação da analidade ao sexual, mas isto vai mais
longe, falaremos disto mais tarde; a criança bruscamente descobre,
ela bruscamente se torna inteligente descobrindo a significação
fálica. E o problema é que como ele descobriu bruscamente aí, esta
descoberta que o iluminou bruscamente vai desaparecer porque a
realidade só existe à condição de, eu diria, da eclipse da instância
fálica. Portanto, num dado momento ele viu, e ele não poderá mais
rever. E foi o que aconteceu de modo muito claro para Ernst. E ele
teve este momento quando vivia com sua governanta e ele parti-
lhava o banho com ela; ele viu, descobriu o que era esta instância
fálica. Sua angústia após isso era porque não podia mais ver, por-
que é preciso renunciar a ver para que isto possa existir. O que fez
com que este pince-nez que ele perdeu ... é como que isto que ele
perdeu, de alguma maneira seja o sintoma da falta que ele come-

44
Charles Melman

teu, do que não deveria ter visto já que há uma dívida de algum
modo. Uma dívida que ele não queria pagar porque ele queria sem-
pre rever o que é preciso renunciar, àquilo que se deve pagar uma
vez por todas. Nós vamos falar da questão justamente do escrúpu-
lo contábil no obsessivo; porque ele sempre tem medo de não ter
pago tudo o que tem que pagar e de que não tenha sido pago de
tudo o que lhe devem.

0 QUE SE DIGA FICA ESQUECIDO POR TRÁS DO QUE SE DIZ NAQUILO

QUE SE OUVE

E vocês vêem que a estória da perda do pince-nez e a questãodo


reembolso, compreendemos que virá de um modo totalmente ines-
perado, levantado nele o problema essencial da dívida que ele não
quis pagar. Primeiramente, gostaria que vocês notassem que o ob-
sessivo não fala. Quando ele fala, é como se ele lesse algo que esti-
vesse escrito em algum lugar. E é por isso que, quando o obsessivo
fala, é como se fosse alguma coisa escrita. Ou seja, não corno uma
enunciação mas como um enunciado.
Lacan começa um artigo muito interessante e difícil chama-
do "O aturdito" - na época eu estava encarregado da edição da
revista "Scilicet"- e quando Lacan me deu este artigo para publicá-
lo na Scilicet, permiti-me dizer-lhe que era um artigo que nin-
guém iria entender nada. Neste artigo, ele fala muito da topologia
da banda de Moebius e ele não faz nenhum desenho; ele recusa
toda figuração do imaginário, ou seja, ele quer se basear unica-
mente no simbólico e recusa todas as imagens da topologia; ele se
apoia unicamente no simbólico e começa seu artigo 'Tétourdit"
dizendo: 'o que se diga fica esquecido por trás do que se diz naquilo

45
Neurose Obsessiva

que se ouve". Quer dizer que, quando uma palavra é pronunciada,


as pessoas se precipitam sobre o sentido, ou seja, sobre o imaginá-
rio, mas esquecendo que foi preciso um sujeito para dizer esta frase
e que o sentido da frase tem que ser buscado não no que é dito, no
enunciado, mas no fato de que houve um sujeito para dizer esta
frase. O obsessivo quer sempre que se esqueça o sujeito, que é sem-
pre o suporte do enunciado. É por isso que ele fala como um escri-
to, quando ele fala é sempre como uma escritura. Será que foi ele
que disse, de onde isso foi dito, pouco importa. Eu começo esta
manhã com isso para que vocês notem de um modo simples de
que maneira um obsessivo quer suturar a existência do sujeito. É
como se sua frase não tivesse sujeito.
Vamos desenvolver isto depois mas veremos a importância
que isso tem. Uma coisa aparece imediatamente. É que, quando
uma frase é pronunciada, o que faz sua autoridade? Há apenas
duas possibilidades para ela fazer autoridade. Ou bem esta frase se
apoia na autoridade daquele que a pronuncia, por exemplo, aqui
estou falando a vocês e, se vocês confiarem em mim, o valor, o
caráter verídico e justo do que digo pode depender da autoridade
que vocês reconheçam ou não em mim. Outro meio de fazer reco-
nhecer a validade de uma frase é sua consistência lógica. Se eu
ordeno uma seqüência de frases que são logicamente irreprováveis,
a autoridade vem da consistência da realização lógica de minha
formulação. Vejam que não é a mesma autoridade. Para o obsessi-
vo, a autoridade da frase vem sempre de sua pura consistência lógi-
ca e ele recusa a autoridade daquele que enunciou esta frase. Quer
dizer, que ele quer sempre suprimir, suturar o sujeito da enuncia-
ção e ao mesmo tempo ele está matando Deus; porque nosso Deus
é enunciação. E quando o obsessivo diz: "não, eu suprimo a enun-
ciação, não quero, só tenho enunciados logicamente consistentes",
ele coloca aquilo que é causa da verdade nas frase não do lado do

46
Charles Melman

sujeito que fala mas do lado da consistência lógica do enunciado.


Então, suprimindo o sujeito, ao mesmo tempo ele mata Deus. Esta
é, creio, uma observação banal e só estou fazendo uma introdução
para amanhã mas há uma conseqüência clínica divertida com a
qual o obsessivo vai sofrer muito. Vocês sabem que na lógica for-
mal uma verdadeira proposição pode ter como precedente outra
proposição verdadeira mas também ela pode ter como precedente
uma proposição falsa. O que não impede que ela tenha por prece-
dente uma proposição falsa e apesar disso ser verdadeira. Se vocês
escudarem um pouquinho a lógica formal clássica, vocês verão cla-
ramente, naquilo que são chamados os quadros da verdade, que na
lógica formal o verdadeiro pode vir do verdadeiro mas também do
falso. E para o obsessivo o que é formidável é verificar como na
clínica isso se ilustra porque ele não sabe nunca se a proposição
que ele produziu é verdadeira já que a precedente pode ser falsa.
Então, ele é obrigado todo o tempo a refazer toda a cadeia de pro-
posições precedentes para verificar se ali não há uma falsa que se
introduziu na cadeia. E este é o tormento obsessivo bastante fre-
qüente e notável, quer dizer, ser obrigado a refazer toda a cadeia
para verificar se não houve a introdução de uma proposição falsa
em toda a seqüência que formulou. E é isso que introduz a dúvida
obsessiva nele pois ainda que haja uma proposta falsa na cadeia, o
resultado pode ser verdadeiro. Então, ele não sabe mais o que é
verdadeiro, o que é falso. Como vocês sabem, para ele isto é um
grande tormento. Isso nos lembra uma coisa: que a verdade está
sempre do lado do sujeito da enunciação. Por que? E que verdade é
esta? A verdade está do lado do sujeito que está à procura do con-
ceito ou do sentido que seria adequado, ou seja, do sujeito que tem
que responder a uma ausência, um furo, a uma falha radical. É isso
0 que, enquanto psicanalistas, nós reconhecemos como verdade,

ou seja, o esforço que faz um sujeito para responder à falha que

47
Neurose Obsessiva

constitui a sua existência. No fim de sua vida, Lacan sempre ten-


tou dar uma ordem, uma estrutura, uma organização científica à
Psicanálise, esta era sua ambição. No fim de sua vida, ele disse algo
que me perturbou muito; ele disse, em um Seminário: "tudo o que
fiz, o fiz com uma pequena parte de meu inconsciente". Ele nunca
disse: eu tenho a mestria, eu sabia tudo o que estava para fazer. Ele
dizia: "eu fiz tudo isso sendo inconsciente e sem saber o que estava
fazendo". Mas, é claro, que fazia para tentar responder ao que foi
para ele a falha, o sintoma - o que foi para ele o mais importante,
seu próprio sintoma - e que foi para ele seu sintoma foi o fracasso
da relação sexual. Ele não dizia que seu sintoma seria o mesmo
para todos; e quando escutava seus alunos elaborarem seus traba-
lhos, ele tentava compreender estes trabalhos como sendo algo que
vinha do sintoma do aluno. Ele fez uma conferência numa univer-
sidade americana, ele já estava velho, em 1975, e disse:"vou lhes
dizer porque eu vim para a psicanálise. Por qual sintoma eu vim
para a psicanálise. Eu vim para a psicanálise porque não hd relação
sexual. E vocês, por que vieram para a psicanálise?" Sem resposta ...
Mas, com isso, mostrava que uma elaboração teórica, quer dizer,
os enunciados, encontram sua verdade nisto que é a dor de existir
do sujeito. E é aí, na dor de existir do sujeito, que se encontra a
verdade dos enunciados. E quando o obsessivo quer suprimir esta
existência do sujeito e substituir as enunciações unicamente pelos enun-
ciados, ele duvida de tudo, não está mais seguro de nada, não tem
mais certeza de nada. Esse foi um antepasto, apenas para começar.

FORCLUSÃO DA CASTRAÇÃO

Agora, vou tentar continuar e quero responder à questão que


vai resolver esta forclusão da castração. José Nazar me pediu ontem
para retomar este problema, vamos tentar devagarzinho avançar e

48
Charles Melman

explicar. Vocês conhecem esta frase de Nietsche: "Deus está morto,


cudo é permitido". E Lacan diz:" Deus está morto, e porque está
morto nada mais é permitido". O que isto quer dizer? Ontem eu
disse que, graças a nossa religião, conseguimos sufocar o pai com
nosso amor. Não nos percebemos porque estamos mergulhados
mas o amor não é uma dimensão que pertence às outras religiões.
Eu me permiti evocar o panteão grego e romano - os gregos e os
romanos não sabem o que é o amor pelos deuses. Eles os honram,
fazem-lhes sacrifícios, experimentam temor por eles e respeito mas
como poderíamos querer que um grego ou um romano experi-
mentasse o amor por seu Deus? Observem que no budismo e nas
religiões orientais não se encontra esta dimensão do amor em rela-
ção a Deus. Poderíamos notar também que, nos judeus, o amor
por Deus não é uma dimensão essencial; o essencial para os judeus
é respeitar a lei. E que o sujeito ame ou não a Deus não tem uma
importância essencial; o que se lhe demanda somente é respeitar a
lei e fazer o que a lei ordena. O único texto em que há uma inter-
venção do amor nas Escrituras Sagradas é o "Cântico dos cânticos";
é bastante localizado. E é interessante que os teólogos judáicos
tenham querido integrar este livro no cânone sagrado. Mas o sen-
timento essencial do judeu em relação a Deus é o respeito e o te-
mor. Porque, observemos o que se segue: os gregos e os romanos
viviam sempre no temor que Deus os abandonasse, ou seja, que o
desejo sexual e a fecundidade desaparecessem. E, para estes povos,
é o que poderiam ter de pior. Tinha toda uma série de rituais no
início da primavera para garantir que os cereais crescessem. Nós
vivemos na certeza de que Deus nunca nos deixará, abandonará.
Podemos fazer a pior besteira, o pior crime, que Deus não nos
abandonará. Os que estudaram a questão, observem que no
animismo africano também há este temor que o desejo sexual de-
sapareça. Tive ocasião, como analista, de me ocupar de vários africa-

49
Neurose Óbsessivà

nos - e este é um grande traço cultural- o temor que, amanhã ou


depois de amanhã, o desejo sexual desapareça. Então, nós vivemos
com esta certeza de que Deus está conosco. Basta, para isto, fazer
orações e agir conforme a lei. Notemos algo de estranho: é que, no
fundo, o que nos é demandado pela religião é sermos um pouco
um homem máquina, quer dizer, repetir sempre as mesmas coisas,
fazer sempre as mesmas coisas. E o que isto quer dizer? Renunciar
a nossa existência de sujeito, estarmos permanentemente submeti-
dos aos enunciados de Deus, e nada dizer que não seja conforme
aos enunciados de Deus. Há aí algo muito curioso: se quero me
assegurar da fidelidade a Deus, é preciso que eu lhe sacrifique mi-
nha existência e é isto que é pedido aos padres. O que se pede aos
padres? Pede-se a eles para renunciarem a sua existência, a tudo o
que seria privado para eles para serem os puros funcionários da
vontade de Deus e dos enunciados de Deus. Quer dizer que o que
estranhamente a religião pede é que eu viva como se estivesse mor-
to já que não posso dizer nada de diferente, inventar nada que não
esteja de acordo com o dizer e a vontade de Deus. E é o que o
místico tenta fazer, quer dizer, viver como morto, oferecer sua vida,
sua existência para estar de acordo com a vontade de Deus. Há, no
amor, um traço que é notável. É que, no amor, não amamos al-
guém pelo que ele tem. Não amamos alguém porque é rico, belo e
poderoso. Quando alguém é belo, rico e poderoso provoca, em
geral, a inveja e o ódio. Quando é que o amor é provocado? Ama-
mos alguém por sua fraqueza, por aquilo que lhe falta, por aquilo
que ele não tem. E o que amamos na falta do Outro é nossa pró-
pria falta. E é por isso que Lacan diz que o amor é dar o que não se
tem. E todo mundo sabe, por exemplo, que se na relação amorosa
eu dou dinheiro, isto não é mais amor. No amor a Deus, não ama-
mos Deus por sua força, seu poder e sua riqueza mas o amamos
pelo que não tem. Esta é uma invenção que é própria de nossa

50
Charles Melrnan

religião e que é muito original, e que vocês vão encontrar ilustrada


na teologia porque é chamada teologia negativa, quer dizer que -
não sei se vocês já leram a obra daquele teólogo consagrado, Santo
Anselmo*, que desenvolveu a teologia negativa - quer dizer que,
nenhum dos atributos que eu possa conhecer possa ser específico
de Deus; não pode ser a riqueza porque Deus é muito mais rico do
que toda a riqueza que eu possa imaginar; não pode ser a bondade
porque Deus é infinitamente melhor do que toda a bondade que
eu possa imaginar. Portanto, nenhuma das características com que
eu poderia caracterizar Deus não é sustentável. Isto também quer
dizer, de certo modo, que Deus, ao mesmo tempo, se não vem de
nenhum de seus atributos, pode-se pensar, da mesma maneira, que
ele não tem nenhum atributo porque tudo que eu possa dizer não
é isso, não é suficiente. Porque, de certo modo, a teologia negativa
vai levar Deus a uma pura ausência, já que não posso dizer nada
sobre ele. Então, como vocês vêem, o amor nos permite ver de qual
modo é a falta do Outro que organiza a relação; de que modo esta
relação pode ser recíproca porque é a minha própria falta que amo
no Outro. Então, ela organiza a relação com o Outro, sobre um
eixo imaginário, que é o eixo i(a)-i'(a). Um e outro estão situados
neste mesmo eixo e o que cada um ama no outro é a falta no outro.
E na medida em que este amor, este laço é recíproco, leva a uma
troca entre os dois sem limites.
i'(a)
(Es) S a' (outro)

i(a)
eu (moi).,.-----~ A (Outro)

51
Neurose Obsessiva

O que é próprio do amor é uma busca da fusão de um e


outro, onde não há mais nenhum limite. É, aliás, o que esperamos
do amor : que haja uma reciprocidade perfeita, o que é meu, é seu;
o que é seu, é meu. E a própria diferença dos sexos pode ser abolida,
no verdadeiro amor. E pode-se dizer até que, de certo modo, o
amor é feminilizante. Então, se é este tipo de amor que me liga a
Deus, é evidente que este tipo de amor vai abolir a dimensão do
sagrado e do profano; este tipo de troca que é buscada no amor, e
quando é exercida com Deus, este tipo de amor leva a castrá-lo.
Por que? Porque o princípio do amor, o que mantém o amor não é
o que o Outro tem, seu instrumento; eu o amo enquanto ele não
tem este instrumento, enquanto ele tem a falta. Eu amo o Outro
não pelo que ele tem mas pelo que não tem. Há, portanto, no
amor, quando ele é autêntico, uma dimensão castradora e é uma
experiência clínica banal: quando há muito amor em um casal, um
verdadeiro amor, não pode haver realização sexual; talvez, para a
realização sexual seja preciso um pouco de ódio. Lacan fala que se
ele deixou os surrealistas é porque havia nos surrealistas franceses a
apologia do amor. Lacan conhecia os impasses do amor, ou seja,
que o amor não pode responder à impossibilidade da relação se-
xual. Não seria senão pela similaridade que ele via, pelo transitivismo
que estabeleceu entre os dois. Vocês observarão que, no amor, o
amor exerce sua força, o amor faz obedecer, eu diria, com uma
autoridade que é, ela mesma, puramente negativa. Há mulheres
que sabem muito bem fazer com que os seus maridos obedeçam,
não pela sua autoridade mas por sua fraqueza. A fraqueza é um
grande meio de exercer poder sobre o outro. Se, por exemplo, sa-
bemos todos, em nossa clínica, de que modo o amor de urna mãe
por seu filho pode ser para ele sufocante porque não lhe deixa ne-
nhuma possibilidade de escapar às exigências deste amor e como

52
Charles Melman

este amor é castrador; porque o amor não se funda sobre aquilo


que o Outro tem mas justamente sobre aquilo que renuncia, que
não tem. Então, tendo feito este caminho que, espero, não lhes
tenha parecido muito difícil, creio que começamos a compreender
de que modo pode operar aquilo que Lacan chamou forclusão da
castração. Nesta troca transitiva, entre um e outro, fundada na fal-
ta recíproca, em que buscam a fusão, não há mais nenhum limite;
não há nenhuma separação: você sou eu, eu sou você. E entre nés
dois cudo pode ser trocado, tudo pode circular. O que você tem
meu, o que tenho é seu. Eis aí um modo de tratamento, pelo amo:
da castração e que leva efetivamente à forclusão da castração. 1
vocês sabem muito bem como um amor deste tipo pode levar facil-
mente à paixão pelo suicídio recíproco, ou seja, realizar junto esta
falta destes dois que se amam, realizá-la completamente até o fim,
até a morte.
Se vocês tiverem visto, no consultório de vocês, um homem
ou uma mulher que está vivendo uma verdadeira paixão amorosa,
vocês vão saber que esta pessoa está cm perigo de morte. Vocês não
podem dizer nada. É um processo infernal. Quer dizer que o pelo-
menos-uma que, no Real, sustenta tanto a representação paterna
quanto a representação divina, este UM pode ser substituído pelo
UM impuro, o zero. Quer dizer, este UM se torna o representante
de uma pura ausência. Esta pura ausência que justamente é estabe-
lecida pela teologia negativa e que a matemática inscreve zero. E
vocês sabem que é preciso considerar zero como um mas zero quer
dizer apenas que o um, que poderia estar ali, não está. O problema
é que se a operação substitui esta operação de amor, ela substitui o
zero pelo um. No que se coma este um que é forcluído? Lacan diz
que o que é forcluído no Simbólico retorna no Real. Este um que
é, portanto, o agente da autoridade, o agente do comando, o su-
Nevrose Obsessiva

porte do desejo sexual e, do meu ponto de vista, o que acho admi-


rável, é que este um vai fazer irrupção no obsessivo, este um que ele
forcluiu, em que ele substituiu o zero, ele vai retornar no obsessivo
sob a forma de comandos. O obsessivo sempre fala com uma voz
muito doce, ele não suporta a violência; se alguém se manifesta
com autoridade, ele o odeia imediatamente. Então, este infeliz
obsessivo, vê retornar este Um sob a forma de ordens, comandos,
imperativos absolutos, sob a forma da voz que diz estes comandos,
que são quase sonorizados. E vocês se lembram que Lacan diz que
a voz é um dos melhores representantes do falo. Há uma clínica da
voz que deveria ser escrita. Porque, em análise, temos pacientes
que, às vezes, são muito simpáticos, mas têm uma voz que não sai
da boca. Quanto mais próximos colocamos nossa orelha deles,
quanto mais perto ficamos deles, mais a voz entra. Ou, então, eles
falam para dentro da boca.
Perdoem-me a crueza mas creio que a comparação com o
sexo é quase evidente. É preciso sobretudo esconder no interior,
que ninguém o veja nem o escute. Lembro-me de uma paciente
que tive durante 20 anos; eu asseguro a vocês que, durante 20
anos, não ouvi nada. E vocês não podem nada. Se vocês ficam
perguntando: como? .. .fale mais alto ... o que você disse? ... , ela vai
falar mais baixo ainda. O que fazer? No obsessivo, o comando apa-
rece no seu Real, a voz e, depois, um elemento que vai nos levar a
falar da analidade no obsessivo - o temor e o desejo de ser penetra-
do analmente; que haja uma efração anal, de ser possuído por este
instrumento forcluído e que volta, assim, no Real. E, como vocês
sabem, no "Homem dos Ratos", há esta história formidável do
suplício, que ele conta a Freud, em que o supliciado é amarrado
sobre um urinol que contém ratos, e o modo como os ratos pene-
tram o ânus. Freud diz que ele fez este relato com um sentimento

