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CAPÍTULO-I: ENTRE A SOCIOLOGIA E O DIREITO

1.1- O conceito de sociedade

O termo sociedade designa o grupo social onde se produzem fenómenos sociais,


estabelecem relações de solidariedade e de conflitualidade, instituem normas jurídicas,
operam processos económicos, culturais, políticos etc., que visam responder às
necessidades dos seus membros.
Portanto, a sociedade caracteriza-se por ser um conjunto de pessoas que habitam um
dado território, partilham uma cultura e possuem normas e valores próprios que se
corporificam nas relações tanto entre os indivíduos como entre as instituições sociais
(igrejas, partidos políticos, famílias, sindicatos, escolas, etc.) que unem esses indivíduos
entre si.
Deste modo, a sociedade atinge um certo nível de auto-suficiência e de
transformação face ao seu ambiente circundante na medida em que forma processos de
convivência entre os seus membros, em que cada indivíduo influencia e é
simultaneamente influenciado, produzindo mudanças que fazem com que a sociedade
evolua em oposição aos animais irracionais que mantêm uma forma estática de
organização.
Contudo, esta evolução não implica uma transformação social radical. Antes pelo
contrário, a sociedade auto-reproduz-se biológica e culturalmente, mantendo uma certa
consciência colectiva da sua unidade e ordem social relativamente estável através das
interacções sociais e das acções recíprocas.
Podemos sintetizar as características gerais da sociedade como um grupo humano:
 Mais ou menos coerente de acções e de identidades próprias.
 Que evolui enquanto coopera e realiza fins, como a sua própria manutenção cultural
e continuidade biológica.
 Com interacções sociais contínuas e heterogéneas que estimulam as relações sociais
nas suas mais complexas formas (religiosas, conjugais, políticas, sexuais, económicas,
académicas, etc.).
 Que actua e estimula a acção cultural colectiva nas suas diversas relações e
processos.

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 Que embora composta por indivíduos, funciona como uma entidade autónoma que
imprime o seu próprio carácter às suas criações sociais.
Assim, os indivíduos integrados numa sociedade são submetidos às relações sociais,
sendo socializados e interiorizando sentimentos, crenças e valores que os identificarão
com a sociedade em causa, evidenciando-se nas suas práticas individuais. Ou seja, a
acção da sociedade sobre os indivíduos molda-os, determina os seus comportamentos e
as suas práticas, podendo existir influências benéficas e maléficas que dimanam da
sociedade.

Exercício de reflexão:
a) Por que é que podemos asseverar que o ser humano é um produto e um produtor
da sociedade?

1.2- As normas, os valores sociais e a Sociologia Jurídica: relação entre a


Sociologia e o Direito

As normas sociais estão diametralmente relacionadas com os valores e o Direito


pode ser considerado como um sistema de valores socialmente aceites e reputadas
ideias num momento histórico determinado. Nesse sentido, para a Sociologia Jurídica, a
estrutura normativa da sociedade exprime os valores sociais mais significativamente
aceites pela sociedade. Tal significa que as normas jurídicas são feitas tendo-se em
consideração os valores e os costumes sociais mais aceites na sociedade em causa e o
grau de sancionamento do comportamento daqueles que as transgridem é proporcional
à importância que lhe é dada nessa sociedade.
Assim, os valores constituem, para a Sociologia, elementos que integram a vida
social. Logo, todo o sistema social é também um sistema de valores incorporados na
cultura por meio de comportamentos positivos ou negativos que podem ser regulados
pelas normas jurídicas.
No sentido acima indicado, a Sociologia e o Direito relacionam-se na medida em que
a sociologia estuda as normas, os valores sociais e o modo como tais interferem no
comportamento dos indivíduos, ao passo que o Direito prescreve as normas jurídicas
que sancionam ou regulam os valores e as normas sociais. O Direito aparece, por assim

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dizer, como um conjunto de normas jurídicas que questionam a legitimidade das normas
e valores sociais.
Podemos, então, afirmar que os valores constituem-se em sistemas de crenças e
linhas orientadoras das acções que influenciam as escolhas dos indivíduos entre
diversas alternativas de acções possíveis. Por conseguinte, os valores podem ser
partilhados por uma colectividade, passando a integrar o sistema cultural da sociedade.
Assim, a função social dos valores é fulcral na manutenção da ordem social, porque
toda a acção é vinculada a um valor. Por conseguinte, o envolvimento dos indivíduos
com os valores é de tal magnitude que pela defesa dos valores, fazem sacrifícios, lutam,
matam e morrem. Deste modo, durante a luta de libertação nacional, os valores de
liberdade, de independência e de soberania levaram centenas de moçambicanos a
sacrificarem as suas vidas. Por outro lado, pelos seus valores religiosos, as pessoas
renunciam a tudo para os defenderem a qualquer custo. Em suma, os valores têm
diferentes graus de importância social, entre os mais notáveis: o heroísmo, o
patriotismo, a justiça, a honra pessoal, a honestidade, entre outros.

1.3- Os costumes e o Direito

A vida social está submersa numa miríade de normas que respondem a diversos
imperativos: morais, religiosos, de etiqueta, de convencionalismos culturais, etc. Ora,
quando estes imperativos se tornam repetitivos e rotineiros, transformam-se em
costumes.
Por sua vez, os costumes aparecem nas primeiras acções colectivas da sociedade
como formas simples de normativização da vida social. De facto, eles inspiram as leis,
porque as leis são feitas para acomodar os costumes das sociedades, embora existam
leis que não decorrem dos costumes ou que se opõem a estes. Os costumes são obras da
acção popular, expressões da vontade colectiva, mas nem sempre da vontade do
legislador. Daí que algumas leis promovam o combate a certos costumes da sociedade.
A lei difere do costume porque é o fruto do pensamento crítico e racional e de uma
reflexão positivada e plasmada em documentos, enquanto o costume representa práticas
consuetudinárias não escritas, repetitivas e empiricamente enraizadas na consciência
popular.

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Desta forma, as insuficiências dos costumes na regulação do social dão origem à lei
que tem por finalidade a gestão dos conflitos de interesse, a prevenção do caos e a
eliminação da anarquia. Seja como for, alguns dos costumes populares são reconhecidos
pelo legislador e incorporados na lei.
Assim, nos seus primórdios, o Direito teve uma origem empírica e não racional, foi
instituído das experiências e vivências do quotidiano, e não retirado da razão. Porém, ele
permitiu organizar racionalmente a sociedade, estabelecer as bases do poder político e
redigir as leis.
É nesse sentido que os costumes se constituem na forma mais antiga de
regulamentação da vida colectiva, pois estes eram reguladores da conduta social. Neles
encontravam-se contidos os preceitos religiosos, os imperativos morais e a organização
jurídica. Ou seja, os homens regulavam a sua vida social exclusivamente pelos costumes,
que tinham um significado religioso, moral e jurídico sem estabelecer uma distinção
clara entre a religião, a moral e o Direito.
O Direito somente torna-se uma prática excepcionalmente secular e laica na
sociedade moderna, porque só nela os homens foram capazes de separar o sagrado do
profano; a moral da legalidade; foram capazes de praticar a tolerância política, a
tolerância religiosa e a harmonia social que não existiam em nenhuma formação social
anterior. O Direito torna-se, assim, uma prática correspondente ao estágio mais evoluído
da sociedade moderna, estando condicionado e vinculado às exigências da vida social, e
fazendo com que o perfil da estrutura de qualquer sociedade seja o resultado da acção
do Direito, que hoje exerce uma importante função de regulação social.
O Direito nasceu da ideia de justiça, pelo que quando os homens tiveram a
consciência de justiça começaram a lutar por ele. Hoje, o desejo de assegurar a justiça dá
origem à luta pelos direitos humanos, pelo direito a uma melhor qualidade de vida, pelo
direito à diversidade racial, pelo direito do consumidor, etc.
Em suma, com a emergência do Direito nasce a organização política do Estado e
apresentam-se conflitos entre grupos humanos nos quais a presença do Direito vai
sendo inevitável. A vida social não resistiria à ausência do Direito, nem este poderia ser
concebido fora do contexto da vida social.

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Exercício de reflexão:

a) Refira-se à importância da discussão sobre os costumes para si enquanto futuro


jurisconsulto.

1.4- A ordem social, o Direito e o controlo social

Os indivíduos vivem em permanente interacção com os outros e nos seus


comportamentos reflectem as normas aceites na sociedade a que pertencem. A
sociedade molda, assim, a personalidade dos indivíduos, fazendo-os adoptar
determinados tipos de comportamento, tornando previsível esse comportamento.
Com efeito, sem essa previsibilidade do comportamento não seria possível efectuar
projectos de actuação conjunta e nem se saberia o que esperar dos indivíduos face a
determinadas circunstâncias. Deste modo, os indivíduos agem em conformidade com os
comportamentos que são aceites e esperados pela sociedade, sendo essa expectativa o
que torna previsíveis os comportamentos dos indivíduos.
A ordem social pode ser entendida como o conjunto de processos, relações, pessoas e
costumes que operam para a satisfação das expectavas da sociedade. Assim, por
exemplo, há ordem social quando o professor, o juiz, o electricista, o polícia, o médico, o
carpinteiro, o canalizador, etc., cumprem os seus respectivos papéis sociais, isto é,
quando fazem aquilo que deles se espera.
A ordem social representa um jogo de expectativas sociais recíprocas. Assim, por
exemplo, se o aluno espera que o professor seja assíduo, justo na atribuição de notas,
leccione as aulas, avalie as matérias leccionadas, esclareça dúvidas, etc., o próprio
professor espera dos seus alunos que se apliquem, não faltem às aulas, não façam fraude
académica, respondam às questões colocadas na sala, façam o dever de casa, etc.
Em suma, este jogo de espectativas em que cada uma das partes da interacção espera
alguma coisa da contraparte assegura a ordem social e, portanto, torna-se também
válido na interacção entre chefes e subordinados, médicos e pacientes, comerciantes e
clientes, devedores e credores, pais e filhos, maridos e mulheres, enfim, entre
governados e governantes.
Sem esse jogo de expectativas não haveria ordem social e sem ordem social
instaurar-se-iam o caos, a anarquia, a desordem e o conflito. Nas sociedades modernas, a
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ordem social é assegurada por um sistema de poder que permite enquadrar o
comportamento dos indivíduos de acordo com regras conhecidas por todos. Esse modo
particular de impor a ordem social tem a designação de Direito.
Como instrumento da sociedade, o Direito surgiu da necessidade de solucionar
conflitos e estabelecer regras de convivência entre os membros de uma sociedade,
prevenir o caos e evitar a anarquia, o pandemónio e a desordem.
De qualquer forma, a ocorrência de comportamentos desviantes, denota que nem
sempre os indivíduos agem de acordo com o esperado. É assim que a sociedade institui
um conjunto de meios destinados a impedir as manifestações desses comportamentos,
isto é, o controlo social.
O controlo social é qualquer perspectiva que tenha em vista a manutenção da ordem
social, pretendendo mobilizar as energias da sociedade para a busca de alternativas à
desordem, ao conflito e ao caos.
Existem vários tipos de controlo social, designadamente:
Controlo físico: opera-se através da aplicação da força física, de chicotadas e da
privação da liberdade para regular um comportamento desviante.
Controlo legal ou institucional: impõe-se por meio da aplicação da lei ou de
normas jurídicas em vigor na sociedade ou numa determinada instituição política ou
social.
Controlo grupal: é o conjunto de procedimentos costumeiros que o grupo impõe
aos seus membros para impedir que desrespeitem as normas do grupo. Por exemplo, a
repreensão, a recriminação, a expulsão do grupo, as sanções morais, a educação, a
tradição, etc.
Controlo psicológico: consiste nas críticas, na repreensão, nos castigos pela falta de
cumprimento do dever; ou na atribuição de elogios, aumento do salário, concessão de
prémios e benefícios, etc., devido ao dever cumprido.
Isto significa que o controlo social não implica apenas medidas punitivas, mas
também pode incluir atitudes de gratificação e de recompensa, designadamente o
reconhecimento do mérito pelo grupo, a concessão de vantagens, de honras e de
privilégios, que estimulam os indivíduos a se comportarem de forma socialmente
esperada.
Seja como for, o controlo social implica sempre a pertença a um grupo social, a
existência de uma autoridade colectiva que é exterior ao indivíduo, exercendo sobre ele
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uma coerção que irá determinar e pautar o seu comportamento em conformidade com
as normas vigentes nesse grupo social.

Exercícios de reflexão:
a) Comente acerca da pertinência da ordem social na cidade ou bairro onde vive.
b) Discuta sobre a importância do controlo social para garantia da ordem social

1.5- A Sociologia Jurídica: objecto de estudo

A sociologia tem um papel fulcral na compreensão do fenómeno jurídico e da sua


função na sociedade. Ao analisar a inserção social do fenómeno jurídico, a Sociologia
Jurídica, revela a sua preocupação em perceber as condições de convivência humana.
O que será, então, a Sociologia Jurídica? Qual é o seu lugar no contexto da sociologia
geral? Qual é a finalidade social desta disciplina?
A Sociologia Jurídica ou a Sociologia do Direito é o ramo da sociologia geral que
estuda a diversidade dos fenómenos jurídicos ou dos fenómenos do Direito. A sua tarefa
consiste em encarar os factos jurídicos como factos sociais, relacionando-os com os
outros factos sociais, uma vez que os factos jurídicos são uma realidade indissociável da
organização social.
Portanto, para além de questionar o porquê das normas jurídicas e das suas
consequências e pertinências sociais, a Sociologia Jurídica aborda o carácter geral do
Direito que prevalece numa época determinada, as mudanças que afectam esse carácter,
o seu impacto na vida social, visando descrever os seus traços essenciais e os seus
processos de modo mais objectivo possível.
Em suma, a Sociologia Jurídica analisa a influência dos factores sociais sobre o
Direito, bem como as incidências deste último sobre a sociedade, isto é, os elementos de
interdependência entre o social e o jurídico.
Assim, a Sociologia Jurídica tem a finalidade social de estabelecer uma relação
funcional entre a realidade social e as diferentes manifestações jurídicas, sob a forma de
regulamentação da vida social, fornecendo subsídios para as suas transformações no
espaço e no tempo. Preocupa-se com a existência do Direito como um fenómeno
decorrente das inter-relações sociais; com a sua forma e não com o conteúdo do Direito.
Em suma, a Sociologia Jurídica regista e descreve os factos jurídicos, sem se intrometer
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nos valores e nas ideologias que estiveram por detrás das normas jurídicas. A missão do
sociólogo jurídico é compreender, interpretar e descrever objetivamente os factos
jurídicos.
Ouros campos de acção da Sociologia Jurídica são:
 O papel das instituições de administração da justiça na gestão dos conflitos sociais e
na pacificação da sociedade.
 Compreender, a partir do ordenamento jurídico, a que interesses os tipos de valores
e regras sociais estão relacionados.
 Compreender o modo de funcionamento da estrutura do aparelho de justiça (polícia,
procuradoria, tribunais, prisões, juízes) na valorização dos aspectos da conservação
do Estado.
 O relacionamento entre o aparelho de justiça e a sociedade, através dos meios de
comunicaçao e da opinião pública.
 A questão da celeridade/morosidade processual, bem como de acesso à justiça na
sociedade.

