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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por
dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."
ISAAC ASIMOV

Fundação
Fundação e Império
Segunda Fundação

Tradução de
EDUARDO NUNES FONSECA

Título original norte-americano


FOUNDATION
FOUNDATION AND EMPIRE
SECOND FOUNDATION
PREFÁCIO

Uma obra de ficção implica geralmente em um pouco mais que saber escrever bem.
O conhecimento científico é desejável, mas, acima de tudo, o que importa é imaginação.
Isaac Asimov talvez seja o maior polígrafo de nossa época, pelo menos e como
registra a 115ª Edição da Enciclopédia Galáctica, e seus trabalhos se estendem desde obras
de vulgarização cientifica, como O Corpo Humano e O Cérebro Humano em que um estilo
leve e vivo estabelece um estudo completo do animal “Homo Sapiens”, até os altos vôos de
imaginação em que todo um novo Cosmos é construído, na trilogia que é atualmente um
clássico: Fundação.
Os críticos literários normalmente afetam um total desconhecimento das obras de
ficção cientifica, pretendendo com isso afetar uma ausência de conteúdo artístico neste
gênero de literatura. Talvez tenham cometido aí mais um engano.
Entre outras coisas, qualquer manifestação através de qualquer classe de signos comporta
uma apreensão e decodificação por parte de quem os recebe. Aí, é evidente, no processo de
decodificação é que reside a maior ou menor dose de eficiência do autor, isto ê, se digo
“laranja”, duas possíveis interpretações, pelo menos, podem ser dadas: o fruto ou a cor. E
claro que o sistema de codificação pode variar, mas sempre é importante e mesmo
indispensável a presença daquele que se vê frente ao símbolo.
Neste caso, temos aqui um universo que se sente subitamente desnudado pelos
psicohistoriadores, que são homens que aplicam a probabilidade a história. Vários
problemas ligados ao conhecimento podem ser colocados aí: em que medida um fenômeno
histórico pode ser alterado por esta ou aquela ação, que significância pode ter, por
exemplo, o choque de um meteorito em termos da história de um povo? Alguns dirão que
nenhuma influência poderá ter uma circunstância tão fortuita, a menos que chegue a
destruir o arsenal, ou mesmo a sede do governo de um país. Mas que dizer da pedra negra
da Mercaba, a que acorrem milhões de peregrinos todo ano?
O universo que aparentemente se mostra tão concreto e tão familiar ao homem
começa a perder a sua consistência, e isso já é sobejamente indicado pelas obras de
Charles Fort. Este último em seu O Livro dos Danados indica acontecimentos naturais
ocorridos’ que se assemelham a impossíveis. Asimov limita-se a assinalar possibilidades,
não para um mundo distante e diferente do nosso, apenas para um mundo que é o nosso e
que não se torna distante de si mesmo com a expansão que sofre. Os seres humanos
continuam tendo suas veleidades e mesquinharias, tudo parece muito normal e concreto.
É claro, nem tudo é real e concreto nesse processo, a probabilidade sempre lida com
uma indução, ou melhor, serve de fundamento para esta. Assim, no mundo superordenado de
Hari Seldon e dos psicohistoriadores, sempre o velho problema da indução se colocava: que
variável não seria prevista, que problema poderia surgir que viesse a turvar as previsões de
Seldon e sua equipe? Entre as várias opções possíveis, Asimov faz a feliz escolha de um
mutante, que tem características bastante definidas e que por ser exceção mexe também
com uma exceção no ser humano: as emoções.
É interessante observar que o lado emocional do homem parece ter sido
completamente esquecido, nenhum desenvolvimento parece ter revolucionado nossas
sensações e talvez precisamente disso advenha nossa força e nossa vulnerabilidade.
Até que ponto também a barbárie pode significar regressão, na medida em que o
termo “barbárie” é definido em relação a uma determinada forma cultural? Assim, a vida
bárbara dos polinésios fica muitos furos acima da nossa em termos de paz e
relacionamento.
A tecnologia, esse terrível mito endeusado e colocado acima e fora da esfera de seu
criador, isto é, o homem, gera uma sociedade constituída por multiplicidade de indivíduos,
isto é, uma sociedade atomizada, em que cada átomo desconhece a existência de outros
desde que a interação destes não lhe seja necessária.
Asimov sempre se preocupa com o problema da relação entre máquina e homem. Em
sua obra já famosa, Eu, Robô, apresenta as leis da robótica que visam preservar o criador
da criatura, em outras palavras, impedir que o Homem se transforme num novo
Frankenstein. Como toda lei está sujeita a falhas, trata cuidadosamente, em muitas de suas
obras posteriores, de explorar cuidadosamente as possíveis deficiências que esses irmãos
eletromecânicos do Homem possam ter e que venham a provocar riscos à sua segurança.
Em O Grande Sol de Mercúrio temos a ação de um robô avariado quase destruindo
a um ser humano, em Os Robôs nova análise profunda do tema, em O Despertar dos Deuses
a sua preocupação com o futuro da humanidade diz mais uma vez presente, procura
cuidadosamente estabelecer as possibilidades do homem, mas é sem dúvida na trilogia da
Fundação que essa investigação atinge o auge. Um novo universo de pesquisa é
estabelecido e cada decorrência natural dos fatos sociais pertinentes é envolvido na
pesquisa.
Os seres humanos depois de um longo período de tempo haviam concluí¬do, por
uma alienação progressiva de sua própria condição, que era impossí¬vel a existência de
qualquer outra forma de vida.
Todos, menos Hari Seldon, último grande cientista do Primeiro Império e que
levara a ciência da psicohistória ao seu completo desenvolvimento. A psicohistória pode
ser considerada a partir de Seldon como a Sociologia quintessenciada, a ciência do
comportamento humano reduzida a equações matemáticas.
Enquanto indivíduo, o homem permanece imprevisível, mas as massas podem ser
tratadas estatisticamente, de um modo muito parecido à forma com que hoje é encarado o
problema da verdade científica. Segundo Seldon, quanto maior a multidão, maior a precisão
obtida nos cálculos e a massa humana existente em sua época girava em torno dos
quintilhões.
Seldon previu a decadência do Império e, ainda, que a Galáxia iria atravessar um
período de trinta mil anos de miséria antes que se estabe¬lecesse novamente um governo
unificado. Tentou remediar a situação através de duas colônias de cientistas a que chamou
“Fundações”. A Pri¬meira Fundação foi instalada num dos extremos da Galáxia sob
grande publicidade e a Segunda foi instalada no outro extremo sob o mais completo
silêncio.
A Primeira Fundação seguiu os Planos de Seldon, então morto há muito tempo, e
através de sua ciência superior conquistou os planetas bárbaros que a cercavam, enfrentou
os Condestáveis e derrotou-os, enfrentou o que restava do Império e venceu. Finalmente,
encontrou algo que Seldon não pudera prever, o Mulo.
O Mulo era um mutante que dispunha do poder de controlar as emoções humanas e
moldar os cérebros a seu bel-prazer, seus inimigos mais furiosos transformavam-se em seus
asseclas mais convictos. Os exércitos não queriam, não podiam lutar com ele.
Mas a Segunda Fundação continuava em algum lugar, a seguir algum plano de
Seldon. O Mulo precisava encontrá-la se quisesse completar sua vitoriosa posse da
Galáxia.
Uma trama emocionante que só pode ser explicada frente a uma acurada análise da
situação social que vivemos e pelas tendências que toma seu desenvolvimento.
Fundação ou Império?

– O Editor
FUNDAÇÃO
PARTE I – OS PSICOHISTORIADORES

HARI SELDON - …nascido no ano de 11988 da Era Galáctica, morreu no ano 12069. As
datas são geralmente apresentadas em termos da Era Fundacional, como o ano 79 é 1 E. F.
Filho de pais da classe média em Helicon, setor de Arcturus (onde seu pai, conforme lenda
de autenticidade duvidosa, cultivava tabaco, nas plantas hidropônicas do planeta), muito
cedo mostrou a sua extraordinária propensão para a matemática. As piadas relacionadas
com a sua habilidade são inúmeras, e algumas contraditórias. Com a idade de dois anos,
dizem que…
…Sem dúvida, as suas maiores contribuições foram para o campo da psicohistória. Seldon
encontrou este campo constituído por meia dúzia de vagos axiomas, quando o deixou,
tornara-o uma profunda ciência estatística…
…A melhor autoridade para pormenores da sua vida, é a biografia escrita por Gaal
Dornick que, quando jovem, encontrou Seldon dois anos antes da morte do grande
matemático. A história do seu encontro…
Enciclopédia Galáctica*
* Todas as citações da Enciclopédia Galáctica aqui reproduzidas são extraídas da 116?
edição publicada em 1020 E. F. pela Empresa da Enciclopédia Galáctica, Ltda., Terminus,
com autorização dos editores.

Chamava-se Gaal Dornick e era um simples provinciano que nunca vira Trantor. Isto
é, não na realidade. Vira-o muitas vezes no supervídeo, e eventualmente nos enormes boletins
noticiosos tridimensionais, cobrindo uma Coroação Imperial ou a abertura de um Conselho
Galáctico Apesar de ter vivido toda a sua vida no mundo de Synax, que circulava ao redor de
uma estrela nos confins do Deserto Azul, ele não estava desligado por completo da
civilização. Naquela altura, lugar algum da Galáxia, o estava.
Havia quase 25.000.000 de planetas habitados na Galáxia e todos se submetiam ao
Império cuja capital era Trantor. Seria o último meio século de tal existência.
Para Gaal, esta viagem era o indubitável clímax de sua vida de jovem sábio. Ele já
estivera no espaço, de modo que a viagem, como viagem e nada mais, pouco significava. É
certo que anteriormente simplesmente viajara até o único satélite de Synax para obter dados
sobre as mecânicas da queda do meteoro, necessários à sua dissertação, porém pensando que
viagens seriam viagens, quer durassem um dia ou um ano.
Já se preparara para o salto através do Superespaço, fenômeno que não
experimentaria todos os dias. O salto era e seria para todo o sempre, o único método prático
para as viagens interestelares. As viagens através do espaço vulgarmente conhecidas não se
davam a velocidade mais rápida do que a da luz (um pouco do conhecimento científico
pertencente entre os poucos que resistiam à passagem do tempo desde o início da história da
Humanidade), e que significaria anos de viagem entre os sistemas habitáveis mais próximos.
Através do Superespaço, região impossível de imaginar, que não era espaço nem tempo,
matéria ou energia, algo ou nada, poderia atravessar a Galáxia em toda a sua extensão no
intervalo de dois segundos.
Gaal esperara o primeiro desses saltos com medo e, no entanto, nada sentira além de
um sobressalto interno que desapareceu no mesmo instante. Foi tudo. E depois disso, havia
apenas a nave, grande e brilhante, o produto frio de 12.000 anos de progresso imperial, ele
próprio, com seu diploma de matemática obtido recentemente e um convite do grande Hari
Seldon para ir a Trantor, juntar-se ao vasto e um pouco misterioso Projeto Seldon.
O que Gaal esperava com ansiedade depois da desilusão do salto, era a primeira
visão que teria de Trantor. Por isso nunca saía da sala de observação. As persianas de aço,
retiradas das vigias, permitiam uma breve visão que ele aproveitava observando o brilho
firme das estrelas, gozando a luminosidade de uma nebulosa, um conglomerado gigante de
fogos-fátuos apanhados em movimento e imobilizados para sempre. Ou então a névoa azulada
e fria de uma nebulosa gasosa, à distância de 5 anos-luz, estendendo-se para além da vigia
como mancha de leite e dominando a sala com uma luz tênue, para desaparecer duas horas
depois. A primeira aparição do sol de Trantor deu a impressão de um ponto duro e branco,
quase perdido, e apenas reconhecido ao ser apontado pelo guia da nave. As estrelas
avolumavam-se no centro Galáctico. Mas a cada salto, o sol brilhava mais intensamente
ofuscando todas as outras luzes, empalidecendo-as.
Um oficial apareceu e disse:
- A sala de observação ficará fechada durante o resto da viagem. Preparem-se para a
chegada.
Gaal seguiu-o, puxando pela manga do uniforme branco com o distintivo imperial: o
sol e a nave interplanetária.
- Seria possível deixar-me ficar? Gostaria de ver Trantor.
O oficial sorriu, e Gaal olhou embaraçado, lembrou-se sem razão de que falava com
um sotaque provinciano. O oficial respondeu: - Chegaremos a Trantor ao amanhecer.
- Quero vê-lo do espaço.
- Desculpe, mas é impossível. Se isto fosse um iate poderia fazê-lo, porém vamos nos
aproximar pelo lado do sol e você ficaria queimado e cego com os efeitos da radiação.
Gaal voltou-lhe as costas. O oficial ainda lhe disse que as visitas de turismo em
Trantor eram baratas.
- Obrigado.
Era criancice sentir-se desiludido, mas sentir-se criança num homem é quase natural.
Nunca tinha visto Trantor, grande como a vida, espalhado na sua imensidade e não desejava
esperar.

A nave desceu entre ruídos. Ouvia-se o sussurro longínquo da atmosfera a ser cortada,
resvalando ao longo do metal, o ruído contínuo dos condicionadores lutando contra o calor da
fricção, e o ruído mais lento das máquinas desacelerando-se. Ouvia-se ainda o tumulto de
homens e mulheres reunindo-se nas salas de desembarque, os guinchos dos guindastes
levantando a bagagem, o correio e as mercadorias, do centro da nave.
Gaal sentiu que a nave já não tinha um movimento independente. A gravidade
planetária tinha a supremacia. Milhares de passageiros aguardavam pacientemente.
A bagagem de Gaal era mínima. Ele parou defronte de um balcão onde suas malas
foram rapidamente revistadas. O seu passaporte foi inspecionado e carimbado. Não lhe deram
atenção.
Estava em Trantor! O ar parecia mais pesado, a gravidade maior aqui do que no local
onde nascera. Pensou se conseguiria se habituar à imensidade.
O Edifício de Desembarque era enorme. O teto perdia-se nas alturas, e Gaal quase
podia imaginar as nuvens formarem-se por baixo dele. A parede fronteira não se via, só
funcionários, balcões e chão até se perder tudo na neblina.
O homem do balcão falou, o tom de sua voz era azedo:
- Mexa-se, Dornick. - Gaal ainda lhe perguntou para onde, porém a única resposta foi
um gesto apontando para os sinais suspensos no alto onde se podia ler: Táxis para todos os
pontos.
Um indivíduo saiu do anonimato e parou no mesmo balcão em que Gaal parará. O
homem fez-lhe um movimento de cabeça e o indivíduo retribuiu por sua vez e seguiu o jovem
emigrante. Chegou no momento de ouvir para onde Gaal se dirigia.
Gaal encontrou-se defronte do anúncio Supervisor. O homem a quem o letreiro se
referia nem sequer o olhou: - Para onde? - perguntou.
O jovem não tinha certeza, porém alguns segundos de hesitação signifi¬cavam mais
gente em fila atrás dele.
O Supervisor olhou-o desta vez.
- Para onde?
Gaal não tinha muito dinheiro, respondeu descuidado:
- Para um bom hotel.
O Supervisor não se impressionou.
- São todos bons. Escolha um.
- O mais próximo, por favor.
O Supervisor apertou um botão. Um fio tênue de luz formou-se no chão, serpenteando
entre outros de cores diferentes. Um bilhete luminoso foi-lhe apresentado.
O Supervisor pediu:
- Um ponto doze.
Gaal procurou as moedas.
- Para onde vou? - perguntou.
- Siga a luz. O bilhete continuará brilhando enquanto for na direção certa.
Gaal começou a andar. Havia centenas de pessoas seguindo suas rotas individuais,
cruzando-se, apressadas em chegar aos seus destinos.
O seu caminho terminou. Um homem de uniforme azul e dourado, berrante,
confeccionado com pasto-têxtil, levou-lhe as malas.
- Direto para o Luxor - gritou.
O homem que seguia Gaal ouviu-o, e observou-o subindo em seu veículo.
O táxi subiu em linha reta. Gaal olhava tudo pela janela transparente, maravilhado
com a sensação de voar dentro de uma estrutura fechada, agarrando-se instintivamente ao
assento do motorista. A vastidão reduziu-se, e as pessoas tornaram-se formigas, dispersas em
todas as direções. A cena restringiu-se ainda mais, e começou a desaparecer.
Em frente havia um paredão. Começava no meio de nada e terminava no meio de nada,
longe do alcance dos olhos. Por todo ele apareciam as bocas dos túneis, o táxi lançou-se num
deles, e logo desapareceu na escuridão. Durante curtos momentos, Gaal ficou pensando como
é que seu motorista escolhera aquele túnel entre tantos.
Tudo era escuridão, brilhando apenas uma ou outra luz de sinalização. O ar parecia
cheio de ruído de chuva. Gaal inclinou-se para frente, protegendo-se contra a desaceleração,
no momento em que o táxi saía do túnel e subia para o nível do solo mais uma vez.
- Hotel Luxor - disse o motorista desnecessariamente depois de ajudar Gaal a
transportar a bagagem, aceitou uma gorjeta, arranjou outro passageiro e partiu de novo.
Durante todo este tempo, nem uma única vez se viu o céu.

TRANTOR - …No início do décimo terceiro milênio, esta tendência atingiu o clímax.
Como centro do Governo Imperial por centenas de gerações e localizado como estava, nas
regiões centrais da Galáxia, entre os mundos mais densamente povoados e
tecnologicamente avançados de todo o sistema, não podia deixar de ser o mais rico e denso
agrupamento de seres humanos que a Raça jamais vira.
Sua urbanização progrediu rapidamente até atingir o apogeu. Toda a superfície de Trantor,
100 milhões de quilômetros quadrados de extensão, formavam uma única cidade. A
numerosa população mal ultrapassava os 40 bilhões e devotava-se quase inteiramente às
necessidades administrativas do Império. Apesar disso não bastava para a complexa tarefa.
(Deve lembrar-se que a impossibilidade de uma administração cuidada de todo o Império
Galáctico, sob a direção pouco inspirada dos últimos imperadores, foi um fator
considerável no Declínio.) Diariamente esquadras de navios (aos milhares) traziam os
produtos de vinte mundos agrícolas para os mercados de Trantor…
A necessária dependência dos mundos exteriores, que asseguravam a sua manutenção,
tornava Trantor cada vez mais vulnerável a conquista. No último milênio do Império a
monotonia das numerosas revoltas fez com que os seus Imperadores se tornassem mais
conscientes da realidade, de modo que a política imperial se tornou pouco mais do que uma
teimosa proteção a sensível veia jugular de Trantor…
Enciclopédia Galáctica

Gaal não tinha absoluta certeza se o sol brilhava, se era dia ou noite. Tinha vergonha
de perguntar. Todo o planeta parecia viver sob metal. A refeição, acabada de lhe ser servida,
vinha rotulada de “almoço”, porém havia planetas cujo horário dificilmente se adaptava às
convenientes alterações do dia e da noite. A velocidade de rotações planetárias era variável e
ele desconhecia os movimentos de Trantor.
De início seguira avidamente os letreiros que diziam “Solário”, porém descobriu que
este não passava de uma sala iluminada por radiação artificial. Deixou-se lá ficar alguns
segundos, dirigindo-se a seguir para o átrio do hotel.
- Onde posso adquirir bilhetes para visitas de turismo? - perguntou ao empregado.
- Aqui.
- Quando é a partida?
- Perdeu uma agora mesmo, haverá outra amanhã, compre já o bilhete que eu lhe
reservo o lugar.
O dia seguinte seria tarde demais, teria de estar em breve na Universidade.
- Não há uma torre de observação, ou algo semelhante? - insistiu ainda. - Ao ar livre.
- Também posso vender-lhe um bilhete para lá, se quiser. O melhor é deixar-me ver
como está o tempo. Apertando um botão ao lado, o empregado leu a corrente de palavras e
números que surgiram no visor. - Bom tempo. Pensando melhor, acho que estamos em época
de seca - acrescentou ainda em tom de conversa. - Eu, por mim, nunca saio. A última vez que
estive ao ar livre foi há três anos. Vê-se uma vez e pronto. - Tome o seu bilhete, há um
elevador especial à retaguarda do edifício. É só tomá-lo.
O elevador era do último tipo e trabalhava por repulsão da gravidade. Gaal e outras
pessoas entraram, o operador acionou uma chave e quando o indicador da gravidade chegou
ao zero ele sentiu-se suspenso no espaço, depois tornou a sentir um pouco do seu peso e no
momento em que o elevador acelerava a subida gritou alarmado, ao sentir que os pés
deixavam o chão, em virtude da aceleração.
- Meta os pés debaixo das guardas! Não sabe ler? - gritou-lhe o ascensorista irritado.
Os outros passageiros sorriam divertidos ao verem o seu esforço para de novo descer,
agarrado à parede. Os pés de todos os passageiros estavam metidos em argolas de metal
cromado que, em linhas paralelas, fixavam-se ao chão. Ele ignorara tal coisa ao entrar.
Sentiu dedos que o agarraram e o puxaram para baixo. Com um suspiro de alívio o
jovem agradeceu e o elevador parou finalmente.
Dirigiu-se para um terraço descoberto, iluminado por intensa luz branca, que o
cegava, o homem que o ajudara a descer vinha atrás dele e entabulou conversa: - Sente-se, há
muitos lugares.
- Também me parece. - Dirigiu-se para as cadeiras, mas parou antes de lá chegar.
- Se me der licença, irei até o parapéito, quero dar uma vista de olhos.
O homem fez um gesto amigável e Gaal debruçou-se no parapéito, contemplando o
panorama.
Não conseguia ver o solo que se perdia no meio das complexas construções. Não
havia horizonte, para além das colunas metálicas em silhuetas, estendendo-se numa
uniformidade cinzenta, e Gaal imaginou que todo o resto seria igual, na superfície daquele
planeta. Quase não havia movimento - algumas aeronaves passavam vagarosas - mas o
movimento de bilhões de seres sucedia em algum lugar, estava certo disso, debaixo da pele
metálica daquele mundo.
Árvores não havia, nem relva, nem terra. Nenhuma espécie de vida além do homem.
Em algum local, naquele mundo, pensou vagamente, se situaria o palácio do Imperador, entre
milhas de solo natural, entre verduras, rodeado de flores, uma pequena ilha no meio do oceano
de aço… mas invisível agora a seus olhos. Talvez estivesse a muitos quilômetros. Não sabia.
A sua visita urgia. Suspirou ruidosamente, tomando finalmente consciência da
sensação de estar em Trantor, no planeta central de toda a Galáxia, caldeirão borbulhante da
raça humana. Não viu suas fraquezas, não viu as naves chegarem com os alimentos, não
percebia a veia jugular que ligava fragilmente os quarenta bilhões de seres em Trantor, com o
resto da Galáxia. Tinha apenas a consciência daquela obra grandiosa, da completa e quase
desprezível conquista total de um mundo.
Quando se voltou, o seu olhar parecia vago. O amigo do elevador indicava-lhe uma
cadeira a seu lado, Gaal sentou-se. O homem sorriu.
- Chamo-me Jerril. É a primeira vez que vem a Trantor?
- É.
- Já imaginava. Trantor abate as pessoas, especialmente as de temperamento poético.
Veja só: os trantores nunca vêm até aqui, não gostam. Causa-lhes apatia.
- Apatia? A propósito o meu nome é Gaal, porque apatia? É um panorama magnífico.
- Questão de opinião. Se você tivesse nascido numa cela e crescido num corredor,
trabalhando num cubículo, com férias numa varanda repleta de gente, ao sair para o ar livre,
sem nada além do céu sobre si, talvez lhe desse um ataque de nervos. É regra obrigarem-se as
crianças virem aqui, uma vez por ano, depois dos cinco anos. Não sei se lhes faz bem ou não,
na realidade não lhes serve de nada porque não gozam de suficiente ar livre, e nas primeiras
vezes gritam até o histerismo. Deviam começar assim que nascem a vir aqui uma vez por
ano… - Continuou: - Claro que não tem importância. Que diferença faz se nunca saírem? Lá
embaixo são felizes e governam o Império. A que altura pensa que estamos?
- Quinhentos metros? - inquiriu inocentemente.
Jerril riu.
- Não, vinte metros apenas.
- O quê? Mas o elevador levou…
- Bem sei. Porém a maior parte do tempo foi consumido desprendendo-se do nível do
solo. É como um “iceberg”, nove décimos estão invisíveis, estende-se mesmo até o oceano.
Estamos tão baixo que podemos utilizar a diferença térmica entre o nível do solo e o subsolo,
para nos dar toda a energia de que necessitamos. Já sabia?
- Não. Pensei que usassem geradores atômicos.
- Já os usamos, porém este método é mais barato.
- Compreende-se!
- Então que pensa de tudo isto? - Por momentos o ar bonacheirão desapareceu. - Está
de férias? A negócios? De passagem, não?
- Não é bem assim. Sempre tive vontade de ver Trantor, mas o que aqui me trouxe, na
verdade, foi um emprego - Oh!
Gaal sentiu-se na obrigação de continuar a explicação.
- Um emprego no projeto do Dr. Seldon, na Universidade de Trantor.
- Com Corvo Seldon?
- A pessoa a quem me refiro é Hari Seldon, Seldon, o psicohistoriador. Não conheço
nenhum Corvo Seldon.
- É o mesmo. Corvo é apelido, chamam-lhe assim porque ele prediz um fim
desastroso.
- O quê? - Gaal estava seriamente surpreso.
- Não me diga que não sabia? - Jerril não sorria. - Você vai trabalhar com ele e não
sabe?
- Vou sim, mas estou alienado dessas coisas, sou matemático. Qual é o motivo dessa
previsão? Que espécie de desastre?
- Não adivinha?
- Não faço a mínima idéia. Tenho lido escritos do Dr. Seldon e dos seus
colaboradores, mas tão-somente sobre teoria matemática.
- Esses são os que ele publica.
Gaal começou a irritar-se.
- Parece-me que vou até o meu quarto. Foi um prazer conhecê-lo.
Jerril acenou-lhe num adeus indiferente.
Gaal encontrou no quarto um indivíduo que o esperava. Durante alguns segundos ficou
tão surpreso que não conseguiu articular o inevitável - que faz aqui - que lhe aflorou aos
lábios.
O homem levantou-se. Era velho, quase completamente calvo e coxeava. Os olhos
eram vivos e azuis.
- Sou Hari Seldon - disse, e Gaal identificou mentalmente aquele rosto com o que
tantas vezes vira nas telas.

PSICOHISTÓRIA - …Gaal Dornick empregando conceitos não matemáticos, relacionou e


definiu a psicohistória com o ramo da matemática em relação às reações de grandes
aglomerados humanos a estímulos econômicos e sociais…
…Subentendido em todas estas definições está o avocar-se que o aglomerado em questão
está suficientemente desenvolvido para um tratamento estatístico válido. A dimensão
necessária de tal aglomerado pode ser determinada pelo primeiro teorema de Seldon, que…
É ainda imperativo que o aglomerado em si seja desconhecedor da análise psic o historie a
que se acha submetido, para que todas as suas reações tenham validade…
A base da psicohistória encontra-se no desenvolvimento das funções de Seldon, as quais
exibem propriedades coerentes com tais forças econômicas e sociais, a medida em que…
Enciclopédia Galáctica

- Bom dia, doutor. Eu… - Gaal hesitou.


- Pensou que só nos encontraríamos amanha? Assim seria, se as circunstâncias o
permitissem. Todavia se vamos aproveitar suas capacidades, devemos fazê-lo rapidamente.
Torna-se cada vez mais difícil conseguir recrutas.
- Não estou compreendendo, doutor.
- O senhor não esteve conversando com um homem na torre de observação?
- Sim, apenas sei que se chama Jerril.
- O nome nada representa. É um agente da Comissão de Segurança Pública. Seguiu-o
desde que você desembarcou.
- Mas… por quê? Tudo isto me causa confusão.
- Ele não lhe disse nada a meu respeito?
Gaal hesitou.
- Referiu-se a você como “Corvo Seldon”.
- Não lhe disse por quê?
- Disseme que o senhor predizia uma catástrofe.
- É verdade. Trantor tem algum significado para você?
Todo mundo parecia muito interessado na sua opinião sobre Trantor desde que
chegara. Gaal, no entanto não se sentia capaz de responder senão com uma palavra
”Glorioso!”
- A sua resposta é irrefletida. E a psicohistória?
- Não pensei aplicá-la no caso.
- É preferível aplicá-la. Antes de nossas relações chegarem ao fim, meu jovem amigo,
terá que aprender a aplicar a psicohistória a todos os problemas por mais rotineiros que lhe
possam parecer. Observe. - Seldon tirou da algibeira o seu calculador. Dizia-se que até
debaixo do travesseiro ele guardava um, para os momentos de insônia. O calculador estava
consumido pelo uso e os dedos de Seldon, gastos mais pela idade, acariciaram o rijo plástico
que o guarnecia. Símbolos vermelhos saltaram da matéria cinzenta.
- Eis as atuais condições do Império.
- Parece-me que essa representação não está completa - disse Gaal finalmente.
- Não, não está completa - concordou Seldon. - Alegro-me que não aceite cegamente a
minha palavra. Todavia isto é uma aproximação que serve bem para demonstrar a proposição.
Acha aceitável?
- Sim, mas dependendo da minha verificação - Gaal estava decidido a evitar qualquer
armadilha.
- Bom. Acrescente a tudo isto a probabilidade do assassinato do Imperador, revoltas
dos vice-reis, o regresso periódico a crises de depressão econômica, o declínio da
exploração dos planetas…
Parecia nunca mais chegar ao fim, para cada razão mencionada, novos símbolos
surgiam, integrando-se na função básica que se expandia e mudava. Gaal só o interrompeu uma
única vez: - Não vejo a validade dessa transformação de valores.
Seldon repetiu-a, porém, mais lentamente.
- Isso é feito por meio de uma operação de valores sociais…
- Proibida -interrompeu Gaal, outra vez.
- Bom. Você é rápido, mas não o é suficientemente. Não é proibida nessa relação. Vou
provar-lhe pelo método da expansão.
O processo era mais lento, mas ao final Gaal disse humildemente:
- Obrigado, agora compreendo.
Seldon terminou:
- Isto será Trantor daqui a cinco séculos. Qual é a sua interpretação? Ahn? - inclinou a
cabeça e aguardou.
- Destruição total! - exclamou Gaal - Mas… é impossível. Trantor nunca esteve…
Seldon apoderara-se de uma excitação febril, intensa, pois apenas o seu corpo
envelhecera com os anos.
- Vamos, vamos, viu como eu obtive o resultado? Transformei os números em
palavras. Esqueça por instantes o simbolismo.
Gaal interpretou:
- À medida que a especialização em Trantor aumenta, mais vulnerável, mais indefesa
se torna. Além disso, quanto mais se tornar um centro administrativo do Império, mais valiosa
se torna como presa. A incerteza da sucessão imperial aumenta as lutas entre a nobreza e
origina o desaparecimento da responsabilidade social.
- Basta! Que me diz da probabilidade numérica da destruição total em cinco séculos?
- Nada posso afirmar.
- Pode utilizar a diferenciação?
Gaal sentiu-se pressionado. Seldon não lhe entregava o calculador, porém o segurava
ante os olhos. Seu cérebro trabalhava com fúria, e sentiu a testa cobrir-se de suor.
- 85% de probabilidades mais ou menos.
- Nada mau - disse Seldon olhando-o com afeto - o número exato é 92,5%.
- É então essa a razão do “Corvo”. Nunca vi esses cálculos nas comunicações.
- Claro que não. É impublicável. Pensa que o Império se exporia a tanto? Trata-se de
uma simples demonstração de psicohistória, porém alguns dos resultados chegaram ao
conhecimento da aristocracia… Seldon terminou com um gesto que explicava a sua inaptidão.
- Isso é mau.
- Não tanto assim, tudo foi devidamente calculado.
- E foi isso que os levou a investigar a minha pessoa?
- Tudo e todos relacionados com o meu projeto estão sob investigação.
- O senhor corre algum perigo?
- Sim. Há uma probabilidade de 1,7% de eu ser executado como traidor: contudo, essa
probabilidade em nada altera o projeto. Também a levamos em conta. Bem, não pensemos
nisso. Suponho que se encontrará comigo amanhã na Universidade?
- Sim - disse Gaal.

COMISSÃO DE SEGURANÇA PÚBLICA - …A aristocracia ascendeu ao poder após o


assassinato do Imperador Cleon I, último da dinastia Entum. No seu conjunto, formaram
um elemento de ordem durante os séculos de instabilidade e incerteza do Império. Sob o
“controle” das grandes famílias dos Chen e Divart transformaram-se em instrumento cego
para a manutenção do status-quo… Não foram totalmente destruídos como poder de
Estado, a não ser depois da ascensão de Cleon II ao trono. O primeiro comissário chefe…
…Assim sendo, o princípio do fim desta comissão pode ser ligado ao julgamento do Dr.
Hari Seldon, dois anos antes do início da Era Fundacional. Esse julgamento encontra-se
gravado na biografia de Hari Seldon, feita por Gaal Dornick…
Enciclopédia Galáctica

Gaal não chegou a cumprir o prometido. Foi acordado na manhã seguinte pela
campainha do comunicador. Respondeu, e a voz do empregado do hotel, um tanto sarcástica,
informou-o de que se encontrava detido, sob ordens da Comissão de Segurança Pública.
Gaal correu para a porta, tão-só para descobrir que esta já não se abria. Só lhe
restava vestir-se e aguardar.
Vieram buscá-lo e levaram-no para outro lugar, porém continuou detido. Submeteram-
no a vários interrogatórios, sempre com a máxima delicadeza, tudo ultra civilizado. Explicou-
lhes que era natural da província de Synax, que freqüentara tais e tais escolas e obtido o
doutoramento em matemática, em tal e tal data. Pedira trabalho como colaborador do Dr.
Seldon e fora aceito. Vezes sem conta deu estes pormenores, e vezes sem conta retornaram os
seus inquisidores à questão de sua adesão ao Projeto Seldon. Como e quando ouvira ele
mencionar tal projeto? Qual seria sua posição? Que instruções secretas recebera? De que
constava o projeto Seldon?
Respondeu-lhes que não sabia. Não tinha quaisquer instruções secretas. Era um
investigador, um matemático. Não tinha nenhum interesse em política. Finalmente o delicado
inquisidor perguntou: - Quando se dará a destruição de Trantor?
Gaal hesitou:
- Por mim não posso lhe dizer.
- E falado por outrem?
- Não posso responder pelos outros. - Pensou ter respondido com demasiada
veemência.
- Alguém já lhe falou de tal destruição, fixou uma data? - Perante a hesitação do jovem
o inquisidor prosseguiu: - O senhor foi seguido, doutor. Estávamos à sua espera no porto,
quando o senhor chegou, na torre de observação, enquanto aguardava sua entrevista e é óbvio
que seguimos toda sua conversa com o Dr. Seldon.
- Então já conhecem os seus pontos de vista sobre o assunto.
- Talvez, mas gostaríamos de ter a sua opinião.
- Ele é de opinião que Trantor será destruída dentro de cinco séculos.
- Provou-o matematicamente?
- Sem dúvida! - respondeu em tom de desafio.
- O senhor decerto defende… ahn… a infalibilidade da matemática?
- Se o Dr. Seldon a aceita, é válida.
- Então, vamos embora.
- Espere! Tenho direito a advogado. Exijo esse direito como cidadão do Império.
- Será atendido.
E foi.
Foi um homem alto que logo após entrou, um homem cujo rosto parecia ser feito de
linhas verticais e tão magro que se duvidava existir espaço suficiente para um sorriso.
Gaal levantou a cabeça. Tantas coisas lhe sucederam e estava em Trantor há trinta
horas apenas.
O homem disse:
- Sou Lors Avakim. O Dr. Seldon indicou-me para seu representante no Tribunal.
- Ah! Bem, então vejamos. Exijo um apelo imediato ao Imperador. Estou detido sem
motivos. Estou inocente, qualquer que seja a acusação. Qualquer que seja! - Suas mãos não
eram a representação empolada de suas palavras. - Deve me conseguir audiência com o
Imperador, imediatamente.
Avakim espalhava cuidadosamente pelo chão o conteúdo de um envelope que sacara
da algibeira, eram os impressos legais, tão finos que mais pareciam fitas, eram adotados pelo
foro, por caberem numa minúscula cápsula, e serem assim esquivados a buscas. Havia,
também, um gravador magnético.
Avakim olhou finalmente Gaal.
- A comissão tem, é natural, um fonocaptor nesta sala, de maneira a ouvir o que
dizemos. É contra a lei, contudo o usarão.
Gaal cerrou os dentes com força.
- Contudo - e Avakim sentou-se resolutamente - o gravador que coloquei sobre a mesa,
um gravador vulgar na aparência, mas que trabalha muito bem, tem a propriedade extra de
anular o fonocaptor por meio de uma irradiação estática. A comissão não o descobrirá tão
breve.
- Então posso falar?
- Seguramente.
- Quero uma audiência com o Imperador.
Avakim sorriu com ironia, provando assim haver espaço no seu rosto para um sorriso
amarelo, o rosto se contraiu como que para arranjar esse espaço essencial. Disse apenas: - O
senhor é da província.
- Acima de tudo sou um cidadão do Império, tanto quanto qualquer membro da
Comissão de Segurança.
- Certamente. No entanto, como provinciano não entende a vida de Trantor, tal como é.
Não há audiências com o Imperador.
- Então, ninguém há acima da Comissão? Não há outro processo?
- Nenhum. Não há recurso prático. Legalmente, claro que pode apelar ao Imperador,
contudo não conseguiria uma audiência. O atual Imperador não é o Imperador da dinastia
Entum. Trantor encontra-se em mãos das famílias aristocráticas de cujos membros se
compõem a Comissão de Segurança. Um desenvolvimento já previsto pela psicohistória.
- Nesse caso, se o Dr. Seldon pode prever a história de Trantor num futuro de
quinhentos anos…
- Quinhentos não, mil e quinhentos.
- Sejam quinze mil. Por que não previu ele ontem os acontecimentos desta manhã, e
não me avisou? Perdão, retiro o que disse. - Gaal sentou-se e descansou a cabeça nas palmas
das mãos suadas. - Sei perfeitamente que a psicohistória é uma ciência estatística, e que não
pode prever com segurança um futuro individual. O senhor compreenderá que me sinto um
pouco transtornado.
- O senhor se engana. O Dr. Seldon era de opinião que o senhor seria detido esta
manhã.
- O quê?
- Infelizmente é a verdade. A Comissão tem se tornado cada vez mais hostil às suas
atividades. Novos membros que vêm se juntar ao grupo tiveram interferências cada vez
maiores. Os gráficos indicam que, para conseguir a nossa finalidade, devia atingir-se o clímax
agora. A Comissão movia-se vagarosamente demais, e o Dr. Seldon visitou-o ontem para
forçá-los a aparecer. Nenhuma outra razão.
- Lastimo…
- Por favor, assim foi preciso. O senhor não foi escolhido, por qualquer razão pessoal.
Deve compreender que os planos do Dr. Seldon, desenvolvidos matematicamente durante um
período de dezoito anos, incluem todas as eventualidades de probabilidade significativa. Esta
é uma delas. Fui aqui enviado unicamente para assegurar-lhe de que não há nada a temer. Tudo
terminará bem. Quase certo para o projeto, e com probabilidades razoáveis para você.
- Quais são os números?
- Para o projeto mais de 99,9%.
- E para mim?
- A sua probabilidade é de 77,2%.
- Quer isso dizer que, em cada cinco das minhas possibilidades, há uma de ser
condenado à prisão perpétua ou à execução?
- A última está abaixo de 1%.
- Cálculos sobre uma unidade não têm significado. Mande-me o Dr. Seldon.
- Infelizmente não posso. O Dr. Seldon também foi detido.
A porta foi violentamente aberta antes que Gaal pudesse sequer levantar-se. Entrou um
guarda, dirigiu-se à mesa, apanhou o gravador, olhou-o por todos os lados e meteu-o no bolso.
Avakim interpelou-o calmamente:
- Necessito desse instrumento.
- Lhe será dado um, Conselheiro, que não irradie um campo estático.
- Nesse caso a minha entrevista terminou.
Gaal viu-o sair e sentiu-se ainda mais só.
O julgamento (como Gaal o denominava, embora tivesse pouca analogia com a
elaborada técnica jurídica que conhecia através dos livros) durou pouco tempo. Estava apenas
no terceiro dia, e no entanto Gaal não conseguia retroceder, mentalmente, ao seu início.
Ele próprio fora pouco incomodado. O ódio concentrava-se em Seldon, sem que este
se apresentasse perturbado. Para o jovem aquele homem representava o único ponto de apoio
que lhe restava no mundo.
Os espectadores eram reunidos e escolhidos exclusivamente entre os barões do
Império. A Imprensa e o público foram excluídos e duvidava-se que qualquer número
significativo de estranhos tivesse sequer conhecimento do julgamento. A atmosfera era de
visível hostilidade aos acusados.
Os cinco membros da Comissão de Segurança Pública estavam assentados atrás de
sua mesa de juizes, como num trono. Trajavam-se de ouro e escarlate e de batinas justas e
brilhantes como porta-vozes estridentes de suas funções judiciais. Ao centro sentava-se o
Comissário-Chefe Linge Chen. Gaal que nunca vira um Lorde tão poderoso, olhava-o
fascinado. Chen, durante todo o processo, raramente falou. Deixou patente que o discurso
estava abaixo de sua dignidade.
O advogado da Comissão consultou os seus apontamentos e o interrogatório
continuou, com Seldon no banco dos réus.
- Vejamos, Dr. Seldon: Quantos homens estão atualmente ligados ao projeto que o
senhor dirige?
- Cinqüenta matemáticos.
- Incluindo o Dr. Gaal Dornick?
- O Dr. Dornick é o qüinquagésimo primeiro.
- Então há cinqüenta e um. Explore bem a sua memória Dr. Seldon. Talvez haja
cinqüenta e dois ou cinqüenta e três? Ou talvez mais?
- O Dr. Dornick ainda não se ligou formalmente à minha organização. Quando o fizer,
teremos cinqüenta e um membros. Até lá serão cinqüenta, como já frisei.
- Cinqüenta? Não serão aproximadamente 100.000?
- 100.000 matemáticos? Não!
- Não falei de matemáticos! Há ou não cem mil membros de todas as especialidades?
- De todas as especialidades é possível que sua estimativa esteja correta.
- É possível? Eu não pergunto, afirmo categoricamente que o é. Afirmo que o número
de homens ligados ao seu projeto, Dr. Seldon, é de 98.572.
- O senhor está incluindo nesse número mulheres e crianças.
- (Levantando a voz) - 98.572 indivíduos, é essa a intenção da minha afirmação e
creio que é indiscutível.
- Nesse caso devo aceitá-la como exata.
- (Consultando os apontamentos) - Deixemos por momentos esse caso, Dr. Seldon, e
passemos a outro que já foi também debatido. Importa-se de repetir o que pensa sobre o futuro
de Trantor?
- Disse e repito que Trantor se transformará em ruínas dentro dos próximos cinco
séculos.
- Não considera essa afirmação como deslealdade ao Estado?
- Não, meu caro senhor. Verdades científicas permanecem além de lealdades ou
deslealdades.
- O senhor está ciente de que a sua afirmação representa uma verdade científica?
- Absolutamente.
- Em que é que se baseia?
- Na prova matemática da psicohistória.
- Pode provar que essa matemática é válida?
- Apenas a outro matemático.
- (Sorrindo) - O que o senhor proclama, então, é que a sua verdade é de natureza tão
esotérica, que fica além das possibilidades de compreensão de um homem comum. Quer-me
parecer que a verdade deve ser mais cristalina, menos misteriosa e mais aceita.
- Para alguns cérebros ela não apresenta dificuldades. A parte física da transferência
de energia, que é conhecida pelo nome de termodinâmica, tem-se apresentado clara e
verdadeira através de todos os tempos, desde o homem das eras mitológicas e, mesmo assim,
existem ainda pessoas, algumas das quais possivelmente aqui presentes, que seriam incapazes
de representar um motor. E, no entanto, sua inteligência não deve ser por isso menosprezada.
Duvido que os sábios Comissários…
A esta altura um dos Comissários inclinou-se para o advogado. Suas palavras eram
ininteligíveis, porém o sibilar da voz era áspero. O advogado corou e interrompeu Seldon.
- Não nos encontramos aqui para ouvir discursos, Dr. Seldon. Aceitamos sua
exposição. Permita-me, no entanto, sugerir-lhe que suas previsões de desastre podem ter a
intenção de abalar a confiança do povo no Governo Imperial de modo a atingir fins puramente
pessoais. E que por mera previsão o senhor o espera conseguir tendo preparado para isso um
exército de cem mil indivíduos.
- Em primeiro lugar o caso não é esse. Se fosse uma investigação sumária lhes
mostraria que pouco mais de 10.000 são pessoas de idade militar e que, mesmo assim,
nenhuma dessas dez mil tem qualquer espécie de treino militar.
- Atua o senhor como agente de outrem?
- Não me encontro a soldo de qualquer homem ou potência, senhor advogado.
- Age então desinteressadamente? Serve à Ciência?
- Exato.
- Vejamos então: pode o futuro ser alterado, Dr. Seldon?
- A resposta é óbvia. Este Tribunal pode ir pelos ares dentro das próximas horas ou
pode não ir. Se o fosse o futuro seria alterado, por pouco, mas sem dúvida alterado.
- O senhor esgrime com palavras. Pode a história da raça humana ser alterada em sua
totalidade?
- Sim.
- Facilmente?
- Não. Com muitas dificuldades.
- Porquê?
- A trajetória de um planeta contém uma inércia enorme. Para ser alterada deve
deparar-se com algo com uma inércia proporcional. Deve haver o mesmo número de pessoas,
ou se o número for menor, dar-lhe um longo prazo para a alteração. Compreende?
- Creio que sim. Trantor não será destruída se um grande número de indivíduos se
decidir a atuar nesse sentido.
- Correto.
- Mais ou menos cem mil pessoas.
- Não. Esse número é excessivamente pequeno.
- Com certeza?
- Considere-se que Trantor tem uma população superior a quarenta bilhões.
Considere-se, além disso, que o caminho que a levaria à destruição não pertence a Trantor
“per si” mas ao Império em sua totalidade, e que o Império contém quase um quintilhão de
seres humanos.
- Perfeitamente. Então talvez cem mil pessoas possam alterar essa trajetória, se eles e
os seus descendentes trabalharem com essa finalidade nos próximos quinhentos anos.
- Temo que não. Quinhentos anos é curto prazo.
- Ah! nesse caso, Dr. Seldon, podemos tirar a seguinte conclusão partindo de suas
afirmações: o senhor reuniu 100.000 pessoas limitadas ao seu projeto, que esses mesmos
indivíduos são suficientes para alterar a história de Trantor nos próximos quinhentos anos. Em
outras palavras, não podem evitar a destruição de Trantor, façam o que fizerem.
- Assim é, infelizmente.
- Por outro lado esses cem mil indivíduos não têm em mente qualquer fim ilegal.
- Exatamente.
- (Vagarosamente) - Nesse caso, Dr. Seldon, preste atenção, pois queremos uma
resposta ponderada - qual é a finalidade desse grupo?
A voz do advogado tornara-se estridente. Preparara sua armadilha com habilidade,
encurralando Seldon, cortando astutamente toda e qualquer possibilidade de uma resposta
coerente.
Ouviu-se um sussurro no seio da assembléia que chegou mesmo até aos Comissários.
Estes inclinaram-se uns para os outros, num movimento de ouro e escarlate. Só o chefe não se
perturbou.
Hari Seldon não se moveu. Esperou que a febre se evaporasse.
- Diminuir os efeitos dessa destruição.
- Qual é o significado exato de sua resposta, Dr. Seldon?
- A explicação é banal: a remota destruição de Trantor não é em si um acontecimento
único no esquema do desenvolvimento da humanidade. Será antes o clímax de um complicado
drama que teve início há séculos e que se acelera continuamente. Refiro-me, nobres senhores,
ao declínio atual e conseqüente destruição do Império Galáctico.
O sussurro tornou-se um ruído. O advogado gritava.
- O senhor declara abertamente - e foi interrompido pelos gritos de “Traição” que se
elevava em coro das galerias. Lentamente o Chefe ergueu o martelo e deixou-o cair uma só
vez. O som lembrou um gongo. Quando as vibrações cessaram, cessaram também as vozes
coléricas da galeria. O advogado respirou fundo.
- (Teatralmente) - O senhor compreende, Dr. Seldon, que fala de um Império que se
mantém há doze mil anos, através de todas as vicissitudes e que tem atrás dele a devoção e o
amor de um quintilhão de seres humanos?
- Estou bastante certo do estado atual do Império e da história que o precede. Com
todo o respeito pela assistência reclamo um conhecimento muito mais vasto dessa história do
que qualquer dos presentes.
- E mesmo assim continua prevendo a ruína?
- É uma previsão matemática, sem qualquer juízo moral. Pessoalmente lamento até o
que está por vir. Mesmo que se admitisse que o Império fosse uma coisa má (e eu não o
admito) o estado de anarquia que se seguiria à sua queda seria mil vezes pior. É contra esse
estado de anarquia que eu pretendo lutar. A queda do Império é, meus senhores, um movimento
contra o qual não será fácil lutar. É ditado por uma burocracia crescente, falta de iniciativa,
congelamento de castas, excomunhão de curiosidade - centenas de outros fatores. Tem
continuamente progredido de há séculos para cá, e apoderou-se demais da “massa humana”
para poder parar.
- Não é evidente para todos que o Império esteja tão forte como sempre?
- A aparência de força está ao seu redor, parece ser duradoura. Contudo, senhor
advogado, o tronco de uma árvore, até o momento em que a tempestade a parte em duas, tem
toda a aparência de fortaleza. É essa tempestade que sopra neste momento através de todas as
ramificações do Império. Escutem com os ouvidos da psicohistória e a ouvirão ranger.
- (Incerto) - Já dissemos, Dr. Seldon, que não nos encontramos aqui para…
- (Com firmeza) - O Império se desmoronará com todo o bem que trouxe. O
conhecimento acumulado através dos anos apodrecerá e a ordem que impôs se desvanecerá.
Guerras interestelares não terão fim. A população entrará em decadência, os mundos dispersos
perderão o contato com o corpo principal da Galáxia. E assim ficarão.
- (Uma voz sumida no meio do silêncio) - Para todo o sempre?
- A mesma psicohistória que prevê a queda pode também transmitir certezas quanto ás
idades de trevas que se seguirão. O Império, como se acabou de dizer, manteve-se ao longo de
doze mil anos. As trevas que hão de vir durarão não doze mas, sim, trinta mil anos. Um
segundo Império se erguerá, mas entre ele e a nossa civilização haverá mil gerações sofrendo.
Devemos lutar contra isso.
- (Um tanto recomposto) - O senhor contradiz-se. Disse anteriormente que não podia
evitar a destruição de Trantor. Daí presumivelmente a queda - a tal queda do Império.
- E não digo agora que poderemos evitá-la. Mas não é ainda demasiado tarde para
encurtar o interregno que se seguirá. É possível, meus senhores, diminuir a redução da
anarquia para um milênio, se for permitido ao meu grupo atuar, agora. Encontramo-nos num
momento delicado, a trajetória da enorme massa de acontecimentos pode ser desviada um
pouco, só um pouco. Não será nada de grandioso, mas pode ser suficiente para apagar vinte e
nove mil anos de miséria dos livros de história da humanidade.
- E como se propõe fazê-lo?
- Salvaguardando os conhecimentos da raça. A soma do conhecimento humano está
para além de um só indivíduo, de mil indivíduos até. Com a destruição da nossa estrutura
social a Ciência se fragmentará num milhão de pequenas partículas. Saber-se-á muito de
pequenas facetas de um conhecimento total. Por si serão inúteis, fragmentos de usos e
costumes não terão significado e não serão ultrapassados. Perder-se-ão através das gerações.
Porém, se prepararmos agora um relatório completo de todo o conhecimento, nunca se
perderá. As gerações vindouras constituir-se-ão sobre esses fundamentos sem a necessidade
de redescobri-los. Mil anos farão o trabalho de trinta mil.
- Tudo isto…
- Todo o meu projeto: os meus trinta mil homens com as suas mulheres e filhos, estão-
se dedicando à preparação da “Enciclopédia Galáctica”. Não será terminada durante o meu
tempo de vida. Não viverei sequer o tempo necessário para ver o seu início. Mas pela época
da queda de Trantor estará completa e cópias desse trabalho estarão espalhadas por todas as
bibliotecas da Galáxia.
O martelo do Comissário-Chefe voltou a soar. Hari Seldon deixou o banco e sentou-se
tranqüilamente ao lado de Gaal. Sorriu e disse: - Que tal achou a peça?
- O senhor não permitiu que os outros atores brilhassem. Mas o que acontecerá agora?
- Farão um intervalo no julgamento e tentarão chegar a um acordo comigo em
particular.
- Como sabe?
- Serei honesto com você, jovem. Não sei. - E Seldon sorriu. - Tudo depende do
Comissário-Chefe. Tenho-o estudado durante anos. Tentei analisar suas reações, mas o senhor
também conhece o risco da introdução de elementos vagos nas equações psicohistóricas.
Mesmo assim tenho esperanças.

Avakim aproximou-se, baixou a cabeça num cumprimento a Gaal, e inclinou-se para


murmurar ao ouvido de Seldon. Funcionários anunciaram o adiamento do julgamento, e os
guardas levaram-nos separadamente.
A sessão do dia seguinte foi totalmente diferente. Hari Seldon e Gaal Dornick estavam
a sós com os Comissários na ampla sala. Estavam todos juntos, sentados a uma só mesa, quase
sem qualquer separação entre juizes e acusados. Foram-lhes mesmo oferecidos charutos de
uma caixa de plástico caleidoscópio que parecia água corrente. Os olhos eram atraídos ao
movimento apesar de os dedos demonstrarem ser a superfície firme e seca.
Seldon aceitou e Gaal recusou.
- O meu advogado não está presente - intimou Seldon.
Um dos Comissários replicou:
- Já não se trata de um julgamento, Dr. Seldon. Estamos aqui para discutir a segurança
do Estado.
Linge Chen moveu-se
- Eu falarei - e os outros Comissários encostaram-se preparados para ouvir. Ao redor
de Chen formou-se um recinto de silêncio para o qual ele poderia deixar lançar suas palavras.
Gaal conteve a respiração. Chen, seco e rijo, mais velho na aparência do que o era de
fato. Era, na realidade, o Imperador de toda a Galáxia. A criança que usava o título era apenas
um símbolo forjado por Chen, e já não era o primeiro. Chen abriu o discurso: - Dr. Seldon, o
senhor perturba a paz do Império. Ninguém que vive agora entre todas as estrelas da Galáxia
estará vivo daqui a cem anos. Por que então preocuparmo-nos com acontecimentos que se
desenrolarão daqui a quinhentos anos?
- Daqui a cinco anos nem eu estarei vivo - respondeu Seldon, e mesmo assim vive em
mim essa preocupação. Chamem-na idealismo, chamem-na identificação de mim próprio com
essa generalização mística que denominamos de “Homem”.
- Não tento compreender o misticismo. Pode me dar uma boa razão para eu não me ver
livre de você, e de um futuro desnecessário e inconfortável de cinco séculos o qual nem
sequer chegarei a vislumbrar, dando uma ordem para a sua execução imediata.
- Há uma semana - respondeu Seldon tranqüilo - poderia tê-lo feito e retido talvez
uma probabilidade em dez de continuar vivo ao fim de um ano. Agora essa probabilidade
quase se extinguiu, há uma em dez mil.
O suspiro barulhento dos comissários demonstrava bem o seu pouco à-vontade. Gaal
sentiu os cabelos eriçarem-lhe. Os olhos de Chen quase se cerraram.
- Como assim?
- A queda de Trantor - explicou Seldon - não pode ser detida seja qual for o esforço.
Pode ser facilmente apressada, todavia. A história da interrupção do meu julgamento se
espalhará através de toda a Galáxia. A frustração dos meus planos para esclarecer o desastre
convencerá o povo da ridícula promessa que o futuro contém para ele. Já recordam até as
vidas dos seus avós com inveja. Verão que as revoluções políticas e a estagnação do comércio
aumentarão. O sentimento predominante da Galáxia será então o de egoísmo. Os ambiciosos
não esperarão e os inescrupulosos pouco terão a temer. Pela ação de cada um deles apressar-
se-á a decadência dos mundos. Ordene a minha execução e Trantor cairá dentro de cinqüenta
anos ao invés de quinhentos, e o senhor dentro de um ano.
- Essas são palavras concebidas para amedrontar crianças. Sua morte não é a única
satisfação que teremos.
Sua mão ergueu-se dos papéis onde descansava.
- Diga-me, sua atividade será unicamente a da preparação dessa enciclopédia de que
nos falou?
- É esse o meu objetivo.
- E haverá necessidade de que esse trabalho seja feito em Trantor?
- Trantor - meu senhor - possui a Biblioteca Imperial, assim como os recursos da
Universidade.
- E se os senhores fossem colocados em outro ponto? Digamos, num planeta onde as
pessoas e distrações de uma metrópole não interfeririam em suas contemplações, onde os seus
homens possam devotar-se inteiramente ao seu trabalho? Não oferecerá isso qualquer
vantagem?
- Vantagens mínimas talvez.
- Tal mundo foi escolhido para vocês. Pode trabalhar em paz, Doutor, com os seus
cem mil colaboradores ao seu redor. A Galáxia saberá que o senhor trabalhará para evitar a
Queda - sorriu e continuou. - Uma vez que eu não creia em muitas coisas não me é difícil
descrer dessa Queda de modo a estar inteiramente convencido de que direi a verdade ao povo.
Entretanto o senhor, Doutor, não preocupará Trantor, e a paz do Império perdurará.
- Qual foi o mundo escolhido?
- Chama-se, creio, Terminas. - Negligentemente o Supremo Lorde folheou os papéis
sobre a mesa. - A alternativa é a pena de morte para o senhor e para todos os seus
colaboradores. Deixo de lado suas ameaças. A oportunidade que tem para escolher entre a
morte e o exílio consta de cinco minutos. O mundo para onde será levado é desabitado, porém
habitável e pode ser moldado a satisfazer as necessidades de estudiosos. É um pouco só…
- Mas fica no extremo da Galáxia! - interrompeu Seldon.
- Como já frisei, é um pouco solitário. Será perfeito para as suas necessidades de
concentração. Ainda lhe restam dois minutos.
- Precisamos de tempo para preparar tal viagem. Estão envolvidas vinte mil famílias.
- Será dado o tempo necessário.
Seldon pensou durante um momento enquanto o último minuto expirava, e respondeu: -
Aceito o exílio.
O coração de Gaal quase parou. Via-se possuído de uma imensa alegria por ter
escapado à morte. Contudo, no meio da sua satisfação encontrou ainda ocasião para ter pena
de Seldon, pela derrota.

Por muito tempo ficaram silenciosos, enquanto o táxi corria vertiginosamente através
dos quilômetros de túneis, dirigindo-se para a Universidade. Gaal foi o primeiro a falar.
- É verdade o que disse ao Comissário? Sua morte apressaria a queda?
- Nunca minto quanto a dados psicohistóricos, além de que nada me auxiliaria neste
caso. Chen sabia que eu dizia a verdade. Ele é um político inteligente e os políticos, dada a
própria natureza do seu trabalho, devem farejar a verdade.
- Então que necessidade teve de aceitar o exílio? - Seldon não respondeu.
Quando entraram na área da Universidade os músculos de Gaal relaxaram-se por
completo.
Toda a Universidade se achava banhada de intensa luz, Gaal quase se esquecera de
que existia o Sol. Não porque a Universidade se encontrasse sob céu aberto. Todos os
edifícios se achavam cobertos por uma cúpula de vidro. Essa matéria era polarizada de
maneira a poder-se olhar diretamente para a estrela da qual provinham as radiações da luz.
Sua luz era refletida pelo vidro de modo a inundar tudo em redor.
Em si as estruturas da Universidade divergiam do tipo arquitetônico que predominava
em Trantor. O brilho metálico era substituído por um branco tirante a marfim.
- Parece que os soldados já chegaram - disse Seldon.
- O quê? - Gaal olhou ao redor e não longe viu realmente a figura de uma sentinela.
Um oficial apresentou-se.
- Qual dos senhores é o Dr. Seldon? - Após Seldon ter-se apresentado o oficial
continuou: - Estivemos à sua espera. O senhor e todos os seus homens se encontram, a partir
deste momento, sob a lei marcial. Fui informado de que os senhores têm seis meses para
preparar a partida para Terminus.
- Seis meses? - começou Gaal, porém calou-se ao sentir a leve pressão dos dedos de
Seldon no seu braço.
- São essas as minhas ordens - repetiu o oficial.
Quando o militar se foi, Gaal virou-se para Seldon:
- O que poderemos fazer em seis meses? Seria melhor que tivessem acabado conosco.
- Calma, calma. Vamos para o meu escritório.
O escritório não era muito grande, porém confortável.
Se lá tivessem colocado fonocaptores, ou qualquer outro instrumento de detecção,
tudo quanto poderiam ouvir seria uma conversa banal de frases construídas ao acaso.
- Muito bem - disse Seldon pondo-se à vontade, seis meses são suficientes.
- Não vejo como.
- Porque, meu rapaz, num plano como o nosso, as ações dos outros são condicionadas
às nossas necessidades. Já não lhe disse que Chen esteve submetido a uma análise maior do
que possivelmente qualquer outro homem em toda a história? O julgamento não começou antes
das circunstâncias nos mostrarem que o desfecho nos seria favorável.
- Não me diga que fez com que?…
- …Me exilassem para Terminus? Por que não? - Os seus dedos tatearam a mesa, e
parte da parede à sua frente abriu-se.
- Ali dentro encontrará vários microfilmes - disse Seldon - retire o que estiver
assinalado com a letra T.
Gaal esperou que Seldon ajustasse o filme ao projetor e este deu ao jovem um par de
óculos. Gaal colocou-os e viu o filme desenrolar-se ante os seus olhos.
- Surpreso? - perguntou-lhe Seldon.
- O senhor preparou há dois anos a partida?
- Dois anos e meio. Claro está que não tínhamos certeza de que seria Terminus o local
escolhido, mas nos baseamos numa suposição e atuamos de acordo com ela.
- Por quê? Não seria tudo muito mais controlado aqui em Trantor?
- Porque, trabalhando em Terminus, teremos o apoio Imperial, sem causar o medo de
colocar em perigo a segurança do Imperador.
- Mas o senhor provocou esses temores para que o forçassem ao exílio? Não
compreendo.
- Talvez porque vinte mil famílias não se deslocariam para longe de Trantor de livre
vontade.
- Não percebo porque seriam forçados. Não quer explicar-se?
- Ainda não. Por ora satisfaça-se em saber que será estabelecido um refúgio científico
em Terminus. E que será estabelecido um outro no extremo oposto da Galáxia, na Ponte das
Estrelas, por exemplo. Ademais eu morrerei dentro em pouco e o senhor verá mais do que eu.
Não, não, nada de pesar nem de amabilidade. Os meus médicos dizem-me que não viverei
além de dois anos. Porém a finalidade de minha vida foi alcançada e que circunstâncias
melhores pode um homem almejar para a sua morte?
- E depois que o senhor morrer?
- Haverá sucessores - talvez o senhor, Dr. Dornick. Esses sucessores estarão
habilitados a aplicar o toque final no esquema dos acontecimentos. Anacreon será instigado à
revolta no momento propício. Após isso, os acontecimentos se sucederão por si mesmos.
- Não consigo entender.
- Compreenderá mais tarde. - O rosto de Seldon parecia um pouco cansado. - A
maioria partirá para Terminus porém alguns permanecerão. Será fácil conseguir. Quanto a mim
- terminou num sussurro que Gaal quase não ouviu - estou no fim.
PARTE II – OS ENCICLOPÉDICOS

TERMINUS — …Sua localização (ver mapa) estava em desacordo com o importante papel
que viria a desempenhar na História Galáctica e, no entanto, como muitos cronistas já o
descreveram, inevitável. Localizado no limite extremo da espiral Galáctica, planeta único
de um sol isolado, pobre de recursos e de valor econômico. Só foi povoado 500 anos após
sua descoberta com a chegada dos Enciclopédicos…
Era inevitável que, com o aparecimento de uma nova geração, Terminus se tornasse algo
mais de que um mero dependente dos psicohistoriadores de Trantor. Com a rebelião de
Anacreon e a ascensão de Salvor Hardin ao poder, o primeiro da longa linha de…
Enciclopédia Galáctica

Lewis Pirenne trabalhava atarefado em sua mesa, num dos cantos da sala. O trabalho
deveria ser coordenado e o esforço organizado. Os fios da teia deveriam ser desemaranhados.
Fazia cinqüenta anos. Cinqüenta anos para se estabelecerem e darem início à
Fundação Enciclopédica Número Um, tornando-a uma unidade de trabalho sem obstáculos.
Cinqüenta anos colhendo material. Cinqüenta anos de preparação.
Estava tudo pronto. Dentro de cinco anos viria à luz a publicação do primeiro volume
do trabalho mais gigantesco até então concebido na Galáxia. Depois, com intervalos de dez
anos, regularmente, volume após volume. Juntamente com eles apareciam suplementos, artigos
especiais sobre assuntos de interesse mais atual, até que…
Pirenne remexeu-se inquieto, ao som surdo do vibrador de sua mesa. Já quase se
esquecera da entrevista. Apertou o botão que abria a porta e pelo canto do olho observou a
entrada da figura maciça de Salvor Hardin. Pirenne não ergueu o olhar.
Hardin sorriu para si. Tinha urgência, mas não se ofendeu com o tratamento, aliás
habitual para com todos os que interrompiam o trabalho de Pirenne. Afundou-se na poltrona,
em frente da mesa e esperou.
A caneta de Pirenne arranhava o papel, correndo. Não se percebia qualquer outro som
ou movimento.
Hardin tirou do bolso uma moeda de aço inoxidável e começou a atirá-la ao ar. A
moeda captava os raios de luz que entravam no aposento e refletia-os na parede. Vezes sem
conta os seus dedos fizeram a moeda saltar, enquanto os seus olhos preguiçosamente seguiam
os movimentos da luz. O aço inoxidável constituía-se um bom material para cunhagem, num
planeta onde qualquer metal em uso era importado.
Pirenne ergueu a cabeça e piscou os olhos.
- Pare com isso!
- Ahn!
- Pare com essa brincadeira.
- Está bem. - Hardin guardou a moeda. - Quando estiver pronto, diga-me. Prometi
estar de volta ao Conselho da Cidade, antes de ser posto à votação o plano para o novo
aqueduto.
Pirenne suspirou e afastou-se da mesa.
- Estou pronto. Espero simplesmente que não venha me aborrecer com assuntos da
cidade. Trate você deles, por favor. A Enciclopédia toma-me todo o tempo.
- Já ouviu as últimas notícias? - perguntou Hardin, fleumático.
- Que notícias?
- As notícias que o nosso aparelho de ultra-ondas recebeu há duas horas. O
Governador Real da Prefeitura de Anacreon assumiu o título de rei.
- E daí?
- Significa - respondeu Hardin - que nos encontramos isolados das regiões interiores
do Império. Já esperávamos por isso, contudo não torna a situação mais confortável. Anacreon
cruza-se diretamente com a última rota comercial que nos resta para Santanni, Trantor e Vega.
De onde virá agora o nosso metal? Há seis meses que não passa um carregamento de aço ou
alumínio e agora, com certeza, não passará exceto pelo favor do Rei de Anacreon.
Pirenne mascou impacientemente:
- Obtenham-no através dele nesse caso.
- Como? Escute Pirenne: de acordo com a carta que estabeleceu esta Fundação o
Conselho Administrativo do Comitê Enciclopédico tem plenos poderes. A autoridade que me
foi conferida como mandatário de Terminus basta talvez para eu me assoar e se o senhor
assinar uma ordem dando autorização, para espirrar em seguida. Tudo depende do senhor e do
seu Conselho. Peço-lhe, portanto, em nome da cidade, cuja existência depende do comércio
com o resto da Galáxia, para autorizar uma reunião de emergência.
- Pare! Uma propaganda eleitoral no momento vem pouco a propósito. Veja Hardin: o
Conselho Administrativo não proibiu o estabelecimento de um governo municipal em
Terminus. Compreendemos a necessidade de tal governo, devido ao aumento de população
desde a data do estabelecimento da Fundação, há cinqüenta anos, e pelo número de pessoas
envolvidas em assuntos extra-enciclopédicos. Não quer isto dizer, contudo, que o primeiro e
único objetivo da Fundação tenha deixado de ser a publicação de uma Enciclopédia
definitiva, englobando todo o conhecimento humano. Somos uma instituição científica, senhor
Hardin, mantida pelo Estado. Não podemos - não devemos - interferir na política local.
- Política local! Por ordem do Imperador, Pirenne, é uma questão vital. O planeta
Terminus por si só não pode manter uma civilização mecanizada. Faltam-lhe os metais. Não
tem vestígios de ferro, cobre ou alumínio em toda a sua superfície e pouco mais tem de
qualquer outra coisa. Que pensa o senhor do que sucederá à Enciclopédia, se este rei fanfarrão
de Anacreon se decidir a fazer-nos a vida cara?
- A nós? Esquece-se que estamos sob o “controle” direto do Imperador? Não fazemos
parte da administração. Lembre-se disso! Somos parte integrante dos domínios Imperiais e
ninguém nos toca. O Império protege o que é seu.
- E a revolta do Governador de Anacreon foi por acaso sufocada? E foi Anacreon o
único? Pelo menos vinte das prefeituras exteriores da Galáxia, toda a periferia na realidade,
iniciaram o mesmo sistema. Digo-lhe que estou pouco seguro do Império e da sua habilidade
para nos proteger.
- Governadores Reais, Reis - qual é a diferença? O Império tem-se mantido através de
várias políticas com homens diferentes procurando cada um seus interesses. Já se revoltaram
outros Governadores, e já foram depostos Imperadores e mesmo assassinados alguns, antes
disto. Mas que têm todas essas coisas a ver com o Império em si? Esqueça-se disso, Hardin,
não é nada conosco. Somos em primeira e última análise - cientistas. O que nos preocupa é a
Enciclopédia. E já, Hardin, antes que me esqueça.
- Sim?
- Veja lá esse seu jornal! - Pirenne estava colérico.
- O jornal da cidade de Terminus? Não é meu. É propriedade particular. Que fez ele?
- Há semanas que traz, na primeira página, o cabeçalho pedindo que, por ocasião do
qüinquagésimo aniversário do estabelecimento da Fundação, seja declarado feriado oficial,
com comemorações, devo dizer, bastante impróprias.
- E por que não? O relógio de rádio abre o Primeiro Cofre dentro de três meses.
Considero esse dia como algo especial.
- Mas não para paradas idiotas Hardin. O Primeiro Cofre e sua abertura dizem
respeito exclusivamente à Prefeitura. Tudo o que for importante será comunicado ao povo.
Esta é a última palavra. Comunique-a ao jornal.
- Lamento muito, Pirenne, porém a Constituição da cidade garante uma coisa sem
importância denominada liberdade de Imprensa.
- Talvez sim, porém a Prefeitura não a acata. Sou o representante do Imperador em
Terminus, Hardin, e tenho plenos poderes.
A expressão de Hardin era a de um homem que procura dentro de si as últimas
reservas de paciência.
- A propósito de sua situação como representante do Imperador tenho uma última
novidade a dar-lhe.
- A respeito de Anacreon? - A boca de Pirenne contraiu-se.
- Vai chegar um enviado especial mandado pelo Governo de Anacreon dentro de duas
semanas.
- Um enviado? Aqui? Para quê?
Hardin levantou-se, empurrou a cadeira e olhou o admirado represen¬tante do poder
imperial:
- Adivinhe se é capaz.
E foi embora - com desprezo.

Anselm-Haut-Rodric - “Haut” significando sangue nobre, vice-prefeito de Pluema e


enviado extraordinário de Sua Alteza de Anacreon - e mais meia dúzia de títulos - foi
esperado à sua chegada, por Salvor Hardin, com todo o ritual imposto por razões de Estado.
Com um breve sorriso e uma desculpa o vice-prefeito tirara a sua arma do coldre e
entregara-a a Hardin. Este último retribuiu o cumprimento entregando a sua… que pedira
emprestada para a ocasião. Amizade e boa vontade foram assim seladas e se Hardin descobriu
qualquer volume suspeito nos bolsos de Haut Rodric calou-se prudentemente.
A solenidade que lhe foi prestada - precedida e flanqueada por uma conveniente
nuvem de funcionários menores - seguiu sua marcha lenta e cerimoniosamente até o Largo da
Enciclopédia, ovacionado na sua trajetória por uma multidão apropriada, com a devida
quantidade de entusiasmo.
O vice-prefeito Anselm recebeu as ovações com a condescendência e indiferença de
um nobre.
- Esta cidade é todo o seu mundo? - perguntou a Hardin.
Hardin ergueu a voz de modo a ser ouvido acima do clamor.
- Somos um mundo novo, Excelência. Em nossa curta história poucos membros da
nobreza visitaram o nosso pobre planeta. Daí o entusiasmo.
- Parece que a “nobreza” não reconheceu a ironia. Pensativamente observou: -
Cinqüenta anos - hum-m-m! Deve haver por aqui muita terra inexplorada. Nunca pensaram
dividi-la em propriedades?
- Por ora não há necessidade disso. Estamos extremamente centralizados. Somos
obrigados a isso por causa da Enciclopédia. Algum dia talvez, quando a nossa população
aumentar…
- Um mundo estranho, não existem camponeses.
Hardin refletiu que não era necessário ser muito inteligente para ver que “sua
eminência” estava “tirando nabos da tigela”. Replicou casualmente:
- Não, nem nobres.
As sobrancelhas de Rodric arquearam-se:
- E o seu chefe, o homem com quem me vou encontrar?
- O Dr. Pirenne? É o Diretor do Conselho, Administrativo e representante pessoal do
Imperador.
- Só Doutor? Nenhum outro título? Um sábio? E está acima da autoridade civil?
- Decerto - replicou Hardin com amabilidade. - Somos todos mais ou menos sábios.
Na verdade somos mais uma Fundação científica do que um mundo sob o “controle” direto do
Imperador.
Houve uma ligeira ênfase na última frase, que pareceu desconcertar o vice-prefeito. O
resto do caminho até o Largo da Enciclopédia foi percorrido em silêncio.
Se Hardin se aborreceu com a tarde e com a noite que se seguiu, teve pelo menos a
satisfação de compreender que Pirenne e Haut Rodric - tendo-se encontrado em meio a
enfáticos protestos de ternura e consideração mútuas - se detestavam cada vez mais.
Haut Rodric assistiu de olhar vítreo à conferência do Dr. Pirenne, durante a “visita de
inspeção ao Edifício da Enciclopédia”. Com um sorriso abstrato, mas delicado, ouviu o
discurso enquanto passavam de armazém em armazém onde se guardavam os filmes de
referência, e através das numerosas salas de projeção. Só depois de ter descido e passado
pelos departamentos de composição, edição, publicação e filmagem é que fez a primeira
afirmação compreensiva.
- Tudo isto é muito interessante. Mas parece-me estranho passatempo para homens.
Qual é a vantagem?
Hardin notou que Pirenne não encontrava nenhuma resposta, apesar da expressão de
seu rosto ser bastante eloqüente.
O banquete da noite foi quase uma imagem perfeita dos acontecimentos da tarde, pois
Haut Rodric monopolizava a conversa descrevendo - com pormenores técnicos e bastante
graça - as suas proezas como comandante militar durante a recente guerra entre Anacreon e o
vizinho e novo Reino de Smyrno.
Os pormenores da história do vice-prefeito terminaram ao fim do jantar quando todos
os funcionários de menor categoria já tinham se retirado. O último capítulo da descrição
triunfante de naves e homens destruídos terminou quando Pirenne e Hardin o acompanharam
até a varanda e se sentaram, absorvendo o ar quente da noite de verão.
- E agora - disse finalmente com jovialidade - a assuntos importantes.
- Por quem é - murmurou Hardin acendendo um longo charuto de tabaco de Vega - não
restam muitos - refletiu inclinando a cadeira para trás.
A Galáxia estendia-se alta no céu com a sua forma nebulosa de horizonte a horizonte.
As poucas estrelas que brilhavam naquela ponta do Universo eram comparativamente
insignificantes.
- Claro está - disse o vice-prefeito - que todas as discussões formais, isto é, a
assinatura de tratados e outros aborrecimentos desse gênero terão lugar perante o… como o
denominam? O Conselho?
- Conselho Administrativo - replicou Pirenne friamente.
- Estranho nome! De qualquer modo fica para amanhã. Podemos desde já acertar
certos pormenores de homem para homem. De acordo?
- Plenamente - provocou Hardin.
- Tem havido algumas modificações na situação da Periferia, e o estado de seu planeta
é um pouco incerto. Seria bastante conveniente se chegássemos a compreender-nos quanto a
essa situação. A propósito, o senhor terá outro charuto desses?
Hardin ofereceu-o com relutância. Anselm Haut Rodric cheirou-o e imitou um som de
prazer
- Tabaco de Vega! Onde o arranjou?
- Recebemos alguns no último carregamento. Pouco resta. Só o Espaço sabe quando
receberemos mais.
Pirenne carregou o semblante. Ele não fumava e detestava o cheiro.
- Entendamo-nos, Eminência: a sua missão é apenas elucidar a situação? Haut Rodric
anuiu através da fumarada.
- Nesse caso terminará depressa. A situação com respeito à Fundação Enciclopédica
Número Um é o que sempre foi.
- Ah! E o que é que tem sido sempre?
- Isto apenas: uma instituição científica mantida pelo Estado e parte do domínio
pessoal de sua Augusta Majestade o Imperador.
O vice-prefeito não parecia intimidado, soprou alguns anéis de fumo.
- Bela teoria, Dr. Pirenne. Imagino que o senhor possui cartas com o Selo Imperial
mas qual é a situação presentemente? Qual é a posição em relação a Smyrno? Não estão a
mais de cinqüenta parsecs* da capital de Smyrno. E Konom e Daribow?
* Unidade de distância sideral equivalente a 3,26 anos-luz.

- Nada temos a ver com qualquer prefeitura, como parte integrante do Império…
- Já não são prefeituras - lembrou-lhe Haut Rodric - agora são reinos.
- Seja. Nada temos a ver com eles. Na nossa qualidade de instituição científica.
- Ciência! Ciência! - vociferou o outro. - Que diabo tem isso com o fato de que
podemos ver Terminus ocupado por Smyrno a qualquer momento?
- E o Imperador?
Haut Rodric acalmou-se:
- Bem, vejamos Dr. Pirenne: o senhor respeita a propriedade do Imperador e
Anacreon também o faz, porém Smyrno talvez não. Lembre-se de que acabamos de assinar um
tratado com o Imperador – o apresentarei amanhã a esse seu Conselho - que coloca sob nós a
responsabilidade de manter a ordem dentro dos limites da Antiga Prefeitura de Anacreon por
parte do Imperador. O nosso dever é patente, não é?
- Sim, sim, mas Terminus não faz parte da jurisdição de Anacreon.
- E Smyrno?
- Nem de Smyrno, nem de qualquer outra jurisdição.
- Smyrno sabe disso?
- Não me interessa o que Smyrno sabe!
- Mas interessa a nós. Terminamos neste momento uma guerra com ela e, no entanto,
não recuperamos os dois sistemas estelares que nos foram roubados. O lugar que Terminus
ocupa entre as duas nações é de caráter estratégico.
Hardin sentia-se cansado. Interrompeu:
- Qual é a sua proposta, Eminência?
O vice-prefeito parecia agora disposto a fazer propostas um pouco mais concretas.
- Parece-nos perfeitamente evidente que visto Terminus não ser capaz de se defender,
Anacreon tomará essa tarefa à sua conta. Devem compreender que não desejamos interferir na
administração interna.
Hardin grunhiu secamente.
- Cremos que seria melhor para todos se Anacreon estabelecesse uma base militar
neste planeta.
- E isso seria tudo o que desejariam, uma base militar dentro do vasto território
desocupado, e nada mais?
- Bom, claro, haveria a questão de manter as forças de proteção.
Hardin deixou que a cadeira assentasse sobre os quatro pés e inclinou-se para a
frente.
- Agora estamos chegando a qualquer coisa. Vamos pô-la em palavra. Terminus torna-
se um protetorado e deve, portanto, pagar um tributo.
- Tributo não. Impostos. Protegemo-los e vocês pagam por isso.
Pirenne bateu na mesa com o punho cerrado.
- Deixe-me falar, Hardin.
- Eminência, não dou meia moeda por Anacreon, Smyrno e todas as suas politiquices e
guerras. Já lhe disse que Terminus é uma instituição livre de impostos e mantida pelo Estado.
- Mantida pelo Estado! Mas nós somos o Estado, Dr. Pirenne, e não iremos mantê-los.
Pirenne ergueu-se colérico.
- Sou representante legal de…
- …Sua Augusta Majestade, o Imperador, - ecoou Anselm Haut Rodric, azedamente - e
eu sou o representante do Rei de Anacreon, Anacreon está um pouco mais próximo, Dr.
Pirenne.
- Voltaremos ao que interessa - interrompeu Hardin - em que espécie aceitariam esses
impostos, em mercadoria: trigo, batatas, vegetais, gado?
O vice-prefeito olhava-o admirado.
- O quê! Para que precisamos nós disso! Queremos ouro, claro. Cromo ou vanádio
seriam ainda melhores, isto é, se os tiverem em abundância.
Hardin riu.
- Em abundância! Nem ferro temos. Ouro! Tome, olhe para as nossas moedas - atirou
uma moeda ao enviado.
- De que é? Aço!
- Sim senhor.
- Não compreendo.
- Terminus é um planeta praticamente sem metais. Os que temos são importados.
Conseqüentemente, não temos ouro, e nada para pagar a não ser que aceitem em pagamento
algumas toneladas de batatas.
- E a sua produção industrial?
- Sem metais, de que faríamos nossas máquinas?
Houve uma pausa e Pirenne tentou de novo:
- Meus senhores, toda esta discussão é inútil. Terminus não é um planeta, mas uma
instituição científica empenhada em preparar uma grande enciclopédia. Pelo Espaço, os
senhores não respeitam a Ciência?
- Enciclopédias não ganham guerras. - Haut Rodric franziu o sobrolho. -Um mundo
sem qualquer produção é praticamente vazio. Bem, pode pagar com terras.
- Que quer isso dizer?
- Este planeta está quase vazio e a terra é provavelmente fértil. Muitos nobres de
Anacreon aceitariam um acréscimo as suas propriedades.
- O senhor tem a ousadia de propor?
- Não há necessidade de se alarmar tanto, Doutor. Há que cheguem para todos nós. Se
lá chegarmos, e se o senhor colaborar, poderemos arranjar as coisas de modo que os senhores
nada percam. Podem ser conferidos títulos e dadas garantias. Compreende-me?
Pirenne sibilou:
- Obrigado!
Hardin disse, então, ingenuamente:
- Poderia Anacreon fornecer-nos as devidas quantidades de plutônio para a nossa
geradora de energia atômica? Temos apenas uma reserva mínima que em poucos anos se
esgotará.
O silêncio que se seguiu durou alguns minutos. Quando Haut Rodric voltou a falar o
seu tom de voz era bem diferente do que fora até então.
- Vocês têm energia atômica?
- Que tem isso de invulgar? A energia atômica tem cinqüenta mil anos de idade. Por
que não havíamos de possuí-la? A não ser pela dificuldade de conseguir plutônio.
- Claro, claro. - O enviado fez mais uma pausa e acrescentou desconsolado: - bem,
cavalheiros, continuaremos a nossa discussão amanhã. Por certo me desculparão.
Pirenne seguiu-o com o olhar e rangeu os dentes:
- Aquele asno estúpido é imperdoável!
Hardin interrompeu-o:
- De modo algum. É um produto, do seu meio. Não entende muito além do: eu tenho
uma arma e você não.
Pirenne virou-se para ele exasperado:
- Que desejava o senhor dizer com aquele discurso de bases militares e de tributos? O
senhor está doido?
- Dei-lhe corda para ele se enforcar. Afinal revelou as verdadeiras intenções de
Anacreon, a divisão de Terminus em propriedades. Não vou consentir que isso aconteça.
- O senhor não vai deixar? O senhor? E quem é o senhor? E posso já agora perguntar-
lhe a intenção dessa idiotice sobre a energia atômica? Isso seria a melhor desculpa para fazer
de nós um alvo militar.
- Sim - Hardin sorriu. - Um alvo militar do qual se deve afastar. Não é evidente a
razão porque eu falei disso? Acontece que confirmou uma suspeita minha.
- Qual?
- Que Anacreon não tem energia atômica. Se a tivesse o nosso amigo compreenderia
que o plutônio já não se utiliza nas geradoras de energia. Segue-se, portanto, que o resto da
Prefeitura também não tem energia. Smyrno não a tem ou Anacreon não teria vencido a
maioria das batalhas na recente guerra. Não é interessante?
- Bah!
Pirenne foi embora deixando Hardin ainda sorrindo. Este atirou fora o seu charuto e
olhou a Galáxia que se estendia até o infinito.
- De volta ao petróleo e ao carvão, hem? - murmurou ele, e o restante de seus
pensamentos guardou-os para si.

Quando Hardin negou ser dono do jornal, disse apenas meia verdade. Fora ele o
incentivador da campanha para incorporar Terminus numa municipalidade autônoma - e fora
eleito presidente da Câmara de modo que não era surpreendente que, embora não houvesse
uma única ação do jornal em seu nome, mais de sessenta por cento eram controlados por ele
de maneira duvidosa. Conseqüentemente, quando Hardin começou a sugerir a Pirenne que lhe
fosse permitido assistir ás reuniões do Conselho Administrativo, não foi por coincidência que
o jornal lançou-se numa campanha sugerindo o mesmo. E a primeira reunião, em massa, na
história da Fundação realizou-se, pedindo representação da Cidade no governo nacional.
Eventualmente Pirenne capitulou, embora de mau humor.
Hardin, sentado ao fundo da mesa, especulava quanto à razão dos cientistas serem
péssimos administradores. Talvez fosse por serem tão inflexíveis e pouco habituados a gente
flexível.
Fosse como fosse, ali estavam Tomaz Sutt e Jord Fará à sua esquerda, Lundin Crast e
Yate Fulham à sua direita. Pirenne estava sentado na cadeira da presidência. Conhecia-os bem
a todos. Contudo, parecia ter adotado uma relativa pomposidade para a ocasião.
Hardin adormeceu através das formalidades iniciais, mas acordou na ocasião em que
Pirenne bebia um pouco de água, à guisa de preparação, e começava :
- Sinto-me muito grato por poder informar aos membros do Conselho que, desde a
nossa última reunião, recebi notícias de Lorde Dorwin, Chanceler do Império, dizendo que
chegaria a Terminus dentro de duas semanas. E quase garantindo que nossas relações com
Anacreon serão colocadas no devido lugar para nossa completa satisfação, logo que o
Imperador seja informado do que se passa.
Sorriu e dirigiu-se a Hardin no extremo oposto da mesa.
- Foram dadas informações ao jornal a este respeito.
Hardin sorriu baixinho. Parecia evidente que uma das razões de sua admissão ao
sacrossanto era o desejo de Pirenne lhe fazer admirar aquela informação.
- Deixando de lado expressões vagas, que espera de Lorde Dorwin?
Tomaz Sutt respondeu. Tinha o mau hábito de se dirigir na terceira pessoa, quando no
seus momentos de circunspeção.
- É evidente que o Prefeito Hardin é um cínico profissional. Não pode deixar de ver
que o Imperador não permitiria a infração dos seus direitos pessoais.
- Por quê? Que faria ele no caso da infração?
Houve pela sala um movimento de irritação. Pirenne disse-lhe:
- O senhor está fora de ordem e - pensando bem - fazendo afirmações um tanto
perigosas.
- Devo considerar isso como resposta?
- Sim, se não tem mais nada a dizer.
- Não tire conclusões. Gostaria de fazer uma pergunta. Além deste golpe diplomático,
que pode ou não ter qualquer significado, fez-se algo de concreto para suster a ameaça de
Anacreon?
Yate Fulham cofiou o seu bigode ruivo e medonho.
- Vê aí uma ameaça?
- E o senhor não vê?
- Nenhuma. O Imperador…
- Grande Espaço! - Hardin aborrecia-se. - Que é isto? De vez em quando há alguém
que diz “Imperador” ou “Império” como se fossem palavras mágicas. O Imperador está longe
e tenho as minhas dúvidas quanto à importância que nos confere. E se se importar? Que pode
ele fazer? O que havia da Armada Imperial por estas regiões está nas mãos dos quatro reinos,
e Anacreon tem a sua parte. Teremos de lutar com armas, não com palavras! Compreendam
bem a situação. Tivemos dois meses de graça especialmente por termos dado a Anacreon a
idéia de que possuímos armas atômicas. Todos nós sabemos que isso é mentira. A energia
atômica que temos é para fins pacíficos e não basta. Eles descobrirão a nossa mentira dentro
de pouco tempo, e se acham que vão gostar de se verem enganados talvez vocês por seu lado
se enganem.
- Meu caro senhor…
- Ainda não terminei. - Hardin ainda estava se aquecendo e gostava do efeito. - É
muito bonito meter chanceleres no caso, mas mais bonito seria ainda meia dúzia de canhões
atômicos e as respectivas bombas. Já perdemos dois meses e talvez não tenhamos mais tempo
a perder. Que se propõem fazer?
O nariz de Lundin Crast enrugou-se de irritação.
- Se pretende propor a militarização da Fundação não quero ouvir mais nada.
Marcaria nosso ingresso no campo da política. Nós, Senhor Presidente da Câmara, somos uma
fundação científica e nada mais.
Sutt continuou:
- Além disso, não compreende que a fabricação de armamentos seria retirar homens -
homens de valor - da Enciclopédia? Não pode ser feito, aconteça o que acontecer.
- De fato, primeiro a Enciclopédia - e sempre - concordou Pirenne.
Hardin gemeu mentalmente. O Conselho parecia sofrer de “Enciclopedite”. Quando
respondeu o seu tom era gélido:
- Talvez não tenha ocorrido ao distinto Conselho que Terminus possa ter outros
interesses além da Enciclopédia.
Pirenne replicou:
- Não posso conceber, Hardin, que a Fundação tenha outros interesses.
- Não falei da Fundação. Falei de Terminus! Receio que não entendam bem a situação.
Existe mais de um milhão de seres aqui dos quais os empregados na Enciclopédia não
ultrapassam os cento e cinqüenta mil. Nascemos aqui, vivemos aqui. Comparada com as suas
casas, quintas e fábricas, a Enciclopédia pouco significa. Queremos proteger tudo isso.
O barulho emudeceu-o.
- Acima de tudo a Enciclopédia - gritou Crast. - Temos uma missão a cumprir.
- Diabos levem a missão! - gritou-lhe Hardin por sua vez. - Há cinqüenta anos isso
poderia ter valor, hoje não! Esta é uma nova geração!
- Nada tem a ver uma coisa com a outra - respondeu Pirenne. - Nós somos cientistas.
Hardin anteviu uma brecha e aproveitou-a:
- Serão na verdade cientistas? Bela alucinação. Todo o seu grupo é o exemplo perfeito
do que sucedeu à Galáxia durante milhares de anos. Que espécie de ciência é a de classificar
e rotular o trabalho dos cientistas do último milênio? Já pensaram em ir para frente, estender
os limites desse conhecimento, melhorá-lo? Não! Sentem-se felizes na estagnação. Toda a
Galáxia se sente feliz e se tem sentido ao longo de… só o Espaço o sabe. Eis o porquê das
revoltas na Periferia, das interrupções de comunicações, das eternas guerras, da perda de
energia atômica e retrocesso ao processo bárbaro da energia química. Se querem saber -
gritou por fim - a Galáxia está se desintegrando.
Fez uma pausa e deixou-se cair na cadeira, não dando atenção a dois ou três membros
que procuravam responder-lhe ao mesmo tempo.
Crast tomou a palavra:
- Não sei o que espera conseguir através de suas afirmações histéricas. Nada de
construtivo, com certeza. Peço, senhor Secretário, que as palavras do senhor Hardin sejam
riscadas das minutas e a discussão seja resumida a partir de sua interrupção.
Jord Fará mexeu-se pela primeira vez. Até então tinha se mantido fora da discussão,
mesmo nos momentos de maior calor. Mas agora sua voz poderosa, pesada como o seu corpo
de cem quilos, fez-se ouvir no seu tom mais baixo:
- Não nos teríamos esquecido de nada?
- De quê? - perguntou Pirenne irritado.
- De que neste mês comemoramos o qüinquagésimo aniversário.
Fará tinha o costume de observar pormenores com grande agudeza.
- Que tem isso?
- É que nessa data - continuou Fará calmamente - o cofre de Hari Seldon se abrirá. Já
consideraram o que poderá haver nesse cofre?
- Não sei. Questões de rotina. Talvez um discurso de parabéns, vulgar. Não acho que o
cofre tenha qualquer significado, apesar do jornal - e olhou Hardin fixamente - ter querido
dar-lhe. Fiz com que essa história terminasse.
- Ah - disse Fará - mas talvez tivesse feito mal. Não lhes parece um silêncio antes de
prosseguir, que o cofre vai se abrir numa hora bastante conveniente?
- Num momento inconveniente, quer o senhor dizer - murmurou Fulham. - Temos
outras coisas com que nos preocupar.
- Coisas mais importantes do que uma mensagem de Hari Seldon? Acho que não -
Fará crescia cada vez mais e Hardin olhou-o pensativo. Onde desejava ele chegar?
- De fato - continuou com ar radiante - parecem todos esquecidos que Seldon foi o
maior psicólogo da nossa época e que foi o instituidor da nossa Fundação. Parece-me
razoável que ele tenha aplicado a sua ciência para determinar o provável curso da história,
deste futuro próximo. Se o fez, como me parece, repito, deve ter havido maneira de nos avisar
de qualquer perigo e talvez apresente uma solução. A Enciclopédia era-lhe muito querida.
Prevalecia na sala uma aura de dúvida. Pirenne interrompeu:
- Bem, não sei exatamente. A psicologia é uma grande ciência, mas, de momento, não
temos entre nós nenhum psicólogo, creio. Parece-me termos entrado em terreno pouco
familiar.
Fará virou-se para Hardin:
- O senhor não estudou psicologia com Alurin?
Hardin respondeu-lhe humildemente:
- Sim, mas não cheguei a terminar os meus estudos. Cansei-me da teoria, queria ser
engenheiro psicólogo, mas não tive quaisquer facilidades de modo que entrei no campo mais
parecido - o da política. É quase o mesmo.
- Que pensa do cofre?
- Não sei o que dizer. - Hardin decidiu acautelar-se.
Não voltou a falar durante o resto da reunião apesar de terem voltado à questão do
Chanceler do Império. Nem sequer lhes deu atenção. Tinham-lhe apresentado um caminho
desconhecido e tudo começava a tomar o seu devido lugar. Os ângulos iam-se desfazendo.
A psicologia era a chave. Disso estava certo. Desesperadamente tentou recordar-se da
teoria psicológica que aprendera - e daí compreender as coisas logo de início.
Um grande psicólogo como Seldon poderia desvendar as emoções e reações humanas
o suficiente para poder prever com largueza o desenvolvimento histórico do futuro.
Isso significava…

Lorde Dorwin aspirava rapé. Tinha o cabelo comprido, complicadamente


encaracolado, ao qual juntava artificialmente suíças louras que acariciava com todo o carinho.
Quando falava dava a impressão de dizer preciosidades acentuando bem todas as sílabas.
Naquele momento Hardin não tivera ainda tempo de apresentar mais razões para
detestar o nobre Chanceler, o efeito fora imediato. Os gestos elegantes da mão que
acompanhavam as palavras e a condescendência estudada que acompanhava a mais simples
afirmação, tinham um efeito desolador sobre Hardin.
O problema atual era descobrir a nobre personalidade. Desaparecera com Pirenne
meia hora antes - como quem se vaporizara.
Hardin estava seguro de que a sua ausência durante as discussões preliminares
agradaria a Pirenne.
Pirenne fora visto naquele andar, portanto, tratava-se apenas de experimentar todas as
portas. A meio caminho Hardin soltou uma exclamação de prazer e adentrou um gabinete meio
escuro. A silhueta do intrincado penteado de Lorde Dorwin era uma realidade contra a tela
iluminada.
Lorde Dorwin olhou-o e disse:
- Ah, Hardin, sem dúvida nos procura.
Ofereceu-lhe a caixa de rapé, superembelezada, que Hardin recusou após o que Sua
Dignidade aspirou uma pitada e sorriu graciosamente.
Pirenne carregou o cenho e Hardin permaneceu indiferente.
O único ruído a quebrar o silêncio que se seguiu foi o estalido da caixa de rapé de
Lorde Dorwin ao fechar-se. Depois de guardá-la iniciou:
- Grande proeza esta sua Enciclopédia, Hardin. Um feito indubitável que está a par
dos mais sublimes acontecimentos de todos os tempos.
- A maioria de nós assim pensa, milorde. Um acontecimento que, no entanto, ainda não
se concretizou totalmente.
- Do pouco que me foi dado ver da eficiência da sua Fundação nada temo a esse
respeito. - E inclinou a cabeça para Pirenne que lhe correspondeu com uma delicada cortesia.
Uma festa amorosa, pensou Hardin.
- Não me queixava da falta de eficiência, milorde, mas sim do excesso de eficiência
da parte de Anacreon, apesar de essa atividade ser dirigida numa direção mais destrutiva.
- Ah, sim, Anacreon - um negligente movimento de mão - venho mesmo agora de lá.
Profundamente bárbaro esse planeta. É absolutamente inconcebível que seres humanos possam
viver aqui na periferia. A falta das condições mais elementares para a vida de um cavalheiro
culto, a falta das mais fundamentais necessidades de conforto e conveniência, o completo
desuso em que…
Hardin interrompeu-o secamente:
- Os anacreonianos, infelizmente, possuem todos os requisitos elementares para a
guerra e todas as necessidades básicas para a destruição.
- Apoiado, apoiado. - Lorde Dorwin parecia estar contrariado, talvez por ter sito tão
rudemente interrompido. - Porém não devemos discutir esses assuntos agora. Sinto-me
realmente bastante preocupado. Doutor Pirenne, não me mostra o segundo volume? Por favor.
As luzes apagaram-se por mais de meia hora e Hardin bem poderia estar em Anacreon
por toda a atenção que lhe foi dispensada. O livro projetado na tela pouco sentido tinha para
ele: nem sequer o tentou seguir. Mas Lorde Dorwin teve momentos em que parecia
humanamente excitado. Durante esses breves instantes Hardin notou que o Chanceler esquecia
sua pose.
Quando as luzes se acenderam novamente, Lorde Dorwin disse:
- Maravi¬lhoso, verdadeiramente maravilhoso. Sr. Hardin, o senhor não se interessa
por arqueologia?
Hardin saiu de sua abstração:
- Não, milorde, não posso dizer que esteja interessado. Sou um psicólogo por vocação
inicial e político por decisão final.
- Ah, sem dúvida estudos interessantíssimos. Eu próprio - e serviu-se de enorme
pitada de rapé - me dedico à arqueologia, sabe?
- Ah sim?
- Sua Alteza - interrompeu Pirenne - é bastante conhecedor dessa matéria.
- Talvez, talvez - consentiu Sua Dignidade complacentemente. - Tenho feito um
trabalho incansável nessa ciência. Realmente li muito. Li todo o Jardim, o Obijassi, o
Kromuiel, enfim todos eles.
- Já os ouvi citados - disse Hardin - porém nunca os li.
- Mas deve fazê-lo qualquer dia, meu caro senhor. Seria amplamente recompensado.
Creio que só para ver esta cópia de Lameth valeu a pensa esta viagem à Periferia. Acreditem
ou não, falta-me esse autor na minha biblioteca. A propósito, Dr. Pirenne, o senhor não
esqueceu sua promessa de revelar mais uma cópia para mim, antes de minha partida.
- Com todo o prazer.
- Lameth, devem saber - continuou o chanceler oficialmente - apresenta uma nova e
interessante adição ao meu conhecimento prévio sobre a Questão da Origem.
- Que questão? - interrogou Hardin.
- A Questão da Origem. O lugar de origem da espécie humana. O senhor deve saber,
com certeza, que se pensa que a raça humana ocupou inicialmente apenas um sistema
planetário.
- Bem sei, bem sei.
- Ninguém sabe ao certo qual o sistema, encontra-se perdido nas brumas do passado.
Existem, contudo, várias teorias. Sirius, dizem uns, outros insistem sobre Alfa Centauro, ou no
Sol ou em Cyngi 61 - todos no setor de Sirius, como se vê.
- E que diz Lameth?
- Bom, ele parte de um caminho inteiramente diferente, tenta demonstrar que os restos
arqueológicos no terceiro planeta do Sistema Arcturiano mostram que a humanidade existiu
ali, antes de haver quaisquer indicações de viagens no espaço.
- E quer isso dizer que esse é o berço da humanidade?
- Talvez. Devo lê-lo de novo com atenção e pesar as provas antes de me pronunciar.
Tem de se verificar o peso de suas observações.
Hardin conservou-se em silêncio durante alguns instantes.
- Quando Lameth escreveu esse livro? - perguntou finalmente.
- Há mais ou menos trezentos anos. Claro está que se baseou principalmente nos
trabalhos prévios de Gleen.
- Então por que perder tempo? Poderia ir a Arcturus e estudar por si mesmo os
vestígios.
Lorde Dorwin ergueu as sobrancelhas e a tampa da caixa de rapé ao mesmo tempo.
Apressadamente aspirou a sua pitada.
- Mas para quê?
- Para obter a informação em primeira mão, já se vê.
- Mas onde reside essa necessidade? Parece-me um método estranho e duvidoso de
conseguir algo. Veja bem, tenho os trabalhos dos velhos mestres - os grandes arqueólogos do
passado. Comparo-os uns com os outros, equilibro as discrepâncias, analiso as afirmações
conflituosas, decido a probabilidade de correção de cada uma e chego a uma conclusão. Esse
é o método científico. Pelo menos, com ar condescendente, é assim que o vejo. Seria
insofismável essa minha ida a Arcturus, ou ao Sol, por exemplo, e andar ás voltas quando os
velhos mestres já cobriram todo esse campo, com muito maior eficiência do que eu jamais
poderia sonhar atingir.
Hardin murmurou delicadamente:
- Estou vendo. Ele e os seus métodos científicos, não era de estranhar que a Galáxia
se desintegrasse.
- Vamos, milorde - disse Pirenne - acho que é melhor voltarmos.
- Ah, sim, talvez.
Quando saíam, Hardin disse à queima-roupa:
- Milorde, posso fazer uma pergunta?
Lorde Dorwin sorriu brandamente dando ênfase à sua resposta com um elegante
movimento de mão:
- Certamente, meu caro senhor, sinto prazer em ser-lhe útil. Se há algo que possa fazer
por você através do meu conhecimento.
- Não exatamente sobre arqueologia, milorde.
- Não?
- Trata-se do seguinte: o ano passado recebemos notícias aqui em Terminus sobre a
explosão de uma geradora atômica no planeta V de Gama Andrômeda. Só chegou até nós um
pequeno rumor sem quaisquer pormenores. Não poderia dizer-me com exatidão o que
aconteceu?
Os lábios de Pirenne torceram-se.
- Não compreendo a razão porque aborreceu Sua Dignidade com perguntas sem
importância.
- Nada disso, Dr. Pirenne, não me aborrece nada, - intercedeu o Chanceler. - Não há
muito que dizer sobre o caso. A geradora explodiu e foi uma catástrofe. Me parece que
morreram vários milhões de pessoas e que pelo menos metade do planeta foi destruído. O
Governo considerou seriamente a aplicação de rigorosas restrições quanto ao uso
indiscriminado da energia atômica - apesar de não ser coisa que se torne pública.
- Compreendo - disse Hardin. - Que se passava com a geradora?
- Verdadeiramente não se sabe - replicou Lorde, Dorwin indiferentemente. - Sofrera
avarias havia alguns anos e o trabalho de reparação, assim como os materiais empregados
eram de péssima qualidade. É bastante difícil, hoje em dia, encontrar quem compreenda os
pormenores técnicos dos nossos sistemas de energia.
- Milorde compreende que os reinos independentes da Periferia desconheceram
completamente o uso da energia atômica?
- Não me surpreende. Planetas bárbaros que são. Oh, mas meu caro senhor, não lhes
chame independentes. Não o são realmente. Os tratados que fizemos com eles são prova
positiva disso. Continuam a aceitar a soberania do Império. Teriam de fazê-lo, ou não
teríamos qualquer contato.
- Talvez seja assim. No entanto, todos têm considerável liberdade de ação.
- Creio que sim. Considerável mas pouco importante. O Império está muito melhor
deixando a Periferia entregue aos seus próprios recursos, como mais ou menos acontece. Não
nos servem para nada. São pouco civilizados.
- Já o foram no passado, Anacreon foi uma das mais ricas províncias exteriores.
Poderia até comparar-se favoravelmente como Vega, segundo consta.
- Mas isso foi há um século, Hardin. Não se pode tirar conclusões. As coisas eram
bem diferentes no passado. Já não somos os mesmos homens. Contudo, você persiste, Hardin.
Já lhe disse que não desejo comentar esses assuntos hoje. O Dr. Pirenne já me tinha colocado
de sobreaviso contra você. Disseme que o senhor procuraria interrogar-me, porém eu sou uma
raposa velha. Deixemos isso para a próxima oportunidade.
E pronto.

