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INICIAÇÃO AO CONHECIMENTO

ACADÊMICO

Lutecildo Fanticelli1

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Professor da Universidade de Passo Fundo - UPF
SUMÁRIO

1 NOÇÕES GERAIS SOBRE O MUNDO ACADÊMICO ............................................................................ 3

1.1 O que é uma Universidade ........................................................................................................................ 3

1.2 Noções fundamentais sobre ciência em sentido acadêmico ...................................................................... 3

1.3 A relação entre ciência e mito ................................................................................................................... 4

1.4 A fronteira entre a teoria e a prática ........................................................................................................ 6

1.5 O método científico: Bacon e Descartes .................................................................................................... 8

1.6 O positivismo de Augusto Comte ............................................................................................................ 10

1.7 A questão da cientificidade no marxismo ............................................................................................... 10

2 AS VARIEDADES DE CONHECIMENTOS E TIPOS DE RACIOCÍNIO ............................................ 11

2.1 O conhecimento científico ....................................................................................................................... 11

2.3 Conhecimento teológico .......................................................................................................................... 15

2.4 Conhecimento vulgar .............................................................................................................................. 15

2.5 O conhecimento intuitivo ........................................................................................................................ 16

2.6 O raciocínio indutivo............................................................................................................................... 17

2.7 O raciocínio dedutivo .............................................................................................................................. 18

3 FILOSOFIAS DA CIÊNCIA ..................................................................................................................... 19

3.1 Os critérios do positivismo lógico............................................................................................................ 19

3.2 O falseacionismo de Karl Popper............................................................................................................ 19

3.3 A teoria de Thomas Kuhn ....................................................................................................................... 20

3.4 A teoria de Paul Feyerabend ................................................................................................................... 21

3.5 A própria ciência como dogma ............................................................................................................... 22

CONCLUSÃO .............................................................................................................................................. 23

REFERÊNCIAS ........................................................................................................................................... 24
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1 NOÇÕES GERAIS SOBRE O MUNDO ACADÊMICO

1.1 O que é uma Universidade

Na verdade, existem muitas diferenças entre uma escola de ensino médio e uma universidade. Agora o
aluno se aperceberá da existência de alguns termos antes desconhecidos. Agora é normal ouvir as pessoas nos
corredores falando em departamentos, em centros acadêmicos, em reitoria, em DCE, em divisões acadêmicas, etc.,
Há uma série de termos e siglas com os quais o acadêmico só se familiarizará aos poucos. E, na verdade, não há
qualquer pressa ou exigência para que tudo isso seja aprendido da noite para o dia.
No entanto, vejamos alguns outros pontos mais essenciais sobre uma universidade. Em principio, é
importante salientar que a ela, entre outras coisas, é um foco de pesquisa e ciência, ou seja, é um lugar onde
exatamente as pessoas fazem pesquisa e ciência. De certo modo, pode-se dizer que as universidades são o refúgio
dos cientistas. Se, porventura alguém disser que precisa encontrar um homem de ciência, podemos lhe dizer para se
dirigir a uma universidade. Ela, portanto, não é meramente um local onde as pessoas fazem um curso superior, é
também um lugar onde se faz ciência. Os professores universitários, por exemplo, não se limitam apenas em
ministrar aulas, preparar provas e corrigi-las. Eles também fazem ciência. Não é de se estranhar que as pessoas
leigas e alheias às universidades não se apercebam disso. Na verdade, a rotina de um professor universitário,
enquanto homem de ciência, não é algo que todos veem, uma vez que sua atividade é muitas vezes solitária. Quando
não é totalmente solitária, é, no entanto, limitada entre outros professores e acadêmicos. É óbvio que os professores
universitários precisam também preparar outros cientistas. Estes são obviamente os próprios acadêmicos. No
entanto, os melhores detalhes sobre a atividade de pesquisa dos acadêmicos iremos ver mais adiante quando
falarmos sobre os projetos de pesquisa.

1.2 Noções fundamentais sobre ciência em sentido acadêmico

Agora é preferível falar mais precisamente sobre a ciência. Contudo, vale ressaltar desde já que não se
pode pensar que a definição de ciência seja uma tarefa fácil. Por isso mesmo não iremos passar apenas uma
definição sucinta. Aliás, ciência é, na verdade, algo sério e complexo e por isso ela não é passível de ser definida
com apenas meia dúzia de palavras. Ela pode ser definida de diversos modos e mesmo cada um desses modos
também acaba por ser subdividido em outros modos. O que nos interessa aqui é, sobretudo a ciência no sentido
acadêmico. No entanto, mesmo em sentido estritamente acadêmico, existem várias maneiras de definir a ciência.
Por isso mesmo teremos que ir por partes e sem qualquer pressa.
Vejamos, então, algumas dessas diversas maneiras. Em princípio, a ciência propriamente dita é algo
atrelado à empiria, ou seja, a experimentos concretos. Isso significa que podemos rotular como ciência aquelas áreas
que estão diretamente ligadas à atividade concreta. As engenharias e a biologia são, por exemplo, áreas acadêmicas
que podem ser rotuladas como áreas científicas em sentido estrito. No entanto, conforme iremos analisar mais
adiante, mesmo as outras faculdades de cunho mais abstratos também são ciência em algum sentido. Mas é
importante primeiro definir porque a ciência em sentido estrito tem a ver com aquelas áreas voltadas para o campo
empírico. É que esse conceito tem a ver com a própria tradição acadêmica e tudo remonta ao século XVII.
Diz-se que a ciência nasceu quando Galileu Galilei (1564-1642) resolveu apontar o telescópio para o céu
com intenções de provar a teoria de Nicolau Copérnico (1473-1543): o heliocentrismo. Esse mérito deve-se ao fato
de Galileu haver provado uma tese através de experimentos concretos. O seu antecessor defendia que a terra não era
o centro do universo, mas apenas pôde provar por meio de argumentos teóricos. Embora ele tivesse boas bases, elas
eram teóricas. A prova mais convincente é, com certeza, aquela que vem por meio dos dados concretos. Pode-se
dizer que a tese de Copérnico era racional, mas não científica. Ou até poder-se-ia dizer que ela era científica, porém,
menos científica que a de Galileu. Ressalte-se que este último corroborou a tese de Copérnico fazendo uso do
telescópio. Ele próprio observou os céus e fez com que os outros também observassem. O instrumento chave em
questão é obviamente o telescópio, o qual não foi uma invenção de Galileu. O seu mérito foi exatamente usá-lo
como instrumento científico e comprovador. Se todos puderam ver com seus próprios olhos e certificar que a Terra
não é o centro do universo, então, não há o que contestar. O heliocentrismo está sacramentado como teoria
verdadeira e, portanto, Copérnico estava correto. Em síntese, a tese de Copérnico foi corroborada por Galileu
Galilei.
A partir de Galileu, então, todos os progressos no campo empírico passam a ser considerados ciência em
sentido estrito. Entre eles, a descoberta da lâmpada, do telefone, do oxigênio, etc. A partir daí é fácil compreender
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que tudo aquilo que se conhece por tecnologia é ciência em sentido estrito. A invenção e o aperfeiçoamento da
tecnologia são normalmente considerados uma função do cientista. O homem que opera uma máquina numa
indústria não é necessariamente um cientista, mas o que cria e aperfeiçoa essa maquina é, com certeza, um homem
de ciência. Os estudiosos que labutam dia e noite em busca de uma vacina contra as gripes e contra qualquer doença
também são cientistas em sentido estrito.
Vimos, portanto, que ciência em sentido mais propriamente dito tem a ver com as áreas diretamente
ligadas aos experimentos e com a empiria. No entanto, conforme já alertamos, ainda em sentido acadêmico, ciência
é muito mais do que isso. Em outros termos, pode-se dizer que em sentido mais lato, ciência é também algo que se
estende para outros campos também teóricos. Vejamos, então, aquilo que é científico em sentido lato. Por exemplo,
o curso de Letras ou História são ciências? Em sentido não estrito obviamente são ciências. E a Filosofia e a
Matemática são algum tipo de ciência? Afinal, são áreas bastante teóricas e completamente abstratas. Mas, ao
mesmo tempo, são duas áreas curiosas quanto a este caso. É que a primeira é a mãe da ciência e a segunda é nada
mais que uma carreira normalmente conhecida como ciência exata. A ciência tal como hoje conhecemos no âmbito
acadêmico surgiu a partir da filosofia. E a matemática, por sua vez, é conhecida como uma ciência exata. Dentre
todas as disciplinas teóricas, ela é a mais exata porque é certeira. Não há como negar os resultados dos cálculos
matemáticos. Muitas teorias são refutadas com o passar do tempo, mas os cálculos matemáticos são inabaláveis.
Para entendermos porque todas as áreas acadêmicas são ciências é preciso levar em consideração o fato de
que todas compreendem cursos regulares e sistemáticos. Ou seja, todos os cursos de graduação requerem a prática
de metodologia. Por exemplo, para se tornar um assistente social, o aluno do curso de Serviço Social precisa
frequentar o curso de modo disciplinado e sistemático. Precisa frequentar as aulas de segunda a sábado, ler os textos
recomendados, elaborar trabalhos e fazer provas. O que pretendemos dizer é que o simples fato de uma pessoa se
aplicar sistematicamente a um estudo faz com que a sua tarefa se torne científica. A aplicação sistemática e
disciplinada a um estudo qualquer envolve o espírito científico.
Eis uma pergunta pertinente e curiosa: a função de um jornalista e a de um advogado são funções
científicas? Ou seja, como é possível enquadrar esses dois profissionais como cientistas em suas rotinas de trabalho?
Na verdade, ambos precisam ser guiados pelo espírito científico a fim de se legitimarem como bons profissionais.
Mas o que nos interessa aqui é falar, sobretudo, da sua rotina dentro da academia, pois é lá que ambos labutam
verdadeiramente como cientistas. Embora não lidem com frascos, tubos de ensaios ou mesmo com cobaias, eles
lidam com tarefas tão árduas como as daqueles que usam tais ferramentas. O jornalista e o advogado lidam com
ferramentas de outra natureza. Os professores universitários, conforme já o dissemos, também labutam além das
salas de aula.
Vejamos então alguns exemplos de ciência exercida por docentes. As produções científicas mais comuns
são as publicações de artigos em revistas científicas, publicações de livros de natureza acadêmica e coordenação de
pesquisas dando assistência a alunos pesquisadores.
Mas, afinal, o que há de interessante em um artigo publicado por um professor do curso de Matemática ou
por um advogado? Há muitíssimas coisas. Saliente-se que eles publicam artigos ou livros que são direcionados,
sobretudo para a própria academia, ou para um público profissional. E para tal, eles precisam despender muito
tempo numa sala de estudo ou numa biblioteca. Uma nova teoria matemática é, na verdade, muito útil a toda uma
comunidade de matemáticos. Uma coisa é certa, se não houver essa rotina de pesquisadores científicos nas
universidades, a ciência cessa. Alguém tem de dar conta dessa rotina. As tarefas acadêmicas são, portanto, tarefas
científicas por excelência. Suponhamos um aluno do curso de História que trabalha com alguma pesquisa
coordenada por um professor. O seu trabalho é chamado de pesquisa científica. Se sua função é pesquisar a história
da colonização eslava no norte do Rio Grande do Sul a sua pesquisa será legitimamente considerada uma atividade
científica. É que ele precisará consultar muitos documentos e livros de maneira sistemática. Enquanto pesquisador
de história ele não poderá trabalhar com a imaginação ou com a fantasia e sim com a razão. Ele terá que analisar,
comprovar e, por fim, registrar.
Observe-se, portanto, como não é possível definir a ciência em poucas linhas. Vamos então considerar que
esta seção serve-nos apenas como noção. É necessário que desdobremos mais e mais a partir daqui.

