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08/05/2020 O Trabalho Feminino no Desenvolvimento da Economia

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O Trabalho Feminino no
Desenvolvimento da Economia
Alexandra Kollontai

1921

Primeira edição: 1921, em forma de panfleto.


Fonte: Selected Writings of Alexandra Kollontai, Allison & Busby, 1977.
Tradução do inglês: Leonardo Gomes, a partir da versão em inglês disponível no MIA
(https://www.marxists.org/archive/kollonta/1921/evolution.htm), abril de 2015.
HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: licenciado sob uma Licença Creative Commons.

Em sua busca por novas formas de economia e novos modos de vida que
atendam aos interesses do proletariado, a república soviética inevitavelmente
cometeu uma série de erros, e por diversas vezes teve de corrigir e mudar sua
linha. Porém, na esfera da criação socializada e da proteção da maternidade, a
república operária, desde seus primeiros meses de existência, tem traçado o
caminho correto para as mudanças futuras. E, nessa esfera, uma revolução
profunda e fundamental está em curso. Neste país, onde a propriedade privada
foi abolida e onde a política é ditada pelo desejo de apurar o nível da economia
geral, agora é possível lidar com problemas que eram insolúveis sob o sistema
burguês.

A Rússia soviética abordou a questão da proteção da maternidade, levando


em conta a solução para o problema básico da república operária – o
desenvolvimento das forças produtivas do país, o aumento e a restauração da
produção. Para tanto, é necessário, em primeiro lugar, voltar-se para as imensas
forças dedicadas ao trabalho improdutivo e utilizar com eficácia todos os
recursos disponíveis; e, em segundo lugar, garantir à república operária um fluxo
ininterrupto de novos trabalhadores no futuro, ou seja, garantir o aumento
normal da população.

Adotando-se esse ponto de vista, a questão da emancipação das mulheres


do fardo da maternidade soluciona-se por conta própria. O Estado operário
estabelece um princípio totalmente novo: a criação das novas gerações não é
uma questão familiar privada, mas um interesse sócio-estatal. A proteção e
salvaguarda da maternidade não é apenas do interesse da própria mulher, mas,
principalmente, do interesse da economia nacional, ao longo da transição para
um sistema socialista: é necessário resgatar as mulheres do gasto de energia
improdutivo no ambiente familiar para que tal energia seja utilizada de modo
eficiente para o benefício coletivo; é necessário proteger sua saúde a fim de
garantir à república operária um fluxo de trabalhadores saudáveis no futuro. No
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Estado burguês, não é possível tratar a questão da maternidade dessa forma: as


contradições de classe e a falta de unidade entre os interesses de economias
privadas e da economia nacional se tornam impedimentos. Em uma república
operária, por outro lado, na qual as economias individuais estão se dissolvendo
na economia geral e as classes estão se desintegrando e desaparecendo, tal
solução para a questão da maternidade é uma exigência da vida, é necessária. A
república operária enxerga as mulheres, primeiramente, como membros da força
de trabalho, como unidades de trabalho vivo; a função da maternidade é vista
como algo de grande importância, como uma função complementar que não é
familiar e privada, mas social.

“A nossa política acerca da proteção da maternidade e da infância”,


como destaca corretamente Vera Pavlovna Lebedeva, “é baseada na
imagem da mulher no processo produtivo, a qual nós temos sempre
em mente”.

Porém, para que a mulher tenha a possibilidade de participar do trabalho


produtivo sem violar sua natureza ou romper com a maternidade, é necessário
dar um segundo passo; é necessário que o coletivo assuma todos os cuidados da
maternidade que têm pesado tão intensamente sobre as mulheres,
reconhecendo, assim, que a responsabilidade de criar os pequenos deixa de ser
uma função da família privada e passa a ser uma função social do Estado. A
maternidade passa a ser vista sob uma nova ótica. O poder soviético vê a
maternidade como uma responsabilidade social. O poder soviético, com base
nesse princípio, esboçou uma série de medidas para remover o fardo da
maternidade das costas das mulheres e transferi-lo para as do Estado. O poder
soviético se responsabiliza pelo cuidado do bebê e pelo sustento material da
criança através do subdepartamento de Proteção da Maternidade e da Infância
(chefiado pela camarada V.P. Lebedeva) e da seção do Narkompros (o
Comissariado de Educação) dedicada à criação socializada.

