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Sammis Reachers

A Concha Azul
Mistério e aventura
na Baía de Guanabara

t Conto t

Os oito mil reais mensais auferidos por seu trabalho como mergulhador da
Petrobrás permitiam a Juliano oferecer uma muito cômoda vida à sua
família. A profissão de mergulhador, para além disso, o levara a conhecer
quase meio mundo. O regime de trabalho, por plantões, lhe permitia muito
tempo livre, que dedicara ao seu crescimento pessoal, com viagens e duas
graduações – em História e Filosofia – que ele fizera apenas pelo prazer da
realização intelectual.
Nos últimos tempos Juliano estava à frente de uma pequena equipe
especializada em realizar sondagens e pequenos reparos em plataformas
petrolíferas, mas já não indo até elas: elas é que “vinham” a eles. A Petrobrás
passara a ancorar plataformas petrolíferas a serem consertadas ou
aprimoradas dentro da Baía de Guanabara – dita Iguaá-Mbara pelos
primeiros índios que habitaram seu entorno – o que permitia aos
mergulhadores daquela equipe privilegiada não ter que viajar
constantemente.

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Numa dessas missões, a equipe se dirigira para o litoral da cidade de Niterói,
um dos sete municípios que compõem o circuito litorâneo da Baía. A bordo
de uma pequena lancha, amparados por uma equipe de três tripulantes e
um engenheiro naval, os três mergulhadores submergiram próximo aos
bairros niteroienses de Boa Viagem e Gragoatá, local onde estava fundeada
a plataforma que seria avaliada.
Os mergulhadores iniciaram as inspeções de rotina, observando coluna por
coluna de sustentação dos flutuadores daquela imensa estrutura metálica
semissubmersível. Foi quando, na terceira das colunas vistoriadas, o
mergulhador experimentado que encabeçava a equipe viu aquela concha.
Azul rutilante entre o caos calcário das cracas e algas, aquilo era uma
impossibilidade mineralógica intuível até por um leigo. Era mesmo como se
aquela concha, dentre a profusão turva de dejetos, pulsasse. Juliano fez sinal
para Edvaldo, que carregava sua máquina fotográfica padrão. Deixando
seu afazer, aproximou-se e fotografou a concha. Fez um sinal de OK com
os dedos para Juliano, que sorriu para si dentro de seu snorkel. Belíssima
foto.
Enquanto Juliano e Edvaldo se comunicavam por sinais, o terceiro membro
da equipe, Mauro, que fora alertado pelo flash da máquina fotográfica, se
aproximou da esplendorosa carcaça do crustáceo, e puxou-a.
Não se saberá jamais se foi o simples toque naquele objeto, ou se o fato dele
ter sido arrancado da cracaria o que deflagrara um tipo de gatilho: um
clarão azul inundou o entorno, fremente como uma onda de choque,
adensando por um instante a água com seu pulso, cegando e atordoando os
três mergulhadores. Após dissipar-se, não havia mais turbidez maculando
a água, agora límpida. Junto com a poeirenta fuligem marinha,
desaparecera a própria plataforma.

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- O que você fez? – gritou Juliano pelo rádio. Mauro, desnorteado e com a
concha nas mãos, não podia falar, e com a mão livre fez sinal de espalmá-
la na horizontal, como quem diz “não sei!”
Edvaldo, após olhar em todas as direções, comunicou o sumiço da
plataforma.
- A plataforma sumiu! Será que a explosão nos lançou para longe dela?
Mas aquela explosão fora mais de luz do que de ondas de choque. Juliano
instintivamente apertou com mais força a coronha de seu arpão.
A tentativa de comunicação via rádio com a superfície redundara apenas
em silêncio. Sequer as mudanças de frequência do rádio davam algum sinal.
Juliano, líder da equipe, fez sinal para o grupo emergir.
Além do espelho d’água, uma paisagem arcana, feita de azuis e matas
intactas, os saudara. Nenhum navio, nenhum edifício. Um horror frágil e
desconcertante tomou conta dos mergulhadores, emudecendo-os.
Ao longe, divisaram a luz de uma fogueira, que ardia apesar do sol que
ainda brilhava naquele final de tarde. Juliano fez sinal para que eles
avançassem para a praia.
Mauro, menos experiente, não se conteve:
– Juliano, o que está acontecendo? Fomos jogados pra longe? Cara, olhe
para o outro lado da baía!!!
Somente então, alguns minutos depois de emergirem da deflagração
daquela singularidade que os atordoara, puderam divisar à distância o
contorno do Pão de Açúcar. Se não havia respostas, tampouco dúvidas
restavam: estavam no mesmo lugar em que haviam mergulhado, às
margens da praia de Gragoatá, em Niterói. Mas o contorno da orla estava
diferente: a praia era muito mais longa, pois os imensos aterros que
expandiram a região do centro de Niterói, mar adentro, inexistiam; o
pequeno Forte do Gragoatá, única construção visível naquelas margens

