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Educação em Direitos

Humanos
1. Introdução 5
Os Direitos Fundamentais 7
Teoria dos Direitos Fundamentais 7
As Declarações Universais dos Direitos e os Tratados
Internacionais 10
As Dimensões/Gerações dos Direitos Fundamentais 16
Direitos à Prestação Jurídica 21
Direitos a Prestações Materiais 21
Direitos Fundamentais de Participação 23
Dimensões dos Direitos Fundamentais 23

2. Direitos e Garantias Individuais e Coletivos


e o Regime Jurídico dos Militares 27
Direitos e Garantias Individuais e Coletivos
dos Militares 27
O Regime Jurídico dos Militares 29
Os Militares na Sociedade - Tratamento Diferenciado 32
Os Direitos Políticos - Breve Comparação 32
Direito à Nacionalidade 35
Efetivação dos Direitos Sociais 36
Objeção de Consciência 40
O Estado Democrático de Direito e a Segurança
Pública 42
O Estado como Responsável Pela Política
de Segurança Pública 45

3. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos


(PNEDH) 50
Contextualização Histórico-Política e Justificativas
ao Plano 50
As Dimensões da Educação em Direitos Humanos 54
Princípios Norteadores da Educação em Direitos
Humanos 56
Na Educação Básica 57
Na Educação Superior 59

02
Na Educação Não-Formal 62
Metodologias de Educação Em Direitos Humanos 63
Eixos Temáticos para Construção da Cidadania 66
Os Direitos das Minorias Étnicas e Raciais 72
Políticas de Reconhecimento/Ações Afirmativas 76
Políticas de Reconhecimento 76
Educação Étnico-Racial Reconhecida como Política
Pública 78
Ações Afirmativas e a SEPPIR 79

4. Referências Bibliográficas 85

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

1. Introdução

Fonte: Tutores1

E m 1997, Arendt já ponderava


que globalização, políticas neo-
liberais, segurança global, eram rea-
adequarem a uma sociedade cada
vez mais marcada pela competitivi-
dade e pela lógica do mercado, os
lidades que estavam acentuando a “perdedores”, os “descartáveis”, que
exclusão, em suas diferentes formas vêm, a cada dia, negado o seu “direi-
e manifestações. Evidentemente não to a ter direitos”.
afetam, igualmente, a todos os gru- Entretanto, bem antes, em
pos sociais e culturais, nem a todos 1948, a Declaração Universal dos Di-
os países e, dentro de cada país, às reitos Humanos da Organização das
diferentes regiões e pessoas. São os Nações Unidas (ONU) já havia de-
considerados “diferentes”, aqueles sencadeado um processo de mu-
que, por suas características sociais dança no comportamento social e a
e/ou étnicas, por serem pessoas com produção de instrumentos e meca-
“necessidades especiais”, por não se nismos internacionais de direitos

1 Retirado em http://tutores.com.br/blog/?p=2697

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

humanos que foram incorporados ças e pode levar a uma verda-


ao ordenamento jurídico dos países deira segregação. No brasil,
signatários. Esse processo resultou aqueles que não têm acesso ao
ensino, à informação e às di-
na base dos atuais sistemas global e
versas expressões da cultura
regionais de produção dos direitos “lato sensu”, são, justamente,
humanos (PNEDH, 2007). os mais marginalizados e “ex-
Concordamos com Candau cluídos”;
(2007) ao inferir que a Educação em  A dimensão ética, vinculada a
Direitos Humanos ainda é um desa- uma didática dos valores repu-
fio fundamental, principalmente no blicanos e democráticos, que
sentido de avançar em sintonia com não se aprendem intelectual-
mente apenas, mas especial-
sua paixão fundante: seu compro- mente através da consciência
misso histórico com uma mudança ética, formada tanto por senti-
estrutural que viabilize uma socie- mentos quanto pela razão; fru-
dade inclusiva e a centralidade dos to da conquista de corações e
setores populares nesta busca. Estas mentes;
opções constituíram - e acreditamos  A dimensão política, desde a
que continuam sendo - a fonte de escola de educação infantil e
ensino fundamental, no sen-
sua energia ética e política.
tido de enraizar hábitos de to-
Este módulo que busca refle- lerância diante do diferente ou
tir, discutir, analisar, conhecer os divergente, assim como o
objetivos da Educação em Direitos aprendizado da cooperação
Humanos tem suas bases teóricas no ativa e da subordinação do in-
Plano Nacional de Educação em Di- teresse pessoal ou de grupo ao
interesse geral, ao bem co-
reitos Humanos (PNEDH) e em três
mum.
dimensões que são indispensáveis
para o desenvolvimento dessa edu- Pois bem, nosso caminho pas-
cação e para a cidadania democráti- sa necessariamente por uma intro-
ca, a saber: dução aos direitos fundamentais, a
 A dimensão intelectual e a in- evolução das declarações e dos trata-
formação, pois o início da for-
dos internacionais, as dimensões/
mação do cidadão começa por
informá-lo e introduzi-lo nas gerações desses direitos.
diferentes áreas do conheci- Num segundo momento, vere-
mento. A falta ou insuficiência mos justamente o PNEDH, seus ob-
de informações reforça as de- jetivos, os princípios norteadores e
sigualdades, fomenta injusti- discorreremos sobre metodologias
de Educação em Direitos Humanos.

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

Não poderíamos deixar de fora compilação das ideias de vá-


os eixos que sustentam a cidadania, rios autores, incluindo aqueles
quais sejam, a ética, a convivência que consideramos clássicos,
não se tratando, portanto, de
democrática e a própria cidadania;
uma redação original.
nem mesmo discorrer sobre os direi-
tos das minorias étnicas e raciais, Ao final do módulo, além da
bem como ressaltar a importância lista de referências básicas, encon-
das políticas de reconhecimento e tram-se muitas outras que foram ora
ações afirmativas. utilizadas, ora somente consultadas
Não só para aqueles que enve- e que podem servir para sanar lacu-
redam pela seara da educação, mas nas que por ventura surgirem ao
principalmente eles, é preciso sem- longo dos estudos.
pre buscar caminhos que afirmem
uma cultura de direitos humanos,
Os Direitos Fundamentais
que penetre todas as práticas sociais
e seja capaz de favorecer processos
Teoria dos Direitos Fundamen-
de democratização, de articular a
tais
afirmação dos direitos fundamen-
tais de cada pessoa e grupo sociocul- Definir conceitos e esclarecer
tural, de modo especial os direitos confusões que se fazem entre os di-
sociais e econômicos, com o reco- reitos fundamentais e os direitos hu-
nhecimento dos direitos à diferença. manos é o primeiro passo para a
Antes de iniciarmos nossas re- construção do nosso pensamento
flexões vamos a duas observações que pretende chegar à Educação em
que se fazem necessárias: Direitos Humanos e aos direitos das
 Em primeiro lugar, sabemos minorias étnico-raciais.
que a escrita acadêmica tem Grosso modo, os direitos do
como premissa ser científica,
homem são os direitos naturais, in-
ou seja, baseada em normas e
padrões da academia. Pedimos trínsecos ao homem e reconhecidos
licença para fugir um pouco às em documentos internacionais, já os
regras com o objetivo de nos direitos fundamentais tem a marca
aproximarmos de vocês e para da positivação, isto é, é um direito
que os temas abordados che- reconhecido pelo sistema.
guem de maneira clara e obje-
Bulos (s.d. apud ABREU,
tiva, mas não menos científi-
cas. 2010) afirma que os direitos huma-
 Em segundo lugar, deixamos nos além de fundamentais são ina-
claro que este módulo é uma tos, absolutos, invioláveis, intransfe-

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

ríveis, irrenunciáveis e imprescrití- Lorenzetti (1998, p. 151) afir-


veis, porque participam de um con- ma que a expressão “direitos funda-
texto histórico, perfeitamente deli- mentais” é a mais apropriada por-
mitado. Não surgiram à margem da que não exclui outros sujeitos que
história, porém, em decorrência de- não sejam o homem e também por-
la, ou melhor, em decorrência dos que se refere àqueles direitos que
reclamos da igualdade, fraternidade são fundantes do ordenamento jurí-
e liberdade entre os homens. Ho- dico e evita uma generalização pre-
mens não no sentido de sexo mascu- judicial.
lino, mas no sentido de pessoas hu- Sarlet (2007, p. 36) apresenta
manas. Os direitos fundamentais do um traço de distinção, ainda que de
homem, nascem, morrem e extin- cunho predominantemente didáti-
guem-se. Não são obra da natureza, co, entre as expressões “direitos do
mas das necessidades humanas, am- homem”, “direitos humanos” e “di-
pliando-se ou limitando-se a depen- reitos fundamentais”, sendo a pri-
der do influxo do fato social cambi- meira de cunho jusnaturalista, ainda
ante. não positivados; a segunda relacio-
A expressão “direitos funda- nado à positivação no direito inter-
mentais” é empregada principal- nacional; e, a terceira, como direitos
mente pelos autores alemães, na es- reconhecidos ou outorgados e prote-
teira da Constituição de Bonn, que gidos pelo direito constitucional in-
dedicava o capítulo inicial aos Grun- terno de cada Estado.
drechte, ou seja, exatamente direitos Segundo o doutrinador Pérez-
fundamentais (TORRES, 2006). Luño (1998 apud BELLINHO,
Até a Emenda Constitucional 2010), os direitos fundamentais e os
nº 1/1969, o Brasil adotada a expres- direitos humanos não se diferem
são “direitos individuais”, conforme apenas pelas suas abrangências geo-
se infere do seu artigo 153 (Capítulo gráficas, mas também pelo grau de
IV - Dos Direitos e Garantias Indivi- concretização positiva que possuem,
duais), como sinônimo da moderna ou seja, pelo grau de concretização
denominação de “direitos funda- normativa.
mentais”. Naquela época vingava a Os direitos fundamentais es-
influência dos albores do liberalis- tão duplamente positivados, pois
mo, e a sua visão eminentemente in- atuam no âmbito interno e no âm-
dividualista, que não distinguia as li- bito externo, possuindo maior grau
berdades coletivas e não conhecia a de concretização positiva, enquanto
definição de pessoa.

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

que os direitos humanos estão posi- titucional, ou seja, de sua consagra-


tivados apenas no âmbito externo, ção no direito positivo estatal como
caracterizando um menor grau de direitos fundamentais (COMPARA-
concretização positiva. TO, 2003, p. 136).
Minardi (2008) afirma que o No Brasil, os direitos funda-
direito fundamental decorre de um mentais estão preconizados no Títu-
processo legislativo interno de um lo II da CRFB/88, sendo que o cons-
determinado país, que eleva à posi- tituinte considerou ilegítima qual-
tivação, sendo então um direito ou- quer proposta tendente a aboli-los,
torgado e/ou reconhecido. Já os di- artigo 60, § 4º, IV da Constituição
reitos humanos possuem caráter su- (as chamadas cláusulas pétreas)
pralegal, desvinculados a qualquer (MINARDI, 2008).
legislação escrita ou tratado interna- Os direitos fundamentais se
cional, pois preexiste a eles. aplicam tanto às pessoas físicas
Guerra (2007, p. 265) explica quanto as pessoas jurídicas. Na pri-
que a partir da Declaração dos Direi- meira situação são titulares:
tos Humanos, adotada em 10 de de-  Brasileiros natos;
zembro de 1948, confirmou-se a  Brasileiros naturalizados;
ideia de que os direitos humanos ex-  Estrangeiros residentes no
trapolam o domínio reservado dos brasil;
Estados, invalidando o recurso abu-  Estrangeiros em trânsito pelo
sivo ao conceito de soberania para território nacional;
 Qualquer pessoa que seja al-
encobrir violações, ou seja, os direi-
cançada pela lei brasileira (pe-
tos humanos não são mais matéria lo ordenamento jurídico brasi-
exclusiva das jurisdições nacionais. leiro).
Assim sendo, a positivação dos
direitos humanos, dando origem aos É preciso, porém, fazer uma
direitos fundamentais, é a nítida ressalva: existem determinados di-
amostra da consciência de um deter- reitos fundamentais cuja titularida-
minado povo de que certos direitos de é restringida pelo próprio Poder
do homem são de tal relevância que Constituinte. Por exemplo:
o seu desrespeito inviabilizaria a sua  Existem direitos que se direci-
própria existência do Estado. Aliás, onam apenas a quem esteja
ninguém mais nega, hoje, que a vi- pelo menos em trânsito pelo
gência de direitos humanos inde- território nacional (garantias
contra a prisão arbitrária);
pende do seu reconhecimento cons-

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

 Outros direcionam-se apenas Por outro lado, é pacífico que


aos brasileiros, sejam natos ou pessoas jurídicas não possuem direi-
naturalizados (direito à nacio- to à liberdade de locomoção. Justa-
nalidade, direitos políticos); e, mente por isso é que em favor delas
 Outros são destinados apenas
não se pode impetrar habeas corpus
aos brasileiros natos (direito à
não extradição, direito de ocu- (pois esse é um remédio constitucio-
par determinados cargos pú- nal que protege apenas a liberdade
blicos). de locomoção: art. 5º, LXVIII) (CA-
VALCANTE FILHO, 2010).
Pode-se dizer que existe, en- A jurisprudência considera
tão, uma verdadeira gradação na or- que as pessoas jurídicas (empresas,
dem enumerada anteriormente: os associações, partidos políticos, entre
brasileiros natos possuem mais di- outros) podem pleitear indenização
reitos que os brasileiros naturaliza- por danos morais: “A pessoa jurídica
dos que possuem mais direitos que pode sofrer dano moral” (STJ, Sú-
os estrangeiros residentes, entre ou- mula nº 227).
tros. (CAVALCANTE FILHO, 2010). Concordamos que as nuances
Os direitos fundamentais tam- jurídicas fogem um pouco ao propó-
bém se aplicam às pessoas jurídicas sito do curso, mas conhecimento
(inclusive as de Direito Público), sempre é bem-vindo, por isso justi-
desde que sejam compatíveis com a ficamos essa alocação de questões
natureza delas. Por exemplo, pes- pertinentes ao ramo do Direito.
soas jurídicas têm direito ao devido
processo legal, mas não à liberdade As Declarações Universais dos
de locomoção, ou à integridade fí- Direitos e os Tratados Interna-
sica. cionais
A doutrina reluta em atribuir
às pessoas jurídicas (empresas, as- Segundo Campos (2008), os
sociações, entre outras) direito à vi- direitos humanos nasceram da ne-
da; com razão, prefere-se falar em cessidade dos cidadãos em serem ti-
“direito à existência”. Todavia, em tulares de certos direitos em relação
concursos públicos, o CESPE / UnB a seu Estado soberano e, posterior-
(ver STJ / Técnico Judiciário / Área mente, em relação à sociedade inter-
Administrativa / 2004) já deu como nacional. Desenvolveram-se sempre
correta questão que afirmava terem com as necessidades impostas pelos
as pessoas jurídicas direito à vida. indivíduos em determinadas épocas

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

com o intuito de resguarda a digni- relação aos governantes. Esse código


dade humana, concebida como fun- contém dispositivos que continuam
damento dos direitos humanos. aceitos até hoje, tais como a Teoria
Existe uma gama de autores da Imprevisão, que fundava-se no
(como Fábio Konder Comparato, princípio de talião: olho por olho,
João Baptista Herkenhoff, dentre dente por dente. Depois deste pri-
outros defensores de que o fato de meiro código, instituições sociais
não existirem freios ao Poder, não (religião e a democracia) contribuí-
quer dizer que não existiram as ram para humanizar os sistemas le-
ideias) que sustentam que os direi- gais (SILVA, 2006).
tos fundamentais perfazem um Loewenstein (s. d apud CA-
longo caminho histórico, tendo posi- VALCANTE FILHO, 2010) consi-
ções que acreditam ser de meados de dera que a primeira Constituição te-
2000 a.C., as primeiras manifesta- ria surgido ainda na sociedade he-
ções, no direito da Babilônia, outras braica, com a instituição da “Lei de
posições os reconhecem na Grécia Deus” (Torah). O autor alemão
Antiga e na Roma Republicana. Es- aponta que, já naquele Estado Teo-
tas opiniões carecem de fundamen- crático, a “Lei de Deus” limitava o
tos históricos. poder dos governantes (chamados,
Sarlet (2007, p. 33) entende naquela época, de “Juízes”).
como pacífico que os direitos funda- Igual posição é entendida por
mentais não surgiram na antiguida- Tavares (2010, p. 5) ao inferir que
de, porém é notória a influência do “na antiguidade, os hebreus já pos-
mundo antigo nos direitos funda- suíam um Estado teocrático limita-
mentais por meio da religião e da fi- do pela Torah. Os Juízes (como
losofia, que colaboraram na concep- eram chamados os governantes) ti-
ção jusnaturalista de que o ser hu- nham que seguir as disposições da
mano, pelo simples fato de existir, já Torah (Lei de Deus). É nesse sentido
é detentor de direitos fundamentais; que o autor alemão vê, nesse caso,
esta fase costuma ser denominada um prelúdio do Constitucionalis-
pela doutrina como “préhistória” mo”.
dos direitos fundamentais. Na Grécia, já se fazia a distin-
O Código de Hamurabi, pri- ção entre as normas fundamentais
meiro que se têm notícias, defendia da sociedade (nomoi) e as meras re-
a vida e o direito de propriedade, e gras (psefismata). Naquela civiliza-
contemplava a honra, a dignidade, a ção, a modificação de psefismata po-
família e a supremacia das leis em deria ser feita de forma mais simples

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

do que a alteração das normas fun- formada por barões feudais. Dessa
damentais (nomos). Guardadas as forma, a primeira Constituição pro-
devidas proporções, seriam institu- priamente dita seria o Bill of Rights
tos parecidos com a lei ordinária e as (Inglaterra, 1688/1689), que previa
emendas constitucionais, atual- direitos para todos os cidadãos, e
mente. não apenas uma classe deles.
Também podemos citar, na Assim, em pleno século XVIII,
Antiguidade, a Lei das XII Tábuas, que se pode encontrar a primeira
aprovada em Roma, assegurando di- aparição de reais direitos funda-
reitos conquistados pelos plebeus, mentais, apesar do dissídio levan-
fixados em leis escritas. tado Sarlet (2007) diante da “pater-
Pérez Luño (1995 apud SAR- nidade” dos direitos fundamentais,
LET, 2007) chama de antecedentes que seria disputada entre a Declara-
dos direitos fundamentais, os docu- ção de Direitos do povo da Virgínea,
mentos que, de alguma forma, cola- de 1776, a Constituição Americana
boraram para a elaboração das pri- de 1787 (primeira constituição escri-
meiras ideias dos direitos humanos ta) e a Declaração Francesa, de 1789,
presentes nas declarações do século estas declarações seriam os primei-
XVIII, talvez o principal documento ros documentos a representar os di-
a ser referenciado seja a Magna reitos fundamentais.
Charta Libertatum, assinada na In- Já para Bonavides (2007), é
glaterra, em 1215, pelo Rei João neste sentido que a Revolução Fran-
Sem-Terra. Cabe ressaltar que esse cesa, fixando direitos civis e políti-
pacto não passou de mero referen- cos para que gradativamente fossem
cial para as futuras elaborações dos alcançados os princípios universais
direitos humanos, pois, neste pacto, do lema “liberdade, igualdade e fra-
apenas os nobres receberam prerro- ternidade”, fora a grande precursora
gativas, deixando a população em dos direitos fundamentais caracteri-
segundo plano, ou seja, na verdade, zados através da posição de resistên-
foi um documento imposto ao Rei cia ou de oposição frente ao Estado.
pelos barões feudais ingleses. Para Nicolao (2010), não tem
Já Carl Schmitt (1928 apud sustentação defender a existência de
CAVALCANTE FILHO, 2010) de- direitos fundamentais antes mesmo
fende que a Magna Charta não pode da existência de um estado social.
ser considerada a primeira Consti- Percebe-se que apenas com a pro-
tuição, pois não era direcionada mulgação das declarações, pode-se
para todos, mas apenas para a elite

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

identificar a presença do que seria o expressões sinônimas. Acordo, con-


início dos direitos fundamentais. vênio, ajuste, arranjo são atos inter-
Cavalcante Filho (2010) tam- nacionais de maior ou menor alcan-
bém entende que há várias correntes ce, tanto de caráter bilateral, como
que divergem, sobre quando teria se de caráter multilateral.
manifestado pela primeira vez a li- Os tratados internacionais, na
mitação do poder do Estado por definição de Bastos (1994, p. 216)
meio de uma Constituição ou de algo [...] são acordos formais, eis que, à
a ela assemelhado. moda do que acontece com os con-
Atualmente, o movimento tratos no direito interno, demandam
constitucionalista passou a lutar por eles uma concordância de vontades,
vários outros objetivos (democracia o que os distingue do ato jurídico
efetiva, desenvolvimento econômico unilateral.
e ambiental, entre outros). Mas, O tratado internacional é um
mesmo assim, não perdeu de vista a instrumento formal, não é admitida
defesa dos direitos fundamentais, a oralidade, assim consta da Con-
que continua sendo uma de suas ma- venção de Havana sobre Tratados,
térias básicas. de 1928, em seu artigo 2º, que “É
Para refletirmos a respeito da condição essencial nos tratados a
incorporação dos tratados internaci- forma escrita”.
onais de proteção dos direitos hu- A Convenção de Viena sobre
manos no ordenamento brasileiro, à Direitos dos Tratados, concluída em
luz da Constituição Federal de 1988 maio de 1969, considerada a “Lei
e após a Emenda Constitucional nº dos Tratados”, pois se constitui em
45/04, vamos entender o significado importante instrumento no cami-
de um tratado. nho da codificação do direito inter-
Rezek (1996, p. 14) define tra- nacional público, mas que só entrou
tado como “[...] todo acordo formal em vigor em 27 de janeiro de 1980,
concluído entre sujeitos de direito também mantêm a exigência da for-
internacional público, e destinado a ma escrita para os tratados - ao dizer
produzir efeitos jurídicos”. em seu artigo 2º, 1, que:
Siqueira Júnior (2003, p. 9)
diz que há uma variedade de deno- [...] Tratado designa um acordo
internacional concluído por es-
minações para os tratados: conven-
crito entre Estados e regido pe-
ção, ato, protocolo, convênio, ajuste lo direito internacional, quer
e acordo. Tratados e Convenções são esteja consignado num instru-
mento único, quer em dois ou