Assim, a Sociologia Jurídica responde à necessidade de que o fenómeno jurídico seja


olhado de um ponto de vista especial, como facto social que se aplica aos demais factos
sociais. Em suma, a Sociologia Jurídica ocupa-se da realidade jurídica através do estudo:

 da eficácia das normas jurídicas e dos efeitos sociais que tais normas possuem.
 dos instrumentos humanos de realização da ordem jurídica, neles incluídas as
instituições e organizações que nele actuam.
 da opinião pública em relação à normatividade jurídica e às instituições jurídicas,
compreendendo a opinião pública sobre as estruturas e as dinâmicas da ordem
jurídica.

Portanto, a centralidade da Sociologia Jurídica é o estudo das causas sociais que


motivam a criação do Direito e a forma como ele repercute sobre a sociedade. Ela
pesquisa, estuda e procura interpretar as distintas normas jurídicas que vigoram na
sociedade, bem como compreender a interdependência entre a ordem jurídica e prática
social.

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Em síntese, podemos afirmar que a Sociologia Jurídica estuda as causas e os efeitos
sociais das normas jurídicas que influenciam as interacções que ocorrem na vida social,
procurando analisar as formas pelas quais o subsistema jurídico se articula com os
outros subsistemas sociais; as formas como estão estruturadas as diferentes posições
sociais, o modo como os diferentes indivíduos desempenham os seus papéis sociais, ou
ocupam estas posições em função das normas jurídicas.
Neste sentido, a Sociologia Jurídica deve simultaneamente ser uma disciplina
independente e interdisciplinar. A independência deve ser em relação ao aparelho
político, pois as investigações nesta área sempre comportam riscos, uma vez que o seu
objecto de estudo são as pessoas, que podem mal-interpretar os seus resultados ou
interpretá-los de forma destorcida. Enfim, a independência permite que a Sociologia
Jurídica conheça as implicações do Direito na sociedade e busque soluções aos
problemas de interacção entre estes elementos.
Quanto à interdisciplinaridade, a Sociologia Jurídica deve ser desenvolvida
conjuntamente por sociólogos e por juristas, ou por especialistas formados nas duas
disciplinas, pois a riqueza e a densidade das relações interpessoais carece
necessariamente do recurso da interdisciplinaridade1 das ciências, sob pena de se correr
o risco de obter informações desligadas da realidade social, caso se insista em abordar
as questões numa única óptica científica.
Exercício de reflexão:
a) Discuta sobre a pertinência da disciplina “Sociologia Jurídica” para a sua
formação enquanto futuro jurisconsulto.
b) Que consequências há na morosidade processual para a vida das pessoas
implicadas?
c) Qual a importância da interdisciplinaridade para o estudo do fenómeno jurídico?

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Por interdisciplinaridade, entende-se a atitude metodológica que tem em vista a integração dos contributos
das várias disciplinas no sentido de encontrar uma explicação mais profunda e exaustiva da realidade social que
hoje se pretende mais complexa.
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1.6- A origem e os fundadores da Sociologia Jurídica

A Sociologia Jurídica remonta aos finais do século XIX e princípios do século XX, da
aplicação dos métodos da sociologia geral à área jurídica. Nessa altura, a Filosofia do
Direito constituía um factor de mudança significativa na pesquisa da jurisprudência que,
então, permitia que se falasse de uma concepção sociológica do Direito, mas não ainda
de uma Sociologia Jurídica.
No entanto, foram Émile Durkheim (1858-1917) em França e Max Weber (1864-
1920) na Alemanha que deram os passos mais notáveis para que a Sociologia Jurídica se
tornasse uma disciplina autónoma com um sistema conceptual próprio no campo
jurídico.

1.6.1- Émile Durkheim

A sua contribuição na fundação da Sociologia Jurídica assentou na criação de um


conjunto de conceitos que, com frequência, são usados nas pesquisas sociológico-
jurídicas, nomeadamente coerção social, consciência colectiva, anomia social, facto social,
entre outros conceitos.
Para Durkheim, o facto social consiste nos modos de agir, pensar ou sentir fixos ou
não, que podem exercer uma coerção exterior sobre o indivíduo, e que são gerais e, ao
mesmo tempo, têm uma existência própria e independente das manifestações
individuais.
Dito de outra forma, o facto social é todo o acto que decorre da interacção social, ou
seja, um acto de mulheres e homens resultante de múltiplas e recíprocas influências,
enquanto integrados na sociedade. Exemplo de factos sociais: o divórcio, a criminalidade,
a violência conjugal, a criminalização do consumo de drogas, a mendicidade, a desistência
escolar, a prostituição, insatisfação laboral, a xenofobia, a legalidade, as diversas
manifestações da cultura, etc.
Em “As regras do método sociológico ”, o facto social é caracterizado como:
Geral: porque ele exprime uma maneira de agir, pensar ou sentir de uma sociedade e
impõe-se ao indivíduo independentemente da sua vontade. Por exemplo, ao educarmos
uma criança exigimo-la a comer, beber e dormir a horas determinadas. Também,

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obrigamo-la a obedecer aos costumes e às tradições, bem como respeitar os outros. Este
facto é, portanto, geral porque é característico das sociedades.
Impessoal: a sua origem não se pode atribuir a uma pessoa específica, nem a uma
causa singular. O facto social decorre da interacção social, ou seja, das relações entre os
indivíduos.
Objectivo e exterior ao individuo: o facto social resulta da influência da sociedade
e não da vontade nem da consciência individuais. A prática social determina maneiras de
pensar, sentir e agir que acabam por moldar o comportamento dos membros da
sociedade. O comportamento impõe-se do exterior ao indivíduo que se vê forçado a
adequar a sua actuação aos modelos socialmente convencionados. À transgressão de tais
modelos, Durkheim designa anomia social.
Neste sentido, existe objectivamente uma coerção social que ameaça o indivíduo e
obriga-o a assimilar comportamentos ajustados aos modelos sociais vigentes, o que
torna o facto social um garante da ordem e da coesão sociais.
Coercivo: o indivíduo nasce e encontra uma série de preceitos, normas e valores
sociais existentes, e não sendo capaz de os fazer existir de maneira diferente daquela já
existente, vê-se coagido a levá-los em consideração na sua actuação.
Relativo: o facto social é influenciado pela prática cultural em relação à qual adquire
um significado particular e diferente do mesmo facto social se tivesse ocorrido noutras
sociedades ou noutras circunstâncias. Por exemplo, a poligamia é rotulada como uma
prática conjugal censurável nas sociedades ocidentais, mas legitimada nas relações
conjugais islâmicas.
****

Em suma, o maior contributo de Durkheim na fundação da Sociologia Jurídica como


uma disciplina autónoma radica na característica da coercividade. De facto, a coerção
social (coercividade) é o modo como a sociedade impõe a obrigatoriedade das normas
jurídicas que são gerais, isto é, aplicáveis a todos os membros da sociedade. Outras
características igualmente importantes são a objectividade e a exterioridade do facto
social face ao indivíduo. De resto, a ideia de tratar o facto social como algo exterior ao
indivíduo foi fundamental para a Sociologia Jurídica, porque permitiu estudar os factos
jurídicos e observá-los desde fora e de forma isenta, neutral e natural. Enfim, foi esta
abordagem o que favoreceu a separação do papel de legislador (fazedor da lei) do
daqueles a quem cabe executar a própria lei.
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Por outro lado, a relatividade, como uma característica do facto social, permitiu
estudar o Direito como um conjunto de normas que só têm significado no contexto da
sociedade em que se enquadram. Seja como for, Durkheim sustenta que a coesão social é
obtida controlando normativamente as acções individuais, através dos valores e
costumes socialmente partilhados. Outro meio de assegurar a coesão social é a
consciência colectiva, que não é senão o conjunto de crenças e sentimentos comuns de
uma comunidade. Segundo Durkheim, a sociedade pune todos as anomias, isto é, os
actos contrários à consciência colectiva e por esse meio garante a ordem e a coesão
social.
Em suma, o Direito, ao organizar a sociedade através da harmonização dos conflitos
de interesses, torna-se um facto social que igualmente visa assegurar a ordem e a coesão
social.

1.6.2- Max Weber

Deve-se a Weber a delimitação do método, do objecto de estudo e da função da


Sociologia Jurídica. Com efeito, no livro “Economia e sociedade”, Weber afirma que os
comportamentos humanos têm como referência as normas jurídicas e os valores.
O autor afirma que as normas jurídicas geralmente envolvem valores morais e éticos,
de tal modo que quando nos remetemos a elas transitamos simultaneamente no campo
jurídico e ético. Transitamos, portanto, no campo dos costumes, cuja influência no
Direito é indiscutível por fazer parte da cultura e da história das sociedades humanas.
Max Weber distingue dois métodos de análise do fenómeno jurídico: o método
dogmático-jurídico (próprio do Direito dogmático) e o método sociológico-empírico
(próprio da Sociologia jurídica).
O método dogmático-jurídico (ou o Direito) estuda o ordenamento jurídico como um
conteúdo objectivo, logicamente correcto na sua inter-relação com os diferentes
preceitos jurídicos a fim de os ordenar numa totalidade coerente e isenta de
contradições. Este método consiste no estudo do conteúdo das leis em si mesmas e na
busca da sua coerência consigo próprias e com outras leis.
Enquanto o método sociológico-empírico (ou a Sociologia jurídica) faz a análise das
causas e dos efeitos da existência dos factos de natureza jurídica, nomeadamente os seus

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condicionantes causais (factores económicos, políticos, religiosos, culturais, etc.), bem
como os seus feitos na actuação dos indivíduos.
Digamos que para Max Weber, o método dogmático-jurídico estuda as normas de
Direito em si mesmas, ao passo que o método sociológico-empírico se esforça por
descobrir as causas sociais que as originam e os efeitos sociais que elas produzem.
Coloquemo-nos a seguinte questão: que jurista estudaria textos legais separados da
vida real ou isolados tanto da sua génese social como do campo da sua aplicação (o
campo do social)?
Não sendo possível separar o estudo das leis do contexto social onde se originam,
cabe ao jurista analisar o Direito como um conjunto de factos normativos e coercivos,
mas sem os dissociar da realidade social onde ocorrem, pois o Direito só tem sentido se
analisado num determinado contexto social.
Em suma, a diferença entre o dogmático-jurídico e o método sociológico-empírico
não é de objecto, mas de pontos de vista, de ângulos de visão. Tal objecto é observado do
interior pelo Direito e do exterior pela Sociologia jurídica. O Jurista interroga-se sobre o
que pede vir a ser o Direito no interior de um sistema jurídico, no sistema jurídico de um
Estado. Em contrapartida, o sociólogo jurídico mantém-se fora do sistema que observa.
Ainda que ele faça parte do sistema observado, a observação que faz não pode em nada
influenciar o seu funcionamento. Por outras palavras, o sociólogo jurídico conhece a
separação entre o observador e o objecto observado.

1.6.3- Outros teóricos da Sociologia Jurídica (Eugen Ehrlich; Renato Treves;


Georges Gurvitch; etc.).

Trabalho independente
Em grupos de dois ou três colegas, os estudantes deverão escolher uma tema,
resumi-lo num texto e apresentá-lo numa actividade prática a ocorrer numa data por
anunciar. Os temas mais curtos não devem ter mais do que dois estudantes. Finda a
apresentação, os resumos deverão ser entregues ao professor que os avaliará.

N.S. Timasheff- O que é a Sociologia do Direito?, pp. 3-11.


Philip Selznick- A Sociologia do Direito, pp. 13-20.
Georges Gurvitch- Sociologia do Direito: resumo histórico-crítico, pp. 21-33.
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K. Stoyanovitch- Exame crítico da escola sociológica, pp. 35- 41.
Umberto Scarpelli- Por uma Sociologia do Direito como ciência, pp. 59- 65.
Roberto Lyra Filho- Para uma visão dialéctica do Direito, pp. 71- 78
Renato Treves - Método de pesquisa empírica, pp 79-89.
Boaventura Sousa Santos- Notas sobre a história jurídico-social, pp. 109- 117.
Émile Durkheim- Divisão do trabalho social e Direito, pp. 121-130.
Eugen Ehrlich- O Estado do Direito Vivo, pp. 131-137.
Max Weber- Ordem jurídica e ordem económica, Direito estatal e extra-estatal, pp.
139-146.
Niklas Luhmann- Direito como generalização congruente, pp. 159- 167.
Jean Piaget- As relações entre a moral e o Direito, pp.169- 177.
Talcott Parsons - Estruturas com primazia integrativa e estágios na evolução das
sociedades, pp. 199-203.
Marc Galanter- A modernização do Direito, pp. 233-241.
David M. Trubek- Para uma teoria social do Direito, pp. 243-251.
BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA,
SOUTO, Cláudio & FALCÃO, Joaquim. Sociologia e Direito. Pernambuco: Pioneira
Editora (s/d).

