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Alessandra Castilho Ferreira da Costa

“Por quanto esta he minha ultima vontade do modo


que tenho dito”: Tradições discursivas, textuais e
linguísticas em testamentos norte-rio-grandenses
dos séculos XVIII a XX

Resumo
Segundo a hipótese forte do modelo de TD, a língua varia não somente de acordo com dia-
letos, socioletos e estilos, mas também de acordo com as diferentes tradições de textos ou
tradições discursivas. Em outras palavras, as tradições internas aos textos condicionam a
seleção de elementos de diferentes sistemas linguísticos (Kabatek 2008: 9). No presente
estudo, essa hipótese é testada por meio da investigação de testamentos norte-rio-
grandenses dos séculos XVIII a XX a partir de critérios textuais, discursivos e linguísticos,
com o fim de verificar quais partes do texto tendem ao conservadorismo das formas e
quais são menos fixadas e, portanto, mais abertas ao uso do vernáculo. Na análise das
tradições internas aos testamentos norte-rio-grandenses dos séculos XVIII a XX, são
utilizados os seguintes critérios: a) as unidades de estruturação textual, b) as relações de
evocação com outros gêneros textuais, como manuais de bem morrer e tratados jurídicos
seculares e c) as tendências de uniformização no uso de técnicas de junção. Os instrumen-
tos teóricos e metodológicos advêm da Diplomática (Spina 1997) e dos estudos em Tradi-
ções Discursivas (Koch / Oesterreicher 1990; Koch 1997; Raible 1992; Kabatek 2006; 2008).
Os resultados demonstram a influência de duas filiações históricas: de um lado, da ars
moriendi católica; de outro, da iluminista. As duas tradições diferenciam-se quanto à
expressão de conteúdos (religiosos, por exemplo) e às estratégias de verbalização. O seg-
mento textual menos formulaico nos testamentos pertencentes à tradição da ars moriendi
católica é o dispositio, mais influenciado pela imediatez comunicativa. Com relação aos
nexos coesivos, nos testamentos da tradição da ars moriendi, os esquemas de junção da cau-
salidade aparecem de modo privilegiado na arenga, que tem função justificativa, ao passo
que, nos testamentos de influência iluminista, a arenga não está presente ou, quando pre-
sente, pode ser mais concisa. Ambas as tradições são tipicamente marcadas por con-
struções subordinadas e preposições, isto é, por maior integração sintática, o que aponta
para a proximidade do gênero testamento ao eixo da distância comunicativa. O trabalho
contribui, assim, com a comprovação do condicionamento de elementos linguísticos
segundo TD.

1 Introdução

Dos documentos históricos de que linguistas se utilizam para a descrição


diacrônica de uma língua, os testamentos constituem fontes relevantes, já
que, de um lado, como documentos jurídicos, são arquivados e conservados
286 Alessandra Castilho Ferreira da Costa

em diferentes sincronias e, por outro, trazem informações quanto a aspectos


culturais, econômicos, religiosos, jurídicos, linguísticos de uma sociedade.
Contudo, o exame dessas fontes permite a identificação de diferentes va-
riedades linguísticas e estilos em um só documento, desde o estilo formal,
jurídico e religioso até o cotidiano. Em outras palavras, há partes do texto
mais ou menos formulaicas, mais ou menos próximas da oralidade e da
escrituralidade e, assim, também elementos linguísticos de diferentes siste-
mas (cf. Kabatek 2008: 9).
O objetivo do presente trabalho é a identificação de tradições internas ao
testamento, de modo a reconhecer quais partes do texto tendem ao conser-
vadorismo das formas e quais são menos fixadas e, portanto, mais abertas ao
uso do vernáculo. A hipótese que seguimos aqui é a de que um dos fatores a
influenciar a produção dos testamentos norte-rio-grandenses dos séculos
XVIII a XX são os modelos de testamentos disponíveis em textos regula-
dores, tais como sugeridos pela literatura espiritual da ars moriendi, mais
especificamente, dos manuais de bem morrer, e de tratados jurídicos laicos.
Com a identificação dessas tradições internas, buscamos fornecer
subsídios para o estudo das características linguísticas que começam a estar
refletidas na documentação fragmentária que os acidentes da história nos deixaram
(cf. Mattos e Silva 2004: 113), já que é na comparação das diferentes tradições
que se identificam tais características. Nesse sentido, podemos dizer que
nenhum fato linguístico é um “fato bruto” (cf. Koch 1997: 59) – é sempre um
fato linguístico que se apresenta em distorção discursivo-tradicional, que
não ocorre sem motivação textual.
A presente análise será desenvolvida sob os seguintes aspectos: a) sob o
aspecto da tradicionalidade tipológica desses dados, isto é, das característi-
cas macroestruturais do gênero; b) sob o aspecto da tradicionalidade discur-
siva, isto é, das relações que se estabelecem entre esses testamentos e outros
textos e discursos reguladores, a exemplo dos manuais de bem morrer, que
desempenham um papel relevante nas normatizações textuais e linguísticas;
c) sob o aspecto da tradicionalidade linguística, centrada nas técnicas de jun-
ção (Raible 1992), como estratégias de verbalização previstas pelo contínuo
de imediatez e distância comunicativa (Koch / Oesterreicher 2007 [1990]).
Os dados analisados compreendem 16 testamentos provenientes do Rio
Grande do Norte, como a tabela 1 abaixo ilustra.
Este estudo está organizado em três etapas principais:
a) identificação das unidades de estruturação textual da macroestrutura dos
testamentos analisados (organização textual);
b) identificação de relações de evocação que se estabelecem entre diferentes
textos reguladores e os testamentos do corpus;
c) identificação de normatizações e uniformizações no uso de técnicas de
junção por influência de um determinado padrão textual.
Tradições discursivas, textuais e linguísticas 287

Tabela 1: Testamentos do corpus

Proveniência Período

Século XVIII Século XIX Século XX

Instituto Histórico e Pedro Tavares Anna Araujo Antonio Ribeiro de


Geográfico de Natal Romeyro, 17671 Pereira, 1871 Morais, 1941
Joana da Rocha, José Rodrigues Francisca Amelia
1768 Cherem, 1870 da Silva, 1941
Manoel Gonçalves Felipa Joaquim Avelino
Durão, 1796 Vasconcellos, 1870 Nascimento, 1937
Manoel Morais, Joaquim Ribeiro Maria Roza
1798 Dantas, 1882 Medeiros, 1939
Victoriano Ruperto Sá, 1816 Teófilo Alves
Rodrigues, 1717 Miguel Ferreira da Moraes, 1940
Rocha, 1862

Total de exemplares 5 6 5

Número de palavras 8.179 palavras 7.407 palavras 4.944 palavras

2 Da macroestrutura dos testamentos

Nossa consideração do nível textual leva em conta subsídios fornecidos pela


Diplomática a respeito da organização textual de documentos públicos e
privados de caráter histórico. O testamento é identificado como documento
particular, quer dizer, como registro que tem o fim de conservar um direito
individual, tratando-se, portanto, de um texto pertencente à esfera jurídica
(cf. Spina 1997: 18s.). Como documento jurídico, esse gênero textual atende à
definição proposta por Theodor Sickel (apud Spina 1997: 19) de documento
diplomático: “um testemunho escrito de um fato de natureza jurídica, coligido
com a observância de certas formas determinadas, destinadas a conferir-lhe
fé e dar-lhe força de prova”. Na terminologia diplomática, os documentos
podem também ser denominados “instrumentos”.
Na partição analítica de documentos, a Diplomática (Spina 1997: 53–56)
propõe os seguintes componentes macroestruturais: o texto (que constitui o
corpo do documento e contém o fato registrado), o protocolo (serve de mol-
dura do documento, e contém as fórmulas que conferem a ele perfeição
legal), subdividido em protocolo inicial (constituído de exórdio / abertura) e

1 Transcrição de Alessandra Castilho Ferreira da Costa: testamentos de Pedro Tavares


Romeyro e de Joana da Rocha. Transcrição de Maria da Conceição Barros: testamentos
de Anna Araujo Pereira, José Rodrigues Cherem, Antonio Ribeiro de Morais e Francis-
ca Amelia da Silva. Os demais testamentos foram transcritos por Bibiana Jost Perinaz-
zo.
288 Alessandra Castilho Ferreira da Costa

em escatocolo ou protocolo final (constituído de uma peroração / conclusão). O


protocolo inicial é composto de invocação divina, intitulação, endereço e sau-
dação. Por outro lado, o texto compreende preâmbulo, notificação, narrativa ou
exposição, dispositivo e cláusulas cominatórias (penais, espirituais), de garantia,
de renúncia, de corroboração. Já o escatocolo engloba data (elemento topográfico
e elemento cronológico) e validação (subscrição, assinaturas, selos, sinais).
Elementos dessa constituição formal de documentos podem ser verifica-
dos em nossos dados. Os testamentos analisados seguem a organização
macroestrutural identificada na Diplomática (protocolo inicial-texto-
escatocolo). A estrutura básica comum é a mesma dos documentos disposi-
tivos. Contudo, as unidades de estruturação textual menores que compõem
tais partes no testamento apresentam organização interior diferente daquela
identificada em outros documentos diplomáticos. Exemplo disso é a estrutu-
ra do protocolo inicial nos testamentos em questão. Como apontado, na
Diplomática, o protocolo inicial de qualquer documento jurídico é consti-
tuído por invocação divina, intitulação, endereço e saudação (cf. Spina 1997: 56).
Contudo, nos testamentos, observa-se uma organização textual em que a
saudação não parece ser um elemento obrigatório, já que não ocorre em
nenhum dos dados coletados.
Da partição analítica do protocolo inicial conclui-se que variações de
combinação das unidades de estruturação textual podem se constituir em
novo formulário textual, embora a macroestrutura protocolo-texto-esca-
tocolo mantenha-se constante na diacronia. Como se verifica no corpus, ou-
tras unidades de estruturação textual podem compor o protocolo inicial, o
texto e o escatocolo. A tabela abaixo ilustra os elementos típicos da ma-
croestrutura dos testamentos dos séculos XVIII e XIX analisados, distinta
daquela identificada nos testamentos do século XX:

