Você está na página 1de 55

CHRISTIAN NAVAL

A Escolanão é
uma empresa
O n,eo-liberalismo em ataque
ao ensino.público

editora
PLANTA
Todos os direitos reseru(üos
editora PLANTA
www.editoraplanta.com.br
(43) 3357-1108 /9102-4620
Rua José M.S. Paranhos, 123 # 26
86061,270 Londrina-PR

A C LEM:ENTE
Capa, Profeta Gr(Viço e Diagramação

Visualitá ProgramaçãoVisual

L426eLaval,Christian
A Escola não é uma empresa. O neo,liberalismo em ataque ao
ensino público Christian Lavam.trad. Mana Luiza M. de
Carvalho e Silva , Londrina : Editora Planta, 2004. xxi, 324p. ; 22cm

Título original
L'école n'est pás une entrepise: le néo-libéralisme à I'assaut de
I'enseignementpublic / Christian Laval. , Paria;Editions La
Découverte, 2003

incluibibliografia AGRADEI l M ENTOS


ISBN 85-902002,4,8
Meu reconhecimento vai para todas aquelas e todos aqueles que tive a sorte de
l.Escola 2. Neo,liberalismo 3. Políticas Públicas 1.11.Título encontrar nessesúltimos anos no Clube Político de além-mar, dentro do RILC
(Redede Iniciativas Laicase Culturais), e no Instituto de Pesquisas
da FSU
CDU 37.014.4 Não esqueçominha dívida para com aquelas e aqueles que me forneceram uma
CDD370.1
documentaçãopreciosa e responderam oralmente à minha curiosidade, em
particular Evelyne Roigt e Marcel Touque. Eu me beneficiemdurante todo o
ISBN 85-902002-4-8
trabalho das observaçõesde Pascal Combemale, Pierre Dardot, Guy Dreux, Joel
Depósito Legal na Bibioteca Nacional
Koskas, Hugues Jallon, Évelyne Meziani, Régine Tassi e Louis Weber e agradeço
Impesso no Brasíl - Pdnted in Brada
2004 a todos. As análises e as reflexões SLlbmetidasaqui ao debate público engajam
som.ente se u au tor.
Í N D l CE

rntrodtição lx
A vertente neoliberal da escola XI

Mutação ou destruição da escola XVll

l A produção do "capital humano" a serviço da empresa


Capítulo 1. Novo capímZísmoe educação 03
C)s momentos da escola 05

Uma escola a serviço da economia 09


Em direção à escola neoliberal 12
A escola "flexível" 15

Degradaçãodo vínculo entre diploma e emprego 17


Uma coerência totalmente relativa 20

Capítulo 2. Do conkcimento como Íator & podução 21

Educação ampliada, cultura útil 23

A época do capital humano 25

Capitalismo e produção dos conhecimentos 29

As novas indústrias do saber 33

Um modelo que se generaliza 38

Capítulo 3. A nova !íngmgem (h escola 43

C)aprendizadoao longo de toda vida 46

O uso estratégico das competências 53

A pedagogia das competências 58

Capítttio 4. A ídeoZo@a
ü po#ssíomlízação 65

A escola englobada 69

A reviravolta 73

A profissionalizaçãopara todos como nova ideologia 78

O caso da universidade 81
11 , A escola sob o dogma do mercado Os efeitos da racionalização [ayloriana 198

CapÍEüio 5 . A gran& onda neoliberal 89 A fascinaçãoda administração escolarpela empresa 202

Um programa de privatização 91 C)culto da eficácia 206

A argumentaçãoda ideologia neoliberal 93 C)sefeitos redutores da avaliaçãoe da eficácia 210

A promoção da escolha 97 A ideologia da inovação


A ofensiva liberal da direita francesa 102 A modemizaçãotecnológica 220

A escolacomo mercado: um novo sensocomum 106


Capítulo 10. DescetttraZizaçâo, poderes e &sigmZdades 225

Capítulo 6 . O grande mercado da edtlcação 109 As críticas, cada vez mais numerosas quanto
lll à uniformidade 228
As formas da mercanEilização
A diversidade contra o centralismo 230
Um mercado promissor 114
116 O gerenciamento como horizonte
A globalização do mercado educativo
'realista" da esquerda 235
A privatização da educação 122
Uma nova organização descentralizada 238
Mercado das novas tecnologias e ilusões pedagógicas 126
O estabelecimento escolar no centro do dispositivo 242
As novas fronteiras do e-leamfng 131
Escolas ricas, escolas pobres 244
Capítulo 7. A colonizaçãomercand! ü edzicação 135
Controle local e mutação dos valores 249
O des&aldar publicitário na escola:
o exemplo norte-americano 136 Capítulo ] ] . O novo "gerencíamento edzicaduo" 257

A situação francesa 143 Democracia ou burocracia 260

Regular a publicidade na escola? 147 Filosofia do gerenciamento educativo 262

Publicidade e objetividade: o exemplo da Renault 149 Um gerenciamento retrógrado 266


O contra-senso neotayloriano 268
Capítulo 8. A mercandZizaçãoda escolae seus
155 A autonomia do ensino e as hierarquias intermediárias 272
eÍeícos segregacÍonísms
Uma nova identidade 278
Da descentralização à não-regulação 156
C) chefe do estabelecimento, pedagogo 283
As políticas do liberalismo escolar 158

A hipocrisia ítancesa 164 Capímlo 12. As contradições(ü escolaneolíberat 289

A segregaçãoà francesa 167 O império impossível 291

A escolha como n;ovo modo de reprodução 172 Política de austeridade,recuo educativo e


A idealização do mercado escolar e a realidade 177 capital humano 294

O mercado eficaz? 180 Qs novos valores da escola 300

As contradições do gerenciamento público à francesa 303


Contradições pedagógicas 306
111,Poder e gerenciamento na escola neoliberal
187 O mal . estar na instituição escolar 311
Capítulo9. A "modemízação"
(ü escola
O sentidoda modemização 189

A modemizaçãodo ensino americano 193 Conclusão 317


Sítese Endda&s citadas 323
INTRODUCAO

A escola vive uma crise crónica, da qual uma abundante


literatura apresentaregularmenteo quadro clínico. Trata-sede uma
crise de legitimidade, sem dúvida. Desde as críticas sociológicas e
políticas que mostraram a face escondida da escola seleçãosocial,
submissãodos espíritos à ordem estabelecida até as críticas liberais
que a atacarampor sua falta de eficácia frente ao desempregoe à
inovação, a escola não é mais sustentadapelo grande discurso
progressista da escola republicana, hoje em dia suspeita de ser um
mito inútil. Na cultura de mercado,a emancipação
pelo
conhecimento,velha herança das Luzes,passacomo uma idéia
obsoleta.Ligada a uma mutação que ultrapassade longe apenaso
quadro institucional, essacrise toma múltiplas formas. Os professores
exercem um ofício que perdeu muito de seusbenefícios simbólicos e
de suas vantagens materiais relativas. A massificação escolar não
desembocouna grande mestiçagem social, no reino da meritocracia
harmoniosa. As dificuldades de muitos estabelecimentoscom forte
recrutamento popular foram agravadaspor políticas liberais que
acentuaram a marginalização de â'ações importantes da população e
aumento das desigualdadesque afetam de muitas formas o
funcionamento da escola.

X
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Inü'adução

çl)uanto ao aspecto educativo em si mesmo, ele se tornou mais Avertente neoliberal da escola
difícil devido às transformações
sociaise culturais maiores:com a
C) primeiro objetivo dessaobra consiste em trazer à luz a nova
extinção progressivada reproduçãodireta dos ofícios e dos lugares
ordem escolar que tende a se impor tanto pelas reformas sucessivas
nas famílias até o peso, cada vez mais decisivo, da indústria da mídia
quanto pelos discursosdominantes; tende a fazer aparecera lógica
na socialização infantil e adolescente, passando pela incerteza
que subentende as mudanças profundas do ensino. Sem dúvida já são
crescente quando à validade dos princípios normativos herdados,
conhecidos alguns dos elementos dessenovo modelo e percebe-se
assiste-se a um profundo questionamento das relações de transmissão
melhor, graças a trabalhos cada vez mais numerosos, as tendências
entre gerações.
sociais, culturais, políticas e económicas que dobraram o sistema
C) discurso mais corrente sustenta que o conjunto dessas
escolart. M.as, não se vê sempre muito bem o quadro na sua
tendências e dessessintomas reclama uma "reforma" necessáriada
totalidade, com suas coerências e suas incoerências. E o que nós
escola, panacéia, ao mesmo tempo que fórmula mágica, que faz
tentamos fazer aqui, juntando as peças de um quebra-cabeças. Para
geralmente papel de reflexão. Mas, uma "reforma" para construir que
se ater a algumas figuras do discurso dominante, nós devemos nos
tipo de escola e uma escola destinada a que tipo de sociedade?As
perguntar quais relaçõestêm umas com as outras as imagensda
propostasatuais mais estereotipadassobre a "reforma" não
criança-rei, da empresadivinizada, do gerenciamento educativo, do
constituem mais uma etapa no caminho da transformaçãosocial,
estabelecimento descentralizado, do pedagogo não diretivo, do
mas uin elemento imposto apenaspela preocupação gestionária de
avaliador científico, da família consumidora. Essas relações são
colmatagem imediata ou ainda objeto de um estranho culto da
pouco visíveis à primeira vista. A construção dessasfiguras, suas
inovação" por ela mesma,separadade toda aposta política clara. No
lógicas e seus argumentos são diversos. Relacionando, entretanto,
entanto, é preciso se esforçarpara ultrapassaras críticas da
algumas das principais evoluções desses últimos vinte anos, quer se
bricolagem inovadora e da reforma incessante e se colocar a seguinte
trate da lógica gerencial, do consumismo escolar ou das pedagogias
questão; na série de medidas e contramedidas que afetam a ordem
escolar, nos relatórios oficiais que estabelecemos diagnósticos da
de inspiração individualista, relacionando-astanto às
transformações económicas quanto às mutações culturais que
crise, na opinião dos administradores e dos governantes, não haveria
afetaram as sociedadesde mercado, é possível perceber por que e
uma certa idéia da escola,um modelonovo de educaçãoque,
como a instituição escolar se adapta sempremais ao conceito de
conscientemente ou não, os atuais promotores da reforma tendem a
escolaneoliberal, cuja configuração geral nós queremosaqui traçar.
traduzir nos fatos, fazendoapareceruma certa ideologia para a
A escolaneoliberal designaum certo modelo escolarque
fatalidade e fazendo de uma certa concepção uma realidade que eles
consideraa educaçãocomo um bem essencialmenteprivado e cujo
queriam que fosse"incontornável"? Nós mantemos aqui que uma das
valor é, antesde tudo, económico.Não é a sociedadeque garantea
principais transformações que afetaram o campo educativo nesses

últimos decênios mas se encontraria também essamutação em


outros campossociais é a monopolização progressivapela ideologia 1. CÍ. em pardcabr os trabalhos pioneiros de Naco HIRITT com Gerará de SÉLYS, Tableaa naif, Résíster ab
pHuatísatíonde I'enseignement,EPO, Bruxe1les,J998. Les Nouveatix Mlaítres & I'écok, EPO VO édítíons,
neoliberal do discurso e da dinâmica reformadora.
Bruxelles, 2000; e L'École posdtüe, Édíüom Labor, Bmxelks, 2001 . Cf. lgldmence as obras de Yues
CARRIL, De !'écok publíqm à I'école Ifberak, sodologíed'un changement,Pressasuntversimiresde Ren7tes,
1998 e École !íbérak, écok fMgak, Noüveaux Regar&/Syllepse,País, 2002

X X
A ESCOLA NÂO É UMA EMPRESA rntrodüção

todos os seusmembrosum direito à cultura, são os indivíduos que a liberdade de circulação financeira, o sistema fiscal favorável às
devem capitalizar recursosprivados cujo rendimento futuro será empresas,a fraquezado direito social e dos sindicatose o preço das
garantido pela sociedade.Essaprivatização é um fenómeno que afeta matérias-primas, se tornou um "fator de atratividade" dos capitais
tanto o sentido do saber,as instituições transmissorasdos valores e cuja importância cresce nas estratégias "globais" das empresas e nas
dos conhecimentos quanto as próprias relações sociais. A. afirmação políticas de adaptaçãodos movemos.A essetítulo, ela se toma entre
da autonomiaplena e inteira de indivíduossem amarras,exceto outros um "indicador de competitividade" de um sistema económico
aquelas que eles próprios querem reconhecer, correspondem e social3
instituiçõesque não parecemmais ter outra razãode ser que o As reformas liberais da educação são, portanto, duplamente
serviço dos interesses particularesZ. Essa concepção instrumental e guiadas pelo papel crescente do saber na atividade económica e pelas
liberal, acredita-se, está ligada a uma transformação muito mais geral restrições impostas pela competição sistemática das economias. A.s
das sociedades e das economias capitalistas. Mais precisamente, duas reformas que, em escala mundial, pressionampara a
tendências se misturam para fazer da escola um trunfo (aposta, descentralização, para a padronização dos métodos e dos conteúdos,

capital) maior de civilização e um lugar de muito fortes tensões. para o novo "gerenciamento" das escolas, para a "profissionalização"
Inicialmente, a acumulação de capital repousa cada vez mais dos professores, são fundamentalmente "compedtluítly-cena-ed"4. A

nas capacidades de inovação e de formação de mão-de-obra,


escolaque antigamenteencontravaseu centro de gravidadenão
somenteno valor profissional mastambém no valor social, cultural
portanto em estruturasde elaboração,de canalizaçãoe de difusão
e político do saber,valor que era interpretado, de resto,de maneira
dos saberes ainda amplamente a cargo de cada Estado nacional. Se a
muito diferente segundoas correntes políticas e ideológicas,está
eficácia económica supõe um domínio científico crescente e uma
orientada, pelas reformas em curso, para objetivos de
elevação do nível cultural da mão-de-obra, ao mesmo tempo, pelo
competitividade que prevalecem na economia globalizada. [)eve-se
próprio fato da expansão da lógica da acumulação, o custo
medir bem a ruptura que se opera. A escola, na concepção
consentido pelos orçamentos públicos deve ser minimizado por uma
republicana, era o lugar que devia contrabalançar as tendências
reorganização interna ou por uma transferência de encargos para as
dispersivas e anémicas de sociedades ocidentais cada vez mais
famílias. Sobretudo, a despesaeducativa deve ser "rentável" para as
marcadaspela especializaçãoprofissional e a divergência de
empresasutilizadoras do "capital humano'
interesses particulares. Ela era principalmente voltada à formação do
.q. globalização das economias reforça e inflete essaprimeira
cidadão,maisdo que à satisfação
do usuário,do cliente,do
tendência. A educação,da mesmaforma que a estabilidade política, consumidor. O que acontece, inversamente, assimque essaescola é
cada vez anaisquestionada pelas diferentes formas de privatização e
que ela se reduz a produzir um "capital humano" para manter a
2. A concepção cbmínante (ü educação tem uma dupla hímen..são:é ao mesmo tempo udiÍmdsta segundo a !&fa competitividade das economias regionais e nacionais?
de que eh dá saber, e liberal no modo & organizaçãoda escola.Se a escolaé um ímtrumento & bem-esmo
económico é porque o conkcímento é v sto como umaÍerramenm qHe serve am interessefndíçid ! oü uma soma
& fnceresses
tM vtdmk. A insdtuíção escolarparece só exfsdrpara /omecer às empresa o capita! humano q
essasmcessímm. Mas é, & modo compkmenmr, !íberat pelo lugar qüe dú ao mercado edücadvo. Se o 3. Cf. Annfe VINOKUR. "Mondfalfsadon du capim! et recon/iWraüon üs systêmes édmaüfs des esPaces
conkcimento é IMmeíramente, mesmo essencíaZmenn,tlm rectlrso Invado que enge7üra rendas mais fmPormntes dominós", ]nfuv7niad07is
et commeTtta]res,
ng ] 18, Janeiro'março 2002
Eproporciona posiçõessociaisvanmjosm, deduz-se/mílmente qw a rekção educativa deveser regícb por uma 4. Mardn CARNOY. Mondíalísaüon erreforme &l'éducadon : ce qm ks Plana/icareursdofuent savoir, Urzesco,
relação do tipo mercand! OHdeve ao menos imitar o modelo do mercado.