Esta era a segunda reunião do Conselho a que Hardin assistia, se fossem excluíssem
todas as conversas não formais que tivera com os membros do Conselho e com o já longínquo
Lorde Dorwin. Mesmo assim o Presidente da Câmara tinha uma idéia perfeitamente definida
de que houvera pelo menos umas três reuniões para as quais jamais fora convidado. Parecia-
lhe mesmo que nem para esta seria pedida a sua presença, não fosse o Ultimato.
Pelo menos parecia um Ultimato apesar de que uma leitura superficial do documento
taquigrafado poderia levar a supô-lo uma amigável troca de amabilidades entre dois
poderosos.
Hardin segurou-o de leve. Começava por um florido cumprimento de “Sua Poderosa
Majestade”, o Rei de Anacreon para o seu amigo e irmão, o Dr. Lewis Pirenne, Presidente do
Conselho Administrativo da Fundação Enciclopédica Número Um, e terminava ainda mais
colorido com um gigantesco selo multicor de esquisito simbolismo.
Era contudo um Ultimato.
Disse Hardin:
- Parece que não tivemos muito tempo afinal, só três meses. Embora pouco, o
gastamos inutilmente. Dão-nos mais uma semana neste papel. Que faremos?
Pirenne estava agora preocupado.
- Deve haver uma saída. É incrível que cheguem a extremos depois do que Lorde
Dorwin nos assegurou a respeito da atitude do Imperador e do Império.
Hardin ergueu-se.
- Estou vendo. Talvez o senhor tivesse a bondade de informar o Rei de Anacreon
sobre esta alegada atitude.
- É verdade. Eu o fiz depois de ter consultado o Conselho por voto, e de ter recebido
consentimento unânime.
- Quando teve lugar essa votação?
Pirenne agarrou-se à sua dignidade.
- Acho que não sou responsável perante o senhor, Sr. Hardin.
- Muito bem, não me satisfaz a resposta. Trata-se apenas de minha opinião, de que a
sua diplomática comunicação sobre a valiosa contribuição de Lorde Dorwin foi a responsável
por esta amigável nota. De outro modo, poderia ter levado mais tempo, apesar de eu pensar
que por muito mais tempo que nos dessem Terminus acabaria por estar condenada, dada a
atitude do Conselho.
- E como chegou o senhor a tão notável conclusão? - perguntou Yate Fulham.
- De uma maneira simples. Requeri simplesmente o uso de um artigo há muito
esquecido: o senso comum. Há um ramo do conhecimento humano denominado lógica
simbólica que pode ser empregado para peneirar todas as inutilidades que rodeiam a
linguagem humana.
- Que tem isso?
- Apliquei-a. Entre outras coisas apliquei-a neste documento. Para mim não era
essencial, mas acho que o posso explicar melhor a cinco físicos mais por símbolos do que por
palavras.
Hardin espalhou cinco folhas de papel sobre a mesa.
- Tenho a dizer-lhes que não fui eu o autor. Foi Muller Holk, da Divisão de Lógica,
que assinou estas análises como podem verificar.
Pirenne inclinou-se sobre a mesa para ver melhor e Hardin continuou:
- A mensagem de Anacreon era um problema naturalmente simples, pois os homens
que a compuseram eram mais homens de ação do que de palavras. Pode-se resumir
imediatamente em símbolos que, traduzidos por palavras, querem dizer: ou nos dão o que nós
queremos dentro de uma semana, ou levam uma tunda e ficam na mesma, sem nada.
O silêncio permaneceu enquanto os cinco membros do Conselho verificaram os
símbolos. Depois o Dr. Pirenne sentou-se e tossiu pouco à vontade.
- Não há nenhuma saída, não é verdade Dr. Pirenne?
- Parece que não há.
- Muito bem. - Hardin arrumou as folhas. - Agora perante vocês há uma cópia do
tratado entre Anacreon e o Império, incidentalmente um tratado assinado pelo mesmo Lorde
Dorwin que aqui esteve na semana passada e junto está uma análise simbólica.
O tratado compunha-se de cinco folhas bem impressas e a análise de meia página, ou
pouco menos.
- Como se pode ver, mais ou menos 90% do tratado não têm qualquer significado e
podemos tirar de todo ele a seguinte conclusão, tão cheia de interesse:
- Obrigações de Anacreon para com o Império: Nenhuma.
- Poderes do Império sobre Anacreon: Nenhum.
Novamente os cinco seguiram ansiosamente o raciocínio exposto na análise,
conferindo-a com o tratado e quando terminaram Pirenne ainda mais preocupado estava.
- Parece estar tudo certo.
- Admite, então, que o tratado não passa de uma declaração de independência total da
parte de Anacreon e o reconhecimento desse Estado por parte do Império?
- Assim parece.
- E supõe que Anacreon não o compreende, e que não anseia por dar ênfase a essa
posição de independência, de modo a ressentir-se contra qualquer ameaça feita pelo Império?
Particularmente, quando se torna óbvio que o Império nada pode fazer além de ameaçar, ou
nunca teria consentido em sua independência.
- Então - interpelou Sutt - como interpretar as afirmações de Lorde Dorwin quanto ao
apoio do Imperador? Pareciam… bem, pareciam satisfatórias.
Hardi recostou-se na cadeira.
- Se querem saber, essa parte é a mais interessante de todas. Admito ter pensado que
Sua Serenidade fosse o mais consumado burro que jamais vi em toda a minha vida, porém,
afinal é um grande diplomata e um homem inteligente. Tomei a liberdade de gravar todas as
suas palavras.
Houve um longo murmúrio e Pirenne abriu desmesuradamente os olhos, horrorizado.
- E depois? Compreendo muito bem que foi uma falta imperdoável e uma coisa que
nenhum cavalheiro faria. Também se Sua Serenidade tivesse percebido, teríamos passado
momentos bem desagradáveis. Contudo não aconteceu nada disso, portanto acabou-se. Peguei
o disco, copiei-o e o remeti também a Holk para análise.
- Onde está a análise? - perguntou Lundin Crast.
- Essa é a parte mais interessante como já lhe disse. Das três análises esta foi a mais
difícil. Quando Holk, após dois dias de trabalho ininterrupto, conseguiu eliminar afirmações
sem significado, palavras imprecisas, qualificações inúteis, enfim todo o lixo, descobriu que
não havia mais nada. Eliminara tudo. Cavalheiros, Lorde Dorwin em cinco dias de discussão
nada disse, e de tal modo que os senhores não deram pela coisa. Eis o que o seu precioso
Império lhes assegurou.
Se Hardin tivesse colocado uma bomba na sala (de mau cheiro), a confusão não teria
sido maior. Esperou pacientemente que a confusão chegasse ao fim.
- De modo que - concluiu ele - quando enviaram ameaças, pois é a isso que se
resumem com respeito à ação do Império contra Anacreon, estavam pura e simplesmente
irritando um monarca que sabia muito bem o que poderia fazer. Naturalmente o seu “ego”
pediria ação imediata, e o ultimato é o resultado final, o que me induz de volta à minha
afirmação original: temos uma semana, que faremos?
- Parece-me - ofereceu Sutt - que não temos alternativa se não deixar que Anacreon
estabeleça suas bases militares, aqui em Terminus.
- De acordo - replicou Hardin - mas que faremos quanto a escorraçá-los daqui na
primeira oportunidade?
O bigode de Yate Fulham tremia.
- O senhor está decidido a que haja violência de qualquer modo!
- A violência, foi a resposta, é o último refúgio da incompetência. Na certeza, porém,
de que não vou dar-lhes as boas-vindas, e toda a espécie de amabilidades.
- Mesmo assim, não gosto muito do seu método - insistiu Fulham. - É uma atitude
perigosa, mais perigosa ainda, porque ultimamente uma grande parte da população parece
responder calorosamente a todas as suas sugestões. Desde já lhe digo, Prefeito Hardin, que o
Conselho não é de todo cego ás suas atividades. - Houve um murmúrio geral de aprovação.
Hardin encolheu os ombros. Fulham continuou: - Se incitasse o populacho a um ato de
violência, seria suicídio puro e nós não o permitiremos. A nossa atitude tem um único
princípio básico, a Enciclopédia. O que se decida fazer, será feito ou não, de acordo com
cautelas tomadas para segurança da Enciclopédia.
- Então os senhores chegam à conclusão que devemos continuar nossa intensa
campanha de inércia?
- Já nos demonstrou que não podemos contar com o Império, como isso pode ser, não
sei. Se for necessário transigir…
Hardin teve a sensação de pesadelo de correr sem chegar a parte alguma.
- Não pode haver transigência! Não conseguem ver o que está por trás dessa história
de bases militares? Haut Rodric disse-nos o que Anacreon queria, anexação de terra e
imposição do seu sistema econômico, baseado no feudalismo. O que resta ainda do nosso
“blefe”, pode forçá-los a moverem-se vagarosamente, porém o movimento é mais do que
certo.
Na sua indignação, Hardin havia-se erguido, e todos os outros se ergueram com ele,
todos, exceto Jord Fará.
Então Jord Fará falou:
- Por favor, sentem-se todos. Já fomos bastante longe, penso eu. Vamos, Hardin, esse
ar furioso não conduz a nada, nenhum de nós cometeu traição.
- Disso terão de me convencer!
Fará sorriu com ar bondoso.
- Estou certo de que não pretendeu dizer isso, deixem-me falar!
Os seus olhos estavam semicerrados, e o suor brilhava-lhe na pele do queixo.
- Parece-me não haver vantagem em esconder que o Conselho chegou à decisão de que
a única solução para o problema de Anacreon se encontra no que nos será revelado, quando o
Cofre for aberto daqui a seis dias.
- É essa a sua contribuição para o assunto?
- É.
- Se o entendo, devemos então continuar inertes, exceto aguardar serenamente e de boa
fé, que o “Deus ex-machina” salte de dentro do Cofre.
- À exceção da sua fraseologia emotiva, é essa mais ou menos a idéia.
- Que falta de coragem! Na verdade, Dr. Fará, tal loucura é quase genial! Um cérebro
inferior seria incapaz de concebê-la!
Fará novamente sorriu, indulgente.
- O seu gosto irônico é muito bom, porém encontra-se fora de lugar. Deve lembrar-se
de meu raciocínio acerca do Cofre, tal como exposto há três semanas.
- Lembro-me muito bem. - Não nego que não passava de uma idéia estúpida, do ponto
de vista de lógica dedutiva. O senhor disse, interrompa-me quando eu me enganar, que Hari
Seldon era o maior psicólogo do Sistema, daí, que ele poderia ter previsto o beco sem saída
em que nos encontramos, finalmente, que poderia ter concebido o Cofre, como método de nos
indicar a única saída.
- É essa a essência da idéia.
- Talvez então lhe agrade saber que dediquei parte dos meus pensamentos a esse
assunto, nestas últimas semanas.
- Muito lisonjeiro, qual foi o resultado?
- Que a idéia necessita de um mínimo de senso comum.
- Por exemplo?
- Por exemplo, se este assunto de Anacreon foi previsto, por que não fomos nós
colocados num planeta mais perto dos grandes centros da Galáxia? Já é do conhecimento
comum que Seldon levou os Comissários de Trantor a estabelecer a Fundação em Terminus.
Mas por quê? Por que pôr-nos aqui se já eram previstas as interrupções nas linhas de
comunicações, o nosso isolamento do resto da Galáxia, a falta de metais em Terminus? Isso
acima de tudo! Ou, se na verdade previu tudo, por que não avisou os primeiros colonizadores,
de modo a que tivessem tempo de se prepararem, ao invés de esperarem pelo dia do juízo
(como está sucedendo atualmente)? E não se esqueçam do seguinte: Mesmo que ele tenha
previsto o problema naquela ocasião, isso não implica que nós não o possamos ver agora,
bem analisadas as coisas, Hari Seldon não era um mago. Não existem truques para nos
evadirmos de um dilema que ele tenha previsto, e nós não.
- Hardin, a verdade é que não conseguimos!
- Mas nem sequer tentaram! Primeiramente, recusaram-se a admitir a existência de
uma ameaça! Depois depositam confiança cega no Imperador! Agora, transferiram-na para
Hari Seldon! Confiem um pouco em vocês próprios! - Os seus punhos cerraram-se
convulsivamente. - É quase doença, um reflexo condicionado que deixa de lado a
independência de seus cérebros, quando se trata de se oporem à autoridade. Parece não haver
dúvida no espírito de vocês, de que o Imperador é mais poderoso do que vocês, ou que Hari
Seldon é mais sábio, não vêem que está tudo errado?
Ninguém se preocupou em lhe responder. Hardin continuou:
- Mas vocês não são os únicos. O Dr. Pirenne ouviu a dissertação de Lorde Dorwin
sobre o que pensava que fosse a pesquisa científica. Lorde Dorwin acha que a única maneira
de se ser um bom arqueólogo é ler todos os livros sobre a matéria, escritos por Homens que
morreram há séculos. Acha ele que a única maneira de solucionar quebra-cabeças
arqueológicos é avaliar duas autoridades da mesma matéria, que se oponham. Pirenne ouviu-o,
e não fez qualquer objeção. Não conseguem ver o que há de errado nisso? E mais de metade
de Terminus está na mesma. Sentamo-nos, e cogitamos sobre o grande Todo da Enciclopédia.
Consideramos que a grande finalidade da ciência é a classificação de minúcias ultrapassadas,
é importante sim, mas não haverá trabalho mais para além? Aqui na Periferia, a energia
atômica se perdeu. Em Gama Andrômeda, uma geradora explodiu, em virtude de péssima
manutenção, e o chanceler do Império queixa-se de que os técnicos são escassos. E a solução?
Treinar novos contingentes? Não! Tornam a energia atômica ainda mais limitada. Não vêem
que o mal se propaga por toda a Galáxia? É uma adoração do passado. É a deteriorização - a
estagnação!
Olhou-os um por um enquanto eles, por seu turno, o olhavam fixamente. Fará foi o
primeiro a recompor-se:
- A filosofia mística não nos vai ajudar. Sejamos, portanto, realistas. Poderá negar-se
que Hari Seldon possa ter determinado a trajetória histórica do futuro por simples técnica
psicológica?
- Claro que não! - gritou-lhe Hardin. - Mas não podemos aguardar sua solução.
Quando muito, ele pode nos indicar o problema, mas quanto à sua solução, teremos nós de
descobri-la, ele não o poderia fazer por nós.
Fulham interrompeu:
- Onde quer chegar com esse… mostrar o problema?… Nós já conhecemos o
problema!
Hardin voltou-se para ele.
- Acha que sim? Parece-lhe que a única preocupação de Seldon tenha sido Anacreon?
Eu, de minha parte, discordo! Afirmo, que nenhum de vocês tem a mínima noção do que está
acontecendo!
- E o senhor? - interrogou Pirenne com alguma hostilidade.
- Acho que tenho! - Hardin levantou-se e afastou a cadeira, seu olhar estava frio e
fixo. - Se algo de definido é o mau cheiro que tresanda de toda a situação, há qualquer coisa
maior do que tudo isto. Que cada um de vocês se interrogue. Por que não foi incluído um
psicólogo entre a população primitiva da Fundação? O único foi Bor Alurin, e esse não
ensinou aos seus discípulos mais do que os princípios básicos.
- Muito bem. Diga-nos por que.
- Talvez por que um psicólogo tivesse imediatamente dominado a situação, depressa demais
para o gosto de Hari Seldon. Assim, temos caminhado ás cegas, visualizando aqui e ali névoas
da verdade, e nada mais. Era isso que Hari Seldon desejava! - E terminou com uma
gargalhada vitoriosa. – Bom dia, meus senhores!
O silêncio que o seguiu até à porta foi quase triunfal.

Hardin mascava a ponta de seu charuto que estava apagado, porém o Prefeito da
cidade de Terminus não o notava. Passara a noite anterior em claro, e tinha a sensação de que
na noite seguinte sucederia o mesmo. Os seus olhos demonstravam-no bem.
- Julgo que é tudo - disse com ar cansado.
- Creio que sim - respondeu Yohan Lee. - Que tal parece?
- Nada mau. Tem de se ser imprudente, ou seja, não poderá haver hesitações. É
necessário não lhes dar tempo para compreenderem a situação, uma vez na posição de
comando, faça-o com naturalidade, como se fosse a única coisa que tivesse feito desde que
nasceu, e eles obedecerão por instinto. É essa e essência do golpe.
- Se o Conselho se mostrar irresoluto…
- O Conselho? Não conte com ele! Depois de amanhã, a sua importância como fator
preponderante em Terminus cessará, de nada valerão.
Lee concordou silenciosamente.
- Mesmo assim, parece incrível que nada tenham feito para fazer cessar nossa
atividade. Tem certeza de que nada sabem?
- Fará é o único que desconfia. Às vezes fico nervoso, Pirenne desconfia de mim,
desde que fui eleito Prefeito, verdade seja dita, jamais algum deles teve a capacidade de
compreender o que realmente se passava. Todo o seu treino é um fracasso. Estão seguros que
o Imperador, por ser Imperador, é todo poderoso. E a mesma crença se aplica ao Conselho
Administrativo que, por atuar em nome do Imperador, pensa que jamais deixará de estar numa
posição de comando, sua incapacidade de reconhecer a possibilidade de revolta é a nossa
melhor aliada.
Hardin levantou-se e foi beber água:
- Como indivíduos não são maus, Lee, conquanto não se afastem muito de sua
Enciclopédia e, depende de nós que eles ocupem esse lugar, futuramente. Quanto ao
governarem Terminus, são de uma incompetência total. Bom, vá embora e comece a pôr as
coisas em movimento, quero ficar só.
Sentou-se de novo em sua mesa e ficou olhando fixamente o copo de água. Pelo
Espaço! Se na verdade conseguisse estar tão confiante como pretendia! Os Anacronianos
chegariam dentro de dois dias, e ele nada possuía além de vagas noções sobre a finalidade
que Hari Seldon estabelecera, havia 50 anos. Nem sequer conhecia o suficiente de psicologia
- seu treinamento fora curto, muito curto para tentar sequer adivinhar o que se teria passado no
cérebro do maior pensador daquele século. Ah, mas se Fará tivesse razão, se fosse Anacreon
o único problema que Hari Seldon previra, se a Enciclopédia fosse tudo o que ele se
interessasse por conservar - qual seria então o preço daquele golpe de estado?
Encolheu os ombros, e bebeu o seu copo de água.

No Cofre, havia muito mais do que seis cadeiras, como se tivessem sido esperadas
mais de seis pessoas. Hardin notou-o, e sentou-se pensativo e cansado a um canto, o mais
longe possível dos outros cinco.
Os membros do Conselho pareceram não se importar muito com essa distribuição.
Entre os cinco, falava-se em murmúrios, escapando-se de vez em quando algum monossílabo
sibilante, seguido imediatamente de silêncio. De todos eles, Jord Fará parecia o mais
tranqüilo, tirara o seu relógio, e olhava o mostrador com ar sério.
Hardin, por seu turno, viu também as horas para concentrar em seguida a atenção
sobre o cubículo de vidro, completamente vazio, que dominava metade da sala, era a única
inconveniência daquela sala, pois não havia qualquer indicação de que, em determinado local,
uma partícula de rádio se desfazia a caminho, no momento preciso em que um manipulo cairia,
se estabeleceria uma ligação e…
As luzes se apagaram! Não completamente, mas tão de repente que Hardin deu um
salto. Voltou os olhos para as luzes do teto, admirado, e quando os baixou de novo, o cubículo
envidraçado já não estava vazio.
Ocupava-o, agora, um homem - um homem numa cadeira de rodas!
Durante alguns instantes imperou o silêncio, porém o indivíduo fechou o livro que
tinha sobre os joelhos, e as suas mãos acariciaram-no, a boca se abriu num sorriso que lhe
iluminou o rosto.
- Sou Hari Seldon. - Sua voz era calma, tranqüila.
Hardin quase se levantou para cumprimentá-lo, tão vivida era a imagem.
A voz continuou em tom de conversa:
- Como vêem, estou preso a esta cadeira de rodas e não posso levantar-me para
cumprimentá-los. Há alguns meses seus antepassados partiram para Terminus, e desde então
minha doença obrigou-me a esta cadeira. Não consigo vê-los, de modo que não sei quantos de
vocês aí estarão, de qualquer modo, esta reunião será conduzida de maneira pouco formal. Se
houver alguém que esteja de pé, faça o favor de se sentar, e se quiserem fumar, não vejo
inconveniente. Sorriu de leve e prosseguiu: porque me haveria de importar? Na realidade não
estou aqui.
Hardin procurou um charuto, distraído.
Hari Seldon afastou de si o livro, como se o pusesse sobre qualquer mesa a seu lado,
e o livro desapareceu.
- Há 50 anos que esta Fundação foi estabelecida, 50 anos em que todos os da
Fundação ignoraram o fim para o qual trabalhavam, essa ignorância era imperiosa, porém
agora deixou de sê-lo. A Fundação Enciclopédica, para começar, é, e sempre foi, uma fraude!
Em redor de Hardin houve várias exclamações, todavia este nem sequer se virou para
ver de onde partiam. Hari Seldon continuava imperturbável como seria de esperar:
- Uma fraude, no que respeita ao interesse que eu e todos os meus colegas temos,
quanto à publicação dos volumes, é-nos total e completamente indiferente. Serviu a sua
finalidade desde que, através dela, conseguimos do Imperador uma carta de autorização, os
indivíduos, uma centena de milhar, de que necessitávamos para a organização do nosso plano,
e conseguimos mantê-los ocupados enquanto os acontecimentos evoluíam, até que fosse muito
tarde para recuarem.
- Nos 50 anos em que todos trabalharam neste projeto fraudulento,não há necessidade
de amenizar as palavras, foi-lhes cortada a retirada, de modo a não terem alternativa senão
prosseguirem com o plano que traçamos, e que é sumamente mais importante. Para esse fim,
escolhemos este planeta e em tal hora para que, dentro de cinqüenta anos, os acontecimentos
lhes toldassem toda a liberdade de ação. Daqui por diante, através dos séculos o caminho que
seguirão é inevitável. Serão postos à prova por uma série de crises, do mesmo modo que
agora encaram a primeira delas, e de cada vez a liberdade será tão restrita como agora, de
modo a serem forçados a seguir ao longo de um caminho único. Esse caminho foi determinado
pela psicologia e por uma razão.
- Através dos anos a civilização Galáctica estacionou apesar de poucas pessoas o
terem compreendido mas, agora finalmente, a Periferia rompe os vínculos e a unidade política
do Império rompe-se também. Em alguma parte, nos cinqüenta anos que acabam de passar, os
historiadores do futuro colocarão uma linha de arbítrio e dirão: aqui tem início a Queda do
Império Galáctico. E terão razão apesar de serem poucos os que reconhecerão essa queda nos
séculos mais próximos.
- Depois da queda surgirá inevitavelmente o barbarismo, um período que, segundo os
nossos psicohistoriadores, sob circunstâncias vulgares durará trinta mil anos. Não podemos
suster a Queda e não desejamos faze-lo. A cultura do Império perdeu todo o valor e virilidade
que já teve. Mas podemos, sem dúvida, encurtar o período de barbarismo que se lhes seguirá -
encurtá-lo para mil anos. As irregularidades desse corte não poderemos explicar-lhes, pela
mesma razão que não podíamos contar-lhes a verdade sobre a Fundação há cinqüenta anos.
Pois que, se esses meandros lhes fossem desvendados poderia o meu plano falhar, sem dúvida
teria falhado se nós tivéssemos desvendado o segredo da Enciclopédia mais cedo, porque
então através do conhecimento a sua liberdade se expandiria e o número de variáveis
introduzidas aumentaria a tal ponto que a nossa psicologia não poderia controlá-la.
- Mas nada saberão, pois não existem psicólogos em Terminus e nunca existirão, à
exceção de Alurin e esse era dos nossos.
- No entanto, isto posso dizer-lhes: Terminus e a sua Fundação genuína, no outro
extremo da Galáxia, são as sementes da Renascença e os futuros fundadores do Segundo
Império Galáctico, é a semente que impulsionará Terminus para esse clímax.
- A crise que atualmente enfrentam é evidente, mais simples do que qualquer das que
se seguirão. Reduzindo-a a questões básicas trata-se do seguinte. O seu planeta está desligado
dos centros ainda civilizados da Galáxia e ameaçado pelos seus vizinhos poderosos. O seu é
um mundo de cientistas rodeado de vastos tentáculos de barbarismo, que se expande cada vez
mais. São uma ilha de energia atômica, num oceano cada vez mais vasto de uma energia mais
primitiva. E, no entanto, são obrigados à inação pela falta de metais.
- Vejam, então, que forçados pelas circunstâncias serão forçados à ação. A natureza
dessa ação, isto é, a solução do seu problema é evidente.
A imagem de Hari Seldon estendeu a mão e mais um vez apanhou o livro. Abriu-o e
disse:
- Qualquer que seja o caminho que a sua história futura tome, devem incutir nos seus
descendentes que o caminho já foi traçado e que, no fim, se encontra um novo e maior
Império!
Os seus olhos voltaram-se para o livro e a sua figura desapareceu quando as luzes
novamente se acenderam. Hardin levantou o olhar para encontrar Pirenne de olhos
esbugalhados e lábios trêmulos.
A voz do Diretor era firme, mas sem tonalidade.
- Ao que parece você tinha razão. Se quiser se encontrar conosco às seis horas o
Conselho aceitará o seu parecer quanto ao próximo movimento.
Cada um deles veio estender-lhe a mão, antes de partir. Hardin sorriu de si para si. No
fundo eram bastante sãos, eram suficientemente científicos para admitir que tinham se
enganado mas era já um pouco tarde para eles.
Consultou o relógio. A esta hora tudo devia ter terminado. Os homens de Lee deviam
ter tomado o poder e o Conselho já não daria ordens.
Os anacronianos chegariam no dia seguinte, porém isso pouca diferença faria. Dentro
de seis meses também eles não dariam mais ordens.
Na realidade, como Hari Seldon adivinhara desde o dia em que Anselm Haut Rodric
lhe revelara a falta de energia atômica em Anacreon, a solução da primeira crise era evidente.
Tão evidente que fazia pena.
PARTE III – OS PREFEITOS

OS QUATRO REINOS - Nome dado às divisões da Província de Anacreon que se separaram


do Primeiro Império, nos primeiros anos da Era Fundacional, para formarem reinos
independentes e de curta duração. O maior e mais poderoso deles era o próprio Anacreon,
que de área…
…Sem dúvida, o mais interessante aspecto da história dos Quatro Reinos, é o da estranha
sociedade imposta sobre eles durante a administração de Salvor Hardin…
Enciclopédia Galáctica

Uma deputação!
Embora tenha sido prevista por Salvor Hardin, não era essa previsão que a tornava
mais agradável. Pelo contrário, a antecipação contrariava-o. Yohan Lee era partidário de
medidas extremas.
- Não entendo, Hardin, para que esta perda de tempo. Eles nada poderão fazer até à
próxima eleição, legalmente e isso nos dá quase um ano. Despache-os.
- Nunca aprende Lee. Em quarenta anos que o conheço, você ainda não conseguiu
aprender atacar pela retaguarda.
- Não é essa a minha maneira de lutar.
- Já sei! Suponho que essa seja a única razão porque confio em você. -Interrompeu
para ir buscar um charuto. - Nossa jornada foi longa, desde o dia em que planejamos aquele
golpe contra os Enciclopédicos. Estou ficando velho, sessenta e dois anos. Alguma vez você
pensou na rapidez com que se passaram estes trinta anos?
- Eu tenho sessenta e seis e não me sinto velho.
- Lembre-se que não tenho a sua disposição.
Hardin aspirou lentamente a fumaça do charuto, há muito deixara de desejar o suave
tabaco de Vega, que tanto lhe agradara na sua juventude. Esses dias em que o planeta Terminus
traficava com todas as partes do Império Galáctico pertencia já à era para onde vão aqueles
belos dias que fazem parte do passado. Para os mesmos tempos, caminhava já o Império
Galáctico.
Ficou imaginando quem seria o novo Imperador, se continuasse a existir Imperador, ou
Império.
Espaço! Há trinta anos! Desde a interrupção das comunicações aqui no extremo limite
da Galáxia, que todo o universo de Terminus consistira apenas no próprio Terminus e nos
quatro reinos circunvizinhos.
Como os poderosos caíram! Reinos! No passado haviam sido prefeituras, todas parte
da mesma província que, por sua vez, havia sido parte de um Estado, o qual por seu turno fora
parte de um país, que por si fora parte do todo poderoso Império Galáctico.
E agora que o Império perdera o “controle” das partes mais afastadas da Galáxia,
esses pequenos grupos de planetas tornavam-se reinos - com falsos reis e nobres, e guerras a
propósito de tudo e de nada, vivendo de maneira patética, entre as ruínas do que fora parte de
uma civilização. Uma civilização que, pouco a pouco, ia se desintegrando. A energia atômica
caía no esquecimento. A ciência confundida com a mitologia, até que surge a Fundação. A
Fundação que Hari Seldon havia estabelecido em Terminus para esse fim.
Lee estava à janela, e a sua voz truncou o silêncio de Hardin.
- Aí vêm eles, os cachorrinhos, num automóvel último modelo. - Deu alguns passos
incertos pela sala, dirigiu-se à porta, e olhou para Hardin.
Hardin sorriu-lhe, e mandou-os sentar-se.
- Já dei ordens para que fossem trazidos aqui em cima.
- Para cá? Para quê? Você lhes dá demasiada importância!
- Por que dar importância a todas as formalidades de uma audiência oficial? Estou
ficando velho demais para toda essa burocracia. Além disso, a adulação apresenta-se
vantajosa quando se trata de jovens, especialmente se não existem compromissos. - piscou
para ele. - Sente-se, Lee, e dê-me o seu apoio moral. Vou precisar dele contra este jovem
Sermak.
- Esse Sermak - disse Lee gravemente - é perigoso. Tem os seus partidários, Hardin,
não o menospreze.
- Foi coisa que nunca fiz, menosprezar um inimigo.
- Prenda-o! Pode acusá-lo de qualquer coisa.
Hardin não tomou conhecimento do último conselho.
- Ei-los Lee. - Em resposta ao sinal, a porta abriu-se.
Entraram um a um, a deputação compunha-se de quatro, e Hardin indicou-lhes as
cadeiras dispostas em semicírculo, em frente da sua mesa. Os jovens aguardaram que Hardin
falasse.
Hardin ofereceu-lhes charutos da caixa que pertencera a Jord Fará, membro do antigo
Conselho Administrativo, nos tempos da Enciclopédia. Era ainda um produto do Império,
apesar dos charutos serem um produto local. Um por um, com solenidade, os quatro deputados
aceitaram charutos, que acenderam como num ritual.
Sef Sermak era o segundo da direita, o mais novo do grupo e o mais atraente, com o
seu bigode louro bem aparado, e os seus olhos profundos de cor incerta. Os outros três,
Hardin procurou desconhecê-los, eram todos vulgares. Concentrou toda a sua atenção sobre
Sermak, o mesmo Sermak que, no seu primeiro mandato no Conselho da Cidade, deixara todo
o corpo representante em pânico, e assim, foi a Sermak que ele se dirigiu:
- Estive particularmente interessado em vê-lo no mês passado. O seu ataque à política
externa deste Governo foi maravilhoso.
O olhar de Sermak brilhou.
- O seu interesse muito me honra. O ataque pode ter sido ou não eficiente, porém tinha
suas razões.
- Talvez. As suas opiniões são pessoais, claro. Mesmo assim o senhor é um tanto
quanto jovem.
Secamente:
- É uma falha que todos nós apresentamos em dado período da vida. O senhor tornou-
se Prefeito da Cidade, com menos dois anos do que eu.
O rapazinho raciocinava - pensou Hardin.
- Suponho que vem me consultar sobre o assunto da política externa, que tanto pareceu
aborrecê-lo, na Câmara Municipal. O senhor fala pelos seus três colegas, deverei ouvir cada
um separadamente?
Houve uma rápida troca de olhares entre os quatro deputados, finalmente, foi Sermak
quem começou:
- Falo pelo povo de Terminus, um povo que atualmente não é sincera e honestamente
representado, pelo conjunto de fantoches a que dão o nome de Conselho.
- Muito bem, por favor, continue!
- Indo diretamente ao que interessa, trata-se do seguinte: Nós estamos descontentes…
- Quer referir-se ao povo, com esse nós?
Sermak olhou-o com hostilidade, pressentindo uma armadilha, e respondeu friamente.
- Quero crer que os meus pontos de vista refletem os da maioria de Terminus, agrada-
lhe essa definição?
- Uma afirmação dessas necessita de provas. Mas, por favor, prossiga. Estão
descontentes?
- Sim, descontentes com a política que vem, há trinta anos, usurpando a Terminus toda
possibilidade de defesa contra um ataque externo.
- Continue, continue!
- É bom que seja avisado antecipadamente pois que, em virtude dos fatos, decidimos
formar um novo partido político, que defenda os interesses mais imediatos de Terminus, ao
invés desse partido místico que apregoa um Império futuro. Vamos batalhar contra o senhor e
contra todos os outros apaziguadores, e isso, bem depressa.
- A não ser que! Há sempre uma cláusula condicional.
- A cláusula, neste caso, nada significa, a não ser que se demitam imediatamente. Não
peço uma mudança de política, não confio nos senhores, suas promessas de nada valem. A
única coisa que aceitamos é a demissão.
- Sim senhor, é esse então o ultimato. É gentil de sua parte me avisarem, todavia vou
ignorar o aviso.
- Não o tome como um simples aviso, mas sim como uma declaração de princípios e
de ação. O novo partido já está formado, e iniciará amanhã suas atividades oficiais. Não
existe limite e nem o desejo para contemporização e, para falar com franqueza, foi unicamente
por reconhecermos os seus serviços para com a nossa cidade, que decidimos dar-lhe esta
saída. Jamais pensei que o senhor a aceitasse, contudo queira tranqüilizar minha consciência.
A próxima eleição será uma maneira muito mais eficaz de forçá-los a pedir demissão.
Levantou-se, e os outros o imitaram. Hardin ergueu o braço.
- Um momento. Sentem-se!
Sef Sermak voltou a sentar-se, e Hardin, sorrindo por trás de uma máscara de
seriedade, adivinhou que o outro esperava desesperadamente uma contraproposta.
- Explique-se com fidelidade, qual a alteração que desejam na nossa política externa.
Desejam que ataquemos imediatamente os Quatro Reinos?
- Não sugerimos nada desse gênero. A nossa proposta tende somente ao cessar de todo
o apaziguamento. Toda sua administração política predominante foi a de auxílio científico aos
Reinos. Ofereceu-lhes a energia atômica, ajudou a reconstrução de geradores por todos os
territórios. Criou clínicas médicas, laboratórios de produtos químicos e fábricas.
- Quais são então as suas objeções?
- Tudo isso foi feito para que eles não nos atacassem. Com essas ofertas, foi
comprando-os, é um caso de chantagem, e Terminus está quase sucumbido - com o resultado
de estarmos agora à mercê desses bárbaros.
- Como?
- Porque lhes deu poder, armas, chegou ao ponto de lhes reparar as naves, de modo
que eles se encontram hoje muito mais fortes do que o eram há trinta anos. As suas exigências
aumentam diariamente, e com as armas que possuem, satisfarão de uma.vez por todas essas
exigências, dominando Terminus pela força. Não é assim que a chantagem chega ao fim?
Hardin observava com um interesse, quase mórbido, o pequeno bigode louro de
Sermak. O outro sentia-se seguro de si, ou jamais falaria tanto. Não restava dúvida que suas
afirmações refletiam as de uma grande parte da população. Sua voz não traiu seus
pensamentos, e foi quase negligentemente que Hardin inquiriu:
- Terminou?
- No momento, é tudo.
- Já reparou numa frase emoldurada que se encontra na parede, por trás de mim? Então
leia-a!
- A violência é o último refúgio dos incompetentes - riu. - Essa é uma filosofia de
velhos.
- Apliquei-a quando tinha a sua idade, meu caro Conselheiro e com êxito, por esse
tempo o senhor ainda não havia nascido, mas é possível que tenham lhe ensinado na escola. -
Olhou Sermak atentamente, e continuou em tom comedido: - Quando Hari Seldon estabeleceu
a Fundação, foi com a ostensiva finalidade de produzir uma grande Enciclopédia, e durante
cinqüenta anos fizemos tudo isso, antes de conseguirmos descobrir o que ele na verdade
almejava. Nessa época, já era tarde demais. Quando as comunicações com as regiões mais
centrais do Império foram cortadas, descobrimo-nos num mundo de cientistas, concentrado
numa única cidade, sem possuir indústrias, e cercados por reinos recém-formados e hostis, e
em grande parte, bárbaros. Nós éramos uma ilha de energia atômica, num vasto oceano de
barbarismo e, portanto, uma presa valiosa.
- Anacreon, atualmente o mais poderoso dos Quatro Reinos, exigiu e chegou a
estabelecer uma base militar em Terminus, antes que os governadores da Cidade, os
Enciclopedistas, compreendessem que essa ação antecedia a ocupação total de Terminus. Era
assim que estavam as coisas antes de assumir o Governo. Que fariam os senhores em meu
lugar?
Sermak encolheu os ombros.
- A pergunta é acadêmica. Claro que eu já sei como o senhor agiu.
- Mesmo assim, permita repeti-la: A tentação de reunir a pequena força de que
dispúnhamos e combater, era grande. Era a solução mais simples, e a mais digna, mas,
invariavelmente, a mais estúpida, era isso que vocês fariam com todo esse sermão de atacar
primeiro. Ao invés, o que eu fiz, foi visitar os outros três reinos, um por um, apontei a cada um
deles a desvantagem de deixar nas mãos de Anacreon o segredo da energia atômica, sugeri-
lhes, então, que fizessem a única coisa que poderia ser feita em caso semelhante. Foi tudo. Um
mês após as forças Anacreonianas terem desembarcado, o rei recebeu um ultimato de seus três
vizinhos, e sete dias depois Anacreon deixava Terminus.
- Digam-se agora: onde estava a necessidade de violência?
O jovem conselheiro olhou para a ponta do seu charuto, pensativamente, antes de
depositá-lo no cinzeiro.
- Não consigo descobrir a analogia. A insulina consegue trazer de volta um diabético à
normalidade, porém uma apendicite necessita de intervenção cirúrgica. Não há nada a fazer.
Quando todas as outras coisas falham, o único recurso é esse último recurso a que o senhor se
refere. Empurraram-nos para ele.
- Ah sim, novamente essa minha política de apaziguamento. Parece-me que ainda não
conseguiu apreender as necessidades fundamentais de nossa posição. O nosso problema não
se resolveu pura e simplesmente com a partida de Anacreon. Esse foi apenas o início. Os
Quatro Reinos eram, mais que nunca, nossos inimigos, pois cada um deles desejava para si o
uso exclusivo da energia atômica, e cada um deles se manteve afastado apenas por receio dos
outros três. Equilibramo-nos durante muito tempo na ponta de uma espada afiada, e o menor
desvio em qualquer das direções… Se, por exemplo, um dos reinos se tornasse poderoso
demais, ou se dois deles formassem uma aliança, entende?
- Decerto. Essa era a hora de começarmos a nos preparar para a guerra.
- Pelo contrário. Essa era a hora de evitarmos a guerra a todo o custo. Joguei-os uns
contra os outros, e auxiliei cada um por seu turno. Ofereci-lhes ciência, comércio, educação e
medicina científica. Tornei Terminus mais valioso como uma fonte de bem-estar do que como
objetivo militar. Vem surtindo efeito há trinta anos.
- Sim, mas foi forçado a prestar essas ofertas científicas, no meio do maior disfarce.
Fez disso quase uma religião, para não falar mesmo de uma verdadeira religião, surgiu uma
hierarquia de sacerdotes, e um complicado ritual sem qualquer significado.
Hardin franziu a testa.
- E que tem isso? Não vejo o que isso apresenta de importante para a nossa discussão.
Comecei assim, porque alguns dos bárbaros olhavam a nossa ciência como uma espécie de
magia, e assim foi mais fácil que eles a aceitassem nessa base. O sacerdócio criou-se a si
mesmo, e se o ajudarmos, conseguiremos o nosso objetivo com um mínimo de resistência. É
de pouco interesse, portanto, esse assunto.
- Mas esses sacerdotes têm a seu cargo os geradores de energia, acho que isso tem
mesmo muito interesse.
- É verdade, mas também é verdade que fomos nós quem os treinamos. O
conhecimento da matéria com que trabalham é empírico, e acreditam piamente em toda a
mentira que os cerca.
- E se um deles conseguir romper esta máscara, e se tiver capacidade suficiente para
pôr de parte o empirismo, o que é que impedirá de aprender as verdadeiras técnicas, e de se
vender ao que melhor pague? A que alto preço pagaremos então esta nossa valorização?
- Há poucas possibilidades de que isso aconteça, Sermak. Não seja superficial. Os
melhores homens nos planetas dos Quatro Reinos são para cá enviados, uma vez por ano, para
serem educados no sacerdócio, e os melhores entre eles aqui ficam, como estudantes. Se acha
que os demais, sem conhecimento prático das ciências mais elementares, ou pior ainda, com a
aprendizagem deficiente que recebem todos os sacerdotes, podem penetrar de um salto nos
segredos da energia atômica, da eletrônica, teorias de vibração, e não sei o que mais, então
deixe-me dizer-lhe que tem uma idéia muito romântica e idiota sobre a ciência. É necessário
ter um treino que dure uma vida inteira e um cérebro excelente para chegar lá.
Yohan Lee levantara-se durante o discurso, e deixara a sala. Voltara naquele instante, e
quando Hardin acabou de falar, Lee inclinou-se para ele e murmurou-lhe algo ao ouvido,
depois entregou-lhe um rolo de chumbo. Então retomou o seu lugar, com um olhar hostil a
deputação.
Hardin acariciou o rolo, enquanto observava a deputação através das pálpebras
semicerradas. Repentinamente, abriu-o com violência, e só Sermak teve o bom-senso de não
dar uma rápida olhadela ao papel que de lá caiu.
- Resumindo, cavalheiros, o Governo é da opinião de que sabe muito bem o que está
fazendo.
Lia enquanto falava. Havia várias linhas de código sem sentido, cobrindo a página, e
três palavras curtas, rabiscadas a um canto, que compunham a mensagem. Absorveu o
conteúdo de uma só vez, e atirou o papel no cinzeiro.
- E com isto - disse então - terminamos a nossa entrevista. Foi um prazer conhecê-los.
Obrigado por terem vindo.
Apertou a mão de cada um deles cerimoniosamente e deixou-os sair.
Hardin já havia muito tempo que não ria, mas quando Sermak e os seus três
silenciosos parceiros saíram do alcance da sua voz, ele riu e olhou divertido para Lee.
- Que achou desta falsa batalha?
Lee respondeu de mau humor:
- Não estou bem certo, se aquele indivíduo estaria blefando. Trate-o com delicadeza,
e talvez perca as próximas eleições, tal como ele o diz.
- É muito provável, muito provável se não acontecer nada antes.
- Certifique-se bem para que as coisas não aconteçam de maneira errada. Digo-lhe
que este Sermak tem muitos partidários. Suponha que ele não se disponha a esperar até às
eleições? Houve um momento em que você e eu conseguimos os nossos objetivos pela
maneira mais violenta, apesar de toda sua publicidade contra a violência.
Hardin arqueou uma das sobrancelhas.
- Você está muito pessimista, Lee. É singularmente contrariador, ou não falaria de
violência. A nossa pequena revolução foi bem sucedida, sem a perda de uma única vida
humana, lembra-se? Foi uma medida necessária, posta em ação no momento oportuno, e
passou suavemente, sem dor, e quase sem esforço. Quanto a Sermak, o caso apresenta-se bem
diferente. Você e eu, Lee, não somos os Enciclopédicos. Nós estamos preparados. Deixe os
seus homens seguirem esses jovens, Lee, mas de uma maneira simpática. Não os deixe
compreender que estão sendo seguidos - porém mantenha olhos bem abertos.
Lee riu, porém com um riso amarelo.
- Julgava que eu iria esperar pelas suas ordens? Sermak e os seus partidários já estão
sob vigilância há mais de um mês.
- Chegou primeiro, heim? Está bem, a propósito - acrescentou num tom mais
moderado - o embaixador Verisof regressa a Terminus, espero que seja por pouco tempo.
Houve alguns minutos de silêncio, até que Lee o rompeu.
- Era essa a mensagem? Os acontecimentos já estão se precipitando?
- Não sei. Não lhe posso dizer nada antes de ouvir o que Verisof tem para me contar.
Pode ser que tenha razão. Bem analisadas as coisas, deve acontecer antes das eleições. Parece
que você ficou levemente mortificado.
- É por não saber como é que as coisas vão suceder. A posição está elevada, talvez
alta demais mesmo para você.
- Você também, Brutus? - murmurou Hardin. Depois, falando em voz alta: - Quer isso
dizer que vai se juntar ao Sermak?
Lee sorriu contrafeito.
- Venceu mais uma vez. Vamos almoçar?
Havia muitas sátiras atribuídas a Hardin - sátiro conhecidíssimo - muitas das quais
apócrifas. Afirma-se, no entanto, que em certa ocasião, disse:
- Dá resultado ser sincero, especialmente se você tem a reputação de um homem sutil.
Poly Verisof servira-se daquele conselho mais de uma vez, pois estava já no décimo
quarto ano de suas duplas funções em Anacreon, funções que o faziam às vezes pular como se
tivesse os pés nus sobre brasas.
Para o povo de Anacreon ele representava o sumo-sacerdote, representante direto da
Fundação o que, para aqueles “bárbaros”, era o nó do mistério, e o centro físico da religião
que criara - com a ajuda de Hardin - nas três décadas anteriores. Como tal, dispensavam-lhe
homenagens que se tornaram horrivelmente fatigantes, pois desprezava, em seu íntimo, o ritual
do qual se tornara centro.
Mas para o Rei de Anacreon - o antigo, e o jovem que ocupava naquele momento o
trono - ele era o embaixador de uma força que devia, ao mesmo tempo, ser temida e invejada.
Ao todo, era um trabalho difícil, e a sua primeira viagem a Terminus, num período de
três anos, apesar do incidente perturbador que a tornara necessária, revestia-se da natureza de
um feriado.
E desde que não era a primeira vez que deveria viajar em absoluto segredo, mais uma
vez fez uso da sátira de Hardin sobre o evidente.
Pôs os trajes civis - em si um feriado - e embarcou numa nave de passageiros, para a
Fundação, em segunda classe. Uma vez em Terminus, fez o seu trajeto através da multidão na
estação de desembarque, e ligou para o Palácio do Governo, de um visifone público.
- O meu nome é Jan Smite. Tenho visita marcada com o Prefeito, esta tarde.
A eficiente jovem de voz monótona, do outro lado da linha, fez nova ligação, trocou
algumas palavras rapidamente, e respondeu a Verisof, num tom de voz automático:
- O Prefeito Hardin o receberá dentro de meia hora, e desligou o aparelho. A partir
daí, o embaixador em Anacreon comprou a última edição do jornal da cidade de Terminus,
casualmente dirigiu-se ao Parque do Palácio, e leu calmamente página por página todo o
jornal, enquanto esperava. Ao fim de meia hora, meteu o jornal debaixo do braço, entrou no
Palácio e apresentou-se na antecâmara.
Através de todo este processo não foi reconhecido, contudo sua presença era tão
imperiosa que ninguém lhe deu a mínima atenção. Hardin olhou-o e sorriu.
- Aceita um charuto? Que tal a viagem?
Verisof aceitou o charuto.
- Interessante. Havia um sacerdote na cabina ao lado da minha, que se dirigia para cá,
a fim de fazer um curso especial de preparação de sintéticos radioativos - para o tratamento
de câncer.
- Mas com certeza não lhes chamou sintéticos radioativos!
- Acho que não. Para ele, era Alimento Sagrado. O Prefeito sorriu. - Continue.
- Travou uma discussão teológica comigo e fez todo o possível por me arrancar ao meu
sórdido materialismo.
- E não chegou a reconhecer o sumo-sacerdote?
- Sem a minha túnica escarlate? Além disso, era Smyrniano. Apesar de tudo, foi uma
experiência interessante. É extraordinário, Hardin, como a religião da ciência criou raízes.
Escrevi um ensaio sobre o assunto - para meu prazer, não serviria para ser publicado.
Tratando do problema sociologicamente parece que quando o velho Império começou a
desfazer-se, poderia considerar-se que a ciência como ciência falhara nestes mundos
exteriores. Para ser novamente aceita, teria de se apresentar sob um disfarce, e foi
precisamente o que sucedeu. É uma beleza (de inferir), especialmente com a ajuda da lógica
simbólica.
- Interessante! - O Prefeito pôs os braços por trás da nuca, e disse repentinamente: -
Comece a me falar da situação em Anacreon.
O embaixador tirou o charuto da boca.
- As coisas parecem caminhar mal.
- De outro modo não se encontraria aqui.
- Com certeza que não. Eis a posição. O homem-chave em Anacreon é o Príncipe
Regente Wienis. É o tio do Rei Leopoldo.
- Bem sei, porém Leopoldo atingirá a maioridade no ano que vem, segundo me consta.
Fará dezesseis anos em fevereiro próximo, penso.
- Sim. - Uma pausa, para depois acrescentar. - Se estiver vivo. O pai do rei morreu em
circunstâncias muito suspeitas. Um dardo no peito durante uma caçada, pensaram que foi um
acidente.
- Parece lembrar-me de Wienis quando estive em Anacreon, na hora em que os
expulsamos de Terminus. Foi antes do seu tempo. Deixe-me ver. Se me lembro bem, era um
jovem extremamente moreno, cabelo preto, e com um defeito na vista direita. Tinha o nariz
adunco de uma maneira engraçada.
- É o mesmo. O defeito e o nariz adunco, ainda lá estão, porém o cabelo agora está
branco. É um indivíduo que joga sujo. Felizmente para nós, é o idiota mais egocêntrico de
todo o planeta. Julga-se diabolicamente esperto, o que torna a sua loucura ainda mais visível.
- Geralmente, assim é.
- A sua idéia de partir um ovo anda na escala da explosão atômica. Testemunha-o o
imposto sobre a propriedade do Templo, que ele tentou impor sobre nós, quando o velho rei
morreu há dois anos. Lembra-se?
Hardin acenou pensativamente, e depois sorriu.
- Os sacerdotes causaram um enorme burburinho.
- Conseguíamos ouvi-los em Lucreza. Desde então tem sido mais cuidadoso, mas
mesmo assim gosta de fazer as coisas pelo lado mais difícil. De algum modo, é pena, sua
autoconfiança é ilimitada.
- Provavelmente, uma supercompensação para um complexo de inferioridade.
Geralmente os filhos mais novos dos reis sofrem esse mal.
- É o mesmo. Tenho a impressão que ele até espuma pela boca quando pensa em atacar
a Fundação. Nem se dá o trabalho de ocultá-lo. A verdade é que sob o ponto de vista militar,
ele está apto a fazê-lo e sair-se bem da empresa. O velho rei criou uma esplêndida marinha, e
o próprio Wienis não dormiu nestes últimos dois anos. A princípio o imposto sobre o Templo
destinava-se a aumentar o armamento, e como isso não deu resultado, já por duas vezes
aumentou o imposto de renda.
- Não há revolta?
- Nada de importância. Obediência à autoridade foi o texto de todos os discursos no
reino durante anos. Não que Wienis se mostrasse grato pelo favor.
- Pano de fundo eu tenho. Agora conte-me o que aconteceu.
- Há duas semanas, uma nave mercante de Anacreon descobriu a carcaça de um
cruzador de batalha da antiga Frota Imperial. Deve ter andado vagando pelo espaço há pelo
menos três séculos.
Os olhos de Hardin brilharam de interesse.
- Já haviam me falado nisso. O Conselho de Navegação enviou-me uma petição,
pedindo que lhes fornecesse a nave para fins de estudo. Segundo me disseram, está em boas
condições.
- Em condições demasiado boas - respondeu Verisof secamente. -Quando Wienis
recebeu, na semana passada, a sua sugestão de que a nave deveria ser entregue à Fundação,
quase teve ataques.
- Ainda não obtive uma resposta dele.
- Nem obterá, a não ser com canhões, segundo ele pensa. Veio ver-me no dia em que
deixei Anacreon, e pediu-me para que a Fundação deixasse o cruzador em condições de
combate, antes de o entregarem definitivamente à Frota de Anacreon. Teve a audácia de me
dizer que a sua nota da semana passada indicava um plano da Fundação para atacar Anacreon.
Disseme que uma recusa de reparar o cruzador seria uma confirmação de suas suspeitas,
disseme que medidas para as defesa de Anacreon iriam ser imediatamente tomadas. As suas
palavras exatas são: Forçarem-no a tomar medidas. É por isso que estou aqui.
- Claro que ele espera uma recusa, e seria uma perfeita desculpa, a seu ver, para um
ataque imediato.
- Estou vendo, Verisof. Bem, temos pelo menos seis meses, de modo que mande
reparar a nave e ofereça-a com os meus cumprimentos. Ponha-lhe o nome de Wienis, como
sinal de nossa estima e afeto.
- Suponho que essa seja a única saída lógica, Hardin, todavia, estou preocupado.
- Com que?
- Afinal, trata-se de um cruzador! Naquele tempo sabia-se construir. A capacidade
cúbica é de meia vez a de toda a Frota de Anacreon. Possui detonadores atômicos capazes de
destruir um planeta e uma couraça que podia suportar um raio-Q, sem perigo de permitir
radiação. E demasiado bom, Hardin.
- Superficial, Verisof, superficial. Nós sabemos muito bem que o armamento que ele
atualmente possui chegava para derrotar Terminus, muito antes de podermos reparar o
cruzador para nosso uso. Que importa, se lhe dermos também o cruzador? Sabe muito bem que
nunca chegaremos a uma guerra.
- Suponho que sim, mas Hardin…
- Então? Por que pára? Continue.
- Escute! Isto já não é bem da minha alçada, mas, enfim, tenho lido o jornal, e…
Colocou o jornal sobre a mesa, e indicou a primeira página.
- Que vem a ser isto?
Hardin leu em voz alta:
- Um grupo de Conselheiros formam um novo partido político.
- É o que diz, mas o que há por trás de tudo isso? O senhor está muito mais em contato
com assuntos internos do que eu, mas, aqui neste artigo atacam-no de todas as maneiras menos
com a violência física. São fortes?
- Bastante! Possivelmente passarão a controlar o Conselho, depois das próximas
eleições.
- Não antes? - Verisof olhou Hardin de soslaio. - Há outros métodos de conseguir
“controle”, além das eleições.
- Confunde-nos com Wienis?
- Não, mas a reparação da nave levará meses e a única coisa certa depois de feita a
entrega é um ataque. A nossa cessão será tomada como sinal de fraqueza e a adição do
cruzador à Frota de Anacreon dobrará sua força. Ele vai atacar, tão certo como eu ser sumo-
sacerdote. Por que dar mais oportunidades? Ou revela o plano da campanha ao Conselho, ou
força Anacreon imediatamente à capitulação!
- Usar de força a esta altura? Antes de surgir a crise? É a única coisa que não devo
fazer. Existem Hari Seldon e o Plano!
Verisof hesitou e depois murmurou:
- Tem então certeza de que existe um plano?
- Não há nenhuma dúvida. Eu estava presente por ocasião da abertura do Cofre e a
gravação de Seldon revelou-o.
- Não é a isso que eu me refero, Hardin, contudo não consigo perceber como é que se
pode catalogar a História com uma antecipação de mil anos. Talvez Hari Seldon tivesse
exagerado. - E perante o sorriso sarcástico de Hardin, continuou: - Você sabe muito bem que a
psicologia não é o meu forte.
- Exatamente. Não é de nenhum de nós. É verdade que eu recebi um certo estudo,
embora elementar, na minha juventude - o suficiente para saber do que é capaz a psicologia,
ainda que não saiba explorar todas as suas possibilidades. Não há dúvida de que Seldon fez
mesmo o que programou fazer. A Fundação, como ele diz, foi estabelecida como uma espécie
de refúgio científico - um meio pelo qual deveria se conservar a ciência e a cultura do Império
moribundo através de séculos de barbarismo que já começaram para que seja reafirmada num
segundo Império.
Verisof concordou, embora com alguma dúvida.
- Todos sabem que é assim que tudo se deveria passar. Mas será justo arriscarmo-nos
tanto? Deveremos arriscar o presente por um futuro incerto?
- Somos obrigados, porque o futuro não é incerto. Foi calculado por Seldon. Cada
crise na nossa História foi calculada e assinalada no mapa, dependendo em certa medida do
êxito na resolução da crise anterior. Esta é apenas a segunda crise e só o Espaço sabe que
terrível efeito poderia ter o menor desvio.
- É uma especulação um tanto ou quanto vaga.
- Não! Hari Seldon disse, quando da abertura do Cofre, que com cada crise a nossa
liberdade de ação se mostraria tão reduzida que só restaria um caminho.
- De modo a manter-nos num corredor?
- Para evitar desvios, sim, porém enquanto houver mais de um caminho a seguir, a
crise não chegou. Devemos deixar que os acontecimentos se sucedam por si, e é isso que eu
vou fazer.
Verisof não respondeu. Mordiscou o lábio inferior num silêncio embaraçado. Já no
ano anterior Hardin discutira com ele o problema - o verdadeiro problema: a maneira de
resolver as preparações hostis de Anacreon. E só porque ele, Verisof, falara contra o
apaziguamento.
Hardin parecia seguir os pensamentos do seu embaixador.
- Seria preferível que eu nunca lhe tivesse falado nisto.
- O que o leva a dizer isso? - perguntou Verisof surpreso.
- Porque agora há seis pessoas que o conheceram: você e eu, os outros quatro
embaixadores, Yohan Lee - que têm uma vaga noção do que está por acontecer, e temo que a
idéia de Seldon fosse o segredo absoluto!
- Por quê?
- Porque mesmo a avançada psicologia de Seldon deve ter os seus limites. Não
poderia jamais cobrir muitas variáveis independentes. Com características individuais jamais
ele poderia trabalhar. Do mesmo modo que você nunca poderia aplicar a teoria cinética dos
gases a moléculas individuais. Ele trabalhava com multidões, populações de planetas que não
possuem um conhecimento antecipado dos resultados de suas ações.
- Receio não compreender.
- Que posso eu fazer? Não tenho conhecimentos psicológicos suficientes para explicar
cientificamente o que acabo de dizer. Mas pelo menos uma coisa você sabe: não há psicólogos
experientes em Terminus, nem textos matemáticos nos livros de ciências. É evidente que
Seldon não desejava que alguém conhecesse antecipadamente os acontecimentos, queria-nos
cegos, e tinha razão, de acordo com as leis da psicologia das multidões.
- Como já lhe disse uma vez nunca soube para onde nos encaminhávamos quando
expulsei os Anacronianos. A minha idéia era manter um equilíbrio de poderes e nada mais.
Foi só mais tarde que me pareceu ver um esquema dos acontecimentos. Fiz todo o possível
para não atuar de acordo com esse conhecimento. Interferência alteraria completamente o
Plano.
Verisof concordou pensativo.
- Já ouvi argumentos quase tão complicados como esses nos templos em Anacreon.
Como espera descobrir o momento adequado para atuar?
- Já o descobri. Você próprio já admitiu que, uma vez reparado o cruzador, nada há
que faça com que Wienis deixe de nos atacar. Não haverá então opção.
- Muito bem. Isso é tudo quanto ao aspecto externo. Deve admitir agora que as
próximas eleições verão um novo e hostil Conselho que forçará a ação contra Anacreon. Aí
também há opção.
- Sim.
- Assim que desaparecerem todas as opções é porque a crise chegou. Mesmo assim
preocupa-me.
Fez uma pausa e Verisof esperou. Vagarosamente, quase com relutância, Hardin
continuou:
- Tenho a idéia, só uma noção, de que as pressões interna e externa foram planejadas
para chegarem simultaneamente. Atualmente poucos meses há de diferença. Wienis
provavelmente atacará antes da Primavera e as eleições serão realizadas daqui a um ano.
- Parece então não ter importância.
- Não sei. Pode ser devido a qualquer erro de cálculo ou talvez pelo fato de eu saber
demais. Eu tentei jamais deixar que o meu conhecimento influenciasse minhas ações, mas sei
lá o que se teria passado. E qual o efeito desta discrepância? Há, contudo uma coisa que já
decidi.
- O que é?
- Quando a crise se apresentar, irei a Anacreon. Quero estar lá. Agora chega, Verisof.
Está ficando tarde. Vamos sair e gastar a noite. Quero me divertir.
- Divirta-se aqui. Não quero que me reconheçam ou já sabe o que este novo partido,
desses seus preciosos Conselheiros, diria. Peça um conhaque.
Hardin pediu - mas não muito.

Nos tempos idos quando o Império Galáctico abraçava toda a Galáxia e Anacreon
fora a mais rica de todas as Prefeituras da Periferia, mais do que um Imperador visitara o
Palácio do vice-rei em grande gala. E nenhum deles partira sem deixar de experimentar sua
habilidade na caça ao Nyak, um pássaro que bem poderia ser considerado uma fortaleza
emplumada.
A fama de Anacreon decaíra com o decorrer dos tempos. O Palácio do vice-rei era
uma massa em ruínas, à exceção da parte restaurada pela Fundação. Além disso, nenhum
Imperador visitava Anacreon havia pelo menos duzentos anos.
Porém a caça ao Nyak continuava a ser desporto real e boa pontaria com arma de
dardos continuava a ser a grande qualificação dos reis de Anacreon.
Leopoldo I, Rei de Anacreon - como falsamente se intitulava - Senhor dos Domínios
Externos apesar de não ter ainda dezesseis anos, já havia provado sua habilidade. Abatera o
seu primeiro Nyak com menos de treze anos, o seu décimo sexto caíra na primeira semana
após a subida ao trono. Voltava agora do seu quadragésimo sexto.
- Serão cinqüenta antes de atingir a maioridade - exultava - querem apostar?
Mas cortesãos não fazem apostas quanto à habilidade do Rei. Há sempre o perigo
mortal de se ganhar. Como ninguém topasse, o Rei foi mudar de roupa, exultante.
- Leopoldo!
O rei parou ao som da única voz que o faria parar. Virou-se de má vontade.
Wienis achava-se à entrada do seu quarto e olhava furioso o seu sobrinho.
- Mande-os embora - impacientemente - livre-se deles.
O rei fez um sinal e os dois camareiros curvaram-se e voltaram a descer as escadas.
Leopoldo entrou no quarto do tio. Wienis observou atentamente o traje de caça do sobrinho.
- Logo você deverá atender assuntos mais importantes do que a caça ao Nyak.
Voltou as costas e caminhou para a sua mesa. Desde que envelhecera para a caça
antipatizara-se com tal desporto.
Leopoldo compreendia muito bem a atitude antipática de seu tio e não foi, por isso,
sem malícia que começou entusiasticamente:
- Devia ter ido conosco hoje, tio. Conseguimos descobrir um dos selvagens de Samia
que era um autêntico monstro. Verdadeiramente desportivo. Perseguimo-lo durante duas horas
dentro de uma área de cento e vinte quilômetros. Pus-me do lado do Sul - e fez todos os
movimentos como se cavalgasse ainda o aerociclo - e atirei-me em mergulho. Apanhei-o
debaixo da asa esquerda, o que o enraiveceu. Esperei que ele voltasse a mergulhar e, quando
o fez, estava à curta distância, e então…
- Leopoldo!
- Bom! Apanhei-o.
- Estou certo disso. Quer ouvir-me agora?
O rei encolheu os ombros e apanhou uma castanha de Lera que comeu, carrancudo.
Não se atrevia a encarar o tio.
Wienis começou sem qualquer preâmbulo:
- Visitei hoje a nave.
- Que nave?
- Há só uma nave. A NAVE. A que a Fundação está reparando para a nossa Frota. O
antigo cruzador imperial. Fui suficientemente claro?
- Ah! Esse? Como vê tinha razão ao dizer-lhe que a Fundação o repararia se o
pedíssemos. É exagero essa sua história de eles pretenderem nos atacar. Se o quisessem para
que reparariam a nave? Não faz sentido.
- Leopoldo, você é um idiota!
O rei, que acabara de comer a castanha, corou.
- Vamos ver - a sua ira era quase ridícula - acho que não me deve tratar dessa
maneira. Esquece-se que dentro de dois meses atingirei a maioridade.
- Sim, e está em boas condições para assumir as funções reais. Se gastasse metade do
tempo em que caça com problemas de administração, eu deixaria a regência imediatamente e
com a consciência tranqüila.
- Não me interessa. Nada tem a ver com o caso. O fato é que, apesar de ser regente e
meu tio sou eu o rei e você o meu súdito. Não me deveria chamar de idiota e não devia sentar-
se na minha presença, não me pediu autorização. Acho que é melhor tomar cuidado, ou tomarei
providências imediatas.
O olhar de Wienis estava frio:
- Posso dirigir-me a você como Vossa Majestade?
- Pode.
- Muito bem. Vossa Majestade é um idiota.
Os olhos escuros do regente lançavam chispas e o jovem rei sentou-se devagar como
que lentamente empurrado. Durante um instante o rosto do regente assumiu um ar de sardônica
satisfação, mas logo desapareceu. Os seus lábios grossos abriram-se num sorriso e a sua mão
caiu sobre o ombro do rei.
- Não se importe, Leopoldo, jamais deveria falar-lhe daquela maneira. Por vezes, no
entanto, torna-se difícil um comportamento com propriedade, quando a pressão dos
acontecimentos é tal que, compreende? - Se as palavras eram de conciliação o olhar não se
amenizara.
Leopoldo respondeu incerto:
- Os assuntos de Estado são tremendamente difíceis. - Pensou, não sem apreensão, se
iria ouvir um sermão de pormenores sem significado, sobre o comércio do ano com Smyrno,
ou a disputa latente sobre os mundos do Corredor Vermelho.
Wienis falou-lhe outra vez:
- Meu rapaz, pensei dizer-lhe isto mais cedo e talvez o devesse ter feito, porém sei
que o seu espírito jovem se impacienta com os pormenores áridos da diplomacia.
Leopoldo concordou:
- Tem toda a razão.
O tio interrompeu-o com firmeza:
- Contudo, atingirá a maioridade dentro de dois meses. Além disso, na época difícil
que vamos atravessar você tomará uma parte ativa. Daqui por diante será o rei.
De novo Leopoldo concordou, porém sua expressão era de total incom¬preensão.
- Vai haver guerra, Leopoldo.
- Guerra! Mas não foi assinada a paz com Smyrno?
- Não é nada com Smyrno, é com a própria Fundação.
- Mas eles concordaram em reparar a nave. O tio disse.
As cordas vocais paralisaram-se-lhe ao ver a expressão de seu tio.
- Leopoldo - o tom amistoso desapareceu - devemos falar de homem para homem. Vai
haver guerra com a Fundação, quer a nave seja reparada ou não, muito mais depressa na
verdade em virtude de a nave ser reparada. A Fundação é a fonte do poder. Toda a grandeza
de Anacreon, todas as suas naves e cidades, o seu povo e comércio dependem das migalhas
que lhes deixe a Fundação. Recordo ainda o tempo em que as cidades de Anacreon eram
aquecidas a carvão e combustíveis líquidos. Passemos adiante, nunca poderá imaginar o que
isso representava.
- Parece-nos - sugeriu o rei humildemente - que deveríamos estar gratos.
- Gratos! - rugiu Wienis. - Gratos pela miséria que nos resta enquanto que para eles
guardam sabe o Espaço o que! e com que finalidade em mente? Para que um dia possam
governar toda a Galáxia?
Sua mão pousou sobre o joelho do jovem e os olhos semicerram-se.
- Leopoldo, você é o Rei de Anacreon. Os seus descendentes e os descendentes, por
seu turno, podem vir a ser senhores do Universo, se você tiver o poder que a Fundação guarda
só para si!
- Há razão no que me diz. - O olhar brilhou-lhe e empertigou-se na cadeira. - Que
direito têm de guardar as coisas só para eles? Não é justo. Anacreon também significa algo.
- Enfim você começa a compreender. E agora, meu rapaz, que fazer se Smyrno decide
atacar a Fundação antes de nós e auferir assim todas as vantagens? Quanto tempo pensa que
passaria antes de nos tomarmos seus vassalos? Quanto tempo manteria você o trono?
Leopoldo começou a excitar-se.
- Pelo Espaço! Tem razão. Devemos ser os primeiros a atacar. É preciso defendermo-
nos.
O sorriso de Wienis aumentou ligeiramente.
- Além disso, uma vez no princípio do reinado de seu avô, Anacreon chegou a
estabelecer uma base militar no planeta da Fundação, Terminus - uma base de importância
vital para nossa defesa. Fomos obrigados a abandonar essa base, como resultado das
maquinações do cabeça da Fundação, um sujeito esperto, um estudioso, sem um pingo de
sangue nobre nas veias. Compreende, Leopoldo? O seu avô foi humilhado por esse plebeu.
Lembro-me bem dele! Pouco mais velho era do que eu quando veio a Anacreon, como o seu
sorriso diabólico e cérebro igual ao do próprio demônio, e com o poder dos outros três reinos
a apoiarem-no, unidos e em covarde aliança, contra a grandeza de Anacreon.
- Por Seldon! - A sua face congestionou-se e os olhos adquiriram o brilho da
embriaguez. - Se eu fosse o meu avô mesmo assim teria lutado.
- Não, Leopoldo. Nós decidimos esperar, lavar a honra em melhor oportunidade. Era
a esperança de seu pai antes de sua morte prematura, que ele a… bem, bem… - Wienis virou-
se por um momento como que para controlar sua emoção. - Era o meu irmão, mesmo assim se
o seu filho fosse…
- Não deixarei de apoiá-lo. Já decidi. É natural que seja Anacreon que destrua esse
ninho de víboras e imediatamente.
- Imediatamente não. Primeiro devemos esperar que acabem os reparos do cruzador.
O fato de aceitarem reparar a nave prova que nos temem. Os idiotas tentam nos aplacar, mas
não vamos nos desviar do nosso caminho, não é verdade?
O punho de Leopoldo abateu-se sobre a mesa.
- Enquanto eu for Rei de Anacreon isso não acontecerá.
- Além disso, devemos esperar a chegada de Salvor Hardin.
- Salvor Hardin! - O rei espantou-se tanto que o seu rosto tomou o ar habitual, que
fora substituído por linhas duras durante alguns minutos.
- Sim, Leopoldo. O chefe da Fundação em pessoa virá a Anacreon por ocasião de seu
aniversário, provavelmente para nos acalmar com palavras doces.
- Mas nada o salvará.
- Salvor Hardin! - O nome fora quase murmurado.
- Tem medo do nome? E esse mesmo, Salvor Hardin, que por ocasião de sua última
visita nos obrigou a arrastar-nos no pó. Não se esqueça desse insulto à casa real. Ainda por
cima partindo de um plebeu, um rato de esgoto.
- Não, não tenho medo. Não devo ter. Não terei. Nós lhe pagaremos com juros -
porém… temo-o um pouco.
O regente levantou-se:
- Medo? De que? De que, meu jovem. As palavras morreram-lhe nos lábios.
- Seria uma blasfêmia atacar a Fundação. Quero dizer - fez uma pausa.
- Continue.
Leopoldo sentia-se confuso.
- Quero dizer, se existisse na verdade um Espírito Galáctico, talvez ele - ahm! - não
gostasse. Não acha?
- Não acho nada - foi a resposta. Wienis sentou-se e a boca torceu-se num sorriso
esquisito. - É com essa história do Espírito Galáctico que enche a cabeça? É o que faz educá-
lo com liberalidade. Vejo que tem dado ouvidos a Verisof.
- Explicou-me bastan…
- Acerca do Espírito Galáctico?
- Sim.
- Minha imberbe criança! Verisof ainda acredita nessa fantochada menos do que eu, e
eu não lhe dou qualquer crédito. Quantas vezes já lhe inculcaram essas idiotices? E quantas
vezes já lhe disseram que tudo isso não são mais do que idiotices?
- Eu sei, porém Verisof afirma.
- Quero que o Verisof seja excomungado. É disparate.
Houve um curto silêncio de rebeldia, até que Leopoldo se recompôs:
- Todos acreditam nesses disparates, no entanto… Quero dizer, a respeito do profeta
Hari Seldon e como ele fez da Fundação uma divulgadora de suas ordens para que num dia
muito remoto haja um regresso ao Paraíso Terrestre. E como quem desobedece aos seus
mandamentos será destruído por toda a eternidade. Acreditam. Já presidi aos festivais e sei
que acreditam.
- Sim, eles acreditam, mas nós não. E pode agradecer que assim seja, pois de acordo
com toda essa palhaçada, você é o Rei por direito divino - portanto, você mesmo é semi-
divino. Muito a propósito. Elimine todas as possibilidades de revolta e assegure cega
obediência em tudo. Eis a razão porque deve tomar parte ativa ao ordenar a guerra contra a
Fundação. Eu sou apenas regente e bastante humano. Você é o Rei e para eles um semideus.
- Suponho que na realidade não o sou.
- Na realidade não o é - veio a réplica carregada de ironia - mas é para todos menos
para a Fundação. Compreende? Para todos menos os da Fundação. Uma vez que eles forem
destruídos, quem o poderá negar? Pense nisso!
- E depois disso seremos nós que operaremos as geradoras dos templos e as naves
que voam sem tripulantes, e o alimento sagrado que cura o câncer e todo o resto? Verisof
disseme que os únicos que poderiam fazê-lo seriam os que fossem abençoados pelo espírito.
- Verisof disse! Fique comigo, Leopoldo, e não se preocupe com eles. Juntos
reconstruiremos um Império, não unicamente o reino de Anacreon, mas outro que compreende
os bilhões de sóis da Galáxia. Não será isso melhor do que todo esse palavreado sobre o
Paraíso Terrestre?
- Sim.
- Verisof pode prometer-lhe mais?
- Não.
- Muito bem. - A sua voz tornou-se autoritária. - Posso, nesse caso, considerar este
assunto como encerrado?
Esperava por uma resposta - e continuou:
- Vá embora. Descerei mais tarde. Só uma coisa, Leopoldo.
O jovem voltou-se à entrada da porta.
Wienis estava sorridente, porém o olhar mantinha-se firme.
- Tenha você cuidado com essas caçadas ao Nyak. Desde o infeliz acidente que
vitimou seu pai tenho sempre estranhos pressentimentos quanto a você. No meio da confusão
com dardos cruzando-se no ar nunca se está seguro. Fará tudo que eu disser no que respeita à
Fundação, não é verdade?
Os olhos de Leopoldo abriram-se de espanto, porém deixaram de fitar o tio - Sim,
decerto.
- Bem! - observou a figura do sobrinho que se distanciava e voltou para a mesa.
Os pensamentos de Leopoldo ao abandonar a câmara estavam sombrios e cheios de
temores. Talvez o melhor fosse derrotar a Fundação e ganhar o poder de que Wienis falava.
Contudo, depois quando a guerra terminasse e ele estivesse seguro no trono… tornou-se
consciente do fato de que Wienis e os seus dois arrogantes filhos eram, em linha direta,
pretendentes ao trono.
Mas ele era Rei. E os reis podiam condenar à morte.
Mesmo tios e primos.

A seguir a Sermak, Lewis Bort era o mais ativo na colheita de elementos dissidentes
que se fundiam agora no barulhento Partido de Ação. Não fizera, no entanto, parte da
deputação que visitara Hardin no ano anterior. Não era por falta de merecimento, pelo
contrário. Estivera presente na capital de Anacreon nessa data.
Tinha-a visitado como simples cidadão. Não viu qualquer oficial e não fez nada de
importância. Entreteve-se a bisbilhotar nos cantos mais obscuros do planeta. Voltou a
Terminus numa tarde de Inverno e uma hora depois sentava-se à mesa de Sermak.
Suas primeiras palavras não foram calculadas para melhorar a atmosfera de unia
reunião já consideravelmente deprimida pelo anoitecer.
- Temo - disse - que a nossa opinião se defina em fraseologia melodramática como
uma “Causa Perdida”.
- Acha que sim? - perguntou Sermak, sombrio.
- Já ultrapassou tudo o que se possa pensar, Sermak. Não há espaço para qualquer
outra opinião.
- Os armamentos - iniciou Dokor Walto, um tanto ou quanto oficioso, porém Bort
interrompeu-o.
- Esqueça isso, é uma história antiga. - Deixou o olhar percorrer todo o círculo. -
Refiro-me ao povo. Admito que a minha idéia inicial tenha sido a de tentarmos fomentar uma
revolta no palácio e de instalar como rei alguém mais favorável à Fundação. Era uma boa
idéia e ainda o é. A única coisa que falha é a impossibilidade de concretizá-la. O grande
Salvor Hardin fez tudo para isso.
- Apresente-nos todos os pormenores, Bort - interrompeu Sermak.
- Pormenores! Não há pormenores a serem apresentados! Pensam que é assim
simples? Trata-se de toda a situação política de Anacreon. E de toda religião estabelecida
pela Fundação. Dá resultado!
- É necessário ver-se para se poder acreditar. Tudo o que aqui se pode ver é um
enorme colégio devotado à preparação de sacerdotes e, de vez em quando, num canto obscuro
da cidade, um espetáculo especialmente preparado para os fiéis que vêm em romaria. Sobre
nós não tem qualquer espécie de efeito. Mas em Anacreon…
Lem Tarki cofiou a barba bem cuidada, e pigarreou.
- Que espécie de religião é? Hardin sempre disse que tudo isso não passava de uma
diversão criada para que a nossa ciência fosse aceita sem grandes complicações. Lembra-se,
Sermak, do que ele nos disse no dia…
- As explicações de Hardin - lembrou-lhe Sermak - não têm qualquer valor objetivo.
Mas diz-nos que espécie de religião é, Bort?
- Etnicamente é perfeita. Pouco varia das muitas filosofias do antigo Império. Altos
padrões de moralidade e tudo o mais. Desse ponto de vista nada há a criticar-se. A religião é
uma das grandes influências civilizadoras da História, e nesse aspecto, aceita-se
perfeitamente.
- Tudo isso nós sabemos - interrompeu Sermak impacientemente. - Entre diretamente
no que interessa.
- A religião que a Fundação criou e ajudou foi concebida em linhas estritamente
autoritárias. O sacerdócio tem todo o “controle” dos instrumentos científicos que oferecemos
a Anacreon, porém só aprenderam a utilização desses mesmos instrumentos de uma forma
empírica. Acreditam piamente nessa religião, e no valor espiritual do poder que controlam.
Por exemplo: há aproximadamente dois meses, um idiota qualquer resolveu mexer na geradora
instalada no Templo de Tessaki - uma das maiores. Claro que fez com que explodissem uns
cinco quarteirões. Foi considerado uma vingança divina, mesmo pelos sacerdotes.
- Recordo-me. Os jornais trouxeram uma reportagem da história. Não sei é a que
ponto quer chegar.
- Então ouça. O sacerdócio forma uma hierarquia, no cume da qual se encontra o Rei.
Este é considerado uma espécie de Deus menor. É monarca absoluto, por direito divino, e o
povo, e mesmo os sacerdotes, acreditam que assim seja. Não se pode derrubar um rei assim.
Estão vendo?
- Só um momento - Walto interrompeu nesta altura. - Que queria dizer com essa
observação, de ser Hardin o causador de tudo? Onde é que ele entra na história? Bort olhou
com amargura o seu interlocutor. A Fundação tem mantido toda esta ilusão com assiduidade.
Demos todo o nosso apoio científico por detrás dessa mentira. Não se dá um único festival
que o rei não presida, cercado por uma aura radioativa, que lhe banha de luz o corpo,
formando uma coroa sobre a cabeça. Quem quer que lhe toque, fica severamente queimado.
Pode mover-se de um lado para o outro através da atmosfera, em momentos cruciais, supõe-se
que por inspiração do espírito divino. Pode encher o templo de luz, com um simples gesto.
Não têm fim os truques que são empregados em seu benefício, e até os sacerdotes acreditam
neles, embora eles próprios operem os mecanismos que os desencadeiam.
- Mau! - observou Sermak mordendo o lábio.
- Sinto-me capaz de chorar como a fonte do Parque do Palácio, ao pensar na
oportunidade que perdemos. Considerem a situação há trinta anos, quando Hardin salvou a
Fundação do domínio de Anacreon. Na ocasião, o povo não fazia a mínima idéia de que o
Império se encontrava em decadência. Cuidaram de quase todos os seus assuntos desde a
revolta de Zeônia, mas mesmo depois de rompidas as comunicações e o velho pirata, avô de
Leopoldo, ter-se proclamado Rei, nunca chegaram a compreender que o velho Império se
desfizera.
- Se o Imperador quisesse, poderia ter retomado o “controle” apenas com dois
cruzadores, e com a ajuda da revolução que teria estourado. E nós, nós poderíamos ter feito o
mesmo, mas não. Em vez disso, Hardin estabeleceu a adoração dos monarcas. Pessoalmente,
não compreendo. Por quê?
- O que faz Verisof? - inquiriu Jaim Orsy. - Houve tempo em que ele foi um Acionista
fanático. Que faz ele lá? Também está cego?
- Não sei. Para eles é o sumo-sacerdote. Pelo que sei, atua como conselheiro técnico
dos sacerdotes. Mas é um testa-de-ferro.
Fez-se silêncio ao redor da mesa, e todos olharam para Sermak. O jovem chefe do
Partido roia nervosamente uma unha, por fim disse em voz alta:
- Não me cheira bem!
Mais uma vez olhou para todos os que cercavam a mesa, e disse energicamente :
- Hardin não é nenhum idiota.
- Pois parece ser - retorquiu Bort.
- Nunca! Há qualquer coisa que não está correta. Cortar o nosso próprio pescoço tão
completa e irremediavelmente requereria uma estupidez sem tamanho. Muito mais do que
Hardin poderia jamais possuir, se fosse idiota, o que desde já tenho de negar. Por outro lado a
criação de uma religião que não permitisse discórdias internas, por outro lado, armar
Anacreon com todas as armas necessárias a uma guerra. Não consigo vislumbrar nada.
- Admito que o assunto seja um tanto ou quanto obscuro, porém os fatos falam por si.
Que mais podemos pensar?
- É traição. Está a soldo deles! - exclamou Walto.
Mas Sermak sacudiu a cabeça, impaciente.
- Também não se trata disso. Todo este negócio é anormal e sem significado. Diga-me,
Bort, ouviu falar num cruzador de batalha, que a Fundação deve reparar, para depois ser usado
pela Frota de Anacreon?
- Cruzador de batalha?
- Um antigo cruzador imperial.
- Não, mas isso não quer dizer nada. Os portos são santuários completamente vedados
ao público. Nunca se ouve dizer nada sobre a Armada.
- Têm escapado rumores. Alguns membros do Partido já levantaram a questão no
Conselho. Hardin nunca o negou. Os seus partidários falaram de difamadores e deixaram a
coisa passar em branco. Pode ser que tenha qualquer significado.
- É da mesma espécie que o resto. Se for verdade será loucura. Mas não seria jamais
pior do que o resto.
- Suponho que Hardin não tenha em reserva qualquer arma secreta. Isso pode…
- Tem sim. Uma enorme caixa de surpresas da qual, no momento oportuno, sairá um
diabo que irá assustar o velho Wienis, até à loucura. A Fundação bem pode encomendar a sua
alma se estiver lidando com armas secretas.
- Bem. A questão resume-se nisto: quanto tempo temos ainda?
- É uma boa pergunta. Mas não a faça a mim, que não sei como responder-lhe. A
Imprensa de Anacreon nem sequer menciona o nome da Fundação. Nesta altura vem repleta de
manifestações que se aproximam, e mais nada. Leopoldo atinge a maioridade na semana que
vem.
- Temos então alguns meses, pode ser que nos dê tempo.
- Não dá tempo para nada. Já lhes disse que o Rei é como um Deus. Supõe talvez que
ele tenha de fazer discursos de propaganda para que o povo se excite? Supõe, talvez, que ele
nos tem de acusar de tentativa de agressão, e todos os demais truques emocionais?
- Quando chegar o momento de atacar, Leopoldo dará uma ordem, e todo o povo
lutará. Só isto. Pode ser que ele dê essa ordem amanhã, pelo que sabemos, e vocês podem
encher isso de tabaco e fumá-lo.
Todos tentaram falar ao mesmo tempo, e o punho de Sermak abatia-se sobre a mesa,
pedindo silêncio, quando a porta abriu e Levi Norast entrou correndo. Subiu as escadas em
dois saltos, deixando atrás de si um rasto de neve.
- Vejam bem isso! - gritou, atirando um jornal para cima da mesa. - Os visores não
transmitem outra coisa.
O jornal foi aberto e cinco cabeças debruçaram-se sobre ele.
- Grande Espaço! Ele vai a Anacreon! A Anacreon!
- É traição! Walto deve ter razão. Hardin vendeu-nos e vai agora receber o preço que
estipulou - chiou Tarki.
Sermak ergueu-se.
- Não temos tempo a perder. Vou pedir ao Conselho, amanhã que Hardin seja julgado.
E se isso falhar…

A neve parara de cair, porém o solo gelado dificultava a marcha do carro, através das
ruas desertas. A madrugada estava fria, não só no sentido poético, como no sentido bastante
literal e mesmo no estado turbulento da política da Fundação, ninguém, quer Acionista ou pró-
Hardin, se atrevia a sair à rua e iniciar suas atividades naquela hora da manhã.
Yohan Lee não gostava disso, e o seus resmungos tornavam-se cada vez mais audíveis.
- Vai parecer muito mal, Hardin. Irão dizer que você fugiu.
- Deixe-os dizer o que quiserem. Quero ir a Anacreon, e quero fazê-lo sem qualquer
alarde. Por agora basta, Lee.
Hardin encostou-se no assento estofado do carro bem aquecido, contudo havia
qualquer coisa de frígido naquele manto branco que se estendia pelas ruas, mesmo visto
através do vidro, que o aborrecia.
- Um dia, quando pudermos, criaremos nós as condições atmosféricas de Terminus.
Pode muito bem ser feito.
- Por mim, gostaria de ver outras coisas feitas antes disso. Por exemplo, o
condicionamento de Sermak. Uma bela cela, seca, a vinte graus centígrados durante o ano
inteiro, é o que ele está pedindo.
- A partir daí é que eu realmente passava a ter necessidade de um guarda-costas. - E
olhou para dois dos homens de Lee, sentados ao lado do motorista, olhos firmes percorrendo
as ruas vazias, mãos nas armas prontas a disparar.
- Não resta dúvida de que você está querendo começar uma guerra civil.
- Quero? Há muita lenha na fogueira, não havendo necessidade de mais um pouco,
essa lhe digo eu. Primeiro: Sermak levantou vôo ontem, na reunião do Conselho, e pediu sua
exoneração e conseqüente julgamento.
- Tinha todo o direito de fazê-lo, além disso sua moção foi derrotada por 206 votos
contra 184.
- Uma maioria de vinte e dois, quando tínhamos contado com um mínimo de sessenta.
Não negue que não vale a pena.
- Foi um erro - admitiu Hardin.
- Está bem. Segundo: depois da votação, os cinqüenta e nove membros do Partido
Acionista abandonaram a reunião.
Hardin calou-se, e Lee continuou:
- E em terceiro lugar, antes de sair, Sermak gritou que você era um traidor e que ia a
Anacreon para receber as trinta peças de prata, que é a maioria da Câmara, ao recusar o voto
para sua exoneração, participara da traição e que o nome do seu partido não era em vão
Acionista. Que tal lhe parece?
- Alarde, suponho eu.
- E agora foge ao nascer do dia como um criminoso. Deve encará-los, Hardin, e se for
obrigado, declare a lei marcial!
- A violência é ultimo refúgio…
- …dos incompetentes. Bolas!
- Está bem, veremos. Agora, ouça-me com atenção, Lee: há trinta anos o Cofre se
abriu e no qüinquagésimo aniversário do início da Fundação, apareceu uma gravação de Hari
Seldon para nos dar uma primeira idéia do que realmente se passava.
- Bem me recordo - Lee recordava-se com um meio sorriso. - Foi no dia em que
tomamos conta do Governo.
- É verdade. Foi na época de nossa primeira crise. Esta é a nossa segunda - e daqui a
três semanas será o octogésimo aniversário da Fundação. Não lhe parece significativo?
- Acha que ele vai voltar?
- Ainda não terminei. Seldon nunca falou em voltar, compreende, mas parece-me
coerente com todo o seu plano. Fez sempre o possível para nos manter na ignorância. Nem há
qualquer maneira de se poder afirmar que o fecho do Cofre esteja preparando para tornar a se
abrir - a não ser que o desmanchássemos e, provavelmente, estará preparado para se destruir
se o tentássemos. Tenho lá estado em todos os aniversários, desde a primeira aparição para o
que desse e viesse. Ele nunca apareceu, mas esta é a primeira vez, desde então, em que há uma
verdadeira crise.
- Então ele virá.
- Talvez. Não sei. Contudo, a questão é esta: na sessão do Conselho de hoje, depois de
anunciar que eu parti para Anacreon, anunciará também que, no próximo dia catorze de março,
haverá mais uma gravação de Hari Seldon que contém uma mensagem de maior importância,
com respeito à crise recente e concluída com êxito. É muito importante, Lee. Não diga mais
nada, não obstante as perguntas que fizerem.
Lee olhou-o.
- Eles acreditarão em mim?
- Não importa. Criará confusão e é isso que eu quero. Entre o pensarem se é verdade
ou não, e o que eu quero dizer se não for - decidirão adiar toda e qualquer ação até depois de
catorze de março. Estarei de volta muito antes disso.
Lee parecia cheio de dúvidas.
- Mas esse “concluído com êxito” é mentira!
- É mentira, mas serve. Eis-nos no porto!
A nave que os esperava aparecia como uma sombra de névoa, Hardin marchou pela
neve e, à entrada, voltou-se com a mão estendida.
- Adeus, Lee. Detesto deixá-lo nesta caldeira, mas não confio em mais ninguém.
Cuidado, não salte para dentro do fogo.
- Não se preocupe. Basta o calor da caldeira. Obedeço às suas ordens. - Deu um
passo atrás e a porta fechou-se.