Tabela 2: Macroestrutura dos testamentos norte-rio-grandenses dos séculos XVIII e XIX

Unidade Retórica
Invocatio
Notificatio
Datatio
Intitulatio
Protocolo
inicial Inscriptio
Sana-Mente
Arenga
Narratio
Continuação
do notificatio
Tradições discursivas, textuais e linguísticas 289

Encomendar a alma
Fazer pedidos pios
Nomear testamenteiros
Ordenar local de sepultamento
Dispositio
Texto Encomendar missas
Declarar filiação, estado civil
Nomear herdeiros
Estabelecer o legado
Atestar a (última) vontade livre;
Corroboratio
Pedir execução do testamento; etc. (cláusulas finais)
Datatio
Escatocolo Subscriptio
Apprecatio

Nos dados dos séculos XVIII e XIX analisados, o testamento é iniciado com
uma invocação, que pode ser à Trindade, à Sagrada Família ou a Deus. Se-
gue, então, o notificatio, em que se anuncia o teor do documento que se está a
apresentar. Esta unidade retórica aparece frequentemente interpolada pelas
unidades datatio, intitulatio, inscriptio e arenga, como o exemplo abaixo mos-
tra. A finalização do notificatio é feita por meio de uma fórmula introdutória
do dispositio (“na forma seguinte”). O inscriptio, como se verifica no mesmo
exemplo, não ocorre em todos os testamentos analisados. Em nossos dados,
a arenga, em que o enunciador apresenta suas motivações (muitas vezes,
religiosas) para a produção do documento, pode ser combinada ao próprio
narratio, como, por exemplo, a indicação da situação do enunciador quanto à
existência de problemas de saúde (ou não), frequentemente por meio da
fórmula Sana-Mente. Essa última fórmula tem também por função assegurar
a validade do testamento e comprovar a capacidade mental do testador.
290 Alessandra Castilho Ferreira da Costa

Tabela 3: Macroestrutura do protocolo inicial dos testamentos dos séculos XVIII e


XIX, a exemplo do testamento de Pedro Tavares Romeyro (1767)

Invocatio Em nome da Santissima Trindade Padre Filho e Espirito


san-|to trez pessoas distintas eum Só Deos verdadeyro:
Notificatio Saybaõ quan-|tos este instrumento virem que
Datatio sendo no anno do Nascimento |de nosso Senhor JESUS
christo, de mil setecentos Setenta e sete|aos dezesete dias
do mês de Janeyro do dito anno
Intitulatio eu Pedro Tava-|res Romeyro
Inscriptio ---
Arenga Sana estando em meo perfeyto juízo, entendimento | que
Mente nosso Senhor medeo, depe e com saúde
Narratio porem temendo-|do me da morte como vivente , e deze-
jando por minha alma | no caminho da Salvação por não
saber quando Deos será | servido levarme para Si
Continuação do fasso este testamento na forma se-|guinte.
notificatio

O dispositio é iniciado com a encomendação da alma a Deus e com uma série de


pedidos pios, que tem por fim assegurar a salvação da alma do enunciador. Isso
quer dizer que, no período do século XVIII a XIX, o testamento é usado como
um documento (religioso) que tem influência suficiente para beneficiar a alma
do testador. Segue-se, então, a nomeação dos testamenteiros (que devem aceitar
o pedido “por serviço a Deus”), a ordenação do local de sepultamento e os pe-
didos de missa. Todos esses atos de fala representam legados espirituais e pre-
cedem os legados materiais, de cunho patrimonial, de modo que há uma hierar-
quia entre os interesses da alma e os da matéria. Os legados materiais só podem
ser atribuídos a partir da identificação de herdeiros necessários ou não. Por isso,
a parte “material” do dispositio apresenta uma sequência de declaração de fi-
liação e estado civil, de instituição dos herdeiros e estabelecimento dos legados
materiais. Um dos requisitos de validade do testamento é a manifestação da
vontade livre e soberana do testador em suas disposições, garantindo que não
tenha sido induzido ou coagido a legar seus bens. Por isso, as disposições são
finalizadas com a afirmação de última vontade do testador e de desejo de que o
documento valha como testamento ou como codicílio. Essa afirmação de última
vontade faz parte das cláusulas finais de garantia, de renúncia e de corrobora-
ção. Além de atestar sua livre vontade, outros atos de fala como pedir o cum-
primento do testamento segundo as leis do país e indicar escrita de próprio
punho (ou não) têm o papel de garantir o cumprimento de determinações legais
para que o documento tenha validade, compondo, portanto, o corroboratio.
Tradições discursivas, textuais e linguísticas 291

Tabela 4: Macroestrutura do texto dos testamentos dos séculos XVIII e XIX, a exemplo
do testamento de Pedro Tavares Romeyro (1767)
Encomendar a Premeyramente encómendo minha alma a San-|tissima
alma Trindade que acreou,
Fazer pedidos erogo ao Padre Eterno pela mor-|te epayxaõ deseo unigenito
pios Filho a queyra receber como re-|cebeu aSua estando para
morrer na arvore da vera Cruz|e a meu Senhor JESUS christo
pesso por Suas devinas cha-|gas que ja que nesta vida meder
mercê de dar Seu precio-|so sangue, e merecimento de seos
trabalhos, me fassa tam-|bem merce na vida que esperamos
dar opremio Delles, que |e a gloria. Pesso e rogo a glorioza
virgem Maria e Senhóra | nossa da Aprezentação e do
Rozario e a todos os Santos da | Corte Celestial especialmente
ao domeo nome , e Anjo da | minha guarda: queyraõ por
mim interceder, e rogar a meu | Senhor JESUS christo agora,
equando minha [deste cor-]|po sair, porque como verdadeyro
christaõ prostesto de mor-|rer e viver em afé catolica, e crer
oque tem, e cre a San-|ta Madre Igreja Catolica de Roma, e e
nessa fé espero sal-|var minha alma não por meos
merecimentos mas peloz | da Santissima Payxaõ do unigenito
filho de Deos.
Nomear testa- Rogo a minha mulher Donna Anna Ferreyra da Sylva, e a meu
menteiros | Sobrinho o cabo de esquadra Felipe Barboza Romey-|ro e
ao Capitaõ Joze Pedro de vasconcelos, por Serviço de |nosso
Senhor, e por me fazerem merce, queyraõ ser meos |
Dispositio

testamenteyros.
Texto

Ordenar local Meu corpo Será Sepultado na Igreja Ma-|triz de Nossa


de sepultamen- Senhora da Apresentação desta cidade em o habito doSerafico
to Padre Sam Francisco, e me acompa-|nharaõ as companias de
que sou Irmaõ, e as mais quehouverem, como sabem o
Reverendo vigário e todos os ma-|is clerigos que Se acharem
prezentes, fazendoce me officio| de corpo prezente alem do
da obrigaçao,
Encomendar e mediraõ [corroído2] | corpo prezente todos os Reverendos
missas sacerdotes [corroído3] |–rem no dia do meu falecimento pela
[esmola] [corroído] minha alma deyxo que meu Reverendo
[corroído]. [mediga] duas capelas de missas pela esmola
consumada Deyxo | mais que se me digaõ por minha alma
duas missas a Nos-|as Senhora da Apresentação e outras
duas à Nossa Senhora | do Rozario, e duas ao Anjo daminha
guarda duas ao San-|to domeu nome duas ao glorioso Padre
[ilegível] Antonnio | e quatro missas pela almas de meu [Pay]
e de minha May| a virgem Nossa Senhora da Aprezentação.
Declarar fili- Declaro que | sou natural dacidade de Olinda filho legitimo
ação, estado de | Antonio [Goncalvez] Romeyro e de sua mulher Donna |
civil Antonia Thereza Tavarez ambos falecidos. Sou cazado | com
Donna Anna Ferreyra da Sylva, e naõ tendo filhos | vivos
della, ou descendentes legítimos que sejaõ meos herdey-|ros
necessários, como taobem naõ tendo querentes que | o sejaõ,

2 Provavelmente, as palavras que faltam são “missa de” (“medirão missa de corpo pre-
zente”).
3 Provavelmente, a palavra que não aparece é “estiverem”.
292 Alessandra Castilho Ferreira da Costa

Nomear her- e por isso nomeyo einstituo por minha universal | herdeyra a
deiros mesma minha mulher Donna Anna Ferrey-|ra da Sylva
Estabelecer o Declaro que em todo em onze ha os credores | seguintes:
legado […]Declaro que a | conta de meos Saldoz decapitaõ de
Infantaria [inint.] | te prezidio recebi Sic[o]enta mil reiz que Se
descon- | tarão do Almoxarife na premeyra mostra
entr[e]gando | este recibo que tem meo em Seo poder
cláusulas finais Declaro que | quero valha esta Sedula na melhor forma quece
espirituais, de for pos-|sa quando naõ valha como testamento valha como |
garantia, de codeçilio, ou qualquer doaçaõ causa mortiz e como
renúncia, de [dispo]|sição ao causaz piaz e para satisfazer meos legados ao
corroboração | [causas] pias e dar expediente ao maiz que neste meu tes-
|tamento [inint.] torno a pedir a minha mulher Donna An |
na MorreyradaSilva ea meo Sobrinho (Felippe Barboza |
Romeyro e ao Capitaõ Jose Pedro de Vasconcelos por Servi |
ço de Deos, e [por] me fazerem merce, queiraõ [attestar] Serem
me-|os testamenteyros, como no prencipio deste meo
Corroboratio

testamento.| Pesso aos quaiz e a cada hum in [Solidum] dou


todos os meoz | poderes e fasso meos administradorez,
feitorez e procuradorez | como necessario for para tomarem
posse e desporem de | meos bens como for precizo para meo
enterramento pa-|go de minhaz dividaz e mais dispoziçoens
oque declaradaz, | e por quanto esta hé minha ultima vontade
do modo | que tenho dito, pesso as justiçaz de Sua Magestade
fideli-|sima, Secularez e Eclesiazticaz, cumpraõ e fassaõ intey-
|ramente cumprir, dentro de dous annoz, os quaiz [consedo] |
aos ditoz meoz testamenteyroz, para darem Suaz Contaz| e
por estas conforme este testamento ao que direy| me [inint.],
tendo pedido ao tenente Jose Baptizta Freyre, que| este por
mim escrevesse, que tao bem Se[inint.]

