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RACIONALIDADE ARGUMENTATIVA DA FILOSOFIA

E A DIMENSÃO DISCURSIVA DO TRABALHO FILOSÓFICO


LÓGICA – Ap’s –

Índice
Tese, argumento, validade, verdade e solidez
Quadrado da oposição.
Explicitar os conceitos de tese, argumento, validade, verdade e solidez;
Operacionalizar os conceitos de tese, argumento, validade, verdade e solidez, usando-os como instrumentos críticos da filosofia;
Aplicar o quadrado da oposição à negação de teses.

1. Tese, argumento, validade, verdade e solidez


1.1. Tese
Os filósofos respondem aos problemas enunciando teses e apresentando teorias. Uma tese corresponde
a uma ideia que se quer afirmar para responder a um problema. Para defender uma tese ou uma teoria
é necessário apresentar argumentos, construir bons argumentos. Assim, na base do trabalho filosófico
estão o pensamento (raciocínio lógico) e a argumentação. Para assegurar a qualidade dos argumentos
recorre-se à lógica.

1.2. Lógica formal e lógica informal


A lógica é a disciplina filosófica que estuda a distinção entre argumentos válidos e inválidos, através da
identificação das condições necessárias à operação que conduz da verdade de certas crenças à verdade
de outras. Para isso, estuda certas leis, princípios e regras a que deve obedecer o pensamento e o
discurso para garantir a validade.
Distingue-se lógica formal, que analisa a validade dos argumentos dedutivos, e lógica informal, que se
debruça fundamentalmente sobre a validade dos argumentos não dedutivos.

1.3. Argumento
Um argumento é um conjunto de proposições devidamente articulada: as premissas e a conclusão. As
premissas procuram defender, apoiar e justificar a conclusão. A conclusão também se pode chamar de
tese. O que caracteriza o argumento é o nexo lógico entre as premissas e a conclusão.
Exemplo de argumento:
Todos os galos são bons cantores.
Visto que o animal da minha vizinha é um galo.
Logo, o animal da minha vizinha é bom cantor.
Subjacente ao argumento existe um raciocínio ou inferência, um movimento mental que vai das
premissas para a conclusão. Usamos expressões que nos ajudam a identificar as premissas e as
conclusões. Trata-se de indicadores que nos permitem descobrir as teses presentes no discurso, nos
diferentes assuntos que abordamos.

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1.4. Proposições
As proposições apenas são expressas através de frases declarativas, sendo estas que podem ser
classificadas como verdadeiras ou falsas.
A proposição é o pensamento ou conteúdo, verdadeiro ou falso, expresso por uma frase declarativa.
A proposição expressa pelo menos dois termos. O termo é geralmente entendido como a expressão
verbal do conceito. O conceito é representação intelectual de determinada realidade.
A operação mental que permite estabelecer uma relação entre conceitos e que está subjacente à
formação de proposições é o juízo.

1.5. Verdade, validade e solidez


A verdade e a falsidade ocorrem ao nível das proposições. Só elas podem ter um dos valores lógicos:
verdadeiro ou falso. Serão verdadeiras as proposições que estejam de acordo com a realidade.
A validade e a verdade são qualidades dos argumentos. A validade constitui uma certa relação entre os
valores de verdade das premissas e o valor de verdade da conclusão. Acontece de maneira diferente nos
argumentos dedutivos e nos argumentos não dedutivos.
Os argumentos dedutivos são aqueles cuja validade depende apenas da sua forma lógica. Um
argumento dedutivo só é válido quando as premissas garantem completamente a conclusão. Assim, é
logicamente impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa; se as premissas forem v
verdadeiras, a conclusão é necessariamente verdadeira.
Os argumentos válidos constituídos por premissas verdadeiras denominam-se argumentos sólidos.
Nesse sentido, a solidez já pressupõe a validade.
No caso dos argumentos não dedutivos, a sua validade depende de aspetos que vão para além da forma
lógica do argumento.

