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XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO

A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável.


Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008

PLANEJAMENTO E CONTROLE DA
PRODUÇÃO VINCULADOS ÀS
VARIAÇÕES DE PREÇOS DE AÇÚCAR E
ÁLCOOL NO MERCADO FUTURO
UTILIZANDO PROGRAMAÇÃO
MATEMÁTICA
Marcelo Dias Carvalho (USP)
marcelodiasc@superig.com.br
Miguel Cezar Santoro (USP)
santoro@usp.br

O artigo estabelece um plano ótimo de programação e controle da


produção numa usina de açúcar e álcool visando estabelecer o melhor
mix de álcool anidro, hidratado e açúcar no hedge de venda em cada
mês respeitando-se restrições de estoquee, de fluxo de caixa e
contratos estabelecidos.

Palavras-chaves: Palavras-chave: Açúcar e álcool, programação e


controle da produção,programação matemática, hedge.
XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008

1. Introdução
O sistema de produção sucroalcooleiro tem se deparado nos últimos anos com os problemas
de risco nas tomadas de decisão, seja por decisões em investimentos/modernizações das
fábricas, seja pelos riscos associados aos preços de seus produtos.
Os produtos oriundos da cana-de-açúcar, o álcool anidro, o álcool hidratado e o açúcar têm
dinâmicas de preços e demandas diferentes. Atender estes três principais mercados, sem
oscilações significativas, exige muito planejamento e sistemas de previsão mais robustos, o
que interfere diretamente no planejamento e controle da produção nas usinas de açúcar e
álcool. Durante séculos isso foi feito pelo governo, mas num processo que durou toda a
década de 90, esta responsabilidade foi repassada integralmente ao setor privado. Hoje
prevalece o regime de livre mercado, sem subsídios, e definem-se os preços de açúcar e álcool
de acordo com as variações de oferta e demanda, numa relação direta com o mercado.
Este artigo sugere que de nada adianta ter o melhor estudo genético de variedades de cana, o
melhor manejo no campo, a melhor produtividade agrícola e a melhor produtividade industrial
se o preço de venda dos produtos escolhidos para compor o mix de produção não maximizar a
margem de contribuição da empresa. Portanto, neste trabalho a etapa comercial toma um
papel importante na modelagem matemática de otimização da cadeia produtiva de açúcar e
álcool, que pode ser dividida em quatro sistemas de produção: sistema de produção agrícola,
sistema de transporte, sistema de produção industrial e sistema comercial, este último
interferindo diretamente no planejamento e controle da produção das usinas. A escolha do
modo como se vai fazer a gestão de estoques esbarra no modelo de previsão de preços de
açúcar e álcool e de atendimento às cotas de contratos futuros estabelecidos pelas usinas.
Dessa maneira, as usinas estão buscando mecanismos cada vez mais apurados para a
determinação do mix de produção de seus produtos e também para a fixação de preços de seus
produtos nos mercados futuros, buscando proteção e maximização de seus lucros. Trata-se de
uma busca de procedimentos capazes de monitorar e administrar de modo adequado os riscos,
além de proporcionar transparência aos acionistas e credores.

2. O departamento comercial das usinas de açúcar e álcool


Nas usinas que comercializam sua produção, podemos afirmar que o fluxograma de
comercialização de seus produtos ocorre como na figura a seguir:

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Departamento comercial das usinas

Açúcar Álcool Álcool


anidro hidratado

Corretoras
Grandes Contratos futuros ESALQ
distribuidoras
(Shell,Texaco,Esso,
BR,Ipiranga...)
Contratos futuros na BMF

Comercialização

Figura 1: O funcionamento do departamento comercial das usinas de açúcar e álcool


Fonte: Elaborado pelos autores

No fluxo de operações a seguir, os vendedores ( no caso as usinas ), autorizam as ordens de


venda de açúcar e álcool para suas corretoras. As corretoras repassam as ordens de venda das
quantidades estipuladas de açúcar e álcool para os operadores dos pregões na BM&F, os quais
negociam a venda. A corretora identifica os clientes compradores e formaliza a compra junto
à BM&F.Assim, ambas as partes, comprador e vendedor, estão garantidos pela
instituição.Então as corretoras recebem o valor da transação, debitam as taxas de corretagem e
transferem o resultado para as usinas.