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

mais instrumentos conexos, e Nesse sentido concorda Araú-


qualquer que seja a sua deno-
jo (2009) ao dizer que existem Direi-
minação particular (LEITE,
2005). tos Fundamentais previstos na
Constituição Federal, direitos mate-
Pois bem, vamos então ao al- rialmente fundamentais que estão
cance do § 2º do art. 5º da nossa fora daquele elenco. A fundamenta-
Constituição Federal de 1988, ou lidade decorre da sua referência a
seja, vamos discorrer sobre as várias posições jurídicas ligadas ao valor da
classificações dos direitos funda- dignidade humana e, em vista da sua
mentais inseridos neste artigo. importância, não podem ser deixa-
Siqueira Júnior (2003) classi- das à disposição discricionária do le-
fica os direitos fundamentais em gislador ordinário.
dois grupos distintos: É possível, a partir do próprio
Direitos imediatos: são os direi- catálogo dos direitos fundamentais e
tos e garantias expressos de forma de seus princípios elementares cons-
direta na Constituição (art. 5º, I a tantes do texto constitucional, dedu-
LXXVII); são explícitos na medida zir a existência de outros, a exemplo
em que estão claramente enumera- do que ocorreu com a redação do §
dos no texto constitucional. 36 do art. 153 da Carta de 1969.
Direitos mediatos: são os direitos Todavia, para Mello (1999), o
e garantias decorrentes do regime e § 2º do art. 5º da Constituição Fede-
dos princípios constitucionais, direi- ral não apenas empresta hierarquia
tos implícitos, e os expressos em tra- constitucional aos tratados de prote-
tados internacionais em que a Repú- ção dos direitos humanos, mas, além
blica Federativa do Brasil seja parte. disso, faz com que a norma interna-
Isto é, são implícitos na medida em cional prevaleça sobre a norma
que não estão enumerados no texto constitucional, mesmo naquele caso
constitucional; como o próprio no- em que uma Constituição posterior
me designa surgem de forma medi- tente revogar uma norma internaci-
ata, pois decorrem do regime e dos onal constitucionalizada, cuja gran-
princípios da República Federativa de vantagem é a de evitar que o Su-
do Brasil, bem como dos direitos ex- premo Tribunal Federal venha a jul-
pressos nos tratados internacionais gar a constitucionalidade dos trata-
em que a República Federativa do dos internacionais. Essa é, segundo
Brasil seja parte. Leite (2005), uma visão extrema-

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

mente radical. Os partidários dessa as instituições e os institutos propi-


teoria defendem a supremacia do ciem condições para o seu atendi-
tratado internacional frente à Cons- mento. O judiciário, sendo chamado
tituição, é a teoria da internacionali- para resolver pretensão concreta ne-
zação do direito constitucional. Essa las garantida, não pode deixar sim-
não é a corrente majoritária. plesmente de aplicá-las ou de levá-
Ferreira Filho (1993), referin- las em linha de consideração em sua
do-se ao § 2º, do artigo 5º, da Cons- fundamentação e argumentação,
tituição, afirma que esse dispositivo mas segundo o direito posto exis-
significa simplesmente que a Cons- tente (ARAÚJO, 2009).
tituição brasileira, ao enumerar os Outra cláusula de suma im-
direitos fundamentais, não pretende portância no art. 5º da CF é aquela
ser exaustiva. Por isso, além desses visível no preceito do § 2º segundo a
direitos explicitamente reconheci- qual os direitos e garantias expres-
dos, admite existirem outros, decor- sos na Constituição não excluem ou-
rentes dos regimes e dos princípios tros decorrentes do regime e dos
que ela adota, os quais implicita- princípios por ela adorados, ou dos
mente reconhece. tratados internacionais em que a Re-
A técnica da cláusula aberta pública Federativa do Brasil seja
em relação aos Direitos Fundamen- parte.
tais deriva da IX Emenda da Carta Tal preceito revela a conhecida
Norte-americana, que diz que a enu- “norma de encerramento”, que insti-
meração de alguns direitos na Cons- tui as liberdades residuais, inomina-
tituição Federal não pode ser inter- das, implícitas ou decorrentes, as
pretada no sentido de excluir ou en- quais, a despeito de não enunciadas
fraquecer outros direitos que o povo ou específicas na Carta, resultam do
tenha. Parte da doutrina inclusive regime e dos princípios que ela ado-
argumenta que o § 2º do art. 5º da ta. O rol é apenas exemplificativo,
Carta de 1988 confere status consti- não se admitindo no plano dos direi-
tucional aos tratados sobre direitos tos fundamentais qualquer exegese
humanos. que suprima, restrinja ou neutralize
Em relação ao § 1º do art. 5º, outros direitos e garantias que, em-
que estabelece que as normas defini- bora não especificados, são titulari-
doras dos direitos e garantias funda- zados pelo ser humano. O objetivo
mentais são autoaplicáveis, diz-se, da cláusula constitucional é inibir
obviamente, que elas são aplicáveis ações, atentados ou abusos do Esta-
até onde possam, até o limite em que

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

do contra as liberdades públicas unívoca e propicie algumas classifi-


(ARAÚJO, 2009). cações úteis para a compreensão do
Por fim, a EC nº 45, acrescen- conteúdo e da eficácia de cada um
tou o § 3º ao art. 5º, da CF/88. Esse deles.
dispositivo estabelece a possibilida- Uma sistematização clássica é
de de os tratados e convenções inter- a dos quatro status (Jellinek), bem
nacionais sobre direitos humanos, como a que classifica os Direitos
terem status de emenda constitucio- Fundamentais em direitos de defesa
nal, desde que obedecidos dois re- e direitos à prestação. Sob outro ân-
quisitos: o conteúdo do tratado ou gulo, no estudo das funções dos Di-
convenção ser sobre direitos huma- reitos Fundamentais devem ser ana-
nos e a sua deliberação parlamentar lisadas suas dimensões subjetiva e
obedeça aos limites formais estabe- objetiva.
lecidos para a edição das emendas Souza (2006) e Araújo (2009)
constitucionais, quais sejam, delibe- são alguns dos estudiosos que traba-
ração em cada casa do Congresso lharam sobre a teoria de Jellinek, a
Nacional, em dois turnos de votação, qual pressupõe que o indivíduo pode
só sendo aprovado se obtiver três encontrar-se de quatro modos, di-
quintos dos votos dos respectivos ante do Estado, disso derivando di-
membros parlamentares. reitos e deveres diferenciados.
Essa Emenda veio por fim à O status subjectionis ou status
discussão doutrinária interminável passivo revela a posição de subordi-
sobre a hierarquia dos tratados de nação, onde o indivíduo se obriga
direitos humanos no ordenamento em face do Estado, tendo este com-
pátrio, pois agora, efetivamente, po- petência para vincular comporta-
derá os tratados sobre direitos hu- mentos por meio de mandamentos e
manos virem a ter status constituci- proibições (ARAÚJO, 2009).
onal, mas somente se preenchidos O status passivo é a posição de
os requisitos do § 3º, do art. 5º subordinação aos poderes públicos,
(LEITE, 2005). caracterizando-se como detentor de
deveres para com o Estado, tendo
As Dimensões/Gerações dos competência para vincular o indiví-
Direitos Fundamentais duo, através de mandamentos e pro-
ibições (SOUZA, 2006).
A multiplicidade de funções Ocorre o status negativo quan-
dos Direitos Fundamentais leva a do o ter personalidade exige o des-
que a sua própria estrutura não seja frute de um espaço de liberdade com

16
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

relação às ingerências do Poder Pú- que se adote um dado comporta-


blico. O homem deve gozar de algum mento ou no poder de produzir efei-
âmbito de ação desvencilhado do tos sobre certas relações jurídicas.
império do Estado, posto que a auto- Nessa perspectiva, os Direitos
ridade é exercida sobre homens li- Fundamentais correspondem à exi-
vres (ARAÚJO, 2009). gência de uma ação negativa (ex.: li-
[...] faz-se necessário que o Es- berdade do indivíduo) ou positiva de
tado não se intrometa na autodeter- outrem. Do mesmo modo, corres-
minação do indivíduo (SOUZA, pondem à competência, isto é, ao
2006). Verifica-se o status civitatis poder de modificar determinadas
no direito de exigir do Estado uma posições jurídicas.
atuação positiva, preordenada à rea- A dimensão objetiva resulta do
lização de uma prestação. Aqui, o in- significado dos Direitos Fundamen-
divíduo se vê com a capacidade de tais como princípios básicos da or-
pretender que o Estado atue em seu dem constitucional. Os Direitos
favor (ARAÚJO, 2009; SOUZA, Fundamentais participam da essên-
2006). cia do Estado democrático de direi-
Por fim, no status ativo, o indi- to, operando como limite do poder,
víduo desfruta de competência para bem como diretriz para sua ação. As
influir sobre a formação da vontade Constituições de feição democrática
do Estado (ex.: voto), como nos di- assumem um sistema de valores que
reitos políticos. os Direitos Fundamentais revelam e
Tomando como base a teoria positivam. Tal fenômeno faz com
dos quatro status, depuram-se os que eles influam sobre todo ordena-
três grupos de Direitos Fundamen- mento jurídico (ARAÚJO, 2009).
tais mais destacados, quais sejam, os Tal dimensão faz com que os
direitos de defesa (direitos de liber- direitos fundamentais transcendam
dade), os direitos a prestações (di- à perspectiva da garantia de posi-
reitos cívicos) e os direitos de parti- ções individuais para atingir a esta-
cipação (observe que o status sub- tura de normas que traduzem os va-
jectionis identifica deveres do indi- lores básicos da sociedade política,
víduo). fazendo sua expansão para todo o
Quando a dimensão subjetiva direito positivo.
dos Direitos Fundamentais está Constituindo, dessa forma, a
mais ligada a suas origens históricas base do ordenamento jurídico do Es-
e às suas finalidades mais elementa- tado democrático, é possível afirmar
res e corresponde a uma pretensão a que a dimensão objetiva dos Direitos

17
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

Fundamentais transporta-os para adotada para proteger os bens jurí-


além da perspectiva individualista, dicos abrigados pelas normas defini-
como um valor em si, a ser preser- doras dos direitos fundamentais.
vado e fomentado. A dimensão objetiva cria um
A perspectiva objetiva legitima direito à prestação associado ao di-
inclusive restrições aos Direitos reito de defesa e esse direito à pres-
Subjetivos individuais, limitando o tação há de se sujeitar à liberdade de
conteúdo e o alcance dos Direitos conformação dos órgãos políticos e
Fundamentais em benefício de seus aos limites da reserva do possível
próprios titulares ou de outros bens (ARAÚJO, 2009).
constitucionalmente valiosos. Parte da doutrina alude à ne-
Mais uma consequência da di- cessidade de o Estado agir em defesa
mensão objetiva dos direitos funda- dos Direitos Fundamentais com um
mentais está em atrair um dever de mínimo de eficácia, não se podendo
proteção pelo Estado contra agres- exigir afastamento absoluto da ame-
sões dos próprios poderes públicos, aça que se procura prevenir.
de particulares ou de outros Estados Se é possível visualizar um de-
(dever de proteção), cobrando ado- ver de agir do Estado, não é razoável
ção de providências materiais ou ju- impor-lhe o como agir. Uma preten-
rídicas, de resguardo dos bens pro- são individual somente poderá ser
tegidos, corroborando a assertiva se- acolhida nos casos em que o espaço
gundo a qual a dimensão objetiva in- de discricionariedade estiver redu-
terfere na dimensão subjetiva, atri- zido a zero.
buindo-lhe reforço de efetividade. Assim, o aspecto objetivo dos
O propósito de reforço de po- Direitos Fundamentais comunica-
sições jurídicas fundamentais pode lhes uma eficácia irradiante, o que os
exigir a elaboração de regulamenta- converte em uma diretriz para a in-
ções restritivas de liberdades. Res- terpretação e aplicação das normas
peita-se a liberdade de conformação dos diversos ramos do Direito. A di-
do legislador, a quem se reconhece mensão objetiva enseja, ainda, a dis-
certo grau de discricionariedade na cussão sobre a eficácia horizontal
opção normativa tida como mais dos Direitos Fundamentais, eficácia
oportuna para a proteção dos direi- destes direitos na esfera privada, no
tos fundamentais. âmbito das relações entre particula-
Caberá, então, aos órgãos polí- res (ARAÚJO, 2009).
ticos, indicar qual a medida a ser

18
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

Guarde... do-se ao longo da história de acordo


com as necessidades e interesses do
Os Direitos Fundamentais vi- homem.
sam assegurar a todos uma existên- Segundo Cavalcante Filho
cia digna, livre e igual, criando con- (2010), existe uma classificação que
dições à plena realização das poten- leva em conta a cronologia em que
cialidades do ser humano (BIANCO, os direitos foram paulatinamente
2006). conquistados pela humanidade e a
Os Direitos Fundamentais são natureza de que se revestem. Impor-
um conjunto institucionalizado de tante ressaltar que uma geração não
direitos e garantias do ser humano substitui a outra, antes se acrescenta
que tem por finalidade básica o res- a ela, por isso a doutrina prefere a
peito a sua dignidade, por meio de denominação “dimensões”.
sua proteção contra o arbítrio do po-  Os direitos da primeira gera-
der estatal e o estabelecimento de ção ou primeira dimensão fo-
condições mínimas de vida e desen- ram inspirados nas doutrinas
volvimento da personalidade hu- iluministas e jusnaturalistas
dos séculos XVII e XVIII (indi-
mana (MORAES, 2002).
viduais ou negativos): seriam
Por serem indispensáveis à os Direitos da Liberdade, li-
existência das pessoas, possuem as berdades estas religiosas, polí-
seguintes características: são in- ticas, civis clássicas como o di-
transferíveis e inegociáveis, portan- reito à vida, à segurança, à
to inalienáveis; não deixam de ser propriedade, à igualdade for-
exigíveis em razão do não uso, por- mal (perante a lei), as liberda-
des de expressão coletiva, en-
tanto, são imprescritíveis; nenhum tre outros. São os primeiros di-
ser humano pode abrir mão da exis- reitos a constarem do instru-
tência desses direitos, ou seja, são ir- mento normativo constitucio-
renunciáveis; devem ser respeitados nal, a saber, os direitos civis e
e reconhecidos no mundo todo, o políticos. Os direitos de liber-
que representa a sua universalidade dade têm por titular o indiví-
duo, traduzem-se como facul-
e, por fim, não são absolutos, podem
dades ou atributos da pessoa e
ser limitados sempre que houver ostentam uma subjetividade
uma hipótese de colisão de direitos que é seu traço mais caracte-
fundamentais que significa a sua li- rístico, sendo, portanto, os di-
mitabilidade. reitos de resistência ou de opo-
É importante salientar que es- sição perante o Estado, ou se-
ses direitos são variáveis, modifican- ja, limitam a ação do Estado.

19
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

 Segunda geração ou segunda tiam sobre os temas referentes


dimensão: seriam os Direitos ao desenvolvimento, à paz, ao
da Igualdade, no qual estão à meio ambiente, à comunica-
proteção do trabalho contra o ção e ao patrimônio comum da
desemprego, direito à educa- humanidade (BONAVIDES,
ção contra o analfabetismo, di- 2007).
reito à saúde, cultura, entre  Quarta geração ou quarta di-
outros. Essa geração dominou mensão, que surgiu dentro da
o século XX, são os direitos so- última década, por causa do
ciais, culturais, econômicos e avançado grau de desenvolvi-
os direitos coletivos. São direi- mento tecnológico: seriam os
tos objetivos, pois conduzem Direitos da Responsabilidade,
os indivíduos sem condições tais como a promoção e manu-
de ascender aos conteúdos dos tenção da paz, à democracia, à
direitos através de mecanis- informação, à autodetermina-
mos e da intervenção do Es- ção dos povos, promoção da
tado. Pedem a igualdade mate- ética da vida defendida pela
rial, através da intervenção po- bioética, direitos difusos, di-
sitiva do Estado, para sua con- reito ao pluralismo, entre ou-
cretização. Vinculam-se às tros. A globalização política na
chamadas “liberdades positi- esfera da normatividade jurí-
vas”, exigindo uma conduta dica foi quem introduziu os di-
positiva do Estado, pela busca reitos desta quarta geração,
do bem-estar social (MO- que correspondem à derradei-
RAES, 2002; BONAVIDES, ra fase de institucionalização
2007). do Estado social. Está ligada à
 Terceira geração ou terceira pesquisa genética, com a ne-
dimensão (difusos e coleti- cessidade de impor um con-
vos); foram desenvolvidos no trole na manipulação do genó-
século XX: seriam os Direitos tipo dos seres, especialmente o
da Fraternidade, no qual está o homem.
direito a um meio ambiente
equilibrado, uma saudável As três gerações que expri-
qualidade de vida, progresso, mem os ideais de Liberdade (direi-
entre outros. Essa geração é tos individuais e políticos), Igualda-
dotada de um alto teor de hu-
de (direitos sociais, econômicos e
manismo e universalidade,
pois não se destinavam so- culturais) e Fraternidade (direitos
mente à proteção dos interes- da solidariedade internacional),
ses dos indivíduos, de um gru- compõem atualmente os Direitos
po ou de um momento. Refle- Fundamentais.

20
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

Direitos à Prestação Jurídica efetivo da organização e a participa-


ção nos procedimentos estabeleci-
Existem direitos fundamen- dos (ARAÚJO, 2009).
tais cujo objeto se esgota na satisfa-
ção, pelo Estado, de uma prestação Direitos a Prestações Materi-
de natureza jurídica. O objeto do di- ais
reito será a normação (regulamenta-
ção) pelo Estado do bem jurídico Os direitos à prestação mate-
protegido como direito fundamen- rial são tidos como os direitos sociais
tal. Essa prestação jurídica pode por excelência - concebidos para
consistir na emissão de normas jurí- atenuar desigualdades de fato na so-
dicas penais ou de normas de orga- ciedade e para ensejar que a liberta-
nização e de procedimento. ção das necessidades aproveite ao
A Constituição, por vezes, es- gozo da liberdade efetiva por um
tabelece diretamente ao Estado a maior número de indivíduos. O seu
obrigação de legislar para coibir prá- objeto consiste numa utilidade con-
ticas atentatórias aos direitos e li- creta (bem ou serviço) (SOUZA,
berdades fundamentais (art. 5º, 2006). São exemplos de tais direitos
LXLI), o racismo (art. 52, XLII) ou a à prestação material aqueles enume-
tortura e o terrorismo (art. 5º, rados no art. 6º da Constituição Fe-
XLIII). deral (direitos sociais) e que são de-
Para além disso, há Direitos vidos pelo Estado, embora, nesse ca-
Fundamentais que dependem, es- so, os particulares também estejam
sencialmente, de normas infracons- vinculados, como ocorre com os des-
titucionais para ganhar pleno sen- critos no art. 7º da Carta Magna (di-
tido. Há direitos que se condicionam reitos do trabalhador).
a outras normas que definirão o mo- No que concerne à estrutura
do do seu exercício e até mesmo o al- dos preceitos que veiculam normas
cance do seu significado. que consagram os direitos à presta-
Existem, portanto, direitos ção, podemos destacar algumas pe-
fundamentais que necessitam de cri- culiaridades:
ação por via de lei de estruturas or-  Possuem alta densidade nor-
ganizacionais (ex.: Defensoria Pú- mativa;
blica), para que se tornem efetivos.  Não carecem de interposição
Tais direitos podem reivindicar a do legislador para a aplicação
adoção de medidas normativas que sobre as relações jurídicas (di-
permitam aos indivíduos o desfrute reitos originais à prestação);

21
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

 Exigem, no entanto, legislação Não cabe, assim, ao Judiciário,


para a produção de efeitos ple- salvo em casos excepcionalíssimos,
nos, em sua maior parte. extrair direitos subjetivos das nor-
mas constitucionais que tratam de
Como já ressaltado, os direitos direitos não originários a prestação.
à prestação material visam atenuar O direito subjetivo pressupõe que as
desigualdades fáticas de oportuni- prestações materiais já tenham sido
dades, distribuindo riqueza no âm- suficientemente delineadas (ARA-
bito da sociedade. Não é menos cer- ÚJO, 2009).
to, porém, que tais direitos têm sua É tarefa do órgão legislativo e
efetivação sujeita às condições em não do Poder judiciário. Exemplo
cada momento da riqueza nacional, bastante esclarecedor é o direito ao
sendo satisfeitos segundo as conjun- trabalho (arts. 6º e 170, VIII, da
turas econômicas e orçamentárias. Constituição Federal), onde o de-
Diz-se que estão submetidos à re- sempregado não tem direito subje-
serva do possível (ARAÚJO, 2009). tivo a que o Estado lhe proporcione
Nosso texto constitucional não um posto de trabalho.
oferece comando indeclinável para Assim, os direitos sociais fun-
as opções de alocação de recursos, damentais (identificados com os de
salvo em casos excepcionais (ex.: prestação material) não justificam
arts. 198 e 212 da CF/88); tais deci- pretensões invocáveis de forma di-
sões devem ficar a cargo de decisão reta. Em princípio não podem ense-
política, com a legitimação da repre- jar direitos subjetivos individuais, já
sentação popular competente para que se denominam direitos na medi-
delinear as balizas da política finan- da da Lei. Esses direitos, como se vê,
ceira, social e monetária. não podem ser determinados pelos
Essa legitimação popular é im- juízes quanto aos seus pressupostos,
portante porque a realização de di- bem como à extensão do seu conte-
reitos sociais importa em privilegiar údo. Para que se determine seu con-
um bem jurídico em prejuízo de ou- teúdo é necessária a atuação legisla-
tro. A efetivação de tais direitos im- tiva que o defina concretamente, fa-
plica em favorecer determinados zendo uma opção dentro de um qua-
segmentos da população e necessi- dro de possibilidades e prioridades a
tam da legitimação democrática do que obrigam a escassez de recursos,
Parlamento, como sede natural des- o caráter limitado da intervenção do
sas deliberações e, em segundo lu- Estado na vida em sociedade e, em
gar, do Poder Executivo.

