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Distúrbios de

Aprendizagem
1. Principais Distúrbios da Aprendizagem 4
1.1. Transtorno de Déficit de Atenção (TDAH) 4
1.1.1. Sintomas 5
1.1.2. Causas 6
1.2. Disgrafia e Dislexia 7
1.2.1. História Clínica 7
1.2.2. Diagnóstico 8
1.2.3. Fatores de Risco 10
1.2.4. Tratamento 10
1.2.5. Prognóstico 11
1.3. Discalculia 11

2. Abordagem Psicológica dos Distúrbios de Aprendizagem


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A Escola e o Desenvolvimento das Funções Psicológicas
Superiores 15

3. Distúrbios na Escrita 20
Disgrafia 20
3.2. Disortografia 22
3.3. Erros de Formulação e Sintaxe 23

4. Estudo da Lateralidade 25

5. Importância da Atuação Familiar 30

6. Relação Professor X Aluno 34

7. Psicopedagogia e Distúrbios de Aprendizagem 39

8. Referências Bibliográficas 43

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03
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

1. Principais Distúrbios da Aprendizagem

Fonte: acfarma.com.br1

D e acordo com Weiss (2020), os


distúrbios de aprendizagem
são dificuldades que algumas pes-
formações recebidas não são proces-
sadas adequadamente. Após receber
as informações, as crianças com di-
soas encontram ao aprender coisas ficuldades de aprendizagem não
novas, ainda na infância. Crianças conseguem processar as informa-
com dificuldades de aprendizagem ções corretamente.
têm dificuldade em aprender a es-
crever, ler, se concentrar e ficar qui- 1.1. Transtorno de Déficit de
etas. E, devido a isso, essas crianças Atenção (TDAH)
são geralmente consideradas pro-
blemáticas, rebeldes ou preguiçosas. Conforme Hudson (2019), O
Dificuldades de aprendizagem ocor- transtorno do déficit de atenção e hi-
rem quando o sistema nervoso cen- peratividade (TDAH) é uma doença
tral (SNC) não funciona bem e as in- neurobiológica, de origem genética,

1 Retirado em acfarma.com.br

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DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

que surge na infância e geralmente 1.1.1. Sintomas


acompanha o indivíduo durante
toda a vida. Se caracteriza por sinto- O TDAH se caracteriza por
mas de desatenção, inquietude e im- uma combinação de dois tipos de
pulsividade. sintomas: desatenção e hiperativi-
Em consonância com Silva dade-impulsividade.
(2014), podemos afirmar que o Segundo Barkley e Benton
TDAH foi oficialmente reconhecido (2011), o TDAH na infância geral-
por vários países e pela Organização mente está relacionado a dificulda-
Mundial da Saúde (OMS). Em al- des na escola e no relacionamento
guns países, como nos Estados Uni- com outras crianças, pais e professo-
dos, eles são protegidos pela lei res. Diz-se que as crianças são "avo-
quanto a receberem tratamento di- adas", "vivendo no mundo da lua",
ferenciado na escola. A esse res- geralmente "estabanadas" ou "liga-
peito, existe até um consenso inter- das por um motor" (isto é, não ficam
nacional publicado pelos médicos e quietam por muito tempo). Os me-
psicólogos mais famosos do mundo. ninos tendem a ser mais hiperativos
Este consenso consiste em uma pu- e impulsivos do que as meninas, mas
blicação científica feita após exten- todos apresentam desatenção.
sos debates por pesquisadores de Crianças e adolescentes com
todo o mundo, incluindo aqueles transtorno de déficit de atenção e hi-
que não fazem parte do mesmo peratividade podem apresentar
grupo ou instituição, e que não têm mais problemas comportamentais,
necessariamente as mesmas visões como dificuldades com regras e limi-
sobre todos os aspectos da doença. tes. Nos adultos, apresentam proble-
Conforme os autores Carin e mas de desatenção no trabalho e nas
Primavesi (2013), o TDAH é a do- atividades do dia a dia, e apresentam
ença mais comum entre crianças e também problemas de memória (são
adolescentes encaminhados para al- pessoas muito esquecidas). São in-
gum tipo de serviço especializado. quietos, e parece que estão rela-
Em várias regiões do mundo estuda- xando apenas quando dormem),
das, sua incidência é de 3% a 5% das constantemente mudam de uma
crianças. Embora os sintomas de an- coisa para outra, e também são
siedade sejam leves, mais da metade muito. Na maioria das vezes, é difícil
das pessoas serão acompanhadas para eles avaliar suas ações e seu im-
por essa doença na idade adulta. pacto nas pessoas ao seu redor, por-

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DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

tanto frequentemente são conside- norepinefrina), que transmitem in-


rados egoístas. Na maioria das ve- formações entre os neurônios. As
zes, adultos portadores de TDAH, principais causas que foram investi-
apresentam uma grande incidência gadas para estas alterações nos neu-
de outros problemas associados, rotransmissores da região frontal e
como o uso de drogas e álcool, ansi- suas conexões, são:
edade e depressão.  Hereditariedade - os genes pa-
recem ser responsáveis não
1.1.2. Causas pelo transtorno em si, mas por
uma predisposição ao TDAH.
A prevalência da doença entre
Para autores como Döpfner,
os parentes das crianças afeta-
Frölich e Metternich (2016), muitos das são cerca de 2 a 10 vezes
estudos em todo o mundo (inclusive mais do que na população em
no Brasil), têm mostrado que a pre- geral (isto é chamado de recor-
valência de TDAH é semelhante em rência familial).
diferentes regiões, o que indica que  Substâncias ingeridas na gra-
a doença não é secundária a fatores videz - observa-se que a nico-
culturais, como os pais educam seus tina e o álcool quando ingeri-
dos durante a gravidez podem
filhos ou surgem devido a conflitos causar alterações em algumas
psicológicos. Pesquisas científicas partes do cérebro do bebê, in-
mostram que pessoas com TDAH cluindo-se aí a região frontal
apresentam alterações nas áreas orbital. Pesquisas indicam que
frontais e conexões com outras par- mães alcoolistas têm mais
tes do cérebro. Comparada com ou- chance de terem filhos com
problemas de hiperatividade e
tras espécies animais, a região fron-
desatenção.
tal orbital é uma das áreas mais de-
 Sofrimento fetal – de acordo
senvolvidas do ser humano, respon- com os autores, existem estu-
sável por inibir comportamentos (ou dos que mostram que mulhe-
seja, controlar ou inibir comporta- res que tiveram problemas no
mentos inadequados), como aten- parto que causaram sofri-
ção, memória, autocontrole, organi- mento fetal possuem mais
zação e planejamento. O que parece chance de terem filhos com
TDAH. A relação de causa não
estar alterado nessa área do cérebro é clara. Talvez mães com
é a função do sistema de substâncias TDAH sejam mais descuida-
químicas chamado neurotransmis- das e assim possam estar mais
sores (principalmente dopamina e predispostas a problemas na