Salvor Hardin não se dirigiu imediatamente ao planeta Anacreon. Só chegou na


véspera da coroação, tendo visitado oito dos sistemas estelares principais, parando só o
tempo suficiente para conferenciar com os representantes locais da Fundação.
A viagem deixou-o opressivo e atônito quanto à vastidão do reino. Era como se fosse
nada, um ponto comparado com a vastidão incomensurável do Império Galáctico, do qual
fora, havia muito, uma parte bem distinta, mas para alguém cujos hábitos de pensamento
tivessem sido criados à volta de um único planeta, um pensamento já formado, por si só, a
área e a população de Anacreon seriam causa para admiração.
Seguindo de perto as fronteiras da antiga Prefeitura de Anacreon, abraçava vinte e
cinco sistemas estelares, seis dos quais tinham pelo menos um planeta habitado. A população
de dezenove bilhões, ainda que menor do que nos dias gloriosos do Império, aumentava
rapidamente com o aumento de desenvolvimento científico criado pela Fundação.
E foi só então que Hardin compreendeu a grandiosidade dessa tarefa. Naqueles trinta
anos só o mundo que formava a capital se desenvolvera. As províncias exteriores possuíam
ainda imensas vastidões onde a energia atômica não fora reintroduzida. Mesmo o progresso
que fora conseguido podia ter-se tornado impossível se não fosse pelas relíquias deixadas
pelo desaparecimento do Império.
Quando Hardin chegou à capital, encontrou todo o comércio paralisado. Nas
províncias exteriores ainda havia festas, mas aqui, no planeta Anacreon, não havia um único
indivíduo que deixasse de tomar parte nas cerimônias religiosas que anunciavam a chegada da
maioridade do seu Rei-deus, Leopoldo.
Hardin conseguira roubar apenas meia hora ao arrasado Verisof, antes daquele seu
embaixador ser forçado a correr para um outro festival religioso. Mas, aquela meia hora fora
bem aproveitada, e Hardin satisfeito preparou-se para o fogo de artifício daquela noite.
No todo, atuava como um observador, pois não tinha estômago para as tarefas
religiosas que teria de enfrentar caso se tornasse conhecida a sua identidade. Assim, quando o
salão de baile do palácio se encheu de uma multidão brilhante composta da mais alta nobreza,
ele viu-se encostado, quase totalmente ignorado.
Fora apresentado a Leopoldo no meio de muita gente, e a uma distância segura, pois o
rei ficava à parte numa grandiosidade solitária e impressionante, cercado pelo brilho mortal
de uma aura radioativa. E em menos de uma hora, esse mesmo rei se sentaria sobre um trono
maciço feito de uma liga de ródio-irídio com incrustações de pedras preciosas, e então o trono
subiria majestosamente, permanecendo suspenso no ar, atravessando depois o espaço que o
separava da janela na qual os olhos da multidão plebéia estavam colados, quando vissem o
seu rei, gritariam até a histeria. O trono não seria tão maciço, claro está, se não contivesse um
motor atômico.
Já passava das onze. Hardin impacientava-se e punha-se nas pontas dos pés, para
melhor poder ver. Resistiu ao impulso de subir em uma cadeira, até que por fim viu Wienis
que, através da multidão, se dirigia para ele, e descontraiu-se. Wienis avançava lentamente.
Quase a cada passo, tinha de parar para dirigir uma palavra amável a um nobre cujo avô teria
ajudado o avô de Leopoldo a conquistar o reino, tendo daí recebido o seu título e um ducado.
Finalmente, conseguiu ultrapassar o último par do reino, e chegar até Hardin. A boca
torceu-se num quase sorriso, e os olhos, debaixo das sobrancelhas grisalhas, brilharam-lhe de
satisfação.
- Meu caro Hardin - disse em voz baixa - deve estar tremendamente aborrecido, para
se recusar a revelar a sua identidade.
- Nada disso, Alteza. Tudo isto é extremamente interessante. Em Terminus não temos
nada que se lhe compare.
- Não duvido. Importava-se de vir até ao meu quarto para podermos conversar mais à
vontade?
- Com prazer.
De braços dados, subiram os dois ao andar superior, e mais de uma duquesa levantou
o “lorgnon”, surpreendida, meditando sobre a identidade do aparentemente insignificante
estranho, a quem o regente concedia tal honra. Na câmara de Wienis, Hardin acomodou-se
confortavelmente e aceitou com um murmúrio de gratidão o cálice de licor que o regente lhe
ofereceu.
- Vinho de Locris, Hardin - disse Wienis - das adegas reais. O genuíno com duzentos
anos. Foi preparado ainda antes da Revolução de Zeônia.
- Uma bebida verdadeiramente real - concordou Hardin delicadamente. - À saúde de
Leopoldo I, Rei de Anacreon.
Beberam, e Wienis acrescentou, aproveitando uma pausa
- E dentro de pouco tempo Imperador da Periferia, e mais além, quem sabe? Talvez a
Galáxia volte a unir-se um dia.
- Sem dúvida. Será Anacreon um traço de união?
- Por que não? Com a ajuda da Fundação, a nossa superioridade científica sobre o
resto da Periferia seria indiscutível.
Hardin pôs de parte o cálice vazio e disse:
- Está bem, à exceção de que a Fundação se comprometeu a auxiliar qualquer nação
que lhe peça auxílio científico. Devido aos altos ideais do nosso governo, e à grande
finalidade moral do nosso fundador, Hari Seldon, não podemos mostrar favoritismo. Não pode
ser evitado Alteza.
O sorriso de Wienis aumentou.
- O Espírito Galáctico, para usar o rifão popular, ajuda aqueles que por si se ajudam.
Acredito sinceramente que a Fundação, de vontade própria, nunca colaboraria.
- Não quero chegar a tanto. Reparamos para Anacreon o cruzador Imperial, apesar da
minha administração de navegação o querer para si para estudos.
- Para estudo! - O Regente repetiu aquelas últimas palavras com ironia. - Sim, mas
não o reparariam se eu não tivesse ameaçado com guerra.
- Não estou muito certo disso.
- Eu estou. A ameaça sempre se manteve.
- E continua a manter-se?
- Agora é tarde demais para falarmos de ameaças. - Wienis lançara um rápido olhar
ao relógio sobre a sua mesa. - Você, Hardin, já esteve uma vez antes em Anacreon, não
esteve? Éramos os dois jovens, então. Mesmo assim, já tínhamos maneiras diferentes de ver as
coisas. Você é o que se chama um homem de paz, não é verdade?
- Suponho bem que sim. Pelo menos considero a violência como um meio pouco
econômico de atingir um fim. Há sempre melhores substitutos, embora por vezes sejam menos
diretos.
- Já ouvi o seu famoso dito: - A violência é o último refúgio dos incompetentes. - E no
entanto - o Regente cocou uma orelha, afetando abstração - não me considero exatamente
incompetente.
Hardin aquiesceu com delicadeza, e não respondeu.
- E apesar disso - continuou Wienis - sempre acreditei na ação direta. Acredito no
abrir caminho para determinado objetivo e segui-lo direto. Tenho ganho muito com esse
processo, e espero lucrar ainda mais.
- Eu sei - interrompeu Hardin. - Creio que está abrindo um caminho para você e para
os seus descendentes, que conduz diretamente ao trono, considerando a recente e infeliz morte
do pai do Rei - seu irmão mais velho - e o estado precário de saúde do próprio Rei. Não está
muito bem de saúde, não é?
Wienis acusou o impacto, e a sua voz tornou-se mais áspera.
- Talvez seja aconselhável evitar certos assuntos, Hardin. Talvez se considere
privilegiado, como Prefeito de Terminus, de fazer algumas observações, mas se é essa a sua
idéia, deixe-a de lado. Não me amedronto com palavras. Tem sido minha filosofia que todas
as dificuldades desaparecem quando enfrentadas com coragem, e até hoje não dei as costas a
nenhuma.
- Não duvido. A que dificuldade especial se recusa a dar as costas neste momento?
- A dificuldade de convencer a Fundação a colaborar. A sua política de paz levou-o a
cometer sérios erros, simplesmente por ter menosprezado a ousadia do seu adversário. Nem
todos têm tanto medo da ação direta como você.
- Dê-me um exemplo - sugeriu Hardin.
- Você, por exemplo, veio a Anacreon sozinho, e veio até à minha câmara sozinho.
Hardin olhou à sua volta.
- E que tem isso?
- Nada - respondeu o Regente - exceto que lá fora há cinco policiais bem armados, e
prontos para atirar. Acho que não deve tornar a sair, Hardin.
As sobrancelhas do Prefeito arquearam-se interrogativamente.
- Não tenho qualquer desejo imediato de partir. Tem assim tanto medo de mim?
- Não tenho medo nenhum. Talvez isto seja uma maneira de o impressionar com a
minha determinação. Posso denominar de uma atitude?
- Denomine-a do que quiser - disse Hardin indiferente. - Não vou incomodar-me por
causa deste incidente, não obstante os nomes que lhe dê.
- Estou certo de que essa atitude mudará com o tempo. Contudo ainda outro erro,
Hardin, e um erro grave. Parece que o planeta Terminus está completamente indefeso.
- Naturalmente. Que temos nós a temer? Não ameaçamos os interesses de ninguém e
servimos a todos.
- Enquanto se mantiveram indefesos, amavelmente nos ajudaram a nos armarmos,
auxiliando-nos especialmente na reconstrução da Armada, uma grande Armada. Falando com
sinceridade, agora com a doação do cruzador imperial tornou-se invencível.
- Alteza, está perdendo o seu tempo. - Hardin fez menção de se levantar. - Se quiser
declarar guerra, e está amavelmente informando-me do fato, quer ter a gentileza de permitir
que eu entre em contato com o meu Governo, imediatamente.
- Sente-se, Hardin. Não estou declarando guerra, e você não vai entrar em contato com
o seu Governo, de qualquer forma. Quando a guerra for declarada - não declarada Hardin, mas
feita - a Fundação será informada disso a tempo, pelas explosões atômicas da Armada de
Anacreon, sob a chefia do meu próprio filho, a bordo da nave Almirante Wienis, outrora
cruzador da Armada Imperial.
- E quando irá tudo isso acontecer?
- Se está verdadeiramente interessado, as naves deixaram Anacreon há precisamente
cinqüenta minutos, às onze, e o primeiro tiro será disparado assim que avistem Terminus, o
que deve acontecer amanhã à tarde. Pode, portanto, considerar-se prisioneiro de guerra.
- É precisamente assim que me considero, Alteza, mas para falar a verdade, sinto-me
um pouco desiludido.
- É tudo quanto me tem a dizer?
- Julguei que no momento da coroação, à meia-noite, seria a hora lógica de pôr a
esquadra em movimento. Evidentemente que, se quer começar a guerra ainda como Regente,
está bem. Seria mais dramático, da outra maneira.
O Regente olhou-o fixamente.
- Pelo Espaço! De que é que o senhor está falando?
- Não compreende? - A voz de Hardin estava calma. - Eu tinha preparado minha
contra-ofensiva para a meia-noite.
Wienis ergueu-se da cadeira.
- Está blefando. Não há qualquer contra-ofensiva. Se conta com o apoio dos outros
reinos, o melhor é perder as esperanças. As Armadas deles todas juntas não bastam para
enfrentar a nossa.
- Já sei, e não tenciono disparar um único tiro. Simplesmente, há uma semana que dei
ordens para que Anacreon, hoje à meia-noite, ficasse sob interdição.
- Interdição?
- Se não compreende, deixe-me explicar-lhe em poucas palavras: quer dizer que, à
meia-noite, todos os sacerdotes em Anacreon estarão em greve, a não ser que eu ordene o
contrário. Mas não posso fazê-lo porque me encontro prisioneiro, não o faria mesmo que
pudesse! - Inclinou-se para o seu interlocutor, e continuou animadamente: - Não compreende,
alteza, que atacar a Fundação é o maior sacrilégio que se pode cometer?
Wienis procurava controlar-se.
- Não diga isso a mim, Hardin, conserve essas mentiras para as multidões.
- Meu caro Wienis, mas para quem é que julga que eu faço estas coisas? Há pelo
menos um quarto de hora que, em cada templo de Anacreon, há uma multidão ouvindo as
exortações dos sacerdotes sobre esse mesmo assunto. Não há um único indivíduo em todo o
planeta que, a esta hora, não saiba que o seu Governo se lançou num ataque vicioso e sem
qualquer provocação, contra o centro de sua religião. Faltam apenas quatro minutos para a
meia-noite, o melhor que tem a fazer é ir para o salão e observar o desenrolar dos
acontecimentos. Eu estarei seguro aqui, com cinco guardas à porta. - Recostou-se na cadeira,
serviu-se de mais um cálice de vinho de Locris, e ficou olhando para o teto, numa atitude de
grande indiferença.
Wienis atroou o ar com uma praga, e correu para fora do quarto.
O silêncio caíra sobre a nobreza no salão, enquanto abriam caminho até o trono.
Leopoldo estava sentado lá, braços apoiados, cabeça erguida, rosto imóvel. Os enormes
candeeiros tinham abrandado a sua luz, e as pequenas luzes multicolores das lâmpadas
atômicas, que ponteavam o teto, faziam com que a auréola, que cercava o rei, mais se
avolumasse, formando uma coroa de fogo sobre sua cabeça.
Wienis parou no alto das escadas. Ninguém o viu, todos os olhares estavam dirigidos
para o trono. Ficou onde se encontrava, cerrou os punhos e esperou, daquela vez, Hardin nada
ganharia com o seu blefe.
Naquele momento o trono moveu-se. Sem ruído subiu e pairou no ar. A três palmos do
chão ia avançando lentamente para a enorme janela. Ao som do sino que anunciava a meia-
noite parou defronte da janela e a auréola do rei morreu.
Durante um segundo o rei não se moveu, rosto contraído de surpresa, sem a sua luz,
um ser meramente humano, o trono vacilou e tombou no chão, com estrondo, enquanto todas as
luzes do palácio se apagaram.
Através da confusão que se seguiu ouviu-se a voz poderosa de Wienis, pedindo
archotes. De uma maneira ou outra a sala foi lentamente sendo iluminada com os gigantescos
archotes que serviram na procissão da Coroação.
Para o salão corriam os guardas com archotes verdes, vermelhos e azuis à luz dos
quais se viam rostos amedrontados.
- Não há mal nenhum - gritou Wienis. - Mantenham os seus lugares. A energia voltará
dentro de momentos. - Voltou-se para o Capitão da Guarda que o esperava em posição de
sentido. - Que está acontecendo, capitão?
- Alteza, o palácio está cercado pelo povo da cidade.
- Que querem.eles?
- Vem à frente um sacerdote que foi identificado como sendo o sumo-sacerdote Poly
Verisof. Pede a libertação imediata do prefeito Salvor Hardin e o cessar da guerra contra a
Fundação. - O relato foi feito numa voz incolor, mas os olhos demonstravam bem o seu receio.
- Se algum desses malditos tentar ultrapassar os portões, mate-o. Nada mais por
enquanto. Deixe-os gritar. Amanhã ajustaremos contas.
O salão estava mais uma vez iluminado. Wienis correu para o trono e pôs Leopoldo,
pálido e amedrontado, de pé.
- Venha comigo. Olhou uma vez mais para a janela. A cidade estava às escuras. Da rua
subiam os gritos confusos da multidão. Só do lado direito onde ficava o templo de Argolid
havia luz. Soltou uma praga e arrastou consigo o rei.
Wienis entrou nos seus aposentos como um furacão, seguido pelos cinco guardas.
Leopoldo seguiu-o de olhos amedrontados, incapaz de proferir palavra.
- Hardin - disse Wienis com voz rouca - você joga com forças superiores às suas.
O prefeito ignorou Wienis. À luz pálida da lâmpada atômica que ardia a seu lado
manteve-se sentado, um sorriso de ironia vincando-lhe o rosto.
- Bom dia, Majestade - disse a Leopoldo. - Quero cumprimentá-lo pela sua coroação.
- Hardin - gritou mais uma vez Wienis - ordene aos sacerdotes que voltem às suas
tarefas.
- Ordene você - Wienis - e veja para quem são superiores as forças. Neste momento
não há uma única máquina em movimento em Anacreon. Não brilha uma única luz, a não ser
nos Templos. Não há uma gota de água exceto nos Templos. Na parte fria do planeta não há
calor, exceto nos Templos. Nos hospitais não aceitam mais doentes e os geradores estão
fechados. As naves estão impossibilitadas de se mover. Se não estiver gostando da situação,
Wienis, ordene aos sacerdotes que voltem ao trabalho. Eu não o faço.
- Pelo Espaço, Hardin, é o que vou fazer. Se isto for o fim que seja. Veremos se os
seus sacerdotes são mais fortes do que o exército. Esta noite todos os templos do planeta
estarão sob guarda.
- Muito bem, mas como é que vão ser transmitidas as ordens? Todas as linhas de
comunicação no planeta estão interrompidas. O rádio não funciona, a televisão não funciona, e
o serviço de ultra-ondas também não. Para ser franco, o único comunicador que funciona em
todo o planeta - fora dos Templos, está claro - é o televisor deste quarto e mesmo esse só o
arranjei para a recepção.
Hardin continuou perante o emudecimento de Wienis:
- Pode mandar o seu exército forçar a entrada do Templo de Argolid a fim de se pôr
em contato com o resto do planeta, através do aparelho de ondas que lá existe. Mas se o fizer
esse seu contingente será massacrado e então quem protegerá o palácio e a sua vida, Wienis?
- Podemos resistir, demônio, pelo menos por hoje. Deixe que a multidão urre, e que a
energia morra, porém nós havemos de resistir. E quando chegarem as notícias de que a sua
Fundação foi tomada, essa sua preciosa turba descobrirá sobre que vácuo assenta a sua
religião para a seguir escorraçar os seus sacerdotes e atacá-los. Dou-lhe até amanhã à tarde,
Hardin que pode fazer parar a energia em todo o Anacreon, mas nada poderá fazer para
impedir a minha Armada. - A sua voz era agora de exultação. - Vão a caminho, Hardin, com o
grande cruzador que você mesmo mandou reparar - à cabeça.
Hardin replicou prontamente:
- Sim, o cruzador que eu mesmo mandei reparar, mas a meu modo. Diga-me, Wienis:
já ouviu falar numa cadeia de ultra-ondas? Vejo que não. Dentro de aproximadamente dois
minutos poderá ver qual o efeito.
O televisor vibrou, e ele emendou:
- Não, em dois segundos Sente-se Wienis, e ouça.

Theo Aporat era um dos mais categorizados sacerdotes de Anacreon. Era-lhe devida
sua nomeação como sacerdote-chefe da nave almirante Wienis. Contudo não era simplesmente
uma questão de honra ou de primazia. Ele conhecia bem a nave, pois trabalhara na sua
reparação sob as ordens dos homens santos da Fundação. Ele mesmo colaborara quando estes
sábios instalaram um aparelho tão sagrado que nunca fora colocado antes em qualquer outra
nave. Fora reservado para aquela unidade colossal - a cadeia de ultra-ondas. Não seria de
espantar que se sentisse mal quanto ao fim a que se destinava aquela nave. Jamais acreditara
no que lhe dissera Verisof - que a nave era um veículo do mal, que suas armas se voltariam
contra a Fundação, que se voltariam contra essa mesma Fundação onde ele fora educado na
juventude e da qual provinham todas as bênçãos.
Mas agora já não podia duvidar depois do que o almirante lhe dissera.
Como podia o rei, descendente de Deus, permitir um ato tão abominável? Seria o rei
culpado? Não seria antes uma ação daquele amaldiçoado Regente Wienis, sem conhecimento
do rei. E fora o filho do próprio Wienis, almirante da nave que lhe dissera há cinco minutos:
- Atente para as suas bênçãos e ao descanso das almas, sacerdote, que eu atento para a
minha nave.
Aporat teve um sorriso de maldade. Atenderia às bênçãos, mas também ás maldições,
e esse príncipe Lefkin, depressa cantaria uma outra ária. Naquele momento entrara na sala das
comunicações gerais. O seu acólito acompanhava-o, e os oficiais da guarda não lhes deram
maior importância. O sacerdote-chefe tinha entrada franca em todas as partes da nave.
- Feche a porta - ordenou Aporat, olhando em seguida o seu cronômetro. - Faltavam
cinco minutos para as doze. Tudo fora bem planejado.
Com movimentos rápidos, ele moveu todas as pequenas alavancas que abriam as
comunicações de modo que, em toda a imensa nave, se vissem e ouvissem sua imagem e sua
voz.
- Soldados da nave real Wienis! Ouçam! É o sacerdote quem lhes fala! - Sua voz
vibrou de extremo a extremo da nave. - A nave destina-se a um sacrifício. Sem o saber estão
atuando de modo a condenar a alma de vocês à eterna frigidez do Espaço! Ouçam! É intenção
do almirante levar esta nave até à Fundação, e ali reduzir a pó a fonte de todas as bênçãos, de
modo a submetê-la à sua vontade pecaminosa. E desde que é essa a sua intenção, eu, em nome
do Espírito Galáctico, demito-o do seu comando, pois não há comando onde for retirada a
bênção do Espírito. Nem mesmo o divino rei poderá reinar sem o seu consentimento. - A sua
voz assumiu um som cavo, enquanto o acólito o escutava com veneração e os dois oficiais
com temor crescente. - E por esta nave se destinar a uma tarefa demoníaca, dela é também
retirada a bênção do Espírito.
Levantou os braços, e, perante os mil televisores de toda a nave, os soldados
acovardaram-se enquanto que a imagem do sacerdote prosseguia na sua exortação:
- Em nome do Espírito Galáctico e do seu profeta Hari Seldon, e dos seus intérpretes,
os santos homens da Fundação, amaldiçôo esta nave. Que os seus televisores fiquem sem
imagem. Que suas hélices, como os lemes, se paralisem. Que suas armas, como punhos,
percam sua função. Que os seus motores como um coração, cessem de bater. Que suas
comunicações, como a sua voz, emudeçam. Que os seus ventiladores, como sua respiração,
desapareçam. Que suas luzes, como a sua alma, se percam no nada. Em nome do Espírito
Galáctico assim amaldiçôo esta nave.
Com a sua última palavra, ao bater a última badalada da meia-noite, a mão de alguém,
à distância de milhares de anos-luz, no Templo de Argolid, abriu a cadeia de ultra-ondas que,
transmitida a velocidade instantânea, abriu outra, controlando assim toda a nave.
E a nave morreu!
Pois é característica principal da religião da ciência, todas as coisas proclamadas
poderem ser concretizadas, e maldições como as de Aporat poderem na realidade ser mortais.
Aporat viu a escuridão descer sobre a nave e o cessar imediato do distante ruído dos
motores superatômicos. Naquele momento exultou, e da algibeira de sua túnica retirou uma
lâmpada que inundou de luz toda a sala. Olhou os dois soldados que, embora fossem
corajosos, torciam-se de joelhos, no extremo de um terror mortal.
- Reverência, salve as nossas almas. Somos pobres homens ignorantes dos crimes dos
nossos chefes - gemeu um.
- Sigam-me - disse Aporat com severidade. - Ainda não perdeu sua alma.
A nave era um turbilhão de escuridão na qual o terror era quase palpável. Os soldados
seguiam onde quer que Aporat aparecesse seguido da sua luz, tentando tocar a sua túnica,
pedindo misericórdia.
A sua resposta era sempre a mesma:
- Sigam-me!
Encontrou o príncipe Lefkin tentando abrir caminho no meio da escuridão e clamando
por luzes. O almirante olhou o sacerdote com ódio.
- Eia! - Lefkin herdara os olhos azuis de sua mãe, mas todas as outras características o
denunciariam como filho de seu pai. - Qual é o significado de suas ações traidoras? Devolva a
energia à nave, aqui quem manda sou eu.
- Jamais!
Lefkin olhou à sua volta.
- Prendam esse homem ou, pelo Espaço, mandarei matar todos os homens que aqui se
encontram. - Fez uma pausa e depois gritou: - É o almirante que ordena. Prendam-no!
Depois perdendo completamente a cabeça:
- Deixam-se enganar por este palhaço? Sentem covardia perante uma religião
composta de nuvens e de raios de lua! Este homem é um impostor e esse Espírito Galáctico de
que fala é uma fraude da imaginação com o fim de …
Aporat interrompeu-o furiosamente.
- Prendam o blasfemador! Escutam-no com perigo das vossas almas.
E de supetão o nobre almirante caiu agarrado por dezenas de soldados.
- Tragam-no e sigam-me.
Aporat voltou-se, e com Lefkin arrastado, regressou à sala de comunicações. Ali
mandou pôr o ex-comandante perante o único televisor que trabalhava.
- Ordene ao resto da Armada que prepare o seu regresso a Anacreon.
E Lefkin desgrenhado, batido e sangrando, meio inconsciente assim fez.
- E agora - continuou Aporat com firmeza - que estamos em contato com Anacreon,
fale como eu lhe ordeno.
Lefkin fez um gesto negativo, e a multidão de soldados rosnou.
- Fale! Comece: a Armada de Anacreon…
Lefkin começou a falar.

Reinava um silêncio total nos aposentos de Wienis, quando a imagem do príncipe


Lefkin apareceu no televisor. Houve uma exclamação de espanto do Regente, ao ver o
uniforme esfarrapado do seu filho, deixando-se em seguida cair numa cadeira com o rosto
contraído de surpresa e apreensão.
Hardin escutou atentamente, mãos cruzadas sobre os joelhos, enquanto o Rei Leopoldo
se encolhia no canto mais escuro da sala, aterrorizado. Mesmo os guardas tinham perdido toda
a postura tradicional, e amontoavam-se junto à porta olhando furtivamente a imagem no
televisor.
Lefkin falava com voz cansada e relutante, fazendo freqüentes pausas como se
estivesse sendo obrigado.
- A Armada de Anacreon… consciente da natureza da sua missão… e recusando ser
parte… desse abominável sacrilégio… regressa a Anacreon… dando o seguinte ultimato… a
esses pecadores blasfemos… que se atreveriam a usar força profana… contra a Fundação…
fonte de todas as bênçãos… e contra o Espírito Galáctico. Cessem imediatamente toda a
guerra contra… a verdadeira fé … e garantam-nos de maneira a satisfazer a nossa Armada…
representada pelo nosso… sacerdote Theo Aporat… que tal guerra nunca será no futuro…
retomada, e que - houve aqui uma longa pausa para depois continuar - e que o ex-príncipe
Regente Wienis… seja aprisionado… e julgado perante um tribunal eclesiástico… pelos seus
crimes. Caso contrário, a Armada Real… ao regressar a Anacreon, reduzirá o palácio a pó…
e tomará quaisquer outras medidas… que lhe pareçam necessárias… para destruir esse ninho
de pecadores…
A voz terminou com um soluço, a imagem desapareceu da tela.
Os dedos de Hardin acariciaram a lâmpada atômica e a sua luz foi diminuindo até o
regente, rei e guardas não serem mais do que sombras, e pela primeira vez se viu a auréola
que cercava Hardin.
Era menos brilhante do que a feérica luz que envolvera o rei, e menos espetacular,
menos impressionante, mas mais útil e efetiva.
A voz de Hardin era ligeiramente sarcástica ao dirigir-se ao mesmo Wienis que uma
hora antes o tinha declarado prisioneiro de guerra, e a Terminus no ponto de destruição, e que
agora não passava de uma sombra, aniquilado e silencioso.
- Há uma antiga fábula - disse Hardin - talvez tão antiga quanto a humanidade, pois
que os mais antigos arquivos que a contêm são meras cópias de outras ainda mais antigas, que
talvez interesse:
- Um cavalo, tendo como inimigo um ferocíssimo lobo, vivia em temor permanente
pela sua vida. Tendo chegado ao desespero, ocorreu-lhe a idéia de procurar um aliado forte.
Assim aproximou-se de um homem e ofereceu-lhe aliança, frisando que o lobo também era
inimigo do homem. O homem aceitou a aliança e prometeu matar o lobo imediatamente, se o
seu novo aliado permitisse a utilização da sua maior rapidez. O cavalo aceitou e permitiu ao
homem que lhe colocasse um freio e uma sela. O homem então montou-o, caçou o lobo e
matou-o. O cavalo contente, agradeceu ao homem e disse: Agora que o nosso inimigo está
morto, tire-me este freio e sela, e devolva-me a liberdade. O homem riu e respondeu: - Não
me diga isso. Vá andando. E aplicou-lhe as esporas.
O silêncio continuava. A sombra que era Wienis não se moveu. Hardin continuou
então tranqüilamente.
- Espero que compreenda a analogia. Na sua ansiedade pela dominação total dos seus
povos, os reis dos Quatro Reinos aceitaram a religião da ciência que os tornava divinos, e
essa mesma religião da ciência era o seu freio e sela, pois deixava o sangue desse poder nas
mãos dos sacerdotes - que recebiam ordens nossas e não de vocês. Vocês mataram o lobo, mas
não conseguiram livrar-se do…
Wienis pôs-se de pé num salto, olhar enlouquecido, a voz incoerente.
- De você eu me livrarei. Não escapará. Não me importa que nos matem a todos, que
destruam tudo, mas você não escapará!
- Guardas! Matem aquele diabo! Matem-no! Matem-no!
Hardin deu uma volta na cadeira de maneira a poder encarar os guardas, e sorriu.
Houve um que lhe apontou a arma, para logo baixá-la. Os outros nem sequer se moveram.
Salvor Hardin, cercado por uma tênue auréola, sorrindo de modo tão confiante,
perante quem se desfizera todo o poderio de Anacreon, era demais para eles.
Com uma praga Wienis correu para o guarda mais próximo, arrancou-lhe a arma da
mão e, apontando-a para Hardin, acionou o gatilho.
O feixe de energia foi absorvido pelo campo magnético que envolvia Hardin, e
neutralizado. Wienis continuava a acionar o gatilho, rindo como um louco.
Hardin continuava sorridente, no seu canto, Leopoldo cobria os olhos e gemia. Por
fim, com um grito de desespero, Wienis apontou a arma contra ele próprio, e caiu fulminado
no chão.
O rosto de Hardin contraiu-se, e ele murmurou:
- Até o fim, um homem de ação direta. O último refúgio!

O Cofre estava cheio de gente, o número ultrapassava a sua capacidade.


Salvor Hardin comparou mentalmente esta assistência, com a anterior que esperara a
primeira aparição de Hari Seldon, havia trinta anos. Haviam sido apenas seis, os cinco velhos
Enciclopédicos e ele próprio. Fora naquele mesmo dia que ele e Yohan Lee tinham decidido
agir.
Agora tudo era diferente sob todos os aspectos. O Conselho da Cidade, em sua
totalidade, esperava a aparição de Seldon. Ele próprio continuava a ser o Prefeito, agora
todo-poderoso, e desde a queda de Anacreon, muito popular. Quando regressava de Anacreon,
com a notícia da morte de Wienis, e dos novos tratados assinados com o atemorizado
Leopoldo, fora recebido com um unânime voto de confiança. Quando isto foi seguido em
ordem sucessiva, por outros tratados semelhantes, assinados pelos outros três reinos - tratados
tais que davam à Fundação plenos poderes a fim de que o caso de Anacreon não fosse
repetido - formaram-se procissões em todas as ruas de Terminus. Nem o nome de Hari Seldon
fora jamais tão exaltado.
Tal popularidade ele sentira depois da primeira crise.
Do outro lado da sala, Sef Sermak e Lewis Bort discutiam animadamente, pois os
recentes acontecimentos pareciam ter esfriado o seu entusiasmo. Tinham aderido ao voto de
confiança, e feito discursos em público, proclamando o seu erro, desculpando-se de certas
frases pouco condizentes que tinham empregado em debates anteriores, argumentando que
tinham simplesmente seguido o que lhes ditara o seu juízo e a sua consciência - para logo em
seguida se lançarem numa nova campanha Acionista. Yohan Lee puxou pela manga de Hardin,
e apontou significativamente para o relógio.
Hardin levantou a cabeça.
- Olá, Lee. Ainda está contra mim? Que há desta vez?
- Dentro de cinco minutos estará na hora.
- Acho que sim. Da outra vez apareceu à tarde.
- E se ele não vier?
- Quando é que vai parar com essas suas dúvidas? Se não vier, acabou-se.
- Se isto falhar, estaremos metidos em mais outra encrenca. Sem o apoio de Seldon
para o que você acabou de fazer, Sermak ficará livre para poder recomeçar. Ele é partidário
da anexação dos Quatro Reinos, e expansão imediata da Fundação - pela força se necessário.
Já iniciou até a sua campanha.
- Um homem que coma fogo uma vez, deverá comê-lo sempre, mesmo que para isso o
tenha de acender. E você deve ter preocupações, mesmo que tenha de matar-se para as
arranjar.
Lee teria respondido se não fossem as luzes começarem, naquele momento, a se
apagar, levantou o braço para apontar o cubículo de vidro que dominava a sala, e deixou-se
cair numa cadeira com um suspiro.
O próprio Hardin endireitou-se, à vista da figura que enchia agora o cubículo - um
homem numa cadeira de rodas! Só ele, de todos os presentes, se recordava do dia, passado há
décadas, em que a mesma figura havia aparecido pela primeira vez, o homem da cadeira de
rodas, desde então, não tinha envelhecido, enquanto que ele…
O homem inclinou-se para a frente, mãos acariciando um livro sobre os joelhos.
- Sou Hari Seldon! - A voz era meiga.
Quase não se ouvia a respiração dos presentes, e Seldon continuou em tom de
conversa:
- Esta é a segunda vez que aqui me encontro. Claro que não sei se algum dos presentes
aqui estava da primeira vez. Na verdade não tenho poderes para dizer, por sentido de
percepção, se alguém se encontra nesta sala, mas isso não importa. Se a segunda crise foi
superada com êxito, devem estar aqui, não há qualquer outra possibilidade. Se não estiver
ninguém, quer dizer que a segunda crise foi muito pesada para as suas forças.
- Duvido, porque os meus cálculos indicam uma possibilidade de noventa e oito ponto
quatro por cento, de não haver qualquer desvio do Plano, nos primeiros oitenta anos.
- De acordo com os nossos cálculos, dominam agora os reinos bárbaros que
circundam a Fundação. Como da primeira crise, conseguiram-no através do uso do Equilíbrio
do Poder, da segunda, venceram pela aplicação do Poder Espiritual contra o Poder Temporal.
Contudo, não quero que se tornem muito confiantes. Não é meu sistema dar-lhes qualquer
conhecimento antecipado, através destas gravações, mas posso indicar-lhes com segurança
que, o que agora conseguiram, foi unicamente um novo equilíbrio - equilíbrio esse que
melhora consideravelmente a posição de vocês. O Poder Espiritual, conquanto seja suficiente
para se defender dos ataques do Temporal, não é suficiente para, por sua vez, atacar. Por
causa do crescimento de uma força oponente conhecida como Regionalismo ou Nacionalismo,
o Poder Espiritual não pode prevalecer. Estou certo de que nada disto seja novidade para
vocês.
- Devem perdoar-me por lhes falar de maneira imprecisa. Os termos que emprego são,
quando muito, meras aproximações, mas nenhum de vocês está habilitado a compreender a
verdadeira simbologia da psicohistória, e assim devo me esforçar. Neste caso, a Fundação
está no início do caminho que levará a fundação de um novo Império. Os reinos circunvizinhos
são ainda muito fortes em comparação com vocês. Fora deles há ainda uma vasta selva de
barbarismo, que se estende por toda a Galáxia. Dentro desses limites, ainda existe o que resta
do Império Galáctico - que apesar de decadente e debilitado, é ainda muito poderoso.
Nesta altura, Hari Seldon levantou o livro e abriu-o. O seu rosto tornou-se solene.
- E nunca se esqueçam de que há oitenta anos foi estabelecida uma outra Fundação, do
outro lado da Galáxia, na Ponte das Estrelas. Estarão sempre lá para serem avaliados.
Cavalheiros, estendem-se à sua frente novecentos e vinte anos do Plano. O problema é de
vocês. Resolvam-no!
Os olhos baixaram-se para o livro e a sua imagem desapareceu, enquanto que as luzes
voltavam. Na confusão de vozes que irrompeu, Lee inclinou-se para Hardin e segredou:
- Ele não disse quando voltaria.
Hardin retorquiu:
- Bem sei, mas confio que não volte, antes que você e eu estejamos confortavelmente
mortos!
PARTE IV – OS COMERCIANTES

COMERCIANTES — … na vanguarda da propagação política da Fundação estavam os


Comerciantes, alcançando com os seus tentáculos as mais remotas distâncias da Periferia.
Meses, e mesmo anos, passavam-se entre as suas idas e vindas a Terminus, muitas das vezes
suas naves não passavam de improvisados barcos quase primitivos, sua honestidade não
era exemplar, a sua audácia…
Através de tudo, forjaram um Império mais duradouro do que o pseudo religiosismo
despótico dos Quatro Reinos…
Histórias sem conta de suas figuras solitárias, adotivas, meio sisudas meio brincalhonas,
de um conceito extraído de um dos epigramas de Salvor Hardin (Nunca permitam que o
sentido de moralidade impeça de fazer o que é justo!), são passadas de geração em
geração. E difícil estabelecer quais das histórias são verídicas e quais são lendas.
Provavelmente não há nenhuma que não tenha sofrido deturpação…
Enciclopédia Galáctica

Limmar Ponyets estava ensaboado quando a chamada chegou ao seu receptor - uma
situação um tanto ou quanto ridícula, mesmo no espaço da Periferia Galáctica.
Por sorte, a parte de uma nave mercante privativa, que não é destinada à arrumação de
mercadorias, é extremamente pequena, tanto que o chuveiro se encontrava a poucos
centímetros do painel de “controle”. Ponyets ouviu claramente o ruído do receptor.
A escorrer sabão e pragas, correu até o aparelho para ajustar o fone, de modo que três
horas mais tarde uma outra nave parava ao lado da sua, e um jovem sorridente atravessava o
espaço entre as duas, através do tubo de ar, estendido entre as naves.
Ponyets puxou sua melhor cadeira, enquanto ele próprio se sentava no banco de
comando.
- Que andou fazendo, Gorm? Você vem me perseguindo desde a Fundação?
Les Gorm puxou um cigarro e abanou a cabeça com ar decidido.
- Eu? Nem por sombras. Fui o tolo que caiu na asneira de aterrar em Glyptal IV, no dia
seguinte ao da chegada do correio, de modo que me mandaram correr atrás de você, com isto.
A pequena esfera brilhante mudou de mãos, e Gorm ajuntou:
- É confidencial. Supersecreto. Não pode ser confiado aos transmissores e tudo o
mais. É o que depreendo. Pelo menos é um estojo pessoal, e ninguém além de você poderá
abri-lo.
Ponyets olhou o estojo com desgosto.
- Isso vejo eu. Até hoje ainda não ouvi falar de um único destes que trouxesse boas
notícias.
O estojo abriu-se na sua mão, e dele saiu uma fita transparente que se desenrolou. Os
olhos correram pela mensagem, pois quando a última parte da fita se desenrolava, já a
primeira amarelecia e encarquilhava. Em minuto e meio tornara-se negra, e começava já a
desintegrar-se, molécula por molécula.
Ponyets exclamou:
- Oh, Galáxia!
Les Gorm interpelou-o sossegadamente:
- Posso ajudar ou é muito secreto?
- Posso dizer-lhe desde que pertence à Agremiação. Devo ir a Askone.
- Por quê?
- Aprisionaram um comerciante. Guarde segredo.
A expressão de Gorm alterou-se.
- Preso. Mas isso é contra a Convenção.
- Também a interferência na política local o é.
- Então foi isso que ele fez? - Gorm meditou. - Quem é ele? Alguém que eu conheça?
- Não! - Pelo tom de voz de Ponyets, Gorm perceber que não devia fazer mais
perguntas.
Ponyets levantou-se, e olhou pensativo para fora da vigia, murmurou coisas vagas e
fortes contra a parte da Galáxia que podia dali ser avistada, e por fim disse em voz alta:
- Mas que grande enrascada! Ainda por cima minha quota está em atraso.
Fez-se luz no intelecto de Gorm.
- Hei, amigo! Askone é área interditada.
- É verdade. Não se pode vender nem um canivete em Askone. Não compram
aparelhagem atômica de qualquer espécie. Atrasado como estou, não sei o que acontecerá se
tiver de ir lá.
- Não há alguma maneira de poder livrar-se?
Ponyets abanou a cabeça.
- Conheço o indivíduo em questão. Não se pode abandonar um amigo. Nada a fazer.
Estou nas mãos do Espírito Galáctico, e sigo com alegria o caminho que ele me indica.
Gorm fez uma careta. O outro olhou-o e riu.
- Esqueci. Nunca leu o “Livro do Espírito”, não é?
- Nem sequer ouvi falar nele.
- Teria sim, se tivesse tido preparação religiosa.
- Preparação religiosa? Para o sacerdócio. - Gorm estava profundamente chocado.
- Receio que sim. E o meu segredo vergonhoso e secreto. Acho, no entanto que
constitui um problema sério demais para os Reverendos. Expulsaram-se, por razões
suficientes para que a Fundação se encarregasse de me dar uma educação mais vulgar. Olhe lá,
o melhor é eu ir embora. Como vai a sua quota deste ano?
- Gorm apagou o cigarro e ajeitou o boné.
- A minha última carga já vai seguindo. Acho que tudo vai bem.
- Homem de sorte! - Minutos depois de Gorm ter saído, ainda ele estava entregue às
suas meditações.
Então Eskel Gorov estava em Askone - e na prisão!
Era mau! Na verdade era muito mais delicado do que parecia. Uma coisa era contar a
um jovem inexperiente uma versão diluída do negócio de modo a satisfazer-lhe a curiosidade:
outra coisa era encarar a verdade.
Limmar Ponyets era uma das poucas pessoas a saber que Eskel Gorov não era sequer
um comerciante, mas sim uma coisa muito diferente: um agente da Fundação!

Duas semanas passadas! Duas semanas perdidas.


Uma semana para chegar a Askone, em cujos extremos limites tinham aparecido
vigilantes naves de guerra vindas ao seu encontro em números cada vez maiores. Qualquer que
fosse o seu sistema de detecção, trabalhava - e bem.
Puseram-se ao seu lado, sem um sinal, mantendo a distância, colocando-o em direção
ao centro de Askone.
Ponyets poderia ter resolvido a situação caso tivesse desejado, pois aquelas naves
nem sequer eram verdadeiras naves de guerra, mas sim naves de cruzeiro do tempo do Império
e sem armas atômicas eram impotentes. Porém Eskel Gorov estava prisioneiro em suas mãos,
e Gorov não era de perder. Os askonianos deviam-no saber.
Depois mais outra semana - uma semana caminhando um caminho fatigante entre
nuvens de oficiais subalternos que formavam a barreira entre o Grão-mestre e o mundo. Cada
insignificante subsecretário tinha de ser aplacado, para que essa assinatura figurasse no papel
que lhe dava direito a ver o oficial imediatamente superior.
Pela primeira vez os seus papéis de comerciante eram inúteis.
Agora, por fim, o Grão-mestre encontrava-se do outro lado daquela porta dourada,
flanqueada por guardas - e duas semanas tinham-se passado.
Gorov continuava prisioneiro, e a carga de Ponyets apodrecia inútil, no porão da
nave.
O Grão-mestre era um homem baixo, um homem pequeno que começava a perder o
cabelo, e com um rosto cheio de rugas, cujo corpo parecia não poder suportar a enorme gola
de peles que trazia à volta do pescoço. A um sinal dele, a linha de homens armados abriu-se
para dar passagem a Ponyets, até à Cadeira de Estado.
- Não diga nada! - exclamou o Grão-mestre, e os lábios de Ponyets que se preparavam
para formular palavras, fecharam-se.
- Isso mesmo. Não tolero conversas inúteis. Não pode me ameaçar, e a adulação está
fora de ocasião. Nem há qualquer espaço para queixas. Já perdi a conta das vezes que os
avisamos, de que as suas máquinas diabólicas não têm lugar em Askone.
- Senhor, não há qualquer tentativa para inocentar o comerciante em questão. Não é
política dos comerciantes introduzirem-se onde não são chamados. Mas a Galáxia é grande, e
uma fronteira foi ultrapassada sem querer. Trata-se de um engano deplorável.
- Decerto deplorável! Mas será engano? O pessoal de Glyptal bombardeia-me com
pedidos de negociações desde que este homem foi feito prisioneiro. Por eles fui informado, e
por várias vezes, de sua chegada. Parece-me uma campanha de salvamento bem organizada.
Parece ter sido tudo bem antecipado - em demasia, para que haja enganos, deploráveis ou não.
Os olhos do askoniano estavam repletos de ironia. Continuou:
- E vocês, comerciantes, voando como borboletas de mundo para mundo, serão tão
loucos quanto os seus direitos, que pensam poder aterrar em Askone, no seu mundo maior, no
centro do seu sistema, e depois considerá-lo como um engano de demarcação de limites?
Vamos, vamos, decerto que não.
Ponyets sentiu-se desanimar, mas não o mostrou.
- Se foi feita alguma tentativa para negociar, foi contra os regulamentos mais estritos
da nossa Agremiação.
- Tão contrários que, talvez, o seu colega o pague com a vida.
O comerciante sentiu convulsões no estômago. Ali parecia não haver qualquer
irresolução.
- A morte, venerando senhor, é um fenômeno tão irrevogável, que para ele deve haver
qualquer opção.
Houve uma pausa antes de vir a resposta cautelosa.
- Já ouvi dizer que a Fundação era rica.
- Rica? Decerto! Mas a nossa riqueza encontra-se precisamente naquilo que recusam.
As nossas mercadorias atômicas valem…
- As suas mercadorias não têm valor, pois que lhes falta a bênção ancestral. São
objetos amaldiçoados, por estarem sob interdição ancestral. - As palavras eram firmes como
uma fórmula recitada.
As pálpebras do Grão-mestre semicerraram-se, e ele disse significativamente:
- Não têm mais nada de valor?
O comerciante não lhes apreendeu o significado.
- Não entendo! Que querem?
O askoniano abriu os braços.
- O senhor me pede que troque de lugar, e que lhe exponha os meus desejos. Acho que
não. O seu estimado colega tem de ser castigado da maneira prescrita pelo código de Askone:
a morte pelo gás. Somos um povo justo. O camponês mais pobre em caso semelhante não
sofreria menos. Eu próprio não sofreria castigo menor.
- Veneradíssimo, poderia me permitir falar com o prisioneiro?
- A lei de Askone não permite comunicação com um homem condenado.
Mentalmente, Ponyets tentou pela última vez.
- Veneradíssimo, posso pedir-lhe ao menos que tenha piedade da alma dele? Durante
todo o tempo em que sua vida esteve em perigo, esteve separado da consolação espiritual.
Mesmo agora, encara a perspectiva de não estar preparado para ser recebido no seio do
Espírito Onipotente.
O Grão-mestre olhou-o desconfiado.
- O senhor é um dos Curadores da Alma?
Ponyets deixou pender a cabeça com ar de humildade.
- Para isso fui preparado. Nas expansões vazias do Espaço os comerciantes têm
necessidade de homens como eu, que cuidem do outro lado desta vida de comércio e
perseguição de tantos prazeres mundanos.
- Todo o homem devia ter a alma preparada para ir ao encontro dos espíritos
ancestrais, no entanto nunca acreditei que vocês, comerciantes, fossem crentes.

Eskel Gorov mexeu-se na cama, quando Limmar Ponyets entrou pela porta fortemente
reforçada. Quando aquela se fechou barulhentamente, Gorov acordou sobressaltado.
- Ponyets! Mandaram você!
- Pura coincidência, ou então trabalho do meu malévolo demônio pessoal. Primeiro:
arruma encrenca em Askone, segundo: meu roteiro de vendas leva-me à distância de 150
parsecs do sistema onde se dão os acontecimentos englobados pela primeira parte, terceiro: já
trabalhamos em conjunto e a Administração sabe muito bem. Veja bem se não é tudo certo e
bom. A resposta é mais que simples.
- Cuidado! Deve haver alguém à escuta. Você tem por acaso um distorcionador?
Ponyets apontou para o bracelete que lhe ornamentava o pulso, e Gorov descontraiu-
se. Ponyets olhou ao redor. A cela estava nua e era ampla, bem iluminada e não havia nenhum
mau cheiro. Nada mal. Tratam-no como a um príncipe.
- Como conseguiu chegar até aqui? Estou nesta prisão solitária há quase duas semanas.
- Desde que cheguei. Parece-me que aquele passarão que manda aqui tem os seus
pontos fracos. Inclina-se para palavras meigas, de modo que usei um truque que deu resultado:
eis-me na qualidade de seu conselheiro espiritual. Bem depressa mandaria degolá-lo, sem que
isso o preocupasse, porém o destino desconhecido dessa sua problemática alma, preocupa-o.
É um pouco de psicologia empírica. Um comerciante deve saber um pouco de tudo.
Gorov sorria com ironia.
- A verdade é que você freqüentou um seminário maior. Está bem, Ponyets, estou
contente por terem me enviado você. Porém o Grão-mestre não está unicamente interessado na
minha alma. Ele falou-lhe de resgate?
- Deu uma leve sugestão. Também ameaçou com a morte pelo gás. Joguei na certeza e
evitei alguma armadilha. Trata-se então de uma extorsão? Que deseja ele?
- Ouro.
- Ouro? O próprio metal? Para que o quer ele?
- É o seu negócio.
- Onde é que conseguirei ouro?
- Onde puder. Ouça-me que isto é importante. Nada me acontecerá, enquanto sua
senhoria tiver cheiro de ouro no nariz. Prometa-lhe todo o ouro que ele quiser. Depois volte à
Fundação, se for necessário, para arranjá-lo. Quando eu estiver livre, seremos escoltados até
fora do sistema, e então nos separaremos.
- Para depois voltar e tentar novamente.
- A minha missão é vender aparelhos atômicos em Askone.
- Mas eles o apanham outra vez antes de ter tempo de fazer o que quer que seja. Já
sabe disso.
- Não sei de nada, mesmo que o saiba, não importa.
- Na segunda vez vão matá-lo.
Gorov encolheu os ombros.
- Se devo negociar com o Grão-mestre, quero conhecer toda a história. Até agora
andei ás cegas, de modo que as poucas coisas que disse iam deixando sua veneradíssima
pessoa fora de si.
- É muito simples. A única maneira que temos de aumentar a segurança da Fundação
aqui na Periferia, é formar um império comercial controlado pela religião. Somos ainda muito
fracos para forçar um controle político. É tudo o que podemos fazer para segurar os Quatro
Reinos.
- Até aqui compreendo. E qualquer sistema que não aceite aparelhos atômicos não
pode ser colocado sob “controle” religioso.
- E pode tornar-se um foco de independência e hostilidade.
- Basta de teorias. O que é que impede a venda? Religião? O Grão-mestre deu-o a
entender.
- É uma forma de adoração ancestral. A sua tradição fala de um passado mau do qual
foram salvos por heróis anônimos e virtuosos. Compara-se ao período anárquico de há um
século, quando as tropas imperiais foram expulsas, e foi estabelecido um governo
independente. Todo progresso é identificado com o regime imperial do qual se lembram com
horror.
- Mas têm umas lindas naves que me identificaram a distância. Cheira-me ali energia
atômica.
- Essas naves devem ser restos do Império. Provavelmente com motores atômicos. O
que têm, guardam. O caso é que não querem renovar e que sua economia interna é não-
atômica. É isso que devemos modificar.
- Como é que o faremos?
- Quebrando a resistência em determinado ponto. Falando com sinceridade, se
conseguirmos vender um canivete com campo magnético a um nobre, seria de seu interesse
forçar leis que o autorizassem a usá-lo. Parece estúpido, contudo é psicologia pura. Realizar
vendas estratégicas em pontos estratégicos seria criar uma facção pró-atômica na corte.
- E mandaram-no para esse fim, enquanto que eu estou aqui simplesmente para
resgatá-lo e partir, ficando você, entretanto tentando. Não acha que está ao contrário?
- De que maneira?
- Ouça - disse Ponyets repentinamente exasperado. - Você é um diplomata, não um
negociante, e denominá-lo comerciante não faz com que o seja. Trata-se de um assunto para
alguém que faça das vendas a sua vida, e eu aqui, com uma carga inteira apodrecendo, e com
uma quota que, neste ritmo, nunca chegarei a preencher.
- Quer dizer que vai arriscar a sua vida numa coisa que não lhe diz respeito?
- Quer dizer com essa que se trata de uma questão de patriotismo, e que os
comerciantes não são patrióticos.
- São até, notoriamente, contrários a essas coisas. Os pioneiros nunca o são.
- Está bem, de acordo. Não ando pelo espaço para salvar a Fundação ou qualquer
coisa semelhante. Procuro ganhar dinheiro, e esta é uma boa oportunidade. Se posso ajudar a
Fundação ao mesmo tempo, tanto melhor. E já arrisquei a minha vida por muito menos.
Ponyets levantou-se e Gorov fez o mesmo.
- Que vai fazer?
O comerciante riu.
- Gorov, por enquanto ainda não sei. Mas se o ponto crucial do assunto é efetuar uma
venda, sou o homem ideal. Geralmente não sou de muita conversa, mas há uma coisa de que
me orgulho: até hoje ainda não deixei de preencher a quota.
A porta abriu-se quase instantaneamente, após ele ter batido, e dois guardas puseram-
se a seu lado.

- Um espetáculo! - disse o Grão-mestre com frieza. Acomodou-se em suas vestes de


pele e a sua mão fina segurou o bastão de ferro que lhe servia de bengala.
- É ouro, reverendo.
- É ouro - concordou o Grão-mestre com ar descuidado.
Ponyets pôs a caixa no chão, e abriu-a com toda a aparência de confiança de que
dispôs na ocasião. Sentiu-se só perante a hostilidade universal, do mesmo modo que se sentira
no espaço, no primeiro ano. O semicírculo de conselheiros barbudos que o observavam,
impressionaram-no desagradavelmente. Entre eles estava Pherl, o favorito que se sentava ao
lado do Grão-mestre, e que olhava o comerciante com visível hostilidade. Ponyets tinha-lhe
sido apresentado, e tendo percebido nele um inimigo, desde logo o marcou como sua primeira
vítima.
Fora do salão, uma pequena multidão aguardava os acontecimentos. Ponyets estava
isolado de sua nave, sem armas, preparado para subornar, Gorov continuava como refém. Fez
os ajustes finais naquela monstruosidade que lhe tinha custado uma semana de sacrifícios e
rezou de novo para que a sonda de chumbo-quartzo agüentasse.
- O que é? - perguntou o Grão-mestre.
- Isto é um pequeno aparelho que eu próprio construí.
- Isso é evidente, mas não é a informação que eu quero. É alguma das abominações da
magia negra do seu mundo?
- É de natureza atômica - admitiu Ponyets com gravidade - mas não é necessário que
qualquer um lhe toque, ou tenha algo a ver com ele. E só para mim, e se contiver coisas
abomináveis, serei eu o contaminado.
O Grão-mestre tinha levantado a bengala de ferro para a máquina numa atitude
ameaçadora, enquanto os seus lábios se moviam numa invocação de purificação. O
conselheiro de rosto magro, que se sentava a seu lado, inclinou a cabeça e segredou-lhe ao
ouvido.
- E qual é a ligação entre esse seu aparelho demoníaco e o ouro que salvará a vida do
seu conterrâneo?
- Com esta máquina posso transformar o ferro que deitam fora em ouro de melhor
qualidade. É o único mecanismo inventado pelo homem que pode fazer do ferro, o ferro feio,
veneradíssimo, de que é feita a cadeira onde você se senta e as paredes deste edifício, ouro
maciço, brilhante e pesado.
- Transmutação? Houve loucos que se dizem capazes dessa habilidade, todos pagaram
pelo sacrilégio.
- Conseguiram-no alguma vez?
- Não. - O Grão-mestre parecia divertir-se. - Êxito em produzir ouro tem sido um
crime que traz o seu próprio veneno. É a tentativa mais o falhar, que são fatais. Tome! Veja o
que pode fazer com a minha bengala.
- O meu modelo é pequeno e a sua bengala muito comprida.
- Randel, as suas fivelas. Depressa homem, pagarei em dobro se for preciso.
As fivelas passaram de mão em mão, até chegarem ao Grão-mestre, que lhes tomou o
peso e depois as atirou para o chão.
Ponyets apanhou-as e perante o cilindro colocou-a de maneira que não pudesse falhar,
era absolutamente necessário ser bem sucedido.
O transmutador cacarejou durante uns dez minutos enquanto o cheiro de ozone
penetrava a atmosfera. Os cortesãos recuavam, murmurando e novamente Pherl falou ao
ouvido do Grão-mestre, sem que este se movesse.
E as fivelas transformaram-se em ouro.
Ponyets apresentou-as ao Grão-mestre com um murmúrio de delicadeza. O velho
hesitou e, por fim, fez um gesto de repulsa. O seu olhar fixou-se sobre o transmutador. Ponyets
disse rapidamente:
- Cavalheiros, isto é ouro. Ouro por dentro e por fora. Podem sujeitá-lo a todas as
provas físicas e químicas que conhecerem, se quiserem comprovar alguma coisa. Não pode
ser diferenciado do ouro natural. Qualquer ferro pode ser transmudado desta maneira. Não
haverá interferência de ferrugem, nem uma quantidade moderada de ligas metálicas.
No entanto, foi o ouro que brilhava na palma de sua mão, que argumentou por ele.
Quando o Grão-mestre estendeu por fim a mão, Pherl interveio.
- Reverendo, o ouro é de uma fonte pecaminosa.
- Da lama pode nascer uma rosa - disse Ponyets, rapidamente. - No comércio com os
seus vizinhos, há muitos materiais que devem ser comprados, materiais de toda espécie, e
tenho certeza de que não vão inquirir se a fonte desse material é ou não ortodoxa. Não vou
oferecer-lhes a máquina, mas sim o ouro.
- Reverendo, não aceite o ouro feito de ferro aqui na sua presença, isto é uma afronta
aos seus antepassados.
- Contudo, ouro é ouro, Pherl, você é muito rígido. - No entanto recolheu a mão
estendida.
- Reverendo, você é a sabedoria personificada. Considere, desistir de um pagão não é
perder nada perante os antepassados, enquanto que com o ouro que você receber em troca,
poderá decorar o lugar onde descansam os seus espíritos. E mesmo que o ouro fosse o mal em
si, tal mal desapareceria uma vez que o metal fosse usado para um fim piedoso.
- Pelos ossos do meu avô - foi a resposta veemente do velho. - Pherl, que me diz você
deste jovem. A sua afirmação é válida. É tão válida como as palavras dos meus antepassados.
- Assim pareceria - respondeu Pherl - que a sua validade não seja uma traição do
Espírito do Mal.
- Ainda faço melhor - continuou Ponyets. - Que o ouro seja guardado como refém.
Coloquem-no sobre o altar dos seus antepassados e prendam-me durante trinta dias. Se ao fim
desse tempo não houver sinal de ira, se não se der algum desastre, decerto seria prova de que
a oferta foi aceita. Que mais posso oferecer-lhes?
E quando o Grão-mestre se ergueu procurando a desaprovação, não houve um único
homem que não estivesse de acordo. Até o próprio Pherl concordou.
Ponyets sorriu enquanto meditava quanto à utilidade de uma educação religiosa.

Outra semana se passou antes que se conseguisse um encontro com Pherl. Ponyets
sentiu a tensão, mas não se preocupou, já estava habituado. Saíra dos limites da cidade sob
guarda. Encontrava-se agora sob guarda na vila de Pherl. Não havia nada a fazer senão aceitar
as coisas tal como sucediam.
Pherl, fora do círculo dos Conselheiros parecia mais alto e mais jovem. Nem parecia
o mesmo sem os trajes de cerimônia.
- Você é um homem estranho, não fez nada nesta última semana e em especial nestas
últimas duas horas, além de insinuar que eu necessito de ouro. Parece-me estranho trabalho, o
seu, pois quem não precisa de ouro? Por que não dá mais um passo?
- Não é o ouro simplesmente. Não, ouro só de nada vale. É tudo o que está por trás.
- O que poderá estar por trás do ouro? Não me diga que me vai fazer outra estúpida
demonstração?
- Estúpida? - disse Ponyets com desagrado.
- Definitivamente. Mas a estupidez, estou certo, foi propositada. Poderia ter avisado o
Venerável, se tivesse tido certeza dos motivos. Se eu fosse você teria feito o ouro a bordo de
minha nave, e o ofereceria depois. O espetáculo que nos deu, e o antagonismo que daí
resultou, poderiam bem ter sido dispensados.
- É verdade - admitiu Ponyets - mas desde que fui eu, arrisquei o antagonismo para
poder chamar sua atenção.
- Só por isso? - Pherl não fez qualquer esforço para esconder o seu desprezo. - Dá
para desconfiar que a proposta dos trinta dias de prova foi na esperança de modificar essa
atenção para algo de mais substancial. Porém se o ouro provar ser impuro?
- Quando o juízo dessa pureza ou impureza depende daqueles que estão diretamente
interessados…
Pherl parecia ao mesmo tempo surpreso e satisfeito com a resposta do outro.
- Um ponto sensato. Diga-me, agora, por que esse desejo de chamar a minha atenção?
- Assim farei. No curto espaço de tempo que tenho aqui estado, observei alguns fatos
úteis, que lhe dizem respeito, mas que me interessam. Por exemplo, você é jovem, muito
jovem para membro do Conselho, e mesmo de uma família relativamente nova.
- Critica a minha família?
- De maneira alguma. Os seus antepassados são grandes e santos, todos o admitirão.
Mas haverá quem diga que não é um membro de uma das Cinco Tribos.
Pherl recostou-se.
- Com todo o respeito aos que estão envolvidos - e não procurou sequer esconder seu
veneno - as Cinco Tribos, como dizem, esgotaram suas forças e afinaram o sangue. Nem
cinqüenta membros das Tribos estão vivos. Ademais, há aqueles que não desejam ver ninguém
fora das Tribos como Grão-mestre. E um favorito tão jovem está bem apto a criar inimizades
entre os grandes do Estado, segundo se diz. A idade do Grão-mestre vai aumentando, e a sua
proteção não ultrapassará sua morte, quando será um inimigo que interprete as palavras do seu
Espírito.
- Ouve demais para um estrangeiro. Tais orelhas deveriam ser cortadas.
- Pode decidir isso mais tarde.
- Deixe-me antecipar. Vai-me oferecer poder e riqueza, por meio dessas malditas
máquinas que traz a bordo de sua nave?
- Suponha que sim. Qual seria a sua objeção? Apenas pessoal quanto ao bem e mal?
Pherl abanou a cabeça:
- Ouça, meu caro Estrangeiro, não é nada disso. Sua opinião sobre nós nesse seu
agnosticismo pagão é o que é, contudo não sou totalmente escravo da nossa mitologia, apesar
de assim parecer. Sou um homem educado e culto. Toda a profundidade dos nossos costumes
religiosos, mais no sentido ritual que ético, foi elaborada para as massas.
- Qual é então a sua objeção?
- Precisamente isso: as massas. Talvez eu estivesse interessado em negociar com
você, porém suas pequenas máquinas, para serem úteis, devem ser usadas. Como poderia eu
adquirir riquezas, digamos, se eu tivesse de usar um barbeador elétrico no maior dos
segredos? Mesmo que o meu queixo estivesse mais limpo, como é que eu seria rico? E como é
que eu evitaria a câmara de gás, ou uma revolta, se fosse apanhado usando tal coisa?
- Claro que tem razão. A única solução seria educando seu povo no uso de materiais
atômicos, para conveniência deles, e para seu lucro substancial. Seria um trabalho de titãs,
não o nego, porém o pagamento seria ainda mais titânico. Porém neste momento, a
preocupação é sua e não minha, pois eu não ofereço, nem lâmina nem faca, nem triturador
mecânico de lixo.
- O que é que oferece?
- Ouro puro. Pode ficar com a máquina que eu demonstrei na semana passada.
- O transmutador? - Pherl levantou-se e o seu rosto contraiu-se.
- Exatamente. O fornecimento de ouro será igual ao fornecimento de ferro. Imagino
que isso basta para suprir todas as dificuldades. Basta mesmo para o lugar mais alto do
planeta, a despeito da pouca idade e dos inimigos. E é seguro.
- Como?
- O segredo é a única essência do seu uso, o mesmo segredo do qual falou em relação
aos produtos atômicos. Pode enterrar o transmutador na cela mais profunda da maior fortaleza,
ou na sua propriedade mais longínqua, e mesmo assim lhe trará fortuna instantânea. É o ouro
que compra e não a máquina, e o ouro não traz a marca de fabricação, pois não pode ser
distinguido da criação natural.
- E quem operará a máquina?
- Você mesmo. Não precisa mais do que cinco minutos de treino. Posso montá-la
quando quiser.
- E em troca?
- Bem - Ponyets tornou-se cuidadoso - o preço é elevado, porém esta é a minha vida.
Digamos, por essa valiosa máquina, o equivalente a 30 centímetros cúbicos de ouro, em ferro
fundido. Afianço-lhe - disse Ponyets corando — que pode reaver o preço, em menos de duas
horas.
- Verdade, e dentro de uma hora, depois de se ter ido embora, a minha máquina
poderia estar reduzida a pó. Preciso de uma garantia.
- Tem a minha palavra.
- Boa garantia. Mas a sua presença seria ainda melhor. Prometo pagar-lhe uma semana
depois da entrega em condições.
- Impossível.
- Impossível? Quando já incorreu na pena de morte, só pelo fato de me ter oferecido
algo para compra? A única alternativa é a minha palavra de que amanhã, à noite, caso não
aceite, estará na câmara de gás.
A face do comerciante mantinha-se impassível.
- Leva-me vantagem, e não é justo. Pelo menos poderá dar a sua palavra por escrito?
- E tornar-me também um cúmplice? Não senhor! - Pherl sorria satisfeito. - Não
senhor! Só um de nós é que é tolo.
Por fim o comerciante disse com voz apagada:
- Estamos de acordo, então.

Gorov foi solto ao trigésimo dia, e 250 quilos do mais puro ouro tomaram o seu lugar.
Com ele, foi retirada a interdição que pairava sobre a sua nave. Na jornada que os fazia sair
do sistema de Askone, tal como quando haviam entrado, as naves daquele planeta escoltaram-
nos.
Ponyets observou o ponto que, à distância, era a nave de Gorov, enquanto a voz do
amigo rompia o silêncio, pelo amplificador etérico. Dizia ele:
- Mas não era isso o que se pretendia, Ponyets. Um transmutador não serve. A
propósito, onde é que o arranjou?
- Eu o construí. Na realidade não serve para nada. O consumo é proibitivo em escala
maior, caso contrário, a Fundação não teria de percorrer toda a Galáxia à procura de metais
pesados. Foi um truque, de qualquer modo, até eu fiquei impressionado.
- Mas esse truque não valeu de nada.
- Tirou-o de enrascadas.
- Isso pouco importa. Terei de voltar, assim que nos virmos livres da escolta.
- Por quê?
- Você mesmo o explicou a esse político seu amigo. O transmutador foi um meio para
atingir um fim, mas sem qualquer valor em si, que ele comprava o ouro e não a máquina. Foi
boa psicologia, mas…
- Mas o que?
- Mas o que nós pretendemos é vender-lhes uma máquina que tenha valor em si, algo
que eles queiram usar abertamente, algo que os faça pender para as técnicas atômicas como
uma vantagem.
- Percebo tudo isso muito bem. Já me explicou uma vez antes. Mas repare só no que
advém da minha venda. Enquanto o transmutador durar, Pherl cunhará ouro, ouro suficiente
para comprar as próximas eleições. O atual Grão-mestre não deve viver muito tempo.
- Está contando com a gratidão?
- Não! Conto mas é com um interesse inteligente. Um transmutador consegue uma
eleição para ele, outros mecanismos…
- Não! Não! A sua premissa é falsa. Não é ao transmutador que ele vai dar crédito,
mas sim ao ouro. É isso que eu estou tentando dizer-lhe.
Ponyets sorriu, e ajeitou-se confortavelmente, pensando que já pusera o outro à prova,
por tempo suficiente.
- Tão depressa não, Gorov. Ainda não terminei. Existem outras máquinas, também,
envolvidas no assunto.
Houve uma pausa e depois Gorov perguntava cauteloso:
- Que outras máquinas?
- Vê aquela escolta?
- Vejo. Agora me explique que outras máquinas são.
- Se me deixar. Aquela é a armada particular de Pherl. O velho fez-lhe a honra de a
conceder. Para onde pensa que nos levam? Às suas minas no exterior de Askone. Ouça! Já lhe
dissera que estava nisto para ganhar dinheiro e não para salvar mundos. Vendi aquele
transmutador por nada. Nada, exceto o risco da câmara de gás, mas isso não preenche uma
quota. Voltemos ao assunto das minas. As minas vêm com os lucros. Vamos encher-nos de
zinco, Gorov. Zinco até lotar esta nave e a sua. Vou descer com Pherl para receber enquanto
você fica por aqui e me cobre com todas as armas que tiver, no caso de Pherl não ser digno de
crédito. Esse zinco é o meu lucro.
- Pelo transmutador?
- Por todo o carregamento de produtos atômicos. Preço dobrados como bônus. Admito
que o roubei, porém devo me defender.
- Importa-se de explicar?
- É tudo tão evidente, Gorov. Aquele idiota pensava que ia me enganar, porque a sua
palavra vale mais do que a minha para o Grão-mestre. Levou o transmutador e incorreu na
pena capital. Em qualquer situação podia me acusar e desculpar-se.
- Isso é evidente.
- Pois é, mas Pherl nunca ouvira falar de um microfilmador.
Gorov de repente começou a rir.
- Pois é. Ele ficou pensando que estava na mó de cima, e no dia seguinte eu levei o
microfilmador no meio da aparelhagem, de modo que o apanhei com a boca na botija,
operando o transmutador.
- E mostrou-lhe o resultado?
- Mostrei-lhe dois dias depois. A princípio não quis acreditar, mas quando eu lhe
disse que tinha tudo preparado para uma transmissão na praça principal da cidade, o pobre
idiota caiu de joelhos. E fez tudo quanto eu pedi.
- E tinha na verdade qualquer coisa preparada?
- Não tem qualquer importância. Fechou o negócio. Comprou tudo quanto eu tinha, e
tudo quanto você tinha, em troca de zinco. Naquele momento acho que eu era capaz de tudo.
Vou dar-lhe uma cópia do contrato antes de descer, como precaução.
- Mas, irá ele usar os produtos? Feriu-lhe o “ego”.
- Por que não? É a única maneira de cobrir as perdas, e se conseguir ganhar dinheiro,
salvará o seu orgulho. Será o próximo Grão-mestre, e o melhor homem que poderíamos ter a
nosso favor.
- Não haja dúvida de que foi uma ótima venda - disse Gorov - porém você tem uma
técnica de vendas muito pouco honesta. Não é de admirar que o tenham expulsado do
seminário. Não tem o mínimo sentido de moralidade?
- Já sabe o que Salvor Hardin disse a respeito da moral?
PARTE V – OS PRÍNCIPES MERCADORES

COMERCIANTES — … Com inevitabilidade psicohistórica, o “controle” econômico da


Fundação aumentou. Os comerciantes tornaram-se ricos, e com a riqueza veio o poder…
Esquece-se freqüentemente que Hober Mallow começou sua carreira como um comerciante
vulgar. Porém nunca se esquece que terminou a sua vida como o primeiro dos Príncipes
Mercadores…
Enciclopédia Galáctica

Jorane Sutt uniu as palmas das mãos e disse:


- Está tudo muito confuso. Para falar a verdade - e isto na maior das confidencias -
pode ser uma das crises Seldon.
O homem que o encarava procurou um cigarro nos bolsos do curto casaco Smymiano.
- Não creio muito nisso, Sutt. Como regra geral, todos os políticos começam a gritar
por uma crise, quando chega a época das decisões.
Sutt não pôde deixar de sorrir.
- Não estou procurando votos nesta altura, Mallow. Estamos frente a frente com armas
atômicas e não sabemos a sua proveniência.
Hober Mallow, de Smyrno, Mestre Comerciante, continuou indiferentemente fumando
o seu cigarro.
- Continue. Se tem mais alguma coisa a dizer, diga-o agora. - Mallow nunca cometia o
erro de ser delicado em demasia, em especial com um homem da Fundação.
Sutt apontou o mapa tridimensional que se achava sobre a mesa. Quando ajustou a
alavanca de controle, meia dúzia de sistema estelares foram assinalados em luz vermelha.
- Ali - indicou calmamente - é a República Koreliana.
O comerciante anuiu.
- Já estive lá. É um buraco pestilento. Embora tenha o nome de República, é sempre
um indivíduo da família Argo que é eleito Comodoro, cada vez que há eleições. E se houver
alguém que não goste, o melhor que tem a fazer é calar-se. - Torceu a boca e repetiu: - Já
estive lá.
- Mas o senhor voltou, o que nem sempre acontece com muitos. Três naves mercantes
invioláveis, sob as cláusulas da Convenção, desapareceram no território da República, no ano
passado. E todas essas naves estavam armadas com explosivos nucleares e convencionais e
defendidos por campos magnéticos.
- Quais foram as últimas notícias dessas naves?
- Relatórios rotineiros. Nada mais.
- E que diz Korell?
Sutt replicou com ar irônico:
- Não houve maneira de saber. A Fundação, através da Periferia, é temida pelo seu
poder. Pensa o senhor que íamos perder essas naves e depois pedir que nos fossem
restituídas?
- Bem, então diga-me o que deseja de mim?
Jorane Sutt não se deu ao luxo de se zangar. Como secretário do Prefeito, adquirira
muita paciência. Metodicamente respondeu: - Espere um momento. Como vê, três naves
perdidas no mesmo setor durante um ano, não pode ser acidental, e a energia atômica só pode
ser conquistada com energia atômica. O problema ressalta automaticamente: se Korell tem
armas atômicas, onde é que as adquire?
- E onde é?
- Há duas opções: ou os korelianos as fabricam…
- Impossível!
- Concordo! A outra, é que estamos sendo traídos.
- Acha que sim? - O tom de voz de Mallow era monótono.
O secretário disse calmamente:
- Não há nada de milagroso na possibilidade. Desde que os Quatro Reinos aceitaram a
Convenção da Fundação, tivemos de lidar com grandes grupos de população dissidente, em
cada uma dessas nações. Cada um desses reinos tem os seus pretendentes e os seus nobres que
não conseguem, por muito que se esforcem, gostar da Fundação. Talvez algum deles tenha
começado a agir.
Mallow ficara vermelho.
- Há algo de especial que me queira dizer a mim? Eu sou Smyrniano.
- Eu sei. O senhor nasceu em Smyrno, uma parte dos Quatro Reinos. O senhor só pode
ser considerado da Fundação única e exclusivamente pela educação. Por nascimento será
sempre um estrangeiro. Com toda a probabilidade o seu avô deveria ser barão no tempo das
guerras de Anacreon e Loris, e as propriedades de família foram anexadas, quando Sef
Sermak fez a redistribuição das terras.
- Não! Pelo Espaço Negro, não! O meu avô era um pobre trabalhador que morreu
trabalhando no carvão, com um salário miserável, antes da chegada da Fundação. Não devo
nada ao velho regime. Mas nasci em Smyrno e não devo me envergonhar disso. As suas
sugestões de traição à Fundação não vão fazer com que me comece a babar de medo. E agora,
ou dê-me ordens ou faça as suas acusações, mas decida-se.
- Meu caro Mestre, pessoalmente não me interessa que seu pai tenha sido rei de
Smyrno, ou o maior mendigo do planeta. Aceitei aquela rima para que o senhor visse que eu
não me interesso por essas coisas. O senhor é Smyrniano. Conhece os estrangeiros. É um
comerciante, e dos melhores. Já foi a Korell e conhece os korelianos. É lá que deverá ir.
Mallow respirou fundo.
- Como espião?
- Não. Como comerciante, mas com os olhos bem abertos. Se conseguir descobrir a
proveniência das armas… Devo lembrar-lhe que duas das naves perdidas tinham tripulações
smyrnianas.
- Quando deverei partir?
- Logo que a sua nave estiver pronta.
- Então, dentro de seis dias.
- Partirá então. No almirantado lhe serão fornecidos todos os detalhes.
- Muito bem. - O comerciante levantou-se, cumprimentou e saiu.
Sutt esperou que ele desaparecesse, e depois esfregou as mãos, como para lhes
restaurar a circulação, depois encolheu os ombros e entrou no gabinete do prefeito. O prefeito
fechou o visor e recostou-se na cadeira.
- Que tal o acha, Sutt?
- Pode ser que esteja fingindo - respondeu Sutt, e o seu olhar perdeu-se na distância.

Ao anoitecer do mesmo dia, no apartamento de Jorane Sutt, situado no vigésimo


primeiro andar do Edifício Hardin, Publis Manlio tomava vagarosamente o seu cálice de
vinho.
Era esse mesmo Publis Manlio que tinha a seu cargo duas das mais importantes tarefas
da Fundação. Era Ministro dos Negócios Externos do gabinete Municipal, e para todos outros
planetas, à exceção da Fundação, era também Primaz do Templo, Mestre do Alimento
Sagrado, Mestre dos Templos, etc, numa profusão de sílabas confusas, porém sonantes. Dizia
ele: - Mas o Prefeito concordou com o envio desse comerciante. É um ponto a considerar.
- É pouco. Não nos apresenta nada de imediato. Todo este assunto é o mais cru dos
estratagemas, desde que não possamos antecipar qual seja seu objetivo. É como que deitar
uma corda, tendo esperanças que na ponta da mesma haja um laço.
- Verdade. E esse Mallow é um indivíduo capaz. Que acontece, se não conseguimos
enganá-lo?
- É um risco que teremos de correr. Se houver traição, são os homens capazes que
estarão envolvidos. Se não, é necessário um homem capaz para que consiga descobrir a
verdade. Além disso, Mallow estará sob vigilância. Vamos, o seu cálice está vazio.
- Obrigado. Não quero mais.
Sutt encheu o cálice e respeitou o silêncio do outro. Qualquer que fosse o conteúdo
desse silêncio, ele foi repentinamente quebrado, numa explosão.
- Sutt, que é que você tem em mente?
- O seguinte, Manlio. Estamos em plena crise Seldon.
- Como o sabe? Seldon tornou a aparecer no Cofre?
- Não foi preciso tanto. Raciocine. Desde que o Império Galáctico abandonou a
Periferia, e nos deixou entregues a nós mesmos, nunca tivemos um oponente que possuísse
energia atômica. Pela primeira vez encontramos um, por si, isso já é bastante significativo,
mas ainda há mais. Pela primeira vez em setenta anos enfrentamos uma crise política. A
sincronização das duas crises, interna e externa, faz com que não haja qualquer dúvida.
Os olhos de Manlio semicerraram-se.
- Mesmo assim não basta. Até agora houve duas crises Seldon, e dessas duas vezes a
Fundação esteve em perigo de ser exterminada. Não pode haver terceira crise, sem que exista
esse perigo.
- O perigo está próximo. Qualquer idiota pode reconhecer uma crise quando ela
aparece, a verdadeira função do Estado é destruí-la ainda no embrião. O nosso caminho
histórico foi planejado antecipadamente. Sabemos que Hari Seldon estabeleceu as
probabilidades históricas desse futuro. Sabemos que algum dia havemos de reconstituir o que
foi o Império Galáctico. Sabemos que isso levará aproximadamente mil anos. Sabemos
também, que nesse espaço de tempo teremos de encarar certas crises definidas. A primeira
crise veio cinqüenta anos após o estabelecimento da Fundação, e a segunda trinta anos depois
da primeira. Após a última já se passaram quase setenta e cinco anos, já é tempo, Manlio.
Manlio esfregou o nariz, ainda não totalmente convencido.
- E o senhor já elaborou os seus planos para encarar essa crise? Sutt aquiesceu.
- E eu - acrescentou Manlio, - tenho uma parte nesses planos?
Sutt de novo lhe disse que sim.
- Antes de nos preocuparmos com uma ameaça externa, de natureza atômica, temos de
arrumar a nossa própria casa. Esses comerciantes…
- Ah! - o primaz abriu completamente os olhos, desta vez.
- Não há dúvida que esses comerciantes não são úteis, mas tornaram-se muito fortes,
incontroláveis. São estrangeiros, educados fora da religião. De um lado, damos-lhes
conhecimentos e por outro não controlamos as suas atividades.
- E se descobrirmos que há traição?
- Se o conseguíssemos, ação direta e suficiente, seria imediatamente tomada. Mas isso
não tem qualquer significado. Mesmo se a traição não existisse entre eles, formariam sempre
um elemento incerto na nossa sociedade, Não estariam ligados a nós por patriotismo ou
descendência comum, nem mesmo por respeito religioso. Debaixo de sua chefia, as províncias
exteriores, as quais desde o tempo de Hardin nos olham como o Planeta Sagrado, podiam
separar-se de nós.
- Vejo a doença, mas não a cura…
- A cura deve vir rapidamente, antes que esta nova crise seja declaradamente aguda.
Se tivermos de lutar contra armas atômicas, no exterior, e com a dissensão, no interior, as
forças, dividindo-se, seriam menores. — Sutt baixou o copo que tinha na mão. - Essa é a sua
tarefa.
- Minha?
- Eu, por mim, não posso fazê-lo. A minha posição não tem o apoio legislativo.
- Mas o prefeito…
- Impossível. A sua personalidade é inteiramente negativa. Só é enérgico quando se
trata de fugir de responsabilidades. Mas se formasse um novo partido que colocasse em
perigo a sua reeleição, talvez ele se deixasse levar.
- Mas Sutt, eu não sou um político profissional.
- Deixe isso a meu cargo. Quem sabe, Manlio? Desde o tempo de Hardin que o lugar
de Prefeito e Primaz não pertencem a uma só pessoa. Mas talvez isso aconteça agora… se a
sua tarefa for bem desempenhada.

Do outro lado da cidade, num subúrbio menos luxuoso, Hober Mallow mantinha a sua
segunda entrevista daquele dia. Já muito que esperava, e naquele momento disse
cuidadosamente: - Sim, já ouvi falar das suas campanhas, para que seja admitida
representação direta dos comerciantes, no Conselho. Mas por que eu, Twer?
Jaim Twer, solicitado ou não, lembraria sempre a qualquer pessoa que pertencera ao
primeiro grupo de estrangeiros a ser educado religiosamente pela Fundação, abriu-se num
sorriso.
- Eu sei o que estou fazendo. Lembre-se quando eu o conheci, no ano passado?
- No Congresso dos Comerciantes? .
- Certo. Foi você o secretário do Congresso, você os teve à sua mercê. Além disso, as
massas pertencentes à Fundação também escutam você. Tem o que se chama charme… ou pelo
menos, boa publicidade de suas aventuras, o que vem a dar no mesmo.
- Está tudo muito bem, mas por que é que só se lembraram agora?
- Porque agora é que surgiu a nossa oportunidade. Sabe que o Secretário da Educação
pediu demissão? Ainda não é do conhecimento público, porém em breve será.
- Como é que sabe?
- Isso… não importa. - A sua mão fez um gesto de desprendimento. - É assim. O
Partido Acionista está cindindo-se, podemos pô-lo fora de combate agora, se levantarmos a
questão de igualdade de direitos para os comerciantes, ou antes, democracia pro… e anti…
Mallow olhou com atenção as suas mãos grossas.
- Peço imensa desculpa, Twer, porém devo partir em negócios, na semana que vem.
Escolha outro.
Twer interrogou-o:
- Negócios? Que espécie de negócios?
- Muito supersecretos. Prioridade extra. Falei com o secretário do Prefeito, e todas
essas coisas.
- Sutt, a Víbora? - Jaim Twer ia-se excitando. - É um truque. Esse bandido quer é ver-
se livre de você, Mallow…
- Espere lá! - A mão de Mallow caiu sobre o punho cerrado do outro.
- Não se enerve. Se for um truque, eu ajustarei as contas com esse senhor, quando
voltar. Se não for, a tal víbora estará em nossas mãos. Ouça, vamos enfrentar uma crise
Seldon.
Mallow esperou pela reação, mas esta não chegou a vir. Twer simplesmente o olhou
surpreso.
- O que vem a ser isso?
- Pela Galáxia! - Mallow explodiu. - Que diabo andou fazendo enquanto esteve na
escola? Qual é o significado dessa pergunta idiota?
O outro interrompeu:
- Se quiser ter a bondade de explicar…
Houve uma longa pausa.
- Eu explico: - As sobrancelhas de Mallow franziram-se, e ele falou pausadamente: -
Quando o Império Galáctico começou a decair, e quando os limites da Galáxia caíram no
barbarismo e se perderam, Hari Seldon e o seu grupo de psicólogos fundaram uma colônia, a
Fundação, aqui, onde a desordem era maior, para que pudéssemos incubar a arte, a ciência e a
técnica, e formar mais tarde o núcleo do Segundo Império.
- Ah sim, sim…
- Ainda não terminei - disse o comerciante com frieza. - O curso futuro da Fundação
foi determinado de acordo com a ciência da psicohistória, então desenvolvida em grande
escala, e preparadas as condições, de modo a forçar uma série de crises que nos obrigassem
ao longo da rota preestabelecida para um Império futuro, mais rapidamente. Cada crise, cada
crise Seldon, marca uma época da nossa História. Aproximamo-nos agora de mais uma - a
terceira.
- Claro que me devia ter lembrado. Já faz muito tempo que saí da escola… há mais
tempo do que você.
- Suponho que sim. Esqueça o que lhe disse. O que importa é que vou ser enviado
para o centro dessa crise. Não há maneira de poder dizer o que acontecerá, entretanto, nem
quando voltarei, e as eleições para o Conselho realizam-se todos os anos.
Twer olhou-o.
- Está na pista de alguma coisa?
- Não.
- Tem algum plano definido?
- Nem sequer penso nisso.
- Bem…
- Nada bem, Hardin disse uma vez: Para se conseguir êxito, não é suficiente fazer
planos. Deve improvisar-se também. Eu vou improvisar.
Twer abanou com a cabeça, duvidoso, e ficaram os dois de pé olhando um para o
outro. Mallow disse repentinamente:
- Por que não vem comigo? Não fique tão espantado, homem! Você já foi comerciante,
antes de decidir que havia mais ação na política. Pelo menos foi o que me disseram.
- Para onde vai? Diga-me apenas isso.
- Para os lados do Aglomerado de Whassalia. Não posso fornecer mais pormenores,
antes de partir. Que diz?
- Supõe que Sutt não me queira perder de vista?
- Não é provável. Se está ansioso por se ver livre de mim, também não se importará
com você. Além disso, tenho o direito de escolher a minha tripulação. Levo quem desejar.
Havia um brilho estranho nos olhos do homem mais velho.
- Está bem, vou. Será a minha primeira viagem, em três anos.
Mallow apertou-lhe calorosamente a mão.
- Bem! Muito bom! E agora tenho de ir buscar os outros rapazes. Sabe onde está
amarrada a “Estrela”, não sabe? Apareça amanhã. Adeus.

Korell é um fenômeno que se repete continuamente na História: uma república cujo


presidente tem todos os atributos dos monarcas absolutos, menos o titulo. Gozava, pois do
vulgar despotismo, sem a restrição dessas duas influências moderadoras, que geralmente se
encontram nas verdadeiras monarquias: honra real e etiqueta palaciana.
Materialmente, o seu nível era baixo. Passados eram os dias do Império Galáctico,
sem outros testemunhos além dos monumentos silenciosos e das estruturas em ruínas. O dia da
Fundação não havia ainda chegado, e na determinação do seu Governador, o comodoro Asper
Argo, com as estritas leis que regiam os comerciantes e proibição de todos os missionários - e
nunca chegaria.
O porto em si era decrépito, e a tripulação do “Estrela” estava ciente desse fato. Os
hangares continham uma atmosfera irrespirável, e Jaim Twer bem o sentia, enquanto jogava o
seu jogo de solitário.
Hober Mallow observou pensativamente:
- Há aqui bom material para comércio. - Ia olhando tranqüilamente pela vigia. Até
então nada mais se podia dizer a propósito de Korell. A viagem fora vazia de acontecimentos.
As naves que compunham o esquadrão de interceptação, que os havia esperado, eram todas
pequenas, velhas relíquias de glórias passadas. Tinham-se mantido à distância, receosos e
continuavam a manter-se já fazia uma semana, enquanto que o pedido de Mallow ao Governo
local para que lhe fosse concedida uma audiência, continuava sem resposta.
Mallow repetiu:
- Boa oportunidade para comércio, aqui. Pode até denominar-lhe território virgem.
Jaim Twer olhou-o impaciente, e pôs de lado as cartas.
- Que tenciona fazer, Mallow? A tripulação já murmura, os oficiais preocupam-se, e
eu já começo a pensar se…
- A pensar o que?
- A pensar a respeito da situação, e a seu respeito. Que estamos nós fazendo?
- Estamos à espera.
O velho comerciante grunhiu e ficou vermelho.
- Você está andando às cegas, Mallow. Há uma guarda à volta do porto, e há naves no
espaço por cima de nós. Suponha que eles se preparam para nos atacar.
- E tinham desperdiçado uma semana.
- Talvez estejam à espera de reforços.
O olhar de Twer era severo. Mallow sentou-se abruptamente.
- Sim, já pensei nisso. É uma bela enrascada que se apresenta. Primeiro, chegamos até
aqui sem qualquer dificuldade. Talvez isto não queira dizer nada, pois só três navios, das
muitas centenas que por aqui passaram no ano passado se perderam. A percentagem é baixa.
Talvez isso queira também dizer que o número de naves equipadas com armas atômicas, que
eles possuem, seja pequeno, e que não se queiram expor, até melhorar o potencial.
- Mas também poderia significar que, afinal, eles não possuem energia atômica. Ou
talvez a tenham e a escondam, com medo que nós descubramos qualquer coisa. Uma coisa é
assaltar naves mercantes de armamento leve, outra é tentar algo contra o enviado
extraordinário da Fundação, quando o simples fato da sua presença possa querer dizer que a
Fundação começa a suspeitar de qualquer coisa. Combine isto com…
- Um momento Mallow, um momento. - Twer levantou as mãos. -Você está me
afogando com palavras. Onde é que pretende chegar? Não importam as entrelinhas.
- Tem de ser, ou não poderá compreender, Twer. Estamos ambos à espera. Eles não
sabem o que eu estou fazendo aqui e eu por minha vez não sei o que eles preparam lá fora.
Mas estou em posição mais fraca, porque sou um só, ao passo que eles são um mundo inteiro -
talvez possuidores de energia atômica. Não posso fraquejar, ou estarei perdido. Com certeza
este jogo é perigoso, nada me diz a não ser que haja um buraco no solo à nossa espera. Mas já
sabíamos isso desde o início. Que mais podemos fazer?
- Eu não… O que está acontecendo agora?
Mallow olhou, e sintonizou o visor, na tela apareceu o rosto do sargento de serviço.
- Diga sargento.
- Perdão. Os homens permitiram a entrada de um missionário da Fundação.
- Um que? - A face de Mallow tornou-se lívida.
- Um missionário. Necessita de hospitalização…
- Haverá muitos mais a necessitarem do mesmo, por causa disto. Ordene aos homens
que se dirijam para as estações de combate.

A sala da tripulação estava quase vazia. Cinco minutos depois da ordem, mesmo os
homens que não estavam de serviço, achavam-se a postos. A grande virtude naquelas regiões
anárquicas da Periferia era a velocidade e a rapidez, a tripulação de um mestre comerciante
não tinha rival.
Mallow entrou, e mirou o missionário por todos os lados. Depois o seu olhar
encontrou o do tenente Tinter, que pouco à vontade se moveu para um dos lados, e depois
apanhou o sargento da guarda, Demen, cuja figura sólida protegia o outro.
O mestre comerciante virou-se para Twer, e fez uma pausa, refletindo:
-Twer, reúna os oficiais aqui, mas com bastante calma, exceto os coordenadores e o
calculador de trajetórias. Os homens devem manter suas posições, até segunda ordem.
Houve um intervalo de cinco minutos, no qual Mallow abriu as portas dos lavabos,
espreitou por trás do bar, dos cortinados e correu as grossas cortinas que ocultavam as vigias.
Por meio minuto chegou a sair da sala, e quando voltou, vinha cantarolando, distraído.
Os oficiais começaram a entrar. Twer foi o último a entrar e fechou a porta
silenciosamente atrás de si. Mallow disse calmamente: - Primeiro, quem deixou este homem
entrar sem minha autorização?
O sargento de serviço adiantou-se um passo. Todos os olhos se viraram para ele.
- Perdão, senhor. Não era uma questão de quem. Era como se fosse por acordo tácito.
Ele era um dos nossos, pode dizer-se, enquanto que estes estrangeiros por aqui…
Mallow interrompeu-lhe o discurso:
- Simpatizo com os seus sentimentos, sargento, e compreendo-o. Estes homens
estavam sob o seu comando?
- Sim, senhor.
- Quando tudo isto terminar, quero-os detidos nas suas cabinas durante uma semana. O
senhor, sargento, está afastado de todos os deveres de supervisão, pelo mesmo espaço de
tempo. Compreendido?
O rosto do sargento não se alterou, mas houve um perceptível descair de ombros.
Disse secamente:
- Sim, senhor.
- Podem retirar-se. Voltem aos seus postos de combate. - A porta fechou-se atrás
deles, e o pandemônio começou.
Twer intrometeu-se.
- Por que o castigo, Mallow? Sabe muito bem que os korelianos matam os
missionários que aprisionam.
- Qualquer decisão contra as minhas ordens é má por si só, não importando quantos
pontos favoráveis haja para tal ação. Ninguém devia entrar ou sair desta nave, sem
autorização.
O tenente Tinter murmurou revoltado.
- Sete dias sem ação. Não se pode manter a disciplina dessa maneira.
As palavras de Mallow pareciam um balde de água gelada.
- Eu posso. Não há qualquer mérito na disciplina, debaixo de circunstâncias normais.
Exijo-a em face da morte, ou então é inútil. Onde está esse missionário? Tragam-no aqui à
minha frente.
O comerciante sentou-se, enquanto que a figura envolvida por uma capa vermelha era
cuidadosamente encaminhada para a frente.
- Como se chama reverendo?
- Ahm? -. Todo o corpo do missionário virou-se para Mallow. Os seus olhos estavam
indecisos, e havia ferimento numa das têmporas. Ele ainda não falara nem fizera qualquer
movimento, durante todo o tempo que durara o interregno.
- O seu nome, reverendo?
O missionário repentinamente criou vida. Os seus braços tomaram uma atitude de
abraçar todos os que se encontravam no aposento.
- Meu filho… meus filhos. Que possam estar sempre nos braços protetores do Espírito
Galáctico!
Twer adiantou-se, e disse em voz rouca:
- O homem está doente. Levem-no para a cama. Ordene que o levem e que cuidem
dele. O homem está machucado.
O braço musculoso de Mallow empurrou-o para trás.
- Não interfira, Twer, ou terei de mandá-lo para fora da sala. O seu nome, reverendo?
As mãos do missionário juntaram-se em atitude de súplica.
- Como homens civilizados, salvem-se da ira dos selvagens. Salvem-se desses brutos
que me perseguem e que afligiriam o Espírito Galáctico com os seus crimes. Eu sou Jord
Parma, de Anacreon, fui educado pela Fundação, pela própria Fundação, meus filhos. Sou um
sacerdote do Espírito, iniciado em todos os seus mistérios, e vim aqui enviado pela voz da
minha consciência. Sofri nas mãos daqueles a quem o Espírito não iluminou. Na medida em
que são filhos do Espírito, e em nome desse mesmo Espírito, peço que me salvem.
Uma voz interrompeu-os, vinda da caixa do alarme de emergência:
- Unidades inimigas à vista! Pedem-se instruções!
Todos os olhares se viraram automaticamente para o alto-falante. Mallow soltou uma
praga. Correu para o fone e ordenou:
- Mantenham a vigilância! É tudo! - e desligou.
Dirigiu-se para as vigias e abrindo os cortinados, espreitou para fora.
Unidades inimigas! Vários milhares delas, personificadas por uma multidão de
korelianos. Aquela multidão estendia-se de extremo a extremo da nave e à luz dos archotes de
magnésio, os que vinham à frente aproximavam-se cada vez mais.
- Tinter! - O comerciante não se voltou, contudo a parte de trás do seu pescoço estava
vermelha. - Ponha o alto-falante externo para funcionar, e veja o que eles desejam. Pergunte-
lhes se trazem com eles um representante da lei. Não faça promessas nem ameaças, ou juro
que o mato.
Tinter virou-se e saiu.
Mallow sentiu uma mão rija no seu braço, e fez um movimento brusco para se libertar.
Era Twer. A voz era como um assobio de cólera ao ouvido de Mallow.
- Mallow, você deve ficar com este homem. Não há outro meio de manter a decência e
a honra. Pertence à Fundação, e de qualquer forma… é um sacerdote. Esses selvagens lá
fora… Está me ouvindo?
- Ouço-o muito bem, Twer. - O tom de Mallow era incisivo. - Tenho mais que fazer
aqui além de guardar missionários. Farei o que quiser e por Seldon e toda a Galáxia, se tentar
me impedir, estrangulo-o. Não se meta no meu caminho, Twer, ou não viverá mais.
Voltou-se, e passou pelo outro.
- Reverendo Parma! Já sabia que, de acordo com as convenções, nenhum missionário
pode entrar no território de Korell?
O missionário tremia.
- Não posso deixar de ir onde o Espírito me leva meu filho. Se estes seres que vivem
na escuridão recusam a luz, não será mais uma prova de que necessitam dela?
- Não é isso que está em jogo, reverendo. O senhor está aqui contra as ordens da
Fundação e de Korell. De acordo com a lei, não posso protegê-lo.
As mãos do missionário elevaram-se de novo. O seu ar vago de há pouco
desaparecera completamente. Lá fora, o alto-falante exterior da nave lançava sua voz metálica
e rouca contra a turba, cujo murmúrio de revolta podia ser ouvido. O som punha-o a tremer.
- Ouve-os? Por que me fala de lei, a mim? De lei feita pelos homens? Existem leis
mais altas. Não foi o Espírito Galáctico que disse: - Não deve ficar impávido diante da mágoa
do teu semelhante? E não disse também: - Como fizer para com os humildes e ofendidos,
assim lhe farão? Não tem uma nave? Não tem armas? E não tem por trás de você a Fundação?
E à sua volta não está o Espírito que rege todo o Universo? - Fez uma pausa para respirar.
Naquele momento a voz externa do “Estrela” cessou, e Tinter voltou, com o olhar
perturbado.
- Fale!
- Senhor. Eles querem que entreguemos a pessoa de Jord Parma.
- Senão…?
- Há várias ameaças. É difícil interpretá-las todas. Há tantos… e parecem na verdade
encolerizados. Há alguém entre eles que diz governar o distrito, e ter poderes judiciais, porém
não há dúvida que não é ele quem manda, neste momento.
- Com poderes ou não, ele representa a lei. Diga-lhes que se esse governador, ou
policial, ou o que quer que seja, se aproximar sozinho da nave, lhe será entregue a pessoa de
Jord Parma.
Apareceu uma pistola na sua mão.
- Não sei o que é insubordinação. Jamais a enfrentei. Mas se aqui houver alguém que
pensa que pode me ensinar lhe darei em troca o meu antídoto.
A pistola moveu-se num semicírculo, até parar em frente de Twer. Com um grande
esforço os punhos do velho comerciante descontraíram-se, e o rosto assumiu um aspecto
normal. A sua respiração era ruidosamente expelida pelas narinas.
Tinter saiu e cinco minutos depois uma figura atarracada saiu do meio da multidão.
Aproximou-se da nave, com evidentes sinais de temor e apreensão. Por duas vezes se virou a
meio caminho, e por duas vezes as ameaças daquele monstro de muitas cabeças, fizeram-no
avançar novamente.
- Muito bem. - Mallow fez um gesto curto com o cano da pistola, que continuava a
apontar. - Grun e Upshur, levem-no para fora.
O missionário gritou. Levantou os braços, e os dedos rígidos estenderam-se, enquanto
que as mangas do seu hábito descobriam os braços finos sulcados de veias. Houve uma luz
que iluminou momentaneamente todo o aposento. Mallow pestanejou, e de novo fez o sinal que
mandava retirar o missionário.
A voz do sacerdote soou de novo, enquanto lutava em vão para se desfazer das mãos
que o agarravam.
- Amaldiçoado seja o traidor que abandona o seu semelhante ao mal e à morte.
Ensurdecidos sejam os ouvidos que são surdos ao rogo do indefeso. Cegos sejam os olhos que
não vêem a inocência. Negra para todo o sempre seja a alma que se consorcia com as trevas…
Twer tapou os ouvidos com as mãos. Mallow guardou a pistola.
- Dispersem-se, e voltem para as respectivas estações. Mantenham vigilância até seis
horas depois da multidão se dispersar. Plantões duplos durante as quarenta e oito horas
seguintes. Novas instruções serão dadas depois. Twer,venha comigo.
Encontraram-se sós nos aposentos privativos de Mallow. Mallow indicou uma cadeira
e Twer sentou-se. O seu enorme corpo parecia ter encolhido. Mallow olhou-o com ironia.
- Twer, parece que esses dois anos de política fizeram-no esquecer os hábitos dos
comerciantes. Lembre-se de que posso ser muito democrático na Fundação, porém só pela
tirania posso governar a minha nave como quero. Nunca saquei uma arma para os meus
homens, e não teria de fazê-lo desta vez, se você não tivesse desobedecido a ordem. Você não
tem qualquer posição oficial, mas encontra-se aqui a meu convite, e toda a cortesia lhe será
devida… em particular. Contudo, daqui por diante, à frente dos meus homens eu sou “senhor”,
e não “Mallow”. E quando eu der uma ordem, terá de andar mais depressa do que o mais
baixo dos recrutas, ou ponho-o a ferros com uma rapidez que você nem sequer imagina.
Entendido?
O “leader” do Partido engoliu em seco. Com relutância, disse:
- As minhas desculpas.
- Aceitas. Aperta-me a mão?
Os dedos frios de Twer foram engolidos pela enorme mão de Mallow. Twer disse:
- Minhas intenções eram ótimas. É difícil mandar um homem para a morte. Esse
governador covarde não poderá protegê-lo. É um assassinato.
- Não posso evitá-lo. Francamente, o incidente não cheirava muito bem. Observou?
- O que?
- Este porto encontra-se numa zona longe da cidade. Repentinamente um missionário
foge. De onde vem? Vem para cá. Coincidência? Junta-se enorme multidão. De onde vem? A
cidade mais próxima, de tamanho razoável, deve ficar pelo menos a uns cem quilômetros. No
entanto eles chegam dentro de meia hora. Como?
- Como? - ecoou Twer.
- Bem, e se o missionário tivesse sido trazido para cá e posto em liberdade para
servir de isca. O nosso reverendo Jord Parma estava consideravelmente confuso. Parecia não
ter tido tempo para ordenar as idéias.
- Maus tratos…
- Talvez! E talvez a idéia tenha sido meterem-nos a defender cavalheirescamente o
homem. Ele estava aqui contra as leis da Fundação e de Korell. Se eu o mantivesse aqui, seria
um ato de guerra contra Korell, e a Fundação não teria direito legal para nos defender.
- Isso… isso é ir longe demais.
O alto-falante cortou a resposta de Mallow.
- Foi recebida uma comunicação oficial, senhor.
- Envie-me imediatamente!
O envelope brilhante chegou quase imediatamente. Mallow abriu-o e abriu a folha que
ele continha. Esfregou a folha entre o indicador e o polegar apreciativamente.
- Diretamente da capital. Escrito no papel timbrado do próprio comodoro.
Leu-o de um só relance e observou:
- Com que então era ir longe demais?
Atirou a folha para Twer e continuou:
- Meia hora após termos reenviado o missionário, recebemos finalmente um delicado
convite para aparecermos na augusta presença do comodoro… depois de sete dias de espera.
Acho que passamos na prova que nos foi imposta.

Comodoro Asper era um homem do povo, por aclamação. O que lhe restava de seus
cabelos grisalhos, caía-lhe atrás sobre os ombros, a camisa que vestia necessitava de limpeza
e além de tudo o mais tinha um defeito de dicção.
- Aqui não há ostentação, comerciante Mallow. Não há falsos espetáculos. Em mim,
vê antes de mais nada o primeiro cidadão do Estado. É o que Comodoro significa, e esse é o
único título que possuo. - Parecia extraordinariamente satisfeito com tudo. - Para ser franco,
considero esse fator como sendo o de maior importância nas relações entre Korell e a sua
nação. Compreendo que vocês gozam da mesma bênção republicana que nós.
- Exatamente, comodoro - Mallow fez uma nota mental do fato. - É um fator que eu
considero o principal nas relações de paz e de amizade existentes entre os nossos dois
governos.
- Paz! Ah! - A grande barba branca do comodoro acompanhava suas caretas
sentimentais. - Acho que não há duas pessoas na Periferia que tenham tão perto do coração o
mesmo ideal de paz que eu tenho. Posso afirmar, sem receio de mentir, que desde que sucedi a
meu pai na chefia do Estado, a paz nunca foi violada. Talvez eu não devesse dizer o que sou,
mas contaram-me que o meu povo me chama Asper, o Bem-amado.
Mallow deixou que os seus olhos passeassem sobre o jardim bem arranjado onde os
homens da guarda passeavam com as suas armas de feitios estranhos, talvez para protegerem o
amado comodoro. Seria compreensível. Mas as altas e fortes muralhas que cercavam o
palácio tinham sido reforçadas havia pouco tempo - estranha ocupação para um Bem-amado.
- Felizmente o é, comodoro. Os déspotas e monarcas dos mundos circunvizinhos que
não têm a bênção de uma administração iluminada muitas vezes não possuem qualidades que
podem tornar um governante Bem-amado.
- Tais como? - Havia uma nota de cuidado na voz do comodoro.
- Tais como a preocupação pelo bem do seu povo. Por outro lado, Vossa Excelência
não pode deixar de compreender.
O comodoro manteve os olhos no chão enquanto passeavam e as suas mãos afagavam-
se uma à outra.
Mallow continuou serenamente:
- Até agora, o comércio entre as nossas duas nações tem sofrido em virtude das
restrições impostas pelo seu Governo sobre os nossos comerciantes. Decerto já se lhe tornou
aparente que comércio ilimitado…
- Comércio livre! - sussurrou o comodoro.
- Seja comércio livre. Deve compreender que traria benefício a ambas as partes. Há
coisas que os senhores têm e que nós queremos, e vice-versa. Só poderá trazer crescente
prosperidade. Um presidente com uma administração tão digna de nota, um amigo do povo…
posso dizer… um membro do povo… não precisa de que eu me entenda sobre a matéria. Não
insultarei a sua inteligência, elaborando.
- Verdade! Eu mesmo já o vi. Mas que quer: o seu povo ás vezes é tão difícil. Estou a
favor de todo o comércio que a nossa economia possa suportar, mas não nos seus termos. Não
sou aqui o único a pôr e a dispor. Sou o mais humilde criado deste meu povo. O meu povo não
quer um comércio que força a aceitação do vermelho e dourado.
Mallow endireitou-se.
- Uma religião compulsória?
- Com efeito assim tem sido. Decerto se lembra do caso de Askone, já se passaram
vinte anos. Primeiro, venderam alguns dos seus produtos e depois o seu povo pediu completa
liberdade para o trabalho missionário, de modo que toda a aparelhagem funcionasse
devidamente, que fossem erguidos Templos da Saúde, depois foi o estabelecimento de escolas
religiosas, direitos autônomos para todos os oficiais da religião, e com que resultado? Askone
é agora um membro do grande sistema da Fundação e o Grão-mestre nem pode considerar
como suas as roupas íntimas que usa. Não, não, a dignidade de um povo independente nunca
poderia permiti-lo.
- Mas eu não sugiro nada do que me fala - disse Mallow.
- Não?
- Não. Eu sou um Mestre Comerciante. A minha religião é o dinheiro. Toda esta
palhaçada de sacerdotes e de religião me aborrece, e fico contente de saber que o senhor
também jamais a aceitará. Torna-o mais no meu tipo de personalidade.
O comodoro riu com um riso agudo.
- Bem dito! A Fundação já me devia ter mandado um homem como o senhor antes. -
Apoiou uma mão amigável sobre o enorme ombro de Mallow. - Homem, até agora você me
falou de coisas que não são obrigatórias, fale-me agora das que são.
- O que na verdade há, é que o senhor ficará cheio de riquezas.
- Ah, sim? Mas para que quero eu riquezas? A verdadeira fortuna é ter o amor do seu
povo, e isso eu já tenho.
- Pode ter as duas coisas, pois é possível colher amor com uma das mãos, e ouro com
a outra.
- Isso, meu jovem amigo, seria um fenômeno que eu gostaria de observar, se fosse
possível. Como poderá ser conseguido?
- Oh, de várias maneiras. A dificuldade está no escolher entre elas. Deixe-me ver,
bem, os artigos de luxo, por exemplo. Este objeto que aqui tenho…
Mallow tirou do bolso uma corrente dourada, de metal polido.
- Isto, por exemplo.
- O que é?
- Tem de ser demonstrado. Pode-me apresentar uma garota? Uma qualquer. E um
espelho alto, também.
- Bom, bom, entremos então em casa.
O comodoro referia-se ao lugar onde vivia, como uma casa. O populacho
indubitavelmente a chamaria um palácio. Para o olhar direto de Hober Mallow parecia uma
fortaleza. Estava construída numa colina que dominava a capital. As paredes eram grossas e
reforçadas. Todos os caminhos que levavam até lá eram guardados, e a sua arquitetura estava
preparada para a defesa. Precisamente o tipo arquitetônico conveniente para Asper, o Bem-
amado. Uma moça jovem passava perto deles. Ela cumprimentou o comodoro, que disse: -
Esta é uma das damas da comodora. Servirá?
- Perfeitamente.
O comodoro observou atentamente, enquanto Mallow prendia a corrente em volta da
cintura da jovem. Depois deu um passo atrás.
- É só isso?
- Por favor, corra as cortinas. Jovem, há um pequeno botão perto do fecho. É capaz de
girá-lo? Não vai fazer-lhe nenhum mal.
A moça assim fez, deu um profundo suspiro de surpresa, olhou para as mãos e soltou
uma exclamação. Partindo da sua cintura, a moça foi envolvida por uma luminosidade de cor
variante, que lhe formava uma coroa de fogo por cima da cabeça. Era como se alguém tivesse
arrancado do céu um aurora boreal e a tivesse soldado numa capa.
A moça parou em frente do espelho e mirou-se nele fascinada.
- Tome isto. — Mallow deu-lhe um colar de cristais escuros. - Ponha-o em volta do
pescoço.
A jovem dama assim fez, e cada pedra que entrava no campo de radiação parecia
transformar-se numa labareda de ouro e carmim.
- Que pensa disto? - perguntou-lhe Mallow. A jovem não respondeu, mas nos seus
olhos havia fascinação, o comodoro fez um gesto e, relutante, ela girou de novo o botão, e a
glória morreu. Ela foi-se… com uma recordação.
- É para o senhor, comodoro, como presente para a comodora. Considere-o como um
pequeno presente da parte da Fundação.
O comodoro avaliou o peso da corrente e do colar.
- Como é que é feito?
Mallow encolheu os ombros.
- Isso é uma pergunta para os nossos técnicos. Mas funcionará para você sem…
repito… sem qualquer auxílio dos sacerdotes.
- Analisando bem a coisa, não passa de uma bugiganga feminina. Não compreendo de
onde viria o tal lucro.
- Dão-se bailes, recepções, banquetes… essa espécie de coisas?
- Claro!
- Compreende o que as mulheres pagarão por essa espécie de jóias? Pelo menos dez
mil créditos.
O comodoro soltou uma exclamação de surpresa.
- E já que a unidade de energia deste adorno não dura mais do que seis meses, haverá
necessidade freqüente de substituição. Agora, poderemos ceder-lhe a quantidade que quiser,
ao preço equivalente de mil créditos de ferro fundido. Há um lucro de novecentos por cento
para você.
O comodoro parecia estar extremamente preocupado com cálculos mentais.
- Pela Galáxia, como as velhas damas vão brigar por isto! Não vou pôr à disposição
delas um grande fornecimento, de forma a deixá-las fazer as ofertas. Claro que não as deixaria
saber que sou eu pessoalmente…
Disse Mallow:
- Posso explicar-lhe como se manobra uma corporação, como testa de ferro. Depois,
mais para diante, podemos fornecer-lhes a nossa linha completa de aparelhos domésticos.
Temos fornos e fogões que cozinham a carne mais dura, em dois minutos, facas que não
precisam ser afiadas. Temos uma pequena máquina de lavar, que lava uma enorme quantidade
de roupa automaticamente, máquinas de lavar louça, aspiradores, enceradeiras, produtos de
iluminação… enfim, tudo quanto desejar. Pense como vai aumentar sua popularidade, tornando
todas estas maravilhas acessíveis ao seu povo. Pense no lucro incalculável que vem beneficiar
o seu Governo. O público pagará o que o senhor pedir, e não há qualquer necessidade que
saibam quanto é que paga por sua vez. E lembre-se, também, que nenhum destes produtos
necessita da supervisão sacerdotal. Todos se sentirão imensamente felizes.
- A exceção de você próprio. Qual é o seu ganho?
- O que todo o comerciante ganha, pelas leis da Fundação. Os meus homens e eu
recebemos metade de todos os lucros. Se o senhor me comprar tudo o que eu tenho para lhe
vender, não se preocupe, que ambos nos sairemos bem da nossa empresa. Muito bem, mesmo.
O comodoro entregava-se ás suas cogitações.
- Qual é a forma de pagamento que pediu? Ferro?
- Ferro, carvão e bauxita. Também tabaco, especiarias, magnésio e polpa de madeira.
Não lhe peço nada que o senhor não tenha em abundância.
- Parece-me aceitável.
- Acho que sim. Outra coisa: posso também reabastecer de acessórios as suas
fábricas?
- Como?
- Veja, por exemplo, o caso de suas fundições de aço. Tenho pequenas invenções que
reduziriam os custos de produção, em noventa e nove por cento. Podia dar cinqüenta por cento
aos fabricantes, e ainda guardar quase outro tanto para você. Podia mostrar-lhe precisamente o
que quero dizer, aqui na cidade. Não demoraria muito tempo.
- Tudo isso é possível, comerciante Mallow. Mas só amanhã. Quer dar-nos o prazer
de jantar esta noite conosco?
- Os meus homens… - começou Mallow dizendo…
- Que venham todos - tornou o comodoro expansivo. - Uma união amigável das nossas
duas nações. Nos dará oportunidade de discutirmos um pouco mais este assunto. Com uma
única condição: é de não haver qualquer discussão religiosa. Não pense que isto será uma
brecha de entrada aos missionários.
- Comodoro, dou-lhe a minha palavra de honra que a religião comeria todos os meus
lucros.
- Então por ora basta. Vou mandá-lo escoltar até à sua nave.