22
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

geral, o próprio princípio democrá- com promessas demagógicas e ex-


tico. cessivas que redundam em frustra-
Com isso, os direitos à presta- ção de justas expectativas. A teoria
ção material se aproximam dos di- do grau mínimo de efetividade dos
reitos à prestação normativa. Em se direitos à prestação material, pro-
tratando de direito à prestação, o de- cura uma garantia, um mínimo so-
ver imediato que toca o Estado é, em cial dos direitos à prestação, sem o
primeiro lugar, o de legislar, já que a que fica configurada indesejável
elaboração das leis é tarefa devida omissão legislativa.
(no caso dos direitos a prestações ju- Em mais de uma oportunidade
rídicas) como condição organizativa o Supremo Tribunal Federal adotou
necessária (no caso dos direitos a a referida teoria, ao garantir um
prestações materiais) – caso exem- grau mínimo social do direito à sa-
plar do art. 215 da Constituição Fe- úde (art. 201, § 5º, da CF/88), no
deral (cultura). caso de fornecimento de medica-
Nesse diapasão, os direitos à mentos para portadores de AlDS, e o
prestação material e à prestação ju- acesso à pré-escola (art, 208, IV da
rídica recaem na esfera de liberdade CRFB/88).
de conformação do legislador, tanto
a soluções normativas, quanto ao Direitos Fundamentais de Par-
modelo de organização e ritmo de ticipação
concretização.
A eficácia constitucional des- Os direitos de participação
sas normas é a de servir de parâme- constituiriam uma categoria mista,
tro de controle de constitucionali- reunindo elementos dos direitos de
dade de medidas restritivas desses defesa e dos direitos a prestações;
direitos e revogam normas anterio- garantiriam a participação dos cida-
res incompatíveis com os programas dãos na formação da vontade do
de ação que entronizam. Servirão, país, por via dos direitos políticos.
ainda, como modelo interpretativo
das demais normas do ordenamento Dimensões dos Direitos Fun-
jurídico, sob pena de quebra da har- damentais
monia do sistema e de invalidade da
norma (ARAÚJO, 2009). A dimensão subjetiva dos Di-
É preciso advertir para o pe- reitos Fundamentais está mais li-
rigo que corre a força normativa da gada a suas origens históricas e às
Constituição quando é tencionada suas finalidades mais elementares e

23
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

corresponde a uma pretensão a que que a dimensão objetiva dos Direitos


se adote um dado comportamento Fundamentais transporta-os para
ou no poder de produzir efeitos so- além da perspectiva individualista,
bre certas relações jurídicas. como um valor em si, a ser preser-
Nessa perspectiva, os Direitos vado e fomentado.
Fundamentais correspondem à exi- A perspectiva objetiva legitima
gência de uma ação negativa (ex.: li- inclusive restrições aos Direitos
berdade do indivíduo) ou positiva de Subjetivos individuais, limitando o
outrem. Do mesmo modo, corres- conteúdo e o alcance dos Direitos
pondem à competência, isto é, ao Fundamentais em benefício de seus
poder de modificar determinadas próprios titulares ou de outros bens
posições jurídicas. constitucionalmente valiosos.
A dimensão objetiva resulta do Mais uma consequência da di-
significado dos Direitos Fundamen- mensão objetiva dos direitos funda-
tais como princípios básicos da or- mentais está em atrair um dever de
dem constitucional. Os Direitos proteção pelo Estado contra agres-
Fundamentais participam da essên- sões dos próprios poderes públicos,
cia do Estado democrático de direi- de particulares ou de outros Estados
to, operando como limite do poder, (dever de proteção), cobrando ado-
bem como diretriz para sua ação. As ção de providências materiais ou ju-
Constituições de feição democrática rídicas, de resguardo dos bens pro-
assumem um sistema de valores que tegidos, corroborando a assertiva se-
os Direitos Fundamentais revelam e gundo a qual a dimensão objetiva in-
positivam. Tal fenômeno faz com terfere na dimensão subjetiva, atri-
que eles influam sobre todo ordena- buindo-lhe reforço de efetividade.
mento jurídico (ARAÚJO, 2009). O propósito de reforço de po-
Tal dimensão faz com que os sições jurídicas fundamentais pode
direitos fundamentais transcendam exigir a elaboração de regulamenta-
à perspectiva da garantia de posi- ções restritivas de liberdades.
ções individuais para atingir a esta- Respeita-se a liberdade de
tura de normas que traduzem os va- conformação do legislador, a quem
lores básicos da sociedade política, se reconhece certo grau de discricio-
fazendo sua expansão para todo o nariedade na opção normativa tida
direito positivo. como mais oportuna para a proteção
Constituindo, dessa forma, a dos direitos fundamentais.
base do ordenamento jurídico do Es- Caberá, então, aos órgãos polí-
tado democrático, é possível afirmar ticos, indicar qual a medida a ser

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

adotada para proteger os bens jurí-


dicos abrigados pelas normas defini-
doras dos direitos fundamentais.
A dimensão objetiva cria um
direito à prestação associado ao di-
reito de defesa e esse direito à pres-
tação há de se sujeitar à liberdade de
conformação dos órgãos políticos e
aos limites da reserva do possível
(ARAÚJO, 2009).
Parte da doutrina alude à ne-
cessidade de o Estado agir em defesa
dos Direitos Fundamentais com um
mínimo de eficácia, não se podendo
exigir afastamento absoluto da ame-
aça que se procura prevenir.
Se é possível visualizar um de-
ver de agir do Estado, não é razoável
impor-lhe o como agir. Uma preten-
são individual somente poderá ser
acolhida nos casos em que o espaço
de discricionariedade estiver redu-
zido a zero.
Assim, o aspecto objetivo dos
Direitos Fundamentais comunica-
lhes uma eficácia irradiante, o que os
converte em uma diretriz para a in-
terpretação e aplicação das normas
dos diversos ramos do Direito. A di-
mensão objetiva enseja, ainda, a dis-
cussão sobre a eficácia horizontal
dos Direitos Fundamentais, eficácia
destes direitos na esfera privada, no
âmbito das relações entre particula-
res (ARAÚJO, 2009).

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

2. Direitos e Garantias Individuais e Coletivos e o


Regime Jurídico dos Militares

Fonte: Mega Juridico2

Direitos e Garantias Indivi- são manifestações de um resguar-


duais e Coletivos dos Mili- dar-se frente à Organização Política
tares e aos quais só se conhece, como limi-
tes, os mesmos direitos pertencentes

O s direitos e garantias individu- a outro indivíduo, tal como no impe-


ais e coletivos são aquele con- rativo Kantiano: o direito de um de-
junto de preceitos jurídicos que, por termina onde começa o direito do
sua natureza mesma, são inaliená- outro (DANTAS, 2007, p. 94).
veis ao homem como tal, fundamen- PEDRO LENZA (2009) res-
tados em seu sentimento de justiça; salta que estes direitos e garantias,

2 Retirado em https://www.megajuridico.com/

27
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

enquanto direitos fundamentais, ca- vo de cada um dos princípios contra-


racterizam-se pela universalidade, postos. Como não existe um critério
ou seja, destinam-se, de modo indis- abstrato que imponha a supremacia
criminado, a todos os seres huma- de um sobre o outro, deve-se, à vista
nos. do caso concreto, fazer concessões
O art. 5° da Constituição Fede- recíprocas, de modo a produzir um
ral de 1988 assegura aos brasileiros resultado socialmente desejável, sa-
- inclusive aos militares - e aos es- crificando o mínimo de cada um dos
trangeiros direitos e garantias indi- princípios ou direitos fundamentais
viduais. em oposição. O legislador não pode,
Por outro lado, o art. 142 da arbitrariamente, escolher um dos in-
CRFB/88 dispõe serem as Forças teresses em jogo e anular o outro,
Armadas organizadas com base na sob pena de violar o texto constituci-
hierarquia e na disciplina, princípios onal. Seus balizamentos devem ser o
essenciais e indispensáveis à própria princípio da razoabilidade e a pre-
existência de tais instituições. Logo, servação, tanto quanto possível, do
os militares, obrigatoriamente, de- núcleo mínimo do valor que esteja
vem se sujeitar à rigorosa disciplina cedendo passo. Não há, aqui, Supe-
e ao estrito acatamento à hierarquia rioridade formal de nenhum dos
militar, sob pena de responsabiliza- princípios em tensão, mas a simples
ção na esfera disciplinar ou penal, determinação da solução que me-
como preceitua a própria Constitui- lhor atende ao ideário constitucional
ção (art. 5°, LXI). na situação apreciada.
JORGE LUIZ NOGUEIRA DE Desse modo, os direitos e ga-
ABREU (2010) questiona e ele mes- rantias individuais consagrados na
mo dá a solução sobre como, então, Constituição Federal não podem
conciliar o exercício de direitos e ga- servir de blindagem, de escudo, para
rantias individuais e coletivos com a a prática de atos que atentem contra
sujeição hierárquico-disciplinar a hierarquia e a disciplina militar.
quando, aparentemente, se conflita- Em contrapartida, estas não podem
rem. servir de pretexto para excluírem
Pois bem, a solução do impas- aqueles. Consequentemente, o mili-
se está na ponderação de valores ou tar, no exercício de um direito ou ga-
ponderação de interesses. Como en- rantia individual e coletiva, deve se
sina LUÍS ROBERTO BARROSO abster de praticar ato atentatório à
(2001), tratase de técnica pela qual hierarquia e à disciplina castrense,
se procura estabelecer o peso relati- sob pena de ser responsabilizado na

28
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

esfera disciplinar ou penal, confor-  O direito à livre manifestação


me dispuser a legislação de regência. do pensamento, por força dos
É o que se passa, por exemplo, com princípios da hierarquia e da
um militar da ativa que, punido dis- disciplina (art. 142 da CRFB/
88), motivo pelo qual o subor-
ciplinarmente com pena privativa de
dinado não pode censurar ou
liberdade, por autoridade incompe- criticar ato de superior hierár-
tente, de próprio punho, impetra ha- quico, sob pena de incorrer em
beas corpus, referindo-se à aludida prática de transgressão disci-
autoridade de forma desrespeitosa. plinar (Art. 10, nº 23, RDAer,
Neste caso, o militar deverá ser res- por exemplo) ou, até mesmo,
ponsabilizado pela ofensa ao dever de crime militar (art. 199 do
CPM), etc.
militar - respeito à hierarquia e dis-
ciplina, ainda que lhe seja concedida
O Regime Jurídico dos Milita-
a ordem no writ (ABREU, 2010). res
Por fim, em razão das peculia-
ridades da carreira militar, a Carta Os servidores públicos civis da
Política, expressamente, vedou - ou União, excetuando-se os sujeitos ao
ao menos limitou em parte - aos mi- regime celetista, e os militares estão
litares o gozo de alguns dos direitos submetidos a regime jurídico estatu-
e garantias individuais descritos no tário, instituído por lei de iniciativa
aludido art. 5°. Como exemplos, ci- privativa do Presidente da Repúbli-
tamos: ca. Aqueles têm a base de seu regime
 O habeas corpus em relação ao jurídico disciplinado, minuciosa-
mérito das punições discipli- mente, pela Constituição Federal, ao
nares, por
passo que estes não. Isto se dá em
 Força do art. 142, § 2°, da
CRFB/88; razão das inúmeras peculiaridades
 O direito à liberdade de associ- da carreira militar, o que, de fato, in-
ação para fins lícitos e à cria- viabilizaria um disciplinamento
ção de associações, diante da analítico do tema, nos moldes reali-
proibição de sindicalização zados para os servidores civis.
prevista no art. 142, § 3°, IV, Ademais, como destaca IVAN
da CRFB/88; BARBOSA RIGOLIN (2006, p. 211),
 O direito ao livre exercício de
não seria razoável a Constituição,
qualquer trabalho, ofício ou
profissão, em razão do caráter além de enfeixar um grande univer-
compulsório do serviço militar so de institutos civis como faz, tam-
inicial (art. 143 da CRFB/88); bém pretender abarcar o todo parti-
cular e diverso mundo dos militares;

29
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

tal não é papel para a Constituição, Há de se esclarecer, ainda, que


mas efetivamente para a lei e para os o rol de direitos sociais, definido no
regulamentos infralegais, que de inciso VIII, § 3°, do art. 142, é taxa-
resto existem em volume nada des- tivo, não cabendo ao intérprete am-
prezível. Portanto, agiu bem a Carta pliá-lo. Contudo, nada impede que o
Política ao remeter à lei o disciplina- legislador infraconstitucional, no
mento do regime jurídico dos milita- exercício da atribuição a ele outorga-
res (art. 142, § 3°, X, da CRFB/88). da pelo art. 142, § 3°, X, confira aos
Cumpre salientar que a atua- militares outros direitos sociais não
ção do legislador infraconstitucional abrangidos pelo mencionado inciso
na elaboração do regime jurídico dos VIII, como, aliás, o tem feito. A título
militares está condicionada à obser- de exemplo, cita-se o direito ao salá-
vância das diretrizes mínimas fixa- rio-mínimo na forma descrita no art.
das no Texto Fundamental, a exem- 7°, IV e VII, da CRFB/88. Tem-se
plo das contidas no art. 142, que entendido que este direito social não
confere e impõe, respectivamente, foi estendido aos militares, pois o
direitos, prerrogativas e deveres aos art. 142, § 3°, VIII, da Carta Maior, a
militares (ABREU, 2010). ele não faz alusão (Ver Súmula Vin-
Por estas razões, o regime jurí- culante 6 do STF).
dico dos militares, necessariamente, Todavia, o legislador infra-
deverá contemplar os direitos soci- constitucional conferiu-lhes este di-
ais descritos no inciso VIII, § 3°, do reito, excluindo, apenas, as praças
art. 142 da CRFB/88, a saber: prestadoras de serviço militar inicial
a. Décimo terceiro salário; e as praças especiais, salvo o guarda-
b. Salário-família; marinha e o aspirante a oficial (art.
c. Férias anuais remuneradas 18, caput, e parágrafo 2º da MP nº
com pelo menos um terço a mais do 2.215-10/01).
que o salário normal; Da mesma forma, o art. 142, §
d. Licença à gestante, sem preju- 3°, VIII, da CRFB/88 é silencioso
ízo do emprego e do salário, com du- em relação ao adicional de remune-
ração de 120 (cento e vinte) dias; ração para atividades penosas, insa-
e. Licença-paternidade; lubres ou perigosas, previsto no art.
f. Assistência gratuita aos filhos 7°, XXIII, razão pela qual os milita-
e dependentes, desde o nascimento res a ele não fariam jus. Contudo, o
até cinco anos de idade, em creches legislador assegurou-lhes o direito
e pré-escolas. em questão, na forma de adicional
de compensação orgânica, parcela

30
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

remuneratória mensal devida ao mi- Bem por isto, os direitos que deles
litar para compensação de desgaste derivem não se incorporam integral-
orgânico resultante do desempenho mente, de imediato, ao patrimônio
continuado de determinadas ativi- jurídico do servidor (firmando-se
dades especiais (Art. 1º, II, d, da MP como direitos adquiridos), do mes-
nº 2.215-10/01). O mesmo ocorre mo modo que nele se integrariam se
nas polícias militares e corpos de a relação fosse contratual.
bombeiros militares, que, em regra, Assim, exempli gratia, se o
instituem, em lei, gratificações de adicional por tempo de serviço a que
risco ou de periculosidade. os servidores públicos federais fa-
O regime jurídico dos milita- ziam jus, de 1% por ano de tempo de
res deverá conter, também, as proi- serviço, por força do art. 67 da Lei nº
bições e garantias descritas no art. 8.112, viesse a ser extinto, como o foi
37, XI, XIII, XIV e XV, da CRFB/88, pela inconstitucional Medida Provi-
em razão do art. 142, § 3°, VIII. Im- sória 1.909-15, de 29/06/1999, hoje
portante ressaltar que o legislador 2.225-45, de 4/09/2001, os que já
infraconstitucional não poderá isen- houvessem completado este período
tar os militares das vedações nem continuariam a perceber os acrésci-
excluí-los das garantias descritas mos aos vencimentos que deles hou-
nos incisos XI, XIII, XIV e XV do art. vessem resultado, por já haver per-
37, sob pena de afronta à Constitui- fazido o necessário à aquisição do di-
ção (ABREU, 2010). reito quanto às sobreditas parcelas;
Convém destacar, ainda, que, contudo, a partir da lei extintiva não
como ensina CELSO ANTÔNIO mais receberiam novos acréscimos
BANDEIRA DE MELLO (2006), no que lhes adviriam dos anuênios su-
liame de função pública, composto cessivamente completados (MEL-
sob a égide estatutária, o Estado, LO, 2006, p. 243-4). Em sendo esta-
ressalvadas as pertinentes disposi- tutário o liame que une os militares
ções constitucionais impeditivas, à União, poderá ser alterado por lei,
deterá o poder de alterar legislativa- sempre que necessário, vez que ine-
mente o regime jurídico de seus ser- xiste direito adquirido a regime jurí-
vidores, inexistindo a garantia de dico estatutário.
que continuarão sempre disciplina- As considerações feitas tam-
dos pelas disposições vigentes quan- bém são empregáveis aos militares
do de seu ingresso. Então, benefícios estaduais, já que a eles se aplica o
e vantagens, dantes previstos, po- art. 142, §§ 1º e 2°, da CRFB/88, por
dem ser ulteriormente suprimidos. força do art. 42, § 1º.

31
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

Os Militares na Sociedade - termos de direitos políticos, a facul-


Tratamento Diferenciado dade de os adolescentes maiores de
16 e menores de 18 anos alistarem-
Vimos em outro momento do se eleitores, se assim o quiserem.
curso que a nossa última Constitui- E, graças ao amadurecimento
ção Federal, analítica, em vários de político de nossa juventude, o alista-
seus dispositivos referiu-se aos mili- mento eleitoral nessa faixa de idade
tares brasileiros, tratandoos de for- é maciço, vale dizer, via de regra, o
ma específica e diferenciando-os do conscrito já será um eleitor.
cidadão comum. Veremos agora Todavia, a posição do Tribunal
seus direitos políticos, a questão da Superior Eleitoral- TSE, é pela pre-
nacionalidade, a efetivação dos di- valência da norma constitucional
reitos sociais e explicaremos a obje- restritiva. Na Resolução nº 20.165,
ção da consciência. de 07.04.1998, baixada em decor-
rência do Processo Administrativo
Os Direitos Políticos - Breve 16.337 - Classe 19 - Goiás/GO, o TSE
Comparação decidiu, com base no voto do relator
o Ministro Nilson Naves, o seguinte:
O art. 14 da Constituição da Alistamento eleitoral. Impos-
República estabeleceu que a sobera- sibilidade de ser efetivado por aque-
nia popular será exercida pelo sufrá- les que prestam o serviço militar
gio universal e pelo voto direto e se- obrigatório - Manutenção do impe-
creto, com igual valor para todos, e, dimento ao exercício do voto pelos
nos termos da lei, mediante: concritos (aluno do órgão de forma-
I. Plebiscito; ção de reserva) anteriormente alis-
II. Referendo; tados perante a Justiça eleitoral, du-
III. Iniciativa popular. rante o período da conscrição.
A bem da verdade, esta ampli-
Dirigindo-se aos militares, seu tude do direito de voto aos militares
§ 2° impede o alistamento como elei- ocorreu em 1988. Até então, cabos e
tor tão somente dos conscritos, du- soldados de uma forma geral, esta-
rante o período do serviço militar vam excluídos do alistamento eleito-
obrigatório. Inicialmente, segundo ral - o que representava, a toda evi-
JORGE CÉSAR DE ASSIS (2012), dência, um capitis diminutio em sua
chegou-se a pensar que tal norma cidadania.
seria inócua, já que a Constituição Situação restritiva ao direito
Cidadã trouxe, como novidade em de votar dos militares persiste ainda

32
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

na República Dominicana, onde o exercício do voto, os cabos e solda-


voto é obrigatório para todos os ci- dos somente tornaram-se cidadãos
dadãos, pessoal, livre e secreto, mas plenos a partir da CRFB/88.
não podem exercitá-lo os integran- Quanto ao direito de votar e
tes das Forças Armadas e Corpos de ser votado, o § 8° do art. 14 asseve-
Polícia (CONSTITUIÇÃO DA RE- rou que o militar alistável é elegível,
PÚBLICA DOMINICANA, procla- desde que atendidas as seguintes
mada em 25 de julho de 2002, em condições:
Santo Domingo-RD, art. 88, nº 2). I. Se contar menos de dez anos
ANTONIO MILLÁN GARRI- de serviço, deverá afastar-se da
DO (2005) lembra que a Polícia Na- atividade;
cional dominicana nasceu no seio II. Se contar mais de dez anos,
das Forças Armadas, conservando será agregado pela autoridade su-
sua estrutura militar até a vigência perior e, se eleito, passará auto-
da Lei nº 96/04, de 22.12.2003, que maticamente, no ato da diploma-
a declarou sendo uma organização ção, para a inatividade.
civil, a serviço da cidadania, com
competência especializada e âmbito Em relação ao inc. I do art. 14,
nacional (art. 3°). começam os primeiros confrontos
Na Guatemala os integrantes entre os interesses do militar que
do Exército em serviço ativo não po- pretende alistar-se candidato e os de
dem exercer o direito de sufrágio sua Corporação, já que o texto cons-
(CONSTITUÇÃO DA GUATEMALA, titucional é vago, não esclarecendo
art. 248). de que forma deverá ocorrer o afas-
Vale lembrar que o § 2° do art. tamento da atividade (ASSIS, 2012).
142 da Constituição brasileira de O Tribunal Superior Eleitoral,
1969 garantia o alistamento eleitoral apreciando Consulta formulada,
apenas aos oficiais, aspirantes a ofi- concluiu que o afastamento do mili-
cial, guardasmarinha, subtenentes tar, de sua atividade, previsto no art.
ou suboficiais, sargentos ou alunos 14, § 8°, inc. I, da CRFB/88, deverá
das escolas militares de ensino supe- se processar mediante demissão ou
rior para a formação de oficiais. licenciamento ex officio, na forma
A Carta Política brasileira de da legislação que trata do servidor
1969 repetia proibições constitucio- militar e dos Regulamentos específi-
nais anteriores, desde a época do cos de cada Força Armada (TSE,
Império. Em termos de direito ao Consulta 571/DF, Rel Min. Walter

33
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

Ramos da Costa Porto, j. em 13.04. A regra do art. 98 do Código


2000). Eleitoral (militar com menos de 05
É uma posição que parece, anos de serviço será, ao se candida-
com a devida vênia, contraditória já tar a cargo eletivo, excluído do ser-
que, se a Constituição Federal asse- viço ativo: militar com 05 anos ou
gura ao militar alistável o direito de mais, ao se candidatar a cargo ele-
ser elegível, fica difícil aceitar-se que tivo será afastado temporariamente
o exercício desse direito implique do serviço ativo; como agregado) re-
em prejuízo funcional traduzindo-se monta à Constituição de 1946 (art.
em perda do emprego. 138, parágrafo único), repetindo-se
Em relação ao inc. II - caso do na de 1967 (art. 145, parágrafo úni-
militar da ativa com mais de 10 anos, co) e na de 1969 (art. 150, § 1°).
a norma é clara, ao alistar-se candi- A regra constitucional, hoje, é
dato (efetivação do registro da can- outra, mais rígida, prevendo o lapso
didatura pelo Partido Político) será temporal anterior de 10 anos, como
naturalmente agregado, que é a situ- requisito para o militar que preten-
ação na qual deixa de ocupar vaga na der alistar-se candidato para cargo
escala hierárquica de seu Corpo, eleitoral. Desta forma, pode-se afir-
Quadro, Arma ou Serviço, nela per- mar que o dispositivo constitucional
manecendo sem número (art. 80 do do § 8° do art. 14, recepcionou o inc.
Estatuto dos Militares). IV do art. 5° do Estatuto dos Milita-
O Estatuto dos Militares trata res (que assegura a estabilidade às
da agregação por afastamento tem- praças com 10 anos ou mais) de efe-
porário, qual seja, por ter se candi- tivo serviço e revogou o inc. XIV do
datado a cargo eletivo, desde que art. 82 do mesmo Estatuto (que pre-
conte com 5 (cinco) anos ou mais de via a agregação do militar candidato
serviço, contada a partir da data do que contasse com 5 ou mais anos de
registro como candidato até sua di- serviço e, na mesma linha de racio-
plomação ou regresso à Força Ar- cínio, o art. 98 do Código Eleitoral)
mada a que pertence, se não houver (ASSIS, 2012; VIEIRA, 2009).
sido eleito (art. 82, XIV), estando tal A questão, todavia, foi supera-
norma legal em sintonia com o art. da no Plenário do Supremo Tribunal
98, incs. I, II e III, da Lei nº 4.737, Federal, em face do julgamento, em
de 15.07.1965 - Código eleitoral, mas data de 16.03.2011, do Recurso Ex-
não necessariamente em sintonia traordinário 279.469/RS. Trata-se,
com a atual Constituição, que deu na espécie, de recurso extraordiná-
novo tratamento à matéria. rio interposto pelo Estado do Rio