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verdejantes, estava algo diferente, derramado por sobre uma grande pedra.
Nenhuma sentinela ou vivalma que fosse era visível por sobre as amuradas.
O que era tudo aquilo?
Do outro lado da baía de Guanabara, o que fora ou seria um dia o Rio de
Janeiro refulgia em seu esplendor de rocha e mata. Praticamente nenhum
prédio, nenhum construto humano era visível.
Um breve diálogo de horror se estabeleceu e morreu entre os três
mergulhadores. Se não havia respostas, havia a fogueira, sinal humano, e
onde há homens há esclarecimentos – ou ao menos essa era a intuição que
lhes animava.
Ao aproximarem-se um quilômetro mais daquela grande fogueira,
notaram figuras humanas em seu derredor. Avançando agora em cautela,
logo perceberam que eram indígenas. Índios aprisionados. Em torno de 15
indivíduos, dentre aparentemente homens, mulheres e crianças, estavam de
pé, e amarrados com uma mesma e longa corda, que lhes cruzava os pulsos
e pescoços, formando uma sinistra corrente humana.
O relevo sobre o qual os mergulhadores avançavam margeava em curva a
linha do litoral. A princípio se perguntaram o porquê de os aprisionados
não se moverem, ou buscarem escapar. Mas ao seguir sua marcha em
curva, logo receberam, dum único golpe, as respostas àquelas dúvidas. A
alguns metros do grupo indígena que circundava a grande fogueira, seis
indivíduos brancos faziam guarda, quatro em pé, dois sentados,
aparentemente manuseando seus armamentos. E, na ponta de seu campo
visual, viram um grande navio, velha caravela de escura madeira.
Os três abrigaram-se sob a capa de um arbusto e debateram sobre o que
fazer. Edvaldo falou que estava claro que haviam viajado no tempo. Mauro
apenas ria e chorava de nervoso. Juliano, o silencioso líder, soltou alguns
resmungos e disse que poderiam estar talvez numa outra dimensão. Falou

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também o que deveriam fazer: Esconder o máximo possível de apetrechos
e trajes que causassem estranhamento naquelas pessoas, e avançar até elas,
contando alguma história sobre serem de algum povo do interior, fruto
talvez de uma incursão de algum desbravador português. Sim, pois
certamente aqueles eram portugueses; e estranhariam o sotaque dos três
desterrados do tempo ou do espaço multidimensional.
Ao aproximarem-se ainda mais, sempre às ocultas, o experimentado
Juliano julgou ouvir alguns gritos. Observando, percebeu que um dos
brancos gritava ordens a um outro, fora do campo de visão, talvez vindo da
direção em que estava fundeado o navio deles. Uma nova pausa, enquanto
ouvia atento, foi seguida de um novo descarte de impropérios e palavrões.
Juliano ouvira bem diversas das palavras gritadas, mas nenhuma delas
soava em português. Se não compreendeu perfeitamente o que era falado,
ao menos a língua ficou logo clara, a velha língua dos francos. Eram
franceses aqueles captores de indígenas. O líder da equipe falava algo da
língua, de quando trabalhara na Líbia, no início de sua carreira como
mergulhador. Mas havia algo diferente dos diversos sotaques franceses com
que lidara naqueles quase nova anos de trabalho: aqueles indivíduos eram
falantes de um francês acobreado, crioulo, um francês calcinado pela
maresia.
O mergulhador soltou mais alguns palavrões.
Na verdade, era o historiador nele quem vomitava impropérios, pois,
passado o primeiro susto, um horror mais calmo se estabeleceu, uma
fagulha de compreensão.
Juliano se graduara em História e era bom leitor, mas não um especialista
naquele período. No entanto, as vestimentas daqueles prováveis franceses,
a forma com que caçoavam uns dos outros, enquanto bebiam o líquido