Convém fazer uma observação sobre a parte do dispositio em que se


estabelecem os legados materiais: é nessa parte do texto que os dados
apresentam as maiores variações de formulação. Se considerarmos a tensão
entre formulário textual e liberdade individual (cf. Reiffenstein 2009: 48), o
estabelecimento de legados materiais é a parte desse formulário em que as
formas linguísticas são menos reguladas e normatizadas por modelos
anteriores e mais propícia ao aparecimento de inovações linguísticas,
embora sejam identificadas algumas estruturas formulaicas como “declaro
que” e “mando”.
Cabe também distinguir o escatocolo da aprovação de testamento, que
segue o escatocolo, no caso de testamentos cerrados. A aprovação é o
documento em que o tabelião afirma ter recebido o testamento, fechado
(“cosido”), por parte do testador, na presença de testemunhas, “limpo e sem
vício”. Trata-se, pois, de outro gênero textual. O escatocolo nos dados
analisados é composto apenas de local e data (datatio), assinatura do
testador (subscriptio) e assinatura das testemunhas (apprecatio), além dos
selos e sinais, que asseguram a validade do documento (tabela 5):
Tradições discursivas, textuais e linguísticas 293

Tabela 5: Macroestrutura do escatocolo dos testamentos dos séculos XVII a XIX, a


exemplo do testamento de Pedro Tavares Romeyro (1767)

Escatocolo Datatio nesta Ci-|dade do Natal aos dezenove


de Janeyro de mil setecen-|tos e
Secenta eSete..
Subscriptio Pedro Tavarez Romeyro
Apprecatio (assinatura das Como testimunha que escrevi Jose
testemunhas, selos sinais) Bap-|tista Freyre.

A macroestrutura dos testamentos do século XX do nosso corpus apresenta


algumas rupturas com relação a esse modelo textual. Muitos dos elementos
de cunho religioso / soteriológico (não todos) deixam de ocorrer (como, por
exemplo, o invocatio); outros sofrem alterações. Uma alteração relevante é a
introdução de partes do corroboratio já no protocolo inicial4, de modo a asse-
gurar a validade do documento desde seu princípio, com a indicação de que
determinadas solenidades externas ao testamento foram obedecidas e de que
determinações legais foram cumpridas:

Tabela 6: Macroestrutura do protocolo inicial dos testamentos do século XX, a


exemplo do testamento de Antonio Ribeiro de Moraes (1941)

Notificatio Saibam quantos esta virem, que


Datatio aos trinta| (30) dias do mês de Agosto,
do ano de mil novecentos e qua-|renta
e um (1941),
Inscriptio - nesta cidade de Natal, Capital do
Estado| do Rio Grande do Norte,
Republica dos Estados Unidos do|
Brasil, perante mim, tabelião
Protocolo inicial

Início do Intitulatio Compareceu


em a Avenida| Deodoro, nº
300(trezentos),
Corroboratio Cláusulas onde a chamado fui vindo e| tambem
(presença de perante as cinco testemunhas idôneas
testemunhas) abaixo qua-|lificadas e assinadas, e a
tôdo êste ato presentes,--
Cont. do intitulatio o senhor|Antônio Ribeiro de Morais,
Arenga Narratio doente,deitado em uma ca-|ma, brasi-
leiro, viuvo, com sessenta e quatro anos
de idade,| militar (reformado),

4 Tal modificação pode ter sido influenciada por outra tradição discursiva, a exemplo
dos depoimentos de testemunhas oculares, que tipicamente ocorrem no início do texto,
do ponto de vista diacrônico.
294 Alessandra Castilho Ferreira da Costa

Inscriptio domiciliado e residente nesta capital,|


em a referida casa,
Corroboratio Cláusulas meu conhecido e das cinco
(presença de testemunhas| aludidas, estas tambem
Testemunhas minhas conhecidas, o qual o senhor|
Antonio Ribeiro de Morais, ditas
testemunhas e eu, tabelião| interino,
reconhecemos ser o próprio
Cláusulas e achar-se, pelo acêrto| Acerto com que
(Sana-Mente5; ditou suas declarações, e respondeu ás
Livre Von- per-|guntas que lhe fizemos, em
tade) perfeita capacidade mental,| livre de
qualquer coação e induzimento, do que,
de tu-|do acima, dou fé.
Início do notificatio E pelo mesmo senhor Antonio Ribei-
|ro de Morais, em seguida,
Cont. do corroboratio Cláusulas sempre presentes as teste-|munhas,
(presença de
testemunhas)

Cláusulas foi-me dito, em lingua nacional6,


(língua Portu-
guesa)
Cont. do notificatio que deseja-|va fazer, como por este
instrumento efetivamente faz|, o seu
testamento, com as seguintes
declarações e dis-|posições:

Não somente o protocolo inicial sofre rupturas, mas a estrutura do texto


apresenta modificações em relação à macroestrutura dos testamentos dos
séculos XVIII e XIX. Na dispositio, os atos de fala “encomendar a alma” e
“fazer pedidos pios”, “encomendar missas” e “ordenar a forma de sepulta-
mento”, cristalizados na tradição romana jurídico-religiosa e normatizados

5 Observa-se na tabela 6 que a fórmula sana mente ocorre no interior da arenga nos testa-
mentos dos séculos XVIII e XIX, ao passo que ocorre no interior do corroboratio nos tes-
tamentos do século XX. Tal tipo de elemento fixo pode aparecer em diferentes uni-
dades de estruturação textual em função de sua tradicionalidade discursiva e,
consequentemente, de sua composicionalidade.
6 A cláusula a respeito da Língua Portuguesa ocorre particularmente em alguns dos
testamentos do século XX analisados. No testamento de Antonio Ribeiro de Morais
(30/08/1941), indica-se que “foi-me dito, em lingua nacional”; no de Teófilo Alves de
Moraes (03/08/1940), salienta-se o fato de que o testador estava “falando em língua
nacional”. Também no testamento de Francisca Amélia da Silva (26/07/1941), afirma-
se que “todas as declarações da testadora foram feitas no idioma nacional”. Dado o
parco tamanho de nosso corpus, não é possível dizer se se trata de um elemento total-
mente fixo ou se pode ser alternado com formulações como “em língua portuguesa” ou
“na nossa língua”, entre outros.
Tradições discursivas, textuais e linguísticas 295

pelos manuais de bem morrer, deixam de ocorrer – com uma única exceção.
Embora os legados espirituais percam sua precedência na linearidade
textual, verifica-se, entre as disposições em ambos exemplares analisados,
um ato de fala pertencente à tradição discursiva do legado espiritual nos
testamentos: a afirmação da fé católica como terceira disposição. Apesar
dessa ruptura, a declaração de filiação e de estado civil e herdeiros
necessários, o estabelecimento do legado patrimonial e as cláusulas finais
garantem a identidade diacrônica entre os testamentos do século XX e os dos
séculos anteriores:

Tabela 7: Macroestrutura do texto dos testamentos dos século XX, a exemplo do


testamento de Antonio Ribeiro de Moraes (1941)

Declarar Primeira: - Nasceu nesta cidade e tem sessen-|ta e


filiação quatro anos de idade, é filho legitimo de Manoel|
Ribeiro de Morais e de Joaquina Ribeiro de Morais,
am-|bos já falecidos
Declarar Segunda: - Casou-se com dona Ana| Barbosa de
estado civil e Morais, que faleceu ha muitos anos e cu-|já data não
herdeiros recorda, deste consórcio não tendo havido| filhos,
necessários tendo ele testador havido com dona Maria Soa-|res
Dantas, maior, solteira, sem nenhum impedimen-|to
para casar-se e com quem vive maritalmente,
Nomear qua-|tro filhos, os quais deu os nomes e prenomes de
herdeiros Jo-|sé Ribeiro de Morais, Izabel Ribeiro de Morais,
Elza| Ribeiro de Morais e Terezinha Ribeiro de
Morais, | nascidos nesta capital, respectivamente a 8
de novembro| de 1924, 12 de dezembro de 1927, 13 de
maio de 1935 e | 15 de fevereiro de 1940, registrados
Dispositio

este ultimo no 4º| cartorio, a fls. 150 v. , do livro 59, e


Texto

os demais no 1º car-| tório, nos livros numeros 22, fls.


