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VERSÕES DA CLÍNICA

PSICANALÍTICA

O psicanalista Éric Laurent distingue­


se, ao lado de Jacques-Aiain Miller,
como um dos representantes mais
conceituados e autorizados do pen­
samento lacaniano. Conhecido dos
brasileiros apenas por textos espar­
sos divulgados em periódicos espe­
cializados, este seu primeiro livro pu­
blicado no Brasil reúne um amplo le­
que de artigos e conferências, organi­
zados de forma a proporcionar ao lei­
tor uma visão de conjunto da obra do
autor.

Em geral relegado a segundo plano


pela maioria dos teóricos da psica­
nálise, o tratamento clínico recebe
neste livro toda a atenção de Laurent,
que o aborda sob os mais diversos
prismas. Dividido tematicamente em
cinco partes- "Transferência e dire­
ção do tratamento", "Neurose e cons­
trução da fantasia", "A psicose e seus
limites", "A perversão e os gozos" e
"A política do passe" -, Versões da
clínica psicanalítica traça com acui­
dade um paralelo entre os métodos
de trabalho clínico freudiano tradicio­
nal, kleiniano e lacaniano. Através
desse cotejamento vêm à tona os
avanços e retificações introduzidos
por Lacan com o paradigma concei­
tual do Real, Simbólico e Imaginário.

Além disso, o vínculo que estabelece


entre a instituição do passe e a clínica
psicanalítica é de fato uma contri-

buição relevante às abordagens até


então propostas pelos teóricos laca­
nianos.
Com esta coletânea- idealizada por
Manoel Barros da Motta e organizada
pelo próprio autor -, o público leitor
brasileiro enfim tem em mãos um ma­
terial consistente para avaliar o pen­
samento de um dos mais influentes
psicanalistas franceses da atua­
lidade.

vERSÕES DA CLÍNICA
PsiCANALÍTICA
ÉRIC LAURENT

VERSÕES DA CLÍNICA
PSICANALÍTICA

Tradução:
Vera Ribeiro

Revisão Técnica:
Manoel Barros da Motta

AltJutnbrt

i!liblinttca iigital

Jorge Zahar Editor


Rio de Janeiro
Altxanilrt

ilibliotrca iigital

Tradução autorizada de uma coletânea


de textos especialmente selecionada pelo
autor para esta edição.
Agradecimentos especiais a Manoel Barros da Motta
pela "idéia" deste livro.
Copyright © 1995, Éric Laurent
Jorge Zahar Editor Ltda.
rua México 31 sobreloja
20031-144 Rio de Janeiro, RJ
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ou em parte, constitui violação do copyright. (Lei 5.988)

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

Laurent, Éric
L413v Versões da clínica psicanalítica I Éric Laurent; tradução, Vera
Ribeiro; revisão técnica, Manoel Barros da Motta. - Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed., 1995.
248p. -(Campo Freudiano no Brasil).

Coletânea extraída de diversas publicações


ISBN 85-7110-336-4
L Psicanálise. L Título. IL Série.

95-1952 CDD616.8917
CDU 159.964 2
SUMÁRIO

Parte I. TRANSFEJillNC IAE DIREÇÃO DO TRATAMENTO

1 . Lacan clássico, 9
2. Sobre a interpretação, 19
3. Sobre a transferência, 30
4. Sobre o desejo, 40
5. O objeto da inveja e o lapso do ato, 49 .

6. O que Melanie sabia, 54

Parte 11. NEUROSE E CoNSTRUÇÃO D A F ANTASIA

1, Construção da fantasia: O Homem do Impermeável, 65


2. Construção da fantasia: As duas análises da Sra. Y., 71
3. Três modalidades do objeto, 78
4. A certeza da histeria, 88
5. Histórias em quadrinhos, 96

Parte 111. A PSICOSE E SEUS LIMITES

1. Vigência de três exigências deduzidas dos ensinamentos de Lacan


sobre as psicoses, 109
2. A disciplina da entrevista com o sujeito psicótico, 121
3. Afeto, signo, certeza, 127
4. Gozo, o sintoma, 135
5. Os limites da psicase, 139
6. A psicose: ato e repetição, 144
7. Melancolia, dor de existir, covardia moral, 155
8. Psicose e debilidade, 167
9. Missão Sexpol, 176
10. O sujeito psicótico escreve , 184
...
Parte IV. A PERVERSÃO E OS Gozos

1. O uso pervérso da fantasia, 193


2. Traços atuais de p6rversãol, 206

Parte V. A POLÍTICA 00 PASSE

1. Uma aposta, 215


2. Ensino e cartel do passe, 221
3. Dois exemplos de passe no ensino de Lacan, 225
4. Passe e beatitude: sobre o entusiasmo, 233
5. Clínica do passe e depressão: um caso, 238
Parte!

TRANSFERÊNCIA E DIREÇÃO DO TRATAMENTO


1
Lacan clássico

Hoje, tenho que lhes falar sobre a direção do tratamento segundo Lacan, e vou
fazê-lo a partir de uma releitura do texto desse mesmo nome, um texto de 1958
que faz parte dos Escritos.

Por que reler um texto de 19�8. ainda mais quando sabemos que muitos
pontos do ensino de Lacan se modificaram logo depois? Pensemos, por exem­
plo, na introdução, a partir dos anos de 1 963-64, do objeto a, que concorreu,
como assinalou Lacan em seu texto "A posição do inconsciente", texto que se
encontra no final dos Escritos, para reformulações de todos os problemas da
técnica. Por que eleger este ponto de partida, aquém do objeto a?

Esta releitura atesta o classicismo de Lacan. Esse texto, construído em


1958 como um texto atual, continua a sê-lo ainda hoje. Se tivesse que dar um
título a esta primeira reunião, eu a chamaria de "Lacan clássico". Se Lacan foi
clássico em sua abordagem da prática da psicanálise, ele o foi, em primeiro
lugar, porque conseguiu tornar Freud inesquecível, ao menos para os psicanalis­
tas franceses, e parece, ao menos em função da presença de vocês aqui, que
também o conseguiu com os psicanalistas argentinos. Na França, qualquer que
seja sua escola, os psicanalistas franceses estudam os textos de Freud, a ponto
de dois membros eminentes do ramo francês da IPA, ao apresentarem aos
leitores norte-americanos uma compilação de textos franceses, haverem come­
çado por se desculpar por essa particularidade francesa.

Quando se quer arremedar a ciência, isso é um obstáçulo. Já diz o


provérbio que uma ciência que hesita em esquecer seu fundador é uma ciência
perdida. Como reconhecem os mesmos adversários de Lacan, foi isso que se
deu na França quando de sua releitura de Freud e dos efeitos dela, que fazem
com que Freud não seja esquecido ali. Os mais medrosos procuram reduzir esse
efeito de verdade a um efeito de saber: Lacan só acentuou o texto de Freud a

9
10 versões da clínica psicanalítica

partir de seu conhecimento do alemão, pouco comum entre os psicanalistas


franceses. Os mais temerários assinalam que tiveram que voltar a Freud para
se convencer de que ele não era lacaniano. Mas tudo testemunha que o efeito
Lacan, a transferência de trabalho que ele soube suscitar, não se reduz à
erudição.
Num primeiro sentido, portanto, o classicismo de Lacan na direção do
tratamento tornou clássicos os textos de Freud sobre esse tema. Mas não há
como nos enganarmos sobre a dupla natureza desse retorno: num único movi­
mento, Lacan apontou para o fundador e, por sua vez, libertou uma observação
clínica entorpecida pela escolástica das escolas de psicanálise. Esse movimento
teve a mesma estrutura do redescobrimento dos textos clássicos durante o
Renascimento italiano. Quando os analistas anglo-saxões queixam-se do efeito
de literalidade da leitura do French Freud [Freud francês], eles usam o mesmó
termo empregado por Panofsky para caracterizar Michelangelo, que se apoiava
nos textos clássicos para produzir a invenção moderna.
Lacan participou muito ativamente da renovação clínica do.pós-guerra.
Sua fidelidade ao invólucro formal do sintoma foi rara no contexto da psicaná­
lise dos anos quarenta, seduzida pela psicogênese do sintoma, que deixava de
lado sua consideração formal em favor de considerações biográficas, as quais,
apoiando-se no deslizamento que se produz dentro da análise, supõem que esta
permitiria acabar com o real do sintoma. Esse cuidado clínico, reéonhecido por
todos os seus colegas, não se limitou a produzir lim revival [uma revivescência]
da melhor clínica francesa, mas conduziu a uma renovação da clíniCa psicana­
lítica em todos os seus âmbitos.
O estágio do espelho reordena a observação direta. No campo da psicose,
a alucinação, os fenômenos elementares e os temas delirantes foram captados
como formações do inconsciente, de um modo inteiramente original. Lacan
isolou outra dimensão, o real do simbólico, e renovou totalmente a clínica das
alucinações. Em geral, não há um só âmbito da extensão da clínica que Lacan
não tenha estimulado seus discípulos ou amigos a investigar: a pedagogia, a
.. pediatria, a psicanálise de crianças, a obstetrícia. Ele manteve o diálogo com os
praticantes desses campos, estimulando suas descobertas, incentivando seus
esforços terapêuticos e impulsionando-os a expor seus resultados de modo
sistemático.
Enquanto os Institutos de· Psicanálise, especialmente na Europa, mosc
travam-se reservados ante todas essas novidades, Lacan mostrou a coerência
dessa investigação que beirava o núcleo mais sólido da experiência freudiana
e os ensinamentos que dela podiam deduzir-se no tocante à direção do trata­
mento em intensão.
transferência e direção do tratamento li

O autor de "A direção do tratamento" não se voltou principalmente para


a constituição e manutenção da unidade na cünica freudiana, mas para a
importação de um estilo clássico para a técnica psicanaütica. Esta afirmação
talvez pareça descabida, levando-se em conta o quanto Lacan foi criticado por
sua prática singular. Costuma-se esquecer que ele elegeu explicitamente a
técnica psicanalítica como título de seu segundo seminário; esquece-se também
sua preocupação em abrir perspectivas para a técnica francesa na selva que se
chama técnica psicanaütica. Basta ler a bibliografia sobre o tema para nos
convencermos de que há· pouca coisa em comum entre os que funcionam de
acordo com as intuições da contratransferência e os que a re.cusam; entre os que
querem situar-se além da transferência e da interpretação, os que são partidários
da 3Iiança terapêutica e os que, ao contrário, inclinam-se pela simbiose terapêu­
tica; entre os que propõem com arrogância a escuta analítica estrita da criança
autista e os que advogam unicamente o manejo do setting e do holding
psicanaüticos. Essa torre de Babel edificou-se em quarenta anos, na brecha
institucional do cismakleiniano, e se acelerou nÇ>s últimos anos, a ponto de nos
perguntarmos se isso tem alguma coisa em comum com Freud, além dos
interesses do grupo da IPA.
O mal-estar da técnica é encoberto com o cataplasma do paciente novo.
A extensão da indicação da psicanálise, por si só, motivaria o visível incômodo
de muitos autores, um incômodo que provoca a exortação a vigiar a própria
cóntratransferência. Chegamos ao cúmulo quando um André Green recorre à
sensibilidade do analista para dar conta da unidade do campo. S6falta confessar
a impotência da razão para reabsorver os monstros que esta gera durante seu
sonho.
Lacan tirou da extensão clínica da psicanálise uma conclusão diferénte.
Modificou o dispositivo analítico para cada uma das pessoas que a ele se
dirigem; nisso reside seu classicismo. Ou seja, ele permitiu que a regra do ritual
fosse sensível à experiência; foi isso que facultou ao classicismo do século xvn
·

romper com a escolástica.

A modificação do ritual que Lacan efetuou, e que é conhecida pelo nome


de sessão curta, levou em conta os resultados da análise de psicóticos e crianças.
A posição extra-discursiva do psicótico que fala, a juventude da palavr� na
criança, no que esta supõe já presente· a linguagem, e a identificação do débil
mental com a inépcia do significante levaram Lacan a interrogar quem falava
na talldng cure. O dispositivo freudiano pareceu-lhe instigar tudo, menos a
charlatanice, e por isso ele abrevia a sessão. ·

Opondo-se a uma concepção lingüística da psicanálise, cuja meta seria a


compilação do mais extenso corpus possível, Lacan mostrou como a análise
freudiana trazia em si uma éticl' do silêncio. O psicanalista, diferentemente do
I2 versões da clínica psicanalítica

lingüista ou do aficionado do pré-verbal, é responsável pela eficácia de seu dito.


A sessão analítica se constrói, portanto, como uma verdadeira compressão da
conversa fiada, como uma centrifugação da palavra vazia. A partir dessa
modificação em intensão do dispositivo, que leva em conta a extensão clínica,
Lacan fez surgir novos fatos clínicos no próprio cerne da experiência.
A análise do neurótico, da qual muitos analistas se queixam por nunca
encontrarem nela nada de novo, deu margem a descrições inéditas, que são
abundantes no seminário de Lacan. Nunca se tinham lido, desde Freud, des­
crições tão sutis da função da intriga histérica ou do ritual obsessivo, do papel
da outra mulher na histeria e do outro homem na neurose obsessiva, diferencia­
dos do lugar-comum da homossexualidade em que estavam aprisionados. A
relação do neurótico com a morte, com a verdade e com a culpa foi progres­
sivamente estabelecida, permitindo a apresentação ordenada da direção da
análise.
Lacan retomou o questionamento freudiano de "Recordar, repetir e
elaborar" e deslocou a elaboração para fora da sessão, determinando que esta
se reestruturasse em torno de um encontro sempre falto, no tempo entre o
instante de ver e o momento de concluir. Ele mostrou até que ponto a sessão
analítica freudiana, contemporânea da Traumdeutung, que Freud nunca modi­
ficou, podia ser modificada no próprio sentido da orientação freudiana, levando
em conta os avanços mais recentes sobre a função da fantasia e destacando o
papel do analista, já não tanto apenas como superfície de projeção, personagem
do sonho, mas como objeto resistente à identificação - fato do qual Melanie
Klein se preveniu a seu modo-, manifesto no real de sua presença.
Por essa razão, a clínica do retomo a Freud não é apenas uma clínica do
jogo de palavras, da interpretação vazia, uma interpretação de sonhos renovada
-coisa que ela é, sem dúvida-, mas é também uma clínica do afeto. Lacan
ensinou aos psicanalistas franceses que havia dois afetos em que não se tinha
pensado: a perturbação e a confusão. Quando se recrimina Lacan por não dar
espaço ao afeto, como faz André Green, simplesmente se demonstra quão pouco
cuidado se dedicou à leitura dele.
A clínica do retorno a Freud é, acima de tudo, uma clínica da transferên­
cia, apresentada com uma nova agudeza. Clínica da transferência no momento
em que os anglo-saxões introduziam como referencial obrigatório a contratrans­
ferência. Lacan levou adiante a intuição kleiniana do analista-objeto, e foi nesse
ponto que se iniciou "Adireção do tratamento", no ponto em que Lacan deparou
com a novidade da contratransferência, em 1 958. Ele mostrou então como, além
da ilusão intersubjetiva sustentada pelo enfoque da contratransferência, o
analista se apresenta como voz e olhar, assim acrescentando dois registros ao
objeto na análise.
traniferência e direção do tratamento 13

O analista não pode contentar-se em ser um proteu, devendo saber que


não tem rosto porque o objeto não tem nenhuma imagem. Isso não é razão para
que o analista se acredite o pai morto, não desejando nada. Nesse ponto, há que
distinguir diversas formas do nada. Por esse motivo, a lógica do significante é
indispensável para tentar abordar o lugar do analista na análise. Em seus
seminários, Lacan mostraria a vontade de poder implícita na humildade do
analista que brada seu acatamento do cerimonial analítico. A máscara da
neutralidade benevolente - como mostram documentos recentes - não era
uma prática de Freud, sendo-lhe muito distante; ela não passa da máscara de
um dono do desejo. Lacan mostraria como essa máscara proporciona ao
neurótico uma resposta identificatória, resposta pela qual ele anseia em sua
fantasia, para assim se resguardar da castração. Por esse caminho, de fato, talvez
não se obtenham fracassos, mas empates; pactos sobre o desejo e uma eterni­
zação da dívida.

Ao denunciar a sujeição ao ritual, Lacan lembrou ao analista sua res­


ponsabilidade, aquela que surge do discurso a serviço do qual ele está. O analista
deve saber situar-se em seu lugar no discurso, pois somente a partir disso poderá
precaver-se corretamente das vias de sua ação e renovar seus meios.

A fecundidade dessa postura evidenciou-se na renovação da problemáti­


ca do fim da análise, que oscilava, desde os últimos esforços notáveis de Balint
.e Melanie Klein, entre as descrições da fenomenologia do luto e as da elação�
que eram apresentadas como recíprocas no analista e no analisando, assim
determinando como única saída a análise infinita.

A partir dos anos sessenta, Lacan daria uma descrição analítica muito
precisa dos diferentes mecanismos da destituição subjetiva, no analisando, e do
desejo, no analista, em sua articulação com a fantasia no fim da análise. É
necessário ler, em "A direção do tratamento", como já então se organizava o
destino dessas duas vias, a do analisando e a do analista, bem como a de seu
atamento mediante a fantasia.

Se foi possível produzir-se essa renovação da çlínica do fim da análise,


foi graças ao fato de Lacan haver renunciado aos filtros aceitos nos Institutos
de Psicanálise, a partir do momento em que o Instituto de Berlim tomou a
dianteira, separando a análise didática da análise terapêutica. Essa divisão
implica uma administração da análise, sua divisão entre tratamento e formação,
divisão esta que beira a boa vontade samaritana, a qual mascara a decisão de
que a transferência não chegue ao fim. O sistema da garantia didática da análise,
com todas as antecipações narcisistas que abriga em si, é um dos meios mais
seguros de poupar o analista da apreensão de sua condição de objeto no final
da análise e de manter o caráter privado e inacessível da efetuação da análise.
14 ver.wies da clínica psicanalítica

Para obter resultados da direção do tratamento no que concerne a seu


final, para restabelecer seu poder de ensinamento, seu poder verdadeiramente
didático, Lacan efetuou modificações em dois pontos das regras tradicionais
dos Institutos. Em primeiro lugar, eliminou o subentendido prévio do contrato
didático e, em segundo, tornou publicamente acessíveis os resultados da
efetuação de uma análise, na eventualidade de ela culminar na formação de um
analista, mediante um dispositivo de relato que formou, em seu conjunto, o
dispositivo do passe. Essa experiência apontava para a constituição de uma nova
clínica do analisando como tal.
Em vez de se queixar da existência de pacientes inanalisáveis, no limite
da análise, Lacan propôs aos psicanalistas que se ocupassem com o analisável,
que dessem conta da existência ou inexistência de uma modificação estrutural
no fim da análise, de quem era o analisando ao final da análise, qual era sua
relação com a fantasia, uma vez atravessada, qual a relação do sujeito com a
pulsão depois da travessia da fantasia, e qual sua relação com a verdade e a
culpa.
É muito difícil, para os analistas de hoje, falar em termos que difiram da
moderação. Assim, no final da análise, já não se está demasiadamente angus­
tiado, suporta-se melhor a relação com a verdade, tudo é mais bem tolerado, e
isso daria a impressão de que enfim se conseguiu eliminar o real, eliminação
esta que é denominada de adaptação à realidade.
Não é fácil mostrar que as coisas não são assim e, no fundo, a função de
um dispositivo como o do passe seria definir essa clínica do analisando, que
implica uma ética na qual, precisamente, não se elimina o real.
Assim, para terminar meu pequeno percurso em torno do classicismo de
Lacan, direi que ele convidou os analistas, seus colegas, sempre superados por
seu ato - se existe ato humano, é na medida em que este sempre supera seu
agente -, para uma nova ética da psicanálise. Essa preocupação ética permi­
tiu-lhe produzir uma clínica da psicologia das massas, também ímpar desde
Freud. Da análise da psicologia das massas do fascismo à análise das conse­
qüências do desencadeamento do discurso da ciência, Lacan mostraria que a
clínica da adaptação do homem a seu meio é uma sinistra farsa.
Lacan elaborou, antes, uma clínica do sacrifício do ser falante ao gozo,
recordando o sentido da infelicidade comum que o autor de O mal-estar na
cultura separou da neurose. Se o retorno de Lacan a Freud foi um movimento
de grande classicismo, foi por ele ter sabido reatar o diálogo com o fundador
da psicanálise, nas fontes mais vivas do enigma que o gozo não pára de formular
ao ser falante, mesmo que o caminho da ciência já não esteja povoado de
esfinges que lhe narrem esse enigma.

* * *
transferência e direção do tratamento I5

Com esse pano de fundo e a partir desta perspectiva, eu gostaria de reler com
vocês "A direção do tratamento". Para fazê-lo, contamos com quatro reuniões.
O texto consiste em cinco partes, de modo que dedicaremos a reunião de
amanhã, que será a segunda, à interpretação, a terceira à ação do analista e a
quarta à letra do desejo.
Antes de começarmos, amanhã, com a interpretação, eu gostaria que
examinássemos juntos a primeira parte do texto, intitulada "Quem analisa
hoje?".
O hoje a que Lacan se refere, em 1958, é definido na quinta linha do texto:
"É isso, pelo menos, que justifica o tremor que nos percorre ante as expressões
em moda sobre a contratransferência ( ... )" I Foi isso que ele viu surgir no começo
dos anos cinqüenta: a ótica da contratransferência, que é uma especialidade
inglesa, transformada em regra técnica nos anos de 1 958-59, pelo menos na
França. Lacan assinalou que nem tudo o que se inclui no conceito de contra­
transferência é inútil; ao contrário, num seminário como A angústia, quatro anos
depois, em 1 962, ele não poupou elogios aos introdutores- ou, como caberia
dizer mais corretamente, às introdutoras- da contratransferência. A contra­
transferência, diz Lacan em A angústia, foi um grito de alerta dado pelas
analistas que começavam a se entediar no seio das regras e da obsessivização
que lhes impunham as sociedades analíticas a que pertenciam. Algumas delas
resistiam ao dispositivo pesado que a vulnerabilidade do sexo masculino à
obsessão havia instaurado a fim de criar Institutos sólidos, e tentaram introduzir
nele algo diferente.
Em 1 95 8, Lacan atacou os teóricos da contratransferência que tentavam
reduzir a experiência a uma dialética intersubjetiva, assim perdendo o fio da
prática analítica. A contratransferência postula a semelhança entre analista e
analisando, sua equiparação, e por essa vereda se extravia. Toda concepção da
análise como diálogo, mesmo que se recorra à lógica para atualizar o tema do
diálogo, não muda nada: a reciprocidade na análise é um chiste.
Por isso é que Lacan começa seu segundo segmento falando do início da
análise, e termina dizendo que a verdade do dispositivo inicial, da enunciação
da regra, é que tudo o que ocorre é um artifício. Por certo, o que permite o
estabelecimento do enquadre analítico é um artifício - não uma ilusão, como
pensa Winnicott, mas uma imaginarização do simbólico. A regra enuncia que
só haverá palavras em jogo. Mas, se essa é a verdade do ponto de partida, não
é ela a verdade do final da análise. Por isso, o terceiro segmento é dedicado à
verdade do final da análise.
Lacan assinala que, no correr da análise, o analista não apenas vem a ser
uma superfície de projeção, já que paga com sua pessoa no imaginário, mas
também compromete nisso o que, nessa ocasião, Lacan chama de cerne do seu
16 versões da clínica psicanalítica

ser, retomando uma expressão freudiana, Kem unseres Wesens. Esse núcleo de
nosso ser é a verdade do final: o que começa como um artifício culmina como
uma verdade do ser.
Evidentemente, há duas lógicas inteiramente diversas; a que inaugura o
enquadre analítico opõe-se diametralmente à que permite seu fim. Como, então,
deve proceder o psicanalista? Todos os teóricos da prática analítica tentaram
formular isso. Mas, se pensarmos que a estrutura do final da análise é idêntica
à do início, estaremos pensando que a teoria é uma ficção, que tudo é ficção, e
que a própria transferência não leva além dessa ficção. A questão não é opor o
real da transferência à ficção do dispositivo, mas explicar sua dialética. Essa
dialética determina a direção da análise e sua orientação. Para abordá-la, Lacan,
numa tradição ao estilo de Clausewitz* diferencia três planos: a política da
análise, sua estratégia e sua tática.
No quarto segmento, ele assinala que o analista é livre, em sua tática, no
que faz com a interpretação. O analista tem a liberdade de dizer o que tem a
dizer. Aí está uma formulação chamativa, já que poucas vezes Lacan usou o
termo liberdade. Essa liberdade de sua tática permite ao analista ser livre para
decidir quanto ao momento e ao número de suas interpretações. Mas essa
liberdade na tática só pode ser assim na medida em que esteja ligada - no
sentido em que dizemos que uma variável está ligada- a uma estratégia.
O quinto segmento assinala que a estratégia está ligada à transferência,
da qual o analista não é dono. Por isso, os melhores analistas, rompendo com
os ideais de domínio da obsessão, destacaram o quanto o analista não é senhor
da transferência, e a que ponto manter uma expressão impassível implica
transmitir uma imagem de dominação. O analista está alienado na transferência,
precisamente por não ser um sujeito indeterminado, por não ser o sujeito puro
da teoria dos jogos. No quinto segmento, Lacan contrasta o sujeito da interpre­
tação - que é um sujeito do significante (acessível, em certo sentido, a uma
lógica como a da teoria dos jogos), que sempre pode ser um S 1 retroativamente
significado por um Sz, assim determinando um sujeito dividido - com a
alienação na transferência. Em 1 958, eis como ele formula essa idéia: "Não se
pode raciocinar pelo que o analisando faz a pessoa do analista suportar de suas
fantasias, como pelo que um jogador ideal avalia das intenções de seu adversá­
rio."2 Esse é, no texto, um parágrafo muito forte por seu contraste, se conside­
rarmos que Lacan dedicou sessões inteiras de seu seminário ao jogador ideal.
"A carta roubada", texto que abre os Escritos e que corresponde ao seminário

*O general Carl von Clausewitz, teórico e historiador militar prussiano (1780-1831),


formulou em Der Krieg uma teoria da guerra e sublinhou sua subordinação à política, da
qual ela seria um instrumento particular de ação. (N.T.)
transferência e direção do tratamento 17

de 1 955, é uma descrição c uma indagação sobre o jogador ideal e seus limites.
Nessa concepção, há uma dimensão diferente da desse jogador ideal.
Lacan apresenta o analista como servindo de esteio, de âncora, no
decorrer da análise, para a fantasia. O analista, que introduz no começo da
análise a associação livre, o jogo do significante, a liberdade do sonho, encar­
rega-se da fantasia e até se determina por ela - no sentido mais forte, como
dizemos que uma variável é determinada. Por isso, o analista deve saber para
onde está indo; não basta que seja entorpecido pela fantasia do paciente, que é
o desenvolvimento da neurose de transferência; ele deve saber para onde está
indo, e é essa a sua política.

Lacan apresenta essa política, em seu sexto segmento, com uma oposição
simples e crucial: há quem pense que o analista cura com seu ser, e há quem
pense- Lacan e Freud - que é preciso apontar para a falta-a-ser, que é essa
a condição "por onde qualquer ação intervém na realidade".3 Essa oposição tem
termos muito claros. Coincide com o que Jacques-Alain Miller destacou hoje
de manhã, ao assinalar que há uma concepção da estrutura que inclui o nada,
uma concepção que se opõe à concepção estruturalista da estrutura, que, ao
contrário, inclui o todo e a adaptação a um todo, de acordo com certas relações.
Para Lacan, o problema não é a adaptação ao todo, mas o sacrifício do nada.

A partir dessa política do analista, quem sabe que tem de levar o ser
daquele de quem se encarregou no correr da análise a uma falta-a-ser organiza
para si o próprio percurso da direção do tratamento. Termos como falta-a-ser
ocuparam, em 1 958, o mesmo lugar que ocuparia o des-ser do analista dez anos
depois.

A partir desse ponto, segundo o qual o analista não visa a curar com seu
ser, mas a se livrar daqupo que suportou na análise, podemos pensar o sétimo
e último segmento, onde é examinada a saída do analisando da transferência.
Se o termo liquidação da transferência tem algum sentido na experiência, ele o
tem, fundamentalmente, do lado do analista, e não do lado do analisando; este
não liquida a transferência, mas sai dela.

Que é, pois, esse ser do analista? No segmento 7, Lacan estabelece a


seguinte oposição: "É, pois, pelo que o sujeito imputa de ser ao analista (de ser
que está em outro lugar) que é possível que uma interpretação ressurja no lugar
de onde pode ter peso ( ... )".4 Há um quiasma entre a necessidade de que o ser
esteja em outro lugar na transferência e a interpretação que regressa a seu lugar,
problema este que é desdobrado na segunda parte do texto, cujo título é "Qual
é o lugar da interpretação?". Esse título substitui um outro- por exemplo, o
analista em seu lugar. Se a interpretação tem que ocupar seu lugar, é porque o
analista está necessariamente alhures, nunca está em seu lugar. A isso é que o
18 versões da clínica ,psioanalítica

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entendido. O dispositivo psicamtllftiooCIJJ1Siste,emqueo3illalis:tasõadqWre�
ser a partir do mal�; de identifica seu lup por estar sempre .aBmres.,
por nunca ser o �o adequado, e, pol" isso mesmo. ele é o destinatário
essencial a que flC:a reduzido seu lugar, graças ao qual, contrariamente à fala
normal, é o sujeito que vem a encontrar o lugar adequado.

NOTAS
1 . Lacan, J ., "La dirección de la cura y los princípios de w podec", Escritns I, México, Sí­
g1o XXI, 1 977, p. 217.
2. Lacan, J., "La dirección de la cura... . op. cit, p. 221.
"

3. Idem, p. 222.
4. lbid., p. 223.
2

Sobre a interpretação

A respeito da interpretação, há no ensino de Lacan uma série de textos, que


variam conforme o momento em que se situam nele, e cada qual é célebre a seu
modo.

Assim, "A direção do tratamento" não é o Discurso de Roma de 1953,


célebre por nele haver Lacan introduzido a idéia de que a interpretação em
psicanálise pode ser uma pontuação. Tampouco é o Seminário Jl, de 1 964,
célebre por responder criticamente à concepção de interpretação de Jean
Laplanche, outrora aluno de Lacan, segundo a qual a interpretação estaria aberta
a todos os sentidos, concepção esta que Lacan exclui da prática. Também não
é a "Posição do inconsciente", texto que se encontra no final dos Escritos e
articula a interpretação com o objeto a, que ainda não estava presente em 195 8.
Por último, esse texto tampouco é o de "Ou pior... ", que se encontra no nº 5 da
revista Scilicet.

o texto que nos ocupa hoje é célebre nessa série, pois contém es­
sencialmente a teoria de um "tempo" da interpretação, de seu lugar na diacronia
, '
da análise. E o único texto a respeito desse ponto, onde Lacan examina em
sincronia uma interpretação de Ernest Kris e critica o lugar da interpretação na
ego psychology. Por fim, o texto é famoso porque começa por um ques­
tionamento do lugar da interpretação e culmina no exame do lugar do analista.

Essa segunda parte compõe-se de nove segmentos. No primeiro deles,


Lacan começa constatando que, no momento em que escreve, 1 958, a interpre­
tação não aparece em parte alguma. Os textos da época dedicam-se a tudo,
menos à interpretação. A paixão que move os analistas, nessa ocasião, é remeter
a interpretação à intervenção imaginária. No final dos anos cinqüenta, a
psicanálise da psicose e a psicanálise de crianças tinham uma influência
preponderante sobre o dispositivo analítico da interpretação, a ponto de nin-

19
20 versões da clínica psicanalítica

guém mais saber o que separava uma interpretação de qualquer outra interven­
ção do analista.
Lacan, todavia, dá-lhe sua primeira definição: "um dito esclarecedor",'
o que se opõe ao insight inglês, concepção da interpretação centrada num
fenômeno visual. Esta equivale a dar margem a tudo o que possa ser imaginário,
já que, muitas vezes, esquece-se que, na visão, o que a condiciona é a luz, mas
a luz é diferente da visão. Definir a interpretação como um dito esclarecedor é
diferente de defini-la como uma palavra. Palavra esclarecedora é um termo que
nunca aparece em Lacan. No ano passado, num de seus últimos seminários, o
Dr. Lacan chegou, inclusive, a precisar sua oposição a qualquer concepção da
interpretação como palavra esclarecedora. A palavra é obscurantista, é equivo­
cação; os partidários da palavra libertadora continuam a manter no horizonte a
presença de um Deus que seria o penhor da palavra.

O segundo segmento constata que embora, para alguns, a interpretação


não esteja em parte alguma, para outros ela está em toda parte. Assim, no
conhecido artigo de Edward Glover sobre o efeito da interpretação inexata, este
chega a dizer que, no dispositivo analítico, tudo é interpretação, inclusive o
sintoma, que é uma interpretação inexata do paciente. Nesse segmento, Lacan
opõe a uma interpretação presente em qualquer lugar uma interpretação que é
feita a partir de um determinado lugar, o lugar do Outro. Resume ali as
aquisições do Discurso de Roma, ao definir o sujeito: "[Nenhum índice basta,
com efeito, para mostrar onde age a interpretação,] quando não se admite
radicalmente um conceito da função do significante que capte onde o sujeito se
subordina a ele, a ponto de ser subornado por ele."2 Que o sujeito subordinado
seja subornado permite-lhe mostrar que não é compreensível como este possa
modificar-se examinando-o, a não ser a partir do lugar do Outro que o determi­
na.

A interpretação desconcerta todos os analistas centrados no encontro


intersubjetivo. À força de espiar o outro sujeito, eles não se apercebem de que
a modificação não se produz ali, mas opera no lugar do Outro e determina o
sujeito.

Mas, há uma diferença entre c:,se texto e o Discurso de Roma, quando


Lacan diz o que é que permite "a função do Outro na ocultação do código, já
que é a propósito dele que aparece o elemento faltante".3 Ele se refere a uma
interpretação que age através do significante. Na página 1 134 do Discurso de
Roma, Lacan nos fala de uma interpretação que atua sobre as ressonâncias
semânticas, sobre o significado, e não sobre o significante. A ressonância
semântica do Discurso de Roma é substituíd a pelo despertar da função do
código.
transferência e direção do tratamento 21

Por esse motivo, no terceiro segmento, Lacan assinala que, quando a


interpretação é significante, ela questiona a ressonância semântica, ao final da
qual, de todos os seus sentidos, surge um zero, um conjunto vazio. Aí se introduz
esse término essencial da lógica do significante; toda interpretação revela que,
no conjunto dos significantes, pode ativar-se a qualquer momento o conjunto a
mais, esse conjunto a mais que não é nada. Lacan assinala que a significação é
a combinação da vida com o que, nessa ocasião, ele denomina de átomo zero
do signo. É preciso ler esse átomo zero com a barra. A ressonância semântica
ressoa melhor do que nunca no vazio.
Há uma concepção da interpretação que a considera como um acréscimo;
o trabalho do analista consistiria em agregar algo, o que Lacan expressa assim:
"A interpretação, para decifrar a diacronia das repetições inconscientes, deve
introduzir na sincronia dos significantes que nela se compõem algo que de
repente possibilite a tradução (... )".5 Esse algo que se acrescenta é um nada.
Desse modo, Lacan explora o nada da diferença pura entre os dois significantes
-no caso, o Forte o Da do neto de Freud. Logo veremos como essa concepção
se modificou.
A questão central é nos darmos conta de que, entre o Discurso de Roma
e "A direção do tratamento", sistematizou-se para Lacan o manejo da interpre­
tação como aquilo que, acre�centando um significante ao que se constitui como
uma bateria, um conjunto, faz surgir a diferença pura, o nada que é o próprio
fundamento do conjunto dos significantes.
Lacan assinala, no quarto segmento, que é notável que os partidários da
interpretação positiva sempre esperem que seu paciente aceite a interpretação,
que diga sim. Freud, ao contrário, esperava que o paciente lhe dissesse não. O
não da Verneinung corresponde ao nada da interpretação do analista. O nada
introduzido pelo analista encontra como eco um não, ou seja, o retomo da
mensagem em forma invertida. Isso não permite uma diminuição da repressão,
diz Freud, mesmo porque se produz por acréscimo.
No quinto segmento, Lacan continua a denunciar a dificuldade de captar
o valor desse fato clínico pelo ângulo da redução da análise à dimensão dual.
No sexto segmento, ele se detém na primeira descrição da interpretação
e da modificação de sua concepção depois do discurso de Roma, para chegar à
transferência. Todos sabem, em psicanálise, que o problema é coordenar a
interpretação com a transferência, que há uma antinomia entre elas.
Freud captou o aspecto de resistência apresentado pela transferência e
nos ensinou a tratá-la como tal. A pergunta é: como tratar essa antinomia entre
transferência e interpretação? A ela é dedicado o restante dessa parte do texto,
procurando precisar o lugar da interpretação em relação à transferência.
22 versões da clínica psicanalítica

Nesse ponto, Lacan torna a contrastar duas concepções. A primeira, que


ele designa por moderna, é a de Kris, a da ego psychology, que coloca a
interpretação no final do percurso analítico - a interpretação é postergada até
que se tenha instalado a transferência - e que, portanto, a subordina à redução
da transferência. As aporias técnicas a que essa concepção conduz são as
seguintes: primeiro, não se interpreta enquanto a transferência não se houver
instalado, e, depois, não se interpreta porque a transferência já se instalou, e é
preciso reduzi-la para poder interpretá-la. Isso culmina em que o único ponto
de interesse é a defesa. ADurcharbeitung [perlaboração] freudiana é substituída
pelo working-through [elaboração] da transferência, no qual se realiza a vio­
lentação imaginária que visa a conectar o sujeito, por todos os meios possíveis,
com a realidade. Nesse ponto, o analista se afasta de sua timidez inicial e faz
da transferência, uma vez estabelecida, um seguro que garante a relação com o
real- real que equivale à realidade, não ao real lacaniano-, o qual se converte
no lugar do combate. Desse modo, acossa-se o paciente com suas atuações,
proíbe-se-lhe toda sorte de coisas e se transforma sua vida num pesadelo em
que o analista se esconde atrás de todas as portas. Lacan opõe a esse working­
through da transferência a Durcharbeitung freudiana, enquanto elaboração
sim!Jólica, e não imaginária.

No sétimo segmento, Lacan aborda a clínica freudiana e examina os casos


do Homem dos Ratos e de Dora, para nos mostrar como Freud começou a
interpretar. Desde o início, ele mostra a Dora a que ponto ela está perfeitamente
adaptada, a que ponto favorece as intrigas amorosas do pai. Retifica, logo de
saída, a posição desse professor de direito que é o Homem dos Ratos no que
tange a seus amores impossíveis.

Lacan destaca que Freud, desde o início, situa a relação do sujeito com a
realidade. Essa relação, que os psicanalistas modernos apresentam como o auge
do final da análise, Freud a faz operar no começo e, depois, não lhe presta mais
atenção, interessando-se pela posição do sujeito no simbólico. Por isso, ele
explora o destino do Homem dos Ratos muito além de qualquer psicologia,
interrogando-o sobre as circunstâncias do casamento de seus pais. Não apenas
procede assim, como também se equivoca, e Lacan sublinha o quanto se pode
ver perfeitamente, nesse caso, como o inexato, em psicanálise, implica o
verdadeiro. Em seguida, Lacan opõe a seqüência antiga, freudiana, à moderna,
para então passar a examinar o caso do homem dos miolos frescos de Kris.

O paciente de Kris queixava-se de copiar tudo, de ser um plagiador. A


seu analista, que foi o segundo, já que sua primeira analista fora Melitta
Schrnideberg - a filha de Melanie Klein que mais tarde se opôs teoricamente
à mãe -, afigurou-se divertido, sendo um dos líderes da ego psychology,
publicar a reanálise de um caso cuja primeira analista pertencera ao grupo
transferência e direção do tratamento 23

ldeiniano. Em determinado· momento, quando seu paciente se queixa de copiar


tudo; Kris pega um livro da bibliotec.a e lhe mostra, com a prova na mão, que
ele não copiou nada. O paciente aceita isso e - episódio célebre - vai comer
alguma coisa ao sair da sessão: miolos frescos. Kris fica satisfeito e assinala que
alguma coisa se movimentou, e é verdade, mas, o quê?
Ademonstração de Lacan tende a deixar claro que isso foi um acting-out,
desencadeado por um forçamento na transferência, na qual o analista postulou­
se como referencial, saiu da transferência - em suma, diríamos, propôs: chega
de bobagens, esta é a verdade, e a interpreta. Nos termos de Lacan, Kris
interpretou a defesa antes da pulsão, o que quer dizer: seu desejo é ser plagiador
para não ser plagiador; ele apontou a pulsão de plagiar. Lacan entende que o
acting-out foi uma defesa do sujeito para manter sua pergunta. Não se tratava
de um sujeito que mubasse,.mas de um sujeito que roubava nada. Temos aí um
diSpositivo exatamente inverso ao que Lacan havia descrito no primeiro pará­
grafo. O analista introduz o nada e desencadeia o não, enquanto, neste caso,
temos um analista que interpreta procurando reduzir o não, explicando-lhe que
ele não rouba, interpretação esta que desencadeia um tipo de acting-out em que
o sujeito demonstra que rouba, pois vai comer miolos frescos.

Lacan não interpreta inutilmente esse acting-out em termos de pulsão


oral ou dependência oral do Outro, mas assinala que o objeto que o paciente
rouba é um nada, e se atreve a chamar esse· caso de anorexia mental . Esse é um
modo de interpretar a partir do· acting-out; trata-se de um sujeito desgostoso
com suas idéias, que não quer pensar, e Lacan considera que isso é uma
enfermidade do desejo1 que se trata de um sujeito que se recusa a aceitar que
seu desejo esteja submetido à cadeia significante, um sujeito que gostaria de
desejar sem ter a menor idéia disso, e que, assim, ataca a cadeia significante.

Lacan utiliza o termo ataque à cadeia significante na "Posição do incons­


ciente". Há ali um parágrafo que me parece crucial para captar como se
modificou, oito anos depois, o ensino de Lacan no tocante à interpretação. Em
1958,. Lacan concluíra que o analista, ao considerar-se referencial da transfe­
rência, ao acreditar curar com seu ser, havia desencadeado o acting-out, sem
adquirir a menor orientação suplementar sobre a verdade do sujeito, ou seja,
sobre sua posição no simbólico. Em "Posição do inconsciente", Lacan diz: "( . . . )
para se proteger do significante sob o qual sucumbe, o sujeito ataca a cadeia,
que reduzimos à conta exata de uin binarismo, em seu ponto de intervalo. O
intervalo que se repete, estrutura mais radical da cadeia significante, é o lugar
freqüentado pela metonímia, veículo ( . . . ) do·desejo."6

O sujeito, portanto, está prestes a ser repn.·sentado por um significante


perante outro significante, mais um passo e será representado, mas sucumbe,
fica petrificado no significante, e precisará de um outro perante o qual possa ser
24 versües da clínica psicanalítica

representado. O ataque ao intervalo da cadeia é o que faz o paciente de Kris ­


um ataque ao nada que está entre os significantes; ele, que está doente porque
o desejo está enganchado na cadeia significante, defende-se desta mediante um
ataque que sempre coloca em primeiro plano o nada, e com isso mantém a
metonímia essencial da cadeia, de um desejo que lhe seja possível. A essa altura
da teoria de Lacan, o que ele antes escrevia como S passa a ser o binarismo de
dois significantes, S 1 e S 2 . 0 ponto de intervalo indica simultaneamente, em
francês (point ), duas coisas: ponto e negação. Assim, também se pode ler que
não há intervalo entre S t e S 2. Esse intervalo que se repete foi o que Jacques­
Alain Miller lhes indicou como a diferença pura, núcleo da própria noção de
significante, e, nesse sentido, pode ser considerado como a estrutura radical da
cadeia significante.
Como situar a interpretação por essa perspectiva do surgimento do papel
do intervalo, introduzida por Lacan a partir dos anos de 1 963-64? Não basta
apresentar a cadeia, é necessário saber também que sua estrutura mais radical
é o que se introduz no ponto de intervalo. Por isso, no parágrafo seguinte, diz
Lacan: "É (. . . ) sob a incidência em que o sujeito experimenta, nesse intervalo,
uma Outra coisa a motivá-lo que não os efeitos de sentido com que um discurso
o solicita, que ele depara efetivamente com o desejo do Outro, antes mesmo
que possa sequer chamá-lo de desejo, e muito menos imaginar seu objeto."7

Assim, Lacan opõe o efeito de sentido ao encontro do desejo. A interpre­


tação como efeito de sentido, de 1 953, e como efeito de significante, de 1 958,
é questionada, na medida em que, nesse parágrafo, ele faz toda a técnica girar
em torno do encontro com o desejo do Outro. Se Lacan opõe dessa maneira o
efeito de sentido ao encontro com o desejo, devemos esclarecer o que é o efeito
de sentido.

O efeito de sentido não foi uma invenção de Lacan ; é um termo de um


lingüista francês que não fazia distinção entre as figuras retóricas e a ambigüidade
natural da sintaxe de uma língua. Um exemplo típico seria o imperfeito em
francês, e também em espanhol : cinco minutos depois, o trem ia descarrilhando.*
Não sabemos se isso ocorreu ou não. Há aí um efeito de sentido, uma ambigüi­
dade que não depende de uma figura retórica, mas que está incluída na sintaxe,
determinada pela orientação semântica, que fica além da vontade do sujeito.

Lacan opôs, portanto, o efeito de sentido ao encontro com o desejo, que


se produz no intervalo de tudo o que é efeito de sentido, que é muito mais um
encontro com o sem sentido [o não-senso].

*O recurso a um tempo composto em português foi usado aqui por deixar mais patente a
ambigüidade da formulação, que não permite saber ao certo se era uma ação em andamento,
que depois se concluiu, ou se não chegou a acontecer. (N.T.)
transferência e direção do tratamento 25

Por esse ângulo, devemos retomar, se vocês me permitem a expressão, a


diacronia de "A direção da análise", para captar uma nova diacronia da
interpretação a partir da "Posição do inconsciente". Essa nova diacronia consis­
te em partir, primeiro, da idéia de que o paciente procura o analista com um
sintoma. Que é um sintoma? Num dado momento de seu ensino, Lacan o definiu
como uma metáfora, como palavras congeladas. Que faz o analista? Ele esboça
a cadeia significante, desencadeia um sujeito, estabelece a regra da associação
livre, a partir da qual o sujeito é captado pela cadeia significante, S 1 - S2, e fica
sempre preocupado com o próximo significante, com a sessão seguinte. Inicial­
mente, o analista se identifica com o S 2, é ele que acrescenta o segundo
significante. Todos os analistas compreenderam esse ponto, entenderam que é
desse lugar que o analista interroga a posição do sujeito.
Porém isso não é mais que um primeiro tempo, como mostraria Lacan
num texto posterior, "Ou pior... ", publicado em Scilicet n2 5, p.9, chamando-o
de tempo de decifração - um primeiro tempo da interpretação em que se
acrescentam significantes para assim obter a decifração que contradiz a cifra­
gem do sintoma. O problema é que não basta decifrar, pois um enigma decifrado
continua a ser um enigma. É o caso dos contos de Edgar A. Poe, como, por
exemplo, "O escaravelho de ouro", onde, uma vez decifrada a mensagem, temos
algo do estilo "300 metros a oeste, P. 26 etc.", que continua sendo um enigma.
Esse é o primeiro tempo da análise, que, em geral, coincide com a duração das
análises terapêuticas, segundo o critério dos Institutos "oficiais" de psicanálise,
nos quais se considera que o paciente está melhor e pode ir embora. Mas o
enigma de seu destino persiste, mesmo que tenha sido decifrado.
Temos depois o segundo momento, um momento em que o analista troca
de lugar - de S2, passa a ser o S1 insensato. Também podemo·s dizer isso de
outra maneira, dizendo que na psicanálise se obtêm efeitos de verdade, um saber
no lugar da verdade - é assim que Lacan o escreve na fórmula do discurso
psicanalítico, um discurso incrivelmente paradoxal cujo agente é um objeto, e
não um sujeito. O saber, em psicanálise, funciona como um efeito de verdade,
cuja versão imaginária é o insight, versão visual da verdade como teoria, como
·

aquilo que se contempla.


Esse saber é operante, se deposita, mas é difícil de dizer, e por isso a
psicanálise nem sempre é uma ciência, e esse saber que se deposita não é
transmissível. Esse saber na posição de verdade surge num determinado mo­
mento da análise, mas nela também se evidencia que, decifrando-se o sentido
sexual, aparece a castração, coisa que Freud detectou como surgindo, do lado
do paciente masculino, como um não querer mais continuar para não ser
castrado, e, do lado da mulher, um não querer continuar pela decepção do
Penisneid, pela demanda de um pênis, impossível de satisfazer.
26 versões da clínica pstcanaHtica

Há, pois, um momento em que o sentido sexual não basta, já que além
do sentido sexual está o objeto. Melani.e· Klein respondeu ao Freud de Análise
terminável e intermilUÍvel dizendo que, nesse momento, o analista fica no lugar
do objeto. O problema é saber como o analista passa para a posição de...Qbjeto,
como deixa de ser a garantia do saber e se faz objeto. Essa virada é possível,
como o desenvolve Lacan no Seminário I I , porque as duas dimensões que se
opõem são as do ser e do sentido. O sentido sexual, desde Freud, não consiste
numa hermenêutica; ser e sentido se opõem, mas têm uma zona em comum,
que é o não-senso. Existem, entre textos como "A posição do inconsciente", o
Seminário 1 I e "Radiofonia", múltiplas ambigüidades entre os termos sentido,
significação e significado. A importância dessas ambigüidades reside em que
Lacan tenciona explicar, tomando como eixo a estrutura essencial que reúne o
ser e o sentido, a passagem da posição do analista - num detenninado
momento da análise que gira em tomo da figura do não-senso - de garantia
do sentido, com o não-senso q:ue este abriga em si, para uma posição de objeto
que também está fora do sentido.
Por que está o objeto fora do sentido? Para que haja sentido, é necessário
que um sujeito seja representado por um significante para outro significante. O
objeto não representa nada, ele apresenta, faz-se presente, não está ali para
representar uma ausência. Mediante essa presença, Lacan renovou, através do
subterfúgio da ohra de Klein, o aforismo freudiano de que o analista não opera
in absentia ei in e)figie. É necessário que ele esteja ali, como presença real.
Mais além da transferência imaginária e da transferência simbólica, ele
está presente como objeto que resiste a qualquer identificação, que é pura
presença. Em torno dessa superposição de duas negações, do não-senso que
surge na cadeia significante e do extra-sentido do objeto, produz-se a virada do
analista, que é estritamente a virada transferencial.
Aqui, tomamos a encontrar o analista convertido em referencial do
discurso do paciente, mas num sentido muito diferente do de Kris; ele não é
referencial da realidade, mas referencial na medida em que é a presença que
surge do não-senso que constitui, afinal, tudo o que ele nos disse, o não-senso
que é a contingência de sua vida.
·Neste ponto, podemos retomar o parágrafo em que, na "Direção do
tratamento", Lacan assinala que a interpretação deve ser a própria referência da
interpretação, o que ele indica como a redução da interpretação a ela mesma,
assinalando que, nesse ponto, são necessárias algumas noções de topologia, na
qual o superficial não se opõe ao profundo, como em Kris, mas onde, seguin­
do-se a superfície, volta-se à superfície. Todos conhecem a banda de Moebius,
onde não há direito nem avesso, cuja topologia corresponde à do sujeito, assim
transferência e direção do trata�mnto 27

permitindo apreender a dupla inscrição freudiana. Para relacionar a topologia


do sujeito com a do objeto, no entanto, ainda falta alguma coisa.
Como conclusão do percurso por textos posteriores de Lacan,. podemos
concluir que, em 1 958, quando ele se referia ao retomo da interpretação a seu
lugar, ao retorno da interpretação sobre si mesma, estava aludindo ao momento
em que se produz a passagem do não-senso para o fora de sentido do objeto.
Farei referência a um paciente que veio procurar-me há muito tempo, a
uma de suas sessões em que relatou um sonho. Ele sonhou que havia, na
cozinha, um crocodilo que era preciso alimentar. Um gato o estava vigiando e
o paciente não se sentia nem um pouco inquieto - o que era um sucesso depois
de vários anos de análise, pois, no início dela, ele era sumamente angustiado.
No sonho, ele ia chamar a mãe e lhe dizia que havia um crocodilo na cozinha,
mas que ele não era perigoso. Ao acordar, concluiu: "é meu pai."
No decorrer do segundo ano de sua análise, esse paciente havia feito um
acting-out extraordinário, vinculado a seu pai. Em meio a um jantar num
restaurante, o pai arranjara as coisas de maneira a deixá-lo, no fim da refeição,
com um vizinho de mesa, dizendo-lhe coisas absurdas que ele resumira assim:
faça o que ele lhe pedir e você terá um emprego. O paciente ficara sem saber
muito bem o que fazer com aquele sujeito, de quem não conhecia coisa alguma,
e com ele embarcara numa noitada de bebedeira pelas ruas de Paris, que havia
culminado numa vaga proposta homossexual por parte desse homem, em
função da qual meu paciente tivera uma briga séria com ele.
No fim do sonho, encontramos a interpretação desse acting-out, uma
interpretação que o próprio paciente fez. O emprego que ele estava procurando
era sustentar esse pai para que ele não fosse perigoso, ou seja, para que cuidasse
de sua mãe. Na seqüência acting-out/sonho, observa-se como se produziu a
virada do analista, de tal modo que foi o paciente que interpretou o enigma, pois
eu passei para a outra posição. Tornei-me um S 1 diante de quem ele se
representou acrescentando um S2. Justamente no final dessa sessão, produziu-se
outra virada: ele alimentou a mim - identificado com o crocodilo, com o objeto
que o comia- e me pagou uma dívida que tinha comigo, e começou a organizar
algumas coisas e a tomar algumas decisões que vinha postergando havia muito
tempo. Transformei-me no objeto que o comia e que ele alimentava para que o
deixasse em paz.
Que era esse o meu novo lugar foi confirmado por um sonho que ele
relatou na sessão seguinte. Ele sonhou com uma tumba em que não havia lugar
para cadáveres e escutou uma frase: Você tem que estar em algum lugar. Era
eu, o analista sem tumba, que ocupava o lugar do morto, esse que Lacan
designou, nos anos sessenta, como o lugar do pai morto, senhor do desejo, diante
de quem ele podia representar-se e dar as significações, e que depois se
28 versões da clínica psicanalítica

transformou num pai a ser alimentado para que o deixasse em paz, diferente­
mente do pai que tanto o inquietava a princípio.
Esse lugar que passei a ocupar não era mais que um engodo, uma máscara
do nada em que eu me havia transformado, não simplesmente morto, mas sem
sentido, apenas uma coisa a ser alimentada.
Um segundo exemplo é o de um jovem psicótico. Comecei a vê-lo numa
fase de delírio agudo, de coloração esquizóide, onde não aparecia nenhum tema
delirante; ele sofria de uma intensa despersonalização, na qual sentia que havia
modificado seu corpo, transformando-se numa mulher, uma prima, embora não
houvesse fenômenos alucinatórios em sentido estrito. Havia apenas um detalhe,
articulado de duas maneiras.
O pai desse paciente, um paciente que está agora com 22 anos, havia
querido psicanalisá-lo desde que ele tinha 4 anos; se pudesse fazê-lo ele mesmo,
isso lhe agradaria muito, mas tinha que recorrer a um analista. Por várias vezes
tentara levar o filho a diferentes analistas, mas este sempre havia resistido.
O problema era que esse paciente sofria uma espécie de psicanálise real
desde os 6 anos, ou seja, todas as noites, ao adormecer, tinha a impressão de
que alguém vinha sentar-se junto a sua cama e o fazia dizer a verdade. Era um
pesadelo sumamente penoso. O paciente parecia ter convivido com ele desde
sempre, já que, em virtude da reorganização delirante do passado, era difícil
localizar-lhe o surgimento efetivo. Mas esse pesadelo resumia toda a sua
infância: uma psicanálise real . Existia, pois, no momento de adormecer, a
presença real, dotada de extraordinária densidade.
Por outro lado, ao acordar, ele sempre tinha a impressão de escutar vozes,
mas que eram simplesmente palavras disparatadas, sem nenhum sentido, e às
vezes via corpos que se moviam mecanicamente. Nesse ponto, podemos ver a
cisão entre o imaginário e o simbólico, os corpos puramente robotizados e um
simbólico que já não tinha sentido algum. Isso nos permite compreender a
indicação de Lacan de que, na psicose, o imaginário, o simbólico e o real estão
disjuntos.
Pedi ao paciente que me relatasse alguma das frases que escutava e que
não tinha sentido algum. Ele me disse: "vou dizer-lhe duas. Escute: 'Olha, estou
vendo alguém' e ' você perdeu a cabeça'."* Podemos ver como são sempre
necessários ao menos dois significantes, donde temos nosso S 1 e nosso S2 . Isso
se produzia ao despertar; a primeira frase referia-se a ele, que realmente
acordava, que surgia como presença no significante, sendo o sujeito repre­
sentado, aí, por um ele essencial, um alguém. A segunda expressão indicava

*A expressão coloquial em espanhol é "perder la chaveta", cuja tradução literal seria "perder
a cavilha", que se aproxima do nosso "ter um parafuso a menos". (N.T.)
transferência e direção do tratamento 29

que estava louco. Em francês, essa expressão significa, traduzindo literalmente,


"você perdeu a bola",* pelo que me permiti dizer-lhe: "você não é alguém que
tenha perdido a bola."
Vemos aqui como dois significantes, que não tinham sentido para ele,
eram uma maneira de representar para si o alguém diante de quem havia perdido
a cabeça. A ausência do parafuso (da bola), era esse o lugar essencial da perda
com que ele se identificava, no intervalo entre os dois significantes, no qual ele
realmente surgia ao acordar.
Para concluir, vemos como se opunham o sentimento da presença,
quando ele dormia, do Outro da verdade ao pé de sua cama, e a perda essencial
com que, enquanto objeto, ele estava identificado ao despertar.

NOTAS
1 . Lacan, J., "La dirección de la cura... ", op. cit., p. 224.
2. Idem, p. 225.
3. 1bid.
4. Lacan, 1 ., "Función y campo de la palavra y el lcnguaje en psicoanálisis", Escritos I,
op. cit., p. 1 1 3.
5. Lacan, J ., "La dirección de la cura. ..", op. cit., p. 215.
6 . Uican, J . , "Posición dei Inconsciente", Escritos 11, México, Siglo XXI, 1975, p. 379.
7. Idem.

*A expressão coloquial francesa é "perdre la boule", equivalente aos nossos "estar variando
da bola", "perder o juízo," "perder a cabeça". (N.T.)
3

Sobre a transferência

Hoje examinaremos a transferência, respeitando o trajeto percorrido por Lacan


no texto, que vai da interpretação à transferência. Vejamos, primeiro, as
perguntas que Lacan começa a formular.
Em primeiro lugar, ele se pergunta se a transferência é ou não a mesma
no começo e no fim da análise. Lacan optaria por distinguir constantemente
uma transferência inicial e uma transferência final, cuja natureza é diferente.
Essa pergunta seria plenamente elaborada mais tarde, mas cabe observar que a
primeira coisa que Lacan reteve, em 1958, foi a existência de duas transferên­
cias.
Em segundo lugar, ele se pergunta qual é, entre as duas formas de
transferência, o motor da regressão - se a frustração porventura efetua a
regressão.
Por último, ele se indaga como situar na análise, na transferência, as
fantasias que despontam e que incluem o analista.
Essas três perguntas interessantes destacam-se do texto, e veremos quais
foram as respostas que Lacan lhes deu. Prosseguindo com nosso método, que
podemos definir como de leitura retroativa, veremos que essas respostas de
1 958 se esclarecem mediante textos posteriores de Lacan.
Esse texto também é crucial, precisamente, por fazer da transferência e
sua conceituação a experiência crucial para uma escola, para uma teoria
analítica. Esse foi um princípio que Lacan estabeleceu na "Direção do trata­
mento" e que viria a utilizar no começo do Seminário 11, onde deduziu a postura
subjetiva de Karl Abraham e a de Sándor Ferenczi de suas respectivas teorias
da transferência. Lacan assinalou, de maneira muito divertida - porque,
aparentemente, ninguém antes dele se dera conta disso -, que Abraham era
uma boa mãe, que observava florescer o pequeno objeto de seu filhinho amado:

30
,trmJ.ife.lfinciiJI e di�çiin do tratamt!ntQ 31

o objdo genital não .ambivalenre. E definiu Ferenczi como o filho-pai, como


aqude que :Se autogerara
Na "'Din:rção do trntamento", deparnmos com uma verdadeira reporta­
pt. É Lacan repórter, jornalista da psit:anáiise de sua época Trata-se de um
tipo especial de jornalismo, por constituir uma visita 01ganizada aos três
monumentos que representavam, naquele momento, a pirâmide da teoria da
transferencia
A primeira faceta do monumento que Lacan nos faz visitar é o geneticis­
mo de Anna Freud. correlacionado com a análise das defesas, que ainda persiste
hoje em dia, mas cuja atualidade é evidentemente menor. Mas era preciso
retomá-lo e, para tanto, era preciso fazer uma reportagem equivalente, que
mostrasse os laços do piagetismo, mais que os do geneticismo, com a relação
objetai. Lacan estava denunciando, nessa época, as intenções de reduzir a
emergência pulsional à fisiologia Tentava-se deduzir o surgimento da pulsão
anal de uma fisiologia anal, o que é uma pilhéria, pois todo o mundo sabe que
o controle dos esffncteres é um fenômeno da civilizàção. Nessa época, estava-se
tentando reduzir a demanda essencial da educação esfincteriana a uma espécie
de desenvolvimento fisiológico, que tomou o nome de geneticismo.
O geneticismo, devido a sua profunda esterilidade, deixou os analistas
sem recursos frente à necedade do piagetismo. As melhores analistas que
tratavam de crianças psicóticas acreditavam ter que cotejá-las com um sujeito
piagetiano, acreditavam que o pequeno autista era um sujeito piagetiano. A
articulação feita por Lacan entre o geneticismo e a análise das defesas mudou
de feições hoje em dia.
A segunda faceta que ele nos faz visitar é a da teoria da relação objetai,
que enfatiza, na transferência, a capacidade de amar. Atentar para o fato de que
Abraham era uma boa mãe na transferência permite apreciar que não basta
repetir que, na transferência, Winnicott era uma boa mãe. Muito pelo contrário,
Winnicott era, na transferência, uma mãe fática. Lacan interessou-se pelos
paradoxos da teoria da relação de objeto. Por exemplo, seria a capacidade de
amar que guiaria o sujeito para o real, ou melhor, nesse caso, para a realidade,
já que todo acesso ao real teria como única via o referido amor? Essa colocação
é problemática no caso d� psicoses. Abraham sublinhava que o psicótico não
podia mais amar, o que talvez seja certo no caso do maníaco-depressivo. Mas
sabemos, precisamente, que o amor se mantém de maneira cabal na psicose.
Em nome de quê se poderia dizer que o presidente Schreber não amou sua
mulher, e até os últimos dias?
A análise das psicoses modificou e transtornou esse conceito do amor
parcial do objeto e o delírio do amor genital. Essa teoria opunha o amor
pré-genital ao amor genital. Todas as doenças da vida seriam pré-genitais, e o
32 versiJes da clínica psicanalítica

sublime, o que finalmente nos brindaria com a felicidade de viver, era o genital.
Há descrições delirantes de relações amorosas que não passam da imaginariza­
ção de uma relação sexual possível graças à psicanálise. Na prática, essas
descrições amorosas delirantes não davam melhor resultado que a famosa saída
do casal norte-americano, a saber, a relação com a secretária - a relação sexual
seria possível, portanto, com a secretária.
A terceira faceta corresponde à teoria da transferência como iQtrojeção
do analista. Na França, nessa época, essa teoria tinha muita importância. Ó nome
que Lacan não pronuncia nesse texto é o de Maurice Bovet, que era o único
teórico da IPA que tinha alguma consistência e que morreu jovem. Lacan
interessou-se por ele e, nos seminários, é comum encontrarmos passagens
contra B ouvet, paralelas aos trechos contra Hartmann. A teoria de B ouvet
centrava-se na distância do objeto. O tratamento da neurose consistiria em meter
o nariz no objeto. Isso deu margem, na literatura psicanalítica francesa, a textos
assombrosos sobre os bufos do analista, que se alegrava com o fato de o paciente
lhe dizer que ele cheirava melhor ou pior. . . ou à teoria da devoração totalmente
fantasmática do analista.

Lacan tomou essa teoria como um sintoma, de quê? Da função do falo


"no modo de presença do sujeito no desejo" - foi essa a expressão usada por
ele nessa época. O falo dá ao gozo uma medida, uma medida simbólica sob um
significante, essencialmente sob o significante da impotência. Se nunca pensa­
mos que ele é uma magnitude negativa, nós o imaginarizamos e o transforma­
mos num problema de distância efetiva, e surgem esses restos de uma geometria
métrica do falo, que acaba sendo devorado.

Lacan opõe, por um lado, a essa teoria da distância, a medida fálica e, por
outro, a topologia do objeto. Como creio que vocês sabem, a topologia é uma
geometria sem medida, sem distância. Vocês não devem supor que a noção de
topologia tenha surgido em Lacan unicamente nos últimos anos; é certo que ele
a desenvolveu sobretudo em sua fase final, mas desde o começo de seu ensino
há referências topológicas em seu discurso. Assim, por exemplo, há no Discurso
de Roma uma referência à topologia. Referindo-se ao fato de que a pulsão de
morte é, ao mesmo tempo, o inanimado, o mais externo ao homem e o que lhe
é mais interno, seu destino, diz ele: "Dizer que esse sentido mortal revela na
fala um centro externo à linguagem é mais do que uma metáfora, e manifesta
uma estrutura. Essa estrutura é diferente da espacialização da circunferência ou
da esfera, em que alguns se comprazem em esquematizar os limites do vivo e
de seu meio; ela corresponde, antes, ao grupo relaciona! que a lógica simbólica
designa, topologicamente, como um anel."l

Um anel, ou seja, um toro, que é uma superfície cujo buraco interno está,
ao mesmo tempo, em contato com o exterior propriamente dito. Esse tipo de
transferência e direção do tratamento 33

exclusão interna foi uma lógica que Lacan definiu, desde o começo de seu
ensino, e que lhe permitirá não acreditar na medida métrica com o paciente e
se desenvolver com mais conforto nos enredamentos kleinianos entre o objeto
interno e o objeto externo, a projeção do objeto interno e outras miscelâneas
estritamente ligadas à intuição kleiniana de uma superfície, de um continente.
Podemos deformar uma superfície e fazer com ela um buraco ou um continente,
mas ela continua sendo uma superfície, e o buraco e o toro não são superfícies
equivalentes.
"A direção do tratamento" é um texto especialmente precioso para nós,
na medida em que questiona o papel do falo no modo de presença do sujeito
em seu desejo, tomando dois exemplos que mostram como o analista deve
manejar com precaução o lugar do falo.

O primeiro exemplo refere-se a um paciente obsessivo, recebido por


Lacan depois de uma análise realizada segundo a teoria da distância. Ele
assinala que, ao perseguir o paciente com a distância do analista, desencadeou­
se um enamoramento homossexual com alguém de seu ambiente. Esse enamo­
ramento homossexual foi, simplesmente, o modo com que o paciente restaurou
o terceiro, uma terceira pessoa, dentro da relação. Se escrevemos a significação
fálica de acordo com a metáfora paterna, vemos que esta questiona o terceiro
essencial, o pai, entre o sujeito e o desejo da mãe.

