Você está na página 1de 13



tradução de
rita almeida simões

lisboa
tinta­‑ da­‑ china
MMXVI
© 2016, Edições tinta­‑da­‑china

Rua Francisco Ferrer, 6 A


1500­‑461 Lisboa
Tels.: 217269028/29
E­‑mail: info@tintadachina.pt
www.tintadachina.pt

Título original: Trigger Warning —


Is the fear of being offensive killing free speech?
@ 2015, Mick Hume

Título: Direito a Ofender —


A liberdade de expressão e o politicamente correcto
Autor: Mick Hume
Tradução: Rita Almeida Simões
Revisão: Tinta­‑da­‑china
Capa: Tinta‑da­‑china (Vera Tavares)
Composição: Tinta­‑da­‑china

1.a edição: Junho de 2016

i s b n: 978­‑ 989­‑ 671­‑321‑8


depósito legal: 410 291/16


Para a Stella e a Isabel.


Que possam sempre pensar o que quiserem e dizer o que pensam.


ÍNDICE

Nota do autor 9

Prólogo — «Je suis Charlie» e a pseudodefesa


da liberdade de expressão13

PA RT E I
a guerra silenciosa contra a liberdade de expressão 3 1
1 Algumas coisas de que nos esquecemos acerca da liberdade de expressão 33
2 A época dos contra­‑Voltaires 55
3 Breve história dos hereges da liberdade de expressão 83
4 A frente cibernética: caça aos trolls e «buracos de memória» 107
5 A frente universitária: estudantes que se querem libertar da expressão125
6 A Frente do Entretenimento: pontapés à liberdade de expressão
no futebol e uma comédia que não está para brincadeiras 143

PA RT E I I
cinco boas razões para restringir a liberdade de
expressão — e porque é que estão todas erradas169
7 «Não se pode gritar ‘fogo!’ num teatro apinhado de gente»171
8 «Mas as palavras magoam»191
9 «É preciso ter cuidado com a língua» 213
10 «Quem mente e nega o Holocausto não merece ser ouvido»231
11 «A liberdade de expressão é só uma desculpa para os
meios de comunicação social manipularem as pessoas»251

Breve resumo da defesa 281


Epílogo — Os avisos de que precisamos 289

Notas 307
N O TA D O AU T O R

E ste livro não é sobre o massacre do Charlie Hebdo. Quando come‑


cei a escrevê­‑lo, no final de 2014, o Charlie era uma pequena revista
satírica francesa conhecida por relativamente poucas pessoas e lida por
menos pessoas ainda, em especial no mundo anglo­‑americano. Em Janeiro
de 2015, o ataque à sede da revista, em Paris, não mudou propriamente a
tese de que é urgente defender a liberdade de expressão, mas o massacre e
as consequentes reacções puseram o assunto na ordem do dia.
Duas preocupações me levaram a escrever este livro, e ambas se torna‑
ram evidentes após o Charlie Hebdo. A primeira foi uma consciencialização
do fosso cada vez maior entre o apoio teórico, retórico e ritualista que
as sociedades ocidentais prestam à liberdade de expressão e a crescente
disponibilidade para, na prática, a comprometer e restringir. O comporta‑
mento dos líderes políticos mundiais, que declararam «Je Suis Charlie» e,
ao mesmo tempo, tentaram ilegalizar opiniões que consideravam ofensi‑
vas, ilustra bem esse fosso.
A minha segunda preocupação era o facto de os ataques políticos e cul‑
turais à liberdade de expressão virem frequentemente não de extremistas
islâmicos, mas de quem no Ocidente se considera liberal ou de esquerda.
Em consequência, a liberdade é desprezada enquanto interesse exclusivo
de uns trombudos de direita acusados de «se esconderem atrás da liber‑
dade de expressão». Eu, veterano de lutas radicais que ainda se considera
de esquerda (se bem que não na encarnação moderna da esquerda), sempre
entendi que a luta pela liberdade de expressão deve ser intrínseca a todos
os que defendem ideias radicais e mudanças sociais. Quando, há 20 anos,
escrevi pela primeira vez em defesa do «direito a ofender», fi­‑lo no papel de