34
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

Grande do Sul, contra acórdão do II, da CRFB/88. Voto vencido. Di-


seu Tribunal de Justiça, que reco- versamente do que sucede ao militar
nhecera a ex-servidor militar - que com mais de dez anos de serviço,
fora demitido ex officio, com base no deve afastar-se definitivamente da
citado artigo, por ter pedido afasta- atividade o servidor militar que,
mento para candidatar-se ao cargo contando menos de dez anos de ser-
de vereador quando contava com viço, pretenda candidatar-se a cargo
menos de 10 anos de serviço - o di- eletivo (STF - Pleno - Rec. Ext. 279.
reito à reintegração no serviço ativo, 469/RS - Rel. Min. Maurício Correa
com ressarcimento das vantagens - Relator para o acórdão Min. Cezar
devidas. Peluso - j. em 16.03.2011 - Dje
Após acirrado debate, por 20.06.2011).
maioria, vencido o Ministro Relator, O Chefe do Departamento-Ge-
o Tribunal decidiu que o afastamen- ral do Pessoal do Exército Brasileiro
to dos militares que possuírem me- editou a Portaria 043-DGP, de 16.
nos de 10 (dez) anos de serviço ao se 08.2000, em que estabeleceu orien-
candidatar é definitivo, ou seja, me- tações para a Administração do Pes-
diante exclusão ou demissão ex offi- soal quanto à situação do militar
cio. candidato a cargo efetivo de natu-
A ementa ficou assim vasada: reza política, estabelecendo procedi-
Servidor Público. Militar alistável. mentos a serem adotados nos se-
Elegibilidade. Policial da Brigada guintes casos: militar com menos de
Militar do Rio Grande do Sul, com 10 anos de serviço; militar com mais
menos de 10 anos de serviço. Candi- de 10 anos de serviço; militar com
datura a mandato eletivo. Demissão mais de 10 anos de serviço, eleito; e,
oficial por conveniência do serviço. militar com mais de 10 anos de ser-
Necessidade de afastamento defini- viço, não eleito.
tivo, ou exclusão do serviço ativo.
Pretensão de reintegração no posto Direito à Nacionalidade
que foi exonerado. Inadmissibilida-
No Direito Constitucional bra-
de. Situação diversa daquela osten-
sileiro vigente, os termos nacionali-
tada por militar com mais de 10
dade e cidadania, ou nacional e cida-
(dez) anos de efetivo exercício. Man-
dão, têm sentido distinto. Nacional é
dado de segurança indeferido.
o brasileiro nato ou naturalizado, ou
Recurso extraordinário pro-
seja, aquele que se vincula, por nas-
vido para esse fim. Interpretação das
cimento ou naturalização, ao territó-
disposições do art. 14, § 8°, incs. I e

35
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

rio brasileiro. Cidadão qualifica o Efetivação dos Direitos Sociais


nacional no gozo dos direitos políti-
cos e os participantes da vida do Es- Os direitos sociais estão pre-
tado (arts. 1°, II e, 14) (SILVA, 1998, vistos entre os arts. 6° e 11, da Cons-
p. 320). tituição Federal. Para José Afonso
É de se perceber que o § 2° do da Silva (1998, p. 290) pode-se clas-
art. 12, da Constituição, assegura sificar os direitos sociais do homem
que a lei não poderá estabelecer dis- como produtor e como consumidor.
tinção entre brasileiros natos e natu- Entram na categoria de direi-
ralizados, salvo os casos em que ela tos sociais do homem produtor, pre-
mesma prevê, como, por exemplo, o vistos nos arts. 7º ao 11, os seguintes:
subsequente § 3°, quando estabele-  A liberdade de instituição sin-
ceu os cargos que são de preenchi- dical (instrumento de ação co-
mento obrigatório por brasileiros letiva);
natos e, dentre eles, no inc. VI, o de  O direito de greve;
 O direito de o trabalhador de-
Oficial das Forças Armadas.
terminar as condições de seu
A garantia nesse caso, é muito trabalho (contrato coletivo de
mais do dignificante cargo (Oficial trabalho);
das Forças Armadas) do que de cada  O direito de cooperar na ges-
brasileiro nato de um modo geral, já tão da empresa (co-gestão ou
que o oficialato pressupõe o cumpri- auto gestão); e,
mento de uma série de requisitos es-  O direito de obter um em-
tabelecidos pela lei, por parte dos in- prego.
teressados (ASSIS, 2012).
Na categoria dos direitos soci-
Advirta-se, entretanto, que,
ais do homem consumidor entram:
impedido de tornar-se Oficial das
Forças Armadas, o brasileiro natu-  Os direitos à saúde e à segu-
rança social (segurança mate-
ralizado pode, a toda evidência, tor- rial);
nar-se Oficial das Polícias Militares  Os direitos ao desenvolvimen-
e dos Corpos de Bombeiros Milita- to intelectual;
res, sendo claramente inconstitucio-  O direito ao igual acesso das
nal, qualquer restrição nesse sen- crianças e adultos à instrução,
tido: onde a Constituição não distin- à formação profissional e à
gue, não cabe ao intérprete ou ao le- cultura; e,
gislador infraconstitucional fazê-lo.  Garantia ao desenvolvimento
da família, que são, como se

36
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

nota, os indicados no art. 6° e filiar-se em qualquer sindicato, par-


desenvolvidos a partir do art. tido ou associação política, nem
193. exercer atividades político-partidá-
rias de qualquer natureza (art. 243,
Seguindo sua linha de orienta-
item 3). Disposição semelhante se
ção com relação aos militares brasi-
encontra na Constituição do Peru
leiros, a Constituição Federal resol-
(art. 42) quando ao reconhecer os
veu especificar, no art. 142, § 3°, inc.
direitos de sindicalização e de greve
VIII, quais seriam os direitos sociais
dos funcionários públicos, ressalva
assegurados no art. 7°, aplicados aos
os funcionários do Estado com po-
integrantes das Forças Armadas e
der de decisão e os que desempe-
Forças Auxiliares: 13° salário (inc.
nham cargos de confiança ou dire-
VII); salário-família (inc. XII); férias
ção, assim como os membros das
anuais remuneradas com um terço a
Forças Armadas e da Polícia Nacio-
mais que o salário normal (inc.
nal (ASSIS, 2012).
XVII); licença maternidade de 120
Adverte LAURENTINO DE
dias (inc. XVIII); licença paterni-
ANDRADE FILOCRE (2004, p.
dade de 05 dias (inc. XIX); e assis-
155), referindo-se ao que denomina
tência gratuita aos filhos e depen-
de fatores interferentes externos
dentes até 06 anos em creches e pré-
(encravados na Constituição Federal
escola (inc. XXV).
de 1988) que a plena liberdade de
O rol é taxativo e não admite
associação, independente de autori-
interpretação extensiva como já vis-
zação, vedada a interferência estatal
to. Taxativa também é a proibição,
em seu funcionamento, somente
dirigida aos militares brasileiros, de
dissolúvel por decisão judicial com
alguns direitos que são assegurados
trânsito em julgado, favoreceu a cri-
ao trabalhador brasileiro em geral: o
ação de associações de oficiais e pra-
direito à sindicalização, o direito à
ças que, com essas garantias, passa-
greve e, o direito de filiação a parti-
ram a ter poder de enfrentamento
dos políticos enquanto no serviço
das autoridades.
ativo (art. 142, § 30, IV e V).
E, em que pesem as vedações
Esse tipo de proibição é co-
expressas na Constituição Federal
mum aos militares, podendo ser en-
de sindicalização e de greve para os
contrado na Constituição da Repú-
militares, as associações passaram a
blica de Cabo Verde, onde os mem-
atuar, de fato, como sindicatos e a
bros das Forças Armadas em situa-
usar a greve, ostensiva e armada,
ção de atividade estão proibidos de

37
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

como instrumento de imposição de Como não são poucas as limi-


vontade e de interesses. nares e mesmo sentenças de mérito
Para o autor acima, hoje os co- concedidas nesses casos, conclui o
mandantes se veem contingenciados autor que as decisões da Justiça, em
a “administrar” a convivência com grande parte contrárias aos pontos
essas entidades, uma forma de evitar de vista dos chefes militares, são en-
confrontos mesmo que com o com- caradas por eles como um fator de
prometimento da autoridade, o que, desestabilização da hierarquia e da
convenhamos, conforme Assis disciplina.
(2012), é inaceitável no Estado De- Ainda o autor acima, questio-
mocrático de Direito, que pressu- na a quem interessa mais a manu-
põe, antes de qualquer coisa, o res- tenção da disciplina, já que esta é
peito à lei e às instituições que for- uma pergunta que não pode ficar no
mam o país. A margem da lei, ou ar. E conclui dizendo que ela inte-
contra ela, não existe ordem, nem ressa mais ao Estado, mas poderia
progresso, muito menos democra- interessar mais ao soldado individu-
cia. almente considerado, já que a exata
Analisando a disciplina sob o observância da disciplina daria ao
enfoque da busca da harmonia entre soldado a certeza de que, todos cum-
direitos e deveres, pondera JOÃO prindo seus deveres, a justiça e a im-
RODRIGUES ARRUDA (2007, p. parcialidade se farão sentir com to-
19) que, aproveitando a normalida- do seu vigor. Do mesmo modo, exi-
de jurídica estabelecida pela Consti- gido o cumprimento dos deveres não
tuição brasileira de 1988, as praças será privado de nenhum dos direi-
das Forças Armadas começaram a se tos.
organizar em associações para a de- Existe uma desigualdade in-
fesa dos interesses da categoria e justificável de tratamento entre ofi-
que os movimentos ganharam mais ciais e praças. Isso se depreende da
intensidade na Marinha e no Exér- afirmação de que “nas relações entre
cito. A partir de 2003, por iniciativa oficiais e praças, verdade e honra
individual ou através dessas associ- eram propriedade dos oficiais” e,
ações, as praças passaram a bater às voltando à questão das associações,
portas do Judiciário com mais fre- conclui que “as ações do Exército e
quência para reivindicar, principal- da Marinha na questão das entida-
mente, proteção contra as punições des de militares deixam à mostra o
disciplinares. uso de dois pesos e duas medidas”.

38
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

As manifestações do Clube Naval, do parece relativizar a noção de disci-


Clube Militar e do Clube da Aero- plina, quer parecer, na sua ótica, que
náutica são frequentes - segundo di- não são os subordinados que deve-
zem, até estimuladas, em alguns ca- rão se amoldar ao exercício da disci-
sos - e pelo menos em passado re- plina, mas sim os oficiais é que deve-
cente não se tem notícia de que os rão procurar se adaptar a essa “me-
dirigentes tenham respondido disci- lhoria de capacidade intelectual dos
plinarmente. O mesmo não ocorre subordinados” - os interessados no
com as agremiações que congregam melhor exercício da disciplina, já
praças (ARRUDA, 2007). que serão eles os fiscais da atividade
A origem desse estado de di- do superior. Essa visão parece inver-
vergência insinua que grande parte ter a relação superior versus subor-
dos litígios não resolvidos na instân- dinado, mesmo porque, todos os mi-
cia administrativa pode estar sendo litares, inclusive aqueles que te-
influenciado também pelo nível de nham maior formação de escolari-
escolaridade alcançado pelos sar- dade, devem adequar-se à disciplina
gentos, aliado ao ambiente acadêmi- de sua Força.
co em que são formados os dois gru- Contudo, é possível identificar
pos: os oficiais, sob regime discipli- no Brasil, atualmente, que o Poder
nar rígido durante praticamente as Judiciário vem dando novas inter-
24 horas do dia, têm contatos fora pretações às relações entre superior
dos portões da Academia apenas nos e subordinado, estabelecendo novos
licenciamentos de fim de semana. limites para o exercício efetivo da
Os sargentos, por outro lado, salvo disciplina e da hierarquia.
quando estão de serviço e pernoitam A discussão não é nova, já ad-
no quartel, mantém contato diário vertia CHRYSÓLITO DE GUSMÃO
com o mundo dos paisanos. Ou seja, (1915 apud ASSIS, 2012), quando ao
oficiais têm como foco prioritário o início do século XX destacava a refe-
aprendizado e ao seu redor uma at- rência feita à indisciplina do Exér-
mosfera permanentemente voltada cito francês no século XVIII, quando
para a obediência; os sargentos res- Paul Maire deu, entre outras causas
piram o ar da liberdade que estimula daquele estado de indisciplina, em
a pesquisa, a controvérsia e o diá- primeiro lugar a perigosa concessão
logo (ARRUDA, 2007, p. 43). que havia sido feita aos soldados pa-
A visão de Arruda segundo ra formarem comitês encarregados
JORGE CÉSAR DE ASSIS (2012) da defesa dos direitos das praças,

39
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

dando como consequência o desen- A Lei 8.239, de 04.10.1991, re-


volvimento e força cada vez maior gulamenta a Prestação do Serviço
desses comitês, que, paulatinamen- Alternativo ao Serviço Militar Obri-
te, começaram a se grupar e filiar. gatório, cujo Regulamento foi apro-
vado pela Portaria 2.681 – Cosemi,
Objeção de Consciência de 28.07.1992.
Contudo, o direito de objeção
JORGE CÉSAR DE ASSIS de consciência no Brasil ainda não
(2012) ressalta um direito constitu- adquiriu a amplitude que possui,
cional importante, em estreita rela- por exemplo, na Europa. Dele, nada
ção com as Instituições Militares se discute a respeito, primeiro por-
que trata-se da objeção de consciên- que a demanda pelo serviço militar
cia ao serviço militar, pela qual, às obrigatório (causada principalmen-
Forças Armadas compete, na forma te pela desigualdade social, ir para o
da lei, atribuir serviço alternativo quartel acaba sendo um modo de so-
aos que, em tempo de paz, após alis- brevivência) é maior do que a oferta
tados, alegarem imperativo de cons- de vagas pelas Forças Armadas: cer-
ciência, entendendo-se como tal o ca de 10% dos alistados anualmente
decorrente de crença religiosa e de são aproveitados e, segundo, porque
convicção filosófica ou política, para o Ministério da Defesa não faz a de-
eximirem-se de atividades de cará- vida propaganda da existência de
ter essencialmente militar (art. 143, tão importante direito de objeção de
§ 1°). consciência, apesar de reconhecido
Esta obrigação imposta às For- pela Carta Magna (ASSIS, 2012).
ças Armadas decorre da garantia Em iniciativa inédita no âm-
inscrita no art. 5°, VIII, da CRFB/ bito do Ministério Público da União
88, segundo o qual ninguém será foi instaurado um inquérito civil pú-
privado de direitos por motivo de blico conjuntamente pelo Ministério
crença religiosa ou de convicção po- Público Militar e pela Procuradoria
lítica, salvo se as invocar para exi- da República do município de Santa
mirse de obrigação legal a todos im- Maria/RS (Portaria Conjunta MPF/
posta e recusar-se a cumprir presta- MPM 01/07, DOU 83, de 02.05.
ção alternativa fixada em lei. 2007, Seção I, p. 104) com o objetivo
A perda ou suspensão dos di- de identificar que causas adminis-
reitos políticos está prevista no art. trativas estariam contribuindo para
15, IV, da CRFB/88. o quadro expressivo do número de

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

deserções ocorridas no biênio 2005- mo de independência e imparciali-


2006. dade (GARRIDO, 2005, p. 43).
Uma das medidas decorrentes Em Portugal, os objetores de
do referido inquérito civil foi a inter- consciência ao serviço militar pres-
posição conjunta de uma ação civil tarão serviço cívico de duração e pe-
pública, assinada pelos membros do nosidade equivalentes à do serviço
Ministério Público Federal e Minis- militar armado, sendo que nenhum
tério Público Militar, objetivando a cidadão poderá conservar nem deter
implementação do primado consti- emprego do Estado ou de outra enti-
tucional que determinou a atribui- dade pública se deixar de cumprir
ção de serviço alternativo aos cida- seus deveres militares ou do serviço
dãos que aleguem imperativo de cívico quando obrigatório (CONSTI-
consciência para se escusarem de TUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTU-
prestar o serviço militar iniciar GUESA, de 02.04.1976, revista pelas
(TRF4, 4ª Turma. Ap. Civil 2008.71. Leis Constitucionais 1/82, 1/89,
02.000356-3. Rel. Des. Fed. Marga 1/92 e 1/97, art. 276 e seus incisos).
Inge Barth Tessler). A Constituição garante igual-
À guisa de ilustração, cabe mente que nenhum cidadão portu-
lembrar a Resolução 337, de 26.01. guês pode ser prejudicado na sua co-
1967, editada pela Assembleia Con- locação, nos seus benefícios sociais
sultiva do Conselho da Europa, ou no seu emprego permanente em
quando destaca ser necessário infor- razão do cumprimento do serviço
mar às pessoas obrigadas ao serviço militar ou do serviço cívico obrigató-
militar, dos direitos que têm a este rio.
respeito, imediatamente depois de A Constituição da República
terem se alistado ou antes de serem de Cabo Verde, ao dispor que o ser-
chamados à incorporação. viço militar é obrigatório nos termos
Destaca igualmente que, da lei, ressalvou que os objetores de
quando a decisão relativa ao reco- consciência ao serviço militar e os ci-
nhecimento do direito à objeção de dadãos sujeitos por lei à prestação
consciência compete, em primeira do serviço militar que forem consi-
instância, a uma autoridade admi- derados inaptos para o serviço mili-
nistrativa, o órgão de decisão com- tar armado prestarão serviço militar
petente na matéria deve estar sepa- não armado ou serviço cívico, ade-
rado da autoridade militar, e garan- quado à sua situação, nos termos da
tido em sua composição com o máxi- lei. O serviço cívico pode ser estabe-

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

lecido em substituição ou comple- A observação é procedente se


mento do serviço militar e tornado consideramos que no Brasil, en-
obrigatório por lei para os cidadãos quanto o tempo do serviço militar
caboverdianos não sujeitos a deve- obrigatório é de 12 meses (art. 6° da
res militares (ASSIS, 2012). Lei 4.375/64 - LSM), o tempo pre-
O Decreto Legislativo 7/93, de visto para o serviço alternativo aos
14 de junho, regula o exercício do di- objetores de consciência é de 18 me-
reito à objeção de consciência peran- ses (art. 7°, caput, da Portaria 2.681/
te o serviço militar obrigatório em COSEMI, de 28.07.1992), ou seja, é
Cabo Verde (Art. 245, incs. I, II e III nítido o caráter de maior gravame
da Constituição da República de imposto àqueles que forem prestar o
Cabo Verde, 1995) referido serviço alternativo (ASSIS,
No Equador, o serviço militar 2012).
será obrigatório nos termos do art.
188 da Constituição. O cidadão O Estado Democrático de
equatoriano que invocar uma obje- Direito e a Segurança Pú-
ção de consciência fundada em ra- blica
zões morais, religiosas ou filosóficas,
será designado para um serviço civil A Constituição brasileira de
em prol da comunidade, na forma 1988 diz em seu art. 1°, que a Repú-
determinada pela lei. Os objetores blica Federativa do Brasil é um Esta-
de consciência do Paraguai também do Democrático de Direito, ou seja,
prestarão serviço em benefício da que o Brasil, além de ser um Estado
população civil, através de centros Democrático, também é um Estado
assistenciais designados pela lei e de Direito.
sob jurisdição civil (Constituição, O Estado de Direito está cen-
art. 129). trado na figura do Estado Moderno,
Interessante anotar que a sendo a lei a principal fonte de pa-
Constituição paraguaia deixou bem dronização das relações de convi-
claro que a regulamentação e o exer- vência entre as pessoas, onde o prin-
cício do direito de objeção de consci- cípio de legitimação da sociedade
ência não deverão ter caráter puni- política se assenta (LEAL, 2001).
tivo nem imporão gravames superi- Esse Estado de Direito corres-
ores aos estabelecidos para o serviço ponde à luta contra o monarca, seu
militar. poder absoluto e privilégios do clero,

42
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

da nobreza e das corporações. É ins- os direitos humanos e fundamen-


pirado na ideologia liberal-burgue- tais, onde um governo ou sociedade
sa, tendo ampliado a liberdade-au- democrática é aquele, (...) que conta
tonomia, com o reconhecimento do e mesmo define, a partir das relações
homem como valor absoluto e cen- de poder estendidas a todos os indi-
tro de todas as coisas, numa concep- víduos, com um espaço político per-
ção um tanto formalista, pois o ho- manente de interlocução, demar-
mem era visto na dimensão abstrata, cado por regras e procedimentos cla-
distante de sua concretude histórica ros, que efetivamente assegurem o
(CARVALHO, 2001). atendimento às demandas públicas
No entendimento de JOSÉ da maior parte da população, elegi-
LAURI BUENO DE JESUS (2011), o das pela própria sociedade (..)
Direito é o mecanismo do Estado (LEAL, 2001).
que passa a adjetivá-lo, servindo co- Apesar disso, deve-se ter em
mo instrumental conformador sob conta que o Estado de Direito não é
determinados contornos. Fica claro o mesmo que Estado Legal, haja vis-
que o Estado é de Direito não apenas ta que este constitui o Estado do im-
por constituir-se como uma ordem pério da lei herdado da Revolução
jurídica qualquer, mas também por- Francesa, o qual dava preponderân-
que ele apresenta uma limitação axi- cia ao Parlamento e aos eleitos pelo
ológica valorativa. sufrágio universal no sistema polí-
O Estado de Direito surge, en- tico e de elaboração de normas. Pos-
tão, vinculado a uma percepção de teriormente, a doutrina submeteu a
hierarquia das regras jurídicas, com lei ao Direito e confiou o Estado de
o objetivo de enquadrar e limitar o Direito ao controle do Judiciário
poder do Estado pelo Direito. Dessa (DALLARI, 2001).
forma, submete-se a um regime de Uma outra faceta de um Esta-
direito, quando a atividade estatal do de Direito, segundo DALMO DE
apenas pode desenvolver-se utili- ABREU DALLARI (2001, p. 196), é
zando um instrumental regulado e que ele pode existir também em uma
autorizado pela ordem jurídica, en- ditadura, basta que haja uma ordem
quanto que os cidadãos têm a seu jurídica legítima para todos os cida-
dispor mecanismos jurídicos aptos a dãos observarem.
salvaguardá-los contra uma ação Para Dallari (1989, p. 128), o
abusiva do Estado (MORAES, 1996). Estado Democrático constrói-se so-
Esses mecanismos que carac- bre três pontos fundamentais: a su-
terizam um regime democrático são