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Figura 2: Operações de compra e venda no pregão da BM&F


Fonte: Marques, P.V. et al

3. Negociação de açúcar e álcool em mercados futuros


O processo de livre negociação nos mercados de açúcar e álcool no Brasil remonta ao início
dos anos 1990, quando da extinção do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), órgão
governamental que regulava a produção de açúcar e promovia estímulos à produção de álcool.
Os mercados futuros foram criados com o objetivo de proteger compradores e vendedores de
determinado ativo contra risco de preço.neste sentido os mercados futuros são particularmente
úteis para a agroindústria da cana-de-açúcar dadas as grandes variações de preços que seus
produtos experimentam. Além da produção de cana estar sujeita às condições climáticas, de
produtividade das variedades de cana e de preços de insumos, as baixas elasticidades de
demanda e oferta de seus produtos fazem com que o preço nesse setor da economia sejam
bastante variáveis( HARWOOD ET AL, 1995; KIMURA, 1998).
São vários os fatores que determinam a oferta e a demanda de açúcar e conseqüentemente seu
preço.Dentre eles podemos citar: preços no mercado internacional, rentabilidade de atividades
alternativas, sendo a mais diretamente relacionada a produção de álcool, variáveis

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macroeconômicas tais como taxas de juros, câmbio e renda, utilização de produtos substitutos,
etc. Esses fatores, na maioria das vezes, são de difícil acompanhamento, pouco previsíveis e
difíceis de serem controlados.Diante do atual mercado de açúcar e álcool brasileiro, bastante
conturbado, onde riscos e preços inerentes à atividade são acentuados, a utilização de
contratos futuros pela empresas sucroalcooleiras para a fixação antecipada do preço de seus
produtos finais em um nível superior aos custos de produção e que assegure alguma
rentabilidade é especialmente importante e condição necessária para garantir sua
competitividade( BACCHI, M.R.P ,1999)
Os contratos futuros de negociação de açúcar e álcool são padronizados, sendo que cada
contrato de açúcar cristal corresponde a 270 sacas de 50kg, com qualidade e locais de entrega
pré-determinados pela BM&F. Já cada contrato de álcool anidro carburante corresponde a 30
m3 , com qualidade e locais de entrega pré-determinados pela Bolsa.Existem cerca de 80
estabelecimentos credenciados pela BM&F para entrega dessas comodities estrategicamente
localizados nas regiões produtoras. O local de formação de preço, base de referência para o
preço do produto, é o município de São Paulo para o açúcar e Paulínia(SP) para o álcool.
Os mercados futuros de açúcar e álcool constituem-se em ferramentas extremamente úteis na
administração dos estoques das usinas, que reconhecem a enorme utilidade das operações de
hedge para o gerenciamento dos riscos de suas atividades. Muitas usinas possuem seu próprio
departamento comercial, outras delegam a maior parte dessa atividade a empresas
especializadas. O foco deste artigo recai sobre as usinas que negociam diretamente seus
produtos com o mercado sem a intermediação de tradings especializadas, ou seja, definindo
ela mesma as quantidades vendidas de seus produtos e em que tempo vendê-las.

3.1 Operação dos contratos futuros de álcool anidro (hedge da venda de álcool)
Vamos imaginar uma usina que defina seu planejamento de fabricação de álcool anidro no
começo da safra de cana-de-açúcar (abril/maio no Centro-Sul). Dentro de seu processo de
fabricação, estabeleceu, por exemplo, que produzirá no mês de setembro 30.000 m³ de álcool
anidro. Como não pretende correr risco de preço, a usina consulta sua corretora quanto à
cotação do álcool anidro na BM&F para o vencimento setembro, visando esquematizar uma
operação de proteção de preço no mercado futuro de álcool.