XI Xlll
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA .rn,tradução

A concepção de educação que inspira hoje em dia as disparatadas."A hipótese antecipa. Ela prolonga a tendência
reformas está longe de ser somente francesa, e ainda se tem muita fundamental do presentes",dizia Henri Lefebvre. [)elinear o novo
tendência, quando é questãode educação,a só considerar os debates modelo de escola não significa, no entanto, que na escolade hoje, e
hexagonais.Não sem ter integrado certos traços propriamente especialmentena Fiança, a doutrina liberal seja,desdejá, triunfante
nacionais, ela saiu em grande parte da grande onda neoliberal que Essemodelo, ao menos quando é exposto explfcÍmmente,continua a
penetrou profundamente, desdeos anos 1980, asrepresentaçõese as ser recusado por numerosas pessoasrefratárias à nova ideologia,
políticas nos paísesocidentais. A "literatura cinza" composta por tanto na França como no mundo inteiro.
múltiplos relatórios oficiais e artigos de experts na França, deve ser Sob outro ponto de vista, seria muito simplespensarque
relacionada à abundante produção das organizaçõesinternacionais, todas as dificuldades da escola anual sejam devidas à aplicação dessas
"guardiãs da ortodoxia", se se quer perceber como a "reforma da reformas de inspiração liberal. Para ressaltar apenas alguns
escola" na França participa da nova ordem educativa mundial. Essa fenómenos mais importantes: o aumento dos efetivos do colégio, do
mutação da escola não é o produto de uma espéciede complâ, mas liceu e da universidade é uma tendência antiga de nossassociedades.
de uma constrição ainda mais eficaz uma vez que não há nem mesmo Se é possível pensar que ela desemboca hoje em uma massificação
diversas instâncias responsáveis que se poderiam facilmente mal pensada, mal preparada, muito pouco financiada, não é efeito de
identificar; que o processoé muito difuso e que tem múltiplas uma doutrina toda voltada para resultados programados. A falta de
alternânciasnacionais e intemacionais, cujasrelaçõesnão se vêem meios, a penúria dos professores, a sobrecarga das classes, se
à primeira vista; que ele seguevias muitas vezestécnicas e que ele se testemunham sem dúvida uma lógica de empobrecimento dos
cobre geralmente das melhores intenções "éticas". As organizações serviços públicos, relacionam-se igualmente a uma antiga tradição
internacionais (OMC, C)CDE, Banco Mundial, FMI, Comissão das elites econâtnicas e políticas que, se pagando palavras generosas,

Européia) contribuem para essaconstrição transformandoas concedem mesquinhamente os meios financeiros quando se trata da
constatações",as "avaliações",as "comparações"em muitas instituição de crianças das classespopulares. Marc Bloch, tirando
ocasiões de fabricar um discurso global que tira sua força cada vez lições das derrotas de 1940, o ressaltava antigamente7.Quanto à
mais de sua extensão planetária. Nesse plano, as organizações centralização burocrática que caracteriza a administração do estado,
intemacionais, além de seupoderio financeiro, tendem a ter, cada ela engendrahá muito tempo um espírito de casta,mantémo
vez mais, um papel de centralização política e de normalização desprezo das esferas superiores com relação a uma base julgada
simbólica considerável. Se as trocas entre sistemasescolaresnão são incapaz ou imóvel, um autoritarismo de chefe e um fetichismo do
novas, nunca havia sido tão claro que um modelo homogêneo podia regulamento e, no todo, uma iniciação geral dos administrados e dos
se tomar o horizonte comum dos sistemas educativos nacionais e que funcionários que pode tornar por vezes sedutorascertas soluções
liberais extremas. Enfim, e talvez sobretudo, a escola é atravessada
seu poder de imposição viria justamente de seu caráter
mundializado5. por uma contradição maior, longamente exposta por numerosos

A escola neoliberal permaneceainda uma tendência e não


uma realidade acabada. Mesmo se tratando ainda de uma
antecipação, essahipótese é necessária à análise das transformações 5. CÍ. Chdsdan LA\4U, e Loufs WEBER (coord.) , Le notivet ordre éducadf mordia!, OMC, Banqm
mondfak, OCDE, ComtssioTteuropéenne,Nouveaux Regar&/Sylkpse, Paü, 2002
em curso. Ela permite atualizar e relacionar as avaliaçõese políticas 6. Hera LEFEBVRE, tQ Révo]udon lzrbafne, Ga11fmard, País, 1970, P. ]]

concretas,
resgatar
o sentidode práticase de políticasa pdod 7. Mare BLOCO. L'Étrange Defbíte, Ga!!ímard, País, 1990, P. 256-257

Xlv xv
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Irbtrodução

autores, entre as aspiraçõesigualitárias de acordo com o imaginário


Mutação ou destruição da escola?
de nossassociedadese a divisão social em classes,contradição que
não se dá sem acelerar a imposição da concepção liberal da escola Nossa proposta pretende refutar a falaciosa oposição entre
que pretende sobrepuja-la e que na realidade a agrava. .A. força do imobilistas e renovadores. Pretende, igualmente, evitar as teses
novo modeloe a razãopela qual ele pouco a poucose impõe, alarmistas e catastróficas, às vezes necessárias, mas que desmobilizam
referem-seprecisamente à forma como o neoliberalismo seapresenta quando parecem significar que a boa velha escola republicana
à escola e ao resto da sociedade,como a solução ideal e universal a estando morta, "tudo está perdido". A escola coloca questões
todas as contradiçõese disfunções,enquanto na verdade esse complexas que não se saberia reduzir a itens simplistas ou a
remédio alimenta o mal que ele supostamentecura. Com a diagnósticos muito rápidos, sobretudo quando eles concluem um
imposição desse modelo liberal, a questão escolar não é mais pouco rapidamente, pela morte clínica. Se ela engaja o sentido da
somente o que sedenomina "problema social", ela tende a se tomar vida individual e coletiva, se liga passado e futuro e mistura gerações,
uma questão de civilização. Em uma sociedade com poderes de a educação pública é também um campo de forças, um afrontamento
produção notáveis, o acessouniversal à cultura escrita, letrada, de grupos e de interesses,uma luta contínua de representaçõese de
científica e técnica pela educação pública e instituições culturais, se
lógicas. As relações de força não são nem essências nem fatalidades.
torna uma utopia irrealizável. No entanto, o que é possível não pode
A questãoque nós gostaríamosde colocar nessaobra é sobreo
ser realizado por pelo menos duas razões associadas.A primeira
conteúdo e a dinâmica do modelo escolar que se impõe hoje em dia
refere-se à preeminência da acumulação de capital sobre qualquer
nas sociedadesde mercado. Trata-se de adaptar melhor a escolaà
outro fim consciente da sociedade. Realizar esse direito universal à
economiacapitalista e à sociedadeliberal, adaptaçãoque colocaria
cultura suporia,com efeito, um financiamento público ampliado
cada vez mais em perigo a autonomia da Instituição escolar mas que
sob a forma de imposto ou de cotizaçõessociais que contradiria as
não a destruiria, ou bem a uma discussãosobreum caminho mais
políticas liberais de baixa das contribuições obrigatória, baixa que
firme em direção à destruição da escola como tal?
visa a aumentar a despesa privada e a estender a esfera mercantil em
detrimento da esferapública. Nessecontexto, o direito à educação Essaúltima tesefoi propostapor Gilles Deleuzeem uma
fórmula notável: "Tenta-se nos fazer crer em uma reforma da escola,
não pode se degradarem uma demandasocial solvível que se
destinará sempre mais, e de modo muito desigual, a uma educação como uma liquidação."8 Segundo Deleuze, nós deixaríamos as
privada. O outro limite relaciona-se à pressão das solicitações sociedadesde aprisionamento e de "recomeço" analisadas por
mercantis e de divertimentos audiovisuais que aprisionam o desejo pichel Foucault,nasquaiso indivíduopassa, sucessivamente, por
subjetivo na gaiola estreitado interesseprivado e do consumo. O uma série de instituições descontínuas (família-escola-indústria-
livre uso da mercadoria se toma a forma social dominante do prazer hospital) para entrar nas sociedadesde controle total e permanente
nas quais "não se acaba nunca com nada" e sobretudo não com um
dos sentidos e do espírito. Salvo quando se dispõe de uma célula
familiar muito protetora, os jovens são facilmente desencaminhados controle contínuo que assegurauma flexibilidadee uma
pela "socialização-atomização" mercantil das alegrias intelectuais e,
em decorrência, entram com mais dificuldade na cultura transmitida
pela escola. Na sociedade de mercado, o consumo ultrapassa a
8. Gílles DELEUZE, enüeuista com Tom Negra, Futur Antéríeur, n. l, IMmavera de 1990, retomado em
transmissão. Pourparkrs, Édíüorts de MínuÍE, País, 1990, P. 237

XVI XVll
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA /ntrodüção

disponibilidade ilimitada dos dominados. A análise das recentes resultadose de inovações.A instituição é consideradacapazde se
mutações escolares fornece, ver-se-á, argumentos sólidos à tese da transformar em uma "organização flexível"
desescoZarízação, cuja tendência é para uma pedagoglzação Desvalorização? Mesmo se a educação é mais do que nunca
generalizada das relações sociais. Não se está no "aprendizado ao reconhecida nos discursos oficiais como um favor essencial de
longo de toda a vida", fórmula doravante oficialmente admitida que progresso,só se pode constatar a erosão dos fundamentos e das
diz bem da dilatação da relação pedagógica? C) desenvolvimento das finalidades de uma instituição até lá voltada à transmissãoda cultura
tecnologiasda informação e a individualização da relação com os e à reprodução dos quadros sociais e simbólicos da sociedade no seu
saberes,não sãotantos sinaisde um inevitável declínio da forma conjunto. Os objetivos que se podem dizer "clássicos" de
escolar?O universo dos conhecimentos e o dos bens e serviços emancipação política e de expansão pessoal que estavam fixados
parecemse confundir, a ponto de seremcada vez mais numerosos para a instituição escolar, são substituídos pelos imperativos
aquelesque não vêem mais a razãode ser da autonomia dos campos prioritários de eficácia produtiva e de inserção profissional. A.ssiste-
de sabernem a significaçãotanto intelectual quanto política da se, no plano da escola, à transmutação progressiva de todos os
separação
entre o mundoescolare o das empresas.
Com a valoresem um único valor económico.
universalizaçãoda conexão mercantil dos indivíduos, parece [)esintegração? A introdução de mecanismos de mercado no
chegada a época de um enfraquecimento das formas institucionais funcionamento da escola, através da promoção da "escolha das
que acompanharam a construção dos espaçospúblicos e dos Estados- famílias", quer dizer, de uma concepção consutmidorada autonomia
naçoes. individual, pressiona a desintegração da instituição escolar. As
A despeito dessessinais mais importantes, deve-se, no diferentes formas de consumo educativo realizam, de modo
entanto, interrogar os limites dessaevoluçãoem função de suas descentralizado e "leve", uma reprodução das desigualdades sociais
próprias conseq(lências.Se ela responde bem a certas tendências, a segundo novas lógicas que não têm grande coisa a ver com a "escola
tesedo declínio irreversívelda instituição escolarnão tem alguma única". O novo modelo de escolafunciona com a "diversidade",a
coisa de ilusória e específicana visão dos imperativos funcionais da 'diferenciação" em função dos públicos e das "demandas'
economia capitalista e das exigências de ordem social? Se nós ainda Essas tendências que conduzem a um novo modelo escolar
não estamosna liquidaçãobrutal da forma escolarcomo tal, nós não são levadasa termo e nem todas as contradiçõesque elas
assistimos seguramente a uma mutação da instituição escolar que se encerram eclodiram. Sem mesmo falar da resistência dos professores
pode associara três tendências: uma desinstitucionalização,uma e dos usuários a escola, ao menos para o período presente, é marcada

desvalorização, e uma desintegração. Essassão inseparáveis das que por suahibridação, mistura curiosa de certos aspectospróprios ao
tendem a uma recomposiçãode um novo modelo de escola. setor mercantil ("serviço à clientela", espírito "empreendedor"
Desinstitucionalização? A adaptabilidade às demandas e a financiamento privado) e certos modos de comando e de prescrição
fluidez nas respostas que se espera dessa escola, concebida doravante característicos de sistemas burocráticos mais restritivos. Por um lado,

como produtora de serviços, levam a uma ligue/liçãoprogressiva da essaescola híbrida é, progressivamente, sujeita à lógica económica
"instituição" como forma social caracterizadapor sua estabilidade e da competitividade, tendo ação direta sobre o sistema de controle
sua autonomia relativa. Essatendência está diretamente ligada ao social visando a elevar o nível de produtividade das populações
modelo de escola como "empresa aprendiz", gerida segundo os ativas. Por esselado, a escola que se delineia parece cada vez mais
princípios do novo gerenciamento e submetida à obrigação de com uma empresa"a serviço de interessesmuito diversos e de uma
/