O princípio aceito pelo poder soviético no que diz respeito a essa questão é
de que a mãe deixe de carregar a cruz da maternidade e experiencie apenas as
alegrias provenientes do contato da mulher com seu filho. Obviamente, esse
princípio está longe de ser realizado. Na prática, nós estamos muito aquém das
nossas intenções. Em nossas tentativas de construir novos modos de vida e de
viver, de emancipar a mulher trabalhadora das obrigações familiares, nós
sempre nos deparamos com os mesmos obstáculos: nossa pobreza e a
devastação da economia. Contudo, uma base já foi construída, os caminhos já
estão sendo apontados; a nossa missão é seguir em frente com firmeza e
obstinação.

A república operária não se limita à distribuição de benefícios e a prover


financeiramente pela maternidade. Seu objetivo, acima de tudo, é transformar as
condições de vida a fim de tornar absolutamente possível que uma mulher seja,
ao mesmo tempo, mãe e trabalhadora, além de preservar o bebê para o futuro
da república, cercando-o do cuidado e da atenção necessários. Desde os
primeiros meses de existência da ditadura do proletariado na Rússia, o poder

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operário e camponês tem sido bem-sucedido em sua missão de cobrir todo o país
com uma rede de instituições que visam à proteção da maternidade e à criação
socializada das crianças. A mãe e a criança se tornaram um objeto de atenção
especial na política soviética. Ao longo dos primeiros meses da revolução,
durante os quais ocupei o posto de Comissária do Povo do Bem-Estar Social, eu
considerava como minha missão primordial estabelecer o rumo que a república
operária deveria tomar na esfera da proteção dos interesses da mulher enquanto
unidade de trabalho e enquanto mãe. Nesse período, a secretaria dedicada à
proteção da maternidade foi estabelecida e passou a organizar modelos de
“palácios da maternidade”. A partir de então, a camarada Vera Pavlovna
Lebedeva tem trabalhado com competência e entusiasmo, e a causa da proteção
da maternidade floresceu e fincou raízes profundas. Desde o início de sua
gestação, a mulher trabalhadora recebe assistência do poder soviético. Agora, há
centros de atendimento à gestante e à lactante por todos os cantos da Rússia.
Nos tempos do czar, existiam apenas seis centros de atendimento; agora, nós
temos cerca de 200 deles e 138 lactários.

Porém, é claro, o objetivo mais importante é libertar a mãe trabalhadora do


trabalho improdutivo envolvido em atender às necessidades físicas da criança.
Ser mãe não significa, de modo algum, que a mulher deve trocar as fraldas, dar
banho no bebê ou sequer permanecer ao lado do berço. A obrigação social da
mãe é, acima de tudo, dar à luz um bebê saudável. A república operária deve,
portanto, oferecer à gestante as condições mais favoráveis possíveis; e a mulher,
por outro lado, deve obedecer a todas as regras de higiene ao longo de sua
gestação, lembrando-se de que, durante esse período, ela não é mais dona de si,
mas, sim, está a serviço do coletivo, “produzindo” no interior de seu próprio
corpo uma nova unidade de trabalho, um novo membro da república operária. A
segunda obrigação da mulher é amamentar seu bebê; apenas depois dessa
etapa a mulher tem o direito de dizer que cumpriu com suas obrigações. As
outras incumbências relativas aos cuidados dedicados à nova geração podem ser
desempenhadas pelo coletivo. Obviamente, o instinto maternal é forte, e não há
necessidade de suprimi-lo. Contudo, por que limitar esse instinto apenas ao
amor e à criação de seu próprio filho? Por que não permitir que esse instinto com
potencial valioso para a república operária se desenvolva sem restrições e
alcance seu ponto mais alto, quando a mulher não só cuida de seus próprios
filhos, mas desenvolve uma afeição por todas as crianças?

O slogan proposto pela república operária, “Não seja mãe apenas do seu
filho, mas de todos os filhos dos operários e camponeses”, deve mostrar à
mulher trabalhadora um novo ponto de vista acerca da maternidade. Houve
casos em que algumas mães, ainda que comunistas, se recusaram a amamentar
bebês que sofriam de má nutrição apenas por não serem “seus”. Tal
comportamento é aceitável? A sociedade do futuro, imbuída de seu sentimento e
sua compreensão comunistas, ficará tão chocada com tais atos egoístas e
antissociais quanto nós ficamos ao ler sobre a mulher da sociedade pré-histórica
que amava seus filhos, mas era capaz de comer crianças de outras tribos. Ou,
utilizando outro exemplo bastante frequente: a mãe que se recusa a amamentar
seu bebê para evitar o trabalho de cuidar dele. E será que nós podemos permitir
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que o número de crianças abandonadas na Rússia soviética continue crescendo


na atual proporção?