1.6. Falácias
As falácias são argumentos inválidos, embora com a aparência de válidos. As falácias formais são as que
decorrem da forma lógica do argumento, sendo por isso cometidas ao nível dos argumentos dedutivos.
As falácias informais são cometidas ao nível dos argumentos não dedutivos, resultando de aspetos que
vão pra lá da forma lógica do argumento.

1.7. O quadrado da oposição


Na linguagem corrente, muitas vezes as proposições que queremos em termos lógicos não surgem na
sua forma padrão ou canónica. Contudo, qualquer frase declarativa pode ser transformada na sua forma
canónica.
Existem vários tipos de proposições: categóricas, condicionais, disjuntivas.
A qualidade das proposições categóricas refere-se ao seu caráter afirmativo ou negativo e a sua
quantidade tem a ver com a extensão do sujeito da proposição, podendo ser universal, quando o sujeito

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surge em toda a sua extensão ou particular, quando o sujeito é considerado apenas em parte da sua
extensão. Pode ainda ser singular, se apenas me referir, afirmando ou negando, a um único elemento.

Tipos de proposições Forma lógica


Tipo A Universal afirmativa Todo o S é P.
Tipo E Universal negativa Nenhum S é P.
Tipo I Particular afirmativa Algum S é P.
Tipo O Particular negativa Algum S não é P

A e E são contrárias.
I e O são subcontrárias.
A e O / E e I são contraditórias.
A e I / E e O são subalternas. A implica I e E implica O, mas o contrário não se verifica.

Inferir por oposição consiste em tirar de uma proposição outras proposições, alterando a quantidade
e/ou a qualidade, e em concluir imediatamente, a partir da verdade ou da falsidade da proposição
inicial, a verdade ou falsidade daquelas que se obtêm.

Síntese das regras da oposição:


Regra das contraditórias: duas proposições contraditórias não podem ser verdadeiras e falsas ao mesmo
tempo. A verdade de uma implica a falsidade da outra e vice-versa. São a negação uma da outra.
Regra das contrárias: duas proposições contrárias não podem ser ambas verdadeiras ao mesmo tempo.
Mas da falsidade de uma não se pode concluir a falsidade ou veracidade da outra. Por isso, não são a
negação uma da outra.
Regra das subcontrárias: duas proposições subcontrárias não podem ser ambas falsas ao mesmo tempo,
mas podem sem ambas verdadeiras. Não são a negação uma da outra.
Regra das subalternas: da verdade da universal infere-se a verdade da particular que lhe está
subordinada; da verdade da particular nada se pode concluir quanto à universal; da falsidade da
universal nada se pode concluir relativamente à verdade ou falsidade da particular; da falsidade da
particular infere-se a falsidade da universal.

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Índice
Formas de inferência válida
Explicitar em que consistem as conetivas proposicionais de conjunção, disjunção (inclusiva e exclusiva), condicional, bicondicional
e negação;
Aplicar tabelas de verdade na validação das formas argumentativas;
Aplicar as regras de inferência do modus ponens, do modus tolens, do silogismo hipotético, das Leis de Morgan, da negação dupla,
da contraposição e do silogismo disjuntivo para validar argumentos
Principais falácias formais
Identificar e justificar as falácias formais da afirmação do consequente e da negação do antecedente.

2.1. Proposições simples e complexas e operadores verofuncionais

Uma proposição é o pensamento ou o conteúdo expresso por uma frase declarativa, suscetível de ser
considerada verdadeira ou falsa. As proposições têm, portanto, valor de verdade.
Proposições simples são proposições em que não estão presentes quaisquer operadores. Proposições
complexas são aquelas em que está presente um operador ou mais.
O valor de verdade das proposições simples depende da sua adequação à realidade.
O valor de verdade das proposições complexas depende do valor de verdade das proposições simples e
dos operadores utilizados.
Os operadores proposicionais (ou operadores lógicos ou conetivas proposicionais) são as partículas que
se aplicam a uma ou duas proposições para formar novas proposições. O operador proposicional é
verofuncional quando o valor de verdade da nova proposição é determinado ou pelos valores de
verdade das proposições ligadas e pelo operador aplicado. Então diz-se que a proposição complexa é
uma função de verdade.
Há cinco operadores verofuncionais.
Podemos representar as proposições usando letras maiúsculas – P, Q, R, etc. – às quais chamamos letras
proposicionais. Enquanto símbolos que representam quaisquer proposições simples, elas designam-se
por variáveis proposicionais.