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DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

gravidez e no parto. Ou seja, a rentes de déficits na fala, não espe-


carga genética que ela própria rados quando relacionadas a outras
tem (e que passa ao filho) é habilidades cognitivas e condições
que estaria influenciando a
educacionais. Podem levar também
maior presença de problemas
no parto. a dificuldades na compreensão da
 Exposição a chumbo – crian- leitura e experiência de leitura redu-
ças pequenas que sofreram in- zida, o que pode dificultar o desen-
toxicação por chumbo podem volvimento do vocabulário e dos co-
apresentar sintomas seme- nhecimentos gerais.
lhantes aos do TDAH. Entre- De acordo com Coelho (2016),
tanto, não há nenhuma neces- a disortografia é uma incapacidade
sidade de se realizar qualquer
exame de sangue para medir o específica de aprendizagem caracte-
chumbo numa criança com rizada por dificuldades em escrever
TDAH, já que isto é raro e pode sem erros ortográficos. Esta dificul-
ser facilmente identificado dade coexiste frequentemente com a
pela história clínica. dislexia. Ainda segundo o autor a
 Problemas Familiares – pro- disgrafia é uma incapacidade especí-
blemas familiares, como por fica de aprendizagem caracterizada
exemplo alto grau de discórdia
por dificuldades em escrever as le-
conjugal, baixa instrução da
mãe, famílias com apenas um tras manuscritas de forma legível e
dos pais, funcionamento fami- correta. Esta dificuldade pode exis-
liar caótico e famílias com ní- tir, ou não, num quadro de dislexia e
vel socioeconômico mais disortografia.
baixo, podem agravar um qua- Conforme Mousinho (2015), a
dro de TDAH, mas não causá-
dislexia é a mais comum das dificul-
lo.
dades de aprendizagem, sendo mais
frequente no sexo masculino. As
1.2. Disgrafia e Dislexia
proporções variam entre 2:1 a 3:1,
Em conformidade com Hud- com uma prevalência de 5 a 15 %.
son (2019), a dislexia é uma incapa-
cidade específica de aprendizagem, 1.2.1. História Clínica
de origem neurobiológica. É caracte-
rizada por dificuldade de correção Em conformidade com Olivier
e/ou leitura fluente de palavras e (2020), a anamnese é muito impor-
baixa habilidade de leitura e orto- tante para detectar a dislexia, pois o
grafia. Essas dificuldades são decor- diagnóstico é clínico e baseado na

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DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

história do desenvolvimento da cri- Segundo autores como Si-


ança, do seu percurso escolar, do seu mões, Moura e Pereira (2018), o
comportamento e sociabilização, exame objetivo nos casos de dislexia,
dos antecedentes familiares, e de consiste na avaliação das competên-
suas competências cognitivas. Esses cias implicadas no processo leitor:
dados são obtidos por meio de entre- linguagem oral, consciência fonoló-
vistas para obter informações deta- gica, princípio alfabético, fluência,
lhadas sobre: precisão e compreensão leitora, cali-
 Parto; grafia, ortografia e expressão es-
 Desenvolvimento afetivo emo- crita, memória fonológica e visual,
cional; desenvolvimento intelectual, aten-
 Visão; ção, velocidade de processamento
 Audição; da informação, funções executivas,
 Linguagem; cálculo aritmético, observação dos
 Hábitos de sono; cadernos e livros escolares.
 Adaptação ao jardim-de-in-
fância;
 Avaliações dos docentes; 1.2.2. Diagnóstico
 Dificuldades a nível da motri-
cidade fina; Para Muszkat (2018), a disle-
 Grafomotricidade; xia é um distúrbio neurológico do
 Relação com os pares; desenvolvimento, de origem tanto
 Dificuldades de resistência à biológica quanto neurológica, que é
frustração; a base das dificuldades cognitivas
 Dificuldades em memorizar relacionadas ao desempenho com-
cantilenas, nomes das cores, portamental. As origens neurobioló-
dos colegas, das estações do
gicas incluem a interação de fatores
ano, das letras, na leitura de
ditongos, em escrever com ca- genéticos, epigenéticos e ambien-
ligrafia regular e sem erros or- tais, que afetam a capacidade do cé-
tográficos; rebro de processar informações ver-
 Lentidão na realização dos tra- bais e não verbais de forma eficaz e
balhos escolares, na escola e precisa. Ao contrário da linguagem
em casa, necessidade de oral que surge à medida que o cére-
“ajuda” para a sua realização; bro amadurece, a leitura e a escrita
 História familiar de dificulda-
não são adquiridas naturalmente e
des na aprendizagem da lei-
tura e na ortografia. precisam ser claramente ensinadas e
aprendidas.

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DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

Em conformidade com Soares Em consonância com o DSM-


(2020), a dislexia não é o resultado 5, critérios diagnósticos para a disle-
da falta de oportunidade de aprendi- xia, são os seguintes:
zagem nem de uma desvantagem A. Dificuldades na aprendizagem, e
econômica ou ambiental. A capaci- no uso de competências acadêmi-
dade de leitura se desenvolve ao cas, conforme indicado pela pre-
longo de um período contínuo, não sença de pelo menos um dos sin-
há como definir naturalmente bons tomas a seguir, que tenha persis-
e maus leitores. tido por pelo menos 6 meses, ape-
Em alguns casos, as dificulda- sar de terem sido proporcionadas
des podem ser pouco visíveis nos intervenções dirigidas a essas di-
primeiros anos de escolaridade e só ficuldades:
se manifestam plenamente nos anos  Leitura de palavras incorreta,
escolares mais tardios quando as ou lenta e esforçada.
exigências de aprendizagem aumen-  Dificuldade em compreender
tam. o significado do que é lido.
As dificuldades de aprendiza-  Dificuldades na ortografia.
 Dificuldades na expressão es-
gem podem ser específicas pelas se-
crita.
guintes razões:
 Dificuldades em dominar o
 Não são atribuíveis a deficiên- sentido de número, os factos
cias intelectuais; numéricos e o cálculo mental.
 Não podem ser atribuídas a fa-  Dificuldades no raciocínio ma-
tores externos; temático.
 Não podem ser atribuídas a
uma perturbação neurológica, B. As competências acadêmicas
motora, ou a deficiência visual
afetadas são substancialmente, e
ou auditiva.
quantitativamente, inferiores ao es-
A dislexia só pode ser diagnos- perado para a faixa etária e interfe-
ticada após o início da escola. Po- rem significativamente nas ativida-
rém, como a dislexia é causada por des escolares, cotidianas e profissio-
um déficit no processamento fonoló- nais.
gico, ela pode ser observada nos pri- C. As dificuldades iniciam-se em
meiros anos do bebê no nível oral. idade escolar, mas podem manifes-
Neste caso, é importante avaliar a tar-se apenas na idade adulta.
capacidade de fala e iniciar um pro- D. Para concluir o diagnóstico de-
grama de reeducação antes de ini- vem ser eliminados déficits cogniti-
ciar a pré-escola (WEISS, 2020). vos, visuais e auditivos, problemas

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DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

mentais e neurológicos e condições pecialistas treinados no uso de mé-


adversas (problemas psicossociais, todos sistemáticos, cumulativos e
ensino inadequado…). multissensoriais, que também en-
volvem os aspectos sensoriais (audi-
tivo, visual, tato, integração senso-
1.2.3. Fatores de Risco rial). Eles também precisam de um
treinamento estruturado e intensivo
De acordo com Bastos (2015), para reconhecer erros de leitura e
os principais fatores de risco para a ortografia e corrigi-los imediata-
dislexia, são: mente para evitar a memorização de
 Ambientais - prematuridade e imagens incorretas.
peso muito baixo ao nascer, Segundo Muszkat (2018), é
exposição pré-natal à nicotina. muito importante trabalhar em es-
 Genéticos e fisiológicos - o treita colaboração com professores e
risco é substancialmente
pais para realizar este trabalho. No
maior, 4 a 8 vezes mais ele-
vado, em parentes de primeiro processo de avaliação, a escola deve
grau com essas dificuldades, fornecer apoio pedagógico persona-
história familiar de dificulda- lizado e adaptação de acordo com as
des de leitura e escrita. Existe necessidades específicas de cada cri-
elevada heritabilidade na ca- ança. Dependendo do ano letivo em
pacidade e incapacidade de que vão para a escola e do nível de
leitura.
dificuldade de cada criança, o pro-
fessor pode precisar ler os enuncia-
1.2.4. Tratamento
dos, escrever as resposta verbal-
Conforme Sampaio (2014), a mente, dar tempo extra para com-
intervenção reeducativa é um trata- pletar a tarefa e não ser punido por
mento muito eficaz nos casos de dis- erros ortográficos, que devem ser
lexia. identificados e corrigidos com uma
Com a ajuda adequada, crian- metodologia específica para cada
ças com dislexia podem aprender a tipo de erro, a fim de evitar a sua re-
ler e escrever corretamente. A iden- petição) e ser registrado. O princípio
tificação e intervenção rápida desse educacional mais importante é que a
transtorno, são essenciais para o su- criança nunca deve enfrentar mate-
cesso do tratamento. riais de leitura que contenham letras
Crianças com dislexia preci- que ainda não foram pronunciadas.
sam de assistência individual de es- Ela deve ler e ler muitas coisas, mas

