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Introdução Cr#ica à

Sociologi4. Brasileira
GuERREIRO RAMos

UFRJ
Rtitor Paulo Alcancara Gomes
Viu-rtitor José Henrique Vilhena de Paiva. DOAÇÃO WANDERLÉY G. DOS SANTOS
CqqrtÜnaáora do Fqn•m
ár: Cilnr:Úl r: Cultura Myrian Dauelsberg

EDITORA UFRJ
Dirr:tqra Heloisa Buarquc de Hollanda
EJítqra-assistr:nu Lucia Canedo
Coortknadora tk prqáuriio Ana Carreiro

Conulho Editorial Heloisa Buarque de Hollanda (Presidente),


Carlos Lessa, Fernando Lobo Carneiro,
Flora Süssckind, Gllbcrro Velho,
EDITORA UFRJ
Margarida de Souza Neves. ······- 19.95.
Copyright by © CU!ia Guerreiro Ramos

Ficha Catalogclfica elaborada pela Divisão de


Processamento Tl!cnico - SIBI/UFRJ Sumdrio
Rl751 Ramos, Alberto Guerreiro, 1982
Introdução crítica' à-sàciolcigia -brasileira I Alberto Guerreiro
Ramos. Rio de janeiro: Editora UFRJ, 1995. .
292 p., 14 X 21 em. (série Terceira Margem) Da Sociologia em Mangas de Camisa à
Túnica Inconsúdl do Saber
Apfndice; 15" p.
Clévis Brigagno 9
1. Sociologia - Brasil 2. Sociologia Estudo e Ensino.
I. Título. O Negro Como Lugar
CDD 301.0981 ]oel Rufino dos Santos 1.9

ISBN 85-710' Prefácio :H

Capa
Victor Bunon
(!).1111.11 PRIMEIRA PARTE

Critica da Socwlogía Brasileira


•ntroduç!o Cl'1tiC8 à sociologia brasileira I
- Notas para um estudo crítico da
Rnmíio 35
sociologia no Brasil
Josette Babo :101(81) R1751
Il - Critica e autocrltíca 49
Projeto .Grdfico e vtls000045245- IU000030652 Ill - Nacionalismo e xenofobia 55
IESP/AceNo VIJander1ey G Santos
EditQraçáo Eletrônica 59
IV - A dinâmica da sociedade polftica no Brasil
Alice Brito
V - Esforços de teorização da realidade
nacional politicamente orientados, de
Universidade Federal do Rio de Janeiro 79
1870 aos nossos dias
Forum de Ciência e Cultura
Editora UFRJ I - Os repub/ictmos de 1870 81
Av. Pasceur, 250/sala 106 - Rio de Janeiro /1 - O movimento positivista 83
CEP: 22195-900 JIJ - Sylvío Romero e a sociowgia da
Tel.: (021) 295 1595 r.35/36/37 sllcietÚuie republicafUl 86
Fax: (021) 295 1397 e 295 2346 I V - 01 íde6/ogos da ordem e progresso 89
V - 11 revolução ·da cla.sse mldia 95
Apoio

~Tr Fundação Universicíria José Bonifácio I VI -A revolução de 1930


VII - Conclusão
96
99

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····.~·':""";.y.ro;.
SEGUNDA PARTE TERCEIRA PARTE

~::;.~rtiihaBrasileira do Aprendiz de Sociólogo Documentos de uma Sociologia Militante


:.prefiicio a uma sociologia nacional) I - Patologia ·social do "branco" brasileiro 215
I - Nota explicativa 103 II - O negro desde dentro 241
II - Sociologia enlatada versus sociologia din~mica 105 III Política de relações de raça no Brasil 249
III - A sociologia como instrumento de
.AP~NDJCE
autodeterminação 111
I - Sobre a crise brasileira e a sociologia no Brasil 255
N - O ensino da sociologia no Brasil,
II - "... a descida aos infernos" 263
um caso de geração espontmea? 121
V - Para uma sociologia "em mangas de camisa" 131 ANEXO
VI - Meditação para os sociólogos em flor 137 O Tema da Transplantação na Sociologia Brasileira
VII - A industrialização como categoria sociológka 143 Enteléquias na interpretação 271
VIII - O problema da pesquisa socióloga no Brasil 151
IX - Para uma autocrftica da sociologia brasileira 157
X - O problema do negro na sociologia brasilein 163
- Caráter geral da sodologia e da
antropologia no Brasil 164
- Histdria sincera dos estudos sobre o
negro no Brasil 168
-Sy/vio Romero e a mestiçagem 169
-Euclidet da Cunha e a mestiçagem 172
-Alberto To"es e a TMitiçagem 176
- Oliveira Viana, arianiZilnte 179
-Nina Rodriguet, apologista áo branco 183
,,
- O negro como tema 187
-Sociologia áo negro, ideologia da brancura 190
-Passado e presente da nova fase 202
Da Sociologia-em
Mangas de Camisa à
Tú"nica Inconsútíl do. Saber
Clóvis Bdgagão 1

Em correspondência mantida ao longo de mais de quinze anos


(1966/82) com o Professor Guerreiro Ramos, volta e meia trocá-
vamos idéias sobre a oportunidade da reedição de sua obra. Diante
da minha insistência, justificando a relevância de seu trabalho
intelectual, iniciado nos anos 30 e terminado com sua morte em
6 de abril de 1982, em uma de suas cartas (16/7/80), ele me
escrevia:
Minha presente agenda é cheia de vida e excitante e
me exige um bocado de trabalho. Assim vamos congelar a
idéia de reedições. Principalmente, penso que os arrigos
que publiquei na Rr.vista tÚI SfrvÍfO Público não merecem
nenhuma republicação.
Retomando seus contatos com o Brasil, ap6s o fim de seu exílio
nos EUA, levantei novamente o assunto, em uma de noS$as·
conversas no Rio (1981), sobre a oportunidade da reedição de sua
obra. Guerreiro Ramos, com sua fina e ardil ironia, olhou-me
no's "olhos e respondeu: "meu querido, hoje, estou aqui nessa
janela, olhando vocês passarem ... " ferindo] " ... estou em outra... ,
INTRODUÇÃO CRfTICA À SOCIOLOGIA BRASILEIRA DA SOCIOLOGIA E.M MANGAS DE CAMISA •••

minhas obras passadas já não me dizem nada ... a não ser aquele A obra de GR, em ~C:~.,conjun~o ~-partiéularmenre as que agora
sentimento de dever cumprido", selecionamos para o público (como as mais características de seu
No entanto, com o convite feito pela Universidade Federal de pensamento), continua a desafiar o tempo, desde a sua primeira
Santa Catarina de criar o Programa Acadêmico e de Pesquisa em aparição, para transformar-se em instrumento de análise da
Planejamento Governamental (iniciado em 12/05/1980), GR contemporaneidade e de sua transformação.
voltava a se debruçar sobre temas brasileiros e me solicitava que Acreditamos que a reedição de sua obra resgatará o val~r e a
o ajudasse a coletar artigos e livros que lhe fossem úteis na tarefa qualidade de uma das mais importantes contribuições do pensa-
de reingressar na discussão sociológica brasileira. 2 Era, pois, uma mento sociológico, inicialmente limitado ao Brasil (e um tanto à
der.wnstração viva de que Guerreiro Ramos tencionava voltar a América Latina) e, a partir de seu exílio nos Estados Unidos,
arregaçar as mangas e reiniciar a sanha de refletir e atuar na difundida e espalhada por outros cantos do mundo. Penso que,
realidade brasileira, sua paixão. ·"Sou homem que penso o Brasil no momento em que o Brasil, como também o sistema interna-
vinte e quatro horas por dia", dizia. cional, reclamam revisões e rearticulações dos mapas cognitivos,
Com sua súbita morte, em 1982, retomei o "Plano para a reeditar Guerreiro ~·mos significa recompor o "elo matricial" que
Reedição da Obra de A. Guerreiro Ramos" (28/1 1/1985), cole- faltava no encadeamento dessa rica tradição do pensamento
tando antigas edições de livros e de textos (inéditos ou publicados crítico, que une o ubiquo ao utópico, o local ao global.
em Separatas de Revistas que já não mais existem), ajudado pela A sociologia crítica de GR representa uma "descida aos in-
família, por amigos e discípulos. 3 Acreditava ser imprescindível fernos", no sentido de sacudir os .demônios "consulares" da socio-
colocar em mãos dos novos profissionais (das ciências sociais) e logia convencional e, ao mesmo tempo, é uma subida aos céus,
do público em geral, uma das mais profundas e inteligentes obras pela acuidade e beleza dos critérios teóricos e metodológicos
do pensamento social brasileiro. elaborados por de, desde a primeira edição da Cartilha brasileira
Pensar o Brasil, em particular, e as ciências sociais, em geral, de aprendiz de sociólogo (1 1 edição em 1954 e depois reeditada
como o fez Guerreiro Ramos é, sem dúvida alguma, revelar às como Introdução critica à sociologia brasileira, em 1957) até a A
novas gerações um pensamento, não só brasileiramente original, Nova ciência das organizações, sua última obra.
mas universalmente inovador e sofisticado. Guerreiro é um desses Seu pluralismo é o da esdrp~ que aponta mudanças e transfor-
raros pensadores, de militância de tempo integral e fora da horda, mações nas ciências sociais ("buscar a superaçáo.da ciência social
que fez uso dos instrumentos intelectuais de forma contundente nos moldes institucionais e universitários em" que se encontra") e
e fecunda, além de possuir uma elegância e clareza textual incon- nas políticas governamentais e da sociedade. Sem jamais esquecer
fundíveis. o Brasil e seu povo, GR deva-se ao plano das categorias como a
Para ele, as ciências sociais não podiam existir extempo- "postura parentédca do homem e~ relação às organizações",
raneamente: tanto em termos de época e de tempo de intervenção, "paradigma paraeconômico" (paradigma que delimita a econo-
como do método que GR empregava: enraizado nas teorias clás- ~ia de mercado e abrange essa e outras formas sociais), ~teoria dt'
sicas e científicas, mas sem o formalismo consular e o positivismo vida humana associativa", "globalidade dos recursos e dos siste-
"enlatado" e provinciano, que combatia e criticava incansavel- mas econômicos e ecológicos" etc.
mente. Não há dúvida de que o pensamento de GR encontrava-se - Pda.-pr.imeirn .:vez, a sociologia inaugurada por GR, aqui no
à frente de sua própria época. Brasil, é colocada em seu devido lugar, quer pela sua instru-

10 11
DA SOCIOLOGIA EM MANGAS D.E CAMISA ...
l~TilODUÇÃO CRITICA A SOCIOLOGIA BRASll.EIIlA

e que reaparece aqui como Anexo. Os leitores .poderão perceber


mentalidade teórica, como também pela sua inserção no contexto
o que se espera ganhar co~ esta discussão: "um método de estudo
da sociedade brasileira. Sua atualidade de·re-se ao fato de que os
da realidade histórico-social, de caráter científico. É, aliás, mais
atributos científicos de GR, sobre a sociologia e a ~ociedade, :)
importante o domínio deste método do que a simples aceitação, .
continuam como arcabouços que influenciam compor~amentos,
em termos definitivos, de uma interpretação da realidade histó-
atitudes e hábitos até os nossos dias. . rico-social num dado momento, ainda que objetiva. Até porque,
Esquematicamente, poderíamos dividir a obra de GR?m quatro sendo eminentemente dinâmica esta realidade, nenhuma interpre-
partes: 4 •... --- ..... __ ,. ·- tação pode prerender-se definidva"(p. 73).
1 - Teoria Sociológica A Redução sociológica, 1965, Rio de Janeiro,
A abordagem de GR, como ele próprio definiu,; foi a de Editora Tempo Brasileiro.
construir uma àrir~de crítica da ciência e da culrura i~porradas, Inicialmente a Redução sociológica (introduÇão ao estudo da
bem como o exercício e o adestr:lmento sistemático, necessários razão sociológica) foi lançada em 1958, no período de sua intensa
para habilitar o indivíduo ; resisiir à massificação de su~ conduta atuação no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB).
e às pressões sociais organizadas.
Considerada a obra clássica da sociologia brasileira, merecen-
Menciono dois livros essenciais, hoje considerados clássicos da do uma edição em espanhol pela Fondo de Cultura Econômica
literatura socio~ógica brasileira. (México, 1959), . ceve uma enorme repercussão nacional, com
Introduçlio critica à sociologia brasileira, 1957, inúmeras avaliações de intelectuais de todos os matizes teóricos
Rio de Janeiro, Editora ANDES Ltda. e polftícos brasileiros: A Redução, pode-se afumar, é a mais
Trata-se de um texto de formação. fundamental sobre a "árvore originai contribuição de GR para a formulação de um desen'(ol-
genealógica" do pensamento mais original da sociologia b~asilei.ra. vimento nacional, despertando novas atitudes e métodos políticos
Nele GR tece o fio condutor das raízes do pensamento soctol6g1co e administrativos no panorama brasileiro. 6
nacional. Historicamente, ele é indispen.:;ável para reorientar o Combatente da alienação sociológica no Brasil (assim como.
estudo sistemático da sociologia brasileira. O livro divide-se em Wright Mills, em sua Imaginação sociológica, editado no Brasil·
três partes: 1•) "Crítica da Sociologia ·Brasileira" (sendo importan- em 1965, também combatera a alienação nos EUA), a Redução
tíssimo o Capítulo V, "Esforços de teorização da realidade nacional repudia a tentativa de tornar a sociologia uma ciência elicista e
politicamente orienta dos de 1870 aos nossos dias"; 21) Cartilha aponta para a necessidade de democratizar o saber sociológico,
Brasileira do Aprendiz de Sociólogo (titulo da primeira édição, em instrumento substancial para a formulação e execução de trans-
1954)'; 31) Documentos de uma Sociolosia Militante (de onde formações sociais.
surge, pela primeira vez, a cr(cica avassaladora sobre a !'patologia
social do 'branco' brasileiro"). · II. Organização e Ação Po~ítica
Nesta reedição, resgatamos um texto que, estou seguro, é o Cabe aqui mencionar três livros-chaves que despertarão g,·;:nde
precursor da Cartilha (de 1954) e da Introdução (de 195.7). Trata- interesse do leitor pelas suas brilhantes e, dirfamos, atuais análises
se d~ "Tema da Transplantação na Sociologia Brasileira" (título políticas.
redigido à mão pelo próprio GR no texto, Separata da Revista
Serviço Socia~ Ano XIV, n11 74- São Paulo, 1954, PP· 73-95)

12 13
INTRODUÇÃO C.R.fTZCA A SOCIOLOGIA BRASILEIRA· DA SOOOLOGL"' L'! ~·iANG.-\5 DE. CAMISA. ••

O Problema nacional do Brasil, 1960, III. Discursos, ~aios eArtigos


Rio de Janeiro, Editora Sag.a. Esta parte seria constituída por urna antologia organizada, a
É um guia político-social que abrange várias realidades brasi- parrir do seguinte roteiro:
leiras e suas perspectivas, em função dos grandes remas nacionais I. Artigos publicados em sua coluna do jornal Última Hora,
da época. Dois textos merecem a atenção pela reflexão inovadora: e
no período entre 1959 1962, em que GR, além de escrever sobre
"A Ideologia da Segurança Nacional" (anteriormente editado pelo a conjuntura brasileira, também analisa a vida e o sistema
ISEB em 1957) e "Condições Sociais do Poder" (também editado organizacional nos Esrados Unidos, União Soviética, França e
pelo ISEB). China (países que visitou como convidado oficial e como confe-
rencista), cujo valor é ainda indiscutível pela atualidade e acuidade
A Crise do poder no Brasil, 1961, Rio de Janeiro,
de suas observações. São aproximadamente quarenta artigos para
Zahar Editores.
uma prévia seleção.
É um clássico, em termos de análise polltica de conjuntura e 2. Três Discursos como Delegado Brasileiro na II Comissão,
que reflete uma luta entre a "ordem" política conservadora e a da XVI Assembléia Geral das Naçôes Unidas, New York, 1961.
"ordem" reformista e popular no Brasil. Militante, GR reúne, ao
3. Discursos Parlamentares (Agosto de 1963-Abril de 1964),
sabor dos acontecimentos que marcaram a vida polírica do Brasil,
Diário do Congresso Nacional, B~sflia. A relação de trinta
nos anos 60, ensaios verdadeiramence irretocáveis pela sua pers-
pronunciamentos selecionados sobre "temas políticos nacionais e
picácia e estilo límpido e transparente. Como que prevendo nuvens
internacionais, até o seu último discurso no dia 16 de Abril,
autoritárias que viriam com o Golpe Militar de 1964, cabe assi-
qu~d~·_p·~~d~·~· ;~us direitos poHdcos e foi cassado pelo Governo
nalar dois ensaios sobre a renúncia do então Presidente Janio
Militar.
Quadros e a trajetória polltica de Leonel Brizola.
4. Quatorze artigos publicados no ]o mal do Brasil entre 1978
Mito e verdade da revolução brasileira, 1963, e 1981, desde o primeiro ("O Momento Maquiavélico Brasileiro",
Rio de Janeiro, Zahar Editores. 22/10/78) até o último ("Imagens da Historiografia Brasileira",
O mais fascinante livro de GR, polêmico, visionário, escrito 27/12/81), escritos nt. concexto da aberrura política e à luz de sua
também no contexto pré-Golpe: é uma contundente e arrasadora teoria da delimitação dos sistemas sociais.
crítica teórica e política sobre as forças e grupos intelectuais e 5. Dois ensaios publicados pela Universidade Federal de Santa
de políticos da esquerda brasileira, especialmente sobre o Par~ C~tarina, Programa Acadêmico e de Pesquisa em Planejamento
tido Comunista Brasileiro. Parafraseando a famosa peça teatral governamencal:
de Ionesco, O Rinoceronte, GR passa a limpo (ver em especial - "O Modelo Econômico Brasileiro (Apreciação à luz da
o capítulo VII. "Revolução Brasileira ou Jornada de Otários?"), teoria da delimitação dos sistemas sociais)", 1980;
com fina ironia e clareza de análise, as tendências e os sinto- - "Considerações sobre-~ Modelo Aloc~tivo do Governo
mas do processo político às portas do Golpe Militar de 31 de Brasileiro", 1980.
março de 64. 6. Artigo inédito, "Commerce, Development, Protectionism,
Terms of Trade", s/d e local de publicação, 4 páginas.
· ...·.·.:· .•

7. Artigo inédito, "Curtição ou Reinvenção do Brasil", 1982.

14 15
]NTRODUç,\0 CR.lTICA. À SOCIOLOGIA BRASILEIRA
DA SOCIOLOGIA EM MANGAS DE CAMISA •••

IY. Depoimentos, Testemunhos e Correspondência sua dedicação, ao longo de dez anos, para encontrar a editora que
Uma antologia com depoimentos e testemunhos de amigos, publicasse a obra de GR Mais recentemente, contei com o apoio
intelectuais, disCípulos que conviveram com Guerrei~o Ramos, da bacharel em economia da Faculdade de Ciências Pollticas
em diversas fases de sua vida, a partir do material ele seu de- Econômicas do Rio de Janeiro {Candido Mendes), Renata Leite
poimento dado ao CPDOC/FGV, em 9/6/81. Existe também Pinto do Nascimento, que acaba de defender sua tese (dezembro
uma farta correspondência de Guerreiro Ramos para amigos de 1964), "A Construção Intelectual de A. Guerreiro Ramos".
e ex-~unos no Brasil, principalmente durante seu ~ílio nos ! (4) Devo muito aos trabalhos de levantamento bibliográfico reuni-
.I
Estados Unidos, na School of Public Administracion, ;tJniversity :I dos por Frederico Lustosa da Costa, 1982, "Levancarne;;_u>
of Southern California, encre 1966 e 1982. Bibliográfico", Simpósio "G~erreiro Ramos: Resgatando uma
Obra", Fundação Getúlio Vargas/Escola Brasileira de Adminis-
A presente reçdição tem início com a IntroduçíW critica à tração Pública, Rio de Janeiro, Outubro; Ramon M. Garcia,
sociologia brasileira porque representa não um aspecto cro.qol6- 1983. "A Vida de um guerreiro; .• com·sabedoria e senso de
gico de sua obra, mas a raiz mesma sobre o pensamento socioló- humor: uma sinopse da obra de Guerreiro Ramos". Revista de
gico brasileiro. · AáministraçíiQ Pública, Vol. 17, na I, jan/março, pp. 107-125.
Hoje, graças à Editora da Universidade Federal do Rio de Em sua sinopse, Ramon Garcia diz que seu diálogo com GR
Janeiro, em particular aos Professores Wanderley Guilherme dos compreende quafro momentos interligados: a) um Hlósofo da
ação; b) um arguto teórico do Estado, ou melhor, um criatívo
Santos e Heloisa Buarque de Hollanda, iniciamos a r7edição da
e empenhado ideólogo da cultura; c) um homem que sempre
obra de Guerreiro Ramos. ..
exibiu um sentido de vida altamente desenvolvido, isto é, um
senso de justiça e ética, e, acima de tudo, um senso ~cético do
Notas mundo, enext~icavelmeme interligado à. sua própria compre-
· (1) Cientista político e escritor, foi aluno do Professor Guerreiro ensão dos assuntos humanos; d} finalmente, um homem que
Ramos na Escola Brasileira de Administração NblicaJFGV, sempre teve uin grande ·controle sobre as palavras (ao invés de
quando tornaram-se amigos. Atualmente é Diretor~adjunto do ser dominado por elas), que, na maior parte do tempo, articulava
Centro de Estudos Norte-americanos (Conjunto Universitário idéias altamente inteligentes, mas que, como todo· e qualquer ser
Candido Mendes), Professor-convidado <!a_f_!l~~~5!~_E:scola de humano, emitia, de acordo com as circunstâncias, o~servações
Sociologia e Polrtica de São Paulo (Programa de Pós-graduação bem-humoradas e tristes, serenas e agressivas, benignas e
em Polftica 'Internacional) e Professor--convidado do Mestrado cáusticas"(p. 109); LuizAntônioAivesSoares,l993,ASocio/ogia .
de Direito de Integração da UERJ/Faculdade de Direito. critica de Gue"eirQ Ramos, Rio de Janeiro, Editora Copy & Arte..
(2) Inicial~ente, me pedia com urgência que lhe enviasse os j (5) Cabe aqui uma nocn. Sabe-se que o tftulo dado po; GR, Cartilha
artigos de Wanderley G. dos Santos, "A Imaginaç~o Político- brnsi/eira d() nprenáiz de SQció/Qgo, tinha co~o um dos alvos 0
Social Brasileira"(DADOS 213) e "Raízes da Imaginação Política então jovem antropólogo Darci Ribeiro. Por ocasião do li Con-
Brasileira" (DADOS, 7, 1970)
(3) Cabe aqui assinalar, além da assistência e estímulo de Clélia
Guerreiro Ramos e de sua filha Eliane G. Ramos,. o apoio de
Adbias do Nascimento, Gerardo Mello Mourão, Nanei Valadares
! gresso latino-americano de Sociologia (São Paulo, 1953), GR,
na qualidade de presidente da Comissão de Estruturas Nacionais
e Regionais, foi atacado por suas posições consideradas revolu-
cionárias. Em 1986, por ocasião da reunião no Rio de Janeiro,
de Carvalho, Wilson Pizza, Lucia Lippi, Sérgio Góes de Paula do 16• Congresso Latino-americano de Sociologia (organizado
e, particularmente, da agente ·literária Ana Maria Santeiro, pela · pdo Prof. Theoconio dos Santos), o então Vice-Governador do
a
Rio, Prof. Darci Ribeiro, veio público, numa de suas atitudes

,J6 IESP I UER.i


17 BIBLIOTfCA
lNTRODUçAO CRITICA À SOCIOLOGIA BRASILEIRA

generosamente bem típicas, dizer que tinha uma dfvida para com
Guerreiro Ramos, afirmando a correras posições de GR e fazendo
urna autocrítica de seus erros, diante de um público (que incluía
o então homem forte do regime da FNL da Nicaroigua, Tomaz
Borge), que, talvez, não soubesse da amiga polêmica que man-
., tiveram no passado.
(6) Em entrevista dada a um jornal-tablóide em 1994, o amai ONegro Como Lugar
Presidente da República (então candidato), Fernando Henrique
Cardoso, respondendo a uma·pergunra da entrevistadora sobre Joel Rufino dos Santos
a importância do ISEB, afirmou categoricamente que a Rrduriio
socio/Qgka era o mais importante livro de sociologia brasileira
que ele já tinha lido.

!!
I,!:i Assim como somos mais brasileiros consumindo
·I\ Guaraná ao inv~ de Coca-Cola, tecidos Bangu ao inv.!s de
tecidos ingleses, devemos produzir e consumir a nossa
sociologia ao invés de consumir a dos oucros.
Quando Guerreiro Ramos disse isso a um repórter da Oltima
Hora, corria o ano de 1956. }!sse nacionalismo que hoje- mas
só hoje- par_ece ingê~uo, pertencia ao conteddo de idéim daquela
tàse histórica. Se fosse vivo e quisesse compreender o nacionalismo
que vincou a totalidade do seu pensamentÓ e militância política,
bastaria a Guerreiro Ramos apliCéU' o seu "'ttpprottch faseoJôgico":
toda estrutura econ6mica e culturol6gica condicior.a seu
correspondente elenco de problemas, o qual só se altera
na medida em que a referida estrutura se transforma
faseologicamence. 1
Nàdonalisras foram o pernambucano MCP, do jovem Paulo
Freire, o CPC da UNE, a História Nova, o cinema juvenU de
Glauber Rocha e Paulo Emílio, os aut~s de Guarnieri e :aoal, ·os
ensaios de Carlos Esrevam Martins, Ferreira Gullar e tantos outros
que tiveram tempo, mais tarde. de se arrepender. (Mel1_Pairpor :

18
~I:

.I
O NEGRo CoMo LuGAR
~f.' INTRODUÇÃO CRITICA A SOCIOLOGIA BRASILEJRA

Kubitschek. A1 por 1957, contudo, já fun~ionava a todo vapor


f· .· · .ex'emplo, um modesto funcionário público que nunca: leu Guer-· como "fábrica de ideologia"~. · ·
', I··... ·· . · reiro Ramos nem freqüentou o ISEB, morreu sem por uma gora
!< · da bebida imperialista na boca). A sfndrome do Guaraná ei:a, pois,
O desenvolvimentismo pertenCia também, portanto, ao con-
teúdo de idlias da segunda metade dos anos cinqüenta. Jun-
~i · um dado de conjunruta ..:.::..: podia: manifestar-se treftgamente pelo taram·se no mesmo barco hegelianos como Roland Corbisier,
! :. Auto áos 99%, que imortalizou o CPC, ou sisudamente pela
marxistas como Werneck Sodré e liberais conservadores como
i1. ftlosofia de Vieira Pinto2• Roberto Campos. Naquela salada desenvolvimentista não é di-
:11 Nessa atmosfera é que Guerreiro Ramos dispos-se,: com certa fícil, contudo, isolar o pensamento de Guerreiro Ramos. Para
:fi pretensão, a introduzir a sociologia nacional brasUeira, admitindo começar, diferentemente de Werneck Sodré ou Hélio Jaguaribe,.
',:[! como precursores apenas Silvio Romero, Pontes de Miranda e por exemplo, sua adesão às teses cepalinas - sobretudo nas
.ll Oliveira Viana. Sua obra pretendia ser um trabalho dentffico a formulações de Raúl. Prebisch - foi total .
.. 1! , . partir de Hegel, do jovem Marx e dos culturalistas- Dilthey à A CEPAL, como se sabe, tinha o prop6sit~ de tornar a polftica
frente - ancorada ao mesmo· tempo no compromisso com a·
1

e o pensamento econômico dos pafses latino-americanos fatores


.I'1
..

particular circunstância nacional. Seu programa de trabalho se


- .ope~tivos do seu desenvolvimento. Guerreiro deduziu daí a ne·
:Jr desdobraria em três etapas: cessidade de uma "sociologia em mangas de camisa" que, para .
· !I 1 - a elaboração de um m~rodo de análise, suscetlvd
.;; ilustrar, nas atividades de aconselhamento não perdesse de visÇa · .·
·:! de ser utilizado na avaliação do valor objetivo do produto
!! ilitdeccual, como integração do significado das obras nos as disponibilidades de renda nacional e que, não descurando ·o ..
!'. i,· faros, e não como proeza ou afirmação meramente i.ndivi- · significado econômico do seu trabalho, caminhasse para uma :
dual; 2 - a revisão crfcica de nossa produção intclecrual, interdisciplinaridade. O contrário d~a sociologia crítica, redu#:. · · ·
realizada, até aqui, à lu:r. dos fatos da vida brasileira; 3 - da, como postularia adiante, era a "sociologia enlatada" ou consular ··
ou simplesmente transplantada, por v~es rebuçada, ~orno em ·
o esdmulo da auto-análise, como instrument9 de purgação
de equlvocos. e vícios meneais e de ajustamenro do produtor
intelectUal às propensões da rc:alidade.l Arthur Ramos e Gilberto Freyre, num ecletismo conciliador. Não
hesitou, portanto, em investir contra os que pensavam a soci~dade
Guerreiro Ramos se torna uma figura pública af por 1954. Era
brasileira a partir de doutrinas importadas, mesmo quando lhes
então professor da EBAP (Escola Brasileira de Administração
reconhecia alguma inteligência- um Tobias Barreto, um Pontes
Pública) da Fundação Getúlio Vargas, membro da Comissão
de Miranda, um Pinto Ferreira, um Mário Lins, o doctor seraphicU.s
Nacional do Bem-estar Social e co-fundador do IBESP (Instituto
da s~ciologia brasileira - especialistas, segundo ele, em opor
Brasileiro de Economia, Sociologia e Política). Eram ele e Hélio
Jaguaribe os intelectuais mãiSde5tacados do Grupo de Itatiaia, prem•ssas aos fatos sociais. Sua simpatia, por outro lado, com
ressalvas críticas, ia para os que haviam pensado a nação brasileira,
quase todos os funcionários ou assessores do governo Vargas,
empenhados no estudo, pesquisa e planejamento do que chama-
ou a sua possibilidade, com angústia - Euclides da Cunha, j
vam realidade nacional. Em 19 56, .refeitos do suicídio ,que a todos
Alberto Torres, Manuel Bonfim, Caio Prado .... Com os anos, ·!
tornou-se cada vez mais impaciente com o que· lhe pareciam •i
desnorteara, é o Gmpo de Itatiaia que funda, com algumas adesões
pormenorizaçóes e estudos de comunidade, recomendando aos
!
de fora, e da mesma densidade intelectual, aliás, o ISEB (Instituto
aprendizes de sociólogos se dedicarem de preferência aos estúdos i:·'·1
Superior de Estudos Brasileiros). Criado por ato do governo Café
Filho, contrário ao campo var~i;ca, de.norou o ISEB a inserir·
globais - as tarefas do desenvolvimento não podiam esperar - , · ·j
se na orientação cepalina, desenvolvimentista, do···gove'tno
. ··:j.
2J
20 ...· . .•. ··I
.·.::)\
-··-----------~:.:..:..:.2_....:.._::.. __________ ·--~-·· . . --··t..:...........-..

INTRODUÇÃO CRITICA À -SOClOLOGlA BRASILEIRA 0 NEGRO COMO LUGAR

esquecendo--se de que esses estudos globais eram exatamente autores lhe deram, relativamente acabadas, as categorias de tota-
I os mais propícios. aos dourrlnarlsmos que temia. Numa pala- lidade (a nação como totalidade), alienação, situação colonial,
I~--·: vra, Guerreiro via a sociologia como .serva do desenvolvimento identidade nacional, inautenddade, "projeto". etc.
e nessa visão residem tanto a grandeza quanto a miséria do seu Idéias não germinam, porém, se o terreno não é fértil. Viví-
pensamento.
! Guerreiro Ramos é, pois, assim como Vieira Pinto, Roland
amos o apogeu da democracia populista. Há muitas definições de
populismo, mas pode-se trabalhar com aquela que o dá, suma-
Corbisier e outros isebeanos um pensador datado. Para que reeditá- riamente, como a forma política assumida pela sociedade de
lo hoje? Há um acento de boa e velha tragédia na força que ele massas na América Latina, constante de medidas concretaS de
e parte da sua geração fizeram para realizar um modelo de capi- governo, de uma ideologia, de uma estratégia de desenvolvimento
talismo nacional, com Estado fone, no instante mesmo em que social e de uma linguagem. Das quatro modalidades em que
o processo de substituição de importações chegava ao fim e se desdobrou entre nós 9 - queremismo getulista (1945/50),
montava-se a infra-esrrurura·necessária ao crescimento pela via da trabalhismo (1950/54), juscelinismo (1955/60) e janguismo
internacionalização. Os tempos que se abriram com o governo (1961/64) - , Guerreiro Ramos só teria dificuldade em se com-
Kubitschek, a que o ISEB nacionalista pretendia inocentemente por com ó juscelinismo. Estava dada a pauta para o seu· labor
servir, veriam a vit6ria de Roberto Campos (e num certo sentido sociol6gico, encontrara o nicho perfeito para a sua sociologia
também de Hélio Jaguaribe), o mais empedernido dos represen- correspondente ao Guaraná e fábrica Bangu.
tantes da ala direita do Grupo de Itatiaia. Trinta anos depois,
Por que um ci_entista social do porte de Guerreiro Ramos
descobrimos que Guerreiro Ramos tem algo de Policarpo Quares-
andou esquecido? A explicação convencional é que houve nos
ma: nada do que desejou pará o Brasil deu certo; emigrando para
últimos quarenta anos um forte deslocamento das rdações de . .
os Estados Unidos ·ao menos escapou do fuz.ilamento. 5
classe entre nós e, conseqilentemente, mudou a pauta sociol6-: :
Mas Guerreiro Ramos é também, basicamente, um caso de gica. (Também Nelson Werneck Sodré, brilhante historiador e
fidelidade à sua circunstância _,. de ética, numa palavra. Costu- mestre de uma geração· inteira,-qaase sucumbiu a esse desloca-
mava citar Graciliano: "quem não tem vergonha na cara não pode mento). Há, contudo, uma explicação menos 6bvia: os pmsatiores · :·;:,
ser soci6logo": populistas jazem sob a montanha da modernização triunfante. ·::, ·.'. ::'·
Graciliano Ramos, em ourras palavras, formulou um
postulado fundamental da filosofia contempoclnca segundo Creio haver, na atualidade, dois conjuntos de interpretação do
o qual, quando n6s assumimos voluntariamente o qué nos nosso processo poHcico, que, embora não ahtagônicos, disputam
condiciona, transformamos a estreiteza em profundidade. a supremacia no soi·disant campo progressista. ·
[...] A assunção do Brasil seria, portanto, nessa ordem de
idéias, a condição prévia, nccess:lrla, para descobri-lo
1A) Para os intérpretes situados no interior da ordem moderna
ceoriq.mente.' (inclusive no lugar da classe operária), o populismo nada mais foi
que uma etapa na hist6ria das relações entre as classes sociais no
Claro está que essa ética - umá pessoa como um país s6 se
Brasil. O fim do popi.Llismo (com o golpe de 64) terá sido o
\
conhece quando se reconhece .- tem suas raizes teóricas: os
i
· notórios Hegel (sobretudo o da Fenomenologia do esplrito, o jovem começo da etapa da luta de classes explícita. Essa etapa {em que
·i.
Marx:, Same e um pensador, hoje esqueddo, G. Balandier' (a que nos encontramos) ~hegará também um dia aos seus limites,
Ortiz acrescentarhl Fanon, assinalatido o pareiuesco de suas idéias quando o aguçamento das suas contradições instalará a democraCia
e intuições com um _dos papas do ISEB, Vieira Pinto8• Esses sodaliita, potencialmente· anunciada por cerras elementos das

22 23
:I
!i
INTRODUÇÃO CRíTICA À SOCIOI.OCIA BRASILEIRA O NEGRO CoMo LuGAR

i( etapas precedentes (o intervencionismc;o estatal, os esboços de inside his nightmare" 10). Entrar naquele pesadelo era tornar-se um .
i.: ,. planificação econômica, a política de massas, certos valores cul- crioulo (nigger). Pela mesma época, Guerreiro Ramos chegava a
turais etc.). Essa avaliação, ~Q.ll). p.qucas nuances, é; que serviu idêntica conclusão no Brasil: o problema do negro é sintoma de
!! de .teoria à. geração guerrilheira que a partir de 1968 se defrontou patologia do branco.
!I com a ditadura militar. E constitui, com um pouta mais de O "problema do negro", tal como colocado na sociologia
J\ sofisticação, o balizamento teórico do atual Partido dos Traba- brasileira, é, à luz de uma psicanálise sociológica, um ato de
j... · .. lhadores (PT). m<i-fé ou um equivoco, c este equfvoco só poder.i sei d~fcito
por meio da tomada de <:onsciencia pelo· nosso branco ou
1 :.·. . ZR) A outra maneira de ver, oposta a eisa, começa cqncordando pelo nosso negro, cultutalmemc embranquecido, de sua
:!.~ que a democracia populista foi uma etapa vencida do desenvolvi- alienação, de sua enfer.nUdade psicológica. Para tanto, os
mento social e pol!tico do pais, mas discorda de que· tivéssemos dO<:Urnentos de n·ossa sócio-antropologia do negro devem
ser considerados como materiais clínicos. 11
il entrado - salvo 'no plano do deseJ' o - numa etapa subseqüente
!I i de aprofundamento da luta de classes. Em cercos limites essa luta O primeiro daqueles equívocos era a noção enlatada, biológica,
il! não teria deixado de ocorrer, era· mesmo previsívd naquele momen- de raça. Sob o signo desta categoria, fortemente impregnada de
~ to histórico, mas nem por isso o socialismo deixava de ser uma conotações depressivas, é que trabalharam Nina Rodrigues, ao
ji teleologia. Generosa teleologia, como dizia Guerreiro Ramos, dobrar do século, e o Oliveira Viana de Raça e assimi/açiío. Ne-
;11 :· · mas teleologia. Pois o que, efetivamente, aconteceu no ~rasil, pós-. nhum dos dois haviam feito ciência, em que pese a inteligência
., 64 do segundo, pois essa é um espírito, uma atitude militante de
1,'1 ·.•····. foi o aprofundamento da contradição entre ordens,' ou ertados:
· ... ;
compreensão de uma circunstância historicamente pré-industrial
~ classificados (nas ordens moderna e oligárquica) versus desdassi-
como foramos até a Segunda Guerra. Nem importava que a noção
~.:·... · •. ·~~dos {ordem do po-vo)..__ _
de raça fosse substituída, desde Gilberto Freyre, pelas de cultura,
jot· , ·..., : •:;, O sociólogo Guerreiro Ramos se inscreve na base dbssa segun- aculturação e mudança social - nossa antropologia permanecia ·
··!f· ·.: · da maneira de ver. O marxismo não passou para de,i sobretudo
~.~f.: · .nos últimos anos de vida, de uma "idéia fora do lugar~. Para usar quietista e enlatada.
A ac:ulturação, escreveu, supõe o valir mt~is 12 de uma

1
;~~!. uma expressão da moda, ele foi um pensador semin~ da demo-
c:ultura em.fàc:e a outra, do mesmo modo como a superi-
;1~ cracia populista. Não se pode garantir que ele estava certo, nem oridade de certas raças em fàc:e de outraS, suposta pela
l~.·! os outros; mas diga-se a seu favor que a democracia populista é antropologia racista. [...] Por outro lado, esta entro-
a nossa única Jinhagem político-ideológica original. Ou a nega- pologia, quando se toma prática ou "aplicada". ("applied
jjj mos sumariamente, como costumam fazer os convictos da mo-· anthropol<;~gy"), parec:e tender a <:onsiderar a mudança so-

~! j dernidade - de direita ou de esquerda - , ou nos valemos dela cial em seus aspectos puramente ~uperestruturais, justi-
ficando a mudança social por intermédio de agencias edu-
~H para elaborar novas estratégias de justiça social na atualidade. 'f
cacionais e sanitárias, antes que mediante a alteração das
·~li Em 1952, um dos irmãos de ]ames Baldwin foi de$tratado no bases e<:onômicas e polfdcas da <:Ómunidade. 13 , .

~~I~i :ér;~o:u:r ::;:~ci:c;:~es';~~=~h::::u:~:: ~~a::::~~


·
Na visão de Guerreiro Ramos o desenvolvimento econômico
é, pois, a régua e o compasso que desenhariam tanto as idéias co~o
,!: baseia no medo; quando o racista branco se depara corri um negro as ações políticas corretas a favor da justiça social. Guerreiro não
:::!
i!i: não é um indivíduo humano que ele vê, mas uma criação da sua hesitou, por exemplo, em esposar o conceito de cultura autêntica,
~~; mente, um pesadelo- "above all you must take carc not to step por oposição à transplantada- discutlvel já e~ 1950-, como
~!:
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~\[ 24 25
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·--···:_:...:.
--·-----~·:...----···-·. ·--·

1NTRODUÇÂO CRfTICA À SOCIOLOGIA BRASILEIRA

não se fez de rogado em sugerir aos negros pobres que trocassem


os terreiros pelo protestantismo ou o catolicismo, "traços mais
operativos na nossa incipiente estrurura capitalista".
Guerreiro não chegou, obviatnente, a negar a vertente cultural
- simb6lica, diríamos hoje - das problemáticas negra e indíge~
I 0 NEGRO COMO LUGAR

Para complicar, havia ainda um terceiro dilema, esse pessoal:


se a reivindicação de negritude é um obstáculo à conclusão da·
nação, como afirmar o Niger súm? A saída de Guerreiro Ramos
foi esposar radicalmente o termo afirmativo da contradição- sou
negro- e de lá, desse lugar assumido, olhar outra ve:~. o problema:
. na. Sua recusa em cedê~las ao domínio da antropologia - uma Sou.negco, idéntiflco. como meu o corpo em que o meu
classe de estudos que, sintomaticamente, se desenvolvia mais nos está inserido, atribuo ~ sua cor a suscetibilidade de ser
valorizado esteticamente e consideo a minha condição ~t­
estados de maior presença negra - teve, ao menos, um mérito:
nica como um dos suportes do meu orgulho pessoal - eis
promover o negro a problema nacional. Essa é, ali;U, a base da sua a( roda uma propod~ucica sociológica, todo um ponto de
crítica aos predecessores Nina Rodrigues, Arthur Ramos e Oscar partida para a elaboração de uma hermeneutic:a da situação
Freyre que equipara, em nulidade científica, com certo exagero, do negro no Brasil.
a Debret, Kidder e outros descritivos. Ou se considerava o negro Guerreiro não era preto recinto, penehda àquela faixa de
como protagonista social e político ou nada. mestiços escuros em que a "raça" é escolha do freguês. A ~ua foi
Isso significa que Guerreiro negava a vertente psicológica do ser negro. (A partir de que momento e levado por que circuns-
racismo? Não, ao contrário. E11:1 mais de uma ocasião, ele tratou tâncias, ele pr6prio nunca revelou, embora admitisse influências
de se explicar: do Teatro Experimental do Negro e do Grande Negro, como
A partir desta situação vital (negro e povo no Brasil são
Nelson Rodrigues batizou Abdias do Nascimento). Dessa
sin6nimos), o problema efetivo do negro no Brasil é essen- assunção, ele extraiu as seguintes conseqüências lógicas:
cialmente p$Ícológico e secundariamente econômico. Ex- Então, em primeiro lugar, percebo a sufici&lcia postiça
plico-me: Desde que se define o negro como um ingredi- do sócio-anttopólogo brasileiro, quando trata do problema
ente normal da população do país, coMo povo brasileiro, do negro no BrasiL Então, enxergo o que há de ultrajante
carece de significação falado problema do negro puramente na acirude de quem t~ta o negro como um ser que vale
econômico, destacado do problema geral das classes des- enquanto ·~aéü.lcimido~. Então, identifico o equivoco ctno-
. favorecidas ou do pauperismo. O negro é povo no Brasil. 14 centrismo do "branco" brasilelro ao sublinhar a presença do
Ao invés, portanto, de negritude, povidade. É possível que se negro .mesmo quando perfeitaMente idencificado com ele
I pela culrura. Então, descortino a precariedade histórica da
fosse vivo hoje, Guerreiro investisse contra a nossa sociologia
I! de corte norte-americano, que se esmera em medir o "lugar do
brancura como valor, Então, converto o "branco" brasileiro,
sôfrego d~ ·identificação com o p~drão estético europeu,
I negro no mercado de trabalho", com a mesma impaciência com num caso de patologia social. Então, ~so a considerar o
II que investiu contra a "antropologia da negritude" do seu tempo. preto brasileiro, :ivido de embranquecer se embaraçando
É que são ambas inúteis para promover, na sua ótica, o desenvol~ com a sua própria pdc, também como ser psicologicamente
i dividido. Então, descobre-se•me a legitimidade de elàborar
vimento e completar a nação. uma est6tica social de que seja um ingrediente positivo a cor
.I Os estudos sobre o negro e a questão racial avançaram muito negra. Então. aflgura~-me posslvel uma sociologia cienú-
nos anos ·após a sua morte, é verdade, mas não o bastante para flca das relações étnicas. Então, compreendo que a $0lução
:1
do que, na sociologia brasileira, se chama o nproblema do
superar o duplo paradoxo em que Guerreiro Ramos se debateu:
·Ir·. não há raças, mas há revelações raciais; e negro é povo, mas há
negro •, seria uma sociedade em que todos fo.unn brancos.
Ent.ío, capalito-m~ para· n~gar va/it.lm.k a tsta soluç4o. 1S
r· negritude e não povidade.

I 26 27
!NTRODUçAO CRITICA A SOCIOLOGIA BRASILEIRA
O NEGRo CoMo LuGAR

· Para Guerreiro Ramos, pois, negro não é uma raça, pem (7) Para os diagnósticos de Balandier, ver G. BALANDIER. !
!
exatamente uma condição fenot!pica, mas UJ!l_Ç,Q,P.O lógi.s;(), insti- "Comribution à une sociologie de la Dépendance". Cahim 1
tuído simultaneamente pela cor, pda cultura popular nacional, lntemaiWnau.x de Sociologia, n• XII, 1952. l
pela consciência da negritude como valor e pela estética social {8) ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional.
negra. Um individuo preto de qualquer classe, como t~mbém um
mulato intel~ctual ou um branco nacionalista (por exemplo)
podem ocupar e.sSe lugar e.dele, finalmente, visualisar o verdadeiro
São Paulo: Brasiliense, 1985.
{9) Ver IANNI, Octavio. O Colapsó do populitmo. Rio. de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1990; e Sociologia da
I
Brasil. Como não lembrar a clássica definição de Clóvis Moura
- branco, no Brasil, é todo indivíduo que escolheu a cor dos
- sociologia. São Paulo: Atica, 1989, p.8.
(10) APUD LEEMING, David. jamts Baldwin. New York:
I
colonizadores para se espelhar, negro o contrário? Alfred A. Knopf, 1994.
Enquanto a sóciología modernizante busca, num trabalho de {11) GUERREIRO RAMOS, Albe'rto. lntroduflio critica à II
Slsifo, descrever o lugar do negro na sociedade brasileira, o soció- sociologia hrasileira. Rio de Janeiro: Andes, 1957, p.l55. i

logo populista Guerreiro Ramos descobriu que o negro de próprio {12) Em negrito no original.
é um lugar de onde descrever o Brasil. Penso ser essa 1déia - o (13) Idem, idem, p.I26.
negro como lugar - a mais original contribuição de Guerreiro (14) Idem, idem, p. 157.
Ramos à compreensão do dilema nacional. Na certa, não é uma
(15) Idem, idem, p.l57.
iclé.ia agradável aos militantes da luta organizada contra ia racismo,
que preferem vê-la como tarefa exclusiva da raça negfa (sic). ~.
coi:ttudo, a única capaz de promover a paixão de ser negro a
questão nacional. · · · ·- -· · · ·

Notas
(1) GUERREIRO RAMOS, Alberto. Introdurao critica ~
tociologi4 bratikira. Rio de Janeko: Andes, 1957, p.l/.
(2) Ver VIEIRA PINTO, Álvaro. Conscihtcia t rtalidadt
nacional Rio de Janeiro: ISEB, 1960.
- - - · !átologia t dtstnvolvimmto nacional. Rio de
Janeiro: ISEB, 1959.
(3) GUERREIRO RAMOS, Alberto. Introduçlio critica à
tociologia brasiltira. Rio de Janeiro: Andes, 1957, p.30.
(4) Ver TOLEDO, Caio Navarro. ISEB: fábrica tk ideologia.
São Paulo: Ática, 1977. ·
(5) Alusão metafórica ao triste fim de Policarpo Quaresma. i
I
, (6) GUERREIRO RAMOS, Alberto. lntrodurli" critica 4 i
sociologúz brasik_i!~ _!Uo de J.~~~ro: Andes, 1957, p.33. I

f
28 i*í 29
t
.':.·

Pre.fdcio

O presente livro contém o texto integral da Cartilha brasileira


do aprendiz de sociólogo e mais outros estudos publicados em
diferentes datas. .
A demanda crescente da Cartilha, impondo a sua reedição,
dá-m~~-ta--oporrunidade de reunir num só volume os trabalhos
esparsos em que procedi à critica da sociologia no Brasil. Esta
Introdução é, como poderá verificar o leitor, um conjunto de
estudos afins, rodos inspirados pelo propó.sito de reorientar o
trabalho sociológico em nosso país, num sentido pragmático.
Jülgo-me compensado de rodos os ônus das atitudes polêmicas
que fui obrigado a a.-~umirdurante o período em que escrevi os
trabalhos reunidos neste volume.
A ~ápida propagação das idéias contidas nestes escritos de-
monstra, no meu modo de entender, que elas exprimiram um
~ado de espiriro generalizado entre aqueles que estão vivendo as
rep.dências mais autên~icas de nosso pais.
O processo da "sociologia" oficial que iniciei em 1953 é hoje
uma. tarefa pública. As tes~s &-"sociologia" oficial, até há bem
lNTROOUÇ)I.O CRl'rJCA À SOCIOLOGIA BRASil..EIRA

pouco dominantes, graças ao despoliciamento científico vigente


em nosso meio, são hoje clandestinas. Não ultrapassam o âmbito
de agências oficiais que funcionam como último :reduto de
conhecidos profiteurs até recentemente travestidos :de "soció-
logos", "antropólogos" e "etnólogos". .
O que faz, hoje, de mais sério no domínio das ciêQcias sociais
é sob as vistas do público e~~ a sua participação e;aprovação.
Mas creio estar superada. a fase polêmica da sociologia na-
cional. Documenta este livro um momento dessa fas~. PRIMEIRA pARTE

Diante de n6.$, o horizonte é largo. Critica da Sociologia


Guerreird Ramot Brasileira
Rio, Sminbro, 1956

32 ,
:·:.··::·:·

1 1
í

f
1
1
! ·:·-----····-----·I- Not:as para um Est:udo
! Critico da Sociologia no Brasil
i
I

I
~
f
1!
1

A compreensão objetiv~ d~~a sociedade nacional é resultado


de um processo hiscórico. Não salta da cabeça de ninguém, por
mera inspiração ou vontade, nem é epistemologicamente possível,
na ausência de certos furores reais.
A objetividade do conhecimento histórico-sociológico, como
todos sabem, difere largamente da objetividade do conhecimento
flsico-matemá.tico. No conhecimento do átomo ou da célula incide
escassa interferência do conrex:to hist6rico-s,ociol6gico do pesqui-
Thc: fundamental problc:m, therc:fore, of rhe
sador, mas, no conhecimento dos fatos sociais, essa interferência
social science is to find rhc: laws according to which
.I
any srare of society produces the scare which
é iniludfvel. Sendo o homem um "ser em situação,. ou um ser
succedc:es ir and rakes its place. historicamente construído, não se dá para ele aquela drcunstAncia,-
]ohn Stuart Mill, suposta por Descart.es e Émile Durkheim, em que um ~ se
f f A Sysrem of Logic, VI, X, § 2. defronta com a realidade histórico-social, como se esta fosse sus-
, I cedvd de ser apanhada, em sua essência, .por um pensamento
I I
.! i ... ir is the whole which produce~ rh~ whole, soberano, libeno de julgamentos de valor, de prê-noções e mesmo
I rather than any part a part.
john SIUilrt Mi/J,
de tendenciosidade.
Na verdade, no domínio da realidade histórico-socUl, o sujeito
A Sysrem of Logic, VI, V, § 6. pensante e o objeto se compenetram ou são faces de um mesmo
I - NOTJ\.5 PARA UM EsTUDO CRITICO...
CRiTICA DJ\. SOCIOLOGIA BRASit.ElRA
1
fenômeno. Isto não quer dizer que a objetividade seja• impossível
naqude domínio. Quer dizer que ela se defme em : termos de
não de natureza a diferença entre a situação colonial e certas formas
de paz, como a pt1X lusa, a pt1X britânica, a pt1X ianque, em relação
!
j
ao nosso país. I
perspecóva e que, portanto, dadas várias explicações de Um mesmo i
I
fato, a mais objetiva é a que alcança maior número qe aspectos, A situação colonial, posta em questão hoje por sociólogos e !
I

é aquela em função da qual se torna perceptível a infra·estrurura economistas, é enrendida como um complexo, uma totalidade que
e o caráter residual, tributário ou ideológico das outras; é aquela impõe cerro tipo de evolução e de psicologia coletiva às populações
9ue traduz a vetorialidade ou direção tônica, ou dominante, dos colonizadas. Um dos traços desta psicologia coletiva é a depen~
acontecimentos. dência, certo bilingüismo, a duplicidade psicológica, condições
A objetividade é, assim, algo que não se conquista de uma vez qu~ tomam limitadíssima a possibilidade de uma identificação da
por todas no do.mínio da realidade hist6rko-sodal, e se atinge personalidade do colonizado com a sua circunstincia histórico-
sempre dentro de limites. · natural imediata.
A sociologia, tal como se rc;m praticado entre nós em muito A reorientação da evolução e a transformação da psicologia
escassa margem, representa uma efetiva indução de processos coletiva dos países colonizados, independentemente de alterações
e tendências da sociedade brasileira ou instrumento de sua macroscópicas de suas estruturas, são, portanto, nessa ordem de
autocompreensão. idéias, impossíveis. Aliás esta reorientação e tais alterações ideais
e reais se dão, simulraneamente, em processo total.
A tomada de consciência da situação da sociologia no Brasil é
fato recente na evolução do nosso pensamento sociológico. Até A disciplina sociológica, no Brasil e nos países de formação
data relativamente próxima, carecíamos, em nosso meio, das semelhante, como os da América Latina, tem evoluído até agora,
pressões reais que possibilitassem este fato e, por isso, a disciplina segundo influências exógenas que impediam, neles, o desenvolvi-
sociológica, no Brasil, estava e está, ainda, em larga: escala, in- mento de um pensamento científico autêntico ou em estreita
capacitada para tornar-se o suporte de uma interpretação objeriva correspondência com as circunstâncias particulares desses países.
da sociedade brasileira. .õ
Assim, a disciplina sociológica nesses países se constitui de glosas
:;
Seria necessário, para tanro, que, inicialmente, o sociólogo de atitudes, posições doutrinárias e fórmulas de salvação produ- ,
brasileiro se dispusesse a um trabalho científico a partir de um zidas alhures, ou ilustra menos o esforço do sociólogo para
compromisso com a sua particular circunstância nacional. E são compreender a sua sociedade, do que para se informar da produção
raríssimos os esforços neste sentido. dos soci6logos estrangeiros:
A raridade e o caráter excepcional destes esforços se ·explicam, Não é sem alguma arbitrariedade que se pode tomar a data de
·aliás, historicamente. A cultura brasileira não poderia furtar-se à 1878, em que Benjamin Constant fundou a "Sociedade Positivista"
lógica da situação colonial. País ãescoberi o e formado por coloni- .f do Rio de Janeiro, como aquela em que se iniciam, no Brasil, os
zação, teria de percorrer forÇosamente rodas as fases dõ--próce5so estudos academicamente definidos como do domínio da disciplina
colonial. Assim, a raridade daquele compromisso é sociologica- sociológica. À luz de nossa perspectiva atual, esses setenta e seis
mente ordinária e compreensível, tendo em vista a lógica da anos· de trabalho sociológico, correspondentes a mais ou menos
situação colonial em que à exploração econômica se aliam outras três gerações, ostentam os defeitos que a seguir discriminarei.
formas complementares de dependência, como a assimilação, a Como se verá mais adiante, a descoberta e a critica de tais defeit~s
aculturação, a associação. t. preciso notar q~~ r~pe~;~ ·ae grau e não implicam a adoção de uma posição normativa de minha parte,

36
L 37
>~~~~·~~~~~~~~~~~~~~~~~----·---­
,.1!1;
~
f
:ü f CRITICA DA SOCIOLOGIA BRASILEIRA I - NOTAS PARA UM EsTUDO CRITICO •••

mas passaram a ser possíveis a partir'do horizonte que nos abre o Esse simetrismo, aliás, se registra em todos os campos da
presente momento da vida brasileira e mundial. cultura brasileira, e Sylvio Ro.l_l:l.E_ro, ao escrever a sua História da
SIMETIUA E SINCRETISMO -Via de regra, o soci6logo indígena está literatura Brasileira, observou que "a literatura· no Brasil, ... e em
sempre disposto a adotar literalmente o que nos cenrros europeus
e .norte-americanos se apresenta como mais avançado. É como-
I toda a América, tem sido um processo de adaptação de idéias
européias às sociedades do continente", marcada de "servilt~mo
mental". Sylvio Romero verberava mesmo o fato: "Não é mais do
vente, mesmo, o esforço do profissional brasileiro e de países de
formação semelhante ao seu, a fim de colocar-se up to date com a
produção sociol6gica dos países líderes da. culrura ocidental. Daí
decorre que a disciplina sociol6gica, tal como· se espelha em nossos I que ter lido por acaso Zola, ou Daudet, ou Rollinot, e atirar com
eles à cara do país, como se tudo estivesse feito! , .• "
DOGMATISMO - Consiste na adoção extensiva de argumentos de

l
livros, se transforma, no curso do tempo, ao compasso das mu- autoridade na discussão sociológica, ou em certa tendência a dis-
danças que se verificam conjuntamente nas sociologias européias cutir ou avaliar fatos através da mera justaposição de textos de
e norte-americana. autores prestigiosos. Este dogmatismo é notório em atitudes fran-
Há em nossa disciplina sociol6gica uma espécie de "falar cor- camente apologéticas. como a dos positivistas em geral, para os
:ljl

I
!J
quais as receitas dos nossos males estariam. compendiadas por
;~ .'!'
reto", semelhante ao dos cultores da llngua pura que renunciam,
por exemplo, aos critérios comunitários, vivos, de correção, em Augusto Comte. E na reação a este dogmatismo se apelou mesmo
favor dos critérios artificiais, importados. Assim como para esses para outro dogmatismo. Sylvio Romero, que foi um caso de

ji!l
puristas· brasileiros, falar certo é falar como falam os portugueses bifrontismo, pois exprimiu e adotou tendências contraditórias, em
em Portugal, uma arte difícil que só alcança a minoria dos que uma de suas obras contra os positivistas,- depois de afirmar q~e "a
conhecem as regras de colocação de pronomes e da crase, induzidas lei máxima de todos os fenômenos do mundo físico, a lei de
do falar lusitano, do mesmo modo se pretende praticar a sociologia evolução", era devida ao "gênio" de Herbert Spencer, aconselha
J f!l! no Brasil, de maneira hipercorreta, literalmente tal como no exte- aos sectários do naturalismo evolucionista "que se organizem tam-
;U: rior. As orientações e tendências aparecem aqui, simetricamente, bém em um centro de ação e propaganda e procurem reagir, ptlo
i;ij; na mesma ordem em que surgem lá. Nossos adeptos de Cotme são
sucedidos por spenceristas, estes por durkheimianos e tardistas e
jornal, pelo livro, pela conferência, pda lição oral, contra o neo-
jmtitismo que nos invade", neojesuitismo que ele identifica com
l i:~iji
~ ~ assim por diante. Mas, não é só simetdsmo que se discerne na o positivismo. De resto, o proselitismo à outrance é sempre o
sucessão dos nossos estudos sociológicos. É também sincretismo, companheiro inseparável.. dos dogmatismos.• Outro autor a quem
pois os nossos autores estão sempre dispostos a fàzer aqui a con- Sylvio Romero aderiu entusiasticamente foi o que chamou, certa
j! ;'' ciliação de doutrinas que, nos próprios países de origem, são vez, o "divino Buckle". Manifestação que lembra outra da mesma ·
a ..
l incompatfveis. Um dos nossos mais eminentes sociólogos escreveu
mesmo: "Cada vez mais me convenÇo de que as incompa~ibilidades
natureza1 esta de Tobias Barreto, que escreveu: "A Alemanha é
o
minha loucura, o meu fraco intelectual". Mas, talvez vulto de
~:
metodol6gicas se reduzem a questões de nomenclatura". nossas ciências sociais que foi mais vítima do dogmatismo tenha
O simetrismo e o sincretismo tornaram-se mais nítidos desde l sido Nina Rodrigues. Toda a sua obra sobre o negro no Brasil é
que começaram a ser editados1 ~n,tre. nós, compêndios de socio-
logia. Em todos eles, apresenc:úií~se justapostos os sistemas euro-
peus e norte-americanos, na suposição de que existe uma verdade
I
I
elaborada a partir de um ato de fé na santidade e na veracidade
da ciência social européia. Pode este autor fornecer abundante
material para um estudo de caso do "dogmatismo" no trabalho

I
sociológica. resultante da "conciliação" das várias correntes. sociol6gico.

38 39
[[ ;lil
: jll'i CRITICA DA SOCIOLOGIA .'8MS1LI'.II\A I - NoTAS l'Al~ UM ESTUDO CR.t"nco•.,

_!;··.' ·:.~, ·~:.


•. Menos nítido, mas igualmente efetivo, o dogmatismo continua
a incidir em obras sociológicas. atuais, principalm~te naquelas
AUENAÇÃO - A alienação da sociologia no Brasil decorre de que
ela não é, em regra, fruto de esforços tendentes a promover a
1
·j cujos autores excelem em mOStrar-se ajustados literalmente ao autodeterminação de nossa sociedade. Em face desta, o sociólogo
lI'1H
!,,i:jl']i!,· ·
que nos centros europeus ou· norte-americanos se cónsidera como brasileiro tem realmente assumido urna atitude perfeit~ente equi-
i ortodoxo. valente à do estrangeiro que nos olha a partir de seu contexto
!li UI· nacional e em função deste no's interpreta._
ij. !J!fl
DEDUTIVISMO - Decorre diretamente do dogmatismo.
Desde que se empresta aos sistemas estrangeiro~ o caráter de A alienação de nossos estudos sociológicos tomar-se-á particu-
l~·, !