2.2. Operadores verofuncionais e formas proposicionais


Nós ligamos as proposições simples através de conetivas e obtemos proposições compostas.
As conetivas podem ser:
e – conjunção -  - O galo e a galinha são animais do campo.
ou – disjunção -  - O homem é livre ou é determinado.
se... então... – condicional -  Se Deus existe, a alma é imortal.
... se e somente se... – bicondicional -  A alma é imortal, se e somente se a alma é espiritual.
ou...ou... – disjunção exclusiva -  - O homem ou é mortal ou é imortal.
não – negação -  O homem não é irresponsável.

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Tabelas de verdade ou matriz lógica apresenta as diversas condições de verdade de uma forma
proposicional específica, permitindo de forma automática determinar a sua verdade ou falsidade.

P Q PQ PQ P Q PQ PQ


V V V V V V F
V F F V F F V
F V F V V F V
F F F F V v F

P e Q são variáveis proposicionais, isto é, podemos colocar qualquer conteúdo a assumir essas letras.
Para saber se dedutivamente o argumento está bem construído, para saber se as premissas estão bem
conectadas com a conclusão.

Passos de análise dedutiva de um argumento


1º - Expressão canónica do argumento – isto é, colocar o argumento em premissas e conclusões, cada
uma das proposições em forma canónica (padrão).
2º - Interpretação – contruir o Dicionário – isto é estabelecer as variáveis proposicionais, isolar as
proposições simples e fazê-las corresponder a letras.
3º - Forma lógica – isto é, reescrever o argumento em linguagem simbólica, formalizando as proposições
complexas.
4º - Inspetor de circunstâncias com o recurso a tabelas de verdade.
Nós estamos a avaliar um tipo de argumentos: os argumentos dedutivos e a validade da definição de
argumentos dedutivos é esta: um argumento dedutivo é válido se for impossível uma circunstância: em
que as premissas são verdadeiras e a conclusão falsa. Trata-se de ver se nalguma circunstância as
premissas são verdadeiras e a conclusão falsa.

Exemplo:
Argumento
O livre arbítrio não passa de uma ilusão de que somos livres pois se tudo no Universo está determinado
então é uma ilusão.

Expressão canónica
Se o determinismo é verdadeiro, então o livre arbítrio é uma ilusão.
O determinismo é verdadeiro.
Então, o livre arbítrio é uma ilusão.

Interpretação

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P – O determinismo é verdadeiro
Q – O livre arbítrio é uma ilusão

Forma lógica
P Q
P

Q

P Q P → Q, P Q

V V V V V
V F F V F
F V V F V
F F V F F

Diz a regra da validade que um argumento é dedutivamente válido se for impossível uma circunstância
em que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Nós andamos aqui a inspecionar a ver se
existe alguma circunstância em que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Ora, existe uma
(única) circunstância em que as premissas são verdadeiras, mas a conclusão é também verdadeira. Logo,
o argumento é dedutivamente válido. O argumento não viola a regra da validade. O argumento é válido!

Outro exemplo
A vida faz sentido porque Deus existe

Expressão canónica
Se a vida faz sentido, então Deus existe.
A vida faz sentido.
Logo, Deus existe.

Dicionário
P - A vida faz sentido.
Q – Deus existe.

Forma lógica
P→Q
P

Q

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Para que um argumento seja bom é necessário que seja válido, mas também sólido, isto é, além de ser
válido, tem de ter premissas verdadeiras. Mas existe ainda uma terceira condição para um bom
argumento: fornecer razões para convencer um auditório e ele aceitar o que estou a apresentar.

Outro exemplo para perceber o uso de parêntesis.


Deus existe, e se a vida tem sentido então há entrega ativa a projetos com valor.

Interpretação
P – Deus existe
Q – A vida tem sentido
R – Há entrega ativa a projetos com valor

Tradução na linguagem simbólica


P  (Q  R)

Ambiguidades na interpretação
Exemplo:
Vou à cidade e como um gelado ou vejo um filme.