1.3 A relação entre ciência e mito

A filosofia surge quando o homem rompe com o mito. E esse mérito cabe a Tales de Mileto (640-580
a.C.). A tarefa desempenhada por ele e que o elegeu como pioneiro foi simplesmente o fato de ser o questionador do
mito. Para ele o Universo não era meramente algo gerado pelos deuses. Ou se o fosse não bastaria uma simples
narrativa mitológica para explicar a origem do mundo. Ele se apercebeu que o ser humano é capaz de elaborar
teorias que também explicam a origem do mundo. E foi isso que ele próprio se encarregou de fazer. Apresentou,
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então, a primeira teoria sobre a origem do cosmos, ou seja, a primeira teoria sobre a origem de todo o Universo.
Para ele a água é a substância primeira, da qual todas as outras coisas surgiram. No início era tudo água, era só água
e dela veio todas as outras coisas que nós hoje conhecemos. Pode-se dizer, então, que todos os elementos químicos
da tabela periódica são originários da água. Mas de onde Tales teria extraído a sua teoria? Como ele raciocinou para
supor que tudo veio da água? Ele simplesmente se apercebeu que boa parte do planeta é composta de água e não de
terra firme. Ele, com certeza, necessitou de algum indício intuitivo para elaborar a sua teoria, porque uma teoria não
pode ser inventada do nada. Toda teoria tem de ser fundamentada e ter critério. A imensidão dos mares
provavelmente serviu de fonte para a sua teoria.
Logo após Tales ainda apareceram outros pensadores com teorias racionais muito interessantes. No
entanto, só poderemos nos ocupar com algumas mais afins à ciência propriamente dita. Vejamos o caso de Leucipo
(Séc. V a.C) e Demócrito (460-370 a.C), ambos conhecidos como pais do atomismo. A sua teoria é importante
porque nos fala exatamente sobre os átomos. Não se pode dizer que os átomos com os quais trataram eram os
mesmos átomos hoje conhecidos. Mas uma coisa é bem certa: tem muito a ver. O que eram esses átomos dos
antigos gregos? Eram corpos minúsculos que se moviam eternamente. O mundo é composto de átomos, os quais
eram indivisíveis. De acordo com Leucipo e Demócrito qualquer corpo que fosse dividido não poderia ser dividido
ao infinito e sim até certo ponto, o qual é o átomo. Este é eterno e nunca foi gerado. Suas formas são variadas e ora
se colidem ora se separam. Tudo o que hoje vemos, ou seja, tudo o que existe na natureza é nada mais que fruto de
encontro casual de átomos. Em síntese, no Universo só há duas coisas: os átomos e o vácuo, sendo que os átomos se
movimentam no vácuo.
Outra figura importante entre esses pioneiros é Anaxágoras (499-428 a.C). A sua teoria sobre a origem do
cosmos é normalmente conhecida como as homeomerias. Teoria segundo a qual todas as coisas estão em todas.
Aliás, a conceituada máxima atribuída a esse pensador é: “Tudo está em tudo”. Com isso ele queria dizer
simplesmente que em cada coisa há todas as outras. Por exemplo, no ouro há prata e cobre. Mesmo no ouro mais
puro e refinado também há cobre. Mas não é só isso, no ouro também há mármore, ferro, carvão, leite, clara de ovos
e tudo o mais. No carvão há algodão, há mármore e todas as substâncias que existem no universo. No nosso sangue,
de igual modo, existe ouro, cobre, sabão, veneno, ferro, neve e tudo o que se possa imaginar. No entanto, tudo
aquilo que não é sangue, mas está em nosso sangue só está presente de maneira proporcional. Na neve nós só
enxergamos o branco, porque nela o que predomina é neve, a qual é branca. Não enxergamos carvão na neve porque
ele só está presente em pouca quantidade, no entanto, ele lá está. Vejamos isso de outra forma: nós seres humanos
comemos os alimentos, os quais são compostos de uma série de propriedades químicas. Em nosso organismo esses
alimentos se transformam em osso, em cabelo, em unha, em fígado e, enfim, se transformam em órgãos. Aliás, eles,
na verdade, ampliam o tamanho dos órgãos. Afinal, de onde vem toda a nossa massa corporal? Embora os
alimentos encontrem o nosso corpo já pronto, são eles quem, de fato, lhes dão peso e ampliam a massa. Nesse caso,
podemos ver que a tese de Anaxágoras tem algum sentido.
A importância desses pioneiros da ciência tem a ver com o fato de terem sido petulantes e indagadores.
Para saber ou descobrir é necessário questionar. Contudo, não se deve pensar que com a indagação o cientista
necessariamente vá responder toda a verdade. Nenhum desses quatro pensadores que vimos apresentaram uma
teoria absoluta. O que importa é que eles questionaram. Embora não se possa dar uma resposta acabada e pronta,
pode-se dar uma resposta melhor que aquela existente. Uma coisa é se contentar com a explicação existente, outra é
querer se esforçar por uma melhor. A explicação de que os deuses criaram o universo é falha em muitos pontos. E
embora a explicação racional também tenha falha, ela, no entanto, tem o mérito de querer atingir a verdade.
Ciência no sentido estrito, ou seja, ciência tal como hoje nós a entendemos é algo muito recente. Essas
teorias que agora abordamos foram apresentadas muito antes de Cristo e, por isso, não se pode dizer que os seus
autores eram cientistas. Os recursos que possuíam eram realmente parcos. Portanto, todas as suas especulações ou
descobertas são merecedoras de aplausos. As quatro personagens acima são normalmente citadas na história da
filosofia e não na história da ciência. No entanto, naqueles idos não existia ciência. Seria necessário esperar por
quase dois milênios. De qualquer modo, se a filosofia não é ciência, ela é uma precursora da ciência. Sem a
filosofia, com certeza, não existiria ciência. Em sentido estrito só podemos falar em ciência quando tratamos de
experimentos, isto é, de observações empíricas. A ciência propriamente dita tem a ver com confirmações empíricas.
Outros sucessores de Tales também fizeram algumas especulações interessantes. Entre eles, Empédocles
pode ser considerado como um verdadeiro precursor de Charles Darwin visto ter sugerido que os seres humanos são
resultados de uma evolução. Contudo, ele nada pode comprovar por meio de experimentos. Tratava-se
simplesmente de uma tarefa impossível para a sua época. Muitos séculos se passariam até que isso fosse confirmado
por Charles Darwin. Pode-se dizer que a teoria de Darwin é muito mais ciência do que a de Empédocles. Embora o
legado de Darwin também seja uma teoria, trata-se de uma teoria que teve uma confirmação empírica. O fato de
Darwin haver viajado por vários países do mundo e ter feito diversas comparações e observações, a sua teoria
parece ter sido confirmada: as espécies evoluem.
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Tales de Mileto foi quem, por assim dizer, rompeu com a explicação puramente mitológica em prol da
razão. Galileu rompeu com uma tradição avessa aos experimentos. Quanto ao primeiro nada sabemos sobre a reação
da sociedade, mas quanto a Galileu todos sabemos da batalha que enfrentou diante da intolerância da Igreja
Católica. O infeliz simplesmente teve que abnegar a sua descoberta a fim de salvar a própria vida. Para o clero
católico naqueles idos era inaceitável dizer que a terra não era o centro do universo.
No entanto, não podemos deixar de falar de uma faceta relevante do mito. Não se pode pensar que uma
vez superado pela filosofia e pela ciência o mito seja uma concepção de mundo totalmente ultrapassada. Embora
não seja correto dizer que os contos e as histórias mitológicas não sejam verdadeiros, não se pode dizer que sejam
mentiras. O mito também tem sua importância e sempre terá, por isso vale a pena fazer algumas observações sobre
o caso.
De acordo com o que a ciência contemporânea constatou sobre o mito, pode-se dizer que ele contém
alguma verdade ou que, talvez, o mito no seu começo continha alguma verdade. Algumas descobertas científicas
foram, na verdade, determinantes na valorização do mito em plena era científica. Entre elas, a confirmação da
existência real da cidade de Tróia e de Ur dos caldeus. Por exemplo, qual iluminista do século XVIII poderia
imaginar que a cidade cantada nos poemas homéricos teria realmente existido? Ou que algumas cidades narradas na
Bíblia realmente existiram num passado muito remoto? E foi exatamente isso que aconteceu, pois a arqueologia
simplesmente descobriu que cidades míticas existiram. Foi, portanto, a própria ciência quem, de fato, valorizou o
mito, pois ficou confirmado a existência de cidades que até então supunham-se não passar de puras invenções do
homem primitivo.
E para concluir citemos a curiosa descoberta da Eva Mitocondrial, que de acordo com a ciência, foi nada
mais do que um ancestral comum dos humanos. Em outros termos, todos somos descendentes de uma pessoa que
viveu há milhares de anos na África. Trata-se de um antepassado do sexo feminino, mãe de toda raça humana. Uma
descoberta dessa envergadura inevitavelmente aponta para as narrações bíblicas do livro de Gênesis. Isso quer dizer
que as mitologias tiveram a sua razão de ser. O mito em seu início provavelmente foi composto por fatos
verdadeiros. É bem provável que com o passar dos séculos a verdade inicial se modificava.
É importante salientar que, na verdade, não é possível dissociar a ciência totalmente do mito. Isso nunca
será possível. E, além disso, também não é de todo correto afirmar que a ciência é superior ao mito. Embora até
possamos, de certo modo, dar preferência à ciência, uma vez que somos homens de ciência, é preciso agir com
prudência. É que mesmo sendo homens de ciência, ainda somos humanos e não conseguimos viver apenas da pura
razão. Estamos sujeitos a muitos tipos de sentimentos e emoções. A razão realmente não é mito, mas os cientistas
são homens e estes são racionais e emocionais. E, com certeza, precisamos da razão e também do mito.
Nesse caso, podemos definir o mito como tudo aquilo que não é razão. A emoção, a religião, a fantasia, a
ilusão, o amor, a saudade, a paixão, etc., são exemplos de sentimentos ou coisas que não se enquadram como razão.
São coisas que se enquadram melhor no campo mítico. Mas saliente-se que há outras maneiras de se definir o mito.
Aqui em sentido acadêmico a fim de entendermos bem o espírito científico é, no entanto, preferível que ele seja
definido desse modo.

1.4 A fronteira entre a teoria e a prática

Fica assim estabelecido que a ciência tem a ver com a prática e a filosofia com a teoria. Contudo, veremos
que é, de certo modo, impossível desprender uma coisa da outra, ou seja, é impossível desprender a teoria da
prática. Imagine-se um homem de ciência totalmente destituído de conhecimento teórico. Suponha-se um cientista
que nunca tenha passado por uma universidade e nem mesmo pelo ensino médio. Em princípio, poder-se-ia dizer
que os demais cientistas teriam muita dificuldade em dialogar com ele. E tal dificuldade tem a ver com a ausência
da linguagem universal. Para fazer ciência é preciso comunicar-se com o mundo. Isso não significa que todo
cientista precise dominar uma língua universal. No entanto, as técnicas e os métodos são universais.
Será possível formar um engenheiro civil sem nenhuma teoria? Vamos partir do princípio de que a
atividade de um engenheiro seja uma atividade prática. De fato trata-se de uma atividade prática, uma vez que o
engenheiro civil é um profissional que cuida de construção de casas e prédios em geral. Engenharia Civil não é uma
atividade restrita a um escritório ou a um gabinete. A função do engenheiro é realmente acompanhar uma obra e ser
o responsável por ela. E obviamente estamos a falar em obra realmente concreta, pois a obra que é projetada e
acompanhada pelo engenheiro é uma obra que há de ser habitada e usufruída por alguém. O engenheiro é formado
para isso, para exercer uma atividade pratica e não teórica.
Perguntemos novamente, então se é possível formar um engenheiro civil sem nenhuma teoria? Em
princípio, pode-se assegurar que tal façanha é impossível. É óbvio que existem muitos prédios construídos sem a
participação de um engenheiro. No entanto, a pergunta não é se podemos ou não construir um prédio sem a
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participação de um engenheiro? E sim se é possível formar um engenheiro sem nenhuma teoria? É óbvio que não
podemos.
A ciência surge através de uma aproximação entre técnicos e sábios. Foram exatamente alguns sábios com
aspiração técnica e com curiosidade cientifica quem a promoveram. Esse é, por exemplo, o caso do próprio Galileu,
pois ele enquanto homem pragmático fazia frequentes visitas aos artesãos. Ele era conhecedor já de algumas teorias
e com certeza era homem letrado. Mas para ser um cientista propriamente dito ele tinha de procurar os artesãos a
fim de atingir alguma descoberta concreta.
O homem limitadamente técnico sabe que e sabe como, mas normalmente não sabe por que. Um homem
limitadamente letrado certamente sabe o porquê, mas não sabe que e não sabe como. Logo, o cientista é aquele quem,
de certo modo, sabe por que, sabe como e sabe que. O cientista, portanto, não é apenas técnico nem apenas intelectual,
nem só artesão e nem só erudito. Ele é, de certo modo, um misto de ambos (Cf. REALE, 1990, p. 193-195).
As regras estabelecidas por Isaac Newton, por exemplo, são regras claramente baseadas na indução (1979, p.
22). O seu postulado ontológico de que a natureza é uniforme, por exemplo, nos remete ao Universo inteiro a partir
das símplices observações locais. Newton não podia viajar pela Via Láctea para fazer observações e depois difundi-
las. Bastava-lhe apenas pressupor que o Universo é uniforme e que os fenômenos que presenciamos no nosso quintal
são semelhantes em toda Via Láctea. Assim como o homem respira na Inglaterra, ele também respira na China e
assim como os corpos gravitam diante de nós, os planetas também devem gravitar em relação ao Sol. Newton ilustra a
analogia entre o movimento do pião e a órbita dos planetas. O pião ao ser lançado ao chão cessa de rodopiar
rapidamente e os planetas não. Qual a razão dessa diferença? É que a resistência que os planetas encontram diante de
si para cessar as suas rotações é bem menor que a do pião. De acordo com Newton, todo corpo preserva o seu estado
de movimento enquanto não for forçado a parar por outra força contrária. A resistência do ar que o pião enfrenta é
enorme, uma vez que estamos na superfície da Terra (Cf. REALE, 1990, p. 302). Para além da atmosfera, na
concepção de Newton, existia o éter, nos quais os corpos se moviam. O éter, nesse caso, são gases insignificantes e
pouco perceptíveis pelos corpos que os atravessam (NEWTON, 1979, p. 39). Observe-se que nesse caso, o princípio é
o mesmo para todos e quaisquer corpos, o que parece diferir é apenas a proporcionalidade. Se um pião gira apenas
alguns segundos, os planetas giram, talvez, por milhões de anos.
Pode-se, portanto, assegurar que se um cálculo for cuidadoso, ele poderá realmente ser verdadeiro. Ou seja,
poderá fazer previsões que hão de ser corroboradas. Johannes Kepler (1571-1630) também é um excelente exemplo de
homem perseverante. Após incansáveis tentativas conseguiu desvendar um mistério incitante da astronomia: as
irregularidades das órbitas planetárias. Havia um dogma universal em sua época de que as órbitas dos planetas são
circulares. Contestar essa tese era aceitar um desafio monstruoso. Se desde a antiguidade clássica acreditava-se que os
movimentos planetários são circulares, como um único homem poderia insurgir contra uma tradição? Contudo, uma
teoria não é bem uma tradição, pois elas foram também moldadas por outros sábios, mais ou menos isoladamente.
Desde a antiguidade acreditava-se que o movimento em círculo era uma espécie de movimento perfeito. Se os deuses
são perfeitos, a sua obra tinha de ser perfeita. E se os corpos em formato esférico eram considerados uma espécie de
formato perfeito, esperava-se também que as órbitas fossem circulares. Contudo, a própria astronomia se apercebia
que existiam algumas questões no ar. Por que, por exemplo, os planetas se distanciam do Sol? Se, por exemplo, a
órbita da Terra fosse precisamente circular estaríamos sempre à mesma distância do astro rei. Os astrônomos
obviamente se apercebiam que existiam irregularidades nas órbitas dos planetas em torno do Sol. É então, Kepler
quem desvenda esse mistério. Diante das inúmeras tentativas, restou-lhe a hipótese de que a órbita dos planetas fosse
elíptica. Pronto! A questão estava resolvida. Era preciso recusar a crença milenar de que as órbitas são em círculos.
Observe-se que Kepler estava exatamente rompendo com um dogma. Era preciso recusá-lo em prol da verdade, ou
seja, em prol de uma hipótese muito mais plausível.
Agora vale a pena observar que as famosas três leis de Kepler também consistiam em atividade teórica. Ele
as elaborou em seu laboratório e não dentro de uma nave espacial. Na verdade, aos poucos os estudiosos se
apercebem que se usarmos o raciocínio é possível poupar sacrifícios em excesso ou somas exorbitantes. O raciocínio
lógico e as boas ideias, embora ainda possam ter muito de teórico, eles são essenciais. Ainda é preciso salientar que
embora estejamos a dizer que a tarefa de desempenhada por Kepler era teórica, é preciso compreender que não se
tratava de uma atividade teórica em sentido livresco. O seu ofício, embora tenha sido feito em solo firme, ele era
voltado para a empiria. E Kepler, com certeza, estava rodeado de equipamentos científicos, embora rústicos. Ele, com
certeza, era um homem sábio, mas voltado para a prática, pois, não visava aprender por aprender e sim para
transformar a natureza.
De uma coisa podemos estar bem certos: os seres humanos na sua maioria são bem menos atraídos por
atividades teóricas do que por atividades práticas. Isso é simplesmente indiscutível. E é bem verdade que a atividade
intelectual e a teórica são tão exaustivas quanto a atividade prática ou manual. Um cientista fatiga-se tanto quanto um
operário. No entanto, um cansa o corpo físico, o outro a mente. Ambos precisarão recorrer ao descanso e ao
reabastecimento do organismo para permanecer em plena forma.
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Sabemos muito bem que se pudéssemos não nos extenuaríamos em atividade alguma. No entanto, o
empenho faz parte da vida do homem contemporâneo. Para se atingir o sucesso é necessário o empenho. O próprio
estado de bem estar ou de conforto que todos desejamos, requer que passemos pela labuta. Se o agricultor não se
esforçar para lavrar a terra, semear e colher, ele simplesmente não terá o que comer. Pode-se dizer a mesma coisa
sobre a atividade intelectual ou teórica. Se um acadêmico não se esforçar ele não terá os rendimentos que precisa. E se
o corpo docente de uma universidade também não se envolver em pesquisa, a universidade deixará de existir enquanto
organismo vivo e enquanto foco da ciência.
Mesmo as áreas acadêmicas mais práticas ou empíricas sempre estarão ligadas à teoria. É, na verdade,
impossível falar em atividade científica e prescindir totalmente da teoria. Um engenheiro civil ao passar pela
universidade, com certeza, se abastece de toda teoria que fará dele um legítimo engenheiro. Saliente-se que os
próprios cálculos matemáticos são pura teoria. Aliás, matemática é pura teoria, matemática é uma disciplina abstrata
por excelência. Nesse caso, observe-se que é realmente impossível formar um engenheiro prescindindo-o de
cadeiras teóricas. Ao falarmos aqui em atividades empíricas, estamos a falar mais precisamente em atividades
práticas no mundo da ciência. Um engenheiro civil, um cirurgião e um enfermeiro são profissionais voltados para
atividades empíricas, ou seja, suas funções são bem concretas. O primeiro está envolvido em construção de prédios,
o segundo em operar o corpo físico de um paciente. E um enfermeiro que atua num pronto-socorro, por exemplo,
cuida de pacientes reais de carne e osso que lá chegam em busca de assistência emergencial. Os conhecimentos
teóricos de um profissional estão armazenados em sua mente. Os conhecimentos teóricos de um engenheiro civil
estarão, portanto, sempre lado a lado de suas atividades práticas.
Mas afinal o que é essencialmente a teoria e o que é a prática? As aulas teóricas e as leituras de um
estudante de medicina são teorias, a medicação dos pacientes e a realização de cirurgias são práticas. Nesse caso, é
razoável supor que o conhecimento teórico desse médico está armazenado em sua mente. Ele não poderia receitar
qualquer remédio ou realizar qualquer cirurgia se porventura não tivesse conhecimento. Observe-se, portanto como
é difícil separar a teoria da prática.
Será que a sofisticação que conhecemos no mundo moderno teria chegado até nós sem a existência das
engenharias? Dificilmente. E seria possível falar em engenharia sem falar em cálculos, sem aulas de física, ou seja,
sem uma formação em disciplinas cuja origem está na matemática? É impossível. Em síntese, toda prática requer
uma teoria. Mesmo as áreas mais supostamente erradicadas de teoria carecem e estão embasadas nela. Outro
exemplo: seria possível formar um advogado sem qualquer conteúdo teórico? É possível um acadêmico se tornar
um criminalista sem conhecer as leis e sem qualquer leitura? Impossível. O preparo de um profissional liberal nesse
sentido é um preparo teórico, silencioso e que requer muita concentração. Reflexão e raciocínio são imprescindíveis
a qualquer profissional liberal de formação superior.
Embora a separação entre a teoria e a prática não seja uma tarefa fácil, tentamos aqui a todo custo
desprendê-las e mostrar como não podemos prescindir de uma em prol da outra. Ambas são importantes.