1.7- Principais características do Direito

A cultura envolve os conhecimentos, as crenças, a arte, a literatura, a tecnologia e


outros aspectos que os indivíduos assimilam enquanto membros da sociedade. Ora, o
Direito surge como mais um elemento constitutivo da cultura, mas com características
próprias que o distinguem dos outros elementos da cultura. Assim, as características do
Direito assentam sobre:
 Os costumes: pois as normas jurídicas procuram distinguir o justo do injusto, o
Direito aparece quando as pessoas procuram estabelecer um equilíbrio entre um
dano causado e a sua reparação; o equilíbrio entre uma infracção e a penalização
correspondente a essa infracção, etc.
 A legitimidade: o órgão que é fonte do Direito tem que ser legítimo; tem que haver
uma legitimidade do conteúdo das normas jurídicas, baseando-as no princípio da
integração social, o que significa respeitar a diversidade étnica, a tolerância social, a
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busca incessante de justiça, evitando a arbitrariedade na aplicação das normas
jurídica (quem executa as normas deve ser, ele próprio, um cumpridor das mesmas).
 A coercividade: isto supõe que em caso de não cumprimento de um acto, haverá
uma sanção que será accionada; trata-se de uma sanção socialmente organizada. O
Direito está formado pelo conjunto de normas, cuja transgressão implica sanções
organizadas. Esta organização das sanções manifesta-se graças ao poder que é
socialmente concedido a determinadas entidades (juízes, tribunais, polícias) para
vigiar a aplicação ou a transgressão das normas, dispondo de meios para fazer com
que as suas decisões sejam respeitadas. O Direito impõe e obriga a efectuar tal ou
qual comportamento (ou a não efectuá-lo), o que significa que a ordem jurídica não é
facultativa, mas coerciva/obrigatória.
 A bilateralidade: significa que qualquer acção de um indivíduo pressupõe uma
reacção de outrem. Assim, o Direito pode ser entendido como um conjunto de
normas jurídicas de carácter bilateral e coercivo, isto é, o conjunto de normas, cujo
cumprimento é exigido por uma entidade oficial (juiz, tribunal) a uma outra entidade
(um cidadão, uma instituição que infringe as normas).
 A generalidade: quer dizer que as normas jurídicas são ditadas e regidas não para
uma situação em particular, mas para todas as situações, de um modo geral. Por
outro lado, significa que elas são aplicáveis a todos os actores sociais.
 A objetividade: o Direito Objetivo é inerente ao conjunto de normas ou preceitos
jurídicos que regulam o comportamento dos membros de uma dada sociedade. É a
norma de conduta que se impõe aos indivíduos que vivem em sociedade, e cujo
respeito se considera como garantia do interesse comum, e cuja violação determina
uma reacção colectiva contra o seu autor. Ou ainda, o Direito, no sentido objectivo, é
o conjunto de princípios jurídicos aplicados pelo Estado à ordem legal da vida.
Exemplo: a interdição do tráfico de estupefacientes em Moçambique; a
criminalização da violência doméstica, o cumprimento das normas previstas na
Constituição, etc. É importante referir que quando se fala do “Direito” no sentido
objectivo, grafa-se com a letra D maiúscula.
 A subjectividade: o Direito Subjectivo designa a faculdade ou a atribuição de um
direito identificado com um indivíduo ou grupo de indivíduos. Trata-se de uma
situação favorável ao indivíduo, e que se pode entender como um poder atribuído
por lei a um indivíduo que vive na sociedade. Isto é, um poder de obter
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reconhecimento social do objecto pretendido por ele, quando o motivo que
determina o seu acto é considerado legítimo pelo Direito Objectivo. Por exemplo,
fala-se de direito subjectivo quando se menciona o direito à saúde, direitos cívicos,
direito à habitação, direito à remuneração justa por um trabalho efectuado, etc.
Refira-se que quando se fala do “Direito” no sentido subjectivo, grafa-se com a letra
d minúscula.

1.8- A linguagem jurídica e tridimensionalidade do Direito

O facto jurídico apresenta a possibilidade de várias perspectivas de análise, embora


sejam perspectivas interdependentes. Além disso, o termo direito é polissémico, o que
gera uma certa ambiguidade a nível dos seus múltiplos significados: Direito como
ciência, Direito objectivo, Direito subjectivo, etc.
Por sua vez, o vocabulário jurídico usa terminologias que não expressam uma
linguagem semelhante à utilizada pelos cidadãos comuns, o que é paradoxal, uma vez
que as normas jurídicas e a acção dos juristas têm precisamente como destinatários os
cidadãos comuns. Termos como habeas corpus, desistência de injunção, furto famélico,
arguido, etc., usados no vocabulário jurídico, são muito incompatíveis com a linguagem
popular.
O Direito tem a pretensão de direccionar os comportamentos dos indivíduos através
do controlo social que exerce sobre eles. Nesse sentido, o vocabulário jurídico precisa de
se adaptar à linguagem daqueles a quem serve. Ou seja, os indivíduos comuns.
No entanto, o controlo social exercido pelo Direito não se limita apenas à dimensão
normativo-jurídica, mas também envolve a dimensão factual e a dimensão axiológica (o
Direito como valor de justiça).
Deste modo, da dimensão factual do Direito ocupa-se a Sociologia Jurídica, a
dimensão valorativa está a cargo da Filosofia do Direito e a dimensão normativo-jurídica
é o objecto da Ciência Jurídica, isto é, do Direito como Ciência.
Assim, na dimensão factual do Direito (objecto da Sociologia Jurídica), o próprio
Direito aparece como um facto social e histórico da vida humana; constitui um facto que
penetra nas relações sociais ao longo do tempo, o que faz com que o Direito esteja
incorporado na estrutura dos factos sociais; se subordine aos factores que determinam a

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vida colectiva e/ou incida sobre os factores que determinam a vida social. Desta forma, o
Direito age na vida social como um facto social igual à política, à religião, à cultura, entre
outros.
Na dimensão normativa do Direito (objecto da ciência jurídica), o Direito actua na
vida social como regulador dos comportamentos individuais. O próprio Direito é
definido pela sua função de estabelecer o que deve ser feito, e/ou o que deve ser evitado
dentro de um sistema de relações sociais.
Na dimensão valorativa do Direito (objecto da Filosofia do Direito), a função
primária do Direito é questionar os valores que norteiam a convivência e a organização
sociais. Assim, tanto a convivência social como a própria estrutura normativa do Direito
exigem que essa função seja exercida tomando em consideração determinados valores
que a orientam. Isto significa que qualquer norma jurídica está por detrás de um valor,
de tal modo que a dimensão valorativa surge como um dos elementos que dá origem ao
Direito. A legitimidade do Direito justifica-se quando ele defende valores nos quais os
cidadãos acreditam. Por isso, uma norma jurídica pode ser legítima num dado sistema
jurídico e ter um sentido oposto noutro sistema jurídico. Um exemplo concreto é a
prática da pena de morte, que é legítima na China, na Arábia Saudita, no Irão, etc., mas
considerada ilegítima em França, em Portugal, em Moçambique, etc.
Em suma, as três dimensões do Direito não podem existir uma independentemente
das outras. Todas elas coexistem em cada sistema jurídico concreto, e qualquer sistema
jurídico tem a função de criar e manter a ordem social em determinada época, e segundo
as exigências e os valores morais então vigentes. Portanto, a análise separada destas
dimensões obedece apenas a um critério de organização metodológica dos conteúdos,
pois na prática uma norma jurídica não pode ser analisada à margem dos valores que
procura defender, ou do facto social que representa.

Exercícios de reflexão:
1. Face à dificuldade de acesso à linguagem jurídica pelo povo, deverão então os
jurisconsultos ir ao encontro da linguagem popular, ou é o povo que se deve
procurar aproximar da linguagem jurídica?
2. Apresente argumentos que enfatizem a pertinência da análise tridimensional do
Direito.

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CAPÍTULO-II: AS NORMAS SOCIAIS

O ser humano, desde que nasce até que perece, encontra-se inserido num meio
psicossocial que o molda, o limita ou abre-lhe possibilidades infinitas. Este cenário
configura o fenómeno pelo qual o comportamento dos indivíduos é socialmente
estabelecido, através de exigências, regras e normas.
O fenómeno normativo é o resultado de uma miríade de factores que constituem a
manifestação de uma tendência para a socialização e consolidação do padrão de
comportamento aceite pela sociedade. No entanto, nem sempre o padrão desse
comportamento é respeitado, havendo, portanto, indivíduos que o transgridem, e
constituindo o desvio do padrão socialmente estabelecido.

2.1- O indivíduo e o processo de socialização das normas

Os indivíduos nascem numa comunidade onde já há normas que os levam a adequar


a sua actuação a essas normas. De facto, as primeiras limitações que as crianças
encontram no seu comportamento são aquelas impostas pelos pais através do processo
que ocorre dentro da família. As crianças vão assimilar comportamentos aceites nas suas
famílias, tais vão ser, em geral, os comportamentos aprovados pela comunidade. Desta
forma, a família é a fonte original das normas, que aparecem como exteriores aos seus
membros e vão, gradualmente, ser interiorizados por eles.
O facto é que a vida humana se desenrola num mundo de normas. Acreditamos ser
livres, mas estamos mergulhados numa rede de regras de comportamentos que, desde
que nascemos até que perecemos, guiam as nossas acções. De facto, obedecemos às
normas da família, da escola, da vizinhança, do partido, da estrada, etc. Trata-se de
normas que já se tornaram tão habituais que não nos apercebemos mais da sua
presença.
A interiorização das normas ocorre primeiramente no agregado familiar e depois nos
grupos sociais (escolas, igrejas, clubes e instituições diversas), que os indivíduos vão
frequentando ao longo da vida.
A palavra norma está relacionada com a função de regular o comportamento dos
indivíduos. Envolve regras de actuação estabelecidas para orientar a vida colectiva,
atribuindo-se deveres e direitos aos integrantes da colectividade. Isto é, as normas
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indicam aos indivíduos, em cada momento, o que devem fazer ou o que se devem abster
de fazer e incluem castigos para os seus transgressores e recompensas para os seus
observadores.
Assim, as normas podem ser codificadas como normas jurídicas, ser estabelecidas
por convenção para regularem a convivência quotidiana ou estar ritualizadas através de
costumes.
Seja como for, quando o indivíduo age, o faz de acordo com a representação que tem
da realidade. Porém, essa realidade não foi pensada por ele, mas é consequência do que
é socialmente aprovado e esperado. O indivíduo, na maioria das vezes, não pensa e nem
age por iniciativa própria, mas responde a um imperativo social, e, assim, repete, imita o
que os outros fazem ou aprende com eles. Esse processo de adaptação do
comportamento individual às exigências do grupo e que ocorre ao longo da vida
designa-se socialização.
A socialização é um processo a que todos os indivíduos se sujeitam quando
interagem no interior de um grupo social. Trata-se de um mecanismo de interiorização
de normas, valores e comportamentos partilhados pela maioria dos membros da
sociedade, e que faz com que o indivíduo seja plenamente aceite como membro dessa
sociedade.
No entanto, quando ocorre que a maior parte das pessoas com que o indivíduo se
relaciona na maior parte do tempo têm comportamentos desviantes, provavelmente, ele
tenderá a ter o mesmo tipo de comportamento. Assim, se o indivíduo interage com uma
quadrilha, com a máfia ou com delinquentes tenderá a partilhar os valores que se
identificam fortemente com esses grupos.
No processo de socialização, o indivíduo assimila hábitos, ideias e atitudes aprovadas
pelo grupo social. Os seus comportamentos passam a ser regulados pelas normas desse
grupo.
Podemos, então, afirmar que a essência das normas é o seu carácter social, ou seja, a
sua acção ocorre nos grupos ou na sociedade em geral e não se identificam com
nenhuma pessoa em particular.
Deste modo, a diferenciação entre as normas jurídicas e as outras normas da
sociedade (normas morais, normas religiosas, etecetera) é que as primeiras podem ser
promulgadas e revogadas ao contrário das normas não jurídicas, cujas origem e vigência

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são espontâneos e, geralmente, respondem a sentimentos emocionais dos grupos que os
usa, sendo imprecisos e carentes de rigor.
Em suma, o objectivo das normas (jurídicas, morais, de convenção social) é o
evitamento do conflito e do caus, assegurando que seja possível a convivência social.
Portanto, os indivíduos submetem-se às ordens normativas através da aprendizagem do
seu conteúdo durante o processo de socialização.
Por último, as normas sociais podem ser agrupadas em três espécies: normas
jurídicas, normas morais e normas de convenção social.
As normas jurídicas estão explicitamente codificadas e têm origem no poder político,
e cuja infracção implica uma punição.
As normas morais dizem respeito fundamentalmente ao senso de justiça e ao
respeito pelos direitos humanos. São normas estabelecidas e partilhadas entre os
indivíduos e têm como referência a questão ética, os valores e os bons costumes da
sociedade a que pertencem.
Finalmente, entre as normas de convenção social encontram-se a cortesia, as formas
de saudação, as maneiras de vestir, de manusear os talheres, a relação com os mais
velhos, etecetera. No fundo, este conjunto de normas estabelece a forma como os
indivíduos se relacionam no quotidiano.
De qualquer forma, os indivíduos agem de uma ou de outra forma sob a influência
simultânea das várias espécies de normas que regulam um caso concreto, ou seja, as
pessoas evitam cometer homicídio, por exemplo, porque é imoral, mas, também, porque
é ilícito.

