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Luciano Vieira
Historiador
(55-11) 6567-7200
luciano.3do@ ig.com.br Henri Bergson
o Riso
Ensaio sobre a significação
da comicidade

"I raduç;"io
IVUNL (',\STIUI<) IlI· NLlll'TTI

DEDALUS - Acervo - FFLCH

1111il! 11111111111111111111111111111111111111111111111111111111II
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o
BERGSON. Henri. riso: ensaio sobm B signiIicaç40
da comidtIade. Trad. Ivone C8stiIho Benedelli.
Sllo Paulo: Martins F _ . 2004. p. 98-145.
1

IIE\'III HO?GSO\

por oposiç<lo ao llexivel. ao mutável. ao \ivo. a dis- CAPÍTULO 111


tração por oposição à atençào, enfim o automatismo A COMICIDADE DE CARÁTER
por oposição à atividade livre, eis em suma o que o
riso ressalta e gostaria de corrigir. Solicitamos dessa
idéia que nos iluminasse a partida no momento em
que enveredávamos pela análise da comicidade. Vi-
mos que ela brilhava em todas as viradas decisivas de
nosso caminho, É por meio dela agora que vamos en-
cetar uma investigação mais importante e, esperamos,
mais instrutiva. Porque nos propomos estudar os ca-
racteres cômicos, ou melhor, determinar as condições
essenciais da comédia de caráter, mas tentando fazer
I
que esse estudo contribua para nos levar a compreen-
der a verdadeira natureza da arte bem como o nexo
Seguimos a comicidade através de vários de seus
geral entrc arte e vida.
feitios e feições, procurando descobrir como ela se in-
filtra numa forma, numa atitude, num gesto, numa si-
tuação, numa ação, numa palavra. Com a análise dos
caracteres cômicos, chegamos à parte mais importante
de nossa tarefa. Seria, aliás, tamhém a mais di fícil,
se tivéssemos cedido à tentação de definir o risivel
com base em alguns exemplos marcantes e, por con-
seguinte, grosseiros: então, à medida que nos tivés-
semos elevado em direção às manifestações mais al-
tas da comicidade, teríamos visto os fatos deslizar por
entre as malhas excessivamente largas da definição
que desejaria retê-los. Mas na realidade seguimos o
método inverso: dirigimos a luz de cima para baixo.
Convencidos de que o riso tem significado c alcance
sociais, de que a comicidaclc exprime acima de tudo
100 HENRI BERG50N o R/50 101

certa inadaptação particular da pessoa à sociedade, e para tirá-Ia de seu sonho. Se for permitido comparar
de que não há comicidade fora do homem, é o ho- as coisas grandes às pequenas, lembraremos aqui o
mem, é o caráter que visamos em primeiro lugar. A que ocorre no ingresso às nossas escolas superiores.
dificuldade então estava mais em explicar como nos Depois que o candidato passou pelas temíveis provas
ocorre rir de outra coisa que não seja um caráter, e L
do exame, falta-lhe enfrentar outras provas, as que os
por meio de que sutis fenômenos de impregnação, .c colegas veteranos preparam a fim de formá-lo para a
combinação ou mesela a comicidade pode insinuar-se ~ 8E nova sociedade na qual ele ingressa e, como dizem,
' - .... r-..
.(1) o C'\I uo
num simples movimento, numa situação impessoal, ~1J'o,
~ r-..._ a fim de abrandar-lhe o ânimo. Toda pequena socieda-
L numa frase independente. Esse foi o trabalho que fi- o·~t8@ de que se forma no seio da grande é levada assim, por
) zemos até aqui. Elegíamos o metal puro, e nossos es- c:: 0<0 o
CtJ .... _"o um vago instinto, a inventar um modo de correção e de
) ' - lI).-- C")
forços eram no sentido de reconstituir o seu minério. U 't:.-- . abrandamento da rigidez dos hábitos contraídos alhu-
;:,~·o
Mas é o próprio metal que vamos agora estudar. Na- • li) c
..... li) lU
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res, que precisarão ser modificados. A sociedade pro-
da será mais fácil, pois desta vez estamos diante de u
I .2 priamente dita não procede de outra maneira. É preci-
I um elemento simples. Olhando-o de perto, vemos co- so que cada um de seus membros fique atento para o
mo ele reage a todo o resto. que o cerca, que se modele de acordo com o ambiente,
Há estados d'alma, dizíamos, que nos comovem que evite enfim fechar-se em seu caráter assim como
tão logo os conhecemos, alegrias e tristezas com as numa torre de marfim. Por isso, ela faz pairar sobre
quais simpatizamos, paixões e vícios que provocam cada um, senão a ameaça de correção, pelo menos a
surpresa dolorosa, terror ou piedade naqueles que os perspectiva de uma humilhação que, mesmo sendo
contemplem, por fim sentimcntos que se expandem leve, não deixa de ser temida. Essa deve ser a função
de alma em alma por meio de res&onâncias sentimen- do riso. Sempre um pouco humilhante para quem é
tais. Tudo isso diz respeito ao ess~ncial da vida. Tudo seu objeto, o riso é de fato uma espécie de trote social.
isso é sério, às vezes trágico me~o.. Quando a pes- Donde o caráter equívoco da comicidade. Esta
soa do próximo deixa de nos comover, só ai pode não pertence de todo à arte nem de todo à vida. De
começar a comédia. E começa com o que se poderia um lado as personagens da vida real não nos fariam
chamar de enrijecimento para a vida social. É cômi- rir se não fôssemos capazes de assistir a suas atitudes
ca a personagem que segue automaticamente seu ca- como a um espetáculo que vemos do alto de nosso
minho sem se preocupar em entrar em contato com camarote; elas só nos parecem cômicas porque 110S
os outros. O riso estará lá para corrigir sua distração apresentam uma comédia. Mas, por outro lado, mes-

I
102 flENR/ BERGSON OR/SO 103

mo no teatro, o prazer de rir não é um prazer puro, há defeitos de que rimos mesmo sabendo que são gra-
quero dizer um prazer exclusivamente estético, abso- ves: por exemplo a avareza de Harpagon. E, afinal, é
lutamente desinteressado. A ele se mistura uma se- preciso confessar - embora custe um pouco dizer ~
gunda intenção que a sociedade tem em relação a nós que não rimos apenas dos defeitos de nossos seme-
quando nós mesmos não temos. Mistura-se a inten- lhantes, mas também, às vezes, de suas qualidades. Ri-
ção inconfessa de humilhar, portanto, é verdade, de mos de Alceste. Alguém dirá que não é a honestidade
corrigir pelo menos exteriormente. Por isso a comé- de Alceste que nos parece cômica, mas sim a forma
dia está bem mais perto da vida real que o drama. particular assumida nele pela honestidade e, em su-
Quanto mais grandeza tem um drama, mais profun- ma, certo senão que a diminui a nossos olhos. Admi-
da é a elaboração à qual o poeta precisou submeter a to, mas não deixa de ser verdade que esse senão de
realidade para dela depreender a tragicidade em es- Alceste, de que rimos, torna risível a sua honestida-
tado puro. Ao contrário, é somente em suas formas de, e aí está o ponto importante. Concluímos, portanto,
inferiores, o vaudeville e a farsa, que a comédia con- que a comicidade não é sempre indício de um defei-
trasta com a realidade, pois, quanto mais se eleva, mais to, no sentido moral da palavra, e que, se insistirmos
tende a confundir-se com a vida, e há cenas da vida em ver nela um defeito, e um leve defeito, será preci-
real tão próximas da alta comédia que o teatro pode- so indicar qual o sinal preciso graças ao qual se dis-
ria apropriar-se delas sem mudar uma palavra. tingue aqui o leve do grave.
Segue-se disso que os elementos do earáter cô- A verdade é que a personagem cômica pode, a ri-
mico serão os mesmos no teatro e na vida. Quais são gor, andar em dia com a moral estrita. Falta-lhe apenas
eles? Não será dificil deduzi-los. andar em dia com a sociedade. O caráter de Alceste é
Muitas vezes se disse que,ps defeitos leves deDos- de uma honestidade perfeita. Mas ele é insaciável, e
sos semelhantes são os que nos fazem rir. Reconheço por isso mesmo cômico. Um vício flexível seria me-
que há grande parcela de verdade nessa opinião, inas nos fácil de ridiculizar que uma virtude inflexível. É
não posso acreditar que seja totalmente exata. Primei- a rigidez que parece suspeita à sociedade. É, pois, a
ramente, em matéria de defeitos, é difícil traçar o li- rigidez de Alceste que nos faz rir, ainda que essa ri-
mite entre o pequeno e o grande: talvez não seja por gidez no caso seja honestidade. Quem quer que se
ser pequeno que um defeito noS faz rir, mas, como por isole expõe-se ao ridículo, porque a comicidade é fei-
nos fazer rir o achamos pequeno, nada desarma tanto ta, em grande parte, desse isolamento. Assim se ex-
quanto o riso. Mas pode-se ir mais longe e afirmar que plica por que a comicidade é tão freqüentemente re-
-
I ().I IIE,\'R/ BLRG50\ aR/50 105
,,
L,liva aos costumes, às idéias - aos preeonceilos de nova de investigação, analisar a simpatia artificial quc
Ii
uma sociedade, para darmos nomes às coisas. temos em relação ao teatro, determinar em quc casos
No entanto, cumpre reconhecer, para mérito da aceitamos compartilhar alegrias e sofrimentos imagi-
humanidade, que ideal social e ideal moral nào dife- nários, em que casos nos recusamos a isso. Há uma
rem essencialmente. Podemos, portanto, admitir que, arte de embalar nossa sensibilidade e de preparar-lhe
em regra geral, são exatamente os defeitos alheios que sonhos, assim como se faz a um indivíduo hipnotiza-
nos fazem rir - desde que acrescentemos, é verdade, do. E há uma arte também de desencorajar nossa sim-
que esses defeitos nos fazem rir em razão da sua in- patia no momento preciso em que ela possa manifes-
s,)ciabilidade, e não da sua imoralidade. Faltaria en- tar-se, de tal maneira que a situação, mesmo sendo
tão saber quais são os defeitos que podem tornar-se séria, já nào seja levada a sério. Dois procedimentos
cômicos e em que casos nós os julgamos sérios demais parecem dominar esta última arte, que o poeta cômico
para rirmos deles, aplica de modo mais ou menos inconsciente. O pri-
, '.
Mas a essa pergunta já respondcmos implicita- meiro consiste em isolar, no ambiente constituído pc-
,I
·1, mente. A comicidade, dizíamos, diríge-se à inteligên- la alma da personagem, o sentimcnto quc lhe é atri-
cia pura; o riso é incompativel com a emoção. Des- buído, e em fazer dele, por assim dizer, um estado
CI'cva-se um defeito que seja o mais leve possível: se parasita dotado de existência independente. Em gcral,
mc for aprcsentado de tal maneira que dcsperte minha um sentimento intenso vai ganhando gradualmente
simpatia, ou meu medo, ou mínha piedade, pronto, todos os outros estados d'alma e tingindo-os da colo-
j;', não consigo rir dcle. Escolha-se, ao contrário, um raçào que lhe é própria: então, se nos fazem assistir a
vício profundo e até mesmo, em geraL odioso: ele po- essa impregnação gradual, acabamos aos poucos por
derá tornar-se cômico se, por meio de arti ricios apro- nos impregnar também de uma emoção corrcspon-
priados, eonseguircm, em primciro lugar, (ilzcr que ele dente. Poderíamos dizer· para recorrer a outra ima-
me deixc insensÍ\'el. Não digo que então o vício será gem - que uma emoçào é dramática, comunicativa,
cômico; digo que a partir daí poderá tornar-se cômico. quando todos os harmônicos são dados com a nota
Ele não deve comover-me: essa é a única condição real- fundamental. E, como o ator vibra por inteiro, o pú-
ll1énte neccssáría, embora não certamente suficiente. blico poderá vibrar também. Ao contrário, na emo-
I\tlas como c) poeta cômico agiria para impedir que ção que nos deixa indiferentes e que se tornará cômi-
cu Ille cOlllOva? A pergunta é complicada. Para escla- ca, há uma rigidez que a impede de entrar em re1aç')o
recê-la, scria preciso envercdar por uma ordem bem com o restante da alma na qual ela assenta. Essa rigi-
,"
-
!, •,..' 106 /II,'\RI BERGSOY () RISO 107
.,
.. dez poderú mostrar-se, em dado momento, por meio
de movimentos de Emtoche e entào provocar o riso,
com a intenção de torná-lo dramático ou simplesmen-
te de nos fazer Icní-Io a sério, este é encaminhado
mas já antes ela contrariava nossa simpatia: de que pouco a pouco para "~'ôes que mostrem sua mcdida
modo entrar em uníssono com uma alma que não está exata. Assim. o avarento ajeitará tudo com o objeti\'o
em unissono consigo mesma? Há no Amrento uma ce- do ganho, e o tàlso de\oto, fingindo só ter em vista o
na que beira o drama. É aquela em que o devedor e o céu, fará as manobras mais hábeis possíveis aqui na
, usurário, q'le ainda não se tinham visto, encontram-se

