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Fundamentos Teóricos

da Alfabetização e
Letramento
1. A Evolução da Escrita na Humanidade 4
Um Pouco de História da Alfabetização 7

2. A Aprendizagem Significativa 13
Atividades, Mediação e Socialização – O enfoque
de Vygotsky 14
Momentos que Antecedem a Alfabetização 16
Fase Logográfica 16
Fase Alfabética 17
Fase Ortográfica 17

3. Epistemologia e Psicogênese na Alfabetização 19


A Epistemologia da Alfabetização 22
Concepções e Métodos de Alfabetização 24
Método Sintético 25
Método Analítico 25
Piaget e a Construção da Alfabetização 25
A Prática Educacional e a Psicogênese
da Língua Escrita 35

4. O Processo de Letramento e Alfabetização 43


O Letramento 44
A Alfabetização 46
Analisando 49
Retomando 49

5. Pressupostos Teóricos 54
Nível Pré-Silábico I 55
Nível Pré-Silábico II 56
Nível Silábico 57
Nível Silábico-Alfabético 58
Nível Alfabético 59
6. Referências Bibliográficas 62

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03
FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

1. A Evolução da Escrita na Humanidade

Fonte: Wallpaper Play1

A necessidade do homem em
transmitir seus pensamentos e
sentimentos, fez com que a prática
no da linguagem escrita e não ape-
nas da escrita das letras.
Vygotsky (1984, p. 120) já aler-
da escrita e da leitura surgisse, gra- tava para o fato de se considerarem
dativamente. a escrita como uma “complicada ha-
Percorrendo a pré-história da bilidade motora”, ao invés de a per-
linguagem escrita, que passa pelo ceberem como “um sistema particu-
gesto, desenho e jogo de faz de con- lar de símbolos e signos cuja domi-
ta, bem como, destacando as rela- nação prenuncia um ponto crítico
ções entre pensamento e linguagem, em todo o desenvolvimento cultural
visualizamos a construção de um da criança”.
dos instrumentos culturais mais Desenvolver tal sistema par-
complexos, constituído a partir das ticular de símbolos e signos pres-
relações sociais: a escrita. As impli- supõe certas condições que não exis-
cações práticas decorrentes dessa vi- tem na criança, por ocasião de seu
são enfatizam a necessidade do ensi- nascimento e que vão desenvolver-

1 Retirado em https://wallpaperplay.com/

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

se ao longo de seu crescimento, a Até chegar ao que conhece-


partir de experiências, vivências e mos hoje, o alfabeto passou por uma
apropriações. série de transformações “de longos
Assim, a linguagem escrita anos de história da escrita e decor-
apresenta-se como um produto, mas rente de sua necessidade de registrar
é, ao mesmo tempo, um elemento fatos, ideias e pensamentos” (RIZ-
importante para o próprio desen- ZO, 2005, p.13).
volvimento do homem. Para que se- O processo de evolução da es-
ja possível apreender sua importân- crita ocorreu por influência das um-
cia, no desenvolvimento humano, danças na política, na cultura, na
faz-se necessário um olhar para todo economia, nas práticas sociais e até
o processo de sua apropriação e para pelas transformações dos fatores
os fatores que estão presentes nesse geográficos. Tais transformações
processo. O primeiro desses fatores trouxeram, consigo a necessidade de
é a linguagem verbal, naquilo que práticas de registros a fim de ga-
ela tem, que possibilita ao homem rantir, às gerações futuras, o direito
simbolizar e representar. de conhecer a sua história.
Em seguida, temos as primei- A linguagem surgiu, segundo
ras manifestações da escrita, a partir Luria (1986), a partir da necessidade
do desenvolvimento humano, diante de uma relação mais complexa do
das necessidades de se comunicar. homem com os objetos e com os ou-
Assim, tros homens. A necessidade de uma
divisão do trabalho para garantir a
“[...] com a pintura nas caver- sobrevivência tornou necessária a
nas do período paleolítico;
transformou-se na pictografia comunicação, que no início era reali-
(registro de ideias por desenhos zada só com um som gutural, que
copiados da natureza com rela-
dependia de um gesto para ter al-
tivo realismo); aperfeiçoou-se
com a simplificação desses de- gum significado. A partir daí foi sur-
senhos, transformando-os em gindo um sistema de códigos para
ideogramas (sinais simplifica-
objetos e ações, evoluindo para um
dos de desenhos, já sem a preo-
cupação de fazê-los cópias fiéis sistema que diferenciava caracterís-
da natureza) e resultou na cria- ticas dos objetos, das ações e rela-
ção dos fonogramas (sinais que
representam os sons da língua
ções, até chegar a códigos sintáticos
falada), invenção essa atribuída complexos, de frases inteiras. O re-
ao povo semita, que habitava a sultado dessa história social é a lin-
Ásia Menor. (RIZZO, 2005,
p.13). ”
guagem, um instrumento decisivo

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

para o conhecimento humano, que sados, termos genéricos como árvo-


supera os limites sensoriais. re, peixe, pássaro. Em seu lugar apa-
A linguagem, ao designar obje- reciam termos específicos para cada
tos e suas relações em um sistema de uma das variedades, o que dava à
códigos, acaba por incluí-los em ca- linguagem um número imenso de
tegorias, o que leva à formação da palavras. Vygotsky e Luria (1996)
consciência categorial. Para Luria apontam uma vantagem para uma
(1986), sem o trabalho e a língua- linguagem assim: um signo para ca-
gem não teria sido formado, no ho- da um dos objetos permitiria répli-
mem, esse pensamento abstrato ca- cas exatas do que se quer comunicar.
tegorial. A consequência disso é que O inconveniente é justamente a so-
as origens do pensamento abstrato e brecarga do pensamento com mui-
do comportamento “categorial”, que tos detalhes, não se processando os
provocam o salto do sensorial ao ra- dados da experiência. Continua-se
cional, devem ser buscados não den- intimamente ligado às percepções
tro da consciência nem dentro do cé- sensoriais imediatas.
rebro, mas sim fora, nas formas so- Como exemplo, os autores re-
ciais da existência histórica do ho- latam que foi pedido para um sujeito
mem (LURIA, 1986, p. 22). contar, e o homem, pelo fato de só
Num estudo com homens pri- poder contar coisas definidas, con-
mitivos, Vygotsky e Luria (1996) en- tou porcos. Mas só contou até ses-
focaram a evolução da linguagem. senta, porque afirmava que ninguém
Eles indicam que a linguagem, em pode ter mais do que sessenta por-
sociedades primitivas, mostra-se de cos. Continua-se, então, preso ao
forma mais “fotográfica”, apegada a concreto, e a língua era usada como
grande número de detalhes concre- um reflexo da realidade, e não como
tos. Por exemplo, o termo ilha é, na uma função independente.
língua botakud, representado como: Mas Vygotsky e Luria (1996)
terra água meio é aqui. alertam para não se fazer julgamen-
A frase - um homem matou um tos a respeito da maneira concreta
coelho, seria dita pelos índios ponka, do pensamento primitivo [...] com
literalmente, assim: o homem, aque- base na estrutura e caráter externos
le vivo em pé, matou intencional- da linguagem. Deve-se analisar não
mente arremessar uma flecha um só o instrumento [...] mas também o
coelho aquele vivo sentado. modo como ele é possível ou real-
Outra observação dos autores mente utilizado. [...] Assim, as ne-
é que faltavam, aos sujeitos pesqui- cessidades técnicas e as necessida-

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

des de vida, e não as características com nome próprio, para o segundo


do pensamento, é que são a fonte modo, em que uma palavra é signo
verdadeira desses traços da língua- de um complexo e, finalmente, para
gem (VYGOTSKY e LURIA, 1996, p. o terceiro modo, em que uma pa-
132). lavra é instrumento ou recurso para
A língua do homem primitivo desenvolver o conceito. (p. 133).
está muito ligada às atividades espe- Falando tanto em termos de
cíficas daquele grupo, voltadas para desenvolvimento da espécie huma-
sua sobrevivência. Aquele grupo que na quanto de desenvolvimento da
depende da terra tem, por exemplo, criança, fala e pensamento estão, in-
um número enorme de palavras pa- trinsecamente ligados.
ra o coco, nos diferentes estágios de Vygotsky (1993) afirma terem
florescimento e amadurecimento, elas raízes genéticas diferentes, ou
existindo também a mesma varieda- seja, uma não é resultado da outra e
de para diferentes espécies de milho. vice-versa. Mas existe uma unidade,
Daí a conclusão dos autores de que que caracteriza o cruzamento entre
“todas as características dessa lín- as duas. A unidade do pensamento
guagem e pensamento não podem verbal é o significado das palavras.
ser consideradas primárias em sen- Uma palavra sem significado é um
tido absoluto.” (p. 132). Aqui nova- som vazio, e o significado (conceito)
mente Vygotsky e Luria (1996) é um pensamento que ganha corpo
apontam que as necessidades téc- pela fala (VYGOTSKY, 1993).
nicas e de vida, e não as caracte-
rísticas do pensamento, é que pro- Um Pouco de História da
piciam o desenvolvimento para uma Alfabetização
linguagem mais complexa.
Como o pensamento e a lin- O termo ALFABETIZAR deri-
guagem estão intrinsecamente liga- va do termo ALFABETO e “ao pri-
dos para esses autores, o desenvolvi- meiro método de ensino, que conhe-
mento cultural do pensamento pos- cemos pelo nome de alfabético”
sui a mesma conexão íntima com a (RIZZO, 2005, p.15).
história do desenvolvimento da lin- A prática de ensinar a ler e a
guagem humana. escrever, segundo Rizzo (2005, p.14)
O progresso principal do de- era desenvolvida a partir de ativi-
senvolvimento do pensamento assu- dades que trabalhavam combina-
me a forma de uma passagem do pri- ções diversas entre as letras e o som.
meiro modo de utilizar uma palavra Quando os alunos já estavam “ma-

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

nobrando bem penas e tintas na ca- Ainda nos anos 80, programas
ligrafia das letras, estes eram, então, como: Programa Nacional de Ações
levados a formarem palavras, que, Sócio - Educativos para o Meio Ru-
depois, reunidas, formavam frases e, ral (PRONASEC) e o Programa de
finalmente, textos”. Ações Sócio- Educativos e Culturais
Os jesuítas implantaram no (PRODASEC), foram implantados a
Brasil a primeira escola, a qual tinha fim de contribuir para a expansão da
uma finalidade catequética. No en- alfabetização.
tanto, D. Pedro II manteve seus in- No entanto, ainda hoje, a ex-
teresses na produção agrícola, des- pansão e o acesso da população à al-
considerando o alto índice de anal- fabetização, é um desafio a ser supe-
fabetismo. rado, a fim de afastar o analfabetis-
Em 1970, através das ações do mo em todos os níveis da sociedade
Movimento Brasileiro de Alfabetiza- brasileira.
ção (MOBRAL), trinta milhões de Nesse sentido, muitos autores
jovens e adultos foram alfabetiza- empenham-se em pesquisar o pro-
dos, em 3.953 municípios brasilei- cesso de aquisição da lectoescrita
ros. Posteriormente a este movi- baseando-se nas ideias de Emília
mento, surgiu em 1985, a Fundação Ferreiro, a qual relaciona, a origem e
Educar o MOBRAL, como um movi- a evolução das funções, à psicogêne-
mento popular na luta pela educação se da escrita dentro do processo de
popular e, assim como: alfabetização.
Para Ferreiro (1989):
“[...] nos países dependentes,
pode ser analisada sob dois “O desenvolvimento da alfa-
ângulos: a) política externa, b) betização ocorre, sem dúvida,
política interna. No Brasil o em um ambiente social. Mas as
primeiro nos conduz ao MO- práticas sociais, assim como as
BRAL que tem como objetivo a informações sociais, não são
adaptação, a preparação da recebidas passivamente pelas
mão de obra para o mercado de crianças. Quando tentam com-
trabalho. Para isso o indivíduo preender, elas necessariamente
deve ser alfabetizado a fim de transformam o conteúdo rece-
receber duma forma mais fácil bido. Além do mais, a fim de re-
as informações e o treinamento gistrarem a informação, elas a
que lhe permitirão desenvolver transformam. Este é o significa-
o trabalho que lhe está reser- do profundo da noção de assi-
vado no desenvolvimento do milação que Piaget coloca no
país, ou seja: o indivíduo é con- âmago de sua teoria. (1989,
dicionado e instrumentaliza- p.24).”
do. (BORBA, 1984, p.22).”