2.2- As normas jurídicas

As normas jurídicas são de origem estatal, estão codificadas e procuram os actos


considerados legítimos, dirigem e orientam o comportamento social através de um
sistema de castigos e recompensas.
Caracterizam-se por ser ordens ou proibições de fazer uma coisa, garantidas pela
ameaça duma sanção ao seu infractor. Ou seja, para viver em sociedade, as pessoas
devem praticar actos convenientes para a comunidade, como pagar impostos, prestar o
serviço militar, participar em actos eleitorais, etc., mas também devem abster-se de

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praticar outros actos, como a corrupção, os assaltos, os estupros, etc., desse modo, os
dois extremos da acção jurídica são expressos através de noções de licitude e ilicitude.
As consequências decorrentes das duas noções são bastante diferentes, estando
reservados aos comportamentos ilícitos, por exemplo, a perda de bens, a privação da
liberdade ou a pena de morte. As normas jurídicas pressupõem a interacção de dois ou
mais indivíduos, os quais assumem entre si deveres e direitos, cujo incumprimento se
traduz na possibilidade de os interessados recorrerem a um órgão do Estado (tribunal)
para requererem a reposição do dano daí resultante.
Em suma, as normas jurídicas cumprem dois objectivos fundamentais:

 Fornecer um modelo de comportamento, cujas características aparecem


descritas nas próprias normas.
 Direccionar ou instruir aos membros da sociedade e/ou aos seus órgãos sobre
como devem ou não agir em determinadas circunstâncias.

As normas jurídicas, por outro lado, são referentes às relações mútuas dos
indivíduos; dimanam de uma autoridade exterior reconhecida (o Estado); e uma
coercividade ou obrigatoriedade assegurada por aquele órgão de onde dimanam.
As normas jurídicas são estabelecidas e/ou revogadas em conformidades com as
circunstâncias históricas e/ou políticas de cada país. Seja como for, enquanto não
tiverem sido revogadas e não se sobrepuserem à Constituição, as normas jurídicas são
sempre válidas, aliás, “a validade de uma norma jurídica não pode ser questionada sob o
pretexto de o seu conteúdo ser incompatível com algum valor moral ou político. Uma
norma jurídica é válida em virtude de ter sido criada, segundo uma regra definida, e
apenas em virtude disso” (Kelsen, 2005: 166).
Em suma, as normas jurídicas são normas sociais, porém, adquirem certa autonomia
que lhes permitem funcionar mesmo sem um consenso geral da sociedade. Também, as
normas jurídicas permitem que cada membro da sociedade saiba quais os
comportamentos exigidos, quais os reprovados e quais os autorizados.

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2.3- As normas morais: o Direito e moral

As normas morais são preceitos auto-reguladores do comportamento dos indivíduos,


norteiam-se pelo que é considerado bom ou mau; certo ou errado; justo ou injusto;
honesto ou desonesto, etc. Trata-se de normas que têm origem por influência da família,
da religião, da escola e são interiorizados pelos indivíduos de forma íntima ao longo do
tempo. Por seu turno, tanto o Direito como a moral têm a pretensão de regular o
comportamento dos indivíduos, evitando comportamentos anti-sociais e assegurando a
ordem social.
Mas o Direito e a moral exercem essa função de formas diversas. A moral limita-se a
recomendar um comportamento (considerado bom ou obrigatório), ou a desaprovar
outro considerado censurável numa dada sociedade. Caso haja incumprimento dessa
recomendação, são previstas punições informais, como a repreensão, a crítica
generalizada da comunidade ou outras formas de repúdio dessa actuação. No fundo, tais
punições visam inibir futuras transgressões, gerando sentimento de culpa, vergonha ou
arrependimento íntimo por parte dos transgressores.
No entanto, quando as punições informais de carácter moral são insuficientes para
regular o comportamento dos transgressores das normas, a sociedade acciona o poder
coercivo do Estado, através do Direito, que impõe punições formais. Apesar de algumas
interligações entre o Direito e a moral na regulação comportamental, as duas disciplinas
são relativamente independentes uma da outra. Assim, por exemplo, pode dizer-se que
uma certa lei é moralmente justa ou injusta (ex. leia o Artigo nº 159 da Constituição da
República sobre as competências do Chefe do Estado), como também, pode dizer-se que
o código moral que exige sacrifícios para alcançar a salvação (ex: autoflagelação,
mortificação carnal, negação da transfusão sanguínea, etc.) é contrário à lei. Desde logo,
estes juízos são possíveis porque os âmbitos do Direito e da moral são independentes
um do outro.
De qualquer forma, nas interpretações jurídicas estão sempre presentes juízos
morais, pois a moralidade é inerente ao ser humano. Mas, pelo contrário, devido ao
carácter inexplícito, impreciso, inexacto e não codificado de certas normas morais, elas
nem sempre coincidem com a vontade do legislador, fazendo com que essas normas nem
sempre sejam incorporadas na lei. Um exemplo disso é a prática da excisão do clítoris

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das raparigas na Guiné Bissau, na Nigéria, na Costa do Marfim que é considerada
moralmente legítima, apesar de a lei nesses países ser contrária a esta prática.
Portanto, algumas diferenças podem ser estabelecidas entre as normas jurídicas e a
as normas morais na medida em que as primeiras são formais, codificadas e têm como
fonte o poder público, ao passo que as normas morais são informais, não codificadas e
que têm origem nas convicções pessoais dos indivíduos. Outras diferenças entre os dois
tipos de normas são:
As normas morais valorizam o comportamento em si mesmo, o significado que tem
para a vida dos indivíduos. Estão directamente relacionadas com a consciência do
indivíduo e a sua intimidade; ao passo que as normas jurídicas valorizam o
comportamento do ponto de vista da sua relação com os demais integrantes da
sociedade. A área de actuação das normas jurídicas é a acção do indivíduo em relação
aos outros.
Tanto as normas morais como as jurídicas buscam a adaptação à ordem social. No
entanto, as normas morais exercem o seu efeito sobre o íntimo do indivíduo, procurando
orientar o comportamento deste através da prática de virtudes, da caridade e da justiça.
Regulam comportamentos internos dos indivíduos. Pelo contrário, as normas jurídicas
actuam sobre as relações objectivas entre as pessoas, procurando julgar as intenções
destas. Regulam comportamentos externos dos indivíduos.
As normas morais são subjectivas e unilaterais, ao passo que as normas jurídicas são
objectivas e bilaterais, ou seja, a sua acção orienta-se para a regulação de
comportamentos de um indivíduo em relação aos outros.
A norma moral é autónoma no sentido de que o indivíduo a impõe a si mesmo, pois
tem origem numa convicção própria. Em compensação, as normas jurídicas são
heterónomas no sentido de que são impostas ao indivíduo pelo Estado.
Por outro lado, as normas morais estabelecem deveres cujo incumprimento não
inclui necessariamente a aplicação da força. De qualquer forma, este tipo de normas tem
um carácter coercivo (uso da força) apenas para aqueles que aceitam o seu poder
vinculativo; ao passo que o incumprimento das normas jurídicas envolve sempre a
possibilidade de utilização da coercividade (força), independentemente da sua aceitação
pelos seus destinatários.
Por último, a finalidade das normas morais é obter a realização subjectiva do
indivíduo, ou seja, elas respondem à necessidade psicológica de o indivíduo estar em paz
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consigo próprio, com a sua consciência, através da submissão individual a essas normas.
Em contrapartida, as normas jurídicas têm como finalidade obter a harmonização dos
interesses individuais à vida colectiva.

2.4- As normas de convenção social

As normas de convenção social constituem outro tipo de normas que dão forma ao
comportamento humano. Consubstanciam-se na forma de exigências, pressões ou
influências do círculo de relações sociais ao qual o indivíduo pertence. Trata-se de
normas de urbanidade, de bons costumes, de cortesia, de protocolo, referentes ao
comportamento a ser adoptado no quotidiano durante o convívio social, como as regras
sobre a saudação entre as pessoas, a higiene, a civilidade, a amabilidade, o respeito
mútuo, etecetera. Por exemplo, um senhor que traja calções, camisa sem mangas e
chinelos para ir à uma cerimónia governamental chamaria muita atenção dos presentes
devido à formalidade do evento. Por outro lado, uma senhora que enverga saias curtas e
blusa pouco discreta no mesmo evento poderia estar a violar as normas de etiqueta
apropriadas ao evento.
De qualquer forma, dificilmente o senhor ou a senhora estariam a violar as normas
jurídicas, por isso, não deverá ocorrer uma punição no sentido legal, mas poderá haver
um repúdio dessa indumentária por parte da audiência, por considerar que aqueles dois
terão violado uma norma de convenção social.
Constituem convenções importantes na sociedade, o modo de manusear os talheres
durante uma refeição, a forma de lidar com os outros em eventos sociais, a maneira de
se vestir, etecetera, De facto, vários eventos sociais exigem que os convidados se vistam
a rigor, sob pena de não ser permitida a sua participação, caso não obedeçam à
exigência.
Seja como for, as normas de convenção social diferem das normas morais no sentido
de que as primeiras dizem respeito às manifestações de etiqueta e de formalidade dos
indivíduos na interacção com os outros. As normas de convenção são impostas ao
indivíduo pelo meio social, gerando adesão externa. Em compensação, como já se disse,
as normas morais são uma imposição da própria consciência individual e exigem uma
adesão íntima. De facto, um indivíduo pode ter um comportamento moral exemplar e, no
entanto, não estar adaptado às regras convencionadas de relacionamento.
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Convém frisar que as normas de convenção social se assemelham e simultaneamente
diferem das normas jurídicas. Por um lado, elas assemelham-se entre si no sentido de
que ambas são impostas ao indivíduo por uma força exterior a ele. No caso das normas
de convenção social, essa força é a sociedade em que o indivíduo reside e no caso das
normas jurídicas, a força é o Estado. Por outro lado, a diferença entre ambos os tipos de
norma radica no facto de que aqueles que infringem as normas de convenção social se
sujeitam a punições, que podem ser ou não cumpridas pelo infractor. Pelo contrário,
quem infringe uma norma jurídica sujeita-se necessariamente a uma penalização que
deve ser cumprida nos termos da lei e, caso seja necessário, com recurso à coerção.

Exercícios de reflexão:

1. Indique a importância das normas morais para a sua vida enquanto


cidadão.
2. Que semelhanças se podem estabelecer entre as normas jurídicas e as
normas morais?
3. Em que medida é que as normas de convenção social são úteis para a
coesão da sociedade?
4. Indique as diferenças entre as normas jurídicas e as normas morais.
5. De acorde com o Artigo nº 159 da Constituição da República Compete ao
Chefe do Estado:
e) Dissolver a Assembleia da República nos termos do artigo 188.
f) (…)
g) Nomear o Presidente do Tribunal Supremo, o Presidente do Conselho
Constitucional, o Presidente do Tribunal Administrativo e Vice-Presidente do
Tribunal Supremo.
h) Nomear, exonerar e demitir o Procurador-geral da República e Vice-
Procurador Geral da República.

a) Discuta sobre o encontro ou desencontro entre a legalidade e a moralidade das


do Chefe do Estado moçambicano.

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CAPÍTULO-III: O DESVIO SOCIAL

Cada sociedade define os actos que considera transgressores das regras de


comportamento. Todos esses actos serão tratados como desviantes, e embora o desvio
social apresente uma conotação negativa e haja um esforço em combatê-lo, tem a seu
favor o facto de contribuir para a mudança social, pois o que é considerado desvio num
determinado momento histórico poderá não o ser no futuro. Portanto, o desvio social de
hoje tem sempre a possibilidade de se tornar uma norma aceite e partilhada pelos
membros de uma sociedade num outro momento histórico. Isto significa que o desvio
social é bastante relativo, variando de época para época e de sociedade para sociedade.

3.1- Noção de desvio social

O indivíduo nasce num contexto familiar, mas é rapidamente integrado na sociedade.