66, 25, fls. 241 e 48, fls.| 19 r., em ordem sucessiva,
conforme os documentos com-| prabatorios em poder
dele testados os quais deseja| beneficiar por sua
morte;
Confessar a Terceira: - É católico, após-|tólico, romano, em cuja
fé religião deseja morrer;
Estabele-cer Prevalecendo-se, portanto, deste testamento, começa|
o legado por determinar, como determina, que todos os seus|
bens móveis, imóveis e valores, estes representados
por|notas promissórias e duplicatas, sejam partilhadas
em |
em igualdade de condições com os seus referidos
filhos José, |Izabel, Elza e Terezinha Ribeiro de
Morais, pois não tendo| outros herdeiros necessários,
instituindo seus ditos filhos| naturais seus únicos e
296 Alessandra Castilho Ferreira da Costa

universais herdeiros; Quinta: – Que| é possuidor de


uma casa situada à Avenida Deodoro, nu-|mero 300,
bairro da Cidade Nova, desta capital, com uma |porta
e uma janela de frente e mais três janelas de lado,|
construída de tijolo e taipa, coberta de telha comum,
encra-|vada em terreno foreiro do Patrimônio
Municipal, o qual| mede 388, m2 80 (quadrados) de
superfície e se limita ao|Norte, por Amilio Avila, com
84, m 00; ao Sul, por Pio Barre-|to, com idêntica
deminsão; a Leste pela mencionada Ave-|nida
Deodoro, com 7, m20 e ao Oeste, pôr Francisco Apolô-
|nio, com 7, m 60, conforme se vê com a carta de
aforamento|nº 749, de 20 de novembro de 1922, casa e
terreno acima| descritos deseja, como disse acima, que
fique pertencendo|, por sua morte, aos seus ditos
filhos.
Nomear Nomeia e institue| seu testamenteiro o senhor Leonilo
testamen- do Bonifacio Nascimen-|to, brasileiro, casado,
teiros funcionário publico federal aposentado,|domiciliado e
residente nesta capital, para o que dá por|abonado em
juízo e fóra dêle, a quem pede tudo faça| no sentido
de que ao seus legatários não seja creada a| menor
dificuldade em receber o seu legado
Declarar Declaro que | sou natural dacidade de Olinda filho
filiação, legitimo de | Antonio [Goncalvez] Romeyro e de sua
estado civil mulher Donna | Antonia Thereza Tavarez ambos
falecidos. Sou cazado | com Donna Anna Ferreyra da
Sylva, e naõ tendo filhos | vivos della, ou
descendentes legítimos que sejaõ meos herdey-|ros
necessários, como taobem naõ tendo querentes que | o
sejaõ,
Nomear e por isso nomeyo einstituo por minha universal |
herdeiros herdeyra a mesma minha mulher Donna Anna Ferrey-
|ra da Sylva
Estabele-cer Declaro que em todo em onze ha os credores |
o legado seguintes: […] Declaro que a | conta de meos Saldoz
decapitaõ de Infantaria [inint.] | te prezidio recebi
Sic[o]enta mil reiz que Se descon- | tarão do
Almoxarife na premeyra mostra entr[e]gando | este
recibo que tem meo em Seo poder
cláusulas E pôr esse mo-| do disse ele testador que havia por
finais feitas suas declarações|testamentárias, manifestando
sua última vontade. Assim| o disse, diante de mim,
Corroboratio

tabelião, e das cinco testemunhas| referidas, sempre


presentes, as quais assinam comigo es-|ta disposição,
depois de escrita e lida por mim, tabelião, em | voz
alta, na presença do mêsmo testador, digo, na presen-
|ça das mêsmas testemunhas,
Tradições discursivas, textuais e linguísticas 297

A macroestrutura do escatocolo modifica-se pouco. Permanecem nos testa-


mentos do século XX as unidades de estruturação textual subscriptio e appre-
catio. O datatio, que nos exemplares dos oitocentos e novecentos, ocorria
antes do subscriptio, não foi identificado nos exemplares do século XX,
aparecendo apenas no protocolo inicial e na aprovação do testamento, assi-
nada pelo tabelião:

Tabela 8: Macroestrutura do escatocolo dos testamentos do século XX, a exemplo do


testamento de Antonio Ribeiro de Moraes (1941)

Subscriptio e a rogo do mesmo testador,| que por seu estado de


doença, não pode escrever,
Apprecatio (assi- assina a| primeira testemunha Antonio Felismino de
natura das tes- Brito, brasi-|leiro, solteiro, funcionário publico federal;
temunhas, selos Lucio Bonifacio|Bonifacio do Nascimento, brasileiro,
Escatocolo

sinais) casado, funcionário pu-|blico federal; Teofilo


Alexandrino dos Anjos, brasileiro, ca-|sado, funcionário
publico federal; Geraldo dos Santos, brasileiro, casado,
comerciário, e José Lucas do Nascimento,| brasileiro,
casado, funcionário publico estadual, todos re-|sidentes
nesta capital.

No próximo item, os aspectos macroestruturais aqui abordados serão inves-


tigados do ponto de vista de sua ligação com textos anteriores. Partindo do
pressuposto de que tradições nunca surgem ex nihilo, mas têm de se ligar
sempre a algo já dado (Koch 1997), apresentarei convergências entre nossos
dados e textos anteriores.

3 Os testamentos e o nível discursivo: os manuais de bem morrer e


outros textos reguladores

Koch (1997: 64) defende que se deve contar com certo conservadorismo das
tradições discursivas, isto é, nelas permanecem elementos constituintes de
tradições subjacentes. No presente item, buscamos investigar as relações de
evocação que se estabelecem entre diferentes textos reguladores e os
testamentos analisados. Por isso, faremos por uma breve revisão histórica,
começando pelo surgimento da ars moriendi.
Do final do século XII ao longo de todo o século XIII, a Igreja Católica
elaboraria a doutrina do Purgatório, que passaria a ser definida como dogma
no Segundo Concílio de Lyon (1274) e se estabeleceria no sistema de crenças
do catolicismo. Como efeito dos ensinos a respeito do Purgatório e da epi-
demia de peste negra na Baixa Idade Média (1348), havia-se instalado um
sentimento de medo e ansiedade sobre a morte na sociedade europeia. Seja
298 Alessandra Castilho Ferreira da Costa

porque muitos clérigos temiam dar assistência aos doentes, seja porque mui-
tos morreram em virtude dessa atividade, a Igreja passou a oferecer manuais
de auto-ajuda para os moribundos. Em tempos de praga, não se podia
sempre contar com a visita do padre, de modo que essas instruções deve-
riam ser lidas (e provavelmente memorizadas), enquanto ainda se tinha
saúde, para serem usadas nos dias e nas horas da morte (cf. Verhey 2011:
81). Logo após o Concílio de Constança (1414–1418), esses tratados de bem
morrer começaram a aparecer sob os títulos de Speculum Artis Bene Moriendi
ou Tractatis Artis Bene Moriendi (cf. Verhey 2011: 86).
Durante o Concílio de Trento (1545–1563) e no período a ele posterior, a
doutrina do Purgatório foi reforçada como reação às doutrinas protestantes.
Nesse período de Contra-Reforma e sob a influência dessa doutrina, elabo-
ram-se normatizações no âmbito do Concílio de Trento, que influenciaram,
por sua vez, as determinações das Ordenações Filipinas (1595). Embora tais
textos apresentassem regulamentações para os testamentos, entre outros
diplomas, não continham um modelo ou formulário para sua redação. Por
outro lado, havia uma grande necessidade comunicativa de instruir os fiéis
católicos na preparação para a morte e fornecer modelos de testamento, já
que os fiéis católicos tinham nos testamentos um meio de assegurar sua
salvação do Purgatório, encomendando missas por suas almas e doando
bens à Igreja.
Como resultado dessa necessidade comunicativa de redigir testamentos,
há uma proliferação de manuais manuais de bem morrer, a exemplo do Breve
aparelho e modo fácil para ensinar a bem morrer um cristão, do jesuíta Estevam de
Castro, publicado em 1621 em Portugal, do Mestre da vida que ensina a viver e
morrer santamente, escrito por João Franco e publicado entre 1731 e 1882, e do
Devoto instruído na vida e na morte (1828), do padre Frei Manoel de Maria
Santíssima, publicado em 1784 (apud Rodrigues / Dilmann 2013: 2–4), da
Escola de Bem Morrer aberta a todos os christãos, & particularmente aos moradores
da Bahia nos exercícios de piedade, que se praticaõ nas tardes de todos os Domingos
pelos Irmãos da Confraria da Boa Morte (1701), do padre Antonio Maria Bo-
nucci, e da A morte suave, e santa: ou preparação para a morte, obra recopilada dos
santos padres e de gravissimos authores em piedade, e letras, I e II parte, dedicada ao
glorioso patriarca S. José por hum seu indigno servo (1781, anônimo). Dentre
todos esses manuais em português, o Breve Aparelho e modo fácil para ensinar a
bem morrer um cristão, de Estevam de Castro, teve o maior êxito editorial,
com dez edições.
É certo que as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707), pri-
meiro código de leis eclesiásticas criado na colônia brasileira, regulavam a
prática testamentária, a partir dos preceitos do Concílio de Trento, servindo
de orientação para todo o território da colônia. Contudo, as Constituições
Primeiras também não apresentavam uma fórmula de redação dos testamen-
tos. Ora, entre os séculos XVII e XIX no Brasil, a facção de testamentos era
Tradições discursivas, textuais e linguísticas 299

prática discursiva comum entre católicos de diferentes estratos sociais na


colônia, que também tinham, como os europeus, necessidade de garantir a
salvação de suas almas.
Por isso, também no Brasil, os manuais de bem morrer como o Breve
Aparelho circularam entre católicos ao longo do século XVIII. Os achados de
Rodrigues / Dilmann (2013) dão-nos algumas pistas a respeito do papel
desses manuais de prática testamentária na formação dos testamentos bra-
sileiros. Segundo esses historiadores, o manual de Estevam de Castro parece
ter influenciado fortemente a elaboração de testamentos brasileiros. 7 Esses
autores afirmam ainda que, entre os séculos XVII e XIX, a facção de testa-
mentos era prática discursiva comum entre católicos de diferentes estratos
sociais e que “a redação dos testamentos era feita ou pelo próprio sujeito que
testava ou, a seu rogo, por um indivíduo de sua confiança, podendo ser um
sacerdote (em geral o confessor), pessoa leiga de confiança (que podia ser
um membro de irmandades ou amigo) ou notário”.
Nesse sentido, os manuais de bem morrer cumpriam um papel facilitador
da produção textual, já que apresentavam modelos que tornavam a pro-
dução do testamento mais simples. Além desse caráter modelar e simplifica-
dor, tais manuais desempenhavam também um papel selecionador, pois
todo modelo restringe as possibilidades de produção de sentido, bem como
de formulação linguística. Ora, é esse caráter modelar, simplificador e restri-
tivo que dá suporte ao conservadorismo de formas textuais e linguísticas, ao
passo que a inovação representa sempre uma ruptura com modelos ante-
riores (sejam textuais ou linguísticos). Essas relações conservadoras que se
estabelecem entre os manuais de bem morrer e os testamentos brasileiros dos
séculos XVIII e XIX, culminando com escolha de determinadas formas
linguísticas, são objeto de consideração de historiadores:
A leitura de testamentos dos séculos XVII a meados do XIX nos permite veri-
ficar que estes documentos seguiam muitas vezes um padrão e que, depen-
dendo do recorte temporal e espacial, poderiam existir expressões, frases ou