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

Diante dos estudos de Ferrei- Diante das questões explicita-


ro, podemos concluir que se faz ne- das acima, podemos concluir que
cessária uma nova estruturação dos aprendemos desde cedo, por meio
conceitos, práticas, métodologias e de ações compartilhadas e mediadas
didáticas, utilizadas pelos educado- pela linguagem e pela instrução do
res de hoje, repensando também sua outro.
função dentro do processo de alfabe- Isto porque, a fala e a escrita
tização. O professor deve antes, ter refletem as tradições culturais e so-
consciência de que a criança, en- ciais de um povo. A maneira como
quanto cidadã, deve reconhecer-se um povo se comunica, deixa em evi-
dentro do processo de construção do dência instâncias comunicativas e,
conhecimento, concernente à escrita instaura expressões, através de di-
e a leitura. A criança alfabetiza-se na versos gêneros.
medida em que interage com o meio A representação cognitiva e
e com o outro. social da língua, através da fala e da
Através do processo de apren- escrita, estabelece a comunicação e
dizagem a criança se apropria, de permitem a socialização de povo,
forma ativa, do conhecimento hu- posto que, a fala permite que conhe-
mano, construído a partir das expe- çamos as pessoas, através do exer-
riências sociais A interação com ou- cício de ouvi-las.
tras pessoas é indispensável para Cagliari (1999) reconta a his-
que o processo de aprendizagem tória da escrita como objeto simbó-
ocorra. A criança precisa do rela- lico, que serviria para representar
cionamento com o adulto para possa algo, mas, que não representa a for-
desfrutar de experiências e adquirir ma fonética da fala. No entanto, a
conhecimentos. A partir desta inte- escrita estabelece uma relação es-
ração com o meio, a criança vai sencialmente fonêmica, ou seja, pro-
criando diversas maneiras de lidar cura representar aquilo que é fun-
com o meio e começa a atribuir sig- cionalmente significativo, estabele-
nificado à suas experiências e para o cendo um sistema de regras próprias
seu modo de agir. Com o desenvol- (KATO, 1996; FERREIRO e TEBE-
vimento da linguagem, os signifi- ROSKY, 1991).
cados ganham maior abrangência, Segundo Sampson (1996), a
pois passam a ser compartilhados invenção da escrita aparece tardia-
por grande parte da sociedade, da mente com relação ao aparecimento
qual o indivíduo faz parte. da linguagem; ela apareceu depois

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

da chamada “revolução neolítica”, e A fase ideográfica é represen-


sua história pode ser dividida em tada pelos ideogramas, que são sím-
três fases: pictórica, ideográfica e al- bolos gráficos que representam dire-
fabética. No entanto, não se pode tamente uma ideia, como, hoje em
seguir uma linha cronológica nesta dia, certos sinais de trânsito. As es-
divisão. critas ideográficas mais importantes
A fase pictórica corresponde são a egípcia (também chamada de
aos desenhos ou pictogramas, os hieroglífica), a mesopotâmica (su-
quais não estão associados a um méria), as escritas da região do mar
som, mas à imagem daquilo que se Egeu (a cretense, por exemplo) e a
quer representar. Consistem em chinesa (de onde provém a escrita
representações bem simplificadas japonesa).
dos objetos da realidade. Aparecem
em inscrições antigas, mas podem
ser vistos de maneira mais elabora-
da na escrita asteca e, mais recen-
temente, nas histórias em quadri-
nhos.
Exemplo de Pictogramas:

Fonte:
http://visualismo.blogspot.com/

Os ideogramas também po-


dem ser definidos como desenhos
que com o tempo perdem alguns tra-
ços de sua representatividade, trans-
formando-se em uma convenção da
escrita. Veja os exemplos a seguir:

Fonte: https://br.pinterest.com/

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

coisas, mas também a própria fala.


(VYGOTSKY, 1991).
Hoje em dia praticamente to-
das as línguas possuem um alfabeto,
e o modo mais comum de se escrever
é da esquerda para a direita e de ci-
ma para baixo. Contudo, os chineses
e os japoneses escrevem da direita
para a esquerda e em colunas verti-
Fonte: https://docplayer.es/ cais. Os árabes escrevem da direita
para a esquerda, mas não em colu-
A fase alfabética se caracteriza nas, e sim em linhas de cima para
pelo uso de letras, as quais, embora baixo.
tenham se originado nos ideogra- Todavia, durante muito tem-
mas, perderam o valor ideográfico e po, a escrita esteve dissociada das
assumiram uma nova função de es- práticas sociais e, por isso, nos dias
crita: a representação puramente fo- de hoje, muitos educadores não en-
nográfica. O ideograma, por sua vez, tendem a diferença entre letramento
perdeu seu valor pictórico e passou a e alfabetização.
ser simplesmente uma representa- Os processos de alfabetização
ção fonética. Segundo Sven Ohman e letramento se diferem pelas se-
(apud KATO, 1990, p. 16), a in- guintes características: o ato de alfa-
venção da escrita alfabética é uma betizar significa ensinar ou aprender
“descoberta”, pois, quando o ho- a ler e a escrever; já o letramento, su-
mem começou a usar um símbolo gere que o indivíduo utiliza a leitura
para cada som, ele apenas operou e a escrita em suas práticas sociais,
conscientemente com o seu conheci- ou seja, responde às demandas so-
mento da organização fonológica de ciais e se envolve em atividades de
sua língua. escrita e leitura. Mais à frente, vere-
Também com relação a isso é mos com maiores detalhadamente
importante ressaltar o que afirma estes dois processos.
Vygotsky, a partir dos trabalhos que
realizou com crianças: para apren-
der a escrever, a criança precisa fa-
zer uma descoberta básica – a saber,
que ela pode desenhar não apenas

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

2. A Aprendizagem Significativa

Fonte: Educamos Brasil2

P ara David Ausubel (1978),


existem dois tipos de aprendi-
zagem e, a diferença entre eles é per-
Descobrimento: ao contrário da
recepção, o conteúdo não chega para
o aluno em sua forma fina, pronto e
cebida através da recepção e do des- acabado. O conhecimento acontece
cobrimento. Vejamos como isso a partir do descobrimento e, então, é
ocorre: incorporado à estrutura cognitiva do
Recepção: o conteúdo é ministra- sujeito. Aqui, o aluno tem o papel
do de forma acabada e o aluno, sim- principal e sua função é decisiva.
plesmente o recebe. Desta forma, o Ausubel também chamou este tipo
descobrimento é descartado, assim de aprendizagem de Aprendizagem
como a compreensão e a assimilação Significativa.
do currículo; Este tipo de aprendiza- Para que a Aprendizagem sig-
gem foi chamado por Ausubel, tam- nificativa realmente ocorra, é neces-
bém de Aprendizagem Memorística. sário que o educador pesquise, sele-

2 Retirado em http://www.educamosbrasil.com.br/

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

cione, elabore e estruture sua práti- Diante de tais considerações,


ca, adequando os conteúdos curricu- podemos notar a valorização da
lares, no intuito de indicar, ao edu- ideia de que, para que seja possível
cando, o caminho mais adequado a construir significados é necessário
se percorrer, no processo de aquisi- que o indivíduo pense, sinta e passe
ção do conhecimento. Desta forma, a agir sobre o conhecimento adqui-
o professor estará contribuindo para rido.
que seu aluno aprenda e construa
seus significados, de forma autôno- Atividades, Mediação e So-
ma, mas nunca sozinho, visto que, o cialização – O enfoque de
educador deve sempre acompanhar Vygotsky
o processo.
Vygotsky (1978) fundamentou
“Uma educação correta deve es-
tar centrada em algo mais que o seus estudos no conceito de ativi-
pensamento do aprendiz; os dade e para ele, o ser humano não se
sentimentos e as ações também limita a, somente, responder aos es-
são importantes e devem ser le-
vadas em consideração as três tímulos advindos do meio, mas, na
formas de aprendizagem a se- medida em que atua sobre estes es-
guir: a aquisição de conheci- tímulos, transforma-os. Isto aconte-
mentos (aprendizagem cogniti-
va), a modificação das emoções ce, segundo Vygotsky (1978), por
e sentimento (aprendizagem meio da mediação de instrumentos
afetiva) e a melhoria da adequa- que se intercalam entre o estímulo e
ção ou as ações físicas ou moto-
ras (aprendizagem psicomoto- a resposta. Entre as chamadas ca-
ra), que incrementa a capaci- deias de estímulos e respostas, Vy-
dade das pessoas para entender gotsky cita um ciclo de atividade que
as suas experiências. (...) Os se-
res humanos pensam, sentem e viabiliza o uso de instrumentos me-
agem, e as três coisas se combi- diadores permitindo que o indivíduo
nam para formar o significado modifique o estímulo, ou seja, o su-
da experiência. (NOVAK, 1998,
p. 28-29)”. jeito não responde ao estímulo de
uma maneira mecânica, passiva-
Em sua obra “Conhecimento e mente, mas atua sobre ele. Con-
Aprendizagem”, NOVAK (1998) cluindo, a atividade é um processo
apresenta seu ponto de vista acerca pelo qual o indivíduo transforma o
da Aprendizagem Significativa, meio através do uso de instru-
mencionada anteriormente por mentos.
David Ausubel.

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

A concepção Vygotskyana, os A função da ferramenta não é


outra senão servir de condutor
instrumentos são os mediadores que
da influência no objeto da ativi-
possibilitam que o indivíduo modifi- dade, acha-se externamente
que ativamente a realidade ao invés orientada e deve conduzir um-
danças nos objetos. É um meio
de apenas imitá-la. através do qual a atividade hu-
Através da cultura social o mana externa aspira a dominar
indivíduo tem acesso a primeira de e triunfar sobre a natureza. Por
outro lado o signo não muda
duas classes definidas por Vygotsky absolutamente nada no objeto
as quais se adéquam ao tipo de ativi- de uma operação psicológica.
dade do indivíduo. As ferramentas Assim trata-se de um meio de
atividade interna que aspira a
(instrumento), necessárias para a dominar a si mesmo; o signo,
transformação de seu entorno, o por conseguinte, está interior-
qual se adapta ativamente a ele ao mente orientado.
indivíduo, atuam materialmente so-
bre o estímulo, modificando-o. Para Vygotsky, aprendizagem
O segundo tipo de instrumen- tem um caráter social e através do
tos mediadores citado por Vygotsky, processo de aquisição de conheci-
advêm de natureza diferente das fer- mento, no qual a criança se desen-
ramentas e produzem uma atividade volve intelectualmente, esta passa a
de adaptação diferente. O Sistema compor um determinado grupo
de Signos ou símbolos (instrumen- social.
tos) usado com mais frequência é a A aquisição e a compreensão
linguagem falada. No entanto, exis- da linguagem e dos conceitos so-
tem outros signos usados para que o ciais, por parte da criança, acontece
indivíduo atue sobre a realidade, por através do encontro com o mundo
exemplo: os sistemas de medidas, a físico, e, sobretudo nas relações es-
cronologia, a aritmética e o sistema tabelecidas com o outro. A cultura
de leitura e escrita, o qual particular- passa então, a ter um significado e
mente nos interessa nesse momen- um sentido, determinando uma for-
to. Em uma ação diferente da ferra- ma de socialização.
menta, o signo não modifica o estí- A mediação, responsabilidade
mulo, mas o indivíduo que o utiliza da família e dos educadores envol-
como instrumento mediador em vidos no processo de desenvolvi-
suas relações sócias. A diferenciação mento da criança, é fundamental na
entre os dois tipos de instrumento tomada de consciência sobre a cul-
citados se manifesta na fala de Vy- tura social e seus usos linguísticos e
gotsky (1978): cognitivos.

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

Momentos que Antecedem a das modalidades perceptivas, em es-


Alfabetização pecial a visual e a auditiva, pois estas
definem a forma como se dará este
A criança desvenda um mundo processo. Além de várias associações
novo ao aprender a ler e a escrever e de neurônios, é necessária a relação
se encanta ao acessá-lo. Através da de várias destrezas, por parte do cé-
escrita, o indivíduo é capaz de trans- rebro, no intuito de processar a in-
mitir sentimentos, emoções, ideias... formação captada pela visão e a au-
é capaz de se comunicar com o dição no processo de alfabetização.
mundo. É necessário que o indivíduo, no
Ao ser lido para uma criança processo de alfabetização, faça uso
de dois ou três anos, o livro fala, ga- da linguagem oral e para isto é ne-
nha vida, através da interpretação cessário que ele saiba reconhecer,
das imagens, letras, desenhos. Nesta receber, elaborar e interpretar sím-
fase a criança já capaz de compreen- bolos. Durante o processo são esta-
der este fenômeno e costumam pe- belecidas diversas associações viso
dir a um adulto que conte para ela a auditivas, viso espaciais, audiovi-
mesma história, da mesma forma suais e viso motoras complexas, su-
várias vezes, tamanho é o prazer de cessivas e simultâneas.
fazer parte da fantasia da história. O processo de alfabetização é
Ao aprender a ler este prazer au- complexo, pois os processos psico-
menta. linguísticos estão profundamente
Aprender a ler e a escrever, envolvidos. Na aquisição da lectoes-
trará liberdade de comunicação a crita, o indivíduo passa por três pro-
criança. Para que uma pessoa apren- cessos, os quais, veremos a seguir:
da a ler e a escrever, ela precisa sen-
tir necessidade de se comunicar. Até
este momento a criança se comuni-
cava através de seus desenhos e ex-
pressões verbais e corporais, mas
agora ela poderá se comunicar tam-
bém através da escrita. Fase Logográfica
Para que a escrita se torne uma
realidade é necessário que suas ba- Nesta fase a criança associa a
ses neurofuncionais alcancem a ma- escrita com algum objeto. Ela ainda
turidade. Tais bases são o alicerce não lê a palavra, no entanto os sím-

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

bolos foram internalizados. Isto é Ex: A Odrem das leatrs não aeltra a
comum quando as crianças veem o plaavra! A Odrem das leatrs não
rótulo de produtos muito utilizados aeltra a plaavra!
por ela ou que circulam na mídia.
Ex.: A criança reconhece o Fonte:
rótulo, pois já associa o símbolo ao http://blogheydog.blogspot.com/200
produto. 8/11/ordem-das-letras-no-altera-
palavra.html

“De aorcdo com uma pqsieusa


de uma uinrvesriddae ignlsea, não
ipomtra em qaul odrem as lrteas de
uma plravaa etãso, a úncia csioa
iprotmatne é que a piremria e útmlia
lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto
pdoe ser uma ttaol bçguana que vcoê
Fonte: pdoe aidna ler sem porelbma.”
https://www.istockphoto.com/
E não é que a salada de letras
faz sentido? Isso acontece porque a
Fase Alfabética gente não lê letra por letra, mas, a
palavra inteira de uma vez. O nosso
Nesta fase a criança relaciona
cérebro é muito esperto, e consegue
a escrita com os sons, é a chamada
corrigir rapidinho o que está errado
consciência fonológica. Trata-se da
na palavra, antes que a gente per-
consciência de que as letras, as síla-
ceba.
bas, as partes das palavras, corres-
O trechinho bagunçado está
pondem a um som.
circulando pela internet. E faz sen-
tido: nosso cérebro tem uns tais de
Fase Ortográfica pontos nodais, que prestam atenção
só na primeira e na última letra. Eles
Agora, a criança já é capaz de
dão uma olhadinha no resto e ten-
reconhecer uma palavra sem que
tam adivinhar, pensando nas pala-
necessariamente, faça antes uma
vras que você já conhece. Se a pri-
análise fonológica. As palavras po-
meira e a última letra estiverem no
dem ser lidas, ao perceber partes de-
lugar certinho, o cérebro aperta um
la ou ainda, somente pelo contexto.
botãozinho de “auto arrumar” e
Desenvolve-se a fluidez e a veloci-
pronto.
dade na leitura.