Pode querer dizer duas coisas diferentes:


1) Que vou à cidade e depois de estar na cidade decido se como um gelado ou vejo um bom filme;
2) Que vou à cidade e como um gelado ou então vejo um bom filme.

Teria três proposições


P – Vou à cidade
Q – Como um gelado
R – Vejo um bom filme
Mas podia resultar numa formulação confusa se fosse assim:
PQR
Que se poderá traduzir de duas maneiras.
P  (Q  R)
ou
(P  Q)  R

Fica assim mais clara a necessidade de colocar parêntesis.

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¬ ( P Q ) , R  ¬Q  R  Q

P Q R ¬ ( P Q ) , R  ¬Q  R  Q
V V V F V F F V
V V F F V F F V
V F V F V V V V
V F F F V F V F
F V V F V F F V
F V F F V F F V
F F V V F V V V
F F F V F F V F

Tenho assim o inspetor de circunstâncias com a tabela de verdade daquele argumento


Vou procurar alguma circunstância em que as premissas sejam verdadeiras e ver o que sucede com a
conclusão. Ora há uma circunstância em que as premissas são verdadeiras e a conclusão é também
verdadeira, logo o argumento é válido.
Em última análise, os inspetores de circunstâncias consistem numa sequência de tabelas de verdade que
são feitas para as premissas e para a conclusão.
O argumento deixa de ser válido se existir alguma circunstância em que as premissas são verdadeiras e a
conclusão falsa. Excluindo essa circunstância, o argumento será sempre válido. Num inspetor de
circunstâncias, um argumento válido será aquele em que não existe nenhuma linha (circunstância) que
torne as premissas verdadeiras e a conclusão falsa.

Vejamos este exemplo:


Argumento Dicionário Formalização
Se o CR7 joga, então ganhamos o jogo. P: O CR7 joga. PQ
O CR7 joga. Q: Ganhamos o jogo. P
Logo, ganhamos o jogo. Q

O que resulta no seguinte inspetor de circunstâncias:


Premissa 1 Premissa 2 Conclusão
P Q PQ P Q
V V V V V
V F F V F
F V V F V
F F V F V

A primeira linha exprime a única circunstância em que as premissas são verdadeiras. Como em tal
circunstância a conclusão também é verdadeira, o argumento é válido.

Vejamos outro exemplo:


Argumento Dicionário Formalização
Se moro em Lisboa, então moro em P: Moro em Lisboa. PQ
Portugal. Q: Moro em Portugal. Q
Moro em Portugal. P
Logo, moro em Lisboa.

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O que resulta no seguinte inspetor de circunstâncias:
Premissa 1 Premissa 2 Conclusão
P Q PQ Q P
V V V V V
V F F F V
F V V V F
F F V F F

O argumento é inválido. Vamos ter que considerar apenas a primeira e a terceira linha, pois apenas
nessas encontramos premissas verdadeiras. Na primeira linha temos premissas e conclusão verdadeiras.
Porém, na terceira linha temos premissas verdadeiras e uma conclusão falsa, logo o argumento,
tratando-se dum argumento dedutivo, é inválido.

Analisemos outro argumento.


Argumento Dicionário Formalização
Se a mãe chora e o pai não ri, o P: A mãe chora. (P  Q)  R
ambiente é pesado. Q: O pai ri. R
O ambiente é pesado. R: O ambiente é pesado.  P  Q
Logo, a mãe chora e o pai não ri.

P Q R (P   Q)  R R P  Q
V V
V
V V F
V F V
V F F
F V V
F V F
F F V
F F F

Aqui há três circunstâncias (1ª, 5ª e 7ª) em que ambas as premissas são verdadeiras e a conclusão é
falsa. Logo, o argumento é inválido.