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DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

só pode ler textos com habilidades seu prognóstico depende do grau de


que já aprendeu. déficit, habilidade cognitiva, comor-
Para o autor Mousinho (2015), bidades, precocidade e eficácia das
os métodos de ensino de leitura usa- intervenções reeducativas. A disle-
dos com frequência, não têm efeito xia é um distúrbio da linguagem,
em crianças com dislexia, porque portanto, algumas manifestações
não prestam atenção às habilidades podem ser observadas antes de
de decodificação que essas crianças aprender a ler. A linguagem emer-
precisam para ter sucesso na apren- gente e as habilidades de leitura são
dizagem. O ensino de crianças com os indicadores mais relevantes de
dislexia deve seguir orientações es- futuras dificuldades de leitura. Exis-
pecíficas, envolvendo tanto as habi- tem alguns indícios de que poderão
lidades que devem ser ensinadas ocorrer dificuldades no futuro, e se
quanto os princípios dos métodos de esses sinais persistirem por vários
ensino que devem ser seguidos. Os meses, os pais devem procurar ava-
programas de ensino estruturado, liação especializada. A intervenção
fónico-silábicos, multissensoriais, precoce pode ser o fator mais impor-
sistemáticos e cumulativos, podem tante na recuperação de leitores dis-
não só ajudar crianças com dislexia, léxicos.
mas também é o mais eficaz para to-
das as crianças. O programa de en- 1.3. Discalculia
sino estruturado ensina às crianças
as várias habilidades que elas preci- De acordo com Weiss (2020),
sam aprender para que possam pro- as habilidades matemáticas são fun-
gredir na complexa jornada de damentais e são necessárias o tempo
aprender a ler até conseguir a ter lei- todo no nosso dia a dia. Além disso,
tura fluente e compreensiva: consci- o prejuízo nas habilidades matemá-
ência fonológica, correspondências ticas pode, pelo baixo desempenho
sons-letras, leitura de sílabas e pala- em testes, dificultar o acesso a mui-
vras, leitura fluente e precisa, escre- tas profissões e com isso reduzir as
ver com uma caligrafia legível sem chances de um trabalho bem remu-
erros ortográficos. nerado.
A discalculia do desenvolvi-
1.2.5. Prognóstico mento é definida como um trans-
torno de aprendizagem específica
Como foi dito anteriormente, a que prejudica o domínio das habili-
dislexia sobrevive por toda a vida e dades aritméticas. Existem grandes

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DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

dificuldades em lidar com os núme- Para Hudson (2019), as habili-


ros, não existe nível de inteligência dades matemáticas biologicamente
abaixo do normal, distúrbios emoci- primárias referem-se as habilidades
onais, falta de motivação ou falta de que ocorrem naturalmente durante
acesso a escolaridade. A discalculia, o processo de desenvolvimento e
assim como a dislexia, pode ocorrer não requerem orientação. A capaci-
dentro de um espectro de inteligên- dade de processar números depende
cia: desde crianças com altas habili- de uma rede específica no cérebro
dades, com inteligência normal até localizada no sulco parietal. As habi-
crianças com retardo mental leve. lidades matemáticas biologicamente
Por esse motivo, o novo Manual da secundárias exigem instrução, prá-
Associação Americana de Psiquia- tica, concentração, esforço, entusi-
tria (DSM-V), não coloca a avaliação asmo e motivação.
por testes para provar a diferença A aquisição da linguagem pos-
entre habilidade cognitiva e desem- sibilita usar palavras para simboli-
penho matemático, como critério di- zar quantidades. Ao aprender o alfa-
agnóstico para mensurar transtor- beto, o código da linguagem pode ser
nos. aperfeiçoado e ampliado, e tem no-
Em consonância com Sampaio vas possibilidades de expressar rela-
(2014), aproximadamente 3-7% da ções quantitativas, que antes só po-
população sofre de discalculia, o que diam ser concretas e visíveis. Com a
é uma alta frequência. A causa da introdução do sistema árabe, as cri-
discalculia não é totalmente com- anças adquirem códigos mais abs-
preendida, mas os fatores genéticos tratos e eficazes para simbolizar e
estão definitivamente envolvidos, manipular números. Ao mesmo
pois as pessoas da mesma família tempo, as crianças desenvolvem
têm uma incidência maior do que a uma habilidade espacial - a reta nu-
população em geral. Outros fatores mérica mental - incluindo a repre-
de risco identificados são nasci- sentação de números ao longo de
mento prematuro, baixo peso ao uma linha, que é a base para permi-
nascer, TDAH, dislexia e Síndrome tir que realizem cálculos intelectu-
de Turner. Como fatores psicológi- ais, ou seja cálculos mentais (COE-
cos e socioeducacionais também po- LHO, 2016).
dem produzir baixo desempenho Conforme Campos (2015), nos
matemático, eles podem ser confun- casos de discalculia, o padrão de ati-
didos com a discalculia ou associa- vação cerebral é menos preciso, ou
dos a uma piora.

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DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

seja, menos ativação do sulco intra-  Dificuldade em compreender e


parietal, o que sugere um processa- internalizar operações, regras
mento neuronal insuficiente, e mais matemáticas.
ativação de outras regiões, menos  Dificuldades nas habilidades
visuais e espaciais: uso de ro-
relevantes para o processamento
tas, mapas, orientação na ci-
matemático. Porém, deve-se ressal- dade, ou na estrada.
tar que as pessoas com discalculia  Dificuldade em estimar o
podem ser talentosas, criativas e tempo. Dificuldade em cum-
possuir altas habilidades linguísti- prir horários, estando fre-
cas. Os sintomas da discalculia são quentemente atrasado.
bem variáveis, alguns exemplos são:  Dificuldade em estimar gastos,
 Dificuldade na compreensão  Dificuldade em calcular medi-
de conceitos de medida, por das dos ingredientes em uma
exemplo, longo/curto, receita.
grande/pequeno,  Dificuldade em ler gráficos.
pouco/muito, mais/menos.  Dificuldade em estimar dis-
 Não conseguir reconhecer à tância e velocidade.
primeira vista, de imediato, os
pontos nas diferentes faces de O diagnóstico de discalculia
um dado, percebendo-os ape- requer avaliação por um psiquiatra e
nas quando os conta. uma equipe multidisciplinar, especi-
 Não conseguir lidar com quan- almente psicólogos e psicopeda-
tidade de dinheiro gogo, e a aplicação de testes especí-
 Precisar de muito tempo para
ficos (teste de memória de trabalho,
aprender a ver as horas no re-
lógio. abstração, atenção, concentração,
 A criança às vezes decora os linguagem, compreensão de núme-
resultados das operações para ros, compreensão de números, con-
poder realizá-las devidamente tagem e outras habilidades matemá-
 Dificuldades com o contar os ticas). As comorbidades são a regra
números em voz alta de trás das dificuldades de aprendizagem.
para frente, ou mesmo em or- Portanto, pessoas com dificuldades
dem crescente, pois não conse-
de movimento também podem en-
gue entender a posição de cada
número no sistema decimal. contrar problemas como dislexia,
 Trocar frequentemente a or- TDAH e ansiedade matemática. Os
dem dos números (21 ao invés distúrbios genéticos relacionados a
de 12). discalculia são: síndrome de Turner,
 Dificuldade com sinais ma- síndrome do X frágil, síndrome de
temáticos (>, <, +, %). Gerstmann (BERNARDI, 2014).

