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CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

Comissão Episcopal Pastoral para a Ação


Sociotransformadora
Centro Nacional de Fé e Política “Dom Helder Câmara” -
CEFEP
Capacitação de Conselheiros e Conselheiras de Políticas
Públicas

3ª Edição

Módulo II: DIREITOS HUMANOS E SOCIAIS NO ARCABOUÇO JURÍDICO E POLÍTICO


BRASILEIRO

Sueli Aparecida Bellato


Religiosa, advogada, mestra pelo Programa de Pós-Graduação
de Direitos Humanos da Universidade de Brasília

O título Direitos Humanos e Sociais no Arcabouço Jurídico e Político Brasileiro indica que os
Direitos Humanos no Brasil estão assentados em uma estrutura que tem seu fundamento nos
atos devidos e permitidos aos cidadãos e cidadãs e nos atos devidos aos governantes.
A constituição, a lei, a lei complementar, a lei ordinária, o decreto, a portaria, a resolução, a
instrução, são as fontes do direito, e compõem o sistema normativo designado ordenamento
jurídico, a coluna vertebral ou o Arcabouço legal ou jurídico.
Na estrutura figurada de uma pirâmide a Constituição é a lei maior. O jurista Sérgio Sérvulo da
Cunho 1 define de forma pedagógica a importância e alcance das leis e da Constituição:

“Há centenas de definições de Constituição; os juristas apontam as várias


características que a diferenciam da lei ordinária. Indicarei, de início uma só: toda lei
tem destinatário , aquele a quem é dirigida a e que deve observá-la; as leis ordinárias
dirigem-se às pessoas em geral, ou a conjuntos determinados de pessoas em razão do
sexo, idade, estado civil, profissão, etc.; o governo faz as leis endereçando-as ao povo
em geral, ou a determinado conjunto de pessoas dentro do povo.
Com a Constituição acontece o contrário: quem a faz é o povo, e seu
destinatário é o governo. Com ela o povo constitui o governo. Constituir é diferente de
eleger um governo. O povo, ao constituir diz : a) como se organiza o governo; b) quem
está autorizado a governar e c) o modo que deseja ser governado, isto é, o que o
governo pode, o que não pode e o que deve fazer.
E conclui a síntese e o objetivo da Constituição: Em resumo: somente
com base na lei magna pode o governo fazer ou deixar de fazer alguma coisa”.