54
Charles Melman

misturado de horror e de um gozo ignorado por ele mesmo. Mas,


iremos ainda falar dos ratos mais tarde, já que ocupam um lugar
muito particular na observação. Mas noto que, no ponto em que
estamos, continuamos sem saber por que as idéias e as ordens que
vêm se impor a Ernst Lanser têm sempre este caráter atroz. Cada
vez são as obscenidades mais extremas. Vocês querem alguns exem-
plos? Por exemplo, vindo ver Freud, ele pensou, ele cruzou com a
filha de Freud, Ana, no corredor e estava persuadido de que Freud
queria que ele se casasse com ela; ele acha que Freud queria forçá-
lo à sexualidade e que para isso Freud estava pronto a lhe dar sua
filha, para que ele tivesse sexualidade. E qual é a idéia que lhe vem
a respeito da filha de Freud? É que ela tem estrume no lugar dos
olhos. E ele diz: como posso ter horrores como este na cabeça? Mas
vocês se lembram do que eu disse ontem sobre a pulsão escópica;
nós sabemos que as fezes constituem modelo do objeto pequeno a.
Outra coisa mais horrível... Vocês acham que o horrível tem limi-
tes? Não. Não tem. Tem uma coisa estranha - ele ficava com fome
durante a sessão e dizia a Freud que tinha fome. E o que Freud
fazia? É uma técnica à qual não demos continuidade: ele ia até a
sua cozinha, trazia um arenque para que ele comesse. Ninguém
sabe porque Freud agia desta maneira; porque é caro, não é? Tinha
cheiro ... talvez ... não sei!
Vocês sabem o que Ernst Lanser tem como idéia? Que tem
uma relação sexual anal com Ana e que o agente da relação sexual
é o arenque! Escutem ... Vocês têm que confessar que é uma produ-
ção artística ... E Ernst Lanser conta isso a Freud e fala: "você vai
me bater por eu lhe contar isto". Mas, aqui, seria preciso falar da
oralidade, da analidade e o fato de que o agente da relação pode ser
outra coisa que o sexo, pode ser o agente que satisfaz a oralidade.
Eu tive um paciente obsessivo, um jovem muito simpático e muito

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Nevrose Obsessivo

corajoso. Era urna neurose obsessiva familiar, absolutamente típi-


ca. Ele tinha pais bastante ricos e queriam que a seu filho não
faltasse nada. Eles sempre lhe davam todo o dinheiro que ele preci-
sava mas havia sempre entre os pais e este filho um cordão, como
se ele fosse ainda um feto que estivesse ligado à placenta. É como se
não houvesse nenhum corte entre o filho, que tinha 28 anos, e seus
pais. E seus pais tinham esta particularidade de estarem unidos um
ao outro corno se fizessem UM. Quer dizer que entre eles não ha-
via nenhuma separação. E ele sempre sofria quando, por exemplo,
falava com seu pai; seu pai nunca falava em seu próprio nome,
quer dizer, enquanto pai, mas falava sempre em nome de mamãe e
papai. E se ele falasse ao telefone com sua mãe, ela sempre lhe
falava ao telefone em nome de mamãe e papai. Eles não podiam
existir para ele de modo autônomo. Ele tinha uma neurose obses-
siva absolutamente típica. Ele tentava, com muita inteligência, na
análise, curá-la. E ele conseguiu se desfazer de muitos sintomas
mas restou um; um sintoma que, quando ele chegava em casa, à
noite, ele procurava na internet uma rede de homossexuais sado-
masoquistas e ele procurava um homem para se fazer bater por ele.
E era suficiente que ele fosse buscar na rede e quando conseguia
um endereço onde devia ir para se fazer bater, para apanhar nas
nádegas, e uma vez que tinha o endereço freqüentemente ele o
jogava no lixo, e isto bastava. Mas acontecia, às vezes, de ir até à
casa da pessoa e ele voltava sempre muito infeliz e muito desgostoso.
Este último sintoma, que lhe permaneceu na análise, tinha eviden-
temente elementos transferenciais, mas dificilmente o analista po-
deria ser violento e cruel como ele teria gostado. Vocês vêem como
ele ia buscar no Real o bastão separador que a neurose familiar
tinha vindo forcluir. Acho que este exemplo clínico é uma ilustra-
ção muito simples porque quando temos a chave dos mecanismos

56
Charles Melmon

isto se torna muito simples. Então, vocês dirão, mas como curar
isso na análise? Qual é a interpretação que dariam a isto? Porque
ele espera, ele diz: "você não pode me deixar assim. O que está
fazendo". Então, o que vocês fariam?

QUESTÕES

PERGUNTA (inaudível)- Sobre a diferença entre a forclusão e o


recalque.

C.M. - É porque há este desejo de efração, que alguma coisa venha


do exterior fazer irrupção e quebrar. O caráter do retorno do recalque
não é desta ordem. O que está recalcado, está do outro lado da
banda de Moebius, quer dizer, o que está do outro lado da banda
faz retorno sem nenhuma efração; faz retorno espontânea e natu-
ralmente. ~as, nele, o sintoma se produz como algo que entra na
sua cabeça com violência, algo que o toma e contra o qual ele nada
pode. Contra o recalque, a gente pode; pode-se operar um novo
recalque. Por exemplo, se tenho alguma idéia desagradável em re-
lação a meu amigo, algo que me venha ao espírito, eu a recalco. E
acabou. Mas a idéia obsessiva, não posso recalcá-la. E é por isso
que ela é obsessiva; é por isso que ela sempre está aí e quer sempre
entrar. Portanto, é um mecanismo, e eu diria que a expressão clíni-
ca do sintoma nos mostra que é diferente. Eu posso muito bem me
defender contra uma idéia recalcada mas eu luto, sem nenhum
poder, sem nenhuma capacidade contra as idéias obsessivas. En-
tão, sua questão tem a vantagem de nos mostrar toda a diferença
entre as idéias recalcadas e as idéias obsessivas.
Vamos tentar entender de onde vêm as idéias obsessivas por-
que não são necessariamente idéias recalcadas. E, portanto, a ques-

57
Neurose Obsessiva

tão é exatamente de onde elas saem. Vamos tentar responder mais


tarde a esta questão.
Pergunta: Eu queria perguntar sobre o recorte que o senhor
trouxe, da sua clínica, do sujeito que se faz bater, se isso não é um
acting-out, já que o senhor trouxe isso como sintoma.

C.M. - É. Parece ser um acting-out, parece destinado ao analista.


Portanto, vocês não querem saber o que se pode fazer? Escutem,
quando um dia ele voltou, e estava com muita raiva, muito bravo,
porque isto acontecia com ele por minha causa, porque eu não
estava fazendo nada para impedir. Então, ele estava muito enraive-
cido, muito descontente- e quando o vejo chegar, eu sei imediata-
mente o que está acontecendo-, muito bravo e então, um dia, eu
lhe disse algo um pouco banal: "você acredita em Papai Noel"? E,
nas semanas seguintes, ele escreveu a seus pais lhes dizendo que
não queria mais receber dinheiro deles - ele morava em Paris e os
pais na Provence - e que ele não iria mais vê-los, no momento.
Então, o cordão umbilical entre eles, ele mesmo o cortou. Então,
creio que foi uma observação, não foi uma interpretação; mas uma
observação que não foi inútil de lhe fazer perceber que seu pai agia,
em relação a ele, como Papai Noel. Acreditar que houvesse alguém
que pudesse bater nele segundo seu desejo, segundo seu voto, era
também acreditar em Papai Noel. Um modo inspirado, vindo do
ensino de Lacan, que nos permite precisar, justamente, aquilo que
é da função do pai, aquilo de que falaremos mais tarde, após uma
pausa que faremos agora, se vocês quiserem.

SIDNEY- Ontem, o senhor falou que iria retomar a questão do pai,


em três versões. Pergunto-lhe se poderia retomar em quatro por-
que tenho dificuldade de entender a diferença entre pai Real e pai

58
Charles Melman

na realidade; mesmo quando leio os Seminários IV e V, Lacan vai


e volta e todos dizem: "é diferente"; mas para mim parece que
quando fala do pai Real acabando falando do sujeitinho. Se o se-
nhor me ajudar com esta dificuldade ...

C.M.- Preparei toda a segunda parte sobre a questão do pai onde


iria responder a esta pergunta. É uma questão muito importante,
interessante, vamos ver como isto pode ser respondido.

PERGUNTA: Para confirmar aquilo que o Dr. Melman disse - que o


obsessivo não fala, ele lê - vou ler a pergunta. Na realidade, as
questões de hoje suscitam outras mas vou retomar a de ontem e
acrescentar algo, de hoje. Sobre a questão da privatização e da neu-
rose obsessiva. Se a ênfase do capitalismo contemporâneo sobre a
questão da privatização não provocaria um desequilíbrio ético na
sociedade entre o privado e o público e como conseqüência incidiria
na articulação do desejo dos sujeitos de tal forma que o obsessivo
seria atualmente um sujeito em vias de desaparecimento em favor
do predomínio do perverso e das formas psicossomáticas de sofri-
mento. Como esclarecimento suplementar, gostaria de algo sobre
a diferença entre certos sujeitos obsessivos e sintomas perversos
como aparece no exemplo clínico que o senhor trouxe.

C. M. - É verdade que nós estamos conhecendo uma mutação


cultural. Mas é realidade que temos vivido no mal-estar de uma
civilização que esteve fundada sobre o recalque do desejo. Foi o
que Freud escreveu. Que o mal-estar na civilização estava ligado ao
recalque, à exigência excessiva do sacrifício da sexualidade. É pre-
ciso acreditar que Freud ganhou, já que conhecemos uma mutação

59
Neurose Obsessiva

cultural; e hoje cada um é convidado a manifestar seu desejo priva-


do e assistimos uma diminuição do papel regulador do Estado para
favorecer a expressão individual dos desejos. É a ideologia contem-
porânea, mas que remonta a Adam Smith, é a concorrência das
vontades individuais que leva ao bem geral. Será que vamos assistir
então a uma extinção, a uma diminuição, a uma rarefação da neu-
rose obsessiva? Creio que sim. Mas creio que vamos também estra-
nhamente assistir a uma rarefação da histeria; por motivos que não
vou desenvolver agora, e portanto vamos ver o aparecimento de
novas patologias. E é um assunto que trabalhamos com amigos,
em Paris, e nós estamos publicando novos trabalhos em torno das
novas patologias que estão se constituindo. Você coloca uma ques-
tão muito precisa e interessante sobre o fato de saber se não seria a
perversão que iria constituir a principal patologia moderna. E so-
mos levados a falar sobre a relação do obsessivo com a perversão.
Mas, não creio, apesar disso, que a perversão será a grande patolo-
gia moderna e vou explicar porquê. Porque o objeto do perverso é
o objeto que ele imagina ser demandado e desejado pelo Outro. É
isso; como o perverso imagina que esse objeto faz o gozo do Outro,
ele quer guardar este gozo para ele. É isso que funda o caráter do
objeto para o perverso. Por exemplo, a importância da analidade
no obsessivo; o caráter perverso do gozo anal ou escópico no per-
verso está ligado ao fato de que este pensa que o Outro pede e goza
com este objeto anal, ou então com o objeto escópico, ou seja, com
o olhar. Ora, creio que a nova patologia que se organiza forclui a
dimensão do Outro. Quer dizer, que as relações são fundadas sobre
a dualidade, sobre o contrato privado entre os parceiros, deixando
de lado, afastando qualquer passagem com referência a um tercei-
ro. O que faz, portanto, o que caracteriza o objeto moderno, é
Charles Melman

menos sua origem perversa que a capacidade que tem de trazer um


gozo como se fosse um objeto perverso. Por exemplo, somos capa-
zes de fabricar objetos que proporcionam um goro auditivo, bas-
eante notável, que poderíamos dizer completamente satisfatório já
que capaz de nos tornar surdos e estas máquinas são capazes de nos
proporcionar um gozo tão maravilhoso, tão perfeito que nos tor-
namos dependentes delas, como se fossem objetos perversos. Para
0 gozo escópico, quer dizer, o fantasma de ter um olho que pode

ver tudo e ao mesmo tempo, sem que haja nenhuma zona de som-
bra- nossas máquinas modernas, como os satélites, que giram em
corno da terra, são capazes de nos proporcionar este gozo em tem-
po real. Sou capaz de ver o que se passa em qualquer lugar da
terra, no momento em que a coisa acontece e sem que nada me
seja escondido. E como vocês sabem, há uma nova ética - a ética
de transparência. Não sei como é no Brasil, mas hoje, na Europa,
quando se fala com um homem político, diante das câmaras, ele
deve estar completamente desnudado. Deve-se saber tudo dele. Se
ele gosta de cachorros, se ele fumou haxixe, se tinha boas notas na
escola, etc .. E, há hoje, na França, emissões de televisões públicas;
por exemplo, no mês passado, teve um programa sobre a vida se-
xual de pessoas com mais de 60 anos ... é um assunto muito interes-
sante! Então, eles colocam homens e mulheres que têm mais de 60
anos, e qual é o novo fenômeno notável? Diante das câmaras, em
público, todas estas pessoas, que são pessoas do povo, se exibem
em sua particularidade íntima, com uma crueza como eles não
ousariam fazer num consultório médico. Por que? Porque há os
spots luminosos e as câmaras. E aí não se pode esconder mais
nada. É preciso que tudo seja mostrado. Isso para mostrar que os
objetos modernos, que somos capazes de fabricar, por exemplo,
nos dão o sentimento de sermos super-homens. Todos os instru-
Neurose Obsessiva

mentos mecânicos dos quais nos servimos aumentam nossa capa-


cidade, nossa possibilidade como se fôssemos super-homens. Será
que ainda há um limite a tudo o que somos capazes de fazer? O
que é importante nisto tudo? É que, se eu quiser fundar minha
identidade de homem ou de mulher, não é mais necessário que eu
vá me referir a uma linhagem de ancestrais; as linhagens são sem-
pre cheias de complicações e de problemas; há sempre mui ta dívi-
da a ser paga; é preciso reparar o que os ancestrais fizeram.
Hoje, para ser um homem ou uma mulher, basta ser capaz de
possuir estas espécies de objetos que fazem de mim um super-ho-
mem e que evidentemente dão a estes objetos uma importância
excepcional. Eu também não sei como é no Brasil mas na França,
por exemplo, quando acontece um pequeno acidente com dois
carros, em que um estragou um pouquinho o carro do outro, é
possível que isso termine mal entre os dois condutores; como se
um tivesse cometido, sobre o outro, uma ofensa mais grave; como
se tivesse atingido sua honra; como se ele tivesse tomado a sua
mulher; ele só raspou seu carro... Isso para observar que realmente
estamos passando por uma mutação cultural muito interessante, e
acho que os psicanalistas lacanianos têm a sorte de terem tido um
ensino que lhes possibilita decifrar o que se passa, e quando eles
vêem seus colegas cujo percurso parou com o ensino de Freud, eles
percebem que estes colegas estão perdidos, desorientados porque
as neuroses mudaram e novas patologias apareceram; eles têm muita
dificuldade em saber como falar. Mas se vocês quiserem, no que
vou falar amanhã, posso retomar à questão da perversão no obses-
sivo; é indiscutível que há elementos de perversão no obsessivo; e
mais tarde, ou amanhã, falaremos sobre a questão da bissexualidade
no obsessivo, que também é muito importante.

62
Charles Melmon

Há uma questão que me foi colocada ontem, que vou res-


ponder agora, que diz respeito ao real enquanto aquilo que não pdra
de não se inscrever. O que não cessa de não se inscrever. O que isto
quer dizer? Quer dizer que - vamos pegar uma referência matemá-
tica - quando Hilbert tentou matematizar toda a geometria, ele se
deu conta de que havia pelo menos sempre um impossível; não se
podia matematizar a totalidade; a mesma coisa com a álgebra. Godel
que Lacan cita com freqüência, o lógico, fez um teorema que de-
monstra que em toda teoria lógica há sempre ao-menos-uma ques-
tão bem formulada, quer dizer, formulada na linguagem da teoria,
a qual a teoria não consegue responder. Quer dizer que, em todo
sistema de formalização, há sempre um elemento que é impossível
de ser escrito por esta teoria. É o que Lacan chama o Real - a este
impossível. Então, os lógicos fazem uma meta-teoria que pode es-
crever o impossível dessa teoria. Mas a mera-teoria tem, ela mes-
ma, um impossível, e assim por diante. Há sempre um Real que
resiste à escritura e Lacan vai até mesmo dizer que a lógica é a
ciência do Real. Nenhum lógico disse coisa semelhante. Quer di-
zer, ele diz que o verdadeiro objeto da lógica é o Real enquanto
resiste a toda tomada pelo Simbólico. Portanto, não é só o signifi-
cante que é o símbolo de uma pura ausência, já que nós o encon-
tramos em toda escrita, em toda formalização. Respondi a sua per-
gunta?

ANGEI.A CARPES - Partindo da afirmação freudiana que governar,


educar e psicanalisar são tarefas impossíveis de sustentar e, lem-
brando Lacan, que nos traz uma quarta tarefa, que é a ciêhcia en-
quanto tarefa impossível de sustentar, a minha questão se divide
em dois tempos: se estas tarefas são modalidades diferentes em re-
lação ao impossível e, um segundo ponto, a partir de uma coloca-
ção que o senhor fez ontem sobre a violência nas escolas, na Fran-

63
Neurose Obsessiva

ça, qual seria a ação, a função do discurso analítico em relação à


educação.