!ijfl'
! :· ·

validade absoluta, eles passam a ser tomados corjto pontos de larmente visível para aqueles que adotarem como aspirações suas
i11 o.;lo..
j!l · i
partida para a explicação dos fatos da vida bra5ileira..
Houve as tendências autonomistas da sociedade brasileira. Na verdade, o
i i l;il' . . tempo, por exemplo, em que se tentou explicar a evoluça-o do inteleccual desplantado ou contemplativo não poderá alcançar a
lll!ii\ ·.
;Brasil à luz daS leis gerais da evolução. O positivísra Luiz Pereira alienação, porque esta· se define desde um ponto de vista extra-
j jj~ H.. . Barreto, referindo-se à queda de um gabinete conservador, escreyia
1
teórico ou pragmático, desde um querer orientado para a trans-
I. 111 ·: . em 1874 (Vide As Três filosdfias): "No momento em que a socie- formação da sociedade.
! jl .·· · ·. dade brasileira cessa, oficialmente, de ser teóloga para entrar no Temo que este modo de v~r não coincida com o de muitos

~ ~i~ ~ ~· · · · ·. ~::oo~:ce<loes:~:u:~;~;,o p=eptlvd eni tta~


t} : ,li••· ..
é
sociólogos brasileiros aficionados do marxismo. PrincipJlmente
d<
leitores. Pois, não é possível ignorar, hoje, a esueita relação entre
as aspirações e o conhecimento. Na verdade, só o que atua co-
nhece a realidade, como disse Plenge. As posições quietista-
:i 1H! '• ·· quando tentam explicar os nossos problemas poUtitos e jurídico- contemplativa e teórico-pragmática são inconciliáveis. A primeira
li f 1!1 . sociais, muitos o fazem segundo estudos marxistas aplicados a tem feito de muitos estudos sociológicos, ·no Brasil, obras de
ÍI , !_· . países estrangeiros, ou segundo apliçação meclnica das categorias beletrismo, de diversionismo e, às vezes, modelos de formalismo.
I' I I. marxistas. Procedimento este, diga-se logo, que cÓntraria a es- A segunda tem suscitado as obras de maior conceúdo de protesraçâo
11 !ti!
11
lj ;. ; sência do marxismo, mas que assinala a força do impacto da
~~~~~!~·
e pragmático, em nosso meio.
_situação colonial na psicologia do colonizado.
Tomo para modelo da visão alienada do Brasil uma obra de
hi jlj: A característica do dedutívismo é a abstração da contingência caráter para-sociológico que teve extraordinária repercussão na
~-:.·'•,[ ,i '··_,i,:!·i.' histórica, é a identificação do presente do nosso país co~ o pre- épóca em que foi publicad~. Trata-se de Retrato do Brasü (1928),
' sente de países outros em fase superior de desenvolvimento ou, de Paulo Prado, que exprime, de modo paroxísrico, certo sado-
~~.: ;:: de. qualquer modo~ de formação his~órica diferente da nossa . O
masoquismo de nossas camadas letradas para as quais o caráter
r' : ' ' dedu civismo, referência básica de uma teoria equívoca da realidade
do povo brasileiro está marcado de notas pejorativa$. O brasileiro
brasileira, é o princípio mesmo de nossa sociologia educacional e
é povo triste, luxurioso, cobiçoso e romântico, para Paulo Prado;
de nossa sociologia político-administrativa, ambas orientadas por
como para outros se caracteriza pelo servilismo e pelos maus
critérios induzidos da experiência de outros povos. Nossos sistemas
costumes ou por caracterisricas equivalentes. .
educacionais e nossos sistemas político-administrativos se justifi-
cam em termos da excelência intrínseca de certos procedimentos Como paradigma da visão integrada do Brasil, elaborada desde
e não de nossas peculiaridades históricas e naturai~. São, via de um ponto de vista pragmático e participante, invoco Os Sertões, de .. I
i
regra, implantados a partir de uma teoria pré-fabricada. Apre- Euclides da. Cunha. A1 se confirma aquela observação do Hàns i
Freyer: "Só aquele que se acha imerso na realidade social ... pode
~ ' ~; ==· por isso, = originalidode
40 41
CRITICA DA SOCIOLOGIA BRASII..EIRA l - NOTAS PARA UM EsTUDO CRITICO •••

captá-la teoricamente''. Apesar de seus erros de técnica científica À razão cumpriria, por meio da investigação, a pesquisa das forinas
e de seu tributo ao dedurivismo, Os Sertões (I 90 I) constitui, até naturais de convivência humana, às quais deveriam reverter as
esta data, obra não excedida como contribuição tendente a liquidar sociedades européias. Por intermédio das teorias que resultam
aquele bilingilismo a que me referi, a ambivalência psicológica do desta. especulação, a burguesia ascendente justificava os seus pro-
brasileiro, e a identificá-lo consigo próprio. pósitos de reforma dos estados absolutistas.
Ainda mais, nossa socioanrropologia do negro está roda ela A Ilustração, no século XVIII, erige esta época à categoria de
viciada por um tratamento alienado do tema. O negro no Brasil, culminação da história. Confrontando-a com épocas passadas e
pais cuja matriz demográfica mais importante é o contingente com a situação de povos da África e dos mares do Sul de que então
corado, tem sido visto como algo estranho ou exótico na comuni- se rem notícia, o historiógrafa do século XVIII formula uma teoria
dade, o que só se explica na base de um equívoco etnocentrismo. thono!inear do progresso humano em que as épocas se escalonam
Finalmente, em outros campos da vida nacional, a influência desde a barbárie até o estado racionaL A teoria evolucionista de
do trabalho sociológico rem sido alienante. fierbert Spencer e a lei dos três estados de Augusto Comte estão
INAUTENTICIDADE - A inaurenticidade é o que resulta de todas
indiscutivelmente articuladas com estas direções do pensamento
as caraterísticas anteriores. Com efeito, o trabalho sociológico, em europeu.
nosso país, não se estriba em genuínas experiências cognitivas. Em Na Alemanha, além da incidência destas correntes, os sistemas
larga escala, as categorias e os processos que o sociólogo indígena sociológicos incorporam as categorias de organismo e de história. E
usa são recebidos, por ele, pré-fabricados. Não participando de sua é impossível compreender os sistemas da sociologia germânica fora
gênese, ele domina escassamente tais càtegorias e processos. das pautas da filosofia hegeliana, profundamente alicerçada nas
O sociólogo. brasileiro rem se caracterizado por uma extrema vicissitudes da história alemã.
versatilidade, o que denota, de certo modo, sua imaturidade. A Ora, os nossos sociólogos têm adotado os sistemas sociológicos
versatilidade não é, entretanto, uma característica dos centros de europeus em suas formas terminais e acabadas e, na medida que
pensamento de grande aui:enticidade. isto acontece, não os compreendem cabalmente, para tanto lhes
faltando suportes vivendais e,, muitas vezes, o conhecimento da
A sociologia mesma surgiu em países europeus como um pro-
duto históriCo. Não é posslvcl compreendê-la senão como um gênese histórica destes si~r_e.~a~..
capítulo da evolução do pensamento europeu. Um dos seus ava- A sociologia, no Brasil, não se organizpu ainda para uma
tares é a noção medieval de lei natural, que postulava a existência evolução em bases próprias, o· que só teria sido possível se as
de uma ordem inserida no mundo, a qual poderia ser descoberta gerações de sociólogos se articulassem entre si num trabalho
pela simples razão humana, ainda que desajudada da fé. Esta contÍnuo. Como diz Hélio Jaguaribe, com respeito à evolução da
ordem natural. entretanto, como observa Troeltsch, implica uma filosofia no Brasil, cada geração repete, desde o marco zero, o
concepção patriarcal ou teológica do universo, e são necessárias esforço da geração anterior e vai buscar idéias na Europa e, com
algumas centúrias para que. ela se laicize totalmente-, o que se isto, torna-se impossível a .formação de uma tradição cultural
tegistra nos séculos XVI e XVII, quando os jusnaturalistas, prin- brasileira.
cipalmente, entendem a natur~ como "o fundamento sobre que No entanto, nos Estados Unidos, a sociologia, apesar de ter
repousa o mundo fenomênico", e passam a admitir que a "essência partido do positivismo e do evolucionismo, encontrou, em se-
do homem" postula "um determinado esquema de ordem social". guida, um leito próprio de evolução, e suas transformações,

42 43
CRl'nCA OA SOCIO!.<.>CIA BRASH.mKA 1• NOTAS !'ARA UM ESTUDO CRITICO •••

diretamente comandadas pelas vicissitudes muito parci~ulares da espécie de meta do desenvolvimento histórico. De resto, também
sociedade nort~-americana, não se processam simetricamente em os economistas do século XVIII consideraram como a "economia
- relação à Europa. & razões disto são as mesmas que aplicam a política", universalmente válida, a economia particular dos palses
descolonização da economia norte-americana, mais de um século em que viviam.
antes da nossa e que não cabe examinar aqui. , A descoberta da hisroriddade do pensamento é que veio pos~
A presente critica não ilustra uma posição normaci'ia em face sibilirar o refinamento ciendfico das ciências sociais, inclusive da
da disciplina sociológica no Brasil. Até agora ela tem sido o que sociologia.
não pode deixar de ser, e o que habilita, hoje, o citudioso a Mas a u'niversalidade da ciência, como técnica de pensar, não
perceber esses defeitos é o fato de que está inserido numa confi- impede que a sociologia se diferencie nacionalmente. Esta diferen-
guração econômic~social que lhe dá nova perspectiv~. O atual ciação da sociologia é incoercível. Desde que o sociólogo só existe
sociólogo brasileiro não é feito de argila superior àquela de que nacionalmente, na medida que o seu pensamento seja autêntico,
foram feitos os sociólogos q~e o antecederam ou que ainda terá de refletir as peculiaridades da circunstância em que vive. A
remanescem. Sua visão diferente dos fà~os da vida nacional é sociologia se diferencia nacionalmente quanto aos temas e aos
resultado d~ um processo histórico. A sociedade brasileira, por problemas de que . mira. Desde que determinada sociedade se
está
força principalmente das suas tta.nsfo_~!?ações materiais, alcan- autodetermine, o trabalho sociológico tende ai a perder a disponi-
çando grande capacidade de autodeterminação e este fato se reflete bilidade e a tornàr-se instrumento desta autodeterminação.
no plano ideológico. . A sociologia, no Brasil, será autêntica na medida que cola-
São as condições reais da fase atual da sociedade que permitem, borar para a autoconsciênda nacional, na medida que ganhar
o
hoje, que se inicie, de modo plenamente consciente, trabalho em funcionalidade, inrencionalidade e, conseqüentemente, em
de formulação de uma sociologia nacional. E também o presente organicidade.
momento da história universal, em que o imperialismo entre em A crítica sumária que vem de ser procedida não tem outro
crise .e as chamadas áreas atrasadas se empenham no cáminho de propósito senão o de colocar o tema - o da interpretação da
auto-afirmação. ' realidade nacional - em um nfvel que os leitores possam pensar
Nesse ponto, parece oportuno caracterizar o que se entende por cooperativamente. De mtemáo, declaro que, embora convencido
sociologia nacional. _ do que afirmo, a minha posição crítica me impede de considerar
A sociologia, como toda ciência, é universal. É um a:nérodo de definitivos os meus pontos de vista. Assim, tudo o que aí fica é
pensar, corretamente, os fatos. Este método não é um Íla AJema- suscerlvel de retificações:
nba~- outro na Inglaterra, outro na França, outro no ~rasil. E o · Em resumo, sem a disposição para empreender a sua autocrltica,
.mesmo em toda a parte. - _ a sociologia no Brasil não poderá realizar a sua tarefa essencial -
-: É verdade que a sociologia, em particular, só recentemente a de tornar-se uma teoria militante da própria realidade nacional~
atingiu o plano realmenfé·- ciêntífieo:- ·Em seu inicio, ;ela estava Re5ervo para outra oportunidade a exposição pormenorizada
fortemente afetada de etnocentrismo. Quero dizer, os primeiros
r do conceito de sociologia em que fundamento os meus estudos.
sociólogos, como Com te e Spencer, generalizaram para a sociedade Sem desejar, nem de longe, focalizar o assunto aqui, observo,
em geral leis e tendências típicas da sociédade particular em que porém, que emendo esta disciplina numa acepção muito dife-
viveram. além de terem tomado a sua própria sociedade como rente da admitida pda maioria 'dos que, no Brasil, se consideram

44 45
' .. ·,·
···-··---

CRITICA DA SOCIOLOGIA BRASILI!JRA I- NoTAS PARA uM E.sTuoo CRITico •••

"sociólogos". A "sociologia.", tal como é academicamente definida, regisrrou no domínio da sociologia. Eis porque se afigura ·urgente
enquanto disciplina sistemático-formal, desligada da economia e a realização de um esforço tendente a promover o desenvolvimento
da história, e que tem como pomo de partida os sistemas de de uma. sociologia nacional, quanto à funcionalidade de suas
August~ Com te ·e Herbert Spencer, é menos uma ciência do que cogitações.
uma ideologia conservadora. Tal "sociologia" se formou num
período da história européia (principalmente francesa e inglesa) Bibliografia
e~ que o ímpeto revolucionário da classe burguesa arrefece e se
ANDRADE, Almir de. Formnçá~ da sociologia braJi/eira. Rio de Janeiro,
transmuta em sentido oposto, pois que aquela classe ascende 1941, vol. l.
ao domínio prático do poder. Este fato não se verifica sem conse-
BAI.ANDIER, Georges. "LaSituacion Coloniale:ApprocheThéorique". In
qüências para o destino da teoria social. ~as. ao contrário, condi- Cahieers lnternationnux de·sodowgie. 1951, 6" Ano, vol. XI.
. .!
dona o seu desenvolvimento, fragmentando a teoria social que se
COLUNGWOOD, R. G .. Idea de la Historia. México: Fondo de
:i vinha formando no século XVIII, em diversas disciplinas espe-
. ;:
Cultura Econômic'a. 1952.
cializadas. Essa especialização quanto mais avança mais contribui
FREYER, Hans. lntroducâÓII a la Sociologia. Madrid, 1945.
para desviar a atenção dos esrudiosos para os aspectos parciais da
sociedade, dificultando-lhes a sua compreensão global. Além disso, GOLDMANN, Lucien. Scimus Humnines et Philosophie. Presses.
Univer. de France, 1952.
estimula a adoção de precessos formais de conhecimento, em
detrimento dos práticos, os quais constituíam o característico, por JAGUARIBE, Hélio. "A filosofia no Brasilu. In Aspectos da formação e
evoluriio do Br,tsil. Rio de Janeiro, 1952.
excelência, dos eplgonos da teoria social do século XVIII, que, em
geral, foram ao mesmo tempo teóricos e militantes. lvfANNHEIN, Karl. Essnys on the Sodology of KfUJwkdge. London:
Routledge & Kegan Paul Ltd. 1952. Principalmente o capítulo desce
Conseqüentemente, parece necessário que a sociologia contem- livro: "Hiscoricameme".
porânea se procure situar em outra direção de pensament~: aqu:la
I, que se articula com a tradição mais genuína da teona social
MANNONI, O. Psycbologie de la Colonisntirm. Paris: Editions du Seuil.
I! científica, tal a qui'! ainda hoje se inspira em Hegel e aproveita as
1950.
RAMOS, Guerreiro. O Procmo da sociolugia no Br11;1íl Rio de Janeiro,
contribuições de Marx e do culruralismo, que tem em Dilthey um
1952.
marco decisivo.
ROMERO, Sylvio. Doutrina collfrtt doutri11n: o evolucionismo e
No Brasil, um dos fatos que tem condicionado os caracteres positivismo no Brasil. 2• ed. Rio de Janeiro( 1895.
negativos. da sociologia, anteriormente enunciados, é ta~bé~ uma TROELTS-CH,...Ei-nst. The Social T~aching ofChristian Church~s. New
condição estrutural da sociedade: a aliança dos profisstonats com York: Macmillan Co., 1949.
as agências que se beneficiam da alienação do pals, principalmente
econ6mica. A nossa sociologia se dirigiu para o trato de assuntos
distantes dos problemas atuais ou de temas estéticos. Esrudam~se
tribos desaparecidas, a renda de bilro, as lutas de famílias, as
comu.nidades, a assimilaÇão de imigrantes, as relações de raça e
out~os temas, em tese, e nunca de modo prático.
Se já possufm~s algumas agências aplicadas na formulação de
um pensamento econômico militante, quase nada equivalente se

46 47
II- Critica e Aurocrltica

A critica no Brasil, até a presente data, n.ão tem ultrapassado,


senão excepcionalmente, os limites do impressionismo. Isto de-
corre não de alguma incapacidade intrínseca dos nossos críticos,
mas das próprias condições objetivas do pais. Até bem recente-
mente a nossa estrutura econômica e social não suportava as con-
seqüências que poderiam resultar de seu autoconhecimento, pois
suas contradições eram insolúveis na fase de ·crescimento em que
se encontravam. O trabalho intelectual foi, em conseqüência,
dirigido para temas gratuitos e, em grande escala, o valor das obras
foi considerado à luz de critérios formais ou como expressão da
capacidade de proeza dos autores.
Assim, o que a crítica levava principalmente em consideração,
para consagrar as obras, era o que elas continham de façanha. Na
verdade, este conteúdo será sempre elemento positivo de toda
produção, mas a sua exagerada valorização estimula o individua-
lismo e o desenrai~menro dos autores e, por outro lado, define a
fndo!e da crítica impressionista.
CRITICA DA SOCIOLOGIA BRASILil:IRA 11 - CRITICA .E At.rrOCR!TICA

Um outro aspecto ao qual a crítica, no Brasil, rem atribuído Entramos, porém, numa fase do desenvolvimento do pais em
importância decisiva no julgamento - é o formal. A correção, a que começa a ser possível o exerdcio da crítica objetiva e até da
elegância, a originalidade verbal- o estilo, em suma-, decidiam autocrítica. A produção intelectual no Brasil está ganhando novo
a carreira dos autores. Houve um momento, enrre nós, em que este significado. A nossa estrutura econômica e social, em seu presente
formalismo atingiu o paroxismo- precisamente na época em que estádio, começa a oferecer ao trab~o intelectual oportunidade de
.Pontificavam crfticos como Duque Estrada et caterva. tornar-se criador, do ponto de vista coletivo. As forças centrípetas,
Dentro desta orientação, o crítico, no Brasil, pode ser um em atuação na economia brasileira, atingem o trabalho intelectual
enciclopedista. Os nossos mais festejados críticos julgavam toda e o reorienram no sentido da busca da autonomia material e moral
espécie de produção - poesia, romance, ensaio, história, filosofia, do país. Este fato se configura mesmo como um fenômeno
ciência e artes - , o que explica a consagração, em nosso meio, geracio.na.Len.tre .os rapazes de vime e trinta anos, que estão inici-
de muitas obras e pe~oas sem mérito objetivo, notadamente no ando sua carreira de intelectuais. Não se trata rigorosamente de
campo científico. Quer dizer: a crírica no Brasil tem sido, por uma renascença. É, antes, um nascimento.
excelência, o oficio do diletantismo.
O subjetivismo e a fragilidade dos critérios desta espécie de
crítica se evidenciam em suas flumaçóes de julgamento. A posição
'
[: Pode-se colocar, então, o problema da crírica e da autocrítica
em termos objetivos e científicos. Para que se implante. emre nós,

social dos autores importa para essa crítica. Aurores de pouca voga
f . esta espécie de crítiCl, é necessária a realização de várias tarefas.

I
Esquemacicame.nce, sJo elãS:···
passam, subitamente, para a galeria dos famosos, se melhoram a
1 -. a elaboração de um método de análise, suscetível de ser
sua posição social, e vice-versa. Autores medíocres são festejados,
utilizado na avaliação do valor objetivo do produto intelectual,
em virtude do prestigio de que desfrutam. Nestas condições, o
com integração do significado das obras nos fatos, e não como

i ...
êxito literário no Brasil, em larga escala, não é um êxito puro da
inteUgência; é um êxito social.
Faça-se justiça. Assim procedendo, o critico nacional não é,
I
I
proeza ou afirmação meramente individualista;
2 ~ ~ revisão crítica de nossa produção inrelectual, realizada, até
aqui, à luz dos faros da vida 1nasileira;
i
i
via de regra, desonesto. ~ apenas vítima de uma posição ideoló-
gica. Na verdade, ele não tem sido assim porque quer, mas porque 3 - o esrlmulo da auto-análise, como instrumento de purgação
tem que ser. Além disto, o que disse acima e o que direi a seguir, de equivocas e vícios mentais e de ajustamento do produtor inte-
., :

não se aplica indistintamente a todos os críticos brasildros. Há lectual às propensões da realidade.


exceção à regra. Um método de crítica objetiva não pode deixar de assimilar as
. Mas há ainda a ressaltar um aspecto fundamental de nossa categorias da atual sociologia do conhecimento e de sistemas
critica, o qual explica a sua pr<>funda alienação da realidade bra- · correlatos. O estudioso poderá extrapolar muitas noções daí para
sileira: é o fato de que ela obedece a critérios de julgamento o âmbito da crítica, como, para falar apenas da noção fundamental
estranhos ou importados. O crltico brasileiro esforçou-se sempre, de ~m método de cdtica objetiva, a de ideologia, hoje integrando
em grande parte, em atuar na sociedade brasileira segundo os o corpo sistemático da sociologia ciendfica. Dentro da orientação
·l modelos estrangeiros. A nossa evolução incdecrual, para ele, devia aqui delineada, ser crítico é ser capaz de enxergar o significado
. '
:i estar condicionada pela evolução intdectual de outros países: . in'direco ou impJícito do produto intelectual, ou ser capaz de s~r­
Portugal, França, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos. Fascina- preender as verdadeiras "forças motrizes" que "movem" o produtor;
va-o os "prestígios" desses centros de pensamento. é, em suma, ser apto a ver a estreita vinculação do pensamento com

50 51
CJtlTlCA OA SOCIOLOGIA BRASILEIRA li ~ CRíTICA li: AUTOCRíTICA

a situação existencial do pensador. Impossível, portanto~ o ~er­ Mas o momen~o que vivemos é polêmico. Precisamos, assim,
~ício da crítica objetiva sem profundo conhecimento f~osófico. provocar a polêmica, pois por meio dela é possível liquidar as
Fo:a desta pauta, só é possível o estericismo, o impressipnismo. moedas falsas que ain.da drcuJam entre nós, com o seu valor
Na medida que as gerações atuais necessitam reorienw as ativi- discutível. 1
dades intelectuais, no sentido de aliá-las aos fatores recentemente
emergidos da realidade nacional, e que laboram pela autonomia Notas
do país, é preciso rever a produção cultural ocorrida até f-qui, em (1) Revista Marco, OS' 2, fevereiro de 1953.
função do significado do presente. Torna-se imprescinc;fivel dis-
cernir nas obras dos autores que nos precederam os significados
indiretos. Desta forma, os intelectuais poderão ver quais destas
obras encerram uma experiência cujo conhecimento lh~ poderá
ajudar, no momento, no esforço de integração do seu pensamento
aos fatos e de direção das tendênCias dos mesmos. Há tradições a
cultivar na cultura brasileira. Tradições que, uma vez estudadas,
nos poupam de reabrir caminhos. Fiz uma tentativa, neste sen-
tido, quanto mostrei as correntes principais da sociologia brasi-
leira (Vide O Processo da sociologia no Brasil). Naquele ensaio de
crítica indireta, parece que ficaram claros certos elementos autên- ·
ricos e espúrios de nossa socio!ogia. Penso que a critica indireta
poderá dirigir-se para todos os campos da cultura brasilf!ira, com
intuitos revisionistas.
As tarefas acima referidas não poderão ser realizadas: sem que
ocorra mudança de atitude entre os intelectuais. Estas tarefas são
incompadveis com o individualismo. Os critérios de pensamento
são induzidos da realidade concretlh.e esta indução é um•es.forço de
compreensão, no qual se está sujeito a percepções ilus6~ias. Daí a
necessidade da aurocrftica, pela qual o pensador pode lib~ru~se de
equ!vocps. Mas a autocrítica implica rambém na dispo~ição para
suportar o debate, porque a indução dos critérios de pensamento
a pártir da realidade é trabalho coletivo e não uma façôi\nha indi-
vidual, fruto de "inspiração". É um trabalho coletiY.O, ..~.;J,L.j,l!.Y:tHdlide
se garante pelo controle de rodos.
Ora, estes hábitos se chocam de modo frontal coni os ainda
vigentes em nosso meio, em que cada um se fecha em seu casulo
ou em que muitos intelectuais preferem organizar-se em corpo-
rações de elogios mútuos. ·

53
~ .
III- Nacionalismo e Xenofobia

Muita gente ainda não se deu conta de que nada tem a ver com
xenofobia a posição nacionalista que vêm assumindo crescen-
temente os inteleauais mais representativos das tendências atuais
do Brasil. Não é uma nova moda, como o foi, em grande parte,
Por exemplo, o movimento modernista de 1922, nem tampouco
um conjunto de manifestações temperamentais, algo que estivesse
acontecendo, como se, por acàso, todos os Antônio Torres do país
tivessem se reunido.
O nacionalismo, na fase atual da vida brasileira, se me p~.:rmi­
tem, é algo ontológico, é um verdadeiro processo, é um principio
que permeia a vida do povo, é, em suma, expressão da emergência
do ser nacional. ··
Até recentemente, como já observara Alberto Torres, a nação
~rasileira era uma ftcção jurídico-institucional. Alberto Torres
hav.ia percebido corretamente que, em nosso pals, a nação era algo
artificial, imposta de cima para baixo, que não correspond.ia a
suportes consuetudinários. Mas.. njo c:;ompreendeu por que isto
acontecia. Não viu que a nação não se dá independentemente da
CRfTICA DA SOCIOLOGlA BRASILEIRA
111 - NACIONALISMO E XENOFOBlA

existência de um mercado interno, de um sistema de transpones Graciüano Ramos, em outras palavras, formulou um postulado
e. comunicações susceúve1 de interligar todos os recantos do ter- fundamental da filosofia contemporânea, segundo o qual, quando
ritório. Não viu, em resumo, que a nação brasileira só •poderia nós assumimos voluntariamente o que nos condiciona, transfor-
verificar-se, em toda a sua plenitude, com o surgimenrÓ de um mamos a estreiteza em profundidade. Tratando esta matéria,
capitalismo brasileiro. Alberro Torres não percebeu o condiciona- escreveram Mikel Dufrenne e Paul Ricoeur 1 :
mento econômico do fenômeno nacional. Era dos que advogava
Os pais que eu não escolhi não se tornam meus pais
que o Brasil não deveria ja"riiais desviãr~se- de sua "vocação agrf- num senrido absoluto.,. senão quando deles para mim e de
cola". Por isso, propôs que se formasse a nação brasileira:de cima mim para des se esrabdece um corrente de pertinência, e
para baixo, da inteligência para as emoções, com a tutela ;do povo esta pertinência mútua, decorremc da menos elegida deter-
pelas elites nacionalistas. minação, ~ uma ocasião para a mais Intima comunicação.
Quando adoto minha origem como se a tivesse querido,
Mas o nacionalu'mo não tem apenas fundamento psitológico.
tenho acesso 1t verdadeira piedade filiai, que pode per-
Tem também fundamento econômico. Na medida que, e~ riossos manecer invulnernvel, mesmo no ódio: não posso mais
dias, surgem no Brasil as componentes objetivas da nação, que romper com os meus pais, sem romper com uma parte de
faltavam até há bem pouco, o nacionalismo se torna verdadeira- mim mesmo c abalar-me em meus fundamentos.
meu.te um fato sociológico. · A assunção do Brasil seria, portanto, nessa ordem de idéias, a
É· esse fato- novo que está suscitando as transformações de condição prévia, necessária, para descobri-lo teoricamente.
. ! .
superestrutura em nosso pals. A nova teoria sociológica que está · Não·hesito em dizer que, na raiz da nova teoria sociológica, es~
sendo formulada por alguns profissionais de vanguarda é a tradu- uma assunção do novo fato sociológico a que me referia acima. A
ção, no plano teórico, daquele fato; não é uma invenção a;rbitrária, nuança nacionalista desta teoria não é arbitrária, tem seu funda-
é manifestação necessária de transformaçõ~ estruturais, e,' por isto, mento na realidade empírica concreta.
esta teoria se propaga rapidamente, de maneira irresistíyel.
E porque este fundamento existe, pode-se afirmar,· sem exagero,
Pela primeira vez, na história das idéias em nosso paí~. apar~ce
que começamos hoje, no Brasil, a poder exponar idéias sociológi-
uma teoria sociológica autêntica, em cujas categorias se :reconhe-
cas. Por exemplo, em alguns aspectos, a sociologia anglo-americana
cem aqueles que estão vivendo o que é novo no Brasil.:
está atrasada em relação à brasileira. Nos Estados Unidos e na In-
Pela primeira vez, em nosso pafs, a formação do sociólogo passa glaterra ainda se levam à sério a antropologia cultural e a etnologia
a resultar menos do manuseio de livros estrangeiros do que da de caráter empírico, enquanto no Brasil ela constitui fenômeno de
indução dos fatos nacionais, naturalmente ajudada pela:posse do arcadismo. Também, em nosso país, os estudos sociológicos sobre
conhecimento básico da ciência social. relações de raça sobrepujam, em qualidade, os norte-amedcanos.
É assim que adquire pleno sentido a expressão de Graciliano Basta dizer que só agora se está problematizando a brancura nos
Ramos: ''quem não rem vergonl;_~_na cara, não pode ser sqciólogo". Es~ados Unidos (vide o livro de Franklin Frazier, z LaBourgeoisie
Graciliano Ramos dizia isro, referindo-se a cena "sociólqgo" indí- nozre), enquanto no Brasil isro já se faz desde 1950 graças ao
gena. Pode-se, encreranro, endereçar esta frase a outros "sqciólogos" movimento do Teatro Experimental do Negro, que instalou uma
nacionais. Alguns anos depois que ela foi ·pronunciada, reen- nova visão das relações de raça em nosso meio. Finalmente, os
contro-a no fundo de minha· memória e percebo nela toda lima Estados Unidos não têm uma teoria sociológica de análise macros- ·
receita a administrar aqueles que desejam alcançar a n<?va teoria cópica ou global, enquanto no Brasil já a temos e já a aplicamos
sociológica brasileira. em larga escala. ·.

56 57
...,...--------
·· ..

::
CRITICA DA SOCIOLOGIA BRASILEIRA

Tudo isto são fatos. Não são sentimentos. Em tais condiç~es,


· alismo na-o pode ser confUndido com xenofobta.
o nosso naoon
Na medida que vivemos este momento verd~deirame~te na~
· al n~ao passamos a discernir apenas as fal:ktas dos sistemas
oon , . ·d
sociológicos estrangeiros: também se revela de. mane~r~ nfu a a
situação deplorável em que ficam os intelectUais brastle1ros, ~ue, IV- A Dinâmica da
até agora, se mantêm alheios ao que está ocorrendo no B~as1l. Sociedade Polftica no Brasil 1
No domínio das ciências sociais, esse alh~men~o é P~~~tcu~ar­
mente lastimável. Digo mais, é algo· dramáttco. P1randeltano.

Notas
(1) Cf. DUFRENNE, M. e RICOEUR, P. Kitrl ]mpm d la
Philisophit tk I'Existenu. Ed. du Seuil, 1947 · .
(2) FRAZIER. Franklin. IA Bourgeoisit Noire, Plon. Pans, 1955.

(3) O jornal, 1/7/56.

A adoção mecânica··dos ·métodos e processos refinados da


antropologia e da sociologia européias e norte-americanas tem
levado grande parte dos profissionais brasileiros do campo dessas
disciplinas a um cert~ descritivismo casuístico de escasso valor
pragmático, isto é, pouco utilizável como contribuição para o
esclarecimento dos principais problemas da sociedade brasileira.
Numa reação contra e.o;se descritivismo casuístko, compreen-
sível e até necessário nos países de estrutura econômica e social
plenamente desenvolvida em que os fatores se tomam sutis,
estão merecendo cada vez maior apoio do público, no Brasil, as
interpretações globalistas mais suscetíveis de utilização prática
numa sociedade nacional ainda imatura do ponto de vista social
e econômico. 2
Importa isto propriamente menos numa criação no plano teó-
rico, do que numa instrumentalização critica da ciência importada.
Começamos a deixar de refletir simetricamente as mudançaS
~ .. ····: do pensamento científi~ . ~t;~geiro e a valer-nos dele como

58
CRITICA [)A SoCIOLOGIA BRASILEIRA IV - A DINAMICA DA SOCIEDADE ...

ferramenta, numa elaboração teóriéa .tendente a pe~mitir a Todavia, há que distinguir dois tipos de teorização da realidade
autoronsciência de nossa sociedade. . . social, isto é, a ideológica e a sociológica ou cienóSca.
É ilustrativa desta orientação, entre outros procedimentos, o A teorização ideológica é, necessariamente, sectwa nisto que
emprego da sociologia comparada com o objetivo de induzir visa a justificar os interesses particulares de um grupo ou· de uma
empiricamente modelos ou ~ódulos . .do curso dos fenômenos classe. Esta justificação, evidentemente, pode atingir um alto grau
sociais, em •que os pormenores são sacrificados em proveito de de refinamento, assumindo por vezes o caráter aparente de ciência.
vistas de conjunto de grande rentabilidade compreensiv~. Os grupos e as classes racionalizam a sua situação mobilizando um
No presente estudo, adota-se esta orientação e, assim; em sua arsenal de noções às quais atribuem a qualidade de científicas ou
primeira pane se apresentará um módulo al:strato da dinlmica da uma validade no plano universal.
sociedade política, induzindo da observação de ocorrências his- A teorização sociológica, entretanto, consciente da influência.
tóricas efetivas e, ainda, aproveiçando análises devidas a Marx e a dos fatores irracionais no pensameqto, se aplica na compreensão
Timasheff, principalmente; na segunda pane, se ilustraJ!á aquele global da sociedade. Resulta de uma atitude crítica e autocrítica,
mód~o com acontecimentos da história política do Br~il. radical, interessada em formular uma concepção configurada da
De resto, o que se espera das an4.lises sociológicas orientadas, realidade social, atenra a todas as tendências que a constituem,
neste sentido, é uma teoria da sociedade brasileira que sirva de embora sem prejuízo do reconhecimento de um sentido dominante
suporte à estruturação efetiva das tendências de autodeterminação do desenvolvimento gl~bal da sociedade. É certo que mesmo esta
vigentes hoje em nosso país. teorização não escapa ao condicionamento histórico-sociaL Não
No domínio polltico, uma interpretação globalista é uin instru- existe um posto arquimédico- a imagem é· de Karl Jaspers- fora
mento de potenciação daquelas tendências enquanto, de um lado, do universo histórico a partir do qual se possa elaborar uma
racionaliza um processo societário global e, enquanto, de outro concepção absoluta, definitiva, da sociedade.
lado, contribui para miriar ·os fundaniêiúõs psicológicos: e sociais As teorias e os pontos de vista que os contingentes integrantes
dos grupos que opõem obstáculos a este processo. · da sociedade política podem assumir não são infinitos em número
Não é fortuito o fato de que, em todos os momentos em que nem tão pouco produtos arbitrários da vontade humana, mas
numa sociedade se faz imperiosa uma mudança insdtucional, derivam de situações sociais específicas (Mannheim). A sociologia
recrudescem os esforços de teorização da realidade soei~. politica, assumindo o ponto de vista global, é uma ciência do
· Na história polltica do Brasil, verifica-se invariavelmente esta
t conjumo da sociedade política, uma "ciência da totalidade do
observação. Para lembrar, apenas, os momentos mais dramáticos, fenômeno polCtico''.l É uma síntese dinâmica e compreensiva dos
recordem os acontecimentos que se registraram, entre; nós, em diferentes pomos de vista, jamais feita de uma vez por rodas, mas
torno dos anos de 1822, na ocasião das lutas peJa independência
polltica do país; de 1888, data da abolição da escravatura; de 1889, 1 sempre aberra a retificações, desdobramentos e incorporações,
uma tarefa verdadeiramente interminável. ., .
em que foi proclamado o regime republicano; e de 1930 em . Dir-se-ii que a realização de uma síntese de5ta natureza é teo-
que ocorreu a revolução que, com Vargas à frente, implantou a ricamente impossível, pois suporia a neutralização do princípio do
segunda República. Em todos esses momei\ros, registro~-se, entre condicionamento existencial do pensamento. .
nós, um surto de formulação de idéias tendentes a justificar os Mas a iniciação do sociólogo em certos critérios técnicos da
propósitos revolucionários ou reformistas em jogo. . transideologização ou .de autocrftica lhe possibilita assumir, de

60 61
---~,-- •#·--·#-------··-··- ·-·

N-A DtNAMICA DA SOCIEDADE ...


CR1TICA DA SOCIOLOCIA BRASH.EIRA

maneira experimental, várias posiçõeS partidárias, tendo em vista Ora bem, na etapa capitaHsta das sociedades ocidentais as
alcançar o sentido do desenvolvimento progressivo, global, da pasições dos grupos são variadas. Com alguma simplificação, po-
sociedade. De certo, somente .aquele que pode assumir, de modo rém, podem ser reduzidas a três: a de ascensão, a de domínio e a
deliberado, um ponto de vista, "só o que pode escolher", pode de decadência.
"abraçar o todo da estrutura social e poHtica". Cada uma destas posições condidona formas específicas de
As duas espécies de teori~ção se diferenciam pelo esforço da pensamento polltico.
transcendência ou de transideologização que constitui uma (a As classes ou grupos ascendentes são levados a discer~ir na
científica) e é escasso na outra ou da mesma é ausente. Esta estrutura social as virtualidades, as possibilidades de desenvolvi-
observação parece habilitar, distinguir a sociologia ciendfica da- mento, os aspectos potenciais e, assim, assestartt a sua mira no vir
quelas ideologias mais avançadas de nossa época - que a?mitem a ser, no futuro. Suas idéias traduzem um impulso renovador de
a influência dos fatores existenciais no pensamento e basetam sua libertação. Assumem uma atirude eminentemente crítica diante do
crítica da sociedade na consciência destes fatores, mas não são status quo e proclamam a necessidade de fazer da IUão o critério
suficientemente radicais com!l a sociologia. por excelência de apreciação dos fatos. A razão se torna mesmo um
A radicalidade da sociologia científica se exprime enquanto esta instrumento de negação das instituições, nisto que as transcende,
disciplina admite o incessante condicionamento histórico-social revelando a sua precariedade histÓrica. Se as instituições, tal como
dela mesma, de seus conceitos, de seu método e não apenas da se apresentam num dado momento, não perrnirem a realização
problemática ou dos fatos em cujo exame se apl~ca;. enquant~ não das possibilidades da estrutura social, nada mais são que formas
absolutiza o primado de nenhum fator (o economtco, o racial, o fugazes de convivência, não têm direito a perststtr. Necessaria-
geográfico etc.), mas entende a efetiva preponderânc~a deste ou mente, são dialéticas as classes e grupos em ascensão, enquanto
·I
. daquele fator num determinado período como ocasional e re- concebem a história como· progresso e este como um incremento
I sultante da dinâmica total do processo societário; e, finalmente, da autodeterminação ou da liberdade. Razão, progresso, liberdade
constituem as idéias~chaves da posição ascendente. Toda classe

II
. enquanto admite que a essência da realidade social é a transi-
tividade, ou seja, como diz Hermann Heller\ que ela é "cons- ascendente promere, com o advento dos seus ideais, o fun da
história ou o reino da liberdade e da razão. Neste ponto, perde de
truída dialeticamente" .
vista a dialética infinita d~ realidade social.
A possibilidade de uma ·sociologia científica do fenômeno
político reside nesse radicalismo empí~ico-d.ialético.s que impede o As classes ou grupos dominantes tendem a considerar definitivo
.I especialista de cair nas soluções fácets e estereonpadas e de ser
confundido com o camelot de partido. ·
o estádio arual da estrutura social. Podem admitir defeitos de
det:alhe desta estrutura, mas não reconhecem a sua provisoriedade.
São reformistas ou evolucionistas, portanto. Para eles, as leis que
Decorre do exposto que, do ponto de vista sociológico, as
presidem ao dinamismo social são leis naturais ou eternas. São
correntes políticas não podem ser consideradas apenas quanto ao
antidialéticos e proclamam a necessidade da ordem, identificando
seu significado imanente. A análise so~oló~ca as. argüi: ~ranscen­
esta com o esquema social vigente ..Tendo conseguido submeter
dendo-as, isto é, indagando quais as sltuaçoes extstencuus de que
as tendências a um enquadramento jurídico-institucional, erigem
decorrem, que cla..<>e ou grupo ;ts representa e ~m que m~~ento
os modelos (patterns) que adotaram, à categoria ,de permanentes,
elas aparecem. O que ilumina ~ correntes poHttcas é a postçao na
naturais. Por um imperativo topológico, por assim dizer, são le-
estrutura econômico-social dos que as representam e a época em
vados a uma concepção quietisra, estática, da sociedade.
que eles vivem.
62 63
. .
·CR111CA DA SOClOl.OGlA BRASILEIRA N-A DrNAMICA DA SOCIEDADE ...

As classes e grupos em declínio, aposentados da eficácia hist6~ o seu interesse como o interesse comum de todos os mem-
rica ou em processo de aposentadoria da mesma, esforçam-se por bros da sociedade, isto ~. para empregar uma fórmula ideal,
·vol~ar ao passado de que se beneficiavam ou em que enim domi~ é obrigada a dar a suas idéias a forma de universalidade, a -I
apresentá-las como as únicas razoáveis e universalmente
nanres e idealizam os "bons velhos tempos". Sua palavra-de-ordem
admisslveis (cf. Karf Marx. /J~q{qgi~ Allmutnde. Otuvm i
é a recuperação ou a restauração.
Estas referênCias topológicas, de cerco, não esgotam aS posições
I Philosopbiqu~s. Tomo IV. Costes. 1937).

A estrutura do poder está permanentemente em devenir.


.• :·j
~ .i
:;
que as classes ou grupos podem ocupar na estrutura social. Por
vezes, ocorrem aí situações. ambíguas.
Como situar, por exemplo, a classe média e o lumpenproletttriat,
II
Estas referências supõem ainda que ~m cc.da sociedade podem-
se distinguir um cencro e uma periferia'. O centro da sociedade
é aquela sua região a partir da qual se logra conformar decisiva~ ·
. \
i

na etapa capitalist~ das sociedades ocidentais? .


. Quanto à classe média, ela aí tem atuãdo como aliada ora de
ll mente o complexo social, a partir da qual uma classe ou um grupo
pode, como propõe Max Weber, "impor a sua vontade na ação
classes ascendeJ:ttes, ora de class~ dominames, ora de classes em comum, mesmo contra a resistência dos outros que participam.
declínio. da ação", ou ainda, na linguagem de Timasheff, "os juízos se trans-
Nos períodos em que lhe é assegurado um nível de vida mais mitem à periferia... sem fazer apelo ao mecanismo normal de
ou menos estável e em que descortina possibilidades de sobreviver, avaliação de motivos".·
i
seja pelas ~ponunidades de emprego, seja pelo parasitismo, man~ O centro, dotado de uma influência conformadora, estabelece
tém-se aliada às classes dominantes oU em declínio. Quando se as pautas da sociedade dentro das quais se processam as relações
encontra em pauperização prqgressiva, incl,ina-se para a adoção da de sociabilidade. Mas é preciso notar que nem a periferia é total-
ideologia da classe ascendente. mente passiva, nem o centro é homogêneo. As condições de
O iumpenproktariat, a mão. de 9~_t;l marginal, o reburalho das desEruição do poder - diz Timasheff- se encontram canto no
ruas, é matéria amorfa de que ·dispõem as correntes que, de modo cenrro ativo como na periferia passiva. Se se verificasse permanen~ I
ocasional, lhe asseguram uma vantagem imediata. temente a passividade da periferia e a homogeneidade do centro,
Importa observar ainda que es.tas posições são, ao mesmo tem- o dinamismo históriCo-social deixaria de ser dialético. Na verdade,
po, posições de coexistência e de sucessão. Em qualquer momento pode ocorrer que, durante largo tempo, uma periferia se deixe
podem ser discernidos grupos em uma destas posições. Por outro conformar de modo passivo pelo cemro, quando a classe domi-
lado, tais posições são também fases por que passam as classes nante logra criar formas de organização social e de cultura de
sociais. Este último fato é mu'ico importante, considerando-se a grande represenratividade, ou expressivas, mas estes momentos
pretensão das classes ascendentes segundo a qual o seu domínio são historicamente fugazes; "novos centros potenciais de poder
representaria o fim das contradições: Ao atingirem a posição de nascem na periferia"; por força das próprias transformações obje-
· domínio, as classes ascendentes são acometidas das mesmas tivas da sociedade, surgem condutas coletivas cismáticas, polê-
distorções volitivas e de captação do real, características c:l.as qlie as micas, adoradas por classes ou grupos em ascensão que pretendem
precederam e necessariamente se tornam a referência de um novo importar um novo esquema de conviv~ncia social. Estas classes ou
di~airusmo dialético. · grupos cismáticos não só neutralizam a influência conformadora .
Toda classe nova que toma o lugar da que'a dominava do cenrro, como, exprimindo as vircualidades históricas, minam
antes~obrigada, para realizar o seu objetivo, a apresentar progressivamente os suportes psicológicos e sociais do centro. De

l 65
.J ... • ~~
1--
i
CRITICA DA SOCIOLOCIA BRASILEIRA

certo modo poderíamos valer-nos de uma imagem de Marx. As


IV -A 0JNÁM1CA DA SOCIEDADE •••

lógico. O poder, Jiria KarJ Marx, não aparece aos indivíduos


-~ classes ascendentes alcançam o centro ativo pela epopéia ou pela como seu próprio poder associado, mas como uma força estranha,
tragédia, mas é sempre uma Farsa que marca o período final do exterior, de que não conhecem nem a origem nem a direção, que
seu domínio. · eles não podem mais dominar, pois é uma força independente
Também se proc~sa no centro uma diferenciação progressiva. do querer e do desenvolvimento· humano.
. -! Diz Maurice Duverger que rodo centro é dividido contra si mesmo A dome-.sricação ideológica das classes submetidas as mantêm
e permanece cindido em duas metades: centro-esquerda e centro- na condição de f01·ças em si, e somente quando as contradições
direita. Uma fração do centro, por seus suportes objetivos, se trans- se agudisam elas passam a perceber as virtualidades do processo
forma em sua esquerda e assim se alia 1ls classes ascendentes no social, assumem a sua teleologia e se tornam classes para si.
propósito de transformar qualitativamente o complexo social Resta, finalmente, ao ultimar esta descrição sumúia do módulo
global. A outra fração se caracteriza mais nitidamente como con- geral do movimento da soçiedade política, advertir que, no con-
servadora ou reacionária. texto capitalista, a dinâmica das relações de poder não se explica
Em sua origem, a classe ou grupo dominante -justifica seu em termos de psicologia individual ou mesmo coletiva, mas pelas
poder pela função social geral que exerce e que necessariamente transformações materiais, pelas transformações das relações de
suscita a adesão dos indivíduos da periferia. Isto acontece produção, as quais condicionam a ascensão, o domínio e a deca-
porque, no inicio, seu'intcresse é ainda, na verdade, ligado dência das classes e grupos sociais. A infra-estrutura da sociedade
ao interesse comum de codas a$ oucras classes não domi- política é a sociedade econômica. Por outro lado, nenhuma forma
na·uC$ e ainda não pode, sob a pressão das antigas condições, de organização política é transcendente à história. Todas elas, a
cransformar-se em interesse de urna classe particular (cf. K. longo prazo, são insustentáveis.
· Marx, /dto/4git a/ltmandt, Edição citada).
O poder, portanto a influência conformadora do centro, se ***
baseia inicialmente na adesão da periferia que, pela força da re- ... Ô..~"!Ql~ç_!() ~olítica do Brasil é uma ilustração destas referências
petição e do hábito, se transmuta em automatismo. A conduta conceituais. ~ fácil verificar que ~ classe latifUndiária, hoje em
coletiva, uma ve:r. organizada, passa a oferecer resistência à mu- processo de perda crescente. de representatividade política, cujo
dança. Eis porque, mesmo depois que uma classe dominante deixa i>oder é atualmente maior do que sua importância econômica, isto
de representar uma ·função social geral ainda consegue, pela graças a uma certa usurpação histórica, teye no Brasil a sua fase
manipulação dos reflexos condicionados, impedir, durante algum ···de ascensão, domínio e decadência. Como classe ascendente fez
tempo, que a periferia atinja a consciência lúcida das contradições a independência do pdís, em..l822, e organiwu o Estado nacional.
existentes. Foi assim esquerda riio logo se diferenciou como uma classe para
À automatização das condutas pelos reflexos condicionados se si do capitalismo pormguês, e contra este lutou. Foi classe domi-
alia ainda uin outro fenômeno complementar- a "coisificação" nante, e assim ocupou o centro da sociedade política nacional, de
das relações humanas sob a forma de ordem, sociedade, de um 1822 a 1930, data em que se torna perceptível o seu declínio,
cosm~s hipostasiado, independente dos indivíduos, que se pre· imposto pela ascensão de nossa burguesia industrial. E nestes dias
sume sujeito a leis inexoráv_e,~s. ~ o que Ti~asheff ch~a .de já se descortina como possível uma aliança (que parece esboçada
ri objetivação e Marx de alímllfãO. Esta noção al1ena~ ~u obJet~va na última eleição presidenciat--Ue 1955) do proletariado com a
da sociedade é o pressuposto de toda forma de posttiVlsmo socto~ burguesia industrial numa. luta contra os seus inimigos comuns.

66 67
CRfTICA DA SOCIOLOGIA BRASILEIRA IV -A Dn~AMICÁ DA SoCIEDADE ...

Entre esses inimigos comuns, é necessário esclarecer, só s~ coloca formar~se em virtude da ruptura dos antigos quadros da economia
a classe latifundiária enquanto, perseguindo vantagens: de seu natural, pela comercialização.
iiueresse imediato e exclusivo, permaneça aliada de certas forças O nosso proletariado haveria de surgir de elementos oriundos
econômicas externas, ou resista à ampliação da área de comer- da massa de escravos e da plebe rural drcunjacente às fazendas, na
. cialização de nossos produtos. · medida que no processo de divisão social do trabalho fosse permi-
A configuração de uma classe proletária na história política do tido o aparecimento de atividades que deixavam de ser realizadas
Brasil é um fato tardio, quase d~_Jwssos dias. Até recentemente, pelas unidades econômicas autônomas. Este proceSso de aberrura ;·
;.
não existiam no país as co~diçóes objetivas que permitissem o do complexo rural 7, que permite a migração de fatores (mão-de-
aparecimento desta classe, pois faltava-nos, para tanto, ~m mí- obra e capitais) do campo para as cidades, ainda hoje é uma
nimo de diferenciação das atividades produtivas para não'falar no importante referência dinâmica da economia brasileira.
escasso volume das atividades produtivas existentes no domínio Até recentemente, a debilidade do nosso capitalismo não per-
manufilt'urdro. mitia a radicalização dos interesses da classe proletária. Até 1888,
Não é senão na década de 1870~ 1880 que começam a destacar- data da abolição do cativeiro, a população ativa intermediária entre
se da agricultura as atividades manufaturcúas. Antes, o que se os grandes proprietários de terra· e os grandes comerciantes e. a
observa . no país é um arquipélago de nódulos econômicos {fa,.. mão·de-obra servil escrava era maciçamente afetada de paupe-
zendas) mais ou menos fechados, denrro dos quais a população rismo. Não havia, assim, como extremar as reivindicações de um
produz e consome diretamente quase tudo o de que rlecessita, proletariado, de que apenas rudimentos eram perceptíveis, .
inclusive bens manufaturados. O desenvolvimento induStrial do As episódicas revoltas de escravos, a revolta dos cabatWs (1833/ .
•·· .. ~ . :. -
Brasil depois daquela década, até 1930, consiste principalmente 1836), a dos balaios (1838/1841) e a dos praieiros (1842/1849),
em destacar da lavoura a produção manufarureira .. através•da-cría~ embora de caráter popular bastante radical, foram movimentos de
ção de pequenas empresas. significação local, acont~cimentos isolados; não suscetíveis de
A melhoria de nossas relações de intercâmbio com o exterior, corporificar um ideário ou um estado de espírito durável; foram
que se observa n'a segunda metade do século passado, e expressa reações esporádicas da estrutura econômica e social que não che-
não só no aumento da demanda de nossos produtos tropicais como garam a ameaçá-la em seus delineamentos essenciais e que a cksse .
na devação de seus preços, provoca o incremento da divisão social dominante logo conjurou.
do trabalho, isto é, obriga a agricultura a especializar-se. na pro- Inexistindo, até 1888, uma indústria brasileira, uin mercado
dução para satisfazer a procura externa. Para se ter um idéia dessa nacionaf e seus respectivos suportes materiais, não pôde, então
mdhoria, basta observar que enquanto a quantidade média ex- surgir uma classe operária unificada, e os grupos populares lutaram
portada de café súbiu de 88.667 rondadas no período de l839-44 por objetivos contingentes ou se deixaram arrastar pelo misticismo
para 165.114 toneladas no período de 1869-74, o valor médio em episódios como o de Antônio Conselheiro, que foi estudado
anual da exportação do referido prodttto aumentou, de um período por Euclides da Cunha em Os Sertões. '--
a outro, de Cr$ 18.271.000,00 para Cr$ 91.098.000,00. Além ~crevendo na última 'década do século XIX, dizia Sylvio
disto, o país teve saldos positivos no cOmércio externo de 1860 a Romero que "a classe mais pobre que existe no pais é justamente
1929. Nestas condições muitas atividades que eram reali:iadas no a que corresponde à burguesia na Europa". E explicava:
interior das fazendas passav~ a ser daí alijadas, surgindo assim a Ec.:onomicamente, somO$ wnà nação embrionária, cuja
produção manufatureira para o mercado interno que c9meça a mais importante indústria 6 ainda uma lavoura rudimentar,

68 69
CRfnq.. DA SoaoLOCIA BRASILEIRA IV. A DINÀMICA DA SOCIEDADE •••

extensiva servida ontem por dois milhões de escravos e, assumiam ainda o caráter de relações entre classes e transcorriam
hoje, por trabalhadores nacionais e álgumas de-zenas de diretamente de maneira não-formal e paternali;ta.
milhan:s de colonos de procedencia européia, cem ve2.es
mais felizes do que na mãe pátria, O capitalismo nacional
Enquanto essas condições duraram, a classe média teve de ser
é cxlguo, quase mesquinho. nec.~.s.a.rll\m~ml! ..!l
classe eminentemente polftica.
Em rigor todo o pais é ainda uma vasta feitoria, uma Desde cedo, no Brasil, se formou uma classe média rdativa-
verdadeira colônia, explorada pdo capital europeu sob a
~ente vultosa, pois o regime_ escravo se constituiu num fator que
forma de comércio e sob a forma de empresas.
A população ern geral, feita pequena exceção de alguns dificultava d encaminhamento da mão-de-obra livre para ativi-
fazendeiros, senhores de engenho, negociantes e herdeiros dades produtivas. Para se ter uma idéia da pressão do elemento
de capitalistas mais ou menos desempenhados, é em sua · livre ·considere-se a população do país em 1850 e 1872. Naquele
maioria pobre; mas são os p116m átt inbcia; não são os ano, para um total de 8~020.000 habitantes havia 2.500.000
proledrios no sentido socialista; porque não são operários escravos e 5.520.000 pessoas livres. E~ 1872, para um total de
I rurais ou fabris. Se," pois, h:l pauperismo é da naçll.o Inteira.'
10.112.061 habitantes.l.510.806 eram escravos e 8.601.255 eram

l
.I !
Nas três décadas do século XX acentua-se a expansão do mer-
cado interno, como se poderá concluir no exame do crescimento
das atividades industriais. Em 1850 não dnhamos estabeleci-
mentos fabris· e eram em número de 50 as firmas ind~striais, a1
inclusive dezenás_ de salineiras. Em 1889, contavam-se ap~as 626
livres. Esse avultado contingente livre de nossa população não
podia deixar de ser como foi, interessado nas reformas que am-
pliassem as oportunidades de emprego.
A classe média do Brasil é. ~_ma espécie de vanguarda de todos
os movimentos revolucionários durante a fase· colonial. Na fase
·! estabelecimentos industriais no Brasil. Nos vinte e cinco anos imperial, alia-se freqüentemente a movimentos progressistas, e a
~
'J
posteriores, foram instalados mais 6.946 novos estabelecimentos proclamação da República, em 1889, é, em larga margem, a ulti-
industriais; mas no período de 1915-1919 surgiram aqui 5.940 mação de um processo em que tomou parte decisiva. Durante a
empresas industriais novas. O valor da produção industrial atin- f.1Se republicana de nossa história, a classe média exprime, através
gh.i, em 1889, a Cr$ 211.000.000; em 1907, a Cr$ 741.536.000; de vários movimentos, os percalços que resultam da diferenciação
em 1914, a Cr$1.500.000.000, enquanto em 1920 montou a Cr$ da produção no Brasil, acravés.de atitudes dúplices, acomodadcias
2.989.176.281. Disto resultava naturalmente um apreciável au- umas vezes, subversivas outras vezes, e, atualmente, com a cres-
mento dos contingentes de trabalhadores industriais que, em 1889,
cente politização do proletariadQ e da burguesia industrial ela se
eram 54.169; em 1907, eram 150.841 e passaram a 275.512 em
inclina para a adoção de tendências cüreitistas.
1920, quando se realizou o segundo censo industrial. Todavia, as
transformações por que passa a economia brasileira, nesse período, Mas apesar de suas oscilações, a classe média, aliada ao pro-
embora relativamente consideráveis, não propiciam ainda a for~ cesso de expansão industrial no Brasil, na medida que se: avoluma,
mação de um verdadeiro proletadádo, por duas razões principais. exprime, no plano político e de modo crescente, até 1930, as
Em primeiro lugar porque esses operários urbanos, em sua .quase tendências dominantes do processo de desenvolvimento da socie-
dade brasileira. .
totalidade, nada mais são que ex-camplinios adestradós em tarefas
industri~s. carecentes de consciência profissional. Em segundo A Campanha Civilista de Rui Barbosa em 1910, a Reação
lugar. por que aquelas empr~as econômicas em sua grande maio- Republicana em 1921, as quarteladas de 1922 e 1924, a Coluna
ria não representam senão pequenos empreendimentos, em cujo Prestes, a Aliança Liberal e a Revolução de Outubro dé:t93o;-
~mbito as relações entre patrões e operários, grosso motÚJ, não todos movimentos portadores de reivindicações de feição_ Tera-.

I 70 71
:_- ;, CRlTlCA DA SOCIOLOGIA BRASII.EIRA IV - A DINÂMICA DA SociEDADE •••
... ·

mente liberal, são marcos -da revolução-da classe média,contra as favoravelmente em nossa economia, pois que impulsionou o país
oligarquias latifündio·mercantis. para produzir internamente grande parte dos bens que eram im-
· ._- ·Antes da Revolução de Outubro de 1930, o país se encontrava portados. Algumas cifras dão idéia precisa desta crise externa. No
·.: •.._ ainda decisivamente dominado pelas oligarquias liga~ a inte- qüinqüênio de 1925/1929, exportamos 10.413.701 toneladas no
. · cesses do latifúndio e da ~urguesia mercantil, embora a! se vaJor de 440.946.000 (libras ouro). No qüinqüênio de 1935/
ddineasse, nitidamente, uma burguesia industrial. Uma certa pias- 1939, exportamos 17.280.000 toneladas no valor de 190.841.000
.·. • ticidade da estrutura político-partidária dominante permitia que, (libras ouro). Baixava assim a remuneração dos fatores empregados
. · através de compromissos e concessões recíprocas, as d~sses mais na agricultura. Enquanto isto, os fatores empregados na indústria
amantes (a latifúndio mercantil, a industrial e a média) encontras- recebiam cada vez melhor remuneração. Se igualarmos a I 00 o
sem, de qualquer ~orma, um modus vivendi. Até 1930,: nenhum valor médio dos produtos agrícolas primários no qüinqüênio de
movimento político de importância ultrapassa a perspectiva da i925/19; verificaremos que eles descem para 86 no qüinqüênio de
classe média. Luís Carlos Pr~es, o atual Secretário ~era! do 1940/44. Enquanto isto, e procedendo de modo idêntico, verifi-
Partido Comunista, quando partiéipou da Revolução de 1924, não camos qu~, de um período a outro, respectivamente, o valor médio
era comunista e durante os anos que passou foragido no interior unitário dos prod1,1tos básicos da indústria sobe de 100 a 201.
do Brasil, comandando a sua famosa Coluna, expressivos contin- Nestas condições a produção industrial cresce de modo acelerado.
gentes da nossa pequena burguesia viam nele o Cavaleiro da Medida em termos de ferro e aço, a produção de bens de capital,
Esperança, um símbolo de procestação da classe média; em luta no ano de 1932, crescera em comparação com a de 1928, em 60
contra a exploração oligárquica e plutocrática. É significativo que por cento. A participação de maquinaria no valor total das impor-
acé Plínio Salgado, o inrrodutor do fascismo no Brasil ein 1932 e tações segue a seguinte linha ascendente: 1920-10%; 1930-14%;
arual chefe do Partido de Representação Popular, tenha se referido 1938-23%; 1952-29%.
com simpatia à Coluna Prestes, em seu romance O Cavaleiro de Na década de 1930 ·se inicia o declínio da burguesia latifúndio-
Itararé, publicado em 1933. Na década de 1920-1930, avanguar· mercantil como classe dominante, pois, que, forçada pela conjun-
da de nossos movimentos políticos é assumida por elementos da tura internacional desfavorável, começa a perder suas antigas po-
classe média e principalmen_te___P._?r. uma aJa revolucio!1ária das sições no centro do poder em benefício dos interesses da burguesia •
forças armadas cuja presença facilmente se identifica nos movi· industrial. Não se deve, entretanto, exagerar, nesse período de
mentos subversivos de 1922, 1924 e 19.30, e no Çhamado 1930/1940, a tensão entre aquelas duas classes. Mesmo hoje, entre
"tenentismo". A popularidade da Revolução de 1930 e~ relativa uma e outra, há menos polaridade do que ambigüidade', motivo
facilidade com que se venceram as forças governistas estao a mos- porque as lutas políticas até agora são ainda marcadas de escassa
trar a escassa contradição entre os interesses das várias classes que, nitide-~ ideológica. Ê que a confusão está nos fatos mesmos, nisto
confundidas como povo, se opuseram às oligarquias dorhinantes. que, para mencionar apenas um dado, o nosso capitalismo ind~­
Depois de l930, fortificam-se ·as-tendê·r·cias econôm~cas e so- trial vem se formando de significativos recursos · provenientes
ciais mal-enquadradas no sistema anteriormente dominan·te-; e elas dos setores latifundiários, coincidindo com freqüência em nossos
se traduzem na expansão da produção para o mercado interno e no grandes homens de negócios, o ·industrial e o latifundiário. Esta
incremento da produção de bens capital. A crise mundial;de 1929, situação transparece, sobretudo, na conduta política do partido
provocando a queda· do valor de nossas exportações, repercute majoritário do Brasil, o Partido Social Democrático. O presidente

73
C!úTlCA DA SOCIOLOGIA BRASII.I!IRA
lV -A Drs.~~IIC.-\ o.-\ SoamADE ...

Getúlio Vargas. em cujos períodos governamentais mais se de·


Nos últimos vime e cinco anm; a pequena burguesia tem sido
senvolveu a indústria, era um criador de gado.
cooptada pela dirtita polltica, principalmente pelo integralismo
Um insuficiente deslinde dos interesses do latifúndio e da (versão brasileira do fascismo), fundado em 1932, extinto em 1937
indústria é o que explica decisivamente o Golpe de 1937, que e reaparecido em 1945, sob o nome de Partido de Representação
instalou o Estado Novo, chefiado por Vargas. A braços com o Popular. Nos quadros deste partido e, desde 1945, também da
imperativo de reorientar os investimentos para a produção desti- ~amada União Democrática Nacional e, ainda, do pequeno Par-
nada ao consumo interno, a burguesia latifundiária e a industrial tido Democrata Cristão, acé o presente, a classe média no Brasil
careciam de um ordenamento político-estatal que garantisse esta é, grosso modo, uma força reacionária domesticada por uma ideo-
transição sem grandes percalços. Era necessário dar um sentido logià reformista e moralista. Um conringenre minoritário desta
mais inr:ervencionista ao Estado e eliminar os obstáculos que di- classe se distribui entre os partidos da esquerda, ai inclusive 0
ficultavam o pleno funcionamento de um mercado interno. Por clandestino Partido Comunista do Brasil, cujos quadros se cons-
isso foi possfvd o Golpe de 1937. O chamado Estado Novo (1937/ tituem significativamente de elementos pequeno-burgueses. 10
1945) foi assim uma ditadura da híbrida burguesia nacional.
~ observador estrangeiro que examinar a trajetória das idéias
A ambigilidade dialética é ainda hoje discernfvel nas relações polítJcas que caracterizam os diversos momentos de nossas trans-
lI
i entre aquelas classes, embora tendendo a transmutar-se em verda· formações de classe constatará que elas são, invariavelmente, to-
deira polaridade c:Om o desenvolvimento econômico. n:a~ da Europa e algumas ;:ezes dos Estados Unidos. Alguém já
i· Na década de 1930-1940, começa a delinear-se como força
política o proletariado brasileiro que, em nossos dias, constitui a
v1u msso um flagrante do espírito de imhação" do brasileiro.
Entretanto, do ponto de vista sociológico, aquelas idéias s6 podem
base eleitoral de um dos maiores partidos do Brasil: o Partido ser corretamente explicadas tendo em vista a sua funcionalidade.
Trabalhista Brasileiro. No mês seguinte ao da vitória da Revo- As doutrinas, na luta partidária no Brasil, tem servido para camu-
lução, em 26 de novembro de 1930 (decreto 19.443), criou-se o flar as intenções e os propósitos, e a compreensão do seu sentido. ·
Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio; em fevereiro de existencial e não meramente lógico requer que o analista as trans-
1931 instituiu-se o Departamento Nacional do Trabalho; em cenda, apreciando as conexões objetivas dos que delas se utilizam,.. . .
março do mesmo ano regulou-se a sindicalização das classes pa- Quando, por exempt~~ a... n~s.Sa ~l~e latifundiária se emp~~ ••.. · .
tronais e operárias. Desde uma lei de 5 de janeiro de 1907, era na luta pela independê!lcia do país. apela de fato para as idéias em·
permitida a organização de sindicatos operários, mas s6 a partir de voga na Europa. · · .,;:;,·:,: '
1931 se inicia, entre nós, a estruturação sindical das classes. Com efeito, observa um historiador (Caio Prado Júnior). ~~e, .· :. ·.·.
~,~ As lutas eleitorais posteriores à deposição de Getúlio Vargas em
29 de outubro de 1945 exprimem de modo crescente o amadure~
ao elaborarem em 1823 um projeto de Constituição, foram
os consrituinces brasileiros b~ sew modelos nas iruti-
f cimento do proletariado brasileiro, sobrecudo no meio urbano. 11 tuições da q,oca,. inglesa e francesa, nesta principalmente,
e nos princfpios filosóficos do Contr4to JfJN4l de J. J.
esse contingente que garante a eleição de Vargas como senador em
Rousseau. Era uma homenagem 1ls doutrinas então em
1945, à sua reeleição à Presidência da República em 1950 e, bem voga. k idéias do sistema político adorado por no.ssos legis-
assim que, através das eleições de 1955, dá a vitória ao candidato ladores constitucionais exprimiam, na Europa, as reivin~
à Presidência da República cujo programa parece mais coadunar- dicaçõc:s do Terceiro Estado, especialmente da burguesia ·
se com seus interesses. comercial e industrial, contra a nobreza feudal, a classe dos
proprie~t:lrios. Ar1 certo ponto, é o conrr.irio que se dá no

74 75
CRlTICA DA SOCIOLOCIA BRASILEIRA IV- A DINÂMICA DA SOCIEDADE ...

Brasil. São aqui O$ p(opri~~~~ios rurais que as adqtam contra (4) Cf. HELLER, Hermann. Teoria de/ Estado. México, 1947.
a burguesia m~~antil daqui e do Reino. O que houve foi
apenas uma simples coincidência dos meios a setem empre- (5) Cf. GURVITOI, Georges. "Hyper-Empiris~e Dialectique".
gados para fins diversos. Qual era o problem~ dos legis· In Cllhitrs lntmuztionaux de SO&iologie. 1953. vol. XV.

I
!adores brasileiros? Substituir as restrições políticas e eco- (6) Sobre as noçôe$ de centro e periferia, cf. TIMASHEFF,
nômicas do regime colonial pl'!a estrutura de:: um estado Archives de philosophie du druit et soâulogie juridique,
nacional. Ora~ as idéias centrals dos sistemas: políticos e 19.36, II. Consulte-se também, Qndido Antônio Mendes
filosóficos que orientam a revolução do Velho Mundo etam 1: de Almeida, Possibilidade da 'sociología po/Jtktl. Rio de Ja-
justamente estas: liberdade econômica e soberania nacional. neiro, 1954.
Adotaram-nas, por isso, os constituintes de 1 ~23, porque
coincidiam perfeitamente com seus propósitos, porque se (7) Os mais autorizados estudos sobre a desintegração do com·
adaptavam como luvas- feitas as devidas corr~ões, de que plexo rural no Brasil são devidos a Ignácio Range) e Gilberto
nãÔ se esqueceram - ao caso que tinham sob as vistas; e Paim. Cf. as conferências desses autores sobre desenvolvi-
também porque: roda a cultura intch:cmal brasilcha da época mento econômico do Brasil, mimeografadas pelo Instituto
se formara na filoso,fla francesa do século XVIII. Por isso, Brasileiro de Economia, Sociologia e Polltica, em 1955.
na falta de um sistema originai, que não esrav~ evidente·
(8) ROMERO, Sylvio. O Evolucionismo e opositivismo no BrasiL
..-·· mente em condições de produzir, apegam-se os nossos cons· ·
Rio de Janei!X), 1895, p. XLVI.
. .. . ,, ". . :·.< tituintes a elas, fazendo mais ou menos o que j:i realizara
;·· . ) o Código Napoleônico, adaptandQ à sociedade burguesa do (9) Para uma inteligência dos termos polaridade e ambigUidade,
. ·,-_:·:;~:_.:.:~·.:::· .. · . século XIX os principias do direito civil ro~o. 11 -cf. GURVITCH, G. "Hyper-Empirisme Dialectique", artigo
._ · .·._?,,(:1-~ndo a soded~d~-·br~~ilei~~ d~ . p~~cas instituciQnais sufi- nos Cahiers internationaux d~ sociologie, 1953. vol. XV.
cientemente dotadas de conteúdo consuetudinário, os grupos e (1 O) O Partido Comunista do Brasil, atualmente clandesrlno, tem
facções eram forçados a apelar para as fórmulas feiras, as quais, na escassa expressão proletária. Em 1947, quando este Partido
. yerd:tde. instrumentalizavam segundo os seus propósitos. funcionava legalmente, os seus adeptos somavam cerca de
200.000. Atualmente deve ser menor o ~úme.i-o dos comu-
: : ' A sociedade brasileira, integrante que é da periferia da ch~mada nistas fichados no Partido.
civilização ocidental, não pode furtar-se à influência da cultura e
(I I) Cf. PRADO JúNIOR, Caio. Evolução polltica do BraiiL São
das sociedades dominantes nesta civilização. Este con~iicibnamento Paulo, 1953, p. 51. .
cultural, estreitamente vinculado ao imperialismo econômico, só .
é neutra1izávd quando são atingidas condições objed~ determi-
nadas que apenas recentememe se configuram em nosso país.

'Notas
(1) Primeira de uma série de conferências sobre assuntos brasi-
leiros realizadas pelo autor, em Paris, em dezembro de 1955, "·
sob os auspícios do Instituto de Altos Estudos da América
Latina da Universidade de Paris.
{2) Para maior esclarecimento sobre o pomo de vista globalisra,
vide nesta obra: Cartilha brasileira tk aprendiz de sociólogo.
(3) Vide MANNHEIM. Karl. Ideologia y utopia. México, 1941.

76 77

. ..
·~ ~
·.· ~· .: '

V- Esforços de Teorização da .
Realidade Nacional Politicament'e ·.
Orient'ados;, de·tB70 aos Nossos Diasl:...

Nos métodos de ação social e política de nossas elites, desde


a Independência até os tempos da República, Olivdrà Viana fez
notar a incidência do que chamou de idealismo utópico. Essas
dires, na crítica de Oliveira Viana, teriam acreditado na eficácia
imanente de teorias e ·instituições européias e norre~americanas, ·
e as transplantaram para u ·nosso país cerras dos seus efeitos be-
néficos. Segundo o sociólogo fluminense, os que assim fizeram,
teriam agido sem bo.:n senso ou com ingen.uidade e, portanto,
poderiam ter tido outro comportamento se não se tivessem deixado
empolgar pelo prestígio da'l~elas teorias e instituições.
A obra de Olivéira Viana, na parte que diz respeito à critica de
nossas elites, é, certamente, .o máximo de objetividade que, até
agora, os estudos sociológicos atingiram, entre nós. De faro, a ação
de nossas elites deixa perceber que elas pretenderam, em apreciável
escala, dominar os fatos da vida nacional através da exemplacidade
das idéias e das instituições. Teriam elas a convicção de que os
cidadãos,· sob o impacto dos exemplos, seriam induzidos a alterar
a sua psicologia. Parece, entretanto, que Oliveira Viana viu aqui
CRITICA DA SOCIOLOGIA BRASJI.EIRA
V • .EsFOilÇOS DE TEORIZAÇÃO DA Rl!AuoADE ...

meia verdade; não a verdade toda. Isto porque aquela conduta in- IV - Os ideólogos da ordem e progresso;
quinada de idealista-utópica foi, muitas vezes, menos deçorrência V • A revolução da classe média;
de uma imitaçãQ voluntária do que um expediente pl'agmárico a
VI - A revolução de 1930;
que tiveram imperativamente de recorrer a fim de racionalizar ou
VII - Conclusão.
justificar interesses e reivindicações de grupos e facções atrelados
a tendências nem sempre ileg!timas da sociedade nacional. I- Os Republicanos de 1870
:·:
Assim, é provável que as práticas ideal!stico-utópicas nem sem- . i
Em vários momentos críticos de nossa história se. registram tais
pre tenham contrariado o processo de crescimento vegetativo do :~
esforços. Um dos primeiros é o Manifesto de 1870 do Partido
pais. o tema do idealismo utópico está a pedir, hoje, uma revisão.
Republicano. Trata-se de um documento cuja plena inteligência só
Tudo leva a crer q4e os Sales Torres Homem, os Tavares B;utos,
é poss!vel a partir das condições concretas de vida naquela época.
os Rui Barbosa, os utópicos típicos, na insinuação de Oliveira
Na data de 1870, já eram bastante nítidas cercas contradições entre
Viana~·.tenham uma psicologia muito diferente da dos utópicos
as instituições vigentes e novas forças produtivas que buscavam o
clássico;: Pelo menos, quanto à. atitude em face dos modelos
seu curso normal numa forma de organização não escravocrata.
institucionais, uns e outros se distinguem. Os primeiros,: por mais
Uma considerável massa de cidadãos livres, mal-ajustados num
generosas que tenham sido as suas intençõr.s, viram, nas teorias e
siscema em que quase só havia lugar para senhores e escravos,
instituições, instrumentos de melhoria da organização social, sem carecia de posição e função na sociedade. Para se ter uma idéia da
. i

ultrapassar, porém, os interesses .d~. ~!asses sociais que represen- pressão poHrica do elem.ento livre, compare a população do pais
tavam. Os últimos iam mais além, pretendendo a supressão dos em 1850 e em 1872. Naquele ano, para um total de 8.020.000
males sociais, o milenium terrestre. habitantes, havia 2.500.000 escravos e 5.520.000 pessoas livres.