7 Seria ingênuo supor que o modelo proposto no Breve Aparelho tenha sido elaborado por
Castro ex nihilo. Antes, sua origem parece remontar a modelos anteriores, dadas as
semelhanças detectáveis entre as formulações contidas nesse manual e determinadas
fórmulas latinas. Tal é o caso da fórmula “condo testamentum meum in hunc modum”
que origina a formulação portuguesa “faço este testamento na forma seguinte”,
adotada e difundida pelo manual de Castro. A hipótese de que o manual de Castro
tenha sido a fonte a partir da qual testadores, notários e religiosos tiveram acesso ao
modelo de testamento ali proposto fundamenta-se em duas evidências: a) em primeiro
lugar, o sucesso editorial obtido pelo Breve Aparelho implica necessariamente uma
grande variedade de cópias desse modelo circulando na sociedade portuguesa e bra-
sileira por pelo menos 100 anos; b) em segundo lugar, observa-se nos dados não
somente algumas semelhanças, mas com frequência cópias exatas do modelo ali
proposto.
300 Alessandra Castilho Ferreira da Costa

parágrafos que se repetiam idêntica ou semelhantemente em vários deles,8 em que


pesem as especificidades que possam ter, as quais quase sempre estavam
vinculadas aos testamentos escritos de próprio punho pelo testador.
Não é novidade para os estudiosos que este padrão era resultante da
existência de uma literatura espiritual que, no mundo português, foi editada
principalmente nos séculos XVII e XVIII, destinada a instruir os fiéis nas ma-
térias da fé e na preparação para a morte.
(Rodrigues / Dimann 2003: 2)
Entre os testamentos norte-rio-grandenses dos séculos XVIII e XIX em nosso
corpus e os manuais de bem morrer verificam-se evocações, relações intertex-
tuais e interdiscursivas9 que se cristalizam, tornam-se tradicionais e funcio-
nam como fios do tecido textual. A tabela abaixo comprova algumas dessas
convergências:

Tabela 9: Exemplos de formulações convergentes entre o Breve Aparelho e os


testamentos analisados

Breve aparelho (1621) Testamentos norte-rio-grandenses


(p. 100 a 105)
Invocatio Em nome da Santissima Trindade, (1) Em nome da Santissima Trindade
Padre, Filho, Spirito Sancto, três Padre Filho e Espirito san-|to trez
pessoas, & hum sò Deos verd- pessoas distintas eum Só Deos verd-
adeiro (p. 100) adeyro (1768)
Notificatio Saybaõ quantos este instromento (2) Saybaõ quan-|tos este instrumento
virem […] faço este testamento na virem que […] fasso este testamento na
forma seguinte. forma se-|guinte (1768)

Datatio como no anno do Nascimento de (3) em como no ano do nac


nosso Senhor Jessu Christo, de mil, mento| de Nosso Senhor JESUS christo
& c. a tantos de tal mês de mil setecentoz e | Sincoenta e
[corroído] aoz vinteeSete [dias] domez
de Fevereiro [corroído] | ano (176810)

Intitulatio eu N (4) Eu Joana da Rocha Tavares (1768)


Arenga estando em meu perfeito juízo, & (5) estan-|do em meu perfeito juízo
(Sana- entendimẽto que nosso Senhor me eEntendimento que Nosso Senhor me-
Mente) deu; ou doẽte em cama (se estiver deo, (1768)
doente)
Arenga & c. Temendome da morte, (6) temendo-me da morte, (1768)

8 Grifo nosso.
9 Koch (1997) estabelece diferença entre o conceito de intertextualidade e o de interdis-
cursividade.
10 O testamento de Joana da Rocha contém o título “Testamento com que faleceo aViúva
Joana| da Rocha, em des de Julho de mil setecentoz | eSecentaEoito”. Contudo, no
protocolo inicial, a indicação de data não confere com esse título, como se verifica aci-
ma.
Tradições discursivas, textuais e linguísticas 301

Arenga & desejando por minha alma no (7) e dezejando por minha alma no
caminho da salvação, Caminho da | Salvasaõ (1768)
Arenga por não saber o que Deos nosso (8) por naõ Saber oque Nosso Senhor de
Senhor de mim quer fazer, & mim quer fazer, equando Serâ | Servido
quando será servido de me levar Levar-me para Si (1768)
para Si,
Dispositio Primeiramente encomendo minha (9) Premeyramente encómendo minha
alma à Sanctíssima Trindade, que alma a San-|tissima Trindade que
a criou, acreou, (1767)
Dispositio & rogo ao Padre Eterno pella (10) eRogo ao Eterno Pai, que pela morte
morte & payxaõ de seu unigenito de Seu | Unigenito Filho a-queira
Filho a queira receber, como Receber, (1768)
recebeo a Sua, estando pera morrer
na arvore da Vera Cruz;
Dispositio & a meu Senhor Jessu Christo peço (11) e a meu Senhor JESUS christo pesso
por suas divinas chagas, que já que por Suas devinas cha-|gas que ja que
nesta vida me fez merce de dar seu nesta vida meder mercê de dar Seu
precioso sangue, & merecimentos precio-|so sangue, e merecimento de
de seus trabalhos, me faça tãbem seos trabalhos, me fassa tam-|bem
mercê na vida que esperamos dar merce na vida que esperamos dar
o premio delles, que he a gloria; opremio Delles, que |e a gloria. (1767)
Dispositio & peço, & rogo à gloriosa Vorgem (12) Pesso e rogo a glorioza virgem
Maria nossa Senhora Madre de Maria e Senhóra | nossa da
Deos & a todos os Santos da Corte Aprezentação e do Rozario e a todos os
Celestial, particularmente ao meu Santos da | Corte Celestial
Anjo da guarda, & ao santo do especialmente ao domeo nome , e Anjo
meu nome. N. & a tal santo N. N. a da | minha guarda: queyraõ por mim
quem tenho devoçaõ queiraõ por interceder, (1767)
mim interceder,
Dispositio & rogar a meu Senhor Jessu Chris- (13) e rogar a meu | Senhor JESUS
to, agora, & quando minha alma christo agora, equando minha [deste cor-
deste corpo sair; ]|po sair, (1767)

Dispositio porq como verdadeiro christaõ (14) porque como verdadeyro christaõ
protesto de viver, & morrer em a prostesto de mor-|rer e viver em afé
santa fee catholica, & crer o que catolica, e crer oque tem, e cre a San-|ta
tem & cree a Sancta Madre Igreja Madre Igreja Catolica de Roma, e e
de Roma; & em esta fe espero de nessa fé espero sal-|var minha alma não
salvar minha alma, não por meus por meos merecimentos mas peloz | da
merecimentos, mas pellos da Santissima Payxaõ do unigenito filho de
Santissina Payxão do unigenito Deos. (1767)
Filho de Deos.
Dispositio Rogo a tal, ou taes pessoas, por (15) Rogo ameu Primo oCapitam Mor
serviço de N. Senhor, & por me Joaõ | de Oliveira e Freitas, e meu
fazer ẽ merce, queirã ser meus Compadre Teodozio Ferreira, eo
testamẽteiros. Sar=|gento Mor Manuel Fernandes de
Oliveira que por Servisso de Deos
quei=|raõ Ser meus Testamenteiroz.
(1768)
302 Alessandra Castilho Ferreira da Costa

Dispositio Meu corpo serà sepultado em tal (16) Meu corpo Será Sepultado na Igreja
Igreja, ou Mosteiro, & em o habito Ma-|triz de Nossa Senhora da
de tal Religiaõ, & levado com tal, Apresentação desta cidade em o habito
ou tal acompanhamento, & tais, ou doSerafico Padre Sam Francisco, e me
tais cõfrarias; & peço (se for Irmaõ acompa-|nharaõ as companias de que
da Misericordia) ao senhor sou Irmaõ, e as mais quehouverem,
Provedor, & Irmaõs da Mesa da como sabem o Reverendo vigário e
santa Misericordia acompanhem todos os ma-|is clerigos que Se acharem
meu corpo na sua tumba, & toda a prezentes, fazendoce me officio| de
irmandade, & com a bandeira da corpo prezente alem do da obrigaçao,
santa casa; e se naõ for irmã peça o (1767)
que se custuma fazer a todos
deixando algũa esmola a dita
confraria da Misericordia.
Dispositio Porminha alma deixo tais, ou tais (17) Deyxo | mais que se me digaõ por
suffragios, Missas, officios, &c. E minha alma duas missas a Nos-|as
se arrecea, que a fazenda naõ Senhora da Apresentação e outras duas
abrangerà, diga deixos tantos mil à Nossa Senhora | do Rozario, e duas ao
reis, ou cruzados, pera que se dem Anjo daminha guarda duas ao San-|to
de esmola a quẽ me diga tantas domeu nome duas ao glorioso Padre
Missas, ou faça tais suffragios por [ilegível] Antonnio. (1767)
minha alma.
Dispositio Declaro, q sou natural de tal parte, (18) Declaro que | sou natural dacidade
filho de fulano, & fulana, legitimo, de Olinda filho legitimo de | Antonio
ou não legitimo; declaro que naõ [Goncalvez] Romeyro e de sua mulher
sou casado, ou sou casado em tal Donna | Antonia Thereza Tavarez
parte, cõ fulana, & que tenho, ou ambos falecidos. Sou cazado | com
naõ tenho tais herdeiros Donna Anna Ferreyra da Sylva, e naõ
necessarios, filhos, ou tendo filhos | vivos della, ou
descendentes, ou ascendentes, &c. descendentes legítimos que sejaõ meos
herdey-|ros necessários, como taobem
naõ tendo querentes que | o sejaõ […].
(1767)
Dispositio Declaro, que tenho tais, & tais (19) Declaro que devo defa-|zenda ao
dividas (se as tiver) que se haõ de Sargento mor Francisco Machado de
pagar do monte, por serem con- [O]liveyra] | [Barroz] oque constar
trahidas pera administràçaõ min- deSeu livro (1767)
ha, & da família: & tais se pagaraõ,
da minha ametade (se a tiver) &
tais, quero que fiquẽ
Dispositio Declaro, nomeo, & instituo por (20) Declaro que nomeio, e instituo |
meu herdeiro universal de tudo o por minha erdeira universal aminha
que depois de pagas minhas alma de tudo oque | depois de
dividas, & compridos meus cumpridoz meus Legadoz restar
legados restar de minha fazenda, a deminha fazen-|da [[fazenda]], (1768)
tal pessoa, Igreja, Mosteiro,
Hospital, Cõfraria, ou qualquer
outra obra pia:
Tradições discursivas, textuais e linguísticas 303

