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JELIN, Elizabeth. Los trabajos de la memoria. Lima: Instituto de Estudios Peruanos, 2012.

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I. Nota de la autora, por Elizabeth Jelin, escrito em julho de 2011.

- ““Passado recente”, porque em algum sentido era um eufemismo frente a dificuldade


de nomear as ditaduras, as violências políticas, as situações limítrofes a que foram
submetidos amplos setores de nossas sociedades. “Passado recente” porque era um
passado muito presente” (p.9-10)

- “A preocupação por estas questões foi surgindo no Cone Sul a partir das transições
pós-ditatoriais dos anos 80, quando desde o campo institucional e político, desde os
movimentos sociais e desde as subjetividades das vítimas e sobreviventes se colocou a
urgência de encarar e enfrentar esses passados, ainda muito recentes. [...] Demandas
diversas, lutas para nomear e interpretar esses passados, eram os processos sociais que
precisávamos tentar compreender” (p.10)

- “A urgência de trabalhar a memória não foi uma inquietação isolada de um contexto


político e cultural específico. As reflexões de caráter analítico geral são sempre feitas a
partir de um local específico. Neste programa, a preocupação urgente centrava-se em
compreender os vestígios das ditaduras do Cone-Sul na América Latina e da violência
política latino-americana entre as décadas de 70 e 80, e o que se estava elaborando nos
processos pós-ditatoriais” (p.10)

II. Revisitando el campo de las memorias: un nuevo prólogo

II.1. El cambio de signo y los nuevos y viejos desafíos

- “O que ocorreu nestes anos com o tratamento do passado de violência política e de


repressão? Que tendências previamente existentes se consolidaram? Que fenômenos
novos emergiram?” (p.13-14)

II.2. El paradigma de los derechos humanos

- “Ao longo das últimas décadas, o paradigma dos direitos humanos foi se
consolidando como o parâmetro legitimo para interpreta jurídica e socialmente as
atrocidades cometidas pelos regimes ditatoriais e autoritários. No plano internacional,
foi a partir dos anos setenta, e em grande parte pela iniciativa das redes internacional de
ativistas, que se estabeleceram diversas normativas neste campo” (p.14)

- “Em função dos sentidos socioculturais, o paradigma dos direitos humanos traz
consigo uma mudança muito importante no marco de intepretação da violência: o que
antes se interpretava como repressão ou eliminação dos “perdedores” das batalhas
políticas, foi se tornando, décadas depois, em um sentido comum, o que se interpreta
como “violações dos direitos humanos”, noção que supõe a universalidade da noção de
“sujeito de direito”. Esta passagem interpretativa teve, e tem, consequências, já que
implica a centralidade da “vítima”, e isto leva a debates sobre a definição e redefinição
de quem, e sob quais circunstâncias, podem ser definidas como “vítimas”, assim como
os espaços legítimos para fazer ouvir sua voz. [...] Os efeitos desta interpretação são
diversos: o que resulta importante é a humilhação ou violência que a pessoa sofreu
(principalmente se houver marcas no corpo, tortura, estupro, assassinato), e fica para
trás – para ser retomada mais tarde em um momento posterior da história – o projeto
ou o ativismo desse sujeito cuja integridade foi violada. A vítima foi afetada por
ações de outro – o violador, o perpetrador. Não importa o que a vítima fez. Suas
ações, seja no sentido político ou afetivo, são silenciadas” (p.15)

- “Se coloca aqui a questão da relação entre as memórias e os direitos humanos em seu
sentido mais amplo. Não cabe a menor dúvida de que os direitos humanos violados nas
ditaduras: torturas, desaparições, assassinatos, privação ilegítima da liberdade, entre
outros crimes espantosos. Aqueles que denunciaram e processaram por esses crimes
tornaram-se um “movimento de direitos humanos”, e a partir de suas ações nos anos 70
se tendeu a se identificar as demandas de direitos humanos com as reivindicações
ligados às violações ocorridas durante as ditaduras militares e os regimes de terror. A
noção de direitos humanos, no entanto, remete conceitual e normativamente a algo
muito mais amplo do que as violações ocorridas em ditaduras. Envolve toda a gama de
direitos internacionalmente reconhecidos, os direitos civis e políticos, os direitos
econômicos, sociais e culturais, que incluem a situações das prisões, os “excessos” das
forças policiais e de segurança, o direito ao trabalho, a educação, as demandas de terra
por povos originários” (p.15-16)

II.4. La cuentas con el pasado


- “O passar do tempo mostra uma e outra vez a impossibilidade de “fechar as contas
com o passado”. Se for seguida a evolução temporal dos fenômenos ligados às
memórias, interpretações e significados do passado, a não linearidade temporal das
memórias torna-se cada vez mais clara. No senso comum, pensamos que a medida
que o tempo passa, o passado fica mais longe, e as pessoas tendem a esquecer. Mas, às
vezes, o passado pode relutar em ser esquecido e pode voltar e ser atualizado de
várias maneiras. Isto é assim porque existem atores sociais persistentes que não
permitem que esqueçamos e insistem em sua presença. Também porque as novas
gerações perguntam e dão novos sentidos a partir de seu lugar histórico, porque não há
uma resolução satisfatória das demandas no presente e porque há marcas e traços que
podem ser elaborados. Em muitos momentos históricos existem propostas estatais e
sociais para “fechar”, “suturar”, cicatrizar as feridas abertas por conflitos violentos”
(p.16)

- “Embora haja vontade política em direção contrária, isto é inevitável. A inelutável


renovação geracional envolve novos sujeitos que se aproximam de sua realidade
sociopolítica em circunstâncias diferentes e propõem perguntas e dilemas que
levam a reinterpretações e ressignificações” (p.16-17)

- “O que se contata é que o “passado” não é algo fixo ou fechado. Assim, em um


primeiro momento do pós-transição, por exemplo, o debate pode ter se concentrado nas
violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura e nas demandas imediata
por “verdade” e “justiça”. Conforme o tempo passa, mudam os atores e as
interpretações desse passado. Também muda a própria definição e periodização do
passado a que se refere. Na Argentina, por exemplo, das violações durante a ditadura, o
debate social e o reconhecimento estatal passaram para o período anterior à ditadura,
incluindo a questão das responsabilidades nas modalidades da luta armada, para voltar a
enfocar nas violações durante a ditadura no momento em que os julgamentos dos
repressores estão sendo atualizados e multiplicados. [...] Além disso, as contas com o
passado ficam em aberto porque existem crimes e danos que não podem ser reparados e
qualquer tentativa de resolução está fadada ao fracasso. Talvez a particularidade da
memória seja que ela seja aberta, sempre sujeita a debates, sem linhas finais,
constantemente em revisão” (p.17)

II.5. Las políticas de la memoria


- “Na virada de século se contata um processo crescente de institucionalização e de
formulação de “políticas de memória”” (p.17)

[N.R. 3: “As lutas pelas memórias e sua historicidade pode se centrar em


acontecimentos e situações ocorridas há séculos, como a escravidão, as conquistas
territoriais da colônia espanhola ou os extermínios dos povos originários no século XIX
na Argentina”] (p.17)

- “[...] estas iniciativas têm um duplo sentido. Por um lado, se trata do reconhecimento
estatal dos sofrimentos e o ressarcimento simbólico das vítimas; por outro, há uma
intencionalidade pedagógica da transmissão a gerações futuras. O primeiro objetivo
pode ser alcançado, dependendo da maneira como as agências estatais, as organizações
de direitos humanos e as próprias vítimas estão vinculadas. A segunda é sempre mais
incerta, já que a transmissão depende dos conteúdos e sentidos que quem se
encarrega da tarefa quer transmitir, mas, ainda mais, da forma como quem
“recebe” – as gerações posteriores” incorporam e outorgam sentido a esses
conteúdos. Isto é impossível de predizer ou controlar, desta feita, então, o futuro
está sempre aberto e por ser construído” (p.18)

- “Há momentos e circunstâncias que a política estatal de memória é uma política de


silêncio e esquecimento, com o argumento de que a construção democrática deve ser
feita direcionada a uma ação para o futuro e não olhando o passado. Não é o que
acontece na maioria dos casos nesta fase inicial do século XXI” (p.18)

- “Esta “normalidade” não está isenta de conflitos e confrontações entre atores que
pretender impor “suas” memórias. Diversos governos, em seus diferentes âmbitos
(nacional, provincial, municipal) encaram esta normalidade de distintas maneiras,
construindo memoriais de todos os tipos, organizando eventos e utilizando os símbolos
associados ao assunto. Sem dúvida, há alguma “ritualização” e até mesmo rotinização
em todo este processo de confrontação com o passado. Há tentativas de “domesticar”
as lutas, propondo políticas tranquilizadoras de memória. [...] o reconhecimento dos
conflitos do passado e do presente, dos diversos atores e suas orientações e interesses, e
da pluralidade de vozes de qualquer regime democrático tem que conter e incorporar”
(p.19)
- “Quando são levados a seu extremo, as operações de memorialização contém perigos
históricos (TODOROV, 1998). Mais que “usos”, estamos na presença do que, visto
em outra perspectiva, seriam “abusos” da memória. As tentativas de rememorar
cada lugar e cada instância do horror – compilar todos os testemunhos, assinalar e
converter em memoriais todos, e cada um, dos lugares onde ocorreram atrocidades, ou
encontrar a todos, e cada um, dos culpáveis e dos beneficiários do regime ditatorial –
enfatizam a literalidade e exaustividade do registro e da comemoração. Ao fazê-lo,
perde-se a capacidade de abstrair e de inferir consequências para o futuro e para
outras pessoas e grupos, com o que se constrói é uma repetição ritualizada, sem
elaboração ou integração na dinâmica sociopolítica dos momentos posteriores”
(p.19-20)

[N.R. 7: “Mesmo na Argentina, onde a implantação social do movimento de direitos


humanos tem sido muito forte e onde o governo assumiu como política de memória a
condenação do terrorismo de Estado ditatorial, existem grupos sociais que
reivindicam publicamente os militares e suas práticas repressivas. Tal é o caso do
movimento Memoria Completa, que está presente em diversos sites e blogs da
internet”] (p.19)

II.6. Uma perspectiva de género

- “A incorporação de uma perspectiva de gênero na análise das memórias da violência


de Estado se centrou, mais que nada, no reconhecimento da vitimização de mulheres.
[...] a Comisión Nacional sobre la Desapación de Personas (CONADEP) na Argentina
(1984) e a Comisión de la Verdad y Reconciliación no Chile (1990-1991) foram “cegas”
às questões de gênero. Isto foi mudando, em boa parte, pela transformação institucional
internacional” (p.20)

II.7. Memoria y familia

- “Nos momentos de maior violência e repressão, há uma categoria de pessoas que


expressam sua dor na esfera pública e realizam protestos e demandas: as famílias das
vítimas, principalmente, mas não exclusivamente, as mulheres. A centralidade do
vínculo de parentesco com as vítimas colocava a família, e, sobretudo, a
maternidade, em um lugar quase emblemático, estruturando os movimentos de
demanda e de denúncia. [...] Por que deviam ser colocadas em função do parentesco as
denúncias e demandas do movimento de direitos humanos?” (p.23)

- “O uso que os discursos ditatoriais fizeram da família como a “unidade natural”


da organização social que teve seu correlato no movimento de direitos humanos – a
denúncia e o protesto dos familiares foram, de fato, os únicos que puderam ser
expressos. Depois de tudo, foram as mães em busca dos filhos... [...] Essa aparição
pública dos laços familiares na vida política é significativa, para além dos próprios
objetivos e da própria presença. Implica uma reconceitualização da relação entre a
vida pública e a vida privada. Na imagem que o movimento de direitos humanos
comunicou à sociedade, o vínculo da família com a vítima é a justificativa básica
que dá a legitimidade à ação” (p.23)

- “Este “familismo” público e político esta baseado na crença de que os vínculos


familiares são constitutivos, são “primordiais”. As relações familiares, portanto,
desempenham um papel fundamental nas questões relacionadas aos estupros e
suas memórias. As mães podem ter generalizado sua maternidade, com o slogan de
que todos os desaparecidos são filhos de todas as mães” (p.23)

- “Em termos mais amplos, o “familismo” envolve uma base personalizada e


particularistica para a solidariedade interpessoal e política” (p.24)

- “O desafio histórico, então, reside no processo de construção de um compromisso


cívico com o passado que seja mais democrático e mais inclusivo” (p.25)

II.8. Foco: las memorias

- “Repito as notas básicas da abordagem proposta neste livro. As memórias são


processos subjetivos e intersubjetivos, ancorados em experiências, em “marcas”
materiais e simbólicas e em quadros institucionais. Isto implica necessariamente
entrar na análise da dialética entre individuo/subjetividade e sociedade/pertencimento a
grupos culturais e institucionais. As memórias, sempre plurais, geralmente são
apresentada em oposição ou mesmo em conflito com outras. Ao trabalhar sobre lutas
ou conflitos em torno de memórias, o acento está colocado no papel ativo daqueles que
participam dessas lutas. As relações de poder e as lutas pela hegemonia estão sempre
presentes. É uma luta pela “minha verdade”, com promotores/as e “empreendedores/as”,
com tentativas de monopolização e apropriação. O enfoque proposto reconhece o
caráter construído e mutante dos sentidos do passado, dos silêncios e
esquecimentos históricos, assim como do lugar que sociedades, ideologias, climas
culturais e lutas políticas atribuem à memória. Daí a necessidade de “historicizar a
memória”. [...] Na realidade, os fenômenos da memória ocorrem em diversos níveis:
do indivíduo subjetivo à escala global. A prevalência de pesquisas e políticas na
escala do Estado-nação, especialmente na análise comparativa, obscurece e oculta a
multiescalaridade dos processos” (p.25-26)

- “[...] no campo de estudos da memória convergem inquietudes teórico-acadêmicas e


um compromisso cívico-político com empatia para com as vítimas e com os ideais de
construção da sociedade onde os conflitos – inevitáveis na dinâmica sociopolítica –
possam ser enfrentados sem violência e com um sentido partilhado de justiça. Nesta
direção, é preciso lembrar que o campo da prática da memória – e em grande medida,
também o campo da pesquisa – tem sido dominado pelo “dever da memória”: a ideia
de que é preciso lembrar para não repetir, que só lembrando e tendo uma política
ativa em relação ao passado ditatorial pode-se constituir uma democracia para o futuro.
Este foi o pressuposto básico do compromisso político que esteve na origem das
primeiras iniciativas no momento da transição. Com o passar dos anos, essa suposição
se torna uma grande indagação: uma política de memória ativa é condição necessária
para a construção democrática?” (p.27)

- “Se faz necessário desarticular e decompor a relação entre memória e democracia, e


explorar em que aspectos concretos da democracia opera a ativação de memórias do
passado ditatorial. [...] Do paradigma dominante dos direitos humanos, a luta social e
política é contra a impunidade, do passado e do presente. Ter feitos julgamentos, e
seguir fazendo, é, sem dúvida, um feito muito significativo na reivindicação e
reconhecimento dos crimes e no castigo dos responsáveis. A pergunta que se coloca é, o
aparato judicial, como um todo, melhora com o fato de ter processado os repressores ou
de estar fazendo hoje julgamentos vinculados à repressão do passado? Os julgamentos
dos anos 80 na Argentina tiveram um impacto significativo na cultura política, na
consciência pública e no sistema de significados das instituições para grandes setores da
população. Lembremos que nos países latino-americanos, historicamente, o Poder
Judiciário havia sido um instrumento de dominação social e política. As demandas
de justiça por parte dos movimentos de direitos humanos na transição, ao menos na
Argentina, provocaram mudanças na relação entre a sociedade e o sistema judicial. A
partir da visibilidade do julgamento dos ex-comandantes em 1985, o apelo à justiça se
multiplicou em muitos campos” (p.28)

- “Quando hoje falamos de memória, estamos falando de memórias de sofrimento,


da ditadura, das violações dos direitos humanos, dos crimes do regime, etc. etc., e as
memórias que se resgatam e que os atores reivindicam são memórias de situações
limite. As perguntas que ficam abertas são: quanto de políticas de memória (e quais) é
necessária para construir um sistema democrático? O que lembrar do passado para
construir o tipo de regime ou o tipo de institucionalidade democrática? Qual papel
cumpre as política de reconhecimento simbólico na construção de uma cidadania
ativa?” (p.29)

II. Introducción

- [“Não se pode querer que Auschwitz retorne eternamente, porque, na verdade, nunca
deixou de acontecer, já se está repetindo sempre” (AGAMBEN1)] (p.33)

- “Abrir os jornais da Argentina, Uruguai, Chile ou Brasil nos anos 2000 pode se
assemelhar, em certo sentido, a atravessar um túnel do tempo. [...] as notícias centrais
incluem uma série de temas que indicam a persistência de um passado que “não quer
passar” [...]” (p.33)

- “O retorno destas notícias às primeiras páginas ocorre depois de alguns anos de


silêncio institucional, de tentativas (falhas, pelo que parece) de construir um futuro
democrático sem olhar para o passado. [...] No plano social e cultural houve menos
silêncios. [...] Os afetados diretamente pela repressão carregam seu sofrimento e dor, e o
traduzem em ações públicas de diferentes tipos. A criação artísticas, no cinema, na
narrativa, nas artes plásticas, no teatro, dança ou música, incorpora e trabalha sobre esse
passado e seu legado” (p.36)