C.M.- Governar, educar e psicanalisar são impossíveis quando se


exercem a partir do discurso do mestre. Qual é o tipo de discurso
que poderia torná-los possíveis? Porque é verdade: somos mal go-
vernados, mal-educados e não somos bem psicanalisados. Então,
qual é o tipo de discurso que poderíamos ter para tentar melhorar
isto, porque, você tem razão, isto tem relação com o impossível;
talvez, se nós começarmos não pelo fim, quer dizer, pelo impossí-
vel, para descobrir que há impossível mas, se colocarmos o impos-
sível no começo, quer dizer, que seja registrado na cultura que aquilo
que é nosso motor, nossa fonte de energia é o impossível, e que
todos os meios que tomemos para tentar curar este impossível cus-
tam muito caro, de um modo ou de outro. Talvez se começarmos
na cultura a sermos capazes de reconhecer que a psicanálise vem
esclarecer, mostrar, talvez isto modificará nosso modo de fazer,
que é sempre o de tentar curar, suturar este impossível. Há quatro
ou cinco anos, fui convidado, juntamente com um colega a um
país da América Latina, não muito longe do Brasil, onde ocorria
uma conferência dos homens políticos e do aparelho administrati-
vo deste país sobre a questão de saber se este país era governável. Já
era uma coisa formidável que os homens políticos e o chefe do
exército do país se reunissem para colocar a questão se este país era
governável. Entre os conferencistas havia os universitários ameri-
canos, como sempre. Com meu amigo, dissemos algo muito origi-
nal: para governar corretamente é preciso começar dizendo que as
relações sociais num país não poderiam ser harmoniosas. Mas isto
é dito nas teorias marxistas, há muito tempo. Mas é possível dizer
isto de um ponto de vista outro do que uma análise que realizasse
um reforço do poder do mestre, políticamente; é possível pensar
assim: nós vivemos socialmente naquilo que é um impossível da

64
Charles Melman

harmonia social, o que não significa que é preciso aceitar isto uma
. vez que se saiba que é um problema que não diz respeito nem à
história nem à cultura mas que é um problema de estrutura, o que
nós vamos fazer para que, mesmo que não seja harmonioso não
seja de todo ruim, que não seja escandaloso. Dissemos, então, aos
responsáveis políticos deste país que na história nunca houve um
só governo que tenha podido realizar a harmonia social. Vocês co-
nhecem alguma forma de governo que tenha realizado a harmonia
social? Vamos pensar, por exemplo, na democracia ateniense, fun-
dada na igualdade dos cidadãos. Mas os cidadãos atenienses eram
assim porque havia 40 ou 50 mil cidadãos e havia 400 ou 500 mil
metecos que trabalhavam para eles. Então, evidentemente, havia
uma elite que podia ser homogênea e igualitária mas que vivia gra-
ças a esta desigualdade fundamental que era representada pelos
metecos. Portanto, um homem político, corajoso, deveria dizer aos
seus cidadãos: nunca houve, nunca se viu em nenhum lugar um
poder político capaz de garantir a harmonia social. E é porque
sabemos disso que vamos trabalhar, apesar disso, para que cada um
possa ser respeitado. Para nossa surpresa, porque achei que eles
iam nos jogar pela janela, eles nos ouviram com bastante atenção.
Mas é evidente que é um discurso, que o que dissemos não é reali-
zável e era tão pouco realizável que, depois disso, vê-se que este
país da América Latina, é um país de que gosto muito, está em
plena desagregação. Isto para dizer que para governar, educar e
psicanalisar é preciso começar por saber o que é o discurso do
mestre, e é preciso também saber o que é o discurso do psicanalis-
ta. Penso que vocês conhecem a escrita absolutamente notável que
Lacan deu do discurso capitalista, é formidável !
S1 S2 % S2
É . T 11 ~ ~ 11 -ª-
ª partlf daí que precisamos nos colocar a questão: o que pode-
mos fazer?

65
Neurose Obsessiva

M1RIAN D1sKANT: Foi uma questão que me ocorreu ontem à tarde


e não houve tempo de formulá-la. E hoje, quando o senhor falou
sobre as patologias modernas, pareceu-me que minha questão ca-
ducou ... mas ela persiste, ainda, de certa forma, e gostaria de ouvi-
lo a respeito. De uma tradicional questão que se refere à estrutura,
e, no caso das neuroses, tínhamos a hipótese, quase que oficial, de
que há apenas uma estrutura, a estrutura histérica, e que a neurose
obsessiva seria um dialeto da histeria. Agora, com a modernidade,
essa pós-modernidade, com todas estas novas patologias em que se
aventa a possibilidade do desaparecimento da neurose obsessiva,
ou mesmo da histeria, como é que fica a questão da estrutura? Elas
se expressam da forma, como o senhor trouxe, da perversão?

C.M. - Obrigada pela sua pergunta mas ela necessita uma longa
resposta. Eu não me permitiria responder em 3 minutos. Isto não
seria correto. Mas, ainda temos um tempo, estamos no meio de
nossa maratona, ainda não nos sufocamos uns aos outros, e vou
encontrar um meio de responder com o tempo necessário.

MONICA Visco - Qual a especificidade, na direção da cura, da neu-


rose obsessiva nos homens e nas mulheres, já que as mulheres ob-
sessivas comparecem, cada vez mais, nos consultórios?

NÃO É A ANATOMIA QUE FAZ. O DESTINO

C. M. Eu me lembro de uma menina de nove anos, que tinha uma


neurose obsessiva absolutamente perfeita e constituída como a
neurose obsessiva de um adulto. À noite, ela se obrigava passar
tanto tempo fazendo os seus deveres para que ficassem perfeitos
que ia dormir à uma hora da manhã. Ela tinha todo um ritual para
se despir e também para adormecer. Ela era obrigada a verificar
toda vez as torneiras de gás, de água e ela não se queixava de nada.

66
Charles Melman

Foi a mãe que se inquietou ao ver rodos estes rituais na filha, que
era a primeira da classe porque fazia todos os deveres com perfei-
ção, tinha sempre a melhor nota em todas matérias, mas foi a mãe
que a levou para uma consulta. E o que apareceu, imediatamente,
foi que a neurose obsessiva nela foi instalada nos meses que se se-
guiram à morte de seu imãozinho. Eu usei este exemplo masco-
nheço também, tenho em análise, mulheres que não são meninas,
são mulheres obsessivas. Mulheres que têm neuroses obsessivas
absolutamente típicas. E isso mostra que não é a anatomia que faz
0 destino mas o que faz o destino é o lugar que ocupamos sem que

isso tenha a ver com o sexo. Não é a anatomia. A neurose obsessiva


é mais rara nas mulheres mas, quando ela existe na mulher, é abso-
1utamente idêntica à do menino ou à do homem. Evidentemente,
a cura analítica vem do mesmo movimento, não há particularida-
de a este respeito. O que se pode observar é que a cura analítica
histericiza o obsessivo. Por que? Porque o dispositivo da cura con-
vida a falar de um lugar, que é o lugar da subjetividade, e, quando
se fala a partir deste lugar da subjetividade, estamos forçosamente
comprometidos num tipo de demanda histérica. Então, é preciso
guardar isto: de que forma a cura analítica histericiza um obsessivo?
Penso que, da mesma maneira que acredito que um histérico mas-
culino é exatamente idêntico a uma histérica feminina, do mesmo
modo a neurose obsessiva numa mulher é absolutamente idêntica
à neurose obsessiva num homem. O que confirma o que eu disse,
agora há pouco, é que a questão é de saber - vocês conhecem as
fórmulas da sexuação, que Lacan dá, no Seminário, livro 20, Mais,
ainda - o único problema, o destino do sujeito é ligado não a seu
sexo anatômico mas ao lugar que toma de um lado ou do outro das
fórmulas de sexuação. Ou ele toma posição do lado masculino ou
do lado feminino. Então, o que é interessante, e vamos falar disto
amanhã, é que o voto, o desejo do obsessivo é passar para o lado fe-

67
. Neurose Obsessiva

míníno. E isso explica uma boa parte do que é chamado sua ho-
mossexualidade. Porque ele deseja isto, é o que veremos logo, mas
posso adiantar que este elemento ajuda a explicar em muito a pa-
tologia do obsessivo, quero dizer, quanto a seu problema, eu
diria, com o número. Todos os obsessivos têm problemas com os
números, com o cálculo. O que eles querem é que sempre dê certo.
Então, creio que isto é muito interessante para nós porque, de um
lado e de outro das fórmulas de sexuação, os números não são os
mesmos. Isso é engraçado.
Os que se inscreverão do lado homem da fórmula estarão in-
teiramente submetidos à questão fálica, o que Lacan vai escrever
Vx <l>x , que se lê: para todo x vale a função <l> de x. Do lado mas-
culino, todos estão marcados pela castração.

3x <l>x 3x <l>x
Vx <l>x "lx <l>x

L/
<l>
Lado masculino Lado feminino

Porque há, do lado masculino, um x não <l>x (3x ct>x ); há um


x que está fora e escapa à castração: há ao-menos-um que diz não à
castração, logo, todos os x ( Vx <llx) que vêm da castração são <l> x.
Por outro lado, aqui nas formulas da. sexuação, aqueles - ou, com
mais freqüência, aquelas - que se alinham no lado "mulher" ficam
sem poder pertencer a uma classe. Por que não há uma classe que
definiria as mulheres? Entretanto, para que uma classe possa se
constituir como tal, lhe é necessária uma exceção. Suponhamos,
68
Charles Melman

por exemplo, um conjunto de traços verticais. Para que se saiba


que o são, é necessário que haja um {ou mais) que escape a essa
verticalidade: um traço horizontal, por exemplo.
Então haveria ao menos um que escaparia à castração: o pai
da horda primitiva, de que Freud fala tanto em Totem e tabu; ou
uma representação qualquer de uma figura masculina não subme-
tida à castração, não marcada pelo interdito do incesto. O que se
escreve :3x <l>x , há ao menos um ao qual a fonção fá.lica não se apli-
ca, que escapa à castração. Nesse caso, os elementos do conjunto
formarão uma classe fechada, o que nos autorizará a empregar o
artigo definido o ou os. Poderemos dizer o homem ou os homens, já
que eles pertencem a uma classe definida.
O que especifica o lado mulher da fórmula da sexuação vai
ser, simplesmente, não estar inteiramente submetida à questão fálica:
Vx <l>x, uma mulher não é toda submetida à questão fálica. Lacan
inventa essa categoria do não toda, para denotar a lógica do incons-
ciente.
Se não há traço comum que as especifique, a primeira conse-
qüência é que não há urna categoria fechada das mulheres: não se
pode dizer a mulher, nem as mulheres. Como o artigo não pode se
aplicar, Lacan escreve 1,t{ mulher.
Isso deixa L;í mulher sem classe à qual pertencer, sem traço
distintivo que a garantiria quanto a sua identidade feminina. Uma
das reivindicações essenciais de uma menina com relação a sua mãe
é a seguinte: "Por que tu, que és mulher, pois és a esposa de meu
pai, te recusas a fundar minha feminilidade?". Por não poder se
referir a uma classe definida, uma mulher não se sente fundada em
sua existência, é por isso que está sempre tão pouco segura do lugar
que ocupa, o que nos permite compreender o esforço das feminis-
tas de tentar fundar uma classe, esforço que se revelou inútil, por-

69
Neurose Obsessivo

que suporia uma exceção: a mãe mítica, fundadora da comunidade


e detentora de todo o poder.
Do lado feminino, não existe x não <l> x ( ), o que quer
dizer que há um ancestral do lado masculino mas não há um do
lado feminino. Isso pode ser imaginado da seguinte maneira: se
tiver urna linhagem de homens e uma linhagem de mulheres, as
mulheres existiriam porque existiria para todas as mulheres um
<I> x (3x <l>x ), que diz não à castração, então todas as mulheres se-
riam não f(x) 3x <l>x , isto é, seriam castradas. Haveria uma linha-
gem de mulheres como há uma de homens. Mas o problema é que,
do lado das mulheres, não há o pelo-menos-um que diga não à cas-
tração e que venha fundar uma linhagem feminina; de tal modo
que Lacan inventa algo que não existe com os lógicos mas que é
uma categoria essencial para nós, que é a categoria do não-todo
( Vx ), o que significa que uma mulher não é toda na castração. O
que eu estava tentando dizer é que, do lado homem, esse conjunto
é sustentado pela sequência dos números naturais, como Piano
deu a definição, há um primeiro número que é zero e depois,
sucessivamente, até n+ . Do lado mulher, não há zero. Estamos
numa seqüência de números compreendida entre zero e um e que
é a seqüência de números reais. É estranho constatar que isto tem
conseqüências clínicas muito importantes porque, quando vocês
estão deste lado, os números reais são números do tipo 0,9 ... até o
infinito; porque a seqüência desces números não pode nunca atin-
gir o limite zero, que está aqui, nem o I que está do outro lado.
Vocês podem aumentar isto o quanto quiserem que nunca chega-
rão a 1. Quer dizer que, deste lado, a conta nunca dá certo. Vocês
nunca chegam a esta espécie de satisfação, de prazer para o espíri-
to. Quando vocês chegam no resultado correto, na conta certa, isto
70
Chorles Melmon

faz bem, alivia. Mas, deste lado, não é possível chegar à conta
certa; há sempre um pequeno espaço, espaço pelo qual isso foge.
Vocês podem sempre fechar a torneira, vocês podem dar quantas
voltas quiserem na torneira, nunca garantirão seu fechamento; ha-
verá sempre um espaço. Há sempre uma gota que pinga, sempre
tem um pouquinho de gás que escapa, a porta nunca está perfeita-
mente fechada. Foi Freud quem viu como o número funciona no
inconsciente, como o inconsciente calcula. Para nós, é admirável
constatar que do lado dos números naturais remos O, 1,2,3,4, ..... ,
isco é, temos a possibilidade de uma ordenação. François I, o filho
dele que chamará François II, o neto será o François III, a seqüên-
cia de gerações pode ser ordenada. E como vocês sabem, é um
grande problema na clínica, aqui vocês não podem ter urna se-
qüência dos números ordinais. Mas vocês poderão dizer: o 9, eu
poderia dizer 1, aquele eu poderia dizer 2, etc... por que não posso
ordená-los? Porque a propriedade dos números reais é que entre 99
pode haver uma infinidade de números, quer dizer, entre estes
99 posso escrever ainda um 9, outro 9, ou um 6, e pode haver,
desta maneira, uma infinidade de números. O que faz com que
minha ordenação seja sempre defeituosa, impossível. E uma das
grandes reivindicações femininas é: por que a mãe não funda urna
linhagem de mulheres, como há uma linhagem para os homens?
Se houvesse urna linhagem de mulheres como há para os homens,
a filha seria muito menos dependente de sua mãe porque ela sabe-
ria que sua mãe vem de tal geração e ela própria vem da geração
seguinte. Mas é justamente o que não se pode produzir. E, então, o
que é surpreendente com o obsessivo é que ele recusa-se a ocupar
este lugar, que eu digo que é um lugar viril; ele renuncia, com
sacrifício de seus atributos particulares, para passar para o lado fe-
Neurose Obsessivo

minino e portanto dá início a uma problemática relativa ao campo


dos números reais, onde há sempre algo que falta. Então, ele quis
resolver o problema através da sutura, e vocês conhecem este jogo
obsessivo completamente banal que consiste - aqui no Brasil não
tem estes quadrados grandes nas calçadas - em pular o corte, isto
se vê também nas crianças, há sempre um corte, um fechamento
que ele não consegue sustentar. Do ponto de vista teórico, é para
nós muito impressionante o tipo de número ao qual nos relaciona-
mos, seja os números reais, seja os números naturais, que isso
possa ter conseqüências subjetivas tão importantes. Então, vocês
perguntarão por que querem passar para o lado feminino, das
mulheres? É verdade que um obsessivo não se apresenta como um
macho; ele não quer mostrar seus músculos, sua força. Sabemos
que ele é mais discreto sobre os sinais da virilidade, ele quer apagá-
los. Mas, se ele passa para o lado feminino, é antes para mostrar
que o pequeno órgão, o pequeno instrumento não faz a diferença
sexual; e que pode haver uma comunidade, um conjunto, em que
o pequeno instrumento exista ou não exista, e que isso não tem
uma importância especial. Mas há ainda algo que é mais surpreen-
dente, que é o problema do não-todo ... ele prefere sempre a socie-
dade e a companhia das mulheres. Aliás, suas qualidades são, antes
de mais nada, qualidades femininas. Então, através destas observa-
ções, eu acredito ter respondido à sua questão sobre a questão da
relação do obsessivo e do histérico.

JOSÉ NAZAR - A questão é sobre a direção da cura em pacientes


obsessivos. Trata-se de uma passagem que está presente no Semi-
nário, livro 8, sobre a transferência. O apontamento clínico que
está na aula de março de 1961 sobre "oral, anal, genital", e que me
parece de extrema importância na clínica com estes pacientes. Ele

72
Charles Melmon

diz algo interessante, e que suponho ser necessária uma reflexão


maior por parte de nós psicanalistas, pois remete a algumas arma-
dilhas que estão presentes no trabalho de transferência que ali se
apresenta. O que demonstra como a análise de um obsessivo é algo
muito mais difícil e complicado do que se imagina. Os analistas
terão que estar atentos às modulações de uma demanda e de um
erotismo anal, e que se deve ser reservado quanto ao tempo de uma
compreensão do outro. Lacan diz o seguinte: que "ao obsessivo
não se deve dar nenhum encorajamento, desculpabilização, até
mesmo comentário interpretativo que avance um pouco demais.
Se o fizerem, então deverão ir muito mais longe, e vão se ver ace-
dendo, e cedendo para maior dano de vocês, a este mecanismo
precisamente pelo qual ele quer fazê-los comer, se posso dizer, seu
próprio ser- uma merda". Ou seja, como manejar estes elementos
de uma ablatividade como sendo a própria fantasia do obsessivo,
nisso que se enuncia "tudo para o outro"?

C.M. Para responder à sua pergunta e esta citação de Lacan, é


preciso que falemos primeiro do fantasma no obsessivo e, não te-
nha medo, é como a questão do pai - prometo que falaremos disto
amanhã, quando abordarmos o fantasma do obsessivo. Esta ques-
tão da relação do obsessivo com o objeto pequeno a não podemos
improvisar em dois ou dez minutos. Está nas anotações que fiz
para vocês e não vou poder fazer de outro jeito porque amanhã
terei que terminar.

TEREsA NAZAR -A questão da pulsão invocante, na constituição do


sujeito obsessivo que retorna nas ordens. Eu queria saber a relação
que há pois há um traço estrutural que faz retorno nas ordens, mas
acho que isto também retorna na histérica, no momento da análise.

73
Neurose Obses~ivo

C. M. - A questão concerne à pulsão invocante e sua relação com o


que são, no obsessivo, as manifestações de ordem e comando que
ele recebe. Então, é verdade que temos uma pulsão invocante, quer
dizer, que gostaríamos de poder captar a voz, ou seja, não nos satis-
fazemos com o eterno silêncio dos esforços infinitos. Gostaríamos
muito que alguém nos respondesse e, principalmente, gostaríamos
muito de ouvir sua voz. Nossa religião tem a particularidade de ser
uma religião revelada, quer dizer, que seu instrumento, sua força é
a voz. O primeiro instrumento de comando e de sedução é a voz,
mas quando nosso voto foi satisfeito e ouvimos a voz ou é alucina-
ção ou são mesmo comandos como os que se produzem no obses-
sivo. Quer dizer que, ao mesmo tempo, nós gozamos mas é um
gozo ao mesmo tempo doloroso e insuportável, é o gozo extremo.
Quando um psicótico se desembaraça de suas vozes e experimenta
um grande sentimento de depressão, ele era atormentado, inco-
modado, mas quando as vozes param - é como no caso do Presi-
dente Schreber - é a catástrofe; é uma angústia insuperável. No
obsessivo, essa relação com a voz não é alucinatória mas se apresen-
ta sob a forma destes comandos. Com certeza, ele goza com isso.
Evidentemente, é um gozo insuportável, mas é um gozo absoluta-
mente análogo ao da penetração; é como uma efração. O termo
alemão utilizado por Ernst Lanser - o verbo que utiliza quando
estas idéias lhe sob revêm é Einfall, significa "o que entra dentro de
você", "o que cai dentro de você". A tradução correta, em francês,
seria incidência, mas é um termo que perdeu a relação com o fato
de que se trata de algo que cai e que "entra dentro". Então, vemos
bem a relação com o termo que pode ser caracterizado como eróti-
co com estes comandos. Temos, portanto, certamente uma pulsão
invocante mas, como vocês sabem, o trajeto da pulsão é dar volta
em torno do objeto e faltar. Mas, no caso da alucinação e dos co-

74
Charles Melmon

mandos, o objeto voz está bem aí, no real. É, ao mesmo tempo, o


maior gozo e a maior dor.

TERESA NAZAR: O comando não seria talvez para fazer face ao que
ele viu na castração do Outro ....

C. M. Penso que est:i ligado sobretudo a este processo de forclusão


de que falamos e ao fato de que o que foi forcluído do simbólico
retorna no real; e o obsessivo quer suprimir toda enunciação, quer
dizer, o que se sustenta da voz, ou seja, que, com a enunciação que
ele forclui, ele forclui também a voz. Quando o obsessivo recusa a
enunciação por este mecanismo que lhe é próprio - o da fordusão
- ele não admite, ele a recusa no simbólico. Com a enunciação, ele
forclui da mesma maneira a voz, porque a enunciação não é sepa-
rável de seu suporte, que é sua referência ao falo e à voz. E, portan-
to, por este mecanismo, também cem um retorno ao real sob a
forma destes comandos que são quase vocalizados.
Há alguma outra questão fácil de responder?
O obsessivo sempre sabe que isto vem de sua cabeça e jamais
confunde estas vozes com vozes alucinatórias.