1.5 O método científico: Bacon e Descartes

Quando falamos em método científico é preciso mencionar pelo menos duas figuras do passado: Francis
Bacon (1561-1626) e René Descartes (1596-1650). Ambos são importantes na história da ciência, embora nem um
nem outro tenha sido cientista. Conforme já salientamos a ciência não vive só dos cientistas propriamente ditos, é
preciso que haja outros profissionais que deliberem sobre ela. Tanto Bacon como Descartes foram filósofos e,
enquanto tais foram imprescindíveis para a ciência por causa dos princípios que defenderam. O método científico é,
sobretudo, uma façanha que muito se deve a Descartes. E quanto a Bacon a sua façanha tem a ver com o fato de ter
denunciado a inércia do sistema aristotélico e tomista em prol de uma visão mais concreta do conhecimento
humano.
A fim de entendermos melhor a importância de Bacon vejamos primeiramente a essência do sistema
aristotélico, o qual ele repugnava e considerava um verdadeiro entrave ao progresso da humanidade. Em princípio, o
sistema aristotélico conduzia à inércia científica porque partia da convicção de que o mundo sublunar é corruptível e
o sobre lunar incorruptível, perene e perfeito. Em outros termos, isso queria dizer que para além da atmosfera, por
exemplo, os céus e tudo o mais é perfeito e imperturbável. Esse princípio criava uma morosidade principalmente na
astronomia e, afinal, como já verificamos, o nascimento da ciência está ligado à astronomia. Na verdade, a prática
vigente nos dias de Bacon era a pura contemplação. Naqueles idos, os poucos que supunham fazer ciência se
limitavam em meras contemplações e especulações teóricas.
Bacon apercebe-se desse fato e, então passa a propugnar uma outra forma de fazer filosofia e
conseguintemente uma outra forma de fazer ciência. Agora, segundo ele, é preciso voltar-se para a natureza e
transformá-la em favor do próprio homem. É muito mais premente buscar conhecimentos que sejam úteis ao próprio
9

homem. Mas ao falar de benefício, ele visava benefícios realmente práticos. Noutros termos, a busca de
conhecimento, na concepção de Francis Bacon, é a busca por conhecimento cujo fim é a utilidade prática.
O próprio Bacon, na verdade, não fez qualquer experimento em laboratório. Mas, de qualquer modo, ele
teve o mérito de propugnar com denodo o objetivo prático do conhecimento, o que significa que ele fez algum tipo
de apologia à ciência. Com certeza é importante o fato de um homem das letras ser um defensor das atividades
práticas. E enquanto defensor denodado da indução, foi exatamente isso que Bacon fez2. Para ele a indução é
exatamente o método apropriado à pesquisa.
A lógica aristotélica, acreditava ele, era, sobretudo dedutiva e não levava a nenhum descobrimento nem a
novidade alguma. Por isso, ele contrapunha o seu método indutivista e experimentativo ao método dedutivista
aristotélico. O método dedutivo tinha por hábito querer antecipar a natureza sendo que, na verdade, o que
precisamos é interpretá-la. É preciso realizar pesquisa com o fito de controlar a natureza em prol do homem. Mas ao
mesmo tempo Bacon parecia convicto de que a partir dos dados indutivos é também possível atingir um
conhecimento geral, ou seja, um axioma. A partir do qual então é possível extrair uma dedução salutar, realmente
confiável. Observe-se então que a partir da indução é possível atingir uma dedução. E esta enquanto confiável pode
servir à pesquisa científica.
Para ilustrar a genuína pesquisa científica Bacon apresenta a natureza da aranha, da formiga e da abelha,
sendo que esta última é o modelo a ser imitado. A aranha tece a teia extraindo o material de dentro de si, o que
alude aos escolásticos. A formiga armazena o material do modo que o acha na natureza e depois o consome sem
nada depurar, o que alude aos empiristas. Por fim, a abelha para produzir o mel colhe o material de fora e, então o
transforma através de recursos do seu organismo. Observe-se que é preciso realizar um meio-termo, nem totalmente
empirista nem unicamente racionalista. “Também o cientista, por meio da experiência, deve recolher informação
suficiente (o material) e, depois, mediante suas faculdades espirituais (a razão), deve procurar elaborar noções
gerais e leis universais” (MONDIN, 1981, p. 54).
Bacon também fala na importância da salubridade da mente. Para fazer uma pesquisa científica, é
necessário que a mente esteja completamente despojada de preconceitos e de ideologias. É necessário colocá-la em
pleno estágio de tabula rasa. Feito isso, deve-se, então percorrer todo um caminho indutivo, coletar e descrever o
material em questão, coordenar cada caso e verificar quantas vezes os fatos se repetem. Bacon sabiamente também
sugere a formulação de uma hipótese, a qual deve ser testada.
De acordo com os historiadores da filosofia, Bacon foi realmente o primeiro a defender uma sistemática
para a ciência, embora o tenha feito de modo bem rudimentar. E, tal como verificamos, também é dele o mérito de
defender energicamente a ciência como obreira do sucesso experimental. “A meta verdadeira e legítima das ciências
não é outra senão esta: que se cuide de prover a vida humana de invenções e riquezas” (BACON, apud, MONDIN,
1981, p. 57).
Vejamos agora o que a ciência deve a Descartes. Em princípio, pode-se dizer que o seu método não é
indutivo. Até aqui temos dito que a ciência propriamente dita lida com o raciocínio indutivo, mas conforme veremos
o próprio Descartes não é um representante desse tipo de raciocínio. Ao contrário, ele é por excelência um
dedutivista e um representante do racionalismo. Contudo, o método que ele apresenta no seu famosíssimo livro
Discurso sobre o método é simplesmente imprescindível à ciência. Descartes estava simplesmente convicto que
investigar adotando um método é tarefa fundamental e importante. Ele, ao que parece, pretendia dizer que para fazer
ciência é muito mais premente a existência de um método do que de uma mente brilhante. Com isso pretendia dizer
que uma investigação pode tornar-se muito mais eficiente e proveitosa quando feita por meio de um método.
Em síntese, o método cartesiano é composto de quatro partes, ou seja, quatro regras às quais ele não dá
nenhum nome, mas “costumam ser designadas pelos estudiosos como intuição, análise, síntese e enumeração”
(MONDIN, 1981, p. 67). Vejamos como o próprio Descartes o apresenta:

O primeiro era o de nunca aceitar alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente
como tal, ou seja, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção e de nada mais incluir em meus
juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente a meu espírito, que eu não tivesse motivo algum
de duvidar dele. Segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu analisasse em tantas parcelas
quantas fossem possíveis e necessárias, a fim de melhor resolvê-las. O terceiro, o de conduzir por ordem
meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-me,
pouco a pouco, como que por degraus, até o conhecimento dos mais compostos e presumindo até mesmo
uma ordem entre aqueles que não se precedem naturalmente uns aos outros. E o último, o de elaborar em
toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir
(DESCARTES, 2006, p. 21).

2
Sobre os méritos de Bacon, cf. KÖCHE, J. C. Pesquisa científica: critérios epistemológicos. Petrópolis: Vozes, 2005, p.
45.
10

Observe-se que estamos diante de um método realmente interessante e embora seu autor não o tenha
aplicado na ciência propriamente dita, nada nos impede de aplicá-lo. É preciso deixar bem claro que a importância
de um método tem a ver, sobretudo com a eficiência. Afinal, por que não facilitar o próprio trabalho? Suponha-se
uma tarefa que normalmente demora em média um mês para ser concluída. Se alguém inovar uma forma de elaborá-
la em cinco dias com qualidade idêntica à outra, certamente estará a prestar uma grande contribuição.
À primeira vista, o método científico pode não parecer grande coisa, no entanto, a experiência em pouco
tempo mostra como ele é realmente imprescindível. Aliás, não é somente na ciência que os homens recorrem a
métodos com o fito de facilitar os trabalhos. Em outros campos também os homens fazem uso deles. Quando, por
exemplo, ouvimos falar em método para aprender a tocar instrumentos musicais e método para abandonar um vício,
o que se pretende é nada mais que facilitar a tarefa que se tem em vista. Ou seja, o método visa fazer com que as
pessoas aprendam a tocar instrumentos musicais e a abandonar um vício num tempo menor que o tempo natural.
E assim sendo, para fazer ciência tanto é primordial adotar um método tipo o cartesiano como também
pensar indutiva e empiricamente como Francis Bacon. Embora o trabalho de ambos seja, de certo modo, um
trabalho incipiente, visto terem vivido em uma época em que a própria ciência ainda não existia, ambos têm o seu
mérito assegurado na história da ciência.