- “Este livro busca contribuir a encontrar ferramentas para pensar e analisar as presenças
e sentidos do passado. [...] Primeiro, entender as memórias como processos
subjetivos, ancorados em experiências e em marcas simbólicas e materiais.
Segundo, reconhecer as memórias como objeto de disputas, conflitos e lutas, que
aponta para prestar a atenção no papel ativo e produtor de sentidos dos e das
participantes nessas lutas, marcados nas relações de poder. Terceiro, “historicizar” as
1
AGAMBEN, G. O que resta de Auschwitz, p.106.
memórias, ou seja, reconhecer que existem mudanças históricas no sentido do
passado, assim como o lugar das memórias em diferentes sociedades, climas culturais,
espaços de lutas políticas e ideologias” (p.36)

II.1. Los anclajes de “nuestras” memorias

- “Apesar do tempo passado transcorrido desde os momentos de transição, os obstáculos


de todo tipo para a real vigência de um Estado de direito estão à vista. Isto coloca a
pergunta sobre quais são as continuidades e rupturas que tem ocorrido entre os regimes
ditatoriais e os regimes constitucionais que os sucederam, em função da vida cotidiana
de diferentes grupos e das lutas sociais e políticas que ocorrem no presente” (p.38)

- “No entanto, o passado ditatorial tem sido uma parte central e permanente dos
conflitos de cada presente. O conflito social e político sobre como processar o
passado repressivo recente permanece, e por momento se agudiza” (p.38)

- “Apesar das demandas das vítimas e seus defensores (a), em quase toda a região se
promulgaram leis que convalidaram anistia aos violadores. Levou duas décadas até
começar a reverter esta situação legal – como ocorreu com a sentença de
inconstitucionalidade da Suprema Corte na Argentina em 2005 [...]” (p.38)

- “Outros (as) observadores (as) e atores (as), preocupados (as) com a estabilidade das
instituições democráticas, estão menos dispostos (as) a reabrir as experiências dolorosas
da repressão autoritária e põem ênfase na construção de um futuro democrático,
sustentado que isto se pode fazer sem voltar a visitar o passado. A partir desta postura,
promovem políticas de esquecimento ou de “reconciliação”. Finalmente, há os que
estão dispostos (as) a visitar o passado para aplaudir e glorificar a “ordem e progresso”
que, em sua visão, produziram as ditaduras. Se trata de lutas em cada conjuntura, em
cada presente, ligadas a cenários e disputas políticas do presente” (p.39)

- “Em todos os casos, passado certo tempo – que permite estabelecer um mínimo de
distância entre o passado e o presente –, as intepretações alternativas (inclusive rivais)
desse passado recente e de suas memórias começam a ocupar um lugar central nos
debates culturais e políticos. Constituem um tema publico inescapável na difícil tarefa
de forjar sociedades democráticas. Essas memórias e essas interpretações são
também elementos chave nos processos de (re)construção de identidades
individuais e coletivas em sociedades que emergem em períodos de violência e
trauma” (p.39)

- “Cabe estabelecer um fato básico. Em qualquer momento e lugar, é impossível


encontrar uma memória, uma visão, uma interpretação única do passado,
compartilhada por toda sociedade. [...] Sempre haverá outras histórias, outras
memórias e interpretações alternativas e subterrâneas, na resistência, no mundo privado,
nas “catacumbas”. Há uma luta política ativa sobre o sentido do ocorrido, mas também
sobre do sentido da memória em si mesma. O espaço da memória é então um espaço de
luta política, e não poucas vezes esta luta é concebida como luta “contra o
esquecimento”: recordar para não repetir. Os slogans são bonitos. A “memória
contra o esquecimento” ou “contra o silêncio” esconde que na realidade é uma
oposição entre distintas memorias rivais (cada uma delas com seus próprios
esquecimentos). É na verdade “memória contra memória”” (p.39-40) (***)

II.2. El itinerario a compartir

- “[…] o livro se nutre de desenvolvimentos e contribuições de uma multiplicidade de


disciplinas: sociologia, história, antropologia, política, crítica cultural, psicologia,
psicanálise. [...] Pretende contribuir para a reflexão analítica e na elaboração de
perguntas que podem impulsionar uma investigação comparativa mais ampla no tempo
e no espaço. Os exemplos, casos e ilustrações que se colocam proveem de distintas
experiências de “situações limite” em que há investigações, as do Cone Sul, mas
também da Shoah, do Japão ou da guerra civil Espanhola” (p.40-41)

Cp.1: La memoria en el mundo contemporáneo

- “Vivemos em uma era de colecionadores. Registramos e guardamos tudo: as fotos de


infância e as recordações da avó no plano privado-familiar, as coleções de recortes e
notas de temas ou períodos que nos interessa, os arquivos oficiais e privados de todo
tipo. [...] Esta explosão da memória no mundo ocidental contemporâneo chega a
constituir uma “cultura de memória” (HUYSSEN, 2000, p.16) que coexiste e se
reforça com a valorização do efêmero, o ritmo rápido, a fragilidade e transitoriedade dos
fatos da vida” (p.43)

- “Esta “cultura da memória” é em parte uma resposta, ou reação, a mudança rápida e


a uma vida sem ancoragens ou raízes. A memória tem, então, um papel altamente
significativo, como mecanismo cultural para fortalecer o sentido de pertencimento a
grupos ou comunidades” (p.44)

- “O debate cultural se move entre distintas interpretações e posturas. (1) Aqueles


que destacam o lugar da memória como compensação a aceleração da vida
contemporânea e como fonte de segurança frente o temor ou horror do esquecimento
[...], pareciam se colocar no lado oposto daqueles (2) que se lamentam por esses
passados que não passam, pelas aparentes “fixações”, retornos e presenças
permanentes de passados dolorosos, conflitivos, que resistem e reaparecem, sem
permitir o esquecimento ou a ampliação do olhar (TODOROV2, 1998). [...] Ambos
processos, o temor do esquecimento e a presença do passado, são simultâneos, embora
exista clara tensão entre eles. No mundo ocidental, o movimento memorialista e os
discursos sobre a memória foram estimulados pelos debates sobre a Segunda
Guerra Mundial e o extermínio nazista, intensificados desde o começo dos anos 80.
Isto tem levou críticos culturais como Huyssen a afirmar a “globalização do discurso
do Holocausto” que “perde sua qualidade de índice do acontecimento histórico
específico e começa a funcionar como uma metáfora de outras historias traumáticas e
de sua memória” (HUYSSEN, 2000, p.15)” (p.44)

- “Para além do clima da época e da expansão de uma “cultura da memória”, em termos


gerais, familiares ou comunitários, a memória e o esquecimento, a comemoração e a
lembrança se tornar cruciais quando se vinculam a acontecimentos traumáticos de
caráter político e a situações de repressão e aniquilação, ou quando se trata de profundas
catástrofes sociais e situações de sofrimento coletivo. [...] No individual, a marca do
traumático intervêm de maneira fundamental sobre o que o sujeito pode ou não pode
lembrar, silenciar, esquecer ou elaborar. Em um sentido político, as “contas com o
passado”, enquanto as responsabilidades, reconhecimentos e justiça institucional se
combinam com urgências éticas e demandas morais, não fáceis de resolver pelos
conflitos políticos nos cenários onde se colocam e pela destruição dos laços sociais e
inerente a situações de catástrofe social” (p.45)

[N.R. 3: “As situações de catástrofe social provocam efeitos de ruptura no trabalho


psíquico de ligação, de representação e de articulação [...] Enquanto que, como afirma

2
TODOROV, T. Os abusos da memória, 1998.
Freud, as catástrofes naturais solidarizam o corpo social, as catástrofes sociais o
desagregam e dividem” (KAÉS3, 1991, p.144-145)”] (p.45)

- “Geralmente, os atores que lutam para definir ou nomear o que ocorreu durante
períodos de guerra, violência política ou terrorismo de Estado, assim como aqueles que
tentam honrar e homenagear as vítimas e identificar os responsáveis, veem suas ações
como medidas necessárias para ajudar a evitar que os horrores do passado voltem
a acontecer – “Nunca más”. O Cone Sul da América Latina é um cenário onde esta
vinculação se estabelece com muita força. Algo parecido ocorreu com alguns atores
ligados à memória da Shoah e aos expurgos estalinistas na URSS” (p.45-46)

1.1. La temporalidad compleja

- “O apresentado acima coloca diretamente o sentido do passado em um presente, e


em função de um futuro desejado. Se adicionamos a isto a existência de múltiplas
subjetividades e horizontes temporais, fica claro que a complexidade está instalada no
tema. De que temporalidade estamos falando? [...] Uma primeira maneira de
conceber o tempo é linear, de modo cronológico. Passado, presente e futuro se
ordenam nesse espaço de maneira clara, diríamos “natural”, em um tempo físico ou
astronômico. As unidades de tempo são equivalentes e divisíveis: um século, uma
década, um ano ou um minuto. No entanto, ao introduzir os processos históricos e a
subjetividade humana, de imediato surgem as complicações. Porque, como diz
Koselleck, “o tempo histórico, se o conceito tem sentido próprio, está vinculado a
unidades políticas e sociais de ação, a homens concretos que atuam e sofrem, a suas
instituições e organizações” (KOSELLECK, 1993, p.14). E ao estudar esses homens (e
também mulheres!) concretos, os sentidos da temporalidade se estabelecem de outra
maneira: o presente contêm e constrói a experiência passada e as expectativas
futuras. A experiência é um “passado presente, cujos acontecimentos tem sido
incorporados e podem ser lembrados” (KOSELLECK, 1993, p.338). [...] As
experiências estão também moldadas pelo “horizonte de expectativas”, que faz
referência a uma temporalidade futura. A expectativa “é futuro feito presente, aponta ao
todavia-não, ao não experimentado, ao que apenas se pode descobrir” (KOSELLECK,
1993, p.338). E nesse ponto de intersecção complexo, nesse presente onde o passado é

3
KAÉS, René. Rupturas catastróficas y trabajo de la memoria. In. PUGET, Janine; KAES, René. Violencia
de Estado y psicoanálisis. Buenos Aires: Centro Editor de América Latina, 1991.
o passado da experiência e o futuro é o horizonte de expectativas, é onde se produz
a ação humana, “no espaço vivo da cultura” (RICOUER, 1999, p.22)” (p.46-47)

- “Localizar temporalmente a memória significa fazer referência ao “espaço da


experiência” no presente. A recordação do passado está integrada, mas de maneira
dinâmica, já que as experiências incorporadas em um dado momento podem
modificar-se em períodos posteriores. “Os acontecimentos de 1933 sucederam
definitivamente, mas as experiências baseadas neles podem modificar-se com a
passagem do tempo. As experiências se sobrepõe, se impregnam umas das outras”
(KOSELLECK, 1993, p.341). [...] Há um elemento adicional nesta complexidade. A
experiência humana incorpora vivências próprias, mas também as de outros e outras
alheias que lhe são transmitidas. O passado, então, pode condensar-se ou expandir-se,
segundo essas experiências passadas são incorporadas. [...] Estamos falando, então, de
processos de significação e ressignificação subjetivos, onde os sujeitos da ação se
movem e orientam (ou desorientam e se perdem) entre “futuros passados”
(KOSSELECK, 1993), “futuros perdidos” (HUYSSEN, 2000) e “passados que não
passam” (CONNAN & ROUSSO, 1994), em um presente que se tem que aproximar e
afastar simultaneamente desses passados recolhidos em espaços de experiência e dos
futuros incorporados em horizontes de expectativas. Esses sentidos se constroem e
mudam em relação, e em diálogo, com outros, que podem compartilhar e
confrontar as experiências e expectativas de cada um, individual e coletivamente.
Novos processos históricos, novas conjunturas e cenários sociais e políticos,
ademais, não podem deixar de produzir modificações nos marcos interpretativos
para a compreensão da experiência passada e para construir expectativas futuras.
Multiplicidade de tempos, multiplicidade de sentidos, e a constante transformação e
mudança em atores e processos históricos, estas são algumas das dimensões da
complexidade” (p.47)

1.2. Los trabajos de la memoria

- “O título original deste livro alude à memória como trabalho. Por que falar de
trabalhos da memória? O trabalho como traço distintivo da condição humana põe a
pessoa e a sociedade no lugar ativo e produtivo. Um é agente de transformação, e nos
processo se transforma e transforma o mundo. [...] Referir-se, então, ao fato de que a
memória implica “trabalho” é incorporá-la ao fazer que gera e transforma o mundo
social” (p.47-48)

- “[...] alguns eventos vividos no passado têm efeitos em tempos posteriores,


independentemente da vontade, consciência, agência ou a estratégia dos atores. Isto se
manifesta nos níveis mais “objetivos” e sociais, como ter perdido uma guerra e estar
subordinados a poderes estrangeiros, até os processos mais pessoais e inconscientes
ligados a traumas e lacunas. Sua presença pode romper, penetrar, invadir o
presente como um sem-sentido, como vestígios mnemônicos (RICOUER, 2000),
como silêncios, como compulsões ou repetições. Nestas situações, a memória do
passado invade, mas não é objeto de trabalho. O outro lado dessa presença sem
agencia é a dos seres humanos ativos nos processos de transformação simbólica e de
elaboração de sentidos do passado. Serem humanos que “trabalham” sobre e com
as memórias do passado” (p.48)

- “Os eventos do passado e a ligação do sujeito com esse passado, especialmente em


casos traumáticos, podem implicar uma fixação, um retorno permanente: a
compulsão a repetição, a atuação (acting-out), a impossibilidade de se separar do
objeto perdido. A repetição implica uma passagem ao ato (***). Não se vive a
distância com o passado, que reaparece e se mete, como um intruso, no presente.
Observadores e testemunhas secundárias também podem ser partícipes desta atuação ou
repetição a partir de processos de identificação com as vítimas. Há nesta situação um
duplo perigo: o de um “excesso de passado” na repetição ritualizada e na
compulsão que leva ao ato, e o de um esquecimento seletivo, instrumentalizado e
manipulado (***) [...] Para sair desta situação se requer “trabalhar”, elaborar,
incorporar memórias e recordações no lugar de reviver e atuar. No plano
psicanalítico, o tema remete ao trabalho de luto (***). O trabalho de luto implica um
“processo intrapsíquico, consecutivo à perda de um objeto de fixação, e por meio do
qual o sujeito consegue se afastar progressivamente desse objeto” (LAPLANCHE;
PONTALIS, 1981, p.435). Nesse processo, a energia psíquica do sujeito deixa de ser
“monopolizada por sua dor e por suas memórias” para recuperar sua liberdade e
desinibição. Este trabalho leva tempo, “se faz peça por peça com um gasto de tempo e
energia [...]” (FREUD, 1976, p.243). Implica poder esquecer e transformar os afetos e
sentimentos, quebrando a fixação no outro e na dor, aceitando a “satisfação que
comporta o permanecer com vida”. Há um tempo de luto, e “o trabalho de luto se
revela custosamente como um exercício liberador na medida em que consiste em um
trabalho de memória“ (RICOUER, 1999, p.36)” (p.48-49)

- “A atuação e a repetição podem ser confrontadas com a “elaboração” (working-


through). A noção freudiana de trabalho elaborativo, concebida em um contexto
terapêutico, consiste no “processo pelo qual o analisando integra uma interpretação e
supera as resistências que esta suscita. [...] espécie de trabalho psíquico que permite
ao sujeito aceitar certos elementos reprimidos e livrar-se do domínio dos mecanismos
repetitivos” (LAPLANCHE; POSTALIS, 1981, p.436). O trabalho de elaboração é
certamente uma repetição, mas modificada pela interpretação e, por isso, suscetível de
favorecer o trabalho do sujeito frente a seus mecanismos repetitivos. [...] Esta noção
pode ser aplicada e estendida fora do contexto terapêutico. No trabalho de elaboração,
diz LaCapra, “a pessoa trata de ganhar uma distância crítica sobre um problema e
distinguir entre passado, presente e futuro [...]. Pode haver outras possibilidades, mas
é através da elaboração que se adquire a possibilidade de ser um agente ético e
político” (LACAPRA, 2001, p.144). [...] No plano individual, atuação e elaboração
constituem forças e tendências coexistentes, que têm que lidar com o perigo de que o
trabalho de elaboração não desperte um sentimento de traição e de ruptura da fidelidade
com o perdido. Levadas ao plano ético e político, há forças que enfatizam a fixação na
atuação e na repetição. Citemos longamente uma reflexão de LaCapra: “Na crítica
recente (com a qual, em partes, estou de acordo), talvez houvesse demasiada tendência
a permanecer fixos na atuação (acting out), na compulsão a repetição, vendo-as como
maneiras de prevenir fechamentos, harmonizações ou noções simplistas de cura, mas
também, e no próprio movimento, modos de eliminar ou obscurecer qualquer outra
resposta possível, identificando simplesmente a toda elaboração como fechamento,
totalização, cura total, domínio total. O resultado é um tipo paralisante de lógica do
“tudo ou nada”, que gera um duplo enclausuramento: ou a totalização e o fechamento
que a se resistir, ou atuar a compulsão a repetição, sem outras alternativas. Dentro
deste marco referencial tão restrito, a política se converte, muitas vezes, em uma
questão de esperança vazia de futuro, uma abertura para uma utopia vazia sobre a
qual não se pode dizer nada. E esta visão costuma estar embutida em políticas
apocalípticas ou, talvez, em políticas de esperança utópica, que leva a postergação
indefinida da mudança institucional” (LACAPRA, 2001, p.145). [...] No plano
coletivo, portanto, o desafio é superar as repetições, superar os esquecimentos e os
abusos políticos, distanciar-nos e, ao mesmo tempo, promover o debate e a reflexão
ativa sobre esse passado e seu significado para o presente/futuro (***).Todorov,
preocupado com os abusos de memória provocados por mandatos morais de
recordar, que geralmente implicam em repetições e não em elaborações, e que podem
igualmente se estender aos silêncios e ao esquecimento, busca a saída na tentativa de
abandonar o acento no passado para pô-lo no futuro (TODOROV, 1998). Isso implica
uma difícil passagem para a subjetividade: a tomada de distância do passado,
“aprender a lembrar”. Ao mesmo tempo, implica repensar a relação entre memória e
política, e entre memória e justiça” (p.49-50)

Cp.2: ¿De qué hablamos cuando hablamos de memorias?