O segundo exempio que toma é uma fobia. O paciente tinha medo de que
zombassem dele por ser grande demais. Depois de certo tempo de análise,
IIOmara-se voyeurista: nos banheiros de um cinema, espiava as mulheres urinan­
d0. A questão é saber porque se desencadeou na análise essa perversão transi­
tória. O picante nesse assunto é que: se tratava de um artigo de Ruth Leibovici,
malll'lher de Leibovici, então-presidente da Sociedade de Psicanálise de que Lacan
já mw tárúa parte, Ruth Leibovici. nos relata ter-se, dado conta de que tudo mudou
a-partir de umrmomerrto da análise em que o paciente sonhou com uma armadura
eoo1 uma garrafa de inseticida, Fly-wx, que ela interpretou dizendo-lhe que se
lratava da mãe dele, com isso encerrando o paciente numa relação dual. Que
seria aquele objeto enigmático nas mãos da mãe?
Lru::an assinalou que ali, mais uma vez,, ao ser reforçado o caráter
enigmático do objeto, o paciente viu-se obrigado a ir espiar, ou seja, não apenas
se provocou um acting-out, mas também uma perversão efetiva: vá ver esse
objeto. Por outro lado, o paciente deu um jeito de complicar a vida da analista,
obrigando-a a dar informaçõe,s sobre isso ao marido, que o encaminhara para
ela. Lacan assinala que ele precisou novamente reintroduzir um terceiro, para
poder respirar um pouco, mas que o fez de modo patológico.
A função essencial do falo é designar um outro lado essencial. O Nome­
do-Pai, quando coordenado com a significação fálica, está fora dos parênteses.
34 versões da clínica psicanalítica

Quando Spitz tenta reduzir a função paterna à do estranho, segundo sua


terminologia, estamos diante de um mal menor, que pelo menos evita essa
função essencial do falo que é designar o outro lugar da metonímia. Quando o
analista se opõe a esse outro lugar, levando incessantemente o paciente a um
cara-a-cara com ele, acaba desencadeando, em determinado momento, um
apelo a esse outro lado.
Lacan também assinala a importância de estabelecer a diferença entre o
objeto fóbico e o fetiche, no segundo caso: "ensinei a distinguir o objeto fóbico
enquanto significante para todo uso, para suprir a falta no Outro, e o fetiche
fundamental de toda perversão, enquanto objeto percebido no recorte do
significante."2 Ao levar a cabo a reformulação do objeto a, Lacan modificaria
esse texto. Seja como for, ele mostra como o objeto fóbico é uma metáfora e,
por isso, um significante, donde a famosa expressão lacaniana "significante que
serve para tudo". O fóbico encontra, por trás de todas as portas de sua vida, o
significante que o inquieta, que lhe serve para tudo, ou seja, para não fazer nada,
mas faz tudo com ele, como o Pequeno Hans faz tudo com seu cavalo. Que é,
em contrapartida, o fetiche? Éo objeto que se aloja na brecha do significante,
e sabemos que a brecha do significante é o intervalo entre St e S2, ali onde o
paciente de Kris colocava o nada de seu desejo. O fetichista coloca algo ali, o
fetiche, mas a operação é idêntica, coloca um objeto ali.
Nesse ponto, Lacan resgata o esforço de Winnicott de mostrar como,
desde o início da experiência da criança, é impossível captá-la sem sua intro­
dução na linguagem, sem que surja um objeto no intervalo significante. O objeto
transicional habita o intervalo da metonímia, diz Lacan.
Vocês podem avaliar, penso eu, até que ponto todos estes são conselhos
práticos, que estão quase no nível da receita. Lacan se dá ao trabalho de educar
os analistas e lhes aponta que não devem bater na tecla da aproximação.
A quarta parte do texto está centrada no problema do ser do analista. Que
faz o analista com seu ser, já que não pode fazer-se devorar pelo paciente? Lacan
lembra que Ferenczi havia-se apercebido da tristeza que se apodera do analista
quando o paciente, depois de havê-lo introjetado, vai embora. O analista
sofreria, nesse momento, com o abandono do qual é objeto, e Ferenczi queria
que o analista confiasse ao paciente o abandono que experimentava. Achava
que isso era essencial no tratamento do neurótico, saber que ele podia fazer falta
a alguém, que alguém podia sentir saudade dele.
Para Lacan, isso não é mais do que o retorno ao remetente, ou seja, ao
neurótico. O neurótico sofre da falta-a-ser. Que é o ser? É o desejo. Não somos
filósofos, não achamos que o homem tenha como ser algo que não seja o desejo;
somente este constitui seu ser. O neurótico chegaria, assim, a endossar para o
analis�a sua falta-a-ser, e o tratamento consistiria em o analista aceitar essa
traniferência e direção do tratamento 35

transferência. Esse esboço de contratransferência - pois não é outra coisa o


que Ferenczi queria comunicar a seu paciente - tem um soberbo matiz cômico.
Essa quarta parte do texto é de sumo interesse para todos os que se
interessam pela articulação entre Melanie Klein e Lacan. Ao que eu saiba,
trata-se do único texto em que Lacan estabelece a diferença entre o objeto em
sua teoria e o objeto na teoria de Klein. Ele enfoca Klein basicamente como
uma prática e diz: "A dialética dos objetos fantasísticos promovida na prática
por Melanie Klein tende a traduzir-se na teoria em termos de identificação."3
Mais tarde, Lacan escreverá que o objeto que interessa a Klein é tão-somente
o objeto da fantasia, isto é, enquanto a identificação do sujeito se produz com
esse objeto. A fantasia é o oposto de um objeto resistente à identificação. O
sujeito se sustenta em seu ser, ser que sempre se apresenta dividido na cadeia
significante, no desejo, graças à fantasia, ou seja, graças ao objeto, e com isso
logra, imaginariamente, ser uno. Ele obtém seu ser de sua identificação com
um objeto - ser uma merda é existir energicamente.
É justamente isso que Lacan rejeita, fazer o sujeito acreditar que ele se
reduz ao ser de sua fantasia, o que, para ele, é um final de análise fracassado. A ,,
relação com o ser não é uma relação com a fantasia, mas uma relação com o
desejo. A isso se deve o fato de que a última parte do texto esteja consagrada
ao vínculo entre o ser do analista e seu desejo, o desejo do analista. Essa
formulação de Lacan despertou muitas interrogações.
Para nos orientarmos nesse ponto, há que partirmos do fato de que não
se trata da fantasia, e a primeira coisa que Lacan introduz para aproximar-nos
do conceito de desejo do analista é que a demanda do paciente não é uma
demanda de nenhum objeto, é um "ele me demanda", havendo aqui em jogo
um intransitivo.
O que é transitivo na análise, ao contrário, é o sujeito. Por isso existe uma
antinomia entre a demanda e o sujeito. O sujeito é essencialmente transitivo, e
por isso, quando vai ao encontro de um analista, este lhe endossa o sujeito da
,
associação livre, que é o sujeito da experiência analítica, produto de um artifício.
Basta que o paciente vá procurá-los para que vocês o instalem no dispositivo,
donde o transitivo que se produz de imediato é que um significante qualquer
representará o sujeito perante o significante da transferência, lugar de onde ele
se identifica com o analista. Essa fórmula, vocês a encontram na Proposição de

9 de outubro: S ------+ Sq.4 O sujeito transita ao longo da cadeia

� (S l ,S2, . . . S!!)
significante.
A demanda, em contrapartida, tem um caráter intransitivo: ela instala de
imediato, ao oferecer ao paciente o sujeito da associação livre, a produção da
36 versões lÚl clínica psicarwlítica

demanda. Lacan constata isso dizendo: "Consegui, em suma, aquilo que se


gostaria, no campo do comércio comum, de poder realizar com a mesma
facilidade: com a oferta, criei a demanda. "5 Não se deve esquecer, portanto, que
o ponto de partida é um ele me pede. Em determinado momento, no ano de
1958, Lacan indica que o que surge é a presença do analista, que é muito
diferente do analista como significante. Um significante não se apresenta, mas
representa, ao passo que, em determinado momento, surge a presença do
analista, quando o sujeito silencia, quando "retrocede ante a sombra de sua
demanda"; Lacan ainda não escrevera essa formulação, o que faria cinco anos
depois, em seu grafo. O momento em que o sujeito retrocede ante a sombra de
sua demanda escreve-se $ O D, é o momento em que o analista encama a
presença do objeto da pulsão.
O objeto que surge na presença, no momento em que o paciente se cala,
é diferente do objeto da fantasia; o objeto na fantasia faz falar. Que é a presença
do analista? Uma vez varridas as identificações na análise, a presença que surge
no horizonte é a do supereu, sobre o qual Jacques-Alain Miller lhes fez duas
conferências.6 O supereu não é um ideal que dirija o imaginário, é um simbólico
que descarrilha, é uma voz sem palavras. Quando o sujeito se cala, o analista
está na posição que se encontra no horizonte de uma voz sem palavras, de uma
pura ordem que não pode dizer nada, de um St insensato.

No final do processo da demanda, o que surge é um analista dotado de


uma presença cuja função é, precisamente, ir contra o desejo e a favor do gozo.
É esse o paradoxo que Lacan pretende abordar: como, no final da análise, há
uma beatitude de gozo. Este é um problema com que os analistas haviam
deparado, e Lacan termina assinalando que, no final das contas, para B alint, a
análise termina no regaço do supereu. No final da análise, temos o analista que
senta o paciente em seu colo e lhe mostra pela janela o mundo sorridente. De
que janela se trata? Da janela da fantasia, que é a única que temos sobre o real.
Essa cena meio bucólica, do analista mostrando a relva verde de seu jardim pela
janela, é uma representação do supereu que impele o sujeito a se contentar com
sua fantasia, a gozar com ela.

A adaptação à realidade é uma máscara que encobre o imperativo de gozo


da fantasia, pois não há outro gozo. Por isso, o final da análise nessas condições,
como o descreve Balint, tem como defeito fundamental ocultar que deixa o
sujeito numa beatitude desmedida, exposto ao desenfreamento do supereu. É
uma análise que acaba onde Schreber começa.

Lacan não reduz esse fenômeno a uma patologia do fim da análise. O


próprio Balint, ao descrevê-lo, assinala acertadamente que ele não é. normal,
que alguma coisa não funciona. Para Lacan, a partir do momento em que se
considera o que provoca a regressão, o deslocamento, o retomo das cadeias
tratz.�ferência e direção do tratamellto 37

significantes, logicamente, necessariamente, no horizonte da demanda está


presente a mãe como objeto da primeira demanda. No final da análise, o analista
está na posição do supereu materno, que incita o sujeito a gozar com o enigma,
e não a saber sobre ele.
Por isso, a ética do analista é seu desejo, este é sua única oportunidade
de não se identificar com esse gozo. As antinomias entre o desejo e o gozo fazem
com que o termo fundamental do final da análise seja, para Lacan, o desejo do
analista. Seu apreço explícito por Ella Sharpe provém de esta apontar a
necessidade de manter o próprio desejo de outro lado, num lugar diferente
daquele em que o analista encarna para seu paciente a imagem do gozo; ela não
aconselha aos analistas a bondade, mas que leiam um pouco. Havia concebido
um programa de estudos fundamentados na leitura de romances, que Lacan
elogia, e era, por outro lado, uma grande conhecedora de Shakespeare. O
analista não deve olhar o mundo com seu paciente pela janela da fantasia - é
melhor que leia romances, especialmente aqueles em que a função fática é
eminente; o psicanalista, em certo sentido, é um letrado do falo.
A teoria da contratransferência, como espero que vocês tenham podido
apreciar, opõe-se, precisamente, ao desejo do psicanalista. Reli, aproveitando
que estou em Buenos Aires, um artigo de Racker sobre a contratransferência,7
em que ele fala o tempo todo da identificação do analista com o supereu. É uma
lástima que Racker, a quem esse tema interessava, não tenha lido alguns artigos
de Lacan, leitura que o teria ajudado a não se atrapalhar, já que não se equivoca.
O que achei engraçado foi a idéia de haver dois tipos de identificação contra­
transferencial, uma complementar e a outra concordante. A identificação con­
cordante, toma-a de Hélene Deutsch, é a identificação histérica que se instala
a partir do degejo do outro. A histérica faz isso o tempo todo, e há muita gente
talentosa que a análise deixa intacta em sua identificação histérica. A identifi­
cação complementar, cujo protótipo é a identificação com os objetos, é a
identificação com o supereu. Isso é o que indica a experiência, e Lacan o escreve
desta maneira no discurso histérico: o S está na posição de agente e instaura o
supereu como objeto, o que coincide com o que Racker diz: as identificações
concordantes estão do lado do sujeito e as complementares, do lado do objeto.
Ele começa bem, portanto, mas não continua tão bem, porque está convencido
·
de que a lei do significante é a lei de Talião, que é a reciprocidade imaginária,
já que os sentimentos são sempre recíprocos, e aspira conhecer os sentimentos
que o paciente não expressa através de seus próprios sentimentos. Além de ser
uma loucura, essa colocação tropeça num paradoxo notável: ela quer curar a
identificação do analista com o supereu mediante o desenvolvimento de um
observador interno da contratransferência do analista. Todo mundo leu Freud e
sabe que, para ele, o observador interno é precisamente o supereu. Racker
38 versiies da clínica psicanalítica

pretende curar o supereu através do supereu, mediante um supereu especializa­


do na experiência analítica, paradoxo deslumbrante que ele desenvolve com
grande precisão.
Há também outro paradoxo. Racker assinala que Ferenczi havia-se
interessado pela contratransferência - com o que demonstra sua sólida cultura
psicanalítica - e havia dito que quando não prestava atenção ao que o paciente
dizia, isso se devia a que o paciente estava resistindo, essa é uma experiência
conhecida de todos, mas atualmente devemos ter, pensa Racker, exigências
mais rigorosas. Por exemplo, na época de Ferenczi, analisava-se a pulsão, mas
agora que analisamos as resistências, ao contrário, é preciso acordarmos exata­
mente no momento em que elas nos adormecem. Essa é uma exigência de gozo,
ele quer gozar de sua escuta sem trégua; é o analista que quer analisar o tempo
todo, não desatender nem por um instante, ele é aquele que se identifica com o
goza-ouço* do supereu.
Há no texto vários exemplos instrutivos, mas um deles me agradou muito.
Racker se refere a uma paciente encantadora, que lhe diz que um de seus colegas
separou-se da mulher e acaba de se casar em segundas núpcias com uma
paciente, a Sra. Fulana. Sua contratransferência traz-lhe a luminosa idéia de
perguntar à paciente se ela não teria pensado que também ele poderia deixar
sua mulher para ficar com ela. A paciente diz que sim, efetivamente pensou
nisso.
Esse fragmento nos faz rir porque, evidentemente, captamos aí a presença
fálica, ele é de uma comicidade fálica. Mas o importante é que Racker acaba
acreditando que sua paciente está apaixonada por ele. Todos conhecem o caso
Dora, de Freud, e lembram que quem interessava a Dora não era o Sr. K., mas
a Sra. K.; as histéricas, como todo mundo, interessam-se pelas mulheres. Sua
luminosa contratransferência perde de vista o fato de que, do ponto de vista da
estrutura, o que interessa à sua paciente é a própria mulher dele.
Se o desejo do analista houvesse estado um pouco menos ocupado com
sua contratransferência e seu observador interno,. um pouco menos ocupado
com o gozo em jogo - fálico neste caso, e esta histérica lhe relembrou o dever
do gozo fálico -, isso lhe teria permitido saber que o que estava em causa era
a outra mulher. Este desconhecimento lhe criará problemas nas sessões subse­
qüentes.
Outro exemplo que me interessou foi o de León Grinberg, que nos fala
da contra-identificação projetiva. Em algum momento, Racker utiliza uma linda
expressão: fala de um afogar-se na contratransferência que se opõe ao isola-

* Alusão aojogo de palavras feito por Lacan com base na homofonia deJouis (goza) e J'ouis
(ouço). (N.T.).
transferincia e direção do tratamento 39

men�o encarniçado do obsessivo. Grinberg, no final de seu artigo, fala-nos de


um fenômeno relatado por Paula Heimann, que nos mostra alguém que se
afogou na contratransferência. Paula Heimann vê uma de suas pacientes
colhendo flores numa sessão e, como sempre acontece na Inglaterra, reconhece
de imediato uma cena de Shakespeare e diz a si mesma, é Ofélia, e a idéia
contratransferencial que lhe ocorre é que a paciente representa Ofélia e a está
colocando no lugar do público. Esta introdução do público é a restauração da
função essencial do terceiro, o público é a multidão freudiana do sonho da
injeção de Irma, porque no confronto do sujeito com o objeto, com o desejo da
mãe, a função do terceiro é essencial. O modo como P. Heimann o reintroduz
- Grinberg chama-o de contra-identificação projetiva - corresponde a uma
função estrutural, à reintrodução do terceiro no momento em que uma relação
ameaça encerrar-se na dualidade.

NOTAS
l . Lacan, J., "Función y campo... ", op. cit., p. 1 37.
2. Lacan, J., "La dirección de la cura... ", op. cit., p. 242.
3. Idem, p. 245.
4. Lacan, J., "Proposición del 9 de Octubre de 1967", Ornicar?, nº! , Barcelona, Petrel,
1 98 1 .
5. Lacan, J. , "La dirección de la cura... ", op. cit.., p . 248.
6. Miller, J.-A., "Clínica dei superyó" e "Teoría de los goces", em Recorrido de Lacan,
Buenos Aires, Editorial Hacia el Tercer Encuentro, 1 984 [Percurso de Lacan - Urna intro­
dução, trad. Ari Roitrnan, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1987].
7. Racker, H., Estudios sobre Técnica Psicoanalítica, Buenos Aires, Paidós, 1962.
4
Sobre o desejo

Essa última parte do texto de Lacan é de extrema densidade e é muito fácil nos
perdermos nela. Precisei de muito tempo para conseguir lê-la de uma forma
completa e captar sua articulação em tomo de certos pontos-chave.

Para alcançar esse objetivo, é preciso ter presente o grafo da "Subversão


do sujeito", na p. 327 dos Escritos /,1 centrando-nos no patamar superior, no
abridor de garrafas e na via de retorno desenhada pelo eu e pela imagem do eu,
bem como no eixo que vai do $ ao Ideal.

O que mais faz falta nessa última parte é o desenvolvimento do objeto a,


e é preciso acrescentá-lo para poder compreendê-la. Aqui, devemos recorrer
novamente à leitura retroativa e realizar nossa leitura a partir da "Posição do
inconsciente", especialmente na página 37 1 .

Essa parte caracteriza-se pela abundância de ilustrações que inclui: o


homem dos miolos frescos, de Kris, serve para ilustrar a nova teoria da
interpretação proposta por Lacan ; este faz um uso constante dos casos freudia­
nos, o Homem dos Ratos e Dora, protótipos da neurose obsessiva e da histeria;
fala-nos da perversão transitória do caso de Ruth Leibovici; e incluído, temos
no texto - exemplo único nos Escritos - uma psicanálise realizada pelo
próprio Lacan, da qual ele nos relata um trajeto completo, certamente a seu
modo, em seu estilo; é o relato completo de um caso. Esse estilo, evidentemente,
difere muito do estilo de narrar um caso sessão por sessão, coisa que nunca o
interessou, mas brinda a articulação essencial do caso, que se tratava de uma
análise em curso, com uma interpretação crucial, interpretação que, aliás, sequer
é feita pelo analista.

Lacan trabalha a partir de um sonho da Traumdeutung, sonho pouco


comentado, o sonho da bela açougueira, que logo se transformou num clássico
do retomo a Freud. Lacan toma pois esse sonho, cujo relato é muito curto, um

40
tmmiferência e direção do tratamento 41

�onho de uma histérica, demonstrando como, a partir dele, pode surgir o


desdobramento de toda uma análise na histeria. Lacan obtém esse desdo­
bramento a partir de uma leitura retroativa de Freud. Ele lê o sonho da bela
açougueira a partir de textos posteriores de Freud: o caso da homossexual
feminina e o capítul o sobre a identificação da Psicologia das massas.
Nessa quinta parte, podemos observar um contraponto entre o caso
freudiano da belaaçougueiraeocaso de Lacan, que eu me animariaa denorninar
de o obsessivo e o véu. Nesse caso, Lacan nos resume uma análise num sonho.
Temos., portanto, dois movimentos: por um lado, o desdobramento de toda a
análise de urna histeria a partir de um sonho da obra de Freud, e, por outro, o
resumo de toda a análise de um obse.ssivo num sonho. Os dois sonhos devem
ser correlacionados para produzir seu efeito de sentido.
O desenvolvimento de hoje consistirá em estabelecermos o paralelo entre
os dois casos, o que nos levará a um ponto de crítica da técnica psicanalítica,
que culmina numa exortação de Lacan aos analistas de então, numa denúncia
dos impasses que, no começo dos anos sessenta, já se tomavam escandalosos.
Na noite passada, referi-me aos impasses da técnica de Winnicott como
indicadores, como sintomas de um mal-estar na técn ica.2 Al guém depois
comentou comigo que Fairbairn, o primeiro analista de Guntrip, o havia
analisado sem falhas técnicas. Creio que Fairbaim cometeu falhas técnicas sim,
a ponto de haver deixado Guntrip num estado de abandono, que fazia com que
ele dormisse o tempo todo, que vivesse desmaiando. Essa realização dofading
do sujeito é atípica, não é resultado normal de uma análise que o sujeito deva
adormecer para reencontrar seu lugar no Outro. Permito-me dizer isso porque
veremos que é, precisamente, o que Lacan destaca na "Direção do tratamento".
A criança, diz ele, não dorme por estar com sua necessidade satisfeita, mas por
querer encontr:ir-se novamente nos braços do Outro, para que o Outro fale com
ela. Os desmaios de Guntrip estavam estritamente ligados à técnicade Fairbairn,
assim como a falha de Winnicott foi chegar a esta separação impossível, não
conseguir a separação do objeto, em relação ao qual a frieza ou o calor do
analista são um fator irrelevante.
Devemos ter em mente que a leitura de Lacan implica conseqüências para
a prática, prática que varia conforme a idéia que tenhamos do sujeito a quem
nos dirigimos como analistas. Quando os Institutos de Psicanálise dizem
preservar o dispositivo freudiano, vangloriando-se disso, a quem estão enga­
nando? Freud, em sua época, fazia sessões de 45 minutos, mas, durante quanto
tempo? A análise mais longa, a do Homem dos Lobos, durou quatro anos. Agora,
as análises duram quinze anos, no caso dos melhores, daqueles que não se
psicanalisam para fazer carreira, para se livrar de sua relação com a psicanálise;
há pessoas que se analisam simplesmente para se proteger de seu desejo, para
42 versões da clínica psicanalítica

não ter mais que se haver com ele e, assim, continuar sendo bons psiquiatras.
Os melhores dentre os analistas não se analisam unicamente para acumular as
horas de vôo necessárias para tirar seu brevê de pilotagem. Winnicott, por
exemplo, analisou-se por vinte anos, dez com Strachey e dez com Joan Riviere.
Será esse o dispositivo de Freud? Quem foi que Freud analisou durante
vinte anos? Como é possível dizer que seja a mesma coisa? A interrogação de
Lacan sobre o dispositivo da análise tende a nos relembrar essas realidades, e
se, no final, evoca o desejo do psicanalista, é para despertar o analista do gozo
que invade o dispositivo analítico.
Lacan começa estabelecendo o lugar do desejo no sonho. Sabemos, desde
Freud, que o sonho é realização do desejo, fórmula que incomoda os analistas,
os quais, nos anos sessenta, desinteressaram-se dos sonhos, por acharem que
era melhor se dedicarem à fantasia, na qual o aqui e agora com o psicanalista é
mais tangível.
Para esclarecer esse enigma que Freud nos legou, Lacan propõe uma
fórmula: o sonho é uma metáfora do desejo, fórmula que esclarece a formulação
freudiana. Capta a primeira correlação entre o sonho e o desejo como uma
metáfora, ou seja, aquilo que produz um efeito de sentido. Existem diversos
tipos de efeitos de sentido. Aqui, trata-se do efeito de sentido como um efeito
positivo, não se trata da metáfora em sua vertente de produção do não-senso.
Diz-nos, portanto, que esse efeito positivo de sentido é "a passagem do sujeito
para o sentido de seu desejo", com isto esclarecendo a realização d,o sonho em
Freud.

Sabemos que existem outras metáforas, pois o sintoma também o é; então,


qual é a diferença? O sintoma não produz minimamente um efeito de sentido
que introduza o sujeito no sentido de seu desejo; é uma metáfora congelada,
uma metáfora do lado do sem-sentido.
Por outro lado, devemos lembrar que o sonho não é o inconsciente.
Temos, portanto, o sonho, o desejo, o inconsciente e seu sujeito. O sonho,
ensina-nos Freud, é a via real para o inconsciente. Assim, no começo de sua
obra, Freud interpreta a transferência através do sonho. A partir de 1 920,
interpreta o sonho graças à transferência. Temos um exemplo muito preciso
disso: Dora, no momento em que o avisa que irá embora dentro de quinze dias,
recebe de Freud a interpretação de sua posição na transferência; ele considera
que ela lhe diz a verdade sobre a transferência através do sonho. No sonho da
jovem homossexual, ocorre exatamente o contrário: ela sonha que quer se casar
e continuar a análise e, graças à transferência, Freud interpreta "ela está
mentindo para mim". Podemos ver como a prática da psicanálise modifica a
postura de Freud e o leva a articular de modo diferente a posição respectiva do
desejo, do sonho e do inconsciente.
transferência e direção do tratamento 43

Lacan também tentará articular o desejo com o ser do sujeito, com sua
falta-a-ser, servindo-se do sonho da bela açougueira para destacar como "o
desejo é a metonímia da falta-a-ser". Esta formulação é de compreensão difícil,
contudo existe um modo muito simples de lê-la: esta metonímia da falta-a-ser
logo se escreverá, como vimos no caso de K.ris, como a colocação do ser do
sujeito neste lugar entre o S1 e o Sz, entre a diferença essencial do significante.
Ali, o paciente dos miolos frescos desliza sua inserção desse nada que é o falo.
O desejo está ali, desliza por baixo da cadeia significante, mas também o faz
entre os significantes da cadeia.
No grafo, só se pode inscrever a fantasia através dessa espécie de cisão
vertical na demanda, desse duplo movimento que é exatamente S1-S 2. A única
fÓrma de ler esse texto é inscrevendo essa fórmula no grafo, a partir da càdeia
da demanda, que sempre apresenta esse vazio, esse intervalo entre dois signi­
ficantes. Por isso, o ser do sujeito, sua falta-a-ser, surge, não do lado do sujeito
sempre evanescente -, mas do lado de sua correlação com o objeto.
...;_

Portanto, devemos diferenciar o desejo como aquilo que põe em causa o objeto,
o sonho e o sujeito do inconsciente. Em outras palavras, é preciso ter presente,
ao mesmo tempo, a geometria do grafo e a álgebra do discurso.
Passemos, pois, ao sonho da bela açougueira. Há a esse respeito uma
indicação clínica preciosa: a identificação, na histeria, deve ser abordada através
do ponto que existe entre o sujeito histérico e a outra mulher, essa que o
apaixona, um ponto inimitável. Sempre que se tende a pensar a histeria em
tennos de imitação, o que é certo, quando apreendemos que essa imitação está
sempre vinculada a um ponto inimitável, somente ao encontrar esse ponto é que
teremos encontrado o indutor do histérico, o tema que realmente o fascina. O
ponto inimitável de sua amiga é o lugar onde esta localiza seu desejo, seu desejo
insatisfeito de salmão, que pode substituir o desejo insatisfeito de caviar da
paciente. Ele é inimitável na medida em que ela quer o salmão, e por isso pode
produzir-se a substituição do desejo.
A segunda indicação clínica preciosa é até que ponto é inútil, clinica­
mente, falar de ambivalência, porque a histérica ao mesmo tempo deseja e não
deseja o caviar, e, antes desse texto de Lacan, falava-se da ambivalência
histérica, ainda que ela fosse diferenciada da ambivalência da neurose obses­
siva. Entretanto, é muito diferente situar o desejo histérico como desejo insa­
tisfeito, não ambivalente, como desejo de ter um desejo insatisfeito, o que é,
pelo contrário, monovalente. Há uma substituição de desejos, e Lacan nos
detém em nossa leitura e assinala que o sonho, que também substitui o desejo,
está correlacionado com uma démanda. Não há que desprezar a demanda. Nesse
sonho, a demanda é o pedido de um convite parajantar em sua casa que lhe faz
a amiga. Por quê? O que inquieta a paciente é que seu marido fala elogiosamente
44 versiJes da clínica psi-canalítica

dessa amiga, embora ela não possa agradar-lhe, já que ele gosta de mulheres
rechonchudas e sua amiga é magra.
A partir da demanda da amiga produz-se a resposta do sonho, bem como
a substitui�ão do desejo. Devemos ter em mente a correlação entre demanda e
desejo, já que veremos que ocorre exatamente o mesmo no caso de Lacan, que
nos relata a demanda de um neurótico obsessivo a sua amante, demanda que
desencadeia nela um sonho.
O jogo de pretidigitação da bela açougueira consiste em responder à
demanda da amiga a partir do desejo; ela faz do desejo da amiga - que substitui
o dela mesma - o fracasso de sua própria demanda. Esse fracasso do sonho
tem uma única explicação - que Freud não introduziu porque, na época da
Traumdeutung, não dispunha de todos os elementos necessários -, que Lacan
desenvolve seguindo as pegadas de Freud: o lucro do sonho é manter aberta a
pergunta do desejo insatisfeito. No final desse sonho, a paciente se identifica
com o salmão. O sujeito indeterminado do inconsciente, esse sujeito que desliza
ao longo da cadeia significante, detém-se, detendo o sonho.
Como abertura da pergunta, um desejo que seria sempre desejo de outra
coisa, o sujeito acaba por se identificar com o significante do desejo, coloca-se
sob sua bandeira, que assume a forma do salmão, emblema do significante
fálico, lugar em que a histérica sempre se situa no dispositivo analítico.
Toda a problemática desse sonho reside em como articular o nada
essencial, a falta-a-ser situada entre os significantes da cadeia, com alguma
coisa. É esse o enigma do sonho. O sujeito, inicialmente indeterminado,
encontra sua condição de existência, em certo momento, no objeto que o
determina.
Para compreender com mais exatidão o processo de articulação do nada
que jaz entre os significantes, examinemos um parágrafo da "Posição do
inconsciente", na página 37 1 : "O efeito de linguagem é a causa introduzida no
sujeito." Outra distinção de Lacan que vocês têm que ter em mente é a distinção
entre o efeito de linguagem e o efeito de palavra. "Pois sua causa é o significante,
sem o qual não haveria nenhum sujeito no real." Dizer sujeito no real não é o
mesmo que dizer sujeito realizado, ou, como no autismo, um sujeito real. Um
sujeito no real não está correlacionado com o efeito de palavra, mas com o efeito
de linguagem, que o determina de modo estrito. Por isso é que o autista, embora
não esteja correlacionado com a palavra, está, todavia, determinado pelo efeito
significante. "Efeito de linguagem por nascer dessa cisão original... toda vez
que o desejo faz sua cama do corte significante em que se efetua a metonímia,
a diacronia (chamada 'história') que se inscreveu no fading retoma à espécie

de fix idez que Freud discei-ne no anseio inconsciente (última frase da Traum­
dt'UtunR ). "
tran�ferência e direção do tratamento 45

O essencial desse sonho é a correlação do nada essencial entre dois


significantes com algo que se recorta do corpo: o significante fálico.
Dediquemo-nos ao caso de Lacan. Trata-se de um neurótico obsessivo,
e Lacan descreve o movimento da análise explicando que tentou fazer algo mais
do que apenas evitar o confronto imaginário com o paciente. Todos os que
tiveram obsessivos em análise sabem o quanto sua agressão imaginária é um
problema, que é preciso deixar passar. Lacan nos indica como devemos evitar
deixar-nos encurralar na manipulação agressiva, revelando ao paciente o papel
que ele desempenhou para colaborar no assassinato do desejo de um de seus
pais em favor do outro. Esse assassinato do desejo é um conceito central em
Lacan para definir o obsessivo, pois este tenta matar o desejo no outro, o que é
claramente visível na clínica. Com uma fórmula como essa, pode-se ordenar
uma ampla gama de fenômenos clínicos. Seu método para matar o desejo

consiste em obedecer à demanda. Isso pode oscilar entre limites muito amplos:
desde o obsessivo que mata o desejo em sua mulher, assentindo sempre em seus
pedidos, até o que lhe torce o pescoço, como último recurso diante de seu desejo.
No obsessivo, devemos enfatizar seu papel na dialética do desejo entre seus
pais.
O paciente de Lacan, portanto, chega a um ponto em que a redistribuição
da libido começa a produzir efeitos nos objetos de seu mundo, nas mulheres
que o cercam. Ele começa a ser impotente com a amante, a quem sua neurose
havia instalado em determinado lugar; e, logicamente, queixa-se disso a Lacan.
Ocorre-lhe então uma idéia, pedir à sua amante, já que ele está atacado de
impotência, que ela tenha relações com outro homem - lembrem-se, neste
ponto, a ênfase que Lacan coloca no papel da terceira pessoa -, para com isso
se livrar de sua preocupação.
Essa demanda está relacionada com as reiteradas tentativas do paciente,
ao longo da análise, de convencer Lacan de sua suposta homossexualidade
inconsciente. Esse ponto é crucial, pois lemos na literatura analítica o quanto
os analistas se maravilham ao descobrir a homossexualidade inconsciente dos
obsessivos e das histéricas. Faz parte do desejo do analista não ceder no tocante
à pergunta do sujeito, não duplicar sua alienação em determinada imagem de
si mesmo. Cada vez que somos complacentes com a suposta homossexualidade
inconsciente do sujeito, nós o empurramos para uma identificação alienante
com a outra mulher, no caso da histeria, e com o outro homem, no caso da
neurose obsessiva.
O obsessivo sempre chega ao consultório pensando que é homossexual
ou louco. O que existe e que podemos ver, todavia, é uma homossexualidade
delirante que não tem nenhuma relação com a homossexualidade neurótica ou
com a homossexualidade perversa: devemos respeitar os dados clínicos. Quan-
46 vers(/es da clínica psicanalítica

do Lacan se nega a ser cúmplice dessa suposta homossexualidade inconsciente,


desencadeia-se um acting-out: o paciente pede a cumplicidade da amante para
com sua suposta homossexualidade. Contudo, Lacan nos diz nas entrelinhas
que ela era complacente, e que fora em tomo dessa complacência que se havia
estruturado a relação entre os dois, razão por que não basta dizer que se tratou
de um acting-out.
· No dia seguinte, ao acordar, a amante lhe relata ter tido um sonho: ela
possuía um pênis por baixo da roupa, sentia-o mexer-se, mas isso não a impedia
de querer ser penetrada por esse pênis. Ato contínuo, o paciente recupera sua
potência.

Como se interpretaria essa situação, habitualmente? Em primeiro lugar,


como um acting-out e, em segundo, que o paciente se sentira tranqüilizado a
respeito da castração ao encontrar um pênis na amante. Por último, far-se-ia
uma relação entre ela e a mãe castradora, que, como assinala Lacan, é muito
fácil de encontrar na neurose.

Todas estas são chaves gerais que nos fazem perder de vista o fato de que
é depois do que ela lhe diz, depois de ela falar com ele, que se desencadeia a
ereção. Essa mulher tinha uma boa orientação, percebe que a homossexualidade
do paciente é uma farsa, e provoca sua ereção sem ter necessidade de recorrer
a outro homem. Arranja-se muito bem sozinha, pois sabe que a pergunta tinha
a ver com sua própria castração. Portanto, ela lhe diz que sim, que tem um pênis,
mas que isso não a impede de desejar; por tê-lo, pode dá-lo a si mesma.

Esse sonho permite compreender o momento em que, na "Subversão do


sujeito", Lacan se refere à passagem do falo de um extremo para outro da
equação da fantasia, do $ para o a. Em ambos os sonhos, é isso que ocorre.

No sonho de Freud, a amiga da histérica lhe passa o salmão, e, no caso


de Lacan, é a amante que passa o falo, graças ao quê o obsessivo pode usá-lo.
Lacan comenta: a mulher o cede a ele. Mas não se deve conceber isso como
uma espécie de oblatividade. Ela faz surgir um falo simbólico que não está em
seu lugar, que aparece até onde não deve estar, ou seja, ela o faz surgir como
signo, como átomo zero do signo, como falo emblemático. A amiga que passa
o salmão para a bela açougueira também lhe passa um falo emblemático, um
átomo zero do signo. Precisamente por apontar o falo onde ele não está, o
obsessivo pode deslizar para ele sua falta-a-ser. Qual é a falta-a-ser do obses­
sivo? Sua queixa é que ele nunca está onde está, que vê a si mesmo representan­
do a comédia humana, que não consegue existir plenamente, que está sempre
desdobrado, acompanhado por seu duplo, que trabalha por ele - é essa sua
queixa, no eixo imaginário. Mais profundamente, ele não consegue se inscrever
no simbólico, é essa sua falta-a-ser essencial.
transferência e direção do tratamento 47

O que a amante conseguiu, ao dar ao paciente a dimensão de sua


falta-a-ser no lugar do falo, foi que seu desejo se ligasse, esse desejo que era
sempre um não estar ali. Ela conseguiu o recobrimento dos dois não-estar-aí, o
do objeto e o do falo como significante último da cadeia, tornando-se então
imediata a presença do desejo.
Na análise de Lacan, a referência à mãe castradora não é pertinente, pois
o que está em jogo é a relação com a mulher, e não com a mãe. A amante faz
valer a presença do falo como significante, dá a entender que se situa em relação
a ele, e permite ao paciente deslizar seu ser como objeto a, ou seja, ele mesmo
em seu ser, nesse ponto de falta, no intervalo da cadeia significante.
Esse texto termina em tomo da pergunta que Lacan faz ao analista a quem
se dirige: para onde você quer levar seu paciente? Para responder a essa
pergunta, ele se serve das três identificações descritas por Freud: a identificação
com o objeto de amor; a identificação com a falta, a identificação com um objeto
qualquer, indiferente, a identificação com o desejo, seja qual for seu objeto, com
o desejo enquanto tal.
Lacan assinala que, se a análise tem uma saída possível, é por causa desse
terceiro modo de identificação e, como ele diz na "Proposição de 1967", da
"redução do analista a um significante qualquer". Quando o analista se vê
reduzido ao significante qualquer, surge o objeto causa do desejo como tal. O
pecado do analista é fazer desse objeto uma substância, ou seja, oferecer a si
mesmo como objeto. Há analistas que oferecem isso a todos os neuróticos, isto
é, que se oferecem como alimento, como a substância qualquer que sustenta ll
objeto do desejo.
A exortação de Lacan ao analista é que Seu desejo o leve para o outro
lado, que o afaste da identificação com uma substância, que o analista saiba que
não existe substância fálica. Seu desejo deve levar em conta que existe o
significante fálico e que o gozo fálico não é o mesmo, conforme as épocas. Ele
deve saber que pode colocar-se sob o emblema fálico, conforme a época em
que vive; o analista deve ser um literato do falo, e não um mandarim ou um
universitário que acredita no saber, mas alguém que sabe que a substância fálica
não é mais do que uma letra, não é senão um modo de dizer que não existe
relação sexual.
Cada analista deve ser capaz, através de sua própria análise, de haver
chegado a esse ponto. Além disso, esse é um saber que não é transmissível,
porque a significação fálica muda através dos anos. Não é possível dar os
Escritos ao candidato a analista como um manual onde ele encontrará todos os
engates do falo com que o sujeito se identifica. Ele sempre terá que buscá-los
por sua própria conta e risco.
48 ver.wles da clínica psicanalítica

NOTAS
I . Lacan, J., "Subversión dei sujeto y dialéctica dei deseo en el inconsciente freudiano",
Escritos /, op. cit.
2 Cf., neste mesmo volume, "O dispositivo analítico".
..
5

O objeto da inveja e o lapso do ato

Eu gostaria de contribuir para colorir um pouco a imagem que temos de Melanie


Klein, na medida em que os traços de seu personagem, de cores muito fortes,
acabam por se reduzir a estereótipos. E de colori-la também porque seu
sobrenome, nos círculos psicanalíticos da Berlim dos anos vinte, era "a beleza
morena". Seus amigos diziam que, depois de dar o último retoque numa
comunicação, ela levava tanto tempo para escolher um chapéu quanto levara
para escrever seu texto.
Leiamos, portanto, o que Melanie escreveu em seus últimos anos, diga­
mos, a partir de 1 955, onde encontraremos material para essa coloração. Robert
Lefort anunciou, hoje pela manhã, o tema "A criança no adulto"; justamente,
em seu último grande trabalho, Inveja e gratidão, publicado em 1 957, a Sra. K.
identificou o ponto mais arcaico em que pôde tocar a partir de exemplos
extraídos da psicanálise dos adultos, ou seja, os problemas de fim de análise.
Essa inveja foi muito tardiamente isolada em sua obra. Não nos esque­
çamos de que ela morreu em 1 960, por volta dos oitenta anos. Ao ler os
comentários de seus discípulos, como Wilfred Bion, Donald Meltzer ou Hanna
Sega!, podemos aproximar-nos da dificuldade que eles tiveram em apreender
com exatidão o que ela almejava separar: essencialmente, a inveja das moções
agressivas. O próprio termo inveja é destacado em Freud, em "Análise termi­
nável e interminável", a partir da Penisneid, como limite da análise nas
mulheres. "Freud descobriu a inveja do pênis nas mulheres (... ). Eu constatei
que a raiz da inveja do pênis nas mulheres está na relação primitiva com o seio
materno e com os sentimentos destrutivos que lhe estão ligados." Melanie Klein
conserva o mesmo termo de Freud, inveja, para aplicá-lo ao seio, objeto mais
arcaico e portanto, para ela, mais fundamental. Já não se trata, pois, da inveja
do pênis, mas da inveja do seio, ou simplesmente inveja, que é a verdadeira

49
50 versiies da cf[nica psicanalítica

causa da reação terapêutica negativa e das .análises intermináveis. "Ela é


particularmente observada naqueles que têm uma longa história de anáiise ou
de tratamento prévio", observa Hanna Segal . EnquantD o ensino de Lacan
sublinha o caráter mítico do Édl:po e o :caráter real da castração, Melanie Klein
interpreta a castração como mítica e o desmame como real, introduzindo o

sujeito na zona em que se confundem o bom e o mau. A relação de inveja


afigura-se a Melanie como sendo de cunho diferente da agressi vidade, que liga
o sujeito ao mau objeto, ou da idealização, que constrói o objeto corno bom.
Parece-me que, de nosso ponto de vista, poderíamos ·dizer que a inveja isola a
relação do sujeito com o mais-gozar, além da fantasia imaginária É isso que eu
gostaria de mostrar em três momentos.
Primeiro, vou apresentar-lhes um caso desenvolvido por Hanna Segal,
que faz valer a introdução da inveja além da agressividade imaginária. Depois,
pretendo servir-me dos casos de Melanie Klein em Inveja e gratidão, para
mostrar que a inveja surge numa relação com o Outro como tal. Por último,
procurarei fazê-los captar em quê o objeto da inveja compõe uma série com
outros objetos, como o falso se/fde Winnicott, que são, para Lacan, o vestígio
de um lapso do ato psicanalítico.
Inicialmente, o caso de Hanna Segal, extraído da Introdução à obra de
Melanie Klein. Esta paciente é uma mulher de meia idade, bem casada. que
trabalha numa profissão que a absorve e na qual tem sucesso. Buscou a
psicanálise em razão de uma ligeira tendência à depressão e de uma inibição
no trabalho. A análise se desenrola e destaca a rivalidade com a irmã e a mãe,
que permanece, observa Hanna Segal, no registro do ciúme. A depressão está
ligada à culpa experimentada quando da morte da irmã, antes que o sujeito
atingisse seu quarto aniversário. É a reparação dessa culpa que desperta na
paciente inclinações homossexuais latentes. Daí uma rivalidade com o pai e
com o irmão em relação às mulheres. É isso que fica, para Hanna Segal, no
registro do ciúme.

Uma pequena excrescência

Após longos anos de análise, no momento em que todos esses problemas


parecem trabalhados e resolvidos, há um intenso ressurgimento das inibições,
da angústia e da idéia louca, delusional idea, de "que os homens trabalham
contra ela" - de que o irmão a estaria intrigando para se encontrar com a
analista, de que o marido tentaria enganá-Ia. A analista interpreta esse momento
como sendo o desencadeamento de sua rivalidade com os homens. A suposta
infidelidade do marido é tomada como o anseio de confiá-lo a mulheres "mais
reparadoras".
transferência e direção do tratamento 51

Tentemos dar algumas referências estruturais a esse m omento crucial.


Após um ganho obtido do lado do sintoma, na primeira fase da análise, vemos
aparecer uma contrapartida do lado da fantasia, pondo em jogo o objeto contido
na mãe, para além da série de irmãs e das mulheres "mais reparadoras". É nesse
momento que surge um sonho que Hanna Segal considera decisivo para a
paciente: "Ela sonha que tem uma excrescência, que brota ao lado de uma
verruga surgida nos últimos tempos da análise. Nesse momento, impõe-se no
sonho um provérbio em espanhol (que daria mais ou menos isto): se a inveja
fosse uma sarna, quantos carecas haveria no mundo !" A partir daí, tudo se
esclarece: a inveja era uma pequena excrescência, ela queria tudo para si: o seio, ·
a vagina, os bebês e, ainda por cima, o pênis. A analista conclui: "A inveja do
pênis, portanto, era totalmente secundária; o crucial era a inveja da mãe, e a
análise pôde encontrar aí um desfecho satisfatório."

A vaca na capa

Passemos ao segundo ponto, ou seja, aos casos apresentados pela própria


Melanie Klein em 1957. No primeiro, trata-se de uma mulher muito parecida
com a de Hanna Segal, uma mulher ambiciosa que sabe perfeitamente aonde
vai e que procurou a análise com sintomas leves. Durante alguns anos, tudo
corre bem na análise. Depois de um sucesso profissional importante, surge um
cortejo de manifestações sintomáticas maciças, no momento em que a analista
está empenhada, com a perspicácia que conhecemos em Melanie Klein, em
analisar as tendências sádico-anais da paciente. Então, vem um sonho: "Em seu
sonho, ela planava num tapete voador acima da copa de uma árvore. Dali, podia
divisar por uma janela um aposento em que uma vaca mastigava alguma coisa,
que parecia ser uma capa interminável ( ... ). Durante essa mesma noite, houve
um pequeno sonho em que sua calcinha ficou molhada (...). As associações· da
paciente levaram-na a reconhecer que o interminável pedaço da capa repre­
sentava um fluxo infindável de palavras, e que essas palavras eram todas as que
eu havia pronunciado ao longo da análise, e que agora eu teria de engolir."
Há que reconhecer que essa imagem da analista no lugar do Outro,
mastigando seu livro, é bem bonita. A questão do gozo que o sujeito quer
preservar, não submetendo à análise a calcinha molhada, é também bastante
explícita. Não basta interpretá-Ia em termos de regressão.
No segundo caso, trata-se de um homem e, também aí, de um sonho que
surge no decurso de um momento crucial de uma análise que parecia estar
correndo bem, e depois tomara um rumo ruim: "Ele estava pescando. Pergun­
tou-se se devia matar o peixe que havia apanhado para comê-lo. O peixe
transformou-se num bebê que estava numa cesta de lavadeira. As roupas do
52 verslies da clínica psicanalítica

bebê são verdes." Melanie Klein nota perfeitamente bem que a cor das roupas
do bebê remete à capa dos livros da lnternational Psychoanalytic Library, e
interpretou: "Ele queria me destruir, não apenas a mim, mas também a minhas
obras, meu trabalho, minhas pesquisas ( . . . ). O cesto da lavadeira em que estava
o bebê encarnava seu desejo de ser mulher e ter filhos." Como diz a própria
Melanie, o efeito dessa interpretação foi um importante acesso depressivo. Para
nós, basta constatar como a relação com o objeto oral surge num confronto com
o lugar do Outro, suficientemente designado pela biblioteca. A criança, aqui, é
colocada numa equivalência com o objeto oral, além de seu valor fálico.
Agora, se pusermos em série o caso de Hanna Sega) e os dois de Melanie
Klein, veremos como, todas as vezes que a inveja é evocada, trata-se de isolar,
perante o Outro, uma relação com o objeto mais-gozar, a que podemos perfei­
tamente dar a notação (a) .

O dinossauro voraz

Por fim, eu gostaria de mostrar que foi ao tratar essa inveja como a modalidade
essencial de uma relação com o objeto para além do imaginário que os
discípulos de Melanie Klein fizeram dela o melhor uso. Mais uma vez, tomarei
um caso de Hanna Segal. Trata-se de um sujeito que tem a idéia delirante, no
sentido inglês do termo, de que sua mulher quer envenená-lo. Assim, não
consegue comer em casa. Se alguém abre a boca enquanto ele está comendo,
sente imediatamente dores de estômago. Esse sujeito apresenta-se, portanto,
como uma espécie de Prometeu, devorado pelo abutre significante. Tendo que
fazer uma exposição de um trabalho, ele passa a oscilar em sua análise entre
sentimentos de triunfo, antecipando os efeitos grandiosos que sua exposição vai
produzir, e uma depressão cruel, ligada ao medo de fracassar. Na véspera do
dia em que terá de fazer sua apresentação, tem um sonho: "Ele estava passeando
em Londres, de mãos dadas com um dinossauro. Londres estava inteiramente
deserta, não havia vivalma. O dinossauro tinha uma fome voraz e o paciente o
alimentava com pedaços de comida tirados de seus bolsos, com medo de que,
terminado o alimento, o dinossauro o devorasse. Achava que Londres talvez
estivesse deserta pelo fato de o dinossauro ter comido todos os habitantes." A
psicanalista observa: "Eis aí o objeto da inveja que acompanhava o paciente."
Como vocês vêem, trata-se de uma espécie de retrato, no estilo de Maurice
Szendack, do desfecho da análise segundo Hanna Segal: desnudar o colóquio
do sujeito com um objeto, que nos faz lembrar o que encerra o Enchanteur
pourrissant de Apollinaire, citado por Lacan: "Quem come nunca está sozinho."
Esse passeio com o maximonstro, proponho esclarecê-lo mediante a fórmula
da fantasia segundo Lacan.
transferência e direção do tratamento 53

De que se trata, de fato, senão da conjunção impossível do sujeito com o


objeto, para além de seu revestimento pelo dinossauro arcaico? O sujeito
encontra-se na situação de "se fazer empanturrar", numa relação que existe
realmente em dois termos, desde que eles sejam grafados $ e (a).

A lógica de uma promoção

Resta-nos apreender a lógica da promoção da inveja por Melanie Klein no final


de sua obra, no contexto de sua postura perante a prática analítica. Em seus
últimos anos, ela não se cansou de denunciar um perigo: o perigo de o analista
se tomar pelo bom sujeito, por aquele que deixa o sujeito na expectativa do sinal
de amor.
É preciso ter isso em mente para compreender por que, em sua análise da
pequena Piggle, Winnicott pôde mandá-la embora com um requintado "Eu te
odeio". O mais importante, porém, é isto: para Melanie Klein, a inveja é uma
palavra-chave. É a última, é um limite, uma impossibilidade ligada à cons­
tituição do sujeito, ao inato. Para ela, na análise, tanto é possível obter uma
modificação e uma atenuação da agressividade ou do ciúme quanto a relação
com a inveja permanece inacessível. Os pacientes de que ela nos fala "nem por
isso são psicóticos ( . . . ), não se trata de angústias psicotizantes, mas de um fator
sobre o qual a análise não tem influência". Esse ponto de impossibilidade
atingido por Melanie Klein na própria análise parece-me ser exatamente da
mesma ordem do que Winnicott atingiu com o falso self. A paixão pela análise,
da qual a obra e a vida de Melanie Klein comportam tantos vestígios, conduziu­
a, também ela, ao que Jacques Lacan havia chamado, a propósito de Winnicott,
de um lapso do ato, definido pelo seguinte: "O autor só identifica um objeto
privilegiado de sua experiência ao excluir sua manobra da função analítica tal
como ele a situa."
6

O que Melanie sabia

Como o Dr. Kizer, eu gostaria, inicialmente, de agradecer aos três expositores


que me antecederam, por terem destacado, cada um à sua maneira, o modo de
ex-sistência do objeto do desejo na teoria freudiana. Com efeito, no movimento
analítico em geral, podemos distinguir duas correntes no tocante a essa questão.
A primeira acha qu� o objeto tem sua positividade, que sempre podemos ter a
esperança de encontrar aquilo que irá aplacar o desejo, e que o não-encontro é
apenas uma questão de impotência. A segunda continqa a pensar, com Freud e
Lacan, que o que prima é a inadequação da pulsão sexual a seu objeto.
Essa diferença de orientação tem suas conseqüências na prática da
interpretação. Assim, imaginou-se que a prática da psicanálise consistiria em
dar um sentido sexual a tudo o que se pudesse apresentar, já que, como nos
ensinou Freud, não existe sentido senão o sexual. Ou então, como precisou
Lacan, que só existe Bedeutung do falo. Ao nos fixarmos no sentido, esquece­
mos que o sentido sexual apresenta um limite, a castração. A existência de um
não-senso sexual bem no cerne do sentido foi situada de maneira diferente
conforme as escolas. É certo que parte dos fenômenos qualificados de núcleo
psicótico na experiência k:leiniana decorrem desse não-senso. Núcleo psicótico,
no sentido estrito, somente o paranóico o tem, restando, ao contrário, o que é
comum, ou seja, a relação com o não-senso sexual. Quanto ao objeto, só
podemos contorná-lo.
Esse vazio do objeto, Catherine Millot, ao falar da sublimação, soube
sublinhar como o pintor o delimita, através de sua arte. Quando Nepomiachi
desenvolveu a teologia negativa de Willy Baranger, ou seja, que o objeto não
pode ser nem real, nem imaginário, nem simbólico, ele só fez destacar melhor
a consistência de miragem de uma possível relação com esse ser, mantida por
tal autor. E, por fim, como dizia Graciela Brodsky, a hipótese que subentende

54
tran.�ferência e direção do tratamento 55

toda a dialética da frustração entre a mãe boa e a mãe má, aquela que falta em
seu lugar e a que não falta, é que a mãe, afinal, teria em seu poder o objeto do
desejo.
Sabemos que a comunidade analítica teve dificuldade de suportar os
ensinamentos de Freud sobre o desejo, especialmente a partir de 1920 e da
ênfase colocada na pulsão de morte, a ponto de um autor, Max Schur, ter
recentemente querido reduzir o enigma freudiano, correlacionando-o com a
velhice e a doença; o trabalho do Dr. Lacan, ao contrário, visa a restaurar um
sentido à orientação freudiana. Foi esse o efeito de sentido atestado por cada
uma dessas exposições, às quais eu gostaria de acrescentar a minha.

* * *

Gostaria de fazer três observações sobre o que Melanie Klein sabia da coisa
freudiana, e precisaria de uma escrita para fazê-las: a da fantasia, $ O a. Minhas
três observações são as seguintes. Primeiro, o que ela sabia e não chegou a dizer
está do lado do sujeito, e não do objeto. Segundo, que, ao contrário do que se
supõe, ela não funcionava na análise com o imaginário, e sim com o simbólico,
como todo mundo, imaginarizando-o. E por fim, que, ao imaginarizar o
simbólico, ela sustentou a relação sexual como possível. Bastaria, para isso, a
identificação com o outro, ao preço da idealização da gratidão. Para Melanie,
a mulher existia e seria suficiente agradecer-lhe.
Hoje em dia, não é apenas a tradição latino-americana do kleinianismo
que nos leva a dedicar debates às relações entre Klein e Lacan. Isso porque, já
em 1946, em seu artigo sobre "a psiquiatria inglesa na guerra", e depois, em
1948, em seu relatório sobre "a agressividade em psicanálise", Lacan colocou­
se entre os primeiros psicanalistas franceses a introduzi-la e como o primeiro a
apresentar seus resultados de maneira sistemática, ultrapassando as brigas
institucionais ainda muito vivas, na linha da orientação freudiana.
Desde 1 948, Lacan situou a contribuição de Melanie do lado do sujeito,
apresentando-a como uma pioneira que projetou, aquém do limite do apareci­
mento dá linguagem, a experiência subjetiva: ali onde isso não fala. Os
result'.1os obtidos por ela nesse limite deveriam ser situados em relação aos
distúrbios do imaginário. De um lado, a fragmentação esquizo-paranóide do eu
ideal, e de outro, os efeitos estruturantes produtores de unidade da posição
depressiva. Foi por esta última via que Lacan conciliou "o estágio do espelho
como formador do eu" com a gênese do supereu kleiniano.
Isso não o impediu de notar que a prática kleiniana da análise, centrada
no imaginário, é uma paranóia dirigida operando a projeção dos maus objetos
internos no analista. É justamente por isso que sua única saída é a posição
depressiva, a única a permitir o desligamento dos confrontos imaginários,
56 vers{ies da clínica psicanalítica

sempre ameaçadores. Com efeito, o analista sempre pode assumir a consistência


de um duplo, assim desencadeando não apenas efeitos de rivalidade, mas
também de angústia.
Desde o momento em que Lacan enunciou que "o inconsciente se
estrutura como uma linguagem", ele retomou sua exposição da contribuição
kleiniana. O primeiro trimestre de seu primeiro seminário, de fato, foi parcial­
mente dedicado ao estudo do caso de Dick, publicado em 1 930 e primeiro
exemplo, na literatura psicanalítica, do tratamento de uma criança psicótica.
Lacan apresentou Dick como uma espécie de dispositivo experimental de
disjunção entre o simbólico e o real, vindo a ação sobre o simbólico acarretar
uma verdadeira geração do eu e do imaginário.
De fato, Dick mantinha com seu meio uma relação de indiferença
generalizada. Era o que Lacan designa como um sujeito imerso no real; depois,
Lacan isolou a intervenção de Melanie Klein como uma verdadeira injeção de
simbólico no menino (o trenzão papai, o trenzinho Dick e a estação mamãe).
Klein expõe a estrutura do Édipo e põe em jogo a significação fálica a partir
desse instante. Então, aquele para quem tudo era indiferente pôs-se a falar e a
ampliar seu mundo imaginário, que se limitava às maçanetas das portas e aos
trens.
O que Lacan insiste é na produção do imaginário a partir do simbólico,
enquanto, na época, insistia-se mais na necessidade de enfocar o imaginário
para inserir o sujeito no simbólico. Bem no cerne do dispositivo kleiniano, o
que Lacan valoriza é uma psicanálise que opera com base no simbólico.
A partir daí, Lacan obtém três resultados: o primeiro é que a dialética
continente/conteúdo, que domina o imaginário, revela-se apenas uma ilusão. O
continente e o conteúdo estão em dois mundos diferentes e é tão-somente numa
borda que se unem o corpo e o objeto da pulsão, numa topologia em que apenas
aparentam pertencer um ao outro.
O segundo é que o símbolo, no sentido freudiano, está sempre relacionado
com um modo da negação. O símbolo que se forma em Dick, como efeito de
retorno da injeção kleiniana, qual é? É o apelo, que Lacan considera como o
surgimento da possibilidade da recusa. Portanto, é apenas o não que a criança
profere em seu segundo ano que atesta a presença da negação na constituição
do sujeito.
Por fim, temos aí uma nova maneira de ler Melanie Klein, de poder
folheá-la. Com isso me refiro a distinguir as camadas do real, do simbólico e
do imaginário em sua obra. Podemos distinguir o imaginário da posição
depressiva, da relação mortificante do sujeito com o simbólico e do real da
excitação maníaca, naquilo que retoma dessa mortificação.
transferência e direção do tratamento 57

Da mesma forma, o imaginário da posição esquizo-paranóide, por ser a


relação normal com o corpo despedaçado (o núcleo "histérico" das neuroses
atesta isso), deve ser distinguido dos efeitos simbólicos induzidos pela foraclu­
são do nome do pai na psicose e das passagens no real que ela implica.
Desses três resultados, obtidos já em 1 953, Melanie Klein poderia ter
tomado conhecimento. Não se pode dizer que tenhamos a sensação de que isso
ocorreu. Ela desenvolveu cada vez mais sua concepção da fantasia como
"conteúdo primário" do inconsciente, segundo a fórmula de Susan Isaacs, a
ponto de podermos dizer que, para ela, o inconsciente se estruturava como uma
fantasia. Esse esforço de reduzir as formações do inconsciente à fantasia teve
conseqüências fundamentais na prática da interpretação. Eu gostaria de exami­
nar algumas delas agora, estudando o relato de caso publicado por Melanie
Klein - publicação póstuma, aliás (196 1 ) -, que foi a Narrativa da análise
de uma criança. Esse Richard tinha dez anos e se dirigiu a Melanie Klein
apresentando um sintoma que, diga-se de passagem, não é fácil de delimitar no
que ela nos diz a seu respeito. Richard, como o pequeno Hans, sofre de uma
fobia. Como Hans, ele desenvolve uma grande preocupação com os meios de
transporte. Como Hans, fabrica mitos e inventa um personagem que tem as mais
estreitas relações com a cegonha de Hans.
Esse personagem chamava-se Hitler. Era um Hitler à moda de Lubitsch,
uma espécie de Ubu desenfreado, que produz o efeito de Unheimlichkeit do
livro. Na verdade, ocorre que o mundo, no momento em que Richard conheceu
Melanie ( 1 94 1 ), estava oprimido por um Hitler. É isso que faz com que
encontremos momentaneamente uma certa verossimilhança na suposta psicose
de Richard. Mas era apenas um efeito de perspectiva em sua fobia.
Melanie Klein procedeu, em sua interpretação, nomeando exaltadamente
o que poderíamos chamar de brasões do corpo feminino: o seio bom e o mau,
as fezes e a genitália estenderam-se sobre o mundo de Richard. Os momentos
mais surpreendentes são aqueles em que ela descreve a relação sexual enfim
possível que Richard consumaria com a analista, com a ajuda do órgão
fantasístico sugerido por ela. Eu gostaria de explorar a reação de Richard frente
a essa injeção de imaginário e de "linguagem do corpo": o melhor guia para
isso serão os sonhos, como formações do inconsciente distintas da fantasia. Nós
os consideraremos como pontuações do mundo imaginário que se tece na
análise.
Logo de início, Richard se apercebeu de haver encontrado uma
psicanalista e considerou que podia confiar-lhe os dois grandes pesadelos que
resumiam sua infância.
O primeiro pesadelo consistia em que "lhe era administrado éter pela
rainha de Alice no País das Maravilhas", e o outro, em "um carro que parecia
58 versiies da clínica psicanalítica

velho, negro e abandonado, com uma série de placas numeradas, que vinha na
direção dele e parava a seus pés".
É muito importante que houvesse dois pesadelos, pois vocês sabem que
o sujeito só é representado por um significante para outro significante. Um
levantava uma questão sobre o desejo da mãe, que o havia enganado ao não lhe
falar de uma anestesia na ocasião em que ele estivera para sofrer uma das três
intervenções cirúrgicas de sua vida (amígdalas, circuncisão e dentes). O outro
se interrogava sobre o objeto enigmático que havia entre suas pernas, do qual
não basta dizer que se tratava de um "símbolo" fálico imaginário, já que, nas
placas mineralógicas, a marca do simbólico não mente.
O enunciado dos dois pesadelos do princípio foi seguido por uma fase de
elaboração. Richard estabeleceu uma primeira cartografia do corpo matemo (os
desenhos do império) e explorou a rivalidade fálica (desenhos de toda sorte de
navios, com nomes evocadores como salmão).
Depois dt:sse trr balho, Richard enunciou o primeiro grande pesadelo na
análise: o rei dos peixes convidou-o parajantar no fundo do mar e ele recusou;
o rei o ameaçou, e então ele foi para Munique, certamente para fazer a paz.
Encontrou-se com os familiares de bicicleta e, depois, surgiu uma locomotiva
em chamas, vindo na direção dele. Richard acordou e, como diz o texto em
inglês, "He went on awake with the dream".* Nesse estado, foi buscar água,
extinguiu o fogo e a terra se tomou fértil.
Eu consideraria esse sonho como uma resposta aos dois pesadelos
iniciais. De fato, basta ouvir esse relato para clivá-lo em tomo do ponto de
angústia marcado pelo despertar. O ensino de Lacan tomou-nos suficientemente
atentos para esses pontos de inflexão, desde sua retomada da "injeção aplicada
em Irma", para não os falhar. O ponto do despertar divide o sonho em duas
partes: a primeira retoma a ameaça do desejo da mãe, articulada em tomo do
objeto oral, simbolizando-se na locomotiva em chamas, inteiramente oposta ao
carro negro. Transposto esse ponto, Richard encontra um sentido para a
locomotiva. Ela serve para urinar e fazer filhos. Em suma, Richard enuncia que,
para aplacar o fogo do desejo da mãe, é preciso que ela tenha um filho. Assim,
é concebível que ele continue a se insurgir, para grande surpresa de Melanie
Klein, quando ela lhe enuncia que sua mãe não pode mais ter filhos. Richard
não compartilha do ponto de vista kleiniano de que o pior dos males é a
rivalidade. Ele sabe que o pior é a mãe não ter palavras para simbolizar seu
desejo.
Essa ênfase posta na simbolização do desejo da mãe no falo parece-me
confirmada pela continuação da análise. Por um lado, Richard elabora um

* Acordado, continuou o sonho. (N.T.)


transferência e direção do tratamento 59

discurso sobre as mulheres, sob a forma das cobradoras de ônibus com quem
lida. Distingue duas delas: uma é bonita e o amedronta, dizendo-lhe sempre:
"Os que têm meia-passagem, de pé." A outra, menos bonita, sem ser feia, não
lhe causa o mesmo efeito, embora ele acabe admitindo que ela também pode
querer mandar os que têm meia-passagem ficarem de pé. Melanie Klein
interpreta facilmente essas oposições na dialética da mãe boa e da mãe má, até
que Richard acrescenta uma terceira. E aí, como bom freudiano que leu os "três
cofrinhos", desconfia-se que Richard tenha acabado de transpor um obstáculo
imaginário. Convencemo-nos disso, aliás, pelo fato de que, desde a introdução
dessa terceira mulher, aquela que é um semblante, uma "painted face", ele
confidencia o que vem a ser o grande sonho da análise.
Para articular bem esse sonho, não devemos esquecer que, pouco tempo
antes, Richard havia transposto outro obstáculo imaginário. Na saída de uma
sessão repleta de relatos de batalhas entre navios, ele acabara, de repente, por
emitir um apelo discreto, misterioso, um apelo a um pai que era uma coisa
diferente da rivalidade. Um apelo que atava a morte e a paternidade.
Richard contou então seu grande sonho, que reuniria os filhos imaginários
que ele podia sonhar dar à mãe e o apelo à paternidade, simbólico. Foi o sonho
da ilha negra. Richard começou explicando como, em vez de estar num ônibus
com Melanie, ele estava numa caravana com uma família, filhos e um gato cujos
dentes muito brancos eram realmente notáveis. O gato era estranho, andava de
um lado para outro num ritmo incomum. A família imaginária, acrescida desse
gato cheio de dentes e fático, passou por uma ilha negra onde uma porção de
animais desagradáveis, escorpiões e outros, pareciam estar mortos. Era tudo
aterrador. Richard não acordou; gritou "Ei, vocês aí!", e tudo ganhou vida.
Nesse sonho, Richard deu vida aos filhos de sua imaginação pela marca
significante do apelo. Mas uma questão ficou em suspenso, a da evitação da
partida, da evitação do ônibus e de Melanie.
O ônibus, aliás, voltou no sonho seguinte, que seria o último da análise.
Richard estava num ônibus que o levaria para longe de casa. O ônibus estava
vazio, não havia cobradoras.
Inversamente, havia um carro ao lado do ônibus, com uma menina em
seu interior. Era tudo muito achatado. Depois desse relato, curiosamente, as
associações de Richard cessaram. Assim, o Achatado precedeu um silêncio
ainda mais curioso pelo fato de que, na sessão seguinte, a terceira antes do fim,
Richard concluiu o sonho. Descreveu o ônibus vazio como um momento de
Unheimlichkeit (eerie, ghostly*). Ele havia puxado a campainha do ônibus e

* Sinistro, fantasmagórico. (N.T.)


60 versões da clínica psicanalítica

conseguira descer. A hoteleira, Sra. Wilson, estava lá e o recebeu. O carro


continuava presente.
Esse sonho foi o ponto de sustentação da análise; tudo confirmava isso,
e Melanie Klein não se enganou. Richard o acompanhou de um comentário
sobre a bela cobradora, dizendo "que não quereria tê-la por nada neste mundo".
Essa foi sua posição final sobre as mulheres, e a questão é saber como
interpretá-la. Melanie Klein considerou que, depois de haver contemplado a
possibilidade de ter filhos, ele voltara atrás em suas pretensões iniciais e aceitara
a cobradora menos bonita. Será realmente disso que se trata?
Persiste, com efeito, o problema de interpretar o surgimento final da
menina que, de certa forma, dirige o carro. Quer ela fosse uma irmã fantasística
de Richard, como supôs Melanie Klein, ou sua parte feminina, como pensou
D. Meltzer, um eminente comentador kleiniano desse caso, nem por isso deixa
de ser à menina que fica entregue a guarda do enigmático carro da partida.
Isso não deixa de nos lembrar o Pequeno Hans, que também acabou
entregando à irmã a condução do cavalo do desejo que tanto o havia preocupado.
Em 1 954, quando Lacan comentou o "caso de fobia infantil", ainda não
se sabia o nome de Hans nem o que havia acontecido com ele depois. Lacan
formulou a hipótese de que, ao entregar assim a chave de seu desejo à irmã,
conservando a mãe e deixando o pai para a avó, Hans permaneceria na posição
de "Chevalier servant"* em relação às damas.
Pois bem, creio que podemos formular a mesma hipótese acerca de
Richard. Após sua análise de quatro meses, Richard, como Hans, viu seu
sintoma reduzir-se, mas não é certo que sua fantasia se haja modificado. Uma
vez que ele evocou Alice no pesadelo de sua infância, como não reconhecer
também a mesma Alice à sua espera no carro, na chegada, ainda mais que o
gato de dentição esplêndida não poderia evocar nenhum outro senão o de
Chester? O País das Maravilhas era o país companheiro do eldorado das
fantasias de Richard. Meltzer teve toda razão em se inquietar com a pequena
Alice, que foi realmente um efeito e um limite da interpretação kleiniana.
Essa é uma questão que os últimos avanços da obra de Melanie Klein
deixaram com a mesma agudeza. De fato, a inveja e a gratidão lhe permitiram
dar-nos sua última concepção da relação sexual. A mulher, na melhor das
hipóteses, experimentaria gratidão ao se fazer devolver, através do órgão
peniano do homem, o seio bom que este teria tirado de outra mulher, sua mãe.
Parece-me que foi aí que Melanie soube da impossibilidade da relação
sexual: e tentou resolvê-la no amor. O homem daria à mulher aquilo que não
tem nem nunca teve: o seio bom. Essa formulação kleiniana marcou muito seus

* Cavalheiro que presta homenagens assíduas a uma mulher. (N.T.).


transferência e direção do tratamellto 61

discípulos. Temos os melhores testemunhos disso em Meltzer ou em Winnicott.