Corroboratio E aqui declare, que quer que esta (21) Declaro que | quero valha esta
mesma cedula, se por algum caso Sedula na melhor forma quece for pos-
naõ valer como testamento valha |sa quando naõ valha como testamento
como codicillo, & qualquer doaçaõ valha como | codeçilio, ou qualquer
casa mortis, & como disposiçaõ ad doaçaõ causa mortiz e como
causas pias, & pello melhor modo [dispo]|sição ao causaz piaz [inint.]
que em direito poder ser. (1767)
Corroboratio Pera comprir meus legados ad (22) e para satisfazer meos legados ao |
causas pias aqui declarados, & dar [causas] pias e dar expediente ao maiz
expediência ao mais que neste meu que neste meu tes- |tamento torno a
testameto ordeno, torno a pedir ao pedir a minha mulher Donna An | na
senhor fulano, ou fulanos, por MorreyradaSilva ea meo Sobrinho
serviço de Deos nosso Senhor, & (Felippe Barboza | Romeyro e ao
por me fazerem merce, queiraõ Capitaõ Jose Pedro de Vasconcelos por
aceitar serem meus testamenteiros Servi | ço de Deos, e [por] me fazerem
como no princípios deste merce, queiraõ [attestar] Serem me-|os
testamẽto peço, aos quais, & a cada testamenteyros, como no prencipio
hum in solido dou todo os poder deste meo testamento.| Pesso aos quaiz
que em direito posso, & for e a cada hum in [Solidum] dou todos os
necessário pera de meus bẽs meoz | poderes e fasso meos
tomarem, & venderem o que administradorez, feitorez e
necessario for pera meu procuradorez | como necessario for
enterramento, & comprimento de para tomarem posse e desporem de |
meus legados, & paga de minhas meos bens como for precizo para meo
dividas. enterramento pa-|go de minhaz dividaz
e mais dispoziçoens oque declaradaz,
(1767)
Corroboratio E por quanto esta He a minha (23) Eporquanto esta | é aminha ultima
ultima vontade, do modo que vontade do modo que tenho dito […]
tenho dito me assino aqui, ou rogo epor eu naõ Saber Ler nem escrever
ao escrivã assine por mim, por eu pedê á Paulo Coelho, que este por mim
não saber, ou naõ poder assinar. escrevesse, eameu| rogo assinasse
(1768)
Escatocolo Em tal lugar, Villa, ou Cidade, ou (24) nesta mesma Povoassaõ de Mopebú
quinta, ou navio, &c. A tantos de em | o dito dia mez, eano atraz
tal mes & era, assinarseà por elle, declarado. = Assino a rogo de | Joana
& depois da aprovaçaõ (que vai da Rocha, e como testemunha que o
adiante) se assinarà com as escrevi = | Paulo Coelho. = (1768)
testemunhas o mesmo testador, &
naõ sabendo, como digo, ou naõ
podendo assinar: hũa das
testemunhas assine por elle:
dizendo; que assina a rogo do
testador, por naõ saber, ou naõ
poder escrever.

Recorde-se que os testamentos católicos representavam uma fonte de valores


para os cofres de sacerdotes, paróquias, irmandades e conventos, deixando,
por vezes, os herdeiros consanguíneos com poucos recursos financeiros.
Segundo Rodrigues (2008: 4), nesse contexto, o governo do Marquês de
Pombal implementou, novas leis regulamentando o ato de testar, entre 1766
e 1769. Com a Lei da Boa Razão (1769), Pombal tinha por objetivo promover
304 Alessandra Castilho Ferreira da Costa

a transferência dos valores gastos com a Igreja para os herdeiros consan-


güíneos dos testadores. A autora afirma que o impacto destas medidas sobre
a prática testamentária tanto na Colônia como no Reino foi significativo,
dando início a um processo de transformação dos testamentos num exclu-
sivo mecanismo de transmissão de heranças, que se concretizaria somente
na segunda metade do século seguinte.
São os tratados seculares de testamentos e sucessões que passam a
oferecer modelos para a produção textual de testamentos que atendessem às
regulações da Lei da Boa Razão, a exemplo do Tratado regular e pratico de
testamentos, e successões ou compendio methodico das principaes regras e principios
que se podem deduzir das leis testamentarias, de Antonio Joaquim Gouvêa Pinto,
publicado em 1844.
Os modelos de testamento propostos pelo Breve Aparelho e pelo Tratado
regular podem ser reconhecidos em parte dos dados aqui analisados por
meio das diferentes técnicas de junção que adotam preferencialmente. No
próximo item, apontaremos alguns indícios de como tradições anteriores
podem influenciar a escolha de determinados fenômenos linguísticos, a
exemplo dos juntores.

4 Os testamentos e o nível microestrutural

Quem assina um contrato com outra pessoa ou faz um testamento tem todo
interesse de que o contrato ou o testamento sejam absolutamente compreen-
síveis. Como conseqüência (cf. Raible 1992: 197), os textos do universo
discursivo do Direito exigem um alto grau de planejamento e de coerência, o
que Raible entende ser típico da escrituralidade (ou na terminologia de
Bühler, típico do Sprachwerk, a “obra linguística”, isto é, a reflexão sobre o
próprio enunciado).
Raible entende que o grau de planejamento de um texto traz consequên-
cias para a escolha das técnicas de junção, isto é, para a escolha das formas
linguísticas que são usadas para expressar uma relação semântica. Dessa
perspectiva teórica, assume-se, portanto, a hipótese de correlação entre
determinados padrões textuais (mais ou menos planejados) e a preferência
por determinadas técnicas de junção (advérbios juntivos, conjunções coorde-
nativas, conjunções subordinativas, construções participiais e gerundiais,
grupos preposicionais e preposições simples).
Neste item, pretendo verificar se, no nível microestrutural, especifica-
mente, nas técnicas de junção, podemos observar a presença de tendências
de regulação, normatização e uniformização, decorrentes dos padrões tex-
tuais, ou se há espaço para as possibilidades de variação. Pergunta-se, assim:
há maiores ou menores variações de formulação nesses dados e se, sim, em
que partes do texto?
Tradições discursivas, textuais e linguísticas 305

Observemos, primeiramente, as tendências de uniformização de relações


semânticas e técnicas de junção no invocatio nos testamentos, apenas dos
séculos XVIII e XIX, já que não há ocorrência de invocatio nos dados do sécu-
lo XX. Essa TD é constituída, do ponto de vista diacrônico, por uma constân-
cia na expressão da relação semântica de motivo (na terminologia de Raible,
Veranlassung11) e no uso de grupos preposicionais, especificamente do grupo
preposicional “em nome de”, como técnica de integração sintática:
Invocatio
(1) Em nome da Santissima Trindade Padre Filho e Espirito san-|to trez
pessoas distintas eum Só Deos verdadeyro (1767)
(2) Jezus, Maria e Jozé = Em Nome da| Santissima Trindade, Padre, Filho,
Espi-|rito Santo (1871)
No notificatio, verifica-se a ocorrência da relação de correspondência (na
terminologia de Raible, Zuordnung). As formas linguísticas são as locuções
adverbiais juntivas “na maneira seguinte” e “na forma seguinte”. Dos testa-
mentos do século XVIII, um deles apresenta também a expressão de corres-
pondência com a utilização de grupo preposicional (“na forma de”). Dos
testamentos do século XX, um apresenta a expressão de correspondência por
meio de locução adverbial juntiva “pela maneira seguinte”, ao passo que
outros apresentam a expressão de inclusão (Einschluss) por meio de prepo-
sição simples “com” (“com as seguintes declarações e disposições”). Em
suma, há uma tendência de expressão de correspondência por meio da
junção por correferência (advérbios juntivos) no notificatio.
Notificatio
(3) Saybaõ quan-|tos este instrumento virem que […] fasso este testamento
na forma se-|guinte (1767)
(4) vou proceder a este meo Testa-|mento, e ultima vontade, a | fim de dis-
por de meos bens, na| forma da Constituição, e mais Leis| do Imperio,
para depois de mi-|nha morte (1871)
(5) Saibam quantos esta virem […] E pelo mesmo senhor Antonio Ribei-|ro
de Morais […] foi-me dito, em lingua nacional, que deseja-|va fazer, co-
mo por este instrumento efetivamente faz|, o seu testamento, com as se-
guintes declarações e dis-|posições (1941)
No datatio, não há dúvida que se observa a expressão da relação de tempo,
por exemplo, na especificação do ano de facção do testamento. Nos testa-
mentos dos séculos XVIII a XX, essa parte do texto conta com a expressão de
tempo por meio de locução preposicional: “no anno do” (1654, 1653, 1767),
“no ano do” (1768), “no ano de” (1941, 1941).