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

premacia da vontade popular, a pre- fundando-se na legalidade democrá-


servação da liberdade e a igualdade tica. Nesse tipo de Estado, a lei deve
de direitos. Logicamente, tais pon- ser destacada com relevância, não
tos estão intimamente ligados à apenas em seu aspecto formal, mas,
ideia de democracia e têm por base principalmente, em seu aspecto ma-
os princípios da maioria, da igual- terial, pois deve influir na realidade
dade e da liberdade. social, exercendo uma função trans-
Portanto, o Estado Democráti- formadora da sociedade (JESUS,
co de Direito preconizado pela Cons- 2011).
tituição brasileira, reúne os princí- Além deste princípio, há ou-
pios do Estado Democrático e do Es- tros que também devem ser observa-
tado de Direito, não como simples dos. São eles: o princípio da consti-
reunião formal dos seus elementos, tucionalidade; o princípio democrá-
mas porque releva um conceito novo tico; o sistema de direitos funda-
que os supera, na medida em que in- mentais; o princípio da justiça so-
corpora um componente revolucio- cial; o princípio da igualdade; o
nário de transformação de status princípio da divisão dos poderes; e,
quo. Esse novo conceito não é mera o princípio da segurança jurídica.
promessa de organizar tal Estado, Esses princípios, dispersos pela
pois o art. 1º já está proclamando e Constituição, concretizam a ideia
fundando o referido (SILVA, 2001, nuclear do Estado de Direito, i. e., de
p. 116). sujeição do poder a princípios e re-
Assim, com esse Estado De- gras jurídicas que garantem às pes-
mocrático de Direito, a Constituição soas e cidadãos liberdade e igualda-
brasileira de 1988, (...) abre as pers- de perante a lei, além de segurança.
pectivas de realização social pro- Diz JOSÉ JOAQUIM GOMES
funda pela prática dos direitos soci- CANOTILHO (1998) que, ao consi-
ais que ela inscreve e pelo exercício derar globalmente os princípios ve-
dos instrumentos que oferece à cida- rificados, observa-se que a vertente
dania e que possibilita concretizar as do Estado de Direito não pode ser
exigências de um Estado de justiça vista senão à luz do princípio demo-
social, fundado na dignidade da pes- crático, também a vertente do Esta-
soa humana (SILVA, 2001, p. 124). do Democrático não pode ser enten-
No Estado Democrático de Di- dida senão na perspectiva de Estado
reito, o princípio da legalidade é um de Direito. Tal como só existe um
princípio basilar, sendo de sua es- Estado de Direito Democrático,
sência subordinar-se à Constituição, também só existe um Estado Demo-

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

crático de Direito, isto é, sujeito a re- doméstica que extrapola os muros


gras jurídicas. da família, desigualdades sociais,
Assim, o Estado Democrático tráficos os mais variados.
de Direito centra-se em duas ideias A segurança, segundo JOSÉ
básicas, ou seja, o Estado limitado LAURI BUENO DE JESUS (2011),
pelo direito e o poder estatal legiti- sempre contribuiu para maior apro-
mado pelo povo. Estes posiciona- ximação dos homens, visto terem sa-
mentos agora nos permitem mostrar ído do estado de natureza com o in-
a importância de a sociedade parti- tuito de viverem em paz e harmonia,
cipar mais e assumir a sua parte firmando um pacto social tendo em
junto com o Estado que é o primeiro vista o seu interesse comum.
responsável pela preservação da or- Assim, Maslow (1980 apud
dem e segurança pública. JESUS, 2011) enumera a existência
de cinco objetivos que podem ser
O Estado como Responsável chamados de necessidades funda-
Pela Política de Segurança Pú- mentais, quais sejam: as fisiológicas,
blica de segurança, de participação, de es-
tima e de auto realização.
A segurança pública vai muito E por isso que, no entender
além de ser uma necessidade refe- desse autor, esses objetivos funda-
rente à garantia do direito à vida e à mentais estão relacionados entre si e
integridade física das pessoas. Ela apresentam-se numa hierarquia de
reflete coletivamente, nos mais di- importância ou permanência. Isso
versos setores onde está o homem, significa que o objetivo mais pre-
onde ele deseja se realizar como, por mente monopoliza a consciência e
exemplo, nas áreas econômica e so- tende automaticamente a organizar
cial. a mobilização das diversas faculda-
Na contramão temos a insegu- des do organismo. As necessidades
rança, como um dos maiores proble- menos prementes ficam reduzidas
mas enfrentados pelo Estado na so- ao mínimo, sendo esquecidas ou ne-
ciedade moderna. A expectativa de gadas (Maslow, 1980, p. 365 apud
perigo e risco iminente gerados ao JESUS, 2011, p. 57).
ser humano só tem feito crescer. Embora essa hierarquia de ne-
Dentre as temos o consumo crescen- cessidades de Maslow seja flexível, a
te de drogas que levam o sujeito ao segurança ocupa uma posição bem
desespero e estado de completa in- básica, daí a seriedade de tomá-la
consciência dos seus atos, violência como muito importante, sendo nes-

45
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

se contexto que entra a Administra- que uma boa decisão tomada tarde
ção Pública como um aspecto da ati- demais (SHERWOOD, 1964 apud
vidade governamental, visto que es- JESUS, 2011, p. 58).
ta se desenvolve num complexo polí- As políticas de segurança pú-
tico e está relacionada “com a execu- blica estão inseridas nesse contexto
ção das decisões da política governa- onde, infelizmente, (...) as autorida-
mental tomadas pelas pessoas que des governamentais se orientam pe-
detêm a autoridade para a tomada lo desejo de serem reeleitas. Assim
de decisão no sistema político” (HE- se os avanços tecnológicos consegui-
ADY, 1970, p. 14). Dessa forma, toda dos até agora conduziram a humani-
a atividade desenvolvida pela má- dade a um desenvolvimento jamais
quina o bem comum da sociedade, sonhado, fizeram-na conhecer crises
incluindo-se nisso, a prestação de políticas profundas. E, uma dessas
segurança pública. crises é o clima de insegurança gene-
É nesse enfoque que o admi- ralizada que precedeu a pretendida
nistrador público (todos aqueles que abertura política, não como fruto da
desempenham atividades no Esta- vontade dos governantes impostos à
do) deve primar pelos interesses da Nação, mas porque estes mesmos
instituição para a qual trabalha, mas perceberam que, ante a pressão po-
sempre tendo em consideração prio- lítica e a falta de legitimidade do po-
ritária, os interesses daqueles para der que exerciam, o único caminho
os quais a organização trabalha, ou era permitir o debate político e a
seja, a sociedade. participação de toda a sociedade na
Também, não podemos esque- busca de soluções para o problema
cer que, ao contrário das empresas brasileiro (OSBORNE; GAEBLER,
autônomas, os órgãos tradicionais 1995 apud JESUS, 2011).
de governo carecem de continuida- Uma política de segurança pú-
de, em virtude das mudanças políti- blica não deve apenas considerar as
cas e, que o mais imperioso requisito causas da criminalidade e da violên-
de qualquer estabelecimento (...), cia, mas deve também levar em con-
em confronto com os órgãos gover- ta os múltiplos fatores de sua per-
namentais clássicos, é o fato de de- cepção social, onde a saída correta
pender muito de decisões tomadas passe, preferencialmente, por uma
no momento certo; numa empresa política pública pragmática, diferen-
(...), qualquer decisão errada que se ciada e voltada para o futuro, onde
tome no momento oportuno, geral- devem-se mudar paradigmas e ten-
mente acarretará menos prejuízo do

46
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

tar compreender as verdadeiras di- de segurança pública que vi-


mensões dessa política de segurança sem à prevenção e à repressão
pública, a qual não é o mesmo que da criminalidade e da violên-
cia e à execução penal;
somente uma política policial, mas
 Poder Judiciário cabe assegu-
sim, compreende uma política cri-
rar a tramitação processual e a
minal, a qual, por sua vez, abarca aplicação da legislação vigen-
não somente a efetividade policial, te; e compete ao,
mas também as garantias constituci-  Poder Legislativo estabelecer
onais (HASSEMER, 1993). ordenamentos jurídicos, im-
A política de segurança públi- prescindíveis ao funcionamen-
ca só fará algum sentido desde que to adequado do sistema de jus-
tiça criminal.
haja uma verdadeira política interna
bem definida, sincronizada e coor-
O sistema de segurança públi-
denada, e que as discussões sobre
ca brasileiro em vigor, desenvolvido
ela sejam pragmáticas, pois assim
a partir da CRFB/88, estabeleceu
serão considerados não apenas o
um compromisso legal com a segu-
êxito e o fracasso dos efeitos deseja-
rança individual e coletiva. Entre-
dos, mas também os efeitos colate-
tanto, no Brasil, em regra, as políti-
rais não desejados, mas necessaria-
cas de segurança pública têm ser-
mente causados. E, sendo pragmá-
vido apenas de paliativo a situações
tica, a política de segurança pública
emergenciais, sendo deslocadas da
deve convencer-se do fato de que a
realidade social, desprovidas de pe-
criminalidade, mesmo a médio pra-
renidade, consistência e articulação
zo, vai continuar existindo. Nessa
horizontal e setorial (CARVALHO;
política, deve estar classificada a for-
SILVA, 2011).
ma de respeito, proteção e promoção
A atuação dos órgãos da segu-
dos direitos humanos (HASSEMER,
rança pública requer interação, si-
1993).
nergia de ações combinadas a medi-
Tecnicamente falando, nas po-
das de participação e inclusão social
líticas sociais, a complexidade da po-
e comunitária, cabendo ao Estado o
lítica de segurança pública envolve
papel de garantir o pleno funciona-
diversas instâncias governamentais
mento dessas instituições, tendo em
e os três poderes da república. Cabe
vista que:
ao:
A segurança pública é um pro-
 Poder Executivo o planeja- cesso sistêmico e otimizado que en-
mento e a gestão de políticas
volve um conjunto de ações públicas

47
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

e comunitárias, visando assegurar a Estado e responsabilidade de to-


proteção do indivíduo e da coletivi- dos”, a política de segurança pública
dade e a ampliação da justiça da pu- passa a ser pensada sob o contexto
nição, recuperação e tratamento dos de uma sociedade democraticamen-
que violam a lei, garantindo direitos te organizada, pautada no respeito
e cidadania a todos. Um processo aos direitos humanos, em que o en-
sistêmico porque envolve, num mes- frentamento da criminalidade não
mo cenário, um conjunto de conhe- significa a instituição da arbitrarie-
cimentos e ferramentas de compe- dade, mas a adoção de procedimen-
tência dos poderes constituídos e ao tos tático operacionais e político-so-
alcance da comunidade organizada, ciais que considerem a questão em
interagindo e compartilhando visão, sua complexidade.
compromissos e objetivos comuns; e Mais adiante, no decorrer do
otimizado porque depende de deci- nosso curso, veremos em detalhes
sões rápidas e de resultados imedia- questões que envolvem a política, a
tos (BENGOCHEA et al, 2004, p. defesa nacional e o sistema de segu-
120). rança pública. No momento basta
Trata-se de uma questão signi- lembrar que no ano de 2000 vimos
ficativamente complexa que impõe a ser criado o Plano Nacional de Segu-
necessidade de aproximação entre rança Pública (PNSP) e, em 2007, o
diversas instituições e sujeitos. En- Programa Nacional de Segurança
tende-se, portanto, a segurança pú- Pública com Cidadania (Pronasci),
blica como um processo articulado e inovando a forma de abordar dessas
dinâmico que envolve o ciclo buro- questões.
crático do sistema de justiça crimi-
nal. Sem articulação entre polícias,
prisões e judiciário, inclusive sem o
envolvimento da sociedade organi-
zada, não existe eficácia e eficiência
nas ações de controle da criminali-
dade e da violência e nas de promo-
ção da pacificação social (CARVA-
LHO; SILVA, 2011).
No Brasil, somente uma dé-
cada após a promulgação da “Cons-
tituição Cidadã”, que estabeleceu a
segurança pública como “dever do

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

3. Plano Nacional de Educação em Direitos Huma-


nos (PNEDH)

Fonte: New Safernet3

Contextualização Histó- de aspectos inquietantes no que se


rico-Política e Justificativas refere às violações de direitos huma-
ao Plano nos, tanto no campo dos direitos ci-
vis e políticos, quanto na esfera dos

V imos na introdução, que a De- direitos econômicos, sociais, cultu-


claração Universal dos Direi- rais e ambientais. Além do recruta-
tos Humanos da Organização das mento da violência, tem-se observa-
Nações Unidas (ONU), de 1948, de- do o agravamento na degradação da
sencadeou um processo de mudança biosfera, a generalização dos confli-
no comportamento social e a produ- tos, o crescimento da intolerância
ção de instrumentos e mecanismos étnico-racial, religiosa, cultural, ge-
internacionais de direitos humanos racional, territorial, físico-indivi-
que foram incorporados ao ordena- dual, de gênero, de orientação se-
mento jurídico dos países signatá- xual, de nacionalidade, de opção po-
rios. Esse processo resultou na base lítica, dentre outras, mesmo em so-
dos atuais sistemas global e regio- ciedades consideradas historica-
nais de produção dos direitos huma- mente mais tolerantes, como reve-
nos. lam as barreiras e discriminações e
Em contraposição, o quadro imigrantes, refugiados e asilados em
contemporâneo apresenta uma série todo o mundo. Há, portanto, um cla-

3Retirado em https://new.safernet.org.br/content/plano-nacional-de-educa%C3%A7%C3%A3o-em-direitos-
humanos

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

ro descompasso entre os indiscutí-  A adoção do princípio de em-


veis avanços no plano jurídico-insti- poderamento em benefício de
tucional e a realidade concreta da categorias historicamente vul-
efetivação dos direitos (PNEDH, neráveis (mulheres, negros
(as), povos indígenas, idosos
2007).
(as), pessoas com deficiência,
O processo de globalização, grupos raciais e étnicos, gays,
entendido como novo e complexo lésbicas, bissexuais, travestis e
momento das relações entre nações transexuais, entre outros);
e povos, tem resultado na concentra-  A reorganização da sociedade
ção da riqueza, beneficiando apenas civil transnacional, a partir da
um terço da humanidade, em prejuí- qual redes de atividades lan-
çam ações coletivas de defesa
zo, especialmente, dos habitantes
dos direitos humanos (campa-
dos países do Sul, onde se aprofun- nhas, informações, alianças,
dam a desigualdade e a exclusão so- pressões, entre outras), visan-
cial, o que compromete a justiça dis- do acionar Estados, organiza-
tribuída e a paz. ções internacionais, corpora-
Paradoxalmente, abriram-se ções econômicas globais e di-
novas oportunidades para o reco- ferentes grupos responsáveis
pelas violações de direitos
nhecimento dos direitos humanos
(PNEDH, 2007).
pelos diversos atores políticos. Esse
processo inclui os Estados Nacio- Enquanto esse contexto é mar-
nais, nas suas várias instâncias go- cado pelo colapso das experiências
vernamentais, as organizações in- do socialismo real, pelo fim da Guer-
ternacionais e as agências transnaci- ra Fria e pela ofensiva do processo
onais privadas. da retórica da globalização, os direi-
Esse traço conjuntural resulta tos humanos e a educação em direi-
da conjugação de uma série de fato- tos humanos consagram-se como te-
res, entre os quais cabe destacar: ma global, reforçando a partir da
 O incremento da sensibilidade Conferência Mundial de Viena, em
e da consciência sobre os as- 1993.
suntos globais por parte de ci-
Como diz a introdução do
dadãos(ãs) comuns;
 A institucionalização de um PNEDH, em tempos difíceis e con-
padrão mínimo de comporta- turbados por inúmeros conflitos,
mento nacional e internacio- nada mais urgente e necessário que
nal dos Estados, com mecanis- educar em direitos humanos, tarefa
mos de monitoramento, pres-
são e sanção;

51
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

indispensável para a defesa, o res- Esse movimento teve como


peito, a promoção e a valorização marco expressivo a Constituição Fe-
desses direitos. deral de 1988, que formalmente
Esse é um desafio central da consagrou o Estado democrático de
humanidade, que tem importância Direito e reconheceu, entre seus fun-
redobrada em países da América La- damentos, a dignidade da pessoa
tina, caracterizados historicamente humana e os direitos ampliados da
pelas violações dos direitos huma- cidadania (civis, políticos, econômi-
nos, expressas pela precariedade e cos, sociais, culturais e ambientais).
fragilidade do Estado de Direito e O Brasil passou a retificar os mais
por graves e sistemática violações importantes tratados internacionais
dos contingentes populacionais. (globais e regionais) de proteção dos
No Brasil, como na maioria direitos humanos, além de reconhe-
dos países latino-americanos, a te- cer a jurisdição da Corte Interameri-
mática dos direitos humanos adqui- cana de Direitos Humanos e do Es-
riu elevada significação histórica, tado do Tribunal Penal Internacio-
como resposta à extensão das for- nal.
mas de violência social e política vi- Novos mecanismos surgiram
venciadas nas décadas de 1960 e no cenário nacional como resultante
1970. No entanto, persiste no con- da mobilização da sociedade civil,
texto de redemocratização, a grave impulsionando agendas, programas
herança das violações nas questões e projetos que buscam materializar a
sociais, impondo-se, como impera- defesa e a promoção dos direitos hu-
tivo, romper com a cultura oligár- manos, conformando, desse modo,
quica que preserva os padrões de re- um sistema nacional de direitos hu-
produção da desigualdade e da vio- manos. As instituições de Estado
lência institucionalizada. têm incorporado esse avanço ao
O debate sobre os direitos hu- criar e fortalecer órgãos específicos
manos e a formação para a cidada- em todos os poderes.
nia vem alcançando mais espaço e O Estado brasileiro consolidou
relevância no Brasil, a partir dos espaços de participação da socie-
anos 1980 e 1990, por meio de pro- dade civil organizada na formulação
posições da sociedade civil organi- de propostas e diretrizes de políticas
zada e de ações governamentais no públicas, por meio de inúmeras con-
campo das políticas públicas, visan- ferências temáticas. Um aspecto re-
do ao fortalecimento da democracia. levante foi a institucionalização de

52
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

mecanismos de controle social da da equidade e da diversidade, afir-


política pública, pela implementa- mando sua universalidade, indivisi-
ção de diversos conselhos e outras bilidade e interdependência.
instâncias. O processo de construção da
Entretanto, apesar desses concepção de uma cidadania plane-
avanços no plano normativo, o con- tária e do exercício da cidadania
texto nacional tem-se caracterizado ativa requer, necessariamente, a for-
por desigualdades e pela exclusão mação de cidadãos(ãs) conscientes
econômica, social, étnicoracial, cul- de seus direitos e deveres, protago-
tural e ambiental, decorrente de um nistas da materialidade das normas
modelo de Estado em que muitas e pactos que os(as) protegem, reco-
políticas públicas deixam em segun- nhecendo o princípio normativo da
do plano os direitos econômicos, so- dignidade humana, englobando a
ciais, culturais e ambientais. solidariedade internacional e o com-
Ainda há muito para ser con- promisso com outros povos e na-
quistado em termos de respeito à ções. Além disso, propõe a formação
dignidade da pessoa humana, sem de cada cidadão(ã) como sujeito de
distinção de raça, nacionalidade, et- direitos, capaz de exercitar o con-
nia, gênero, classe social, região, cul- trole democrático das ações do Es-
tura, religião, orientação sexual, tado (PNEDH, 2007).
identidade de gênero, geração e de- A democracia, entendida co-
ficiência. Da mesma forma, há muito mo regime alicerçando na soberania
a ser feito para efetivar o direito à popular, na justiça social e no res-
qualidade de vida, à saúde, à educa- peito integral aos direitos humanos,
ção, à moradia, ao lazer, ao meio é fundamental para o reconheci-
ambiente saudável, ao saneamento mento, a ampliação e a concretiza-
básico, à segurança pública, ao tra- ção dos direitos. Para o exercício da
balho e às diversidades culturais e cidadania democrática, a educação,
religiosas, entre outras. como direito de todos e dever do Es-
Uma concepção contemporâ- tado e da Família, requer a formação
nea de direitos humanos incorpora dos(as) cidadãos(ãs).
os conceitos de cidadania democrá- Nossa Constituição e a LDB
tica, cidadania ativa e cidadania pla- (Lei nº 9.394/96) afirmam o exercí-
netária, por sua vez inspiradas em cio da cidadania como uma das fina-
valores humanistas e embasadas nos lidades da educação, ao estabelecer
princípios da liberdade, a igualdade, uma prática educativa “inspirada

53
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

nos princípios de liberdade e nos Assim, a mobilização global


ideais de solidariedade humana, para a educação em direitos huma-
com a finalidade do pleno desenvol- nos está imbricada no conceito de
vimento do educando, seu preparo educação para uma cultura demo-
para o exercício da cidadania e sua crática, na compreensão dos contex-
qualificação para o trabalho”. tos nacional e internacional, nos va-
O Plano Nacional de Educação lores da tolerância, da solidariedade,
em Direitos Humanos (PNEDH), da justiça social e na sustentabili-
que foi lançado em 2003, está apoi- dade, na inclusão e na pluralidade.
ado em documentos internacionais e Os Planos Nacionais e os Co-
nacionais, demarcando a inserção mitês Estaduais de Educação em Di-
do Estado brasileiro na história do reitos Humanos são dois importan-
Programa Mundial de Educação em tes mecanismos apontados para o
Direitos Humanos (PMEDH) e seu processo de implementação e moni-
Plano de Ação (ONU, 1997). São ob- toramento, de modo a efetivar a cen-
jetivos balizadores do PMEDH con- tralidade da educação em direitos
forme estabelecido no artigo 2ª: humanos enquanto política pública.
a. Fortalecer o respeito aos direi-
tos humanos e liberdades funda- As Dimensões da Educação
mentais; em Direitos Humanos
b. Promover o pleno desenvolvi-
mento da personalidade e dignidade A educação em direitos huma-
humana; nos é compreendida como um pro-
c. Fortalecer o entendimento, a cesso sistemático e multidimensio-
tolerância, a igualdade de gênero e a nal que orienta a formação do sujei-
amizade entre as nações, os povos to de direitos, articulando as seguin-
indígenas e grupos raciais, nacio- tes dimensões:
nais, étnicos, religiosos e linguísti-  Apreensão de conhecimentos
cos; historicamente construídos
d. Estimular a participação efe- sobre direitos
 Humanos e a sua relação com
tiva das pessoas em uma sociedade
os contextos internacional, na-
livre e democrática governada pelo cional e local;
estado de direito;  Afirmação de valores, atitudes
e. Construir, promover e manter e práticas sociais que expres-
a paz. sem a cultura dos direitos hu-
manos em todos os espaços da
sociedade;