A comodora era muito mais jovem do que o seu marido. O seu rosto era pálido e frio,
e os cabelos negros eram presos na nuca. Sua voz estava cheia de irritação.
- Já terminou, meu nobre marido? De todo? Suponho que agora posso ir para o jardim.
- Não há necessidade de dramatizar, minha querida Lícia. Aquele jovem é nosso
convidado para o jantar desta noite, e pode falar com ele tudo o que desejar, e mesmo
divertir-se com as coisas que eu vou dizer. Temos de arranjar lugar para os seus homens.
Espero que não sejam muitos.
- Provavelmente são uns comilões, e você gemerá durante duas noites seguidas,
quando vir a despesa.
- Talvez não. Apesar de sua opinião, o jantar deve ser farto.
- Com que então você se torna amigo desses bárbaros. Talvez fosse por isso que não
consentiu que ouvisse sua conversa. Talvez se prepare para atraiçoar o meu pai.
- De forma alguma.
- Espera que eu acredite em você? E fui eu sacrificada com este casamento. Poderia
ter escolhido um homem muito melhor do que você, mesmo entre a ralé do meu mundo nativo.
- Talvez a senhora deseje voltar para o seu mundo, mas para eu poder reter a parte do
seu corpo que melhor conheço, como recordação, teria de mandar cortar-lhe a língua, antes de
deixá-la partir. E para melhorar um pouco a sua beleza, cortaria também as pontas do nariz e
das orelhas.
- Não teria coragem para isso, meu velho. O meu pai mandaria pulverizar sua nação-
brinquedo. De qualquer maneira, ele poderia fazê-lo, se eu lhe dissesse que você está
negociando com esses bárbaros.
- Não há necessidade de ameaças. Terá oportunidade de interrogar aquele homem, à
noite. Entretanto, “madame”, é favor não soltar a língua.
- Às suas ordens?
- Tome este presente e cale-se.
Depois de lhe ter colocado os adornos, foi o próprio comodoro que acionou o botão.
A comodora teve uma exclamação de surpresa, tocou de leve no colar, e ficou fascinada. O
comodoro esfregou as mãos com satisfação.
- Pode usá-lo esta noite… haverá mais, de onde esse veio. Agora cale a boca.
A comodora calou-se.

Jaim Twer estava pouco à vontade.


- Por que está de cara torcida?
Hober Mallow saiu do transe.
- A minha cara está torcida? Não devia estar.
- Alguma coisa deve ter acontecido ontem… quero dizer… além da festa. Há
enrascadas, não há Mallow?
- Enrascadas? Não! Pelo contrário. Preparei-me para atirar o meu corpo contra uma
porta supostamente fechada, e encontrei-a aberta. Deixam-nos entrar nesta fundição com muita
facilidade.
- Suspeita de alguma armadilha?
- Por amor de Seldon, não seja melodramático! Esta entrada simples quer dizer que
não há nada para ver.
- Energia atômica? Parece não haver qualquer indício de política atômica, em Korell.
Seria muito difícil esconder uma coisa dessas.
- Não, se estiver no início, Twer, e se for aplicada a uma economia de guerra. Só a
encontraria nos estaleiros e nas fundições.
- De modo que se não encontrarmos…
- É porque nada têm… ou porque nada querem mostrar. Atire uma moeda ao ar e
adivinhe.
Twer abanou a cabeça.
- Gostaria de ter estado ontem com você.
- Também eu. Não tenho qualquer objeção ao apoio moral. Infelizmente foi o
comodoro quem ditou os termos do encontro, e não eu. Parece-me que está lá fora o carro que
nos escoltará até a fundição. Está com os aparelhos?
- Todos eles.
A fundição era ampla, com o cheiro que nenhuma quantidade de reparações lhe
poderia jamais tirar. Naquele momento estava vazia, e o silêncio não era natural, como não
era hábito ser visitada pelo comodoro e pela sua Corte. Mallow pegou uma folha de aço e
colocou-a nos suportes. Depois pegou o instrumento que Twer lhe entregava.
- Este instrumento é perigoso, tal como uma serra, é tudo questão de não deixar
apanhar os dedos.
Ao dizer estas palavras, deixou que a ponta corresse ao longo da folha, que
imediatamente ficou cortada em duas partes. Os espectadores deram um salto, e Mallow riu.
- O comprimento do corte pode ser ajustado até um centésimo de polegada. Desde que
seja determinada a espessura da folha com exatidão, pode fazer-se um corte de qualquer
tamanho.
E apanhando aquele instrumento começou a aparar o aço.
- Querem, no entanto, diminuir a espessura de uma folha? Temos uma plaina do mesmo
tipo. Ou broca? O princípio é sempre o mesmo.
Agora, amontoavam-se todos em semicírculo, como se estivessem vendo um
espetáculo de magia, um ato de variedades, ao invés de uma simples demonstração. As mais
altas patentes do Governo empurravam-se umas às outras, para melhor poderem ver as
habilidades de Mallow com a broca atômica.
- Uma última demonstração. Tragam-me dois pedaços de tubo de aço. Um dos
dignitários foi buscar dois pedaços de tubo.
Mallow, de um só golpe, cortou ambas as extremidades de um e de outro, e depois
uniu-os. Os dois pedaços formavam um só, sem necessidade de blocos ou de juntas ou
alisamento.
Mallow olhou o seu grupo de espectadores, ia proferir mais umas palavras, porém de
repente parou. A base do seu estômago parecia ter ficado repentinamente gelada.
A guarda pessoal do comodoro, no meio da excitação geral, tinha-se aproximado do
grupo na primeira fila e, pela primeira vez, Mallow teve de ver as estranhas armas que
usavam à cintura.
Eram armas atômicas, disso não tinha nenhuma dúvida, mas o mais importante era o
distintivo que via estampado na coronha dessas armas. A Nave e o Sol! A mesma Nave e o Sol
de que todos os livros de História falavam, como sendo o distintivo do Império Galáctico.
Mallow continuou a falar, a despeito dos seus funestos pensamentos. Quando achou
que a lengalenga era suficiente, parou. De qualquer maneira já tinha o que queria. O distintivo
que via naquelas coronhas era a finalidade de sua viagem.
O Império! Os pensamentos redemoinhavam. Tinham passado cento e cinqüenta anos,
mas o Império continuava a existir, em qualquer ponto da Galáxia. E começava de novo a
emergir na Periferia. Mallow sorriu.
A “Estrela” estava no espaço havia dois dias, quando Hober Mallow, na sua cabina,
entregou ao tenente Drawt um envelope, um rolo de microfilme, e um esferóide prateado.
- Daqui a uma hora o senhor assumirá o comando da “Estrela”, até à minha volta… ou
para sempre.
Drawt fez menção de se levantar, mas Mallow não o deixou.
- Fique quieto e ouça! O envelope contém a posição exata do planeta para onde deve
se dirigir. Uma vez ali, deverá aguardar dois meses por mim. Se a Fundação descobrir o seu
paradeiro antes desses dois meses, o microfilme é o meu relatório desta viagem. Contudo, - a
sua voz tomou um tom sóbrio - se eu não regressar ao fim desses dois meses, e se as naves da
Fundação não descobrirem o seu pouso, deve se dirigir para o planeta Terminus, e entregar a
cápsula como relatório. Compreendeu?
- Muito bem, senhor.
- Em nenhum momento, está o senhor ou qualquer outro oficial, autorizado a ampliar o
meu relatório.
- E se formos interrogados?
- É como se não soubessem de nada.
- Muito bem.
A entrevista terminou e, cinqüenta minutos depois, uma nave salva-vidas largava da
“Estrela”.

Onum Barr era muito velho para ter medo. Desde as últimas perturbações que ele
vivia sozinho, nos limites da sua terra, com os livros que conseguira salvar das ruínas. Não
havia nada que receasse perder, nem mesmo o que restava de sua vida, de modo que enfrentou
o estranho sem qualquer temor.
- A sua porta estava aberta - explicou o estranho.
O seu acento era ríspido, e Barr não deixou de notar a arma que trazia à cintura. Na
obscuridade do pequeno compartimento o velho não deixou de ver o brilho do campo
magnético que rodeava o homem.
- Não há motivos para conservá-la fechada. Deseja alguma coisa de mim?
- Sim. - O estranho não se moveu do meio do compartimento. - A sua casa é a única
nestas redondezas?
- É um local ermo, mas há uma cidade para leste. Posso mostrar-lhe o caminho.
- Dentro de pouco tempo. Posso sentar-me?
- Se as cadeiras o agüentarem. - Também as cadeiras eram velhas, relíquias de uma
juventude melhor.
- Chamo-me Hober Mallow. Sou de uma província longínqua.
Barr assentou e sorriu.
- Sua língua já o acusou há muito. Sou Onum Barr de Siwena… e já fui cidadão do
Império.
- Então Siwena é aqui. Só me consegui guiar por mapas antigos.
- Deveriam ser na verdade muito antigos, para que a posição das estrelas se tivesse
alterado.
Barr deixou-se ficar quieto, enquanto que o olhar do outro se desvanecia nos seus
pensamentos. Notou que o escudo magnético desaparecera do redor do estranho, e admitiu
para si mesmo que a sua pessoa já não parecia formidável, nem para estranhos… nem mesmo
aos seus inimigos.
- A minha casa é pobre e os meus recursos escassos. Posso dividir com você o que
tenho, se o seu estômago conseguir agüentar pão negro e milho seco.
Mallow abanou a cabeça.
- Não, já comi e não posso demorar. Tudo o que necessito são as direções para o
centro do Governo.
- Isso é fácil, e a minha pobreza não aumenta com isso. Refere-se à capital do planeta,
ou ao Setor Imperial?
O estranho olhou-o interessado.
- Não são a mesma coisa? Estou em Siwena, ou não?
O velho patrício confirmou com um sinal de cabeça, vagaroso.
- Siwena sim, mas não mais a capital do Setor Normânico. Parece que afinal, o seu
velho mapa o enganou. As estrelas podem se manter durante séculos, mas as fronteiras
políticas não são muito elásticas.
- É pena que assim seja. A nova capital fica muito longe?
- Fica em Orsha II. O seu mapa o guiará, quanto tempo tem?
- Cento e cinqüenta anos.
- Assim tão velho? A História tem dado muitas voltas desde então. Sabe alguma coisa
disso?
Mallow abanou a cabeça, em sinal negativo.
- É feliz. Foi um período mau para as províncias, à exceção do reinado de Stannel VI,
e ele já morreu há cinqüenta anos. Desde então, não se tem passado de ruínas e de revoltas,
revoltas e ruínas. Barr imaginou se ainda seria capaz de conversar. A vida neste confim era
solitária, e pouca oportunidade havia de falar com outros homens.
- Ruína? Parece que a província está empobrecida.
- Talvez não completamente. Os recursos físicos de vinte e cinco planetas de primeira
grandeza levam muito tempo a serem esgotados. Comparado, no entanto, com a prosperidade
do século passado, caminhamos para a decadência e não há qualquer sinal de que cesse. Por
que está assim tão interessado em tudo isto? É jovem, e o seu olhar brilha.
- Sou um comerciante daquelas bandas… dos confins da Galáxia. Descobri alguns
mapas antigos e vim à procura de novos mercados. Naturalmente, conversas de províncias
empobrecidas preocupam-me. Não se pode procurar dinheiro onde ele não existe. Que tal está
Siwena?
- Não sei dizer, talvez ainda sirva. Mas você, um comerciante? Parece mais um
homem de ação. A sua mão está sempre perto da arma, e há cicatrizes no seu rosto.
- Da região de onde venho não há lei. Lutas e cicatrizes fazem parte da vida de um
comerciante. Mas a luta só é boa quando tem por objetivo o dinheiro, mas se eu puder obtê-lo
sem esforço, muito melhor. Valerá ainda a pena lutar pelo que aqui ainda há? Lutas sou perito
em descobrir.
- Seria na verdade fácil. Aliste-se no que resta das “Estrelas Vermelhas” de Wiscard.
Não sei, no entanto, se deva chamar a esses indivíduos de lutadores ou piratas. Podia também
juntar-se ao nosso gracioso vice-rei… por direito de assassínio, pilhagem e rapina.
O rosto do ancião afogueou-se.
- Não fala do vice-rei com muita simpatia. E se eu fosse um de seus espiões?
- E se for? Que pode levar? - O seu braço descarnado fez um gesto largo que abrangeu
toda a mansão arruinada.
- A sua vida.
- Seria fácil tirá-la. Já está comigo há muito tempo. Porém você não é um dos homens
do vice-rei, ou o meu instinto de autoconservação não me deixaria falar.
- Como sabe?
- Parece que suspeita. Vamos, aposto em como pensa que eu estou tentando falar
contra o Governo. Não! Eu já ultrapassei a política.
- Quem a ultrapassou? As palavras que usou para descrever o vice-rei… quais
foram… assassínio, pilhagem, tudo isso. Não me pareceu muito objetivo. Não me pareceu que
tivesse deixado a política.
O velho encolheu os ombros.
- As recordações magoam, quando vêem repentinamente. Ouça! Julgue por você.
Quando Siwena era capital provincial, era eu membro do Senado provincial. A minha família
era antiga e venerada. Um dos meus avós, foi… Não, isso não importa. Glórias passadas são
alimento pobre.
- Deduzo que houve uma guerra civil, ou revolução.
O semblante de Barr tornou-se carregado.
- As guerras civis naquela época eram crônicas, porém Siwena tinha-se mantido
aparte. Sob a égide de Stanell VI, quase que reconquistou sua antiga prosperidade, mas
seguiram-se imperadores fracos, e imperadores fracos significam vice-reis fortes, até que o
nosso último vice-rei… Wiscard, cujos restos ainda hoje se dedicam à pirataria entre as
“Estrelas Vermelhas”… decidiu tentar apoderar-se da Púrpura Imperial. Não foi o primeiro a
tentar, e se tivesse sido bem sucedido não seria desde já o primeiro. Porém falhou. Quando o
almirante do Imperador se aproximou da província à frente de uma esquadra, a própria
Siwena se rebelou contra o vice-rei rebelde.
- Por favor, continue! - Mallow estava tenso, esperando ouvir a continuação da
história.
- Obrigado. É bondade de sua parte incentivar um velho. Revoltaram-se! Ou talvez
deva dizer, rebelamo-nos, pois eu fui um dos responsáveis. Wiscard deixou Siwena à nossa
frente, o planeta e com ele a província foram abertos ao almirante, com todos os gestos de
lealdade possíveis para com o Imperador. Por que o fizemos, não sei. Talvez nos sentíssemos
leais ao símbolo, ainda que não à pessoa do Imperador. Talvez temêssemos o horror de um
cerco.
- E então?
- Parece que mesmo assim o almirante não ficou satisfeito. Queria a glória de
conquistar uma província rebelde, e os seus homens queriam a pilhagem que tal conquista
acarretaria. De modo que, enquanto o povo se juntava nas praças de todas as cidades,
aclamando o Imperador e o seu almirante, este mandou ocupar todos os armazéns, e depois
mandou executar a população com descargas atômicas.
- Sob que pretexto?
- Sob o pretexto de que a população se revoltara contra o seu vice-rei, abençoado
pelo Imperador. E o almirante tornou-se o novo vice-rei, após um mês de massacres, pilhagem
e de toda a espécie de horrores concebíveis. Eu tinha seis filhos. Cinco morreram… de
maneiras diversas. Tinha uma filha. Espero que ela tenha morrido, eventualmente. Eu escapei
por ser velho. Vim para cá, muito velho para causar preocupações ao nosso novo vice-rei.
Não me deixaram nada, porque eu ajudei a expulsar um Governador rebelde, e roubei assim
um almirante de sua glória.
- E o seu sexto filho?
- Esse. - Barr sorriu forçado. - Esse está seguro, pois juntou-se às forças do almirante,
sob um nome falso. É artilheiro na frota pessoal do vice-rei. Não, nada do que está pensando,
não é um filho desnaturado. Ele visita-me quando pode, e traz-me o que pode. É ele que me
mantém vivo. Um dia virá em que o nosso vitorioso almirante encontrará a morte, e o meu
filho será o seu carrasco.
- E diz tudo isso a um estranho? Põe em perigo a vida do filho.
- Não. Estou ajudando-o, introduzindo um novo inimigo. E fosse eu amigo do vice-rei,
como sou seu inimigo, o aconselharia a encher o espaço de naves, até o extremo limite da
Galáxia.
- Lá, não há naves?
- Encontrou alguma por acaso? Algum guarda o interrogou? Sendo as naves poucas
para guardar as outras províncias, que também estão cheias de sua parte de intrigas e
iniqüidades, não se pode dispensar nenhuma para guardar os limites bárbaros. Nenhum perigo
jamais nos ameaçou, dos confins da Galáxia… até você chegar.
- Eu? Eu não represento perigo.
- Haverá outros que o seguirão.
- Não o compreendo.
- Escute! - a voz do ancião era febril. - Conheci-o quando entrou. Tinha um campo
magnético à volta do seu corpo quando o vi entrar.
- É verdade. Tinha.
- Bem. Havia uma falha, porém você não o sabia. Ainda há coisas de que eu me
lembro, embora hoje em dia seja decadente alguém dedicar-se ao estudo. Os acontecimentos
precipitam-se, e quem não souber lutar contra a corrente, como eu, é arrastado. Contudo já fui
um estudioso, e sei que em toda a história da energia atômica nunca foi inventado um campo
magnético portátil. As que temos são enormes, capazes de proteger uma cidade, e uma nave,
jamais um só indivíduo.
- E que se pode deduzir?
- Há histórias que conseguem atravessar o espaço. Os caminhos por onde passam são
estranhos, e cada vez se tornam mais distorcidos… mas quando eu era um jovem, apareceu
uma nave com estrangeiros que não conheciam os nossos costumes, e não sabiam dizer de
onde vinham. Falaram de magos, nos confins da Galáxia, magos que brilhavam no escuro, que
voavam pelo espaço sem qualquer ajuda, e a quem as armas não conseguiam atingir.
- Nós rimos, ri também. Esqueci disso até hoje. Mas você também brilha na escuridão
e se eu tivesse uma arma tenho certeza de que não o molestaria… Diga-me: também pode voar
pelo espaço, do mesmo modo que se encontra aí sentado?
Mallow respondeu calmamente:
- Não entendo onde quer chegar.
- Essa resposta basta-me. Não interrogo os meus hóspedes. Porém se na verdade
existem tais magos e se você for um deles, não resta dúvida que o seguirão. Tudo irá bem.
Necessitamos de sangue novo. Mas também se dá o caso contrário, o nosso vice-rei também
sonha, como Wiscard.
- Também anda atrás da coroa do Imperador?
- O meu filho ouve algumas histórias. Na corte pessoal do vice-rei é inevitável e ele
me conta. O nosso almirante não recusaria a Coroa se a oferecessem, porém mantém um
caminho de retirada. Conta-se de que se o golpe para se apoderar na coroa falhar, ele tem
planos para formar um novo Império nos territórios Bárbaros. Já se diz, embora eu não o
afirme, que até deu em casamento uma das suas filhas a um rei sem importância, de um
daqueles reinos desconhecidos da enorme Periferia.
- Se der ouvidos a todas as histórias…
- Eu sei, mas há muitas mais. Eu sou velho e digo disparates, mas que diz você? - E os
seus olhos cansados penetravam fundo.
O comerciante considerou.
- Não digo nada, mas gostaria de lhe perguntar uma coisa. Siwena tem energia
atômica? Espere um pouco: - que tem conhecimentos aplicados nesse campo, já sei. O que
quero saber é se têm geradoras intactas, ou se durante a revolta foram destruídas?
- Destruídas! Não! Metade do planeta desapareceria antes que fosse permitida a
destruição da mais insignificante geradora. São irreparáveis, e a principal fonte de energia da
armada. Temos a maior e melhor geradora, fora de Trantor.
- Que eu teria de fazer se quisesse ver uma dessas estações?
- Nada! - exclamou Barr decidido. - Não poderia aproximar-se de qualquer centro
militar, sem que fosse instantaneamente morto. Nem você, nem ninguém. Siwena ainda não
recuperou os direitos civis.
- Quer dizer que todas as estações centrais estão sob guarda da milícia?
- Não. Há as subestações urbanas, as que fornecem energia para a iluminação e
aquecimento das casas, funcionamento de veículos, etc. Mas são quase a mesma coisa. São
controladas pelos técnicos.
- Quem são eles?
- Um grupo especializado que supervisiona as geradoras. Essa honra é hereditária,
sendo os mais jovens iniciados desde muito cedo, como aprendizes. Uma estrita consciência
do dever, e tudo o mais. Só um técnico poderia entrar numa estação.
- Estou entendendo.
- Não quero dizer que não haja casos onde os técnicos não possam ser comprados.
Nos dias em que nós temos nove imperadores em cinqüenta anos, e que sete deles são
assassinados… quando o menor dos capitães aspira à usurpação da vice-realeza, e os vice-
reis ao Império, suponho que um técnico seja suscetível de ser comprado. Mas seria
necessário muito dinheiro, e eu não tenho nenhum. Você tem?
- Dinheiro? Não! Mas nem sempre é preciso dinheiro para comprar uma pessoa.
- Mesmo sendo o dinheiro, o poder que pode comprar todas as outras coisas?
- Há mesmo muitas coisas que o dinheiro não consegue comprar. E agora, se me disser
qual é a cidade mais próxima que tenha uma dessas geradoras, agradeço-lhe.
- Espere! Onde vai correndo? Você vem aqui e eu não lhe faço perguntas. Na cidade,
onde os habitantes são ainda apelidados de rebeldes, seria interrogado pelo primeiro guarda
que passasse em serviço, e visse as suas roupas ou ouvisse a sua voz.
Levantou-se, e de um canto escuro dum velho armário, tirou um folheto.
- O meu passaporte… falsificado. Foi com ele que eu consegui fugir.
Pôs o folheto nas mãos de Mallow, e fechou sobre ele a mão.
- A descrição não lhe serve, mas se o brandir, há grandes possibilidades de que não
olhem com muita atenção.
- Mas você… você fica sem ele.
- Que importa. Mais uma precaução a tomar. Não fale demais! O seu sotaque é uma
barbaridade, suas palavras estranhas, e de vez em quando deixa escapar arcaísmos
surpreendentes. Quanto menos falar, menos suspeitas levantará. Agora, vou dizer-lhe qual o
caminho a tomar para a cidade.
Cinco minutos depois, Mallow havia sumido. Voltou a olhar uma só vez, por um
momento, antes de partir definitivamente. Quando Onum Barr saiu para o jardim, na manhã
seguinte, encontrou a seus pés um pequeno caixote, contendo provisões, provisões, como seria
natural encontrar-se a bordo de uma nave, eram estranhas no sabor e na preparação.
Mas eram boas, e durariam muito tempo.

O técnico era um homem atarracado, com a pele esticada e brilhante de gordura. O seu
cabelo era ralo, e através dele via-se o crânio luzidio. Os anéis que lhe adornavam os dedos
eram pesados e grossos, as roupas perfumadas, e era o primeiro homem que Mallow via
naquele planeta, que não tinha ar esfomeado.
- Vamos meu homem, depressa. Tenho assuntos importantes à minha espera. Parece um
estrangeiro… - observou de perto as vestes estranhas de Mallow, e o seu olhar estava
carregado de suspeitas.
- Não sou destas redondezas - respondeu Mallow calmamente - mas isso não importa.
Tive a honra e o prazer de lhe enviar um pequeno presente, ontem…
O homem prestou-lhe atenção.
- Recebi-o ontem. Interessante. Há de ser útil.
- Tenho outros presentes, e todos mais interessantes. Muito diferentes do que lhe
enviei ontem.
O homem calou-se por um momento, pensativo.
- Parece-me adivinhar o curso que vai tomar a nossa entrevista, já aconteceu outras
vezes. Vai julgar dar-me alguns presentes sem qualquer importância, o que julgar ser suficiente
para corromper a alma de um técnico. E sei muito bem o que quer em troca. Houve muitos
outros que tiverem a mesma idéia brilhante. Quer ser adotado pela nossa irmandade. Quer que
lhe seja ensinado o segredo da energia atômica, e o cuidado para com os maquinismos. Vocês,
cães de Siwena… e a sua roupa de corte estranho deve ser usado para sua segurança…
pensam que podem escapar ao castigo que lhes aplicamos diariamente, e que merecem,
entrando para a nossa sociedade, para que sejam por ela protegidos.
Mallow ia começar a falar, mas a voz do técnico elevou-se.
- Agora desapareça antes que dê o seu nome ao Protetor da Cidade. Pensa que
atraiçoaria assim toda a confiança depositada em mim? Os traidores siweneses que me
precederam talvez o tivessem feito. Mas agora nós somos diferentes. Maravilho-me de como
não o mato imediatamente, eu mesmo, com minhas próprias mãos.
Mallow sorriu. Todo o discurso não passava de uma artificialidade de tom e
conteúdo, de modo que toda a indignação se transformava numa farsa. O comerciante olhou
bem humorado para as duas mãos gorduchas que o seu interlocutor havia nomeado como
possíveis carrascos imediatos, e disse: - Sua Sabedoria engana-se em três pontos. Primeiro:
não sou nenhum dos homens do vice-rei, enviado para provar a sua honestidade. Segundo: o
meu presente é tal que nem o Imperador em toda a sua grandeza jamais possuirá outro igual.
Terceiro: o que eu desejo em troca é muito pouco, quase nada.
- Isso você diz! - Sua voz tomou um tom de sarcasmo. - Que doação imperial é essa,
que o seu poder deseja dar-me? Algo que o Imperador não tem?
Mallow levantou-se e empurrou a cadeira para o lado.
- Esperei três dias para falar com Sua Sabedoria, porém a demonstração não
demorará mais do que três minutos. Se o senhor puxar essa arma cuja coronha vejo perto de
sua mão…
- Eh?
- …e atirasse sobre mim, ficaria muito agradecido.
- O que?
- Se eu morrer, pode declarar à Polícia que eu tentei suborná-lo. Receberá elogios. Se
eu não morrer, poderá guardar o meu escudo.
Pela primeira vez o técnico tomou consciência da fraca luminosidade que envolvia o
seu visitante. Olhando o suspeito, sacou da sua arma, apontou e acionou o gatilho. A linha
dirigida ao coração de Mallow desviou-se. Enquanto o olhar de paciência de Mallow não se
alterava, a carga atômica atirada contra ele desfazia-se no ar. A arma do técnico tombou para
o chão, com um ruído seco.
- O Imperador terá um escudo magnético individual? Você pode tê-lo.
- É técnico?
- Não.
- Então… onde conseguiu isto?
- Que lhe importa? Quer? - Uma corrente pequena caiu sobre a mesa. - Aí a tem.
O técnico apanhou-a, e segurou-a com nervosismo.
- Está completa?
- Completa.
- De onde vem a energia?
O dedo de Mallow apontou para uma das esferas que compunham a corrente. O rosto
do técnico, ao olhar para Mallow, estava congestionado.
-Senhor: há vinte anos que sou técnico de grau superior, e estudei sob a supervisão do
grande Bler, da Universidade de Trantor. Se possuir charlatanice suficiente para me dizer que
uma esfera do tamanho de uma noz contém uma geradora atômica, levo-o perante o Protetor,
em menos de um minuto.
- Explique-o então, se quiser. Eu lhe afirmo que está completo.
O técnico pôs a corrente à volta da cintura, e seguindo os gestos de Mallow, apertou a
esfera. A radioatividade que o envolvia atenuou-se. Sua arma levantou-se, porém ele parecia
hesitar ainda. Quando disparou contra si mesmo, o fogo bateu-lhe na mão e saltou, sem
produzir qualquer efeito. Ele se virou.
- E se agora eu o matasse, e ficasse com o escudo?
- Experimente! - disse Mallow. - Pensa que lhe dei a última amostra? - E também ele
se deixou envolver completamente pela luz. O técnico riu nervosamente.
- E que vem a ser esse nada que deseja em troca?
- Quero ver suas geradoras.
- Saiba que isso é proibido. Significa sermos os dois lançados no espaço, se nos
apanham…
- Não quero tocar-lhes nem experimentá-las de qualquer forma. Quero simplesmente
vê-las de longe.
- E se eu não permitir?
- Fique com o seu escudo, e eu fico com as outras coisas. Por exemplo, uma arma
especialmente desenhada para atravessar esse campo magnético.
Os olhos do técnico olharam ao redor.
- Venha comigo.

A casa do técnico era um pequeno edifício de dois andares, no exterior da imensidão


cubicular e sem janelas que dominava o centro da cidade. Mallow passou de um para o outro,
através de um túnel, e viu-se na atmosfera carregada de ozone, da sala de “controle” da
geradora.
Durante quinze minutos seguiu silencioso o seu guia. Os seus olhos não perdiam o
mais insignificante pormenor, mas os seus dedos nada tocavam.
- Já viu o suficiente? Neste caso não poderia confiar nos meus ajudantes.
- Já alguma vez confiou? - perguntou Mallow com sarcasmo. - Já vi tudo.
Voltaram ao escritório, e Mallow disse pensativo:
- E tudo isto está em suas mãos?
- Tudo.
- E mantém tudo isto em ordem de bom funcionamento?
- Assim é.
- E se houver alguma avaria?
O técnico meneou a cabeça com indignação.
- Não há avarias. Foram construídas para durar uma eternidade.
- Uma eternidade é muito tempo. Suponha você…
- Não é científico supor casos sem uma finalidade em vista.
- Está bem. Suponha que eu agora disparasse de modo a inutilizar uma das parte
vitais? Suponho que estes maquinismos não são imunes a forças atômicas. Que fariam perante
uma avaria vital?
- Então - gritou o técnico furioso - você morreria.
- Isso eu já sei. Mas que fariam à geradora? Poderiam repará-la?
- Já conseguiu o que queria, agora vá embora! Já não lhe devo nada! Mallow
cumprimentou-o e saiu.
Dois dias depois estava de volta à base onde a “Estrela” o esperava, para regressar
ao planeta Terminus. E dois dias depois o escudo que Mallow oferecera ao técnico deixou de
funcionar, e nunca mais funcionou apesar de todas as suas maldições.

Mallow descansava pela primeira vez em seis meses. Estava deitado de costas no
alpendre da sua nova casa, tomando um banho de sol. Os braços estavam estirados, mas os
músculos repousavam.
O homem que se encontrava ao seu lado, acendeu um charuto, e colocou-o entre os
dentes, acendendo em seguida outro para si.
- Deve ter trabalhado demais. Talvez precise de um longo repouso.
- Talvez sim, Jael, mas prefiro descansar numa cadeira da sala do Conselho. Porque
na verdade eu vou conquistar esse lugar e quem vai me ajudar será você.
Ankor Jael arqueou as sobrancelhas.
- Como é que eu entro nisto?
- Já entrou. Primeiro, porque é um velho político. Segundo, porque o expulsaram do
seu lugar no gabinete, e quem o fez foi Jorane Sutt, o mesmo que não quer ver a mim no
gabinete. Não acha que tenho grande oportunidade, não?
- Nem por isso - concordou o ex-Ministro da Educação. - Você é de Smyrno.
- Isso não é impedimento legal. Fui educado pela Fundação.
- Vamos mais devagar. Desde quando é que o preconceito reconhece a lei? Que diz
Jaim Twer?
- Ele já falou em me pôr no Conselho, há mais de um ano, mas eu já o ultrapassei. De
qualquer maneira, ele não o teria conseguido. Não tem tino suficiente. É vulgar, e força demais
as coisas… para dar uma expressão de caráter negativo, unicamente. Vou dar um golpe e
precisarei de você.
- Jorane Sutt é o político mais esperto que há no planeta, e vai ser o seu principal
oponente. Não vou dizer que conseguirei superá-lo em esperteza. De qualquer modo, não
deixe de pensar que ele vai lutar muito, e com jogo sujo.
- Eu tenho dinheiro.
- Isso é uma ajuda. Mas é preciso muito para comprar o preconceito… de você ser de
Smyrno.
- Mas eu tenho muito.
- Vou ver o que se pode fazer. Mas depois não me venha dizer que eu é que tive culpa.
Quem é?
Mallow pensou um pouco e disse:
- O próprio Jorane Sutt, se não me engano. Vem cedo, mas eu compreendo, ando
fugindo dele há quase um mês. Vá para a sala aqui ao lado, e ouça a conversa. Empurrou o
membro do Conselho para fora da sala, e cobriu-se com um roupão de seda. A luz solar
sintética voltou ao normal.
O secretário do Prefeito entrou aprumado, enquanto um mordomo fechava a porta atrás
dele. Mallow apertou o cinto e disse:
- Escolha uma cadeira, Sutt.
Sutt mostrou um sorriso.
- Se me disser quais as suas condições, podemos entrar em acordo, imediatamente.
- Que condições?
- Não sejamos ingênuos. Por exemplo: que fez em Korell? O seu relatório foi
incompleto.
- Já o dei há meses, na ocasião o senhor ficou satisfeito.
- Sim, mas desde então a sua atitude tem-se tornado significativa. Sabemos muito bem
o que anda fazendo, Mallow. Sabemos com certeza, quantas fábricas está montando, com que
pressa o faz, e quanto lhe custa. E este palácio que tem aqui, que lhe importou em mais do que
o meu salário de um ano, e a forma como tem aliciado as camadas mais altas da Fundação.
- E assim? Além de provar que tem espiões muito capazes, nada mais prova.
- Mostra que possui dinheiro que não possuía há um ano. E isso pode mostrar muita
coisa… que se tenha passado em Korell, sem nosso conhecimento. De onde lhe vem todo esse
dinheiro?
- Meu caro Sutt! O senhor na verdade não espera que eu lhe diga!
- Não.
- Bem me parecia, é por isso mesmo que vou dizer: vem direitinho dos cofres do
comodoro de Korell.
Sutt pestanejou.
- Infelizmente para você o dinheiro é legítimo. Sou um Mestre Comerciante, e troquei
várias bugigangas por cobre e ferro fundido. Cinqüenta por cento do lucro é meu, pelo
contrato que tenho com a Fundação. O resto desse dinheiro vai para o Estado ao fim do ano,
quando todos os bons cidadãos pagam os seus impostos de rendimento.
- Não houve qualquer menção de um acordo comercial no seu relatório.
- Também não menciona o que é que eu comi no meu almoço, daquele dia, ou o nome
da minha atual amante, ou qualquer outro pormenor irrelevante. Fui enviado para manter os
olhos bem abertos… assim disse o senhor. Nunca os fechei. Desejava saber o que tinha
acontecido às naves mercantes da Fundação apreendidas. A verdade é que nunca ouvi falar
nelas. Queria saber se Korell tinha energia atômica. O meu relatório fala das armas atômicas
em poder da guarda pessoal do comodoro. Não vi qualquer outro sinal. As armas que vi são
relíquias do antigo Império, e pode ser que nem sequer funcionem. Que eu saiba, cumpri todas
as instruções, e sou um agente livre. Pela lei da Fundação, um Mestre Comerciante pode abrir
novos mercados onde puder, e receberá metade de todos os lucros que haja. Quais são as suas
objeções?
Sutt deixou que os seus olhos fitassem a parede, e respondeu com calma.
- É costume de todos os comerciantes expandirem a religião com o seu comércio.
- Sou responsável perante a lei, e não perante os costumes.
- Há momentos em que os costumes podem ser leis mais elevadas.
- Apele então para o tribunal.
- Além de tudo o senhor é um smyrniano. Parece que a educação e a religião não
conseguiram apagar esse traço do seu sangue. Ouça e entenda: Isto está além dos mercados e
do dinheiro, temos perante nós a ciência do grande Hari Seldon que nos afirma que de nós
depende um futuro Império e que do caminho que lá leva jamais poderemos sair. A religião
que temos é o nosso grande meio para atingir esse fim. Com ela, dominamos os Quatro Reinos,
quando eles já se preparavam para nos esmagar. É a melhor maneira de poder controlar
homens e mundos. A razão do desenvolvimento do comércio foi para introduzir e divulgar esta
religião mais rapidamente, e para nos certificarmos que a introdução das novas técnicas e de
novos sistemas de economia se achariam debaixo do nosso “controle” absoluto.
- Conheço a teoria na íntegra - interrompeu-o Mallow.
- Sim? Não esperava tanto. Então vê claramente que a sua tentativa de comércio, pelo
comércio em si, a produção em massa de aparelhos sem qualquer valor, que poderão afetar
superficialmente a economia universal, a subversão da política interestelar, ao deus do lucro,
o divórcio da energia atômica da nossa religião… pode simplesmente terminar com a queda e
negação de uma política que teve êxito durante um século.
- E já era tempo - respondeu Mallow indiferente - no caso de uma política
ultrapassada, perigosa e impossível. Embora o seu êxito tenha sido completo nos Quatro
Reinos, poucos outros planetas da Periferia a aceitaram. No momento em que nos apoderamos
do “controle” dos Reinos, só a Galáxia sabe, quantos exilados puderam levar a história de
como Salvor Hardin usou o sacerdócio e a superstição popular para destronar a
independência e poder dos monarcas seculares. E se isso por si não bastasse, o caso de
Askone, há duas décadas, o demonstraria. Não existe um único rei na Periferia que não
preferisse cometer suicídio, antes de permitir a entrada de um sacerdote no seu território. Não
proponho forçar Korell ou qualquer outro mundo a aceitar seja o que for que não queiram.
Não, Sutt. Se a energia atômica os torna perigosos, uma amizade sincera através do comércio
será muitas vezes melhor do que uma regência insegura, baseada numa odiada supremacia de
um poder espiritual estranho, o qual, uma vez que fraqueje, não poderá deixar atrás de si nada
mais substancial do que temor e ódio imortais.
- Muito bem analisado! - disse Sutt cinicamente. - De modo que, voltando ao original
ponto de partida da discussão, quais sãos as suas condições? O que quer para trocar as suas
idéias pelas minhas?
- Pensa que minhas convicções estão à venda?
- Por que não? Não é esse o seu negócio, comprar e vender?
- Só com lucro. Pode oferecer-me mais do que eu estou ganhando?
- Poderia levar três quartos dos seus lucros, ao invés da metade. Mallow riu. - Uma
bela oferta. Porém seria um décimo daquilo que atualmente posso ganhar. Não tem nada
melhor?
- Poderia ter um lugar no Conselho.
- Eu o terei assim que desejar.
Sutt, com um movimento brusco, cerrou o punho.
- Pode também ter um período de prisão. De vinte anos, se eu levar minha idéia
avante. Veja o lucro que há nisso.
- Nenhum, a não ser que consiga preencher essa ameaça.
- Um julgamento por assassinato.
- Assassinato de quem?
- De um sacerdote de Anacreon ao serviço da Fundação.
- E quais são as provas?
O secretário do Prefeito inclinou-se para a frente.
- Mallow, não estou blefando. As preliminares acabaram. Tenho só de assinar um
papel para que o caso seja levado ao tribunal imediatamente. Você abandonou um cidadão da
Fundação à morte e tortura nas mãos de uma turba estrangeira, e tem só cinco segundos para se
livrar do castigo que merece. Por mim era melhor que se decidisse ao contrário, pois seria
muito mais seguro como inimigo destruído do que como amigo convertido à força.
- Assim seja, então. Faça o seu desejo.
- Bom! Era o Prefeito que desejava tentar um meio-termo e não eu. Seja testemunha de
que não tentei demais.
Abriu a porta e saiu.
Mallow olhou Ankor Jael que regressava à sala.
- Você o ouviu?
- Desde que conheço aquela “cobra”, nunca o vi tão zangado.
- Que conclui daí?
- A política de domínio através do poder espiritual é sua idéia fixa, mas se bem me
parece, sua finalidade não é tão espiritual como diz. Foi por esta mesma razão que eu fui
expulso do gabinete.
- Não precisava me dizer. Que pensa que ele quer?
- Ele não é estúpido, de modo que deve ser a bancarrota de nossa política religiosa,
que não nos traz qualquer conquista há mais de setenta anos. Portanto, ele utiliza-a para fins
puramente pessoais.
- Qualquer dogma baseado na fé e no emocionalismo é uma arma perigosa para ser
utilizada contra os outros, pois nunca se terá certeza de que esse fogo não se virará contra nós.
Há cem anos que apoiamos um ritual e uma mitologia que se vai tornando venerada e
tradicional… e imóvel. Parece que não está mais sob o nosso “controle”.
- Como? Não pare, quero sua opinião.
- Suponha que um homem ambicioso use o poder da religião contra nós, ao invés de a
nosso favor.
- Quer dizer que Sutt…
- Claro que é Sutt. Suponha que ele consiga imobilizar as várias hierarquias dos
planetas sob nosso domínio, e atirá-las contra a Fundação em nome da religião ortodoxa, que
possibilidades teríamos? Postando-se à cabeça dos religiosos, poderia declarar guerra à
heresia, representada por você, e tornar-se eventualmente rei. Foi Hardin que disse: Uma arma
atômica é boa, contudo aponta para os dois lados.
- Bom, Jael: meta-me no Conselho, para eu poder combatê-lo.
- Talvez não. Que história foi essa de deixar um sacerdote ser morto? Não é verdade,
é?
- É verdade! - exclamou Mallow descuidado.
- Ele tem provas?
- Deve tê-las! Jaim Twer era agente dele, embora nenhum dos dois suspeitasse que eu
soubesse. E Jaim Twer foi testemunha ocular.
- Isso é mau!
- Mau? Que há de mau nisso? O sacerdote estava no planeta, ilegalmente, de acordo
com as próprias leis da Fundação. Foi utilizado pelo Governo de Korell, como isca,
involuntariamente ou não. Por todas as leis do senso-comum, eu só tinha uma atitude a tomar…
e essa ação estava dentro da lei. Se ele me levar a julgamento, se cobrirá de ridículo.
Jael de novo meneou a cabeça.
- Não Mallow, você não está vendo bem a questão. Já tinha dito que o jogo dele é
sujo. Ele não quer condená-lo, pois sabe muito bem que não pode fazê-lo, mas quer arruinar o
seu crédito junto ao povo. Ouviu o que ele disse? Que às vezes o costume é mais elevado do
que a lei? Pode sair do julgamento, livre como um passarinho, mas se o povo pensar que você
abandonou um sacerdote, toda a sua popularidade desaparecerá. Todos admitirão que agiu
como devia ter agido, que foi mesmo sensato. Mas aos seus olhos, será um bruto e um
monstro. Nunca seria eleito para o Conselho. Poderia até perder o seu título de Mestre
Comerciante, se a sua cidadania lhe fosse retirada por voto. Não nasceu em Terminus, sabe?
Que pensa que Sutt quer?
- E então!
- Meu rapaz, farei por você o que puder, porém você está numa enrascada séria.

A Câmara do Conselho estava literalmente cheia, no quarto dia do julgamento de


Hober Mallow, Mestre Comerciante. O único conselheiro ausente devia maldizer a cabeça
partida que não o deixava estar presente. As galerias estavam lotadas daqueles espectadores
de perseverança diabólica que tinham conseguido entrar. Os que não tiveram tanta sorte
enchiam a praça acompanhando pelos visores trimensionais.
Ankor Jael atravessou toda aquela multidão com a ajuda de um policial, e por fim
chegou ao lado de Hober Mallow. Mallow respirou aliviado.
- Foi por pouco! Já conseguiu?
- Tome lá. É tudo quanto pediu.
- Bom. Como está o povo lá fora?
- Estão furiosos. Nunca deveria ter permitido um julgamento público.
- Mas eu não quis impedir.
- Fala-se de lincharem você. E nos planetas exteriores, os homens de Publis Manlio…
- Queria falar-lhe sobre isso, Jael. Ele está jogando a Hierarquia contra mim, não
está?
- Se está! A coisa mais bem planejada que eu tenho visto. Como Ministro do Exterior,
toma conta do caso sob o ponto da lei interestelar, para a acusação. Como Sumo-Sacerdote e
Primaz da Igreja, açula as hordas fanáticas…
- Esqueça-se disso. Lembre-se da citação que me fez, de Hardin? Agora é que eles
vão ter a prova de que ele tinha razão.
O Prefeito tomava naquele momento o seu lugar e os conselheiros levantavam-se em
sinal de respeito.
- Hoje é a minha vez. Sente-se e divirta-se - sussurrou Mallow.
O processo teve início e quinze minutos após, Mallow atravessou a sala no meio de
um zumbido hostil. Em Terminus e em todos os outros planetas exteriores, aquele rosto
aparecia ante os olhos dos telespectadores.
- Para poupar tempo, admito a verdade de todas as acusações que me foram
imputadas. A história do sacerdote e da multidão é exata em todos os pormenores. - Mallow
esperou que o silêncio voltasse à sala. - Contudo o quadro que as suas descrições apresentam
não chega a ser completo. Peço autorização para dar esse fecho, porém à minha maneira. Peço
a indulgência se minha história de início parecer irrelevante.
- Começarei por onde começou a acusação: no dia em que conheci Jorane Sutt e Jaim
Twer. Já sabem o que aconteceu nesses encontros, pois as conversas já foram descritas, a essa
descrição nada tenho a acrescentar… exceto o que pensei nesse dia.
- Os meus pensamentos eram suspeitos, pois os acontecimentos daquele dia foram
estranhos. Considerem: duas pessoas que eu mal conheço fazem-me propostas extraordinárias.
Uma foi o secretário do Prefeito que me propôs o trabalho de agente, cuja natureza
confidencial e importância já foi exposta. A outra, chefe de um partido político, me pede para
me candidatar ao Conselho. Naturalmente procurei os motivos que pudessem levá-las a fazer
tais propostas e pareceram-me óbvias. Sutt não confiava em mim. Talvez pensasse que eu
vendesse armas atômicas ao inimigo e que planejava qualquer revolta. Talvez ele tivesse
analisado a manobra, de qualquer modo, acho que necessitava de uma pessoa de sua
confiança, ao meu lado, esta última hipótese não me ocorreu antes de Jaim Twer ter entrado
em cena, mais tarde.
- Considerem: Twer apresentou-se como um comerciante que se dedicava à política, e
eu não conhecia qualquer pormenor da sua carreira de comércio, apesar do meu conhecimento
nesse campo ser bastante vasto. Depois, apesar de Twer se vangloriar de uma educação da
Fundação, jamais ouvira falar duma Crise Seldon.
Hober Mallow esperou que o impacto de suas palavras alcançasse o objetivo, e foi
premiado pela primeira vez com a atenção da galeria. Só os habitantes de Terminus o ouviram,
pois os dos planetas exteriores só teriam versões censuradas de acordo com a religião. Não
saberiam nada de uma Crise Seldon. No entanto, haveria outras coisas que eles não perderiam.
- Quem poderá aqui dizer que um homem educado pela Fundação ignore este fato? Há
apenas um tipo de educação Fundacional que exclui toda e qualquer menção de história
planejada e que só se refere a Seldon como um espírito mítico… Desde aquele instante, fiquei
sabendo quem era Jaim Twer. Soube que ele estava sob as ordens religiosas e que talvez fosse
até um sacerdote, e que durante os três anos em que se fizera passar por líder de um partido
político, estivera a soldo de Jorane Sutt e jamais fora comerciante.
- Naquele momento andei ás cegas. Não sabia quais as idéias de Sutt quanto à minha
pessoa e como ele parecia querer me dar corda, eu decidi também dar-lhe um pouco da minha.
Compreendi que Twer deveria acompanhar-me na minha viagem, como agente não-oficial de
Jorane Sutt. Se ele não fosse haveria outras maneiras, e essas, talvez eu não percebesse a
tempo. Um inimigo conhecido é relativamente inofensivo. Convidei Twer a acompanhar-me e
ele aceitou.
- Isto, senhores jurados, explica-lhes duas coisas: Primeiro: que Twer não é um amigo
meu que depõe contra mim ditado pela sua consciência. É um espião fazendo um trabalho pelo
qual foi pago. Segundo: explica a minha atitude quando, pela primeira vez, apareceu o
sacerdote, que me acusam de ter mandado matar… uma atitude até agora desconhecida, por
não ter sido mencionada.
Um sussurro percorreu a sala mais uma vez. Mallow pigarreou, para aclarar a voz.
- Não quero descrever o que senti quando soube que tínhamos a bordo um refugiado.
Nem quero me lembrar. O principal foi a incerteza. De momento, pareceu-me uma manobra de
Sutt. Sentime completamente desarmado. Só havia uma coisa a fazer: desfazer-me de Twer
durante cinco minutos. De modo que mandei um dos meus oficiais levá-lo. Na sua ausência
montei um gravador visual, de modo que o que acontecesse pudesse ficar para estudo futuro.
Isto foi na esperança de que aquilo que me confundia naquele momento se tornasse cristalino
no futuro.
- Já voltei o gravador umas cinqüenta vezes, desde então. Tenho-o aqui comigo, neste
momento e vou repetir a tarefa aqui perante o tribunal, pela qüinquagésima vez.
O Prefeito bateu o martelo pedindo silêncio na sala. Todos se aglomeraram para
melhor poderem ver. O próprio Sutt fez um sinal ao Sumo-sacerdote que, nervoso, olhava
Mallow com olhar expressivo. O centro da sala foi desocupado, e as luzes apagadas. Ankor
Jael ajustou o projetor, uma cena saltou na tela, ao vivo, em cor e três dimensões.
Havia um missionário, aniquilado e confuso, entre o sargento e o tenente. A imagem de
Mallow esperava pacientemente, enquanto os homens entravam um a um. Twer vinha à
retaguarda.
Toda a cena foi revivida, palavra por palavra, gesto por gesto. O reverendo Jord
Parma fez o apelo. Mallow sacou a arma e o missionário foi arrastado de braços erguidos
numa maldição final, e de novo um pequeno relâmpago. A cena findou-se com os oficiais
horrorizados e Twer com as mãos sobre as orelhas, enquanto Mallow guardava a arma. As
luzes acenderam-se novamente, Mallow, agora o Mallow em carne e osso, recomeçou a sua
narração.
- O incidente, como vêem, é precisamente como a acusação o descreveu…
superficialmente. Em breve o explicarei. Toda a emoção de Twer durante o que se passou
mostra evidentemente uma educação sacerdotal. Foi nesse mesmo dia que eu apontei algumas
incoerências no ocorrido, ao próprio Twer. Perguntei-lhe de onde viria um missionário, para
aparecer assim no meio de uma região quase deserta. Claro que a acusação não deu qualquer
relevância a tais fatos.
- Outros fatos a considerar: o missionário em Korell, desafiando tanto as leis
korelianas como as da própria Fundação, exibe-se numa vestimenta muito distinta e nova. Há
ali qualquer coisa que não está certa. Na hora, sugeri que o missionário fosse um cúmplice do
comodoro, para nos forçar a um ato de violência, de agressão, para em seguida poder destruir
a nossa nave, da própria missão de que fora incumbida, para salvar um só homem que,
finalmente, seria também destruído como a nave onde se encontrava. As palavras “honra” e
“dignidade” aqui não fazem sentido.
- Por qualquer razão estranha a acusação esqueceu-se do reverendo Parma, como
indivíduo. Não nos apresentaram qualquer antecedente. As incoerências de que falei explicam
a razão. As duas coisas estão ligadas. A acusação não forneceu pormenores quanto a Jord
Parma, porque não pode. A cena que viram, parecia-lhes falseada, porque na verdade o era.
Jamais existiu Jord Parma. Todo este julgamento é a maior farsa jamais forjada, por causa de
um problema que nunca existiu.
Mais uma vez teve de esperar que o silêncio reinasse de novo.
- Vou exibir-lhes a ampliação de uma fotografia imóvel. Ela falará por si.
Mais uma vez apareceu na tela a figura de Jord Parma, dedos entrelaçados, braços
erguidos, mangas caídas até o meio dos braços. Agora, da mão do missionário surgia um
brilho que havia sido como um relâmpago, na passagem anterior.
- Mantenham a vista naquela luz que ele tem na mão. Amplie a cena, Jael.
O instantâneo cresceu rapidamente. Toda a figura foi eliminada da tela, até ficar
apenas a mão. A luz transformara-se numa série de letras pequenas, porém distintas: PSK.
- Aquilo é uma espécie de tatuagem. Sob a luz vulgar é invisível, mas ao contato com
os raios ultravioleta… É um método de identificação secreta, um tanto ou quanto ingênuo, mas
nem por isso deixa de funcionar em Korell, onde é difícil encontrar raios ultravioleta. Mesmo
na nossa nave, a detecção é acidental. Talvez algum de vocês já tenha se lembrado do possível
significado daquelas três letras. Jord Parma fez um trabalho magnífico. Não sei onde
aprendeu. No entanto, PSK quer dizer: “POLÍCIA SECRETA DE KORELL”.
- Posso também usar de prova colateral, que posso apresentar ao Conselho, se me for
pedido, trouxe essas provas de Korell. E onde está agora o caso da acusação? Já fizeram e
refizeram a sugestão monstruosa de que eu deveria ter lutado pelo missionário, com sacrifício
da minha nave e de mim, em honra da Fundação.
- E por um impostor?
- Deveria eu tê-lo feito, por um agente secreto de Korell, disfarçado em trajes e
linguagem de sacerdote, provavelmente emprestados por algum exilado de Anacreon?
Deixariam Jorane Sutt e Publis Manlio cair numa estúpida e odiosa armadilha …
A sua voz perdeu-se no meio do tumulto da multidão que gritava. Sentiu-se elevado no
espaço e carregado aos ombros de muitos indivíduos. Pela janela aberta ainda pôde ver a
torrente de homens que corria pela praça ao seu encontro.
Mallow procurou Ankor Jael, pois era impossível distinguir um único rosto no meio
de tanta gente. Depressa, porém, se tornou consciente de um cântico, a princípio baixinho, mas
que pouco a pouco ia aumentando, numa pulsação de loucura: - VIVA MALLOW! VIVA
MALLOW! VIVA MALLOW!

Ankor Jael olhou para Mallow com o rosto cansado. Os dois últimos dias haviam sido
cansativos.
- Mallow, você deu um belo espetáculo, mas não o estrague querendo saltar alto
demais. Não pode estar falando a sério quando fala em ser candidato à Prefeitura. O
entusiasmo das massas é uma grande força, porém conhecidamente variável.
- Exatamente! Temos de fomentá-lo! O único modo de fazê-lo é continuar o
espetáculo.
- Então, que quer agora?
- Quero que Sutt e Manlio sejam presos.
- O que?
- Exatamente o que acaba de ouvir. O Prefeito que mande prende-los! Não me
interessam as ameaças que você faça. Eu controlo a multidão… pelo menos hoje. Ele não se
atreverá a enfrentá-la.
- Mas com que acusação?
- Acusações evidentes. Eles incitaram os sacerdotes dos outros planetas a tomarem
partido nas lutas da Fundação. Isto é ilegal. Perigo para o Estado. Não me interessa condená-
los. Deixe-os fora de circulação, até eu ser Prefeito.
- Mas as eleições só se realizarão daqui a seis meses.
- Não é demais! Eu tomaria conta do Governo pela força, se fosse obrigado, da mesma
maneira que Salvor Hardin o fez há cem anos. Vem aí uma crise, e eu terei de ser Prefeito e
Sacerdote ao mesmo tempo.
- Afinal, vai ser Korell?
- Claro! Vão declarar guerra eventualmente, apesar de eu crer que vão levar ainda um
par de anos.
- Com armas atômicas?
- Que pensa você? Que essas naves da Fundação foram postas fora de combate com
pistolas de pressão de ar? Eles recebem as naves do próprio Império! Ainda está lá! Aqui na
Periferia, já desapareceu, mas no centro da Galáxia continua bem vivo. Ao menor movimento
em falso, pode ser que os tenhamos em cima de nós. É por isso que eu devo conjugar os dois
cargos. Sou o único homem capaz de combater a crise.
- Como? Que vai fazer?
- Nada!
- Só isso? - Jael sorriu, incerto.
- Quando eu mandar nesta Fundação, o que vou fazer, é: nada. Cem por cento de nada.
Este é o segredo desta crise.

Asper Argo, o Bem-amado, comodoro de Korell, recebeu sua mulher de mau humor.
Para ela, não era aplicado o seu cognome, e ele bem o sabia. Ela dirigiu-se a ele com voz
untuosa como o seu cabelo e fria como os seus olhos.
- Devo compreender que o meu gracioso senhor chegou a uma conclusão quanto ao
destino da Fundação.
- Ah sim? E que coisas mais abarca a sua compreensão?
- Já chega, meu nobre marido. Teve mais uma das suas vacilantes consultas com os
seus conselheiros. Uma manada que, perante o desprazer de meu pai, não faz outra coisa senão
apertar contra os seios os fabulosos lucros.
- E qual é a fonte, minha querida, da qual a sua maravilhosa compreensão deduz todas
estas coisas?
- Se eu lhe dissesse, a minha fonte seria um cadáver e não uma fonte.
- Como sempre, será o que desejar. Quanto ao desprazer do seu pai, ele recusa-se a
fornecer-nos mais naves.
- Mais naves! Mas você já tem cinco. E já lhe foi prometida uma sexta.
- Foi prometida o ano passado.
- Mas só uma delas pode destruir completamente a Fundação. Uma única!
- Não poderia atacar o seu planeta, mesmo que tivesse uma dúzia de naves.
- E por quanto tempo conseguiriam manter-se se o seu comércio fosse destruído, e as
suas cargas de brinquedos e de lixo reduzidas a pó?
- O lixo custa dinheiro. Muito dinheiro.
- Mas se você fosse o senhor da Fundação, não teria tudo o que ela contém? Teria
também o respeito e a gratidão de meu pai, que vale mais do que tudo que a Fundação possa
dar. Passaram-se três anos desde que esses bárbaros vieram para cá com o seu espetáculo.
Basta!
- Minha querida! Estou ficando velho e cansado! Falta-me paciência para aturar essa
sua afiada língua. Diz saber o que eu decidi. Acabou-se, há guerra entre Korell e a Fundação.
- Até que enfim você usou de sabedoria, embora tenha sido apenas na velhice. E
agora, quando for o senhor daquela província, terá algum peso no Império. Por um lado,
poderemos deixar este mundo bárbaro, e vivermos na corte do vice-rei.
Ela se foi com um sorriso, uma das mãos na anca. O cabelo brilhava no escuro. O
comodoro esperou, e disse depois, para a porta já fechada, com ódio: - Quando eu for senhor
do que você chama aquela província, talvez eu seja suficientemente respeitável para poder
passar sem a arrogância do pai, e sem a língua da filha. Inteiramente sem eles.

O tenente da “Nebulosa” olhava horrorizado pelo visor.


- Galáxias Galopantes! - devia ter sido um grito, mas saiu só um murmúrio. - O que é
aquilo?
Era uma nave. Como uma baleia ao lado de um peixe de aquário. No seu costado,
brilhava o distintivo do Império. Todos os alarmas da nave trabalhavam histericamente.
Ordens foram transmitidas. A “Nebulosa” preparou-se para fugir, caso pudesse…
enquanto da sala das comunicações partia uma mensagem para a Fundação.
Repetidamente! Parcialmente um pedido de socorro, principalmente um aviso de
perigo.

Hober Mallow arrastou os pés e folheou os relatórios. Os dois anos na Prefeitura,


tinham-no tornado mais brando, mais paciente… mas não o haviam feito gostar de relatórios
de governo, nem da linguagem oficial em que se achavam escritos.
- Quantas naves conseguiram aprisionar?
- Quatro no solo. Duas não dão sinal. Todas as outras estão de volta, e sem segurança.
Devíamos ter feito melhor.
Não ouvindo qualquer resposta. Mallow levantou a cabeça.
- Preocupa-o alguma coisa?
- Gostaria que Sutt viesse até aqui.
- E vamos ouvir outro sermão sobre a pequena fonte dos nossos afazeres.
- Não, não vamos, você é teimoso. Pode ser que você tenha todo o plano do exterior,
perfeitamente arranjado, mas o interno está muito longe disso.
- Não é essa sua função? Para que o nomeei então, Ministro da Educação e
Propaganda?
- Ao que parece, para me arranjar uma morte prematura, pois não me presta qualquer
colaboração. Durante todo o ano passado gritei para que tivesse cuidado com Sutt e os seus
partidários. O que lhe acontecerá se Sutt forçar uma eleição especial, e o expulsar?
- Não sei.
- E o seu discurso de ontem à noite praticamente garantiu a eleição a Sutt. Havia
alguma necessidade de ser assim tão franco?
- O que eu fiz foi desviar a chuva da horta de Sutt.
- Não pela maneira como o fez. Diz que tinha previsto tudo, e não explica qual a razão
de seu comércio com Korell durante três anos, com vantagem para eles. O seu único plano de
batalha é retirar-se sem dar combate. Abandona todos os setores comerciais que estejam perto
de Korell, e declara assim um empate. Não promete uma ofensiva, nem sequer num futuro
próximo ou longínquo. Que quer que eu faça com tamanha porcaria?
- Bem sei que não tem qualquer promessa de aventura.
- Não há sequer um apelo às massas.
- É praticamente a mesma coisa.
- Acorde enquanto é tempo, Mallow. Você tem duas opções: ou dá ao povo um política
externa dinâmica, ou faça uma aliança com Sutt.
- Se falhei na primeira, experimentemos a segunda. Sutt acaba de chegar.
Sutt e Mallow não se encontravam desde o dia do julgamento, dois anos atrás.
Nenhum deles achou o outro mudado, exceto no que dizia respeito às posições que ocupavam
atualmente, e que eram diversas das de então.
Sutt tomou o seu lugar sem um cumprimento. Mallow ofereceu um charuto e disse:
- Jael fica conosco. Ele deseja acima de tudo uma aliança, e poderá servir de
intermediário, no caso dos espíritos se exaltarem demais.
- Uma aliança será de toda a conveniência para você. Em dada ocasião pedi para que
expusesse as condições. Suponho que agora os papéis se invertam.
- Sua suposição é lógica.
- Então estas são as minhas condições: Deve trocar todas estas novidades de política
pelo comércio e voltar à velha e sã política dos nossos antepassados.
- Refere-se à conquista pela religião?
- Exatamente.
- Nada menos?
- Nada.
Mallow sorveu o fumo lentamente, e a ponta de charuto ficou vermelha.
- No tempo de Hardin a conquista pela religião era nova e radical, e homens como
você se opunham a ela. Agora está experimentada e sugada, tudo o que um Jorane Sutt acharia
bem aceitar. Porém, diga-me: como pensa tirar-nos desta enrascada?
- De sua enrascada. Eu nada tenho a ver com isso.
- Considere minha pergunta modificada.
- O indicado é uma ofensiva em larga escala. O empate com que parece contentar-se é
fatal. Será uma confissão de fraqueza aos outros mundos da Periferia, para quem a aparência
de força é vital. Cairiam todos em cima de nós. Devia compreender isso. Você é de Smyrno,
não é?
- Se conseguir derrotar Korell, como vai se haver com o Império? - Mallow decidiu
ignorar a pergunta de Sutt.
- Os seus relatórios sobre a visita a Siwena são bastante completos. O vice-rei do
setor Normânico quer criar a dissensão na Periferia, para seu proveito pessoal. Não vai
arriscar tudo contra um extremo da Galáxia, quando tem cinqüenta vizinhos hostis e um
imperador contra quem quer rebelar-se. Faço uso de suas palavras.
- Talvez arrisque, Sutt, se achar que somos suficientemente perigosos. E vai pensá-lo
se destruirmos Korell, com um ataque direto. “Teremos de ser muito mais sutis.
- Como, por exemplo?
- Sutt, lhe darei uma oportunidade. Não tenho necessidade de você, mas posso utilizá-
lo. De modo que vou dizer-lhe o que se passa, e depois pode escolher entre formar comigo um
gabinete, ou continua sendo mártir apodrecendo numa cela.
- Já tentou uma vez.
- Não com muita vontade. O momento oportuno acaba de chegar. Ouça! Quando
cheguei a Korell, comprei o comodoro com as brincadeiras que todo comerciante traz em
estoque. De início, quis apenas entrar numa fundição. Não tinha qualquer outro plano, e nesse
fui bem sucedido Obtive o que quis. Mas foi só depois de minha visita ao Império que
compreendi que podem desenvolver as relações comerciais existentes, e torná-las uma nova
arma. O que nós estamos atravessando é uma Crise Seldon, Sutt, e essas crises não são
resolvidas por esforços individuais, mas sim por forças de origem histórica. Hari Seldon
quando planejou o futuro curso da História não contou com heroísmos, mas sim com economia
e sociologia. De modo que as crises têm de ser resolvidas pelos meios disponíveis na hora em
que se sucedem. No momento o comércio!
Sutt assumiu um ar irônico.
- Não quero parecer pouco inteligente, porém seu argumento não me demonstra nada.
- Depressa achará o contrário. Considere que até à data o poder do comércio tenha
sido menosprezado. Pensou-se que era necessário haver sacerdotes controlados por nós, para
tornar esse comércio uma arma poderosa. Não é nada disso, e esta é a minha contribuição para
a situação da Galáxia. Comércio sem sacerdotes! Só comércio! Simplificando as coisas,
Korell está agora em guerra conosco. Conseqüentemente, o nosso comércio com essa
república parou. Mas a verdade é que de três anos para cá a vida desse planeta tem sido mais
e mais baseada em produtos atômicos, que nós introduzimos, e que só nós poderemos
continuar a manter. Que pensa que irá acontecer quando as pequenas geradoras atômicas
começarem a deixar de funcionar, e todos os aparelhos começarem a parar?
- As aplicações domésticas pequenas serão as primeiras. Depois de meio ano de
guerra, a faca atômica de uma dona de casa deixa de funcionar. O aquecedor deixará de
aquecer, depois a máquina de lavar, a seguir o seu fogão. Que acontecerá?
Sutt disse com calma:
- Nada! Durante a guerra o povo espera condições de emergência.
- Verdade. São capazes de mandar os seus filhos morrerem da maneira mais horrível.
Manterão a moral sob violentos bombardeios, e se tiverem de viver de pão seco e água suja,
enterrados em subterrâneos, também o farão. Mas é difícil agüentar as pequenas coisas que
não se espera. Por isso é que vai haver um empate, a lamentar, sem mortos nem feridos.
Haverá uma faca que não corte, um fogão que não cozinhe, etc, etc. O povo acabará por se
revoltar.
- É nisso que põe suas esperanças? Uma revolta das donas de casa? Que saiam todas
para a rua, gritando: ” Dêem-nos as nossas máquinas atômicas!”
- Não é isso. Espero, no entanto, um fundo de descontentamento, que será transmitido
a figuras proeminentes, mais tarde.
- E quem serão esses personagens mais importantes?
- Todos os industriais de Korell. As máquinas também começarão a parar, depois de
dois anos. As indústrias que se metamorfosearam, graças aos nossos produtos atômicos, se
encontrarão repentinamente arruinadas. Nada funcionará.
- As fábricas já funcionavam antes de você aparecer por lá.
- Mas não lucravam a décima parte. Quanto tempo pensa que se manterá o comodoro
com os industriais e os financistas contra ele? E o tempo que levará a transformação?
- Durante o tempo que quiser. Isto é: se lhe ocorrer pedir geradoras atômicas ao
Império.
- Você se perde, Sutt, tal como o comodoro se perde. Não entendeu nada. O Império
nada pode repor. O Império sempre calculou as coisas em grande escala, mas para as
pequenas coisas não tem qualquer remédio. As suas geradoras são gigantescas. Mas nós e a
nossa pequena Fundação, quase sem recursos metálicos, tivemos de lutar contra a economia da
grande produção. As nossas geradoras tiveram de ser concebidas em proporções minúsculas,
porque não tínhamos metal. Tivemos de descobrir novos métodos e técnicas que o Império não
pôde seguir, por não poder fazer qualquer avanço científico. Com todas as armas, não
conseguiram uma arma que protegesse um só indivíduo. Os seus motores são enormes, ao
passo que os nossos cabem numa única sala. E quando eu disse a um dos seus especialistas
que um pedaço de chumbo do tamanho de uma noz poderia conter uma geradora atômica, ele
quase se engasgou. Nem eles compreendem os seus próprios colossos. Teriam de encontrar
uma máquina no caso de se estragar um pequeno parafuso.
- Toda esta guerra é uma luta entre estes dois sistemas: O Império e a Fundação. Entre
o grande e o pequeno. Nós compramos os outros povos com coisas úteis no dia a dia, ao passo
que as coisas que o Império oferecer só servem para a guerra. Um rei ou um comodoro pode
pegar em armas e fazer a guerra. Todos os governadores, através da História, esqueceram-se
do bem-estar do seu povo, por uma coisa denominada a glória da conquista. Mas Asper Argo
não resistirá à depressão econômica que avassalará o seu país dentro de dois anos.
Sutt foi até à janela, pensou contemplando o anoitecer, e depois virando-se para
Mallow, disse:
- Não! Você não é o homem.
- Não acredita em mim?
- Não confio em você. Fala bem demais. Já me enganou antes, e não há razão para que
não me engane novamente. Tudo o que diz tem pelo menos três significados. - E continuou. -
Supondo que você era um traidor. Todas as suas ações seriam precisamente as que agora
pratica. Forçaria a Fundação à inatividade.
- Não haverá então aliança?
- Você deve sair: de boa vontade ou pela violência.
- Eu bem que o avisei!
- E eu o aviso por meu turno. Se mandar me prender, mandarei espalhar a verdade
sobre sua pessoa. Toda a Fundação se unirá contra o domínio de um estrangeiro e eles têm
consciência do destino que nenhum smyrniano pode ter e isso o destruirá.
Mallow virou-se para os guardas e disse calmamente:
- Levem-no. Está preso.
- É a sua última oportunidade.
Cinco minutos depois Jael disse:
- Você arrumou um mártir para a causa.
- Este não é o Sutt que eu conhecia. Está cego.
- Mais perigoso ainda.
- Mais perigoso? Besteira! Perdeu todo o poder de raciocínio.
- Tem demasiada confiança, Mallow. Ignora a possibilidade de uma revolta popular.
Mallow olhou-o.
- De uma vez para sempre, Jael, não há possibilidade de uma rebelião do povo.
- Está muito seguro de si mesmo.
- Estou seguro da validade de resolução das Crises Seldon, interna e externamente.
Houve coisas que não disse a Sutt. Ele tentou controlar a Fundação através das forças
religiosas, como controlava o mundo externo, mas falhou… o que é um sinal seguro de que o
“controle” religioso chegou ao fim. O “controle” econômico é diferente. E foi Salvor Hardin
quem disse que uma arma aponta para dois lados ao mesmo tempo. Nós dependemos dos
mundos exteriores na mesma medida em que eles dependem de nós. Não há uma única linha de
produção que eu não controle. Onde a propaganda de Sutt vingar, a prosperidade morrerá,
onde falhar, continuará a prosperidade. Pelo mesmo fator que me leva a crer que Korell não se
revoltará contra a prosperidade, assim também creio que nós também não nos revoltaremos.
- Você nos transformará em Comerciantes e Príncipes Mercadores. O que acontecerá
no futuro?
- O futuro não me pertence. Seldon deve tê-lo previsto. Deverão vir outras coisas,
quando o poder econômico deixar de ser eficaz, como agora o deixou de ser a religião. Os
meus sucessores que resolvam esses novos problemas como eu resolvi este hoje.

KORELL — …E assim depois de três anos de guerra, que nunca foi combatida, a República
de Korell rendeu-se incondicionalmente e Hober Mallow tomou o seu lugar ao lado de Hari
Seldon e Salvor Hardin nos corações dos habitantes da Fundação.
Enciclopédia Galáctica
FUNDAÇÃO E IMPÉRIO
para Mary e Henry
por
paciência e tolerância.
PRÓLOGO

A Decadência do Império Galáctico.


Era um Império colossal, alargando-se por milhões de mundos que iam de extremo
a extremo da poderosa espiral dupla que formava a Via-láctea.
Esteve em declínio durante séculos antes de um homem se tornar realmente ciente
dessa decadência. Este homem foi Hari Seldon, o homem que representou a única fagulha
de esforço criador no meio da pressão da decadência. Criou e elevou a um alto grau de
perfeição a ciência da psicohistória.
A psicohistória trabalha considerando não o homem, mas o homem-massa. Era a
ciência da multidão, multidão considerada no seu total de bilhões. Podia prever as reações
com uma precisão que uma ciência menor só poderia resolver e prever com o mesmo rigor
do ressalto de uma bola de bilhar. A reação de um homem não podia ser prevista utilizando
a matemática, a reação de um bilhão é algo diferente.
Hari Seldon delineou as tendências sociais e econômicas da época, estendeu para
frente as curvas evolutivas e previu o acelerado declínio da civilização e o intervalo de
trinta mil anos que deveria transcorrer antes de um novo Império vigoroso poder emergir
das ruínas.
Era muito tarde para impedir esse declínio, mas não muito tarde para impedir o
aparecimento de um interregno de barbarismo. Seldon estabeleceu duas Fundações nos
“extremos opostos da Galáxia” e a sua localização foi de tal modo calculada que os
acontecimentos de um milênio deviam unir-se e entrelaçar-se de tal modo que levassem ao
nascimento mais rápido de um Segundo Império, mais robusto e mais duradouro.
Fundação (Gnome Press, 1951) contou a história de uma destas Fundações durante
os dois primeiros séculos de vida.
Começa com um povoamento de cientistas físicos em Terminus, um planeta
colocado na extremidade de um dos braços da espiral da Galáxia. Separados dos distúrbios
do Império, esses cientistas trabalharam como compiladores de um compêndio de
conhecimento universal, a Enciclopédia Galáctica, desconhecendo o profundo papel que
lhes fora destinado pelo já falecido Seldon.
Como o Império se fosse corrompendo, as outras regiões caíram nas mãos de “reis”
independentes. A Fundação viu-se ameaçada por eles. Contudo, atirando os insignificantes
soberanos uns contra os outros, sob a orientação do primeiro prefeito, Salvor Hardin,
conseguiram manter uma independência precária. Sendo os únicos possuidores da força
atômica no meio de mundos que estavam perdendo a cultura e regressando ao carvão e ao
petróleo, conseguiram, por isso, ganhar um ascendente. A Fundação tornou-se o centro
“religioso” dos reinos vizinhos.
Vagarosamente, a Fundação criou uma economia comercial ao mesmo tempo que a
Enciclopédia recuava para um plano mais distante. Os seus comerciantes, negociando com
instrumentos atômicos que o Império nem sequer podia ter copiado nos seus dias de maior
solidez, penetravam centenas de anos-luz através da Periferia.
Sob Hober Mallow, o primeiro Príncipe Mercador da Fundação, desenvolveram as
técnicas de guerra econômica a ponto de derrotarem a República de Korell, embora este
mundo fosse apoiado por uma das outras províncias que tinha saído do Império.
Decorridos duzentos anos, a Fundação era o Estado mais poderoso da Galáxia, com
exceção dos remanescentes do Império que, concentrados no terço central da Via-láctea,
ainda controlavam três quartos da população e da riqueza do Universo.
Parece inevitável que o próximo perigo a ser enfrentado pela Fundação fosse um
último golpe do Império agonizante.
O futuro deve ser esclarecido pela batalha entre a Fundação e o Império.
PARTE I – O GENERAL
EM BUSCA DOS MÁGICOS

BEL RIOSE… Na sua carreira relativamente curta, Riose ganhou o titulo de “O Ultimo
Imperial” e conseguiu-o merecidamente. Um estudo das suas campanhas revela-o como um
equivalente de Peurifoy na capacidade estratégica, sendo-lhe talvez superior na habilidade
que demonstrou em conduzir homens. O fato de ter nascido nos dias do declínio do Império
assim o permitia, porém era-lhe inteiramente impossível igualar a crônica de Peurifoy
como conquistador. Dispôs, contudo, de algumas possibilidades quando, sendo o primeiro
general do Império a fazê-lo, enfrentou a Fundação com firmeza…
Enciclopédia Galáctica

Bel Riose sem escolta, o que está em desacordo com aquilo que a etiqueta cortesã
prescreve para o chefe de uma esquadra estacionada num sombrio sistema estelar, na Fronteira
do Império Galáctico.
Bel Riose era jovem e enérgico - suficientemente enérgico para ser capaz de aceitar
que o fim do Universo podia ser tão próximo como provável, provocado por uma corte onde
não havia emoção e era apenas calculista - e indiscreto além disso. Circulavam a seu respeito
histórias estranhas e improváveis, caprichosamente repetidas por centenas de pessoas e
obscuramente conhecidas por milhares de outras, intrigadas pela última faculdade, a
possibilidade de uma aventura militar dava utilização às outras duas. A combinação era
subjugante.
Saiu do sujo carro terrestre de que se tinha apropriado e dirigiu-se à porta da velha
mansão que era o seu destino. Bateu. O olho fotônico que movimentava a porta estava em
funcionamento, contudo a porta abriu-se manualmente.
Bel Riose sorriu para o ancião:
- Sou Riose…
- Reconheço-o. - O ancião continuou imóvel e sem surpresa no seu lugar. - Que
assunto o traz?
Riose desceu um degrau em sinal de submissão:
- É de paz. Se o senhor for Ducem Barr, peço-lhe o favor de me dar uns momentos de
atenção.
Ducem Barr afastou-se para o lado e, no interior da casa, as paredes reluziam de
calor. O general penetrou na luz do dia. Apalpou a parede do gabinete, depois do que olhou
fixamente para as pontas dos dedos:
- O senhor conseguiu isto em Siwena?
Barr sorriu fracamente:
- Não podia ser em outra parte, julgo eu. Eu próprio cuido da casa tão bem quanto
posso. Tenho que lhe pedir desculpa por tê-lo obrigado a esperar à porta. O aparelho
automático assinala a presença de um visitante, porém não abre a porta.
- Os seus inventos estragam-se depressa? - A voz do general era ligeiramente trocista.
- Alguns deles não são muito úteis. Pode sentar-se, cavalheiro bebe chá?
- De Siwena? Meu caro senhor, é socialmente impossível não bebê-lo.
O velho patrício retirou-se silenciosamente com uma reverência leve que fazia parte
da herança cerimoniosa legada por uma remota aristocracia dos melhores dias do último
século
Riose fitou as costas do seu anfitrião quando este se afastou, e a sua clássica
urbanidade provocou-lhe um sentimento de indecisa irritação. Sua educação fora puramente
militar, sua experiência também. Tinha, como se costuma dizer, enfrentado a morte muitas
vezes, contudo uma morte sempre caracterizada por uma natureza familiar e tangível.
Conseqüentemente, não havia inconseqüência no fato de o idolatrado leão da Vigésima
Esquadra ter-se sentido deprimido na atmosfera bolorenta do velho aposento.
O general reconheceu as pequenas caixas de marfim preto que estavam nas prateleiras
como livros. Seus títulos não lhe eram familiares. Conjecturou que a ampla estrutura existente
numa das extremidades do aposento era o receptor que transmudava os livros em visão e som
logo que lhe fosse feito o pedido. Nunca vira nenhum em funcionamento, porém tinha ouvido
falar deles.
Ouvira uma vez contar que, havia muito tempo, durante a idade de ouro, quando o
Império se estendera pela Galáxia inteira, nove casas em cada dez possuíam receptores
idênticos - e idênticas filas de livros. Porém agora havia fronteiras para vigiar: os livros eram
para os velhos. E metade das histórias que se contavam a respeito dos tempos antigos eram
míticas, fosse como fosse. Mais de metade.
Chegou o chá, e Riose sentou-se. Ducem Barr levantou a sua xícara.
- A sua honra.
- Muito obrigado. À sua.
Ducem Barr observou deliberadamente:
- Você disse que era novo? Trinta e cinco?
- Quase acertou. Trinta e quatro.
- Nesse caso - disse Barr, com uma ênfase cortês, não vejo melhor começo do que
informá-lo pesarosamente de que não estou na posse de amuletos de amor, poções ou filtros.
Nem sou capaz de influenciar, no mínimo que seja, os favores de qualquer jovem senhora com
mais recursos do que você.
- Não preciso de ajudas artificiais a esse respeito, senhor. - A complacência
evidentemente presente na voz do general aumentara divertidamente. - Costuma receber muitos
pedidos de semelhantes produtos?
- Muitos. Infelizmente, um público mal informado tende a confundir erudição com
feitiçaria, e a vida amorosa parece ser aquele fator que requer uma farta quantidade de
remendos mágicos.
- E por isso pareceu-lhe muito natural que eu estivesse aqui também por isso. Mas eu
sou diferente. Não associo a erudição com coisa alguma exceto com os meios de responder a
perguntas obscuras.
O siweniano observou sombriamente:
- Você pode estar tão enganado como eles!
- Isso pode suceder ou não. - O jovem general pousou a sua xícara no brilhante estojo
e voltou a enchê-la. Deixou cair a cápsula aromática que lhe ofereceram, com um pequeno
borrifo. - Diga-me então, patrício, o que vêm a ser os mágicos? Os autênticos.
Barr pareceu espantado com aquela designação que há muito deixara de ser usada.
Respondeu:
- Não há mágicos.
- Todo mundo fala deles. Siwena está cheia de histórias a seu respeito. Há seitas
alicerçadas com base neles. Há umas estranhas ligações entre eles e os grupos existentes entre
os seus compatriotas, que sonham e dizem tolices a respeito dos velhos tempos a que eles
denominam liberdade e autonomia. Esta matéria pode tornar-se eventualmente um perigo para
o Estado.
O ancião meneou a cabeça.
- Por que é que me pergunta? Você desconfia de alguma rebelião encabeçada por
mim?
Riose encolheu os ombros.
- Nunca. Nunca. Oh, não, é uma idéia completamente ridícula. Seu pai estava exilado
nesse tempo, e o senhor mesmo é um patriota e um chauvinista. É uma indelicadeza da minha
parte, como seu hóspede, dizer-lhe isto, mas assim o exige a minha missão. Estará
conspirando agora? Duvido.
Siwena viu-se com o espírito derrotado por estas três gerações mais próximas. O
ancião replicou com dificuldade:
- Vou ser obrigado a ser tão indelicado como anfitrião como você o é como hóspede.
Vejo-me obrigado a recordar-lhe que, uma vez, um vice-rei pensou como você está fazendo
quanto ao desânimo dos siwenianos. Por ordem desse vice-rei meu pai tornou-se um pobre
fugitivo, os meus irmãos mártires e minha irmã uma suicida. E esse vice-rei teve uma morte
suficientemente horrorosa às mãos desses mesmos escravos siwenianos.
- Ah, sim, e você tocou numa coisa que desejava lhe dizer. Há três anos que a
misteriosa morte deste vice-rei deixou de ser um mistério para mim. Havia um jovem soldado
da sua guarda pessoal cujas ações foram interessantes. Você foi esse soldado, porém não há
necessidade de pormenores, julgo eu.
Barr estava tranqüilo.
- Nenhuma. O que é que você propõe?
- Que responda às minhas perguntas.
- Mas não sob ameaça. Estou velho, mas não tão velho que a vida não tenha para mim
um significado particular.
- Prezado senhor, estamos em tempos difíceis - disse Riose, a propósito - e tem filhos
e amigos. Tem uma pátria pela qual vociferou frases de amor e loucura no passado. Olhe, se
eu me decidisse a empregar a violência, não iria contentar-me com um objetivo tão limitado
como bater-lhe.
Barr disse friamente:
- O que é que você quer?
Riose segurou a xícara vazia enquanto falava:
- Ouça-me, patrício. Estamos em uma época em que os soldados mais afortunados são
aqueles cujas funções são comandar paradas engalanadas que passam através dos jardins do
palácio imperial nos dias de festa e escoltar as naves cintilantes de prazer que transportam
Sua Imperial Magnificência para os planetas de verão. Eu… eu sinto uma falta. Eu sinto uma
falta aos trinta e quatro, e continuarei a sentir essa falta. Porque, veja bem, estou disposto a
lutar. Foi por isso que eles me mandaram para cá. Eu também sou um desmancha-prazeres na
corte. Não respeito a etiqueta. Ofendo os almofadinhas e os senhores almirantes, todavia
também sou bom comandante de naves e de homens distribuídos de repente para ficarem
isolados no espaço. Por isso Siwena é o desterro. Trata-se de um mundo fronteiriço, uma
província rebelde e árida. Fica muito longe, suficientemente longe, para satisfazer todo
mundo.
- E estou na mesma. Não há rebeliões para esmagar lá embaixo, e nas fronteiras do
vice-rei não há revolta, pelo menos isso não sucede desde que o falecido pai de Sua
Majestade Imperial, de gloriosa memória, deu o exemplo de Mountel de Paramay.
- Um imperador enérgico - murmurou Barr.
- É verdade, e precisávamos de mais assim. É ele o meu senhor, lembre-se disto. São
os seus interesses que eu defendo.
Barr encolheu os ombros indiferentemente:
- E a que respeito vem essa conversa toda?
- Eu lhe digo em duas palavras. Os mágicos que eu mencionei vieram do outro lado,
do outro lado das defesas fronteiriças, onde as estrelas estão fracamente disseminadas…
- Onde as estrelas estão fracamente disseminadas - observou Barr. - E o frio do
espaço penetra nelas!
- É uma poesia? - resmungou Riose. Os versos pareciam-lhe frívolos em tal momento.
- Seja como for, eles são da Periferia, do único local onde eu tenho liberdade de combater
pela glória do Imperador.
- E isso serve os interesses de Sua Majestade Imperial e satisfaz o seu próprio gosto
por um bom combate.
- Exatamente. Mas eu queria saber aquilo com que vou combater e é para isso que
peço o seu auxílio.
- Por que é que você quer saber?
Riose mordiscou casualmente um bolo.
- Porque há três anos que investigo todos os rumores, todos os mitos, todos os boatos
que se referem aos mágicos e consulto todas as bibliotecas de informação, e só dois fatos
isolados são unanimemente considerados em conjunto e são, portanto, verdadeiros com toda
certeza. O primeiro é que os mágicos vêm da fronteira da Galáxia, em frente de Siwena, o
segundo é que seu pai encontrou uma vez um mágico, vivo e real, e falou com ele.
O idoso siweniano encolheu os ombros, e Riose continuou:
- O melhor que faria era contar-me aquilo que sabe…
Barr disse pensativamente:
- Seria interessante contar-lhe determinadas coisas. Seria uma tentativa psicohistórica
de minha própria conta:
- Que espécie de tentativa?
- Psicohistórica. - Havia uma aresta desagradável no sorriso do ancião. Depois
acrescentou, encrespadamente: - Você agiria melhor se bebesse mais chá. Vou ocupá-lo com
uma conversa bastante demorada.
Encostou-se nas almofadas moles da cadeira. As paredes luminosas tinham amaciado
o seu fulgor, passando para uma vermelhidão rosa marfim, que suavizou até o perfil duro do
soldado.
Ducem Barr começou:
- Aquilo que vi pessoalmente resulta de dois acidentes, o acidente de ter nascido filho
de meu pai e o de ter nascido filho do meu país. Começou há mais de quarenta anos atrás, logo
a seguir ao grande Massacre, quando meu pai estava foragido nas florestas do Sul, quando eu
era artilheiro na esquadra pessoal do vice-rei. Este mesmo vice-rei, a que já me referi, que
tinha ordenado o Massacre, e que morreu depois disso daquela morte cruel.
Barr sorriu com dureza, e continuou:
- Meu pai era um Patrício do Império e Senador de Siwena. Chamava-se Onum Barr.
Riose interrompeu-o impacientemente:
- Conheço muito bem as circunstâncias do seu exílio. Você não precisa gastar tempo
com isso.
O siweniano ignorou esta interrupção e prosseguiu sem um desvio:
- Durante o seu exílio foi ter com ele um homem extraviado, um comerciante da
fronteira da Galáxia, um homem novo que falava com um sotaque estranho, que não conhecia
nada da história Imperial recente e que estava protegido por um escudo-proteção individual.
- Um escudo-proteção individual? - perguntou Riose deslumbrado. -O que você está
me dizendo é extravagante. Que gerador podia ser tão poderoso que pudesse condensar um
escudo do tamanho de um único homem? Pela Grande Galáxia, isso quer dizer que ele
carregava cinco mil miríades-toneladas de fonte de energia atômica em volta dele num
pequeno carrinho de rodas?
Barr disse tranqüilamente:
- Trata-se de um daqueles mágicos a respeito de quem você ouviu boatos, histórias e
mitos. A designação “mágico” não é levianamente aplicada. Não carregava com ele um
gerador suficientemente grande para ser visível, mas, pelo contrário, uma arma tão pesada
como a que você possa carregar com uma mão terá tanto peso e tamanho como o escudo que
ele trazia.
- É esta a história toda a respeito deles? Os mágicos nasceram dos murmúrios de um
homem velho e destroçado pelo sofrimento e pelo exílio?
- A história dos mágicos é muito anterior a meu pai, cavalheiro. E a prova é mais
concreta. Depois de ter deixado o meu pai, esse comerciante, a quem os homens denominam
mágico, visitou um técnico na cidade onde meu pai o tinha conduzido, e ali deixou um escudo-
gerador do tipo que ele trazia consigo. Esse gerador foi recuperado por meu pai depois do seu
regresso do exílio, após a execução do sanguinário vice-rei. Levou um enorme tempo para
achar… O gerador está pendurado na parede atrás de você, cavalheiro. Não trabalha. Nunca
trabalhou senão nos dois primeiros dias, mas se olhar para ele, há de ver que não há, no
Império, nenhum projetado como ele.
Bel Riose esticou-se para o cinturão de metal com tirantes que estava ajustado na
parede curva. Puxou-o com um pequeno ruído de sucção até que a pequena peça, com um
escudo de adesivo, lhe ficasse ao alcance da mão. Chamou-lhe a atenção o elipsóide do
vértice do cinturão. Era do tamanho de uma noz.
- Isto… - disse ele.
- Era o gerador - respondeu Barr. - Realmente era o gerador. O segredo da sua
construção ainda não foi descoberto até agora. As investigações subeletrônicas revelaram que
se fundiu numa única massa de metal e nem todos os cuidadosos estudos dos modelos de
difração foram suficientes para identificar as delicadas partes que ali existiam antes da fusão.
- Nesse caso as suas “provas” continuam a assentar na espuma de palavras não
autorizadas por uma evidência concreta.
Barr encolheu os ombros:
- Você me pediu que lhe dissesse o que sabia e ameaçou que me obrigaria a dizê-lo
pela força. Se agora prefere encarar as coisas com ceticismo, que quer que lhe diga? Acha que
me devo calar?
- Vamos em frente! - disse o general, asperamente.
- Continuei as pesquisas de meu pai depois de ele ter morrido, e aconteceu-me então o
segundo acidente que mencionei e que me ajudou, porque Siwena era bem conhecida de Hari
Seldon.
- E quem é Hari Seldon?
- Hari Seldon foi um cientista do reinado do Imperador Daluben IV. Foi um
psicohistoriador, o último e o maior de todos eles. Visitou uma vez Siwena, quando Siwena
era um grande centro comercial, rico em artes e ciências.
- Hum - resmungou Riose, com desagrado — onde é que há algum planeta estagnado
que não se ponha a reivindicar que foi uma terra de prosperidade superabundante nos tempos
antigos?
- Os tempos de que lhe estou falando datam de há dois séculos atrás, quando o
Imperador dominava até à estrela mais distante, quando Siwena era um mundo interior e não
uma província fronteiriça semibárbara. Nesses dias, Hari Seldon previa o declínio do poder
Imperial e a eventual volta ao barbarismo da Galáxia inteira.
Riose riu bruscamente:
- Ele previa semelhante coisa? Nesse caso previa mal, meu bom cientista. Calculo que
é este o nome que se dá a si mesmo. Porque o Império é agora mais poderoso do que aquilo
que foi durante um milênio. Os seus velhos olhos estão cegos pela fria monotonia da fronteira.
Volte para os mundos secretos de antigamente, volte para o ardor e para a prosperidade do
centro.
O ancião meneou sombriamente a cabeça:
- A circulação cessou primeiro nas outras fronteiras. Levará quase uma década para
atingir o coração. Isto é, da década aparente e evidente para todos, tão distinta da década
secreta que é uma velha história de alguns quinze séculos.
- E assim esse tal Hari Seldon previa uma Galáxia de barbarismo uniforme - disse
Riose, bem humoradamente. - E que fez ele então?
- Estabeleceu por isso duas fundações nos dois extremos opostos da Galáxia…
Fundações dos melhores, e dos mais jovens, e dos mais robustos, para procriar, crescer e
desenvolver. Os mundos em que foram colocados foram cuidadosamente escolhidos, o mesmo
sucedendo com a época e o meio ambiente. Tudo foi ajustado de modo a que o futuro, tal como
estava previsto pela invariável matemática da psicohistória, isolasse o seu precoce
isolamento do corpo principal da civilização Imperial e provesse o gradual crescimento dos
germes do Segundo Império Galáctico, transformando um inevitável interregno de barbarismo
de trinta mil anos a um simples milênio.
- E qual foi o fim de tudo isto? O senhor parece conhecê-lo pormenorizadamente.
- Não sei e nunca o soube - disse o patrício com compostura. - Isto é o trabalhoso
resultado da articulação de determinadas provas descobertas por meu pai e um pouco mais
aprofundadas por mim. A base é fraca e a existência da superestrutura foi romantizada para
preencher as enormes lacunas existentes. Mas estou convencido de que isto é essencialmente
verdade.
- Você se deixa convencer facilmente.
- Julga que sim? Já conto quarenta anos de investigações.
- Ora! Quarenta anos! Eu podia acabar com a questão em quarenta dias. De fato, eu
suponho que tenho obrigação. Eu devo ser… diferente.
- E como é que você faria isso?
- De uma forma evidente. Podia tornar-me um explorador. Podia descobrir essa
Fundação de que fala e observá-la com os meus próprios olhos. Você disse que são duas?
- Os registros referem-se a duas. Apenas se descobriu uma prova sólida para uma, o
que é compreensível, visto que a outra está colocada na ponta extrema do longo eixo da
Galáxia.
- Bem, vou visitar essa que nos fica próxima. - O general já estava de pé, ajustando o
cinto.
- Você sabe onde é que deve ir? - perguntou Barr.
- Num certo sentido, sei. Nos registros daquele falecido vice-rei, que vocês
assassinaram em hora oportuna, há uma pequena quantidade de histórias de outros bárbaros.
De fato, uma das suas filhas foi pedida em casamento por um príncipe bárbaro. Ali
averiguarei qual há de ser o meu caminho.
Estendeu a mão:
- Agradeço a hospitalidade que me dispensou.
Ducem Barr tocou-lhe na mão com os dedos e fez uma reverência formal:
- Tive muita honra na sua visita.
- E anoto também as informações que me deu - continuou Bel Riose. - Haverei de
agradecer-lhe quando estiver de regresso.
Ducem Barr acompanhou o seu visitante submissamente até à porta externa e disse
tranqüilamente ao vê-lo desaparecer no carro terrestre:
- E se chegar a voltar.
OS MÁGICOS

FUNDAÇÃO… Com quarenta anos de expansão atrás dela, a Fundação enfrentou a ameaça
de Riose. Os tempos épicos de Hardin e Mallow tinham desaparecido e com eles uma sólida
coragem e resolução…
Enciclopédia Galáctica