1
Fundamentos de Direito Constitucional, Editora Saraiva, 2001.

1
Não obstante a afirmação sugerir algo assentado num esqueleto, base fixa, sabemos que os
direitos humanos decorrem de um movimento civilizatório e derivado da evolução da
sociedade. Mais do que enumerar neste artigo o elenco de Leis e Normas que compõe a
legislação de proteção dos direitos humanos no Brasil apresento uma reflexão sobre o que fez
consagrar a prevalência dos direitos humanos2 no ordenamento contemporâneo brasileiro,
sua importância de sua preservação e processos de aperfeiçoamento.
O grande marco na história da humanidade conta do registro das ideias e compromissos no
século XVIII com a Declaração de Virgínia (1776) firmada durante o Movimento de
Independência dos Estados Unidos e considerada a primeira declaração dos direitos da época
moderna e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) elaborada durante a
Revolução Francesa. No tempo contemporâneo, um diploma internacional, a Declaração
Universal dos Direitos do Homem (ONU, 1948), nos pós período da 1ª. e 2ª. Guerra Mundial
que passou a proteger a humanidade.
Todavia, mais que a boa influência das afirmações de Declarações Direitos Humanos de outros
povos, o arcabouço jurídico que consagra os Direitos Humanos no Brasil, ouso afirmar, deriva
do campo e da cidade, das aldeias indígenas, dos biomas, da defesa da vida em sua plenitude,
da liberdade de expressão e organização social que tenha em vista a afirmação da democracia
e da paz social. Estas expressões, e outras ditadas pelo povo, estão inseridas na Constituição
Federal promulgada em 05 de outubro de 1988.
É importante lembrar que as declarações de direitos humanos podem influenciar e serem
influenciadas pelos direitos declarados por outros povos e Nações. No entanto, é real o
descompasso histórico do Brasil em relação a outros países na defesa e afirmação dos direitos
humanos desde à época do ataque aos povos originários e escravizados que para cá vieram
trazidos à força no Brasil Colonial. O salto de qualidade em favor da positivação dos direitos
humanos deu-se após o término da ditadura militar em 1985.
A ilustração da prática de violência e impunidade retrocede à época do Brasil colônia arrolando
desde os massacres contra povos indígenas, como aquele promovido pelo Governador Geral
da Bahia, Mem de Sá, contra os Tupinambás que expôs milhares de corpos nas margens do Rio
Cururupe, na Bahia, a tortura e morte contra os escravos trazidos da África e praticada ainda
hoje por agentes do Estado que deveriam ser os primeiros guardiões dos direitos
constitucionais. A História registra entre a chegada dos europeus ao Brasil e a proclamação do
fim do tráfico de africanos mais de 300 anos de sistemática negação dos direitos humanos sem
que nunca o Estado tenha manifestado arrependimento e alguma forma de reparação
econômica e moral.
Invoco também entre as grandes violações de direitos humanos que o Brasil esteve envolvido
a guerra fratricida, nos anos 1864-1870, contra o Paraguai em que, do lado brasileiro, os
milhares de combatentes, a maioria deles escravizados, e, do lado paraguaio, um Exército
inferior, desigual em números e armamentos, composto inclusive por crianças de 06 a 15 anos.
O estado de miséria que o Brasil submeteu o Paraguai foi compatível a de impérios tiranos.
É certo afirmar que, algumas vezes os avanços ao respeito dos direitos humanos podem
influenciar e exercer um papel inibidor, em outros casos, o Estado violador se isola e nega os
reflexos negativos nos processos civilizatórios.
Assim, o fato de ser considerada inédita, a Declaração da Virginia, 1776, não se quer dizer que
só se reconheça a afirmação dos direitos humanos a partir de então, até porque por muitos

2
II, do Art. 4º da CF

2
séculos e lugares prevaleceu a transmissão oral das leis e costumes. O prof. Manoel Gonçalves
Ferreira Filho cita Sófocles, em Antígona, como o primeiro a falar em direitos fundamentais;
Cícero é outro doutrinador primitivo que defendeu os Direitos Fundamentais; e a Magna Carta,
outorgada por João sem Terra, no ano de 1215, é um dos marcos documentais sobre o tema.
No século XVII são inúmeros os autores que defenderam a ideia dos direitos humanos, mas foi,
efetivamente no século iluminado (XVIII) que houve grandes mudanças no rumo da
humanidade. Começando com a Declaração de Virgínia, posteriormente com a Revolução
Francesa e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão em 1789. A Liberdade, a
igualdade e a fraternidade eram proclamadas pelos revolucionários franceses, constituindo o
primeiro registro dos chamados direitos humanos de primeira geração (liberdades públicas).
No entanto, a assimilação universal dos direitos franceses não se tornaram reconhecidos
universalmente de forma automática, sequer para os franceses, que dirá para outros povos
distantes como o Brasil?
O jurista DALMO DALLARI[2], comentando a expressão direitos humanos, lavrou valiosa lição
dizendo ser “uma forma abreviada de mencionar os direitos fundamentais da pessoa humana”
e que “esses direitos são considerados fundamentais porque sem eles a pessoa humana não
consegue existir ou não é capaz de se desenvolver e de participar plenamente da vida.”. Dallari
fala ainda em necessidades essências da pessoa humana[3].
Assim as necessidades foram sendo reconhecidas como direitos na medida que a sociedade
também evoluiu: Direito à saúde, à educação, à moradia, à segurança, ao trabalho, à proteção
social etc.
Outra referência importante diz respeito ao próprio direito como conjunto de normas, quer se
refira ao positivo ou natural. O direito positivo são as normas criadas e postas em vigor pelo
Estado; o direito natural são as normas derivadas da natureza, ou seja, são as leis naturais que
orientam o comportamento humano, os direitos fundamentais.
Os direitos humanos não devem ser vistos como assunto abstrato porque quando falamos dos
direitos estamos falando em direitos essenciais, falamos de deveres, falamos de indivíduos, de
grupos coletivos e de Estados, falamos da vida e das condições para que a vida aconteça.
Assim do estado natural os direitos humanos passaram a fazer parte estruturante da
Constituição Federal.
Estado e sociedade devem ser operadores e vigilantes dos direitos, quer sejam eles derivados
do direito natural, quer decorram da vontade do legislador. A sociedade produz suas normas
de convivência em razão de uma compreensão de felicidade, de harmonia, de satisfação geral.