Qualquer que tenha sido a distância tomada por este último em relação à
ortodoxia kleiniana, vamos vê-lo em sua Piggle, recentemente publicada,
sugerir a mesma formulação para o desfecho do Édipo feminino.
A interpretação kleiniana introduz-nos na significação fática como aquilo
que se articula a partir do Outro. Ela introduz Richard na alienação essencial
no Outro. No entanto, esse é apenas um aspecto da experiência analítica. Como
nos ensinou Lacan na "Posição do inconsciente", há uma outra vertente, a da
separação. Segundo Melanie Klein, a saída da alienação não é a separação, mas
a reparação. É justamente por isso que me parecem confirmar-se aí as orien­
tações iniciais de Lacan em relação a Melanie. O que ela sabia está do lado do
sujeito. Quanto ao que ela sabia do objeto como causa do desejo, só nos resta
imaginar.
Parte li

NEUROSE E CONSTRUÇÃO DA FANTASIA


1

Construção da fantasia:
O Homem do Impermeável

Um sujeito procurou-me há alguns anos, cansado, dizia, da incômoda mania


que tinha de eleger como objeto amoroso mulheres "já comprometidas", o que
lhe complicava a vida, consumindo-o em rivalidades e acrobacias que, vez por
outra, deixavam transparecer impulsos de agredir o outro com armas brancas,
pelas quais tinha paixão.
Essa rivalidade chegara até a levá-lo, no momento em que ia prestar o
exame final que o conduziria a exercer a mesma profissão que o pai, a
experimentar vômitos incompatíveis com o emprego que deveria ocupar. Nessa
rivalidade, ele queria, com certeza, que eu reconhecesse a homossexualidade
latente, que foi uma das revelações que a psicanálise veio trazer ao mundo.
Logo se comprovou que o que o preocupava, justamente, era que essa
homossexualidade inconsciente era muito consciente nele, na medida em que
fora seduzido, aos nove anos de idade, por um professor amigo de seus pais,
numa cena de paisagem campestre na qual, em algum lugar, estava presente um
machado, para cortar lenha, ao que parece. Essa sedução, que consistira em
masturbações recíprocas, esse encontro com um desejo, havia provocado no
sujeito uma resposta que se manifestava por uma compulsão a vestir o que até
então lhe tinha sido insuportável - um impermeável de plástico que a mãe
queria colocar-lhe ante a menor ameaça de chuva - e a se masturbar embaixo
dessa capa. Essa prática durava desde então e continuava a ser seu consolo, um
remédio universal contra as preocupações que a vida lhe impunha.
Ele não se queixava disso. Tínhamos, em resumo, uma fantasia bem
construída, e seria possível perguntar, portanto, como construí-la com ele.
Vejamos agora o que a psicanálise fez surgir, e que começou por um sonho
no qual, ante a intromissão de um olhar, ele respondeu com uma defecação. A
análise de sua relação com a limpeza e a sujeira revelou-lhe, então, uma

65
66 versões da clínica psicl11UIIítica

lembrança encobridora: por volta dos quatro ou cinco anos, ele havia surpreen­
dido a mãe ou a irmã - inclinava-se pela irmã - entreabrindo a cortina do
banheiro e aparecendo nua. Ali, ele percebera a castração feminina. Num canto
do aposento havia uma touca plástica de banho, do mesmo material do imper­
meável.
A partir daí gerou-se uma fase transferencial caracterizada por uma
agressividade manifesta. Uma dívida comigo deu ensejo a que ele se perguntas­
se, na sessão, por que estava fazendo tilintar daquela maneira o dinheiro que
tinha no bolso. Veio-lhe à lembrança uma canção, na qual um marinheiro fazia
a mesma coisa, e que terminava com o pagamento da dívida do marinheiro com
uma punhalada. Esse temo pensamento em relação a mim, ele o interpretou,
primeiro, como significando que vinha às sessões essencialmente para me
encher a paciência, ou seja, para reencher, ali como em outros lugares, as
diferentes meias de seda que eram as toucas e impermeáveis que povoavam sua
vida.
Essa descoberta, de que estava vindo encher o Outro dessa maneira com
seu ser, provocou nele um transtorno, inclusive corporal, que o levou a consultar
um médico. Com efeito, durante os quinze dias que se seguiram a esse pequeno
episódio, ele se mostrou preocupado com "defecações suspeitas". Tinha a
impressão de que suas evacuações continham uma matéria branca, como
esperma. Tranqüilizado o sujeito pela Universidade, esse sintoma desapareceu
rapidamente.
Aqui se vê como o momento transferencial - o êxtase posterior à fase
inicial de alienação subjetiva em que ele recuperou a lembrança encobridora
-, essa transferência-êxtase foi, ao mesmo tempo, o momento em que apareceu
sua aposta, sua aposta-objeto, sob a fonna anal.
Depois disso, por um momento, sem compreender por quê, todas as vezes
que evocava a lembrança encobridora do banheiro, ele via passar no meio da
cena, dizia, uma faca, a mesma que evocava como devendo estar sempre
presente em seu bolso, para a eventualidade de uma briga.
Um sonho deu-lhe a solução: ele estava na casa de sua tia e via os lugares
com a precisão alucinante que pode implicar o efeito de real no sonho. Mas, ali
como em outras situações, não era da realidade que se tratava, tal como na luz
do sonho "Pai, não vês que estou queimando?''. Nesse sonho, na casa da tia, do
outro lado da parede, num outro aposento, ele sabia que havia três mulheres
presentes: sua mulher, sua tia e sua irmã. Ele remexia - o que era proibido ­
um baú cheio de roupas femininas, e dele retirava a mão cheia de sangue.
O paciente analisou cuidadosamente esse sonho, selecionando o que
correspondia à lembrança do encontro com a castração: E finalmente descobriu
por que não conseguia mais evocar essa lembrança encobridora sem que se
neurose e construção da fantasia 67

impusesse a presença da faca: era, de fato, o resto do machado da cena de


sedução superpondo-se à verdadeira cena traumática, a descoberta da ausência
de pênis na irmã. Foi necessário que ele fosse captado nesse momento de
encontro, no ato proibido de remexer nas saias da mãe, para que se separasse e
elaborasse sua posição.
Três etapas, portanto, em sua relação com o Outro. Primeiro, ele chegou
mostrando sua rivalidade com o homem, e com a idéia da faca sempre evocável
no bolso. Segundo, na transferência, separou o que havia no bolso: de um lado,
a faca, o machado, que eram significantes com os quais se evocava o (-cp) que
habita a estrutura, o corte sempre possível, o valor fálico, e de outro, sua
necessidade de ter sempre no bolso as fezes necessárias para sujar a tela
impermeável que o Outro lhe apresentasse. E foi então, depois dessa bivalência
transferencial, que apareceu a verdadeira significação de sua rivalidade com os
homens, que era, com efeito, a degradação de sua vida amorosa, uma degrada­
ção que consistia em constituir um Outro feminino, sempre tentando forçar-lhe
o consentimento, forçar-lhe o pudor em algum ponto, e poder alojar ali, nesse
momento, a aposta pela qual ele constituía esse Outro feminino, seu dejeto.
Assim, ele vinha depositar o marco de sua fantasia na página em branco que
era, para ele, cada nova mulher que aparecia.
Foi esse o ponto em que o trabalho da transferência - já que foi assim
que Lacan traduziu, certa vez, a Durcharbeitung freudiana - distinguiu o
estatuto do Outro e do outro, distinguiu, de um lado, as acrobacias que ele era
capaz de organizar, reservando um palco para a entediação do mestre, e de outro,
a construção subterrânea dessa fantasia.
Pois houve construção da fantasia nessa análise. Como considerar isso,
diria eu, na medida em que ele chegou com uma fantasia totalmente constituída
e logo a manifestou na análise, onde bastava extraí-la pedra por pedra? A partir
de quê, afinal, podemos fazer essa afirmação?
Essa construção se fez pelo emprego da transferência, posta em jogo
desde o princípio pelo algoritmo da possibilidade, mas que vimos, como
fenômeno, girar em tomo da agressividade imaginária. Não se tratava de o
analista "introduzir-se nas fantasias do paciente", como diz, agradavelmente, o
prefaciador italiano das obras de Melanie Klein nessa língua, mas de jogar com
o que Lacan chama de "margem de exteriorização do objeto a". Essa margem
de exteriorização era, em suma, a aposta que ele podia fazer ao constituir seu
parceiro analista. Ele fazia tilintar o dinheiro sonante no bolso, realizando a
equivalência talleyrandiana entre o dinheiro e o dejeto, mas isso era apenas
imaginário. A estrutura �ubjacente era a de constituir esse analista, esse parceiro,
justamente através dessa aposta. Longe de estar originalmente no relato da
fantasia, ela só apareceu depois de se haverem separado, de um lado, o que
68 versões da clínica psicanalítica

provinha da castração, e de outro, o que dependia do objeto, ao passo que, no


início, a fantasia evocada de um Outro, que surgia no momento em que ele se
masturbava sob a tela protetora do plástico, mantinha unidos e confundia, num
mesmo momento, o valor da castração - que vale na relação com o Outro -
e o objeto, a mancha que ele produzia na tela. Mantinha, no começo, o valor
que ele havia representado - o que ele descobrira com a sedução do professor
-, o valor fálico que tinha para a mãe. Daí o fato de que esse mesmo
impermeável, que antes se apresentara como objeto de mal-estar e de rebeldia,
ele o vestisse mais tarde, ao contrário, com êxtase, assim testemunhando ser o
fato da mãe.
A operação sobre a fantasia, nesse paciente, foi paralela aos avanços
obtidos em relação ao sintoma. Ele se deu conta de que seu sintoma consistia
em que, no momento em que deveria tomar-se como o pai, ele passara a
experimentar o incômodo de ser mar-mãe.* Essa operação, eu gostaria de
relacioná-la com o que Colette Soler relembrou acerca da certeza obtida do ato
analítico. Apelarei para um texto formidável de Jacques Lacan, surgido em
1969, "Resenhas do ato psicanalítico", I esclarecido este ano pelo curso de
Jacques-Alain Miller.
O que Lacan indica nesse texto é que toda psicanálise revela que o gozo
fálico "se oferece a partir de um ato proibido". Nesse paciente, tratava-se do
remexer embaixo das saias da mãe. Para abordar esse aspecto do gozo fático
como ato proibido, era preciso que caísse o véu impermeável da capa plástica
em que ele sustentava sua identificação fálica. Era necessário que caísse, para
ele, esse ponto pelo qual ele se convertera em paixão do significante. Diante do
vazio, todo o seu ser consistia em se reduzir a ser o falo, o "meio-termo" que
só comprovaria, se existisse, a relação sexual. Comprovação no sentido recen­
temente esclarecido, em seu curso, por Jacques-Alain Miller, que voltou a
utilizar a dimensão que Lacan soube dar ao termo resposta em seu ensino.
Esse sujeito reduzia seu ser a comprovar a existência da relação sexual.
Conseguir que ele fizesse cair o véu daquilo a que reduzia seu ser - ser o falo
-, "o benefício é claro para o neurótico, pois resolve o que era representado
como paixão". Só que, prossegue Lacan, "ocorre então a alguém o gozo
considerado perverso ser realmente permitido, pois a psicanálise converte-se
em sua chave".
Que quer dizer isso? O que o ato analítico revela é que esse gozo não é
obtido, não se comprova pelo falo, que é um falso meio-termo, mas pelo termo
único que é o objeto, o objeto que ele aposta - no caso do paciente, o objeto

* Mal de mere, homófono de náusea, enjôo, que em francês se diz mal de mer. (N.T.)
neurose e construção da fantasia 69

anal -, através do qual ele constitui o Outro analista e, ao mesmo tempo, o


Outro sexual - a mulher de seus anseios.
O ponto em que estamos na análise é conseguir que o analista saia do
tapete que tem a seus pés, que é a garantia desse Outro.
Pois, se existe ato analítico, é apenas no que ele revela, não um Outro de
uma garantia - o Outro de uma garantia universal, sonhado por Descartes em
seu momento de vacilação, sonhado por esse paciente como lugar onde pudesse
inscrever sua aposta com toda a tranqüilidade -, mas um Outro que não tem
outra consistência senão a lógica, e que seria a única maneira de o sujeito e sua
estrutura como descontinuidade no real poderem advir.
Foi assim que Lacan pôde apresentar a transferência como tempo da
experiência no Seminário /, como conceito mesmo da análise, retomando a
fórmula hegeliana "o conceito é o tempo", para fazer dela o próprio algoritmo
da experiência analítica. Foi nesse sentido que ele deu um novo valor a essa
p
transferência, tempo da ex eriência: toda a experiência mesma está compreen­
dida nesse algoritmo. Mas, se ela tem um fim, é também, como ele indicou,
porque essa transferência toma-se o momento da espera: espera do advento
desse ser, no lugar medido da falha do Outro em que aparece o desejo do .
analista.
Eis aí uma falha que é preciso medir, pois é a falha do sujeito suposto
saber; que quer dizer isso? Não é uma falha do próprio saber, embora se possa
imaginar que um final de análise leve a um ponto em que o sujeito ficaria
simplesmente enojado de todo saber, preferindo acima de tudo a verdade, ou o
saber simplesmente alusivo, evocado.
A falha do sujeito suposto saber que se percebe aí é que existe um saber
sem sujeito. Isso é o que percebe o sujeito captado na experiência analítica
quando ela é completa, ou seja, quando o artifício instalado do sujeito suposto
efetivamente se destitui; quando já não há relação de transferência de trabalho
com esse saber. E é aí que o trabalho da transferência pode ou não fazer com
que alguém termine sua análise continuando seu trabalho na psicanálise, em
vez de ficar simplesmente enojado de tudo.
É aí, com efeito, que ele deve encontrar sua certeza, e colocar a pressa
que se instalou em seu lugar fundante.
Em "Função e campo da palavra e da linguagem", Lacan indicou que o
"homem faz de sua ação um objeto para dar a ela seu lugar fundador". Trata-se
de entender como essa ação, à qual ele dará seu estatuto pleno na psicanálise
pela instauração do ato psicanalítico, pode chegar, para um sujeito, a encontrar
a certeza no próprio ato que ele percebe, depois de tê-lo atravessado.
É isso que faz com que, antes de Lacan, uma psicanálise se chamasse
didática quando o sujeito alcançava uma certeza sobre a existência de seu
70 versões da clínica psicanalítica

inconsciente. Lacan mudou essa afirmação: o inconsciente é certo, mas não dá


certeza.
A certeza só é alcançada a partir do ponto em que se atravessa um ato:
um ato executado sem Deus.

NOTA
1. "Reseiías dei Acto Psicoanalítico", in Jacques Lacan, Resenas de Enseiianza, Buenos
Aires, Editorial Hacia el Tercer Encuentro dei Campo Freudiano, 1984.
2

Construção da fantasia:
As duas análises da Sra. Y.

B orges, em 1 935, fez uma história da infâmia, pouco antes de se atrever a fazer
uma história da eternidade. Sem dúvida, poderíamos fazer uma história da
interpretação psicanalítica, pois existe uma dimensão histórica do Outro com
que se confronta a interpretação psicanalítica. Os psicanalistas procuram falar
da história, mas são antes falados por ela, tanto pela história do mestre quanto
pela história da clínica.
Os psicanalistas têm a impressão de que existe uma história da interpre­
tação em psicanálise, todas as vezes que um novo sistema de interpretação surge
e se instala. Nesse momento, aparecem um hoje e um ontem, um antes e um
depois.
Admitir uma história da interpretação, se admitirmos com Lacan que o
desejo é sua interpretação, implica admitir que existe uma história do incons­
ciente. Isso é um paradoxo, se aceitarmos que o inconsciente, que não conhece
o tempo, possa conhecer a dimensão da história.
Tomemos um momento dessa história do inconsciente, conseqüência do
corte kleiniano. Para avaliar o impacto produzido pelo sistema kleiniano de
interpretação, é preciso ler o artigo de Glover de 1 93 1 , "On the effects of
inexact interpretation". Discípulo de Karl Abraham, Glover havia reduzido o
falo ao objeto parcial e, para ele, a interpretação era a interpretação genital. O
choque kleiniano obrigou-o a considerar a necessidade de uma interpretação
supostamente mais profunda, na medida em que era mais arcaica, centrada no
objeto oral. Levar em conta os precursores do Édipo, passar do sistema de
interpretação que ele conhecia - que era o de seu analista - para o sistema
kleiniano, produziu-lhe uma comoção que seu relato expôs de maneira notável.
Chegou um momento em que ele já não conseguia localizar a interpretação
num ponto preciso c, como assinala Lacan, a conseqüência foi que a localizou
por toda parte.

71
72 versões da clínica psicanalítica

Noutro momento, que nos é mais próximo, Kohut descreveu as duas


análises do Sr. Z., usando dois sistemas de interpretação diferentes. Uma
primeira fase da análise foi descrita em termos de sintoma. e pulsão, e uma
segunda, em termos das relações com o self-object.
Retomar uma análise seria substituir uma interpretação inexata por uma
interpretação exata, ou, melhor dizendo, apontar para o lugar a que o sujeito
chegou em sua relação, não com a exatidão da interpretação, mas com o efeito
de verdade que ela produz.
Mudar de sistema de referência na interpretação é um alívio. Mas o fato
é que o ponto a alcançar seria o silêncio, o ponto em que o gozo já não se pode
dizer. Não se trata de mudar o objeto que, em última instância, causa o sujeito,
de mudar suas significações, mas de penetrar na zona onde se revela que o gozo
permitido ao ser falante não passa de um mais-gozar que se situa, precisamente,
no lugar de um ato proibido.
Por essa razão, Lac<...l, em 1 973, em Televisão, não censurou os analistas
modernos por recuarem diante do novo objeto que ele havia introduzido, o
objeto a, mas os censurou por retrocederem no caminho da castração a que nos
leva o Pequeno Hans.
Uma senhora me fez compreender, em certa ocasião, o que significava
retomar a análise no ponto em que ela ficara fixada pela primeira vez. É a isso
que me referirei agora.
Ela veio procurar-me para retomar a análise, depois de haver suspendido,
três meses antes, uma análise de mais de cinco anos de duração. Pedi-lhe que
esclarecesse, primeiro, em que ponto se detivera, para ela, essa primeira análise.
Ela sabia claramente que a análise se havia detido num sonho, sonho em que
atravessava numa espécie de elevador• as profundezas da terra, para emergir ao
lado de uma piscina. Junto à piscina havia um casal sorridente. Ela se afastava
de� se casal e acabava desaparecendo na distância.
Seu analista havia interpretado esse sonho do seguinte modo: o analista
aparecia, no sonho, desdobrado nesse casal. O sonho era a fantasia de um
segundo nascimento e significava que ela podia deixar sua análise naquele
momento e sair pelo mundo. Com isso, o analista aceitara sua partida com uma
bênção, ratificando essa fantasia. Embora o renascimento · seja uma fantasia
típica, a interpretação do analista cristalizou a liberdade de sair pelo mundo,
que para esse sujeito, como para todos, tinha um limite. Esse limite era o
sintoma.

* Convém ter em mente, na seqüência do texto, a homofonia francesa entre l 'ascenseur (o


elevador) e la sans soeur (a sem irmã). (N.T.).
neurose e construção da .fantasia 73

Durante a adolescência, ela tivera vertigens intensas, que, em certas


ocasiões, haviam cerceado seus desejos de sair de casa naquela época. Esse
sintoma deixara como seqüela uma tendência a dar passeios de carro sem
nenhum rumo fixo e um prazer especial em dançar.
Esse segundo nascimento não era, em primeiro lugar, o dela, mas o de
seu irmão, nascido quando ela contava dez anos, e em relação a quem ela
.
desenvolvera um ciúme mortal. Dizia ter a impressão de que o único nascimento
legítimo em sua fanu1ia fora o do irmão, ficando ela numa posição ilegítima.
Essa fora a significação autenticada pelo analista para esse sujeito em busca de
reconhecimento, que procurava um ponto em que pudesse lavar-se da maldição
de ter nascido.
Em função dos elementos de que dispunha, no entanto, a postura do
analista parecia razoável. Os sintomas estavam apaziguados, a paciente tinha
um filho de dois anos e, no plano da adaptação, tudo parecia estar correndo bem.
Todavia, esse final de análise deixara a paciente totalmente insatisfeita. Por um
lado, ela experimentava a sensação de que poderia avançar mais em sua análise
e, por outro, sentia que vivia à espera de uma má notícia. O pai de seu filho a
inquietava um pouco, sem que ela soubesse esclarecer exatamente por quê. Ela
tivera seu filho com esse homem sem se casar com ele, porque ele lhe parecia
genial com as crianças. Mas notava que ele era meio nervoso e não gostava do
analista que o homem tinha.
A má notícia esperada não tardou a chegar. Pouco depois que a moça me
procurou, seu companheiro teve um surto psicótico paranóico, sentindo-se
inclusive perseguido por ela. Isso ameaçou derrubar todo o mundo que ela havia
construído, assim repetindo, sem que ela soubesse, as condições de seu próprio
nascimento.
Dois anos depois do início dessa segunda análise, chegou um momento
em que ela disse encontrar-se exatamente no mesmo ponto que em sua primeira
análise, ou seja, tinha a impressão de que a análise n ao estava avançando e pediu
ao analista permissão para abandoná-lo. O analista, é claro, recusou-lhe isso
incisivamente. Acabávamos de atravessar uma fase de análise de seu sintoma
da vertigem, que estava vinculado a uma cadeia associativa muito precisa. A
avó paterna repetia constantemente que um dos grandes temores de sua vida
fora ver passar uma mulher que caíra de uma janela, mulher essa que não era
mais que uma bola de pêlos semelhantes a cabelos. Esse relato da avó fora
interpretado como um desejo hostil dela, que apontava para a mãe da paciente
e para seu próprio nascimento.
Pouco depois, ela teve um sonho único, composto de três partes.
Da primeira parte, não recordou nada, exceto que havia suco de tomate,
analisado como se fosse sangue.
74 versiies da clínica psicanalítica

Na segunda parte, ela se perdia no metrô com um carrinho de criança e


acabava se encontrando numa espécie de cloaca.
Na terceira parte, a que lhe era mais clara, "estou falando com o pai de
meu filho e me sinto espiada. Saio do quarto para ver, sinto uma presença, uma
sombra de mulher, e fico imobilizada pela outra mulher, quero gritar e não
posso. Não é que eu tenha perdido minha voz, não a tenho mais. Nesse
momento, acordo aliviada, pensando que agora poderia chamar alguém, en­
quanto no sonho isso era impossível".
Ela mesma associou esse sonho com um nascimento. O carrinho era o
elemento mais surpreendente, porque sua mãe lhe dissera que a avó paterna
nunca havia reconhecido nenhuma das duas, mas a mãe havia conseguido um
carrinho luxuoso, contra a vontade dessa avó. Esse carrinho tinha sido a única
vitória de sua mãe sobre esse supereu feminino implacável.
Esse foi um sonho de nascimento, e não de segundo nascimento, expres­
sando o desejo de dar um sentido a sua chegada ao mundo, uma forma de
retomar a maldição que a havia acolhido neste mundo.
Ser uma filha ilegítima, transportada num carrinho ideal, deu-nos a chave
de seu sintoma de andar à toa de carro, que lhe provocava tanto prazer. A sombra
que a espiava do outro lado da parede, bem como seu companheiro, mostravam
a face mais inquietante do suposto par analítico. A sombra para a qual ela se
dirigia era o lugar desse objeto primordial, matemo, que só é alcançado no ponto
em que, no espelho, há apenas uma ausência de imagem, de semblante. Em suas
"Considerações sobre a causalidade psíquica", diz Lacan : "Quando o homem,
buscando o vazio do pensamento, avança para o esplendor sem sombras do
espaço imaginário, abstendo-se até de esperar o que irá surgir, um espelho sem
lustro mostra-lhe uma superfície em que nada se reflete."'
Esse lugar, que Lacan comentou com essa frase poética no ano de 1959,
podemos articulá-lo topologicamente com o nó que encerra, que bordej a, que só
é alcançado a partir do ponto de falta da representação do sujeito no Outro,}(.
Aproximar-se dessa zona, desse ponto em que o sujeito já não se
representa, em que, do outro lado da parede, há apenas uma presença, e não um
representante, aproximou a paciente do desejo do Outro. A questão que se
colocou por esse ângulo foi a do objeto, da afonia que só surgia da sombra, da
presença na sombra do objeto vocal.
Depois do sonho, a Sra. Y. esqueceu, e eu também, a chave do carro no
divã. Quando voltou para buscá-la, vinte minutos depois, dei-lhe outra sessão.
Ela comentou que, deixando a chave do carro, podia formular na análise uma
demanda legítima, pedir a chave que era realmente sua. Essa demanda não é
mais legítima do que qualquer outra. O ponto em que a Sra. Y. tinha razão era
em que só podia encontrar o desejo do Outro aquém da demanda que fazia.
neurose e construção da fantasia 75

Além disso, revelou-se nesse momento que a análise anterior havia


colocado nesse mesmo ponto, no qual ela não tinha representação, seu filho,
como um -<p positivizado no lugar da castração, que vinha ocupar o lugar de
sua maldição, do antes-não-ter-nascido de Édipo. Esse lugar era o que o analista
anterior havia aceito.
O problema é que ninguém se safa da culpa mediante a bênção. Esta
apenas desenhara o lugar de um ideal que deixara a paciente totalmente exposta
às solicitações de seu supereu, o que determinava a situação de ficar à espera
de más notícias.
O analista havia ocupado para ela, naquele momento, o lugar do supereu,
esse lugar que, como vocês sabem, Strachey tentou teorizar como sendo a única
posição a partir da qual o analista pode modificar a posição subjetiva, através
da interpretação mutativa. Era essa a ilusão de Strachey, pois, também para ele,
o problema residia em como purgar o sujeito de sua culpa essencial, e ele achava
que o analista, neutro, sempre podia agregar-se à série do conjunto das identi­
ficações imaginárias do paciente, série esta que ficaria anulada pela própria
neutralidade do analista.
O verdadeiro nome desse analista neutro consistiria em inscrevê-lo com
o símbolo O, a própria neutralidade, e se instalar como seu representante na
série de identificações do paciente.
Jacques-Alain Miller comentou de outro modo esse artigo de Strachey
numa de suas conferências caraquenhas, agora publicadas no livro Percurso de
Lacan,2 e o Dr. Etchegoyen, analista da IPA argentina, criticou seu comentário
a partir de um erro essencial de compreensão do que ali foi exposto. Comenta
Ncillcr que, se Strachey tencionava instalar o analista numa posição superior,
era precisamente para instalá-lo na posição do supcrcu, do Outro lacaniano, c
Etchegoycn assinalou que assim se poderia diferenciar a identificação com o
outro imaginário da identificação com o Outro simbólico.
Mas o aspecto essencial é que, ao se instalar como Outro, ele se instala,
ao mesmo tempo, como semblante do objeto. Quando se desnuda o Outro
simbólico, surge o lugar sem representação no espelho do sujeito, surge o lugar
do objeto a, e não o lugar do outro imaginário, e foi precisamente isso que essa
paciente mostrou.
Na "Subversão do sujeito", Lacan deixou isso muito claro: no lugar onde
surge a ausência do símbolo O no Outro, encontramos o significante da
impossibilidade desse símbolo. Por essa razão, situar o analista no lugar do
objeto, estável, como diz Bleger, com o enquadre, ou neutro, como o chama
Strachey, baseia-se sempre na mesma ilusão, em achar que existe no Outro o
símbolo O. O que surge no lugar dessa ausência é o objeto a. Lacan se refere a
isso nesse artigo, ao aludir à teorização de Mauss sobre a onipotência do maná,
76 versões da clínica psicanalítica

por trás do qual é preciso reconhecer o problema da onipotência da mãe como


tal, da mãe imaginária que está presente na teoria kleiniana.
Tanto no sonho quanto no esquecimento que se seguiu, observamos o
surgimento do objeto a. No primeiro, podemos vê-lo através da angústia do
sonho; no segundo, no aquém da demanda. A angústia do sonho está relacionada
com o desaparecimento da fonação para fazer surgir a voz, que, no neurótico,
é imanente à chamada com que ele faz ressoar seu grito no Outro, e com o olhar
que a maldizia do outro lado da parede. O esquecimento instalou a demanda
legítima sobre o pano de fundo do rechaço, por parte do analista, de pelo menos
uma demanda. É através de um não que a interpretação se situa no lugar de onde
exerce um efeito mutativo, como diria Strachey; não no lugar do supereu, mas
no lugar de um objeto que causa o desejo, que aponta para o abandono de seu
objeto tampão, o filho oferecido na análise anterior ao desejo do Outro. Foi
precisamente sua possibilidade de abandonar o objeto tampão que permitiu o
surgimento da dimensão do objeto a, do que Lacan designou como as pos­
sibilidades de exteriorização do objeto a. A culpa da paciente pôde então ser
lavada, não por uma bênção, mas por atingir o lugar que era o penhor de seu
gozo, o lugar exato em que ela não tinha representante. Esse lugar, Lacan o
evoca: "Esse lugar é justamente aquele a que toda coisa é chamada para ser
lavada da falha, que ele possibilita por ser o lugar de uma ausência: é que toda
coisa pode não existir."3 Essa paciente formulava precisamente a pergunta sobre
esse lugar.
Lacan comentou essa frase mais adiante, nos Escritos, dizendo: "( . . . ) esse
lugar faz o próprio Ser languescer. Chama-se o Gozo, e é aquele cuja falta
tomaria vão o universo."4
Se essa paciente tinha uma oportunidade de fugir de sua culpa, era
seguindo esse caminho, que não há por que obstaculizar.
Psicanalisar atualmente, portanto; não é mudar de sistema de interpreta­
ção, como poderiam supor Glover ou Kohut, buscar um objeto mais profundo,
um lugar mais arcaico, nem tampouco buscar a reconciliação com esse objeto,
a reconciliação do sujeito com sua fantasia, por exemplo. Psicanalisar, hoje, é
ajudar a construir a fantasia, que é também uma desconstrução, mas não apenas
em relação à frase que representa a fantasia fundamental, porque, em seu sentido
mais profundo, não existe representação da fantasia fundamental.
Nas diversas formulações que se podem propor numa análise, há que
encontrar, nas entrelinhas, o lugar do desejo do analista como enigma, no ponto
em que, por exemplo, essa paciente situou, com seu esquecimento e com a
demanda ao analista, o ponto em que o -q> e o a podem separar-se, verdadeiro
sentido da construção da fantasia, que é então a separação das duas vertentes
do objeto.
neurose e construção da fantasia 77

A única boa notícia que a psicanálise pode proporcionar é que não existe
acesso à genitalidade; existe acesso ao gozo, o que é diferente. Esse acesso é
diferente da resposta que o supereu sempre propõe, a partir de sua ordem
imperativa: goza! O acesso ao gozo reside em não defini-lo como resposta, mas
como pergunta, em não tomar partido através da resposta do supereu, mas
através da pergunta do desejo, do che vuoi?.

NOTAS
l . Lacan, J., Écrits, Paris, Seuil, 1 966, p. 1 88.
2. Miller, J.-A., Recorrido de Lacan, Buenos Aires, Hacia el Tercer Encuen-tro dei Cam­
po Freudiano, 1 984 [Percurso de úu:an - UrruJ introdução, trad. Ari Roitman, Rio de Ja­
neiro, Jorge Zahar, 1 987].
3. Lacan, J., "Observación sobre el informe de Daniel Lagache: 'Psicoa-nálisis y estrutura
de la personalidad"', Escritos, vol. II, México, Siglo XXI, 1977, p. 288.
4. Lacan, J., "Subversión dei sujeto y dialéctica dei deseo", Escritos, vol. I, México, Siglo
XXI, 1 976, p. 33 1 .
3

Três modalidades do objeto

É incontestável que, a partir dos anos trinta, foi a prática da análise de crianças
que substituiu a exploração das fantasias do neurótico pelo enfoque das con­
cepções do "objeto" no campo freudiano, não sem questionar a totalidade da
prática analítica. Entretanto, sempre pareceu difícil para os praticantes desses
novos "objetos" extrair deles conseqüências precisas, no que concerne a seu
estatuto na experiência. Eu gostaria de me ater, esta noite, ao exame de três
figuras do objeto, todas três propostas por analistas de crianças, e ver com vocês
em que a introdução do objeto a pode nos ajudar a situar sua diversidade como
um punhado de irrupções desse objeto insuportável. As modalidades do objeto
na psicanálise com crianças são outros tantos sintomas do objeto a. Assim,
examinarei: o objeto combinado de M elanie Klein, o objeto do autista segundo
Frances Thstin, e o encontro com o objeto não-transicional segundo Winnicott.

* * *

O objeto combinado, segundo Melanie Klein

Gostaria de apresentá-lo a vocês seguindo a vivíssima descrição de sua produ­


ção que é fornecida no caso Richard. Além disso, como já dedicamos uma
sessão a essa análise (cf. cap. 6, Parte 1), poderei ater-me ao essencial. Seu
surgimento está indissociavelmente ligado à seqüência transferencial, que foi
resumida com muita precisão pela própria M elanie Klein. Numa primeira fase,
Richard empenhou-se em querer seduzir sua analista, estado amoroso este que
foi acompanhado de rivalidade em relação ao outro analisando de M elanie
Klein na época e, em termos mais gerais, de um ciúme dos outros, de quem ele
tinha um medo fóbico. Depois, como assinalou a analista, a transferência

78
neurose e construção da .fantasia 79

"deslocou-se para o seio", e ele começou a se interessar pelos mamilos de seu


1írésias.
Eis aí um resultado incontestável da direção da análise kleiniana, que
procede através da projeção dos maus objetos internos no analista:

Foi um sinal de progresso considerável quando os aspectos persecutórios da


relação com a mãe idealizada e com a analista vieram para o primeiro plano.

E vieram mesmo, a tal ponto que Richard desencadeou um verdadeiro


pequeno episódio persecutório. Chegou a uma sessão declarando: a cozinheira
quis me envenenar. Melanie Klein considerou que essa era uma verdadeira
dimensão paranóica em Richard, porém mais parece tratar-se de um artifício
induzido pela projeção do mau objeto interno oral. Vemos, aliás, que essa
perseguição não ganha consistência. Permanece como um ponto de real no seio
do tecido imaginário desdobrado pela analista, o qual persiste por quatro a cinco
sessões e, depois, é reabsorvido sem deixar vestígios.
Passado esse momento agudo, a clivagem entre o bom e o mau pode se
reconciliar no decorrer da terceira fase, caracterizada pelo objeto combinado.
Ele surge explicitamente no decorrer da antepenúltima sessão.

Nos últimos minutos, Richard estivera brincando com o guarda-chuva da


Sra. K., que tinha aberto. Fazia-o girar e disse que gostava disso. Depois,
utilirou-o como um pára-quedas, com o qual supostamente flutuaria
suavemente no ar. Examinou a marca de fabricação e declarou, satisfeito,
que era um guarda-chuva inglês. ( ... ) Disse à Sra. K. que destruíra
completamente o melhor guarda-chuva da mãe, usando-o como um
pára-quedas num dia de grande ventania. Ela ficara "muda de raiva". A
Sra. K. interpretou o guarda-chuva como sendo seu seio, e o fato de ele
ser inglês significava que era um seio bom, e que o seio da mãe também
era bom. Ela fez referência às dúvidas que ele tinha sobre se a Sra. K.
continha um bom ou um mau Sr. K. O guarda-chuva aberto representava
o seio, mas o cabo representava a genitália do Sr. K. Richard não sabia
se podia confiar no seio quando o pegava, pois ele estava misturado com
a genitália do Sr. K., assim como, em sua mente, seus pais e os genitais
deles misturavam-se nele. ( ... ) Apesar disso, ele tinha mais confiança do
que antes no papai e na mamãe - o guarda-chuva - ( ... ) e era por isso
que tratava o guarda-chuva da Sra. K. com mais cuidado do que fizera
com o de sua mãe. Essa confiança em relação ao bom objeto combinado
estendeu-se então para o mundo: "( ... ) com um relacionamento melhor
com os pais, suas relações de objeto em geral melhoraram."

Sabemos que o fim da análise era concebido pela Sra. K. como o


momento em que a idealização do analista deixava de ser necessária para o
paciente. No caso de Richard, em que o fim da análise foi fixado pelo estado
do mundo (retomo de Melanie Klein a Londres quando os bombardeios se
acalmaram), a analista acomodou-se com isso e considerou que, transposto o
80 ver.wJes da clínica psicanalítica

momento paranóide, a idealização já não era indispensável a Richard para seu


bom relacionamento com o objeto. Este, aliás, assumiu aí sua verdadeira
dimensão. O objeto não era outra coisa senão um nome da mãe. Ouçamos a Sra.
K. explicar o desfecho propício de uma análise tão curta:

( ... ) em certa medida, a confiança e o amor pela mãe tinham-se es­


tabelecido. Entretanto, a angústia persecutória e os processos de clivagem
haviam reevocado, vez após outra, a necessidade de idealização. Com a
diminuição dessas angústias, produziu-se uma relação muito mais segura
com o bom objetoprimário. Além disso, graças à análise de seu complexo
de Édipo, em que o elemento paranóico estivera muito presente, o amor
pelo pai pôde ser mais profundamente experimentado.

Melanie Klein teve a bondade de associar o pai a esse sucesso e de


assinalar o papel de uma utilização moderada da rivalidade separadora, mas o
essencial continuou a ser o estabelecimento da experiência de amor pela mãe e
da experiência efetiva do objeto combinado. Esse dom, como o do bom
samaritano, só tem s :mtido quando subsiste depois da perda de seu doador.
Mesmo assim, o fim dessa análise não deixa de nos confrontar com a idéia de
uma relação, que não teríamos outro modo de qualificar senão como plena, do
sujeito com o objeto. Plenitude, antes de mais nada, porque Richard foi
introduzido, segundo Melanie Klein, ao sair do momento paranóide, numa
relação para além da separação do objeto que não teria faltado ao apelo. E
plenitude, também, porque esse objeto que não teria faltado apresentou-se como
uma combinação de seio e pênis, verdadeira tentação materna. Isso se opõe
duplamente ao término da análise segundo Lacan, onde a separação se opõe à
alienação, e onde ela só se produz quando o (-j) e o a separam-se efetivamente,
com o pequeno a desvelando sua função de rolha no tocante à ausência da
relação sexual.
O alívio experimentado por Melanie Klein ao constatar que se havia
estabelecido a relação com o primary good object revela o seguinte: que a
relação sexual existe para o menino com a mãe, no momento em que ele não
pode dizer nada sobre isso. Pois, no que concerne ao seio, não há com que nos
preocuparmos. Tudo mostra que, de qualquer modo, ele é parte da criança (cf.
Seminário 11).
A segunda modalidade do objeto que reterá nossa atenção é justamente
a que o analista pode assumir num caso em que a relação com o objeto parece
impossível, o do autista.

O objeto do autista segundo Frances Thstin

Frances Tustin, cujo livro Autismo e psicose foi traduzido para o francês, foi
responsável por supervisões das terapias de crianças da clínica Tavistock, esse
neurose e construção da .fantasia 81

centro de consultas à margem dos institutos oficiais de psicanálise que, num


momento ou noutro, acolheu as pesquisas de B owlby, Bion, Bick, Meltzer e
outros.
Antes de nos interessarmos por sua maneira de introduzir o objeto na
análise, examinemos o tipo de sujeito a que ela pensa dirigir-se na experiência
psicanalítica. O surpreendente é que a freqüentação das margens da experiência
subjetiva a leva a achar que o sujeito autista se estrutura como o sujeito de Piaget.
Ela chega a isso como qualquer professor de psicologia. Aliás, convém dizer
que não é a única e que outros autores interessados no autismo deram crédito a
teses similares (Margaret Mahler, por exemplo) . Como se constrói, pois, esse
preconceito? O fato clínico que o sustenta é que, para o autista, tudo se apresenta
como indiferentemente real. O fato de o simbólico se realizar afigura-se, pois,
equivalente a uma posição fora do simbólico. Daí a identificação da psicose
infantil com uma fase do desenvolvimento de Piaget, a fase sensório-motora.
Ouçamos Piaget: "O período sensório-motor, nós o chamamos assim
porque, na falta da função simbólica, o bebê ainda não apresenta nem pensa­
mento nem afetividade ligados a representações que permitam evocar as
pessoas ou os objetos em sua ausência." Nisso, como vocês vêem, Piaget é
lacaniano, define a função simbólica como aquilo que permite evocar as pessoas
ou os objetos em sua ausência. Sua fase sensório-motora, portanto, é pura
positividade, pura presença no mundo. Seria o período mais importante da vida,
no qual, fora da função simbólica, a criança elaboraria a totalidade das estruturas
cognitivas que servirão de ponto de partida para as construções perceptivas e
intelectuais posteriores e para a mais grandiosa dentre elas, a linguagem.
Assim, Thstin descreve o autismo da primeira infância como um estado
normal. "O bebê tem pouquíssima consciência do mundo externo, percebe
segundo a modalidade dos órgãos, mecanismos e zonas de seu corpo. O bebê
normal sai desse estado graças a uma disposição inata para discernir modelos,
semelhanças, repetições e continuidades." Essas funções eminentes da lingua­
gem - a continuidade, a substituição e a repetição - são tomadas, aqui, pelas
de um dispositivo inato que não é a linguagem, um conjunto de funções
cognitivas. "Quando o desenvolvimento das funções cognitivas é exagerada­
mente perturbado, a criança é qualificada de psicótica."
É impossível, portanto, concebermos um ponto de vista mais distante que
esse de nossa abordagem da psicose como um distúrbio do simbólico. Vejamos,
pois, como é que, com um ponto de partida desse tipo, Frances Tustin aborda a
talking cure. Poderemos dar-nos conta de que seus preconceitos não a atrapa­
lham muito para introduzir-se com vivacidade junto a John (em Autismo e
psicose).
82 versões da clínica psicanalítica

Como todas as vezes desde a segunda sessão, ele começou brincando com
o pião que apitava. A partir do material anterior, interpretei: ele estava
usando a mão para girar o pião de Thstin, para experimentar a sensação
de que John era Thstin e Tustin era John. Tmha a impressão de que os
dois ficavam sempre juntos. Logo depois disso, ele pegou a boneca que
representava a mãe e remexeu na pérola pela qual a bolsa da boneca ficava
presa a sua mão, fazendo o mesmo gesto circular de quando havia tocado
o pênis, no dia em que eu havia girado o pião. Depois de mexer na boneca,
ele a jogou no chão, dizendo distintamente: saiu. Foi a primeira palavra
que o ouvimos pronunciar.

Todo mundo traz na lembrança o Fort/Da, ou seja, dizemos que uma


criança que balança a mãe e exclama "saiu" já tem talentos para se elevar à
dignidade da criança freudiana, doente do símbolo. Tustin interpreta: "John
girava a pérola de mamãe como se fosse seu pipi, para ter a sensação de poder
entrar na bolsa de mamãe. Tinha assim o sentimento de fazer uma mãe que ia
embora."
A que preço se instaura a oposição mínima entre Fort e Da, entre o
"sempre juntos" e a "mamãe que se foi"? Não se trata, é claro, de uma simples
identificação imaginária com a mãe, mas, antes, da identificação do manejo do
pião com a presença real de John+Tustin. A analista confere a si mesma, aí, um
modo de presença que faz lembrar a onipresença kleiniana, e que poderia ser
interpretado como uma mímica do real. O limite assim visado entre o imaginário
e o real não deixa de ter efeitos de retomo. Ao se identificar com o objeto
fascinante, a analista declara ficar, propriamente falando, hipnotizada por John.

(... ) enquanto John falava, surpreendi-me devaneando; com essa atitude,


eu corria o risco de ceder a uma demanda não-verbal da criança e de me
portar como se fizesse parte de seu corpo, como se eu fosse um brinquedo,
em vez de agir como urna pessoa madura e ponderada, tentando ajudá-lo
a enfrentar seus sentimentos. Outros analistas se aperceberam de que isso
lhes acontecia com bastante freqüência, com crianças atmosféricas (sic).

Essas crianças que não estão agarradas a nada, Freud já havia assinalado
seu estranho poder de fascinação. Ele considerava que isso era efeito de sua
elevação ao lugar de ideal narcísico de seu interlocutor. Nada parece mais
oportuno de lembrar. Quando se almeja, sem mediação, ser o Ideal, o lugar de
onde se origina a fala, o efeito de retomo não se faz esperar: o paciente toma-se
o tampão fascinante. Quem é o pião de quem no momento em que a analista
sonha?
Que Dasein de que Fort? Quando a analista devaneia e teme se "portar
como se fizesse parte de seu corpo, como se eu fosse um brinquedo", como não
sermos afetados por essa confissão de um sonho de relação sexual com um
objeto enfim acessível, isso a que pudicamente se chama uma fusão?
neurose e construção da fantasia 83

Detenhamo-nos aí, no limiar dessa imagem mítica da relação com a


grande mãe, desviemos os olhos dessa nova Éfeso, para voltá-los para aquele
que seria o defensor do encontro sempre evitado, do transicional sem fim e dos
limbos sem limites.

O encontro com o objeto não-transicional em Winnkott

Se falamos muito do objeto transicional, precursor titular de algumas caracterís­


ticas do objeto a, resta, entre outras coisas, estudar as outras formas do objeto
em seu inventor, nem que seja para apreender melhor o que não o aproximou,
posteriormente, de uma concepção lacaniana do objeto. Às vezes parecemos
esquecer que, para Winnicott, nem todo objeto se reduz ao objeto transicional.
Poder provocar o orgasmo bem no cerne da análise não é a menos curiosa das
propriedades do objeto não transicional que ele nos apresenta em sua Piggle.
Gabrielle tinha dois anos e meio quando encontrou Winnicott e sofria de
uma fobia desencadeada por ocasião do nascimento de sua irmã. Todas as noites,
para dormir, ela chamava a mãe e lhe dizia que tinha medo do baba car, mistura
de black car e baby car. Assim, como Hans, ela dispunha de um significante
que designava bastante bem as coisas e do qual se servia, ainda que tenha sido
para começar sua análise.
Desde a primeira sessão, Winnicott portou-se como um kleiniano escla­
recido, com grande doçura; logo na chegada, apresentou seu ursinho ·a essa
criança e estabeleceu imediatamente uma conversa com ela, mas nem por isso
perdeu seu rumo analítico. Quando a menina pegou um objeto e o enfiou em
algum lugar, dizendo "ele entra", Winnicott logo lhe fez uma interpretação a
propósito dos homens que põem coisas dentro das mulheres para fazer filhos.
Ela o compreendeu muito bem, disse-lhe que tinha um gato e que o levaria
consigo da vez seguinte. Ele introduziu sua outra interpretação-chave da
seguinte maneira: enquanto ela tirava todos os objetos da arca, dizendo "outro,
outro, outro", ele acrescentou: "outro bebê."
Na segunda sessão, Gabrielle respondeu a essa interpretação saindo do
consultório e indo procurar o pai, que estava na. sala de espera. O analista
observou: ela precisa do pai para se comunicar comigo. E nada mais. Há que
ter realmente uma confiança férrea na comunicaçã<? para achar que isso é
suficiente, e sobretudo que o analista não reduz a presença paterna à de um
fetiche nem à de um objeto transicional, mesmo que o contemple. Essa figura
do pai realmente me parece digna de uma terceira etapa da libido, não mais
apenas object seeking, à maneira de Fairbairn, para se opor à libido pleasure
seeking de Freud, porém a libido communication seeking. Haveria uma pulsão
84 versões da clínica psicanalítica

de comunicar, presente entre mãe e filho, utilizando diversos meios - verbais,


não verbais, o pai etc.
Aí vemos como, ao se negar a materialidade do significante, produz-se
o idealismo da comunicação. Ora, como entender de outro modo esse psicodra­
ma senão como a representação imaginária da metáfora paterna? À interpreta­
ção falo = bebê, Gabrielle responde com essa encenação. Principalmente porque
"comunica" a seu analista uma coisa muito precisa: durante a sessão, passa o
tempo caindo entre as pernas do pai. Muito acertadamente, Winnicott observa:
ela está reencenando seu nascimento. A escrita da metáfora paterna por Lacan
nos permite esclarecer esse psicodrama como uma representação imaginária da
intervenção do nome do pai, para dar ao Outro uma significação fática.
A partir desse jogo, produziu-se o primeiro alívio da fobia. À guisa de
explicações, temos duas notas de rodapé. Primeiro, a da mãe, que, ao corrigir
as provas do manuscrito, acrescentou: "é fantástico ver a utilização da transfe­
rência emergir no limite exato entre a participação e a interpretação." Quando
uma mãe começa a se maravilhar ao ver o funcionamento da transferência no
limite exato, a propósito de sua filha, realmente temos que nos deter. Winnicott,
por seu turno, observa duas coisas contraditórias. Ser concebida pelo pai é, por
um lado, "ser concebida como uma idéia no espírito, isto é, desejada", e, por
outro lado, é "utilizar o corpo do pai como se ele fosse uma mulher" . O
preconceito da separação idéia/corpo leva-o, ao mesmo tempo, a ignorar o mito
instaurado por Gabrielle e a glosar sobre uma suposta feminilidade paterna. No
entanto, Gabrielle comunica: não apenas quer cair entre as pernas do pai, mas
também de sua cabeça, verdadeira Atenas mirim. Assim, ela forja um mito das
origens que lhe permite verter um certo capital imaginário no simbólico,
provocando o alívio da fobia. Ela atesta essa virada pela seguinte declaração:
"acabei de nascer e não era preto lá dentro", negação da interpretação de seu
medo do escuro. Como bom freudiano, Winnicott se felicita por esse mecanis­
mo, traço da emergência subjetiva, sem extrair dele as conseqüências simbóli­
cas que nos parecem impor-se.
Na verdade, agora, Gabrielle entrou firmemente no Édipo, como Richard
com sua locomotiva. Sabemos que isso leva a tudo, desde que se saia dele, o
que só se produz no encontro com a castração, pelo menos na perspectiva
freudiana. É importante, portanto, observar que o evento crucial da análise, que
se produziu mais ou menos um ano depois do parto memorável, não se deu,
para o analista, per via di levare, mas per via di porre. Isso surge depois de um
sonho. Nesse ponto de sua conversa sobre o preto, Gabrielle lhe afirma "que
ela sabe o que é". Declaração temerária, seguida de um silêncio angustiado; o
analista recomeça: "com certeza, isso tem relação com um sonho ou com o
sonho da mamãe morta." Gabrielle continua: "sonhei que ela tinha morrido e
neurose e construção dnfantasia 85

não estava lá." Vê-se que o medo da morte não espera o avanço dos anos. Aos
três anos e meio, essa menininha era tão assombrada por uma viúva negra
quanto um jovem Gide, em quem o acontecimento se produziu quando ele tinha
nove anos. Vocês devem estar lembrados de seu pesadelo: uma mulher de preto
que, todas as vezes que ele lhe punha a mão, desmoronava como uma mulher
de areia. A presença da morte, o sonho da mamãe preta, por que reduzi-lo apenas
a uma mãe má? Quando Gabrielle disse ter sonhado que ela havia morrido e
que ela não estava lá, era também de si mesma que estava falando. Que era ela
no horizonte de suas identificações? Quem era ela, morta? É essa a pergunta
que se coloca e que dá um momento de esvanecimento do sujeito. Se confiarmos
em nossas letrinhas, poderemos supor que, depois de um momento de esvane­
cimento, o sujeito se agarra a um objeto para servir de estofo ($ O a ) . É esse
segundo tempo que o analista chama de "a coisa mais significativa da conduta
da menina na análise". Gabrielle pega o objeto com que havia escolhido fazer
sua análise - um colírio, um vidrinho de Optrex -, coloca-o na boca e o faz
entrar e sair, fazendo ruídos de sucção, e o analista observa: "podemos dizer
que ela experimentou algo muito próximo de um orgasmo generalizado."
É esse momento, em que um objeto efetivamente serve de tampão, que
o analista escolhe como a alavanca a partir da qual fará a análise dar uma virada;
entrar na dialética fálica e se encaminhar para a saída do Édipo. É que, segundo
Winicott - e essa é uma concepção que implica todo um movimento anglo­
saxão -, toda a dialética do desejo, conflitiva, só pode confundir-se com a
agressividade imaginária. Para sair disso, há que supor um ponto fora do campo,
um ponto de reconciliação que só é atingido por uma regressão para fora do
desejo.
O "orgasmo generalizado" só ocupa esse lugar fortuito se esquecermos
o pedaço precedente da morte, e, se a dialética do desejo pode estar ausente
disso, num certo sentido, não há com que nos regozijarmos. Mas essa não é a
questão, por enquanto; ca!Je-nos aqui, simplesmente, registrar as premissas
segundo as quais Winnicott encaminha o sujeito para a saída. Ao ratificar esse
"orgasmo", ele pode em seguida formular-lhe a relação homem/mulher da
seguinte maneira: seu pai roubou um objeto de sua mãe, mas, para não se sentir
culpado demais, às vezes ele o devolve; e você mesma, quando crescer,
encontrará um homem que também vai lhe entregar o objeto bom, o seio bom
que ele tiver roubado da mãe. É assim que se funda o mito de uma relação sexual
possível, numa dialética de dons e contra-dons. Evidentemente, a verdade dessa
posição, kleiniana, é que o amor consiste em dar o que não se tem, já que o
menino dará à menina justamente aquilo que nunca teve.
Esse mito é o inverso do mito freudiano. O menino kleiniano é um ladrão
que, em sua vida, deverá procurar uma mulher que se disponha a exercer para
H6 versões da clínica psicanalítica

ele a função simbólica de depositária; e, uma vez que ele a tiver instalado nesse
lugar, só lhe restará agradecer-lhe pela gentileza de ocupá-lo -chama-se a isso
gratidão. A partir daí, é possível a relação entre um homem e uma mulher. É
evidente que essa é uma ótica da reconciliação, oposta, como tal, à de Lacan,
que não atribui nenhum fim ao torneio amoroso, onde cada um não pode fazer
nada além de ocupar seu lugar, sem outro agradecimento senão ser despedido
dele.
O efeito desse mito na menina é extremamente interessante. Algum
tempo depois, mãe e filha estão conversando. A mãe diz à filqa (elas estão no
banheiro, momento de descobertas): "Você acha que eu também tenho um
faz-pipi?" Gabrielle responde: "É claro, foi papai que te deu." - "Foi o papai
que me deu; e ele, o papai, de onde o conseguiu?" - "Ora, dos alunos dele !"
Nessa ocasião, ficamos sabendo que o pai era professor.
Essa resposta é bem freudiana. O pai de Gabrielle só tinha o uso do pênis
em nome do pai, do Vater vertreter no sentido de Freud, série que ele instalou
na análise da fantasia de que "Bate-se numa criança": o policial, o professor, o
contramestre etc. É uma série que Jean Genet explorou em seu bordel, denun­
ciando-a como os uniformes do gozo. O professor, incontestavelmente, faz parte
dela. Gabrielle sabe que seu pai só tem o pênis em nome de, e certamente indica,
com isso, que professor foi aquilo de que a mãe do pai o denominou. Sabemos
sobre Gabrielle, aos quinze anos, quando The Piggle foi publicada, que ela tem
uma vocação: ser professora de biologia. Como não considerá-la ligada a sua
análise, a essa conversa com a mãe, no ponto da simbolização em que ela ficou,
no falo do cristal significante da fobia?
A partir daí, o tratamento está no fim. O analista provoca o desfecho,
considerando que é preciso romper. Ao se despedir de sua paciente no fim de
uma sessão, ele lhe diz, calmamente: "eu odeio você." Na sessão seguinte,
Gabrielle, para não ficar atrás, retruca que ela também. E os dois ficam por aí,
excelentes amigos. O processo é marcado por tamanho toque imaginário que
nós nos perguntamos se sua brusquidão não seria, antes, o sinal de uma evitação:
despachar a paciente, para não ser o dejeto da análise.
Alguém poderia objetar que não houve evitação nisso, mas uma urgência
de se separar de uma criança, já que sabemos que as crianças não são lá um
objeto de assiduidades prolongadas por parte dos psicanalistas. Além disso, o
analista sabia estar ameaçado de morrer. Comparemos, pois, o fim dessa análise
com um outro que, sob muitos aspectos, situou-se como o inverso do da análise
de Gabrielle: uma análise encerrada por Winnicott praticamente na mesma
ocasião que a de Gabrielle, porém com um outro analista, de 66 anos. Temos
os vestígios dela através das memórias do analisando, Harry Guntrip, teorizador
da libido object seeking que evocávamos um pouco antes. Ele nos confiou,
neurose e comtrução dafantasia 87

pouco antes de sua própria morte, o relato de suas duas análises, uma com
Fairbaim e outra com Winnicott. Esta última prosseguiu até a ocorrência da
morte do analista. Seu interesse, é claro, está em que a análise só se deu pela
beleza da coisa. Ninguém tinha a menor ilusão terapêutica. No entanto, o
analisando deu continuidade ao diálogo, pois queria convencer seu analista da
realidade do trauma que teria sido, para ele, o nascimento de seu irmão. Isso
deu margem a interpretações do seguinte tipo:
Você também tem um seio bom. Sempre foi mais capaz de dar do que de
tirar. Sou bom para você e você é bom para mim. Fazer sua análise talvez
seja a coisa mais tranqüilizadora que já me aconteceu. Já o paciente que
o precede me dá a impressão de que eu não sou bom. Mas você não tem
que ser bom para mim. Não preciso disso. Posso fazer meu trabalho sem
isso, embora, na realidade, você seja bom para mim.

Numa entonação inglesa, podemos ouvir a rispidez presente no "não


preciso disso", mas ouvimos igualmente o desejo de evitar a separação a
qualquer preço. Ao contrário do "ódio" confidenciado a Gabrielle, a confissão
do seio bom compartilhado manteve intacta, em Guntrip, a crença, o apelo ao
objeto que enfim seria adequado, análogo ao término do diálogo com a Piggle.
Essa evitação surge aí como o avesso do encontro sublinhado com o
objeto não transicional, o tampão que faz gozar. A partir dessa constatação, afora
as diferenças que podem marcar essas três modalidades do objeto - o objeto
combinado, o objeto do autista ou o objeto não-transicional -, podemos ver
em que eles se afiguram sintomas do objeto a. Em sua proliferação, eles estão
coordenados num ponto fixo: a demanda do falo. Melanie Klein fixou-a no
objeto oral, Tustin tentou fixar o autista no corpo do analista, e Winnicott, no
objeto de um gozo enfim comunicável.
Como assinalou Lacan no fim de seu discurso na EFP ( 1 967), o analista
moderno não recua diante da inveja do pênis, mas diante da demanda do falo.
É ela que o leva a ceder "ante o cerco do obsessivo, por exemplo, a ceder a sua
demanda do falo, interpretá-la em termos de coprofagia e, com isso, fixá-lo em
seu cocô, para que enfim façamos falta em seu desejo".
O pai já não tem que ser salvo; no mundo que se instala a partir do
desencadeamento da ciência, ele está perdido. Os analistas não apenas sentiram
os efeitos disso em sua discrição pública sobre o complexo de Édipo, como o
sentiram no âmago de sua prática, em sua posição transferencial. Mas isso não
é razão para nos prendermos a um novo ídolo: salvar a mãe, dando vazão à
demanda fálica. A ética do analista, segundo o ensinamento de Lacan de "não
ceder quanto ao desejo", é uma tentativa de ir contra essa inclinação, e de nos
permitir continuar no caminho pelo qual o Pequeno Hans queria conduzir seu
pai, talvez para perdê-lo, mas sobretudo não para salvá-lo.
4
A certeza da histeria

Que a histeria, como tipo clínico, destaca-se sozinha no discurso, é coisa que
introduz numa série de perguntas, que estas Jornadas começaram a enumerar.
A primeira aporia que essa própria escrita manifesta situa-se entre a identifica­
ção com o desejo da histérica e o lugar do sentido sexual, centrado no objeto.
Tal dificuldade foi formulada por Jacques Lacan, em 1 975, nos seguintes
termos : "Não há um sentido comum da histérica, o que a identificação articula
neles ou nelas é a estrutura, e não o sentido, como bem se lê pelo fato de que
ela incide sobre o desejo, isto é, sobre a falta tomada como objeto, e não sobre
a causa da falta."

Essa identificação com a falta, na histeria, marca a distância em relação


ao sentido, uma distância diferente da introduzida pelo obsessivo - da qual
nos falaram aqui Jean-Guy Godin, Philippe La Sagna, Jean-Jacques Gorog e,
há pouco, Alain Merlet.
Eu gostaria de isolar aqui dois limites da identificação histérica: um nos
introduz na relação entre a histeria e a obsessão, e o outro me parece ser um
problema interno da histeria. Duas questões, que aliás deverão ser desenvolvi­
das no que constituirá também a seqüência de nossos trabalhos, por ocasião do
Encontro internacional de fevereiro de 1986. Duas questões que, segundo me
parece, permitem também esclarecer algumas teses confusas que circulam na
IPA.
Pretendo apoiar-me na análise de dois sujeitos histéricos, e mulheres.
Uma questiona as relações da identificação com o sintoma - a identificação
pela fantasia -, e a outra destaca um fenômeno percebido na clínica, porém
mal esclarecido, qual seja, a obsessivização da histérica na análise.
Introduzirei a primeira dessas questões pelo que me ensinou esse sujeito,
que era uma paciente, como convém, YARVIS, como dizem os norte-america-

88
neurose e construção da fantasia 89

nos: Young, Attractive, Rich, Verbal, Intelligent, and Sociable.* Era muito
young, de fato: tinha quatro anos. Veio ao meu encontro por estar atravessando
uma fase de inquietação que se cristalizava em tomo de um medo de cair, e em
decorrência de uma série de pesadelos cujo conteúdo não conseguia realmente
externar. Tinha uma irmãzinha de dois anos, que, segundo a mãe, a perturbava.
Dessa perturbação, havia duas interpretações: para a mãe, a causa da inquieta­
ção estava ligada ao aborto espontâneo que havia ocorrido entre as duas
meninas; a criança morta teria vindo perturbar o sono desse sujeito, que
chamaremos de Hélene. Já Hélene, por sua vez, disse-me que tinha medo, mas
medo de cair de um banquinho. Também me ensinou que se chamava Hélene
- sentia-se muito contente com isso - como a avó, personagem eminente na
família, e que acabara de morrer. Como eu lhe perguntasse de que modo ela
havia morrido, Hélene esclareceu que fora caindo de um escabelo. E me
explicou essa palavra difícil, na eventualidade de que eu não a conhecesse: um
escabelo era uma banqueta. •• Foi aí que se concluiu nosso primeiro encontro.
Eu gostaria, desde já, de fazer duas observações: a primeira é que o
chamado discurso familiar fica mal situado quando se acredita que se trata de
fatos - trata-se de interpretações. E o sujeito pode ter outra. Era o caso aqui.
Há que dizer que as duas pareciam exatas, mas convém situá-las corretamente.
O que a menina me disse era que situava seu problema numa identificação com
um_traço retirado do Outro, a avó morta. Já a mãe situava o distúrbio da filha
no horizonte do eixo imaginário em que se situava um filho morto, em relação
ao qual ela calculava sua posição.
Graças ao que a menina me disse, considerei que o sintoma certamente
não deveria ser considerado fóbico, mas, propriamente falando, histérico.
O aspecto transferencial confirmou isso: à saída da sessão, a mãe me
relatou que Hélene lhe confidenciara: "O homem é simpático, mas é muito
velho para eu me casar com ele." Assim, a rivalidade mãe/filha estava bem
instaurada.
Três fases merecem ser isoladas nessa análise. Na primeira, ela trazia
sistematicamente para as sessões um bicho de pelúcia do seu tamanho, no qual
batia, cobria-o de pancadas, maltratava-o de todas as maneiras possíveis - um
bicho claramente identificado com sua irmã. Uma sessão acalmou essa brinca­
deira. Ela a começou identificada com a irmã, bancando a menininha de dois
anos, tal como uma menina de quatro anos e meio é capaz de imaginá-la.
Somente na saída da sessão foi que consentiu em admitir que sempre teria dois
anos mais do que a irmã - e que isso era realmente uma pena. Pôde então

* Jovem, atraente, rica, loquaz, inteligente e sociável. (N.T.)


* * O escabeau é também uma escada de poucos degraus, como as de uso doméstico. (N.T.)
90 versões da clínica psicanalítica

enunciar seu pesadelo: "Uns ladrões enttavam na casa e jogavam objetos pela
janela" - lápis, papel, canetas, disse ela, enumerando os objetos que via em
minha escrivaninha. O relato terminou por uma negação: "Os ladrões não
jogaram minha irmãzinha pela janela."
Segunda fase. A posterioridade dessa negação introduziu uma nova
seqüência. Ela se precipitou, no fim de uma sessão em que fora apenas palavra
vazia, para um pedaço de papel, que arrancou de cima de minha escrivaninha,
rabiscou-o e se atirou, triunfante, para a mãe que a esperava, estendendo-lhe o
papel: "Fiz um desenho para você: é uma criança morta num caixão." A mãe
ficou instantaneamente pálida de angústia, e a menina, radiante por devolver a
seu destino essa mensagem que pesava sobre ela.
Inaugurou-se então uma seqüência em que ela desenhava caixas sem
parar, caixas que eram ventres de mães animais. Enumerou o bestiário co­
nhecido pelas crianças de nossas cidades atuais, que contém um bom número
de animais exóticos. O bebê estava, ot:a ao lado da caixa-ventre, ora numa
ambulância, onde as crianças são colocadas, ou porque vão nascer, ou porque
passaram mal - por exemplo, caindo das janelas. A seqüência dos animais veio
enriquecer-se com um personagem que sintetizava os ladrões: o homem mau.
De fato, em seu prédio, como em muitos outros, havia problemas com o porteiro.
Esse porteiro não gostava de bichos e havia uma suspeita de que deixava por
ali carne envenenada, que surtia efeito em todos os gatos em circulação. Esse
homem acabara de matar um gato do prédio, que Hélene conhecia. Depois desse
fato, ela introduziu um desenho: era urna caixa em que havia um bolo de
aniversário e um cachorro - um cachorro cuja cauda ela ia cortar.
O cálculo permitido pela introdução do objeto destacável, embora ligado
ao objeto oral naquele presente de aniversário envenenado, introduziu a terceira
seqüência. Ela pôde então falar do pai, que "não ficaria contente" se ela não
desenhasse melhor. Esse pai foi introduzido numa posição de insatisfação
essencial. As caixas que continham animais vivos, ela as introduziu, em seguida,
corno contendo crianças vivas. Aliás, chegou a dizer que as caixas eram árvores,
ao pé das quais brotavam cogumelos. No cogumelinho que brotava ao pé das
árvores ela reconheceu de bom grado o pequeno órgão percebido em seu primo
e nos meninos - o que a levou a sonhar com urna cebola branca: essa cebola
era um ovo e dele saía um pintinho, uma andorinha. Depois dessa introdução
do casal de filhos imaginário:; que ela prometeu a si mesma, Hélene parou de
desenhar caixas e passou a desenhar simulacros de escrita.
Os sint�as se aliviaram. Ela estava bem, segundo seu meio. As férias
nos separaram. Não voltei a vê-la durante um ano. Ela tomou a me procurar
num pequeno momento de angústia: deparando com meninos numa praça,
TU!Urose e construção dnfantasia 91

havia-se perguntado se não seriam ladrões. E, com sua melhor amiga, as duas
entraram num momento de intensa inquietação.
Começou então uma nova série de sessões, curta, na qual ela fez questão
de trazer o pai, a quem conseguiu desviar de suas numerosas ocupações para
se interessar por ela a esse ponto. Essa seqüência se encerrou com o fato de que,
um belo dia, ela me anunciou que preferia ir ao aniversário do eleito de seu
coração a comparecer à sessão. E, nesse momento, pôde entregar-se à tarefa de
separar esse eleito do grupo de meninos que o desviavam de suas verdadeiras
ocupações.
Realmente, não vejo o que me impediria, nesse caso, de dizer que o sujeito
era histérico. E não vejo como designar de outra maneira o apoio que ela buscou
no desejo do Outro. Hélene obteve esse apoio centrado no amor do pai
essencialmente insatisfeito, cujo desejo ela se dedicou a sustentar - e foi em
tomo disso que concluiu sua escolha quanto ao desejo.
Também não vejo, por outro lado, por que haveríamos de recuar ante a
consideração de que o materna dessa neurose era o do discurso histérico, e de
que esse discurso é o materna da neurose histérica na experiência analítica. Mas
a questão não está aí, de modo algwn. Simplesmente, a histeria fica à vontade
nos discursos. Que uma neurose produza discurso é problemático - retomare­
mos isso na conclusão.
Esse caso, portanto, introduz um sujeito histérico de quatro anos e meio.
Pois bem, há uma tese que circula na IPA, com diferentes modulações. Vocês
encontram vestígios dela no compêndio doxográfico intitulado Encyclopédie
médico-chirurgicale, onde há três artigos e três posturas, cada um dos quais diz
mais ou menos o inverso dos outros, mas que abrangem um campo bem
articulado. Tomarei um artigo de 197 1 , que os estrasburgueses conhecem bem,
já que foi escrito por lá. A tese é a seguinte: "É excepcional", dizem eles, "que
uma criança histérica continue a sê-lo na idade adulta. Não há continuidade
entre a histeria infantil e a do adulto. Do mesmo modo, é excepcional encontrar,
nas anamneses de histéricos adultos, um passado de histeria infantil manifesta,
ao passo que a existência de uma neurose infantil, no sentido mais vago do
termo, é constante." Pois bem, devo dizer o contrário: por mim, não conheço
histeria adulta que, não na anamnese, mas na análise, não traga à tona fenôme­
nos de identificação que são da histeria na criança. Simplesmente, é preciso não
nos pautarmos na anamnese e na neurose manifesta. É regra geral encontrarmos
sistematicamente, nos tratamentos analíticos de adultos - se alguém tiver um
exemplo contrário, ficarei contente em conhecê-lo -, esses fenômenos de
identificação.
O artigo de Lebovici opina que "há alguns riscos, no plano da eficácia
clínica, em agrupar sob o termo histeria infantil um certo número de manifes-
92 versões da clínica psicanalítica

tações que têm uma significação e um futuro muito diferentes". E vocês sabem
que a tese de Lebovici consiste em opor ao sintoma uma personalidade. É aí
que os estrasburgueses de 1 9 7 1 guardam uma certa distância. A existência de
uma personalidade histérica é mais contestável, dizem eles.
Pois bem, parece-me - e, nisso, estarei seguindo a tese de um kleiniano
que escreveu sobre o assunto em 1983 , considerando que há que manter a
dimensão da histeria infantil como tal -, parece-me que o ensino de Lacan
também leva a isso. Só que é preciso articular efetivamente a relação entre
sintoma e personalidade. A infância é o período de uma escolha quanto ao
desejo, mas ela deixa em suspenso, na melhor das hipóteses, a escolha quanto
à fantasia - ou, melhor dizendo, quanto a seu uso. Michel Silvestre, num artigo
sobre a neurose infantil, assinalou que a diferença entre a neurose da criança e
a neurose inteiramente manifesta é que, na criança, trata-se de uma pergunta
sobre o desejo da mãe, ao passo que a neurose inteiramente manifesta é uma
pergunta sobre o gozo da mulher. Acrescentarei a isso que a neurose infantil é,
com certeza, uma escolha perfeitamente decidida quanto ao desejo. É a uma
escolha quanto ao uso da fantasia que nos remete a neurose como tal. Nesse
sentido, é preciso aguardar uma confirmação do desejo pelo tratamento do gozo
que irrompe. Nesse sentido, o real que está em jogo na castração fica à espera
de confirmação. O fato de as dificuldades de readesão à escolha do desejo e à
escolha quanto ao gozo - segundo uma expressão utilizada por Jacques-Alain
Miller - criarem problemas leva os clínicos, efetivamente, a fazer uma
distinção entre a neurose na criança e a personalidade. Vamos mantê-la; mas,
simplesmente, parece-me que, para organizar o fenômeno, é preciso dizer
estritamente o inverso da tese apresentada pelo Dr. Lebovici, ou seja, admitir,
ao contrário, uma identificação com o sintoma, no que ela incide sobre o desejo,
e, também ao contrário, deixar de reserva a personalidade histérica, na medida
em que a personalidade é uma manifestação da fantasia. A escolha quanto ao
uso da fantasia é decidida no só-depois da experiência de confirmação, que não
é simplesmente a puberdade enquanto maturação biológica, mas enquanto porta
aberta para uma nova dimensão do gozo, que inclui a confirmação dada pelo
divertimento, segundo essa belíssima palavra francesa que sublinha a que ponto
a lógica intervém nisso.* Parece-me que o estudo feito por Lacan sobre a escolha
de Gide, levando-a ao extremo, parece confirmar essa distinção entre a escolha
do desejo e a escolha do gozo, bem como a utilidade de introduzi-la.