Havia quatro homens no aposento e esse aposento ocupava uma posição separada,
pelo que ninguém podia aproximar-se. Os quatro homens olhavam tranqüilamente uns para os
outros, e depois fitavam vagarosamente a mesa que os separava. Havia quatro garrafas em
cima da mesa e muitos copos cheios, mas ainda ninguém lhes tinha tocado.
Nessa altura o homem que estava perto da porta estendeu o braço e começou a
tamborilar um ritmo lento, surdo, em cima da mesa. Foi ele que disse:
- Vocês vão ficar aqui sentados olhando uns para os outros? Qual é o assunto de que se
deve falar em primeiro lugar?
- Fale você primeiro, nesse caso - disse o homem alto que lhe estava defronte. - Você
é a pessoa que deve estar mais preocupada.
Sennett Forell riu entredentes com um mau humor silencioso.
- Porque você pensa que eu sou o mais rico. Bem… Ou então você espera que eu
continue como tinha começado. Calculo que você não esteja se esquecendo que foi a minha
própria Esquadra Comercial que capturou a nave espiã deles.
- Você é o proprietário da maior esquadra - disse o terceiro - e tem também os
melhores pilotos, o que vem a ser outra maneira de dizer que você é o mais rico. Era um risco
terrível, e teria sido muito grande para qualquer de nós.
Sennett Forell voltou a rir entredentes.
- Há certa facilidade em arriscar os rendimentos que herdei de meu pai. Afinal de
contas, o ponto essencial quando se corre um risco é que a contrapartida valha a pena. Aqui,
neste caso, a prova é o fato da nave inimiga ter sido isolada e capturada sem prejuízos para
nós ou informações para os outros.
Que Forell era um parente colateral afastado do falecido grande Hober Mallow era
reconhecido através da Fundação. Que era filho ilegítimo de Mallow era aceito por um grupo
considerável de pessoas.
O quarto homem piscou os olhinhos furtivamente. As palavras deslisaram-lhe entre os
lábios finos:
- Ele não é nada para dormir sobre este rico triunfo, representado pela captura dessa
pequena nave. Mas, provavelmente, deverá deixar zangado o jovem depois.
- Você pensa que ele precisava de motivos? - indagou Forell, desdenhosamente.
- Julgo que sim, por isso, para o salvar do vexame, teve de criar um. - O quarto
homem falou vagarosamente - Hober Mallow trabalhava de outro modo. E Salvor Hardin.
Esses deixavam que os outros seguissem pelos duvidosos caminhos da força, enquanto eles
manobravam pelo seguro e tranqüilamente.
Forell encolheu os ombros:
- Esta nave provou já o seu valor. Os motivos são baratos e nós devemos vender este
com lucro. - Havia a satisfação do comerciante nato nesta afirmação. Continuou: - O jovem é
do velho Império.
- Já sabemos isso - disse o segundo homem, o mais alto dos quatro, com uma onda de
descontentamento.
- Desconfiamos disso - corrigiu Forell, em voz baixa. - Um homem que chega com
naves e riqueza, com propostas de amizade, e com ofertas de comércio, só é sensível ao
estribilho de competição e, todavia nós estamos certos de que a máscara do lucro não é uma
face afinal de contas. Mas agora…
Havia uma marca de indistinta lamentação na voz do terceiro homem quando começou
a falar:
- Podíamos ter sido muitíssimos mais cuidadosos. Podíamos ter averiguado primeiro
o que se passava com ele. Podíamos ter averiguado primeiro antes de o termos autorizado a
sair. Podíamos ter mostrado uma verdadeira prudência.
- Isto já tinha sido discutido e decidido - disse Forell. Repelia o assunto com um gesto
final e positivo.
- O Governo é mole - lastimou-se o terceiro homem. - O Prefeito é um idiota.
O quarto homem olhou à volta para os outros três e tirou a ponta do charuto da boca.
Deixou-a cair casualmente na fenda que estava à sua direita onde desapareceu com um
silencioso silvo de desintegração. E disse com ironia:
- Espero que o cavalheiro que falou em último lugar só o tenha feito por força do
hábito. Podemos ser obrigados a lembrar aqui que nós somos o governo.
Houve um murmúrio de concordância. Os olhinhos do quarto homem estavam fitos na
mesa.
- Então deixem-nos ficar somente com a administração política. Este jovem… este
estrangeiro podia ter sido um possível freguês. Tem havido casos desses. Três dos nossos
tentaram prendê-lo com um contrato antecipado. Nós temos um acordo - um acordo de
cavalheiros - contra isso, mas tentamos.
- Foi você que o fez - resmungou o segundo homem.
- Reconheço que sim - disse o quarto, calmamente.
- Nesse caso vamos esquecer o que devíamos ter feito no princípio - interrompeu
Forell impaciente - e continue com o que devemos fazer agora. Seja como for, se o tivéssemos
aprisionado, ou morto, o que é que teria acontecido? Não temos certeza das suas intenções, e o
que seria pior, podíamos provavelmente destruir um Império eliminando rapidamente a vida
de um homem. Podia haver navios sobre navios emboscados do outro lado, esperando
exatamente que não regressasse.
- Isso mesmo - aprovou o quarto homem. - Agora, o que é que vocês tiraram da nave
capturada? Eu também sou suficientemente velho para essas conversas.
- Isso pode dizer-se em algumas poucas palavras - replicou Forell, muito carrancudo.
- É um general Imperial ou qualquer graduação correspondente a essa que aqui possa haver. É
um homem novo que provou o seu talento militar - assim ouvi dizer - e que é o ídolo dos seus
homens. Uma carreira mais ou menos romântica. As histórias que eles contam a seu respeito,
não há dúvida que metade são mentiras, mas precisamente por isso o que se verifica por aí é
que é um tipo de homem prodigioso.
- Quem são esses “eles”? - perguntou o segundo homem.
- A tripulação da nave capturada. Olhe, tenho todas as suas declarações registradas
em microfilme, coloquei-as em lugar seguro. Mais tarde, se quiserem, podemos ouvi-las.
Podem ouvir pessoalmente os homens falar, se pensarem que é necessário. Disse-lhes apenas
o essencial.
- Como é que você conseguiu isso deles? Como é que sabe que eles lhe disseram a
verdade?
Forell franziu as sobrancelhas.
- Não fui nada suave, meu caro cavalheiro. Comecei por inutilizá-los, droguei-os
loucamente, e servi-me da Sonda impiedosamente. Eles falaram. E vocês podem ouvi-los
quando quiserem.
- Nos velhos tempos - disse o terceiro homem, com súbita falta de oportunidade - eles
teriam aplicado a psicologia pura. Sem dor, sabe, mas muito seguro. Não há possibilidade de
fraude.
- Bem, isso era o melhor negócio que eles tinham nos tempos antigos - disse Forell,
secamente. - Agora estamos nos dias de hoje.
- Mas - disse o quarto homem - o que é que ele quer daqui, esse general, esse
romântico homem-prodígio? - Havia uma persistência teimosa e aborrecida na maneira como
voltava ao assunto.
Forell lançou-lhe um olhar rápido e mordaz:
- Você pensa que ele confidencia os pormenores dos seus assuntos políticos com a
tripulação? Eles não os conhecem. Não havia nada a tirar-lhes a este respeito, e eu
experimentei, a Galáxia bem o sabe.
- O que nos deixa…
- Tirar as nossas próprias conclusões, como é evidente. - Os dedos de Forell estavam
outra vez tamborilando tranqüilamente. - O jovem é um chefe militar do Império, embora
esteja se passando por um principezinho de pouca importância de uma das estrelas perdidas
num canto excêntrico da Periferia. Isto só nos assegurará que os seus motivos reais nos são
desconhecidos, pois ele não tiraria nenhum benefício deles se nós os conhecêssemos.
Combina a natureza da sua profissão com o fato de que o Império já subvencionou um ataque
contra nós no tempo de meu pai, e as possibilidades tornaram-se agora idênticas. Esse
primeiro ataque falhou. Duvido que o Império nos esteja reconhecido por isso.
- Não há nada nas suas descobertas - perguntou o quarto homem cautelosamente - que
nos dê uma certeza qualquer? Você não está nos escondendo nada?
Forell respondeu polidamente:
- Não posso esconder nada. Em um caso como este não pode haver questão de
rivalidade de negócios. A unidade é forçosa entre nós.
- Patriotismo? - Havia zombaria na voz do terceiro homem.
- O patriotismo que vá para o diabo - respondeu Forell tranqüilamente.
- Você pensa que eu dou duas baforadas de emanação atômica pelo futuro Segundo
Império? Você pensa que eu arrisco uma única missão comercial para facilitar o seu caminho?
Mas… você supõe que as conquistas Imperiais podem ajudar o meu negócio ou o seu? Se o
Império ganhar, haverá um grande número de corvos desejosos de carne podre para suspirar
pelos despojos da batalha.
- E nós seremos os despojos - acrescentou o quarto homem, secamente.
O segundo homem rompeu bruscamente o silêncio, e mexeu o seu volume iradamente,
de tal modo que a cadeira estalou sob o seu peso.
- Mas porque é que estamos falando disso? O Império não pode ganhar, não acha?
Temos a garantia de Seldon de que nós acabaremos por formar o Segundo Império. Trata-se
apenas de mais uma crise. Já houve três antes desta.
- Só mais uma crise, claro que sim! - ponderou Forell. - Mas quando se verificaram as
duas primeiras, tínhamos Salvor Hardin para nos guiar, na terceira, havia Hober Mallow. E
quem temos nós agora? - Olhou sombriamente para os outros e continuou. - As leis
psicohistóricas de Seldon, em que é tão confortante confiar, possuem uma contribuição
variável, uma certa iniciativa normal por parte do próprio povo da Fundação. As leis de
Seldon ajudam aqueles que se ajudam a si mesmos.
- As circunstâncias fazem o homem - disse o terceiro homem. - Aqui tem mais um
provérbio para seu uso.
- Você não pode contar com isso, pelo menos com certeza absoluta - resmungou
Forell. - O caminho que se impõe agora não parece ser esse. Se esta é a quarta crise, nesse
caso Seldon tinha-a previsto. Se a previu, nesse caso ela pode ser vencida, e deve haver uma
maneira de consegui-lo.
- Agora o Império está mais forte do que nós, sempre o fora. Mas é a primeira vez que
estamos em risco de sofrer o seu ataque diretos, de modo que a sua solidez torna-se
terrivelmente ameaçadora. Nesse caso, se pode ser vencida, deve ser mais uma vez como em
todas as crises passadas por meio de um método diferente da utilização da pura força. Nós
devemos descobrir o lado fraco do inimigo e atacá-lo ali.
- E qual é esse lado fraco? - perguntou o quarto homem. — Você tenciona sugerir uma
teoria?
- Não. Aqui está o ponto em que preciso ser orientado. Os nossos grandes líderes do
passado viam sempre os pontos fracos dos inimigos e dirigiam-se para lá. Mas agora…
Havia um abandono na sua voz, e por um momento ninguém se arriscou a qualquer
comentário. Nessa altura o quarto homem disse:
- Precisamos de espiões.
Forell virou-se para ele vivamente:
- É isso mesmo! Não sei quando é que o Império atacará. Ainda devemos ter tempo.
- Hober Mallow entrava pessoalmente nos domínios Imperiais - sugeriu o segundo
homem.
Forell meneou a cabeça:
- Nada assim de tão direto. Nenhum de nós é precisamente um jovem, e todos nós
estamos enferrujados com as fitas vermelhas e os pormenores administrativos. Precisamente
de jovens agora no campo oposto…
- Os comerciantes independentes? - perguntou o quarto homem.
E Forell abanou a cabeça e murmurou:
- Se ainda der tempo…
A MÃO MORTA

Bel Riose interrompeu o seu aborrecido passeio para fitar esperançosamente quando o
seu ajudante entrou.
- Alguma notícia do “Astral”?
- Nenhuma. O destacamento de exploração esquadrinhou o espaço, mas os
instrumentos não detectaram nada. O comandante Yume informou que a Esquadra está pronta
para um ataque de represália imediata.
O general abanou a cabeça.
- Não, por causa de uma nave patrulha, não. Por enquanto não. Diga-lhe para
duplicar… Espere! Eu escrevo o recado. Coloque-o em código e transmita-o por um raio
fechado. - Escreveu enquanto falava e entregou o papel ao oficial que estava à espera. - O
siweniano já chegou?
- Ainda não.
- Bem, mande-o entrar assim que chegue.
O ajudante fez uma continência crispada e saiu. Riose começou a meditar sobre a
situação.
Quando a porta voltou a abrir-se, foi Ducem Barr que se deteve no limiar.
Vagarosamente, nos calcanhares do ajudante que vinha anunciá-lo, encaminhou-se para o
aposento brilhante em cuja parede havia um modelo estereoscópico da Galáxia, e no centro da
qual Bel Riose estava de pé, vestindo seu uniforme de combate.
- Patrício, bom dia! - O general empurrou uma cadeira para diante, com os pés, e
despediu o ajudante com um gesto e a recomendação: - Esta porta é para permanecer fechada
até que eu a abra.
Ficou de pé diante do siweniano, com as pernas afastadas, a mão agarrada ao pulso da
outra, atrás das costas, balançando o corpo vagarosamente, pensativamente, oscilando sobre
os pés. Então, rudemente:
- Patrício, você é um súdito leal do Imperador?
Barr, que mantivera um silêncio indiferente até essa altura, enrugou a testa de maneira
vaga:
- Não tenho motivos para gostar das leis Imperiais.
- O que é uma maneira indireta de dizer que pode ser um traidor.
- É verdade. Mas o simples ato de não ser um traidor é também uma maneira indireta
de poder vir a ser um auxiliar ativo.
- Geralmente também é verdade. Mas se recusar a sua ajuda neste ponto - disse Riose,
deliberadamente - o fato será considerado traição e tratado como tal.
As sobrancelhas de Barr juntaram-se.
- Reserve suas vergastadas verbais para os seus subordinados. Faça uma simples
exposição das suas necessidades e podemos ver se precisa realmente de mim.
Riose sentou-se e cruzou as pernas:
- Barr, tivemos uma discussão há relativamente pouco tempo, há cerca de meio ano
atrás.
- A respeito dos seus mágicos?
- Isso mesmo. Você se lembra de eu lhe ter dito que iria visitá-los.
Barr acenou que sim com a cabeça. Deixou os braços continuarem molemente no
regaço:
- Você preparava-se para visitá-los nos seus retiros, e esteve fora estes últimos quatro
meses. Acabou encontrando-os?
- Encontrá-los? Foi isso mesmo que fiz - exclamou Riose. Tinha os lábios rígidos
enquanto falava. Parecia esforçar-se para impedir que os molares se desfizessem. - Patrício,
eles não são mágicos, são diabos. São tão difíceis de compreender como as outras nebulosas
dali. Imagine! É um mundo do tamanho de um lenço de assoar, de uma unha, com recursos tão
insignificantes, forças tão diminutas, uma população tão microscópica como nunca bastariam
aos mais retrógrados mundos dos poeirentos prefeitos das Estrelas Escuras. Apesar disso, é
um povo tão orgulhoso e ambicioso que sonha tranqüila e metodicamente em governar a
Galáxia.
- Sendo assim, estão tão seguros de si mesmos que não têm pressa nenhuma. Movem-
se vagarosamente, fleumaticamente, falam nos séculos que serão necessários para isso.
Absorvem mundos com vagar, deslizam através dos sistemas com lenta complacência.
- E saem-se bem. Não há ninguém que os detenha. Construíram uma comunidade
porcamente comercial que enrola os seus tentáculos em volta dos sistemas mais avançados
que os seus braços de brinquedo conseguem atingir. E os seus comerciantes - que é a
designação que os seus agentes se dão - vão penetrando parsec após parsec nos outros
mundos.
Ducem Barr interrompeu a vaga raivosa:
- Qual é a parte exata desta informação, e qual é a parte que é simples palpite?
O soldado tomou fôlego e ficou calmo:
- A fúria não me cega. Estou lhe dizendo que estive nos mundos mais próximos de
Siwena do que da Fundação, onde o Império era um mito distante, e os comerciantes eram
verdades vivas. Nós próprios fomos iludidos por comerciantes.
- Foi a própria Fundação que lhe disse que aspirava ao domínio da Galáxia?
- Iam dizer uma coisa dessas! - Riose tornara-se outra vez violento. - Não era assunto
que me falassem. Pessoa com responsabilidades oficiais não dizia nada. Falavam
exclusivamente de negócios. Contudo falei com homens comuns. Absorvi as idéias do povo
comum, o seu “manifesto destino”, a sua calma aceitação de um grande futuro. É uma coisa
que não se pode ocultar, um otimismo universal que eles não procuram esconder de maneira
nenhuma.
O siweniano mostrou abertamente uma satisfação tranqüila:
- Você deve ter verificado que parece confirmar-se completamente a reconstrução dos
acontecimentos a que procedi, feita embora com os pouquíssimos elementos que tinha reunido
sobre o assunto.
- Não há dúvida - replicou Riose com um sarcasmo acanhado - que é uma homenagem
aos seus poderes analíticos. E é também uma demonstração enérgica e precisa dos perigos
crescentes que correm os domínios de Sua Majestade Imperial.
Barr encolheu os ombros como se aquilo lhe não dissesse respeito e Riose inclinou-se
para diante, para examinar a largura dos ombros do ancião, fitando-o nos olhos com curiosa
brandura. E disse:
- Agora patrício, não se trata disso. Não tenho nenhum desejo de me mostrar bárbaro.
Pela minha parte, a herança da hostilidade siweniana contra o Império significa um peso
odioso, e hei de fazer tudo o que estiver em minhas mãos para eliminá-lo. Porém o meu foro é
militar e é impossível a interferência nos negócios civis. Provocaria a minha destituição e me
tornaria inútil para sempre. Compreende? Sei que compreende isso. Entre nós dois vamos
deixar que a atrocidade de quarenta anos atrás seja compensada pela vingança que você tirou
do seu autor e procurar assim esquecer o que se passou. Eu preciso de sua ajuda. Sou
obrigado a admitir isto francamente.
Havia um toque de urgência na voz do jovem, porém Ducem Barr meneou a cabeça
delicada e deliberadamente num gesto negativo. Riose insistiu suplicantemente:
- Você não está entendendo, patrício, e eu duvido da minha habilidade para conseguir
levá-lo a compreender o que quero dizer. Não posso argüir no seu próprio campo. Você é um
sábio, eu não. Mas posso dizer-lhe isto: seja o que for que você pense do Império, é obrigado
a admitir os seus grandes serviços. Suas forças armadas têm cometido crimes isolados, mas
em geral têm sido uma força de paz e de civilização. Foi a Armada Imperial que criou a Pax
Imperium que governou toda a Galáxia durante dois mil anos. Compare os dois milênios de
paz sob a égide do Sol e da Nave com os dois milênios de anarquia interestelar que os
precederam. Lembre-se das guerras e devastações desses tempos antigos e diga-me se, com
todas as suas faltas, o Império não é digno de ser conservado.
- Compare - continuou ele vigorosamente - aquilo a que está reduzida a outra faixa da
Galáxia nestes dias de autodeterminação e independência e pergunte a si mesmo se por causa
de uma pequena desforra você deve obrigar Siwena a baixar da sua posição, de província
colocada sob a proteção de uma poderosa Armada, para a de um mundo bárbaro numa Galáxia
bárbara, todos mergulhados na sua fragmentária independência e na sua degradação e miséria
comuns.
- É assim tão mau… tão depressa? - murmurou o siweniano.
- Não, admitiu Riose. - Não há dúvida que devemos estar salvos nós mesmos, mesmo
quadruplicando a duração das nossas vidas. Mas é pelo Império que eu luto, ou seja, trata-se
de uma tradição militar que só significa alguma coisa para mim, e que não posso lhe
transmitir. Trata-se de uma tradição militar construída no âmbito da Instituição Imperial a que
sirvo.
- Você está se tornando místico e eu sempre tive dificuldade em compreender o
misticismo das outras pessoas.
- Não importa. Você compreende o perigo desta Fundação.
- Fui eu que lhe indiquei aquilo a que você chama perigo antes de você ter saído para
fora dos limites de Siwena.
- Nesse caso você compreende que ele deve ser detido enquanto embrionário ou,
então, não o poderá ser de modo algum. Você já sabia desta Fundação antes de qualquer outra
pessoa ter ouvido falar nela. Você sabe mais a seu respeito do que qualquer outra pessoa no
Império. Você sabe provavelmente qual é a melhor maneira de atacá-la, e você pode
provavelmente prevenir-me das suas contramedidas. Vamos, sejamos amigos.
Ducem Barr corou. Disse monotonamente:
- Qualquer ajuda que eu lhe pudesse dar não significaria nada. Por isso eu desejo ter
completa liberdade de lhe dizer o meu parecer, para justificar o seu persistente pedido.
- Eu serei o juiz das suas intenções.
- Não, estou falando seriamente. Nem toda a força que o Império pudesse utilizar seria
suficiente para esmagar este mundo de pigmeus.
- Por que não? - os olhos de Bel Riose brilharam orgulhosamente. - Não, se deixe
ficar onde está. Eu lhe direi quando é que você deve sair. Por que não? Está enganado se
pensa que subestimo este inimigo que descobri, patrício - e a sua voz ganhou um acento
relutante - perdi uma nave durante a viagem de regresso. Não tenho provas de que tenha caído
nas mãos da Fundação, mas não foi localizada e deve ter sido simplesmente um acidente, e a
nave desaparecida deve certamente encontrar-se ao longo da rota que seguimos. Não é uma
perda importante - menos da décima parte de uma mordida de pulga, mas pode significar que a
Fundação já iniciou as hostilidades. Semelhante ânsia e semelhante desprezo das
conseqüências podem significar forças secretas das quais não conheço nada. Você pode me
ajudar respondendo a uma pergunta específica? Qual é a sua força militar?
- Não faço a mínima idéia.
- Então explique você mesmo com os seus próprios termos. Por que é que você disse
que o Império não pode se defender deste pequeno inimigo?
O siweniano voltou a sentar-se uma vez mais e o seu olhar vagueou para além dos
olhos fitos de Riose. Falou vagarosamente:
- Porque acredito nos princípios da psicohistória. Trata-se de uma ciência estranha.
Alcançou a maturidade matemática com um homem, Hari Seldon, e morreu com ele, pois
nenhum homem, a partir de então, conseguiu manipular com destreza a complexidade da
doutrina. Mas durante esse curto período, revelou tratar-se do mais poderoso instrumento
inventado até então para o estudo da humanidade. Sem pretender prognosticar as ações dos
indivíduos, considerados pessoalmente, formulou leis capazes de análise matemática e de
extrapolação para governar e predizer a ação coletiva dos grupos humanos.
- Assim…
- Foi esta psicohistória que Seldon e o grupo com que ele trabalhava aplicaram com a
sua força total no estabelecimento da Fundação. O lugar, tempo e condições, tudo conspira
matematicamente e assim, inevitavelmente, para o desenvolvimento do Império Universal.
A voz de Riose tremia de indignação:
- Você quer dizer que essa arte pode predizer que atacarei a Fundação e perderei esta
e aquela batalha por esta e aquela razão? Você está tentando dizer que eu sou um autômato
estúpido seguindo um caminho predeterminado até à destruição.
- Não - replicou o velho patrício, abruptamente. - Já lhe disse que a ciência não tinha
nada a ver com as ações individuais. É o vasto conjunto total da ação que pode ser previsto.
- Nesse caso nós vivemos estreitamente agarrados na mão premente da Deusa da
Necessidade Histórica?
- Da necessidade Psicohistórica - corrigiu Barr, brandamente.
- E se eu puser em ação as minhas prerrogativas de desistir inteiramente de atacar?
Qual é a flexibilidade da Deusa? Quais os seus recursos?
Barr encolheu os ombros:
- Ataque agora ou nunca, com um único navio, ou com todo o poderio do Império, com
a força militar ou servindo-se da pressão econômica, por via de uma ingênua declaração de
guerra ou com emboscada traiçoeira, sirva-se de tudo o que você tiver no arsenal dos seus
perfeitos exercícios de livre-arbítrio. Você estará perdido.
- Por causa da mão morta de Hari Seldon?
- Por causa da mão morta da matemática do comportamento humano que nunca pode
ser parada, desviada, nem atrasada.
Encararam-se um ao outro no beco sem saída em que estavam, até que o general deu
um passo atrás. Disse simplesmente:
- Vou aceitar esse desafio. É uma mão morta contra uma vontade livre.
O IMPERADOR
CLEON II, vulgarmente designado “O Grande” o último imperador poderoso do Primeiro
Império, é importante devido ao renascimento político e artístico que se processou durante
o seu longo reinado. E mais conhecido pelo romance, todavia, de sua ligação com Bel
Riose, e para o homem comum ele é apenas o ”Imperador de Riose”. É importante não
admitir que os acontecimentos do último ano do seu reinado ofusquem os quarenta anos
de…
Enciclopédia Galáctica

Cleon II era Senhor do Universo. Cleon II sofreu também de um mal doloroso e não
diagnosticado. Para as estranhas evoluções dos negócios humanos, as duas afirmações não se
excluem mutuamente, não sendo sequer particularmente incoerentes. Houve na história um
número cansativamente numeroso de precedentes.
Porém a carreira de Cleon II não tem mais precedentes. Se nos debruçarmos sobre
uma extensa lista de casos similares não melhoraremos o seu sofrimento pessoal com um
trabalho eletrônico. Esse sofrimento tornava-o tão pequeno que o levava a pensar em onde o
seu bisavô fora governador pirata de um planeta de poeira-atômica, e ele próprio repousava
no palácio de verão de Ammenetik, o Grande, como se descendesse de uma linha de
governadores Galácticos que se estendesse pelos tempos afora até um passado remoto.
Atualmente não encontrava conforto em saber que os esforços de seu pai tinham varrido o
reino de seus leprosos sinais de rebelião, devolvendo-o à paz e unidade de que desfrutara sob
Stannel VI, o que trouxera como conseqüência que nos vinte e cinco anos do seu reinado nem
uma sombra de revolta tivesse obscurecido sua brilhante glória.
O Imperador da Galáxia e Senhor de Tudo lastimava-se quando recostava a cabeça na
reconstituinte superfície de força que existia ao redor de sua almofada. Caindo numa moleza
em que nem sequer se mexia, e dominado por um formigueiro agradável, Cleon distendia-se
um bocado. Soerguia-se com dificuldade e fitava morosamente as paredes distantes do quarto
enorme. Era um péssimo quarto para uma pessoa só. Era excessivamente grande. Todos os
quartos eram muito grandes. Porém era preferível estar só durante estes períodos de invalidez
a suportar os galanteios dos cortesãos, a sua pródiga simpatia, a sua estupidez cortês e
condescendente. Era melhor estar só do que observar aquelas máscaras insípidas atrás das
quais se iam tecendo as tortuosas especulações oferecidas pelas possibilidades de morte e
pelas riquezas da sucessão.
Estava dilacerado pelos pensamentos. Havia os seus três filhos, três jovens fortes e
robustos, cheios de esperanças e virtudes. Onde é que se meteriam naqueles dias maus?
Estavam à espera, não havia dúvida. Vigiavam-se uns aos outros, e todos vigiavam a ele.
Agitou-se desassossegadamente. E agora Brodrig pedia ansiosamente uma audiência.
O Brodrig de origem humilde, fiel porque era odiado com um ódio unânime e cordial, que
constituía o único ponto de harmonia entre as dúzias de panelinhas em que estava dividida a
sua corte.
Brodrig, o fiel favorito, que tinha de ser fiel e que a menos que tomasse a nave mais
rápida existente na Galáxia, no dia em que o Imperador morresse, seria remetido para a
câmara atômica logo no dia seguinte.
Cleon II apertou o botão liso no braço do seu grande divã e a enorme sala que ficava
no fundo do quarto dissolveu-se por transparência. Brodrig avançou ao longo do tapete
vermelho, e inclinou-se para beijar a mão flácida do Imperador.
- Como tem passado senhor? - perguntou o Secretário Privado num tom baixo de
ansiedade conveniente.
- Ainda vivo - vociferou o Imperador, exasperado - se pode dizer que se vive quando
qualquer patife, capaz de ler um livro de medicina, se serve de mim como se fosse um campo
virgem e receptivo para as suas experiências sem valor nenhum. Se existe um remédio
imaginável, químico, físico, ou atômico, que ainda não tenha sido experimentado, e se existe
alguém que tenha sabido destas experiências em qualquer canto afastado do reino, há de
aparecer um dia antes para experimentá-la. E, entretanto outro livro recém descoberto, ou
simplesmente falsificado, será utilizado como autoridade. Pela memória de meu pai - rugiu ele
barbaramente - parece que não há um bípede que seja capaz de estudar a doença que tem
diante dos olhos, com esses mesmos olhos. Não há um que seja capaz de contar o ritmo do
pulso, sem um livro dos antigos diante dele. Estou doente e eles dizem que o mal é
“desconhecido”. Os loucos! Se no decurso de um milênio os corpos humanos aprenderem
novos métodos de morrer misteriosamente, esses métodos não foram abrangidos pelos estudos
dos antigos e permanecem incuráveis para todo o sempre. Se não fosse assim os antigos
estariam ainda vivos, ou então eu.
O Imperador deixou-se escorregar para trás, diminuindo o ritmo da respiração com
uma praga, enquanto Brodrig o fitava com alguma dúvida. Cleon II disse impacientemente:
- Quantos é que estão à espera lá fora?
E apontava com a cabeça na direção da porta. Brodrig respondeu pacientemente:
- No Grande Vestíbulo há o número habitual.
- Bem, que esperem. Estou ocupado com os assuntos de Estado. Vá declará-lo ao
Capitão da Guarda. Ou espere, vamos esquecer dos assuntos de Estado. Eu tinha precisamente
anunciado que não daria audiência, e deixe o Capitão da Guarda que se aborreça. Os chacais
podem trair-se entre eles.
O Imperador riu sem vontade.
- Corria o boato, senhor - disse Brodrig, vagarosamente - de que é o seu coração que
lhe provoca perturbações.
O sorriso do Imperador levou pouco tempo a ser substituído pelo anterior sorriso de
mofa.
- Podem prejudicar outros mais do que a mim próprio se alguém decidir agir
prematuramente com base nesse boato. Todavia vamos ver o que é que você deseja. Pode
levantar-se.
Brodrig levantou-se da posição ajoelhada perante um gesto de permissão e disse:
- Há qualquer coisa que se refere ao general Bel Riose, o Governador Militar de
Siwena.
- Riose? - Cleon II franziu irritadamente as sobrancelhas. - Não tenho lugar para ele.
Espera, foi ele que me mandou aquela quixotesca mensagem há uns meses atrás? Sim, me
lembro. Desejava permissão para entrar numa carreira de conquistador para glória do Império
e do Imperador.
- Exatamente, senhor.
O Imperador riu brevemente:
- Pensa que tenho alguns generais atrás de mim, Brodrig? Parece-me ser um curioso
atavismo. Qual foi a resposta? Eu suponho que tenha tomado cuidado com ele.
- Assim fiz, senhor. Recebeu instruções para fornecer informações adicionais e para
não dar nenhum passo que envolvesse uma ação naval sem ordens adicionais do Império.
- Hum. É suficiente para nos manter defendidos. Quem é esse Riose? Já esteve alguma
vez na corte?
Brodrig disse que não com a cabeça e os seus lábios torceram-se levemente:
- Iniciou sua carreira como cadete na Guarda há uns dez anos atrás. Tomou parte no
caso de Lemul Cluster.
- Lemul Cluster? Bem sei, a minha memória não me falha inteiramente… Foi nesse
tempo que um jovem soldado salvou duas naves de um choque frontal com… ou… foi isto ou
outra coisa qualquer? - Agitou impacientemente uma mão. - Não me recordo de detalhes. Foi
qualquer coisa heróica.
- Foi Riose esse soldado. Promoveram-no por isso - disse Brodrig secamente - e
nomearam-no para um posto no campo de batalha, como capitão de uma nave.
- E agora é Governador Militar de um sistema fronteiriço e ainda novo. Um homem
capaz, Brodrig!
- Não é de confiança, senhor. Vive no passado. É um sonhador dos tempos antigos, ou
antes, dos mitos de que se serviam esses tempos antigos. Alguns homens são inofensivos em si
próprios, mas a sua estranha ausência de realismo torna-os loucos para os outros. -
Acrescentou: - Seus homens, julgo eu, estão completamente sob seu controle. Ele é um dos
seus populares generais.
- É? - cismou o Imperador. - Bem, adiante Brodrig, não quero ser apenas servido por
incompetentes. Eles certamente não ficam com inveja da sua própria fidelidade.
- Um traidor incompetente não é um perigo. Há muito mais razões para manter
vigiados os homens capazes.
- Você entre eles, Brodrig? - Cleon II riu e depois fez uma careta dolorida. - Bem,
nesse caso, pode esquecer a preleção por enquanto. Que nova revelação há no que se refere a
este jovem conquistador? Espero que não se tenha apenas limitado a reminiscências.
- Foi recebida outra mensagem, senhor, do General Riose.
- Oh? E para que efeito?
- Fez uma viagem de espionagem ao território desses bárbaros e requer uma
expedição em massa. Os seus argumentos são extensos e razoavelmente aborrecidos. Não
tinham importância para aborrecer Vossa Imperial Majestade até agora, durante a sua
indisposição. Particularmente desde que será discutida demoradamente durante a sessão do
Conselho dos Lordes. - Deitou um olhar oblíquo ao Imperador.
Cleon II franziu os sobrolhos.
- Os Lordes? Será um assunto para eles, Brodrig? Isso significa uma quantidade de
longas interpretações da Carta. Sempre se acaba nisso.
- Não pode ser evitado, senhor. Podia ter sido melhor se o seu augusto pai tivesse
vencido a última rebelião sem ser obrigado a aceitar a Carta. Mas desde que ela existe, temos
de suportá-la, por enquanto.
- Suponho que tem razão. Nesse caso os Lordes devem ser ouvidos. Mas para que esta
solenidade toda, homem? Trata-se, afinal de contas, de um ponto de reduzida importância. O
triunfo numa fronteira remota com tropas reduzidas dificilmente é um negócio de Estado.
Brodrig sorriu ligeiramente. Disse friamente:
- É negócio de um romântico idiota, mas precisamente um romântico idiota pode ser
uma arma mortal quando um rebelde não-romântico se serve dele como instrumento. Senhor, o
homem era popular e continua sendo. É jovem. Se ele anexar um ou dois planetas bárbaros e
errantes, se tornará um conquistador. Ora, um jovem conquistador que provou a sua habilidade
para excitar o entusiasmo de pilotos, mineiros, comerciantes e uma ralé da mesma espécie é
perigoso em qualquer época. Ainda que lhe falte o desejo de fazer como seu augusto pai fez ao
usurpador, Ricker, há ainda a hipótese de um dos nossos Lordes do Domínio se decidir a
utilizá-lo como arma.
Cleon II mexeu um braço precipitadamente e retesou-se sob o efeito da dor. Relaxou-
se lentamente, mas desaparecera-lhe o sorriso, e sua voz tornou-se um sussurro:
- Você é um súdito precioso, Brodrig. Desconfia sempre mais do que é necessário e eu
só preciso levar em consideração metade das precauções que você sugere para estar
completamente defendido. Ele poderá encontrar-se com os Lordes. Nós veremos o que eles
dizem e tomaremos as nossas medidas de acordo com isso. O jovem, calculo eu, ainda não se
lançou em movimentos hostis.
- Não se diz nada a esse respeito. Mas já pede reforços.
- Reforços! - Os olhos do Imperador cintilaram com espanto. - Mas que força tem ele?
- Dez naves de combate, senhor, com um complemento total de naves auxiliares. Duas
dessas naves estão equipadas com motores recuperados da antiga Grande Esquadra, e uma
delas tem uma bateria de artilharia da mesma origem. As outras naves não são modernas, dos
últimos cinqüenta anos, porém ainda podem ser utilizadas.
- Dez naves devem parecer armamento adequado para qualquer empresa razoável.
Porque, com menos de dez naves, conseguiu meu pai sua primeira vitória contra o usurpador.
Quem são esses bárbaros que ele atacará?
O Secretário Privado levantou um par de sobrancelhas arrogantes:
- Refere-se a eles como sendo “a Fundação”.
- A Fundação? O que vem a ser isso?
- Não há nenhum registro a esse respeito, senhor. Procurei cuidadosamente nos
arquivos. A área da Galáxia que ele indica coincide com a antiga província de Anacreon, que
há dois séculos foi abandonada a si mesma por roubos, barbarismo e anarquia. Não há planeta
conhecido pela designação de Fundação, seja como for. Havia uma vaga referência a um grupo
de cientistas enviado para esta província pouco antes de ela se separar da nossa proteção.
Estavam preparando uma Enciclopédia. - Sorriu fracamente. - Suponho que lhe chamavam a
Enciclopédia Fundação.
- Bem - o Imperador observou-o sombriamente - isso me parece uma fraca base para
poder ir avante.
- Não estou andando para diante, senhor. Não foi recebida uma palavra sequer dessa
expedição depois do aumento da anarquia nessa região. Se os seus descendentes ainda
estiverem vivos e conservam o seu nome, nesse caso devem ter certamente regressado ao
barbarismo.
- E para isso ele deseja reforços. - O Imperador lançou um olhar feroz ao seu
secretário. - Isso é muito peculiar, propor-se combater selvagens com dez naves e pedir mais
antes de lançar um ataque, é surpreendente. Já começo a me lembrar desse Riose, era um rapaz
simpático, de uma família leal. Brodrig, há aqui implicações que eu não consigo compreender.
Isto deve ter mais importância do que parece. - Os seus dedos brincaram preguiçosamente
com o lençol brilhante que lhe cobria as pernas rígidas. Continuou: - Preciso de um homem
desse tipo, de um homem que tenha visão, cérebro e lealdade, Brodrig…
O secretário inclinou a cabeça submissa:
- E as naves, senhor?
- Ainda não! - O Imperador gemeu suavemente quando mudou de posição no seu leito
macio. Apontou um dedo fraco: - Não, enquanto não soubermos mais alguma coisa. Convoque
o Conselho dos Lordes para um dos dias desta semana. Também deve ser uma boa
oportunidade para novas apropriações. Isso deve ter prioridade absoluta. - Meneou a cabeça
para afastar o formigueiro doloroso da almofada com o irradiante campo de força. - Vá
embora, Brodrig, e mande-me entrar o médico. É o pior zangão do grupo.
COMEÇA A GUERRA

Do ponto de irradiação de Siwena, as forças do Império encaminharam-se


cautelosamente para a escuridão desconhecida da Periferia. Naves gigantescas venciam as
vastas distâncias que separavam as estrelas errantes da extremidade da Galáxia, e sondavam o
caminho em volta do limite que ficava mais no exterior da influência da Fundação.
Mundos isolados no seu novo barbarismo de dois séculos voltavam a sentir mais uma
vez a sensação dos senhores feudais do Império, pisando o seu solo. Jurou-se lealdade perante
a artilharia maciça que estava sobre suas cidades capitais.
Tinham deixado guarnições, guarnições de homens com o uniforme Imperial com a
insígnia brilhante do Sol e da Nave colocada nos ombros. Os homens velhos deram notícia
disso e lembraram-se uma vez mais das esquecidas narrativas dos pais dos seus avós, dos
tempos em que o universo era grande, rico e pacífico, e aquele mesmo símbolo do Sol e da
Nave governava tudo.
Então as grandes aves continuaram a tecer suas linhas de bases avançadas em volta da
Fundação. E como cada mundo via logo designado o seu próprio lugar na estrutura, o relatório
voltava para trás, para Bel Riose, que estabelecera o seu quartel-general na aridez rochosa de
um planeta errante, com um sol fraco. Agora Riose descontraía-se e sorria severamente para
Ducem Barr:
- Bem, o que é que você pensa, patrício?
- Eu? Mas que valor pode ter aquilo que eu penso? Não sou militar. - Ao dizer isto
fingiu um olhar cansadamente desgostoso, perante a desordem cada vez maior do aposento que
ia terminar na pedra, e que fora rasgado na parede de uma caverna, tendo instalado ar e luz
artificiais, e calor que forneciam a única ilusão de vida na vastidão de um mundo deserto.
- Pela ajuda que lhe posso dar - murmurou ele - ou que lhe desejo dar, podia mandar-
me de volta para Siwena.
- Ainda não. Ainda não. - O general virou a cadeira para o canto onde estava apoiada
a esfera enorme, brilhantemente transparente, que representava a antiga prefeitura imperial de
Anacreon e os seus setores vizinhos. - Mais tarde, quando isto estiver mais adiantado, você
poderá regressar aos seus livros e a tudo o mais. Eu cuidarei que os bens de sua família sejam
devolvidos a você e aos seus filhos para o resto da vida.
- Muito obrigado — replicou Barr, com uma ironia difusa - porém eu deposito fé no
resultado feliz de tudo isto.
Riose riu sem jeito:
- Não me indisponha outra vez contra suas lamentações. Este mapa fala mais
evidentemente do que todas as suas teorias calamitosas. - Acariciou delicadamente o seu
perfil arqueado e invisível. - Você é capaz de ler um mapa em projeção radial? Pode? Bem,
veja por você mesmo. As estrelas douradas representam os territórios Imperiais. As estrelas
vermelhas são aquelas que estão submetidas pela Fundação e as cor-de-rosa aquelas que estão
provavelmente dentro da influência da esfera econômica. Agora veja…
A mão de Riose cobriu um botão arredondado, e vagarosamente uma área de brancas e
ásperas cabeças de alfinete transformou-se num azul profundo. Como uma taça de fundo
virado para o ar eles ficaram encaixados entre o vermelho e o cor-de-rosa.
- Estas estrelas azuis estão sendo ocupadas pelas minhas forças - disse Riose com
tranqüila satisfação - e elas ainda continuam a avançar. Ainda não apareceu qualquer
oposição. Os bárbaros estão tranqüilos. E, particularmente, não verificou nenhuma oposição
por parte das forças da Fundação. Essas estão dormindo tranqüilamente e bem.
- Você espalha suas forças por toda a parte, não é assim? - perguntou Barr.
- Realmente - disse Riose -, e a despeito das aparências, não é assim. Os pontos-
chave que guarneci e fortifiquei são relativamente poucos, porém foram cuidadosamente
escolhidos. O resultado é que as forças mobilizadas são reduzidas, mas grandes os resultados
estratégicos. Há muitas vantagens, mais do que pode parecer para quem não fez ainda um
estudo cuidadoso das táticas espaciais, se bem que seja evidente para qualquer pessoa, por
exemplo, em que eu possa lançar um ataque a partir de qualquer ponto nesta esfera cercada e,
por isso, quando eu tiver terminado, será impossível à Fundação atacar pelos flancos ou pela
retaguarda. Não terei flancos nem retaguarda em relação a eles. Esta estratégia do Cerco
Prévio já foi anteriormente aplicada notadamente nas campanhas de Loris VI, há uns dois mil
anos, mas sempre imperfeitamente, sempre com o conhecimento e a interferência combativa do
inimigo. Isto é diferente.
- O caso ideal do compêndio? - A voz de Barr era lânguida e indiferente. Riose
mostrou-se impaciente:
- Você ainda pensa que as minhas táticas vão falhar?
- Assim deve ser.
- Você deve compreender que não há caso na história militar em que, tendo-se
completado um cerco, as forças atacantes não tenham eventualmente ganho, exceto nos casos
em que exista uma força exterior suficiente para romper o cerco.
- Se você assim o diz.
- E você ainda se mantém fiel à sua doutrina?
- Decerto.
Riose encolheu os ombros:
- Continuarei na mesma.
Barr deixou que o irritado silêncio durasse um momento, depois do que perguntou
tranqüilamente:
- Você já recebeu alguma resposta do Imperador?
Riose tirou um cigarro de um recipiente da parede, colocado atrás de sua cabeça, pôs
um filtro entre os lábios e aspirou a chama cuidadosamente. Acabou por dizer:
- Refere-se ao meu pedido de reforços? Já chegou, isto é tudo. É precisamente essa a
resposta.
- Não mandam naves.
- Nenhuma. Já estava meio desconfiado. Francamente, patrício, eu nunca devia ter
consentido que as suas teorias me enchessem de pânico a ponto de fazer um pedido antecipado
de reforços. Isto me colocou em uma posição muito incômoda.
- É assunto encerrado?
- Definitivamente. As naves são difíceis. As guerras civis dos últimos dois séculos
despedaçaram mais de metade da Grande Esquadra e o que restou está em condições
verdadeiramente lastimáveis. Você sabe disto tão bem como sabe que as naves que
construímos agora não são de primeira qualidade. Não me parece que haja um único homem
na galáxia atual que seja capaz de construir um motor hiper-atômico de primeira classe.
- Sei isso muito bem - disse o siweniano. Os seus olhos estavam pensativos e
meditativos. - Mas não calculava que você o soubesse também. Por isso sua Majestade
Imperial não está em condições de conceder naves. A psicohistória podia ter predito isto, de
fato deve tê-lo feito, com toda certeza. Eu diria que a mão morta de Hari Seldon ganhou o
primeiro assalto.
Riose respondeu duramente:
- As naves que tenho bastam-me. O seu Seldon não ganhou coisa nenhuma. Se a
situação se tornar mais séria, nessa altura devem estar disponíveis mais naves. Até o momento
o Imperador não deve conhecer a história toda.
- É mesmo? Por que é que você não a contou?
- Foram evidentemente… as suas teorias. - Riose fitou-o sarcasticamente. - A história
é, com todo o respeito que lhe é devido, altamente improvável Se a evolução que se verificar
o autorizar e se os acontecimentos me vierem dar uma prova, nesse caso, mas só então, farei
referência a uma situação de emergência.
- E como elemento adicional - Riose olhou à sua volta, descuidadamente - a história,
desapoiada pelos fatos, tem um cheiro de lesa majestade que só muito escassamente podia ser
agradável à Sua Majestade Imperial.
O velho patrício sorriu:
- Você pensa que revelar-lhe que o seu augusto trono está em perigo de subversão,
devido a uma porção de bárbaros esfarrapados dos confins do universo não é aviso que possa
ser compreendido ou apreciado. Nesse caso, você não espera nada dele.
- A menos que veja aparecer um enviado especial daqui a pouco.
- E por que um enviado especial?
- Trata-se de um velho costume. Um representante direto da coroa está presente em
todas as campanhas militares que se processam sob os auspícios do governo.
- É verdade? Por quê?
- Trata-se de uma tradição de preservar o símbolo da chefia pessoal do Imperador em
todas as campanhas. Adquiriu, todavia, a função secundária de vigiar a fidelidade dos
generais. Nem sempre sucede assim a este respeito.
- Você vai achar isso inconveniente, general. Uma autoridade estranha, penso eu.
- Não duvido que assim seja - Riose corou de leve - mas não pode ser evitado…
O receptor que estava na mão do general reluziu ardentemente, e com um som
intrusivo, o cilindro de comunicação estalou e saiu pela fenda. Riose foi desenrolando-a:
- Ótimo! Aqui está ele!
Ducem franziu os sobrolhos numa meia pergunta. Riose esclareceu:
- Você sabe que capturamos um desses comerciantes. Vivo, e com a nave intacta.
- Já ouvi falar dele.
- Muito bem, estão agora mesmo trazendo-o para cá, e deve estar aqui dentro de um
minuto. Pode continuar sentado, patrício. Desejo que esteja aqui quando o interrogar. Foi por
isso que lhe pedi para vir hoje aqui, antes de mais nada. Você pode estar atento quando eu
deixar passar pontos importantes.
O sinal da porta ressoou e um toque do general fez girar a ampla porta. O homem que
estava de pé no limiar era alto e barbudo, vestindo um curto casaco de couro plástico, com um
capuz empurrado para a nuca. Tinha as mãos livres, e homens armados à sua volta, não
mostrou nenhuma perturbação aparente. Avançou sem objetivo, e olhou à sua volta com olhos
perscrutadores. Saudou o general com um aceno grosseiro de mão e uma meia reverência.
- Como se chama? - perguntou Riose, vagamente.
- Lathan Devers. - O comerciante meteu os dedos no amplo e vistoso cinto: - Você é o
patrão?
- E você é um comerciante da Fundação?
- Exatamente. Ouça, se você é o patrão, faria melhor se dissesse aos seus mercenários
que deixem o meu cargueiro em paz.
O general levantou a cabeça e olhou friamente para o prisioneiro:
- Responda às perguntas. Não aceito ordens não autorizadas.
- Muito bem. Quis ser delicado. Contudo um dos seus rapazes já está pronto para ser
colocado no caixão por ter metido os dedos onde não devia.
Riose transferiu o olhar para o tenente de guarda.
- Este homem está falando a verdade? No seu relatório, Vrank, não havia referência a
nenhuma perda.
- Não houve nenhuma, senhor - o tenente falava sufocadamente, apreensivamente -
durante o ataque. Tomaram-se posteriormente algumas disposições para revistar o barco, pois
começou a correr o boato de que havia uma mulher a bordo. Neste momento, senhor, foram
localizados muitos instrumentos de natureza desconhecida, instrumentos que o prisioneiro
referiu serem coisas do seu comércio. Um deles lançou uns relâmpagos quando o tocaram, e o
soldado que o tocou morreu.
O general virou-se novamente para o comerciante:
- Quer isto dizer que o seu barco carrega explosivos atômicos?
- Pela Galáxia, claro que não. Para que? Aquele louco agarrou um punção atômico,
mal e com avidez e levou uma desintegração máxima. É coisa que não se deve fazer. Podia
perfeitamente ter apontado uma pistola-nêutron à cabeça que conseguia o mesmo resultado. Eu
poderia ter evitado, se não se tivessem sentado cinco homens em cima do meu peito.
Riose fez um gesto para o guarda que se mantinha na expectativa:
- Pode ir embora. A nave capturada deve ser selada para evitar toda e qualquer
intrusão. Sente-se, Devers.
O comerciante assim fez, no lugar indicado, e resistiu estoicamente ao duro exame do
general Imperial e ao olhar curioso do patrício siweniano. Riose disse:
- Você é um homem sensato, Devers.
- Muito obrigado. Você está impressionado pela minha cara ou precisa de mais alguma
coisa? Eu digo-lhe o que sou. Sou um bom homem de negócios.
- É a respeito da mesma coisa. Você entregou a nave quando podia ter decidido a
desperdiçar nossas munições e ter destruído a si próprio como poeira eletrônica. Pode
resultar disso um bom tratamento para você, se continuar dentro deste tipo de perspectiva da
vida.
- Bom tratamento é o que eu mais desejo, patrão.
- Ótimo, e cooperação é o que eu mais desejo. - Riose sorriu, e disse à parte em voz
baixa para Ducem Barr: - Espero que a palavra “desejo” signifique aquilo que estou
imaginando. Você alguma vez ouviu esta espécie de jargão bárbaro?
Devers replicou suavemente:
- Está bem. Ponho-me à sua disposição. Mas a que espécie de cooperação é que se
refere, patrão? Para lhe falar honestamente, não sei onde estou. - Olhou à sua volta. - Que
lugar é este, por exemplo, e qual é a sua idéia?
- Ah, já me esqueci da outra metade das apresentações. Peço desculpas. - Riose
estava de bom-humor. - Este cavalheiro é Ducem Barr, Patrício do Império. Eu sou Bel Riose,
Par do Império, e General de Terceira Classe das forças armadas de Sua Majestade Imperial.
O queixo do comerciante pendeu. Depois:
- O Império? Isso quer dizer o velho Império que nos ensinavam na escola? Hui!
Tolice! Eu sempre tive noção de que já deixara de existir de todo.
- Olhe à sua volta. Está nele - disse Riose carrancudamente.
- Podia tê-lo reconhecido, não obstante - e Lathan Devers levantou os olhos para o
teto. - Foi um sujeito com ar muito cortês que pegou com muita habilidade a minha velha nave.
Nenhum reino da Periferia podia tê-lo feito assim. Enrugou a testa: - Qual é o seu jogo,
patrão? Ou devo chamar-lhe general?
- O jogo é a guerra.
- O Império contra a Fundação, não é?
- Isso mesmo.
- Porquê?
- Penso que você sabe porque.
O comerciante fitou-o rudemente e meneou a cabeça.
Riose deixou o outro deliberar, depois do que disse devagarinho:
- Tenho certeza de que você sabe porque.
Lathan Devers resmungou:
- Está calor, aqui - e pôs-se de pé para tirar o casaco com capuz. Depois do que
voltou a sentar-se e esticou as pernas.
- Sabe - replicou ele, confortavelmente - eu imagino que vocês estão pensando que eu
devia lançar um grito de guerra e desatar a apontar armas à minha volta. Eu podia surpreendê-
lo antes de você poder se mexer se escolhesse a minha oportunidade, e este velho parceiro,
que está sentado e não diz nada, também não poderia me deter.
- Contudo você não o conseguiria - disse Riose, num tom confidencial.
- Não conseguiria - anuiu Devers, amistosamente. - Em primeiro lugar, se eu o
matasse, isso não iria parar a guerra, ao que suponho. Há mais generais no lugar de onde você
veio.
- Trata-se de uma dedução muito correta.
- Além do que, eu seria provavelmente abatido uns dois segundos depois de o ter
derrubado, e morto logo a seguir, ou talvez demoradamente, depende. Mas se me matassem, eu
nunca viria a saber em que é que consistem os seus planos. E não haveria nenhuma
compensação no caso.
- Eu disse que você era um homem sensato.
- Mas há uma coisa que lhe quero dizer, patrão. Eu gostaria que me explicasse o que
queria dizer quando me declarou que eu sabia porque é que vocês nos declararam guerra. Cá
por mim não sei, e nunca consigo chegar ao fim em jogos de adivinhação.
- Sim? Você nunca ouviu falar de Hari Seldon?
- Não. Eu disse que não gosto de jogos de adivinhação.
Riose lançou um olhar de relance a Ducem Barr, que sorriu com breve suavidade e
voltou à sua expressão de sonho interior. Riose disse com uma careta:
- Não se trata de você gostar ou não gostar de jogos, Devers. Há uma tradição, ou
fábula, ou história sensata - não é isso que me preocupa - a respeito da sua Fundação, que diz
que vocês acabarão por fundar o Segundo Império. Eu conheço mais ou menos uma versão
pormenorizada da grande charlatanice psicohistórica de Hari Seldon, e os seus planos finais
de agressão contra o Império.
- Ah sim? - Devers meneou pensativamente a cabeça. - E que é que eu lhe devo dizer
de tudo isto?
- Conhece este tema? - perguntou Riose com perigosa brandura. - Você está aqui, mas
não para perguntar nada. Eu desejo que você saiba o que se passa a respeito da fábula de
Seldon.
- Mas se é uma fábula…
- Não brinque com as palavras, Devers.
- Não estou brincando. De fato, eu desejo ser inteiramente honesto com você. Você
sabe tudo o que eu sei a esse respeito. É uma estúpida tolice, já meio esquecida. Todos os
mundos têm os seus contos de aventuras, você não pode proibi-los de prosseguir o seu
caminho. Pois eu tenho ouvido esta espécie de conversa, Seldon, Segundo Império e assim por
diante. Serve para contar à noite às crianças para que elas adormeçam ouvindo estas tolices.
Os jovens projetam círculos visíveis nos seus quartos de brincadeira com os seus projetores
de bolso e absorvem as emoções de Seldon. Mas isto é estritamente para pessoas não adultas.
Quando muito, será para adultos não inteligentes. - O comerciante meneou a cabeça.
Os olhos do general Imperial estavam obscurecidos.
- É realmente assim? Você está desperdiçando as suas mentiras, homem. Eu estive no
planeta Terminus. Conheço a Fundação. Tenho me dedicado a examiná-la com muito cuidado.
- E nesse caso põe-se a me fazer perguntas? A mim, quando não me demoro lá dois
meses cada dez anos? Você está desperdiçando o seu tempo. Vá para diante com a sua guerra,
se está empenhado em correr atrás de suas fábulas.
E Barr falou pela primeira vez, maciamente:
- Você está assim tão seguro da vitória da Fundação?
O comerciante virou-se. Corou de leve e uma cicatriz antiga que tinha numa têmpora
tornou-se lívida:
- Hm-m-m, o parceiro silencioso. O que é que você aproveitou daquilo que eu disse,
doutor?
Riose meneou a cabeça muito vagarosamente para Barr, e o siweniano continuou em
voz baixa:
- Digo isto porque esta declaração de guerra o havia de aborrecer se você pensasse
que o seu mundo poderia perdê-la, e sofrer as amargas conseqüências da derrota, ao que me
parece. O meu mundo morreu uma vez e ainda assim continua.
Lathan Devers cofiou a barba, olhou para os presentes um após outro, depois do que
sorriu repentinamente:
- Ele fala sempre assim, patrão? Ouça - e tornou-se sério - o que é uma derrota? Já vi
guerras e já vi derrotas. O que acontece quando o vencedor assume o domínio? Quem é que
fica aborrecido? Eu? Os sujeitos como eu? - Meneou a cabeça com ironia. - Compreendam
isto - o comerciante falava agora de maneira vigorosa e séria - há cinco ou seis mandões
gordos que habitualmente dirigem um planeta médio. Esses recebem a paulada atrás da orelha,
mas eu não vou agora perder a paz de espírito por sua causa. Veja. O povo? O populacho?
Decerto alguns morrerão e os restantes haverão de ser obrigados a pagar impostos extras
durante um tempo. Mas hão de acabar por se pôr de fora, e passarão a trabalhar debaixo das
ordens de outros. E depois voltarão à sua antiga situação novamente em confusão.
As narinas de Ducem Barr estremeceram, e os tendões da sua velha mão direita
contraíram-se, mas não disse nada. Os olhos de Lathan Devers estavam fitos nele. Não
perderam nada. E disse:
- Olhe. Eu gasto a vida no espaço com minhas engenhocas de meia pataca e sujeito às
minhas responsabilidades perante as Associações Comerciais. Há uns parceiros gordos lá
para trás - e o seu dedo polegar apontou para trás, por cima do ombro - sentados em casa e
recebendo os meus rendimentos minuto a minuto, durante o ano - livres de aborrecimentos e
mais satisfeitos do que eu. Suponha que você governasse a Fundação. Você há de precisar
sempre de nós. Você precisará mais de nós do que as Associações Comerciais - porque não
sabe o que existe à sua volta, e nós podemos satisfazer as exigências da caixa. Podemos ficar
em muito melhor situação com o Império. Pois claro que podemos, e eu sou um homem de
negócio. Se ele nos trouxer mais proveitos, sou pelo Império.
E fitou os dois com irônica beligerância.
O silêncio durou dois minutos, e depois um rolo ressoou ao sair de sua fenda. O
general apanhou-o e abriu-o, relanceando a escrita limpa e colocou os visores em circuito
com um movimento circular.
- Prepare um plano indicando a posição de cada nave em ação. Espere ordens
mantendo a armada completamente em setores defensivos.
Alcançou a capa. Quando estava colocando-a nos ombros, sussurrou a Barr num tom
monótono:
- Deixo-lhe o homem. Vou aguardar os resultados. Estamos em guerra e eu posso ser
cruel nos fracassos. Lembre-se disso! - Saiu, com uma saudação dirigida aos dois.
Lathan Devers olhou para ele enquanto saía.
- Bem, alguma coisa o picou. Onde é que ele foi?
- Para uma batalha, como é evidente - disse Barr, mal-humorado. - As forças da
Fundação estão se preparando para a primeira batalha. Você faria melhor se se apressasse.
Entraram no aposento soldados armados. O seu porte era respeitoso e os seus rostos
mostravam-se severos. Devers seguiu o velho e soberbo patriarca siweniano para fora do
aposento.
O aposento onde os meteram era pequeno e vazio. Continha duas camas, um televisor,
chuveiro e instalações sanitárias. Os soldados saíram, e a grossa porta ressoou com um
estrondo vazio.
- Hum? - Devers olhou em volta de maneira desaprovadora. - Isto parece-me
destinado a ser permanente.
- E é - disse Barr, brevemente. O velho siweniano virou-lhe as costas. O comerciante
perguntou irritadamente: - Qual é o seu jogo, doutor?
- Não tenho jogo nenhum. Você fica a meu cargo, mais nada.
O comerciante corou e avançou. O queixo elevou-se por cima do patrício imóvel.
- Ah sim? Mas você está nesta cela comigo e quando vocês avançarem, os canhões
tanto estarão apontados para você como para mim. Ouça, vocês ficaram nervosos por causa
das minhas noções a respeito de guerra e paz. - Esperou sem qualquer resultado: - Muito bem,
deixe-me dizer-lhe uma coisa. Você disse que o seu país foi esmagado uma vez. Por quem?
Por um povo cometa de outra nebulosa?
Barr olhou para ele:
- Pelo Império.
- Ah sim? Nesse caso, o que é que você está fazendo aqui?
Barr manteve um eloqüente silêncio.
O comerciante deixou cair o lábio e meneou vagarosamente a cabeça. Tirou a pulseira
chata e comprida que trazia no pulso direito e segurou-a na mão:
- O que é que você pensa disto?
Estendeu-a ao companheiro com a mão esquerda. O siweniano pegou o ornamento.
Imitou vagarosamente o gesto do comerciante e colocou-o no pulso. O estranho zumbir no
pulso tornou-se mais rápido. A voz de Devers mudou mais uma vez.
- Veja, doutor, você agora está em condições de agir. Falo apenas por acaso. Se este
aposento tem um campo elétrico a circundá-lo, eles não ouvirão coisa alguma. O que você tem
aí é um Distorcedor de Campo, um genuíno invento de Mallow. Vendo-o por vinte e cinco
créditos em qualquer mundo daqui até à outra extremidade. Você pode conseguir a liberdade.
Conserve os lábios imóveis quando falar e mantenha-se tranqüilo. Você conseguira
compreender o estratagema.
Ducem Barr ficou repentinamente aborrecido. Os olhos incômodos do comerciante
estavam luminosos e animadores. Foi diminuindo suas perguntas sem ritmo. Barr disse:
- O que é que você quer? - As palavras modularam-se de entre os seus lábios imóveis.
- Eu lhe digo. Você faz tanto barulho com a boca como aquilo a que denominamos um
patriota. Contudo, o seu próprio mundo foi trucidado pelo Império, e aí está você jogando as
bolas com o general do Império bem educado e bem penteado. Não lhe parece que há nisto
uma certa falta de sentido?
Barr disse:
- Já fiz a minha parte. Um vice-rei Imperial e conquistador morreu por minha causa.
- Ah sim? Recentemente?
- Há quarenta anos.
- Há… quarenta… anos! - As palavras pareciam ter dificuldade em ganhar sentido no
espírito do comerciante. Franziu os sobrolhos. - Trata-se de um longo período para conservar
na memória. Esta porcaria vestida com uniforme de general sabe disso?
Barr acenou que sim. Os olhos de Devers tornaram-se obscuros enquanto pensava.
- Você deseja que o Império vença?
E o velho patrício siweniano começou subitamente a falar com uma profunda cólera:
- O Império e todas as suas obras podem perecer na catástrofe universal. Siwena
inteira roga todos os dias por isso. Eu tive irmãos outrora, uma irmã, um pai. Agora tenho
filhos e netos. O general sabe onde pode encontrá-los.
Devers esperou. Barr continuou num sussurro:
- Mas isto não me deteria se os resultados compensassem o risco. Eles haviam de
compreender a maneira como morrer.
O comerciante observou delicadamente:
- Então você matou uma vez um vice-rei, heim? Sabe, estou cismando aqui numas
coisas. Tivemos outrora um administrador, seu nome era Hober Mallow. Visitou uma vez
Siwena, é este o seu mundo, não é? Ele encontrou um homem chamado Barr.
Ducem fitou-o duramente:
- O que é que você sabe sobre isso?
- Aquilo que sabem todos os comerciantes da Fundação. Você podia ser um velho
companheiro encantador, colocado aqui especialmente para conseguir me levar a dizer coisas.
Claro, eles apontam-lhe pistolas desintegradoras e você odeia o Império e fará o possível por
dar cabo deles. Quando conseguir isto hei de abrir-lhe o meu coração e o general não há de
ficar nada satisfeito. Mas aqui não há muitas chances de que isso aconteça, doutor. Não
obstante isso mesmo, gostaria que me provasse que você é o filho de Onum Barr de Siwena -
o sexto e mais novo que escapou ao massacre.
A mão de Ducem Barr agitou-se quando ele abriu a caixa de metal Uso, encaixado na
parede. O objeto de metal separou-se com um estalido surdo quando ele o meteu com força
nas mãos do comerciante.
- Olhe para isto - disse ele.
Devers olhou. Levou aos olhos a grossa argola central da corrente sem abertura e
praguejou suavemente.
- Ou isto é o monograma de Mallow, ou sou um principiante do espaço, e o modelo já
tem cinqüenta anos de idade.
Levantou o olhos e sorriu.
- Aperte, doutor. Um campo atômico do tamanho de um homem é a única prova de que
preciso - e estendeu-lhe a sua larga mão.
O FAVORITO
As pequeninas naves tinham aparecido das profundidades vazias e arremessaram-se
pelo meio da Armada. Sem um choque ou uma explosão de energia, moveram-se através da
área ocupada pelas naves, depois do que dispararam e desapareceram, enquanto as galeras
Imperiais giravam à volta deles como animais sem ordem. Havia dois faróis silenciosos que
pontilhavam o espaço como dois mosquitos pequeninos engelhados numa decomposição
atômica, e o resto desaparecera.
As grandes naves realizaram buscas, depois do que regressaram à sua tarefa original e
palmo a palmo, a grande teia do Cerco continuou.
O uniforme de Brodrig era imponente, cuidadosamente cortado e cuidadosamente
envergado. Passeava através dos jardins do obscuro planeta Wanda, agora temporariamente
transformado em quartel-general Imperial, e estava tranqüilo, sua expressão era sombria.
Bel Riose acompanhava-o no passeio, com o seu uniforme de combate aberto no
pescoço, e triste no seu monótono cinzento-escuro. Riose indicou o banco liso e preto debaixo
do fragrante feto-arbóreo, cujas largas folhas espatuladas se desenhavam fragilmente contra o
sol branco.
- Veja isto, senhor. É uma relíquia do Império. Os bancos ornamentados, construídos
para o amor, para o devaneio, novos e ainda em condições de serem usados, enquanto as
fábricas e os palácios caem em ruínas esquecidas.
Sentou-se, enquanto o Secretário Privado de Cleon II se deixava ficar de pé, muito
teso, diante dele e cortava destramente as folhas que lhe ficavam por cima, com golpes
precisos de seu bastão de marfim. Riose cruzou as pernas e ofereceu um cigarro ao outro.
Tirou um para ele próprio enquanto ia dizendo:
- Era isto mesmo que esperava da iluminada sabedoria de Sua Majestade Imperial,
que mandasse um observador tão competente como o senhor. Faz desaparecer qualquer
ansiedade que eu pudesse ter sentido pensando que a urgência de assuntos mais importantes
talvez obrigasse a esquecer, por momentos, uma pequena campanha da Periferia.
- Os olhos do Imperador estão em toda a parte - disse Brodrig, sem raciocínio. - Não
devemos subestimar a importância da campanha, por ora deve parecer que se está dando uma
importância exagerada as dificuldades que apresenta. É claro que não são suas pequenas
naves a barreira indicada para movimentarmos nas intrincadas manobras preliminares de um
cerco.
Riose ruborizou-se, porém manteve o domínio de si.
- Eu não quero arriscar as vidas dos meus homens, que são poucos, todavia, ou a
destruição das minhas naves que são insubstituíveis, lançando um ataque muito arrojado. O
estabelecimento de um Cerco força-me a concentrar todas as minhas possibilidades no último
ataque, por mais difícil que possa vir a ser. Já tomei a liberdade de lhe explicar as razões
militares que me levam a isto.
- Bem, bem, eu não sou militar. Neste caso, você garante-me que aquilo que
consideramos como sendo patente e evidentemente correto é, na realidade, errado. Podemos
conceder-lhe que assim seja. Sua cautela deixa o problema fora de causa. No seu segundo
relatório, você pedia reforços. E isto contra um inimigo fraco, pequeno, e bárbaro, com o qual
você não tivera ainda, nessa altura, uma única escaramuça. Pretender mais forças em tais
circunstâncias era pormenor para dar ao seu pedido um sabor de quase incapacidade, ou coisa
pior, pois que na sua curta carreira você ainda não pudera dar suficientes provas de arrojo e
imaginação.
- Fico-lhe muito grato - disse o general, friamente - mas devo lembrar-lhe que há uma
diferença entre arrojo e cegueira. Há lugar para uma jogada decisiva se conhece o inimigo e
se pode calcular os riscos pelo menos de maneira grosseira, mas pôr tudo em ação contra um
inimigo desconhecido é cegueira propriamente dita. Você podia ter-me perguntado qual a
razão que leva um homem a realizar, com segurança, uma corrida de obstáculos durante o dia,
quando à noite esbarra com a mobília do seu quarto.
Brodrig afastou as outras palavras com um esmerado piparote dos dedos.
- É dramático, mas não satisfatório. Você observou pessoalmente este mundo bárbaro.
Tem, além disso, em seu poder um prisioneiro inimigo para interrogar, esse tal comerciante.
Entre você e o prisioneiro não há uma noite de distância.
- Não? Peço licença para lhe recordar que um mundo que se foi desenvolvendo
durante dois séculos no isolamento, não deve considerar-se conhecido para basear um ataque
inteligente apenas com o conhecimento obtido por um mês de visita. Sou soldado, não um
desses heróis de filmes, com o peito em forma de barrica, que aparecem nas histórias
subetéricas e trimensionais. E um único prisioneiro, e ainda por cima um prisioneiro que é um
membro obscuro de um grupo econômico que não tem íntima conexão com o mundo inimigo,
também não pode facilitar o conhecimento total dos segredos mais profundos da estratégia
inimiga.
- Você já o interrogou?
- Já.
- E então?
- Forneceu alguns dados, mas não muito importantes. A sua nave é fraca, não tem
qualquer importância. Vende umas pequenas bagatelas engraçadas, mas mais nada. Tenho
comigo algumas dessas habilidades, que pretendo remeter ao Imperador como curiosidades.
Naturalmente, há uma boa porção delas na nave cujo funcionamento eu não compreendo, e não
trouxe nenhum técnico comigo.
- Mas você já teve consigo alguns homens que sabiam - observou Brodrig.
- Sei muito bem - replicou o general num tom levemente mordaz. - Mas esses loucos
foram embora antes de terem satisfeito todas as minhas necessidades. Já pedi que me
mandassem homens entendidos no funcionamento dos estranhos campos de circuitos atômicos
que a nave contém. E não obtive resposta.
- Homens desse tipo não podem ser espalhados por toda parte, general. Certamente
que existirá, na sua vasta província, algum homem que entenda de coisas atômicas.
- Houvesse aqui apenas um já eu teria reparado os motores parados que fornecem
força motriz a duas naves da minha pequena frota. Duas naves, entre as minhas pobres dez, que
não podem sustentar uma batalha mais prolongada por falta de suficiente suprimento de força.
Um quinto da minha força condenada a uma putrefata atividade de consolidação de posições
atrás das linhas.
Os dedos do secretário tamborilaram impacientemente:
- Sua preocupação não é única a esse respeito, general. O Imperador também tem
preocupações idênticas.
O general jogou fora o cigarro rasgado, que não chegara a acender, tirou outro, e
encolheu os ombros:
- Bem, vamos ao seguinte ponto, há falta de técnicos de primeira classe. Podia ter
feito mais progressos com o meu prisioneiro se tivesse minha Sonda Psíquica em bom estado.
As sobrancelhas do secretário levantaram-se:
- Você tem uma Sonda?
- Já muito velha e falha sempre que preciso dela. Apliquei-a enquanto o prisioneiro
estava dormindo, e não consegui nada. É demais para a Sonda. Experimentei-a nos meus
próprios homens e a reação foi inteiramente correta, mas sucede que não há um único homem
do meu estado-maior técnico que seja capaz de me dizer por que é que falha no prisioneiro.
Ducem Barr, que é um teórico de talento, embora não seja um mecânico, diz que a estrutura
física do prisioneiro não pode ser afetada pela Sonda desde que, a partir da infância, ele tenha
sido sujeito aos ambientes estranhos e aos estímulos neurais. Não compreendo nada disso.
Mas já podia ter dado algum resultado. Guardei-a com essa esperança.
Brodrig encostou-se ao seu bastão.
- Eu verei se é possível conseguir um especialista disponível na capital. Entretanto,
que homem vem a ser o que mencionou há pouco, o siweniano? Você conserva muitos inimigos
nas suas boas graças.
- Ele conhece o inimigo. Conhece-o muito bem, e guardo-o para futuras referências e
pela ajuda que pode me dar.
- Mas trata-se de um siweniano e do filho de um rebelde proscrito.
- É velho e impotente, e conservo a família como refém para responsabilizar-se pelos
atos dele.
- Está bem. Penso, contudo, que devia falar com esse comerciante pessoalmente.
- Certamente - anuiu Riose, suavemente. - Como leal súdito do Imperador, aceito o seu
representante pessoal como meu superior. Contudo, desde que o comerciante está numa base
permanente, você terá que abandonar as áreas da frente num momento interessante.
- Sim? Mas interessante de que maneira?
- Interessante devido ao fato de o cerco se completar hoje. Interessante devido ao
motivo de que dentro de uma semana, a Vigésima Esquadra da Fronteira avançará para o
coração da resistência.
Riose sorriu e foi embora.
Brodrig sentiu-se humilhado, embora sem distinguir muito bem por que.
SUBORNO
O sargento Mori Luk fizera-se um soldado ideal das fileiras. Era oriundo do enorme
planeta agrícola das Plêiades onde só a vida do exército podia romper os laços com o solo e
com a penosa vida de trabalho duro e ingrato, era típico produto deste meio. Não tinha
imaginação e enfrentava por isso o perigo sem medo, era suficientemente robusto e ágil para
enfrentá-lo afortunadamente. Aceitava as ordens instantaneamente, conduzia inflexivelmente os
homens que estavam sob as suas ordens e respeitava o seu general sem a mais insignificante
divergência.
E não obstante tudo isto, era de natureza alegre. Se matava um homem no cumprimento
do seu dever sem uma partícula de hesitação, fazia-o também sem uma migalha de
animosidade.
Que o sargento Luk tocasse a campainha da porta antes de entrar era mais uma prova
de tato, pois estaria inteiramente de acordo com as suas prerrogativas entrar sem fazer
qualquer espécie de sinal.
As duas pessoas que estavam lá dentro olharam para sua refeição da tarde e uma delas
arrastou os pés pelo chão para ocultar a voz ritmada que saía do transmissor de baterias de
bolso com viva animação.
- Mais livros? - perguntou Lathan Devers.
O sargento puxou o pequeno rolo de filme mal enrolado e cocou o queixo:
- Pertencem ao Engenheiro Orr, mas ele não deve voltar tão cedo para cá. Ele trouxe
isto para mandar para os filhos, sabe, uma coisa a que você podia denominar recordação,
sabe.
Ducem Barr girou o rolo nas mãos com interesse:
- E onde é que o engenheiro o conseguiu? Não tinha também um transmissor, não?
O sargento meneou a cabeça com enfado. Apontou para os restos que se viam aos pés
da cama.
- Isto é a única coisa que ainda está no lugar. Este parceiro, Orr, conseguiu estes
livros num daqueles mundos miseráveis que nós capturamos agora. Eles tinham um grande
prédio só para isto e matamos uma porção de nativos que tentavam impedir que nos
apoderássemos deles.
Olhou para ele com prazer:
- Vai ser uma linda recordação para as crianças.
Fez uma pausa, depois do que acrescentou furtivamente:
- Há grandes notícias circulando por aí, a propósito. É só falatório, mas mesmo assim,
é coisa excessivamente grande para poder ficar em segredo. O general já acabou o seu
trabalhinho. - E meneou lenta e gravemente a cabeça.
- O que vem a ser isso? - perguntou Devers. — O que é que ele fez?
- Completou-se o Cerco, mais nada. - O sargento riu por entredentes com uma
arrogância paternal. - Pôs a rolha, já pensaram? Não é mesmo um lindo trabalho? Um dos
meus camaradas que é um fantasista parlante, disse que ele avançava com tanta brandura e
constância como a música das esferas, seja o que for que elas sejam.
- A grande ofensiva vai ser desencadeada? - perguntou Barr suavemente.
- Espero que sim - foi a ruidosa resposta. - Tenho que voltar para a minha nave agora
que a minha armada voltou a se transformar numa única peça. Estou cansado de andar por aí
sentado em cima do embornal.
- Também eu? - resmungou Devers, de maneira súbita e nervosa. Prendeu um pedaço
do lábio com os dentes e mordiscou-o.
O sargento fitou-o de modo hesitante, e disse:
- O melhor que tenho a fazer é ir embora. O capitão deve estar fazendo a ronda e não
tenho interesse nenhum que ele me apanhe aqui dentro.
Fez uma pausa quando já estava à porta.
- A propósito, senhor - disse com súbita e grande timidez para o comerciante: - Ouvi
isto de minha mulher. Ela disse que o pequeno frigorífico que você me deu para lhe enviar era
um material muito fino. Não lhe custou nada, e coube-lhe dentro exatamente um mês de
abastecimentos completamente gelados. Gostou muito dele.
- Está muito bem. Esqueça isso.
A grande porta abriu-se lentamente e voltou a fechar-se atrás do sorriso do sargento.
Ducem Barr voltou a deixar-se cair na cadeira:
- Bem, uma justa troca pelo frigorífico. Vou dar uma espiada no livro. Ah, o título
sumiu.
Desenrolou mais ou menos uns cinco centímetros do filme e observou-o à luz. Depois
do que murmurou:
- Bem, que me espetem uma espada no embornal, como diz o sargento. Isto é “O
Jardim de Summa”, Devers.
- Ah sim? - disse o comerciante, sem interesse. Empurrou para o lado a parte do jantar
que não comera. - Sente-se, Barr. Escutar esta literatura dos velhos tempos não me parece
trazer nada de bom. Você ouviu o que disse o sargento?
- Claro que ouvi. E por quê?
- Vai ser desencadeada a ofensiva. E nós aqui sentados!
- Onde é que você queria estar sentado?
- Você sabe o que quero dizer. Não estou habituado a ficar esperando.
- Sim? - Barr removeu cuidadosamente o filme velho do transmissor e instalou o novo.
- Você contou-me uma boa porção da história da Fundação no mês passado, e parece que os
grandes líderes das crises anteriores pouco mais fizeram do que permanecer sentados… e
esperar.
- Ah, Barr, mas eles sabiam para onde é que deviam ir.
- Sabiam? Suponho que eles disseram fazer o que estava determinado, e apesar disso
reconheço que talvez o fizessem. Mas não há prova de que essas coisas não se tenham
realizado tão bem, ou melhor, do que se eles tivessem sabido para onde iam. As questões
básicas, econômicas e sociológicas, não são dirigidas por homens individuais.
Devers riu desdenhosamente:
- Não há maneira eficaz de saber se essas coisas teriam trabalhado melhor ou pior, de
maneira alguma. Você está querendo demonstrar que mostrar as costas não é o mesmo que
mostrar o rabo. - Seus olhos estavam pensativos: - Ora veja, suponha que eu o desintegrasse!
- Quem? Riose?
- Sim.
Barr suspirou. Os seus olhos idosos estavam perturbados por causa de uma reflexão a
respeito do passado remoto.
- O assassínio não é a melhor maneira de resolver estas coisas, Devers. Eu matei uma
vez, sob provocação, quando tinha os meus vinte anos, mas isso não resolveu nada. Extirpei
um vilão de Siwena, e não o julgo Imperial, e era o jugo Imperial e não o vilão que
interessava.
- Mas Riose não é apenas um vilão, doutor. É ele que tem a responsabilidade de todos
os movimentos do exército. Se não fosse ele o exército iria realizar outra tarefa. Estão presos
a ele como se fossem bebês. O sargento até se baba todo quando nos referimos a ele.
- Mesmo assim. Há mais exércitos e mais líderes. Você pode se meter num abismo. Há
Brodrig, por exemplo - e ninguém consegue encher mais os ouvidos do Imperador do que ele.
Ele podia pedir centenas de naves enquanto Riose é obrigado a combater com dez. Conheço-o
de reputação.
- E depois? O que é que sabe a respeito dele: - Os olhos do comerciante abandonaram
o desalento em que tinham caído para ganhar uma repentina vivacidade.
- Você quer um esboço breve? É um covarde de origem humilde que tem subido graças
ao fato de lisonjear constantemente os caprichos do Imperador. É muito odiado pela
aristocracia da corte, que também é composta de vermes, porque para ele não existem nem
família nem humildade. É ele que dita a opinião do Imperador em todas as coisas, e é o
instrumento do Imperador nas coisas mais desagradáveis. É falso por natureza, porém leal por
necessidade. Não há homem no Império tão sutil na vilania ou tão cruel nos prazeres. E diz-se
que não há maneira de conseguir favores do Imperador senão por seu intermédio, e o único
caminho para consegui-lo é através da infâmia.
- Raios! - Devers puxou pensativamente a barba cuidadosamente limpa. - E é esse o
parceiro que o Imperador mandou para vigiar o Riose. Sabe que me ocorreu uma idéia?
- Não.
- Suponha que este Brodrig ganha aversão pelo nosso jovem e amado general.
- Provavelmente já o odeia. Não é notado pela sua capacidade de amar.
- Suponha que ele ficasse realmente cheio de aversão. O Imperador podia ouvi-lo a
esse respeito, e Riose podia se ver em papos-de-aranha.
- Hum, hum. Mais ou menos provável. Mas agora o que é que você propõe para que
isto aconteça?
- Não sei. Acha que ele possa ser subornado?
O patrício sorriu delicadamente:
- Sim, de certa maneira, mas não da maneira como você subornou o sargento - não
com um frigorífico de algibeira. E ainda que você atinja a sua escala de suborno, não terá
riquezas para tanto. Não há talvez ninguém tão facilmente subornável, mas falta-lhe
precisamente a honestidade básica de uma corrupção honesta. Ele não se deixará subornar, por
nenhuma importância. Pense em outra coisa qualquer.
Devers cruzou uma perna por cima do joelho e meneou a cabeça rápida e
impacientemente:
- Há a primeira alusão, contudo…
Deteve-se, o sinal da porta estava brilhando novamente e o sargento voltou a aparecer
no limiar da porta. Vinha excitado, e sua face rude estava vermelha e sorridente.
- Senhor - começou, numa agitada tentativa de deferência - estou muito agradecido
pelo frigorífico, e vocês sempre têm me falado com muita delicadeza, embora eu seja apenas
filho de um lavrador e vocês sejam grandes senhores. - O sotaque da Plêiade aumentara
enormemente, quase excessivamente para ser compreendido com facilidade e com a excitação
a sua grosseira ascendência de camponês eliminava completamente o seu porte de soldado
preparado durante tanto tempo e tão cuidadosamente.
Barr pergunta suavemente:
- Que aconteceu, sargento?
- Lorde Brodrig vem vê-los. Amanhã! Eu sei, porque o capitão me disse que tivesse
os meus homens preparados para uma revista amanhã para… para ele. E eu pensei… que
devia avisá-los.
Barr disse:
- Muito obrigado, sargento, apreciamos muito a sua atitude. Mas está tudo em ordem,
homem, não precisamos de…
Porém o olhar na face do sargento Luk estava agora inequivocamente cheio de pavor.
Falou num sussurro.
- Vocês decerto não ouviram as histórias que se contam a respeito dele. Ele tem
vigarizado o próprio diabo no espaço. Não, não ria. Ainda se contam histórias mais terríveis a
respeito dele. Dizem que tem homens com pistolas desintegradoras que fazem tudo o que ele
manda, e quando desejam divertir-se dizem que destroem qualquer pessoa que encontram pela
frente. E quando fazem isto - riem. Dizem também que o Imperador tem medo dele, e que ele
obriga o Imperador a aumentar os impostos e que não o deixa ouvir as queixas do povo. E ele
odeia o general, é o que se diz. Dizem que ele gostaria de matar o general, em virtude de o
general ser grande e sábio. Mas não pode porque o nosso general é um competidor para todos
e ele sabe que Lorde Brodrig é má pessoa.
O sargento pestanejou, sorriu com uma repentina timidez que era incoerente perante a
sua própria explosão e encostou as costas à porta. Meneou a cabeça, sacudidamente:
- Vocês se lembrem do que lhes estou dizendo. Esperem por eles.
E foi embora. E Devers olhava para o alto, com olhos fixos:
- Isto vem pôr as coisas no nosso caminho, não lhe parece, doutor?
- É coisa que depende - replicou Barr, secamente —, de Brodrig, ou não será?
Porém Devers estava pensando, e por isso não o ouviu. Estava pensando ativamente.

Lorde Brodrig desviou a cabeça quando entrou nos corredores das instalações onde
vivia o homem da nave comercial, e os seus dois guardas armados seguiram-no vivamente,
com as pistolas carregadas e os olhares profissionalmente carrancudos de capangas
mercenários.
O Secretário Particular ia lançando à sua volta olhares perdidos que nada
significavam. Se o demônio do espaço o tinha comprado, perdera qualquer marca visível de
posse. Brodrig podia ser considerado, com mais razão, uma amostra do estilo da vida da
corte, fazendo a sua aparição a bordo de uma nave, para animar a dura e simples fealdade de
uma base militar.
O corte severo e justo do seu uniforme cintilante e imaculado reforçava-lhe a ilusão
de altura, do alto da qual os seus olhos frios e sem expressão olhavam paira baixo, para o
comerciante, seguindo o declive de um grande nariz. As guarnições de madrepérola dos seus
punhos flutuaram como membranas quando agitou o bastão de marfim no chão diante dele e se
inclinou delicadamente.
- Não - disse ele, com um pequeno gesto - você fica aqui. Esqueça-se dos seus
brinquedos, não estou interessado neles.
Puxou uma cadeira à sua frente, limpou-a cuidadosamente com o lenço de tecido
cintilante preso no alto do bastão branco, e sentou-se também. Devers lançou olhares do
companheiro para a cadeira, mas Brodrig disse preguiçosamente:
- Vocês estão na presença de um Par do Reino.
Sorriu. Devers encolheu os ombros.
- Se vocês não estão interessados no meu estoque comercial, por que é que me detêm?
O Secretário Privado fitou-o friamente, e Devers acrescentou um lento “Senhor”.
- Por discrição. - disse o secretário. - Você não vai provavelmente acreditar que eu
fosse percorrer 200 parsecs através do espaço, para inspecionar bugigangas. Foi você que eu
vim ver. - Tirou uma pastilha cor-de-rosa de uma caixa gravada e colocou-a delicadamente
entre os dentes. Sugou-a lentamente e delicadamente.
- Por exemplo - disse ele - quem é você? Você é realmente um cidadão deste mundo
bárbaro que deu origem a toda esta fúria militar?
Devers meneou gravemente a cabeça.
- E você foi realmente capturado por ele depois de ter iniciado esta contenda a que ele
chama guerra? Estou me referindo ao nosso jovem general.
Devers voltou a acenar que sim.
- Ora! Muito bem, meu digno estrangeiro. Estou verificando que sua fluência de
linguagem é mínima. Vejo-me na obrigação de lhe indicar o caminho. Parece que o nosso
general travou uma luta aparentemente sem sentido, com enormes dispêndios de energia - e
isto através de um desamparado mundo que é uma picadela de pulga no fim de parte alguma, e
que para um homem lógico não devia merecer um tiro de uma única pistola. Contudo o general
não é falho de lógica. Pelo contrário, devo dizer que ele é extremamente inteligente. Está de
acordo comigo?
- Não posso dizer outra coisa, senhor.
O Secretário examinou as unhas e continuou:
- Ouça ainda, no que se refere a este caso. O general não iria desintegrar os seus
homens e barcos numa estéril procura de glória. Eu sei que ele fala da glória e da honra
Imperiais, mas é inteiramente evidente que ele não tem a pretensão de ser um dos
insuportáveis semideuses antigos da Idade Heróica. Há aqui mais alguma coisa do que glória -
e ele toma um cuidado extremo e desnecessário consigo. Agora se você fosse meu prisioneiro
e me contasse tão pouca coisa como contou ao nosso general, eu seria capaz de lhe abrir o
abdome e enforcá-lo com seus próprios intestinos.
Devers permaneceu rijo. Os olhos moveram-se negligentemente, primeiro para um dos
guardas valentões do secretário, e depois para o outro. Estavam preparados, vivamente
preparados.
O secretário sorriu:
- Bem, agora você transformou-se num diabo silencioso. De acordo com o general,
nem sequer uma Sonda Psíquica lhe faz impressão, e isso foi um equívoco da sua parte,
certamente, pois me convenceu que o nosso jovem militar palrador estava mentindo. Parecia
estar de muito bom humor. Meu honesto comerciante - disse ele - eu tenho uma Sonda Psíquica
pessoal, uma que lhe deve servir particularmente bem. Está vendo isto…
E entre o dedo polegar e o indicador, negligentemente levantados, apareciam, em
molhos apertados, retângulos cor-de-rosa e amarelos cuja identidade era evidente.
Devers replicou apenas:
- Parece-me dinheiro.
- É mesmo dinheiro, é o melhor dinheiro do Império, pois que é garantido pelas
minhas próprias propriedades, que são mais extensas do que as do próprio Imperador. Cem
mil créditos. Tudo aqui! Entre dois dedos! Seus!
- E por que, senhor? Sou bom comerciante, porém todos os meus negócios caminham
em duas direções.
- Por quê? Pela verdade! O que é que o general quer, afinal de contas? Por que é que
ele desencadeou esta guerra?
Lathan Devers suspirou, e meneou a cabeça pensativamente.
- Qual é o seu objetivo, afinal de contas? - Os seus olhos estavam seguindo os
movimentos das mãos do secretário, enquanto este contava o dinheiro vagarosamente, nota por
nota.
- Em uma palavra, o Império.
- Hum. Que ordinário! Sempre se chegou com isto ao fim. Mas porquê? Será este o
caminho que leva da fronteira da Galáxia ao cume do Império tão grosseira e inevitavelmente?
- A Fundação - disse Devers, penetrantemente - tem segredos. Eles possuem livros,
livros muito velhos - tão velhos que a linguagem em que estão escritos só pode ser
compreendida por alguns dos homens mais eruditos. Mas os segredos estão protegidos pelo
ritual e pela religião, e ninguém se pode servir deles. Eu tentei e agora aqui estou - e há lá uma
sentença de morte à minha espera.
- Entendo. E esses velhos segredos? Vamos, por cem mil eu mereço os mais secretos
pormenores.
- A transmutação dos elementos - esclareceu Devers, suavemente. Os olhos do
secretário apertaram-se e perderam algum do seu desapego:
- Tenho ouvido dizer que a transmutação prática é impossível devido à existência das
leis atômicas.
- Assim é, se forem usadas forças atômicas. Mas os antigos eram uns rapazes
encantadores. Havia fontes de energia ainda maiores do que os átomos. Se a Fundação
utilizasse estas fontes como eu sugeri…
Devers sentiu uma sensação leve e insinuante no estômago. A isca estava lançada, o
peixe estava mordendo. O secretário disse repentinamente.
- Continue. O general, tenho certeza, está a par de tudo isto. Mas o que é que ele
tenciona fazer uma vez que tenha terminado esta ópera de truão?
Devers continuou decidido:
- Com a transmutação ele passa a controlar a economia da totalidade dos elementos
superiores do Império. Os minerais deixarão de valer um espirro quando Riose puder fazer
tungstênio com alumínio e irídio com ferro. Poderá eliminar um sistema de produção total
baseado na escassez de certos elementos e na abundância de outros. Será a maior crise que o
Império já teve, e só Riose estará em condições de travá-la. E há a questão desta nova força
que mencionei, o uso da qual não estará interdita a Riose por obstáculos religiosos.
- Agora não há nada que possa fazê-lo parar. Ele vai agarrar a Fundação pelas costas,
e uma vez que ele a tenha liquidado, será Imperador dentro de dois anos.
- Certamente - Brodrig riu claramente. - Irídio extraído do ferro, foi o que você disse,
não foi? Vamos, vou-lhe dizer um segredo de Estado. Você sabe que a Fundação já esteve em
contato com o general.
As costas de Devers retesaram-se.
- Você me parece surpreso. E por que não? Parece-me lógico agora. Eles ofereceram-
lhe cem toneladas de irídio por ano para assinar a paz. Uma centena de toneladas de ferro
convertido em irídio, violando os seus princípios religiosos para salvar o pelo. Bastante
imparcialmente, mas numa atitude que não é incompreensível o nosso general rigidamente
incorruptível recusou - pois sabe que pode conseguir o irídio e o Império também. E o pobre
Cleon dizendo que ele é um general honesto. Meu comerciante tagarela, você tem direito ao
seu dinheiro.
Arremessou-o e Devers rastejou atrás das notas que voavam. Lorde Brodrig deteve-se
junto da porta e voltou-se:
- Uma lembrança, comerciante. Os meus companheiros de jogo, armados com estas
pistolas, não têm ouvidos, nem língua, nem educação, nem inteligência. Não podem ouvir
nada, nem falar, nem escrever, nem sequer sob a influência da Sonda Psíquica. Mas são uns
verdadeiros peritos em execuções interessantes. Eu o comprei por cem mil créditos. Você
deve ter vendido uma boa e respeitável mercadoria. Deve esquecer-se daquilo que vendeu
para sempre e se alguma vez você… disser… repetir a nossa conversa a Riose, será
executado. Mas executado à minha maneira.
E naquela delicada face apareceram umas súbitas linhas duras de ávida crueldade que
transformaram o seu sorriso estudado numa bocarra vermelha e rosnadora. Durante um
brevíssimo segundo, Devers viu aquele que tinha comprado ao seu comprador, e desviou dele
os olhos.
Silenciosamente, Brodrig saiu à frente dos seus dois impulsivos “companheiros de
jogo”, com suas pistolas, e foi para os seus aposentos.
E quando Ducem Barr lhe fez uma pergunta, ele disse com grosseira satisfação:
- Não, isso é a parte estranha do caso. Ele subornou-a.