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

3. Epistemologia e Psicogênese na Alfabetização

Fonte: Pinterest3

A psicogênese da língua escrita


refere-se ao seguimento pro-
gressivo dos níveis de desenvolvi-
alfabetizaram, as crianças ela-
boram hipóteses muito interes-
santes sobre o funcionamento
da escrita (WEISZ, 2002, p.
mento da criança, no processo de 20).
aquisição das habilidades de leitura
e escrita. Este processo é gradativo e A teoria elaborada por Emília
leva vários anos, até ser dominado Ferreiro e outros educadores, sobre
pela criança. a psicogênese, consiste em uma
amostra explicativamente, concreta
“Segundo mostrou a psicogê-
nese da língua escrita, em uma
e busca apresentar todas as etapas
sociedade letrada as crianças vivenciadas pela criança, durante a
constroem conhecimentos so- alfabetização.
bre a escrita desde muito cedo,
a partir do que podem observar Smolka (1996) salienta que
e das reflexões que fazem a esse Emilia Ferreiro, pesquisadora Ar-
respeito. Em busca de uma lógi- gentina, formada em psicologia e
ca que explique o que não com-
preendem quando ainda não se psicopedagogia, radicada na cidade

3 Retirado em https://www.pinterest.com.au/

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do México, que fez seu doutorado na cluiu que algumas crianças chegam
Universidade de Genebra, sendo a descobrir, os princípios funda-
orientada por Jean Piaget, iniciou mentais do sistema, antes de inicia-
suas pesquisas a partir de 1974, co- rem a escola, ao passo que outras
mo docente da Universidade de Bue- estão longe de conseguir fazê-lo.
nos Aires. Em suas pesquisas expe- O objetivo maior do trabalho
rimentais, originaram-se os pressu- foi apresentar a interpretação do
postos teóricos sobre a Psicogênese processo de aquisição da escrita do
da língua escrita, sendo este, o mar- ponto de vista de quem aprende,
co transformador do conceito de embasada nas pesquisas realizadas
aprendizagem da escrita, compreen- por um período de dois anos, com
dendo como se dá a aquisição da lin- crianças de diferentes nacionalida-
guagem escrita, para a criança. Os des, com idade entre quatro e seis
principais teóricos que influencia- anos (FERREIRO; TEBEROSKY,
ram os estudos sobre a psicogênese 1999).
foram: Piaget, Vygotsky e Wallon. Na mesma obra as autoras
No decorrer da pesquisa, para esclarecem que a pesquisa realizou-
descobrir como a criança consegue se no que Piaget denominava de
interpretar e produzir escritas, mui- “ideias inesperadas”, “respostas
to antes de chegar a escrever ou ler, inesperadas”. A metodologia desen-
convencionalmente, foram criadas volveu-se a partir da apresentação,
situações experimentais, bem como, às crianças que iniciavam seu pri-
utilizou-se o método clínico ou de meiro ano na escola, de algumas pa-
exploração crítica, própria dos estu- lavras utilizadas pelos professores
dos piagetianos. Através dos dados da escola, para saber o que elas co-
colhidos com populações de diferen- nheciam sobre essas palavras. Eram
tes meios sociais, pode-se estabele- feitas variações na ordem das letras
cer uma progressão regular dos pro- dessas palavras, mantendo constan-
blemas que as crianças enfrentam e tes elementos e levantando questio-
nas soluções que elas ensaiam, para namentos pela interpretação dos re-
descobrir a natureza da escrita. A or- sultados, ou seja, pela interpretação
dem de progressão de condutas não da totalidade frente a um processo
impõe o ritmo determinado na evo- de modificação da ordem e da fre-
lução. Podem ser encontradas gran- quência de surgimento dos elemen-
des diferenças individuais do desen- tos, sem que fosse inserido nenhum
volvimento cognitivo, onde se con- elemento novo que pudesse perten-

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cer à outra totalidade. Essa postura crianças passam em seu processo de


investigativa oferecia às crianças, construção do conhecimento, a fim
inquietação sobre os resultados ob- de que a escola respeite esse proces-
tidos. No momento em que as crian- so e, proporcione grandes possibili-
ças forneciam respostas que fugiam dades de estímulo para essas cons-
ao padrão de normalidade do que se truções, sendo esta ação confundida
esperava, a equipe buscava novas in- com método de ensino, por alguns
formações que pudessem fornecer educadores.
subsídios de compreensão de como Ferreiro e Teberosky (1999)
as crianças pensavam “antes de pen- ressaltam que, entre as propostas
sar convencionalmente” e, como metodológicas e as concepções in-
ocorre o processo de construção des- fantis, existe uma distância que pode
se conhecimento até chegar a esse medir-se em termos do que a escola
“pensar convencionalmente”. ensina e do que a criança aprende. O
que a escola pretende ensinar, nem
sempre coincide com o que a criança
consegue aprender.
Nas tentativas de desvendar os
mistérios do código alfabético, o do-
cente procede passo a passo, do que
ele considera do simples ao comple-
xo, fragmentando todo o processo de
aquisição da língua escrita. Essa for-
Fonte: ma que a escola vem “ensinando” a
https://clinicaprojetiva.com.br/ escrever desconsidera todo o proces-
so de construção da criança, que na
Em nenhum momento em verdade, para adquirir o código alfa-
suas pesquisas, Emilia Ferreiro des- bético, reinventam a escrita, à sua
taca a psicogênese da língua escrita maneira. Isso porque a escrita é um
como método de ensino. Na realida- processo de construção pessoal e
de, procurou observar e explicar co- não, uma mera cópia de um modelo
mo ocorre a construção da língua- externo.
gem escrita pela criança, tendo co- Na teoria da psicogênese, Emí-
mo um dos objetivos principais, di- lia Ferreiro mostra que o processo
recionar o olhar dos educadores de ensino não dirige o processo de
para os caminhos, pelos quais, as aprendizagem e questiona, como o

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aluno se alfabetiza, deixando de lado A Epistemologia da Alfabe-


a preocupação em relação à maneira tização
como o professor deve alfabetizar
seu aluno. Vygostsky aprecia os pri- O conceito de alfabetização
meiros registros gráficos como pre- tem uma variação histórica, signifi-
cursores da escrita. Para ele, os ra- cando desde o domínio da grafia do
biscos (garatuja), desenhos e outras nome próprio, passando pela leitura
brincadeiras da criança, fazem parte e escrita de palavras e frases des-
do processo de aquisição da escrita e contextualizadas e, atualmente, as-
“devem ser vistos como momentos sumindo um sentido mais abran-
diferentes de um processo essencial- gente, que envolve a leitura (inter-
mente unificado de desenvolvimen- pretação) e a escrita (produção) em
to da línguagem escrita.” (Apud SIL- suas diferentes formas e usos. Em
VA 1994, P. 18). outras palavras, para efetivar esse
Ainda de acordo com Silva (19 significado, o domínio da alfabeti-
94, p. 18), Ferreiro e Teberosky estu- zação está vinculado não apenas ao
daram a atitude da criança quando processo de codificação e decodifi-
vê uma gravura com legenda e cons- cação, mas também de interpreta-
tataram que, a escrita é previsível (a ção, compreensão e produzção escri-
partir do desenho) para a criança e ta. Nessa perspectiva, estar alfabeti-
que, num primeiro momento, o tex- zado corresponde a estar inserido de
to escrito e a ilustração formam uma forma interativa em um contexto
unidade única. letrado. Não basta, portanto, domi-
Todas as fases do desenvol- nar o sistema de funcionamento do
vimento da criança acerca da escrita, código linguístico, é necessário ter
do contato com o desenho (símbo- competência para ir além, já que o
los/desenhos) até a escrita ortográ- contrário caracteriza o analfabetis-
fica, são elaboradas a partir da cons- mo funcional, isto é, a falta de capa-
tatação citada no parágrafo anterior. cidade de utilizar a linguagem, prin-
“Esse processo de construção cogni- cipalmente oral e escrita, em cir-
tiva se caracteriza por estruturações cunstâncias cotidianas.
e sucessivas reestruturações, gera- A capacidade de interagir com
das pelos desequilíbrios originários o mundo extrapolando o que é
nas contradições entre esquemas di- aprendido na escola está relaciona-
ferentes” (FERREIRO, 1986, p. 27). da a um conceito mais amplo e re-

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

cente de alfabetização. De acordo ciência crítica da realidade, que fa-


com esse princípio, ao ser alfabetiza- vorece a compreensão genuína da
do o sujeito deve ser também letra- causalidade dos fenômenos sociais.
do, ou seja, ser preparado para utili- Freire pensava a educação enquanto
zar dos conhecimentos para resolver ato político, portanto extrapolando a
as diversas demandas da vida social, sala de aula e projetando- se para os
cultural e política, exercendo os de- problemas enfrentados pela huma-
veres e direitos de cidadania, emba- nidade. Em suas palavras,
sado na consciência crítica da rea-
“[...] no processo de aprendiza-
lidade. gem, só aprende verdadeira-
Isto posto, pode-se afirmar mente aquele que se apropria
que a atual tendência de alfabetiza- do aprendido, transformando-o
em apreendido, com o que po-
ção tem um sentido político explíci- de, por isso mesmo, reinventá-
to, vinculando educação e cidadania. lo; aquele que é capaz de aplicar
Se antes, alfabetizar era considerada o aprendido apreendido a situa-
ções existenciais concretas.
uma atividade neutra, politicamen- (FREIRE, 1977, p.27-28).
te, na atualidade, na perspectiva do
letramento, ela assume uma relação Na perspectiva progressista e
com as questões sociais mais transformadora de educação, a alfa-
amplas. betização nunca foi restrita aos me-
Na década de 60, as ideias de canismos de codificação e decodifi-
Paulo Freire já contemplavam essa cação, correspondendo, sim, ao pro-
relação. No contexto de sua pedago- cesso de apropriação do conheci-
gia ativa e dialógica, alfabetização mento, por meio do qual o sujeito
sempre correspondeu a algo além do pode superar a alienação e construir
domínio de técnicas de leitura e es- sua condição de existência na rela-
crita, nada de “memorização mecâ- ção dialética com o meio: constituin-
nica das sentenças, das palavras, das do e constituindo-se.
sílabas, desvinculadas de um univer- Dessa forma, não cabe sobre-
so existencial” (FREIRE, 1979, p. posição de conceitos entre letramen-
72). Estar alfabetizado significa “en- to e alfabetização, já que essa é de-
tender o que se lê e escrever o que se sencadeada pelo acesso à cultura le-
entende” (Idem). trada, que, por sua vez, é legitimada,
Em sendo assim, é por meio do também, pelo domínio da alfabetiza-
conhecimento que o sujeito supera a ção. Historicamente, desde que fo-
consciência ingênua e atinge a cons- ram inventados os sistemas de escri-

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

ta, fez-se necessário socializar suas acerca dessa transposição. É impor-


regras de funcionamento para que tante esclarecer que o referencial
as pessoas pudessem utilizá-los, teórico piagetiano é um caminho im-
adequadamente e, assim, interagir portante para a compreensão do
no contexto letrado. conhecimento, porém não é o único,
Insistir na sobreposição de já que seus pressupostos são expli-
conceitos significa negar a relação cativos e não normativos, estão em
entre esses processos e, ainda, im- (re)construção constante, são, por-
plica na possibilidade de transfor- tanto, antidogmáticos, como ele
mar o letramento em mais um mo- mesmo afirmou: “Se algum dia se
dismo educacional: o entendimento falasse do “sistema de Piaget”, essa
não ultrapassa os limites do discur- seria a prova de meu fracasso” (apud
so, portanto, não se configura en- FERREIRO, 2001, p.124).
quanto prática pedagógica. Isto posto, o presente estudo
Diante dessa tendência, o coti- recorreu à epistemologia genética
diano do alfabetizador tem sido pal- para fundamentar a discussão acer-
co de grandes embates teóricos e ca do processo de alfabetização e le-
práticos, acerca dos métodos e pro- tramento, na perspectiva interacio-
cessos de alfabetização, contem- nista de conhecimento, abordando,
plando não apenas os aspectos me- então, a interação entre o sujeito (al-
todológicos, mas também, psicológi- fabetizando) e o objeto de conheci-
cos, filosóficos, sociológicos e lin- mento (língua escrita), assim como o
guísticos. Por se tratar de um conhe- mediador desse processo (alfabeti-
cimento interdisciplinar, a alfabeti- zador).
zação precisa estar respaldada em
princípios que sustente sua comple- Concepções e Métodos de
xidade. Alfabetização
Nessa perspectiva, a episte-
mologia genética de Jean Piaget Muitos educadores se pergun-
pode oferecer importantes contri- tam qual o melhor método ou “recei-
buições, pois mesmo não sendo um ta para se obter o sucesso no proces-
alfabetizador, ao aborda os proces- so de alfabetização? Esse impasse
sos de aquisição de conhecimentos, causa insegurança e se faz presente,
sua teoria tem implicações, reper- desde o início da história da alfabe-
cussões e aplicações pedagógicas, tização, nas escolas brasileiras. Dois
apesar das dificuldades e equívocos “métodos” trouxeram polêmica no

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

passado. Mas em que eles consis- afirmar que a escrita não é uma
tem? Vamos analisá-los: transcrição do fonema.

