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CONTESTAÇÃO por DECADÊNCIA

do DIREITO de exigir
INDENIZAÇÃO por VÍCIO de
PRODUTO
118º EXAME DE ORDEM. PROVA PRÁTICO PROFISSIONAL. 2ª FASE
PONTO 1
Tiago adquiriu, da Magnum Eletrônica Ltda., aparelho portátil de rádio e
reprodutor de CDs, pelo preço de R$ 400,00 (quatrocentos reais). Passados
quatro meses da compra, Tiago, sem ter antes procurado o serviço de
atendimento ao consumidor da Magnum Eletrônica, dirigiu-se ao Juizado
Especial Cível da Comarca de Vitória e ali aforou ação visando ao recebimento
de indenização, porque desde o momento da compra havia percebido que a
antena externa do aparelho estava danificada, o que impedia o rádio de
funcionar. A indenização pedida era de R$ 600,00 (seiscentos reais), valor
equivalente ao preço de aparelho de nível superior, o que, no entender de Tiago,
ajudá-lo-ia a compensar os contragostos decorrentes da compra do aparelho
danificado. 

QUESTÃO: Na qualidade de advogado da Magnum Eletrônica, atue no seu


interesse considerando que a audiência de tentativa de conciliação restou
infrutífera.

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ... VARA


DO JUIZADO ESPECIAL CÍVEL DA COMARCA DE VITÓRIA

Autos: nº...

MAGNUM ELETRÔNICA LTDA., empresa com qualificação e endereço


completos, vem à presença de Vossa Excelência, com o devido respeito,
por intermédio de seu advogado (procuração anexa), para, com
fundamento no artigo 18 do Código de Defesa do Consumidor,
apresentarem a presente

CONTESTAÇÃO
à ação condenatória proposta por TIAGO, já qualificado, com base nos
fatos e fundamentos a seguir expostos:

I - SÍNTESE DA INICIAL

Trata-se de demanda em que o Autor pleiteia indenização por danos


materiais e morais.

Argumenta a inicial que o Autor adquiriu aparelho eletrônico junto à Ré


("toca-CDs"), no valor de R$ 400,00 (quatrocentos reais) e que, desde o
momento da compra, o produto se apresentou defeituoso (dano na
antena externa).

Depreende-se ainda da exordial que: a demanda é ajuizada passados


quatro meses da compra do bem e não houve qualquer reclamação
prévia por parte do Autor, tendo ele permanecido silente até o presente
momento.

Diante disso, pede-se indenização no valor de R$ 600,00 (seiscentos


reais), quantia essa que, no dizer do Autor, seria suficiente para adquirir
um aparelho de nível superior e, assim, "compensar os contragostos
decorrentes da compra do aparelho danificado".

É a síntese do necessário.

II - MÉRITO

Com a devida vênia ao Autor, o pedido formulado deve ser julgado


improcedente. No caso, na verdade busca-se verdadeiro enriquecimento
ilícito, como a seguir se demonstrará.

Por sua vez, inicialmente é de se apontar a existência de decadência.

1. DA DECADÊNCIA DO DIREITO DE RECLAMAR PELOS VÍCIOS DO


PRODUTO

O direito de reclamar por eventuais vícios existentes no referido bem já


foi vitimado pela decadência.

Como visto no relato dos fatos, o produto já foi comprado há 4 (quatro)


meses, sendo que o direito de reclamar dos vícios aparentes caduca em
90 (noventa) dias, que corresponde ao período de 3 (três) meses.

É o que se percebe da simples leitura do disposto no art. 26, II, do CDC


(Lei 8.078/90).
                                                          “Art. 26. O direito de reclamar pelos  
vícios aparentes ou de fácil                                                                          
constatação caduca em:
                                                            II - noventa dias, tratando-se de      
fornecimento de serviço e de                                                                      
produtos duráveis.” 

Tal artigo é expresso ao reconhecer como de 90 (noventa) dias o prazo


de decadência para reclamar de vícios de fácil constatação de bens
duráveis.

É indubitável que uma antena externa quebrada de um equipamento de


som se enquadra como um "vício aparente" em um "produto durável".