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DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

2. Abordagem Psicológica dos Distúrbios de Apren-


dizagem

Fonte: institutoneurosaber.com.br2

D e acordo com Sabino (2016), os


índices de evasão e repetência
escolar no Brasil são significativos e
dos casos, essas avaliações se limi-
tam a diagnosticar os alunos. Ao fa-
zer isso, aceitam que as queixas le-
se mantém constante há décadas, o vantadas sejam fatos reais, concre-
que comprova a seletividade de tos e verdadeiros que existem no in-
nosso sistema educacional, que im- divíduo. Essa abordagem legitima a
pede a maioria das crianças de fre- responsabilidade da criança por não
quentar a escola. aprender, o que a torna um alvo fácil
A história da educação no Bra- para rótulos como portadores de di-
sil registra a democratização das ficuldades de aprendizagem.
oportunidades escolares, através de
vagas, mas não da escolarização. Por A Escola e o Desenvolvi-
meio da análise desse panorama, po- mento das Funções Psico-
demos questionar um grande nú- lógicas Superiores
mero de avaliações psicoeducacio-
nais, que transferem as questões do Em conformidade com Palan-
ensino social para o âmbito indivi- gana (2015), a aprendizagem é ex-
dual, da aprendizagem. Na maioria tremamente relevante porque é um

2 Retirado em nstitutoneurosaber.com.br

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DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

processo de absorção da experiência volvimento psicológico, pois a gene-


humana ao longo do tempo, que per- ralização verbal torna a criança dona
mite a todos adquirir habilidades e de novos fatores de desenvolvi-
características humanas e criar no- mento (experiência social e hu-
vas habilidades e funções psíquicas. mana), e esses novos fatores de de-
Segundo ele, Vygotsky diz que as senvolvimento passam a ser a base
funções mentais superiores (como para a sua formação mental.
memória, atenção, abstração, aqui- Segundo La Taille, Oliveira e
sição de ferramentas, linguagem e Dantas (2019), No que diz respeito à
pensamento) são capazes de se de- psicologia históric0 cultural, as fun-
senvolver através da aquisição de ções psicológicas superiores existem
conhecimentos transmitidos histori- na forma de atividades psicológicas
camente, e esta deve ser a mediação internas, nas relações sociais antes
de que as crianças mais precisam de aparecerem como atividades in-
culturalmente. trapsíquicas. Através do processo de
Em outras palavras, o desen- internalização, o conteúdo das rela-
volvimento das funções psicológicas ções sociais é transformado em fun-
superiores ocorre na interação social ções psicológicas superiores, especi-
e é alcançado por meio do uso de sig- ficamente humanas. Portanto, a psi-
nos. Esses signos são entendidos cologia histórico cultural assume
aqui como ferramentas psicológicas, que os fatores biológicos determi-
que atuam sobre o psiquismo hu- nam a base das respostas inatas in-
mano e o modificam. Ainda de dividuais e, com base nisso, consti-
acordo com Vygotsky, os signos in- tuirão todo o sistema de respostas
cluem linguagem, vários sistemas de adquiridas, que depende mais da es-
contagem, técnicas mnemônicas, trutura do ambiente cultural em que
sistemas de símbolos algébricos, es- as crianças crescem e se desenvol-
quemas, gráficos, mapas, desenhos e vem. A educação escolar desempe-
vários tipos de signos convencio- nha um papel importante no pro-
nais. Na medida em que a o signo cesso de transformação das funções
não apenas mediatiza o pensa- psicológicas elementares em superi-
mento, mas também a produção e ores, através do ensino do conheci-
reprodução da sociedade humana, mento científico. É de extrema im-
ocorre a modificação. A linguagem é portância a aquisição da leitura, da
considerada um dos mais importan- escrita, do cálculo e dos fundamen-
tes signos que o promovem o desen- tos científicos para as crianças, pois

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DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

esses processos permitem a apropri-  Diferenças sociais e culturais


ação de grande parte da experiência que não são respeitadas no sis-
social e humana. tema de ensino;
Portanto, entende-se que o  Família que ainda é vista como
aquela que desvaloriza a edu-
professor deve ter a função de me-
cação formal em detrimento
diar entre os saberes já existentes e do trabalho, responsabili-
os alunos, pois o conteúdo do seu zando a criança pelo não-
trabalho no processo educativo aprender.
criam, individualmente, novas es-
truturas mentais nos alunos, decor- Para Soares (2020), as crian-
rentes dos avanços na qualidade do ças devem ser entendidas como in-
desenvolvimento de cada criança. divíduos que se desenvolvem ou
Para o autor, o conhecimento cientí- não, a partir do que o meio sociocul-
fico deve ser apropriado por todos os tural lhes oferece não só concreta-
membros da sociedade. Quando a mente, em termos de oferta dos ins-
escola não beneficia tal apropriação, trumentos materiais necessários
ela ajuda na manutenção da ordem para a aprendizagem, mas também
vigente, fazendo com que o conheci- dos processos de raciocínio que o
mento permaneça propriedade de homem adquiriu ao longo de milha-
determinada classe (OSTI, 2012). res de anos de evolução. Focar no
Conforme Mendes (2017), os processo de aprendizagem ao invés
elevados índices de dificuldades e de problemas e distúrbios de apren-
distúrbios de aprendizagem existen- dizagem, visa quebrar a atribuição
tes na realidade brasileira, pode ser de responsabilidade pela não apren-
devido a vários fatores, como: dizagem ou dificuldades de aprendi-
 Diagnósticos indevidos, resul- zagem às crianças, e tais obstáculos
tantes de concepções negati- ou origens são geralmente entendi-
vas sobre a criança e seu de- dos apenas como obstáculos psicoló-
senvolvimento e de práticas gicos, biológicos ou emocionais. Ao
educacionais e avaliativas que
contrário, a intervenção do psicó-
desconsideram a política edu-
cacional do país; logo deve se basear na reflexão junto
 Qualidade da escola oferecida ao professor e as crianças sobre a re-
aos seus usuários; lação estereotipada que existe na es-
 Relação professor-aluno; cola, pautadas em crenças que atri-
 Metodologia de ensino, a ade- buem a dificuldade no processo de
quação de currículo e o sis- escolarização à criança, tendo como
tema de avaliação adotado; resultado os números elevados de

17
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

repetência, evasão, exclusão e rotu- busca apreender o desenvolvimento


lação. humano a partir de uma perspectiva
Portanto, é necessário fazer histórica é possível compreender a
mudanças com base na educação, ao importância da mediação do adulto,
invés de mudanças segmentadas desde a formação e desenvolvimento
destinadas a afetar as crianças indi- dos conceitos espontâneos, adquiri-
vidualmente. Como resultado, o foco dos de uma forma não sistemática
não é mais ensinar as crianças a em seu meio familiar e social. E, pos-
aprender, mas aprender a ensinar as teriormente, sob a orientação de
crianças. Dessa forma, pode-se evi- educadores, os conceitos científicos
tar o uso de rótulos até que elas te- são adquiridos de forma sistemática
nham a chance de se adaptar, pelo nas escolas, o que é um fator que
menos, aos fundamentos básicos do gradativamente faz com que as cri-
aprendizado escolar. anças ajustem seu comportamento e
Somente quando todas as in- sua consciência, o que foi chamado
formações e análises sobre a escola por Vygotsky de processo de huma-
onde a reclamação surge forem es- nização. As ferramentas utilizadas
gotadas, e através dos resultados pelas pessoas (externas e internas,
desta pesquisa e intervenção, a ade- instrumentos e símbolos) não só
quação da escola pode ser verificada irão produzir mudanças fundamen-
e problemas como dificuldades de tais nas suas condições de vida, mas
aprendizagem podem ser resolvidos também terão um impacto sobre ele,
a nível individual. O papel da educa- alterando assim o seu estado psico-
ção escolar é criar habilidades na lógico.
nova geração que não são adquiridas Nesta abordagem, é impossí-
por meio da genética. Por isso, é ne- vel considerar apenas os produtos
cessário fazer com que a educação e de aprendizagem que são evidencia-
as condições de vida permitam às dos pelas habilidades externas ou
pessoas entrar em contato com a deficiência da criança, mas requer
cultura produzida pela história. uma compreensão de novas formas
Nesse sentido, o papel da escola é de comportamento como parte do
disseminar e absorver os saberes processo de adaptação ou instru-
clássicos acumulados pelo ser hu- mentalização cultural da criança.
mano ao longo dos tempos (MEN-
DES, 2017).
Em consonância com Palan-
gana (2015), apenas quando se

18
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

3. Distúrbios na Escrita

Fonte: www.isaude.com.br3

Disgrafia das letras, tornando-as ilegíveis.