Método Sintético Método Analítico

Aqui, se faz a relação entre o Aqui a leitura é tida como um


som e a grafia, ou seja, entre o oral e ato global onde reconhecer as pala-
a escrita. Inicia-se a alfabetização vras ou das orações, é o primeiro
com subdivisões partindo daí para o passo. O Método Analítico é divido
todo. O educador orienta o educan- por Kato (1999), em: Global Puro,
do para que, este, seja capaz de esta- onde sugere que o estímulo visual se
belecer as relações entre, o som das realiza de forma ideográfica, sem
letras pronunciadas e a grafia das apreciação dos elementos que o
mesmas. compõe; o Global Analítico-Silábico,
O Método Sintético, ainda se onde a criança entende que a escrita
subdivide em: Silábico-Sintético e pode ser dividido em partes meno-
Fônico- Sintético. Segundo Kato (19 res (sílaba); e o Global Analítico-Fo-
99, p 19), no silábico-sintético “a nêmico, onde a criança entende que
criança é capaz de perceber uma en- a mesma divisão pode ir além, che-
tidade mais abstrata que a palavra, a gando a um nível fonêmico.
sílaba e a partir da representação Mas existem também alguns
grafêmica chegar a unidades signifi- pesquisadores que criticam o Méto-
cativas como a palavra, a frase.” Já do Analítico e se perguntam como é
no fônico-sintético, a criança enten- possível a criança aprender a ler e a
de unidades sonoras físicas. O edu- escrever sem antes, entender o sis-
cador, parte do som das letras, do fo- tema que lhe permite codificar e de-
nema e posteriormente leva o edu- codificar.
cando a associá-lo a grafia e às uni-
dades significativas (silaba, palavra, Piaget e a Construção da Alfa-
frase, texto). betização
Alguns educadores criticam
este método e o julgam “mecânico”, O processo de alfabetização
onde a escrita e uma transcrição da nunca foi objeto de estudo de Piaget,
fala. Ora, nós sabemos que não exis- porém, a partir de sua teoria é pos-
te uma única letra que represente sível introduzir a escrita enquanto
um fonema, desta forma, é correto objeto de conhecimento e o alfabe-

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tizando enquanto sujeito cognos- to, a alfabetização, nessa perspecti-


cente. Abordar a alfabetização sobre va, consiste na aquisição de um es-
as bases da teoria piagetiana é, no quema de assimilação de códigos
mínimo, um desafio; tanto para a gráficos, os quais representam um
teoria, que é colocada à prova, quan- significante da realidade, uma vez
to para o alfabetizador, que tenta que substituem o real por meio de
reinterpretá-la, utilizando-a como uma convenção, no caso o código al-
sistema assimilador. De acordo com fabético. Sendo assim, pode-se afir-
Ferreiro e Teberosky (1986), traba- mar que a alfabetização compreende
lhar com as ideias do mestre de os processos de aprendizagem vin-
Genebra em um novo campo é uma culados à objetos simbólicos, en-
“aventura intelectual apaixonante”, quanto produtos sociais e culturais.
dadas suas possibilidades de res- Isto posto, como ocorre a aqui-
paldar novas aquisições. Segundo as sição desse esquema de assimilação,
autoras (1986, p.281): “foi graças a condicionada por um sistema social
essa teoria que pudemos descobrir de significações? Essa questão re-
um sujeito que rein-venta a escrita mete à natureza complexa da alfabe-
para fazê-la sua, um processo de tização, a qual compreende dois as-
construção efetivo e uma originali- pectos distintos e relacionados: o as-
dade nas concepções que nós, adul- pecto figurativo da língua escrita
tos, ignorávamos”. (assimilação figurativa – formas e ti-
A psicologia genética de Jean pos de letras) e o aspecto operativo
Piaget e a psicolinguística contem- (mecanismos de codificação das le-
porânea contribuem para desbancar tras para representar palavras, re-
antigas premissas acerca da alfabe- quer competência cognitiva e lin-
tização, segundo as quais: a) o alfa- guística).
betizador e o método de alfabetiza- A criança aprende a ler e es-
ção são considerados aspectos cen- crever analisando os dados que lhe
trais; b) a criança começa sua apren- chegam sobre esses conteúdos. Essa
dizagem da leitura e da escrita so- análise é caracterizada, a princípio,
mente quando ingressa na escola; c) por uma “leitura” das formas gráfi-
a alfabetização é centrada no pro- cas, as quais ela sabe que significam
cesso de codificação e decodificação. alguma coisa, porém ainda não com-
Se para Piaget todo conheci- preende seus aspectos convencio-
mento é sempre assimilação de um nais. Somente as práticas sociais de
dado exterior às estruturas do sujei- interpretação possibilitam identifi-

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

car essas formas como objetos sim- ços de compreensão através de com-
bólicos, carregados de determinados paração, ordenação e reprodução
significados. Nesse sentido é impor- das marcas que compõem o sistema
tante esclarecer que, ao transpor a de escrita. Dito de outra forma, a
teoria piagetiana para a prática pe- criança atribuirá significado ao
dagógica, é necessário considerar mundo da escrita mediante suas
que a presença do objeto de conhe- tentativas de assimilá-lo, e é so-
cimento per se não garante a assi- mente em função dessa interpreta-
milação, uma vez que são as situa- ção que sua conduta deve ser com-
ções sociais que colocam as signifi- preendida.
cações. Sobre essa questão, Piaget e O processo de alfabetização,
Garcia (1982, p.228) explicam: na perspectiva psicogenética, parte
da utilização de significantes (índi-
“Na experiência da criança, as ces, sinais, símbolos), seguida do
situações com as quais se depa-
texto e da apresentação de palavras,
ra são prontamente criadas por
seu ambiente social, e as coisas colocadas em um determinado con-
aparecem em contextos que texto que amplia o seu significado.
lhes dão significações especiais.
Não se assimilam objetos “pu-
As palavras são retiradas do mundo
ros”. Assimilam-se situações real da criança. A atividade de lei-
nas quais os objetos desempe- tura tem início com o processo ope-
nham certos papéis e não ou-
tros. ”
racional de análise-síntese, quando
a criança “monta e desmonta” a pa-
A atividade de assimilação en- lavra escrita. Sendo assim, o ponto
volve a compreensão analítica das de partida para a alfabetização não
formas gráficas e do mecanismo de são as letras e sílabas.
codificação, não ocorrendo respal- Uma proposta metodológica
dada somente no discurso pedagógi- que enfatiza somente o aspecto figu-
co do professor, embasado em pre- rativo é respaldada na memorização
missas de um adulto alfabetizado. mecânica de letras, sons e sílabas;
Para alcançar essa compreensão seus resultados são superficiais,
analítica faz-se necessário uma ati- uma vez que não criam uma situação
vidade estruturante da criança, refe- favorável à compreensão do pro-
renciada na interação com o objeto cesso de codificação.
de conhecimento. Daí a importância O alfabetizando pode obter
de acesso à diferentes portadores de êxito em repetir os códigos linguís-
escrita, os quais favorecem os esfor- ticos, porém enfrentará dificuldades

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

em suas tentativas de leitura e es- diferenças individuais não podem


crita, visto não compreender o siste- ser descartadas.
ma de funcionamento do código As conceitualizações sobre a
alfabético: será um mero reprodutor escrita evoluem, principalmente, a
de signos estranhos. partir da diferenciação icônica, ou
Em decorrência, é possível ob- seja, a criança descobre que para ler
servar um equívoco teórico vincula- e escrever são necessárias determi-
do à alfabetização: considerar que a nadas marcas, distintas do desenho
aquisição da língua escrita em toda (fase pré-silábica). É possível que, a
sua complexidade consiste em uma princípio, mesmo tendo consciência
técnica de codificação e decodi- dessa distinção, a criança não con-
ficação. siga realizar uma leitura desvincula-
A transposição das ideias de da da imagem, mas ela já tem clareza
Piaget para o campo pedagógico e de que aquelas marcas no papel re-
psicopedagógico não pode descon- presentam algo. Em suas primeiras
siderar os pressupostos psicogenéti- tentativas de escrita ou grafismos
cos. Pesquisas com crianças de di- primitivos, utiliza garatujas ou pseu-
ferentes partes do mundo (FER- doletras. Na maioria dos casos, esse
REIRO E TEBE-ROSKY, 1986) revê- conhecimento antecede o ingresso à
lam que a aquisição da língua escrita escola, uma vez que a criança em
segue uma trajetória de concepções geral está inserida em um mundo
sucessivas e construtivas, que, Fer- letrado, vivenciando representações
reiro e Teberosky (1986) identifica- e signos diversos.
ram como os seguintes níveis de Após diferenciar o desenho da
evolução da língua escrita: pré-silá- escrita, a criança compreende que
bico; silábico; silábico alfabético e essa é representada por formas arbi-
alfabético. trárias, dispostas linearmente (orde-
As experiências cotidianas nadas em uma sequência no plano
com o objeto de conhecimento, nes- horizontal) e que há dois tipos de
se caso a língua escrita, resultam em signos gráficos: as letras e os nú-
variações na idade de aparecimento meros.
das concepções, mas há uma regula- Seguindo a trajetória de aqui-
ridade que caracteriza, de forma não sição desse objeto, ela começa a ela-
aleatória, essa trajetória. Isso não borar tentativas de interpretação.
significa que a aquisição da língua Para tanto utiliza de alguns critérios
escrita segue, mecanicamente, uma para decidir sobre a quantidade de
sequência de fases uma vez que as letras necessárias à escrita. À prin-

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

cípio pode utilizar a quantidade de Em suas tentativas de recons-


letras suficiente para preencher a trução da escrita, a criança utiliza de
largura do papel, ou usar uma grafia todas as informações disponíveis,
para cada palavra; ou ainda, consi- inclusive do fato de ser falante da
derar que o número ou tamanho das língua. Nessa fase, ela não compre-
letras deve corresponder ao objeto ende que não há uma correspon-
que representam (realismo nomi- dência perfeita entre a língua oral e
nal). a língua escrita, e levará algum tem-
Assim, para escrever elefante po para descobrir que a escrita não
são necessárias várias letras ou le- significa uma transcrição da fala.
tras grandes; já para escrever for- Conforme afirma Hagége, “Uma lín-
miga são necessárias poucas letras gua escrita não é uma língua oral
ou letras pequenas. As crianças se- transcrita: é um novo fenômeno lin-
guem diferenciando seus critérios, o guístico e cultural.” (apud, FERREI-
que pode levar à hipótese quantita- RO, 2001, p. 82).
tiva e qualitativa (FERREI-RO e TE- A fonetização da escrita tem
BEROSKY, 1986). A primeira refere- início mediante a busca de relação
se a quantidade mínima necessária entre a produção escrita e a produ-
para que algo seja escrito, geralmen- ção oral (fase silábica: cada sílaba da
te em torno de três caracteres. A se- palavra é representada por uma le-
gunda refere-se à variação dos ca- tra ou uma grafia). Essa fase é carac-
racteres, ou seja, deve haver uma terizada pela hipótese de que para
combinação de posição e formas de escrever algo que apresenta seme-
letras para que algo seja escrito. lhança aos sons da fala, deve haver
Dessa forma, atendendo à natureza semelhança de letras na escrita, sen-
desses critérios, a escrita é produzi- do que as diferenças sonoras devem
da com no mínimo três letras (carac- ser marcadas por produções gráficas
teres), as quais devem ser diferentes. distintas. Assim é possível escrever
No caso de outra produção com es- qualquer palavra. É importante as-
sas letras, faz-se necessário mudar a sinalar que essa hipótese não corres-
posição das mesmas. “Para signifi- ponde às tentativas de escrita orto-
cados diferentes devem correspon- gráfica, mas sim alfabética. Não se
der sequências diferentes, porém as trata de uma hipótese a ser ensina-
diferenças que se marcam são fun- da, ela surge da necessidade interna
damentalmente semânticas e não de coordenar o valor do todo e das
diferenças sonoras” (FERREIRO, partes.
1993, p. 85).