Dois meses de guerra difícil tinham deixado a sua marca em Bel Riose. Havia uma
pesada gravidade à sua volta, e andava com muito pouca paciência. Foi com impaciência que
se dirigiu ao respeitador sargento Luk:
- Espere lá fora, soldado, e leve esses homens para seus aposentos assim que eu
terminar. Não deixe entrar ninguém enquanto eu não chamar. Ninguém, compreende?
O sargento fez a continência e abandonou rigidamente o aposento, e Riose com um
resmungo de aborrecimento remexeu nos papéis que, em cima da mesa, esperavam por
despacho, atirou-os para o cimo da gaveta e fechou-a com raiva.
- Sentem-se - disse ele secamente, para os dois que estavam à espera. - Não tenho
muito tempo. Falando a verdade, eu não devia estar mais aqui, porém precisava falar com
vocês.
Virou-se para Ducem Barr, cujos longos dedos acariciavam com interesse o cubo de
cristal em que estava gravado o simulacro do perfil da face austera de Sua Majestade
Imperial, Cleon II.
- Em primeiro lugar, patrício - disse o general - o seu Seldon está perdido. Para dizer
a verdade ele combate bem, mas estes homens da Fundação enxameiam como abelhas
sensíveis e fogem como mulheres. Todos os planetas são defendidos imperfeitamente e, uma
vez tomados, todos os planetas provocam rebeliões e por isso é tão difícil dominá-los como
conquistá-los. Mas eles estão prisioneiros, e estão seguros. O seu Seldon está perdido.
- Mas ele não tem por ora nada perdido - murmurou Barr delicadamente.
- A própria Fundação manifesta menos otimismo. Ofereceram-me milhões para que eu
não obrigasse este Seldon à prova final.
- Corre esse boato.
- Ah, os boatos correm à minha frente? Vocês já ouviram falar no último?
- Qual é o último?
- Ora, que Lorde Brodrig, o favorito do Imperador, é agora o segundo comandante, a
seu próprio pedido.
Devers falou pela primeira vez.
- A seu próprio pedido, patrão? Para chegar onde? Ou você está subindo para dar de
comer a esse parceiro? - E riu entredentes.
Riose replicou, calmamente:
- Não, não se pode dizer isso. Limitou-se a comprar o cargo por aquilo que eu
considerava um preço justo e adequado.
- O que é que ele deu em troca?
- Deu em troca uma requisição de reforços apresentada ao Imperador.
O sorriso insolente de Devers alargou-se:
- Nesse caso ele comunicou com o Imperador, hum? E diga-me lá, patrão, você tem
estado à espera desses reforços, mas eles algum dia chegarão. Certo?
- Errado! Já devem estar chegando. Cinco naves de linha rápidas e robustas, com uma
mensagem pessoal de felicitações do Imperador, e mais naves a caminho. Onde é que está o
erro, comerciante? - perguntou ele, com ironia.
Devers falou através dos lábios gelados:
- Não há erro nenhum!
Riose deu alguns passos para fora da mesa e encarou o comerciante, com a mão
apoiada na coronha de sua pistola desintegradora.
- Eu disse, onde é que está o erro, comerciante? Parece que as notícias o perturbaram.
Certamente que não lhe foi agora nascer um repentino interesse pela Fundação.
- Não nasceu.
- Pois… há alguns pontos duvidosos a seu respeito.
- Quais são eles, patrão? - Devers sorriu fracamente, e remexeu os punhos nos bolsos.
- Logo que s diga tratarei de esclarecer devidamente.
- Aí vão eles. Você foi capturado sem dificuldade. Você se rendeu ao primeiro tiro
apesar de ter uma couraça defensiva. Você se mostrou inteiramente propenso a desertar do seu
mundo, e isto sem receber nada em troca. É interessante tudo isto, não é?
- Eu ansiava por estar do lado do vencedor, patrão. Sou um homem sensato, foi assim
que o senhor mesmo me chamou.
Riose replicou com acento rouco e difícil:
- Admito isso! Todavia não foi capturado mais nenhum comerciante desde então. Sua
nave não é uma nave comercial senão disporia da velocidade suficiente para fugir, se assim o
preferisse. Não se trata de uma nave comercial senão disporia de um campo de cobertura que
lhe permitisse absorver todos os golpes que lhe fossem vibrados por um cruzador rápido, no
caso de ter preferido o combate. E não se trata de um comerciante senão teria combatido até à
morte quando a ocasião o justificava. Os comerciantes têm sido os chefes e os instigadores
dos combates de guerrilhas nos planetas ocupados e dos raides aéreos no espaço ocupado.
Nesse caso é você o único homem sensato? Você não combate nem foge, mas torna-se traidor
sem que nada o solicite. Você é único, espantosamente único - de fato, suspeitosamente único.
Devers replicou secamente:
- Estive ouvindo a sua dedução, mas você não tem nada contra mim. Aqui estou há
seis meses, e tenho-me comportado bem.
- É verdade, e tenho correspondido a esse fato com bom tratamento. Tenho mantido a
sua nave sem qualquer estrago e tenho-o com muita consideração. Mas você tem se mostrado
pouco generoso. Se tivesse oferecido voluntariamente uma informação, por exemplo, a
respeito das suas engenhocas, elas podiam-nos ter sido proveitosas. Os princípios atômicos
por via dos quais foram construídas devem estar sendo utilizados em qualquer uma das
asquerosas armas da Fundação. É assim?
- Sou apenas comerciante - disse Devers - e não um desses grandes técnicos solenes.
Eu vendo o produto, mas não o fabrico.
- Bem, isso verei com pormenores. Foi por isso que mandei chamá-lo. Por exemplo,
sua nave foi examinada e possui um campo para repelir as armas atômicas. Você nunca usou
nenhum, todavia, todos os soldados da Fundação o usam. Isto torna-se evidentemente
significativo de que há informações que você optou por não me dizer. É assim?
Não houve resposta. Continuou:
- E devem haver provas ainda mais concretas. Fiz uma experiência com a minha
Sonda Psíquica. Voltou a falhar mais uma vez, porém em contato com o inimigo revela-se
completamente eficiente.
Sua voz era secamente ameaçadora e Devers deu-se conta da pistola diretamente
encostada ao seu diafragma, a pistola do general, até então no coldre. O general disse
tranqüilamente:
- Você vai tirar sua pulseira e qualquer outro ornamento metálico que traga consigo e
entregá-lo. Devagar! Os engenhos atômicos podem distorcer, veja bem, e a Sonda Psíquica
podia só encontrar a estática. Assim está bem. Dê-me isso.
O receptor na mesa do general estava brilhando e a cápsula da mensagem saiu com um
estalo da fenda, perto do lugar onde Barr estava sentado, segurando ainda o cristal
trimensional do Imperador. Riose deu alguns passos para trás da mesa, com a pistola
desintegradora ainda apontada. Disse para Barr:
- E você também patrício. Sua pulseira também o condena. Você foi de alguma ajuda
no início, de qualquer maneira, e não sou vingativo, porém decidirei o destino da sua família
de acordo com os resultados da Sonda Psíquica.
E como Riose pegasse na mensagem-cápsula para ler, Barr levantou o cubo envolvido
em cristal de Cleon e serena e metodicamente deu com ele na cabeça do general. Sucedeu
também que Devers o agarrou. Era como se um súbito demônio tivesse irrompido no ancião.
- Fora! - disse Barr, com um sussurro silvado entredentes. - Rápido! - Apanhou o
desintegrador de Riose e escondeu-o na blusa.
O sargento Luk voltou-se quando eles apareceram depois do estalido da porta se ter
ouvido muito perto. Barr ordenou:
- Leve-nos, sargento!
Devers fechou a porta atrás dele.
O sargento Luk conduziu-os em silêncio para os seus aposentos, e então, depois de
uma breve pausa, seguiu em frente, pois havia o cano de uma pistola desintegradora encostada
ás suas costelas, e uma voz seca nos seus ouvidos, dizendo:
- Para a nave comercial.
Devers adiantou-se vivamente para abrir a comporta do ar, e Barr disse:
- Deixe-se ficar onde está, Luk. Você tem sido um homem decente, e não queremos
matá-lo.
O sargento reconheceu o monograma da pistola. Gritou com uma fúria assoladora:
- Vocês mataram o general.
Com um grito feroz e incoerente, atirou-se cegamente contra a fúria desintegradora da
pistola e desmoronou-se numa ruína desintegrada.
A nave comercial decolou por cima do planeta morto, e antes dos alarmes luminosos
começarem a pestanejar contra a espumosa teia de aranha formada pelas nebulosas do céu da
Galáxia, outras formas escuras decolaram.
Devers ordenou severamente:
- Segure isto, Barr - e deixe-me ver se eles têm alguma nave que possa competir com
a minha em velocidade.
Verificou que eles não possuíam nenhuma! E uma vez no espaço aberto, a voz do
comerciante pareceu perdida e morta quando disse:
- A isca que eu forneci a Brodrig era boa demais. Até parece que eu queria empurrá-lo
para os braços do general.
Lançaram-se rapidamente para as profundezas do aglomerado de estrelas que era a
Galáxia.
PARA TRANTOR
Devers fez uma curva por cima do pequeno globo morto, esperando avistar algum
tímido sinal de luz. O controle direcional estava examinando lenta e completamente o espaço
com os compactos feixes de sinais que suas ondas iam lançando. Barr observava
pacientemente sentado na cama portátil baixa que estava num canto. Perguntou:
- Já não há vestígios deles?
- Dos rapazes do Império? Não. - O comerciante resmungou as palavras com evidente
impaciência. - Perdemos os embornais há muito tempo. Espaço! Com os saltos cegos que
demos através do híperespaço, eles não devem ter tido a sorte de saber em qual terra onde
vamos pousar. Eles não nos podiam ter seguido a não ser que nos tivessem atingido, o que não
conseguiram.
Encostou-se para trás e relaxou o pescoço com um puxão:
- Não sei o que estes rapazes do Império andaram mexendo por aqui. Penso que alguns
dos entreplanos estão fora do alinhamento.
- Nesse caso, penso eu, você está tentando encontrar a Fundação.
- Estou chamando a Associação, ou tentando.
- A Associação? Quem são eles?
- Associação dos Comerciantes Independentes. Nunca ouviu falar dela, heim? Bem,
você não deve ser o único. Nós não andamos por aí falando de nós.
Houve um silêncio momentâneo que se centrou em torno do Indicador 200 de
Recepção que não reagia, e Barr disse:
- Você já está na rota?
- Não sei. Tenho apenas uma vaga noção do lugar onde estamos, e vamos com
aparelhos que não funcionam. É por isso que não estou me servindo do controle direcional.
Podia levar anos, sabe.
- Podia?
Barr apontou, e Devers endireitou-se e ajustou os seus audifones.
Dentro da pequena esfera escura havia uma pequena e ardente brancura. Durante meia
hora, Devers esteve atento ao frágil e rastejante fio de comunicação que chegava através do
hiperespaço para ligar dois pontos colocados à distância que levaria quinhentos anos a
percorrer. Acabou por se recostar na cadeira, desesperançadamente. Olhou para cima, e tirou
os audifones.
- Ouça doutor. Há um chuveiro que pode utilizar se quiser, mas é mais fácil servir-se
da água quente.
Agachou-se diante de um dos armários que se alinhavam ao longo de uma parede e
espreitou para o que havia lá dentro:
- Você não é vegetariano, espero?
- Sou onívoro. Mas o que vem a ser essa Associação? Você os perdeu?
- Parece. Estava na última rota, foi a única que sobrou. Não tem importância, penso
eu. Tenho tudo isto em conta. - Endireitou-se e colocou os dois recipientes em cima da mesa. -
Espere uns cinco minutos, doutor, depois abra-o, puxando o contato. Contém um prato, comida
e garfo, uma coisa muito útil quando uma pessoa está com pressa, se não estiver interessado
em coisas acessórias como guardanapos. Suponho que você deseja saber o que é que andava
fazendo dentro da Associação.
- No caso de não ser segredo.
Devers meneou a cabeça:
- Para você não é. O que Riose disse era verdade.
- A respeito da oferta de um tributo?
- Uh-huh. Eles ofereceram-lhe e ele recusou. As coisas estão más. Eles estão atacando
os outros sóis de Loris.
- Loris está fechado para a Fundação?
- O que? Oh, ninguém pode saber. Trata-se de um dos Quatro Reinos originais. Você
podia chamar-lhe parte da Unha interior de defesa. Mas não é isto que está mal. Eles tinham
combatido com grandes naves que nunca foram encontradas anteriormente. E isto quer dizer
que Riose não nos estava mentindo. Ele tinha recebido mais naves. Brodrig mudara de
opinião, e enviara aquela mensagem.
Seus olhos estavam sombrios e juntou o recipiente da comida aos pontos de contato e
esperou que ele se abrisse rapidamente. O conteúdo cozido a fogo lento exalou o seu aroma
através do aposento. Ducem Barr estava comendo.
- Tanto melhor - disse Barr - para as improvisações, nesse caso. Aqui não podemos
fazer nada, não podemos romper através das linhas Imperiais para regressar à Fundação, não
podemos fazer nada senão esperar, esperar pacientemente. Ainda que, se Riose já alcançou a
linha interior, tenho a esperança de que a nossa espera não seja muito demorada.
E Devers pousou o garfo:
- Esperar, não é? - rosnou ele, com ferocidade. - Isso estará bem para você. Eu não
tenho nada que estar parado.
- Não tem? - Barr sorriu suavemente.
- Não. E realmente vou lhe dizer. - A irritação de Devers chegou ao máximo. - Já me
cansei de estar metido neste negócio como se fosse uma coisa interessante qualquer metida
numa lamela de microscópio. Eu tenho amigos por aqui e por ali, moribundos, e um mundo
inteiro para acolá, a minha casa, também agonizante. Você é um estrangeiro. Você não pode
saber.
- Já vi amigos mortos. - As mãos do ancião tremiam e os seus lábios e os seus olhos
estavam fechados. - Você é casado?
Devers respondeu:
- Os comerciantes não são casados.
- Bem, eu tenho dois filhos e um sobrinho. Eles tinham sido prevenidos, mas, por
qualquer razão, não podiam entrar em ação. A nossa fuga significa a sua morte. A minha filha e
os meus dois netos, assim espero, abandonaram o planeta a salvo antes deles, mas mesmo
excluindo-os, já arrisquei e perdi mais do que você.
Devers estava soturnamente selvagem:
- Eu sei. Mas isto é uma circunstância que não se escolhe. Você podia ter sido honesto
com Riose. Eu nunca lhe perguntei…
Barr meneou a cabeça:
- Isso não é coisa que se escolha, Devers. Deixe sua consciência livre, não arrisquei
os meus filhos por você. Eu cooperei com Riose durante tanto tempo quanto me atrevi. Mas
havia a Sonda Psíquica.
O patrício siweniano abriu os olhos e estes estavam secos com o sofrimento.
- Riose chamou-me uma vez, foi há cerca de um ano atrás. Falou-me de um culto
centralizado em torno dos mágicos, mas senti a verdade. Ele não andava à procura de um
culto. Bem vê, faz agora quarenta anos que Siwena estava ameaçada como seu mundo. Foram
esmagadas cinco revoltas. Foi então que descobri os antigos arquivos de Hari Seldon - e
agora este “culto” espera.
- Espera pelo começo dos “mágicos” e está pronto. Os meus filhos são chefes
daqueles que esperam. É este segredo que está no meu espírito e que a Sonda nunca devia
tocar. E por isso eles deviam morrer como reféns, a alternativa é a sua morte como rebeldes e
de metade de Siwena com eles. Veja que eu não tinha por onde escolher! E não sou um
estrangeiro.
Os olhos de Devers apagaram-se, e Barr continuou maciamente:
- É de uma vitória da Fundação que depende a esperança de Siwena. É por uma
vitória da Fundação que os meus filhos são sacrificados. E Hari Seldon não pré-calculou a
inevitável salvação de Siwena como fez com a Fundação. Eu não tenho certeza pelo meu povo
- só esperança.
- Mas você está, todavia satisfeito por aguardar. Mesmo com a Armada Imperial em
Loris.
- Eu queria ficar à espera para saber, com absoluta certeza - disse Barr com
simplicidade - se eles tinham desembarcado no planeta Terminus.
O comerciante franziu os sobrolhos desesperadamente:
- Não sei. Não posso realmente trabalhar com isto, não sou nenhum mágico.
Psicohistória ou não, estamos numa situação terrivelmente sinistra, e estamos fracos. O que é
que Seldon diz a este respeito?
- Não há nada para dizer. Já está tudo dito. Agora estamos em luta. Lá simplesmente
porque não ouve as esferas girarem e os gongos soarem isso não significa que as coisas
estejam menos certas.
- Talvez, porém eu me sinto satisfeito por você ter estourado o crânio de Riose. Ele é
maior inimigo do que todo o seu exército.
- Estourado o seu crânio? Com Brodrig no posto de segundo comandante? - A face de
Barr crispou-se com ódio. - Siwena inteira teria sido seu refém. Brodrig vem provando o seu
valor há muito tempo. Existia um mundo que há cinco anos atrás perdeu um macho em cada
dez e simplesmente por não ter liquidado os impostos ainda por pagar. Este mesmo Brodrig
era o recebedor de impostos. Não, Riose devia viver. Os seus castigos são favores em
comparação com Brodrig.
- Mas seis meses, seis meses, na Base inimiga, sem nada para nos guiar… As mãos
robustas de Devers apertaram-se uma contra a outra, de tal modo que lhe estalaram as
articulações. - Nada que nos pudesse informar!
- Bem, agora vamos esperar. Você lembra-me… - Barr apalpou o bolso. - Você podia
ter lembrado que lhe mostrasse isto. - E lançou a pequena esfera de metal para cima da mesa.
Devers agarrou-a:
- O que vem a ser?
- A cápsula-mensagem. Aquela que Riose recebeu um pouco antes de o ter acertado.
Parece-lhe que isto tenha alguma importância?
- Não sei. Depende do que tiver lá dentro! - Devers sentou-se e girou a cápsula
cuidadosamente na mão.
Quando Barr saiu do banho quente, alegre, no meio da suave e morna corrente de ar
seco, encontrou Devers calado e absorvido no banco de trabalho. O siweniano começou a dar
palmadas no corpo com um ritmo intenso e falou um pouco acima do som ritmado das
pancadas:
- O que é que você está fazendo?
Devers levantou a cabeça. Gotículas de transpiração deslizaram-lhe pela barba:
- Estou pensando se posso abrir esta cápsula.
- Pode abri-la sem a característica pessoal de Riose? - Havia uma leve surpresa na
voz do siweniano.
- Se não puder, devo renunciar da Associação e nunca mais comandarei uma nave para
o resto da minha vida. Já fiz três análises eletrônicas do interior, e utilizei pequenas chaves de
que o Império nunca ouviu falar e que foram especialmente fabricadas para a abertura de
cápsulas. Bem sei que já fui ladrão, antes disto. Um comerciante é sempre um ladrão em
miniatura.
Inclinou-se para a pequena esfera, e um pequeno instrumento liso sondou-a
delicadamente e lançou faíscas vermelhas sempre que o contato foi mais demorado.
Comentou:
- Esta cápsula é um trabalho imperfeito, felizmente. Estes rapazes Imperiais não tratam
isto com muito capricho, pode-se verificar isso muito bem. Já alguma vez viu uma cápsula da
Fundação? Tem metade deste tamanho e é impossível de analisar eletronicamente.
Nesse momento estava rígido, os músculos dos ombros por baixo da túnica estavam
visivelmente tensos. A sua frágil Sonda carregou vagarosamente…
Estava silencioso enquanto fazia isto, mas Devers descontraiu-se e suspirou. Tinha na
mão a esfera brilhante com a mensagem desenrolada como uma língua de pergaminho.
- É de Brodrig - disse ele. Acrescentou, com desdém. — O método de escrever a
mensagem é de duração permanente. Se fosse uma cápsula da Fundação, a mensagem ficaria
oxidada em menos de um minuto.
Mas Ducem Barr fitava-o silenciosamente. Leu a mensagem rapidamente:

DE: AMMEL BRODRIG, ENVIADO EXTRAORDINÁRIO DE SUA MAJESTADE


IMPERIAL, SECRETÁRIO PRIVADO DO CONSELHO, E PAR DO REINO,
PARA: BEL RIOSE, GOVERNADOR MILITAR DE SIWENA, GENERAL DAS FORÇAS
IMPERIAIS, E PAR DO REINO. SAÚDO-O.
PLANETA 1120 NÃO RESISTIU MUITO TEMPO. OS PLANOS DE OFENSIVA
CONTINUAM REGULARMENTE COMO ESTAVA PLANEJADO. O INIMIGO
ENFRAQUECE VISIVELMENTE E OS DERRADEIROS FINS EM VISTA DEVEM SER
CERTAMENTE ALCANÇADOS.

Barr levantou a cabeça da mancha quase microscópica e exclamou amargamente:


- O louco! O abandonado janota desintegrado! Isto é uma mensagem?
- Hein? - disse Devers. Estava vagamente desapontado.
- Não diz nada - resmungou Barr. - O nosso cortesão bajulador está agora brincando
com os generais. Com Riose fora de campo, é ele o comandante em chefe e deve pôr o seu
espírito mesquinho a vomitar os seus pomposos relatórios referentes às campanhas militares
de que ele nunca entendeu nada. “O planeta tal e tal não resistiu muito tempo”. “A ofensiva
continua”. “O inimigo enfraquece”. O pavão sem miolos.
- Bem, agora, espere um minuto. Ouça…
- Jogue-a fora. - O velho homem deu meia volta mortificado. - A Galáxia sabe que eu
nunca esperei vir a ser um guia importante do mundo, mas em tempo de guerra é razoável que
assuma este papel, exatamente quando a ordem mais rotineira tem de ser abandonada para não
dificultar militarmente os movimentos e não conduzir finalmente a complicações. Foi por isto
que me esforcei para levá-la. Mas isto! Seria melhor que a tivesse deixado ficar. Um minuto
de tempo desperdiçado de Riose era mais útil do que esse mesmo minuto agora utilizado num
objetivo mais construtivo.
Devers tinha se levantado:
- Você quer ouvir e parar de andar às voltas com suas ruminações? Pelo amor de
Seldon…
Puxou outra vez a mensagem e colocou-a diante do nariz de Barr:
- Agora leia outra vez. O que é que pensa destes “Derradeiros fins em vista”?
- A conquista da Fundação. É?
- Parece-lhe? E talvez ele queira dizer a conquista do Império. Você sabe que era isto
que ele calculava que fosse o objetivo final.
- E se assim for?
- Se assim for! - O sorriso de Devers, que aparecia só de um lado da cara, estava
perdido na barba. - Porque, observe então, e há de ver.
Com um dedo a malbaratada folha monogramada da mensagem-pergaminho voltou
para o ponto de origem através da fenda. Desapareceu com um zunido breve e o globo fechou-
se, ficando outra vez impossível de abrir. Em alguma parte do interior ouvia-se o fraco
zumbido oleado dos controles como se eles recuperassem equilíbrio com movimentos ao
acaso.
- Agora não há método conhecido de abrir esta cápsula sem conhecimento da
característica pessoal de Riose, não é assim?
- Para o Império, não? - disse Barr.
- Nesse caso a afirmação de que aquilo que ela contém nos é desconhecido é
absolutamente autêntica.
- Para o Império, assim é.
- E o Imperador pode abri-la, não pode? As Características Pessoais dos oficiais do
Governo devem estar arquivadas. Assim se passa na Fundação.
- O mesmo acontece na capital Imperial.
- Nesse caso quando você, como patrício siweniano e par do reino, disser a este
Cleon, a este Imperador, que o seu favorito papagaio-doméstico e o seu brilhante general estão
ambos à espera para se atirarem a ele, e lhe entregar a cápsula como prova, o que é que ele
pensará que são os “derradeiros fins” de Brodrig?
Barr sentou-se vagarosamente.
- Espere, não o estou compreendendo. - Sorveu as bochechas e disse: - Você não está
falando realmente a sério, não é?
- Estou. - Devers mostrava-se furiosamente excitado. - Ouça, nove dos últimos dez
imperadores morreram com as gargantas cortadas, ou com os estômagos desintegrados por
qualquer um dos seus generais com idéias muito ambiciosas na cabeça. Você já me contou isto
mais de uma vez. O Imperador, que é um homem velho, há de acreditar em nós e terá pressa
em mandar cortar primeiro a cabeça de Riose.
Barr resmungou sem energia.
- É coisa grave. Por respeito pela Galáxia, homem, você não pode vencer uma crise
de Seldon por intermédio de um esquema medonho, impraticável e cheio de idéias livrescas
como este. Suponha que você nunca tivesse a cápsula. Suponha que Brodrig não empregara a
palavra “derradeiros”. Seldon não iria depender de um acaso fortuito como este.
- Podia o acaso surgir de outra maneira qualquer, não há lei nenhuma que diga que
Seldon não pode tirar vantagem desse acaso.
- Certamente. Mas… - Barr deteve-se, depois do que falou calmamente, mas com
visível constrangimento. - Olhe, em primeiro lugar, como é que você espera chegar ao planeta
Trantor? Você não conhece a localização no espaço e certamente não se lembra das
coordenadas, já para não falar nas tábuas astronômicas. Você nem sequer sabe qual é a nossa
própria posição no espaço.
- Você não pode continuar perdido no espaço - riu Devers. Já estava outra vez nos
comandos. - Vamos descer no planeta mais próximo, e haveremos de sair de lá com posições
completas e as melhores cartas de navegação que os cem mil palhaços de Brodrig puderem
comprar.
- É um tiro no nosso estômago. As nossas descrições estão em todos os planetas desta
zona do Império.
- Doutor - disse Devers, pacientemente - não se faz uma nogueira de uma bengala.
Riose disse que a minha nave se entregara com excessiva facilidade e, irmão, não estava
enganado. Esta nave tem bastante poder de fogo e bastante combustível no casco para se
conservar afastada de qualquer coisa que a incomode e torna provável que encontre a
profundidade aconselhável no interior da fronteira. E temos os escudos pessoais, ainda. Os
rapazes do Império nunca os conseguirão descobrir, e eles nem sequer pensam em descobri-
los.
- Muito bem - disse Barr - muito bem. Suponha que já esteja em Trantor. E agora quer
avistar-se com o Imperador? Você pensa que ele tem horas marcadas para estar no escritório?
- Calculo que vamos ter tempo de nos preocupar com isso em Trantor - disse Devers.
E Barr resmungou com impotência:
- Outra vez muito bem. Há aí meio século que estava desejando fazer mais uma visita
a Trantor antes de morrer. Agora estamos a caminho.
O motor hiperatômico estava em funcionamento. As luzes piscaram e houve a rápida
deslocação interior que assinalava a mudança para o híperespaço.
EM TRANTOR
As estrelas eram tão compactas como joio num campo abandonado e pela primeira
vez, Lathan Devers transferiu as imagens para a direita do décimo ponto de primeira
importância, calculando as reduções através das hiper-regiões. Havia uma sensação
claustrofóbica provocada pela necessidade de saltos que não ultrapassavam um ano-luz.
Havia uma assustadora aspereza num céu que desusava sem qualquer interstício, em todas as
direções. Estava-se perdendo num mar de radiação.
E no centro de um aglomerado de dez mil estrelas, que brilhavam rasgando em
fragmentos a escuridão fracamente circundante, estava circulado o enorme planeta Imperial,
Trantor. Mas era mais do que um planeta, era o pulso vivo de um Império de vinte milhões de
sistemas estelares. Só tinha uma função, a administração, um objetivo, o governo, um produto
manufaturado, a lei.
O mundo inteiro era uma distorção funcional. Não havia um objeto vivo na sua
superfície senão homens, os animais domésticos e os parasitas. Não havia fio de erva, nem
fragmento de solo descoberto podia ser encontrado fora da centena de quilômetros quadrados
do Palácio Imperial. Não havia água fora das terras do Palácio a não ser no vasto sistema de
cisternas subterrâneas que conservavam a reserva de água de um mundo.
O lustroso, indestrutível, incorruptível metal que formava a superfície ininterrupta do
planeta era a base da enorme estrutura de metal que emaranhava o planeta. Havia estruturas
ligadas por estradas a pique, atadas por corredores, cheias de nichos de repartições,
pavimentadas com os grandes retalhos centrais que tinham coberto quilômetros quadrados,
cheio de coberturas típicas do mundo de divertimento cintilante que enchia de vida todas as
noites.
Qualquer pessoa podia ter sua atividade no mundo de Trantor e não viver senão num
prédio conglomerado, nem jamais ver a cidade.
Uma esquadra de naves em número maior do que todas as esquadras de guerra do
Império estava todos os dias descarregando sua carga em Trantor para alimentar os quarenta
bilhões de pessoas que nada forneciam em troca a não ser a realização da tarefa de
desembaraçar as miríades de problemas que espiralavam através da administração central do
mais complexo governo que a Humanidade alguma vez conhecera.
Vinte mundos agrícolas eram o celeiro de Trantor. Um universo era o seu escravo…
Firmemente segura pelos enormes braços metálicos que a seguravam de ambos os
lados, a nave comercial repousava delicadamente no fundo da enorme rampa que conduzia
para o hangar. Devers raivosamente abrira caminho através das múltiplas complicações de um
mundo concebido em trabalho no papel e dedicado ao princípio do original e quatro cópias.
Fora a parada preliminar no espaço, onde fizera sua aparição o primeiro questionário,
que depois se havia de multiplicar por centenas. Houvera depois a centena de exames
impertinentes, a administração rotineira de uma Sonda simples, as fotografias da nave, a
Análise Característica dos dois homens, e o subseqüente registro da mesma, a procura de
contrabando, o pagamento da taxa de entrada e finalmente a questão das carteiras de
identidade e o visto de visitantes.
Ducem Barr era siweniano e súdito do Imperador, mas Lathan Devers era um
desconhecido que não dispunha dos documentos necessários. O oficial de serviço no momento
viu-se esmagado com pedidos, contudo Devers não entrou. De fato, teria de ser ouvido pelos
serviços oficiais de investigação.
Uma centena de créditos, em notas novas, amarfanhadas, garantidas pelas
propriedades de Lorde Brodrig, fizeram a sua aparição vindas de algum lugar e mudaram
tranqüilamente de mãos. O oficial tossiu de modo importante e ficou assegurada a sua
complacência. Apareceu uma nova figura no postigo indicado. Entregou tudo rápida e
eficientemente, tendo, além disso, incluído as características de Devers, formal e corretamente
estabelecidas.
Os dois homens, comerciante e patrício, entraram em Trantor.
No hangar a nave comercial era mais uma nave para ser recolhida, fotografada,
registrada, verificado o seu conteúdo, fotocopiadas as carteiras de identidade dos
passageiros, e logo que tivesse sido paga a taxa indicada, registrada e recebida.
E nessa altura Devers estava num enorme terraço, dominando o sol branco e radiante,
ao longo do qual havia mulheres a tagarelar, crianças a brincar e homens sorvendo
calmamente bebidas e vendo os grandes televisores que faziam cintilar as notícias do Império.
Barr contou o número necessário de moedas de irídio para tirar o jornal que estava no
alto de uma pilha. Era o Notícias Imperiais de Trantor, órgão do governo. Lá dentro, nas
instalações do jornal, havia um leve rumor de edições adicionais que estavam sendo
impressas pelo sistema de telepatia a 15.000 quilômetros de distância por túneis - 8.000 por
aparelhos aéreos, tal como dez milhões de exemplares estavam sendo impressos da mesma
maneira nesse momento, em dez milhões de outras instalações de jornais por todo o planeta.
Barr olhou de relance para o cabeçalho e disse secamente:
- O que faremos em primeiro lugar?
Devers esforçava-se por se libertar da sua própria depressão. Estava num universo
tão afastado do seu, num mundo que o comprimia com as suas trapalhadas, no meio de pessoas
cujas ações eram incompreensíveis e cuja linguagem quase o era também. As cintilantes torres
metálicas que o rodeavam e que continuavam ininterruptamente numa multiplicidade sem fim
pelo horizonte afora, oprimiam-no, aquela vida totalmente ocupada, negligente, de um mundo
metropolitano causava-lhe uma horrível sensação de isolamento e dava-lhe tamanha falta de
importância que o tomavam um pigmeu.
Disse:
- Parece que o melhor é sair daqui, doutor.
Barr estava calmo, e sua voz era suave:
- Quis dizer-lhe isso, mas é difícil compreender quando uma pessoa ainda não viu, sei
muito bem. Você sabe quantas pessoas querem avistar-se com o Imperador todos os dias?
Cerca de um milhão. Sabe quantas ele atende? Umas dez. Teremos de passar por cima do
serviço burocrático, o que torna as coisas ainda mais difíceis. Não temos possibilidades de
pagar aos aristocratas.
- Temos quase cem mil créditos.
- Um simples par do reino pode custar isso, e precisamos de pelo menos três ou
quatro para formar uma ponte adequada para chegar até o Imperador. E devem ser necessários
uns cinqüenta comissários e supervisores classificados para o mesmo, estes devem custar-nos,
talvez, uma centena cada um. E precisaremos falar. Em primeiro lugar, eles não devem notar o
seu sotaque e, em segundo, você não conhece a etiqueta do suborno Imperial. É uma arte,
garanto-lhe.
A terceira página do Noticias Imperiais trazia o que ele queria e passou o jornal a
Devers. Devers leu vagarosamente. O vocabulário era estranho, mas conseguiu compreendê-
lo. Olhou para cima, e os seus olhos estavam obscuros de concentração. Deu uma palmada na
folha de jornal, raivosamente, com as costas da mão.
- Você crê que isto pode ser de confiança?
- Dentro de certos limites - replicou Barr, calmamente. - É bastante improvável que a
esquadra da Fundação tenha sido destruída. Já teriam relatado isto várias vezes, se seguissem
a usual técnica de reportagem de guerra de uma capital do mundo que está afastada da atual
cena de combate. O que isto significa, todavia, é que Riose ganhou outra batalha, que ele não
devia ter esperado. Fala-se aí na captura de Loris. Trata-se do planeta capital do Reino de
Loris?
- É - ponderou Devers - ou daquilo a que se costumava dar o nome de Reino de Loris.
E não está distanciado sequer 60 anos-luz da Fundação. Doutor, temos que ir embora para
começar a agir depressa.
Barr encolheu os ombros:
- Você não pode agir assim em Trantor. Se tentar, acabará na ponta de um
desintegrador atômico, com toda a certeza.
- Levaremos muito tempo para conseguir o que queremos?
- Um mês, se tivermos sorte. Um mês, e os nossos cem mil créditos no caso de serem
suficientes. E isto é na hipótese de não se meter na cabeça do Imperador a idéia de se pôr a
caminho dos Planetas de verão, onde nunca concede audiências.
- Mas a Fundação…
- … Há de tratar dela mesma, como até aqui. Olhe, vamos cuidar da questão do jantar.
Estou com muito apetite. E depois a noite é nossa e podemos utilizá-la como quisermos.
Nunca mais voltaremos a Trantor ou qualquer outro mundo como você bem o sabe.

O Agente Ministerial das Províncias Exteriores estendeu as mãos gorduchas com


impotência e nobreza aos peticionários, fazendo umas solenes oscilações de cabeça.
- O Imperador está indisposto, cavalheiros. É realmente inútil que eu apresente o caso
ao meu superior. Sua Majestade Imperial não recebeu ninguém durante a semana.
- Ele há de nos receber - disse Barr, com um ar circunspecto. - É apenas questão de
dizer que se trata de um membro do estado-maior do Secretário Privado.
- Impossível - replicou o comissário enfático. - Seria um grande erro de minhas
funções fazer pressão para tanto. A não ser que os senhores me contassem explicitamente qual
é a natureza do assunto que querem tratar. Eu gostaria de ajudá-los compreendam, mas
naturalmente preciso de uma coisa menos vaga, alguma coisa que eu possa apresentar ao meu
superior como razão para levar o assunto adiante.
- Se o meu assunto fosse de tal caráter que pudesse ser exposto a qualquer pessoa -
observou Barr, suavemente - nenhum interesse haveria para justificar um pedido de audiência
com Sua Majestade Imperial. Eu proponho que você vislumbre uma possibilidade. Devo
lembrar-lhe que se Sua Majestade Imperial ligar aos nossos assuntos a importância que lhe
garantimos que ele lhe há de dar, você pode ficar completamente certo de que receberá as
honras que lhe cabem por ter nos ajudado agora.
- Sim, mas… - o comissário encolheu os ombros, sem mais palavras.
- Há uma possibilidade - acrescentou Barr. - Naturalmente, um risco deve ter a sua
compensação. É um grande favor que estamos pedindo, mas já temos de lhe estar muito
agradecidos pela gentileza que teve em nos dar esta oportunidade para expor os nossos
problemas. Mas se você nos permitir que expressemos a nossa gratidão embora reduzidamente
com…
Devers fez uma carranca. Já tinha ouvido este discurso com variações insignificantes
umas vinte vezes no último mês. E acabou, como sempre, com um rápido gesto de estender
umas notas meio escondidas. Aqui, porém, a história foi outra. Habitualmente as notas
desapareciam imediatamente, neste caso ficaram completamente à vista, enquanto o
comissário as contava vagarosamente, analisando-as tanto no verso como no anverso. Houve
uma sutil mudança de tom na sua voz:
- Emitido pelo Secretário Privado, heim? Bom dinheiro!
- Voltando ao assunto de que estávamos falando… - insistiu Barr.
- Não, espere - interrompeu o comissário - vamos voltar atrás umas quantas fases. Eu
realmente estou com desejo de saber o que pode ser o assunto de vocês. Este dinheiro está
limpo e é novo, e vocês devem ter uma boa porção dele, pois me consta que vocês já se
avistaram com outros funcionários antes de mim. Ora, vamos, de que é que se trata?
Barr disse:
- Não compreendo o que você está sugerindo.
- O quê? Ora veja, eu poderia provar que vocês estão ilegalmente no planeta, pois que
a identificação e o Cartão de Entrada do seu silencioso amigo são certamente irregulares. Não
se trata de um súdito do Imperador.
- Nego isso.
- Não me importa nada o que você diz - replicou o comissário com repentina
brusquidão. - O funcionário que assinou o seu Cartão a troco de cem créditos confessou, sob
pressão, e sabemos mais do que aquilo que você pensa.
- Se está insinuando, senhor, que a soma que lhe pedimos para aceitar é insuficiente
tenho em vista os riscos…
O homem sorriu:
- Pelo contrário, é mais do que suficiente. - Pôs as notas de lado. - Para voltar ao que
estava dizendo, é o próprio Imperador que tem mostrado muito interesse pelo caso de vocês.
Não é verdade, cavalheiros, que estiveram recentemente prisioneiros do general Riose? Não é
verdade que vocês escaparam do meio do seu exército, para dizer as coisas com brandura,
com espantosa facilidade? Não é verdade que possuem uma pequena fortuna em notas emitidas
pelas propriedades de Lorde Brodrig? Em resumo, não é verdade que vocês são dois
assassinos que foram aqui mandados para… Bem, vocês é que nos vão dizer quem lhes paga e
para quê!
- Não sei - disse Barr, com uma raiva lisonjeira. - Eu nego o direito de um pequeno
funcionário nos acusar de crimes. Vamos embora.
- Vocês não vão embora coisa nenhuma. - O comissário levantou-se e os seus olhos
não tardaram a mostrar que estava muito atento. - Vocês não precisam responder agora às
minhas perguntas, podem reservar isso para mais tarde quando há de ser também mais difícil.
Não sou um comissário, sou tenente da Polícia Imperial. Vocês estão presos.
Trazia uma pistola desintegradora, brilhante e eficiente, na mão fechada, ao mesmo
tempo que sorria:
- Há homens mais importantes do que vocês que meti hoje na cadeia. Vamos metê-los
num lindo abrigo, muito limpo.
Devers rosnou e puxou vagarosamente pela sua própria pistola. O tenente da Polícia
sorriu mais abertamente e apertou os contatos. A linha de força desintegradora atingiu o peito
de Devers com um violento sopro de destruição, mas que tocou inofensivamente sua farda e se
desfez em partículas de luz.
Devers disparou por seu turno, e a cabeça do tenente ficou isolada da parte superior
do torso que desapareceu. Estava ainda sorridente como se o divertisse o raio de fulgor solar
que entrou através do buraco recentemente aberto na parede. Saíram pela porta dos fundos.
Devers disse roucamente:
- Vamos depressa para a nave. Não devem demorar a dar o alarme. - Praguejou com
um silvo feroz. - Eis outro plano que vai por água abaixo. Parece que o espaço inteiro me
lançou pragas.
Estavam no descampado que encontraram repleto de multidões atentas aos grandes
televisores. Não tinham tempo a perder, menosprezaram as palavras ensurdecedoras e
estrepitosas que os alcançaram. Mas Barr apanhou um exemplar das Notícias Imperiais antes
de mergulhar na grande porta do hangar, de onde a nave alçou vôo precipitadamente, através
de uma cavidade gigante aberta até o teto.
- Você é capaz de ir embora? - perguntou Barr.
Dez naves da Polícia seguiam pertinazmente a pista da nave que saíra infringindo as
regras legais de saída que era radiodirecionada, e desobedeceram a todas as regras de
velocidade em vigor. Atrás deles, contudo, estavam seguindo naves novinhas do Serviço
Secreto, em perseguição de uma embarcação cuidadosamente descrita, tripulada por dois
assassinos identificados.
- Veja você - disse Devers, e lançou-se brutalmente no hiperespaço três mil
quilômetros acima da superfície de Trantor. A nave transformou-se, assim, numa massa
planetária, significando inconsciência para Barr e um terrível nevoeiro de dor para Devers,
mas alguns anos-luz depois o espaço por cima deles estava limpo. O sombrio orgulho que
Devers tinha pela sua nave irrompeu à superfície. Disse:
- Não há uma nave Imperial que seja capaz de me perseguir seja onde for.
E depois, amargamente. - Mas não há, em parte alguma, ponto para onde possamos ir, e não
podemos lutar contra eles. O que é que faremos? O que é que alguém poderia fazer?
Barr mexeu-se debilmente na sua cama. O efeito da hipervelocidade ainda não lhe
tinha passado, e doíam-lhe os músculos todos. Disse:
- Ninguém pode fazer coisa alguma. Está tudo terminado. Olhe!
Entregou-lhe o exemplar das Noticias Imperiais que ainda conseguira agarrar, e o
cabeçalho foi suficiente para o comerciante.
- Destituídos e presos, Riose e Brodrig - murmurou Devers. Olhou de maneira vazia
para Barr. - Por quê?
- A notícia não diz nada a esse respeito, mas que problema que teria surgido? A guerra
com a Fundação está terminada, e neste momento, Siwena está revoltada. Leia a notícia e veja.
- A sua voz estava cheia de energia. - Veja se consegue parar em qualquer uma das províncias
e descubra os detalhes que nos faltam. Se você não se importa, por mim vou dormir agora.
E assim fez.
Com saltos de gafanhoto de magnitude sempre crescente, a nave comercial estava
atravessando a Galáxia no seu regresso para a Fundação.
O FIM DA GUERRA
Lathan Devers sentiu-se definitivamente incomodado e vagamente ressentido.
Recebera sua condecoração e suportara com muito estoicismo a oratória redundante do
Prefeito que escoltara a faixa de fitas carmesim. Isto acabara com a sua parte de participação
nas cerimônias, mas, naturalmente, forçaram-no formalmente a continuar ali. E era
principalmente esse lado formal - de um tipo que podia se recostar para bocejar ruidosamente
ou para enrolar confortavelmente um pé em volta das pernas de uma cadeira - o que lhe dava
uma grande vontade de voltar para o espaço, ao qual pertencia.
A delegação siweniana, com Ducem Barr como membro que desempenhava o papel
principal, assinou a Convenção, e Siwena transformou-se na primeira província a passar
diretamente do domínio político do Império para uma Fundação econômica.
Cinco Naves Imperiais de comando - capturadas quando Siwena se rebelara na
retaguarda das linhas da Esquadra das Fronteiras do Império - relampejaram por cima das
cabeças, grandes e maciças, lançando uma saudação rimbombante ao passarem por cima da
cidade.
Nada mais além de bebidas, etiqueta e umas conversas insignificantes agora…
Uma voz chamou-o. Era Forell, o homem que, Devers pensou-o friamente, podia
comprar vinte dele com os lucros de uma manhã, mas um Forell que agora curvava um dedo
para ele com uma condescendência genial.
Encaminhou-se para a sacada onde predominava o frio da noite, e inclinou-se
delicadamente, enquanto fazia uma careta que lhe eriçava a barba. Barr também ali estava,
sorridente. Disse:
- Devers, você deve vir em meu socorro. Estou sendo acusado de modéstia, um crime
horrível e completamente contra a natureza.
- Devers - Forell tirou o charuto apagado do canto da boca enquanto falava - Lorde
Barr afirma que sua viagem à capital de Cleon não teve qualquer efeito que contribuísse para
a demissão de Riose.
- Absolutamente nenhum, senhor - respondeu Devers, conciso. -Nós nunca vimos o
Imperador. Os relatos que roubamos quando voltamos referiam-se ao julgamento, revelando
que ele fora preso e demitido devido ao arrogante predomínio que estava assumindo e às suas
ligações secretas. Havia uma confusão de opiniões a respeito do general, sendo geralmente
aceito que ele tinha ligações subversivas na corte.
- E estava inocente?
- Riose? - interpôs-se Barr. - Claro! Pela Galáxia, estava! Brodrig era um traidor dos
princípios gerais, mas nunca foi culpado das acusações que lhe foram feitas. Foi uma farsa
judicial, mas necessária, previsível, inevitável.
- Calculo que por necessidade psicohistórica - Forell soletrou a frase sonoramente
com a facilidade bem-humorada de uma longa familiaridade.
- Exatamente. - Barr tornou-se sério. - Eu jamais o compreendera até então, mas uma
vez que estamos inteirados das causas, o problema tornou-se simples. Podemos ver, agora,
que o substrato social do Império cria guerras de conquista que ele não pode sustentar, quando
sob imperadores fracos é fracionado em parcelas por generais competentes e que se
encontram na dependência de um trono sem valor e seguramente natimorto, quando sob
Imperadores fortes, o Império fica congelado num rigor de paralisia em que a desintegração
cessa por momentos, mas só graças aos sacrifícios de todos os progressos viáveis.
Forell resmungou através de fortes baforadas:
- Você não está sendo nada claro, Lorde Barr. - Barr sorriu vagarosamente.
- Ahm, parece-me que sim. É difícil não ser arrastado para a psicohistória. As palavras são
umas imperfeitas substitutas, cheias de fiapos, das equações matemáticas. Mas deixe-me ver
agora…
Barr meditou, enquanto Forell se espreguiçava, com as costas encostadas à
balaustrada, e Devers olhou para o céu aveludado e evocou atonitamente Trantor. Nessa altura
Barr continuou:
- Veja, senhor, você - e Devers, e estou convencido de que todos, tinham a idéia de
que derrotar o Império exigiam que primeiro se separasse o Imperador do seu general. Você, e
Devers, e qualquer outra pessoa estavam certos - certos durante um determinado espaço de
tempo, certos durante aquele período em que o princípio de desunião interna era o que mais
nos importava. Mas vocês estavam errados, de qualquer maneira, pensando que esta divisão
interna era coisa que podia ser provocada na sua totalidade por atos individuais, por
inspiração de momento. Você, Devers, procurou subornar e mentiu. Você apelou para a
ambição e para o medo. Mas não conseguiu com os seus sofrimentos. De fato, as coisas
ficavam aparentemente piores depois de qualquer de suas tentativas. E através de tudo isto,
correndo duramente por cima das pequenas ondas, o ondear de Seldon foi continuando para
diante, serenamente - porém com muita irresistibilidade.
Ducem Barr virou-se e olhou por cima da balaustrada para as luzes de uma cidade
alegre. Disse:
- Havia uma mão morta exaurindo tudo de nós, do poderoso general e do grande
Imperador, do meu mundo e do seu - a mão morta de Hari Seldon. Ele sabia que um homem
como Riose deveria falhar, pois que o seu triunfo é que trouxe o fracasso, e quanto maior é o
triunfo mais certo é o fracasso.
Forell disse secamente:
- Não posso dizer que você fale com clareza.
- Um momento - continuou Barr fervorosamente. - Repare bem na situação. Um
general fraco nunca nos podia ter posto em perigo, evidentemente. Um general forte, durante o
reinado de um Imperador fraco, nunca nos poderia ter posto em perigo, também, porque teria
apontado as suas armas para um objetivo muito mais rendoso. Os acontecimentos tinham
provado que três quartas partes dos Imperadores dos últimos dois séculos foram generais
rebeldes e vice-reis rebeldes, antes de serem Imperadores. Por esse motivo a combinação de
Imperador forte e general forte podia prejudicar a Fundação, pois que um Imperador forte não
poderia ser destronado facilmente, e um general forte é forçado a virar-se para o exterior, a
passar as fronteiras. Mas, o que é que mantém o Imperador forte? O que é que tornava Cleon
forte? É evidente. Ele é forte, porque não permite a existência de súditos fortes. Um cortesão
que se torna excessivamente rico, ou um general que se torna excessivamente popular, são
perigosos. Toda a história recente do Império prova que qualquer Imperador inteligente pode
ser bastante forte.
- Riose conseguiu vitórias, pelo que o Imperador se tornou desconfiado. Todo o
ambiente da época o forçou a ser desconfiado. Riose recusa um suborno? E para desconfiar,
deve haver razões ocultas. O seu cortesão de maior confiança põe-se subitamente a favor de
Riose? É para desconfiar, mais motivos para desconfiar. Não eram as ações individuais que
eram de desconfiar. Alguma coisa mais teria de se fazer e por isso é que as nossas
conspirações individuais foram desnecessárias e algum tanto inúteis. Foi o êxito de Riose que
o tornou suspeito. Por isso foi destituído, acusado, condenado, assassinado. A Fundação
voltou a vencer. Porque, veja bem, não há uma combinação concebível de acontecimentos que
não venha a resultar na salvação da Fundação. Era inevitável, por mais que Riose fizesse, por
mais que nós fizéssemos.
O magnata da Fundação meneou gravemente a cabeça:
- Seja! Mas o que aconteceria se o Imperador e o general tivessem sido a mesma
pessoa? Hein? O que aconteceria então? Isto é um caso que você não poderia investigar, pois
que assim você não poderia provar os seus pontos de vista de modo algum.
Bar encolheu os ombros:
- Eu não posso provar coisa alguma. Não conheço matemática. Mas apelo para a sua
razão. Em um Império em que todos são aristocratas, todos os homens fortes, todos os piratas
podem aspirar ao Trono - e, como a história mostra, muitas vezes a seguir uns aos outros - o
que é que acontecia sempre a um Imperador forte que se preocupasse pessoalmente com as
guerras estrangeiras no ponto mais extremo da Galáxia? Quanto tempo podia ele permanecer
longe da capital antes de alguém desfraldar as bandeiras da guerra civil e forçá-lo a sair pela
porta fora? A formação social do Império não tardaria a expulsá-lo, decorrido bem pouco
tempo. Disse uma vez a Riose que nem todas as forças do Império poderiam desviar a mão
morta de Hari Seldon.
- Bom! Bom! - Forell estava expansivamente satisfeito. - Nesse caso você está
insinuando que o Império nunca mais pode ameaçar.
- Assim me parece, de fato - anuiu Barr. - Francamente, Cleon não deve viver mais um
ano e já deve estar começando a luta pela sucessão, o que é quase coisa natural, e isso pode
querer dizer a última guerra civil do Império.
- Nesse caso - disse Forell - não há mais inimigos.
Barr mostrava-se pensativo.
- Há uma segunda Fundação.
- No outro extremo da Galáxia? Durante séculos, não.
Devers virou-se subitamente ao ouvir isto, e a sua face estava sombria quando fitou
Forell:
- Talvez haja inimigos internos.
- Haverá? - perguntou Forell, friamente. - Quais, por exemplo?
- O povo, por exemplo, que se aumentar a riqueza, de ver concentrar-se
excessivamente fora das mãos daqueles que a produzem. E que se pode decidir a pôr fim a
esta concentração. Compreende o que quero dizer?
Vagarosamente, o olhar de Devers desviou-se com desprezo e foi invadido por uma
cólera provocada pelas palavras de Forell.
PARTE II – O MULO
NOIVA E NOIVO
O MULO. Ainda se sabe menos quanto ao “Mulo” do que a respeito de qualquer outra
personagem de igual importância para a história galáctica. Não se sabe qual era o
verdadeiro nome, o início de sua vida é mera conjectura. Mesmo o período de sua maior
nomeada é principalmente conhecido através dos olhos dos seus antagonistas e,
principalmente, através dos de uma jovem noiva…
Enciclopédia Galáctica

O primeiro espetáculo de Haven que Bayta observou foi inteiramente o contrário de


espetacular. O marido mostrou-o lá fora - uma estrela escura perdida no meio do vácuo da
extremidade da Galáxia. Tinham ultrapassado os últimos aglomerados esparsos, dirigindo-se
para o lugar onde cintilavam solitariamente alguns pontos de luz extraviados. E tudo o que ali
existia era pobre e obscuro.
Torã estava inteiramente consciente do fato e tornava-o como sendo o mais próximo
prelúdio para a vida de casado, faltava à Ana Vermelha a capacidade de causar impressão e
os seus lábios ondularam autoconscientemente:
- Eu sei, Bay… Não se trata exatamente de uma mudança oportuna, não é? Quero eu
dizer, da Fundação para isto.
- Uma mudança horrível, Torã. Eu nunca devia ter casado com você. E quando sua
face se mostrou momentaneamente sofredora, antes de ele ter virado a cara, ela acrescentou
com o seu “agradável sotaque” especial:
- Muito bem, tolo. Agora veja se perde esse trejeito carrancudo dos lábios e concede-
me aquele olhar especial de carneiro semimorto - igual ao que mostrava quando julgava que
tinha a cabeça escondida no meu ombro, enquanto eu afagava seu cabelo cheio de eletricidade
estática. Estava sempre descobrindo uma tolice qualquer, lembra-se? Esperava por mim para
me dizer “Hei de ser feliz em qualquer parte com você, Bay” ou “Até os abismos
interestelares podiam ser o meu lar, meu carinho, desde que você estivesse ao meu lado!”
Suponho que se lembra disto.
Apontou-lhe um dedo e tirou-o depressa antes de levar uma dentada.
Ele respondeu:
- Se eu me render, e admitir que você tem razão, vai fazer o jantar?
Ela acenou que sim, com satisfação. E ele sorriu, e voltou a olhar para ela. Não era
uma beleza de grau idêntico ao de muitas outras - ele admitia que assim fosse - mesmo se todo
mundo olhasse para ela duas vezes. Tinha o cabelo escuro e brilhante, liso todavia, a boca era
grande - mas as suas sobrancelhas meticulosas, de textura cerrada, separavam a testa branca e
abaulada dos olhos quentes, de um tom de mogno, que estavam sempre sorridentes.
E atrás de uma fachada de prática, isenta de romantismos, resolutamente construída e
constantemente defendida, que se mostrava dura perante a vida, exatamente a pequena poça de
brandura que nunca se tornava evidente quando pressentia a existência da troça em alguém,
mas que podia aparecer no caso de se encontrar perante alguém que a conhecesse
perfeitamente - desde que esse alguém não mostrasse que estava interessado nela.
Torã ajustou desnecessariamente os comandos e decidiu distender-se. Houve um salto
interestelar, e depois vários anos-luz na “reta” antes de qualquer movimento manual se tornar
necessário. Inclinou-se sobre as costas do banco para olhar para dentro do paiol de
mantimentos, onde Bayta ia fazendo prestidigitações com os recipientes apropriados.
Havia quase um laivo de vaidade na atitude que assumia para com Bayta. O temor
satisfeito que marcava o triunfo de alguém que estivera pairando durante três anos nos limites
de um complexo de inferioridade.
No fim de contas ele era um provinciano e não apenas um provinciano, mas ainda o
filho de um comerciante renegado. E ela era oriunda da própria Fundação, e não apenas isso,
pois podia seguir o rastro dos seus antepassados até Mallow.
E com tudo isto, sentia um pequeno tremor invadi-lo. Voltar para Haven, para o seu
mundo de rochas e para as suas cidades-cavernas era bastante mau. Mas ter diante dele a
hostilidade tradicional existente contra um comerciante na Fundação - reduzido a ser um
nômade numa cidade residencial - era pior.
Todavia… depois de comer, o último salto!
Haven era uma chama raivosamente carmesim, e o segundo planeta era um pedaço de
luz rubro como um arco dividindo a atmosfera iluminada da meia esfera de escuridão. Bayta
deu uma olhadela para a larga mesa de visão com as suas linhas que se entrecruzavam
formando uma teia de aranha que centrava nitidamente Haven II.
Disse gravemente:
- Gostaria de encontrar seu pai primeiro. Se ele decidir ser antipático comigo…
- Nesse caso - disse Torã de maneira prática - seria a primeira garota bonita que lhe
inspiraria uma atitude dessas. Antes de ele ter perdido o braço e ser obrigado a deixar de
andar à volta da Galáxia, ele… Bem, se lhe perguntar o que se passou, ele há de dizer-lhe tudo
o que aconteceu naqueles anos em que nós estivemos metidos sob um penedo. Depois de certo
tempo acabei por pensar que ele estava com fantasias, porque nunca contou a mesma história
duas vezes da mesma maneira…
Haven II estava arremetendo ao seu encontro. O mar cercado rodava pesadamente por
baixo deles, de um cinza-ardósia no meio da obscuridade e perdia-se de vista, aqui e além,
por meio dos punhados de nuvens. Havia montanhas projetando-se esfarrapadamente ao longo
da costa.
O mar tornou-se enrugado quando se aproximaram e como virassem para fora
mudando de horizonte quase na parte final, avistaram um desvanecido vislumbre de praia com
enormes campos de gelo.
Torã resmungou sob o efeito da violenta desaceleração:
- Fechou suas coisas?
A face rechonchuda de Bayta estava vermelha na espuma-de-esponja muito aderente,
do traje de couro aquecido por dentro.
A nave baixou rangendo no campo aberto, bem no fundo do alto planalto. Eles
elevaram-se desajeitadamente na plena escuridão da noite exterior galáctica, e Bayta arfou
quando o frio aumentou, e o vento fraco redemoinhou vaziamente. Torã mediu o seu ângulo e
tocou levemente com o cotovelo provocando uma desajeitada corrida sobre o terreno regular e
compacto em direção à mancha faiscante de luz artificial que aparecia à distância.
A guarda avançada veio ao encontro deles a meio caminho, e depois de uma
sussurrada troca de palavras, continuaram a avançar. O vento e o frio desapareceram quando o
portão de rocha se abriu para depois se fechar atrás deles. O interior quente, branco com
paredes luminosas, estava cheio de um zumbido alvoroçado e incoerente. Havia homens
vigiando instalados às suas mesas, e Torã apresentou os seus documentos. Houve um aceno de
mão para diante depois de uma rápida olhadela e Torã sussurrou à mulher:
- Papai deve ter legalizado as formalidades. O lapso de tempo que se gasta
normalmente aqui é de cinco horas.
Encaminharam-se para a abertura e Bayta disse repentinamente:
- Oh, meu…
A caverna da cidade estava iluminada pela luz do dia - a branca luz do dia de um sol
novo. Não era que se tratasse de um sol, evidentemente. Aquilo que devia ser o céu estava
perdido na vermelhidão desfocada de um brilho que tudo cobria. E o ar quente dispunha da
densidade adequada e tinha um cheiro de folhagem.
Bayta observou:
- Isto aqui, Torã, é belo.
Torã sorriu com um ansioso deleite:
- Ora, Bay, decerto que não se parece com nenhuma das da Fundação, mas é a maior
cidade de Haven II - vinte mil pessoas, sabe - e vai ver como gosta dela. Nenhum palácio de
diversões, mas também nenhuma polícia secreta.
- Oh, Torie, é mesmo uma cidade de brinquedo. É toda branca e cor-de-rosa - e tão
limpa.
- Bem… - Torã olhou para a cidade juntamente com ela. As casas tinham dois andares
em sua maioria, eram feitas com a pedra da região cheia de veios regulares. As torres da
Fundação estavam ausentes, e assim como a colossal harmonia de casas dos Velhos Reinos -
mas havia ali a pequenez e a individualidade, uma relíquia da iniciativa pessoal numa Galáxia
de vida de massas.
Ele disse de repente com súbita atenção:
- Bay… Ali vem papai! Ali… onde estou apontando, tola. Não o vê?
Ela o avistou. Era apenas a sugestão de um homem grande, acenando freneticamente,
com os dedos todos esticados como se andasse às apalpadelas no ar. O estrondoso grito
estava alcançando-os ali. Bayta arrastou o marido, movendo-se rapidamente por cima do
relvado cuidadosamente aparado. Ela desviou os olhos para um homem pequeno, de cabelo
branco, quase impossível de se ver atrás do robusto Maneta, que continuava a caminhar e a
gritar.
Torã gritou por cima do ombro:
- É o meio-irmão de meu pai. Aquele que uma vez esteve na Fundação. Você já o
conhece.
Eles meteram-se pelo relvado, rindo infantilmente, e o pai de Torã emitiu um grito
final para consumar sua alegria. Segurou o casaco curto e apertou o cinto de metal gravado, o
qual era uma concessão ao luxo. Os seus olhos saltaram de um jovem para outro, e disse logo
após inalar um pouco de ar:
- Você escolheu um dia terrível para voltar para casa, rapaz!
- O que? Oh! é o dia do nascimento de Seldon, não é?
- É. Tive de alugar um carro para vir até aqui, e fui obrigado a trazer o feroz Randu
para dirigi-lo. Não há um veículo público para ir seja onde for.
Tinha os olhos fitos em Bayta, e não a abandonava. Falou com ela mais suavemente:
- Tenho o seu cristal comigo e é bom, mas pode-se ver que é obra de um amador.
Tinha um pequeno cubo de transparência fora do bolso do casaco e, com a luz, a
sorridente facezinha explodiu para uma vivida vida colorida com uma miniatura de Bayta.
- Essa aí? - disse Bayta. - Agora gostaria de saber porque é que Torã lhe teria
mandado essa caricatura. Estou surpreendida porque se tenha dado ao trabalho de vir me
esperar, senhor.
- O que é isso? Chame-me Fran. Não sou nada do que você está pensando. Por isso,
penso que você pode tomar o meu braço, e eu a levo para o carro. Até agora não imaginara
que o meu rapaz soubesse o que estivesse fazendo lá por cima. Parece-me que agora sou
obrigado a mudar de opinião. Penso que deverei mudar de opinião.
Torã disse ao seu meio-tio, em voz baixa:
- O que andou fazendo o velhote? Andou atrás de mulheres?
Randu enrugou completamente a face quando olhou para cima e sorriu.
- Quando se pode, Torã, quando se pode. Às vezes, a gente se lembra que vai fazer
sessenta, e isso desanima. Mas não tarda que comece a rir outra vez, esse grande diabo, e
então volta a ser ele mesmo. É um comerciante à maneira antiga. Mas você, Torã. Onde foi
descobrir uma mulher tão linda?
O rapaz riu entredentes e abanou os braços.
- Quer que lhe conte a história de três anos de uma vez, tio?
Foi no pequeno vestíbulo da casa que Bayta tirou sua capa de viagem e a touca e
abanou os cabelos soltos. Sentou-se, cruzou as pernas, e voltou à contemplação daquele
homem grande e vermelho. Disse:
- Imagino que está fazendo contas e por isso vou ajudá-lo, idade, vinte e quatro, altura,
um e sessenta e cinco, peso, cinqüenta e cinco, especialidade, história. - Ela constatou que ele
mexia sempre o corpo como se quisesse ocultar que perdera um braço.
Fran inclinou-se ainda mais e disse:
- Já que você diz… peso exato, sessenta quilos.
Riu ruidosamente ao vê-la corar. Depois disse, dirigindo-se a todos em geral:
- Você pode dizer sempre o peso de uma mulher calculando pelos braços, com a
devida experiência, claro. Você aceita uma bebida, Bay?
- Entre outras coisas - disse ela, e saíram os dois, enquanto Torã procurava
diligentemente na estante de livros, à procura de novidades.
Fran regressou sozinho e disse:
- Ela já vem.
Deixou-se cair pesadamente numa ampla cadeira de canto e pôs a sua perna esquerda,
de articulações rígidas, no tamborete que estava defronte dele. Voltara o riso à sua face
vermelha, e Torã virou o rosto para ele.
Fran disse:
- Bem, está em casa, rapaz, e estou satisfeito com isso. Gosto de sua mulher. Não é
uma pateta chorona.
- Eu casei com ela - observou simplesmente Torã.
- Bem, isso já é uma coisa completamente diferente, rapaz. - Tinha os olhos cheios de
sombras. - Hipotecar o futuro é uma maneira tonta de agir. Na minha longa vida, e com mais
experiência, nunca fiz semelhante coisa.
Randu interrompeu-o do canto onde estava tranqüilamente de pé:
- Ora, Franssart, que comparações está fazendo? Desde que se arrebentou no desastre,
seis anos atrás,nunca esteve o tempo suficiente num lugar para poder requerer casamento. E a
partir de então, quem ia te querer?
O maneta endireitou-se na cadeira e replicou violentamente:
- Muitas, meu velho caduco cheio de neve…
Torã observou com rápida diplomacia:
- Trata-se literalmente de uma formalidade legal, papai. A situação tem os seus
convenientes.
- Muito maiores para a mulher - resmungou Fran.
- E se assim é - argüiu Randu - o rapaz é que deve decidir. O casamento é um hábito
antigo entre os Fundadores.
- Os Fundadores não são os modelos indicados para serem imitados por um
comerciante honesto - trovejou Fran.
Torã voltou a interrompê-lo:
- Minha mulher é Fundadora. - Olhou para um e para o outro, e depois acrescentou
tranqüilamente: - Ela vem vindo.
A conversa assumiu um tom de generalidades depois da refeição da tarde, que Fran
temperara com três histórias de reminiscências formadas em partes iguais de sangue,
mulheres, lucros e fantasia. O pequeno televisor estava ligado, no qual estava sendo exibido,
num sussurro, um drama clássico qualquer, a que ninguém dava importância. Randu colocara-
se numa posição mais confortável no assento baixo e via subir a fumaça lenta do seu comprido
cachimbo, enquanto Bayta se ajoelhara em cima da macieza da pele branca da almofada, pele
que ali fora ter há muito tempo no regresso de uma missão comercial, e agora se expunha
apenas em ocasiões de muita cerimônia.
- Você estudou história, minha pequena? - perguntou ele, meigamente. Bayta acenou
que sim com a cabeça:
- Fui o desespero dos meus professores, mas por acaso aprendi um pouco.
- Com distinção - observou Torã, muito satisfeito - só isso!
- E que vai fazer com o que aprendeu? - perguntou Randu, suavemente.
- Do que aprendi? Agora? Aplicá-lo.
O velhote sorriu delicadamente:
- Bem, nesse caso, o que é que você pensa da situação galáctica?
- Penso - respondeu Bayta de maneira concisa - que está prestes a verificar-se uma
crise de Seldon… e que ela não se apresenta inteiramente de acordo com o plano de Seldon. É
uma ruptura.
- Hum - resmungou Fran, do seu canto. - Que maneira de falar de Seldon. - Mas não
voltou a dizer mais nada em voz alta. Randu mordeu o cachimbo especulativamente:
- É mesmo? Por que é que diz isso? Eu fui pela Fundação, sabe, nos meus tenros anos,
e também me pus uma vez a meditar grandes pensamentos dramáticos. Mas, agora, por que é
que é que você diz isso?
- Bem - os olhos de Bayta enevoaram-se com pensamentos quando torceu a ponta dos
seus sapatos simples na branca macieza da manta de viagem e aninhou o seu pequeno queixo
numa mão roliça - parece-me que o objetivo total do plano Seldon era criar um mundo melhor
do que aquele que foi o do Império Galáctico. Esse mundo estava decaindo
irremediavelmente, há uns três séculos atrás, quando Seldon estabeleceu a Fundação pela
primeira vez, e, se a história diz a verdade, estava decaindo em conseqüência de uma tripla
doença de inércia, despotismo e má distribuição dos bens do Universo.
Randu meneou a cabeça vagarosamente, enquanto Torã fitava a mulher com olhos
envaidecidos e brilhantes, e Fran, no seu canto, ia estalando a língua nos dentes, ao mesmo
tempo que enchia cuidadosamente o seu copo.
Bayta prosseguiu:
- Se a história de Seldon for verdadeira, ele previa o colapso total do Império através
de suas leis de psicohistória, e foi capaz de prever os necessários trinta mil anos de barbárie
antes do estabelecimento de um novo Segundo Império para devolver à humanidade a
civilização e a cultura. O objetivo final da sua vida de trabalho era estabelecer condições tais
que pudessem assegurar um rejuvenescimento muito rápido da humanidade.
A voz profunda de Fran voltou a irromper:
- E foi por isso que ele estabeleceu as duas Fundações, honra seja feita ao seu nome.
- E foi por isso que ele estabeleceu as duas Fundações - concordou Bayta. - A nossa
Fundação foi uma concentração de cientistas do Império moribundo com vista a continuar no
caminho da ciência e conduzir o homem para novas alturas. E a Fundação foi por isso situada
no espaço e o meio histórico era aquele que, através de cuidadosos cálculos do seu gênio,
Seldon previra para dentro de um milhar de anos dar nascença a um novo e grande Império.
A moça disse brandamente:
- Trata-se de uma antiga história. Todos vocês a conhecem. Durante quase três séculos
todos os seres humanos da Fundação a conheceram. Mas pensei que seria apropriada para
fazer uma evocação… muito rápida. Hoje ê o aniversário do nascimento de Seldon, sabe, e
mesmo sendo eu da Fundação, e vocês de Haven, temos isto em comum…
Acendeu vagarosamente um cigarro, e olhou para ele de maneira ausente:
- As leis da história são tão absolutas como as leis da física, e se as probabilidades
de erro são grandes, é apenas porque a história não lida com tantos problemas humanos como
a física faz átomos, sendo que se torna necessário considerar ainda variações individuais.
Seldon predisse uma série de crises durante os mil anos de crescimento, cada uma das quais
forçaria a uma nova mudança da nossa história para um caminho pré-calculado. São estas
crises que nos dirigem - e portanto devemos agora estar enfrentando uma crise.
- Agora! - repetiu ela, com vigor. - Já se passou quase um século desde que se
verificou a última e, neste século, cada um dos vícios do Império está sendo repetido na
Fundação. Inércia! A nossa classe dirigente só conhece uma lei, nada de mudança.
Despotismo! Só conhecem uma regra, a força. Má distribuição! Só conhecem um desejo,
defender os seus bens.
- Enquanto outros morrem de fome! - rugiu Fran subitamente com uma poderosa
pancada do punho no braço da cadeira. - Moça, as suas palavras são pérolas. As tripas
gordurosas dos seus comilões arruínam a Fundação, enquanto os bravos comerciantes
escondem sua pobreza nas escórias de mundos como Haven. É uma desgraça para Seldon, um
pedaço de lama na sua cara, uma imundície na sua barba. - Levantou o seu braço ao alto, e
antão a sua face alongou-se. - Se eu tivesse o braço que me falta! Se, ao menos uma vez, eles
me tivessem ouvido!
- Papai - disse Torã - falar é fácil.
- Falar é fácil. Falar é fácil - o pai imitou-o rudemente. - Podemos viver aqui e morrer
aqui para sempre e você o disse, falar é fácil.
- Este é o nosso moderno Lathan Devers - disse Randu, fazendo gestos com o
cachimbo - este nosso Fran. Devers morreu nas minas de escravos há uns oitenta anos atrás em
companhia do seu bisavô paterno, porque lhe faltava sabedoria e lhe sobrava coragem…
- Pois, pela Galáxia, eu teria feito o mesmo se lá estivesse. - praguejou Fran. - Devers
foi o maior comerciante da história - maior do que o impostor tagarela, Mallow, o adorado
fundador. Se o corta-goelas, que era governador da Fundação, o matou porque ele amava a
justiça, é maior a dívida de sangue que temos para com ele.
- Vamos em frente, moça - disse Randu. Vamos em frente, ou então, pela certa, ele
põe-se a falar toda a noite e delira até amanhã.
- Não há mais nada para dizer - replicou ela melancolicamente. - Deve verificar-se
uma crise, mas não sei como é que ela se manifestará. As forças progressivas da Fundação
estão terrivelmente oprimidas. Vocês, os comerciantes, podem ter vontade, mas estão
perseguidos e desunidos. Se todas as forças de boa vontade dentro e fora da Fundação se
pudessem unir…
O riso de Fran foi um grito rouco:
- Ouça o que ela diz, Randu, ouça o que ela diz. Dentro e fora da Fundação, é o que
ela está dizendo. Moça, moça, não há esperança nesses frouxos da Fundação. No meio deles
há alguns que mantêm a vontade e o resto está vencido, vencido e morto. Não há suficiente
coragem nesse mundo totalmente podre para salvar a honra de um bom comerciante.
Bayta esforçou-se por protestar fracamente contra o vento que tudo submergia. Torã
levantou-se e tapou-lhe a boca com a mão.
- Papai - disse ele, friamente - você nunca esteve na Fundação. Não sabe nada a
respeito dela. Eu lhe digo que o subterrâneo ali é corajoso e tem atrevimento bastante. Posso
dizer-lhe que Bayta é um daqueles que…
- Muito bem, rapaz, não quis ofender. Mas, por qual razão se zangaram?
- Estava verdadeiramente perturbado. Torã prosseguiu ardorosamente:
- O que o perturba, papai, é que você tem uma perspectiva provinciana das coisas.
Você pensa que porque algumas centenas de milhares de comerciantes fugiram para cavernas
num planeta inútil no fim de parte alguma, eles são um grande povo. Decerto, se algum
cobrador de impostos da Fundação ali aparece jamais volta a aparecer, porém isso é um
heroísmo barato. O que é que você faria se a Fundação mandasse uma esquadra?
- Nós a desintegraríamos - disse Fran, secamente.
- E ser desintegrados - com a balança a seu favor. Vocês não sabem quantos são, não
têm armas, estão desorganizados e quando a Fundação medita no valor que vocês têm,
compreende logo isto. Por isso você agiria melhor se procurasse os seus aliados na própria
Fundação, se fosse capaz.
- Randu - disse Fran, olhando para o irmão como um grande touro impotente.
Randu tirou o cachimbo dos lábios.
- O rapaz tem razão, Fran. Quando você ouve os pequenos pensamentos profundos que
há dentro de você, sabe que ele tem razão. Mas trata-se de pensamentos pouco confortáveis, e
por isso você quer afogá-los com esse trovejar por cima de nós. Eles permanecem apesar
disso. Torã, vou-lhe dizer o que é que deduzo de tudo o que se tem dito até então.
Lançou pensativamente uma baforada por um instante, depois do que mergulhou o
cachimbo no cinzeiro, esperando pelo silencioso relâmpago, e tirou-o limpo. Lentamente,
encheu-o outra vez com pancadas precisas do dedo mindinho.
Começou:
- Sua sugestão a respeito do interesse que a Fundação manifesta por nós, Torã, é um
ponto importante. Houve duas recentes visitas ultimamente para cobranças de impostos. O
ponto inquietante é que o segundo visitante apareceu acompanhado por uma nave de patrulha.
Desembarcaram na Cidade de Gleiar, impedindo-nos de fazer qualquer mudança, e eles nunca
mais dali saíram, naturalmente. Agora eles certamente irão embora. Seu pai está ciente de tudo
isto, Torã, realmente está a par de tudo. Olhe para este teimoso vadio do inferno. Ele sabe que
Haven está em dificuldades e sabe que estamos impotentes, contudo vai repetindo suas
fórmulas. Acarinha-as e defende-as. Mas uma vez que ele disse tudo isto, e desabafou o seu
desafio, sente que confessou sua obediência como um homem e um Comerciante Touro, porque
ele é tão razoável como qualquer de nós.
- De quem é que se trata? - perguntou Bayta. Ele sorriu-lhe.
- Formamos um pequeno grupo, Bayta, apenas na nossa cidade. Ainda não fizemos
nada, por enquanto. Ainda não procuramos estabelecer contato com outras cidades, porém é
um princípio.
- Mas para que?
Randu abanou a cabeça.
- Não sabemos, de momento. Esperamos um milagre. Decidimos que, como você
disse, devia estar para ocorrer uma crise de Seldon. - Gesticulou amplamente para o alto. - A
Galáxia está cheia de resíduos e detritos do Império destruído. Os generais enxameiam. Você
calcula o tempo que pode ser necessário para um audacioso?
Bayta meditou, e depois meneou a cabeça decididamente, pelo que os longos cabeços
lisos, com simples anéis interiores, agitaram-se em torno das orelhas.
- Não, não há possibilidade. Não há nenhum desses generais que não diga que um
ataque à Fundação é um suicídio. Bel Riose, do velho Império, foi um homem superior a
qualquer deles e atacou com os recursos de uma galáxia, e não venceu porque enfrentava o
Plano Seldon. Há algum general que não saiba isto?
- Mas que tal se nós os incitássemos?
- E para onde? Para uma fornalha atômica? E qual é a possibilidade que você vê de
incitá-los?
- Bem, há uma… nova. Há um ou dois anos, comecei a ouvir falar de um homem
esquisito a quem davam o nome de Mulo.
- O Mulo? - pensou. - Já ouviu falar dele, Torie?
Torã meneou a cabeça. Ela perguntou:
- O que há a respeito dele?
- Não sei. Mas ele conseguiu vitórias, ao que dizem, com disparidades impossíveis.
Pode ser que os boatos sejam exagerados, mas seria interessante, fosse como fosse,
estabelecer contato com ele. Provavelmente nenhum homem, com habilidade suficiente e
suficiente ambição, se resolve acreditar em Hari Seldon e nas suas leis de psicohistória. Nós
podíamos encorajar esta incredulidade. Ele podia atacar.
- E a Fundação vencerá.
- Decerto, mas não necessariamente logo a seguir. Podia ser uma crise e nós podíamos
tirar vantagem de tal crise para forçar um compromisso com os déspotas da Fundação. No
caso de suceder o pior, eles nos esqueceriam durante o tempo suficiente para nos habilitar a
levar o plano mais adiante.
- O que é que pensa disto, Torie?
Torã sorriu francamente e puxou por uma madeixa castanha que estava solta por cima
de um olho.
- Aquilo que ele está sugerindo não nos pode ser prejudicial, mas quem é o Mulo? O
que é que você sabe a seu respeito, Randu?
- Nada, por enquanto. Por isso podemos servir-nos de você, Torã, e de sua mulher, se
ela o desejar. Falamos muitas vezes nisto, eu e o seu pai. Falamos disto vezes sem conta.
- Em que sentido, Randu? O que é que você pensa fazer conosco? - O jovem lançou
um rápido olhar interrogativo à mulher.
- Vocês já tiveram lua-de-mel?
- Bem… sim… se podemos chamar à viagem da Fundação uma lua-de-mel.
- Vocês não achariam melhor passar a lua-de-mel em Kalgan? É semitropical - praias,
desportos aquáticos, aves de caça - o lugar indicado para umas férias tranqüilas. Está a vinte e
um mil anos-luz daqui… não é muito longe.
- Quem é que está em Kalgan?
- O Mulo! Os seus homens, pelo menos. Ocupou-o no mês passado, e sem uma batalha,
embora o Condestável de Kalgan tivesse difundido uma ameaça de reduzir o planeta a pó
iônico antes de abandoná-lo.
- Onde é que está agora o Condestável?
- Não se sabe - disse Randu, com um encolher de ombros. - O que é que você diz?
- O que é que nós vamos fazer?
- Não sei. Eu e Fran estamos velhos, somos provincianos. Os comerciantes de Haven
são essencialmente provincianos. Exatamente como você disse. O nosso comércio é muito
restrito, e não vagueamos pela Galáxia como fizeram os nossos antepassados. Cale-se, Fran!
Contudo vocês dois conhecem a Galáxia. Bayta, especialmente, fala com um belo sotaque da
Fundação. Nós apenas desejamos que vocês acabem por descobri-lo. Se vocês pudessem
estabelecer contato… mas não nos atrevemos a esperar tanto. Suponhamos que vocês dois
pensassem no caso. Vocês podiam encontrar-se com o nosso grupo todo se assim o
desejassem… oh, não antes da próxima semana. Vocês precisam de algum tempo para tomar
fôlego.
Houve uma pausa e nessa altura Fran trovejou:
- Quem é que deseja mais bebida? Quero dizer, depois de mim?
O CAPITÃO E O PREFEITO CIVIL

O capitão Han Pritcher não estava acostumado ao luxo daquilo que o cercava e
também não estava nada impressionado. Como atitude geral, desencorajava as auto-analises e
todas as formas de filosofia e metafísica não diretamente aliadas ao seu trabalho.
O seu trabalho consistia largamente naquilo que o Departamento de Guerra chamava
“informação”, os sofisticados “espionagem”, e os romancistas, “material para aventuras de
espiões”. E, desgraçadamente, a despeito das frívolas tagarelices dos televisores,
“informação”, “espionagem” e “material para aventuras de espiões”, é nos melhores dos casos
um trabalho sórdido de rotina enganadora e de pouca fidelidade. É desculpado pela sociedade
desde que feito no “interesse do Estado”, mas do ponto de vista de sua filosofia pessoal
parecia que o capitão Han Pritcher chegava sempre à conclusão de que, mesmo neste âmbito
de puro interesse, a sociedade se acomodava muito mais facilmente do que a sua própria
consciência e por isso desencorajava-o a especulação filosófica.
E agora, no luxo da antecâmara do governador civil, os seus pensamentos giravam
interiormente em volta dele mesmo.
Os homens tinham ido passando sucessivamente por cima dele, sendo continuamente
promovidos, embora demonstrassem menor habilidade, o que era notoriamente admitido.
Resistira a uma chuva de notas agressivas e reprimendas oficiais e sobrevivia. E prosseguiria
teimosamente no seu próprio caminho, apoiado na firme crença de que a insubordinação
naquele mesmo santo “interesse do Estado” devia ser reconhecida pelo valor do serviço que
prestava.
Por isso ali estava na antecâmara do Prefeito civil - com cinco soldados a lhe fazerem
uma respeitosa guarda, e provavelmente com corte marcial à espera.
As pesadas portas de mármore abriram-se vagarosamente, silenciosa¬mente,
revelando paredes forradas com cetim, carpete de plástico vermelho, e mais duas portas de
mármore embutidas de metal. Dois funcionários com trajes perfeitos de há três séculos atrás,
avançaram e anunciaram:
- Audiência para o capitão Han Pritcher, da Informação.
Deram um passo atrás com uma saudação cerimoniosa quando o capitão se adiantou.
Sua escolta deteve-se fora da porta, e ele entrou sozinho.
Do outro lado da porta, havia um grande aposento estranhamente simples, atrás de uma
grande mesa estranhamente angulosa estava sentado um homem, quase perdido naquela
imensidão.
O Prefeito civil Indbur - o terceiro que tinha sucessivamente este nome - era o neto do
primeiro Indbur, que se mostrara brutal e capaz, e que exibira a primeira qualidade de maneira
espetacular devido à sua maneira de se aproveitar do poder, e o último pela habilidade com
que pusera fim aos últimos remanescentes das eleições livres e ainda pela enorme habilidade
com que mantinha autoridade relativamente pacífica.
O Prefeito civil era também filho do segundo Indbur, o qual fora o primeiro Prefeito
civil da Fundação que sucedera no seu posto por direito de nascimento - e que só era meio
parecido com o pai, pois se limitava a ser apenas brutal.
Por isso o Prefeito civil Indbur era o terceiro do nome e o segundo a suceder por
direito de nascimento, e era o mais insignificante dos três, pois que não era nem brutal nem
capaz - apenas um excelente guarda-livros que nascera em lugar errado.
Indbur Terceiro era uma combinação peculiar de características sintéticas de todo
mundo, exceto dele próprio. Para ele, um pomposo amor pelo arranjo geométrico era
“sistema”, um infatigável e febril interesse pelas minúsculas coisas da burocracia do dia a dia
era “diligência”, indecisão quando honesta era “cautela”, e cega obsti¬nação quando forte,
“decisão”.
Além disso, tudo ele não desperdiçava o dinheiro, não matava homens
desnecessariamente, e pensava extremamente bem.
Se as tristes reflexões do capitão Pritcher iam seguindo por aquelas linhas enquanto
permanecia respeitosamente no seu lugar diante da ampla mesa, o grosseiro arranjo das suas
feições restituía-o não sem perspicácia ao domínio dos acontecimentos. Ele nem tossia,
movendo-se com leveza, nem arrastava os pés até que a face magra do Prefeito civil se
levantou vagarosamente quando o seu ocupado buril terminou a tarefa de fazer anotações
marginais, em uma folha de papel, impressas em linhas muito apertadas, foi retirado de uma
pilha muito direita e colocada em cima de outra pilha também muito direita.
O Prefeito civil Indbur entrelaçou as mãos cuidadosamente diante dele, abstendo-se
deliberadamente de perturbar o cuidadoso arranjo dos acessórios colocados em cima da mesa.
E disse, como identificação:
- Capitão Han Pritcher, da Informação.
E o capitão Pritcher, em estrita obediência ao protocolo, dobrou um joelho quase até o
chão e inclinou a cabeça até ouvir as palavras de “à vontade.”
- Levante-se, capitão Pritcher!
O Prefeito civil disse com um ar de cálida simpatia:
- Você está aqui, capitão Pritcher, por causa de determinadas ações disciplinares
tomadas contra o senhor pelo seu oficial superior. Os papéis referentes a essa decisão
chegaram aqui, no habitual decurso dos acontecimentos, para eu tomar conhecimento, e como
não há problema na Fundação que não tenha interesse para mim, decidi incomodar-me a pedir
informações adicionais a respeito do seu caso. Espero que você não esteja surpreso.
O capitão Pritcher disse, sem qualquer emoção:
- Não, Excelência. Sua justiça é proverbial.
- Ah sim? Ah sim? - Havia agrado no seu tom, e as lentes coloridas de contato que
usava refletiam a luz de uma forma que dava uma cintilação austera, seca aos seus olhos.
Meticulosamente puxou para fora uma série de fichas encadernadas a metal colocando-as
diante dele. As folhas de pergaminho estalavam duramente à medida que ele as ia passando,
obedecendo os seus longos dedos a um desígnio, enquanto ia falando. - Tenho aqui sua folha
de serviço completa, capitão. Você tem quarenta e três anos e está prestando serviço como
oficial das Forças Armadas há dezessete anos. Nasceu em Loris, de pais anacreonianos, não
teve doenças infantis graves, um ataque de mio… bem, isto não tem importância… educação,
pré-militar na Academia de Ciências, especialidade, hiper-motores, grau acadêmico… hum,
hum, muito tom, você foi louvado… entrou no Exército como suboficial no centésimo segundo
dia do ano 293 da Era Fundacional.
Piscou os olhos momentaneamente enquanto fechava o primeiro livro, e abria o
segundo.
- Bem vê - disse ele - na minha administração, nada é entregue ao acaso. Ordem!
Sistema!
Tirou dos lábios um glóbulo de geléia cor-de-rosa e perfumado. Era hábito, e
encontrava nele satisfação. Testemunha desse fato era faltar na mesa do Prefeito o quase
inevitável relâmpago-atômico para a eliminação do tabaco apagado. O Prefeito não fumava.
Não, e da mesma maneira, os seus visitantes.
A voz do Prefeito civil zumbiu, metodicamente, moduladamente, resmungadamente
entremeando-lhe aqui e além comentários sussurrados de igual suavidade e do mesmo insípido
louvor ou reprovação.
Vagarosamente, voltou a colocar as folhas na sua pilha original.
- Bem, capitão - disse ele, animadamente - sua folha de serviço é pouco comum. Sua
habilidade é fora de série, bem se vê, e os seus serviços são preciosos, estando além de
qualquer discussão. Noto que você foi duas vezes ferido no cumprimento do dever, que foi
condecorado com a Ordem de Mérito por bravura que ultrapassou o que lhe era exigido pelo
dever. Trata-se de fatos que não podem ser minimizados, seja por quem for.
A expressão vazia do rosto do capitão Pritcher mantinha-se cortês. Continuava
rigidamente reto. O protocolo exigia que uma pessoa honrada, em audiência com o Prefeito
civil, não se sentasse - um ponto talvez desnecessariamente reforçado pelo fato de a única
cadeira existente no aposento ser aquela em que se sentava o Prefeito. O protocolo
recomendava, entre outras coisas, que nunca se respondesse senão a perguntas formuladas
diretamente.
Os olhos do Prefeito civil sondaram meticulosamente o soldado e sua voz tornou-se
irada e pesada:
- Contudo, você não foi promovido nos dez últimos anos, e o relatório do seu superior
volta a insistir reiteradamente na inflexível teimosia de seu caráter. Você é apresentado como
um insubordinado crônico, incapaz de manter uma atitude correta para com os seus superiores
oficiais, aparentemente desinteressado em manter relações de amizade com seus colegas e,
ainda por cima, um grande forjador de encrencas. O que é que você tem a dizer de tudo isto,
capitão?
- Excelência, parece-me estar de acordo comigo próprio. Minhas proezas a favor do
Estado e os ferimentos que recebi testemunham que isto que me parece correto a mim é
também feito no interesse do Estado.
- Uma declaração de perfeito soldado, capitão, porém uma perigosa doutrina. Mais do
que isso, ainda. Especificamente, você é acusado de ter recusado, por três vezes, a realizar
uma missão, mesmo perante ordens assinadas pelos meus delegados legais. O que é que você
tem a dizer sobre isso?
- Excelência, a missão denunciava uma falta de estudo das circunstâncias, pois que se
ignoravam problemas de primordial importância.
- Ah, e quem foi que lhe disse que os problemas de que você fala são realmente de
capital importância, e no caso de o serem, quem lhe disse que eles eram desconhecidos pela
ordem que lhe deram?
- Excelência, estas coisas são bastante evidentes para mim. Minha experiência e meu
conhecimento dos acontecimentos - e os meus superiores não negam o valor de nenhum deles -
tornam as coisas claras.
- Mas, meu excelente capitão, você não vê que está se mostrando arrogante quando
decide determinar pessoalmente o caminho da Polícia de Informação, e que ultrapassa os
direitos do seu superior?
- Excelência, os meus deveres são inicialmente para com o Estado, e não para com
meu superior.
- Isso é ardiloso visto que o seu superior também tem o seu superior, e que esse
superior sou eu, e eu sou o Estado. Mas vamos adiante, você não terá com que se queixar da
minha justiça que disse há pouco ser proverbial. Evidencia-se nas suas próprias palavras a
natureza da ruptura da disciplina que o conduzia a isto.
- Excelência, o meu dever é, primeiramente, para com o Estado e não me obriga a
levar a vida de um marinheiro comercial reformado no mundo de Kalgan. As minhas
instruções eram para dirigir a atividade da Fundação no planeta, aperfeiçoar uma organização
para agir como resistência contra o Condestável de Kalgan, particularmente no que se referia
à sua política estrangeira.
- Sei isso muito bem. Continue!
- Excelência, os meus relatórios acentuaram continuamente as posições estratégicas de
Kalgan e dos sistemas que ele controla. Relatei as ambições do Condestável, os seus recursos,
a sua determinação de estender o seu domínio e a sua essencial amizade - ou, talvez,
neutralidade - em relação à Fundação.
- Li os seus relatórios cuidadosamente. Continue!
- Excelência, regressei há dois meses atrás. Durante este período, não houve indício
de guerra iminente, não se verificou qualquer indício a não ser uma excessiva boa vontade de
aproveitar qualquer hipótese de ataque que se possa conceber. Há um mês atrás, um
desconhecido soldado de fortuna apoderou-se de Kalgan sem combate. O homem que foi
antigamente Condestável de Kalgan há muito tempo que deixou aparentemente de viver. Os
homens não falam em traição, falam apenas na força e no gênio deste estranho líder, desse
Mulo.
- O que é que disse? - O Prefeito inclinou-se para diante, e fitou-o, ofendido.
- Excelência, é conhecido por Mulo. Pouco se fala dele, num sentido real, mas eu
tenho apanhado os fios e os fragmentos do que se diz a seu respeito e separei aqueles que
apresentam maiores probabilidades de verdade. Trata-se, aparentemente, de um homem vulgar
de nascimento e sem representação social. O pai é desconhecido. A mãe morreu quando ele
era criança. A sua instrução, a de um plebeu. Sua educação, a do mundo dos vadios, e a das
zonas marginais do espaço. O único nome que tem é o de Mulo, um nome que, segundo me
informaram, ele se deu a si próprio, e significando por explicação popular, a sua imensa força
física, e a teimosia dos seus objetivos.
- Qual é a força militar, capitão? Não me importa o seu físico.
- Excelência, os homens falam em esquadras enormes, mas nisto podem estar
influenciados pela estranha queda de Kalgan. O território que ele controla não é extenso,
embora não se possam definir com exatidão os limites que realmente ocupa. Apesar de tudo,
este homem deve ser investigado.
- Hum-m-m. Claro! Claro! - O Prefeito caiu num devaneio, e vagarosamente com vinte
e quatro golpes do seu buril riscou seis retângulos de forma hexagonal em cima da folha
branca de um bloco de papel, que rasgou, dobrando-a cuidadosamente em três partes, para
depois colocá-la na vasta fenda. Ali verificou-se uma rápida e silenciosa desintegração
atômica..
- Diga-me agora, capitão, qual é a alternativa que encara? Você me disse que isto
“deve” ser investigado. Não foi uma ordem de investigar que lhe deram?
- Excelência, há regiões esquecidas no espaço, e parece que elas nunca pagaram os
impostos.
- Ah, é por aí que se vai? Você não sabe, e não tem ouvido dizer que estes homens que
não pagam os impostos, são descendentes dos fantásticos comerciantes das eras primitivas da
nossa história, anarquistas, rebeldes, maníacos sociais que reivindicam sua descendência de
antepassados da Fundação e escarnecem da cultura da Fundação? Você não sabe, e nunca
ouviu dizer, que essas regiões esquecidas do espaço são em muito maior número do que você
julga, que essas regiões conspiram conjuntamente, umas com as outras, e com todos os
elementos criminosos que ainda existem em todo o território da Fundação? Você não ouviu
dizer, capitão?
O momentâneo arrebatamento do Prefeito desfez-se rapidamente:
- Excelência, tenho ouvido falar de tudo isso. Mas como servidor do Estado, devo
servi-lo fielmente e serve mais fielmente quem serve a Verdade. Por maiores que sejam as
implicações políticas dessa ralé dos antigos comerciantes - o Condestável que herdou os
destroços do velho Império tem o poder. Os comerciantes não têm nem armas nem recursos.
Não têm unidade. Não sou um cobrador de impostos para receber ordens como um rapaz de
recados.
- Capitão Pritcher, você é um soldado, e confia nas armas. É uma fraqueza que não
deve ser confessada até o ponto em que envolve obediência para comigo. Tome cuidado.
Minha justiça não é simplesmente fraqueza. Capitão, já se provou que os generais da Idade
Imperial e os guerreiros da idade atual são igualmente impotentes contra nós. A ciência de
Seldon que prediz o caminho da Fundação baseia-se, não num heroísmo individual, como você
entende, mas nas orientações sociais e econômicas da história. Nós já passamos
sucessivamente por quatro crises, não é verdade?
- Excelência, é certo que passamos. Por ora a ciência de Seldon só é conhecida pelo
próprio Seldon. Nós mesmos temos apenas fé. Nas três primeiras crises, como me têm
cuidadosamente ensinado, a Fundação foi comandada por líderes sensatos que previram a
natureza das crises e tomaram as devidas precauções. De outra maneira, que se pode dizer?
- É assim mesmo, capitão, mas você está omitindo a quarta crise. Ora, vamos, capitão,
nós não tínhamos líder digno desse nome naquela época e enfrentamos o hábil adversário, as
pesadas armas, a poderosa força de todos eles. Todavia ganhamos graças à inevitabilidade da
história.
- Excelência, isso é verdade. Mas a história que menciona tornou-se inevitável só
depois de termos combatido desesperadamente durante mais de um ano. A nossa inevitável
vitória custou-nos meio milhar de barcos e meio milhão de homens. Excelência, o plano de
Seldon ajuda aqueles que se ajudam.
O Prefeito civil franziu os sobrolhos e foi subitamente arrancado de sua paciente
exposição. Ocorreu-lhe que havia um ardil na condescendência, visto que o capitão estava
enganado se julgava autorizado a argüir eternamente para inchar de satisfação, para chafurdar
na dialética.
Disse asperamente:
- Não obstante, capitão, Seldon garantiu a vitória sobre os guerreiros e nós não
devemos, nestes tempos tão ocupados, favorecer uma dispersão de esforços. Esses
comerciantes que você diz são descendentes da Fundação. Uma guerra com eles seria uma
guerra civil. O plano de Seldon não faz distinções entre eles e nós, pois que eles e nós somos
a Fundação. Por isso eles devem ser convencidos a unirem-se a nós. Saia e aguarde as nossas
ordens.
- Excelência…
- Não lhe fiz nenhuma pergunta a que deva responder, capitão. Você vai aguardar as
nossas ordens. Você deve obedecer a essas ordens. Qualquer argumento que acrescente, quer
se dirija a mim quer àqueles que me representam, será considerado traição. Está desculpado,
por agora.
O capitão Han Pritcher voltou a ajoelhar, depois do que se retirou com passos macios
e vagarosos.
O Prefeito Indbur, terceiro de nome, e o segundo Prefeito civil da história da
Fundação a receber o seu cargo por linha hereditária, recuperou o equilíbrio, e tirou mais
outra folha de papel da pilha bem arrumada que estava à sua esquerda. Era um relatório a
respeito dos fundos públicos poupados devido à redução da quantidade de espuma de metal
eliminada nos uniformes da força policial. O Prefeito Indbur cortou uma vírgula supérflua,
corrigiu uma palavra mal escrita, escreveu três anotações marginais, e colocou-a em cima da
pilha bem alinhada da direita. Tirou outra folha de papel da pilha que estava à esquerda…
O capitão Han Pritcher da Informação encontrou uma Cápsula Pessoal à sua espera
quando voltou para o quartel. Continha ordens, sublinhadas rigidamente a vermelho com a
palavra “urgente” impressa por cima, e toda coberta com a maiúscula precisa “I”.
O capitão Pritcher recebia ordens para se dirigir ao “mundo rebelde chamado Haven”,
em termos muito severos.
O capitão Han Pritcher, sozinho no seu rápido carro aéreo de um lugar, pôs-se
silenciosa e calmamente a caminho de Kalgan. Dormiu nessa noite o sono de um homem
afortunadamente cabeçudo.
O TENENTE E O PALHAÇO