* Déduit, substantivo usado no original com a acepção de divertimento, distração, pas­


satempo, e que tem ainda o sentido de jogos/prazeres amorosos, é também a forma participial
do verbo déduire, deduzir. (N.T.)
neurose e construção dafantasia 93

O segundo problema sobre a identificação histérica, que eu gostaria de


abordar perante vocês, é o que se produz pela obsessivização de uma histérica
em análise. Utilizarei esse termo apenas para designar o seguinte fenômeno:
trata-se de um sujeito que veio me procurar, depois de haver realizado uma
análise bastante longa, para retomá-la. Aliás, a paciente não a tinha interrompido
com a idéia de que a houvesse terminado. Ela estava saindo de um aborto que
a inquietava. Perguntava-se o que tinha feito. Em outras palavras, tratava-o
como um acting-out: a verdade havia falado, mas ela não sabia o que isso queria
dizer.
O que ela guardara de sua análise anterior - e foi isso que me permitiu,
parece-me, falar de obsessivização - era uma fórmula. Ela havia guardado um
sonho em que - tomemos apenas essa seqüência - estava diante de uma
paisagem onde havia uma extensão brilhante, que ela se perguntava se era neve
ou mar. E a interpretação que havia guardado era que essa neve [neige]
transformava-se num "será que tenho" [n'ai-je] ou num "será que nasço"
[nais-je]. E era uma verdadeira fórmula, que obcecava sua reflexão: ela girava
sem parar em tomo disso, sem conseguir chegar a uma conclusão. Com efeito,
foi somente pelo acting-out de um nascimento que a questão foi retomada.
Foram necessárias as entrevistas preliminares para descobrirmos que se haviam
mantido vivas as suas identificações com o rival íntimo de sua infância, que,
tendo-se casado, acabara de lhe anunciar que ia ter um filho. Ela havia então
engravidado, calculando inconscientemente as coisas de maneira a que por
pouco não teve seu filho na mesma ocasião que esse rapaz. Foi necessária toda
uma parte da análise para restabelecer a função do sujeito suposto saber e para
desalojá-la daquele retomo repetitivo em tomo do "será que tenho" [n 'ai-je].
Restaurar essa função passou pela instauração do objeto olhar, através de que,
se havia algo na analisanda em que ela se considerava um sucesso - e dizia
isso com muito pudor, sobretudo em seus sonhos -, era seu olhar. Ela achava
que seus olhos equiparavam-se à mais preciosa das jóias. Através de uma série
de montagens, ela teve que redescobrir, no lugar deles, alguns distúrbios de
focalização havidos na infância, de aparência histérica. Foi somente depois
dessa série que ela retomou seu sonho e disse: "O que guardei dele, es­
sencialmente, é que foi um sonho 'en trompe-l'oeil.'*
Eu diria que, nesse caso, houve a instalação de uma quase Zwang pela ..

análise, mas que a posterioridade dessa falsaZwang foi oAgieren. Não se tratou

* "En trompe-l 'oeir', como tapeação do olhar, aludindo ao efeito produzido, na pintura, pela
técnica que leva o espectador a hesitar em saber se está diante de uma imagem pintada ou
"real". (N.T.)
* * Coação, compulsão, como em Zwangsneurose, a neurose de compulsão, consagrada­
mente traduzida por neurose obsessiva. (N.T.)
94 versões da clínica psicanaláica

de Zwang wuJ Zweifel, mas de Zwang und Agieren.* Foi seu acting-out que
constituiu, nesse caso, a resposta a essa quase obsessão, a essa sutura produzida
entre as construções significantes - é assim que eu retomaria o que Jacques­
Alain Miller nos trouxe ontem.
Vemos como é possível operar-se um novo cingimento do sujeito em
tomo de seu desejo, que situa o corpo como lugar do Outro, que, na histeria, é
imaginarizado como tal, mas presentificado. Esse corpo como lugar do Outro
não é intersubjetivo, mas sim lugar do Outro, são "essas cicatrizes no corpo
tegumentar, pedúnculo a se agarrar aos orifícios para que sirvam de ponto de
apoio, artifícios ancestrais e técnicos que o corroem". Lacan observa que essa
instauração do corpo como lugar do Outro permite rechaçar de sua posição as
pretensões do masoquismo. Como sublinhou Daniele Silvestre em sua exposi­
ção de ontem, a relação da histérica com o corpo como lugar do Outro modifica
a questão desse masoquismo que, como observa Lacan, dá um preço repulsivo
ao discurso psicanalítico.
Esse estreitamento do sujeito em tomo de seu desej o permite-nos retomar
também a nova palavra introduzida por Lacan para falar do masoquisno na
histeria: covardia - termo retirado do "Homem dos Ratos", como ele observa.
É essa frouxidão, essa relação frouxa com o desejo, que deve ser retomada,
como sublinhou Colette Soler, na análise, para recentrar o sujeito em sua
fantasia.
Eu diria que o que nos permitiu abordar esse segundo sujeito foi o que
alguém como Elisabeth Zetzel soube introduzir na IPA. Ela sustentou, na década
de 1 970, que os histéricos, ao contrário do que se supunha, não convinham à
psicanálise, que havia um limite da identificação que os tomava sempre
inanalisáveis. Ela constatou que, afinal, só é possível analisar os histéricos que
têm traços o�sessivos suficientes. Isso não é errado - mas, bem entendido, há
que recolocar essa tese nos seus fundamentos. Quando o sujeito se apresenta
em sua posição de sujeito dividido, estritamente numa posição de agente, temos
um sujeito perturbado e praticamente não instalável no discurso analítico. Do
mesmo modo, quando o sujeito se apresenta numa posição de distância em
relação ao significante mestre, numa posição de desafio erotizado, já que o
sujeito camufla e encerra o objeto em torno do qual gira o sentido sexual, o
analista pode ver-se reduzido à ridícula situação de apelar para seu saber
psicanalítico.
Concluirei com dois aspectos dessa relação frouxa do sujeito neurótico,
especialmente o histérico, com seu desejo: que pode ele ensinar-nos sobre a
histeria como laço social e seu limite? A histeria, qualificada por Lacan, quando

* Respectivamente, "compulsão e dúvida" e "compulsão e atuação". (N.T .)


neurose e corutrução da fantasia 95

o sujeito é feminino, de teorizadora admirável, permitiu a Freud retomar a


questão deixada em suspenso pelo homem enquanto homem do prazer, que
havia logrado fazer nascer o desejo daquilo que, em última instância, realmente
convém chamar de revolução ligada à "tentativa de libertação naturalista do
desejo", produzida pelo século XVlll. A histeria, pela virada que a análise pode
produzir nela, deixa antever que contribui para instaurar um novo desejo, que
permite contemplar uma saída desse discurso ambiente do mestre que é o
discurso dito capitalista.
Depois, há na histérica essa reformulação do desejo, desde que a análise
possa fazê-la dar essa virada, e há também nela uma recusa acentuada em
relação ao mestre. De fato, podemos zombar do idealismo que atestam, ocasio­
nalmente, alguns sujeitos histéricos, de Florence Nightingale a Anna 0., e
outros. No entanto, ele realmente encarna, num aspecto, essa recusa a "comer
seu Dasein" tal como o mestre gostaria de fazê-lo ser consumido. Há na
identificação histérica um apelo a um novo desejo, que lhe permita lutar à sua
maneira, com dignidade, contra o que Lacan chamou, num dado momento, de
"degradação comunitária da iniciativa social".
5

Histórias em quadrinhos

Eu gostaria de lhes falar de um menino, René, que encontrei pela primeira vez
quando ele tinha três anos e meio, agora tem mais três anos, e continuamos a
nos freqüentar. Ele veio ver-me, acompanhado dos pais, porque era qualificado
de encoprético. Nessa idade, sem exagero, digamos que fazia cocô a torto e a
direito. Por outro lado, não tão a torto e a direito que não houvesse nisso uma
parcela de verdade. Não lhes falarei da análise dele como um todo, mas gostaria
de destacar uma seqüência, pelo tanto que ela me foi esclarecedora no tocante
à articulação da interpretação com a transferência.
Para chegar a isso, convém também vocês saberem que, durante um ano
e meio, a análise tinha-se dedicado a brincadeiras em que ele esparramava seus
brinquedos em meu consultório como se fossem merda: eles ficavam por toda
parte, sem que eu discernisse, entre os gritos raivosos e as ordens enunciados
por este ou aquele personagem da brincadeira, do que se tratava. Eu tinha apenas
um ponto de referência estabelecido: René havia-me instalado, na transferência,
no lugar do ladrão/roubado. Com efeito, numa ocasião de expor os brinquedos
que ele poderia trazer e as misturas que poderia fazer, eu me dera conta, um dia,
de que faltava uma peça de Lego provida de rodinhas. Falamos disso e encerrei
nossa discussão roubando-lhe uma semelhante, na esperança de recuperar a
outra. René ficou muito contente com nosso acordo.
Essa posição transferencial sofreu uma virada no limite da seqüência que
irá nos ocupar. Quero apenas exp,,r-lhes a situação desses problemas pouco
antes dessa virada. Tomarei como testemunho o desenho nº I : "Esta é uma casa
com mãos, faltam as j;:nelas. Se a gente entrar pela boca, então, entra pelos
banheiros." Efetivamente, se René tinha tantos problemas para fazer cocô no
momento apropriado, é porque lhe faltava o buraco no Outro em que introdu­
zi-lo. Veremos surgir o buraco, ou, mais exatamente, sua borda, na elucidação
de um corte. A seqüência que lhes apresento identifica-se com essa elucidação.

96
neurose e construção dafantasia 97

Mas, primeiro, foi necessária uma virada transferencial. De ladrão/rou­


bado, fui elevado à d ignidade de depositário. René confiou-me um sonho pela
primeira vez, ele que era atormentado por pesadelos quando dormia. "Tinha um
lobo passando em frente à cama. Tinha o Francisco [seu irmão] com o bando
dele, e eu contra os outros . . . Eu estava saindo da ilha das crianças, num barco . . .
Um automóvel parou e saiu dele uma coisa que cortava e que me fez sangrar.
No campo, quando eu sangrei, me puseram um curativo . . . Perguntei a um
conhecido se ela tinha um curativo ... Casimiro tinha me acompanhado para sair
da ilha das crianças e foi embora com o barco do capitão." Depois desse relato,
ele coloriu um "palhaço", tirado de um jornal apanhado em minha cesta de
papéis (desenho nº 2).
Como vocês vêem, René não se equivocou ao escolher seu palhaço
divertido, seu casimiro psicanalítico, ao qual acrescentou um boné com antenas.
Na semana seguinte, perguntou onde estava o desenho, porque "agora vou fazer
um buraco no palhaço, um buraco no olho dele". René, que havia atraído meu
olhar escondendo-se atrás do jornal, pôs-se a furar o olho do palhaço analista e
a apagar suas antenas, que vocês podem observar agora, depois de passada a
borracha. Na eventualidade de que eu não houvesse mais pensado no desenho
da casa em que faltavam as janelas, ele pintou cuidadosamente os dedos,
enquanto apagava.
Essa nova posição que René deu ao analista, palhaço cujo olho se podia
furar e que era possível tomar depositário de um sonho, parece-me ter sido a
passagem simbólica da qual a seqüência seguinte de desenhos e brincadeiras
seria a interpretação. Numa primeira acepção, a cascata de reorganizações
imaginárias que lhe deu sentido. Numa segunda acepção, o sonho enumerou os
elementos essenciais que permitiam interpretar as brincadeiras: um automóvel,
um corte, uma estrada, um ele que acabava se dirigindo a uma ela; a merda
espalhada pelos labirintos das brincadeiras assumiu o valor fálico do automóvel.
O primeiro efeito do relato foi um novo desenho de uma casa "cheia de
buracos" (desenho nº 3), e depois, na sessão seguinte, um rei-palhaço cuja mão
parecia prestes a se separar num cocô muito elegante (desenho nº 4). Em
resumo, desde que houvesse buraco, podiam-se meter as mãos nele. Por outro
lado, ele metia, mas se metia inteiro nesses buracos. Mais exatamente, passou
a traçar itinerários (desenho nº 5) em que apareciam "os canos do castelo das
abelhas", imensos tobogãs que desenhavam pontes que se cruzavam. No
interior desses canos não estava o automóvel do sonho, mas ele mesmo, sob a
forma da abelha, personagem da ilha das crianças (desenho nº 6). A sessão
terminou quando ele diferenciou o campo das abelhas e o dos zangões que iam
brigar pelo mel.
98 versües da clínica psicanalítica

A partir da pergunta interessante sobre o que separava as abelhas dos


zangões, René parou de trabalhar com a folha. Passou a praticar outra forma de
achatamento. Cortou tiras de papel do j ornal tirado da papeleira, colocou-as
cuidadosamente sobre o divã que havia no consultório e fez com que essas
estradas fossem percorridas por um carri nho manejado por ele. Aí vemos o
desdobramento, na brincadeira, do inverso do sonho. No sonho, um carro parava
e cortava, enquanto, aqui, foi ele que cortou as tiras para fazer circular o
anel-automóvel. Essa brincadeira se reproduziu por um certo número de
sessões, até o momento em que, muito decidido, de repente, em vez de cortá-las,
ele colou as tiras, assim imaginarizando uma multiplicidade de buracos, que
ocuparam o lugar do buraco do olho.

René deu o nome de "nave espacial" (foto nº 7) aos resultados dessa


colagem de tiras . Tinha toda razão, já que se tratava de problemas de espaço.
Foi um amassamento, no sentido como o Pequeno Hans amassou a girafa. No
seminário sobre "a relação de objeto", Jacques Lacan já dera todo o seu valor
à operação significante do Pequeno Hans, até então considerada como agres­
sividade imaginária, e me parece necessário admitir aqui a mesma passagem.

Na sessão seguinte, René retomou a questão abandonada da relação entre


as abelhas e os zangões. Começou por desenhar uma casa com andares -
"raramente faço andares", comentou -, e depois desenhou um sol e escreveu
seu nome. Em seguida, vieram uma garotinha e uma abelha; depois, ele recortou
a menininha, menos a cabeleira - "vou fazer ela de pano" -, depois o chapéu,
a fumaça e a abelha (foto nº 8). Perguntei-lhe se, mais tarde, ele moraria numa
casa com uma menina. Não! Ele não se casaria, se não quisesse. Permiti-me
insistir, e René respondeu que "não era obrigado", mas esclareceu que "as
abelhas só picam as meninas" . Ele havia entrado no consultório com um saco
de brinquedos, que cobriu com todos esses recortes, dizendo-me que ele estava
disfarçado de mulher, que entrava na casa e era transportado pela abelha.
A série de equipamentos de transporte constituiu-se assim: automóvel,
barco, nave espacial, abelha. O que se esclareceu nessa série foi a posição
particular do sujeito do transporte, limite entre o transportador e o transportado.
Esse limite não poderia reduzir-se à oposição continente/conteúdo, manifestan­
do-se como uma correlação entre o corte e a superfície. Foi ao inscrever esse
corte como a borda de um buraco que René elevou o objeto anal, impossível de
recortar, a uma dialética fálica em que este se tomou passível de cessão.
A sessão seguinte permitiu a René inscrever o objeto do transporte na
dialética edipiana. O pássaro do desejo (desenho nº 9) foi carregado com o nome
de René (ocultado aqui), enquanto, pela primeira vez, a família inteira foi
utilizada em relação ao pássaro carregador. Pode-se notar também que surge
uma linha, a que marca a superfície do mar, inscrevendo um corte na superfície
neurose e construção da fantasia 99

da folha. Quem leu a Naffativa da análise de uma criança, de Melanie Klein,


sabe a importância que ela atribuía a esse fenômeno, a ponto de ver nele a
separação entre consciente e inconsciente. Penso que o conjunto da seqüência
exibida por René nos dá margem a não nos satisfazermos com essa concepção
meio figurativa do risco do corte.
Só depois do pos�cionamento edipiano é que René pôde informar sobre
os valores mortíferos do objeto fálico. Inventou um pássaro-monstro a quem
deu aproximadamente seu próprio nome, inserido no meio (desenho n2 1 0,
nome ocultado aqui). Depois, o pássaro espacial começou a planar no espaço e
atacou um planeta, corpo matemo cuja cartografia ele havia começado.
O pássaro deixou rastros bem visíveis, que René procurou decifrar. Essa
marca do simbólico inscreveu-se nas diferentes hipóteses sobre a velocidade
do pássaro, que ele escreveu na margem (desenho n2 1 1 ).
Não nos limitaremos à cifra para simbolizar a merda. Numa sessão
subseqüente, René abriu o jornal, tirado da cesta de papéis, na página das
histórias em quadrinhos. Então, recortou uma tirinha de um modo especial.
Observei-lhe que ele havia simplesmente separado as palavras de quem as dizia.
"Cortei só as palavras ruins", confirmou. Pude então esclarecer que ele havia
"cortado as palavras ruins". Em seguida, ele pegou a folha e a dobrou, fazendo
uma nave espacial cujo nome me pediu para adivinhar. Era o "planeta das
palavras ruins", que fazia uh! uh! e que ele não queria mais escutar. Tinha na
barriga uns robozinhos que só diziam palavras ruins e queriam invadir a Terra.
Os terráqueos quebravam o planeta das palavras ruins e faziam dele uma nave
espacial. Então, a:s palavras ruins eram destruídas, tendo sido transformadas em
bichos pelos terráqueos, que assim podiam fazer investigações sobre eles. René,
por outro lado, fazia investigações todas as noites, tinha um caderno em que
tomava notas e uma tela em que podia ver o que acontecia dentro da casa. Isso
era segredo, ele não queria que seus pais soubessem. Tampouco queria, já que
o que fazíamos também era uma investigação, que eu fosse levado a repetir a
algum bandido, sem saber, tudo o que René tinha me dito.
Bem, realmente espero que não haja entre vocês nenhum bandido a quem
eu esteja repetindo, sem saber, essa investigação que elevou o objeto anal à
categoria das palavras ruins, separando a boca e os banheiros. Percorri com
vocês uma seqüência dela, marcada por duas viradas transferenciais. De fato,
foi uma outra virada o que a sessão das palavras ruins marcou: o depositário do
segredo foi então explicitamente designado como lugar de um saber. Essa
entrada em jogo do sujeito suposto saber abriu uma outra fase da análise. Talvez
um dia eu possa contá-la a vocês...
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Parte III

A PSICOSE E SEUS LIMITES


1
Vigência de três exigências deduzidas dos
ensinamentos de Lacan sobre as psicoses

Quero destacar, primeiramente, o fato de que sua presença é impactante, porque


permite avaliar aqui, em Córdoba, no interior do País, a importância da
transferência de trabalho que existe hoje com a Fundação do Campo Freudiano
na Argentina. Por isso, este seminário não apenas se inscreve como a apresen­
tação dos resultados de determinadas investigações, mas também como um
trabalho em comum.
Estamos preparando o V Encontro, o que significa quase dez anos de
trabalho conjunto. Já existem no mundo cinqüenta relatórios elaborados por
diversos grupos e instituições, dos quais cerca de quinze serão apresentados
pela Argentina. Alegra-me, portanto, estar aqui para escutar os resultados desses
trabalhos.
O seminário que darei também é resultado de um trabalho em comum,
desenvolvido no Setor Clínico do Departamento de Paris VIII e no seminário
de doutorado de Jacques-Alain Miller.
A primeira destas conferências tem como título "Vigência de três exigên­
cias deduzidas dos ensinamentos de Lacan sobre as psicoses", e quero acentuar
a palavra vigência, porque, quando se considera o movimento analítico em
geral, do ponto de vista das psicoses, pode-se constatar que nada tem vigência
nele. Já faz vinte anos que não há no movimento psicanalítico - se ele for
considerado em sua extensão - publicações sobre as psicoses que se possam
comparar ao que foi a Fase Áurea do movimento analítico sobre esse tema.
Creio que o último trabalho de peso foi de Winnicott, publicado em 1964, mas
que apresentava resultados de 1954. Psychotic States [Os estados psicóticos],
de Rosenfeld, por exemplo, saiu em 1 966. Embora o último livro de Rosenfeld
(que morreu quando a obra estava no prelo) tenha saído na Inglaterra há três
meses, os resultados nele apresentados não modificam decisivamente o que fora

109
110 versões da clínica psicanalítica

estabelecido em 1966. Portanto, creio não ser um exagero dizer que não há
aspectos vigentes no que tange às psicoses no movimento analítico atual,
considerado em sua extensão. O que há, de fato, são publicações no movimento
inglês sobre o que é explicitamente apresentado como diferente da psicose: as
explorações de D. Meltzer sobre o autismo ou a versão do autismo de Frances
Tustin, que dá outra causalidade a seu enigma.
Assim, de um lado, temos desenvolvido o autismo no movimento klei­
niano, e de outro, especialmente no movimento norte-americano, temos re­
flexões sobre os chamados borderlines, os casos limítrofes, que também não
são psicoses.
No que diz respeito a esse tema, a originalidade do ensino de Lacan reside
no fato de que, nele, há temas vigentes com referência ao enigma das psicoses.
Por isso, nós que lemos Lacan estamos procurando, precisamente, deduzir as
conseqüências do que foi a última exposição de suas reflexões sobre as psicoses:
seu seminário de 1976 sobre Joyce, "Le sinthome".*
Portanto, exporei algumas pontuações de seu ensino, que se apresenta,
peculiarmente, quase dividido, quase articulado a cada dez anos. Pode-se dizer
que, de 1936 a 1976, a cada dez anos, houve no ensino de Lacan uma
reformulação sobre o enigma das psicoses. Em 1 936, houve a articulação de
sua tese com o estágio do espelho. Sua tese apresentou-se como uma singula­
ridade na clínica francesa das psicoses, na medida em que foi muito determinada
pelo ensino de Jaspers, a tal ponto que é impossível entender a tese de Lacan
sem ler, ao mesmo tempo, a Psicopatologia de Jaspers, que insiste, precisa­
mente, na diferença entre compreensão e processo nas psicoses. Mas há que
fazer uma ressalva: o que Jaspers considera um processo orgânico é deixado de
lado por Lacan.
Podemos passar a 1 946, dez anos depois. Temos então o texto "Sobre a
causalidade psíquica", no qual Lacan reordenou sua tese e apresentou a loucura
como limite da liberdade. A citação exata é esta: "E o ser do homem não apenas
não pode ser compreendido sem sua loucura, como não seria o ser do homem
se não trouxesse em si a loucura como limite de sua liberdade." Nesse texto,
em que ele se opõe às teses de Henry Ey sobre a causalidade psíquica nas
psicoses, Lacan apresenta e articula a loucura como uma identificação do ser
com a liberdade - nas psicoses, o ideal ocuparia o lugar da infinitização da
liberdade. As referências a Hegel e à função do Ideal na lei do coração são claras.
Mas a função do Ideal nas psicoses, no texto de 1946, não permite pensar o que
seria posteriormente desenvolvido, no ensino de Lacan, como a passagem do

* Onde há um jogo de sentidos pela homofonia entre symptôme (sintoma) e saint homme
(santo homem), que nos poderia dar um título como "O sant'homem". (N.T.)
a psicose e seus limites 111

esquema normal, chamado esquema R, para o esquema transformado da


psicose, o esquema I, no qual o ideal do eu ocupa o lugar do Outro. A oposição
entre o Ideal e sua função e o Outro já se encontra no texto de 1946, sendo esse
o princípio que reordena secretamente a tese de Lacan: opor o lugar do Outro
ao lugar do Ideal.
Se recordarmos isso, poderemos pensar no que se desenvolveria depois.
Assim, esse ponto de 1 946 preparou o que, em 1 956, intitulou-seAs psicoses,
o Seminário 3, que foi o ponto de gravitação em que novamente se explorou o
campo das psicoses a partir dos resultados obtidos antes, unidos à aceitação da
tese do inconsciente estruturado como uma linguagem. O ideal não só é definido
do ponto de vista de sua função no estágio do espelho, como também, precisa­
mente, é deduzido da estrutura do Outro e em oposição a ele. O texto de 1 956
funciona muito bem para explicar certo tipo de fenômenos · nas psicoses,
justamente os que estão do lado do desencadeamento.
Desencadeamento foi um termo introduzido por Lacan no campo das
psicoses, que depois foi decisivamente confirmado. A tendência geral do
movimento analítico era, antes, considerar que não havia um desencadeamento,
mas uma acumulação de traumas que acabavam por produzir, num dado
momento, uma psicose explícita, embora o sujeito já fosse psicótico por vários
anos. A essa concepção continuísta, que destacava a continuidade, opôs-se a
concepção descontinuísta, descontínua, desse seminário. Esta consiste em
enfocar as psicoses pelo ângulo da estrutura do Outro em sua oposição ao ideal.
Assim, permite acentuar a descontinuidade, uma vez que o significante é
descontínuo, que se apresenta essencialmente como diferença e descontinui­
dade.
Convém dizer que essa apresentação produziu como efeito, nos alunos
de Lacan, duas coisas: pensar imediatamente num tipo de tratamento e propô-lo.
O sintoma desse momento foi o texto de Serge Leclaire, Em busca de um
tratamento psicanalítico das psicoses, onde ele expôs a seguinte idéia: se há
um déficit simbólico, então o tratamento está do lado do imaginário, como na
esquizofrenia, em que há justamente um déficit imaginário, e portanto, o
tratamento deverá consistir em propor um excesso ou uma prótese imaginária,
para reconstruir uma estrutura. Na paranóia, em que há um excesso imaginário,
há que produzir um vazio no imaginário e enfatizar uma prótese simbólica.
Enfatizar a prótese simbólica foi o que fizeram os que se denominavam
institucionalistas, ou seja, construir uma instituição como prótese simbólica
para acalmar os distúrbios imaginários. Nessa época, o conceito lacaniano de
"lei" foi usado para definir regras internas de funcionamento de uma instituição.
Pois era essa a lei que acalmava os que estavam supostamente em condições de
acalmar o sujeito psicótico.
112 versões da clínica psicanalítica

Por outro lado, propunham-se tratamentos que buscavam "devolver os


limites do corpo ao sujeito esquizofrênico", ou seja, inventar um imaginário
para o sujeito psicótico. Inventaram-se várias técnicas, o que creio já ter
enumerado no primeiro número de Escansión, no artigo "Procedimentos de
remendo": por exemplo, propor terapias com argila, nas quais se modelava um
corpo de argila, achando que essa estátua, produzida pelo próprio sujeito,
poderia funcionar como seu corpo. Isso sempre me pareceu uma paródia leiga
do Gênese bíblico. Equivale a construir um novo corpo "adâmico" e introduz
a ilusão de que o analista poderia manter-se na posição de Deus.
Mas essa apresentação do trabalho de Lacan em 1 956 também produziu
alguns desastres. Por exemplo, um homem como Laplanche, que nessa época
lia Lacan, sublinhou muito bem essa dificuldade em seu texto sobre Holderlin.
Pois, quando alguém acha que tem que ocupar o lugar de uma prótese simbólica,
ele se apresenta no lugar do pai, quando, justamente, a própria demonstração
de Lacan é que, quando alguém se apresenta no lugar do pai, ele desencadeia a
psicose. Obviamente, há uma contradição aí.
Não obstante, a apresentação de 1956 funciona bem em todos os fenô­
menos de descontinuidade. Convém frisar que alguns de seus aspectos não
funcionam muito bem - tal como em sua nova redação do ano de 1 958, o texto
dos Escritos cujo título é "De uma questão preliminar a qualquer tratamento
possível das psicoses"; o que não funciona é que não há referências às psicoses
infantis. Esse, precisamente, é um aspecto difícil de pensar pela vertente do
desencadeamento. Sintoma disso foi Françoise Dolto - que lia Lacan - ao
apresentar o caso Dominique, a quem ela descreveu, a princípio, como alguém
que apresentava uma neurose obsessiva, que depois, ao caírem as defesas,
passou para o fetichismo, e que, posteriormente, passou para uma paranóia. É
demais para um mesmo sujeito apresentar, simultaneamente, uma neurose, uma
perversão e uma psicose. Tudo isso nos dá uma idéia da dificuldade de articular
esse problema nas psicoses infantis.
Mas o propósito de Lacan não era apresentar uma teoria que pudesse dar
conta de todo o campo das psicoses em sua extensão, e sim propor uma
abordagem das psicoses que permitisse descartar o conceito central utilizado
pelos analistas nessa época: o conceito de projeção (quer em sua forma mais
simples, quer na mais sofisticada - a identificação projetiva elaborada pelos
kleinianos). Conceito essencial, pois foi a partir da identificação projetiva, como
mecanismo esquizóide essencial, que se abriu para os analistas o campo da
terapia das psicoses. Lembremo-nos de que Freud, no Abriss... [Esboço de
psicaruílise], expôs uma proibição: a impossibilidade de manter a transferência
nas psicoses. Os analistas responderam com a exposição de Melanie Klein dos
anos trinta, pela primeira vez, sobre o tratamento de um menino psicótico,
a psicose e seus limites 113

fundamentando em 1 946, com o conceito de identificação projetiva, a pos­


sibilidade de manejar a transferência nas psicoses. Vemos porque era crucial
para Lacan, nessa época, apresentar a organização das psicoses, não em tomo
do conceito de projeção, mas em tomo do conceito de resposta.
O primeiro exemplo tomado por Lacan em seu texto dos Escritos é a
alucinação do "porca", único exemplo de reescrita de uma apresentação de caso
de que dispomos. Nessa apresentação, no Hospital Sante-Anne, surgiu um fato
clínico que Lacan apresentaria como crucial, opondo, a partir desse fato clínico,
uma concepção das psicoses baseada na resposta no real a uma concepção
baseada na projeção. A projeção sempre supõe um sujeito anterior, que é a
condição de se projetar algo.
Convém sublinhar que a exposição do caso do "porca" não se articulou
da mesma maneira em 1 956 e 1 958. A diferença deveu-se a que, nesse ínterim,
Lacan leu o texto de R. Jakobson sobre os shifters, que foi publicado em 1957 :
"Shifters, verbal categories, and the Russian verb".
Vejamos as diferenças de exposição entre 1 956 e 1 958, porque elas me
parecem cruciais para entender a oposição ao conceito de projeção.
Em 1 956, Lacan sublinha que é o homem que vem pelo corredor em
sentido oposto à paciente que produz a mensagem, o "porca" que surge nesse
confronto imaginário, de modo que não se sabe se ele foi emitido ou pensado
por ela ou pelo outro, numa confusão entre o sujeito e o outro. O Outro
maiúsculo, como tal, é eliminado do circuito. Há um curto-circuito no imagi­
nário entre o sujeito e o outro com minúscula.
Quero destacar que Lacan apresentou essa paciente como uma psicose
declarada - diz ele: "era uma paranóica" -, e o interessante é que, nesse
diálogo com ela, não buscou o diagnóstico. Lacan estava buscando os fenôme­
nos elementares dessa psicose e, nesse sentido, essa é uma demonstração do
que é preciso buscar no diálogo com o sujeito psicótico. Lacan não sublinha a
temática ou o sentido do delírio - por exemplo, as reivindicações -, nem
tampouco procura situá-lo nas intermináveis classificações da psiquiatria; ele
busca os fenômenos incidentais, os que não se apresentam como centrais do
ponto de vista psiquiátrico. Trata-se, pois, desses pequenos fenômenos alucina­
tórios, como, por exemplo, o de "porca", ou como o outro caso que está algumas
páginas adiante, onde surge um significante, "galopiner". * Nesse segundo caso,
no entanto, não se tratava de uma psicose tão evidente.

* A propósito desse verbo, é interessante consultar a nota de Aluísio Menezes em sua versão
brasileira do Seminário 3, As psicoses (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1 985, p.363, nota 3).
(N.T.).
114 verstJes da clínica psicanalítica

Era essa a atitude de Lacan: buscar algo, não ,apenas •manter-se numa
posição passiva, mas buscar o elemento nuclear nas psicoses, que se apresenta
em tomo da produção desses fenômenos elementares. Lacan apresenta assim a
estrutura das psicoses, em função desses transtornos do ciclo pergunta-resposta:

A pergunta essencial é: quem sou eu? O sujeito não responde a essa


pergunta com projeções, mas, no próprio lugar da pergunta, articula-se uma
resposta que provém do real.

Vejamos como procede Lacan no Seminário 3: "( . . . ) confiou-me que, um


dia", diz Lacan, "no corredor, no momento em que saía de sua casa, tinha tido
que se haver com uma espécie de mal-educado, coisa com que não tinha por
que se espantar, já que era aquele desprezível homem casado que era o amante
regular de uma de suas vizinhas de hábitos levianos. Ao se cruzarem -ela não
me podia dissimular isso, ainda a magoava -, esse homem lhe dissera um
palavrão ( ... )." Lacan sublinha que a paciente procurademonstrar-lhe algo: "( ... )
sua preocupação fundamental era me provar que não havia nenhum elemento
de reticência, embora, ao mesmo tempo, não dando margem à má interpretação
por parte do médico, da qual estava certa de antemão". A paciente procura
demonstrar sua boa intenção, mas, ao mesmo tempo , alguma coisa a feria, e
portanto, ela não pode silenciar sobre esse fato. Havia surgido uma palavra e,
como Lacan também sublinhou, "( ... ) uma certa doçura que eu tinha posto �m
. minha aproximação dela fizera com que, após cinco minutos de conversa,
estivéssemos num bom entendimento, e então ela me confessou, com um riso
de concessão, que ela mesma não era totalmente inocente a esse respeito, pois
também dissera alguma coisa ao passar ( ... ) : Eu venho do salsicheiro."
No texto de 1958, Lacan apresenta as coisas meio que de maneira inversa,
dizendo: "Esse homem, portanto participante da situação a título indireto, e
figura aliás bastante apagada nas alegações da doente, havia lançado em sua
direção ( . . . ), ao cruzar com ela no corredor do prédio, o indecoroso termo
'porca! ' . Ao que nós, pouco inclinados a reconhecer nisso a retorsão de um
'porco ! ' , fácil demais de extrapolar em nome de uma projeção ( . . . ), lhe pergun­
tamos, muito simplesmente, o que nela mesma poderia ter-se proferido no
instante anterior."

Em 1 958, Lacan apresentou as coisas de tal maneira que surgiu primeiro


na entrevista a palavra "porco" e que, recusando a idéia de projeção, ele
perguntou "o que ela mesma poderia ter-se proferido no instante anterior" . No
texto de 1 956, Lacan não formulara as coisas exatamente assim; por exemplo:
"Se me dizem que há alguma coisa a compreender nisso, posso muito bem
articular que há uma referência a porco. Eu não disse porco, disse suíno. Ela
estava perfeitamente de acordo, era o que queria que eu compreendesse."
a psicose e seus limites 115

Então, parece que, nesses dois momentos, Lacan reformulou o próprio


desenrolar da conversa com a paciente. Num caso, acentuou o fato de que se
havia recusado a aceitar uma projeção, mas, falando com ela, dissera: "Então,
a senhora pensou em porco." E ela acrescentara o "eu venho do salsicheiro".
No outro caso, Lacan deixou de lado essa passagem pela projeção e apresentou
claramente apenas a articulação com a resposta, "eu venho do salsicheiro", que
se formulara nela como uma coisa que tamponava e se apresentava de maneira
simultânea à palavra no real. Parece-me essencial acentuar a idéia de rechaçar
o uso da projeção.

Por exemplo, vemos isso num outro caso, no qual se trata de uma mulher
que chega ao hospital depois de haver bebido o conteúdo de um frasco de
haloperidol, pouco antes de pensar que poderia prejudicar seus filhos - risco
justificado, pois isso havia acontecido em várias oportunidades.

O desencadeamento de sua psicose tinha-se produzido no restaurante em


que trabalhava como garçonete, onde ela ouvira uma pessoa a quem chamava
"o doutor", que costumava freqüentar esse restaurante, ouvira esse personagem
pronunciar algumas frases que ela não entendeu, exceto uma parte: " . . . que ela
era uma ninfa das águas." Então, a primeira coisa em que podemos pensar, se
nos referirmos unicamente à arte ocidental em geral, que nos apresenta uma
série incontável de ninfas perseguidas, atormentadas por sátiros, a primeira
coisa em que se pode pensar é que a mensagem aludia ao "doutor" como sátiro.
Mas, se a gente não se detém nesse mecanismo e pergunta à paciente de onde
tirou esse termo, ninfa, ela responde que o "encontrou num dicionário". O
problema é que fazia alguns meses que ela vinha consultando o dicionário. Não
conseguia falar durante o correr do dia e, quando voltava para casa, precipita­
va-se para o dicionário para verificar o sentido de todas as palavras que havia
empregado. "Ninfa", diz ela, "quer dizer empregada, eu queria ser empregada,
criada, queria ajudá-los segundo a B íblia, pois o que faço é andar à voz, esse é
meu trabalho." Essa definição de seu trabalho ("esse é meu ofício, andar à voz"
- em francês, marcher à la voix ) refere-se, precisamente, ao fato de que a
doente tinha que atender às ordens no restaurante, e fazia alguns meses que
interpretava isso como um "andar à voz". Esse responder à voz, de certa
maneira, era seu ponto de identificação ideal, seu ofício - essa identificação
ideal era o que ela chamava seu ofício. Esse pensamento se estabelecera a partir
da morte do pai, ocorrida dois anos antes, data a partir da qual ela passara a
consultar os dicionários e a Bíblia. Isso nos permite penetrar no núcleo de sua
psicose de uma maneira mais interessante que a indicada unicamente pelo
suposto médico como "sátiro".

A outra direção para a qual aponta a idéia de ninfa está vinculada a uma
lembrança infantil, a única lembrança infantil que ela possuía, na qual seu pflÍ
IJ6 versões da clínica psicanalítica

lhe dava uma bofetada no momento em que ela estava na margem de um rio,
muito perto da água, e sobre a qual ela diz: "Ele quis me proteger, eu não sabia
nadar."
A ninfa, para ela, não remetia a um sátiro, ou seja, ao que se poderia
imaginar como um gozo fálico transbordante, mas a algo muito pior, pois essa
única 'recordação infantil, uma bofetada do pai, ocultava o fato de que o pai,
aléoólatra violento, poderia espancá-la quase até a morte. Nessa lembrança
infantil ficara a suposta proteção do pai perto do rio, ou seja, das águas. Então,
a ninfa não remetia ao sátiro, mas a esse gozo infernal do pai, que poderia bater
nela até o ponto de ela se atirar na água, e era precisamente essa a ninfa das
águas, que surgia nessa lembrança infantil como o ponto de mortificação em
que o pai a fixara numa identificação mortífera, ideal, no sentido de o signifi­
cante ser a morte do objeto.
Portanto, nesse caso, a verdade é que o ser desse sujeito, em última
instância, surge sob essa palavra, ninfa, tal como, em 1 956, Lacan sublinhou
que no "porca" estava o ser do sujeito: "Eu, a porca, falo ..." Nesse caso, há que
sublinhar também que se trata de um "Eu, a ninfa das águas, falo". Trata-se de
um ser que se apresenta mais além da fantasia do corpo fragmentado, exata­
mente como o "porca" se apresenta, no texto de Lacan, como um "mais além",
apontando para um ser além da fantasia do corpo despedaçado.
Temos um exemplo, nesse texto de 1 956, de como proceder no diálogo
com o psicótico, sem nos referirmos a uma projeção, mas sim a uma resposta
que se articula no lugar de uma pergunta impossível de formular, a pergunta
"Quem sou eu?". Temos também um guia para pensar sobre a transferência,
não a partir da perspectiva da identificação projetiva, mas da perspectiva de
uma resposta.
Ao ler esses dois textos, de 1 956 e 1 958, vemos também que há outra
diferença. No texto de 1 956, Lacan apresenta o homem com quem a paciente
depara no corredor como o personagem destacado; em 1 958, ao contrário,
apresenta-o como alguém que é, antes, muito apagado nas alegações da mulher.
Em 1 956, Lacan fala de um delírio de vizinhança. Isso porque o perso­
nagem central era a vizinha de vida fácil - sempre que se usa a palavra vida,
é por antinomia, pois se trata, antes, de uma vizinha de gozo fácil - e,
precisamente, devemos sublinhar que, entre essa:; duas pontuações, o decisivo
é o posicionamento do gozo, do gozo transbordante dessa outra mulher, que se
apresenta, no caso, como "a vizinha".
Assim, sublinha-se a posição do objeto nessa alucinação, e então se tem
uma certa idéia de que, na transferência psicótica, o problema se situaria do lado
do gozo do analista, que ocuparia esse lugar do vizinho maléfico. A erotomania
a psicose e seus limites ll7

transferencial é a articulação entre o amor e o gozo maléfico, que pode situar-se,


nesse caso, no lugar do vizinho.
Vemos como, nesse pequeno exemplo, se o retomarmos, a transferência
e a interpretação situam-se de maneira diferente daquela em que se situari am
se fossem consideradas em termos de projeção. Tampouco se trata de conside­
rá-las pela perspectiva de uma percepção, tema este atual e vigente em relação
ao que foi em 1966, no movimento norte-americano. Por exemplo, H. Searles
ou Longs, para se oporem à teoria da projeção, dizem que a transferência não
seria uma projeção, mas uma percepção adequada da realidade da transferência.
Em primeira instância, propor a resposta dá-nos a idéia de que não se trata de
uma percepção, como os empiristas procuram sustentar, mesmo que seja
verdade que algo é percebido .:_ mas o que se percebe é uma resposta do real,
e não uma percepção.
Temos depois, no ensino de Lacan, um texto de 1 966, chamado "Apre­
sentação da tradução francesa das Memórias do presidente Schreber", que foi
publicado nos Cahiers pour l'analyse e cuja versão em espanhol vocês encon­
tram em Intervenciones y Textos 2, de Lacan.
Nesse texto, pela primeira vez, Lacan propõe a oposição entre o sujeito
do significante e o sujeito do gozo, que permite tirar muitas conclusões.
Tomo esse texto, que é um texto intermediário do período que foi de 1 964
a 1969, um período muito rico em textos sobre as psicoses. Destacarei apenas
quatro. Em primeiro lugar, o Seminário 1 I, onde há uma resposta à tese sobre
a articulação entre debilidade e psicose de um livro de Maud Mannoni, que
acabara de sair em 1 964. Lacan a contesta em seu seminário, dando um
posicionamento diferente do sujeito. Já comentei esse assunto no relatório para
o Encontro anterior e também num texto que foi traduzido na revista Descartes.
Hoje, a única coisa que quero sublinhar é que o Seminário 11 foi o
primeiro texto em que Lacan situou a psicose infantil de outra maneira, não do
lado da descontinuidade do significante, mas da continuidade de uma série de
casos em que o sujeito se articula com a fantasia, e não com o sintoma. Não se
trata da apresentação dos sintomas psicóticos como fenômenos elementares,
como alucinações ou como frases interrompidas. Lacan não apresenta o pro­
blema por essa vertente, mas a partir do posicionamento correto da criança
psicótica, pela vertente da articulação da criança com a fantasia da mãe. Na
época em que ela foi formulada, não teve conseqüências, mas as teve recente­
mente, depois dos trabalhos realizados na sessão clínica em torno desse tema,
a partir do qual se abriu um novo campo. Essa nova orientação não insiste no
desencadeamento. Lacan sublinha isso em seu Seminário I 1, onde diz: "( ... ) a
criança débil toma o lugar, no quadro, abaixo e à direita desse S, em relação ao
algo a que a mãe a reduz - ser o mero suporte de seu desejo num termo obscuro
118 versões da clínica psicanalítica

( . . .)", ou seja, o objeto a; e em seguida, ele diz que é por isso que "(... ) se introduz
na educação do débil a dimensão psicótica".
Pois bem, a introdução dessa dimensão no débil é diferente do desenca­
deamento de uma psicose num débil. Assim, desse momento em diante, Lacan
introduz o problema da psicose infantil a partir de um novo enfoque. Foi nesse
período, e não por acaso, que houve três textos: a conclusão de um congresso
organizado por M. Mannoni sobre a infância, "Infância e loucura", que se
realizou em 1 968, mas foi publicado em 1 969.
Houve também duas cartas de Lacan a Jenny Aubry, nas quais ele
contrastrou a dimensão da criança enquanto ligada ao sintoma da família ou à
fantasia da mãe, conceitos determinantes que introduziram uma outra dimensão
para pensar sobre os problemas referentes à clínica das psicoses infantis.
Depois, no ano de I 976, temos a apresentação do seminário sobre Joyce,
"Le sinthome", onde surge de maneira absolutamente nova a idéia do eu como
processo de remendo nas psicoses, como a fabricação de um eu pelo próprio
sujeito psicótico.
Joyce é alguém que apresenta uma psicose lacaniana, que ele define
muito bem: seu pai está vnwoifen para ele, há uma Ve!Werfung de tudo o que
é o pai para ele. Mas a contradição é que ele não apresenta uma psicose do ponto
de vista clínico. O interesse da investigação de Lacan em tomo de Joyce é
precisamente este: como é que alguém definido como louco, de acordo com a
própria definição lacaniana, alguém por quem a função do nome do pai é
completamente rechaçada, como explicar que ele não apresente uma psicose
clínica, e que somente sua filha a apresente? Se tomarmos esse seminário por
esse ponto de vista, o de Lacan contra Lacan, como explicar as coisas? Vê-se
que essa apresentação do sinthome, essa identificação de Joyce - o sinthome,
é diferente da de Schreber - a fantasia, porque há, efetivamente, uma inves­
tigação muito maior da fantasia em Schreber. Temos também Sade - a fantasia,
que Lacan relaciona com a perversão, apresentando o funcionamento da
fantasia em Sade em que se pode isolá-la do ponto de vista do posicionamento
do sujeito, enquanto, na psicose, a fantasia é do Outro (na psicose, o $ O a é o
$ O a do Outro).
Portanto, em 1976, Lacan produz uma nova orientação, que permite
repensar formas de estabilização nas psicoses, dado que, em 1 956, ele não tinha
mais do que a estabilização delirante, um conceito interessante que não foi
suficientemente trabalhado pelos alunos daquela época. Em 1 946, tudo o que
ele colocava era o ato, como aquilo que podia sustentar, que podia ocupar o
lugar do ponto de detenção. Por exemplo, no caso de Aimée, somente depois
de seu ato, de sua agressão física ao outro, é que ela pôde estabilizar-se, uma
estabilização que durou sua vida inteira.
a psicose e seus limites 119

Assim é que, em 1 976, a fabricação do eu, ou, como diz Lacan, a eleição
do eu, introduz uma dimensão diferente da do ato de 1 946 e da dimensão da
estabilização, tal como pensada no texto "De uma questão preliminar a qualquer
tratamento possível da psicose". Lacan escreve uma nota, no final desse texto,
sobre o ato de Schreber, e estabelece uma equivalência entre o ato de defecar
de Schreber e o ato agressivo de Aimée, apontando-os como um ponto de
detenção na psicose que produz uma estabilização. Assim, ele estabelece uma
oposição entre o que é, por um lado, a infinitização do sujeito, a dispersão de
seu delírio no infinito, e a reunião do sujeito no ato. Portanto, Lacan contrasta
a infinitização do sujeito em seu delírio, sua dispersão e sua reunificação.
Sublinhemos que essa função do infinito nas psicoses, já enfatizada em 1 956,
adquiriu uma nova definição em 1 976.
Podemos pensar retroativamente nessa série desses textos com a nova
definição do ato, não apenas do ponto de vista da ação, mas como o momento
em que o sujeito se unifica, o momento em que o sujeito obtém algo que o
desprende da cadeia significante. O que há em comum entre o ato de Aimée e
o de Schreber não é somente a ação, que é uma separação do outro que os
persegue. A separação obtida da atriz por Aimée dá-se no momento da agressão,
para que o Outro vociferante caia de uma vez por todas. Em ambos, temos :r
separação da cadeia significante. No ato de defecar de Schreber, produz-se nesse
momento o silêncio.
A psicanálise tem em comum com o budismo o fato de que não estamos
na psicanálise para falar; sabemos, por experiência, que cada um de nós fala
para, no final, encontrar a paz de se calar. Se é preciso fazer esforços para falar,
é para, no final, podern�o-nos situar num ponto onde o que existe não são
palavras, mas uma resposta, que, para os neuróticos, é a resposta do gozo. E
nesse lugar está, como sublinha Lacan, a paz, a justificação para o tormento que
é falar. No final, algo que não é um outro significante vem responder ao nosso
chamado, porque tudo o que um outro significante produz é o reinício do ciclo
infernal. É essa a razão por que, creio eu, Lacan fala muito bem do budismo em
sua "Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise", e aconselha
os analistas a não rirem dessa religião em que a pulsão de morte é diretamente
enfrentada.
Então, o texto de 1 976 obriga-nos a pensar nas outras três etapas a partir
de outro ponto de vista, precisamente com a introdução do sinthome. Para nós,
até agora, isso é um enigma. Creio que somente este ano, por exemplo,
Jacques-Alain Miller, depois desses anos de investigação sobre o tema, pôde
apresentar, em seu curso deste ano sobre "O que produz insígnia", o ineditismo
absoluto desse seminário de Lacan. Apresentar uma nova definição do sintoma
não pode ser entendido, quando não se leva em conta que, a partir dos anos
120 versões da clínica psicanalítica

setenta, Lacan destacou o significante, não como ligado a outro significante,


mas como o significante sozinho, o significante Um, S 1 . E essa função do S1
em sua solidão foi iniciada no seminário de Lacan que tem o famoso título de
"Il y a de I 'un" - dificílimo de traduzir -, "Há o Um". Esta, como Jacques­
Alain Miller estabeleceu demonstrativamente em seu seminário, foi a tese de
Lacan em resposta ao Parmênides de Platão. Trata-se da tese, da única tese que
a psicanálise pode aceitar sobre o que há. O que há não é o ser, o que há é o Um.
Isso permite pensar em todas as dificuldades que temos com a ontologia de
Lacan, com o fato de que a mulher não existe, o fato de que não existe relação
sexual: tudo isso é impossível de pensar quando não se leva em conta que o que
há é o Um.
A partir desse mesmo momento, o sintoma em Lacan muda de posição,
e a topologia lacaniana é precisamente o avesso da lingüística. A lingüística foi
o instrumento com que ele explorou o laço entre o S 1 e o S2; a topologia é o
instrumento que ele utilizou para explicar o significante sozinho.
O último ensinamento de Lacan articulou o S1 com o a, ou seja, há algo
no significante que se apresenta como o objeto a sozinho. Essa é a contradição
que nos impede de pensar na interpretação e no objeto. Essa dificuldade de
articulação da interpretação com o objeto, o ponto nuclear dessa oposição
central, reside em que todo o ensino final de Lacan centra-se nesse S1 e, como
demonstrou Miller em seus termos, na função sinthome. Quando essa articula­
ção entre S1 e a não é entendida, interpretamos mal a topologia em Lacan.
Lacan não pensou na topologia para uma articulação entre dois, repre­
sentados, por exemplo, pelo paciente e pelo analista, cada qual em sua posição
de significante Um e significante Dois, mas, antes, para apresentar a função do
Um sozinho, e na dificuldade da produção desse Um sozinho (S I ) no fim de
uma análise.
A segunda destas conferências será sobre os limites nas psicoses, preci­
samente a partir da oposição entre esse Um sozinho, isolado, e a questão da
infinitização ou da dispersão do sujeito no infinito.
2

A disciplina da entrevista
com o sujeito psicótico

A disciplina da entrevista com o sujeito psicótico é uma disciplina rude, muito


particular. Lerei com vocês, como um guia de ação, dois textos de Lacan que
todos vocês conhecem. Trata-se de duas passagens que comentam a alucinação
do "porca", de um lado, no seminário sobre As psicoses, 1 e de outro, no artigo
"De uma questão preliminar a qualquer tratamento possível da psicose". 2 Esse
guia de ação, eu o encontro no modo como o Dr. Lacan reescreve de duas
maneiras diferentes essa alucinação do "porca", surgida numa apresentação de
doentes feita no Hospital Sainte-Anne- a única de suas apresentações, diga-se,
aliás, que ele reescreveu com tamanha precisão.
O que é dito muda completamente entre 1 956 e 1 958, em virtude do fato
de que, nesse ínterim, como é explicitamente esclarecido, o Dr. Lacan leu o
artigo de Jakobson sobre os embreantes e o verbo russo, publicado em 1 957 e
do qual ele obtivera um exemplar.
Em 1 956, o Dr. Lacan apresenta o fenômeno que isolou, ou seja, o fato
de sua paciente ter ouvido a alucinação "porca!", como uma disjunção entre a
mensagem e a fala, dando à mensagem o caráter de um circuito fechado entre
a posição a do homem que se aproxima e a posição a' do sujeito, "eu venho do
salsicheiro". Nessa época, ele coloca a ênfase no aspecto de real, ali qualificado
de real da articulação, e remete explicitamente à descoberta de Séglas, em 1 892
(comunicada, de fato, num congresso de 1 889), da alucinação verbal motora,
qual seja, do fato de que o sujeito, no momento em que ouve a voz, articula o
texto que escuta provindo de fora. A partir dessa referência a Séglas, Lacan
esclarece que, na psicose, o sujeito não recebe sua mensagem de forma
invertida, mas ouve sua própria mensagem. Exatamente como na alucinação
verbal motora, o que o sujeito diz, ele o escuta como vindo de fora.
Em 1 958, as coisas dão uma guinada. Já não é na disjunção mensagem­
fala que se coloca a ênfase, mas na da mensagem e da intenção que a sustenta.

121
122 versc)es da clínica psicanalítica

O Dr. Lacan serve-se então do texto de Jakobson e, precisamente, da nova


maneira como este define a posição do sujeito, do embreante.
Segundo Jakobson, que se opõe a Husserl e a Russell, não é característica
única do shifter designar alternadamente todas as pessoas, como pensava
Husserl, nem tampouco, como supunha Russell, designar em cada ocasião uma
única coisa, mas, antes, ele é o único elemento do código que remete obrigato­
riamente à mensagem.
Assim, Lacan põe em jogo esse novo operador, essa nova definição
produzida por Jakobson. A partir daí, ele mostraria que o Outro não está excluído
do circuito a-a ' . Em 1 956, o Outro estivera presente enquanto lugar da verdade;
em 1 958, ele é reintroduzido como o próprio lugar do código onde há um
elemento que permite incluir o objeto visado na mensagem. Lacan define então
a palavra "porca" como rejeitada do Outro e produzida no lugar do sujeito.
Como ele diz, "no lugar ( . . . ) onde o objeto indizível é rejeitado" pronuncia-se
uma palavra.
Por outro lado, destacamos que, em 1 958, Lacan examina o binômio
mãe-filha sob o ângulo do delírio a dois, e observa que "é a filha que nos
[produz] esse 'porca' como prova das injúrias de que as duas [eram] objeto".
Em 1956, ele havia sublinhado, de maneira muito diferente, a dificuldade que
tivera para extrair esse "porca". A paciente, a princípio, não se mostrara muito
disposta, estava habituada às apresentações de casos, e isso o chateou. "Algu­
mas coisas, no entanto", diz ele, "puderam ser evidenciadas." Para começar, ele
sublinha que essa doente revelara-se wna pessoa encantadora, querida por
todos, com o melhor caráter do mundo, o inverso de uma personalidade
paranóica. O Dr. Lacan insinua-se nesse caráter: "uma certa doçura que eu tinha
posto em minha aproximação dela fizera com que, após cinco minutos de
conversa, estivéssemos num bom entendimento, e então ela me confessou, com
um riso de concessão, que ela mesma não era totalmente inocente ( . . . )". Graças
a essa doçura, revelou-se, pois, a personalidade não-paranóica desse sujeito
autenticamente paranóico, e a doente passou a demonstrar a seu interlocutor,
ele mesmo tão gentil, o quanto ela, que era uma pessoa tão boa, podia ser objeto,
de maneira absolutamente incompreensível, de atos maldosos. "Assim mesmo,
ela me confiou que, um dia", acrescenta Lacan, "no corredor, no momento em
que saía de sua casa, tinha tido que se haver com uma espécie de mal-educado,
coisa com que não tinha por que se espantar, já que era aquele desprezível
homem casado que era o amante regular de uma de suas vizinhas de hábitos
levianos." Guardemos, portanto, desse comentário do Dr. Lacan em 1 956, esse
primeiro aspecto da disciplina da entrevista. No momento em que nos dirigimos
a um sujeito psicótico, ele nos dá urna volta, não tem necessariamente vontade
de nos falar daquilo que lhe interessa. É preciso dispô-lo a isso. Se ele não estiver
a psicose e seus limites 123

disposto, não se conseguirá nada. Não se conseguirá nada de essencial, ou seja,


ele se manterá na fala comum. Para sair dessa dimensão da fala comum, onde
podemos muito bem manter-nos com um sujeito psicótico, é preciso tratar de
visar, como diz Lacan, o sujeito.
Abordemos, agora, o segundo elemento da disciplina da entrevista. No
texto de 1 958, o Dr. Lacan diz: "pouco inclinado a reconhecer nisso a retorsão
de um 'porco ! ' , fácil demais de extrapolar (; .. )". No texto de 1 956, ele falara
disso de um modo um pouco diferente. Havia observado: "( . . . ) eu sou como
todo o mundo, caio nos mesmos erros que vocês, faço tudo o que lhes digo que
não se deve fazer. Nem por isso tenho menos razão ( ... ). Eu venho do salsicheiro
- se me dizem que há alguma coisa a compreender nisso, posso muito bem
articular que há uma referência a porco. Eu não disse porco, disse suíno. Ela
estava perfeitamente de acordo, era o que queria que eu compreendesse.''3
Portanto, em 1 956, na entrevista, provavelmente tal como ele a transcreveu,
Lacan sem dúvida disse: "A senhora está nos dando a entender que era um
porco?" Ao que ela aquiesceu. Observe-se que ele não supõe a menor projeção
nesse "porco"; pára e lhe pede que ela desenvolva o "eu venho do salsicheiro".
Posteriormente, Lacan reconstruiria a disciplina essencial da conversa com o
sujeito psicótico, que consiste nisto: toda vez que o sujeito pronuncia uma
injúria que comporta essa parcela de obscenidade, não se deve jamais compre­
endê-la pela projeção. Se vocês se reportarem, inversamente, a pessoas como
Rosenfeld, verão que, ao contrário, sistematicamente, tudo o que o sujeito diz
é interpretado a partir da projeção, da projeção agressiva, ou, ocasionalmente,
da projeção de sentimentos eróticos.

Esses são, portanto, dois aspectos da disciplina da entrevista, dois as­


pectos que podem servir-nos de guia de ação. Para lhes mostrar as conseqüên­
cias disso na direção da análise, tomarei três exemplos, dois de uma psicose
evidente e um terceiro de uma psicose que não o era.

Primeiro exemplo de psicose evidente. Trata-se de um sujeito que chegou


ao hospital depois de ter bebido um vidro de haldol, com medo de fazer mal a
seus filhos. Efetivamente, essa mulher tinha todos os motivos para sentir esse
medo. O desencadeamento de sua psicose deu-se num dia em que, voltando do
restaurante em que trabalhava como garçonete, ela ouviu o médico, aquele a
quem chamava de "o doutor", e que era freqüentador habitual do restaurante,
pronunciar algumas frases que ela não entendeu, exceto uma, a saber, que ela
era "uma ninfa das águas".

Segundo a projeção, poderíamos compreender que ela queria dizer que


o médico era um sátiro. A arte ocidental mostrou-nos um número suficiente de
ninfas sendo perseguidas, espionadas, acariciadas e atormentadas pelos sátiros.
Basta nos referirmos a alguns dos quadros de Rubens. Mas, na verdade, não se
/24 versíies da clínica psicanalitica

tratava disso, e bastou levar essa entrevista um pouco mais adiante para perceber
que a paciente tinha sua própria definição dela mesma como ninfa. Indagada
sobre porque havia utilizado esse termo, onde o tinha encontrado, ela respon­
deu: "no dicionário". Na verdade, a partir de um certo momento, ela só se
sustentava na fala indo procurar no dicionário o sentido das palavras que tinha
ouvido. A palavra "ninfa", segundo descobrira, significava criada. Eis o que ela
disse exatamente: "Ninfa quer dizer 'empregada' , eu queria ser empregada,
criada, queria ajudá-los segundo a Bíblia, pois o que eu faço mesmo é andar à
voz, esse é meu trabalho." Seu trabalho de criada, daquela que andava ao
comando da voz, ela o estabelecera desde a morte do pai, dois anos antes, data
a partir da qual só suportava falar consultando os dicionários. Havia, por outro
lado, uma recordação infantil, a única que lhe restara do pai, que era a seguinte:
"Meu pai me deu uma bofetada quando eu fiquei perto de um riacho, perto
demais. Ele quis me proteger, eu não sabia nadar." Aí estão as "águas". Por fim,
destacamos que ela era inteiramente robotizada por aquele que pronunciara a
expressão "a ninfa das águas". Andava conforme suas ordens, desde esse
momento do desencadeamento - o que fazia com que se despisse nos locais
mais incongruentes, todos os dias, ao meio-dia e meia, isto é, no horário do
começo de seu serviço no restaurante. Assim, portanto, para ela, a ninfa não
remetia ao sátiro, mas a coisa muito pior.
Outro exemplo de psicose evidente. Trata-se de uma psicose desencadea­
da num sujeito - uma mulher-, quando ela estava fazendo a limpeza de uma
firma que chamaremos de ABM. Aqui, vamos destacar dois aspectos. Por um
lado, quando saía da empresa, ela ouvira dizerem que era a "miss ABM". Por
outro, no escritório de um engenheiro em que fazia a limpeza, ouviu, enquanto
olhava a foto de uma mulher: "não haverá uma segunda." Esses dois pontos
foram destacados, enunciados, diríamos, a partir do lugar onde as coisas
estavam em questão para esse sujeito. Voltaremos a isso.
Passemos agora a um exemplo de psicose não evidente. Trata-se de um
sujeito que chegou ao hospital num estado de extrema agitação, de uma grave
agitação alcoólica, depois de ter enfrentado violentamente o pai. Em seu dizer,
nada disso era grave, ele simplesmente tinha o hábito de brincar com facas à
noite. Atirava facas para o alto e achava que isso era uma ocupação que o
acalmava. As pessoas que lhe prestavam cuidados se perguntavam se, para ele,
isso era realmente um ritual capaz de acalmar sua angústia, aliás evidente, que
ele procurava afogar no álcool. Só que, vejam só, ele atirava suas facas, ou
mesmo tentava apanhá-las, de olhos fechados, com o risco de se ferir. Vez por
outra, poderia ferir a coisa que lhe era mais cara, que era um cão, se ele passasse
por pertó. Em outras palavras, ele atirava suas facas, não para repetir, mas para
ohter um sinal, um sinal de Deus. Sua vida, de fato, rotulava-se por essa etiqueta,
a psicose e seus limites 125

procurar obter um sinal, prever o futuro a todo momento, coisa que começara
a se manifestar pouco a pouco, desde os seus vinte anos de idade. Essa ligeira
defasagem temporal - levar a vida sempre procurando prever o futuro - é o
inverso da estrutura do a posteriori, e não uma tranqüilização obsessiva.
Sabíamos, por outro lado, antes do começo da entrevista, que ele gostava de
horóscopos. De que decorria, pois, nesse sujeito, a exigência de que sua vida se
pautasse na obtenção de um sinal? Foi preciso, para obter uma resposta a essa
pergunta, esperar uma hora e meia. Quando estávamos falando de suas brigas
com o pai, o rapaz me disse que ele era realmente um "cara" impossível. Por
exemplo, quando os dois estavam andando de carro, o pai lhe dera um grande
murro na cara. E acrescentou: "Ele está enganado, meu pai. Há quinze anos, fiz
isso com minha irmã e ela disse 'ai ! ' , quando eu nem sequer a tinha tocado.
Pois bem, agora ela está com câncer. E meu pai, atualmente, tem uma bola, e
eu fiz a mesma coisa com ele. Ele se enganou, tornou a me bater. Veja o senhor."
Ou seja, esse sujeito sabia. Sabia com um saber muito mais seguro que o da
faculdade de psicologia, da qual cursara um ano. Sabia com um saber certeiro.
A partir dessas três apresentações de casos, situemos agora o que nos é
útil quanto à direção da análise. O fato de havermos isolado esses fen ômenos
não é, simplesmente, de pura beleza estética. Lembramos, por outro lado, que
dispomos de um guia para a direção das análises de psicóticos, a saber, que a
estabilização vai-se produzindo na medida da feminilização do sujeito.
Tomemos o caso de miss ABM. Duas vias de feminilização apresentam­
se para esse sujeito: de um lado, ser a mulher que falta à ABM, ser a miss ABM,
o que lhe daria a posição de "A mulher"; de outro lado, ser mulher daquele
homem, o engenheiro. Se não houvesse, para esse sujeito, outra opção para se
feminilizar senão tornar-se mulher desse homem, poderíamos temer que ela
agredisse o objeto de sua escolha. Mas há um outro caminho para esse sujeito.
talvez tenhamos uma oportunidade para isso agora, e, na direção da análise,
será preciso guiá-la para essa outra feminilização.
Quanto a nosso primeiro sujeito, é em torno da metáfora delirante
produzida que é preciso fazer dele "uma ninfa das águas". Isso pressupõe, por
outro lado, que não se deixem a seu alcance muitas garrafas d'água nem muitos
vidros de haldol.
Quanto ao terceiro sujeito, não temos escolha. Se quisermos evitar que a
coisa acabe mal entre pai e filho, como é previsível, já que se trata de um delírio
a dois, pois o próprio pai é um paranóico confesso, será preciso mantê-los à
distância, ou seja, colocar o carro entre eles.
É isso, vou ficar por aqui; queria simplesmente mostrar que esses
referenciais dados pela disciplina da entrevista nos servem de guia para a
condução da própria análise.
126 verslíes da clínica psicanalítica

NOTAS
1 . J. Lacan, Le séminaire, Livre 1/l. Les Psychoses, Paris, Seuil, 1 98 1 [ O seminário, livro
3, As psicoses, versão bras. Aluísio Menezes, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985; 2ª ed.
rev., 1988].
2. J. Lacan, "D' Une question préliminaire à tout traitement possible de la psychose", in
Éc:rits, Paris, Seuil, 1966.
3. J. Lacan, Les psicoses, op. cit., p. 59 [As psicoses, op. cit.].
3

Afeto, signo*, certeza

Eu gostaria de destacar três conseqüências da teoria do afeto no ensino do Dr.


Lacan. Primeiro, o estatuto do signo na experiência, distinto do signo saus­
sureano. Segundo, a escolha de uma orientação prática da experiência, que pode
enunciar-se da seguinte maneira: verificar o afeto ou autenticá-lo. Daí se deduz
um corolário: verificar o afeto ou moderar o humor.
O afeto se apresenta como um signo que encontra meios de se alojar no
corpo, como o surgimento de uma significação na vida, no vivo. Ora, se a
experiência analítica demonstra alguma coisa, é justamente que a significação
é alheia à vida. Supô-la imanente à vida- como o sublinham, ocasionalmente,
ora o junguismo, do lado obscurantista, ora, do lado cientificista, aqueles que
supõem, na linha de Chomsky, que a linguagem é um órgão - evoca, na pena
de Lacan, uma referência a uma teoria pré-analítica, no sentido da química de
Lavoisier. Observa ele em 1 958: "A significação emana tão pouco da vida
quanto o flogístico, na combustão, escapa dos corpos. Caberia muito mais falar
dela como da combinação da vida com o átomo O do signo."

Lacan afasta-se radicalmente desse ponto de vista, designando o afeto


como uma função incorporada, a ser distinguida do incorpóreo.
Acompanhar a estrutura, em vez de precedê-la, não ter pressa demais em
sentir interesse pelo que existe antes, é assegurar-se do efeito da linguagem
sobre o corpo.
O corpo do simbólico incorpora-se no vivo, com duas conseqüências .
Primeiro, uma vez que o simbólico se incorpora no vivo, resta um incorpóreo,

* Convém ter em mente, na leitura deste capítulo, que o termo "signe" tanto se traduz por
signo (com as acepções de índice, símbolo, sinal, indício) quanto por sinal (como nas
expressões "dar sinal", "fazer sinal" e outras. (N.T.).

127
128 vers<ies da clínica psicanalítica

que Lacan reserva para definir o acesso à realidade para o sujeito. Ele evoca,
numa passagem de "Radiofonia" a propósito desse incorpóreo, três funções
matemáticas cujo simbólico produz a realidade: a função, na álgebra, a aplica­
ção, na topologia, e a análise, na lógica.
Em segundo lugar, enquanto o incorpóreo produz a realidade, a estrutura
produz o afeto. O que constrói uma oposição entre o corpo e o afeto. O corpo pode
estar morto ou vivo, mas nem por isso deixa de existir como corpo. Quanto ao afeto,
ao contrário, há que haver o vivo sobre o qual ele opere, donde o promovido tenno
"carnes": "Somente daquelas que o signo marca, para negativá-las, elevam-se, por
se separarem do corpo, as nuvens, as águas superiores de seu gozo..."
Entre o corpo e o que lhe acontece, temos um elemento carne que se
acomoda mal no corpo. O que Lacan designava em 1958 como átomo O do
signo, ou, nesse texto de 1 970, como as nuvens, leva-nos à nova concepção do
signo trazida pela psicanálise. Com efeito, reconhecemos nessas nuvens as
águas traçadas por Saussure em seu Curso de lingüística geral, numa metáfora
que lembro a vocês: "Se imaginarmos o ar em contato com um espelho d' água
( ... ), são essas ondulações que dão uma idéia da união e, por assim dizer, do
pareamento do pensamento com a matéria fônica." Coisa que Lacan, muito
precisamente, comenta assim em "A instância da letra": "Ferdinand de Saussure
o ilustra com uma imagem que se assemelha às duas sinuosidades, das Águas
superiores e inferiores, nas miniaturas dos manuscritos do Gênese."
É esse gesto de partilha que Lacan interroga em "Radiofonia": "Que não
se imagine, pelo que eu disse do significante, que o signo não é da minha alçada.
Porque, como psicanalista, é pelo signo que sou advertido." Assim, ele propõe
uma união diferente da união mítica entre o significante e o significado: o signo
como produto de uma reunião, definida como uma operação lógica. O que era
átomo em 1 958, Lacan o apresentou, nos anos setenta, a partir da reunião lógica.
A estrutura localizada do significante lacaniano é a teoria do signo que ela
implica, pela qual o vivo se une ao que não o é.
Que o sujeito, desde sua entrada em psicanálise, dá sinal logo no começo
da experiência, isso é um dado básico. Mas, de que é que ele dá sinal? Essa é
uma pergunta que Lacan inverte em "Radiofonia": a quem ele faz sinal?
Lacan situa a nova pergunta através de um apólogo: neste nosso mundo,
quando não se sabe o que fazer, quando já não se tem nem um "significante
com que cair morto, compra-se qualquer coisa para dar sinal de entendimento
do enfado, ou seja, do afeto de desejo de outra coisa, compra-se uma coisa
qualquer, um carro, por exemplo". Esse "dar sinal de entendimento", é para isso
que ele orienta a teoria do afeto. Nossos afetos são tentativas de dar sinal de
entendimento - diria ele, em outro lugar, de descarregar pensamento. E, em
"Radiofonia", Lacan apresenta, em seguida a esse apólogo, um certo número
a psicose e seus limites 129

de afetos, os de alegria, tristeza, tédio. Nessa lista, que ontem à noite, em Gand,
Jacques Alain-Miller apresentou a partir das paixões cartesianas primárias, há
também a admiração, que surge "quando se reconhece o tipo de mais-gozar que
faz com que se diga que 'isso é que é alguém' (... )". A admiração pode deslizar
- Lacan o assinala em seu texto - para o culto da personalidade, que faz com
que o mais-gozar da admiração penda para o sacrifício, para o emprego da
"carne de pancada do Partido ( . . . ) como baby-sitter da história". Se a carne não
funciona, pois que mude !, diríamos, parodiando Brecht. O que designa bastante
bem as relações da carne com o corpo.
Para dar sinal de entendimento, há que arriscar a própria pele. Do fogo,
o homem só dá sinal urinando-lhe em cima; alegria urinária, afeto que ele só
sustenta com a carne que empenha no fluxo urinário. Dar sinal de entendimento
é urinar no fogo, descarregar o pensamento. É esse o novo átomo O do signo
introduzido pela psicanálise, incorporado no corpo, como mostra a alegria
fálica. É preciso perder o objeto para que haja sinal de que o corpo está
implicado na jogada, de que há paixão. Lá está o Manneken-Pis* como
monumento a esse sinal de entendimento.
Agora, examinemos a orientação da própria experiência implicada nessa
consideração. O ato analítico implica que o analista não pense. Isso não o
protege do afeto. Ao contrário, diz Lacan na exposição de seu seminário sobre
o ato psicanalítico, de 1 967- 1 968, isso "deixa o psicanalista em suspenso, na
ansiedade de saber em que lugar situá-lo, mas para pensar a psicanálise sem
ficar fadado a faltar para com ela". É essa ansiedade que produz as doenças
profissionais do psicanalista, os "estigmas" impostos pela habitação do campo
freudiano. Há um estigma clássico no psicanalista, a que Lacan dá o nome de
hipocondria da middle age [meia-idade] ; ele sente que brota um órgão no
interior de seu corpo, o que ao mesmo tempo o perturba e o extasia. Esse órgão,
ele o chama sua escuta, e sabemos que, quando o psicanalista começa a se situar
mais ou menos na experiência, ele fica convencido de que "escuta" melhor, por
exemplo, do que os jovenzinhos em quem esse órgão ainda não brotou.
Esses estigmas denotam que o analista está preso à ansiedade de saber
onde se instalar para não ficar fadado a faltar com a psicanálise. Isso lhe dá, por
exemplo, a idéia de que existe um órgão, como o self, que responde ao apelo
da psicanálise, ao sinal que ela lhe faz. Aí, não se trata de urinar no fogo, trata-se
de discernir o self, de responder, atirando no fogo que o queima, esse órgão que
ele percebe. Lacan soube ler, num texto sobre a transferência e a contratransfe-

* Estatueta de bronze de J. Duquesnoy, que dá nome a uma fonte em Bruxelas e na qual se


inspirou Belmiro de Almeida para esculpir.ó Manequinho, que pode ser visto em Botafogo,
no Rio de Janeiro. (N.T.)
130 versões da clínica psicanalítica

rência em que Winnicott introduziu o se/f, a confissão de que a paixão de


Winnicott só tinha voz e vez quando saía dos limites.
Eu gostaria, para distinguir as orientações acerca do afeto, de tomar o
exemplo de uma análise de Winnicott, narrada por uma analisanda que deixou
marcas na história da psicanálise, por ter escrito o artigo prínceps sobre a
contratransferência: trata-se de Margaret Little, que publicou no ano passado
um relato de ardorosa autenticidade, totalmente movido pela ·paixão pela
verdade, para deserever o que foi sua análise com Winnicott - uma segunda
análise, posterior a uma primeira, de sete anos, com a Sra. Ella Sharpe.

Retomo uma única sessão. "Algumas semanas depois disso, durante uma
sessão inteira, fui tomada de reiterados espasmos de terror. Vez após outra,
sentia uma tensão que se construía em meu corpo todo, atingia o auge e se
dissipava, apenas para ressurgir alguns segundos depois. Agarrei-me às mãos
dele e as apertei com força, até que os espasmos foram-se espaçando. No fim,
ele disse achar que eu tinha revivido a experiência do nascimento ( ... ). Isso tudo
parecia combinar, pois foi o nascimento para uma relação, através de meu gesto
espontâneo, que foi aceito por ele. Esses espasmos nunca mais voltaram, e
poucas vezes atingi esse grau de medo."