No Brasil, as práticas. idealístiço-utópicas estiveram q~ase Em 1872, para um total de 10.112.061 habitantes, 1.510~806 \!
s(!lllpre aliadas às tendências positivas da evolução da sociedade. É eram escravos e 8.601.255 eram livres. Além d~ outros, este fator
o que parece evidente nas várias tentativas de teorização da r~i­ demográfico agia no sentido da ruptura do sistema agrário
dade nacional, orientadas no sentido de possibilitar sua melhor escravocrata e, portamo, do estimulo à industrialização do pais, a 1
(
conformação ou de dominar o processo de crescimento: da socie- qual, de resto, estava em processo e, desde 1844, com a tarifa Alves j
dade. nacional. Branco, já suscitava a resistência do setor latifundiário.
S~o estas tentativas que procurar~i estudar, sem coritudo pre- Tais contradições se refletiam nos quadros poliricos, e deman-
tender fazê-lo de maneira exaustiva. Minha preocupação ,e focalfzar davam a alteração do esquema das instituições .em cujo funcio-
esses esforços e, registrando o seu significado nos momentos em namento se assegurava o predomínio dos fazendeiros. Os latifun-
qu~ s~rgiram, ganhar maior compreensão do desenvolvimento da diários garantiam o primado dos seus interesses principalmente
. ~oci~dade brasileira. : através do Senado Vitalício, do Conselho de Estado, da centrali-
;
..•. ·... ;: )~) presente estudo. constará dos seguintes capítulos:; zação polltico-adminisrrativa, do Poder Moderador e sua pre~:
I - Os republicanos_~e'__1870; rogativa de irresponsabilidade e de dissolução da Câmara. O
manifesto de 1870 representa uma sistematização dos pon~os. de
·I
·•· li - O movimento positivista; estrangulamento que devem ser desfeitos, a fim de que sejam
· ·• '• •UI - •Sylvio Romero e a sociologia da ~ociedade republicana;
i
liberadas as novas tendências ~bjetivas da sociedade imperial. f: a
.teoria política da realidade nacional naquele momento.

80 8I
CRITICA DA SOCIOLOCIA BttASILEIRA V- EsFORÇOS DE TEORI7.AÇÃO DA REALIDADE.·.. -·

Diz o Manifesto: a atividade. Note-se como o Manifesto quase silencia sobre o


O privilêgi~. em todas as suas relações com a socie· aspecto propriamente econômico da sociedade brasileira. Naquele
dade - tal ~. em síntese, a fórmula social c política do momento, o máximo de consciência possível que se poderia pedir
nosso Pafs - privilégio de religião, privilégio dc raça, pri- aos quadros liberais da classe média era o da necessidade de
vilégio de sabedoria, privilégio de posição, isto é, todas as
reajustamento político-adminitrativo de modo a que pudesse ad-
distinções arbitr~rias e odiosas que criam no seio da soci-
edade civil e poltcica a monstruosa supcrioridadc de um
quirir posição e função na sociedade um apreciável excedente de
sobre todos ou a de alguns sobre muitos. cidadãos livres. A classe latifi.mdiária ainda tinha funções posirivas
A esse desequillbrio de forças, a essa presdo atroliadora, a cumprir e a indústria nacional de então apenas se iniciava. 2
deve o nosso Pafs a sua decadência moral, a sua desorgani-
Não parece uma observação dotada de absoluta propriedade a
zação administrativa e as perturbações econômicas, que
ameaçam devorar o futuro depois de haverem arruinado o
de que os republicanos de 1870 tenham sido idealistas-utópicos.
Esta observação decorre talvez de uma consideração do aspecto
presente. . · . • .
A sociedade brasileira, após meto século de exJstencJa puramente verbal do seu comportamento, sugerido obviamente
como coletivid:tde nacional independente, encontra-se hoje, por idéias e instituições de países de grande prestfgio na época.
apesar disso, em face do problema da sua organização po- Todavia, o comportamento .efetivo desses políticos nada tinha
Jrcica, como se agora surgisse do caos nacional. de ~tópico; era pragmático, sendo a parafernália vocabular que
O documento passa, depois, a incidir em um por um dos usaram mera camuflagem de concretos interesses. e propósitos.
aspectos do regime imperial assinalados an_teriormence. Refer~·se
ao "vício orgânico das instituições, defioentes para gara?tlr a II • O Movimento Positivista
democracia e unicamente eficazes para perpetuar o presdgto e a Foram, entretanto, os positivistas que, pela primeira vez, entre
força do poder absoluto" da "vontade de um homem": proclama nós, colocaram com roda clareza o problema da formulação de uma
que "não podem constituir, de nenhum modo, a legínma repre· teoria da sociedade brasileira como fundamento da ação política e
~ do Pa1s" , .. uma câmara de deputados demissível à von-
sentaçao , social. O primeiro estudo positivista que aparece aqui já manifesta
de do soberano e um senado vitalício à escolha do soberano ; e, o interesse dos adeptos de Comte pelos problemas nacionais.
ta . 'd dê'
ainda, que 0 "regime da federação baseado na 10 epen n':a Trata-se de A Escravidiio no Brasi~ de autoria de Francisco José
recíproca das províncias ... é o único capaz de manter a comunhao Brandã9,-00iGldo .em Bruxelas no ano de 1865. A Sociedade
da fanúlla brasileira,. Positivista, fundada em 1878 (5 de setembro) se tomou logo um
Efetivamente, esta teorização da realidade nacional de 1870 não centro ponderável de difusão de idéias. Por sua vez, os positivistas
também aruaram através do Partido Republicano. Diversos foram
pode ser dita científica. É uma interpretação politicamente .orien·
cada segundo 0 ponto de vista daqueles setores da classe média ~~e, os adeptos brasileiros de Comte que procuraram formular um~
concepção unitária do pís. Um deles, Aníbal Falcão, publicóu em
na sociedade imperial, começam a rer acesso na esfera ~e decJSaO
1883 um opúsculo inci~ulado-Fórmu/a da civilização brasileira, a
política: 0 setor dos profissionais liberais. Dos 56 assmantes do
qual consistiria no "prolongamento americano da civilização ibé-
Manifesto só um se declara fazendeiro; quatorze se declaram
rica, a que cada vez mais se assimilarão, até a reunificação total,
advogádos; cinco se declaram engenheiros; nove se declaram
os índios e os negros importados, ou os seus descendentes."
médicos; quatro se declaram jornalistas; sete se declaram nego-
ciantes; dois se declaram professores; três se declaram ~mpregados Mas dentre os aficionados da igreja comcista, é a Teixeira
públicos; um se declara capitalista; e os dez restantes nao declaram Mendes que se deve um esforço mais sério da formulação de uma

82 83
I
CRlTICA·DA SOCIOLOGIA BRASILEIRA V- EsFORÇOS DE TEORIZAÇÃO DA ~UDADE•••

teoria do Brasil. Está exposta no opúsculo, A Pátria :brasileira,


I e moral. primeiro e, como conseqüênc:ia úJcima, a reforma
. escrito em 1881. Aí Teixeira Mendes se reporta ao "empirismo"
da geração da Independência, à inexistência, nesse momento, de
I polldca das sociedades humanas" •
. Numa visão, por assim dizer apocalíp~ica da história, conce-
"uma teoria positiva de governo". Segundo ele, o erro de José btam o que chamavam de "época normal", que descreviam como
Bonifácío, e dos· outros prógonos de ·1822 -erro que copsistiu em aquela em que o planeta
não se ter assegurado "a supressão da hereditariedade monárquica, se há de compor de pequenos Estados livres em toda acepção
tornando a sucessão dependente da escolha do ditador, sancionada do termo, porque cada homem cumprirá conscientemente
pelo voto nacional" - , poderia ter sido reparado se a "falta de os dev~res exigidos pela situação social, todas as pátrias
formamo uma vasta confederação cujo laço será exclusiva-
uma teoria científica não constituísse um obstáculo permanente,
men.re m?ral, em vinude da uniformidade das convicções,
insuperável, a qua.lquer visão clara das necessidades polídcas". da smerg•a dos esforços e da simpatia de todas as almas_
A concepção positivista do Br;t~i_l_se caracteriza pelo seu caráter Indiscutivelmente, enquanto doutrinários, os nossos positivistas .·· .
.. ·
normativo. Partindo de um conceito de súciedade norn~al, os seus ernm urópicos. Todavia o programa de medidas que preconizavam
adept~s se preocupam de preferência em sublinhar o que-concre~ para. o problema brasileiro, em muitos aspectos, apresentava cunho .
tamenre lhes parece discrepante em função dos seus padrões. pránco,. do pon_ro de visca da classe social a que majoritariamente
Na teoria positivista do Brasil, h:í que distinguir doi~ aspectos: pertenc•~m .. Ta1s eram, por exemplo, medidas como: a supressão
as teses gerais e o programa. Os positivistas adoraram literalmente da heredicanedade monárquica, a supressão da religião de Estado,
o sistema de Com te e, nestas condições, a eles..se..aplicarn_toda.s as a promulgação de instituições civis que assegur~m a liberdade
restrições que se fazem hoje ao positivismo. É perceptível, hoje, de ~.sarnento, a abolição da escravatura. E, enquanto a ~eoria
que o sistema de Comte reflete as condições peculiares do mo- posmvtsta s~e tornou um suporte ideológico desras reivindicações,
mento e da sociedade em que ele viveu, implicando ainda uma de~ expressao a genuínas tendências da sociedade nacional e contri-
teoria da história que atribula à sociedade européia a categoria buiU para a superação de contradições ·nelas vigentes. ~. .

de referência básica do desenvolvimento e, também, um conceito .Mas nem ~ próprio êxito dos positivistas nos primeiros anos do
abstrato de sociedade, pois a tanto corresponde o pensamento reg1me republicano lhes possibilitou a realização do que havia de
sociológico que não percebe que não existe a sociedade, mas extnvaganre em seu programa. Cerca de dois meses depois da
sociedades, cada uma das quais com as suas leis particulares. proclamação da República, os positivistas apresentam ao povo as
Abstraindo tais leis particulares e o condicionamento his- Ba:es de u'!'~ constituição poiltico-ditatorialfederativa para a Repú-
tórico-social da psicologia humana, os nossos po~itivístas admi- blica brtmlezra•. em que se preconizava a :atribuição do governo
tiam a possibilidade da transforn1ação da sociedade através do federal a um ditador, em consonância com as seguintes regras:
esclarecimenro mental dos homens. Nesie sentido, dizia Teixeira o ditador atual continuará a ser aquele que os aconteci·
Mendes que o mcnr~s fi.zcram esponraneamc:nre surgir, enquanto não re-
esplriro positivo, cuja superioridade se rem evidenciado em nunciar hvrcmcnre ao posto em que se acha. Se 0 mesmo
rodos os domCnios inferiores da atividade humana, deve dir~dor já tiver co~ple.rado 56 anos deverá, após a apro-
introduzir-se. hoje nas artes superiores que sistc:mati;am a vaçao destas bases, md•car o seu sucessor; a fim de ser a
esc~Jh~ sancionada, em caso de renúncia ou morce, pelas
modificação da sociedade e do homem - a poliria e a
capitaiS dos estados brasileiros_
moraL O filóso.fo já assirrúlou, in venrou e demc;msrrou cons-
truindo a sociologia e a moral; resta convenccir e persuadir . Entreranto, apesar da relativa influência dos prosélitos da dou-
os homens pela propaganda, que ·trará a regeneração mental trma e de seus simpatizantes, a proposta ficou no
papel.
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84 85
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. --:···
..
'·' l" V • EsFORÇOS DC. TEORIZAÇÃO DA R.i::ALIDADE •••
CRITICA DA SOCIOLOGIA BRASILEIRA

III - Sylvio Romero e a Soci~logia vantagens do parlamentarismo e dos defeitos do presidencialismo.


da Sociedade Republicana
Não só pela ação de presença que teve em sua época, como
I É um panfleto que terá realizado. na época uma função positiva
pelo seu valor como prorestação contra a hipertrofia dos poderes
presidenciais.
polemista, crítico e político, Sylvio Romero merece um lugar nesta

I
Todavia, um crabal~o posterior de Sylvio Romero já apresenta
seqüência, mas porque, depois de Teixeira Mendes, foi ele quem
grande importância como documento interpretativo da vida polí-
aseguir procurou sempre respaldar a sua atuação numa teoria da tica 11os-primeiros anos da República. Refiro-me à introdução do
sociedade brasileira. Em 1886, dizia Sylvio Romero: i
t livro O Evolttcionismo e o Positivismo no Brasi~ editado em 1894.
A ceoria da história de um povo parece-me que deve ser
Al procura o crítico a "lei sociológica que vai presidindo" à gênese
ampla e compreensiva, a ponto de fornecer uma explicaçio
completa de sua marcha evolutiva. Deve apoderar-se de e à formação das principais correntes de opinião, com o objetivo
rodos os fatos, firmar-se sobre eles para esclarecer o segredo de contribuir "para a orientação dos espíritos". ~ esta provavel-.
do passado e abrir largas perspectivas na áir,çíio áo futuro . . mente a primeira m·!ditação sociológicã sobre os partidos políticos
(o grifo é meu). na República.
E prosseguindo nesta ordem de indagações escreveu estas pa- Sylvio Romero, numa grande int~ição sociológica, tira todo o
lavras plenamente válidas .ainda em nossos dias: partido da crise polltica a que assiste e de que participa e tem plena
. Todo e qualquer problema histórico ... há de ter no consciência da rentabilidade científica desta atitude experimental.
Brasil duas faces principais: uma geral e outra particular, Diz ele:
uma influenciada pelo momento europeu e outra pelo meio No Brasil, representa-se agora um desses dramas raros,
nacional, uma que deve atender ao que vai pelo grande que nem a todas as gerações é dado presenciar. O esboroar
mundo e outra que deve verificar o que pode ser aplicado de um trono, a-queda de instituições quase quatro vezes
ao nosso pais. . seculares, pois que essa é a verdadeira data do governo
rc!giC>. no Brasil; o levantar de novas organizações, d~ novas
O critico sergipano nunca chegou a formular uma teoria con-
fórmulas, de novas doutrinas, com seus moldes e suas ne-
figurada do Brasil, rendo deixado esparsos em várias obras os cessidades novas, rudo isto constitui para os sociólogos e
elementos desta. Tentou, é verdade, o empreendimento de cujo amadores de escudos de psicologia popular um momenco
plano pode apenas esboçar as linhas gerais em seu op.úsc_ulo O \'erdadcirnmcnr~ excepcional.
Brasil sociaL Não é assim, fácil tarefa expor as suas tdétas at~ . O nosso autor discernc naquela fase da evolução constitucional
porque, às vezes, são contraditórias. Para gua~dar a c~erência deste do país os seguintes parridos: o monárquico: restaurador, ou· neo-
estudo, tratarei apenas dos trabalhos do cr{nco realizados com o caramuru; o socialista; o jacobino; o militar; e o positivista. De
objetivo de fundamentar uma ação política. cada um traça a gênese e dá uma cabal interpretação sociológica.
Impressionado com os acontecimentos pollticos ocorrid~s nos Atinge, porém, o máximo de lucidez ao tratar do partido socialista.
primeiros anos da República, especialmente com ~ ~t~açao de Encaminhando a sua interpretação, pergunta-se:
Floriano Peixoto, viu no presidencialismo da Consututçao de 91 Corresponde a criação de um partido proletário no
a fonte de nossos males, e em oito canas ao Conselheiro Rui Brasil a necessidades e aspirações iniludlveis, senão de todo
o povo, ao menos de uma grande classe da sociedade?
Barbosa (reunidas depois na. obra Parlamentarismo e pretídmcia-
Possufmos já nós aqui as condições, rodas as condições
lismo na &púbüca do Brasi~ ·fez a defesa das instituiç~ y.arla- indispensáveis à existência de um proktllriltáo politkO: pro-
mentares, discutindo o assunto em tese, através da expos1çao das pondo Juras e projetos de reivindicações? :- .· ~· ·..

86 87
. . . CRITICA DA
. SOCIOLOGIA BRASILEIRA V· EsFORÇOS DE TEORIZAÇ}.O DA REALIDADE, ..
. ' .. ·.

; ./...•.nnfelizmente, não", é a sua resposta. Conclui pda "artificio- "evolui normalmente, segue um rirmo de desenvolvimento deter-
... . e .do movimento
·.·. :·: . s_l'dad ' " . E exp1'1ca: . minado pela lei de causação, que outra coisa não é mais do que
Economicamente somos uma nação embrionária, cuja I . a constância sistemática e infalível de uma determinada cadeia de
mais imponantc: indústria~ ainda uma lavoura rudimcntàr, antecedentes e conseqüentes". Em conseqüência, apesar de cons-
extensiva, servida ontem por dois milhões de escravos e hoje
tatar, naquele momento, um estado "onde todas as classes jazem
por trabalhadores nacionais e algumas dezenas de milhares
de colonos de procedencia européia, c~m vcus mais fdizes amorfas e indistintas", "onde a opinião pública não tem disciplina,
do que na mãe párria. Que socialismo süio dc:Ve sair daf nem orientação segura, racional", afirma que nosso operariado
nesses duzentos anos? O (apitalismo 11adotlal é exíguo, quase .. ("q~o estado") chegará a "crescer em força", "há de emancipar-
mesquinho. :.· se e florecer como poderoso fator" e "fará bem em organizar-se".
Em rigor rodo o país é ainda uma vasta feiçoria, uma
verdadeira colônia, explorada pelo capital europeu sob a
i Ainda no domlnio da vida política no Brasil, Sylvio Romero
forma de comércio e sob a forma de empresas. exprimiu uma contradição que nos nossos dias se toma uma das
A ·população, em geral, feita a pequena c:Xceção de dificuldades fundamentais a ser vencida no ajustamento da orga-
alguns fazendeiros, senhores de engenho, negociantes e {' nização partidária às necessidades de desenvolvimento do país.
herdeiros de capiralisras, mais ou menos desempenhados, ~ Neste sentido, observa ~omero, eni seu escudo As Oligarquias e sua
em sua maioria pobre; mas são os pobrrs dn iulrt:i11; não são
classificação (1908), que "não temos sistema de doutrinas", e "até
os proler:1rios no sentido socialista; porque nã4 são ope-
nirios rurais ou F.:tbris. Se, pois, h:i pauperismo é da nação os grandes nomes" se submetiam aos "patrões", aos chefes de clã.
inteira. "Com quem está o sr. Pena? Com o bloco e o Pínhclro Machado
Sem dúvida, uma resposta de grande categoria soCiológica. ou com o João Pinheiro e Carlos Peixoto?
Syl~io Romero, realmente, aqui nos dá uma das chaves para a Com que está o sr, Rui? Com o Nilo Peçanha óu com o Backer,
compreensão dos movimentos políticos de fases e movimentos que, com o Severino Vieira ou com o José Marcdino?"
até hoje, têm refletido os percalços e as vicissitudes de uma classe E fundamentou suas críticas, demorando-se na.discr.iniinação
média em busca de enquadramento social. Aquele partido era dos vários tipos de oligarquia, "f6rmulas bastardas de organização
estruturalmente impossível numa estrutura em que a uma burgue- político-social" que predominavam nos Estados da União, desde
sia latifundiária mercantil s6 se opunha, com alguma consciência o "aciolismo" no Norte ao "castilhismo positiv6ide" no Sul.
de seus interesses, uma incipiente classe média. 'aquele co,ntingenre
de pessoas "diplomadas e vestidas de casaca", · IV • Os Ide6logos da Ordem e Progresso
o mundo dos médicos sem clínica, dos advogados sem
Sylvio Romero faleceu em 1914, um ano decisivo em nossa
clientela, dos padres sem vigararias, dos engenheiros sem
empresas e sem obr~.dos profc ssores sem disdpulos, dos evolução econômica e social, que registra o inlci~ da I Grande
escritores •. dos jqrnalisras, dos literatos sem leitores, dos Guerra cujos reflexos em nosso país se tomam aceleradores do seu
artistas sem público, dos magistrados sem juizad~s .ou aré progresso. Esrimuladas por uma conjuntura internacional fa·
com eles, dos funcion:lrios pÓblicos mal remunerados. vorável (declínio da importação e da concorrência estrangéira,
Isto é, observa Romero: "a classe mais pobre que exisre no país resultante da forte queda do câmbio) acentuam-se as tendências
é justamente a que corresponde à burguesia da Europa", centrípetas da ecor1on~ia nacional que já vinham se esboçando
Além disto, Romeio vê o desenvolvimento díalérk.o..do...o.pefll- desde 1880-1890 e que se exprimiam através da expansão do·
riado político, pois a tanto o leva sua convicção de que a sociedade mercado e da indústria do _país. Até 1889, havia somente 626
estabelecimentos indunriais no Brasil. Nos vince e cinco anos

BB 89
CJIJTICA DA SOCIOLOGIA BltASil.EIIlA
I
J
V- EsFOJlÇOS o" TEOilfí'.AçAo DA Rl'-AUDADE...

Foram essas circunstâncias que presidiram, a partir do final da


posteriores fo~m instalados mais 6.946 novos ~rabeleci_mentos
décida de 1910-20, alguns expressivos esforços de teorização dos
industriais; mas no período de 1915-1919 surgu·am aqut 5.940
problemas brasileiros. A mola-.destes esforços é Alvaro Bomilcar da
empresas industriais novas. O valor da produção industrial atingiu
Cunha, que, aliás, ainda vive hoje, com oitenta anos de idade. Em
em 1920 a .3.000.000 de contos, enquanto em 1914 era de
abril de 1919, Bomilcar, associado aJackson de Figueiredo, Migud
1.350.000 contos. Disto resoltava, naturalmente, um apreciável
aumento dos contingentes de trabalhadores industriais que, em Austregésilo, J. de Almeida Magalhães, Tasso da Silveira, José
1907, eram 150.841 e passaram a 275.512 em 1920, quando se Cândido Andrade Murici, Alberto Deodato e outros, funda aqui
a Propaganda Nativista, "sociedade de caráter eminentemente
realizou o segundo censo industrial.
político", em cujo programa se inscrevem, entre outros, os seguin-
Antepunhá-se, porém, a estas tendências, graves obstcicu!os que
tes prop6sitos:
urgia liqUidar. Um ddes consistia no controle de ramos Jm~r­
tantes do nosso comércio interno como exterior pór estrangetros. • trabalhar pela emancipação intelectual, financeira e econô-
Na capital do paJs e nas mais importantes cidades do litoral, o ~ato mica do Brasil, libertando-o da opressão estrangeira em que se
era particularmente ostensivo, tendo o português excluído prattca· encontra: nacionalização absoluta da imprensa e do comércio a
mente o brasileiro das atividades comerciais. Dizia-se existir na retalho;
Junta Comercial do Rio contratos de casas comerciais em que os - despertar no espírito do Povo Brasileiro o sentimento e as
seus sócios se obrigavam á não admitir empregados brasileiros. idéias de solidariedade enrre as nações americanas, combatendo,
Favorecia a este predomínio a grande imprensa do Rio, na époc;t., conseqüenremente, a influência da moderna civilização européi~,
praricamence nas mãos da colônia pormguesa. cujas questões sociais são diferentes das que se impõem ao cr-itério
Esta siruação, alieis, vinha sendo denunciada desde longa data. do nosso continente; ·
Em 1849, Timandro (Sales Torres Homem) em seu panfleto, O • defender o projeto legislativo que estabelece a obrigato-
Libew dJJ povo, deplorava que o comércio pertencesse riedade para as casas comerciais estrangeiras de terem pdo menos
ao aluvião de portugueses, que enchem e desnacionalizam doiS terços de empregados brasileiros na ros; · .· · .· ·
as ·capitais de nossas provindas marítimas, c que mensal-
- trabalhar para que sej;t vedado ao estrangeiro o ex~rdcio de
mente se recrutam com centos e centos de recém-chegados,
os quais vêm aÍnda minguar nossa dviliução.
cargos eletivos e empregos públicos, me.Smo quando se trate de
indivíduos naturalizados; .· .·
E Paul Adam, em seu livro editado em 1914, Les Visages du
- propugnar pda·medida legislativa que limita. ao esq·ange~~:•. ·····•··
Brlsi~ escrevia:
Em pleno século XX, trinta ou quarenta mil negocian-
tes portugueses, protegidos por uma legislação por certo
que em demasia libera~, respeitadora do indivfd~o .e de seus
ro a~p;~~~r•::~:~~i~çã~~~::~~s do ;..~~~~"2
acordo com a oriéntação nacionalista; , ;:.?') ;;
atos, infligem a vinte e cinco milh6cs de bras•le~tos estas
clifieuldades e sofrimentos, uma polltica inteiramente favo- - adoção do prindpio de igualdade das raças; • · · :,; :.•
rável ao comerd~ntc, à sua liberdade absoluta, aos seus - organização do Teatro Nacional Brasileiro.
planos de exploração.
Por iniciativa deste mesmo grupo, funda-se a Ação Sócial Na- ·
Um marco famoso da liter~~U.fcl. contra o português no Brasil cionalista (reconhecida de utilidade pública pelo decret~ ~~ 4~ 191,
é ainda 0 livro de Antônio T~~~es, .k Razoem da Incon!Jdmcia ~e 16111/1920) cujo programa insiste em pontos como: naciona-.
(1925).

90 91
CRlTICA DA SOCIOLOGIA BRASH.E!RA
V- EsFOltÇDS DE TEORIZAÇAO DA REALIDADE.,,

lização do comércio; nacionalização da imprensa polftíca; naciona-


mundiais e em particular no Oriente". Dizia então que "não existe
lização da costeagem e da pesca; regulamentação do trabalho;
um comércio nacional brasileiro... Textualmente:
aproximaçio do Brasil às repúblicas amer.:canas, em especial, ·.!
Não existe com~rc:io brasileiro de exportação; não existe
. ·subconclnentais, por uma sã política de concórdia, de respeito e de
com~rcio brasileiro de imponação: não ex~ce comércio
· ·. reciprocidade de imeresses. · brasileiro intçrior, T.odo com~rcio feito no Brasil~ feito por
Para se aquilatar a repercUssão desta entidade basta r&:rir que estrangeiros; ~odos os lucros do oombcio, seja interior, seja
. . ·. ··recebera o apoio do Partido Republicano, e em 1921 federaram- de exponação, que se efetuam, são grangeados pelos estran-
geiros. O Brasil se dcpaupera por falta de um. com~rcio
. ·. se aô seu Diretório 50 associações. A Ação Social Nacionalista
nacional de exportação, Jlor não auferir os lucros da venda
•· tinha: como presidente de honra Epitácio Pessoa, como presidente de seus produtos que só poderiam alimentar a sua vida. O
•.. .•.·.. ·····~·efetivo o conde Afo.nso Celso, e quatro vice-presidentes: Justo Brasil se depaupera por fal~ de um comércio brasileiro
· Chermoht, Camilo Praces, Frederico Vitlar e Alvaro Bomilcar. interior, por perder, em cada momento e em cada operação
:• ::~i; O chamado Móvimento Modernista, cujos primeiros sinais se comercial, embora realizada por brasileiros, embora realiza-
da na :tona mais remota de interior do pais, a maior parte
' ::i~gistiaiil nos anos de 19 e 20 e qu~ toma corpo em 1922, será no do ~eu dinheiro, o qual ganho por esrrangeirc>s, é remetida
plano literário o reflexo dos. fatores . reai~. qu,e explicam a Propa- para o estrangeiro. ·
ganda Nativista e a Ação Social Nacionalista. Mas infelizmente E Jackson de Figueiredo, advértindo que jamais poderia causar
temos que deixar de lado este aspecto. O que importa é ~inalar espanto a "quem conhecer as condições atuais da nossa vida social
· que aquelas iniciativas tiveram o seu suporte teórico em· estudos principalmente no Rio" que "o nosso nacionalismo vise, antes do
· publicados nos periódicos Brazlleae Gil Blase, principalmente, em mais, esclarecer aos portugueses qual deve ser .o seu papel», assim
· tr& livros A Politica no Brasil ou o Nacionalismo radical de Alvaro resume o seu pensamento:
[:
· Bomilcar, constituído de estudos escritos, em sua maio da, ·por f O verdadeiro nacionalismo brasileiro é aquele que~
volta de 1917, mas editado em 1920; Nacionalismo econômico amando a contribuição do trabalho de qualquer estrangeiro,
(1917), de Nicolau José Debané; e Do Nacionalismo na hora
pre;ente (1921), de Jackson de Figueiredo.' lI: em nossa pátria, quer que esse estrangeiro jamais esqueça
que o povo brasileiro ~ o únioo que aqui pode ter situação
privilegiada, jamais esqueça que é aqui tão estrangeiro
Estas obras procur~ justificar os pomos dos progrart;1as ante-
riormente referidos, exprimindo, em larga margem, rttais por
r quando ainda o somos em sua pátria. E, sobretudo, por
espedale$Simas razões históricas, impõem aos ponugueses
intuição do que mediance pura intelectualização, tendênCias reais aqui domiciliados que também jamais esqueçam que são
da sociedade brasileira naquele momento. Elas exprimem, assim, estrangeiros, tanto quanto o francês, o alemão, o japonês.
a consciência mais ou menos difusa de tais tendências aintes que Este grupo se mantém atuante durante vários anos~. em 1955,
uma interpretação academicamente organizada. A nuança intui- ainda é a sua diretriz que preside a fundação, no Rio, ~Academia
tiva destas obras é, por exemplo, ilustrada em palavras cQmo estas Brasileira de Ciências Econômicas, Pol!ticas e Sociais, · com o
de Alvaro Bomilcar: "A crítica social se funda nos fatos e nos objetivo de, entre ourras coisas, realizar escudos que perniitam
sentimentos". Ou ainda: "A sociologia ... se faz mais pela indução orientar os interesses econômicos,.poltticos c sociais do Brasil, dela
psicológica do que pelo relativismo efêmero dos acontecimentos." participando Artur Bernardes, seu presidente de honra, Afonso
Nicolau Debané, que foi cônsul do Brasil no Egito, por vá~ios Pena Júnior, Francisco de Campos, Mário Brant, Epitác.io Pessoa,
anos, focaliza a "situação geral do nosso comércio, nos mercados Monso Cdso, Lacerda de Almeida, NicoJau Debané, Alvaro
Bomi!car e outros.
1-.
92 ~ ;~.
93 :.(
;.-:
V - EsFORÇOS DE TEORIZAÇÃO DA RI!AUDADE...
CJúTIC\ DA SOCIOLOGIA BRASILEIRA

deles carecendo do que Freyer chamaria a participação volitiva no


Ao mesmo tempo em que de 1919 a·1925 se registram estes
~contecer so:iaL Transpõem assim as questões para o. planç:puro
esforços de estruturação de idéias destinadas a criar uma cons- da especulaçao. Na Conclusão do livro diz-se: ·· > ·
ciência política dos interesses nacionais, verificam-se várias
Em nenhum momento, ~lvet, de nossa história foi tão
ocorrências que dão uma ilustração dramática do desajustamento necessário pmsnr o Bnsil, como atualmente. A n;nhuma
da organização político-partidária às condições reais do país. Estes genção mais do que à nossa terá cabido a responsabilidade
anos ·correspondem a dois períodos governamenrais - o de de sustentar o primatÚ tÚ t.tplrito (o grifo é meu).·. .
E.pitácio Pessoa ·e o de Artur Bernardes- marcados por apreciável E de fato, apesar das diferentes orientações que revelam, quase
inquietação social e até por convulsões de porte. Na cúpula das t~dos. parece~ adotar uma concepção psicologística do processo
agremiações partidárias, iniciava-se, no ano de 1921, a chamada hW:ónco-soctal, a qual admite a possibilidade da transformação da
Reação Republicana, sob o pretexto de oposição à candidatura soctedade pelo esclarecimento mental, intelectual e moral e muitas ·
Artur Bernardes. No governo deste, as correntes oposicionistas vezes uma certa crença na salvação pelas elites. Faltando-lhes a
de todo o país se coligam cqm o nome de Aliança Libertadora. p~rcepção de. contingên:ia h:stórico~sodal da psicologia indi·
Diferentes e às vezes contraditórios movimentos parecem indicar
vtd~al e col_euv~, ~re~endtam a pacificação dos espíritos" através
·um escado de tensão entre forças malcontidas rio arcabouço insti- de atos de tntehgencta e de fé". O documento insiste, neste pomo,
tucional do país. Funda-se o Partido Comunista em 1922, ano em q~ando fala coletivamente. Afirmam que procuram "reagir ·pelo
que se amotinam a Escola Militar e o Forte de Copacabana,
pr~gr~so. dentro da ordem ... por isso que o caminho pa,ra andar
irrupções trabalhadas pelos mesmos fatores que promovem a revo- mrus hgetro é aquele que evita os desatinos das correri~ r~~lu­
lução de julho de 1924, em São Paulo, de larga aceitação pública,
cionárias perigosas e intempestivas". Estas limitações existenciais,
apesar de dominada. entretanto, não lhes itnpedem de diagnosticar com acerto muitos
É neste ambiente, por sua natureza propícia à meditação so- dos n~ssos ~ales .. Sobretudo três deles são felizes neste ponto: A.
ciológica, que um grupo de "escritores da geração nascida com a Carnetro Leão, Gtlbena Amado e Oliveira Viana. Aliás os intelec-
República" decide proceder a um "inquérito" com o propósito de tuais que comparecem nesta qf;>ra vivem um momento literário
fncar "no tempo e no espaço. o Pensamntto e a Consciência da modernista, c~jo estado de esP,frito, como já lembrou .alguém,
Nacionalidatk Brasileird', e de que resultou a obra coletiva: À r,o~e se: deflmdo por esra sentença de um participante do mesmo:
Margem da História da República (Rio, 1924). Eram eles: A. Nos nao sa~emos predsa,rM.I\teo que queremos, mas sabemos o
Carn~ro Leão, Celso Vieira, Gilberto Amado, Jonathas Serrano, que não queremos". ·
José Antônio Nogueira, Nuno Pinheiro, Oliveira Viana, Pontes
de Miranda, Ronald de Carvalho, Tasso da Silveira, Tristão de V- A Revolução da Classe Média
Athaíde, Vicente Lidnio Cardoso. Não seria possível, realmente, naqueles anos, atingir-se a uma
Animados por um vago desejo de compreender o Brasil, mas concepção configurada da· sociedade brasileira, pois que, para
sem objetivos concretos marcados para alcançar, o que não acon- tanto, faltavam condições objetivas. A compreensão e o domínio
tecia com _os grupos anteriores, esses escritores refletem, de modo das forças deste conrexco econômico e social ultrapassam as idéias
mais ou menos ingênuo, as tendências cenrrCpetas de autode- e as coordenadas teóricas em que se estribava a ação polttica até .
terminação amantes na sociedade brasileira naquela época. Eles 1930. Os revolucionários de outubro de 1930, logo após a tomada
exprimem com categorias conceituais inadequadas uma percepção do poder, inqueridos a que vinham, revelaram a sua perplexidade
ingênua dos fatos. o que não poderia deixar de acontecer, a maioria

94 95
V - E:it:oltÇOS OI! TJ;Oilt""çAO OA REI\LIDADE ...
CR.ITICA DA SOCIOLOGIA BRASIU~IRA

c) uma direção pragmático-partidária, na quaf incluo ~ obras


e despreparação teórica e passaram a invocar um "espírito revolu- e documentos que expuseram as diretrizes do Integralismo Brasi~
cionário" que n[o sabiam definir. Um observador inteligente deste leiro (fundado em 1932) e do Partido Com1.0nista do B~il. desde . ::I
fato escreveu: 1935 orientado por Luis Carlos Prestes. . .1·
A confusã~ tornou conta do país todo. Ninguém se
explicava diante rlo pais estonteado. Amedida que os llde~es Seria necessário examinar pormenorizadamente ~··diferentes : ·:l
revoludonários falavam, a confus,iio aumentava. As entreVIs- nuanças de cada uma destas direções. Infelizmente, não posso fazê..
tas vazias de sentido da realidade se sucediam urnas às outras lo aqui, dados os limires deste estudo. Mas, as seguintes obser-
.atropelando seus próprios autores. O jogo de palavras vações podem ser feitas sobre estas direções em conjunto:
·emaranhavam os homens. Pelo que se lia, diariamente, nos
jornais, ficava se sabendo que o tal "esplrico revolucionário"
era honesto e não fazia polltica.
a) estas direções refletem a necessidade de transformação dos
métodos e processos pollticos, por força do relativamente alto grau
ljli
de diferenciação das classes sociais. No período de 1930 a 1937 se .. !·!··
r
VI- A Revolução de 1930 · delineiam os dados do problema polltico do pais, até hoje insol- !i
I
A revolução de 1930 promoveu, entretanto, mudanças de sinal vido e que persiste diante de nós: o problema da liquidação da
positivo na vida polftico-partidári~ do pais, pelo menos e~ .decor- política de clientela, através da estruturação ideológica dos inte·
rência dos seguintes fatos: a) abnu lugar nos quadros dmgentes res.scs das classes sodais no Brasil; 1j
para consideráveis contingentes da ~asse média; b) i~ici~u ~ in~ti~ b) de nenhum dos esforços acima mencionados resultou a
_tucionalh:ação das forças econômicas, através da smdicahzaçao, formulação de uma ideologia orgânica da realidade nacional que .
· c) iniciou o processo de liquidação, no governo federal, da hege- refletisse a direção dominante do processo de desenvolvimento da
monia de uns poucos Estados em detrimento dos restantes; d) sociedade brasileira, a desP.eito de contribuições fragmentárias,
firmou o princípio da intervenção do Estad'l na economia, embora neste sentido, às vezes.importantes.
a
. sob forma de um "dirigismo" desconexo e às vezes caótico. Os fatores fundamentais que constituem a infra~estrutura dos
>- Ó.período de 1930 a 1937 é assinalado por um extràordinário movimentos e dos esforços de teori7.ação política de 1930 a 1937
esforço de teorização política da realidade nacional, no qual se (a diferenciação social das classes pela expansão industrial e a
discernem as seguintes direções: reorientação da economia brasileira no sentido de um amplo
a) uma direção acadêmico-normativa na qual incluo aqueles mercado interno e, portamo, andcoJonial) tornam-se cada vez mais
que se caracterizaram pela adoção de uma concepção psicológica. ponderáveis de 1937 até os dias p~esentes, valendo destacar o papd
do processo social, na linha de que se acreditava possível a salvação posidvo, neste processo, da II Grande Guerra e da correlata crise
:.. ~ sociedade através da tutela das massas exercida pelos mais do imperialismo.
1
:.~!.· .•. '; .~~Q~ ~u •• através da t<ansformação do caráter do povo, pela ·
A acuai crise de nossa organização político-partidária decorre do
fato de que ela não ultrapassou aquelas direções formadas entre
.;L bÚ~a direção indutj_y_a,_.na .qu~!._il'_!cluo aqueles que, quase 1930 e I 937 e, porranro, do seu desajustamento aos fatores obje-
f,j· · >••· •. s~pre desprovidos de instrumentos metodológicos de rigor ci~~-
úfico; conseguiram, apesar disto, captar alguns aspectos essenCiaiS
tivos que configuram a realidade bra;;ileira. A superação desta crise
se obterá, conseqüentemente, na medida que se encaminharem as .
~ .•.•.· . dos acontecimentos (Martins de Almeida, Oliveira Viana, Azevedo forças poltricas no sentido da tendência dominante do processo de
\ . · . Amaral, Virgínia Santa Rosa erc.); desenvolvimento do pais.
l
L
.• !
,; 96
97
p
:·:~}_·:,·_·_._
. . _...;_:··- --~~:..::.: -~···- ..... --. ·-·- ~-·_·___ -~~~~--_:_:;~ :·.-::·~.<:·:< :'·;' <=.:·......

CRITICA DA SOCIOLOGIA BRASII.EIRA

VII - Conclusão
nunciado em sea:mbro de 1877, por ocasião da inauguração . : .
Em conclusão podem ser inferidos da presente análise sumária, do Clube Popular Escadense. . . . ·.
os seguintes enunciados:
{3) Por esta ép~ca {1921), Jackson de Figueiredo ji ha~i~fun­
I - Cada uma d.as tentativas de teorização política realizadas dad~ no RIO o Cencro Dom Vital. Em agosto de 1921
no.Brasil, a partir de 1870, tem refletido o grau de consciência publtcava-se o prim~iro n~mero da revista A Ordnn, dirigida
possível, no momento em que aparecem, dos fatores configuradvos por JacksoJ:, em CUJO amgo de fundo "Nosso Program "
d'. " ~:: , a'
da realidade nacional. Tudo leva a crer que o idealismo utópico que •z•a-se: ... raremos tudo quanto um católico pode e deve
se pretende ver em tajs tenrarivas seja mais aparente do que efetivo. fazer contra o bastardo espírito do cosmopolitismo que é
talvez o fator principal do nosso ceticismo social: até o
li - Os republicanos de 1870 e os positivistas, situacional- presence. A ma~~o__ a.rd~lltemente as tradições cristãs, que
mente impedidos de v~. com nitidez., as contradições econô- herdamos da nossa ascendência européia, não concorreremos
micas da época em que atuaram, exprimiram, em termos prepon- nunca para. um movimento de ódio contra o estrangeiro
derantemente políticos, as aspirações de um estrato superior da europeu, Seia de que nacionalidade for mas isto • .
d'rá · • nao Jmpe-
classe média. ' .q~e tudo façamos para que seja um fato a autonomia do
IÍI- Este estrato, aliado ao processo de expansão industrial do bras•le~ro em sua própria terra, para que a direção intelectual
e po.línca da nação tenha caráter positivamente brasileiro. É
Brasil, na medida que se avoluma, exprime, no plano polttico e de
modo crescente, as tendênci~ dominantes do processo de desen-
?s
preoso .que em rodos domlnios de nossa vida se faça sentir
a autondade do espírito nacional",
volvimento da sociedade nacional.
N-O golpe de 1889; Sylvio Romero, no perlodo republicano; Bibliografia
a Campanha Civilista de Rui Barbosa, em 1910; os movimentos ALMEIDA, Martins de. Brasil trrado. 2• ed., Rio de Janeiro, 1953.
revolucionários de 1922 e 1924; a Coluna Prestes e 1930 são BASTOS, Abguar. Prestes e 11 rtvolução social Rio de Janeiro, 1946.
marcos da revolução da cl~e média contra a burguesia latifun-
BOEH~RER, Georg C.. Da Monarquia à Rep1íblicn. Ministério de Edu-
diária e mercantil. caçao e Cultura, 1954. ·
V -De nenhum dos esforços de teorização política registrados BOMIL~R. Álvaro. A Política ~~~ Brasil ou o 1111cion4lismo radicaL Rio
no Brasil até a presente data resultou a formulação de uma ideo- de JaneJro, 1920.
logia orgânica da realidade brasileira apta a tornar-se o suporte de BRASILIENSE, A. Os Programas dos Partidos. São Paulo, 1878.
uma açãq política de verdadeiro sentido nacional. E~G_~!:-§!_J.Ee~.~r_ic9. Dtl Socialismo Utópico ai 'Socialismo Cientifico
Buenos Aires, 1946. · ·
Notas FURTADO, Celso. A Economia brasileira. Rio de Janeiro, 1954.
(1) Cónferência pronunciada 'pelo autor na Faculdade de Filo- LUKACS, G .. 11 Marxúmo e In critica ktterarla. Einaudi Editore, 1953.
sofia de São Paulo, numa das sessões do I Congresso Brasi- MANNHE~M, Karl. Ideologia y utopia. México: Pondo de Cultura
leiro de Sociologia, realizado na capital bandeirante, de 21 ···· Econôm1ca, 1941. . .
a 27 de junho de 1955. MO~IS FILHO, Evan;ro de,-OProblema do sindicato único no Bran'l.
(2) Constitui um documento expressivo da ideologia do estrato Rio de Janeiro, 1952.
superior da claSse média na década de 1870-1880, o opúsculo NIEM~:_ER, Waldyr. "Considerações sobre o Movimento Sindical no
de Tobias Barreto, Um Discurso tm mang/IS de camisa, pro- Brasil . In TrabaU1o e Seguro Social. n 01 45 e 46, set-out., 1946.

98 9.9
CRITICA DA Soc1oLOCIA BtlASILEIRA

NORMANO, J. F.. Evolução econômica do Brasil. Rio de Janeiro, 1945.


PEREGRINO JÚNIOR. O M~;j;,.1~nto modtmistn. Rio de; Janeiro:
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1948. .
PRADO JúNIOR, Caio. História econDmica do BrasiL 31 ed., São Paulo,
1953.
ROMERO, Sylvio. Hiftória dn Literatztra Br1.Sileira. Rio de Janeiro,
188.8.. SEGUNDA PARTE
_ . O EvoludoniJmo e o Positivismo no Brasil. 24• ed., Rio de Janeiro,
1895. . . Car#lha Brasileira do
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de Janeiro, 1893. (Prefácio a urna Soê:lologia Nacional)
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SALGADO, Plínio. O /ntegi'alismo brasileiro perantefiNario,-Lisboa,
1946.
SANTA ROSA, Virgínia. O Sentido do tenentismo. Rio de Jan~iro, 1933.
I
!
I
TORRES, Antônio. As Razoms da lnconfydmcia. Rio de Janeiro, 1925.
. -~
VlANA, Oliveira. O Idtalis"!o da Constituição. Companhia Editora
Nacional, 1939.

foo
l
I- Nota Explica:tiva

A ~ecessidade de rebater a agressão de que fui alvo no II


Congresso Latina.-americano de Sociologia, por parte de congres-
sistas brasileiros em desacordo com as recomendações que ali
defendi, na qualidade de presidente da Comissão de Estruturas
Nacionais e Regionais, serviu-me de excitante para, a despeito de
minhas ocupações absorventes)....~crever uma série de nove artigos
dominicais, no Diário de Noticias desta capital, no per!odo de
26/7/53 a 4/10/53, em que parece terem ficado claramente
t expressas algumas tendências fundamentais da presente fase da
I
i sociedade brasileira. Estou sinceramente convencido disto, por
j
i força das eloqüentes demonstrações de apoio que recebi, vindas de
Nossa exiscênda escá toda subordinada a uns pessoas e entidades da maior circunspeção moral e intelectual.
tantos prindpios elementares de critério, que al- Estão entre elas a Faculdade Fluminense de Filosofia, cujo Con-
guns observam por hábito, e muitos despre-zam; se selho Técnico-administrativo me endereçou um voto congra-
algném os recorda, :atalha-se que do banais, mas a rulatório, o próprio Didrio de Notícias, O Didrio, de Belo
arte da vida prática assenta sobre estas banalidades,
Horizonte, é a revista Marco, editada por um grupo de alunqs
e as desordens da socieeade c dos homens resultam
de que os esqnecemos freqnentemence.
da Faculdade Nacional de Filosofia, e para a qual aqueles nove
Albmo Torres artigos, que chamou· de "sensacionais", "pdo seu caráter revolu-
CAR.T1UIA.8RASU..EJRA DO APRENDIZ DE SOCtÓLOGO

cionárío, passarão a constituir uma referência histórica na evolução


4a sociologia no Brasil'~. Cumpre~me agradecer, nesta oponuni-
dade, o simpático rodapé que, sobre o "caso", escreveu o hísto~ ..
riador e critico Ndson Werneck Sodré, no Correio Paulistano,
e o apoi~ irrestrito que mereci do ministro Ernesto Claudino e de
outras pessoas, cujo nome não menciono aqui por não ter delas
II- Sociologia Enlatada
autorização espontâne.a neste sentido. Registro, ainda, com satis-
fação, as palavras finais de um editorial de O Popular, assinado versus Sociologia Dinâmica
pdo ilustre senador Domingos Vellasco:
~ão queremos dizer que os sociólogos latino-ame-
ricanos estejam· a serviço do atraso de seus palses, mas
apenas salientar que eles se preocuparam mais cpm a dis-
c~ão de teorias, mais ou menos ac;~dêmicas, relegando a
um plano secundário problemas sociais que intere:ssam fun-
damentalmente à vida do povo. Recearam tocar no assunto.
Salvou-os, pon!m, a coragem da Comissão de Estruturas
Nacionais e Regionais com as suas recomendaçóC$. Já é um
consolo.

Finalmente, não menos demonstrativo da ampla rep~rcussão


das diretrizes que defendi foi o discurso com que o professor A melhor maneira de fazer ciência é a partir· da vida, ou ainda,
.~
Euclides Mesquita, organizador do I Congresso de Sociologia, a partir da necessidade de responder aos desafios da realidade.
realizado no Paraná, o inaugurou, e em que tive a honra de ver Seguindo esta regra, proponho-me a tratar, aqui, dos proble-
irrestritamente aplaudida a minha posiç.ão na sociologia: brasi- mas da sociologia brasileira pelo aprofundamento da análise de
leira. Pois ali afirmou o professor Euclides Mesquita: "~ tempo de um caso ocorrido no II Congresso Latino-americano de Sociologia,
abandonarmos o que um sociólogo -brasileL o chamou, com pro- realizado no Rio e em São Paulo, entre lO e 17 de julho de 1953.
priedade, de sociologia en-latada ", Na qualidade de presidente da Comissão de Estruturas Nacionais
Encontrará o leitor, neste trabalho, a seqüência daqudes arti- e Regionais, submeti à apreciação daquele certame um documento .
gos, parcialmente reelaborados e enriquecidos de notas de rodapé. que continha as seguintes recomendações:
O tema da 6• recomendação - relações de raça - foi tratado etn 1•- as soluções dos problemas sociais dos pai~es latino-ameri-
capítulo especial, com o pormenor que estava a. requer-er.- canos devem ser propostas tendo em vista as condições efetivas de
A intenção do dtulo - CartitiHt brasileira do aprendiz de suas estruturas nacionais e regionais, sendo desaconseJhável a trans-
sociólogo -é f.'lcilmeme perceptível. plantação literal de medidas adotadas em países plenamente
desenvolvidos;
2• - a organização do ensino da sociologia nos países latino-:
americanos deve obedecer ao prop6sito fundamental de contribuir

I
para a emancipação cultural dos discentes, equipando-os de ins-

10.4
....,__... _
:·;·,:·_··.c"::::.:.:_:~~~íílíííílí~===~~==~=·~::::~>.'c~;··~~~~;:L~>:'':.:."::''·::~:·:':':'·;,::c}i;::,::-:_:.:·.'.::.:\:::~:::.:::::~:}.·5=2".2::/;.;:':o:·:'.·::·:::,~::·:.;::;=.::;,::::i}:;::.-:~:;

1,[ r.RTILHA BowmmRA 00 ÁO""'O<Z o• Soaoo.oco . ··r.·... Jl - SOCIOL.OCIA ENLATADA VERSUS ...
T:
;!.'
"--"'
1~1
trumentos intelectuais que os capacitem a interpretar, de modo opiniões contrárias ~.quelés·enunciados foram coordenadas por
autêntico, os problemas das estruturas nacionais e regionais a que congressistas brasileiros.
se vinculam; . Ora, como se depreenderá da leitura das recomendações, o que
31 - no exercido de atividades de aconselhamento, os soció- se tinha em vista era encorajar os esforços para a prática, nos países
logos latino-americanos não devem perder de vista as disponibi- latino-americanos, de uma sociologia que refletisse os seus proble-
lidades da renda nacional de seus países, necessárias para suportar mas; era estimular se cortassem os cordões umbilicais que têm
os encargos decorrentes das medidas propostas; tornado esta disciplina um su~e!oduto abortício do pensamento
41 - no estádio atual de desenvolvimento das nações latino- sociológico europeu e norte-americano.
americanas e em face das suas necessidades cada vez maiores de Assim, a atitude do plenário em face daquelas teses serviu para
investimentos em bens de produção, é desaconselhável aplicar dar um flagrante de que hoje, no Brasil pdo menos, se distinguem,
recursos na prática de pesquisas sobre minudências da vida social, com clareza, entre outras, duas correntes de pensamento socioló-
devendo se estimular a formulação de interpretações genéricas dos gico: uma corrente que pode ser chamada, como já propus certa
:'··
aspectos global e parciais das estruturas nacionais e regionais; vez, de "consular", visto que, por muitos aspectos, pode ser con-
;~:
5' - o trabalho sociológico deve ter sempre em vista que a siderada como um episódio da expansão cultura] dos pafses da
melhoria das condições de vida das populações está condicionada Europa e dos Estados Unidos; e outra que, embora aproveitando
ao desenvolvimento industrial das estruturas nacionais e regionais; a experiência acumulada do trabalho sociológico universal, está
68 - é francamente desaconselhável que o trabalho sociológico, procurando servir-se dele como instrumento de autoconhecimento
direta ou indiretamente, contribua para a persistência, nas nações e desenvolvimento das estruturas nacionais e regionais. As propo-
latino-americanas, de estilos de comportamento de caráter pré- sições acima enunciadas pretendem representar esta corrente.
letrado. Ao contrário, no que conceme às populações indígenas ou A essência de toda sociologia amêntica é, direta ou indireta-
· afro-americanas, o sociólogos devem aplicar-se no estudo e ·na· mente, um propósito salvador e de reconstrução social. 1 Por isso,
proposição de mecanismos de integração social que apressem a inspira-se numa experiência comunitária vivida pelo sociólogo, em
incorporação desses contingentes humanos na atual estrutura eco- função da qual adquire sentido. Desvinculada de uma realidade
nômica e cultural dos pafses latino-americanos; humana efetiva, a sociologia é um atividade lúdica da mesma
7a - na utilização da metodologia sociológica, os sociólogos natureza do pif-paf. Quem diz vida, diz problema. A essência da
devem ter em vista que as exigências de precisão e refinamento vid:i. ·é a sua problematicidade incessante. Daí, na medida que o
~ociólogo exercita vitalmente a sua disciplina, é forçosamente
decorrem do nível de desenvolvimento das estruturas nacionais e
regionais. Portanto, dos pafses laci~o-americanos, os métodos e levado a entrelaçar o seu pensamento como a sua circun~tância
nacjonal ou regional. · . :.::::_·,~_:. ·_.
processos de pesquisa devem coadunar-se com os seus recursos
econômicos e de pessoal técnico ~ com o nível cultural genérico de Mas a formação do sociólogo brasileiro ou latino-american~
suas populações. . consiste, via de regra; riúnf adestramento· para o conformismo. para.. ·.· ·
Todavia, essas teses foram ruidosamente desaprovadas, por 22 a disponibilidade da inteligência em face das teorias. El~ aprende: .·... ·.
votos contra 9, com o agravante ainda de o autor deste estudo ter a receber prontas as soluções, e quando se defronta ~.irík~.( ;;;
sido francamente agredido com demonstrações de ódio e desa- problema de seu ambiente, tenta resolvê-lo confrontand~iíé'it~s::·~;·.• •··
preço por um dos seus opositores. É significativo assinalar que as apelando para as receitas em que se abeberou nos compêndios: ·.

106 107
JI - SOCIOLOGIA ENLATADA VE/lSUS •• ,
CARTILHA BRASIL.I'.IIl.A DO APRENDIZ t>B SOCIOLOGO
intrepidez patriótica, como daqueles que conside~ a necessidade
Ad(!str3:do para pensar por pensamentos feitos, torna.:se fre-
de adorar procedimentos metodológicos simplificados, num pais
q~entemente, quanto aos sentimentos e à volição, um r!pétiteur,
subdesenvolvido, uma diminuição dos brios nacionais. Já assisti,
isto é, sente por sentimentos feitos, quer por vontades fei~, como
num congresso de sociologia, à queda de uma propos~a sociologi-
cUria Péguy. ·
camente correta, em virtude de ter-se invocado os brios patrióticos
.. ; ·: .',: Abram-se os nossos compêndios de sociologia. Um o~ outro dos presentes. ·
..... fo~e.lregra: em geral, cada um deles traz de tudo, arrokautores
Este exemplarismo é um dos aspectos do que se pode chamar
··.. é::·sistemas, sem proporcionar ao aprendiz um critério dir~tivo de
a "doença infantil" da sociologia nos países coloniais, doença que
crítica. Como quem insinua: o educando que procure a ~erdade
torna a disciplina referida uma "gesticulação", vazia de signifi-
sociológica, tirando um bocadinho <laqüí; 'ôutro bocadinho dali.
cados, um aro em oco, uma ação ilusória, mas capaz de satisfazer
Pois esses compêndios de que falo, a quase totalidade d~ que se
a certos individuas.
escrevem nestas bandas, supõem esta enormidade: que exiSte uma
verdade sociológica, eterna, imut~vel, au-deld da contingência O "gesriculante" satisfaz-se em fingir a ação que anela cometer,
mas não comete realmente .3
histórica, resultante da média agregativa de todos os sistemas. 2
Portanto, incapacitam o estudante para o exercício funcional de Há, pois, no que concerne a~ comportamento de grande parte
uma atitude sociológica. dos sociólogos de países como o Brasil, uma patologia da normali-
dade. Desde que, em suas posturas mentais, é generalizado aquele
Por outro lado, outra espécie de vício mental é patente em
· traço culrurologicamente mórbido, passa o rpesmo a ser normal.
grande número de nossas obras sociológicas. O sociólogo indígena
Entre eles, teremos também de levar a sério as ficções para vivermos
pane, quase sempre, de um sistema importado, ao qual dá validade
· · em paz. Se ousarmos ser sensatos, estamos perdidos, não nos toleram.
absoluta e se filia incondicionalmente. o
mal vem de origem.
Sempre aqui tivemos positivistas, haeckelistas, evolucionistas e Esta é a doença infantil da sociologia no Brasil. Não a creio,
outras espécies de aficionados à outrance. E quando se apresenta entretanto, incurável. O próprio fato de ser cap~ de fazer o seu
o sociólogo patrício a alguém, a pergunta vem logo: que escola o exame de consciência a encaminha para a maturidade. Um indício
senhor segue? de que estou cerro é o que se passa com o pensamento econômico
lari~o-americano. Sob os auspícios de um organismo com a CEPAL,
Além de "consular", esta é uma sociologia que pode ser dita
real1za-se a descolonização do economista latino-americano, e a
enlatada, visto que é consumida como uma verdadeira c6nserva
contribuição de brasileiros para esta mudança.é das mais ilustres.
cultural. ·
Nestas condições, assume-se, entre nós, em face dos métodos Notas
e produtos do trabalho sociológico no exterior, uma atitude
apologética. Tudo que de lá vem é ortodoxo, excelente, imitáveL
(1) Em confirmação, o estudioso poderá verificar como, por
exemplo, Augusco Com te é levado à idéia da ciência socio-
I
Não se acordou ainda para o fato de que os meios e resultàdos do lógica, através da meditação do problema francês de sua j
trabalho sociológico são condicionados por escruwras naciclnais ou época, c secundariamente do problema europeu. (Vide o
regionais. Afirma-se a eficácia im:mente das transplancaçõ~s. Não Curso de Filtm.fia Positiva). Ainda a este propósito, observe-
se assume uma posição sociológica na discussão da socioldgia. De se como uma posição renovadora no campo da sociologia,
:l
...

modo que, muitas vezes, os certames ou reuniões ditos de soció- como a de Karl Mannheim, reflete um propósito de quem
logos se resumem em pronunciamentos idólatras e até m~mo de procura soluções para uma crise. i

108 109

J
CARTILHA Bn.ASILEIItA oo Ar•RENDIZ ot~ Soclót.oco

(2) Este modo de ver foi, aliás, procl~ado sem rebuços, por um
dos mais destacados vultos de nossas ciências sociais,
Arthur Ramos, que disse: "Cada v~ mais me convenço de
que as incompatibilidades metodológicas se reduzem a
questão de nomenclatura" (0 Nrgro br11siltiro, 3a edição,
1953). Este mesmo ecletismo conciliador é patente na obra
da figura de maior prestigio nas letras sociológicas do pafs III- A Sociologia como
em nosso dias, Gilberto Freyre. Vide especialmente Casa- Instrumenro de Aurodererminação .
grande & senzala.
(3) Emprego o termo "gesticulação" em seu sentido técnico, tal
como usado por Lazar e Karl Mannheim. Lazar refere-se ao
tipo de "criança gesticulanre" que se satisfaz com gestos
quando outros lutam por objetivos concretos. Lewin re-
porta-se ao caso de uma criança imbecil que deseja lançar
uma bola a longa distância e, ainda que não tenha conse-
guido, se sentiu satisfeita porque encontrou um substitutivo
no vigoroso .movimento .que realizou. Determinadas confi-
gurações coletivas podem ser favoráveis -à propagação desta
enfermidade. No 'Brasil, muito da atividade intelectual é
mera "gesticulação", ou expressão de esforços de "adultos Foi o seguinte o texto que precedia às recomendações subme-
gesticulani:es". Para maior desenvolvimento deste tema, vide tidas à apreciação do plenário do II Congresso Latino-americano
Karl Mannheim, Líbmad y púmificación soci11L México, de Sociologia pela Comissão que tive a honra de presidir e que
1946. rrarava do tema "esrrurur.as nacionais e regionais":
O desenvolvimento de um pensamento autetltico, na
esfera da sociologia lacino-amcricana, depende da medida
em que os que ·a ela se dedicam sejam capazes de perceber
as leis particulares do processo de crescimento .dos .seus
países. , ....... ·:" ...
Assim, para que o trabalho sociológico se torne um
faror operativo nas sociedades latino-americanas, é preciso
que se ·integre na realidade econômica e social delas, isto é,
que cada vez mais se esforce em vincular-se à vida coletiva.
Embora a sociologia, c:omo ci~ncia, seja uma s6, veri-
fica-se que ela se diferencia quanto aos remas e problemas
de que trara.
Esta diferenciação é iin posta pelas diversidades de estru-
tura econômica e social· dos palses e deve ser canto mais
estimulada quanco mais desejem os sociólogos latino-ame-
ricanos tornar-se úteis às coletividades de que participam.

110
CARTIU·IA Bi\.J\SIIJ!.II\A DO APRENDIZ f>li SOCIÔI.OGO IH- A SOCIOLOGIA COMO INSTRUMENTO •••

Pode-se afirmar, com a categoria de verdadeira lei, que membros. Os documentos finais dos congressos, via de regra,
. às estruturas nacionais e regionais configuradas de modo se constituem predominantemente de lugares-comuns em curso
análogo correspondem idênticos problemas e çlificuldades.
entre especialistas.
Sem estribar-se na .compreensão das peculiaridades
estruturais de nação e região, o trabalho sociol6gico está A sentença acadana, acima transcrita, se justificaria, ·ponanto,
exposto a confundir os esplritos, a acentuar os equCvocos em por este prisma. Mas airida, porque iniciava uma série de sete, e
vr:z. de toruar-se, como dtve, um meio de esclarecimento e porque, no meio latino-americano, é justamente o contrário que
de autoconsciência das sociedades.
A promoção da aucoconsciência de cadÍI sociedade
se pratica, ordinariamente.
latino-americana deve constituir o dever prima~ial dos seus Ver-se-á, pelo comentário das outras recomendações, que a
respectivos sociólogos. recomendação em pauta era necessária no contexto, onde valia
Até a presente data. .. rem-se praticado extensamente,
como simples introdução a um tema central.
en<re n6s, tran~plamações literais de métodos de ação e de
sistemas insricucionais de áreas altamente dc;senvolvidas, Mas não apenas por isto. No que concerne à. sociedade bra-
como se eles fossem dotados de uma eficácia :iman~nte. sileira, tem cabimento a repetida condenação das tendências
A ação social sobre as condições objetivas das estruturas transplantativas. Tais tendências presidiram à formação histórica
nacionais e regionais não deve obedecer a arquétipos ou a
modelos considerados excelentes em si mesmos, mas deve
do pais, e, em nossos dias, mantêm-se vigorosas.
emergir, de modo dinimico, da relação interativa entre o A ~ociologia dos contextos éol~niais rem na transplantação o
pensamento e os fatos. seu tema por excelência. Daf a importância da questão para o
Em todos os palses latino-americanos se registra uma
sociólogo latino-americano que pretenda assumir um ponto de
contradição entre a vida comunitária e as instituições, as
quais, em sua mllioria, têm sido recebidas acabadas, resul- vista dinâmico em face da realidade social. Toda a organização
ranres mais de um processo revolutivo do que evolutivo. institucional dos países latino-americanos padece de um defeito
Nestas condições, tais instituições não funcionam, mui- fundamental e que consiste em ser manietadora do desenvolvi-
taS v<=S, de modo a dar curso às possibilidades de desen- mento orgânico das estruturas nacionais e regionais.
volvimento dos países latino-americanos, mas, ao contrário,
ramo quanto tenl vigência, a dificultar esse desenvolvimento. · Nasceram os países latino-americanos sob o signo da transplan-
tação culrural. 1 Suas instituições não são produto da evolução.
Passarei daqui por diante a analisar, de modo pormenorizado,
Foram para lá transferidas nas suas formas terminais. Em cada
cadà uma das recomendações que defendi. A primeira delas estava
nação latino-americana se configura o que, com Spengler, pode
assim redigida:
ser chamado de pseudomorfose, termo com que se refere aos casos
I•'-As soluções dos problemas sociais dos palscs latino-
americanos devem ser propostas tendo em vista as condições
em que uma velha cultura estranha impera sobre um pais com
efetivas de suas estruturas nacionais e regionais,.scndo desa- tanta força que a cultura jovem, autóctone, não consegue respirar
conselhivel a transplantação literal de medidas adotadas em livremente e não logra constituir formas expressivas, puras e pe-
.· : · · . palses plenamente desenvolvidos. . culiares, nem sequer chegar ao pleno desenvolvimento de sua
.·Admito que se trata, verdadeiramente, de uma senre~ça digna consciência própria.
dÓ Marques de Maricá, pela sua evidência. Não é mau, porém, que Os países descobertos e colonizados, como o Brasil, estão sujeitos
os co~gressos adotem verdades à moda de Maricá. t., aliás, o que · a esta deformação cultural.l São, extensamente, pseudomor-
ocorre com freqüência. Raramente os congressos aprovam pronun· foses, no sentido que seus, aparatos institucionais, recortados à
ciamemos que não estão na expectativa da maioria dos seus iinageni e semelhança dos de pafses de grande prestigio cultural,

112 113
CARTILHA BRASILEIRA DO APRENDIZ DE SOCIÓLOGO li I -A SOCIOLOGIA COMO {NSTRUMEI'ITO •• ; ..

não resultaram da evolução propriamente, da elaboração interna histórica do que uma ficção cômoda. opovo brasileiro é runda .· .
do proc~sso de crescimento orginico desces países, mas de hoje uma entidade histórica in statu nascendi. A não ser a língua,·. ·
·transplantações. 3 .t todas as condições decisivas, propkiadoras da maturidade do nosso
A pseudomorfose assinala o impacto de forte interferência povo, surgirnm depois de 1822, entre elas: o sistema de Uanspones e
histórica, ou seja, a situação de um povo cujo desenvolvimento J comunicações extensivo ao território brasileiro, e um mercado
nonnal é perturbado por um choque com outro povo já configurado
sob a forma do que Danilevski chama de tipo histórico-cultural.
Quando os portugueses descobriram o Brasil, nossas tribos não
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nacional. · :....<~:
I 822 é a data da independência de um território e não de· uma
nação. Aqui a idéia da nação precedeu ao fato da nação mesma,
tinilam atingido uma tipicidade histórico-culrural~ consistente, entendida esta como vivência de uma comunidade de estilo de vida
como aconteceu com as populações mexicanas e peruanas. O Brasil histórica.
era um território sobre o qual viviam desligadas ou em conflito As instituições vige·1tes no Br.asil, até 1822, do ponro de vista
várias tribos. Estas não constituíam um povo, o que só teria sido sociológico, eram excrescência, muito embora para o colonizador
pos5lvel pela confederação. Assim, o colonizador operou sobre um tivessem sido excelente arma de manutenção e preservação de uma

I
território historicamente abstrato, não se deparou com a resistência estrutura de poder. A unidade do Brasil, conseguiu~a Portugal,
de uma individualidade histórica planamente ·constituída. Há in~ graças ao artificial tecido de instituições com que vestiu a nossa
dlcios de que no século .XV, e no princípio do XVI, osTupi~Guarani, realidade, "verdadeiro co~i;~~(;r .que nivelou o terreno".
tendo expulsado as outras nações indígenas da costa brasileira e al
O ano de 1822 inaugura a fase em que às gerações de btasHeiros
se estabelecido, estivessem já envolvidos num processo que os
deveria caber o miste~ ciclópico de criar instituições para uma
levaria a integrar~se, de modo confederativo, numa única indivi~
nação em ser.
dualidade histórica. Afirmam os americanístas que eles teriam sido ..•.JJ
dotados de apreciável capacidade pata "assimilarem traços de cul- Foi neste momento (1822) que se apresentou ao brasileiro o
turas diferentes da sua e também para "tupinizarem" os povos "problema nacional" do seu país. Quero dizer, a conquista da inde-
pendência polltica pelo Brasil hnpunha aos brasileiros a necessida-
estranhos à sua raça" .s Mas a verdade é que aos portugueses foi
relativamente fácil varrer os obstáculos humanos oferecidos aos
J de de rever e reformar as instituições instaladas aqui pelo português,
seus propósitos de exploração. I1 uma vez que elas obedeciam a um propósito predat6rio, explorador
1 e eminentemente fiscal; impunha-lhes, conseqüentemente, a ne-
O fato que desejo assinalar é o seguinte: o colonizador, no
Brasil, nã~ encontrou povo, como encontrou no México, no Peru, t· cessidade de um esforço criador no campo social.
Era esta uma circunstância problen:tática que desafiava a capa-
na !ndia. Encontrou um "material etnográfico", uma "espécie de
matéria inorgânica" de que dispôs segundo seus propósitos. Ope- cidade de compreensão e Imaginação das elites da Independência.
rou em espaço historicamente vazio, que passou a ser ocupado por Os velhos países não tiveram problema nacional desta ordem,
portugueses e africanos, os contingentes fundamentais formativos como assinalou Alberto Torres, porque suas instituições se for-
de nossa. população, uns e outros alienlgenas. Esse conjunto de maram lenta e demoradamente, por meio de um processo mais

I alienígenas não constituía um povo nó Brasil, e aos seus descen- evolurivD.que-r.eYalutivo.


dentes faltaram, durante muito tçm.po, condições para se tornar

l Esras elites inauguram novo período de formação pseudo- ·

I povo. Em 1822, quando o BrasÜ se declara independente de


Portugal, o p~vo brasileiro era menos uma efetiva realidade

114
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mórflca do país. Não podiam deixar de comportar-se como se
comportaram, isto é, não podiam superar a contingência de sua

.115
CARTILHA BRASILEIRA DO APRENDIZ DI! SoCJôLOGO lll -A SoCIOLOGIA COMO INSTRUMENTO.. ,

formação mental e dos facores objetivos da época. O panorama era Até a presente data, o comando da sociedade brasileira se realiza
este: de um lado, a massa de brasileiros sem hábitos de auto- ainda de modo heteronômico. Um flagrante recenrlssimo disto é a ·
governo, secularmente submetida--ao dis :ricionarismo ·de poten- a querela rumorosa entre parlamentaristas e presidencialisras, em
tados. e reguletes locais; de outro lado, urna camada le~r.ada, pro- face do nosso problema de organização polttica, o qual ~ discutido
vida de idéias apanhadas em livros de língua inglesa ou francesa, em tese e em termos puramente formais, não se levando em
uma elite livresca e superfetada que se caracterizou por uma atitude consideração as componentes históricas econômicas, antrop~lógi-
exemplarisra, segundo a qual a resolução dos nossos ;problemas cas ou culturais do país. · .
estaria garantida pela instalação, entre nós, das instituiÇões vigen- Não seria, portamo, descabido, mais uma vez, um pronun-
tes nos países líderes da época: Inglacerra, França;-f;stades-Unidos. ciamento condenatório das tendências transplantadvas. ·
De José Bonifácio até os nossos dias, as elites brasileiras, com Advirta-se, aliás, que a recomendação em exame se referia a
exceção de cenas 'figuras isoladas, têm atuado conforme esquema transplantações "literais". 1'
exemplarista. Toda a atuação de nossas elites tem sido marcada por
Na medida que, em virtude da conjuntura internacional, os
um desencontro entre suas idéias e os fatos brasileiros, A uma visão
países subdesenvolvidos só poderão vencer o seu atraso acelerando a
profunda, sociológica, de nossa formação, verifica-se que elas se
sua transformação, principalmente econômica, são obrigados a
têm conduzido de modo mais ou menos cego quanco aó seu papel
adotar medidas observadas em países plenamente desenvolvidos. O
de orientar os fatos do meio nacional. Um pouco a despeito delas,
assumo me levaria a wna ampla discussão, que os limites deste capítulo
está formando-se o capitalismo brasileiro e desenvolvendo-se uma
não permitem. Adiante-se, porém, um breve ·esclarecimento.·
cultura popular, um e outra destinados a constituírem p lastro de
uma individualidade histórica autônoma. . Há que distiJ1guir entre transplantações predatJrias e trans-
plantações acelerativas. A$ primeiras desgastam economicamente
Além disco, as elites da Independência não puderam servir-se
os países coloniais, sacrificando as disponibilidades de suas rendas
dos ensinamentos da sociologia e da antropologia cultur:tl, ciências
em consumos descapitalizanres. 1!. o caso de muiros aspectos do
que, na época, não se tinham constituído propriam~nte e que
nosso sistema educacional, de nosso mecanismo administrativo e
escavam apenas entrevistas por precursores.
de outros setores institucionais da vida brasileira, visivelmente
Desta forma, os nossos pais-da-pátria e os que os sucederam nos carecentes de funções positivas.
postos de comando da sociedade foram levados, com a ~elhor das
As transplantações acelerativas contribuem para incrementar a
boas intenções, muitas vezes,: a pensar sobre os fatos sociais em
termos de imanência. Admitiram que a presença, em nosso meio, f velocidade da capitalização dos países periféricos. A CEPAL se
esmerou no estudo deste tipo de problemas. Entre tais transplan- .
de aparatos institucionais avançados produziriam efeitos acelera-
dores do progresso do país. Não escavam habilitados para ver as leis i taçóes acelerativas estão, por exemplo, as máquinas, os processos
fabris de alto rendimento, certas formas especializadas de instrução
paniculares de nossa sociedade. Diante dcs fatos, discutiram idéi-
as. Em face dos nossos problemas, não partiram para resolvê-los
e educação. ·-.
do conhecimento dos fatores dinâmicos particulares, mas do pres- Nestas condições, parece que o que ficou dito é o bastante para
suposto de que as normas a adotar dev(:riam ser induzidas da tornar perceptível por que se julgou conveniente que um Con-
experiência dos povos mais adiantados no momenco: Partindo gresso Latino-Americano de Sociologia aprovasse uma rec0 •
desse aitério heteronômico, fizeram um Brasil formalmente simé- mendação condenatória das tendências transplancativas prevale~
trico em comparação com as nações adiantadas. centes nos países latino-americanos.

116
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117
CARTILHA BRASIL!iiRA DO Ai•RENOJZ ou SOCIÓLOGO I l i - A$0CtO!.OG.IA COMO INSTRUMI;NTO...

Notas 4• - A civilização peculiar de cada tipo hist6rico de culrura


alcança sua plenitude, variedade e dqueza, apenas
(1) Para a análise de um caso particular de transplantação no
quando os vários "dementos ecnográficos" que a com-
Brasil, vide GUERREIRO RAMOS, GARCIA Evaldo da põem formam uma federação ou um sistema político
Silva e SILVA, Geraldo Bastos. "O Problema da Escola de
de governos coordenados, presumindo-se que eles
Aprendizagem Industrial no Brasil". In Estudos tconômicos,
não cenham.já sido assimilados num todo poUtico.
Números 11 e 12, setembro e dezembro de 1953.
5• - A evolução dos tipos hist6ricos de cultura é similar ao
(2) Sobre a "culrurologia", vide WHITE, Leslie. Thc Sdenct of
curso de vida das plantas de longa duração, que dão
Culturt. New York, 1949. frutos uma só vez. Estas plantas, embora tendo um
(3) Sobre esses· problemas, consulte-se CHANG, Pei-Kang. per!odo indefinido de crescimento, desfrutam apenas
Agrit'Uiturt and lndustriaüzation. Harvard Univ. Press, de um relativamente curto período de florescimento
1949. Também MOORE, Wilbert E. Industrializafion and e frutificação, e nest~ esgotam, de uma vez por todas,
Labor. New York, 1951. A leitura desses livros é útil mas suas forças vitais.
inspira cuidados, pois há neles certa tendência para gene- (5) Cf. BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio. Ralos tio Brasil
ralizar conclusões não inteiramente válidas para contextos Rio de Janeiro: José Olympio, 1948: "é conhecida hoje a
latino-americanos. capacidade dos povos Tupi-Guarani para assimilarem traços
· (4) Esta expressão que, no momento, não posso evitar, será ·----... ck..cul.turas diferentes da sua e também para "tupinizarem"
certamente obscura para os que não conhecem a teoria de os povos estranhos à sua raça. O padre W. Schmidt, em seu
. Oanilevslci sobre o desenvolvimento das civilizações. Algum estudo sobre os círculos de cultura e capas de cultura no
esclarecimento, entretanto, poderá resultar da leitura das Continente Sul-americano, observa que esse fato faz parecer
seguintes leis formuladas por Oanilevski: quase impossível "determinar-se o que constitui propria-
·I•- Toda tribo ou famflia de povos que é caracterizada mente e em si a cultum. específiça dos Tupi-Guarani" (Idem
por uma língua separada ou por um grupo de lrnguas, pág. 149). - "~es primeiros colonos (portugueses) que
e cuja semelhança é percebida diretamente, sem pro- ficaram no Brasil, degredados. desertores, náufragos, subor-
fundas explorações filológicas, constitui um tipo his- dinam-se a dois dpos: uns sucumbiram ao meio, ao ponto