9
direito a ofender

editor da revista Living Marxism. Estas opiniões estavam, e continuam a


estar, em clara minoria na esquerda britânica. Hoje em dia, no rescaldo
do massacre Charlie, há campanhas a favor de purgas contra a «islamo‑
fobia» e o «islamo­‑fascismo», pelo que a necessidade de resistir à maré e
defender radicalmente o direito a ofender se tornou ainda mais urgente.
Com este livro polémico, pretendo contribuir para essa resistên‑
cia. Os argumentos com que defendo a liberdade de expressão foram­
‑se desenvolvendo ao longo de anos, no decorrer da minha actividade
enquanto jornalista político activo em meios de comunicação alternati‑
vos e convencionais do Reino Unido. Em 1988, fundei e editei a Living
Marxism, que depois seria relançada como revista LM na década de 1990.
Fomos obrigados a fechar esta demolidora de tabus em 2000, depois de
nos processarem com base em inacreditáveis leis de difamação. A seguir,
fundei e editei a Spiked (spiked­‑online.com), a primeira e a melhor
revista britânica online de opinião e de actualidades, de que sou hoje edi‑
tor-geral. Durante dez anos, fui o único colunista marxista e libertário
do Times londrino, e actualmente sou colunista convidado do Sun e de
outros jornais.
A argumentação das páginas seguintes, contudo, não teria sido pos‑
sível sem o contributo de outras pessoas. Quero agradecer aos meus
colegas sobreocupados e sub­‑remunerados da Spiked, onde muitas des‑
tas ideias germinaram e onde a crise da liberdade de expressão na socie‑
dade anglo­‑americana foi brilhantemente explicada pelo editor Brendan
O’Neill, competentemente apoiado pelo subeditor Tim Black e pela
editora executiva Viv Regan. A campanha transatlântica «Liberdade de
Expressão Já!», promovida pela Spiked, especialmente na vertente de
combate à censura nas universidades (liderado por Tom Slater), é um
modelo de como reanimar um princípio político adormecido, seja na
Internet, seja noutros canais.
Agradeço também do fundo do coração aos meus velhos amigos e cola‑
boradores Frank Furedi, cuja inspiração e conselhos foram indispensáveis
a este livro, como aliás têm sido desde há mais tempo do que gostaríamos
de nos lembrar, e Michael Fitzpatrick, a primeira pessoa que tentou e con‑
tinua a tentar ensinar­‑me a escrever como deve ser desde há mais de 30

10
nota do autor

anos. Estou ainda grato a Martin Redfern, meu editor na William Collins,
por viabilizar a ideia. Acima de tudo, agradeço à minha mulher, Ginny, edi‑
tora executiva de tudo o que faço, por me fazer começar e terminar este
livro. A responsabilidade do texto, defeitos incluídos, é evidentemente
minha.

Mick Hume,
Londres, Abril de 2015

11
PRÓLOGO
« je s u i s cha r l i e »
e a p seudod e fe s a da li b e r da de d e e xp r e ssã o

A liberdade de expressão está na mira de dois tipos de armas: as oca‑


sionais balas e a sistemática adversativa «mas».
Copenhaga, Dinamarca, 15 de Fevereiro de 2015. Um encontro num
café para discutir o tema da liberdade de expressão e da blasfémia, pouco
mais de um mês após o massacre na redacção da revista satírica Charlie
Hebdo. Inna Shevchenko, do FEMEN, um grupo ucraniano feminista de
protesto, abre o painel de discussão, falando acerca da sua relação com o
cartoonista Charb — editor da Charlie Hebdo — e da insistência de ambos
no direito à liberdade de expressão (os membros do FEMEN são famosos
por protestarem em topless).
Inna Shevchenko vai ao cerne da questão: «Dou­‑me conta de que,
sempre que falamos do que aquelas pessoas fazem, oiço sempre ‘Sim, há
liberdade de expressão, mas…’. E o ponto decisivo é o ‘mas’. Porque é que
ainda dizemos ‘mas’ quando…» Nesse preciso momento, o discurso dela é
interrompido pelo som de disparos à porta do café1.
A sincronia do ataque do atirador islâmico no encontro sobre liberdade
de expressão em Copenhaga foi tão precisa que quase se diria ensaiada.
Precisamente quando quem detinha a palavra abordava o problema de as
pessoas no Ocidente dizerem «Sim, há liberdade de expressão, mas» para
assinalarem os limites do seu apoio, o assassino acrescentava o seu ponto
final ao debate, abrindo fogo à porta do café, com uma pistola­‑metralhadora
automática M95, e matando o realizador dinamarquês Finn Noergaard.
(O assassino matou outro homem num ataque a uma sinagoga da cidade.)
É evidente que não há equivalência entre as balas e a adversativa
«mas», entre os ataques violentos à liberdade de expressão e os argumentos

13
direito a ofender

hesitantes e questionáveis a seu favor. Contudo, será que o enfraquecimento


do apoio à liberdade de expressão entre as populações ocidentais, patente
no coro crescente de «mas», serviu para encorajar as poucas pessoas que se
dispunham a encetar acções mais musculadas para acabar com o que consi‑
deravam ofensivo?