De que se trata nessa sessão? De uma tensão, de alguma coisa que não
se acomoda no corpo, que não consegue encontrar seu lugar, inscrever-se nele,
que não tem um órgão que lhe convenha. Esse espasmo é aquilo que vem
acrescentar-se ao corpo, nova função posta em jogo pela psicanálise. Novo
mais-gozar, que lhe permite concluir por uma nova relação. O mais-gozar de
que se trata não é o de um nascimento revivido, mas, incontestavelmente, ela
foi tomada por um novo afeto. Eu lhe daria, com Lacan, o nome de admiração,
do mais-gozar do "isso é que é alguém". Todo esse texto de Margaret Little é
uma ode à admiração. Verificar o afeto não é autenticar, mas esclarecer os
mais-gozares que o provocaram.

O afeto é deslocado, exceto quando se transforma em certeza. A angústia,


para o neurótico, é o acesso a uma certeza, diz-nos Lacan. E o que é isso na
psicose? Não poderíamos dizer que, no sujeito psicótico, o afeto produz a
certeza como humor? Ao contrário da neurose, ele se produz fora do sujeito,
num corpo puramente exteriorizado, ou num outro de pura exterioridade. O
quantum afetivo, quando o sujeito se encontra na posição psicótica, remete
igualmente ao quantum de certeza que afeta o sujeito. Acredita-se, na psicose,
poder medir o afeto; o que se mede, antes, é o grau de certeza. A rapidez com
que um sujeito responde à ordem que lhe é intimada por uma voz - imediata­
mente ou depois de algum tempo - dá uma idéia da certeza de que ele está
tomado, independentemente da idéia delirante em si. Um sujeito pode enunciar:
"Eu morri". Mas isso é diferente de ouvir uma voz - "não, não uma voz",
a psicose e seus limites 131

acrescenta ele, "eu não sou maluco, isso são personagens; só que esses perso­
nagens se impõem por si e me dizem: acabou-se !" Aí, trata-se de um outro grau
de iminência. O afeto produz humor quando existe a certeza de que ele é um
sinal que vem do outro, uma careta do gozo de um outro a que todos os
significantes remetem.
Da exterioridade absoluta do corpo e da carne o sujeito dá um testemunho
através do delírio de negação dos órgãos, da síndrome de Cotard, que confirma
a oposição feita por Lacan, em "Radiofonia", entre o corpo e a carne. Também
uma outra síndrome confirma isso, à qual chamarei - não tendo encontrado
um nome na clínica clássica- síndrome de Jordan, o matemático que deu nome
às curvas fechadas. É nessas síndromes, mediante as quais o psicótico tenta
relacionar o significante com partes de seu corpo, localizar esse significante
através de um certo número de órgãos, que ele atesta o que efetivamente persiste
de incorpóreo no simbólico. Assim, um dado sujeito paranóide atestou, quando
veio ver-me num momento agudo, que precisava sacrificar-se cada vez mais,
porque sua sexualidade eterna estava morta. Precisava procurar em si, cada vez
mais profundamente, um órgão para sacrificar, o qual ele matava: não havia
nenhum afeto de alegria nessa oferenda sempre renovada, ofertada ao outro
divino, mas sim uma angústia louca de não mais encontrar carne alguma para
fritar* naquele inferno. Nesse ponto, corpo e carne eram absolutamente externos
um ao outro. O sujeito, em sua divisão absoluta, apresentava-se, simplesmente,
como a brecha da união impossível entre os dois.
Seu corpo, casca vazia, separava-se de uma carne espalhada pelas múl­
tiplas almas que o cercavam: o sujeito não encontrou palavras melhores, para
designar o estatuto dos outros minúsculos na catástrofe que estava atravessando,
do que "as almas dos que sofreram" - novas almas schreberianas perscrutadas.
Para concluir, eu gostaria de dizer que os que acreditam ter isolado na
teoria do afeto a falha do ensino de Lacan deparam com um paradoxo: uma
teoria que os desqualifica como psicanalistas. Um deles, Widlõcher, ex-vice­
presidente da IPA, observou que o sucesso do tratamento da angústia com as
benzodiazepinas, nas neuroses, faz com que, atualmente, o psicanalista já não
encontre sujeitos neuróticos, mas apenas borderlines, e os encontre em número
cada vez maior. Contudo, não se deve ler nisso uma descrição da realidade. Há
que ler aí, ao contrário, uma teoria do afeto que efetiva a perda do psicanalista,
desqualificado por ela, como dizia Lacan a propósito do self. Reformulemos do

* De ne plus trouver de chair à frire. A tradução usada aqui procurou preservar a idéia da
carne e o vínculo com a imagem do "inferno", logo em seguida, mas poderia ser "não ter
mais nada a oferecer"; convém lembrar que a frase francesa remete, alusivamente, a
expressões como "n 'avoir plus de quoifrire" (não ter onde cair morto) ou "n 'avoir rien à
frire" (não haver nada que se possa fazer). (N.T.)
132 versões da clínica psicanalítica

que se trata, na verdade, para os defensores dessa suposta teoria do afeto: já não
resta ao sujeito senão a personalidade - um limite para dar sinal de enten­
dimento de seu afeto do desejo de Outra-coisa.
Que o psiquiatra humanista de nossa época dê seu palpite, para advertir
contra a vontade de erradicar a base de angústia que constitui o homem, está aí
para nos lembrar, do lado da quimioterapia, o quanto ela verifica o afeto como
aquilo que se destaca ou não, em última instância, da estrutura química. Quanto
a nós, é preciso confirmarmos o afeto por nossa vertente, que é ética: o quanto
o sujeito está implicado nesse afeto.
Evidentemente, há milhões de homens que partem da evidência original
de que há uma dor de existir - Lacan lembrou isso -, que são os budistas. E
há os que, em nosso mundo, compreenderam que essa dor de existir era também
uma evidência sobre a qual era possível fundamentar uma igreja, como fez, no
Renascimento, aquele que melhor descreveu a melancolia, Robert Burton.•
Trevor Ropper, num estudo que o tomou por objeto, observou que ele era um
pilar da Igreja Anglicana e que, em seu retrato no Brasenose College, luzia "a
mischievous glint ", um brilho malévolo.
Eu diria que o psicanalista, por sua vez, reconhece a dor de existir como
sendo realmente uma evidência. Ele a chama de o menos-gozar, mas deve
discemi-la sem ter no rosto o menor brilho malévolo. É preciso discernir a
angústia de nossa época para enfrentá-la na ética do bem-dizer.

DISCUSSÃ O

Sr. X.
Eu gostaria de fazer uma pergunta a Éric Laurent sobre o trecho de
"Radiofonia" a que ele aludiu . Lacan fala em dar sinal de entendimento do
próprio tédio, e acrescenta: ou seja, do afeto do desejo de Outra-coisa. Não é
anódino que ele escreva Outra [Autre] com A maiúsculo e ponha um hífen antes
de coisa. Como entender isso?

Éric Laurent
A frase é: "Compra-se uma coisa qualquer, um carro, em especial, com
que dar sinal de entendimento de seu tédio, ou seja, do afeto do desejo de
Outra-coisa." Dá-se sinal de que há essa compra. O que dá sinal do afeto do
desejo de Outra-coisa. Outra-coisa, juntando o Outro e a coisa, ou seja, dando

* Robert Burton ( 1 577- 1 640) escreveu Anatomia da melancolia, uma compilação de autores
gregos e latinos que analisa a melancolia como condição da criação. (N.T.)
a psicose e seus limites 133

sinal do pequeno (a ) como causa desse desejo. Trata-se de tentar incluir esse
mais-gozar no Outro.

Guy Clastres
O comentário de Éric Laurent acerca do afeto e da certeza é uma questão
que está no cerne de todas as nossas jornadas. Perguntamo-nos o que produz
certeza nos afetos. Freud, em 1 895, distinguiu na neurose obsessiva três afetos:
o remorso, a cólera e a dúvida. Portanto, fez da dúvida um afeto. Isso não implica
a certeza. A idéia da certeza ligada ao afeto, como você lembrou em sua
exposição, foi Lacan que a impôs, a partir do momento em que abordou a
angústia. Por exemplo, uma cólera não dá certeza do Outro, dá certeza de
alguma coisa que resiste, de que os parafusinhos não encaixam nos buracos.
Mas a angústia, isso não engana.
A angústia, para quem ela instaura a certeza? Para o sujeito? Não é certo
que seja assim. Para Lacan, isso instaura a certeza, mas é preciso que ele a
imponha. É um dos paradoxos mais incríveis fazer uma articulação com uma
coisa que é da ordem do mais fugidio - o afeto - e, ao mesmo tempo, do mais
próximo, quer dizer, daquilo que é sentido, o que, na psicanálise, permitiria
supor que haveria uma substância: nela existem a certeza do desejo e a certeza
do dever concernente ao desejo do futuro psicanalista.
Foi só uma observação a respeito da relação entre a certeza e o afeto, ou
melhor, entre a certeza e a angústia, já que, afinal, a dúvida engana.

Éric Laurent
Fico muito contente por você ter citado o texto de Freud, já que há um
ponto de partida em que, muito claramente, na origem, vemos que a intuição
essencial de Freud sobre a questão dos afetos foi que isso é um \juízg. Em
particular, apresentar o remorso na série dos afetos e relacionar explicitámente
o remorso e a dúvida é puxar a dúvida para o lado do juízo. Há uma referência
lógica, inspirada em Brentano, e absolutamente essencial em Freud, a um j uízo
do sujeito. Por que a dúvida é da mesma ordem do remorso? O remorso é um
juízo sobre o gozo. A dúvida, a princípio, nos textos de Freud de 1 895, é,
efetivamente, um juízo, pois a experiência essencial da neurose obsessiva é um
excesso de prazer e, a partir daí, o juízo sobre o excesso de prazer é a dúvida
de que ele possa ser encontrado. As funções tais como o remorso e a dúvida são
muito precisas, para vermos que, desde o começo, para Freud, tratou-se -
embora ainda não houvesse a teoria dos textos de 1 9 16, as teorias da separação
do quantum de afeto e de seu deslocamento em relação ao destino da repre­
sentação -, houve ali, logo de saída, um esboço em torno desse juízo a respeito
do gozo: trata-se, portanto, desde o início, da ética. No que concerne à certeza,
sabemos que ela funciona num registro totalmente diferente do da neurose, e
I 34 versões da clínica psicanalítica

que, na psicose, essa transformação do afeto em humor é feita com uma medida
da certeza, uma medida topológica que permite saber qual é a implicação do
sujeito na iminência com que ele responde ao "acabou-se".

François Leguil
Você poderia esclarecer a relação, na psicose, entre o quantum de afeto
e o grau de certeza? De fato, na psicose, nota-se que, quando o grau de certeza
é muito avançado e o sujeito pode realmente atestar um aspecto de que ele está
seguro, há, em geral, pouquíssimo afeto.

Éric Laurent
Efetivamente, essas transformações mostram que escolher o afeto como
sentimento não é um bom referencial, mas que, ao contrário, captá-lo como
aquilo que vem fazer as vezes da paixão na psicose, e que é a certeza, com a
iminência que ela acarreta, fornece um referencial mais seguro.
Vou tomar um exemplo simples. Um certo sujeito veio me procurar num
momento agudo, dizendo: "É atroz, é horrível, para salvar minha sexualidade
eterna, eu sou obrigado a dar meu braço e a procurar cada vez mais longe, em
mim, o que dar aos outros, mas eles me retribuem com seu ódio, e eu morro
cada vez mais." Ele ficava vagando e se recusava a se instalar no que chamamos
de entre quatro paredes, não queria saber disso. Havia aí uma idéia absoluta­
mente delirante, uma certeza, mas eu a suponho eternizada: não havia uma
iminência de que ele acabasse com a vida.
Ao contrário, esse mesmo.sujeito voltou algumas semanas depois, dizen­
do: "Hoje de manhã, não foi uma voz, mas uns personagens que se impuseram
a mim e me· disseram: acabou-se." Aí, o quantum de certeza manifestou-se de
maneira absolutamente externa a ele, e havia um risco de que ele acabasse com
a vida. Eu lhe ·disse que ele precisava ficar do lado de dentro, e ele fez isso por
si. Nessa ocasião, havia de fato uma iminência.
Não podemos avaliar a ausência de sentimento quando a certeza psicótica
é adquirida, mas o sentimento de iminência sobrevém exatamente a partir do
momento em que isso é absolutamente externo e surge sob a forma de vozes:
aí, a certeza está implicada. A implicação do sujeito, que com isso faz a
verificação do afeto, pode levar à passagem ao ato, com conseqüências radicais.
4
Gozo, o sintoma
Singularidade de uma estrutura subjetiva

Roland B arthes, falando-nos da "morte do autor", situou apenas do lado do


leitor o ponto de enrolamento do tecido metafórico textual. Sem que se possa
suspeitá-lo de negligenciar o destinarário, Lacan sempre soube preservar o lugar
do autor, não se recusando a articular a fantasia com o texto literário, para além
de toda biografia. Ele até soube fazer surgir a função do autor, nesse sentido,
em textos clássicos, como Gide, e mais surpreendentes, como Kant com Sade.
O que acabaria sendo sabido até nos liceus.
Com Joyce, é de outra coisa que se trata. Já em 1 97 1 , interrogado sobre
a literatura, Lacan havia saudado a equivalência joyceana entre letter e litter*
como um sucesso obtido pelo artista, análogo ao que se pode esperar no fim de
uma análise. Depois, Jacques Aubert conseguiu, em 1 975, instigar Lacan a uma
conferência introdutória no simpósio sobre James Joyce, sob o título de "Joyce
le symptôme" ["O sintoma Joyce"). Foi durante o ano de seminário subseqüente
que Lacan focalizou "Joyce le Sinthome" ["O Sant' homem Joyce"], ali conju­
gando Rabelais e Joyce, dois escritores que souberam, no mais alto grau , deixar
que a escrita fosse invadida pela polifonia da fala.

Foraclusão de fato

Como todas as vezes em que Lacan abordou uma referência literária, não se
trata de explicar, mas, antes, de ver como se resolveu, em cada caso, a questão
formulada do ponto de vista da psicanálise. Nesse caso, tratou-se especifica­
mente do lugar da função paterna, que, em Joyce, situa-se de um modo muito

* Respectivamente, letra (ou carta) e lixo. (N.T.)

135
136 versiies. da clínica psicanalítica

particular. No sentido lacaniano do tenno e pelo próprio testemunho de Joyce,


houve um rechaço. Para ele, houve uma "foraclusão de fato" do Nome-do-Pai.
O pai de Joyce foi "absolutamente carente", não "transmitiu nada" ao filho,
confiando-o a uma instituição: os jesuítas. Lacan afastou até mesmo a interpre­
tação de que o Ulisses teria inventado um possível reencontro entre pai e filho.
Assim, como é que Joyce não foi psicótico, no sentido da clínica
psiquiátrica, e somente sua filha se classificou nessa categoria?
Lacan propôs uma pesquisa apaixonante, ao longo de todo esse ano de
1 975- 1976. Como havia Joyce conseguido, através de sua arte, "suprir essa
carência paterna"? Eis aí um poder não muito suspeitado da literatura: fazer
muito mais do que a quimioterapia, estabelecendo uma terapêutica etiológica
das psicoses.
Essa suplência, Lacan a abordou em três planos. Primeiro, na dimensão
do simbólico. De fato, Joyce não pôde contar com o Nome-do-Pai. O que veio
em lugar dele foi a "vontade de fazer um nome para si", que é preciso não redúzir
à vontade de reconhecimento pelo maior número possível de pessoas. Joyce
quis fazer um nome que surtisse efeito, que pusesse para trabalhar, que cole­
tivizasse não apenas um público de leitores, mas também de universitários, a
quem ele queria manter ocupados "por três séculos". Pôr para trabalhar é
diferente de aliviar o recalcamento dos semelhantes.

A tríplice suplência

Freud via na situação enaltecida do artista ajusta retribuição pelo alívio trazido
pela obra de arte para o recalcamento de todos. É exatamente aí que Joyce nos
levanta uma questão. Com efeito, o final da arte de Joyce, Finnegans Wake, deu
ensejo a que Lacan retomasse o comentário "de um semelhante": aquela
*
concentração de puns já não produzia nenhum efeito freudiano. Era uma arte
que não pennitia rir, pelo lado do leitor. Ora, sabemos que Joyce, por seu turno,
ria ao escrever Finnegans Wake, em prejuízo de sua mulher, que se considerava
abandonada. Eis aí uma arte curiosa, que abole assim o prazer do texto, mas
onde se aparelha o gozo do autor. Através do belo, Joyce conseguiu fazer um
nome próprio que coletiviza, aproximando-se com isso da função do signifi­
cante mestre. Foi produzindo esse nome que Joyce se manteve no sentido fálico.
No que concerne à ordem imaginária, considera Lacan, Joyce criou um
duplo, Dedalus, um "imaginário de segurança". É um imaginário duplicado,
como os gêmeos de Finnegans Wake, estase do "ego", como Lacan acaba por

* Trocadilhos, jogos de palavras. (N.T.)


a psicose e seus limites 137

chamá-lo. Nesse ponto, há que desconfiar: o recurso ao latim não é inocente,


não se trata de um eu no sentido em que os anglo-saxões o utilizam. Esse ego
só ganha profundidade quando se observa que esse imaginário é totalmente
alheio à estrutura de Joyce, como o assinalou Jacques-Alain Miller em 1 976
(cf. Analytica, n2 4). Mais do que um Bildungsroman, Dedalus é o romance de
uma Bildung propriamente dita.
Uma formação tanto mais útil para Joyce é que, em seu Retrato do artista
quando jovem, ele nos confia que um dos momentos importantes de sua
passagem pelos jesuítas a quem o pai o confiara foi o de uma perda de seu corpo,
quando um colega mais velho bateu nele. Se houve sublimação em Joyce, é
nesse ponto que Lacan a situa, ali onde "tornar sublime" só tem sentido em
relação ao corpo glorioso, ali onde o simbólico "se acomoda com o imaginário".
A construção desse imaginário tem a curiosidade, para Lacan, de não ter
mais nada em comum com qualquer figura da imaginação. O que há de
duplicado é que há um "encadeamento" do real com o imaginário. Uma
construção que tem eficácia najoy* de Joyce, no real de seu gozo.
Lacan, com efeito, sublinha que o autor não se contenta em suprir o
desejo, querendo fazer um nome para si, nem em suprir o corpo, fazendo para
si um corpo glorioso. Joyce também passa a confiar no sintoma. E é aí, sem
dúvida, que ele é interrogado com mais paixão por Lacan, e que a investigação
apresenta seu clímax. Do Retrato do artista a Finnegans Wake, a postura de
Joyce em relação ao sintoma é captada pela face de gozo, e não enquanto
simples metáfora. Tal como o pai, o sintoma não se reduz a isso. O inverso do
pai da lei é o pai de Totem e tabu, aquele que goza ao privar a todos das mulheres.
O avesso do sintoma é o sant' homem [sinthome] .
No fi m do Retrato do artista quando jovem, Joyce pode, "pela milioné­
sima vez, ir ao encontro da realidade da experiência e forjar na forja de
rninh'alma a consciência incriada de minha raça", e, para obter apoio nessa
moldagem, faz um apelo ao "velho pai, velho artesão". Lacan destaca essa
passagem para sublinhar seu caráter fútil e inoperante. Ao contrário, acentua o
fato de Joyce confiar numa coisa diferente do pai: "seus sintomas". O trabalho
de Jacques Aubert permitiu dar um nome a seus sintomas: são as epifanias,
momentos em que o gozo efetivamente se adensa. Ao fazer de O vilancete da
tentadorà a epifania prototípica, Aubert permitiu apreender como foi aí que
Joyce passou a confiar no gozo.
Com isso podemos situar o lugar da mulher de Joyce, Nora, que Lacan
mostrou ser paradoxal. Joyce mantinha com essa mulher uma relação psicótica:
"existia relação sexual" entre eles, porém marcada por um rebaixamento de

* Alegria, regozij o, júbilo. (N.T.)


138 versões da clínica psicanalítica

caráter particular: "ele se arranjava com ela com a mais viva repugnância, foi
por depreciação que fez dela uma eleita." Esse rebaixamento fixou uma relação
não menos postiça do que o ego forte de que ele veio a se vestir.

Translingüística

A obra de Joyce, com efeito, generalizaria "os" sintomas, os entrelaçamentos


locais da língua que atam o corpo, o gozo e o simbólico. Finnegans Wake, para
Lacan, é o momento em que a relação de Joyce com a linguagem deixa de
ensejar sintomas, tomando-se o momento em que ele "reduz a relação com a
linguagem ao sintoma". Os equívocosjá não tocam o inconsciente em ninguém,
no momento em que ele recorre a uma homofonia geral e translingüística. Lacan
fala, a propósito disso, no "sintoma transposto para o gozo da linguagem". Uma
linguagem que não é, para Joyce, retirada da língua materna, mas da "língua
entre outras" que é a do senhor da Irlanda.
Uma vez atingido o momento em que Joyce criou a suplência nos iiés
registros, do imaginário, do simbólico e do real; o próprio nome Joyce passa a
não ser mais que o do sintoma, tomado por sua vertente de gozo. Assim,
traduzamos o Nome próprio: gozo, o sant'homem.*

* Vale lembrar também que Joyce é um homófono quase perfeito dejoys, plural dojoy que
integra seu nome e que tem no latim ga udium e ga udeo e re a mesma origem etimológica
,-

de enjoy (gozar, desfrutar de) e rejoice (regozijar-se). ou de seus equivalentes francesesjouir


e réjouir. É mais uma possibilidade de "tradução" do sobrenome porjouissance gozo. (N.T.)
,
5

Os limites da psicose

São eles, para começar, os que a psicose instaura para a psicanálise. Cons­
tatamos, desde o fim dos anos 60, que não há novidades nesse campo. Quaisquer
que sejam as correntes do movimento psicanalítico, as Escolas ou os países, os
exempla remontam à primeira parte dos anos 60. O Congresso Internacional de
Montreal de 1969, em seu intuito de fazer um balanço, marcou, antes, o limite
de uma interrupção, após vinte anos de publicações extremamente ricas. Ainda
que alguns trabalhos. como os de H. Searles, pareçam mais recentes, seus
reultados foram essencialmente obtidos no fim dos anos 60. Não é à toa que o
último livro de Rosenfeld, 1 póstumo, traz em seu título uma referência ao
impasse.
As publicações mais recentes abordam a psicose, efetivamente, pelo que
a rigor não é psicose. Citemos três linhas de pesquisa: os distúrbios do humor,
o autismo infantil e os casos fronteiriços: Se nos limitarmos às datas das
publicações essenciais sobre os casos limítrofes - O. Kemberg, Borderline
Personality Organisation, 1 967; H. Kohut, The Analysis of the Self, 1 97 1 ; J.
Bergeret, Les États limites, 1970; e a obra coletiva de L. Grinberg, R Grinker,
D. Klein, M. Mahler etc., Borderline Personality Disorders, 1 977 -, teremos
a sensação de que as publicações sobre os limites da psicose substituíram as
publicações sobre a psicose em si. Essa profusão de abordagens e doutrinas deu
ensejo, desde o início dos anos 80, a exposições sistemáticas - por exemplo,
D. Widlõcher, Le concept d 'état limite, 1 980 -, bem como a advertências: P.
Bourgeois, "Les états limites borderline, diagnostic à la mode, classe nosogra­
phique contestée" ["Os estados limítrofes borderline, diagnóstico em voga,
classe nosográfica contestada"], 1 980. Pior ainda, na pena de outro autor, um

* Ou casos limítrofes. (N.T.).

139
140 versües da clínica psicanalítica

estado limite dentro do estado limite. Deixemos de lado essa enumeração. Não
queremos dizer, com isso, que tal entidade tenha surgido inteiramente pronta
nos anos 70 e que não tenha história nem pré-história. Queremos assinalar que,
nesses anos, ela mudou de estatuto e de sentido.

Nova entidade ou nova clínica

Um autor recente introduziu, ele mesmo, essa questão : "Foi a partir de uma
prática psicoterápica e de uma teorização psicanalítica, em particular norte­
americana, que esses autores e, depois, muitos outros contribuíram para destacar
novamente o conceito de estado limítrofe ( . . . ) o que se observa é uma nova
clínica [grifo nosso] , que se inscreve na prática psicanalítica e, por assim dizer,
2
surge da prática psicanalítica."
Tomarei a recente publicação do livro de R. Wallerstein, 42 Lives in
Treatment [42 Vidas em tratamento],3 recente demais para que pudesse ter sido
incluída na excelente bibliografia da EMC, para sublinhar que os estados
limítrofes não teriam tido a acolhida que lhes é dada atualmente sem o projeto
da Clínica Menninger, do qual a obra de Wallerstein foi o coroamento. Além
da personalidade de D. Rapapport e à parte os esforços da clínica de Austen
Riggs, foi o projeto impressionantemente ambicioso do mais importante es­
tabelecimento norte-americano dedicado à interface psiquiatria/psicanálise que
deu esses frutos. A maioria dos autores que publicaram textos sobre essas
questões, com exceção do grupo de Chicago, passou por esse projeto. Os outros
definiram-se a favor ou contra. No gênero empírico, nada se equipara a esses
35 anos de 100% de follow-up [acompanhamento] , e a própria amplitude do
projeto nos faz formular a mesma pergunta que Allilaire, porém com outra
ênfase. Será que se trata de uma nova contribuição clínica ou de uma nova
clínica? Conforme a resposta que se dê a essa pergunta, concorda-se quanto a
um sentido restrito ou generalizado do termo estado limítrofe. Há aí uma
doutrina do sintoma.

O estado limítrofe no sentido restrito

A melhor expositora do sentido restrito parece-me ser a Sra. Lempériere,


quando o apresenta assim: "Pouco utilizado na literatura psiquiátrica francesa
até os últimos anos, o termo estados limítrofes deixou de ser o saco de guardados
nosológico ( . . . ) os estados limítrofes sempre existiram, ainda que nem sempre
tenham sido reconhecidos. [Trata-se de] uma verdadeira entidade clínica que
se define por exclusão - nem normalidade, nem neurose, nem psicose - e
a psicose e seus limites 141

que remete a um diagnóstico estrutural essencialmente marcado pela suspensão


4
do desenvolvimento das funções do eu." Ela seria um "cuidado dos clínicos
que, preocupados em ampliar a eficácia clínica da psicanálise, depararam com
uma multiplicidade de inclassificáveis, que não entravam nem no grupo dos
neuróticos, nem no dos psicóticos, a ponto de pôr em dúvida os próprios
princípios de classificação. As mais radicais declarações fazem-se ouvir a esse
5
respeito".
Mas, justamente, não seria essa prudentíssima declaração indissociável
das declarações mais radicais sobre os borderlines, introduzidas por J. F.
Allilaire? Poderemos realmente contentar-nos em admitir essa entidade suple­
mentar, centrada no desenvolvimento do eu, sem perder a confiança no desen­
volvimento do sintoma? Examinaremos essa oposição num dos mais eminentes
expositores norte-americanos.

O sentido generalizado:
uma doutrina de desconfiança em relação ao sintoma

6
Ao introduzir seu livro sobre as personalidades narcísicas, O. Kemberg
sublinha a continuidade da tradição em que se fundamenta. Trata-se de concluir
o projeto anna-freudiano, iniciado em 1936, de descrição dos mecanismos de
defesa do eu num continuum. Esse projeto havia fracassado ao esbarrar num
certo número de aporias. Kemberg propõe uma solução, recorrendo não a uma
continuidade cronológica, mas a uma continuidade estrutural das reações de
defesa do eu. O que de fato lhe permite organizar esse continuum é isolar o resto
da operação - a ameaça, em cada estase, que paira sobre a consistência do ego,
o fator negativo que mina a coesão obtida em cada ponto. Ele faz uma lista
exaustiva de todos os mecanismos que também trazem em si o germe da
destruição do eu: clivagem, idealização primária, recusa, identificação projeti­
va, onipotência etc. Desse rol de negatividades, presente nas diversas estases
da personalidade a título parcial, faz, quando ele se acha inteiramente presente,
uma categoria estável como tal: o estado limítrofe. "Os pacientes fronteiriços
têm um eu mais bem integrado do que os psicóticos sob todos os aspectos,
7
exceto no caso das relações humanas íntimas." É o exceto que explica o
desencadeamento das psicoses transferenciais, porém, uma vez aceita a cate­
goria, ela permite suturar o continuum da patologia da personalidade. "O
esforço atual ( ... ) baliza duas perguntas: l . Será possível estabelecer um
diagnóstico diferencial claro entre todos os grupos de personalidades? 2. Não
haverá o risco de uma perigosa rigidez ao se tentar fixar a patologia da
personalidade ao longo de um continuum? Respondo que um diagnóstico
diferencial e descritivo é possível e que de fato se pode situar experimental-
142 versões da clínica psicanalítica

mente o paciente ao longo de um continuum, conforme a gravidade da patologia


da person � idade. "8 Uma vez realizada essa sutura, a partir dos mecanismos de
defesa, Ktmberg enuncia o novo estatuto que reserva para o sintoma: "O
paciente apresenta-se com o que se afiguram, à primeira vista, sintomas
neuróticos típicos, mas o diagnóstico final depende da patologia do eu
característica, e não dos sintomas descritos. "9 Deixaremos de lado, aqui, o
exame do que ele chama de sintomas típicos, conservando apenas o mecanismo
pelo qual ele explica tanto alguns desencadeamentos surpreendentes quanto as
estabilizações felizes. Para além do sintoma, é a uma certa coerência da
personalidade que ele recorre.
A solução de Kemberg realmente parece ter sido a que resolveu, na IPA,
a aporia sentida por todos entre as funções do sintoma e as da personalidade,
no sentido da ego psychology. Quando há discordância, ela se dá no nível das
origens distintas no eixo do desenvolvimento. Alguns defendem uma origem
isolada, outros, uma origem comum com linhas de desenvolvimento disjuntas,
ou ainda, duas linhas de desenvolvimento dependentes urna da outra. Conforme
o ponto de vista, pode-se tomar o borderline por uma forma pseudoneurótica
da esquizofrenia ou, inversamente, por uma forma de neurose com mecanismos
psicóticos; para não tomar nenhuma decisão categórica, também podemos
instalar-nos na questão axial do narcisismo.
A posição de síntese mais rigorosa é, sem dúvida, a sustentada por D.
Widli:icher, que, como observa J. F. Allilaire, "rejeita qualquer noção de exclu­
são estrutural entre a neurose e a psicose, e propõe a idéia de um equilíbrio
dinâmico entre processo psicótico e processo neurótico, o que permite situar
esses pacientes ao longo de um continuum nos processos mentais". lO
Foi no exato momento em que a ego psychology propunha sua nova
clínica que o ensino de Jacques Lacan destacou novas perspectivas de trabalho,
a partir de uma reformulação da função do sintoma na experiência analítica.

O retorno ao sintoma

Os anos 70, nÓ ensino de Lacan, assistiram ao desenvolvimento de uma nova


extensão da "passagem direta" do simbólico para o real, bem como a uma nova
11
definição do sintoma. J.-A. Miller mostrou a concomitância e a coerência
disso. É a partir daí que convém retomarmos a questão da clínica das psicoses
na transferência, seu desencadeamento e sua estabilização. A ênfase sempre
colocada por Lacan no envoltório formal do sintoma dá à pesquisa todo o seu
espaço, ao lado dos chamados sintomas típicos da neurose, dos fenômenos
elementares, segundo o termo utilizado por Clérambault e generalizado por
Lacan.
a psicose e seus limites 1 43

Entretanto, o interesse pelo sintoma não está apenas em nos despertar


para o desencadeamento sempre possível, no caso da presença de fenômenos
elementares, mas também em nos permitir conceber os resultados da es­
tabilização sob transferência. Não acabaria o sujeito psicótico produzindo-se
como aquilo que falta na psicanálise? Fora do discurso, não poderia ele, no
entanto, vir a se produzir como sant' homem [sinthome] da psicanálise?
É essa a perspectiva a que nos conduz o seminário de 1976 sobre "Joyce
Ie sinthome". O autor de Ulisses, cujo pai era "absolutamente carente", faz-nos
entrever, pelo "remendo de seu ego", uma nova definição do sintoma como o
real de um imaginário de segurança. Se a personalidade se afigura à ego
psychology como a possível suplência do sujeito, isso não deixa de ter relação.
Mas não é da mesma suplência que se trata ao produzir a personalidade ou o
sant' homem [sinthome] .

NOTAS
I . Rosenfeld, H., Impasse and lnterpretation, Londres, 1987.
2. Allilaire, J. F., "Les états limites", Encyclopédie médico-chirur. gicale, Paris, 1 985.
3. Wallerstein R., 42 Lives in Treatment, Nova York, 1 986.
4. Lempériere, T. e A. Féline, Abrégé de psychopathologie, Paris, 1 977, p. 1 40.
5. Lempériere, T. e A. Féline, op. cit., p. 140- 1 .
6. Kernberg, 0., Borderline Conditions and Pathological Narcissism, Nova York, 1975,
traduzido por D. Marceli com o título Les troubles limites de la personnalité, Toulouse,
1979; - La personnalité narcissique, Toulouse, 1 980. As citações foram extraídas do vo­
lume I, Toulouse, 1 979.
7. Kernberg, 0., op. cit., p. 68.
8. Idem, p. 4 1 -2.
9. Ibid., p. 30.
lO. Allilaire, J. F., artigo citado. A esse respeito, podemos ver o prefácio de D. Widlõcher
à edição francesa da obra de Kernberg, 1 975, vol. I, p. 1 O.
1 1 . Miller, J.-A., "Ce qui fait insigne", curso do Departamento de Psicanálise da Universi­
dade de Paris VIII, ano letivo de 1986- 1987 (inédito).
6

A psicose: ato e repetição

Ato e repetição são o que está em primeiro plano na psicose. Veremos isso. Eu
disse a mim mesmo que o título destas Jornadas caía bem, já que a ênfase na
psicose esforça-se por responder ao mal-estar que existe não apenas, como dizia
Serge Cottet, na clínica psiquiátrica, mas também na clínica analítica das
psicoses. Faz vinte anos que o movimento psicanalítico em seu conjunto não
produz nada de valor sobre a psicose como tal. A música moderna é uma
nostalgia, dizia Boulez. Pois bem, a contribuição psicanalítica sobre as psicoses
é também uma nostalgia. A boa nova é que, doze anos atrás, Jacques Lacan fez
seu seminário sobre Joyce, "Le sinthome". Mas, afora isso, verificamos, ao fazer
uma crítica do movimento psicanalítico em seu conjunto, que todos os resulta­
dos foram obtidos nos anos 60. Já não há exempla. Ora, vocês sabem que os
psicanalistas funcionam muito pelo exemplum - pelo exemplo sobre o qual há
que meditar. Assim que Freud teve de realizar um congresso internacional de
psicanálise, a primeira coisa que fez foi explicar o caso do "Homem dos Ratos".
Era sua contribuição para estruturar a neurose obsessiva, que ele considerava
sua invenção. Assim, forneceu a planta e a cartografia dela. Esse exemplum
estruturou o movimento psicanalítico. Sabemos que, depois da segunda tópica,
não houve nenhuma análise exemplar. Essa foi uma das coisas que permitiram
a desestruturação do movimento psicanalítico em torno da ego psychology.
O exemplum: perguntei a mim mesmo como não falar disso em Clermont­
Ferrand, já que esta cidade tem em sua catedral vitrais que difundem profusa­
mente a função do exemplum num novo credo. Aliás, esses vitrais, feitos em
1 1 85, levantam um problema muito interessante para a história da arte. Aconse­
lho-os a irem vê-los. Especialmente os da capela de Sant' Ana. Ela não tem mais
esse nome. Contém oito vitrais que, segundo Louis Grodecki, levantam um
problema importante. Eles foram feitos antes dos grandes vitrais da escola de

144
a psicose e seus limites 1 45

Paris e, como têm uma influência bizantina extremamente acentuada, não


sabemos muito bem como podem ter contribuído para o nascimento da "arte
clássica dos anos 1 200". Esses exempla colocam-se em tomo de um certo
número de santos - Sta. Ágata, que reage a seu prefeito Quintiliano e se recusa
a se entregar a ele, ou a queóda Sta. Margarida, que por sua vez recusa-se a se
entregar a Olybóus. Este ficou na linguagem, aliás .* Lá estão esses dois
camaradas exibindo um gozo obsceno, querendo aproveitar-se daqueles corpos
gloóosos de mulheres jovens, e, ante a recusa delas, não encontram nada melhor
para fazer do que cortá-las em pedaços. Despedaçam-nas com um vigor
extraordináóo, repetidamente, porque, por mais que as decepem, não conse­
guem gozar com isso. Elas renascem sem parar. Isso confere um caráter sadiano
a esses vitrais : uma sucessão de vítimas cada vez mais belas, que é preciso
decepar cada vez mais. É a exposição do gozo feroz de um Outro - um Outro,
aliás, escolhido como estrangeiro, já que as perseguições dizem respeito a S .
Jorge, um santo oriental, e a Sta. Ágata, que era siciliana. Portanto, existe essa
função do alhures, da travessia.
Nesse gozo vem incidir uma moderação. Na verdade, duas. No alto de
um vitral particularmente atroz, vê-se uma figura do Pai, muito misteriosa, aliás,
já que é completamente bizantina, só com a parte supeóor do corpo, nada
romana. O Pai transmite a chave do paraíso, transmissio clavium, a S. Pedro.
Essa é a primeira moderação: a chave que permitirá dispor de um significante
para conter um pouco o ímpeto de gozo. Há uma segunda moderação, que faz
do vitral uma invenção gótica propriamente dita. O homem que inventou o
gótico foi o que reformou a construção da abadia de Saint-Denis, S uger. Essa
invenção do gótico foi feita através de um dito que é uma interpretação
teológica, a saber, que Deus é luz. Essa frase foi a própóa chave da construção
do gótico. Foi com base numa interpretação que Suger empurrou as coisas de
modo a que tudo fosse cada vez mais para o alto e houvesse mais luz. Somente
a partir do texto dele foi que o vitral, objeto já existente, transformou-se num
apelo. Num apelo de que a luz retomasse. Essa é a segunda maneira pela qual
Deus se manifesta e modera o gozo obsceno do Outro, que avança como uma
onda por esses vitrais. E isso, com aquela vantagem que a arte da Idade Média
apresenta para nós: a de, ao mesmo tempo, ser paratáxica e, como o cinema
mudo, voltada para os analfabetos. O que nos remete à instância da letra.
O ato, se tomarmos sua definição em Lacan e tal como foi acentuada por
Jacques-Alain Miller em sua pesquisa, que é uma problematização do ensino

* Dando origem ao termo francês nlibrius, cujo significado antigo é "fanfarrão, gabola" e
cuja acepção moderna, na linguagem coloquial e pejorativa, é, segundo o Robert, "homem
inoportuno, que se faz notar incomodamente por sua conduta e seus ditos bizarros". (N.T.)
146 versões da clínica psicanalítica

de Lacan, é o rechaço do inconsciente. Esse termo, "rechaço do inconsciente",


foi justamente o que Lacan utilizou em Televisão para definir a psicose - "um
rechaço do inconsciente que pode chegar à psicose". O ato é correlacionado por
Lacan com a certeza. Pois, onde é, na clínica, que o sujeito está mais cor­
relacionado com uma certeza do que na psicose? Na psicose, há uma certeza
obtida do rechaço do inconsciente, uma certeza de gozo. Afinal, em que outro
lugar, a não ser na psicose, existe mais a presença da repetição do sintoma? Por
fim, acaso a nova definição do sintoma por Lacan não foi inteiramente calculada
- J.-A. Miller sublinhou isso em seu curso - a partir da psicose? O sintoma
vai ao real do significante, que implica o Um que se repete, na psicose,
completamente só, absolutamente fora do discurso.
Assim, através desses dois pontos, o rechaço do inconsciente e a repeti­
ção, eis-nos penetrando bem no cerne do problema da psicose. Mas, será que
isso quer dizer que o ato e o sintoma devem ser concebidos como uma espécie
de psicose generalizada? De modo algum, já que podemos separá-los a partir
do termo discurso. Existe, quando há discurso, um lugar da verdade, e, quando
há o extra-discursivo, já não existe nesse lugar nada além do real . É isso que
faz com que a verdade de um discurso seja j ulgada a partir do lugar em que
se instala. Evidentemente, o lugar da verdade num discurso não basta para
afirmar que esse discurso diz a verdade. No lugar da verdade, pode-se
mentir. Foi precisamente isso que Guy Clastres sublinhou ontem, em sua
exposição sobre a presunção. Pode-se gerar, em torno do lugar da verdade
no discurso analítico, um clericato - um clericato que sempre mente em
nome do lugar da verdade.
A questão é comprovar, através do discurso analítico, que sabemos
distinguir o lugar da verdade da verdade em si. &se lugar é o que é excluído e
rejeitado na psicose. A uniface verdade-saber é topológica de uma outra
maneira, por um saber que vem em oposição ao sujeito. Não existe o lugar da
verdade definido pelo "Quem sou eu?" que se coloca na neurose. Nesse lugar,
há a certeza de um sujeito que diz: "Eu, a certeza, falo e digo que sei que o Outro
goza." É somente quando o "Quem sou eu?" se coloca que podemos dizer que
o sintoma é neurótico, como diz Lacan, num certo momento, em seu seminário
R.S.I. O sintoma é essencialmente neurótico, quando responde no lugar dessa
verdade, nesse lugar em que o "eu sou" está no lugar "de onde se vocifera que
o universo é uma falha na pureza do Não-ser". Mas quando, nesse lugar, há o
sujeito da certeza, que diz que o Outro goza, então ele está no lugar onde lhe é
vociferado que o Outro goza.
Ato e repetição: convém considerarmos que esses dois termos esclarecem
a questão da psicose em três aspectos . Esclarecem-na, primeiro, na questão das
frases interrompidas, depois, na questão da transferência, e por último, nas
a psicose e seus limites 147

relações entre o sintoma e o simbólico na psicose. Tomemos a clínica das frases


interrompidas. Vocês sabem que foi com a ajuda da noção de Saussure, tal como
elaborada por Jakobson, que Lacan retomou as alucinações do presidente Schreber,
para apresentá-las - o que era absolutamente inédito na época - de maneira
ordenada-. Ele isolou dois fenômenos. Existem vozes que informam o sujeito sobre
o novo código, sobre o neo-código que ele aborda, e vozes que, ao contrário,
falam-lhe dos conteúdos, daquilo que é unicamente mensagem no código.
Esses dois tipos de frases interrompidas, como não ver que podemos
retomá-los a partir da problemática do sant'homem [sinthome] ? As primeiras,
as que se referem ao código, são as que deixam o sujeito fora de um esforço de
réplica. Esse sujeito, ao contrário, fica preso naquilo que é, antes, uma holófrase
da língua, uma captação no um. A língua lhe informa que está se modificando
e que um novo significante do código remete a um outro sentido, ijUe um
significante um remete a um segundo. Ele é informado dessa maneira e, convém
dizer, o é sem esforço. Ele nota. Ao contrário, o outro tipo de frases inter­
rompidas obriga o sujeito ao esforço da réplica. É precisamente esse tipo de
fenômeno que produz o cansaço psicótico. O sujeito tem que responder sem
parar. Há três exemplos citados por Lacan na "Questão preliminar... ": "Agora,
eu vou . . . ", seguido pelo esforço de réplica: " ... render-me ao fato de que sou
idiota." O mais interessante, por certo, é o terceiro exemplo: "O senhor, por sua
vez, deve. . ." Existe aí o enunciado puro de um dever, e a réplica a ele é: " ... ser
exposto como negador de Deus e condenado a uma libertinagem voluptuosa,
sem falar do resto." Como não ver nessa frase que, com o "render-me ao fato
de que sou idiota" e o "ser exposto como negador de Deus e condenado à
libertinagem", entra em questão, para o sujeito, seu ser de gozo?
Eu gostaria, agora, de lhes falar de um outro caso de psicose, de alguém
que acompanho há uns dez anos. No decorrer de sua análise, esse rapaz se
ferninilizou - solução para uma homossexualidade delirante que o preocupava
muito. Feminilizou-se no sentido de que age como a mãe. Age como a rriãe, ·

mas se fecha nessa feminilização em tomo de um ponto. Ele procura alimentar


a mãe, e é em torno do ato de se alimentar e, ao mesmo tempo, de alimentar a
mãe que ele se reconstrói. De toda a sua infância, tem apenas uma lembrança,
uma só, à qual retoma sem cessar: ele está com uma mamadeira de água. É-lhe
impossível trazer outra lembrança. Ele se lembra de que está num carro - o
caráter do transporte em comum e da conjunção é absolutamente central nisso
-, com uma mamadeira de água. Nada mais. É realmente assombroso. Ele se
fecha, portanto, em tomo desse ato.
O segundo ponto é que ele conseguiu obter um emprego de bibliotecário.
Agora, ele é garante da ordem dos livros, mas é preciso dizer que não se encontra
nela de maneira alguma. No entanto, é garante disso e se esforça por se
148 verst1es da clínica psicanalítica

acomodar. O terceiro ponto é que ele tenta não ficar excessivamente preocupado
com a conversa dos vizinhos quando está nos transportes coletivos. Empenha­
se, então, em fazer esforços de memória, e, para fazer esses esforços, lê o poema
Mémoire, de Verhaeren, segundo diz. Agora, ele .é garante da ordem da
linguagem na ordem da biblioteca e se faz expositor dessa obra.
Nesse caso, de que se trata? Aí está um esforço de réplica corajoso. Esse
sujeito se sustenta ao se esforçar por fabricar um sintoma, por transpor a
potência da linguagem para o sintoma. Foi isso que fez com que a última
ramificação do movimento kleiniano opusesse os pensamentos na psicose aos
pensamentos desejantes na neurose. Eles viram nisso, efetivamente, um esforço
de pensamento, mas o que não viram é que não se trata simplesmente de fabricar
um órgão, mesmo que a causa desses pensamentos se produza, em se tratando
do esquizofrênico, no órgão que está sempre por recriar, já que é aí que o gozo
lhe cria problemas. Trata-se, nesses sujeitos, além disso, de fabricar o sintoma.
É muito diferente o sujeito psicótico fazer-se garante d' alíngua ou garante
da linguagem. Considero que, no momento agudo, no momento das eflorescên­
cias delirantes máximas, no momento fecundo, o sujeito é garante da ordem do
mundo no que este já não é o mundo como universo do discurso, mas o mundo
como alíngua. Ao contrário, ele pode chegar, através da análise ou por outros
caminhos, a elucubrar o saber, a criar uma linguagem para si. É aí que é precioso
o fato de se haver sublinhado que a literatúra, em Joyce, não é uma literatura
do discurso, mas uma linguagem, e que há séries de linguagens que não estão
no discurso. O sujeito psicótico tenta, justamente, elaborar isso. Seu esforço na
análise não é apenas escrever. Os armários dos hospitais psiquiátricos estão
repletos de escritos psicóticos. Não há nada a fazer senão acolhê-los, porque
isso é inanalisável. E é feito para sê-lo. Trata-se de objetos, objetos inanalisáveis.
No entanto, através disso, o sujeito se esforça por construir a linguagem da qual
será o garante. Nesse sentido, ele pode, não dirigi-la ao psicanalista, mas
depositá-la com ele. Esse é o seu esforço. É por isso que me parece que produzir
o incurável, chegar ao Um na psicose, é tentar dar uma virada nesse lugar do
garante. Ele é g:rrante da ordem do mundo, mas em duas · posições muito
diferentes, confonne se trate d' alíngua ou da linguagem.
É assim que podemos descobrir como se transforma, no campo da
psicose, o que é, na neurose, a distinção do objeto a enquanto expositor do
desej o ou enquanto não-expositor do desrjo. É por aí que podemos discernir,
na psicose, uma declinação particular do um inteiramente só, do S 1, e pensar na
báscula transferencial que procuramos. Esse Um encontra-se por toda parte, em
outros modos de combinação.
Para concluir, direi o _quanto me interessou, nestas Jornadas, o delinea­
mento do Um que perpassou os casos que nos foram apresentados. Tivemos o
caso apresentado p or François Leguil, com sua paciente que, quanto mais
a psicose e seus limites 149

avança para o pequeno a, para o cingimento daquilo que instaura sua posição,
mais se toma sozinha, mais produz o vazio. É uma maneira de entrar em contato
com seu Um inteiramente só, com o ser-só do sujeito no término da análise. É
uma saída possível, pensar-se pelo isolamento: "Veja em que estado você me
deixou, veja em que estado me abandonou ! "
Tivemos também o caso que Huguette Ménard nos expôs, com esse
sujeito que apreende a analista através do vaso de rosas. No fundo, se assim
posso me expressar, ele é o Um-par dessas rosas, é aquele que se conta como
um a mais nas rosas que estão em sua mão, porque, em vez de ter a flor que
permite ferir as mulheres, o que ele procura é sê-la e completar ele mesmo o
buquê, com seu ser de rosa.
Tivemos ainda o destino que nos foi apresentado por Gérard Miller, de
um lado, e, de um outro modo, por Jean Guy Godin, com a maneira como o
sujeito visa o Um, o traje de gozo que lhe convém no fim da análise.
Dizer que o sujeito, no fim da análise, não se autoriza por nenhum
Nome-do-Pai não significa que ele seja psicótico, mas que não se autoriza por
trajes já prontos e preparados para ele. Não se trata apenas da temperança do
pai, para retomar a analogia dos vitrais. Não se trata apenas da temperança da
chave paterna, mas também dos paramentos que, ocasionalmente, a Virgem
oferece aos mártires, e que lhes dá o traje do gozo. Os trajes do gozo não são
apenas os que estão nos vitrais das igrejas. Há também os que estão no bordel,
e por certo no bordel de Genet.
É na análise que Lacan fez do Balcão que vemos essas desmontagens dos
trajes do gozo. Como gozam o padre, o professor etc. Vemos ali o que Freud
isolou: todos esses representantes do pai castigam, mas castigam, todos eles,
deixando um resto de gozo. É o que acontece em "Uma criança é espancada".
Castiga-se, é claro, mas resta, nesse momento, o gozo da surra.
O sujeito, no final da análise, precisa vir a pensar que não existem trajes
prontos para gozar, e que ele mesmo tem que inventar para si o traje que lhe
será próprio, através do gaio saber que tem de produzir e que o levará a construir
esse traje. Habituar-se ao ser: é assim que ele consegue, depois da travessia da
fantasia, retomar o que foram os fazer-se cagar, ouvir, chupar e ver que o
preocupavam até então, para enfim atingir este ponto: uma nova imagem do
Um inteiramente só.

D ISCUSSÃO

Génie Lemoine
Dirijo-me a Pierre Bruno para interrogá-lo sobre a insistência com que
ele falou da destituição subjetiva. Será que, com isso, ele não tem medo de
I 50 verst1es da clínica psicanaUtica

apagar essa outra fase do acontecimento, qual seja, que esse sujeito, de qualquer
modo, tem uma chance de aparecer, através do ato analítico, no tempo - o
tempo de um clarão - e no luto? A Éric Laurent, pergunto se podemos
conservar essa sigla, s,, para dizer que é o s, psicótico. Na verdade, se o s , é
uma· metáfora da metáfora do Nome-do-Pai, que por sua vez não adveio, falar
do St psicótico me incomoda um pouco. Talvez eu tivesse preferido o termo
"caráter", que Lacan diz que talvez seja o que constitui a rocha, a base que o
psicótico não consegue largar, e que o neurótico, ao contrário, larga com muita
facilidade, por dependência do Outro.

Pierre Bruno
Parece-me que a destituição subjetiva concerne à destituição do sujeito
suposto saber, ou seja, à destituição daquilo que poderiaproduzir a subjetivação
do grande Outro. Por esse ponto de vista, creio que temos aí uma coordenada
que permite definir o que acontece com o momento do passe. O que me
impressionou, durante as discussões que tivemos nesses três dias, foi um certo
deslocamento temporal das referências em relação ao ensino de Lacan e, em
especial, um recurso relativamente acentuado às referências concernentes ao
seminário Le Sinthome. Acho que Colette Soler foi a primeira, nestas Jornadas,
a insistir no que acontece, não mais com o passe como sendo, em especial,
destituição do sujeito suposto saber, mas com a fase de luto do final da análise,
com a necessidade, de certa maneira, de que ela dure, para que seja possível,
no fim, saber haver-se com seu sintoma, ou seja, descobrir um modo de relação
satisfatório com o sintoma. Creio que os dois aspectos da questão devem ser
fmnemente mantidos.

Génie Lemoine
Acho que a destituição subjetiva vai além disso. Até a despersonalização.

Françoise Josselin
Há uma questão que eu gostaria de formular a Éric Laurent a respeito da
repetição do sintoma, pois, na verdade, esse foi o debate de nossa mesa-redonda
de ontem. Nós nos perguntávamos se o termo repetição se adaptava à psicose,
se não era, antes, uma questão de duplicação, de reiteração. Estávamos tentando
encontrar um termo, já que a repetição estaria mais do lado da neurose. É essa
a minha pergunta.

Dominique Miller
Eu gostaria de fazer duas perguntas a Éric Laurent. A primeira se refere
ao primeiro exemplo que você nos deu. Em que é que ser pai foi um meio de
esse psicótico ser garante da linguagem? Será que você veria nisso urna relação
a psicose e seus limites 151

com uma suplência do Nome-do-Pai? A segunda pergunta é: será que você veria
uma relação possível entre a eonjuntura de desencadeamento e a construção do
sintoma, ou haveria, justamente, uma marca de repetição?

Guy Clastres
Minha pergunta, no fundo, dirige-se um pouco a cada um de vocês dois.
É um sinal da minha confusão. Não entendo muito bem o que significa
"identificação com o sintoma". Essa expressão, mesmo em Lacan, eu não a
capto muito bem. Será que saber haver-se com o sintoma é equivalente à
identificação com o sintoma do fim? Vocês podem tentar esclarecer um pouqui­
nho essa idéia, que não é muito simples?

Éric Laurent
Vou responder primeiro à pergunta referente à repetição na psicose. Ela
retoma a questão de Génie Lemoine, de saber se podemos conservar o S1 na
psicose. Temos, no campo da psicose, uma deformação que faz com que todos
os conceitos calculados a partir da neurose tenham sempre que ser retomados
num sentido diferente: a interpretação dos sonhos, a repetição, o desejo, etc.
Certo, mas, em que sentido, já que tudo se reduz, em última instância, ao modo
particular do "gozar consigo mesmo" na psicose? O Outro goza. Isso é uma
certeza. É daí que deduzimos o conjunto das transformações que se produzem
no campo da psicose. Isto posto, não creio, no entanto, que se deva jogar o bebê
fora junto com a água do banho. É preciso, ao contrário, conservar todas as
letrinhas e fazê-las funcionar, só que de outra maneira. Outros espaços topoló­
gicos, outras relações, outros maternas, outros circuitos, concordo ! Mas, se
convém conservar a mesma estrutura e fazê-la funcionar, é preciso mergulhá-la
num espaço diferente. Parece-me que isso é o mais fecundo.
Entretanto, é perfeitamente lícito introduzir correlações, porque o Um­
totalmente-só que há na psicose não é, de modo algum, o Um-totalmente-só da
neurose. A insígnia do fim da neurese é distinta daquilo que compõe uma série,
mas, mesmo assim, ele pode se apresentar, na neurose, com o mesmo caráter
de obstáculo, como neste ou naquele caso de reação terapêutica negativa em
que vemos, opondo-se ao deslocamento da cadeia significante, um Um-total­
mente-só que surge como obstáculo.
Passo à pergunta de Dominique Miller: em que é que ser pai é meio de
ser garante de uma linguagem? Eu não gostaria de falar muito desse assunto,
por múltiplas razões. Mesmo assim, posso dizer que o paciente em questão tem
de fato um problema de paternidade a respeito de uma linguagem que ele
inventou e que funciona. É uma linguagem-máquina. Atualmente, esse paciente
está preso num "fazer-se reconhecer" como aquele que reformulou essa lingua­
gem, embora tivesse outra. Ele aborda isso de maneira muito calma e metódica.
I 52 versões da clínica psicanalítica

Para ele, trata-se de se fazer reconhecer, de fazer com que se aceite essa
linguagem da qual ele é o garante do gozo, mais do que o inventor. Ele está
empenhado em fazer de si mesmo aquele que falta nessa linguagem, em se fazer
pai dela. Por outro lado, seu "ser pai" perante o filho é da mesma ordem. Ele é
pai na medida em que foi um pai definido por seus direitos. É pai enquanto
sujeito do direito. É pai desse filho, mas houve um divórcio, o que o levou a
obrigações, portanto, e é nesse sentido - isso teve, inclusive, um efeito
terapêutico - que ele pode ser, não o pai que educa, mas o pai enquanto sujeito
do direito. Ficou reduzido a essa dimensão.
A segunda parte da pergunta era saber se o desencadeamento foi uma
construção do sintoma. Eu não diria isso. Digo que foi um encontro ruim. Foi
um encontro que era absolutamente imprevisível. Teve que haver um certo
número de outros aspectos. Os sujeitos psicóticos nem sempre desencadeiam
sua psicose, todos eles, no momento em que se tomam pais: isso evitaria todos
os desencadeamentos tardios. Sabemos que o sujeito pode perfeitamente ser pai
de vários filhos e só desencadear sua psicose muito depois. Houve uma série
de fatores que concorreram para que os ideais que lhe serviam de ponto de apoio
no mundo se rompessem. O anel do simbólico partiu-se, porque não havia o
sintoma para contê-lo, donde essa construção. Ele mesmo, então, passou à
situação de ter que inventar essa linguagem, tornando-se garante de um novo
gozo.
Passo agora à pergunta de Guy Clastres sobre a identificação com o
sintoma. Será que isso é saber haver-se com seu próprio sintoma? No arranjar­
se, saber haver-se[savoir y faire], é muito valioso isolar o "y", já que ele é o
mesmo "y" do "Há [ru1 o Um" [Ya d'l 'Un]. É esse detalhe que constitui o valor
da fórmula. Saber haver-se [savoir y faire] não é o saber fazer [savoirfaire] .*
Também não é exatamente "saber lidar com". Há aí uma variação que é como
a diferença entre "tomar-se por", "imaginar-se" [se croire] e "garantir-se ",
"acreditar em si" [s 'y croire] . Essa maneira de saber haver-se deve ser
retomada, precisamente, das modalidades da relação com o Um. É isso que
Jacques-Alain Miller desenvolve com a função da ex-sistência do sintoma.
"Saber haver-se" é também provar, pela própria análise, a ex-sistência do
inconsciente. Em certo sentido, é a mesma coisa. Equivale a deixar marcado
que, para cada um, há alguma coisa que pode exercer a função de prova em sua
análise. É isso que reduz singularmente a chamada presunção que você denun-

*Diz o ditado que "o corcunda sabe como se deita", o que não quer dizer que ele tenha disso
um conhecimento, teórico ou prático. É mais ou menos essa a idéia da expressão coloquial
francesa savoir y faire, que se reproduz em coloquialisrnos nossos corno "ser safo",
"virar-se", "arranjar-se". Já o savoir faire remete à idéia da habilidade, do know-how, do
"ter prática" em alguma coisa. (N.T.)
a psicose e seus limites I 53

ciou. "Haver-se" é o que vem reduzir, é o que vem comprovar. É a única maneira
de reduzir a distensão, a tensão imaginária do balão. Nesse sentido, "saber
haver-se" é diferente de tomar-se pelo único. Lacan distinguiu bem o "acredi­
tar-se o único" [ "se croire le seul"] do "ser só" [ "être seul"].* O fato, diz ele,
de o analista ser solitário em sua prática impele-o a acreditar que ele é o único.
É o artigo definido colado a essa posição que provoca um tipo particular de
perturbação, porque não existem "os" analistas, mas apenas analistas, tomados
um a um, no que cada um deles é único. É esse o lado s , da cadeia dos analistas.
Contra essa propensão a ser o único, só existe o "saber haver-se", na medida
em que isso é uma função de prova, e não uma função de lugar.

Pierre Bruno
Creio que há um título de um seminário de Lacan que nunca foi consa­
grado como tal, mas no qual Lacan pensou, a saber, "As posições subjetivas do
ser". Sempre me impressionou o fato de que isso indicava uma pluralidade
possível, meio em contradição com uma possível tendência nossa a considerar
que existem apenas, de um lado, a posição subjetiva do ser na neurose, e depois,
de um outro lado, o que seria um resultado analítico. Se estou lembrando isso,
é que me parece que ainda é preciso explorar um certo número de posições
subjetivas do ser que são totalmente diversas, e que têm, cada uma delas, uma
relação específica com o que se pode esperar de uma análise. Talvez seja nesse
contexto que podemos formular-nos a questão do "saber haver-se" com o
sintoma. Vou apenas indicar, a esse respeito, o que me parece ser uma diferença
entre a postura de Sade e a de Joyce. Em relação a sua obra, a postura de Sade
é como que a de sacrificar seu nome. Antinomicamente, em relação à obra, a
postura de Joyce é a de fazer um nome para si. Há em Joyce a possibilidade de
situar uma diferença, que me leva a considerar que essa reconciliação com o
nome é o critério de uma certa relação com o sintoma, diferente da que
encontramos em Sade. Então, o fato de haver uma reconciliação com o nome
talvez possa ser uma coisa satisfatória.

Colette Soler
Só para propor um pequeno exemplo. Estou inteiramente apaixonada por
esta discussão e pelo que ouvimos hoje de manhã e, aliás, em todas estas
Jornadas. É realmente esse o meu sentimento, tenho a impressão de que estamos
avançando em nosso trabalho e de que as duas exposições que acabamos de
ouvir são muito preciosas. Eu gostaria de evocar a questão do Um sintomático
da estabilização da psicos� . Éric Laurent propôs a idéia de que o psicótico

* Como na diferença entre "ser o único" e "ser único". (N.T.)


154 vemJes da clínica psicanalítica

eventualmente chega, mediante seu próprio trabalho, a se criar um Um-sintoma


- que também é um rechaço do inconsciente - que o fixa e o estabiliza. Ele
propôs dois exemplos, o que, associativamente, me fez procurar outros. Há um
que é célebre. Nunca tive oportunidade de falar disso, mas me propunha fazê-lo
e esta é uma boa ocasião. É Jean-Jacques Rousseau. Conhecemos os momentos
de desencadeamento de seu delírio paranóico, e também o momento em que
este se apaziguou, em que isso se estabilizou, ou seja, na época em que ele
escreveu os Devaneios, quando estava em retiro, inteiramente só em sua ilha,
e começou assim: "Eis-me, pois, sozinho sobre a terra." Não é? Relaciono esse
"um inteiramente só em sua ilha" com um momento dos Devaneios em que ele
diz: "Eu gozo." E com que é que eu gozo, inteiramente só sobre a terra? Gozo
em meu Um-inteiramente-só, com a pura existência. Aí está um exemplo que,
apesar de retirado de uma obra - isso mereceria que refletíssemos a respeito,
pois talvez não seja exatamente a mesma coisa-, me parece, no entanto, poder
ilustrar esse ponto. O que faz o Um é o Um com o gozo. A expressão certa seria:
metáfora de gozo.
7

Melancolia, dor de existir, covardia moral

O momento clínico atual está inteiramente dominado pelo desmembramento


das categorias de neurose, psicose e perversão em prol de novos contínuos
sindrômicos, reordenados pela clínica medicamentosa. Ora, a clínica psicana­
lítica, enquanto sempre ordenada pelo texto freudiano, supõe a consideração
dessas categorias. O desafio clínico da psicanálise, portanto, está distribuído
entre posturas diversas: conservar, abandonar ou modificar as categorias da
experiência freudiana. Conforme os campos clínicos, a pressão da clínica do
medicamento é variável e as soluções podem divergir.
Gostaríamos de examinar aqui a questão clínica da melancolia, no
contexto desse desafio mais geral. Do ponto de vista psiquiátrico, a reformula­
ção teórica é contínua. Não se passa um trimestre sem que haja uma reunião de
peso sobre o tema das depressões, crônicas ou não, resistentes ou não. Um certo
esgotamento da novidade tem-se evidenciado, mas essas reuniões constantes
consolidam o novo paradigma e tentam estender a nova perspectiva, por
analogia, a campos clínicos vizinhos.
Na interface clínica entre psiquiatria e psicanálise, estamos mais no desliza­
mento dos referenciais e dos modos de abordagem em relação à perspectiva
freudiana. Estamos num novo consenso, que tem sido objeto de publicações
sintetizadoras. Vamos descrevê-lo, em primeiro lugar, valorizando os diversos
fatores de transformação que produziram essa nova homeostase. Em seguida,
poderemos ler Lacan para reencontrar o fio das aporias freudianas. Depois de haver
assim relido Freud, destacaremos, por último, um programa de trabalho que nos
permita reordenar as perspectivas clínicas de nossa época numa visada freudiana.

O novo consenso

A época, de fato, já não é de polêmicas, e uma série de publicações sobre a


melancolia e a depressão enfatiza o reencontro de um consenso clínico. Pode-

155
156 versiies da clínica psicanalítica

mos considerar o livro de D. Widlõcher, Logiques de la dépression, 1 como o


exemplo claro de uma exposição que supõe essencialmente encerrado o debate
e chegada a hora da síntese. Ele é também a tentativa de uma nova construção,
que superaria as aporias freudianas em prol do emprego de "lógicas" que
funcionam em paralelo.
Duas lógicas prevaleceram, de fato, uma oriunda da clínica do medica­
mento e outra, de uma vertente do próprio movimento psicanalítico. Primeiro,
houve o avanço sistemático do movimento nascido da psiquiatria universitária
bioquímica norte-americana, a chamada Escola de Saint Louis. A partir da
publicação, em 1962, do artigo prínceps de Donald Klein2 sobre os pattems da
reação à imiprarnina, essa Escola não parou de demonstrar a futilidade da
barreira entre a neurose e a psicose, que a eficácia dos medicamentos invalida­
ria. Segundo os autores, a imiprarnina realmente demonstra sua eficácia, não
apenas no continuum depressivo centrado na avaliação de uma lentificação
psicomotora, mas também no caso da ansiedade aguda, qualificada de episódi­
ca. O próprio Donald Klein nota o efeito de corte transversal assim produzido
em toda a nosologia.
Foi dessa lógica que o conceito descritivo do DSM 1/l extraiu toda a sua
força polêmica. Podemos ler, por ocasião deste ou daquele congresso, a ambição
confessa dessa abordagem. Por exemplo, em abril de 1 987, nas jornadas sobre
as "novas orientações nos distúrbios do humor" : "Certamente, uma das contri­
buições fundamentais da psicofarmacologia é ter podido mostrar a eficácia do
tratamento antes reservado à psicose maníaco-depressiva clássica em outras
patologias, tais como as esquizofrenias distímicas, bem como nos distúrbios do
comportamento alimentar ou nas chamadas patologias neuróticas tão bem
definidas, em termos semiológicos, quanto os distúrbios obsessivo-compulsi­
vos (TDC)." 3 Essa unidade do campo patológico a partir de um traço de
repetição é bastante irônica. Onde Freud via, na iteração do jogo do carretel e
do fort-da, o funcionamento da pulsão de morte, a psiquiatria contemporânea
disceme a célula mínima de um puro movimento do ser vivo.
Dentro do movimento psicanalítico, a vertente - cada vez mais afirmada
desde o fim dos anos cinqüenta - do exame privilegiado das carências afetivas
traz conseqüências nefastas, já anunciadas por Lacan em 1 960.4
Durante esses anos, a depressão precoce da criança suscitou debates
importantes. As opiniões dividiram-se entre o modelo anna-freudiano da de­
pressão anaclítica e o modelo kleiniano dos distúrbios da posição depressiva.
Essas duas abordagens, de fato, afastaram cada vez mais a referência freudiana
ao luto patológico, este centrado na culpa e no Outro.
Nos Estados Unidos, esse debate teria prosseguimento, com uma varia­
ção. Os anna-freudianos tiveram como alter ego uma certa Edith Jacobson, que
a psicose e seus limites 157

elaborou uma posição original na linha de Karl Abraham e do Instituto de


Berlim, mas evitando a referência a Melanie Klein. Sua teoria pretende eliminar
o erro e a culpa em favor de um empobrecimento do eu: "Compreendi, desde
1 943, que conferir ao problema da culpa um papel central no conflito não era
correto em todos os casos."5 Trata-se, para ela, de distinguir a culpa, elemento
produtivo, de um mecanismo deficitário subjacente. Ela distinguiu os sintomas
que traduzem o processo depressivo-psicótico propriamente dito dos que
representam tentativas secundárias de defesa e reparação.
Assim, Widlõcher tem razão em sublinhar que, "decididamente, a diver­
sidade de opiniões não é tão grande quanto levaria a supor a abundância das
publicações; são sempre os mesmos mecanismos básicos que se levam em
conta, e as divergências decorrem sobretudo da maneira como se encara sua
articulação e do peso conferido a cada um".6 Ele reteve um mecanismo
deficitário básico, de onde decorreria, secundariamente, qualquer eventual
construção fundamentada na culpabilidade. Com os cognitivistas, dos quais
pretende se distinguir, ele pareceu admitir que a vivência depressiva é fun­
damentalmente um erro. Seu modelo revelou-se, pois, de tipo organo-dinâmico.

Já em 1 946, Lacan isolou nas construções de Henri Ey o lugar central


que este atribuía ao erro: "Onde estaria o erro, e o delírio, aliás, se os doentes
não se enganassem, quando tudo em suas asserções, em seu julgamento, revela
neles o erro?"7 No entanto, Ey lutava contra qualquer tentativa de reduzir a
alucinação a um erro de percepção, deslocando-a para um erro de crença. Lacan
observou: "Recusando-se, justificadamente, a fazer da alucinação como que
uma sensação anormal, um objete colocado nas dobras do cérebro, ele mesmo
não hesita em situar ali o fenômeno da crença, considerada como um fenômeno
de déficit. "8

Do mesmo modo, Widlõcher alojou a vivência catastrófica do melancó­


lico nas "dobras do cérebro". O isolamento da experiência de estupor gerada
pela perda complementou-se, para ele, com o modelo animal do desamparo
aprendido, learned helplessness. Resumamos seu mecanismo: embora um cão
possa aprender a evitar estímulos desagradáveis, se, inicialmente, ele ficar
impossibilitado de se esquivar deles (helpless), depois já não conseguirá
aprender a evitá-los. Algo nele se rompe.

Assim, o mecanismo freudiano é repudiado, por ser complexo demais:


"Não se pode dizer que a criança perceba a ausência, que reaja pel a tristeza e
que essa tristeza a incline a se desinteressar daquilo que a cerca. Devemos
admitir que a experiência confusa de uma falta acarreta imediatamente a reação
de apatia e desinteresse."9 A falta de desenvolvimento do eu permite refutar
qualquer experiência do sujeito que seja distinta da do organismo: "Podemos
deduzir daí que o núcleo da depressão não é a complexa construção mental
I 58 versties da clínica psicanalítica

observável no adulto, mas a reação elementar da qual a depressão anaclítica


constituiria o protótipo infantii."IO Foi contra esse organo-dinamismo, mo­
dernizado ou não, que Lacan quis manter a "causalidade psíquica" do sujeito,
separada da do organismo. É para essa causalidade que devemos voltar-nos
agora, rompendo com o consenso e reencontrando o fio do ensino de Lacan
sobre as aporias freudianas da culpabilidade.