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Negação de proposições
Para que se negam as proposições? Para discordar dos argumentos. Ora negando as premissas, ora
negando as conclusões.
Há regras para negar as proposições. Uma proposição mal negada não constitutinuma boa refutação
desse argumento.
Vejamos, então o quadrado da oposição.
Todo o A é B – Universais afirmativas
Nenhum A é B – Universais negativas
Alguns A são B – Particulares afirmativas
Alguns A não são B – Particulares negativas
A negação duma proposição tem de inverter o seu valor de verdade. Isto é, se a proposição que nós
queremos negar for verdadeira, a sua negação tem de ser falsa; se a proposição que queremos negar for
falsa, a sua negação terá de ser verdadeira. Não podem manter o mesmo valor de verdade ao mesmo
tempo.
A negação duma proposição universal afirmativa não pode ser uma universal negativa.
Por exemplo, se eu disser que “todos os portugueses são simpáticos”, eu não posso negar essa
afirmação dizendo que “nenhum português é simpático”. Ambas as proposições são falsas ao mesmo
tempo, por isso uma não pode ser a negação da outra.
Por exemplo, se eu pergunto, “és a favor ou contra o aborto” e o outro disser “eu sou a favor, mas
nalguns casos sou contra”.
Considerando o quadrado da oposição, veremos que a negação duma universal afirmativa é uma
particular negativa e a negação duma universal negativa é uma particular afirmativa.

Como é que eu nego as proposições condicionais?


Normalmente, se eu disser “se estiver sol, vou à praia”, muitos dirão que a negação desta afirmação
condicional será “se não estiver sol, eu não vou à praia”.
Ora eu devo negar a conetiva, pelo que não negarei a condicional, voltando a afirmar uma condicional.
Portanto, para negar uma condicional, temos de negar a condição que é nela expressa.
Regra: Afirma-se o antecedente da condicional, introduz-se a conjunção e nega-se o consequente.

Exemplo:
Se o determinismo é verdadeiro então o livre arbítrio é uma ilusão.

Como negar esta afirmação? Dizendo...


O determinismo é verdadeiro (afirmo o antecedente) e (introduzo a conjunção) o livre arbítrio não é
uma ilusão (nego o consequente).
O determinismo é verdadeiro e o livre arbítrio não é uma ilusão.

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A negação de P  Q
será
P  ¬Q

Exercício: como negar ¬ P Q


~ P  ~Q

Exercício:
Negar as proposições seguintes:
Todas as ações estão determinadas.
Algumas ações não estão determinadas.

Se o livre arbítrio é verdadeiro, então o determinismo é falso.


O livre arbítrio é verdadeiro e o determinismo não é falso.

Nenhuma ação é livre.


Algumas ações são livres.

Alguns atos são irresponsáveis.


Nenhum ato é irresponsável.

Outras formas de negação............

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Pode um argumento dedutivo válido ter premissas falsas? Porquê?
Pode, pois a única coisa que não pode acontecer num argumento dedutivo se ele for válido é ter
conclusão falsa se as premissas forem verdadeiras.

Pode um argumento dedutivo válido ter conclusão falsa e premissas verdadeiras?


Não, pois se ele é dedutivo e válido e se as premissas são verdadeiras, então a conclusão tem de ser
verdadeira. Caso contrário não é válido.

Pode um argumento dedutivo válido ter uma conclusão falsa? Justifica.


Pode. Desde que as premissas não sejam todas verdadeiras, pode ter conclusão falsa e ser válido na
mesma.

A validade é o valor lógico do argumento? Porquê?


Sim, pois a validade é uma propriedade dos argumentos e não das proposições (premissas e conclusão).

A verdade é o valor lógico da proposição? Porquê?


Sim, pois apenas as proposições são verdadeiras ou falsas.

A lógica serve para avaliar argumentos. Explica o que significa o que diz a frase.
A lógica permite-nos avaliar determinadas caraterísticas de argumentos, como no caso, a saber se uma
determinada forma lógica é válida ou inválida.

Para que servem os inspetores de circunstâncias com tabelas de verdade?


Servem para determinar se existe alguma circunstância no argumento em que as premissas sejam
verdadeiras e a conclusão falsa, isto é, permite-nos determinar a validade dedutiva do argumento.