n face a t(ICC e descobrem ser filho c pai. Teríamos ai


realmenlc um drama se a avareza e o sentimento pa-
terno, entrechocando-se na alma de Harpagon, crias-
terra. A comédia por certo nào exclui as combina-
ções desse tipo; pal'a provar isso basta observar as
maquinações de Tartufo. Mas é isso o que a comédia
tem em comum com o drama e, a fim de distinguir-
) I sem uma c<lmbinação mais ou menos original. Mas se dele, de nos impedir de levar a sél-io a ação séria c
dc modll algum. A entrevista mal tinha acabado, e o de nos preparar para rir, utiliza um 111 e ia cuja fórmu-
,I
! .~
pai esqueccu tudo. Voltando a encontrar o filh~, ape- la assim expressarei: em ve:: de cOllcentrar 110SS" ate/1-
nas alude úquela cena tão grave: "E o senhor, meu fi- çâo /10S aios, ela a dirige /lU/i.\" para os gestos. Enten-
i
lho, a qUém tive a bondade de perdoar a história de do aqui por gestos as atitudes, os movimentos e até
íl' o-
há pouco de." A avareza, portanto, passou ao largo mesmo os discursos por meio dos quais um estado
I de todo () resto sem o tocar, sem scr tocada, distrai- d'alma se manilesta sem objetivo, sem proveito, ape-
! .' dalJlente. P,.r mais que se instale na alma, por mais que nas por efeito de uma espécie de comichão interior.
:1 se torne d"na da casa, não deixará de ser estranha. O gesto assim definido difere protímdamente da açào.
Qualqucr oiltra avarcza seria de naturcza tnígica. Nós A ação é desejada, em todo caso consciente; o gesto
a veriallH,,; atrair para si, absorver e assimilar, trans- escapa, é automútico. Na ação, é a pessoa inteira que
/(mnando, a~ divcrsas potências do scr: sentimentos - se dá; no gesto, uma parte isolada da pessoa se expri-
c afeições, desejos e aversões, vicios c virtudes, tudo me, sem o conhecimento da personalidade total 011 pe-
se tornaria uma matéria à qual a avareza comunicaria lo menos separadamente dcsta. Por fim (e aqui está o
um novo gênero de vida. Essa é, ao que parece, a pri- ponto essencial), a ação é exatamente proporcional ao
I ; meira diterença essencial entre a alta comédia e o sentimento que a inspira; há transição gradual deste
drama. para aquela, de tal modo que nossa simpatia ou nos-
I
Ilá unu segunda, mais aparente, que, ali:is, deriva sa aversão podem deixar-se deslizar ao longo do fio
I da primeira. Quando alguém retrata um estado d 'alma que vai do sentimenlo ao ato c participar prdgressiva-
108 lIENRI BERGSON o RISO /09

mente. Mas o gesto tem algo de explosivo, que desper- tra história, de pouco adiantaria conservar os nomes
ta nossa sensibilidade pronta para deixar-se embalar, dos atores, pois na verdade estaríamos diante de ou-
e que, lembrando-nos assim de nós mesmos, impe- o tras pessoas.
de-nos de levar as coisas a sério. Portanto, a partir do ...
.o
Em resumo, vimos que um caráter pode ser bom
momento em que nossa atenção incidir no gesto, e não ou mau; pouco importa: se for insociável, poderá tor-
CO E
0>. •.8.
no ato, estaremos na comédia. A personagem de Tar- .~.... nar-se cômico. Vemos agora que a gravidade do caso
tufo pertenceria ao drama por suas ações: é quando .-"tl 2' não importa tampouco: grave ou não grave, ele pode-
nos damos mais conta de seus gestos que o achamos
>o'C.. @ rá fazer-nos rir se tudo for arranjado para que não nos
c::O S
I. cômico. Lembremos sua entrada em cena: "Laurent, co'"
·õ·~
~
..,
comova. Insociabilidade da personagem, insensibili-
ponha na caixa meu cilício com meu flagelo." Ele sa- ::Jl:'~ dade do espectador, eis em suma as duas condições
be que Dorine está ouvindo, mas falaria do mesmo -J .. essenciais. Há uma terceira, implicada nas duas ou-
modo, esteja o leitor convencido, se ela não estives- g tras, que todas as nossas análises tendiam até agora a
se ali. Incorporou tão bem seu papel de hipócrita depreender.
que, por assim dizer, o representa com sinceridade. É o É o automatismo. Nós o mostramos desde o co-
por isso, e só por isso, que poderá tornar-se cômico. meço deste trabalho e nunca deixamos de chamar a
Scm essa sinceridade material, sem as atitudes e a lin- atenção de volta para este ponto: só é essencialmente
guagem que nele a longa prática da hipocrisia con- risível aquilo que é automaticamente realizado. Num
verteu em gestos naturais, Tartufo seria simplesmen- defeito, numa qualidade mesmo, a comicidade é aqui-
te odioso, porque só pensaríamos naquilo que há de lo graças a que a personagem se entrega sem saber, o
intencional em sua conduta. Compreende-se assim por gesto involuntário, a palavra inconsciente. Toda dis-
que a ação é essencial no drama e acessória na comé- tração é cômica. E, quanto mais profunda é a distra-
dia. Na comédia, sentimos que poderia ter sido esco- ção, mais elevada é a comédia. Uma distração sistemá-
lhida outra situação completamente diferente para nos tica como a de Dom Quixote é o que de mais cômico
apresentar a personagem: ainda assim estariamos dian- se pode imaginar no mundo: ela é a própria comici-
te do mesmo homem, numa situação diferente. Não dade, haurida o mais próximo possível de sua fonte.
temos essa impressão num drama. Neste, as persona- Tomemos qualquer outra personagem cômica. Por
gens e as situações estão intimamente vinculadas, ou mais consciente que ela possa ser daquilo que diz ou
melhor, os acontecimentos fazem parte integrante das faz, será cômica se houver um aspecto de sua perso-
pessoas, de tal modo que, se o drama nos contasse ou- nalidade que ela ignora, um lado por onde se furta a
, I
,
. I