SmRLEY - Se o obsessivo tende a ficar do lado feminino, como ele


se sustenta como pai, se tem filhos, se tem filhas e filhos - qual a
diferença entre ser pai de filhos e de filhas?

C. M. Eu responderei amanhã. Não podemos falar de maneira


geral mas o obsessivo deixa a autoridade viril na família com sua
mulher. Porque ele é muito bom, muito generoso ... ele lhe diz:
"você quer comandar, então faz o trabalho".

75
Neurose Obsessivo

PERGUNTA: A minha qúestão é em relação à estrutura. A estrutura


neurótica, para Freud, baseava-se fundamentalmente na questão
edípica e em Lacan a questão fica em relação função paterna. Como
ficam estas vertentes do pai na estrutura destas novas patologias?

NAS NOVAS PATOLOGIAS

C.M. Responderei hoje. Nas novas patologias, a figura do pai per-


deu sua importância e sua função tornou-se secundária. Por que?
Porque, hoje, podemos passar sem o pai para garantir a fecundação
e a reprodução; em outras palavras, o pai sempre tomou seu poder
do fato de ser o garantidor do desejo sexual, da fecundação e da
reprodução. Hoje, ele está de licença, aposentado, ele já trabalhou
bastante, portanto, que vá se aposentar e descansar. Por outro lado,
durante muito tempo acreditou-se que o pai era a causa da castra-
ção. Particularmente, foi o que Freud desenvolveu. Veremos, em
breve, que para Lacan a função do pai não é absolutamente
castradora mas a verdade é que a difusão da teoria psicanalítica na
cultura contribuiu para a degradação da figura paterna. Há soció-
logos, na França, que estão escrevendo o novo código da família. E
o novo código vai dizer exatamente qual é o papel de cada um, do
marido e da mulher, do pai e da mãe, na direção da família, na
direção dos filhos. Quer dizer que o pai, o novo pai, o pai da nova
patologia não terá mais o seu poder advindo desta instância fálica,
mas é o juiz que vai dizer o que ele tem de fazer. É a mesma coisa
com a mãe- o juiz irá dizer o que ela deve fazer. E vocês sabem que
há crianças que vão à justiça contra seus pais. É o que vem ilustrar
o fracasso da pretensão universalista do pai. A afirmação do caráter
universalista do pai é que todos vêm da castração, quer dizer, todo
x é f(x)[\ix <l>x ]. O que faz uma injúria ao poder universalista do

76
Charles Melman

pai é justamente as mulheres enquanto elas ilustram uma categoria


que é a categoria do não-todo [ 'vx <l>x]. Uma mulher faz sempre
objeção a tudo o que se pretende como universal; é por isso que
toda mulher faz objeção ap,conceito.
Havia uma discus$ãO, na École freudianne de Paris, de uma
!

corrente organizada em ~orno de Françoise Dolto, e ela dizia: "Oh!


Os conceitos. Os meninos se divertem com isto, isto lhes dá pra-
zer. Então, deixemo-los divertirem-se com isso; isto não incomo-
da!" O que a interessava era sempre a história, a biografia, a histó-
ria particular. Ela achava que introduzir um conceito com sua
pretensão universalista era evidentemente uma injúria feita às mu-
lheres já que elas sabem que há a dimensão do não-todo. Quando o
obsessivo vem do lado mulher, e enquanto ele se deslocou deste
domínio, ele vem resolver a ofensa feita ao pai de não ser universal,
mostrando que do lado do Outro, do lado mulher, pode haver
homens; e, portanto, o que acreditávamos ser a dimensão Outro é
anulada. Aqui, vamos encontrar a frase do Seminário sobre a trans-
ferência. Portanto, de qualquer jeito, o obsessivo se dedica a abolir
a diferença entre os sexos e, de certa forma, ele se compromete com
o pai numa relação em que pode lhe dar a entender que ele poderá
ser melhor parceiro que sua mãe. Não necessariamente um parcei-
ro sexual mas com uma sexualidade sublimada, ou seja, uma pura
relação de amizade entre o pai e seu filho. É esta a história de Ernst
Lanser. Nós não medimos toda a importância deste conceito
lacaniano de não-todo. Há, no trabalho dos lógicos, que ignoram,
recusam esta categoria, há uma dimensão que me permito qualifi-
car de homossexual porque eles dizem que o um é tudo. Justamen-
te, é o que o obsessivo gostaria de realizar. Mas, corno eu dizia há
pouco, a má surpresa é que passando para o lado feminino, ele não
está mais na seqüência dos números naturais porque, aqui, do lado

77
Neurose Obsessiva

dos números naturais, a conta pode dar certo mas do lado dos
números reais há sempre um pequeno espaço, que os matemáticos
chamam de Y. Em todo caso, o tormento do obsessivo é sempre,
. apesar dos seus esforços, este pequeno espaço que ele não conse-
guiu obturar. Então, minha resposta à pergunta é um pouco longa
mas me permite avançar sobre as conclusões que amanhã iremos
fazer sobre toda esta questão.
Um de vocês fez uma pergunta sobre a homossexualidade no
obsessivo; esta pessoa quer recolocar a pergunta?
A minha questão é que, na clínica, às vezes, recebemos de-
mandas de obsessivos que chegam com a questão da homossexua-
lidade - entre ser e não ser- e isto, às vezes, se torna um tormento.

C.M.- Sim, isto pode se tornar um tormento de um obsessivo e


podemos compreender sua questão; compreende-se porquê o ob-
sessivo coloca esta questão - ele não sabe porquê. Acho que só
podemos responder que ele é um neurótico, e que no curso de sua
análise vai entender porquê esta questão se coloca para ele.
Mirian Diskant - Cada vez que o Sr. responde algumas das
outras questões, a minha vai se esclarecendo. Agora mesmo, com
as fórmulas quânticas da sexuação mais um esclarecimento se deu
na minha reflexão. Contudo, o que muito mais me interessa é a
prática clínica; não sou nenhuma Françoise Dolto, quisera eu, mas
acho que os conceitos precisam ser repensados a cada vez, a partir
do que a gente pratica e ouve no divã, no cotidiano da gente. Ocor-
reu-me que, quando a gente recebe uma demanda de análise de
alguém que, ao longo do processo, a gente supõe se tratar de uma
histeria e a gente, com este diagnóstico, trata de abordar a cura
como sendo a de uma histeria, e, de repente, passa a perceber tra-
ços de neurose obsessiva muito claros, questões sobretudo quando

78
Charles Melmon

se trata do pagamento das dívidas, do dinheiro. E daí, escutamos


melhor e dizemos: espera aí, isto é uma neurose obsessiva que es-
tou tendo na minha frente ... como é isso? Dessa mistura de neuro-
se obsessiva e histeria é que vem minha questão: qual é a estrutura
de que se trata ali? É, estrutura histérica com defesa obsessiva? O
que é isso? Estes conceitos me complicam a cabeça. Gostaria que o
senhor precisasse melhor esta questão do tratamento: como é que
aparecem traços nitidamente obsessivos numa suposição de estru-
tura histérica ... O que é esta história de estrutura, de discurso, en-
fim, a psicanálise inteirinha aí ... A questão dos tempos modernos,
das novas patologias ... como fica isso? Se cai a neurose obsessiva, se
cai a histeria, o que vem ao consultório, calvez as perversões, as
novas patologias? E a estrutura? Meu problema continua: é um
conceito, uma noção, uma idéia?
C. M.- Lacan tinha uma prática que era a das entrevistas
preliminares, que eram feitas para o estabelecimento de um diag-
nóstico. Quer dizer que não tomava um analisando, um paciente
em análise antes de ter estabelecido um diagnóstico. Havia muitas
razões para isco. A razão era saber se uma análise seria justificada. E
para isso, o diagnóstico era indispensável. Uma vez feiro o diag-
nóstico e ter aceito que o paciente viesse a seu consultório, ele sabia
que a situação, que é específica da cura, iria favorecer um modo
histérico de expressão, já que aquele que é convidado a falar, na
cura, é o sujeito, não o eu, mas o sujeito; quando o sujeito se expri-
me, é necessariamente na demanda, e uma demanda que pode ter
um caráter imperativo e violento, como na histeria. Então, Lacan
não se surpreendia quando a cura provocava um modo histérico de
expressão nos pacientes que não são histéricos. Então, acredito que
você tenha razão por se atormentar por isto, porque é absoluta-

79
Neurose Obsessiva

mente normal. Um perverso vai expressar de um modo histérico


aquilo que é de sua perversão. E me permito lembrar a vocês que a
histeria, na concepção de Lacan, é uma forma de laço social, quer
.dizer, que é uma forma de se dirigir ao Outro. E, portanto, é um
discurso entre outros. A neurose obsessiva não é um discurso, não
é um modo de se dirigir ao Outro. Mas, quando queremos nos
dirigir ao Outro, passamos necessariamente por um dos discursos
e o discurso que o divã privilegia é o discurso histérico. Atualmen-
te, recebo uma mulher que é uma mulher histérica, e que as cir-
cunstâncias fizeram com que a recebesse sobre o modo face-a-face.
Esta mulher, que é uma histérica pura, mas que recebo face-a-face,
ela não usa o discurso histérico para falar comigo. Ela usa o discur-
so do Mestre. E, no entanto, é uma histérica. E, para falar comigo,
e como estamos face-a-face, é o discurso que para ela é mais agra-
dável e mais cômodo. E como não obedeço sempre a suas injunçóes,
ela está muito descontente porque eu questiono sua mestria. En-
tão, penso que é preciso lembrar que uma neurose necessariamen-
te vai se expressar por um dos discursos que estão a nossa disposi-
ção. São as modalidades possíveis que temos para nos dirigirmos
ao Outro. Então, não devemos nos surpreender se o discurso utili-
zado para falar com o Outro não corresponda ao que é a neurose.
Suponham que vocês tenham um paranóico; se ele começasse a
utilizar um discurso histérico para falar com vocês, vocês diriam,
ele está curado.

TERESA MELLONI - Minha questão tangencia a que Miriam acabou


de colocar. Gostaria de retomar as fórmulas quânticas porque, en-
quanto lhe ouvia, eu pensava que, em alguns momentos, a questão
defensiva da neurose obsessiva em relação ao campo do feminino,
80
Charles Melman

portanto, em relação à estrutura, se confunde ou se assemelha com


o mesmo movimento defensivo em relação ao feminino que obser-
vamos na neurose histfrica, na medida em que se trata de uma
neurose. \
"'--,
C.M. -A solução é que, se as mulheres fossem homens, não have-
ria mais problemas... E como esta solução corresponde exatamente
ao voto da histérica, compreende-se como eles podem ser solidári-
os, a histérica e o obsessivo. No fundo, o obsessivo começa por
algo de fundamental que é o que ele verifica, o menininho que vai
se tornar obsessivo. Ele descobre que há um ferimento em sua mãe,
que há uma falha em sua mãe e sua inteligência possibilita que ele
compreenda perfeitamente que esta falta diz respeito ao pequeno
instrumento. E na medida em que sua mãe é, para ele, o Outro e
que venha a coincidir com o fato de que no Outro há falha, então,
por amor à mãe, ele vai fazer tudo para tentar reparar esta ferida. E,
para isso, ele é capaz até de ocupar a posição feminina para mostrar
que é perfeitamente possível a uma mulher ter este pequeno ins-
trumento; ele se devota a mostrar-lhe este possível.

Temos medo de nos autorizarmos nossa existência somente


de nós mesmos, precisamos nos constituir no Outro, uma instân-
cia que viria limitar nosso gozo; é por isso que somos sempre capa-
zes de nos inventarmos novas figuras da divindade e isto pode até
se tornar uma mercadoria, ou seja, pessoas que são bastante inteli-
gentes para colocar no mercado, para tentar satisfazer a pulsão
invocante e nossas necessidades espirituais. Há pessoas que são in-
teligentes para colocar no mercado a afirmação que existe no Ou-
tro uma figura benevolente; que sempre é capaz de nos guiar na
87
Neurose Obsessiva

vida. Como vocês sabem, nós reclamamos de sermos livres e, em


realidade, procuramos sempre um guia, isso é a questão. Sempre
queremos alguém que nos diga o que devemos fazer. E é por isso
que eu lhes disse que com o obsessivo é preciso que alguém lhe
diga "vá procurar o médico". Ele não pode ir sozinho; é preciso
que alguém diga isso a ele. É preciso que ele receba o comando, a
injunção. Quando, por exemplo, Ernst Lanser quer ir pagar o lu-
gar-tenente David e toma um caminho, faz um sistema muito com-
plicado de trens para ir até ele, então, na estação de trem, o carre-
gador fala para ele: "o Sr. pode pegar o trem das 1O.OOhs, que vai
para Vienà' ... mas ele não queria ir para Viena, ele queria ir para
outra cidade onde se encontrava o lugar-tenente David. Mas como
o carregador lhe disse que pegasse o trem das 10.00hs, que parte
para Viena, então, o que ele fez? Ele tomou o trem das 1O.OOhs.
para Viena. O obsessivo é uma caricatura disso. Porque as mensa-
gens que vêm do Outro apresentam-se a ele sob a forma de coman-
do e de imperativos. Ele é a caricatura desta disposição. Mas, em
realidade, todos somos assim. Então, o problema da religiosidade,
da magia e da piedade é justamente nosso voto de ter no Outro
alguém que nos diga como nos guiarmos, qual é nosso direito, os
limites de nosso gozo e que saibamos qual é nosso gozo. Ou senão,
poderemos estar angustiados diante da questão de saber qual é nosso
gozo e se é este mesmo. Vocês sabem tudo o que Lacan disse sobre
o "Che vuoi?", ou seja, o que ele retoma sobre esta história do
"Diabo enamorado", (de Jacques Cazotte): que o sujeito se dirige
ao Outro, dizendo: "o que queres, Che Vuot?" e a única resposta
que tem é "Che Vuot? O que você quer?"

82
Charles Melman

Che vuoi? f OD

,;0a1

Significante m

l ("} ;

E dizer qual é nosso voto de ter, no campo do Outro, alguém


que nos diga o que temos que querer... Conta-se que, freqüente-
mente, queremos ser o que chamamos "livres"; nunca vimos isto
em nenhum lugar... Vocês nunca encontraram ninguém de quem
pudessem dizer: "este é livre!" Nenhum de nós é livre porque so-
mos alienados em função de nossa relação com o Outro. E vocês
sabem tudo o que Lacan pode dizer sobre a alienação. Creio que,
como analistas, ternos que ter a medida - de quê? - muitos alunos
diziam de Lacan que seu ensino era dogmático. Ouvi isto durante
toda a existência da Escola freudiana de Paris, a repreensão de que
a Escola de Lacan era dogmática e que isso impedia o gênio pró-
prio dos alunos de se expressar. Os alunos não se tornavam gênios
porque Lacan era dogmático. Lacan era um assassino de gênios.
Houve urna coisa notável: quando seus alunos abandonaram o
ensino de Lacan, em nome de seu gênio pessoal, de uma só vez,
ninguém pensou que fossem gênios e não deram prova de sua
genialidade. Penso que a gente não deve reclamar uma liberdade

83
Neurose Obsessiva

que não se viu em nenhum lugar; é que é uma palavra muito cara
à vida política porque vocês sabem o que é a ditadura e o quanto é
insuportável mas sabemos bem que liberdade, inclusive a liberda-
de do cidadão, é uma liberdade muito limitada. Não sei como é no
Brasil mas na França é preciso ser muito politicamente correto...
Portanto, estamos numa sociedade livre, mas temos que ser politi-
camente corretos. Se vocês não são politicamente corretos são man-
dados embora. Lacan nunca foi politicamente correto e ainda é
difícil despedi-lo facilmente; creio que desta perspectiva, ele de-
monstrou em relação a rodas as ideologias e a todas as exigências
do policicarnence correto uma grande liberdade de espírito mas no
interior do limite que a estrutura dá a cada um de nós. E amanhã,
se vocês quiserem, teremos a oportunidade de falarmos desces li-
mites da nossa liberdade.
E quando houver este novo código de família, as crianças
poderão ir até o juiz e dizer: "meu pai não faz o que o código diz
que ele deve fazer em casà'.
Teresa: Isso também tinha na Alemanha nazista e na China
de Mao ...

C. M. - Isto que Teresa observou é muito interessante porque vi-


vemos num regime que é o do liberalismo econômico e político,
mas apenas os governos autoritários e despóticos como, por exem-
plo, o nazismo e o maoísmo quiseram legislar sobre o que passava
na família. Há uma bela peça de Brecht onde se vê o jovem adoles-
cente, que faz parte da juventude nazista, que chega em casa com
seu uniforme e sua braçadeira, e começa a questionar seu pai para
lhe mostrar que ele não está se comportando como deve se com-
portar um bom alemão e que na sua família ele não está se com-
portando como um bom pai nazista. E é exatamente como aconte-
ceu no momento da Revolução Cultural na China. Por que as

84
Charles Melman

crianças, e às vezes os adolescentes, são tão cruéis? Eu vou evocar o


que está se passando num país muito longínqüo, na África, onde
vocês sabem que as crianças estão envolvidas na guerra, com a ida-
de de 9, 10, 11 anos e que el~~_têm uma crueldade muito notável.
Por que isso é assim? Porque as crianças e os adolescentes não assu-
miram subjetivamente a castração e, na medida em que não assu-
miram subjetivamente a castração, tudo é possível e factível, não
há nenhum limite. Eles se recusam a reconhecer a existência do
Outro. Portanto, vemos que é bizarro, é estranho constatar que em
nossa economia liberal vai haver uma evolução do sistema familiar
que vai dar à criança um poder considerável na família, posição de
denúncia e isto fará, evidentemente, parte da degradação da figura
paterna de que falamos agora há pouco; e, evidentemente, pela
recusa absoluta do progresso científico daquilo que os psicanalistas
chamam castração. Na França, há uma ideologia - vocês sabem,
dizemos que vivemos o fim das ideologias -, na realidade há uma
ideologia que é muito interessante, panicularmente para os psi-
canalistas, que se chama o cognitivismo. Vocês conhecem esta doença,
no Brasil? O cognitivismo é um caso formidável. Hoje, na França,
todo o sistema educativo é comandado pelos princípios do
cognitivismo. O cognitivismo é algo muito simples - é que o ho-
mem é uma espécie de máquina; as informações que recebe vêm
de fora; no interior do homem há um programa como nos compu-
tadores; o homem trata estas informações que vêm de fora com o
seu programa e reage em conseqüência, reage a partir das informa-
ções e de seu tratamento pelo seu programa, ele reage sobre o mun-
do exterior de um modo adaptado. Se ele reage de um modo
inadaptado às informações que recebeu é que o seu programa não
funciona bem e através da aprendizagem irá retificar o seu progra-
ma. Por exemplo, no domínio terapêutico, quando é necessário
tratar uma anorexia - a anorexia é um programa que não funciona
85
Neurose Obsessiva ·

bem - então, há toda uma aprendizagem que vai durar quinze dias
ou três semanas; dá-se um livrinho à anoréxica e todos os dias ela
tem que fazer algo e, ao fim de três semanas, se ela fez bem tudo o
que há neste livrinho, o programa vai ser corrigido e ela estará
curada de sua anorexia. A mesma coisa se dá com o fóbico: faz-se
uma aprendizagem, o programa é consertado e, depois, disso, ele
não é mais fóbico. Por que, para nós, isto é particularmente inte-
ressante? É que nós sabemos que um sujeito recebe sua mensagem
não do mundo das percepções mas recebe suas mensagens do Ou-
tro. E é com estas mensagens do Outro que ele reage sobre o am-
biente. Quer dizer que o ambiente está organizado para ele a partir
das mensagens que recebe do Outro. E vocês vêem, este sistema
visa a forcluir o Outro. E, portanto, nas novas patologias vamos
assistir àquilo que provoca o retorno desta forclusão. Nós já estamos
vendo isto de um modo estranho; hoje, o planeta vive com uma
espécie de ameaça permanente; é como se houvesse no real uma
potência que fosse capaz de, a todo instante, destruir o planeta. É o
clima que está desregulado, é a geleira do Ártico e a geleira do polo
sul que estão começando a se fundir. É o nível da água que vai
subir e inundar as cerras, é a poluição que vai deixar todos doentes.
Em tudo isto há, evidentemente, uma certa realidade pois é verda-
de que estamos estragando nosso sistema ecológico. E o que é no-
tável é que até agora vivíamos na relação com um Deus que era
suposto fazer benefícios ao planeta pela sua bondade e agora eis
que há, sem cessar, uma espécie de poder, uma espécie de força que
ameaça nossa existência coletiva. Acho que nós podemos ver, nesta
mutação, um dos efeitos desta forclusão do Outro e o retorno no
real de uma instância que agora se tornou ameaçadora e que, sem
cessar, nos faz correr o risco de desaparecer.