tórico original de cultura, se é mental ou espiritual- de furar os lábios e ~relhas, matar os prisioneiros segundo
mente capaz de desenvolvimento histórico e de ultra- os ricos, e cevar-se em sua carne... " Capisrrano de Abreu,
passar seu estádio de inflnáa. Capftulos tk História ColoniaL Rio de Janeiro, 1934.
2• - A fim de que uma civilização, capaz de tornar-se um
tipo original de cultura, possa surgir e desenvolver-se,
é ·necessário que os povos a ela pertencentes desfru-
tem de independência política.
3• - Os princípios básicos da civilização de um tipo his-

I tórico de cultura não são transmissíveis a povos de um


tipo diferente. Cada tipo deve elaborá-los por si
mesmo, ainda quando sob a influência, maior ou me-
J
nor, de civilizações precedentes ou contemporâneas.

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IV- O Ensino da
Sociologia no Brasil um
Caso de Geração EsponTânea?

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F~calizarei aqui o tema da segunda recomendação submetida


ao plenário do 11 Congresso Latino-americano de Sociologia e que
não logrou aprovação .. Rezava o seguinte:·
A organização do ensino da sociologia ~os países latino-
americanos deve obedecer ao propósito fundamental de
contribuir para a emancipação cultural dos discentes, equi-
pando-os de instrumentos intelectuais que os capacitem a
inrerprecar, de modo autentico, os problemas d~ estruturas
nacionais c regionais a que se vinculam.
Antes de passar à discussão propriamente do .assunto, quero
declarar, com satisfação e respeito, que reconheço os méritos de
várias agências brasileiras de ensino e prática de sociologia, os quais
decorrem dos seus esforços em atingir altos níveis de qualidade em
suas tarefas didáticas. Entre tais agências, é de toda justiça incluir,
em São Paulo, a Escola de Sociologia e PoUtica! o Departamento
de Sociologia e Antropologia da Faculdade de Filosofia, e o Ins-
tituto de Administração da FacuJdade de Ciências· Econômicas. e
Administrativas; no Rio, a Escola de Administração Pública da
Fundação Getúlio Vargas e os Cursos do DASP; no Rio Grande

........
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~ . . .p .
·· ... :·::·_:_=·:::.·.

CARTILHA BRASILI:.JRA DO APRENDIZ DE SOCIÓLOGO TV - 0 ENSINO DA SOCIOLOGIA NO BRASIL ..

do Sul, a cadeira de sociologia da Faculdade de Filosofia, a cargo !Jm.sabe.t:.compreensivo do presente e da circunstância que viveu.
do. professor Laudelino Medeiros; no Paraná, cadeira idêntica de Todo verdadeiro saber sociológico tem sido elaborado de modo
estabelecimento similar, a cargo do professor Euclides Mesquita; pedestre, por meio do enlaçamento, às vezes penoso, do pensa-
e na Bahia, a cadeira de antropologia da Faculdade de Filosofia, mento do sociólogo com os fatos de que participa. Não pode haver
a cargo do professor Thales de Azevedo. Provavelmente cometi efetiva sociologia sem sincero, profundo envolvimento da cotid.Ía-
omissões nesta enumeração, as quais devem ser levadas à conta . nidaae pelo pensamento permanentemente em vigília: Não há ·
de desconhecimento por parre do autor do que se realiza em geração espontânea .ia sodologia. Em toda parte onde ela é ge-
outros institutos. nuína, foi elaborada mediante processo cooperativo e cumulativo.
A questão do ensino da sociologia no Brasil nao deve ser tratada Vejo no ensino da sociologia no Brasil uma carência f."l.tal: a
em tese, isto é, em termos normativos. Neste terreno, ter-se-á de ausência de compromisso encre o professor e o conteúdo do que
· partir do exame de fatores reais e não do ideal respeitável de leciona, e entre esse conteúdo e as necessidades comunitárias. Isto
difundir ao máximo os conhecimentos de sociologia. parece ser proveniente de várias circunstâncias. Uma delas consiste
Na verdade, o Brasil e, quero crer, muitos países latino-ameri- em que os nossos autores de CQ!!:lpêndios não têm, salvo raríssimas
canos não estão em condições de propiciar uma prática do ensino exceções, experiência vivida dos problemas e assuntos de que
da matéria em causa, de boa categoria, senão em pequena escala. 1 rratam: Seus textos escolares não são propriamente fruro de medi-
Constitui, mesmo, perigo a proliferação de cadeiras de sociologia ração dos assuntos. Resultam, com freqüência, de glosas, paralelos,
em países como este, em geral carecentes ainda de maduras corren- pastiches e de transcrições de obras estrangeiras. Julgo que essas
tes de pensamento sociológico. deficiências da maioria de nossos li vros escolares se explicam pelas
Não hesito em afirmar que, no Brasil, pelo menos, país da próprias condições objetivas do país.
América Latina em que, segundo o depoimento de muitos espe- Os professores brasileiros de sociologia, em grande parte, têm
cialistas norte-americanos e europeus, os estudos sociológicos estão exercido a cátedra por acaso. Ordinariamente, rem sido fator alea-
mais desenvolvidos, o ensino da matéria, via de regra, carece de tório em suas vidas, o que os leva a serem professores de sociologia.
funcionalidade, pois que não cria no educando comportamentos Não se prepararam para tal.. Aqui as cátedras de sociologia não
operativos vinculados à sua vida comunitária, não estimula a surgiram para consagrar uma tradição militante de trabalho peda-
autonomia mental do aprendiz. Não se tem conseguido, no Brasil, gógico, como é a regra em todos os países avançados. As cátedras
na medida desejável, formar especialistaS aptos a fazer uso socio- apareceram de modo intempestivo e foram providas, inidalmenre,
lógico da sociologia. mais ou menos, por pessoas que, no momento, ou eram cilletantes,
Na prática, é raro o sociólogo b~~eiro que não negue a es- quando muito, ou desconheciam completamente os estudos da
sência mesma da visão sociológica___:_ que é ser um saber integra- sociologia. Muitos foram estudar a matéria depois de nomeados
civo da vida comunitária efetiva. Toda genuína sociologia emerge professores; durante algum tempo, ao menos, foram, nos. seus
de suportes existenciais comunitários e, assim, contribui para apro- postos, verdadeiros simuladores, aparentando um saber qu~ 00rea1- 0

fundar a inserção do homem no seu contexto nacional ou regional. mente não possuíam. O O.: H ' '

Medite-se sobre o que ftzeram os grandes sociólogos como Para contornar esta deficiência, algumas entidades; como. a
Comte, Marx, Spencer, Durkheim, Max Weber, Small, Lester Escola de Sociologia e Política e a Faculdade de Filosofia de São
Ward e outros.. Apesar de suas diferenças, cada um deles elaborou Paulo e ainda a Faculdade Nacional de Filosofia,. C()nt!,a~

122 123
. CARTILHA BRASII.EIRA DO APRENDIZ DE SOCIOI.OGO IV- 0 ENSINO DA SOCIOLOGIA NO BRASIL...

professores estrangeiros. Atualmente existem professores de socio- sociologia nos Estados Unidos ocorreu para responder a desafios
logia .formados em faculdades e, portanto, capazes, em prihclpio, existenciais .3 O ensino da sociologia é introduzido, naquele pafs,
de· realizar atividades didáticas em melhores condições do que os por homens portadores de uma experiência de primeira mão dos
que não se beneficiaram das mesmas opQrWnidades. Institutos de temas sociológicos, por verdadeiros pedagogos que logo estabele-
ensino normal ou médio e poucos estabelecimentos ou ele en- ceram as pautas fundamentais de uma sociologia genuinamente
sino superior têm aprovehado uma parcela destes diplomados. norte-americana, embora marcada por uma origem européia, como
É evidente que a organização do ensino da sociologia, entre nós, não podia deixar de ser. Foram eles WiUiam Graham Summer,
não resultou de processo gradual de amadurecimento de uma Lester Ward, Albion Small, Giddings e Ross, cada qual criador
experiência pedagógica, e bem reflete o simetrismo e o at:cificia- de um sistema próprio em cujas linhas mestras é visível o impacto
lismo de nosso sistema educacional. Em nosso país existem m3is da realidade norte-americana. E, em nossos dias, todo trabalho
cátedras de sociologia' do que em qualquer país europeu em que didático no campo da sociologia ianque reflete um compromisso
esta ciência têm tradições seculares. entre o pensamento do especialista e a vida. Daí, as peculiaridades
que apresenta.
Na pátria de Augusto Comte só há atualmente quatro cadeiras
de sociologia, das quais duas na Sorbonne. 2 Num recente artigo . . . No Brasil, chegamos a um estádio em que a sociologia passa
na revista Sociology and Social Research ("Contemporary English a ser adotada em todos os currlculos de Faculdades de Filosofia,
Sociologyj, informava H.C. Brearley que não há na Inglaterra sem possuirmos, senãQ muito escassamente, tradição de pensa-
mais do que sete ou oito sociólogos profissionais e que apenas um mento sociológico,
destes, Morris Ginsberg, detém uma cátedra na London School of Quando, entre nós, foram criados os primeiros cursos de:·socio-
Economics and Political Science, Até há pouco tempo, não havia logia, no início da década de 30, apenas dois brasileiros podiam
cátedra desta matéria nas duas mais antigas universidades inglesas: ser considerados sociólogos sistemáticos originais, capazes de trans-
Oxford e Cambridge. Isso acontece em país que foi berço de mitir a discentes uma visão sociológica amadurecida e de primeira
corrente de pensamento sociológico de influência mundial.· Na mão: Oliveira Viana e Pontes de Miranda. ·
Itália, ainda hoje, são poucas as universidades que mantêm cursos O primeiro, desde 1918, já tinha formulado uma concepção
de sociologia. Nos outros países europeus nota-se a mesma dos fatos sociais, e no seu primeiro livro Populações meridionais do
pardmônia na criação de cátedras universitárias. Neste sentido, Brasil (editado em 1920) traçou, à maneira de um Comte, o
Leopold von Wíese lastimava, em 1951, o pequeno número de programa de trabalho de sua atividade como sociólogo. O propó-
especialistas devotados ao ensino da matéria na Alemanpa (cf. sito fundamental do· projeto, que aliás cumpriu, era contribuir,
"The Place of Social Science in Ge.rman Today". In The American pela análise sociológica do nosso povo, para uma mudança de
journal os Sociology, juJho, 1951). · métodos de educação, métodos de política, métodos de legislação,
Isto decorre, naturalmente, de que, nesses países, não se-com- métodos de governo. À luz das recentes conquistas das ciências
preende o exercício de uma cátedra senão quand~ o saber que, em sociais, verificam-se hoje alguns erros nas bases metodológicas de
seu nome, é ministrado aos educandos, apresenta as gar:unias de que partiu Oliveira Viana, mas isso não impede que deva ser ele
que é servível socialmence e quando h:i profission;tis amaJui·cddos <.:onsidemJo o nosso primeiro sociólogo sistemático e dos poucos
para as tarefas didáticas respectivas. . que se tivessem se dedicado às tarefas universitárias poderiam ter
:ê verdade que os cursos de sociolo-gia p;diferam nos ~tados encaminhado os escudos sociológicos no Brasil no sentido de 'um
. Unidos, desde longa data. ·Mas o desenvolvimento do ensino de . compromisso com a realidade brasileira.

124 125

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IV- 0
CARTILHA nRASILEIRA DO APRENDIZ DE SOCIÓLOGO
·r··· ENSINO DA SOCIOLOGIA NO BRASIL•••

Pontes de Miranda publicara em 1926 sua Introdução à socio- Nesses países, os homens que conseguiram o status de soci6-
logia geral, até a presente data, no gênero, o compêndio de maior I logos são autores de obras em que rransparece uma experiência
unidade te6rica e de maior autonomia mental que já se escreveu I
I
amadurecida e aurênrica dos temas sociais, incompatível com a
nestas terras, muito embora, na minha opinião, seja esta obra ! mera erudição sincrérica. Deste ponto de vista, poucos são os
lastimável, pelo que representa como cristalização de um esforço I especialistas latino-americanos que resistem a uma comparação
mal-aplicado, pois trata de temas que, em nosso meio, podem ser com figuras como Robert Park, L. L. Bernard, Ernest Burgess, W.
considerados inúteis. Mas, de qualquer modo, reside à prova de F. Ogburn, C.H. Cooley, Radhakamal Mukerjee, Brajendra e
autenticidade.. Nath Seal, Danilevski, Kropotkin, Lavrov, Youzhakhov, Kareyev,
Pois bem, estes dois homens tiveram influência nula na orga- .Mikhalovsky.
nização do ensino da sociologia no Brasil. Nos anos de 1936 a Aquelas duas direções que escavam esboçadas na evolução da
1942, de nane a sul do Brasil, havia em cada curso complementar . sociologia no Brasil e das quais são representativos Oliveira Vtana
uma cadeira de sociologia. Deve ter sido algum amador ou curioso e Pontes de Miranda foram perturbadas por uma desastrosa e
da matéria o auto.r do programa de tais cursos, pois, pela quanti- imprevidenre política educacional, que, de um dia para outro,
dade de assuntos que mencionava, era um modelo do que pode tornou possível um surto de catedráticos da referida disciplina, os
haver de mais lunático. quais, não estando preparados para os novos encargos e não rendo
Atualmente, tudo indica estar fixando-se na maioria daqueles medicição sobre os assuntos sociol6gicos, tiveram de improvisar
que se dedicam à sociologia uma atitude segundo a qual as teorias, para atender às tarefas didáticas que lhes eram cometidas.
os métodos e processos são adotados literalmente, são de fato Houve um período (1936-1942) em que surgiram, num átimo,
justapostos mentalmente e não absorvidos ou transformados me- por uma espécie de geração espontânea, algumas centenas de
tabolicamente, por a.sSim dizer. mestres de sociologia. · ·, · ··
Na fisionomia de quase todos os compêndios brasileiros de É verdade que algüns dos pro115sionais que surgiram dessa
sociologia transparece um critério jusrapositivo de ensino, e isto maneira, pelo seu esforço, pela sua probidade, honram hoje a.··.. ·
deve corresponder largamente à prática da aprendizagem, entre cultura nacional. · · · · ··
n6s. Os compêndios brasileiros e latino-americanos de sociologia
Mas é esforçoso reconhecer que o ensino da sociologia no Brasil,·
não têm similares em nenhum país em que a sociologia atingiu
implantado sem base numa prévia experiência pedag6gica, infunde
certo grau de maturidade. A maioria deles foi elaborada à luz de
naturalmente muitas reservas do pomo de vista da funcio11alid,ade
critério sincrético. do seu conteúdo. · ·· , . · .
Tomemos para confronto países que, como o Brasil, também
Em conseqüência, teria cabimento que um Congresso ·Latino-
são consumidores de sociologia: os Estados Unidos, a Índia e a
americano de Sociologia adorasse a recomendação aqui em exame.
Rússia.
Em larga margem, é presumível que esteja sucedendo com a socio·
Em cada um deles, o ensino se organizou de modo a assegurar logia nos países da América Latina o que aconteceu e acontec:e em
duas direções: · uma prática, visando a fazer da sociologia um muitas escolas brasil~iras de diferentes níveis e espécies. -
instrumento de autodomínio do meio social; e outra teorética, por
Com alguns casos documentarei o que quero assinalar •. ·_.
meio da qual, sob as influências nacionais e regionais, tomam-se
as teorias estrangeiras como meros pontos de partida para novas Um professor de anatomia, toda vez que explicava certa parte
formulaçóes mais consenrâneas com os fatores reais. do esqueleto, comparava determinada depressão 6ssea com uma

126 127
CARTILHA. BRASILEIRA DO APRENDIZ DE SOCIOLOCO IV- Q ENSINO DA SOCIOLOGIA NO BRASIL•••

moeda de cinco .francos. Era assim que estava: no livro francês e lhe Notas
parecia provavelmente rid!culo dizer um tostão em vez de cinco (1) É o que confirma John Gillin, em recente estudo "La
francos. Sei de outro que um dia, diante dos alunos, com uma rã Situación de Ias Ciencias Sociales en Seis Palses Suda-.
descerebrada, fez uma experiência para demonstrar as leis dos mericanos". In CitnciiiS Sociakt, número 19, fevereiro,
reflexos elementares de Pflüger; Ocorreu, ·numa primeira t~ntativa, 1953. Consulte-se também: Alfredo Povifia, História tk la
que as reações do animal não coincidiram com as descritas no livro. sociologia m La1inoamerica. México, 1941.
Repetiu a experiência, e a mesma discordância. Então: deu de (2) Cf. CWILLIER, Armand. Ou va la sociologíe ftançaise ?
ombros, como quem diz: o animal esrá'errado. Tempos depois, um Paris, 1953.
dos alunos, que hoje é médico, viu que aquilo costumav~ ocorrer (3) Consulte-se BERNARD, L.L. La Sociologia m /Qs Estados
· quando se tirava a r:ã do seu meio narural. Ainda há mai~. Ouvi, Unidos- !900~1950. União Pan Americana, 1952. Tam
· no none, vários professores de química e de geografia compararem bém: A. Small: Fifiy years of&cio/Qgy in the Uniteá States
(1865-1915). In TheAmerictznjournalofSociology-fndice
a cor de certos líquidos com a de cereja, ou certas formas geográ-
aos volumes I - LU, 1895-1947.
. ficas com uma pêra. E eu ficava sem saber bem a cor e a forma,
porqu~ n~nca tinha visto, aré já menino taludo, nem cereja, nem
pêra. Depois vim a saber que a cereja rem a cor de mulungu, de
. buriti e de outras frutas nordestinas, e que a pêra tem a forma
. ·::·parecida com a de abacate. Mas, convenhamos, como ficava ridf-
.· culo dizer, em aula, que um liquido tinha a cor de mulungu, ou
: UfU a,cidente geográfico, a forma de abacate ...
.·· .· // Há indícios muito patentes de que a instrução do aprendiz de
oe
. ·: · sociólogo no Brasil está sendo procedidà. modo análogo, isto é,
· . não· está contribuindo para o domínio e o comando do meio
brasileiro. O que se pede ao ensino da sociologia é que dc:Senvolva
no educando a capacidade de autonomia e de assenhoreamento
das· forças particulares da sociedade em que vive. O en~ino da
· socic>logia nio deve distrair o educando da tarefa essencial de
promoção da autarquia social do seu país.
:e. necessário que o trabalho de campo,complementar: da ins-
UU!jáO teórica, se encaminhe para o adestramento dos aptendizes
para a realização dos trabalhos mais necessários ao desenvolvi- ·.:-....

mento das estruturas nacional e regionais.


Mas IStO não se consegue, se se considera a sociologia um ob-
jeto de rulto e de apologética. Ao contrário, este objetivo só s~rá atin-
gido se se der a esta ciência um caráter pragmático ou dinâmico.

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Não se CÜvisa até agora no pensamento sociológico latino·
\' americano nenhuma transformação correlata àquela que é lide·

li
r:
rada, no setor econômico!. p_e~a _Comissão Econômica para América
Latina (CEPAL). .

n Caracteriza a atu~ção da CEPAL o prop6sito de tornar a pa.


r!i
~
litica e o pensamento econôJllicos dos países latina.americanos
fatores operativos do seu desenvolvimento. Desta maneira, ao
'I
i! propor soluções para os problemas de desenvolvimento, parte da
. il
t. consideração dos recursos disponíveis e não. das conveniências e
necessidades idealisticamente concebidas. Todo o esforço deste

I
organismo internacional é o de formular os princípios de uma
estratégia econômica cuja assimilação habilite o economista latina.
americano, em suas. atividades de aconselhamento, a contribuir

1·: para a direção dos futores. produtivos em cada país, de modo a


acelerar a sua velocidade de capitalização.
Nesras condições, a renda nacional passa a ser objeto de aten·
ção especial do economista. É ela que marca o co~passo, a espécie
e as normas das poHticas econômicas, as quais devem procurar
V- PAll.A UMA SOCIOLOGIA "EM MANGAS DE CAMISA"
·><1
:,,.i
.. .. ·-i
CARTILHA BRASJLE::IllA oo APRENDIZ DE. SocJOLOGO
:· j

sempre combinar os fatores nacionais de produção :de modo a O que tem levado sociólogos latino-americanos a obnubilar-se, . '·]
'•

serem atingidos os níveis mais alros de renrabili.dªde.__~_çe _novo neste particular, é o fato de considerar idênticos, na presente época, ';
.;
modo de ver tornou-se, no campo econômico, o suporte de uma o momento de seus pafses e o de pafses mais desenvolvidos. Em
atitude andtransplantativa. Um dos prógonos desta corrente de geral, não se lembram de comparar os seus países ·com os que
idéias, Raúl :Prebis~h 1 , adwrria, em 1951, que a urgente neces- consideram como paradigmas, em termos de fase. Ao contrário •.
sidade atual. de capitalização nas atividades internas é muitas seu critério é o da contigüidade ou jus~.aposi~o. 2
vezes incompadvel com. o empenho de reproduzir nos países Eis um recente flagrante: um sociólogo norte·americano acon·
menos desenvolvidos as formas de existência dos mais desenvol- selhou, como medida fundamental de uma refor~a agrária no
vidos, entre os quais se destacam, desde logo, os Estados Unidos, Brasil, a criação de escolas secundárias em cada mi.midpio, propor-
porque estas fo~mas de existência, as modalidades de consumo cionalmente ao número de pessoas, semelhante ~o que se verifica
que das implicam, assim como as modalidades de capitalização, nos Estados Unidos. Segundo ele, o menor dos nossos munidpios
resultam de altos ingressos a que gradualmente chegaram esses deveria manter, pelo menos, um estabelecimento de ensino secun-
países pelo aumento de sua produtividade; e sua mera transfusão dário, com, no mínimo, cinco professores trabalhando em regime
aos países menos desenvolvidos, sem um esforço déliberado de de tempo integral. E rematava o conselho com esta observação:
seleção e adaptaÇão, provoca tensõ.~ que noutros tempos não se o município que, no período de dois anos, a partir da promul-
apresentavam. gação da norma, não a tivesse cumprido, perderia o status de
Com essas idéias coadunava-se, perfeitamente, uma das re- municipalidade.
comendações submetidas ao plenário do II Congresso Latino- A sugesrão merece restrições sob muitos pontos de vista, ainda
americano de Sociologia, elaboradas pela Comissão de Estruturas mesmo que a escola secundária de que se trata seja de tipo radi-
Nacionais e Regionais, que dve 'ã liõnra de presidir. f.scava assim calmente diverso daquele a que, entre nós, se aplica a designação,
redigida: isto é, o ginásio ou colégio. Mas à sua contra-indicação é óbvia dó
No exercício de arividades de aconselhamento, os so-
ciólogos latino-americanos não devem perder de vis[ll as
simples ponto de vista da renda nacional do país. Faça-se a conta
disponibilidades de renda nacional de seus países, neces- de quanto dinheiro seria necessário inverter na concretização desse
sárias para suportar os encargos decorremes das medidas propósito, para que se enxergue o absurdo que a medida repre-
propOS[liS. sentaria. Admitamos, porém, que o governo, num ato de loucura,
Como expus linhas atrás, fui derrotado na defesa des~e princípio. resolvesse por em prática o co1isdho. Onde. encontrar os profes-
jj Não obstante, a mim parece que a sociologia huin~-americana sores? Como manter nas escolas secundárias uma população
Ji deve ingressar nessa trilha. O que rem prejudicado, entre nós, a de adolescentes cuja psicologia e cuja situação econômica se cons-
t · ··.
l
sociologia, neste particular, é o confinamento do sociólogo nos
quadros academicamente definidos como sendo os próprios desta
tituiriam em fatores impeditivos das escolaridade? Como localizar
estabelecimemos secundários, num quadro demográfico rare-
I
f ::·. :
fL ·· :
disciplina. Desta forma, o profissional perde de vista o significado
:·.econômico do seu trabalho. Num país carecente da consciência
feito, de modo que cada um deles funcionasse com o mini~o de
alunos tecnicamente requeridos? Por esses e outros motivos, é te-
. ~~; . . . o~gânka de suas necessidades. isto é um desastre.~ porque. na
1
merária a observância à risca de aconselhamentos de autoridades
[ ·:·· :.. medida que o sociólogo, c<;~m tal· deficiência de forma~ão, adquire estrangeiras, ·sem levar em coma as suas respectivas equações nacionais.
1!: . ·..>p~estígio pessoal e é ouvl~o ~u le_va~~-~-~ério, pode ind~r agências Muitos técnicos, no Brasil, se conduzem exatamente como esse
\\ governamentais ou particulares à· aplicação funesta de recursos. sociólogo norte-americano quarido, por exemplo, aconselham que

·n .132 133
·;. ,_,._, _,_,.,,_,Í"i:C'~';''?~r:"'""TY<.%[G""""''f"""""'~'ill"'2;"'"'c&C"'''"''"'"""''''"'''''·'' '''""'"':~:'·':"":~·::':.

f CA.IITILl-IA BRASILEIRA DO APRENDIZ 01! SOCIÓLOGO -· V - PARA UMA SocroLocrA "EM MANGAS DE CAMISA0 ·

l devamos gastar em serviços de saúde t~ês dólares por pessoa, que A necessidade básica de um p:ils subdesenvolvido como o Brasil

l
devamos ter um posto de puericultura.para cada 10.000 pessoas, é obter combinação ótima dos seus fatores econômicos, rendo em
·, · ·um leito para cada óbito de tuberculose, cinco leitos de hospital- / vista acelerar o incremento de sua taxa de investimentos em bens

.-
geral para cada mil habitantes, 60.000 médicos, 100.000
enfermeiros, 165.000 leitos para doenres mentais. Ou quando
calculam outras necessidades institucionais, à luz do mesmo crité-
II
I de produção. Imperativos de contabilidade social impõem atitude
seletiva na realização de medidas. Estas não têm valor absoluto; ao
contrário, sua eficácia depende das relações dominantes em deter-
rio. Para eles, os problemas s~ciais se resolvem por meio de regra minado momento das estruturas nacional e regionais.
de três. Uma das mais espetaculares ilustrações desta concepção O trabalho sociológico em país periférico, muito menos do
aritmética dos problemas sociais é um famoso levantamento rea- que qualquer outro, 'não pode permanecer descomprometido do
lizado tendo em vista a implantação do ISSB, principalmente na processo de acumulação de capital. Como outras nações latino-
pane relativa à saúde. americahas, o Brasil não iuingiu a taxa anual mínima de inversões
Confundem nesta conduta, os efeitos com as causas. Na ver- Hquidas necessária para arender ao custo do seu desenvolvimento
dade, os altos níveis de bem-estar são inseparáveis do processo que
I econômico e nem poderá_ a cingir a este montanre por processo
os criou. São resultados, por assim dizer, automáticos de um espontâneo. E a consciência deste fato deve ser suficientemente
processo de desenvolvimento. Portanto, são os fatores deste pro-
cesso que urge instalar aqui: é uma dinâmica econômico-social
que se terá de promover.
Na correção de tais hábitos de pensar é que a contribuição do {.
I eloqüente para converter o trabalho científico, em todos os setores,
ao interesse nacional.
Orientado nesse sentido o trabalho sociológico em nosso país
tem diante de si o caminho para emancipar.se do mecenato. O
sociólogo poderia. ser das mais oportunas. O sociólogo, de todos
os especialistas, é o que está mais habilitado, pelos instrumentos
I verdadeiro sociólogo, .no Brasil, não precisaria de subvenções de
favor ou de comprometer-se com a burocracia cartorial a fim de

~
! .
intelectuais que possui, a superar a visão parcelada das necessidades
do pais, substituindo-a por uma visão unitária de sua contextura
I
I
dedicar-se aos seus estudos. Ficará preso a essa' contingência, se
insistir em suas tendências acadêmicas e academizantes. É cada vez
integral. mais crescenre a demanda de especialistas em sociologia capazes de
A estratégia do desenvolvimento de um pais é condicionada vínculani:f-srw ·ãtividades científicas às tarefas de promoção da
pela particular dinimica de sua contextura, a qual, em cada fase autarquia econômica do país. Quero dizer, uma sociologia "em
rt mangas de camisa" pode viver, hoje, no B~il, dos proventos de
l histórica, apresenta a sua prioridade específica de necessidades
de desenvolvimento. Desta forma não são necessariamente trans-
I sua efetiva utilidade para o esforço de construção nacional.

I feríveis, em àado momento, de um país para outro, quando estão


em diferentes fases de desenvolvimento, os critérios de ação social.
É. verdade que, atualmente, a orientação aqui preconizada
desperta forte resist.;ncia .C:.. __sistemáticas antipatias, tanto mais
Uma das razões desta intransfecibilidade decorre de fatores quanto ameaça falsas posições e falsas reputações. Reconheço que
culturolÓgicos. A atual sociologia das transplantações nos centros este modo de ver, pelo seu caráter pioneiro, não é o mais cômodo.
norte-americanos e ingleses parece enxergar somente os impe- Por outro lado, contraria poderosos inceresses investidos e se afi-
dimentos culturológicos, neste t~reno. Mas uma r:aão importante gura incompreensível, esquisito, difícil, a uma legião de pessoas
daquela inuansferibilidade se dprime em termos de recursos sinceramente equivocadas. Paga-se, às vezes, ônus pesado pelas
disponíveis. idéias. E nem todos estão dispostos para tanto.
):

(•; 134 135


CARTILHA BRASILEIRA DO APRENDIZ DE SOCIÓLOGO
.· ·' ~- .. ; ; :: .; .

.. Mas nada disto deve obscurecer o fato de que o •Brasil está


amadurecendo. O grau de expansão de suas forças produtivas e as
contradições cada vez mais agudas entre tais forças e :os quadros
institucionais vigentes estão tornando incoercível a mudança qua-
litativa da vida brasileira, etn_~odos os seus aspectos. , f. l
Trata-se de um processo. E conrra um processo é inútil lutar. VI- Meditação para ·I

Notas
os Sociólogos em Flor 1
I
•l
(1) PREBISCH, Raúl. Problemas teóricos e práti~os do desen-
volvimmto econômico, números 7 e 8, setembro: e dezembro
de 1951. Também: FURTADO, Celso. "F?rmação de
j
Capital c Dcsenvolvia~1cmo Eei·nômico". In Revista Brasi- !
leira de ECOTIOmia, setembro de 1952. .
1i
(2) Pretendo ter feilo uma aplicação clara da faseologia em meus
1
.~ ·l ..··.. :. ::.:..:.·>.··
estudos sobre mortalidade infantil, os quais contrariam os
pontos de vista oficiais sobre a matéria. Vide especialmente:
>. :
GUERREIRO RAMOS. "O Problema da Mortalidade . ;J.·····
Infantil no Brasil". In SQcio/Qgig, mar~~.de-llt5l.-.
Um dos fatos de mais diflcil explica~o, para o sociÓlogo, é~
caráter fictício da vida e da produ~o intelectual no Brasil. Um fato 'I
tão dominante, desde o início de .nossa formação até os nossos
• _i

dias, ~ão pode ser fortuito. Deve ser necessário. Deve ser resultante :j:i
',
... -: .!·

·~ de fatores reais vigentes na sociedade brasileira. E a dificuldade di


.. ·
r
:
explicação que se deseja decorre forçosamente da sutilidade e da

i pouca visibilidade desses fatores. :i
.~...
~
É, pois, à guisa de hipótese de trabalho, sujeita a prováveis . .I
retificações posteriores, que, iniciando este tópico, proporei uma
l

.i interpretação para o fenômeno .


{

.. i ' As atividades intelectuais obedecem, em cada sociedade, às leis


particulares de sua estrutura, não só quanto aos temas sobre que
incidem, como quanto à função que desempenham. Nada está
solto na csrrutura social, mas todos os seus aspectos estão dinami-
.I
I camente relacionados .
Desde longa data, a sociedade brasileira esteve a br;aços com o
. f
:.i problema de dar posiçãd e fun~o a significativa parcela de pessoas

136
I
CARTILHA BRASILEIRA DO AI>RENOIZ DE SOCIÓLOGO VI - M ~DtTAçAo PARA os SocJOLOGos EM FLOR

que, por impedimentos axiológicos, não encontravam integração inconscientemente, ao propósito de evitar sua aplicação em sentido
nas atividades econômicas primárias. Escas pessoas, versadas em contrário aos interesses da estrutura social. ~ por este motivo que
letras, muitas formadas em centros educacionais estrangeiros, pro- se justificam as relativamente vultoSas somas que o Estado gasta
.curavam classificar-se, nurna sociedade em que o trabalho tout para manter cerra produção cultural sunruária e s~pérflua à sombra
court tinha significado pejorativo, pela afirmação de pensadores de organismos oficias e semi-oficiais. Deste modo, o que, às vezes,
intelectuais ou pelo exerdcio de ocupações clericais. pode parecer esbanjamento de recursos, é tributo que a sociedade
Os fatores reais da estrutura econômica do país, até época paga a fim de minorar as contradições das forças nela atuantes.
relativamente recente, eram, por assim dizer, grosseiros, ou dota- .. A~~~l~d~d~ b~asilelra adngiu, porém, um ponto critico de seu
dos de pouca especificidade- o que, por conseguinte, dispensava dese·nvolvimenco, ponto que assinala o momento de transformação
que tivéssemos relativamente numerosas pessoas dedicadas a ocu- qualitativa de sua estrutura. Ao contrário do que acontecia, esta
pações intelectuais. A necessidade destas se incrementou com o estrutura, tendo ampliado as suas possibilidades de crescimento,
desenvolvimento econômico do país, principalmente a partir do oferece ao trabalho intelectual o ensejo.de exercer um papel emi-
seu suno indusuial, na segunda década deste século. · nentemente criador t dele car.ece como fator decisivo de aceleração
Aqueles excedentes de pessoas letradas constituem, pois, carga do progresso. Dal resulta o novo significado que está adquirindo,
de inquietude na sociedade brasileira, e a maneira de conjurar a sua entre nós, toda e qualquer atividade intelectual.
periculosidade, de vez que as atividades econômicas não as ab-
Em conseqüência disto, os recursos intelectuais estão cada ver.
sorviam, era dar-lhes significados simbólicos ou envolvê-las em
mais sendo regidos por critérios econômicos. Passaram à categoria
mecanismos sublimativos. Aqui deve residir, pelo menos em parte,
de famres produtivos que têm de ser aplicados segundo a lei do
a explicação do caráter 11gesticulativo,. da vida intelectual no país.
rendimento máximo. A conversão das arividades intelectuais à ca-
Problemas análogos foram resolvidos por sociedades européias,
tegoria de fatores econômicos tem forçosamente de operar-se no
entre outros, por expedientes como a Mania Dançante, a Epidemia
campo das ciências sociais. Como foi referido, várias vezes, em páginas
Flagelante, as Cruzadas.
precedentes, já uma vigorosa corrente de pensamento econômico
No Brasil, a eliminação de tensões que poderiam ter sido reflete essa mudança qualitativa. É compreensível; pois, que a ·
criadas pelos excedentes de indivíduos letrados foi obtida por meio sociologia inicie também uma tomada de posição ajustada às
da burocracia e do mecenato das atividades intelectuais. Muii:o de recentes circunstâncias cmergidas em nosso meio.
nossa burocracia explica-se como verdadeiro ônus pago pela socie-
Para essa tomada de posição, é fundamental compreender que,
dade para obter um mínimo de consenso e estabilidade. Por ouuo
de um lado, o uabalho sociol6gico também custa dinheiro, e em
lado o uabalho intelectual foi marcadamente orientado para ob-
jetiv~s mais ou menos pitorescos e j~ais para o esclarecimento qualquer nação, onde se rem nítida compreensão do imperativo de
aplicar racionalmente os recursos disponíveis, obviamente deve ser
mesmo da· essência da estrutura social vigente e sempre de modo
desestimulada a excessiva pormenorização da atividade científica;
a evitar a total ociosidade de .cidadãos que, de outra forma, pode-
e, de outro lado, que o estudo de pormenores s6 tem sentido
riam convener-se em fermentos de influências subversivas. Aliás,
em nossos dias, é visível este compromisso entre a camada leuada quando cenas concepções básicas, de caráter genérico, estio firme-
bem-sucedida e a classe dominante do país. mente estabelecidas.

Parece, portanto, legítimo afirmar que, até agora, o custeio de Tal é o que se verificou, por exemplo, no país onde a~~ente
grande parte do uabalho intelectual tem obedecido, consciente ou as pesquisas de pormenores vêm sendo mais prati~;7 os

138 I39
~
~ VI- MEDrrAÇÃO I'ARA OS 50CI0LOOOS EM FLOR

I:
. C/,RTILJ-iA BllASILEIRA DO AI•RENDIZ DE SOCIOLOCO

Estados Unidos. Ali, primdm, m,ediante clo>"ÇO coopb-advo de funesta política educacional que impeliu os estudos sociológicos
ti .. ·.·,vários sociólogos, se elaborou um patrimônio de idéias, conceitos, para onde não deviam ter sido levados.
il! • ·· . te9iias e hip6teses de trabalho e, em seguida, se passQU para as Na presente data, eXistem aspectos fundamentais da vida bra-
·~ •• · .iJtvêsclgações particularizadas. Além disto, a pormenorização da
lf·
lr.
p~q·uisa sociológica nos Estados Unidos é, em boa parte, devida·
ao imperativo de ocupar os excedentes de farra mão-de-obra téc-
sileira carecentes de tratamento sociológico,. sem que se observe
nenhuma tendência dirigida para tal objetivo. Basta, porém, ob-
servação superficial para que se perceba flagrante desorientação na
D nica que, de outro modo, ficaria talvez perigosamente: marginal. 'áplícação dos recursos nacionais no trabalho de pesquisa. A prática
lt Até hoje, a sociologia na Inglaterra, na França e na .Alemanha da pesquisa, entre nós, é um flagrante da inconsciência e do desc;o.;.
F
;• encaminha-se com prudência e parcimônia; no terreno da porme- mando da sociedade brasileira, pois que não exprime nenhum pro-
J: norização do trabalho de pesquisa. pósito e obedece ao mero capricho daqudes que ocasionalmente
l; Num país como o Brasil, duas razões parecem pon4eráveis na controlam os recursos. ·
\: orientação das atividades dos sociólogos. Uma consiste'em que se Reside aí o motivo que inspirou a recomendação apresentada
trata de país de escassos capitais - o que lhe impõe qonduta de ao II Congresso Latino-americano de Sociologia e que mereceu a
-:/
poupança de suas disponibilidades. O outro motivo reside em que, repulsa da maioria absoluta do plenário que a discutiu. Rezava o
sendo relativamente poucos os profissionais capazes, devem ser seguinte:
eles aproveitados, de.preferência, em investigações realmente rela- No estádio atual de desenvolvimento das nações latino-

.,

cionadas com as necessidades de desenvolvimento do país.
O trabalho sociológico em países como o Brasil deye ser con-
I I
americanas e em face das suas necessidades cada vez maiores
de invcscimcnco em bens de produção, é desaconselhável
aplicar recursos na pr.itica de pesquisas sobre detalhes da
duzido para atingir dois alvos: a elaboração de idéias,: conceitos, vida social, devendo-se estimular a formulação de interpre-
teorias com as quais a nação_.possa compreender-se a si própria, tações genéricas dos aspectos global c:.parciais das estruturas
decifrar objetivamente os seus problemas; e a conversão da ativi- J nacionais e regionais.
f Dentro do espírito desta recomendação, o que parece ainda ter
dade diuturna do sociólogo .ao interesse nacional, por meio da f
planificação do ensino e do trabalho de campo, no ,âmbico da t alta prioridade no Brasil são esforços análogos aos realizados por
disciplina em ~preço. ~ Alberto Torres, Oliveira Viana, Azevedo Amaral, Caio Prado
~
Júnior, no propósito de promover uma compreensão do nosso.
A sociologia, no Brasil, está tentando enrrar na segunda etapa i processo de desenvolvimento. São cometimentos desta ordem que
da evolução normal por que passou em ~ada país de cultura autô-
noma, sem ter realizado as tarefàs--caractl rísticas do estádio preli- encorajam o amadurecimento intelectual do país. Ou ainda estu-
dos sobre aspectos parciais da vida brasileira, c~mo a Geografia da
minar, isto é, sem ter· cumprido a formulação de interpretações
genéricas do nosso processo de formação ou de seús aspectos
fundamentais. 'I fome, de Josué de Castro, A Vida privada e a Organizaçiio polltica > .
TUtciona/, de Nestor Duarte. ·
j

I
Não se justifica, por exemplo, dentro do ponto de vista aqui .
· É verdade que grandes espíritos como Euclides da Cunha,
adotado, que se reiterem investigações do tipo da realizada pelo
Sylvio Romero, Alberro Torres e Oliveira Viana__Jn..lJiiW._.~.mri­
professor Emílio Willems e de que resultou a obr;1 Cunha.~
buíram para a formação de uma consciência soci<>;lógica dos
tradiçiio e transição em uma cultura rural do BrasiL Trata-se de um

,L
problemas brasileiros. Devemo-lhes diagnósticos ainda hoje vá-
estudo de comunidade procedido dentro de moldes metodológicos
lidos. Mas o, caminho que gizaram foi quase desfeito por uma

140 141
..... -·.:·.:.:-·:····:
----------

CARTILHA BRASILEIIlA DO AI>Rl,NOIZ DE SOCIÓLOGO

já largamente ensaiados nos Estados U!1ídos. Assim, do ponto de


vista meramente acadêmico, a obra em apreço nenhuma contri-
buição trás e, do ponto de vista das necessidades de pesquisa do
Brasil, contribui para o esclarecimento de pormenor da vida rural
brasileira de secundarlssima importância. Este dpo de sociologia
regional, mais ou menos an6dino e diversionista, está atual-
mente empolgando considerável número de jovens sociólogos bra-
v'ii- A Indust:rialização
sileiros-o que representa desperdício dos nossos recursos técnicos. corno Categoria Sociológica
As pesquisas sobre comunidades têm ple;1o sentido no atual
estádio econômico dos Estados Unidos e no presente quadro de sua
sociologia, cujas correntes estão perfeitamente delineadas e em que
há abundante oferta de especialistas. No Brasil, a prática de tais
investigações só poderá contribuir para desorientar os nossos es-
cassos soci6logos em formação, pois, dando-lhes a satisfação de
dominarem certas técnicas et:n voga num centro adiantado, des-
preocupa-os de tarefas outras essenciais ao seu meio, quais as de
elaborar um saber sociológico compatível com as necessidades
nacionais e regionais. Em país como o Brasil, desprovido de
tradição sociol6giça universitária, é verdadeiro contra-senso· ou· · Os conceitos, os métodos e as técnicas de que se utiliza o
despistantento sair o aprendiz a "campo" em busca de conheci- trabalho sociol6gico na América Latina, via de regra, são desen-
mento pormenorizado dos mecanismos da comunidade, segundo raizados. ·ou seja, não foram induzidos da experiência comunio:ária
regras nuuk in USA. Não é assim que ele deixará de ser colonial. do sociólogo latino-americano. Na conduta deste, é notória uma
atitude quase mística em face dos processos teóricos e pl,'áticos_da ...
Além disco, há que considerar ainda os pressupostos ideológicos
sociologia européia e norce-americana. · ... ~.~;.:.;.:~; ;
das chamadas pesquisas de comunidade. Não quero antecipar um
Em sua maioria, os socl6iogos latino ... americartos ~~~-,--~~=--_~:::·: ----·
saíram do gabinete, ainda não interromperam o tucis~Cj pel~s
tema de que tratarei adiante. Mas, seja dito logo que a sociologia
./
e a antropologia norte-americanas, comprometidas, como não
sistemas em que se comprazem, de há muitó. Deste modÔ, a sua ·..
podiam deixar de estar, com as peculiaridades culturais e econô-
atuação, por falta de ingredientes históricos, carece de r.eal.ef,l~cia. ·,
micas dos Estados Unidos, bac;eiam-se em categorias estáticas de
pensamento - cuja adoção é francamente contra-indicada ·em Parece urgeme despertá-los do ~case em que jazem f.i~.: aos· . .
países como o Brasil- , longe de terem atingido o nível de pleno produtos do pensamento sociológico estrangeiro. Na~enré ( ..
desenvolvimeitto. Daí a urgência de esclarecer os sociólogos e os fSto não pode ser feito de uma vez. Tem que ser lenrament~::pad: ..
antropólogos em flor, que constituem, naAmérica Latina, a linha evitar traumarismos fatais, mas rem que ser. Todo mundo sab~ que\;
auxiliar de uma corrente de pensamento de efeitos paraÜsadores do ps sonâmbulos não devem ser assustados. A observância desta regra .: ·
evita situações dramáticas, às vezes muito desagradáveis. Reco~ ·. ·
seu progresso.
nheço, hoje, que as recomendações apresentadas ao plenário do li
Congresso Latino-americano de Sociologia, por sua Cop~o. de

142
CARTILHA BRASILEIRA DO APilliNDIZ DI' SOC!OLOGO VIl -A INDUSTRIALIZAÇÃO COMO CATEGORIA ...

Estruturas Nacionais e Regionais, a que tive a honra de presidir, Na estilização científica da industrialização, teNe-á de proce-
contrariavam frontalmente hábitos de pénsar muito inveterados, o der como Max Weber, ao cunhar as noções de dominação tradi-
que, aliás, me obriga formular os esclarecimenros a que aqui venho cional, carismática e racional- legal ou burocrática - , ou como
procedendo, pois não tive o menor propósito de ferir suscepti- Fernando Tõnnies, ao elaborar o~ conceitos de "comunidade" e
bilidades dos congressistas, Antes, pelo contrário, ao defender "sociedade". Tais termos exprimem tendências efetivas da his-
aquelas teses, animava-me o sincero desejo de contribuir para o tória alemã e européia e, com des e outros análogos, a sociologia
maior êxito do Congresso. equipava o espírito dos estudiosos para a compreensão e o trata-
A recomendação que, nesta oportunidade, pretendo discutir mento de situações concretas.
estava assim redigida: A industrialização constitui categoria cardinal da sociologia,
O trabalho sociológico deve ter sempre em vista que especialmente da latino-americana. É, essencialmente, e sobretudo
f
a melhoria das condições de vida das populaçõa csrá con- nos países da periferia econômica, um processo civilizatório, isto
t
~
dicionada ao desenvolvimento industrial das estruturas ! é, aquele mecanismo por meio do qual se operam as mudanças
nacionais e regionais. quantitativas e qualitativas nas estruturas nacionais e regionais.
Com efeito, a indus~~iali~çã~ ~ã~--~e refere apenas à transfor- !
1;
Estas estruturas.só alcançam altograu de civilização mediante o
mação tecnológica da atividade produtiva. Pode e deve ser consi- desenvolvimento industrial.
derada como categoria sociológica. O esclarecimento deste fato é, f A compreensão da essência da ind1,1srrialização poupa o estu-
_aliás, uma das tarefas mais urgentes do sociólogo latino-amer~cano. dioso de penosos estudos fragmentários, desvencilha-o da casuística
Quero dizer, é necessário, por meio de um processo de estilização em que muitas inteligências válidas estão aplicadas desperdi-
_cienúfica, transportar para o plano abstrato dos conc~ii:os as rea- çadamenre. Ilustra-o o surto de pessoas que, em nosso meio, se
-lidades históricas efetivas. Na verdade, os conceitos'socíológicos especializam no escudo e no tratamento de. tipos específicos de,,.
não saíram da cabeça dos sociólogos, não lhes foram revelados em problemas. Por exemplo, ultimamente têm sid~- focalizados os '
:hora de mediunidade; resultaram do exame crítico ;de situações problemas do campo. Assim, para a melhoria das condições de vida
-vividas dentro de limites históricos. Assim nasceram: noções fim- do homem rural ou para a sua fixação, propõem os especialistas

I!
damentais como as de "períodos orgânicos" e "períodos críticos", medidas diretas, como organização de comunidades, educação
. "estamento'~. "classe", "Estado", "secularização" e seguramente sanitária, assistência social e outras em que transparecem vários
todas as outras noções da disciplina em apreço. Só no limbo socio- equívocos. Um deles consiste em que se considera. a sociedade rural
lógico da maioria dos profissionais brasileiros e latino-americanos como um sistema fechado, desarticulado da sociedade nacional ~
se admitem conceitos historicamente inocentes. um. evidente artifício. Além disto, essas medidas pretendem pro-
Contrariamenre a esta nossa sociologia seráfica, teremos que duzir efeitos impossfveis- elevação dos gêneros e dos níveis de
elaborar de modo dinâmico as categorias do pensamenro socio- vida - que, classicamente, só podem ser obtidos mediante trans-
lógico brasileiro, dando nome às forças e tendências ínsitas na formações tecnológicas da vida campestre, especialmente por meio
realidade nacional. Na medida que succ:dermos neste dar nome a do incremento da produtividade do trabalho rural. Em condições
fatos e tendências, a sociologia brasileira ganhará em' maturidade. de baixa produtividade do trabalho rural, muito pouco resulta
I! espantoso verificar que não há no Brasil, até agora, ·nenhum, daquelas medidas.
absolutamente nenhum gesto no senrido da formulação de um Parece, pois, que devç ser revista a questão da ftxação do
sistema de referência sociológica ajustado à realidade nacional. homem do campo. Na verdade, o homem do campo não migra

144 145
--------···--------·-·-.

CARTILHA BRASU.EIIl.A oo APJmNDIZ DE SoCIOLoGo VIl -A INDUSTRIAl.IZAÇAO COMO CAT.,COR!A •••

para os centros urbanos simplesmen.te porque quer. Fal<:, c;rn ter- Os gêneros de vida dos países desenvolvidos que se desejam repro-
mos de massa, evidentemente. Migra porque não consegue duzir nos países latino:-americanos foram Conseqüências, por assim
integração econômica na estrutura regional. E quand~ tal. acon- dizer, automáticas do processo de industrialização. Os altos n~veis
tece, mantê-lo al é crime. O deslocamento da populaçao at1va das de saúde e bem-estar social vigentes nos países industrializados são,
atividades primárias - agrícolas - para as atividades secundárias de fato, efeitos e não causa de transformação ~ecnológica:.' '
.::o... industriais. terciárias, serviços - é um resultado inevitável do A recomendação que se discute aqui teve o propósito de _alertar
desenvolvimento econômico - diga-se, da industrialização - e o sociólogo latino-americano para a necessidade de assimilar novas
não um mal. Isto é, aliás, um truísmo entre os estudiosos dos diretrizes de pensamento sociológico. Quero referir-me ao pen-
problemas de desenvolvimento. samento sociológico em termos de fase. 1 Fora desta pauta, o
Os países que desfrutam dos mais altos níveis de vida são os que especialista só consegue atingir meias verdades e jamais se tornará
apresentam os maiores índices de urbanização, e esta é sempre pr~­ apto a orientar a mudança-soda! em-Mntido efetivamente positivo·:
duto do desenvolvimento industrial. Contrariamente, a predomi- Fora desta pauta, acontece exatamente o que está acontecendo no
nância de caracteres rurais na fisionomia de um país é índice de meio latino-americano: tomam-se por absolutos os critérios atuais
atraso. dos gêneros de vida dos países desenvolvidos, isto é, dos países que·
Podíamos multiplicar os exemplos em que se patenteiam equí- se encontram já, em relação à América Latina, em fase superior
vocos semelhantes aos acima referidos, todos eles derivados da de desenvolvimento industrial. Quando, concretamente, esses cri-
incompreensão-do fenômeno industrial. Prefiro, entretamo, tratar, térios são específicos de uma fase histórica do desenvolvimento
a seguir, do ·aspecto conceitual da industrialização. Co.m este econômico .
. intuito, é Uciro observar que a industrialização é. em essêncta, uma Tais critérios são relativos e, de nenhum modo, normas de ação
forma de relação encre a sociedade e a natureza. A sociedade se independentes da contingência de fase. Valem, apenas, para fases
organiza com os elementos. que rira do meio natural e: ~sim, as idênticas. Estou certo de que chegará o dia em que se há de ver
condições de vida nelá vigentes dependem da rentabthdade da com nitidez o que há de anódino, de "despiciendo", de diversio-
exploração da natureza. O trabalho é. sinônimo d~ta exploração. nista na quase totalidade do trabalho sociológico no Brasil, em que
Pois bem, tem sido. em toda a histórta humana, o mcremento da se verá o que há de funestamente ilusório nas atividades profissio-
produtividade do trabalho o fato básico pr~motor.d~ alt~ração das nais de certa casta de especialistas em problemas rurais, sanitários,
relações entre a sociedade e a natureza. A mdusmaltza~a?, enten- imigratórios, aculturativos, assistenciais, educacionais eadm.inisuativos.
dida como processo de crescente elevação da produttvtdade do A sociologia é uma dêndá hiúói-ica e, assim, aplica-se na des-
trabalho, é libertação do homem dos determinismos cósmi~os pelo coberta das leis particulares de cada fase de desenvolvimento eco-
domínio destes, domínio que se opera pela substituição das forças nômico e social, sem .:uja compreensão se torna imposs.fvel o trata-
humanas aplicadas na prodtiç;ib de bens pelas forças mecânicas mento efetivo dos problemas das estruturas nacionais e regionais.
oriundas dos combustíveis sólidos, líquidos e gasosos. Os gêneros
e níveis de vida - é uma regra geral, sem contestação - s6
Arecomendação em exame é mais que oportuna. Focaliza um
dos temas capitais da sociologia latino-americana, a qual precisa
melhoram na proporção direta em que se verifica essa substituição
desembaraçar-se de critérios.'alienfgenas de pensamento e de ação
qualitativa de fo~ças de trabalho.
e exprimir as normas inseridas na realidade latino-americana,
Chamei a industrialização de processo civilizatório, porque captar, mediante conceitos, os vetores desta.
dele, su~stancialmente, resultam verdadeiras mutações históricas.

i46 147
CARTILHA BI1.ASII.L':.IItA DO AI'REN017.. DE SOCIÕI.OGO VII - A INDUSTRIAI..IZAÇÃO COMO CATEGORiA ...

·.:
. '
Se adotar esta orientação, verá o sociólogo latino-americano Notas
que a industrialização é ~ categoria básica de caráter dinâmico que {1) Para maior desenvolvimento de um pensamento meto·
lhe incumbe explorar, para compreender a dialética real do pro· dológico neste sentido consulte-se: GUERREIRO RAMOS.
cesso civilizatório dos países subdesenvolvidos. Habilitar·se·á a "Nota Metodológicas". In Digmo tcon6mico, · n• 85, de-
compreender que a melhoria das condições de vida das populações :~.embro de 1951. Nota da 2• Edição: O autor tem explicado
latino·amerieanas está condicionada à industrialização, e as so· o seu ponto de vista faseológico em vários estudos sobre
luções dadas aos problemas sociais nos Estados Unidds não devem problemas brasileiros. Vide, por exemplo, Sociologia tk la
ser literalmente imitadas em áreas arrasadas. mortalidade infantil México, 1955.
Toda a sociologia e a antropologia norte-americanas, larga· (2) Para um resumo das idéias de Toynbee, consulte·se:
TOYNBEE, A. J. L'Histoire- N. R. F. Paris, 1951.
mente difundidas no Brasil, baseiam-se no pressuposto de que
a sociedade ianque, atual, é perfeita ou definitiva, apresentando
apenas defeitos parciais, que -podem ser corrigidos por. meio de
medidas recnicamenre elaboradas. Absolutizam o preSente. Não o
vêem como um momento fugaz 'de uma série dialética.
Examine-se o sistema de referência da sociologia geral, nos
Estados Unidos, com os seus conceitos de isolamento, contato,
j! i_!, competição, conflito, acomodação, assimilação e co~trole social.
1 Todos eles refletem atirude antidialét·.ca e paralis~nte de uma
"ij' sociedade que, para usar o termo de Toynbee, 2 "se idolac~iza"
. .
ou
I. .·.que está adormecida sobre os lauréis.
' Esta diretriz marca profundamente os conceitos I! os critérios
~ antropológicos, a sociologia rural, a sociologia urbana~ a sociologia
I'
"
;JJ . .
· demográfica, as "relações humanas" e semelhantes produtos none·
iJt ..· ·· ·. americanos.
UI. :.' Ora, o Brasil não está em condições de desenvolvimento eco·
In . . .nômico que lhe permitam acolher tendências paralisanres. Seu caso
ilt: • . ··éc-:fe saltar da fase em que se encontra para outra superior.
1,11.
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VIII- O Problema da
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Pesquisa Sociológica no Brasil

O soci6logo de países subdesenvolvidos, como o Brasil, tem


muito a ganhar em eficiência, em suas investigações, ao instruir-
se a respeito da experiência de pesqu~a dos países avançados. Mas,
geralmente, por falra de uma teoria sociológica do trabalho de
pesquisa, essa instrução não llic:- aproveita, antes o inibe, o atemo-
riza e desestimula a sua capacidade inventiva. É que de costuma
atribuir o caráter de validade absoluta aos critérios metodológicos
induzidos da realidade das nações lfderes do pénsamento.
Via de regra, o sociólogo indígena tende· a admitir a existência
do que se poderia chamar de ortodoxia metodológica. O que pre-
CeítUâ"o-textõ--éStrangeiro acerca de métodos e processos de pes-
quisa lhe parece o correto. Procede, assim, de maneira dogmático-
dedutiva. Entre n6s, constitui prova flagrante disto o fato de que
·.·.· . existem professores e autoridades em pesquisa que nunca fizeram
... pesquisa, como se esta fosse uma qu~tão de boas maneiras.
A verdade, porém, é que. não h;l ortodoxia em pesquisa. Os
métodos e processos de investigação sociológica sio uma coisa na
j
' -~
CAR~UiA BRASILEIRA DO Ai'RENDIZ DE SOCIÓLOGO VIII - o PROBLEMA DA PESQUISA. •• . -·:]
...
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Alemanha, outra na Inglarerrã,'outra na França, outra· nos Estados nacionais e regionais. Portanto, nos países latin~erica-:
nos, os métodos e processos de pesquisa devem coadunar-se
Unidos. Isto porque têm de ajustar-se às peculiaridades históricas
com os seus recursos econômicos e de pessoal técnico, bem
e aos recursos de cada uma destas nações; · como com o nível cultural de suas populações.
Só à mentalidade escolástica da grande maio~ia dos sociólogos Infelizmente foi rejeitada esta recomendação.
latino-americanos é que tais métodos e processos assumem feições
Nas estruturas nacionais e regionais dos países subdesenvol-
,'..·l
de verdadeiras estátuaS sagradas. Provoca-lhes a indignação de
vidos, os problemas se apresentam, ordinariamente, com tal visibí- ···j'
vestais aquele que ameace utilizá::los, a1terando-lhes a pureza das
lidad~ que a sua avaliação dispensa instrumentos metodo16gico5
::.1.
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linhas conforme os compêndios os descrevem.
No entanto, observo: os métodos e os processos .de pesquisa
de alta precisão. Consideremos, para exemplificar, a mortalidade
infantil. Todo mundo sabe que nesses pafses da é relativamente
;
I.
.J
que, atualmente, os aucores de textos descrevem foram ordinaria- elevada e vem sendo medida por meio do que se pode chamar de
mente inventados por estudiosos que nunca tiveram manuais à sua coeficiente clássico de mortalidade infantil e que consiste numa
disposição, nasceram como s~bproduros da motivação de tais relação entre o número de óbitos de menores de um ano e o
estudiosos. ~mais do que provável que nenhu.m·dos·gtãndes Vultos número de nascidos vivos no período de um ano. Em regra, nos
da sociologia universal, um Durkheim, um Max W eber, um Le países latino-americanos, esse coeficiente é superior a cem.
Play, um A. Small, um Spencer, viesse a obter aprova~o em exame
Ora, em diversos países europeus verificou-se, nas três últimaS
de suficiência a cargo de um dos nossos sociólogos que acreditam
décadas, uma queda considerável da momlicLi.de geral e infantil.
na ortodoxia metodológica. ·
Atualmente, esses país~ exibem coeficientes de mortalidade in-
1
Esses vultos fariam então aquela experiência que se exprime n:i fantil até da ordem de menos 30o/o. Os fatores de tal mortalidade
I
exclamação atribuída a Marx: "moi, je ne mis pas marxiste". infantil se tornaram, porcanto, muito sutis, perderam em visibili-
Não quero dizer que a pesquisa sociológica seja ~a espécie de dade e ganharam em especificidade. Vem da,{ o imperativo de serem I
.I
casa da viúva Costa em que todo mundo mande e: faça o que criados processos mais refinados para a avaliação do fenômeno. .i
'i
entenda. Longe de mim. Há, neste terrenos, regras de trânsito. Há .I
Demógrafos europeus, como Jean Bourgeois-Pichat, conside-
um acervo de preceitos e diretrizes resultantes do trabalho socio- ram que o nascimento de uma criança não é propriamente um
lógico universal que todo verdadeiro pesquisador de\re conhecer começo, mas o resultado de um processo iniciado mais ou menos
profundamente, sob pena de expor-se e, o que é pio.ri, expor ter- há nove meses. Seu desenvolvimento pode ser comprometido por
ceiros a desatinos. Todavia, esses preceitos e diretrizes não são influências que parecem provenientes da estrutura do embrião ou
rígidos; são flexíveis; são lemas. Além dil;to, na esfera das ciências do organismo materno, sendo provável que, mesmo depois de nas-
sociais, há ainda muita oportunidade pa~ a invenção de processos cidos, muitos menores faleçam em conseqüência dessas influên-
de pesquisa. . cias. Nestas condições, torna-se necessário distinguir os óbitos
· · DentrO desta ordem de id'éi~: f~i ~presentada ao Il Congresso devidos a tais influências daqueles decorrentes de fatores vincu-
Latino-americano de Sociologia, por sua Comissão de Estruturas lados ao ambiente. Distinguem-se, pois, urna mortalidade infantil
Nacionais e Regionais, entre outras, a seguinte recomendação: endógena, resultante de causas anteriores ao nascimento ou do pró-
prio traumatismo do nascimento: constituição do embrião, higiene e.
Na utilização da metodologia sociológica,: os sociólogos
devem ter em vista que as o.igências de precisão c refina- saúde do organismo materno durante a gravidez, dificuldade de
mento decorrem do nível de desenvolvimento .das estruturas aleitamento etc.; e uma m'ortalidtuk infantil exógena, concernente

152 153
CARTILHA BRASILEIRA DO APRENDIZ DE SOCIOLOGO VÜI - 0 PROBLEMA DA PESQUISA •••

a óbitos derivados de fatores ambientais.• Cogita-se, assim, de e de civilização. Na rnedid~. pois, que das são observadas esramos
exprimir em coeficientes distintos 'os dois aspectos descritos. avaliando as necessidades. dos contingentes humanos latino-
Pois bem, seria lastimávd a conduta de quem pretendesse americanos por meio de critério heteronômicos.
generalizar no Brasil a adoção desse novo processo de medida da É confortador verificar que, em seu tempo, já· observava Pandiá
mortalidade infantil, não só porque, neste terreno, a precisão é Calógeras esta mesma desorientação, na pesquisa industrial prati-
,,secundária em nos5o meio, como porque é até impossívd atingir cada no país, quando escreveu:
.~ refinamento em pauta, tendo em vista as deficiências do nosso Se a energia hidráulica tivesse predominado sobre os
aparelho estatístico,. as condições culturais das populações brasi- combustíveis nos países de industrialização avançada, a
leiras e ainda as c'.isponibilidades financeiras do Estado. maioria dos problemas industriais estariam resolvidos em
função da dcrricidade. Nós, a quem faltam combustíveis,
Quando os fatores atuantes em determinada estrutura nacional coloquemos de novo rais problemas, adotando uma variante
ou regional. apresentam pouca especificidade; quando são, por nova, e amplos horizonres abrir-se-ão à nossa perspectiva.
assim dizer, grosseiros, a precisão das pesquisas é, além de desne- Em resumo, há todo um complexo de heteronomia e de hiper-
cessária~ financeiramente impraticável, se não fosse ordinaria- c~r~~Çi-~-~~-t..;b;Jho de pesquisa, na América Latina, que necessita
. mente im~ssívd. Basta esclarecer que, para diminuir da metade da meditação do sociólogo. Só há um caminho para atingir a
o erro de amostragem de um conjunto de observações, é preciso autenticidade nesta matéria: o empírico-indutivo, o que pane de
o quadrado e não apenas o dôbro ddas. situação concreta para o plano teórico, o que parte da experiência
Na verd~de, esse racioclnio aplicado à questão da mortalidade --para· a regra.
infantil pode ser estendido à maioria dos problemas que deman- A falta de original, dade de-grande parte do trabalho sociológico
dam esclarecimento por meio de pesquisa. Os critérios desta não no Brasil e na América Latina decorre, em larga margem, de que
são unlvocos, sujeitam-se às contingências históricas. O uso de de se tem orientado de modo heteronômico, isto é, obedece a pre-
normas pré-fabricadas de pesquisa aracteriza-precisamente o espe- ceitos .não induzidos da realidade brasileira ou latino-americana.
cialista basbaque, desprovido de verdadeiro espírito científico.
No que diz respeito à pesquisa, estamos quase no marco zero,
Os critérios metodológicos, de caráter autêntico, não se dabo- precisamos de investigar os pr~prios critérios de pesquisa ajustados
ram por via dogmático-dedutiva. É urgente. libertar o especialista às peculiaridades de nossos prop~mas. Para encetar esta imponan-
latino-americano do culto das normas metodológicas inseridas nos te tarefa, o sociólogo indígena terá de expurgar de seu espírito os
textos estrangeiros. Principalmente, é preciso adverti-lo no sentido estereótipos metodológicos, que lhe inculéou um treinamento
de utilizar, em termos, os preceitos recomendados em resoluções escolar mal-orientado, e reeducar-se e adestrar-se na capacidade de
de certames internacionais. De fato, costuma-se, entre nós, levar ver, sem obnubilações, os problemas do seu contexto existencial;
muito ao pé da letra o que _se vota em conferências realizadas no precisa, por um esforço de autocrltica, de reconquistar a condição
exterior. de noviço diante da circunstância que vive.
Neste sentido, é significativo que até a presente data se obser-
vem em toda a América Latina as escalas de consumo daboradas
na Europa ou nos Estados Unidos, sem que; ao que se sabe, nin-
guém 1 tenha se dado conta de que foram elaboradas natural-
mente, tendo em vista populações daqueles contextos geográficos

154 155
CARTILHA BRASILEIRA DO AI•RENDJZ DE SOCIÓLOGO

. -:·.·:·.
Notas
(1) Vide BOURGEOIS-PICHAT, J. "La Mesure de la
Morralicé Infantile". In Population. Avril-Juin, 1951.
(2) Por proposta do autor, a Comissão Nacional do Bem-estar
Social cogita atualmente de estudar a fundo este problema.
Nora de 1956: Esta Comissão foi extinta. IX- Para uma Autocrttica
da Sociologia Brasileira

A despeito da fordssima execração de que foram objeto ~ id8as


que defendi, continuo, cada vc:z. mais, convicto de sua validade.
Para falar apenas do Brasil, e com sinceridade;· vejo em nossa
sociologia a ameaça de burocratizar-se, de ftxar-se ~m rotina este~ . ·,.
rilizante, e o perigo de perder inteiramente o contato com a vida,
pelas tendências que manifesta ao enclausuramento, de fugir à
controvérsia, tendências estas evidentes nos componamentos de
alguns profissionais que lideram os órgãos que pretendem con-
gregar os especialistas, neste terreno.
É este o momento de ser promovida uma autocrítica da socio-
.logia brasileira, no sentido de expurgá-la dos set15 vícios, de
dinamizá~la com as idéias que estão já informando a atividade de
muitos brasileiros, e que têm sido mesmo expressas de modo
esparso, em diferentes ocasiões.
Esta autocrítica só é possível, em primeiro lugar, num ambiente
em que se assegure a impessoalidade, em que se desarmem os ! .

espíritos de prevenções sistemáticas. Não é raro; em reuniões, com~ i


portarem-se os indivíduos na base da nãO-aceitação das idéias de i
156
I
lj
. ":

CARTIUiA BRASILEIRA DO APRENDIZ DE SOCIOLOGO IX· PARA UMA AUTOCIÚTICA DA SOCIOLOGIA ...

outros, sejam quais forem. Até hoje me intriga, por exemplo, o faro "pensa", por assim difer, "com as mãos", no exercido de atividades
de que o II Congresso Latino-am~ricano de Sociologia, entre os executivas e de aconselhamento nos quadros dos neg6dos privados
meus combatentes mais denodados, incluíam-se pessoas que, por e governamentais. A primeira, em larga escala, rem sido uma
seus compromissos teóricos, estavam no dever irrecorrível de pro- percepção ilusória da realidade do pais; a segunda, espécie de
ceder contrariamente. No entanto, cederam a impulsos emocion.ais crisálida, emerge da vida comunitária nacional e se encaminha no
.personalíssimos. E, o que é inacreditável, persistem ainda assim, sentido de tornar-se uma autoconsciência das leis particulares da
opondo às idéias apresentadas- injúrias, cavilaçóes, insinuações, sociedade brasileir~.
reticências, memiras, suposições e outros fabulosos ardis, tentando Dir-se-ia que as teses fundamentais da "sociologia enlatada",
até aliciar adeptos por meio de versões fictícias ou alucinadas de intrepidamente defendida pelos que me derrotaram no II Con-
fatos que não querem decididamente enxergar. gresso Latino-americano de Sociologia, podem ser sintetizadas nas
Em ambiente onde reine tal psicose de grupo, a discussão se seguintes proposições que constituem enunciados opostos aos que
torna, como talvez tenha sido o caso do Congresso, uma espécie submeti· à discussão do plenário do referido certame:
de journée eles dupes em que os vencedores saem logrados e os 13 -as soluções dos problemas sociais dos países latino-
vencidos, vitoriosos, porque têm a seu favor a colaboração de forças americanos devem ser propostas sem ter em vista as condições
objetivas. efetivas de suas estruturas nacionais e regionais, sendo aconselhável
Outra regra fundamental a ser observada na autocrítica é a de ~·. a transplantação literal de medidas adotadas em países plenamente
analisar a produção e o trabalho no campo da sociologia à luz da desenvolvidos;
dinâmica dos fatores reais da vida nacional. O critério de aferição 23 - a organização do ensino da sociologia nos países latino-
da validade das idéias é a sua coagruência com os fatos. A ciência americanos não deve obedecer ao propósito fundamental de
é uma forma de consciência do real historicamente vivido e, assim, cpntribuir para a emancipação cultural dos discentes, evitando
na medida que é concreta, exprime a din1mica objetiva dos fatores equipá-los de instrumentos intelectuais que os capacitem a iiuer-
naturais ou sociais. pretar, de modo autêntico, os problemas das estruturas nacionais
Decorre daf que o trabalho científico não é uma- peripécia e regionais a que se vinculw;
individualista, que sucede na medida do poder inventiva de quem 33 - no exerdcio de ativiciades de aconselhamento, os soci6·
pretende fazê-la. Ao contrário, a ciência constitui-se de descober- logos latino-americanos devem perder de vista as disponibilidades
tas, de induções de leis inseridas na realidade concreta. A da renda nacional de seus países, necessúias para suportar os
autocrítica da "sociologia" brasileira revelará que ela está profun- encargos decorrentes das medidas propostas; . ..
damente marcada pelo espfriro de proeza. Nossas obras rotuladas · · 4a - no estágio atual de désenvolvimento das nações latino··.. .·
de sociológicas, em sua maio.ri:t, valem mais como documentos ·americanas, e em face de suas necessidades cada vez maiores de.: ·.
esclarecedores da biografia dos que as produzem do que como um investimento em bens de produção, é aconselhável aplicar recursos. >·• ·•·
esforço de captação dos processos objetivos da realidade nacional. na prática de pesquisas' sobre minudências da vida social, devendo •· .
Hi, hoje, no Brasil, du:1.5 sociologias: uma "enlatada", que se se desestimular a formulação genérica dos aspectos globaie ~çiais . ·
faz. via de regra, nos quadros escolares e no 1mbiro confuiado de das estruturas nacionaire-regionaiw· ·. ·. ~<- :: . : .
reuniões e entidades particularistas de caráter acadêmico; e outra sa-o trabalho sociológico deve ter sempre em vista::.que.a:
que se exprime predominantemente em comportamentos e que se melhoria das condições de vida das populações não está ;condi~, . .
. :·::: .. ·:.·.f.·' . .

158 159
~~ !
ciont:.:n:::::::~n=:·:::~acion>is '
1 IX- PARA UMA AUTOÓtlTICA DA SOCIOLOGIA,.,

·1 11· •.· ·• ··• tada a autonomia do pensamento sociológico, no Brasil, pois do

lll' .
11 i ·.·
·.M.,I·.' •.·.·r,l:'.•:···.:·.·····.·.•
.r.egionais;

).f:;;· 6' -é francamente aconselhávd que o trabalho sociológico, ·


controle dos especialistas pode decorrer, não só a correção dos
meus prováveis erros, como o florescimento dos meus acenos e
~t
·

:,:idi~eta ou indiretamente, contribua para a persistência, nas nações ainda o enriquecimento de todos.
.
, '1::!. Iatirio~americanas, de estilos de comportamento de caráter pré- Na promoção da autocrítica da sociologia brasileira, creio ser
1i! L ·.~ letrado. No que concerne às populações indígenas ou afro- muito útil o emprego de ferramentas de desmascararnento, a fim

l 11!fi r.;·

·'!L i

'~h· '
L
.• . .... /americanas, os ~ociólogos devem aplicar-se no estudo e na propo-
.
. • siÇão de mecanismos que retardem a incorporação desses contin-

ll!l i . • ·· ·. ···.·gentes humanos na atual estrutura econômi.ca e cultural dos países


. :. . Iatino-americanbs; ·
de que se apresse a liquidação do que tenho chamado o
"consularismo" do trabalho sociológico em nosso meio. A reação
dos aficionados da "sociologia enlatada'', fuce aos que a combatem,
·é, como se tem visto; de pânico, de proteger-se, organizando-se em
(~h~..l.t.· .l.·. . •• • •
'
m': :.
1

7a - na utilização da metodologia sociológica, ,os sociólogos
. .. ·.· não devem ter em vista que as exigências de precisão e refinamento
grupos fechados, excluindo a possibilidade de discussão e, por-
tanto, insulando os elementos que lhes são adversos, ainda que da
~~~~ Í . · ·· : decorrem do nível de desenvolvimento das estruturas nacionais e maneira mais ostensiva. Realmente, o progresso da sociologia
!:!1 i · regionais. Portanto, nos pa!ses latino-americanos, os métodos e dentlfica no Brasil só poderá ocorrer contra ou malgré os profis-'
·!i!J1 i processos de pesquisa não devem coadunar-se com os'seus recursos sionais da "linha auxiliar" da expansão cultural dos países
J! 1l ! econômicos e de pessoal técnico, nem com o nível cul~ural genérico imperialistas. ·
de suas populações. · Eles têm consciência disto e defendem os selis interesses inves-
Eis a( rodo o programa do que se pode chamar uina sociologia ·tidos; Não desconfiam, porém, que, sob a forma de sentimentos,
quisling. impulsos e incelectualização, um novo levedo opera profunda-
Salvo as contribuições que podem ser contadas nos dedos, a mente no Brasil. E, persistindo em suas posturas superadas, dão-me
sociologia no Brasil, pdos seus ingredientes ideológicos, não con- a impressão mdancólica de atores que continuam no palco repre-
tribui para o ;lUtodom!nio do meio brasileiro; não é, pois, ciência, sentando uma peça serôdia sem perceberem que o pano já desceu
•::i:i . mas, acentuadamente, beletrismo ou mera composição acadêmica. e o público já se retirou...
f:H ' Não esqueço que figuras devoradas às ciências sociais já formula-
:::: : ram entre nós algumas indicações básicas para uma t~oria geral da
f;·' sociedade brasileira, tarefa que considero urgentíssima, e a que me
1':~ ' venho dedicando e da qual dei notícia sumária no m~u estudo "O
;,:!,'•.•i ',· :. Processo da Sociologia no Brasil", AI procurei daborar alguns
' instrumentos de desmascaramento, aos quais acrescentei outros
aqui mesmo neste trabalho. . .
Mas a elaboração de Ul!!_'!_ sociologia nacional é tarefa coletiva
e não individual. Eis por que tenho feiro os maiores esforços para
confundir-me com os meus colegas, evitando acentuar discor-
i
dância. Eis por que estou sempre disposto ao debatd e desejo que '.
argúam as idéias que tenho formulado no sentido de ser conquis-