No Brasil, a grande representação do arcabouço jurídico é sem dúvida a Constituição Federal


promulgada em 05 de outubro de 1988. E é aqui que desejo me deter para favorecer a reflexão da
importância do arcabouço jurídico.

A nossa Carta Maior foi gestada com muita luta, suor e sangue no enfrentamento ao autoritarismo que
o país sofreu por 21 anos, após a derrubada do Presidente da República João Goulart em 1964. Mas
não foi só o sonho por liberdade que moveu a sociedade brasileira e a fez ir à luta contra a ditadura. O
sonho de muitos de superação das grandes desigualdades, a concentração de terra e riqueza nas mãos
de poucos, a relação exploradora da mão de trabalho e da natureza, a censura, todas as formas de
preconceitos, entre outros, concorreram no esforço de combater o regime autoritário inibidor das
lutas por democracia e justiça.

Ao fim e ao cabo o regime militar além de prender, matar e desaparecer mostrou-se péssimo gestor.

3
As desigualdades que tanto aumentaram que não ocorreram de forma natural, mas como fruto de
políticas para conter a inflação que, entre 1964 e 1984, em média de 64,5% ao ano 3. Com o regime
militar escancarando suas tremendas contradições, o Congresso ainda recusou ao povo brasileiro a
volta das eleições diretas e elegeu em 1985 para presidente da república, de forma indireta, o
representante da oposição, MDB, Tancredo Neves contra o candidato da situação, Arena, Paulo Maluf.
Tancredo, na busca de apoiadores para sua vitória na disputa eleitoral, prometeu em sua campanha a
convocação da Assembleia Nacional Constituinte, Anistia geral e irrestrita e a volta das eleições diretas.
Com a morte do candidato eleito assumiu a presidência da República, seu vice, José Sarney. Coube a
José Sarney cumprir a promessa de campanha e encaminhar para o Congresso o Projeto de Emenda
Constitucional.

Assim, no dia 15 de março de 1985, num dos seus primeiros e mais importantes atos, o presidente da
República José Sarney encaminhou para o presidente da Câmara dos Deputados e Presidente do
Senado Federal , o projeto de Emenda Constitucional com as seguintes palavras:

“As nações, como os homens que a constituem, são imperfeitas construções da História. Não há
povos — nem homens — servidos apenas de virtudes, nem aqueles submissos inteiramente aos
pecados.
Mas ao mesmo tempo as nações, como os homens, carregam em si, com suas imperfeições, a busca
do ideal e da perfeição, procurando recuperar os caminhos que tenham sido perdidos nas tardes da
aventura e nas noites do medo. É, pois, sinal do homem, assim como das nações, a ânsia da
perfeição.
Reunimo-nos hoje para um ato de grandeza nacional. Vamos, com a consciência da importância
deste gesto, pedir ao povo que, através dos delegados que vier a escolher, reordene a vida
institucional do País. Cumprindo o mais grave dos compromissos que, em aliança democrática,
assumimos com a Nação, estamos encaminhando ao Legislativo proposta de Emenda Constitucional
que dê aos seus representantes, a serem eleitos em novembro do ano próximo, poderes para
elaborar e promulgar a nova lei fundamental e suprema do País.
A primeira das nossas crises está no desajuste entre a ordem jurídica e a realidade política e social.
Não há leis que possam sobrepor-se à vontade dos cidadãos, por mais que se subordinem à
sabedoria e à ética. As leis que pretendam, pela força do Estado, disciplinar e elevar a cidadania
produzem resultados inteiramente opostos. As virtudes que se decretam mudam-se em vilania e só o
terror pode manter de pé tais sistemas insensatos.
Por outro lado, não há instituições que durem mais do que as circunstâncias que as tenham
estabelecido. Vivemos em tempos de mudanças, e os homens, ao transformarem a natureza,
transformam-se também, reclamando novas normas de convívio social.
Encontram-se, na história de todas as nações, respostas institucionais a desafios inesperados.
Quando há perigo iminente para a sobrevivência dos povos reunidos em Estados, cabe à inteligência
política encontrar, e com decisão, a resposta certa. Recordo-me, entre outros exemplos, da coragem
de Roosevelt com o New Deal, naqueles assustadores anos 30. Não fora a ousadia do grande líder
em adotar, na emergência, medidas que rompiam amarras, e talvez outros tivessem sido, uma
década mais tarde, a sorte da guerra e o destino do mundo.
Senhores,
A proposta que enviamos ao Congresso Nacional corresponde às circunstâncias da atualidade
política. Não há normas que determinem o modo de convocar-se poder constituinte; para os que a