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Tautologias, contradições e contingências verificadas nas tabelas de verdade
a) tautologia
As tabelas de verdade permitem-nos verificar se uma proposição complexa é uma tautologia. Isso
acontece quando a fórmula proposicional é, em todas as circunstâncias, sempre verdadeira.
Por exemplo:
“Se ando na escola e estudo, então ando na escola.”
(P  Q)  P

b) contradição
Também servem para determinar se estamos perante uma contradição, isto é, uma proposição que é
sempre falsa.
Por exemplo:
“Não como um pão ou não bebo água, se e só se, como um pão e bebo água.”
( P   Q)  (P  Q)

c) contingência
Finalmente, posso também encontrar uma contingência, uma fórmula proposicional que tanto pode ser
verdadeira como falsa.
Por exemplo:
“Se passeio ou corro, então passeio”.

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2.6. Formas válidas de argumentação / Formas de inferência válida

PQ Se Deus existir a vida tem sentido.


Modus ponens P Deus existe.
(afirmação do antecedente) Logo, a vida tem sentido.
Q

P Q Se Deus existir a vida tem sentido.


Modus tollens ~Q Mas a vida não tem sentido.
(negação do consequente) Logo, Deus não existe.
 ~P

Contraposição PQ Se chover, então fico em casa. Logo, se não fico


QP em casa, então não chove.

Silogismo disjuntivo PQ Nasci em Lisboa ou nasci no Porto. Não nasci


(disjunção inclusiva) P em Lisboa. Logo, nasci no Porto.
Q
Silogismo hipotético PQ Se estudar, então entro na Universidade. Se
QR entrar na Universidade, então serei engenheiro.
PR Logo, se estudar, então serei engenheiro.

Leis de Morgan:  (P  Q) Não é verdade que sou alto e magro. Logo, não
Negação da conjunção PQ sou injusto ou não sou magro.

Leis de Morgan:  (P Q) Não é verdade que há calor ou idas para a


Negação da disjunção PQ praia. Logo, não há calor e não há idas à praia.
Negação dupla P Não é verdade que eu não sou um bom rapaz.
P Logo, sou bom rapaz.

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Mais exemplos...

Negação dupla ~~P Não é verdade que o conhecimento não venha da


P experiência
Logo, o conhecimento vem da experiência
Contraposição PQ Se a arte é expressão de emoções, Tolstoi tem razão.
 ~Q  ~P Logo, se Tolstoi não tem razão, a arte não é expressão de
emoções.
Silogismo disjuntivo PQ O mundo inteligível é uma realidade ou Platão está
P enganado.
Q Ora, o mundo inteligível não é uma realidade.
Logo, Platão está enganado.
Silogismo hipotético PQ Se a ética de Mill é demasiado exigente, está errada.
QR Se está errada, temos de procurar uma alternativa.
PR Logo, se a ética de Mill é demasiado exigente, temos de
procurar uma alternativa.
 (P Q) Não é verdadeiro que a arte seja moção ou imitação.
PQ Logo, a arte não é emoção nem imitação.
Leis de Morgan
 (P  Q) Não é verdade que Deus existe e exista o mal.
PQ Logo, ou não existe Deus ou não existe o mal.
P – Deus existe
Q – existe o mal

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Principais falácias formais (formas de inferência inválida)

1.
PQ
Q
P
Trata-se da falácia da afirmação do consequente
Se estudo a sério, sou feliz.
Sou feliz.
Então estudo a sério.

2.
PQ
P

 Q
Trata-se da falácia da negação do antecedente
Se moro em Lisboa, então moro em Portugal.
Não moro em Lisboa.
Então não moro em Portugal

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Índice
O discurso argumentativo e principais tipos de argumentos e falácias informais
Clarificar as noções de argumento não-dedutivo, por indução, por analogia e por autoridade;
Construir argumentos por indução, por analogia e por autoridade;
Identificar, justificando, as falácias informais generalização precipitada, amostra não representativa, falsa analogia, apelo ilegítimo
à autoridade, petição de princípio, falso dilema, falsa relação causal, ad hominem, ad populum, apelo à ignorância, boneco de
palha e derrapagem;
Utilizar conscientemente diferentes tipos de argumentos formais e não formais na análise crítica do pensamento filosófico e na
expressão do seu próprio pensamento;
Aplicar o conhecimento de diferentes falácias formais e não formais na verificação da estrutura e qualidade argumentativas de
diferentes formas de comunicação.