1.6 O positivismo de Augusto Comte

Em princípio, podemos definir o positivismo como um pensamento filosófico que exalta a ciência. Aliás,
não é exagero dizer que o positivismo enaltece e louva a ciência com todas as letras. Por meio da ciência, diziam os
positivistas, todos os problemas deste mundo poderão ser resolvidos. Em síntese, o positivismo, tal como o próprio
nome sugere é uma concepção filosófica otimista. Um positivista, então é um pensador que acredita convictamente
que através da ciência e somente por meio dela a sociedade humana será resgatada de todos os males.
O pai do positivismo tradicional é Auguste Comte (1798-1857), e a convicção na sua teoria era não só
petulante, mas também ingênua e exagerada. Ele supôs haver descoberto uma grande lei, segundo a qual a
sociedade havia caminhado por três estágios: o teológico (fictício), o metafísico (abstrato) e o positivo (científico).
Com isso Comte queria dizer que as sociedades primitivas haviam passado por um período místico ou supersticioso.
E, na verdade, tal como hoje realmente sabemos, as primeiras sociedades humanas com certeza passaram por um
estágio religioso. Em decorrência da falta de informação e de melhores recursos, os nossos antepassados tinham
como base a superstição e o misticismo para explicação e solução dos problemas. O estágio metafísico é nada mais
que um estágio teológico melhorado, no qual as entidades sobrenaturais são substituídas por entidades abstratas. Os
gregos, ao que parece, tiveram importante papel no estágio metafísico. Aliás, Comte compara a evolução das
sociedades com a evolução da vida humana. Assim como uma pessoa tem um período de infância, um período de
adolescência, de maturidade e de senectude, também o tem a civilização. O homem primitivo viveu como criança na
sua ingenuidade, a sociedade metafísica fora, por assim dizer, uma sociedade jovial e a contemporânea, por fim,
vive em plena maturidade. E esta, ao que parece, é uma etapa perene. Comte, então, parecia confiar na proeza da
ciência. Agora, o homem contemporâneo de posse da ciência é como alguém provido de uma fórmula certa e
garantida. E a humanidade, por isso tem futuro promissor.
A veneração de Comte pela ciência acaba por tomar uma forma religiosa, visto que sugere a substituição
do amor a Deus pelo amor à Humanidade. E ele toma de empréstimo toda a estrutura católica como suporte para
uma nova religião laica. Em outros termos, aquilo que hoje conhecemos como igreja católica, deveria existir com a
mesma estrutura, mas tendo a ciência como centro de tudo. Suponha-se, nesse caso, templos laicos e batismo como
sinônimo da iniciação do individuo na vida científica. Poder-se-ia, de igual modo, supor missionários da ciência e
padres que não celebrassem missas e sim que ensinassem a ciência aos homens.
Observe-se como o imaginário de Auguste Comte era realmente interessante e assaz romântico. Aliás,
romântico ao extremo, ao ponto de sua própria teoria poder também ser enquadrada como uma teoria metafísica.
Contudo, é válido e compreensível que ao seres humanos seja permitido sonhar. E sonhar aqui quer dizer pensar a
utopia e, na verdade, nada nos impede de pensar que num futuro quer distante quer próximo, toda a humanidade
possa atingir essa redenção imaginada pelo pai do positivismo. Afinal, a Europa ocidental e, sobretudo os países
nórdicos atingiram patamares invejáveis quanto ao estado de bem estar social.

1.7 A questão da cientificidade no marxismo

Denominar o marxismo de positivista poderia ser considerado uma ironia ou mesmo um desdém, uma vez
que ele é, de certo modo, a antítese de positivismo. É, por exemplo, normal ouvir os intelectuais ou os políticos de
11

inclinação progressista denominar os seus opositores de positivistas. O que pretendemos denominar de marxismo
positivista é no sentido em que o marxismo é também uma outra teoria otimista. Obviamente não tanto como o
positivismo, mas com certeza o suficiente para fazer discípulos à maneira desejada por Comte. Afinal, o marxismo
arrogava ser uma teoria científica e seus seguidores acreditavam convicta e religiosamente numa espécie de
redenção universal da humanidade. Agora podemos falar não somente de uma redenção e de uma laicização da
humanidade e sim de uma ateização. O marxismo leva o nome de seu fundador Karl Marx (1818-1883), para quem
a religião era, de certo modo, uma espécie de “ópio do povo” no sentido em que contribui para o atraso das
sociedades. Na verdade, o marxismo acabará por tornar-se uma verdadeira prática de vida para milhões de seres
humanos. O século XX foi, com certeza, o século do marxismo. Embora se tratasse de uma teoria científica e não de
uma fé religiosa, o marxismo acaba por tornar-se ele próprio em uma espécie de fé.
Vejamos agora quais as contradições do marxismo enquanto teoria científica. Em princípio, vale a pena
observar que o marxismo era uma teoria determinista. E o casamento do determinismo com a ciência parece
simplesmente algo impossível. Ciência nenhuma pode se arrogar determinista, porque determinismo tem a ver com
dogmatismo e não com ciência. Essa anomalia existente no marxismo com certeza acarretou a intolerância. Karl
Marx e os seus seguidores eram terminantemente convictos que a sua teoria era científica. E durante algumas
décadas tudo ou quase tudo parecia indicar que se tratava de uma teoria científica. Quando finalmente ocorreu a
desintegração do mundo socialista, a dúvida que pairava sobre a sua cientificidade se tornou uma certeza. É que de
acordo com Marx o mundo caminhava impreterivelmente em direção ao socialismo mundial. E supunha-se que a
URSS era quem liderava essa caminhada. Contudo, a URSS ruiu e o tal socialismo que se dizia científico entrou em
crise. Nesse caso, vale perguntar: afinal, o marxismo é científico ou não?

2 AS VARIEDADES DE CONHECIMENTOS E TIPOS DE RACIOCÍNIO

2.1 O conhecimento científico

O conhecimento científico apresenta características totalmente peculiares e ausentes em outros tipos de


conhecimento. Uma das mais importantes é a de se opor ao dogma, ou seja, o conhecimento cientifico é
antidogmático. Mas antes de tratar mais detalhadamente sobre os dogmas, apresentaremos as principais
características do conhecimento científico e o significado de cada uma. O conhecimento científico é de espírito
humilde, às vezes aporético, é sistemático, é experimental, é concreto, é objetivo, é verificável, é metódico, é claro,
é serio e indutivo. Agora vejamos, por outro lado, algumas características que não são do conhecimento científico:
ele não é dogmático, não é absoluto, não é completo, nem relativo.
A sua principal característica é talvez a de ser verificável e consequentemente confirmado através de
modo factual. Vejamos um exemplo bem simples de conhecimento científico: o conhecimento de que um remédio
tal e tal é eficaz na cura de uma doença. Tal conhecimento é científico pelo mero fato de poder ser testado.
Suponhamos que uma pessoa apresente uma vacina e diz que ela é capaz de imunizar as pessoas de toda e qualquer
gripe. Esse seu desafio é um desafio denodado e os outros cientistas que o ouvirem exigirão uma demonstração
dessa descoberta. Aliás, esse exemplo, é tão simplório que basta pensar que a tal tese só seria científica se a tal
vacina fizesse efeito. E é realmente essa propensão que faz com que as pesquisas nesse campo possam ser
caracterizadas como científicas. Se essa pessoa consegue provar aos colegas da mesma área que sua vacina é
realmente eficaz, o seu trabalho é científico. Todo o seu conhecimento produzido a partir de uma pesquisa exaustiva
poderá muito bem ser classificado como conhecimento científico. É exatamente por isso que se pode dizer que
Galileu foi um cientista, isto é, porque ele demonstrou por meio de um telescópio a tese que defendia. A teoria da
evolução, embora seja uma teoria, é também um conhecimento científico porque o seu autor fez boas
demonstrações através de dados experimentais. Ele simplesmente pesquisou por muitos anos e fez diversos testes
em diversas partes do mundo. Mas, afinal, por que o conhecimento científico não é absoluto? Simplesmente porque
a ciência é algo que não se consuma de uma vez por todas. Na verdade, nenhuma tese ou conhecimento científico
está livre de ser refutado. Parece estranho, mas essa é a grande verdade. Para ser um cientista legítimo é preciso
alimentar sempre esse princípio. O verdadeiro cientista não se arroga de qualquer tese, não supõe saber tudo, nem
que esta ou aquela tese é absoluta em todos os tempos. Mesmo que alguns conhecimentos sejam muitas vezes
considerados irrefutáveis e explícitos aos nossos olhos, não devem ser tomados como realmente irrefutáveis. Sobre
eles é preciso que o cientista seja sensato. É que, na verdade, a história nos mostra como muitos “conhecimentos e
teses inabaláveis” foram refutados. Muitos homens letrados no passado defendiam algumas teses que hoje são
simplesmente insustentáveis. É também com o fito de se livrar de qualquer dogmatismo que o conhecimento
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científico não aspira ser absoluto ou irrefutável. Em princípio, se quisermos que a própria ciência seja absoluta,
iremos aniquilá-la, porque o dogma nos desmotiva a pesquisar.
Voltemos ao exemplo de alguém que criou uma vacina antigripal. Na, verdade, nada impede, por exemplo,
que daqui a alguns anos surjam outros vírus gripais resistentes a tal vacina. Nesse caso, é importante ter em mente
que a atividade científica está sujeita a muitas vicissitudes. Ou seja, muitas surpresas e coisas ao acaso surgem a
qualquer momento e a ciência fica sempre a mercê de alguma novidade seja boa ou má.
O conhecimento científico é sistemático simplesmente pelo fato de ser praticamente impossível fazer
ciência sem ser sistemático. Normalmente algumas descobertas científicas só ocorrem após longos anos de pesquisa
sistemática. Os medicamentos em geral não são criados ou descobertos por acaso e sim devido a experimentos e
testes consecutivos. Embora seja possível a uma pessoa descobrir um medicamente por mero acaso, a probabilidade
de isso ocorrer é diminuta. Não seria prudente ou sensato ficar a espera de uma descoberta ao acaso. Os homens de
ciência têm de se empenhar e ir em busca de descobertas, ou seja, eles têm de pesquisar. A ciência é produto de
pesquisas sistemáticas e exaustivas.
O conhecimento científico é sério no sentido em que se contrapõe a qualquer iniciativa vaidosa ou leviana.
Em outros termos, dizer que o conhecimento científico é sério significa que é um conhecimento que trata com
questões que requerem responsabilidade. O homem de ciência é aquele que de modo algum poderá brincar em
serviço, nem visar qualquer sensacionalismo barato. No entanto, a seriedade da ciência não significa sisudez ou
frieza humana e sim responsabilidade. O verdadeiro pesquisador, por exemplo, não elabora suas pesquisas
meramente com fins egocêntricos, ou comerciais. Seus fins enquanto homem de ciência tem de ser puramente
objetivo, ou seja, seus fins visam alcançar um bem geral.
O conhecimento científico não é relativista porque seria impossível fazer ciência supondo que a verdade é
relativa a cada pessoa. Assim sendo, o conhecimento científico enquanto objetivaste contrapõe-se ao subjetivismo e
ao relativismo. Em princípio, é preciso dizer que se A é verdadeiro implica que B seja falso. Em ciência não se pode
querer que A seja verdadeiro para mim, falso para ele, meio falso e meio verdadeiro para outra pessoa. Se essa visão
é aceita entre as pessoas no dia a dia, para a ciência não o é. Embora seja impossível ao ser humano ser totalmente
objetivo, ele terá de aspirar pela objetividade caso queira ser um homem de ciência. Na verdade, se o homem de
ciência é aquele que trabalha com o conhecimento científico, então ele tem de aspirar sempre pela objetividade. A
teoria do heliocentrismo não era verdadeira para Galileu e falsa para seus algozes. Embora houvesse um embate
sobre o caso, o certo é que seus algozes não faziam relutância através de demonstrações científicas e sim por meio
da intolerância. Galileu estava certo e a verdade estava do lado dele. Todos sabem que a Igreja em tempos recentes
reconheceu o seu erro e até pediu desculpas à comunidade científica. Questões de natureza estritamente científicas
não podem ser tratadas como questões religiosas e sim com muita cautela. Enquanto cada credo religioso define
deus de uma forma, a ciência não pode proceder do mesmo modo. Se num determinado credo os seus adeptos
afirmam que deus é de uma forma e num outro credo afirmam que é de outra, isso não afetará a nossa vida em nada.
No entanto, se esse relativismo for aplicado na vida científica, muitos problemas poderão surgir. Mas, como já
verificamos, os testes empíricos felizmente se encarregam de amenizar esse problema.
Vejamos um exemplo de conhecimento científico: o conhecimento de que o uso do tabaco é prejudicial à
saúde. É científico porque é um conhecimento que os médicos e os especialistas em geral só o atingiram após vários
experimentos e testes. Para um médico poder afirmar qualquer coisa ele precisa estar muito seguro. A crença hoje
generalizada de que o tabaco é prejudicial, com certeza, não surgiu por meio de meras hipóteses teóricas e sim
através de muitos testes empíricos. Vários critérios e técnicas implicaram na conclusão de que o tabaco é
prejudicial. Nesse caso, só após muitas corroborações, tal afirmação, pôde ser classificada como científica. Observe-
se que para que algum conhecimento seja considerado científico é preciso que ele seja verificável. Porque assim
sendo ele poderá ser corroborado ou refutado. Caso contrário, ele passa a ser conhecimento de outra natureza e não
científico.
O conhecimento científico é aporético porque sempre é possível que algumas questões fiquem no ar e sem
resposta. Quando se faz uma investigação científica e não se chega a resultado algum é preciso se contentar com
aquilo que se atingiu. Se, por exemplo, após alguns anos exaustivos em torno de uma questão, um grupo de
investigadores nada atinge, o que lhes resta é a aporia. Nesse caso, os pesquisadores devem ser suficientemente
humildes para entender que não foi possível alcançar a resposta desejada. Uma vez que nada se alcançou, nada pode
ser inventado como alternativa. Esse é um critério natural do espírito científico, visto que não é nada vergonhoso o
fato de não se atingir uma resposta. Na verdade, muitíssimas pesquisas foram feitas sem atingir os resultados
esperados e muito dinheiro foi despendido. Contudo, é preciso entender que tais pesquisas alguma coisa fizeram em
prol da ciência. Algum caminho foi aberto. Os que irão dar continuidade, com certeza, irão partir com menos
ingenuidade e com recomendações feitas pelos antecessores. Uma aporia é, portanto, um beco sem saída, ou seja,
um problema sem resposta. O fato de alguma pesquisa não obter uma resposta, significa que a questão é aporética.
É por isso que podemos dizer que a ciência é às vezes aporética.
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O conhecimento científico é exatamente racional e sério no sentido em que visa um fim geral e
humanitário e nunca meramente vaidoso.
O conhecimento científico é antidogmático porque, conforme já havíamos dito anteriormente, o
dogmatismo aniquila a ciência. Afinal, o que é um dogma? Em síntese, dogma é aquilo que não requer provas ou
demonstrações. O conhecimento dogmático, por sua própria natureza é um tipo de conhecimento que não precisa de
provas. O conhecimento religioso é, por exemplo, tipicamente um conhecimento dogmático e não poderia ser
diferente. Alguém que alega saber que vai para o paraíso após a morte e que Deus é maravilhoso, tem tal crença de
modo dogmático. Toda fé religiosa é dogmática visto que aquele que acredita no sobrenatural não tem qualquer
obrigação de provar sua fé. Aliás, além de não ter obrigação, ele sequer consegue provar a veracidade de sua fé. Um
bom cristão, por exemplo, não perde seu tempo em sair por aí provando que Jesus Cristo é o filho de Deus. Ele
sequer teria como dar prova disso por meio de experimentos científicos. As crenças religiosas são crenças que
simplesmente não são passíveis de provas científicas, pois por natureza elas são dogmáticas. E, portanto, como já o
dissemos, para que algum conhecimento seja científico é necessário que seja passível de verificação. Se alguém
pedir a um cristão para provar a existência de Deus, ele poderá se safar muito bem simplesmente alegando que crê e
pronto. As doutrinas religiosas são apresentadas em nome de um Deus e pronto. O bom fiel não deve contestar ou
questionar a própria fé, pois uma vez que participa de um grupo religioso é preciso que acate a fé desse grupo. Isso
não significa que esse comportamento seja errado ou intolerante e sim que a natureza das crenças religiosas é
realmente assim e não pode ser diferente. O conhecimento científico, conforme já se pode perceber é exatamente o
contrário, porque requer sempre uma demonstração. É óbvio que um conhecimento religioso é um conhecimento
nada passível de ser provado. Mas não é apenas o conhecimento religioso que adota o dogma. Há muitos outros e,
infelizmente o ser humano tende a dogmatizar as suas crenças em geral. Nenhuma tese científica pode ser baseada
em dogma e sim em demonstrações. Esse foi o caso da teoria da evolução, da teoria do heliocentrismo, da teoria da
relatividade e outras mais. Uma tese científica, ao contrário de uma tese religiosa, pode ser contestada. Qualquer
pessoa bem munida de argumentos suficientes poderá contestar qualquer teoria científica. Mais adiante veremos
como que algumas teorias científicas foram contestadas e ainda são nos dias atuais. Esse é, por exemplo, o caso da
psicanálise e do marxismo. Este último, conforme já mostramos, é um exemplo de ciência ou suposta ciência que
acabou por se tornar um dogma absoluto.
Ainda nos resta dizer que o conhecimento científico é um tipo de conhecimento que nos vem a partir do
raciocínio indutivo. A ciência normalmente trabalha com a indução, visto tratar-se do método que lhe é propício.
Uma vez que a ciência é ciência do empírico, então é natural que ela trabalhe com a indução. Ou seja, com
experimentos reais, concretos e singulares. No entanto, sobre o conhecimento indutivo iremos tratar numa seção à
parte. Por ora basta apenas lembrá-lo como uma das principais características da ciência.
O conhecimento científico diferentemente do conhecimento filosófico, por exemplo, não indaga pelas
causas primeiras ou pela essência das coisas. Isaac Newton enquanto homem de ciência é um importante exemplo
nesse sentido. Ele ao formular as suas teorias, deixava bem claro que o espírito científico enquanto experimental
não deveria indagar pela essência dos fenômenos. Newton é realmente um excelente exemplo de homem de ciência
devido ao fato de reconhecer que o conhecimento humano é limitado e que o cientista não deve extrapolar em suas
indagações. Aliás, diante das questões que sabia serem irresolúveis, ele prudentemente preferia remetê-las ao divino
Criador. Ele especulou bastante sobre os movimentos e fez inferências ousadas, contudo, nunca ousou querer saber
de onde vêm os movimentos. Explicou, por exemplo, que é a força gravitacional que mantém os corpos em suas
órbitas. Contudo, enquanto genuíno homem de ciência soube empreender uma boa separação entre a filosofia
especulativa e a ciência propriamente dita, isto é, a ciência experimental. Enfim, para ele não importava indagar
pelas causas e sim pelas leis. Por isso mesmo ocupou-se sempre em elaborar leis sobre os fenômenos (Cf.
NEWTON, 1979, p. 22).
A essa altura o leitor já deve estar mais ou menos convencido de que a questão da ciência é algo bem
complexo e nada fácil de ser definida. Mas aos poucos iremos avançando e no final será possível atingir uma boa
noção.