86
Charles Melmon

Proponho que trabalhemos até às 17 hs. E depois dizermos


até amanhã....

JOSÉ NAZAR: Ontem, o senhor falou algo sobre o semMante. Eu


penso que enriqueceria se o senhor pudesse falar sobre o signifi-
cante piedade no obsessivo. É uma vertente presente no cotidiano
da clínica. Porque Lacan, quando faz o seu 'Discurso sobre a Esco,..
la freudiana de Paris', ele inscreve o sembante em relação ao ato
analítico. Ao fazer alusão à obsessividade nas instituições, ele fala
da religiosidade, magia epiedade como elementos articulados à eco-
nomia do gozo.

Os SEMBLANTES•••

C. M. -A piedade faz parte de nossos sentimentos muito comuns;


o único problema é que, no obsessivo, é uma piedade exagerada e
uma piedade exagerada porque ela é defensiva. Ela é defensiva ao
mesmo tempo contra a agressividade, contra o ódio mas ela é tam-
bém um instrumento deste ódio pois, como tentei demonstrar esta
manhã, o amor pode ser um meio de ódio e e destruição. Todas as
histórias de amor sempre terminam mal. Vocês conhecem uma
história de amor que tenha acabado bem? Felizmente, há excessões.
Estou de acordo, mas é preciso se perguntar por que, de modo
geral, acaba mal ... A piedade é, evidentemente, uma forma de amor,
do amor no lugar de Deus, e os padres, que conhecem bem esta
questão, que praticam bem esta questão, sempre desconfiam da
piedade excessiva. Raramente encorajam a piedade excessiva. Eles
sabem que isso não é um bom sinal. Lacan, por sua vez, desconfia-
va das manifestações excessivas de piedade; isso não lhe inspirava
confiança. Agora, sobre a questão do semblante no obsessivo: pri-

87
Neurose Obsessiva

meiro, o quer dizer semblante? Quer dizer que todas as nossas re-
presentações do objeto desejado são semblantes e nosso próprio eu
é um sembl.ante. Essa é uma primeira coisa. Mas o obsessivo gosta
de denunciar o sembl.ante porque ele tem o privilégio de ter acesso
ao objeto autêntico, ao objeto real, ao objeto pequeno a. Eis aí esta
força particular que é a sua e que constitui justamente esta particu-
laridade de seu fantasma de que lhes falarei depois. É que este obje-
to pequeno a tem o privilégio de ter conservado o gozo. O que faz
com que ele não se interesse muito pelo sembante, que tenha um
certo desprezo pelo sembante, porque ele sabe o que pode ser o
gozo do objeto verdadeiro, autêntico, quer dizer, do objeto pequeno
a. É evidente que é um gozo desagradável. Porque o objeto pequeno
a é a merda, justamente. E há no obsessivo toda uma atividade, um
gozo escondido com este objeto desagradável, com este objeto pe-
queno a. Poderíamos dizer que, de certo modo, no obsessivo, é sua
única certeza. E isso constitui esta espécie de particularidade nele,
quer dizer, esta divisão completamente notável - no limite são to-
das estas representações de dupla personalidade - sabem como na
literatura há representações de dupla personalidade: o honorável
cidadão que quando cai a noite torna-se um horrível criminoso, é
o mesmo. Há esta espécie de divisão, de clivagem que justamente é
a característica do obsessivo. É o que faz com que, por exemplo,
sua piedade exagerada vá inevitavelmente se acompanhar de pensa-
mentos sacrílegos em relação a Deus; quanto mais piedade ele tem,
mais tem que se defender contra estes pensamentos sacrílegos e
mais pensamentos sacrílegos e obscenos ele tem ... O obsessivo é
para nós uma boa maneira de compreender o que é a divisão sub-
jetiva. De algum modo, nós nunca estamos diante de um indiví-
duo mas sempre temos a ver com um sujeito dividido, não é o um
do indivíduo, é sempre um sujeito dividido. A outra questão é

88
Charles Melman

sobre religiosidade, magia e piedade e sua articulação com a ques-


tão do gozo.

0 PAI NO FINAL DE ANÁLISE

Vamos começar, esta manhã, com a questão do pai porque


amanhã é Domingo e vamos preceder o Domingo e falar da ques-
tão do pai.
Lacan diz que Freud tentou salvar o pai. O que isto quer
dizer? Por que Lacan diz que Freud tentou salvar o pai? Porque
Freud estima que um neurótico está curado a partir do momento
em que ele pode ter relações sexuais, pode trabalhar, ter relações
familiares e sociais e quando este resultado é obtido pode-se consi-
derar que a cura teve sucesso. Vocês podem observar que todos
estes objetivos estão de acordo com aquilo que seria satisfazer o
ideal de um bom pai. O que quer um bom pai para seus filhos?
Um bom pai, tanto quanto uma boa mãe quer para seus filhos um
bom trabalho, que tenham uma boa esposa ou esposo e que te-
nham uma vida social agradá-vel. Quer dizer que Freud considera-
va que a cura estava terminada a partir do momento em que o
paciente tivesse realizado aquilo que era o desejo de um bom pai
para seus filhos. De certo modo, isto é verdade. É uma posição de
bom senso. Para o neurótico, quando tudo está bem na vida, pode-
se-lhe dizer até logo e boa sorte. Mas, para Lacan, o final de uma
cura poderia ser diferente. Para Lacan, qual era objetivo da cura
psicanalítica? O problema para Lacan era que, uma vez que o pa-
ciente fosse capaz de trepar e de trabalhar, seria neste momento
que os verdadeiros problemas começavam porque, como sabemos,
é preciso fazer muito sacrifício para chegar a se normalizar na vida
sexual e no trabalho. Em outros termos, o que Lacan dizia é que,
neste momento, o sintoma - isto é, a falta de relação sexual -, está

89
Neurose Obsessivo

mais vivo. E então Lacan evocou neste momento aquilo que cha-
mou de desejo do analista. O que é? Não se trata dos desejos da
pessoa, dos desejos próprios da pessoa que ocupa a função de ana-
lista mas trata-se do desejo que seria específico do analista. Isto é,
de levar o analisando a um lugar a que nenhuma outra pessoa po-
deria conduzi-lo. E qual é este lugar a que o desejo do analista
poderia conduzir seu paciente? É este lugar onde ele pode ser leva-
do a constatar que a referência a um pai no Outro é uma defesa.
Uma defesa contra o quê? Uma defesa contra a angústia porque se
não posso mais me referir a isto que um bom pai espera de mim,
àquilo que ele exige de mim, eu não sei mais o que quero, não sei
mais o que desejo. Então, por que o analista gostaria de levar seu
paciente a este ponto de angústia e a este ponto de depressão? Por-
que se não posso mais me autorizar, me sustentar por uma referên-
cia a um bom pai, eu caio. Lacan dizia que no final da cura lacaniana
poderia haver este momento de depressão, isto é, constatar que no
Outro não há ninguém que me espera, não há ninguém que me
olha, não há ninguém que me deseja, não há ninguém que eu pos-
sa seduzir, não há ninguém que possa me servir de guia, ninguém,
porque é a estrutura. É a estrutura da linguagem. Então, como
vocês vêem, há este enigma: por que o analista gostaria de levar o
paciente até este ponto? E quando Lacan inventou o procedimen-
to do passe era para pedir aos analistas, a seus alunos, que lhe expli-
cassem porquê eles queriam tornar-se analistas. É uma questão que
não é simples. Por que um analisando pode querer se tornar, ele
próprio, analista ? Qual é o desejo que o anima, nesta ocasião? E
Lacan esperava que seus alunos respondessem esta pergunta. Acon-
tece que nos dois primeiros anos de júri do passe, eu fiz parte do
júri e, portanto, eu tive oportunidade de ouvir o que os passantes
vinham contar. Por que Lacan os chamava de passantes? Por que

90
ele deu este nome - passe? ~ um nome estranho. Os analistas que
tinham referência ao hebraico pensaram imediatamente que fosse
uma referência à páscoa judaica, quer dizer, à saída do Egito. Mas
não acho que seja muito exato. O passe, em francês- um passe-,
também é uma relação sexual com uma prostituta. Então, o júri do
passe era uma invenção engraçada. Será que era a isto que Lacan se
referia quando escolheu este nome- passe? No manejo do signifi-
cante, ele era muito inteligente. Há um lugar na Bíblia justamente
no Pentatêuco, onde é contado que o povo hebreu, que tinha par-
tido de Sodoma, estava passando por uma pequena cidade e que os
homens da tribo tiveram relações sexuais com as mulheres desta
cidadezinha. Isto está escrito no texto. Evidentemente isto é um
enigma. Por que o texto sagrado conta um incidente deste tipo? E
Lacan faz uma estranha interpretação desta passagem. Ele diz: "vocês
vêem, é a demonstração de que a relação sexual ainda era possível".
Isto é estranho. Mas, acredito que vou dar para vocês uma melhor
definição do passe. Como vocês sabem, portanto, no passe há um
analisando que se apresenta como passante e o objetivo do júri é
saber se ele está realmente no final de sua análise. Passante, pode-se
escrever assim: pas-sens (não-sem) - quer dizer que este seja sem,
isto é, que seja liberado da idéia de seu pai no Outro; é preciso que
seja sem para poder ser. Ele não é sem. E o objetivo deste júri era
valorizar se seria possível ao analisando manter-se com este dispo-
sitivo. Este dispositivo é também o da liquidação da transferência.
Freud repete: é preciso que o analisando liquide sua transferência.
Mas não temos nenhum exemplo, entre os alunos de Freud, que
eles tenham liquidado sua transferência com Freud. Era uma famí-
lia horrível à volta de Freud; todos queriam seu amor, todos eram
ciumentos; alguns o deixaram porque não consideravam que eram
suficientemente reconhecidos. E quando vocês lêem a história do

91
Neurose Obsessiva

movimento psicanalítico, como estou lhes dizendo, ela se torna


transparente. O problema da transferência com Freud dominou
toda a história do movimento psicanalítico. Se um de vocês quiser
_me citar apenas um dos grandes alunos que tenha demonstrado
que se sentia livre em relação a Freud, eu gostaria muito que fosse
citado. Vocês vão me falar de Melanie Klein ... éverdade que Melanie
klein, que era uma grande psicanalista, teve um pensamento bas-
tante original em relação a Freud mas este pensamento original era
completamente reativo ao pensamento conformista e obsessivo de
Ana Freud. Vocês conhecem a guerra que havia entre M. Klein e
Anna Freud e como Anna Freud sempre recusou que M. Klein
fosse reconhecida pelo movimento psicanalítico. É como se M.
Klein tivesse dito : "a verdadeira filha de Freud sou eu". Vejam que
o que se passou em torno de Freud foi como uma tragédia antiga.
E o que nos interessa é que o que se passou em torno de Lacan foi
como uma tragédia antiga. Quer dizer que também nos alunos de
Lacan não se vê a possibilidade de ser sem. Então, vejam como
entramos em questões que vão tocar nosso pensamento e nosso
trabalho e a condução da cura. Lacan introduziu na teoria o que
ele chama "o nome-do-pai". Ele queria ter feito todo um Seminá-
rio durante um ano sobre esta questão. Deveria se chamar "O nome-
do-pai". Ele não o fez. Mais tarde fez um seminário que chamou
"Les nons dupes errent" - "os não-patos erram". Este seminário so-
bre o nome-do-pai deveria introduzir seus alunos à possibilidade
de resolver a questão da transferência. Isto foi em 63. Mas quando
ele viu que seus alunos queriam vendê-lo à IPA, ele disse: "já que é
assim, não farei este seminário, e eles permanecerão envenenados
por essa relação comigo". Eu me lembro do momento em que ele
preparava este trabalho, em sua casa. Ele me disse que tinham 3
obras que lhe serviam de referência. Havia o Pentatêuco e na pare-

92
Charles Melmon

de de sua biblioteca tinha um mapa enorme, ocupando toda a pa-


rede, da região do Oriente Próximo, da época Bíblica; outra obra
que lhe servia de referência era o Ulisses, de James Joyce e o tercei-
ro texto não consigo me lembrar qual era, eu me esqueci. Infeliz-
mente, é problema saber que, no dossiê de Lacan, há todos os do-
cumentos que ele tinha preparado para seus seminários. Quer dizer
que estes documentos existem e que nunca vão ser comunicados.

0 PAI NO REAL, NO SIMBÓLICO, NO IMAGINÁRIO •••

Então, o que é o Nome-do-Pai? A fórmula está escrita por


Lacan. Ele diz o seguinte: o nome-do-pai é uma metáfora. Do que?
Nome-do-Pai Desejo da mãe
• - - - - - - - ~ Nome-do-Pai
Desejo da mãe significado ao sujeito

É uma metáfora deste x que a criança percebe como objeto do


desejo da mãe; é o nome que vai representar este x enigmático para
a criança e que é o objeto de desejo da mãe, que vai ser chamado
pai. Vocês observam que Lacan não diz que pai é um significante,
porque um significante representa um sujeito para um outro signi-
ficante. Mas ele diz que é um nome, que este nome é uma metáfo-
ra. Metáfora é uma palavra que vem no lugar de outra palavra.
Qual é esta outra palavra que a palavra pai vem substituir? É um x,
não há outra palavra. É que neste lugar deveria haver outra Coisa.
Portanto, a palavra pai é uma metáfora de nada. Não há uma pala-
vra que haja caído por baixo e que a metáfora paterna veio repre-
sentar. Há algo de enigmático: não sabemos o que sustenta o dese-
jo da mãe e os nomes-do-pai são o que vêm designar este x, o que
é enigmático e nutre o desejo da mãe. Então, por que Lacan coloca
no plural e fala de nomes-do-pai? Porque é evidente que este x

93
Neurose Obsessiva

pode ser representado por nomes diferentes. Por exemplo, criança


também pode ser um nome-do-pai; ela é testemunha deste x, ele
designa este x que foi objeto de desejo da mãe. Como sabem, há
circunstâncias em que a criança é verdadeiramente tratada como se
fosse o verdadeiro pai. Mesmo nas representações divinas, no nos-
so panteão religioso, a criança pode ser uma representação do pai.
Como vocês vêem, há nomes-do-pai, mas vocês vêem o caráter
enigmático daquilo que estes nomes vêem designar. Será que isto
vem designar uma instância representada por um significante? Ou
será que vem representar um puro enigma, um puro buraco? E vai
ser este buraco que irá sustentar o desejo, que sustenta a sexualida-
de e que pode ser considerado efetivamente como o que nos co-
manda e nos guia. E vocês vêem, então, como o procedimento de
Lacan sobre esta questão é muito prudente, muito delicado e que
vai nos permitir agora muito mais rapidamente falar do que é o pai
simbólico, o pai real e o pai imaginário.
Vamos começar pelo pai simbólico. Ontem, tentei mostrar
para vocês que, para um psicanalista, o significante é o símbolo de
uma ausência. Então, o pai simbólico seria ele o simbólico de uma
pura ausência, desta ausência que faz com que estejamos mergu-
lhados num mundo de desejo, esta ausência que é a condição de
possibilidade da reprodução, ou será que o pai é simbólico da instân-
cia pelo-menos-uma que, no real, pode ser representativa do falo?
Daqui há cinco minutos, voltarei a esta questão mas vamos
ver primeiro, juntos, o pai imaginário e o pai real. O pai imaginá-
rio também é muito fácil de ser compreendido. É o pai todo pode-
roso. É o pai não castrado, é o pai que pode tudo. Eu fiquei mexido
com uma analisanda, uma mulher de quarenta anos mais ou me-
nos, e a sua análise estava evoluindo muito bem, isto é, numa espé-
cie de estabelecimento do impossível da castração. E foi neste mo-
mento que apareceu, na análise, uma reivindicação que foi muito

94
Charles Melman

,_

notável porque esta jovem mulher era psiquiatra e trabalhava como


psicanalista. Era a seguinte: "por que meu pai não trepou comigo?
É intolerável. Quando eu tinha quinze anos, saímos juntos de fé-
rias e ele não trepou comigo". O que, enquanto analistas, vocês
respondem? Essa mulher é uma pessoa muito agradável, muito sim-
pática, que trabalha conosco. O que vocês poderiam responder?
Eu não poderia dizer: se ele tivesse trepado era a violação e o trau-
matismo. Essa é uma má resposta. O que faz com que, na realida-
de, não haja resposta. O que vocês querem dizer? O que fica claro
é que ela tinha esta relação com este pai imaginário que deveria,
portanto, poder tornar suas filhas mulheres. Porque esta é uma
reivindicação normal das meninas: por que elas devem esperar de
outros homens serem reconhecidas como mulheres enquanto o pai
reconhece seus filhos, ele os reconhece como homens, e ele não é
capaz de reconhecer suas filhas como mulheres? E elas têm que ir
buscar um estranho à família para resolver a questão? Em todo
caso, vocês vêem que o pai imaginário no nosso funcionamento
psíquico é importante. E isso foi também para Freud. Com certe-
za, vocês se lembram deste episódio de sua biografia em que seu
pai lhe contou que estava passeando na rua e que um passante, que
estava ali, arrancou-lhe o boné que tinha na cabeça, jogou-o no
chão, dizendo-lhe um insulto sobre sua raça judaica. Ele lhe disse:
"judeu sujo". Então Freud, Sigmund, perguntou para ele: "o que
você fez?"E o pai lhe disse: "peguei o boné e continuei meu cami-
nho". E Sigmund ficou muito infeliz e envergonhado. Mas o que
seu pai deveria ter feito? Não é fácil responder esta questão. Mas
em Sigmund havia também esta exigência de ter um pai rodo po-
deroso. E que não se deixasse insultar.
Agora, o pai real. Com esta pergunta: é o pai da realidade? É
o pai no Real? O que é o pai Real? Espero que eu consiga explicar
para mim mesmo. O pai real é aquele que está em casa, que está