II
II
"
110 HENR/BERG50N O R/50 111

si mesma: só por esse lado nos fará rir. As palavras início deste trabalho. Verificamos suas principais con-
profundamente cômicas são as palavras ingênuas nas seqüências. Acabamos de aplicá-la à definição de co-
quais o vício se mostra a nu: como ela se descobriria média. Devercmos agora observá-Ia de mais perto e
assim, se fosse capaz de ver-se e julgar-se por si mes- mostrar como ela nos permite marcar o lugar exato da
ma? Não é raro que uma personagem cômica censu- comédia em meio às outras artes.
re certa conduta em termos gerais e logo depois dê Em certo sentido, poderíamos dizer que todo ca-
exemplo dela: testemunho disso é o professor de fi- ráter é cômico, desde que se entenda por caráter o que
losofia de M. Jourdain, que se enfurece depois de ter há de pronto em nossa pessoa, o que está em nós no
pregado contra a cólera; Vadius tirando versos do bol- estado de mecanismo montado, capaz de funcionar au-
so depois pilheriar a respeito de ledores de versos tomaticamente. É aquilo, se quiserem, graças a que
etc. A que podem tender essas contradições, senão a nos repetimos. E é também, por conseguinte, aquilo
levar-nos a tocar com o dedo a inconsciência das per- graças a que outras pessoas poderão repetir-nos. A
sonagens? Desatenção para consigo, por conseguin- personagem cômica é um tipo. Inversamente, a seme-
te para com outrem: é o que encontramos sempre. E, lhança com um tipo tem algo de cômico. Podemos ter
se examinarmos as coisas de perto, veremos que a de- freqüentado uma pessoa durante muito tempo sem na-
satenção se confunde precisamente aqui com o que da descobrirmos nela de risível: se aproveitarmos uma
chamamos de insociabilidade. A causa da rigidez por pareccnça acidental para aplicar-lhe o nome conhe-
excelência é esquecer-se de olhar em torno de si e so- cido de um hcrói de drama e romance, pelo menos por
bretudo para si: como modelar-se a pessoa pela pes- um instante, diante de nossos olhos, ela estará beiran-
soa do outro se ela não começa por tomar conhecimen- do o ridículo. No entanto, essa personagem de roman-
to dos outros e também de si mesma? Rigidcz, auto- ce poderá não ser cômica. Mas é cômica a semelhança.
matismo, distração, insociabilidade, tudo isso se in- É cômico deixar-se distrair-se de si mesmo. É cômi-
terpenetra, e é de tudo isso que é feita a comicidade co vir inserir-se, por assim dizer, numa moldura pre-
de caráter. parada. E o que é cômico, acima de tudo, é a própria
Em resumo, se na pessoa humana deixarmos de pessoa passar ao estado de moldura na qual outras se
lado o que nos desperta a sensibilidade e consegue inserirão no presente, é solidificar-se como caráter.
comover-nos, o resto poderá tornar-se cômico, e a co- Pintar caracteres, ou seja, tipos gerais, é então o
micidade estará na razão direta da parcela de rigidez objeto da alta comédia. Isso foi dito muitas vezes. Mas
que nela se manifestar. Formulamos essa idéia já no fazemos questão de repetir, pois achamos que essa fór-
I'I
I
112 HENRIBERGSON

mula basta para definir a comédia. Porque a comédia


o RISO

alma, como música às vezes jubilosa, porém no mais


I 13

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não só nos apresenta tipos gerais como também, em
nossa opinião, é a única arte que visa ao geral, de tal
das vczes qucixosa, mas sempre original, a melodia
ininterrupta de nossa vida interior. Tudo isso está em
t, i maneira que, uma vez que lhe tenha sido atribuído es- I
L-
.D torno de nós, tudo isso está em nós e no entanto nada
se ui j!ivo, já estará dito o que ela é e o que o resto !ti 0Ê de tudo isso é percebido por nós distintamente. Entre
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não pode ser. Para provar que essa é exatamente a es-
sência da comédia e que ela se opõe por isso à tragé- >
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nós e a natureza - mas que digo? -, entre nós e nossa
própria consciência, interpõe-se um véu, véu espesso
dia, ao drama, às outras formas de arte, seria preciso C OCO o para o comum dos homens, véu leve, quase transpa-
c,o .... -'O
começar por definir a arte no que ela tem de mais ele- . _ tI)
0·-
r')
.
rente, para o artista e o poeta. Que fada teccu esse véu?
vado: entào, descendo aos poucos para a poesia cômi- ::J 1:.0 g Foi por malícia ou amizade? Era preciso viver, e a vi-
-.J 10 <li
ca, vcríamos que ela está situada nos confins da arte -g da exige que apreendamos as coisas na relação que
e da vida, e que, por seu caráter de generalidade, dis- elas têm com nossas necessidades. Viver consiste em
tingue-se do restante das artes. Não podemos nos lan- agir. Viver é só aceitar dos objetos a impressão útil
çar aqui a estudo tão vasto. Somos forçados, porém, para responder-lhes por reações apropriadas: as ou-
a esboçar-lhe o plano, caso contrário estaríamos des- tras impressões devem obscurecer-se ou só nos che- ,
prcí'.ando o que há de essencial, a nosso ver, no teatro gar confusamente. Eu olho e acredito ver, dou ouvi-
cômico. dos e acredito ouvir, estudo-me e acredito ler no fun-
Qual é o objeto da arte? Se nossos sentidos e nos- do de meu coração. Mas o que vejo e ouço do mundo
sa consciência fossem diretamente impressionados pe- exterior é simplesmente o que meus sentidos dele ex-
la realidade, se pudéssemos entrar em comunicação traem para aclarar minha conduta; o que conheço de
imcdiata com as coisas e conosco, acredito que a arte mim mesmo é o que aflora à superficie, o que toma
seria inútil, oumclhor, que seríamos todos artistas, pois parte da ação. Meus sentidos e minha consciência,
nossa alma vibraria entào continuamente em unísso- portanto, só me entregam da realidade uma simplifica-
no com a natureza. Nossos olhos, ajudados por nossa ção prática. Na visão que me dão das coisas e de mim
mcmória, recortariam no espaço e fixariam no tem- mesmo, as diferenças inúteis para homem são apaga-
po quadros inimitáveis. Nosso olhar captaria de pas- das, as semelhanças úteis ao homcm são acentuadas,
sagem, esculpidos no mármore vivo do corpo huma- são-me traçados de antemão caminhos nos quais mi-
no, fragmentos de estátua tão belos quanto os da es- nha ação enveredará. Esses caminhos são aqueles pe-
tatuária antiga. Ouviríamos cantar no tunda de nossa los quais a humanidade inteira passou antes de mim.

.. ,
tl4 o RISO 115
lItNRI BERGSON

As coisas foram classificadas em vista do partido que são também nossos próprios estados d'alma que se fur-
delas poderei tirar. E é essa classificação que perce- tam a nós naquilo que têm de íntimo, pessoal, origi-
bo, muito mais que a cor e a forma das coisas. Sem nalmente vivenciado. Quando sentimos amor ou ódio,
dúvida? homem é já muito superior ao animal nesse quando nos sentimos alegres ou tristes, será mesmo
ponto. E pouco provável que o olho do lobo faça al- o nosso sentimento que nos chega à consciência com
o guma distinção entre cabrito e cordeiro; para ele, tra- os mil matizes fugazes e as mil ressonâncias profundas
ta-se dc duas presas idênticas, igualmente fáceis de que fazem dele algo absolutamente nosso? Seríamos
I. capturar, igualmente boas de devorar. Nós não: nós fa- então todos romancistas, todos poetas, todos músicos.
"
zemos distinção entre cabra e ovelha; mas distingui-
.'" remos uma cabra de uma cabra, uma ovelha de uma
Mas o mais freqüente é só percebermos de nosso es-
tado d'alma a sua exibição exterior. Só apreendemos
,, ovelha? A individualidade das coisas e dos seres nos de nossos sentimentos o seu aspecto impessoal, aque-
escapa sempr<.: que não nos é materialmente útil per- le que a linguagem pôde marcar de uma vez por to-
cebê-las. E, mesmo quando a notamos (como quando das por ser mais ou menos o mesmo, nas mesmas con-
distinguimos um homem de outro homem), não é a in- dições, para todos os homens. Assim, até em nosso
dividualidade o que nosso olho capta, ou seja, certa próprio indivíduo a individualidade nos escapa. Mo-
harmonia totalmente original de formas e de cores, vemo-nos entre generalidades e símbolos, como nu-
mas apenas um ou dois traços que facilitarão o reco- ma liça em que nossa força se mede utilitariamente
nhecimento prático. com outras forças; e, fascinados pela ação, atraidos
Enfim, para resumir, não vemos as coisas mes- por ela, para nosso maior bem, no terreno que ela es-
mas; limitamo-nos, no mais das vezes, a ler etiquetas colheu para si, vivemos numa zona intermediária en-
coladas sobre elas. Essa tendência, oriunda da neces- tre as coisas e nós, exteriormente às coisas, exterior-
sidade, accntuou-se aind<l mais sob a influência da lin- mente também a nós. Mas de vez em quando, por dis-
guagem, Pois as palavras (com exccção dos nomes tração, a n<ltureza suscita almas mais desapegadas da
próprios) designam gêneros. A palavra, quc só anota vida. Não falo do desapego desejado, racional, siste-
da coisa a SU<l função mais comum e seu aspecto ba- mático, que é obra de reflexão e filosofia. Falo de um
naL insinua-se entre ela e nós, e mascararia sua for- desapego natural, inato à estrutura do sentido ou da
ma para nossos olhos sc essa forma não se dissimu- consciência, e que se manifesta de imediato por UITI
Iassc já por trás das necessidades que criaram a pró- modo virginal, por assim dizer, de ver, ouvir ou pen-
pria palavra. E não são apcnas os objetos exteriores; sar. Se esse desapego tosse completo, se a almajá mio