XVlll Xlx
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA /ntrodüção

ampla clientela" para retomar uma fórmula da OCDE, o que a Enfim, posto que se é rapidamente
acusadode
conduziu a se diversificar segundo os mercados locais e as "demandas conservadorismo se não se adere com todo o entusiasmo necessário
sociais". Por outro lado, ela aparececomo uma megamáquina social
aos dogmas modernistas ou, ao contrário, de ser uin liquidador da
comandada de cima por um "centro organizador" poderoso e escolarepublicana se se pensa que certas transformaçõesseriam
diretivo, ele mesmo pilotado por estruturas internacionais e
indispensáveis para melhor defender a vocação emancipadora da
intergovernamentais definindo de maneira muito uniforme os escola e tornar o acesso à cultura mais igual, é preciso dizer aqui que
"critérios de comparação", as "boas práticas" gerenciais e
a chantagem à modernidade ou a recriminação de traição não
pedagógicas, os "bons conteúdos" correspondentes às competências deveriaLn mais estar nos debates e análises sobre a escola. Se nos
requeridas pelo mundo económico. A escola francesa é, sob esse
pareceindispensávelmudar muito a escola e, em certos pontos de
ponto de vista, um bom exemplo dessehíbrido de mercadoe de maneira radical, nos parece também necessário distinguir
burocracia que alguns tomam por uma evolução "moderna" da cuidadosamente duas lógicas de transformação. Há uma que busca
instituição. negar o que está no princípio da educação pública, a apropriação por
Para analisar as mutações da escola francesa em sua lógica de todos de formas simbólicas e de conhecimentos necessáriosao
conjunto, nós tentamosultrapassar,tanto quanto possível,as
julgamento e ao raciocínio e que promete, no seulugar, aprendizados
separaçõesde abordagens,de métodos, de disciplinas: o curto termo
dóceis às empresas e voltados para a satisfação do interesse privado.
deve ser colocado em perspectiva histórica, porque o que acontece à
Quem mais é em nome da "igualdade de chances", instaura uma
escolatem raízesprofundas;a dimensãonacional, que não pode ser
lógica mercantil que consolida e mesmo intensifica asdesigualdades
eliminada em matéria de ensino, deve ser relativizada por
existentes. E nessa vertente que estamos hoje amplamente
comparações necessárias; a função económica da escola, cada vez
enredados. Há uma outra transformação, toda contrária, que visaria
mais essencial no quadro do novo capitalismo,, deve ser relacionada
a melhorarparao maiornúmerode pessoas
as condições
de
com as mutações sociais, políticas e culturais; as determinações
assimilação e de aquisição dos conhecimentos indispensáveis a uma
económicas e sociais externas são relacionadas com as evoluções
vida profissional, mas também, muito mais amplamente a uma vida
internas da instituição escolar de natureza organizacional,
intelectual, estética e social tão rica e variada quanto possível,
sociológica ou pedagógicae as restrições ideológicas devem sempre
segundo os ideais que a esquerda carregou muito tempo antes de os
ser relacionadas com as experiências dos indivíduos nas sociedades
esquecer, de escola emanclpadora. Ideais que são traídos se a escola
de mercado em construção. Vale dizer que cada um dessesaspectos
teria merecido um desenvolvimento mais longo, que um livro geral
não é maisdo que uma antecâmarade uma vida económicae
como esse proíbe. Nós procuramos aqui, articular três grandes profissional muito desigual. É essa visão de universalizaçãoda
tendênciasque correspondem
às três partes desselivro: o cultura que presideaqui a análise do modelo neoliberal da escola
envolvimento da escola no novo capitalismo, a introdução das Vale dizer que essacrítica, se é uma prévia, não substitui a
lógicas de mercado no campo educativo, as novas formas e poder construçãode uma educaçãouniversal digna dessenome, obra
necessariamente coletiva.
gerencialdentro da escola.Paradizer de outra maneira,na nova
ordem educativa que se delineia, o sistemaeducativo está a serviço
da competitividade económica, está estruturado como um mercado,
deve ser gerido ao modo das empresas.

xx xx
PARTE l

A produção do "capital humano"


a serviço da empresa
CAP iTULO l

Novo capitalismo e
Educação

Pode-seprever que a educaçãoserá, ca(ü t'ez


menos, um meio fechado, qae se distingue do meio
pro#ssíonai como olHO meio fechado, mas que
todos os dois &saparecerão, em proveito de uma
cerrüe! formação pemunente, & tim controle
continuo exercidosobre o operado-alunoou sobre
os dídgentes (ü uníverslda&
Goles Deleuze, 1990.

C) novo modelo escolar e educativo que tende a se impor está


fundamentado, inicialmente, na sujeição mais direta da escola à razão
económica. Ele depende de um "economismo" aparentemente
simplista cujo axioma principal é que as instituições, em geral, e as
escolas,em particular, só têm sentido dentro do serviço que elas
devem prestar às empresase à economia. O "homem flexível" e o
trabalhador autónomo" constituem, assim,as referênciasdo novo
idealpedagógico.
Uma dupla transformaçãotende a redefinir a articulaçãoda
escola e da economia em um sentido radicalmente utilitarista: por um
lado, a concorrência desenvolvida no seio do espaço económico
tornado mundial; por outro lado, o papel cada vezmais determinante
da qualificação e do conhecimento na concepção, na produção e na
venda dos bens e serviços.As organizaçõesinternacionaisde
ideologia liberal, acompanhadaspela maior parte dos governosde
paísesdesenvolvidos, que propulsionaram essaconcepçãoda escola,
fizeram da competitividade o axioma dominante dos sistemas
educativos: "A competitividade económica é também a
03
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA .IVoPOcapítüZísm,o e -Edüccbção

competitividadedo sistemaeducativos". As apostasestratégicas


da valorização da empresa erigida em ideal normativo. Nessa parceria
massa cinzenta" ou dos recursos humanos se tomaram cada vez mais
generalizada, a empresa se toma "qualificante" e aprendiz e termina
importantes na competição entre empresastransnacionais e entre
por se confundir com a instituição escolarem estruturasde
economias nacionais. Se acreditarmos nos peritos internacionais aprendizado flexíveis3. C) Livro Branco da Comissão da Comunidade
solicitados pela OC[)E, nós entramos em um novo mode]o educativo. Européia resume bem a tendência: "Há convergência entre os Estados
Um deles, James W. Guthrie, apresenta, assim, as principais membros sobre a necessidade de uMa maior implicação do setor
característicasdo modelo: "A inteligência quando é valorizada pela privado nos sistemasde educaçãoe/ou de formação profissional e na
educação,em outros termos,o "capital humano", estáem vias de se formulação das políticas de educação e de formação, para dar conta
tomar, rapidamente,um recursoeconómico primordial e pode serque das necessidadesdo mercado e das ci-rcunstâncias locais, sob forma,
este "imperativo" dê, pouco a pouco, nascimento a um modela por exemplo, de se encorajar a colaboração das empresascom o
educativo internacional. Os paísesmembros da OCDE esperamde sistema de educação e formação e a integração, pelas empresas, da
seus sistemas educativos e dos diversos programas de formação formação contínua nos seus planos estratégicos4
profissional que participem fortemente no crescimento económico e
adotem reformas nesse sentidos". Não se saberia explicar melhor o Os momentos da escola
sentido das evoluções. O controle direto e mais estreito da formação As mutações do capitalismo permitem explicar, pelo menos em
inicial e profissional é um dos grandes objetivos dos meios parte,a naturezadas reformasem curso. C) nascimento
eo
económicos.Essaformaçãonão vai tão-somentedeterminar o nível desenvolvimento de um sistema de educação e de instrução separado
de eficácia económica e o dinamismo da inovação, mas vai oferecer às da família e dos meios de trabalho, constituem uma das grandes
empresas um mercado fortemente promissor. A educação não traz transformaçõesdo Ocidente. Esta tendência pertence a uma
apenas uma contribuição essencial à economia, ela não é somente um transformação de conjunto dessas sociedades marcadas pela
input" em uma funçãode produção,ela é, daqui em diante, 'autonomização"das diferentes ordens da religião, da política, da
compreendida como um fator cujas condições de produção devem ser economia, do pensamento. Esse "desembutimento:
plenamente submetidas à lógica econâhica. Desse modo, é (disembeddedness) geral das esferas sociais, para retomar a expressão
considerada como uma atividade que tem um custo e um rendimento de Karl Polanyi, foi acompanhadopor sua racionalizaçãoS.
Se o
e cujo produto é assimilávela uma mercadoria.Como dizia com seu desenvolvimento de uma instituição especialmente dedicada à
habitual "a propósito" o ex-Ministro da EducaçãoClaude Allêgre, a divulgaçãodo sabernão encontra suasrazõesprimordiais na formação
formação é "o grande mercado do próximo século' da mão-de-obra, mas sim na construção das burocracias religiosas e
O caráter essencialda nova ordem educativa acém-seà perda políticas, o que implicava na extensão da cultura escrita tanto a seus
progressiva da autonomia da escola que é acompanhada por uma servidoresdiretos quanto a muitos daquelescom quem elas estavam

1. Haut Comité Éducaüon Éco-ante, Éducadon,éconnomte.Que! sustêm.óducaüf pou' k' socfétéde !'an
2000?,1.,aDOct4mentatíon
Française,
País, 1988, P.8. O relatórioacrescenta
que "hojeem día, um dos 3.Cf. Manwl CASTELÃSeMardnCARNOY.Urw/lexibilitêdurable,OCDE, 1997,p.37,38
ekmeritos essenciais(b comPeüüuídadeeconómica& um pari é comdtuüo Feio nhei de formação de sala 4. COMISSION DES COMUNNAUTES EUROPEENES, Croissance, compêddofté,emploi, les&#s et ks
população. pelo estoqm de conkcímento por e acumula(Zo, muíco mais do qHe pela passe de matérias pHmm
pistastour entreichás!eXale síêcle,1993, P.J22
minerais ou agrüoZasmuito mais ai7tdaque pelo baixo nível do saZddopago à mão de oha' 5. Cf. KARL POLANY], ]a Grande TransÍorrnatíon, Ga]]tmard, Pa7ts, ]988. Cf. igtlalmenteMm beber,
2. "L'óvoluüon üs poiíüqueséconomiqueset son inctünce sur I'éoaimtíon &s systêmeséducatÜ", fn Évalüer Avant propôs à I'Échfqtle Protestante ec I'eslMt dtl capímlísme (1 904) , FlammaHon, cola. "CMmps". Paras.
ec réÍnrmer ks systêmes ódücaüÍs. OCDE, 1996, P.70. 2000

04 05
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA .Nbpo capitcbZismo e .Edlócação

em relação de comunicação, será, cada vez mais, estimulada e Poder-se-ia, a partir desse autor, distinguir três períodos
orientada, desdeo início da revolução industrial, pela demanda das históricos: um período no qual a principal função da escolaera a
indústrias e das administrações em matéria de qualificação6. integraçãomoral, linguística e política à Nação; depois,um período
Essa transformação será, de certa forma, mascarada pela no qual o imperativo industrial nacional é que ditou suafinalidadeà
preponderância das finalidades culturais e políticas da escola, instituição;por fim, a faseatual, na qual a sociedadede mercado
conservadadurante muito tempo, o que explica a causade ter sido determina mais diretamence as mudanças da escola. Não se deve, no
considerada,por longo tempo, como um fundamento da identidade entanto, conceber a evolução da escola segundoum caminho linear.
nacional e um pilar da ordem republicana. Sabe-seque o Estado se Desde o século 16, se firmou uma concepção utilitarista da educação
definiu, inicialmente, como um educador da Nação em luta contra a a qual não cessou de alimentar a crítica dos sistemas escolares
Igreja, para assegurarsua hegemonia simbólica e ideológica e que não estabelecidos. Com o advento de uma sociedade menos religiosa e
hesitou em retomar muito de seu adversário,Cantono plano mais científica e técnica, menos tradicional e mais produtiva, as
organizacionalquanto no plano pedagógico,para realizar essagrande
formas e os conteúdos escolares herdados foram, pouco a pouco,
obrar. No entanto, segundo uma sutil combinação, a escola sempre contestados. O saber, conheceu uma transformação maior quando foi,
manteve ligações mais ou menos diretas, segundo as épocas e os
cada vez mais, visto como uma ferramenta capaz de "resolver
domínios, com o universo do trabalho. A própria impulsão da problemaslo". Ê, sem dúvida, Francês Bacon quem, no final do século
escolarizaçãodepende, em grande parte, dos recursos que nascem do
17, formula de maneira mais nítida a virada utilitarista que levará
desenvolvimentoeconómico não sem defasagens,anaisou menos
muitos séculospara ser completada: 'Knowledge is power", o saberé
importantes, entre as fasesde forte crescimento econâínico e as
um poder. O indivíduo só quer saber para melhorar sua sorte e, isso,
explosões da escolarização8.Nas suasformas e nos seus materiais, na
desde as primeiras experiências de criança. O homem em busca da
sua moral como nos seusmodos pedagógicos, o sistema escolar soube
felicidade aumenta os poderes de suas faculdades em decorrência do
dar lugar tanto aos valores do trabalho quanto à orientação
aperfeiçoamento de seu saber. A "grande rebelião baconianaii",
profissional diferenciada dos alunos na sociedade industrial. Desde a
segundo a fórmula de Spencer, contra a escolástica, concebe, assim, o
segundametade do século 19, ao lado do ensino secundário clássico,
foram abertos cursos, seçõese estabelecimentosdestinados a fazer saber como um estoque que se acumula, como um capital cuja função
crescer o nível profissional da mão-de-obra e a prover os quadros de é aumentar a capacidadehumana de domínio da naturezaa fim de
dirigentes da indústria e do comércio. No entanto, apesar dos avanços fazê-la servir melhor ao bem-estar. É a proposição modema maior e
nessa via profissional, durante o período entre as duas guerras não se saberia insistir o suficiente sobre sua importância. Expressão
mundiais, a lógica dominante da escola permaneceu,durante muito máxima da representaçãoque se farão as novas classesativas da
tempo, aquela que Bemard Charlot qualificou como "político- indústria -- burguesia e proletariado --, ela é o embasamento comum
cultural9". do liberalismo e do socialismo. A partir dessa" revelação" do trabalho
e da felicidade terrestre, a crítica utilitarista se aterá àsformas e aos
6. Cf. LOUIS FONTVIEILLE, "CToíssence et trata.s/ormadondH systhême óóacaüfet de /077nation en France conteúdos pedagógicos próprios à civilização cristã e à cultura clássica
aax RIXA et XXe sfêcles", ín mean-Jaqües
PAUL, Administrar, gérer, éoaluer les s)sthêmesédmadfs, ESF,
País,1999. do humanismo, e denunciará, no saber escolar,o distanciamento da
7. Cf. i' exemplodês écoks H71ales jümaires étldtés par Chüsüan NiQUE, L' ImPossíbleGoüteme7nenc&s
esjMts, Nathan, País, 199/
8. Cf. LOUIS FONTVTEILLE, "Croissenceet tramfoT7natíondH syschme éducadfet de /urmaüon en France
aux fIXe et XR.e síêcles". art. citado. 10. Mfche! FREllAG, Le Nau#age de !'uníuerstté, in Découuerte/Mauss, País, 1995, P. 38-39
9. C/. Benmrd CHARLOT, L'êcoleen müudon, Payot, País, 1987 e L'Ecoa et le revHtoire,nolcveaux 11 . Herberc SPENCER, De !' édticadon fnceliectuelk, mmale ec physÜue (1861) , Marabout UnÍtersítá

esPaces,nouveaux edeux, Amland CoZ]Ín, País, ] 994, P. 27-48. 19m, P. 74

06 07
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA Napa capítcbZísmo e -Educação

prática, a separaçãoda vida cotidiana, a abstraçãodos Uma escolaa serviço da economia