O sujeito e sua causa na melancolia

Há realmente uma teoria da melancolia no ensino de Jacques Lacan, es­


tabelecida desde 1 93 8 e que depois evoluiu, solidária com a evolução global de
seu ensino. Alguns lastimaram o que lhes pareceu um laconismo de Lacan sobre
os distúrbios do humor, esquecidos, sem dúvida, de que ele só é equiparável ao
de Freud. Com efeito, o fundador da psicanálise só abordou explicitamente o
problema nuns poucos textos: essencialmente, "Luto e melancolia" e O eu e o
isso. A publicação, nos anos cinqüenta, do "Manuscrito G", bem como a
descoberta recente de um manuscrito inédito da Metapsicologia, são peças que
temos de creditar ao corpus freudiano, mas sem que elas modifiquem essa
constatação primordial.
Desde 1938, nos Complexosfamiliares, a psicose maníaco-depressiva foi
situada na clínica diferencial das psicoses. Lacan a abordou, de maneira muito
clássica, como um distúrbio do narcisismo, na medida em que este viria
remediar o que ele denominou de "insuficiência específica da vitalidade huma­
na". l l Nessa época, a jubilação diante do espelho lhe parecia compensar a
prematuração do organismo. Quando ele enunciou que "um ritmo biológico
decerto regula alguns distúrbios afetivos chamados ciclotímicos, sem que sua
manifestação seja separável de uma intensa expressividade de derrota e de
triunfo", l2 essa formulação ainda estava marcada por uma certa referência a
Jaspers, distinguindo o ritmo biológico, que remete ao processo, de seu sentido,
oriundo da experiência subjetiva.
Cerca de dez anos depois, em 1 946, essa ênfase foi radicalmente modi­
ficada pela referência direta à pulsão de morte freudiana, que afastou definiti­
vamente os referenciais jaspersianos. O autor das "Considerações sobre a
causalidade psíquica" comparou então o distúrbio afetivo que pode provir da
jubilação narcísica com o conhecimento paranóico: "Eis aqui ligados, pois, o
eu primordial como essencialmente alienado e o sacrifício primitivo como
essencialmente suicida." 1 3 Numa frase, aí estão situadas a posição esquizo-pa­
ranóide e a posição depressiva de Melanie Klein. Lacan deu forma ao sacrifício
primitivo no fort-da e nas brincadeiras de esconder, que são as primeiras da
criança: "Podemos concebê-las como exprimindo as primeiras vibrações da
onda estacionária de renúncias que irá escandir a história do desenvolvimento
a psicose e seus limites 159

psíquico."14 Assim, ele lembrou vivamente a um movimento psicanalítico


fascinado pelo desenvolvimento do eu o movimento que Freud qualificava de
retomo ao inanimado, chamando-o de escansão. Retificou também o ponto de
vista de Melanie Klein, que reduzia depressa demais a pulsão de morte à
agressão contra o outro. O sacrifício primitivo é um sacrifício do sujeito, e a
relação com o Outro é que é paranóica Nesse aspecto, o suicídio melancólico
é a contrapartida do assassinato não motivado na vertente paranóica, é o ponto
da estrutura onde o sujeito aflora, enquanto inteiramente preso no sacrifício,
sem nenhum recurso.
A partir de 1 953, Lacan introduziu a hipótese do inconsciente estruturado
como uma linguagem. Em "Função e campo da fala e da linguagem na psicaná­
lise", dispôs as relações da dialética hegeliana e da lingüística no próprio
movimento da designação originária da coisa A ação do sujeito no fort-da é
exemplar. Ao nomear o vazio criado pela ausência da mãe com a ajuda da
alternância da presença/ausência do carretel, o sujeito a destrói como objeto, mas
constitui essa própria ação como objeto, repetindo-a. O sujeito "eleva seu desejo
à segunda potência ( ...) . O símbolo se manifesta, inicialmente, como assassinato
da Coisa, e essa morte constitui no sujeito a etemização de seu desejo". l5 O
fort-da já não é apenas escansão, mas verdadeiro fundamento do edifício
subjetivo do desejo. A melancolia, sacrifício suicida, identifica-se com a morte
do sujeito que se nomeia ao mesmo tempo que se etemiza Através disso, o sujeito
se toma puro sujeito da eternidade do desejo. A melancolia já não é situada a
partir do narcisismo, mas a partir dos efeitos do parasita linguageiro. Mais
exatamente, o sacrifício narcísico fica subordinado ao sacrifício simbólico.
Em julho de 1963, Lacan esclareceu as relações do narcisismo com o
objeto da fantasia, resto irredutível do predomínio do simbólico sobre o
imaginário, a propósito do distúrbio fundamental que é a melancolia. O sujeito
melancólico, pela travessia da imagem que efetua no impulso suicida, é
apresentado como o exemplo mesmo do impulso de se unir ao próprio ser:
"Como esse objeto a mascara-se habitualmente por trás da imagem do narci­
sismo, é isso que exige que o melancólico passe através de sua própria imagem,
que consiga atingir esse objeto a cujo domínio lhe escapa, e cuja queda o
arrastará para a precipitação suicida." 1 6 Na mania, que ele então concatena,
Lacan fala, ao contrário, de uma não-função do objeto a, que assim produz um
sujeito não mais Jastreado por coisa alguma na cadeia significante, disperso na
fuga de idéias.
Mania e melancolia, aqui, vêm nomear duas maneiras de separar o desejo
da causa. A identificação com a etemização do desejo é retomada, pois, como
uma colagem absoluta entre o sujeito e sua causa, cujo testemunho é dado na
clínica pela síndrome de Cottard, onde o sujeito se toma "imortal como o desejo
freudiano" . 1 7
160 versr1es da clínica psicanalítica

Por fim, dez anos depois, em 1973, Lacan redefine o problema em sua
Televisão, na seqüência de um texto crucial para sua teoria do afeto. A mania é
apreendida como o "retorno no real do que é rechaçado da linguagem", 1 8 por
mais que a recusa do dever de bem-dizer, "por ser rechaço do inconsciente, vá
para a psicose" . 19 Ela já não é definida a partir do narcisismo, mas diretamente
a partir do rechaço do inconsciente pelo vivo. Não é um significante que
reaparece no real, mas "o que é rechaçado da linguagem", ou seja, o mais-viver
que o simbólico marca com uma mortificação. Se fizermos uma distinção entre
alíngua e linguagem, a mania será a irrupção d'alíngua sem maior ação da
linguagem, que é o inconsciente. Só nessa nova definição é que se reformulou
satisfatoriamente o que Lacan havia denominado, em 1 938, de "insuficiência
específica da vitalidade humana". Pensada, até então, com base no modelo da
prematuração, a insuficiência vital encontrou seu estatuto plenamente lacaniano
na apreensão do distúrbio maníaco como um retorno, no real, da mortificação
imposta ao vivente pela linguagem.
Assim, a orientação do ensino de Lacan sobre a melancolia é clara: ele
não a aborda através do afeto de tristeza, mas, antes, em sua relação com o ato
suicida. Quanto à mania, ela é a não-função do a, a não-extração desse objeto,
que provoca, com o rechaço de qualquer codificação do gozo pelo inconsciente,
o retorno no real de um gozo que invade e sacrifica o organismo.
De um lado, ato suicida, de outro, rechaço do inconsciente. Como
ligá-los? Justamente a partir de um binário do ensino de Lacan, desenvolvi­
do por Jacques-Alain Miller: ato e inconsciente.20 O ato sempre se situa num
horizonte de rechaço do inconsciente. Mania e melancolia apresentam-se a
nós, portanto, como duas imagens do mesmo: a passagem ao ato melancólica
une-se à dispersão maníaca do sujeito n' alíngua. A orientação Jacaniana dis­
tingue-se claramente, nesse aspecto, dos pós-freudianos, posto que o ato e o
rechaço do inconsciente são do sujeito, e não do organismo. Os dois pólos dos
distúrbios do humor pressupõem, no ser falante, o parasita linguageiro.
É por uma decisão de gozo, ou seja, como sublinhou Colette Soler, por
uma decisão através do gozo,21 que se decide a sorte do sujeito melancólico ou
maníaco, ligada ao destino de sua causa. Restabelecida essa perspectiva,
podemos agora reler os textos prínceps de Freud, para destacar o que se afigura
tão estranho às correntes psicanalíticas fascinadas pelas carências afetivas e por
seus efeitos no desenvolvimento do eu.

Com Freud

Em "Luto e melancolia" ( 1 9 1 5), pela primeira vez, Freud falou publicamente


da melancolia. Já havia evocado esse tema em dezembro de 1 9 1 4, na Sociedade
a psicose e seus limites 161

22
Psicanalítica de Viena, e enviado um rascunho, em março de 1 9 1 5 , a Karl
Abraham . Na verdade, estava respondendo aos trabalhos de seu aluno, que
23
insistia no papel do objeto oral no distúrbio do humor. Em sua correspon­
dência, Freud sublinhou que o essencial residia no novo estatuto do sujeito, e
não no papel do objeto. Em seu texto de 1 9 1 5, portanto, ele introduziu uma
nova identificação, assim apresentada: "A sombra do objeto desce pois sobre o
eu, que pode então ser julgado por uma instância particular como um objeto,
24
como o objeto abandonado."
Antes de mais nada, é preciso constatar que esse parágrafo é seguido de
uma elaboração inteiramente dedicada à oposição ponto a ponto entre a
identificação narcísica e a identificação histérica. Freud sublinha que a identi­
ficação narcísica que ele vê em ação na melancolia é idêntica, em princípio, à
que ele aponta na esquizofrenia. O objeto, enquanto abandonado pelo sujeito,
já não decorre da categoria dasSachen, mas é um objeto que vem em lugar de
das Ding, a Coisa sempre já perdida. A identificação narcísica com a Coisa, que
se manifesta de maneira pura na melancolia, desnuda a relação que o sujeito
mantém com esta: "A análise da melancolia mostra [que] ele só consegue se
matar quando ( ... ) pode se tratar como um objeto, quando lhe é viável dirigir
contra si mesmo a hostilidade que visa o objeto e que representa a reação
originária do eu contra os objetos do mundo extemo."25
É nesse sentido que Freud pode aproximar a sublimação amorosa e o
impulso suicida como dois modos de esmagamento pelo objeto. Nos dois casos,
um objeto é elevado à dignidade da Coisa. No caso melancólico, o eu se
identifica com o ódio de si mesmo que Freud manteve, até o Mal-estar na
cultura, como sinal da divisão fundamental do sujeito. Assim, o Freud de 1 9 1 5
d á continuidade à intuição fulgurante de janeiro de 1 895: Die Melancholie
bestünde in der Trauer über den Verlust der Libido26 - "consiste numa perda
da libido como tal". A metáfora orgânica da hemorragia interna, retomada em
1 9 1 5 , deve ser considerada como uma hemorragia do sujeito em sua divisão,
uma reação originária do eu contra o próprio objeto do mundo externo.
Em O eu e o isso, Freud apresenta uma outra versão da identificação
melancólica. Apoiando-se na vasta reformulação de sua teoria da identificação,
exposta no capítulo 7 da Psicologia das massas e a análise do eu21, ele reanalisa
o eu "julgado por uma instância externa" e aponta essa instância especial como
sendo o supereu, herdeiro da identificação com o pai morto. Se essa é a primeira
vez em que o faz publicamente no tocante à melancolia,28 já em 1 9 1 6, na
verdade, Freud estabelecera a ligação entre o sujeito melancólico e a identifi­
cação com o pai morto. Num dos manuscritos de sua Metapsicologia, que
permaneceu inédito até época muito recente, Neuroses de transferência: uma
síntese, ele diz: "O luto do pai primitivo provém da identificação (com esse
162 versões da clínica psicanalítica

morto), e demonstramos que tal identificação é a condição do mecanismo da


melancolia."29
Ao nomear o supereu como a instância que está em jogo na melancolia,
Freud compõe uma série com a instância de vigilância já identificada nas
paranóias e no grupo das melancolias. Em todos esses casos, "[o supereu] é a
primeira identificação que se produz".JO É pela especificação da modalidade
particular do pai que entra em jogo nesse mundo identificatório que, em seguida,
faz-se a diferenciação.
Mas, afinal, identificação com a Coisa ou identificação com o pai morto?
Os pós-freudianos hesitaram e falaram em doenças da idealidade para designar
a melancolia. A seguirmos Lacan, convém-nos, antes, manter as duas juntas,
porém em vertentes diferentes, a da Coisa e a do pai.
Para tanto, é preciso reconhecermos, na modalidade específica de iden­
tificação com o pai que entra em j ogo nas psicoses, o que Lacan isolou sob o
nome do foraclusão do Nome-do-pai, apontando o regime de identificação que
então tem lugar. É esse mesmo mecanismo significante que permite a modali­
dade de retomo do gozo que é a Coisa que cai sobre o eu. É pela foraclusão do
Nome-do-pai que se desvenda a relação com a Coisa.
Podemos, pois, afastar uma certa leitura, que consistiria em fazer da
identificação narcísica um modo intermediário entre a neurose e a psicose,
conforme o grau de empobrecimento do eu. Em suas Neuroses de transferência:
uma síntese, Freud coloca explicitamente na categoria das neuroses narcísicas
tanto a paranóia quanto a esquizofrenia e a melancolia.31 Nesse mesmo texto,
a identificação narcísica explica tanto a identificação melancólica quanto a
identificação esquizofrênica. Quando, em 1 924, Freud distinguiu as psicoses e
as neuroses narcísicas, ele o fez dentro da tradição kraepeliniana dos dois
grandes grupos de psicoses e para insistir na diferenciação dos fenômenos
produtivos que se criam nos dois casos - e não para isolá-los um do outro.
Como resultado de nosso percurso freudiano, guardaremos a idéia de que
realmente há, em Freud, duas exposições da identificaÇão melancólíca, mas elas
são duas faces da mesma coisa. Foi ao mesmo tempo que ele descobriu a
identificação psicótica com o pai morto e a relação com a Coisa originária. O
sujeito melancólico é condenado pela instância externa por ser dividido por seu
próprio gozo, cujo retomo é determinado pela foraclusão do Nome-do-pai. O
sujeito, ao se agredir, manifesta simultaneamente o registro da identificação
significante da foraclusão e o registro do gozo. As tentativas pós-freudianas que
separam a experiência primordial de perda na criança e as construções delirantes
secundárias no adulto não passam de tentativas de separar os dois registros.
Desde as "Cartas a Aiess", foi com o termo V01wuif, censura, que Freud rotulou
a relação do sujeito obsessivo com a experiência de prazer, antes de isolar, mais
a psicose e seus limites 1 63

tarde, o sentimento de culpa inconsciente_32 Ao querer separar juízo e gozo, os


pós-freudianos desconheceram que a melancolia é do sujeito. E no entanto, em
parte alguma é mais patente que, ante a pergunta "Que sou eu?", vem a resposta
do real: "Eu sou no lugar em que se vocifera que o universo é uma falha na
pureza do Não-Ser (...) esse lugar (...) é chamado o gozo, e é aquele cuja falta
tomaria inútil o universo."33 Nas almas nascidas, a foraclusão não espera pelo
passar dos anos ou pelo desenvolvimento do eu para que a criança possa ser
alucinada ou se deixar morrer.
Uma vez situada a melancolia como psicose, como fizemos, podemos
considerar sua extensão como paixão do ser.

A melancolia como paixão do ser:


dor de existir e covardia moral

Lacan evoca em sua obra, em várias ocasiões, o sentimento depressivo em suas


diversas tonalidades, e é verdade que, todas as vezes que evocamos as zonas da
criação, da religião, da arte ou da ciência, não está longe a desconfiança
melancólica do mundo como ele é. Como afeto, paixão do ser, a melancolia é
tão coletivizadora quanto o ódio, e se institucionaliza nas mais elevadas formas
sociais. Lacan soube sublinhar seu lugar central na religião budista, onde a
evidência original é a "dor de existir".34 Esse é um afeto normal, se tivermos
de pensar "em nossa vida cotidiana como tendo que ser eterna".35
Fora da perspectiva coletivizadora do discurso religioso, passados quinze
anos, Lacan faria do afeto depressivo um afeto normal, por uma razão inteira­
mente diversa. Ele serve de norma, na medida em que remete a nossa fuga
estrutural do dever de bem dizer nossa relação com o gozo.
A tristeza é então definida como covardia moral: "A tristeza, qualificam­
na de depressão, mas isso não é um estado d'alma, é simplesmente uma falta
moral, como se exprimia Dante, ou então Spinoza: um pecado, o que quer dizer
uma covardia moral, que só se situa, em última instânéia, a partir do pensamen­
to."36
Em seu artigo sobre a depressão,37 Serge Cottet assinalou a importância
da separação entre objeto e gozo fálico que entra em jogo no afeto depressivo.
É a perda, não do objeto, mas do brilho fálico, que toca o estofo narcísico do
sujeito: "Esse desnudamento do objeto, correlativo a esse desespessamento
narcísico, faz-se acompanhar, é claro, de uma perda: a do gozo; mas não um
qualquer: o gozo fálico."38 O que separa a depressão da melancolia e rompe seu
continuum é que, na melancolia, trata-se do objeto a fora de qualquer pontuação
fálica. Um gozo imperativo retoma no lugar onde falta o gozo fálico, quando o
sujeito esbarra na impossibilidade inscrita na inexistência da relação sexual.
164 versües da clínica psicanalítica

Cabe-nos distinguir, a partir de Televisão, a clínica da covardia moral e a


do rechaço do inconsciente. Trata-se, no primeiro caso, de um sujeito definido
a partir da estrutura da linguagem, cuja chave é o desejo. No segundo caso, o
rechaço do inconsciente remete-nos a um outro registro, aquele em que o gozo
mortífero ata-se ao nascimento do símbolo. Foi essa zona que, em 1 953, Lacan
assim apontou: "Quando queremos atingir no sujeito aquilo que havia antes dos
jogos seriais da fala, aquilo que é primordial no nascimento dos símbolos, isso,
nós o encontramos na morte. "39 Aqui, o indicado é uma clínica que não se esgote
em acompanhar o estabelecimento do "discurso deprimido". Podemos incluir
nela não apenas os fenômenos depressivos isolados do adulto, que escapam ·a
qualquer retomada na história do sujeito e de seus sintomas, mas também os
grandes momentos depressivos da criança. Trata-se, aí, de interrogar o sujeito,
não pelo lado do inconsciente, como discurso do Outro, mas pelo lado do
silêncio das pulsões de morte. No novo gozo que irrompe nesse sujeito,
encontramos indicações sobre o que poderemos esperar em tais ou quais
momentos da vida, nos encontros ruins que possam ter lugar, inclusive no curso
da psicanálise. Nossa hipótese é que esses momentos de rechaço do incons­
ciente têm tanto valor indicativo quanto este ou aquele "fenômeno elementar",
isolado por Lacan, por exemplo, depois de Freud, no caso do Homem dos
Lobos.
Nesses momentos, o sujeito é confrontado, não com o Outro do signifi­
cante, mas com o lugar da letra, com a terrível biblioteca universal da qual o
sujeito está excluído como vivente. Desse sentimento, Jorge Luís Borges, muito
interessado no budismo, soube fazer um conto. Sua famosa "Biblioteca de
Babel", com efeito, é explicitamente colocada sob os auspícios do grande
melancólico B urton e de sua Anatomia da melancolia. O ponto a que ele nos
remete é o de um exercício recomendado por B urton para distrair o melancólico:
iniciá-lo na variação das vinte e três letras . O bibliotecário de B orges, que se
"prepara para morrer", constata: "A escrita metódica me distrai, felizmente, da
atual condição dos homens. A certeza de que tudo está escrito anula-os ou faz
deles fantasmas."40 Desse momento de destituição subjetiva imposto pela
prática da letra, o sujeito borgesiano extrai sua certeza melancólica. Letter, litter,
o aforismo joyceano soube ser levado em conta por B orges, e encontrou a
imagem que o consuma no momento em que o corpo do bibliotecário cai no
universo dos livros da biblioteca, até se apagar, sicut palea. Essa certeza é o
avesso do que Lacan pretendia obter dessa outra prática da letra que é a análise.
Ele não colocava nada menos do que o entusiasmo como o afeto exigível por
ocasião de seu fim.
Resumamos, pois, nosso percurso. Freud fornece duas exposições da
identificação do sujeito melancólico: em O eu e o isso, com o pai morto, e em
a psicose e seus limites 165

"Luto e melancolia", com a Coisa. Mostramos que os pós-freudianos quiseram


separar a experiência primária de perda das construções delirantes sobre a culpa
que visam ao pai. Da perspectiva de Lacan , isso se afigura um erro, pois a
questão é enlaçar os registros da identificação psicótica e do gozo, longe do
organo-dinarnismo, primeiro com a ajuda do narcisismo e, depois, do corpo
como tal. Por fim, situamos a tristeza na série dos afetos do ser vivo, na ética
do vínculo social religioso e fora dele, e como paixão do ser na série das práticas
da letra.

NOTAS

1 . Widlõcher, D., Logiques de la dépression, Paris, Fayard, 1983 .


2. Klein, D., "Psychiatric Reaction Patterns to Imiprarnine", American lournal of Psychia­
try, 1 962, 1 19, p. 432-8.
3. Colóquio internacional sobre "As novas orientaçõe& nos distúrbios do humor", Jerusa­
lém, 5-9 de abril de 1 987, resumo na revista Psychiatrie.
4. Lacan, J., Écrits, Paris, Seuil, 1 966, p. 725.
5. Jacobson, E., Dépressions, Paris, Payot, 1 985, p. 1 79.
6. Widlõcher, D., op. cit.., p. 1 1 6.
7. Ey, H., Hallucination et délire, Paris, Alcan, 1 934, citado in Écrits, op. cit., p. 1 64. ·
8. Lacan, Écrits, op. cit., p. 1 64.
9. Widlocher, D., op. cit., p. 232.
10. Idem, p. 233.
1 1 . Lacan, J., Les complexesfamiliaux, Paris, Navarin, 1 984, p. 106 [ Os complexos fami­
liares na .formação do indivíduo, trad. Marco A. Coutinho Jorge e Potiguara M. da Silvei­
ra Jr., Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1987].
1 2. Idem.
1 3. Lacan, J., Écrits, p. 1 87.
14. Idem.
1 5 . lbid., p. 3 19.
1 6. Lacan, J., seminário sobre "A angústia" (inédito), aula de 3 de julho de 1 963.
1 7. Idem.
18. Lacan, J., Télévision , Paris, Seuil, 1974, p.39 [Televisão, versão bras. Antonio Quinet,
Rio, J. Zahar, 1 993] .
1 9 . Idem.
20. Miller, J.-A., "Jacques Lacan: observations sur sa conception du passage à l'acte", Ac­
tualité Psychiatrique, nº 1 , janeiro de 1 988.
2 1 . Soler, C., seminário do Departamento de Psicanálise da Universidade de Paris VIII,
Seção Clínica e de Estudos Aprofundados, ano letivo de 1987- 1988 (inédito).
22. Strachey, J., notas introdutórias a "Mourning and melancholia", Standard Edition of
Freud:ç Complete Psychological Works, Londres, Hogarth Press, 1 96 1 ["Luto e melanco­
lia", E.S.B., v oi. XIV, Rio de Janeiro, Imago, Iª ed.].
23. Cf., a esse respeito, Éric Laurent, "Le comité castration", Ornicar?, nº 16.
24. Freud, S., "Deuil et mélancolie", Métapsychologie, Gallimard, 1 968, p.l 58 ["Luto e
melancolia", op. cit.].
25. Idem, p. l 6 1 [da ed. francesa].
166 versões da clínica psicanalítica

26. Freud, S., Aus den Anfiingen der Psychoanalyse, S. Fisher Verlag, 1 962, p.42 [A frase
de Freud é: "A melancolia consiste no luto pela perda da libido", in "Rascunho G - Melan­
colia", E. S.B., vol. 1].
27. Freud, S., "Psychologie des foules et analyse du moi", Essais de psychanalyse, Paris,
Payot, 1 98 1 , p . l 68 [Psicologia de grupo e a análise do ego, E.S.B., vol. XVlll].
28. Freud, S., "Le moi et Je ça", idem, p.240 [O ego e o id, E.S.B., vol. XIX].
29. Freud, S., '1-úe d'ensemble sur les névroses de transferi, Paris, Gallimard, 1986, p. l 58
[Neuroses de transferência: uma síntese, trad. A. Eksterman, Rio de Janeiro, lmago,
1987].
30. Freud, S., "Le moi et Je ça", op. cit., p.262 [O ego e o id, op. cit.].
3 1 . Freud, S., Vue d'ensemble sur les névroses de transferi, op. cit., p.32 [Neuroses de
transferência: uma síntese, op. cit.].
32. Cf., sobre esse aspecto, Antônio Quinet de Andrade, "Forclusion et incroyance", Let­
tre mensuelle de L 'École de la Causefreudienne, n2 65, p. l4.
33. Lacan, J., Écrits, op. cit., p.819.
34. Idem, p.777.
35. niid.
36. Lacan, J., Télévision, Paris, Seuil, 1973, p.39 [Televisão, op. cit.}.
37. Cottet, S., "La belle inertie", Omicat?, n2 32, primavera de 1985,·
p.68.
38. Idem, p.79.
39. Lacan, J., Écrits, op. cit., p.320.
40. Borges, J. L., Fictions, Paris, Gallimard, 1 95 1 , p.I06.
8

Psicose e debilidade

Psicose e debilidade são um tema que, poderíamos dizer, é-nos imposto pelo
próprio texto de Lacan, que, em . 1 964, em seu Seminário 11, introduziu, na
página 245 da edição em espanhol, um parágrafo que logo ficou famoso: "( . . .)
quando não há intervalo entre S 1 e S2, quando o primeiro par de significantes
se solidifica, se holofraseia, obtemos o modelo de uma série de casos." Nessa
série ele introduziu as psicoses, a debilidade e os fenômenos psicossomáticos.

Já falei, na primeira destas conferências, da função do intervalo nas


psicoses, ao retomar a apresentação de doentes de Lacan sobre o delírio de
vizinhança de uma paranóica. De certo modo, pode-se dizer que todos os
delírios são delírios de vizinhança. Mas, a que vizinhança alude o delírio? Alude
sempre à mesma, àquela que se introduz no jogo do fort-da, à vizinhança de
uma hiância que se abre do lado do sujeito quando a mãe se ausenta. A ausência
da mãe produz essa hiância, que o sujeito tenta superar mediante a brincadeira
do carretel e a alternância da presença-ausência do carretel. Entre o fort e o da,
entre esses dois primeiros significantes, introduzem-se a função e o lugar exato
do intervalo. Dentro desse intervalo, que produzirá o lugar do objeto a em sua
vertente metonímica, que não é a única, introduz-se o objeto a. A hiância é
superada quando se introduz uma estrutura que permita a alternância: abertura
e, depois, fechamento, que instala a função temporal do sujeito. Do lado da
cadeia significante, não há função temporal, mas função de sincronia. Houve
época em que era difícil aos alunos de Lacan entender como articular - o tema
era um topos - sincronia e história em psicanálise, dispondo de um conceito
sincrônico da cadeia significante. Essa é uma das razões pelas quais Lacan
sempre manteve a função do sujeito do inconsciente, contrariando, inclusive,
sugestões de acadêmicos como Derrida ou Lyotard. A função do sujeito do
inconsciente é articular o tempo e a vizinhança em relação a essa hiância.

167
/68 versões da clínica psicanalítica

No delírio de vizinhança, a hiância surge no real, separada da cadeia


significante; o intervalo toma-se real . Isso faz com que o importante na psicose
esteja sempre do outro lado da parede. Essa hiância, que se abre pela separação,
é o lugar onde existe um gozo insuportável. Lembro-me, por exemplo, de uma
paciente que sofria de uma anorexia delirante. Ela dizia que "não podia comer
porque seu corpo estava totalmente aberto". Desse modo, quando comia, dizia
estar comendo o vazio que havia bem do seu lado, que esse vazio lhe entrava
na boca. Por essa razão, não podia comer. Outra paciente, por exemplo, via
abrirem-se buracos no chão quando andava. Essa função está sempre presente,
é a mesma hiância do fort-da que se abre diante do sujeito, é a realização do
sujeito, não como função temporal, mas como uma função de hiância não
articulada em suas duas vertentes, de abertura e fechamento. Só assim é que
uma hiância pode apresentar-se sempre atrás, na frente, em cima, embaixo, num
espaço completamente não métrico e topológico, sempre situado na função do
vazio. O delírio de vizinhança é exemplar no que se refere à introdução, no lugar
do que Freud chamava o vizinho, o próximo (Nebenmensch), do gozo. No lugar
do próximo surge das Ding, como Lacan chamou, numa certa época, aquilo que
depois denominou de objeto a, mas situado de tal maneira que não funciona
como expoente de um desejo, porém apenas como resto. Esse tipo de delírio é
uma representação clínica da ausência de intervalo entre S 1 e S z . Devemos
acrescentar mais uma coisa: quando o intervalo desaparece, em lugar da
metonímia (que só pode ser introduzida quando há intervalo) surge, ao contrá­
rio, a infinitização.

Infinitização é um termo que Lacan introduziu nas duas vertentes da


hipérbole do esquema I, nos dois eixos voltados para o infinito que se introdu­
zem na transformação do esquema R em esquema I. Vemos que numa vertente
está o gozo transexual de Schreber, voltado para o Ideal, e na outra, o ideal do
futuro da criatura, onde existe uma infinitização do ser, sua dispersão, mas não
uma metonímia do ser. Não estando presente o intervalo, resta apenas um tipo
de continuidade. Essa continuidade foi abordada, em 1956, mediante a imagem
da infinitude.

Nas psicoses, produz-se uma série de transformações do desejo. Uma


delas é a infinitização das esquizofrenias paranóides, como a de Schreber.

Há outras transformações do desejo nas psicoses; uma delas, muito


particular, é a que se produz tanto na melancolia quanto na mania. Lacan as
designa da mesma maneira, apesar de serem duas transformações de direção
diferente. A fuga de idéias da mania, fenômeno psiquiátrico clássico, é uma
metonímia louca. Por isso é que Lacan diz, abordando esse fenômeno pelo
ângulo da metonímia, que, numa cadeia que se produz quase sem intervalo,
exi ste essa fuga que produz uma continuidade. O louco é já não haver um objeto
que possa ocupar o intervalo. Dizer que não há objeto que possa ocupar o
a psicose e seus limites 1 69

ESQUEMA I :

intervalo e dar peso à cadeia significante é o mesmo que dizer que não há mais
intervalo entre os significantes. Outra maneira de estar identificado com o
desejo é a melancólica. O melancólico se identifica com o desejo alcançando
um ponto em que ele é imortal, imortal como indicou Freud na Interpretação
dos sonhos. Um desejo imortal que não se modificará, que insistirá sempre, para
além de toda a vida. Nesse sentido, o suicídio melancólico é uma confirmação
dessa imortalidade da identificação com o desejo.
Vemos, portanto, os dois sentidos em que Lacan pode utilizar essa
identificação com o desejo, numa vertente maníaca e numa vertente melancó­
lica. Estas são transformações do vetor do desejo, que é desenhado no grafo
como um vetor que vai do desejo à fantasia. Contudo, quando o ponto de
chegada da fantasia não funciona, produz-se a infinitização, a eternização que
se deve à ruptura do ponto de chegada, em virtude de a função temporal do
sujeito, introduzida pelofon-da, haver desaparecido. Vocês devem sublinhar a
importância que adquirem essas brincadeiras de abertura e fechamento que
atestam a inexistência da função temporal. Essas são, pois, algumas das
transformações da função desejante no registro das psicoses. A exposição do
"não há intervalo entre S 1 e Sz" serve para enfatizar que isso alude a fenômenos
clínicos de maneira muito sensível.
No entanto, devemos acrescentar que Lacan propôs esse fenômeno,
naquela época, em resposta a uma proposição de Maud Mannoni. Como vocês
devem saber, a Sra. Mannoni foi a primeira a publicar, nos anos 60, uma série
1 70 versões do. clínica psicanalítica

de trabalhos sobre o lugar do sujeito débil, do-idiota, que atestaram seu esforço
de introduzir esse tipo de sujeito no discurso analítico, no campo analítico. Sua
idéia era que o sujeito débil estava no lugar em que se produzia uma fusão entre
o corpo da criança e o corpo da mãe. Em seu livro sobre esse tema, no ano de
1964, ela disse: "Há debilidade quando há fusão entre o corpo do sujeito e o
corpo da mãe."
Lacan respondeu a essa proposição assinalando que não é no nível do
corpo que se produz a fusão, mas no nível da cadeia significante. A idéia de
Maud Mannoni não era absurda, mas estava insuficientemente elaborada. A
primeira resposta de Lacan consistiu em sustentar que é preciso fazer referência,
em primeiro lugar, à cadeia significante, e não ao corpo. À fusão, à simbiose
- à suposta psicose simbiótica, pois todas as psicoses são simbióticas, já que
exigem o desaparecimento do intervalo entre S I e s2 , sendo a simbiose
-

significante a mais importante. Quando se admite isso, quando se aceita a


passagem inicial pela estrutura, rechaçando a intuição que está necessariamente
implicada na noção de fusão corporal, logo se podem separar lugares distintos
no corpo. O corpo não é o mesmo quando é lugar de inscrição de significantes
ou quando é lugar da não inscrição de significantes, ou quando é lugar do retorno
do gozo, ou quando é lugar da borda. Para pensar com mais precisão sobre todos
esses lugares do corpo, deve-se rechaçar o espaço intuitivo.
A cadeia significante que se apresenta nesse tipo de casos pode ser escrita
. St - S I - S I
assim, � . '
, sem os parenteses simbólIcos, coIocando-se o 1ugar do
a
objeto a separado dessa cadeia. Esse objeto apresenta-se como um termo
obscuro, diz Lacan, do desejo da mãe. Em vez de ter abaixo do desejo da mãe
uma incógnita, um x, como o escrevia Lacan na época da metáfora paterna,
temos um desejo matemo apoiado num termo obscuro, que assume, nessa
época, o valor do objeto da fantasia da mãe:
DM DM
X a
Metáfora paterna Seminário 11
Lacan nos apresenta nesse parágrafo uma série que nos convida a
considerar como funciona o Um, o sem intervalo da cadeia, nas psicoses, na
debilidade e nos fenômenos psicossomáticos. Referi-me aos fenômenos psicos­
somáticos em outro trabalho.!
Consideremos o Um na debilidade, primeiro separando, para isso, o Um
do corpo e o Um d' alíngua. Lacan diz, no Seminário 11, que a cadeia significante
se holofraseia, solidifica-se. Alguém fez um levantamento do termo holófrase
na obra de Lacan e observou que ele também foi usado no Seminário 2. Neste,
ele designa um tipo de frase, de acordo com a classificação vigente nos anos
a psicose e seus limites 1 71

50, que foi objeto de um debate, na lingüística, entre aqueles que estavam
procurando pensar o desenvolvimento da linguagem, saber se nela surgia
primeiro o aparelho gramatical ou o léxico. Alguns lingüistas, como Guillaume,
a quem Lacan fez referência, tomaram um tipo de frase, presente nas línguas
ou na história das línguas, que carecia de articulação lexicográfica e cuja
existência lhes serviu de sustentáculo da tese da primazia da função gramatical,
usando aqui os termos de Chomsky, como dispositivo do nível gramatical
sintático.
Lacan utilizou o termo holófrase para apresentar um tipo de Um que podia
incluir todas as funções sintáticas, sem uma articulação lexicográfica propria­
mente dita. Pela primeira vez, no Seminário 11, ele usou a holófrase para
designar o conjunto da língua. A cadeia como tal se holofraseia, disse Lacan,
servindo-se do pronome reflexivo; não há holófrases, mas toda a cadeia e toda
a língua se holofraseiam. Essa é uma utilização que não tem equivalente na
lingüística. Por que, depois desse uso destacado, a holófrase desapareceu da
obra de Lacan? Darei minha resposta. É que, depois, o verdadeiro nome da
holófrase passou a ser S t . Todo o ensino de Lacan examinaria como se produz
o significante Um, sozinho, holofraseado. Um modo de falar desse Um sozinho

é designá-lo como holófrase. Lacan não apontava, portanto, para o uso lingüís­
tico comum do termo holófrase, pois estava cunhando, no Seminário 11, os
termos com que poderia continuar sua investigação. A lição em que aparece
esse parágrafo examina, justamente, a diferença entre o S 1 sozinho e o S t ligado
a outro.
Para considerar o Um do débil, temos que levar em conta como funciona
o St na debilidade. O débil não deve ser situado unicamente como um St ; há
também um dois na debilidade, e esse dois é precisamente o que o diferencia
do psicótico.
Em 1 5 de março de 1972, num seminário, Lacan disse: "Chamo debili­
dade mental ao fato de um ser não estar firmemente instalado num discurso.
Nisso reside o interesse do débil." Temos aí uma clara diferença entre o débil e
o psicótico. O psicótico se define como fora do discurso, enquanto o débil se
define como entre dois discursos, como quem não está estabelecido com
firmeza num discurso, oscila entre dois, para tomarmos uma expressão de
Lacan.
Mas, que atesta o débil, além disso, com seu rechaço do saber? A
peculiaridade de seu horror ante o saber deve-se a que ele se protege do saber
instalando-se na posição da verdade. Pierre Bruno mostrou isso em seu texto
sobre a debilidade, recentemente publicado em Omicar?.
O lugar da verdade situa-se abaixo e à esquerda nos discursos. No
discurso do senhor ou do inconsciente, ele é ocupado pelo $, o sujeito barrado;
1 72 versões da clínica psicanalítica

no discurso analítico, é ocupado pelo S 2 , o saber. Há que diferenciar, nos


discursos, o lugar da verdade e o dizer a verdade. Não é por ocupar o lugar da
verdade que o débil diz a verdade.
Nesses seminários de 1 972, Lacan desenvolveu a debilidade de maneira
muito divertida, aludindo, por exemplo, ao pobre ou ao operário, que se
apresentam como fora do domínio do ter - seja o pobre do Evangelho, aquele
que nada tem, seja o operário do capitalismo -; ambos ocupam nos referidos
discursos o lugar da verdade, sustentando-os. Mas, quando o proletário ou o
pobre ocupam o lugar da verdade, o que se produz é um clero, diz Lacan. Para
sustentar o discurso, eles têm que mentir, a mentira é necessária. Aí se pode ver
como é perfeitamente possível ocupar o lugar da verdade e, ao mesmo tempo,
sustentar um discurso mentiroso. Todo clero mente.

Creio que podemos apreciar a relação existente entre essas formulações


de Lacan e o problema que Freud descreveu em Psicologia das massas e análise
do eu. Refiro-me à relação, na massa, entre aquele que ocupa o lugar da
identificação da verdade e as identificações do eu. Lacan retoma de maneira
muito original essa distorção, apontando como, em toda massa, aquele que
ocupa o lugar da verdade e o discurso em que se apóia o ocupante desse lugar
- considerando-se que têm de respeitar as identificações egóicas - têm que
proceder pela via da mentira, para sustentar o laço comum entre os que estão
identificados através de um mesmo lugar da verdade.

O débil, portanto, entre discursos, ocupa algo que não se modifica, o lugar
da verdade. Que apresenta o débil, pois, nesse ponto? Uma mentira. Lacan
aludiu à mentira do débil em 10 de dezembro de 1954, dois anos depois, no
seminário R. S./. , publicado em O micar? nº 2. Disse ele: "Quando o ser falante
mostra-se consagrado à debilidade mental, ele o faz no imaginário, porque se
refere ao corpo. A suposição que o corpo implica é que aquilo que se representa
para o ser falante não é mais do que o reflexo de seu organismo."

Pode-se observar que, em 1 974, a mentira que sustenta o lugar da verdade


que o débil pode ocupar é a mentira de admitir o Um do corpo como referência
única. Lacan afirma que a verdade, a referência do discurso, não é o gozo, mas
aquilo do gozo que pode ser articulado na união, no Um do corpo. É o Um que
Platão nos apresenta em seu mito, um mito que Lacan qualificou de uniano,
para distingui-lo do Um unário, que se apresenta não apenas sob a forma da
união, mas também da diferença, ou do Um sozinho. A verdade que o débil
sustenta, sua maneira de apresentar a holófrase entre significantes, é que a
referência em que ele se apóia é um gozo que remete à fusão dos corpos. Nesse
sentido, não tanto à fusão do corpo da criança com o da mãe, embora se possa
chamá-la assim posteriormente, mas desde que se leve em consideração,
primeiro, que o que se faz existir é a relação sexual como união uniana.
a psicose e seus limites 1 73

Há, inclusive, uma obscenidade que é muito característica do débil, e que


é muito distinta, por exemplo, da masturbação e do balanço do psicótico, que
são uma forma de presença da referência ao gozo. Quem trabalha em ins­
tituições onde há débeis mentais sabe que muita gente é capaz de ceder ao
encanto do corpo do débil. Sabe-se que, às vezes, há nessas instituições algumas
passagens ao ato, que costumam ser ocultadas para não desmoralizar e desani­
mar o resto dos que trabalham ali. Isso significa que há um encanto particular
da obscenidade do débil, algo diante do qual pode-se até sucumbir, e que é a
vontade do débil de apresentar como referencial único a unidade do corpo.
Essa estrutura tem seu correlato fenomênico na experiência. Ela permite
distinguir a necedade na neurose e na debilidade, que é muito diferente em cada
um desses casos. É fato que há neuróticos que se apresentam como tolos ou
néscios. A diferença reside em que o neurótico admite outra referência além da
do gozo uniano. No neurótico, produz-se uma distribuição do gozo que lhe
permite enumerar, fazer uma enumeração. Lacan representou isso mediante o
exemplo das pirâmides. Uma pirâmide apresenta-se como uma sepultura, como
um corpo vazio, morto, e a seu redor estão todos os objetos que interessavam
ao corpo quando ele estava vivo, todos os objetos do gozo. Lacan assinalou a
enumeração desses objetos, muito mais numerosos do que as bordas do corpo
e do que estas podem acolher para articular o gozo com o corpo. Temos, pois,
na pirâmide, o corpo vazio e a distribuição dos objetos de gozo. Isso também
pode ser visto na extraordinária pirâmide construída por um rei da era moderna,
Felipe 11 de Espanha: o Escoria!. Esse monumento, construído para ser sua
sepultura quando ele ainda era vivo, continha todos os objetos de seu interesse.
Felipe foi um rei que, por outro lado, teve o grande mérito de ser o primeiro a
instalar o modelo arquetípico do que é a função do senhor num sistema
moderno. Foi o primeiro rei a não ficar montado em seu cavalo. Seu pai, Carlos
V, passava o tempo a cavalo ; Felipe 11, ao contrário, passava o tempo em seu
escritório. Era um escritório pequeno, muito simples, de onde ele não se
levantava o dia inteiro, onde escrevia. Depois de Felipe li, nenhum rei foi visto
à frente de suas tropas, no estilo de Carlos V. Felipe li deixava essas coisas na
mão dos militares, que tinham que obedecer a suas ordens. Foi esse o modelo
que, mais tarde, veio a ser copiado por Luís XIV, da França.
Essa pequena digressão nos traz ao ponto que nos interessa: o neurótico
conta, enumera os elementos de seu gozo. O débil, ao contrário, apresenta-se
despido, sem esses objetos, com o esplendor do corpo nu, sem mediação nem
articulação com os objetos. Todo obsessivo que entra numa casa verifica o lugar
e o número dos objetos, vê se estão todos ali. Que faz um histérico quando entra
numa casa? Verifica se todos olham para ele, verifica se ele é o Um que se acrescenta
ao conjunto de objetos que há na casa. Que faz um esquizofrênico paranóide ao
1 74 versões da clínica psicanalítica

entrai numa casa? Quebra tudo: essa é sua maneira de contar, sua maneira de
enumerar todos aqueles objetos que servem de sinal do goro obsceno do Outro,
e com isso ele também enumera a falta de localização do goro do Outro e sua
impotência para contar, para enumerar, para partilhar o goro.
É muito diferente contar o que está dentro e contar o que está fora. Uma
anedota de Saul Kripke, o lógico norte-americano, que foi um menino "prodí­
gio", pode ilustrar-lhes isso. Ao que parece, aos quatro ou cinco anos, segundo
sua mãe contou à revista Life, ele mantinha com o pai, que era rabino, conversas
sobre a existência de Deus e sua onipresença. Um dia, Kripke entrou na cozinha
e perguntou à mãe se, quando ele entrava na cozinha, Deus tinha que sair ou
não. Como se vê, ele era muito esperto, porque isso é verdade, não é a mesma
coisa contar o que está dentro e contar o que está fora.
O que o débil atesta, em vez do gênio, é que ele também tem capacidade
de contar e fazer cálculos, de maneira muito rápida. Ele pode calcular, jus­
tamente, porque não há uma repartição do gozo. Sua maneira de repartir tudo
é calcular (não quebrar tudo, como o esquizofrênico), sem poder repartir o gozo
que obtém com seu produto.
Assim, temos esses primeiros indicadores para avançar numa clínica que
admita a continuidade e as holófrases em todas as suas diversas formas. Vê-se
que a produção desse Um é diferente nos diferentes tipos de psicoses, e é
diferente também na debilidade e diferente também na neurose, como assinalou
Lacan, dada a relação do sujeito, em cada caso, com a enumeração dos objetos
de seu gozo.
Por essa razão, não se pode deduzir do ensino de Lacan que as es­
tabilizações na psicose consistam numa neurotização ou mesmo numa obses­
sivização, tese esta que foi desenvolvida por algumas correntes psicanalíticas.
Sim, podemos pensar, seguindo os ensinamentos de Lacan, que é possível, nas
psicoses, acrescentar um sintoma. Só que, enfocadas as coisas dessa maneira,
não se transforma o sujeito psicótico num neurótico obsessivo, por exemplo,
depois de uma análise.
O problema do débil é esse continuum fundamentado no corpo, que não
devemos confundir nem com as doenças da mente nem com as doenças do
Outro, tal como 1.-A. Miller2 as diferenciou a partir de um exemplo da
apresentação de doentes de Lacan. As doenças da mente têm como referência
fundamental, em Lacan, as parafrenias, e não a debilidade mental; poder-se-ia
denominá-las de parafrenias mentais, introduzindo o mental para contrastá-lo
com a personalidade. O caso de Lacan nessa apresentação, à qual assisti
pessoalmente, era, justamente, de alguém sem personalidade. Era uma pessoa
que podia pedir a qualquer um na rua que trocasse de roupa com ela. A maneira
de que dispunha para responder a si mesma se os outros eram ou não seus
a psicose e seus limites 1 75

semelhantes era vestir a roupa deles. A paranóia, em contrapartida, tem uma


personalidade que não quer trocar. As enfermidades da mente implicam que é
possível instalar o sujeito na mente de todos; as da personalidade destinam-se,
justamente, a salvar essa personalidade. Para o débil, por exemplo, a roupa, o
traje da pessoa, não constitui problema. Seu problema é o corpo, o que podemos
apreciar, clinicamente, na maneira como o débil sempre se apega ao corpo do
Outro, de um modo diferente do autista, por exemplo.
Estas, portanto, são algumas pontuações que acredito permitirem nos
orientarmos no caminho a seguir, se quisermos levar a sério a proposição do
parágrafo de Lacan no Seminário 11. Devemos trabalhar de modos diferentes
com esses ·mesmos conceitos, levando em consideração que o esforço de Lacan
foi produzir, ao longo de todos esses anos, uma clínica diferencial fundamentada
em alguns conceitos básicos, sempre os mesmos para todos os tipos clínicos.

NOTAS
1 . Ver "Los nombres dei sujeto", ... , p.7 1 .
2. Miller, J.-A., "Enseíianzas de l a presentación de enfermos", Maternas I, Buenos Aires,
Manantial, 1 987.
9
Missão Sexpol

Wilhelm Reich: um nome que soa como um império, uma técnica que foi , sob
o significante "bioenergia", adotada por toda uma geração em revolta, nos anos
70, antes de servir de significante (pelo menos o "bio") para a rádio mais ouvida
da região parisiense. O impacto de seu nome pode levar a esquecer que ele foi
também um psicanalista a quem Lacan qualificou de clássico, e que muitas das
correntes ressurgentes no próprio interior do movimento psicanalítico, que
acentuam as falhas de caráter de um self às vezes meio grandioso demais, são
desdobramentos da análise caracterológica de Reich.

Viena, 1927

Mas, o que era a SEXPOL? Eu gostaria, aqui, de balizar alguns marcos, traba­
lhando à maneira anglo-saxônica, ou seja,facts, alguns fatos. A SEXPOL come­
çou, convém dizer, como muitas vezes acontece em Reich, não como uma
elaboração conceitual propriamente dita, mas como . um encontro entre um
momento de crise que Reich atravessava e uma crise social, marcada por uma
manifestação de rua. Até 1 926, Rei ch era um jovem analista que trabalhava com
colegas, num estilo de trabalho coletivo que é raro em psicanálise, todos
movidos por sentimentos progressistas e, em sua maioria, filiados aos Es­
tudantes Socialistas. Esse "seminário de clínica psicanalítica" assistiu à pas­
sagem da fina flor dos psicanalistas vienenses: Fenichel, Sterba, Edith Jacobson
e até Anna Freud, que se rejubilava com ele. No entanto, nesse ano de 1 926,
Reich estava numa parte de sua vida em que foi tomado por um grande
sentimento febril, a ponto de ter que repousar num sanatório em Davos. Ali
permaneceu por seis meses, e voltou a Viena em 1 5 de julho de 1 927. Nesse
mesmo dia, houve uma manifestação que marcou época, uma vez que desen-

1 76
a psicose e seus limites 1 77

cadeou a matança mais importante desde 1 848: 83 mortos, com a polícia


atirando nos manifestantes socialistas, que protestavam contra um julgamento
que havia absolvido manifestações direitistas de milícias calcadas em ex-com­
batentes. Pois Reich estava na rua nesse dia; tinha ido encontrar-se com a
mulher, Annie Reich - analista que se tomaria célebre e de quem o Dr. Lacan
viria a falar, mais tarde -, e os dois por pouco escaparam das balas. Na mesma
noite da manifestação, Reich filiou-se ao Partido Comunista Austríaco. Este
comportava algumas centenas, ou talvez alguns milhares de pessoas, nada tinha
de comparável ao Partido Comunista Alemão e não era uma alavanca de ação
poderosa. Mesmo assim, foi a esse partido que Reich optou por se filiar, pois
censurava os dirigentes socialistas por não terem estado na rua nesse dia.
A partir de 1927, com uma pequena equipe, ou seja, um pediatra, uma
ginecologista e uma de suas amigas professoras de jardim de infância, ele
percorreu com sua caminhonete os arredores proletários de Viena (e, para quem
nunca esteve em Viena, convém saber que toda a arquitetura dos bairros
suburbanos socialistas baseou-se em Viena, donde podemos imaginar como
eram esses subúrbios com seus primeiros conjuntos habitacionais), para ali
animar discussões à noite, depois de anunciar sua visita, nos dias precedentes,
através de panfletos. Os quatro reuniam a seu redor a gente do lugar; Reich
cuidava dos homens, a ginecologista, das mulheres, e o pediatra, das crianças.
Quando era preciso prescrever um anticoncepcional, era a ginecologista, na
caminhonete, quem se encarregava das receitas. Depois, eles distribuíam pan­
fletos, práticas estas que eram todas absolutamente ilegais, já que a distribuição
de anticoncepcionais não estava dentro do contexto legal da Áustria da época.
Reich dedicou-se a essa atividade durante todo o ano de 1928 e, em
janeiro de 1929, inaugurou "ambulatórios de higiene sexual para empregados
e operários", criados pela "Associação Socialista de Higiene Sexual e Pesquisa
Sexológica" - a associação que ele mesmo havia fundado com seus quatro
companheiros de excursão. Ali, com quatro psicanalistas oriundos de seu
seminário clínico e alguns obstetras, ele atendia essencialmente aos pedidos de
aborto, que constituíam o ponto essencial da demanda do público. Esse aborto
solicitado foi o conceito que ele formulou para justificar sua atividade.
Edith Jacobson, analista que se tornou conhecida por seus trabalhos sobre
o selfdepois de emigrar para os Estados Unidos, e que trabalhava com Reich
nessa época, nesses ambulatórios de higiene sexual, respondendo, nos anos 60,
a um questionário sobre "Que era possível fazer nesses ambulatórios?", afir­
mou: "Bem, surpreendentemente, podíamos fazer muita coisa."
Missão foi um termo utilizado pelo próprio Reich nesse período. Ele
considerava que o que fazia era da ordem de uma missão e se opunha violen­
tamente a qualquer crítica. A partir dos anos de 1 929- 1930, após a inauguração
1 78 versões dn clínica psicanalítica

desses ambulatórios, mudou o clima que o cercava. De jo:vem.clinico brilhante,


Reich tornou-se um personagem meio embaraçoso para o meio psicanalítico,
em parte por causa de sua atividade de conferencista. Quando começava a falar,
nesses anos, ele raramente parava antes de uma -hora da manhã; falava muito,
e de temas que faziam um sucesso incontestável. &a um orador que levantava
as massas. Nessa ocasião, desenvolveu -temas -que estavam começando a se

tornar incômodos para seus colegas psicanalistas, como este, por exemplo: o

único meio de superar o Édipo era, pura e simplesmente, retirar as crianças das
famílias. Reich recebeu algumas advertências de seus colegas, e também do
partido.

Berlim, 1930

Ele tomou a iniciativa, após o fracasso de um certo número de manifestações


órganizadas pelos social-democratas, de organizar um Comitê de Social-De­
mocratas Revolucionários, comitê este formado, essencialmente, por pessoas
com quem ele travava conhecimento em seus ambulatórios, assim transforman­
do as frouxas relações de adesão numa tendência. Em 16 de janeiro de 1 930,
ele foi expulso do Partido Comunista Austríaco. Em setembro de 1 930, fez uma
importante visita a Freud, na qual este lhe pediu que se acalmasse, recomen­
dou-lhe a prudência necessária ao exercício da psicanálise e lhe disse que talvez
fosse interessante ele recomeçar uma análise. Reich tentou fazer-se aceitar em
análise por Freud, pedido ao qual este respondeu preferindo encaminhá-lo a
Berlim, deixando-lhe claro que um analista da reputação dele dificilmente
encontraria em Viena alguém que o aceitasse, e dizendo que, já que ele estava
pensando em ir para Berlim, aquele era o momento para fazê-lo.
A conjugação de suas dificuldades dentro do movimento psicanalítico,
em setembro de 1930, com sua expulsão do Partido Comunista Austríaco, em
janeiro, levou Reich a tomar a decisão de partir para Berlim. A Berlim de 1930
era um meio absolutamente brilhante, organizado em torno do Instituto de
Berlim, onde se encontravam Fenichel, Fromm, Jacobson, Karen Horney e
muitos outros, todos simpatizantes do projeto reichiano e todos de tendência
progressista confessa, de modo que Reich iniciou prontamente um seminário
clínico. Ao mesmo tempo, filiou-se ao Partido Comunista Alemão. Este, com
seus milhões de membros, era o mawr partido comunista de toda a Europa
ocidental - nada a ver com o pequeno Partido Comunista Austríaco. Desde o
início, Reich quis trabalhar nas organizações de massa do partido.
Quando falamos dos quarenta mil membros reunidos pelo comitê fun­
dado por Reich, convém ressalvar que essas quarenta mil pessoas repre­
sentavam, acima de tudo, o que era promovido pela poderosa máquina partidá-
a psicose e seus limites 1 79

ria - e veremos exatamente em que momento isso aconteceu. Assim, Reich


trabalhou nas organizações de massas do partido e fundou um "Ambulatório de
Conselhos Sexológicos", que retomou a fórmula que ele havia aperfeiçoado
durante três anos em Viena. Em seu "Ambulatório", ofereciam-se cursos de
educação sexual, uma consulta sobre controle da natalidade, e se realizavam
terapias breves, conduzidas por analistas da qualidade de Edith Jacobson, bem
como por outros analistas do Instituto de Berlim que eram favoráveis ao projeto
- e não, de maneira alguma, por qualquer um.
No outono de 1 930, Annie Reich chegou com seus filhos a Berlim. A
partir de seu ambulatório, que era sua atividade essencial, Reich tentou conven­
cer o partido de que era interessante agrupar, em tomo de um projeto próprio
do Partido Comunista, várias organizações que militavam pela modificação das
leis referentes à repressão legal das condutas sexuais desviantes. Essa organi­
zação tinha, na Alemanha, e em particular na República de Weimar, um grande
desenvolvimento - alguns de vocês talvez tenham ouvido falar da atividade
de Magnus _Hirschfeld, que militou muito, especialmente pela legalização da
homossexualidade, e que, nesse aspecto, entrou em cqnflito com Relch, que
não era, como dizia, a favor da democracia sexual. Ele não considerava que
todos os comportamentos sexuais fossem equivalentes. Sua ênfase na genitali­
dade - e, aliás, convém dizer, na genitalidade masculina, pois se aprende muito
pouco na obra de Reich sobre o que seria a sexualidade feminina --centrava-se,
para ele, num ponto: ele era a favor da heterossexualidade. Assim, opôs-se a
Hirschfeld nesse aspecto. Por isso é que, se insistia na possibilidade e na
necessidade da permissividade na relação dos adolescentes, ele era favorável
às brincadeiras sexuais heterosseJWais.
Sua atividade no Partido Comunista culminou em 1 93 1 , em Dusseldorf,
onde ele criou a Associação Alemã por uma Política Sexual Proletária [SEXPOL],
coroamento de seus esforços de um ano e meio no partido. Reich convenceu os
dirigentes a criar essa organização de massa e formulou um programa de sete
pontos, que era o seguinte:
I. Distribuição gratuita de anticoncepcionais e organização de uma
propaganda de controle da natalidade.
2. Abolição das leis repressivas sobre o aborto.
3. Abolição de qualquer distinção entre casais casados e não casados,
e eliminação da prostituição.
4. Eliminação das doenças venéreas, através da educação sexual.
5. Prevenção das neuroses pelas atividades ambulatoriais e através de
uma pedagogia sexual.
6. Educação dos médicos sobre a dimensão psicológica de sua ação.
7. Tratamento, em vez de punição, dos delitos sexuais.
180 versiies da clínica psicanalítica

Nesse programa, Reich acrescentou que a URSS dera alguns passos à


frente nessa direção - assinalou, aliás, que isso estava meio parado e era
preciso retomar a coisa - e que o capitalismo reprimia com mão de ferro esses
diferentes aspectos.
Em 1 932, houve três publicações de seu ambulatório, que foram: O
combate sexual da juventude, de W. Reich, Quando seu filho lhe pergunta, de
Annie Reich, e O triângulo de giz, redigido com Reich por um certo número
de educadores. Esses livrinhos, portanto, eram dirigidos aos jovens, às mães de
família e às crianças, sendo O triângulo de giz um livro de educação sexual para
crianças de oito a doze anos. Essas publicações foram submetidas ao Comitê
da Juventude Partidária e imediatamente enviadas a Moscou para obter o
"imprimatur. Moscou aprovou os livros, mas não quis que fossem publicados
pelo Comitê da Juventude Partidária, e sim por uma organização de massa.
Reich, que entregara o manuscrito no verão de 1 93 1 , constatou que, em 1 932,
ele ainda não tinha sido publicado. Assim, criou uma editora, a Verlag für
Sexualpolitik, o que foi uma decisão temerária, pois, desde então, nenhuma obra
de Reich, durante sua vida, foi publicada por nenhuma outra editora senão a
dele.
Em 1 6 de outubro de 1932, Reich esteve em Dresden com os jovens do
Partido Comunista. Fez com que essa conferência aprovasse uma resolução
final, apoiando a liberdade da sexualidade adolescente. A conseqüência não
tardou: em 5 de dezembro de 1932, veio a condenação da política sexual no
Rotersport, que era o jornal de massas do Partido Comunista, com esta frase
memorável: "Não há problemas de orgasmo entre os proletários, eles só existem
entre os burgueses." E Reich foi declarado contra-revolucionário.
Por fim, em 30 de janeiro de 1933, pouco depois da expulsão de Reich
do partido, ocorrida no fim de dezembro de 1 932, Hindenburg nomeou Hitler
chanceler. Em 27 de fevereiro, o Reichstag foi incendiado e, em 2 de março,
assistiu-se ao primeiro ataque das publicações nazistas contra Reich. Nessa
mesma noite, prudentemente, ele partiu para Viena, achando que essa ainda era
uma possibilidade a ser aproveitada.
Quando chegou a Viena, em março de 1933, Freud lhe anunciou que a
Editora Psicanalítica também não poderia publicar seu livro. Em abril de 1 933,
após uma conferência realizada diante da Juventude Socialista, Paul Fedem,
que fora analista de Reich, pediu-lhe que não mais fizesse conferências para
estudantes socialistas ou comunistas em nome da psicanálise, porque o regime
autoritário do chanceler Engelbert, socialista-cristão (ou seja, um enérgico
centro-direitista), acabara de ser empossado. Houve uma discussão violenta
entre os dois. Reich queria uma carta - foi sempre isso o que exigiu - da
diretoria da Associação V1enense que o proibisse explicitamente de fazer
a psicose e seus limites 181

conferências. Não a obteve e, em 21 de abril de 1933, à saída de uma tumultuada


reunião com o comitê executivo da Associação Vienense, onde mais uma vez
pediu que ela se pronunciasse, um dos analisandos de Reich, dinamarquês,
disse-lhe que seria muito melhor ele ir para a Dinamarca, onde era aguardado.
Reich chegou à Dinamarca no fim de 1933 e, já em abril de 1934, estava com
a polícia dinamarquesa em seus calcanhares. Fim da SEXPOL.

Dar existência ao falo

Afinal, que foi a SEXPOL? Antes de mais nada, um conjunto de medidas


pragmáticas que, no fundo, eram de bom senso, de um bom senso progressista,
e que foram aprovadas na realidade das sociedades democráticas dos anos 60.
A lista preparada em 1 93 1 , ao que eu saiba, não esbarrou em nenhum obstáculo
nas sociedades capitalistas, e sim numa vontade política de levar a termo aqueles
sete pontos. E as organizações progressistas que se encarregaram disso fizeram
com que os sete pontos fossem aprovados na trama legal.
Em segundo lugar, a SEXPOL foi muito mais do que esse conjunto de
medidas práticas; foi um significante, um significante de revolta, e que perma­
neceu como portador de muito mais do que todos os significados ligados a ele
naqueles anos. A SEXPOL foi ainda um significante de revolta nos anos 60 e 70.
Para Reich, ela foi uma missão: dar existência ao gozo fálico neste
mundo, fazer com que o sujeito gozasse genitalmente, conseguir fazer com que
houvesse um pênis que não fosse um semblante, um pênis sem fala. Esse
estatuto extra-simbólico do pênis, do gozo genital, foi efetivamente um marco
na subjetividade de Reich. E eu não hesitaria em considerar, com Annie Reich,
Edith Jacobson e os analistas que o conheceram na época, que a passagem pelo
sanatório de Davos foi, para Reich, uma crise fundamental em sua existência,
que implicou uma ultrapassagem. Foi essa tentativa de dar existência ao falo
que, a partir de 1934, levou-o a ser excluído de toda e qualquer organização a
que se ligasse - os psicanalistas o expulsarà.m no Congresso de Lucerna, em
1934, e os comunistas já o tinham feito em 1932, irreversivelmente. A partir
daí, como resposta, um belo dia, na Dinamarca, Reich veria aparecer a energia,
não como um conceito, mas como algo que ele viu. Num aposento em que
estava a sós, ele vislumbrou uma luz azulada que lhe apontou a energia e que
ele percebeu cada vez mais, até vê-la estender-se sobre o mundo numa noite
estrelada de 1 94 1 , no Máine, nos Estados Unidos, lá no alto das montanhas,
onde o céu é muito límpido e muito azul. Ali ele veria o orgônio estender-se
sobre o mundo. Isso não é um conceito. Foi um encontro com um ponto do real,
ao qual ele tentou, em seguida, associar os cientistas de sua época.
182 versões da clínica psicanalítica

Não recuarei, devo dizer, ante a idéia de considerar que isso começou por
uina missão, antes de chegar a um encontro. E, no fim das contas, não vejo por
que não se possa considerar que a obra de Reich se desenvolveu, posterior­
mente, como as etapas da reformulação sucessiva de um delírio. Não vejo
porque os psicóticos estariam tão excluídos da obra humana a ponto de, como
se diz, "a loucura ser uma ausência de obra"; na verdade, o número de obras
realizadas por psicóticos ultrapassa a imaginação dos neuróticos. Isso vai de
Cantor a Riemann , que não regulava muito bem, e também a muitos outros que
não se portavam lá às mil maravilhas - o que não os impediu de criar uma obra
humana que mudou de maneira absoluta, que mudou radicalmente o mundo
dos neuróticos, quer eles o saibam ou não.
Por isso é que eu não veria nenhum inconveniente em considerar, ao
mesmo tempo, que Reich construiu uma obra e que era psicótico.

Que restou da SEXPOL?

Restou uma pergunta para a psicanálise: que vem a ser a famt1ia, afinal? Os
psicanalistas, quanto a isso, deixaram as coisas singularmente como estavam,
e convém dizer que o título do Dr. Lacan de 1938, A família, levantou uma
questão para qs psicanalistas - o que permitiu ao Dr. Lacan retomá-la, em
1967, em sua Proposição, para constatar o familiarismo delirante do precon­
ceito analítico que defende a família como a única encarnação possível do
Édipo. A redução ao miolo de um mito, que coincide, em nossas formas sociais,
com a redução da família a seus elementos biológicos, produz um efeito de
janela falsa e de trompe l 'oeil, que foi tranqüilizador para os psicanalistas ­
conhecemos a célebre frase de Anna Freud: "Não há mais nada que eu possa
fazer pelos filhos de divorciados." Considerando-se que hoje, estatisticamente,
nas classes norte-americanas, 52% das crianças provêm de pais divorciados,
isso exclui um bocado de gente do campo analítico.
Persiste, por outro lado, um problema: o de que a experiência política dos
anos 60 e 70 demonstrou o fracasso das utopias comunitárias e de que, afinal,
a família continua a ser um ponto que se demonstra como uma espécie de real,
como diz o Dr. Lacan em algum lugar, como "o resíduo de uma necessidade de
transmissão". Quanto à mãe, "por seus cuidados particularizados, inclusive pela
falta que ela introduz" , o importante não é que ela seja suficientemente boa,
mas que seja também suficientemente má. E o pai, pelo nome que transmite,
representa formas que nunca foram interrogadas de outra maneira pelos psica­
nalistas em seu caráter irredutível.
O segundo ponto sobre o qual a SEXPOL nos interroga é: que é o fascismo?
E quanto a isso, Lacan sublinhou, em 1964: "Considero que nenhum sentido
a psicose e seus limites 1 83

da história, fundamentado nas premissas hegeliano-marxistas, é capaz de dar


conta desse ressurgimento. Às vezes, constata-se que a oferenda de um objeto
de sacrifício a deuses obscuros é algo a que poucos sujeitos conseguem não
sucumbir numa captura monstruosa." Foi com isso que o Dr. Lacan terminou
o Seminário 11, de 1 964. E que não nos venham falar simplesmente do senhor
e do escravo e da servidão, daquilo que La Boétie já denunciava, ou daquilo
sobre o qual Spinoza se interrogou com tanta lucidez. Está mais além. Trata-se
de uma interrogação sobre o desejo. O que a experiência analítica destaca é que
o desejo em estado puro visa apenas a uma coisa: o sacrifício do objeto de amor.
Lacan dizia que era por isso que tinha escrito "Kant com Sade", para nos abrir
um pouco os olhos. A exaltação de uma libertação do desejo só leva a um ponto:
o sacrifício absoluto.
Pois bem, o desejo com que se ocupa o psicanalista não é um desejo puro,
é um desejo temperado, temperado por este meio-termo introduzido pela
metáfora paterna.
10
O sujeito psicótico escreve . . .

O sujeito psicótico escreve como o sujeito neurótico fala - esse é um fato


constatado desde a invenção da clínica.
Basta ele ser um pouco reivindicador para que tenda a querer tratar de
que lhe façam justiça através de dossiês, relatórios e queixas, que tanto se
acumulam nos armários dos hospitais psiquiátricos quanto nas delegacias de
polícia, ambos igualmente mal-afamados e mal freqüentados.

O "gênio freudiano"

O alienado, como Lacan chamou o sujeito psicótico, toma-se de bom grado seu
próprio secretário. Dispõe de um sistema de tomada de notas, como o presidente
Schreber - sobre quem nos entretiveram esta manhã as excelentes exposições
das Sras. Bi:ischenstein e Ehrich -, um sistema de tomada interna de notas que
é tão consubstanciai à psicose quanto o é o teatro interno no sujeito histérico.
Foi isso que permitiu a Freud constatar que o inconsciente fica exposto
na psicose, ao passo que permanece encoberto, como observou Lacan, na
neurose.
Que o inconsciente se estrutura como uma linguagem é algo que a
construção da língua fundamental pelo presidente Schreber atesta, já que é
através dessa língua que ele vem "remediar a falha das línguas", como evocou
esta manhã Vincent Kaufmann, citando Mallarmé. O sujeito psicótico escreve,
e não esperou pela psicanálise para despertar fascínio por seus textos, coletivizar
por suas certezas e surpreender por suas passagens ao ato.
A pergunta que se coloca ao psicanalista diante da produção do texto
psicótico é: que fazer com ele? Ou seja, com o discurso psicanalítico, que dizer
dele? Pois sabemos que interpretar a psicose apresenta um limite, no qual Carl

184
a psicose e seus limite.� 1 85

Jung esbarrou de imediato, ao tomar em análise o primeiro psicótico da história


a ser analisado, Otto Gross, quando ele estava internado. Ao cabo de quatorze
dias de análise, dia e noite, Jung escreveu a Freud, desesperado: quando eu paro,
ele continua!
Como é, pois, que o psicanalista pode tomar-se interlocutor de um sujeito
que escreve, quando a via da interpretação lhe é barrada? No fundo, foi esse o
paradoxo inicial em que Lacan nos introduziu e ao qual tentou responder,
atribuindo um lugar exato ao psicanalista. Quando se publicou em francês, pela
primeira vez, um excerto das Memórias do presidente Schreber, nos Cahiers
pour l 'analyse, Lacan, comentando-o, destacou que a posição do psicanalista
em relação a esses textos era a do "gênio freudiano" - termo que ele utilizou,
nessa ocasião, para qualificar a intervenção de Freud que deu destaque ao texto
de Schreber como um texto freudiano, no sentido de que esse texto valorizava
a pertinência das categorias que Freud havia criado para outros objetos, dentre
eles a neurose.
Se Freud foi genial, diz Lacan nessa introdução- e propõe essa definição
do gênio-, foi sem dúvida por ter-se posto à vontade em relação ao saber. Com
efeito, Freud colocou-se à vontade num ponto, em relação ao texto de Schreber:
introduziu nele o sujeito como tal. E, ao introduzir o sujeito freudiano, o sujeito
do inconsciente, ele fez uma intervenção nas Memórias do presidente Schreber.
Lacan acrescenta o seguinte: "introduzir o sujeito como tal, o que quer dizer
não avaliar o louco em termos de déficit e de dissociação das funções", mas em
termos da lógica própria do inconsciente, tal como esta vem à tona no texto
schreberiano.
Assim, Lacan pôde dizer que o psicanalista devia tomar-se secretário do
alienado, o que não equivale, simplesmente, a se colocar no lugar do dispositivo
de tomar notas. Ser secretário do alienado é também fazer o que fez Freud:
introduzir o sujeito. Por sua própria posição, o ato psicanalítico visa a introduzir
o sujeito no texto psicótico e a ordenar, a partir daí, a produção que irá
manifestar-se no tempo. Mas essa produção também teria lugar sem o psicana­
lista, já que Schreber e Joyce não precisaram dele.