"lO •
116 HENRIBERGSON
1 O RISO 117

aderisse à ação por nenhuma de suas,percepções, ela


I prime um estado d'alma individual, o que irão bus-
seria a alma de um artista como o mundo nunca viu car, simples e puros, será o sentimento, será o estado
ainda. Seria a mais excelente em todas as artes ao mes- d'alma. E para nos induzir a tentar o mesmo esforço
mo tempo, ou melhor, ela as fundiria todas numa só. em nós mesmos, eles se empenharão em nos mostrar
Perceberia todas as coisas em sua pureza original, tanto algo daquilo que tiverem visto: por meio de arranjos
as formas, as cores e os sons do mundo material quan- ritmados de palavras, que chegam assim a organizar-se
to os mais sutis movimentos da vida interior. Mas é juntas e a animar-se com vida original, eles nos dizem,
pedir demais à natureza. Mesmo para aqueles dentre 'ou melhor, nos sugerem, coisas que a linguagem não
nós que ela fez artistas só acidentalmente, e de um só foi feita para exprimir. -- Outros se aprofundarão ain-
lado, ela ergueu o véu. Foi só numa direção que ela da mais. Debaixo das alegrias e das tristezas que a ri-
I esqueceu de vincular a percepção à necessidade. E, gor se podem traduzir em palavras, captarão alguma
como cada direção corresponde ao que chamamos de coisa que nada mais tem de comum com a palavra,
sentido, é por um de seus sentidos, e só por ele, que o certos ritmos de vida e de respiração que são mais ín-
artista se dedica ordinariamente à arte. Donde, na ori- timos ao homem que seus sentimentos mais intimas,
gem, a diversidade das artes. Donde também a espe- sendo a lei viva, variável com cada pessoa, de sua de-
cialização das predisposições. Aquele se apegará às pressão e de sua exaltação, de suas saudades e de suas
cores e às formas, e, como gosta da cor pela cor, da esperanças. Ao depreender, ao acentuar essa música,
forma pela forma, como as percebe por si mesmas e eles a imporão à nossa atenção; e nos levarão a inse-
não para si mesmo, o que ele verá transparecer através rir-nos involuntariamente nela, como transeuntes que
das formas e das cores das coisas será a vida interior entram na dança. E com isso nos levarão a abalar tam-
das coisas. E a fará entrar aos poucos em nossa per- bém, em nossas profundezas, algo que esperava o
cepção de início desconcertada. Por um momento ao momento de vibrar. - Assim, seja pintura, escultura,
menos, ele nos afastará dos preconceitos de forma e poesia ou música, a arte não tem outro objeto senão
de cor que se interpunham entre nosso olho e a reali- o de afastar simbolos úteis do ponto de vista prático,
dadc. E realizará assim a mais elevada ambição da generalidades convencional e socialmente aceitas, en-
arte, que é revelar-nos a natureza. - Outros, ao con- fim tudo o quc nos mascara a rcalidade, para nos pôr
trário, se voltarão para si mcsmos. Por baixo das mil face a face com a realidade mesma. Foi de um mal-
ações nascentes que descnham por fora um sentimen- entendido sobre esse ponto que nasceu o debate en-
to, por trás da palavra banal e social que exprime e re- tre realismo e idealismo em arte. A arte com certeza
ll8 flENRI BERGSoN O RISO 119

não passa de uma visão mais direta da realidade. Mas jam conjuradas. É necessário que o homem viva em
essa purcza de percepção implica uma ruptura com a sociedade e que, por conseguinte, se adstrinja a uma
convenção utilitária, um desinteresse inato e especial- regra. E o que o interesse aconselha a razão ordena:
mente localizado do sentido ou da consciência, enfim há um dever, e nosso destino é obedecer-lhe. Sob es-
certa imaterialidade de vida, que é aquilo a que sem- sas duas influências deve ter-se formado para o gêne-
pre se deu o nome de idealismo. De tal modo que se ro humano uma camada superficial de sentimentos c
poderia dizer, sem brincar de modo algum com o sen- de idéias que tendem à imutabilidade, que quereriam
tido das palavras, que o realismo está na obra quando .o
~
pelo menos ser comuns a todos os homens, e que re-
o idealismo está na alma, e que é só graças à ideali- 8 cobrem o fogo interior das paixões individuais, quan-
dade que retomamos contato com a realidade.
CU
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. - """,N ()
(1) O r-- •
do não têm forças para abafá-lo. O lento progresso
A artc dramática não constitui exceção a essa lei. > v r-- .-
. - . . . . Ol
IICOtl'>,
da humanidade para uma vida social cada vez mais
O que o drama vai buscar e traz à luz é uma realidade O·i::IO~ pacificada foi consolidando essa camada aos poucos,
m ....OCO
C
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o
profunda que nos é velada, muitas vezes em nosso pró- assim como a própria vida de nosso planeta foi um
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prio interesse, pelas necessidades da vida. Qual é es- ::J:t.;, g longo esforço para recobrir com uma película sólida
sa reaiidade'l Quais são essas necessidades? Toda poe- ...J !!?..!!\ e fria a massa ígnea dos metais em ebul ição. Mas há .
~
sia expri me estados d' alma. Mas, entre esses estados, erupções vulcânicas. E se a terra fosse um ser vivo,
há os que nascem sobretudo do contato do homem como dizia a mitologia, talvez gostasse de, em repou-
com seus semelhantes. São os sentimentos mais in- sando, sonhar com aquelas explosões bruscas nas quais
tensos c também os mais violentos. Assim como as de súbito ela se restabelece naquilo que tcm de mais
eletricidades se atraem e se acumulam entre as duas profundo. É um prazer desse tipo que o drama nos
placas do condensador de onde se faz brotar a filÍsca, proporciona. Sob a vida tranqüila, burguesa, que a
assim também, pelo simples fato de OS homens esta- sociedade e a razão compuseram para nós, ele vai re--
rem em presença uns dos outros, produzem-se atrações mexer em nós alguma coisa que, felizmente, não ex-
e repulsões profundas, rupturas completas de equilí- plode, mas cuja tensão intcrior ele nos faz sentir. Pos-
brio, enfim essa eletrização da alma que é a paixão. sibilita à natureza desforrar-se da sociedade. Umas
Se o homem se entregasse ao movimento de sua na- vezes irá direto ao objetivo, chamando do fundo à
tureza sensível, se não houvesse lei social nem lei mo- superfície as paixões que levam tudo pelos ares. Ou-
raI. essüs explosões de sentimentos violentos seriam tras vezes scrú indircto, como freqüentemente o dra-
(l comum da vida. Mas é útil que essas explosôes se- ma eontemporáneo, e nos revelará, com uma habili-
120 llENR/ BERGSON OR/SO 12t

dade às vezes sofística, as contradições da sociedade é o desenrolar de uma alma, é uma trama viva de sen-
consigo mesma; exagerará o que pode haver de arti- timentos e acontecimentos, alguma coisa enfim que
• ficial na lei social; e assim, por um meio oblíquo, dis- se apresentou uma vez para nunca mais se reprodu-
solvendo então o envoltório, ele nos levará também a zir. De pouco adiantará dar nomes genéricos a esses
tocar o fundo. Mas nos dois casos, seja enfraquecen- sentimentos; em outra alma eles já não serão a mes-
do a sociedade, seja fortalecendo a natureza, ele per- ma coisa. São individualizados. Principalmente por
segue o mesmo objeto, que é descobrir para nós uma isso pertencem à arte, pois as generalidades, os sÍm-
parte oculta de nós mesmos, o que se poderia chamar bolos, os tipos mesmos, se quiserem, são a moeda cor-
de elemento trágico de nossa personalidade. Temos rente de nossa percepção cotidiana. Qual a origem en-
essa impressão ao sairmos dc um belo drama. O que tão do mal-entendido sobre esse ponto?
nos interessou não foi tanto aquilo que nos contaram A razão é que foram confundidas duas coisas mui-
acerca de outra pessoa quanto aquilo que nos fize- to diferentes: a generalidade dos objetos e a dos jui-
ram entrever de nós, todo um mundo confuso de coi- zos que fazemos sobre eles. Do fato de um sentimcn-
sas vagas que gostariam de ter sido, e que, para nossa to ser geralmente reconhecido como verdadeiro, não
felicidade, não foram. Parece também ter sido lança- se segue que seja um sentimento geral. Nada mais sin-,
do em nós um apelo a lembranças atávicas infinita- guIar que a personagem Hamlet. Embora se asseme-
mente antigas, tão profundas, tão estranhas à nossa lhe a outros homens em certos aspectos, não é por es-
vida atual, que essa vida se nos mostra durante alguns se motivo quc mais nos interessa. Mas ele é univer-
instantes como algo irreal ou convencional, cuja apren- salmente aceito, universalmente considerado vivo. É
dizagem será preciso renovar. É portanto uma reali- só nesse sentido que é de uma verdade universal. O
dade mais profunda que o drama foi buscar debaixo mesmo se aplica aos outros produtos da arte. Cada
de aquisições mais úteis, e essa arte tem o mesmo um deles é singular, mas, se tiver a marca do gênio,
objeto que as outras. acabará sendo aceito por todo o mundo. Por que é
Segue-se daí que a arte visa sempre ao indivi- aceito? E se é único em seu gênero, graças a que si-
dual. O que o pintor fixa na tela é o que ele viu em nal reconhecemos que é verdadeiro? Acredito quc o
certo lugar, certo dia, certa hora, com cores que não reconhecemos graças ao próprio esforço que ele nos
mais scrão revistas. O que o poeta canta é um estado leva a fazer sobre nós mesmos para enxergarmos com
d'alma que foi seu, e scu somente, e que nunca mais sinceridade. A sinceridade é comunicativa. O que o
existirá. O que o dramaturgo nos põe diante dos olhos artista viu não será revisto por nós, sem dúvida, pelo
122 HENR/ BERGSON O R/50 \23