conhecimentos. Tais defeitos traduziriam a natureza essencialmente Essesconceitos utilitaristas e liberais vão se impor em várias
aristocrática e ornamental do conhecimento até então transmitida. etapas. Depois da Segunda Guerra Mundial, o período de forte
Ao contrário, os critérios de eficácia na produção e no comércio crescimento económico é caracterizado pelas exigências, em mão,de-
corresponderiam a exigências democráticas e populares: o povo tem obra, de uma indústria eficaz e pela decolagem correspondente dos
necessidadede certos conhecimentos ligados à prática, para seu bem- efetivos escolarizados em todos os níveis que não o da escola
estar. Os outros Ihe sendo inúteis são desvalorizados. elementar: pré-escolar, secundário e superior. E na época do grande
O neoliberalismo anual não vem transformar a escola compromisso do Welfare Skate que se dá o desenvolvimento
bruscamente. Muito cedo, numerosos autores se dedicaram a definir e extensivo do sistema escolar, de 1946 a 1973, época durante a qual é
construir uma escola de acordo, em todos os pontos, com o espírito do
levadopor uma lógica quantitativa, tanto no plano dos efetivos
quanto no dos investimentos. Esseperíodo é marcado pela aspiração
capitalismo. A presente mutação é, na realidade, a atualização, em
à equalização das condições e pelo ajuste mais manifesto e mais direto
uma fase mais madura da sociedadede mercado, de uma tendência
do sistema escolar ao sistema produtivo. C)s anos 1960 e 1970 são
presente nas obras desde muito tempo. E suficiente reler os clássicos
dominados pela obsessão de fornecer à indústria francesa,
para que se perceba essefato. Em Spencer, por exemplo, que foi um trabalhadoresqualificados em número suficiente e de formar,
dos principais teóricos utilitaristas da educação em meados do século igualmente, futuros consumidores capazesde utilizar os produtos mais
19tZ, reencontrem-se os argumentos já desenvolvidos antes dele por complexos fabricados pelo sistema industrial. Outros favores, em
Benjamin Franklin, mastambém por Rousseaue muitos outros, em particular de naturezaideológica, tiveram um papel importante, a
favor de uma educaçãoque preparassepara uma "vida completa". "0 começar pela crença progressista da identidade do crescimento
que é mais negligenciadoem nossasescolasé justamente aquilo de económico, da democracia política e do progressosocial, expresso,por
que nós temos mais necessidade na vidai3", diz Spencer. E, entre essas exemplo, no Plano Langevin-Wallon, referência principal da
necessidades, aquelas ligadas às profissões e aos negócios são as mais esquerda política e sindical no pós-guerralS

importantes. Era reencontrar, também, o que Adam Smith já havia Por outro lado, a partir dos anos 1960, o Estado é dotado de
salientado quando tencionava introduzir uma dimensão de mercado categorias de análise e de ferramentas de gestão destinadas a operar a
regulação e a adaptação dos "fluxos de mão-de-obra". Essa
nas relações entre os indivíduos e os estabelecimentos de educação: se
se quer que as escolas ensinem coisas úteis, é necessário que elas 'industrializaçãoda formação" não necessitade investimentos apenas
obedeçamantesa uma demanda
do que ao conformismo
da financeiros, solicita também "investimentos simbólicos", quer dizer,
corporação ou ao capricho de superiores. O mercado é o melhor criação de formas institucionais e de classificaçõesque estruturem a
estimulante do zelo dos mestres,posto que ele permite que seus relação salarial: os diplomas e as qualificações, os níveis de saída e o
interesses e seus deveres se confundam14. conjunto de procedimentos de orientação de alunos, por exemplo. E
a partir do IV Plano (1960-1965) que aparecemos primeiros esforços
de planejamento coordenado da mão-de-obra e da formação,
prolongados e amplificados pelos trabalhos do V Plano ( 1965-1970)
A idéia principal consiste em determinar o melhor possível,por
12. Herbert SPENCER, De I' éducatíoníntelkctuelk, morde et physíque,oP. cít.
13. Herbert
SPENCER
, op.cít.,p. 31
14. Ajam SMITH, Recherches sur [a liature et ]ês callses & !a richesse &s Rácio , vo!.]], Lfçre V. cMP. ]
sectíon3, Gamier F]ammaríon,Paras, 199] 15. Guy BRUCYe F'rançoíse
ROPE, Su#it-tldescohHser?
. Ediüonsde !'Atelier,País,2000, P.24

08 09
A ESCO].,ANÃO É UMA EMPRESA Napa capitalismo e .Edüccbção

extrapolação das tendências observadas, um ajuste ótimo entre mão- que o produtor atualize seus conhecimentos e se adapte a uma
de-obra e necessidadesda economia. A análise da relação "formação- tecnologia em movimento19". A universidade deve, além disso,criar
emprego" permite, então, determinar a estrutura e o tamanho ótimo conhecimentosnovos e não secontentar em transmitir a herança das
do sistemaeducativo em função das necessidades
esperadasdas geraçõespassadas.
Dessaexigência, o autor conclui que a escolae a
empresas'o universidadedevem tornar-sequase-empresas
funcionandosob o
Esse período é marcado por uma crítica,
de inspiração modelo das firmas privadas e restritas à "performance" máxima. O
tecnocrática,do ensino dito tradicionalou clássicoque é autor insiste ainda na variável chave do "rendimento do ensino" que
reencontrada nos relatórios do Plano, em certos meios sindicais e as novas tecnologias devem assegurar,e no imperativo de adaptar a
patronais e que se confundem, freqüentemente, com uma crítica ensino à "modemidade", para evitar os desperdícios e as perdas de
política e sociológica de um sistema desigual. Ela se exprime tempo: "A escola não é nada se não prepara para a vida" diz o autor,
igualmente, nas organizaçõesinternacionais e, muito retomando, sem o saber, o utilitarismo de SpencerZO.Sem dúvida, não
particularmente, nos trabalhos da OCDE que passam,hoje em dia, é questão de privatização nem de rentabilidade em um sentido
por textos pioneiros. A obra de Lê Thành Khâi, A !ndústNado ensino, propriamente mercantil. O papel da oferta educativa no quadro de um
resume a argumentação, no início dos anos 1970i7. C) autor constata serviçopúblico parecepreponderante,posto que se trata, para o
que o ensino transformado, em diversas etapas, em uma verdadeira Estado,de contribuir para a modernizaçãoda sociedadee para a
indústria de massa,só pode, doravante, ser descrito sistematicamente, eficácia global da economia.
com a ajuda das categoriaseconómicas.Essainterpretação do ensino Convém, no entanto, observar que essediscurso modemizador
distingue três funções da educação moderna: a formação de uma mão- constituiu, historicamente, um meio de redefinir contra o humanismo
de-obra qualificada, a mudança cultural que prevalece sobre a herança tradicional o sistema de ensino como uma máquina produtiva,
e a formação de cidadãos responsáveis18.Essamutação marcapara o levantando modos de raciocínio e de abordagemque podem ser
autor o fim do humanismo clássico,fundamentado no desinteressee aplicados a outros setores da produção. Muitos progressistasaderiram
na livre atividade humana. a tais propostasainda mais facilmente porque pareciam ir no sentido
A primeira função é imposta pelo crescimento económico e o dos avanços promissores da ciência e do "desenvolvimento das forças
desenvolvimento do bem-estar. A escola, que não é mais a única fonte produtivas
de saber,deve, doravante, "aprender a ensinar" a fim de que a criança Apesar dessascríticas, um certo acomodamento entre a missão
possaordenar e selecionar a informação confusa, lacunar e orientada cultural e política da escolae o novo imperativo económico,pedese
da cultura comercializada de massa.Essaprimeira educação escolar é manter por bastante tempo, o que permitiu a muitos acreditar que a
o prelúdio de uma educaçãopermanente, uma formação de todos os mão visível do estado poderia no futuro associar, harmoniosamente,
dias, acompanhada por numerosas seçõesperiódicas de reciclagem os progressosdo espírito e o desenvolvimentoda produção, sob a
por exemplo, a cada três ou cinco anos, segundo os ramos "a fim de condição de, todavia, centrar menos os estudos nas antigas
humanidadese abandonartoda ilusão quanto ao desinteresseda
cultura. Essegrande compromisso histórico que tentava combinar o
16. Cf. LHcfelnNGUY et al. , LTntroutabk ré üon /onnaüon-emplot, La Documenmdon Françatse,País.
1986
17. Lê Thàhnh KHÓI, L'lvüuseríe & I'enseígnemenc,Édítíon.s& M.intiít, Paras, 1973. O limo é sob todos os
pontos de pista, notável e pemonítódo. Saíaleitura mostra que a maior parte caostema.sque a OCDE oa a
Comíssãa Européía desenvolveram &Poís, jú escavam, em gente, Tlessaliteratura mo&mfzadora hú 30 anos. 19. 1bü,P. 115
18. 1bd,P.llO 20. 1bÜ,P. 178

10 11
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA
.Nbpo capitalismo e -Edüccbção

desenvolvimento económico da nação com a idealização da


perímetro de ação, se inspira na empresa privada. No plano da
burocracia francesa "educadora do empírico"prepararia, no entanto, os administraçãoescolar,a tendência é para a descentralização,
para o
questionamentos neoliberais dos anos 1980-1990.
gerenciamento modems e para a "gestão pela demanda". Durante esse
período, os imperativos de eficácia impostos à escola começam a se
Em direção à escola neoliberal tomar preponderantes,inicialmente por razõesde controle dos custos,
As reformas impostas à escola vão ser em seguida, cada vez em seguida,por razõesde concorrência entre paísese entre empresas
mais, guiadaspela preocupaçãocom a competição económica entre e enfim, por razõespropriamente ideológicas:a escolaé, cada vez
sistemas sociais e educativos e pela adaptação às condições sociais e mais, vista como uma empresaentre outras, compelida a seguir a
subjetivas da mobilização económica geral. As "reformas orientadas evolução económica e a obedecer às restrições do mercado. A retórica
pela competitividade" tiveram, inicialmente, a finalidade de melhorar gerencial se toma cada vez mais invasora, por parte dos responsáveis
a produtividade económica melhorando a "qualidade do trabalhoZi". do mundo político e da alta administração escolarZZ
A padronização dos objetivos e dos controles, a descentralização, a O "Estado regulador", segundo expressãoproposta por Bemard
mutação do "gerenciamento educativo", a formação dos docentes são, Charlot, teta tendência a delegar aos escalões inferiores e aos serviços
essencialmente,refonnas "centradasna produtividade' descentralizados, a ação cotidiana, racionalizada segundo as regras de
Mas, a escola neoliberal pretende também elevar a qualidade gerenciamento dito "participativo" e conforme o esquema contratual
da força de trabalho no seu conjunto, sem elevar o nível dos impostos entre níveis e tipos de administração e a generalização dos "parceiros'
e mesmo,tanto quanto possível,reduzindoa despesapública. Daí a entre "amores"de todos os tipos. Esse Estado, guiado pelos novos
colocação, na mesmaépoca, tanto em nível mundial como em escala princípios da ação pública, fica conhecido por definir as grandes
nacional e sobretodos os registrosda atividade educativa, de todas as perspectivas e avaliar, a posteriori, os resultados de uma gestão mais
campanhas de opinião e de todas as políticas destinadas a diWçrsificar autónoma, com a ajuda de um sistemaestatístico rigoroso, que deve
o financiamento dos sistemas educativos. Isso foi feito apelando muito permitir a "pilotagem" das unidades locais e periféricas. Segundo esse

mais abertamentepara a despesaprivada, para gerenciar mais esquema é que foi pensada, e que se desenvolveu, a descentralização
do sistema escolar.
:eficazmente" a escola, à maneira das empresas. Apelando, ainda,
para a redução da cultura ensinada apenas às competências Usando como pretexto os numerososdefeitos, cada vez mais
necessárias à empregabilidade dos assalariados, para o encorajamento manifestos,de um sistemaburocrático que se havia hipertroflado e
de uma lógica de mercadona escolae da competição entre famílias e massificado no grande período do Estado fomentador, as pressõesse

alunos para o "bem raro" e, portanto, caro, da educação. acentuaram, em nome da eficácia e da democracia, para introduzir os

Desde os anos 1980, aparece uma concepção ao mesmo tempo mecanismos de mercado e os métodos de gestão inspirados na lógica
mais individualista e mais mercantil da escola. Essanova fase empresarial. Nos fatos, uma política de "territorialização" abriu

corresponde à desestruturação da sociedade industrial que os caminho, progressivamente, a uma "desregulamentação" escolar em

economistaschamam"fordista"e da normade empregoque Ihe é resposta a novas necessidades sociais, versão soft da mão invisível dos
própria. Depois da reviravolta do governo socialista, o Estado deixa, liberais: "A doutrina dominante derruba a proposição anterior: em
mais abertamente,que as regrasde mercado atuem, quer reduzir seu educação, como nos outros domínios, não se trata mais de corrigir as

22. Cf.B. CHARLOT e J. BEILLEROT (dir) , in con.strucdon&s poliüçms d'éducadonecdes/armador


21. Mardn CARNOY. op.cít., p.37. PUF,País, J995, P.79

12 13
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA
Novo ccLpitatismo e Educctção

impeúeiçõesdo mercadopela intervenção do Estado,masde suprir as


eliminação de toda "rigidez" inclusive psíquica, em nome da
fraquezas do Escada pela promoção do mercado, suposto auto-
adaptação às situações as mais variadas que o indivíduo encontra,
regulador, quer dizer, estabelecer a superioridade ética da agregação
canto no seu trabalho quanto na sua existência. A economia foi
das preferênciasindividuais pelos processosmercantis sobre a
colocada,maisdo que nunca, no centro da vida individual e coletiva,
deliberação,como forma de elaboraçãodas escolhassociais23".O
sendoos únicos valores sociais legítimos os da eficácia produtiva, da
papel tutelar do Estado educador é questionado quando a "escolha das
mobilidade individual, mental e afetiva e do sucessopessoal.Isso não
famílias" é reconhecida e encorajada pela "dessetorização" dos
pode deixar ileso o conjunto do sistema normativo de uma sociedade
estabelecimentos,
pela publicação da classificaçãodos e seu sistema de educação.
estabelecimentos e por todas as formas de se apelar à responsabilidade
individual dessaescolha. O modelo do mercado tende a se impor, ao
A escola "flexível"
menos como referência ideológica, e, de um modo muito eufemístico.
As transformaçõesda organizaçãodo trabalho,por um lado
quando a esquerda se engajou, com um certo zelo, nesse caminho. A
reais,por outro, idealizadasno discursooficial, explicam em grande
instituição escolar,nessenovo contexto, deve produzir uma oferta que
vise a satisfazer uma demanda de consumidores avisados. No fim dos parte o tipo de modificações escolares reclamadas pelas forças
económicas e políticas dominantes. O ideal de referência da escola é,
anos 1990, uma fria constatação se impõe: "A ofensiva neoliberal na
daí em diante, o "trabalhador flexível", segundo as cânones da nova
escola é um processo já bem avançadoZ4".
representação do gerenciamento. C) empregador não esperaria mais do
Essamutação deve ser substituída no quadro mais geral das
assalariado uma obediência passiva a prescrições precisamente
transformaçõesdo capitalismo desdeos anos 1980:mundialização das
definidas, gostaria que ele utilizasse as novas tecnologias, que ele
trocas, financialização das economias, desengajamento do Estado,
compreendesse
melhor o conjunto do sistemade produçãoou de
e transformação dos .serviços
privatização das empresas públicas
comercialização no qual se insere sua função, desejaria que ele pudesse
públicos em quase-empresas,
expansãodos processosde
fazer face à incerteza, que ele provasse [er liberdade, iniciativa e
mercantilização ao lazer e à cultura, mobilização geral dos assalariados
autonomia. Desejaria, em suma, que, em vez cle seguir cegamente as
em uma "guerra económica" geral, questionamento das proteções aos
ordens vindas de cima, ele fosse capaz de discernimento e espírito
assalariados,
sujeição à disciplina pelo medo do desemprego.Muito
analítico, para prescrever a si mesmo uma conduta eficaz, como se
mais do que a uma "crise" passageira,é a uma mutação do capitalismo
fosseditada pelasexigênciasdo seu próprio interior. A autonomia que
que assistimos. A aposta crucial é o enÊaquecimento de tudo o que faz
se espera do assalariado, que consiste em que ele dê ordens a si
contrapeso ao poder do capital e de tudo que, institucionalmente,
próprio, que ele "se autodiscipline", não acontece sem um certo
juridicamente, culturalmente, limita sua expansão social25. Todas as
instituições, muito além da economia, foram afetadas incluindo a
aumentodo saber.Em uma palavra, seria necessárioque ele
instituição da subjetividade humana: o neoliberalismo visa à
incorporasse as maneiras de fazer e os conhecimentos necessáriosao
tratamento dos problemas,em um universo mais complexo, segundo
as fórmulas em vigor. Para isso, autodisciplina e auto-aprendizado
23.. A..VINOKUR, "Pourqmí Hne économíe & I'éducaüon ?", in Jeanlacqaes PAUL, Administrar, gérer, caminham juntos. A hierarquia burocrática e o "taylorismo" do tipo
éoaltler ks systêmesédücacifs, oP.cít. , p.316
24. does CARRIL, "I.,e néo-ZÍbéralísmdam Z'écoie: un pocessm d4a bien engagé" , Nouueaux Regards, no 6, clássico tenderiam, assim, a se apagar diante de um autocontrole
junho, 1999
25 C/. M . \CAKALOULIS, Le capicalfsmc poslmo&Tne, Élemencspotlr une cHdquc sociologtque.PUF. País.
generalizado. A nova "regulação" no trabalho residiria em uma maior
margem de ação deixada à periferia e a um controle fundamentado na
4 15
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA ]Voç'o ca:pitaZismo e .Educação