Jakobson e Lacan

Essa introdução do sujeito leva a situar a própria possibilidade da interlocução


com o sujeito psicótico de um modo todo especial. E, neste ponto, eu gostaria,
modestamente, de aproveitar a oportunidade para comentar duas posições
muito distintas de leitura do texto psicótico, conforme se trate do ato do
psicanalista de introduzir o sujeito do inconsciente, ou, por exemplo, do ato do
lingüista, como Jakobson lendo Hõlderlin.
186 versões da clínica psicanalítica

Diante de um auditório que comporta holderlinianos eminentes, minha


intervenção é apenas uma contribuição que quero manter tão modesta quanto
possível, mas parece-me útil ler com vocês, por um mom�nto, o que Jakobson
julgou poder destacar da leitura de Holderlin. De fato, num texto de 1 976,
reproduzido no volume 3 de seus Selected Writings em 198 1 , Jakobson faz um
estudo sobre o poemaA visão, de HOlderlin, estendendo-o inclusive a um estudo
mais geral do próprio Hõlderlin, e passa a estabelecer um certo número de regras
que ele considera aplicáveis ao sujeito psicótico como tal, seja qual for sua
prudência a esse respeito.
Nesse volume, publicado em francês com o título meio bizarro de Russie,
Folie, Poésie - a enumeração poderia continuar, pois não se entende muito
bem o que liga esses termos -, lemos, na página 1 95, o seguinte, que vem
depois de uma longa análise, conduzida com o cuidado lingüístico e a intuição
poética que são característicos de Jakobson: "Em HO!derlin, doente, a dicotomia
fundamental entre a totalidade de seu compnrtamento lingüístico e sua força
criadora manifesta-se através do contraste brutal entre a perda quase completa
da aptidão para dialogar com o meio ambiente e seu desejo e capacidade
espantosamente intactos e entusiástic0s de improvisar sem dificuldade, de
maneira espontânea e resoluta." Ao dizer isso, Jakobson se serve de depoi­
mentos colhidos nos últimos anos da vida do poeta, quando ele só conseguia
dirigir-se ao outro acumulando gentilezas infinitas, que adiavam sem cessar
o momento de falar com Sua Eminência, Sua Graça, enquanto, por outro
lado, quando se punha em sua mesa de trabalho, efe era capaz de escrever
de uma só penada os poemas que nos foram transmitidos graças àqueles que
tiveram a bondade de se fazer seus secretários. Jakobson, portanto, contrasta
a impossibilidade do diálogo com ''os verdadeiros monólogos, os monólo­
gos puros que, num surpreendente contraste com a atrapalhação que eram
as conversas corriqueiras de Hõlderlin, revelam a unidade e a integridade
intacta de sua linguagem. Foram esses os poemas que ele escreveu no ocaso
de sua vida." Impossibilidade do diálogo, portanto, e manutenção da forma
do monólogo.
Essa distinção feita por Jakobson a propósito de Hõlderlin é esclare­
cida pelo esquema simples que o Dr. Lacan propôs em seu seminário sobre
As psicoses, para fazer os psicanalistas captarem as dificuldades da relação
objetai. Esse termo, introduzido na psicanálise pelos discípulos da Escola
inglesa, os kleinianos, que havia transposto a barreira ao i naugurar a
possibilidade de aceitar sujeitos psicóticos em análise, trouxe, segundo
Lacan, uma certa confusão no manejo da relação de objeto, confundindo
dois registros: a dimensão imaginária e a dimensão que liga o Outro e o
sujeito.
a psicose e seus limites 187

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Distinguir, como faz Jakobson, as estruturas do diálogo, do tipo do


dirigir-se ao semelhante, e o verdadeiro monólogo, aquele que o sujeito mantém
com seu Outro, foi também o que o Dr. Lacan procurou esclarecer, e o destino
desses dois eixos não é o mesmo na psicose. Em certo sentido, o que Jakobson
diz vai contra o que observa Lacan, que destaca que o presidente Schreber, até
o fim, acentuou todo o seu interesse em acolher sua mulher, por quem, segundo
dizia, o antigo amor se havia conservado. Esse eixo de diálogo sempre foi
mantido e, afmal, Schreber também se dirige a nós, leitores. Ao contrário, o que
estava profundamente perturbado era a relação com o Outro, com o Outro
maiúsculo, que o levou a produzir seu delírio. Ora, o que Jakobson destaca é,
antes, que haveria, ao contrário, um desaparecimento das estruturas dialógicas
e a manutenção de urna estrutura monológíca, estritamente idêntica ao que seria,
por exemplo, a estrutUra poética. E esse posicionamento de Jakobson se deve,
precisamente, ao desejo do lingüista, como destacou Jean-Claude Milner em
seu livrinho L'Arrwur de la langue, servindo-se de indicações do IX. Lacan: ele
só quer ter que lidar com um Outro esvaziado de seu gozo .. O lingüista ama a
língua, desde que ela não sirva mais para gozar. Assim, ele a ama, toma-se
purista e a idealiza.

Pois bem, isso que Jakobson chama de manutenção das estruturas mono­
lógícas, se elas se conservam, é precisamente por ele não achar que os poemas
de Hõlderlin têm uma relação com seu gozo, e, em suma, se num primeiro
momento isso dá a impressão de ser o contrário, parece-me que, num segundo
sentido, mais profundo, Jakobson aproxima-se do que o Dr. Lacan escrevera
vinte anos antes. Jakobson observa, e chega até a considerar que isso é uma
descoberta, que os poemas de Scardanelli evitam a classe gramatical dos
embreantes, que referem o acontecimento narrado ao ato de comunicação ou a
seus participantes. Isso é verdade. Mas, nesse sentido, _também no texto de
Jakobson faltam alguns embreantes com o texto de Lacan, pois a única
referência a um estudo psicanalítico no texto dele é a que é feita, na página 179,
a Jean Laplanche, a quem ele rende homenagens por uma perspicácia muito
aguçada ao observar que um dó� temas centrais da criação de Hõlderlin, e, sem
dúvida, até mesmo uma chave .que permite compreender seu mundo de pensa-
188 versões da clínica psicanalítica

mento, fora descoberto por ele, a saber, a dialética da aproximação e do


afastamento. Pois bem, essa maneira de Jakobson, em 1 976, fazer referência a
um texto de Laplanche de 1 969, que trabalhava sobre as indicações de Lacan
de 1958, não remete como embreante ao fato de que a primeira pessoa a
valorizar a ausência dos embreantes no texto dos sujeitos psicóticos foi o Dr.
Lacan, fazendo uma referência explícita a Jakobson ! Mas, para nós, o que
interessa é medir o caminho percorrido desde o que chamarei de "momento
Laplanche", ou seja, interessa que, desse Outro do lingüista, da operação do
lingüista que consiste em introduzir as estruturas da língua no texto psicótico,
o resto é a dialética do afastamento e da aproximação.
O termo dialética é estranho, aplicado à psicose, pois, se há uma coisa
que não é psicose, é a dialética. A psicose não é dialética, ela procede por
certezas, e a certeza psicótica não é dialética. É isso que faz com que a dialética
não seja, de modo algum, uma chave para nos introduzirmos no funcionamento
do sujeito psicótico. É até absolutamente necessário nos desprendermos da
dialética para apreender o que são esse afastamento e essa aproximação. E o
que persiste como chave do afastamento e da aproximação é aquilo que o
lingüista afastou, que é o lugar do gozo, que, como testemunha Schreber, é
aquilo que o invade e o abandona, aquilo que introduz, não uma dialética, mas
uma presença e uma ausência, uma tão real quanto a outra, que o arrancam dos
uivos.

O esvaziamento do gozo

Ai, em contraste, devemos considerar o efeito da introdução, pelo psicanalista,


da categoria de sujeito. Também o psicanalista, qualquer que seja a perturbação
da relação com o semelhante ou sua manutenção, dá destaque à manutenção de
estruturas monológicas, como diz Jakobson, ou, pelo menos, da lógica da
relação do sujeito com o Outro, e essa lógica inclui não apenas o inconsciente,
mas também o que lhe é externo, ou, mais exatamente, o que está na estrutura
"extima" no inconsciente e na psicose, íntima - oposição que Jacques-Alain
Miller destacou, a partir do ensino de Lacan, como central nas relações do
inconsciente com o isso. Nesse sentido, o efeito da introdução de sua categoria
de sujeito pelo psicanalista é valorizar a literatura como ficção, não no sentido
de fantasia, mas comoficção no sentido de Bentham, ou seja, uma estrutura de
distribuição do gozo. O termo ficção, quando referido a Bentham, pertence à
teoria do direito e, nesse aspecto, tanto os textos de Bentham quanto, atual­
mente, os dos que estão tentando inscrever-se em sua trilha, como John Rose,
por exemplo, o que eles evidenciam e em que depositam a ênfase é que a ficção
se pretende uma distribuição partilhada do gozo. A propósito, foi justamente
a psicose e seus limites 189

por isso que Stendhal reconheceu no Código Civil, comjusteza, um fundamento


essencial da clareza do estilo e da literatura.
A literatura, no fundo, é um conceito mal formado. Toda uma vertente
dessa literatura decorre da identificação do tipo "Madame Bovary sou eu", e
também, nesse mesmo corpus de textos que decorrem da literatura, uma outra
vertente provém do rechaço do inconsciente e do rechaço da atração das
identificações, segundo uma fórmula do mesmo Jacques-Alain Miller.
Assim, a introdução da categoria de sujeito pelo psicanalista leva, em
primeiro lugar, a considerar o texto psicótico como ficção e distribuição de gozo,
e, em segundo, a valorizar essa função do texto, não como uma exibição de
identificações, mas, propriamente falando, como um esvaziamento do gozo.

A perda necessária

Se Lacan pôde dizer que a lógica do sujeito decorre da teoria dos conjuntos, é
porque esta supõe também o funcionamento de um conjunto vazio: { 0 }. Ela
pressupõe eminentemente a lógica da barra. O que o psicanalista introduz com
seu discurso é uma grandeza negativa; não uma catarse, como se disse muito
apressadamente a propósito da neurose, mas um esvaziamento, como mostra a
psicose. Lacan indicou isso numa longa nota de rodapé de seu texto sobre a
"Questão preliminar ( ... )": frente à dispersão do delírio no infinito, o sujeito
Schreber adstringe-se ao ato de "fazer" no mundo. É pela exoneração que
Schreber compensa a falha das línguas. Em termos mais gerais, o sujeito
psicótico, em sua ficção, adstringe-se ao que pode servir de furo no mundo, o
que é uma generalização da estrutura do tipo: ser a mulher que falta a ... no
universo do discurso.
Temos, no próprio tratamento psicanalítico, o emprego dessa lógica do
esvaziamento. Por exemplo, o texto de uma criança psicótica, como o que foi
registrado por Robert e Rosine Lefort, fazendo a análise girar em tomo de um
buraco dos vasos sanitários e da construção que o sujeito estabelece em tomo
desse buraco, também decorre da adstrição do sujeito ao fazer sobre o mundo.
Pude também destacar o caso de um sujeito que era oprimido por uma
lembrança, a lembrança de uma plenitude de gozo, onde ele se via, como única
testemunha de sua infância, com uma mamadeira na boca. Depois, ele pôde
elaborar um delírio, um delírio de nivelamento em seu prédio, procurando
educar esse prédio inteiro sobre o funcionamento correto de uma caixa d'água
situada no quinto andar, ao lado de seu quarto, que fazia um barulho que lhe era
insuportável, e conseguiu tecer ligações muito complexas, acabando, ao preço
de subterfúgios, cada quai mais refinado e delicado que o outro, por falar com
um numa esquina, ligar para outro de uma cabine telefônica, fazer-se apresentar
1 90 versões da clínica psicanalítica

por um intérprete a um terceiro, em suma, educar todos no saber sobre o


escoamento correto daquela garrafa d'água que o acompanhava perenemente,
e que também lhe permitia suportar os significantes que ele ordenava o dia
inteiro, em seu trabalho de bibliotecário, tamponando sem parar o fato de que
pudesse faltar um significante em seu lugar - um trabalho borgesiano que não
deixava de se relacionar com essa modesta caixa d'água.
Wolfson, por seu turno, publicou dois livros, o primeiro na Gallimard,
sobre sua dispersão pelas línguas, que, no fundo, conclamou ao segundo,
publicado pela Navarin, que enfatizou a função do turfe e a perda neces­
sariamente ligada à atividade de apostar nos cavalos. Esse segundo texto, aliás,
inclui um belíssimo relato de sua longa caminhada numa noite de inverno, na
qual ele apostou em si mesmo, com sua própria vida, para chegar à pista de
corrida.
Portanto, o rechaço do inconsciente que é próprio da psicose, a seguirmos
Lacan, não exclui o lugar do psicanalista. Se de fato exclui um certo funciona­
mento da interpretação em nome do pai, se exclui o "bancar o pai" ou o "bancar
a mãe", como em tantas tentações que surgem quando se coloca a ênfase em
"lembrar a lei ao psicótico" ou na transferência materna ou matemalizante, ele
destaca, ao contrário, um lugar onde o psicanalista pode se instalar: o lugar da
aparência de furo que o sujeito tenta produzir em seu delírio, que visa a que
letter se iguale a litter, a que a letra como lixo venha a se perder.
Alegra-me ter lido, por exemplo, no texto que o Sr. Vuagniaux irá
apresentar-lhes agora, um caso em que se vê, num sujeito psicótico, de um lado
pelo esquecimento, e de outro pelo desaparecimento dos textos, esse funciona­
mento do texto, não como algo a ser interpretado, mas como ready-made
[pronto], como objeto já distribuído e produzido. Também foi isso que Vincent
Kaufmann mostrou esta manhã em Artaud, sobre a publicação necessária de
suas cartas a [Jacques] Riviere. Para Artaud, o texto não era ficção. Por que
mentir, então? Era preciso publicar a íntegra das cartas, porque elas distribuíam
e tinham que dar um testemunho, como observou o Sr. Kaufmann, do romance
vivido, ou, dito de outra maneira, da distribuição do gozo. Nesse sentido, tinham
que ser publicadas como tais, e não reformuladas numa estrutura fictícia.
Terminarei, portanto, com isto: se o psicanalista deve tomar-se secretário
do alienado na análise, no que concerne ao texto do psicótico, isso não é
simplesmente no sentido de tomar notas, mas também no sentido de não
esquecer a função eminente do secretário, que é expedir as cartas.*

* A expressão francesa é expédier les lettres, que pennite também a tradução e a acepção de
"despachar as letras", "livrar-se das letras", remetendo à elaboração do autor sobre a
produção do furo no delírio, que ele exemplifica com o letter-litter de Joyce. (N.T.)
Parte IV

A PERVERSÃO E OS Gozos
1
O uso perverso da fantasia

1
Com o título "O uso perverso da fantasia", eu gostaria de introduzir alguns
comentários sobre o que me parece constituir a originalidade da orientação
freudiana das perversões e sobre o que Lacan explorou nela como vias de
pesquisa. Vias de pesquisa que penso serem indispensáveis ao movimento
psicanalítico, o qual podemos dizer que, com respeito à perversão, está na
mesma situação que no tocante às psicoses, pois, uma vez estabelecida a clínica
diferencial entre psicoses e perversões, a questão do lugar de ambas na civili­
zação continua aberta à interpretação e persiste como um desafio particular­
mente atual.

O estilo de democracia europeu, que não é o da seita ou do gueto, não


permitiu a emergência de debates tão virulentos quanto os do Novo Mundo.
Com toda a razão ! Mesmo assim, a questão das perversões mudou de aspecto
quando a comunidade gay norte-americana, negociando com a Associação
Norte-Americana de Psiquiatria, pediu que os termos "homossexualismo" e
"masoquismo" fossem retirados das categorias patológicas, em nome do direito
à diferença sexual. O D.S .M. lll , manual de diagnóstico estatístico, e agora o
UI R, são classificações sindrômicas perfeitamente acessíveis à negociação
democrática. Quando a Associação Narte-Americana de Psiquiatria publica seu
diagnóstico estatístico, ela é ameaçada de ataques perante a Suprema Corte dos
Estados Unidos por parte das diferentes comunidades de identidade sexual que
obtiveram peso em nível local, como no das prefeituras, por exemplo. Vocês
sabem que o município de San Francisco, para exemplificar, é uma área
administrativa em que todo um conjunto de bairros vota nos homossexuais
como tais.

Não tivemos esses fenômenos na Europa. No entanto, temos ecos deles,


já que o D.S.M. lii R e a classificação da O.M.S. estruturam modos de pensar,

193
1 94 versões da clínica psicanalítica

descrevem novas imagens da razão, sob a modalidade menor da classificação


sindrômica, proclamando que se trata de representações a-teóricas. Seu impacto
nos países americanos representou e representa transformações importantes.
Os psicanalistas têm sido singularmente discretos nesses debates. Para
dizer as coisas da maneira mais crua, saber se um psicanalista poderia ser
homossexual foi considerado uma pergunta de mau-gosto, em sua evocação
pública.
Essa questão coloca-se agora em termos maciços. Está perfeitamente
claro que, em San Francisco, há psicanalistas da comunidade gay que são gays,
eles mesmos, e que são numerosos.
Aí está uma oportunidade de nos lembrarmos que, no estabelecimento da
clínica das perversões, tal como produzida no fim do século XIX, o debate
começou, na Alemanha, pela questão da homossexualidade. Isso, através da
descriminalização da homossexualidade, que foi e continua a ser uma conquista
a ser feita em muitos países. Os sexólogos alemães começaram, nos anos de
1 860- 1 870, o combate à reivindicação e à descriminalização da homossexua­
lidade. Foi nesse contexto que se introduziu a instauração das grandes clas­
sificações das perversões, sobre as quais caberia examinar em que foi que a
psicanálise as modificou, se interveio nelas ou não.
No título "O uso perverso da fantasia", eu gostaria de sublinhar três
pontos. O termo uso é estranho, pois, se há um lugar na clínica em que o gozo
está em primeiro plano, é a perversão. Ora, como o Direito reconhece perfeita­
mente bem, o gozo e o uso se distinguem. Por que, então, reintroduzir o uso?
Por outro lado, falar em uso perverso da fantasia é diferente de falar em
uso perverso da pulsão. Equivale a centrar a categoria da perversão na questão
da fantasia, o que não é uma evidência. Tal foi o instrumento dado por Lacan
quanto a esse aspecto, que ancora a questão da perversão na fantasia. Isso não
é um dado evidente no movimento psicanalítico. Não o é, por exemplo, a
propósito do flagelo social da toxicomania, que dá muito trabalho em termos
de verbas, porque os toxicômanos preocupam enormemente as nações moder­
nas, preocupam muito a Organização Mundial de Saúde, e não simplesmente
pelo fato de isso ter-se tomado um problema econômico mundial, mas também
por ter havido um encontro histórico entre uma doença - a AIDS, que está
dizimando um outro continente - e uso dos tóxicos por via endovenosa. A
questão é convencer os toxicômanos a morrerem de uma maneira conveniente
para a Organização Mundial de Saúde ! Os debates dessas grandes organizações
são extremamente interessantes. É o caso dos estratagemas de um certo país
calvinista, que inventou como seringa um tipo de seringas que são utilizadas
uma vez só, porque seu êmbolo fica emperrado depois do uso, e da enge­
nhosidade dos drogados para desemperrar os êmbolos, de maneira a tornar a
a perversão e os gozos 1 95

passar as seringas entre eles e, com isso, assegurar cada vez mais a contamina­
ção pela AIDS, o que deixa os especialistas desesperados. Gostaríamos, pelo
menos, que a pulsão de morte respeitasse os cânones da higiene mundial ! Isso
é muito difícil. E, nesse esforço, vemos formularem-se perguntas do tipo: seriam
os toxicômanos perversos, por serem tão maus sujeitos?
Os referenciais do ensino de Lacan permitem, entre outras coisas, consi­
derar que os toxicômanos não são perversos, porque não fazem nenhum uso da
fantasia. O tóxico assegura uma relação com o gozo fora da fantasia. O que não
constitui um uso perverso da fantasia. Trata-se de um uso do tóxico, que permite
fazer um curto-circuito da fantasia. É ele que faz, graças à Ciência e à Indústria,
com que se possa industrializar esse gozo e, com um único produto, inundar o
mercado. Através das línguas, através das culturas, atrAvés dos costumes,
pode-se criar um mercado puro, uma espécie de sonho utópico capitalista que
se cria a partir do próprio produto. Daí o ponto de vista defendido na série de
livros dos nossos amigos do Grupo de Pesquisas sobre as Toxicomanias, o
GRETA: O toxicômano não existe. O perverso, sim, este existe. O toxicômano
não existe; o que existe é o tóxico.
Esses são alguns dos dados a priori do uso perverso da fantasia.
Na classificação das perversões, o termo perversus não teve, inicial­
mente, um sentido sexual. A princípio, teve o sentido de "revirado pelo avesso",
de "desviado", "malfeitor". E foi com o darwinismo e com o estabelecimento
do instinto sexual em bases darwinistas que as práticas sexuais agrupadas sob
o termo "perversões" foram apreendidas como uma inversão do instinto sexual.
Foi essa a base do trabalho e da reflexão da grande síntese de Krafft-Ebing, que
começou em 1 877 com seus primeiros artigos. Vocês encontrarão no livro de
Paul Bercherie, Genese des concepts freudiens, uma excelente apresentação
deles.
De Krafft-Ebing, temos uma obra traduzida, mas irreconhecível. A
Psychopathia sexualis, publicada pela Payot, foi inteiramente reescrita por seu
discípulo, Moll, o que faz com que não saibamos mais o que pertence a
Krafft-Ebing e o que é de Moll: trata-se de uma edição não crítica, muito difícil
de ler. Na Psychopathia, o instinto sexual é definido em bases darwinistas e se
examinam suas mutações:
1. As anestesias do instinto sexual: aqueles cuja sexualidade não existe
mais.
2 . As hiperestesias: ninfomania e satiríase. Os excitados da glande!
3. As parestesias, que são o grosso das perversões sexuais propriamente
ditas, divididas em dois grupos: de um lado, a série sadismo-maso­
quismo-fetichismo e, de outro, a homossexualidade. E com dife­
rentes graus na homossexualidade, a saber: hermafroditismo psicos-
196 versiíes da clínica psicanalítica

sexual, homossexualidade exclusiva, inversão psíquica e os "uranis­


tas", termo que C.H. Ulrichs retomou. Os "uranistas" abrangiam
basicamente, na inspiração inicial, o que agora chamaríamos de
transsexuais, aqueles que se sentem absoluta e decididamente mu­
lheres, sem nenhuma concessão, num corpo de homem.
4. As paradoxias, " 'quando o instinto se manifesta fora dos processos
anátomo-fisiológicos dos órgãos genitais' , como, por exemplo, na
criança ou no velho" (p.206).
Assim, com um sistema muito simples, como vocês estão vendo, Krafft­
Ebing instaurou uma classificação racional das chamadas transformações, das
perversões, no sentido de uma inversão do instinto sexual frente àquilo que
definiria a finalidade do instinto, ou seja, garantir a taxa de reprodução diferen­
cial da espécie.
Essa classificação, antes de mais nada, seria aquela em que Freud iria
intervir, e foi também a base que se conservou. Encontramos regularmente, na
maioria das discussões sobre as perversões, exposições neodarwinistas. Um ou
outro espírito especialmente liberal pode, por exemplo, insistir na inutilidade
de chamar isso de perversões, já que é algo que existe na natureza e que os
animais conhecem todas as perversões que conhecemos.
Diante dessas teses, a contribuição francesa fez-se valer, muito es­
pecialmente, através de Binet, que acrescentou a tese associacionista. Ele
assinalou que, nos casos de perversão com que tinha deparado, havia sempre
um trauma que permitia associar o gozo sexual com o desvio quanto ao objeto.
Havia esse saber, portanto, e Freud comentou Binet nas Atas da Sociedade
Psicanalítica de Viena. Vocês estão cientes de que, dois meses atrás, o Psycho­
analytic Quarterly publicou excertos das Atas da Sociedade Psicanalítica de
Viena de 1907, até hoje inéditas. Otto Rank tinha as "Atas" da Sociedade de
Viena. Havia publicado três volumes delas, que encontramos em francês, na
N.R.F., traduzidos por Nina Bakman. E, recentemente, foram encontradas nos
papéis de Otto Rank, até então não classificadas, algumas sessões, dentre as
quais a dedicada ao fetichismo e na qual Freud discutiu a visão de Krafft-Ebing
e a de Binet. Num artigo de 1 896, intitulado "Le fétichisme dans I' amour", B inet
expôs suas concepções e disse o seguinte, frente à tese que se baseava unica­
mente na hereditariedade degenerativa do instinto: "A hereditariedade continua
a ser; como foi denominada, a causa das causas: é ela que prepara o terreno
em que a doença do amor germina e cresce. Mas a hereditariedade, em nossa
opinião, não é capaz de dar a essa doença sua forma característica; quando
um indivíduo adora presilhas de botas, e outro, olhos de mulher; não é a
hereditariedade que se encarrega de explicarpor que sua obsessão recai sobre
um dado objeto e não sobre outro." Aresposta a esse problema, portanto, suporia
a perversão e os gozos / 97

um elemento causal suplementar: "Há fortes razões para supor que a forma
dessas perversões é, até certo ponto, adquirida e fortuita. ( ... ) Na história desses
doentes, produziu-se um incidente que deu à perversão sua forma característica"
(P. Bercherie, Genese des conceptsfreudiens, Paris, Navarin, p.205-6).
Assim, Binet valorizou o fetichismo. O termo "fetichismo" é um vocá­
bulo trazido pelos navegadores portugueses de suas viagens pela costa do golfo
da Guiné. Da forma de adoração dos ídolos, os navegadores trouxeram o termo
português "feitiço", que designava a estátua do ídolo. Quanto ao termo "feti­
chismo", trata-se de uma palavra que, em francês, foi introduzida pelo presi­
dente De Brosses: um eminente filósofo francês'do século XVIII. Assim se
reconheceu o fetichismo como religião particular do sujeito, como seu modo
de adoração especial da botinha como ídolo. Binet, por exemplo, tem esta frase
deliciosa: "O amor normal parece-nos ser o resultado de um fetichismo com­
plicado." O amor normal é, no fundo, uma complicação da simplicidade do
fetichismo. "O amor normal é politeísta. Não resulta de uma excitação única,
mas de uma miríade de excitações. Onde começa a patologia? É no momento
em que o amor por um detalhe qualquer torna-se preponderante, ultrapassando
todos os outros politeísmos e voltando ao monoteísmo."
É em torno dos laços do amor e do desejo que se ata o enigma da
perversão. Em torno desse termo desde logo enigmático, "fetiche", que, em
certo sentido, pode se apresentar como uma simplificação do instinto, uma
manifestação do instinto em sua forma simples, e que, ao mesmo tempo, inclui
a adoração, inclui o sublime. Perversão e sublimação, logo de início esses dois
termos se atam.
Foi preciso tempo para que Freud saísse do darwinismo. Na sessão
narrada nas Atas da Sociedade Psicanalítica de Vtena, Freud se manteve
essencialmente darwinista. Isso já havia aparecido em 1 897 em duas cartas a
Aiess, as de números 55 e 75 da antiga numeração (antes da edição de
Masson ..). São as cartas em que Freud fala de casos de fetichismo do olfato
com Fliess. Freud considerava decisivo, para o fetichismo, o fato de o homem
haver assumido a postura erecta. O homem ficara erecto e por isso havia perdido
seu interesse pelo olfato. Já não era guiado pelo olfato. O olfato fora apanhado
num processo de recalcamento, e era o retorno do recalcado que resultava na
perversão fetichista. Freud comentou os casos dos "cortadores de tranças", para

* Charles de Brosses ( 1 709- 1 777), assim conhecido por ter presidido o parlamento de
Borgonha desde 1 740 até morrer. Escreveu Cartas sobre a Itália e História das navegações
às terras austrais. (N.T.)
** Trata-se, respectivamente, das cartas de 11 de janeiro e 14 de novembro l:le 1897, cf. J.
Moussaief Masson, A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess ­
/887- 1904, Rio de Janeiro, !mago, 1986. (N.T.)
1 98 verStJes da clínica psicanalítica

quem, na época, Krafft-Ebing pleiteava as penas mais radicaís. Convém saber


que, nessa ocasião, para uma moça que quisesse casar-se, dar sua cabeleira
equivalia a um dote, era um sinal aparente de riqueza que se consumava no
casamento. Numa sociedade burguesa, cortar as tranças era como roubar o
enxoval da noiva! Um ato de lesa-propriedade para o qual Krafft-Ebing
reivindicava as maís duras penas.
Freud fez sua saída do darwinismo, primeiramente, ao estabelecer sua
teoria de um instinto sexual diferente do instinto darwinista, um instinto sexual
que, a princípio, encontrava-se parcializado, e que não era compreensível a
partir de um ponto normal que depois se diferenciasse em anestesia, parestesia
ou hiperestesia, ou paradoxia. Que se apresentava como intrinsecamente par­
cial. Não havia unificação do instinto sexual, ou seja, em alemão, eine ganze
Sexualstrebung.2 Inexistência da tendência sexual como uma totalidade. Nesse
contexto, a enunciação desse conceito foi decisiva. Seguiram-se a elaboração
do complexo de castração e, maís tarde, o reaparecimento do fetichismo,
relacionado, não com a pulsão ou com o olfato, mas numa relação com o falo
faltante na mãe, que só pôde ser estabelecida por Freud depois da publicação
do Pequeno Hans (em 1 909), e que só encontrou sua elaboração em 1 9 1 9, em
seu artigo "Uma criança é espancada". O rompimento com qualquer concepção
darwinista seria feito no último artigo escrito por Freud antes de morrer, que foi
"A clivagem do eu no processo de defesa"* ("Ichspaltung"), uma "clivagem do
sujeito" em que Freud concluiu sua reflexão sobre o fetichismo. Nesse ponto,
Lacan retomou a questão. No ponto em que (como ele observou nos Escritos),
em sua divisão, o sujeito erige uma bússola, um gnorrwn, segundo o termo
grego, ou seja, um padrão de medida. O sujeito erige aquilo que, para ele, serve
de bússola e de eficácia; erige o falo, quer sob a modalidade do fetiche, quer
sob a modalidade fóbica, no sujeito neurótico.
a) Portanto, foi a partir daí que Lacan retomou a questão. A partir da
introdução do objeto acrescentado ao mundo pelo neurótico ou pelo
fetichista, que é o falo como simulacro e que lhe dá sua hora da
verdade, para além de qualquer saber.
Dito de outra maneira, graças ao falo, o sujeito se orienta, embora não
haja um saber no inconsciente, nenhum saber sobre o que é o homem para a
mulher ou o que é a mulher para o homem.
Há no ensino de Lacan, portanto, de maneira muito clássica, uma reto­
mada do problema das perversões a partir do falo imaginário. É isso que aparece
na página 554 dos Escritos, no texto "Uma questão preliminar a qualquer
tratamento possível da psicose", texto no qual Lacan nos diz: ''Todo o problema

* Na edição brasileira, "A divisão do ego no processo de defesa", E.S.B. vol. XXIII. (N.T.)
a perversão e os gozos 1 99

das perversões consiste em conceber como a criança, em sua relação com a


mãe, identifica-se com o objeto imaginário desse desejo, no que a própria mãe
o simboliza no falo." A mãe simboliza seu desejo - o fato de ela ir para outro
lugar, de haver algo que a impele - no falo, nesse objeto que nenhum homem
tem, que está sempre alhures e que lhe serve de bússola. Toda a questão das
perversões é a seguinte: como é que a criança, imaginariamente, como sujeito,
vem a se identificar com esse falo matemo? Isso é o que explica o tipo de
homossexualidade que se apóia no fato de o sujeito estar numa relação - não
com o pai, mas com a mãe - de fechamento. E os psicanalistas falam de "mãe
castradora", o que quer dizer, precisamente, aquela que encontrou no filhinho
a realização imaginária do falo.
A partir daí, dessa alavanca, do fato de a criança depender da mãe, "não
pela dependência vital, mas pela dependência de seu amor", Lacan tenta tirar
os psicanalistas da fascinação pela matemagem. Da fascinação pelo que seria
o vínculo na dependência vital.
Nesse pequeno parágrafo, Lacan nos introduz no enigma central da
perversão. Por que é que, na perversão, é o amor que está em primeiro plano?
É isso que faz com que, em nossa cultura e entre aqueles que têm nela
sua ascendência, os perversos desempenhem um papel eminente nos discursos
sobre o amor. Incontestavelmente, a civilização deve muito aos perversos no
que tange ao discurso amoroso.
O nó que se realiza na perversão (ou seja, o modo como a criança fica
agarrada à mãe e dependente de seu amor) é enigmático. É isso que constitui,
por exemplo, a grande diferença de orientação entre Lacan e a corrente
anglo-saxônica. Os anglo-saxões, convenhamos, são muito puritanos, e há
poucos textos centrais sobre a perversão. Há alguns entre os kleinianos, em
especial, e, nos Estados Unidos, existe Robert Stoller. Robert Stoller enfatiza,
no perverso, a agressividade. O que lhe parece decisivo na perversão é o triunfo,
o triunfo agressivo. E o ritual perverso lhe parece uma retomada direta do
trauma. Trata-se de uma versão soft, se assim podemos dizer, do associa­
cionismo, acompanhando Binet: há um trauma. E o sujeito retoma incansavel­
mente, na variação de R. Stoller, retoma a humilhação, pois terá vivido isso no
registro da humilhação, em geral perante as mulheres; e tem que obter um certo
triunfo e uma certa revanche. É isso que faz com que o cenário perverso seja
sempre da alçada, mais ou menos, desse triunfo sobre a adversidade traumática.
b) Enfatizar o amor, como faz Lacan, é uma variação, e não é das
menores. Vemos as conseqüências disso no texto lacaniano intitula­
do "Juventude de Gide ou a letra e o desejo". Lacan serve-se da
biografia de um eminente escritor francês, homossexual declarado,
200 versões da clínica psicanalítica

e do que Jean Delay fez com a vida de Gide, para destacar a relação
eletiva que a perversão mantém com um uso da letra.
Assim, ele apreende a perversão, não na categoria muito genérica da
sublimação, mas na categoria particularíssima da letra. Considera que o fetiche
central que ligou Gide a sua mulher foram as cartas que ele lhe endereçava todos
os dias. Ao que eu saiba, ·essa foi a primeira vez em que se considerou a
correspondência de alguém como pertencendo ao campo da perversão sexual.
Lacan viu a prova disso no ato de Madeleine. Ela havia suportado largamente
a preferência de Gide pelos rapazolas, sabendo não ver o que convinha não
saber. Mas, no dia em que Gide partiu para a Inglaterra com Marc Allegret,
numa fuga amorosa, Madeleine Gide, furiosa e tomada pelo sentimento de que
ele estava amando pela primeira vez, queimou toda a correspondência e, com
isso, atingiu Gide, que se considerou "queimado" no ponto mais crucial. Diz
Lacan que isso foi uma autêntica cólera de mulher, esse gesto de saber atingir
o homem , de castrá-lo no ponto mais sensível, no ponto mais doloroso.
Erigido o gnomon, a bússola de Gide, essa correspondência com sua mãe
e sua mulher, que se destacou como objeto, introduziu mais uma vez a dimensão
do amor. Há que levar a sério a exclamação de Gide: "Quem há de saber o que
é o amor de um uranista?" Há que levá-la muito a sério. Existe aí um vínculo
particular entre o amor e aquilo em que a carta se transforma - aquilo em que
o significante se transforma, depois de entregar sua mensagem -, o resto. A
particularidade da carta de amor, no uso que dela faz o neurótico, é conseguir
que a destinatária ceda. Que a destinatária da carta de amor, fazendo-se
receptora, depositária dela, ceda aos avanços daquele que a endereça. No caso
de Gide, trata-se de uma carta de amor totalmente endereçada por amor, mas,
justamente, sem que de modo algum a destinatária tenha que ceder. Nessas
cartas, trata-se de obter uma outra coisa, além do sentido sexual: aquilo que o
termo contrato pôde designar na perversão. Alguém como G. Deleuze, ao
apresentar Sacher Masoch, destacou a importância do contrato na obra dele.
Opôs o contrato em Sade e o contrato em Masoch. Aquela dimensão da troca
de uma carta, de uma carta de compromisso, de contrato, que surge no lugar da Lei,
numa posição distinta, no sádico e no masoquista. Lacan havia destacado isso em
1 969, em seu seminário De um outro ao Outro. Deleuze foi o primeiro a retomar
as indicações dadas por Lacan a propósito de Gide, isto é, as da relação do homem
com a carta na perversão. E isso é uma corrente diferente da que consiste em abordar
a criança em seu estatuto de falo imaginário. É um modo de captar o circuito
pulsional de maneira inteiramente distinta. É a articulação da carta, do contrato, do
texto, e do papel que ele desempenha.
c) Há em Lacan uma terceira via de pesquisa no que concerne à
perversão . Trata-se daquela cujos contornos são dados no Seminário
a perversão e os gozos 201

11, Os quatro conceitos fu.ndanu!ntais da psicanálise, em particular


na página 1 68. No Seminário 11, Lacan distingue a pulsão, o desejo
e a fantasia, e os distingue ordenadamente.
Observa ele: "A fantasia é o esteio do desejo, não é o objeto que é o esteio
do desejo." "Eu lhes mostrarei ( ... ) que o sujeito, assumindo esse papel de objeto,
é exatamente o que sustenta a realidade da s ituação do que se chama pulsão
sado-masoquista, e que só está num único ponto, na própria situação masoquis­
ta." "Somente num segundo tempo ( ... ) é que o desejo sádico é possível em
relação a uma fantasia. O desejo sádico existe numa multiplicidade de configu­
rações, inclusive nas neuroses, mas ainda não é o sadismo propriamente dito."
(Seminário 11, p. 168-9.). E, nesse texto, Lacan remete a "Kant com Sade".
"Portanto, vocês vêem aí diversas possibilidades da função do objeto a,
que nunca se encontra na posição de visada do desejo. Ele é, ou pré-subjetivo,
ou fundamento de uma identificação do sujeito, ou fundamento de uma identi­
ficação denegada pelo sujeito. Nesse sentido, o sadismo é apenas a denegação
do masoquismo." (Seminário 11, p. l 69.)
Foi esse texto que deu a Deleuze a oportunidade de elaborar a questão,
distinguindo, despareando o sadismo e o masoquismo, em vez de fazer deles
um sado-masoquismo ligado, como transmitira a tradição psiquiátrica. Ou, mais
exatamente, a tradição psiquiátrica que Freud adotou. Porque, em Krafft-Ebing,
sadismo e masoquismo são dois capítulos muito distantes em sua obra. Foi
Freud que os uniu, através da gramática reversível da pulsão. Fez deles as duas
faces, ativa e passiva, da pulsão, tal como no voyeurismo e no exibicionismo;
portanto, ligou-os por um artefato.
O ponto em que Lacan segue Freud é ao fazer da pulsão sado-masoquista
uma unidade, dizendo que essa unidade só é verdadeira no masoquismo, que
fere a si mesmo. Nesse sentido, como toda pulsão, ele se reduz a um "se", um
ferir a si mesmo - um "fazer-se", diz Lacan. O auge da pulsão masoquista é
o masoquista que "se" faz machucar. Se o sádico nega, é porque, por seu turno,
ele tem de fato uma aparência de ser ativo. Tem um jeito de quem quer fazer
mal ao outro, ao passo que, na verdade, diz Lacan, exatamente como o
masoquista, ele ocupa o lugar do objeto em benefício de um outro, em prol de
cujo gozo exerce sua ação de perverso sádico.
E é aí que Lacan destaca, noutros momentos de sua obra, a função divina,
a importância da posição divina no sádico. Ou seja, o "Deus obscuro" para quem
o sádico trabalha. O sádico não está ali para seu próprio prazer. Ele está ali para
um gozo que é muito mais sério, para o gozo de um Deus especialmente mau,
cujos traços às vezes vemos aparecer em Sade. Um Deus cuja imagem vemos
ainda muito melhor nos místicos e, muito especialmente, nos místicos alemães.
202 vers6es da clínica psicanalítica

Aí estão três grandes linhas de pesquisa no texto de Lacan no que


concerne às perversões: o falo imaginário, a relação do homem com a carta nas
perversões e, por último, aquilo que articula e distingue pulsão, desejo e fantasia,
especialmente no tocante ao sadismo e ao masoquismo.
Que é que liga essas três linhas de pesquisa? Essa é a pergunta que, para
Lacan, permaneceria como a questão central de toda sua obra, e que
aparece como a contribuição que somente a psic análise desenvolve,
a saber, aquilo que Lacan formula no Seminário 11, Os quatro conceitos
fundamentais da psicanálise: "O objeto do desejo, no sentido comum, é, ou
uma fantasia, que na realidade é o esteio do desejo, ou um engodo" (Seminário
11, p. 1 69). Ou isto, ou aquilo. O grande enigma consiste em saber qual é o
engodo que possibilita que o sujeito estreite em seu parceiro sexual o objeto
que perdeu por ser sexuado. Que é que faz com que o objeto de amor se
torne objeto do desej o? Isso é o que a perversão distingue perfeitamente. O
objeto de amor, e do amor mais sublime, e, por outro lado, o objeto do desejo,
que podem seguir seu caminho da maneira mais distinta possível.
O perverso levanta uma questão para a psicanálise. Tal como faz o
psicótico, que levanta a questão de saber em que condições podemos ter a ilusão
de falar, em vez de ouvir vozes. O psicótico está mais certo em sua relação com
a estrutura ao ter a idéia de que ouve vozes, embora o neurótico possa
desenvolver a teoria idiota de que ele se comunica. A filosofia de Habermas é
totalmente construída sobre o ideal de uma comunicação universal, um ideal
neurótico! Do ponto de vista da psicanálise, sem dúvida há que desconfiar
dessas teorias que tentam absorver todas as ressonâncias particulares numa
comunicação universal. O perverso interroga aquilo que, para o neurótico, pode
parecer uma evidência: como é que o amor e o desejo se conjugam, podem
conjugar-se. É isso que nos diz Lacan em seu Seminário 20, Mais, ainda, na
p.80: "Os perversos (...) Há neles uma subversão da conduta ( ... )." Chamo a
atenção de vocês para essa expressão, "subversão da conduta", que corresponde
exatamente à fórmula "subversão do sujeito". "Há neles uma subversão da
conduta, apoiada num saber-fazer" - o saber-fazer gozar - " ... num saber-fa­
zer, o qual está ligado a um saber, ao saber da natureza das coisas; há uma
influência direta da conduta sexual no que é sua verdade, a saber, sua amorali­
dade." "( ... ) a coisa de que se trata é de o amor ser impossível, e de a relação
sexual abismar-se no não-senso ( ...)" (p.80- l ) Essa impossibilidade do amor
- com toda razão ! - e a insistência de seu engodo são o que podemos tirar
do estudo do sujeito perverso, três caminhos para confirmar que a perversão
é um uso da fantasia inverso ao que dela faz o sujeito neurótico.
a perversão e os gozos 203

D ISCUSSÃO

Começamos por esse tema porque teremos os "Encontros Internacionais


do Campo Freudiano" sobre o tema "Os traços de perversão". Essa será a
oportunidade de deixar claro o que podem dizer os lacanianos, em 1 990, da
questão da perversão. É sempre interessante ter, digamos, as fotos que esses
"Encontros" fornecem pelo mundo. É neles que vemos culturas distintas,
relações distintas com esses fenômenos de massa, uma democratização no nível
da perversão, que varia conforme as áreas culturais.
Há um paradoxo: embora os psicanalistas tenham pouquíssimos perver­
sos nos divãs, perversos de verdade, eles começam, ao contrário, a ter muitos
homossexuais. Está-se tomando muito difícil tratar isso como se fazia nos anos
50, como uma categoria de exceção. Do mesmo modo, certamente há muito
mais psicanalistas homossexuais agora do que havia na década de 1 950. Há
nisso uma transformação da preferência, da sensibilidade, que se trata de
explicar. Essa é uma via de pesquisa que nos compete...

M. J. Sauret
Eu gostaria de saber se o senhor considera como uma quarta linha ou via
de pesquisa, em relação às três que descreveu - ou se é um caso particular
dessas três linhas -, a referência que Lacan fez à perversão no seminário R.S.I.,
ou, pelo menos, no "Seminário " 23, Le sinthome, e que equivale, aliás, a
postular uma escrita diferente da perversão como pere-version, da qual (da
pere-version ) ele dá em algum lugar uma definição: é quando o desejo de um
homem é orientado por uma mulher que está, para ele, na posição de objeto a.
Ele diz isso em relação ao fato de que, para essa mulher, os filhos realizam o
objeto a, muito embora ela tenha outros objetos a para seu desejo. Parece-me
que há nisso alguma relação com a "letra" [ou "carta"], na medida em que isso
aparece aqui em relação a Joyce.

E. Laureut
Você tem razão. Por mim, eu não a tomaria como uma quarta via, mas,
antes, como o materna de minha conclusão. Foi isso que escreveu, em seu Curso,

J.-A. Miller, sob a forma de �.


Ou seja, notando que, primeiramente, havia o gozo, e que era preciso
substituir o gozo pelo Outro maiúsculo, assim como o Nome-do-Pai também
vinha substituir o "x" do gozo da mãe. Apere-version em Lacan, a abertura para
o pai, o "voltar-se para o pai", é o exame, por Lacan, da operação da metáfora;
equivale a generalizar a operação da metáfora paterna. A tirar a criança do gozo
que é o gozo da mãe, da posição de falo imaginário, e lhe dar um significante.
204 versties dn clínica psicanalítica

Na perversão: desvalorização do Nome-do-Pai, não para colocá-lo no lugar,


mas para se voltar para o Outro. E, nesse "voltar-se para o Outro", é aí que está
a função do amor.
Freud nos deixou no complexo de castração. Para ele, cientista, ele
considerou, inicialmente, que a Ciência triunfaria sobre o pai. Que a Ciência
triunfaria sobre o que ele chamou, em sua obra - foi Laplanche que traduziu
isso-, de "anseio do pai", coisa que antes tinha sido traduzida por "nostalgia".
O apelo ao pai é o que constitui a tônica de nossas sociedades. Existem dois
fenômenos, diz Lacan como leitor de Freud: o racismo, de um lado, e, de outro,
o apelo à religião, o apelo ao pai. Estamos uuma sociedade em que esses
fenômenos estão presentes e, além disso, são considerados mutuamente exclu­
dentes, muito embora se trate do mesmo fenômeno, sob a face do "pai" [pere]
e sob a face do "pior" {pire].

Um participante
Será que seu título, "O uso perverso da fantasia", não seria mais apro­
priado para descrever o neurótico, na medida em que, de certa maneira, o
neurótico utiliza sua inclinação perversa como um álibi diante da atuação? Ele
realmente utiliza a fantasia. Essa aproximação entre "uso" e "fantasia" faz
pensar numa espécie de cumplicidade entre esses dois termos, como se isso
fosse consciente nele. Mas o perverso não precisa de nenhum álibi: está pouco
se incomodando. Ele não procura justificar nada. Então, será que o "uso
perverso da fantasia" não pode aplicar-se mais ao neurótico?

Éric Laurent
O neurótico utiliza a fantasia. O uso que faz dela, no fundo, é mantê-la à
distância através do sonho. Ele sonha com sua perversão. O neurótico acentua
o fato de que, especialmente no sonho, temos o sujeito barrado, que funciona
muito especialmente nas formações do inconsciente. No sonho, ele está em
todos os lugares. Seu uso consiste em acentuar mais as formações do incon­
sciente.
Já o perverso identifica-se com o objeto no trajeto pulsional. O masoquis­
ta, em particular, identifica-se com o trajeto pulsional a ponto de podermos
representar o auge da pulsão pelo "se" machucar, ferir a si mesmo. Ele se faz
machucar pelo Outro. O uso perverso é a operação de separação do significante
que o perverso realiza. O perverso, para saber o que significa falar, faz-se ferir
num ritual masoquista. É assim que ele consegue mostrar que a linguagem, a
fala, designa alguma coisa. Designa esse gozo aí. Esse é um tipo de uso em que
o sujeito se apresenta como identificado com o objeto da pulsão, o que constitui
um limite em relação à fantasia, que é um circuito mais longo. O masoquista
também realiza um limite, se quisermos, um limite do uso perverso da fantasia.
a perversão e os gozos 205

Ao contrário, ela é inteiramente exibida pelo sádico, que, no texto da fantasia,


aparentemente, utiliza seu saber-fazer gozar. Ele busca a dor do outro até que
esse outro, numa angústia absoluta, venha a pedir a morte. E, nesse uso
estritamente perverso, trata-se de alcançar esse ponto, essa demanda impos­
sível. Nesse uso, existe o circuito fantasístico, porque o sádico trabalha para um
"Deus obscuro", um Outro feroz. Ele não se justifica, mas isso não o impede
de trabalhar. E Lacan sublinha que o sádico tem um trabalho danado, que o
sádico se esfalfa. Ele introduz o valor do trabalho na perversão. O neurótico
acredita que o perverso goza. Mas o perverso está trabalhando; está "no
batente", embora tenha um jeito de quem se diverte.

Uma participante
O senhor poderia dizer alguma coisa sobre a posição do melancólico em
relação ao objeto, sobre a qual Lacan dizia que a pulsão que entra em jogo na
melancolia é um sadismo invertido?
Éric Laurent
Sadismo invertido, para não dizer que é um masoquismo! A verdade é
que o melancólico, ao ferir a si mesmo, torna-se um resto da linguagem. Já o
masoquista se torna resto de um desejo parcial. Ele se torna resto de um contrato.
Não se torna um resto da linguagem. O psicótico paranóico tem que moldar
uma linguagem particular, uma "língua fundamental". Não consegue conten­
tar-se com as línguas imperfeitas, infelizmente. Precisa produzir uma, enfim,
que seja um universo de discurso e que se sustente. Do mesmo modo, o
melancólico produz a si mesmo como resto do universo do discurso como tal.
Faz dele a mortificação do significante. O melancólico se mortifica como a
linguagem mortifica, identifica-se com o assassinato da coisa. É um sadismo
invertido e hiperbólico. Ele se faz resto de tudo, não há mais semblante, como
no masoquista.

NOTAS
l . Transcrição, relida e corrigida pelo autor, da "Conférence des Échanges", organizada
pela secretaria local da E.C.F. em Toulouse, 22 de outubro de 1988. (Nota da Edição Fran­
cesa)
2. Literalmente, "Um todo da tendência sexual". (N.A.)
2

Traços atuais de perversão 1 .

"Perversus": minha primeira palavra será em latim, já que essa foi a única língua
a ser internacional antes que os maternas a destronassesm. O termo teve, a
princípio, o sentido de "virado pelo avesso", de desviado. Foi com o darwinismo
e com o estabelecimento do instinto sexual baseado em seus pressupostos que
Krafft-Ebing começou sua grande síntese, em 1 877. Ele distinguiu, numa boa
lógica instintivista, primeiro, as anestesias ou desaparecimento do instinto
sexual, depois, as hiperestesias (ninfomanias, satiríase), em seguida, as pares­
tesias ou perversões, agrupadas em duas séries distintas - de um lado,
sadismo-fetichismo-masoquismo, e de outro, homossexualidade e seus graus
-, e, por último, as paradoxias (a sexualidade com uma manifestação intempes­
tiva, como na criança ou no velho, por exemplo).
Nessa classificação é que Freud iria intervir, sustentando, em face das
teses degenerativas do instinto, o ponto de vista de autores franceses como
B inet, que, em seu artigo de 1 896, intitulado "O fetichismo no amor", havia
assinalado: "quando um indivíduo adora presilhas de botas, e outro, olhos de
mulher, não é a hereditariedade que se encarrega de explicar porque sua
obsessão recai sobre um dado objeto e não sobre outro. (...) Há fortes razões
para supor que a forma dessas perversões é, até certo ponto, adquirida e fortuita.
( ... ) Na história desses doentes, produziu-se um incidente que deu à perversão
sua forma característica" (cf. Binet, in Bercherie, Genesedesconceptsfreudiens).
Binet acrescentou, e isso é muito pertinente para nossos trabalhos: "O amor
normal parece-nos ser o resultado de um fetichismo complicado. O amor normal
é politeísta. Não resulta de uma excitação única, mas de uma miríade de
excitações. Onde começa a patologia? É no momento em que o amor por um
detalhe qualquer torna-se preponderante, ultrapassando todos os outros poli­
teísmos e voltando ao monoteísmo." Desde o princípio, a simplicidade do traço

206
a perversão e os gozos 207

perverso liga-se ao sublime e à adoração. Freud guardaria com tamanha


predileção as teses francesas que enfatizavam o adquirido, que rejeitaria a
concepção darwinista de um instinto sexual único, opondo-lhe a das pulsões
parciais. Lacan sublinhou o caráter crucial, em Freud, da recusa de uma
unificação do instinto, da ganze Sexualstrebung [tendência sexual como um
todo] . Diante do caráter parcial da pulsão, a unificação só proviria, para Freud,
de um termo, o falo, sob a condição de que isso fosse o que faltava à mãe. Do
"Pequeno Hans" ( 1 909) até "Uma criança é espancada" ( 1 9 1 9), Freud formulou
sua teoria do fetichismo e da homossexualidade, até seu último artigo, "A
clivagem do eu no processo de defesa" ( 1 939). Foi exatamente nesse ponto que
Lacan retomou a pena das mãos de Freud.
Aliás, convém sublinhar que, pela mão do Dr. Lacan, existe apenas uma
única tradução completa de um artigo de Freud, que foi o artigo intitulado
"Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e na homos­
sexualidade", de 1 922, traduzido por Lacan nos anos trinta. Esse título evoca
pelo avesso o de nosso congresso, que poderia formular-se, em termos freudia­
nos, como "Alguns mecanismos perversos no ciúme, na paranóia e na homos­
sexualidade". Em seu artigo, Freud lembrou o único mecanismo até então
conhecido na formação dessa escolha objetai, e acrescentou um outro. Recor­
demos, inicialmente, o primeiro: "O rapaz, até então intensamente fixado na
mãe, passa por uma crise, alguns anos depois de decorrida a puberdade;
identifica-se com a mãe e busca para seu amor objetos em que possa reencon­
trar-se, e que então tenha tempo para amar como a mãe o amou." Vemos aí o
"traço" - como o chamou Lacan em 1958 - central da vida do homossexual,
o amor da mãe. Freud prossegue: "Estou em condições de apontar um novo
mecanismo que conduz a uma escolha homossexual do objeto ( ... ). [Ela] brota
da superação da rivalidade (em geral, com os irmãos mais velhos) e do
recalcamento das tendências agressivas ( ...) de modo que esses rivais tomam-se
os primeiros objetos de amor homossexuais." Em seguida, Freud acrescenta
que esse novo mecanismo pode mesclar-se ao primeiro: "Não é raro saber, pela
história da vida dos homossexuais, que sua crise sobreveio depois que a mãe
elogiou um outro menino e o citou como exemplo. ( ... ) Mas, por outro lado, o
novo mecanismo distingue-se dos outros pelo fato de que, nesses casos, a
transformação produz-se muito mais cedo na vida e a identificação com a mãe
passa para o segundo plano. Ademais, nos casos que observei, ele conduziu
apenas a posturas homossexuais que não excluíam a heterossexualidade e não
acarretavam nenhum horrorfeminae."
Esse acréscimo freudiano de um segundo mecanismo para explicar
posturas diferentes na homossexualidade, que foi contemporâneo à reformula­
ção da teoria da identificação de 1 92 1 , introduz-nos nas complexidades do que
208 vemjes da clínica psicanalítim

Freud chamava de "identificação com a mãe" e nos lembra que a chamada


questão da "escolha objetai" depende, antes de mais nada, da identificação.
Foi de maneira muito clássica, portanto, que Lacan pôde precisar, em
1 958, seu ponto de partida: "Todo o problema das perversões consiste em
conceber como a criança, em sua relação com a mãe, identifica-se com o objeto
imaginário desse desejo, no que a própria mãe o simboliza no falo." Inúmeras
exposições apoiaram-se nesse clássico ponto de partida. E convém sublinhar
sua atualidade ainda apaixonante. Menos clássica foi a inserção lacaniana da
expressão "desejo da mãe" onde só se falava de amor. Somente no exame do
caso de Gide é que Lacan extraiu todas as conseqüências da dialética do amor
e do desejo, articulada em torno do termo fálico. Jacques-Alain Miller soube
fazer cintilarem, em seu comentário do texto de Lacan, todas as sutilezas e
novidades da instauração lacaniana do gnomon fálico na relação fantasística
que liga a criança à mãe. No ano seguinte, no comentário sobre Hamlet ( 1959),
Lacan sublinhou o ron.pimento de sua colocação com os então recentes avanços
da psicanálise no que concernia ao objeto e a seu lugar nas perversões. Criticou
neles as confusões autorizadas pela chamada "relação objetai". "A maioria dos
tratados comete o erro de teorizar o objeto como objeto pré-genital ( ... ). Isso é
tomar a dialética do objeto pela dialética da demanda. ( ... ) Na verdade, o que
se chama relação objetai é sempre a relação do sujeito, em situação defading,
frente a significantes da demanda, e não a objetos." Foi assim que Lacan criticou
a doutrina que concebia a perversão como uma regressão. Ele opôs a essa
doutrina uma nova via de pesquisa, que supunha uma nova definição do objeto
- aquela que ele acrescentaria no ponto em que a pena havia caído da mão de
Freud: o objeto radicalmente outro, diante do qual "o Sujeito se experimenta
numa alteridade (...) esse objeto não satisfaz nenhuma necessidade (... ) toma o
lugar daquilo de que o sujeito é simbolicamente privado, isto é, do falo".
Dominique e Gérard Miller, num artigo publicado ontem em Libération,
souberam dar destaque, muito acertadamente, ao ponto em que o significante
fóbico e o fetiche ressurgem no mundo para o sujeito. "Em sua relação com o
objeto do desejo, o perverso logra encontrar, no campo da realidade, um objeto
que coincide com sua fantasia." Nesse sentido, Lacan pôde escrever "a função
do significante perdido a que o sujeito sacrifica seu falo, a forma 0 (a) do desejo
masculino".
Trinta anos depois dessas formulações de Lacan, é a partir desses mate­
mas que podemos ler as proposições mais recentes, feitas na IPA, sobre a
questão das perversões. Tomarei corno exemplo um manual publicado em 1988
por Charles Soccarides, que parte de uma crítica radical às concepções neo­
kleinianas da relação objetai: "A tendência a explicar as descobertas clínicas a
partir da regressão decorrente dos conflitos edipianos levou o tratamento das
a perversão e os gozos 209

perversões a um impasse total." Daí sua tese, a de redefinir as perversões a partir


do núcleo pré-edipiano da relação de objeto e da fixação narcísica que ela
implica no estabelecimento do objeto do self. Em seu aspecto positivo, o recurso
de Soccarides ao self-object de Kohut e à identificação narcísica de Kemberg
aponta para a dificuldade assinalada por Lacan, em 1 959, entre os teóricos da
relação objetai. A regressão passa pelas vias da demanda, restando isolar o
objeto como tal. Dito isso, o desvio anunciado por Lacanjá em 1 959 não parou
de dar frutos. Soccarides pôde considerar uma grande vitória anunciar que o
orgasmo, no perverso, só existe como reafmnação do eu, para manter sua
coesão. Estranha e puritana maneira de perceber a vontade de recusar a divisão
subjetiva!
Ao gozo, Lacan reserva, dentro da linhagem freudiana, um lugar central,
ele que vem no lugar da privação do falo. À inconsistência do Outro responde

o gozo, � , o que é outra maneira de ler o que Jacques-Aiain Miller chamou de

segunda metáfora paterna em Lacan. Assim, a perversão, para Lacan, "apenas


acentua a função do desejo no homem". Convém ler, a esse respeito, as páginas
de "Subversão do sujeito e dialética do desejo", juntamente com os maternas
propostos no "Comentário sobre o relatório de Daniel Lagache". Há que ler
"Kant com Sade" para entender por que Lacan pôde dizer que "somente nossa
fórmula da fantasia permite evidenciar que o sujeito, aqui, faz-se instrumento
do gozo do Outro". Com efeito, convém não errar o salto que leva a transpor a
acentuação do desejo no que ela impele ao gozo masoquista, aquele pelo qual
o sujeito suplementa e dá consistência de gozo ao Outro. Somente o voyeurista
que empresta seu olho a Deus e o masoquista que acrescenta voz ao Outro
efetivamente encontram seu lugar graças à fórmula da fantasia escrita por
Lacan.
É na medida em que o perverso produz um Outro consistente que ele se
porta - só que por razões totalmente diversas - como Descartes, que introduz
um Outro consistente já na segunda Meditação. É Descartes com Sade, apagan­
do o caráter evanescente do sujeito.
Do lado da mulher, Lacan valoriza extraordinariamente, na homos­
sexualidade feminina, sua estrutura. A esse respeito, convém ler as "Diretrizes ·

para um congresso sobre a sexualidade feminina", igualmente escritas em 1 95 8,


bem como o texto sobre Gide, juntamente com o materna da sexualidade
feminina proposto no "Comentário sobre o relatório de Daniel Lagache": J<(q>) .
"Em todas as formas, mesmo inconscientes, da homossexualidade feminina, é
sobre a feminilidade que incide o interesse supremo" - que convém ler como
phi maiúsculo, no lugar dofi. Ajovem homossexual toma-se um falo exemplar,
mas rejeitado pelo Outro. O que anuncia a fórmula que Lacan introduz no
210 versões da clínica psicanalítica

"Aturdito": "as verdadeiras heterossexuais são as mulheres homossexuais: elas


dão existência à Outra mulher, complementando-a com um amor que não
implica forçosamente a reciprocidade."
Detenhamo-nos por um momento para sublinhar algumas conseqüências
clínicas que se destacam daí. Logo de saída, convém assinalar a variedade das
estruturas que Lacan introduz sob a unificação da escolha homossexual de
objeto. Freud havia acrescentado um segundo mecanismo, após suas descober­
tas sobre a identificação. Lacan, a partir das fórmulas do desejo que propôs em
1958 e de sua articulação com o gozo na fantasia, distinguiu uma série de casos.
Jacques-Alain Miller soube destacar como, no próprio texto sobre Gide, dis­
tinguem-se diferentes tipos de gozo homossexual. A masturbação do Um,
limitada pelo órgão, higiene cínica do corpo, distingue-se da masturbação que
introduz Gide num Outro gozo, ilimitado, com a natureza. No texto sobre
Hamlet, Lacan evoca o problema de Shakespeare, "invertido no plano sexual,
m� talvez não tão pervertido no plano do amor", na medida em que, se ele ama
um homem, é enquanto mulher, e enquanto declara amar no destinatário dos
Sonnets, não o detentor de uma coisa (thing), mas o de uma não-coisa (nothing) ,
situando-o realmente como Outro.
Através dessa articulação do falo com o objeto na fantasia, obtemos úma
clínica que dá conta, ao mesmo tempo, de duas coisas: ( 1 ) a extensão dos traços
de perversão comportados pelo desejo masculino e pela sexualidade feminina;
(2) uma clínica diferencial das perversões, além dos traços neuróticos que tal
ou qual sujeito pode apresentar como sintoma. O falo é sua norma impossível
de negativar, ainda que se articule de maneira muito diversificada. Eu gostaria,
nessa perspectiva, de sublinhar a variedade de quatro casos.
1) O primeiro, evocado n o relatório preparatório, é o d e u m sujeito que
atingia nas saunas ou nos banheiros ad hoc o gozo com o ilimitado,
Outro, através da multiplicação dos parceiros até o inumerável.
Passar desse gozo Outro, que beirava o masoquismo, para o gozo
com o Um, obtido pela estabilização com um parceiro, representou,
para ele, seu percurso analítico.
2) Num outro caso, o sujeito, na adolescência, desviou-se com horror
de sua imagem num espelho onde se viu como mulher. Assim,
distinguiu-se radicalmente do travesti, que acolhe essa visão com
júbilo, sem no entanto renunciar ao exercício do gozo do Um. Esse
sujeito, ao contrário, descreveu com fervor o gozo feminino que
extraía da sodomia, em oposição à masturbação recíproca. Essa
"sensibilidade de envoltório" que ele acabou evocando, não deve ser
reduzida a uma simples predisposição anal, mas a seu esforço de
produzir o Outro com o Um.
a perversão e os gozos 211

3) Outro sujeito, ainda, decididamente alinhado do lado masculino, ou


situava sua masturbação como higiene, ou a experimentava até a
exaustão nas saunas, sempre apoiado em fantasias de submissão do
parceiro, escolhido, de acordo com o segundo mecanismo freudiano,
no registro fraterno.
4) Um outro, por último, oferecia-se a homens da idade de seu pai, de
maneira anônima e ilimitada. Inversamente, conseguia manter uma
ligação estável com um rapaz da idade de seu filho, obtendo um gozo
·

do Um.
Convém sublinhar que cada um desses casos, homossexuais, apresentava
uma série de sintomas neuróticos, sobretudo obsessivos. Assim, se o gozo era
a resposta, persistia, no entanto, uma indagação sobre o desejo. Havia uma
falta-a-ser suficiente para justificar uma demanda de análise. Entretanto, todo
ganho em relação ao sintoma provocava, ali como em outros lugares, uma
insistência pelo lado da fantasia - nesses casos, pelo lado do gozo. Por isso é
que se coloca a qúestão da articulação desse gozo na análise, vindo o sujeito
desafiar a análise com seu saber.
É a partir do último destes casos que somos levados, agora, a examinar
a estranha báscula que Lacan efetuou em sua teoria das perversões nos anos 70.
Enquanto, em 1958, ele havia partido da articulação do amor da mãe, da
mãe-versão da criança, passou a enunciar, em 1 975, que "a perversão quer dizer
apenas versão para o pai, e o pai, em síntese, é apenas um sintoma ou um
sant' homem [sinthome]". Esse deslizamento, que pode parecer surpreendente,
·
leva-nos, contudo, a uma orientação presente no ensino de Lacan desde os
"Complexos familiares" ( 193 8), onde encontramos correlacionadas a versão do
pai degradado como ideal e a inversão. "Não há vínculo mais claro para o
moralista do que aquele que une o progresso social da inversão psíquica com
uma virada utópica dos ideais de uma cultura." Esse deslizamento dos anos
setenta só pode ser apreendido se admitirmos que, durante esses anos, Lacan
reconstruiu toda a sua abordagem, partindo do gozo como real e do sinthome
como modo de passagem direta do simbólico para o real, e passando a metáfora
paterna a ser, para cada sujeito, apenas uma metáfora delirante entre outras. A
pai-versão [pere-version] só pode ser compreendida ao situarmos o novo lugar
da Verdade no discurso analítico a partir do campo da lógica, e não mais da fala.
A perversão [pere-version] e a variedade caminham de mãos dadas, como um
punhado de versões que só fazem acentuar o caráter muito pouco típico da
norma masculina. É isso que faz com que Lacan reconheça no perverso, no
seminário Mais, ainda, um "saber-fazer ( . . . ) ligado ( ...) ao saber da natureza das
coisas, [havendo] uma influência direta da conduta sexual no que é sua verdade,
a saber, sua amoralidade". Aí entendemos realmente a alma, ou seja, a forma
212 versi)es da clínica psicanalítica

do corpo que nada tem a ver com a sexuação. O perverSo engata sua conduta
na verdade, assim como o sujeito psicótico engata o simbólico no real. Há nisso
uma transformação da verdade num saber-fazer, o que, aliás, leva Lacan a
constatar que o saber-fazer, como o do homofaber, não vai muito longe. Resta
retomar a questão das perversões a partir do amor impossível pelo pai e dos
recursos clínicos que há por expor.
Traços atuais de perversão, tal foi o título desta exposição. Ele deixou de
lado a incidência desses traços nas estruturas clínicas, certo que estava de que
muitos relatórios haviam abordado isso. Quis, ao contrário, acentuar a atuali­
dade, no mal-estar na civilização, do problema suscitado pela perversão.
Estando o discurso do mestre profundamente reformulado pela ciência, sua
segurança hesita em julgar os tempos e os costumes, e, como os mistérios do
sexo o ultrapassam, o mestre finge ser seu organizador. Pretende-se permissivo
e deixa a cargo de um neo-utilitarismo a tarefa de avaliar o que é aceitável para
a maioria, sem mais normas, segundo nos diz.
Vem-nos então à lembrança o dito de Lacan: essa permissividade só faz
tomar mais presente a incidência da norma masculina. Não se trata, é claro, de
mascarar a perversão sob as cores graciosas do altemative life-style [estilo de
vida alternativo]. Se há em toda perversão fpere-version] uma arte de gozar, é
preciso agüentar firme, existe realmente a categoria da perversão e do perverso.
Há que sustentar isso não por uma paixão nosográfica, mas para lembrar ao
neurótico que ele não está sozinho, assim como é preciso lembrar que o mundo
em que vivemos estrutura-se, em grande parte, em invenções feitas por psicó­
ticos. O perverso deve ensinar ao neurótico a costura especial que faz entre o
amor impossível pelo pai e seu corpo, o modo como ele se toma instrumento,
trabalhador do Outro. É a partir daí que poderemos reinterpretar o final do texto
de Freud sobre "Neurose e psicose" ( 1 924): "( ...) será possível ao eu evitar a
ruptura por este ou aquele lado, deformando a si mesmo, aceitando fazer uma
modificação em sua unidade e até, eventualmente, rachando-se ou se
fragmentando. Desse modo, as inconseqüências, as extravagâncias e as loucuras
dos homens seriam colocadas sob o mesmo prisma de suas perversões sexuais,
cuja adoção os poupa de muitos recalcamentos."