Destarte, certo é que estamos diante da decadência, o que acarreta a


extinção do processo com resolução de mérito, nos termos do art. 487, II,
do Código de Processo Civil.
                                                    “Art. 487. Haverá resolução de
mérito quando o                                                              juiz: 
                                                      II - decidir, de ofício ou a
requerimento, sobre                                                              a ocorrência
de decadência ou prescrição.”

2. DA INEXISTÊNCIA DE QUALQUER DANO MORAL (PREVISÃO


LEGAL DE TROCA DO BEM, DEVOLUÇÃO DOS VALORES OU
ABATIMENTO DO PREÇO, EM HIPÓTESES DE DEFEITOS NOS
PRODUTOS)

Ad argumentandum, na hipótese de não reconhecer a decadência, não


restam dúvida de que, no caso, inexiste o alegado dano moral.

Ora, se um suposto defeito em uma antena de um aparelho eletrônico


der causa a dano moral - especialmente diante da longa inércia do Autor,
que sequer reclamou junto à Ré -, então a vida em sociedade será
absolutamente insuportável.

Dano moral não é qualquer aborrecimento corriqueiro que todos os que


vivem em sociedade estão sujeitos. Para que se configure tal espécie de
dano, imprescindível uma situação verdadeiramente vexatória e capaz de
causar angústia.

E, no caso concreto, não há qualquer "aborrecimento" sofrido pelo Autor.


Por mais que se leia a inicial, não há nada ali que indique um efetivo
dano.

Outrossim, vale lembrar que o próprio CDC já prevê solução para o caso
de produtos danificados. Referimo-nos aqui no art. 18 de tal diploma
legal.

                                                                  “Art. 18. Os fornecedores de


produtos de                                                                                  consumo
duráveis ou não duráveis respondem                                                          
solidariamente pelos vícios de qualidade ou                                                
quantidade que os tornem impróprios ou                                                    
inadequados ao consumo a que se destinam ou                                        
lhes diminuam o valor, assim como por aqueles                                        
decorrentes da disparidade, com a indicações                                            
constantes do recipiente, da embalagem,                                                    
rotulagem ou mensagem publicitária, respeitadas                                      
as variações decorrentes de sua natureza,                                                
podendo o consumidor exigir a substituição das                                        
partes viciadas.

                                                                   § 1° Não sendo o vício sanado


no prazo máximo                                                                      de trinta
dias, pode o consumidor exigir,                                                                    
alternativamente e à sua escolha:
                                                                   I - a substituição do produto por
outro da mesma                                                                      espécie, em
perfeitas condições de uso;
                                                                   II - a restituição imediata da
quantia paga,                                                                              
monetariamente atualizada, sem prejuízo de                                              
eventuais perdas e danos; 
                                                                   III - o abatimento proporcional
do preço.”
                           
Como se percebe da simples leitura de tal dispositivo, constatado um
vício no produto, e caso não sanado tal vício pelo fornecedor no prazo de
30 (trinta) dias, pode o consumidor exigir a troca do produto por outro ou
a restituição dos valores pagos, devidamente corrigidos ou o abatimento
do valor.

Portanto, a própria legislação consumerista traz as soluções para o caso


de vício do produto, não havendo qualquer previsão em relação ao
cabimento de dano moral, o que inviabiliza o pedido formulado pelo
Autor.

E a situação é ainda mais gritante no caso concreto, pois não houve


qualquer atitude da Ré em relação ao suposto vício, visto que o Autor
não formulou qualquer reclamação junto a esta empresa.
Portanto, inexiste qualquer conduta da Ré capaz de ter dado causa ao
propalado dano, o que afasta qualquer possibilidade de
responsabilização civil, artigo 186 do Código Civil.

III - DO PEDIDO

Ante o exposto, pedem e requerem os Réus a Vossa Excelência:

a) o reconhecimento da decadência, com a extinção do processo com


resolução de mérito;

b) caso assim não entenda Vossa Excelência, a improcedência de


qualquer indenização referente a danos morais;

c) protesta provar o alegado por todos os meios de prova previstos em


lei, especialmente pelos documentos já juntados aos autos.

Termos em que,
pede deferimento.

Vitória, 10 de outubro de 2016.

ADVOGADO

OAB

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