realizaçãodos objetivos. Paralelamente,e de acordo com a doutrina "destinatáriodo serviço", a saber,a empresa.Em uma sociedadede
do capital humano, o trabalhador se dotada de conhecimentos e mais em mais marcadapela instabilidade das posições,sejam elas
competências ao longo de sua vida, sem poder mais se definir por um profissionais, sociais ou familiares, o sistema educativo deveria
emprego estável ou um estatuto definido: "Na era da informação, o preparar para situações de "incerteza" crescente. A nova pedagogia,
trabalhador não se define mais em termos de emprego, mas em termos 'não diretiva" e "estruturada com leveza", a utilização de novas
tecnologias, um mais extenso "menu" de opções oferecido aos alunos
de aprendizagem acumulada e aptidão em aplicar este aprendizado a
diversassituações,no interior ou no exteriordo local de trabalho e aos estudantes,o hábito adquirido de um "controle contínuo", são
tradicionalz6" C) conceito norteados é o da "empregabilidade' pensados como introdução na "gestão das situações de incerteza" nas
individual. quais o jovem trabalhador será mergulhado ao sair de seus estudos. Se

Sem que isso seja sempre claramente afirmado, é a essa as formações profissionais muito precisamente adaptadas a empregos

representação
do trabalhoe da novasubjetividade
esperada
dos específicos são, algumas vezes, declaradas anacrónicas posto que os

"jovens" que a escola deveria se adaptar, e adaptar os futuros assalariados


terão que trocar de empresamais amiúdee a trocar de
cargos no seio de cada empresa , inumeráveis são os textos que dizem
assalariados.A Comissão da Comunidade Européia salienta, assim,
que "a instalação de sistemas mais flexíveis e abertos de formação e o que o ensino deve, doravante, dotar seus alunos de "competências de
desenvolvimento das capacidades de adaptação dos indivíduos serão, organização, de comunicação, de adaptabilidade, de trabalho em
equipe e de resolução de problemas nos contextos de incerteza". A
com efeito, cadavez mais necessários
ao mesmo tempo para as
empresas, a fim de melhor explorar as inovações tecnológicas que elas "competência" primeira, a meta-competência, consistiria em

desenvolvemou que elas adquirem e para os próprios indivíduos, dos 'aprender a aprender" para fazer face à incerteza erigida como entrave
permanente da existência e da vida profissional.
quais uma proporção importante corre o risco de ter que trocar quatro
ou cinco vezesde atividadeprofissionalao longo de sua.yidaZ7"
Como dizem os peritos da OCDE, "os empregadoresexigem dos
trabalhadores que eles sejam não somente mais qualificados mas Degradação do vínculo entre diploma e emprego
também mais leves e "aptos a se formarZS". Para produzir esses
Por trás desses discursos repetidos, as transformações
importantes se delineiam. O período dito "fordista" do capitalismo
assalariadosadaptáveis, a escola em si, a reboque do mercado de
trabalho, deveria ser uma organização flexível, em permanente assegurou a instalaçãode um conjunto de instituiçõese de
procedimentos de proteção social fundamentados no reconhecimento
inovação, respondendotanto aos desejos muito diferenciados e
variáveis das empresas quanto às necessidades diversas dos indivíduos.
de direitose posições
que proporcionaram
aosassalariados
uma
relativa estabilidade, regularizando não somente o consumo, a
Essa maior flexibilidade da escola é inclusive apresentada como a
:questãocentral" pela ComissãoEuropéia29.Não se trata apenasde evolução salarial, a carreira, mas igualmente o próprio curso da vida.
E essa institucionalização do assalariado que, segundo muitos
aumentar os níveis de competência dos assalariados, é necessário,
economistas e sociólogos, permitiu a integração da classe operária ao
ainda, que toda a educação recebida tenda a levar melhor em conta o
Ihe garantir recursos suficientes para consumir o que as empresas
"taylorizadas" produziam em série e a baixo custo. Ê igualmente nesse
26. MarHn CARNOY e Manha! CASTELÃS, Une /ZedbílitédHrabk, oP. cít. , f). 39
27. COMISSK)N DES COMMUNAUTÉS EUROPÉENNES, oP, cít., P.24. período que muito mais indivíduos puderam antecipar uma progressão
28. OCDE, Du bíen-êtreüs natíons, k rale da capim! humaÍn et social, 200.1, P.30. social, não apenaspara si próprios, mas também para seusfilhos,
29. COMISSION EUROPEENNE, Livre bianc, Ensefgner ecapprendre, vens la socfétécognitfve, 1995
P. 44-45 graças a seus estudos. A escola, parte atuante do "compromisso

16 17
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA
.ÍVoç,o
capitalismo e -Educação

fordista" e da "sociedade salarial30", entregou, assim, títulos a pessoas desemprego de massa e a instabilidade crescente dos empregos e dos
dotadas de direitos reconhecidos por convenções coletivas e postosde trabalho,dos quaissão vítimasos assalariados.
A
contribuiu para o estabelecimento de posições que eram pontos de insegurança atinge não apenas a posse de um emprego mas,
apoio nos quais poderiam se fundamentar para vender sua força de igualmente,
o conteúdodo ofício, a naturezadas tarefas,a
trabalho. Mesmo se a relação entre diploma e emprego não foi jamais participação em uma empresa, as qualificações que se possuem em
geral e unívoca, o diploma estava,para uma grandeparte, no uma organização do trabalho mais "fluida". O enfraquecimento do
fundamento da hierarquia intema à classeassalariada,especialmente valor simbólico dos diplomas, a instalação de práticas de avaliação de
na função pública. Mas, ele tinha igualmente como característica competências mais próximas das situações profissionais, a influência
ascender de uma esfera escolar que, por sua autonomia relativa, tinha maior das empresasna determinação dos conteúdosde formação,
a força simbólica suficiente para torna.lo relativamente independente
participam desta insegurança quase ontológica dos trabalhadores, cuja
das relaçõesde força imediatasno mundo profissional.São amplidão é mostrada por certos trabalhos sobre a "desqualificação"
particularmente verdadeiros os diplomas técnicos e profissionais que social3i.Em suma,o valor social dos indivíduoscorre o risco de
permitiam aos assalariados não depender direEamente das exigências depender, cada vez mais estreitamente, das competências pessoais que
instáveis e arbitrárias dos empregadores.A ligação entre um "bom o mercado de trabalho sancionará do modo menos institucional,
diploma" e um "bom ofício" aparecia como uma relação necessáriaem menos "formal" possível. C) trabalho se aproxima, então, cada vez
uma sociedade de estatutos. Se o ensino técnico foi objeto de um mais de uma mercadoria como as outras, perdendo aos poucos sua
relativo desprezo,amplamentedevido à divisão social e técnica do dimensão coletiva e suasformas jurídicas.
trabalho, ele constituiu um vetor de reconhecimento das A tendência atual à não-institucionalização da relaçãoentre o
qualificaçõese deu a muitos um sentimento de dignidade pessoale de diploma, a qualificação e o ofício, decorre desseenfraquecimentodas
utilidade social, condições de uma ação coletiva prolongada. posições dos assalariados que encontram cada vez menos segurança
O período neoliberal do capitalismo tende a mudar a ligação, nas instituições e referênciasestáveisquanto ao que eles valem e ao
que ele deixa mais frouxa e mais leve, entre o diploma e o valor que eles são e que, em conseqüência, se tomam culpados pela sua
pessoal reconhecido socialmente. Esse título escolar e universitário, sorte.Com efeito, a transformação do mercado do trabalho acentuou
ern uma época onde se declara que o saber é um produto "perecível", a vulnerabilidade dos detentores de títulos escolares,aos quais se
e que as competências são, elas mesmas, objeto de uma "destruição pediu uma experiência profissional, ou, ao menos, um "treinamento",
criadora" permanente,tende a perder sua força simbólica. No através de múltiplos estágios e empregos precários. Certos
momento em que ele se expande, ele é cada vez mais considerado relacionamentos oficiais reforçam a idéia segundo a qual os diplomas
como uma fonte de rigidez que não correspondemais aos novos entregues pelas universidades não valeriam mais, alguns anos após sua
imperativos de adaptabilidadepermanente e de reatividade imediata primeira entrega, o que só acentua a disparidade crescente entre o
da empresa. Esse questionamento deve estar, evidentemente, valorjurídicode um título e seuvalor social3Z.
A escolae a
relacionado às transformações do trabalho. A classe assalariada foi Universidadese vêem, então, representarum papel ambíguoque
atomizada em múltiplos estatutos, subestatutose sem estatutos. A consiste em manter, por diplomas de validade temporária, a
identidade
ao trabalho e pelotrabalho é debilitadacomo precariedade do valor escolar e profissional dos indivíduos.

3] . Cf. por exemplo Serie PAUTAM, L# sahdé & h précaHté, PUF, País. 2000
30. Robert CARTEL, Lcs MémmoTphoses de h quesdon soktale; Hne chroníazeed salaHat, Fayard, País, 32. O relatóHo Atalii a/ilha, nesse sentüh q14e "mnhum diploma terá mais iegídmfclade penmnente". baques
]
Al:U,LI, Pour um mo&k euroPéend'emeígnement suPédetir, MEN, 1998, P. 19.

18 9
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

CAP ÍTUL0 2

Uma coerência totalmente relativa. Do conhecimento como


A contradiçãopareceestar cada vez mais forte entre a
aquisição do saber pelas jovens gerações,as quais pedem estabilidade,
fatorde produção
segurança
do valor do que se aprende,respeitopor uma cultura
comum e construção de uma personalidade, e as necessidades
económicas, particulares e variáveis. Enquanto a "profissão" para a
qual a escola preparavapermitia vislumbrar um futuro relativamente
estável e a realização de uma "função" social em um conjunto
compreensível, a profissionalização, aliás parcial, dos estudos não
tinha todos os efeitos destruidoresque pode ter, quando a vida futura
não evoca mais do que uma indústria ameaçadade deslocamento ou
à deriva de trabalho em trabalho. O capitalismo "flexível" e
'revolucionário" tnina a confiança a longo prazo, desconsldera os

engajamentos,o cuidadocom o património cultural e o sentido dos


sacrifíciospelo próximo. Como associaro nomadismo inerente a essa
deriva profissional prometida aos assalariadosdo futuro e a filiação As sociedades de mercado se caracterizam pela escravização de
confiante a uma cultura e a seusvalores?Certo, é fácil esperarda todas as atividades à lógica da valorização do capital, de agora em
escola que ela "incuta nos alunos as noções de autonomia, de diante consideradocomo uma evidência, uma fatalidade,um
adaptação rápida às mudanças e de mobilidade", mas, dificilmente, se imperativo, ao qual nenhum ser razoável pode se furtar. Sob esse
vê como ela poderia fazê-lo no seio de uma esferasocial e cultural ein ponto de vista, seria necessáriomeditar sobre os ditos premonitórios
vias de desintegração. E no coração da subjetividade que se instala a de Nietzsche em Schopenhauer educador e nas conferências Soh-e o
contradição que todos os sintomas associadosa essaperda de amanhã porvir nos estabelecimentosde ensino. Particularmente nessasúltimas,
exprimem. Nietzscheinterroga o sentido real dos grandesdiscursossobre a
Os especialistas
em educaçãodo C)C[)E sentiramque se "necessidade de cultura" da época modema. A cultura clássica,
abalava a própria estabilidade das sociedadesocidentais que não reservada a alguns, cai em ruínas, constata o filósofo. Por "cultura
estavam somente ameaçadas pela crise financeira, mas, igualmente, universal", entende-sedaqui por diante uma cultura totalmente
pelos efeitos deletérios da "perda de referências" das jovens gerações, diferente daquelas que as universidades ou os estabelecimentos
da "crise de laços sociais33".Se a tomada de consciência é louvável, secundáriosse propunham a dar aos alunos e que visavam a formar
embora tardia, vê,se mal como a escola poderia, sozinha, chegar ao espíritos intelectualmente treinados e equipados para os pensamentos
fim da "degradaçãodo ambiente social", quer dizer,das desigualdades, mais elevados.A nova cultura, que hoje em dia chamaríamosde
da insegurançasocial, da anemia crescente, da delinqüência, etc. massa, não se propõe a reproduzir e reconduzir o esforço dos grandes
Sobretudo, não se vê como uma escola, cujas competências seriam as gênios das gerações anteriores. Ela está subordinada a três fins
mesmas da sociedade de mercado, poderia contrariar os efeitos de específicos:
o fim económico,o fim político e o fim científico.A
dissolução que o curso atual do neoliberalismo engendra. primeira subordinação tem, de longe, para Nietzsche, os efeitos mais
importantes: se ela conduz à "extensão" e à "ampliação" da cultura, é
33. CÍ. OCDE, DH bíen-acredesmdom, le rõk d capíml humain et social, 2000. Em partícuhr o capírülo
3 "Le role du capttat sacia!" , P. 45 et sq. com a finalidade de aumentar a riqueza pessoal e coletiva. É "um dos