54
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

 Formação de uma consciência desenvolvimento de valores, atitu-


cidadã capaz de fazer presente des e comportamentos, além da de-
em níveis cognitivo, social, ét- fesa socioambiental e da justiça so-
nico e político; cial.
 Desenvolvimento de processos
Nos termos já firmados no
metodológicos participativos e
de construção coletiva, utili- Programa Mundial de Educação em
zando linguagens e materiais Direitos Humanos, a educação con-
didáticos contextualizados; tribui também para:
 Fortalecimento de práticas in-  Criar uma cultura universal
dividuais e sociais que gerem dos direitos humanos;
ações e instrumentos em favor  Exercitar o respeito, a tolerân-
da promoção, da proteção e da cia, a promoção e a valorização
defesa dos direitos humanos, das diversidades (étnico-ra-
bem como da reparação das vi- cial, religiosa, cultural, geraci-
olações. onal, territorial, físico-indivi-
dual, de gênero, de orientação
Sendo a educação um meio sexual, de nacionalidade, de
privilegiado na promoção dos direi- opção política, dentre outras)
tos humanos, cabe priorizar a for- e a solidariedade entre povos e
nações;
mação de agentes públicos e sociais
 Assegurar a todas as pessoas o
para atuar no campo formal e não-
acesso à participação efetiva
formal, abrangendo os sistemas de em uma sociedade livre.
educação, saúde, comunicação e in-
formação, justiça e segurança, mí- Enfim, a implementação do
dia, entre outros. Plano Nacional de Educação em Di-
Desse modo, a educação é reitos Humanos visa, sobretudo, di-
compreendida como um direito em fundir a cultura de direitos humanos
si mesmo e um meio indispensável no país. Essa ação prevê a dissemi-
para o acesso a outros direitos. A nação de valores solidários, coope-
educação ganha, portanto, mais im- rativos e de justiça social, uma vez
portância quando direcionada ao que o processo de democratização
pleno desenvolvimento humano e às requer o fortalecimento da socie-
suas potencialidades, valorizando o dade civil, a fim de que seja capaz de
respeito aos grupos socialmente ex- identificar anseios e demandas,
cluídos. Essa concepção de educação transformando-as em conquistas
busca efetivar a cidadania plena pa- que só serão efetivadas, de fato, na
ra a construção de conhecimentos, o medida em que forem incorporadas

55
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

pelo Estado brasileiro como políti- educação em direitos huma-


cas públicas universais. nos.
Os objetivos gerais do  Orientar políticas educacio-
PNEDH: nais direcionadas para a cons-
tituição de uma cultura de di-
 Destacar o papel estratégico reitos humanos.
da educação em direitos hu-
 Estabelecer objetivos, diretri-
manos para o fortalecimento
zes e linhas de ações para a
do Estado Democrático de Di-
educação em direitos huma-
reito.
nos.
 Enfatizar o papel dos direitos
 Estimular a reflexão, o estudo
humanos na construção de
e a pesquisa voltados para a
uma sociedade justa, equita-
educação em direitos huma-
tiva e democrática.
nos.
 Encorajar o desenvolvimento
 Incentivar a criação e o forta-
de ações de educação em direi-
lecimento de instituições e or-
tos humanos pelo poder públi-
ganizações nacionais, estadu-
co e a sociedade civil por meio
ais e municipais na perspecti-
de ações conjuntas.
va da educação em direitos hu-
 Construir para a efetivação manos.
dos compromissos internacio-
 Balizar a elaboração, imple-
nais e nacionais com a educa-
mentação, monitoramento,
ção em direitos humanos.
avaliação e atualização dos
 Estimular a cooperação nacio- Planos de Educação em Direi-
nal e internacional na imple- tos Humanos dos estados e
mentação de ações de educa- municípios.
ção em direitos humanos.
 Incentivar formas de acesso às
 Propor a transversalidade de ações de educação em direitos
educação em direitos huma- humanos a pessoas com defici-
nos nas políticas públicas, es- ência (PNEDH, 2007).
timulando o desenvolvimento
institucional e interinstitucio-
nal das ações previstas no Princípios Norteadores da
PNEDH nos mais diversos se- Educação em Direitos Huma-
tores (educação, saúde, comu- nos
nicação, cultura, segurança e
justiça, esporte e lazer, dentre Ao longo do Plano Nacional de
outros). Educação em Direitos Humanos, en-
 Avançar nas ações e propostas contramos os compromissos do Es-
do Programa Nacional de Di- tado brasileiro para a educação, ou
reitos Humanos (PNDH) no seja, maior promoção de uma educa-
que se refere às questões da

56
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

ção de qualidade para todos, enten- que frequentemente moldam postu-


dida como direito humano essencial. ras acríticas. Mas pode constituir-se
Assim, a universalização do também, em um espaço estratégico
ensino fundamental, a ampliação da para a construção de uma sociedade
educação infantil, do ensino médio, fundada em uma cultura democrá-
da educação superior e a melhoria tica, solidária, baseada nos direitos
da qualidade em todos esses níveis e humanos e na justiça social.
nas diversas modalidades de ensino
são tarefas prioritárias. Na Educação Básica
Nesta unidade estão alguns
dos princípios norteadores da edu- A educação em direitos huma-
cação em Direitos Humanos para a nos vai além de uma aprendizagem
educação básica, superior e não-for- cognitiva, incluindo o desenvolvi-
mal. O Plano contempla também mento social e emocional de quem
ações para os profissionais dos siste- se envolve no processo ensino-
mas de Justiça e Segurança, bem co- aprendizagem (Programa Mundial
mo o papel da mídia nesse processo. de Educação em Direitos Humanos -
A construção de políticas pú- PMEDH/2005). A educação, nesse
blicas nas áreas de justiça, seguran- entendimento, deve ocorrer na co-
ça e administração penitenciária sob munidade escolar em interação com
a ótica dos direitos humanos exige a comunidade local.
uma abordagem integradora, inter- Assim, a educação em direitos
setorial e transversal com todas as humanos deve abarcar questões
demais políticas públicas voltadas concernentes aos campos da educa-
para a melhoria da qualidade de vida ção formal, à escola, aos procedi-
e de promoção da igualdade, na mentos pedagógicos, às agendas e
perspectiva do fortalecimento do Es- instrumentos que possibilitem uma
tado Democrático de Direito, mas ação pedagógica conscientizadora e
foge aos nossos objetivos do módu- libertadora, voltada para o respeito e
lo, portanto não debruçaremos so- valorização da diversidade, aos con-
bre esta vertente, nem sobre a mídia, ceitos de sustentabilidade e de for-
também espaço de intensos debates, mação da cidadania ativa.
embates políticos e ideológicos, pela A universalização da educação
sua alta capacidade de atingir cora- básica, com indicadores precisos de
ções e mentes, construindo e repro- qualidade e de equidade, é condição
duzindo visões de mundo ou po- essencial para a disseminação do co-
dendo consolidar um senso comum nhecimento socialmente produzido

57
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

e acumulado e para a democratiza- todos(as) na educação infantil, en-


ção da sociedade. sino fundamental e médio, e fomen-
Segundo a PNEDH (2007), tar a consciência social crítica devem
não é apenas na escola que se produz ser princípios norteadores da Edu-
e reproduz o conhecimento, mas é cação Básica. É necessário concen-
nela que esse saber aparece sistema- trar esforços, desde a infância, na
tizado e codificado. Ela é um espaço formação de cidadãos(ãs), com aten-
social privilegiado onde se definem a ção especial às pessoas e segmentos
ação institucional pedagógica e a sociais historicamente excluídos e
prática e vivência dos direitos huma- discriminados.
nos. Nas sociedades contemporâ- A educação em direitos huma-
neas, a escola é local de estruturação nos deve ser promovida em três di-
de concepções de mundo e de cons- mensões:
ciência social, de circulação e de  Conhecimentos e habilidades:
consolidação de valores, de promo- compreender os direitos hu-
ção da diversidade cultural, da for- manos e os mecanismos exis-
mação para a cidadania, de consti- tentes para a sua proteção, as-
sim como incentivar o exercí-
tuição de sujeitos sociais e de desen-
cio de habilidades na vida coti-
volvimento de práticas pedagógicas. diana.
O processo formativo pressu-  Valores, atitudes e comporta-
põe o reconhecimento da plurali- mentos: desenvolver valores e
dade e da alteridade, condições bási- fortalecer atitudes e compor-
cas da liberdade para o exercício da tamentos que respeitem os di-
crítica, da criatividade, do debate de reitos humanos.
ideias e para o reconhecimento, res-  Ações: desencadear atividades
para a promoção, defesa e re-
peito, promoção e valorização da di- paração das violações aos di-
versidade. reitos humanos.
Para que esse processo ocorra  São princípios norteadores da
e a escola possa contribuir para a educação em direitos huma-
educação em direitos humanos, é nos na educação básica:
importante garantir dignidade,  A educação deve ter a função
igualdade de oportunidades, exercí- de desenvolver uma cultura de
direitos humanos em todos os
cio da participação e da autonomia
espaços sociais.
aos membros da comunidade esco-
 A escola, como espaço privile-
lar. giado para a construção e con-
Democratizar as condições de solidação da cultura de direi-
acesso, permanência e conclusão de tos humanos, deve assegurar

58
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

que os objetivos e as práticas a Na Educação Superior


serem adotados sejam coeren-
tes com os valores e princípios A Constituição Federal de
da educação em direitos hu- 1988 definiu a autonomia universi-
manos.
tária (didática, científica, adminis-
 A educação em direitos huma-
nos, por seu caráter coletivo, trativa, financeira e patrimonial) co-
democrático e participativo, mo marco fundamental pautado no
deve ocorrer em espaços mar- princípio da indissociabilidade entre
cados pelo entendimento mú- ensino, pesquisa e extensão.
tuo, respeito e responsabili- O artigo terceiro da LDB (Lei
dade. nº 9394/96) propõe, como finalida-
 A educação em direitos huma- de para a educação superior, a parti-
nos deve estruturar-se na di-
versidade cultural e ambien- cipação no processo de desenvolvi-
tal, garantindo a cidadania, o mento a partir da criação e difusão
acesso ao ensino, permanência cultural, incentivo à pesquisa, cola-
e conclusão, a equidade (étni- boração na formação contínua de
co-racial, religiosa, cultural, profissionais e divulgação dos co-
territorial, físico-individual, nhecimentos culturais, científicos e
geracional, de gênero, de ori-
técnicos produzidos por meio do en-
entação sexual, de opção polí-
tica, de nacionalidade, dentre sino e das publicações, mantendo
outras) e a qualidade da edu- uma relação de serviço e reciproci-
cação. dade com a sociedade.
 A educação em direitos huma- A partir desses marcos legais,
nos deve ser um dos eixos fun- as universidades brasileiras, especi-
damentais da educação básica almente as públicas, em seu papel de
e permear o currículo, a for-
instituições sociais irradiadoras de
mação inicial e continuada dos
profissionais da educação, o conhecimentos e práticas novas, as-
projeto político-pedagógico da sumiram o compromisso com a for-
escola, os materiais didático- mação crítica, a criação de um pen-
pedagógicos, o modelo de ges- samento autônomo, a descoberta do
tão e a avaliação. novo e a mudança histórica.
 A prática escolar deve ser ori- A conquista do Estado Demo-
entada para a educação em di- crático delineou, para as Instituições
reitos humanos, assegurando
o seu caráter transversal e a re- de Ensino Superior (IES), a urgência
lação dialógica entre os diver- em participar da construção de uma
sos atores sociais. cultura de promoção, proteção, de-

59
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

fesa e reparação dos direitos huma- justiça social, da democracia, da ci-


nos, por meio de ações interdiscipli- dadania e da paz.
nares, com formas diferentes de re- O Programa Mundial de Edu-
lacionar as múltiplas áreas do co- cação em Direitos Humanos (ONU,
nhecimento humano com seus sabe- 2005), ao propor a construção de
res e práticas. Nesse contexto, inú- uma cultura universal de direitos
meras iniciativas foram realizadas humanos por meio do conhecimen-
no Brasil, introduzindo a temática to, de habilidades e atitudes, aponta
dos direitos humanos nas atividades para as instituições de ensino supe-
do ensino de graduação e pós-gradu- rior a nobre tarefa de formação de
ação, pesquisa e extensão, além de cidadãos(ãs) hábeis para participar
iniciativas de caráter cultural. de uma sociedade livre, democrática
Tal dimensão torna-se ainda e tolerante com as diferenças étnico-
mais necessária se considerarmos o racial, religiosa, cultural, territorial,
atual contexto de desigualdade e ex- físico-individual, geracional, de gê-
clusão social, mudanças ambientais nero, de orientação sexual, de opção
e agravamento da violência, que co- política, de nacionalidade, dentre
loca em risco permanente a vigência outras.
dos direitos humanos. As institui- No ensino, a educação em di-
ções de ensino superior precisam reitos humanos pode ser incluída
responder a esse cenário, contribu- por meio de diferentes modalidades,
indo não só com a sua capacidade tais como, disciplinas obrigatórias e
crítica, mas também com uma pos- optativas, linhas de pesquisa e áreas
tura democratizante e emancipado- de concentração, transversalização
ra que sirva de parâmetro para toda no projeto político-pedagógico, en-
a sociedade (PNEDH, 2007). tre outros.
As atribuições constitucionais Na pesquisa, as demandas de
da universidade nas áreas de ensino, estudos na área dos direitos huma-
pesquisa e extensão delineiam sua nos requerem uma política de incen-
missão de ordem educacional, social tivo que institua esse tema como
e institucional. A produção do co- área de conhecimento de caráter in-
nhecimento é o motor do desenvol- terdisciplinar e transdisciplinar.
vimento científico e tecnológico e de Na extensão universitária, a
um compromisso com o futuro da inclusão dos direitos humanos no
sociedade brasileira, tendo em vista Plano Nacional de Extensão Univer-
a promoção do desenvolvimento, da sitária enfatizou o compromisso das

60
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

universidades públicas com a pro- manos como prática perma-


moção dos direitos humanos (Fó- nente, contínua e global, deve
rum dos Pró-Reitores de Extensão estar voltado para a transfor-
mação da sociedade, com vis-
das Universidades Públicas Brasilei-
tas à difusão de valores demo-
ras. Plano Nacional de Extensão cráticos e republicanos, ao for-
Universitária. Rio de Janeiro: talecimento da esfera pública e
NAPE/UERJ, 2001). A inserção des- à construção de projetos cole-
se tema em programas e projetos de tivos.
extensão pode envolver atividades  A educação em direitos huma-
de capacitação, assessoria e realiza- nos deve se constituir em prin-
ção de eventos, entre outras, articu- cípio ético-político orientador
da formulação e crítica da prá-
ladas com as áreas de ensino e pes- tica das instituições de ensino
quisa, contemplando temas diver- superior.
sos.  As atividades acadêmicas de-
A contribuição da educação vem se voltar para a formação
superior na área da educação em di- de uma cultura baseada na
reitos humanos implica a considera- universalidade, indivisibilida-
ção dos seguintes princípios: de e interdependência dos di-
reitos humanos, como tema
 A universidade, como criadora transversal e transdisciplinar,
e disseminadora de conheci- de modo a inspirar a elabora-
mento, é instituição social com ção de programas específicos e
vocação republicana, diferen- metodologias adequadas nos
ciada e autônoma, comprome- cursos de graduação e pós-gra-
tida com a democracia e a ci- duação, entre outros.
dadania.
 A construção da indissociabili-
 Os preceitos da igualdade, da dade entre ensino, pesquisa e
liberdade e da justiça devem extensão deve ser feita articu-
guiar as ações universitárias, lando as diferentes áreas do
de modo a garantir a democra- conhecimento, os setores de
tização da informação, o aces- pesquisa e extensão, os pro-
so por parte de grupos sociais gramas de graduação, de pós-
vulneráveis ou excluídos e o graduação e outros.
compromisso cívico-ético com
 O compromisso com a cons-
a implementação de políticas
trução de uma cultura de res-
públicas voltadas para as ne-
peito aos direitos humanos na
cessidades básicas desses seg-
relação com os movimentos e
mentos.
entidades sociais, além de gru-
 O princípio básico norteador pos em situação de exclusão ou
da educação em direitos hu- discriminação.

61
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

 A participação das IES na for- ciais, políticas e não-governamen-


mação de agentes sociais de tais até as do setor da educação e da
educação em direitos huma- cultura. Essas atividades se desen-
nos e na avaliação do processo volvem em duas vertentes princi-
de implementação do PNEDH.
pais: a construção do conhecimento
Na Educação Não-Formal em educação popular e o processo de
participação em ações coletivas, ten-
A educação não-formal em di- do a cidadania democrática como
reitos humanos orienta-se pelos foco central.
princípios da emancipação e da au- Nesse sentido, movimentos
tonomia. Sua implementação confi- sociais, entidades civis e partidos
gura um permanente processo de políticos praticam educação não-
sensibilização e formação de consci- formal quando estimulam os grupos
ência crítica, direcionada para o en- sociais a refletirem sobre as suas
caminhamento de reivindicações e a próprias condições de vida, os pro-
formulação de propostas para as po- cessos históricos em que estão inse-
líticas públicas, podendo ser com- ridos e o papel que desempenham
preendida como: na sociedade contemporânea.
 Qualificação para o trabalho. Muitas práticas educativas
 Adoção e exercício de práticas não-formais enfatizam a reflexão e o
voltadas para a comunidade. conhecimento das pessoas e grupos
 Aprendizagem política de di- sobre os direitos civis, políticos,
reitos por meio da participa- econômicos, sociais e culturais.
ção em grupos sociais.
Também estimulam os grupos e as
 Educação realizada nos meios
comunidades a se organizarem e
de comunicação social.
 Aprendizagem de conteúdos proporem interlocução com as auto-
da escolarização formal em ridades públicas, principalmente no
modalidades diversificadas. que se refere ao encaminhamento
 Educação para a vida no senti- das suas principais reivindicações e
do de garantir o respeito à dig- à formulação de propostas para as
nidade do ser humano. políticas públicas.
A sensibilização e conscienti-
Os espaços das atividades de
zação das pessoas contribuem para
educação não-formal distribuem-se
que os conflitos interpessoais e coti-
em inúmeras dimensões, incluindo
dianos não se agravem. Além disso,
desde as ações das comunidades,
eleva-se a capacidade de as pessoas
dos movimentos e organizações so-

62
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

identificarem as violações dos direi-  Processo formativo de lideran-


tos e exigirem sua apuração e repa- ças sociais para o exercício
ração. As experiências educativas ativo da cidadania.
não-formais estão sendo aperfeiçoa-  Promoção do conhecimento
sobre direitos humanos.
das conforme o contexto histórico e
 Instrumento de leitura crítica
a realidade em que estão inseridas.
da realidade local e contextual,
Segundo a PNEDH (2007), re- da vivência pessoal e social,
sultados mais recentes têm sido as identificando e analisando as-
alternativas para o avanço da demo- pectos e modos de ação para a
cracia, a ampliação da participação transformação da sociedade.
política e popular e o processo de  Diálogo entre o saber formal e
qualificação dos grupos sociais e co- informal acerca dos direitos
humanos, integrando agentes
munidades para intervir na defini-
institucionais e sociais.
ção de políticas democráticas e cida-  Articulação de formas educati-
dãs. O empoderamento dos grupos vas diferenciadas, envolvendo
sociais exige conhecimento experi- o contato e a participação di-
mentado sobre os mecanismos e ins- reta dos agentes sociais e de
trumentos de promoção, proteção, grupos populares.
defesa e reparação dos direitos hu-
manos. Metodologias de Educação
Cabe assinalar um conjunto de Em Direitos Humanos
princípios que devem orientar as li-
nhas de ação nessa área temática. A Por definição bem simples,
educação não-formal, nessa pers- Metodologia engloba o conjunto de
pectiva, deve ser vista como: métodos e técnicas aplicadas para
 Mobilização e organização de um determinado fim, ou seja, seria o
processos participativos em caminho percorrido para atingir um
defesa dos direitos humanos determinado objetivo.
de grupos em situação de risco Palavra de origem grega, ME-
e vulnerabilidade social, de- TODOLOGIA advém de methodos,
núncia das violações e cons-
que significa meta (objetivo, finali-
trução de propostas para sua
promoção, proteção e repara- dade); hodos (caminho, intermedia-
ção. ção) e logia (conhecimento, estudo).
 Instrumento fundamental pa- Se estivermos pensando num
ra a ação formativa das organi- plano de aula, a metodologia deve
zações populares em direitos estar embasada num intenção ampla
humanos.