95
Neurose Obsessiva

presente na casa. Se fosse o pai que está no real seria o pai da psico-
se. É o pai que está na realidade da casa. Mas, por que dizer, neste
momento, que é o pai real? Há uma resposta possível. Observem
uma coisa: a lembrança que os adolescentes têm de seu pai é de um
corpo físico cujas características são violentamente percebidas como
uma espécie de, eu diria - vocês sabem o que é o expressionismo
alemão, a arte expressionista - que para o adolescente seu pai real,
o pai que está em casa, é percebido da maneira como os
expressionistas pintam as figuras e os corpos humanos, quer dizer,
com esta espécie de crueza, de presença física abusiva, como se este
pai real não devesse ter estado lá, como se fosse algo a mais, como
se, isto é curioso, pelo fato de estar ali, físico, não pudesse mais ser
simbolizado, como se estivesse presente enquanto um corpo ani-
mal. E, com muita freqüência, há no adolescente ou na adolescen-
te uma reação que pode ser uma reação de quase nojo em relação a
esta carne, a este corpo aqui presente. É freqüente que, se o pai
enquanto real desaparece, a criança sinta um alívio verdadeiro. O
que quero dizer com isso? É que, se a função paterna vem de um
nome, de um nome que se refere a um x ausente, a presença física
para a criança, no mundo, deste pai real pode ser vivida como uma
presença abusiva; ele não deveria estar lá. Talvez devesse estar mor-
to. Mas, e é aí que tocamos um ponto que acho essencial sobre o
papel do pai real, é que o simbólico que estabelece portanto esta
ausência tem um poder que é excepcional porque é o poder do
simbólico que comanda nosso destino, mas, se eu não respeito o
simbólico, ele não tem nenhum modo de impor sua virtude, quer
dizer, o simbólico não tem nenhum meio de me dar a dimensão da
resistência do real, o simbólico não tem exército, não tem poder,
não tem policiais. Eu posso desprezar o simbólico, ele não dirá
nada, não acontecerá nada. Quer dizer que a presença real, física,
em casa é o que vem fazer obstáculo ao laço da criança com sua

96
Charles Melman

mãe. A presença física do pai é o que vem dar validade e força ao


poder do simbólico. Evidentemente, há muitas casas em que as
crianças são criadas sem um pai real; acontece com frequência que
a mãe Yenha sempre trazer a memória do pai mas não tem a mesma
força. Vocês sabem, tem este jogo que é muito freqüente entre as crian-
ças, em que elas se jogam contra o pai e constatam que ele resiste.
As crianças correm, com a cabeça abaixada, contra o pai e
verificam que o pai faz uma parede ali. O desejo da mãe pelo pai
real é como o desejo do pai real pela mãe; pode ser muito variável.
Mas não é isto que é essencial para a criança. O que é essencial para
a criança é que ela saiba que ela nasceu deste déficit que é comum
ao pai e à mãe e que causou o desejo deles e o nascimento da crian-
ça. Quer dizer, que houve entre seus pais um desejo comum, isto é,
a confrontação de um mesmo déficit e é disso que ele nasceu. Em
seguida, a recusa da mãe, do pai, tudo isto conta, mas o essencial
da função paterna é estabelecer este x que foi a causa do desejo da
mãe; dar à criança acesso a este x e a constituir o pai real, a resistên-
cia física que lhe mostra que tem ali uma parede, um impossível e
que este x está fora deste mundo. Vou dizer mais algumas palavras
e depois vou parar, se for conveniente. Vocês podem fazer pergun-
tas. O que eu queria dizer ainda, vou dizer rapidamente.
Para o ser humano, o problema do desejo é que seu objeto se
situa fora da lei. A lei é necessária para constituí-lo, isto é, para
estabelecer o real, mas o seu objeto está fora da lei. Quer dizer que
para chegar a este objeto será preciso atravesssar o interdito. E uma
mulher se situa fora da lei e é por isso que ela protesta contra o pai,
porque ele a coloca no seu lugar de mulher, fora da lei. E, como
sabemos, há sempre uma relação muito complexa das mulheres
com a lei. O que significa que para alcançar o objeto de meu dese-
jo, eu sou levado sempre a funcionar fora da lei. É a função do pai

97
Neurose Obsess.ivc;i.

que, no entanto, estabelece a lei e me dá sua autoridade de pai para


que eu me autorize a ultrapassar a lei para realizar meu desejo. Essa
é a função essencial do pai tal como Lacan estabelece e vocês vêem
que é uma função completamente diferente da função do pai em
Freud, para quem o desejo se realizava sempre no interior da lei.
l\1as também sabemos que justamente esta disposição trazia mui-
tos problemas pessoais para Freud. Se um dia eu tivesse a ousadia
de fazer isso com vocês ou com outros amigos, eu mostraria como
se pode decifrar os sonhos de Freud em "A interpretação dos so-
nhos", seus próprios sonhos, e falaria sobre tudo que diz respeito a
sua infelicidade sexual com Marta. ''A interpretação dos sonhos"
fala constantemente da infelicidade de Freud com sua mulher,
Marta. E, como sabemos, Freud preferiu parar sua vida sexual quan-
do tinha um pouco mais que 40 anos, em vez de ultrapassar aquilo
que ele acreditava ser uma incorreção insuportável em relação a
sua mulher. O que acontecia com sua mulher era muito simples: é
que Freud era contra o coito interrompido, por razões
metapsícológicas, porque dizia que o coito interrompido provoca-
va angústia, porque dizia que isto provoca uma retenção da libido,
e a libido, que não pode ser esgotada, provoca angústia. Como
vocês sabem, Freud teve muitos filhos e Marta não aguentava mais
ter tantos filhos. Então, o que Freud fazia? Ele ficava no seu escri-
tório, trabalhando até três horas da manhã e é por causa disso que
temos a psicanálise.
Vamos abrir um espaço para as perguntas.

MARLIZE: Sobre a analidade no "Homem dos ratos".

LIDIA: Eu entendia o pai real enquanto pai da horda. Então, fiquei


com uma dúvida: o pai real é castrado? Seria este o voto do obses-
sivo, de inscrever este entre dois?

98
Charles Melmon

M. CLARA: Eu gostaria de saber se o senhor vai retomar a questão


da forclusão da castração e talvez à luz do que foi exposto sobre o
pai real e sobre o significante (- cp) que é o significante da castra-
ção. Uma dúvida: em relação ao que o senhor expôs sobre a ques-
tão da bissexualidade, por que não dizer que ali é o campo femini-
no e que portanto habita a mulher. Já que o senhor havia dito que
lá a gente poderia colocar a dama e não a mulher.

EosoN: Eu queria saber da relação entre o pai real e o pai no real.


Se isto tem repercussões na clínica entre o neurótico obsessivo e o
psicótico, ou seja, situar estes pais.

JOSÉ NAZAR: Eu gostaria que o senhor falasse mais sobre "les non-
dupes-errent", os não-paros erram. Qual o lugar que o obsessivo
ocupa nesta enunciação, e, a partir daí, como se verifica o pai do
obsessivo na estrutura?
Gostaria que falasse sobre a angústia na neurose obsessiva.

C.M. Eu iniciarei pela questão da forclusão da castração e por que


isso não tem conseqüências psicóticas. Lacan diz que a psicose está
ligada à forclusão do nome-do-pai. Por que? Porque é a forclusão
do nome, que estabelece o lugar da pura ausência, que sustenta o
desejo e que, portanto, dá uma significação sexual a todos os nos-
sos propósitos. Acusamos Freud de pan-erotismo mas o erotismo
está no significante, na medida em que, como o sabemos, o signi-
ficado é fundamentalmente sexual. É, aliás, o que a histérica vem
sempre lembrar. Falamos com ela sobre a lógica anglo-saxónica e
depois ela diz: sim, mas blá ... blá .. blá... , vai lembrar que o sentido é
sempre sexual. Então, se há uma forclusáo do nome, que organiza
este impossível que sustenta o desejo e que dá, portanto, uma sig-
nificação sexual a todos os nossos propósitos, o Outro sobre o qual

99
Neurose Obsessiva

minha palavra se apóia não tem mais significação. Ele pode come-
çar a significar qualquer coisa e sobretudo não há mais um real
como impossível que organize o gozo das metáforas e das
-metonímias. Pode haver, por exemplo, vários reais. E se vocês se
lembram do caso do Presidente Schreber, por exemplo, ele vê, no
céu, vários sóis e há vozes que vêm de cada um destes sóis. E o que
ele quer é ver o que dizem estas vozes, mas ele não sabe. Não há
mais significado único em todas estas vozes. Portanto, a angústia,
porque ele não sabe o que estas vozes querem dele e ele será curado
dando um significado sexual a todas estas vozes que ouve, afirman-
do que ele mesmo se tornou uma mulher; já que todas estas vozes
convergem para ele, ele se tornou, portanto, o objeto que dá senti-
do a estas vozes e, aceitando tornar-se mulher, ele consegue mais
ou menos estabilizar sua psicose. Portanto, creio que compreende-
mos muito bem os efeitos produzidos pela forclusão do nome-do-
pai na gênese da psicose. A forclusão da castração é muito diferente
porque ela mantém o nome-do-pai. Mas ela castra este pai, ela o
priva da referência sexual, ela a substitui como sentido pelo amor.
Portanto, isto não tem o mesmo efeito que a forclusão do nome-
do-pai porque são somente os atributos sexuais do pai que são
forcluídos mas ele, enquanto organizador da lei, como organizador
de um significado novo que não é mais o sexo mas o amor, ele é
mantido. E é, sem dúvida, por esta razão que a forclusão, portanto,
da castração, isto é, a tentativa de responder à falha aberta no Ou-
tro pela reparação que o amor traz, não é organizadora de uma
psicose mas sim de uma neurose. Então, essa é a diferença entre as
duas forclusões.
Agora, a questão concernente ao pai real: será que o pai real é
o pai da horda? É preciso lembrar que o pai do horda é um pai
imaginário, que situo no real, mas ainda é um pai imaginário. Por
que podemos dizer que o pai que está na realidade da casa é real?

700
Charles Melman \ . ._

Porque enquanto pai, ele não é um semblante. Eu diria que o que


~
ele sustenta não é um significante mas é um nome. Ele designa esta
potência que não se sustenta, esta potência criadora, geradora. Sem-
pre corre o risco de parecer abusiva, de parecer intrusiva, já que ele
designa a pura ausência, ele deveria ser, ele próprio, ausente, quer
dizer, morto. Infelizmente não estou conseguindo me expressar
muito claramente sobre isto. Mas é por isso que há uma sensibili-
dade da criança em relação àquilo que é realidade física do pai
como justamente no lugar de um objeto que não é um semblante
mas um objeto real. É, portanto, de certo modo traumático e não
deveria estar ali. Com freqüência, numa família, o pai tem a im-
pressão que querem eliminar sua presença física e que ele tem que
lutar para que seu lugar não seja tomado. E aí também é um pro-
blema de estrutura. Como vêem, eu sei que o que eu disse não está
nos livros, não se fala muito sobre isto mas isto pode sustentar
nossa reflexão. Então, será que este pai real, que está em casa, é o
pai castrado? É evidente que toda a família conspira para que ele
seja castrado e se for um pai que demonstra justamente que resiste
a este esforço da família para torná-lo uma pessoa calma, que não
se mexe muito. As crianças amam o pai imaginário mas se o pai
real não é castrado as crianças não o amam muito; eles gostariam
mesmo que o pai fosse castrado.
Então, agora, a questão colocada por José Nazar: por que os
nomes-do-pai (os não-tolos erram), esta questão conduz à questão
das novas patologias? Agora, há pouco, uma de nossas amigas, ela
me fez observar que para sustentar o desejo acontecia de o casal
introduzir entre seus membros uma certa forma de castração, de
interdito, de limite. Por exemplo, há esta atividade, que é estranha,
que para sustentar o desejo do casal, este participa de sessões de
troca em que cada um vê seu parceiro ter relações sexuais com o
outro; depois disto, o casal volta para casa junto e vai introduzir

101
Neurose Obses~ivo

entre eles uma certa espécie de castração já que o parceiro mais


querido foi possuído por outro e isto reestabelece entre eles uma
economia libidinal. Isto é uma espécie de ortopedia da castração.
Um dos problemas da patologia de hoje é que o objeto que nos é
proposto não está mais situado fora da lei, fora dos limites já que a
castração é justamente forduída por nossa evolução cultural. En-
tão, o problema das novas patologias é que este objeto tem, por-
tanto, dificuldades para nos satisfazer uma vez que não está mais
fora dos limites, porque não é mais fundado pelo interdito, pela
castração. É preciso dar a este objeto características físicas bastante
particulares, especiais para que ele excite nossos sentidos e para
que ele apareça como se fosse um objeto do desejo, enquanto que
ele é essencialmente um objeto de demanda. Há essa capacidade
em fabricar objetos que venham responder à demanda mas que
tenham particularidades físicas que nos excitem como se fossem
objetos fundados pelo desejo.
Então, por que os não-patos erram? Porque na nossa busca do
objeto autêntico, não do semblante mas do objeto autêntico, do
objeto real, o que é próprio justamente da nossa evolução cultural,
nós reclamamos da autenticidade do objeto. Queremos que, a cada
vez, haja para o parceiro um certificado de garantia. Então, através
desta exigência, matamos o desejo. E é por isso que o fato de não
aceitarmos o semblante, isto é, aquilo que chamamos de castração,
só pode nos afastar.

A QUESTÃO DOS RATOS ...

Agora, gostaria de voltar à questão dos ratos. Vou dizer coisas


que não são agradáveis. Quando vocês passeiam pelas cidades e
vêem ratos bem gordos que circulam no meio do lixo e se alimen-
tam de excrementos, vocês só podem pensar numa coisa: como se
102
Charles Melman

parecem conosco já que é um objeto excremencial que funda o


nosso desejo. Só que nós nos escondemos na realização de nosso
fantasma. O rato também se esconde um pouco; tem também o
senso de pudor, tem vergonha mas, nos laboratórios, todos aqueles
que trabalham com a neurofisiologia sabem que aquilo que se es-
tuda com o rato vale para o homem. Há uma diferença essencial,
somente uma, senão não poderíamos fazer a diferença. Há uma
diferença essencial e, um dia, fui convidado, na França, a falar para
aqueles que tratam dos toxicômanos. Era um grande Congresso,
onde estavam todos os que tratam dos toxicômanos na França;
haviam dois oradores - um deles, um biólogo do College de France,
muito conhecido, que veio nos explicar quais eram os mecanismos
neuro-hormonais da toxicomania e depois estava eu ali para falar
como psicanalista. O biólogo contou sobre todas as experiências
que fazia, em seu laboratório, com os ratos e em particular uma
experiência muito simples chamada "a experiência da recompen-
sa''. Ou seja, quando o rato apóia a pata no botão certo, diante dele
há alguns botões, e quando ele aperta o botão certo tem uma re-
compensa, isto é, um pedaço de queijo que cai. Essa é uma boa
vida, uma bela existência: a gente aperta um botão e obtém exata-
mente o que é preciso. Isso é formidável. Ele construía toda a sua
teoria de toxicomania sobre o problema destes objetos que provo-
cam no organismo esta satisfação e de que modo poderíamos tor-
nar o rato dependente, no estado de adicção, no lugar deste queijo.
Então, eu me permiti fazer com que ele observasse que ainda assim
havia uma pequena diferença entre os ratos e um pequeno huma-
no. É que se damos ao bebê a recompensa, o tempo todo, ele vai
ter uma resposta curiosa, que o rato nunca vai ter. É que este leite,
que lhe é dado o tempo todo como recompensa, ele o vomita. Eu
lhe perguntei se, alguma vez, ele havia visto um rato vomitar sua
recompensa. Alguém já ouviu um rato dizer: "Não aguento mais,
103
Neurose Obsessiva

pode tirar tudo isto daqui"? E sabemos que o bebê que vomita sua
mamadeira quer alguma coisa que é ainda mais importante que
sua mamadeira. É o nada. E se a mãe não lhe der acesso a este
nada, porque é uma boa mãe, ela quer que não lhe falte nada,
sabemos que o bebê vai, por si próprio, criar este nada. E como
sabemos, é uma patologia que pode ir muito longe, que pode che-
gar à anorexia. Lacan tem uma definição bastante radical da
anorexia. Ele diz que o que a anoréxica quer é o nada. E é por isso
que ela come muito e vomita tudo o que comeu. É só a importân-
cia que damos a este nada que nos distingue do animal. Os ratos,
na observação do "O homem dos ratos", o que representam? Re-
presentam o objeto nojento por excelência do qual o obsessivo não
quer se separar. Sabemos que o obsessivo é, por definição, um cons-
tipado. Há um objeto, que não quer ceder, o objeto pequeno a, ou,
se quiserem, o objeto pequeno rato. Por que ele não quer largá-lo?
Porque é o objeto que ele acha que o Outro lhe pede; porque se-
não, por que esta importância absurda de analidade na neurose
obsessiva? É porque o objeto anal toma uma importância total-
mente particular, porque a criança pensa que o Outro pede este
objeto. E se o Outro pede este objeto é porque há gozo no Outro.
É assim que a mãe faz a educação da limpeza, da higiene de seu
filho. Todos vocês que trabalharam com crianças pequenas sabem
que há um sintoma que é sempre específico na criança, que se
chama encropésia, quer dizer, que ele deixa seus excrementos em
todo lugar. Na cama, na mesa, quando anda, em todos os lugares.
É um sintoma que significa sempre a mesma coisa: é uma criança
que não encontrou no Outro a demanda deste objeto. Seja porque
foi criado por outras mulheres que não a mãe, seja porque não é
capaz de fazer esta demanda. E vou até dizer outra coisa: como é
que se reconhece uma mãe e alguém que alimenta? A mãe recebe
as fezes de seu filho como um presente, como um objeto magnífi-

104
Charles Melman

co. Ela lhe diz: 'Oh! Você é formidável, o que você fez, ai! Que
bonito este cocô". A babá diz: "Ai, que horror". A não ser que seja
uma boa babá. Se ela for uma boa babá, ela vai se comportar, em
relação ao excremento, como se fosse um objeto precioso. É ex-
traordinário pensar que isto pode marcar definitivamente a vida de
um adulto, a maneira como foi feita sua educação anal. E de que
modo ele corre o risco de ter um humor fundamentalmente
depressivo e as dificuldades em fabricar, em fazer, em inventar uma
depreciação de tudo o que pode fabricar, se sua educação anal foi
feita de um modo ou de outro. É surpreendente pensar e verificar
as coisas que se pode causar. Então, por que a criança obsessiva, e o
futuro obsessivo, não querem dar este presente? Por muitas razões.
Primeiro, porque ele acha que é o objeto do gozo supremo, o que
causa ao mesmo tempo uma erotização da zona anal. Ele quer,
portanto, guardar este objeto para poder, eu diria, reter o que há de
mais precioso. Há este aspecto de avareza no obsessivo, que evi-
dentemente está ligado nesta retenção. Nós sabemos que o dinhei-
ro é o objeto de troca por excelência.
É o equivalente anal porque é o símbolo de um objeto que se
troca. Mas há também, no obsessivo, uma outra razão. É que, como
ele sabe que este objeto deve ir para o real, quer dizer que deve ser
apagado do campo da realidade, deve ir para os esgotos e desapare-
cer de vista, ao mesmo tempo ele tem medo de sujar aquele que
está no Outro, quer dizer, justamente, o ser por quem, no real, ele
tem mais piedade, ou seja, esta instância que é tão paternal quanto.
a dama, e cometer o sacrilégio supremo. De certo modo, é o que
aparece em Ernst Lanser, nos seus pensamentos obsessivos, quan-
do ele vê Ana com excremento no lugar dos olhos. E vocês sabem
como existem no obsessivo todos estes escrúpulos de limpeza, no
temor de sujar o que há de mais sagrado, de mais caro. O que faz
portanto com que a presença dos ratos, na observação de Ernst