Em Janeiro de 2015, a revista satírica Charlie Hebdo foi alvo de dois crimes.
Primeiro, um grupo de fanáticos islâmicos assassinou em massa os
colaboradores da redacção da revista, em Paris. Mataram a tiro oito car‑
toonistas e jornalistas, dois polícias e outras duas pessoas, crimes que ilus‑
tram bem o seu ódio à liberdade de expressão e de imprensa.
Depois, a fina flor da sociedade ocidental pseudodefendeu em massa
a liberdade de expressão. Venderam­‑nos a ideia de que eram todos a favor
dela, dando mostras retóricas e ritualísticas de apoio às vítimas do Char‑
lie Hebdo. Contudo, ao mesmo tempo, muitos expressavam desprezo pela
real liberdade de expressão que permite a simples existência de publica‑
ções tão provocadoras.
Depois do massacre e dos posteriores assassínios num supermercado
judeu, as gigantescas manifestações «Je Suis Charlie» em Paris e em mui‑
tas outras cidades foram sinais promissores de solidariedade humana e
impressionaram­‑nos a todos. Mas também deram uma impressão errada
do estado de coisas no que toca à liberdade de expressão na Europa e na
América.
Parecia que havia uma clara divisão cultural: num extremo, um mundo
livre e unido no apoio ao Charlie Hebdo e à liberdade de expressão; no outro,
um punhado de extremistas inimigos da liberdade e «de tudo o que mais
prezamos». Por trás dos cartazes solidários, contudo, a defesa da liberdade
de expressão pela opinião pública ocidental era bem menos sólida. Muitas
figuras públicas mal se contiveram até pararem com a conversa da liber‑
dade e começarem a acrescentar as inevitáveis apreciações, mistificações
e, acima de tudo, a adversativa «mas»…
Após o Charlie Hebdo, nem só nas células terroristas islâmicas se escon‑
diam pessoas com perspectivas obscuras acerca da genuína liberdade de
expressão. Rapidamente se percebeu que a ameaça à liberdade não vinha

14
prólogo

apenas de uns quantos bárbaros às portas da cidade. A liberdade de expres‑


são enfrenta inimigos mais poderosos no interior da suposta cidadela
da civilização.
Os comoventes testemunhos de solidariedade foram, antes de mais,
testemunhos de compaixão pelas vítimas assassinadas. O apoio à liber‑
dade de expressão personificada pela revista Charlie Hebdo, consisten‑
temente ofensiva, foi muitíssimo menos sólido. Talvez tivesse sido mais
apropriado nomear individualmente as vítimas em muitos daqueles carta‑
zes — «Je Suis Charb/Wolinski/Elsa» —, em vez do Charlie da revista. Do
Guardian à Sky News, os meios de comunicação social do Reino Unido que
expressaram indignação pelos assassínios sentiram­‑se, não obstante, obri‑
gados a pedir desculpa por qualquer ofensa que pudessem causar sempre
que mostravam um vislumbre da capa do primeiro número da revista após
o massacre, com a imagem de Maomé.
Ainda os mortos não tinham sido enterrados e já o apoio «mundial» ao
direito do Charlie Hebdo à liberdade de expressão se revelava tudo menos
universal — como se tornava claro que os defensores de outro credo não
se confinavam às regiões hostis do mundo islâmico.
Rapidamente emergiu um consenso internacional de tom diferente, a
aceitação de que o massacre do Charlie Hebdo revelava a necessidade de
aplicar limites à liberdade de expressão e restringir o direito a ofender.
Participava deste consenso gente muito díspar, do papa Francisco ao Par‑
tido Comunista Chinês.
Pouco depois de condenar os assassínios, o papa quase pareceu suge‑
rir que os cartoonistas, a que chamou «provocadores», estavam mesmo a
pedi­‑las. Sua Santidade declarou que «há limites» à liberdade de expressão
e que «não podemos insultar a fé dos outros. Não podemos fazer pouco da
fé dos outros» e que era «normal» que quem o fizesse «levasse um soco»2.
A agência noticiosa Xinhua, voz oficial do regime comunista chinês,
antecipou­‑se ao papa em três dias, declarando que «o mundo é diverso e
deve haver limites à liberdade de expressão». No seu editorial tornava­‑se
muito claro que, para os governantes autoritários da China, «a sátira, a
humilhação e a liberdade de expressão sem restrições nem princípios não
são aceitáveis»3.

15
de Mick Hume foi impresso
pela EIGAL, Indústria Gráfica S.A.,
em papel Coral Book de 80 g,
em Junho de 2016.

Você também pode gostar