20 21
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Do corLhecimento coma/[Ltor de produ:çõo

grandesdogmasda economia política, mais caros ao tempo anual"t, dotadose talentosos.Os valoresque tinham, até lá, constituídoo
como atestam os escritos de James Mill ou de John Stuart Mill sobre mundo escolar, são substituídos por novos critérios operacionais: a
o tema da educação.A democratizaçãoda cultura é, cada vez mais, eficácia, a mobilidade, o interesse. É que a escola muda seu sentido;
guiada pela eficácia económica e impede qualquer forma de cultura ela não é mais o local de assimilação e de presença freqüente das
"que tome solitário, que se proponha a fins além do dinheiro e do grandes narrações que forjam caracteres estáveis para situações sociais
ganho e que demande muito mais tempo"Z, acrescentaNietzsche. Ê bem definidas; ela é lugar de formação de caracteres adaptáveisàs
necessária uma cultura rápida, económica, que custe pouco esforço e variações existenciais e profissionais em movimento incessante.
permita ganhar muito dinheiro. Mais pessoassão chamadaspara o
saber,mas é um saberque deve ser útil, servir à finalidade do bem- Educaçãoampliada, cultura útil
estar. "A verdadeira tarefa da cultura seria, então, criar homens tão No dia seguinte dos acontecimentos de 1968, Michel Crozier.
correntes quanto possível, assim como se fala de uma moeda na sua obra A socíed(üe bloquea.:ia, tinha louvado esta mudança de
corrente." Quanto mais existissemhomens correntes, mais um povo significado da cultura "que não é mais um luxo inútil reservada a uma
seria feliz, e o propósito da escola só poderia ser justamente o de fazer minoria de aristocratas privilegiados e a alguns criadores marginais'
cada um progredir até o ponto no qual sua natureza o chamasse a Ela se transformouem "um instrumento essencialde ação em um
tomar-se "corrente", o de formar cada um de tal forma que, de sua mundo racionalizado, que só pode ser dominado atravésda utilização
medida de conhecimento e saber,ele tire a maior quantidade possível de modos de raciocínio que necessitam uma aprendizagem cultural«4
de felicidade e benefício"3. Em uma palavra, Nietzsche observa de De modogeral,o utilitarismoque caracteriza
o "espíritodo
modo muito lúcido a que ponto uma lógica de eficiência apodera-se capitalismo" não é contra o saberem geral,nem mesmocontra o saber
pouco a pouco do domínio cultural e escolar. Essediagnóstico sobre a para um maior número de pessoas,ele vê o saber como uma
evolução do ensino pode ser prolongado: não é de uma espéciede ferramenta a serviço da eficácia do trabalho. É ainda mais verdadeiro
malthusanísmo generalizado, visando à baixa do nível cultural que hoje em dia, em uma época onde o capitalismo, "fundamentadono
estamos, exatamente, ameaçados, mas de um duplo movimento de saber", "cognitivo", "informacional" supõe uma elevação do nível de
extensão social e de "instrumentalização" da cultura, pelos interesses conhecimento da população. A organização patronal N4esaRedonda
económicos privados. Européia (ERT)S, por exemplo, lembra a necessidadede realizar
Essas
transformações,
afetandoo lugare a natureza
dos investimentos financeiros e humanos importantes na educação,
conhecimentos, são fundamentais para o futuro da educação. O saber acentuando que neles está o futuro económico e social da Europa. O
não é mais um bem a adquirir para participar de uma essência especialistada OCDE que nós já citamos, JamesGuthrie, sublinha
universal do ser humano, como no antigo modelo escolar que, é que: "Antigamente, um país devia sua influência em grande parte, às
necessário lembrar, reservava essebem supremo a alguns, mas um riquezasque ele podia extrair do solo mas, em nossosdias, seu poderio
investimento mais ou menos rentável para os indivíduos igualmente é, cada vez mais, subordinado às riquezas do espírito. [...] Considera-
se, cada vez mais, a inteligência humana -- quando é desenvolvida

1. FríedHch NIETZSCHE, Szlr I'aneür de nos éublíssements d'emelgnementsin (EHvres philosophfqües


compiêtes, Écdts posthumes.1870-1873, GalZímard, País, J975, P.94. 4. Mlcki CRUZ/ER, La Sociétéb]cy@e,Seuit,País. ] 970, reedção"Point/Seus!
«, 1995.p. 149-150.
2. Ibid. 5. A ERT (EtzropeanRoundltlbk) funda(b.em 1985 por cercade 40 grandesindmmais europeusé um
d's MT'@.ís "thínk t«k" q«. i«.PÍ,'m o. «htó.íos ü'Comi«ão Eu,(;á:l'l;;Ú;:Ü.l;l;:='S;l;iaw=
3. Ibid educação

22 23
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA Do conhecirrzertfo como /atar de produção

pela educação e se alia a competências muito especializadas como o económica e social, são nisso acompanhados por certos reformadores
recurso económico primordial de uma nação, do qual essaúltima tem, pedagógicos bem imprudentes que, em nome da democratização,
maciçamente, necessidade"6.E nessa perspectiva que se coloca a consideram que as crianças do povo não podem, a priori, receber a
estratégia de aprendizado contínuo: "A população da Europa deve cultura da elite. É o que faz o caráter, freqüentemente, equívoco das
estar engajada em um processo de aprendizagem ao longo de toda a noçõesde "democratização",
de "cultura de base"ou de "cultura
vida. .q. integração crescente do conhecimento no ambiente comum", noções que podem receber interpretações muito diferentes
industrial transforma os trabalhadores em "trabalhadores segundoos objetivos políticos e os valores que lhes servemde
cognitivos"7. Essaafirmação repousasobre um argumento muito referênciae que solicitam, então, elaboraçõesavançadasio.
divulgado. A vida profissional, mesmo nos escalões subordinados,
para não falar da vida social mais geralmente, supõe hoje em dia uma A épocado capital humano
capacidadeintelectual e um domínio simbólico, mesmoelementar, A doutrina dominante em educaçãoencontrahoje seucentro
que apenasuma escolaridaderelativamentelonga, durante uma de gravidade nas teorias do capital humano. Essasúltimas, mesmo
grande parte da juventude, pode assegurar. distorcidas ideologicamente, traduzem uma tendência muito real do
Certos meios patronais ou políticos continuam, é certo, a capitalismo contemporâneo: mobilizar saberescada vez mais
sustentar e praticar, em nome das restrições orçamentárias devidas às numerosos, sob seu duplo aspecto de fatores de produção e
políticas liberais ou em nome dos riscos de desclassificação,um mercadorias.Os economistas designam capital humano, o "estoque de
malthusianismo educativo visando a fazer recuar o esforço em matéria conhecimentosvalorizáveis economicamente e incorporados aos
de escolarização8.Mas muitos dos "domadoresde decisão" pleiteiam, indivíduos"ll. São as qualificações adquiridas inicialmente, seja no
de preferência, um "aumento" desseesforço, com a condição, todavia, sistema de formação, seja na experiência profissional. N4ais
de que eles se concentrem no saber-fazer e nos saberes úteis, amplamente,essanoção pode englobar os múltiplos trunfos que o
supostamente melhor adaptados aos jovens vindos das classes indivíduo pode fazer valer no mercado e fazer reconhecer junto aos
populares e correspondendo às necessidades das empresas. Tem-se empregadores como fontes potenciais de valor: aparência física,
uma dupla reivindicação: por um lado, a favor de um investimento civilidade,maneirade sere de pensarou estadode saúde,
por
educativo importante, e por outro lado, a favor de uma redução dos exemplo. Assim, segundoa C)CDE, o capital humano reuniria "os
conhecimentos julgados inúteis e aborrecidos quando eles não têm conhecimentos, as qualificações, as competências e características
ligação evidente com uma prática ou um "interesse"9. Esses individuaisque facilitam a criaçãodo bem-estarpessoale
responsáveis políticos e económicos, que querem combinar educação económico"iZ. Sem ser totalmente original, a concepção do capital
de massae determinaçãomaisrestrita dos conteúdospela utilidade humano conheceu um imenso sucessonos organismos internacionais
e entre os governos ocidentais, não somente porque ela propõe uma

6. JadesW. GUTHRIE, "L'évo!dondespolidaeséconomfques


et sonIncfdence
sur !'éva! don des
systêmes éducadfs", in Éva]uer ec réfmmer ]es s)stêmes éducattÍs, OCDE, 1996, P.7]
7. ERT. Intestina in Knowledge,The Inngradon of Technolog)in EuroPeanEducatíon, 1997, P. 6
8. Cf. sobe esseponto, mean-PíemeTERRAIL (dtr.) , lxz Scolarísadon de h France. Cdtíque de !'état üs 10. Cf. sobre essetema os trabalhos da associação"DéÍeTüre et [rans/ormer !'école Po r to " bem como a
líeux, La Díspute, País, 1977, P. 230. obra publicada pelo Insdrl t & recherchesda FSU: Helêne ROMAIN (dlr.) , Pour u cultura commulze
9. MÍchet Crozíer e Bruto TtZZíette
apelam assim "a alíuíar a compküdade que esmagaos í7üívduos, o qüe Hachette, Paras, 2000
deman(ü ama redução da massa de conhecimentosa absorver, quando a escola tende a muZtil)Zíca-Zos sem 11. Cf. D. CUELLEC e P. RALLE, l.es NouveilesThódes de h croissance.InDécouverre,cor
cessar"(Míche!CROZIER e BrurtoTILLIE7TE, QmTtd h Frances'oawira, Fayard, País, 2000 'Rel)êles",Paras,]995, P. 52
P.145 12. OCDE, Du bica-êtredesmtíom, k râk du capa [ humaínetsocial,2001, p. 18

24 25
A ESCOLANÂO É UMA EMPRESA Do conhecimento como/atar de produção

estratégia de "crescimento duradouro", como o dizem seus essencialmente


considerado
como uma fonte de ganhosde
promotores, mas porque ela dá uma justificativa económica às produtividade. Os perigos de redução são particularmente visíveis na
despesas
educativas,a única que tem valor hoje em dia aosolhos dos versão ultraliberal dessa teoria defendida por um outro economista
que têm poder de decisão". Além disso, a noção, como iremos ver, tem americano,Gary Becker. Para Becker, o capital humano é um bem
a vantagem de traduzir o enfraquecimento da ligação entre diploma privado proporcionando uma remuneração ao indivíduo que o tem.
escolare empregoe justificar uma maior seletividadepor parte dos Esta concepção estritamente individualista concorda com os
empregadoresem um período onde a inflação de títulos tende a fazer pressupostos da teoria liberal ortodoxa: o indivíduo possui recursos
crescer a importância dos componentes "informais", sobretudo de próprios que ele vai tentar fazer crescer ao longo de sua existência
origem social, na apreciação da "empregabilidade" dos assalariados. para aumentar sua produtividade, sua renda e suas vantagens sociais.
Para compreender o sucesso dessa noção, é preciso partir de Concebe-se,então, que não pode haver nada de desinteressantena
algumas considerações gerais. Os trabalhos do economista americano aquisição de um tal capital humano. Essa concepção supõe que a
Edward F. Denison permitiram mostrar, nos anos 1960, que o -'escolhado ofício" é unidimensional: só importa o rendimento que a
crescimento económico estava ligado não somente ao aumenta profissãoabraçadaproporcionará. Ela negligencia, dessaforma, todas
quantitativo dos favores de produção (capital e trabalho) mas também as representações de futuro ligadas às condições presentes, aos valores
à qualidade da mão-de-obra, qualidade que talvez pudessevir, em transmitidos e às chances percebidas e desconhece que a relação com
parte, da educaçãoi3. Levando em conta esta relação, não se poderia a vida atavaé uma relação que compromete tanto uma história pessoal
esperar a busca do crescimento isolado dos investimentos físicos nem e coletiva quanto as relações entre as classes sociais, os sexos e as
o crescimento isolado do volume da mão,de,obra: seria necessário faixas etáriasÍ5. Na concepção utilitarista da escolha profissional, tudo
investir" em um novo tipo de capital]4. A noção de capital humano, é dirigido pelo esforçoracional com vistas a adquirir rendimentos
semconstituir a revoluçãoda teoria económicapadrãovista por monetários suplementares.Esseesforço é determinado pela taxa de
alguns,permitia desviaro olhar que se tinha sobre a despesada rendimento esperado do investimento. Seu financiamento deve
educação, colocando-a antes do lado dos investimentos do daquele depender dos ganhos esperados, dos costumes e do grau de
dos consumos. A noção nova se espalhou por múltiplos canais e por generalidade das competências adquiridas. Se a despesaeducativa é,
interesses
diversos,ao ponto que os partidosde esquerdae os de início, destinada à formação de um capital humano, a questãoque
sindicatosretomaram por seu lado, nos anos 1970, esseraciocínio se coloca é, com efeito, saber quem deve pagar, quem deve definir os
para a legitimidade que ele parecia trazer aos esforçosdo Estado em conteúdos, quem deverá ser o mestre-de-obrasdessaformação. Em
matéria de ensino público. função dos ganhosesperados,o financiamento deve ser repartido
Essa metáfora do "capital humano" desemboca, todavia, em entre o Estado,a empresae o indivíduo. Entretanto, o Estadonão
uma visão muito empobrecida dos efeitos do "investimento no saber' deve se desinteressar pela educação uma vez que existem
externalidades positivas", quer dizer, efeitos benéficos para toda a
coletividade. Mas, se ele deve se encarregar de uma parte das despesas
13. EduardsF.DENISON, Why Grouth RatosDizer? PostwarEJpedence
in Nfne vestem Coanmes
Brookíngs
Inscícudon,
Washfngton
D.C., iç67. Cf. ÉdcDELAMOTTE, Une tntroducdon
à h pensa
educativas, deve igualmente criar as condições para que os indivíduos
économíque
en éducatíon,
PUF, País, ]998, P. 99.
14. Ibid. , P. 38. Cf. também Denü CLERC, "La théorte du caPiml hHTnan", Altemadves économíques,
mais ] 993 e ÉZísabeth
CHATEL, Comment éuaZwrZ'édtícadon?
Poar une théoüe& I'acdon edticatíve,
DeZachauxe Níestiê, l,ausanne e País, 2001 . Para uma uísão de codt4nto dos trabalhos sobre o assunto, 25. Para uma andlisedm rePresenülçõesqHeesfrücuram a pesquisade emprego, cf. Francês VERGNE, De
Cf. OCDE, oP. Cic., 200] , P. 30 et sq. I'écok à I'emploí, attenteset re»'ésenmtíon..s,
Noüveaux Regards/S)!iepse,
Paro, 2001