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

É um salto qualitativo a supe- convencional ou à escrita utilizada


ração da correspondência global en- pelo adulto. Essa constatação infan-
tre a forma escrita e a expressão oral til marca um avanço conceitual, pois
para a correspondência entre as par- coloca a necessidade de rever as
tes do todo. hipóteses, buscando uma solução
Nessa trajetória, a criança re- para o problema. Trata-se do confli-
constrói seus conhecimentos da lín- to cognitivo, tão necessário para o
gua oral, utilizando-os na produção progresso conceitual, como afirma
escrita; em outras palavras, trata-se Piaget (1974).
de reestruturar o que já se sabe para Mediante resultados de pes-
incorporar o novo. quisa, Curto (2000) aponta como
Por exemplo, a noção de pa- problema da escrita silábica para a
lavra em nível oral não garante a criança: a escrita de palavras mo-
produção escrita. Faz-se necessário, nossílabas (como é possível escrever
portanto, uma reelaboração em fun- uma palavra com uma grafia quando
ção das particularidades impôstas se está convencido de que é necessá-
pela língua escrita. Ou, ainda, nas rio mais de uma letra para escrever
palavras de Ferreiro (1993, p.101): uma palavras?); as palavras com le-
“nem o conhecimento do recorte si- tras iguais (se de acordo com a hipó-
lábico em nível oral basta para de- tese silábica é correto escrever BA-
senvolver imediatamente uma hipó- TATA, grafando AAA, como é possí-
tese silábica, nem a noção de palavra vel ler se todas as letras são iguais?);
basta para encontrar as segmenta- as palavras diferentes escritas da
ções na escrita, nem a competência mesma maneira (não é possível gra-
dialógica oral basta para responder a far UO tanto para suco como para
uma carta”. tubo); os nomes próprios (por que os
Para progredir e superar essa nomes próprios não se ajustam à hi-
fase, as mediações externas são fun- pótese silábica?). Sendo o sistema de
damentais, uma vez que, devida- escrita do tipo alfabético, o meio
mente adequadas, desencadeiam proporciona referências que não são
conflitos, cuja solução resulta em interpretáveis pela hipótese silábica
um nível qualitativamente distinto. da criança.
É de acordo com seu ritmo e expe- É na busca de solução para
riências no mundo letrado que a esses conflitos que a criança avança
criança verifica que a escrita do tipo para hipótese silábica - alfabética,
silábica não corresponde à escrita caracterizada pela progressiva com-

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

preensão do significado de sílaba: modo de produção. Assim, a natu-


uma grafia composta por mais de reza do conhecimento é assimilado-
uma letra. Durante essa fase, a ra e não registradora (acúmulo de
criança combina o critério silábico informações). Dessa forma, para co-
com escritas parcialmente alfabé- nhecer faz-se necessário processar,
ticas. A escrita alfabética, por sua operar com a informação. Se a com-
vez, é efetivada quando as letras são preensão carece de esquemas de as-
grafadas de forma convencional. similação originados na ação sobre o
Escrever alfabeticamente não signi- objeto de conhecimento, o mediador
fica escrever ortograficamente; por- precisa planejar adequadamente as
tanto, os conflitos de ordem orto- situações, entendendo que propor
gráfica permanecem e serão resol- condições de aquisição não corres-
vidos mediante a familiaridade com ponde a ensinar formalmente, mes-
o sistema alfabético de representa- mo porque, do ponto de vista da psi-
ção da escrita. cogênese, as aquisições se realizam
As experiências cotidianas por caminhos que não são determi-
possibilitam à criança explorar algu- nados pela escola. As pesquisas de
mas propriedades da língua e for- Ferreiro e Teberosky (1986) eviden-
mular hipóteses sobre o seu funcio- ciam que, independente da método-
namento. Contudo, para compreen- logia de trabalho do alfabetizador, as
são das reais propriedades que defi- crianças não avançam no mesmo rit-
nem esse objeto simbólico e lhe pro- mo, sempre há níveis distintos de
porcionam valor social é preciso a conceitualização. Isso ocorre porque
mediação de um parceiro alfabeti- o método não cria aprendizagens, o
zado, o qual utiliza da escrita como conhecimento é resultado da pró-
significante em seu sentido pleno, pria atividade do sujeito: a ação de-
ou seja, domina a escrita para resol- sencadeia todo processo de conhe-
ver questões práticas, ter acesso à cimento.
informação, interagir com o mundo No decorrer do processo de al-
utilizando formas superiores de fabetização, a intervenção do media-
pensamento. dor deve ocorrer no sentido de favo-
A língua é um objeto concei- recer a compreensão dos modos de
tual. A criança só adquire conceitos representação da linguagem, uma
se os tiver anteriormente construí- vez que para se ingressar no mundo
do. Apropriação de conhecimento letrado a criança precisa resolver os
significa um processo ativo de re- problemas conceituais vinculados à
construção, uma compreensão do compreensão do sistema alfabético

31
FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

de escrita. Ela não se alfabetiza com suas tentativas de compreensão do


base apenas em suas hipóteses sobre objeto.
o processo de leitura e escrita, de As tentativas de compreensão
modo que é fundamental a trans- da linguagem ficam prejudicadas
missão de conhecimentos. Isso sig- mediante o uso de materiais de alfa-
nifica que negar a mediação do pro- betização definidos a priori. Esses
fessor no processo de ensino é um recursos são frequentemente con-
grande equívoco educacional. traproducentes, pois desconsideram
A própria postura do professor uma capacidade vital da criança: a
enquanto usuário da língua é um capacidade de pensar. E por que
referencial importante, ele ensina pensar é importante?
também ao servir de modelo no uso Porque pensar significa criar,
da linguagem escrita, portanto seus construir e reconstruir, problema-
encaminhamentos de leitura, sua tizar incessantemente, buscar sem
forma de utilizar o código, indepen- parar. Essas características são fun-
dente de situações específicas de en- damentais para efetivação de uma
sino, servem de referencial para o aprendizagem significativa, contrá-
aluno, por exemplo: lê em sala al- ria à conotação empirista que este
gum comunicado da direção da Es- termo pode adquirir.
cola ou um bilhete encaminhado por Por outro lado, o uso de mate-
um pai de aluno, uma notícia de riais padronizados pode retirar a
jornal, uma carta, etc. oportunidade de situações mais in-
Faz-se necessário, também, teressantes, como por exemplo: vi-
trabalhar a função social da escrita, venciar atos de leitura e de escrita,
cuja importância extrapola os limi- explorar semelhanças e diferenças
tes da escola; a leitura compreen- entre textos escritos, emitir opiniões
siva de diferentes registros e mate- sobre textos, fazer perguntas e ofe-
riais portadores de escrita (jornais, recer respostas conforme as hipó-
livros, revistas, cartas, bilhetes, re- teses disponíveis, tentar produzir
ceitas, outros); a produção de textos um texto, explorar os diferentes por-
coerentes e coesos, com diferentes tadores de texto existentes no
propósitos. ambiente. Em suma, a escrita, en-
Essa trajetória é marcada por quanto objeto de conhecimento,
organizações, desestruturações e deve estar presente de forma plena e
reestruturações constantes, haja vis- não ser dosada através de propostas
ta que a criança sistematiza e põe à metodológicas fixas e/ou padroni-
prova a organização obtida durante zadas.

32
FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

Quando se adota esse procedi- Por fim, trata-se de considerar


mento de trabalho, incorre-se no a alfabetização não apenas como
equívoco de deixar o material con- aquisição de um código linguístico,
duzir o ensino e a aprendizagem em mas enquanto uma estrutura sobre a
prejuízo da interação entre o aluno e qual outros conhecimentos serão
o professor. Os alfabetizadores não construídos. Assim torna-se possível
podem delegar a responsabilidade alcançar o objetivo principal da edu-
da mediação na aprendizagem, o cação na perspectiva de Piaget: de-
que implica revisar algumas ideias senvolver a capacidade humana de
subjacentes à tarefa de ensinar. Se- criar e não simplesmente repetir o
gundo Curto (2000, p.68): “ensinar que a humanidade já sabe.
não é apenas transmitir informações A realidade do mundo globali-
a um ouvinte. É ajudá-lo a transfor- zado impõe novas perspectivas ao
mar suas ideias”. Para isso, é preciso processo de alfabetização: não basta
conhecê-lo, escutá-lo atentamente, dominar os mecanismos de codifica-
compreender seu ponto de vista e ção e decodificação, é necessário ir
escolher a ajuda certa de que neces- além desse saber para construir co-
sita para avançar: nem mais nem nhecimentos e engajar-se social-
menos. mente. Em outras palavras, apren-
Para alfabetizar com base nos der a ler e escrever não pressupõe
pressupostos piagetianos, o profes- somente compreender um conjunto
sor precisa dispor-se a entender o de regras e normas, mas também ad-
pensamento infantil sobre a língua quirir competência comunicativa
escrita, analisar as produções como para utilização adequada da língua
passos construtivos de um processo em qualquer circunstância.
e não como resultado definitivo, pre- De acordo com essa tendência
cisa aceitar que as crianças têm hi- ampliam-se as funções dos profes-
póteses complexas e compreensivas sores alfabetizadores, que devem
sobre o sistema alfabético de repre- atribuir novos sentidos e significa-
sentação, construídas em suas tenta- dos aos usos funcionais da língua.
tivas de compreensão da natureza da Isso quer dizer (re) definir os concei-
linguagem. Para tanto, deve oferecer tos teóricos e metodológicos que
oportunidades para que a criança embasam os procedimentos didáti-
pense, exponha sua lógica, revele cos - pedagógicos. Para tanto, preci-
suas dúvidas, faça seus questiona- sa haver disposição para rever pos-
mentos. turas e concepções acerca dos alu-

33
FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

nos, dos processos de ensino e de dizagem. Essa dinâmica interativa é


aprendizagem e, também, de alfabe- contrária ao planejamento massifi-
tização. cante, isto é, o plano único de ativi-
Ao abolir a visão reducionista dades para todos os alunos. A partir
do ato de ler e escrever, o professor da consideração das diferentes con-
passa a valorizar o meio sociocul- cepções que os alfabetizandos po-
tural em que as crianças estão inse- dem apresentar em relação a língua
ridas, contextualizando o ensino da escrita, torna-se inviável propor o
língua, uma vez que os conhecimen- mesmo trabalho a todos.
tos são construídos ao serem traba- O alfabetizador que desconsi-
lhados em contextos sociais e situa- dera essa realidade e massifica seus
ções comunicativas diversas. Ao alunos com uma proposta única,
buscar referência nas práticas so- atende a uma parcela da turma, ge-
ciais de leitura e escrita, o ensino ralmente aqueles que já construíram
transforma a relação das pessoas vários dos conceitos sobre a língua-
com o conhecimento. Esse processo gem, enquanto os demais ficam à
é gradativo, envolve erros e acertos, margem do processo e são os candi-
daí a necessidade de mediação teó- datos ao fracasso escolar. Para estes
rica, de momentos de estudo e re- a escola deixa muitas lacunas no
flexão. cumprimento de sua função social
Nesse sentido alguns princí- de produção e socialização do co-
pios piagetianos podem ser perti- nhecimento, e ainda, discrimina e
nentes para uma intervenção na classifica os que podem e os que não
alfabetização. Com base nessa ma- podem aprender. Por meio de seus
triz explicativa a compreensão de “mecanismos legais” de avaliação,
determinado objeto de conhecimen- faz com os alunos assumam a res-
to, neste caso a língua escrita, está ponsabilidade de seu “fracasso”,
estreitamente relacionada às possi- com todas as implicações sociais
bilidades do sujeito reconstruir esse decorrentes desse fato.
objeto, a partir da compreensão de Não é essa a educação que a
suas leis de funcionamento, o que maioria dos brasileiros almeja e ne-
equivale a reconstrução da língua cessita. Se o acesso aos patamares
pelo entendimento de seus elemen- mais elevados do conhecimento é
tos constitutivos. Para tanto é pre- direito inalienável de todos os cida-
ciso criar situações de intervenção, dãos, cabe a escola assegurar as con-
por meio das quais ocorre a media- dições favoráveis ao desenvolvimen-
ção pertinente ao processo de apren- to pleno das potencialidades de seus

34
FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

educandos. Isto significa educar na em lugar de seguir uma progressão


perspectiva da diversidade, cons- de exercícios pré-determinados por
truindo uma cultura de integração um manual, passam a realizar, pre-
em detrimento da reprodução de ferencialmente, atividades onde a
modelos pedagógicos predefinidos e língua escrita cumpre apenas algu-
alienantes. mas de suas funções sociais especí-
ficas (escrever para recordar, con-
A Prática Educacional e a Psi- servar, comunicar-se). Há respeito
cogênese da Língua Escrita pelo ritmo de aprendizagem do alu-
no, pois a alfabetização requer um
A psicogênese da língua escri- tempo de assimilação dos conheci-
ta não surgiu para ser mais um mo- mentos, e esse tempo é de impor-
dismo, mais um manual de como tância fundamental tanto para as
alfabetizar, até porque em momento crianças como para os professores,
algum houve a preocupação dos pes- pois precisa mudar seus esquemas
quisadores em estabelecer regras ou assimiladores reativos a escrita, que
atividades a serem desenvolvidas é o objeto do conhecimento. (FER-
com os alunos de forma sequenciada REIRO, 2001c).
ou não. Os educadores que desen- No livro Psicogênese da Lín-
volvem um trabalho baseado nos gua Escrita, as autoras destacam que
estudos da psicogênese, valo-rizam uma das grandes necessidades de
o saber das crianças quando entram mudança está, principalmente, a
no sistema educacional, pois esse prática educativa predominante,
sujeito cognoscente, ou seja, o sujei- ainda nos dias atuais, pela maioria
to que busca adquirir conhecimento, dos alfabetizadores, a pedagogia tra-
é colocado em primeiro plano, onde dicional. Nessa pedagogia, a escola
são considerados os progressos em ignora a progressão natural do de-
função dos esquemas conceituais senvolvimento da criança em rela-
que são testemunhas em uma ativi- ção à aquisição da língua escrita,
dade construtiva e que respondem a priorizando o ingresso imediato ao
uma linha evolutiva de caráter geral. código escrito, na busca por tentar
Sendo assim, o professor deixa de compreender o código alfabético.
ser considerado como o único depo- Parte-se do pressuposto, que todas
sitário do saber relativo à língua es- as crianças já conseguem compre-
crita, pois passam a serem conside- ender o código alfabético assim que
radas e solicitadas às contribuições iniciam sua vida escolar, desde que o
de todos os participantes do grupo, professor ensine passo a passo as