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rubro de algumas garrafas, possivelmente algum destilado, levou Juliano a
sugerir que se tratavam na verdade de piratas.
Nesse caso, o risco de uma aproximação era muito maior. Bem fariam em
dar meia volta e procurar alguma povoação, ou simplesmente tentar a
sobrevivência em meio à mata, pois a noite já descia seu véu negro sobre a
paisagem.
Juliano bem sabia que a Baía de Guanabara é cercada por fortes. O Forte do
Gragoatá, embora um pouco diferente do que ele conhecia, ali estava como
prova. Eram o instrumento de defesa – nem sempre efetivo – contra
incursões de conquistadores ou corsários.
Tudo de que ele se lembrava era que aconteceram ao menos duas grandes
incursões de corsários franceses seguidas na Guanabara, a primeira sendo
rechaçada, o que induziu o governo colonial a erro acreditando que as
fortalezas que guarneciam a entrada ou barra da baía eram inexpugnáveis;
no ano seguinte, uma armada mais poderosa em homens e em armas, e
chefiada por um pirata de maiores capacidades, de cujo maldito nome
Juliano não conseguia se lembrar, apanhou a cidade de calças arriadas, e
permaneceu aqui certo tempo, só saindo após obter duro resgate.
Só agora ocorria ao historiador que nada aprendera sobre alguma eventual
chegada dos franceses à Vila Real da Praia Grande, a que hoje é Niterói. Mas
seria natural que, em busca de saques e de debelar focos de resistência como
aquele forte, eles chegassem ao outro lado da Baía, sendo tão próximo da
cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Seriam assim aqueles lobos do
mar membros da armada que tomara a cidade do Rio?
Enquanto confabulavam, Juliano mantinha o olhar fixo na movimentação
daquela clareira. Foi quando percebeu que um dos indígenas,
aparentemente um idoso, devido aos seus longos cabelos brancos, estava
virado na direção em que eles se encontravam, e parecia mesmo observar

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fixamente aquela posição. Mesmo a boa distância, esse breve momento de
cruzamento de olhares fez o velho, que tinha como os demais as duas mãos
amarradas à frente de seu corpo, abrir uma de suas mãos, de onde deixou
escapar um fulgor azul de grande singularidade. Era a concha! A concha
que os jogara naquele pesadelo brilhava nas mãos do índio que dera as
costas aos franceses e parecia ter certeza de que alguém estava ali, naquela
mata, observando-os.
Havia algo familiar no olhar daquele ancião. E havia algo de sinistro no fato
dele não suspender os olhos que pesavam sem cessar sobre a figura de
Juliano – e como que apenas sobre a dele.
Agora o mistério ganhava novas cores; melhor, uma única e fulminante cor
azul, uma concha ou gema ou olho-do-diabo ou que diabos fosse que tinha
ou precisava ter a resposta. A explicação para tudo aquilo poderia esperar,
mesmo que pelas eternidades. Mas era preciso apossar-se da concha; ela os
lançara naquele sonho-pesadelo, e talvez fosse a porta de saída. No entanto,
para isso talvez fosse necessário não apenas aproximar-se mais do grupo
de índios, mas provavelmente libertá-los – pois o velho exibira a concha
como um chamariz –, o que aconteceria não sem luta contra aquele corpo
de piratas, que eles sequer sabiam quantos eram. O que quer que fosse toda
aquela desgraça, a maldita concha era o graal a ser reconquistado.
Edvaldo, exausto, propôs que esperassem o dia seguinte e o andamento da
situação, para analisar uma melhor maneira de proceder. Mas a questão
era clara para Juliano: eles estavam favoravelmente próximos do pequeno
acampamento pirata, e a noite já caíra. Era preciso se aproximar e soltar os
índios, e apanhar a concha daquele estranho personagem, e se necessário
fosse, dar cabo daquelas brancas ratazanas do mar.
Juliano perguntou se algum de seus companheiros já havia matado alguém.
Espantadas, cabeças balançaram-se lateralmente em resposta. De toda