- “Abordar as memórias envolve referir-se a lembranças e esquecimentos, narrativas e


atos, silêncios e gestos. Há em jogo saberes, mas também emoções. E há, também,
lacunas e fraturas” (p.51-52)

- “[...] o como e quando se recorda e se esquece. O passado que se rememora e se


esquece é ativado em um presente e em função de expectativas futuras (***). Tanto
em função da própria dinâmica individual como da interação social mais próxima e dos
processos mais gerais ou macrossociais, pareceria que há momentos ou conjunturas de
ativação de certas memórias, e outros de silêncios ou ainda de esquecimentos. Há
também outras chaves de ativação das memórias, sejam de caráter expressivo ou
performativo, de onde os rituais e o mítico ocupam um lugar privilegiado” (p.52)

2.1. Tradiciones intelectuales, tradiciones disciplinarias

- “O que mais preocupa é não lembrar (***), não reter a memória. No individual e
no plano da interação cotidiana, o enigma de porque esquecemos um nome ou uma
frase, ou a quantidade e variedade de lembranças “inúteis” ou de memórias que nos
assaltam fora de lugar ou tempo, nos acompanha permanentemente. [...] A pergunta
sobre como se lembra ou se esquece surge da ansiedade e, mais ainda, da angústia
que gera a possibilidade do esquecimento. No mundo ocidental contemporâneo, o
esquecimento é temido; sua presença ameaça a identidade” (p.52-53)

- “[...] a psicanálise tem se perguntado sobre o outro lado do mistério, atentando para o
papel do inconsciente na explicação dos esquecimentos, lacunas, vazios e repetições
que o eu consciente não pode controlar. A influência de processos psíquicos ligados
ao desenvolvimento do eu e a noção de trauma, a que voltaremos adiante, são centrais
neste campo. Já não se trata de analisar a memória e o esquecimento de uma perspectiva
puramente cognitiva, de medir quanto e o que se recorda ou esquece, mas de ver o
“como” e o “quando”, e relacioná-los com fatores emocionais e afetivos” (p.53)

- “É esta singularidade das memórias, e a possibilidade de ativar o passado no


presente – a memória como presente do passado (***), nas palavras de Ricouer
(1996, p.16) –, o que define a identidade pessoal e a continuidade do si mesmo no
tempo” (p.53)

- “Estes processos, como bem sabemos, não ocorrem em indivíduos isolados, mas
inseridos em redes de relações sociais, em grupo, instituições e culturas. De
imediato e sem solução de continuidade, a passagem do individual ao social e interativo
se impõe. Quem tem memória e lembram são os seres humanos, indivíduos sempre
localizados em grupos e contextos sociais específicos. É impossível lembrar ou recriar
o passado sem apelar para esses contextos. Dito isto, a questão – colocada e debatida
reiteradamente nos textos sobre o tema – é o peso relativo do contexto social e do
individual nos processos de memória” (p.53-54)

- “Como pensar o social nos processos de memória? Aqui é possível construir


modelos estilizados, que reproduzem os debates entre tradições sociológicas clássicas.
A figura de Maurice Halbwachs ocupa o centro desta cena, a partir de seus trabalhos
sobre os marcos (quadros) sociais da memória (obra publicada em 1925) e a memória
coletiva. [...] Os pontos de debate são vários: se Halbwachs deixa ou não espaço para
individualidades no campo da memória coletiva; se de fato é possível falar de “memória
coletiva”, ou se trata de mitos e crenças coletivas, em que a memória não tem lugar
(HYNES, 1999). [...] Há um ponto-chave em seu pensamento: a noção de marco ou
quadro social. As memórias individuais estão sempre enquadradas socialmente.
Esses quadros são portadores da representação geral da sociedade, de suas
necessidades e valores. Incluem também a visão de mundo, animada por valores, de
uma sociedade ou grupo. Para Halbwachs, isto significa que “apenas podemos lembrar
quando é possível recuperar a posição dos acontecimentos passados nos marcos da
memória coletiva. [...] O esquecimento se explica pela desaparição destes marcos ou de
parte deles [...]” (HALBWACHS, 1992, p.172). E isto implica a presença do social
mesmo nos momentos mais individuais. “Nunca estamos sozinhos” – não se lembra
sozinho, mas com a ajuda de outras memórias e códigos culturais compartilhados,
embora as memórias pessoais sejam únicas e singulares. Estas memórias pessoais estão
imersos em narrativas coletivas, muitas vezes reforçadas em rituais e comemorações
grupais (RICOUER, 1999). Como esses quadros são históricos e mutantes, na realidade,
toda memória é uma reconstrução mais do que uma lembrança (***). E o que não
encontra lugar ou sentido nesse quadro, é material para o esquecimento (NAMER,
1994)” (p.54)

- “Pode-se afirmar, então, a existência de uma memória coletiva? E se é assim, o que é a


memória coletiva? Algumas leituras de Halbwachs interpretam sua ênfase no coletivo
como a afirmação da existência “real”, como “coisa” independente dos indivíduos, da
memória coletiva. Se pelo contrário se põe ênfase na noção de “marco social” – que é a
visão que resulta mais produtiva para nosso objetivo –, a intepretação muda. Aponta
então a estabelecer a matriz grupal dentro da qual se localizam as lembranças
individuais. Estes marcos – Halbwachs atenta para a família, a religião e a classe social
– dão sentido às rememorações individuais” (p.55)

[N.R.3: “Enquanto trabalho sobre este capítulo e volto a ler Halbwachs, tomo
consciência de que em suas reflexões não fala da relação entre memória e sofrimento
ou trauma. A memória social é, para ele, reforçada pelo pertencimento social, pelo
grupo. O individual desaparece no coletivo”] (p.55)

- “Na verdade, a própria noção da “memória coletiva” tem sérios problemas, na


medida em que é entendida como algo com sua própria entidade, como uma entidade
reificada que existe acima e à parte dos indivíduos. Essa concepção surge de uma
interpretação durkheimiana extremada (tomando os fatos sociais como uma coisa).
Porém, também pode ser interpretado no sentido de memórias compartilhadas e
sobrepostas, produto de interações múltiplas, enquadradas em marcos sociais e em
relações de poder. O coletivo das memórias é o entrelaçamento de tradições e
memórias individuais, em diálogo com outros, em estado de fluxo constante, com
alguma organização social – algumas vozes são mais potentes que outras porque
contam com maior acesso a recursos e cenários – e com alguma estrutura, dada por
códigos culturais compartilhados. [...] “[...] a memória coletiva consiste apenas no
conjunto de vestígios deixadas pelos acontecimentos que afetaram o curso da história
dos grupos implicados que tem a capacidade de encenar essas memórias comuns por
ocasião de festas, rituais e celebrações públicas”” (RICOUER, 1999, p.19)” (p.55-56)

- “Esta perspectiva permite tomar as memórias coletivas não apenas como dados
“dados”, mas também centrar a atenção sobre os processos de sua construção. Isto
implica dar lugar a distintos atores sociais (inclusive ao marginalizados e excluídos) e as
disputas e negociações de sentidos do passado em cenários diversos (POLLAK, 1989).
Também permite deixar aberta à investigação empírica sobre a existência, ou não, de
memórias dominantes, hegemônicas ou oficiais. [...] Há outra distinção importante a
ser feita nos processos de memória: o ativo e o passivo. Pode haver vestígios e rastros
armazenados, saberes reconhecíveis guardados passivamente, informação arquivada e
armazenada na mente das pessoas, em registros, em arquivos públicos e privados, em
formatos eletrônicos e em bibliotecas. São vestígios de um passado que levaram alguns
analistas (Nora especialmente) a falar de uma “superabundância de memória”. Mas
estes são reservatórios passivos, que devem ser distinguidos do uso, do trabalho, da
atividade humana em relação a eles” (p.56)

- “Levado ao plano social, a existência de arquivos e centros de documentação, e ainda


no conhecimento e na informação sobre o passado, seus vestígios em diferentes tipos de
suportes reconhecidos, não garantiam sua evocação. Na medida em que são ativados
pelo sujeito, em que são motorizados em ações que visam dar sentido ao passado,
interpretá-lo e trazê-lo para a cena do drama presente, essas evocações tornam-se
centrais no processo de interação social” (p.56)

- “Enquanto todo processo de construção de memórias se inscreve em uma


representação do tempo e do espaço, estas representação – e, consequentemente, a
própria noção do que é passado e do que é presente – são culturalmente variáveis e
historicamente construídas. E isto inclui, é claro, as próprias categorias de análise
utilizadas por investigadores/as e analistas do tema. Neste ponto, a pesquisa
antropológica e histórica clama por entrar na cena, para trazer ao cenário a diversidade
de maneiras de pensar o tempo e, em consequência, de conceptualizar a memória. Na
realidade, a antropologia clássica foi construída em oposição à história. Era o estudo dos
“povos sem história”. E se não há história, não pode haver memória histórica, já que o
presente é uma permanente repetição e reprodução do passado. Em muitas sociedades
do passado e do presente, o que é vivido como “real” não é a temporalidade histórica,
mas o tempo mítico que remete permanentemente, em rituais e repetições, a um
momento fundacional, original. A performance ritualizada do mito, no entanto, não é
estático. Não se trata da a-historicidade, mas sim de que os acontecimentos “novos” se
inserem em estruturas de sentido pré-existentes, que podem estar ancoradas em mitos.
Fazer isso implica que “toda reprodução da cultura é uma alteração” (SAHLINS,
1998, p.135), que a representação do mito é mudança. Em casos desse tipo, o que é
“lembrado” é o quadro cultural de intepretação, uma ferramenta que nos permite
interpretar circunstâncias que vistas de fora são “novas”, embora não o sejam para os
próprios atores” (p.57)

[N.R.4: “Em sua análise do sentido da morte do capitão Cook no Havaí, Sahlins mostra
como “Cook era uma tradição para os hawaianos antes de ser um fato” (SAHLINS,
1988, p.139)”] (p.57)

2.2. Memoria e identidad

- “Esta relação de mutua constituição implica um vaivém: para fixar certos


parâmetros de identidade (nacional, de gênero, política ou de outro tipo), o sujeito
seleciona certos ritos, certas memórias que o põe em relação com “outros/as” (p.58)

- “A memória e a identidade podem trabalhar por si só, e sobre si mesmas, em um


trabalho de manutenção da coerência e da unidade. Os períodos de crises internas de
um grupo ou de ameaça externas geralmente implicam reinterpretar a memória e
questionar a própria identidade. Estes períodos são precedidos, acompanhados ou
sucedidos por crises do sentimento de identidade coletiva e da memória (POLLAK,
1992). São os momentos em que pode haver um giro reflexivo sobre o passado,
reinterpretações e revisionismos, que sempre implicam também questionar e
redefinir a própria identidade de grupo” (p.59)

2.3. Las memorias. Los olvidos

- “A vida cotidiana está constituída fundamentalmente por rotinas e comportamentos


habituais, não reflexivos, apreendidos e repetidos. O passado de aprendizagem e o
presente da memória se convertem em hábito e em tradição, entendida como “passagem
de uma geração a outra pela vida de um povo, de uma família, etc., de noticias,
costumes e criações artísticas coletivas”, “circunstância de ter uma coisa que teve sua
origem, ou raízes, em tempos passados e haver sido transmitida de umas gerações a
outras” (MOLINER, 1998, p.1273). São parte da vida “normal”. Não há nada
“memorável” no exercício cotidiano destas memorias. Exceções, não muito frequentes,
ocorrem quando a prática cotidiana com a lembrança de algum acidente na rotina
aprendida ou de um avatar da infância no processo de aprendizagem pessoal. Esses
comportamentos, claramente enquadrados (no sentido de Halbwachs) socialmente na
família, na classe e nas tradições de outras instituições, são individuais e sociais. Eles
são incorporados de forma única para cada pessoa. Ao mesmo tempo, eles são
compartilhados e repetidos por todos os membros de um grupo social” (p.59-60)

- “As rupturas nessas rotinas esperadas envolvem o sujeito de maneira diferente. Lá são
tocados os afetos e sentimentos, o que pode levar à reflexão e à busca de sentido. [...] O
acontecimento ou o momento passa a ter a validade associada a emoções e afetos, que
conduzem uma busca de sentido. O acontecimento lembrado ou “memorável” será então
expresso em uma forma narrativa, tornando-se a forma como o sujeito constrói um
sentido do passado, uma memória que se expressa em uma história comunicável, com
um mínimo de coerência. [...] Esta construção dois pontos centrais. (1) Primeiro, o
passado cobra sentido em sua relação com o presente no ato de
rememorar/esquecer. (2) Segundo, esta interrogação sobre o passado é um processo
subjetivo; é sempre ativo e construído socialmente, em diálogo e interação. O ato
de lembrar pressupõe ter uma experiência passada que se ativa no presente, por
um desejo ou um sofrimento, unidos às vezes a intenção de comunicá-la. Não se trata
necessariamente de acontecimentos importantes em si mesmos, mas que cobram uma
carga afetiva e um sentido especial no processo de lembrar ou rememorar” (p.60)

- “As narrativas socialmente aceitas, as comemorações públicas, os enquadramentos


sociais e as censuras deixam sua marca nos processos nos processos de negociação, nas
autorizações e nos silêncios, no que se pode e não se pode dizer, nas disjunções entre
narrativas privadas e discursos públicos, como o mostram as numerosas investigações
sobre o tema no Leste Europeu e os testemunhos de sobreviventes dos campos de
concentração (PASSERINI, 1992; POLLAK, 1989, 1990). [...] Por sua vez, existem
experiência passadas que reaparecem de várias maneiras em momentos
posteriores, mas que não podem ser integradas narrativamente, que não se pode
dar-lhes sentido. Os acontecimentos traumáticos levam a rachaduras na capacidade
narrativa, buracos na memória (***). Como veremos, é a impossibilidade de dar
sentido ao acontecimento passado, a impossibilidade de incorporá-lo
narrativamente, conviver com sua presença persistente e sua manifestação em
sintomas, o que indica a presença do traumático. Nesse nível, o esquecimento não é
ausência ou vazio. É a presença dessa ausência (***), a representação de algo que
estava e já não está, apagada, silenciada ou negada” (p.61)

- “No dito até agora se podem distinguir dois tipos de memórias, as habituais e
narrativas. São as segundas as que nos interessam. Dentro delas, estão as que podem
encontrar ou construir os sentidos do passado e – tema especialmente importante
aqui – as “feridas da memória” mais que as “memórias feridas” (esta última, expressão
de RICOUER, 1999), que tantas dificuldades têm em constituir seu sentido e armar sua
narrativa. São as situações em que a repressão e a dissociação atuam como
mecanismos psíquicos que provocam interrupções e lacunas traumáticas na
narrativa. As repetições e dramatizações traumáticas são “tragicamente solitárias”,
enquanto as memórias narrativas são construções sociais comunicáveis a outros (BAL,
1999). [...] Em tudo isto, o esquecimento e o silêncio ocupam um lugar central. Toda
narrativa do passado implica uma seleção. A memória é seletiva; a memória total é
impossível (***). Isto implica um primeiro tipo de esquecimento “necessário” para a
sobrevivência e o funcionamento do sujeito individual e dos grupos e comunidades.
Mas não há um único tipo de esquecimento, mas uma multiplicidade de situações
nas quais se manifestam esquecimentos e silêncios, com diversos “usos” e sentidos.
[...] passados que pareciam esquecidos “definitivamente” reaparecem e cobram nova
vigência a partir de mudanças nos marcos culturais e sociais que nos levam a revisar e
dar novo sentido a vestígios e restos, aos quais nenhum sentido foi atribuído durante
décadas ou séculos. [...] As rasuras e esquecimentos podem também ser produto de uma
vontade ou política de esquecimento e de silêncio por parte de atores que elaboram
estratégias para ocultar e destruir provas e rastros, impedindo, assim, a recuperação de
memórias no futuro – recordemos a célebre frase de Himmler quando declarou que a
“solução final” foi uma “página gloriosa e nossa história, que jamais foi escrita e que
jamais será”. Em casos assim, há um ato político voluntário de destruição de provas e
vestígios, com intuito de promover esquecimentos seletivos a partir da eliminação de
provas documentais” (p.62-63)