:.éa 161
. q__.

X- O Problema do Negro·
na Sociologia Brasilei.ra ..

Sobre o problema do negro no Brasil existe farta lireratu,ra de· ·


caráter histórico e socioantropológico produzida por autores es- .· .
trangeiros e nacionais. Nesta literatura, em sua quase totalidade,· ..
está implícito um modo de ver as relações raciais no pals, que s~ ·
revela, nos dias que correm, em contradição com as tendências de
autonomia espiritual e material. do Brasil. · · - · ::.-::· ·•
O negro tem sido estudado, no Brasil, a partir de categorias e.
valores induzidos predominantemente da r;ealidade .e~op~ia;
E assim, do ponto de vista da atitude ou· da ópti~, ~$~~u~~~
nacionais não distinguem dos estrangeiros, no campo e.tn apreço.
Por conseqüência, a partir de uma posição científica de caráter
funcional, isto é, proporcionadora da autoconsciência ou do auto-
domínio da sociedade brasileira, importa, antes de estudar a
situação do negro tal com~ ~- ~fe_ti\l.amenre vivida, examinar aquela
literatura, tendo em vista desmascarar os seus equivocas, as suas
ftcelks, e, além disso, denunciar a sua alienação.
~,!i CARTILHA BRASII.EJRA DO APRENDIZ DE SOCIÓLOGO

Aquela literatura é, ela mesma, um material ilus.trativo do que


X- 0 PROBLEMA DO NEGRO ...

comandada seja a vida nacional, mais restrições à disponibilidade


há de problemático na condição do negro na sociedade brasileira. do trabalho científico.
Eis por que tratarei, neste escudo, menos do problema do negro Além disso, uma ciência nacional se caracteriza pelo fato de que
no Brasil do que deste problema tal como ele se configurou nos se forma pedestremente, de modo cumulativo, "assente sobre bases
escritos dos sociólogos e antropólogos. próprias, para um crescimento evolutivo regular". Ao contrário,
não se elabora revolutivamente, pela justaposição de conheci-
Esta é tatefa preliminar necessária para a elabóração de uma
mentos importados ou pela mera sucessão abrupta de orientações.
consciência sociológica, verdadeiramente naciona], da situação
Jamais se chega a constituir urna ciência nacional, se as gerações
do homem de cor brasileiro.... _..
de cientistas não se arciculam no sentido de um labor contínuo e
Caráter geral da sociologia se os especialistas d~ uma mesa época não se organizaram para a ·
e da antropo/(Jgia no Brasil cooperação.
f~~ !/1.. Para a compreensão do nosso problema do negro, é necessário A inobservância de tais requisitos retarda o ~parecimento em
m,ljj'' .. que o estudioso se dê conta de que, de modo geral, os estudos de nosso país de uma ciência nacional. Ela é notória, por exemplo, em
~ /• · · · · sociologia e antropologia no Brasil refletem o estado em que neste nossa antropologia. ·
il.ll··::. • se encontra o trabalho científico. Até a presente data, não temos, Na verdade, entre nós, a antrqpologia não chega a constituir
~~-! 1 . . senão em pequeníssima escala, uma ciênçia brasileira. Nestas uma ciência nacional. Uma coleção de obras não faz necessaria-
~.:~.:_lli >. ---condições, o trabalho científico, entre nós, carece, em larga mar-
l,jj!_t._._:_•.: .
mente uma ciência. O que faz uma ciência é um espírito, uma
! . ~-···. gem, de funcionalidade e de autenticidade. De um lado, porque atitude militante de compreensão de uma circu'nstância historica-
'1 !, · ... ··não contribui para a autodeterminação da sociedade; de outro mente concreta. E a antropologia, no Brasil, está fortemente

1 1l.'li,·.· _: . . · lado, porque o cientista indígena é, via de regra, um répétiteur,


hábil muitas vezes, um utilizador de conceitos pré-fabricados,
alienada do meio brasileiro, já por suas categorias, já pela sua
temátie~..

I
..
pobre de experiências cognitivas genuinamente vividas e, porta.hto, Com efeito, as cacegor.ias de nossa antropologia têm sido lite-
l.·r !Ir_. :. vítima dos "prestígios" dos centros europeus e norte-americanos ralmente transplantadas de países europeus e dos Estados Unidos.
·:~• i/ · ..:_.:.de investigação. Ora, de todas as chamadas ciências sociais, a antropologia, na-
:~jl ,!:,11•...·.. ; ... _.· : . Embora os principias gerais de conhecimento' positivo sejam queles centros, é a que se tem menos depurado de ingredientes
" · .0,: universais, existe, em vários sentidos, uma ciênc_ia nacional em ideológicos. De modo geral, a antropologia européia e norte-
.'i1[ 1l .
~~~f!l,j•- . . ··. todo país de cultura autêntica. Em primeiro lugar, o trabalho americana tem sido, em larga margem, uma racionalização ou
~1 . i !I
1 1 !H .·.·
. · :. científico está sempre, direta ou indiretamente, articulado com um despistamento da espoliação colonial. Este fato marca nitidamente
~~~ ·.· .·:. projeto nacional de desenvolvimento - o que transparece nos o seu início, pois ela começou fazendo dos povos "primitivos" o
~~ ;I!· . objetos em que incide. Os problemas científicosj radicam-se em. seu material de estudo, Entre outras, a noção de raça assinalou,
~~~~i~!l ·. ·. •situações ·historicamente concretas, embora possam ser in trin- durante muito tempo, as implicações imperialistas da antropo-
W~I·! secamente abstratos. Eis porque a problemática dendftca é uma logia. Sob o signo desta categoria, fortemente impregnada de
!;J 1/ coisa na Rússia, outra nos Estados Unidos, outra na França, outra conotações depressivas, elaboram-se no Brasil alguns trabalhos
~H!j'
~~· · na Inglaterra, outra na Alemanha. O comportamento dos qua- considerados represemacivos de nossa antropologia, entre·os quais.

~~~~ ::~~:r::~.::~fo7'~o:,".;':;:;"~= ::!d::.


· se incluem principalmente os de Nina Rodrigues e .Raflt e assimi~
fação, de Oliveira Viana. '

165
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·~·

CARTILHA BRASILEIRA DO APRENDIZ DE SOC!OL.OGO X- 0 PROBLEMA DO NEGRO ...

Não faltaram, por~m. no Brasil, espíritos como o de Sylvio A aculturação não se faria, assim, pela eugenia, pelo controle de
Romero e Euclides da Cunha que, embora não inteiramente livres nascimento e de casamentos; faz.se pela inculcação de estilos de
da obnubilação do conceito de raça, proclamaram a sua descon· comportamento por meio de processos sociais formais e informais,
fiança com respeito a ele e fizeram os primeiros esforços em prol diretos e indiretos, mas, em tais processos, admite·se sempre uma
da criação de uma antropologia nacional assente em critérios variável cultural quase independente e outra ou outras depen·
autônomos de avaliação de nossas relações étnicas. dentes. Por outro lado, esta antropologia, quando se torna prática
Neste sentido, é de muito relevo a contribuição de Alberto ou "aplicada" (applied anthropology), parece tender a considerar a
Torres e Álvaro Bomilcar que, antes do atual movimento amropo· mudança social em seus aspectos puramente superestruturais,
lógico, formularam indicações fundamentais para a compressão do justificando a mudança social por intermédio de agências educa-
problema racial 'lO Brasil. · cionais e sanitárias antes que mediante a alteração das bases
Mas a atual antropologia eutop~ia e, principalmente, a norte· econômicas e políticas da comunidade.
amçricana estão longe de se ter depurado de resíduos ideológicos. Na medida que a antropologia no Brasil se ajusta a este sis-
Conceitos igualmente equívocos como o de "raça" tornaram·se tema de referências, desserve o país e confunde os interessados no
basilares no trabalho antropológico. Entre eles, os de estrutura equac!õiiãmeõ-r<>aos problemas nacionais. Os nossos grandes pro·
social, o de aculturação, o de mudança social, os quais supõem blemas "antropológicos" são indecifráveis à luz das categorias
uma concepção quietista da sociedade e, assim, contribuem para habituais daquela espécie de antropologia.
a ocultação da terapêudca decisiva dos problemas humanos em Os nossos grandes problemas "antropológicos" - o do índio
palses··subdesenvolvidos. Tal orientação, adorada literalmente e o do- negro - são aspectos particulares do problema nacional
pelos profissionais de países como o Brasil, constirui·se em pode· de caráter eminenrerr•ente econômico e político. Daí resulta que,
roso fator de alienação. sem estribar-se na teo~ia geral da sociedade brasileira, o antropó·
Ao contentar·se o antropólogo com descrever os comporta· logo, em nosso país, se expõe a tornar-se uma espécie de "merce-
meeiros como implicações da estrutura social da comunidade, nário inconscienre", wn "inocente útil" ou, na melhor das hipóteses,
concorre para obscurecer o fato fundamental da precariedade his· um esteta.
tórica de tais implicações, e quase se faz um apologista do aqui e Rigorosamente, é lícito afirmar que, em pais como o Brasil, o
do agora, ou pelo menos um interessado na inalterabilidade da . trabalho antropológko terá sempre sentido dispersivo se não se
sociedade particular onde atua. Proceder deste modo em face de articula com o processo de desenvolvimento.econômico. Na fase
uma comunidade pr~-lerrada ~. sem dúvida, uma experiência em que se encontra, o mero aspecto "antropológico" dos seus pr~
enriquecedora para o antropólogo pessoalmente, uma experiência blemas é acentuadamente subsidiário. Nossos problemas culturais,
estética, aliás, muito mais do que científica. Mas tal atitude, por no sentido antropológico, são particulares e dependentes da fase de
isso mesmo, é imperialista e espoliativa. desenvolvimento econômico do Brasil. A mudança faseológica de
O significado qUietista e imperialista desta tendência antropo· nossa estrutura econômica automaticamente solucionam tais pro·
lógica é perceptível ainda mais nos refolhos das noções de acul· blemas. Parece, pois, que em nosso meio o insulamento do antro-
turaÇão e mudança social. A aculturação supõe o valer mais de uma pólogo nos quadros restritos e formais de sua disciplina limita as
cultura em face de outra, d~. mesmo modo como a superioridade suas possibilidades de· compreender exatamente os fatores me-
de certas raças em face de outri&; ~uposta pela antropologia racista. diatos, mas básicos, dos problemas que pretende· tratar. Nestas

166 167
CARTI.LHA BRASILEIRA DO APRENDIZ DE SOCIÓLOGO X- 0 PROBLEMA DO NEGRO ...

·condições, os nossos patrícios, cultores desta matéria têm 4iame de de Arthur Ramos 1, Gilberto Freyre e de seus i~it~dores~ O ele-
.si uma tarefa ciclópica qual a de, utilizando o acervo de conheci- me.ntQ negro se torna "assunto", tema de especialistas, cujos estu-
. mentos acumulados universalmente nesre campo, induzirem da dos pormenorizados promoveram, entre nós, movimento de aten-
.realidade nacional os seus critérios de pensamento e ação. Pois ção de uma parcela de cidadãos para os chamados afro-brasileiros .
jamais serão científicas obras resulcant~s da imitação :servil ou da Interessava-lhes o passado da gente de cor ou as sobrevivências
transplantação literal de conceitos e atitudes. A ciência não é daquele no presente. Enquanto a primeira corrente viu o elemento
coleção de livros, nem tampouco gesticulação. É estilo de vida. de cor preponderantemente em devenir, em processo, a última
Estas deficiências de nossa antropologia, de que rambém está inclinava-se a adotar ponto de vista estático, acentuando minucio-
afetada nossa sociologia, são nitidamente perceptíveis' nos estudos samente o que na gente de cor a particularizava em comparação
sobre o negro b.rasileiro. com os restantes CC?ntingentes étnicos da comunidade nacional.
Hi.rrória sincera dos es~Jdos A mais antiga posição em face do problema do negro no Brasil
sobre o negro· no Brasil se configurou predominantemente sob a forma de comportamen-
tos mais que sob a forma de escritos. Caracteriza-se pelo propósito
A luz de critério funcional, está por fazer, até agora, a história antes de transfonnar a condição humana do negro na socieda4e
dos estudos sobre o negro no Brasil e das tentativas de tratamento
brasileira do que de descrever ou interpretar os aspectos pitorescos
prático da questão.
e particularíssimos da situação da gente ,de cor; seus prógonos .e
Pondo de lado os escritos de natureza folclórica e de caráter epigonos são numerosos e se registram dêsde a época colonial. A
puramente histórico e as numerosas obras de estrangeiros que nos caracterização mais pormenorizada desta tercéira posição se fará
visitaram na fase colonial e imperial de no~sa formação, tais como mais adiante.
Debret, Maria Graham, Rugendas, Kosrer, Kidder e outros,
Na ordem desta expos1çao, tratar-se-á de cada uma destas
d.iscernem-se, neste campo, crês correntes fundamenrais.
correntes. Toca, portanto, a va. de focalizar a primeira delas, o que
Uma delas é fundada por Sylvio .Romero {1851-1914), que farei imediatamente, ocupando-me da contribuição de Sylvio ; l ).
continua nas obras de Euclides··aa Cu:1ha (1866-1909), Alberto Romero.
Torres (1865-1917) ê Olivdra Viana (1883-1951), e.se caracteriza
pela atitude crítico-assimilativa dos seus epígonos,, em face da Sylvio Romero e a mestiçagem
ciência social estrangeira. Apesar das diferentes orientações teóricas Interessou-se Sylvio Romero pelo estudo do elemento negro
i
desses autores, todos eles estavam interessados antes na formulação eminentemente do ponto de vista da história social. ~provável que i·
de uma teoria do tipo étnico brasileiro do que em ~tremar as o primeiro documento que adverte os nossos estudiosos para este
características peculiares de cada um dos c~;~i~g~~ces formadores ~·
assunto tenha sido o ensaio do autor, "A Poesia Popular no Brasil",
da nação. No que diz respeito ao elemento negro, seus trabalhos, publicado em Revista brasileira (1879, Tomq I, pág. 99). ".É uma
embora ress.altem a sua imporrância, contribuíram para arrefecer vergonha - diz o polígrafo - para a ciência do Brasil, que 'nada
qualquer te~dência par~ ser ele considerado do ângulo do exótico, tenhamos consagrado de nossos trabalhos ao estudo das línguas
ou como algo estranho na comunidade. . e das religiões africanas." Parecia-lhe urgente que se dedicasse
A segunda corrente, que pode ser chamada monográfica, é aos precos a mesma atenção prestada aos índios, e a urgência se
fundada por Nina Rodrigues (1862-1906), e continua nas obras explicava em virtude de que estavam desaparecendo moçambiques,
banguelas, monjolos, congos, cabindas, caçangues. o negro -

168 169

-
...~~ .. · .:-: :: ..

CARTILHA BRASILE.IItA DO At•RENDIZ Dl~ SOCIÓLOGO X- 0 PROBLEMA DO NEGRO ....

dizia - não é só uma máquina econômica; ele é antes de tudo, critério para a sua separação é quase puramente lingüístico e
e mau grado sua ignorância, um'objeto de ciência. a lingüística é um crirério bem fraco na etnografia, especial-
E levando a sério esta advertência, Sylvio Romero dedicou à ...inen.tc entre os pov.:)s modernos e reéendssimos, resultantes da
matéria páginas de grande interesse. Na verdade, incorreu em fusão de raças".
muitos enganos, mas a maioria em decorrência dos instrumentos Explicando por que os estudiosos brasileiros não tinham dado
de estudo que utilizou, na época muito precários. Entre os autores atenção ao conringenre negro, disse que ninguém aré então se
. ··em que se apóia incluem-se Taine, Renan, Préville, Broca e aaevera a isto "com receio do prejuízo europeu, que tem sido um
Gobineau a quem chamou, com simpatia, "ilustre". dos nossos grandes males, com medo de mostrar simpatia para com
É compreensível, portanto, que Sylvio Romero tenha formu- os escravizados, e passar por descendentes ddes, passar por mes-
lado a respeito do negro pronunciamentos hoje inaceitáveis. Assim, tiços"; e admirava-se de que.uarefa ainda não tivesse sido em-
incorreu em lances em que chama "povos inferiores" aos índios e preendida por "tantos negros e mestiços ilustrados existentes no
aos negros; em que afirma ser o mestiçamento uma das causas de país". Não lhe escapou também o aspecto prático do problema do
certa "instabilidade moral na população"; em que chama aos negro, .o qual, a seu ver, exigia "medidas seguras,' eficazes e am-
"arianos", "a grande raça", "bela e valo.rosa raça"; e finalmente, em plas", que "apressassem", "precipitassem" a sua "completa eman-
cipação". O roteiro de estudos sobre o negro, delineado pelo nosso
que adota a ideologia do branqueamento (uma das futuras reses de
autor, é, em essência, válido para os dias que correm. Ei-lo:
Oliveira Viana) nestes termos: "não ... constituiremos uma nação de
Seria preciso estudar acuradamenre, sob múldplos as-
mulatos; pois que a forma branca vai prevalecendo e prevalecerá".
pectos, cada um dos povos que entraram na formação da
Mas esses e outros semelhantes são erros da ciência da época e nação atual; dividir o país em zonas; em cada zona analisar
até estereótipos populares vigentes no momento em que viveu uma a uma rodas as classes da população e um a um rodos
Sylvio Rome~o. Quando, porém, se estriba em suas próprias ob- os ramos da indústria, rodos os elementos da educação, as
tendências especiais, os costumes, o modo de viver das
servações e em sua argúcia, Sylvio Romero acerta quase sempre. famílias de divers:l$ categorias, as condições de vizinhança,
Ele foi, em face do rema, um ambivalente, pois, apesar das refe- de patronagem, de grupos, de partidos, apreciar especial-
rências mencionadas acima, esboçou indicações fundamentais para mente o viver das povoações, vilas c cidades, as condições
o estudo e o tratamento do n~sso problema do negro: · · do operariado em cada uma ddas, os recursos dos patrões,
e cem outros problemas, os quais, nesta parte da Am~rica,
Ao contrário do seu contemporâneo Nina Rodrigues, levantou à retórica politicante dos partid~ em luta nunca ocarreu
em torno do conceito de raça, característico da antropologia euro- cogitar. :·.:: :... :: ; : ·
péia, uma suspeita que a ciência modem~ confirmou totalmente. O que parece importante ressaltar na posição de Sylvio Romero
Assim, referindo-se às contradições reinantes no campo, disse: é o' ter conseguido superar a precariedade dos instrumentos da
"Aqui anda erro conscientemente arranjado e aplaudido", e falou ciência de sua época. Assim viu, com precisão, as bases ideolÓgicas
ainda em "capricho para encobrir e desculpar os defeitos nacio- da antropologia do seu tempo e esforçou-se em induzir da reali-.
nais". Também a este propósito esclarece que, nos "países con- dade brasileira os critérios de investigação do "problema" do negro.:
quistados e submetidos", habitados pelo que os "colonizadores Graças a isto, identificou o sentimento de "vergonha"· da.camada·: :
chaniam selvagens e gentes inferiores, "implanta-se uma ordem de letrada pelas origens raciais da população e inclinou-se pela; busca ••.. ·.-·
coisas em que as raças inforitiré~~o se podem mar.uer". Tratando ~: de uma solução desta inaurencidade. No equacionamento~d,o pro-f.:·:
do problema da distinção da[raÇas, escreveu esta advenência: "O blema do negro como de outros problemas do Brasil, ~siJl:ll?t! ~: :- .·

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CARTILHA BRASII.ciRA DO APRENDIZ DE SOCIÓLOGO X- 0 PROIILEMA DO NEGRO •••

deficiência fundamental dos estudiosos: a adoção literal de catego- a heterogeneidade social do país, em decorrência da sua diversidade
rias européias, das quais suspeitou com fundamento. Aliás Sylvio geográfica ("um meio físico amplíssimo e variável, completado
Romero, em toda sua obra, principalmente em sua famosa História pelo variar de situações históricas, que dele em grande parte decor-
da literatura brasileira (P Edição, 1888), acentuou o caráter reram"). Neste sentido, Euclides é um dos fundadores de nossa
inautêntico da cultura brasileira, decorrente da prática intensiva e sociologia regional. Todavia, a antropogeografia ratzeliana é talvez
. ·· ·· ext~iva da uansplantação. responsável pelas páginas escritas em Os Smões, em que se auibui
O. aSpecto dinâmico da ~uestão ·também lhe interesso~, como ao clima, entre outras influências negativas, a de inferiorizar os
se viu há pouco, tendo estranhado que "negros e mestiÇos ilus- contingentes humanos. Diz-se aí, por exemplo, que "o calor úmido
trados" se mantivessem alheios ao assunto e, ainda, encarecido das paragens amazonenses". "modela organização tolhiças".
. medidas práticas de emancipação da gente de cor, e o rqteiro de Por outro lado, Euclides foi vítima da antropologia racista do
estudos que esboçou ilustra que ele compreendeu não existir uni- seu tempo, e viu a nossa formação à luz da teoria da luta de raças
formidade na situação do negro .no Brasil. Graças a stli -fami- de Gumplowicz. Assim, segundo o autor de Os Sertões, a evolução
li~idade com os trabalhos da Escola de Le Play, pode perceber que cultural de um povo define-se, em última análise, como evolução
tal situação apresentava nuanças diversas, decorrentes das diversi- étnica. "A nossa evolução biológica- diz ele- reclama a garanda
dades de zona, de classe e de atividade econômica. . da .evolução social". Para ele,. a "mistura de raças" é "prejudicial"
Há, certamente, duplicidade na posição de Sylvio Romero. e o "mestiço - mulato, mameluco ou cafuz - menos que um
Mas, apesar disso, é indiscudvel que em sua obra se delinearam intermediário, é um decaído, sem a energia física dos ascendent~
algumas das tendências mais acertadas no estudo do negro brasileiro. selvagens, sem a altitude intelectual dos ancestrais", ou ainda, é
"um desequilibrado" ou um "histérico".
Euclides da Cunha e a mestiçagem De resto, em matéria de relações de raça no Brasil, Euclides da
Euclides d.a Cunha elaborou os seus estudos sobre os problemas Cunha equivocou-se tanto quanco, por exemplo, Nina Rodrigues.
étnicos no Brasil em época em que os conceitos de cultura e raça E o que, entreramo, o diferencia do último e dos seus seguidores
não estavam perfeitamente desembaraçados um do outro. A dis- são duas coisas: em primeiro lugar, a sua atitude crítico assimilativa
tinção entre o processo biológico e o processo social. hoje corri- em face da ciência estrangeira, que ele utilizou, sem passividade e
queira e nítida nos compêndios de sociologia e antropologia, não sem basbaquice, mas com plena lucidez, repensando os conceitos
tinha sido alcançada ainda pela ciência do tempo de Euclides. Entre e as reorias, à luz dos faros que coletava. Jamais é surpreendido na
os autores que mais influíram na formação do autor, incluem-se prática de meros confrontos de textos de cientistas estrangeiros, de
Gumplowics e, indiretamente~ R.ar-Lel. dissertações douwrais anódinas ou do crochet de citações. As pá-
Como se sabe, Ratzel foi um dos precursores do conceito ginas de seus livros saem inteiriças, expressão direta do que o autor
antropogeográfico de área cultural e, em seu sistema, atribuía ao pensa. Há que se sublinhar, pois, aqui, a autenticidade de um
meio um papel de condicionackr- das manifestações culturais do esforço de compreensão merecedor, só por isso, de ser apresentado
homem. Euclides adorou esta orientação, e em seus estudos, prin- como paradigmárico aos cientistas brasileiros. .
cipalmente em Os Sertões (Rio, 1902), sublinhou a importância Em segundo lugar, embora Eudides.da Cunha ten~ adotado
das circunstâncias mesológicas como elementos formadores da os_ preconceiros da anrropologia racista, soube superar aS suas
sociedade. A atenção que ele dispensou a este fator o levou a dar, conotações depressivas para, os brasileiros. Viu, por eXemplo, o
de um lado, contribuiç-ão de relevo e que consistiu em re~onhecer mestiço brasileiro exatamente ao contrário do modo como Nina

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r~------

CARTILHA BRASILEIRA DO APimNDIZ DE SOCIÓLOGO X- 0 'PROBLEMA DO NEGRO •••

Rodrigues e Arthur Ramos viram p negro; viu os mestiços como 11 s'irrite comre les demi-vérités qui sont des demi-
fausserés, comre lcs auteurs qui n':tlthent ni une date, ni
brasileiros "retardados", como "patrícios", como "nossos irmãos"
une généalogie, mais dénaturent les sentiments et les
e não como elemento exótico, estranho ou mumificado. Ao con- moeurs, que gardent le dessin des év~nements et en chagent
trário dos africanistus de mentalidade est.ttic:t, acentuou o caráter la coulcur, qui copient les faits et déflgurent l'âme: il veut
provisório de nosso quadro de relações de raça e apontou mesmo sentir em barbare, parmi lcs barbarcs, et, parmi lcs anciens,
·. a terapêutica para alterá-lo. cn ancic:n.

Os· antropólogos e sociólogos da corrente que tenho chamado A superioridade de Euclides da Cunha, enquanto soci6logo,
de u oonsular" 1 entenderam escassamente ou de nenhum· modo o quando comparado a estudiosos como Nina Rodrigues, Anhur
significadoprofundo de Os Sertões, preocup:tndo-se em descobrir Ramos ou Gilberto Freyre, é não ter utilizado a ciência estrangeira
simétrica e mecanicamente. Não importam seus erros. Temc·s de
no livro os erros de técnica cienrífka. Arthur Ramos o considerou
aprender com ele a assumir atitude integrada na realidade nacio-
um "terrível anátema contra o nosso povo de mesriços" 3 •
nal. Não é difícil escrever obras com o propósito de mostrar que
Mas é justamenre o inverso. É uma tentativa de estilização dos se sabe bem uma lição ou como quem escreve deveres colegiais. Os
tipos da sociedade brasileira, como já assinalou alguém. E como acertos dos atuais sociólogos e antropólogos consulares e os equí-
tal, um documento importante da precária ciência brasileira. vocos de Euclides da Cunha se equivalem: uns e outros são
Para Euclides da Cunha, o mestiço brasileiro é, com efeito, importados ou frutos de nossas obnubilações pelos "prestígios"
retrógrado, mas não em caráter definitivo. Deixará de o ser por ocasionais dos centros estrangeiros.
meio do processo civilizatório. "Estamos condenados à civili- Tivessem os monogra..fist;ts Q.u -ªfriçanisras visto o negro no
zação"- diz o autor. E ainda: "ou progredimos ou desapare- Brasil como Euclides da Cunha viu o sertanejo, e uma página
cemos". Foi o' "abandono" a que ficou relegado o responsável pelos melancólica da história de nossas ciências sociais teria sido provei~
seus comportamentos atrasados. Estes comportamentos, porém, tosamente eliminada. Qualquer estudante de sociologia ou de
foram vistos pelo nosso autor· como verdadeiro sociólogo, isto é, antropologia, atualmente, é capaz de descobrir os erros do autor. , . .
foram vistos como produtos narurais, que não poderiam ser ar- de A Margem da História. Mas nenhum dos nossos sociólogos mais · ·..
güidos à luz de critérios heteronômicos. Isto é o que faz de Euclides festejados o excede, em autonomia mental, na capacidade de ver
da Cunha, em primeiro lugar, um sociólogo e, em segundo, um os problemas brasileiros. ·
sociólogo brasileiro. Cientista, apesar dos seus erros de técnica ttata · A visão euclidiana do Brasil é, aliás, algo a resraurar, e iinplica
dos fatos da vida brasileira procurando ·extrair da sua dinâmica uma altura do espírito que devem esforçar-sé por atingir os novos
critérios de avaliação objedva. Aprendera com um dos seus mes- sociólogos. Ela tornou dramaticamente perceptível a alienação da
tres, Taine, que o vício e a virtude são produtos como o vitríolo cultura brasileira. A campanha de Canudos, que Euclides estudou,
e o açúcar. E, assim procedendo, não anatematizou, antes estilizou é descrita em Os Ser:ões como um episódio em que esta alienação
. os nossos tipos históricos concretos. Por exemplo, descreveu os provocou conflito sangrento de brasileiros contra brasileiros, con-
"sertões" e o "sertanejo", sem nenhuma inclinação pejorativa. flito que continua a ser, hoje, em forma larvar, um dado ordinário
Tudo indica, em Euclides, uma grave compenetração do que esta da vida brasileira.
óptica envolvia de hostil à C()f.lCepçáo litorânea ou européia dos E nos dias presentes r.r;tY!l-S~ no âmbito das ciências sociais no
aspectos mais genuínos do;:Bf'àSiL Proclamou~se um "narrador Brasil uma luta decisiva entre o espírito euclidiano e o esp!rito
sincero", do qual disse Taine: litorâneo ou consular.

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X- 0
CARTILHA BRASILEIRA DO APRENDIZ .DE SOCIÓL~O PROBLEMA DO NEGRO •••

A/berro Torres e a mesriçagem No que diz respeito às relações de raça no Brasil, a obra de
Alberto Torres resiste com. vantagem à comparação com as de
Muitas restrições merece a obra de Alberto Torres, a qual, por quaisquer outros que, depois dele, trataram do assunto. Em certo
isso mesmo, não pode ser aceita em bloco. Tais restrições decorrem sentido, os que o sucederam, no trato da matéria, deram Uil). passo
principalmente do faro de ter o amor de O Problema nacional atrás. Não tem imponância, no caso, que alguns desses últimos
brasileiro (Rio, 1914) adotado uma concepção psicológica da so- tenham sabido mais e ql1e Torres tenha .errado quando afirmou
ciedade, segundo a qual os nossos males poderiam ser erradicados
que o cruzamento produzisse "a degeneração orgânica do indi-
mediante a transformação do caráter nacional. Admitiu mesmo
víduo" e, por issp, devesse "ser evitado". Tem importância, sim,
que se pudesse formar a nação d~ cl1~·a· para baixo, artificialmente,
que o nosso autor fez, como ninguém, depois dele, um esforço para
partindo da inteligência para a vontade. Negligenciou, portanto,
ver as relações de raça no Brasil, à luz dos fatos da vida brasileira,
o condicionamento da psicologia do povo brasileiro e de suas elit~
e não, literalmente, a partir das categorias da ciência antropoló-
pelas condições materiais do país e, assim, incorreu em enganos e
gica européia. Afrontou-as até, verberando a sua tendenciosidade.
erros em muitos aspecros do seu, diagnósti.::o e de sua terapêutica
Assim é que, para ele, as teorias de Weissmann sobre a distinção
do "problema nacional".
irredutível da5 raças e de O. Ammon sobre a superioridade da raça
Mas há, na obra de Alberto Torres, muitas contribuições a teutônica nada mais são do que justÜicaçóes do "direito de domi-
incorporar na formulação de uma sociologia· nacional. Ele fui nação", em apoio da "política de eipansão". Declarou ainda que
inexcedível, por exemplo, quando focalizou o caráter abstrato de
"a pretensa unidade da·raça indo-européia não é mais do que uma
nossa cultura. Neste terreno, temos de retomar o fio de seu pen-
ficção, resultante da supremacia política dos árias sobre as popu-
samento e de recolocar, no preseme, a polêmica iniciada por ele.
lações primitivas dos países conquistados" e mais: que "a posição
. Alberto Torres tocou no ponto central da sociologia brasileira,
eventual de superioridade de certos povos emana· de uma seleção
. ·... quando escreveu:
histórica, que obedece a fatores ou poderes tão artificiais quanto
AJ idéias; em que se baseiam os esrndos sociais e po-
lldcos até hoje feitos sobre a nossa vida, partem de posru- os que selecionam os indivíduos".
lados e dados analíticos ou sintéticos, infe"ridos da vida e Em consonância com estas verificações, Torres, já em sua
da evolução-de .povos de. -~i~.tência multissecular, de seu época, anteviu uma das tendências mais modernas da sociologia:
progressivo desenvolvimento em regiões densamente po-
voadas, sob a ação de fatores ordimirios de formação e
a de arquivar o concei[O de raça, que lhe pareceu um "dos mais
desenvolvimentp das velhas sociedades e civilizações. Estas abusivos". Descortina-se atualmente na ciência um grande esforço
idéias não têm aplicação à interpretação dos fen'ômenos dos dos estudiosos na busca de novo conceito que supere os inconve-
paCses como o nosso, criados por descobrimento, com so- nientes do de raça, reconhecidamente "um produto de ginástica
ciedades formadas por colonização- nem à soiJ.lção de seus
problemas. '· · . mental", como proclamava Jean Fino~. em 1905.~

. · .Na medida que obedeceu à orientação de "inferir" d~ realidade A Noção de raça seria daquelas, como tantas outras cor~ences
nacional os critérios de pensamento e de ação, Alberto Torres foi entre nós, "deduzidas da organização de outros países". É em
uma das figuras mais representativas da sociologia b~ileira. Ele virtude de sua adoção literal que "o nosso povo é caluniado pelos
é da estirpe dos "assimilativos". Cada livro seu é um mono- seus homens de letras e pelos seus homens de Estado". Nestas
bloco, isto é, tecido com um pensamento que segue sua lógica co.ndiÇõés, Albc!to Torres c~locou o esmdo das rel~ções de raça
própria e independente. Raramente cita, o que tem torn~do difícil em nível que não foi ulteri.ormente ultrapassado. Muito antes
para os exegetas a reconstituição das fontés em que se :abeberou. de Arthur .Ramos e Gilberto Freyre, o autor de A Organização

176 177
i:
CARTILHA Bll.ASII.EIIV\ DO AI'RENOIZ DE. SOCIÓLOGO X- o PROBLI!MA DO NEGRO ...

nacional mostrou a carência de fundamento científico de posições estranho na comunidade nacional: em parte, porque aos seus
como a de Nina Rodrigues que àdmitira a tese "da degeneração de autores faltaram vocação .cien.dfica..e aquela capacidade prácica. que
nossa raça e de sua inferioridade intrínseca". Diz ele em artigo do habilitou o nosso escritor a perceber o caráter "abstrato" e tenden-
ano de 1916: "as raças escuras" são as raças "pr6prias" dos meios cioso da antropologia importada. · . -'
tropicais, e Não se conclua daí que Alberto Torres tenha ignorado os
podem, se é que não devem, vir a ser raças superiores desses trabalhos de antropologia de seu tempo. Nada mais falso do que
meios, quando a extensão dos fatores sociais que estimulam
isto. Estava, ao contrário, ao corrente das ciências sociais da época
a civilização tender a fazer das sociedades negras, por exem-
plo, sociedades de Luiz Gama c de Rebouças. e, por exemplo, familiarizado com a obra do mestre de Gilberto
Referindo-se aos "antropologistas criminais", em grande voga Freyre, que foi Franz Boas. Assim é que, tanto quanto q~quer
sociólogo de hoje, distinguiu o conceito de cultura do de raça e
em sua época e em que se baseara Nina Rodrigues, escreveu em
pôde escrever observações como esta: "o tipo mental das raças
1916:
Não dou a menor fé a essa prrtmstt ciência antropológica
deriva das modalidades do meio e da vida social {1915)".
(o grifo é meu), convencido, como estou, que os fatores Por estas e outras contribuições, Alberto Torres é, sem dúvida,
sociais da evolução humana envolvem completamente o um vulto proeminenre da sociologia brasileira em toda a pleniwde
Indivíduo, a ponro de tornar quase, se não de todo, nulos da expressão.
os determinantes da evolução individual, e que os fenô-
menos de correlação das funções meneais com os caracteres Oliveira Vtãna, arianizante
orgânicos acham-se ainda muito aquém de exato conheci-
mento, para que se possa distinguir, em assuntos de imputa- Na história dos nossos -estudos sobre rdações de raça, os
bilidade, o fisiológico do patológico, o anormal do normal, homens que mais se equivocaram foram Nina Rodrigues e Oliveira
o inumano do humano. Viana. Ambos se bas~::aram no pressuposto da inferioridade do
Em 1915, certo escritor brasileiro vê em Alberto Torres um negro e do mestiço. Todavia, no que diz respeito à atitude assu-
adepto da tese da inferioridade do nosso mestiço. Esclarecendo o mida em face da realidade. nacional, distinguem-se muito signifi-
seu pensamento,· escreveu: cativamente os dois estudiosos.
essa tm abstrata áe et1lo/ogia (o grifo é meu) não cem e não Há, em Nina Rodrigues, um cerco traço de sadomasoquismo
pode ter, para cérebros de orientação pcltica, senão um
quando trata de nossa questi~ étnica, o que parece patente em
tribunal julgador: o curso ordin:lrio dos fatos, operando ao
jogo de todos os elementos e de todos os fatores do "habitat»
afirmação como esta: "a raça negra no Bras~ ... .. há de conttituir
e da vida, o jociramcnro das seleções... Ora, essa teoria da sempre urri dos fatores de nossa inferioridade como povo".S (o grifo
desigualdade definitiva das raças é a premissa maior do é meu). Segundo a inteligência deste ponto de vista, seria insolúvel
silgismo que leva à condenação do "mestiço"; e um dos mais a inferioridade do povo brasileiro. Neste, o escrito maranhense-
esforçados, justamente, dos meus trabalhos tem consis-
baiano teria visto uma espécie de lesá~ definitiva e, brasileiro que
tido ... em combater a influência dessa tese.
era, ao proclamá-la, deveria ter sentido na pr6pria carne a impu-
Atualmente, parece neces~rio reconsiderar certos aspectos da tação depressiva.
po$ição que Alberto Torres assumiu em face das relações de raça
Em Oliveira Viana, porém, os erros espetaculares que cometeu
no Brasil. De fato, depois dele, os estudos neste campo deram um
ao tratar de nossas relações de raça refletem o caráter geral de sua
passo atrás: em parte, porque, influenciados por Nina Rodrigues,
obra, a-qual--foi- um esforço para desenvolver as tendências auto-
se extremaram em considerar o negro como u~a espécie de corpo

178 179
CARTILHA BRASII.I;JitA 00 AI•RENIJIZ D~ SOCIÓLOGO X- 0 PROBLEMA DO NEGRO •••

consuutivas do país. Assim, em '!'~~io's livros, entrou no assunto modernos estudos de amropologia cultural, todos, sem exceção,
com espírito polêmico,_ isto é, com o propósito de reba;ter a "pre- imunes d~s amigos equívocos racistas.
visão .sombria" de Lapouge, segundo o qual o Brasil est~ia d~i:i- Tudo indica ter sido Oliveira Viana vítima da extremação de
nado a ser "um imenso Estado· negro". 5• ' uma de suas qualidades: a de fazer da sociologia instrumento de
Oliveira Viana, embora adotando o critério das "seleções ét- autodeterminação nacional. Não hesito em dizer que esta orienta-
ni~" de Lapouge, opõe-lhe a tese da "evolução ariariizanre" da ção, digna de tanto apreço, é perigosa quando não se está de posse
população brasileira: Para ele, a inferioridade--do-no-ssO-povo; re- de instrumentos seguros de conhecimemo cientifico. Ora, no que
sultante de sua componenre negra, era passageira. Viu as nossas diz respeito ao nosso problema étnico, a obra de Oliveira V1ana foi,
relações de raça não como uma situação definitiva, mas como algo por assim dizer, uma reação infeliz do orgulho nacional ofendido.
em processo. Neste sentido, escreveu: No caso, em va. de se. fazer ciência, fa.-se apologia.
o qumJttmr do sangue ariano esrá aumentando .rapidamente Um livro como Raça e assimilação (São Paulo, 1932) pode
em !)osso povo. O~a, esse aumen[O do qtilllltlrm ariano há ser uma defesa, não um trabalho científico. A crítica de Arthur
de fatalmente reagir sobre o tipo anrropol6gko dos nossos
Ramos8 aos estudos do escritor, no que se refere às relações de raça,
mestiços, no semido de modelá-los pelo tipo do homem
branco. 6 é procedeme: esrão eivados de afirmações apriorísticas, "suas idéias
não tinham significado científico, porém político". Ninguém
A precariedade científica de enunciados como este e~á hoje ao
perde nada em ler as páginas de Arthur Ramos sobre o assunto,
alcance de qualquer colegial. Oliveira Viana confunde aí o bioló-
as quais, de parte algumas inferências exageradas, são justíssimas.
gico com o social duplamente. Primeiro, enquanto adm.ite que um
Surpreende-me, entretanto, que Arthur Ramos não tivesse sido, na
quantum sangüíneo possa ser responsável por uma ~elhoria de
caráter cultural. mesma medida, rigoroso com Nina Rodrigues, também racista, e,
além disto, autor de obra sem importância científica, apesar de
Segundo, quando interpreta o incre~ento crescente ela propor-
conter alguns úteis registros históricos.
ção de "brancos" na composição populac_ional do país como um
processo biológico primário. . De fato, o branq~eamento da população brasileira, a ser efetivo,
não é um processo biológico, senão secundariamente. Em parte, é
Dispenso-me de maiores come?_tá~ios sobre o fato inequívoco devido à conhecida tendência de considerável contingente de pes-
de que a "cultura", como repertório de objetos e símbolos, cons- soas de cor preferirem casamento com pessoas mais claras, ten-
titui uma realidade e>.:na-somácica, isto é, algo que cada indivíduo
dência que registrei em pesquisa realizada no Distrito Federal,
tem de adquirir na e pela convivência.
cujos resulmdos aliás confi~mam observações procedidas em outras
O que, no caso, merece particular atenção é a tese do. branquea- unidades administrativas e ainda nos Estados Unidos, segundo
mento do povo brasileiro, A sua adoção por Oliveira Viana, nos Hersokvits. Por outro lado, as pessoas claras, por força do precon-
termos acima enunciados, é desconcertante e nisto revela cerra ceito, são influenciadas rambém no sentido d~ evitarem pessoas .
ambivalência no sociólogo fluminense. Quem acertou tanto na pigmentadas como cônjuges. Acrescente-se a isto o saldo do nosso
crítica do caráter transplantado da cultura brasileira, não deveria, balanço migratório, predominantemente constituído de elementos
logicamente, incorrer nesse engano. A questão se tornará mais brancos. Finalmente na medida que o branqueamento é apurado
desconcenante se o autor reafirmar essa tese em livro de sua autoria por meio de estatísticas, deve-se levar em conta a inclinação de
que está sendo anunciado (Seleções étnicas), pois no último período muitos brasileiros para se declararem, nas fichas recenseadoras,
de sua vida, Oliveira Viana 7 foi muito permeável à influência dos mais claros do que são realmente.