Ao entrar em contacto com a sociedade, passa a interagir com vários grupos
institucionais como partidos políticos, confissões religiosas, escolas, centros comerciais,
associações desportivas, hospitais, sindicatos, etc. Nesse processo de interacção, o
indivíduo assimila várias ordens normativas, que, às vezes, entram em conflito entre si.
Por exemplo, as normas de uma confissão religiosa podem entrar em conflito com as
normas de uma empresa ou do Estado. Basta lembrar que determinadas confissões
religiosas são contrárias à transfusão de sangue, ou à entoação do Hino Nacional, ou
mesmo à realização de trabalhos em dias que a sociedade em geral considera normais.
Nesse caso, estamos em presença de um desvio social em relação às normas socialmente
aprovadas.
Entende-se por desvio social, um comportamento que a colectividade desaprova, e
que vai desde o desrespeito a certas regras de boa educação e de etiqueta até às acções
criminosas, que colocam em risco a própria sobrevivência da colectividade.
O desvio social aparece, assim, como uma ameaça à ordem social. As sociedades
funcionam eficientemente quando há ordem e estabilidade, pelo que o comportamento
desviante ameaça essa estabilidade de tal modo que se as pessoas deixam de se
comportar de acordo com essa estabilidade, a cultura desorganiza-se e a ordem social
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entra em decadência. Consequentemente, os valores e as tradições perdem o seu peso
sobre a cultura, as pessoas tornam-se inseguras e instauram-se a desconfiança, o caos e
a incerteza.
Contudo, o desvio social é uma forma de assimilação da mudança social. Visto que
nenhuma sociedade permanece estática e imutável ao longo dos tempos, o
comportamento desviante surge como um conjunto de novas normas que respondem à
necessidade de acomodar a vida social a essas normas. Na realidade moçambicana, por
exemplo, são notórios os contactos com povos de outras culturas em resultado das
migrações e da globalização, e estes factos produzem situações novas que geram
mudanças sociais. Assim, quando aumenta o número de cidadãos que assumem e
toleram essas mudanças, elas deixam de ser um desvio social e transformam-se numa
norma nova. Um exemplo típico é o uso do véu islâmico, que em tempos transactos fora
proibido nas escolas, mas que hoje se tornou uma prática comum.
Por outro lado, em decorrência da emancipação das mulheres, elas passaram a
engrossar o mercado do emprego, alterando as estruturas familiares. Ora, os segmentos
mais conservadores da sociedade vêem isso como um comportamento desviante por
parte das mulheres, que já não ficam a cuidar das crianças, da higiene do domicílio ou da
cozinha. De qualquer forma, as mudanças culturais permitem que as mulheres possam
ter emprego próprio, salário e independência financeira, sendo estas práticas
incorporadas nas normas quotidianas da sociedade moçambicana.
Em suma, qualquer sociedade em mudança tem sempre comportamentos desviantes
que permitem a adaptação a essas mudanças. Porém, nem todo o desvio social será
incorporado pela sociedade, pois a dado momento, o desvio adquire várias formas de
manifestação e somente algumas delas se transformam em normas aceites e
incorporadas na vida social.
O desafio que se coloca à cada sociedade é saber separar os desvios sociais que
representam menos riscos e que, portanto, podem gerar mudanças desejáveis na
estrutura social daqueles perigosos, que merecem um tratamento severo por parte dos
actores sociais.
Em síntese, podemos afirmar que:
 Nenhum comportamento é desviante em si mesmo; ele torna-se um desvio social
quando é definido como tal. O desvio social é uma consequência da aplicação das
regras definidas, partilhadas e aceites numa colectividade dada. O infractor é alguém
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no qual este rótulo é aplicado com sucesso e o desvio social é, por conseguinte,
qualquer comportamento definido como violador das normas de uma colectividade.
Dessa maneira, pode acontecer que um comportamento desviante numa
colectividade não o seja numa outra.
 Nem todos os desvios sociais são repudiados. Comportamentos desviantes de um
profeta, de um líder político ou de um herói tendem a ser reverenciados. O desvio
social repudiado é que tem sido, geralmente, considerado ilícito, sendo os seus
mentores considerados criminosos.
 Alguns comportamentos desviantes são tolerados, sendo eles responsáveis pelas
mudanças que ocorrem nas sociedades.

3.2- O desvio social e o Direito: actos lícitos e ilícitos e controlo social

Importa frisar que não existem comportamentos desviantes típicos de determinadas


condições rácicas dos indivíduos. Para a Sociologia, os actos ilícitos são factos sociais
que, portanto, não se relacionam com uma dada condição fisiológica que diferencia uns
indivíduos dos outros. Ou seja, pertencer a este ou aquele grupo racial ou étnico não faz
dos indivíduos mais ou menos infractores da legalidade.
No fundo, visto que o Direito se manifesta na base de um dado ordenamento jurídico,
uma decisão judicial será sempre legítima ou ilegítima em relação ao ordenamento
jurídico em que se circunscreve. Deste modo, um acto só será ilícito se assim for
qualificado pelo ordenamento jurídico correspondente, da mesma forma que não poderá
haver sanção para um acto sem uma norma jurídica que a estabeleça, isto é, um acto será
lícito se corresponder a uma norma jurídica e, ilícito se a contradisser.
Por conseguinte, o âmbito do ilícito é estabelecido por normas jurídicas criadas pelo
legislador, sendo o comportamento ilícito só reconhecido devido a uma ordem legal, que
é expressão de uma vontade legislativa. Logo, cada sociedade encarrega-se em definir os
comportamentos tidos como ilícitos. É assim que existem sociedades onde o adultério é
punido com a matança do adúltero, e outras onde esta prática nem sequer é considerada
um acto ilícito. De qualquer forma, os actos ilícitos constituem um fundamento de todas
as sociedades e a violação da lei é a característica comum a todos os actos ilícitos.
Portanto, o Direito reconhece os indivíduos como detentores de uma personalidade
jurídica, sendo as suas actividades reguladas por um controlo social (normas, leis,
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códigos de ética, etc.) que visa assegurar fins pessoais ou grupais. Na prática, esse
sistema de controlo pode variar de um grupo para o outro, segundo a sua formalidade e
complexidade.
Assim, um comportamento desviante numa empresa pode não constituir uma
matéria criminal, mas apenas disciplinar. Contudo, de modo geral, tal comportamento
consiste numa maneira de agir que contradita os propósitos da empresa, afectando a sua
ordem interna. Nesses casos, estão previstos regulamentos internos que penalizam os
infractores. Trata-se assim de um controlo social formal.
Nos grupos primários, como amigos, vizinhos, colegas de estudos, etc., o controlo
social sobre aqueles que se desviam é mais informal, normalmente manifesta-se através
de olhares, críticas, murmúrios, isolamentos daqueles que infringem as regras dos
grupos, etc. No fundo, trata-se de um controlo social informal, que se torna eficaz pela
importância que esses grupos representam para a vida dos indivíduos.

3.3- A noção de anomia

A palavra “anomia” está associada à ausência de normas. O dicionário da Língua


Portuguesa define anomia como “ausência de lei ou de regra, anarquia, desorganização”.
No entanto, devemos a Émile Durkheim a introdução deste conceito na literatura
sociológica e a Robert Merton, a sua elaboração mais significativa no campo da
Sociologia Jurídica.
No livro “O suicídio”, Durkheim explica o aumento da taxa de suicídio através da
anomia. Explica ainda que a anomia tem origem na mudança das normas sociais que, por
seu turno, são o fruto da mudança das formas de produção e de organização social. Para
Durkheim, a anomia traduz-se numa condição de perda de regulação e integração social.
Trata-se de uma situação que ocorre quando as fontes tradicionais de regulação e
integração social (governo, religião, valores, tradições) falham na organização do
comportamento social.
Assim, as mudanças políticas, económicas e as revoluções geram uma desordem que
deteriora a sociedade e afecta o comportamento dos seus membros, interferindo nas
situações de divórcios, de suicídios ou de criminalidade. Deste modo, para Durkheim, o
conceito de anomia revela uma ineficácia do poder regulador da sociedade nos
momentos de mudança. Por isso, os interesses que entram em colisão com a ordem
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social estabelecida devem ser considerados patológicos ou anómicos e constituem
desvios sociais.
Por outro lado, Durkheim considera a anomia como uma condição endémica da
economia capitalista, onde os valores morais e éticos estão determinados pela procura
do lucro e do enriquecimento, sem a preocupação pelos valores do colectivismo e do
altruísmo. Por sua vez, esta prática cria nas pessoas uma sensação de vazio, de perda de
valores e perda do sentido da vida, trazendo consequentemente o suicídio e a
autodestruição.
Quanto à Robert Merton, a anomia está, de uma forma ou de outra, presente na
sociedade, pois a cultura confronta-se permanentemente com situações que alteram o
comportamento dos indivíduos, gerando instabilidade e mudança social. Neste sentido, a
anomia é uma ruptura com a estrutura cultural que ocorre quando há uma disfunção
aguda entre as normas, os objectivos culturais e a capacidade socialmente estruturada
dos indivíduos para agir de acordo com aqueles. Dito de outra forma, a anomia decorre
da falta de harmonia entre as metas culturais e os meios instituídos para alcançá-las.
De qualquer forma, Merton subdivide a anomia em duas variantes, que designa
“anomia simples” e “anomia aguda”. A primeira caracteriza o estado de confusão
numa colectividade submetida ao antagonismo entre sistemas de valores, que resulta
num grau de inquietude de menor profundidade. Por exemplo, a ocorrência de
comportamentos de delinquência juvenil; a prática de furtos; o desrespeito pelas
normas de uma escola, etc. A anomia aguda, por seu turno, é a deterioração e
desintegração total dos sistemas de valores, que resulta em crises e angústias intensas.
Trata-se de um desvio social profundo, que se caracteriza por uma degeneração e
desmoralização social generalizadas.
Em síntese, tanto em Durkheim, como em Merton, as condições sociais originam
determinados estados psicológicos que são responsáveis pelos desvios sociais. Uma vez
na actualidade que as transformações sociais são intensas e céleres, pode acontecer que
surjam transtornos individuais ou colectivos que geram a sensação de falta de sentido
da vida, desânimo e outros comportamentos anómalos e anómicos.

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Exercícios de reflexão:
1. Por que podemos considerar que o desvio social é inerente a todas as sociedades
que operam mudanças sociais?
2. Justifique a relevância do conceito de anomia na análise do fenómeno jurídico.
3. Distinga as diferenças entre norma e desvio social?
4. A sociedade moçambicana actual é caracterizada pela crescente corrupção e falta
de brio profissional. Trata-se de uma sociedade onde o interesse próprio se
sobrepõe aos valores do nacionalismo e do patriotismo. É uma sociedade em que as
pessoas trocam as suas consciências, os seus corpos e as suas dignidades por alguns
meticais. Ali, os valores da honestidade e da rectidão apenas encontram-se
plasmados nos documentos normativos, mas não correspondem à vida real.
a) Estabeleça algum paralelismo entre o conceito de anomia aguda e a realidade
descrita acima.
b) Fundamente a pertinência do estudo da noção de anomia para si, enquanto
futuro jurista.

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CAPÍTULO-IV: AS FONTES DO DIREITO

Aparentemente, o Poder Legislativo é a única fonte do Direito. Porém, este é apenas


um dos meios pelos quais surgem as normas jurídicas, pois o verdadeiro âmbito de
origem do Direito é a vida social, isto é, o meio quotidiano onde ocorrem as acções e os
comportamentos humanos. É da convivência social que surge o Direito e este é parte da
cultura popular.
Embora o Poder Legislativo e/ou o Poder Executivo, de facto, produzam
determinadas normas jurídicas, elas são fruto das interacções sociais. A legitimação do
Direito nasce do convívio social e é feita através de procedimentos socialmente
estabelecidos, que fixam os parâmetros de comportamento que se transformam em
Direito positivo.

4.1- A questão das fontes do Direito

Como já se disse, a primeira fonte do Direito é a vida em sociedade, que, no fundo, é a


verdadeira origem do Direito. No entanto, cada ordenamento jurídico tem o seu próprio
sistema de fontes. O ordenamento jurídico moçambicano, por exemplo, reconhece
fundamentalmente a lei, os costumes e os tratados internacionais.
Na arena do Direito Internacional, as fontes básicas não são as leis, pois estas não
existem por meio de um Estado global que as produza, mas pelos tratados entre os
Estados, porque não há uma autoridade central que crie e aplique as leis. A efectivação
dos tratados internacionais depende, em grande parte, da vontade soberana dos
Estados.
Em suma, a questão das fontes do Direito é, por um lado, política e, por outro lado,
sociológica. É uma questão política, porque ao se determinar a existência de uma fonte
do Direito, já se está a reconhecer um âmbito de poder, que é de cariz político. As acesas
discussões sobre as competências do Presidente da República são, disto, exemplo.
Mas também, a questão das fontes do Direito é um problema sociológico, porque na
verdade as discussões sobre as competências do Presidente estão relacionadas com
disputas entre diferentes actores sociais que procuram obter/assegurar a protecção dos
seus interesses, exigindo, ora a remoção dessas competências, ora a manutenção das
mesmas.
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Em síntese, a criação das normas pode acontecer da seguinte maneira:
 Acordos e tratados: entre particulares, que podem ser individuais ou grupais. No
Direito Internacional, os tratados como a fonte do Direito e no Direito interno, os
acordos colectivos nas relações laborais, ou nas relações entre as empresas, por
exemplo.
 Os costumes: que podem ser considerados como um Direito espontâneo nos grupos.
Os costumes caracterizam-se pela sua exteriorização uniforme e sucessiva.
 A lei: que na actualidade constitui a mais importante fonte normativa do sistema
jurídico moçambicano. Trata-se, no sentido lato, de normas de origem estatal
impostas pela política constituída na forma de Estado que as aprova, promulga e
publica no Boletim da República.

De qualquer forma, é importante referir que na origem das normas jurídicas existem
sempre forças sociais e diferentes interesses que, de modo geral, pressionam o Estado e
a sociedade para darem vazão a essas normas.

4.2- Classificação das fontes do Direito

Há um conjunto de critérios tradicionalmente aceites para a classificação das fontes


do Direito, que podem ajudar na sua compreensão. As fontes do Direito classificam-se
em históricas, reais ou materiais e formais.

2.a.1- As fontes históricas

As fontes históricas são as que surgiram ao longo do desenrolar da história das


sociedades. A compreensão da lógica das actuais normas jurídicas implicou a pesquisa
da sua evolução histórica, do funcionamento das antigas sociedades, do processo de
consolidação no Direito, entre outras informações que daí podem advir.
Há vários documentos históricos que constituem antecedentes jurídicos de supremo
valor, como os dez mandamentos de Moisés (na Bíblia), a Sharia (no Alcorão), a Lei doze
tábuas (no Direito Romano), entre outros. Estes são documentos que produziram
normas jurídicas, constituindo-se em fontes do Direito reconhecidas.

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Em cada ordenamento jurídico há fontes históricas notáveis que contribuem para a
explicitação da sua condição actual. No caso moçambicano, são relevantes o Direito
Romano, o processo de produção legislativa português e a Declaração Universal dos
Direitos Humanos.