2.2 O conhecimento filosófico

O conhecimento filosófico é por excelência um conhecimento teórico. Ele tem muitas afinidades com o
conhecimento científico e, na verdade, por pouco ele não fica também incluído entre o conhecimento científico.
Mas de qualquer modo, em pleno século XXI existem muitas razões para que ele não seja classificado como
conhecimento científico em sentido estrito. É que além de ser por excelência um tipo de conhecimento estritamente
teórico, ele é também de natureza abstrata, ou seja, a atividade filosófica é uma atividade abstrativa. Afinal, filosofia
é pensamento, é reflexão. No entanto, é pensamento enquanto atividade, visto que a atividade do filósofo é o pensar.
E aquilo que pensa, ele manifesta aos outros. Enfim, ele comunica a outrem aquilo que refletiu, não restringe apenas
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a si. Se ele não manifestar aos outros aquilo que pensa, o seu pensamento nunca poderá ser considerado um
conhecimento. No entanto, poder-se-ia perguntar: desde quando o pensamento pode ser uma atividade? Muito bem!
A pergunta tem fundamento e deve ser respondida com toda boa vontade. Em princípio, o pensamento em sentido
filosófico não se trata de pensamento em sentido vulgar. O pensamento filosófico é devidamente produzido de
modo sistemático, lógico e com muita cautela. Por exemplo, os argumentos cartesianos expostos em seu livro
Discurso sobre o método, foram produzidos após muitas reflexões. Seus argumentos, com certeza, não surgiram do
nada ou de qualquer reflexão leviana. Ele teve que despender muitos dias e horas consecutivas na elaboração de seu
livro. É nesse sentido que o conhecimento filosófico tem muitas afinidades com o conhecimento científico. É que
ele também trabalha com teses e com demonstrações, embora não com teses e demonstrações como as das ciências
empíricas. Contudo, ele tal como qualquer conhecimento científico, requer o acompanhamento da razão humana e
está sob as leis da lógica. É preciso salientar que o conhecimento filosófico também trabalha com metodologia, tal
como faz o conhecimento científico. No entanto, conforme já o dissemos, o filosófico é, por natureza um tipo de
conhecimento teórico. Vejamos, por exemplo, o ramo mais abstrato do conhecimento filosófico: a metafísica. Este
ramo, por assim dizer, tem algumas liberdades de raciocínio que ao campo científico é simplesmente impossível. A
filosofia de Hegel e de Espinosa é um excelente exemplo de metafísica e o panteísmo é um tipo de tema desse ramo
filosófico. Contudo, a metafísica não sendo parte do nosso programa é preferível acentuar outros pontos do
conhecimento filosófico.
Também não se pode esquecer que o conhecimento filosófico é pai do conhecimento científico. A ciência
e os seus métodos, tal como hoje utilizamos, são oriundos do conhecimento filosófico. Essa paternidade não é tão
visível aos olhos de todos, talvez devido aos séculos de distância entre a ciência contemporânea e o período clássico
grego, ou seja, entre o século XXI e o século V a.C. Naqueles idos, a filosofia e a ciência eram, de certo modo, uma
só coisa. Os sábios eram geralmente pessoas com conhecimento enciclopédico e às vezes desempenhavam funções
tanto teóricas como empíricas.
Nesse caso, a forma de fazer ciência que hoje as universidades adotam, remonta à Grécia do período
clássico. A palavra academia, por exemplo, tem a ver com o nome da escola fundada por Platão (428-347 a.C.)
naqueles idos. As gerações que se seguiram acentuaram ainda mais a maneira sistemática de se produzir
conhecimento. Possivelmente Aristóteles e os estoicos foram os que na Antiguidade mais contribuíram pela
sistematização do conhecimento.
Além das características do pensamento filosófico é importante que também falemos da sua importância
na vida acadêmica. Em princípio, podemos assegurar uma coisa: sem o conhecimento filosófico é impossível haver
conhecimento cientifico. Aliás, sem o conhecimento filosófico não há nem mesmo ciência. Embora a ciência esteja
emancipada, ela não está radicalmente desprendida da filosofia. Aos poucos será possível compreender como esse
desprendimento é impossível. Nenhum cientista, mesmo o cientista das áreas puramente tecnológicas consegue
fazer ciência sem qualquer princípio ou fundamento filosófico.
É nessa altura, então, que poderemos falar num ramo específico da filosofia: a filosofia da ciência, o ramo
que se encarrega de tratar mais especificamente das questões que envolvem a comunidade científica. E é exatamente
de filosofia da ciência que o presente trabalho se ocupa. Uma vez que somos seres racionais e pensantes, conforme
já o dissemos, é impossível viver alijados de teorias ou fundamentos teóricos. Um biólogo, por exemplo, que faz
pesquisas em ovelhas, embora pesquise animais, não deixa de ser um homem repleto de princípios teóricos. É óbvio
que ele não é um filósofo e sim um biólogo e sua atividade é pratica. No entanto, é preciso que exista um
profissional que trate especificamente da parte teórica da ciência. É preciso que exista alguém que prescreva e trate
dos fundamentos filosóficos. Essa tarefa é normalmente delegada ao filósofo, pois é ele por natureza o mais
indicado. Alguém precisa escrever e deliberar sobre a ciência e tratar da teoria da ciência. Essa é uma tarefa que não
pode ser negligenciada ou esquecida. Os próprios cientistas sentiriam alguma dificuldade em fazer ciência prática
sem um apoio teórico. Na verdade, a tarefa de legislar, arbitrar, sugerir e, enfim, de refletir sobre a ciência é
normalmente atribuída aos filósofos. Ninguém melhor que eles para cuidar do assunto.
A filosofia é composta de muitas áreas ou campos distintos. As principais grandes áreas da filosofia são: a
ética, a ontologia, a linguagem, a lógica e a epistemologia. E partir destas, muitos outros campos também aparecem.
No entanto, o que nos interessa aqui é falar, sobretudo de filosofia da ciência e um pouco de epistemologia.
Enfim, podemos concluir que o conhecimento filosófico, embora tenha tantas afinidades com o
conhecimento científico ele se difere devido a sua natureza essencialmente teórico-abstrativa. Melhores detalhes
sobre o conhecimento filosófico iremos também analisar aos poucos.
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2.3 O conhecimento teológico

Eis uma outra espécie de conhecimento também oriunda da filosofia e com características parecidas com
as do conhecimento científico. Tal como o conhecimento filosófico, o conhecimento teológico é também totalmente
teórico. E isso obviamente o impede de ser um conhecimento científico. No entanto, vejamos como ele se parece
muito com o conhecimento científico. Ele também trabalha com teses, com demonstrações e muita ponderação.
Aliás, um teólogo pesquisador também utiliza os métodos científicos. Ele é tão sistemático como qualquer outro
pesquisador acadêmico. E assim como um pesquisador da engenharia passa alguns anos a pesquisar um único tema,
o teólogo também passa. Contudo, os objetivos de um teólogo distinguem-se completamente dos de um engenheiro.
Em princípio, lembremo-nos que as teses teológicas não são passíveis de demonstrações concretas, mas as teses das
engenharias normalmente sim. Mas, afinal, o que é o conhecimento teológico? Que espécie de pesquisa é realizada
por um teólogo? Em principio, a teologia pode ser grosso modo definida como o estudo das coisas divinas. A
teodiceia, a vida após a morte e a escatologia são, por exemplo, temas teológicos. A teodiceia trata da questão da
existência do mal no mundo. Os teólogos e mesmo os não teólogos se deparam com um problema sério: se Deus é
um ser tão bom como normalmente ouve-se dizer, por que existe o mal no mundo? Em outros termos, por que Deus
que é todo-poderoso consente tantos males sobre suas criaturas?
Nos dias atuais, questões como essas já não são mais tratadas pelo cientista e sim pelo teólogo. E, afinal,
as pesquisas teológicas encontram respostas para essa questão? Já encontraram várias. Mas nem todas são capazes
de convencer definitivamente. É nessa altura que vale a pena apresentar uma outra característica do conhecimento
teológico: o dogmatismo. Embora existam teólogos que pesquisem sem qualquer pretensão dogmática, o
conhecimento teológico de algum modo prende-se ao dogma. E, além disso, é óbvio que a maior parte dos
estudiosos da teologia tem compromisso com alguma fé. Na verdade, muitos teólogos atuam de modo totalmente
imparcial e sem dogma, pois pretendem ser científicos. Nem todos aceitam a afirmação de que a teologia é um tipo
de conhecimento dogmático.
Pode-se, de certo modo, dizer que o conhecimento teológico é um primo irmão do conhecimento
filosófico e imitador do conhecimento científico. Mas o mero fato de ser puramente teórico faz com que ele não seja
científico. No entanto, é importante salientar que o conhecimento teológico mesmo em pleno século XXI é um
conhecimento buscado por muitos. Em plena universidade também existem pesquisas em teologia. O ser humano
não é capaz de viver sem indagar pelo divino e por coisas que deixam transparecer tantos mistérios. Também é
preciso deixar bem claro que o conhecimento teológico não é necessariamente o conhecimento religioso. Este
último é complemente contraposto ao conhecimento científico, o teológico, por sua vez, tem muita afinidade. Aliás,
pode-se, por exemplo, estudar teologia sem necessariamente ser um religioso ou mesmo sem acreditar em Deus.