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·······-:.:.:::::;:

CARTILHA BRASIU!IRA DO AI'RENDIZ DE SOCIÓLOGO X- 0 PROBLEMA DO NEGRO •••

A tese da "arianização:·. sustentada por Oliveira Viana, é uma tentação de tratar o negro -no Brasil como elemento exótico e
racionalização do preconceito 'de cor vigente em nosso pafs. Na petrificado. Tratou-o como brasileiro.
verdade, diz-se comumente: "no Brasil, a questão racial está sendo
Nina Rodrigues, apologista do branco
resolvida democraticamente, sem conflitos, pois que a população
se torna cada. vez m:ds clara". Nessa ideologia, entretanto, se Rigorosamente, Nina Rodrigues seria, na sociologia brasileira,
contém, de maneira muito sutil, a discriminação de cor. Pois, por escritor de segunda orderri~ Dele, porém, fizeram um cientista, um
I. que é necessariamente melhor que a nossa população se embran- "antropólogo", e, mais que isto, o chefe da chamada "escola baia-
queça? Porventura, numa escala objetiva de valores, aquela ten- na". Arthur Ramos considera o escritor maranhense~baiano um
dência deve ter um sin:.l positivo? Por que é tranqHilizadorn aquela sábio, um mestre, portádor de "melhor formação científica" do que
Euclides da Cunha c Sylvio Romcro. Esta lcgeri.da se fucou tanto,
tendência do nosso processo demográfico? Há, decerto, nos
entre nós, que hoje é quase temeridade remar desfazê-la. O estudo
refolhos dessa ideologia, verdadeiramente nacional, um preconcei-
de como a chamada "escola baiana" veio a ser impingida é um
to em forma velada. Para liquidá-lo, evidentemente, não se deverão
capítulo esclarecedor da socioantropologia do negro. Restrinjo-
inverter os termos da ideologia, proclamando-se, por exemplo, que
me aqui, entretanto, ao exame sumário da obra de Nina Rodrigues,
fosse desejável a "negrificação" da população nacional. Seria esta
no que diz respeito às relações de raça no Brasil.
atitude uma espécie de racismo contra racismo.
Inicialmente devem ser lembradas algumas 'contribuições do
Mas, na liquidação desta forma larvar de preconceito, é legf- escritor. Sem dúvida, ele prestou grande serviço aos estudiosos,
cimo utilizar o clássico procedimento da ironia. Foi o caminho que exclusivamente no campo da crônica. Graças a de, sobretudo,
seguiram, entre nós, alguns intelectuais negros e mulatos.' É deles t~~~~- h~~- idéia-da diversidade de proveniência dos africanos que
a iniciativa de eleger "misses", rainhas de beleza de cabelo duro. foram trazidos para o Brasil e outras informações preciosas sobre
Várias veze$; na capital da República, fizeram suas "rainhas" e suas as diferenças culturais entre os negros. Além disto, são-lhe devidas
"bonecas de piche"'. E até um jornal mantiveram, em que feste- algumas observações úteis sobre o nosso sincretismo rdigi~so_ e
jaram as celebridades de cor. 10 Os preconceituosos viram nisso . ligüíscico. Como fonte de informação histórica, portanto, é tndts-
ódio. Não era. Era apenas sorriso inteligente, processo brando, pensável a consulta à obra çl_~_Nina Rodrigues, no estudo de nossas
cordial, de· "desencanramenro" da brancura e de reeducação dos relações étnicas.
nossos brancos. Alguns aficionados de nossa sociologia par coeur Do ponto de vista cienrífico, porém, não é possível colocar
viram e vêem nisto racismo às avessas. Pudera: a tática em apreço Nina Rodrigues no mesmo nível de Eudidés da Cunha e Sylvio
não estava receitada por nenhum socióiogo estrangeiro; tinha que Romero. Estes, como aquele, utilizaram conceitos tendenciosos
ser condenada, portanto, por esses decoradores. da sociologia e da antropologia de importação. Mas, enquanto
Voltemos a Oliveira Viana. Suas vistas sobre o nosso problema Euclides e Sylvio souberam desconfiar de tais conceitos e assumi-
étnico se destinam a uma das gavetas do arquivo de nossa socio- ram, em face do meio brasileiro-,-atirude indutiva, Nina Rodrigues,
logia. Documentam o nosso preconceito. Não escondo a minha ao contrário, foi verdadeiro beato da ciência importada e, por sua
admiração pelo escritor. Foi um mestre apesar dos seus erros. Ao atitude dogmático-dedutiva, era impermeável às lições dos fatos da
lado de Sylvio Romero, Euclides da Cunha e Alberto Torres, vida nacional.
integra a corrente autonomista do nosso pensamento sociológico. Não teve espírito científico. Foi beato e copista. Não cita es-
Mesmo errando ao focalizar o tema - raça - soube vencer a critor estrangeiro sem empregar adjetivo laudatório. Um dos seus

182 183
X- 0 PRO!i~MA DO NEGRO •••
.CARTILHA BRASILEIRA DO AI'IU!NDJZ: DE SocióLoco;

sem noção da mais elementar urbanidade, clamamos a altos


livros, As Raças hum4rzas e a responsabilidade penal no Brasil (Bahia,
brados que a nossa decadência provém da incapacidade
1894) é dedicado a Lombroso, Ferri, Garofa!o, Lacassagrie e Corre, cultural dos lusitanos ... e ni11gulm af áescobrr todAvia uma
. "em homenagem aos relevantes serviços que os seus trab~os estão pnrte de oft1ua pessoal que lhe possa caber (o grifo é ~eu).U
destinados a prestar à medicina legal brasileira". Por outro lado, poucas Ünhas adiante, lastima que a campanha
Aliás, estas manifestações· de êxtase e esta pacholic~ definem pela exrinção do tráfico se rev6dsse de "forma toda sentimental"
um dos traços característicos dos mais proeminentes epfgonos do "emprestando" ao ... ncgro a organização psíquica dos povos bran-
que, entre o pequeno círculo de etnólogos brasileiros, s~ tem cha- cos mais cultos", "qualidades, sentimentos, dotes morais ou idéias
mado de "escola baiana". Eles gostam, como cerra figuri do conto que ele não tinha, que ele não podia ter". Sem comentários!
de Machado de Assis, de apresentar-se na companhia de: escritores
estrangeiros. Dão gritinhos, quando isto acontece. E ~ mais re- O povo inglês é considerado por Nina Rodrigues um "tipo
cente rebento dessa "escola" está fazendo o seu dibut, em nossos legendário de impassibilidade e compostura" e a Inglaterra uma
dias, precisamerite com esses i:nlques c invocações. : nação benemérita, pois que, no século XIX, "encetou a campanha
A ciência, para Nina Rodrigue~. foi uma questão de a~toridade. gloriosa da supressão do tráfico, monta cruzeiros, policia os mares
Como um escolástico, não discutia os faros com faros, ;mas com e, criando, com dispêndios enormes, enormes esquadras, torna a
trechos de livros, estmngciros sobrerudo. O negro e o m:estiço são extinção do comércio humano uma questão de honra. .. que a leva
inferiores porque... assim está escrito nos livros europeus. Leia- a cabo com a mais decidida e meritória energia", 11 Do ponto de
se, por exemplo, o livro eirado acima. É um verdadeiro ·caderno vista desra apologética do branco, o problema do negro passa a.
de deveres colegiais. "Prova-se'', ai,_._a. incaracidade do negro para consistir, entre outras coisas, em "diluir" os nossos negros e mes-
a civilização, invocando-:se a autoridade de escritores estrangeiros, tiços ou em "compens:i-los por um excedente de população branca,
entre Ós quais Abel Havelacque, que teria esrudado "o{~gi~trai­ que assuma a direção do pall'. Considerando "nociva à naciona-
menre" a questão, "com rigor científico e a isenção de ânimo que lidade" a influência da raça negra, o nosso auto.r não esconde as
não se poderá legirimamente contesrar". Em outro lan~e, docu- suas apreensões quanto ao futuro do Brasil, de vez que "as vastas
menta suas opiniões em "luminoso parecer de segura aAálise psi- proporções do mestiçamento... entregando o país aos mesóços,
cológica, firmado pelo egrégio alienista Motet .e ..o..sábio;p.rofessor acabará privando-o, por largo prazo pelo menos, da direção su-
Brouardel, insuspeitos ambos por títulos numerosos". Ou então prema da Raça Branca." Finalmente me seja permitido transcrever
fala assim: "como demonstra Spencer, tão conhecida imprtvidência ainda o seguinte trecho de O problema da raça negra na América
dos selvagens, t~m a sua origem no escado emocional dbles". No : i
Portuguesa (1903);
dia em que se fizer um esmdo da parologia da vida imel~ctual no O que mostra o estudo imparcial dos povos negros ~
Brasil, uma obra como a de. Nina Rodrigues será exceleiue docu- que cmrc clk-s existem graus, há uma escala hierárchica de
mentário. Quem estiver inceressado nisto, não deixe de 'examinar cultum e aperfeiçoamento. Melhoram e progridem: são;
especialmente os capítulos IV e V do livro supracitado.! pois, aptos a uma civilização futura. Mas se ~ impossível
di:LÇr se css:1 civilização há de ser forçosamente a da raça
Mas a beatice de Nina Rodrigues não para af. Foi ainda branca. Jc111onstm ainda o exame insuspC:Í[O dos factos que
admirador irrestrito dos povos europeus e verdadeiro nÜstico da é cx~rcm:uucntc morosa, por parte dos negros, a acquisiçáo
raça branca, na sua opinião, "a mais culta das seções do gênero da civilização européia. E dcante da necessidade, ou civi-
humano". Assim verbera a "desabrida incolerância para com os lizar-se de prompto, ou capitular na luçea e concorrência
portugu~es", acentuando que,
que lhes movcnt os povos brancos, a incapacidade ou a

.184 185
CARTILHA BRASII.Ii:IRA DO AI'RilNDIZ DE SOCICLOGO X- 0 PR08l.f-.MA DO NEGRO •••

morosidade de progredir, por parte dos negros, se tornam O cerro é que, no campo dâs ciências sociais, a melhor home-
equivalentes na pratica. Os extraordinários progressos da
civilização européia entregaram aos brancos o domínio
nagem-·que-se- pode prestar :ts qualidades do cidadão comum Nina
do mundo, as suas maravilhosas 11pplicações industriacs Rodrigues é ftzer silêncio a respeito de sua obra.
supprimirnm a dismncia c o rempo. lmpos5fvci conceder,
pois, aos negros como em geral aos povos fracos c retar- O Negro co1no ft'Tnn

datarios, lazcrcs c delongas para uma acquisição muito lenta .. . .Ç?m Nina Rodrigues, funda-se propriamente a corrente bra-
e remota da sua emancipação social. Em rodos os tempos sileira de estudos so•:iológicos e antropológicos tendo p~r tema o
não passou de utopias de philanthropos ou de planos am-
negro. Nina Rodrigues erã..racista e a reação contra seu biologis·
biciosos de: poderio sectário a idca de transformar-se uma
parte de nações às quaes a necessidade de l'rogredir mais do mo foi ini~iada quando ele ainda vivia, isto é, em 1902. Naqude
que as imiraçôcs monomaníacas do liberalismo impõe a ano, o brtlhante médico baiano Oscar Freire escreveu sua tese
necessidade social da igualdade civil e polltica, em tutora "Etiologia das Formas Concretas da Religiosidade no None do
da ourra p:me, destinada à imerminávcl aprendizagem Brasil", em que procurou mostrar as confusões de Nina Rodrigues
-em vastos seminarios ou officinas profissionais. A geral ao imputar à raça manifestações que decorreriam de fatores sociais.
desappariçlio do índio em toda a America, a lenta e gradual
sujeição dos povos negros 1l administração intelligente a
Osc:1r Freire chega mesmo a A.CEfender a mestiçagem, 0 que, na
explorada dos povos brancos, tem sido a resposta prática a époc:1, signific:1va muita audácia de pensamento, pois corria, entre
essas divagações sentimentaes. os doutos, a idéia dos efeitos patológicos do cruzamento de indi·
vfduos de raças diferentes. Vale, porém, notar que, apesar do seu
Senti a necessidade de documentar fartamente as afirmações
liberalismo, Oscar Freire viu o negro naquilo em que era portador
acima para neutralizar a impressão que algum leitor possa ter a
de traço cultural esquisito. O subtítulo de sua tese é "introdução
respeito de quem escreve estas linhas, pois sustento que Nina
a um estudo de psicolo.gia criminal".
Rodrigues é, no plano da ciência social, uma nulidade, mesmo
Mas o continuador. de Nina Rodrigues que alcançou maior
considerando·se a époc:1 em que viveu. Não há exemplo, no seu
tempo, de tanta basbaquice e ingenuidade. Sua apologia do branco nororiedade foi Arrhur Ramos. Como o seu patrono, Arthur
Ramos, homem aliás de grandes méritos, sob vários pontos de
nem maliciosa é, como fôra a de Rosenberg (na Alemanha). É
vista, jamais se situou em ci~ncia. Nesre te~eno, não atingiu a
sincera, o que o torna ainda mais insignificante, se se pretende
maturidade. Nenhuma obra sua reflete unidade teórica. No plano
considerá·lo sociólogo ou antropólogo. Há noticia de que ele foi
da ciência, foi um sincrético em todos os seus livros sobre o negro,
homem bom, professor digno e criterioso, mas os seus amigos,
cais como: O negro ·brfl!ikiro (1934); O fo'Jklore negro do Brasil
pretendendo fazê·lo passar à história como cientista, fizeram· lhe
(1935); As Culturas negras no Novo Mundo (1937); A aculturllfiúJ
verdadeira maldade, pois a sua obra, neste particular; é um monu- ·
negra no Brasil (1942) e a lntrodtlfáo à antropologia brasileira
mento de asneiras. Por outro ·lado, é inacreditável desprezo ao
(1943 e 1947, respectivamente, primeiro e segundo volume.;).
público brasileiro atribuir-se a um cidadão como Nina Rodrigues
É ainda Arthur Ramos um dos responsáveis pelo prestígio que
lugàr egrégio enue homens como Sylvio Romero e Euclides da
ainda gozam entre nós as correntes nort~americanas de .. socia.
C~ha que, apesar dos seus erros, deram realmente contdbuições
logia e de antropologia~ de nefasta influência entre os especialistas
efetivas no campo das ciêl1cias sociais no Brasil. Não te.riam os
em formação, quando adoradas de maneira literal. Arthur Ramos,
admiradores de Nina Rodrigues extrapoiado para o campo das ciên·
continuando a linha de Nina Rodrigues, pelo prestígio que veio
das sociais a sua possível autoridade no C:lmpo da medicina legal?
a ter nos meios imelecruais, perturbou, na verdade, a evolução do

186 I87
CARTILHA BJt.ASH.EmA oo Af>fu:_NOJZ oE SocJOLoGo X- 0 PROBLEMA DO NEGRO ...

pensamento socioamropológico genuinamente brasileiro, ;encami- da aculturação e não percebeu que da teria limite: não pode fazer
nhando-se para o beco sem safda do ecletismo. Fazia, sem 'rebu~os, do homem de cor um auwflagelado, dividi-lo interiormente, como
profissão de fé na "fecundidade" da conciliação das dÓutrinas. acontece em toda a parte onde áreas de populações coradas estão
"Cada vez mais me convenço - dizia em O Negro brasileiro (3• sendo colonizadas ou politicamente dominadas por contingentes
edição, 1951) -de que as incompatibilidades metodológicas se europeus. Faltou a Arthur Ramos a iniciação em certa sociologia
reduzem a questões de nomenclarutã:.. ". da sociologia ou da ciência em geral- o que o teria tornado alerta
Infelizmente, ele não· rem mesmo a desculpa de ter~ siao tal para o fato de que, em grande parte, a antropologia européia e
orientação imperativo da época e do meio em que viveu;. pois· já norte-americana a que ele aderiu, sem crítica; é um "caso de
Euclides da Cunha, em 1902, verberava a aceitação p~iva da cupidez." Pesa-me dizer que, em alguns aspectos, a obra de Arthur
ciência estrangeira ·e assumira, em face dela, posição crítico- Ramos não escl eximida de charlatanismo.
assimilativa. Em Os Sarúrs, por !:xcmplo, n1í<L sc_ ..:;J.I.f_gr::ç~~de .o Ainda nesta corrente da rematização do negro brasileiro se
autor em nenhuma espécie de pros:ipia cientificista. Ao contrário, incluem Jois certames. O primeiro, em 1934, na cidade do Recife,
Euclides deteve-se na consideração direta da "figura dos nossos tendo sido seu principal organizador o sociólogo Gilberto Freyre.
patrícios retarda~ários", desdenhando do que chamou "os garbosos Seguiu-se a este, em 1937, na Bahia, organizado por Aydano do
neologismos étnicos". Por outro lado, não tomou o bonde da Couto Ferraz e Edison Carneiro, o 22 Congresso Afro-brasileiro.
suspeidssima anrropometria,· como o seu contemporâneo Nina Ambos estes conclaves foram predominantemente acadêmicos ou
Rodrigues, e evitou enredar-se em "fantasias psicogeométricas" descritivos. Exploraram o que se pode chamar de temas de africa~
que, dizia, "hoje se exageram num quase materialismo filosófico, nologia, bem como o pitoresco da vida e das religiões de certa
medindo o ângulo facial ou ·traçando a nom1a verticalis dos ja- parcela de negros brasileiros. Apesar da participação de elementos
gunços". E acrescentava: "se os embaraçássemos nas imaginosas de cor, esses dois foram congressos "brancos" pela atitude que
linhas dessa "topografia psíquica", de que tanto se tem abusado, assumiram em face da questão, como também pelos temas foca-
talvez não os compreendêssemos melhor". lizados, remas de interesse remoto do ponto de vista prático. Mas
Em seus primeiros trabalhos sobre o negro no Brasil; Arthur isto é dito aqui sem nenhum intuito de empequenecer tais Con-
Ramos utilizou a psicanálise. Depois aderiu à antropologia culruraJ gressos Afro-brasileiros. É de justiça reconhecer que eles desbra-
e adorou o approach suspeitfssimo da aculturação. Em 1942, varam o caminho para os movimentos atuais.
publicou A Aculturação negra rzo Brasil Que seria, em última Nina Rodrigues, Oscar Freire e Arthur Ramos e esses con-
análise? Um processo de preservação e expans.'io da "brancura" de gressos ilustram com niríde-L o que, no domínio das ciências sociais
nossa herança cuhural. Mas, a partir. da perspectiva do negro, a e da crônica histórica, se ch:tmou, entre nós, de "o problema do
aculturação se revela um pomo de vista que merece muitas re- negro", Para o propósito que me inspira, neste estudo, não distingo
servas. Como um caso particular da europeização do mundo, a aqueles escritores de outros como Debret, Maria Graham, Rugendas,
aculturação é, talvez, inevitável, pois que as populações de origem Koster, ·Kiddcr, Manoel Qucrino, Rogcr Bastide, Gilberto Freyre
não européia jamais poderiam participar, com vantagem e digni- e 5eu imimdores. Há, certamente, entre eles, diferenças de método,
dade, da civilização universal, em sua forma contemporânea, sem de técnica científica. Todos, porém, vêem o negro do mesmo
a posse e o domínio de grande acervo de elementos culr~rais do ângulo. Todos o vêem como algo estranho, exótico, problemático,
Ocidente. Porém, Arthur Ramos adotou literalmente o approach como não-Brasil, ainda que alguns P,roresrem o contrário.

188 189
Ainda entre esses estudiosos, incluo os mais recentes: Donald especifi.:a? Obj~ri,-.1men~e; não. OI!Sde a época colonial, grande
Pierson, Charles Wagley, Florestan Fernandes e Thales de Azevedo. massa de neoros e mestiços ünha abraçado a religião predominante
Como os seus antecessores, continuam percebendo, descortinando no Brasil - ~ a católica. Quando, no fim do século passado, N'ma
no cenário brasileiro - o contingeme corado, a mancha negra, Rodrigues falou, pela primeira vez, no domínio da ciência nacio-
detendo-se sobre ela, a fim de, sint ira 11c studio, c.~tudá-la, explic.i- nal, em problema do negro, a parcela de homens de cor de religião
la, às vezes, discerni-Ja, quando, em elevadas posições da estrutura católica era a mais significativa. Mais ainda, já na época de Nina
... , social, quase se confunde com os mais claros. Anota-se, em tais Rodrigues as sobrevivência religiosas, como ainda hoje, caracteri-
estudos, a existência de negros e mesciços no exerdcio de profissões zavam o comportamento das classes pobres, aí se incluindo tanto
liberais, participando das elites, unidos a cônjuges claros. Um des- claros como escuros, muito embora os claros participassem dos
tes autores jovens referiu-se mesmo a escritos sociol6gicos sobre cultos primitivos mais como aficionados ou dien.ces do que como
o negro de autoria de um estudioso negro como documentos oficiantes de práticas sagradas.
"curiosíssimos." Tem sido, rambém, considerada com freqüência a crtmma-
li~~e_<!9~_eS!'E: Jerão, porém, o negro e seus descendentes crimi-
Sociologia do negro, ideologia da brancura
nalidade específica? Objetivamente, ainda não.
Em prindpio, o negro, no domínio da sociologia brasileira, foi A maior freqüência de indivíduos pigmentados na estatística de
problema porque seria portador de rraços culturais vinculados a
certos crimes decorre necessariamente de sua predominância em
culturas africanas, pelo que, em seu comportamemo, apresenta
determinadas camadas sociais. Assinala um fenômeno quantitativo
como sobrevivência. Hoje, cominua a ser assumo ou problema,
·e riãó qualitativo. Por outro lado, careceria de base objetiva a afir-:
porque tende a confundir-se pela cultura com as camadas mais
mação de que o neg: 0 no B-rasil manifestasse tendências especí-
claras da população brasileira.
ficas essenciais na vida associativa, na vida conjugal, na vida profis-
Neste ponto, é oportuno perguntar: Que é que, no domínio de sional, na vida moral, na utilização de processos de competição
nossas ciências sociais, f.'\z do negro um problema, ou um assunto? econômica e política. O ·f.1to é que o negro se comporta sempre
A partir de que norma, de que padrão, de que valor, se define como essencialmente cml)O brasileiro, embora, como o dos brancos, esse
problemático ou se considera tema o negro no Brasil? Na medida comportamento se diferencie ~egundo as contingências de região
que se afirma a existência, no Brasil, do problema do negro, que
e estrato social.
se supõe devesse ser a sociedade nacional em que o dito problema
O negro é rema, é assunto; -{~bjeto de registro, no Brasil, em
estivesse erradicado? ·
todas as situações. Um dos mais recentes livros sobre o negro na
Na minha opinião, responder a estas perguntas corresponde a
Bahia13 se detém preci~amenre registrando-o em posições de relevo
conjurar uma das maiores ilusões da sociologia brasileira.
na estmtura social e econômica. O livro em apreço exibe várias
Determinada condição humana é erigida à categoria de proble- fotografias ein que aparec:em negros médicos, homens de neg6ci~,
ma quando, entre outras coisas, não se coaduna com um ideal, um universitários, pinrorc:is, composirores, de resro, situações verdadei-
valor ou uma norma. Que a rotula como problema, estima-a ou ramente comuns no Est:ido.âa Bahia.
a avalia anormal. Ora, o negro no Brasil é objeto de estudo como
. Observa-se que, e.rrt ~Ç>SSOS dias, graças ao desenvolvimento
probiema na medida que discrepa de que norma ou valor?
econômico e social do pa~s', ·e~ementos de cor se encontram, de alt.o
Os primeiros estudos no ~mpo trataram das formas de reli-
a baixo, ein todas as camadas ~ociais, e s6 em algumas instituições
giosidade do negro. Terá, porém, o negro, entre nós, religião . . .

190 191
CARTILHA BRASIUclltA DO APilliNDIZ 01,; SOCIÓLOGO
X- o PROBLEMA DO NEGRO ...

nacionili vigoram ainda forres restrições para o seu acessb a deter- masculina das instituições do Ocidente não seria necessário apelar
_minadas esferas. para o caso do direito. Lembremos que até no donúnio da deco-
Nestas condições, o que parece justificar a insistência:com que ração estética do corpo da mulher, é o homem, em larga margem,
se considera como problemática a situação do negro no Brasil é o um ditador de critérios, ditador aliás obedecido docilmente~ A1
fato de. que de é portador de pele escura. A cor da pele do negrq estão para comprovar isto os famosos figurinistas e cabeleireiros de
parece constituir o obstáculo, a anormalidade a sanar. Dir-se-ia Paris e Nova Iorque ...
que na cultura brasileira o branco é o ideal, a norma, o valor, por Sabe-se que na planície norte·americana muitas tribos eram
excelência. sedentárias, baseando sua subsistência no trabalho agrícola, num
E, de faro, a culrura brasileira tem conotação clara. Est~ aspecto ·regime ec~nômico em que as mulheres detinham grande soma de
só é insignificante' aparememenre. Na verdade, merece apreço poder. As divindades destas tribos eram preponderantemente femi-
especial para o entendimento do que tem sido chamado, pelos ninas e ·se relacionavam com a fecundidade c as vicissitudes das
sociólogos, de "problema do negro". safras. Quando os indígenas aprenderam a usar o cavalo, iniciou-
Constitui, hoje, noção corriqueira da ciência a de que o pro- se e tomou vulto a mudança radical das·bases materiais das tribos,
cesso biológico e o cultural se realizam em planos diferences. Parece as quais adoraram a vida nômade. A caça ganhou decisiva impor-
definitivamente aceito como resultado da observação ~~entifica­ tância, as instimições se alteraram e, inclusive, as divindades, por
mente controlada que a culrura é realidade superorgânica e, exemplo, passaram a revestir-se de feições masculinas, divindades
portanto, produto da convivênCia humana ou do trato dq homem vinculadas à coragem, à guerra, à iniciativa.
com a natureza e nunca uma espécie de dom, algo que e.mana de É, portanto, legítimo afirmar com Simmel que a cultura é uma
qualidades biológicas inatas. compenetração de ekmentos históricos e biológicos. Que ela não
Mas, partir daí, para não admitir o reflexo na cultura e na é, por exemplo, produto neutro, do ponto de vista sexual, podendo
sociedade de cerras acidentes biológicos, vai um grosseiro erro de ser, de fato, masculina ou feminina. .
observação cient!flca. Na verdade, os acidentes biológieos, como O ingrediente biológico, a partir do qual a cultura elabora
todos os acidentes naturais, refratam-se ·r. a cultura. Natureza e alguns dos seus elementos, faz-se bastante nítido nos valores esté-
cultura se interpenetram. ticos. Com efeito, o valor estético primário para todo o povo au-
Um sociólogo alemão, Georg Simme/ 14, meditando sobre as têntico é o vivido imediatamente. Os padrões estéticos de uma
origens da cultura ocidemal, concluiu que ela era masculina. No cultura autêntica são estilizações elaboradas a partir da vida comu-
ocidente, constituem obra do homem a inJl'1stria, a. ciênci:~, o nitária. Uma comunidade de indivíduos brancos terá de erigir à
comércio, o Estado, arcligião. As instituições da cultura ocidental categoria de ideal de beleza humana o homem branco. O ideal de
assinalariam a prepotência do homem. Aí o vi'iroliltse-confunâe beleza no Japão, na China, na Índia, reflete realidades étnicas,
mesmo com o "humano". Simmel ilustra esta identificação do típicas de cada um desses países. Por outro lado, o ripo de beleza ., ·
particular com o genérico, reportando-se à alegação corrente de para as sociedades tribais, qu.e se mamêm ainda íntegras do ponto
que as mulheres' carecem de senso jurídico ou se inclinam sempre se
de vista cultur.ll, desprende sempre de condições étnicas parti-
para assumir atitudes contrárias ao direito. Tal contradição, enrre- culares. As divindades das tribos africanas são negras. No século
ranto, seria apenas oposição ao direito . masculino, único que XIV, o geógrafo lbn Barouta deplorava o desprezo pelos brancos
possuímos, e não ao direito em geral. Mas para ilustrar a origem que demonstravam os negros s~daneses. A mesma aversão se. re-

192 193
I
CARTilHA BRASILEIRA DO APIU':NDIZ DE SOCICI.OGO
X- O PR.::rsu.'\.t:\ DO NEGRO•••
...
gistta entre os índios pele-vermelha. Os Bantus "não civilizados .. , J, ~~n~ p~~ológico o resp'Jnsável pela ambivalência de certos nativos
informa S. W. Molema, têm profunda aversão a toda pele diferente na avaliação estética. o· desejo-de ser branco afeta, fortemente, os
da sua. Os nativos da Melanésia, segundo Malinowski, acham os nativos governados por europeus. Entre negros, R R Moton regis-
europeus horríveis. Certos canibais teriam repugnância pela carne trou o emprego do termo "branco" como designativo de excelência
do homem branco, que eles acham não "amadurecida" ou "sal- e o hábito de dizer~se de um homem bom que tem um coração
gada" e, conforme relatos de mais de um etnólogo, alguns povos "branco". Este "desvio existencial" tem sido observado tecnica~
africanos associam à pele branca a idéia "de descoloração de um mente nos Estados Unidos, no Brasil e em toda a parte em que
corpo que permaneceu muito tempo dentro da água". O pastor populações negras estão sendo euEP.eizadas. O negro europeizado,
Agbebi refere que, para muitos africanos, o homem branco exala via de regra, detesta mesmo referências à sua condiç~o racial. Ele
um odor fétido, desagradável ao olfato. E Darwin, que viajou tende a negar-se como negro, e um psicanalista descobriu nos
muito e visitou diversas parres do mundo, escreveu: ... "a idéia do sonhos de negros brasileiros forte tendência para mudar de pele.
que é o belo não é nem inata nem inalterável. Constatamos isso O que escreve estas linhas teve ocasião de verificar, quando reali-
;.-
no fato de que homens de diferentes raças admiram entre suas zava uma pesquisa, o vexame com que certas pessoas de cor
;:: respeàivas mulheres tipos de beleza absolutamente diferences." 15 respondiam a um questionário sobre preconceitos raciais. Situação
!~ ~
::: As categorias da estética social nas culturas aucênticas 16 são esta análoga à que é narrada por Kenneth e Mamie Clark numa
:: ~ I
sempre locais e, em última análise, são estilizações de aspectos pesquisa sobre preconceitos entre crianças negras norte-americanas
:!.: particulares de circunstância histórica determinada. Tais categorias
;;: de 3 a 7 anos, que consistia em solicitar-lhes que escolhessem, a
!~:
são assimiladas pelo indivíduo na vida comunitária. Aprende-se diversos propósitos, bonecas escuras ou claras. De modo geral os
:~~
~.,.
a definir obelo e o feio por meio da convivência quotidiana, do autores registraram entre as crianças a preferência pelo branco.
processo social. Cada sociedade, na medida que se conserva dotada Vale notar que, algumas, em face de certas perguntas em que se
de autenticidade ou de integridade, inculca, em cada um de seus tematizava a cor preta, se perturbaram a ponto de prorromperem
membros, pela aprendizagem, padrões de avaliação estética, os em ·soluços, não suportando enfrentar. o tema.
;.:
·=- quais reforçam as suas particularidades. Cada sociedade alcança, · Ora, o Brasil, como sociedade europeizada, não escapa, qtianto
;:~.
assim, a sua própria sobrevivência, enquanto, pelos seus mecanis-
;: ~ à estética social, à patologia coletiva acima descrita. O brasileim,
mos institucionais, consegue fazer cada indivíduo identificado com
~) em geral, e, especialmente, o !errado, adere psicologicamente a um
a sua moldura histórica e natural. É assim que me louvaria em KarJ padrão estético europeu e vê os acidentes émicos do país e a si
Vossler 17 para dizer que toda a vida orgânica e os produtos mentais pr6prio, .do ponto de vista deste. Isto é verdade, tanto com refe-
e materiais do homem estão empregnados da natureza circundante. rência ao brasileiro de cor como ao claro. Este faro de nossa psiqr..
Todavia, o processo de europeização do mundo tem abalado os logia coletiva é, do ponto de vista da ciência social, de é:aráter pato~
.:· alicerces das culturas que al!;:ança. A superioridade prática e ma~ lógico, exatamente porque traduz a adoção de critério .artificial,
terial da cultura ocidental face às culturas não européias promove, estranho à vida, para a avaliação da beleza humana. Trata~se,
ft? nestas últimas, manifesr~ções patológicas. Existe uma patologia aqui, de um caso de alie~a.ç~o que ~~~s_iste em renunciar à indução
cultural que consiste, precisa~ente, sobretudo no campo da esté- de critérios locais ou regionais de julgamento do belo, por su~ser.-·
tica. social, na adoção pelos indivíduos de determinada sociedade, viência inconsciente a um presdgio exterior. ·
de padrão estético ex6geno, não induzido diretamente da circuns- Esta alienação do padrão de nossa estética social é particu-·
tância natüral e historicamente vivida. I!, por exemplo, este fenô- larmente notória quando se considera que foram soci6logos ·e

194 195
X- 0 PROBLEMA DO NEGRO •••

antropólogos do Estado da Bahia, por assim dizer, de ~a terra até agora, desde que os estudos da questão que se rotulam de
· de_n~ros, de um Estado em que o contingente de brancós é, ainda sociológicos e antropológicos não são mais do que documentos
hoje,·· minoritário, foram eles que se extremaram no estudo do ilustrativos da ideologia da brancura ou da claridade.
chamado "problema do negro no Brasil". Isto acontece desde Nina Rodrigues até Arthur Ramos, ·e os
O que explica, portanto, esse "problema" de nossa ciêp.cia social atuais escudos sobre relações de raça, patrocinados pela UNE5C0. 19
é uma alienação, uma forma mórbida de psicologia wletiva, a É cerro que os modernos sociólogos brasileiros não definem mais ·
·. patológica social do brasileiro e do baiano, principalmente. Pode- . o problema em termos de raça como faria Nina Rodrigues em
se dizer, no caso, que se está diante daquilo que Erich Fromm 1890, não o consideram expressamente como o problema de diluir
chama socially patterned defoct, de um defeito socialmente padro- o contingente negro a fim de assegurar a liderança do país pelos
nizado, que o _indivíduo reparte com õs outros, o que lh~ diminui brancos. O problema é, em nossos dias, colocado em termos de
o caráter de defeito e o transforma em verdadeira virt~de; . cultura. Estima-se c~mo positivo o processo de aculturação. M~.
Talvez a sociologia da lingullgem nos ajude a mefuor com- repito, a aculturação, no caso, a uma anális~ profunda, s~póe ainda
preender esta alienação da ciência social no Brasil, no que diz uma espécie de defesa da brancura de nossa herança cultural, supõe
resf>cito ao negro. o conceito da superioridade intrínseca do padrão da estética social
·.Na 6poca helenística, as camadas letradas das cidades gregas de origem européia. .Do contrário, que sentido teria notar, registrar
deJXaram de falar e desprezavam as Hnguas locais e se ~meraram o negro até mesmo participando da classe dominante no país? Que
no uso de uma língua geral, a Koiné, que desfrutava de relevante sentido teria continuar a achar "curiosíssimos", como se escreve
pL"esúgio internacional. É significativo que isto acontec~u quando . num dos relatórios para a UNESCO, os comportamentos do negro
aquelas cidades perderam a independência política. O !poder era ainda quando exprimindo-se no plano artístico e científico? O
exercido por ligas ou confederaÇões de cidades ou estava' nas mãos "problema •do negro", tal como colocado na sociologia brasileira,
de reis que, embora de civilização helênica, tinham su:k capitais é, à luz de uma psicanálise sociológica, um ato de má·fé ou um
fora da Grécia propriamente. 18 · . equívoco, e este equívoco só poderá ser desfeito por meio da tO-
mada de consciência pelo nosso branco ou pdo nosso negro, culru-
Naépoca de Luís XIV, gn1ças ao prestígio e ao luxo' da corte,
ruralmenre embranquecido, de sua alienação, de sua enfermidade
a língua francesa tornou-se também em rodo o Velho Continente
uma espécie de língua geral das pessoas distinguidas. psicológica. Para tanto, os documentos de nossa socioantropo-
logia do negro devem ser considerados como materiais clínicos.
Ora, a alienação estética anteriormente assinalada é da mesma
espécie da 3.lienação lingüística. Ambas resultam de unia faha de Tais documentos são frutos de uma visão alienada ou consular
suficiência da comunidade, do autodesprezo, de um sentimento do Brasil, de uma visão desde fora do país. Embora redigidos por
coletivo de inferioridade, da renúncia a critérios naturais de vida, ·. ~-
brasileiros, eles se incluem na rradição dos antigos relatórios para
em benefício de critérios artificiais, dogmáticos ou abstratos. o Reino ... , ainda que, hoje, o Reino se metamorfose~e na UNESCQ,,.
sediada em Paris.
A mim parece necessário seguir esta pista na análise· do nosso
"problema do negro", negligenciando mesmo os seus aspectos Os eplgonos de nossa socioantropologia do negro, desde Nina
econômicos. O· que nos interessa aqui é focalizar a questão do Rodrigues, glosam, aqui, as atitudes (principalmente as atitudes)
ângulo psicológico, enquanto socialmente condicionado; é atingir e as categorias dos estudiosos europeus e· norte-americanos, em face
a sociologia funcional e científica do negro, i~teirament~ por fazer do assunto. Inicialmente, com Nina Rodrigues e Oscar Freire, os

1.96 197
CARTILHA BltASILEIRA DO AI'R.J;NDIZ DE SOCIÓLOGO

)i modelos foram europeus e, a partir de Anhur Ramos, até esta data, modo autêntico como negro. Quero dizer, começa-se a melhor
passaram a ser preponderantemente inspirados em livros norte- compreender o problema quando se parte da afirmação- niger
;..:
americanos. Assim, em prindpio, o contingente negro foi visto sum. Esta experiência do niger sum, inicialmente, é, pelo seu
.,.·::
como raça inferior a ser erradicada do meio nacional. Desde 1934, significado dialético, na conjuntura brasileira em que rodos que-
porém, os estudiosos passaram a distinguir raça e cultura e se rem ser brancos, um procedimento de alta rentabilidade cien-
orientaram, predominantemente, conforme o sistema-de referência ~fica, pois introduz o investigador em perspectiva que o habilita
adotado pelos sociólogos ianques neste campo, sistema de refe- a ver nuanças que, de outro modo, passariam despercebidas.-.
rência em que são capitais as noções de "aculturação", "homem Sou negro, identifico como meu o corpo em que o meu eu i~á
marginal", o par conceitual "raça-classe" e, ultimamente, a cate- inserido, atribuo à sua cor a suscetibilidade de ser valorizada este-
goria ecológica de "área", a de "esrrutura", a de "função". Via de ticamente e considero a minha condição étnica como um dos
I •! regra, é escassfssima a originalidade metodológica e conceitual dos ~uportes do meu orgulho pessoal - eis af toda uma propedêupca
I·;
autores de tais estudos. Há perfeita simetria entre as produções dos sociológica, todo um ponto de partida para a elaboração de·uma
autores nacionais e as dos estrangeiros. hermenêutica da situação do negro no Brasil. · .
No entanto, a compreensão efetiva da situação do negro no P~is bem, a partir daí se. tornam percepdveis, de repente;:··as
Brasil exigirá esforço de criação metodológica e conceitual, de falácias estéticas da sodoantropologia. do negro no Brasil. Então,
r d
em primeiro lugar, percebo a suficiência postiça o soooantro~

que ninguém foi capaz ainda. Ela rem peculiaridades históricas e
sociais insusceptíveis de ser captadas por procedimentos mera- pólogo brasileiro, quando trata do problema do negro no Brasil.
mente simétricos, tão e somente pela parafernália da ciência social Então, enxergo o que há de ultrajante na atitude de quem trata o
importada. Adotando literalmente esta parafernália, o socioan- negro como um ser que vale enquanto "aculturado". Então, iden-
trop6logo brasileiro contribuiu para confundir aquela situação e, tifico o equívoco etnocencrismo do "branco" brasileiro ao sublinhar
atualmente, o sociólogo que tenta vê-la de modo genuíno terá de a presença do negro mesmo quando perfeitamente identificado
arrostar forres interesses investidos e maciços estere6tipos justifi- com ~le pela cultura. Emão, descortino a precariedade histórica da
cados em nome da ciência oficial, de resto, de duvidosa validade brancura como valor. Enrão, converto o "branco" brasileiro, sôfre-
funcional e objetiva. go de identificação com o paqrão estético europeu, n~ caso. de
A tarefa que se impõe como necessária para conjurar esta patologia social. Então, passo a considerar o preto brastleuo, ávtdo
mistificação do assunto - o negro no Brasil - é a de promover de embranquecer se embaraçado com a sua própria pele, também
a purgação daqueles clichês conceituais, é a de tentar examiná-lo como ser psicologica.nente dividido. Então, "descobre-se~me ale-
pondo entre parênteses as conotações de nossa ciência oficial, é a gitimidade de elaborar uma escécica social de que seja um ingre-
de tentar o entendimento do rema, a partir de uma situação vital, diente positivo a cor negra. Então, afigura-se-me possível uma
estando o investigador, nest.;!. situação, aberto à realidade fática e, sociologia científica das relações étnicas. Então, compreendo que
também, aberto interior~enre para a originalidade. a solução do que, na sociologia brasileira, se chama o "problema
Qual será a situação vital a partir de que seria melhor propi- . do negro", seria uma sociedade em que rodos fossem brancos.
ciada para o estudioso a compreensão objetiva do tema em tela? Então, capacito-me para negar validade a esta solução.
Ao autor, parece aquela da qual o homem de pele escura seja, ele A partir desta situação vital, o problema efetivo do negro no
próprio, um ingrediente, contanto que este sujeito se afirme de Brasil é essen~ialmeme psicológico e secundariamente econôinico.

1.98 199
CARTIU-IA BRASILEIRA DO Al'ltl'.NDIZ DI. SOCIÓLOGO
X- O PRosu:.MA oo NEGRo.••

Explico-me: desde que se define o negro como um ingrediente acontecer, em vez de rornar-se, como deveria, consciência militante
normal da população do país, como povo brasileiro, carece de sig- desse acontecer, pela apropriação do seu significado profundo.
nificação falar de problema do negro puramente econômico, des- A sociologia do negro ral como tem sido feita até agora, à luz
tacado do problema geral das classes desfavorecidas ou do paupe- da perspectiva em que me coloco, é unía forma sutil de agressão
rismo. O negro é povo, no Brasil. Não .é um romponente estranho aos brasileiros de cor e, como tal, constitui-se num obstáculo para
de nossa demografia. Ao contrário, é a sua mais important.e matriz a formação de uma consciência da realidade étnica do pa.Cs.
demográfica. E este fato tem de ser erigido à catego~ia cie valor, H:i, inserida na comunidade racional, uma lógica, cujo trans-
como o exige a nossa dignidade e o nosso orgulho de povo inde- porte para o plano conceitual constitui uma das tarefas primor-
pendente. O negro no Brasil não é anedota, é um parâmetro da diais do sociólogo brasileiro. O Brasil, por força do desenvol-
realidade nacional. A condição do negro no Brasil só é sociologi- vimento de sua riqueza material e de sua crescente emancipação
camente problemática em decorrência da alienação estética do econômica, começa a rer o que se chama de caráter nacional, um
próprio negro e da hipercorreção estética do branco bruileiro, orgulho nacional e, na medida que este processo avança, torna-se
ávido de identificação com o. europeu. ' verdadeiro imperativo categórico de nossos quadros intelectuais ·
Descortino, portanto, no Brasil, de um lado, um "problema do procurar aplicar-se na estilização, na valorização de nossos tipos
negro" tal como é colocado pelos profissionais de sociologia e, de étnicos.
outro lado, um "problema do negro", tal como é, efetivamente A sociologia no Brasil tem sido, em larga margem, uma espécie
vivido. de pawis ou dialeto da sociologia européia ou norte-americana.
À luz da sociologia científica, a sociologia do negro no Brasil Terá, hoje, de procurar tornar-se uma autoconsciência do nosso
é, ela mesma, um problema, um engano a desfazer - o' que só processo de amadurecimento.
poderá ser conseguido por intermédio da crítica e da autocrítica. No que diz respeito às relações de raça, a sociologia no Brasil,
Sem crítica e autocricica, aliás, não pode haver ciência. O espírito para ganhar em ·aurencicidade, terá de libertar-se da postura alie-
cientifico não se coaduna com a intolerância, não se coloci jamais nada ou consultar, que a rem marcado e partir, na análise dos fatos,
em posição de sistemática irredutibilidade, mas, ao contrário, está da assunção do BrasiL 19•
sempre aberto, sempre disposto a rever as suas posturas, no·sentido Tanto quanto o sociólogo venha a convener-se a este impera-
de corrigi-las ou superá-las, naquilo em que se revelarem. inadequa- rivo, empreenderá tarefa criadora e participari, assim, da. elabo-
das à percepção exata dos.fai:·~~. A n~ss~·~o~iologia do negro é, em ração de uma verdadeira pedagogia nacional, isto é, de uma peda-
larga margem, uma pseudomorfose, isto é, uma visão carecente de gogia vivificada por idéias - forças desprendidas da própria
suportes existenciais genuínos, que oprime e dificulta mesmo a configuração do país. Tanro quanto assim o fizer a nossa socio-
emergência ou indução da teoria objedva dos fatos da ~ida na- logia, obter-se-á a conjuração do constrangimento discernível em
cional. Impõe-se, assim, que, entre os que se dedicam ao assunto nossas atuais relações de raça - perigo e constrangimento a que .
em pauta, se abra um debate leal e franco. Precisam os soCiólogos levou o fato de se rer hiposrasiado o negro na sociedade brasileira.
empreender esta descida aos infernos que consiste em argüir, em No esforço de indução da paideia da sociedade brasileira, no
por em dúvidas aquilo que parecia consagrado. Quem não estiver que diz respeito às relações de raça, parece .momento tático e
disposto a esse compromisso, arrisca-se a petrificar-se em yida, ou estrategicamente necessário, aquele em que se tematíza o nosso
a falar sozinho, ou a permanecer na condição de matéria bruta do branco, .tal. como dei exemplo aqui. Apresso-me em declarar;

200 201
CARTI!.HA BRASILEIRA DO AI•RENOIZ DE SOCIÓLOGO X- 0 PROBLEMA 00 NEGRO ...

entretanto, que essa tematização, aliás iniciada por mim em outra fugidos, como a famosa República dos Palmares,. em Alagoas,
oportunidade 20, não pretende consciruir senão expediente a ser verdadeiro Estado de negros; o movimento abolicionista em que
utilizado no processo de desmascaramento de nossos equívocos sobressaíram Luiz Gama e José do Parrodnio, intelectuais negros,
estéticos, processo, portanto, a ser abandonado tão logo se alcance e outras iniciativas e associações como o Clube. do Cupi_rn., em
aquele objetivo. Na verdade, utilizando observação de Sartre, pode- Recife, as Frentes Negras, de São Paulo e da Bahia... ·
se dizer que, no Brasil, o branco rem desfrutado do privilégio de Evidentemente a nova corrente de idéias em que se· inspira o
ver o negro, sem por este último ser visto. Nossa sociologia do auror destas linhas e que informa as l!-tividades do TEN registra
negro até agora tem sido uma ilustração desse privilégio. Em manifestações como as acima referidas apenas como antecedentes,
nossos dias, entretanto, a estrutura econômica e social do país pos- mas não sanciona necessariamente os seus intuitos, pois, via de
sibilita a nova fase dos esrudos sobre relações de raça no Brasil, fase . regra, careciam de elaboração teórica e foram, muitas vezes, reações
que se caracteriza pelo enfoque de cais relações, desde um ato de agressivas que não podem ser, hoje, apresentadas como para-
liberdade do negro. digmas. Salva-se, porém, em todas elas, o esforço da camada pig-
I! minha convicção que desta mudança de orientação resulte, mentada, sozinha ou aliada com patrícios claros, como foi o caso
não um conflito insolúvel entre brancos e escuros, mas uma liqui- do . abolicionismo, na busca de uma condição humana para o
dação de equívocos de parte a parte e, conseqüentemente, uma negro, em que ele pudesse ser sujeito de um ato de liberdade.
contribuição para que a sociedade brasileira se encaminhe para o Os antecedentes reÓ~i~~s ~ais próximos da nova posição
rumo de sua verdadeira destinação histórica - a de tornar-se, do podem ser identificados em duas figuras de intelectuais brasileiros,
ponto de vista étnico, uma conjunctio opposítomm. ambos; aliás, brancos. Trata-se de Joaquim Nabuco e Alvaro
Bomilcar, este último um nome praticamente esquecido.
Passado e Presente da Nova Fase
Joaquim Nabuco, um dos líderes do abolicionismo, concebeu,
A nova corrente de idéias sobre a condição do negro no Brasil, desde 1883, a fàse dinâmica do tratamento de nossa questão negra,
que se corporifica no Teatro Experimental do Negro, representa o em termos que podem ser· tidos como atuais ainda. Com efeito,
amadurecimento ou a eclosão de idéias que escavam mais implí- este notável estadista escreveu em seu livro, O Abolicionismo:
citas do que explicitas na conduta de associações, grupos ou pessoas Depois que ·os dldmos escravos houverem sido arranca-
desde o princípio da formação da sociedade brasileira. A história dos ao poder sinistro que representa para a raça negra a
do desenvolvimento desta corrente não pode ser contada aqui. maldição da cor, ser;! ainda precjso desbastar, por meio de
porque nos obrigaria a um pormenor que não cabe neste estudo. uma educação viril c séria, a lenta estratificação de trezentos
anos de cativeiro, isco é, de despotismo, superstição e igno-
Entretanto, pode se dizer sumariamente que os marcos desta evo-
rância. O processo natural pelo qual a Escravidão fossilizou
lução foram os· trabalhos do africano Chico Rei que, em Minas nos seus moldes a exuberante vitalidade do nosso povo
Gerais, no prindpio do século XVIII, organizou um movimento durou todo o período do crescimento, e enquanto a Nação
para alforriar negros escravos; as confrarias, os fundos de emanci- não civer consciência de que: lhe é indispens:ivel tU!aptar à
/ibadtlt!t (o grifo é meu) C:J.da um dos aparelhos do seu
pação, as caixas de empréstimos, irmandades e juntas, instituições
···-----·-·-·--·-··-organismo de que a escravidão de apropriou, a obra desm
que recolhiam contribuições de homens de cor destinadas à com- irá por diante, mesmo quando não haja mais escravos (0
pra de cartas de alforrias; as insurreições de negros muçulmanos no Abolicionismo, Companhia Editora Nacional, São Paulo,
Estado da Bahia; os chamados quilombos, aldeamentos de negros 1938, p:íg. 5). .

202 ..... ""203


CARTILHA BRASILEIRA DO APRE-NDIZ DE SOCIÓLOGO X- o PROBL.EMA.DO NEGRO ...

No livro de Joaquim Nabuco, O Abolicionismo, escrito em E perguntava em 1911: "Quem terá a coragem para escrever
1883, se encontram, aliás, algumas colocações que podem perfei- a verdadeira sociologia, a única que nos convém: a sociologia
tamente ser retomadas, hoje, com alterações apenas formais. Uma brasileira ?" 21
delas é o que ele chama de "mandat() -~~raça negra". Parafraseando O Teatro Experiment:tl do Negro, fundado em 1944 por um
Nabuco, pode diz.er-se q~e, em nossos dias, incumbe aos; i~~e.res­ grupo liderado por Abdias Nascimento, é, no Brasil, a manifes-
sados no problema em pauta assumir em face dele uma "delegação tação mais consciente ·e espetacular da nova fase, caracterizada pdo
inconsciente da parte dos que a faz.em, interpretada pelos que a fato de que, no presente, o negro se recusa a servir de mero tema
aceitam como um mandara que não se pode renunciar".' de disserta~ões "antropológicas", e passa a agir no sentido de des-
Álvaro Bomilcar pode ser considerado como um pioneiro da mascarar os preconceitos de cor. O TEN patrocinou as Convenções
nova concepção das .relações étnicas no Brasil. Em . -1-911-~eveu Nacionais do Negro, a primeira em São Paulo (1944) e a segunda
uma série de artigos, na imprensa da capital da República, depois no Rio (1947); a Conferência Nacional do Negro (Rio, 1949) e
reunidos no livro O Preconceito de raça 110 Brnsi/ (1916),:em que o I Congresso do Negro Brasileiro (Rio, 1950). Todos estes cer-
põe à mostra o culto da brancura ~igente nas classes dominantes tames foram animados de propósitos .práticos e não reuniões de
do Brasil. Alvaro Bomilcar organizou mesmo um movimento debates acadêmicos. Isco não impediu, entretanto, que um estu-
social e pol!tico, em cujo programa se delimitava com clareza a dioso como Anhm Ramos tivesse comparecido, como convidado, .
tarefa de liquidar os constrangimentos entre os brasileiros claros à Conferência Nacional do Negro, em cuja sessão final tomou
e escuros. Se, do pomo de vista da técnica sociológica de hoje, parre, em vésperas de sua viagem para a Europa, onde faleceu.
aquela obra de Álvaro Bomilcar é precária, nem por isso deixa de
Fundamentado em bases científicas, de caráter sociológico e
ser o documento· mais importante do ·diagnóstico científico de
antropológico, o TEN nunca foi compreendido pelos pr6gonos da
nossa quesrão racial, na fase republicana.
ciência oficial, que, embora não o hostilizassem francamente, sem-
O livro O Preconuito de raça n~. Brasil é um ensaio ·ludd.ls- pre se conduziram em face do empreendimento com desconfiança.
simo sobre o sentimento coledvo de inferioridade, que Alvaro No fundo, percebiam que o TEN representava mudança de 180
Bomilcar discernia na sociedade brasileira·e que lhe fazia observar graus na orientação dos escudos sobre o negro.
que a despeito das diversas vezes que as ciências se tem enriquecido
Todavia, nunca os dirigentes do TEN hostilizaram os "antro-
com o concurso intelectual desse grande ;nestiço - que é o
pólogos" e "sociólogos, oficiais. Foram, na verdade, pacientes com
brasileiro - o nosso critério academicista é que o sábio só existe .~
eles. Atrafram-nos mesmo para as suas reuniões, certos de que, na
na Europa. Este critério é o qt~e tem diflCulrndo a elaboração da
medida em que fossem sinceros, poderiam ser recuperados.
autoconsciência da realidade nacional, inclusive da realidade érnica
do pais. Neste sentido, escrevia Bomilcar: Vale a pena insistir neste ponco. O TEN foi, no Brasil, o
primeiro a denunciar a alienação da antropologia e da sociologia
No Brasil,· pondo· de parte Sylvio Romcro c alguns
pioneiros da nossa literatura, de rara combatividade, que- nacional, focalizando a gente de cor, à luz do pitoresco ou do··
damo-nos inertes à espera que um qualquer sábio da Europa histórico puramente, como se se tratasse de demenro estático ou
venha dizer de ·nós aquilo que porventura lhe ocorra, no mumificado. Esta denúncia é um /eitmotiv de rodas as
realizações
sentido dogmático; ou ainda o que o crit~rio de uma per- do TEN, entre as quais o seu jornal· Quilombo, a Conferência
manência de algumas semanas, na capital da Rep~blica, lhe
Nacional do Negro {1949) e~ I Congresso do Negro Brasileiro,
possa sugerir de agradável e interessante.
realizado em 1950.

204 205
CARTILHA BII.ASILEIRA DO AI'RENDIZ DE SOCIÓLOGO
X- 0 PROBLEMA DO NEGRO ...

Os dirigentes do TEN sabiam e sabem que, de modo geral, a cultura. E o futuro Congresso, portanto, vem afirmar que
camada letrada e os "antropólogos" e "sociólogos" oficiais não já existe: em nosso pals uma elite de cor capaz de infundir
estavam, como ainda não estão, preparados mentalmente para confiança às".classes dominantes, porquanto o nosso movi-
alcançar o significado da iniciativa. mento não é um diversionismo, não visa a objetivos pito-
rescos c nem .se caracteriza por aquela irresponsabilidade
O movimento em apreço representa uma reação de intelectuais que infelizmente tem prejudicado a maioria das-iniciativas
negros e mulatos que, em resumo, têm três objetivos funda- dos negros do Brasil.
mentais: 1) formular categorias, métodos e processos científicos Em 1949, um documento 21, em que se definia o sentido prático·
destinados ao tratamento do problema racial no Brasil; 2) ree- do movimento, rezav~:
ducar os "brancos" brasileiros, libertando-os de critérios exógenos A condição jurldica de cidadão livre dada ao negro (pela
de comportamento; 3) "descomplexificar" os negros e mulatos, Abolição) foi um avan,ço sem dúvida. Mas um avanço
adestrando-os em estilos superiores de comportamento, de modo pur:unence simbólico, abstrato. Socioculturamente, aquela
que possam tirar vantagem das franquias democráticas, em fun- condição não se configurou; de um lado, porque a estrutura
de dominação da sociedade brasileira' não se alterou; de
cionamento no país. oucro lado, porque a massa juridicamente liberta estava
Na realização do primeiro objetivo, o TEN desmascarou, de psicologicamente despreparada para assumir as funções de
~aneira aliás muito polida, a antropologia oficial. O I Congresso .... ____ cidadania. Assim, para que ó processo de libertação desta
do Negro Brasileiro marca definitivamente a nova fase dos estudos massa se positive, é necessário reeducá-la e criar condições
sociais e econômicas para que esta reeducação se efetive. A
sobre o negro. Com a plena consciência disto, escreveu Abdias simples reec.luc:~ção desta massa desacompanhada de
Nascimento, diretor-geral do TEN, em Quilombo n 15 (janeiro de correlata transformação da realidade sociocultural repre-
1950): senta a criação de situações marginais dentro da sociedade.
~ nec-=.ss.irio instalarem-se na sociedade brasileira· mecanis-
O I Congresso Negro pretende dar uma ênfase toda
mos illtegratl'I'P§_de capilaridade social capazes de dar função
especial aos problemas prácicos e atuais da vida da nossa
c posição aos elementos ela massa de cor que se adestrarem
gente de cor. Sempre que se estudou o negro, foi com
nos estilos d:u ci:1S$eS dominantes (Guerreiro Ramos, O
o propósito evidente ou a intenção maldisfarçada de
N~gro no Brasil t um txanu dt romdlnda).
considerá-lo um ser distante, quase morto, ou já mesmo
empalhado como peça de museu. Por isso mesmo, o Con- Em 1950, escrevia em artigo publicado em A Manhã
gresso dará uma importância secundária, por exemplo, às (10/12/50) - "Os Estudos Sobre o Negro Brasileiro":
questões etnológicas, e menos palpitantes, interessando Os escudos sobre o negro no Brasil estão manifestamen-
menos saber qual seja o lndice cefálico do negro, ou se te arra.sados. Não superamos ainda, neste particular, a fase
Zumbi suicidou-se realmente ou não, do que indagar quais do acndemismo e(Jõ"epicurismo sociológico interessado nos
os mdos de que poderemos lançar mão para organizar aspcc1os pitorescos da questão. O problema do negro _no
associações e_ instituições que possam oferecer oportuni- Brasil tem sido focaliz.ado com aquele intuito de descrever,
dades para a génte de cor se elevar na sociedade. Deseja o de esrudàr por estudar. A gente toma susto quando faz esta
Congresso encontrar medidas eficientes para aumentar o verificação, pois, 11 primeira vista, tinha-se a impressão de
poder aquisitivo do negro, tornando-o assim um membro que havia no país uma consciência do problema, criada
efetivo e atívo da comunidade nacional - Guerreiro Ra- pelos numerosos livros escritos sobre o tema. Mas assusta-
mos vai mais longe afirmando que essa tomada de posição dora a situação dos estudos sobre o negro no Brasil , pois,
de elementos da nossa ma~sa de cor nada mais é do que uma até certo ponto, eles criaram "falsa consciência" da questão.
resposta do Brasil a um apelo do mundo que reclama a Tranqüilizaram a consciência das dites, quando o caso não
participação das minorias no grande jogo democrático da é para isto ainda.

206 207
CARTILHA BRASILI::IIV\ DO APRENDIZ DF. SOCIÓLOGO X- 0 PROBLEMA DO NEGRO...

Deram-nos a impressão de que tudo corria bem, quan- deste movimento, já inidada, é outro assunto. O que até aqui se
do efetivamente tudo corre mal ..o negro cem sido: estudado, escreveu pretende ser apenas um relatório verídico e honesto da
erirre nós, como palha ou múmia. A quase totalidade dos
·situação dos. estudos sobre o negro no Brasil.
escudos sobre o cema implica a idéia de que a Abolição
tenha sido uma resolução definitiva do problema das musas
de cor. Depois daquele cometimento c:spc:racular, nada Notas
haveria que fazer senão esrudar o negro do ponto de: vista (1) Falecido em 1949.
estático. E assim os especialistas entraram na pista dos
trabalhos de reconscituição histórica, do folclore: e da cerra
(2) Cf. GUERREIRO RAMOS. O Processo da sociobJgia no
antropologia descritiva, por excelência. Brasil. Rio de Janeiro, 1953.
A declaração final do I Congresso do Negro Brasileirp, publi- {3) Çf. RAMOS, Arthur. ú Metissage au Brhü. Paris: Hermann
& Cie., 1952. ·
cada na imprensa b'rasileira em 4 de setembro de 1950, continua
sendo até agora a súmula mais inreligeme de um programa de (4) FINOT, Jean. Le Prejug! des Baces, Akan. Paris: Troisi~me
tratamento objetivo das relações "émicas no país. O do,cumento edition, 1908.
formula, entre outras, as seguinres recomendações: {5) RODRIGUES, Nina. O Problema da rarà negra na América
a) a defesa vigilante da sadia tradição nacional de igualdade Portuguesa (publicado no jornal do OJmlrcio, do Rio de
Janeiro em 1903, em parte), vide também Os Africanos no
entre os grupos que constituem a nossa pop~lação;
BrasiL São Paulo, 1932.
b) a utilização de meios indiretos de reeducação . e desre-
(5a) - "Le Brésil... constiruera sans doure d'ici un siecle un
calcamento em massa e de transformação de atitudes, tais como o immense étar negre, à moins qu'il ne retourne, et c'est
teatro, o cinema, a literatura e outras artes, os concursos de beleza, probable, à la .barbarie" (vide VACHER DE LAPOUGE, G. ·
e as técnicas de sociatria; Les sélictiom sociales- Paris, 1896, p. 187).
c) a.realização peri6dica de Congressos c..1lturais e científicos de (6) Vide VIANA, O. Os tipos émicos brcisilciros. (In Dicionário
âmbito internacional, nacional e regional: -- · histórico e geográfico do BrasiL Rio de Janeiro, 1922.
d) a inclusão de homens de cor nas lisms de candidatos de (7) O. Viana morreu em 1951.
agremiações partidárias, a fim de desenvolver a sua capacidade {8) Cf. RAMOS, Arthur. Le Métúmge au Brhil Paris: Hermann
política e formar lideres esclarecidos, que possam traduzir em & Cie., 1952.
formas ajustadas às tradições nacionais as reivindicações-da~massas (9) Agrupados sob o patrocínio do Teatro Experimental do
de cor; Negro, fundado em 1944 no Rio, por um grupo de inte-
e) a cooperação do governo, por meio de medidas: eficazes, lectuais, liderado por Abdias Nascimento.
contra os restos· de discriminação de cor ainda existentes.em algu- (1 O) T rara-se do periódico Quilombo.
mas repartições oficiais. (11) Vide RODRIGUES, N. O Problemll da rara negra na Aml- ·
Naturalmente, as posições teóricas e práticas assumidas no rica Portuguesa. 1903.
meio brasileiro, pelos representantes da nova fase, não podem ser (12) Idem.
consideradas definitivas. Nelas há muito o que discutir e já se (13) AZEVEDO, Thalcs de. Les Éites tk couleur dans une Vil/e
discernem algumas incorreções contradições e até erros de tática e Bró·i!ime. Edição da UNESCO, 1953.
estratégia a serem evitados daqui por diante. Mas a autocrítica

208 209
. ~ " ·.:;:~:~-;~ z-~ =:~-~;~iif;;:;:1.~;:;;;,,;':'R~:g.if:i;'i-&;'\'•~'-"~"~;\;~~:<i::::::i~õ::f~'!;l}i~"'é;'Z:i?-:~:';':';.;::;:,':'";-:::;.''·':'':··,, ..,,.·c::_: ;::':::';;~:::;;:':C:::-:"?;::::?~~::::_:~;;:::;:::~:~;~:':•;::tf.:~f;!\~E'!':'D:":~~;;:,::~:'::I:::;::~:,;:·;!;:·}iJ'::<'i};:-;:;,::::~:~~::;:;:l:!~~;]:r:;!~~:f,;;!i?:~·~,r·.::;;:;:::::L::::'i:'::::::::._ .......::...:...~
""""··-....::.:----=====';:;o'":-::""

X- 0 PROBI.EMA DO NEGRO ...


CARTILHA BRASILE.II\A DO APiUtNOIZ DF. SOCIÔLOGO
:; (20) Vide GUERREIRO RAMOS, A. "Sociologia Clínica de um
ti (14) SIMMEL. Georg. Cultura feminina y otros tnsayos. Buenos Baiano Claro". In O Jomn4 Rio de Janeiro, 27 de dezembro
l~l:: Aires: Colección Austral, 1944. de 1953. Neste pequeno estudo expus o que chamei o
(15) Cf. BURNS, Alan. Le Prejugl de race et de couleur. Paris: "complexo glldico", hipótese de trabalho que pretendo de-
Payot, 1949. senvolver p>.steriormente nas minhas investigações sobre a
(16) Entende-se aqui "cultura aurênrica" no senrido delimitado patologia social do "branco" baiano e brasileiro.
por Edward Sapir. "A cultura autêntica não é necessaria- (21) Vide BOMILCAR, A. op. cir., p. 51.
mente alta ou baixa, é apenas inerentemente harmoniosa,
(22) Vide Relações de raça 110 BrasiL Rio de Janeiro, 1950 (por
equilibrada, a si mesmo satisfatória. É a expressão de uma
vários autores).
atitude ricamente variada e entretanto de certo modo uni-
ficada e consistente em face da vida, uma atirude que vê o
significado de qualquer elemento de civilização em sua rela-
ção com todos os outros. É. falando de modo ideal. uma
cultura em que nada deixa espírirualmente de ter sentido, em
que nenhuma parte imponante do funcionamento geral trás,
em si, senso de frustação, de esforço mal dirigido ou hostil.
Não é um híbrido espiritual de elementos contraditórios de
compartimentos estanques de consciência que evitam parti-
cipar de uma síntese harmoniosa." Cf. PIERSON, Donald.
(organizador) Estudos ek organizaçsio social Livraria Martins
. Editora SIA. 1949, p. 291.
(17) VOSSLER, Karl. The Spirit of Language in Civi/ization.
London: Routledge & Kegan Paul Ltd. 1951.
(18) MEILLET. A.. Aperçtl d'une histoire de la langue grecqut.
Paris: Librairie hachene. 1930.
(19)- Os escudos sobre o negro no Brasil sob o patrocí-'1io da
UNES CO foram realizados dentro do melhor. padrão téc-.
nico, com exceção do que se refere ao negro no Rio de Janeii·o
que foi confiado a Luiz Aguiar da Costa Pinto, cidadão sem
qualificações morais e cienóflcas. Este ~reirisra. doublé de
sociólogo, anteriormente já havia cometido grosseiro plágio.
Compare-se de COSTA PINTO, L. A. Lutas de Famílias no
Brasil (Brasiliana; 1949), com la Vengeance Privée et Les
Fondements du Droir International Public, de Jacques
Lambere (Paris, 1936). Vide artigo meu "O Plágio". In O
joma4 edição de 17/1/1954.
(19a) Sobre IISSUnçqo, vide neste livro: Nacio11111ismo e xenofobia.

210 211
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TERCEIRA PARTE

Document-os de u1na
Sociologia Milit-ant-e
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· 1- Pat-ologia Social do
c'llranco ~., Brasileiro

Há o tema do negrÕ ·e há à vida do negro. Como tema, o negro


tem sido, entre nós, objeto de escalpdação perpetrada por lite-
ratos e pelos chamados "antropólogos" e "sociólogos". ·Como vida
ou realidade efetiva, o negro vem assumindo o seu destino, vem
se fazendo a si próprio, segundo lhe têm permitido as condições
particulares da sociedade brasileira. Mas uma coisa é o negro-tema;
outra, o negro-vida.
O negro-tema é uma coisa examinada, olhada, visra; otà como
ser mumificado, ora como ser curioso, ou de qualquer modo como
um risco, um traço da realidade nacional que chama a atenção.
O negro-vida é, entrecanto, algo que ·não se deixa imobilizar;
é despisrador, protéi ;o, multiforme, do qual, na verdade, não se
pode dar versão definitiva, pois é hoje o que não era ontem e será
amanhã o que não é hoje.
H :I. sociedades píirvtnues... nações rastlliJuouêres. Malformuladas as retracações verbais do negro no Brasil, elas já
Albtrto Torres estão caducas ou já se revelam falsas; porque o negro-vida é como
o rio de que fala Heráclito, em que não se entra duas vezes. ·
DocuMENTos DE UMA SoCioi.OGIA Mu.n·ANTE I - PATOl.OGIA SOCIAL DO "BRANCO" BRASILEIRO

Eis por que toda atitude de formalização diante do negro busca de um conceito de "patologi:i'sodal". Pode a sociedade ficar
conduz a apreciações ilusórias, inadequadas, enganosas. E é uma doente? Existem enfermidades coletivas ? Se se di uma resposta
atitude de formalização que esrá na raíz da quase totalidade dos positiva a tais perguntas, é forçosa a delimitação objetiva do que
estudos sobre o negro no Brasil. se entende por "patologia social",
O tema das relações de raça no Brasil chega, nestes dias, a um Entre os sociólogos, o tema foi inicialmente tratado pelos
momento polêmico. Até aqui se rem falad~ numa antrc;>pologia adeptos do biologismo ou do organicismo, corrente segundo a qual
e numa sociologia do negro. Hoje, condições objetivas da socie- a sociedade é um organismo. Haveria assim paralelismo entre o
dade brasileira colocam o problema dô-''hranco" e aqueles; estudos mundo social e o mundo biológico. Este paraldismo é exagerado
"antropológicos" e "sociológicos" rapidamente perdem atualidade. por uns, moderadamente proclamado por outros, mas todos os ·
Há hoje uma contradição entre as_ idéias e os fatos de nossas organicistas aceitam que o social é uma extensão do biológico.
relações de raças. No plano ideológico, é dominante ;ainda a Admitem, assim, que no organismo social, tal como no orga-
brancura como critério de estética. social. No plano dos •faros, é nismo vegetal e animal, há, enrre outros, dois estados que se
dominante na sociedade brasileira uma camada de origerri negra, podem discernir como normal ou patológico.
nela distribuída de alto a baixo. Que é normal? Que é patológico? A questão é extremamente
O Teatro Experimenr;1l do Negro e a literatura científica por difícil e as soluções que cem suscitado são muito controvertidas.
de suscitada vêm remando criar uma consciência desta contradição No domínio da sociedade, de modo geral, os sociólogos organi-
e, ao mesmo tempo, desenvolver, sob várias formas, uma ação cisras definiram o normal ou em termos generosos, mas utópicos,
social para resolvê-la. como. Novicow, ou conforme perspectiva conservadora; isto é,
Na realização desse rrabalh~, entretanto, estamos desajudados, para estes, patológicas seriam todas as tendências que perturbam
temos de criar os nossos próprios instrumentos pr~ticos e teóricos. o equilíbrio natural da sociedade, a sua saúde. A saúde da socie-
Nestas condições, na elaboração do presente ~srudo não' se pôde dade equivaleria, para diversos organicistas, a um estado de que
utilizar-a copiosa literatura sociológica e antropológica sobre rela- só se beneficiam os que integram a classe dominante. Não faltou
ções 1:1-e raça, produzida por ·braSileiros. ·oe..modo geral, os nossos mesmo, entre os organicistas, quem, como Francis Galton e Alexis
especialistas neste domínio têm contribuído mais para cqnfundir Carrel, afirmasse que a pobreza é doenÇa, uma espécie de tara e,
do que para esclarecer os suportes de nossas relações dera~, como portanto, um problema de eugenia;
pretendo demonstrar mais adiante. - Tão evidentes falácias do biossociologismo o levaram a desa-
Por outro lado, receio que alguns leitores, impressionados com creditar-se.
os aspectos verbais aparentes deste estudo, nele descubram inten- Os trabalhos de Durkheim são um passo adiante neste domínio
ções agressivas. A esses leitores asseguro, com sinceridad~. que o das ciências sociais. Em primeiro lugar, porque ele propõe, com
meu propósito é, ao contrário, generoso e pacifista. . roda clareza, e pela primeira vez, o problema da definição do
lsto posto, passemos ao assumo. nonna/ e do patológico. Durkheim sustenta em sua obra Les Reg/er
de ia méthode sodologique l teses plenamente aceitáveis pela mo-
O terna do presente estudo - "patologia social do 'branco'
dernii- soCiologia historicisra. Este historicismo transparece, por
brasileiro" - implica um dos mais complicados problemas de
exemplo, quando o autor adverte que "as condições de saúde e de
terminologia ciendfica. Muitos especialistas se têm perdido na
doença não podem ser definidas in abstracto" 2 e que "é preciso

216 217
. . . : ~-::: ~:.:-~.- . . ·.-: .·.··( ·.... · ·:··.-~: .· . '·-··

DOCUMENTOS DE UMA SOCIOlOGIA MILITANTE l - PATOl.OCIA SOCIAL DO "BRANCO" BRASILEIRO

renunciar ao hábito, ainda muito generalizado, de julgar uma Depois de estabelecer. pela· observação, que o fato 6
instituição, uma prática; uma m'áxima moral, como se fossem boas geral, dc:m"O"Jatrar-se-ão as-condições que determinaram esta
generalidade no passado e procurar-se-á saber, em seguida,
ou más em si mesmas e por si mesmas, para rodos os tipos sociais
se estas condições persistem ainda no presente ou sei; ao
indisrintamente". 3 E, além disto, p:1ra convencer-nos da boa qua-
contrário, mudaram. No primeiro caso, ter-se-t direito de
lidade de seu historicismo, proclama a necessidade de renunciar às · tratar o f~nômeno como normal e, no SCgw\do; de· lhe
defmições que pretendam atingir a "essência dos fenômenos".~ recusar este caráter.' .
Durkheim considera, portanto, o critério do normal como algo Embora não pretenda adotar estritamente esta regra no pre-
a ser induzido das condições particulares de cada sociedade e sente estudo, reconheço que ela propicia explicação satisfat6ria do
segundo os seus limites faseológicos. Diz ele: caráter patológico do quadro atual das relações de raça no Brasil.
para saber se um faro social é normal não basta observar sob Faço um parêntese para explicar-me.
que forma de se apresenta na generalidade das sociedàdes
que pertencem a determinada espécie, é preciso ainda ter . Nas condições iniciais da formação do nosso país, a desvalo--
cuidado de considerá-las na fase correspondente de sua rização estética da cor negra, ou melhor, a associação desta cor ao
evolução.' feio e ao degradante afigurava-se normal, na medida que não em
Um fato social- acrescenta- não pode ser dito normal para havia, praticamente, pessoas pigmentadas senão em posições infe-
determinada espécie social senão em relação a uma fase, igualmen- riores. Para que a minoria colonizadora mantivesse e consoli-
te determinada, de seu desenvolvimento. 6 dasse sua dominação sobre as populações de cor, teria de promover
Por conseguinte, para Durkheim, o critério do normal e do no meio brasileiro, por meio de uma inculcação dogmática, uma
patológico varia historicamente ~uma mesma sociedade. Ele é uma comunidade lingüística. religiosa," de ·valores estéticos e de costu-
coisa dentro de determinadas condições desta sociedade. Muda, se mes. 56 assim, diria Gumplowicz, poderia apoiar sua autoridade
estaS condições se transformam. O nosso sociólogo foi, mais uma em sólidos pilares, o que sempre constitui, para todo poder, um
9
vez, muito preciso quando a este propósito esclareceu q~e certo valioso elemento de conservação, uma efetiva garantia de duração .
fato social, embora generalizado em determinado momento, pode Estas observações de Gumplowicz se coadunam perfeitamente
ser anormal, do ponto de vista sociológico. com a de um escritor marxista, G. V. Plékhanov, que escreveu:
~ o que acontece: nos perfodos de: transição, em que o Na representação do homem, a influência das particu-
todo está em tf:!nsformação sem se ter fixado definitiva- laridades raciaiS· não pode deixar de se exercer sobre o "ideal
mente em forma nova. Neste caso, o único tipo normal que de beleza" próprio do artista primitivo. Sabe-se que cada
esteja no presente, realizado e dado nos fatos, pertence ao raça, sobrerudo nos primeiros estádios do desenvolvimento
passado c:, portanto, não c:Stá mais em aj~re com as novas social, se considera como a mais bela e se orgulha antes- de
condições de existência. Um fato pode assim persistir... sem tudo daquilo que a distingue das outras raças (cf. Lts
responder às exigências da situação. Ele: não tem, senão, Qzmti11m Fondammtt1Ús du Marxismt. Paris, 1947. p. 214).
neste caso, as aparências da normalidade, pois a genera- Plékhanov observa ainda que as P.articularídades da estética de
lidade que apresenta ~ apenas etiqueta falaciosa, uma vc:z
cada raça subsistem apenas durante cerro tempo, isto é, em de-
.que, não se mantendo senão pelo força cega do hábito, não
~ mais o Cndice de que o fenômeno observado esteja estrei- terminadas condições (pág. 214). E acrescenta: ,
tamente ligado às condições gerais da existência coletiva/ .Quando uma população é obrigada a reconhecer a su-
perioridade de outra mais desenvolvida, seu amor próprio
Para superar as dificuldades que as épocas de transição apresen- de raça desaparece: e passa a imitar os gostos estrangeiros
tam ao esforço dos que pret~ndem distinguir nelas o normal do ·····- -·-····----·considemdos até então ridículos, mesmo vergonhosos e
patológico, Durkheim formula esta regra: infames {p:lg. 214).