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No pregão da Bolsa, a cotação do produto para aquele vencimento é: oferta compradora por
R$800,00/m³ e oferta vendedora por R$810,00/m³, com o último negócio fechado em
R$805,00.
Como o preço praticado cobre seu custo de produção e ainda lhe proporciona algum lucro, a
usina transmite ordem à corretora para vender 1.000 contratos futuros de álcool para o
vencimento setembro, a preço de mercado. A corretora fecha o negócio por R$805,00/m³.
Como cada contrato futuro equivale a 30 m³ de álcool, a venda de 1.000 contratos visa
proteger os 30.000 m³ que a usina pretende produzir em setembro. Esta é operação típica de
hedge, ou seja, independente do que ocorrer no mercado de álcool até o vencimento do
contrato futuro, a usina assegurou previamente seu preço de venda (FUTURO DE AÇÚCAR
E ÁLCOOL, BM&F, 2007).

3.2 Operação dos contratos futuros de açúcar (hedge de venda de açúcar)


Suponha-se que uma usina de açúcar tenha custo de produção de US$5,00/saca de açúcar
cristal e que queira fazer proteção de preço de uma carga de 54.000 sacas. Como não deseja
correr risco de preço da commodity, nem da variação cambial, já que muitos contratos são de
exportação, alguns fatores de risco terão de ser administrados.
Para neutralizar o risco de preço da commodity, a usina utilizará o mercado futuro de açúcar
cristal e, para “hedgear” o efeito da variação cambial, utilizará o contrato futuro de taxa de
câmbio de reais por dólar.isso ocorre porque a cotação do Real tem forte influência na
formação do preço do açúcar em dólares.De um ponto de vista macroeconômico, as
exportações brasileiras necessitam de menos dólares por saca de açúcar para serem
remuneradas.Como o Brasil contribui com 40% da exportação mundial de
açúcar(UNICA,2007), a desvalorização do real pode ser vista como queda mundial dos custos
de produção(em dólares) e maior pressão de baixa pode ocorrer no preço internacional do
açúcar.
Logicamente, tratam-se de diferentes períodos de tempo entre a fabricação do açúcar e a
venda efetiva do produto no mercado.
A situação de risco da usina pode ser acentuada por:
• Queda no preço do açúcar cristal;
• Valorização do real.

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Por conseguinte, a usina decide fazer uma operação de hedge na BM&F contra as oscilações
adversas de preços do açúcar e da taxa cambial, com as seguintes cotações nos respectivos
mercados futuros:
• açúcar cristal = US$10,00/saca
• dólar = R$1,70/US$1,00
Com o hedge de venda de contratos futuros de açúcar cristal por US$10,00/saca, a usina trava
sua rentabilidade em US$5,00 (pois seu custo de produção foi de US$5,00). Essa trava é
equivalente a US$540.000,00 (54.000 sacas de açúcar × US$10,00). Mas esse valor também
está sujeito a risco, pois, dependendo da evolução do câmbio até a ocasião do faturamento, a
operação poderá reduzir sua lucratividade em reais.
Logo, o hedge no mercado futuro se resume à venda de 200 contratos futuros de açúcar cristal
por US$10,00/saca e à venda de aproximadamente 11 contratos futuros de dólar (cada
contrato é de US$50.000,00) por R$1,70 o dólar.
O hedge da usina em reais será, então, de:
540.000 × 1,70 = R$ 918.000,00
Admite-se, agora, que, no momento do faturamento, os preços do açúcar e do câmbio estejam
nos seguintes patamares:
• açúcar = US$8,00/saca
• dólar = R$1,60/US$1,00
No mercado futuro, os ajustes diários acumulados totalizariam:
• açúcar = (10,00 – 8,00) × 270 × 200 × 1,60 = R$172.800,00
• dólar = (1,70-1,60) × 50.000 × 11= R$55.000,00
O faturamento da venda do açúcar no mercado físico seria de:
8,00 × 54.000 × 1,60 = R$691.200,00
O resultado consolidado global da operação da empresa (receita de faturamento + ganho no
futuro de dólar + ganho no futuro de açúcar) seria de R$919.000,00.
Como pode ser verificado, o valor de faturamento é praticamente igual ao valor “hedgeado”.
A diferença de R$1.000,00 deve-se à aproximação do número de contratos vendidos no
contrato futuro de taxa de câmbio ( Adaptado de FUTURO DE AÇÚCAR E ÁLCOOL,
BM&F, 2007).