É verdade que a origem desses problemas está no fato de que a questão da


maternidade vem sendo discutida, mas ainda não foi solucionada. Nesse difícil
período de transição, centenas de mulheres sofrem o desgaste causado pelo
duplo fardo do trabalho assalariado e da maternidade. Não há creches, lares de
crianças e lares de gestantes suficientes, e o auxílio financeiro não é capaz de
acompanhar o aumento dos preços no mercado livre. Consequentemente, as
mulheres trabalhadoras temem a maternidade e abandonam seus filhos. O
aumento do número de crianças abandonadas, por outro lado, também é uma
evidência de que nem todas as mulheres da república operária entendem que a
maternidade não é uma questão privada, mas uma obrigação social. Aqueles que
trabalham com mulheres devem discutir essa questão e explicar às operárias, às
camponesas e às funcionárias de escritório as obrigações da maternidade à luz
da nova situação da república operária. Ao mesmo tempo, é fundamental
acelerar o trabalho de desenvolvimento do sistema de criação socializada e de
proteção da maternidade. Quanto mais fácil for para as mães combinarem
trabalho e maternidade, menor será o abandono de crianças.

Nós já destacamos que a maternidade não requer que a mãe esteja


permanentemente ao lado da criança ou que se dedique exclusivamente à sua
educação física e moral. A obrigação da mãe para com seus filhos é garantir que
seu crescimento e desenvolvimento se dê em um ambiente saudável e normal.
Na sociedade burguesa, as crianças saudáveis e felizes sempre pertencem às
classes abastadas, e nunca às classes mais pobres. Como isso se explica? Será
que é porque as mães burguesas se dedicaram exclusivamente à educação de
seus filhos? Absolutamente. As mamães burguesas alegremente entregavam
seus filhos aos cuidados de funcionárias contratadas: babás e governantas.
Apenas nas famílias pobres as mães carregam em suas costas todas as
dificuldades da maternidade; as crianças ficam com as mães, porém morrem
feito moscas. Não há qualquer condição para uma criação normal: a mãe não
tem tempo, então as crianças se criam na rua. Toda mãe da classe burguesa
logo transfere pelo menos uma parte da criação para a sociedade; ela manda seu
filho para o jardim de infância, para a escola ou para um acampamento de férias.
Uma mãe sensata sabe que a educação social é capaz de oferecer à criança algo
que o amor materno mais exclusivo não consegue. Nos prósperos círculos da
sociedade burguesa, onde é mais importante que a criança seja educada de
acordo com o espírito burguês, os pais entregam seus filhos aos cuidados de
babás, médicos e pedagogos. Profissionais contratados assumem o papel da mãe
na supervisão dos cuidados físicos e da educação moral da criança, e resta à
mãe apenas um direito natural e inalienável: o direito de dar à luz uma criança.

A república operária não toma as crianças dos braços de suas mães à força,
como versam os relatos fictícios dos países burgueses sobre os horrores do
“regime bolchevique”; pelo contrário, a república operária procura criar
instituições que permitam que todas as mulheres, e não apenas as mulheres
ricas, tenham a oportunidade de criar seus filhos em um ambiente saudável e
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feliz. Em vez de levar mães angustiadas a largarem seus filhos sob os cuidados
de uma babá contratada, a Rússia soviética deseja que a operária e a camponesa
possam trabalhar tranquilamente, sabendo que seu filho estará seguro nas mãos
hábeis de uma creche, de um jardim de infância ou de um lar de crianças.