63
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

do professor, quanto às questões fi- que requer elementos cognitivos,


losóficas, psicológicas e culturais e afetivos e manifestações comporta-
restrita quanto à aprendizagem dos mentais. A informação necessária
conteúdos em si. não é relativa aos Direitos Huma-
Mas... como compreender ou nos, mas concernente aos objetivos
incluir o ensino e aprendizagem dos ou situações em que estes se põem
direitos Humanos no sistema educa- em vigência. Portanto, desta pers-
tivo? pectiva não é necessária somente a
Olguin (2008) pondera que inclusão de um conteúdo especial
são várias as respostas e que estas sobre os Direitos Humanos, mas de-
podem ser agrupadas em duas gran- ve se efetuar uma mudança de enfo-
des categorias. De um lado estão to- que. Em outros termos, com os con-
das aquelas que podem denominar- teúdos atuais, é possível lograr-se
se de incorporação dos conteúdos. perfeitamente processos de ensino-
Estas consideram que é suficiente a aprendizagem que promovam e for-
inclusão desta temática em alguma taleçam o exercício pleno dos Direi-
das disciplinas existentes, ou, no tos Humanos; somente se requer
máximo, o estudo de uma disciplina uma nova forma de ver ou fazer as
específica, para que os educandos coisas. Esta colocação se refere, em
logrem os objetivos que, sobre este particular; ao ensino primário e se-
aspecto, orientam a ação do sistema cundário (OLGUIN, 2008).
educativo. De todo modo, essas metodo-
A outra categoria de resposta a logias devem ter as seguintes carac-
este problema de inclusão pode de- terísticas:
nominarse de integração dentro do a. Estimulem a participação dos
currículo existente e parte do princí- estudantes que apesar de se apre-
pio de que a informação sobre os Di- sentar em diferentes níveis podem
reitos Humanos é pouco significa- ser agrupadas em três grandes cate-
tiva no processo de ensino-aprendi- gorias:
zagem nos níveis de educação pri- a. 1 Uma participação ativa, que é
mária ou secundária. Neles o impor- a que têm os sujeitos que participam
tante é a prática, a vivência dos Di- da execução de uma atividade, sen-
reitos Humanos, mais que sua fun- do a mais difundida e a que implica
damentação filosófica, sua concep- em menor compromisso pessoal;
ção jurídica e sua evolução histórica. sem ela seria praticamente impossí-
Trata-se em síntese, de um vel a vida em sociedade.
processo de formação de atitudes

64
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

a. 2 Uma participação consultiva, uma alternativa, de maneira a não


na qual os indivíduos são tomados criar situações rígidas.
em conta por quem deve assumir as c. Abram janelas para o mundo,
decisões; se realiza alguma forma de um vez que a urgência em desenvol-
consulta, de pesquisa, entre os que ver todos os temas propostos pelo
serão afetados pela decisão; se reco- currículo, faz com que os mesmos se
lhem opiniões, desejos, aspirações apresentem descontextualizados,
ou necessidades para que a decisão desarraigados do contexto social e
adotada seja menos conflitiva. cultural no qual tiverem lugar. O es-
a. 3 Uma participação decisória, tudo de qualquer das disciplinas que
na qual os sujeitos envolvidos to- integram os planos de estudo apre-
mam decisões como pessoas com- sentam magníficos exemplos do de-
prometidas com as consequências senvolvimento e da prática dos di-
da resolução que se põe em prática. reitos Humanos. Os conteúdos lite-
Este último nível é o desejável e o rários e artísticos, o material histó-
único que possibilita o desenvolvi- rico e geográfico, as ciências natu-
mento das atividades que interessa rais proporcionam numerosos teste-
promover. Esta característica é a que munhos da luta pela liberdade de
pode entrar em conflito com o modo pensamento e de expressão; de coo-
em que operam as instituições edu- peração pessoal, institucional e in-
cativas, visto que as decisões que ternacional nas investigações, e na
afetam aos estudantes abarcam qua- solução de problemas; de respeito
se todo o espectro de decisões que se pelas distintas idiossincrasias, em
tomam nela; não há âmbitos alheios síntese, da essência mesma dos di-
aos estudantes numa escola. reitos humanos.
d. Procurem sistematicamente o
b. Possibilitem a contradição, desenvolvimento do pensamento,
pois o critério da maioria aqui não é porque são poucas as oportunidades
válido nem correto. É imprescindí- que os docentes têm e que refletem
vel que, antes de se chegar a uma vo- sobre as operações lógicas que põem
tação, se possa discutir amplamente em jogo as alternativas metodológi-
as características das alternativas cas ante as quais devem optar.
que se apresentam, se expressem e. Fortaleçam os vínculos do es-
sem temor os diferentes pontos de tudante com o grupo de pares; com
vista. Por outro lado, é conveniente a instituição; com a comunidade;
que se aceite, como adequada, mais com país e mundo: os Direitos Hu-
manos tomam sentido na relação de

65
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

um sujeito com outros seres huma- de atitudes e que estas têm compo-
nos; quer dizer, nas relações sociais. nentes cognitivos e comportamen-
A metodologia adotada deve permi- tais. As metodologias, que se ado-
tir a identificação de relações sociais tem, deverão atender, simultanea-
cada vez mais amplas, a partir do es- mente, a estes três componentes e
paço imediato do estudante, confor- não limitar-se a alguns deles. A
mado por seu grupo de colegas, até quantidade de cada um deles vari-
perspectivas cada vez mais abarca- ará, seguramente, para estar de
doras da humanidade em conjunto. acordo com o conteúdo específico
f. Devem ser metodologias tota- que se estará tratando. Mas é impor-
lizadoras, já que o ensino-aprendi- tante que os três tipos de componen-
zagem dos direitos humanos não é o tes da atitude estejam presentes pa-
recurso exclusivo de uma disciplina ra que o ensino-aprendizagem seja
ou um grupo de matérias. É a totali- efetivo.
dade do processo educativo a res- h. Realista, ou seja, o ensino dos
ponsável para alcançar objetivos. direitos humanos deve verificar-se a
Para tanto, a metodologia deverá partir da realidade em que estejam
aplicar-se à totalidade do processo inseridos os participantes do proces-
educativo, pressupondo-se que ade- so. É a vivência cotidiana e a prática
quada aos diferentes estágios de de- diária, a referência às relações reais
senvolvimento pessoal que apresen- estabelecidas pelo educando, o que
tam os alunos durante o ensino pri- permitirá a formação das atitudes
mário e secundário. Não é uma me- desejadas.
todologia para empregar na classe,
mas um enfoque metodológico que Eixos Temáticos para Constru-
impregnará toda a impulsão da ins- ção da Cidadania
tituição educativa. (Isto torna neces-
sário que os docentes analisem sua Segundo Araújo (2007), en-
prática em classe à luz dos direitos tender a cidadania a partir da redu-
humanos e realizem uma profunda ção do ser humano às suas relações
autocrítica de suas convicções) (OL- sociais e políticas não é coerente
GUIN, 2008). com a multidimensionalidade que
g. Sejam globalizadoras, uma vez nos caracteriza e com a complexida-
que o ensino aprendizagem dos di- de das relações que cada um e todas
reitos humanos constitui um proces- as pessoas estabelecem com o mun-
so de formação e desenvolvimento do à sua volta. Deve-se buscar com-

66
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

preender a cidadania também sob história, a física, a geografia, as ar-


outras perspectivas, por exemplo, tes, e apenas isso. Não existe o obje-
considerando a importância que o tivo explícito de formação ética e
desenvolvimento de condições físi- moral das futuras gerações. A escola,
cas, psíquicas, cognitivas, ideológi- enquanto instituição pública criada
cas, científicas e culturais exerce na pela sociedade para educar as futu-
conquista de uma vida digna e sau- ras gerações, deve se preocupar tam-
dável para todas as pessoas. bém com a construção da cidadania,
Tal tarefa, complexa por natu- nos moldes que atualmente a enten-
reza, pressupõe a educação de todos demos. Se os pressupostos atuais da
(crianças, jovens e adultos), a partir cidadania têm como base a garantia
de princípios coerentes com esses de uma vida digna e a participação
objetivos, e com a intenção explícita na vida política e pública para todos
de promover a cidadania pautada na os seres humanos e não apenas para
democracia, na justiça, na igualda- uma pequena parcela da população,
de, na equidade e na participação essa escola deve ser democrática, in-
ativa de todos os membros da socie- clusiva e de qualidade, para todas as
dade nas decisões sobre seus rumos. crianças e adolescentes. Para isso,
Dessa maneira, pensar em uma edu- deve promover, na teoria e na prá-
cação para a cidadania torna-se um tica, as condições mínimas para que
elemento essencial para a constru- tais objetivos sejam alcançados na
ção da democracia social. sociedade.
Concordamos com Araújo Para a autora, citada anterior-
(2007), quando diz que é preciso en- mente, os valores não são nem ensi-
tender que tal forma de educação nados, nem nascem com as pessoas.
deve visar, também, ao desenvolvi- Eles são construídos na experiência
mento de competências para lidar significativa que as pessoas estabe-
com: a diversidade e o conflito de lecem com o mundo.
ideias, as influências da cultura e os Essa construção depende dire-
sentimentos e emoções presentes tamente da ação do sujeito, dos va-
nas relações do sujeito consigo mes- lores implícitos nos conteúdos com
mo e com o mundo à sua volta. que interage no dia-a-dia e da quali-
Uma questão a ser apontada é dade das relações interpessoais esta-
que atualmente as crianças e os ado- belecidas entre o sujeito e a fonte
lescentes vão à escola para aprender dos valores.
as ciências, a língua, a matemática, a

67
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

Buscando atingir amplos es- mesmos, por conseguinte, um grau


pectros de atuação, devemos enten- maior de liberdade.
der que o trabalho de educação em Como dizem Cortina e Marti-
valores que visam à construção da nez (2009, p. 9), nós filosofamos pa-
cidadania pode abarcar quatro gran- ra encontrar sentido para o que so-
des eixos temáticos que, de maneira mos e fazemos e buscamos sentido
geral, configuram campos principais para atender aos nossos anseios de
de preocupação da ética e da demo- liberdade, pois consideramos a falta
cracia nos dias atuais (ARAUJO, de sentido um tipo de escravidão.
2007). Dentre esses eixos temos a Etimologicamente falando,
ética, a convivência democrática, os ética vem do grego ethos, e tem seu
direitos humanos, a inclusão social e correlato no latim morale, com o
a própria cidadania. mesmo significado: conduta, ou re-
Vejamos: lativo aos costumes.
Ética: A ética, enquanto parte da Fi- Etimologicamente, ética e mo-
losofia, é um tipo de saber que se ral são palavras sinônimas. Em dife-
tenta construir racionalmente, utili- rentes éticas, desde a Grécia antiga,
zando para tanto o rigor conceitual e vários pensadores debruçaram-se e
os métodos de análise e explicação versaram sobre a ética: os pré-socrá-
da própria filosofia. ticos, Aristóteles, os Estóicos, os
Como reflexão sobre as ques- pensadores Cristãos (Patrísticos, es-
tões morais, a ética pretende desdo- colásticos e nominalistas), Kant, Es-
brar conceitos e argumentos que pinoza, Nietzsche, Paul Tillich, e
permitam compreender a dimensão muitos outros.
moral da pessoa humana nessa sua Na filosofia, o campo que se
condição moral, ou seja, sem reduzi- ocupa da reflexão sobre a morali-
la a seus componentes psicológicos, dade humana recebe a denominação
sociológicos, econômicos ou de de ética. Esses dois termos, ética e
qualquer outro tipo. moral, têm significados próximos e,
Podemos dizer que a ética, en- em geral, referem-se ao conjunto de
quanto filosofia moral, consegue ex- princípios ou padrões de conduta
plicar o fenômeno moral, ou seja, que regulam as relações dos seres
consegue dar conta racionalmente humanos com o mundo em que vi-
da dimensão moral humana e, com vem (ARAÚJO, 2007).
isto, conseguimos alcançar um Uma educação ancorada em
maior grau de conhecimento de nós tais princípios, de acordo com Puig
(1998, p. 15), deve converter-se em

68
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

um âmbito de reflexão individual e discriminações advindos das distin-


coletiva que permita elaborar racio- tas formas de deficiência, e pelas di-
nalmente e autonomamente princí- ferenças sociais, econômicas, psí-
pios gerais de valor, princípios que quicas, físicas, culturais, religiosas,
ajudem a defrontar-se criticamente raciais, ideológicas e de gênero. Con-
com realidades como a violência, a ceber esse trabalho na própria co-
tortura ou a guerra. De forma espe- munidade onde está localizada a es-
cífica, para esse autor, a educação cola, no bairro e no ambiente natu-
ética e moral deve ajudar na análise ral, social e cultural de seu entorno,
crítica da realidade cotidiana e das é essencial para a construção da ci-
normas sócio-morais vigentes, de dadania efetiva.
modo que contribua para idealizar Convivência democrática: Uma
formas mais justas e adequadas de escola democrática define-se pela
convivência. participação do alunado e do profes-
Ainda na linha de compreen- sorado no trabalho, na convivência e
são do papel da educação para a for- nas atividades de integração. Ela
mação ética dos seres humanos, deve possibilitar a participação co-
Cortina (2003, p. 113) entende que a mo um envolvimento baseado no
educação do cidadão e da cidadã de- exercício da palavra e no compro-
ve levar em conta a dimensão comu- misso da ação. Quer dizer, uma par-
nitária das pessoas, seu projeto pes- ticipação baseada simultaneamente
soal e também sua capacidade de no diálogo e na realização dos acor-
universalização, que deve ser exer- dos e dos projetos coletivos (PUIG,
cida dialogicamente, pois, dessa ma- 2000, p. 33).
neira, elas poderão ajudar na cons- Uma vez que a participação es-
trução do melhor mundo possível, colar autêntica une o esforço para
demonstrando saber que são res- intervir, a escola precisa construir
ponsáveis pela realidade social. espaços de diálogo e de participação
De forma específica, lidar com no dia-a-dia de suas atividades cur-
a dimensão comunitária, dialogar riculares e não-curriculares, de for-
com a realidade cotidiana e as nor- ma a permitir que estudantes, do-
mas sócio-morais vigentes nos re- centes e a comunidade se tornem
mete ao trabalho com a diversidade atores e atrizes efetivos, de fato, da
humana, à abordagem e ao desen- construção da cidadania participa-
volvimento de ações que enfrentem tiva. Experiências como as das as-
as exclusões, os preconceitos e as sembleias escolares, dos grêmios es-

69
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

tudantis e dezenas de outros mode- para si, consciente e livremen-


los de práticas de cidadania, que te.
vêm sendo implementados em esco-
las públicas e privadas de todo o Outro aspecto importante a
país, fornecem a matéria-prima para ser considerado nesse processo é o
que, de forma democrática, os con- papel ativo dos sujeitos da aprendi-
flitos cotidianos sejam enfrentados zagem, estudantes e docentes, que
nas escolas, permitindo a constru- interpretam e conferem sentido aos
ção de valores de ética e de cidadania conteúdos com que convivem na es-
por parte dos membros da comuni- cola, a partir de seus valores previa-
dade que vivem dentro e no entorno mente construídos e de seus senti-
escolar (ARAÚJO, 2007). mentos e emoções. Tal premissa está
Cidadania: Aprender a ser cidadão de acordo com a visão de que os va-
e a ser cidadã é, entre outras coisas, lores e princípios éticos são constru-
aprender a agir com respeito, solida- ídos a partir do diálogo, na interação
riedade, responsabilidade, justiça, estabelecida entre pessoas imbuídas
não-violência, aprender a usar o di- de razão e emoções e um mundo
álogo nas mais diferentes situações e constituído de pessoas, objetos e re-
comprometer-se com o que acontece lações multiformes, díspares e con-
na vida coletiva da comunidade e do flitantes (ARAÚJO, 2007).
país. Esses valores e essas atitudes Enfim, a promoção de uma
precisam ser aprendidos e desenvol- educação em valores deve partir de
vidos pelos estudantes e, portanto, temáticas significativas do ponto de
podem e devem ser ensinados na es- vista ético, propiciando condições
cola. para que os alunos e as alunas de-
Para que os estudantes pos- senvolvam sua capacidade dialógica,
sam aprender e assumir os princí- tomem consciência de seus próprios
pios éticos, são necessários pelo me- sentimentos e emoções (e dos senti-
nos dois fatores: mentos das demais pessoas) e de-
 Que os princípios se expres- senvolvam a capacidade autônoma
sem em situações reais, nas de tomada de decisão em situações
quais possam ter experiências conflitantes do ponto de vista ético/
e nas quais possam conviver moral.
com a sua prática. A melhor forma de ensiná-los,
 Que haja um desenvolvimento portanto, é estimulando reflexões e
da sua capacidade de autono-
vivências. Mais do que os discursos,
mia moral, isto é, da capacida-
de de analisar e eleger valores são a prática, o exemplo, a convivên-

70
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

cia e a reflexão, em situações reais, cabo nas salas de aula e nos demais
que farão com que os alunos e as alu- espaços e tempos das instituições es-
nas desenvolvam atitudes coerentes colares.
em relação aos valores que quere- No livro Educação: um tesouro
mos ensinar. Por isso, o convívio es- a descobrir, destacam-se algumas
colar é um elemento-chave na for- ideias que ajudam a compreender o
mação ética dos estudantes. E, ao papel da escola na construção da de-
mesmo tempo, é o instrumento mais mocracia e da cidadania, à luz do
poderoso que a escola tem para que foi discutido até aqui. Por exem-
cumprir sua tarefa educativa nesse plo:
aspecto. Daí a necessidade de os  Escolas em que são evocados
adultos reverem o ambiente escolar princípios como respeito mú-
e o convívio social que ali se expres- tuo, solidariedade, justiça e di-
sa, a partir das próprias relações que álogo e em que os alunos e as
alunas se apropriam de canais
estabelecem entre si e com os estu-
de participação na vida escolar
dantes, buscando a construção de e são incentivados pelos edu-
ambientes mais democráticos. cadores a fazê-lo são aquelas
Além disso, é necessário consi- em que se cria um espaço de-
derar o acolhimento dos estudantes mocrático, do qual emergem
- de suas diferenças, potencialidades as características de uma cida-
e dificuldades - e o papel reservado a dania plena;
 Os educadores devem sempre
eles e a elas na instituição. O cuidado
estar atentos à coerência entre
e a atenção com suas questões e pro- o discurso e a ação: respeitar
blemáticas de vida precisam concre- para ser respeitado, assumir e
tizar o respeito mútuo, o diálogo, a cumprir suas responsabilida-
justiça e a solidariedade que quere- des, como forma de ensinar
mos ensinar. Caso contrário, não es- aos estudantes a importância
taremos dando nenhuma razão da responsabilidade;
 A participação dos estudantes
plausível para que os estudantes os
na escola e na comunidade
aprendam e os pratiquem. ajuda a formar seu caráter co-
Por fim, é necessário introdu- mo cidadão e como cidadã. Em
zir tais conteúdos e preocupações particular, a participação dos
como temas transversais, que per- diferentes atores da comuni-
passam o universo dos conteúdos dade educativa nas tomadas
trabalhados nas escolas, de forma de decisão é uma prática cívica
- uma atuação no espaço pú-
que seus princípios estejam presen-
blico democrático - que possi-
tes nas ações cotidianas levadas a

71
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

bilita um conhecimento prá- com base na raça ou etnia são claras


tico dos processos que caracte- violações desse princípio. A discri-
rizam a vida cívica e política na minação racial pode tomar muitas
comunidade. A participação
formas, desde a mais brutal e insti-
nas decisões vai de simples
contribuições à manutenção e tucional forma de racismo - o geno-
à organização do espaço, por cídio e o apartheid, até as formas
exemplo, possível desde a mais encobertas por meio das quais
mais tenra idade, até a partici- determinados grupos raciais e étni-
pação em decisões gerenciais e cos são impedidos de se beneficia-
acadêmicas, por meio dos rem dos mesmos direitos civis, polí-
Conselhos de Escola e das As-
ticos, econômicos, sociais e culturais
sembleias Escolares.
comuns a outros grupos da socie-
Enfim, a disposição para a mu- dade (GOMES, 2011).
dança e para a transformação da es- A discriminação racial e étnica
cola (incluindo formação de docen- continua a ser um dos maiores pro-
tes, trabalho com os estudantes, par- blemas de direitos humanos no
ticipação dos demais funcionários e mundo atual, atingindo tanto mino-
articulação com a comunidade) po- rias étnicas quanto, em alguns casos,
tencializa a capacidade de atuação e populações inteiras. Muito da aten-
fortalece todo o trabalho educativo ção internacional recaiu sobre o
escolar. A escola tem mais força para apartheid na África do Sul, extinto
atingir suas metas educativas com os em 1994. Entretanto, a luta contra o
estudantes, o que reforça a própria ódio étnico e racial continuou du-
instituição e produz um efeito cu- rante a década de 1990, violenta-
mulativo, proporcionando transfor- mente acometida pelos piores con-
mações cada vez mais profundas e flitos étnicos jamais vistos nos Bál-
duradouras (ARAÚJO, 2007). cãs e na região dos Grandes Lagos na
África.
Enquanto Raça é definida co-
Os Direitos das Minorias Étni-
mo um grupo de pessoas de comum
cas e Raciais
ancestralidade, diferenciada dos ou-
tros por características físicas, tais
Uma das bases fundamentais
como tipo de cabelo, cor dos olhos e
dos direitos humanos é o princípio
pele, estatura, entre outras; étnico é
que todos os seres humanos nascem
definido como relativo ou caracterís-
livres e iguais em dignidade e direi-
tico de um grupo humano que tem
tos. Discriminação e perseguição

72
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

certos traços raciais, religiosos, lin- Mas vamos aos direitos das
guísticos, entre outros, em comum minorias étnicas e raciais que são
(Dicionário Inglês Collins) protegidos por leis internacionais de
Nas leis internacionais dos di- direitos humanos como se segue:
reitos humanos, o termo raça é ge-
ralmente utilizado em um sentido a. O direito de estar protegido contra
mais amplo e frequentemente se a discriminação racial, o ódio e a vi-
confunde com outras distinções en- olência:
tre grupos de pessoas baseadas na
religião, etnia, grupo social, língua e A legislação internacional de
cultura. O termo raça, nas leis sobre direitos humanos exige dos Estados
os direitos humanos, é utilizado por que não perpetrem ações de discri-
vezes para designar grupos que não minação racial e que implementem
se enquadram em distinções biológi- medidas para prevenilas em institui-
cas de grupo como, por exemplo, os ções públicas, organizações e rela-
sistemas de castas na Índia e Japão. ções pessoais. A natureza das medi-
O artigo primeiro da Conven- das pode variar de tratado para tra-
ção Internacional sobre a Elimina- tado, mas devem incluir a obrigação
ção da Discriminação Racial não de- de rever leis e políticas para assegu-
fine raça, mas define discriminação rar sua posição não-discriminatória,
racial para designar qualquer distin- a erradicação da segregação racial e
ção, exclusão, restrição ou preferên- apartheid, penalizando propagan-
cia baseadas na raça, cor, descen- das que pregam a superioridade ra-
dência, nacionalidade ou origem ét- cial e o banimento de organizações
nica com o propósito ou efeito de que promovam o ódio e a discrimi-
anular ou impedir o reconhecimen- nação racial.
to, o gozo ou o exercício, em pé de
igualdade, dos direitos humanos e b. Direito à igual proteção diante das
das liberdades fundamentais nos leis relativas à questão de origem ét-
campos políticos, econômicos, soci- nica e racial:
ais e culturais ou qualquer outro da
vida pública. Etnia é explicitamente As minorias étnicas e raciais
entendida sob esta definição pelo têm direitos iguais e a lei deve ser
termo raça. Muitos tratados sobre os igualmente aplicada aos vários gru-
direitos humanos se referem à raça e pos civis, políticos, sociais e cultu-
não utilizam a terminologia etnia. rais. A maioria dos tratados de direi-