105
Neurose Obsessivo

Lanser, não seja nada mais do que o retorno, a partir do real, a


efração no corpo deste objeto mais nojento que deveria ser aban-
donado. Evidentemente, é portanto um fantasma sexual, mas que
é ao mesmo tempo o mais abominável, o mais horrível, que é con-
tado por ele na sua história. Há ainda outras coisas que devem ser
ditas sobre os ratos. E devo dizer que tenho várias observações de
obsessivos, em que justamente a presença de um rato, que passa
correndo sobre seu tapete, tinha um efeito traumático absoluta-
mente surpreendente. Quer dizer que não é uma história que é
específica de Ernst Lanser; pode-se encontrar esta problemática
em outras observações. Quer dizer, do Real vêm efrações no corpo
daquilo que deveria ter partido e desaparecido. O que posso ainda
dizer? Acho que já fui bastante nojento e horrível e creio que já está
bem assim; já nos basta para esta manhã e penso que poderemos
concluir à tarde.
Vamos começar pelo problema da relação de Ernst Lanser
com a dívida que ele não consegue pagar. Por que ele não consegue
pagar esta dívida? É possível que a este propósito intervenha um
problema que interessa a todos de certo modo e é um problema
que não foi tratado por Freud. O que me surpreendeu quando eu
estudava a história de Ernst Lanser foi a história dcs dois ratos. Por
que dois ratos? E fui levado a refletir sobre os problemas culturais
que foram colocados por Ernst pelo fato de que sua família era de
origem judaica e que o pai houvesse manifestadamente feito de
tudo para que esta origem fosse apagada, porque ele não queria
que seu filho fosse incomodado, que seu sucesso social fosse per-
turbado por sua origem. E se compreendemos bem a observação,
pareceria até que ele havia se convertido. Se estas considerações
forem exatas, talvez possamos compreender melhor porque Ernst
não podia reembolsar, pagar sua dívida ou talvez, mais precisa-
mente, não soubesse a quem pagar. Em outras palavras, quem ha-
via pago por ele? Creio, esta é a questão que merece ser colocada a
706
Charles Melman

propósito do caso de Ernst. Esta questão de pagament~ 'é sempre


uma questão delicada. E os psicanalistas o sabem bem. Imaginem,
por um só instante, o que aconteceria ao analisando ir a um psica-
nalista e não pagá-lo. A questão que viria também ao espírito do
analisando seria a angústia de saber "o que ele quer de mim?". E
fica bem claro que pagando ao analista, de certa maneira, resolve-
se a questão de saber o que quer o analista porque, é claro, o que o
analista quer não é só o dinheiro de seu analisando, senão ele teria
outra profissão. Mas, em todo caso, o fato de pagar alivia a questão.
Gostaria de falar um pouco sobre algo que, com certeza, sur-
preendeu alguns de vocês e que diz respeito ao pagamento. Quan-
do José e Teresa Nazar foram a Paris para discutir comigo sobre
estes três dias de conferência, eu lhes disse: de acordo, mas com
uma condição: peço que cada um dos participantes pague o preço
de uma sessão de análise. Por que? Vou tentar com duas palavras
explicar porquê isto, que diz respeito também à neurose obsessiva.
Já vim várias vezes ao Brasil e a primeira vez foi há 20 anos. E
acredito ter compreendido que, em função das condições históri-
cas deste país, ou seja, muito precisamente seu passado e sua fun-
dação colonial, quando um estrangeiro chega, perguntamo-nos
necessariamente: "o que ele quer, o que ele quer de nós, por que ele
veio aqui, qual é seu interesse, qual é seu ganho?". E, quando não
há nenhuma resposta simples e banal a esta pergunta, muitas ra-
zões são evocadas. Quando vim aqui pela primeira vez, em 1981
ou 1982, a pessoa, o colega muito simpático, de quem eu gostava
muito, que me convidou, tinha publicado um livrinho para divul-
gar, na ocasião, a minha vinda e havia aí um texto, que vocês com
certeza devem conhecer, o "Manifesto Antropofágico", de Oswald
de Andrade, de 1925. Vocês sabem o que diz este texto: "deixem
vir tranqüilamente os brancos. Você tomará dele o que ele tem de
melhor e, quando você tiver pego o que ele tem de melhor, você
poderá mandá-lo embora''. O problema é que, na nossa concepção

707
Neurose Obsessivo

psíquica, sabemos o que é melhor. Quer dizer que, se na costa


desembarcar um mestre, o melhor que terá para ser tornado dele
será sua mestria; é aprender corno se tornar um mestre e, depois,
pode-se jogá-lo fora. Devo dizer que este programa foi estritamen-
te realizado. E por que não? O problema é que, para um analista, o
que ele tem a transmitir não é um modo de se tornar um mestre; é
um modo de se tornar psicanalista e não é, de jeito nenhum, a
mesma coisa. Portanto, para mim que tinha vindo com a idéia de
partilhar com colegas a fraternidade de um trabalho comum, fui
embora infeliz. Porque eu me dizia: por que será que vim aqui? A
que serviu este esforço que fiz vindo aqui, toda a viagem que fiz
vindo aqui, já que houve um mal-entendido fundamental desde o
início, na origem? E, por outro lado, da parte dos colegas havia
descontentamento. Por que, se vim ao Brasil, quais eram as mi-
nhas intenções? Não seriam intenções políticas ou que eu estivesse
querendo construir um império psicanalítico no Brasil e, por ou-
tro lado, eles não estavam necessariamente contentes com aquilo
que eu poderia lhes transmitir. Porque, se estavam esperando de
mim um modo de se tornarem mestres, eles não encontraram isto,
necessariamente. Portanto, o que era a simplicidade que eu preten-
dia ao falar aqui para estes jovens colegas em formação acabou
num descontentamento recíproco. Eu não estava contente, nem os
amigos que me tinham convidado. Ninguém havia recebido o es-
perado. Foi por isso que me pareceu muito mais simples, desta vez,
pedir àqueles que tiveram interesse por este encontro, considerar
que deveriam me pagar uma certa soma, não muito grande, espe-
ro, e que deste modo estaríamos quites uns e outros. E foi por isto
então que pedi a José e Teresa Nazar que, por sua vez, falaram com
as pessoas da Escola Lacaniana de Psicanálise e então solicitei a eles
este procedimento que, com certeza, surpreendeu alguns de vocês.
Mas me parece que não é tão mal corno fazemos hoje. Vocês não
devem se inquietar sobre minhas intenções e eu posso considerar

108
Charles Melman

que recebi uma certa quantia por meu trabalho aqui e, como eu
dizia agora há pouco, as contas são simples e estão acertadas. E isso
é apenas um encaminhamento para a questão que nos interessa, ou
seja, a neurose obsessiva. O que nós vamos poder examinar nesta
tarde vai ser, primeiramente, a questão do fantasma do obsessivo.
O fantasma, vocês conhecem a fórmula tal como Lacan a
escreve: $ O a Quer dizer que o sujeito, enquanto sujeito do in-
consciente, não existe. Só existe quando há a perda deste objeto pe-
queno a. A condição de existência do sujeito é a organização, na
cadeia escrita, de um corte, uma letra que cai e dá lugar à existência
de um sujeito. E se não houver esta queda do objeto pequeno a, não
haverá na cadeia nenhum lugar para que possa existir um sujeito.
No caso do obsessivo, este objeto pequeno a, ele não quer largá-lo,
não quer se separar dele. Como eu dizia há pouco, ele é um cons-
tipado e retém este objeto pequeno a. Ao mesmo tempo, ele forclui
a existência do sujeito. Portanto, ao mesmo tempo, realiza sua au-
sência como sujeito. Mas, o que é notável, é que esta forclusão -
porque se este objeto pequeno a é retido pode-se dizer que ele se
encontra forcluído - como ele não é admitido na cadeia, o objeto
pequeno a, ele se encontra necessariamente mantido fora, no Real,
e, com ele, o sujeito, que lhe está ligado, se encontra no Real. Se
não há queda do objeto pequeno a. normalmente o objeto pequeno
a cai mas ele deve poder retornar na cadeia simbólica - é um outro
processo que aquele que consiste em querer isolá-lo, o objeto peque-
no a da cadeia. Peço agora que me sigam, eu retornarei a isto. Su-
ponham este objeto pequeno a forcluído, isto é, como algo que não
pode fazer retorno na cadeia, porque somos obrigados a responder
a uma questão, que é uma questão fundamental: todos estes pen-
samentos horríveis do obsessivo, será que vamos dizer que são pen-
samentos recalcados ou será que não temos a impressão de uma
criação permanente de pensamentos ultrajantes? Temos a impres-
são que a cada vez se forma no obsessivo não pensamentos que

109
Nevrose Obsessivo

recalcou mas novos pensamentos obscenos; que há uma espécie de


criação, de invenção de obscenidades como se ele fosse habitado
por um tipo de sujeito maldoso que, sem cessar, cria pensamentos
ultrajantes e obscenos. Esta é uma particularidade da neurose ob-
sessiva. Quer dizer que não são seus próprios pensamentos, que
estariam recalcados, que retornam; há nele uma espécie de zona,
uma espécie de ponto que faz com que cada vez que ele tenha um
pensamento, um sentimento honorável, imediatamente formem-
se nele pensamentos hostis e obscenos. Por exemplo: ele tem um
pensamento terno em relação a sua dama e imediatamente lhe vem
ao espírito que ela morra. Nós podemos dizer: "Ah! Mas ele já
tinha pensamentos inconscientes hostis em relação à dama e ele
recalcou". Mas em todas as situações em que ele pode ser levado a
expressar um sentimento amoroso ou um sentimento nobre, isto
forma-se imediatamente nele e ouve um pensamento contrário.
Por exemplo, é muito freqüente, num religioso, formar-se em seu
espírito pensamentos blasfematórios. Como podemos compreen-
der esta espécie de inventividade permanente no obsessivo? Para
que se produzem, no espírito, pensamentos hostis, ultrajantes, gros-
seiros, lixemos, obscenos? Nós temos aqui a tarefa de responder a
isso. Acredito que, examinando a fórmula do fantasma e o que se
passa no obsessivo, no seu tratamento de seu objeto pequeno a, po-
deremos dizer o seguinte: sabemos que numa cadeia simbólica en-
contramos isolada uma zona que é sempre a do real. É a zona que
sempre faz objeção a tudo o que se puder dizer na cadeia simbóli-
ca. É o lugar de onde sempre se diz não. É por isso que quando
comecei falando sobre a histeria, eu disse: a histérica sempre tem
razão em fazer objeção; ela está certa em fazer objeção porque a
existência do sujeito se sustenta no real e, se o sujeito quer manifes-
tar sua existência, só poderá dizendo não ao que se formula na
cadeia simbólica. O problema do obsessivo é que nele este sujeito
que diz não permanece colado no objeto-ª e, de certo modo, pode-

110
Charles Melmon

se dizer que o ponto de onde isso fala na sua psiquê, no seu espíri-
to, isso fala nele a partir do objeto pqueno a. Quer dizer que, não
somente isso diz sempre o contrário do que é formulado em seu
pensamento consciente, mas isso diz também o que é sempre o
mais sujo deste contrário. Vocês me dirão: mas então, no obsessi-
vo, é o objeto que fala, é o objeto pequeno a que fala e forma suas
idéias! Isto é, sem dúvida, o que devemos guardar porque se não
tentarmos compreender deste modo não haverá nenhum modo de
explicar porque o obsessivo está sempre parasitado por estas espé-
cies de lixo que lhe atravessam o espírito. Isso é algo que nos lem-
bra a existência do rato, de agora há pouco. O rato, poderemos
dizer o seguinte, se isso não parecer excessivo - é que o rato é um
excremento com um olho, com um olhar. É preciso dar um passo a
mais e considerar que o rato é um excremento com um olho mas
também com uma voz. Mas talvez a gente veja isto daqui a pouco;
vou adiantar que aquilo que estou propondo, ainda que eu passe
rapidamente por esta questão da forclusão, que merece desenvolvi-
mento, é o único modo que temos de explicar de maneira um
pouco racional o que se passa na neurose obsessiva, isto é, por que
os pensamentos que voltam não são pensamentos recalcados mas
pensamentos que se criam sem cessar e que têm a característica de
serem sujos e ultrajantes? E o obsessivo se pergunta: o que o habita
e se expressa deste modo? Quer dizer, ele, que renunciou à sua
existência de sujeito, eis que agora tem uma voz que se faz ouvir
nele e que não é mais que uma voz suja. É uma coisa muito curio-
sa, numa observação que Freud traz, porque ele explica a Ernst
Lanser que o sujeito do inconsciente é o sujeito de tudo aquilo que
é mal em nós. É muito curioso: por que o sujeito do inconsciente
seria o sujeito de tudo o que é mal em nós? E nós temos que res-
ponder a esta questão: por que, no obsessivo, que suturou a exis-
tência do sujeito, por que ele ouve uma voz que constantemente é
suja e que ele reconhece sempre que é uma voz que lhe pertence. O

111
. . . ·' :~ ·. ·..
Neurose Obsessiva

obsessivo não diz- como o psicótico ~ que "há alguém que fala em
mim e me dá as más idéias". Ele reconhece perfeitamente estas
idéias absurdas como sendo suas, pertencendo a ele porque este
objeto pequeno a, que fala nele, é aquilo que ele tem de mais ínti-
mo. É o que Hidegger chamava Dasein, o ser aí. É o que Lacan
dizia a seus alunos que recusavam seu ensino; ele lhes dizia efetiva-
mente: "comam o seu Dasein", como José Nazar citou no primeiro
dia. Porque este é o destino do obsessivo: absorver sem cessar seu
objeto pequeno a. E é por isso que o fantasma do urinol com dois
ratos, o suplício em Ernst Lanser, este suplício é efetivamente um
jogo auto-erótico, uma espécie de masturbação anal com este obje-
to excremencial, uma espécie de jogo ao qual se entrega o obsessi-
vo. É fazer como se fosse perder e reabsorvê-lo. Não sou responsá-
vel por isso mas é assim; se tivessem perguntado minha opinião, eu
teria feito as coisas de outra maneira. Mas não tive escolha. O que
estou dizendo explica porque é tão difícil estudar a neurose obses-
siva e porque, desde Freud, não houve nenhum trabalho que trou-
xesse a menor novidade sobre a questão. Porque trata-se aqui de
problemas que preferimos afastar. Eu não quero trazer mais peso
com rodas estas coisas já que nossa tarde é de conclusão. Mas, como
vocês sabem, a racionalidade de que precisamos para tratar deste
tipo de problema, nossa racionalidade tem como especificidade
suturar o real ao mesmo título que a religião. O que faz a nossa
religião? Afirmando que somos criaturas filhos de Deus, crianças
de Deus, criamos com ele um laço que vem, de algum modo, suturar
o corte que está entre o espaço sagrado em que se encontra Deus e
nós. Vocês sabem que, etimologicamente, religião significa laço
sagrado. A religião abole o corte entre Deus e nós pelo mecanismo
da filiação, quer dizer que o próprio da religião é vir abolir esta
sutura no Outro. A racionalidade, durante muito tempo, se quis
fazer oposição entre racionalidade e religião, mas a teologia, a par-

112
Charles Melm~n

tir dos séculos XI, XII, XIII, fundou-se nesta racionalidade, que é
a de Aristóteles, que é uma racionalidade muito bem construída,
muito bem feita; a teologia demonstrou que a racionalidade lhe
dava uma fundação absolutamente certa. Houve até mesmo um
grande racionalista e teólogo árabe, na França, chamado Averoes,
que viveu no XII, XIII século, no sul da Espanha, que dizia: quan-
do vocês lêem um texto religioso e vocês hesitam sobre seu sentido
então vocês devem saber que o seu verdadeiro sentido é sempre o
que corresponde à racionalidade. Em outras palavras, é como se
fosse a racionalidade que comandasse o texto religioso. O que faz
com que, quando nós abordamos o problema da neurose obsessiva
pela racionalidade, temos também esta espécie de exigência espon-
tânea a suturar e é por isso que Lacan traz uma categoria essencial
para evitar que caiamos no pensamento obsessivo: quando isola a
categoria do real, isto é, o que resiste à tomada pelo simbólico.
Estas são algumas considerações sobre o mecanismo que podemos
precisar da maneira seguinte, quando escrevo uma cadeia puramen-
te lógica, formalizada, por exemplo: vamos escrever qualquer coisa,
uma seqüência que não tem nenhuma importância. Vocês vão ob-
servar o seguinte: os mecanismos específicos da neurose obsessiva -
e ainda há pouco um de vocês me perguntou sobre isso - a anula-
ção, a denegação e o isolamento são exatamente idênticos ao que
acontece numa escritura lógica. E isso me surpreende a cada vez.
Este é um procedimento tipicamente obsessivo. A denegação
permite perfeitamente conservar o elemento. Mas vocês também
podem ter uma anulação; a anulação é como nos computadores,
quer dizer, por exemplo, se eu quiser anular estes dois elementos,
eu volto, e os suprimo, deleto. O isolamento é um outro procedi-
mento estritamente análogo ao que se passa na escrita lógica. Em
lógica, o isolamento é um parêntese. Em 1975, houve, em Roma,
o chamado II Congresso de Roma, e na época do Congresso apre-
sentei um trabalho - e talvez isso interesse a alguns entre vocês -

113
Neurose Obsessiva

que mostra de que modo o pensamento obsessivo obedece estrita-


mente ao tipo de escrita da lógica formal. Lacan estava lá e devo
dizer que este trabalho teve uma acolhida simpática, agradável, não
somente de Lacan mas também de meus colegas. Se vocês tiverem
-interesse, isto foi publicado na École Freudienne, Paris. Vocês vêem
que o que fiz com vocês foi retomar este ponto - do ponto de vista
metodológico é apaixonante - isto é, por que o pensamento obses-
sivo parece ser regido por uma escrita que é absolutamente análoga
à da lógica formal clássica. Inclui, inclusive, os problemas da rela-
ção à verdade porque, na lógica formal, para saber se vocês não se
enganaram, se um erro não se introduziu na sua escrita, vocês de-
vem sempre verificar toda a cadeia, devem verificar todos os ele-
mentos da cadeia para ver se não ocorreu um erro. É exatamente o
que faz o obsessivo. Ele é obrigado a voltar atrás sobre toda a cadeia
de seus pensamentos para saber se uma blasfêmia, um erro não foi
introduzido, quer dizer que a garantia da verdade- de que eu fala-
va, no começo - a única garantia da verdade está na existência do
sujeito; se esta existência é suprimida, a verdade só vai consistir na
consistência da cadeia formal e vocês serão obrigados a verificá-la o
tempo todo. E isso, como eu dizia, é o grande tormento do pensa-
mento obsessivo, de ter que voltar sempre; vocês sabem, ele sai de
casa e pensa: "será que fechei a torneira?" - então, ele volta e vai
fechar a torneira. Ele sai, de novo, e - "será que apaguei a luz?" - e
volta para verificar a eletricidade. É um verdadeiro suplício. O que
se pode fazer com isso? Cortar a eletricidade, a água ... só podemos
esperar que faça uma análise e aceite que há um corte na cadeia,
um corte que faça parar, em outras palavras, que ele aceite a di-
mensão do real e do impossível. Vocês vêem como tudo se mantém
aí dentro.
Um de vocês me perguntou se poderia haver um suporte
topológico próprio à neurose obsessiva. Eu tinha proposto um mas

114
Charles Melmon

a vida

•• , '' inconsciente
'

115
Neurose Obsessivo

o que posso fazer é propor ao exame de vocês: e vocês irão julgar. O


que acho é que há uma forma do nó borromeo que é própria à
neurose obsessiva e que pode ser escrita de duas maneiras. Vocês
sabem que o nó borromeo é feito de três círculos, o do Real, o do
Simbólico e o do Imaginário, que são nodulados borromeanamente.
Não se pode cortar um sem que os dois outros se separem. Lacan
dizia que, na neurose, o nó borromeo ficava reduzido a dois círcu-
los. O que proponho para a neurose obsessiva - a questão é saber
se é uma representação estética ou uma representação que possa
nos ser útil, o que não é a mesma coisa - eu propus, sobre a neuro-
se obsessiva, um nó borromeo composto do Imaginário, do Sim-
bólico, enquanto trata-se aí de uma cadeia, o Simbólico que pode
ser expresso por uma reta, enquanto que é pensado pelo obsessivo
que, se esta reta for até o infinito, ela é capaz de dominar o Real.
Mas, uma outra escrita que me parece possível cem sempre ames-
ma forma, em que se trata do círculo do Simbólico, onde é o Ima-
ginário que é pensado como sendo capaz, ele também, de reabsorver
o Real. Mas o problema não é saber para que eles nos servem, o

que podemos fazer com eles. Como vocês sabem, há no comporta-


mento do nosso obsessivo este notável tipo de divisão, que está
bastante próximo de nossa vida comum, que é ter uma parte da
176
Charles Melmon

existência que fica ocupada com o trabalho e o sacrifício e, quando


aparentemente as exigências foram satisfeitas, os sentimentos a que
podemos nos entregar, finalmente, ao gozo sexual, mas no caso do
obsessivo tem um goro sexual em que é visado, procurado com
freqüência, um gozo do tipo perverso. Eu me lembro de um pa-
ciente, que tive, que era um universitário que trabalhava com lógi-
ca... era o campeão da lógica. Quando caía a noite, ele pegava seu
carro e ia ver as prostitutas que circulavam pelas calçadas; não para
ir com uma delas mas simplesmente para verificar se estavam ali.
Quer dizer que sua paixão de lógico, durante o dia, que o levava a
escrever cadeias formais, que o levavam a excluir todo o agente do
desejo, a excluir, a forcluir o falo, ele tinha necessidade de verificar,
quando terminava o trabalho, que a causa do desejo existia, ainda
estava lá. E eu imagino o que teria sido sua angústia se ele tivesse
passado pelo bairro onde se encontram as prostitutas, em Paris, e
elas tivessem desaparecido.-Seria o fim do mundo. Aqueles de vocês
que se interessaram por Wittgenstein, sabem que ele se comporta-
va exatamente desta maneira, ou seja, durante o dia trabalhava em
rodos os seus escritos lógicos e, quando caía a noite, ele morava em
Liverpool, na época, e ia até o cais onde estavam os barcos para
encontrar um marinheiro homossexual. Eu estou trazendo isso tudo
para mostrar que este tipo de escrita pode ser útil, ter utilidade
para explicar um pouco esta clínica magnífica que é a da neurose
obsessiva.