menos não exatamente do mesmo modo; mas, se ele principal personagens secundárias que, por assim di-
tiver visto dc verdade, o esforço que fez para erguer zer, fossem cópias simplificadas dela. O herói de tra-
o véu nos obrigará a imitá-lo. Sua obra é um exem- gédia é uma individualidade única em seu gênero.
plo que nos serve de lição. E pela eficácia da lição Poderá ser imitado, mas quem o fizer passará, cons-
mede-se precisamente a verdade da obra. A verdade, cientemente ou não, do trágico ao cômico. Ninguém
portanto, traz em si um poder de convicção, de con- se lhe assemelha, porque ele não se assemelha a nill-
versão mesmo, que é a marca graças à qual é reco- guém. Ao contrário, um instinto notável leva o poeta
nhecida. Quanto maior a obra, mais profunda a ver- cômico, depois de composta a sua personagem cen-
dade entrevista, mais seu efeito se poderá fazer ouvir, trai, a fazer outras, que apresentem os mesmos tra-
porém mais também esse efeito tenderá a tornar-se ços gerais, gravitar em torno dela. Muitas comédias
universal. Aqlli, portanto, a universalidade está no efei- têm como título um substantivo no plural ou um co-
to produzido. e não na causa. letivo. "As sabichonas", "As preciosas ridículas", "O
O objeto da comédia é completamente diferente. mundo onde todos se entediam" etc., que constituem
Nela, a generalidade está na própria obra. A comédia encontros marcados em cena por pessoas diversas quc
pinta caracteres que já conhecemos, ou com que ainda reproduzem um mesmo tipo fundamentaL Seria inte- ,
toparemos em nosso caminho. Ela anota semelhanças. ressante analisar essa tendência da comédia. Tal"ez
Scu objetivo é apresentar-nos tipos. Se houver neces- encontrássemos em primeiro lugar o pressentimento
sidade, chegará a criar tipos novos. Nisso se distingue de um fato notado pelos médicos, a saber, que os de-
das outras artes. sequilibrados de uma mesma espécie são levados por
O próprio título das grandes comédiasjá é signi- uma atração secreta a buscar-se mutuamente. Sem pre-
ficativo. O misantropo, o avarento, o jogador, o dis- cisamcnte ser da alçada da medicina, a personagem
traido cte. são nomes de gêneros; c, mesmo quando a cômica costuma ser, como já mostramos, um distmi-
colnédia de carátcr tem como título um nome próprio, do, c dessa distração a uma ruptura completa de equi-
csse nomc plúprio logo é arrastado na eorrentcza dos líbrio haveria uma transição imperceptíveL Mas há
nomes comllllS pelo peso de seu conteúdo, e dizemos outra razão ainda. Se o objeto do poeta cômico é apre-
"UI1l Tartuf()", ao passo que não diríamos "uma Fe- sentar-nos tipos, ou seja, caracteres capazes de repe-
dra" llU "um I'lllieuto". tir-se, haveria modo melhor de fazê-lo do que mos-
Acima dc tudo, dificilmente um poeta trágico te- trar-nos vários exemplares diferentes do mesmo tipo'!
ria a idéia d' agnlpar cm torno de sua persllllagcm O naturalista nãll :Igc de modo diferente qUilndo trata
124 HENRI BERGSON O RISO 125

de uma espécie. Enumera e descreve suas principais bém neste caso a biografia dos poetas nos desmenti-
variedades. ria. Como supor, aliás, que o mesmo homem tenha
Essa diferença essencial entre a tragédia e a co- sido Maebeth, Otelo, Hamlet, rei Lear e tantos ou-
média - uma vinculada a indivíduos e a outra a gêne- tros? Mas talvez caiba aqui fazer uma distinção entre
ros - traduz-se de outra maneira ainda. Aparece na a personalidade que temos e aquela que poderíamos
elaboração primeira da obra. Manifesta-se, já de iní- ter. Nosso caráter é efeito de uma escolha que se re-
cio, por meio de dois métodos de observação bem nova sem cessar. Há pontos de bifurcação (ao menos
diferentes. aparentes) ao longo de nossa rota, e avistamos muitas
Por mais paradoxal que essa asserção possa pa- direções possíveis, embora só possamos seguir uma
recer, não acreditamos que observar os outros homens delas. Voltar atrás, seguir até o fim as direções entre-
seja necessário ao poeta trágico. Em primeiro lugar, vistas, nisso parece consistir precisamente a imagina-
de fato, notamos que vários grandes poetas levaram ção poética. Admito que Shakespeare não foi Maebeth
vida muito retraída, bem burguesa, sem que tivessem nem Hamlet nem Otelo, mas leria sido essas perso-
ocasião de ver desencadear-se em torno de si as pai- nagens diversas se as circunstâncias, por um lado, e o
xões cuja descrição fiel fizeram. Mas, a supor-se que consentimento de sua vontade, por outro, tivessem le·
tivessem assistido a esse espetáculo, perguntamo-nos vado ao estado de erupção violenta o que nele só foi
se ele lhes teria servido para muita coisa. O que nos in- impulso interior. É enganar-se estranhamente acerca
teressa, de fato, na obra do poeta é a visão de certos do papel da imaginação poética acreditar que ela com-
estados d'alma profundíssimos ou de certos conflitos põe seus heróis com pedaços colhidos a torto e a di·
intcriores. Ora, essa visão não pode dar-se a partir de reito em torno de si, como para costurar uma fantasia
Cora. As almas não são interpenetrávcis. Do lado de fo- de arlequim. Nada que Casse vivo sairia daí. A vida não
ra percebemos apenas certos sinais da paixão. Só os se recompõe. [;Ia simplesmente se deixa olhar. A ima-
interpretamos - de um modo falho, aliás - por analo- ginação poética pode ser tão-somente uma visão mais
gia com o que nós mesmos já sentimos. Portanto, o completa da realidade. Se as personagens criadas pe-
essencial é o que sentimos, e só podemos conhecer a lo poeta nos dão a impressão de estarem vivas, é por-
fundo o nosso próprio coração '. quando chegamos a que são o próprio poeta, o poeta multiplicado, o poeta
conhecê-lo. Porventura isso significa que o poeta sen- a aprofundar-se em si mesmo num esforço de obser-
tiu o que descreve, que passou pelas situações de suas vação interior tão poderoso que ele capta o virtual no
personagens e viveneiou a vida interior delas? Tam- real e, para fazer dele uma obra completa, retoma o que
126 HENRI BERGSON o RISO 127

a natureza nele deixou em estado de esboço ou de sim- os fatos para deles depreender leis. Em suma, o método
ples projeto. e o objeto são aqui da mesma natureza que se observa
Bem diferente é o gênero de observação do qual nas ciências de indução, no sentido de que a ohser-
nasce a comédia. É uma observação exterior. Por mais vação é exterior e o resultado é generalizável.
curioso que o poeta cômico possa ser em relação aos Voltamos assim, depois de longo desvio, à dupla
aspectos ridículos da natureza humana, não acredito conclusão que foi depreendida ao longo de nosso es-
quc ele vá ao ponto de buscar os seus próprios aspec- tudo. De um lado, urna pessoa sempre só é ridícula
tos ridículos. Aliás, não os encontraria: só somos ri- graças a uma disposição que sc assemelha a uma dis-
síveis pelo lado de nossa personalidade que se furta à tração, graças a alguma coisa que vive nela sem se
nossa consciência. Portanto, essa observação será exer- organizar com ela, à maneira de um parasita: eis por
cida sobre os outros homens. 1\1as, por isso mesmo, a que essa disposição é observada de fora e pode tam-
observação assumirá um caráter de generalidade que bém ser corrigida. Mas, por outro lado, visto ser o
não pode ter quando a fazemos versar sobrc nós mes- objeto do riso essa mesma correção, é útil que a cor-
mos. Pois, instalando-se na supert1cie, ela só atingirá reção atiI1ia ao mesmo tempo o maior número possÍ-
o envoltório das pessoas, aquilo que faz várias delas vel de pessoas. Por isso é que a observação cômica
tocar-se, ser capazes de assemelhar-se. Não irá mais vai instintivamente para o geral. Ela escolhe, entre as
longe. E, mesmo que pudesse, não quereria, pois na- singularidades, aquelas que são passíveis de reprodu-
da teria para ganhar. Penetrar demais na personalida- zir-se e que, por conseguinte, não estão indissoluvel-
de c vincular o efeito exterior a causas muito íntimas mente ligadas à individualidade da pessoa, singularida-
seria comprometer c por fim sacrificar o que o efeito dcs comuns, poderíamos dizer. Transportando-as para

I tinha de risivel. Para sermos tentados a rir, precisa-


mos localizar a causa numa região mediana da alma.
a cena, ela cria obras que pertenceriam sem dúvida à
arte por só visarcm conscientemente a agradar, llIas