73
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

tos humanos (mesmo aqueles que práticas culturais, religiosas, lin-


não tratam especificamente da ques- guísticas e de valores de um Estado
tão racial ou étnica) contém provi- e as práticas de grupos minoritários.
sões específicas contra a discrimina- Alguns Estados têm reagido insis-
ção e exigem dos Estados que apli- tindo em um determinado grau de
quem os princípios da lei dos direi- reconhecimento da cultura e lingua-
tos humanos equanimemente a to- gem dominantes.
das as pessoas, independentemente
de sua raça, religião, origem social, d. Direito de se beneficiar de medi-
entre outros. das afirmativas adotadas pelo Es-
Tratamento desigual no siste- tado para promover a harmonia ra-
ma da justiça criminal tem sido uma cial e os direitos das minorias raci-
área particular de interesse de inú- ais:
meros países com práticas, tais co-
mo o perfil racial (parar ou procurar Os governos são obrigados a
por suspeitos com base na origem tomar medidas especiais que asse-
racial) ou mesmo o tratamento desi- gurem o desenvolvimento e a prote-
gual nas prisões, nos processos ou ção adequados às minorias raciais.
nos sentenciamentos de acusados. Isso inclui programas de ações afir-
Desigualdade na oferta de cuidados mativas. Os Estados devem promo-
médicos, habitação e emprego para ver o entendimento racial por meio
minorias étnicas e raciais também do sistema educacional.
são áreas comuns de atenção.
e. Direito de pedir asilo por razões
c. O direito de grupos étnicos e raci- bem fundamentadas pelo receio de
ais de desfrutar de sua própria cul- perseguição com base na raça, reli-
tura, de praticar sua própria religião gião, nacionalidade, pertencimento
e de usar sua própria língua: a um grupo social particular ou opi-
nião política:
Esse direito aparece em mui-
tos tratados internacionais de direi- Essa provisão dentro das leis
tos humanos e é de consenso que to- de proteção internacional aos refu-
dos os grupos étnicos e raciais são li- giados permite que os indivíduos
vres para agir de acordo com suas procurem por asilo em outro Estado
heranças culturais. Algumas vezes, se o país de origem é incapaz para
podem ocorrer conflitos entre as protegê-lo de perseguição por moti-

74
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

vos raciais, entre outros. Esse é um no passado. Esse debate é similar


dos poucos casos nos quais a incapa- àquele que envolve questões de re-
cidade do Estado em assegurar leis paração aos antigos escravos.
de proteção aos direitos humanos A verdade é que em pleno sé-
concede aos indivíduos a possibili- culo XXI, como iniciamos o módulo,
dade de procurarem proteção em a globalização, as políticas neolibe-
outro país. Além disso, os Estados rais, a segurança global dos povos
devem aplicar as provisões das leis mais ricos, são realidades que estão
de proteção internacional aos refu- acentuando a exclusão, em suas di-
giados de modo a não discriminar ferentes formas e manifestações. No
ninguém com base racial. entanto, não afetam igualmente a
todos os grupos sociais e culturais,
f. Direito à assistência: nem a todos os países e, dentro de
cada país, às diferentes regiões e
Os governos devem assegurar pessoas. São os considerados “dife-
serviços de proteção e assistência rentes”, aqueles que por suas carac-
efetiva por meio de tribunais nacio- terísticas sociais e/ou étnicas, por
nais competentes e outras institui- serem “portadores de necessidades
ções estatais. Os indivíduos também especiais”, por não se adequarem a
devem ter o direito de procurar a uma sociedade cada vez mais mar-
justa e adequada reparação de danos cada pela competitividade e pela ló-
por intermédio desses tribunais. gica do mercado, os “perdedores”, os
Esta disposição pode ser clara com “descartáveis”, que veem cada dia
relação a ações individuais, mas é al- negado o seu “direito a ter direitos”
tamente controversa quando apli- (ARENDT, 1997).
cada na reparação de danos causa- Com diz Candau (2007), este é
dos a grupos inteiros de pessoas. nosso momento e nele temos de bus-
A questão da assistência foi car, no meio de tensões, contradi-
um dos pontos polêmicos na Confe- ções e conflitos, caminhos de afir-
rência Mundial Contra o Racismo mação de uma cultura dos direitos
em 2001, com alguns países insis- humanos que penetre todas as práti-
tindo no direito à reparação, finan- cas sociais e seja capaz de favorecer
ceira, entre outros, e alguns gover- processos de democratização, de ar-
nos ocidentais (antigas potências co- ticular a afirmação dos direitos fun-
lonizadoras e os Estados Unidos) re- damentais de cada pessoa e grupo
sistindo a qualquer obrigatoriedade sociocultural, de modo especial os
de reparação de abusos cometidos direitos sociais e econômicos, com o

75
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

reconhecimento dos direitos à dife- Enquanto fato, o multicultura-


rença. lismo diz respeito à convivência de
grupos distintos culturalmente num
Políticas de Reconheci- mesmo espaço territorial, o que o
mento/Ações Afirmativas torna um fenômeno antigo e que
atinge a quase todas as sociedades
Políticas de Reconhecimento contemporâneas em virtude das mi-
grações, tanto no nível dos Estados
A questão do multiculturalis- nacionais como no nível global
mo e das políticas de reconhecimen- (CORTINA, 2002 apud SILVA,
to são temáticas extremamente im- 2006).
portantes para as democracias oci- Já enquanto teoria de caráter
dentais. Entretanto, antes de traba- normativo, ela se apresenta como
lhar mais profundamente a conexão proposta de solução para os proble-
entre tais pontos, vamos relembrar o mas provenientes da convivência
que venha a ser o multiculturalismo. entre as pessoas e os diferentes gru-
Tal noção é hoje cada vez mais utili- pos culturais que buscam na coexis-
zada não somente nos meios acadê- tência conjunta, manter suas pautas
micos e políticos como no cotidiano culturais e sociais num mesmo terri-
por uma gama variada de pessoas, tório (SILVA, 2006).
estando seu significado associado a Relacionado a este segundo
diversos sentidos, o que faz com que sentido, é que o multiculturalismo
esta proliferação do termo não con- vem ganhando espaço, especialmen-
tribua para estabilizar ou esclarecer te nas áreas de filosofia, teoria polí-
seu significado (HALL, 2003 apud tica e nas ciências sociais ao longo
SILVA, 2006). das últimas décadas, pois busca efe-
Neste sentido, são possíveis tivar estratégias de resolução dos
diversas leituras do termo já que as- inúmeros conflitos étnico-culturais
sociado a contextos específicos e di- surgidos que apontam pela necessi-
ferenciados de variados Estados Na- dade de reconhecimento público das
cionais. Entretanto, via de regra, a minorias discriminadas existentes
noção de multiculturalismo vem nos limites territoriais dos Estados.
sendo entendida em dois principais Por este motivo encontramos
sentidos: como um fato social e uma variedade de modelos ou proje-
como uma teoria (CÁMARA, 2003, tos multiculturais de cunho político-
p. 163 apud SILVA, 2006). teórico, realizados tanto por setores

76
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

conservadores como pelos mais pro- afetadas em sua autoestima, auto-


gressistas. Nos interessa a Teoria do confiança e autorrealização.
reconhecimento com base em Char- A luta por uma construção
les Taylor. identitária pode ser compreendida
Marques (2008) ao resenhar a sob o mesmo enfoque de uma luta
obra de Patrícia Mattos: “A sociolo- pelo reconhecimento, partindo-se
gia política do reconhecimento: as da compreensão de que é a consu-
contribuições de Charles Taylor, mação de valores comuns (partilha-
Axel Honneth e Nancy Fraser”. São dos) que permite a edificação de
Paulo: Annablume, 2009, explica uma concepção de si, como sujeito
que o reconhecimento diz respeito a de dignidade e valor social.
um fenômeno cujo paradigma maior Enfim, é importante entender-
é o conflito social gerado a partir da mos a defesa do contexto multicul-
percepção que um sujeito tem do ou- tural, associado à necessidade de
tro no contexto da interação social. uma política legítima de reconheci-
Reconhecer-se e ser reconhecido mento público das diferenças, por
são, portanto, formas de olhar que parte das instituições públicas, justi-
se complementam e constituem o ficando desta forma a defesa da so-
processo de identificação. brevivência das comunidades cultu-
A constituição do homem pelo rais presentes nas sociedades multi-
fenômeno comunicativo, base do re- culturais por estarem vinculadas à
conhecimento mútuo, indica que as formação das identidades humanas,
relações intersubjetivas são essenci- bem como à concessão de direitos
ais no construir-se humano. Mattos, especiais aos grupos culturais espe-
afirma que Axel Honneth sugere a cíficos. Diante disto, subjaz uma no-
ideia de que, somente por meio das ção de cidadania que prima pelo
relações intersubjetivas, os sujeitos bem-estar dos diferentes grupos, di-
constituem e consolidam suas capa- ante da conjugação dos direitos fun-
cidades. damentais, que apresentam caráter
No mundo do trabalho con- individual com os direitos de caráter
temporâneo, cujas políticas indicam coletivo que levam em conta as par-
o caráter precarizador das ativida- ticularidades culturais dos grupos,
des laborais, as pessoas excluídas, sendo ambos exercidos dentro dos
ou sem chance de inclusão, são atin- limites territoriais e ideológicos do
gidas exatamente em sua autoima- Estado (SILVA, 2006).
gem e, por consequência, se veem Como diz Santos (2008), o de-
bate atual sobre grupos sociais,

77
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

identidades e inclusão parece ser tados internacionais de que o Brasil


atualmente a engrenagem que move é signatário, trazem proteção espe-
as lutas dos movimentos sociais no cial, como bem afirma Barroso
Brasil. A dúvida perpassa apenas a (BRASIL, 2013):
forma com que as demandas devem Não é outra a orientação aco-
ser satisfeitas: uns defendem políti- lhida pelos tratados internacionais
cas distributivas; outros, políticas de pertinentes, pelo Comitê de Direitos
reconhecimento e representação. Humanos da ONU e pela Corte Inte-
Enquanto que os adeptos da primei- ramericana de Direitos Humanos.
ra baseiam seu argumento na moral Como a cultura integra a personali-
kantiana que, pressupondo neutrali- dade humana e suas múltiplas mani-
dade, seria o discurso que mais se festações, compõe o patrimônio na-
aproximaria da justiça, os defenso- cional dos brasileiros (CF/88, Arts.
res do reconhecimento justificam a 215 e 216).
necessidade de observação das iden- Desse modo, a Cultura e a
tidades dos grupos sociais, conceito História dos Africanos e dos Afro-
próximo à ética hegeliana. brasileiros, no tocante ao ensino
De todo modo, o que vale na desde 1988, no entender de Costa
realidade é que as estratégias políti- Neto (2013), é norma constitucional
cas de visibilidade de grupos histori- e política pública, notadamente, co-
camente excluídos devem ser com- mo política de Estado. Todavia, o
preendidas como uma reinvindica- Ensino da Cultura e História da Áfri-
ção que promova a paridade de par- ca dos Afro-brasileiros, apenas em
ticipação. 2003 teve sua inclusão na LDB, e
sua regulamentação foi feita pelo
Educação Étnico-Racial Reco- Parecer nº 3/04 e pela Resolução nº
nhecida como Política Pública
01/04 do Conselho Nacional de
Educação.
O reconhecimento da política
Esse documento traz o reco-
pública para as questões étnico-raci-
nhecimento ao direito subjetivo à
ais está inserido na Constituição Fe-
Educação Étnico-Racial e que esta-
deral (CF/88) em relação à igualda-
belece a norma como política públi-
de, com erradicação das desigualda-
ca de Estado, que deve observar al-
des, sem discriminação, além da cri-
guns requisitos para sua efetivação:
minalização do racismo e da valori-
zação especialmente da cultura afri-  Objetivos;
 Elaboração; planejamento e
cana e dos afro-brasileiros, bem
execução;
como sua recepção nos diversos tra-

78
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

 Forma de financiamento. apesar de previsto como política pú-


blica de Estado, apenas se tornou
Entretanto, a formação dos norma sem eficácia plena, tratando
profissionais da Educação atuantes tão somente de programa de gover-
na Educação Básica, além do nível no, ainda em fase de implementa-
de extensão e pós-graduação (espe- ção, não reconhecida como política
cialização, mestrado, doutorado, de Estado (COSTA NETO, 2013).
pós-doutorado) é recente na ordem
legal (Decretos nº 6.755/09 c/c nº Ações Afirmativas e a SEPPIR
7.415/10), bem como em toda a es-
trutura da Educação. Sem embargo Ação Afirmativa é um con-
de posições divergentes, merece atu- junto de políticas que compreendem
alização, de modo a acrescentar a que, na prática, as pessoas não são
formação inicial e continuada nas tratadas igualmente e, consequente-
atividades fim (Educação) e meio mente, não possuem as mesmas
(Ensino) na estrutura da Educação oportunidades, o que impede o aces-
(COSTA NETO, 2013), bem como so destas a locais de produção de co-
dos profissionais da Saúde, Segu- nhecimento e de negociação de po-
rança Pública e os operadores do Di- der (MAYA, 2014).
reito, ainda que necessária aos de- Este processo discriminatório
mais profissionais das áreas afins. atinge de forma negativa, pessoas
O advento do Estatuto da que são marcadas por estereótipos
Igualdade Racial (Lei nº 12.288/10), que as consolidam socialmente co-
bem como a diversidade étnico-ra- mo inferiores, incapazes, degenera-
cial como novo princípio da LDB, das, entre outros, alocando-as em si-
vem reforçar o entendimento de que tuações de subcidadania e precarie-
o tema deve ser tratado como polí- dade civil.
tica pública de Estado no viés de po- Dito de outra forma, o racis-
lítica pública antirracista e de valori- mo, o machismo, a xenofobia, a ho-
zação da cultura, cujo instrumento mofobia, entre outras ideologias dis-
do ensino tem função basilar (COS- criminatórias, vincularam e vincu-
TA NETO, 2013). lam determinadas pessoas às carac-
Considerando esses aspectos terísticas coletivas e pejorativas que
iniciais, verifica-se que a implemen- as impedem de receber prestígio,
tação do Ensino da História e Cul- respeito e valoração social como um
tura da África e dos Afro-brasileiros, indivíduo qualquer, por meio de dis-

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

criminações, que na maioria das ve- lado socialmente como normal e su-
zes, são executadas indiretamente, perior. Diante disso, o que fazer para
ou seja, “por baixo dos panos”, nos transformar esta realidade? Foi exa-
bastidores, sem testemunhas e alar- tamente com intuito de responder
de. esta pergunta que a Ação Afirmativa
Imagine, por exemplo, uma surgiu.
executiva competente que não é pro- Ações afirmativas são políticas
movida na empresa em que trabalha focais que alocam recursos em bene-
porque o fato de ser mulher atrapa- fício de pessoas pertencentes a gru-
lharia o “clima” masculino já estabe- pos discriminados e vitimados pela
lecido entre os diretores. Ou um óti- exclusão socioeconômica no passa-
mo professor que é demitido porque do ou no presente. Trata-se de medi-
descobriram ou desconfiam que ele das que têm como objetivo combater
tenha um namorado. Ou um jovem discriminações étnicas, raciais, reli-
negro que não foi admitido na sele- giosas, de gênero ou de casta, au-
ção de emprego porque considera- mentando a participação de mino-
ram que ele não tem a “boa aparên- rias no processo político, no acesso à
cia” desejada. educação, saúde, emprego, bens ma-
O que estas situações têm em teriais, redes de proteção social e/ou
comum? Além de retratarem os pro- no reconhecimento cultural (GE-
cessos discriminatórios citados aci- MAA, 2011).
ma, são ocorrências que dificilmente Consistem em políticas públi-
serão comprovadas e penalizadas, cas (e também privadas) voltadas à
pois os responsáveis por elas contor- concretização do princípio constitu-
narão o machismo, a homofobia, o cional da igualdade material e à neu-
racismo que as fundamentam e da- tralização dos efeitos da discrimina-
rão diversas explicações suposta- ção racial, de gênero, de idade, de
mente neutras e naturalizadas para origem nacional, de compleição fí-
suas decisões. sica e situação socioeconômica (adi-
Entretanto, todos sabem que ção nossa). Impostas ou sugeridas
estas situações ocorrem diariamente pelo Estado, por seus entes vincula-
e prejudicam a vida de inúmeras dos e até mesmo por entidades pu-
pessoas que não correspondem ao ramente privadas, elas visam a com-
padrão ‘eurocentrado’ (masculino, bater não somente as manifestações
branco, cristão, heterossexual, fisi- flagrantes de discriminação, mas
camente capaz, entre outros) estipu- também a discriminação de fundo

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

cultural, estrutural, enraizada na so- Bolívia, Peru, Equador, México, Bra-


ciedade. De cunho pedagógico e não sil, entre outros) com critérios varia-
raramente impregnadas de um cará- dos como, por exemplo, casta, defi-
ter de exemplaridade, têm como me- ciência física, descendência, etnia,
ta, também, o engendramento de gênero, nacionalidade, raça, entre
transformações culturais e sociais outros. (MAYA, 2014).
relevantes, inculcando nos atores O próprio Brasil possui um
sociais a utilidade e a necessidade de histórico de políticas de cunho afir-
observância dos princípios do plura- mativo:
lismo e da diversidade nas mais di-  A Lei dos Dois Terços (5.452/
versas esferas do convívio humano 1943) do governo Getúlio Var-
(GOMES, 2001). gas; onde 2/3 do trabalhado-
A Ação Afirmativa é um con- res de uma empresa deveriam
ter nacionalidade brasileira;
junto de políticas que tem como ob-
 A Lei do Boi (5465/1968) que
jetivo combater práticas discrimina- reservou vagas nas institui-
tórias e equacionar suas consequên- ções de ensino - médio e supe-
cias na medida em que possibilita rior - agrícolas para agriculto-
que pessoas marcadas por estereóti- res e filhos destes;
pos coletivos e negativos acessem  A Lei 8.112/1990 que prescre-
posições de poder, que historica- ve cotas para portadores de
mente lhes foram cerceadas. Sendo deficiências físicas no serviço
público civil da União;
assim:
 A Lei 9.504/1997 que preco-
 São medidas especiais, porque niza cotas para mulheres nas
agem focadas nos grupos mar- candidaturas partidárias, en-
ginalizados; tre outras.
 São temporárias, pois pos-
suem objetivos determinados Entretanto, a medida mais po-
que quando alcançados tor-
lemizada é o sistema de cotas para
nam-nas desnecessárias;
 E podem ser elaboradas e exe- negros e negras em instituições de
cutadas pelo estado e/ou pela ensino superior (IES), que desde
iniciativa privada de maneira 2003 já possibilitou dezenas de mi-
compulsória ou espontânea. lhares de vagas em mais de cinquen-
ta IES em todo país. Outra medida
Há inúmeras experiências de afirmativa em vigor em nosso país é
políticas afirmativas em todo mun- a Lei nº 11.639/03, que modificou a
do (Índia, Malásia, África do Sul, LDB nº 9394/96, obrigando o ensi-
Gana, Guiné, Argentina, Paraguai, no da história e da cultura africana e

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

afro-brasileira em todo sistema edu- nual, as ações da Secretaria de Polí-


cacional brasileiro, seja público ou ticas de Ações Afirmativas para o pe-
privado. ríodo 2012-2015 terão como centra-
Por fim, ficam as palavras do lidade no campo das ações afirmati-
Ministro do Supremo Tribunal Fe- vas as seguintes metas:
deral, Joaquim Benedito Barbosa  Implementar o Programa Na-
Gomes, sobre o potencial transfor- cional de Afirmativas nos Mi-
mador da Ação Afirmativa. Entre os nistérios;
objetivos almejados com as políticas  Reduzir as mortes por homicí-
dio na juventude negra;
afirmativas está o de induzir trans-
 Estabelecer acordos para a in-
formações de ordem cultural, peda-
clusão da população negra no
gógica e psicológica aptas a subtrair mercado de trabalho;
do imaginário coletivo a ideia de su-  Realizar e apoiar campanhas
premacia e subordinação de uma ra- de valorização da pessoa negra
ça em relação a outra (MAYA, 2014). e de enfrentamento ao racis-
No debate público e acadêmi- mo, divulgando as manifesta-
co, a ação afirmativa com frequência ções da cultura, a memória e as
tradições afro-brasileiras;
assume um significado mais restrito,
 Ampliar o número de organi-
sendo entendida como uma política zações públicas e privadas que
cujo objetivo é assegurar o acesso a adotam medidas de prevenção
posições sociais importantes a mem- e enfrentamento ao racismo
bros de grupos que, na ausência des- institucional;
sa medida, permaneceriam excluí-  Reduzir a morbidade/mortali-
dos. Nesse sentido, seu principal ob- dade materna entre as mulhe-
jetivo seria combater desigualdades res negras;
 Construir cadastro de progra-
e dessegregar as elites, tornando sua
mas de ações afirmativas no
composição mais representativa do âmbito das três esferas de Go-
perfil demográfico da sociedade verno e da iniciativa privada.
(GEMAA, 2011).
De acordo com a Secretaria de Em relação às ações na área de
Políticas de Promoção da Igualdade Educação, a SEPPIR, informa os se-
Racial (SEPPIR), do conjunto das guintes programas:
metas enunciadas no Plano Pluria-

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

Programa Definição

Programa Institucional de Inicia- Convênio com o CNPq para concessão de 800 (oitocentas)
ção Científica nas Ações Afirmati- bolsas anuais de iniciação científica (sendo 700 do CNPq e
vas (PIBIC-AF) 100 da SEPPIR), para estudantes de graduação que perten-
çam ao público-alvo de ações afirmativas de ingresso na uni-
versidade, prioritariamente da população negra.

Programa de Extensão Universi- Programa do MEC destinado a potencializar e ampliar os pa-


tária - PROEXT tamares da qualidade das ações de extensão das universida-
des como um de seus tripés fundantes - ensino, pesquisa e
extensão. A SEPPIR participa a partir de 2011, quando ocorreu
a seleção das 23 propostas que começarão a serem executa-
das a partir de janeiro de 2012, totalizando um montante or-
çamentário previsto em 2,2 milhões de reais.

Selo Educação para a Igualdade Ação de reconhecimento de boas práticas de escolas e secre-
Racial tarias de educação na implementação da Lei nº 10.639/03.
Primeira edição foi realizada em 2011. Em 2012 está prevista a
realização de uma segunda edição do Selo

Projeto A Cor da Cultura Produção e disseminação de material, em consonância com


a Lei nº 10639, valorizando a escola pública como referência
na construção de identidades coletivas e individuais positi-
vas.

Curso Gênero e Diversidade na Originalmente iniciado como uma ação de formação na te-
Escola (GDE) mática de gênero e feminismo para o corpo docente da rede
pública de educação, desdobrou-se num curso de formação
de professoras/es nas temáticas de gênero, relações étnico-
raciais e orientação sexual.

Curso de Gestão de Políticas Pú- Criado a partir da experiência do GDE, tem como objetivo
blicas em Gênero e Raça (GPP- instrumentalizar as/os participantes para intervenção nos
GeR) processos de concepção, elaboração, implementação, moni-
toramento e avaliação dos programas e ações de forma a as-
segurar a transversalidade e a intersetorialidade de gênero e
raça nas políticas públicas. É dirigido a servidoras/es dos três
níveis da Administração Pública, preferencialmente, gesto-
ras/es das áreas de educação, saúde, trabalho, segurança e
planejamento, integrantes dos Conselhos de Direitos da
Mulher, do Fórum Intergovernamental de Promoção da
Igualdade Racial, dos Conselhos de Educação, dirigentes de
organismos não governamentais ligados à temática de gê-
nero e da igualdade étnico-racial.

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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

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