Portanto, algumas crianças com dis-

D e acordo com Soares (2020), a


disgrafia é o distúrbio da pala-
vra escrita que se caracteriza por
grafia também possuem uma disor-
tografia, amontoando letras para
ocultar erros de ortografia.
uma leve falta de coordenação mo- No entanto, a disgrafia nada
tora, apresentando a mesma letra tem a ver com qualquer tipo de defi-
com movimentos diferentes e escrita ciência intelectual. A disgrafia é um
confusa, sendo assim chamada de ponto difícil no desenvolvimento da
letra feia. Isso se deve à incapaci- escrita, mas só é classificado
dade de lembrar a grafia das letras, e quando, por exemplo, a qualidade
ao tentar memorizar esses grafis- da obra escrita está muito abaixo do
mos, a criança escreve muito deva- nível intelectual do criador, quando
gar, resultando na união incorreta existe outras dificuldades, a escrita

3 Retirado em www.isaude.com.br

20
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

ruim vem associada a um baixo nível pressa e confusão.


intelectual. Ainda de acordo com o  Esforço excessivo de precisão
autor acima, a disgrafia geralmente e lentidão – quando o traçado
se manifesta com outras alterações é lento, há grande esforço de
direção e de controle.
sobrepostas, como distúrbios do de-
senvolvimento da leitura, distúrbios
A disgrafia é caracterizada por
do desenvolvimento matemático,
problemas na linguagem escrita, o
distúrbios das habilidades motoras e
que dificulta a transmissão de ideias
distúrbios do comportamento.
e conhecimentos por meio desse ca-
Conforme Weiss (2019), a dis-
nal de comunicação específico.
grafia consiste em uma deficiência
Desde a infância, os disgráficos, fre-
na qualidade do traçado gráfico, que
quentemente experimentam senti-
não são causadas por déficits de in-
mento de insegurança e desequilí-
teligência ou neurológico. Portanto,
brio em vários graus. As principais
crianças com inteligência média ou
características da disgrafia são:
acima, por vários motivos, possuem
caligrafia ilegível ou muito lenta, o
 Letra ilegível;
que dificulta o desenvolvimento
 Lentidão na escrita;
normal da escola. Portanto, pode-se  Escrita desorganizada;
entender que a deficiência na escrita  Traços irregulares - ou muitos
costuma afetar crianças em idade de fortes que chegam a marcar o
alfabetização. A disgrafia pode ser papel ou mais leves;
identificada em alguns pontos:  Desorganização das letras - le-
 Rigidez no traçado – quando a tras retocadas, hastes malfei-
escrita é muito inclinada e ge- tas, atrofiadas, omissão de le-
ralmente comprimida, mas re- tras, palavras, números, for-
gular de direção, crispada, so- mas distorcidas, movimentos
brecarregada de ângulos e em- contrários a escrita (um S ao
pelotada, dando uma ideia de invés do 5 por exemplo);
grande tensão.  Desorganização das formas -
 Relaxamento gráfico – quando tamanho muito pequeno ou
é irregular na direção e na di- muito grande, escrita alonga-
mensão, as letras são malfor- das ou comprimida;
madas e as margens mal orga-  O espaço que dá entre as li-
nizadas. nhas, palavras e letras é irre-
 Impulsividade e instabilidade gular;
no traçado – há falta de con-  Liga as letras de forma inade-
trole no gesto gráfico, geral- quada e com espaçamento ir-
mente dá-se a impressão de regular.

21
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

des metacognitivas de regula-


3.2. Disortografia ção e controle esta atividade);
 Aspetos perceptivos, intelec-
De acordo com Hudson tuais, linguísticos, afetivo-
emocionais e pedagógicos.
(2019), etimologicamente, a palavra
disortografia deriva dos conceitos
Para Silva (2015), uma criança
“dis” (desvio) + “orto” (correto) +
com disortografia demonstra, geral-
“grafia” (escrita), ou seja, é uma difi-
mente, falta de vontade para escre-
culdade manifestada por um con-
ver e os seus textos são reduzidos,
junto de erros da escrita que afetam
com uma organização pobre e pon-
a palavra, mas não o seu traçado ou
tuação inadequada. A sua escrita
grafia. A disortografia pode ser defi-
apresenta numerosos erros ortográ-
nida como obstáculos que podem
ficos de natureza muito diversa,
afetar as habilidades de escrita, e po-
como:
dem se traduzir em dificuldades per-
 Erros de caráter linguístico-
sistentes e repetitivas na capacidade
percetivo;
das crianças de escrever textos. As  Erros de caráter visual e espa-
dificuldades se concentram na orga- cial;
nização, estrutura e composição dos  Erros de caráter visual e analí-
textos escritos, as frases são mal es- tico;
truturadas e geralmente curtas, com  Erros relativos ao conteúdo;
vários erros de ortografia e, às vezes,  Erros referentes às regras de
qualidade gráfica ruim. ortografia;
Segundo Coelho (2016), as
causas que podem justificar as difi- A intervenção junto do aluno
culdades disortográficas, são: com disortografia não deve estar su-
jeita a um modelo específico, mas
 Problemas na automatização
dos procedimentos da escrita, sim a uma variedade de técnicas,
que se traduzem na produção que não devem apenas corrigir erros
deficiente de textos; ortográficos, mas também conside-
 Estratégias de ensino imaturas rar a audição, a percepção visual e
ou ineficazes, com a conse- temporal, bem como a memória, a
quente ignorância das regras audição e a visão. Por outro lado,
de composição escrita;
também é importante distinguir er-
 Desconhecimento ou dificul-
dade em recordar os processos ros ortográficos de falhas na com-
e subprocessos implicados na preensão, que possibilitam a criança
escrita (carência nas capacida- de dar respostas detalhadas ou não.

22
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

Durante a avaliação, é impor- de papel. Embora seu nível oral seja


tante dar-lhe mais tempo para res- alto e ela tenha uma boa compreen-
ponder às perguntas e certificar-se são do conteúdo da leitura, ela ainda
de que compreendeu a afirmação ou se mostra incapaz de produzir um
pergunta, a expressão oral privilegi- texto próprio.
ada também pode ser uma boa estra- Nos distúrbios de sintaxe, que
tégia. Por fim, é importante acres- podem ocorrer independentemente
centar que, independentemente do dos erros de formulação, podem
procedimento adotado, é impor- ocorrer erros como palavras ausen-
tante que os educadores, conside- tes, ordem errada das palavras, uso
rem as reais capacidades e dificulda- incorreto de verbos e pronomes, ter-
des das crianças e sejam capazes de minações erradas de palavras e falta
planejar uma série de atividades que de pontuação. Os distúrbios de for-
atendam a essas habilidades especí- mulação e sintaxe escrita são muito
ficas (COELHO, 2016). frustrantes, pois a criança sente que
é capaz de competir com os outros
3.3. Erros de Formulação e Sin- em atividades escolares até o mo-
taxe mento em que é solicitada a transfe-
rir seu conhecimento oral para a es-
De acordo com Sampaio crita. Apesar da complexidade do
(2014), os erros de formulação e sin- problema, é possível atingir algum
taxe referem-se a situações em que progresso, caso a criança seja enca-
as crianças conseguem ler fluente- minhada para um tratamento ade-
mente e apresentar uma linguagem quado (WEISS, 2020).
falada perfeita, compreender e co-
piar palavras, mas não conseguem
escrever cartas, histórias ou respon-
der a perguntas feitas em testes. Ge-
ralmente, cometem erros ao escre-
ver que não apresentam oralmente.
Além disso, elas não consegue disse-
minar o conhecimento adquirido
oralmente por escrito.
É difícil para crianças com de-
sordem na formulação escrita ex-
pressar seus pensamentos com sím-
bolos gráficos (letras), numa folha