- “Neste sentido, toda política de conservação e de memória, ao selecionar vestígios


para preservar, conservar ou comemorar, tem implícita uma vontade de
esquecimento (***). Isto inclui, é claro, os próprios historiadores e pesquisadores que
escolhem o que contar, o que representar ou o que escrever em uma história. O que o
passado deixa são vestígios, nas ruínas e marcas materiais, nos traços “mnésicos”
do sistema neurológico humano, na dinâmica psíquica das pessoas, no mundo
simbólico. Mas esses vestígios não constituem em si mesmos “memória”, a menos
que sejam evocada e localizadas em uma marco que lhes dê sentido. Se coloca aqui
uma segunda questão ligada ao esquecimento: como superar as dificuldade e acessar
esses vestígios” (p.63)

- “A dificuldade não reside no fato de terem ficado poucos vestígios ou de o passado ter
sofrido a sua destruição, mas nos impedimentos de aceder aos seus vestígios provocados
pelos mecanismos de repressão – nos diferentes sentidos da palavra: “expulsar ideias da
consciência ou dos desejos rejeitáveis”, “parar, impedir, paralisar, sujeitar, coibir” – e
do deslocamento, que provocam distorções e transformações em diferentes direções e de
diferentes tipos. Tarefas em que se tem especializado a psicanálise para a recuperação
de memorias individuais, e também algumas novas correntes da historiografia para
processos sociais e coletivos” (p.63)

- “Uma reação social ao temor da destruição de vestígios se manifesta na urgência


da conservação, da acumulação em arquivos históricos, pessoais e públicos. É a
“obsessão da memória” e o espírito memorialista dos que falam Nora, Gillis e
Huyssen. [...] Há também o esquecimento que Ricouer chama de “evasivo”, que
reflete uma tentativa de não lembrar o que pode doer. Ocorre principalmente em
períodos históricos após grandes catástrofes sociais, massacres e genocídios, que geram
entre aqueles que sofreram a vontade de não querer saber, de fugir das memórias
para continuar vivendo (SEMPRÚN, 1997). Neste ponto, o outro lado do
esquecimento é o silêncio. Existem silêncios impostos pelo temor a repressão em
regimes ditatoriais de diferentes tipos. Os silêncios durante a Espanha franquista, a
União Soviética stalinista ou as ditaduras latino-americanas se esfacelaram com o fim
do regime. Nestes casos, sobreviveram lembranças dolorosas que “esperam o momento
propício para serem expressas” (POLLAK, 1989, p.5). Mas esses silêncios sobre
memórias dissonantes não apenas se dão em relação a um Estado dominante, mas
também em relações com grupos sociais. Pollak analisa vários tipos de silêncios de
sobreviventes da Shoah, desde daqueles que regressam a seus lugares de origem e
necessitam encontrar um modus vivendi com seus vizinhos que “sob a forma de
consentimento tácito, presenciaram sua deportação”, até os silêncios ligados a
situações extremas nos campos, mantidos para evitar culpar as vítimas (POLLAK, 1989,
p.6)” (p.64)

- “Há outra lógica no silêncio. Para relatar sofrimentos, é necessário encontrar do


outro lado a vontade de escutar (LAUB, 1992; POLLAK, 1990). Há conjunturas
políticas de transição – como no Chile do final dos 80 ou na França do pós-guerra –
em que a vontade de reconstrução é vivida como contraditória com mensagens
ligadas aos horrores do passado. No plano das memórias individuais, o medo de ser
incompreendido também leva a silêncios. Encontrar outras pessoas com capacidade de
escutar é central no processo de quebrar silêncios [...]” (p.65)

- “Finalmente, está o esquecimento libertador, que liberta da carga do passado para


assim poder olhar para o futuro. É o esquecimento “necessário” na vida individual.
Para as comunidades e grupos, a origem desta abordagem está em Nietzsche, ao
condenar a febre histórica e a reivindicar um esquecimento que permite viver, que
permita ver as coisas sem a carga pesada da história. Essa febre histórica que,
como refletia Huyssen: “Serviu para inventar tradições nacionais na Europa, para
legitimar os Estados-nação imperiais e para dar coesão cultural às sociedades em
pleno conflito após a Revolução Industrial e a expansão colonial” (HUYSSEN, 2000,
p.26). [...] A febre memorialista do presente tem outras características e outros perigos,
tema que remete necessariamente ao debate sobre os “abusos da memória”, título do
pequeno e provocador livro de Todorov (1998). Todorov não se opõe a recuperação
do passado, mas a sua utilização por parte de diversos grupos com interesses
próprios. O abuso da memória que o autor condena é o que se baseia na
preservação de uma memória “literal”, onde as vítimas e os crimes são vistos como
únicos e irrepetíveis. Nesse caso, a experiência é intransitiva, no leva além de si
mesma. E propõe, ou defende, um uso “exemplar”, onde a memória de um evento
passado é vista como uma instância de uma categoria mais geral ou como um modelo
para compreender situações novas com agentes diferentes. Se falamos de esquecimento,
o que se está propondo é o esquecimento (político) do singular e único de uma
experiência, para tornar mais produtiva a memória” (p.65)

2.4. Discurso y experiencia

- “Voltamos à noção central desta abordagem, a memória como operação de dar


sentido ao passado. Quem deve dar-lhe sentido? Que passado? São indivíduos e grupos
em interação com outros/as, agentes ativos que recordam e geralmente tentam transmitir
e ainda impor sentidos do passado a outros/as. Esta caracterização deve acompanhar-se
com um reconhecimento da pluralidade de “outros/as” e da complexa dinâmica de
relação entre o sujeito e a alteridade. [...] Que passado é o que vai significar ou
transmitir? Por um lado, há passados autobiográficos, experiências vividas “na própria
carne”. Para aqueles que viveram um evento ou experiência, superá-lo pode ser um rito
central de sua vida e de sua memória. Se foi um acontecimento traumático, mais do que
memórias o que se pode viver é um buraco, um vazio, um silêncio ou os vestígios
desse trauma manifestados em condutas ou ainda em patologias (e, ao mesmo as
vezes, um simples “esqueço”). [...] Existem também aqueles que não tiveram a
“experiência passada” própria. Esta falta de experiência os põe em uma aparente outra
categoria: são outros/as. Para esse grupo, a memória é uma representação do passado
construída como conhecimento cultural compartilhado por gerações sucessivas e por
diversos/as “outros/as”. Na verdade, trata-se de pensar a experiência ou a memória
em sua dimensão intersubjetiva e social. Como destaca Passerini, as memórias se
encadeiam umas às outras. Os sujeitos podem elaborar suas memórias narrativas
porque houve outros que o fizeram antes, e conseguiram as transmitir e dialogar sobre
elas” (p.66)

- “No mesmo sentido, o esquecimento social também é intersubjetivo: “Aparece quando


certos grupos humanos não conseguem – voluntária ou passivamente, por recusa,
indiferença ou indolência, ou bem a causa de alguma catástrofe histórica que
interrompeu o curso dos dias e as coisas – transmitir a posterioridade o que
aprenderam do passado” (YERUSHALMI, 1989, p.18). [...] Estas catástrofes podem
implicar uma ruptura entre a memória individual e as práticas públicas e
coletivas. Isso ocorre quando, devido a condições políticas, predominam nas práticas
coletivas a ritualização, a repetição, a deformação ou distorção, o silêncio ou a
mentira. Também podem entranhar silêncios e linhas de rupturas no processo de
transmissão intergeracional” (p.66-67)

- “Voltemos por um momento a diferença entre a lembrança e o esquecimento pessoal


de acontecimentos que alguém tenha experimentado em sua própria vida, e a memória
social. A que se refere “a experiência”? No sentido comum, a experiência se refere as
vivências diretas, imediatas, subjetivamente captadas da realidade. Mas uma reflexão
sobre o conceito de “experiência” indica que esta não depende direta ou linearmente
do evento ou acontecimento, mas que está mediada pela linguagem e pelo marcado
cultural interpretativo no que se expressa, se pensar e conceptualiza (SCOTT,
1999; VAN ALPHEN, 1999). A importância da linguagem já era reconhecida por
Halbwachs, que, em uma passagem poucas vezes citada, afirma que “é a linguagem e
as convenções sociais associadas a ela que nos permite reconstruir o passado”
(HALBWACHS, 1992, p.173). Por sua vez, a mediação linguística e narrativa
implica que toda memória – ainda a mais individual e privada – é
constitutivamente de caráter social (RICOUER, 1999)” (p.67)

- “A memória como construção social narrativa implica o estudo das propriedades de


quem narra, da instituição que lhe outorga ou nega poder e o/a autoriza a pronunciar as
palavras, já que, como assinala Bourdieu, a eficácia do discurso performativo é
proporcional a autoridade de quem o enuncia. Implica também prestar atenção aos
processos de construção de reconhecimento legítimo, outorgado socialmente pelo grupo
ao qual se dirige. [...] Partindo da linguagem, então, encontramos uma situação de
lutas pelas representações do passado, centradas na luta pelo poder, pela
legitimidade e pelo reconhecimento” (p.68)

- “O que importa tudo isso para pensar sobre a memória? Primeiro, importa ter ou não
ter palavras para expressar o vivido, para construir a experiência e a subjetividade a
partir de eventos e acontecimentos que nos “chocam”. Uma das características das
vivências traumáticas é a massividade do impacto que provocam, criando um
buraco na capacidade de “serem faladas” ou contadas (***). Se provoca um
buraco na capacidade de representação psíquica. Faltam as palavras, faltam as
lembranças. A memória fica desarticulada e apenas aparecem vestígios dolorosos,
patologias e silêncios. O traumático altera a temporalidade dos processos psíquicos
e a memória não os pode tomar, não pode recuperar, transmitir ou comunicar o
vivido” (p.68-69)

- “Por sua vez, a experiência e a memória individuais não existem em si, mas se
manifestam e se tornam coletivas no ato de compartilhar. Ou seja, a experiência
individual constrói comunidade no ato narrativo compartilhado, no narrar e no escutar.
[...] No entanto, não se pode esperar uma relação linear ou direta no individual e no
coletivo. As inscrições subjetivas da experiência não são nunca reflexos especulares dos
acontecimentos públicos, pelo que não podemos esperar encontrar uma “integração” ou
“ajuste” entre memórias individuais e memórias públicas, ou a presença de uma
memória única. Há contradições, tensões, silêncios, conflitos, lacunas, disjunções, assim
como lugares de encontro e ainda “integração”. A realidade social é complexa,
contraditória, cheia de tensões e conflitos. A memória não é uma exceção. [...] Em
resumo, a “experiência” é vivida subjetivamente e é culturalmente compartilhada e
compartilhável” (p.69)

- “A memória, então, ocorre enquanto há sujeitos que compartilham uma cultura,


enquanto há agentes sociais que tentam “materializar” esses significados do passado em
vários produtos culturais que são concebidos como, ou que se tornam, veículos da
memória, tais como publicações, museus, monumentos, filmes ou livros de história.
Também se manifesta em performances e expressões que, ao invés de representar o
passado, o incorporam performativamente” (VAN ALPHEN, 1997)” (p.70)

Cp.3: Las luchas políticas por la memoria

- “PAUL RICOUER APRESENTA UM PARADOXO. O passado já passou, é algo


determinado, não pode ser mudado. O futuro, pelo contrário, é aberto, incerto,
indeterminado. O que pode mudar é o sentido desse passado, sujeito a
reinterpretações ancoradas na intencionalidade e nas expectativas para o futuro.
Esse sentido do passado é um sentido ativo, dado por agentes sociais que se
colocam em cenários de confrontação e luta frente a outras interpretações, outros
sentidos, ou contra o esquecimento e silêncio. (***)” (p.71)

3.1. La conformación de una historia nacional y una memoria oficial

- “Nos processos de formação do Estado – na América Latina ao longo do século XIX,


por exemplo –, uma das operações simbólicas centrais foi a elaboração de um “grande
relato” da nação. Uma versão da história que, junto com símbolos pátrios, monumentos
e panteões de heróis nacionais, pudesse servir como ponto central de identificação e de
ancoragem da identidade nacional. [...] Para que servem estas memórias oficiais? São
tentativas mais ou menos conscientes de definir e reforçar sentimentos de
pertencimento, que apontar a manutenção da coesão social e a defender fronteiras
simbólicas (POLLAK, 1989, p.9). [...] Como toda narrativa, estes relatos nacionais são
seletivos. Construir um conjunto de heróis implica apagar a ação de outros. Ressaltar
certas características como sinais de heroísmo implica silenciar outras características,
especialmente os erros e passos errados dos que são definidos como heróis e devem ser
“imaculados” nessa história. Uma vez estabelecidas estas narrativas canônicas oficiais,
ligadas historicamente ao processo de centralização política da etapa de conformação
dos Estados nacionais, se expressam e cristalizam nos textos de história que se
transmitem na educação formal” (p.72-73)

- “Neste ponto, o trabalho dos historiadores profissionais ocupa um lugar central,


porque no mundo moderno, as narrativas oficiais são escritas por historiadores
profissionais. O vínculo com o poder é, no entanto, central na intencionalidade da
construção da narrativa da nação. As interpretações contrapostas e as revisões das
narrativas históricas se produção ao longo do tempo, como resultado das lutas políticas,
das mudanças de sensibilidade da época e do próprio avanço da investigação histórica”
(p.73)

- “Durante os períodos ditatoriais deste século – o stalinismo, o nazismo, o franquismo,


as ditaduras militares no Brasil, Chile, Argentina ou Uruguai, o stroisserismo no
Paraguai –, o espaço público está monopolizado por um relato político dominante,
onde “bons” e “maus” estão claramente identificados. A censura é explícita, as
memórias alternativas são subterrâneas, proibidas e clandestinas, e se somam aos
estragos do terror, o medo e as lacunas traumáticas que geram paralisias e silêncio
(***). Nestas circunstâncias, os relatos oficiais oferecidos pelos porta-vozes do
regime sofrem pouca confrontação na esfera pública” (p.73-74)

- “No geral, os relatos das ditaduras dão aos militares um papel “salvador” frente a
ameaça (no Cone Sul, nos anos 70, se tratava da ameaça do “comunismo”) e ao caos
criado por aqueles que intentam subverter a nação. [...] As aberturas políticas, os
degelos, liberalizações e transições habilitam uma esfera pública e nela se podem
incorporar narrativas e relatos até então reprimidos e censurados. Também se podem
gerar novas. Esta abertura implica um cenário de lutas pelo sentido do passado, com
uma pluralidade de atores e agentes, com demandas e reivindicações múltipla”" (p.74)

- “São momentos em que emergem relatos e narrativas que estiveram ocultos e


silenciados por muito tempo. [...] podem ser memórias proibidas, indizíveis ou
vergonhosas, como aponta Pollak (1989, p.8), ou enterradas em buracos e sintomas
traumáticos. Estas conjunturas de abertura mostram com toda clareza e intensidade que
os processos de esquecimento e lembrança não respondem simples, linear ou
diretamente a passagem de tempo cronológica. [...] As aberturas políticas, por outra
parte, não implicam necessária e centralmente uma contraposição binária entre
uma história oficial ou uma memória dominante expressa pelo Estado e outra
narrativa da sociedade. São momentos, pelo contrário, onde se enfrentam múltiplos
atores sociais e políticos que vão estruturando relatos do passado e, no processo de
fazê-lo, expressam também seus projetos e expectativas políticas para o futuro.
Nestas conjunturas, o Estado tampouco se apresenta de maneira unitária. A transição
implica uma mudança no Estado, uma tentativa fundacional com novas leituras do
passado” (p.75)

[N.R.4: “Na transição argentina, os jovens cantavam em coro as músicas da famosa


cantora Mercedes Sosa (cuja música estava proibida nos meios de difusão pública
durante a ditadura militar) como se houvessem tido um contato direto com ela. Pollak
(1989) apresenta vários casos europeus de memórias silenciadas”] (p.175)

3.2. La conflictiva historia de las memorias

- “As controvérsias sobre os sentidos do passado se iniciam com o próprio


acontecimento conflitivo. No momento de um golpe militar ou da invasão a uma
país estrangeiro, os vencedores interpretam sua ação e o acontecimento produzido
sobre a sua inserção no processo histórica de duração mais longa (***). Já as
proclamas iniciais e a maneira como os fatos são apresentados a população expressam
um sentido do acontecimento, geralmente uma visão “salvadora” de si mesmo. Como
aponta Rousso, “se queremos compreender a configuração de um discurso sobre o
passado, temos de levar em consideração o fato de que esse discurso é construído desde
o início do acontecimento, que se está enraizado ali” (ROUSSO, in. FELD, 2000, p.32).
Esse discurso irá se revisando e ressignificando em períodos seguintes, dependendo da
configuração das forças políticas nos espaços de disputa que se geram nas distintas
conjunturas econômicas e políticas. [...] Rousso estuda a memória de Vichy na França.
Já nos primeiros discursos de De Gaulle, em 1940, a postura expressa é que a França (a
“verdadeira”) não foi vencida, e que o regime de Vichy é um “parêntese”. A partir de
1944, se constrói uma memória mitificada da guerra: os franceses são apresentado como
heróis da resistência, visão acompanhada pelos juízos aos colaboradores e a
“depuração” depois da guerra” (p.76)
- “Outro ponto que destaca Rousso é que se no começo a acusação proveio do Estado,
que precisava marcar uma ruptura com o regime de Vichy, décadas depois quem
promoveu as ações judiciais e os reconhecimentos simbólicos oficiais foram atores
sociais, ex-deportados e resistência anterior, que o faziam como “militantes da
memória”, “em nome de um ‘dever de memória’ cujo objetivo era a perpetuação da
lembrança contra toda forma de esquecimento, que nesta perspectiva se considera como
um novo crime” (ROUSSO, in. FELD, 2000, p.36). [...] O momento de mudança do
regime político, os períodos de transição, criam um cenário de confrontação entre atores
com experiências e expectativas políticas diferentes, geralmente contrapostas. E cada
uma dessas posturas involucra uma visão do passado e um programa (implícito em
muitos casos) de tratamento desse passado na nova etapa que é definida como ruptura e
mudança em relação com a anterior” (p.77)