2.4 O conhecimento vulgar

O conhecimento vulgar é aquele, ao qual, as pessoas em geral recorrem por hábito e também por tradição.
Alguns fenômenos naturais normalmente prenunciam alguns acontecimentos, tais como chuvas e doenças. Um
agricultor, por exemplo, é capaz de prever dias chuvosos através de alguns sinais. Isso ele o faz por meio da muita
experiência de vida e por aprender com os mais velhos, os quais também tiveram que aprender por experiência. Um
agricultor não acerta sempre em suas previsões, mas acerta muitas vezes. E é claro que não estamos a falar de
previsões de chuvas em futuros distantes ou de duração das precipitações. Estamos a falar de previsões próximas,
coisas que, normalmente é possível ao homem prever. Na verdade, muitas técnicas são transmitidas aos homens de
modo corriqueiro de geração a geração. Tais técnicas sendo simples não requerem um treinamento sistemático, elas
normalmente são aprendidas de modo bem natural. Alguns tipos de ervas são, por exemplo, utilizadas como
medicamento pelas pessoas sem a necessidade de corroboração científica visto que a cura normalmente acompanha
a ingestão. A exposição ao frio com muita frequência provoca o resfriado é também um conhecimento vulgar e
comum a todos. Normalmente não precisamos de qualquer curso sistemático para aprender que a exposição do
corpo humano ao frio acarreta o resfriado.
O conhecimento vulgar não é o conhecimento intuitivo e sim um conhecimento que também precisa ser
aprendido. Não se trata de aprendizagem que requeira aulas sistemáticas, mas é uma aprendizagem que tem de ser
feita.
A essa altura é importante refletir um pouco sobre esse tipo de conhecimento. Se fôssemos
suficientemente longevos, o conhecimento científico também poderia ser adquirido dessa forma. Se, por acaso,
vivêssemos em média quinhentos anos, muita coisa que temos que aprender em cinco, poderia ser aprendida em
cinquenta. Isso quer dizer que o próprio conhecimento científico também se tornaria um conhecimento vulgar, visto
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que não precisaríamos aprender nada de modo sistemático. É claro que estamos a supor uma vida longeva
totalmente utópica. No entanto, muitas vezes é preciso recorrer à imaginação a fim de compreendermos um
conceito. Afinal, por que a ciência recorre à forma sistemática de aprender? Obviamente uma das razões é o lucro
no tempo, ou seja, a sistematização do ensino visa uma aprendizagem mais rápida. Ao invés de aprendermos, por
exemplo, a leis, os deveres e os direitos em cinquenta anos, aprendemos em cinco. Mas para encurtar esse tempo, é
preciso seguir uma rotina sistemática tal como hoje seguimos. Se fôssemos tão longevos não precisaríamos de tanta
sistemática para formar, por exemplo, um advogado ou um médico. Normalmente o conhecimento adquirido aos
poucos é menos maçante que o conhecimento adquirido de maneira muito sistemática. Afinal, quem não gostaria de
aprender brincando. O conhecimento natural de uma língua é, por exemplo, um conhecimento nada maçante. Nós
aprendemos a falar a nossa língua nativa de modo tão distraído que sequer nos apercebemos que se trata de uma
aprendizagem. Por outro lado, basta pensar na aprendizagem de uma segunda língua durante a vida adulta. Nesse
caso, é obviamente preciso recorrer à disciplina, às técnicas e a algumas sistemáticas, porque o tempo é menor e os
objetivos são outros. Em toda e qualquer cultura ou qualquer povo, as pessoas aprendem a falar de modo natural e
todos se comunicam entre si. Portanto, o conhecimento natural de uma língua é uma espécie de conhecimento
vulgar ou popular e o conhecimento de uma segunda língua é um exemplo de conhecimento científico. Também
vale a pena salientar que o conhecimento vulgar normalmente não utiliza leituras, nem qualquer teoria como
fundamento, pois é todo ele realizado por meios práticos. Em síntese, o conhecimento vulgar não requer qualquer
sistemática.
Existem, com certeza, muitas técnicas caseiras utilizadas pelas donas de casa e também pelos homens que
podem ser classificadas como conhecimento vulgar. A prática da parturição é também um exemplo de
conhecimento vulgar. Mas pelo fato de se tratar de um caso muito delicado, com certeza, envolve muito mais
cuidado do que muitos outros conhecimentos vulgares.
A essa altura é importante deixar claro que não é correto classificar alguns ofícios técnicos como vulgares.
O conhecimento, por exemplo, de um eletricista de residências ou de um torneiro mecânico não é um conhecimento
vulgar porque a sua aprendizagem requer alguma disciplina. E obviamente não são conhecimentos nada vulgares
porque são funções que requerem preparo e não podem ser exercidas por qualquer leigo curioso. Se por um lado não
são conhecimentos científicos também não são conhecimentos vulgares.
Vale a pena salientar que todo e qualquer ser humano precisa e recorre aos conhecimentos vulgares,
mesmo os cientistas. É simplesmente impossível restringir-se deles, pois têm a sua função nas nossas vidas.

2.5 O conhecimento intuitivo

Afinal, o que é intuição? É sinônimo de reflexo ou de extinto? Embora às vezes possa haver algumas
coincidências, a intuição é algo à parte. Ela, com certeza, também é uma espécie de conhecimento. Em princípio,
pode-se assegurar que o conhecimento intuitivo é aquele conhecimento imediato ou, por assim dizer, um
conhecimento abrupto e inevitável. Os dados dos sentidos são conhecimentos intuitivos. As cores, os odores e os
sabores são conhecimentos que normalmente alçamos por meio da intuição. A cor de uma determinada fruta faz
com que por intuição nós saibamos se ela está madura ou verde. Um determinado aroma pode nos informar com
muita rapidez que algum alimento está passando do ponto de cozimento. Ou seja, alguns aromas que nos vem da
cozinha nos informam que alguma das panelas contém um alimento que está queimando. São, portanto, a esses tipos
de conhecimentos imediatos e automáticos que normalmente dá-se o nome de conhecimento intuitivo. São casos
em que normalmente não se requer raciocínio, visto que há em nós algum tipo de intuição que nos faz enxergar que
determinada coisa está a acontecer. Se, por exemplo, avistamos três laranjas numa fruteira e alguém nos pergunta
quantas laranjas há, nós não precisamos contá-las. É que por intuição sabemos que há três laranjas. Na verdade, são
poucas laranjas e por isso não é preciso pedir à pessoa que pergunta para nos dar um tempo para contar. Essa
contagem instantânea é então um tipo de intuição.
Quando falamos em intuições que estão relacionadas com os dados dos sentidos, então damos o nome de
intuição empírica. Cores e aromas são, por exemplo, conhecimentos intuitivos empíricos. No entanto, há também a
intuição racional. Embora muitas vezes o conhecimento racional seja contraposto ao conhecimento empírico no
sentido em que a intuição fica contraposta ao racional, é bem verdade que também se pode falar em intuição
racional. O filósofo Kant (1724-1804), por exemplo, fazia muita contraposição entre a intuição e a razão,
significando que a intuição é operada pelos sentidos e o raciocínio operado pela mente. No entanto, a própria mente
também intui. Existem, na verdade, algumas verdades ou algumas reações mentais que são simplesmente atingidas
por meio de uma espécie de intuição da mente, por isso elas podem ser chamadas de intuições racionais, mesmo não
se tratando de uma operação que implique um raciocínio propriamente dito. Esse é o caso de quando estamos
ocupados com alguns princípios fundamentais, entre eles, o principio de não contradição: um determinado corpo
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não pode estar ao mesmo tempo e sob uma mesma ótica indo para a esquerda e voltando para a direita; e o principio
do terceiro excluído: se uma determinada coisa é falsa, importa que ela não seja verdadeira. No primeiro caso, um
corpo que vai para a esquerda, apenas vai para a esquerda. Se quisermos que ele esteja simultaneamente a vir,
simplesmente estaremos a provocar uma contradição lógica. Logo, há uma intuição mental que nos faz enxergar que
tal fato é impossível. E há alguns casos em que o principio do terceiro excluído é algo patente e intuitivo. Se uma
determinada pessoa estava em Passo Fundo no dia e na hora tal e tal, ela não poderia estar no mesmo instante na
cidade de Sidney na Austrália. Logo, se a afirmação de que ela estava em Passo Fundo é verdadeira, a afirmação de
que ela estava em Sidney é falsa. A veracidade de uma implica a falsidade de outra. Trata-se, então, de um tipo de
intuição, ou seja, um tipo de conhecimento que atingimos sem qualquer esforço porque a própria natureza humana
dá-nos tal capacidade.

2.6 O raciocínio indutivo

Eis o raciocínio que é precisamente o raciocínio aplicado no mundo científico propriamente dito. Em
princípio, podemos definir o raciocínio indutivo como o raciocínio que parte do singular para o universal. Ou seja, o
conhecimento indutivo é aquele que inicia a partir de dados concretos com o intuito de atingir os objetos gerais.
Vamos, então, direto aos exemplos. Se um cientista, por exemplo, descobre um certo medicamento que resolve o
problema da calvície ele terá que testá-lo em homens reais. Se ele estiver certo que a sua fórmula é verdadeira,
primeiramente terá que prová-la. Nesse caso, far-se-á necessário que ele se utilize de algumas cobaias humanas.
Estas poderão ser qualquer homem que seja calvo. Eu, por exemplo, poderei ser o primeiro a fazer o teste. Se eu
ficar cabeludo após a aplicação do remédio, já é um bom início. Mas ainda o cientista terá que fazer o teste em
outros homens carecas. Com certeza, os critérios atuais na comunidade científica que trata de medicamentos devem
ser bem rigorosos. Esse cientista terá que fazer teste em diversos homens. Entre eles, alguns muito calvos outros
menos, e ainda outros totalmente calvos. Digamos que após testar em mim e em mais algumas dezenas de homens o
cientista atinja sucesso em todos os casos. Se assim for, ele e toda a comunidade científica que o assiste poderão
chegar a uma conclusão simples: se um grupo de homens passou a ficar cabeludo após a aplicação do medicamento,
significa que todos os calvos do mundo também ficarão cabeludos se o provarem. Esta conclusão é uma conclusão
indutiva, ou seja, é um raciocínio indutivo, porque partiu do concreto e culminou no universal. É que os homens
calvos em questão eram todos homens presentes e reais. No entanto, eram o bastante para assegurar que todos os
homens do mundo que são calvos poderão deixar de ser calvos desde que utilizem a fórmula criada pelo tal
cientista.
É, portanto, dessa forma que a ciência trabalha. Assim, por exemplo, trabalha a indústria farmacêutica.
Um medicamento só pode ir para o mercado após alguns testes bem rigorosos. Só mesmo após a maior certeza
possível é que se pode apresentar um remédio ao publico e dizer que ele realmente cura. A indução é, com certeza,
um tipo de raciocínio muito apropriado para a ciência. Observe-se, portanto, que não é preciso testar toda a
população do mundo a fim de patentear um produto. Por meio da indução nós normalmente acreditamos que
determinadas coisas se repetem. No exemplo da solução para a calvície, o que nos leva a uma conclusão universal é
o fato de os seres humanos serem todos de constituição semelhante. Um medicamento que me faz bem, obviamente
tende a fazer bem a meu irmão ou ao meu vizinho. A indução é um tipo de raciocínio que nos poupa tempo e
trabalho.
Vejamos outro exemplo muito interessante: o raciocínio aplicado nas pesquisas de intenções de votos.
Nessas pesquisas os entrevistadores apenas abordam uma parcela pequenina de uma população a fim de obter um
conhecimento da polução em geral. Seria, na verdade, humanamente impossível entrevistar toda a população
votante da cidade de Porto Alegre para saber quais as intenções de voto. Isso é simplesmente impossível. No
entanto, os institutos de pesquisa são detentores de técnicas e critérios muito eficazes para esse tipo de pesquisa. Os
organizadores dessas pesquisas obviamente sabem que é preciso mapear toda uma área e direcionar os questionários
a algumas pessoas em determinados pontos. E tudo tem de ser seguido de modo muito rigoroso. Uma consulta a
uma mera parcela da população pode indicar a opinião geral e, então, nos dar uma média.
No entanto, é necessário salientar um fato importante sobre esse tipo de raciocínio. Embora apresente
muita eficiência, ele não é totalmente certeiro. Ele, na verdade, não é cem por cento seguro. Nenhum raciocínio
indutivo pode nos garantir um resultado totalmente certeiro. Mas quanto a isso os pesquisadores estão normalmente
cientes. Aliás, o cientista sensato sabe muito bem que a ciência não é algo perfeito. No caso da fórmula aplicada aos
carecas, é natural que numa população de cem mil pessoas, sobre algumas não haverá efeito. Embora os seres
humanos tenham uma constituição orgânica semelhante, alguns podem apresentar reações distintas e especiais. No
entanto, tais exceções, já estão sempre previstas por aqueles que fazem ciência. No caso da pesquisa eleitoral, as
variações podem ser ainda muito mais frequentes. Aliás, muitos resultados de pesquisas sobre intenções de votos
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foram equivocados. Nesse caso, não estamos nos referindo a pesquisas que erraram porque pretendiam manipular e
sim porque erraram mesmo. Algumas pesquisas de intenções de voto, por exemplo, apontaram vitória até as
vésperas da eleição para o candidato x, mas a vitória foi para o candidato y. Para esses casos existem uma série de
fatores que podem influir para que um raciocínio indutivo não seja realmente certeiro. É óbvio que na maior parte
das vezes, a pesquisa acerta. E quando comete algum erro é preciso considerar que uma pesquisa de intenções de
voto é um tipo de pesquisa que realmente está muito propensa a erros. Saliente-se que tal pesquisa envolve as
intenções das pessoas. Estas estão sujeitas a oscilar de modo abrupto. Uma população de eleitores de uma cidade
pode muito bem migrar seus votos da noite para o dia nas vésperas da eleição. Mas é óbvio que normalmente
sempre há uma causa para que isso aconteça, a qual poderá explicar o resultado errado.
Em síntese, podemos encerrar esta seção dizendo que o raciocínio indutivo é aquele que inicia com
exemplares particulares e culmina com uma conclusão que vale para os casos gerais. E embora seja eficiente e
muito utilizado na rotina científica ele não é totalmente perfeito. Se a ciência não é perfeita, então, é óbvio que os
seus métodos também não o sejam.