35
FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

partes que integram a escrita, par- alfabetizado. Somente o conheci-


tindo do que ele considera o mais mento da evolução psicogenética
simples (letras e sílabas) até chegar pode obrigá-los abandonar a visão
ao mais complexo (frases e textos), errônea do processo.
transmitindo-lhe o equivalente so-
noro das letras e exercitando-as na
realização gráfica da cópia. Com is-
so, constata-se que há uma distância
muito grande entre o que a escola
ensina e o que a criança aprende.
Nessa prática, possibilita-se que a
criança aprenda a função da escrita
de modo descontextualizado a partir Fonte: https://medium.com/
da apropriação desse objeto, seguin-
do uma lenta construção de critérios Surge então, o desafio da capa-
que lhe permitem compreendê-lo, citação, para resgatar o professor
critérios esses estabelecidos pelo adormecido frente às mudanças
educador e não nos momentos de educacionais necessárias, para res-
descoberta da criança a partir de gatar os seres pensantes, reflexivos e
suas próprias construções na inte- construtores. O professor, assim co-
ração com o objeto de conhe- mo as crianças, elaboram hipóteses,
cimento. sendo assim, a capacitação precisa
As autoras destacam ainda que partir dessas hipóteses construídas
as principais dificuldades iniciais pelos professores, essas fornecidas
observadas nos profissionais de en- pelas próprias dúvidas e anseios que
sino no decorrer da pesquisa foram: eles externam quando solicitam “re-
em primeiro lugar, a visão que o ceitas” para a prática educacional. A
adulto, já alfabetizado, tem do siste- exteriorização do que eles estão pe-
ma de escrita; em segundo lugar, a dindo indica a hipótese em que estão
confusão entre escrever e desenhar e, portanto, passa a ser o ponto de
letras e; em terceiro lugar, a redução partida para o que precisa ser traba-
do conhecimento do leitor ao conhe- lhado na formação. A importância
cimento das letras e seu valor sonoro de iniciar pelo que ele pensa se dá na
convencional. Essas dificuldades valorização e respeito das hipóteses
originam-se em sua própria alfabeti- individuais, prática que eles preci-
zação, ou seja, na forma como foi sam ter com os alunos, no entanto,

36
FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

isso não significa que capacitação dos currículos de formação dos mes-
será limitada no que ele pensa, mas mos, porque a prática docente se
a partir daí proporcionar-se-á opor- apoia em modelos anteriores, nas
tunidades para refletir e construir, experiências que os professores tive-
ampliando assim os conhecimentos. ram quando eles aprenderam a ler e
A conscientização, por parte desse a escrever. Portanto, não se pode
professor de que a prática não está propor ao professor que mude seu
separada da teoria, e que essa se re- modo de atuar sem fornecer-lhes
flete em sua prática, sendo, muitas material teórico forte e sólido, para
vezes inconsciente, passa a ser desa- servir de subsídio em sua prática.
fio no momento de capacitação, que Sendo necessárias correções quando
precisa esclarecer essa teoria, pos- ocorrem falsas interpretações, e pro-
sibilitar o estudo, os momentos de porcionar momentos de experimen-
questionamento, para que o profes- tação, fazendo com que o estudo seja
sor possa elaborar algo novo a partir mais bem compreendido e aprofun-
do saber que tem, pois não há cons- dado.
trução no vazio, todo o novo é cons- A teoria psicogenética da alfa-
truído ou reelaborado a partir dos betização é um enfoque novo para
conhecimentos já existentes. Por um problema velho. Sua inserção no
essa razão, o instrumento chave des- sistema educacional está ocorrendo
se professor é sua reflexão, pois se o através de sua institucionalização
educando é um sujeito que se alfabe- como conhecimento, particular-
tiza ao interagir com seu próprio mente a nível universitário, e está
processo de alfabetização, o profes- procurando as formas de penetrar
sor deve ser aquele a quem devem no aparelho estatal que é a escola
ser oferecidos instrumentos que res- pública. Para isso, faz-se necessário
gatam sua reflexão teórica sobre sua um processo natural de desenvolvi-
prática, para que a construção de mento de uma mudança, que deve
sua trajetória se dê em processo pa- ocorrer “de baixo pra cima”, a partir
ralelo ao de seus educandos, dessa das experiências concretas de gru-
forma descobrirá como e por quê pos que demonstrem importância,
modificar a sua prática. (FREIRE os sucessos dos mesmos, possibili-
apud FERREIRO, 1990). tará uma nova visão. Essas experiên-
De acordo com Palácio apud cias concretas devem funcionar co-
Ferreiro (1990) o problema da capa- mo áreas de investigação e desenvol-
citação dos professores não se resol- vimento para o aparelho do Estado
ve apenas através da modificação (KISIL apud FERREIRO, 1990).

37
FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

Deve-se lembrar que a capa- Nesses momentos de intera-


citação não é um momento apenas ção, a segurança em relação aos ob-
para transmissão de uma teoria ou jetivos a serem alcançados, o in-
experiência, precisa está organizada centivo a autoestima e à capacidade
para propiciar momentos de refle- do aluno, além da valorização de seu
xão para a reconstrução da prática esforço, devem ser ações efetivas na
educacional de todos os envolvidos. prática do educador, possibilitando
É necessário saber mais sobre quais assim, o estabelecimento da con-
são as informações, quais são os da- fiança na relação entre ele e o aluno,
dos que o professor extrai do que vê, serão conhecimentos construídos
porque é evidente que só é possível por esses educadores em suas refle-
ver quando a atenção está voltada xões e vivências. A evolução no esta-
para os aspectos adequados, e quan- belecimento dessa confiança, fator
do se possui esquemas que permi- impulsionador do processo, será in-
tem ver. Quando se ressalta que o centivada pela harmonia na intera-
professor constrói o conhecimento, ção entre ambos, resultando no mú-
pensa-se que trata-se de uma pessoa tuo e contínuo aprendizado. (FER-
que tem muita informação e muitos REIRO, 2001c).
esquemas interpretativos, mas que, Passando por esse processo de
provavelmente, tem uma grande construção, fica mais fácil para o
insegurança de mudar. O lugar onde educador compreender que a crian-
os professores aprendem seu ofício é ça precisa elaborar a língua escrita,
a escola e, fundamentalmente, a sala construir e compreender as diferen-
de aula. Sendo assim, precisa ser da- ças entre sua forma de escrita e a
da a oportunidade de desenvolver o convencionalmente aceita. Conhe-
currículo de formação, pois se trata cer esta diferença permite ao profes-
de um saber que se aprende na prá- sor compreender o que acontece
tica, um saber que necessita desse com as crianças quando, por exem-
espaço rico para que o professor ob- plo, tentem registrar aquilo que pen-
serve o trabalho de outro, compar- sam, mas desconhecem a estrutura
tilhe sua prática. A possibilidade de do sistema alfabético. Essas produ-
intercâmbio de experiências com ções darão ao educador a zona de de-
outros professores que estavam rea- senvolvimento real dessa criança,
lizando atividades semelhantes. sendo esse o ponto de partida para o
(LERNER; TEBEROSKY apud desenvolvimento do trabalho peda-
FERREIRO, 2001). gógico. (FERREIRO, 2001a).

38
FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

duções de textos na Educação Infan-


til e Especial. Detectaram-se educa-
dores entusiasmados com os pro-
gressos dos alunos, que começaram
não apenas a observar e estimular,
como também a registrar o processo
de desenvolvimento dos alunos,
além de que passaram a compreen-
Fonte: der a criança como alguém que sabe
https://www.infoescola.com/ e que sua aprendizagem depende
básicamente dela, e não apenas do
A escola enfrenta um desafio que é oferecido pelo educador, assim
que não sabe como resolver, por ter como era encarada na visão tradi-
sustentado a ideia de que a apren- cional de ensino.
dizagem é restrita a alguns alunos A psicogênese da língua escri-
que se encaixavam ao padrão esta- ta possibilita não só um novo pensar
belecido de capacidade e hoje, a par- sobre o ato de alfabetizar, como tam-
tir das mudanças políticas e os estu- bém sobre todo o processo de cons-
dos da psicogênese, que estabelece- trução do conhecimento do indiví-
ram e comprovaram, respectiva- duo, enquanto ser pensante e criati-
mente nessa ordem, que a alfabe- vo, dotado de capacidades inatas e
tização é para todos, a escola não as- adquiridas. Sujeito esse, muito estu-
be como resolver as diferenças en- dado por Piaget, Vygotsky, Wallon e
contradas, não sabe como trabalhar Ferreiro, dentre outros autores que
os diferentes ritmos e processos de muito contribuíram a luz da psico-
construção do conhecimento. (FER- logia e pedagogia para a compreen-
REIRO, 2002). são dos fatores cognitivos, sociais e
Ferreiro (2001) destaca que no afetivos e que influenciam direta-
Brasil, alguns educadores, a partir mente nas aprendizagens desse
dos estudos das obras dela, começa- sujeito.
ram a colocar em prática as expe- Vale ressaltar que as pesquisas
riências relatadas nessas obras. Ini- realizadas e que deram origem à psi-
ciaram um processo onde era permi- cogênese da língua escrita, foram e
tido às crianças escreverem e lerem continuam sendo de fundamental
coisas não habituais na sala de aula importância para que, tantos os
e, passaram a estimular os processos educadores como todos os que estão
de interação entre as crianças, pro-

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

envolvidos direta ou indiretamente No Brasil, o processo de alfa-


com o processo de aprendizagem, betização estava e, de certa forma,
compreendam a forma de pensar da ainda está marcado ideologicamen-
criança ao entrar em contato com a te por práticas que desrespeitam o
escrita, como ela constrói suas hipó- processo real de construção do co-
teses e todo o processo de constru- nhecimento da criança em relação à
ção. Com certeza, essa é uma colabo- linguagem escrita, descartando suas
ração imensurável para o ensino e, escritas originais. Dessa forma, atra-
principalmente, para que as crian- vés da impossibilidade de expressar-
ças sejam respeitadas em suas parti- se em sua individualidade a criança
cularidades pela escola e pelos adul- vê-se obrigada a reproduzir o traça-
tos de forma geral. Possibilitar uma do de outro sem compreender a es-
aprendizagem onde o respeito inte- trutura dessa produção, sendo im-
lectual está garantido, é assegurar pedida de aprender, descobrir e
uma aprendizagem significativa e construir por si mesma o conhe-
real, onde cada um se expressa em cimento sobre a escrita.
sua individualidade e aprende a res- É indispensável que o profes-
peitar a individualidade do outro. sor continue sua formação, aperfei-
Ferreiro e seus colaboradores çoe seus conhecimentos, pois o
contribuíram muito para provar que mundo está em constante evolução
as classes de alfabetização precisam apresentando novas descobertas na
ser, fundamentalmente, um espaço forma de analisar e compreender a
de respeito ao desenvolvimento, às aprendizagem. O educador que a
construções, às diferentes formas de psicogênese necessita, precisa ter
expressões da aprendizagem e, prin- vontade de aprender, curiosidade
cipalmente, ao incentivo e respeito para saber como as crianças pensam
ao aluno. Serão esses momentos que sobre o objeto de conhecimento, e
direcionarão os diferentes compor- sinta-se entusiasmado a experimen-
tamentos frente aos atos de leitura e tar metodologias e recursos dinami-
escrita. Tendo em vista que essa zadores e individualizados em sua
alfabetização é um processo e não prática, precisando está preparado
um momento pontual, recebe in- para argumentar e decidir por que é
fluência de diversos fatores como os interessante propor uma atividade a
biológicos, afetivos e sociais, resul- seus alunos, fundamentando-a mi-
tando em produções originais e in- nimamente em relação a sua prática
dividuais dos diferentes sujeitos do e da aprendizagem que quer con-
conhecimento. duzir.

40
FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

que o aluno está envolvido, sobre a


necessidade da escola oferecer ativi-
dades criativas, elaboradas para
proporcionar ao aluno pensar, re-
fletir sobre os desafios propostos,
oportunizando o confronto entre os
conhecimentos novos com os já ad-
Fonte: quiridos, a fim de que ele construa e
https://www.pinterest.es/
reconstrua esse saber.

Para assegurar as mudanças


necessárias no contexto educacional
é de fundamental importância asse-
gurar e praticar políticas públicas
que assegurem momentos de capa-
citação para os professores que
atuem com alfabetização, etapa tão
importante da vida do indivíduo no
processo de construção do conheci-
mento, que refletirá em todos os
seus momentos de interação com os
objetos do conhecimento. Esses mo-
mentos precisam proporcionar a
construção, a vivência do processo
pelo qual o aluno passa na aquisição
da língua escrita. Se a capacitação
for realizada com o objetivo de ensi-
nar a alfabetizar, estaremos apenas
reproduzindo uma prática muito co-
nhecida por eles, a tradicional, onde
um ensina e o outro aprende, não
havendo interação ou construção do
conhecimento, e não conseguiremos
alcançar o objetivo maior da capa-
citação.
Esse objetivo está centrado na
compreensão por parte do educador,
sobre todo o processo de construção

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

4. O Processo de Letramento e Alfabetização

Fonte: Pinterest4

O processo de alfabetização, se-


gundo os PCN’s (BRASIL, 199
8), não deve ser simplesmente um
Para tentarmos compreender
melhor este processo, proponho que
pensemos juntos nos seguintes
aprendizado de decodificação e me- questionamentos:
morização. Tal recomendação seria  Ao receber seu aluno, no início
uma forma de indicar novos concei- do ano, qual o seu principal
tos para a alfabetização. No entanto, objetivo?
mesmo após a publicação do refe-  Para alcançá-los, que cami-
nhos você procura trilhar?
rido documento a maioria dos edu-
cadores ainda apresentam dúvidas Estas questões nortearam nos-
acerca da prática de alfabetizar le- sas próximas reflexões, na busca de
trando. esclarecimentos que contribuam pa-

4 Retirado em https://br.pinterest.com/

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

ra que o educando possa utilizar a Consideremos agora, a seguin-


língua em suas diversas práticas so- te questão: Toda pessoa letrada pre-
ciais. Isto implica em adotarmos cisa antes, ser alfabetizada? Tfouni
uma prática de “alfabetização sem (1995), nos chama a atenção para os
receita”, ou seja a prática de “alfa- aspectos socioculturais da conquista
betizar letrando”. de um determinado sistema de es-
crita por uma sociedade e as modi-
O Letramento ficações sociais e discursivas que
surgem em uma sociedade que passa
O termo letramento originou- a ser letrada.
se do inglês “literacy” e está presente
na vida social do indivíduo antes (vi-
da social) e durante o processo de al-
fabetização e ainda continua para
todo o sempre, ou seja, o letramento
é o desenvolvimento do indivíduo no
mundo letrado. O letramento não
acontece em um momento especí-
fico, mas é um processo de perma-
nente evolução na vida do indivíduo.
Fonte:
A palavra letramento surgiu https://escolaamarelinha.com.br/
pela primeira vez no vocabulário da
educação, citada por Mary Kato (19 Ora, se toda pessoa letrada
96) em seu livro: “No mundo da es- precisa, antes se alfabetizada, ou
crita: uma perspectiva psicolinguís- seja, saber ler e escrever, podemos
tica.” Este era um momento em “al- dizer então, que o indivíduo analfa-
fabetização” não era mais suficiente beto, que não domina a prática de
para definir o indivíduo que domi- leitura e escrita, são pessoas iletra-
nava as técnicas de leitura e escrita e das.
as praticava socialmente. No entanto, vemos em Tfouni
(1995) que iletrado não deve ser usa-
“Só nos demos conta da neces-
sidade de letramento quando o
do como antítese de letrado. Pois,
acesso a escolarização se am- mesmo nas mais simples comunida-
pliou e tivemos mais pessoas des, nos dias de hoje não existe o le-
sabendo ler e escrever, passan-
do a aspirar a um pouco mais do tramento em “grau zero” ou iletra-
que simplesmente aprender a mento, uma vez que todo indivíduo
ler e a escrever (SOARES, 1998,
p. 58).”