2.a.2- As fontes reais ou materiais

Este tipo de fonte é referente aos grupos sociais nos quais o Direito tem origem,
nomeadamente as igrejas, os partidos políticos, a comunidade internacional, as
organizações empresariais, os grupos socioprofissionais, os cidadãos particulares, a
sociedade propriamente dita, etc. Aqui incluem-se também todos os elementos que
directa ou indirectamente concorrem para a produção de normas jurídicas, como os
ideais morais, religiosos e políticos dos legisladores, dos juristas, dos empresários e do
povo.
As fontes reais ou materiais do Direito são constituídas por agentes criadores das
normas que determinam a organização social, podendo também ser os diversos tipos de
forças sociais que intervêm neste processo. Por conseguinte, os diversos actores sociais
que actuam/actuaram como fonte de produção legislativa são múltiplos,
designadamente os deuses, os monarcas, a comunidade local, a comunidade
internacional (SADC, UA, ONU), a religião, os municípios, os parlamentos, os grupos
socioprofissionais, os Estados, os juristas, etc.
Desta forma, a predominância desta ou daquela fonte real ou material do Direito
poderá variar de uma época para a outra e de sociedade para sociedade. Ao longo do
devir histórico, essa predominância foi-se deslocando dos deuses, aos monarcas, e
destes aos órgãos do Estado (Parlamento e Governo). No caso de Moçambique, o Estado
é a mais alta fonte material do Direito, mas não é a única. Paralelamente ao Estado,
existem actores sociais que desenvolvem acções geradoras de normas jurídicas. No
entanto, a validade dessas normas só pode ser reconhecida pelo ordenamento jurídico
estatal (por exemplo, a validade de um contrato matrimonial ou de outro tipo de
contrato entre particulares carece da sua autenticação pelo notário, que é um órgão
estatal).

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Portanto, em Moçambique, o Estado constitui o órgão que sustenta a efectividade
jurídica de todas as normas, pois ele é o único agente social que dispõe de uma
organização suficientemente capaz de garantir a eficácia da normatividade jurídica.
Em suma, as fontes reais ou materiais do Direito são inúmeras. Elas têm a ver com os
diversos aspectos da vida em sociedade. Assim, o tratamento desigual dos seres
humanos deu lugar à Declaração Universal dos Direitos Humanos; o problema da
poluição ambiental e da exploração indiscriminada dos recursos naturais favoreceu o
surgimento da Lei do Ambiente/Lei de Terras; os maus-tratos entre os cônjuges abriram
espaço à Lei sobre a Violência Doméstica Praticada contra a Mulher; assim
sucessivamente.

2.a.3- As fontes formais

Regra geral, são consideradas fontes formais do Direito: a Constituição da República,


as leis (legislação diversa), os costumes, a jurisprudência, os Tratados Internacionais e
os actos jurídicos efectuados por particulares ou por organizações.

a) A Constituição

A palavra Constituição, no sentido formal, exprime a norma jurídica escrita e


fundamental que regula sistematicamente o Estado, o Governo, os direitos fundamentais
dos cidadãos, tendo supremacia sobre todas as outras normas jurídicas.
A Constituição é a fonte formal do Direito com a maior hierarquia. Todas as fontes
formais do Direito subordinam-se às normas constitucionais.

b) As leis (legislação diversa)

No sentido lato, as leis são todas as normas jurídicas de origem estatal, que se
encontram codificadas por escrito, incluindo a própria Constituição, os decretos, os
diplomas ministeriais, os regulamentos e demais resoluções oficiais, excepto as
sentenças dos tribunais.
As leis são uma importante fonte do Direito em todos os sistemas jurídicos do
mundo. Contudo, mantêm-se algumas diferenças. Nos países não federativos
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(Moçambique, Cuba, China, Portugal, etc.), as leis, como fonte formal do Direito, são
aplicáveis a toda a sociedade. Nos Países organizados em Estados federativos (Brasil,
México, Estados Unidos, Alemanha, etc.), embora haja leis federais (aplicáveis a todos os
Estados da federação), na prática, cada Estado federativo possui as suas leis específicas
por meio das quais regula a convivência social.
No sentido restrito, as leis são o conjunto de normas jurídicas que dimanam do
Poder Legislativo2, com as seguintes características:
 São regras sociais que têm a finalidade de regular o comportamento da vida em
sociedade.
 São regras de cumprimento obrigatório (coercividade), que ajustam e orientam a
acção dos cidadãos.
 São de um carácter mais ou menos duradouro, embora existam leis de curta duração
(ex: a lei do orçamento de um dado ano fiscal).
 São reforçadas pelo poder do Estado (ex: através da aplicação de medidas de coacção
contra os seus infractores).
 São de domínio público, pois para que surtam o efeito desejado é preciso que elas
sejam do conhecimento daqueles a quem serve.

c) Os costumes

Como já se disse, os costumes representam a repetição constante e uniforme de uma


regra de conduta pelos membros de um grupo social. Esta constante repetição converte
os costumes numa prática obrigatória, tornando-os também uma convicção que acaba
por responder a uma norma jurídica.
Nas antigas sociedades humanas, os costumes eram uma fonte natural do Direito.
Hoje em dia, a compilação desses costumes em textos jurídicos confere legitimidade às
próprias normas jurídicas. No entanto, é importante distinguir os costumes das normas
jurídicas:

Os costumes As normas jurídicas


Surgem espontaneamente São frutos de um trabalho reflexivo

2
Embora também algumas leis dimanem do Poder Executivo.
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São de uma formação mais lenta e São de uma formação mais rápida e
informal formal
Respondem a sentimentos emocionais do Respondem a sentimentos racionais do
grupo que os usa grupo que as usa
São imprecisos e carentes de rigor Apresentam um maior grau de precisão e
rigor

d) A jurisprudência

A palavra jurisprudência tem dois significados: em primeiro lugar, refere-se à Ciência


Jurídica no seu conjunto. E, no significado mais comum, designa o conjunto de sentenças
dos tribunais.
No segundo significado, a palavra jurisprudência considera-se a uma fonte do
Direito, pois, ao proferir uma sentença, o juiz interpreta a lei e tal oferece-lhe a
possibilidade de decidir não só movido pela vontade pessoal, mas também pelo espírito
da própria lei. Ou seja, a jurisprudência como fonte do Direito permite que o juiz, na sua
decisão, concilie/conjugue a sua consciência pessoal com o conteúdo da lei.
Em suma, a jurisprudência, enquanto fonte do Direito, contribui para a evolução e o
dinamismo das normas jurídicas, pois a interpretação que os juízes fazem da lei permite
que as normas jurídicas não sejam totalmente estáticas, rígidas e inflexíveis.

e) Os tratados internacionais

Geralmente, são acordos celebrados entre os Estados, regulados pelo Direito


Internacional e orientados para a produção de efeitos jurídicos. Trata-se de acordos
celebrados de comum acordo entre Estados soberanos, e/ou inscritos nos organismos
de Direito Internacional como a ONU, a UNESCO, a UA, a UE, entre outros organismos.
As inúmeras relações que vinculam os Estados constituem uma forma de
comunidade internacional, sendo o Direito Internacional o veículo que favorece a
coexistência pacífica e a cooperação entre os Estados e determina os direitos e deveres
desses Estados nas suas relações recíprocas.

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Portanto, os tratados internacionais são fontes do Direito, porque permitem produzir
normas jurídicas de extrema importância para a regulação das relações internacionais, a
pacificação regional ou mundial e a convivência harmoniosa entre os Estados.
De qualquer forma, as normas do Direito Internacional não se bastam a si próprias,
para a sua aplicação carecem de um complemento, que se obtém da ordem jurídica
nacional, através da Constituição da República. Cabe à Constituição da República
autorizar o Chefe do Estado a dirigir a política externa e celebrar tratados
internacionais.
No entanto, convém esclarecer que não existe um tratado único para toda a
comunidade internacional. É por isso que existe um Direito Internacional Geral,
(aplicável a todos os Estados que perfazem a comunidade internacional; ex: os tratados
a nível da ONU) e, um Direito Internacional Particular, (que somente vale para alguns
Estados e compreende as normas criadas entre esses Estados; ex: os tratados a nível da
SADAC, da NATO, da NAFTA3, etc.).

f) Os actos jurídicos de particulares e das organizações

Os actos jurídicos de particulares representam uma fonte do Direito de alcance


limitado, porque obrigam unicamente, as partes que celebram o acto jurídico, e
exceptuam os terceiros. Os actos jurídicos de particulares que, com frequência,
constituem fonte formal do Direito são os contratos, as convenções e os testamentos.
Embora de um alcance relativamente mais amplo do que os actos jurídicos de
particulares, os actos jurídicos das organizações também constituem uma fonte formal
do Direito de alcance restrito, pois apenas obrigam a membros dessas organizações e a
pessoas ligadas a elas, designadamente os funcionários de uma organização empresarial.
O Código de Conduta do Agente da PRM, o Estatuto do Professor, entre outros, são
alguns dos exemplos dos actos jurídicos das organizações.

3
North America Free Trade Area.
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Exercícios de reflexão:

1. Em que medida é que a jurisprudência, enquanto fonte do Direito, contribui para


a evolução das normas jurídicas?
2. Deve existir um Estado-Polícia que vigia os outros Estados ou o sistema mundial
deve ser unicamente constituído por Estados totalmente soberanos, que não
devem obediência a outros Estados?
3. Até que ponta é que a interferência dos EUA em Estados soberanos pode pôr em
causa o Direito internacional?

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CAPÍTULO- V: AS FUNÇÕES SOCIAIS DO DIREITO
“Se os seres humanos fossem todos amigos,
as leis seriam desnecessárias”.
Aristóteles

Qualquer grupo social carece de normas para regrar o comportamento dos seus
membros, pois de outra forma reinaria o caos e a lei do mais forte. No sentido aqui
referido, a função primária do Direito é assegurar as condições sociais de acesso ao bem
comum e à felicidade colectiva, que se materializam à medida que cada indivíduo vai
satisfazendo as suas próprias necessidades, desde que tal não infrinja as normas de
convivência colectiva.
Uma das funções sociais do Direito é garantir a segurança da organização social por
meio da qual, cada indivíduo é chamado a se comportar de determinada forma,
esperando este que os outros se comportem da mesma forma, e havendo garantias de
que, caso não o façam, serão accionadas medidas de controlo social.
Para a Sociologia Jurídica, existem várias funções sociais do Direito, as quais serão
doravante descritas e analisadas:

a) Função de organização social

O Direito aparece como um instrumento de organização da sociedade, pois sem um


mínimo de regras que gerem e organizam a sociedade, prevaleceria a guerra de todos
contra todos e a anarquia.
Foram filósofos como Thomas Hobbes, John Lock e Jean-Jacques Rousseau que
teorizaram sobre a necessidade de passagem de um estado natural a um contrato social,
onde os direitos dos indivíduos seriam respeitados. No estado natural, os indivíduos
desfrutavam de direitos absolutos, mas desprotegidos e sujeitos às leis do mais forte.
Com a constituição do contrato social (sociedade política), o poder público cria normas
que conferem protecção para que cada um seja livre dentro dos limites traçados pela lei,
que é imposta a todos.
A organização social é uma das funções mais claras do Direito, pois não é possível
subsistir-se fora da sociedade, mas ao mesmo tempo, qualquer sociedade por mais
rudimentar que seja, carece de normas que a regulem e a organizem.
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Em suma, o Direito exerce a função organizativa em dois âmbitos: nas relações
jurídico-públicas e nas relações jurídico-privadas. Através das relações jurídico-
públicas, o Direito cria normas de organização social que estabelecem o elo de
relacionamento entre os cidadãos/organizações particulares e o poder do Estado. E, no
âmbito jurídico-privado, o Direito estabelece as regras de relações interpessoais, que, no
fundo, são um sistema de organização social que permite evitar situações de
arbitrariedade e predomínio do conflito.

b) Função de controlo social

As normas jurídicas são fundamentalmente coactivas do comportamento, e, nesse


sentido, o Direito aparece como um modo de controlo social, caracterizado pelo vínculo
das suas normas com os cidadãos.
Deste modo, as normas jurídicas impõem comportamentos, que têm uma
justificação. Com efeito, essa justificação reside na natureza dos bens e dos direitos
protegidos, pois a essência desses bens e direitos justifica/pressupõe a sua protecção
por normas coactivas, a fim de que não se tornem vulneráveis.
O Direito, no exercício da função de controlo social, pode ser entendido de dois
modos: em primeiro lugar, o Direito apresenta uma função de coesão, e, neste sentido,
ele supervisiona o funcionamento das demais instituições sociais, dirimindo conflitos
que eclodem dentro do sistema social. Em segundo lugar, o Direito apresenta a função de
regulação, pois serve como modelo ou guia de comportamentos.
Importa referir que tanto as normas sociais como as normas morais funcionam,
igualmente, com esse duplo sentido (de coesão e de regulação), sendo estas normas, em
inúmeras circunstâncias, coincidentes com as normas jurídicas.
Em síntese, a função de controlo social pode decorrer de duas maneiras,
designadamente 1) estimulando comportamentos desejáveis, por exemplo, através da
concessão de benefícios àqueles que adoptam comportamentos ambientalmente
correctos, incentivos fiscais aos que pagam impostos em tempo útil; prémios aos
cumpridores das normas, etc.; 2) desencorajando a manifestação de comportamentos
indesejáveis, por exemplo, através da adopção de medidas punitivas contra os
infractores, o que também poderá servir como exemplo para aqueles que assumirem o
mesmo comportamento.
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c) Função de resolução de conflitos

Esta é uma função muito importante e a mais reconhecida de todas, sendo aceite
como a principal razão de ser do Direito.
Há muitas formas de o Direito resolver os diferendos: 1) regulando-os, quando o
que motivou os conflitos encontra um certo apoio da opinião pública. Por exemplo,
vários diferendos que opõem a Frelimo à Renamo foram/são resolvidos regulando-os,
isto é, criando normas que acomodam os interesses de cada uma dessas forças políticas;
2) reprimindo-os, quando a razão do diferendo não condiz com o sentimento da
sociedade, ou com o regime político instituído; 3) gerando novos diferendos, quando
não há uma adaptação do Direito à generalidade dos sectores onde é aplicado, ou
quando não existe uniformidade no cumprimento das prescrições do Direito (ex. os
concursos públicos, que visam erradicar a corrupção na Administração Pública, mas que
acabam por criar altos custos para o Estado, ou gerar morosidade na tramitação de
expedientes).