26 27
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Do corihecímertto Gonzo/atar deprodüção

operem as escolhas racionais e assumam os custos que retornem a eles execução. Desse ponto de vista, a articulação estreita entre a escola e
legitimamente. Se os poderes públicos devem assegurara formação a empresa não é, necessariamente, mais democrática.
inicial, tendo visto a forte rentabilidade social dos investimentos a ela Essasconcepções urra-utilitaristas da educação têm, hoje em
consagrados,devem, igualmente, apelar para financiamentos dia, muita influência sobre as representaçõesdominantes. Pode-se
privados, provenientes das famílias e das empresas,especialmente em temer que elas contribuam para reforçar o já conhecido ensino em
um período marcado pela "intensificação das restrições várias velocidades,no qual os alunos mais "rentáveis" se beneficiam
orçamentárias"16.[)iversificar as fontes de financiamento aparece de investimentos mais importantes do que os de pior "performance"
como a única via racional, já que ela faz com que os casaisse Mesmo se uma vasta literatura empírica mostra que a correlação entre
encarreguem de uma parte crescente da despesa, na proporção das o investimentona formaçãoe o nível de remuneração
estámuito
vantagenspessoaisque eles obtenham. Quando a OC[)E e o Banco longe de ser tão simples quanto os economistas liberais o proclamam
Mundial convidam para um financiamento diversificado ou para um -- é preciso acrescentar múltiplas variáveis para interpretar as relações
"co-financiamento" da educação, é a esta lógica do rendimento observadas,
em particular a tendência dos empregadores
a empregar
educativo que eles se referem. pessoal superqualificado --, o essencial permanece: a concepção da
As implicações sociais dessadiversificação do financiamento educaçãocomo investimento produtivo em vista de um rendimento
estão longe de serem negligenciáveis. Acredita-se que a análise do individual, alcança um imenso sucessoe uma ampla difusão. Por via
tipo custo/benefício explique as diferenças de investimento das organizaçõeseconómicase financeiras internacionais,essa
educativo. Os estudantesmais dotadostêm interesseem prosseguir concepçãoconstitui, hoje, o fundamento ideológicoda nova ordem
seusestudosporque o investimento é, nessecaso, muito rentável, educativa mundiali8
enquantoos menosdotadostêm mais interesseem abandonarseus
estudose entrar mais rápido na vida profissional. A teoria do capital Capitalismo e produção dos conhecimentos
humano, contrariamente a algumas pretensões à "eqüidade" da As teorias modemas do capital humano, da "economia do
OCDE ou do BancoMundial, não é, em nada,igualitária.Gare conhecimento" ou da "nova economia", não descobriramo papel
Becker legitima, ao contrário, asdesigualdadesescolarespelo cálculo crescenteda ciência na produção, papel que já havia sido percebido
racional do indivíduo: os alunos dotados aprendem rápido e, por um por Smith e analisado por Marx. Desde o primeiro capítulo da Riqueza
custo limitado, acumulam um capital muito rentável, ao passoque os das Nações, Smith descreve o caráter positivo e acumulativo dos
menos dotadospenam para obter os diplomas cujo custo não será efeitos da divisão do trabalho sobre o progresso técnico e salienta que
compensadopelos rendimentos futurosi7. Ê esta lógica que se vê "um grande número de descobertasé devido à indústria dos
trabalhar no mercado da formação permanente erigida por alguns construtores de máquinas, desde que essaindústria se tornou objeto de
como modelo para a educaçãode basee cujo efeito mais certo é uma uma profissão particular. Algumas são devidas à habilidade dos que
produção de desigualdadesentre aqueles que dela mais se beneficiam, são chamados sábios ou teóricos, cuja profissão é de fazer nada mas
os chefes, e aqueles que dela menos se aproveitam, os assalariados de observar tudo e que, por esta razão, se acham, freqüentemente, aptos

16. OCDE, Anal)seas poiítÜwsd'éducadon,]997, P. 24. 18. CÍ. sobreesseponto os fr(falhos do l dt [ de reckrches da FSU e em pardcalar Chdsüan LAVA e
17. Cf. , Denfs CLERC, "La tRÍade du capfut hzlmatn", arc. cÍcüio. LouísBEBER (coord),oP.cíc

28 29
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA
Do conhecimento corra/alar de produção

a combinar as forças de coisasas mais distanciadase as mais


solicita". O conceito marxista de "forças produtivas" saído do
diferentes"i9. Sinith faz, nesse ponto, a exposição resumida de uma
conceito de "faculdadesprodutivas" que são encontradosnos
evolução mais complexa: desde muito tempo atrás, a divisão social do
economistas do século XVlll e em Saint-Simon engloba não apenas
trabalho permitiu a grupos humanos desenvolver sua capacidade
intelectual longe das restriçõesda produção material, à distância asferramentas e a organizaçãodo trabalho, mas igualmente o "nível
relativa do trabalho diretamente produtivo. Na escalada sociedade,a de habilidade médio do operário" e o "desenvolvimento da ciência e
diferença maior entre grupossociaisrepousousobreestadivisão entre suaspossibilidades de aplicação tecnológica
trabalho intelectual e trabalho material, condição primordial de uma O crescimento da pesquisa nos países capitalistas
acumulação ampliada de conhecimentos ligados ao trabalho social. desenvolvidos,restetnunhaesselugar cada vez mais decisivo dos
No século 20, esta tendência à "capitalização do saber" se acentuou conhecimentos, considerados como componentes essenciaisdo
nitidamente. sucesso económico. C) conjunto das despesas de Pesquisa-
A estaprimeira divisão geral entre trabalho intelectual e Desenvolvimento (P & D) nos 29 países da OCDE representa mais de
manual, se acrescentouuma segunda.No meio do processode 470 bilhões de Euros, ou seja, cerca de um terço do PIB francês, e tem
produção, os conhecimentos "vivos", incorporados aos trabalhadores, tido um aumento absoluto muito forte desde os anos 1980 (quase 75%
foram, ao mesmo tempo captados e substituídos pelos saberes de aumento entre 1981 e 1996). Sua concentraçãoé igualmente
normalizados
que se impõemcomo fonte de prescriçõese normas muito sensível: a OCDE realiza cerca de 90% das despesasde P & D
exteriores aos gestosprofissionais, saberesque se tomaram o apanágio no mundo, tendo à frente os EstadosUnidos, que representammaisde
de certas categorias de assalariados.O taylorismo é, soIS'êsseaspecto, 40% das despesasda OCDE. Essesdados conduzem um certo número
apenas um momento de uma longa evolução. O desenvolvimento da de teóricos a pensar que nós estaríamos entrando em economias
ciência para um dos pólos da sociedadee essacapitalização dos saberes fundamentadasno conhecimento. Essaidéia tomou-se mesmo,como
técnicos para o interior da esferade produção, conjugaram seusefeitos se sabe, um slogan encarregado de resumir as doutrinas e estratégias
para fazer da "ciência" um estoque de conhecimentos diretamente políticas e económicas dos países da C)CEDE.Teríamos mesmo,
úteis na produção, integrados nas ferramentas, nos códigos e nos segundo alguns, uma economia nova repousando em leis muito
programasZO. Essa articulação entre as atividades intelectuais e diferentes das antigas, na medida em que o conhecimento é um favor
produtivas não é um acontecimento recente. Já havia sido destacado de produção cujos rendimentos são crescentes,ao contrário do que
por Marx que, tanto nos GundHsse,
como mais tarde em O CapÍml, ocorreu com os favores"físicos" do capital e do trabalho: a utilização
insistia na submissãodas ciências à lógica da acumulação de capital: de uma unidade suplementar de informação, longe de diminuir a
a invenção se torna um ramo dos negócios e a aplicação da ciência à produtividade marginal dessaunidade, tem tendência a aumenta-la,
produção imediata determina as invenções ao mesmo tempo que as em decorrência do caráter cumulativo do conhecimentoZI. Essas

teorias e essas representações indicam a seguinte tendência: se a


acumulação dos conhecimentos tem um papel crescente na produção,

19. A(üm SMITH, Recherches


sur Zanaturaet iescarnes& Zadchesse
dêsnatíons,oP. cit., 1, chip. 1, P
77
20. Cf. Domfnfque FORAL. L'Éconnomfe de h conmissance, La Découçerte, "Repêres", Paü, 2000,
P.46etsq. 2] . Cf. Domintque GUELLEC, L'Economia & !'fnnotadon, La Décoltçerce, "Repêres Paras,1999,e
D. GUELLEC e Píene RALE, Les nouve1lesThéodes & h croissance, oP. cit

30
31
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA Do conhecinzento como/atar de produção

a ciência vai estar, cada vez mais estreitamente,submetidaàs que as escolas secundárias e as universidades nos países capitalistas
exigências da valorização do capital. desenvolvidos, experimentaram desde os anos 195C).
Essa subordinação dos saberes à economia, já muito
perceptível na segunda metade do século XIX, só fez se estender, desde As novas indústrias do saber
então, com a multiplicação dos laboratórios e dos centros de pesquisa E por essamesma lógica que se pode compreender melhor a
nas empresas gigantes, com as múltiplas aproximações entre pesquisa expansão das "universidades-empresa", iniciada nos Estados Unidos
privada e pública e com aumento considerável dos investimentos em nos anos 1950, e depois, mais recentemente, na Europa. A partir de
P & D e das patentesZZ. O exemplo americano do N41T,
alguns estudos sobre o assunto, existiriam cerca de trinta delas na
frequentemente considerado modelo, mostra quanto a pesquisa trança, geralmente dependentes de uln grande grupo. Se ainda é
aplicada, comandada pela indústria, pode dominar a produção dos difícil, por falta de perspectivade conjunto, prever suaevolução,
saberes.O desenvolvimento das biotecnologias, das atividades pode'se, no entanto, ressaltar que, em certos casos, elas tendem a se
espaciais assim como das pesquisas ligadas à informação e à distinguir dos centros de formação para dirigentes com "alto
comunicação, testemunham, numa escala mais ampla, essa potencial", tornando-se verdadeiros locais de formação capazesde
interpenetraçãocrescentedos setoresprodutivos e das instituições recrutar estudantes no exterior e de expedir diplomas24. De modo
universitárias. A produção de conhecimentos torna-se, ao mesmo mais geral, abre se um novo campo de acumulação de capital, com a
tempo, uma atividade mercantil específicapelas formas jurídicas de transformação das universidades ein indústrias de produção do saber
sua apropriação privada (patentes, direitos autorais) e uma fonte de eficaz. A produção dos conhecimentos e o próprio saber são,
benefícios, importante para as etnpresasque as desenvolvem. Uma das doravante, modeladospelo "capitalismo universitário"25.E, em
características do capitalismo moderno é, precisamente, a organização realidade, toda a cadeia de produção dos conhecimentos que tende a
sistemática da pesquisasobre uma base capitalista, a fim de liberar se transformar segundo os imperativos de valorização do capital, como
rendas tecnológicas para as firmas. O número de empregosno setor da o mostra o exemploda América do Norte. No início dos anos1970,
produção de conhecimentos cresce, nitidamente, mais rápido do que com a importância adquirida pelas "indústrias de inteligência" e pela
na média dos outros setores; os conhecimentos científicos e as valorização do capital humano visto como uma variável estratégica na
inovações tecnológicas conhecem uma aceleração notável ao mesmo competição económica, a pesquisa universitária foi a primeira
tempo em que se constata uma obsolescênciacada vez mais rápida dos transformada em uma produção de bens submetidos ao regime de
equipamentos, especialmente no domínio da informática, segundo direitos de propriedade e comercializáveis no mercado. Solicitação de
um processo de "destruição criativa" que parece estar desenfreadoZ3. licenças e deposição de patentes tomaram'se atividades comuns,
Essasituação na qual "todas as ciências se encontram aprisionadasa geradoras de rendimentos apropriados ao mesmo tempo pela
serviço do capital" como diz l\4arx, parece reclamar um aumento instituição, os pesquisadores
e os parceirosfinanceirosdo setor
contínuo de mão-de-obraqualificada e altamente qualificada, privado. [)urante os anos 1980, os sucessivosgovemos tanto dos
fenómeno no qual se pode ver uma das razõesda massificação escolar

24. Cf. & um modo muito apologético. Anníe RENAUD-COULON, Uní ersíté d'enrrepHses. Vens zllie
mortdalísadon de I'ínté11ígence,Vílhge Mondfa!, País, 2002.
22. DomintqaeFORAL. L'Économíe
& h comíssance,
oP. cít, P. 20-2] 25. Cf. Daüd F. NOBRE, Dfgtml DiplomaMlílk, Parel, "Tk Automation ofHigher Edlicadon", oumho
23. 1bü,P.3] 1997, <ht@://www.commanícatíon.acsd.edu/dl/cídml .htm!>

32 33
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA Do conhecinlerzto comoJ tor deprodttçõo

Estados Unidos como do Canadá favoreceram, do ponto de vista redutora das missões universitárias a serviço das atividades
fiscal, o financiamento privado da pesquisauniversitária e permitiram económicas. O acordo entre a Universidade da Califórnia (Berkeley)
aos laboratórios se apropriar, legalmente, dos resultados de seus e a firma farmacêuticasuíça Novartis assinadoem novembro de 1998,
trabalhos, financiados por fundos públicos. Em 1980, a lei Bahy-Dote ijustra, particularmente, esse fenómeno. No fim desse acordo,
foi a primeira das leis autorizando as universidades a patentear as Novartis atribuía 25 milhões de dólaresao departamentode
invenções financiadas pelo govemo, em seguida a vendê-las (antes da microbiologia, ou seja, um terço do orçamento do departamento, em
adoção dessalei, essaspatentes eram atribuídas ao governo federal), o contrapartida aosquais a universidade dava à firma privada o direito
que fez com que as universidadesse beneficiassemde um aporte de de se apropriar de mais do que o terço das descobertas
dos
fundos, cada vez mais importante, proveniente de firmas privadas. pesquisadoresda universidade e o de negociar aspatentes de invenção
Essa lei, decisiva para a extensão da comercialização da pesquisa, que delas derivassem27. Esse tipo de acordo não é raro desde que os
reforçou a trama das relaçõesentre as universidadese as firmas Estados americanos viram suas receitas fiscais estagnar e precisaram
privadas. A intenção era, no início, relançar a produtividade e operar cortes nos orçamentos da educação. Se, por exemplo, o estado
enfrentar o "desafio japonês" ou, mais amplamente, asiático26.Se, em da Califómia fomecia 50% do orçamento total de Berkeley no meio
um primeiro momento, se trata de vender novas idéias, fruto da dos anos 1980, ele não fornecia mais do que 34% em 97. Mesmo que
pesquisa, essa lei desembocaria em uma subversão das relações entre os financiamentos públicos continuem consideráveis nos Estados
empresase universidade. Qs laboratórios se transformaram, pouco a Unidos, uma parte sempre maior da pesquisa universitária é
pouco, em "centros de aproveitamento", integrados em uma doravante, financiada por doações privadas.
instituição universitária,ela mesmametamorfoseada
em um lugar de A busca do lucro não atingiu apenas a pesquisa. Nos anos
acumulação de capital. As universidades criaram filiais privadas 1990,a expansãodas"redes"e a possibilidadede vender cursos"on
encarregadasde comercializar as patentes e operar investimentos lhe" aos particulares e às empresas apareceram como outras
financeiros.As redese as "parcerias"com a indústriase oportunidades para "rentabilizar" o próprio ensino. Ê, então, toda a
multiplicaram, na maior parte do tempo sob a forma de subvenções instituição, aré em suasatividades fundamentais,que se toma um
mais ou menos disfarçadas.Se os riscos e os custos permaneciam lugar de valorização do capital. As condições de trabalho, as posições
amplamente socializados,os benefícios eram privatizados. Essa dos pesquisadores e dos professores são afetadas. Uma grande parte dos
política causouum profundo desequilíbrioem detrimento das professores e dos pesquisadores perde sua posição de pequenos
atividades pedagógicas reduzidas ao mínimo. Vários pesquisadores se produtores independentes freqüentemente comparados às profissões
desinteressaram pelo ensino, menos remunerador que a pesquisa liberais e aos artífices -- para tomarem-se trabalhadores industriais
comercializada; os departamentos mais afastados das atividades submetidos a uma disciplina, a uma intensificação do trabalho, a
rentáveis viram seusmeios diminuir rapidamente, baixar os salários e restrições e, por parte da administração, a controles intensificados que
aumentar o número de alunos por curso. reduzem, consideravelmente,sua autonomia. Essa revolução
Direções de empresas e administrações universitárias transformauma minoria de professores
e administradores
em
desenvolveram as colaborações e partilharam uma concepção verdadeiros capitalistas dispondo de suficientes recursos financeiros,