23
24
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

4. Estudo da Lateralidade

Fonte: www.infoescola.com4

D e acordo com Fonseca (2019),


para iniciar o estudo da latera-
lidade, a importância de determinar
corporal e a organização do compor-
tamento do movimento de percep-
ção. Assim, o esquema corporal se
a direcionalidade espacial de direção estabelece através do recebimento
deve ser enfatizada. A orientação es- de:
pacial, em última análise, determina  Estímulos proprioceptivos –
a direcionalidade no conceito de es- referem-se às sensações cines-
querda e direita no próprio corpo. tésicas que nascem do próprio
Todos os movimentos corporais rea- corpo (origem interna);
 Estímulos exteroceptivos –
lizados por uma pessoa são resulta-
são aqueles estímulos externos
dos de projeções de seu próprio ao organismo e que agem so-
corpo no espaço ao seu redor, o que bre ele, são estímulos forneci-
requer a construção de um plano dos através de experiências
sensitivas e sensoriais;

4 Retirado em www.infoescola.com

25
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

 Estímulos interoceptivos – são das práticas motoras, onde o movi-


aqueles relacionados com as mento realiza um papel essencial.
sensações das vísceras, como a Em relação à orientação espa-
fome, a sede e outras necessi- cial, a percepção é considerada uma
dades.
das formas sensório-motoras produ-
zidas pela estimulação sensorial e,
A união desses estímulos é es-
neste caso, a percepção é conside-
tabelecida durante o desenvolvi-
rada uma habilidade adquirida
mento do movimento neuropsico-
(CRUZ, 2019).
motor do indivíduo. Nesse processo,
Conforme Lovisaro (2011), o
a experiência de combinar o próprio
posicionamento e a estrutura espa-
corpo com os estímulos do ambiente
cial são baseados na compreensão e
desempenha um papel importante
domínio dos conceitos de contraste.
na determinação final do esquema
É com base nesses conceitos que as
corporal.
crianças começam a se orientar no
espaço. Os contrastes estão dividi-
dos em cinco categorias. São elas:
 Noções de intensidade - estão
ligados ao grau de força dos es-
tímulos percebidos pelas dife-
rentes vias sensoriais, como
por exemplo, claro-escuro,
forte-fraco, duro-mole e ou-
tros;
 Noções de grandeza - que se
refere às noções espaço-tem-
porais, como por exemplo
Fonte: oren.aif.ru grande-pequeno, longo-curto
e outros;
A orientação espacial ou dire-  Noções de velocidade - que se
cionalidade é estabelecida a partir referem a uma associação de
da estimulação vinda do ambiente ações, como por exemplo rá-
de inserção da criança. Esses estí- pido-lento;
mulos ambientais são muito impor-  Noções de direção, situação e
de orientação - que definem
tantes para o desenvolvimento psi- topologicamente a organiza-
comotor das crianças, pois quanto ção espaço-temporal de todas
mais mudanças o corpo da criança a situações estáticas e dinâmi-
experimenta, mais rápido o ajuste cas, como por exemplo antes-
depois, acima-abaixo, direita-

26
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

esquerda e outros; volta dos 7 e 8 anos;


 Noções de relação - que se re-  Terceiro - em relação à figura
ferem às relações humanas, esquemática, que acontece en-
isto é, relação consigo mesma, tre 9 e 10 anos;
com o outro e com o mundo e  Quarto - em relação ao mundo
a sociedade, como por exem- dos objetos, que acontece a
plo alegre-triste, feliz-infeliz, partir dos 11 anos.
perguntar-responder, certo-
errado, bem-mal. A lateralidade pode ser defi-
nida como a vantagem da habilidade
Segundo Kabarite (2015), es- e da capacidade funcional de um
ses contrastes são extremamente re- lado do corpo, correspondendo à as-
levantes para o desenvolvimento simetria dos hemisférios cerebrais.
psicomotor da criança. O aprendi- Ela se desenvolve com a organização
zado desses contrastes não acontece espacial da criança, ou seja, a posi-
ao mesmo tempo, e alguns podem ção em seu próprio corpo, a projeção
ser pré-requisitos para outros. A dis- de seu ponto de referência a partir
criminação dos contrastes, é mais do corpo e a organização espacial in-
bem-sucedida quando vivenciados dependente do corpo.
corporalmente, sendo necessário A lateralidade também de-
que sejam programadas atividade pende do aprendizado. Se a criança
que favoreçam estas aprendizagens. tem a estrutura apropriada para ad-
Na fase pré-escolar, esses con- quirir uma lateralidade adequada à
ceitos devem ser muito trabalhados, sua adaptabilidade, somente estas
pois em alguns casos, constituirão não são suficientes para se adaptar.
um pré-requisito para a aprendiza- Ela deve passar pelo filtro da apren-
gem cognitiva. O ponto máximo das dizagem afetiva e da experiência.
noções de direção e orientação é o Por meio do contato direto com o
discernimento da direita-esquerda, ambiente, em algumas ocasiões as
que se processa em diferentes níveis. crianças sabem como usar a escolha
Para o autor em uma escala de difi- lateral para explorar as pessoas e ob-
culdades, a noção de direita e es- jetos ao seu redor (SOUZA, 2019)
querda se processa da seguinte ma- Para Fonseca (2019), por volta
neira: dos 6 anos, a criança já pode indicar
 Primeiro - em relação ao pró- qual é a sua mão dominante, direita
prio corpo, que acontece por
ou esquerda, porém não é capaz de
volta de 6 anos de idade;
compreendê-las fora de seu corpo.
 Segundo - em relação ao corpo
do outro, que acontece por Muitas razões são apontadas para

27
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

justificar o uso prioritário de uma esquerda;


das mãos.  Falsa sinistralidade - quando o
indivíduo destro é impossibili-
tado de o ser, por consequên-
cia de paralisia, amputação,
habituando-o ao sinistrismo;
 Falsa destralidade - quando o
indivíduo sinistro é forçado a
ser destro por ter tido parali-
sia, amputações, etc.

Fonte: www.carlosasampaio.com.br

A hereditariedade é bastante
considerada, pois há indícios da
existência de um fator genótipo
transmitido pelo pai ou pela mãe.
Também é importante determinar o
número de exercícios de um lado do
corpo, que pode até ser imposto por
condições sociais, mas também pode
ser determinado pela maturidade
unilateral.
De acordo com Alvissaro
(2011), existem quatro tipos de late-
ralização:
 Destralidade verdadeira -
quando o hemisfério cerebral
dominante encontra-se à es-
querda, ocorrendo então reali-
zações motrizes à direita;
 Sinistralidade verdadeira -
quando o hemisfério cerebral
dominante está à direita, ocor-
rendo realizações motrizes à

28
29
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

5. Importância da Atuação Familiar

Fonte: www.folhavitoria.com.br5

D e acordo com Canedo (2019),


ao longo dos anos, a constitui-
ção da estrutura familiar sofreu
ser uma instituição que aperfeiçoa o
ambiente familiar do aluno, deve ser
agradável e emocional. Os pais e as
grandes mudanças e, hoje, a imagem escolas devem ter princípios muito
de família que temos entre pais, próximos para o benefício dos filhos
mães e filhos permanece no século e alunos.
passado. As escolas precisam se pre- O papel da família na vida da
parar para as famílias do século XXI, criança está intimamente relacio-
para que ambas as partes possam es- nado ao seu desenvolvimento esco-
tabelecer uma relação de respeito e lar, e isso não pode ser ignorado em
companheirismo para educar as cri- hipótese alguma. A família tem a
anças e se engajar em um diálogo responsabilidade de supervisionar o
contínuo. O ambiente escolar deve desempenho escolar das crianças e