A fim de proteger a mulher como reprodutora racial, a república operária


criou “lares de gestantes”, e vem tentando abrir novas unidades onde quer que
elas sejam mais necessárias. Em 1921, tínhamos 135 lares. Esses lares não são
apenas refúgios para mulheres solteiras passando por um momento tão
complicado de suas vidas, mas também permitem que mulheres casadas se
afastem do lar, da família e das aflições triviais do ambiente doméstico e voltem
todas as suas atenções para a recuperação de suas energias após o parto e para
o cuidado do bebê durante as primeiras e mais importantes semanas de sua
vida. Depois desse primeiro momento, a mãe não é mais essencial para o bebê,
mas, ao longo das primeiras semanas, ainda há, por assim dizer, uma ligação
fisiológica entre a mãe e o bebê, e, durante esse período, a sua separação não é
recomendável. Vocês sabem bem, camaradas, com que satisfação as
trabalhadoras e até mesmo as esposas de importantes servidores do Estado
aproveitam sua estadia nos lares de gestantes, onde serão atendidas com amor
e terão paz. Nós não precisamos nos valer de métodos de agitação para
convencer as mulheres a utilizarem os lares de gestantes. O nosso problema é a
limitação dos recursos materiais da Rússia; nós somos pobres, o que torna difícil
ampliar a nossa rede, a fim de cobrir toda a área da Rússia operária com tais
“postos de atendimento” para operárias e camponesas. Infelizmente, ainda não
há um só lar de gestantes nas áreas rurais, e, de modo geral, nós fizemos
apenas o mínimo possível para atender às mães camponesas. Na verdade, tudo
que fizemos por elas foi organizar creches para o período de férias, o que torna
mais fácil para a mãe camponesa sair para trabalhar nas plantações, sem que o
seu bebê sofra. Ao longo de 1921, foram inauguradas 689 creches desse tipo,
atendendo a 32.180 crianças. Para as mães que trabalham em fábricas e
escritórios, foram abertas creches nas fábricas e nas instituições, além daquelas
disponíveis a nível distrital e municipal. Não creio ser necessário enfatizar a
enorme importância dessas creches para as mães. O problema é que nós não
temos creches suficientes e não podemos atender a um décimo da demanda.

A rede de organizações de educação social, que libertam as mães do peso do


trabalho árduo de cuidar de seus filhos, inclui, além das creches e lares de
crianças que atendem a órfãos e crianças abandonadas até os três anos de
idade, jardins de infância para crianças de três a sete anos de idade, “lares”
infantis para crianças em idade escolar, clubes infantis e, finalmente, casas-
comunas infantis e colônias de trabalho para crianças. O sistema de educação
social também inclui refeições gratuitas para as crianças em idades pré-escolar e
escolar. Vera Velichkina (Bonch-Bruyevich), revolucionária até o fim da vida,
lutou com unhas e dentes por essa medida, cuja introdução, como já é sabido,
nos ajudou bastante ao longo dos duros anos da guerra civil e livrou muitas
crianças proletárias da fome e da morte em sua decorrência. A atenção do
Estado às crianças fica também evidente na distribuição de leite gratuito, de
rações especiais para os mais jovens e de roupas e sapatos para as crianças
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necessitadas. Todos esses projetos estão longe de serem completos; na prática,


nós atendemos apenas a uma pequena parcela da população. Contudo, até o
momento, nós não conseguimos libertar o casal de todas as dificuldades
envolvidas na criação dos filhos, não porque seguimos na direção errada, mas
porque nossa pobreza nos impede de cumprir tudo que foi planejado pelo poder
soviético. O rumo geral da política sobre a maternidade está correto, mas nossa
falta de recursos nos freia. Até o momento, foi conduzido um número ainda
modesto de experimentos. Ainda assim, eles deram resultados e revolucionaram
a vida familiar, introduzindo mudanças fundamentais nas relações entre os
sexos. Essa é uma questão que discutiremos em outra ocasião.

A missão do poder soviético é, portanto, proporcionar as condições para que


o trabalho da mulher não seja desperdiçado em atividades não produtivas no lar
e na criação dos filhos, mas que seja aplicado na geração de novas riquezas para
o Estado, para o coletivo dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, é importante
preservar não apenas os interesses da mulher, mas também a vida da criança, e
isso se torna possível à medida que se permite que a mulher combine trabalho e
maternidade. O poder soviético tenta criar uma condição na qual a mulher não
precise se prender a um homem a quem despreza apenas por não ter para onde
ir com seus filhos, na qual a mulher não precise temer pela sua vida e pela vida
de seu filho. Na república operária, não são os filantropos, com sua caridade
humilhante, mas os operários e camponeses, companheiros na criação de uma
nova sociedade, que se esforçam para ajudar a mãe trabalhadora e se
empenham para amenizar o fardo da maternidade. A mulher que suporta a
provação de reconstruir a economia em pé de igualdade com o homem, a mulher
que lutou na guerra civil, tem o direito de exigir, nesse momento tão importante
de sua vida, no momento em que ela presenteia a sociedade com um novo
membro, que a república operária, o coletivo, assuma a responsabilidade de
prover ao futuro do novo cidadão.