3.3 Operação de comercialização de álcool hidratado

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Não é comum operação de mercado futuro para álcool hidratado em bolsas de valores. Dessa
maneira, para esse produto as usinas comercializam diretamente com grandes distribuidoras,
como Shell, Texaco, Esso e outras. Existem contratos de entrega com preços fixados pelos
índices da ESALQ, o que acaba conferindo um caráter de mercado futuro a essas
negociações.Dessa maneira, neste artigo os contratos futuros com as distribuidoras referentes
à venda de álcool hidratado se comportam como as operações de hedge do álcool anidro, mas
com preços regidos pela ESALQ.

4.O problema do mix de produção no PCP da usina


Um dos principais problemas do PCP numa usina de açúcar e álcool é a decisão pelo mix de
produção. As constantes variações nos preços de açúcar e álcool trazem dificuldades no
planejamento e controle da produção nas usinas, o que comumente provoca tomadas de
decisões que se afastam muito da solução ótima quando da venda dos produtos finais.
Uma restrição extremamente importante nas operações de hedge, estocagem e venda spot é a
administração do fluxo de caixa da usina.
No horizonte rolante com tempos decrescentes, definir qual o melhor mix de produção, qual o
melhor mix no hedge e quais as melhores quantidades em estoque nas usinas é primordial
para a maximização do lucro das usinas sucroalcooleiras. Os parâmetros que definirão isso
serão os preços de açúcar e álcool futuro segundo projeções de órgãos especializados(
CEPEA/ESALQ, BM&F) e de corretoras especializadas( CMA, SCA ...). A análise de
sensibilidade do modelo proposto, ou seja, o quanto pode variar o preço do açúcar e do álcool
mantendo a solução ótima estabelecida no hedge, é uma ferramenta útil para a tomada de
decisões gerenciais. Isso pode ajudar as decisões dos gestores fazendo com que a
programação da produção fique mais próxima do ótimo segundo a função objetivo de
maximização do lucro.

5.O modelo de análise de cenários ( Markowitz ) para a decisão de mix de produção no


hedge

Realizar previsões é uma das etapas mais importantes em muitos sistemas produtivos.Para
muitas organizações, nenhuma outra atividade exerce influência tão imediata na lucrtividade,
na qualidade de serviço ao cliente e na produtividade como um bom sistema de previsão.

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Sendo assim, as previsões são essenciais para todos os planos e decisões porque nada
acontece sem que alguém faça uma previsão( SANDERS, 1995; DE LURGIO, 1998).
Modelos de previsão de portfólio estão relacionados com operações onde há tipicamente dois
critérios: retorno esperado e risco. Há uma variedade de medidas de risco e a mais popular
dessas medidas tem sido a variância sobre o retorno.No entanto, muitos a criticam por levar
em conta não só variabilidade para baixo do valor esperado como também para cima
(SCHRAGE,L, 2007). O interesse dos empresários é diminuir o risco abaixo do valor
esperado de seu investimento.Dessa maneira, neste artigo utilizarei como medida de risco a
semi-variância aliada ao modelo de análise de cenários (SCHRAGE,L, 2007), que mede o
quanto os valores estão se deslocando abaixo da média, o que aqui significa risco. No caso
das operações de hedge com açúcar e álcool, o empresário deseja se proteger de variações
inesperadas no câmbio e nos preços dos produtos. Deve ainda atentar para o cumprimento dos
prazos de entrega e controle do fluxo de caixa.
Os dados a seguir se referem aos preços futuros de açúcar, álcool anidro e álcool hidratado
conseguidos junto ao CEPEA, BM&F e ESALQ com data de previsão do dia 31/03/2007.

Meses(2007) Preço do açúcar(R$/sc de Preço do álcool anidro Preço do álcool hidratado


50 kg) (R$/m3) (R$/m3)
Abril 35,00 1100,00 950,00
Maio 31,50 950,00 800,00
Junho 26,00 680,00 600,00
Julho 24,00 670,00 600,00
Agosto 26,00 670,00 600,00
Setembro 26,00 680,00 600,00
Outubro 25,00 690,00 610,00
Novembro 24,00 800,00 720,00
Dezembro 24,50 850,00 730,00

Tabela 1: Preços futuros de açúcar, álcool anidro e álcool hidratado segundo indicadores CEPEA/ESALQ/BMF

Segundo dados obtidos junto à usina estudada, os custos médios de produção para o ano de
2007( sem incluir custos fixos e impostos ) de açúcar, álcool anidro e álcool hidratado são
respectivamente iguais a R$ 14,11/sacas de 50 kg, R$ 442,00/m3 e R$ 397,8/m3.Tomando-se
como base esses valores, as rentabilidades dos três produtos seguem na tabela a seguir.