- “As transições no Cone Sul foram distintas e singulares, e as memórias dos conflitos
sociais prévios a instauração ditatorial, assim como a crueza e imediatez das violações
dos direitos humanos durante as mesmas, criaram cenários para a manifestação de
confrontações, no marco de uma difícil tentativa de gerar consensos entre os diversos
atores políticos. As vozes censuradas e proibidas começaram a fazer-se ouvir, mas
as vozes autoritárias não necessariamente desapareceram do debate público. [...] A
questão de como prestar contas com o passado recente se converteu, então, em um
campo de disputas entre diferentes estratégias políticas. Em função das questões
sobre a memória, nas transições no Cone Sul a diversidade de atores incluiu uma forte e
visível presença do movimento de direitos humanos como ator político e como gestor de
memória, um papel de protagonismo dos atores autoritários – os militares e a direita
(especialmente forte no Chile) – e um papel geralmente ambíguo dos partidos políticos
tradicionais (notório no Uruguai)” (p.78-79)

3.3. Los agentes de la memoria y sus emprendimentos

- “No campo que nos ocupa, o das memórias de um passado recente em um cenário
conflitivo, há uma luta entre “empreendedores/as da memória” que pretendem o
reconhecimento social e de legitimidade política de uma (sua) versão ou narrativa
do passado. E que também se ocupam e preocupam por manter visível e ativa a atençã
social e política sobre seu empreendimento. [...] Quem são? O que buscam? O que as/os
move? Em diferentes conjunturas e momentos, os atores em cena são diversos, assim
como seus interesses e suas estratégias. Com relação as ditaduras do Cone Sul, o
movimento de direitos humanos tem sido e segue sendo um ator privilegiado. [...] Há
também interesses empresariais que se movem por uma mescla de critérios, onde o
lucrativo e o moral podem combinar-se de maneiras diversas. As forças da direita
política (a Fundación Pinochet no Chile é possivelmente o caso mais emblemático) e de
grupos políticos diversos também podem ter um papel importante. O debate acadêmico
e o mundo artístico oferecem também canais de expressão a partir de marcos
interpretativos e oportunidades performáticas novas. [...] Não resta dúvida do
protagonismo privilegiado de um grupo especial, o das vítimas ou afetados/as
diretos/as” (p.80-81)

- “Na verdade, o uso político da ação dos/as “empreendedores/as da memória” está


implícito o uso político e público que se faz da memória. E aqui cabe distinguir,
seguindo Todorov, entre lembrar um acontecimento da maneira literal ou fazê-lo de
maneira exemplar. No primeiro caso, se apresenta um caso único, intransferível, que
não conduz a nada além de si mesmo. Ou, sem negar a singularidade, se pode traduzir a
experiência nas demandas mais generalizadas. A partir da analogia e a generalização,
a lembrança se converte em um exemplo que permite aprendizagens e o passado se
converte em um princípio de ação para o presente” (p.81)

3.4. Algunas marcas de la memoria: conmemoraciones y lugares

- “O papel dos/as “empreendedores/as da memória” é central na dinâmica dos conflitos


sobre a memória pública. Uma primeira rota para explorar os conflitos da memória
consiste em analisar a dinâmica social nas datas, os aniversários e as comemorações.
[...] Na medida em que há diferentes interpretações sociais do passado, as datas de
comemoração pública estão sujeitas a conflitos e debates. Que data comemorar? Ou
melhor dizendo, quem quer comemorar o que? Poucas vezes há consenso social sobre
isso” (p.82-83)

- “[...] ao longo dos anos, os 24 de março tem sido comemorados de distintas maneiras
na Argentina (LORENZ, 2002). Durante a ditadura, o único que aparecia nessa data no
espaço público era uma “Mensagem ao povo argentino” no que as forças armadas
davam sua versão do que haviam feito, enfatizando seu papel salvador da nação
ameaçada por um inimigo, a “subversão”. Dada a repressão, não havia atividades ou
relatos alternativos, exceto fora do país, entre exilados e no movimento solidário. A
partir da derrota na guerra das Malvinas (1982), as comemorações oficiais perderam
sua vigência, e inclusive no último ano antes da transição (1983) não houve
“Mensagem”. [...] As organizações de direitos humanos elaboraram uma versão
antagônica do ocorrido em 24 de março de 1976, e foram quem ocuparam a cena
pública da comemoração a partir da transição” (p.83-84)

- “Ademais das datas, estão as marcas no espaço, nos lugares. Quais são os objetos
materiais ou lugares ligados com acontecimentos passados que são eleitos por diversos
atores para inscrever territorialmente as memórias? Monumentos, memoriais, placas
recordatórias e outras marcas, são as maneira em que atores oficiais e não oficiais
tratam de dar materialidade as memórias. Há também forças sociais que tratam de
apagar e de transformar, como se ao mudar a forma e a função de um lugar, se apagara a
memória. [...] As lutas pelos monumentos e recordatórios se desdobram abertamente no
cenário político mundial” (p.85)

- “[N.R.13: “Young (1993, 2000) é quem tem analisado amplamente os conflitos sobre
os diversos monumentos e obras de arte que comemoram o extermínio nazista. [...]
Alguns estudiosos dos casos do Cone Sul, entre eles sobre o monumento “Tortura
nunca mais” em Recife, Brasil, o edifício da UNE (União Nacional de Estudantes) no
Rio de Janeiro, o Palácio da Moeda e vários monumentos em Santiago, o Parque da
Memória e a Praça de Maio em Buenos Aires estão publicados em Langland e Jelin
(2003)”] (p.85-86)

- “A passagem do tempo histórico, político e cultural necessariamente implica


novos processos de significação do passado, com novas interpretações. E então
surgem revisões, mudanças nas narrativas e novos conflitos” (p.87)

3.5. Usos y abusos de la memoria, la propiedad y los sentidos del “nosotros/as”

- “Voltemos a Todorov por um momento, quando estabelece a distinção (1) entre


recuperar um passado ou seus vestígios frente a tentativas de apagá-las, (2) e o uso
que se faz desse passado recuperado, ou seja, o papel que o passado tem e deve ter
no presente. Na esfera da vida pública, nem todas as lembranças são igualmente
admiráveis. Pode haver gestos de revanche e de vingança, ou experiências de
aprendizagem. E a pergunta seguinte é, sem dúvida, se existem maneiras de
distinguir de antemão os “bons” e os “maus” usos do passado” (TODOROV, 1998,
p.30)” (p.88)

- “Tanto nas comemorações como no estabelecimento dos lugares da memória há uma


luta política cujos adversários principais são as forças sociais que demandam marcas de
memória e quem pedem o apagamento da marca, sobre a base de uma versão do passado
que minimiza ou elimina o sentido do que os/as outros/as querem lembrar. Também há
confrontações sobre as formas ou meio “apropriados” de lembrar, assim como na
determinação de que atores tem legitimidade para atuar, quer dizer, quem tem o poder
(simbólico) de decidir qual deverá ser o conteúdo da memória. Estes conflitos
podem se resumir no tema da propriedade ou a apropriação da memória” (p.90)

- “A própria definição do que é “viver em carne própria” ou ser “vítima direta” é


também parte do processo histórico de construção social do sentido. [...] Ninguém
duvida da dor da vítima, nem de seu direito a recuperar as verdades do ocorrido.
Tampouco está em discussão o papel de protagonismo (em termos históricos) que nos
diferentes casos tiveram as “vitimas diretas” e seus familiares como vozes iniciais nos
empreendimentos das memórias. O tema, bem, é outro, e é duplo. Por outro lado, quem
é “nós/as” com legitimidade para lembrar? É um nós/as excludente, no que apenas
podem participar aqueles que “viveram” o acontecimento? [...] Por outro lado, esta
o tema colocado por Todorov, quer dizer, em que medida a memória serve para ampliar
o horizonte de experiências e expectativas, ou se restringe o acontecimento pontual?
Aqui o tema da memória entra em outro cenário, o da justiça e as instituições, porque
quando se coloca a generalização e universalização, a memória e a justiça confluem, em
oposição ao esquecimento intencional (YERUSHALMI, 1989a, 1989b). [...] Uma
hipótese preliminar relaciona os cenários da luta pelas memorias com a ação estatal.
Quando o Estado não desenrola canais institucionalizados oficiais e legítimos que
reconhecem abertamente os acontecimentos de violência de Estado e repressão
passados, a luta sobre a verdade e sobre as memórias apropriadas se desenvolve na área
social. Nesse palco, existem vozes cujas legitimidades raramente é questionada: o
discurso das vítimas diretas e seus parentes mais próximos” (p.90-91)

- “A questão da autoridade da memória e a VERDADE pode ter uma dimensão ainda


mais inquietante. Existe o perigo (especular em relação com o biologismo racista) de
ancorar a legitimidade daqueles que expressam a VERDADE em uma visão
essencializadora da biologia e do corpo. O sofrimento pessoal (especialmente quando se
viveu na própria “carne” ou a partir dos vínculos de parentesco sanguíneo) pode chegar
a converter-se para muitos no determinante básico da legitimidade e da verdade.
Paradoxalmente, se a legitimidade para expressar a memória é socialmente assignada
aqueles/as que tiveram uma experiência pessoal de sofrimento corporal, esta autoridade
simbólica pode facilmente deslizar-se (consciente ou inconscientemente) a uma
demanda monopólico do sentido e do conteúdo da memória e da verdade. O nós/as
reconhecido é, então, excludente e intransferível. [...] Há aqui um duplo perigo
histórico: o esquecimento e o vazio institucional por um lado, que converte as memórias
em memórias literais de propriedade instransferível e incompartilhável. Se obturam
assim as possibilidades de incorporação de novos sujeitos” (p.91-92)

Cp.4: Historia y memoria social

- “A relação entre história e memória é, hoje em dia, uma preocupação central no campo
acadêmico das ciências sociais” (p.93)

[N.R.1: “Não é o objetivo deste capítulo fazer uma revisão exaustiva da bibliografia
sobre o tema. A relação história-memória esta no centro dos debates no campo
disciplinário da história, a partir dos trabalhos de Nora (NORA, 1984-1992; ver-se
também LaCAPRA, 1998)] (p.93)

- “Há, neste ponto, três maneiras de pensar as possíveis relações: em primeiro lugar, a
memória como recurso para a investigação, no processo de obtenção e construir “dados”
sobre o passado; no segundo lugar, o papel que a investigação pode ter para “corrigir”
memórias equivocadas ou falsas; finalmente, a memória como objeto de estudo ou
investigação” (p.93-94)

4.1. La memoria en la investigación social

- “Na tradição da análise das ciências sociais (incluindo a história), o apelo à memória
tem estado permanentemente presente no processo de coleta e construção de dados”
(p.94)

- “A memória seria a crença acrítica, o mito, a “invenção” do passado, muitas vezes


com um olhar romântico ou idealizada do mesmo. E a história seria o fático,
cientificamente comprovado, do que “realmente” ocorreu (LACAPRA, 1998, p.16). Dai
a desconfiança, desconforto e nervosismo de muitos historiadores frente ao auge da
preocupação pela memória. [...] A preocupação pela memória é, no entanto, muito
mais variada e matizada do que essa visão dicotômica pode levar a crer” (p.94-95)

- “Se no plano cultural assistimos a uma “explosão da memória”, pelo lado das
mudanças paradigmáticos nas ciências sociais das últimas décadas tem exigido um lugar
central na análise do sentido da ação e pela perspectiva dos próprios agentes sociais –
manifestas em diversas disciplinas, desde os estudos etnográficos e etnohistóricos até as
preocupações históricas e sociológicas centradas nas “mentalidades” e os processos
ligados a vida cotidiana” (p.95)

- “Para o positivismo extremo, o “fático” se identifica com a existência de provas


materiais de que algo ocorreu, e leva a descartar as subjetividades dos atores (incluindo
crenças, sentimentos, desejos e pulsões) e, consequentemente, a memória. Uma postura
construtivista e subjetivista, ao contrário, pode privilegiar as narrativas subjetivas
da memória de tal forma que acaba identificando a memória (incluindo toda
possível ficcionalização e mitologização) com a “história” (LACAPRA, 1998;
LACAPRA, 2001, cp.1)” (p.95-96)

- “Como já foi dito, a memória-esquecimento, a comemoração e a lembrança se


tornam cruciais quando se vinculam a acontecimentos e eventos traumáticos de
repressão e aniquilação, quando se trata de profundas catástrofes sociais e de situações
de sofrimento coletivo. Com relação a estas experiências, especialmente a partir das
discussões políticas e acadêmicas sobre a Shoah, as vinculações e tensões entre história
e memória tem cobrado crescente protagonismo no debate e na reflexão. [...] Ademais, a
abordagem dos sentidos do passado e sua incorporação nas lutas políticas põe sobre a
mesa a questão da relação entre memórias e verdades históricas. O debate
historiográfico sobre o tema se manifesta centralmente nos intentos de legitimar a
história oral dentro dos cânones da disciplina e nas concepções da história como
narrativa construída” (p.96)

- [N.R.3: “LaCapra analisa estes temas amplamente, buscando uma maneira de


escrever ou narrar que supere as oposições entre o positivismo e o construtivismo
extremos (entre objetividade e subjetividade, cognição e afetividade, reconstrução e
diálogo, etc.) e que permita articular relações de maneira mais críticas e
autoquestionadoras. Esta busca a faz a partir da “voz intermediária” (middle voice) de
Barthes, uma voz que “requer modulações de proximidade e distância, empatia e
ironia com respeito aos diferentes “objetos” de investigação (LACAPRA, 2001,
p.30)”] (p.96)

- “Como aponta Yerushalmi, uma das funções do historiador profissional é a resgatar o


passado, poucas vezes reconhecível pela tradição ou a memória social (que ademais,
segundo o autor, está em vias de perder-se). A reivindicação do trabalho da história para
“corrigir” as memórias é, neste caso, um componente central do compromisso
profissional do/a historiador/a como investigador/a e cidadã/o. A história – e, por
extensão, a pesquisa social – tem, então, o papel de produzir conhecimento crítico que
pode ter um sentido político. [...] Sem embargo, há algo mais, ou algo diferente, nas
tarefas da investigação. Tanto no extremo positivista como no extremo construtivista há
um discurso que intenta um fechamento, uma resposta final que se aproxima a uma
“verdade”. Nos temas que nos ocupam – onde há traumas e ambiguidades, silêncios e
excessos, busca de objetividade mas também compromisso e afetos –, a tarefa de
indagação possivelmente se localize em uma “terceira posição”, tal como expõe
LaCapra: “[...] a posição que defendo propõe uma concepção da história que envolve
uma tensão entre a reconstrução objetiva (não objetivista) do passado e um
intercâmbio dialógico com ele e com outros investigadores, no que o conhecimento não
entranha apenas o procedimento da informação mas também afetos, empatia e questões
de valor” (LACAPRA, 2001, p.35)” (p.97)

4.2. Catástrofe social, memoria y trauma

- “Quando se toma a memória como objeto de estudo, e especialmente quando se


incorpora a dimensão do traumático, a relação entre esta e a história cobra outro
sentido. Os acontecimentos traumáticos são aqueles que por sua intensidade geram
no sujeito a incapacidade de responder, provocando transtornos diversos no seu
funcionamento social (***). [...] O evento traumático é reprimido ou negado, e
apenas se registra tardiamente, depois de passado algum tempo, com manifestações de
diversos sintomas. Novamente, neste caso com referência a processos individuais e
intersubjetivos, nos encontramos com evidências de que a temporalidade dos fenômenos
sociais não é linear ou cronológica, mas que apresenta rachaduras, rupturas, um reviver
que não se apaga ou dilui com o simples passar do tempo (CARUTH, 1995). [...] Nos
lugares onde se viveram guerras, conflitos políticos violentos, genocídios e processos
repressivos – situações típicas de catástrofes sociais e de acontecimentos traumáticos
massivos – os processo de expressar e haver públicas as interpretações e sentidos desses
passados são dinâmicos, não estão fixados de uma vez sempre. Vão mudando ao longo
do tempo, segundo uma lógica complexa que combina a temporalidade da
manifestação e elaboração do trauma (irrupções como sintomas ou como
“superação”, como silêncios ou como esquecimentos recuperados), as estratégias
políticas explícitas de diversos atores, e as questões, perguntas e diálogos que são
introduzidos no espaço social pelas novas gerações, além dos “climas de época”. [...] A
relação entre acontecimentos traumáticos, silêncios e lacunas, e os processos
temporais posteriores – onde a atualização do passado no presente, assim como os
sentidos e rememorações do passado, cobram centralidade – tem sido objeto de
numerosos trabalhos, tanto no referido plano individual como a suas manifestações
sociais e coletivas. Devemos reiterar neste ponto um paradoxo da memória, já insinuada
no capítulo 1: a atualização do trauma, que quase sempre implica repetições de
sintomas, retornos do recalcado ou reiterações ritualizadas, serve em geral como
ancoragem de identidade. Se gera, então, uma fixação nesse passado e nessa
identidade, que inclui um temor a elaboração e a mudança, já que isto significaria uma
espécie de traição da memória do ocorrido e o passado. Elaborar o traumático
(working through) implica impor uma distância entre o passado e o presente, de
modo que se possa recordar que algo ocorreu, mas, ao mesmo tempo, reconhecer a
vida presente e os projetos futuros. Na memória, ao contrário da repetição
traumática, o passado não invade o presente, mas o informa” (p.97-99)