3. O discurso argumentativo e principais tipos de argumentos e falácias informais

3.1. Principais tipos de argumentos


Para além dos argumentos dedutivos, também podemos usar outro tipo de argumentos quando
queremos convencer o nosso auditório. Usamos, então, argumento não dedutivos: argumentos
indutivos, argumentos por analogia e argumentos de autoridade.

Os argumentos não dedutivos são aqueles onde a verdade das premissas apenas sugere a plausibilidade
da conclusão ou a probabilidade de ela ser verdadeira. As premissas, assim, dão apenas um suporte
parcial à conclusão.
A validade dos argumentos não dedutivos depende do grau de probabilidade, de razoabilidade ou da
relevância das proposições que integram o argumento. Um argumento não dedutivo é válido quando é
improvável, mas não propriamente impossível, ter premissas verdadeiras e conclusão falsa.
Um argumento será fraco ou forte, se as premissas fornecem ou não boas razões para apoiar a verdade
da conclusão.

Argumentos não
dedutivos
Argumentos indutivos - Argumentos indutivos - Argumentos por analogia Argumentos de autoridade
generalização previsão
A conclusão é mais geral Baseia-se em casos Parte de certas semelhanças Apoia-se na opinião de um
que as premissas passados, antevê casos ou relações entre dois objetos especialista ou de uma
não observados, ou duas realidades e em autoridade na matéria
presentes ou futuros encontrar novas semelhanças
ou relações

Falácia da generalização Falácia da previsão Falácia da falsa analogia Falácia do apelo ilegítimo à
apressada inadequada autoridade
Conclui o geral de apenas Quando não existe Quando não existem v. os requisitos que deveriam ser
poucos resultados probabilidade ou semelhanças relevantes ou em cumpridos
informação a suportar o número suficiente ou existem
que é afirmado diferenças relevantes no que
diz respeito à conclusão

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Os argumentos indutivos, ou induções, podem ser de dois tipos: a generalização e a previsão.
A indução por generalização consiste num argumento cuja conclusão é mais geral que a(s) premissa(s).
Exemplo:
Todos os benfiquistas que eu conheço são uns iludidos quanto ao real valor da sua equipa de futebol.
Logo, todos os benfiquistas são uns iludidos quanto ao real valor da sua equipa de futebol.

Requisitos para uma generalização válida:


- partir de um número relevante de casos observados;
- não encontrar, depois de procurar, quaisquer contraexemplos;
- se os casos observados forem representativos do universo em questão.

Uma das falácias decorrentes do não cumprimento destes requisitos é a falácia da generalização
precipitada. Ocorre quando se conclui abusivamente o geral de apenas poucos resultados.
Exemplo:
Todos os ciganos que eu conheço vivem de subsídios do Estado.
Logo, todos os ciganos vivem de subsídios do Estado.

Outra falácia decorrente do não cumprimento daqueles requisitos de validade indicados é a falácia da
amostra não representativa. Trata-se de concluir de um segmento da população para toda a população.
Exemplo:
Todas as miúdas com quem namorei eram mentirosas.
Logo, todas as pessoas do sexo feminino são mentirosas.

A indução por previsão é um argumento que, baseando-se em casos passados, antevê casos não
observados, presentes ou futuros.
Exemplo:
No século XX, as vacinas dominaram todas as pandemias.
Logo, a atual vacina contra a Covid19 também vai dominar esta pandemia.

Requisitos para uma indução por previsão válida:


- existir uma forte probabilidade de a conclusão corresponder à realidade;
- não existir informação disponível contrária ao que é afirmado no argumento.

Quando estes requisitos não se cumprirem, poderemos estar diante da falácia da previsão inadequada.
Exemplo:
A temperatura da Terra nunca apresentou variações significativas no passado.

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Logo, ela nunca apresentará variações significativas no futuro.