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forma, ambos foram militares antes de optarem pela mais rentável profissão
de mergulhadores civis da Petrobrás. Ao menos possuíam treinamento
militar.
* * *

O trio esperou por horas até que a maior parte dos franceses de guarda
adormecesse.
Ao perceber a aproximação do grupo, o velho, como quem já aguardasse
aquele movimento, cutucou alguns dos outros índios que lhe estavam
próximos, acordando-os. Com sua faca de mergulho Morakniv, por acaso
comprada numa loja de militaria nesta mesma futura cidade de Niterói,
Juliano cortou primeiro as cordas de seu pulso. Rapidamente outros foram
desenlaçando-se.
Enquanto isso, os dois vigias que montavam guarda mais próximos aos
indígenas foram alcançados pelos demais mergulhadores. Edvaldo não
hesitou em cortar, mesmo desajeitado, a garganta do francês, adormecido
sobre uma pedra de granito.
Foi o jovem Mauro, mais uma vez, quem pôs tudo a perder. Ao aproximar
a faca da garganta do embriagado francês, Mauro cometera o erro de puxar
primeiro sua cabeça, agarrando-o pela farta cabeleira, como se desejando
melhor expor o alvo de sua navalhada. Aquilo foi o suficiente para o pirata
despertar em susto e em ação, dirigindo um soco para trás, que, embora
pegasse de raspão no rosto de Mauro, lhe atrapalhou o movimento de corte.
O que se seguiu foi uma luta corporal, barulhenta pelos gritos do francês.
Juliano foi pego de surpresa pela gritaria; estava absorto e algo desesperado
não tanto em libertar os demais indígenas, mas em inquirir, mesmo sem
palavras, ao velho índio que aparentemente, ao abrir as mãos, não mostrava
mais a maldita concha. Outros gritos em francês se fizeram ouvir à

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distância. Agora era tarde para dar atenção ao velho. Gritando, Juliano
alertou Edvaldo:
– Apanhe a espada do francês e vá ajudar Mauro! Depois recuem!
De posse da gasta espada do corsário que abatera, afoito e tremendo pelo
desespero da situação, Edvaldo lançou-se sobre os dois corpos que se
engalfinhavam na escuridão, atravessando a barriga do francês bem à
direita de seu umbigo, mas causando um pequeno talho num dos braços de
Mauro.
O primeiro clarão espocou pela noite da Guanabara, detonado a partir do
bacamarte de uma sentinela dos sicários.
Dando a mão ao igualmente trêmulo Mauro, Edvaldo o puxou para junto
de si e ambos correram em desabalada carreira em direção a Juliano e
alguns indígenas. A maioria dos quais havia fugido, mas sete deles
permaneceram e, apanhando paus e pedras, faziam menção de oferecer
combate aos seus captores.
No entanto, em campo aberto e contra o fogo de bacamartes, a causa estaria
perdida. Assim, Juliano, tocando o idoso e o forte índio de meia idade que
parecia ser o líder daqueles que ficaram, apontou para um amontoado de
arbustos a alguma distância, justamente de onde ele e seus companheiros
vieram, antes de iniciar o assalto ao acampamento.
Agora eram já diversos os franceses que vinham em socorro de seus
companheiros. Da mata, sem condições, pela geografia do lugar, de
prosseguir na fuga, os fugitivos espreitavam o avanço dos franceses.
Nesse entrevero, Juliano, sempre perseguido pelo olhar severo do velho, que
talvez fosse um pajé, pelo diferenciado de plumas que tinha enfeixado em
pulseiras em seus braços, apanhou a mão do ancião e fez o movimento que
o mesmo fizera antes, exibindo a concha à distância. Em resposta, o velho,
que não emitia palavra, balançou a cabeça negativamente, enquanto