4.3. Historicizar las memorias

- “As mudanças nos cenários políticos, a entrada de novos atores sociais e as mudanças
nas sensibilidades sociais inevitavelmente implicam transformações dos sentidos do
passado. [...] A construção de memórias sobre o passado se converte, então, em um
objeto de estudo da própria história, o estudo histórico das memórias, que chama, então,
a “historicizar as memorias”” (p.99)

- “A significação dos acontecimentos do passado não se estabelece de uma vez por


todas, para sempre, de modo a manter-se constante e imutável. Tampouco existe uma
linearidade clara e direta entre a relevância de um acontecimento e a passagem do
tempo cronológico, no sentido de que à medida que o tempo passa o acontecimento vai
caindo no esquecimento histórico, sendo substituídos por eventos mais próximos. A
dinâmica histórica da memória, então, requer ser problematizada e estudada. [...] “[...] a
questão da memória não é que há um acontecimento, que imediatamente se esclarece
um pouco, e cinquenta anos depois muito mais. Não, é a configuração que muda”
(ROUSSO in. FELD, 2000, p.35)” (p.99)

[N.R.4: “A terminologia para nomear o ocorrido é parte das lutas pelos sentidos e
significados do passado. Essas maneiras de nomear também cobram sentidos diversos,
e mudam ao longo do tempo. Com relação aos acontecimentos europeus do período
nazista, especialmente ao genocídio de judeus, existe um debate implícito sobre o uso
da palavra “holocausto”, que tem etimologicamente um sentido de sacrifício religioso
e purificação ritual. Prefiro usar a expressão mais neutra “extermínio nazista”, ou às
vezes a palavra hebraica Shoah, em um sentido de catástrofes ou devastação (natural
ou humana), para evitar entrar em um debate de sentido implícito no ato de nomear,
reconhecendo ao mesmo tempo o sinistro do acontecimento histórico. Agamben dedica
algumas páginas muito lúcidas a etimologia destas palavras de não utilizar o termo
“holocausto” (AGAMBEN, 2000, p.25-31). LaCapra, por outra parte, mostra que na
generalização do uso deste termo têm se perdido por completo seu significado
etimológico original e a associação com a noção de sacrifício ritual (LaCAPRA,
2001)]” (p.100)

- “A história das ressignificações do período nazista e dos genocídios cometidos pela


Alemanha, assim como os sentidos que o extermínio nazista tem em diferentes lugares e
momentos, poderiam encher bibliotecas inteiras. Os sentidos que lhe dão e se seguem
dando à Shoah na Alemanha, em Israel, em Estados Unidos e em outros lugares do
mundo vai se modificando a medida que passa o tempo, insertando-se em tensões e
conflitos políticos (e econômicos) específicos. [...] No caso da ditadura militar
argentina (1976-1983), o que se recorda e o que se destaca foi se alterando ao longo
do tempo. Durante a ditadura mesmo, o movimento direitos humanos, tanto no pais
como na rede de solidariedade internacional, foi tecendo uma narrativa centrada no
valor dos direitos humanos e nas violações cometidas pelo regime militar (e, como
antecedente, pelas forças paramilitares da chamada Triple A). A figura central que se
construiu foi durante muito tempo a do/a “preso/a-desaparecido/a”, vítima do
inimaginável. Tão inimaginável que demorou muito tempo para construir essa figura,
pois sempre houve a esperança de seu reaparecimento na forma de uma detenção
reconhecida. [...] Nas forças armadas, a construção do inimigo era a da “subversão”,
que com suas atividades na luta armada e na ofensiva ideológica que passou a
questionar os próprios fundamentos da nação. O discurso militar era o discurso da
guerra que, ademais – como depois iria se tornar mais manifesto –, era uma guerra
“suja”. No entanto, o discurso dos direitos humanos se converteu em slogan e em
símbolo da transição em 1983. Para este discurso, o que haviam eram violadores e
perpetradores de um lado, vítimas de outro” (p.100-101)

- “Estas imagens contrapostas entre os militares e o movimento dos direitos humanos


cederam seu lugar a desdobramentos significativos no discurso e na prática institucional
do Estado. Por um lado, o governo da transição construiu uma interpretação
baseada em um cenário de forças violentas em luta (os “dois demônios”), que
deixava no meio aqueles que queriam a paz e a vida democrática – uma maioria
supostamente alheia e ausente dessas lutas, que apenas sofria as consequências, mas não
era agente ativo da confrontação, e que podia, em consequência, identificar-se com a
expressão “por algo será”, que implicitamente levava a justificação dos atos repressivos
do aparato militar. Por outro lado, a denúncia e processo judicial dos ex-comandantes
(no juízo de 1985) mantiveram como figura central a vítima da repressão estatal,
com independência de sua ideologia ou de sua ação. A vítima sofre um dano como
consequência da ação de outros. Não é agente, não produz. Recebe impactos, mas não
se reconhecem capacidades ativas nem para provocar, nem para responder” (p.101)

- “O marco do juízo aos ex-comandantes das juntas militares realizado em 1985 foi
propício para esta despolitização dos conflitos. O marco jurídico formal eliminava toda
referência a ideologias e compromissos políticos. O central era determinar que haviam
cometidos crimes, sem perguntar-se – omitindo explicitamente – o possível móvel
político das ações de vítimas ou repressores. No juízo, a imagem da vítima permitiu
estabelecer e reforçar, sem justificações nem atenuantes, a culpabilidade dos
violadores. A pergunta mais geral é em que medida a judicialização de um conflito –
como o conflito político violentos dos anos setenta na Argentina – implica
necessariamente sua despolitização, ou seja, um quadro narrativo colocado em uma
chave criminosa e não política” (p.102)

[N.R.5: “No marco do juízo, por exemplo, quase qualquer pergunta que remeta a
filiação ideológica ou política de um testemunho – muito dos sobreviventes de campos
de detenção clandestinas que relatavam experiências de tortura e vexação – era
denegada pelos juízos”] (p.102)

- “Em um período posterior, uma vez que o Estado já havia reconhecido a legitimidade
das demandas pelas violações dos direitos humanos e havia uma “verdade”
juridicamente estabelecida, se abriu uma nova etapa, na que começaram a manifestar-se
diversas modalidades de recuperação das memórias da militância e o ativismo político,
e não apenas das violações. Múltiplos atores participaram e participam nesta
recuperação: movimentos políticos que “usam” o passado para destacar continuidades
históricas em lutas sociais e políticas do pais, militantes e ex-militantes que começam a
dar seus testemunhos e suas reflexões sobre períodos conflitivos da história recente por
motivos variados, jovens que não viveram o período e que se aproximam com novas
perguntas – tanto aqueles que se aproximam com a ingenuidade, a distância e a falta de
compromisso que lhes permite fazer novas perguntas ou entram em diálogo com
preconceitos ou prejulgamentos da época, como aqueles que carregam as marcas
biográficas do sofrimento e da perda familiar, transmitidas em identificações
intergeracionais de maneira complexas (o caso de H.I.J.O.S.). A partir dos anos
noventa, o cenário político é outro, e os temas e perguntas que se colocam são novas”
(p.102-103)

- “[...] o tempo das memórias não é linear, não é cronológica, não é racional. Os
processos históricos ligados às memórias de passados conflitivos tem momentos de
maior visibilidade e momentos de latência, de aparente esquecimento ou silencio.
Quando novos atores ou novas circunstâncias se apresentam no cenário, o passado é
ressignificado e, geralmente, cobre uma saliência pública inesperada. [...] Em segundo
lugar, nestes processos interveem de maneira central as transformações e processos da
subjetividade, marcados pelas manifestações e as elaborações de situações traumáticas.
Enquanto as ciências sociais incorporam a análise da subjetividade e das manifestações
simbólicas em seu foco de estudo, estas “memórias” e lacunas, assim como suas
irrupções, implicam em dedicar esforços a relação entre os acontecimentos passados e
as manifestações de seus efeitos, “restos” e legados em períodos posteriores. As
memórias tornam-se então um importante “objeto de estudo” e chama a investigar as
ligações entre as histórias passadas e memórias presentes, o que é e como é lembrado e
silenciado, em especial frente a situações de catástrofe social, porque “o que é negado
ou reprimido em um deslize da memória não desaparece; sempre retorna de maneira
transformada, às vezes desfigurada e disfarçada” (LaCAPRA, 1998, p.10)” (p.104)

- “O paradoxo é que os buracos traumáticos são ao mesmo tempo aspectos do que


queremos compreender e narrar como parte do horror do passado e “caixas
pretas” que impedem a elaboração dessa mesma história. Como LaCapra
corretamente aponta, “o evento traumático tem seu efeito maior e mais claramente
injustificável na vítimas, mas de diferentes maneiras também afeta todos que entram em
contato com ele: perpetrador, colaborador, testemunha passiva, oponente e resistente,
e aqueles que nasceram depois” (LaCAPRA, 1998, p.8-9)” (p.104)

4.4. Los huecos entre historia y memoria

- “Em síntese, não há uma maneira única de colocar a relação entre história e memória.
São múltiplos níveis e tipos de relação. Sem dúvida, a memória não é idêntica a
história. A memória é uma fonte crucial para a história, ainda (e especialmente) em
suas tergirversões, deslocamentos e negociações, que colocam enigmas e perguntas
aberta a investigações. Neste sentido, a memória funciona como um estímulo para a
elaboração da agenda da investigação histórica. Por sua parte, a história permite
questionar e provar criticamente os conteúdos das memórias, e isto ajuda na tarefa
de narrar e transmitir memórias criticamente estabelecidas e provadas. [...] Mas há
mais, como vimos, quando se converte a memória em objeto de estudo, objetivado em
fato histórico” (p.104)

- “Entram nesta historia das memórias as visões cambiantes sobre a resistência ao longo
do tempo: foi fácil assimilar seu papel heroico e seu lugar de vítima, que salva a pátria e
que morre por ela. Mas seu papel no atentado foi diferente, foi ativo, provocando mortes
(inclusive de “inocentes” que estavam no lugar). Era mais entendível para o senso
comum, então, deixar esta ação partisana como um fato isolado, fora do contexto
histórico da guerra, responsabilizando aos partisanos. [...] Portelli localiza suas
perguntas centrais de investigação no hiato, buraco ou distância entre a “História” –
os fatos, dolorosos e impactantes, ocorridos em algum lugar específico – e as
maneiras em que participantes e vizinhos relatam, recordam e simbolizam esses
fatos. Não se trata de descobrir e denunciar “memórias falsas” ou de analisar as
construções simbólicas em si mesmas, mas de indagar as fraturas e hiatos entre
ambas, e entre as diversas narrativas que vão se tecendo ao redor de um
acontecimento” (p.106)

- “Desta maneira, a história “dura”, fática, dos eventos e acontecimentos que


“realmente” existiram se convertem em material imprescindível, mas não suficiente
para compreender as maneira em que sujeitos sociais constroem suas memórias, suas
narrativas e suas interpretações desses mesmos fatos” (p.106-107)

Cp.5: Trauma, testimonio y “verdad”

- “O QUE PODEM DIZER OU CONTAR aqueles que viveram essas situações


“inviviveis”? Quais são as questões éticas, políticas e, em geral, humanas que estão
envolvidas? Os debates sobre o testemunho permeiam praticamente todos os campos
disciplinários, desde a crítica literária até a crítica cultural mais abarcadora, desde a
filosofia até a história, desde o que-fazer político até a psicanálise, a sociologia e a
antropologia” (p.109)

5.1. El testimonio después de Auschwitz

- “As reflexões e o debate sobre a possibilidade e a impossibilidade de testemunhar,


sobre a “verdade”, os silêncios e as lacunas, assim como sobre a possibilidade de
escutar, devem sua origem contemporânea e seu forte impulso a experiência nazista e as
desenvolvimento dos debates a partir dela” (p.109)

- “Em primeiro lugar, estão os obstáculos e travas para que o testemunho se produza,
para aqueles que viveram e sobreviveram a situações limite possam relatar o vivido.
Neste ponto se coloca a impossibilidade de narrar e as lacunas simbólicas do
traumático. Mas também o silêncio deliberado, “indicador sobressalente do caráter
duplo limite da experiência concentracionária: o limite do possível e, por isso mesmo,
limite do dizível” (POLLAK, 1990, p.12). Em segundo lugar, o tema se refere ao
testemunho em si, as lacunas e o vazios que se produzem, o que se pode e que não se
pode dizer, o que tem e não tem sentido, tanto para quem o conta quanto para quem
escuta. Finalmente, está a questão dos usos, efeitos e impactos do testemunho sobre a
sociedade e o entorno em que se manifesta no momento em que se narra, assim
como as apropriações e sentido que diferentes públicos podem lhe dar ao longo do
tempo” (p.110)
- “Há dois sentidos da palavra “testemunha” que entram em jogo. Primeiro, é
testemunha quem viveu uma experiência e pode, em momento posterior, narrá-la, “dar
testemunho”. Se trata da testemunha em primeira pessoa, por tem vivido o que tenta
narrar. A noção de “testemunha” também alude a um observador, a quem presenciou
um acontecimento da posição do terceiro, alguém que viu algo embora não tenha tido
participação direta ou pessoa no acontecido. Seu testemunho serve para assegurar ou
verifica a existência de certo fato. [...] Da primeira acepção de testemunha-partícipe,
existem acontecimentos e vivência as quais não é possível testemunhar, porque não há
sobreviventes. Ninguém voltou da câmara de gás, como ninguém voltou de um “voo
da morte” na Argentina, para contar sua experiência ou ainda silenciar seu trauma.
Este buraco negro da vivência pessoal, este buraco histórico, marca um limite
absoluto na capacidade de narrar. É o buraco e a impossibilidade humana colocada
por Primo Levi, que se reconhece no “dever de memória” como testemunha
“delegativa” ou “por conta de terceiros” que cabe aos sobreviventes. A testemunha-
partícipe que não pode testemunhar é, no mundo dos campos de concentração e
especialmente de Auschwitz, a figura do “muçulmano”, aquele que tem perdido sua
capacidade humana quando, todavia, não estava morto corporalmente: “[...] não somos
nós, os sobreviventes, as verdadeiras testemunhas... A demolição terminada, a obra
terminada, não há quem o tenha contado, como não há ninguém que voltou para contar
a sua morte. Os afogados, mesmo que tivessem papel e caneta, não teriam escrito seu
testemunho, porque sua verdadeira morte já havia começado antes da morte corporal.
Semanas e meses antes da extinção já haviam perdido o poder de observar, de lembrar,
de apreciar e de se expressar. Nós falamos por eles, por delegação”. [...] Os
sobreviventes podem falar a partir do que observaram. Mas também “viveram” no
campo de concentração. E sem chegar ao extremos da situação sem retorno, os
sobreviventes podem dar testemunho como observadores do acontecimento a outros e,
ao mesmo tempo, ser testemunha de suas próprias vivências e dos acontecimentos que
participaram. Como pensar, então, a possibilidade do testemunho dos
sobreviventes?. [...] Aqueles que tiveram a vivência do campo de concentração e a
perseguição podem ter memórias muito vívidas e detalhadas do ocorrido, dos
sentimentos e pensamentos que acompanhavam essas vivências” (p.110-111)

- “Primo Levi menciona esta diferença: “Alguns dos meus amigos, amigos muito
queridos, não falam nunca de Auschwitz [...] Outras pessoas, pelo contrário, falam de
Auschwitz incessantemente, e eu sou um deles” (LEVI, 1989, p.172). Alguns sentiram o
imperativo de contar, como se fosse uma necessidade de sobreviver, ademais da mais
frequentemente reconhecida urgência de querer sobreviver ao horror justamente para
poder contar” (p.112)

- “A necessidade de contar pode cair no silêncio, na impossibilidade de fazê-lo, pela


inexistência de ouvidos dispostos a escutar. E, então, há de calar, silenciar, guardar ou
tentar esquecer. Aqueles que optam por esse silêncio não encontram, por ele,
tranquilidade e paz” (p.112)

- “Em um nível histórico geral, argumenta Laub, o extermínio nazista conseguiu,


durante seu desenvolvimento temporal, converter-se em um evento sem testemunhas.
Nem testemunhas internas – aniquilados em sua capacidade de ser testemunha frente a
si mesmos na figura limite do muçulmano –, nem testemunhas externas. Havia aqueles
que captavam e denunciavam, aqueles que no interior dos guetos e os campos
enterravam seus diários e escritos. O que estava ausente era a capacidade humana para
perceber, assimilar e interpretar o que estava ocorrendo. [...] Poderia se dizer que os
marcos interpretativos culturalmente disponíveis não ofereciam os recursos simbólicos
para localizar e dar sentido aos acontecimentos” (p.112-113)