O argumento por analogia consiste em partir de certas semelhanças ou relações entre dois objetos ou
duas realidades e em encontrar novas semelhanças ou relações. Estabelecer uma analogia é fazer uma
comparação, supondo semelhanças novas a partir das já conhecidas.
Exemplo:
O cantor A canta muito bem.
O cantor B tem um timbre e uma extensão vocal semelhante aos do cantor A.
Logo, o cantor B também canta muito bem.
Requisitos para um argumento por analogia válido:
- as semelhanças entre as realidades devem ser relevantes no que diz respeito à conclusão;
- as semelhanças relevantes no que diz respeito à conclusão devem ser em número suficiente;
- não devem existir diferenças relevantes no que diz respeito à conclusão.

O não cumprimento destes requisitos conduz-nos à falácia da falsa analogia.


Exemplos:
a)
Marcos, jogador colombiano de futebol, é um excelente jogador.
Díaz também é colombiano.
Logo, Díaz também é um excelente jogador.
 Neste caso, as semelhanças não são relevantes no que diz respeito à conclusão.

b)
A Dra. Susana, que estudou em Harvard, é um excelente profissional.
O Dr. Araújo também estudou nessa universidade americana.
Logo, o Dr. Araújo também é um excelente profissional.
 Neste caso, as semelhanças relevantes no que diz respeito à conclusão não são em número suficiente.

c)
As máquinas não são conscientes de si.
A mente humana é como uma máquina.
Logo, a mente humana não é consciente de si.
 Neste caso, existem diferenças relevantes entre a mente humana e as máquinas, no que diz respeito àquilo que é afirmado na
conclusão.

O argumento de autoridade pode definir-se como o argumento que se apoia na opinião de um


especialista ou de uma autoridade para suportar a conclusão.
Exemplo:
Galileu afirmou que todos os corpos caem com aceleração constante.
Logo, todos os corpos caem com aceleração constante.
Requisitos para um argumento de autoridade válido:

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- deve referir-se o nome de autoridade e a fonte em que ela exprimiu essa ideia;
- a autoridade invocada deve ser um efetivo especialista ou perito na área em questão;
- não pode existir controvérsia entre os especialistas da área em questão, isto é, aquilo que é afirmado
deve ser amplamente consensual entre as autoridades dessa área;
- o especialista invocado não pode ter interesses especiais no assunto em causa;
- o argumento contrário não pode ser mais fraco do que o argumento contrário.

O desrespeito por estes requisitos pode conduzir-nos à falácia do apelo ilegítimo à autoridade.
Exemplo:
a)
Estudos indicam que comer muitas laranjas prejudica a saúde.
Logo, comer muitas laranjas prejudica a saúde.
 Era necessário referir quem eram os autores do estudo; e, eventualmente, o argumento poderá ser
mais fraco que o argumento contrário.
b)
Um ex-ministro dos transportes, e agora administrador não executivo da TAP, afirmou que era
fundamental que o Estado assumisse as dívidas da TAP.
 Poderá tratar-se duma autoridade na área, mas poderá ter interesses pessoais na matéria.

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3.2. Falácias informais

As falácias informais são argumentos inválidos, aparentemente válidos, e cuja invalidade não resulta de
uma deficiência na forma, mas resulta do conteúdo do argumento, da sua matéria, da linguagem natural
comum usada.
Se estas falácias não dependem da forma lógica do argumento, então não pode haver argumentos com
a mesma forma que sejam fortes ou fracos, bons ou maus, válidos ou inválidos.
Já referimos algumas falácias: as da generalização precipitada, da amostra não representativa, da
previsão inadequada, da falsa analogia e do apelo ilegítimo à autoridade.
Vamos agora considerar outras falácias, que são também bastantes comuns.

Falácia da petição de princípio


Esta falácia consiste em assumir como verdadeiro aquilo que se quer provar. Como, por exemplo,
acontece quando numa definição surge o termo que se quer definir (Exemplo: “Um sábio é uma pessoa
que sabe”; ou, “O amor é amar”. De modo implícito, é usada a conclusão como premissa, pelo que o
argumento aparece com uma forma circular, pelo que a falácia da petição de princípio também se
chama, por isso, argumento circular ou falácia da circularidade.
Exemplo:
O ser humano é inteligente, porque é um ser que tem inteligência.

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