218 219
,.:
DOCUMENTOS DE UMA SOCIOLOGIA MILITANTE I - PATOLOGIA SOCSAt. DO "BRANCO" BRASILEIRO

Para garantir a espoliação, a minoria dominante de origem Estas orientações são, porém, as que infundem hoje mais reser-
européia recorria não somente à força, à violência, mas a um ..( vas do ponto de vista científico. Tais orientações perdem terreno
sistema de pseudojustificações, de estereótipos, ou a processos de cada dia e se revelam inaceitáveis, pois não oferecem explicação
i.•

domesticação psiéológica. A afirmãÇão dogmática da excelência da suficientemente objetiva para o processo genético dos ideais da
brancura ou a degradação estética da cor negra era um dos suportes cultura ou da sociedade. O ethos, a rzorma, os patterns da cultura
psicológicos da espoliação. Este mesmo fato, porém, passou a ser ou da sociedade não são originários, não são incondicionados; ao
patológico em situações diversas, como as de hoje, em que o contrário, refletem relações concretas e se transformam quando tais
processo de miscigenação e de capilaridade social 10 absorVeu, na relações se alteram.
massa das pessoas pigmenradas, larga margem dos que podiam É muito perigos~, na análise sociológica, partir da noção de
proclamar-se branc'!s outrora, e em que não há mais, entre nós, ethos, ou norma, como se cais coisas fossem independentes ou
coincidência de raça e de classe. 11 - ·- · desvinculadas dos elementos materiais da cultura. Nas sociedades
Mas; fechemos o par~nt!:sc e prossigamos. coloniais, o etbos, a nomw são inculcados de fora para dentro,. isto
. Outra tentativa de tL·acar o ce~~a da patologia social é devida é, não chegam a formar-se como produto dos fatores endógenos de
a Eduardo Spranger. 12 Este auror, porém, coloca a questão em tais sociedades. As sociedades coloniais, em sua estrutura total, são
termos abstratos. regidas por critérios heteronômicos, principalmente a sua eco-
nomia como a sua psicologia coletiva. A norma e o ethos que lhes
. Spranger considera a cultura como um supercrrganisn~o que
são impostos não traduzem ordinariamente a sua imanência.
VIVe sobre OS individuas e por cima da cadeia das gerações, e admite
Como adverte Georges Balandier 13 , estas sociedades estão afe-
a existência, em roda cultura, de uma norma que preside à sua
tadas por um estado crônico de crise e, em grau maior ou me-
estrutura e seu funcionamento. Esta norma ele a entende, porém,
nor, devem ser consideradas como sociedades doentes (sociétés
em termos vagos. A enfermidade é algo contra a norma, contra a
"enreléquia diretriz", conrra ·a ·'idéia normativa" que lhe é ima-
malttdes), a pesquisa de suas normas coincidindo com a pesquisa
de sua auto-regulação.
nente. Alguns antropólogos nane-americanos e alemães aproxi-
mam-se desta concepção de Spranger, quando se reportam ao que Na sociedade brasileira, em larga escala, o ethos, a norma, ainda
chamam de patterns (Rurh Benedict) ou ethos (Kroeber, Màrgaret · dominantes, são remanescentes de fases ultrapassadas de nossa
Mead), ou paideuma (Frobenius), como uma espécie de princípio evolução econômico-social, e se destinam a ser superadas em con-
metaflsico ordenador da cultura. seqüência do aparecimento de novos fatores objetivos que estão já
A pseudociência de amores com~· esses tem sido levada dema- condicionando a vida do pafs.
siadamente ao pé da letra por mais de um literato brasileiro As dificuldades que envolvem o rema da patologia social pa-
aficionado da "antropologia" e da "sociologia". Entre eles se inclui recem superáveis <.Juando se procede em termos casuísticos e con-
Arthur Ramos, que conseguiu fazer carreira de "ciemisra", e: até de cretos. Quero dizer, quando se renuncia a uma definição genérica
sábio, em nosso país, à custa de glosas e da. divulgação de teorias da patologia· social e se passa a mostrar a patologia das situações
"antropológicas" de discutível validade científica. A qualidade es- . singularmente consideradas.
sencialmente literária e secundariame.n.t.e.ciendfica dos trabalhos de É este o caminho que seguirei. A minha tese é a de que, nas
Arthur Ramos é patente e~ seu ensaio sobre Cultura e Ethos presentes condições da sociedade brasileira, existe uma patologia social
publicado na revista Cztltura, nll l, editada pelo Ministéi:-io d~ do "branco" brasilâro e, partiot!armmte, do "branco» do "Norte" e
Educação e Cultura. . do "Nordeste': (Aqui, e em alguns outros lugares deste estudo, as

220 221
DocUMENTOS DE UMA $OCIOLOGIA MILITANTE I - PATOLOGIA SOCIAl. DO "BRANCO" BRASILEIRO

palavras Norte e Nordeste são empregadas em seu sentido popular Deve-se lembrar que num país, como o Brasil, onde não
e não técnico-geográfico) . 13a ' existe uma "linha de cor" intransponlvd como a que ainda
se encontra nos Estados Unidos, toda delimitação verbal das
Esta patologia: consiste em que, no Brasil, principalmente na- diversas cores torna-se extremamente difícil. Pessoas com
qudas regiões, as pessoas de pigmentação mais clara rendem a 1/16 ou 1/8 de sangue preto, que na República norte-
manifestar, em sua auto-avaliação estética, um protesto contra si americana seriam classificados como "colortd", aqui se con-
próprias, contra a sua condição érnica objetiva. E é este desequi· sideram, e sao universal~1ente consideradas, "brancas". E,
!!brio na auto-~timação, verdadeiramente coletivo no Brasil, que por motivos evidentes, mesmo pessoas de tez nitidamente
morena, quando atingem certo grau de bem-esrar ou de
considero patológico. Na verdade, afeta a brasileiros escuros e
Instrução, tendem a se inserir no grupo que inclui a maior
claros, mas, para obter alguns resultados terapêuticos, considerei, parte da aristocracia econômicn e intelectual, o dos brancos.
aqui, especialmente, os brasileiros claros. _ _-·- -----·- ___ Análoga tendência verifica-se nos casamentos em que um
Para dar um flagrante de como o brasileiro considera vexatória dos cônjuges é moreno c outro branco; adora-se para toda
a familia esca cor. Seria fácil multiplicar os c:xemplos·dessas
a sua condição radal, parece-me bastante ilustrativo um documen-
tendências para os matizes mais claros, nas declarações da
to de nossa estatística oficial. Trata-se de uma publicação do cor, que se manifestam tanto pela qualificação de brancos,
Instituto Brasileiro de Geografia e Estadstica. 1 ~ aplicada em casos para os quais seria mais apropriada a de
Apresentam-se, no primeiro capítulo desse estudo, os resultados pardo:;, como pela qualificação de pardos, aplicada em casos
do Recenseamento de 1940, no que diz respeito à composição da que st· deveriam classificar emre os pretos, conforme um
critérí~. mais racional. Mas, mesmo esse critério racional
população segundo a cor. A publicação começa esclarecendo que, seria de determinação extremamente dificil, como demons-
nas instruções para o preenchimento dos .questionários, só se tram todas as tentativas realizadas pari!- estabelecê-lo.
previram as respostas "branca", "prera", "amarela" ou um traço Nos boletins censirários preenchidos pelo chefe da fa-
(-),quando o recenseado não se enquadrasse em nenhuma dessas mllia, ou pelo recenseado isolado predominou o arbítrio
classificações. Isso, fi.mdamenra a publicação, porque a "Comissão pessoal; rouavia é certo que:, via de regra, apenas numa
Censitária quis evitar a obrigação, para o recenseado, de aplicar a modct-;1da fraç-lo dos casos esse arbítrio se afastou do uso
local, desviando-ser(:omo foi acima especificado.
si mesmo qualificações de cor que às vezes são usadas com sentido
Maior paturbaçiio (o grifo é meu) foi causada pelo
de desprezo " 1S, procedimento que, embora "passível de crltica do preenchimento dos boletins por parte do agente recensea-
ponto de vista da técnica censid.ria", "represenra", do ponto de dor, ocorrê11cia muito freqUente no interior, em virtude da
vista da "dignidade humana"(sic) (são palavras da publicação), escassa instrução das populações. Os critérios pessoais do
"ótima solução de um problema difícil"(sic). agente:, em parte, injluendatÚ!s ptla sua prtJpria cor (o grifo
é meu), foram aplicados, então, em centenas de casos. E,
. Mas, continua o folheto, os intuitos da Comissão foram frus- quando delegados municipais acharam conveniente intervir
tra~os.Por. que? Eis aqui a raiz patológica da frustração: para limicr esse arbítrio, em muitos casos conseguiram,
pela inclusão de uma notável fração de pardos entre os apenas, unificá-lo, em certo rumo, variável conforme os
brancos e de uma menor mas não desprezível fração dos ponros de vista individuais dos próprios delegados. Em
mesmo entre os pretos, e, talvez, pela atribuição de uma alguns municípios, quase todos os que não foram qualifi-
fração dos pretos aos grupos de pardos. 1' cados brancos foram qualificados pretos; em outros, pardos
(pelas resposcas mediante tra.ço, .ou pelas declarações c:xpli-
O referido documento, el~~orõldo por especialistas, por dever de .citas de morenos, pardos, mulatos, caboclos erc;)~ Até ~ntre
oficio a par das circunstânaíi{~(;~~~etas que influenciam a decla- municípios confinantes e de composicão émica' da ·pOpu-
ração da cor pelo cidadão brasileiro, reza ainda: lação pouco diferente, verificou-se esse contraste na qualifl.-

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00CUME.r>n'OS DE UMA SOCIOLOGIA MIUTANTE l-PATOLOGIA SOCIAL DO "BRANCO" BRASILEIRO

cação dos não brancos, como foi documentado .em vários no "Norte" e no "Nordeste", enquanto a população do Sul se torna
estudos da série de ~Análises de Resultados do Censo
. . ·' .. -~ -~ ..:;:. ,: cada vez mais escura ...
Demográfico", compilados pelo Gabinete Técnico do Ser-
• #. :·••~• •••

viço Nacional de Recenseamento, de t 940. Estes resultados estão a indicar que, no Brasil, o negro é mais
Devç-se, logo, Interpretar, com grande prudência, a negro nas regiões onde os brancos são maion·a e é o mais claro nas
apuração censit:iria da cor, evitando-se toda conclusão apres- . regiões onde os brancos são minoria.
sada que não resistiria a uma séria análise crítica.
Semelhantes aspectos, que os resultados numéricos do Recen-
No q~e diz respeito aos brfi!JCOJ, podt-se afirmar com
seamento vêm ressaltar com tanta clareza, servem para sublinhar
uguranra qul' o IIIÍml'ro apurado excrdr sensivrlmmu o que
co1utaria dumtl ,·/nssificarão rmliznda ronforme critério obje- a patológia social do branco brasileiro. Grifo a palavra branco, pois
tivo (o grifo é meu). . . que o nosso branco é, do ponto de vista antropológico, um mes-
O número apurado dos pretos, pelo contrário, deveria tiço, sendo, entre nós, pequena minoria o branco não portador de·
ficar sensivelmente inferior à realidade, se as qeclaraçÕes . san~e p.reto. É no Norte e no Nordeste do Brasil, por tanto, onde
procedessem dos interessados; mas cumpre lembrar que a
são mais nítidos os traços da patologia social do "branco" brasi-
ação dos agcn res recenseadores não foi sempre didgida nesse
mesmo sentido, e que em cercos casos foram. induldos
leiro, e em nenhum. lugar do. nosso país mais do que no Estado
numerosos pardos entre os declarados pretos. da Bahia, que apresenta em sua composição demográfica o mais
O número apurado dos pardos provavelmente está abai· forte contingente de indivíduos de cor (70,19% da população
xo do que seria dado por uma classificação obje~iva, sendo, total, em 1950). ·
de certo, maior o mímrro dqs pardos c/assifica~s entre os
A minoria "branca" de Estados do "Norte" e do "Nordeste",
branros (o grifo é meu) do que- o possível excedente em
favor dos pardos .~_:rocas de classificação com os pretos. 17 corno o da Bahia, merece a atenção daqueles que se dedicam à
ciência das relações humanas, porque em seu comportamento
Melhor flagrante não se poderia obter da perturbação psicol6-
apresenta interessante problema de psicologia coletiva. Trata-se
gica do brasileiro em sua auto-avaliação estética. Todos· aqueles
de minoria que sofre de "instabilidade auto-estimativa", visto que
informes mostram o sentimento de inferiorida.de que lhe suscita a
sua verdadeira condição étnica. Esse sentimento é tão forte, no tende a disfarçar a sua condição étnica efetiva, utilizando.:se de
cidadão brasileiro, que vicia os dados do Recense~mento, levando mecanismos· psicológicos t'o~pensatórlos do q~e julga ~e~ uma
este a resultados paradoxais. É o caso, por exemplo, que se con- inferioridade.
figura, em 1940, nestas palavras: .... Este faro caracteriza, efetivamente, como patológico o quadro
a mais el~vada propo1pio t!lltrt! putos l' pardos (148. prc;to.~ das relações de raça, no Brasil, e especialmente nos Estados do
para I 00 pardos) se cnconcra na região Sul, que tem a "Norte" e do "Nordeste". .
menor quora de população não bran<:a, e a mais baixa (18 Segundo os resultados do Recenseamento de 1950, .compõem
pretos para tOO pardos) na regi5o Norre, que rc:ma maior
a população dos Estados do Norte 68, 37o/o de pessoas de cor. Nos
quota de população não branca. 18 .
Estados do Nordeste esta percentagem é da ordem de 53,77% ..
Paradoxo que se repete 110 Recenseamento de 1950. Neste ano, Note-se que estes números estão certamente minorados. A parcela
a referida proporção no Sul teria subido a 15l-p~~~~~-p~~a.·· iõo de brancos naquelas regiões é menor do que o fazem supor Os
pardos; ao passo que teria diminuído no Norte a 8 pretos para 100 resultados do Censo, e seria, de resto, insignificante, ·apenas, se
pardos. São dad,os, evidentemente, inverossímeis! considerasse branca a pessoa não portadora de sangue preto. O
Nesta marcha não será de rodo impossível que as nossas esta- branco puro em tais regiões é .excepcional, en4uanto o branco
tísticas venham a revelar, dentro em breve, que não há mais pretos aparente é ali minoria.

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DOCUMENTOS DE UMA SOCIOI.OGIA MILITANTE

Com efeito, foi neste contexto, demográfico que se desenvolveu que recusam falar outra língua que não seja o castelhano; o do
um padrão de estética social, em cuja escala de valores a cor escura escrito Joseph Conrad, polonês de nascimento, que aprendeu in-
ocupa, por assim dizer, o pólo negativo, quando, se prevalecessem glês, depois de maduro, e o utilizava com mestria; e, finalmente,
af critérios sociais não hereronômicos, o contrário é que deveria o caso dos indivíduos ávidos de ascensão social, bourgeois
ter acontecido. gentilsho.mmes, parvenzts.
As minorias "brancas" destes Estados, de longa data, têm O>mo ilustrações famosas do protesto racial, um adepto de Adler,
mostrado tendência para não se identificar com a sua circuns- Uliver Brachfeld, lembra o irig[êSrfouston Stewart Chamberlain,
tância étnica imediata. Sentem-na como algo inferiorizante e, por discípulo de Gobineau, que desdenhou de sua nacionalidade in·
isso, lançam mão, tanto quanto podem, de recursos que camuflem glesa e se considerava alemão; os judeus da Ação Francesa, Pierre
as suas origens raciais. Estes recursos são inumeráveis, desde os David e Robert Hen, morros pela França, numa inconsciente
mais sutis até os mais ostensivos. busca de compensação do que sentiam como inferioridade.
Um desses processos de disfarce étnico, que aquela minoria tem É interessante observar que as oscilações de auto-estimação nos
utilizado, é a tematização do negro. Ao tomar o negro como tema, indivíduos que protestam, com freqüência, exprimem a "coexis-
elementos da camada "branca" minoritária se tornam mais bran- tência de dois polos opostos - inferioridade sentida com excessiva
cos, aproximando-se de seu arquétipo estético- que é europeu. Eis intensidade e superioridade, desejada mas fictícia ", 19 Tal coexistên-
porque a literatura sociológica e antropológica sobre o negro tem cia é o substrato do que tenho chamado de complexo gíldiro 20 ,
encontrado seus cultores principalmente entre intelectuais dos cuja presença tenho verificado em intelectuais da minoria "branca"
Estados do ""Norte" e do "Nordeste". do Estado da Bahia. . .
Os socióantropólogos, autores de estudos sobre "o negro Os elementos da minoria "branca" no "Norte" e no "Nordeste"
Brasil", Sylvio Romero, Nina Rodrigues, Arrhur Rarrtos; Gilberto são, por exemplo, muito sensíveis a quem quer que ponha em
Freyre, Thales de Azevedo e René Ribeiro são naturais daqueles questão a sua "brancura". Por isso exibem a ·sua brancura de
Estados, cujos "brancos" exibem os caracteres psicológicos que ma~eira tal que não suscite dúvida. São eles, em geral, muito cio~os
... de suas origens enobrecedoras e aproveitam todo pretexto para
ilustram o que podemos chamar o protesto racial de uma minoria
interiormente inferiorizada. prodamá·las: anéis, decoração· da casa, constituição do nome,
estilo lingülsrico Y Na Bahia, Estado da União onde é mais forre
Que o sentimento de inferioridade está sempre na raiz do que
,, o continente de pessoas de cor, funciona um Jnstituto de Genea-
os psicólogos da escola de Adler vêm chamando protesto, parece
logia. Não é preciso dizer que esse Instituto se especializa na
indubitável. ~ este sentimento que explica, por exemplo, reações
descoberta das origens brancas de elementos da minoria "clara".
de pessoas do sexo feminino contra as restrições que lhes impõem
Este traço paranóico l l não caracteriza somente o comportamento
as convenções da soded:.>de, reações que as levam muitas vezes a
do "branco" baiano, mas,.em .. grau maior ou menor, do "branco
assumir modos masculinos na linguagem, na vida profis5ional, na
brasileiro", em geral, embora especialmente do "branco,. dos Estados
vestimenta, no andar.
do "Norte" e do "Nordeste". ·.. . .
Os discípulos de Adler, ao tratarem deste fenômeno - o
Conheço o caso, muito significativo, de um poeta alag~ana"~. ·
protesto - referem·se também ao protesto lingüístico dirigido
Era esse homem de !erras um cidadão mestiço, mas perfeitamente, •...
contra a língua materna, que explicaria muitos casos de bilin-
suscetível de ser incluído na quota dos "brancos" apuradoSpelo ·
gilismo, como o de certos catalães na Espanha, sobretudo letrados,

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DOCUMENTOS DE UMA SOCIOl..OGIA MIUTANTE I - PATOI.OGII\ SOCIAl.. DO "BRANCO" BRASILEIRO

Recenseamento. Consta que, cerra vez, um editor argentino de que sobrepujassem essa minha única reserva, não me agra-
suas. poesias sobre motivos negros fez uma propaganda dn que o daria para marido de qua~quc:r das minhas filhas.
apresentava ao público como um "grande poeta negro dei Brasil". Norrista é também um imdigeme redator de O Globo, jornal
A alcunha, porém, teria levado o poeta alagoano a, em longa carta, em que escreve diariamente uma crônica sobre a vida noturna do
pedir ao editor argentino que cessasse na propaganda a5 alusões Rio. Na edição de 18/1/55 daquele jornal, o referido redator
q~~ o· apresentavam como homem de cor. Este mesmo cidadão publica a fotografia de uma artista de níght club, seguida desra
escreveu, diretamente em lfngua alemã (o que é signifiearívo na legenda: .
perspectiva adleriana do protesto), um livro em que sustentava A moça de hoje - Esta ~ a bonita bailarina negra,
uma. tese arianizante. Mas, outro poeta nortista, residente em São Nilu, do elenco do Blguin. Bela de corpo e de cara. Dela
Pau.i~; de pde tost~da, foi maís taxativo. Tendo sido considerado se poderia dizer: "Isso em branco"... lS
numa entrevista como poeta negro, requereu se lhe fi*esse um E para terminar esra enumeração de ocorrências em que se
·exame de sangue no Insdnitõ de Bióripolõgia da Penitenci:iria de tornam· flagrantes os crJços adlcriano!; da psicologia coletiva do
São PauJo para provar a pureza do seu sangue, Recentemente, um nortista, desejo reporcar-me a um recente artigo publicado no
romancista da raça negra, mas "embranquecido" por processos jornal O Globo (edição de 3/5/55), intituJado "O Brasil e a Mãe
decorativos, químicos e mecânicos, numa autodescrição que fizera Preta". O autor deste artigo é um conhecido escritor brasileiro
a pedido de um repórter da revista O Cm:uiro, se declara "moreno (Gilberto Freyre). Sublinhemos, inicialmente, que, no momento
. carregado". 23 em que o país comemorava o Dia das Mães, é um "nortista" que
Por sua vez., um intelectual "branco" do Estado de Pernambuco, levanta a sua voz para distinguir a "mãe preta" da "mãe branca".
perguntado, num inquérito sociológico, como receberi\l o casa- E na sua óptica de .vê uma e outra como dois pólos. Leia-se o artigo
muud de parente seu com pessoa de cor preta, respon~e: 24 e lá estão, em cores vivas, os aspectos clínicos em que venho
Devo estabelecer uma graduação, ao justificar meu insistindo. A palavra "senhora" só ocorre ao articulista aplicar à
ponto de vista pessoal sobre coloração pigmenciria, o qual "mãe branea", à "iaíá branca". Nos refolhos do inconsciente do
me pareq: fundado, ao mesmo tempo, em motivos est~icos escritor pernambucano é impossível conceber a "mãe preta" como
i: fisiológicos. O branco, nessa.gradação; vem em primeiro
"senhora", como "dama", ou seja, não associada a sugestões subal-
lugar, seguindo-se-lhe o índio, o mul;~to, e, por fim, o
negro. A cor preta nunca me agradou. Ela não ~ uma
ternas. Textualmente ele descreve as "mães pretas" (o artigo é
slntesc:, como o branco. É a própria ausência da cor, na série ilustrado por um desenho, representando uma "babá", tendo ao
prismitica. Luro, rrcvas, fumo, se associaram na formação colo um menino branco) como .
de um complexo que remonta, talvez, à minha meninice e
Joanas, Marias, Bcncdicas, Amaras, Luzias, Jacintas, car-
·a que: também não é estranha a influência de "hiscórias-dc:-
regando num braço um filho branco e no outro um filho
trancoso", com personag.ms que eram "negros velhos",
preto; dando de mamar aos dois dos mesmos peitos mater-
perversos e de hórrido aspecto. De sorte que, para ser rigo·
nalmente gordos; dando aos dois de comer do mesmo pirão .
rosamcntc verdadeiro, devo afirmar que não receberia bem
amolcngado por sua doces e sábias mãos negras; ensinando
o casamento de f1lho ou filha, irmão ou irmã, com pessoa
aos dois as mesmas palavras accis, os mesmo brinquedos
de cor preta. Emrer;uuo, não creio que essa repugnância,
simples, as mesmas palminhas de guiné, os mesmos bdiliscos-
por si só, deva prevalecer sobre altas razões sentimentais,
de-pintainho, as mesmas ~nçãos a Pai, a Mãe, a Avô, a
morais e meneais, para evitar uniões entre brancos e pessoas
Avó, a Padrinho, a Madrinha, a Papai-do-Céu, a Mamãe-
de cor. A minha ~<?sa. tem boa dose de sangue de lndios.
do-Céu, aos santos protetores de casa. a Dindinha Lua;
Mas um negro, a não ser que possuísse doces cxtepcionais,
ninando os dois com as mesmas cantigas de ninar menino

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DocuMI!NTos DI! UMA SocrotOGIA MII.ITANTI!

pequeno; contando aos dois as mesmas histórias de bichos ap:h :Át.~!JA ~- ..... ;. m:::s;::; ~ !:n ~ ~ ~
compadres de bichos, de papões inimigos de nc:nc:ns mal- ifichom. & ~- ~ 00 =-?O ~ ~~ • t~ ~
criados, de mouras encantadas, de mouras tortas, de vdhos umps ptmi lil-b~ não pôde ~-o.bd.~--a contato rom os brasileiros,
de surrão, de reis, de rainhas, de princesas, de fadas; tratan-
do os dois com os mesmos ungüentos e os ·meSmos óleos. ·
pois que encontrou a "sua inteligência cafeinad.a" sempre •em
reflexos e jamais em reflexões"(leur intelligence caftinée, toute em
Nada mais compreensível, por conseguinte, que este brasileiro
rljlexes, jamais em réflexions).l8
tenha sido o criador da "Jusotropicologia", isto é, uma apologética
do colo.i:Uzador português. O caráter patológico do protesto racial do "branco" brasileiro é
O desajustamento do "branco" brasileiro ao seu contexto étnico evidente, levando-se em conta aspectos estruturais de nossa socie-
dade~ em nossos dias. · ·.·
o leva, por outro lado, muitas vezes, a aderir a ficções. Não gosta,
por exemplo, que se diga que o Brasil é um país de mestiços. Na atual fase de desenvolvimento econômico-social do Brasil,
Conhecido cronista social recebeu, cena vez, como protesto a uma não existem mais suportes concretos que permitam a nossa. mi-
alusão sua menos cortês sobre Ali Khan; uma carta de censura noria de "brancos, sustentar suas atitudes ariani2antes'. De. um
cujo autor dizia que o .Príncipe deveria ser mdhor tratado pois lado, verifica-se que desapareceram, desde há muito,. do ·~~ as
era amigo do Brasil e não se confundia com certa ·espécie de situações estruturais -que- confinavam a massa pigmenra.#; _.11os .•·
estrangeiros que afirmam no exterior que somos um país de "mal- estratos inferiores da escala econômica; e, de outro, obs~~s~ ·
trapilhos, de cobras e de negros... ".u; que a massa pigmentada, preponderante d~de o início de ~ossa
Isto não impede, entretanto, que o estrangeiro veja o "branco"· formação, absorveu, pela miscigenação e pela capilaridade social, ·
brasileiro ·como um espécime um tanro bizarro e pitoresco. Há grande parte do contingente branco, que, inicialment~' podia
uma página de Tibor Mende que me parece ilustrativa da maneira considerar-se isento de sangue negro. O que, nos dias de hoje, resta
como o europeu vê o nosso "branco". Narrando o seu primeiro de brancos puros em nosso meio é uma quota rdativamente
encontro no Brasil com um funcionário do ltamarati, escreve pequena. 0 Brasil é, pois, do ponto de vista étnico, um.pafs de
Tibor Mendel': · mestiços.
Le seõor bastos, du Minisrl:re des Affaires l!trangl:rc:s, Os fatos da realidade étnica no Brasil. des mesmos, ·.~o
chef de section au Palais ltamarary, était vcnu me prendre -
iluminando a consciência do mestiço brasileiro e o levam ~ perce-
pour me conduire dans sa maison de Copacabana. Bien
qu'il eíit une grandmere française- qu'il mentionnait trop ber a artificialidade, em nosso meio da ideologia da brancura. O
souvent pour qu'on n'oubliât son existence er sc:s origines ideal da brancura, tal como o ilustramos anteriormente. nas con-
arisrocrariques, - il érait li: Brl!silien rype, si tourefois cela dições atuais, é uma sobrevivência que embaraça o processo de
existe dans um pays préscnrant une aussi grande variéré. maturidade psicológica do brasileiro, e, além disso, contribui para
Nos relarions, nouées en Europe ~ l'oecasion d'une breve
enfraquecer a integração social dos dementos constitutivos da
rencontr, s'éraiént tran~formées en amiril! aussi vire que
mQrissent les fruirs sous le solei! tropical du Brésil, sans
sociedade nacional. · ··
avoir le temps de dévclopper les viramines nl!cessaires. Bastos Antes dos sociólogos, os filósofos já tinham percebido a natu-
érait inflnimenr bon, cordial et sans façon, bien qu'assez reza sociológica da si'mpatia e, ao mesmo tempo, o seu papel social.
soucieux du presrige social, er iJ éprouvair parfois un brusque
Segundo eles, á simpatia seria originariamente um estado psicoló-
bésoin de vous fairc dc:s confKiencc:s.
gico que aparece mesmo enrre os animais, desde que percebam ql,le
Foi .cenamente evocando a imagem ridícula de um desses
são semdhantes. Hume, desenvolvendo pensamentos de Spinoza,
brasileiros ávidos de europeização que Henri Michaux escreveu

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DOCUMENTOS DE UMA SOCIOLOGIA MILITANTE I - PATOI.OGIA SOCIAL DO "BRANCO" BRASILEIRO

considera a simpatia como a causa primária da sociedade; pois ela ao meio ffsico e social, e se seledÓnam e testam na experiência
suscita a imitação e reduz uma nação a um tipo genérico, variando social efetiva. Nestas condições, a prevalência dos valores autênti-
de intensidade na proporção direta da relação e identidade dos cos numa comunidade "leva à completa estabilidade e integração
indivíduos. 29 do ser humano", assegurando-lhe "liberdade,. e facultando-lhe o
Posteriormente a Hume, o filósofo e quase sociólogb Adam "controle do ambiente", a criação e manutenção de grupos, inSti-
Smith desenvolve uma Teoria dos sentimentos morais (1759), na ruições, leis e pautas de direiros e deveres, orientando com êxito
base do significado social da simpatia. Adam Smith procUra mos- a sociedade na luta e na sobrevivência intragrupal e possibilitando
cear que a sociedade humana subsiste enquanto certa bilar~ralidade o estabelecimento de laços e relações sociais íntimas e duráveis de
simpática entre seus membros neutraliza as ,tendências individua- solidariedade. n
listas e desagregadoras. A sociabilidade, para Smith, repousa na Nenhum grupo social alcança níveis altos de vida histórica se
simpatia, no faro de 'cada indivíduo "simpatizar com a sitU.ação da os seus m~mbros internamente nã~ se inter-relacionam pelo sen-
pessoa que é objeto de sua obse~~ç5~;, .e desta última "assumir a timento singenético, de que fala L Gumplowicz, cujo substrato
situação do espectador" ou, como diriam arualmeme os sociólogos flsico é o fato percebido da semelhança física e da semelhança
nane-americanos, no faro de os indivíduos serem capazes de se intelectual. É o "singenísmo" que faz de cada grupo um grupo à
ajustarem às expectativas uns dos ourros.3° parte, observa acertadamente Gumplowicz, que o leva a glorificar,
: A .sociologia nane-americana não deixuu perderem ...se estas o que lhe é próprio ~ o que tem d~ mais imediato, rebaixando e
observações fecundas. Giddings 31 inspirou-se diretamente em menosprezando o que 1láo lhe é próprio e o qu~ está afastado dele.
Adam Sn:i.ith, quando sustentou ser a consciência da espécie Segue-se dai - acrescenta o sodólogo33 - que a história es~ita
(comcioum~ss ofkind) o elemento subjetivo primário, fundamental européia designa a Europa como o coroamento da criação e· o
de toda sociedade. Tamo as sociedades animais como as sociedades centro do desenvolvimento histórico, que a história chinesa imita
h~as são tanto mais integradas, quanto mais, entre; os seus a mesma afirmação a propósito da China, a história americana a
·membros, se refor~ a consciência da similitude, quanto mais propósito da América e que, em suma, cada povo, cada tribo, siga
os caracteres que os fazem semelhantes são valorizados. Para seu exemplo. A formação colonial da sociedade brasileira tem
Giddings, a consciência da similirude convene em normas os dificultado o desenvol~imenro entre os brasileiros deste sentimento
. \ •... · hábi1:9s coletivos e os costumes, os quais a sociedade utiliza para e, segundo Azevedo Amaral, ter-nos-íamos habituado "a ter .ver-
reforÇar a sua coesão integral e assim perpetuar-se. Nest~ poQto, gonha de nós mesmos", e "acreditamos, através de nossa cultura
.. a atwd sociologia norte-americana conf~rma Giddings, poi~ os seus livresca, que só é grandioso o que corresponde aos padrões éticos
· . epfgonós ainda aceitam dassificiÇões de.éofirato social, como a de e étnicos das civilizações que se elabor~m em torno do. Mediter-
C. H~· Cooley, que os divide em primários e secundários, e a de râneo e do Báltico" .H Afetaria a personalidade do brasileiro um
N. S. Shaler, que os diferencia em simpacéckos e categóricos, sentimento de inferioridade, ao contrário do que cem acontecido
classificações que implicam no reconhecimento do papd social com ourros povos, que se acreditam
· integrativo da simparia. particularmente 11ob"s, particulannc:ntc: distinguidos, como
·• · Radjhakamal Mukerjee, em seu esrudo sociológico sobre a po1•os elcitG.I entre todG.I os povos, reforçando, mediante:
esta solidariedade, a superioridade: de seus membros sobre .
gênese dos valores, considerou-se precisamente em sua função inre-
os membros dos outros povos, corroborando seus senti-
grativa. Para Mukerjee, os valores são meca)lismos de ori,entaçáo mentos singcnéticos entre os membros de sua comunidade
socill do homem, instrumentos de ajuste de grupos e indivíduos (Gumplowia). ' .

232 233
DOCUMENTOS DE UMA SOCIOLOGIA MtLITÀNTE

Torna-se assim perceptível a crueldade, a má-fé e a intenção


trabalho, de certo, é necessário e, além disto, de efeitos positivos,
"cismogenética"(Bateson} subjacentes nos nossos esrudos sobre o
nisto que suscedvel de libertar muitas pessoas do que se chamou
negro no Brasil. A função deles tem sido a de contribuir para minar
protesto racial. Mas são os faros mesmos que, em última análise,
nas pessoas de cor, em nosso·meio, o sentimento de segurança. Os
propiciarão o desaparecimento daquela anormalidade de. nossa
nazistas utilizaram também processo semelhantes com os judeus.
psicologia coletiva. •:
Para inferiolizá-los, entre outros processos, transformaram-nos
em assunto. Consulte-se, por exemplo, o livro Di~ judm in Este problema envolve uma questão de articulação de g~rações.
Deutsch/and 3 s, publicado por uma editora nazista. Nesta obra se É natural que os caracteres daquela patologia se mostrem mais
encontram tópicos sobre "a emancipação dos judeus"; "o desenvol- vivos nas gerações mas velhas, que receberam. de gerações outras
que alcançaram a plena vigência do regime escravo, uma definição
vimento demográfico dos judeus desde o século XIX"; "os judeus
pejorativa social do negro e do mulato. As gerações ~ais moças,
na vida econômica"; "os judeus na imprensa"; "os judeus na
entretanto, se mostram· mais acessíveis a admitir os novos critérios
política"; "os judeus como vul[Os da cultura alemã"; "os judeus na
de avaliação que os fatos estão impondo.
literatura"; "os judeus no teatro"; "os judeus na música"; "os
judeus e a imoralidade"; "os judeus e a criminalidade". Títulos A partir de certa idade - observa um estudioso de questões
esses perfeitamente equivalentes aos de capítulos de obras "antro- geracionais, François Mentr.é 1-7 ~ o homem não muda, o indiví-
pológicas" e "sociológicas" sobre o negro no Brasil, de autores duo se torna estável e vive sobre o capital intelectual e moral que
nacionais. Eis aqui alguns títulos extraídos de Estudos afro-brasi- comanda sua ativid:1de. Daí o caráter polêmico que o tema das
relações de raça assume nos dias de hoje, entre nós. Ele reflete uma
leiros (Rio;·1935) volume contendo trabalhos apresentados ao 111
tensão entre gerações que elaboraram os ingredientes de sua me-
Congresso Afro-brasileiro reunido em Recife em 1934: "o negro
mória coletiva dentro de "quadros" sociais diversos.
no folclore e na literatura do Brasil"; "ensaio ecnopsiquiátrico
sobre os negros e mestiços"; "contribuição ao estudo do fndice de Como Maurice Halbwachs, cada um pode dizer: "Je porte
Lapicque"; "os negros na história das Alagoas"; "as doenças men- avec moi un bagage de souvenirs historiques" •18 Estes souvmirs
tais entre os negros de. Pernambuco"; "longevidade"; "grupos historiques, em parte, conformam a visão social,.as atitudes de cada
sangülneos da raça negra". Por outro lado, no 28 Congresso Afro- um. Muitos brasileiros ainda vivos descendem de avós que possuí-
brasileiro realizado em 1937, em Salvador, apareceram estudos ram escravos, enquanto outros não. Tais circunstâncias importam
sobre: "costumes e práticas do negro"; "o negro e a cultura no necessariamente na formação psicológica de cada um.
Brasil"; "influ~ncias da mulher negra ria educação do brasileiro"; A tradição da bmncura que ainda sobrevive,· entre nós, terá
"culturas negras, problemas de aculturação no Brasil"; "a liberdade de ser ultrapassada por outra tradição, tradição que estamos assis-
religiosa no Brasil: a macumba e o batuque em face da lei"; "o tindo nascer e que representa novas condições objetivas da vida
moleque do carnaval" .36 Isto. aconteceu em Salvador, no ano de brasileira.
1937. Note-se como rod~ os estudos mencionados implicam Nos dias de hoje, a idealização da brancura, na sociedade
.sempre um ponto de vista branco .. · ·bras1lêlr:l,eSinfoma de escassa integração social de seus elementos,
· ' 11 óbvio que o desaparecimento dos aspectos aqui descritos da é sintoma de que a consciência da espécie entre os que a compõem
patologia social do "branco" brasileiro não ocorrerá como conse- mal chegou a instituir-se. Este, porém, é um processo social nor-
qüência de mero trabalho de reeducação e esclarecimento. Este mal que não poderá ser definitivamente obstaculizado. Apenas
.... uma..siruação colonial temporária te~ embaraçado este. processo.

234
235
I -PATOLOGIA SOCIAL DO "BRANCO" BRASILEIRO
DOCUME~TOS DE UMA SOCIOLOGIA MtLIT>\NTE

úfica. Todavia, apesar disto, suas análises dos processos de


À luz de uma sociologia indutiva, isto é, de uma sodologia dominação das minorias são, em muitos aspectos, aceitáveis.
cujos critérios sejam induzidos da realidade brasileira, e não imi- Vide o seu livro na tradução espanhola- Úl Lucha de Razas.
tados da prática de sociólogos de outros oalses, à luz de uma Madrid, s.d., p. 247.
sociologia científica, o que se tem chi~ado nJ Brasil de "problema (1 O) A capilaridade social é um processo simultaneamente as-
do negro" é reflexo da patologia social do "branco" brasileiro; de· cendente e descendente de renovação nos vários estratos da
sua dependência psicológica. n sociedade. Abrange o processo discrito por Vilfredo Pareto
Foi uma minoria de "brancos" letrados que criou esse "pro-- como "curculação de elites e de classes". Vide PARETO,
blema", adotando critérios de trabalho intelectual não induzidos Vilfrcdo. Trair/ de sodologie. Pari~, 2 vols. 1917 e 1919.
de suas circunstâncias naturais diretas. ·-- ___ ---·-·-·. (11) Entre vários sociólogos e antropólogos brasileiros é corrente
Nestas condições, reconhece-se hoje a necessidade: de re- a tese de que os nossos problemas raciais refletem determi-
examinar o tema das relações de raça no Brasil, dentro de uma nadas relações de classe. Esta tese é insuficiente, a meu ver..
Explica apenas aspectos parciais da questão.
posição de autenticidade émica.
(12) Viçle SPRANGER, Eduardo, "Patolog;a Cultural?". In La
Só a simples tomada desta posição vale como meio caminho
Experimda de la vida. Buenos Aires: Realidad, 1949.
andado no discernimento das 'incompreensões reinantes em nossas
(13) Vide BAIANDIER, Georges. "La Sicuation Coloniale:
relações de raça, arualmenre.
Approchc Théorique". In Cnhim intematio.naux de socio/ogie,
~ preciso dizer, finalmente, que esta posição de autenticidade v. XI, Cahier Double, 1951. Neste estudo. escreve o autor.
étnica não se inclina para a legitimação de nenhum rom~tismo citado:" ... la situation coloniale apparait comme possédante,
culturológico, de ·nenhum retomo às formas primitivas de convi- d'une maniérc essentídle, 'un caractere d'inauthenticité: elle
vência e de cultura. A autenticidade étnica do brasileiro não cherche, consramment, à se justifier par un ensemble de
implica um pro~o de desesrrururaçã~~o. no caso, de desocidenta- pseudo- raisons."
lização da sociedade nacional. Ela é possível perfeitamente, dentro (13a) Popularmente se empregam sem precisão as palavras "Nor-
a
das pautas nas quais tem transcorrido evolução do pais. deste" e "Norte" com referência aos Estados que ficam além
no Espfrito Santo, em direção do norte. Quando escritas
Notas sem aspas devem ser interpretadas em seu sentido técnico-
(I) DURKHEIM, l!mile. Les R}g/e; de la mlthode sod~logiqu.e. geográfico.·
Paris, 1950. . _ __ _ . (14} Estudos sobre ti composição da população segundo a cor,
(2) Idem, p. 56. IBGE. Rio. 1950.
(.3) Idem, p. 56-57. ( 15) Idem, p. 8.
(4) Idem, p. 55. (16) Idem, p. 8.
(5) Idem, p. 57. (17) Idem, pp. 8-9.
' · (6) Idem, p. 56. (18) Idem, p. 16.

(7) Idem, p. 60-61. (19) Vide BRACHFELD, Olive.r. Inforiority Fuüng;, in the
(8) . Ideni, p. 61.
Individuttl and rhe Group, p. 127. London, 1951.
(20) Vide GUERRREIRO RAMOS, A. Sociologia c/lnka de um
: · (9) L GumplowiC'L, sociólogo austrlaco, sustenta uma teoria
baiano "daro~ In O)ornaL Rio, 27 de dezembro de 195.3.
racista da história que, obviamente, carece de validade cicn-

237
--:·.-:· .

DOCUMENTOS DE UMA SOCIOI.OCIA MIUTANTE r_ PATOLOGIA soó..\i. b0 "BRANco" BRASILEIRo

{21) O "branco" bai:mo ~ brasileiro é um tema ainda a explorar. individuals u rhe physical and social milieu, and are sifted
' · Os soci6logos e os psic6logos brasileiros ainda não se deram and tested out in acrual social experience by rhe duee-fold
conca do excelente material de observação que o tema sugere. criteria: (1) how far the dominam values that men hold lead
!.i Uma das pesquisas que pretendo empreender proximamente to rhe full poise ;rid inregration o f the personality, achieved
é a do preciosismo da linguagem falada e escrita de "brancos" freedom and co1mol of the enviromem; (2) how far the
da camada letrada da Bahia, onde é patente um aspecto prescnt sysn:m of·values with whose aid men creat and
adJeriano muito intercssanre. mainrain groups. inscirutions, laws and righcs-and-duties
{22) Emprego o termo na acepção em que o empregava Gustav succssfully guidcs sociecy in intra-group struggle and
Ichheiser, em seu estudo "Misundersrandings in Human survivals, and (3) how far the present system of values
Relations". The America11 jozm11t/ of Sociology, setembro, prometes the crcarion and maintenance of intimare,
1949. enduring and ideal social bonds and relations and an ideal
solidariry of humanity (cf.. MUKERJEE, R. Th~ Social
(23) Vide CONDÉ, João. "Arquivos Implacáveis", "flash" de
Str11cturt of Vnlues. London, s.d., p. 8-9).
Rosário. Fusco. Revista O Cruuiro, 23 de abril de 1955.
(33) Vide GUMPLO\X!ICZ, op. de., p. 273. ,
. (24) Vide PORTO, Adolfo F. Resposta a um Inqutrito, Dire-
toria de Oocumentaçáo e Cultura, Prefeitura Municipal do (34) Vide AMARAL, Azevedo. O Brasil na crise atuaL São Paulo,
Recife, 1948. pp. 74-5. 1934. p. 181. Nesta mesma página Azevedo Amaral escreve:
(25) Vide MtSa de Pista, coluna de Antonio Maria. O Globo, ... ~ ----'~A..noss:~ alma comprimida fervilha em reivindicações platô-
edição de 18/1/1955. nicas a que a nossa consciência empresta as formas ficúcias
de aspirações pueris e mesquinhas, enquanto o sentido da-
(26) Vide "O Príncipe Não Ficará na Miséria", coluna de Ibrahim
quelas forças subcer~neas é a libertação do nosso espírito na
· ·· Sued. O Globo, edição de 11112154.
afirmação orgulhosa de nossa realidade psíquica e dos traços
>. (27)Vide MENDE, Tibor. L'Ameriqrtt Letint mtre em sc~nt. singulares da nossa personalida<fe nacional". ·
· Paris, 1952. p. 25. (35) Die judeu ;... Dmud;úmd. Herausgegeben vom Institue zum
(28) Vide MICHAUX, Henri. Pnssages, NRF. Paris, 1950. Es- Studium dcr")udenfrage. Munchen, Germany, 1935.
creve Michaux: "Ainsi les mages (du Pays de la magit) furent
(36) Vários autores, O Negro 110 BrasiL Rio, 1940.
commencés le lendemain de mon arrivée à Rio de Janeiro,
(37) Vide MENTRÉ, François. Les génératiom sociales. Paris,
me separant si bien de ces Brésiliens, avec qui je ne trouvais
1920. p. 220. u A pcrrir d'un cerrain age, l'homme ne change
pas de contact (leur intcligence caféinée, toute em réflexes,.
jamais en réflexions) que jc pourrais presque dire, malgré Ie plus, l'in.dividu devient stable ec vit sur le capital intellecruel
temps passé là-b:rs, que je n'en ai pas rencontré (pág.162)". et moral qui com mande son activicé mais, autour de Iui, tout
changc par l'effcr du progres général et de l'entrée incessante
(29) Vide BARNES & BECKER. Social Tho11ght from Lort to dcs jcunes dans la vie, si bíen que le révolutionnaire de la
Scien(t, I• vol. 1952, cap. XIV. vielle deviendra le réactionnaire du lendemain: en réalité,
(30) Consulte BAGOLINI, Li..!igi, Moral e direito na doutrina da il n'a pas rétrogradé, mais il retarde de plus et plus sur la
simpatia. São Paulo, 1952. marche dcs idées et des évenemems et s'enfonce toujours
(31) Vide GIDDINGS, Priudpiot d~ sociologia. Buenos Aires, davantage duns !e passé ou il crouve sa raison d'être".
1943. (38) Vide HALBWACHS, Maurice., La mémoire colletive. Paris,
.. (32) Valuc:S are mechanisms of man's social orientation and 1950. pp. 36-7: Vide também deste mesmo autor, Les Cadm
. '. guidance: they are tools of adjustment o f human groups and socimt."< de la 1illmoire. Paris, 1951. Halbwachs, nestas duas

238 239
DOCUMENTOS DI!. UMA SOCIOI..OGIA Mll.ITANTE

obras, abre perspectivas muito importantes para o esclareci·


menro de problemas como o que constitui o tel'na deste
esrudo. Pretendo, em trabalhos posteriores, utilizar mais
amplamente as hipóteses fecundas de Halbwachs naqueles
dois livros.
(39) Consulte MANNONI, O. Psychologie de la colonisation.
Paris, 1950. Também Georges baland.ier, "Contribuicion à
une Sociologie, de la Dépendance" in Cahias Jnurnarionaux
II- O Negro desde Dentro
de Sociologie, Volume XII, 1952. E.~creve a{ Balandier: "La
sociéré colonisée peur.;. êrre considéré comme urie société
globalemeiu afil11ée, qui esr arreinre dans son organisme
socio-culrurclh: propn: (plus ou moins, sélon la capacité de
résistance de cette dernihe) et d'autanr plus soumise à la
préssion de la sociéré dominante erérrangere qu'elle est plus
dégradée...
(40) Sobre este tema, vide GURVITCH,' "Hyper-Empirisme
Dialecdque" .In Cn!Jiers, v.XV,J953. Também Dlter111hiiime1
soâaux et !ibrrté lmmaine. Paris, 1955.
Povos brancos, graças a uma conjunção de fatores hist6ricos e
naturais, que não vem ao caso examinar aqui, vieram a imperar no
planeta e, em conseqüência, impuseram àqueles que dominam
uma concepção do mundo feita à sua imagem e semelhan~.Num
país como o Brasil, colonizado por europeus, os valores mais
prestigiados e, portamo, aceitos, são os do colonizador. Entre estes
valores está o da brancura como símbolo do excelso, do sublime,
do bel~. Deus é concebido em branco e em branco são pensadas
todas as perfeições. Na cor negra, ao contrário, está investida uma
carga milenária de significados pejorativos. Em termos negros
pensam·se todas as imperfeições. Se se reduzis.~e a axiologia do
mundo ocidental a uma escala cromática, a cor" negra representaria
o p6lo negativo. São infinitas as sugestões, nas mais sutis moda-··
!idades, que trabalham a consciência e a inconsciência do homem,
desde a infância, no sentido de considerar, negativamente, a cor
negra. O demônio, os esplritos maus, os entes h~os ou.super-
humanos, quando perversos, as criaturas e os bichos inferiores e
malignos são, ordinariamente, ~epresentados em preto. Não tem

240
_::.;;.::..~·,-..:,·:·.~·.:

. ·. DOCuMENTOS DE UMA SoCIOLOGIA MILITANTE

conta as expressões correntes no comércio verbal em que se inculca Tais escritos são de aut9ria de pessoas brancas. Mas. na ver-
no espírito humano a reserva contra a cor negra. "Destino negro", dade, mesmo as pessoas eséqras sofrem obnubilação em da face
"lista negra", "câmbio negro", "missa negra", "almanegra", "so~ cor negra. Um dos mais dr~áticos flagrantes disto é esta decla-
nho negro", "miséria negra", "caldo negro", "asa negra" e tantos ração de uma autoridade poliCial de cor negra:
outro.s ditos implicam sempre algo execrável. Ainda nas pessoas ... o prt:co, é verdade, é feio. Uma raça feia, de pd~ escura.
mais vigilantes contra o preconceito se surpreendem manifestações Não ag,lda aos-o~hos, o negro é antiestétiro, e a manifes-
· irrompidas do inconsciente em que ele aparece. Há dias um líder tação deste sentimento é tida como preconceito.
cat6Hco, culto cidadão, anti-racista por principio, num dos seus Este, como a quase totalidade dos nossos patrícios de cor, é um
artigos, em que focalizava a momentosa tragédia culminada no cidadão aculturado ou assimilado, como diriam os que cuitivam
suiddio do Presidente Vargas, escrevia: aquela típica ciência de exportaÇão e de intuitos domesticadores-
pelas revelações tr(mrodm do arquivo m:r~to do seu mais a antropologia. Mas, pratiquemos um ato de suspensão da bran·
Intimo "guarda-costas", se verificou que o governo do Brasil cura e com este procedimento fenomenológico nos habilitaremos
possuía uma lmi11mtt griu, que no caso era uma emi- a alcançar a sua precariedade e, dãi, a perceber a profunda aliena-
nência ntgra! E que essa ma n~gra do presidente... escondia
ção estética do homem de cor em sociedades europeizadas como
em suas fichas ttcutas o mais ter/v~/ libelo contra um
regime de traficândm ~ fovoritismos.
a nossa. De repente nos torna óbvio o nosso empedernimento
pela brancura, nos torna perceptível a venda dos nossos olhos. É
E mais adiante reporra-se aos
como se saíssemos do nevoeiro da brancura - o que nos parece
que acudiam a rajar-se aos pés da eminência negra, para dda olhá-la em sua precariedade social e histórica_ E ainda que, por
conseguir as mais escusm intervenções. (os grifos são meus).
um momento, para obrer cerra correção do nosso aparelho 6ptico,
Sirvo-me. deles para marcar o sortilégio que a cor negra evoca
poderíamos dizer que das trevas da brancura só nos libertaremos
no espírito desse c:Scritor. Pois que se fosse branca a pessoa de que
à luz da negrura.
se trata~ Greg6rio Fortunam-, a elaboração do pensamento
Revelar a negrura em sua validade intrínseca, dissipar com o seu
teria, ·evidentemente, tomado outras direções. Se o guarda-costas
foco de luz a escuridão de que resultou a nossa total possessão pela
fosse claro, as aproximações seriam muito diversas. (Experimente
brancura é uma das tarefas heróicas da nossa época. Pior do que
o leitor traduzir para o branco o texto acima). o comentário do
uma alma perversa, dizia Péguy, é uma alma habituada. Nossa
!.; caso nos jornais c nas ruas se assinala de ângulos muito elucidativos
perversão estética não nos alarma ainda porque a repartimos com
i: da degradação da cor escura. De uma revista carioca transcrevo,
por c:xemplo, este excerto: · . ·. · · · muitos, com quase rodos: é uma lesão comunltária que passou à
cat~oria de normalidade desde que,· praticamente, a ninguém
Gregório quis saber se terá uma chanc~, um dia~ de ser
· deixa de atingir. A ninguém? Não. Alguns se iniciaram já na visão
acareado. Disse lhe cu que, na pior das hipóteses defrontar-
se-á com o Ge~er:H nô sumiria de culpa, na Justiça comum.
pdstína da negrura e se postam como noviços diante dela, isto é,
O pmo pareceu ficar satisfeito. Esfregou as mãos ... Deixei emancipados do precário f~tfgio da brancura. Purgado o nosso .·
o quarto do negro e com ele caminhd para a sala... Per- empedernimento pela brancura, estamos aptos a enxergar a beleza
guntei quais erom seus amigo:; ... o pretO respondeu ... . negra, beleza que vale por sua imanência e que exige ser aferi~por ·.... ·
A cor humana ai perde o seu caclter de contingência ou de critérios espedficos. A beleza negra vale instrinsecament~ e. :n.ã,o
acidente para· tomar-se verdadeiramente substância ou essência. enquanto alienada. Há, de faro, exemplares de corpos ;P.~?S~ ; <
Não adjetiva o crime. Substantiva-o. masculinos e femininos,__ ~u~ vale~. p~~ si meslll~;..d?.f~~!à~~;·.' =.\ ,
.... :> ~c.;/ .
. ·. _: :.-:-;·. ·:·....:.: : .···:.=:··:': ... ·:·
242 243
:.}//{)::~: ;:::-:\:"::";:
DOCUMENTOS DE UMA SoCIOLOGIA MIUT.ANTE li - 0 NEGRO DESDE DENTRO

: vis~···estético, ·e não enquanto se alteram ou se aculturam para de Lima, Nicolas Guillén e a legião de seus imitadores. Todavia,
: ; .~proxlmar-se dos padrões da brancura. Há homens e mulheres pondo a salvo o propósito generoso de tais poetas, nos refolhos de
irigiléiros,. de cabdos duros e de outras peculiaridades somáticas e suas produções, surpreende-se, com freqüência, o estereótipo:
· anq.-opométricas, nos quais é imperioso reconhecer a transparência "Branca pra casar, negra pra: cozinhar, mulata pra fornicar!" Labora
•·. · de u.ola autêntica norma estedéã. Abdeza-negra não é, porventura, pela ocultação da negrura toda esta pátina de associações pejora-
. ~ifuÇão cerebrina dos que as circunstâncias vestiram de pde escura, tivas e de equívocos sinceros que vestem nosso espírito e que
espécie de raCionalização ou aucojustifkação, mas um valor eterno, precisam ser purgados mediante a reiteração, em termos egrégios,
que vale ainda que não _seja descoberto. Não é uma reivindicação dos valores negros. No Brasil, quem talvez mais perco chegou, em
racial o que confere positividade à negrura.: é. uma verificação alguns momentos, da visão não domesticada da beleza negra foi
objetiva. É assim, qbjetivameme, que pedimos para a belezà negra Luiz Gama, no século passado, que escreveu versos como estes:
o seu IUga.r no plano egrégio. Na atitude de quem associa a bdeza
Como era linda, meu Deus I
negra ao meramente popular, fo~clórico, ingênuo ou eXÓtico, há
Não tinha da neve a cor,
um preconceito larvar, uma inconsciente recusa de aceitá-la übe-
Mas no moreno semblante
ralmente. Eis por que .é digna de repulsa toda atitude que, sob a Brilhavam raios de amor.
forma de folclore, antropologia ou etnologia, reduz os valores
negros. ao plano do ingênuo ou do magístico. Num paíS de mes- Lcdo o rosto, o mais formoso
Detrigucira coralina,
tiços como o nosso,. aceirar tal visão constitui um sintoma de
De ;mjo a boca, os lábios breves
autodesprezo ou de inconsciente subserviência aos padrões esté- Cor de pálida qavina.
ticos europeus.
Em carmim rubro ~ngastados
A aculturação é cão insidiosa que ainda os espíritos mais gene-
Tinha os dentes cristalinos;
rosos são por da atingidos e, assim, domesticados pela ;brancura, Doce a vo1:, qual nunca ouviram
quando imaginam o contrário. É o que parece flagrante :na poesia Dúbios bardos matutinÓS.
de motivos negros. De ordinário, a negrura aí aparece subalterna,
principalmente quando se focaliza a mulher, ·que é cele~rada, em
regra, em termos puramente dionisíacos, çomo se neles se; esgotasse Llmpida alma - flor singela
a sua especificidade: · Pelas brisas embalada,
Ao dormir d'alvas estrelas,
E eu que era um menino puro
Ao nascer da madrugada.
Não fui perder minha infància
No mangue ·crãquda carne! Quis beijar-lhe as mãos divinas,
Dizia que era morena Afastou - mas - não consentei
Sabendo que era mulata A seus pés de r6jo pus-me,
Dizia que era donzela -Tanto pode o amor ardente!
Nem isso não era da
Era uma moça que dava Não são raros, aliás, os momen-tos em que Lui~ Gama alcança
Assim falou o nosso grande Vinicius. de Moraes. Falaram no a visão essencial, não contingente, da beleza negra. Referem·se-lhe,
mesmo tom, com a melhor das intenÇões, t 1ário de Andrade, Jorge entre outras, expressões como' "as madeixas crespas, negras.., "flor
louçã", "formosa crioula", ''Tétis negra", "cabeça envolvida em

244 245
DocuMENTos DE UMA SocJoJ.OCIA Mll.ll'ANTE

núbia trunfa", "amores... lindos, cor da noite", "ebúrneo colo". A l'ombre de ta chcvelure, s'édairc mon angoi.ssc mx
soleils prochains de tes ycux.
Neste particular, Luiz Gama antecipou os movimenms revolu-
Fc:mme nuc:, femme noire!
cioná,rios atuais, como o Teatro Experimental do Negro e 0 da Je chance ta bcauté qui passe, forme que je fixe dans
negritude dos intelectuais de formação francesa, em que se desta- l'crernel
cam Birago e David Diop e Léopoldo Sédar-Senghor (senegaleses), Avam que Ic desrin jaloux ne te réduise en cendres pour
Gilbert Gratiant, Etienne Lera, Aimé Césaire (Martinica), Guy nourrir les racines de la vie.
Tirolie~ e Paul Niger (Guadalupe}, Léon Laleau, Jacques
Rouma.tn, Jean-F. Briere (Hrutí}, Jean-Joseph R:ibéarivelo, Jean Esta verdadeira revolução poética de nossos tempos conjuga-se
Rabémananjara e Flavien Ranaivo (Madagascar). Todos estes com todo um movimento universal de auro-afirmação dos povos
p.oe.tas pe~c~beram a ~eleza negra não desfigurada pda contingên-
e
de cor tem grande importância sociol6gica e política. Não deixam
cta tmpenalista como forma ... fixa na eternidade", no dizer de um mais dúvida quanto a isto versos como os que seguem, de Aimé
Césaire: . . . ::. ·;.. · ·
deles, Léopold Sédar-Senghor, autor do poema "Femme Noire",
no que assim se expressa: · Er nous sommes débouc maintenanc,
mon pays ct moi, les cheveux dans Ie . · ..... •.
Femme nue, femme noire!
vent, ma main pctite maintenant dans . ,
Vêcue de rn couleur que est vie, de ta forme qui est
son poing ~norme et la force n'cst pas ..
bcauré! · ·
en nous mais au-dessus de nous, dans ·· ·· · ..·
)'ai grandi ~ ron ombre,la douceur de tes maios bandait
une volx vrille la nuic c:t l'audience .. ~
mes yeux.
comme la pc!nétrance d'une grapc
Et voilá qu'au coeur de l'éc~ et de midi, jc te d~ouvre
apocalypcique.
cerre promise du haur d'un hauc co) caldné.
Ec la voix prononce que I'Europe nous
Et ta beautc! me foudroie en plein coeur comme l'éclair
a-pendam des si.ecle.~.gravc!s de mensonges
d'un aigle.·
er gmÍflés de pestilenccs,
Femme nue, femme obscurd car il n'est point vrai que loeu\ffc de.
l'homme esc finie .. .
Fruir múr à la chair ferne, sombres excases du vin noir
bouche qui fais lyrique ma bouche ' que nous n'avons rien à fairc au monde.
Sav:me aux horizons purs, savane que &~mis aux caresses que naus parasations lc monde '
ferventes du Vcnt d'esr Qu'il suffic que naus naus mertions au

~:; · ~-· ·
Tam-tam sculpc!, ram-tam tendu qui grandes sous Ies pas du monde •
doigts du Vainqueur mais l'ocuvre de l'homme vienc seulemenc
Ta voix grave de conrre-alto esc le ehant spirituel de de eommericer .....
I'Aimc!e. et il re.~te à l'homme à eonquerir toute ·
interdicrion immobilisée aux coins de .. ;. : ~.:.

Femme' nu~, ·f~~me obscure! sa fc:..Veur


Huile que ne ride nul souffie, huile calme aux flancs de ec aucune raee nc possMe le monopole
l'athl~te, aux flancs des prinees du Mali de la beaut~. de l'incelligence, de la force et il esc
Gazelle aux attaches célestes, les perles sont troiles sur place pour rous au rendez-vous .
la nuic de ta peau de la eonquêce ec nous savons maintenant
D~lices des jeux de l'e.~prit, les reflets de l'or rouge sur que le soleil tournc: aurour de
ta peau qui se moire,

246 247
DOCuMENTOS DE UMA SOCIOLOGIA MILITANTE

notre terre édairanr la percdle qu'a


f&xée norre volonté seule et que route
étoile chute le clel en rerre ~ notre
commandemente sans limite.

A rebelião estética de que se trata nestas páginas será um passo


preliminar da rebelião total dos povos de cor pata se tornarem IIi- Polltica de Relaç6es
sujeitos de seu próprio destino. Não se trata de novo racismo às de Raça no Brasil
avessas, às avessas daquele de que foram arautos Gcibíneau,
.. LaP.Q\lge, Rosenberg et caterva. Trata~se de que, até boje,•o negro
· . teni sido mero objem de versões de cuja elaboração não p~rticipa.
Em: todas estas versões se reflete a perspectiva de que se ;exclui o
· negro como sujeito autêntico. Aut~nticidade é a palavra que, por
fim, deve ser escrita. Autenticidade para o negro significa idonei-
dade consigo próprio, adesão e lealdade ao repertório de
...· . . suas conting&lcias existenciais, imediatas e espedficas. E. na me-
. . dída em que ele se exprime de modo autêntico, as versõeS oficiais
. a seú. respeito se desmascaram e se revelam nos seus intuitos
mistificadorc:s, ddiberados ou equivocados. O negro, na versão de
Prosseguindo na realização de certames peri&Ucos sobre rela-
seus ''amigos profissionais» e·das que, mesmo de boa-fé,·o vêem
ções de raça no Brasil, o Teatro Experimental do Negro promoveu
de fora, é uma coisa. Outr~. ~ -:::- o. l)e~9 ._desde dentro. •: .
na ABI, de 9 a 13 de maio de 1955, ·uma Semana de Estudos, na
Notas qual vários conferencistas procederam a um balanço dos eStudos
sociológicos e antropológicos sobre o negro em nosso pals ..
(1) Revista Forma, n° 3, outubro de 1954.
Ao encerrar-se a Semana de Estudos, o Teatro Experimental do
Negro fez a declaração de princlpios que, a se.guir, é transcrita.

Declaração de Princípios 1
Ao ence;rrar a Semana de Estudos Sobre RelaçõeS de Raça, o
Teatro Experimental do Negro:
·á) · considerando as tendências gerais que se exprimiram
nas conferências realizadas durante as sessões da referida Semana;
b) considerando as mudanças recentes do quadro das rela~
ções internacionais impostas pelo desenvolvimento econômico,
social e cultural dos povos de cor, o qual se constitui no suporte
da autodeterminação e da auto--afirmação desses povos;

248
·:·. .-_·.·::~-
~.-.