NOTAS
l . Traba.lho apresentado no VI Encontro Internacional do Campo Freudiano, Paris, 6-9 de
julho de 1 990. (Nota da edição francesa)
Parte V

A POLÍTICA DO PASSE
1
Uma aposta

Eu gostaria de lhes expor os dados de um problema clínico e, depois, mostrar


como a distinção entre o sujeito do inconsciente e o sujeito do gozo permite que
nos situemos melhor nas possíveis posições do analista e nos meios de sua ação.
Para isso, utilizarei um materna, ou melhor, uma série ordenada de
maternas num grafo, o que foi proposto pelo Dr. Lacan em seu seminário A
lógica da fantasia. Explorarei apenas algumas de suas possibilidades.
Eis o problema: trata-se de um sujeito que demanda uma análise por estar
sofrendo de diversas angústias, de inibições profissionais e de sintomas à base
de ruminações, sejam elas o medo das grandes doenças de nossa época ou uma
inquietação instalada na adolescência por uma professora amada. "Será que sou
homossexual?" - são essas perguntas sobre seu ser que ele traz.
Vejamos as respostas mascaradas por suas perguntas. Depois de algum
tempo de análise, ele conseguiu manter-se em sua profissão, seguiu seu cami­
nho, sempre com muito medo de que fosse incapaz de enfrentar, de responder,
e de que, portanto, fosse excluído. O que era a melhor situação para continuar.
Sucedeu-lhe também conhecer uma moça com quem fez amor e suportar esse
encontro. No centro dessa relação, problemas de impotência ou de ejaculação
precoce. Ele passou por uma fase de dúvida, duvidou de haver encontrado a
pessoa certa: será que uma outra não seria melhor? Acabou não fazendo mais
amor com ela.
Na transferência, ele se apoiou no analista, que supostamente o tranqüi­
lizava quanto a esses diversos temores de fazer mal, em todos os sentidos do
termo: fazer mal seu trabalho e fazer mal à sua companheira. Apoiou-se nesse
valor de sugestão para se proteger de seus temores. Por trás desse efeito
sugestivo, havia um valor transferencial: eu tinha tanto valor para ele que valeria

215
216 versi5es da clínica psicanalítica

a pena fazer-me estar errado. Donde, por trás da sugestão, a dolorosa instalação
transferencial da idéia de me enganar.
Recentemente, houve um surgimento do inconsciente, com o valor de
surpresa que isso comporta. Após a fase de instalação dessa namorada, veio a
demonstração de seu embaraço - ele estava atrapalhado, segundo a célebre
expressão do Dr. Lacan, como um peixe com uma maçã. Não sabia o que fazer.
Então, tentou separar-se dela, propondo-lhe, por exemplo, dormir noutro lugar.
No entanto, vez após outra, uma crise de angústia extremamente aguda mos­
trava-lhe que lhe era impossível separar-se dela.
Até esse momento, toda a sua análise estava aprisionada numa verifica­
ção, que era a seguinte: tentar falsear a proposição "sou homossexual". Assim,
ele me demonstrava, através de suas tentativas com essa moça, que, apesar de
toda a boa vontade do mundo, era perpassado pelo medo de que tudo o que me
contava estivesse ligado a uma tapeação essencial em tomo da proposição da
dita homossexualidade - sem que, por outro lado, ele tivesse a mais ínfima
prática desta.
Foi aí que se lhe impôs uma nova proposição, numa dimensão de
surpresa. Ele se perguntou: se não conseguia abandonar a moça, não seria para
não fazer como seu pai, que o havia abandonado quando ele era muito pequeno,
deixando-o nas mãos da mãe, da tia, da avó e da tia-avó, embora houvesse um
tio que tinha assumido as insígnias paternas que lhe permitiram crescer, numa
comunidade inteiramente centrada nele? O pai, depois de abandoná-lo, tinha-se
perdido num alcoolismo que o reduzira à condição de um trapo. Por conse­
guinte, ele disse a si mesmo que, se não podia abandonar aquele objeto com o
qual não sabia o que fazer e que o atrapalhava, era porque, afinal, não tinha
escolha: caso contrário, como seu pai, acabaria sendo um farrapo humano. Essa
interpretação impôs-se a ele como uma surpresa, e dolorosa, pois ele continuou
a ser perpassado por este temor: não estaria dizendo aquilo para me agradar?
No fundo, será que aquilo não continuava mascarando seu tormento a respeito
da homossexualidade?
Esse sujeito se apresentava, portanto, como fazendo-se sofrer: fazia-se
sofrer de todas as maneiras, no trabalho, com a mulher, e todas as vezes que lhe
eram impostos novos efeitos de sentido na análise. Interrompo por aqui a
exposição do problema.
Coloca-se a questão de saber como dar consistência a isso. Acaso se trata,
'
nesse caso, da proibição paterna do "não farás melhor do que eu", manifesta
em todos os seus comportamentos, um medo de agir e de não agir como o pai?
Ou será que se trata, nesse pavor de ser expulso, de ser rejeitado, de uma fantasia,
a de que "uma criança é expulsa"? Isso seria uma sua retomada do abandono
a política do passe 217

com que o pai o havia confrontado, marcado por aquela postura de sofrimento
masoquista - como às vezes sucede dizerem, apressadamente.
Eis aí uma alternativa que nos aproxima dos termos em que Bergler
propôs, a respeito dos neuróticos, a existência de uma neurose básica mais
essencial do que as identificações edipianas. (Em seu seminário de 1 967 sobre
A lógica dafantasia, o Dr. Lacan não julgou inútil fazer referência a esse texto
de Bergler.)
Encontramos nesse paciente as três etapas apontadas por Bergler. Além
do conflito edipiano, em primeiro lugar, ele "cria para si o desejo masoquista"
de ser rejeitado; em segundo lugar, não enxerga seu desejo de ser rejeitado, só
enxerga, no lugar dele, razões para se defender (sua pseudo-agressividade); e,
por último, apieda-se de seu destino, num "deleite masoquista". Parece-me que,
se o Dr. Lacan destacou a tentativa de Bergler de introduzir, em toda neurose
em análise, a chave da saída pelo lado do manejo dessa suposta neurose básica,
foi porque Bergler tentou mostrar que o resultado de uma análise está ligado à
consideração da dimensão da fantasia. Com efeito, Bergler liga a fantasia
essencial à oralidade, e, no caso desse paciente, não faltou a utilização do objeto
oral, nem que fosse com o alcoolismo do pai e com uma tentativa de enforca­
mento da mãe, à qual nosso sujeito se perguntou se teria assistido. E, vez por
outra, ele mesmo podia ser perpassado, em seus sentimentos amorosos pela
companheira, pela idéia inquietante de estrangulá-la. O que deixava inteira­
mente de lado a ênfase colocada no suposto "prazer masoquista" obtenível desse
desejo de ser rejeitado era que o sujeito não parava de se oferecer - para obter
a demanda do Outro.
Ao se atrapalhar com essa moça, com quem não sabia o que fazer, ele
instalou nela uma demanda a seu respeito - a demanda da relação sexual -,
com isso realizando maravilhosamente a equivalência com o neurótico, para
quem a demanda do Outro vem no lugar da fantasia. Ela o solicitava. Não
interpretando isso com demasiada pressa pelo lado do "prazer masoquista",
podemos perceber que, em sua relação com essa mulher, tratava-se de uma
aposta desse sujeito que lhe permitia, na análise, jogar uma partida.
Consideremos os termos que situam esse sujeito. Primeiro, temos nele o
discurso do Outro que instaura a repetição, a repetição da situação paterna, que
o persegue e atormenta sem parar com um ato a ser cometido, um falso ato.
Pierre Bruno lembrou, ontem, essa dimensão do cogito como falso ato de um
"eu penso". O falso ato que sempre o atormenta é: "Não posso abandonar uma
mulher"; não pode abandoná-la para se interessar por outras mulheres - donde
seus tormentos sobre sua pretensa homossexualidade. Depois, ele não pode
largar a mulher com quem está vivendo, porque isso seria expor-se ao mesmo
perigo que o pai.
218 versões da clínica psicanalítica

Essa repetição, retomada do discurso do Outro, leva-o a este cogito: "Eu


penso quando sou aquele que pode largar uma mulher." Toda uma parte de sua
análise consistiu apenas em acentuar cada vez mais sua posição de sujeito na
fantasia ($ O a), em acentuar cada vez mais esse termo em sua hesitação
impossível: ele pensava cada vez mais que podia ser aquele que era capaz de
largar uma mulher.
Essa formação do obsessivo, que acentua a impossibilidade do esvane­
cimento do sujeito - antes do termo construção, Lacan utilizou o termo
formação da fantasia pelo sujeito -, essa estática de sua fantasia, levou nosso
paciente a fazer sua parceira suportar poucas e boas. E, no entanto, esse "eu
penso" da fantasia, esse advento sempre adiado do sujeito, é apenas a marca, a
retomada de um "eu não penso". A princípio como operador vazio - como
acentuou Jacques-Alain Miller em seu curso no ano passado -, esse sujeito,
que o sintoma só faz com que se identifique com o vazio da pergunta, puro
ponto de interrogação (Lacan dizia que a neurose, como pergunta, levanta a
questão do ser, mas que "só aparece pelo clarão de um instante no vazio do
verbo ser"), esse sujeito, que se apresenta como um operador vazio, soma-se a
uma estrutura gramatical.
A propósito disso, houve ontem confusão suficiente, ao que me parece,
para que eu tape o buraco. A estrutura gramatical não é a da fala. Coloca-se
também a questão de saber em que é que ela constitui as regras de uma
linguagem. A única coisa que uma estrutura gramatical pressupõe é que ela
exerça a função de mundo, que implique a função da referência, da Bedeutung.
Lacan cita explicitamente, a esse respeito, Ludwig Wittgenstein e sua tentativa
de extrair efeitos de sentido da consideração de um mundo reduzido a uma
estrutura gramatical, identificando, segundo seu célebre aforismo, meaning
[significado, sentido] e use [uso]. Para nós, o que importa não é o uso, mas o
gozo. Na fantasia, o sujeito, operador vazio, vem somar-se a um valor de gozo.
Que é que fazemos na análise? Quando o sujeito nos procura, ele não
espera por nós para ter uma fantasia. Lacan define a fantasia como um
curto-circuito, um operador que, por um caminho muito curto, permite acres­
centar um valor de gozo a esse operador vazio do sujeito. Na análise, em lugar
do curto-circuito, instauramos um circuito longo, através de uma interposição
que é a do emprego de um operador de saber: a transferência, que supõe o
emprego do sujeito suposto saber.
Através desse operador transferencial, introduzimos no lugar do curto­
circuito, interpondo-nos mediante esse ato, um desvio. Isso faz com que
provoquemos no sujeito uma releitura - Lacan utiliza esse termo - de sua


alienação. O sujeito, que se define em ( ) a partir da falta do significante fálico
a polftica do passe 219

alienação

'
'
'
'
'

a
·-.--------------
�· _1_

- IP - �P

como operador de verificação do gozo, a partir dessa alienação, relê essa


alienação, na análise, a partir do que se extrai de saber, do que é posto em jogo
ao longo do percurso. E depois, a ligação de sua posição inicial de repetição

com a de $0 a, através desse circuito longo, permite relacionar o �·


Isso nos permite compreender por que, na análise, tentamos substituir a
certeza do sujeito, que, antes de entrar em análise, situa-se do lado da fantasia,
por uma certeza do ato. É preciso, primeiro, isolar o objeto que, na fantasia, é
o objeto da pulsão. Jacques-Alain Miller observou, na Argentina, que o sujeito
se introduz no ato pela estrutura da pulsão, que é acéfala É por aí que se podem
abrir para ele as vias do ato. Com efeito, a pulsão, por seu circuito, introduz no
ato essencial mediante o qual, como diz Lacan, "cada um faz mira em seu
coração e só o acerta com o tiro que o erra". É pelo x que introduzimos no ato
analítico, pelo valor de suspensão que o desejo do analista introduz, que um
circuito mais longo permite ao sujeito fazer o percurso, ver como é envolvido
por esse objeto (a). Isso supõe que ele verifique o amor instaurado pela
transferência, isto é, que trabalhe, que trabalhe na transferência, apoiando-se na
epoché, na suspensão particular da análise no desejo do analista.
É desse modo que posso agora completar o quadrângulo apresentado por
Lacan na Lógica da fantasia, chamando a atenção de vocês para três pontos:

Se Lacan, no ponto ($ O a), pode falar da instauração da passagem ao ato,

no ponto (�). do acting out, e no ponto _;, do resultado do ato analítico, é


porque cada um desses três pontos pressupõe um modo de travessia da fantasia.
Em nosso sujeito, o ato simulado do cogito, "Eu penso quando sou aquele que
220 versões da clínica psicanalítica

passagem ao ato
SOa
--------�

a g
- 'P - I/}

resultado do ato analítico acting-out

pode largar uma mulher", é a autotravessia da cadeia que se impôs a ele por
ocasião da partida do pai e do discurso que se instalou no Outro a esse respeito.


No ponto ( ), Lacan situa o acting-out, a travessia selvagem da fantasia. Do

mesmo modo, em �. a autotravessia representada pela separação entre (a) e


(-cp) liga-se ao gozo do Outro.
Trata-se, pois, de introduzir o sujeito no percurso do circuito que ele
efetua na análise. Ele efetua um certo número de verificações, verificações
sobre um certo número de proposições sobre o gozo do Outro. Essa operação
tem que ser repetida um certo número de vezes para que o sujeito, por sua vez,
possa ir embora. A condição disso, evidentemente, é não interpretar depressa
demais através do suposto masoquismo. É por sua aposta que o sujeito se
introduz no ato.
2

Ensino e cartel do passe

Escolhi como título "Ensino e cartel do passe" porque queria dar um testemunho
do que aprendemos como cartel, ou, pelo menos, do que eu aprendi enquanto
membro desse cartel, durante os dois anos em que pudemos ouvir quatro
passantes por intermédio de seus passadores.

Distinguirei duas vertentes dessa experiência, a do testemunho e a da


perda, entendendo-se que as duas estão entrelaçadas: a do testemunho, por
acentuar a reconquista, pelo passante, do campo de eclipse do passe, e a da
perda, por ser a falha da fala, a apresentação do ser-o-passe. Constato, inicial­
mente, que o ensino de nosso cartel distribuiu-se segundo esses eixos. Alfredo
Zenonni e François Leguil desenvolveram predominantemente a experiência
do testemunho. Augustin Menard e eu partimos do lugar do afeto, sobretudo
maníaco-depressivo, que conceme ao sujeito no passe. Jean-Guy Godin, traçan­
do a oposição entre término e fim, destacou essas duas orientações.

Procurarei agrupar minhas observações em tomo de duas coisas: ( 1 ) a


unificação.da demanda efetuada por Lacan. Entre a chamada demanda terapêu­
tica e a demanda didática, essa unificação, central para o início da experiência,
é reencontrada, no fim, como uma impossibilidade de isolar o que seria
puramente didático do peso terapêutico. Reencontramos, no final, diferentes
modos de fusão/des-fusão. (2) Se, no começo, o desejo está decidido, depara­
mos, no fim da experiência, com a questão da decisão - da decisão, e não da
autorização. Mais particularmente, trata-se da maneira como o sujeito se arranja
com aquilo que havia posto em jogo no começo, em seu "tudo menos isso !",
no que ele queria resguardar, protegido da psicanálise - a análise inteira -, e
que é crucialmente reposto em jogo na decisão final.

Agruparei, numa primeira parte, dois sujeitos situados em relação ao


sintoma. No primeiro caso, surpreendentemente, o sujeito confia a seus pas-

221
222 versões da clínica psicanalítica

sadores que não havia posto em jogo o sintoma em sua análise. Essa era uma
dimensão desconhecida dele mesmo. No segundo, o sujeito soube transmitir a
seus passadores que havia analisado todo o sintoma, realmente todo o sintoma!
Numa segunda parte, examinarei a decisão de dois sujeitos a propósito
do "isso, não!" que se situa no limite de sua análise. Um primeiro sujeito, que
dramatiza a perda, dramatiza sua função de se descobrir "dejeto" e uma pressa,
não de se reconhecer homem antes que o rejeitem, mas uma pressa de se
descobrir dejeto antes que o dissuadam disso. Um segundo sujeito, que no fim
da análise faz um acting-out maravilhosamente configurado, tenta persuadir
seus passadores de que não se trata de um acting-out, já que isso o apazigua.
Frente ao drama de um, a paz do outro!

O sintoma

Para começar, uma primeira parte, onde se abordará o sintoma. Um sujeito nos
surpreendeu muito. Alguém começou dizendo que ele por certo havia atraves­
sado sua fantasia, mas que o sintoma não entrara em questão em sua análise. O
sujeito se autorizara como psicanalista e tivera, ele mesmo, a enorme surpresa
de se descobrir, durante uma sessão com um paciente, transfixado por uma dor
que era precisamente o sintoma de que a mãe sempre havia sofrido. O sujeito
reencontrou o sintoma, aí, numa dimensão de espanto, que o deixou fora do
próprio sintoma. Nem sequer pôde queixar-se dele, não o problematizou. Foi
um sintoma reencontrado no limite da análise. Aí está uma coisa que aprendi
nesses testemunhos: a clareza desse reencontro com um sintoma que mudou
completamente de estatuto e que, precisamente, deixou-o numa certa dificul­
dade a respeito de sua situação.
O segundo sujeito soube transmitir perante os passadores sua agilidade
em relação ao inconsciente, que fez com que ele soubesse analisar o sintoma
com precisão impecável. Oprimido, num dado momento, por dores diversas,
esse sujeito soube reduzir a declinação dos sintomas à declinação de seus
prenomes, com algo de absolutamente convincente. Algo que não se encontrava
nos livros, de grande beleza clínica. Só que, no fim, essa declinação dos
prenomes deixou o sujeito na expectativa ele um nome que realmente o fosse;
de um nome - no caso, o nome de um pai - que viesse realmente nomear,
não o sintoma, e sim, condição de sua existência, nomear realmente o filho. Ele
ficou numa posição de expectativa do surgimento do nome.
Esses dois sujeitos deram testemunho de um aspecto central da estrutura:
a inclusão necessária do sintoma na demanda de saber - a chamada demanda
didática - não permite separar cronologicamente a análise terapêutica e a
análise didática. Assim, necessariamente, o sujeito tem que decidir sobre su�
a política do passe 223

atitude diante de seu sintoma; tratava-se de sujeitos que, incontestavelmente,


tinham feito uma análise, mas nem por isso, por terem feito uma análise,
estavam no passe. Foi essa a opinião do cartel. Mesmo assim, eles apresentaram
um prisma luminoso dessa articulação. Num dos casos, a "ausência do sintoma"
deixou o sujeito fadado a reencontrar a dor materna, e noutro, a "totalidade do
sintoma" deixou o sujeito em suspenso, à espera de um nome do pai que
realmente o fosse.

A perda

Os outros dois sujeitos expuseram exemplarmente a atitude do sujeito diante


da perda que surge na análise.
Um deles precipitou-se, por ocasião do luto de um parente que fora central
para ele no decorrer de sua análise, na mais extrema di�isão. A divisão em que
o sujeito se precipitou levou-o ao limite do silêncio. Ele testemunhou a tal ponto
sua posição de rejeitado da cadeia significante que ficou boquiaberto. Não pôde
fazer outra coisa senão atestar, através de uma certa agitação, as queixas que
dirigia a esse objeto que o havia abandonado. Essas queixas levaram-no a ficar
inteiramente subjugado a essa perda e a sofrer para recuperá-la numa experiên­
cia de testemunho.
No segundo caso, não se tratou do "precipitar-se na perda"; tratou-se de
uma lembrança - lembrança encobridora - em que eram ouvidos, atrás da
porta, os estertores de sua mãe. O sujeito ficou em dúvida sobre se se tratava
de uma experiência de prazer ou de uma experiência de dor. "Auscultando no
espaço noturno os soluços modulados do sótão", ele auscultava os estertores da
mãe. Em sua análise, foi levado a se precipitar numa experiência que o levou,
em síntese, a dormir com um casal, coisa da qual saiu visivelmente angustiado,
mas com a idéia de que, atingido esse ponto de horror, só lhe restava demandar
a paz e o esquecimento. Ele não se separou do testemunho por esse próprio ser
da divisão, mas separou-se do testemunho porque, havendo atingido esse ponto,
não podia fazer nada além de demandar a paz e o esquecimento. Porém é do
A.E. [Analista da Escola] que se espera que ele nos exponha a paz e o
esquecimento.
Durante a discussão do cartel, esses diferentes sujeitos se organizaram, o
que nos surpreendeu. Foi isso que fez com que tentássemos modular o "som",
a fim de modalizá-lo, apropriá-lo, adaptá-lo ao caso. Essa variedade foi-nos tão
mais presente quanto, muitas vezes, as discordâncias entre os testemunhos dos
passadores foram flagrantes, vez por outra nos deixando a indagar se realmente
se tratava da mesma pessoa. Esse foi um primeiro movimento, consistindo o
segundo em nos apercebermos de que de fato se tratava de uma mesma posição
224 versiies dn clínica psicanalítica

subjetiva profunda. Numa nomeação, não nos caberia nomear uma certa relação
com a inominável possibilidade de produzir saber com o objeto causa? O A.E.
não é nomeado para um cargo de professor do objeto a. Trata-se de confirmar,
no dispositivo, que um sujeito freqüentou suficientemente a escola do objeto
causa para que possa fazer sua transmissão.
3
Dois exemplos de passe
no ensino de Lacan

Dirigindo-se à sua Escola em 6 de dezembro de 1967, três meses depois de sua


proposição, Lacan situou sua postura, quando da constituição da Escola, a
respeito das garantias que ela distribuíra:
l. "Respeitei a aproximação da triagem de onde saíram os A.E. e os
A.M.E., tal como foram incluídos no anuário de 1 965 (... ) respeitei
o que mereceu a experiência de cada um enquanto avaliada pelos
outros."
2. "Como se distribui essa estruturação, que ninguém, ao que eu saiba,
pode pretender que seja um dado, eis aí o primeiro ponto com que
devemos inquietar-nos."
3. "O segundo ponto torna-se, pois, criar classes tais que não apenas
ratifiquem essa distinção, mas que, servindo para produzi-la, a
reproduzam", ou seja, que prestem contas de suas condições de
produção.
4. E Lacan concluiu com nada menos do que sua esperança de fun­
damentar no reconhecimento racional dessas classes (especialmente
os A.E.) o reconhecimento por direito do psicanalista. Nesse aspecto,
a vontade de Lacan, naqueles anos, de fazer com que sua Escola
fosse reconhecida como uma instituição de utilidade pública anteci­
pou-se a nossas preocupações atuais de fazer com que a psicanálise
seja reconhecida como algo de ordem totalmente diferente das
psicoterapias. Lacan introduziu com muita clareza uma condição
prévia a esse reconhecimento de um estatuto legal: era preciso
estabelecer o estatuto científico da experiência analítica. Ele formu­
lou explicitamente uma pergunta: "Como esperar fazer reconhecer

225
226 versões da clínica psicanalítica

um estatuto legal numa experiência pela qual nem sequer se sabe


responder?"
A Escola, diferentemente de uma sociedade de psicanalistas, definiu-se
como o lugar onde se estaria trabalhando para responder o que é o psicanalista.
Onde havia uma tautologia - a identificação com o psicanalista -, Lacan
isolaria uma báscula, um processo.
De ponta a ponta, sua Escola estruturou-se como um lugar onde se
responde pela razão, ou, em outras palavras, através de ';lm saber transmissível.
O paradoxo é que o analista se reveste, a princípio, da experiência dos
poderes de um Gulliver da linguagem, dos adereços do sujeito suposto saber,
decorrentes do fato de o inconsciente ser estruturado como uma linguagem. O
lugar do analista é, pois, o da ignorância, que é o verdadeiro nome da "pura
significação de saber". Ai está a armadilha, a mola que faz com que a tendência
das sociedades de psicanálise seja privilegiar a ignorância como critério de
seleção, quando a verdadeira questão é esta: depois de se desvencilhar dos
saberes vigentes nos discursos aceitos, o analista fica submetido à dura res­
ponsabilidade de escolher o que deve saber.
Essa escolha� tão decisiva quanto qualquer das grandes escolhas da
história - a de Eva, a de Páris, a de Salomão, a de Descartes -, é a de sua
lógica: a lógica do analista, ou a ordenação do tipo de saber que está em jogo
no processo analítico.
Introduzamos prontamente, através de um exemplo, a diferença es­
tabelecida por Lacan entre a Escola pela qual ele ansiava e as sociedades
existentes. "Para no!l referirmos ao real da experiência, supostamente detectável
na função das sociedades, descubramos a forma de apreender por que seres que
se djstinguem por um nada do pensamento, reconhecido por todos e atestado
como um fato nas afirmações correntes (é isso o importante), são facilmente
colocados, no grupo, numa posição representativa." Lacan, ironizando, fez uma
confusão sobre o lugar do não-saber necessário ao analista, "produção, como
reserva, da estrutura do único saber oportuno".
Não são apenas as Escolas de Psicanálise que podem dar margem a
promoções estranhas. A Corte Suprema dos Estados Unidos também. Um certo
Souter, radicalmente desconhecido da tropa dez semanas antes, tomar-se-ia
membro da Corte numa semana, graças a um mecanismo análogo. O estafante
procedimento dos Senate Hearings [as audiências do Senado] não permitiu, em
absoluto, levantar o véu desse enigma.
A Escola opõe-se a essas sociedades, como o lugar onde se configura o
zero colocado no centro do saber necessário no processo analítico, ou a estrutura
lógica que preside esse saber. Assim, Lacan evocou ao mesmo tempo, em sua
"Proposição", a lógica da fantasia, a lógica do analista como agalma e os
a política do passe 227

instrumentos que ajudam a defini-la: ensino, orientação de trabalhos, publi­


cações, organização de livros a serem publicados, bibliografias sistemáticas.
Assim, a Escola é o avesso da Sociedade das Máscaras, tão cara a
Verlaine. Elas cantam em tom menor o amor vitorioso e a vida oportuna. A
Escola canta os engodos do amor e o saber oportuno. Espero apenas que ela
conserve, com a Sociedade das Máscaras, o gosto pelo tom menor. Mas, qual
é o segredo da oportunidade desse saber? Esse saber textual, oportuno, Lacan
o definiu por tocar no real que entra em jogo na experiência. A pedra de toque,
portanto, é o discernimento do que se produz quando ele toca esse real. E nada
é mais adequado do que nos voltarmos para a clínica, para o que advém numa
análise, a fim de nos esclarecermos.
No fim da análise, ou, pelo menos, "à medida que se avança mais para o
final da partida", o analisando é confrontado com o fato de que o ser é
desabitado, de que a relação sexual não existe, e de que não há nenhum sujeito
que saiba como se portar frente ao impasse que lhe é particular na relação sexual.
Foi a esse distúrbio que Lacan chamou momento de destituição subjetiva, um
momento que corresponde à instituição subjetiva da fantasia, religião particular
do sujeito.
Lacan pôde assim enunciar, para descrever esse momento de passe: "Na
destituição subjetiva, o eclipse do saber vai para [esse] reaparecimento no real."
E, para que esse reaparecimento no real não fosse misterioso, ele deu imedia­
tamente dois exemplos, dois exemplos clínicos da clínica do passe, que sempre
me surpreende não serem mais meditados.
Esses dois exemplos, Lacan os retomou na versão de sua "Proposição"
publicada em Scilicet, 1 , o que prova, sem dúvida, que fazia questão deles. E
os retomou com variações que examinaremos.
Na proposição efetivamente formulada em 9 de outubro de 1 967, Lacan,
imediatamente após evocar o eclipse do saber que vai para o reaparecimento
no real, evocou dois casos. O caso daquele que havia reconstruído sua realidade
a partir da fenda da impúbere e o caso daquele que, quando criança, descobri­
ra-se num certo representante representativo.
Lacan raramente fornece em suas obras referências a casos precisos, o
que só faz com que elas tenham mais valor. Será possível compararmos esses
dois casos com o par desordenado do Homem dos Ratos e do Homem dos
Lobos? Por que não? Convém, logo de saída, notar que Lacan não os designa
como o Homem da Fenda e o Homem do Mergulho, o que é compatível com
seu esforço, que almeja atingir no homem o que decorre do sujeito. Aquele que,
como dêitico puro, realmente visa ao que era antes que o eu adviesse. Aliás, o
poeta não se enganou ao nomear dessa maneira uma posição subjetiva, quer se
trate de Brecht e seu "aquele que diz sim, aquele que diz não", quer de Blanchot
228 versões da clínica psicanalítica

e seu "aquele que não me acompanhava". Há, portanto, "aquele que" recons­
truiu sua realidade a partir da fenda da impúbere. Ele reconstruiu sua realidade,
o que equivale a dizer que ela estava desconstruída. Justamente, sem dúvida,
por ter percebido que no lugar do faz-xixi, que ele observou sem o véu dos pêlos
pubianos, às vezes tão propício, havia a fenda. Por ter percebido que sua
realidade estava inteiramente presa ao fato de ele já não ter outra janela para o
mundo senão essa fenda, onde ele colaria seu olho, ou para onde convocaria o
olhar do outro. Esse construiu sua fantasia, o pronto-para-usar de sua realidade
costurada sob medida. Após longos anos de análise, reduziu a multiplicidade
de suas fantasias, de suas escolhas amorosas, a essa borda (a fenda) e a esse
traço (a impúbere). Assim, agora sabe um pouquinho sobre o que quer. Pois
bem, nesse momento, quando ele pode auto-atravessar sua fantasia através do
saber que construiu com ela, o analista, cujo desejo permaneceu enigmático no
curso da análise, preservando o valor de uma variável, adquire um certo valor
constante.
Ser é ser o valor de uma variável: este é o momento de nos lembrarmos
desse aforismo de Quine (Willard Von Orman), que Jacques-Alain Miller soube
fazer ressoar, nem que seja para nos formularmos uma pergunta: será .que
des-ser não seria assumir o valor de uma constante?
O analista, além de todas as identificações, de todos os endereçamentos
que possa ter abarcado, adquire o valor, ou, poderíamos até dizer, a coordenada
de um ponto: o ponto projetivo do olhar. Assim, o sujeito bascula para fora do
que era, para ele, o impossível, o impasse de sua fantasia, conforme a esfera
traçada ontem por Jacques-Alain. A transferência se resolve no sentido da
existência da resolução de uma equação e do valor das raízes. É isso, também,
que faz com que seja difícil pensar que esse valor possa atingir o zero; antes, é
um valor de gozo que infalivelmente se deposita nesse ponto. Daí o comentário:
"Tocamos aí na inutilidade do termo liquidação, por esse buraco que é o único
onde se resolve a transferência."
O texto de Lacan nessa proposição é ambíguo, já que "ponto projetivo"
poderia dar a idéia de um esvaziamento do gozo, de uma redução a seu valor
de ponto de fuga simbolicamente determinado. Sensibilizemo-nos para o que
está em jogo. Reduzir seu analista a uma pura coordenada simbólica, é isso que
lhe pode permitir tratá-lo não apenas como um significante qualquer, mas como
um valor nulo. Já reduzi-lo a um olhar é também continuar a se haver com esse
olhar, que não é mais o do pai morto, mas continua a ser um ponto de apoio,
um público somente para ele, diante do qual ele continua tendo que prosseguir
em sua tarefa analisante. A esse respeito, posso valer-me do início de "Televi­
são", onde Lacan observa que o público do seminário funciona, para ele, como
o olhar que o causa. Ninguém supõe que, como o Homem dos Ratos, Lacan
a política do passe 229

convocasse o olhar do pai morto para dar prosseguimento a sua obra. Ele
lamentava, antes, que as noites de vig11ia que seu trabalho implicava não fossem
visitadas por musas.
Tal vez tenha sido a ambigüidade dessa primeira redação que levou Lacan
a modificá-la na publicação feita no nº 1 de Scilicet. Isso porque, dos dois casos,
sobretudo o primeiro é que seria retocado. Vou ler-lhes o novo texto: "Assim,
daquele que recebeu a chave do mundo na fenda da impúbere, o psicanalista
não mais tem que esperar um olhar, mas se vê transformado numa voz." A
primeira parte da frase, que retoma a construção da fantasia fundamental no
decorrer da análise, faz uma referência mais direta ao falo como termo incluído
na cadeia fantasmática (-<p) . À situação do sujeito que percebe, no fim da análise,
que não existe mundo, e sim in-mundo, um campo para o qual a chave é apenas
um obstáculo a que haja relação sexual. Se já não existe chave, existe, ainda
assim, porta ou janela, pelo menos alguma coisa que gira em tomo de um eixo,
uma vez que eixo existe.

É a báscula que se modifica nessa segunda redação. O psicanalista não


mais é definido como aquele que se reduz ao ponto projetivo do olhar, mas
como aquele que "se vê transformado numa voz�:. E urna voz não é um olhar.
Se o olhar pode obnubilar, a voz não é o que ordena, o que é, fundamentalmente,
a "voz grossa". Alain Grosrichard escreveu, um dia, uma coisa sensacional
sobre a voz em Rousseau. Talvez Lacan tenha querido dar um valor mais preciso
à resolução da transferência nesse caso. Pois não ter mais que esperar um olhar
daquele que foi nosso analisando, é isso que dá um valor mais patético à partida.
Pensem em suas próprias histórias de amor: não ter mais que esperar um olhar
é, realmente, não se despedir em bons termos, não é o "nossos caminhos se
separam, mas continuaremos amigos". É um nunca mais se ver, no sentido de
não mais poder ver-se nem pintado, como diz a língua, que sabe que o olhar se
deposita nos qua<;iros.

As duas versões não são contraditórias, mas esclarecem valores. É pelo


fato, num sujeito cuja fantasia fundamental é escópica, de o analista reduzir-se
ao ponto. projetivo do olhar que ele, o analista, pode ver-se transformado em
voz, ou seja, em algo de insuportável.

E há o outro caso, o daquele que, quando criança, "se descobrira", diz a


primeira versão, e "descobrira", diz a segunda - por certo para nos fazer pôr
o dedo, como ato, na dialética do ser e do ter nas relações do sujeito com o
significante mestre, com sua sujeição, com sua báscula nas profundezas. Como
quer que seja, Lacan mantém o termo "descoberto", que é perfeitamente
ordenado nele. A descoberta é o que é de uma ordem diferente do automatismo
dos significantes. Há um encontro. O sujeito se havia chocado: não com a fenda
feminina, mas havia irrompido, o mundo se revelara para ele, ao atravessar a
230 versões da clínica psicanalítica

borda da janela para o mundo de seu pai que era o jornal. Sabemos o quanto
basta ter um pai um pouquinho depressivo, como se costuma dizer, ou obses­
sivo, para que ele refugie suas ruminações mortíferas e anais por trás do jornal
da tarde, que tem mesmo o título de Monde [Mundo]. Um pai que, onde quer
que se sente para ler, tem um ar de estar naquele lugar onde só se vai sozinho,
no atual estado de nossas boas maneiras. O sujeito se descobriu, não, como o
Homem dos Ratos, numa cena de injúria a seu pai, mas basculou, talvez, sob o
significante mestre daquele que enfia os pés pelas mãos, daquele que, por sua
demanda, vem a ser o chato, do que não pára de querer atingir qualquer outro
que esteja na situação de pai em seu refúgio. Releio para vocês as duas versões
dadas por Lacan da construção dessa fantasia fundamental: "sua irrupção
através do jornal aberto com que se abrigava o sumidouro dos pensamentos de
seu genitor" e "seu próprio mergulho através do papel-jornal com que se
abrigava o sumidouro dos pensamentos paternos".
Pautando-nos no modelo do caso anterior, onde o que estava em jogo não
era o anal, e sim o escópico, poderíamos deduzir daí que o analista descobre-se
reduzido ao seguinte ponto de decadência: o analisando, depois de tentar
atingi-lo no mais íntimo do que, para ele, continua a ser um abrigo, abandona-o.
"Como uma merda", concluiríamos com demasiada pressa, se Lacan não nos
detivesse primeiro no "efeito de limiar" ou "efeito de angústia" em que o sujeito
depara com o desejo do Outro. Que quer ele de mim, além de minha análise,
que eu deixe atrás de mim como uma merda, sicutpalea. Na partida, temos um
sujeito que invade, que bascula na dejeção do Outro, basicamente pobre de
desejo. Na chegada, temos a báscula inversa, o sujeito atravessa suas próprias
dejeções para deparar com o enigma do desejo como desejo do Outro. Belo fim,
não? O psicanalista não sai dessa mais suportável do que no caso anterior, sejam
quais forem suas hesitações. Dessas construções, como épura, Lacan também
nos deu alguns traços em sua clínica de Gide, ao descobrir, por exemplo, as
etapas de construção da fantasia fundamental dele a partir do abismo das
experiências primárias de gozo: a destruição de um brinquedo amado, o
catrapus causado pelas cócegas de uma criada... A essa clínica do passe dos
artistas, da épura dada pelo criador sobre suas experiências fundamentais de
gozo, que Rosine e Robert Lefort evocaram com Picasso, como não acrescentar,
aqui, a oportunidade fornecida pela triste atualidade da morte de Michel Leiris?
Ele, que soube fazer-nos sentir como sua vida foi permanentemente marcada
pela quebra, não de um brinquedo amado que escapulisse, mas de uma palavra,
"reusement", que o deixaria para sempre em dívida com a "heur" perdida. Ele •

* O jogo de palavras faz-se aqui com o advérbio heureusement (felizmente, afortunada­


mente). (N.T.)
a política do passe 231

confidenciaria seu tédio até o fim da vida e buscaria a precisão de uma escrita
que modificou, nas letras francesas, o gênero autobiográfico, para continuar
restaurando a cadeia significante, para lhe devolver essa parte perdida para
sempre.
Voltemos aos dois casos de passe, de destituição subjetiva que Lacan dá
como modelo ou como modo de emprego em sua proposição. Não vejo por que
recuar diante da expressão modo de emprego, uma vez que ele acrescenta:
"Assim, o fim da psicanálise guarda em si (ou mostra) uma ingenuidade sobre
a qual se coloca a questão de saber se ela deve ser tomada por uma garantia na
passagem para o desejo de ser psicanalista." A questão se colocava, mas Lacan
a resolveu ali, era esse o tipo de evidência que era preciso esperar para que
servisse de garantia. Portanto, quando do eclipse do saber (como se fala em
eclipse do sol), há uma interposição, entre o sujeito e o esclarecimento, da
espessura do reaparecimento do objeto no real. Não é necessário ter nesse
momento uma atitude mística e cobrir o rosto, basta ter uma atitude ingênua.
É com essa ingenuidade que o cartel deve trabalhar, e foi essa ingenuidade
que tentei atingir ao registrar o trabalho que havíamos efetuado. Nenhum A. E.
foi nomeado pelo cartel em questão, mas isso não era motivo para não registrar
esse trabalho. Como observou Agamben, "para quem medita sobre o indizível,
é útil observar que a linguagem pode perfeitamente nomear aquilo de que nada
se pode dizer. Por esse ponto de vista, a filosofia antiga distinguia cuidadosa­
mente o plano do nome (onoma) e o do discurso (logos)". Pois bem, a tarefa da
comissão dupla é dar conta, racionalmente (logos), do que compõe uma classe,
e não um nome (onoma). Foi dentro desse mesmo espírito que Colette Soler
pôde prestar contas dos trabalhos de um outro cartel.
Ess:;1 reductio que é uma análise, com o empobrecimento que ela implica,
o que é que garante que não seja um delírio a dois? Em seu aspecto de paranóia
dirigida, não será ela um trabalho delirante como outro qualquer? Freud via
como garantia única, depois de explicar o trabalho autobiográfico do presidente
Schreber, somente o Édipo, na medida em que o romance familiar religa o
sujeito à cadeia das gerações, a seu lugar no horizonte simbólico de uma época,
no destino de um pai. Lacan afasta-se de Freud nesse aspecto, pois toma o fim
da análise a partir da angústia subjetiva diante do pronto para gozar. Há, no fim
da análise, um "você pode" que o confronta com "sua própria dejeção", como
no segundo caso. Mas, mesmo que você possa, não creio que escape ao
mal-estar na civilização, à maneira como a época lhe propõe os "prontos para
gozar". O carro continuará a ser um sintoma, uma falsa mulher, como obserVou
Lacan, e todos os objetos que a ciência fabrica se insinuarão em sua remunera­
ção cínica. É também assim que há um reaparecimento, no real, do resto das
velhas edições do livro que você devorou. Você se tomará cada vez mais
232 versões da clínica psicanalítica

trabalhador, Arbeiter, já que é esse o estatuto do sujeito moderno, e, do fax ao


vídeo, tratará de fazer alguma coisa com o que a ciência lhe fornece. Talvez, se
voe� for latino, como observava Kojeve, guarde uma distância da positividade
protestante e uma predileção pela negatividade do otium. Seja como for, você
viverá a pulsão da maneira como ela lhe for possibilitada pelo horizonte de sua
época. A psicanálise e o que dela se transmitiu a você talvez lhe pareçam ser a
única briga que tem algum valor nos discursos estabelecidos. Assim, ela terá
valor para você, e é isso que lhe desejo.
4
Passe e beatitude:
sobre o entusiasmo

O entusiasmo é um modo de relação com o Um, indica Jâmblico. Em seus


Mistérios do Egito, com efeito, ele discorreu muito sobre o entusiasmo, um
entusiasmo que devia ser alcançado por aqueles que se apresentavam nos
Mistérios. Jâmblico foi um sírio que permaneceu praticamente desconhecido
no Ocidente. Seu sucesso começou quando ele foi traduzido por Marsílio
Ficino,. na oficina de traduções financiada pelos Médici. Esse texto insiste, a
partir de Platão, na convocação divina: não se trata de discorrer sobre Deus,
mas de atuar sobre Deus. Não da teologia, mas da teurgia. De convocar Deus
para participar desta existência e formar Um. Na terceira parte dos Mistérios
do Egito, encontramos o seguinte:
Não basta apreendê-los [os discernimentos dos deuses]. Não chegaria a
ser perito em ciência divina quem se contentasse em sabê-los. Falta
conhecer também o que é o entusiasmo e como se produz. Ele não é, pura
e simplesmente, um êxtase, mas uma ascensão e uma transposição para
o gênero superior, enquanto o frenesi e o êxtase manifestam também uma
inversão para o inferior ( ... ). O mais importante é que os verdadeiros
entusiastas acham-se totalmente possuídos pelo divino.

Será a um entusiasmo desse tipo que se refere Lacan, ao falar dos


postulantes ao mistério analítico que, depois de haverem discorrido e de se
haverem comprometido com os logoi, finalmente se introduziriam no ato e
começariam a convocar o Um até se fartarem dele?
Os possuídos pelo Um, os entusiastas da psicanálise, era assim que Lacan
denominava, em 1 976, aquilo que se produz no final da análise, quando se passa
a preferir acima de tudo o inconsciente. Preferir o inconsciente acima de tudo
é uma maneira de ser entusiasta do Um. A isso Lacan respondeu com um único
remédio: a contrapsicanálise.

233
234 versões dn clínica psicanalítica

Não creio, pois, que o fim de uma análise seja comparável à loucura
divina, à mania de Platão, retomada por Jâmblico como técnica do entusiasmo.
Não creio que fosse para esse entusiasmo que apontava Lacan. Ele estaria mais
perto daquilo de que fala Lyotard em seu livro El entusiasmo La crítica
-

kantiana de la Historia. Neste, Lyotard faz referência a um ponto de um texto


de Kant intitulado Os conflitos dasfaculdades. Trata-se, como se sabe, de um
conflito com a faculdade do juízo, cujos preconizadores sustentavam que não
existe nenhum progresso neste mundo, que tanto faz, que há apenas arranjos
melhores ou piores. No referido texto, escrito em 1 795, Kant tomou o exemplo
da Revolução Francesa. Disse o seguinte:

A revolução de um povo espiritualmente rico, como a que vimos produ­


zir-se em nossos dias, tanto pode ter êxito quanto fracassar. Pode muito
bem ser repleta de sofrimentos e atrocidades, a tal ponto que um homem
ponderado, se pudesse ter a esperança de levá-la a cabo com êxito ao
iniciá-la pela segunda vez, nunca se decidiria a arriscar a experiência a
esse preço. Mas essa revolução, digo eu, encontra, nos espíritos de todos
os espectadores que não estiveram pessoalmente implicados nesse jogo,
uma tomada de posição, no nível de seus anseios, que beira o entusiasmo
e cuja própria exteriorização implica um perigo. Uma tomada de posição,
portanto, que não pode ter outra causa senão uma inclinação moral na
espécie humana.

Vejamos o raciocínio de Kant. Para dizer que há algo melhor na história,


ele mostra que se produzem acontecimentos que fazem com que alguém que
não participa deles seja captado pelo entusiasmo. Quem não participa é es­
pectador, ou seja, aquele em quem não se pode suspeitar de nenhum interesse
patológico. Mas ele é captado pelo entusiasmo, captado no acontecimento
"segundo o desejo". Isso demonstra que há no homem a inclinação moral que
o político realista nega, assim rechaçando a faculdade do juízo. E creio que o
entusiasmo a que Lacan se refere não é o de Jâmblico, mas o de Kant nesse
texto dos Conflitos dasfaculdades. Que é o entusiasmo? É "aquilo sem o qual
não se pode fazer nada de grande". Isso é o que diz Kant em sua Crítica da
faculdade do juízo. "É um afeto", diz ele, "de tipo vigoroso."
Isso surge do sublime, do modo de sentir, na acepção em que Kant o
emprega. Kant nos introduz nesse aspecto da seguinte maneira: "O sublime é
um objeto que prepara o espírito para pensar a impossibilidade de alcançar a
natureza enquanto representação das idéias." Há uma discordância. E Kant
prossegue: "A satisfação obtida no sublime da natureza é apenas negativa." De
fato, diz ele, esse sentimento "é o sacrifício ou o espólio dos poderes da
imaginação". Não encontra nada com que se ligar. A imaginação, embora não
encontre nada com que possa ligar-se além do sensível, sente-se, contudo,
ilimitada, por causa do desaparecimento de seus limites. E essa abstração é, por
a política do passe 235

assim dizer, uma representaç&o do infinito. O belo é exatamente o contrário. O


belo consiste em captar na natureza uma forma, uma forma limitada que venha
a se impor como um ponto de detenção. Com o sublime, nenhum objeto chega,
propriamente falando, a responder, a deter o juízo por meio de uma forma bela.
Daí a predileção especial, surgida no século XVIII, por escalar montanhas,
predileção que seria desencadeada pelo romantismo.
O que Kant considera tranqüilizador no entusiasmo sublime é que essa
representação pura, simplesmente negativa, não implica "nenhum perigo de
Schwiirmerei [ilusão], que é uma ilusão que consiste em ver algo fora de todos
os limites da sensibilidade". O que é tranqüilizador para Kant no entusiasmo é
que se pode perceber perfeitamente que, uma vez ultrapassados os limites, já
não há mais limites. A ilusão consiste em crer que, ultrapassados os limites,
há um limite. Isso é o que Kant denomina de "querer sonhar segundo princípios,
delirar com a razão". Vemos, assim, a grande vantagem do entusiasmo: com ele
não se delira com a razão.

Retomemos o exemplo da Revolução Francesa. Existe o caos. Ele é


efetivo. Ninguém sabe como irão circular os poderes desencadeados pela
rev�lução. Provavelmente, como pressente Burke, isso terminará com um
ditador militar. Mas, de momento, essa forma é caótica. Não se trata nem do
belo nem do bem. Não é uma forma que se imponha. É evidente que implica
horrores suficientes para não ser da ordem da bela utopia. Pois bem, isso
provoca uma participação que pode se produzir com o ilimitado do caos. Essa
participação implica um gozo. Que gozo é esse? É descobrir que até o que se
pressente como enorme no mundo será, de fato, sempre pequeno em compara­
ção com as idéias da razão. A desordem que não tem imagem começa, na
verdade, a evocar "a função do sujeito, que é precisamente oferecer uma
representação para o irrepresentável". Cito aqui uma passagem de Lyotard, que,
curiosamente, tanto detesta a idéia de sujeito em Lacan. O entusiasmo, portanto,
é um afeto que denota uma relação do sujeito com o saber, com o representável.

Talvez possamos agora compreender melhor de que forma ele se opõe a


outro afeto do saber: a beatitude.

Lacan faz referência a essa beatitude no "Procedimento para o passe",


publicado no nº 37 de Omicar ?. Neste, ele situa o AE (Analista da Escola) como
o deseja: não recua diante dos termos virtude e coragem. E opõe a isso a
beatitude: "O acesso à posição equivalente ao que em outros lugares se chama
um didata já não se perde no tempo recuperado da beatitude. Antes, está até
muito longe de implicá-la." Jacques-Alain Miller sublinhou essa oposição entre
entusiasmo e beatitude; tomamos a encontrá-la aqui. Não me parece infundado,
agora, citar o entusiasmo da carta aos italianos, desse texto sobre o AE segundo
os desejos de Lacan, e contrastá-lo com a beatitude do didata do tipo da IPA
236 versões da clínica psicanalítica

(lntemational Psychoanalytical Association). Beatitude é um termo introduzido


em "Situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1 956", p. 460 dos
Escritos: "(...) Beatitudes, tomando esse nome das seitas estóica e epicurista,
das quais é sabido que se propunham como fim alcançar a satisfação da
suficiência." Que queriam os estóicos e os epicuristas? Queriam a ataraxia.
Quanto a esse ponto, o ideal estóico e o ideal epicurista não se distinguem.
Essa beatitude deslizou em seguida para o mundo cristão, para se conver­
ter na felicidade eterna de que desfruta o homem que goza da visão de Deus.
Converteu-se num título episcopal, aparentemente reservado aos bispos do
Oriente. Somente a partir de uma certa data - não descobri a data exata - foi
que o Papa também passou a ser chamado assim.* Péguy, nos Mistérios da
caridade de Joana d'Arc, observa o seguinte: "É então [na beatitude] que nada
mais teríamos a dizer, porque estaríamos no reino onde já não se diz nada."
Lacan toma o termo beatitude na expressão " ... no tempo recuperado da
beatitude".
Por quê? Num primeiro sentido, porque há uma etemização do gozo
apaziguador. Gozar com Deus não os conduz ao entusiasmo, não os leva a
considerar que entre o caos e o conceito há um lugar para os afetos. Existe a
bela visão desse Deus que é Uno e que os mantém distanciados (?) do dever de
Bem-dizer.
O termo beatitude também é usado por Lacan em Televisão: "O espantoso
não é [o sujeito] ser feliz [ . .]". O espantoso "é ele chegar à idéia da beatitude,
.

uma idéia que vai tão longe que dela ele se sente exilado." De que é que o sujeito
se sente exilado? Do Outro enquanto vazio de gozo? "Felizmente", diz Lacan,
"temos aí o poeta para desvendar o assunto." O sujeito está exilado do Outro
que devemos identificar com "o gozo dela, a que ele, Dante, não pode satisfazer
( ...)". O exílio do sujeito, o exílio da beatitude, é atribuído ao gozo do Outro
sexo. É a partir, não do Outro como vazio do gozo, mas do Outro enquanto lugar
do gozo feminino, que o homem sabe que não pode satisfazer.
O tempo recuperado da beatitude é, afinal, o que Proust construiu em sua
obra, isto é, o gozo da mãe. Ele se identificou com esse sujeito excluído para
sempre, cravado em sua cama, que decididamente não podia mais deitar-se de
madrugada, com um desejo perfeitamente decidido de que não fosse assim e
com a vontade de gozar com isso.
Como é que o entusiasmo produzido pela análise é compatível com a
redução dos ideais da pessoa? Para Kant, ele é a descoberta de que não há nada
da imaginação que possa responder ao ilimitado da lei. Como poderiam os
efeitos produzidos nos ideais conduzir a esse mesmo ponto, ao ponto de

* Como "Sua Santidade". (N.T.)


a política do passe 237

entusiasmo? Que é, então, o ideal da pessoa? É um traje em que se goza. Aí


está O balcão de Genet para testemunhar que, por baixo dos ideais do juiz, do
sacerdote, do comissário, há, como na farsa, rabos. Genet introduz uma farsa
particular porque constrói o ritual desse gozo. A redução dos trajes dessas
pessoas é o que se deve esperar da análise, que o analisando não pense que
existem trajes prontos para gozar, que basta vestir-se de juiz, comissário etc.
para encontrar seu gozo. A redução dos ideais da pessoa diz-se: não se autorizar
por nenhum dos Nomes-do-Pai para gozar. Isso não significa romper com os
Nomes-do-Pai, nem tampouco atravessar uma fase de psicose experimental . É
no que esses Nomes-do-Pai deixam de ser trajes para gozar que é preciso que
o sujeito escolha, com resolução, o pior contra o pai.
5

Clínica do passe e depressão: um caso

Partamos do texto de Freud, recentemente retraduzido com o título L'Analyse


avecfin et l'analyse sansfin (Endliche und unendliche Analyse). * Meu amigo
Serge Cottet, no nº 24 de L'Âne, lembra que esse texto põe em jogo algumas
questões éticas essenciais da análise. Elas podem ser assim resumidas: há dois
tipos de análise, as que têm fim e as que não têm. Para Freud, o limite, pelo lado
do homem, é a angústia de castração. Dó lado da mulher, o limite não é a
angústia de castração, mas a Penisneid, com o efeito depressivo que se produz,
diz ele, ante a proximidade da zona de articulação do "término" e do "final" do
lado da mulher. A depressão é também um tema atual nas questões da clínica,
da clínica psicanalítica e da clínica como tal, toda vez que a clínica como tal é
a clínica psiquiátrica.
A clínica psiquiátrica é a clínica do olhar, como estabeleceu Michel
Foucault em sua imagem clássica, no Nascimento da clínica. Ela se desloca
junto com o sujeito da ciência. Tomaremos como testemunha desse desloca­
mento aquilo que tem por nome o "Diagnóstico estatístico", DSM, na língua
inglesa, em sua terceira variante, o DSM III.
Vocês sabem que o DSM III tenta distribuir estatisticamente a depressão,
anulando o conceito de neurose. É uma decisão tomada há dez anos, em 1 976,
quando se reuniu pela primeira vez a comissão - nos Estados Unidos, task
force** - cujo compromisso era estabelecer esse diagnóstico estatístico. Obe­
decendo às regras da democracia à norte-americana, essa clínica do DSM III
procurou fixar um consenso de conceitos. Nos países que tiveram suas tradições

* Análise terminável e interminável, E.S.B., vol. XXIIJ. (N.T.)


** Força-tarefa
" ", na linguagem militar, ou grupo de trabalho, em termos mais coloquiais.
(N.T.)

238
a política do passe 239

clínicas, o DSM III é recebido com um sentimento de inquietação, mas nem


por isso se há de pensar que, em seu âmbito originário, seja acolhido por seu
valor aparente. Um artigo publicado em 1 985, no Journal da Associação
Norte-Americana de Psiquiatria, permitiu-nos uma primeira aproximação da
história do DSM Til. É uma história rica em protestos.1
Em 1 976, quando a iask force divulgou sua intenção de eliminar o
conceito de neurose, um psiquiatra norte-americano protestou e organizou uma
comissão dentro da comissão, cujo objetivo seria manter o conceito de neurose.
Seus membros apelaram para a Associação Norte-Americana de Psicanálise e
se surpreenderam ao constatar que os psicanalistas não reagiram. Até 1 978, não
houve reação. Portanto, foi uma tentativa de tratar com desdém a nova clas­
sificação, até que o perigo atingiu sua dimensão plena. O desaparecimento do
conceito de neurose punha em perigo o reembolso das análises, reconhecido
modo de tratamento desse distúrbio. Freqüentemente se esquece que, nos
Estados Unidos, 75% das análises são reembolsadas, não pela Previdência
Social, mas por sistemas privados de seguridade sociaJ.2 Estava ameaçada a
vida cotidiana. A Universidade de Columbia, que tem um instituto - um dos
três mais importantes de Nova York -, apresentou então uma moção, na
assembléia da Associação Norte-Americana de Psicanálise, exigindo que essa
associação lutasse pela manutenção do conceito de neurose. O contra-ataque
da Universidade de Columbia, a partir de 1 979, provocou uma negociação
sumamente interessante. O Dr. Gaillard, em Psychiatries, resume-a assim:
"Esse período assumiu as características de uma genuína guerra de trincheiras,
gramatical e tipográfica, em tomo da qual o distúrbio depressivo crônico passou
a ser 'depressão neurótica' , depois 'distúrbio distímico (depressão neurótica)'
e, mais tarde, 'distúrbio distímico com ódio'. A redação final foi a seguinte:
'distúrbio distímico (ou depressão neurótica)' ." O problema todo é saber onde
colocar os parênteses. Bem colocados, eles permitem ignorar por completo o
fato de que se trata de neurose. A mesma guerra de trincheiras teve lugar com
respeito à "angústia neurótica", para, também nesse caso, acabar colocando a
neurose de lado.
Incluamos nesse dossiê um complemento mais atual. Há cerca de três
semanas, o Time Magazine publicou a resenha de uma sessão do estabeleci­
mento da próxima versão do DSM III , a propósito do "masoquismo feminino".
As organizações feministas tinham dado a conhecer que, se o DSM III admitisse
a categoria de "masoquismo feminino", elas recorreriam à Suprema Corte dos
Estados Unidos para que se declarasse a inconstitucionalidade do DSM III . Daí
uma negociação final, que terminou na exclusão do "masoquismo feminino" e
na aceitação de "componentes de autodestruição". Se a sátirarevela-se oportuna
aqui, é porque, nessa patética busca do consenso, o discurso da ciência foi três
240 versi5es da clínica psicanalítica

vezes falseado. O consenso ocupou o lugar do universal, o empirismo, a lugar


da observação, e a norma estatística, o lugar do verdadeiro. O que veio à luz
nessa falsificação grosseira foi o discurso do Mestre.
Em psicanálise, não procedemos por séries estatísticas, mas por séries de
casos, que é preciso elevar a paradigmas, como diz Lacan em sua obra a
propósito dos exemplos que utiliza. Como analisando, trata-se da particulari­
dade do caso, e, quando "passa" a analista, o sujeito coloca-se em questão, com
e além da particularidade de seu caso. Foi essa a razão por que Lacan optou por
fundamentar sua Escola na chamada experiência do "passe". Ela aponta para o
modo como alguém pode prestar contas, na saída de uma análise, dos problemas
atuais da psicanálise, e, desse modo, colher o que pode desprender-se da longa
cadeia de ditos constituída por uma análise. Esse dispositivo, apontou Lacan,
teria sido útil para evitar os dramas dos analistas da segunda geração. Eu gostaria
de me referir ao modo como a estrutura do passe pode esclarecer, se não os
dramas, pelo menos as dificuldades dos finais de análise, através de um caso:
o de Margaret Little, contado por ela mesma.

Margaret Little marcou época na história da psicanálise ao escrever, em


1 950, um artigo prínceps sobre a "contratransferência". O próprio Lacan
observou a chegada desse conceito "moderno". Falou do artigo de Margaret
Little em seu Seminário 1 e voltou a fazê-lo em seu seminário A angústia.
Leiamos o Seminário 1 , páginas 40-4 1 (onde o artigo é atribuído a Annie
Reich, o que é um erro, pois se trata do artigo de Margaret Little; esse erro será
corrigido nas próximas edições):

Antes de entrar no tema, vou tomar como exemplo o artigo de Margaret


Little sobre a contratransferência, publicado no primeiro número de 1951
do lnternational Joumal ofPsychoanalysis. As coordenadas desse artigo
são tomadas de um modo de orientar a técnica muito em voga num certo
setor da escola inglesa.

Trata-se da chamada óptica "contratransferencial". Lacan a criticou


severamente também no seminário A angústia, dez anos depois, onde fez um
elogio particular de Margaret Little, Annie Reich e Lucia Tower, como analistas
e, especialmente, como analistas mulheres. Essa mudança de opinião em Lacan
constituiu uma virada de 1 80 graus e merece toda a nossa atenção. Para
compreendê-la, proponho nos determos um pouco no caso de Margaret Little,
tal como Lacan o comentou no Seminário 1.
Continuemos nossa leitura:

Alguns dados estão alterados, mas tudo leva a crer que se trata de uma
análise didática, ou, em todo caso, da análise de alguém cujo campo de
atividades está muito próximo da psicanálise.
a política do passe 241

Isso não parece evidente ao ler ,o artig-o, mas Lacan não se equivocou.
Prossigamos:
O analisando é convidado a fazer uma comunicação no rádio sobre um
tema que interessa profundamente à analista - são coisas que acontecem.
Ocorre que essa transmissão radiofônica, ele a faz alguns dias depois do
falecimento de sua mãe. Pois bem, tudo indica que a referida mãe
desempenha um papel extremamente importante nas fixações do pa­
ciente. Mas, apesar de estar sumamente afetado por esse luto, ele continua
cumprindo suas obrigações de modo particularmente brilhante. Na sessão
seguinte, chega num estado de estupor que beira a confusão. Não só não
se consegue extrair nada dele, como também o que ele diz surpreende por
sua incoordenação. A analista, temerariamente, interpreta: "Você se en­
contra nesse estado por pensar que eu estou muito zangada pelo sucesso
que obteve no rádio, no outro dia, falando do tema que, como você sabe,
é do meu interesse essencial." Nada mais, nada menos!

A continuação dessa observação mostra que, depois dessa interpretação­


choque, que não deixou de surtir um certo efeito, já que, depois dela, o sujeito
voltou a si instantaneamente, o sujeito precisou de pelo menos um ano para se
restabelecer.
Lacan conclui:
Margaret Little devolveu ao sujeito o sentido da unidade de seu eu. Ele
saiu bruscamente da confusão em que estava, dizendo: "Aí está alguém
que me lembra que, com efeito, somos todos lobos entre lobos, e que
estamos vivos." Então, ele recomeça, deslancha; o efeito é instantâneo?

Faz pouco tempo que sabemos - desde 1982 - quem eram os perso­
nagens em questão. Lacan não sabia, já que Margaret Little não o tinha dito.
Ela se confessou num livro editado por Robert Langs. Esse livro apresenta-se
como uma compilação de artigos, complementada por uma longa entrevista
com o "editor".4 É curioso notar que, quando alguém conversa com um
analista, este começa por contar sua própria análise. Por exemplo, certa vez,
tive a sorte de me encontrar com Muriel Gardiner, que depois, lamentavelmente,
morreu. Era uma mulher já muito entrada em anos. Em pouco tempo, ela estava
falando de sua análise com Ruth Mac Brunswick. Para ela, o ponto crucial era
que Ruth havia-se portado como sua mãe. "Minha analista", disse ela, "era um
pouco mother knows best",* o que era meio insuportável. Muriel Gardiner,
como vocês sabem através de L'Âne, era um personagem fora do comum. Foi
uma mulher que fez muito pela resistência antinazista em Viena, salvou muitos
analistas, e se casou com um fundador do Partido Socialista Austríaco, uma
mulher valente e até com um certo toque de heroísmo. Filha de um milionário

* "A mamãe é que sabe", em i nglês no original. (N.T.)


242 versões da clínica psicanalítica

norte-americano, sempre quis fazer o bem, em nome de ideais incontestáveis.


Só que, frente à mãe, havia um ponto em que ela realmente não acreditava que
a "mãe soubesse melhor do que ela o que lhe convinha fazer na vida" e, por
isso, Muriel Gardiner deu um jeito de fazer com que todo o mundo soubesse
que Ruth Mac Brunswick se havia equivocado no diagnóstico do Homem dos
Lobos: o esforço de Muriel Gardiner orientou-se no sentido de colher todos os
depoimentos e financiar o Homem dos Lobos para que falasse com muitos
analistas, a fim de que ficasse bem claro que ele era tudo, menos paranóico;
Muriel Gardiner empenhou-se em mostrar que sua analista havia-se enganado
e que, nesse ponto, nada de "mother knows best" ...
Muriel Gardiner foi a exacerbação do que pode ser produzido por um
ponto transferencial. Do que se trata, inquestionavelmente, é de um ponto de
"passe" suspenso em sua análise. Sobretudo porque ela se preparou a vida
inteira para a psicanálise. Tinha uma admirável vocação para a psicanálise e a
praticou a fundo durante dez anos; depois, parou, porque ela a aborrecia.
Aparentemente, nunca se cansou do Homem dos Lobos.
Da mesma maneira, Margaret Little fez uma confidência em sua entrevis­
ta com Robert Langs, dizendo-lhe:
A história de meu primeiro artigo sobre a conlratransferência é um relato
disfarçado, uma vez que minha analista tentou convencer-me a ler meu
artigo para me tomar membro titular da Sociedade Psicanalítica de
Londres, isso, uma semana depois da morte de meu pai, o que implicava
que, se eu não o lesse por um motivo de luto pessoal, isso seria conside­
rado contra mim. (... ) Eu o fiz por causa de minha transferência psicótica
para ela. ( ... ) O artigo em si não tinha nenhum papel no trabalho de luto;
eu o havia terminado antes que meu pai adoecesse.

A analista era Ella Sharpe, que foi uma grande teórica da transferência,
a maior teorizadora da transferência da Sociedade Britânica de Psicanálise,
junto com Melanie Klein. Se considerarmos que a analisanda daquela que
estabeleceu uma doutrina clássica da transferência, no momento em que estava
"passando", no momento em que se converteria em titular da Sociedade
Psicanalítica de Londres, fez um artigo que fundou a doutrina da contratrans­
ferência, isso desperta a noção de "drama" no final da análise.
A teoria de Ella Sharpe sobre a transferência interessou muito a Lacan.
Dois meses antes de iniciar seu seminário sobre Hamlet, Lacan comentou um
caso de Elia Sharpe, tirado de seu livro de 1 93 7 sobre a doutrina da interpretação
dos sonhos: 5 tratava-se de alguém que tinha problemas de elocução, um
advogado que não conseguia defender sua causa. Toda a interpretação de Ella
Sharpe consistiu em fazê-lo retroagir à rivalidade com o pai e em incentivá-lo
a lutar, a expressar sua agressividade. Lacan, ao contrário, destacou que não
havia na vida do sujeito nenhuma rivalidade agressiva, que, na realidade, para
a política do passe 243

o paciente, o pai estava morto e bem morto, e que o essencial não passava por
aí. O essencial, para o sujeito, era saber onde estava o falo. Esse é um ponto
sobre o qual Lacan costuma chamar a atenção dos psicanalistas. Não há porque
ter pressa em referir o sintoma à rivalidade edipiana. Por exemplo, no caso de
Kris que Lacan batizou de "o homem dos miolos frescos", Kris enfatizou a
rivalidade com o pai, mediante uma lembrança infantil onde a questão era saber
quem havia conseguido, ao terminar uma pescaria, pegar o peixe maior. Lacan
o retomou. "Esse challenge [desafio] de pura forma sugere-me, antes, que
quisesse dizer: nada para fritar."* Uma observação desse gênero é sumamente
valiosa na clínica da brincadeira infantil. Por mais que algumas brincadeiras se
apresentem com o rótulo da rivalidade, elas também podem indicar que não há
nada por esse lado e que o sujeito não está, em absoluto, implicado nessa
rivalidade. Somente a distinção entre Real, Imaginário e Simbólico permite nos
orientarmos nessa clínica. No caso de Ella Sharpe, Lacan observou que a
questão não era a rivalidade com o pai, mas saber quem tinha o falo; e que, para
esse paciente, quem o tinha eram as mulheres. Mediante uma longa demons­
tração, ele demonstrou o ponto que a analista ocultava: que era ela, a analista,
que o tinha. A interpretação ativa, "vá, lute", produziu o acting out seguinte. Ao
sair de uma partida de tênis, o parceiro dele zombou de seu jogo. Achando-se
ambos no vestiário, ele o agarrou pelo pescoço e o advertiu a nunca mais voltar
a fazer isso. A analista ficou contentíssima.6 Lacan não ficou tão contente
assim. Para isso, seria preciso que esse advogado defendesse sua causa de
acordo com as regras, de conformidade com as vias do Outro. Não se tratava
simplesmente de demonstrar que ele tinha razão, quebrando a cara do acusado
do campo adversário; havia que passar por uma argumentação. Lacan destacou
mais uma vez a utilidade de fazer a distinção entre o Imaginário e o Simbólico.
Foi exatamente essa distinção que faltou na interpretação de Ella Sharpe
a Margaret Little, já que agora podemos dar nome às protagonistas. Ella
Sharpe insistia na rivalidade, enquanto sua paciente estava de luto. Posterior­
mente, inteiramo-nos de que a análise foi interrompida pouco depois desse
episódio, já que a analista faleceu de um ataque cardíaco. Dois anos depois da ·
interpretação, Margaret Little estava numa reunião em que não conseguia
divertir-se. Deu-se conta de que nesse dia se completava uma semana do
aniversário de morte do pai, e o que lhe ocorreu então foi que sua perturbação
ao ter que fazer a comunicação perante a Sociedade de Psicanálise fora uma
coisa simples: a tristeza de que seu pai não estivesse presente para compartilhar
seu sucesso.? Dito de outra maneira, uma relação simbólica, para além da
relação imaginária.

* Lacan, J., Écrit.s, Paris, Seuil, 1966, p.60 1 . [Vale lembrar que a expressão coloquial
francesa n 'avoir rien àfrire tem o sentido do nosso "não haver nada a fazer". (N.T.)]
244 versiies da clínica psicanalítica

Pouco mais adiante, na mesma entrevista, Margaret Little nos dá a


conhecer o seguinte:8 instalou-se um estado depressivo tão importante que ela
pensou em se internar. Acabou telefonando para Winnicott. Margaret Little
assinalou que, nos últimos anos, o que a havia cativado em sua análise com Ella
Sharpe fora convencê-la de que tinha angústias psicóticas; ao que Ella Sharpe
respondia: "Você é histérica." Margaret dirigiu-se a Winnicott, que a aceitou
em análise e não viu nenhum inconveniente em interná-la. Ela ficou encantada,
pois tomou esse refúgio oferecido do hospital como o reconhecimento de suas
angústias psicóticas. A análise com Winnicott prosseguiu durante seis anos,
caracterizada pela angústia que se apoderou de Margaret Little ante a pos­
sibilidade de que seu analista morresse de infarto,9 como havia acontecido com
Ella Sharpe. A forma como estou tecendo este comentário leva a pensar que eu
mesmo sou mais da opinião de Ella Sharpe. Com efeito, não consigo perceber
o que há de psicótico nisso tudo. Mas, por outro lado, vejo claramente que
Winnicott tinha razão: era absolutamente necessário colocá-la no hospital por
algum tempo.
Haveria duas maneiras de entender tudo isso: uma seria dizer que a análise
de Margaret Little por Ella Sharpe foi uma variação da análise de Muriel
Gardiner por Ruth Mac Brunswick; conduziu a um conflito sobre o tema rrwther
knows best. Num dado momento, as duas mulheres entraram em oposição, a
mãe apareceu em oposição ao lugar da Outra mulher para um sujeito que se
achava na posição histérica. Depois, a analisanda encontrou sua salvação
velando um pai muito honrado, que corria perigo de vida. Essa analisanda
apareceu na posição de "salvar o pai", o que, para um sujeito que estava em sua
situação, oferecia um eixo bastante estabilizador na vida. Por essa perspectiva,
isso equivale a considerar que a análise se fez em nome do pai.
Pois bem, considero que essa é apenas uma versão parcial. Há que partir
do que Margaret Little considerava mais precioso nela, o mais difícil de
vulnerar, sua angústia psicótica. A maravilha que ela abrigava em seu interior
era essa, e era isso que ela queria fazer reconhecer: um ponto que não tinha
nome. Esse ponto foi o que o segundo analista reconheceu, internando-a, se
necessário, e considerando-a muito doente, considerando-a um objeto horrível
e maravilhoso. Só depois é que ela pôde alojar essa maravilha no lugar do
analista. Ao levarmos em conta a teoria dos discursos de Lacan e a lógica da
fantasia, o que vemos é que o sujeito situava sua angústia psicótica como um
objeto maravilhoso, agalmático. Do que se tratava, na saída da análise, era de
ter que se haver com um Outro, mas não simplesmente marcado pela barra,)(,
do falo que morria (-<p). Foi ao inscrever nesse lugar o que ela chamava de sua
angústia psicótica, a, que ela pôde continuar sua análise, restabelecer um laço
que se havia rompido e continuar, para ter o ponto de vista correto sobre seu
passe.
a política do passe 245

Em "O aturdito" ( 1 973), Lacan disse: "Então, enquanto durar seu luto do
objeto a a que por fim o reduziu, o psicanalista persiste em causar seu desejo:
( ). " 1 0 O luto do objeto a é um luto especial, porque, se o objeto a é

.•

irrepresentável, se o sujeito nunca pode ter esse objeto a no registro dos objetos
que possui, como pode perdê-lo? Como fazer o luto do que nunca nos perten­
ceu? Trata-se de fazer o luto do que sempre esteve fora do corpo. O ato analítico
alivia o sujeito do fardo de seu gozo. A contrapartida do saber obtido pelo sujeilo
sobre sua fantasia é abandonar o gozo contido nas cartas-letras em suspenso
(lettres en souffrance). Foi para esse luto que Margaret Little apontou, para
manter o analista como aquele que persistia em causar seu desejo, "mais
maníaco-depressivamente", prossegue Lacan .
O que demonstra o caso Little, a meu juízo, é que o passe pode ajudar a
discernir entre término e final de uma análise. 1 1

NOTAS
1 . Rona1d Bayer e Robert L. Spitzer, "Neurosis, Psychodynamics and DSM III", Archives
of General Psychiatry, vol. 42, fevereiro de 1985.
2. S. Abrams e L. Shengold, lntematinnal Journal of Psychoanalysis, voL 59, nº 1 e 2/3.
3. Lacan, J., Le séminaire, livre I, Les écrits techniques de Freud, Paris, Seuil, 1 975, p.41
[Os escritos técnicos de Freud, op. cit.].
4. M. Little, Transference neurosis and transference psychosis, Nova York, Jason Aron­
son, 1 98 1 .
5. Sharpe, E., Dream Analysis,Londres , Hogarth Press, 1978, p. l 25ss.
6. Sharpe, E., op.cit., p. l48.
7. Little, M., op. cit., p.33.
8. Idem, p. 273.
9. Ibid., p.288.
1 0. Lacan, J., El Atolondradicho", Escansión, n2 l , Buenos Aires, Paidós, 1 984, p.59-60.
"

1 1 . O fato de M. Little, depois de sua entrevista com Langs, haver publicado um relato
mais pormenorizado de sua análise não modifica fundamentalmente esta análise do caso.
Antes, reforça-a. A tradução francesa desse relato pode ser lida na Nouvelle Revue de Psy­
chanalyse, n2 33.
Este livro foi composto pela Textos
& Formas, em Times New Roman,
e impresso por Tavares e Tristão
Ltda., em novembro de 1 99 5 .
(.__c_a_m_p_o__Fr_eu_d_i_a_n_o_n_o__Br_a_si_I )
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