A Rússia tem, no momento, 524 unidades de educação social e de proteção


da maternidade. Porém, isso é insuficiente. A natureza transitória da ditadura
coloca as mulheres em uma situação particularmente difícil: aquilo que era velho
foi destruído, mas o novo ainda não foi criado. O partido e o poder soviético, ao
longo desse período, devem dar cada vez mais atenção ao problema da
maternidade e aos métodos para solucioná-lo. Se as soluções corretas forem
encontradas, não apenas as mulheres serão beneficiadas, mas também a
economia nacional.

Eu gostaria de dizer algumas palavras sobre uma questão que é intimamente


ligada ao problema da maternidade – a questão do aborto, e o posicionamento
da Rússia soviética em relação a ela. Em 20 de novembro de 1920, a república
operária sancionou uma lei que abolia as punições atreladas ao aborto. Qual é a
motivação por trás dessa nova atitude? A Rússia, afinal, não sofre de
superprodução de trabalho vivo, mas sim de sua falta. A Rússia é esparsa, e não
densamente povoada. Toda e qualquer unidade de força de trabalho é preciosa.
Por que, então, estabelecemos que o aborto não é mais uma infração penal? A
hipocrisia e a intolerância são opostas à política proletária. O aborto é um
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problema ligado à questão da maternidade e, do mesmo modo, tem origem na


posição insegura ocupada pelas mulheres (não falamos aqui da classe burguesa,
para a qual o aborto tem outros motivos – a resistência a “dividir” uma herança,
a sofrer o mínimo de desconforto, a sair de forma ou perder alguns meses da
temporada, etc.).

O aborto existe e prospera em toda parte, e nenhuma lei ou medida punitiva


foi capaz de eliminá-lo. Sempre há um modo de burlar a lei. Porém, as
“soluções” clandestinas apenas debilitam as mulheres; elas se tornam um peso
sobre o governo operário, e a força de trabalho é reduzida. Quando realizado em
condições médicas adequadas, o aborto é menos prejudicial e perigoso, e a
mulher pode voltar ao trabalho mais rapidamente. O poder soviético entende que
a necessidade do aborto somente desaparecerá, por um lado, quando a Rússia
tiver uma rede ampla e bem desenvolvida de instituições de educação social e de
proteção da maternidade, e, por outro, quando as mulheres compreenderem que
dar à luz é uma obrigação social. O poder soviético, portanto, permitiu que o
aborto seja realizado livremente e em condições clínicas.

Além do desenvolvimento em larga escala da proteção da maternidade, a


Rússia operária tem o dever de fortalecer nas mulheres o instinto maternal, que
é saudável, de fazer com que a maternidade e o trabalho pelo coletivo sejam
compatíveis e, desse modo, eliminar a necessidade do aborto. Essa é a opinião
da república operária sobre a questão do aborto, que ainda pesa intensamente
sobre as mulheres nos países burgueses. Nesses países, as mulheres são
exauridas pelo duplo fardo da maternidade e do trabalho assalariado em nome
do capital. Na Rússia soviética, a operária e a camponesa colaboram com o
Partido Comunista na construção de uma nova sociedade e no desmantelamento
do velho modo de vida, que escravizava as mulheres. Assim que a mulher passa
a ser vista essencialmente como uma unidade de trabalho, encontra-se a solução
para a complexa questão da maternidade. Na sociedade burguesa, onde o lar
complementa o sistema econômico capitalista e onde a propriedade privada cria
uma base para o formato isolado da família, não há saída para a mulher
trabalhadora. E emancipação feminina só poderá ser completa quando for
estabelecida uma profunda transformação no modo de vida; e os modos de vida
só mudarão com a profunda transformação da produção e com o
estabelecimento de uma economia comunista. A revolução na vida cotidiana está
acontecendo bem na nossa frente, e, nesse processo, a libertação das mulheres
vem sendo aplicada na prática.

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Inclusão 27/05/2015

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