DOCUMENTOS DE UMA SOCJO~OCJA MILITANTE Ill- PoúTtCA DE REl.AçOES DE R.ACA No BRASIL.·

c) considerando os perigos sociais que poderiam advir do fatores ponderáveis na configuração das relações internacionais,
equivoco de definir em termos raciais as tensões decorrentes das tem contribuído, de modo benéfico, para restaurar a segurança
relações metrópole-colônia e capital-trabalho; psicológica ·das minorias e desses povos; todavia, este fato auspi-
d) considerando que .1! anti-histórico retornarem as mi- cioso não deve transmutar-se em estímulo a considerar como luta
norias e os povos de cor às formas arcaicas de sociabilidade e e ódio entre raças o. qu~"é, ·f'undiunént:llmente, tensão e conflito .
cultura, ou preservarem-se marginais nas condições ecumênicas entre sistemas econômicos.
contempodneas; .3) Sem prejufzo do direito de as nações escolherem. o seu.· ...·
e) considerando as novas perspectivas abertas pela atual próprio destino, é condenável toda medida ou toda política, ainda
teoria social cientlfica acerca das questões coloni~; que justificada no direito de autodeterminação, que tenha por
f) considerando que, sob o disfarce de "etnologia", "antro- objetivo, direto ou indireto, fazer retornar as minorias e os povos
pologia", "antropologia aplicada", e a despeito de contribuições de cor às formas arcaicas de sociabilidade e de cultura, ou conservá-
científicas de profissionais ·dedicados a essas disciplinas, têm se las marginais nas condições ecumênicas contempoclneas. ··
corroborado, ·direta ou indiretamente, situações e medidas retar- 4) É necessário desenvolver a capacidade crític:ci dos qua-
dativas da autodeteminação· e do desenvolvimento material e moral dros científicos, inteleCtuais e dirigentes dos povos e grupo de cor,
de minorias e povos de cor; · . a fim de que eles se tornem aptos a discernir nas chamadas ciências
g) Considerando que o Brasil, pelas suas particularidades sociais o que é me! a camuflagem e sublimaÇão de propósitos
históricas. é ~ nação ocidental em que prepondera o contin- espoliativos e domesdcadores e o que é objetivamente positivo na
gente popUlacional de origem negra; perspectiva du sociedades di~as subdesenvolvidas.
h) considerando que o Brasil é uma comunidade nacional 5) É desejávd que o Governo Brasileiro ap6ie os grupos e
onde tem vigência os mais avançados padrões de democracia ra- as insdnúções nacionais que; pelos seus requisitos de idoneidade
cial, apesar da sobrevivência, entre nós, de alguns restos de discri- científica, intelectual e moral, possam contribuir para a preser-
minaç[o. vação das sadias tradiçÕes de democracia racial no Brasil, bem
como para levar o nosso país a poder participar da liderança das
Declara: forças internacionais interessadas na liquidação do colonialismo.
1) ~ desejável que os organismos internacionais, cujo Rio de Janeiro, ~3 de maio de 1955.
objetivo nomúlal é estimular a integração ·dos povos, sejam cada
vez mais encorajados a discutir medidas concretas tendentes à Notas
liquidação do colonialismo, ·em todas as suas formas e matizes, (1) Elaborado pelo autor.
uma vez que a mera proclamação de direitos e de princípios, sob
forma acad~mica e em abstrato, pode prestár-se {e freqüentes vezes
se tem efetivamente prestado) para a coonestação da injustiça e
da espoliação. ·
2} .}t legitimo reconhecer que o recente incremento da
import!ncia dos povos de cor, politicamente independentes, como

250
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.. ·1· .
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.AP:e.NDICE

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1i
11

... :'"
I - Sobre a Crise Brasileira
e a Sociologia no Brasil

Respectivamente nas edições de 7/6/56 e


28/7/56, o jornal carioca Última Hora
publicou em dU3s part~ a seguinte
entrevista do autor:

O Professor Guerreiro R.an?-os, pelo relevante prestígio cres-


cente que adquire no Brasil e no plano internacional, pode ser
·r considerado como o nosso sociólogo do desenvolvimento, isto é,
cómo·o sociólogo em cuja obra se espelham hoje as novas tendên-
cias da sociedade bra::Ueira;-A reportagem de Última Hora teve
oportunidade de ouvi-lo a respeito de vários assuntos. ligados à so-
ciedade brasileira, no tocante à sua especialidade. Desse encontro
entre repórter e professor, surgiu esta palpitante entrevista, cuja
primeira parte publicamos hoje, guardando a segunda parte para
publicação posterior, em que o leitor poderá aferir a profundidade
com que trata as questões sociológicas e a independência com que
~s expõe. ·-· · .
.AP.ENorCE I- SOBRE A CRISE BRASILEIRA...

Falando-nos sobre o momento atual brasileiro, disse-nos realizar a emancipação do pa!s, o que nos obriga a esforços para
inicialmente o prof Guerrdr~ Rtzmos: enquadrar esses novos fatores nos estatutos econômicos e sociais
- ~ velha, no domínio da sociologia, a distinção entre os que eles reclamam. A criação desses novos estatutos da sociedade
períodos orgânicos e os períodos críticos da vida de uma sociedade. brasileira exige que se projete e realize um elenco de medidas
Em seus períodos orgânicos, a sociedade consegue canalizar os integradas, que reflitam a consciência orgânica de nossas lacunas
impulsos humanos dentro de pautas consistentes, obtendo assim e necessidades. A classe dominante do Brasil atual não é, em
a integração das condutas. A crise surge quando estas pal1tas não verdade, uma classe dirigente, na medida que ela não possui a
são mais aptas a exercer papel organizatório, deixando, por assim consciência orgânica das necessidades da comunidade bacional.
dizer, livres ou soltas as propensões novas. Então se torna evidente Para ser dirigente, falta-lhe uma componente psicológi~ e ideo-
uma ruptura entre a.sociedade produzida, ou r~tinizada, e a socie- lógica- a comprçensão da realidade do pa!s como um todo. Esta
dade em produção, em estado efervescente. Estamos hoje, no :;; .
carência ideológica se revela nas marchas e contramarchas e na
Brasil, vivendo um momento essencialmente crítico, caracterizado indecisão que, ostensivamente, caracterizam a maneira como os
pelo descompasso entre as aspiraçÕes majoritárias dos brasileiros e grandes problemas nacionais estão sendo tratados. Estamos viven-
a organização social vigente. É visível; hoj~, uma cisma na socie- do uma perigosa fase de pun~m serom de que podem decorrer
dade brasileira, cisma que, com o passar dos dias, cada vez-mais· surpresas ameaçadoras. Se não sairmos já deste punctum serom,
se acentua. Uma sociedade velha desaba à nossa vista, minada por é provável que nos afundemos outra vez na confusão, aliás em
tendências novas que, perseguindo sua lógica iman~te, estão franco processo à nossa vista. Não há maior desgraça que possa.
suscitando desequilíbrios sociais, os quais, para o sociólogo, são acontecer ao país do que o equivoco. E o germe do equívoco está
criadores, pois auspiciam o advenco de uma forma superior de nele operando. Grupos partidários, que não representam mais
organização social em nosso país. -- ·· --· ----- - -- nada e já deviam estar reduzidos ao silêncio, adquirem imponân-
No fundo da crise está .evidentemente uma transformação
material do país, uma transformação de suas condições econô-
cia, defendendo, por impostura, as teses populares dos que os
derrotaram. Inversões semelhantes se verificam em outros níveis de
-I .
micas. Já estão defl.agrados na economia brasileira fatores de tal liderança. E tudo isto mostra a inexperiência e. a timideZ dos que l
natureza e vulto que nos permitem comandar, em grande-parte, o representam as novas tendências da sociedade brasileira. E o exer-
nosso desenvolvimento, o que não se verificava até há bem pouco, . dcio severo e enérgico dessa representatividade que se ·coma
quando o controle das variáveis de que dependia o crescimento do urgente em todos os setores, principalmente no econô~ico, no
país estava totalmente além de nossa interferência. Em outras político, no cultural. Há, hoje, no Brasil, um enorme desgaste de
palavras, embora esçassos, existem hoje no Brasil recursos econô- recursos e energias, resultante do exercido de funções de liderança
micos e humanos que, se organizados e aplicados funcionalmente, por pessoas respeitáveis, mas desqualificadas, sem sensibilidade
podem acelerar o nosso progresso material. Esres fatores, relati- para as tarefas novas que se impõem, pessoas, em suma, 'que
vamente recentes, estão, entretanto, çomo sugeri acima, e se me deveriam ser devolvidas à vilegiatura ou a uma pacata vida domés-
permitem, desvairados, entregues à sua espontaneidade. Estão des- tica. Enquanto tais pessoas estiverem investidas d_e autoridade
mobiliudos. Ora, o espomaneísmo pode ·ser mortal para o Brasil. formal- a única que lhes resta - não se desfaz a parafernália de
Não basta constatar a existência, entre nós, de fatores auto- enganos de que resulta a confusão geral.
determinativos. Temos um prazo útil relativamente curto para

256 257
·.,
AP2NDICE I- SOBRE A CRJSE BRASILEIRA...

Falando-nos sobre o sentido de sua obra. prossegue o prof · nhada para a realização de tarefas de maior prioridade. Sobre o
Guerreiro Ramos: . ' que penso a respeito da pesquisa sociológica no Brasil, escrevi um
- São as tendências de desenvolvimento que procuro exprimir capítulo da Cartilha brasileira do aprendiz dé sociólogo. Nesse
em minhas obras e estudos· sociológicos. Na minha atividade terreno, há verdadeiras leviandades, custeiam-se empreendimentos
profwional, por meio da palavra escrita e falada, faço, quase de caráter puramente parasitário.
diariamente, uma experiência enriquecedora. .1! que, sendo o meu ·CJouéfó-·próolema diz respeito ·à utilização pdo Brasil dos
pensamento freqüentemente polêmico e contrário ao aparente~ recursos a que tem direito, oriundos de organizações interna~
mente consagrado, seria de esperar que suscitasse oposições, danais. Por um lado, o prestígio dessas organizações parece
desaprovações. Todavia, não me posso queixar. O ódio que alguns ofuscar-nos e não temos, na medida necessária, uma atitude critica
"sociólogos" oficiais me votam, ele mesmo se constitui em situação . em face delas. E assim, aceitam~se, no Brasil, seus proje~os sime-
inteleaualmente fecunda para mim, pois me instala dentro de uma tricamente elaborad )S de maneira abstrata, uniforme, desp1an-
contradição muito estimulante do ponto de vista dialético. Vivo rada, que não traduz ~s inter~ses reais do pais, os quais, por serem
dialeticamente. Não encontro, porém, resistências sérias na mi.nha muit() particulares, exigem que sejam tais projetos também muito
atuação profissional. Posso dizer que tenho, hoje, público nume- especfflcos. Na burocracia internacional, verifica~se, em não pe-
roso em todo o pais. Agora mesmo estou me preparando para quena escala, o que se pode chamar de patologia administrativa. AJ.
atender a convites para fazer conferências em São Paulo, Belo acaba por se formar umá confraria de especialistas do abstrato, de
Horizonte, Salvador e Recife. Isto é para mim tão desvanecedor questões generalíssimas, cujos componentes se rodiziam num jogo
quanto se fosse convidado para o estrangeiro. Pois o sentido de inconseqüente de postos mais..!Ul menos inócuos ou "cartoriais".
minha obra é eminentemente brasileiro e o seu julgamento, não Fai parte desse jogo o aliciamento, dentro de cada pais, de uma
apenas no exterior, mas no Brasü, é importante no meu entender. espécie de quinta coluna que se beneficia dos cartórios mantidos
Lamento apenas que a minha obra publicada ainda não corres- mediante recursos internacionais. Ainda bem que conheço várias
penda ao que sei que posso e vou fazer. Considero-me, na verdade, exceções: brasileiros patriotas, ligados a tais organizações, que
um estreante, tendo em vista. os meus l'rojetos de trabalho. procuram lutar contra esse estado de coisas e que estão já inquietos,
Q!iais os principais probkmas de organizaçíUJ do trabalho em busca de novos rumos.
sociológico no Brasil ?
li
-Na minha opinião, dois devem ser destacados, no momento.
Em primeiro lugar, o da aplicação dos recursos no trabalho de Pode o senhor resumir as teses princip~is da seu pensamento
pesquisa no domínio das ciências sociais. Várias organizações sociológico?
nacionais estão aplicando esses recursos. Salvo raras exceções·, - Já o fiz em 1954, em declarações prestadas ao jornalista
fazem-no,.porém, de maneira que considero verdadeiramente pre~ Otto Schneider. Mas ·é pertinente rever essas teses, tendo em vista
datória. Estão sendo feiras p~squisas para se conhecer o que é atualizá-las. Vou resumi-las nos itens que formularei a seguir:
óbvio, o que ji se sabe sem pesquisa; ou ainda, aplicando-se I - O atual esquema de divisão das ci~ncias sociais
recursos em projetos de sobremesa, em investigações e estudos de (economia, sociologia,· psicologia social, antropologia etc.). esti
secundarlssima impordncia em pais como o Brasil, com o que ie obsoleto. Corresponde a um período histórico dos países europeus,
ocupa. assim, mão-de~bra qualificada, que poderia ser encarni- em que se verificou o apogeu do capitalismo. Nesse peri~o, a

258 259
. . • J\J>.tNDlCE . I - SOBRE A CRISE BRASil.EJM...

burgu~~ européia ónha conseguido tornar-se o centro tonfor- sobre mortalidade infantil e sobre problemas administrativos, eco-
m.ador do mundo e para garantir-se esta situação, estimulou, nos nômicos e poUticos do país. Quem não age, quem não panicipa
· quadros acadêmicos, a floração de ciências pardculares aplicacW do processo societário não compreende a sociedade. :i
j
no estudo de aspectos parciais da sociedade e da vida hriinana. N -
A visão unitária e global das sociedades, nesse período histórico,
Resumindo: a ciência social do século XX é uma
teoria culturista de carárer radicalmente historlcista e dialético. É
l
se traduz na conduta prática da burguesia. Atualmente estamos culruralista porque distingue na história universal um processo
entl"..ndo em nova época de crise do imperialismo. O centro de unitário de desenvolvimento - o processo civilizatório; e descon-
conformação do mundo já se biparciu, enquanto na p~riferia tinuidades culturais, culturas irredutíveis, ou seja, o proc~sso ~1-
deste se esboçam ondas ou movimentos cismáticos que tendem, tural. É radicalmente historidsta enquanto não se considera uma
por sua vez, a promover a reparrição de forças internacionais. teoria final, mas está disponível para a superação de sua própria
Conseqüentemente, t~rna-se necessário o apelo a uma teori~ globa- estrutura categoria!, uma ~ez que está advertida de que a própria
lisra da presente época, apta a servir de instrumento pata reálização estrutura subjetiva do homem se altera historicamente. É radical-
das mudanças em que os povas e5tão empenhados. Es~ novas mente dialética no tríplice sentido de que __:_ (a) não admite o
condições determinam o imperativo da revisão do esquema de primado sistemático de nenhum critério operatório de dialeti-
divisão das ciências sociais oriundo do século passado, e ainda hoje zação, nem tampouco se admite como um monismo determinista
sobrevivente. dialético; (b) não admite a conclusão do processo histórico-
11 - A sociologia à luz dos fatos contemporâneos, re- dialético, nem sabe de antemão aonde conduz este processo; (c)
vela-se como uma forma de ideologia conservadora. Na forma dialetiza as relações entre a teoria e a prática.
sistemático-formal que veio a assumir nos quadros acadêmicos,
V - A prod~Jção sociológica, como toda espécie de pro-
tem de ser utilizada subsidiariamente e não como "a" ciência da
dução, é historicamente condicionada. Portanto, a produção socio-
sociedade. As correntes mais ideol6g.icas ou acientíficas cLi socio-
lógica, direta ou indiretamente, reflete os caraeterlsticos específicos
logia contemporânea são o formalismo {Sirnm.el, von Wie&e etc.)
da sociedade particular do produtor ou dos produtores. Todo
e o empirismo (sociologia e antropologia anglo-american,as, so-
produto sociológico é dotado de intencionalidade. No dominio da
bretudo). Estas correntes, mais do que a sociologia em geral, são
ciência social, tem a validade rambém a observação de que o
"doutrinas da ordem", tautologias disfarçadas. sob o rótulo de
desenvolvimento nacional consiste em grande parte na substituição
ciência.
de importações. Assim como somos mais brasileiros, consumindo
III - Inclino-me a conceituar a nova ciência social como Guaraná em vez de Coca-Cola, tecidos Bangú em vez de tecidos
uma concepção resultante de relações dialéticas entre a teo~ia e a ingleses, devemos produzir e consumir a nossa sociologia· em vez
prática. Note-se que não dou primaq~ sistemático nem à teoria, de consumir a dos outros passivamente. Para ó autêntico profis-
. nem à prática. Em toda prática há uma teoria imanente. Em~oda_ sional brasileiro, a produÇão sociológica estrangeira deve ser
· teoria há uma prática imanente. Na minha vida profissional, aliás, considerada como subsídio, jamais como norma ou critério de
em certo sentido, a prática precedeu a teoria. A nova teoria sobre pensamento e ação. Quanto mais autênticos o pensamento e a
relações de raça no Brasil, que consegui fazer vitoriosa em nosso ação, mais os seus critérios devem ser induzidos da circunstância
meio, representa a indução de uma praxis. O Teatro Experimental. imediatamente vivida pelo sujeito. Começo a me preocupar com
do Negro me po~sibilicou a praxis do "problema". e .depaiHida é a criação de uma técnica de "r!=dução sociológica", que habilite o
que cheguei à teoria. O mesmo aconteceu com os meus estudos estudioso a "suspender" os produtos sociológicos, a fim de assimilá-

260 261
··~-~·
AP2NDICE

los, sem perigo de deixar-se envolver por sua intencionalidade ou


de alienar-se.
VI - Quem apenas conhece a literatura sodol6gica uni-
versal, sem se dar conta do que chamo de "redução sociológica",
não passa de simples "alfabetizado" em sociologia. No Brasil,
pessoas meramente alfabetizadas em sociologia são erroneamente
consideradas sociólogos. A história da sociologia no Brasil é, em II- ~~ .. A Descida aos Infernos''
larga margem, uma cr6nica de livros, ou de cadernos de deveres
colegiais.
;.\
VII Os fatos sociais não são coisas, como pensava
Durkheim e como pensa a· sócio-antropologia empírico-posi-
tivista atualmente aceita principalmente na Inglaterra e nos
Estados Unidos e servilmente imitada no Brasil por uma legião de
ftanzboas-boys, herskovits-boys e wagky-boys. ~ al que se recrutam
os "lusotropicólogos" e os agentes consulares e outras espécies de
animais do~ésticos. Para a sociologia ciendflca, o que acontece na
sociedade não se reduz a coisas, mas;\ processos. O empirismo
sociológico é pse~docientífico, porque converte um momento Sob o título "Guerreiro Ramos e a descida aos infernos,, a
transitório da sociedade em algo defmitivo, eterno, mumificado. revista Marco (nll 4, 1954) publicou a seguinte entrevista:
Prefiro dizer com Hegel: "O imporcante no escudo da ciência é
realizar o esforço do conceito". Contra o fisicalismo, a "coisi- O senhor aceita ~er classificado como sociólogo?
ficação" dos fatos sociais, sustento que o que acontece na socie- -Aceito por comodidade o qualificativo. Todavia, cada vez
dade humana só pode ser' entendido objetivamente quando se mais me convenço de que, enquanto permattece adstrito aos qua-
assume o ponto de visca do devenir, do movimento permanente. dros academicamente definidos como sociológicos, o especialista
VIII - Uma conseqüência do exposto anteriormente é o não se habilita a alcançar a compreensão global da sociedade. A
que tenho chamado de "faseologia", modo de ver sociológico sociologia nos mold~ .~~. que __a -~ncebe4 Augusto Comte na
aplicado por mim em vários escudos, principalmente no meu livro década de 1830-40, e nos moldes sist~mádcos em que se .confi-
editado no México (1955), Sociologia de la mortalidivJ infantiL gurou posteriormente, é uma escamoteação, enquanto nãÓpropi~:
A idéia central deste modo de ver pode ser assim enunciada: toda cia a percepção das tendências fundamentais do desenvolVhii.entÓ
estrutura econ8mica e culturológica condici01Ut seu correspondente das sociedades, mas apenas conhecimentos fragmeniário~epâtdiis
da vida coletiva. ·· ., ;::.o.::·
elenco de problemas, o qual só se altera na medida em que a referida
estrutura se transforma de modo faseoldgico. O modo de ver A sociologia I portanto ideologia?
faseológico é empírico-dialético e encarece a visão globalista da -Para ser preciso, vamos dizer a "sociologia.., us;mdo aspas.
sociedade. Implicaria o lema: o todo condiciona as partes. Sim. A "sociologia", enquanto se pretenda uma ciência ~iSt~ti­
co-formal (penso aqui em sistemas como os de Durkhe~, Simmel

262
.APtNDlCE. li-"... A DESCIDA AOS INFERNOS"

von Wlese e os da maioria dos sociólogos norte-americanos), é, Nossa perspectiva em face da produção cultural dos países I!deres
freqüentemente, uma forma larvar de ideologia conservadora, uma é semelhante à que habilitou os intelectUais do século XVIII a
criptoideologia. liquidar as sobrevivências feudais de sua época. O processo posi-
Diz-se por ai que o senhor é um iconoclasta e a tese que está tivo de nossa sociedade é favotável à tarefa criadora no domlnio da
agora sustentando não irá confirmar isto? cultura.

-Quem quer que contrarie a rotina está exposto à;incom- As nossas instituições culturais estão preparadas para isto?
preensão. Na verdade, pretendo ser construtivo e esforço-;me por - De modo geral, .não. Em sua maioria, das· estão burocrati-
ser impessoal, evitando ferir susceptibilidades alheias. Nem: haveria zadas, sem sensibilidade para a cultura e sem inquietação. Em larga
razão para isto. Em última análise, muitos dos proftssio~ais que margem, nossa organização cultural "oficial" carece de represen-
praticam a "sociologia", cuja validade eu nego, fazem-no, não tatividade, é inimiga da criação autêntica, assim que o trabalho de
porque careçam de valor e de inteligência, mas porque foram criação de cultura terá que ser procedido a despeito dela... Deixe-
adestrados de maneira equivocada. São pessoas, vi~ de regra, mos os profiteurs daquela organização com os seus tltulos, seus
sinceramente equivocadas. galardões acadêmicos, sua pacholice e tratemos de viver intensa-
mente o nosso tempo.
Negando a "sociologia';- não estd fazmdo raciocinio suicida?
Que pensa a respeito de nossa produção soâológica?
- Ao contrário, encontro fortes estímulos para realli:ar uma
tarefa criadora. Essa tarefa consiste na fundamentação e no exer- - A sociologia no Brasil, sobretudo a "oficial" e a mais
cido da ciência histórica. A ciência social só poderá ser ~egftima festejada nos círculos dos "entendidos", está desatualizada. Em
enquanto histórica, enquanto teoria da problemática ~tual da parte, esta desatualização é reflexo da desatualização da atual so-
sociedade. Daí se infere que, sem prática, sem militância,~ não há ciologia européia e norte~americana, em face do progresso das
· ciência social. idéias filosóficas nos últimos quarenta anos e da nova imagem
do mundo. Na medida que os nossos sociólogos levam dema-
QJJal o antecedente europeu desta ciência histórica? : siadamente a sério ou ao pé da letra a produção sociológica alie-
-'- Principalmente Hegel e seus condnuadores revolucionários nígena, acentua-se a dita desatualização. Além disto, nossa so-
e, ainda, o historidsmo,·com Dilthey à frente. Temos de retomar ciologia está desatualizada em relação ao nosso presente, à
estes marcos do pensamento e repensar a acuai divisão das ciências problemática particular da sociedade brasileira, perdida na in-
sociais, a qual está muito comprometida com as tendências con- vestigação de pseudopr~blemas, de questiúnculas, tais como
servadoras da sociedade européia, a partir mais ou mbios da "aculcuração", "estrutura de comunidade", "lusotropicologia", "so-
década de 1840. Em suma, o atual esquema das ciências sociais brados e mucambos", ou em certas mandarinagens sobre temas
não é nada deftnitivo, é reflexo de uma fase histórica, superado ou tratados em tese, com muita erudição e sem nenhuma urgência,
em vias de superação, na medida que estamos plantados em outra necessidade ou funcionalidade.
fase histórica. . Sua posição na socíologia brasileira I muito insólita. Como
Que contribuição pode dar neste sentido o cientista brasileiro? chegou a ela?
-No domínio da ciência social, o intelectual brasileiro pode -A vida tem sempre razão. Sempre tomei o partido da vida.
tirar ·grande vantagem da perspectiva que lhe dá a sua sociedade Os modestos conhecimencos que acumulei (e não cesso de adquiri-
em rápida transição do semicolonialismo para a emancipação. los) são vividos. As circunstâncias colocaram-me em tal posição

264 265
-'·--.:~ .. _:_;:. __

li - " ... A 0ESODA AOS INFERNOS'"

que os meus estudos foram sempre comandados pela necessidade brasileira. Preparo também uma obra sol;lre negros e "brancos" no
de compreender ou resolver problemas: mortalidade i~f~~il. ~d· Brasil, em que pretendo mostrar que o nosso "problema" do negro
ministração de negócios governamentais, organização social de é reflexo da patologia social do "branco" brasileiro e, portanto, um
negros, ação polltica, agressões pessoais etc. Tive assim de, conti- equívoco de nossa sociologia e antropologia do negro. .
nuamente, testar na prática as minhas idéias e os meus conhe- Que coiw gostllria tÚ fazer na vilegiatura! ·
cimentos; quando não, de Octrair da prática uma teoria. Estou ....:.... Quero crer que está muito longe ainda esse período. Mas
certo de que deriva daf o meu realismo, se me pennite. Meu lema a pergunta me dá oportunídade para confessar dois dos meus mais
é e será sempre o de Napoleão: "on s'engage, et puis on verra". amoráveis projetos para quando dispuser de mais tempo; Estes
Seguindo este lema, pude restituir à cultura, para mim, o seu projetos são: escrever "a história se·creta de Abdias Nascimento,. e
sentido original de saber. Para me entender, é preciso por ênfase a biografia de Hélio Jaguaribe.
em saber, na condição de estar de posse, de estar senhor daqueles Com o primeiro desres ·projetos, pretendo, através da descrição
ângulos, daquelas nuances,. daqueles refolhos, daqueles trapos da do curso de urna vida, fazer a história interior de um precursor, de
vida que os inocentes, os equivocados, os conformados negligen- um homem a quem venho assistindo viver dialeticamente a
ciam ou não percebem. Este sa.ber-culto só se adquire descendo aos negrirude. A antecipação que marca a vida de Abdias t~m si.do o
infernos ou ... mordendo a maçã, como Adão. Quem não obedece obstáculo para o seu êxito social, no presente. Mas o. êxito VItal•••
àquela regra, não pode conjurar o hermetismo constitucional da é 0 terria que quero ferir-- o pleno êxito vital de um homem sob
cultura, que· só entrega o seu segredo aos generosos. a aparência social mais despisi:adora, e apesar das incompreensões
Que situações tm sua vida tem mais contribuldo para a sua impostas pda penúria e a mediocridade ambiente. · ·
formação! Com o segundo projeto, pretendo fixar a fisionomia din1mica
- A pobreza e as relações de comensalidade com os amigos. de um pedagogo, fixar um momento importante da. evolução
Uma das mais fortes .impressões que recebi na adolescência resul· cultural do Brasil, quando uma vida humana se faz maténa em que
tou da leitura de Rilke e de Péguy, dois heróis da pobreza. Ainda um determinado "tempo'' histórico impregna o seu sentido.::
que, atualmente, ponha enrre parêntesis certos aspectos das obras
destes homens, devo-lhes a iniciação no espírito da pobreza como
ideal. de vida. Ao lado disto, ·dentre as minhas melhores ocasiões
de crescer incluo em primeiro lugar as em que, a pretexto de um
cafezinho, de um almoço ou de um jantar, dialogo com os amigos.
Em matéria de cultura, meu débito para com os amigos é .muito
grande. Reconheço-me mesmo, neste terreno, um espoliador de
amigos.
Que estut:kJs estd realizttndo presentnnente!
- Estou ultimando uma obra que .se chamará A Teoria da
sociedade brasileira. em que pretendo mostrar a evolução da teoria
sociológica entre nós, desde Sylvío Romero até os nossos dias e
apresentar uma interpretação histórico-sociológica da realidade

266 267
. I
I

ANEXO

O Terna da Transplan~ação ·
na Sociologia Brasileira
-:::.<•": ,.•..

En-çeléquias na In-çerpraaçiio

O Tema da Transplantação
Em nossas letras sociológicas é discernível um apreciável
número de interpretações da sociedade brasileira·. Até esta data,
porém, tais interpretações, em sua maioria, alcançaram explicar
apenas aspectos fragmentários <ia sociedade brasileira.
Afigura-se, assim, como um exercício preliminar para a formu-
lação de uma teoria de nossa sociedade o que consiste na discussão
sociol6gica dessas interpretações.
· Nãê--prêtendemos -insinuar que a teoria da sociedade brasileira
possa resultar da justaposição ou da média aritmética do que há
de fragmentariamente objetivo nesses esforços. O que esperamos
que se ganhe com esta discussão é um método de estudo da
.realidade hist6rico-social, de caráter cien~ffico. É aliás, mais impor-
tante o domínio des :~ mér9.4o do que a simples aceitação, em
termos definitivos, de ·uma interpretação da realidade histórico-
social, num dado momento, ainda que objeriva. Até porque, sendo
ANEXO • o TEMA DA TltANsl!L.ANTAÇÁO... . _-_;1·
--
ENTEI.ll.QUIAS NA INTERPRETAÇÃO

•,
Assim, todos os autores, cujos estudos sobre o Brasil focalizam
eminentemente dinâmica esta realidade, nenhuma interpretação
a transplantação, manifestaram um propósito pragmático e se
pode pretender·se definitiva. Portanto, é o d~mínio do método
preocuparam com as soluções do que consideravam o "problema,.
científico de interpretação sociológica, em última análise, que ga·
:'/:::·
:·.::1.'·:.~:. brasileiro, A crítica, no caso, era o esteio de uma conduta parti·
rante a possibilidade da compreensão e assenhoramento dos fatos.
~- ::· :: cipante, de um programa. Daí que, em tais estudos se torna muitas
Foi exatamente por carecerem deste método que o~ soci6· vezes difícil separar o diagnóstico da terapêutica; dai o predomi-
logos brasileiros, até agora, não cõnseguinm proceder: a uma •':
=: ;_a'·. nante caráter normativo de tais estudos.
teorização cabal de nossa- sociedade. Para tanto, seria necessário ·
Preliminarmente vale notar que a quase totalidade dos estudos
que tivessem ultrapassado o ecletismo que, em regra, presicUu a sua
em pauta considera a transplantação como uma condição patoló-
formação. Não tendo acontecido isto, suas obras, em g~, são
gica de nossa sociedade, resultante da ação pouco esclarecida de
mais elucidativas de sua formação biográfica do que da formação
nossos quadros dirigentes.
do país. __ . ----·----.
Portanto, antes de passar ao exame mais pormenorizado das
V árias têm sido as idéias à 1uz ·das quais os diferentes soció-
variantes deste tipo de interpretação no Brasil, é pertinente obser-
logos procuraram explicar a formação da sociedade brasileira. As
var que os seus autores, via de regra, negligenciaram o fato de que
principais foram, a da transplanração e da problematicidade da
·.. :"! a transplantação foi um acidente inevitivd da formação brasi-
sociedade brasileira; a das enteléquias; a do regionalismo; a da
aculturação; a das interferências históricas; a da colonização bra- leira, um acidente normal e não patológico em todos os contextos
sileira como uma empresa comercial; a da dualidade. coloniais. Rigorosamente, durante o período em. que o Brasil foi .
colônia de Portugal, as transplantações obedeciam e serviam a
No presente estudo,· focalizaremos as contribuições que deram
um propósito pragmático e historicamente positivo. Graças a elas
ênfase à transplantação.
saltamos várias etapas de desenvolvimento, um território sobre o
A interpretação da formação da sociedade brasileira à: luz da qual se disuibuíam várias tribos na idade da pedra articulou-se de
idéia da transplantação tem sido tentada desde longa data. repente ao plano da história européia. Não seria através do mero
Os que, porém, deram ênfase a essa idéia em seus estudos, crescimento vegetativo que isto poderia ocorrer; A transplantação
estavam preocupados com a formação do pais, num duplo ~entido. foi um expediente e his.toricamente necessário para que se tornasse
De um lado, adeptos de um· certo historicismo romântico~ consi- possível, a seu tempo, a nação brasileira.
deraram-na como um proG:esso de caráter orgânico e vegetativo de Se não extrapolarmos para o passado colonial, o ponto de vista
que o homem participa como um elemento. entre outros e não brasileiro, que só foi historicamente possível a partir do século
como um protagonista propriamente; de outro lado, entenderam XIX, ter-se-á de concluir que a transplantação foi uma excelente
a formação do pais como um ato deliberado de lhe dar forma ou arma de manutenção e defesa de uma estrutura de poder. A uni-
de disciplinar o seu desenvolvimento. dade do Brasil, nos três primeiros séculos, conseguiu·a PortÜgal
No primeiro caso, a formação. do pafs se compararia a um graças ao tecido administrativo que instalou, aqui, verdadeiro
processo histórico, análogo ao das entidades naturais, por eiemplo, "compressor" através do qual "nivelou o terreno".
arqueol6gico, ao das espécies. No segundo caw, a formação;do pafs Estaria fora da pauta sociológica invectivar os fatos ou pro-
co'rresponderia a uma obra política, de que seriam protagonistas as ceder indagando que rumo .,tomaria a nossa evolução se, em
elites ou os quadros dirigentes. · vez de portugueses, fossem espanhóis,· franceses ou holandeses. os

272 27.3
- .. - · - - - - - · · - - - - - ··--......, ----::-:-:-:---'-----..:-~--

ANExo - O TEMA o.-\ Th.-\NSPIANTAç.\o••• . .EN'l'lli.P.QUIAS NA fN'I'Itnl'llRTAÇI.O

colonizadores do nosso território. ,Aliás, esta evolução, qualquer a palavra e, pode-se dizer, veio atingir o n(vel científico ou a
que pudesse ter sido; não se teria realizado fora da pauta da depurar-se de etnocentricismos e de resíduos ideológicos, quase em
transplantação. . nossos dias. Além disso, não tínhamos aqui nenhuma tradição de
Há, entretanto, um momento em _que a transplantação se torna pensamento, desde que faltaram as condições materiais necessárias
entre nós algo de que se toma lúcida e dramática consciência. para tanto.
Foi a Independência que inaugurou a fase em que aos nossos Nestas condições, f?i perfeitamente normal que se tomasse em
quadros dirigentes deveria caber o mister ciclópico de criar insti- face do "problema nacional" uma atiq.tde exemplarista1 segundo a
tuições para um país~ Este momento só o tiveram os pafses qual a sua resolução estaria garantida ou encaminhada pda insta-
colonizados ou descobertos. lação, entre nós, das instituições vigentes nos palses líderes da
Foi neste momento (1822) que se apresentou aos nossos qua- época, isto é, que uns, como Salles Torres Homem (o famoso
dros dirigentes o "problema" da formação nacional. As novas Timandro do Libelo do Povo), advogassem a reprodução aqui das
condições reais do Brasil tornavam facilmente percept1vd que as institui~ões-.f.rancesas, enquanto outros, como Tito Franco de
instituições aqui instaladas obedeciam a um propósito explorador Almeida, procurassem moddos na democracia inglesa ou norte-
e fiscal e impunham um esfor~ de criação no campo social. americana. ·

Era esta circunsdncia problemática que desafiava a capacidade A corrente dos que, após a nossa Independência, procuraram
de compreensão dos quadros dirigentes. Os vdhos países não contrapor-se à prática das transplantações literais encontrou o seu
tiveram um "problema" desta ordem porque suas instituições se primeiro sistematizado~ em Paulino José Soares de Souza, Viscon-
formaram lenta e demoradamente, através de um processo mais de do Uruguai. Ele YlU com· toda nitidez o artificialismo dos
evolutivo que· revolutivo. · exemplaristas e, como Ministro do Império, oferece, entre n6s,
uma ilustração do que pode ser uma ação política e adminis-
Em face do "problema", duas tendências se ddinearam desde
trativa sociologicamente fundamentada.
1822: a dos que advogavam a adoção literal de instituições estran-
geiras e a dos que se inclinavam para a tentativa .de realização de Assim, não admitia a transferência literal das instituições
um esforço no sentido de criar, para o pafs,. uma superestrutura, porque, a seu ver, elas, em última análise, nada n:ais
eram do que
tanto quanto possívd, adequada às drcunsdncias particularíssimas cristalizações de costumes. E j.arriais aceitou a idéia da bondade ou
do meio. excelência intrínsecas ~as mesmas, fossem americanas, inglesas ou
francesas. Diz ele, referindo~se às instituições:·
Ambas as tendências são historicamente compreensíveis. A
Cada uma de suas molas supõe o concurso e jogo de
primeira tendência foi, como não podia deixar de ser, a dominante
outras, certo espírito, hábitos, caniter nacional e certas
até agora. Lembre-se que em 1822, quando os próprios quadros circunstâncias, cuja falta nio 6 pouível suprir. Cada uma de
dirigentes brasileiros passam, ~es mesmos, a praticar extensamente suas panes sustenta e 6 sustentada pelas outras, c com elas
transplantações, das ciências sociais a_petlas a economia já tinha se liga. ~ necessário muito escudo, muito crin!rio, para
sido concebida. Mas a referida disciplina daquda época era nada separar urna parte dessas instituições, e aplicá-la a ouuo país
diverso, cuja organização, educação, Mbito e cartter e mais
mais que um sistema de conceitos e leis dos pafses europeus na fase
circunstâncias são também diversas.
particular do capitalismo em' que estavam. Só posteriormente se
É muito eloqüente o testemunho que nos dá Paulino das insti- ·
· deram conta os economistas da historicidade dos conceitos e das
tuições parlamentares adotadas pdo Bra5il no período imperial.
leis econômicas. Quanto à sociologia, só na década de 1830 surgiu

274 275
E~UlAS NA INTERPRETAÇÃO
ANExo --0 TEMA DA TRANSPIANTAÇ.\0 •••

. No começo de nos5a vida como pais independente, nem o Torres e Oliveira Vian~. Todos des, depois de diagrioscicarem os
Executivo nem as próprias Câmaras Legislativas compteendiam males que em nossa sociedade decorrem da prática de transplan-
bem a Constituição. Autoridades administrativas, câmaras muni- tações literais, passam a propor medidas corretoras desses males.
cipais, particulares_ dirigiam-se diretamente ~ Câmara dbs Depu- Todos des não se satisfazem apenas em interpretar, propõem-se
transformar o país.
!
·i
tados e esta -
1
acolhia tudo e ocupava-se de insignificantes qu~ões admi-
nisrrativas, mal e incompletamente instruídas e examinadas,
e tendia a· administrar por mdo de parec:etq. .. Dirigia
É o caso de Silvio Romero, que alcança com nitidez a
historicidade das instituições e dos produtos culturais em geral. A 'l
i
sua História da literatura brasileira (1 888) é, por assim dizer, o i
advertências e recomendações ao Governo, indi~va-lhe so-
luções, mandava responsabilizar empregados... As Câmaras
primeiro esforço de interpretação sociológica do Brasil. Ao realizá- {
invadiam a atribuição do Poder Executivo de fazer Regu- lo não podia um espírito agudo como o de Silvio Romero deixar
l
de sublinhar o caráter reflexo das institui~es nacionais e princi-
lamentos, Os Ministros propunham à Câmara; objetos de
Regulamentos ..
~
palmente de nossa literatura.
O Ensaio sobre o Direito Administrativo do VisÇonde do A nação brasileira ~ tem ... em rigor uma forma pró- I
Uruguai, publicado em 1862, é um dos primeiros docw::Uenros da pria, uma individualidade caraccerlsriça, nem política nem
posição crítico-assimilativa em face da produção cultur;U estran- intdec:tual. Todas as nossas escolas, numa e noutra esfera,
geira, posição, ainda hoje, muito escassamente adotada ..Uma das não têm feito mais em geral do que glosar, em clave baixa,
as idéias da Europa, às vezes, em segunda ou terc:dra mão. ·
teses centrais deste livro é a dacentralização, que lhe parecia o
Tem os uma literatura incolor, os nossos mais o ~lAdos ta-
princípio fundamental a ser observado na organização: político- lentos dão-se por bem pagos quando imitam mais ou menos
administrativa de um país como o nosso cujo povo carecia de regula~ente algum modelo estrangdro. (Históri4 da li1~
hábitos de autogoverno e de unidade psicológica e que, portanto, ratura brasileira, pág. 125)
_deveria ser educado em termos hábeis e adestrar-se lentamente para A deficiência sociológica da critica de Romero, e aliás, também,
gerir os seus próprios negócios. _ da dos que o seguem no trato deste tema, consistiu em admitir que
A organização político-administrativa .lo Brasil, na! visão de se os brasileiros fossem mais sensatos poderiam ter evitado a
PaulinÇ>, comparava-se a. uma tarefa turdar que exigia um:u;li.te de transplantação. A sua posição crítica, entretanto, o habilitou a
homens conscientes das necessidades orgânicas da sociddade na- antecipar uma alienação fundamental da vida brasil~, que só
cional. Isto porque- é o seu pensamento- . hoje, realmente, pode ser liquidada; o habilitou a ver o que
nos palses nos quais ainda não estão difundido$ em todas chamou de "erro político" e que consistia em
as classes agudos hábitos de ordem e legalidade, :que únicos agrav-ar inconscientemente a dispersão anglo-americana,
podem colocar as liberdades públicas .fota-do.-alc:ance das impingl-la a países norteado$ por outras normas, erigir em
invasões do Poder, dos caprichos da multidão e dos botes forma definitiva de governo, imitávd por outros povos,··.
dos ambiciosos, e que não ~tão portanto devidamente aquilo que não passa em rigor de um dos momentos, uma
habilitados parll o s~lf govtmmmt, ~ preciso começar a das fases, um dos estádios da evoluçio da gente anglo-
'introduzi-lo pouco a pouco, a sujeitar esses e{ISaios a uma saxôna.... · -
certa tutela, e a cercos corretivos.
Dentro desta ordem de idéias, a política no Brasil, segundo
Funda, assim, Paulino · uma tradição de estudos: teórico- Silvio Romero, deveria atentar· para os seguintes imperativos: .
pragmáticos que se continua através de Silvio Romero> Alberto

276 277
ANEXO - o Tl!MA DA TRANSPLANTAÇÃO ••• ENTlltQUIAS NA ll-ITERPRETAç,\0

a) obrigação de estar ela em acordo e em consensus com volvimêlito do capitalismo nacional. Não viu, portanto, Albeno
todas as outras manifestações espirituais ativas do povo, cuja Torres, que o caráter llus6rio âã.·nação, no Brasil, lhe imposto pela
vontade dirige a formulação do direito, religião, moral, arte, ciên- necessidade de comparecer externamente de modo a tirar proveito
cia, vida económica; da conjuntura mundial, embora internamente o país fosse um
b) obrigação de renunciar à mania de supor que instituições sistema histórico ganglionar. Não viu, em suma, que o que se
se copiam indiferentemente de estranhos, sem atenção às condições impunha na sua época seria a diretriz de atingir indiretamente a
de tempo e espaço; fase nacional da formação brasileira através da criação do capita-
c) obrigação de abandonar no sistema representativo a base lismo indlgena.
do matedalismo grosseiro do território. e da d.fra de popula;ão, e Neste ponto, Oliveira Viana, embora insistindo numa atitude
procurar o almejado apoio na representação das grandes funções normativa em face da transplantação no Brasil, avantaja-se a Torres
sociais correspondentes às criações fundamentais existentes. em objetividade. Com efeito, percebeu que "a obra de unificação
Alberto Torres mergulha nesta tradição e define em que con- nacional" está na dependência dos "meios de circulação material",
siste o "problema nacional brasileiro". Diz ele: além dos de natureza espiritual- ferrovias, navegação, telégrafos,
As nações de origem remota c de lenta evolução não correios. No prefácio da segunda edição de Evolução do povo
conheceram, nem conhecem, o prDblnna tlildDIIII~ pela brasileiro (1938) escreveu:
mesma razão por que os herdeiros de grandes fonunas des- Há que: accntuar·o advento dos três novos meios de
conhecem o pr11bkma da subsist!ncia c cada indivíduo comunicação que nos vai permitir uD:'Ia. maior aproximação,
desconhece o problema da formação estrurural de seu orga- não s6 matcr.ia.l como espiritual, de todos os eentros da
nismo (O Pr11blnna lllldDnai brasileira. Brasiliana, 1938, população do pa.ls; quero me referir l radiofonia, à radio-
pllg. 93). telegrafia e à aviação. Todos os três agentes por c:xccl!ncia
Nas nações novas o fato, ·resultante da forma peculiar da sua de noss~ unificação material ou moral. Todos os três des-
.-:·· tinados a ser fatores podcroslssimos na obra de desen-
exploração, é que a sodedade não chega jamais a constituir-se: a
volvimento e ~nsolidação de nossa consciência coletiva
assimilação e a integração, obras de lento e gradual evoluir, nos
nacional (pág. 15).
velhos países,~ encontram os mesmos móveis de est!mulo e de
Tivesse Oliveira Viana melhqres instrumentos de análise socio-
operação (pág. 94).
lógica e teria percebido a estreita correlação entre o fenômeno
A· Organki:zção nadonal é a ob'ra em que Torres propõe a 5.
nacional e o mercado interno •
. estrutura polltico-jurídica que lhe parecia susceptível de possiblli-
Progressos como este aproximam a nossa melhor tradição so-
. tar a realização da tarefa de formar a nacionalidade artificialmente,
.;·· ciológica da compreensão objetiva da realidade brasileira. Mas
de cima para baixo, da inteligência para os instintos.
Oliveira Viana não superou, em larga margem, os equívocos de
E éjustamente quando pas$a à. pane programática de sua obra seus antecessores. Insistiu muito em sublinhar o fracaSso das trans-
que Alberto Torres exibe a sua. inconsistência científica no donú- plantações, o qual, segundo de, seria imposto pela força dos
nio da sociologia. Assim acreditou que a "consciência nacional" costumes e do caráter ··nacional. Atualmente, afiguram-se quase
pudesse ser formada artificialmente, pudesse ser "obra política" e ingênuas palavras como estas (Instituições polfticas brasileiras}:··
I· não viu que a nação só se pode dai efetivamente, dentro de con- Que os costumes influem decisivamente no âito de
I~ dições concretas muito especificas, que ela é um produto histórico qualquer política do Estado demo~-nos a nossa hisfória, · ·
e não puramente psicológico, isto é, que ela é uma fase do desen- desde 1822, com as ·próprias reformas dcmoaáti~::~&JlUe
I[ :· -~ :
,,.l_:l: 278 279
ANEXO - 0 TEMA DA TRANSPLANTAÇÃO ••• ENTE.LtqUIAS NA INTERPRETAÇÃO

temos feito, usando a técnica libe~al. isto ~. o in~odo de Não é pois, para admirar que as tendências normativas em face
:i
QUtorgar ao povo a focuúúuú dele mesmo --:- por um do "problema brasileiro" expressas por Silvio Romero, Alberto
movimento espontân~ da sua livre iniciativa _;. realizar a
Torres e Oliveira Viana venham confluir, na esfera polftica. no
mudança, a inovação, a reforma pretendida pela política do
Estado. São numerosas esw reformas - e constit\_lcm t~da Integralismo e no Estado Novo. Para focalizar apenas o Inte-
a longa história das tentativas consótucionais de an:lka- gralismo, lembre-se que em 1933., num livro doutrinário, com
nizaçiio ou de amerkaniza;4o da nossa vida ~lírica: s~lf pretensão sociológica, o Sr. Plinio Salgado retoma o tema da
grwrmment municipal; autonomia provincial; democracia; transplantação. Ele vê no Brasil uma incompatibilidade entre o
governo de partidos; parlamentarismo. fato e .a idéia nacional. Para de, o povo brasileiro, durante os três
Nenhu~~-d~w in~~~ Jib"ais- ou diw liberais primeiros séculos, .
- tiveram aqui, em boa verdade •. êxito real. O self
firmara um 1m1áo de ser, uma linha de evolução nacional,
govrmment regional, a autonomia das províncias ou dos um tipo de relações sociais, uma consci~ncia de necessi-
Estados, na generalid;ule dos casos, falhou - como falhou, dades, para sempre esquecidas, para sempre relegadas a um
a autonomia dos munidpios. Falhou também a ~cmocracia plano ínfimo por nossos intelectuais, em te>das as épocas do
- como sufnigio di'reto e universal. Falhou o governo de
partidos - falhou no lm~rio e também na República. O J nosso ji longo período independente.

Parlamento falhou igualmente: do regime parlamentar do


lmpl!rio o que, realmente, se salva - e tam~m o- que o
}; Este período independente teria sido o em que, por força do
contato freqüente com as nações da Europa, nunca deixamos de
salvou-~. sem dúvida, o "poder pe5$oal do Imperante». ··i;,
.•. .~:;
copiar instituições e idéias. Diz de (Psico/Qgia da Revolu;ão, 4a
E, baseando-se em sua crítica, passa a preconizar os critérios edição, págs. 129-30), descrevendo o que chama as duas nações:
._':·1:.'. : .
que devem presidir à organização do país. Resumindo o s~u Quem quiser compreender o povo brasileiro tem, prc-
liminarmena:, que separar as duas nações, as quais coexistem
pensamento sobre a questão, éScreveu em Problema de polltr.ca
objetiva: 'i no país, e representam, cada uma, o resultado de uma
revohlrão distintll.
Organização sólida e estável da liberdade, pri~pal­ O Brasil letrado, dos literatos, dos juristas, dos cien-

',
mente da liberdade civil, por. meio de uma organ~zação tistaS, dos grandes industriais c comerciantes, dos políticos
sólida e estivd da autoridade, principalmente da autoridade e diretores de Partidos- esse Brasil procede do skulo XIX;
do poder central. •
Esti claro que, quando dizemos-:--- "autoridade", não
l ..
~ o Brasil constitucionalista, liberal, democr.ldco, cientista,
rom~ntico, retórico. ·
queremos dizer apenas autoridade do Executivo, mas tam- O outro Brasil, dos aglomerados municipais, das popu-
btm, e principalmente:, autoridade do Judiciúio. O Poder j lações disseminadas pelo imenso território, das massas
Judiciúio e o Poder Executivo são os grandes poderes, cuja J proletarizadas, dos bandos sertanejos - esse Brasil procede
organização nos deve preocupar, de maneira predpua. numa
obra séria de revisão. O Poder Legislativo, na sua modali-
1 do séC\Úo XVI, ~ o Brasil individualista. aventuroso, feiticista
por índole, acomodadcio às injunções patriarcais ou aos ,,
;!
dade parlamentar, é, ao contcirio do que parcCf., de impor- .i imp<:rarivos.
tância secundária. , j O primeiro é o Brasil fonnal; o segundo, o Brasil
'I

Um Poder Executivo forre: ao lado dele e cantra de um


Poder Judiciário-ainda mais forre- eis a fórmula. i essencial.
Ambos são revoludonirios; mas enquanto o primeiro
Ou o movimento de reforma das nossas instituições terá :{ recebeu da Europa uma revoluçáQ j~ domesticada pelas
este sentido nacional, ou não terá sentido nacional algum
- e se resolverá apenas numa agitaÇão temerária perigosa,
i
.-~
reações éticas c jurídicas do constitucionalismo, o segundo,
tendo-se isolado quatrocentos anos do mundo, desenvolveu,
de regionalismos revivescentes. ll a seu modo, a ·idéia da revoluçio, que. apenas subcons-
cicntemc:nte inquietava a civilização do mundo ocidental.
,i
J
280 l
:~· 281
'!
··...··· ... _ .... ·.:..:_·..:.·...:..:....:___:_.:.____:_ ____

ANEXO. o TEMA DA TRANSPUNTAçAO •••

O Brasil das cidades maiores era uma expressão da neste sentido engloba um vasto acervo de produção desde as
aidóa revolucioniria·'oriunda do afato revolucionirio eu- meramente literárias até as que se pretendem sociol6gicas.
ropeu", o Brasil inculto, das populaç6es interiores era uma
txpresdo do "fato revolucionirio•, oriundo da aidéia revo- De modo geral, ess-as interpretações se caracterizam pelo fato
lucion:íria•, idéia nascente no alvorecer do século XVI e de atribuírem ao povo brasileiro um cardter, ·uma vocação, ou
traduzida em bruto na terra selvagem. 1 tendências e inclinações fixas. Como os antigos, admite~se aqui a
As conclusões a serem tiradas desta exposição sumária parecem existência de qualquer coisa, "impalpável, mas real" que torna os
ser as seguintes: povos diferentes entre si. Tais diferenças, via de regra, de caráter
1) estes autores, enquanto representam uma atitude crítico-- decorreriam da "ação d'uma pollada ou dem6nio invisível", ·de
assimilativa em face dos produtos culturais estrangeiros são, do uma espécie de genius lod, gênio do lugar.
ponto de vista científico, superiores aos que assumiram em face Tecnicamente aquela "qualquer coisa impalpável, mas real"
de tais produtos uma atitude dogmática--dedutiva, ou seja, de pode ser chamada de enteléquia, palavra criada por Aristóteles e
aceitação literal dos mesmos, desadvertidos das contingências que Leibni~ clarifica ao dizer que as enteléquias
consuetudinárias do pais; são todas as substâncias simples ou m6nadas criadas,. pois
2) no que diz respeito ao diagn6stico socio16gico da transplan- t~ em si uma certa perfeição e hi ndas uma certa capa-
cidade de ba5car-se a si mesmas que as torna fontes de suas
tação, estes autores não conseguiram formular uma explicação
ações irt!e~~s e.. por.. ~ dizer, aut6matos incarp6reos.
cabal da questão. Discutiram predominantemente em termos psi-
col6gicos. A tranSplantação, para eles, poderia ser ou ter sido Segue-se daí que a compreensão de uma sociedade exigiria dons
evitada pelo esclarecimento das elites. Quando, na verdade, a verdadeiramente artísticos, certa capacidade divinat6ria muito
tranSplantação. no Brasil e nos países de formação semelhante tem próxima da intuição poética. A interpretação de um país passa a
sido um fato normal e inevitável decorrente da interaçã~ de fatores ser, portanto, uma proeza e admite tantas variantes quantas são as
objetivos, em que ressaltam os econ6micos, os quais foram negli- equações espirituais de cada autor.
genciados por aqueles autores; A m;tis ingênua descrição do car:iter do noss<? povo em termos
3) a prova de que esses autores não chegaram a formular uma de enteléquia é devida, sem dúvida, ao Conde Affonso Celso, que
teoria sociol6gica do Brasil, de car:iter ciendfico, é que propu· escreveu em seu famoso livro Porque me ufano do meu palt
seram soluções psicol6gicas ou meramente superestruturais para os (21 edição, 1901):
problemas do pais tais como esclarecimento ou educação de elites, Quanto ao seu car.lter (refer:i~-se ao povo bra:sileiro),
fortalecimento do executivo ou do judiciário, organização eleitoral. ainda os piores deuactores não lhe podem negar:
Não viram, portanto, que as soluções dos problemas são menos t• Sentimento de independência, levado at~ a
atos de vontade de um ou de alguns do que um processo social indisciplina. .
2• Hospitalidade. No interior, raro se encontram hos-
mesmo, de caráter total, em que se compenetram os diferentes as- pedarias. Quem chega é acolhido, com affahilidade e lha-
pectos da sociedade: o econômico, o social, o político e o cultural. neza, na primeira casa a que bata. Os lares de certa ordem
t~m um quaf!:o ~p.~lal· sempre prompto, chamado o qUilrto
11 dos hospetks. Estes demoram-se mezes e annos, às vezes. O
O Tema das Enteléquias :.:,:. dono da casa não se incommoda. ~ para clle signal de
impor::ancla, como o receber cartas numerosas no correio.
A explicação do Brasil em termos de enteléquias vêm sendo 3" AffeiÇio 4 ordem, á paz, ao melhoramento.
tentada de longa data. O capítulo das interpretações do nosso pais
··.:·

282 283
ANEXO- 0 TEMA DA TRANSPLANTAÇÃO, .. ENTEl.tQ.UIAS NA INTERPJUITAÇAO

4- Paciençia e resignação. Além da luxúria, seríamos dominados pda cobiça, pela tristeza
5A Doçura, longanimidade, desinteresse.· e pelo romantismo. É característica desta e de outraS interpretações
6• Escrupulo no cumprimento das obrigações que obedecem às mesmas diretrizes impressionistas a incapacidade
contrahidas. juJgu-se-hia · desairado quem, no interior, de indicar os corretivos concretos dos males que descrevem. Para
allegasse prescripçáo de divida. o aufor de Retrato do Brasil,
7• Espírito extremo de carid1de. Eliséc Red~ observa ~ necessário recorrer i cirurgia a fim de liquidar os no,~;'-'~
que nenhures se adla como no Bnzil tão notavd organi- defeitos. S6 duas soluções poderão impedir o desmem-
za.çlo de mahelecimentos de solidarie~de, mai~tidos por bramento do país e a sua desaparição como um todo uno
esmolas, sem inccr.v~Çãô··<f:o· governo. Produz ~tado o criado pdas circunstãncias históricas, duas soluções cacas-
menor appdlo, em nome dos que soffrcm. tr6ficas: a guerra c a Revolução,
s• Acccssibi,lidade que degenera, is vêzes, em imitação coisas, aliás, que de não diz em que consistem.
do estrangeiro.
9" Tolerância: a4SCOcia de rrcconccicos de j raça. rdi-
Em 1935, de um dos nossos mais acatados publicistas, Monso
gião, wr, posição, decahlndo me.Smo em promiscuidade. S6 Arinos de Mdo Franco, aparece um livro que pretende ser um
ha exemplo de um jornalista estrangeiro expulso. Durante "novo retrato do Brasil" ou conter uma "teoria da civilização
a guerra do Paraguay, ·um &anccz publicava no Rio de brasileira". ·
Janeiro um jornal sympathico ao inimigo, c:lricaturando os
nossos gcncraes. Em essência, o livro, Conceito da civilização brasileira, afirma
I ()A Honradez no desempenho de funcções publicas ou que as qualidades mais nobres do povo brasileiro são devidas ao·
panicuJarcs. contingente branco, português, e as negativas são conseqüências
Por outro lado já se insinuou que o povo brasileiro "é;uma flor do que chama de resíduos afro-índios. Além disto, afirma também
amorosa de três raças ttistesn e um famoso historiador 'de nossa que a sociedade brasileira só poderá ser dirigida de modo superior
· .litc;ratura. Ronald de Carvalho, escreveu em 1924: ' na medida que se assegura nas atividades governamentais, o pre-
domínio da raça branca sobre os outros contingentes étnicos.
A alma brasileira nasceu de três grandes ~elancolias.
Deu-lhe a saudade portuguesa, a doçura da ~sibilidade Efetivamente, decorreriam de resíduos afro-índios os grandes
ib~ca c o fu_~~!J!O yolupl!l~ da imaginaçãO oriental; -defeitos do povo brasileiro tais como: a imprevidência, a dissipa-
acrescentou-lhe o fndi_o a inquietação do temor cósmico,
ção, o desapreço pela terra, a crença ·na salvação pdo acaso, o amor
ajuntou-lhe o africano a queixa imensa de sua humilhação,
o cravo do. seu sofrimento resignado. . à ostentação. Uma transcrição de alguns trechos deste livro parece
ducidativa.
Um dos livros de mais repercussão por volta do ano de 1928,
Retrato tÚ1 Brasi4 pretendia mostrar, por sua vez, que o caráter do "A nossa imprevisão, a nossa falta de poupança; a nossa desa-
nosso povo é marcado por quatro afeções fundamentais: a·luxúria, tenção pueril· para com o futuro, nos foram incutidas no sangue
a cobiça, a tristeza, o romantismo. O clima e as raças no Brasil e na alma pdos nossos antepassados tupis-guaranis (pág. 142)".
seriam os determinantes deste caclter. Seria este resíduo índio que explicaria, por exemplo, a história
A nossa luxúria, de origem portuguesa e indígena foi
financeira do Brasil, com "seus empréstimos públicos federais,
• acoroçoada • pda passividade inlintil da raça negra africana estaduais e municipais, simplesmente de estarrecer" (pág. 142).
que veio facilitar c desenvolver a supercxcitação erótica em "O sentimento do acaso, do imprevisto, herdado do índio,
que vivia o conquistador e povoador, e que ~ncou tão
junto à esperança permanente na proteção das forças desconheci-
profundamente o seu caráter psíquico (pig. 57).

284 285
ANEXO- 0 TEMA DA TRANSPLANTAÇ)lo ••• ENTEUQ.UIAS NA INTERPRETAÇÃO

das e inacessfveis, eis o que faz do b~ileiro este povo espantosa- ..• a Põitügal (nos â.Ssoêia) 'lima tradiçio longa e viva. bas-
mente jogador" (pág. 158). Nosso autor conclui daf que, para tante viva para nutrir, at~ hoje uma alma comum, a despeito
corrigir este mal do caráter brasileiro, seria necessário, pela educa- de tudo quanto nos separa. Podemos dizer que de J~ nos
ção, transformar a nossa "mentalidade atávica". Evidentemente, veio a forma atual de nossa cUltura; o resto foi 'mat~ria
pl"tica, que se sujeitou mal ou bem a essa forma (p~. 32).
também pela eugenia, embora de não mencione esta palavra, desde
que tal. tendência ao jogo é "um atributo racial" (pág. 160). Por exemplo, a aversão do brasileiro pelo trabalho parece uma
nota derivada do temperamento português a quem sempre inspi-
Para o nosso autor, a politica no Brasil foi "lógica, equilibrada
rou invencível repulsa toda moral fundada no culto do trabalho
e parcimoniosa, dando preferência ao campo", (pág. 198) durante
(pág. 27). Haveríamos também recebido uma "herança· rural",
o período colonial e imperial, isto é, enquanto, pelo predomínio
espécie de tara que dificulta a industrialização. Diz o nosso autor.
do elemento branco, se anulaJ.:lltn "nos atos do governo as tendên-
De certo modo, o malogro comercial de um Mau4. .. ~
cias atávicas da raça mestiça"(pág. 199).
indicio eloqüente da radical incompatibilidade entre as
J~ na República, por mais falsiAeada que seja nossa form.1s de vida copiadas de nações mais avançadas, de um
democncia, a verdade ~ que a vontade popular (leia-se o lado, e o patriarealismo c personalismo fixados entre n6s
mestiço) influi muito mais poderosamente na direção do por uma tradição de origens seculares.
governo e, por isso, o prazer do ornato, o gosto da osten·
tação, típicos de nossa raça mestiça, passaram a se aArmar Evidentemente há uma diferença de grau apenas entre esse
poderosamente na administração pública. Contribuiu modo de ver e o dos que afirmam que "o Brasil é um país essen-
grandemente para isto, também, o fato da concentração cialmente agríc~la". Parã completar o retrato, em termos de ente-
- dos poderes nas mãos do executivo, aliado ~ circunstância
léquias, Sergio Buarque de Holanda resume o tipo do brasileiro no
de terem sido numerosas vezes mestiços de raça os chefes
do Executivo Brasileiro (p~g. 200). que chamou o "homem cordial". As qualidades deste tipo: lhaneza
Dentro desta. ordem de idéias, afirma-se que o "desenvol- __ .;.
no trato, hospitalidade; generosidade, desprendem-se de "um fun-
vimento das cidades" no período republicà.no, é um resíduo afro- do emotivo extremamente rico e transbordante (págs. 214-215)".
índio, visto que fruto do "espírito ingênuo de ostentação e de amor A crítica a estaS interpretações pode ser feita globalmente.
ao brilhante, ao aparatoso" das raças de cor. A pr6pria indus- Todas das, são, de modo geral, obras de autores desprovidos de
trialização do Brasil teria sido decorrente da influência das raças uma teoria sociológica orgânica e científica do processo histórico-
de cor. social. Para bem dizer, eles adotam uma teoria psicológica daquele
A nossa civilização foi to~ndo, aos poucos, o aspecto processo, teoria segundo a qual certos traços de um determinado
antiagririo que hoje a vicia e marca, porque o espírito que povo ou de um contingente étnico são os determinantes das suas
preside à nova estrutura do Estado se origina no sentimento
respectivas situações materiais.
popular da raça mestiça, afeiçoada ao luxo das aparências e
profundamente desapegada da terra (p4g. 20.3). Esses autores confundem ordi.nariamen~e os efeitos com as
Inclui-se nesta categoria de interpretações do país, o livro, causas. Apontam, muitas vezes, de modo co~eto, aspectos da
Raizes do Brasi4 de Sérgio Buarque de Holanda, editado em psicologia coletiva, mas substantivam os diferentes caracteres desta
1936. Pode-se dizer que, como os precedentes, é um retrato psicologia, quando na verdade eles resultam de relações interativas
impressionista. Não trairia muito o propósito do autor se dissesse 9.e. y!r,~~.fa.~<?r~s.·
que, para ele, existe um caráter nacional que seria uma emanação Não se apercebendo do caráter din~ico do processo histórico-
do caráter luso. Textualmente: social erigem como defmitivo o provisório; consideram perma-

286 287
E~Q.VIAS NA INTERPRETAÇÃO
ANEXO- O' TEMA DA TRANSPLANTAÇÃO •••

211) - pela incapacidade de esperar soluções definitivas, confor-


nentes, estados transitórios ou eventuais ck psicologia coletiva;
mando-se com soluções parciais que consultem mais imedia-
. explicam. as caracterlsdcas mentais dominantes de uma população tamente o seu egoísmo;
como propriedades ou atributos racionais; em resumo, caem no
3•) - pela sua submissão absoluta ao Poder mais próximo, que
domínio da pura retórica pseudo-sociológica. de odeia intimamente e do qual discorda em segredo, mas esperando
É atualmente de duvidosa qualidade científica toda soCiologia sempre tirar desse Poder resultados pr.iticos e utilitários;
que opera com categorias tais como "caráter nacional", ';alma,, 4a) - pela preguiça. que se conforma com os fatos consumados,
a
"espírito", "vocação", "raça", ou que concebe so-êieàadé-ou à e pelo comodismo, que aconselha acompanhar os poderosos, os ricos, os
cultura como um sistema psíquico ou um organismo psíquico. Isto nomes "feitos"; esse mesmo comoclismo leva o brasileiro a seguir servil-
porque abstrai a lei concreta do desenvolvimento hist6ricó-sodal mente a "homens"e não a "idéias";
e aspecto total daS uansformações sociais. 5") - pela incapacidade de conceber idéias gerais, contendo-se
Evidentemente, as descrições da sociedade brasileira: desses com os aspectos unilaterais dos problemas;
autores mencionam, às· vezes, tendências mentais efetivas. 6R}- pela indisciplina oriunda da vaidade fútil, resultante da' falta
de unidade de pensamento· nacional;
Ninguém nega, por exemplo, o erotismo exaltado do português
no período colonial ou a aversão aos trabalhos manuais de certa 7a) - pelo verbalismo jactancioso;
camada do nosso. povo, mas estas e as outras notas di nossa 8•) - pela insinceridade, pelo "Despistamento•, pela falta de
psicologia coletiva nasceram historicamente, são essencialmente cumprimento da palavra empenhada;
precárias e nunca defmitivas, tiveram sua gênese numa conjuntura 9") - pela desconfiança e pelas manobras "de bastidores~ em que
de fatores objetivos à qual correspondem. N,a medida que esta se comprazem os ambiciosos.
conjuntura se transforma, altera-se a psicologia coletiva. Em contraposição, as qualidades positivas do povo brasileiro se
A interpretação da sociedade que se contenta com a mera definiram;
retratação de eventuais dominantes psicol6gLeas: a tristeza, a co- 1a) - pelo exemplar sentimento de família;
biça, a luxúria, o romantismo, a dissipação, o amor à ostentação, 2") - pelo espírito caritativo, de hospitalidade e de delicadeza;
a cordialidade etc., ilusua quase sem.p_rç_lJma perplexidade teórica .3-) - pela capacidade de sofrimento, na paz. na gue~, nas
em face da realidade. O que seria· Científico era colocar a pergunta: calamidades;
"Porque se formam tais sentimentos c tais modos de ser? A que 4") - pela bravura, quando se lhe oferece oportunidade de
condições objetivas se aliam?" A resp.osta correra a perguntas como demonstrar,
estas seria, de fato, ciência. . . 5") - pela inteligência e admirável facilidade com que apreende
Na verdade, estes retratos do Brasil constituem uma iluStração as coisas mais dificeis;
do que se pode chamar de para-sociologia. 6") - pela capacidade de enrusiasmo em relação ~ idéias belas
e generosas:
Notas 7a) - pela moralidade dos costumes, apenas inexistentes em certa
pane das classes ricas. ou nos falsos letrados pequenos burgueses;
· O) Para Plinio Salgado, há também um caráter nacional brasileiro,
cuja face negativa se exprimiria: . 8") -pelo índice extremamente diminuto que oferece de perver- .
·)a) -pelo egoísmo com que cada um procura resolv~r o seu
sidades;
pr6prio problema isoladamente, aventurosamence; ·

288 289
ANEXO - o TEMA DA TRANSPLANTAÇÃO •••
t
I. 9J') - pelo respeito aos velhos, às mulheres e crianças;
I: 1(}li) - pela sutileza de seus instintos. (Vide Psicologia da Revo-
I: ./urão. 4a ed. pp. 133-134).
1".
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.. !

290