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Juliano se enchia de fúria. Num rompante, garroteou o pescoço do velho
com uma de suas fortes mãos, enquanto seus olhos se cruzavam, uma vez
mais, em silêncio. O velho não tentou se desvencilhar, e manteve sua
expressão impassível, como que em desafio. Mas, daquele olhar firme,
porém cansado, um brilho diferente refletiu a suave luz da lua minguante
que abraçava os céus daquela noite fantástica. Eram lágrimas.
Foi então que Juliano sentiu o maior dos desconcertos. Havia algo de
familiar naquele olhar mudo. Familiar o bastante para o fazer afrouxar sua
pegada, e por fim soltar o velho.
Em meio à confusão, uma outra ação precipitada pôs novamente tudo em
risco: vendo a aproximação de dois franceses, que se achegavam à posição
em que se acoitavam, três dos indígenas, ao invés de aguardarem uma
maior proximidade, lançaram-se em ataque sobre a dupla, emitindo gritos
de guerra. Dois deles atiraram pedras, uma das quais logrou atingir o
ombro de um dos corsários, mas o golpe foi impotente para derrubá-lo ou
tirá-lo de combate. Em resposta, os franceses dispararam suas garruchas,
atingindo um dos atacantes. Sacando logo suas espadas, os navegantes
habituados a sangue rapidamente perfuraram os dois indígenas da
vanguarda, cujos paus foram impotentes para impedir os golpes
fulminantes dos floretes.
Apanhados pela ação temerária dos índios, Mauro e Edvaldo lançaram-se
em socorro aos companheiros. Uma batalha de floretes, paus e socos se
seguiu; ao custo de mais uma vida indígena, e um belo corte na perna de
Edvaldo, os piratas foram sobrepujados.
Mas agora sua posição estava descoberta; pelo menos quatro outros
franceses avançavam sobre o grupo formado pelos dois mergulhadores e o
indígena restante. Era tarde demais para recuos; Juliano despediu-se de
entre as moitas em direção aos seus companheiros, ansioso por chegar a um

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dos corpos franceses – e a uma das espadas, pois tudo que portava era uma
faca – antes da aproximação dos demais atacantes.
Por sorte, apenas um elemento dessa nova leva de piratas portava uma
garrucha, que disparou a esmo, sem acertar ninguém. Juliano, alcançando
um dos corpos, apanhou a espada e cerrou fileira, lâmina em punho, ao
lado de Mauro e Edvaldo, como três desmazelados ou ao menos
improvisados mosqueteiros. O índio que os acompanhava apanhou um
pedaço de pau; outros dois indígenas que seguiram Juliano logo se
juntaram ao corpo de resistentes, um deles apanhando também uma das
espadas. O velho, débil demais para combater, ficara sob a cobertura das
moitas.
A luta que se seguiu, talhada pela penumbra, foi marcada pelo despreparo
dos mergulhadores no manejo da espada, o que foi suprido pela fúria dos
indígenas, que lutavam com um furor surpreendente, como se fossem
vikings ou guerreiros berserkers normandos. Corsários, indígenas e aqueles
viajantes temporais, dimensionais ou egressos do sonho se engalfinharam
num amontoado de faíscas, gritos e sangue.
Dos mergulhadores, o primeiro a tombar fora Edvaldo; sua barriga fora
rasgada. Sentindo uma dor excruciante, caíra ao chão enquanto segurava
tecidos pegajosos e quentes – suas vísceras. Impossibilitado de levantar-se,
era pisoteado pelos combatentes, e enquanto o tempo transcorria ele se
espantava, segundo a segundo, do fato de que ainda não morrera. Se era um
sonho tudo aquilo, ele não devia ter acordado?
Apoiado por dois dos indígenas, que se atracaram a um dos franceses,
Mauro conseguira desferir uma estocada certeira no rosto de seu oponente;
mas a inexperiência em batalha o fizera baixar a guarda, acreditando estar
vencido o inimigo. Avançando como um touro, mesmo tendo um dos índios
agarrado em seu cangote, antes de tombar sem forças o ferido francês