- “No juízo de Nuremberg houve apenas o testemunho de um sobrevivente. Foi um


juízo onde “a prova” foi fundamentalmente documental (WIEVIORKA, 1998, 1999).
[...] A grande mudança no lugar do testemunho dos sobreviventes ocorreu a partir
do juízo de Eichmann em Jerusalem em 1961. O testemunho de sobreviventes teve
ali um papel fundamental, não apenas ou necessariamente como prova legal, mas como
parte de uma estratégia explícita daqueles que conduziram a acusação: se tratava de
trazer para o centro do cenário mundial a memória do genocídio como uma parte central
da identidade judaica. Aparece o “testemunho” como elemento central do juízo, e a
partir de então se instala o que Wierviorka chama “a era do testemunho”, reproduzida
em escala ampliada nos anos 80 e 90 (WIEVIORKA, 1998). A pergunta permanece:
quem escuta? Para quem testemunha?” (p.113)

- [N.R.5: “[...] encontramos indícios de que a temporalidade das memórias não é


linear, mas que apresentam rachaduras, fraturas e hiatos temporais, cuja dinâmica tem
de atender. Assim como a “febre” por encontrar maneiras sistemáticas de preservar
testemunhos de sobreviventes da Shoah se produziu várias décadas depois do
acontecimento [...], os tempos do testemunho sistemático estão chegando ao Cone Sul”]
(p.113)

- “Foi necessário a passagem do tempo, e inclusive a chegada de uma geração nascida


no pós-guerra que começara a perguntar e interrogar aos mais velhos, para reconhecer e
intentar dar conteúdo a brecha história que havia se criado na capacidade social de
testemunhar, já que os testemunhos não foram transmissíveis ou integráveis no
momento que se produziam os acontecimentos. Apenas com a passagem do tempo se
fez possível ser “testemunha” do testemunho, como capacidade social de escutar e de
dar sentido ao relato do/a sobrevivente (LAUB, 1992). Estamos aqui frente a um dos
paradoxos do “trauma histórico”, que assinala o duplo vazio na narrativa: a
incapacidade ou impossibilidade de construir uma narrativa pelo vazio dialógico –
não há sujeito e não há ouvinte, não há escuta” (p.114)

- “Como assinala Pollak, os testemunhos judiciais e, em menor grau, os realizados


frente a comissões de investigação histórica estão claramente determinados pelo
destinatário” (p.114-115)

- “Há mais dois pontos que são estimulados pela reflexão a partir do extermínio nazista.
O primeiro, assinalado por Lanzmann com relação aos testemunhos recolhidos no seu
filme Shoah, se refere a impossibilidade de compreender o ocorrido. Lanzmann insiste
seu ponto. Não se trata de compreender ou entender as causas do extermínio para poder
elaborar uma mensagem orientada a transmissão. Fazer a pergunta do porque foram
mortos os judeus, diz Lanzmann, é uma obscenidade. Não é a partir da compreensão de
causas e condições, de motivos ou de condutas, que a experiência se registra. É, em todo
caso, a partir do que não se compreende, do que resulta incompreensível, que se gera o
ato criativo de transmitir (LANZMANN, 1995). [...] Esta impossibilidade de
compreender pode ser entendida como limite. A perguntar do porque e as tentativas de
desentranhar a matriz política, ideológica, psicológica, social e cultural que levou a essa
situação limite, tem sido motores permanentes de investigações e indagações em todos
os âmbitos do saber. Neste plano, não se trata da obscenidades mas da inquietude e a
ansiedade do conhecimento” (p.116)

- “Um segundo ponto tem a ver com a relação entre testemunho e “verdade”. Ao
trabalhar sobre a relação entre testemunho e trauma, o centro da consideração da
“verdade” se desloca da descrição fática – quantas chaminés havia em Auschwitz é o
tema no debate provocado por um testemunho do sobrevivente, entre entrevistadores/as
e historiadores/as, como relata Laub (1992b) – a narrativa subjetivada, que transmite
as verdades presentes nos silêncios, nos medos e nos fantasmas que visitam o sujeito
nos sonhos, os odores e ruídos que se repetem. Ou seja, se reiteram aqui os dilemas da
“verdade histórica” e a fidelidade da lembrança (RICOUER, 2000). [...] A relação entre
o trauma e a capacidade de representar ou narrar pode ser vista de outro ângulo, o da
discursividade. Van Alphen se pergunta sobre a impossibilidade de narrar a vivência
do extermínio. [...] Aponta que o traumático do acontecimento implica uma
“incapacidade semiótico” durante o próprio acontecimento, que impede “experimentá-
lo” (no sentido da experiência apresentado em um capítulo anterior) e representá-lo nos
termos da ordem simbólico dispõe. A incapacidade semiótica pode estar ancorada nas
dificuldades de ocupar uma posição de agente ativo por parte dos/as sobreviventes. [...]
Neste caso, a dificuldade para “ter a experiência” do acontecido reside na ambiguidade
e na ausência dos recursos retóricos para manejá-lo. Ou pode estar presente na negação
total da subjetividade, onde os/as sobreviventes se vêm reduzidos a “nada”. Embora
possam relatar algo do terrível que lhes ocorreu, o fazem com distância, sem emoções,
como se sua subjetividade houvesse sido assassinada no campo (VAN ALPHEN,
1999)” (p.117-118)

- “Ao ter este fundamento discursivo, e ao depender de marcos narrativos existentes em


uma cultura, a questão do testemunho volta a um plano onde o individual e o coletivo se
encontram. A memória – ainda a individual –, como interação entre o passado e o
presente, está cultural e coletivamente marcada; não é algo que esta ali para ser
extraída, mas que é produzida por sujeitos ativos que uma cultura e um ethos”
(p.118)

5.2. El testimonio de los/as sin voz

- “Nos estudos culturais norte-americanos ligados a América Latina, se tem gerado nos
anos 90 uma intensa produção crítica sobre o testemunho e sua relação com a
literatura” (p.118)

- “A potencialidade de sedução do gênero é notória. Invitar o leitor/a a participar e ser


testemunho/a da geração de um/a ator/a e a de uma voz, desperta cumplicidade, a crença
de compartilhar e projetar uma intimidade que, ilusoriamente ao menos, se baseia na
autenticidade (SOMMER, 1991, p.132)” (p.115)
- “O caso de Rigoberta Menchú é ilustrativo do efeito que um testemunho pode ter em
diferentes públicos, e sua mudança ao longo do tempo. O livro e a figura de Rigoberta
foram venerados e até sacralizados, especialmente nos círculos progressistas
universitários dos Estados Unidos. Seu Prêmio Nobel da Paz em 1992 a elevou a figura
de alcance mundial. [...] a controvérsia gerada a partir do texto de Stoll (1999) que
questiona a veracidade da informação contida em seu testemunho” (p.120)

- “A controvérsia, no entanto, põe acento sobre dois temas pertinentes. (1) Primeiro,
a questão da “verdade histórica”. Está claro que há relatos apresentados em primeira
pessoa, mas que não foram presenciados por Rigoberta. Este fato, invalida seu
testemunho? Qual é o valor de verdade que se demanda? O fático ou o simbólico? Onde
se põe o limite entre “realidade” e “ficção”? Não se trata sempre de processos de
construção social? Todas estas perguntas, em definitiva, indicam que nenhum texto
pode ser interpretado fora de seu contexto de produção e de recepção, incluindo as
dimensões políticas do fenômeno. [...] Em (2) segundo lugar, está claro também que seu
caráter testemunhal não está baseado em sua presença pessoal como testemunha
de cada evento narrado, mas – ao menos esse é o que ela defende – em uma presença
coletiva, pelo qual o texto em primeira pessoa do singular deve ser lido como plural,
como expressão sintética de experiências coletivas” (p.120-121)

5.3. Los testimonios de la represión en el Cono Sur

- “Essa afirmação da falta de palavras, é uma normalização retrospectiva do evento,


ou uma maneira de nomear um silêncio que se impõe sobre a memória ainda no
presente? (DOVE, 200). [...] O devir traumático implica uma incapacidade de viver
uma “experiência” com sentido. Há uma suspensão da temporalidade, expressado
nos retornos, nas repetições, nos fantasmas recorrentes. A possibilidade de
testemunhar – no duplo sentido da noção de testemunha apresentada no início deste
capítulo – requer o tempo da reconstrução subjetiva, uma distância entre o
presente e o passado. Consiste em elaborar e construir uma memória de um
passado vivido, mas não como uma imersão total. “Volto, mas não do todo”, disse
Celiberti (1989, p.21). Uma parte do passado deve ficar para trás, enterrado, para
poder construir no presente uma marca, um símbolo, mas não uma identidade (um
reviver) com esse passado” (p.123)
- “Não se trata de fenômenos ligados apenas ao mercado (o que os críticos literários
chamam “o boom do testemunho e a biografia”), mas as complexas buscam de sentidos
pessoais e a reconstrução de tramas sociais. De maneira central, existe também um
propósito político e educativo: transmitir experiências coletivas de luta política, assim
como os horrores da repressão, em um intento de indicar caminhos desejáveis e marcar
com força o “nunca mais”” (p.124)

5.4. En síntesis

- “O testemunho como construção de memória implica uma multiplicidade de vozes, a


circulação de múltiplas “verdades” e, também, silêncios e coisas não ditas. [...] Os
silêncios e o não dito podem ser expressões de lacunas traumáticas. Podem ser também,
como Rigoberta Menchú e seus silêncios “culturais”, estratégias para marcar a distância
social com a audiência, com o/a outro/a” (p.124)

- “A dor e suas marcas corporais podem impedir sua transmissibilidade ao remeter o


horror no elaborável subjetivamente. O sofrimento traumático pode privar a vítima do
recurso da linguagem, de sua comunicação, e este pode impedir o testemunho ou
permitir fazê-lo “sem subjetividade”. Mas também os/as outros/as podem encontrar um
limite na possibilidade de compreensão daquele que entra no mundo corporal e
subjetivo de quem o padece. As lacunas traumáticas, silenciadas, muitas vezes para
evitar o sofrimento daqueles que as padeceram, podem não ser escutadas ou negadas por
decisão política ou por falta de uma trama social que as queira receber. Se cria um meio
onde o silêncio “suspende” e deixa imóvel sua expressão e circulação” (p.125)

- “Há um modelo ou marco, que inclui um processo psicológico de sofrimento e trauma,


processo de luto, e cura através da separação e aceitação da perda. Neste processo
individual e interpessoal, o falar e contar tem seu lugar, às vezes catártico ou
terapêutico. No entanto, nesta época que nos toca viver, na qual através dos meios de
comunicação de massa se colocam uma “publicação” da vida privada nos talk shows e
os reality shows, que banalizam os sentimentos e a intimidade, se corre o risco de que
o gênero testemunhal caia na exposição (excessiva?) e na espetacularização do
horror. Se o terrorismo de Estado e a repressão violaram a intimidade e os corpos
humanos, a reconstrução da identidade requer reconstruir também os espaços privados e
a intimidade. Neste contexto, as modas de testemunhos correm perigos sobre os que têm
alertar. [...] A onda testemunhal não pode substituir a urgência de respostas políticas,
institucionais e judiciais aos conflitos do passado, além dos pessoais, simbólicos e dos
morais ou éticos” (p.126)

Cp.6: El género en las memorias

- “SE FECHAMOS OS OLHOS, há uma imagem que domina a cena humana das
ditaduras: as Madres de Plaza de Mayo e outras mulheres, Familiares, Avós, Viúvas,
Companheiras de detidos-desaparecidos ou de presos políticos, reclamando e buscando
a seus filhos (na imagem, quase sempre homens), a seus maridos ou companheiros, a
seus netos/as. Do outro lado, os militares, exibindo plenamente sua masculinidade.
[...] O contraste de gênero nestas imagens é claro, e se repete permanentemente em uma
diversidade de contextos. Os símbolos da dor e do sofrimento personalizados
tendem a corporizar-se em mulheres, enquanto os mecanismos institucionais parecem
“pertencer” aos homens” (p.127)

- “A repressão das ditaduras do Cone Sul teve especificidades de gênero. Os impactos


foram diferentes entre homens e mulheres, um fato óbvio e explicável por suas posições
diferenciadas no sistema de gênero, que implicam experiências vitais e relações sociais
hierárquicas claramente distintas” (p.128)

- “O poder masculino militar na esfera pública, com seus rituais e práticas de


representação repetitivas em uniformes, desfiles, exibições de armas, etc., se
acompanhava com performances materializadas em corpos e em práticas concretas nos
espaços específicos da repressão e especialmente nos lugares de tortura” (p.129)

- “A tortura era parte de uma “cerimônia iniciativa” nos campos de detenção, nos que se
privava a pessoas de todos seus traços de identidade: a vestimenta, os pertencimentos
pessoais, a possibilidade de olhar e ver, mediante capuzes e mordaças. “A própria
humanidade entra em suspenso [...] O capuz e a consequente perda de visão aumentar
a insegurança e a luxação [...] Os torturados não vem a cara de suas vítimas; castigam
corpos sem rosto; castigam subversivos, não homens” (CALVEIRO, 1998, p.62). [...] A
repressão direta a mulheres podia estar ancorada em seu caráter de militantes ativas.
Mas as mulheres também foram sequestradas e foram objeto de repressão por sua
identidade familiar, por seu vínculo com homens – companheiros e maridos
especialmente; também filhos/as –, com o fim de obter informação sobre as atividades
políticas de seus familiares a identificação com a maternidade e seu lugar familiar,
ademais, colocou as mulheres em um lugar muito especial, o de responsáveis pelos
“maus caminhos” e desvios de seus filhos/as e demais parentes (FILC, 1997). [...]
Todos os informes existentes sobre a tortura indicam que o corpo feminino sempre
foi um objeto “especial” para os torturadores. O tratamento das mulheres incluía
sempre uma alta dose de violência sexual. Os corpos das mulheres – suas vaginas,
seus úteros, seus seios –, ligados a identidade feminina como objeto sexual, como
esposas e como mães, eram claros objetos de tortura sexual (BUNSTER, 1991;
TAYLOR, 1997)” (p.130)

- “Para os homens, a tortura e a prisão implicavam um ato de “feminização”, no


sentido de transformá-los em seres passivos, impotentes e dependentes. A violência
sexual era parte da tortura, assim como uma constante referência a genitalidade – a
marca da circuncisão entre vítimas judias como fator agravantes da tortura, as
referências ao tamanho do pênis para todos, a picana nos testículos, etc. Era uma
maneira de converter os homens em seres inferiores e, nesse ato, estabelecer a
“virilidade” militar” (p.131)

- “A polarização entre masculino/feminino, ativo/passivo, era parte do sentido comum


entre os militares. Também o era nos grupos guerrilheiros e na sociedade como um
todo. Nas representações da guerrilheira pelos meios de comunicação de massa na
Argentina ditatorial, esta presente a ambiguidade da feminidade. [...] Como
contrapartida, também no movimento guerrilheiro havia dificuldades para integrar a
feminidade das mulheres militantes. A aceitação das mulheres ficava sempre em dúvida,
e quando demonstrava sua habilidade em grupos armados, eram vistas como “pseudo-
homens” (FRANCO, 1992, p.108). Em alguns testemunhos de ex-militantes e ex-presas,
aparece também uma autoidentificação dessexuada ou masculinizada” (p.132)

- “Os regimes militares implicaram transformações significativas nas práticas cotidianas


de homens e mulheres. O medo e a incerteza permearam espaços e práticas de
sociabilidade, especialmente em espaços públicos extrafamiliares. Enquanto os homens
tendem a ser mais ativos nestes espaços, possivelmente o impacto tenha sido mais
agudo para eles” (p.134)

- “A repressão foi executada por uma instituição masculina e patriarcal: as forças


armadas e as polícias. Estas instituições se imaginaram a si mesmas com a missão de
restaurar a ordem “natural” (de gênero). Em suas visões, deviam recordar
permanentemente as mulheres era seu lugar na sociedade – como guardiãs da ordem
social, cuidando de seus maridos e filhos/as, assumindo suas responsabilidades na
harmonia e tranquilidade familiares” (p.134)

6.2. Un nivel diferente. Mujeres y hombres recuerdan…

- “No caso das memórias da repressão, ademais, muitas mulheres narram suas
lembranças na chave mais tradicional do papel da mulher, a de “viver para os outros”.
Isto está ligado a definição de uma identidade centrada em atender e cuidar outros/as
próximos, geralmente no marco de relações familiares” (p.135-136)

- “O testemunho judicial, seja de homens ou de mulheres, segue um livreto e um


formato pré-estabelecidos, ligados a noção de prova jurídica, fática, fria, precisa. Este
tipo de testemunho público se diferencia significativamente de outros [...]” (p.136)

- “Homens e mulheres desenvolver práticas diferentes sobre como fazer públicas suas
memórias. Este tema tem sido estudado no caso de sobreviventes da Shoah. Os
testemunhos mais conhecidos são de homens – os grandes escritores como Primo Levi
ou Jorge Semprún. [...] Nos campos de concentração, homens e mulheres estavam
separados, de” (p.137)

- “Nos campos de concentração, homens e mulheres estavam separados, daí que as


narrativas dão conta de esferas e experiências diferentes. As narrativas das mulheres
põem ênfase em sua vulnerabilidade como seres sexuais e nos vínculos de afeto e
cuidado que se estabeleceram entre elas. Nos relatos, a sobrevivência física e social está
ligada a reprodução e recreação dos papeis apreendidos na socialização como mulheres:
a ênfase na limpeza, as habilidades para costurar e remendar que lhes permitiram manter
uma preocupação por seu aspecto físico, o cuidado de outro/as, a vida em espaços
comunitários que permitiram “reinventar” os laços de família (GOLDENBERG, 1990)”
(p.137)

- “A realidade demográfica é muito diferente nas ditaduras do Cone Sul, já que, como
estamos vendo, as mulheres podem narrar as experiências dos/as outros/as, as próprias
como vítimas diretas (sobreviventes da repressão em suas distintas formas), como
vítimas “indiretas” ou como militantes do movimento de direitos humanos” (p.138)
- “Tomemos o caso das mulheres (majoritariamente coreanas) que foram sequestradas
por forças armadas japonesas para estabelecer “ponto de serviços sexuais” (comfort
stations), uma forma de escravidão sexual para servir as tropas japonesas de ocupação
durante a Segunda Guerra mundial (CHIZUKO, 1999). Se calcula que houve entre 80
mil e 200 mil mulheres nesta situação. Se sua existência era conhecida tanto na Coréia
como no Japão (há um livro sobre o tema publicado a começos dos anos 70, que foi
best-seller no Japão), a escravidão sexual destas mulheres começou a ser redefinida
como “crime” apenas nos 80, para converter-se em tema de controvérsia política
de primeiro plano nos anos 90. [...] As mulheres que foram sequestradas na Coréia
permaneceram caladas durante cinquenta anos. Não houve nenhum testemunho até o
começo da década de 90, e é muito provável que ainda tenha muitas mulheres que não
se identificam como vítimas” (p.138-139)

- “Sabemos, no entanto, que o testemunho é uma narrativa construída na interação da


entrevista, e a relação de poder com a entrevistadora (seja em um julgamento, em uma
entrevista de imprensa ou em uma organização feminista de apoio) leva a adequar o
relato ao que “se espera”. Assim, se foi construindo um modelo repetitivo de vítima,
quando há uma enorme diversidade de situações e narrativas que ficam ocultas. [...]
Neste caso, o processo de “dar voz as emudecidas” é parte da transformação do sentido
do passado, que inclui redefinições profundas e reescritas da história” (p.139)

- “Tomemos um caso mais próximo a experiência das ditaduras, as memórias da tortura.