3
https://ideiasradicais.com.br/a-economia-na-ditadura-militar-foi-uma-
tragedia/#:~:text=Infla%C3%A7%C3%A3o%20como%20imposto%20O%20aumento%20da%20
desigualdade%20que,o%20governo%20determinava%20o%20valor%20dos%20reajustes%20sa
lariais. In 16.07.20

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promulgam, a Constituição será sempre documento com intenção de permanência.
A Constituinte será — graças ao bom senso político de toda a Nação — um marco seguro no caminho
da conciliação.
Assim, depois de haver consultado as forças políticas que compõem a nossa coalizão de governo e de
ouvir eminentes constitucionalistas, optei pelo rito de propor ao Congresso a presente Emenda
Constitucional.
Tenho, nestes meses, procurado governar com a visão maior do que representa para o País o
Congresso Nacional. Estou convencido de que todos nós, nesta hora difícil, saberemos assumir as
nossas responsabilidades para com a Pátria. Os nossos problemas são graves demais para que nos
permitamos o desfrute do capricho da intolerância, o equívoco do radicalismo e a arrogância da
soberba. Não podemos, os homens públicos, ter hoje outro orgulho que não seja o de pertencermos
a um povo que tem sabido sofrer sem desespero e que, mais uma vez, dá às elites do País lições de
patriotismo.
A convocação, agora, do Poder Constituinte para as eleições de 1986 irá facilitar e estimular o debate
político em torno do Estado. É uma circunstância que favorece a Nação. Não iremos votar uma
Constituição às pressas, com um poder constituinte escolhido no açodamento. Vamos começar —
aliás, já começamos — a votá-la, na realidade, nos debates que ocorrem de norte a sul do País.
Ninguém é mais criador que o povo.
O debate amplo haverá de conferir, como desejava Tancredo Neves, representação mais autêntica
aos delegados constituintes. Haverá tempo para que os eleitores lhes conheçam as ideias e
programas e deles alcancem o compromisso de criar um documento que atenda às reivindicações
nacionais.
Senhores,
Quero encerrar com um agradecimento ao povo brasileiro. Disse à Nação, em um dos momentos
mais fortes destas jornadas carregadas de crises, que eu procuraria ser maior do que sou, para
responder a uma responsabilidade histórica. Não perderei nunca o senso grave de meu dever, e o
apoio de nossa gente serve a minha modéstia com a coragem e a energia que a Nação espera e exige
de seu Presidente.
A todos quero dizer que as dificuldades não serão maiores do que a minha determinação, e que, com
a lucidez de nossos homens públicos e a sabedoria da Nação, levaremos este País ao seu grande
destino democrático.
Agradeço aos Presidentes da Câmara e do Senado, aos líderes dos partidos, aos congressistas e a
todas as autoridades presentes o prestígio que emprestam a esta solenidade.

