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Senhores e subalternos no Oeste Paulista

SLENES, Robert W. Senhores e subalternos no Oeste Paulista. In: ALENCASTRO,


Luiz Felipe de (org.). História da vida privada no Brasil: Império. São Paulo:
Companhia das Letras, 1997. 233 – 290.

Dentro de certos limites, os senhores estimulam a formação de laços de parentesco entre


seus escravos e instituem, junto com a ameaça e a coação, um sistema diferencial de
incentivos – no intuito de tornar os cativos dependentes e reféns de suas próprias
solidariedades e projetos domésticos. (pag 236)

A prepotência dos senhores e seu afã de transformar trabalhadores em dependentes


sobrevivem à substituição de escravos por imigrantes. O contraponto entre proprietário
e “colonos”no final do século XIX guarda certas semelhanças com aquele entre
senhores e escravos, ainda que expresse também as novas relações de trabalho. (pag
236).

Em Campinas, lugar bastante típico dos municípios de grande lavoura da época, essa
cifra atingia 80%. Nas propriedades maiores, a taxa de africanidade era ainda mais alta;
em Campinas, no ano de 1829, 89% dos adultos em plantéis com dez escravos ou mais
provinha da África. (pag 250).
Após 1850, a mortalidade entre os africanos, ao lado da introdução cada vez maior de
escravos “crioulos”(nascidos no Brasil) via tráfico interno, reduziu rapidamente a
presença de estrangeiros”na população cativa. Mesmo assim, havia ainda em 1861 uma
proporção bastante alta de escravos adultos africanos em Campinas. (pag 250)

No tráfico de escravos para o Sudeste e sobretudo para o Oeste paulista, tanto antes
quanto depois de 1850, os homens predominavam largamente sobre as mulheres. (pag
251)

As taxas de mortalidade escrava em Campinas no período sugerem uma expectativa de


vida ao nascer, de dezenove a 26 anos, ou de mais de 34 a 38 anos para quem
conseguisse chegar aos dez anos de idade. (259).

Manuela Carneiro da Cunha e Sidney Chalhoub já mostraram o quanto os senhores se


opunham a conceder ao escravo no código escrito o direito de redimir-se do cativeiro
mediante a apresentação de seu valor de mercado. (260)

José Bonifácio em 1825, Muniz Barreto e Frederico Burlamaqui na década de 1830,


indicaram a necessidade de uma lei que alforriasse a mãe escrava e o filho tido com o
senhor. O jurista Caetano Soares faria o mesmo em 1845 e 1851. O Instituto dos
Advogados Brasileiros, por iniciativa do jurista Perdigão Malheiro, se manifestou
enfaticamente a favor de uma interpretação da lei existente que reconhecesse esse
direito. Pelo menos para o filho do senhor, ou para qualquer parente cativo do mesmo.
Em 1866-7, Perdigão Malheiro reiteraria essa opinião em seu importante tratado, A
escravidão no Brasil. Apesar de toda essa fermentação, expressando o repúdio dos altos
meios jurídicos à manutenção da escrava amante do senhor e do próprio filho ou
qualquer parente no cativeiro, muito pouco foi feito para proibir ou amenizar as
aberrações. Os legisladores não resolveram o problema com novas leis. Ao mesmo
tempo, a jurisprudência existente não prestava facilmente à interpretação que Perdigão
Malheiro e seus colegas queriam imprimir-lhe. (260/261)

Era importante para os donos de escravos conservar o campo de força e favor que
cercava as mulheres cativas como um feudo, reduto da vontade do proprietário. (264)

Geralmente os senhores que libertavam escravos em testamento eram os que não tinham
herdeiros necessários, sem obrigações e a quem deixar sua herança. (267)

Os dados sobre essas fazendas sugerem que os escravos teciam laços de ajuda mútua
dentro da senzala; mas tais laços, que incluíam alguns cativos (preferencialmente
aqueles com recursos) e não outros, também constituíam redes de exclusão. Por outro
lado, a formação de laços frequentemente extrapolava os limites do cativeiro. Não há
nenhum caso nessas fazendas de um escravo que conseguiu criar uma relação de
compadrio com o proprietário. Contudo, o raciocínio que pauta a escolha de compadres
– a necessidade, num mundo hostil, de criar laços morais com pessoas de recursos, para
proteger-se a si e aos filhos – em nada difere da lógica intuída a partir da história de
Joana e Francisco Velho. 271