44
FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

estará sempre em um meio letrado.


Aquele que não sabe ler, tem a
necessidade, por exemplo, de pedir
que alguém leia uma placa o rótulo
de algum produto ou o número de
um ônibus, integrando, desta forma,
o mundo letrado. Considerando a
análise de Tfouni, concluímos que o
que existem são níveis de letramento Fonte:
e que seu desenvolvimento é infinito https://br.pinterest.com/
Ao pensarmos na prática de
sala de aula, podemos citar o exem-
plo de crianças que ainda não do-
minam a prática de leitura e escrita,
no entanto, fingem ler e manuseiam
materiais impressos como: livros,
revistas, jornais, entre outros. Além
de ouvir histórias lidas por adultos e
brincar de escrever.
Tais crianças já recebem a
influência de um mundo letrado e,
portanto, já iniciou seu próprio pro-
cesso de letramento, embora ainda
seja analfabetas.

Ainda não internalizou todas


Fonte: https://www.pinterest.ch/ as regras de alfabetização (escrita).

45
FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

Encontra-se em processo de alfabe- da vogal A para final, mas isso não


tização, mas já é uma pessoa letrada, acontece na escrita. Dizemos “ME-
porque consegue estabelecer comu- NINU”, mas escrevemos “MENI-
nicação social e transmitir uma NO”, ou dizemos “LEITI”, mas es-
mensagem com coerência. crevemos “LEITE”. Desta forma po-
Sugestão: Assista ao filme “Central demos verificar que a representação
do Brasil” e relacione-o com o pro- fonética nem sempre é verdadeira,
cesso de letramento e alfabetização. ou seja, não é representada gráfica-
mente, pois existem regras fonéticas
A Alfabetização que não são válidas para a escrita.

A alfabetização está relaciona-


da com o ato de aprender a ler e a
escrever, ou seja, o indivíduo inter-
naliza o processo de leitura e escrita.

Diante das questões explicita-


Fonte: https://medium.com/
das acima podemos concluir que o
letramento é um processo que não se
Refere-se, portanto ao proces- finda; é uma condição que permite
so que permite ao indivíduo ou a um ao indivíduo não apenas ler e escre-
grupo exercitar tais práticas. ver, mas também exercer a prática
A escrita não é uma represen- social da leitura e escrita, ou seja, o
tação da fala. O indivíduo quando indivíduo letrado é capaz de ler re-
passa pelo processo de alfabetização portagens, interpretar tabelas, gráfi-
inicialmente, apresentam como pri- cos, formulários e tantos outros, es-
meira dificuldade, pensar na escrita crever cartas, telegramas ou infor-
como uma como transcrição da fala. mativos sem dificuldade. Estes são
Isto é natural, tanto que em alguns exemplos de algumas práticas so-
estados na fala acontece a redução ciais comuns no dia a dia do mundo

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

letrado. Já a alfabetização pode ser dado ao adotar os métodos e crité-


vista como elemento que contribui rios a serem utilizados em sua prá-
com processo de letramento. As tica docente nas atividades que en-
duas habilidades devem estar li- volvem leitura e interpretação de
gadas. textos. Métodos e critérios bem fun-
É lamentável que alguns edu- damentados permitirão que aspec-
cadores, nos dias de hoje, desme- tos negativos de alguns gêneros, não
reçam (de certa forma) a alfabetiza- sejam inseridos de forma excessiva e
ção, dizendo que esta é APENAS indiscriminada na prática docente.
ensinar a ler e a escrever. Ora, é fato O processo de alfabetização
que nos dias de hoje não basta ler e não é simples para quem ensina ou
escrever para atuar de forma signi- para quem aprende, e desta forma
ficativa na sociedade, no entanto, deve ser considerado pelo educador,
não podemos correr o risco de per- como conteúdo que possui suas par-
der a especificidade do processo de ticularidades. Mas, tais especificida-
leitura e escrita, ou seja, a prática de des, contidas neste processo não fa-
reconhecer os fonemas e transfor- zem dele, individualizado, pois as
má-los em grafemas, adequando-se práticas de alfabetização e letramen-
ao sistema alfabético e ortográfico, to devem andar juntas. É necessário,
habilidade indispensável ao indiví- ALFABETIZAR LETRANDO.
duo que se insere na sociedade le- Entendemos que alfabetizar é
trada. conduzir o indivíduo no processo de
aquisição da leitura e da escrita, en-
quanto letrar é orientá-lo na prática
social da leitura e da escrita O indi-
víduo alfabetizado sabe ler e escre-
ver e o indivíduo letrado, é aquele
que tem a habilidade de decodificar
diversos gêneros linguísticos nas
mais variadas situações e contextos
sociais. Quando pedimos que uma
Fonte: https://br.pinterest.com/ criança não alfabetizada, leia um
determinado texto ou história, e esta
A diversidade de gêneros lin- cria um texto baseando-se nas figu-
guísticos disponíveis na atual socie- ras ou imagens, ou se a mesma
dade, requer do educador um cui- criança finge escrever uma carta,

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

enquanto faz “rabiscos”, ela pode ser guns candidatos devido à reprova-
considerada letrada. Isto é possível ção destes em um teste de alfabeti-
porque, apesar de ainda não estar zação:
alfabetizada, demonstra conhecer e
busca (dentro de suas possibilida- Candidaturas são impugnadas
des) exercer a prática de leitura e após teste de alfabetização
escrita.
Finalmente, podemos concluir O juiz eleitoral de Itapetinin-
que alfabetizar letrando, implica em ga, Jairo Sampaio Incane Filho, 38,
conduzir o indivíduo no processo de impugnou 20 dos 80 candidatos a
aquisição de leitura e escrita, contri- prefeito e vereador das cidades de
buindo para que este possa partici- Itapetininga, Sarapuí e Alambari, na
par ativamente da vida social, convi- região de Sorocaba (87 km a oeste de
vendo com as diversas formas e gê- São Paulo).
neros linguísticos. Para isso, é inte- A impugnação foi motivada
ressante que o educador enriqueça pelo fato de os candidatos terem si-
sua pratica educativa através da uti- do reprovados em um teste de alfa-
lização e adequação de revistas, jor- betização realizado pelo juiz, no
nais, livros e outros recursos que po- Fórum de Itapetininga.
deriam substituir a tradicional e ar- Incane Filho disse que fez o
tificial cartilha, tão usada no passa- texto com base na exigência contida
do. Então, alfabetizar letrando é en- na Lei Complementar nº 64/90, de
siná-la a ler e a escrever e ao mesmo 1992, do TRE (Tribunal Regional
tempo propiciar a ela a experiência Eleitoral), que proíbe analfabetos de
do convívio com o verdadeiro exer- serem candidatos a cargos eletivos.
cício social da leitura e da escrita, O juiz afirmou que convocou
através da manipulação de materiais os 80 candidatos que disseram ter o
linguísticos (jornais, livros, revis- 1º grau completo e demonstraram
tas...) presentes na sociedade e da dificuldades no preenchimento dos
construção de textos, através da vi- documentos para o registro de suas
vencia de situações significativas. candidaturas.
A seguir, analisaremos dois Os testes com os candidatos
textos publicados no jornal impres- foram feitos individualmente. Seus
so “Folha de São Paulo”, referente à nomes são mantidos em sigilo. “Pedi
impugnação da candidatura de al- a todos que lessem e interpretassem

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

um texto de um jornal infantil. Em trado, reconheceu que os fatos não


seguida, pedi que cada um redigisse bastariam para que os candidatos
um texto expondo sua lógica”, disse. fossem considerados analfabetos e
Segundo Incane Filho, erros por isso, decidiu submetê-los ao tes-
gramaticais não foram levados em te de alfabetização. O juiz entendeu
conta. “Apenas observei se o candi- que o candidato deveria ler e inter-
dato tem condições de entender um pretar um texto simples (infantil) e
texto, pois uma vez eleito, ele vai ter posteriormente elaborar um outro
de trabalhar com leis e docu- texto expondo a lógica do primeiro.
mentos.” Ao final, o magistrado disse
A assessoria de imprensa do que não observou se os candidatos
TRE informou que o tribunal trans- apresentaram erros gramaticais,
mitiu uma recomendação aos juízes mas considerou que eles não teriam
para que “em caso de dúvida”, façam capacidade de interpretação, o que
“um teste de alfabetização” nos comprometeria o exercício de ativi-
candidatos. dades como o preenchimento, ela-
boração e interpretação de docu-
Eleições de 1996. O jornal Folha de mentos.
São Paulo em 19 de julho de 1996. Ora, é fato que os candidatos,
se eleitos, teriam leis e documentos
Analisando em sua rotina de trabalho e, por-
tanto deveriam possuir habilidade
Baseando-se na lei que proibi- para ler e interpretar textos.
ria cidadãos analfabetos de se can-
didatarem a cargos eletivos e no fato Agora, vamos dar uma
de que os candidatos não haviam pausa e pensar: “O juiz está
concluído o ensino básico e ainda avaliando o nível de alfabetiza-
demonstravam dificuldade, o magis- ção ou de letramento dos can-
trado decidiu submetê-los a um didatos?
teste de alfabetização.
Poderíamos concluir então Retomando
que para o juiz, o fato de não possuir
a conclusão do ensino básico e não O TER, cerca de vinte dias
concluir corretamente o preenchi- após a decisão do juiz, publicou no
mento de um determinado formulá- mesmo Jornal “A Folha de São
rio caracterizaria um indivíduo co- Paulo, a seguinte notícia:
mo analfabeto? É fato que o magis-

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

TRE aprova candidatura de alfabetização é uma orientação do


reprovados em teste próprio TRE a todos os juízes elei-
torais do Estado.
O plenário do Tribunal Regio- Entre os candidatos impugna-
nal Eleitoral aprovou ontem a can- dos pelo juiz Incane Fillho, havia um
didatura de 30 políticos que foram ex-prefeito e seis vereadores. José
reprovados em um teste de alfabe- Luiz Holtz (PSDB), ex-prefeito de
tização aplicado pelo juiz eleitoral de Sarapuí, considerou a decisão do
Itapetininga, Jairo Sampaio Incane juiz de Itapetininga “um absurdo”.
Filho, 38. Seu candidato a vice também foi im-
O juiz havia impugnado as pugnado.
candidaturas de políticos das cida- Segundo o juiz Incane Filho, o
des de Itapetininga, Sarapuí e Alam- teste que aplicou não levou em con-
bari, todas na região de Sorocaba sideração os erros gramaticais, mas
(87 km a oeste de São Paulo). Eles apenas a capacidade dos candidatos
tiveram de ler o texto de um suple- de entender um texto.
mento infantil de um jornal e escre- “Depois de eleitos, eles terão
ver algo sobre o que leram. de trabalhar com leis e documen-
Incane Filho convocou para tos”, afirmou o juiz.
esse teste 80 candidatos que afirma-
ram não ter o primeiro grau com- Eleições de 1996. O jornal Folha de
pleto. Os testes se basearam na lei São Paulo em 07 de agosto de 1996.
complementar nº 64/90, de 1992,
que proíbe analfabetos de serem Para o Tribunal Regional
candidatos a cargos eletivos. Eleitoral - TER, o juiz erro ao decla-
O TRE reformou a sentença do rar que os candidatos eram analfa-
juiz, considerando que os cândida- betos, uma vez que estes apresen-
tos tinham “rudimentos” da alfabeti- taram “rudimentos da alfabeti-
zação e que, portanto, não poderiam zação”.
ser considerados analfabetos. Para
chegar a essa conclusão, os juízes Pense novamente: Que crité-
utilizaram a definição do dicionário rios o TRE utilizou para consi-
Aurélio para a palavra “analfabeto. derar os candidatos alfabeti-
O TRE deverá julgar hoje ou- zados?
tros onze recursos apresentados pe-
los candidatos impugnados daque- Ao analisarmos a situação pu-
las cidades. A plicação de testes de blicada pelo jornal A Folha de São

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

Paulo, nos deparamos com visões di- o que a criança escreve merece ser
vergentes acerca da alfabetização e interpretado e aceito como válido.
do letramento e ainda, da importân- Estes registros têm agora, um novo
cia de cada um. Enquanto o juiz de- significado e importância, mesmo
monstrava preocupação com as fun- estando fora dos padrões do sistema
ções e práticas sociais da leitura e da alfabético.
escrita (letramento), o TER mostrou
maior preocupação com a alfabeti-
zação, pois se satisfez apenas com os
“rudimentos” da leitura e da escrita.
Diante destes fatos, podemos cons-
tatar:
O conceito equivocado de alfa-
betização → a importância e o con-
ceito de alfabetização para um deter- Fonte: https://novaescola.org.br/
minado grupo pode variar de acordo
com a condição e/ou situação em Por volta dos três anos de
que se está inserido. idade, a criança começa a manusear
Grande parte da sociedade o lápis, ainda com dificuldade mo-
ainda desconhece o fenômeno do tora e começa a apresentar suas pri-
letramento → a prática social do le- meiras produções escritas é a fase da
tramento é real, no entanto o termo garatuja. Nesta fase, conhecida co-
e a importância desta prática perma- mo base alfabética, a criança cria le-
necem ocultas. tras quando deseja escrever alguma
O processo de aquisição das coisa. Para ela uma figura pode ser
habilidades de leitura e escrita, é co- interpretada, mas não pode ser lida,
nhecido como o processo que permi- uma vez que para ler é necessária a
te ao indivíduo codificar e decodifi- presença de outros registros (que
car códigos de transcrição (sons e seriam as letras). Não acreditam que
grafemas). Recentemente, a visão palavras com menos de três letras ou
acerca do processo de alfabetização que possuam letras repetidas pos-
mudou, passando-se a considerar o sam ser lidas.
conhecimento linguístico que o indi- No entanto, para emitir uma
víduo já possui. emissão sonora, basta apenas uma
Apesar de não atenderem as única letra. Se a palavra (som) é
regras gramaticais da escrita formal, grande ou refere-se a um objeto

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

grande, acredita que esta deve pos- A criança responde concluindo: A


suir um grande número de letras. A boquinha só fala duas letras (TRA –
criança considera a palavra escrita, TOR).
pequena demais para dar conta de Com o passar o tempo a crian-
seu significado. ça vai percebendo que é necessário
Vejamos o exemplo a seguir: combinar letras obedecendo a re-
gras convencionadas socialmente,
para que estas representem os sons
Trator
das palavras. No entanto, esta evo-
lução só ocorre, se em sala de aula,
as atividades de alfabetização forem
conduzidas de maneira adequada,
procurando garantir a aprendiza-
gem dos educandos.