2.7 O raciocínio dedutivo

O raciocínio dedutivo é exatamente o contrario do que acabamos de apresentar. Ou seja, o raciocínio


dedutivo parte do universal com o objetivo de atingir o particular. Mas por meio dele é possível atingir uma
conclusão certeira. Embora não se possa dizer que ele seja realmente absoluto, pode-se dizer que é preciso. No
entanto, o raciocínio dedutivo é de natureza formal e teórica e, por isso, não é um raciocínio típico da ciência.
Embora seja um raciocínio sempre certeiro, os seus acertos não passam de acertos formais. Trata-se de um
raciocínio mais apropriado à lógica e às outras atividades teóricas e não precisamente à atividade científica.
Contudo, é importante salientar que a ciência não subsiste totalmente sem a dedução. O fato de a indução ser o
raciocínio comum nas atividades científicas, não se deve pensar que a ciência pode banir a dedução.
É muito difícil falar em raciocínio dedutivo sem falar nos silogismos, ou seja, nos modelos de raciocínios
criados por Aristóteles (384-322 a.C.). O mais conhecido de todos chama-se bárbara e é formado por três
premissas:

Todos os homens são mortais (premissa maior)


Sócrates é homem (premissa menor)
Logo, Sócrates é mortal (conclusão)

Se todos os homens são mortais e se Sócrates é homem é necessário que Sócrates seja mortal. Note-se que
o raciocínio parte do universal e culmina no singular. “Todos os homens” é uma expressão que forma uma premissa
universal e “Sócrates” é uma pessoa singular e real. Substituamos Sócrates por Ronaldinho: se todos os homens são
mortais e Ronaldinho é homem, logo Ronaldinho é mortal. Trata-se de algo óbvio e necessário. Uma vez que todos
os homens são mortais e eu sou homem, é impossível que a conclusão negue a minha qualidade de mortal. O
silogismo é, portanto, um raciocínio lógico por excelência. Nesse caso, a conclusão se dá por uma absoluta
necessidade. “Todo o mecanismo silogístico repousa no papel desempenhado pelo chamado termo médio (homem),
que fornece a razão do que é afirmado na conclusão: porque é homem, Sócrates é mortal” (PESSANHA, 1978:
XVII). Isso, portanto, quer dizer que mesmo que se apliquem proposições falsas, o raciocínio formal não perde o
seu valor enquanto formal. Nesse caso, é correto o raciocino silogístico:

Todos os homens são anjos


Sócrates é homem.
Logo, Sócrates é anjo.

Em sentido formal este raciocínio está correto porque há uma sequência correta entre as premissas. No
entanto, se o aplicarmos no plano concreto ele perde a sua validade, pois é obvio que nenhum homem é anjo. Nesse
caso, o seu valor nada mais é que um mero valor formal. Uma vez que ele parte da premissa maior será impossível
não concordar com a linha do raciocínio sequencial. A sua negação implicaria uma irracionalidade. A premissa
maior deste último silogismo acima é, de fato, uma inverdade, porém, não se leva em consideração a sua
veracidade. O que se observa é o valor da sentença enquanto tal. É que se, de fato, todos os homens fossem anjos e
Sócrates, por sua vez, sendo homem, ele necessariamente, seria anjo. Existem algumas regras gerais para todos os
silogismos, apresentadas pelo próprio Aristóteles: pelo menos uma premissa precisa ser universal e pelo menos uma
precisa ser afirmativa (KNEALE, 1991, p. 77).
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É importante observar, no entanto, que esse tipo de raciocínio, de certo modo, nada acrescenta ao nosso
conhecimento. Então para que serve? A sua função é semelhante à função da matemática. Poder-se-ia também
indagar: para que serve a matemática? Que descobrimento formidável e importante alcançamos através das
resoluções de problemas matemáticos? É óbvio que se tais perguntas forem feitas sem qualquer ironia, poderão ser
consideradas perguntas bem indiscretas e impertinentes. A matemática, a lógica e muitas outras atividades teóricas
não visam atingir o mundo empírico de modo imediato. Elas, com efeito, têm em vista a reflexão.
O raciocínio dedutivo, como iremos verificar mais adiante, embora totalmente teórico, também serve de
fundamento para a ciência. Uma vez que seja impossível fazer ciência sem qualquer teoria, sem leis, sem postulados
ou mesmo sem paradigmas, vale a pena salientar que o raciocínio dedutivo é também relevante para a ciência. A
ciência propriamente dita tem a ver com a indução e, conforme já tratamos, Francis Bacon defendia o método
indutivo para a ciência. Contudo, com o passar dos séculos os próprios cientistas se aperceberam que o raciocínio
dedutivo não deve ser excluído. Enfim, a ciência não subsiste sem ele.

3 FILOSOFIAS DA CIÊNCIA

3.1 Os critérios do positivismo lógico

Uma forma habitual de distinguir entre o que é e o que não é ciência é aquela adotada pelo Círculo de
Viena. Os métodos dessa escola também são conhecidos como positivista lógico. O critério pode ser definido do
seguinte modo: uma tese ou teoria é e será científica se e somente se ela corresponde à realidade empírica. Em
princípio, é preciso considerar o seguinte: toda tese ou teoria que se arroga científica tem de ser passível de
verificação. Ou seja, se ela pode ser verificada através da experiência, de maneira cautelosa tal como é normalmente
requerido pela ciência, então ela há de ser considerada científica. Em função dessa exigência, então esse critério
passa a ser conhecido como verificacionista. Vejamos, por exemplo, a proposição: “Todo cisne é branco”. Se, de
fato, na natureza encontramos apenas cisnes brancos, então a proposição é verdadeira. Observe-se então que ela só é
verdadeira porque realmente tem correspondência. Assim deverá ser com toda teoria científica: aquela que for
passível de verificação e além de verificada for também corroborada, então deverá ser considerada científica. A
teoria de Newton, por exemplo, só foi classificada como ciência porque foi verificada e corroborada através de
experimentos. Digamos que após verificação se certificou que na natureza há cisnes não brancos. Se isso ocorresse,
a afirmação de que todos os cisnes são brancos não mais seria verdadeira. Enfim, essa era uma maneira habitual dos
positivistas lógicos julgar o que é e o que não é ciência. Em síntese, uma teoria precisa ser verificável e corroborada,
caso contrário, não é ciência. Foram, sobretudo, os positivistas lógicos quem a partir do início do século XX
salientaram essa metodologia. Esse movimento filosófico, de fato, se preocupou bastante com as questões da
ciência. Uma de suas principais características era o repúdio à metafísica em prol da análise lógica e da linguagem.
Enfim, basta-nos, por ora ter em mente que foi essa escola filosófica que muito salientou a importância da
verificabilidade das teorias científicas. Embora não se possa dizer que era somente ela quem defendia esse ponto de
vista, esse é um ponto que nos remete até ela. A filosofia, por exemplo, de acordo com essa escola não mais deve se
ocupar com metafísica e sim com proposições verificáveis. É importante observar que com o positivismo lógico a
rigorosidade científica passa a ser ainda maior. Ou seja, o rigor para classificar o que é e o que não é ciência passar
a ser ainda maior.

3.2 O falseacionismo de Karl Popper

O filósofo austríaco Karl Popper (1902-1994) inova os argumentos do positivismo lógico e de toda a
tradição científica dizendo que a observação não tem de provar ou confirmar nada e sim de falsear. Conforme já
salientamos, até então, para que uma tese seja considerada científica, é preciso que ela seja passível de testes
empíricos e para ser considerada verdadeira ela tem de ser corroborada.
Vejamos alguns casos bem elementares. A afirmação ou a hipótese de que todos os homens são mortais, é
corroborada pelo fato de que todos os homens morrem um dia. A afirmação de que o Sol nasce todos os dias é
baseada na experiência passada de que o Sol nasceu e se pôs todos os dias. A afirmação de que todos os corvos são
pretos é confirmada pela existência de corvos apenas pretos. É bem provável que até hoje ninguém tenha
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encontrado nenhum homem com mais de trezentos anos, nem se sabe de alguma ocasião em que o Sol não tenha
nascido e nem que se tenha conhecido um corvo branco. No entanto, Popper acredita que esse critério deve ser
reformulado. Para ele, não se deve falar em corroboração e sim em falseação. É que nada ao certo pode ser
corroborado, visto que as observações até o presente não asseguram as observações futuras. Na concepção de
Popper, o fato de todos os corvos observados até o presente serem pretos não corrobora a tese de que todos os
corvos são pretos ou que todos os corvos que surgirão no futuro hão de ser pretos. No entanto, a existência de
apenas um único corvo branco é capaz de refutar a tese de que todos os corvos são pretos. Em outros termos, os
milhões de corvos pretos conhecidos até o momento não corroboram a negritude absoluta da espécie, mas um único
corvo branco falseia a proposição de que todos os corvos são pretos. Observe-se, então, que desse modo as
circunstancias não nos permitem falar em corroboração, mas sim em falseação. Por isso a tese de Popper é
conhecida como falseacionismo visto que ela não prescreve qualquer corroboração e sim a falseação.
É importante observar que a falseação de Popper não é uma provocação cética irresponsável. Poder-se-ia
perguntar: qual a razão para falsear? Por que falsear? Os leitores de Popper até poderão ser induzidos a pensar que a
sua tese visa falsear por falsear. Mas não é isso que ele tinha em mente. Embora tenha assegurado que se uma teoria
não for passível de falseação ela não pode ser científica, a sua intenção não é o mero ceticismo. Isso pode levar-nos
a pensar que todas as teorias devem e deverão impreterivelmente ser falseadas. E se todas são falseáveis, logo são
ou hão de ser falsas mais cedo ou mais tarde. Contudo, o falseável de que nos fala Popper significa que ela tem de
ser passível de teste a fim de verificar a sua veracidade. Aliás, ela tem de ser passível de teste a fim de sabermos se
é falseável. É que um teste que corrobora a veracidade nada nos assegura, mas um teste que falsea, nos assegura que
ela é falsa.
De certo modo, também podemos estar sujeitos a pensar que os critérios de Popper são pessimistas.
Contudo, é preferível dizer que eles são realistas, porque visam estabelecer uma distinção real quanto ao que é e o
que não é ciência. Afinal, por que acreditar, por exemplo, que a existência de apenas corvos pretos até o presente
momento corrobora uma proposição, enquanto, na verdade, nada corrobora? Popper está seguro quanto à sua tese e
por isso salienta que é preferível falar em falseacionismo do que em verificacionismo. Em síntese, nada se
corrobora, mas tudo está sempre sujeito à falseação.
Conforme já salientamos, a ciência propriamente dita não caminha sem a filosofia da ciência. Esta existe
para lhe dar os devidos suportes teóricos. E Popper enquanto filósofo da ciência faz exatamente isso, elabora a sua
filosofia e tenta a todo custo dar o seu contributo apresentando um suporte teórico e válido à comunidade científica.

