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Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS

Campus: Laranjeiras do Sul

Disciplina: História da Fronteira Sul

Aluna: Luana Vanessa Brutscher

Efeitos da guerra farroupilha na Região Sul do Brasil

A guerra farroupilha foi uma demonstração das insatisfações nacionais


existentes no Brasil durante o século XIX. Insatisfações essas geradas principalmente
pela alta tributação nacional e pela grande centralização de poder no Rio de Janeiro, que
focava a distribuição desses tributos nas proximidades da corte, deixando demais partes
do Brasil na míngua. Durante 10 anos ocorreram batalhas, lideradas por Bento
Gonçalves da Silva (grupo da maioria), que buscava o federalismo e a separação do
estado e por Davi Canabarro (grupo da minoria), que defendia o federalismo, mas
mantendo-se como uma república independente integrada ao império.

Durante e após essa revolução são possíveis de destacar alguns pontos


importantes que caracterizaram a região sul do Brasil:

 Economia/trabalho: Embora um dos principais ideais republicanos fosse


referente à abolição da escravidão e da peonagem, conforme Fraga e Gritti (2015) não
há evidências do fim desses sistemas. Mas sim, que com o fortalecimento da economia
charqueadora aumentou-se a demanda de mão de obra escrava e agravaram-se cada vez
mais as condições e tempo de vida dos mesmos. Os homens livres (descendentes de
indígenas missioneiros e pampianos) se transformaram em mão de obra militar dos
latifundiários, formando milícias particulares. A região Sul permaneceu subordinada ao
império e a grande maioria da sua base econômica continuou sendo a pecuária e a
agricultura dos grandes latifúndios, que com exceção do Vale do Rio dos Sinos, que
teve a economia baseada em pequenas propriedades, devido à imigração alemã de 1824,
que abasteceu com alimentos a Região de Porto Alegre durante a guerra dos farrapos, e
da Região Norte do Rio Grande do Sul, povoada por indígenas e caboclos posseiros,
que desenvolveu uma economia de agricultura de subsistência e extração de erva-mate.
Durante a guerra, as mulheres foram as responsáveis por manter a economia da
região, assumindo o controle das lavouras, das criações, responsabilizando-se pelas
negociações, além de auxiliarem seus maridos, pais e filhos na guerra e alimentar e
cuidar de suas famílias. Mulheres como Anita Garibaldi vão para a guerra, trabalham
como soldados, como enfermeiras, cozinheiras, costureiras, se tornam espiãs
(divulgando informações), barqueiras, entre outros.

Com o fim da revolução o governo aumentou as tarifas alfandegarias sobre o


charque platino, reduzindo a concorrência, e concedeu alforria para todos os escravos
que lutaram por sua liberdade, mas para evitar possíveis problemas com futuros ex-
escravos com habilidades militares, Davi Canabarro e Duque de Caxias acordaram a
Batalha de Porongos, em 14/09/1844, onde brancos e índios foram poupados e os
negros desarmados mortos, mantendo-se a base econômica escravocrata.

 Demografia/sociedade: a população da região sul possuía uma grande


miscigenação, haviam no território: indígenas, espanhóis, escravos, portugueses,
imigrantes alemães, açorianos e de outras localidades que vieram por fins econômicos,
de trabalho, maçônicos e político-ideológico. Essa sociedade era dividida em:
lavradores (alemães e açorianos), peões, homens livres, escravos e também, de acordo
com Padoim (2006), havia a elite, composta por: latifundiários, comerciantes,
charqueadores, sacerdotes, militares.

De acordo com Fraga e Gritti (2015), estavam agora presentes nessa sociedade
as pequenas propriedades entre meio aos latifúndios e passou-se a unir a agricultura
com a pecuária. A população foi “embranquecendo”, principalmente com a imigração
alemã no Vale do Rio dos Sinos.

Ainda segundo Fraga e Gritti (2015) as mulheres passaram a ter mais liberdade e
a participar na tomada de algumas decisões, como a compra e venda de terras, além de
mais liberdade para sair e se relacionar, sendo permitidas em alguns locais, relações
sexuais antes do casamento, e em algumas religiões até a separação.

 Política/poder: A elite que buscava a revolução se baseava em ideais liberalistas


e em autores como: John Locke, Montesquieu, Rousseau, Kant, Thomas Hobbes, Adam
Smith, Confúcio, entre outros. A tomada de Lages e Laguna tiveram como propósito
expandir os ideais federalistas, buscando interesses políticos locais e devido a
necessidades estratégicas.
A estrutura social e de poder foi mantida na região. Onde segundo Fraga e Gritti
(2015), buscavam-se os interesses dos senhores do pampa gaúchos e dos caudilhos
(militares e grandes fazendeiros) das vizinhanças. Ou seja, permaneceu-se priorizando
os interesses das classes dominantes e com maior poder de fogo para exercer essa
dominância. A região continuou pertencente ao império e sujeita às exigências da
monarquia escravocrata.
Com a revolução farroupilha os pecuaristas saíram mais endividados junto aos
comerciantes e banqueiros, perderam muitas propriedades, gado e escravos. Definiu-se
a primeira constituição republicana do Brasil e os latifundiários passaram a poder
escolher o presidente da província.
 Cultura/ideologia: A partir desse marco pode-se perceber algumas diferenças
na ideologia regional, cria-se uma identidade tradicionalista, um sentimento de nação.

A escrita é utilizada cada vez mais como uma arma para expressão de ideais,
como por exemplo, Nisia Floresta e seu desejo por educação e trabalho remunerado para
as mulheres. Ocorre redução da ideologia patriarcal. A mulher se torna cada vez mais
independente, começa a ganhar liberdade e utilidade.

O gaúcho, de bombacha, lenço no pescoço, botas, faca na guaiaca torna-se o


padrão de ser humano, espalha coragem, valentia, honra e tradição. Comemora-se com
orgulho o dia 20 de setembro, inicio dos confrontos.

A cozinha passa a ser o cômodo mais importante das casas, consome-se pão,
arroz, feijão, carnes com molho, mandioca, abóbora, batata-doce, couve ou repolho, a
morcilha, a linguiças. Passa-se a consumir também: goiabada, marmelada, doce de
abóbora, pêssego, figo e laranja. Além de se produzir manteiga, pão e queijo. E utilizar-
se de temperos como manjerona, cebola e alho.
Referências:

FLORES, Hilda Hübner. Atuação das mulheres na Guerra dos Farrapos é


negligenciada pela história. Disponível em:
<http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2013/09/atuacao-das-mulheres-na-
guerra-dos-farrapos-e-negligenciada-pela-historia-4277269.html> Acesso em: 03 set.
2017.

FRAGA, Gerson Wasen; GRITTI, Isabel Rosa. Os farroupilhas em três tempos:


aspectos da Guerra dos Farrapos e suas celebrações na imprensa sul-rio-grandense por
ocasião de seu centenário e seu sesquicentenário. In: RADIN, José Carlos;
VALENTINI, Delmir José; ZARTH, Paulo A. (Org.). História da Fronteira Sul. 1. Ed.
Porto Alegre: Letra & Vida: Chapecó: UFFS, 2015. p. 190-221.

PADOIN, Maria Medianeira. A revolução Farroupilha. In: PICCOLO, Helga


Iracema Landgraf; PADOIN, Maria Medianeira (Dir.). Império. 1. ed. V. 2, Passo
Fundo: Méritos, 2006. p. 39-70.