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estocou de raspão o pescoço de Mauro, cujo sangue passou a jorrar.
Empapado pelo sangue que mal podia divisar num momento em que
nuvens cobriam a fraca luz da lua, Mauro cruzava finalmente a tênue linha
vermelha que separa a sanidade da loucura. Desnorteado e gritando
palavras desconexas, pensava apenas em fugir. Retornar ao mar, mergulhar
em busca daquela estranha concha, aquela que deflagrara o clarão. E foi o
que fez: correu para a praia, correu em busca do mar que nunca esquece
os seus. Seu sangue esvaía-se como petróleo ruim, fino, enquanto as águas
já lineavam seus joelhos. “A concha, a concha!”, gritava enquanto misturava
seu sangue com a água salgada; a concha que ele morreria antes de
encontrar...
Ocupado em duelar contra o último dos franceses em pé, Juliano nada pôde
fazer pelo amigo; enquanto mais dois franceses se aproximavam, nosso
involuntário libertador de escravos contabilizava as baixas: seus dois
companheiros aparentemente se haviam perdido; dos seis indígenas
combatentes, apenas dois deles estavam ainda em pé, um deles amargando
uma profunda ferida na costela, enquanto, armado com um florete, fazia
cerco ao francês. Aproveitando o momento de pausa, enquanto os quatro
combatentes se mediam, Juliano apanhou mais uma espada, ocupando
agora suas duas mãos. Era preciso eliminar aquele francês antes que os
outros chegassem ao teatro de batalha; imediatamente avançou contra seu
oponente, sendo seguido pelos dois indígenas. Aproveitando-se das duas
espadas, após o primeiro ataque, a título de distração, executou um
movimento em forma de X, recebendo – como imaginara – o contra-ataque
do francês, prendendo momentaneamente sua lâmina. O suficiente para
um ataque do indígena, que, se errou seu golpe, ao menos distraiu o
oponente o suficiente para que Juliano lhe apunhalasse no peito.

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À distância, um dos franceses que acorriam em socorro de seus comparsas,
armado com um bacamarte, ajoelhou-se para fazer pontaria e disparou. O
instintivo grito de “abaixem-se” de Juliano não surtiu efeito algum sobre
seus companheiros, falantes talvez de alguma língua do tronco tupi-
guarani; um deles foi atingido. O outro dos franceses, armado de uma
garrucha, seguia avançando, enquanto seu companheiro parecia estar já
recarregando a arma.
Era o momento da verdade; apanhando as duas espadas numa única mão,
Juliano arremeteu contra o francês, correndo à toda, no que foi seguido pelo
índio que sobrevivera.
A certa distância, enquanto o francês tentava fazer pontaria enquanto
corria, Juliano aproveitou sua mão livre – para isso a deixara vaga – para
lançar sua faca de mergulho como um dardo em direção ao seu oponente.
A faca acertou o gorducho pirata num dos braços, por sorte o que
empunhava a garrucha. O francês a soltou, mas imediatamente se pôs a
catá-la por entre as moitas. Antes que pudesse encontrá-la, Juliano já
saltava sobre o sicário com suas duas espadas, atravessando-o em pontos
paralelos, pouco abaixo do pescoço. O homem que sempre fora um bom
aprendiz no que quer que se propusesse a fazer, demonstrava já uma
insuspeita habilidade na antiga arte de retalhar carne humana.
Enquanto isso, o indígena avançara em direção ao outro pirata. O sicário
finalizava a recarga de seu grande trabuco, enquanto o índio, como que
cavalgando um corcel de puro ódio, gritava e corria a uma velocidade que
pareceu a Juliano sobrenatural. Ao levantar a ponta da espada, como se fora
uma lança, para atravessar o atirador agachado, foi freado pelo impacto das
bolotas de ferro contra seu peito. Tombou a menos de cinquenta
centímetros de seu oponente.