11 “Veranlassung meint solche Gruppen wie im Namen von“ (Raible 1992: 13).
306 Alessandra Castilho Ferreira da Costa

Datatio no protocolo inicial


(6) sendo no anno do Nascimento |de nosso Senhor JESUS christo, de mil
setecentos Setenta e sete|aos dezesete dias do mês de Janeyro do dito an-
no (1767)
(7) em como no ano do nacimento| de Nosso Senhor JESUS christo de mil
setecentoz e | Sincoenta e [corroído] aoz vinteeSete [dias] domez de Fe-
vereiro [corroído] | ano (1768)
(8) que aos trinta| (30) dias do mês de Agosto, do ano de mil novecentos e
qua-|renta e um (1941)
(9) que aos vinte e seis dias do mês de julho do ano de mil |novecentos e qua-
renta e um, da era Cristã (1941)
Como apontado acima, a arenga tem caráter justificativo e descritivo,
apresentando as motivações do enunciador para a elaboração do testamento
e sua situação de saúde. Uma tendência uniformizante nesse movimento de
justificação e descrição de situação é a expressão das relações de causalidade
e / ou modo:
Arenga
(10) estan-|do em meu perfeito juízo eEntendimento que Nosso Senhor me-
deo, (1768)
(11) Achan-|do- me em meo perfeito juízo, senhor de|mim, e de todas as
potencias e | faculdades mentais, e com perfeito|conhecimento do que
fazer (1870)
(12) doente, deitado em uma ca-|ma, […] pelo12 acêrto| com que ditou suas
declarações, e respondeu ás per-|guntas que lhe fizemos, em perfeita
capacidade mental,| (1941)
(13) temendo-me da morte, (1768)
(14) porem temendo-|do me da morte como vivente (1767)
(15) dezejando por minha alma | no caminho da Salvação (1767)
(16) dezejando por minha alma no Caminho da | Salvasaõ (1768)
(17) por não saber quando Deos será | servido levarme para Si (1767)
(18) por naõ Saber oque Nosso Senhor de mim quer fazer, equando Serâ |
Servido Levar-me para Si (1768)

12 No trecho “pelo acêrto| com que ditou suas declarações, e respondeu ás per-|guntas
que lhe fizemos, em perfeita capacidade mental”, observa-se a expressão de conteúdo
evidencial, dado que a observação de que o testador tem “perfeita capacidade mental”
é fundamentada por meio da observação direta de fatos ditar declarações acertada-
mente e responder a perguntas).
Tradições discursivas, textuais e linguísticas 307

Em nossos dados, observa-se que a expressão de causalidade e de modo, na


arenga, ocorre predominantemente por meio de construções gerundiais
(exemplos (34), (35), (38), (39), (40) e (41) acima). A fórmula “timens diem
mortis meæ”, usada na arenga de testamentos latinos, por exemplo, contém
o particípio presente do latim (“timens”) com caráter adjetival. No portu-
guês arcaico, essa forma foi substituída por “tem̃ete”. As duas formas, par-
ticípio presente latino e gerúndio, compartilhavam alguns traços semânticos
(concomitância temporal, modo, causa), contudo, o gerúndio suplantou o
particípio presente, porque não desempenha somente uma função adjetiva,
mas sempre adverbial (cf. Simões, 2007: 38). Na arenga dos testamentos
analisados, a fórmula “temendo-me da morte” é uma resposta à tradição de
justificar a facção do testamento e de narrar a situação do enunciador, em
que, portanto, a expressão de circunstâncias desempenha um papel rele-
vante. Nesse sentido, há na arenga, como unidade retórica justificativa, a
preferência pela expressão de circunstância por meio de construções ge-
rundiais, tais como “estando”, “achando”, “temendo” e “desejando”.
No dispositio, que é o centro pragmático do testamento, encontramos
diferentes tipos de convergências entre os grupos de testamentos, mais fre-
quentemente entre os testamentos dos séculos XVIII e XIX. Como a parte
mais autoral do formulário textual, é a menos formulaica e que mais está
sujeita à variação. Nessa zona textual, observa-se a presença de fenômenos
típicos da oralidade, tais como anáforas discursivas, mecanismos de refor-
mulação, redobro sintático, falta de concordância, entre outros. Observem-se
os seguintes exemplos:
Anáfora discursiva
(19) Declaro que naõ devo | nada apessoa algũa, Salvo Se a contrair depois
deste testa=|mento, aqual Se pagarâ. (Joana da Rocha 1768, Natal)
O exemplo (44) traz uma sintaxe incompleta, já que as formas “a” e “a qual”
não retomam um antecedente explícito na superfície textual, mas um ele-
mento linguístico que é resultado de uma inferência (“Não possuo dívida”).
Mecanismos de reformulação
(20) Primeiramente en-|comendo a minha a Deos,| digo a minha Alma a
Deos| que a criou […] (Felipa Rodrigues de Vasconcellos, 1865, Mipibu)
Nas dificuldades de produção retrospectivas, o emissor recorre a determi-
nados procedimentos de correção ou reformulação, típicos das condições de
produção da imediatez comunicativa (cf. Koch / Oesterreicher 2007 [1990]:
88). Essa reformulação retrospectiva é explicitada pelo item “digo” em (45),
que introduz uma nova formulação da sentença anterior “encomendo a
minha a Deos”, em que o item “alma” havia sido esquecido.
308 Alessandra Castilho Ferreira da Costa

Redobro13
(21) […] todos estes filhos e filhas casamos em sua vida della dita mulher.
(Capitão Domingos Fernandes, 1652, São Paulo)
(22) […] naõ tendo filhos | vivos della, ou descendentes legítimos que sejaõ
meos herdey-|ros necessários, como taobem naõ tendo querentes que | o
sejaõ, e por isso nomeyo einstituo por minha universal | herdeyra a
mesma minha mulher Donna Anna Ferrey-|ra da Sylva. (Pedro Tavares
Romeyro, 1767, Natal)
(23) […] e posto que eu atrás digo que quando casaram lhes não dei nada
comtudo faço declaração que Thomé Fernandes levou uma duzia de
peças […] (Capitão Domingos Fernandes, 1652, São Paulo)
Por redobro entende-se que um sintagma X é retomado por um sintagma Y,
correferencial ou cofuncional (cf. Castilho 2012: 271). Segundo Moraes de
Castilho (2004: 56), o redobro ocorre quando uma dada função é preenchida
mais de uma vez. Em (46), há o redobro dos pronomes possessivos “sua” /
“della”, que tem por objetivo uma precisão semântica por meio de repetição
da mesma classe. Já em (47), a expressão de causalidade é concretizada por
meio da forma gerundial “tendo” bem como pela locução adverbial “por
isso”. Algo análogo ocorre em (48), em que a expressão de oposição ocorre
tanto por meio de “posto” quanto por meio de “comtudo”.
Falta de concordância
(24) Declaro que a escrava| Maria, de idade de vinte e oito| annos, os escra-
vos Diogo, de ida-|de de sete annos,Salustiano, de| idade de três, e Ma-
ria de ida-|de de dous annos, filhos daquel-|la escrava Maria, Alexandri-
|na, de idade de nove annos,Tho-|mazia, de idade de quarenta| e tres
annos,criada, depois de| minha morte ficarão todos| libertos, como de
livre nascessem,|gozando de sua liberdade, e o| meo testamenteiro lhe
passa-|rá as suas cartas de liberdade (Felipa Rodrigues de Vasconcellos,
1865, Mipibu).
Koch / Oesterreicher (2007 [1990]: 121) afirmam que as condições de imedia-
tez comunicativa ou oralidade, tais como privacidade, familiariedade, impli-
cação emocional, espontaneidade, referência o aqui e agora, etc., possibili-
tam e favorecem uma formulação menos cuidada e, em consequência, mais
tolerante com relação à concordância sintática. Dado que a testadora, D.
Fellipa Vasconcellos, não sabia ler nem escrever (como consta em seu testa-
mento), podemos supor que esse trecho do estabelecimento de seus legados

13 O redobro ocorre tanto em textos literários quanto não-literários do português


medieval (cf. Moraes de Castilho 2005). Também no espanhol, até o século 18, esse fe-
nômeno pode ser encontrado em textos da escrituralidade (cf. Saralegui 1992).
Tradições discursivas, textuais e linguísticas 309

foi por ela ditado ao Sr. Manoel Rolim – uma situação de produção que
oferece restrições de planejamento do texto e favorece a ocorrência de faltas
de concordância. Em (49), há falta de concordância de número da forma
“lhe” (singular), que retoma “todos” (plural).
Apesar de ser a zona textual menos formulaica, o dispositio contém, entre
outras tradições, a distribuição dos legados a indivíduos, instituições ou
grupos. Nesses legados, observa-se a recorrência de fórmulas como “declaro
que deixo” ou “deiyxo que”.
(25) Deyxo | mais que se me digaõ por minha alma duas missas (1767)
(26) Declaro que | sou natural dacidade de Olinda filho legitimo de | Anto-
nio [Goncalvez] Romeyro e de sua mulher Donna | Antonia Thereza Tava-
rez ambos falecidos. (1767)
(27) Declaro que deixo Se me-digaõ aoz Santoz assima | referidoz de minha
devossaõ á cada um uma Missa com aesmo=|La de trezentos e vinte, que
Se diraõ com brevidade. (1768)
Segundo Raible (1992: 22), a forma mais extrema de integração sintática
reside no fato de que certas relações, especialmente importantes em uma
língua, recebam o papel sintático de 1º, 2º e 3º actantes. A fórmula “declaro
que” corresponde ao que Raible identifica como “orações objetivas” (“Ob-
jektsätze”, p. 104): trata-se de um estado de coisas encaixado em outro esta-
do de coisas em que normalmente há um verbo de percepção sensorial,14
como é o caso dos verba dicendi. Em “declaro que”, teríamos, portanto, o
verbo “declaro” como núcleo de um estado de coisas e a oração iniciada pelo
transpositor “que” como o estado de coisas encaixado, isto é, como o segun-
do actante do estado de coisas superordenado “declaro”, em que o primeiro
actante é o sujeito nulo. As relações semânticas expressas por meio dos
papéis sintáticos de 1º e 2º actantes são as de causador (Verursacher), isto é,
“sujeito de”, e causado (Verursachtes), isto é, “objeto de”. A representação de
um estado de coisas com dois participantes é a estrutura mínima de junção
(e a mais integrativa), a partir da qual todas as outras relações semânticas se
organizam (cf. Raible 1992: 143).
No corroboratio, identificam-se convergências do século XVIII ao XX, em
função do caráter obrigatório das cláusulas finais, que garantem a validade
do documento. O desejo do enunciador de que o testamento se cumpra é
justificado predominantemente por meio da expressão de causalidade, como
se verifica a seguir:
(28) e por quanto esta he minha ultima vontade do modo | que tenho dito,
pesso as justiçaz de Sua Magestade fideli-|sima, Secularez e Eclesiazticaz,
cumpraõ e fassaõ intey-|ramente cumprir, dentro de dous annoz, os