Se, comentada a uma distância de vinte e um mil anos luz, a queda de Kalgan diante
dos exércitos do Mulo produzira reflexos que tinham excitado a curiosidade de um velho
comerciante, a apreensão de um capitão teimoso, e o aborrecimento de um Prefeito civil
meticuloso - para aqueles que estavam pessoalmente em Kalgan, nada produziu e não excitou
ninguém. Há uma invariável lição para a humanidade no fato de a distância no tempo, assim
como no espaço, criar lendas. Deve lembrar-se, de passagem, que a lição tem sido
permanentemente esquecida.
Kalgan era Kalgan. E era o único mundo neste quadrante da Galáxia que parecia não
saber que o Império sucumbira, que os Stannels já não governavam havia muito tempo, que a
grandeza desaparecera, e a paz também desaparecera.
Kalgan era o mundo do luxo. Com a estrutura do gênero humano a oscilar, mantinha a
sua integridade como forjador de prazer, comprador de ouro e vendedor de lazer. Escapou às
desagradáveis vicissitudes da história, porque nenhum conquistador destruiria, ou pelo menos
prejudicaria, seriamente um mundo repleto de belicismo para comprar a sua imunidade.
Contudo até Kalgan tinha finalmente instalado o quartel-general de um condestável e
as suas meiguices tinham sido temperadas pelas exigências da guerra.
Eles desbravavam matagais, modelavam praias suaves, e as suas cidades
brilhantemente fascinantes repercutiam na fronteira ocupada por mercenários importados e
comoviam os cidadãos. Os mundos da sua província tinham sido armados e o seu dinheiro
investido em naves de combate ao invés de em subornos, pela primeira vez na sua história. O
seu Prefeito provava, sem qualquer dúvida, que estava determinado a defender o que era seu e
ávido de se apoderar do que era dos outros.
Era um dos grandes da Galáxia, um forjador de guerra e de paz, um construtor de
Impérios, um fundador de dinastias. E tratava-se de um desconhecido, com uma alcunha
ridícula que pegara, e aos seus exércitos, e ao seu Império crescente e não travara ainda uma
única batalha.
Por isso Kalgan estava como anteriormente, e os seus cidadãos padronizados
apressavam-se a regressar à sua antiga vida, enquanto os estrangeiros profissionais da guerra
se fundiam facilmente nos novos grupos que apareciam.
Outra vez como sempre, havia as cuidadosas caçadas de luxo aos animais nativos das
matas que nunca contataram formas de vida humana, e naves caça-pássaros no ar, o que só era
fatal para as Grandes Aves.
Nas cidades, fugitivos da Galáxia podiam escolher as variedades de prazer que lhes
agradavam para gastar seu dinheiro, desde os etéreos palácios-celestes de espetáculo e
fantasia que abriam suas portas para o povo mediante uma moeda de meio crédito, até os
anônimos e discretos salões que só eram conhecidos por gente de grande riqueza.
Para a vasta inundação, o aparecimento de Torã e Bayta não chegava sequer a ser mais
uma gota de água. Registraram sua nave num grande hangar comum na Península de Leste e
dirigiram-se para aquele ponto de encontro de classes médias, o Mar Interior - onde os
prazeres eram inteiramente legais, totalmente respeitáveis, e o povo não era insuportável.
Bayta trazia consigo óculos escuros contra a luz, e um vestido branco e fino contra o
calor. Com os braços aquecidos pelo calor, apenas dourados pelo sol, com as pernas
cruzadas, ela olhava fixamente, com olhos firmes e abstratos, para o comprido corpo do
marido, ali estendido - quase brilhante no reflexo do branco esplendor do sol.
- Não está cansado? - perguntou em primeiro lugar, porém Torã era de uma estrela
vermelha agonizante. A despeito dos três anos que passara na Fundação, a luz do sol era um
luxo, e durante quatro dias a sua pele, preparada de antemão para resistir aos raios solares,
não sentira a aspereza das roupas, a não ser uns calções muito curtos. Bayta chegou-se muito
para ele, em cima da areia, e puseram-se a conversar num sussurro.
A voz de Torã era lúgubre, como se não fosse pronunciada por um rosto distendido:
- Não, eu admito que esteja em qualquer parte. Mas onde? E quem é ele? Este mundo
não diz nada a seu respeito. Talvez ele não exista.
- Existe, sim - replicou Bayta, cujos lábios quase não chegavam a mover-se. - É um
homem hábil, afinal de contas. O seu tio tem razão. É um homem que devemos utilizar, no caso
de termos tempo para isso.
Houve uma curta pausa. Torã sussurrou:
- Sabe realmente o que está dizendo, Bayta? Eu estou sonhando no meio de um torpor
provocado pelo sol. Todas as coisas me aparecem com uma grande nitidez, agradavelmente. -
Sua voz quase desapareceu, depois do que ele insistiu:
- Lembre-se do que o Dr. Amann ensinava no colégio, Bay. A Fundação nunca pode
perder, porém o que ela pode fazer, não pode ser feito pelos seus governadores. Recorde-se
que a história real da Fundação começa quando Salvor Hardin expulsou os Enciclopédicos e
tomou posse do planeta Terminus como primeiro prefeito civil? E quando no século seguinte,
o falecido Hober Mallow se apoderou do poder por métodos quase tão drásticos como este?
Ou seja, por duas vezes os governadores foram derrotados, e por isso pode voltar a acontecer.
Por que é que isso não há de acontecer conosco?
- Trata-se de um velho argumento repetido pelos livros, Torã. Isso não passa de um
bom, porém inútil sonho.
- Será? Vamos segui-lo até o fim. O que é Haven? Não é uma parte da Fundação? É
simplesmente parte do proletariado exterior, por assim dizer. Se sairmos vencedores, a vitória
será sempre da Fundação, e só os governadores presentes não lucrarão.
- Há uma grande diferença entre “nós podemos” e “nós desejamos”. Tudo isso é mero
falatório.
Torã torceu-se:
- Olha, Bayta, você está apenas num daqueles seus momentos de humor azedo e
imaturo. Por que é que deseja acabar com a minha brincadeira? Se não quer compreender,
então vou dormir.
Porém Bayta estava esticando a cabeça, e subitamente - quase um “não o acompanho”
- sorriu, e tirou os óculos para olhar para a praia lá embaixo, tendo apenas a mão em pala por
cima dos olhos.
Torã olhou também, depois do que se levantou e girou os ombros para acompanhar o
seu olhar. Aparentemente, ela estava olhando para uma figura magra, de pés no ar, que
caminhava sobre as mãos para divertimento de uma multidão ocasional. Era um dos mendigos
acrobatas que enxameavam pela praia, que dobravam as articulações elásticas e se
desmanchavam em contorções em troca de algumas moedas.
Havia um guarda da praia que encaminhava para ele e, com um gesto repentino com a
mão, o palhaço pôs a mão no nariz e fez-lhe uma careta. O guarda avançou ameaçadoramente e
deitou-o abaixo, todo dobrado, com um pontapé no estômago. O palhaço rolou sobre si mesmo
sem interromper o movimento inicial e foi embora, enquanto o guarda, espumando de raiva,
era cercado por uma multidão pouco satisfeita com ele.
O palhaço prosseguiu o seu caminho, esfarrapado, através da praia. Passou
rapidamente por muitas pessoas, hesitou freqüentemente, acabou por parar. A multidão
original dispersara-se. O guarda fora embora.
- Ali está um parceiro muito engraçado - disse Bayta, divertida, e Torã concordou com
indiferença. O palhaço estava agora suficientemente perto para que pudessem observá-lo sem
dificuldade. Sua face magra conjugava-se na testa com um nariz de grandes dimensões e de
tipo carnudo, que parecia quase com capacidade de agarrar. Seus membros magros e
compridos, e o corpo débil, acentuado pelo que, trazia vestido, moviam-se com facilidade e
com graça, mas havia também a sugestão de ter sido arremessado ao acaso.
Olhar para ele obrigava a sorrir.
O palhaço pareceu repentinamente dar conta dos seus olhares, pois parou depois de
ter passado por eles e, com uma volta brusca, aproximou-se. Seus olhos rasgados e castanhos
fixaram-se em Bayta. Ela pareceu inteiramente desconcertada.
O palhaço sorriu, mas só havia tristeza na sua cara e quando falou foi com o fraseado
suave e complicado dos Setores Centrais.
- Estivesse eu em condições de utilizar a capacidade que os bons Espíritos me
concederam - disse ele - nesse caso eu diria que esta senhora não poderia existir, pois que
nenhum homem são seria capaz de imaginar que um sonho se havia de transformar em
realidade. Contudo, a minha falta de juízo dá-me fé aos olhos seduzidos e encantados.
Os olhos de Bayta arregalaram-se. E disse:
- Caramba!
Torã riu:
- Oh, você é enfeitiçadora. Vamos, Bay, isto merece uma moeda de cinco créditos. Dê
a ele.
Porém o palhaço afastara-se com um salto:
- Não, minha senhora, não me deve ter compreendido. Eu não falo para receber
dinheiro, ou seja, o que for, mas apenas para louvar os seus olhos radiantes e seu rosto suave.
- Bem, nesse caso obrigado - disse Torã. - Ouça, você pensa que ela tem o sol nos
olhos?
- E não falo apenas dos olhos e do rosto - balbuciou o palhaço, e suas palavras
tropeçavam umas nas outras por causa da fúria com que as pronunciava - mas também do seu
espírito, claro e forte e de uma natureza tão perfeita.
Torã pôs-se de pé, desdobrou a túnica branca que trazia debaixo dos braços havia
quatro dias, e enfiou-se nela.
- Agora, ouça - disse ele - suponha que me vá dizer o que deseja, e pare de aborrecer
a senhora.
O palhaço deu um passo atrás, com medo, e o seu corpo mágico tremia:
- Posso-lhe garantir que não lhe desejo mal nenhum. Sou estrangeiro nesta terra e por
aquilo que tenho dito vê-se que sou apenas de espírito estouvado, há, todavia, coisas numa
face que eu sou capaz de ler. Atrás da beleza desta senhora, há uma alma generosa, e que me
ajudaria na minha perturbação no caso de eu ter dito alguma coisa insolente.
- Cinco créditos serão capazes de lhe fazer passar a perturbação? - perguntou Torã, de
maneira áspera, estendendo-lhe a moeda.
Mas o palhaço não se mexeu para recebê-la, e Bayta disse:
- Deixe-me falar com ele, Torie. - E acrescentou rapidamente, à meia voz: - Não há
razão para ficar aborrecido com a maneira como ele fala. Trata-se apenas do seu dialeto, a
maneira como nós falamos provoca-lhe uma estranheza igual.
Perguntou-lhe:
- O que é que vem a ser sua perturbação? O guarda não lhe fez mal, não é? Ele não o
conseguiu atingir.
- Oh, não, não se trata dele. Ele apenas não vai com a minha cara. Há outro que eu
evito e ele é uma tempestade que varre os mundos de lado a lado e os arremessa de supetão
uns contra os outros. Há uma semana que ando por aqui, e tenho dormido nas ruas da cidade, e
oculto-me no meio da multidão. Tenho olhado para muitas faces para que me socorram na
minha desdita. E vim acabar aqui. - Repetiu a última frase num tom fraco e ansioso, e os seus
olhos rasgados mostravam-se perturbados: - E vim acabar aqui.
- Agora - disse Bayta, - eu gostaria de ajudá-lo, mas realmente, amigo, eu não possuo
proteção capaz contra uma tempestade que varre o mundo de ponta a ponta. Para falar a
verdade, eu podia usar…
Ouviu-se uma voz alta e vigorosa dirigida a eles:
- Agora é que vai saber como elas mordem, meu chacal…
Era o guarda da praia, com o rosto rubro, e boca rosnadora, que se aproximara
correndo. Tinha-lhe apontado uma pistola.
- Vocês dois segurem-no. Não o deixem ir embora. - Sua mão pesada caiu no ombro
fraco do palhaço, que estava choramingando sob o apertão que o guarda lhe dava.
Torã perguntou:
- O que ele fez?
- O que ele fez? O que ele fez? Olhe agora, esta é muito boa! - O guarda meteu a mão
dentro da bolsa que lhe pendia do cinto, e tirou um lenço vermelho, com que limpou o queixo
molhado. Disse: - Vou-lhes dizer o que ele fez. Ele desertou. Só fala a respeito de Kalgan e eu
o teria reconhecido antes se ele não estivesse de pés para o ar e esta cara de falcão para cima.
- E agitou sua presa com um humor cruel.
Bayta disse com sorriso:
- E de onde é que ele fugiu, senhor?
O guarda levantou a voz. Havia uma multidão à volta deles, de olhos arregalados e
bisbilhotando, e com o aumento de audiência, o sentimento de importância do guarda cresceu
em proporção direta.
- De onde é que ele fugiu? - declamou ele com enorme sarcasmo. - Bem, calculo que
você já tenha ouvido falar no Mulo.
Pararam todas as bisbilhotices, e Bayta sentiu, de repente, uma dor seca na boca do
estômago. O palhaço só tinha olhos para ela - continuando, todavia a tremer sob a mão
musculosa do guarda.
- E quem - continuou o guarda iradamente - podia ser esta esfarrapada peça, senão o
próprio bufão de Sua Excelência que fugiu de livre e espontânea vontade? - Agitou o seu
prisioneiro com um solavanco maciço. -Admite que é verdade, louco?
Houve apenas uma resposta repleta de medo, e o quase inaudível sussurro da voz de
Bayta ao ouvido de Torã. Torã deu um passo à frente, dirigindo-se ao guarda de maneira
amistosa:
- Agora, meu amigo, suponha que vá tirar a mão de cima dele por um momento. Este
artista que você tem aí agarrado estava dançando para nós e ainda não dançou o suficiente
para justificar sua gratificação.
- Aqui! - A voz do guarda levantou-se numa repentina solicitude. - Há um prêmio…
- Há de tê-lo, no caso de provar que este é o homem que procura. Suponha que esteja
enganado. Sabe muito bem que, no caso de se meter com um visitante, o caso pode ser muito
sério para você.
- Mas você está interferindo com Sua Excelência e isto será sério para você. - Voltou
a sacudir o palhaço. - Volte a pôr-se de pé para o ar, monte de sucata e devolver a
gratificação.
A mão de Torã moveu-se rapidamente e a arma do guarda disparou, quase lhe
arrancando metade de um dedo. O guarda gemeu de dor e de raiva. Torã empurrou-o
violentamente para o lado, e o palhaço, solto, lançou-se atrás dele.
A multidão, que se estendia a perder de vista, deu pouca atenção ao que se passou a
seguir. Havia no meio dela um esticar de pescoços, e um movimento centrífugo como se
muitos tivessem decidido a pôr-se à maior distância do centro de atividade.
Houve, então, um alvoroço, e ouviu-se uma ordem tempestuosa à distância. Formou-se
mecanicamente um corredor e dois homens lançaram-se por ali, com chicotes elétricos em
descuidada prontidão. Em cima de cada uma das blusas cor de púrpura estava desenhada uma
flecha de raio com um planeta desintegrado por baixo. Um gigante escuro, com a farda de
tenente, vinha atrás deles, escuro de pele e carrancudo.
O homem escuro falou com uma perigosa delicadeza que tinha pouca necessidade de
gritos para acionar suas fantasias. Perguntou:
- Foi você o homem que nos avisou?
O guarda estava segurando a mão atingida, e respondeu com uma face distorcida pela
dor:
- Eu reclamo a recompensa, poderoso, e acuso este homem…
- Você há de receber a recompensa - disse o tenente, sem olhar para ele. Virou-se
rapidamente para os seus homens: - Levem-no.
Torã sentiu o palhaço agarrar-se fortemente à sua túnica. Levantou a voz e segurou-lhe
a mão:
- Peço-lhe desculpas, tenente, este homem é meu amigo.
Os soldados ouviram a declaração sem pestanejar. Um deles levantou o chicote
casualmente, porém a ordem do tenente voltou a fazê-lo descer. A sua escura autoridade girou
para diante e plantou o corpo quadrado diante de Torã:
- E você quem é?
E a resposta veio secamente:
- Um cidadão da Fundação.
Ele ficou pensando - juntamente com a multidão, durante um momento. O silêncio de
expectativa foi quebrado por um intenso alvoroço. O nome de Mulo podia provocar medo,
mas era, afinal de contas, um nome novo e dificilmente atingia tão profundamente os elementos
vitais como aquela velha designação da Fundação - que destruíra o Império - e o medo de
quem governava um quadrante da Galáxia com implacável despotismo. O tenente manteve o
sangue-frio. Perguntou:
- Está ciente da identidade do homem que está atrás de você?
- Ouvi dizer que é um fugitivo da corte do seu comandante, mas a minha única garantia
é que se trata de um amigo meu. Você precisa de provas seguras da sua identidade para poder
prendê-lo.
Houve grandes acenos de cabeça entre a multidão, contudo o tenente não ligou para tal
fato.
- Você tem documentos provando que é cidadão da Fundação?
- Estão na minha nave.
- Você sabe que suas atitudes são ilegais? Posso mandar matá-lo.
- Sem dúvida alguma. Mas depois de ter prendido um cidadão da Fundação, seria
provável que o seu corpo fosse remetido para a Fundação esquartejado, como compensação
parcial. Isto já aconteceu com outros condestáveis.
O tenente umedeceu os lábios. A observação era verdadeira. Perguntou:
- O seu nome?
Torã decidiu tirar proveito de sua vantagem:
- Responderei às suas perguntas na minha nave. Pode procurar o número da célula no
hangar, está registrada com o nome de “Bayta”.
- Não vai desistir do fugitivo?
- Para o Mulo, talvez. Mande seu senhor!
A conversa degenerara em um sussurro e o tenente virou-se bruscamente para o lado.
- Dispersem a multidão! - disse ele aos seus homens, com reprimida ferocidade.
Os chicotes elétricos levantaram-se e desceram. Houve berros e um vasto ondear de
dispersão e fuga. Torã só interrompeu uma vez o seu devaneio durante o regresso ao hangar.
Disse, quase consigo:
- Galáxia, Bay, que oportunidade tive! Eu estava tão assustado…
- Pois - disse ela, com voz ainda emocionada, e os seus olhos mostravam também
alguma coisa semelhante à veneração - ele estava cheio de más intenções.
- Bem, entretanto não sei o que aconteceu. Eu apenas subi e apontei a pistola, que nem
sequer tinha certeza de saber usar, e conversei um pouco com ele. Não sei porque é que o fiz.
Olhou por cima das costas do banco da pequena nave aérea de curto alcance que os
transportava para fora da zona da praia, para o canto onde o palhaço do Mulo rangia os
dentes, dormindo, e acrescentou com desagrado:
- Foi a coisa mais difícil que fiz até hoje.
O tenente deteve-se respeitosamente diante do coronel da guarnição, e o coronel olhou
para ele e disse:
- Bem feito. Fez aquilo que devia fazer.
Mas o tenente não se retirou imediatamente. Disse num tom sombrio:
- O Mulo perdeu a disputa diante de uma multidão, senhor. Vai ser necessário
empreender uma ação disciplinar para se voltar à devida atmosfera de respeito.
- Essas medidas já foram tomadas.
O tenente deu meia volta, então, quase com ressentimento:
- Gostaria de acrescentar, senhor, que ordens são ordens, mas ficar firmem diante
daquele homem com uma arma na mão e suportar a sua absoluta insolência, foi a coisa mais
difícil que fiz até hoje.
O MUTANTE
O “hangar” em Kalgan é uma instituição peculiar considerada em si mesma, nascida
da necessidade de arrumação do vasto número de naves até ali conduzidas pelos visitantes do
estrangeiro, a que se acrescentava a simultânea e conseqüente necessidade de acomodações
para instalar as pessoas, provocada pelo mesmo motivo. A pessoa que, pela primeira vez,
pensava na solução que evidentemente se podia dar ao caso, depressa se tornou milionária. Os
seus herdeiros - tanto pelo sangue como pelas ligações financeiras - estavam naturalmente
entre as pessoas mais ricas de Kalgan.
O “hangar” espalhara-se largamente ao longo de alguns milhares de quilômetros
quadrados de território, e “hangar” não é termo que possa descrever suficientemente aquilo de
que se tratava. É essencialmente um hotel - para naves. O estrangeiro paga adiantadamente e a
sua nave é levada para um ancoradouro de onde pode tirá-la para o espaço a qualquer
momento que o deseje. O visitante continua vivendo na sua nave, como sempre. São satisfeitos
os serviços de assistência comum de hotelaria, tais como a renovação da reserva de alimentos
e o fornecimento de medicamentos a preços especiais, ao mesmo tempo que se dá assistência
à própria nave, transporte especial dentro de Kalgan, em troca de uma quantia reduzida.
Como resultado, o visitante acumula, numa única fatura, o espaço ocupado no hangar e
o hotel, o que é uma medida econômica. Os próprios vendedores ocasionais servem-se do
espaço terrestre, com amplos lucros. O governo cobra pesados impostos. Ninguém dá muita
importância a isso. Ninguém perde. Simples!
O homem seguia o seu caminho para baixo, para as zonas sombrias dos corredores
vazios que ligavam as múltiplas alas do “hangar”, especulara em tempos idos a respeito da
novidade e utilidade do sistema descrito mais acima, porém fizera essas reflexões em
momentos mais livres de preocupações - pois era evidentemente impossível fazê-las agora.
As naves de modelo antigo, no que diz respeito à altura e à largura, estavam colocadas
na zona inferior, em extensas filas de células cuidadosamente alinhadas, e o homem as foi
examinando fila após fila. Era um técnico naquilo que agora estava fazendo - e se o seu exame
prévio do registro do hangar não lhe dera possibilidade de encontrar uma informação
específica por meio das indicações dúbias de um vôo específico - havia ali milhares de naves
- o seu conhecimento especializado podia proceder à seleção daqueles milhares até reduzi-los
à nave que lhe interessava.
Verificou-se o fantasma de um suspiro no meio do silêncio, quando o homem parou e
foi desaparecendo gradualmente debaixo de uma das filas, um inseto rastejando por baixo do
olhar dos arrogantes monstros de metal que ali se encontravam.
Aqui e ali a cintilação de luz de uma vigia devia indicar a presença de um homem que
regressara muito cedo dos prazeres organizados para os simples - ou mais privados - prazeres
pessoais.
O homem parou, e teria sorrido se alguma vez tivesse sorrido. Certamente as
circunvoluções do seu espírito efetuaram e equivalência mental de um sorriso. A nave onde
parou era bem brilhante e evidentemente rápida. Não se tratava de um modelo comum e
naqueles dias a maior parte das naves deste quadrante da Galáxia imitava os modelos da
Fundação ou eram construídos por técnicos da Fundação. Mas este era especial. Tratava-se de
uma nave da Fundação - e não só por causa das pequenas protuberâncias existentes no casco, e
que eram os nós de proteção que só os barcos da Fundação deviam possuir. Havia ali outros
elementos.
O homem desceu sem hesitação.
A barreira eletrônica impôs-se através da linha de barcos como um privilégio para
manter o segredo na parte da manobra, que não era o mais importante de tudo. Venceu-a
facilmente, e sem pôr o alarma em funcionamento, graças à utilização de uma força
neutralizadora especial que tinha à sua disposição.
Assim o primeiro contato do intruso com a nave, pela parte de fora, foi o acidental e
quase amigável sinal do zumbido surdo na sala de estar da nave, e que era o resultado da
palma da mão encostada na pequena fotocélula da principal comporta de ar comprimido.
E quando ele ia procedendo a estes bem sucedidos exames, Torã e Bayta sentiam
unicamente uma segurança incerta entre as paredes de aço do Bayta. O palhaço do Mulo
informara que com aquele débil corpo usava o nome senhoril de Magnífico Giganticus,
instalou-se à mesa e comeu avidamente a comida que lhe puseram à frente.
Os seus olhos tristes e castanhos só se levantaram do recipiente para seguir os
movimentos de Bayta na cozinha, combinada com despensa, onde se encontravam.
- Os agradecimentos de um homem fraco são de muito pouco valor -balbuciou ele -
porém vocês os têm, pois que, realmente, na semana passada me vi reduzido a umas migalhas
insignificantes - e se todo o meu corpo é pequeno, já o meu apetite é habitualmente grande.
- Bem, nesse caso, coma! - disse Bayta, com um sorriso. - Não perca tempo com
agradecimentos. Não há um provérbio da Galáxia Central a respeito da gratidão e que me
lembro ter ouvido uma vez?
- Na verdade há, minha senhora. Ouviu-o uma vez de um homem sábio, e diz assim:
“A gratidão é melhor e mais real quando não se evapora em frases vazias”. Mas ai, minha
senhora, eu sou apenas uma porção de frases vazias, assim me quer parecer. Quando as minhas
frases vazias agradam ao Mulo, ele manda-me dar uma pequena gratificação e um grande nome
-por exemplo, veja lá, chamava-me a princípio Bobo, muito simplesmente, um nome que não
lhe agradava - e então quando as minhas pobres frases vazias não lhe agradavam, ele sacudia
os meus pobres ossos: batia-me e açoitava-me.
Torã apareceu vindo da cabina do piloto:
- Não há agora nada a fazer senão esperar, Bay. Espero que o Mulo seja capaz de
compreender que um barco da Fundação é território da Fundação.
Magnífico Giganticus, antigamente Bobo, abriu muito os olhos e exclamou.
- Quão grande é a Fundação diante da qual até os cruéis servidores do Mulo tremem.
- Você também ouviu falar da Fundação? - perguntou Bayta, com um pequeno-sorriso.
- E quem é que não ouviu? - A voz de Magnífico era um misterioso sussurro. - Há
aqueles que dizem que é um mundo de grande magia, com chamas que podem consumir
planetas, e segredos de grandíssima força. Dizem que nem a mais alta nobreza da Galáxia
podia alcançar a nobreza e a educação considerada como inteiramente natural e própria de um
simples homem que possa dizer: “Sou cidadão da Fundação”, sendo ele um bárbaro mineiro
do espaço, ou um zé-ninguém como eu.
Bayta disse:
- Vamos, Magnífico, você não termina de comer se continua conversando. Aqui tem
mais um pouco de leite aromatizado. É bom.
Pôs um jarro em cima da mesa e arrastou Torã para fora do quarto.
- Torie, o que é que vamos fazer com ele? - e apontava com a cabeça para a cozinha.
- O que quer dizer?
- Se o Mulo chegar, o que é que nós vamos dizer?
- Bem, e que mais, Bay? - Parecia agastado, e o gesto com que atirou para trás a
madeixa era testemunha disso.
Continuou impacientemente:
- Antes de chegarmos aqui tinha uma vaga idéia de que tudo que nós tínhamos a fazer
era perguntar pelo Mulo, e então tratar desse assunto apenas desse assunto, sabe, nada de
definitivo.
- Eu sei o que você quer dizer, Torie. Eu não tinha muitas esperanças de ver o Mulo
pessoalmente, mas pensava que podíamos recolher algum conhecimento, em primeira mão, a
respeito desta embrulhada, e então conversar um pouco mais com as pessoas, que nós
conhecemos melhor, a respeito desta intriga interestelar. Eu não sou uma espiã de romances de
espionagem.
- Você não está entendendo, Bay - cruzou os braços e franziu o sobrolho. - Estamos
numa linda situação! Nunca soubera que havia uma pessoa como o Mulo, exceto nestas últimas
e excêntricas notícias. Calculo que ele seja assim parecido com o seu palhaço?
Bayta fitou-o.
- Não imagino como é que ele possa ser. Não sei o que é que deva dizer ou fazer.
Compreende?
O zumbido interior ressoou com o seu intermitente barulho rebarbativo. Os lábios de
Bayta moveram-se sem palavras:
- O Mulo?
Magnífico estava à porta de entrada, com os olhos arregalados, com a voz reduzida a
um sussurro:
- O Mulo?
Torã sussurrou:
- Estou preparado para recebê-lo.
O contato abriu a comporta de ar e a porta exterior fechou-se atrás do recém-chegado.
O disco perfurado mostrou apenas a sombra de uma única pessoa.
- É apenas uma pessoa - disse Torã, com evidente alívio, e sua voz estava quase
trêmula quando se curvou para o tubo de sinalização: - Quem é você?
- O melhor que tem a fazer é deixar-me entrar, não lhe parece? - As palavras saíam
fracamente do receptor.
- Sou obrigado a informá-lo de que estamos num barco da Fundação e,
conseqüentemente, no território da Fundação, por tratado internacional.
- Sei disso muito bem.
- Apareça com suas armas descarregadas, ou então disparo. Estou bem armado.
- Feito.
Torã abriu a porta interior e apertou o contato da pistola desintegradora, com o
polegar apoiado no gatilho de pressão. Ouviu-se o som de passos e a porta girou e abriu-se, e
Magnífico exclamou:
- Não é o Mulo. É apenas um homem.
O “homem” saudou o palhaço sombriamente:
- Exato. Eu não sou o Mulo. - Abriu os braços e estendeu as mãos: - Não estou
armado, e venho aqui em missão pacífica. Você podia acalmar-se e tirar a pistola
desintegradora. Sua mão não está suficientemente firme para que o meu espírito possa estar em
paz.
- Quem é você? - perguntou Torã, bruscamente.
- Eu podia perguntar-lhe quem é você - disse o estrangeiro, friamente - visto que você
está aqui sob falsos pretextos, não eu.
- Como assim?
- Você não pode reclamar a qualidade de cidadão da Fundação quando é um
comerciante não-autorizado do planeta.
- Não é bem assim. Como é que você sabe?
- Porque eu sou cidadão da Fundação, e tenho os meus documentos para provar. Onde
estão os seus?
- Penso que o melhor que tinha a fazer seria desfazer-me de você.
- Eu penso que não. Se você soubesse alguma coisa a respeito dos métodos da
Fundação, e a despeito de sua impostura, você saberia que se eu não voltasse vivo para a
minha nave num espaço de tempo predeterminado, sairia dali um sinal para o mais próximo
estado-maior da Fundação, e duvido que suas armas pudessem ter grande efeito, falando em
termos práticos.
Houve um silêncio irresoluto e então Bayta sugeriu, calmamente:
- Largue o desintegrador, Torã, e encare as coisas como são. O que ele está dizendo
tem foros de verdade.
- Muito obrigado - disse o estrangeiro.
Torã pousou a pistola na cadeira que estava a seu lado:
- Suponha que você vá explicar-me tudo agora.
O estrangeiro permaneceu de pé. Tinha o esqueleto alto e os membros grandes. Sua
face consistia numa sucessão de planos chatos e ásperos e era de algum modo evidente que
nunca sorria, contudo os seus olhos precisavam de vigor. Começou:
- As noticias correm, especialmente quando as coisas estão aparentemente além do
que se pode acreditar. Suponho que não haja uma pessoa em Kalgan que não saiba que os
homens do Mulo foram hoje atingidos por dois turistas da Fundação. Eu soube dos pormenores
antes do anoitecer e, como já disse, não há no planeta turistas da Fundação, excetuando-se a
mim próprio. Nós sabemos dessas coisas.
- Quem são esses “nós”?
- “Nós” somos… “nós”! Eu próprio sou um! Eu sei que vocês estavam no “hangar” -
pelo menos disseram isso. Eu tinha minhas maneiras de manusear os registros, e minhas
maneiras de entrar a bordo.
Virou-se para Bayta subitamente:
- Você é da Fundação - por ter lá nascido, não é?
- Se eu sou?
- Você é membro da oposição democrática - aquilo a que eles denominam “o
subterrâneo”. Não me lembro do seu nome, mas lembro-me muito bem de suas feições. Você
saiu de lá recentemente, e não o teria feito se não se tratasse de um caso muito importante.
Bayta encolheu os ombros:
- Você sabe de tudo.
- Sei. Você saiu com um homem. É este?
- Será necessário dizer-lhe?
- Não. Estou apenas procurando uma plataforma de entendimento mútuo. Julgo que a
“senha” durante a semana em que você se retirou tão precipitadamente era “Seldon, Hardin e
Liberdade”. Porfirat Hart era o orientador da sua seção.
- Como é que você descobriu tudo isso? - Bayta tornara-se subitamente violenta. -
Você veio daqui desempenhar sua atividade policial? - Torã segurou-a pelos ombros, mas ela
libertou-se com um safanão e avançou.
O homem da Fundação disse tranqüilamente:
- Ninguém contou. Sei tudo apenas porque o subterrâneo fala demais em lugares
duvidosos. Eu sou o capitão Han Pritcher da Informação, e também sou um orientador de
seção… mas nunca gostei de me apresentar com este nome.
Fez uma pausa, depois continuou:
- Não, você não me compreendeu. Em nosso assunto é melhor exagerar a desconfiança
do que a oposição. Preferia, porém, deixar estas formalidades para trás.
- Sim - disse Torã - suponho que é melhor fazê-lo.
- Posso sentar-me? Obrigado. - O capitão Pritcher estendeu uma perna muito comprida
por cima do joelho e deixou um braço prender atrás das costas da cadeira. - Começarei por
dizer que não sei qual o aspecto que tudo isto tem - visto do seu ângulo. Vocês dois não são da
Fundação, porém não seria uma grosseira conjectura supor que são de um dos mundos
comerciais independentes. Isto não me importa grande coisa. Mas, apenas por curiosidade, o
que é que os levou a desejar viajar com este parceiro, este palhaço que vocês se esforçaram
por deixar em segurança? Vocês arriscaram a vida com ele.
- Não posso dizer por que.
- Hum-m-m. Bem, penso que você não o deseja fazer. Mas se vocês estão à espera que
o próprio Mulo chegue atrás de uma fanfarra de buzinas, tambores e órgãos elétricos -
relaxem! O Mulo jamais trabalha dessa maneira.
- O que? - disseram juntos Torã e Bayta, e no canto onde Magnífico se ocultava com
ouvidos quase visivelmente esticados, houve um repentino salto de alegria.
- É assim mesmo. Eu tenho procurado entrar pessoalmente em contato com ele, e tenho
feito muito mais trabalho nesse sentido do que aquele que podem realizar dois amadores.
Porém não consigo. O homem não possui características pessoais, nunca consentiu que alguém
o fotografasse ou simulasse e apenas o vêem os seus assessores mais íntimos.
- É isso que explica o interesse que tem por nós, capitão? - perguntou Torã.
- Não. A chave é este palhaço. Este palhaço é uma daquelas poucas pessoas que o
viram. Preciso dele. Ele pode ser a prova de que preciso - e eu preciso de uma qualquer. A
Galáxia sabe - para acordar a Fundação.
- Então precisa ser acordada? - interrompeu Bayta com repentina exaltação. - Contra
que? E em que papel vai você atuar como sinal de alarma, no de democrata rebelde ou no de
polícia secreto e provocador?
O rosto do capitão ficou reduzido às suas linhas secas.
- Quando a Fundação inteira está ameaçada, Madame Revolucionária, tanto perecem
os democratas como os tiranos. Deixe-nos salvar os tiranos de um tirano ainda maior, para
depois os derrubarmos um por um.
- Qual é o grande tirano de que você está falando? - encolerizou-se Bayta.
- O Mulo! Eu conheço muita coisa a seu respeito, o bastante para ter sido a minha
desgraça, se me tenho movido com menos esperteza. Mande sair o palhaço daqui. Isto é coisa
que exige segredo.
- Magnífico - disse Bayta, com um gesto, e o palhaço saiu calmamente. A voz do
capitão era grave e intensa, e baixou-a logo que Torã e Bayta fecharam a porta. Disse:
- O Mulo é um operador sagaz, muito sagaz para não compreender as vantagens do
magnetismo e sedução da chefia pessoal. Se ele não as aplica, é por alguma razão. Esta razão
deve ser o fato de que o contato pessoal revelaria alguma coisa que é de suma importância não
mostrar.
Afastou os pormenores marginais e continuou mais animadamente:
- Eu fui por isso mesmo ao local onde ele nasceu e interroguei as pessoas que o
conheceram durante o tempo em que ele viveu lá. Poucas delas estão ainda vivas. Lembram-se
do bebê que nasceu há trinta anos, da morte de sua mãe, e de sua juventude singular, O Mulo
não é um ser humano!
E os seus dois ouvintes recuaram horrorizados pelas implicações que obscuramente
percebiam. Ainda não compreendiam nada, inteira ou claramente, mas a ameaça contida na
frase era definitiva.
O capitão continuou:
- Trata-se de um mutante, e evidentemente pela sua carreira subseqüente, que
conseguiu um grande êxito. Não sei quais são os seus poderes ou a sua exata dimensão, pois
que ele é aquilo a que nossos emocionadores denominariam um “super-homem”, mas subir do
nada, para chegar a vencedor do Condestável de Kalgan em dois anos, é revelador. Estão
vendo o perigo, não é verdade? Pode um acidente genético de propriedades biológicas
imprevisíveis ser considerado como incluído no cálculo do plano Seldon?
Bayta falou, vagarosamente:
- Não estou compreendendo. Isto é uma espécie qualquer de complicada astúcia. Por
que é que os homens do Mulo não nos mataram quando o podiam ter feito, se ele é um super-
homem?
- Respondo-lhe que não sei qual é o alcance de suas mutações. Pode ainda não estar
preparado para se atirar contra a Fundação, e será sinal de grande sabedoria resistir às
provocações até surgir essa oportunidade. Espero que vocês me deixarão falar com o palhaço.
O capitão encarou o trêmulo Magnífico, que desconfiava deste homem alto e rude, o
qual estava a encará-lo. O capitão soletrou lentamente:
- Você viu o Mulo com os seus próprios olhos?
- Vi-o perfeitamente, respeitável senhor. Eu senti o peso dos seus braços em meu
próprio, também.
- Não duvido que assim fosse. Pode descrevê-lo?
- É assustador por assim dizer, respeitável senhor. É um homem de poderosa estatura.
Perto dele, até o senhor seria um magricela. Tem o cabelo de carmesim vivo, e utilizando toda
a minha força e todo o meu peso, eu não podia puxar-lhe os braços para baixo, uma vez que
ele os tivesse estendidos, mesmo que fosse a grossura de um cabelo. - A debilidade de
Magnífico parecia estar prestes a um colapso no meio de uma barafunda de braços e de
pernas. - Muitas vezes, para divertir seus generais ou para divertir-se, suspendia-me com um
dedo, pelo meu cinto, a uma altura terrível, enquanto eu recitava poesias. Só depois do
vigésimo verso me tirava dali, ou improvisava alguns com ritmo perfeito, ou voltava a
pendurar-me outra vez. É um homem de força extraordinariamente superior, e os olhos dele,
respeitável senhor, não se podem ver.
- O quê? O que disse agora?
- Ele usa óculos, respeitável senhor, de uma curiosa natureza. Diz-se que são opacos e
que ele vê através de uma poderosa magia que transcende os poderes humanos. Ouvi dizer - e
a sua voz tornou-se mais baixa e misteriosa - que ver os seus olhos é ver a morte, que ele mata
com os olhos, respeitável senhor.
Os olhos de Magnífico arregalaram-se num repente, tomando-lhe o rosto todo.
Balbuciou:
- É verdade. Pela minha vida que é verdade.
Bayta aspirou profundamente:
- Isto soa-me a verdade, capitão. O que vai fazer diante de tudo isto?
- Bom, deixe-me estudar a situação. Você tem mais alguma dúvida por aqui? A
barreira superior do hangar está livre?
- Posso sair a qualquer momento.
- Então saia. O Mulo pode não desejar opor-se à Fundação, porém ele corre um risco
medonho deixando que o Magnífico ande adiante dele. Provavelmente ele leva as pessoas a
julgá-lo pelo aspecto e proclama que é acima de tudo um pobre diabo. Por isso pode ser que
haja naves à nossa espera lá em cima. Se nos perdermos no espaço, quem é que vai dar
importância ao crime?
- Você tem muita razão - reconheceu Torã, sombriamente.
- De qualquer maneira, você possui um escudo e é provavelmente muito mais rápido
do que eles, por isso logo que esteja na atmosfera livre prepare um círculo neutro para outro
hemisfério, e depois interrompa apenas sua rota exterior para uma aceleração elevada.
- Sim - disse Bayta, friamente - e quando voltarmos para a Fundação, o que sucederá
então, capitão?
- Por que, vocês são então cidadãos colaboradores da Kalgan, não são? Eu não sei
nada em contrário, certo?
Ninguém respondeu. Torã pôs os comandos em ação. Houve um imperceptível
solavanco.
Foi quando Torã já deixara Kalgan bem à retaguarda para tentar o seu primeiro salto
interestelar, que a cara do capitão Pritcher se apresentou, pela primeira vez com rugas leves -
pois nenhuma nave do Mulo tentara de qualquer maneira impedir-lhes a saída.
- Olhe como eles nos deixam levar o Magnífico daqui para fora - disse Torã. - Não é
nada bom para sua história.
- A menos que - corrigiu o capitão - ele deseje que o levemos realmente daqui para
fora, e nesse caso não seria nada bom para a Fundação.
Foi depois do último salto, quando dentro de uma distância de vôo neutro da
Fundação, que as primeiras notícias difundidas por ultra-ondas atingiram a nave.
E havia uma notícia que era anunciada com simplicidade. Parecia que um condestável
- não identificado pelo locutor aborrecido - tinha apresentado protestos à Fundação por ter
sido raptado um dos membros da sua corte. O anunciador prosseguiu com notícias
desportivas.
O capitão Pritcher disse friamente:
- Afinal de contas, já vai um passo à nossa frente. - Acrescentou, pensativamente -
está preparado para ir contra a Fundação e está servindo-se disto como uma desculpa para
agir, o que nos torna as coisas mais difíceis. Vamos ser obrigados a agir antes de estarmos
realmente preparados.
O PSICÓLOGO

Havia razão para o fato de se dizer que o elemento conhecido como “ciência pura” era
a forma de vida libertadora na Fundação. Na Galáxia onde a predominância, e até a
sobrevivência da Fundação continuava garantida pela superioridade de sua tecnologia e -
embora a despeito dos grandes acessos de valorização da força física no último século e meio
- estava ligada ao Cientista uma certa imunidade. Era necessário e sabia-o.
Do mesmo modo, havia razão para o fato de Ebling Mis - só aqueles que não o
conheciam lhe acrescentavam os títulos ao nome - ser a livre forma de vida da “ciência pura”
da Fundação. Num mundo onde a ciência era respeitada, ele era o Cientista - com maiúscula e
sem sorrisos. Ele era imprescindível, e sabia-o.
E por isso acontecia que, quando os outros se ajoelhavam aos seus pés, ele recusava a
homenagem e acrescentava estrepitosamente que os seus antepassados, no seu tempo, não
dobravam os joelhos diante de nenhum fedorento Prefeito civil. E, no tempo dos seus
antepassados o Prefeito civil era eleito de maneira regular e era obrigado a andar quando
havia vontade e as únicas pessoas que herdavam alguma coisa, por direito de nascimento,
eram os idiotas congênitos.
E por isso sucedeu também que, quando Ebling Mis decidiu permitir que Indbur o
honrasse com uma audiência, não se dobrou às habituais regras rígidas de entregar o
requerimento e aguardar a resposta favorável, mas, desajeitando os seus dois casacos formais,
aquele que gozava de reputação menos má e colocado de farra, na cabeça, num excêntrico
chapéu de forma indescritível, e aceso, ao passar, um charuto proibido pela etiqueta, passou
indiferentemente por dois guardas que bronqueavam, sem qualquer efeito, e penetrou no
palácio do Prefeito.
A primeira sugestão que sua excelência teve desta intrusão foi quando ouviu, subindo
do seu jardim, a barafunda gradualmente crescente de altercações e respostas berradas com
grande reforço de pragas inarticuladas.
Lentamente, Indbur deixou cair a sua bela espátula, lentamente, levantou-se e
lentamente, franziu os sobrolhos. Pois que, Indbur concedia a si próprio, um dia de descanso
por semana, e durante duas horas, ao começo da tarde, quando o tempo o permitia, ocupava-se
do seu jardim. Ali, no seu jardim, as flores estavam dispostas em quadrados e em triângulos,
conjugadas numa ordem severa de vermelho e de amarelo, com pequenas quantidades de
violeta nos vértices, e o verde bordando o conjunto em linhas rígidas. Ali no seu jardim,
ninguém o perturbava - ninguém!
Indbur tirou as luvas e deixou-as cair no chão, enquanto ia avançando para a pequena
porta do jardim. Inevitavelmente, perguntou:
- O que quer dizer isso?
Esta mesma pergunta, com esta mesma expressão, foi lançada para a atmosfera em
ocasiões semelhantes por uma incrível variedade de homens, desde que a humanidade foi
criada. Não há memória de a pergunta ter sido feita com outro objetivo que não apenas o de
ressalvar a dignidade pessoal.
Mas a resposta foi literal desta vez, pois o corpo de Mis entrou de mergulho pela
porta adentro, com um grito e um abanão de punho cerrado para alguém que estava, contudo,
agarrado aos restos da sua capa.
Indbur moveu-se na sua direção com um solene e desagrado franzir de sobrancelhas, e
Mis inclinou-se para apanhar aquela ruína que era o seu chapéu, sacudindo uns salpicos de
lama que lhe estavam agarrados, colocou-o debaixo do sovaco e disse:
- Olhe, Indbur, estes seus incríveis favoritos devem ser acusados de terem rasgado
uma boa capa. Esta capa já passou por um amontoado de coisas.
O Prefeito deixou-se ficar ali de pé, muito rígido, olhando com desagrado, e disse
com arrogância do cimo do seu metro e cinqüenta e seis:
- Não me lembro nada de você ter pedido uma audiência, Mis. Certamente você não
pediu que lhe fosse concedida alguma.
Ebling Mis olhou para baixo, para o Prefeito, com uma expressão que refletia
aparentemente uma incredulidade cheia de surpresa:
- Galáxia, Indbur, você não recebeu ainda o meu pedido. Entreguei-o a um lacaio
vestido com um uniforme púrpura, há uns dias. Eu devia ter entregado diretamente, mas sei
como você admira as formalidades.
- Formalidades! - Indbur virou os olhos exasperados. - Você já ouviu alguma vez falar
em organização correta? Futuramente você terá que apresentar seu pedido de audiência, feito
corretamente em três vias, para que o governo saiba qual é o seu objetivo. Você terá então de
esperar até que se tenha cumprido o curso habitual dos acontecimentos que lhe há de levar a
notificação de quando haverá audiência, para ser recebido. E você então aparece, vestido
corretamente, corretamente vestido, compreende? e com o comportamento devido, também.
Agora, vá embora.
- Mas o que é que está mal na minha roupa? - perguntou Mis, apaixonadamente. - É o
melhor casaco que tenho e que estes demônios incríveis me rasgaram. O abandonarei tão
depressa assim que comunicar aquilo que tenho de lhe comunicar. Galáxia, se isto não
envolvesse uma crise de Seldon, iria embora agora mesmo.
- Uma crise de Seldon! - Indbur deu a sua primeira amostra de interesse.
Mis era um grande psicólogo - um democrata, grosseiro, e certamente rebelde, mas um
psicólogo, também. Na sua incerteza, o Prefeito quase transformou em palavras de angústia
interior que o apunhalou subitamente quando Mis cortou uma flor ao acaso, levando-a às
narinas para aspirar, porém, deixou-a de lado com uma torcidela de nariz.
Indbur disse friamente:
- Quer me acompanhar? Este jardim não foi feito para conversas sérias.
Sentiu-se melhor na sua alta cadeira, atrás da sua ampla mesa, da qual podia olhar
para baixo para os poucos cabelos que tornavam a cabeça pelada de Mis numa coisa
inefavelmente cor-de-rosa. Sentiu-se muito melhor quando Mis lançou uma série de olhares
automáticos à sua volta, procurando uma cadeira que não havia e permanecendo de pé metido
nas suas roupas de um corte já fora de moda. E o que mais o refez no meio de tudo foi quando,
em resposta a uma cuidadosa pressão do contato indicado, um lacaio de libre apareceu
submisso e apressadamente, curvando-se no seu caminho para a mesa, e colocando em cima
dela um volume encadernado a metal.
- Agora - disse Indbur, cada vez mais senhor da situação - de forma a tornar a sua
entrevista não autorizada o mais curta possível, - apresente o seu relatório no mais reduzido
número de palavras que lhe seja possível.
Ebling Mis disse vagarosamente:
- Você sabe o que tenho feito nos últimos dias?
- Tenho aqui os seus relatórios - replicou o Prefeito, com satisfação - juntamente com
resumos autorizados. Segundo a minha maneira de os compreender, suas investigações no
campo das estruturações matemáticas da psicohistória procuraram refazer o trabalho de Hari
Seldon neste plano e, eventualmente, procuram definir o projetado curso da história futura,
para uso da Fundação.
- Exatamente - reconheceu, secamente. - Quando Seldon estabeleceu a Fundação pela
primeira vez, foi suficientemente sensato para não incluir psicólogos entre os cientistas aqui
colocados - pelo que a Fundação tem agido sempre às cegas ao longo do curso das exigências
históricas. No decurso das minhas investigações, tenho-me baseado muito em sugestões que se
fundamentam no Cofre do Tempo.
- Estou a par de tudo isso, Mis. É uma perda de tempo repeti-lo.
- Não estou repetindo coisa nenhuma - gritou Mis - porque aquilo que lhe vou dizer
não consta de nenhum desses relatórios.
- O que quer você dizer com isso de não estar nos relatórios? - indagou Indbur,
estupidamente. - Você devia…
- Galáxia! Deixe que lhe diga isto à minha maneira, sua minúscula criatura ofensiva.
Pare de me meter palavras pela boca dentro e de me interrogar a respeito de todos os meus
relatórios ou então sairei daqui para fora e deixo que as coisas todas se esmigalhem à sua
volta. Lembre-se, seu incrível louco, que a Fundação seguirá o seu caminho do começo ao fim
porque o deve fazer, mas se eu sair agora daqui - você não irá com ela.
Atirando o chapéu ao chão, de tal forma que lhe saltaram os salpicos de lama que
tinha agarrados, subiu os degraus da escada em que estava assentada a enorme mesa e,
empurrando violentamente os papéis, sentou-se a um canto dela.
Indbur pensou furiosamente em se havia de chamar a guarda, ou se devia servir-se dos
desintegradores embutidos na mesa. Porém, o rosto de Mis estava olhando para ele, de cima
para baixo, e não havia outra coisa a fazer senão deixar-lhe ver uma cara com a melhor
disposição possível.
- Dr. Mis - gaguejou ele, com uma formalidade sem resultado - você deve…
- Cale-se - replicou Mis, furiosamente - e ouça. Aqui nesta coisa - e a palma de sua
mão estendeu-se pesadamente em cima dos elementos encadernados em metal - há uma
embrulhada feita com os meus relatórios, jogue-a fora. Todos os relatórios que eu escrevo são
obrigados a passar por uns vinte funcionários, até chegarem à sua mão, e depois desta espécie
de controle voltam a passar pelas mãos de outros vinte. Isto é uma maneira acurada de
conseguir que nada daquilo que se remete permaneça secreto. Bem, eu trago comigo qualquer
coisa que é confidencial. E tão confidencial, que nem os rapazes que trabalham comigo sentem
o cheiro do que está acontecendo. Eles executaram o trabalho, decerto, mas todos eles fizeram
umas pecinhas sem imbricação, e fui eu que juntei a todas. Você sabe o que vem a ser o Cofre
do Tempo?
Indbur meneou negativamente a cabeça, porém Mis continuou com o seu ruidoso gozo
da situação:
- Bem, vou lhe dizer alguma coisa porque tive a sorte de imaginar esta incrível
situação da Galáxia! Há muito tempo, sou capaz de ler no seu espírito sua pequenina fraude.
Você pôs a mão direita perto de um pequeno botão que poderá chamar uns quinhentos homens
armados para me porem daqui para fora, porém você tem medo daquilo que eu sei, você está
com medo de uma Crise de Seldon. Além de que, se você tocar em qualquer coisa que esteja
na sua mesinha, ficará sem a sua incrível cabeça antes de eles terem tempo de chegar. Você e o
bandido do seu pai e o pirata do seu avô têm sido as sanguessugas da Fundação há muitíssimo
tempo, seja como for.
- Isso é traição — murmurou Indbur.
- É, certamente que é - anuiu Mis muito satisfeito. - mas que tem você a dizer a este
respeito? Deixe que lhe conte o que se passa com o Cofre do Tempo. Este Cofre do Tempo é
aquilo que Hari Seldon utilizava a princípio para nos ajudar a evitar os pontos incompletos.
Em todas as crises, Seldon preparou um simulacro pessoal para ajudar e explicar. Quatro
crises no total - quatro aparições. A sua primeira aparição registrou-se no momento da
primeira crise. A segunda deu-se um momento depois do bom êxito da evolução da segunda
crise. Os nossos antepassados estiveram presentes para ouvi-lo ambas as vezes. Na terceira e
na quarta crises, ele foi ignorado - provavelmente porque não era necessário, mas recentes
investigações - que não foram incluídas nesses relatórios que tem em seu poder - indicam que
ele apareceu fosse como fosse, e nos prazos indicados. Compreende?
Não esperou que lhe desse resposta. O seu charuto, uma ruína esfarrapada e desfeita,
foi finalmente atirado fora, rebuscou um novo charuto, e acendeu-o. Expeliu a fumaça com
violência. Continuou:
- Oficialmente eu estou procurando reconstruir a ciência da psicohistória. Bem,
nenhum homem está em condições de fazer isso e não o conseguiria fazer daqui a um século,
pelo menos. Porém eu tenho feito progressos aproveitando elementos mais simples e estou em
condições de utilizá-los como um pretexto para me meter no Cofre do Tempo. Aquilo que
tenho feito envolve a determinação, com um erro insignificante que não lhe elimina a certeza,
da data exata da próxima aparição de Hari Seldon, e estou em condições de lhe dizer o dia
exato, por outras palavras, o momento em que a próxima crise de Seldon, a quinta, atingirá o
seu apogeu.
- E quando é que isso se verificará? - perguntou Indbur, muito tenso.
E Mis deixou estourar a bomba com um cuidadoso desapego:
- Dentro de quatro meses - disse ele. - Quatro incríveis meses, menos dois dias.
- Quatro meses - comentou Indbur, com uma veemência incaracterística. - Impossível.
- Impossível, minha incrível visão.
- Quatro meses? Você compreende o que isso quer dizer? Se uma crise atingir o
clímax dentro de quatro meses, isso quer dizer que está evoluindo há anos.
- E por que não? Há alguma lei da natureza que exija que o processo de maturação se
processe à plena luz do dia?
- Mas nada está iminente. Nada pesa sobre nós. - Indbur quase torceu as mãos de
ansiedade. Com um repentino e espasmódico aumento de ferocidade, guinchou: - É capaz de
sair da minha mesa e deixar-me pô-la em ordem? Como você espera que eu pense?
Mis, espantado, levantou-se vagarosamente e afastou-se para um lado.
Indbur voltou a colocar os objetos nos seu nichos apropriados com um movimento
febril. Depois falou rapidamente:
- Você não tem o direito de aparecer aqui com essas coisas. Se você tivesse
apresentado a sua teoria…
- Não se trata de uma teoria.
- Eu disse que é uma teoria. Se você a tivesse apresentado juntamente com as suas
provas e argumentos, de maneira apropriada, eu a teria remetido para o Gabinete de Ciências
Históricas. Ali podia ter sido devidamente discutida, e as análises resultantes me seriam
apresentadas, e então, decerto, havia de ser adotada a atitude mais indicada. Tal como foi
feito, você incomodou-me embora não intencionalmente. Ah, aqui está.
Tinha uma folha de papel transparente e prateado na mão, abanando-a na direção do
psicólogo que estava perto dele.
- Isto é um pequeno resumo que faço pessoalmente, todas as semanas, dos assuntos
estrangeiros que estão em discussão. Ouça, já concluímos negociações para um tratado
comercial com Mores, continuam as negociações para estabelecer outro com Lyonesse,
mandamos uma delegação para celebrar outro com Bonde, recebemos algumas queixas ou
coisa assim de Kalgan e prometemos estudar o assunto, protestamos contra algumas práticas
comerciais muito incorretas verificadas em Asperta e eles prometeram examinar o assunto.
Os olhos piscos do prefeito chegaram ao fundo da lista de apontamentos em código,
pelo que colocou cuidadosamente a folha no lugar mencionado na pasta indicada.
- Eu lhe digo, Mis, que não há uma única coisa que indique mal-estar mas apenas
ordem e paz…
A porta que estava longe abriu-se de par em par e, numa coincidência muito dramática
de maneira a sugerir apenas que se tratava de vida real, entrou um nobre vestido com extremo
rigor.
Indbur estava meio corado. Tinha a curiosa sensação redemoinhante de irrealidade
que se registra nos dias em que tudo acontece muito depressa. Depois da intrusão de Mis e das
suas grosseiras exaltações, verificava-se a entrada do seu secretário, que era igualmente
imprópria e por isso mesmo perturbadora, pois que não fora anunciada e esse, pelo menos,
conhecia a etiqueta.
O secretário ajoelhou-se.
Indbur perguntou com dureza:
- Então?
O secretário falou para o alto:
- Excelência, o capitão Pritcher das Informações, tendo regressado de Kalgan, em
desobediência às suas ordens, feitas em conformidade com instruções anteriores, a sua ordem
X20-513, foi detido, e aguarda execução. Aqueles que o acompanhavam estão detidos para
serem interrogados. Está sendo apresentado um relatório completo.
Indbur, em agonia, replicou:
- Está sendo recebido um relatório completo. E então?
- Excelência, o capitão Pritcher relatou, de maneira vaga, a existência de intenções
ofensivas por parte do novo Condestável de Kalgan. De acordo com as instruções anteriores,
sua ordem X20-651, não está sendo ouvido formalmente, porém suas informações estão sendo
registradas e apresentado um relatório completo.
Indbur resmungou:
- Está sendo recebido um relatório completo. E então?
- Excelência, há um quarto de hora que estão sendo recebidos relatórios da fronteira
de Salinnian. Naves identificadas como sendo Kalganianas penetraram em território da
Fundação, sem autorização. As naves estão armadas. Registraram-se combates.
O secretário estava dobrado a meio. Indbur permanecia de pé. Ebling Mis
pessoalmente chocado, inclinou-se para o secretário, e bateu-lhe rudemente no ombro.
- Ouça, o melhor que você tem a fazer é libertar esse capitão Pritcher, e trazê-lo para
cá. Vá fazer isso.
O secretário saiu, e Mis virou-se para o prefeito:
- Não lhe parece que será melhor pôr sua máquina em ação, Indbur? Quatro meses,
bem sabe.
Indbur deixou-se ficar de pé, com os olhos arregalados. Só um dos seus dedos parecia
vivo e entretinha-se a riscar rápidos triângulos em cima do tampo liso da mesa que tinha
diante dele.
CONFERÊNCIA

Quando os vinte e sete mundos comerciais independentes, que só estavam unidos


devido à desconfiança que tinham em relação ao planeta-mãe da Fundação, decidiram entre si
realizar uma assembléia, cada um deles se considerava o maior, com uma arrogância que
nascia de sua pequenez, petrificados que estavam pelo seu próprio isolamento, ao mesmo
tempo que azedados pelo perigo permanente, houve negociações preliminares com o fim de
eliminar uma porção de questões minúsculas e mesquinhas, suficientemente chocantes,
todavia, para fazer desanimar os mais perseverantes.
Não foi fácil fixar antecipadamente numerosos pormenores como métodos de votação,
tipo de representação, se por mundo ou população. Trata-se de assuntos que envolvem
problemas de importância política. Não foi fácil fixar assuntos de prioridade à mesa, tanto de
conselho como de jantar, pois são assuntos que envolvem importância social.
O lugar onde se devia realizar a reunião deu azo a grandes discussões -pois que era
problema em que todos os elementos provinciais queriam ficar à frente. E ao cabo de
delicadas manobras diplomáticas decidiu-se pelo mundo de Randole, que alguns
comentadores haviam sugerido como sendo o mais indicado por razões lógicas que derivavam
de sua posição central.
Randole era um mundo pequeno - e, no que se referia ao potencial militar, talvez o
mais fraco dos vinte e sete. O que, como é evidente, foi mais um fator contribuindo para a
lógica da escolha.
Era um mundo repartido em várias faixas de temperaturas desiguais, de que a Galáxia
se gabava bastante, mas que se fazia notar pelo número de sua população. Era um mundo, por
outras palavras, onde as duas zonas laterais se caracterizavam pelos excessos de calor e de
frio, enquanto a vida só era possível na região cheia de pássaros, onde incidia uma luz média.
Era um mundo invariavelmente pouco convidativo para aqueles que ainda não o
tinham experimentado, mas onde existiam pontos estrategicamente colocados e a cidade de
Randole estava localizada num deles.
Estendia-se ao longo de encostas de suaves inclinações, em frente das montanhas
recortadas que se alinhavam ao fundo, ao longo da margem do hemisfério frio, e que se
encarregavam de deter o espantoso gelo. O ar quente e seco da região tropical derramava-se
sobre a cidade, enquanto a água foi carreada das montanhas - e entre as duas zonas a cidade de
Randole tornava-se um jardim sem momentos mortos, nadando na manhã de um eterno junho.
Todas as casas se aninhavam no meio de jardins floridos, expostos à influência dos
elementos. Todos os jardins se revelavam um terreno de horticultura poderosamente
organizada, onde as plantas de luxo cresciam de maneira fantástica, destinadas ao comércio
com o estrangeiro - pelo que Randole quase se transformara num mundo de produção,
perdendo muitas das características de um mundo tipicamente comercial.
Assim sendo, e obedecendo a este esquema, a cidade de Randole era um pequeno
ponto suave e luxuoso, no meio de um planeta horrível - um minúsculo retalho do Éden e este
foi também um fator que contribuiu para a lógica da escolha.
Os estrangeiros vindos de todos os outros vinte e seis mundos comerciais: delegados,
mulheres, secretários, jornalistas, naves e tripulações, quase duplicariam a população de
Randole, e os seus recursos foram obrigados a esticar-se até atingirem os seus limites
máximos. Todo mundo comia e bebia à vontade e descansava quanto lhe apetecia.
Havia no meio de tudo isto alguns fanfarrões que não tinham inteira consciência de
que todo este volume da Galáxia se ia consumindo lentamente numa espécie de guerra
tranqüila e soporífera. E aqueles que disso tinham consciência formavam três classes. A
primeira era constituída pelos muitos que conheciam pouco e eram muito presunçosos…
Tal como o jovem piloto espacial de Haven que trazia consigo o símbolo de Haven no
laço do punho, e que conseguia conservar os óculos nos olhos, para ocultá-los das moças
randolianas que estavam defronte dele e sorriam debilmente. Estava dizendo:
- Atravessamos, sem medo algum, pelo meio da zona de guerra para chegarmos até
aqui e fizemos de propósito. Viajamos à volta de um minuto-luz ou coisa assim, de forma
neutra, direto por Horleggor…
- Horleggor? - interrompeu um nativo de pernas muito altas, que se fazia de anfitrião
nessa reunião particular: - Foi esse mundo que o Mulo conquistou na semana passada, não foi?
- Onde é que ouviu dizer que o Mulo o tinha conquistado? - perguntou o piloto com
arrogância.
- Na rádio da Fundação.
- O quê? Bem, o Mulo ocupou Horleggor. Nós quase esbarramos com um comboio de
naves dele e isto quando eles estavam chegando lá. Ele ainda não iniciara a ocupação quando
por ali passamos, e o batedor passou num segundo.
Houve alguém que se intrometeu na conversa em voz alta:
- Não se meta com isso. A Fundação acerta sempre no queixo do inimigo quando
chega a hora. Espere, fique aí sentado e espere. A Fundação sabe muito bem quando deve
voltar ao ataque. E então - zás.
- A voz grossa sumiu e sucedeu-se um riso irônico.
- Mesmo assim - continuou o piloto de Haven, depois de uma curta pausa - como eu
disse, avistamos as naves do Mulo e pareceram-me muito boas, muito boas. É o que lhe digo,
pareciam novas.
- Novas? - observou o nativo, pensativamente. - Nesse caso são eles mesmos que as
constroem? - Partiu um galho que lhe pendia por cima, cheirou-o com delicadeza, depois do
que triturou-o com os dentes, e os tecidos feridos deixaram escorrer uma seiva e espalharam
um cheiro de hortelã. E disse: - Você quer me dizer que eles derrotaram as naves da Fundação
com aparelhos construídos por eles mesmos? Ora, vamos.
- Nós os vimos, doutor. E eu sou capaz de distinguir uma nave de um cometa, sabe,
são coisas que conheço bem.
O nativo dobrou-se até o chão:
- Você sabe o que estou pensando. Ouça, não se deixe enganar. As guerras não podem
começar sozinhas, e nós temos uma porção de cabeças astutas ruminando coisas. Eles sabem o
que estão fazendo.
Uma pessoa bem intencionada disse de repente:
- Você veja o que faz a Fundação. Espere pelo último minuto, e então - zás! - E riu
exageradamente, com estupidez, abrindo a boca perto de uma moça que estava passando diante
dele.
O randoliano começou a dizer:
- Por exemplo, meu velho, você pensa, talvez, que os rapazes do Mulo estão galgando
espaço sem obstáculos. Não-ão-ão. - E agitou um dedo horizontalmente. - Pelo caminho que
estão seguindo, e desde que subam um pouco mais, vão encontrar os nossos rapazes. E
havemos de metê-los em ordem, e provavelmente fomos nós que construímos aquelas naves. É
mesmo assim, afinal de contas ele não pode vencer a Fundação, mas pode torná-la muito
débil, e quando o fizer - nessa altura aparecemos nós.
A moça observou:
- É só disso que você sabe falar, Klev? Da guerra? Você me causa tédio.
O piloto de Haven disse, num acesso de galanteria:
- Mude de assunto. É melhor não entediar as garotas.
Alguém tocou um estribilho e tamborilou uma caneca acompanhando o ritmo. Os
pequenos grupos de dois que se tinham formado começaram com torções e meneios, e alguns
grupos similares de dois emergiram do solário que ficava ao fundo.
A conversa tornou-se mais generalizada, mais variada, mais inexpressiva…
Havia ainda aqueles que conheciam um pouco mais e que eram menos inconfidentes.
Tal como aquele maneta Fran, cujo amplo volume representava Haven como delegado
oficial e que levava uma vida ardente em conseqüência disso, e cultivava novas amizades,
com mulheres quando podia e com homens quando não podia ser de outro modo.
Estava na plataforma solar da casa da montanha de um dos seus novos amigos, onde
repousava pela primeira vez daquilo que eventualmente lhe provava a necessidade de viver
duas vidas enquanto estivesse em Randole. O novo amigo era Iwo Lyon, uma alma gêmea de
Randole. A casa de Iwo estava afastada do bloco geral de casas, aparentemente mergulhada
num mar de perfume floral e de rumores de insetos. A plataforma solar era constituída por uma
faixa de relvado colocada num ângulo de quarenta e cinco graus, e nela se estirava Fran,
embebendo-se completamente ao sol. Comentou:
- Não temos nada como isto, em Haven.
Iwo replicou, muito ensonado:
- Daqui pode-se ver o lado frio. Há um lugar a vinte milhas daqui onde o oxigênio
corre como água.
- Não pode ser.
- É mesmo.
- Bem, deixe-me dizer-lhe, Iwo… Nos velhos tempos, antes de ter ficado sem o braço,
eu distribuía uns murros à minha volta, vê… e você não pode compreender isto, mas… - A
história que começou a contar arrastou-se consideravelmente, e Iwo não conseguiu entendê-la.
Iwo disse, entre bocejos:
- Eles não os fazem como nos tempos antigos, isso é verdade.
- Não suponho que não conseguem. Bem, agora - Fran entusiasmou-se - você não pode
dizer isso. Já lhe falei no meu filho, já? Ele pertence à velha escola, se quiser. Há de tornar-se
um grande comerciante, sou eu que lhe digo. Trata-se de um homem à maneira antiga, da
cabeça aos pés. Da cabeça aos pés, se excetuarmos o fato de estar casado.
- Você quer dizer que se casou com um contrato legal? Com uma moça?
- Isso mesmo. Não seguiu o meu exemplo. Agora estão a caminho de Kalgan, onde vão
passar a lua-de-mel.
- Kalgan? Kalgan? No momento em que a Galáxia está neste estado?
Fran sorriu amplamente, e disse com um significado obscuro:
- Foram para lá exatamente antes do Mulo ter declarado guerra à Fundação.
- Ah sim?
Fran meneou afirmativamente a cabeça e inclinou-se para Iwo que continuava meio
adormecido:
- De fato, posso dizer-lhe uma coisa, se você ainda não se encontra a par do que está
acontecendo. O meu rapaz foi para Kalgan para cumprir uma missão. Claro que não estou
autorizado a revelar que espécie de missão se trata, como deve compreender, mas você olha
para a situação tal como está e calculo que possa entender o que se passa, com um pequeno
esforço. Seja como for, o meu rapaz era o homem indicado para esse trabalho. Nós os
comerciantes, precisamos de uma espécie de defesa. - Sorriu, de maneira astuta. - Ora, aqui
estamos. Não posso dizer agora o que é que ele foi fazer, o meu rapaz foi para Kalgan e o
Mulo pôs as suas naves em ação. O meu rapaz!
Iwo estava devidamente impressionado. Entrou por seu turno no caminho das
confidencias.
- Isso é bom. Você sabe, eles dizem que nós possuímos quinhentas naves prontas para
lançar na batalha na hora indicada.
Fran disse autoritariamente:
- Mais do que isso, talvez. Trata-se de verdadeira estratégia. É destas coisas que eu
gosto. - Coçou asperamente a pele da barriga. - Mas você se esquece de que o Mulo é um
rapaz ativo, também. O que aconteceu em Horleggor está dando cabo de mim.
- Ouvi dizer que ali ele perdeu umas dez naves.
- É certo, mas ele tinha mais uma centena e a Fundação foi obrigada a retirar. É uma
coisa boa ver aqueles tiranos vencidos, mas não há nada de estimulante em tudo isto.
- A pergunta que eu me faço é onde é que teria ido o Mulo buscar estas naves? Corre o
boato surdo de que fomos nós que as fabricamos.
- Nós? Os comerciantes? Haven possui as maiores fábricas de naves entre todos os
mundos independentes e não fabricamos uma nave que não seja para nós próprios. Você quer
dizer que há algum mundo que está construindo uma esquadra para o Mulo nas suas fábricas,
afastando-se da combinação de ação unida? Isto é um… conto de fadas.
- Sendo assim, quem é que as fabrica?
E Fran encolheu os ombros:
- Fabrica-as ele próprio, calculo eu. E isto também dá cabo de mim.
Fran piscou os olhos sob a luz do sol e enrolou os dedos dos pés em volta da madeira
macia do descanso envernizado dos pés. Mergulhou suavemente no sono e o seu volumoso
roncar misturou-se com o sibilar dos insetos.
Havia ainda, finalmente, os assuntos verdadeiramente graves que eles sabiam ser
consideráveis e sobre os quais não trocaram qualquer confidencia.
Tal como Randu, o qual no quinto dia da convenção geral dos comerciantes entrou no
Vestíbulo Central e encontrou os dois homens a quem pedira que ali ficassem, à espera dele.
Os quinhentos bancos estavam vazios e continuariam assim. Randu observou rapidamente,
quase antes de se sentar:
- Nós três representamos cerca de metade do potencial militar dos Mundos
Comerciais Independentes.
- É verdade - reconheceu Mangin de Iss - o meu colega e eu já tínhamos comentado o
fato.
- Eu estou preparado - disse Randu - para falar direto e com clareza. Não estou
interessado em teimosias ou em sutilezas. A nossa posição tornou-se radicalmente pior.
- Em conseqüência de… - encorajou Ovall Gri, de Mnemon.
- Da evolução que se verificou à última hora. Por favor! Vamos começar pelo início.
Primeiro, a posição em que estamos foi de nossa escolha e é indubitável que está fora do
nosso controle. As nossas negociações originais não foram com o Mulo, mas com vários
outros, em particular com o ex-condestável de Kalgan, a quem o Mulo derrotou, poupando-nos
assim muito trabalho.
- Sim, mas esse Mulo é um substituto muito indesejável - disse Mangin. - Eu não quero
deixar me prender pelos pormenores.
- Há de querer quando conhecer todos os pormenores. - Randu inclinou-se e colocou
as mãos em cima da mesa com as palmas para cima, num gesto evidente. Continuou: - Há um
mês atrás mandei o meu sobrinho e a mulher do meu sobrinho para Kalgan.
- O seu sobrinho! - exclamou Ovall Gri, deveras surpreendido. - Eu não sabia que ele
era seu sobrinho.
- Com que objetivo? - perguntou Mangin, secamente. - Este? - E o seu polegar enorme
desenhou no ar um grande círculo fechado.
- Não. Se você quer dizer com isso guerra do Mulo com a Fundação, não. E como é
que eu podia aspirar tão alto? O rapaz não conhece nada, nem da nossa organização nem dos
nossos objetivos. Contei-lhe que eu era um membro menor de uma associação patriótica no
interior de Haven e a sua função em Kalgan era apenas a de um observador amador. Os meus
motivos eram, devo admitir, um tanto obscuros. Necessariamente, eu estava com curiosidade
de saber o que se passava a respeito do Mulo. Ele é um fenômeno estranho, porém isto já é
por demais conhecido: não iria até esse ponto. Em segundo lugar, poderia efetuar um curso de
instrução educacional interessante para um homem que tem experiência com a Fundação e a
Fundação subterrânea, revelando possibilidades de futura utilização para nós. Você vê…
O rosto comprido de Ovall ficou reduzido a linhas verticais quando mostrou os seus
grandes dentes.
- Nesse caso você deve ter ficado surpreso com o resultado, desde que não haja uma
palavra a respeito dos comerciantes, suponho eu, quando não há ninguém que não saiba que o
seu sobrinho seqüestrou um súdito do Mulo em nome da Fundação, fornecendo ao Mulo um
motivo de guerra. Galáxia, Randu, você inventa romances de espionagem. E eu que me matei
sem conseguir descobrir que você tinha uma mão metida nisto. Vamos, foi um trabalho hábil.
Randu meneou a cabeça branca:
- Não foi feito por mim. Nem, intencionalmente, pelo meu sobrinho, que está agora
prisioneiro na Fundação, e pode não chegar a viver para ver a conclusão do seu trabalho tão
hábil. Porém conseguiu saber alguma coisa a respeito deles. A Cápsula Pessoal viajou de
contrabando, de todas as maneiras possíveis, passando através da zona de guerra, tendo sido
levada para Haven, e viajando daqui para lá. Gastou um mês nestas andanças.
- E?
Randu inclinou uma mão pesada em cima da palma da outra e disse,
melancolicamente:
- Estou com medo que estejamos destinados a desempenhar papel idêntico ao que foi
outrora desempenhado pelo condestável em Kalgan. O Mulo é um mutante!
Registrou-se uma náusea momentânea, uma tímida impressão de excitada opressão.
Randu podia facilmente ter imaginado que assim sucederia. Quando Mangin falou, a firmeza
da sua voz continuava inalterada:
- Como é que você sabe?
- Só porque o meu sobrinho assim o disse, porém ele estava em Kalgan.
- Que espécie de mutante? Há muitas espécies, como sabe?
Randu forçou sua nascente impaciência a desaparecer:
- Há todas as espécies de mutantes, é certo, Mangin. Todas as espécies! Mas só uma
espécie de Mulo. Que espécie de mutante podia iniciar como um desconhecido, reunir um
exército, estabelecer aquilo a que chamam a sua base original num asteróide de oito
quilômetros, depois capturar um planeta, depois um sistema, depois uma região e acabar por
atacar a Fundação, para derrotá-la em Horleggor. E tudo isto em dois ou três anos?
Ovall Gri encolheu os ombros:
- É por isso que pensa que ele acabará por derrotar a Fundação?
- Não sei ainda. Mas suponho que assim suceda.
- Desculpe, eu não posso consentir que isto vá mais adiante. Você não pode derrotar a
Fundação. Olhe, não há nenhum acontecimento novo que tenhamos de considerar exceto os
relatórios de um… bem, de um rapaz sem experiência. Suponha que o deixemos de parte, por
enquanto. Apesar de todas as vitórias do Mulo, não fomos derrotados até agora, e a menos que
ele consiga uma posição bastante melhor do que aquela que tem agora, não vejo razão para
mudar de orientação. Compreende?
Randu franziu os sobrolhos e perdeu a esperança de conseguir alguma coisa para os
seus argumentos. Disse para ambos:
- Nós já estabelecemos algum contato com o Mulo?
- Não - foi a resposta de ambos.
- É certo, não obstante, que tentamos, não foi? É certo que não há grande utilidade nas
nossas reuniões a menos que o consigamos encontrar, não é assim? E certo que, por enquanto,
nos limitamos a beber mais do que a pensar e fazemos mais galanteios do que obras - estou
citando palavras do artigo de fundo de hoje da Tribuna de Randole - e tudo porque não
conseguimos estabelecer contato com o Mulo. Cavalheiros, temos quase um milhar de naves
esperando ser lançadas na batalha, no momento indicado, para nos apoderarmos do controle
da Fundação. Eu disse que nós poderíamos alterar a situação. Eu disse que devíamos lançar
este milhar de naves agora contra o Mulo.
- Você pretende defender o Tirano Indbur e as sanguessugas da Fundação? - perguntou
Mangin, com uma calma venenosa.
Randu agitou uma mão enfastiada:
- Poupe-me os adjetivos. Contra o Mulo, foi o que eu disse, e não me importa quem
ele possa ser.
Ovall Gri corou:
- Randu, eu não tenho nada a ver com isto. Você pode apresentar sua proposta ao
conselho plenário esta noite, se está particularmente sedento de política suicida.
E saiu sem mais qualquer palavra e Mangin foi atrás dele silenciosamente, deixando
Randu passar vagarosamente uma hora solitária, mergulhado numa meditação interminável e
insolúvel.
E no conselho plenário daquela noite, ele não disse nada.
Mas foi Ovall Gri que empurrou a porta do seu quarto na manhã seguinte, um Ovall
Gri sumariamente vestido e que não se tinha barbeado nem penteado o cabelo.
Randu olhou fixamente por cima da mesa de um pequeno desjejum que já quase
desaparecera, com um espanto suficientemente nítido e persistente para obrigá-lo a deixar cair
o cachimbo, Ovall disse roucamente:
- Mnemon foi bombardeado no espaço por um ataque traiçoeiro.
Randu arregalou os olhos:
- A Fundação?
- O Mulo! - explodiu Ovall. - O Mulo! - As suas palavras precipitaram-se: - Um
ataque não provocado e deliberado. A maior parte da nossa esquadra tinha-se reunido à
flotilha internacional. As poucas naves que deixaram com o Esquadrão Doméstico foram
insuficientes e foram eliminadas do céu. Não se verificou qualquer aterragem, e não se podia
verificar, pois metade dos atacantes são dados como destruídos - mas é a guerra - e eu vim
aqui para perguntar como é que Haven irá agir nesta circunstância.
- Haven, tenho certeza, aderirá ao espírito da Carta da Federação. Mas, está vendo?
Ele nos ataca também.
- Este Mulo é um miserável. Estará em condições de derrotar o universo? - Vacilou e
sentou-se para agarrar os pulsos de Randu: - Os nossos poucos sobreviventes relataram que o
Mulo poss… que o inimigo possui uma nova arma. Um campo-atômico depressor.
- O que?
Ovall disse:
- A maior parte das nossas naves perderam-se porque suas armas atômicas não
conseguiram disparar. O que só podia ter acontecido por acidente ou sabotagem. Deve ter sido
uma arma do Mulo. Trabalha perfeitamente, o efeito era intermitente, havia várias formas de
neutralização - os meus comunicados não são pormenorizados. Mas bem vê que este tal
instrumento muda a natureza da guerra e possivelmente, torna obsoleta toda a nossa esquadra.
Randu transformou-se num homem muito, muito velho. Sua face pendeu
desalentadamente:
- Receio que tenha nascido o monstro que nos irá devorar a todos. Já lhe devíamos ter
dado combate…
O AUDIOVISOR
A casa de Ebling Mis ficava nuns arrabaldes nada pretensiosos da Cidade de
Terminus e era bem conhecida pela inteligência, pelos literatos e por todos os bons leitores da
Fundação. Suas notáveis características, o juízo que sobre elas se possam fazer, dependem, de
modo subjetivo da fonte material em que se firma a opinião. Para um biógrafo atento, essa
casa era o “símbolo do refúgio de uma realidade não-acadêmica”, uma colunista da society
falava emocionada e calmamente da sua “atmosfera terrivelmente masculina de descuidada
desordem”, um doutor em filosofia chamou-a com brusquidão “livresca, mas desorganizada”,
um amigo de formação não-universitária disse que “era boa para tomar uma bebida de vez em
quando e você podia pôr os pés em cima do sofá” e um jovial locutor de rádio, que se vestia
de maneira muito bizarra, falou da “empedernida, subterrânea, insensata vivenda do
blasfemador, esquerdista e careca Ebling Mis”.
Para Bayta, que não precisou esperar por audiência, pois, foi imediatamente recebida
e que levava a vantagem de dispor de informações de primeira mão, era simplesmente
negligente.
Exceto durante os primeiros dias, sua prisão não lhe causara grandes aflições. Nada
surgia tão distante, parecia, como aquela meia hora à espera em casa do psicólogo - talvez sob
secreta observação. Depois estivera, com Torã, pelo menos…
Talvez ela conseguisse dominar sua tensão, não fosse o comprido nariz de Magnífico
caído de uma forma que revelava obviamente sua própria tensão.
As pernas delgadas de Magnífico estavam dobradas por baixo do queixo, como se
aquela severidade estivesse dominando-o, convencendo-o a deixar-se levar pessoalmente ao
desespero, e a mão de Bayta esboçou um gesto suave e automático para acalmá-lo. Magnífico
encolheu-se, depois sorriu.
- Decerto, minha senhora, deve parecer que meu corpo se recusa a acompanhar as
impressões de meu espírito e está sempre esperando receber uma bofetada de outras mãos.
- Não precisa torturar-se, Magnífico. Estou aqui com você, e não consentirei que
ninguém lhe bata.
Os olhos do palhaço fitaram-se nela, e depois lançou-se impetuosamente para frente:
- Não tarda muito que eles me ponham longe de você - e do seu amável marido - e,
palavra, pode rir, mas eu estava sozinho sem amigo nenhum.
- Não vou rir de nada. Eu também estava.
O palhaço animou-se, e abraçou-se estreitamente aos joelhos. Disse:
- Você algum dia viu este homem que nos recebe? - Era uma pergunta cautelosa.
- Não. Mas trata-se de um homem famoso. Tenho-o visto em notícias aparentes e ouvi
a seu respeito uma porção de coisas mais ou menos agradáveis. Penso que se trata de um
homem bom, Magnífico, que não nos há de desejar mal.
- Sim? - O palhaço mexeu-se com desassossego. - Pode ser que assim seja, minha
senhora, mas ele já me interrogou, e suas maneiras são tão abruptas e barulhentas que me
causaram arrepios. Está cheio de palavras estranhas, e por isso as respostas às suas perguntas
não me conseguiam sair da garganta nem com saca-rolhas. Quase podia compreender o
romancista que uma vez brincou com a minha ignorância, num conto em que dizia, que em tais
momentos o coração se aloja na traquéia e impede as pessoas de falar.
- Isto agora é diferente. Somos dois contra um, e ele não será capaz de nos assustar
aos dois, não é?
- Não, minha senhora.
Nessa altura rangeu em algum lugar uma porta, e entrou pela casa dentro uma voz
aguda. Exatamente do outro lado do aposento, concretizou-se em palavras com um violento:
- Pela Galáxia, daqui para fora! - e dois policiais surgiram pela porta aberta, em
rápida retirada.
Ebling Mis entrou com as sobrancelhas franzidas, depositou no chão um pacote
cuidadosamente embrulhado, aproximou-se para apertar a mão de Bayta com uma pressão
carinhosa. Bayta devolveu vigorosamente o cumprimento, de maneira masculina. Mis fez uma
dupla reverência quando se virou para o palhaço, e lançou um olhar demorado para a moça.
Perguntou:
- Casada?
- Sim. Com todas as formalidades legais.
Mis fez uma pausa. Depois continuou:
- A propósito, é feliz?
- Até aqui.
Mis encolheu os ombros, e virou-se outra vez para Magnífico. Desembrulhou o
pacote:
- Sabe o que é isto, rapaz?
Magnífico levantou-se rápido e apoderou-se do instrumento de múltiplos botões. Foi
passando os dedos pelas miríades de contatos nodosos, atirou-se subitamente para trás com
uma cambalhota de alegria, ameaçando a destruição da mobília pobre. Vociferou:
- Um Audiovisor - e de uma qualidade capaz de extrair alegria do coração de um
morto. - Os seus longos dedos acariciaram-no devagar e suavemente, apertando suavemente os
botões, deixando-se ficar momentaneamente num botão, depois noutro - e no ar diante dele
surgiu uma cor rosada, macia e brilhante, dentro do nível de visão.
Ebling Mis observou:
- Muito bem, rapaz, você,disse que podia tocar uma destas engenhocas, e está com
sorte. Você nunca teve uma tão harmoniosa como esta, aposto. Trouxe-a de um museu. -
Virando-se então para Bayta: - Nem eu podia fazê-la, nem ninguém na Fundação pode fazê-la
funcionar corretamente.
Inclinou-se muito e disse vivamente:
- O palhaço não fala sem você estar presente. Deseja ajudar-me?
Ela meneou a cabeça.
- Está bem! - disse ele. - O seu estado de pavor quase se estabilizou, e tenho dúvidas
que a sua força mental ofereça possibilidades de sujeitá-lo a uma sonda psíquica. Se quiser
extrair alguma coisa dele de outra maneira, devo examiná-lo absolutamente sossegado.
Compreende?
Ela voltou a menear a cabeça.
- Este Audiovisor é o primeiro passo no processo. Diz que pode contar com ele e sua
reação, agora, torna quase certo que se trata de uma das grandes alegrias de sua vida. Por isso,
seja bom ou mau aquilo que ele aceitar, devemos mostrar-nos interessados e apreciadores.
Agora mostre-se amigável e íntima comigo. Acima de tudo, obedeça àquilo que eu sugerir, em
tudo. - Houve um rápido olhar para Magnífico, encolhido a um canto do sofá, procedendo a
rápidos ajustamentos dentro do instrumento. Estava completamente absorto.
Mas disse num tom confidencial a Bayta:
- Algum dia ouviu um Audiovisor?
- Uma vez - disse Bayta, num tom igualmente desprendido - num concerto de
instrumentos excêntricos. Não fiquei muito impressionada.
- Bem, duvido que você tenha ouvido um bom executante. Há muito poucos
executantes realmente bons. Não é que se requeira um tipo especial de coordenação física -
um piano multiteclado exige mais, por exemplo, mas pede, também, um certo tipo de
mentalidade livremente evolucionada. - Em voz mais baixa: - E sucede assim porque a nossa
estrutura viva é melhor do que pensamos. Muito mais vezes do que se pensa, os bons
executantes são totalmente idiotas para as outras coisas. Trata-se de uma daquelas estranhas
constatações que tornam a psicologia interessante.
E acrescentou, num esforço patente para apresentar uma conversa inteligente.
- Você sabe como trabalham estas coisas engenhosas? Olho para elas para ver se sou
capaz de compreender, e tudo o que consigo compreender daquilo é que suas radiações
estimulam diretamente o centro ótico do cérebro, sem nunca tocar no nervo ótico. É
evidentemente a utilização de uma sensação que nunca se verifica na natureza comum.
Notável, quando se pensa nisso. O que você ouve está bem. É coisa comum. Tímpano, caracol
e por aí afora. Mas - Shh! Ele está pronto. Gostaria que você desligasse o interruptor. Ele
trabalha melhor no escuro.
Na escuridão, Magnífico estava reduzido a uma simples sombra. Ebling era uma
massa respirando pesadamente. Bayta sentou-se, também, arregalando os olhos ansiosamente e
da primeira vez não conseguiu ver nada. Havia um frágil, agudo trilo no ar, que ia subindo
gradativamente de tom. Ficou suspenso no ar, gotejou e estorceu-se, ganhou corpo, e decaiu
rapidamente, reduzindo-se a um som que fazia o efeito do rasgar-se de uma cortina delicada.
Um pequeno globo de cor pulsante cresceu com um jorro rítmico e explodiu no meio
do ar em gotas disformes que ondularam e desceram como correntes oscilantes em desenhos
entrelaçados. Estes fundiram-se em pequenas esferas, não havendo duas da mesma cor - e
Bayta começou a descobrir coisas.
Verificou que fechando os olhos, os padrões de cores se tornavam mais claros, que
todos os pequenos movimentos de cor tinham o seu próprio pequeno elemento de som, que não
podia identificar as cores e, finalmente, que os globos não eram globos, porém pequenas
figuras.
Pequenas figuras, pequenas labaredas movediças, que dançavam e bruxuleavam nas
suas miríades, que se retiravam para longe e regressavam de alguma parte, que se entrançavam
em volta uma da outra e aglutinavam-se numa nova cor.
Incoerentemente Bayta pensou nos pequenos bulbos de cor que apareciam pela noite
quando fechava as pálpebras até lhe doerem, e fitou-os pacientemente. Havia o velho efeito
familiar do ponto de cor movediça com ritmo de polca, os círculos contraindo-se
concentricamente, as massas disformes que estremeciam momentaneamente. E tudo isto amplo,
multivariado - e cada pequeno ponto de cor era uma minúscula figura.
Arremessavam-se aos pares para ela, e ela levantava as mãos com um repentino arfar,
porém eles estremeciam e durante um instante ele era o centro de uma brilhante nevada,
enquanto uma luz fria lhe escorregava dos ombros e lhe descia pelos braços patinando
luminosamente, irrompendo dos dedos rígidos e reunindo-se vagarosamente num foco luzindo
no meio do ar. Debaixo daquilo tudo, o som de uma centena de instrumentos flutuava em
líquidas correntes até ela não poder distingui-las da luz.
Ela gostaria de saber se Ebling Mis sentia a mesma coisa e, em caso negativo, o que é
que ele estaria vendo. O prodígio passou, e então…
Estava olhando outra vez. As pequenas figuras - seriam pequenas figuras? - pequenas
mulheres esguias com cabelos cor de fogo que giravam e se curvavam muito rapidamente do
espírito para o foco? - Reuniam-se umas às outras em grupos em forma de estrelas que iam
girando - e a música eram risos desmaiados - risos de moças que começavam dentro do
ouvido.
As estrelas desapareceram todas ao mesmo tempo, faiscando umas atrás das outras,
afastando-se vagarosamente para a estrutura - e de baixo, um palácio lançou-se para o alto em
rápida evolução. Cada tijolo era uma cor diminuta, cada cor uma diminuta faísca, cada faísca
uma luz que feria, que mudava de intensidade e deixava nos olhos um céu ocupado por vinte
minaretes cobertos de jóias.
Um tapete voador lançou-se pelo espaço, redemoinhando, planando numa trama
insubstancial que mergulhava pelo espaço todo, e ali nasciam luminosas cataratas, dolorosas e
ascedentes, que se corporizavam em árvores que cantavam com uma música toda particular.
Bayta sentiu-se dominada por tudo aquilo. A música nascia em volta dos seus vôos
rápidos e líricos. Ela estendeu a mão para tocar numa árvore frágil e florescentes grãozinhos
boiavam para baixo e murchavam, cada um deles com o seu som nítido e débil.
A música estalou em vinte címbalos, e diante dela incendiou-se uma superfície que,
num jorro lançou-se em cascata por invisíveis degraus até o regaço de Bayta, onde se
derramou e fluiu numa rápida corrente, levantando a ardente escuma até sua blusa, enquanto
através do seu regaço se desenhava um arco-íris e sobre ele as pequenas figuras…
Uma praça e um jardim, e homens minúsculos e mulheres sobre uma ponte,
expandindo-se até onde ela podia ver, torcendo-se através dos soberbos crescendos de música
transformados em fios que se dirigiam para ela…
E então - pareceu nascer uma pausa assustada, um movimento hesitante, abstrato, um
rápido colapso. As cores desapareceram, entrançando-se num globo que se contraiu, se
avermelhou e desapareceu.
E voltou a haver apenas escuridão.
Um pé vagaroso raspou o pedal, apertou-o, e a luz inundou o aposento, a luz insípida
de um sol prosaico. Bayta pestanejou até às lágrimas, enquanto pensava demoradamente
naquilo que desaparecera. Ebling Mis estava reduzido a uma grossa inércia, com os olhos
ainda arrasados e a boca ainda aberta. Só o próprio Magnífico .estava desperto, e acariciou o
seu audiovisor numa atitude extasiada.
- Minha senhora - suspirou ele - é de fato de um efeito dos mais mágicos. É
equilibrado e responde quase além do que se podia esperar da sua delicadeza e estabilidade.
Se fosse um pouco melhor, eu poderia operar maravilhas. Gostou da minha composição, minha
senhora?
- Era sua? - murmurou Bayta. - De sua própria autoria?
Para seu terror, a sua tímida face lançou um olhar avermelhado para a extremidade do
seu enorme nariz.
- De minha autoria, sim, minha senhora. O Mulo não gostava dela, mas, vezes e vezes
sem conta, toquei-a para meu próprio prazer. Aconteceu uma vez, na minha juventude, que vi o
palácio - um lugar gigantesco forrado com jóias que observei à distância na época do grande
carnaval. Havia pessoas de um esplendor nunca sonhado até então e uma magnificência maior
do que qualquer outra que eu mais tarde visse, quando ao serviço do Mulo. Apenas criei uma
pobre substi¬tuta, mas a minha pobre mente impede que possa fazer mais. O título que lhe dou
é “Lembrança de Haven”.
Agora, voltando a si no meio da tagarelice, Mis conseguiu regressar também à vida
ativa:
- Olhe - disse ele - olhe, Magnífico, você não gostaria de tocar esta mesma
composição para outras pessoas?
Durante um momento, o palhaço ficou dobrado para trás:
- Para outras pessoas? - gaguejou.
- Para milhares de pessoas - exclamou Mis - nos grandes Auditórios da Fundação.
Você passaria a ser o seu próprio senhor, e honrado por todos, rico, e… e - a imaginação não
lhe conseguiu sugerir mais nada. - É tudo isto? Eh? Que me diz você?
- Mas como é que pode ser isso tudo, poderoso senhor, se na verdade sou apenas um
pobre palhaço, incapaz de fazer as grandes coisas do mundo?
O psicólogo deu um sopro, e passou as costas da mão pela testa. Disse:
- Mas você toca, homem. O mundo é seu se quiser tocar para o prefeito e para os seus
Trustes comerciais. Não lhe agradaria isso?
O palhaço olhou para Bayta:
- Ela poderia ir comigo?
Bayta riu:
- Oh, certamente, meu tolo. Você ainda desejaria viver ao meu lado agora que está
prestes a tornar-se rico e famoso?
- Eu desejaria estar sempre ao seu lado - replicou ele fervorosamente - e seguramente
toda a riqueza da Galáxia haveria de ser sua antes de eu conseguir pagar a dívida que tenho
para com a sua amabilidade.
- Mas - disse Mis, casualmente - se você me quisesse ajudar primeiro…
- Em que?
O psicólogo fez uma pausa e sorriu:
- Aceitando a aplicação de uma pequena sonda de superfície que não doe. Só tocarei
na camada superficial do seu espírito.
Havia um fulgor de medo mórbido nos olhos de Magnífico:
- Não quero sonda nenhuma. Já a vi utilizar. Esgota o espírito e deixa a cabeça
completamente vazia. O Mulo utilizava-a nos traidores e depois deixava-os vaguear vazios de
espírito pelas ruas, até que um golpe qualquer de misericórdia os matava. - Levantou a mão
para tirar Mis da sua frente.
- Isto é uma sonda psíquica - explicou Mis pacientemente - que só prejudicará uma
pessoa no caso de ser mal utilizada. A sonda que tenho em meu poder é uma sonda de
superfície e nem sequer poderia fazer mal a um bebê.
- É assim mesmo, Magnífico - acrescentou Bayta. - É só para nos ajudar a vencer o
Mulo e a mantê-lo longe de nós. Uma vez que isso estiver feito, você e eu ficaremos ricos e
famosos para o resto das nossas vidas.
Magnífico levantou uma mão trêmula:
- É capaz de me segurar a mão, nesse caso?
Bayta agarrou-a entre as suas, e o palhaço observou assustadamente a aproximação
das lustrosas chapas terminais, com os olhos muito arregalados.
Ebling Mis descansou descuidadamente em uma das cadeiras prodigamente
distribuídas pelos aposentos particulares do prefeito Indbur, sempre mal agradecido para as
deferências que lhe mostravam e esperou pelo pequeno e excitado prefeito com muito pouca
simpatia. Tirou uma ponta de charuto e deitou fora uma partícula de tabaco.
- E, incidentalmente, se deseja alguma coisa para o seu próximo concerto no Auditório
Mallow, Indbur - disse ele - pode deitar todas essas engenhocas eletrônicas no cano de esgoto
de onde saíram e decidir-se a ter o pequeno capricho de tocar audiovisor para si. Indbur - é
uma coisa que não é deste mundo.
Indbur replicou impertinentemente:
- Não o mandei chamar para ouvir conferências suas a respeito de música. O que há a
respeito desse Mulo? Diga-me já. O que há a respeito desse Mulo?
- O Mulo? Bem, eu lhe digo… utilizei uma sonda de superfície e consegui pouco. Não
posso utilizar a sonda psíquica porque o palhaço tem um medo horrível dela, pelo que,
provavelmente, a sua resistência daria cabo dos seus incríveis fusos mentais logo que o
contato se estabelecesse. Foi por isso que vim aqui, se você ao menos conseguir parar de
tamborilar com os dedos… Em primeiro lugar, eliminei a tensão da pressão física exercida
pela idéia do Mulo. Ele é provavelmente robusto, mas a maioria das histórias fantásticas que
o palhaço conta a seu respeito são, provavelmente, exageradas pela sua própria memória
medrosa. O Mulo usa óculos estranhos e os seus olhos matam, o que torna evidente que dispõe
de forças mentais.
- Já é alguma coisa para começar - murmurou o prefeito, com azedume.
- Então a sonda confirmou-o, e a partir daí temos trabalhado matematicamente.
- E daqui a quanto tempo é que viremos a saber o resultado? As suas palavras
retumbantes quase me deixam surdo.
- Dentro de um mês, diria eu, e nessa altura já terei alguma coisa para lhe dizer. E
também pode ser que não, certamente. Mas o que há com ele? Se isto tudo foi exterior aos
planos de Seldon, as nossas possibilidades são realmente reduzidas, incrivelmente reduzidas.
Indbur pôs-se a girar em volta do psicólogo todo furioso:
- Agora é conosco, traidor. Mentira! O que você disse não passa de um desses
criminosos rumores espalhados pelos vendedores de quinquilharias que andam pregando o
derrotismo e o pânico através da Fundação, e tornam o meu trabalho duplamente árduo.
- Eu? Eu? - Mis franziu vagarosamente os sobrolhos.
Indbur praguejou para ele:
- Porque, pelas nuvens de cinza do espaço, a Fundação ganhará - a Fundação deve
ganhar.
- A despeito da perda de Horleggor?
- Isso não foi uma perda. Você também engoliu essa mentira que corre, por aí. Nós nos
encontramos em inferioridade numérica e traídos…
- Por quem? - perguntou Mis, desdenhosamente.
- Pelos democratas piolhentos que vivem nos esgotos - gritou Indbur por cima do
ombro. - Há muito que sabia que a esquadra estava sendo ocupada por células democráticas.
A maior parte delas foi eliminada, todavia permanece por explicar a rendição de vinte naves
no ardor do combate. O suficiente para forçar uma derrota aparente. A este respeito, meu
grande linguarudo, ingênuo patriota e resumo das virtudes primitivas, quais são as suas
próprias ligações com os democratas?
Ebling Mis encolheu os ombros:
- Você delira, dá-se conta disso? O que há depois da retirada, e da perda de metade de
Siwena? Foram outra vez os democratas?
- Não. Não foram democratas - e o homenzinho sorriu secamente. - Nós nos
retiramos… como a Fundação sempre se retirou perante um ataque, até que a inevitável
marcha da história nos volte a arrastar. Já estou vendo os resultados. Aquilo que se denomina
o subterrâneo dos democratas publicou manifestos afirmando que oferecem ajuda e fidelidade
ao Governo. Pode ser que seja um artifício, uma dissimulação da sua profunda traição, porém
estou fazendo bom uso disso, e a propaganda que eles estão lançando há de ter os seus efeitos,
seja qual for o esquema desses rastejantes traidores. E melhor ainda do que isso…
- Ainda melhor do que isso, Indbur?
- Julgue por você mesmo. Há dois dias atrás, aquilo a que se chama a Associação dos
Comerciantes Independentes declarou guerra ao Mulo e a esquadra da Fundação foi reforçada,
em conseqüência disso, com um milhar de naves. Está vendo, este Mulo está indo longe
demais. Ele encontrou-nos divididos e desavindos uns com os outros e sob a pressão dos seus
ataques unimo-nos e tornamo-nos fortes. Ele deve perder. É inevitável, como sempre.
Mis mostrava algum ceticismo:
- Nesse caso, você quer dizer que Seldon fez planos até para prever a fortuita
aparição de um mutante.
- Um mutante! Eu não consigo distingui-lo de um ser humano, nem você seria capaz, se
não fossem os delírios de um capitão indisciplinado, de alguns jovens estrangeiros, e mais de
um prestidigitador e palhaço. E você forneceu-me a mais conclusiva evidência de tudo, você
mesmo.
- Eu mesmo? - Por um momento, Mis ficou aturdido.
- Você mesmo - insistiu o prefeito. - O Cofre do Tempo abrirá dentro de nove
semanas. E qual deve ser o resultado? Abre uma crise. Se este ataque do Mulo não for a crise,
onde estará essa “autêntica” crise, aquela que o Cofre deverá abrir? Responda-me, sua bola
de toucinho.
O psicólogo encolheu os ombros:
- Muito bem, se isso o torna feliz. Faça-me um favor, porém. Apenas no caso…
apenas no caso do velho Seldon realizar sua palestra e ela for muito desagradável, espero que
você me deixará estar presente à Grande Abertura.
- Muito bem. Ponha-se daqui para fora. E desapareça da minha vista durante nove
semanas.
- Com incrível prazer, seu encarquilhado - murmurou Mis consigo mesmo, ao sair.
QUEDA DA FUNDAÇÃO

Havia uma atmosfera em volta do Cofre do Tempo impregnada de emoções que se


orientavam em várias direções ao mesmo tempo. Não era uma atmosfera de decadência, pois
estava bem iluminada, e bem acondicionada, e os quadros coloridos das paredes luziam
vivamente, e a fila de cadeiras fixas era confortável e aparentemente destinada a uso perpétuo.
Não era muito antiquada, pois três séculos não lhe tinham infligido nenhuma marca evidente.
Não havia certamente nenhuma tentativa de criar medo ou respeito, pois as mobílias eram
simples e para uso diário - e de fato de uma singeleza próxima da pobreza.
Posteriormente foram retirados todos os elementos acessórios, mas alguma coisa ficou
e essa alguma coisa estava centralizada em volta do cubículo de vidro que dominava metade
do aposento com a sua transparência vazia. Por quatro vezes, em três séculos, o vivo
simulacro do próprio Hari Seldon tinha-se sentado ali e falara. Falara por duas vezes, sem
dispor de qualquer audiência.
Durante três séculos e nove gerações, insistira em comparecer o ancião que vira dias
do Império universal que ele próprio projetara e ainda entendia mais da Galáxia dos seus
tetra-tetranetos do que os seus próprios descendentes.
O cubículo vazio esperava pacientemente.
O primeiro a chegar foi o prefeito civil Indbur III, conduzindo o seu carro terrestre de
cerimônia através das ruas silenciosas, porém cheias de expectativa. Estava à sua espera a sua
própria cadeira, mais elevada do que todas as outras que ali estavam arrumadas, e mais
ampla. Estava colocada à frente de todas as outras, e Indbur dominava tudo, exceto o brilho
cintilante dos vidros vazios que lhe ficava defronte.
O solene oficial que estava à sua esquerda inclinou a cabeça reverente:
- Excelência, foram feitos preparativos, encarando a hipótese de uma ampla difusão
subetérica da comunicação oficial que vossa excelência fará esta noite.
- Ótimo. Entrementes, devem continuar a ser difundidos programas especiais
interplanetários referentes ao Cofre do Tempo. Decerto que não se devem insinuar no assunto
previsões ou especulações de qualquer espécie. A reação popular continua a ser satisfatória?
- Excelência, é muitíssimo boa. Os rumores corruptos que dominavam ultimamente o
teor dos boatos estão diminuindo. Todo mundo está a par do que se vai passar.
- Ótimo! - fez um gesto para frente com a mão e examinou o complicado cronômetro
que trazia no pescoço, para uma verificação.
Faltavam vinte minutos para o meio-dia!
Um grupo escolhido de grandes sustentáculos da administração - os chefes das
grandes organizações comerciais - foi aparecendo individualmente ou aos pares com o grau de
pompa apropriado ao seu “status” financeiro e lugar no favor governativo. Cada um deles
apresentava-se pessoalmente, recebia uma graciosa palavra, ou duas, e ocupava a cadeira que
lhe estava reservada. De algum lugar, deslocado no meio da afetada cerimônia de tudo aquilo,
Randu de Haven fez a sua aparição e abriu caminho, que não fora anunciado até a cadeira do
prefeito.
- Excelência! - murmurou ele, e fez uma reverência.
Indbur franziu os sobrolhos:
- Você não tem audiência marcada.
- Excelência, pedi uma para a semana.
- Lamento que os assuntos de Estado implicados na aparição de Seldon tenham…
- Excelência, lamento também, mas tenho que lhe pedir que anule sua ordem dispondo
que os barcos dos Comerciantes Independentes sejam distribuídos pelas esquadras da
Fundação.
Indbur ficara rubro perante a interrupção:
- Não estamos em ocasião de discutir.
- Excelência, estamos na única ocasião possível - sussurrou Randu em tom premente. -
Como representante dos Mundos Comerciais Independentes, tenho de lhe dizer que qualquer
ordem de ação não poderá ser cumprida. Deve ser anulada a ordem antes de Seldon nos
resolver o problema. Uma vez ultrapassado o estado de urgência, será muito tarde para uma
conciliação e a nossa aliança não poderá subsistir.
Indbur fitou Randu friamente:
- Você sabe que sou eu o comandante das forças armadas da Fundação? Que tenho o
direito de determinar a política militar em todas as circunstâncias?
- Excelência, é assim de fato, mas algumas coisas são inoportunas.
- Não reconheço que haja qualquer inoportunidade. É perigoso permitir que os seus
povos separem as esquadras nesta emergência. A ação dividida coloca-nos nas mãos do
inimigo. Devemos nos unir, embaixador, tanto militar como politicamente.
Randu sentiu os músculos da garganta contraírem-se. Omitiu a cortesia do título
inicial:
- Você julga que está livre de perigo agora que Seldon deve falar, e atira-se contra
nós. Há um mês você estava meigo e conciliador, quando as nossas naves derrotaram o Mulo
em Terei. Podia lembrar-lhe, senhor, que a Esquadra da Fundação foi derrotada em combate
aberto cinco vezes, e que as naves dos Mundos Comerciais Independentes têm apresentado as
suas vitórias como sendo suas.
Indbur franziu os sobrolhos perigosamente:
- Você não continuará a ser bem recebido em Terminus, embaixador. O seu regresso
vai ser pedido ainda esta noite, embaixador. Entretanto, suas ligações com as forças
democráticas subversivas em Terminus serão, e estão sendo, investigadas.
Randu replicou:
- Quando for obrigado a sair, as nossas naves irão comigo. Não sei a respeito dos seus
democratas. Só sei que as naves da sua Fundação se têm rendido ao Mulo por traição dos seus
oficiais superiores, não dos marinheiros, democratas ou outros quaisquer. Digo-lhe ainda que
vinte naves da Fundação se entregaram em Horleggor obedecendo às ordens do seu contra-
almirante, quando estavam ilesas e fora de ação. O contra-almirante era o seu próprio
associado íntimo, que presidiu ao julgamento do meu sobrinho, quando ele chegou, pela
primeira vez, de Kalgan. Não é o único caso que conhecemos a este respeito e as nossas naves
e homens não devem arriscar-se a ficar sob o comando de traidores potenciais.
Indbur replicou:
- Você ficará sob vigilância quando sair daqui.
Randu saiu da sala sob os olhares silenciosos da insolente reunião dos governadores
de Terminus. Faltavam dez minutos para o meio-dia!
Bayta e Torã já haviam chegado também. Levantaram-se das cadeiras em que estavam
sentados à retaguarda e acenaram a Randu quando este passou. Randu sorriu gentilmente:
- Afinal de contas vocês estão aqui. Como é que conseguiram isso?
- Magnífico foi o nosso estadista - sorriu Torã. - Indbur insiste na sua composição
Audiovisor baseada no Cofre do Tempo, com ele próprio, não o duvide, como herói.
Magnífico recusou-se a esperar sem nós e não houve argumento capaz de convencê-lo do
contrário. Ebling Mis está conosco, ou estava. Anda vadiando em qualquer parte. - Então, com
um súbito acesso de ansiosa gravidade: - Mas o que é que está correndo mal, tio? Você não me
parece estar muito bem disposto.
Randu meneou a cabeça:
- Suponho que não. Estamos em tempos muito maus, Torã. Quando o Mulo se desfizer
deles, há de chegar a nossa vez, e tenho medo.
Aproximou-se uma figura alta e solene, vestida de branco, e saudou-os com uma
reverência seca. Os olhos escuros de Bayta sorriam, quando lhe estendeu a mão:
- Capitão Pritcher? Então não anda no espaço em missão?
O capitão pegou-lhe na mão e curvou-se sombriamente:
- Nada disso. O Dr. Mis, segundo me parece, tem trabalhado com instrumentos no meu
cérebro, mas só temporariamente. Regresso ao quartel amanhã. Que horas são?
Faltavam três minutos para as doze!
Magnífico oferecia um aspecto de miséria e de dolorosa depressão. O corpo estava
curvado, no seu eterno esforço para se autoprojetar. O seu grande nariz estava comprimido
pelas narinas, e os seus olhos grandes e postos no chão, lançavam chispas
desassossegadamente à sua volta. Agarrou a mão de Bayta e quando ela se sentou, ele
sussurrou:
- Supõe, minha senhora, que todas as grandes personagens estavam no auditório,
talvez, quando eu… quando eu toquei o audiovisor?
- Todos, tenho certeza - garantiu-lhe Bayta, e apertou-lhe a mão. -Tenho certeza de que
todos pensam que você é o mais maravilhoso executante da Galáxia e que o seu concerto foi o
maior que eles viram, e por isso mesmo você deve endireitar-se e sentar-se corretamente.
Devemos ter dignidade.
Ele sorriu debilmente com o seu falso olhar carrancudo e esticou vagaro¬samente suas
longas pernas. Era meio-dia…
… e o cubículo de vidro já não estava vazio.
Era duvidoso que alguém tivesse testemunhado a aparição. Era uma perfeita ruptura,
um momento antes não havia ali ninguém e no momento seguinte já lá havia alguém.
No cubículo estava uma figura, numa cadeira de balanço, velha e rangente, da qual se
levantava uma face enrugada com olhos brilhantes e vivos, e cuja voz, quando falou, era a
coisa mais viva que possuía. Havia um livro colocado no seu regaço, e a sua voz ressoou
repousadamente.
- Sou Hari Seldon!
Falou no meio de um silêncio, atroador devido à sua intensidade.
- Sou Hari Seldon! e não sei se está aqui alguém, pelo menos servindo-me do mero
sentido da percepção, mas isto não tem importância. Receio, todavia, que se verifique um
colapso no Plano. Pela primeira vez, em três séculos, as percentagens de probabilidade de
ausência de desvio são de nove-quatro ponto dois.
Fez uma pausa para sorrir, depois do que acrescentou delicadamente:
-Como vamos continuar, se alguém desejar sentar-se, pode fazê-lo. E se alguém
desejar fumar, pode fazê-lo. Eu não estou aqui em carne e osso. Não preciso de cerimônias.
- Agora, vamos falar do problema que nos ocupa neste momento. A Fundação está,
pela primeira vez, perante a hipótese, ou talvez esteja até nas últimas fases que nos vão levar
a uma guerra civil. Até agora, os ataques que sempre se verificaram foram devidamente
vencidos e assim tem acontecido inevitavelmente, de acordo com as leis estritas da
psicohistória. O ataque que agora consideramos é lançado por um grupo exterior da Fundação,
extremamente indisciplinado, contra o excessivo autoritarismo do governo central. O
procedimento foi necessário, o resultado evidente.
A dignidade da audiência formada por gente bem nascida encontrava-se a ponto de
quebrar. Indbur estava ereto na sua cadeira. Bayta olhou para a frente com olhos perturbados.
O que é que o grande Seldon estava dizendo? Ela perdera uma porção de palavras…
- …Que o compromisso estabelecido é necessário de duas maneiras. A revolta dos
Comerciantes Independentes introduz um elemento de nova incerteza num governo que, talvez,
tenha nascido com demasiada confiança. O elemento de rivalidade está restaurado. Embora
vencido, um elevado aumento da democracia…
Havia agora vozes excitadas. Os murmúrios iam crescendo na escala de som, e havia
já neles laivos de pânico. Bayta disse ao ouvido de Torã:
- Por que é que ele não diz nada a respeito do Mulo? Os Comerciantes nunca se
revoltaram.
Torã encolheu os ombros. A figura sentada falava alegremente acima e através da
crescente desorganização :
- …um novo governo de coalizão foi o necessário e benéfico resultado da lógica
guerra civil a que foi levada a Fundação. E agora só os remanescentes do velho Império estão
a caminho de nova expansão e neles, nos anos mais próximos, de qualquer modo, não haverá
problema. Decerto, eu não posso revelar a natureza das próximas provas…
Os lábios de Seldon moviam-se silenciosamente, no meio de um tumulto enorme.
Ebling Mis estava próximo de Randu, com a face rubra. Falava:
- Seldon está fora do seu domínio. Ele engana-se quanto à crise. Vocês, os
Comerciantes, estão planejando uma guerra civil?
Randu respondeu com voz fraca:
- Estávamos preparando, sim. Nós a abandonamos quando surgiu o Mulo.
- Nesse caso o Mulo é uma característica adicional que não está preparada para ser
incluída na psicohistória de Seldon. Agora o que é que está acontecendo?
No meio do súbito silêncio, Bayta olhou para o cubículo e voltou a vê-lo vazio. O
ardor atômico das paredes morrera, e a macia corrente de ar condicionado estava ausente.
Em alguma parte o som de uma sirena aguda e ascendendo ao longo da escala, levou
Randu a formar as palavras com os lábios:
- Raide do espaço!
E Ebling Mis encostou o relógio de pulso ao ouvido e escutou:
- Parem já com isso, pela Galáxia! Há por aqui algum relógio que esteja trabalhando?
- A sua voz era estridente.
Vinte relógios foram quase automaticamente levados aos ouvidos. E em menos de
vinte segundos era absolutamente indubitável que nenhum deles estivesse trabalhando.
- Nesse caso - disse Mis, com uma determinação cruel e horrível - há alguma coisa
que eliminou toda a força atômica no Cofre do Tempo - e o Mulo está desferindo ataques.
Ouviu-se a voz agoniada de Indbur acima do barulho:
- Voltem para os seus lugares! Está a cento e cinqüenta anos-luz de distância.
- Estava - replicou Mis - há uma semana atrás. Mas agora mesmo, Terminus está sendo
bombardeada.
Bayta sentiu que uma depressão a invadia brandamente. Sentiu as articulações
contraírem-se excessivamente, até que a respiração forçou-a a distender-se com uma dor
aguda que lhe passava pela garganta contraída.
Ia-se tornando evidente o barulho de outra multidão que se reunia lá fora. As portas
abriram-se bruscamente e adentrou uma figura aterrada que falou rapidamente a Indbur, que
chamara por ela.
- Excelência - sibilou - não há veículo que ande na cidade, não há uma linha de
comunicação para o exterior que esteja funcionando. A Décima Esquadra foi dada como
derrotada e as naves do Mulo estão no espaço exterior. O estado maior…
Indbur encolheu-se e transformou-se numa figura desanimada e impotente no meio do
piso. Em todo o vestíbulo, não havia agora uma única voz que se levantasse. A multidão, que
continuava a aumentar, estava aterrada de medo, mas silenciosa, e pairava ali, perigosamente,
um horror de pânico. Indbur estava excitado. Os lábios estavam se tornando brancos. Esses
lábios moveram-se antes que os olhos se abrissem, e a palavra que pronunciou foi:
- Rendição!
Bayta levantou-se para gritar também, não por amargura ou humilhação, mas simples e
claramente para dar vazão a um enorme desespero assustado.
Ebling Mis puxou-lhe pela manga:
- Vamos embora, jovem senhora…
Afastaram-se vigorosamente da cadeira onde estava.
- Vamos sair daqui - disse ele - e traga o seu músico consigo. - Os lábios do
rechonchudo cientista estavam trêmulos e sem cor.
- Magnífico - chamou Bayta, por instinto.
O palhaço contraiu-se com horror. Tinha os olhos vítreos.
Ela bateu-lhe fortemente, porém com afeto. Torã debruçou-se para ele e agitou-lhe os
pulsos com violência. Magnífico levantou-se inconscientemente e Torã carregou-o como se
fosse um saco de batatas.
No dia seguinte, as naves de combate do Mulo, disformes e pretas, espalharam-se
pelos campos de aterragem do planeta Terminus.
O general atacante desceu rapidamente pela rua vazia da Cidade de Terminus, num
carro terrestre de fabrico estrangeiro, que se encaminhou para o ponto em que estava uma
cidade inteira de carros atômicos inutilizados.
A proclamação de ocupação foi feita decorridos vinte e quatro horas após o minuto
em que Seldon aparecera diante dos anteriores poderosos senhores da Fundação.
De todos os planetas da Fundação, só os Comerciantes Independentes continuavam
vivos e contra eles se virava agora a força do Mulo - conquistador da Fundação.
O INÍCIO DA PROCURA