I
Por conscguinte, é preciso que o efeito nos apareça que se distinguirão das outras obras de arte por seu ca-
no máximo como meio, como algo que exprime uma ráter de generalidade, assim como pela intenção in-
média de humanidade. E, como todas as médias, esta consciente de corrigir e instruir. Tínhamos portauto
,
I é obtida por aproximações de dados esparsos, por uma razão de dizer quc a comédia intermedia enlre artc e
I,
comparação entre C'ISOS a11úlogos cuja quintessência vida. Ela não é dcsinteressada como a artc pura. Ao
ela cXprillll\ enfim por um trabalho de abstração e de organizar o riso, aceita a vida social como um meio
gen'~raliza,·,·iosemclhante ao que o I1sico realiza com natural; segue mesmo um dos impulsos da vida social.
J

I
~~\(ililJ< a
128 flENRI BERGSON O RISO 129

E nesse ponto dá as costas à arte, que é uma ruptura reconstituir um composto que se obtém por inteiro e
com a sociedade e um retorno à natureza simples. sem custo, que está tão diftmdido na humanidade quan-
to o ar na natureza.
Esse composto é a vaidade. Não acredito que ha-
II ja defeito mais superficial nem mais profundo. Os fe-
rimentos que lhe são infligidos nunca são muito gra-
Vejamos agora, de acordo com o que precedeu, ves, e no entanto não se curam. Os serviços que lhe
como se deverá agir para criar uma disposição de ca- são prestados são os mais fictícios de todos; contu-
ráter idealmente cômica, cômica em si mesma, cômica do, são eles que deixam atrás de si reconhecimento
em suas origens, cômica em todas as suas manifesta- duradouro. Ela mal é um vício, e apesar disso todos os
ções. Deverá ser profunda, para fornecer à comédia vícios gravitam em torno dela e, refinando-se, tendem
um alimento duradouro, mas também superficial, pa- a não ser mais que meios de satisfazê-Ia. Oriunda da
ra permanecer no tom da comédia, invisível para quem vida social, pois é uma auto-admiração fundada na
a possui, pois a comicidade é inconsciente, visível pa- admiração que cremos inspirar nos outros, ela é mais
ra o restante do mundo a fim de provocar o riso uni- natural, mais universalmente inata que o egoísmo, pois
vcrsal, cheia de indulgência para consigo mesma a fim do egoísmo a natureza freqüentemente triunfa, ao pas-
de ostentar-se sem escrúpulo, constrangedora para os so que é só pela reflexão que nos impomos à vaida-
outros a fim de que eles a reprimam scm piedade, cor- de. Não acredito, com efeito, que tenhamos nascido
rigível imediatamente para quc não seja inútil rir de- modestos, a menos que se queira chamar também de
la, segura de renascer sob novos aspectos para que o modéstia certa tim idez física, que, aliás, está mais pró-
riso sempre tenha o que trabalhar, inseparável da vida xima do orgulho do que se pensa. A modéstia verda-
social, ainda que insuportável para a sociedade, capaz deira só pode ser uma meditação sobre a vaidade. Nas-
enfim, para assumir a maior variedade imaginável de ce do espetáculo oferecido pelas ilusões alheias e do
formas, de somar-se a todos os vícios e mesmo a al- temor de nos perdermos. É como uma circunspecção
gumas virtudes. Eis aí os elementos que devem ser ftm- científica a respeito daquilo que diremos e pensare-
didos. O químico da alma ao qual se confiasse essa mos de nós mesmos. É feita de correções e retoques.
preparação delicada ficaria um pouco desapontado, Enfim, é uma virtude adquirida.
é verdade, quando chegasse o momento de esvaziar t~ difícil dizer em que momento exato a preocupa-
sua retorta. Descobriria que teve muito trabalho para ção em tornar-se modesto se separa do temor de tor-
f
130 HENRJ BERGSON o R/50 131

nar-se ridículo. Mas esse temor e essa preocupação todas as manifestações da atividade humana. Nós a
, .;m dúvida se confundem na origem. Um estudo com- buscamos nem que seja para rir. E nossa imaginação
pleto das ilusões da vaidade e do ridículo a ela vincula- muitas vezes a põe onde ela não tem o que fazer. Tal-
da lançaria luzes singulares sobre a teoria do riso. Ve- vez cumprisse vincular a essa origem a comicidade
riamos que o riso cumpre regularmente uma de suas grosseira de certos efeitos que os psicólogos explica-
i funções principais, que é despertar os amores-próprios ram suficientemente pelo contraste: um baixinho que
i
distraídos para a plena consciência de si mesmos e

I obter assim a maior sociabilidade possível dos carac-
se abaixa para passar debaixo de uma porta alta; duas
pessoas, uma muito alta e outra minúscula, andando
Ii teres. Veríamos como a vaidade, apesar de produto de braços dados com muita seriedade etc. Ao olhar-
natural da vida social, incomoda a sociedade, assim mos dc perto esta última imagem, descobriremos, acre-
como certos venenos leves, segregados continuamen- dito, que a mais baixa parece .fazer esforço para er-
te por nosso organismo, o intoxicariam a longo prazo guer-se até a mais alta, como a rã que quer ser tão
se outras secreções não lhes neutralizassem o efeito. grande quanto o boi.
O riso está sempre realizando um trabalho desse gê-
nero. Ncsse sentido, poderíamos dizer que o remédio
especílico para a vaidade é o riso, e que o defeito es- III
sencialmente risível é a vaidade.
Quando tratamos da comicidade das formas e do Não caberia aqui cnumerar as particularidades de
movimento, mostramos como ccrtas imagens simples, caráter que se aliam à vaidadc ou com ela concorrem
risíveis por si mesmas, podem insinuar-se em outras para impor-se à atenção do poeta cômico. Mostramos
imagens mais complexas e infundir-lhes algo de sua que todos os defeitos podem tomar-se lisíveis, e o mes-
virtude cômica: assim as formas mais elevadas de co- mo pode ocorrcr, a rigor, com certas qualidades. As-
micidade às vezes são explicadas pelas mais baixas. sim que fosse feita uma lista dos aspectos ridículos co-
Mas talvez a operação inversa ocorra com mais fre- nhecidos, a comédia se encarregaria de aumentá-la,
qüência, e há efeitos cômicos muito grosseiros que não sem dúvida criando ridículos de pura fantasia, mas
decorrem do rebaixamento de uma cornicidade suti- deslindando direções cômicas que haviam passado
líssima. Assim a vaidade, forma superior de comici- despercebidas até então: é assim que a imaginação po-
dadc, é um elemento quc somos levados a procurar de isolar no desenho complicado de um único e mes-
\'om minúcias, ainda que de modo inconsciente, em mo tapete figuras sempre novas. A condição essencial,
132 HENRJ BERGSON o RISO 133

como sabemos, é que a particularidade observada apa- nar-se solenidade à medida que a profissão exercida
reça de imediato como uma espécie de moldura, na encerrar uma dose mais elevada de charlatanismo. Pois
qual muitas pessoas possam ser inseridas. é notável que, quanto mais uma arte é contestável, mais
Mas há molduras prontas, constituídas pela pró- os que a professam tendem a acreditar-se investidos de
pria sociedade, necessárias à sociedade, visto ser es- uma espécie de sacerdócio e a exigir que os outros se in-
ta fundada na divisão de trabalho. Refiro-me aos ofí- clinem diante de seus mistérios. As profissões úteis são
cios, às funções e às profissões. Toda profissão espe- manífestamente feitas para o público, mas as que têm
cialiL:ada confere àqueles que nela sc fccham certos uma utilidade mais duvidosa só podem justificar sua
hábitos mentais e certas particularidades de earáter que .~
existência supondo que o público foi feito para elas: é
os levam a assemelhar-se entre si e também a distin- .D essa ilusão que está por trás da solenidade. A comici-
guir-se dos outros. Desse modo, pequenas sociedades lU
1...-
g E
o dade dos médicos de Moiit::re provém em grande parte
:- lo...
constituem-se no seio da grande. Por certo resultam (J) o
I"- --:
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:"OI , ..

disso. Eles tratam o doente como se este tivesse sido


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da própria organização da sociedade em geral, Con- O·i:;lO@ criado para o médico, e a própria natureza como se ela
tudo, se isoladas demais, podem prejudicar a sociabi- c: o0<0 fosse um apêndice da medicina.
m .... - ..
. _If.l-~
lidade. Ora, o riso tem justamente a função de repri- u "-..- . Uma outra forma dessa rigidez cômica é o que eu
:::l1:.;, g
mi r as tendências separatistas. Seu papel é corrigir a .....J lOltI chamaria de endurecimento fllVfissional. 1\ persona-
rigidcL:, transformando-a em flexibilidade, readaptar -"g gem cômica se encaixará tão bem na moldura rígida
cada um a todos, enfim aparar arestas. Teremos então de sua função que já não terá espaço para mover-se e
uma espécie de eomicidade cujas variedades poderiam sobretudo para comover-se, como os outros homens.
ser determinadas dc antemão. Se quiserem, nós lhe Lembremos o quc o juiz Perrin Dandin diz a Isabelle,
daremos o nome de comicidade profissional. quando esta lhe pergunta como alguém pode assistir
Não trataremos cm minúcias dessas variedades. à tortura dos infelizes:
Preterimos insistir naquilo que elas têm de comum.
Em primeira linha figura a vaidade profissional. Ca- Rah! Com isso sempre se passa uma hora ou dUilS.
da um dos mestres de M. Jourdain põe sua arte acima

i
li
de t(ldas as outras. Há uma personagem de Labiche que
não entende como alguém pode ser (lutra coisa senão
comerciante de madeiras; é, naturalmcnte, um comer-
ciante de madeiras. A vaidade, aliás, tenderá aqui a tor-
Não é uma espécie dt; endurecimento profissio-
nal o de Tartufo a exprimir-·se, é verdade, pela boca de
Orgon?