3.3 A teoria de Thomas Kuhn

Vejamos agora uma questão levantada mais recentemente sobre a ciência: o paradigma. Trata-se de um
conceito cunhado e desenvolvido por Thomas Kuhn (1922-1996). Não se trata de dogma e sim de paradigma
(protótipo ou modelo) científico que os membros da comunidade científica tomam como base para si. O que difere
um paradigma científico de um dogma religioso é, sobretudo, o fato de ele poder ser suplantado. Eis alguns
exemplos de paradigmas: a astronomia de Ptolomeu, a astronomia de Copérnico, o fixismo de Lineu e a teoria da
evolução de Darwin. O celebérrimo livro de Kuhn no qual ele tratou dos paradigmas da ciência chama-se A
estrutura das revoluções científicas publicado em 1963 e causou um verdadeiro choque entre os teóricos da ciência.
Um paradigma científico, de acordo com Kuhn, é o fundamento que toda uma comunidade científica acata a fim de
fazer ciência. Cada cientista, conscientemente ou não, adota um paradigma sob o qual exerce a sua função de
cientista. Por exemplo: antes de conhecerem A evolução das espécies de Darwin os cientistas atuaram de acordo
com o paradigma de Lineu, a partir daí começaram aos poucos a trabalhar de acordo com o paradigma de Darwin.
De acordo com Kuhn, um paradigma substitui outro de maneira muito gradativa e nunca de modo abrupto. Durante
o tempo em que um paradigma não é contestado, diz-se que os cientistas atuam numa ciência normal. A partir do
momento em que o paradigma passa a ser contestado por meio de teses muito contundentes e inovadoras, o
paradigma em questão começa então a entrar em crise. Nesse momento inicia um período de revolução científica
cujo processo é bem lento. Ao terminar esse período de crise do velho paradigma, passa-se então a fazer novamente
uma ciência normal, mas agora dentro de um novo paradigma.
E Kuhn ainda tem outra tese muito petulante: a aceitação de um novo paradigma por parte dos cientistas
não tem a ver apenas com provas experimentais. Também tem a ver com a persuasão e com a propaganda. Nesse
caso, então pode-se dizer que a mudança de paradigma por parte de um integrante da comunidade científica é algo
mais ou menos semelhante a uma conversão. A autoridade de um cientista-chefe ou mesmo de um grupo
conceituado de cientistas tende a se tornar um paradigma mesmo que suas teses não sejam realmente convincentes.
Diante dessa petulância é possível concluir que os paradigmas não são totalmente racionais ou objetivos, tal como
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normalmente supomos que sejam. Em outros termos, pode-se dizer que Thomas Kuhn acreditava que a ciência não
é objetivista. Normalmente aprendemos que a ciência aspira pela objetividade, contudo, Kuhn de maneira petulante
e supostamente convincente afirma não ser bem assim. A sua tese relativista toma como fonte nada mais que a
própria história da ciência. Ao consultar cuidadosamente a história ele irá concluir que nunca houve nenhuma
falseação nem refutação total como os teóricos da ciência normalmente sustentam.
É importante observar que uma das razões para defendermos a objetividade da ciência é a impossibilidade
da busca por duas verdades quando se sabe que só existe uma. Isso, ao que parece, é um princípio simplesmente
indiscutível. O espírito objetivista da ciência normalmente defendido é parte de uma tradição que remonta aos
tempos clássicos, isto é, remonta à Grécia antiga. Os maiores responsáveis por essa forma de pensar são Sócrates e
Platão. E por outro lado, o representante máximo do relativismo chama-se Protágoras. Entenda-se, nesse caso, o
objetivismo científico como visão contrária à visão relativista. Protágoras foi também o maior dos sofistas. A sua
máxima era: “O homem é a medida de todas as coisas, das que são enquanto são e das que não são enquanto não
são” (Tht.152a.) Os detalhes de seu pensamento pouco nos importa aqui. Mas importa salientar que o seu
relativismo ficou registrado na história como algo nocivo. A ideia e o padrão predominante para a ciência ou mesmo
para a filosofia ocidental foi o platonismo em detrimento do protagorismo. Thomas Kuhn será então uma espécie de
ressuscitador do velho Protágoras. No entanto, pode-se dizer que o relativismo de Protágoras era mais um
relativismo de indivíduos enquanto o de Kuhn é um relativismo das comunidades. É que Kuhn fala de comunidades
científicas e não necessariamente de indivíduos (CHALMERS, 1993, p. 139).
Assim sendo, em relação às teorias da ciência anteriores, Kuhn se posiciona totalmente contrario.
Vejamos, por exemplo, como ele se contrapõe ao falseacionismo de Popper. Em princípio, a não resolução de um
problema deve, na verdade, ser encarado como um problema do cientista e não da ciência, ou seja, a não resolução
de um problema não deve ser encarada como um erro do paradigma em questão. Kuhn denomina esses problemas
ou dificuldades como anomalias e não como falseação. Aliás, quaisquer paradigmas contêm anomalias. Um
cientista que acusa um paradigma é, nesse caso, semelhante a um carpinteiro que diante de algum fracasso acusa as
suas ferramentas (CHALMERS. 1993, p. 129; KUHN, 2007, p. 110-111). Thomas Kuhn diz que a história mostra-
nos muito bem que os cientistas não abandonavam os paradigmas vigentes por causa das anomalias. Noutros
termos, não existe qualquer falseacionismo tal como sugeria Popper. As anomalias isoladas não levaram nenhum
paradigma à falência. No entanto, Kuhn salienta que se as dificuldades num paradigma forem realmente muito
grandes, uma revolução será inevitável. E a história da ciência mostra que, de fato, isso também aconteceu. Por
exemplo, o sistema aristotélico e o ptolomaico foram substituídos pelo de Galileu. Os cientistas podem se sentir
pouco a vontade dentro de um paradigma e, aos poucos migrarem para outro. Contudo, Kuhn alega que essa
migração não ocorre em função de alguma dedução lógica ou por um convencimento racional. Ele petulantemente
alega que por trás da migração há uma verdadeira persuasão nada objetiva. Aliás, Kuhn chega ao ponto de dizer que
os cientistas ao mudarem de paradigma fazem-no por meio de uma conversão. Com isso ele queria dizer que um
cientista tal e tal não abandona um paradigma em prol de outro em função de razões evidentes. Ele o faz por meio
de uma conversão muito semelhante à conversão religiosa. Para explicar isso, ele também alega que os partidários
de paradigmas diferentes encaram o universo e o mundo de maneira diferente. Logo é impossível que um deles
aceite a do outro. Noutros termos, cada grupo de cientistas possui convicções tipo religiosas. Se alguns, porventura
migram de paradigma, fazem-no por meio de algum tipo de conversão. Não há outro modo, visto que as leituras de
cada grupo são distintas.
Enfim, Thomas Kuhn surge na segunda metade do século XX com uma filosofia da ciência
completamente inovadora e revolucionaria. O conceito de paradigma e a tese de que a ciência é feita por meio de
relativismo constituem, com certeza, um desafio e levou os teóricos da ciência a muitíssima reflexão. Embora não
se possa dizer que Kuhn esteja totalmente correto e que as teorias da ciência anteriores estejam todas erradas, pode-
se, com certeza assegurar que suas teorias merecem muita atenção. Com efeito, é indiscutível que a imagem da
ciência é muitas vezes maculada e que as subjetividades e os preconceitos interferem no processo normal. Contudo,
o abandono total do espírito objetivista da ciência não seria nada recomendável. É preferível manter-nos sempre
como partidários da objetividade plena, embora saibamos que nunca a atingiremos totalmente.

3.4 A teoria de Paul Feyerabend

Thomas Kuhn entrou para a história como um relativista, Paul Feyerabend (1924-1994) por sua vez
entrará como um verdadeiro anarquista. A sua ousadia excede a de Kuhn pelo fato de declarar que o progresso da
ciência se deve à violação das normas científicas. A tradição nos ensina que ciência é algo que se faz por meio da
objetividade. Mas em pleno séc. XX alguém declara que não há normas para fazer ciência, ao contrario, pode-se
tudo, ou seja, em ciência vale tudo, não há regras metodológicas a serem seguidas. E é preciso salientar que aquele
que assegura isso é também uma autoridade. Ou seja, Feyerabend era também uma autoridade e em seu livro Contra
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o método publicado em 1975 apresenta argumentos fortes. Afirma que a história da ciência mostra claramente que
para fazer ciência é preciso quebrar as regras e não há necessidade de metodologia sistemática tal como a academia
nos diz. Se seguirmos o que Feyerabend diz, talvez seja possível supor que a ciência não tenha nenhuma vantagem
em relação à magia. Embora isso não possa ser facilmente admito, a tese desse autor também tem muito sentido e é
digna de muita reflexão. Ela serve-nos como alerta diante da nossa tendência de dogmatizar a própria ciência. Todos
sabem, por exemplo, que as previsões dos videntes sobre o clima é normalmente cheia de erros. No entanto, as
previsões feitas a partir de métodos científicos também erram. Mas o que Feyerabend tem em vista é a liberdade
humana. Na sua concepção, o Estado, de alguma forma, impõe a fé científica sobre os cidadãos. Com isso ele quer
dizer que as escolas, por exemplo, são órgãos públicos que ensinam em nome da ciência. As crianças, nesse caso,
acabam por ficar destituídas de outras opções, pois apenas a ciência lhes é apresentada. No mundo ideal de nosso
filósofo “o Estado é ideologicamente neutro. Sua função é orquestrar a luta entre as ideologias para assegurar que os
indivíduos mantenham sua liberdade de escolha e não tenham uma ideologia imposta a eles contra sua vontade”
(CHALMERS, 1993, p. 185).
Por outro lado, o vale tudo de que nos fala Feyerabend também pode se tornar pernicioso visto que se nos
alijarmos totalmente da objetividade, a racionalidade poderá estar comprometida. Embora a racionalidade seja algo
árido, ela é a nossa única alternativa e os seus resultados são salutares. Sócrates nos mostrou muito bem como é
impossível fazer ciência ou mesmo ser um homem justo sem ser racional. E a racionalidade, com efeito, preza pela
objetividade. Conforme já o dissemos, embora não possamos nos alijar totalmente do relativismo, isso não significa
que devemos abraçá-lo de modo incondicional. E se o relativismo pode comprometer a ciência salutar, o
anarquismo pode muito mais. Aos que se interessam pela teoria de Paul Feyerabend, vale a pena não se limitar
apenas em seu livro Contra o método. É importante também consultar os comentadores e críticos, porque sua teoria
como qualquer outra teoria da ciência, requer uma análise séria. É que, na verdade, não há qualquer teoria isenta de
equívocos e de exageros. Um dos críticos de Feyerabend, mas ao mesmo tempo seu admirador é Alan Chalmers.
Em sua obra O que é ciência afinal? ele examina os principais nomes da filosofia da ciência e não deixa de prestar
uma certa admiração pela petulância de Feyerabend.

3.5 A própria ciência como dogma

A ciência, tal como verificamos nas primeiras páginas, é algo que se contrapõe completamente àquilo que
se chama dogma. Pode-se dizer que a ciência visa sempre ser antidogmática. É que mesmo aquilo que parece ser
muito evidente, pode se tornar ultrapassado. Muitas teses supostamente evidentes e incontestáveis foram
suplantadas. Nada mais exemplar do que a própria tese do geocentrismo. Afinal, duvidar do movimento do Sol era
simplesmente inadmissível, porque tal fenômeno parecia mais que evidente. Fica, então estabelecido que a ciência
tem características tais e tais, entre as quais a de não ser absoluta. No entanto, surge um fato curioso: a própria
ciência às vezes parece tornar-se absoluta, ou seja, às vezes parece que as pessoas se referem a ela como algo
absoluto. É que a forma pela qual, muitas vezes a comunidade científica fala em ciência, insinua alguma espécie de
dogmatização. Trata-se de uma tendência comprometedora e funesta. Mas é importante deixar claro que não é a
ciência que se degenera ou se torna absoluta e sim os cientistas. Estes tendem a torná-la um dogma para si. Já se
sabe muito bem que os seres humanos não vivem sem deuses ou sem ídolos. Uma vez destronada a religião, a
própria ciência tendia a se tornar um novo ídolo e a ocupar o lugar da religião. E desse modo o que se assiste é nada
mais que a substituição de um dogma por outro. O evolucionismo e o marxismo, por exemplo, são teorias
supostamente científicas que se tornaram verdadeiros dogmas em pleno século XX e XXI. Muitos estudiosos e
cientistas passaram a crer nessas teorias de maneira tão radical que em nada se diferenciavam dos crentes religiosos.
E isso vale principalmente para os marxistas. Quando, por exemplo, um cientista crê de maneira impreterível e
absoluta em uma tese suplantada, a sua crença torna-se parecida com a crença religiosa. É que uma vez suplantada
uma tese, a sua validade só permanece por meio de dogmas. E, sobretudo, se o cientista não mais tem capacidade ou
meios de comprovação, o único recurso que lhe resta é o dogma. Essa tendência dogmatizante da ciência,
infelizmente é nada salutar. Não é nada bom ter a própria ciência como uma espécie de ídolo, nem mesmo como
religião substituta. Não há nada de errado com o fato de um cientista se envolver de corpo e alma nas suas
atividades. A sua dedicação normalmente significa um amor pela profissão, o que, aliás, é algo obviamente salutar.
Contudo, a veneração cega com tendência a criar um dogma tão absoluto como o dogma religioso é motivo de
preocupação. A dedicação e o amor por uma causa podem muito bem existir sem a companhia sinistra de
venerações idolátricas. Estas, conforme já sabemos, fomentam a intolerância e o ódio, os quais acabam por aniquilar
a própria ciência.
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CONCLUSÃO

Enfim, podemos concluir que o mundo acadêmico é, de certo modo, feito de racionalidade e visa a
ciência plena. Em outros termos, a universidade manuseia a racionalidade e aspira por ciência. Pudemos
observar que é impossível falar em universidade sem falar em ciência. Os compromissos e as responsabilidades
de uma universidade diante da comunidade são, por assim dizer, algo sagrado. Milhares de acadêmicos, tanto
docentes quanto discentes fazem da pesquisa um modo de vida, isto é, tornaram-na uma profissão.
Constatamos que a ciência, tanto teórica quanto experimental é exercida por meio de metodologias e
de disciplinas muito rigorosas. Para fazer ciência experimental, é necessário primeiramente fazer a ciência
teórica. Existem infinidades de filosofias da ciência, sendo que a maior parte tem como lema a objetividade. No
entanto, embora aspire por objetividade e por imparcialidade a ciência encontra muitas barreiras. Podemos
afirmar que a ciência não é perfeita nem milagreira. Muitas respostas são alcançadas por meio de muitas
pesquisas. Aliás, algumas podem demorar até mesmo décadas. Muito daquilo que hoje é considerado científico,
no futuro poderá ser refutado.
O planejamento e a disciplina são características básicas nas tarefas universitárias. E isso vale tanto
para a produção científica propriamente dita, quanto para os trabalhos acadêmicos. A clareza e a organização
em ambos são simplesmente uma iniciativa primordial.
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REFERÊNCIAS

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