Senhores,
Quero encerrar com um agradecimento ao povo brasileiro. Disse à Nação, em um dos momentos
mais fortes destas jornadas carregadas de crises, que eu procuraria ser maior do que sou, para
responder a uma responsabilidade histórica. Não perderei nunca o senso grave de meu dever, e o
apoio de nossa gente serve a minha modéstia com a coragem e a energia que a Nação espera e exige
de seu Presidente.
A todos quero dizer que as dificuldades não serão maiores do que a minha determinação, e que, com
a lucidez de nossos homens públicos e a sabedoria da Nação, levaremos este País ao seu grande
destino democrático.
Agradeço aos Presidentes da Câmara e do Senado, aos líderes dos partidos, aos congressistas e a
todas as autoridades presentes o prestígio que emprestam a esta solenidade.

Aos 27 de novembro de 1985, os presidentes da Câmara, Ulysses Guimarães e do Senado Federal, Jose
Fragelli, promulgaram a Emenda à Constituinte vigente à época que recebeu o número nº 26/85. A
mesma emenda previa os dois marcos imprescindíveis para retomada da democracia: a convocação da
Assembleia Nacional Constituinte e Anistia aos acusados de crimes políticos, ou crimes conexos, bem

5
como dirigentes sindicais e estudantis de perseguições, inclusive servidores públicos . Esta anistia
ampliou a anistia concedida em 1979 que iniciou, segundo o governo militar “a abertura lenta e
gradual”. Esta importante sinalização significava que a condição para retomada da democracia e da
elaboração de um pacto para construção de novas relações só poderia acontecer com a participação de
todos os brasileiros, inclusive os que se encontravam no exílio e nas prisões acusados de atentarem
contra o regime militar.

No ano de 1986 foram eleitos parlamentares, deputados e senadores, dentre eles apenas 26 mulheres
e todas deputadas. Ainda remanesciam os senadores biônicos e 1/3 do Senado não foi renovado.
Assim a Assembleia Nacional Constituinte, formada pelos parlamentares eleitos e senadores biônicos,
foi instalada no Congresso Nacional, em Brasília, a 1º de fevereiro de 1987 e teve suas atividades
encerradas no ano seguinte, em 22 setembro de 1988.

Com a tarefa de elaborar o anteprojeto da Constituição, o jurista mineiro, Senador Afonso Arino, foi
nomeado para presidir a Comissão Provisória de Estudos Constitucionais, que tinha como missão
elaborar o anteprojeto da Constituição.
Sem o condão de Congresso exclusivamente constituinte como pleiteava a sociedade civil, os
congressistas O fato de o Congresso estar elaborando um anteprojeto de Constituição, em meio a
outras atividades parlamentares, motivou ainda mais a sociedade organizada buscar formas de
influenciar o novo alicerce constitucional. Todas as categorias, todos os segmentos, urbanos e rurais
puseram a mão na massa. Os trabalhadores rurais, por exemplo assessorado pelas entidades do
campo, elaboraram cartilhas de conscientização e chamada para participação; era a Constituinte na
roça, liderada pela Comissão Pastoral da Terra. Da mesma forma as organizações Indígenas,
Quilombolas etc. os trabalhadores e dirigentes sindicais também viram a chance de construir novas
relações entre patrões e empregados.
Brasília ganhou uma nova dinâmica e mobilidade de pessoas vindas de toda parte do país, interessadas
em contribuir nos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte. Os parlamentares realizaram
centenas de audiências para ouvir os pleitos da sociedade e suas proposições.
E, assim, o constituinte ouviu os representados e gravou nas primeiras linhas da Nova Carta a
promessa de constituir um Estado Democrático de Direito e cujos fundamentos a soberania, a
cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o
pluralismo político, são pilares constituintes.
Seus objetivos fundamentais afirma o artigo 3º é a construção de uma sociedade livre, justa e solidária;
a garantia do desenvolvimento nacional a erradicação da pobreza, da marginalização e redução das
desigualdades sociais e regionais, a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça,
sexo, cor e idade e quaisquer formas de discriminação.

É notória a tendência na Constituição da formação de um Estado próximo do Estado


Previdência, do Estado do Bem Estar Social sem poder ignorar as travas que foram demarcadas
nas acirradas disputas do capital e do trabalho, da defesa do bem comum e da propriedade
privada e do sistema financeiro. Todavia, não acredito que possa ser negada que a
Constituição de 1988 foi a melhor Constituição que a sociedade brasileira, em meio às suas
contradições, logrou conquistar.