14 “[…] verba dicendi, sentiendi, sciendi, Verben der Sinneswarnehmung” (Raible 1992: 105).
310 Alessandra Castilho Ferreira da Costa

quaiz [consedo] | aos ditoz meoz testamenteyroz, para darem Suaz Con-
taz| e por estas conforme este testamento (1767)
(29) Eporquanto esta | é aminha ultima vontade do modo que tenho dito […]
epor eu naõ Saber Ler nem escrever pedê á Paulo Coelho, que este por
mim escrevesse, eameu| rogo assinasse (1768)
(30) e depois de escripto e lido pelo|mesmo escriptor, por o achar con-|forme
havia ditado, por não sa-|ber ler nem escrever, pedi a Ig-|nacio Garcia da
Trindade, este por a meo rogo assignasse por ser es-|ta a minha unica e
ultima vontade (1870)
(31) E pôr esse mo-| do disse ele testador que havia por feitas suas declara-
ções|testamentárias, manifestando sua última vontade. […] e a rogo do
mesmo testador,| que por seu estado de doença, não pode escrever,
(1941)
Observa-se acima que a expressão de causalidade é atualizada por meio de
diferentes técnicas de integração sintática, tais como subordinação com
“porquanto” e anteposição da subordinada e preposição simples “por” se-
guida de construção infinitiva. No caso da construção gerundial “manifes-
tando”, há a expressão de consequência, dado que a manifestação de última
vontade é efeito da causa (ter feito as disposições testamentárias). Essas
técnicas correspondem aos níveis IV (subordinação), V (construções gerun-
diais e participiais) e VII (preposições simples) do contínuo de integração
sintática proposto por Raible. Isso significa que são técnicas mais próximas
do polo da integração sintática e que indicam maior sintonia do texto com a
escrituralidade.
Por fim, típico do escatocolo nos testamentos dos séculos XVIII a XIX é a
expressão de motivo (Veranlassung) por meio do grupo preposicional “a
rogo de”, quando o testador não pode ele mesmo assinar. Nesse caso, para
que o documento não perca sua validade, é necessário que uma das
testemunhas assine em lugar do testador e que o documento indique ser essa
assinatura autorizada pelo próprio:
(32) nesta mesma Povoassaõ de Mopebú em | o dito dia mez, eano atraz dec-
larado. = Assino a rogo de | Joana da Rocha, e como testemunha que o
escrevi = | Paulo Coelho. = (1768)
(33) Villa de Coité doze de | Novembro de mil oitocentos e set-|tenta= Arro-
go da Testadora Anna| de Araujo Pereira = Francisco da Costa Cirne
(1871)
(34) Povoação de Santa Cruz dezesette de| Julho de mil oitocentos settenta=|
Arogo do Testador Ignacio Jozé Rodrigues Cherein= Manoel | Timotheo
Ferreira Lustoza= Como Tes-|temunha (1870)
As tendências de uniformização na utilização de técnicas de junção em dife-
rentes zonas textuais dos testamentos (invocatio, notificatio, datatio, arenga,
Tradições discursivas, textuais e linguísticas 311

dispositio, corroboratio, escatocolo) permitem reconhecer pelo menos dois mo-


delos textuais: o modelo Breve Aparelho e o modelo Tratado regular e prático.
Os itens linguísticos, bem como as relações semânticas e as técnicas de inte-
gração sintática que constituem ambos os modelos são apresentados nas
tabelas abaixo:

Tabela 10: Itens linguísticos do modelo textual Breve Aparelho

Modelo Breve Aparelho


Unidade Técnicas de Relações Itens Linguísticos
Retórica Integração Semânticas
Sintática
Invocatio Grupo Motivo “em nome da”
preposicional
(VI)
Notificatio Advérbio Correspondência “na forma seguinte”
Juntivo (II)
Datatio Grupo Tempo “no ano de”; “no anno do”;
preposicional “no ano do”
(VI)
Arenga Construção Modo / Causa “estando”, “temendo”; “dese-
gerundial (V) jando”; “dezejando”; “achan-
do”
Preposição
simples + Inf. Causa
“por”
Dispositio Papel Causador- “declaro que”, “declara que”,
actancial causado “declarou que”
(VIII)
Corroboratio Preposição Causa “por”
Simples + Inf.
Subordinação Causa “por quanto”; “porquanto”
(IV)
Escatocolo Grupo Motivo “a rogo do”; “arogo do”; “ar-
preposicional rogo da”; “a rogo de”
(VI)
312 Alessandra Castilho Ferreira da Costa

Tabela 11: Itens linguísticos do modelo textual Tratado regular e prático

Modelo Tratado regular e prático


Unidade Técnicas de Inte- Relações Semân- Itens Linguísticos
Retórica gração Sintática ticas
Invocatio Grupo preposici- Motivo “em nome da”
onal (VI)
Notificatio Grupo preposici- Temporal “para depois de (minha
onal (VI) morte)”
Arenga Subordinação Campo de In- “em cuja fé / religião
fluência protesto viver e morrer”
Dispositio Construção ge- Condicionalidade “falecendo …, desejo ser
rundial sepultado”
Corroboratio Preposição Simp- Instrumento “por este testamento
les + SN revogo …”
Escatocolo Grupo preposici- Motivo “a rogo do”; “arogo do”;
onal (VI) “arrogo da”; “a rogo de”

O gráfico 1 a seguir mostra como os juntores típicos dos modelos BA e T se


dividem entre os grupos de testamentos do nosso corpus: Percebemos três
diferentes tendências entre as populações com relação ao uso dos juntores
típicos de cada modelo. Nos testamentos do século XVIII, predominam os
itens linguísticos do modelo Breve Aparelho, ao passo que nos testamentos do
século XIX, os dois modelos, Breve Aparelho e Tratado regular e prático coex-
istem. Nos dados do século XX, há clara preferência pelos itens linguísticos
do modelo Tratado regular e prático.

Gráfico 1: Distribuição dos juntores típicos dos modelos BA e T por século


Tradições discursivas, textuais e linguísticas 313

No gráfico 2 a seguir, verificamos como as relações semânticas de motivo,


correspondência, tempo, causa, condicionalidade, instrumento e campo de
influência (na terminologia de Raible, “Veranlassung”, “Zuordnung”,
“Zeit”, “Ursache”, “Bedingung”, “Einflußbereich”) se distribuem nos três
cortes diacrônicos:

Gráfico 2: Distribuição das relações semânticas de motivo, correspondência, tempo,


causa, condicionalidade, instrumento e campo de influência pelo corpus

Com relação à distribuição das relações semânticas pelos grupos de testa-


mentos, a principal diferença entre os 3 cortes reside na expressão de causa-
lidade. Dado que a causalidade nos testamentos ocorre em grande parte na
arenga de cunho religioso / soteriológico, pode-se entender por que sua
distribuição é mais alta nos dados do século XVIII e se torna mais baixa nos
dados do século XIX e XX: nos cortes posteriores, o modelo laico de testa-
mento acaba por impor-se.
Com relação à distribuição dos juntores típicos pelos graus de integração
sintática, o seguinte gráfico mostra que a técnica de junção mais frequente
em todos os três cortes é a subordinação.
314 Alessandra Castilho Ferreira da Costa

Gráfico 3: Distribuição dos níveis de integração sintática dos juntores típicos pelo
corpus

Outro aspecto relevante que o gráfico permite observar é que no geral o


testamento se mostra como um gênero que dá preferência a técnicas mais
integrativas, já que as técnicas mais agregativas como advérbios juntivos e
coordenação têm pouca representatividade entre os juntores típicos.
Também se pode observar que há uma certa tendência dos dados rela-
tivos aos séculos XIX e XX de apresentarem maior frequência no uso de
grupos preposicionais e preposições simples, que são as técnicas mais inte-
grativas do eixo sintático proposto por Raible. Nesse sentido, os dados rela-
tivos a esse período parecem se aproximar mais da distância comunicativa
que os dados relativos ao século XVIII.

5 Considerações finais

Na análise apresentada, a hipótese de que diferentes filiações históricas dão


preferência a diferentes técnicas de junção pôde ser comprovada por meio
da identificação de duas diferentes filiações históricas em nossos dados: o
modelo textual proposto pelo Breve Aparelho e aquele proposto pelo Tratado
regular e prático. Com a identificação dos juntores típicos dessas duas tra-
dições discursivas, pudemos reconhecer as famílias de textos internas ao
nosso agrupamento de testamentos. Nesse sentido, o presente estudo corro-
bora a tese de Kabatek (2006) de que as técnicas de junção funcionam como
sintomas de tradições discursivas.
Tradições discursivas, textuais e linguísticas 315

Com relação às variedades linguísticas empregadas nos dados analisa-


dos, observa-se nas partes mais formulaicas desses textos o uso de formula-
ções que remetem a sincronias anteriores, como é o caso das convergências
entre testamentos norte-rio-grandenses do século XVIII que atualizam o
modelo do Breve Aparelho, elaborado no século XVII em português europeu.
Ao mesmo tempo, nas partes menos formulaicas observou-se a influência de
fenômenos típicos da oralidade e, portanto, do vernáculo da época. Assim,
um mesmo texto apresenta aspectos linguísticos de diferentes sistemas e
essa heterogeneidade interna deve ser considerada em estudos de mudança
linguística.
Na tarefa de identificar os entornos dos textos, entendemos que as rela-
ções de evocação que se estabelecem entre um determinado texto e outros
textos anteriores são fundamentais para a compreensão do sentido desse
texto. Uma análise preliminar de textos reguladores que estabelecem rela-
ções interdiscursivas com os exemplares de um determinado gênero e in-
fluenciam a adoção de determinadas formas linguísticas é, portanto, um
procedimento hermenêutico para a pesquisa de textos de sincronias passa-
das. Buscamos apontar a relevância desse procedimento, destacando a in-
fluência de manuais de bem morrer e de tratados jurídicos na produção de
testamentos norte-rio-grandenses dos séculos XVIII a XX.

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