d) Função de segurança jurídica

A segurança constitui uma função fulcral do Direito. A noção de segurança jurídica


está relacionada com o facto de que as pessoas devem conhecer com antecedência os
comportamentos proibidos, obrigatórios e permitidos. A segurança jurídica é referente
à possibilidade de planificar comportamentos, conhecendo de antemão as
consequências que deles advirão, e assim, podendo-se agir com conhecimento de causa.
As condições de concretização da segurança jurídica são:
Que as normas jurídicas sejam claras. Com efeito, devem ser expressas numa
linguagem compreensível a todos os membros da sociedade, pois se a pretensão é que
eles adoptem comportamentos desejáveis, o mínimo que se lhes pode oferecer é uma
clareza na mensagem.
Que as normas jurídicas sejam conhecidas. De facto, as normas devem ser do
conhecimento dos cidadãos, porque, pelo contrário, podem gerar um estado de incerteza
permanente, ao não saberem se os seus comportamentos são adequados ou não.
Contudo, é importante frisar que o desconhecimento da lei/norma não iliba o infractor.
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É nesse contexto que se torna imperioso que a as leis sejam instrumentos do domínio
público.
Que o Estado cumpra as suas próprias normas, enquanto as faz cumprir.
Evidentemente, para que haja segurança jurídica e legitimidade do Direito é necessário
que o próprio Estado seja cumpridor das normas que impõe sobre os cidadãos, isto
inclui a proibição de criação de normas desfavoráveis com carácter retroactivo.
Portanto, para que exista segurança jurídica, o Estado deve respeitar o princípio da
legalidade, ou seja, deve, ele próprio, respeitar a lei, porque um Estado que
sistematicamente transgride as normas do sistema jurídico gera insegurança nos
cidadãos.

e) Função de orientação e persuasão

Ora, a influência exercida pelas normas jurídicas é uma realidade tanto para os seus
destinatários como para aqueles que não são destinatários directos dessas normas.
Disto, depreende-se que o Direito representa um factor forte de orientação social,
sobretudo a nível ético, pois o Direito é associado ao ideal de justiça. Neste sentido, as
normas jurídicas e os valores éticos coexistem/convivem, pois o fenómeno jurídico
(jus/ius) coincide com o fenómeno ético (ethos). Por outro lado, mesmo quando o
fenómeno jurídico não coincide com o fenómeno ético, o Direito prevalece, porque
possui uma força de persuasão que infunde medo, por causa do seu poder coercivo. Um
exemplo ilustrativo da prevalência do Direito sobre a questão ética é o adultério, que
apesar de ser eticamente repreensível não é um crime, e, portanto, ninguém pode ser
julgado por adultério.

f) Função de realização da justiça

Nos sistemas democráticos o acesso à justiça é um direito humano básico, pois


quando um direito é infringido, a sua reposição constitui uma tarefa do Direito, cuja
incumbência é assegurar um tratamento justo nos termos da lei. Tendo como uma das
suas funções a realização da justiça, ao Direito diz respeito efectivar todos os actos
considerados justos, isto é, actos que não constituam obstáculos ao gozo dos direitos e
das garantias dos cidadãos.
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Convém frisar que num Estado de Direito, para além de punir os infractores da lei, o
Aparelho do Estado obriga-se a criar condições para o livre exercício dos direitos
individuais. Neste sentido, o Direito deixa de ter um conteúdo exclusivamente normativo
e assume um carácter social, dando sentido ao comportamento dos indivíduos,
convertendo-os em cidadãos, e legitimando os seus direitos de cidadania.
Desse ponto de vista, o Estado tem o dever de organizar todo o aparelho judicial para
assegurar o livre e o pleno acesso à justiça e a igualdade dos cidadãos perante a lei.
Assim, por exemplo, se um cidadão pretende exercer direitos garantidos por lei, mas não
tem condições de pagar uma assistência jurídica, ou não pode cobrir os custos
processuais, estaria a ser discriminado e colocado numa condição de desigualdade
perante a lei.
Por outro lado, a função de realização da justiça requer a disponibilidade de um
aparelho judicial eficiente e eficaz, a fim de que seja possível obter os veredictos justos
em tempo útil, isto é, que não excedam as expectativas dos requerentes ou dos arguidos.
Deste modo, para que o Direito realize a justiça, é imperioso que os cidadãos
conheçam os seus direitos e existam meios para poderem ser exercidos, ou seja, é
necessária a consciência do acesso à justiça como um direito e a consequente obrigação
do Estado de promover esse acesso entre os seus cidadãos.
Em Moçambique, a questão que se coloca é que amplos segmentos da população
estão na situação de marginalização jurídica, no sentido de que não têm condições de
acesso a um advogado, ou a um técnico jurídico do IPAJ, por causa dos custos dos
serviços dos advogados ou por barreiras burocráticas no acesso ao técnico do IPAJ, ou
ainda por falta de informação, ou mais ainda, porque muitos moçambicanos acham que
os serviços judiciais são apenas para as elites e não têm nada a ver com a população
carenciada.
Seja como for, a função de realização da justiça exige um maior activismo da
sociedade na garantia dos direitos dos seus membros, na profissionalização do aparelho
judicial, na celeridade processual, no acesso universal à justiça, na luta contra a
impunidade, entre outros aspectos.

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g) Função de legitimação dos poderes políticos

A legitimidade consiste na crença de que quem manda tem direito de o fazer, e,


portanto, existe o dever de obediência por parte dos súbditos. Por outras palavras, a
legitimidade implica a ideia de obrigatoriedade política de obediência, pela qual os
cidadãos consentem o poder político instituído. No sentido jurídico, um poder legítimo é
aquele que encontra o seu fundamento na lei. Na prática, em Moçambique, onde o acesso
ao poder é pela via eleitoral, são as prescrições legais (Constituição da República/ Lei
Eleitoral) que asseguram a legitimidade dos poderes eleitos.
Assim, o Direito legitima o poder quando:
O poder é exercido por meio de normas válidas. Isto significa que a validade da
norma que é fonte do poder exercido torna possível a crença na legitimidade desse
poder.
As normas consideradas válidas são emanadas por um poder legítimo. Esta
norma pode ser a Constituição/a Lei Eleitoral e o poder pode ser o Parlamento. De facto,
o Parlamento é um órgão com legitimidade de emanar normas constitucionais e outras
normas jurídicas.
Convém não confundir legitimidade com legalidade. A primeira tem a ver com o
modo como o poder é exercido. Por exemplo, quando se exige que um poder seja
legítimo, espera-se que aquele que o exerce tenha o direito de o fazer. Enquanto isso, a
legalidade apenas relaciona-se com o enquadramento de um dado acto num
determinado ordenamento jurídico.
Assim, nas sociedades democráticas, a legitimidade de um poder fundamenta-se
sempre na sua submissão à legalidade: quem exerce o poder político deve estar
autorizado pelo povo, através da expressão do sufrágio, mas também esse poder deve
ser exercido conforme o estabelecido na lei. É desta forma como o Direito desempenha a
função de legitimação do poder.

h) Função de integração/coesão social


Esta função está associada à ideia de controlo e ordem social, bem como à concepção
de uma sociedade isenta de conflitos. Nesta perspectiva, o Direito tem a função de
mitigar e de prevenir os aspectos que possam potenciar o conflito.

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A sociedade é aqui entendida como um todo coeso e equilibrado, no qual a missão do
Direito consiste na facilitação das relações sociais, prevenindo e reprimindo os desvios
de comportamento e reduzindo as possibilidades de conflito. Assim, visto na sua relação
com a sociedade, o Direito não aparece como um factor de transformação e de mudança
social, mas como um instrumento de conservação do status quo.

i) Função de legitimação dos estatutos e dos papéis sociais

O estatuto social (ou posição social) define-se com base nos direitos, regalias e
privilégios tanto sociais, como jurídicos que os indivíduos têm e as expectativas que
esses indivíduos têm dos outros face a essa posição. Ou seja, é o lugar que um indivíduo
ocupa na colectividade, bem como o conjunto de comportamentos que esse indivíduo
espera dos demais em virtude do lugar ocupado. Por sua vez, o papel social é o
comportamento ou a função desempenhada por um indivíduo, e de que resultam
obrigações, deveres e exigências impostas ao indivíduo pela colectividade.
Em suma, digamos que o estatuto social cria expectativas (direitos, honras, regalias e
privilégios) no indivíduo em relação aos outros, ao passo que o papel social gera
exigências dos outros em relação ao indivíduo. Por exemplo, um mesmo indivíduo pode
desempenhar simultaneamente vários papéis como chefe de família, pai, esposo,
dirigente político, crente, militante partidário, etc. Ora, cada um destes papéis exigirá o
desempenho de um dado comportamento que é socialmente esperado pelos outros.
Embora nem todos os estatutos e nem todos papéis sociais apresentem
condicionamentos normativo-jurídicos, há estatutos e papéis sociais que estão sujeitos a
normas jurídicas, que estabelecem sanções para aqueles que não desempenham
adequadamente os papéis esperados ao ocuparem determinadas posições.
Mas, por outro lado, os indivíduos que ocupam determinados estatutos têm a
possibilidade de accionar mecanismos legais para repor os seus direitos, quando em
virtude da ocupação desses estatutos não estejam a desfrutar dos privilégios/ honras
/regalias associados a essa posição.
Em suma, o Direito legitima os papéis e os estatutos sociais na medida em que
concede àqueles que deles devem beneficiar a possibilidade de intentar acções legais
para ressarcir os seus direitos, caso estejam a ser transgredidos.

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j) Função de fortalecimento do processo de socialização

A socialização é o processo pelo qual a colectividade transmite aos seus membros os


traços culturais (ritos, valores morais, crenças, práticas, hábitos, etc.) que a identificam e,
simultaneamente é o processo pelo qual os indivíduos interiorizam e assimilam esses
traços, sob pena de virem a assumir comportamentos impróprios e, por conseguinte,
serem objectos de sanção.
Ora, o Direito contribui para o fortalecimento dos valores morais e dos hábitos
socialmente aceites na medida em que muitos deles são positivados, tornando-se, desse
modo, formais, e facilitando a sua reprodução na sociedade.
A importância do Direito enquanto agente fortalecedor da socialização radica no
facto de ele ser promotor de comportamentos socialmente desejáveis ou expectáveis.

k) Função de institucionalização da mudança social


Quando na sociedade ocorrem mudanças que são reconhecidas pela ordem jurídica
prevalecente, o Direito evolui articuladamente com a sociedade, consolidando as
mudanças ocorridas ao longo do tempo. Nesta perspectiva, a função do Direito consiste
em legitimar a nova ordem social, através da incorporação das transformações sociais
no ordenamento jurídico. Um exemplo elucidativo disto é a incorporação, na ordem
jurídica moçambicana, das deliberações que resultaram dos Acordos Gerais de Paz de
1992, e que acabaram por impulsionar mudanças significativas quer na organização
política do Estado, quer na ordem social que adveio desse processo.
A institucionalização dessas mudanças na estrutura sociopolítica nacional acabou
por minimizar a desconfiança política, evitando o recrudescimento do conflito,
democratizando a sociedade moçambicana, e assumindo-se arranjos com vista a
pacificação do país.

l) Função distributiva
Outra função do Direito que se revela relevante é a que se refere à distribuição de
benefícios, vantagens e perdas entre os cidadãos e os grupos sociais. Nesse caso, o
Direito procura redistribuir os recursos finitos para minimizar as assimetrias no
domínio social. É uma função destacada, por meio da utilização do Direito no
estabelecimento de formas de redistribuição dos rendimentos nacionais, através de
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medidas estatais como cobrança de imposto, atribuição do subsídio social básico, a
edificação de infra-estruturas de utilidade pública como hospitais, escolas, pontes,
estradas, etc.
Em suma, as funções sociais do Direito são múltiplas e elas são condicionadas pela
percepção que se tem do próprio Direito e da relação que porventura este estabelece
com a sociedade.

Exercícios de reflexão:
1. Descreva as condições que resultaram da passagem do estado natural ao contrato
social, vincando a qualidade de vida sociojurídica que adveio do contrato social.
2. Disserte sobre os perigos da retroactividade de uma norma jurídica que, por
natureza, é desfavorável aos cidadãos.
3. Qual é a pertinência da participação do Estado na garantia do acesso universal à
justiça?
4. Justifique a importância do controlo social, enquanto uma das funções do Direito.

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CAPÍTULO-VI: O DIREITO E A MUDANÇA SOCIAL

Todas as sociedades buscam a estabilidade e a ordem sociais, colocando-as em linha


com os valores, as ideologias, as crenças e os hábitos, partilhados pela maioria dos seus
membros. As sociedades procuram a harmonia e a coesão, o que pressupõe o
acatamento das prescrições normativas por todos os actores sociais.
No entanto, nenhuma sociedade permanece estática e imutável ao longo dos tempos.
As mudanças sociais acontecem de forma inevitável e com elas, mudam as normas
jurídicas, os costumes, as crenças e a organização social.

6.1- A noção de mudança social

O mundo onde vivemos está em constante mudança, e as sociedades humanas


acompanham esse processo, tal como acontece na actualidade em que verificamos os
fenómenos da globalização, das migrações e da revolução tecnológica. A mudança social
é definida, por Guy Rocher, como “toda a transformação observável no tempo, que afecta,
de maneira que não seja provisória ou efémera, a estrutura ou o funcionamento da
organização social de uma dada colectividade e modifica o curso da história”.
Entrando em linha com esta definição, podemos sintetizar que a mudança social
deve:
Ser um fenómeno colectivo, isto é, que afecte e implique um conjunto significativo
de indivíduos que, assim, verão alterados os seus modos e padrões de vida.
Corresponder a uma mudança estrutural, o que torna possível observar alterações
profundas na organização social passíveis de comparação com as formas anteriores. Só
neste sentido podemos compreender as mudanças que ocorreram na organização
política que imperou em Moçambique durante a primeira década após a Independência
e a forma de organização política actualmente em vigor no país.
Ser possível identificá-lo no tempo, o que permite detectar e descrever alterações
estruturais a partir de um ponto de referência. Assim, a mudança social aparece-nos
como diferença observável entre dois estádios da realidade social. Por exemplo, 25 de
Junho de 1975; 04 de Outubro de 1992; etc., são marcos históricos em relação aos quais
podemos medir as mudanças sociais ocorridas em Moçambique.