O educador apresenta a figura,


a seguir à criança e solicita que ela
faça a leitura da palavra escrita.
A criança, ainda não alfabe-
tizada, analisa a figura aponta com
os dedinhos as letras e ao mesmo
tempo pronuncia a palavra:
Aponta: T e pronuncia TRA
Aponta: R e pronuncia TOR
E finaliza dizendo TRATOR!
O educador questiona: Mas e as
outras letras?
A criança responde: tem que apagar,
está errado. O educador: Por que
está errado?

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

5. Pressupostos Teóricos

Fonte: Pinterest5

O documento “Brasil Alfabetiza-


do: Marco Referencial Para a
Avaliação Cognitiva” (BRASIL, 20
 O domínio de competências
que tendem a contribuir para o
processo inicial de apropria-
06), elaborado pelo MEC, em par- ção do sistema de escrita, ser-
ceria com o Governo Federal Orga- vindo de base tanto ao desen-
nização das Nações Unidas pa-ra a volvimento do processo de lei-
Educação, a Ciência e a Cultura tura quanto ao de escrita;
(UNESCO) e o Instituto de Pesquisa  Desenvolvimento da capacida-
Econômica Aplicada (IPEA) apre- de de decifração, quer dizer, de
senta quatro dimensões cognitivas transformar sinais gráficos ou
que compõem o processo de alfabe- grafemas em fonemas, com
tização. Tais dimensões serão apre- maior ou menor nível de
sentadas a seguir na íntegra: fluência;

5 Retirado em https://www.pinterest.ca/

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

 O desenvolvimento da capaci- Considerando ainda as contri-


dade de escrita, especifica- buições de Magda Soares (2004), é
mente as capacidades de es- importante que as habilidades ne-
crever palavras memorizadas, cessárias para a compreensão e in-
codificar palavras simples; terpretação de textos levem o indi-
 O desenvolvimento do proces- víduo a fazer uso da escrita e seus
so de compreensão de textos. instrumentos em sua prática social e
(BRASIL, 2006). cidadã. Vimos anteriormente que o
domínio e uso da lectoescrita na so-
De acordo com Magda Soares ciedade caracteriza em parte o le-
(2004), as habilidades contidas nas tramento, o qual deve ser considera-
dimensões cognitivas citadas acima do um processo contínuo, assim co-
instituem adequadamente a alfabe- mo a alfabetização.
tização, a qual, envolve a prática da
“[...] um grande número de
escrita ortográfica e o desenvolvi- diferentes habilidades, compe-
mento das habilidades cognitivas e tências cognitivas e metacogni-
motoras necessárias na manipula- tivas, aplicadas a um vasto con-
junto de materiais de leitura e
ção de instrumentos facilitadores gêneros de escrita, e refere-se a
utilizados no processo de alfabeti- uma variedade de usos da lei-
zação. tura e da escrita, praticadas em
contextos sociais diferentes.
No caso da leitura podemos (SOARES, 1998, p.107).
citar: a habilidade para decodificar
textos, frases e palavras; desenvolvi- Em relação à evolução da es-
mento da fluência na leitura, pos- crita, é importante tratarmos dos ní-
tura adequada para a prática da lei- veis da escrita citados por Emília
tura; etc. Ferreiro, os quais veremos a seguir
acompanhados de exemplos reais.

Nível Pré-Silábico I

Nesta fase, a criança está co-


meçando sua trajetória escolar e ain-
da não relaciona a fala (som) às va-
riadas formas de representação.
Aqui, a criança desenha e acredita
estar escrevendo. Grafa traços figu-
Fonte: https://noticias.r7.com/ rativos ou pseudoletras (letras in-

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

ventadas) e acredita que o nome das constatar que não domina a habili-
coisas ou das pessoas tem a ver com dade da escrita. Algumas crianças
seu tamanho ou idade, é o chamado podem se negar a continuar com os
“realismo nominal”. Ainda não dis- desenhos, afirmando que estes não
tingue letras e números, realiza a são úteis.
leitura global. Ainda não internali- No entanto, este período con-
zou as categorias linguísticas (letra, fuso, de conflito e frustração não du-
palavra, frase). ra muito. Segundo Ferreiro (1999,
p.198), “torna-se claro que a dificul-
dade de diferenciar as atividades de
escrever e desenhar é apenas mo-
mentânea (...)”. Podemos considerar
a superação deste período, quando a
criança além de compreender que
desenho não é escrita, começa a gra-
Panela → far sinais (que seriam as letras usa-
das na escrita) e desenhos. Desta
forma, a criança já apresenta uma
Colher Prato Garfo Xícara compreensão das diferenças entre
↓ ↓ ↓ ↓ desenhar e escrever. Contudo, o
educador deve estar atento para que
a criança não pense que a escrita
depende do desenho e vice versa.
Figura 1: Gustavo – 6 anos – Escrita Ainda analisando o Nível Pré-
Pré-Silábica I Silábico II, perceberemos a partir da
fala de Emília Ferreiro (1999, p.200)
Nível Pré-Silábico II que “... a imagem podia funcionar
como um complemento do texto (...)
Aqui, a criança começa a en- como que promovendo um apoio à
tender que através dos desenhos não escrita, como que garantindo seu
é possível registrar o que se pretende significado.” A preocupação com a
e começa a fazer uso dos sinais grá- escrita cresce e a criança pressupõe
ficos. Este período costuma ser con- que para formar uma palavra são
fuso para a criança. Ela percebe que necessários vários caracteres grá-
os adultos não utilizam desenhos ficos e buscam a qualidade destes.
para escrever. Fica claro que dese- Além disto, algumas crianças podem
nhar não é escrever e se frustra ao concluir (nesta fase) que não são

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

aceitas palavras com menos que três ciência de que a escrita representa
letras para a prática da leitura e da partes sonoras da palavra pronun-
escrita. ciada; relação entre o número de
Os conflitos e insatisfações sílabas pronunciadas e o número de
que ocorrem aqui são positivos, pois letras nas palavras (para cada som
impulsionam o educando na invés- emitido/sílaba, uma letra); compre-
tigação de nos maneiras de se inter- ensão da existência de constância na
pretar e contribuem para o rompi- prática da escrita; consciência de
mento de ideias. Surge a possibili- que na escrita não se utilizamos ape-
dade de se elaborar novos conceitos nas substantivos e iniciam a integra-
e inovação dentro do processo de al- ção das práticas de leitura e escrita.
fabetização. É possível agora, ver al-
gum significado nas categorias lin-
guísticas, apesar da inconstância
qualitativa e quantitativa, como po-
demos ver no exemplo a seguir:

Fonte: http://sorrisonovo.org/

Cada criança apresenta suas


particularidades e poderá grafar sua
escrita com letras, pseudoletras,
com vogais ou apenas com consoan-
tes. Por isso, é tão importante que o
Nível Silábico educador esteja sempre próximo da
criança, acompanhando de perto o
No Nível Silábico, a criança
processo. Só assim, será possível in-
progride consideravelmente, mas o
terpretar a produção escrita da
educador precisa conduzir este pro-
criança e perceber detalhes impor-
cesso com cautela, pois o educando
tantes da postura da criança. No me-
pode vir a se acomodar e apresentar
mento em que escrevia, ela silabou?
dificuldades. Isto pode ocorrer por-
Como leu? Houve coerência entre a
que a criança já possui algumas há-
leitura e a escrita? Desta forma o
bilidades, como por exemplo: cons-
educador poderá diagnosticar as ha-

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

bilidades e necessidades de seu alu- Algumas características deste


no, assim como o seu nível concei- período podem ser citadas, tais
tual de desenvolvimento da leitura e como:
da escrita. Posteriormente, o profes- Fim do conceito quantitativo.
sor poderá, de forma segura, ofere- Entende que não basta uma
cer os estímulos para que a criança letra para representar uma
sílaba;
desenvolva seu processo de alfabe-
 Evolução do conceito qualita-
tização de forma autônoma.
tivo. Entende a diferença entre
o som e a identidade das le-
tras. Existem sons iguais que
podem ser grafados de forma
diferente. Nem se sempre, es-
crevemos como falamos;
 Presença dos erros ortográ-
ficos;
 Ausência de letras. O educador
não deve ver esta caracterís-
tica como ponto negativo ou
retrocesso, mas como compo-
nente que contribui para o
progresso.

Nível Silábico-Alfabético Fonte: https://br.pinterest.com/

Dando continuidade ao pro- Cabe ao educador, disponibi-


cesso de alfabetização, a criança ex- lizar diversos gêneros literários e
perimenta novas possibilidades e textuais, contendo variadas modali-
mesclam uma escrita ora silábica ora dades e tipos de letras, estimulando
alfabética é a chamada “Hipótese seus alunos a descobrirem todo o
silábico-alfabética”. material. O professor poderá explo-

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

rar também, através do material lite- É normal que algumas crian-


rário, a consciência do todo para as ças utilizem em alguns momentos a
partes e das partes para o todo. escrita silábica e em outros grafem
sílabas completas. No nível alfabé-
tico, o fato de reconhecer o som da
letra é a principal característica.

Fonte:
https://www.vilavelha.es.gov.br/

O estímulo por parte do pro-


Nível Alfabético fessor deve ser constante e aqui per-
manece indispensável, visto que o
Nesta etapa da alfabetização, a educando ainda tem muito dessa-
criança demonstra não estar satis- fios a enfrentar e precisa continuar a
feita e procura dar sequência ao pro- elaborar hipóteses. Um desses desa-
cesso de constituição e superação de fios ocorre frequentemente. Trata-
suas suposições, enquanto nova es- se da suposição de que toda sílaba é
critora. Isso levará o aluno a enten- constituída por duas letras, uma
der a composição alfabética de síla- consoante seguida de uma vogal.
bas, a qual caracteriza a escrita da Para que a criança entenda que algu-
Língua Portuguesa, de acordo com mas sílabas podem ser constituídas
regras e normas gramaticais. Este é por três ou mais vogais, é necessária
o momento em que a criança assi- a intervenção adequada por parte do
mila a fonetização da sílaba. Mas educador. Este impasse pode ocor-
esta não é imediata e nem terminan- rer também quando o aluno se depa-
te, pois pode vir a se transformar ao rar com uma palavra iniciada por
longo do tempo. uma vogal, visto que, para ele o cor-

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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

reto seria grafar a primeira sílaba de constituídas por grupos consonan-


forma inversa. tais. Neste momento, o educador de-
 Exemplo: ve estimular habilidades cognitivas
ESTUDAR → SETUDAR como o raciocínio lógico e a memó-
ria. Caso contrário, a criança, certa-
Dificuldades relacionadas à mente apresentará dificuldades na
segmentação das palavras também prática de escrita e leitura de sílabas
são comuns e as crianças podem es- complexas.
crever palavras emendadas umas
nas outras ou grafá-las dividas em
várias partes. Isto ocorre porque se
concentram nas sílabas e não consi-
deram as categorias linguísticas.
Também a questão ortográfica gera
certa dificuldade por enfatizarem a
adequação fonética da escrita ao
som da pronuncia. Concluem que
uma letra pode ter mais de uma fun-
ção e que por isso assume sons dife-
rentes em diferentes contextos.

Participar do processo de alfa-


betização acarreta a responsabili-
Fonte: dade de contribuir para que a crian-
http://www.seminariosdepsicopedag ça se desenvolva de forma autôno-
ogia.com.br/ ma. A criança se educa pensando,
ela organiza seus conhecimentos,
O Nível Alfabético marca o formula novas ideias e as experi-
momento em que as regras e con- menta confirmando-as ou superan-
venções gramaticais começam a ser do-as na medida em que se constitui
internalizadas. A memorização pode como cidadão crítico, consciente e
ser uma estratégia positiva para o atuante.
domínio das convenções de palavras

60
61
FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

6. Referências Bibliográficas
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FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

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