11
I11•
"
'.
134 HENRI BERGSON O RISO 135

E vendo morrer irmãos, filhos, mãe e mulher, sendo falsas para o restante do mundo. Mas o eontras-
Mesmo assim só me preocuparia com isso! te entre essas duas lógicas, uma particular e outra uni-
versal, engendra certos efeitos cômicos de natureza
Mas o meio mais usual de levar uma profissão à especial, nos quais não será ocioso nos demorarmos.
comicidade é confiná-la, por assim dizer, dentro da Tocamos aqui um ponto importante da teoria do riso.
linguagem que lhe é própria. É fazer o juiz, o médico Vamos, aliás, ampliar a questão e considerá-la em to-
e o soldado aplicar às coisas usuais a língua do direito, da a sua generalidade.
da estratégia ou da medicina, como se fossem inca-
pazes de falar como todos. Em geral, esse tipo de co-
micidade é bem grosseiro. Mas torna-se mais delica- IV
do, como dizíamos, quando desvenda uma particula-
ridade de caráter ao mesmo tempo que mostra um há- Preocupados que estávamos em depreender a cau-
bito profissional. Lembremos o jogador de Régnard, sa profunda da comicidade, devemos ter desprezado
que se exprime com tanta originalidade em termos até aqui uma de suas manifestações mais notadas. Re-
de jogo, dando a seu valete o nome de Heitor, à espe- ferimo-nos à lógica própria da personagem eômieae
ra de que ele chame a noiva: do grupo cômico, lógica estranha, que em certos ca-
sos pode dar lugar ao absurdo.
Palas, COll1 o conhccido nome de Dama de Espadas, Théophile Gautier disse que a comicidade exlra-
vagante é a lógica do absurdo. Várias filosofias do riso
ou ainda as Sabichonas, cuja comicidade consiste em gravitam em torno de idéia análoga. Todo efeito cô-
boa parte no fato de transporem idéias de ordem mico implicaria contradição por algum lado. O que
científica para termos de sensibilidade le'lninina: nos faz rir seria o absurdo realizado de forma concrc-
"Epicuro é lima graça ...", "Adoro os turbilhões" etc. ta, um "absurdo visível" - ou aínda uma aparência dc
Relendo-se o terceiro ato vê-se que Armande, Phila- absurdo, admitída de início, corrigida a seguir -, ou
minle e Béli~e se expressam regularmente nesse estilo. melhor, o que é absurdo por um lado, porém natural-
Indo mais longe na mesma direção, percebemos mente explicável por outro etc. Todas essas teOl ias
que também há uma lógica profissional, ou seja, ma- contêm sem dúvida uma parcela de verdade, mas de
ueiras de raciocinar que se aprendem em certos am- chofre só se aplicam a certos efeítos cômicos bastan-
I bientes e qli'.~ são verdadeiras para aquele ambiente, te grosseiros, e, mesmo nos casos em que se aplicam,

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136 HENRf BERGSON OR/SO 137

deixam de lado, ao que parece, o elemento caracterís- gência governada exatamente pela mobilidade das coi-
tico do risível, ou seja, o gênero particular de absur- sas. É a continuidade móvel de nossa atenção à vida.
do que a comicidade contém quando contém absurdo. Eis agora Dom Quixote partindo para a guerra.
Querem uma prova? Basta escolher uma dessas defi- Leu em suas novelas que o cavaleiro depara com gi-
nições e compor efeitos segundo a fórmula: na maio- gantes inimigos pelo caminho. Portanto, precisa de
ria das vezes, não obteremos efeito risível. O absurdo, um gigante. A idéia de gigantes é uma lembrança pri-
quando encontrado no cômico, não é, pois, um absur- ~
vilegiada que se instalou em sua mente e ali fica à
do qualquer. É um absurdo determinado. Não cria a L! espreita, esperando imóvel a ocasião de precipitar-se
comicidade; ao contrário derivaria dela. Não é causa, ro 8 E
..... .... NO para fora e encarnar-se em alguma coisa. Essa lem-
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mas efeito - efeito muito especial, no qual se reflete CD or-- . brança quer materializar-se, e o primeiro objeto que
a natureza especial da causa que o produz. Conhece-
'> "O"':".Ql aparecer, ainda que com a forma de gigante só tenha
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mos essa causa. Portanto, não teremos dificuldade, c: 0<0 o
......... _u semelhança distante, receberá a forma de gigante. Dom
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agora, para compreender o efeito. ._ _
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Quixote então verá gigantes onde nós vemos moinhos
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Imagine o leitor que um dia, caminhando pelo :J '" CO de vento. Isso é cômico, isso é absurdo. Mas será um
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campo, avista no alto de uma colina alguma coisa que :::> absurdo qualquer?
se assemelha vagamente a um grande corpo imóvel É uma inversão especial do senso comum. Con-
cujos braços estão girando. O leitor não sabe ainda o siste em pretender modelar as coisas a partir de uma
que é, e procura entre suas idéias, ou seja, entre as idéia, em vez de modelar as idéias a partir das coisas.
I lcmbranl;as de que dispõe: sua memória, aquela que Consiste em vermos diante de nós aquilo em que pen-
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melhor se enquadra no que está sendo avistado. Qua-
se de imediato acode-lhe à mente a imagem de um
samos, em vez de pensarmos naquilo que vemos. Quer
o bom senso que deixemos todas as lembranças de
moinho de vento: é um moinho de vento que está dian- prontidão; a lembrança apropriada responderá então
te do leitor. Poueo importa se pouco antes de sair ele ao chamado da situação presente e só servirá para
leu contos de fadas com histórias de gigantes de bra- interpretá-la. Em Dom Quixote, ao contrário, há um
!l ços intermináveis. O bom senso consiste em saber grupo de lembranças que comanda as outras e que do-
lembrar, admito, mas também e sobretudo em sa- mina a própria personagem: portanto, será a realidade
Ij: ber esquecer. O bom senso é o esfi.Jrço de um espirito que deverá dobrar-se dessa vez à imaginação e só ser-
I
! 'lue se adapta e readapta sem cessar, mudando de idéia vir para dar-lhe corpo. Formada a ilusão, Dom Qui-
, quando muda de objeto. É uma mobilidade da inteli- xote a desenvolve, aliás, racionalmente em todas as

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11i"
138 flENR/BERGSON OR/SO 139

suas conseqüências; entrega-se a ela com a seguran- to, uma loucura normal, pode-se dizer. Ora, há um es-
ça e a precisão do sonâmbulo que representa seu so- tado normal do espírito que imita em tudo a loucura,
nho. Essa é a origem do erro, essa é a lógica especial no qual se encontram as mesmas associações de idéias
que preside o absurdo. Agora, essa lógica é panicular encontradas na alienação, a mesma lógica singular da
a Dom Quixote? idéia fixa. É o estado onírico. Ou nossa análise é ine-
Mostramos que a personagem cômica peca por xata, ou deve poder ser formulada no teorcma seguin-
obstinação de espirito ou de carátcr, por distração, te: O absurdo cômico é de mesma natureza do abslmio
por automatismo. Há no fundo da comicidade uma dos sonhos.
rigidez de certo tipo, que leva a ver o caminho em fren- ~

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Em primeiro lugar, a marcha da inteligência no
te, a não dar ouvidos a nada, a não querer nada ouvir. <ti
.... 0
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sonho é exatamente aquela quc descreviamos há pou-
Quantas cenas cômicas, no teatro de Moliere, se en- . - ... N
o co. O espírito, apaixonado por si mesmo, procura no
Q)o"'" .
quadram nesse tipo simples: uma personagem que se- :> 'tl~.2'
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mundo exterior apenas um pretexto para materializar
gue sua idéia e a ela volta sempre, enquanto está sen- 0';::&0""'-' o que imagina. Aos ouvidos chegam sons confusos,
c: ....
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do sempre interrompida! Aliás, seria imperceptível a ._fI)
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M no campo da visão circulam cores: em suma, os sen-
u·- .
transição daquele quc nada quer ouvir àquelc que na- :::J 1: J> g tidos não estão completamente fechados. Mas () so-
da quer ver c por fim àquele que só vê o que quer. A ......J Il)
--<:)
ro nhador, em vez de recorrer a todas as suas lembranças
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mente que Se: obstina acabará por submeter as coisas à para interpretar o que seus sentidos percebem, utiliza,
sua idéia em ,;ez de regrar seu pensamento pelas coisas. ao contrário, aquilo que percebe para dar corpo illelll-
Toda personagem cômica está lJr!rtanto no caminho brança prefcrida: o mesmo ruido de vento a soprar l1a
da ilusão que acabamos de descrever, e Dom Quixote chaminé será então, segundo o estado d'alma do so-
nos fornecc <l tipo geral de absurdo cômico. nhador, segundo a idéia que ocupa Sll<l imaginação,
Essa iJl'.·crsão do senso comum tcm nome? Ela é uivo de leras ou canto melodioso. Esse é o mecanismo
encontrada, :;cm dúvida, aguda ou crônica, em certas ordinário da ilusiio do sonho.
formas de loucura. Em muitos aspcctos parece-se com Mas, se a ilusiio cômica é uma ilusão onírica, e se
a ideia fixa. Mas nem a loucura em geral nem a idéia a lógica da comicidade é a lógica dos sonhos, pode-se
fiKa nos farúo rir, pois são doenças. Despertam nos- espcrar encontrar na lógica do risivel as diversas par-
sa piedade. O riso, como sabemos, é incompativel ticularidades da lógica do sonho. Aqui também se c()]]-
com a emol.:i!o. Sc há uma loucura risível, só pode ser firma a lei que já conhecemos bem: dada uma forma
ullla loucufd conciliável com a saúde geral do espíri- do risível, outra,; formas, que não contêm (J lm:srno