O planeta solitário, Haven - o único planeta de um antigo sol de um setor galáctico


que se espalhara desigualmente pelo vácuo intergaláctico estava cercado.
Estava cercado, considerando o termo num sentido estritamente militar, pois que não
havia área do espaço situada do lado galáctico que estivesse a menos de sessenta anos-luz de
distância da base avançada do Mulo. Durante os quatro meses decorridos após o momento em
que se verificara a perturbadora queda da Fundação, as comunicações de Haven
desapareceram como se fossem uma teia de aranha posta sobre o fio de uma navalha. As naves
de Haven convergiam agora para dentro do seu mundo pátrio, e só o próprio Haven era agora
uma base de combate.
E, quanto a outros aspectos, o cerco estava realmente fechado, pois que já tivera
início a submissão às idéias de desamparo e de ruína…
Bayta prosseguia vagarosamente seu caminho através da ala ladeada por cravos
oscilantes, ultrapassando as filas de mesas com tampos de plástico leitoso, e dirigiu-se às
cegas para o seu lugar. Deixou-se cair na cadeira alta e de braços, respondendo com
saudações mecânicas ao que lhe diziam e mal conseguia ouvir, esfregando os olhos exaustos e
cheios de comichão com as costas da mão cansada, e acabou por apanhar o cardápio.
Teve tempo de se dar conta de uma violenta reação mental de repugnância diante da
pronunciada presença de várias travessas de fungos de cultura, que eram considerados
extremamente delicados em Haven, e que a Fundação classificara como altamente impróprios
para comer - e nessa altura percebeu o soluço perto dela e olhou para cima.
Até então seu conhecimento de Juddee, a loura sem relevos, de nariz chato e
indiferente, limitara-se, sempre que atravessava em diagonal a sala de jantar, à reflexão
superficial de que não a conhecia. E agora Juddee chorava, mordendo deploravelmente um
lenço úmido, abafando os soluços de tal modo que seu rosto estava cheio de manchas
vermelhas. Sua roupa informe à prova de radiação estava atirada por cima dos ombros, e a
face transparente do escudo caíra-lhe no prato e ali permanecia.
Bayta juntou-se às três moças que estavam sempre falando de cremes para os ombros,
eternamente aplicados e eternamente ineficazes e das loções que amaciavam os cabelos, num
murmúrio incoerente.
- Qual é o problema? - sussurrou ela.
Uma delas virou-se para ela e encolheu os ombros com um discreto:
- Não sei. - Depois do que, percebendo quanto o seu gesto era descomensurado,
apressou-se a puxar Bayta para o lado: - É um dia difícil para ela, parece-me. Está
preocupadíssima por causa do marido.
- Anda em patrulha no espaço?
- Anda.
Bayta colocou uma mão amistosa em volta dos ombros de Juddee.
- Por que é que não vai para casa, Juddee? - Sua voz tinha um tom prático e divergia
profundamente das vozes ineptas, débeis e moles que a tinham precedido.
Juddee fitou-a, meio ressentida:
- Já faltei uma vez esta semana…
- Nesse caso ficará com duas faltas. Se você conseguir uma licença, sabe muito bem
que poderia faltar três dias na próxima semana… por isso deve voltar agora para casa afim de
mostrar o seu patriotismo. Alguma de vocês, moças, trabalha no mesmo departamento que ela?
Bem, nesse caso suponho que vocês lhe tomem conta do cartão. É melhor passar primeiro pelo
banheiro, Juddee, e coma os pêssegos e o creme que lhe fazem falta. Vá embora! Adeus!
Bayta voltou para o seu lugar e tornou a pegar o cardápio com uma lentidão sombria.
Estas atitudes eram contagiantes. Uma garota desfeita em lágrimas devia deixar o seu
departamento em estado frenético naqueles dias de nervos tensos. Tomou uma decisão
insípida, apertou o botão indicado com o cotovelo e colocou o cardápio no local apropriado.
A moça alta e escura que estava defronte dela, dizia:
- Não podemos fazer muita coisa a não ser chorar, não é verdade?
Seus lábios espantosamente carnudos moviam-se pouco, e Bayta verificou que os seus
fins eram cuidadosamente influenciados pela necessidade de exibir aquele sorriso artificial,
que era realmente a última palavra no que respeitava a sofisticação.
Bayta perscrutou qual seria a insinuante estocada contida nas palavras pronunciadas
com olhos pestanudos e saudou a diversão provocada pela chegada do almoço, quando a
portinha de sua unidade se abriu pela parte de dentro e a comida apareceu. Rasgou
cuidadosamente o envoltório do talher e manuseou os objetos cuidadosamente, enquanto iam
esfriando. E observou:
- Você não pode pensar em outra coisa qualquer, Hella?
- Oh, claro que posso - respondeu Hella. - Eu posso!
Agitou o cigarro com um movimento de dedos ocasional e destro dentro do pequeno
nicho e o minúsculo relâmpago atômico surgiu pouco depois do lançamento.
- Por exemplo - e Hella entrelaçou as mãos magras e bem delineadas debaixo do
queixo - penso que podíamos fazer um belo acordo com o Mulo e pôr fim a toda esta
estupidez. Então eu não teria as… hum… facilidades de sair cedo dos lugares quando o Mulo
aqui estivesse.
A testa lisa de Bayta manteve-se sem uma prega. Sua voz mostrou-se nítida e
indiferente:
- Me parece que você não tem nem irmão nem marido nas naves que estão em
combate, ou tem?
- Não. Mas juro por todos os meus créditos que não vejo razão para sacrificar os
irmãos e os maridos das outras.
- O sacrifício deve ser mais seguro do que a rendição.
- A Fundação rendeu-se e está em paz. Nossos homens estão longe e a Galáxia está
contra nós.
Bayta encolheu os ombros e disse amavelmente:
- Estou com medo do primeiro casal que se aborrecer com você. - Voltou ao seu prato
de vegetais e comeu-o com a plena compreensão do silêncio que se fizera ao redor. Nenhuma
das que se sentira chocada com o diálogo se atrevera a replicar ao cinismo de Hella. Foi
embora tranqüilamente, depois de ter apertado o botão que limpou a mesa, pondo-a em ordem
para o próximo ocupante que a fosse substituir.
Uma outra moça, três lugares adiante, murmurou do seu lugar para Hella:
- Quem é ela?
Os lábios movediços de Hella articularam com indiferença:
- É a sobrinha do nosso coordenador. Você não a conhecia?
- Sim? - Os seus olhos examinaram o último relance das costas que iam
desaparecendo: - O que é que ela esteve fazendo aqui?
- Exatamente uma assembléia de moças. Você não sabe que é elegante ser patriota?
Isso tudo é tão democrata, que me provoca os nervos.
- Ora, Hella - disse a moça roliça que estava à sua direita. - Ela nunca põe o tio acima
de nós. Por que você não a deixa em paz?
Hella ignorou a vizinha com um brilho majestoso nos olhos e acendeu outro cigarro.
A nova moça estava ouvindo a tagarelice dos olhos brilhantes que estavam do outro
lado. As palavras surgiram rapidamente:
- …e ela imagina que por ter estado no Cofre… e eles contaram que o prefeito
espumava de raiva e houve uma barafunda e todo tipo de coisas, sabe. Ela saiu de lá antes que
o Mulo desembarcasse, e eles disseram que ela tinha a mais inteligente capacidade de fuga…
conseguiu passar através do bloqueio e tudo… eu desejava muito que ela escrevesse um livro
a este respeito, um destes livros de guerra muito populares, sabe. E parece que ela esteve
também num desses mundos do Mulo… Kalgan, sabe… e…
Retiniu a campainha indicando que estava na hora e a sala de jantar esvaziou-se
lentamente. A voz do guarda-livros zumbiu e a voz da moça interrompeu-o com os
convencionais esgazeares de olhos:
- Realmente-te-te-te? - nos pontos apropriados.
As grandes luzes, do porão foram diminuindo de intensidade na gradual descida
através da escuridão que queria dizer sono para aqueles que trabalhavam arduamente, quando
Bayta regressou para casa.
Torã veio ter com ela à porta, com uma fatia de pão com manteiga na mão.
- Onde é que você andou? - resmungou ele, com a boca cheia. Depois acrescentou com
mais nitidez: - Fiz um jantar “recozinhando” as coisas que havia. Se não estiver lá muito bom,
não me censure.
Mas ela o media, com os olhos arregalados:
- Torie! Onde é que está seu uniforme? Por que é que está vestido à paisana?
- Ordens, Bay. Randu subiu agora mesmo com Ebling Mis, e o que há a esse respeito,
não sei. São as únicas coisas de que tenho conhecimento até agora.
- Eu também vou? - Ela encaminhou-se impetuosamente para ele. Ele beijou-a antes de
lhe responder: - Julgo que sim.. Deve ser perigoso, talvez.
- O que é que não é perigoso?
- Exatamente. Oh, sim, já mandei chamar o Magnífico, porque talvez ele queira ir
conosco.
- Isso quer dizer que o seu concerto na Fábrica de Máquinas terá de ser cancelado.
- É evidente.
Bayta dirigiu-se ao aposento seguinte e sentou-se diante de uma refeição que mostrava
todos os sinais de ter sido “recozida”. Cortou os sanduíches ao meio, com gesto eficiente, e
disse:
- Essa anulação do concerto é muitíssimo desagradável. As moças da fábrica estavam
ansiosas por assistir. O Magnífico também estava muito interessado. Não vale um caracol,
tudo isso, porém é um tipo bastante excêntrico.
- Remexe com seus complexos maternais, Bay, é isso que ele faz. Um dia acaba por ter
um filho, e nessa ocasião o Magnífico tem de se pôr a andar.
Bayta respondeu mordendo o sanduíche:
- Surpreende-me que o meu complexo maternal possa resistir a esta agitação toda.
E nessa altura deixou cair o sanduíche e surgiu-lhe uma grave seriedade.
- Torie.
- Hu-m-m?
- Fui hoje até a Prefeitura, ao Gabinete de Produção. Foi por isso que hoje cheguei tão
tarde.
- O que é que foi fazer lá?
- Bem… - ela hesitou, incerta. - Fui ver o que se estava produzindo. Eu estava com
dificuldade em compreender o que se passa na fábrica. Moral - não existe nenhuma. As moças
tomam bebedeiras escandalosas sem nenhuma razão. Aquelas que não ficam doentes tornam-se
rabugentas. Exatamente uns pequenos ratinhos desvairados de medo. Na minha seção, a
produção não atinge um quarto daquilo que devia ser, e não há um dia em que não tenhamos a
folha de presenças incompleta.
- Muito bem - disse Torã. - Foi então ao G. de P. O que é que conseguiu lá?
- Fiz uma porção de perguntas. E veja bem, Torie, está acontecendo o mesmo em todo
o Haven. A produção declina, aumentando ao mesmo tempo a sedição e a deslealdade. O
chefe do gabinete limitou-se a encolher os ombros - depois de permanecer sentada uma hora
na antecâmara, à espera dele, e só me recebeu porque eu era sobrinha do coordenador - e
disse que o assunto não era de sua alçada. Francamente, não compreendo cem que é que ele se
preocupa.
- Vamos, ele não quis ser grosseiro, Bay.
- Penso que não o fez de propósito. - Ela mostrava-se impetuosa: -Disse-lhe que algo
não corria bem. Trata-se da mesma horrível frustração que me dominou no Cofre do Tempo
quando Seldon nos abandonou você também deve sentir coisa idêntica.
- Bem, isso já ficou para trás - continuou ela com violência bárbara.
- E nunca estaremos em condições de resistir ao Mulo. Mesmo se tivéssemos os meios
materiais, faltam-nos o coração, o espírito, a coragem… Torie, não há ninguém que queira
lutar.
Torã não se lembrava de Bayta ter chorado sequer alguma vez, e não chorou nem desta
vez. Na verdade, não o fez. Mas Torã pôs-lhe a mão de leve no ombro e sussurrou:
- Veja se esqueça disso, filha. Eu sei o que é que está pensando. Mas não há nada…
- Pois não há nada que possamos fazer! Todo mundo diz isto - e temos de nos limitar a
ficar sentados, à espera que a faca nos tire a vida.
Ela voltou ao que lhe sobrava do sanduíche e do chá. Tranqüilamente, Torã estava
arrumando.
Randu, no cargo de coordenador para que fora recentemente nomeado - e que era
propriamente um posto de guerra da conferência de cidades de Haven, fora transferido, a
pedido, para um aposento elevado, da janela do qual podia observar os telhados e os arbustos
altos da cidade. Agora, no meio das luzes apagadas do abrigo, a cidade retrocedia para um
plano falho de distinção dos matizes, Randu não se deu ao cuidado de meditar no simbolismo
da situação.
Disse a Ebling Mis, cujos olhos claros e pequenos pareciam não ter outro interesse a
não ser na taça cheia, de cor vermelha, que tinha na mão:
- É costume dizer em Haven que quando as luzes do abrigo se apagam, são horas de os
justos e austeros trabalhadores irem dormir.
- Você tem dormido muito, ultimamente?
- Não! Desculpe tê-lo chamado tão tarde, Mis. Seja como for, prefiro a noite a estes
dias de agora. Em Haven, as pessoas concordam, de modo bastante estrito, que a falta de luz
significa sono. Também sucede o mesmo comigo. Porém agora é diferente…
- Você está escondido - disse Mis, positivamente. - Você está rodeado de pessoas
durante o período de trabalho, e sente os olhos e esperanças postos em você. Você não
consegue suportar toda essa carga. Durante o período de sono, você é livre.
- Quer dizer que também sente o mesmo? Este miserável sentimento de derrota?
Ebling fez vagarosamente que sim com a cabeça:
- Também o sinto. Trata-se de uma psicose das massas, um incrível pânico da
população. Galáxia, Randu, o que é que você espera? Você tem uma cultura que evolui
totalmente na crença cega e notória de que um herói popular do passado tem tudo planejado e
está tomando cuidadosamente conta de todas as pequeninas peças de suas incríveis vidas. O
padrão de pensamento evocado tem características de religião e você sabe o que isto
significa.
- Nem um pouquinho.
Mis não estava grandemente entusiasmado com a necessidade da explicação. Nunca
estava. Por isso resmungou, olhou fixamente para o comprido charuto que girou
pensativamente entre os dedos e disse:
- Caracteriza-se poderosas reações de fé. A fé não pode ser rapidamente eliminada
com um grande choque, pois em tal caso os resultados são uma completa ruptura mental. Há
casos moderados - histeria, sensação mórbida de insegurança. Nos casos adiantados - loucura
e suicídio.
Randu mordiscou a unha do polegar:
- Quando Seldon nos faltou, ou por outras palavras, quando desapareceu aquilo que
nos amparava, e nos vimos obrigados a viver apenas de nós mesmos, os nossos músculos
estavam de tal modo atrofiados que não conseguimos viver sem ele.
- E isso. É uma espécie de metáfora grosseira, mas é isso.
- E você, Ebling, como se sente com seus músculos?
O psicólogo sorveu uma grande baforada do seu charuto e deixou que a fumaça saísse
preguiçosamente para fora.
- Emperrados, mas não atrofiados. A minha profissão trouxe como resultado um
aumento de pensamento independente.
- E você vê alguma saída para isto?
- Não, mas deve haver alguma. Talvez Seldon não tenha feito previsões para o
aparecimento do Mulo. Talvez ele não tenha garantido a nossa vitória. Mas, nesse caso,
tampouco assegurou a derrota. Ele apenas nos indicou o jogo para que o orientássemos
conforme quiséssemos. O Mulo pode ser vencido.
- Como?
- Da única maneira pela qual é possível vencer alguém: de forma simples, atacando
em massa os seus pontos fracos. Ora veja, Randu, o Mulo não é um super-homem. Se acabar
por ser derrotado, todas as pessoas verificarão isso pessoalmente. Trata-se apenas de alguém
que não conhecemos e as lendas amontoam-se rapidamente. Supõe-se que ele seja um mutante.
Bem, mas que espécie de mutação é a dele? Um mutante equivale a “super-homem” para a
ignorância da humanidade, e não é nada disso. Pode calcular-se que todos os dias nascem
vários milhões de mutantes na Galáxia. Destes vários milhões, todos, exceto um ou dois por
cento, podem ser apenas detectados por meio de microscópio e de análises químicas. Destes
um ou dois por cento de macromutantes, isto é, aqueles com mutações detectáveis a olho nu ou
por simples exame do cérebro, todos, exceto um ou dois por cento, são excêntricos, e são
encaminhados para os centros de curiosidades, os laboratórios”, e a morte. Dos poucos
macromutantes cujas diferenças são positivas, quase todos são inofensivas curiosidades, com
uma aparência incomum em qualquer aspecto, sendo normais, e freqüentemente subnormais em
muitos outros. Compreende o que estou dizendo, Randu?
- Compreendo. Mas o que vem a ser o Mulo?
- Suponho que o Mulo possa ser um mutante, podemos calcular que tem algum
atributo, indubitavelmente mental, que pode ser utilizado para conquistar mundos. Quanto a
outros aspectos, ele tem, com certeza, os seus defeitos, que devemos explorar. Ele não seria
tão reservado, tão esquivo aos olhos dos outros, se este defeito não fosse aparente e fatal. Se
for um mutante.
- E existe alternativa possível?
- Pode haver. A existência da mutação continua a firmar-se nas declarações do capitão
Han Pritcher que as comunicou ao Serviço de Informações da Fundação. Tirou suas
conclusões a partir de relatos muito superficiais feitos por aqueles que reivindicam ter
conhecido o Mulo ou alguém que podia ter sido o Mulo - na infância ou quando era um
rapazinho. Pritcher trabalhou com elementos escassos, e estes testemunhos podiam ter sido
facilmente arranjados pelo Mulo, para servir os seus próprios objetivos, pois é certo que o
Mulo tem sido muito auxiliado pela reputação que tem de ser um mutante-super-homem.
- Isso é interessante. Há muito tempo que pensa assim?
- Jamais pensara nisto, no sentido de lhe dar crédito. Trata-se simplesmente de uma
opção a ser considerada. Por exemplo, Randu, suponha que o Mulo descobriu uma forma de
radiação capaz de deprimir a energia mental tal como está em poder de uma que deprime as
reações atômicas. Entende, hein? Poderia este fato explicar o que está acontecendo agora, e
aquilo que atingiu a Fundação?
Randu parecia imerso numa melancolia quase muda. Disse:
- Há a considerar também as nossas próprias investigações feitas no palhaço do Mulo.
E agora Ebling Mis hesitava:
- É também inútil. Eu falei seriamente ao Prefeito antes do colapso da Fundação,
principalmente para lhe levantar o moral, parcialmente para levar os meus objetivos a bom
fim. Mas, Randu, se os meus instrumentos matemáticos fossem o suficiente, nesse caso
servindo-me apenas do palhaço, eu poderia analisar o Mulo completamente. Então podíamos
apanhá-lo. Podíamos explicar as tênues anomalias que me impressionaram.
- Quais, por exemplo?
- Ora pense, homem. O Mulo derrotou à vontade as naves da Fundação, mas não
conseguiu forças bastante para derrotar a enfraquecida esquadra dos Comerciantes
Independentes, sendo obrigado a bater-se em retirada em combate aberto. A Fundação caiu
com um sopro, os Comerciantes Independentes resistem contra toda a sua força. Utilizou, a
princípio, os seus Campos Depressores contra as armas atômicas dos Comerciantes
Independentes de Mnemon. O elemento surpresa levou-os a perder esta batalha, porém
conseguiram descobrir maneira de se opor ao Campo. Nunca mais ele foi capaz de voltar a
utilizá-lo contra os Independentes.
- Mas repetidas vezes esse Campo voltou a trabalhar contra as forças da Fundação.
Trabalha na própria Fundação. Por quê? Para os nossos conhecimentos presentes, é ilógico.
Deve haver muitos fatores de que nós desconhecemos.
- Traição?
- Isso é coisa que não faz nenhum sentido, Randu. Um palavrão vazio de sentido. Não
havia nenhum homem na Fundação que não tivesse certeza da vitória. Quem iria trair o lado
que tinha certeza da vitória?
Randu encaminhou-se para a janela abaulada e olhou sem ver para o fundo indistinto.
E disse:
- Nós agora temos a certeza de derrotá-lo, no caso do Mulo ter um milheiro de
fraquezas, se lhe arranjarmos uma série de situações difíceis…
Não se voltou. Foi como se suas costas repentinamente dobradas, a maneira nervosa
como esfregava as mãos uma na outra atrás das costas, tivessem voz. Disse:
- Escapamos com facilidade depois do episódio do Cofre do Tempo, Ebling. Havia
outros que podiam ter escapado como nós. Alguns assim fizeram. A maior parte deles, não. O
Campo Depressor podia ter sido contracompensado. Pedia habilidade e certa quantidade de
trabalho. Todas as naves da Armada da Fundação podiam ter rumado para Haven ou outros
planetas próximos para continuar a luta, se assim o tivessem desejado. Nem um por cento o
fez. Realmente, eles desertaram para o inimigo.
A Fundação subterrânea, na qual muitas pessoas pareciam confiar tão exageradamente,
não sofreu até agora quaisquer conseqüências mais sérias. O Mulo tem sido bastante
diplomata para prometer salvaguardar a propriedade e os lucros dos grandes Comerciantes e
eles firmaram acordos com ele.
Ebling Mis observou teimosamente: - Os plutocratas sempre estiveram contra nós.
- Eles sempre conservaram o poder, também. Ouça, Ebling, temos razão para supor
que o Mulo e os seus agentes já estiveram em contato com homens poderosos entre os
Comerciantes Independentes. Sabe-se que pelo menos dez, dos vinte e sete Mundos
Comerciais, se aliaram ao Mulo. Talvez mais dez outros. Há personalidades aqui mesmo em
Haven, que não se sentiriam infelizes sob o domínio do Mulo. Há aparentemente uma incrível
tentação para abandonar o perigoso poder político, se lhes prometer conservar os seus
negócios econômicos, acima de tudo.
- Você pensa que Haven pode derrotar o Mulo?
- Não penso que Haven lute. - E agora Randu virou a face perturbada para o
psicólogo: - Penso que Haven está aguardando a rendição. Foi por isso que o mandei chamar.
Mandei-o chamar para que saia de Haven.
Ebling Mis lançou uma baforada de fumo sorvendo as bochechas com espanto:
- Já?
Randu parecia horrorosamente cansado:
- Ebling, você é o maior psicólogo da Fundação. Os autênticos mestres psicólogos
desapareceram com Seldon, contudo você é o melhor que temos. Você é a nossa única
possibilidade de derrotar o Mulo. Você não pode ficar aqui, terá de ir para a parte que resta
do Império.
- Para Trantor?
- Isso mesmo. O que foi antigamente o Império está hoje com os ossos à mostra, mas
alguma coisa ainda deve persistir no centro. Eles levaram para lá os registros, Ebling. Você
pode instruir-se ainda mais em psicologia matemática, talvez com isso você seja capaz de
interpretar o cérebro do palhaço. Ele há de querer ir consigo, certamente.
Mis respondeu secamente:
- Duvido que ele esteja disposto a ir, devido ao medo que tem do Mulo, a não ser que
a sua sobrinha vá também com ele.
- Sei isso muito bem. Torã e Bayta vão sair daqui com você por essa única razão. E,
Ebling, há mais outro grande objetivo. Hari Seldon estabeleceu duas Fundações há três
séculos atrás, uma em cada extremidade da Galáxia. Você deve descobrir essa Segunda
Fundação.
CONSPIRADOR
O palácio do prefeito - o que fora outrora o palácio do prefeito - era uma grande
mancha avultada na escuridão. A cidade permanecia tranqüila sob o domínio dos
conquistadores e dos bajuladores que os serviam, e sob o branco indistinto das grandes
Nebulosas havendo aqui e ali uma estrela solitária, dominando o céu da Fundação.
Em três séculos a Fundação passara de um projeto particular de um pequeno grupo de
cientistas para um império comercial tentacular, estendendo-se profundamente pela Galáxia e
meio ano tinha-a arremessado das alturas para o estatuto de mais uma província conquistada.
O capitão Han Pritcher recusou-se a compreender isto.
A cidade soturna na noite tranqüila, o palácio escuro, ocupado pelos intrusos, eram
suficientemente simbólicos, mas o capitão Han Pritcher, mesmo dentro do portão exterior do
palácio, com a diminuta bomba atômica debaixo da língua, recusava-se a compreender.
Uma forma surgiu muito perto - o capitão inclinou a cabeça.
O sussurro assumiu um tom mortalmente baixo:
- O sistema de alarma é como sempre foi, capitão. Continue! Não registrará coisa
alguma.
Lentamente, o capitão mergulhou através da baixa passagem abobadada, e
encaminhou-se para o caminho marginado por fontes que fora o jardim de Indbur.
O dia do Cofre do Tempo verificara-se quatro meses atrás, e sua memória esbarrava
nesta recordação tão vivida. Singularmente e separadamente, as impressões voltavam a
aparecer, mal recebidas, sobretudo à noite.
O velho Seldon, pronunciando as suas benevolentes palavras que haviam sido tão
destruidoramente prejudiciais - provocando uma confusão indescritível - Indbur, com o seu
traje de prefeito incoerentemente brilhante sob a sua face contraída e inconsciente - as
multidões assustadas aglomerando-se rapidamente, esperando silenciosamente pela inevitável
palavra de ren¬dição - o jovem Torã, desaparecendo por uma porta lateral com o palhaço do
Mulo atravessado aos ombros.
E ele próprio, de algum modo fora de tudo, com seu carro que não funcionava.
Abrindo caminho com os ombros ao longo e através da turba dos chefes que estavam
abandonando a cidade - com destino desconhecido.
Precipitando-se cegamente para os vários espaços que eram - que sempre o foram - as
habitações de uma democracia subterrânea que durante oitenta anos, estivera em declínio e
dividindo-se. E os espaços estavam vazios.
No dia seguinte, naves pretas estrangeiras surgiram no céu mergulhando suavemente
no meio dos prédios muito compactos da cidade próxima. O capitão Han Pritcher fora
acumulando dentro de si uma enorme dose de desamparo e de desespero.
Pôs-se a viajar com paixão.
Em trinta dias cobrira trezentos quilômetros a pé, envergando o traje de um operário
de fábricas hidropônicas cujo corpo encontrara, morto há pouco, à margem de uma estrada, e
deixara crescer uma barba enorme e furiosamente avermelhada…
E descobriu que estava prestes a alcançar o subterrâneo.
A cidade chamava-se Newton, o bairro residencial era um daqueles que se
caracterizaram pela elegância suave que se levantava no meio da sujidade, a casa era a de um
membro anônimo de um motim, e o homem tinha olhos pequenos, um esqueleto amplo, e os
punhos fechados formavam um grande volume nos bolsos, enquanto o seu corpo vigoroso se
levantava imóvel à entrada da porta aberta. O capitão murmurou:
- Eu venho de Miran.
O homem devolveu o lance com ar carrancudo:
- Miran é cedo este ano.
O capitão replicou:
- Não tão cedo como no ano passado.
O homem não se afastou para o lado. Perguntou:
- Quem é você?
O capitão aspirou um imperceptível, mas longo hausto de ar, e explicou calmamente:
- Sou Han Pritcher, capitão da Esquadra, e membro do Partido Democrático
Subterrâneo. Poderá me deixar entrar?
O Raposo deu um passo para o lado. Informou:
- O meu verdadeiro nome é Orum Palley.
Estendeu-lhe a mão. O capitão apertou-a.
O aposento estava bem arrumado, mas não havia grande profusão de coisas. A um
canto levantava-se um decorativo projetor de livros, que aos olhos militarmente treinados do
capitão podia facilmente mostrar ser um desintegrador de respeitável calibre, devidamente
camuflado. As lentes de projeção ocultavam a porta de entrada, e o conjunto podia ser
controlado à distância.
O Raposa seguiu o olhar do hóspede barbudo, e sorriu fracamente. Disse:
- É isso mesmo! Mas só no tempo de Indbur e dos seus vampiros sem coração. Não
poderia fazer grande coisa contra o Mulo, não acha? Nada nos pode ajudar contra o Mulo.
Você está com fome?
Os músculos dos maxilares do capitão estavam tensos sob a barba, e meneou a
cabeça.
- Levará um minuto se você não puder esperar. - O Raposo tirou latas de um armário e
colocou duas diante do capitão Pritcher. - Meta os dedos lá dentro, e coma quando estiver
suficientemente quente. O meu controlador de calor está com defeito. São coisas como esta
que nos lembram que estamos em guerra - ou que estávamos.
Suas palavras rápidas tinham um tom jovial, mas só no que ele dizia havia esse tom
jovial - pois que os seus olhos estavam frios e pensativos. Sentou-se diante do capitão e disse:
- Não deve haver nada, porém posso prostá-to mesmo no local onde você está
sentado, se houver algo a seu respeito de que eu não goste. Sabe disso?
O capitão não respondeu. As latas de conservas diante dele abriram-se com uma leve
pressão. O Raposo disse, concisamente:
- Cozido! Desculpe, realmente estamos com falta de alimentos.
- Eu sei - respondeu o capitão. Pôs-se a comer rapidamente, sem levantar a cabeça. O
Raposo continuou:
- Lembro-me de já tê-lo visto. Tento lembrar-me, porém a barba está definitivamente
atrapalhando.
- Não fiz a barba nos últimos trinta dias. - Acrescentou depois, vio¬lentamente: - O
que é que você deseja? Tenho a senha combinada e tenho a identificação.
O outro estendeu uma mão:
- Oh! Eu admito que você se chame Pritcher. Mas há muitos que conhecem inclusive a
senha, possuem identificações e a identidade - e que estão com o Mulo. Já ouviu falar de
Lewaw, hein?
- Ouvi.
- Está com o Mulo.
- O que? Ele…
- Sim. Era o homem a quem eles chamavam “Contra a Rendição”. - Os lábios do
Raposo agitaram-se com movimentos de riso, mas houve neles nem som nem humor. - Também
sucede o mesmo com Willig. Com o Mulo! Garre e Noth. Com o Mulo! Por que é que Pritcher
não havia de estar também na mesma? De onde é que eu poderia saber?
O capitão limitou-se a menear a cabeça.
- Mas o problema não é esse - insistiu o Raposo baixinho. - Eles devem saber o meu
nome, já que o Noth está a serviço deles - por isso se você está em ordem, estamos em pior
situação daquela que corri nos últimos tempos, desde que demos pelas suas naves.
O capitão tinha acabado de comer. Recostou-se:
- Se vocês não têm organização aqui, onde é que poderei encontrar? A Fundação pode
ter-se rendido, mas eu não.
- Ora! Você não pode vadiar muito, capitão. Os homens da Fundação são obrigados a
ter autorizações de viagem para se deslocarem de cidade para cidade. Sabe o que é? E
também carteiras de identidade. Tem alguma? E acontece ainda que todos os oficiais da antiga
Armada foram intimados a apresentarem-se nos quartéis mais próximos dos ocupantes. Isto é
com você?
- É, sim. - A voz do capitão era seca. - Mas posso deslocar-me através do medo. Eu
estava em Kalgan pouco tempo antes de eles serem vencidos pelo Mulo. Dali a um mês,
nenhum dos antigos oficiais do condestável estava em liberdade, visto serem os condutores
naturais de qualquer revolta. O movimento subterrâneo soube sempre que nenhuma revolução
pode triunfar sem controle de pelo menos, parte da Armada. É evidente que o Mulo também
sabe isto.
O Raposo meneou a cabeça pensativamente:
- Bastante lógico. O Mulo é perfeito.
- Descartei-me do uniforme logo que pude. Deixei crescer a barba. Afinal de contas
pode ser que tenha havido outros que tenham feito a mesma coisa.
- Você é casado?
- Minha mulher morreu. Não tenho filhos.
- Nesse caso você não tem reféns possíveis.
- Nenhum.
- Quer a minha opinião?
- No caso de ter alguma.
- Não sei qual é a política do Mulo ou o que é que ele pretende, porém os operários
qualificados não foram prejudicados, até agora. Têm-lhes pago os salários, por enquanto. Está
aumentando a produção de toda espécie de armas atômicas.
- Sim? Isso dá idéia de que se trata de uma ofensiva contínua.
- Não sei. O Mulo é um sutil filho de uma cadela, e pode estar apenas procurando
reduzir os operários à submissão. Se Seldon não foi capaz de imaginar o seu aparecimento,
com toda a sua psicohistória, não serei eu que vou me matar tentando fazê-lo. Mas você já traz
roupas de trabalho. Isso sugere alguma coisa.
- Não sou um operário qualificado.
- Você tem um curso militar atômico, não tem?
- Certamente.
- Isso chega. A Produtora de Escudos Atômicos, Ltda., está localizada na cidade.
Diga-lhes que tem alguma experiência. Essa gente que garantia a Indbur o funcionamento da
fábrica também lá ficou trabalhando - agora para o Mulo. Não fazem perguntas, enquanto
precisarem de mais operários para fabricar suas drogas. Entregam-lhe um cartão de identidade
e você pode pedir um quarto no dormitório da Corporação do bairro. E pode começar agora o
trabalho.
Desta forma o capitão Han Pritcher, da Esquadra Nacional, tornou-se o operário
especialista de escudos Lo Moro da 45ª Fábrica Produtora de Escudos Atômicos, Ltda. E de
agente da Inteligência, desceu na escala social para “conspirador” - uma designação que o
levou meses depois a penetrar naquilo que fora o jardim particular de Indbur.
No jardim, o capitão Pritcher consultou o radômetro na palma da mão. O escudo
interno de precaução ainda estava funcionando, e ele esperou. Durante meia hora ficou ali,
preso à bomba atômica que havia em sua boca. Ia-a rolando escrupulosamente com a língua.
O radômetro desligou numa escuridão nefasta e o capitão avançou rapidamente. Até
aqui, tudo tinha corrido bem.
Refletiu objetivamente que a existência da bomba atômica era também uma coisa
perfeita, que a sua morte era a sua morte - mas também a morte do Mulo. E assim alcançaria o
clímax de uma guerra particular que vinha sustentando há quatro meses, uma guerra que
passara brevemente através de uma fábrica de Newton…
Durante dois meses o capitão Pritcher usara avental de chumbo e pesadas máscaras,
até que todas as suas características atitudes militares tivessem perdido todas as arestas
exteriores. Era um operário, recebia o seu salário, gastava as noites na cidade, e nunca
discutia política.
E então, um dia, um homem tropeçou ao passar pela sua bancada e meteu-lhe um
pedaço de papel no bolso. Havia nele a palavra “Raposo”. Lançou-o na câmara atômica, onde
se desintegrou com um tênue silvo, emitindo a energia através de um milimicrovóltio - e
voltou para o seu trabalho.
Fora essa noite à casa do Raposo, e participou de uma partida de cartas com mais
dois homens que conhecia de reputação e outro que conhecia de nome e de vista. Enquanto as
cartas iam passando e repassando de uns para os outros puseram-se a falar. O capitão disse:
- Trata-se de um erro fundamental. Vocês estão vivendo num passado que desapareceu
de todo. Durante oitenta anos a nossa organização tem vivido à espera do momento histórico
indicado. Deixamo-nos cegar pela psicohistória de Seldon, uma das primeiras proposições da
qual era que as ações individuais de nada valem, que não fazem história, e que os complexos
fatores sociais e econômicos passam por cima deles, transformando esses atores individuais
em fantoches. - Reuniu cuidadosamente suas cartas, avaliou o seu valor e disse, quando fazia
uma jogada: - Por que não matamos o Mulo?
- Ora bem, e qual seria o resultado útil que se tiraria de uma ação desse tipo? -
perguntou o homem à sua esquerda, violentamente.
- Ora veja - disse o capitão, descarregando duas cartas - a atitude a tomar. Trata-se de
um homem - entre trilhões. A Galáxia não irá deixar de girar pelo fato de ter morrido um
homem. Mas o Mulo não é um homem, é um Mutante. Ele já transtornou o plano de Seldon, e
se analisarem todas as implicações, parece que - um homem - um mutante - perturba a
totalidade da psicohistória de Seldon. Se ele nunca tivesse vivido, a Fundação não teria
desabado. Se ele deixasse de viver, ela deixaria de estar arrasada.
- Vamos ver: os democratas combateram os prefeitos e os comerciantes durante oitenta
anos, graças à dissimulação. Trata-se de experimentar o assassínio.
- Agora? - interpôs o Raposo com frio senso comum. O capitão replicou,
vagarosamente:
- Gastei três meses raciocinando na solução mais indicada para o caso. Cheguei aqui e
encontro-a em cinco minutos. - Olhou rapidamente para o homem cuja face larga e rosada
sorria do lugar onde estava: - Você antigamente foi camareiro do prefeito Indbur, e não me
lembro de que você pertencia ao subterrâneo.
- Nem eu, se quer que lhe diga. Bem, nessa casa, nas suas atribuições de camareiro,
você verificava periodicamente o funcionamento do sistema de alarma do palácio.
- Verificava.
- E o Mulo está agora ocupando o palácio.
- Foi isso que se anunciou - todavia ele é um conquistador modesto que não gosta de
discursos, nem de proclamações, nem de aparições em público, de qualquer natureza que
sejam.
- Isso é uma velha história, e em nada nos afeta. Você, meu ex-camareiro, sabe bem
aquilo que precisamos.
As cartas terminaram e o Raposo recolheu as apostas. Lentamente, deu novas cartas. O
homem que fora antigamente camareiro foi o único a levantar as cartas.
- Desculpe, capitão, eu verificava o sistema de alarma, porém tratava-se de uma
rotina. Não sei nada sobre ele.
- Espero que, se o seu espírito mantiver uma memória eidética dos controles,
possamos sondá-la com a profundidade suficiente, servindo-nos de uma sonda psíquica.
A face rubra do camareiro empalideceu subitamente e descaiu. As cartas que tinha à
mão estremeceram com a repentina contração dos punhos:
- Uma sonda psíquica?
- Você não sentirá dor nenhuma - disse o capitão, secamente. - Sei como é que se deve
usá-la. Não haverá mal nenhum se passar por uns dias de fraqueza. E se o fizer, é uma
possibilidade que aceita e pela qual terá de pagar o seu preço. Há alguns entre nós, tenho
certeza disso, que a partir dos controles do alarma poderão determinar as combinações do
comprimento das ondas. Há alguns entre nós que podem manufaturar uma pequena bomba
controlada por relógio e eu próprio irei levá-la para dentro da casa do Mulo.
Os homens juntaram-se por cima da mesa. O capitão continuou:
- Numa noite previamente determinada estalará uma desordem na cidade de Terminus,
nas vizinhanças do palácio. Não será uma verdadeira revolução. Um distúrbio… e depois toca
a andar. Logo que a guarda do palácio for atraída… ou, e isso será o mínimo a conseguir,
distraída…
Os preparativos duraram um mês a partir desse dia, e o capitão Han Pritcher, da
Esquadra Nacional, que começara como conspirador, desceu mais ainda na escala social e
tornou-se “assassino”.
O capitão Han Pritcher, assassino, estava no próprio palácio, e descobriu que estava
sombriamente satisfeito com a sua psicologia. Um completo sistema de alarma exterior
significava poucos guardas no interior. Neste caso, queria dizer nenhum.
A planta do pavimento estava nítida no seu espírito. Ele era apenas uma protuberância
mo vendo-se silenciosamente ao longo da rampa bem atapetada. Mais adiante, encostou-se à
parede e aguardou. Tinha diante dele a pequena porta fechada de um aposento particular. Atrás
daquela porta devia estar o mutante que vencera os invencíveis. Era cedo - a bomba ainda
tinha dez minutos de vida dentro dela.
Passaram cinco minutos e não se ouvia um único som em todo o mundo. O Mulo tinha
cinco minutos para viver… e os mesmos tinha o capitão Pritcher…
Lançou-se para diante num súbito impulso. O plano já não corria o risco de falhar.
Quando a bomba explodisse, o palácio explodiria também com ele… o palácio inteiro. Havia
uma porta entre eles - trinta centímetros entre eles: não era nada. Mas ele desejava ver como é
que o Mulo e ele iriam morrer ao mesmo tempo.
Por fim, com um gesto insolente, precipitou-se fulminante para a porta…
Abriu-a e ficou cego com a luz ofuscante.
O capitão Pritcher cambaleou, depois do que conseguiu dominar-se. O homem grave
que estava de pé, a meio do pequeno aposento, diante de um aquário suspenso, fitou-o
friamente.
O seu uniforme era de um preto sombrio, e como ele batesse no aquário com gesto
ausente, este oscilou rapidamente e um peixe, com uma cor vivamente laranja e vermelhão,
pulou de dentro.
Disse:
- Entre, capitão!
A língua do capitão estremecia com o pequeno globo de metal que criava debaixo dela
um relevo detestável - o que significa a impossibilidade física de falar, como muito bem sabia
o capitão. Eram os seus últimos minutos de vida.
O homem fardado continuou:
- Você agiria melhor se jogasse fora essa ridícula bola e ficasse com a boca livre para
falar. Não se desintegrará.
Os minutos iam passando e com um movimento vagaroso e úmido o capitão inclinou a
cabeça e cuspiu o globo prateado para a palma da mão. Atirou-o contra a parede com uma
força furiosa. Ressaltou com um clarão breve e seco, rolando inofensivamente para o chão. O
homem fardado encolheu os ombros:
- Tanto trabalho para chegar a este resultado. Fosse como fosse, não teria dado bom
resultado, capitão. Eu não sou o Mulo. Você teria de se satisfazer com o seu vice-rei.
- Como é que você conseguiu saber? - murmurou o capitão, rouca-mente.
- A responsabilidade pertence a um sistema eficiente de contra-espionagem. Posso
citar-lhe o nome de todos os membros do seu pequeno grupo, todas as particularidades do
plano…
- E deixou que isto fosse adiante?
- Por que não? Um dos meus grandes objetivos era acabar com você e com alguns
outros. Particularmente com você. Já podia tê-lo em meu poder há alguns meses, quando
estava trabalhando na Fábrica de Escudos de Newton Mas assim é melhor. Se você não
tivesse indicado as várias linhas do plano, um dos meus próprios homens havia de sugerir
qualquer coisa parecida, para você fazer. O resultado é absolutamente dramático e um tanto
humorístico.
Os olhos do capitão estavam secos:
- Pronto, tudo acabou aqui. Não tem mais nada a dizer-me?
- Estou começando agora. Vamos, capitão, sente-se. Deixe essa atitude heróica para os
idiotas que se impressionam com isso. Capitão, você é um bom rapaz. De acordo com as
informações que tenho em meu poder, foi você o primeiro a reconhecer o poder do Mulo.
Desde então você tem-se interessado pessoalmente, algum tanto ousadamente, pela vida
anterior do Mulo. Você foi um daqueles que andaram com o seu palhaço, o qual,
incidentalmente, ainda não foi encontrado e por isso você será integralmente pago.
Naturalmente, a sua habilidade é reconhecida e o Mulo não é um daqueles que têm medo da
habilidade dos seus inimigos, quando tem possibilidade de convertê-la na habilidade de um
novo amigo.
- É isso que me está propondo? Oh, não!
- Oh, sim! Era esse objetivo da comédia desta noite. Você é um homem inteligente,
embora suas pequenas conspirações contra o Mulo venham a terminar em comédias. Você
pode apenas dignificar essa sua atividade com o nome de conspiração. Fez parte do seu treino
militar o comando de naves desintegradoras em ações de desespero?
- Uma pessoa deve admitir primeiro que não tem esperança.
- Assim será - garantiu o vice-rei, delicadamente. - O Mulo conquistou a Fundação.
Está transformando-a rapidamente num arsenal para consecução dos seus grandes fins.
- Que grandes fins?
- A conquista de toda a Galáxia. A reunião de todos os mundos demolidos num novo
Império. A realização, seu engenhoso e desanimado patriota, do próprio sonho de Seldon,
setecentos anos antes de chegar ao termo do prazo por ele idealizado. E você pode ajudar-nos
nessa obra.
- Posso, sem dúvida nenhuma. Mas não quero, sem dúvida nenhuma.
- Tenho conhecimento - comentou o vice-rei - de que só resistem ainda três Mundos
Comerciais Independentes. Não resistirão durante muito tempo. Serão as últimas forças da
Fundação a desaparecer. Você ainda continua.
- Continuo.
- Todavia você não ganhará. Fazer um recrutamento voluntário é o meio mais
eficiente. Mas fazê-lo de outra forma também dará resultado. Desgraçadamente, o Mulo está
ausente. Está lutando, como sempre, contra os Comerciantes que ainda resistem. Mas está em
contínuo contato conosco. Você não terá que esperar muito tempo.
- Para que?
- Para conversar com ele.
- O Mulo - disse o capitão, friamente - descobrirá que há coisas que estão além da sua
habilidade.
- Porém ele não perde. Eu também julgava que lhe podia resistir. Você não me
reconhece? Ora vamos, você estava em Kalgan, por isso deve ter me visto. Eu usava
monóculo, uma túnica púrpura de corte severo, uma coroa alta…
O capitão murmurou aterrado:
- Você era o condestável de Kalgan.
- Isso mesmo. E agora sou o leal vice-rei do Mulo. Como vê, ele é persuasivo.
INTERLÚDIO NO ESPAÇO

O bloqueio continuava a apertar-se gradualmente. No vasto vazio do espaço, nem


todas as naves que ainda existiam podiam dirigir-se para os seus postos de abrigo, mesmo a
pouca distância. Para isso exigia-se uma nave esmeradamente construída, um piloto destro,
uma dose moderada de sorte, e espaços abertos para conseguir passar.
Com os olhos friamente calmos, Torã conduzia uma nave que não acei¬tava submeter-se à
situação reinante, dirigindo-se da vizinhança de uma estrela para junto de outra. Se a
vizinhança da grande massa tornava difíceis e irregulares os saltos interestelares, tornava
também impossível, ou quase, a utilização dos instrumentos inimigos de detecção.
E uma vez ultrapassada a cintura de naves, penetrou na esfera inferior do espaço
morto, através de cujo subéter bloqueado não era possível emitir nenhuma mensagem, e a
viagem fez-se perfeitamente bem. Pela primeira vez, em três meses. Torã sentiu que rompera o
isolamento.
Passou-se uma semana antes que os novos programas estúpidos e auto-laudatórios,
divulgados pelo inimigo, dissessem mais alguma coisa do que os pormenores do controle
crescente que ia assumindo sobre a Fundação. Foi uma semana em que a nave comercial
blindada de Torã passou rapidamente por dentro e por fora da Periferia, com violentos saltos.
Ebling Mis penetrou na cabina de pilotagem e Torã levantou a cabeça, piscando os
olhos, de cima das suas cartas.
- Que assunto o traz aqui? - Torã encaminhou-se para a pequena câmara central que
Bayta tinha inevitavelmente transformado em sala de estar.
Mis puxou uma cadeira:
- As estrelas que me façam cócegas. Os jornalistas do Mulo estão anunciando um
boletim especial. Pensei que talvez você desejasse que o ouvisse aqui, a seu lado.
- E fez muito bem. Onde é que está Bayta?
- Sentada à mesa da sala de jantar guardando os restos do cardápio - ou coisa que o
valha.
Torã sentou-se na lona que servia de cama ao Magnífico e esperou. A propaganda
rotineira dos “boletins especiais” do Mulo apresentava sempre a mesma monotonia. Primeiro
vinha a música marcial, após o que se seguia a melíflua brandura do anunciador. Apareciam
os assuntos menos importantes, que abriam caminho para outros, marcando passo. Depois
havia uma pausa. Vinham as trombetas e a crescente excitação e o clímax.
Torã suportou tudo isto. Mis pôs-se a resmungar consigo mesmo.
O leitor das notícias pronunciou, observando uma fraseologia convencional de
correspondente de guerra, as untuosas palavras que transformavam em som o metal fundido e a
carne desintegrada de uma batalha no espaço.
- Os esquadrões rápidos, sob as ordens do tenente-general Sammin, bateram hoje
duramente as forças que procuravam atacá-lo em iss… - A face cuidadosamente inexpressiva
do locutor desapareceu da tela, sumindo gradualmente, para se transformar na escuridão de um
espaço onde fileiras de naves ziguezagueavam rapidamente, através do vácuo, travando uma
batalha implacável. A voz continuou pelo meio da insondável trovoada… - A mais espantosa
ação da batalha foi o combate marginal entre o cruzador-pesado Cluster e três naves inimigas
da classe “Nova”…
O panorama da tela mudou e definiu-se. Uma grande nave faiscou e um dos frenéticos
atacantes reluziu furiosamente, girou em torno do foco, voltou para trás e tornou ao ataque. O
Cluster descreveu uma curva impetuosa e surgiu a proa cintilante, que destruiu aos atacantes,
dando uma volta com ponderação.
O afável e desapaixonado locutor continuou a informar com uma dicção calma, depois
da desaparição da última proa e do último destroço.
Houve, então, uma pausa, aparecendo depois uma imagem e uma voz largamente
parecidas com as do combate travado em Mnemon, para que a notícia fosse acrescentada com
uma pormenorizada descrição de um território observado do ar - a imagem de uma cidade
desintegrada - confusão e prisioneiros de guerra - e depois voltou a afastar-se. Mnemon já não
tinha muito tempo de vida.
Mais uma pausa e desta vez o som rouco dos esperados desaforos. A tela encadeou
lentamente por um corredor comprido e impressionantemente cheio de soldados alinhados
onde penetrou rapidamente o informador do governo, vestindo uma farda de membro do
Conselho de Estado. O silêncio era opressivo.
A voz que finalmente se ouviu era solene, vagarosa e enxuta:
- Por ordem do nosso soberano, anuncia-se que o planeta Haven, até aqui em pé de
guerra por seu desejo, foi submetido e aceitou a derrota. Neste momento as forças do nosso
soberano estão ocupando o planeta. A oposição foi dispersa, descoordenada e rapidamente
esmagada.
A cena voltou a desaparecer, regressando o primeiro locutor para participar, com
grande pompa, que seriam noticiados outros acontecimentos logo que ocorressem. Ouviu-se
então música de dança, e Ebling Mis girou o campo que cortava a corrente.
Torã corou e deu uns passos irresolutos, sem uma palavra. O psicólogo não deu um
passo para detê-lo. Quando Bayta apareceu, vinda da cozinha, Mis continuava em silêncio.
Disse:
- Eles ocuparam Haven.
E Bayta perguntou:
- Já? - Os seus olhos estavam arregalados e havia neles uma certa descrença.
- Sem uma batalha. Sem um inconcebí… - Deteve-se e engoliu em seco. - É melhor
você ir ter com Torã. Isto não foi nada agradável para ele. Calculo que desta vez vamos ter de
comer sem ele.
Bayta olhou na direção da cabina de pilotagem, depois do que se virou
desanimadamente:
- Muito bem!
Magnífico estava sentado à mesa, sem dar notícia do que acontecera. Não falou nem
comeu, limitando-se a olhar fixamente para diante dele com um terror concentrado que parecia
tirar-lhe toda a vitalidade do seu corpo esguio.
Ebling Mis puxou, com ar ausente, sua sobremesa de frutos gelados e disse,
secamente:
- Dois mundos comerciais lutaram. Lutaram, foram derrotados, e morreram e não se
renderam… Só Haven… Exatamente como sucedeu com a Fundação…
- Mas por quê?
O psicólogo meneou a cabeça:
- Isto forma uma peça indissolúvel com a totalidade do problema. Todas as facetas
excêntricas fazem uma alusão direta à natureza do Mulo. Primeiro, o problema referente à
maneira como ele pôde conquistar a Fundação, com pouco derramamento de sangue e
basicamente com um único golpe, enquanto os Mundos Comerciais Independentes resistiam.
As imobilizações das reações atômicas eram uma arma de pequeno alcance - já discutimos
isto de fio a pavio até ficarmos doentes - e o trabalho foi feito inteiramente pela Fundação.
Randu sugeriu - e as sobrancelhas espessas de Ebling contraíram-se até se unirem -
que podia ter sido um Controle-Depressor de irradiação.
- É possível que tenha sido isso que fez o trabalho em Haven. Mas, nesse caso, por
que é que não foi utilizado em Mnemon e em Iss - que ainda agora continuam a combater com
intensidade verdadeiramente demoníaca, obrigando a utilizar metade de esquadra da Fundação
acrescentada às forças do Mulo para derrotá-los? Pois, reconheci as naves da Fundação no
ataque.
Bayta sussurrou.
- A Fundação, agora Haven. O desastre parece roçar por nós, sem nos tocar.
Escapamos sempre por um fio. Será esta a última vez?
Ebling Mis não estava ouvindo. Estava meditando consigo mesmo um outro ponto:
- Mas há outro problema… outro problema, Bayta, você se lembra daquelas notícias
dizendo que o palhaço do Mulo não fora encontrado em Terminus, que se desconfiava que se
pusera a caminho de Haven, ou que então fora capturado pelos seus primeiros raptores? Há
qualquer coisa que lhe está ligado, Bayta e que não desapareceu, e que nós ainda não nos
incomodamos em localizar o que possa ser. O Magnífico deve saber alguma coisa que é fatal
para o Mulo. Tenho certeza disso.
Magnífico, lívido e gaguejante, protestou:
- Senhor… nobre senhor… na verdade, juro que tenho ocupado meu pobre espírito em
dar satisfação a todos os seus desejos. Contei-lhe tudo aquilo que sabia até os mais íntimos
pormenores, e com a sua sonda o senhor teria extraído do meu pobre espírito qualquer outra
coisa que sei, mas que não sei que sei.
- Bem sei… bem sei. É uma coisa qualquer muito pequena. Uma sugestão tão pequena
que nem você nem eu conseguimos saber o que possa ser. Tenho, todavia, a impressão de que
acabarei por descobrir o que é… pois Mnemon e Iss acabarão por ser derrotados, e quando
assim acontecer, nós seremos os derradeiros remanescentes, os últimos detritos da Fundação
independente.
As estrelas começaram a amontoar-se apertadamente quando penetraram no âmago da
Galáxia. Começaram a sobrepor-se campos gravitacionais com intensidade suficiente para
introduzir perturbações num salto interestelar que não pode ser iniciado.
Torã ficou ciente disto quando um salto atirou sua nave em cheio para dentro do fulgor
de uma gigante vermelha que cintilou viciosamente e que perdera a sua capacidade de atração,
pelo que conseguiu afastar-se para o lado, porém só depois de doze horas sem dormir,
atordoado de choques.
Com mapas restritos ao raio de ação e uma experiência que ainda não estava
totalmente desenvolvida, tanto operacional como matematicamente, Torã resignou-se a passar
dias ocupados no cuidadoso levantamento de plantas sempre que os saltos lhe permitiam.
Iniciou-se, assim, um esboço em comunidade. Ebling Mis colaborava nas observações
matemáticas de Torã e Bayta fazia testes a respeito dos possíveis percursos, servindo-se dos
vários métodos generalizados, procurando soluções aplicáveis na prática. Até Magnífico se
atirava ao trabalho na máquina de calcular, fazendo computações rotineiras, um tipo de
trabalho que, uma vez explicado, era uma fonte de grande divertimento para ele, ao mesmo
tempo que se revelava extremamente eficiente.
Pelo que, decorrido um mês ou quase, Bayta estava em condições de vigiar a linha
vermelha que abria o caminho serpeando através do modelo de nave trimensional, em plena
Via-láctea, a meio caminho do seu centro, e comentou com prazer satírico:
- Sabe com que é que isto se parece muito? Parece-se com um verme terrestre de três
metros, atormentado por uma indigestão. Finalmente, é bem capaz de nos levar outra vez para
Haven.
- Sou capaz, sim - resmungou Torã, com um farfalhar irritado de seu mapa - se não se
calar.
- E no meio disto tudo - continuou Bayta - talvez exista um caminho que vá direto pelo
meio, reto como um meridiano de longitude.
- Sim? Bem, em primeiro lugar, minha obscura pensadora, são provavelmente
necessárias quinhentas naves, durante quinhentos anos, para estudar esta rota com todos os
seus pontos de referência, e os meus míseros mapas de meia pataca não me ajudam nada.
Além disso, talvez essas rotas em linha reta não sejam uma boa coisa para escapar. Eles,
provavelmente, entupiram-nas com as suas naves. E além disso…
- Oh, pela consideração que a Galáxia lhe merece, pare de andar para diante e para
trás com sua indignação virtuosa. - E levantou as mãos ao ar.
Ele gritou:
- Está bem! Vamos embora! - E pegou-lhe nos pulsos e puxou-a para baixo, pelo que
Torã, Bayta e cadeira formaram um trio emaranhado no chão. Transformaram-se numa luta
arquejante e rastejante, formada sobretudo por risos sufocados e vários golpes desferidos em
brincadeira. Torã abandonou imediatamente a brincadeira diante da entrada esbaforida de
Magnífico.
- O que é?
As rugas de ansiedade tornavam o rosto do palhaço mais comprido e enrugavam-lhe a
pele, de forma esbranquiçada, por cima da enorme ponte que era o seu nariz:
- Os instrumentos estão se comportando de maneira muito esquisita, senhor. Como
conheço a minha ignorância, não toquei em coisa alguma…
Em dois segundos, Torã encontrou-se na cabina de pilotagem. Disse tranqüilamente
para Magnífico:
- Vá chamar Ebling Mis. Preciso dele junto de mim.
Disse a Bayta, que tentava pôr um pouco de ordem nos cabelos, servindo-se para isso
dos dedos:
- Fomos detectados, Bay.
- Detectados? - E os braços de Bayta caíram: - Por quem?
- A Galáxia o sabe - resmungou Torã - porém imagino que por alguém com
desintegradores já alinhados e apontados.
Sentou-se e já estava enviando para o subéter, em voz baixa, o código de identificação
da nave. E quando Ebling Mis entrou, com um roupão de banho e os olhos remelosos, Torã
informou com uma calma desesperada:
- Parece que adentramos as fronteiras de um Reino local interior que se chama
Autarquia de Filia.
- Nunca ouvi falar dele - disse Mis, abruptamente.
- Bem, nem eu - replicou Torã - mas estamos sendo detidos por uma nave filiana agora
mesmo, e não sei quais as conseqüências que isso envolve.
O capitão-inspetor da nave filiana entrou a bordo com seis homens armados atrás
dele. Era pequeno, tinha cabelo ralo, lábios pequenos e pele seca. Tossiu asperamente quando
se sentou e abriu o livro que trazia debaixo do braço, numa página em branco.
- Os seus passaportes e o certificado de alfândega da nave, por favor.
- Não temos nada disso - respondeu Torã.
- Nada, hein? - E pegou um microfone que trazia suspenso ao pescoço e falou
rapidamente no bocal: - Três homens e uma mulher. Os documentos não estão em ordem. - E
tomou uma nota semelhante no livro.
Perguntou:
- De onde é que vocês vêm?
- Siwena - respondeu Torã cautelosamente.
- Onde fica isso?
- A trezentos mil anos-luz, oitenta graus a oeste de Trantor, quarenta graus…
- Não vale a pena, não vale a pena! - Torã podia ver o seu interrogador escrever no
livro: “Ponto de origem - Periferia”.
O filiano continuou:
- Para onde é que vão?
Torã respondeu:
- Setor de Trantor.
- Objetivo?
- Viagem de recreio.
- Levam alguma carga?
- Não.
- Hum-m-m. Bem, verifiquem-me isto. - Fez um aceno, e dois homens puseram-se logo
em atividade, Torã não fez um movimento para interferir.
- O que foi que os trouxe ao território de Filia?
Os olhos do filiano brilharam sem amizade.
- Não sabíamos onde estávamos. Tenho falta de um mapa em condições.
- Você vai ser obrigado a pagar cem créditos por essa falta… e, claro, as importâncias
habituais exigidas para pagamento dos direitos alfandegários, etc. - Voltou a falar ao
microfone - mas desta vez ouviu mais do que falou. Então, para Torã:
- Sabe alguma coisa a respeito de tecnologia atômica?
- Alguma coisa - replicou Torã, pondo-se na defensiva.
- Sim? - O filiano fechou o livro e acrescentou - Os homens da periferia têm uma
sólida reputação de conhecerem coisas. Traga uma roupa de trabalho e venha comigo.
Bayta foi atrás deles:
- O que é que vocês vão fazer com ele?
Torã afastou-a delicadamente para o lado, e perguntou friamente:
- Onde é que você deseja ir comigo?
- As nossas instalações de produção de energia precisam de uns acertos de pouca
importância. Aquele terá de vir consigo. - E o seu dedo apontado mostrava diretamente
Magnífico, cujos olhos castanhos estavam abertos e úmidos por um choro de medo.
- O que é que vocês pretendem fazer com ele? - perguntou Torã violentamente.
O oficial fitou-o com frieza:
- Estou informado de atividades piratas nestas vizinhanças. A descrição de um desses
ladrões conhecidos condiz mais ou menos com ele. Trata-se de uma forma rotineira de
identificação.
Torã hesitou, mas seis homens e seis desintegradores são argumentos eloqüentes.
Abriu o armário para apanhar a roupa. Uma hora depois subiu verticalmente do interior da
nave filiana e esbravejou :
- Não há nada desarranjado nos motores que eu seja capaz de ver. Os cátodos são
autênticos, os tubos L estão corretamente alimentados e as resistências das análises são
perfeitas. Quem é que está encarregado disto?
O engenheiro-chefe respondeu tranqüilamente:
- Eu.
- Bem, leve-me daqui para fora.
Levaram-no para a zona dos oficiais e para a pequena antecâmara onde só havia um
indiferente guarda-bandeira.
- Onde está o homem que veio comigo?
- Espere, por favor - respondeu o guarda-bandeira.
Quinze minutos depois o Magnífico foi conduzido para ali.
- O que é que eles lhe fizeram? - perguntou Torã rapidamente.
- Nada. Nada mesmo. - Magnífico meneou a cabeça numa negação vagarosa.
Pagou duzentos e cinqüenta créditos para satisfazer as exigências de Filia - cinqüenta
créditos pela sua libertação imediata - e voltaram a estar outras vez livres no espaço. Bayta
disse com um sorriso forçado:
- Não mandaram uma escolta atrás de nós? Não nos deram os habituais pontapés para
nos pôr fora da fronteira.
E Torã replicou, carrancudamente:
- Não se tratava de um barco filiano… e não fomos abandonados por enquanto.
Cheguem aqui.
Eles comprimiram-se à sua volta. Ele disse, claramente:
- Essa era uma nave da Fundação e os homens que estavam a bordo eram os do Mulo.
Ebling inclinou-se para apanhar o charuto que tinha deixado cair. Observou:
- Aqui? Mas estamos a noventa mil anos-luz da Fundação.
- E nós também estamos aqui. O que é que os impede de fazerem a mesma coisa?
Galáxia, Ebling, você não se vai pôr a pensar que somos uma nave excepcional? Vi as
máquinas deles, e isso é suficiente para mim. Digo-lhes que era um motor da Fundação, numa
nave da Fundação.
- O que é que eles andam fazendo por aqui? - perguntou Bayta, com lógica - Quais são
as possibilidades de se verificar um encontro ocasional de duas naves circulando no espaço?
- Mas o que é que isso tem de importante? - perguntou Torã, fogosamente. - Ele deve
ter nos seguido.
- Seguido? - gritou Bayta. - Através do hiperespaço?
Ebling Mis interpôs-se cansadamente:
- Pode-se fazer isso, desde que se disponha de uma boa nave e de um grande piloto.
Porém a possibilidade não me impressiona.
- Eu não tenho dissimulado minha rota - insistiu Torã. - Percorri-a em velocidade
média e em linha reta. Um homem cego podia calcular a nossa reta.
- O diabo se podia — exclamou Bayta. - Com os saltos amalucados que você deu,
observando a nossa direção inicial, não há possibilidade de nos seguir. Nós saímos do salto
numa direção errada mais de uma vez.
- Estamos perdendo tempo - explodiu Torã, com um ranger de dentes, - Trata-se de
uma nave da Fundação tripulada por homens do Mulo. Mandou-nos parar. Revistou-nos. Tinha
Magnífico - só - comigo, como refém, para poder garantir que vocês ficariam tranqüilos, em
caso de haver desconfiança. E estivemos prestes a ser liquidados no espaço há pouco.
- Vamos ver agora - e Ebling Mis agarrou-o. - Você vai agora destruir-nos por causa
de uma nave que julga pertencer ao inimigo? Pense, homem, aqueles estúpidos andam atrás de
nós, seguindo uma rota impossível, através da parte da Galáxia que é desconhecida,
conseguem localizar-nos e depois deixam-nos ir embora?
- Eles estão, porém, vendo para onde vamos.
- Nesse caso por que é que nos mandaram parar e nos deixaram continuar sob nossa
responsabilidade? Você não pode coadunar as duas formas de ver, como sabe.
- Eu seguirei a minha maneira de encarar. Deixe-me em paz, Ebling, ou então devo
mandá-lo dar o fora.
Magnífico saltou do seu pouso oscilante, na sua cadeira de balanço favorita. As suas
grandes narinas tremiam com excitação:
- Peço-lhes que perdoem interrompê-los, porém senti a minha pobre mente
repentinamente preocupada com um pensamento estranho.
Bayta antecipou-se ao gesto de enfado de Torã, e estendeu a mão para Ebling:
- Coragem, Magnífico, e fale. Estamos ouvindo-o com sinceridade.
Magnífico disse:
- Durante a minha estadia na nave deles, que estava repleta de engenhos, senti-
me.assombrado e distraído pela tagarelice daquela gente toda e pelo medo que tive. Na
verdade, não me lembro de muita coisa que me aconteceu. Muitos homens olharam para mim e
falaram comigo, e eu não os compreendi. Mas no meio dos últimos, tal como o fulgor de um
raio de sol consegue romper através de uma cobertura entre as nuvens, havia uma cara que eu
conheci. Foi um relâmpago, apenas um simples vislumbre e logo ficou gravada na minha
memória de maneira firme e brilhante.
Torã perguntou:
- Quem era ele?
- O capitão que estava conosco há muito tempo, quando você me livrou da primeira
vez da escravidão.
Fora intenção óbvia de Magnífico causar sensação e o deliciado sorriso que se
desenhou largamente na sombra de seu enorme nariz, atestava que a conseguira realizar com
êxito.
- O capitão… Han… Pritcher? - perguntou Mis, asperamente. - Tem certeza de que
será ele? Está completamente seguro?
- Juro, senhor - e pôs a mão de fraca ossatura em cima do peito apertado. - Eu seria
capaz de afirmar a verdade do que estou dizendo, mesmo diante do Mulo e era capaz de jurar
mesmo no seu nariz, mesmo que ele tivesse atrás de si toda a sua força para me obrigar a
negar isto que estou dizendo.
Bayta observou com pura admiração:
- Nesse caso, o que é que você sabe mais a respeito do caso?
O palhaço fitou-a ansiosamente:
- Minha senhora, tenho uma teoria. Surgiu-me, já completamente definida, como se o
Espírito Galáctico a tivesse metido delicadamente no espírito. - Levantava agora a voz acima
de uma objeção de Torã, que o queria interromper. - Minha senhora - continuou, dirigindo-se
exclusivamente a Bayta - se este capitão tivesse, como nós, escapado com uma nave, como
nós, estivesse em viagem para cumprir um objetivo de sua própria ideação, se topou conosco
por acaso - havia de suspeitar que o estávamos seguindo para lhe armar alguma cilada, tal
como nós desconfiamos dele pelo mesmo motivo. Que admiração que ele tenha desempenhado
sua comédia para entrar na nossa nave?
- Nesse caso, por que é que ele nos desejava a bordo de sua nave? -perguntou Torã. -
Isso não faz sentido.
- Pois, por que é que ele fez isso? - bradou o palhaço, com uma repentina inspiração. -
Ele mandou um subordinado que não nos conhecia, mas que nos descreveu pelo microfone. O
capitão que ouviu estas descrições ficou impressionado pelo meu próprio pobre retrato, pois,
na verdade, não há muita gente nesta grande Galáxia que se pareça com a minha mediocridade.
Eu era a prova da identidade de todas as outras pessoas.
- E por que é que nos deixou vir embora?
- O que é que nós sabíamos da sua missão, e do sigilo que lhe está ligado? Ele andou
nos espionando e verificou que não éramos um inimigo e, por isso, deixou-nos vir embora, é
obrigado a pensar de forma a expor o seu plano por via do alargamento do conhecimento
dele?
Bayta disse lentamente:
- Não seja teimoso, Torie. Isto fornece explicações para o que aconteceu.
- Podia ter sido assim - anuiu Mis.
Torã parecia desamparado em face da resistência coletiva. Havia qualquer coisa nas
fluentes explanações do palhaço que o aborrecia. Qualquer coisa estava mal no meio daquilo.
Já ele estava confundido e, a despeito de sua tentativa de se dominar, sua cólera diminuía.
- Por um momento - sussurrou ele - pensei que podíamos ter-nos encontrado com uma
das naves do Mulo.
E os seus olhos estavam obscurecidos pelo sofrimento que lhe causava a perda de
Haven. Os outros compreenderam.
MORTE EM NEOTRANTOR
NEOTRANTOR. O pequeno planeta de Delicass, que depois recebeu o nome de Grande
Saque, foi aproximadamente durante um século a sede da última dinastia do Primeiro
Império. Foi um mundo obscuro e um obscuro Império e a sua existência tem apenas uma
importância formalista. Debaixo do iniciador da dinastia Neotrantoriana…
Enciclopédia Galáctica

Neotrantor era o nome! Neotrantor! E no momento em que se diz o nome ficam


esgotadas, de uma única vez, todas as semelhanças do novo Trantor com o grande original. A
seis anos-luz de distância, o céu do Velho Trantor ainda brilhava e a Capital Imperial da
Galáxia dos séculos anteriores ainda continuava a girar através do espaço, na silenciosa e
eterna repetição de suas órbitas.
Ainda havia homens residindo na Velha Trantor. Não muitos - talvez uma centena de
milhões, quando cinqüenta anos antes ali formigavam quarenta bilhões. O vasto mundo de
metal estava reduzido a destroços cheios de farpas. Os elevados blocos de multitorres do
singular cinturão de edifícios, foram deteriorados e vazios - embora conservando ainda os
primitivos alvéolos-desintegradores e os canais de incêndio - fragmentos do Grande Saque de
quarenta anos atrás.
Era estranho que um mundo que fora o centro de uma Galáxia durante dois mil anos -
que governara um espaço e fora o lar de legisladores e governadores cujos caprichos se
espalhavam por anos-luz - pudesse morrer em um mês. Era estranho que, um mundo que se
mantivera intocável através de milênio e se mantivera igualmente intocável através das
guerras civis e das revoluções palacianas de outro milênio - acabasse finalmente por morrer.
Era estranho que a Glória da Galáxia acabasse por se transformar num cadáver
apodrecido. E patético!
Ainda teriam de decorrer séculos, contudo, antes que as poderosas obras de cinqüenta
gerações de pessoas decaíssem e deixassem de ser utilizadas. Só as forças do homem em
declínio, só isso, iriam torná-las inúteis.
Os milhões que ficaram depois do desaparecimento de bilhões arrancaram a base de
metal resplandecente do planeta e puseram à mostra a terra que não fora atingida por um raio
de sol durante mil anos.
Cercados pelas perfeições mecânicas dos esforços humanos, rodeados pelas
maravilhas industriais do gênero humano livre da tirania daquilo que o rodeava, eles
regressavam à terra. Nos vastos terrenos de tráfego cresciam o trigo e o milho. Na sombra das
torres, pastavam carneiros.
Mas Neotrantor existia - uma obscura aldeia de um planeta afogado na sombra do
poderoso Trantor, até que uma família real, com a língua de fora, fugindo diante do fogo e das
chamas do Grande Saque, correra para ela como último refúgio - e ali se refugiara, despojada
de tudo, enquanto subsistia o rugido da vaga de rebelião. Dali governara com esplendor
espectral sobre o remanescente do Império.
Vinte mundos agrícolas formavam um Império Galáctico.
Dagobert IX, governador de vinte mundos de cavaleiros e camponeses obstinados, era
Imperador da Galáxia, Senhor do Universo.
Dagobert IX fizera vinte e cinco anos no dia em que chegara com seu pai ao território
de Neotrantor. Os seus olhos e o seu espírito mantinham ainda viva a recordação da glória e
do poder de que tinha desfrutado o Império nos seus dias gloriosos. Mas seu filho, que um dia
viria a ser Dagobert X, nascera em Neotrantor. Os únicos mundos que conhecia eram aqueles
vinte.
O carro aberto de Jord Commason era o mais requintado veículo do seu tipo em toda a
Neotrantor e, afinal de contas, com justa razão. Essa circunstância estava diretamente ligada
ao fato de Commason ser o maior latifundiário de Neotrantor. Em tempos idos fora o
companheiro e o gênio diabólico do jovem príncipe herdeiro, que estava dominado pela garra
obstinada de um Imperador de meia-idade. E agora era o companheiro e ainda o gênio
diabólico de um príncipe herdeiro de meia-idade que abominava e dominava um velho
imperador.
Por isso Jordan Commason, no seu carro aéreo, o qual com os seus acabamentos de
madrepérola e sua decoração de ouro e luminosidades não precisava de brasão de armas para
ser identificado, sobrevoava as suas terras e as milhas de searas de trigo ondulante que lhe
pertenciam, e as grandes debulhadoras e ceifeiras que eram suas, e os caseiros e os
maquinistas que lhe pertenciam - e resolvia os seus problemas cautelosamente.
A seu lado estava o seu motorista curvado e mirrado, que guiava a nave
cuidadosamente pelo meio das camadas elevadas de vento, e sorria. Jord Commason falou
para o vento, o ar e o céu:
- Lembra-se do que lhe disse, Inchney?
O cabelo cinzento e ralo de Inchney inflamou-se luminosamente no meio do vento. O
seu sorriso esboçado alargou-se de modo muito fraco pelos lábios e as rugas verticais do
queixo cavaram-se como se estivessem guardando um seu eterno segredo. O sussurro de sua
voz passou-lhe entredentes:
- Lembro-me, senhor, e tenho pensado nisso.
- E o que é que pensou, Inchney? - Havia alguma impaciência no tom com que a
pergunta foi feita.
Inchney lembrou-se que fora jovem e belo, e que fora um aristocrata na Velha Trantor.
Inchney lembrou-se que era um velhinho desfigurado em Neotrantor, que ainda vivia por favor
do fidalgo Jord Commason, e pagava esta mercê concedendo a sua sutileza quando lha
pediam. Sussurrou outra vez:
- Visitantes da Fundação, senhor, é uma coisa que é conveniente não ter.
Especialmente, senhor, quando eles aqui aparecem com uma única nave e só trazem um único
combatente. Como é que eles podiam ser bem recebidos?
- Bem recebidos? - perguntou Commason, sombrio. - Talvez sim. Mas aqueles homens
são mágicos e talvez sejam poderosos.
- Bolas - resmungou Inchney - a distância cria uma névoa que esconde a verdade. A
Fundação é apenas um mundo. Os seus cidadãos são apenas homens. Se dispararmos contra
eles, eles morrem.
Inchney manteve a nave na rota. Um rio formava meandros faiscantes por baixo deles.
Voltou a sussurrar:
- E não há um homem de que eles agora falam que está vencendo os mundos da
Periferia?
Commason tornou-se repentinamente desconfiado:
- O que é que sabe a esse respeito?
Já não havia sorriso na face do motorista:
- Nada, senhor. Foi apenas uma pergunta fútil.
A hesitação do fidalgo foi curta. Disse, com uma brutalidade direta:
- As perguntas que faz nunca são inúteis e o seu método de adquirir conhecimentos
mantém-se sempre fiel a um objetivo a atingir. Mas… aí tem! Chamam Mulo a esse homem, e
apareceu aqui um dos seus súditos há uns meses atrás para… tratar de negócios. Estou a
espera de outro… agora… para fechar o negócio.
- E esses recém-vindos? Não serão as pessoas de quem está à espera, por acaso?
- Falta-lhes a identificação que deviam trazer.
- Eles contaram que a Fundação foi capturada…
- Eu não lhe disse nada disso.
- Mas corre por aí - continuou Inchney, friamente - e se é verdade, podem nesse caso
ter fugido da destruição e podem ser considerados inimigos pelos homens do Mulo.
- Sim? - Commason mostrava-se indeciso.
- E, senhor, desde que é bem sabido que o amigo de um conquistador é apenas sua
última vítima, temos de tomar algumas medidas de honesta autodefesa. Porque há muitas
coisas como sondas psíquicas, e nós dispomos agora de quatro cérebros da Fundação. Existe
muita coisa a respeito da Fundação que deve ser proveitoso conhecer, muita coisa até a
respeito do Mulo. E nessa altura a amizade do Mulo será uma prenda menos subjugante.
Commason, na calma da atmosfera superior, virou-se com um estremecimento devido
à sua primeira idéia:
- Mas se a Fundação não tiver caído? Se as notícias que chegam até nós forem falsas?
Dizia-se que tinham profetizado que não podia cair.
- Já se foi o tempo dos profetas, senhor.
- Mas imagine que ela não tenha caído, Inchney. Pense! Se ela não pôde cair. O Mulo
faz-me promessas, na verdade… - Fora muito longe, e quis voltar atrás. - Isto é, mostrou
ostentação. Mas as ostentações são apenas vento e as ações são concretas.
Inchney riu estrondosamente:
- As ações são efetivamente concretas, uma vez começadas. Dificilmente alguém
podia descobrir, além disso, o receio pela atividade de uma Fundação situada no outro
extremo da Galáxia.
- Há ainda o príncipe - murmurou Commason, quase consigo.
- Ele também está negociando com o Mulo, senhor?
Commason não podia se esquivar rapidamente agindo sob a complacente manobra da
mudança de assunto:
- Não inteiramente. Não como eu estou fazendo. Mas está se tornando desorientado,
mais incontrolável. Apareceu um demônio dentro dele. Se eu prender estas pessoas e ele ficar
com elas para seu próprio uso. pois não lhe falta uma certa sagacidade, eu já não estarei em
condições de discutir com ele. - Franziu os sobrolhos e as faces descaíram-lhe molemente,
com desagrado.
- Vi esses estrangeiros ontem, por uns momentos - disse o encarnecido motorista, sem
qualquer ligação - e ela é uma mulher estranha e sinistra. Caminha com a liberdade de um
homem e tem uma palidez assustadora, em contraste com os cabelos negros. - Havia quase
ardor no silvo rouco de sua voz sussurrada, pelo que Commason virou-se para ele com uma
surpresa repentina. Inchney continuou: - O príncipe, penso eu, não procurará pôr em ação sua
sagacidade, se lhe for feita uma proposta razoável. Podia, senhor, ficar tranqüilo, se lhe
cedesse a moça…
Houve um relampejo em Commason:
- É uma idéia! É uma idéia, realmente! Inchney volta para trás! E, Inchney, se tudo
correr bem, haveremos de voltar a discutir esse assunto de sua liberdade.
Foi com um quase supersticioso sentido de simbolismo que Commason encontrou uma
Cápsula Pessoal à sua espera, no seu gabinete particular, quando ali regressou. Commason
esboçou um leve sorriso. O homem do Mulo estava chegando e a Fundação realmente fora
derrotada.
As idéias nebulosas de Bayta, quando as tinha, sobre um palácio Imperial, não
atinavam com a realidade e, no seu íntimo, havia uma vaga sensação de desapontamento. O
quarto era pequeno, quase simples, quase comum. O palácio não oferecia grande vantagem
sobre a residência do prefeito que ficara atrás na Fundação… e Dagobert IX…
Bayta tinha idéias definidas a respeito da presença que devia ter um imperador.
Pensava que não se devia parecer com um avô qualquer. Pensava que não devia ser fraco,
lívido e enrugado - ou servir taças de chá pelas suas próprias mãos e exprimir preocupação
sobre o conforto dos seus visitantes. Porém era assim que ele era. Dagobert IX riu entre dentes
quando deitou chá na sua xícara.
- É um grande prazer para mim, minha querida. É um daqueles momentos em que fujo
das cerimônias e dos cortesãos. Há tempos que não recebo visitas, vindas das outras
províncias. O meu filho encarregou-se desses pormenores, agora que estou velho. Ainda não
viram o meu filho? Um belo rapaz. Talvez um pouco teimoso. Porém é jovem. Quer mais uma
cápsula de sabor? Não?
Torã esforçou-se por fazer uma interrupção:
- Vossa Majestade Imperial…
- Diga.
- Vossa Majestade Imperial, não era minha intenção interromper-vos…
- Não se preocupe, não há interrupção nenhuma. Esta noite se realizará a recepção
oficial, mas até lá estaremos livres. Deixe ver, de onde é que você disse que vinham? Parece-
me que já decorreu um largo espaço de tempo desde que se fez a última recepção oficial. Você
disse que tinham vindo de Anacreon?
- Da Fundação, Imperial Majestade!
- Sim, a Fundação. Agora me lembro. Eu a tinha localizado. Fica na província de
Anacreon. Nunca estive lá. O meu médico proíbe-me viagens longas. Não me lembro de ter
recebido nenhum relatório recente do meu vice-rei em Anacreon. Quais são as condições que
ali existem atualmente? - concluiu ele ansiosamente.
- Senhor - murmurou Torã. - Não há queixas a fazer.
- Isso é deveras agradável. Hei de elogiar o meu vice-rei.
Torã olhou desesperadamente para Ebling Mis, cuja voz brusca se fez ouvir:
- Senhor, fomos avisados de que devíamos pedir-lhe autorização para podermos
visitar a Biblioteca da Universidade Imperial em Trantor.
- Trantor? - perguntou o imperador, maciamente. - Trantor? - Nesse momento um olhar
deu à sua face uma expressão de dor perplexa: - Trantor? - voltou a sussurrar. - Já me lembro.
Estou fazendo planos para voltar para lá com uma nuvem de naves. Vocês poderão vir comigo.
Em conjunto, havemos de destruir o rebelde, Gilmer. Juntos, havemos de restaurar o Império!
A sua figura dobrada endireitara-se. Sua voz havia recuperado vigor. Durante um
momento seus olhos mostraram-se brilhantes. Depois, piscou as pálpebras e disse fracamente:
- Gilmer morreu. Deixem ver se me consigo lembrar… Sim, sim! Gilmer morreu!
Trantor morreu… Durante um momento pareceu-me… De onde foi que disse que vieram?
Magnífico sussurrou para Bayta:
- É mesmo um imperador? De qualquer maneira eu pensava que os imperadores
fossem maiores e mais cultos do que os homens comuns.
Bayta fez-lhe sinal para ficar tranqüilo. E disse:
- Se sua Imperial Majestade puder assinar uma ordem autorizando a nossa ida a
Trantor, isso seria de grande utilidade para a causa pública.
- A Trantor? - O imperador estava perturbado e não conseguia compreender.
- Senhor, o vice-rei de Anacreon, em nome de quem estamos falando, manda-nos que
lhe participemos que Gilmer ainda está vivo…
- Vivo! Vivo - trovejou Dagobert. - Onde? Haverá guerra!
- Imperial Majestade, esta informação não deve ser publicada agora. As informações
a respeito do lugar onde se encontra não são precisas. O vice-rei mandou que lhe
participássemos o fato e só em Trantor poderemos descobrir o lugar onde será provável
encontrar o palácio em que se esconde. Uma vez descoberto…
- Sim, sim… Ele deve ser encontrado… - O velho imperador curvou-se para a parede
e apertou a pequena fotocélula com um dedo trêmulo. Murmurou, depois de uma pausa sem
sentido: - Os meus criados ainda não vieram. Não posso esperar por eles.
Estava rabiscando numa folha em branco, e terminou com um floreado “D”. Disse:
- Gilmer aprenderá a conhecer a força do seu imperador. De onde foi que vocês
vieram? Anacreon? Quais são as condições que lá se verificam? O nome do imperador é
poderoso?
Bayta tirou-lhe o papel dos dedos compridos:
- Sua Majestade Imperial é adorado pelo povo. O seu amor por ele é perfeitamente
conhecido.
- Eu gostaria de visitar o meu bom povo de Anacreon, porém o meu médico disse…
Não me lembro do que me disse, mas… - Olhou para cima, com os seus penetrantes olhos
pardos: - Vocês estavam falando de Gilmer?
- Não, Imperial Majestade.
- Ele não avançará mais. Voltem para trás e digam isto ao povo. Trantor agüentará!
Meu pai é agora o comandante da esquadra e o verme rebelde chamado Gilmer há de gelar no
espaço com a sua canalha regicida. - Endireitou-se na cadeira e os seus olhos tornaram-se
outra vez perturbados: - O que é que eu estava dizendo?
Torã levantou-se e inclinou-se para ele:
- Sua Imperial Majestade tem sido muito amável conosco, porém o período de
ausência que nos foi concedido já está esgotado.
Durante um momento, Dagobert IX assumiu de fato o ar de um imperador quando se
levantou e ficou de pé, com as costas direitas enquanto, um a um, os seus visitantes recuavam
através da porta…
…e ali intervieram vinte homens armados que fizeram um círculo à volta deles. Uma
arma de mão reluziu…
Bayta ia recuperando paulatinamente a consciência, mas sem lhe surgir a necessidade
de perguntar: “Onde é que estou?” Lembrava-se claramente do velhíssimo homem que a si
mesmo se chamava imperador e dos outros homens que os esperavam fora. O formigueiro
artrítico que sentia nas articulações dos dedos queria dizer que fora utilizada uma pistola de
choque.
Deixou-se ficar com os olhos fechados, e prestou uma dolorosa atenção às vozes.
Havia duas. Uma era vagarosa e cautelosa, escondendo a astúcia sob a superfície deferente. A
outra era rouca e grossa, quase néscia, sendo pronunciada em jatos viscosos. Bayta não ouviu
nada. A voz rouca predominava.
Bayta conseguiu apanhar as últimas palavras:
- Há de viver para sempre esse velho do diabo. Cansa-me. Aborrece-me. Commason,
hei de tê-lo. Também estou ficando velho.
- Alteza, nos deixe ver primeiro qual a utilidade que estas criaturas podem ter. Pode
ser que tenhamos mais chances de chegar ao poder do que aquelas que seu pai ainda possui.
A voz rouca perdeu-se num sussurro indistinto. Bayta só conseguiu apanhar esta frase:
- …a moça …mas - a outra voz acariciadora tornou-se um murmúrio sujo, baixo, e
rápido por entredentes seguido por uma frase de camarada e quase paternal: - Dagobert, você
não tem idade. Mente quem não disser que você não parece um rapaz de vinte anos.
Riram os dois, e o sangue de Bayta pôs-se a correr geladamente. Dagobert… alteza…
O velho imperador falara de um filho teimoso e a sugestão contida no murmúrio que acabara
de ouvir confirmava que se tratava dele. Porém quantas coisas não acontecem às pessoas na
vida real…
A voz de Torã ouviu-se numa demorada e áspera corrente de pragas. Ela abriu os
olhos e Torã, que estava debruçado por cima dela, fez uma tentativa para socorrê-la. E disse,
com ferocidade:
- O imperador há de responder por este banditismo. Solte-nos.
Estava ainda debruçado sobre Bayta cujos pulsos e tornozelos estavam presos à
parede e ao soalho por um poderoso campo de atração.
O Voz Rouca aproximou-se de Torã. Era barrigudo, os seus olhos fitos no chão tinham
um brilho escuro e o cabelo caía-lhe pela testa. Havia uma pena colorida no seu chapéu
pontiagudo e a franja do seu gibão estava bordada com esponja metálica prateada. Riu
escarninhamente com grande divertimento:
- O imperador? Esse pobre e inválido imperador?
- Tenho o seu salvo-conduto. Nenhum súdito pode impedir a nossa liberdade.
- Mas eu não sou um súdito, detrito do espaço. Sou o regente e o príncipe herdeiro e
sou eu que assumo a direção dos negócios. O que sucede com o meu pobre e ingênuo pai, é
que ele gosta de ver visitantes de vez em quando. E satisfazemos-lhe a vontade. Ele diverte a
sua fantasia de trocista Imperial.
E a essa altura apareceu diante de Bayta, que o fitou desdenhosamente. Ele examinou
de perto e o seu hálito tinha um fortíssimo cheiro de hortelã. Disse.
- Tem olhos agradáveis, Commason… fica com eles mais bonitos quando estão
completamente abertos. Penso que ela os conservará assim. Deve ser um prato exótico para
um gosto exausto, eh?
Verificou-se uma agitação fútil da parte de Torã, que o príncipe herdeiro ignorou e
Bayta voltou a sentir uma sensação gelada na pele. Ebling Mis ainda estava inconsciente, mas
com uma sensação de surpresa, Bayta notou que os olhos de Magnífico estavam abertos,
totalmente abertos, como se estivesse acordado há vários minutos. Aqueles grandes olhos
castanhos giraram sobre Bayta e fitaram-na, enterrados numa face reduzida a uma massa
amorfa.
Choramingou, e apontou com a cabeça para o príncipe herdeiro:
- Isso que ele tem é o meu audiovisor.
O príncipe herdeiro virou-se rapidamente para a nova voz:
- Isto é seu, monstro? - Tirou o instrumento do ombro a que estava pendurado,
suspendeu-o pelas alças verdes, que Bayta ainda não notara. Foi-lhe passando os dedos
desajeitadamente, experimentou tocar um acorde e, para azar seu, não conseguiu nada: - Você
é capaz de tocar esta coisa, monstro?
Magnífico voltou a menear a cabeça. Torã disse repentinamente:
- Vocês roubaram uma nave da Fundação. Se o imperador não nos vingar, a Fundação
há de fazê-lo.
Foi o outro, Commason, que respondeu vagarosamente:
- Qual Fundação? Ou o Mulo já deixou de ser o Mulo?
Ninguém lhe deu resposta. O riso do príncipe rasgou-lhe a boca de lado a lado,
mostrando-lhe os dentes. O campo que ligava o palhaço foi desligado e ele mexia
vigorosamente os pés. O audiovisor já estava nas suas mãos.
- Toque para nós, monstro - disse o príncipe. - Toque para nós uma serenata de amor e
beleza para a minha senhora estrangeira que aqui está. Diga-lhe que a prisão grosseira do meu
pai não é um palácio, mas que poderei levá-la para um onde ela nadará em água de rosas e
saber o que é o amor de um príncipe. Cante o amor de um príncipe, monstro.
Pôs uma grossa coxa em cima de uma mesa de mármore e deixou cair a perna
preguiçosamente, enquanto o seu sorriso fátuo despertava arrebatadoramente em Bayta uma
raiva silenciosa. Os tendões de Torã tentaram forçar o campo, num esforço desesperado e
doloroso. Ebling Mis movia-se e gemia. Magnífico gaguejou:
- Os meus dedos estão reduzidos a uma dureza inútil…
- Toque, monstro! - impôs o príncipe. As luzes obscureceram-se a um gesto seu
dirigido a Commason e cruzou os braços na obscuridade, aguardando.
Magnífico mexeu os dedos com rápidos e rítmicos saltos de extremo a extremo do
instrumento de múltiplos botões - e através do aposento irrompeu um arco-íris duro e
vertiginoso. Ouviu-se um som baixo, repousante - palpitante, choroso. Transformou-se num
riso sombrio, e por baixo dele ressoou um vagaroso dobre de sinos.
A escuridão parecia intensificar-se e tornar-se mais compacta. A música alcançou
Bayta através das espessas dobras de mantas invisíveis. Foi alcançada por uma luz repentina,
que subia das profundezas como se uma simples candeia brilhasse no fundo do abismo.
Automaticamente os seus olhos se abriram. A luz resplandeceu, porém permaneceu
tênue. Moveu-se de maneira faiscante, uma cor confusa, e a música tornou-se subitamente
descarada, depravada - florescendo num brusco crescendo. A luz vacilou rapidamente num
movimento veloz para um ritmo perverso. Alguma coisa se enlaçou na luz. Alguma coisa que
possuía venenosas escalas metálicas que se ia entrelaçando nela e nela suspirava.
Bayta lutou com uma estranha emoção, após o que se deixou cair numa agonia mental.
Quase se lembrou do período do Cofre do Tempo, daqueles últimos dias de Haven. Havia esta
horrorosa, aborrecida, pegajosa teia de aranha de sofrimento e desespero. Encolheu-se sob o
peso daquilo que a oprimia.
A música estrondeou por cima dela, rindo-se horrivelmente e a caligrafia de terror no
lado errado do telescópio no pequeno círculo de luz perdeu-se quando se afastou febrilmente
para longe. Sentia a testa simultaneamente quente e fria.
A música terminou. Devia ter durado uns quinze minutos e Bayta viu-se inundado pelo
imenso prazer da sua ausência. A luz acendeu-se e o rosto de Magnífico permanecia fechado,
lúgubre, para os seus olhos insensatos, sob as pálpebras úmidas.
- Minha senhora - gaguejou - como é que se sente?
- Bem, apesar de tudo - murmurou ela - mas por que é que você tocou uma coisa
dessas?
Ela fitou as outras pessoas que se encontravam no aposento. Torã e Mis estavam
flácidos e impotentes contra a parede e seus olhos espumavam. Havia o príncipe,
estranhamente imóvel, ainda com a perna pendendo da mesa. Havia Commason, respirando
com dificuldade, com a boca aberta e descaída. Commason titubeou e bocejou
descuidadamente, quando Magnífico deu um passo em sua direção.
Magnífico virou-o, e com um salto, libertou os outros. Torã investiu rapidamente e
com mãos ásperas e duras agarrou o latifundiário pelo pescoço.
- Você vem conosco. Vamos precisar de você para termos certeza de que chegaremos à
nossa nave.
Duas horas depois, na cozinha da nave, Bayta servia um empadão, ainda quente e
Magnífico celebrou o regresso ao espaço atirando-se a ele com um magnificente desprezo
pelas boas maneiras.
- Está bom, Magnífico?
- Hum-m-m-m!
- Magnífico?
- Sim, minha senhora?
- O que foi que você tocou há pouco?
O palhaço torceu-se:
- Eu… eu confesso que não sei. Aprendi isto há muito tempo e o audiovisor tem um
efeito muito profundo sobre o sistema nervoso. É verdade que era uma coisa diabólica, e não
se destina à sua meiga inocência, minha senhora.
- Oh, isso não, Magnífico. Eu não sou tão inocente como isso. Não me lisonjeie. Eu vi
algo parecido com o que eles viram?
- Espero que não. Toquei só para eles. Se viu, foi apenas uma parte… de longe.
- E já foi suficiente. Você sabe que conseguiu derrubar o príncipe?
Magnífico falou com crueldade enquanto ia comendo um grande bocado de empadão:
- Matei-o, minha senhora.
- O que? - Ela engasgou-se, dolorosamente.
- Estava morto quando parei de tocar, pois caso contrário teria continuado. Não me
importei com Commason. Suas maiores ameaças eram morte ou tortura. Mas, minha senhora, o
príncipe olhava para você com ar perverso - e engasgou-se com uma mistura de indignação e
de embaraço.
Bayta viu-se invadida por estranhas idéias que reprimiu com firmeza.
- Magnífico, você é um doido muito galante.
- Oh, minha senhora. - E meteu o nariz vermelho no empadão, pois alguém havia de
deixar de comer.
Ebling Mis entrou pela porta adentro. Trantor estava perto - os seus raios metálicos
luziam terrivelmente. Torã também ali se encontrava de pé. Comentou com grande
mordacidade:
- Não temos nada a fazer aqui, Ebling. O homem do Mulo chegou à nossa frente.
Ebling Mis esfregou a testa com uma mão que parecia esvaziada da sua forma
rechonchuda. Sua voz foi um murmúrio abstrato. Torã estava aborrecido:
- Eu disse que as pessoas sabem que a Fundação caiu. Eu disse…
- Eh? - Mis levantou a cabeça, embaraçado. Depois pousou uma mão suave no pulso
de Torã, tendo-se completamente esquecido de qualquer conversa anterior: - Torã, eu… estive
olhando para Trantor. Você sabe… Tenho o estranho sentimento… exatamente desde que
chegamos a Neotrantor. É um impulso, um impulso forte que me está empurrando lá para
dentro. Torã, eu posso fazê-lo, sinto que posso fazer. As coisas começam a tornar-se nítidas no
meu espírito, nunca foram tão nítidas.
Torã abriu os olhos - e encolheu os ombros. As palavras não lhe davam nenhuma
confiança. Perguntou, fazendo uma tentativa:
- Mis?
- Sim?
- Você não viu uma nave chegar a Neotrantor quando estávamos saindo?
A resposta foi concisa:
- Não.
- Eu vi. Calculo que seja imaginação, mas pareceu-me que era aquela nave filiana.
- Aquela em que viajava o capitão Han Pritcher?
- Aquela que só o espaço sabe quem está lá dentro. A informação de Magnífico… Está
nos seguindo, Mis.
Ebling Mis não disse nada.
Torã continuou energicamente:
- Aconteceu-lhe alguma coisa? Não está se sentindo bem?
Os olhos de Mis estavam pensativos, luminosos e esquisitos. Não respondeu.
AS RUÍNAS DE TRANTOR

A localização de um objetivo no grande mundo de Trantor apresenta um problema


único na Galáxia. Não há continente ou oceano para localizar a um milhar de quilômetros de
distância. Não há rios, nem lagos, nem ilhas para surpreender o espetáculo através dos
rasgões das nuvens.
O mundo forrado de metal era, fora, uma cidade colossal e só o velho palácio
Imperial podia ser identificado com facilidade do espaço exterior, por um estrangeiro. Bayta
circundou o mundo a uma altitude quase de carro aéreo em repetidas e trabalhosas buscas.
Das regiões polares, onde o gelo que cobria as espirais de metal, fornecia a sombria
evidência de avaria ou abandono das máquinas de condicionamento da temperatura,
encaminharam-se para o sul. Podiam fazer correlações ocasionais - (ou correlações
presumíveis) - entre aquilo que viam e aquilo que lhes mostrava o velho mapa que tinham
conseguido em Neotrantor.
Mas os equívocos desapareciam à medida que iam caminhando. A abertura na
cobertura metálica do planeta media oitenta quilômetros. A zona verde fora do padrão geral
estendia-se por centenas de quilômetros quadrados, incluindo a poderosa elegância das
antigas residências Imperiais.
Bayta pairava e orientava-se lentamente a ela mesma. Havia só as grandes super-vias
originárias para orientá-la. Compridas setas lançadas em linha reta no mapa, faixas lisas e
brilhantes por baixo deles.
Aquilo que o mapa indicava ser a área da Universidade foi alcançado seguindo um
cálculo de derrota já desaparecida, e a nave aterrou na superfície plana do que fora uma vez
um campo de aterragem de movimento muito intenso.
Foi só quando submergiram na confusão metálica que a suave beleza aparente que se
via do ar se transformou numa vaga de coisas partidas e retorcidas que ficara na esteira do
Saque. Havia espirais truncadas, suaves paredes úmidas e deformadas e surgiu até, por um
instante, o vestígio de uma área de terra roçada, talvez com a extensão de várias centenas de
hectares, escura e arada.
Lee Senter observava a maneira como a nave ia descendo cautelosamente, para a
superfície. Era uma estranha nave, não de Neotrantor e suspirou