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Ser um fenómeno permanente, pois um fenómeno passageiro e efémero não
conduz à mudança social, uma vez que os seus efeitos desaparecem sucessivamente com
a adaptação funcional do sistema cultural vigente. Por exemplo, a epopeia do dia 25 de
Junho de 1975 só se tornou um facto de mudança social, porque resistiu às pressões do
regime colonial e do apartheid, que não conseguiram inverter o projecto de
Independência nacional.
Resumindo, a mudança social é uma transformação cultural, das estruturas sociais e
dos comportamentos colectivos. Constitui uma realidade permanente e ocorre de
diferentes modos nas diferentes sociedades. Nalguns casos, as mudanças são lentas e
imperceptíveis, e noutros casos, elas são muito aceleradas e radicais, como aconteceu
em 1917, na Rússia e em 1975, em Moçambique.
Há uma multiplicidade de causas das mudanças sociais, entre as quais sobressaem o
crescimento demográfico, as alterações no meio ambiente, as migrações, as alterações
tecnológicas, o crescimento económico, as reformas legais, as convulsões políticas, etc.
Por outro lado, há factores de resistência às mudanças, designadamente os
segmentos sociais que procuram manter o status quo, ou actuam para restaurar as
condições anteriores às mudanças ocorridas. Esses segmentos retardam as mudanças.
São disto exemplo, aqueles que se opõem ao aborto, à clonagem de seres humanos, ao
uso de métodos contraceptivos, ou às alterações legislativas e/ou políticas.
Em suma, a mudança social é inevitável e resulta das sucessivas alterações da
estrutura social, porém, a sua intensidade e impacto podem variar no espaço e no tempo
em que ocorre.

6.2- Factores que influenciam as mudanças jurídicas

O Direito é influenciado por um sem-fim de factores, em função das transformações


económicas, políticas e sociais que acontecem no mundo. Deste modo, o Direito deve
procurar adaptar-se a novas exigências que advêm da convivência social.
A aceleração do processo de globalização e a revolução tecnológica são factos que
provocam profundas transformações da ordem social e afectam os ordenamentos
jurídicos nacionais. A necessidade de adaptação das normas jurídicas é permanente,
porém, o Direito nem sempre se adapta a essas transformações com a velocidade
desejável. Basta recordar a falta de legislação ou a deficiência legislativa relativamente
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aos dispositivos electrónicos, como câmaras de vigilância, rede mundial de
computadores, cartões de crédito, etc., cuja utilização pode implicar a pirataria
informática, o cibercrime ou a violação dos direitos de terceiros, nomeadamente a
violação dos direitos de autor, a clonagem de cartões de débito/crédito, o acesso à
informação classificada e confidencial, etc.
Todas estas situações exigem novas abordagens do Direito, novas interpretações na
aplicação das normas, tipificações de novas espécies de práticas criminais, em suma,
mudanças no âmbito jurídico que sejam o reflexo dessa nova realidade.
Regra geral, os factores que provocam mudanças jurídicas de que nos ocuparemos
são: o desenvolvimento económico, as transformações sociais, as forças políticas, os
avanços tecnológicos e a evolução cultural.

a) O desenvolvimento económico

A economia tem uma influência determinante sobre o Direito. As operações


comerciais, por exemplo, apresentam-se como realidades para as quais o Direito é
convocado a dirimir os vários conflitos de interesse ali possivelmente patentes. Deste
modo, as normas jurídicas vão-se adaptando ao processo de produção, distribuição e
consumo.
Porém, a complexidade das normas jurídicas pode variar em função do
desenvolvimento económico de cada país, pois os conflitos que dirimem apresentam
naturezas diferentes em cada um desses países. Por exemplo, a Lei sobre os Direitos do
Consumidor é muito mais incisiva em Portugal do que em Moçambique, porque a
sofisticação da economia e das normas jurídicas de cada um destes países assim o
impõe.

b) As transformações sociais

O Direito regula os comportamentos dos indivíduos, os quais sofrem mudanças no


desempenho dos diferentes papéis sociais, no estatuto social, nos padrões de vida, etc.
Por exemplo, com o surgimento da figura de “casamento entre pessoas do mesmo sexo”,
aquilo que entendemos por família pode hoje ter várias interpretações legais em função
das transformações sociais ocorridas em determinados países.
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Por seu turno, o crescimento demográfico provoca mudanças que afectam o Direito.
Há hoje um maior número de imigrantes estrangeiros motivados pela miséria, guerra e
estiagem nos países de origem, tudo o qual dá origem a novas normas no campo jurídico
que surgem para acomodar todas essas situações. De igual modo, as mulheres têm
desempenhado cargos cada vez mais activos na sociedade, provocando conflitos
domésticos à luz dos quais foi promulgada a Lei Sobre a Violência Praticada Contra a
Mulher.
Em suma, as transformações sociais provocam mudanças no Direito, mas, também,
este último é causa de algumas mudanças sociais. As leis provocam mudanças nos
relacionamentos entre indivíduos e grupos e impõem certos comportamentos. Um
exemplo típico é a Lei Eleitoral, que tem provocado mudanças de comportamento tanto
nos eleitores, nos partidos políticos, como nos candidatos. Neste caso, essas mudanças
não ocorreriam se aquela lei não existisse.

c) As forças políticas

O Direito sofre influências e pressões políticas de vários grupos sociais. Com


frequência, o Direito aparece como uma expressão do compromisso entre grupos que se
opõem face ao acesso ao poder. Basta lembrar os vários acordos entre a Frelimo e a
Renamo. Esses acordos surgiram para evitar o conflito, ou para assegurar a colaboração
de ambos na edificação de um projecto político nacional. Seja como for, tais acordos
acabaram por se transformar em normas jurídicas, que enriqueceram o sistema jurídico
moçambicano.
De qualquer forma, o sistema jurídico procura sempre acomodar os interesses da
classe dominante num processo de subjugação da classe dominada. É nesse contexto que
a ideologia marxista considera o Direito como um instrumento de legitimação do
sistema de poder instituído.

d) As tecnologias

A revolução científico-tecnológica traz enormes desafios às Ciências Jurídicas. Como


dissemos antes, as tecnologias têm sido usadas para a manipulação genética da

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humanidade, inseminação artificial, eutanásia e terapêuticas que implicam discussões
éticas e necessidade de legislação formal sobre esses procedimentos.
Com frequência, os valores religiosos/éticos colidem com os aspectos jurídicos e o
que é juridicamente lícito (legal) nem sempre é religiosa ou eticamente aceite. Em
determinados países, por exemplo, o aborto e a eutanásia são juridicamente lícitos
(legais), mas são contestados por certos segmentos sociais como os clérigos e as
confissões religiosas que não encontram qualquer moralidade nesses actos.
Por sua vez, os recursos digitais invadem cada vez mais a privacidade dos cidadãos
em transacções bancárias, comerciais ou de outra índole. É nesse contexto que urge a
regulamentação do uso desses recursos para assegurar a protecção de dados pessoais
ou institucionais, criminalizando a pirataria informática e outros delitos electrónicos.
Assim, a positivação destes preceitos aparece como um factor que influencia o
Direito, modernizando-o e adequando-o às reivindicações dos seus utentes.

e) A evolução cultural

A cultura é o fruto da vida em sociedade e é constituída por um todo coerente que


inclui normas, valores, ritos, hábitos, crenças, práticas e conhecimentos acumulados pela
humanidade e transmitidos de uma geração às outras, através do processo de
socialização que ocorre nos grupos sociais. Ora, sendo o Direito uma parte integrante da
cultura, sofre alterações em função da evolução da própria cultura. Ou seja, quando
mudam os valores, os hábitos e as crenças de uma sociedade, mudam consigo as normas
jurídicas.
Em suma, podemos afirmar que o Direito está sempre directamente relacionado com
a cultura da sociedade na qual está inserido. Ele impulsiona e é impulsionado por
aquela; é a expressão objectiva da evolução daquela e permite a coesão dos diferentes
grupos que a compõem.

6.3- Mudanças jurídicas

Nos quarenta anos que se seguiram à Independência, a sociedade moçambicana


deparou-se com uma enorme produção legislativa. As mudanças sociopolíticas que
aconteceram foram acompanhadas por mudanças jurídicas significativas. Nesse período,
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contribuiu para esse cenário a aceitação de determinadas ideias que permitiram novas
formas de organização da sociedade, designadamente o multipartidarismo, a
proclamação do Estado de Direito, o princípio da separação e interdependência dos
poderes do Estado, a independência do poder judicial no exercício das suas funções, a
descentralização do poder através da criação de autarquias locais, a autonomia do poder
legislativo, a codificação das normas jurídicas, a proliferação de tribunais e
procuradorias por quase todo o território nacional, etc.
Outrossim, o período em referência ficou marcado pela expansão da regulação por
quase todos os domínios da vida colectiva e individual, passando, o Direito, a
acompanhar as pessoas desde que nascem (ex: através do registo do nascimento) até à
hora da morte (ex: certidão de óbito).
O sistema jurídico torna-se cada vez mais complexo, pois a cada dia novas dimensões
da vida social exigem mais padronização, e consequentemente mais especialização do
Direito. Na sequência disso, emergem ramos como o Direito Ambiental, Direito do
Turismo, Direito do Petróleo, etc., mas também ocorrem novas regulamentações em
áreas antigas do Direito, envolvendo novos aspectos da realidade social, como as novas
estruturas familiares (ex: adopção de menores, casamentos de homossexuais), novas
espécies de crime (ex: o tráfico de órgãos, o sequestro, o narcotráfico, o cibercrime,
entre outros).
Em conclusão, as mudanças jurídicas são variações específicas que ocorrem no
interior do sistema jurídico. Envolvem as mudanças na cultura jurídica e as variações de
interpretação das normas por parte dos operadores jurídicos e pela sociedade, em geral.
A origem dessas mudanças são os juízes, os advogados, as organizações sociais, os
clérigos, a polícia, os empresários, os deputados, etc., podendo essas mudanças afectar o
funcionamento e a estrutura do ordenamento jurídico tanto no conteúdo das normas
como na forma da sua aplicação.

6.4- Mudanças jurídicas como mudanças sociais e vice-versa

Embora, à semelhança da sociedade, o Direito mude, essa mudança não consegue ir


à mesma velocidade em que fluem as mudanças na sociedade, sobretudo devido ao
excesso de burocracia durante a produção legislativa; à incapacidade de obtenção de
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consensos em tempo útil pelos partidos políticos com assento no Parlamento; à
auscultação pública a que as leis são sujeitas antes da sua aprovação pelo Parlamento;
etc. Disto, segue-se que as mudanças no âmbito jurídico não têm acompanhado a
celeridade das mudanças na sociedade, pois há sempre uma necessidade de um tempo
para o aperfeiçoamento das mudanças sociais para que depois se reflictam no Direito.
Seja como for, as mudanças jurídicas podem ser impulsionadoras das mudanças
sociais, sobretudo quando as mudanças jurídicas são socialmente aceites. Com efeito,
para Evan (1994), o Direito torna-se um instrumento activo de mudança social, quando
apresenta as seguintes condições:
 A fonte das normas deve ser reconhecida e respeitada.
 A compatibilidade das novas normas com os valores já instituídos.
 A adequação do comportamento dos governantes às novas prescrições.
 A protecção das novas normas com sanções e recompensas.
 A garantia dos direitos das pessoas que venham a ser afectadas pelas novas normas.

Ora, o Direito é uma matéria eminentemente complexa que apresenta uma natureza
em ebulição, podendo adoptar posições de reconhecimento, anulação, canalização ou
transformação da mudança social.
Pela posição de reconhecimento, o Direito reconhece e ampara com as suas normas
as realidades sociais novas; pela anulação, ele opõe-se à mudança, enfrentando-a
directamente e criando-lhe entraves; pela posição de canalização, o Direito orienta e
regula a mudança já produzida ou que esteja na iminência de ser produzida; e pela
posição de transformação, cabe ao Direito provocar mudanças nas realidades sociais,
quer lentamente (através de reformas e transições), quer rapidamente (através de
movimentos revolucionários).
No entanto, se é certo que as mudanças jurídicas impulsionam as mudanças sociais,
não é menos certo que estas últimas interferem naquelas. Com efeito, se não existissem
automóveis não haveria necessidade de Código de Estradas; se não houvesse crimes
nem criminosos não existiria o Código Penal, etc. Isto significa que as normas tornam-se
necessárias quando ocorrem mudanças sociais que passam a integrar o quotidiano dos
indivíduos.

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Desta maneira, podemos referir que as mudanças sociais impulsionam as mudanças
jurídicas, porque enquanto se processam geram situação que acabam por reivindicar a
presença do Direito para dirimir e acautelar a natureza dessas mudanças sociais. Por
outro lado, da convivência entre os indivíduos podem emergir situações novas que
requererão a adaptação do Direito a essas situações. Um exemplo elucidativo disso é a
emergência no novo Código Penal que decorreu da necessidade de tipificar figuras
criminais que não constavam no anterior Código Penal.

Exercícios de reflexão:
1. Discuta sobre os factores que explicam a lentidão da mudança do Direito.
2. Por que é que determinados segmentos da sociedade se opõem quer às
mudanças jurídicas quer às mudanças sociais?
3. Explique sobre os riscos que podem advir da falta de adaptação das normas
jurídicas às mudanças sociais.
4. Argumente sobre os factores que estão na origem das mudanças sociais.
5. Que consequências podem advir de uma fraca aceitação popular de um
projecto de mudança legislativa?

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