Sem dúvida, as narrativas da tortura e os sentimentos expressados por mulheres e
homens são diferentes. Jean Franco (1992) aponta que os relatos pessoais de vítimas de
tortura tendem a ser lacônicos e eufemísticos. As mulheres sentem vergonha de falar de
suas experiências. No testemunho de denúncia (frente a comissões ou como
testemunhas em juízos), por exemplo, informa que foram violadas, sem dar detalhes ou
descrever o ocorrido” (p.140)

- “As memórias pessoais da tortura e da prisão estão fortemente marcadas pela


centralidade do corpo. A possibilidade de incorporá-la ao campo das memórias sociais
apresenta um paradoxo: o ato da repressão violou a privacidade e a intimidade,
quebrando a divisão cultural entre o âmbito público e a experiência privada. Superar o
vazio traumático criado pela repressão implica a possibilidade de elaborar uma
memória narrativa da experiência (***), que necessariamente é pública, no sentido
de que deve ser compartilhada e comunicada a outros – que não serão os outros que
torturaram nem outros anônimos, mas outros/as que, em princípio, podem compreender
e cuidar. No entanto, seguem sendo “outros/as”, uma alteridade. Ao mesmo tempo, a
recuperação da “normalidade” implica a reconstrução de um si mesmo/a, a reconstrução
da intimidade e a privacidade. Os silêncios nas narrativas pessoais são, neste ponto,
fundamentais” (p.140-141)

6.3. El sistema de genero y la memoria

- “Finalmente, se pode perguntar quais tem sido os efeitos da repressão sobre o próprio
sistema de gênero. O reforço de um tipo específico de moralidade familiar, de uma
definição “total”(itária) da normalidade e do desvio, não pode deixar de ter efeitos. Em
coincidência não casual, os períodos de transição tendem a ser períodos de liberação
sexual – e inclusive de “destape” com elemento pornográficos – que incluem uma
liberação das mulheres e das minorias sexuais que tem estado sujeitas a práticas
repressivas de larguíssima data. [...] Se faz necessário aqui diferenciar vários níveis e
eixos. Tanto dentro da guerrilha como da resistência à ditadura surgiram mulheres
políticos ativos, embora muitas vezes sua atuação implicou um processo de
masculinização para poder legitimar-se – processo que se manifestou também nas
práticas repressivas para mulheres sequestradas. Um segundo lugar de presença ativa de
mulheres é o que se deu no movimento de direitos humanos. As mulheres (mães,
familiares, avós, viúvas, etc.) tem aparecido na cena pública como portadoras de
memória social das violações dos direitos humanos. Sua performatividade e seu papel
simbólico tem também uma carga ética significativa que empurra os limites da
negociação política, pedindo “o impossível”. Seu lugar social está ancorado em vínculos
familiares naturalizados, e ao legitimar a expressão pública do luto e da dor,
reproduzem e reforçam estereótipos e visões tradicionais. Em terceiro lugar, na
expressão pública de memórias – em seus distintos gêneros e formas de manifestação –,
as visões das mulheres têm um lugar central, como narradoras, como mediadoras, como
analistas” (p.141-142)

Cp.7: Transmisiones, herencias, aprendizajes

- “No imediato pós-guerra, os sobreviventes judeus conseguiram manter (recuperar)


suas vidas culturais privadas, nas que o yiddish tinha um lugar central. Mas se havia
perdido sua cultura coletiva. [...] Nesse contexto, a transmissão de seus códigos de
comportamento e modos de vida a novas gerações se tornou extremamente
problemática, se não impossível. Os sobreviventes sentiram a urgência de resgatar os
mortos do esquecimento, o que gerou uma obsessão por produzir Yizker-bikher – livros
de memória – com uma lista de nomes e fotos de seus mortos. No entanto, embora a
transmissão era o objetivo principal para escrevê-los, estes livros foram ignorados e se
desapareceram da memória dos descendentes de seus autores. O vínculo entre as
gerações havia se quebrado pela morte dos avôs. E quando os avôs haviam
sobrevividos, o vínculo se quebrou por razões muito mais contingentes: os avôs não
falavam bem as línguas de cada país onde se instalaram; os netos não entendiam
yiddish” (p.143)

- “[...] a noção de geração está instalada no senso comum: falamos de geração do pós-
guerra, de 68 ou da democracia. Os limites são sempre difusos, porque se trata de
categorias sociais de experiência marcadas pela temporalidade, mas também por
compartilhar algum campo de experiência e algum pertencimento específico (se fala de
gerações literárias e gerações políticas)” (p.145-146)

- “As memórias do vivido, dos esquecimentos e amnésias, as urgências, mudam.


Muda também o sentido de urgência de trabalhar sobre as heranças e os legados,
sobre a conservação de vestígios” (p.146)

7.1. Los aprendizajes y aprehensiones del pasado

- “A memória, como temos dito, vincula passado com expectativas futuras. São
experiências passadas que permanecem, se esquecem e se transformam em seu jogo
interno com circunstâncias presentes e expectativas futuras. As perguntas que surgem de
imediato são: se pode apreender com o passado? Qual é a dinâmica dessa
aprendizagem? Quais são as “lições da história”? Se trata de uma “representação” do
passado ou de outros processos de apreensão da experiência? [...] O tema do uso da
memória para o presente e o futuro, das lições e aprendizagens que se podem extrair,
pode ser visto desde distintas perspectivas. Em uma perspectiva cognitiva, saber algo,
“apreendê-lo”, tem consequências nas estratégias de elaboração de alternativas racionais
para a ação. De uma perspectiva psicanalítica, o passado está no presente, de
múltiplas maneiras, na dinâmica do inconsciente. Do campo da cultura, a ênfase está
posta no sentido que se lhe da ao passado, segundo o marco interpretativo e os códigos
culturais que permitem decifrá-los – de maneira racional e planificada, mas também em
práticas simbólicas e performativas de atores que, mais que representar ou recordar, se
apropriam e põe em ato elementos desse passado. [...] A ideia de que se aprende com o
passado está implícita no sentido comum que guia a ação política de quem propõem os
slogans “Recordar para no repetir” ou “Nunca más”. É também uma ideia presente em
trabalhos sobre mudanças em sistemas políticos, especialmente sobre processos de
democratização” (p.147)

7.2. La memoria como tradición y transmisión

- “Yerushalmi destaca que, em sentido estrito e no plano individual, apenas se podem


esquecer os acontecimentos que se viveu; não se pode esquecer o que não se viveu:
“Por isso, quando dizemos que um povo “lembra”, na realidade dizemos primeiro que
um passado foi ativamente transmitido a gerações contemporâneas [...], e que depois
esse passado transmitido se recebeu como carregado de um sentido próprio. Em
consequência, um povo “esquece” quando a geração possuidora do passado não o
transmite a seguinte, ou quando esta rechaça o que recebeu ou cessa de transmiti-lo
por sua vez, o que vem a ser o mesmo. [...] Um povo jamais pode “esquecer” o que
antes não recebeu” (YERUSHALMI, 1989a, p.17-18). [...] Com isto é colocado um
tema central: a transmissão entre aqueles que viveram uma experiência e aqueles que
não a viveram, porque, todavia, não haviam nascido, porque não estavam no lugar dos
acontecimentos ou porque, embora estavam ali, pela diferente classificação etária ou
social a experimentaram de outras maneiras” (p.149)

- “Há tradições e costumes, “esse conjunto de ritos e crenças que dá um povo o sentido
de sua identidade e de seu destino” (YERUSHALMI, 1998a, p.22), que são
transmitidas e incorporadas por gerações sucessivas sem muita planificação explícita.
As instituições tradicionais – a Igreja e a família, a classe social e a nação – foram
durante muito tempo os “marcos sociais para a memória”, tal como o conceptualizou
Halbwachs” (p.150)

- “A psicanálise tem-se ocupado extensamente da dinâmica da transmissão


intergeracional, apontando que a urgência ou o impulso de transmitir responde a uma
necessidade que resulta de pulsões inconscientes geradas por exigências narcisistas, pela
necessidade de transmitir “o que não pode ser mantido e alojado no próprio sujeito”
(KAËS, 1996). A transmissão se organiza não apenas no visível e manifesto;
também nos silêncios e especialmente nas lacunas. Porque se os mecanismos de
identificação com os pais com fundamentais no processos de transmissão, também é a
capacidade de ganhar autonomia como sujeito (FAIMBERG, 1996)” (p.150)

7.3. Las memorias “activas”

- “Aqueles que compartilham estas crenças elaboram estratégias orientadas a


“transmitir” informação e saberes. Quem sabe a insistência na necessidade de “recordar
para no repetir” também pode ser interpretada nesta chave. A queixa se escuta em todas
as partes: os/as jovens não sabem o que passou em 24 de março de 1976 na Argentina,
não sabem quem foi Pinochet, não conhecem a história da Shoah. [...] No entanto, a
questão não é apenas acumular conhecimentos. Em primeiro lugar, os conhecimentos
não são peças soltas que se podem empilhar ou somar, mas que apenas tem sentido em
marcos interpretativos socialmente compartilhados. Nesta linha de racionamento, as
demandas sociais que traem a esfera pública determinadas versões ou narrativas do
passado, ou as demandas de incluir certos dados do passado no curriculum escolar ou na
“história oficial”, tem uma dupla motivação: uma, a explícita, ligada a transmissão do
sentido do passado a novas gerações; a outra, implícita mas não por isso menos
importante, responde a urgência de legitimar e institucionalizar o reconhecimento
público de uma memória. Não se trata nunca de histórias e de dados “neutros”, mas que
estão carregados de mandatos sociais. Esta memória adquire um sentido formativo ou
educativo quando pode ser interpretada em termos “exemplificadores” (TODOROV,
1998)” (p.152)

- “O debate sobre como incluir a história recente nos programas educativos não
apresenta também nos países do Cone Sul” (p.153)

- “Se o conflito político não está resolvido, não é possível elaborar tal versão. O sistema
educativo se converte, então, em uma arena de luta entre diversos atores e versões
(JELIN e LORENZ, 2004). [...] Geralmente, os ideólogos da direita têm tido mais
êxito em suas políticas de transmissão porque os esquemas maniqueístas,
simplificadoras, sem “zonas cinzentas” e sem fissura se transmitem mais
facilmente que as interpretações que reconhecem a polissemia e o pluralismo
(***)” (p.153)

[N.R.9: “Recordemos aqui que as controvérsias sobre as maneiras de nomear – se falar


de “golpe”, de “revolução”, de “terrorismo de Estado” ou de “guerra suja”,
“ditadura”, ou “regime militar” – são em si mesmas expressão das lutas pela memória
e o sentido do passado”] (p.153)

7.4. Legados, restos y secuelas

- “Voltamos a distinção analítica sobre a que estamos trabalhando. Os atores sociais e as


instituições podem expressar uma vontade de atuar (preservar, transmitir) sobre as
memórias. Pode estar presente a intenção de justiça, a de reconhecimento e homenagem
às vítimas, a intenção educativa para o futuro” (p.155)

- “Há outro nível no que devem ser estudadas as memórias do passado. Não tanto na
intencionalidade dos atores, mas em registro de aprendizagens e restos, práticas e
orientações que “estão ali”, cujas origens podem rastrear-se de maneira mais confusa,
mas não menos significativa nos períodos de repressão e de transição. São as
aprendizagens implícitas, mas também repetições ritualizadas, as nostálgicas e
idealizações, as rupturas e fissuras, os retalhos e sobras de diferentes tipos: “Em 1978, o
país vivia todavia sobre o chamado resíduo (“entulho”) autoritário, toda aquela
herança pouco saudável da ditadura, e havia nesta herança uma grande carga de
medo, de autocensura. A censura já havia saído oficialmente das redações, dos teatros,
dos filmes, etc. Mas havia deixado uma coisa que, do meu ponto de vista como
jornalista, foi quem sabe mais perniciosa que a própria censura. Foi quando
introjetamos toda a paranoia, toda a censura; não se necessitava a ninguém ao seu
lado para coibir; para reprimir [...] E durou muito tempo, muitos anos vivemos com
este fantasma, com esta sombra, esta coisa que rondava sobre nós no momento de
escrever, no momento de falar” (VENTURA, 1999, p.130). [...] Estas são reflexões de
um jornalista brasileiro, vinte anos depois desse momento. Esses fantasmas e sombras
que rondam duraram muito tempo. Para muitos, os “restos” ou sequelas de um
período autoritário não se superam facilmente, e permanecem nas práticas cotidianas
como reações irreflexivas, incorporadas como hábito: não sair sem documentos de
identidade nas ruas, sentir ameaças, reagir com susto a sirenes e uniformes. Junto aos
silêncios voluntários, são “restos” que ficam, vestígios de um passado “que não passa”
em um sentido muito diferente ao de Rousso: não se trata da insistência recordatória e o
reconhecimento permanente dos acontecimentos passados promovidos por militantes da
memória, mas do contrário. Vestígios e marcas, inclusive na gestualidade corporal, que
permanecem ainda quando sua origem e seu sentido têm sido esquecidos” (p.157)
- “Estamos diante de um contraste entre intencionalidade na transmissão de memória e
os restos ou vestígios do passado. As heranças ou legados supõem a inscrição de
sentidos em uma mensagem com intenção de preservação. [...] Há uma narrativa
histórica que tem sido construída e materializada, e se transmite a outros como
continuidade do grupo ou comunidade. Quando, pelo contrário, se fala de restos, de
sobras, de vestígios ou sequelas, a referência é a outra face da memória, ao
esquecimento e ao silêncio” (p.158)

Cp.8: Reflexiones finales

- “Se trata de como incorporar a reflexão, além das dimensões simbólicas e culturais, as
questões institucionais e as ligadas a construção democrática da cidadania, com o que
isto tem de prospectivo e de normativo ou utópico. [...] Uma questão central no plano
institucional é a atribuição de responsabilidades pelos acontecimentos do passado.
Quem e em que medida assumem a responsabilidade pelo passado? Pode o Estado e os
atores institucionais operar uma ruptura entre o atual – o regime democrático – e o
passado, ao que não reconhecem como próprio? A atuação política do Estado está
baseada sempre em um princípio de identidade e continuidade histórica. Mas como
interpreta o Estado os períodos ditatoriais?” (p.159)

- “[...] as diferentes memórias das ditaduras e a repressão? Não é através das tentativas
de impor uma visão do passado, ou de tentar construir um consenso (geralmente
“mínimo”) entre atores sociais, mas que, possivelmente, a reflexão sobre a ordem
democrática requer a legitimação dos espaços de disputas pelas memórias. A ordem
democrática implicaria, então, o reconhecimento do conflito e a pluralidade, mas que
buscar reconciliações, silêncios ou apagamentos. [...] A estratégias de incorporar o
passado, então, chama a criação de múltiplos espaços de debate. O sistema educativo e
o âmbito cultural são alguns dos cenários onde se pode levar adiante uma estratégia de
incorporação desse passado. [...] Como pergunta Yerushalmi (1989, p.26): “É possível
que o antônimo de “esquecimento” não seja “memória”, mas a justiça?” (p.161)

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