...Há evidências de uma clara tendência entre os senhores de discriminar fortemente os


africanos na distribuição dos trabalhos domésticos e qualificados. No caso de escravos
brasileiros, preferiam-se os do Sudeste aos de outras regiões em todos os grupos de
idade. 272. Em geral, eram relativamente recém-chegados a tais fazendas, e, além disso,
não pertenciam as redes de parentesco formadas havia tempo nas suas senzalas. 273

O caso do escravo alforriado no arraial do divino espírito santo deve ser de um escravo
nascido já com este senhor e possuir laços com este.

Nos planteis pequenos de Campinas, ao longo do século XIX, a proporção de escravos


adultos casados (na Igreja) ou viúvos era baixa, refletindo o restrito pool de possíveis
cônjuges dentro dessas propriedades e a virtual proibição, por parte dos senhores, de
casamentos entre escravos e donos diferentes. Já a situação nos plantéis médios e
grandes (com dez ou mais escravos) era diferente. Nessas propriedades, a proporção
casada ou viúva entre mulheres acima de quinze anos era alta, variando entre 60% e
69% em 1801, 1829 e 1872. A porcentagem entre homens da mesma faixa de idade era
bem mais baixa (entre 23% e 30% de casados e viúvos nos anos indicados), refletindo o
desequilíbrio numérico entre os sexos. 274/275.
Grande presença em tais propriedades de famílias nucleares, chefiadas por ambos os
pais. .... As cifras mostram, indiretamente, uma forte tendência nas propriedades médias
e grandes de não separar cônjuges ou pais e crianças pequenas, por venda ou processo
de herança. 275
... a tendência de manter famílias escravas juntas nas vendas e partilhas não foi sempre
seguida. Houve, sem dúvida, casos de separação, em particular nos plantéis pequenos,
cujos proprietários eram mais sujeitos a contratempos econômicos. A ameaça de
separação sempre existia, pelo menos até 1869-71, quando leis nacionais proibiram a
prática (no que dizia respeito a cônjuges e a pais e filhos menores) restringindo afinal
esse abuso do poder privado. 275/276
Em suma, a família escrava transformava os cativos em “reféns”, tanto de seus próprios
anseios quanto do proprietário. .... a fuga individual, por exemplo, passava a representar
para o escravo casado a perda do contato constante com entres queridos .... “É preciso
casar esse negro e dar-lhe um pedaço de terra para assentar a vida e tomar juízo,” dizia
sempre um senhor da região de Campinas, referindo-se aos escravos jovens. 276.

Os documentos não nos deixam flagrar o que os escravos pensavam.

Por outro lado, o ardiloso engenho montado pelos senhores voltou-se contra seus
criadores. A política que incentivava a criação de famílias, visando produzir reféns,
também garantia aos escravos um certo espaço de autonomia. ... A família escrava,
nuclear, extensa, incorporando compadres e malungos (companheiros “do mesmo
barco”), provavelmente serviu como instituição importante para a amálgama dessas
culturas centro-africanas, para o encontro entre tradições africanas e européias, e para a
transmissão de reflexões sobre vivências e memórias entre as gerações. 282.

Um dos temas principais do belo livro de Warren Dean sobre o município de Rio Claro,
localizado a oeste de Campinas, é justamente a tendência dos fazendeiros de dar aos
trabalhadores imigrantes o mesmo trato que concediam aos escravos. 283/284

... a força senhorial a pesar sobre o imigrante, bem como o favor, continuou existindo.
Ambos, porém, tiveram de ser adaptados às novas condições. 284
Quando chegaram os imigrantes, pelo menos alguns fazendeiros tentaram alojá-los em
antigas senzalas. Os colonos, no entanto, não gostaram do plano arquitetônico,
semelhante ao de uma cadeia, e insistiram em mudanças. 284

No assédio às mulheres escravas, os senhores podiam oferecer a liberdade ou,


alternativamente, a estabilidade na fazenda com prêmios menores cujo atrativo residia
justo em seu contraste com a imposição, sempre possível, de trabalhos individuais mais
pesados ou da venda em separado de membros da família. 287/288

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