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Agora era Juliano quem corria em direção ao atirador, que se levantara e,
sacando sua espada, aguardava como que pacientemente a investida do
mergulhador. A perícia daquele último corsário fez-se logo evidente;
mesmo com uma única espada, defendia-se com certa facilidade dos
ataques das duas espadas de Juliano. Em pouco tempo, dois talhos, um num
braço, pouco abaixo do deltoide, e outro num antebraço, faziam Juliano
sangrar.
A hiena do mar, até ali em silêncio, perguntou naquele seu estranho francês,
quem era Juliano. O mergulhador, mesmo julgando compreender o teor da
pergunta, nada respondera; seu oponente então fez a mesma pergunta,
agora em espanhol. O jogo de esgrimas continuava, e a situação era
desfavorável para nosso cansado e não treinado combatente.
Mas um flash mudou sua sorte. De longe, um brilho azul muito intenso
iluminou o local em que combatiam – um brilho que Juliano já conhecia,
mas agora muito mais forte; a momentânea distração que afetou o hábil
espadachim francês foi suficiente para Juliano estocar-lhe no baixo-ventre.
Seu adversário, como que refeito do susto, imediatamente reagiu causando-
lhe um profundo corte no rosto, antes que Juliano pudesse furá-lo mais
uma vez, agora com sua outra espada.
Recuando, o mergulhador soltou uma das espadas para apalpar sua ferida;
o francês, arrancando forças sabe-se lá de onde, tentou ainda avançar
contra seu oponente, mas viu-se impossibilitado pela dor que
provavelmente era causada pela perfuração de sua bexiga; tombou ao chão.
Respirando com dificuldade, exausto e empapado do rublo fluído vital,
somente agora Juliano percebera que o corte em seu antebraço vertera
muito sangue, e o fluxo ainda não estancara. Voltando a atenção para seus
companheiros caídos, recuou averiguando e confirmando a morte de todos
eles, enquanto tornava para a posição em que deixara o velho.

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Após alguns minutos de trôpega marcha, chegou à moita onde deixara o
pajé.
Seus olhos cansados e mudos mais uma vez se cruzaram; um inesperado
abraço fez com que Juliano largasse as lâminas escuras de sangue
coagulado e quedasse em espantado silêncio. Soltando-o, o velho abriu a
boca, donde imediatamente explodiu o clarão azul. O sagaz pajé escondera
a pedra, todo aquele tempo, dentro de sua boca, que por sinal jamais se
abrira até então. Por isso Juliano não a encontrara, quando da libertação do
velho e dos demais.
Apanhando a concha rutilante numa das mãos, o ancião agachou-se, como
que iluminando o solo. Apanhando com a outra mão um graveto, traçou
um pequeno risco no chão. A partir deste, traçou diversos outros riscos,
como se fossem galhos de uma grande árvore. Apontando então para o
primeiro risco que fizera, levou o dedo em direção ao próprio peito, como
dando a entender que aquele risco o representava; levando o dedo então a
um dos últimos “ramos” daquela grande árvore, apontou para Juliano. Em
seguida levantou-se, abaixou a cabeça como que em cumprimento, e
depositou a pedra nas mãos do mergulhador.
Após ou apesar do baque daquela estranha comunicação, Juliano acreditou,
mesmo contra o improvável, compreender o que o velho tentara explicar.
Talvez Juliano fosse um descendente daquele ancião; sim, um descendente
de quase quinze gerações posteriores. Mas, como?!!! E ainda que o fosse, o
que aquele pajé, velho antepassado do mergulhador, poderia saber sobre o
tempo e suas singularidades? Como ele pudera trazê-lo até ali? E para quê?
Um tal poder, magnífico, seria usado para levar a ele e a seus companheiros
até ali, apenas para libertar aqueles índios e para morrer? Uma tão
incompreensível viagem no tempo, por tão pouco? – pensava o historiador
enquanto segurava a concha.