5 Retirado em www.folhavitoria.com.br

30
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

intermediar suas atividades diárias. Os pais que participam ativa-


A escola só vai completar o ambiente mente da educação dos filhos têm al-
familiar, uma vez que os primeiros cançado resultados satisfatórios ao
incentivos devem surgir na família, final do ano letivo. Infelizmente, em
acompanhando diariamente as difi- nossas escolas, não existem medidas
culdades e os avanços e estimulando para aproximar a família do ambi-
para que possam aprender cada vez ente escolar e a falta de políticas e
mais. Esta parceria entre família e planos públicos acabou afetando
escola vai depender da relação entre essa aproximação. A maioria dos
as duas partes e das recomendações pais conhece suas funções e respon-
da escola para a integração da famí- sabilidades, mas eles acham difícil
lia no ambiente escolar (PEREIRA e assumir essa responsabilidade com
NOVO, 2018). a escola porque não sabem como
Conforme Fantinato e Macedo fazê-lo (PICCHIONI, 2020).
(2020), a construção do projeto po- Segundo Pereira e Novo,
lítico pedagógico escolar é uma ten- (2018), O processo de educação da
tativa de estabelecer uma aproxima- criança começa desde o momento
ção entre a escola e a família, e esti- em que ela nasce, e a responsabili-
mular a participação, para que de dade é inteiramente da família, pois
fato possam compreender a pro- ela é o primeiro contato da criança.
posta e se sentirem membros da es- A escola espera que as famílias pos-
cola, onde possam contribuir com a sam estar mais próximas para que
educação dos filhos. É importante possam resolver juntos os proble-
que os pais entendam a proposta de mas e dificuldades, mas, na maioria
ensino da escola e participem de sua das vezes, a família delega essa res-
preparação e implementação. ponsabilidade a outros, se surgirem
É necessário propor ações problemas, a responsabilidade recai
para trazer as famílias para a escola sobre a escola.
e remover as barreiras existentes en- Em tese, a família será respon-
tre elas. Os pais não devem apenas sável pela formação do indivíduo, e
manter contato mais próximo com a escola pela sua informação. A es-
os professores durante as reuniões e cola nunca pode substituir o status
aniversários, mas também partici- dos pais na educação, porque os fi-
par ativamente do processo de lhos são sempre crianças e os alunos
aprendizagem de seus filhos com a só têm contato por tempo limitado
escola em outros momentos. com a instituição de ensino que fre-

31
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

quentam. A escola e a família são ex- lidades um para o outro. Os pais es-
tremamente importantes para as peram que a escola possa resolver os
pessoas, quanto mais forte for a par- problemas diários e a escola diz que
ceria entre elas, mais efetivo será o a responsabilidade é da família.
resultado para o desenvolvimento Não há como negar que as fa-
humano, que deve ser contínua mílias são responsáveis pela educa-
quando uma complementa a outra. ção formal e informal dos filhos, mas
Por melhor que seja a escola, se as crianças não tiverem afetivi-
por mais bem preparada que seus dade e amor, terão dificuldade em
professores sejam, a escola não vai desenvolver esses valores (FANTI-
conseguir suprir a carência causada NATO e MACEDO, 2020).
por famílias ausentes. Pais, mães,
avós ou avôs, tios e os responsáveis
pela educação de seus filhos devem
participar efetivamente, caso con-
trário, a escola não poderá atingir
seus objetivos.
Hoje temos escolas de tempo
integral e uma organização para re-
ceber as crianças, se essa escola for
boa ou ruim, se não houver parceria
com a família, o resultado sempre
será menor do que o esperado.
Quando os pais pensam que a escola
é responsável por toda a educação de
seus filhos por causa de professores
qualificados, eles se livram da res-
ponsabilidade da educação. Sem a
presença de membros da família, as
crianças ficam desamparadas e inca-
pazes de captar as informações ne-
cessárias para o desenvolvimento
cognitivo (CANEDO, 2019).
Atualmente, a família e a es-
cola vivem vários problemas e am-
bos os lados transferem responsabi-

32
33
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

6. Relação Professor X Aluno

Fonte: www.opopular.com.br6

D e acordo com Antunes e Alves


(2011), muitas são as dúvidas e
discussões sobre o papel da escola
forma a fornecer subsídios aos alu-
nos para enfrentarem essas adversi-
dades da vida. Para ter a função de
na educação, mas além de transmitir preparar cidadãos para o mundo, a
conhecimento aos alunos, é preciso escola deve ser considerada como
enxergar a educação. Por ser cha- uma preparação para a vida. A es-
mada de "instituição do saber", a es- cola é um ambiente de aprendiza-
cola desempenha um papel impor- gem, onde existe grande diversidade
tante em toda a sociedade. Por ser cultural, mas orienta a construção
tão importante, é preciso ir além do de significados compartilhados en-
que os olhos podem ver, e ensinar tre alunos e professores.
aos alunos a pensar no mundo, na A construção desses significa-
sociedade em que vivem e no mundo dos comuns enfatiza a necessidade
das diferenças e discriminações, de de mudar as escolas por meio da re-

6 Retirado em www.opopular.com.br

34
APOSTILA DE LIBRAS

flexão. Ela precisa ser individual e uma ponte entre seu conhecimento e
coletiva ao mesmo tempo, o que en- o deles.
volve diferentes aspectos da escola, Portanto, é muito importante
como: a relação ensino e aprendiza- que os alunos participem das ativi-
gem com diferentes trocas de infor- dades em sala de aula, pois isso pos-
mações, a interação entre os sujeitos sibilitará a expressão de seus conhe-
participantes da cultura escolar, os cimentos, preocupações, interesses,
processos curriculares, pedagógicos aspirações e vivências, para que pos-
e a gestão administrativa, propiciam sam participar ativa e criticamente
um compartilhamento de informa- da construção e reconstrução de sua
ções e interação da cultura escolar. cultura de movimento e de grupo
A escola deve ser vista como onde mora.
um ambiente atraente para profes- É compreensível que a quali-
sores, alunos e profissionais que dade do desempenho escolar não
nela atuam, para que possam ser possa depender apenas da vontade
convidados a participar desse ambi- de um ou de outro professor. A es-
ente de conhecimento estabelecido cola deve participar efetiva e conjun-
por professores e alunos a cada dia, tamente com familiares, alunos e
e utilizar conhecimentos prévios tra- profissionais da área da educação
zidos por todos. É necessário que os para que os professores também en-
professores reformulem e fascinem tendam que os alunos não são ape-
a educação, focando na visão educa- nas depósitos do conhecimento.
cional, utilizando o conhecimento O papel do professor é atuar
acumulado e gerando novas experi- como um facilitador, buscando um
ências no processo de ensino e entendimento comum no processo
aprendizagem dos alunos. A relação de construção do conhecimento
professor/aluno/conteúdo não é es- compartilhado, que só pode ser al-
tática, mas dinâmica, pois se trata de cançado por meio da interação. A
uma ação de ensino coordenada com aula deve mudar-se e estimular a re-
as práticas docentes. É essencial flexão sobre o seu próprio compor-
considerar a relação profes- tamento, o seu impacto no conheci-
sor/aluno, com base no clima esta- mento e no comportamento educa-
belecido pelo professor, a relação tivo. A relação professor-aluno é in-
empática com o aluno, sua capaci- fluenciada por suas percepções um
dade de ouvir, refletir, discutir seu do outro e até mesmo por sua repre-
nível de compreensão e construir sentação mútua. O relacionamento