Vem das ruas também o espírito participativo na defesa e manutenção das conquistas
constitucionais. Não seria suficiente conquistar uma nova Constituição, Eleições diretas,
Anistia aos perseguidos políticos se não se lograsse instrumentos de controle, como o
Ministério Público, Tribunal de Contas, Polícia Federal, livres se subserviências. De norte a sul
do país eclodiram efetivas contribuições populares para apontar caminhos que apontassem

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para uma efetiva democracia. Exemplo são os conselhos gravados no texto constitucional
como competentes para formular, implementar e controlar socialmente as políticas públicas.

O § 2° do art. 74 da Constituição garante o direito a qualquer cidadão, partido político,


associação ou sindicato de apresentar denúncias de eventuais irregularidades ou
ilegalidades relativas às contas da União ao Tribunal de Contas, direito este que, por
analogia, é concedido também com relação às contas dos Municípios e dos Estados.

Em especial os artigos 198, 204 e 206 da Constituição deram origem a criação de conselhos de
políticas públicas no âmbito da saúde, assistência social e educação nos três níveis de governo.
Tais experiências provocaram a multiplicação de conselhos em outras áreas temáticas e níveis
de governo.
É interessante observar que os Conselhos já constavam na Declaração dos Direitos do Homem
e do Cidadão de 1789:

“A sociedade tem o direito de pedir conta a todo agente público por sua administração”

Outro marco importante são os Tratados Internacionais que vem da herança de relações com
outros povos e nações posicionadas com altivez pela Chancelaria brasileira e beneficiada pela
experiência de solidariedade e convivência pacifica de longo período:
Art. 5º
....
§ 2º Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem, outros decorrentes
do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a
República Federativa do Brasil seja parte.
§ 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem
aprovados em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos
votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais.
§ 4º O Brasil se submete à jurisdição de Tribunal Penal Internacional a cuja criação tenha
manifestado adesão.

No entanto, em que seja verdadeira, para grande parcela da sociedade a importância


constitucional dos Direitos Humanos no Brasil como defesa prioritária de todas as vidas do
Território brasileiro, dentre elas especialmente a população indígena, temos que admitir que
outra significativa parcela da sociedade brasileira tem demonstrado sua indiferença e até
desprezo pelo projeto da República Federativa do Brasil gravada na Constituição Federal.
É sabido que o Mercado não constrói democracias, países livres, soberanos e que respeitem os
direitos sociais. A prevalência dos direitos humanos é base de sustentação dos Estados
democráticos o que parece não fazer parte dos programas de desenvolvimento dos que
elegem a livre concorrência, a qualquer custo.
A jovem senhora Constituição brasileira de 32 anos de idade é resultado de um grande
empenho de abnegados e abnegadas que investiram as suas vidas e liberdades para que o
Brasil pudesse ser livre, revisitar o seu passado sem se envergonhar, afirmar no presente que
uma Nação só é livre quando a vida vale igualmente para todos e todas e oferecer para as
futuras gerações uma grande sementeira de vida, liberdade e justiça.

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Ainda temos tempo de cantar em versos e prosas que os direitos humanos passam
necessariamente pelo cumprimento da Constituição Cidadã, especialmente dos artigos que
enumeram os Princípios Fundamentais da República Federativa do Brasil. (1º e 3º da
Constituição Federal, consagradas cláusulas petreas que só admitem ser cumpridas e
respeitadas).

Título I
Dos Princípios Fundamentais
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e
Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado democrático de direito e tem como
fundamentos:
I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V - o pluralismo político.
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes
eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.
....
Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e
regionais;
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e
quaisquer outras formas de discriminação.
Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos
seguintes princípios:
I - independência nacional;
II - prevalência dos direitos humanos;
III - autodeterminação dos povos;
IV - não-intervenção;
V - igualdade entre os Estados;
VI - defesa da paz;
VII - solução pacífica dos conflitos;
VIII - repúdio ao terrorismo e ao racismo;
IX - cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;
X - concessão de asilo político.
Parágrafo único. A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política,
social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade
latino-americana de nações.

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