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ENTREVISTA COM JEAN-PIERRE VERNANT,

O ESTADO DE SÃO PAULO – CADERNO 2 – 05/08/2001

Como o senhor descobriu a Grécia? O surgimento e a afirmação do discurso


lógico não deveriam levar ao desapare-
Jean-Pierre Vernant – Em primeiro lugar,
cimento do mito?
fisicamente, por causa de uma viagem em
1935. Imaginem um país muito diferente Vernant – Mythos significa apenas relato,
do de hoje, sem turistas, que era percor- narração, embora, entre os gregos, os
rido a pé, um país de camponeses e de termos mythos e logos não se oponham
marinheiros muito hospitaleiros, que entre si. Essa palavra serve hoje para
davam ao estrangeiro a sensação de que designar, na história do pensamento
sua visita era uma honra para eles. grego, uma tradição transmitida oralmen-
O francês Jean-Pierre Ve rnant,
te e que não se insere na ordem do racio-
nome familiar aos estudantes de A civilização da Grécia antiga é comu-
nal. Observe que os mythoi (mitos) não
filosofia, tem vários livros mente sintetizada entre nós numa fórmu-
são um apanágio dos gregos. Nossa ciên-
publicados em português, entre la: o milagre grego. O sr. aceita isso?
cia atual está repleta de mythos: por acaso
eles Universo, os Deuses, os
Vernant – Absolutamente não! Essa idéia, o big-bang original de nossos cientistas
Homens (Cia. das Letras), As
expressa por Renan e amplamente reto- seria muito diferente do chaos (caos)
Origens do Pens amento Grego
mada depois dele, segundo a qual a Gré- evocado por Hesíodo, esse camponês da
(Bertrand Brasil), A Morte nos
cia, e somente a Grécia, teria inventado a Beócia do século 8.º antes de Cristo? As
Olhos (Zahar), Mito e Sociedade
razão, o pensamento científico, a filosofia narrativas da origem transmitidas pelos
na Grécia Ant iga (José Olympio),
e todos os grandes valores universais, mitos continuam inteiramente atuais na
Mito e Tragédia na Grécia Antiga
parece-me inaceitável. É verdade que, por Grécia clássica, porque respondem a
(Per spectiva). Sai agora no Brasil
volta do século 7.º antes de nossa era, desafios relacionados com a identidade: o
outro volume fundamental, Entre
houve um conjunto de fenômenos com- grego sabe de onde é porque conhece de
Mito & Política , antologia de
plexos. Em primeiro lugar, a passagem de cor todas essas histórias. Além disso, essas
textos, uma espécie de "suma" de
uma civilização oral para uma cultura narrativas transmitem modos de ser e de
toda uma vida de pesquis ador.
escrita e de uma palavra poética e proféti- comportar-se. Em Homero, aprende-se a
Nascido em 1914, Vernant ca - a de Homero e Hesíodo - para um trabalhar, a navegar, a fazer a guerra e a
participou ativamente da discurso lógico e demonstrativo - o de morrer - afirmava Platão. A tradição mito-
Resistência francesa e nunca Platão e Aristóteles. Ao mesmo tempo, o lógica define assim um estilo exemplar de
abandonou sua vocação de antigo sistema de governo, mantido por existência, nos planos moral e estético,
militante. Fato que contrasta, em um rei ou por um grupo aristocrático, dá que para os gregos se confundem.
aparência, com o clichê do lugar à organização da cidade (polis), na
A mitologia assim descrita exprime o
intele ctual isolado em sua torre qual todos os cidadãos podem discutir
essencial da religião grega?
de marfim. Ao contr ário, Ve rnant, igualmente e concorrer à decisão coletiva.
que carrega a justa fama de ter No seio desse duplo processo cultural e Vernant – Não. Apenas em parte. Natu-
colocado os estudos helênicos em político, é impossível discernir onde está a ralmente, ela se refere a deuses aos quais
outro nível, poderia le mbrar que causa e o efeito. Entretanto, o triunfo do devem ser rendidas honras, junto aos
foi na Grécia antiga que o ser logos na era clássica foi desfavorável aos quais os humanos se sentem inferiores ao
humano foi def inido como animal gregos, cuja civilização não tem, portanto, nada e cujo brilho divino não chega até os
político. No novo livro, ele trafega nada de miraculosa: na realidade, não mortais porque estes não são dignos. Mas
entre mito e polít ica com dupla tentavam compreender o que contradiz a a religião está relacionada também com a
mão de dir eção: inve stigando o esse princípio lógico de identidade, parti- prática, com rituais que acompanham e
que há de político no mito e o que cularmente os fenômenos exteriores, que ordenam todos os gestos da existência. De
há de mítico na política. Tudo não se prestam a demonstrações nem ao fato, a religião está em toda a parte, no
muito atual, e mbora às vezes ele cálculo. É por isso que não existiu na modo de comer, de entrar e sair, de se
fale de fatos e gente de 2.500 realidade uma física grega, por causa da reunir na ágora. Nada separa a esfera
anos atrás. Na verdade, Vernant ausência da experimentação e da aplica- religiosa da esfera civil: o religioso é políti-
olha o passado para melhor ção do cálculo à realidade. co, o político é religioso. Na vida coletiva,
entender o prese nte. a irreligião é inconcebível.