35
APOSTILA DE LIBRAS

entre professor-aluno não pode ser tras gerações, mas o mais impor-
limitado ao processo cognitivo de tante é ser fiel aos próprios sonhos.
construção do conhecimento, pois Um professor autoritário, faz com
envolve também dimensões emocio- que suas atitudes calem seus alunos,
nais e motivacionais. Um professor reprimindo e causando medo. Por-
eficiente é o que faz com que, ao tanto, essa relação professor-aluno
mesmo tempo que fala traz os alu- não tem efeito dialógico na constru-
nos até a intimidade do movimento ção e reconstrução de ideias. A rela-
do seu pensamento, tem uma aula ção entre professores e alunos é o
desafiante e não monótona. Sendo clímax do processo de ensino. É im-
assim, os professores deixarão de ser possível distinguir a realidade da es-
"donos do conhecimento", mas pas- cola da realidade do mundo vivida
sarão a ser orientadores, que acom- pelos alunos e, por ser esta relação
panham e participam do processo de uma via de mão dupla, tanto profes-
construção do novo aprendizado dos sores como alunos podem ensinar e
alunos no seu processo de formação. aprender com as suas experiências.
Portanto, pode-se dizer que o Os professores devem compre-
método de ensino consistem nas ender que, para desempenhar suas
ações do professor, por meio do qual verdadeiras funções, devem combi-
se organiza atividades de ensino e os nar autoridade, respeito e afetivi-
alunos para atingir os objetivos de dade. Ou seja, mesmo que o profes-
ensino relacionados ao conteúdo es- sor precise atender determinado
pecífico. Regulam a forma de intera- aluno individualmente, a ação tam-
ção entre o ensino e a aprendizagem, bém terá como alvo as atividades de
e entre professores e alunos, resul- todos os alunos em torno do mesmo
tando na absorção consciente do co- objetivo e conteúdo da aula. É im-
nhecimento e no desenvolvimento portante destacar que a atuação de
das capacidades cognitivas e opera- alguns professores não é uma forma
cionais dos alunos. indiscutível de ensino, mas sim uma
As atividades de ensino do forma de inspiração para buscar no-
professor em sala de aula são cruci- vas e melhores formas de alcançar os
ais, pois ele assume o papel de medi- alunos.
ador, não de condutor. A relação Se o interesse dos profissio-
professor-aluno deve ser pautada na nais da educação está realmente vol-
busca pelo aqui e agora, não há ne- tado para as necessidades reais,
cessidade de comparação com ou- como as expectativas educacionais

36
APOSTILA DE LIBRAS

na formação de indivíduos critica- Para que ocorram as mudan-


mente reflexivos, então não só a lin- ças propostas e as escolas possam
guagem, mas também a atitude de- exercer seu papel, é necessário que
vem ser mudadas. todos caminhem juntos, e prati-
quem as ideias nas escolas da nossa
sociedade para ter um mundo mais
igualitário, de forma a cumprir o seu
papel mais importante na educação:
formar pessoas que possam pensar a
respeito de tudo o que fazem.

Fonte: www.provafacilnaweb.com.br

É necessário conduzir uma


educação de qualidade para alunos,
escolas, sociedade e professores, e
tratar os alunos como indivíduos ati-
vos no processo de ensino. Somente
dessa forma os professores podem
desempenhar o papel de orientado-
res, não apenas papéis de simples-
mente ensinar.
Seja uma graduação recente
ou anos de formação, em toda a tra-
jetória de desenvolvimento, é pre-
ciso refletir sobre o quanto os pro-
fessores podem reconstruir seu pró-
prio caminho.
Isso lhe proporcionará experi-
ências enquanto alunos que sempre
serão, bem como a experiência de
professores que trabalham na escola
hoje e amanhã.

37
38
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

7. Psicopedagogia e Distúrbios de Aprendizagem

Fonte: institutoneurosaber.com.br7

D e acordo com o Código de Ética


da Psicopedagogia da Associa-
ção Brasileira de Psicopedagogia, re-
de natureza inter e transdisciplinar,
tem como objetivos:
 Promover a aprendizagem,
formulado pelo Conselho da ABPp, contribuindo para os proces-
gestão 2011/2013 e aprovado em as- sos de inclusão escolar e so-
sembleia geral em 5/11/2011, é papel cial;
 Compreender e propor ações
do psicopedagogo trabalhar no âm-
frente às dificuldades de
bito educacional e na saúde, com aprendizagem;
foco no processo de aprendizagem e  Realizar pesquisas científicas
suas dificuldades. Fundamentado no campo da psicopedagogia;
em diferentes referenciais teóricos e  Mediar conflitos relacionados

7 Retirado em institutoneurosaber.com.br

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DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

aos processos de aprendiza- mento, do prognóstico e das indica-


gem. ções, através das cinco fases: anam-
nese, testes, provas piagetianas,
Conforme Weiss (2020), a psi- conceitualização do caso, devolução
copedagogia tem como objeto de co- aos pais e em alguns casos à criança
nhecimento no processo de aprendi- (LA TAILLE, OLIVEIRA e DANTAS,
zagem o ser humano. Para comple- 2019).
tar esse processo tão complexo, é ne- Segundo Bastos (2015), na
cessário buscar outros campos de área clínica, o psicopedagogo traba-
conhecimento interativos, como pe- lha individualmente em um consul-
dagogia, psicologia, neurologia, psi- tório. Se possível, a primeira entre-
canálise, e outras, para dar suges- vista deve ser agendada com pais e
tões e estabelecer posturas de parce- filhos. Nesse momento, é impor-
ria e assessoramento, afim de enten- tante observar a dinâmica psicoló-
der e compreender o espaço onde gica da família e as atividades espon-
acontece a aprendizagem. Uma das tâneas de desenvolvimento pessoal.
principais características da atuação O pedagogo utiliza ferramentas que
do psicólogo é a prevenção, seja ela caracterizam as avaliações psicope-
clínica ou educacional. Ajudar, ori- dagógicos, como jogos, brinquedos,
entar e principalmente diagnosticar pinturas, testes piagetianos e ativi-
problemas relacionados com a dades pedagógicas. Ele anota tudo o
aprendizagem, de forma a evitar o que é falado e o que observou do
fracasso escolar e erros causados por comportamento dos envolvidos. Ge-
intervenção ou diagnóstico psicope- ralmente, o psicopedagogo irá per-
dagógico. Considerando que a vida ceber que a reclamação está relacio-
do sujeito deve ser conduzida de nada ao ambiente familiar ou esco-
forma harmoniosa e equilibrada lar e não a criança que apresenta al-
tanto orgânica, emocional, cognitiva gum transtorno e, no caso de ter al-
e socialmente. gum transtorno, deve ser encami-
No trabalho do psicopeda- nhado para a área adequada para o
gogo, o processo investigativo inicia- tratamento. Durante a entrevista,
se com o aluno e o psicopedagogo, deve ser aplicada a anamnese, ins-
que não pode utilizar os mesmos trumento usado com o objetivo de
instrumentos usados pelo psicólogo. relembrar todos os fatos que se rela-
O processo de diagnóstico é reali- cionam à dificuldade da criança. Na
zado por intermédio do reconheci- anamnese são colhidos dados desde

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DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

a gestação, parto, ambiente em que atores do processo. O acompanha-


o indivíduo vive, sexualidade, histó- mento psicopedagógico (diagnós-
rico escolar, saúde, dados familiares tico, intervenção e encaminha-
e outros. mento, quando necessário), deve ser
Para Sampaio (2014), os psi- feito de forma cautelosa para não ro-
copedagogos institucionais atuam tular a criança como portadora de
diretamente nas escolas, e devem uma patologia, ou atribuir culpa a
cooperar e compreender a escola, os criança e sua família (SOARES,
professores, os gestores, os coorde- 2020).
nadores e as comunidades, enfim, Compreender o desenvolvi-
todos os envolvidos no processo de mento e a dinâmica dos professores
ensino, principalmente os alunos em sala de aula, como os alunos pro-
desta escola. O processo de trabalho duzem seu conhecimento, como é
deve ser iniciado com o próprio empregada a didática e a metodolo-
aluno, não deixando de fornecer gia, qual a relação de autoridade que
feedback a todos os envolvidos após os professores exercem e outros as-
a conclusão do processo. O psicope- pectos dessa relação, permitem que
dagogo institucional deve ter uma os psicopedagogos possam dar algu-
atitude de assessoramento, afim de mas sugestões, propondo um tipo de
compreender e seguir todas as práti- intervenção para agir de forma am-
cas escolares, a dinâmica da escola e pla, interagindo com professores e
de sala de aula e interação com os equipes multidisciplinares e ajus-
professores, o que é produzido pelos tando métodos, se necessário (SA-
alunos, não se restringindo apenas BINO, 2012).
ao diagnóstico, mas também inter-
vindo, fazendo os devidos encami-
nhamentos, quando necessários, a
psicólogos, fonoaudiólogos, médi-
cos, orientadores entre outros.
Os psicopedagogos escolares,
acompanham e supervisionam os
trabalhos desenvolvidos pela escola,
orientando a equipe docente sobre a
ação pedagógica mais adequada e
eficiente para cada problema obser-
vado. Deve também encorajar as fa-
mílias a participar e acolher todos os

41
42
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM

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