A RELAÇÃO DO OBSESSIVO COM O OUTRO

Vamos tentar colocar um termo, um fechamento ao nosso


trabalho; agora há pouco, falamos sobre a questão do termo para o
obsessivo, mas comecemos pela questão de sua relação com outrém,

117
Neurose Obsessiva

o semelhante. Vocês conhecem hem a questão do estádio do espe-


lho, quer dizer, de que modo a criança constitui seu próprio eu, na
relação com o eu-ideal, esse eu-ideal que ela vê no espelho.
É a relação que, no esquema L de Lacan, constitui o eixo
imaginário i(a), o ideal, i'(a), o eu constituído na sua relação com o
ideal. Este eixo imaginário i(a) - i'(a) demonstra uma prevalência
notável, no obsessivo, na constituição de seu eu e na sua relação
com outrém, inclusive na sua relação com o pai - ele coloca o pai
no lugar ideal i(a) e coloca a si mesmo no lugar i'(a), isto é, no
lugar que está em posição de inferioridade em relação ao ideal - e
consegue sexualizar esta relação, colocando, portanto, a virilidade
do lado da imagem ideal e se feminilizando em relação a este ideal.

(Es) S a' (outro)


i'(a)

eu (moi)...,-----...-A (Outro)
i(a)

Quer dizer que ele considera que esta espécie de sacrifício, ao qual
consente, como sendo o que permite ao pai manter-se viril; ele
aceita uma cerra feminilização para assegurar a virilidade do pai.
Mas, é como se fosse o seu sacrifício que permite a seu pai ser viril;
ele sempre toma cuidado em não ultrapassar o pai porque, se ele
ultrapassasse o pai, isso seria sua própria queda, sua própria perda.
Mas, ao mesmo tempo, ele espera que seu pai morra, por conside-
rar que, neste momento, possa tomar seu lugar. O que é para nós

118
Charles Melmon

interessante constatar é que, no lugar desta imagem paterna pode


funcionar perfeitamente um irmão e, particularmente, um irmão
mais velho, mas também pode ser um irmão caçula. E sempre ha-
verá, necessariamente, um desejo de morte em relação a esta ima-
gem ideal já que ele considera, neste momento, que é sua ve:z de ir
para este lugar ideal. Poderíamos dizer que o que dá o estilo da
relação do obsessivo a outrém é precisamente apresentar-se sempre
como se se anulasse, se apagasse, como se ele deixasse a força, a
virilidade ao outro mas também como se fosse sua própria discri-
ção, seu próprio apagamento a condição da virilidade do outro e,
ao mesmo tempo, ele tem todo este voto de morte ao lugar do
outro para poder vir, enfim, a este lugar. Portamo, acredito que
este esquema L, de Lacan, em que o eixo imaginário i(a) - i'(a) se
torna efetivamente prevalente assim que se afasta o outro eixo que
o cruza, que é o eixo S - A; então, vemos de que modo este
imaginário se mostra portador de conseqüências clínicas que nos
interessam particularmente.
A questão que foi também colocada nesta ocasião é: qual é o
tipo de pai que cria o obsessivo? Pode-se dizer que o tipo de pai que
cria o obsessivo pode ser perfeitamente o pai, eu diria, para quem o
filho experimenta todo o ódio edipiano, demonstrado por Freud,
porque ele o priva de sua mãe. Vemos como o eixo imaginário i(a)
- i'(a) permite esconder este ódio pelo pai por demonstrações de
admiração pelo ideal mas é um ideal ao qual o filho não se assimi-
la; ele tem o cuidado de estar sempre em posição de inferioridade
em relação a este ideal para preservar esta imagem do pai.
Uma outra questão importante, que foi levantada durante
estes dias, é a questão da indecisão do obsessivo. Por que ele espera
sempre que seja um outro que decida por ele? Uma decisão sempre
implica numa renúncia; quando vocês tomam uma decisão quer

119
Neurose Obsessivo

dizer que vocês não podem manter tudo junto. Vocês têm que fa-
zer uma escolha. E há elementos aos quais vocês vão ter de renun-
ciar. Uma decisão é isso. E na medida em que o obsessivo não pode
respeitar esta decisão primeira, que é a matriz de todas as outras
decisões, ou seja, a renúncia ao objeto pequeno a, a secção, a separa-
ção dele, o obsessivo não pode mais tomar nenhuma decisão, já
que não pode mais aceitar nenhuma iniciativa que significaria uma
certa perda, uma certa renúncia. O pai de Ernst insistiu para que
ele tomasse decisões na sua vida e ele não pode tomar nenhuma.
Na obsessividade de Ernst há também o caráter bem especí-
fico da relação do obsessivo com o fim, o termo. E como ele cuida
para que nada termine, para que nada chegue ao fim! Por exemplo,
ele iniciou os escudos e é claro que ele não consegue terminá-los. E
sabemos que é um sintoma bastante freqüente e banal mas, no
obsessivo, chegar ao fim tem uma significação muito precisa por-
que o fim seria justamente a morte deste pai e tomar seu lugar. Ou
seja, para ele tudo se passa como se o campo da virilidade fosse
ocupado por um único homem e como se todos os outros lugares
fossem lugares femininos; seria preciso esperar que o lugar do ho-
mem ficasse vazio para ter o direito de ocupar este lugar. Portanto,
o obsessivo tem medo principalmente de chegar ao fim, e é bem
evidente que um grande número destes atos falhas serão os modos
que vão impedi-lo de ter sucesso; e, principalmente, ele não pode
conseguir nada já que isto seria a realização de seu voto e ele seria
culpado pela morte de seu pai. E como eu observei ontem, de muito
bom grado, é após a morte de um irmão que uma criança vai se
tornar obsessiva. É como se ali seu voto tivesse se realizado e que
ele entrasse, neste momento, no mecanismo infernal de ter realiza-
do seu voto.

120
Charles Melman

Uma questão, também muito interessante, me foi colocada a


propósito do tempo variável da sessão com o obsessivo. Acontece
para mim receber pacientes que já tiveram análises anteriores, em
que ficaram habituados à sessões de duração fixa e, depois que
chegam até mim, encontram-se expostos à sessões de duração vari-
ável. Evidentemente, isto tem conseqüências e efeitos imediatos;
os efeitos de revolta, de protestos, ameaças de abandonar a cura, de
denúncia de minha arbitrariedade, e depois, quando este tipo de
paciente obsessivo chega a compreender o interesse deste corte,
uma grande mudança se produz. Por que? Porque, primeiro, o cor-
te na sessão é necessário para que o analista faça uma pontuação. O
problema da pontuação de um texto é um problema fundamental
porque é a pontuação que dá sentido ao texto. Vocês sabem que os
textos sagrados que nos foram transmitidos são textos que não têm
pontuação. E, segundo a pontuação que é colocada, podem ter
sentidos totalmente diferentes. Em Paris, com nosso grupo, fize-
mos jornadas sobre a pontuação com lingüistas, com revisores de
jornais, que trabalham justamente com a pontuação de textos - e
foram jornadas muito interessantes. Porque para a pontuação de
textos obsessivos, ainda que para ele constitua uma violência, é o
que vem introduzir sentido a um propósito que, de outra maneira,
permaneceria ambíguo e equívoco. E é assim que parar o propósi-
to de um paciente num ou noutro lugar pode vir dar a uma sessão
um sentido completamente diferente. Eu acho que cada analista
escolhe seu modo de trabalhar e o modo como vai fazer o corte em
cada sessão; isto quer dizer que não faço da sessão de duração vari-
ável uma regra. Lacan fazia sessões de duração variável mas eu tive
com ele sessões de duração fixa, de mais ou menos vinte e cinco
minutos ou meia hora. Em 1963, tinha vindo a Paris uma comis-
são de pesquisa da IPA que considerava que estas sessões de dura-

121
Neurose Obsessivo

ção variável não eram ortodoxas e Lacan obedeceu às recomenda-


ções dos enviados da IPA; assim, pude conhecer sessões de duração
fixa. Devo dizer que pessoalmente isso me causou desorientação
porque o agente da pontuação, o responsável pela pontuação não
era mais o mesmo. No caso das sessões de duração variável, a inter-
rupção feita pelo analista tentava me significar o que podia haver
de desejo engajado no meu propósito e que a pontuação podia me
permitir ouvir, enquanto que a pontuação imposta pelo tempo fixo
tem para nós outra significação. O que significa esta pontuação
imposta pelo tempo fixo? Não que não signifique nada, ela signifi-
ca algo. O que ela significa? Ela significa que basta colocar o tempo
necessário para chegar, não a necessidade de trabalhar, mas de dei-
xar o tempo necessário para chegar. Introduzam isto numa pro-
blemática do tipo obsessivo: eu não tenho muito a fazer, basta dei-
xar o tempo passar e vou chegar; dito de outra maneira, com o
tempo, meu pai terminará por morrer e eu vou chegar e não vou
ter feito nada, nada será por minha culpa. O que quero di:zer é que
o uso do tempo nunca é inocente e o chamado tempo fixo numa
cura não pode ser inocente. Isso também significa alguma coisa. E
acho que seria desejável que os psicanalistas entendessem a signifi-
cação que o tempo fixo possa implicar. Talvez fosse preciso traba-
lhar coletivamente sobre a questão do tempo. Vocês sabem que
Lacan introduziu na lógica a questão do tempo. Nenhum lógico
fez isto. O que isso quer di:zer, este trabalho que ele fez sobre o
sofisma do tempo lógico ou a asserção da certeza antecipada? Quer
dizer que a verdade não é a mesma segundo o tempo que o que é
verdade num dado momento não o será mais num tempo poste-
rior; e que a verdade não depende unicamente da minha decisão
mas depende também daqueles com quem estou;e se perdemos
este momento de verdade, ficaremos todos juntos aprisionados.

122
Charles Melmon

Vocês sabem que o sofisma do tempo lógico concerne à história de


3 prisioneiros. Eis algo de muito interessante, introduzido por
Lacan, sobre a questão da verdade do tempo e sobretudo sobre o
fato de que a verdade não pode ser individual. Não posso ter razão
sozinho. A verdade também é uma questão coletiva e também de
saber se estamos de acordo, ao mesmo tempo e, depois, acabou,
perdeu-se.
Há ainda uma questão sobre a qual direi uma palavra, antes
de concluir sobre este evento muito agradável, que é esta boa nova:
Ernst Lanser foi curado. O último ponto que vou tratar, antes des-
ta boa nova, é a questão do desejo insatisfeito, na histérica, e do
desejo impossível de satisfazer, no obsessivo. Desejo que permane-
ce insatisfeito para a histérica, isso acho que a gente compreende
bem. Se a histérica quer ficar insatisfeita é justamente porque o
que ela queria era a castração que viria fundar seu desejo próprio e
não ser sempre tributária, ser um eco em resposta ao desejo dos
outros e dever gozar segundo o gozo dos outros, inclusive pela ques-
tão do gozo parcial. Portanto, a questão do desejo que a histérica
quer que permaneça insatisfeito, acho que é facilmente compreen-
dido. A questão do desejo impossível de ser satisfeito para o obses-
sivo é que, no momento em que ele atinge o objeto pequeno a, o
sujeito se eclipsa, o sujeito desaparece porque o sujeito enquanto
tal só existe enquanto permanece à distância do objeto pequeno a; o
que faz com que o sujeito morra no momento em que atinge seu
objeto. E é por isso que o gozo do obsessivo, mesmo quando ele é
perverso, é um gozo que nunca consegue ser perfeito. Aí também é
uma impossibilidade estrutural.
Voltemos, então, para terminar, sobre Ernst Lanser e o modo
como Freud o trata. Freud o trata de modo muito interessante,
quer dizer, como se conhecesse tudo sobre a neurose obsessiva. E

723
Neurose Obsessiva

ele faz interpretações, o tempo todo, para Ernst. Ele lhe explica,
sem parar, seu sintoma. Ele faz com que tudo volte ao ódio sobre o
pai. Quer dizer que Freud reage à neurose obsessiva de seu pacien-
te com um saber que estaria completamente fechado e pratica-
mente igual ao de um obsessivo. Há um momento em que Ernst
chega a uma sessão e lhe conta que fez um sonho; era um mapa de
geografia em que estavam escritas 3 letras: W, L e K. E o L tinha a
particularidade de ser um L polonês, quer dizer, com uma barra
sobre o L. E estas três letras - W,L,K - em que era preciso colocar
vogais para que se pudesse ler, estas três letras em polonês pode-
riam significar grande ou velho; e nisso Freud se enganou um pou-
co, mas não tem importância. E sobre estas três letras, quero que
vocês notem que, estas três letras são escritas com traços UM, com
traços unários. Não tem nem C, nem D, nem R, nem G, são três
letras unicamente feitas com reuniões do traço UM, que Lacan
chama de traço unário. E Freud se engaja numa série de interpreta-
ções sobre estas três letras, todas as explicações que vocês quiserem
e quanto mais Freud dá estas explicações, mais contente Ernst
fica. Isso o diverte muito. Faz com que ria muito porque ele vê
que, para interpretar estas 3 letras, Freud diz qualquer coisa, e não
sabe. Quer dizer que há, no saber de seu analista, um buraco -
Freud não sabe - e para dizer a verdade, não há nada a saber sobre
estas três letras porque uma letra não tem nenhum sentido e pode ter
todos os sentidos. E notem esta inteligência da neurose, esta inteli-
gência do obsessivo que vem opor ao jogo de significantes em Freud,
os significantes que sempre têm um sentido, vem opor o jogo da letra
que, por si só, não tem nenhum sentido e, no entanto, é com ojogo da
letra que nosso inconsciente é organizado e determina nosso destino
segundo a leitura que vamos fazer dele. Mas, em todo caso, quando
Ernst fica curado foi por constatar que o saber de seu analista tem

124
Charles Melman

limites; isso o alivia consideravelmente. Ele é capaz de deixar Freud


dentro das melhores relações e lhe agradecendo pelo tratamento
que lhe foi dado. Vocês vão dizer que isso é um paradoxo porque
ele não lhe agradece por todo o seu saber; ele lhe agradece por ter
sabido, ele, Ernst Lanser, provocar em Freud as circunstâncias, este
fato de revelar que havia um limite a seu saber e que, precisamente,
a letra era constitutiva de tudo o que fazia limite a este saber. Creio
que este elemento que Freud desconhece - porque acho que esta
atitude de Freud que quer sempre dar explicações ao paciente vá
dar um certo estilo à análise futura. Sei bem que todos nós temos
vontade de dar explicações e interpretações aos nossos pacientes,
mas creio que é preciso manter na memória o que aconteceu a
Ernst Lanser, isto é, o fato de fazer aceitar pelo paciente que a
andLise não tem explicações universais.
Vou parar neste ponto, e talvez eu já tenha dito isto, não sei
mais, é que quando Lacan ouvia seus pacientes era sempre como se
tivesse necessidade de constituir seu saber. Não como se estivesse
diante de seu paciente com um saber capaz de tudo decifrar mas
era como se, com cada paciente, ele fosse inventar o tipo de saber
capaz de responder a sua singularidade. Nós não somos todos ca-
pazes de fazer isto. E o problema não está aí. O problema é que
reflitamos sobre todos estes pontos, já que evidentemente eles têm
uma certa importância na condução da cura. Creio que, durante
estes três dias, fizemos muitos caminhos e aqui também eu não
trouxe um saber completo. Há, evidentemente, em mim mesmo,
um grande número de interrogações, mas acho que o interesse des-
te trabalho é que estas interrogações prossigam coletivamente e
que vocês participem das elaborações destas dificuldades, do modo
que lhes é próprio.

125
Neurose Obsessivo

Para terminar, gostaria de agradecer Teresa e José Nazar pela


organização muito atenta, amigável e cordial destes dias. Gostaria
de agradecer a atenção de vocês, pela qual fico muito sensibilizado
.e lhes digo: coragem; e espero que até breve, seja no Brasil, em
Paris ou em qualquer lugar.
a neurose obsessiva
J QIJP proç H'I") 11~,.,~t,H ,ente à atP ,,ao de vocês e que ,
pai , llé o ou5ess1vo v1s;i é. pr meu a1•1er1te, para o obsessivo.
o µz,, ci 1e está no O,itro. Ê aq~~:" que Laciln rhama de
;11. 11~nos-11m. E. o obs~ss1vo v1Sil este p;i1 que esta no 011tro. o au-
' ,,,,os 1m1. Também qu<>r d12P.1 aQ'Jele -tue esta no Heal ,. Pie o
v,sa tentando c.ast1 à 10 po seu ,,r 1,Jr. Ca5trar o pai p,., ,eu amo !
Que l11stona t, us1~1 Lta historia t, ·, mesma de noss;i religião 1
pai q11e .1rnamo, na 1Pltgião enqua, to elt: ?> µuro e1111or r,o, seu~
ftlhos P enq 1antn renunciou ao sexo. Para os gregos e para os P">
manos tal coiS<111unci! 1:!,'<;Sl 111. é unia cncti,.!'io, u111a força de nu~~d
religião ter estabelec,du urn pai que nos ama. que para nós é pu,o
a1110!. ,na, que, elt: me~mo. é fora do s,::~o. E é p9, ,s:o q,1e do11
~sta poquena nota clinica com freqüência. o onse,~1vo am;i
"'li"' dHJS. Voe és se11,p1e v!lo podi:,r verificar isto: el•' 51'111pn• tem
un' ~p,::go µa1t1cu!ar pelos avós. Vocês me dtt,l<. atP.11~J1l, mas •
Deus 1udeu_ é u_rn DP11~ qu" 11ào i> some11te_ puro amor, é 11r1 üew.
CIIJ'"1"' to. P tarnuém e t111 f>Pu, guerre,ro ma, i'I esta a força
pr6µ11a. a rnvP11~áo, ;; cnaçã,, º"' ,os~a reltgri\ri - ;, u111 Df'tis

fora d0-sexo.

C/IARLE.S MELMAN pSNJll<,1/'J , p.11c,w1/,5/~. M•lf' d,


u~11,sta f'assates. f, um dus pr1(!(,1pa,s i!lngtnte:s de Et(i#f.
1,'

f"-t1dlt!n11,. dt P,lh atfl,n dt siv tundRárr cJJ Ass«1ahon


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'"'"- ,f',\ IJ'II.


Pie ,s.sf,, i q.,;o Gra"des Tites

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