Meses(2007) Rentabilidade do Rentabilidade do álcool Rentabilidade do álcool


açúcar (%x100) anidro (%x100) hidratado (%x100)

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Abril 1.48 1.49 1.39


Maio 1.23 1.15 1.01
Junho 0.84 0.54 0.51
Julho 0.70 0.52 0.51
Agosto 0.84 0.52 0.51
Setembro 0.84 0.54 0.51
Outubro 0.77 0.56 0.53
Novembro 0.70 0.81 0.81
Dezembro 0.74 0.92 0.84

Tabela 2: Rentabilidades futuras de açúcar, álcool anidro e álcool hidratado segundo indicadores
CEPEA/ESALQ/BMF

Vamos supor que o departamento comercial da usina, através de sua corretora ou dos índices
CEPEA, BM&F e ESALQ tenha as projeções da tabela acima e que o tempo presente seja
março de 2007. A empresa deseja fazer um hedge para o mês de julho de 2007 minimizando
seus riscos e ainda conseguindo determinada rentabilidade, Entendemos da tabela acima que
no mês de julho a rentabilidade do açúcar seria de 70% , do álcool anidro de 52% e do
hidratado de 51%.Para tornar a análise mais robusta, para determinar o hedge para o mês de
julho, além dos dados do mês de julho vamos tomar dados de dois meses antes de julho e dois
meses depois, técnica conhecida como análise de cenários (SCHRAGE,L, 2007). A partir daí
podemos entrar com esses dados no modelo de otimização.

6. Modelo proposto e análise dos resultados

6.1 Como é feito o hedge nas usinas


É comum as usinas estipularem uma cota para hedge ótimo próxima daquela que cobre os
custos da usina em cada mês, deixando o restante para se negociar no mercado spot, ou seja,
negociação no próprio mês com canais de venda como corretoras, representantes comerciais e
tradings.Vamos supor que a rentabilidade que cobre os custos da usina em cada mês seja de
70%. Esse então será o valor que o departamento comercial da usina deverá buscar em suas
operações de hedge. Para tanto será melhor priorizar o hedge no açúcar, álcool anidro ou
álcool hidratado? O presente artigo propõe um modelo de otimização linear que determine
qual o mix ótimo no hedge para os produtos acima citados de maneira a atingir a rentabilidade
almejada minimizando o risco sobre o retorno.

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Para tanto foi utilizado o software de otimização Lingo( OPTIMIZATION MODELING


WITH LINGO, SCHRAGE,L., 2007; LINDO SYSTEMS, INC., 1999).
6.2 Modelo matemático proposto
6.2.1 Índices
Ps : Probabilidade associada ao cenário s
T : A rentabilidade alvo( aquela que cobre os custos de produção )
uis: Retorno do investimento em açúcar, álcool anidro ou álcool hidratado sob o cenário s.
Xi : Porcentagem de invetimento em açúcar, álcool anidro ou álcool hidratado.

Ys = max{ 0, T − ∑ X i uis } indica o desvio abaixo da rentabilidade alvo.

6.2.2 O modelo
Na sua forma algébrica, o modelo é:
6
Min ∑PY
s =1
s s (1)

sujeito a

Ys − T + ∑ X i uis ≥ 0 (2)

∑X i =1 (3)

∑ X ∑Pu
i s is ≥T (4)

A funçao objetivo em (1) minimiza o desvio dos retornos abaixo da rentabilidade alvo.Em (2)
temos o valor do desvio abaixo da rentabilidade alvo. Em (3), a soma das porcentagens de
investimentos em açúcar, álcool anidro e álcool hidratado vale 100%. Em (4), o retorno é
imposto maior ou igual ao alvo.
Utilizando a linguagem de modelagem do Lingo, obtemos:
Model:
Title:Minimização do risco no hedge;
!Minimizar a semi-variância;
SETS:
SCENE/1..5/:PRB,R,DVU,DVL;
ASSET/ACUCAR,AANIDRO,AHIDR/:X;