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Antes que pudesse tentar, por sinais ou como fosse, indagar ao seu
“antepassado” como utilizar a concha para retornar ao seu ponto de origem,
pois ele a empunhara e nada acontecera, o idoso apontou para a direção de
onde Juliano e seus companheiros vieram, onde haviam encontrado a
concha, que por sinal era a mesma direção donde parecia que o sol, que já
dava seus primeiros sinais, iria nascer.
Sem poder dizer palavra, sequer para expressar sua revolta contra a
arbitrariedade daquela situação que custara a vida de seus companheiros,
sequer para perguntar que tipo de poder mágico era aquele, Juliano,
confuso e sentindo, somente agora, os humores do terror, pôs-se a correr.
Segurando firme a pequena concha anil, correndo em desespero buscando
como que acordar, ainda sangrando, Juliano pôde ver, sob um promontório,
os demais indígenas que ajudara a libertar – crianças, mulheres e idosos –,
observando-o em silêncio, enquanto ele avançava na direção donde nasce
o sol.

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NOTAS:

O Rio de Janeiro sofreu dois ataques corsários consecutivos, no século XVIII.


Em 1710, uma tentativa capitaneada pelo pirata Jean-François Duclerc foi
rechaçada pelo fogo coordenado das fortalezas que margeavam a barra da
Baía. Os portugueses haviam sido providencialmente avisados da chegada
dos piratas. O que não aconteceu no ano seguinte, em 1711, quando uma
maior armada (tendo quase o triplo de navios da anterior), aproveitando-
se da bruma da manhã e do fato de parte dos fortes estavam desguarnecidos,
penetrou ousadamente na Guanabara, venceu suas defesas e saqueou
durante dois meses a cidade, tendo boa parte da população fugido para o
interior. Somente após receberem resgate, deixaram a cidade. Seu chefe era
o pirata e aventureiro francês René Duguay-Trouin.

Quase dois séculos antes, quando franceses sob o comando de Vilegagnon


se aliaram a índios tamoios no domínio da Baía de Guanabara (onde fora
fundada a colônia francesa denominada França Antártica), o cacique
temiminó Araribóia auxiliou os portugueses na expulsão dos
conquistadores franceses e também dos tamoios, tribo inimiga da sua, em
1567. Como recompensa, recebeu as terras onde fundou Niterói.

O Forte de São Domingos do Gragoatá foi originalmente construído em


volta de uma grande pedra, que em tempo posterior foi cortada para a
abertura de uma estrada, margeando a costa. Disso decorre a diferença
entre o forte conhecido pelos mergulhadores, e o que encontraram no
“passado”.
A região que margeia o forte era constituída por uma longa linha de praia;
aterramentos posteriores diminuíram essa linha, mas deram espaço para a

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expansão do centro niteroiense, e para construções tais como os prédios do
campus Gragoatá da UFF (Universidade Federal Fluminense).

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Sobre o autor

Nascido em 1978 em Niterói, mas desde sempre morador de São Gonçalo, ambos
municípios fluminenses, Sammis Reachers é poeta, escritor, antologista e editor.
Autor de dez livros de poesia e três de contos/crônicas, organizador de mais de
quarenta antologias e professor de Geografia no tempo que lhe resta – ou vice-
versa.

Como autor, publicou:

POESIA
• São Gonçalo de Todos os Santos (1999).
• Uma Abertura na Noite (2006).
• A Blindagem Azul (2007).
• CONTÉM: ARMAS PESADAS (2012).
• Poemas da Guerra de Inverno (2012, 2014, 2021).
• Deus Amanhecer (2013).
• PULSÁTIL – Poemas canhestros & prosas ambidestras (2014).
• GRÃNADAS (2015).
• Poemas de Amor em Trânsito (2018).
• Cartas & Retornos (2021).

CONTOS / CRÔNICAS
• O Pequeno Livro dos Mortos (2015).
• RODORISOS – Histórias hilariantes do dia-a-dia dos Rodoviários (2017, 2021).
• Renato Cascão e Samy Maluco – Uma dupla do balacobaco (2021, a sair).

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