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140 HENRI BERGSON O RISO 141

fundo cômico, tomam-se risíveis pela semelhança ex- reproduzindo-se assim, em relação à pessoa que está
terior que têm com a primeira. É fácil ver, com efeito, falando, a cena de Petit-Jean e do Souftleur.
que todo jogo de idéias poderá divertir-nos, desde que Há também obsessões cômicas que se aproximam
nos lembre, com nitidez ou vagamente, os jogos do muito, ao que parece, de obsessões oniricas. A quem
sonho. não ocorreu ver a mesma imagem reaparecer em vá-
Cabe destacar em primeiro lugar certo relaxamen- rios sonhos sucessivos, assumindo em cada um deles
to geral das regras do raciocínio. Os raciocínios de que uma significação plausível, embora esses sonhos não
rimos são aqueles que sabemos serem falsos, mas tivessem outro ponto comum? Os efeitos de repetição
que poderemos considerar verdadeiros se ouvidos em apresentam às vezes essa forma especial no teatro e
sonho. Arremedam o raciocínio verdadeiro com su- no romancc: alguns deles têm ressonâncias de sonho.
ficiente perfeição para enganar a mente adormecida. E talvez ocorra o mesmo com o refrão de muitas can-
ções: obstina-se, volta sempre o mesmo, no fim de to-
Í~ uma lógica ainda, se quiserem, mas uma lógica fo-
das as copIas, cada vez com um sentido diferente.
ra do tom que, por isso mesmo, nos repropõe o traba-
Não é raro observar-se no sonho um crescendo
lho intelectual. Muitos "chistes" são raciocínios desse
particular, uma bizarria que se acentua à medida ql.)e
tipo, raciocínios abreviados dos quais nos são dados
ele avança. Uma primeira concessão arrancada à razão
apenas o ponto de partida e a conclusão. Esses jogos
provoca uma segunda, e esta, uma outra mais grave,
do espirito, aliás, evoluem para o jogo de palavras à e assim por diante até o absurdo final. Mas essa mar-
medida que as relações estabelecidas entre as idéias cha para o absurdo dá a quem sonha uma sensação sin-
se tornam mais superficiais: aos poucos chegamos a gular. Acredito que seja a sensação que o bebedor tem
já não considerar o sentido das palavras ouvidas, mas quando se sente resvalar agradavelmente para um es-
apenas o som. Não seria então o caso de comparar ao tado em que nada mais contará para ele, nem lógica
sonho certas cenas muito cômicas em que uma perso- nem conveniências. Vejamos agora se certas comédias
nagem repete sistematicamente ao contrário as frases de Moliêre não dariam a mesma sensação: por exem-
que oulJa lhe sopra ao ouvido? Quando adormecemos plo, Monsicllr de POllrceallgllac, que começa quase de
entre pessoas que conversam, achamos às vezes que modo racional e continua com excentricidades de to-
aos poucos suas palavras vão se esvaziando de senti- da espécie, ou também, por exemplo, O burgllêsjidal-
j, do, que os sons se deformam e se uncm ao acaso, pa- go, em que as personagens, à medida que a comédia
, ra assumir em nosso cspírito significações bizarras, avança, parecem deixar-se arrastar num turbilhão de
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142 HENR/ BERG50N aR/50 t43

loucura. "Se for possível encontrar alguém mais lou- ciso um esforço de reflexão para depreendê-Ia. Ve-
co, Vali contar isso em Roma": essas palavras, que nos jam-se por exemplo estas respostas de Mark Twain
advertem quc a peça terminou, tira-nos do sonho ca- ao repórter que vem entrevistá-lo: "O senhor tem um
da vez mais extravagante em que nos embrenhávamos irmão? - Sim; nós o chamávamos de Bill. Pobre Bil1!
com M. Jourdain. - Então ele morreu? - É o que nunca pudemos saber.
Porém o mais importante é que há uma demência Um grande mistério paira sobre esse caso. O defunto
própria ao sonho. Há certas contradições especiais, tão e eu éramos gêmeos, e eom quinze dias de idade de-
naturais para a imaginação do sonhador, tão chocan- ram-nos um banho na mesma tina. Um de nós se afo-
tes para a raziio do homem desperto, que seria impos- gou, mas nunca ninguém soube qual. Pensam uns que
sível dar uma idéia exata e completa delas a quem não era Bill; outros, que era eu. - Estranho. Mas e o senhor
as tenha experimentado. Aludimos aqui à estranha fu- o que acha'7 - Escute, vou contar-lhe um segredo que
são que o sonho muitas vezes realiza entre duas pes- ainda não revelei a vivalma. Um de nós dois tinha um
soas que se unificam, ainda que continuem distintas. sinal particular, uma enorme pinta no dorso da mão
Ordinariamente, uma das personagens é o próprio so- esquerda; e esse era eu. Ora, foi essa a criança que se
nhador. Sente que não deixou de ser o que é, mas nem afogou... etc." Examinando bem, veremos que o absur-
por isso deixa de ser outro. É ele e não é ele. Ouve-se do desse diálogo não é um absurdo qualquer. Desa-
falando, vê-se agindo, mas sente que um outro lhe to- pareceria se a personagem que está iàlando não fosse
: '
mou o corpo emprestado, tomou-lhe a voz. Ou então precisamente um dos gêmeos de que se está falando.
terá consciência de estar falando e agindo como de Ele reside no falo de Mark Twain declarar ser um des-
costume, mas falará de si como de um estranho com ses gêmeos ao mesmo tempo que se expressa como se
o qual nada mais tem de comum; estarú desligado de fosse um terceiro contando a história. Não procede-
si mesmo, t'lão se encontrará por acaso essa confusão mos de modo diferente em muitos de nossos sonhos.
estranha (~m certas cenas cômicas? Não estou falando
do Anjiíl"iiilJ, no qual a confusão é sem dúvida suge-
rida ao espectador, mas em que o grosso do efeito cô- V
mico prov0m mais daquilo que chamamos acima de
"interferência de duas séries". Refiro-me aos raeioci- Encarada deste último ponto de vista, a cOllliei-
nios extravagantes e cômicos em que essa confusão se dade nos apareeeria com uma forma um pouco di fe-
encontm realmente em estado pur", embora seja pre- rente daquela que lhe atribuíamos. Até agora, tÍnha-
.. #

144 lIENRIBERGSON O RISO 145

mos visto no riso principalmente um meio de correção. sonhasse. Ora, o sonho é um relaxamento. Ficar em
Tome-se a continuidade dos efeitos cômicos, isolem-se contato com as coisas e com os homens, só ver o que
de vez em quando os tipos dominantes: teremos que existe e só pensar no que tem nexo, tudo isso exige
a virtude cômica dos efeitos intermediários provém da um esforço ininterrupto de tensão intelectual. O bom
semelhança destes com esses tipos, e que os próprios senso é esse esforço. É trabalho. Mas desligar-se das
tipos são modelos de impertinência para a sociedade. coisas e mesmo assim perceber imagens, romper com
A essas impertinências a sociedade replica com o ri e ...
.o a lógica e mesmo assim ainda unir idéias, isso é ape-
so, que é uma impertinência maior ainda. O riso, por- nas jogo ou, se preferirem, preguiça. O absurdo cô-
.u 8Ê
tanto, nada teria de benevolente. Ao contrário, pagaria -= ... ",,0
.1) O....... ~ mico nos dá, portanto, em primeiro lugar a impres-
o lllal com o mal. S 'tl"":'.2' são de um jogo de idéias. Nosso primeiro movimen-
'll<Q .
Contudo, não é isso o que mais chama a atenção O .\::U")~
c:O<Q o JO.'é de associar-nos a esse jogo. E nos poupamos da
primeiramente na impressão do risível. A personagem cu .... - ' n
_lI) ..... C")
0·-,..... . fadiga de pensar.
cômica muitas vezes é uma personagem com a qual ~J:.o
..J lO c Mas poderemos dizer o mesmo das outras jixmas
começamos simpatizando materialmente. Quero dizer ...J' lO <ti
~.-
U do risível. Há sempre no fundo da comicidade, dizía-
que por curtíssimo tempo nos pomos em seu lugar, ::l
mos, a tendência a deixar-se resvalar ao longo de uma
adotamos seus gestos, suas palavras e seus atos, e, se
vertente fácil, que é no mais das vezes a vertente do
nos divertimos com aquilo que nela há de risível, tam-
bém a convidamos, em imaginação, a divertir-se co- hábito. Já não buscamos adaptar-nos e readaplar-nos
nosco: começamos por tratá-la de companheira. Por- incessantemente à sociedade de que tàzemos parte.
tanto, há em quem ri pelo menos uma aparência de Relaxamos a atenção que deveríamos à vida. Asseme-
bonomia, de jovialidade amável que tàremos mal se lhamo-nos mais ou menos a um distraído. Distração da
não levarmos em conta. Há no riso sobretudo um mo- vontade, admito, até mais que da inteligência. Distra-
vimento de relaxamento, freqüentemente observado, ção ainda, porém, c, por conseguinte, preguiça. Rom-
cuja razão devemos procurar. Em nenhum lugar essa pemos com as conveniências assim como há pouco
impressão foi mais perceptível do que em nossos úl- rompíamos com a lógica. Enfim, assumimos ares de
timos exemplos. Será neles também, aliás, que encon- quem está brincando. Aqui também nosso primeiro
traremos a explicação disso. movimento é de aceitar o convite à preguiça. Por um
Quando a personagem cômica segue sua idéia au- instante pelo menos, entramos no jogo. E nos poupa-
tomaticamente, acaba por pensar, falar, agir como se mos da fadiga de viver.

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