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SXI(SCENE,ASSET):VE;
ENDSETS
DATA:
TARGET =0.70;
VE=
1.23 1.15 0.76
0.84 0.54 0.51
0.70 0.52 0.51
0.84 0.54 0.51
0.84 0.56 0.51;

PRB = 0.2 0.2 0.2


0.2 0.2 ;
ENDDATA
@FOR(SCENE(S):R(S)=@SUM(ASSET(J):VE(S,J)*X(J));
DVU(S)-DVL(S)=R(S)-AVG;);
[BUD] @SUM(ASSET:X)=1;
[DEFAVG] AVG=@SUM(SCENE:PRB*R);
[RET] AVG>TARGET;
[OBJ]MIN = @SUM(SCENE: PRB*DVL^2);
END
No modelo acima, é admitido que nos cenários de preços dos 5 meses todos os preços têm
igual probabilidade de ocorrer, daí os valores que aparecem como 0.2.

6.2.3 Resultados

Do relatório de análise de sensibilidade do Lingo, obtivemos um desvio baixo da


rentabilidade alvo de 0.0075, o que indica um baixo risco. A porcentagem de hedge do açúcar
seria de aproximadamente 38.5% e a de álcool hidratado de 61.5%. A de álcool anidro seria
igual a zero.Observamos pelo custo reduzido que para que o álcool anidro passasse a fazer
parte da solução ótima, deveria melhorar seu retorno médio em R$ 0.0037.

Objective value: 0.7538462E-02


Total solver iterations: 8

Model Title: Minimização do risco no hedge

Variable Value Reduced Cost


TARGET 0.7000000 0.000000
AVG 0.7176923 0.000000

X( ACUCAR) 0.3846154 0.000000

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X( AANIDRO) 0.000000 0.3747692E-02


X( AHIDR) 0.6153846 0.000000

7. Conclusões

Embora este artigo tenha se baseado em dados de uma usina particular, ele é genérico o
bastante para ser utilizado em outras usinas que tenham seu próprio departamento
comercial.Ele fornece boas tendências nos preços dos produtos e o que deve ser priorizado
como hedge na escolha por açúcar, álcool anidro e álcool hidratado minimizando os riscos nos
investimentos e programações da produção.
Existem limitações no modelo pela não inclusão de restrições importantes, como restrições
associadas a contratos de fornecimento dos produtos, produtividade mensal de açúcar e
álcool, custos variáveis mensais na produção de açúcar e álcool devido às variações dos
preços de matérias-primas, restrições associadas a estoque e quantidade de produtos a se
vender no mercado spot. Tais restrições estão sendo estudadas e serão parte integrante quando
do desenvolvimento final deste artigo, já que se trata de um trabalho em andamento.

Referências

BACCHI, M.R.P ,Gerenciamento do risco de preço no mercado doméstico de açúcar e


álcool,1999

FUTURO DE AÇÚCAR E ÁLCOOL, publicação BM&F, 2007

HARWOOD, J.; HEIFNER, R.; COBLE, K; PERRY, J.; SOMWARU, A. Managing Risk
in Farming: Concepts, Research and Analysis. Agricultural Economics Report,
774, p. 125, 1999.

KIMURA, H. Administração de Riscos em Empresas Agropecuárias e Agroindustriais.


Caderno de Pesquisas em Administração, 1, 7, pp. 51–61, 1998.

LINDO Systems, Inc., 1999, LINGO Optimization Modeling Language (User


Manual), Chicago, IL.

MARQUES, P.V.; MELLO, P. C.; MARTINES ,J.G. Mercados Futuros e de Opções Agropecuárias.
Piracicaba, S.P.,Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Esalq/USP, 2006, Série Didática
nº D-129.

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SANDERS, D. R.; MANFREDO, M. R. Corporate Risk Management and the Role of


Value-at-Risk. Conference Applied Commodity Price Analysis, Forecasting,
and Market Risk Management. Chicago, pp. 39–51, 1999

SCHRAGE,L.Optimization modeling with lingo, 2007, Lindo Systems Inc.

UNICA,2007, www.unica.com.br

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