26. Des& que o lapa tomou medidas semelMntes mod©cando sm legislação para aMbtífr aos
pesquisadores do setor ptíbZÍco a metczde dos direitos & patente sobe salas invenções . 27. E)at PRESS e Jennifer WASHBURN, 'The Kept Uníversíty", The AtZandc MonthZy, março 2000

34 35
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA Do conhectmen EOcomo fütor de produção

institucionais e cognitivos para fazer trabalhar alguns de seus lógica do lucro imediato e, antes de tudo, nos cérebrosdos
colegas"menosbem dotadosem títulos, em poder e em dinheiro e pesquisadores e dos universitários: "C)s dirigentes de universidade,
alguns de seusestudantes, em troca de promessasde colocações ou de cujo papel se assemelha,doravante, ao dos representantes comerciais,
remuneraçõessimbólicas e materiais. Ao seguir as primeiras são julgados, antes de tudo, por sua capacidade de levantar fundos"ZP
experiências de mercado e-leaming da América do Norte, verifica-se C)scentros universitários servem de cobertura aos interesses privados,
que a colocaçãoon lhe dos cursospermite, em numerososcasos, trazendo seu aval e sua caução "científica" a operaçõescomerciais e ao
impor aos professoresnormas pedagógicas sob a forma e a base de trabalho de fazer lobby. Professores e pesquisadores amuam,nesse caso,
produtos pedagógicos cada vez mais calibrados e aumentar sua carga como porta-vozes dessesinteresses, inclusive nas revistas científicas
de trabalho. Esses "produtos" pedagógicos comercializados escapam ao mais prestigiosas.Em certos casos,os fundos de origem privada
domínio dos produtorese podem circular sob o único controle da limitam, abertamente, a liberdade de pensatnento e a reflexão crítica.
administração como mercadorias rotuladas pela instituição lbrahim Warde relata assim, que a firma Nike "suspendeu'
universitária. recentemente seu suporte financeiro a três universidades(b4ichigan,
A introdução de valores de mercado no funcionamento C)regon e Brown) sob o pretexto de que seus estudantes haviam
universitário não se dá semconseqüência.C)sdoadores impõem suas criticado algumasde suaspráticas em paísespobres,em particular no
logomarcasnas paredese nos mobiliários, rebatizam os prédios e tocante ao empregode crianças30.Noam Chomsky cita o casode um
datam cátedras em troca de uma designação que testemunho a origem estudante do MIT em ciência informática que se recusou a responder
dos fundos. O exemplo mais caricatural dessa.hibridaçãoentre a a uma questão durante um exame, apesar de conhecer a resposta, sob
universidadee firmas privadasé reportadopor lbrahim Warde, que o pretexto de que um outro professor, engajado em uma pesquisa para
descreve assim a nova Business School da Universidade da Califómia: a indústria, Ihe havia, formalmente, imposto segredosobre esse
A família Haas (herdeira do fabricante de jeans Levi-Strauss) que assunto31.
A conclusãonão é difícil a tirar: o valor mercantildas
efetuou a doaçãomais importante obteve que a BusinessSchool pesquisasé mais importante do que seu escopo de verdade, na medida
levasse seu nome. Grandes empresas financiaram cátedras. A decano que essetermo tenha qualquer validade na nova configuração,ou,
do estabelecimento,Laura D'Andrea Tyson, uma antiga conselheira para dizer de outra maneira, a verdade, embasamentoaté então da
económicade Clinton, porta, por exemploo título de 'Bank of atividade teórica, é "desmontada" pelo mercado. Para alguns
America Dean of Haas"'ZO. Essaprática de dotação de cátedras observadores americanos, "a disciplina pelo dinheiro", que se impõe
expandiu-semuito entre asfirmas que buscammodificar ou melhorar ao mundo universitário, deixando ao mercadoo cuidado de repartir os
sua imagem social. Eyal Presse Jennifer Washburn na sua pesquisa recursos e as recompensas, introduz ameaças muito sérias sobre a vida
sobre a universidade americana indicam, por exemplo, que a firma intelectuale o pensamento,tão perigosasquanto as do
Freeport Mc MoRaR, uma companhia mineira questionada por sua macarthismo32. Pode-se temer que, com as prerrogativas acordadas ao
má conduta ecológica na Indonésia, criou uma cátedra sobre o meio
ambiente na faculdade de Tulane. A mistura de gêneros prejudica a
ciência, mantém uma cultura do segredo,faz penetrar em toda parte a
29. EyaH PRESS e Jennlfer WASHBURN, artigo citado.
30. Artigo cita.]o, P.21
31. Naam CHOÀ4SKY. "Assaalting SolidaHty, Pdvadãng Edacation", maio 2000 no site da Aped
28. 1hahím IXi?TARDE, "L'uníuersíté amedcalne vamPldsée par les marchandes' 1.,eAdonded@ZomatÜm htQ://usas.swing.be/aPed/documents/d0095Chomsky.html
março 2001 32. DavídHARVEY. "Unioersity,Inc.", TheAthntíc Mlonthly,outuho 1998

36 37
Do conhecimento como/alar de produção
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA

estreitamentodas ligaçõesentre a ciência, a medicina e o mercado.


setor privado em numerosos casos,a lógica da apropriação privada dos
conhecimentos não vá muito diretamente ao encontro da ética que
Moais
de um milharde patentessobrefragmentos
de genesfoi
guia a pesquisaintelectual, feita de rivalidade mas também de livre depositado até agora. Os contratos de pesquisa entre os laboratórios
circulação de idéias e de crítica aberta aos trabalhos antigos e aos em farmacêuticos e os laboratórios públicos, providos de cláusulas de
curso. -confidencialidade" e de exclusividade, se multiplicaram"34. Essa
tendência é reforçada por leis que facilitam a apropriabilidade e a
transferibilidade mercantil dos conhecimentos segundo o modelo de
Um modelo que se generaliza
Bahy Dote Act. Ela está ligada, sobretudo, à evolução das práticas e
Essa política de hibridação institucional e de subordinação
das instituições. Os canais que permitem a interpenetração dos meios
específica é encorajada por todos os obstinados do liberalismo
de pesquisae da empresase multiplicaram e, particularmentesob a
económico. A OCDE, em nome da importância da inovação
forma de instituições de pesquisa situadas na intersecção do setor
"schumpeteriana"no crescimento económico, convida, assim, os
público e do secarprivado e que produzemao mesmotempo bens
Estados a remover todo obstáculo à cooperação entre universidades e
públicos e bens privados35. Em muitos países ocidentais, o aporte de
empresaspara favorecer a inovação: "A inovação não depende mais,
fundos públicos a um laboratório é, inclusive, condicionado pela
somente, das performances das empresas, das universidades, dos
assinatura de um contrato com uma ou várias empresas privadas.
institutos de pesquisae das autoridades regulamentares; ela é, hoje em
A lógica do lucro entrou maciçamente na universidade
dia, tributária de sua cooperação.[...]É, portanto, conveniente, francesa, globalmente subfinanciada. Na França, certamente, o
eliminar os obstáculos à cooperação e à constituição de redes e
hábito do eufemismo conduz a falar de "parceria", de "realismo", de
promover a colaboraçãoentre as universidades,os institutos de
"eficácia" e de "inovação". No entanto, nesse domínio, o liberalismo
pesquisapúblicos e as empresasEm muitos paísesda OCl[)E, os
mimético não é muito difícil de ser reconhecido e, além disso, a
pesquisadores nas universidades não são incitados a se engajar em
imitação do modelo universitário americano é claramente confessada
pesquisasque poderiam ser objeto de uma aplicação comercial nem a
pelos responsáveisde primeiro plano36. Claude Allêgre declarava: "A
cooperar com as empresas.C)s Estados Unidos são um dos primeiros
cultura americana é uma cultura de mobilidade e de riscos, o que a
países a tomar medidas nesse campo"33-
cultura francesa não é. Nós não somos os descendentesdaqueles que
,'\ aceleração dessa comercialização da pesquisa pública é
atravessaram o Atlântico, nós somos os descendentes dos que ficaram
observável em todos os países capitalistas desenvolvidos. Ela é
do lado de cá"37. Segundo relatório redigido por JacquesAttali, as
favorecida pelo reforço do papel da propriedade intelectual,
particularmente no domínio das ciências da vida e da informática.
domíniossubmetidoscada vez mais a uma extensãoda 34. Maudce CASSIER e mean-Paa!GAUDELLIERE, "Droít et aPPoP7Íatíondons k domaím des
patenteabilidade. Maurice Cassier e Jean-Paul Gaudilliàre escrevem: bíotechnologzes,
ai4ebaes remarqHessur I'éuoludon recente des pradqaes". Réseaax, no 88,89, 1998. Cf.
lgmlmente BHgítce CHAMAR, "Consóauences dês breteu s r !es séqmnces génomfques; !es cas &s hetets sur
«Os anos 1990 foram marcadospela difusão de práticas de [estesesde pédisposítíon au câncerdu seta", Nouveaux Regatas,no 15, outono, 200]
35. Cf. mean,Loup
MOTCHANE, "Génopnte ou h prtvaüsadons
deslaboratofres
P blícs",Le Mono
apropriação
no campoda pesquisa
genâmicaem um contextode dfplomatiqae, setembo 1999.
36. Cf. Ch7tstopk CHARLES, "Universícéec recherchesdons k carcan technocxadque",le Mono
díplomatique, setemho 1999.
37. Entrevista dada à revísu americana Scíence, cítacldpor Chtstopk Charles. Esse Último comera assim essa
nota: "Os responsáveiseuropeu são fmcinúos pelo modelo americanoconhecidopor associar/inancíamento
33. meanGUINET, Dirá PILAR. lnec-í! provo ofr I'fnnouation?" , L'Obseruateazlr de i'OCDE público leve e Pnarlclamenmpüv(do signl#caduoe ínugrar pesquisa$nciamenta!, pesquisaaplicada,inovação
tecnológica e desenvolvimento & empesasf. . .J
oatuh'o1999,P. 66.

39
38
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA l)o conhecimento corria/atar deprodução

universidades devem se tornar sempre mais um entrelaçamento de empresa com o seu órgão de origem40. Em agosto de 2002, essa
empresas,de laboratórios e de serviçosde financiamento capitalista. política foi completada por uma série de facilidades dadas aos
Elas poderão "abrigar empresasiniciantes das quais poderão tomar, se empreendedores, pesquisadores e assalariados do setor privado, para se
desejarem,uma parte do capital"38.Segundouma volta retórica, o tornarem professores-pesquisadores da universidade. Essa concepção
Relatório Attali pretende conter a mercantilização que ameaçada a retém, de seu modelo americano, a ideia de que a.colaboraçãoé,
universidade francesa, através de um caminho que, ao contrário, serve presumidamente,
produtora de "benefício mútuo" uma vez que a
para prepara-la:"Se sequer evitar que empresasde tamanho mundial "batalha económica mundial é a batalha da matéria cinza", segLLndo
decidam satisfazer, por seus próprios meios , suas necessidades futuras as proposições de Claude Allêgre41. Em nenhum ponto é considerado
de formação com mais intensidadedo que o fazemhoje em dia, as o risco de reconsideração da autonomia da pesquisa, indispensável ao
universidades deverão contribuir para a criação de empresas e seu progresso do conhecimento, nem mesmo a maneira de tratar o caso de
desenvolvimento. Para tal, deverão valorizar sua pesquisa,tirar conflito de interesses,no entanto muito provável, em função da
patentes, organizar empresas em seu seio"39. os professores devem confusãodas espécies,da misturados financiamentos
e do
poder se tornar empreendedores e fundir, na mais completa emaranhamento dos status pessoais.
legalidade, suasfunções de ensino, pesquisae dirigente de empresa: C)s próprios fundamentos da universidade e da escola são
C) status dos professoresdeverá ser alterado para lhes permitir mais atingidos quando é necessário que elas respondam, sem mediação e
mobilidade e, em particular, participar da formação de empresas sem prazo, às exigências económicas que mais fazem pressão. C)
inovadoras, fundamentadas nos resultados de suas pesquisassem, economista Emest Mandei já explicava por essatransformação, a crise
necessariamente, dever abandonardefinitivamente seu status de estudantil do final dos anos 1960 e início dos anos 1970: " Não é mais
funcionário", diz, ainda, o mesmo relatório. Essa visão desembocou a produção de "homens honestos", de burguesescultos, quer dizer, de
em uma série de incitações que levam a uma comercialização, cada indivíduos aptos a julgar e a resolver dificuldades razoável e
vez mais acentuada, dos resultados científicos. .'\ lei sobre a inovação rigorosamente o que correspondia às necessidades do capitalismo de
e a pesquisa,apresentada
por ClaudeAllêgre em julho de 1999, livre concorrência --, mas sim a dos assalariados intelectualmente
pretende facilitar a criação de empresas pelos pesquisadores, as trocas muito qualificados,que se tornou a tarefa essencialdo ensino superior
entre órgãos públicos de pesquisa e empresas privadas e a constituição na terceira idade do capitalismo"4Z.A educação humanista, tão
de estruturas profissionais de valorização. Ela prevê, especialmente, ilusória quanto possa ser sua pretensão a universalidadeem uma
para os pesquisadores e professores-pesquisadores, a possibilidade de sociedade de classe, visando o desabrochar de todas as faculdades
criar empresas como associados, administradores ou dirigentes, intelectuais, morais e físicas, tinha, por finalidade, a emancipação
continuando como funcionários, enquanto os textos precedentes
limitavam as relaçõesdo antigo funcionário, que resolveucriar uma

38. baquesAHALI, oP. cít., P. 24-25


39. Ibid., P. 19.
38. baques
Ánl'\LI, op. cít., p. 24-25. 40. As in/omlações demlhadm sobre essa medidas se encontram em Chiscoph JAQUEMiN, "ProÍessfon
39. Ibid., P. ]9. entreprenettr,ckrcheur" Xale siêcle Le magaÜne dtt minÍstêre de !'Éducaüon mdonak, ü h Rechrch
40. As fn$omtações deta11tadmsobre essa medídm se encontram eln Chístopk JAQUEMiN, "ProÍessíon et de h TechnoZogíe, HP 4, abHZ 1999
ennepreneur,ckrchezir" Xale síêck Lemagadne da mfnÍstêre& Z'Edmation nadontak, de h Recherck 4] . Cf. entrevista
comChlz&Alegre,L'Expamion,
4-7 ü nouemho
& 1999
etde h TechnoZogíe,
n' 4, abíZ ]999. 42. EmestMANDEL, Le froisiêmeagedu cap]ultsme,uo1.2, 10/] 8, Paus,] 976, P. 94

40 41
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA

CAP ÍTUL0 3

intelectual e, por referência ideal, um homem completo para o qual o


trabalho não era a ocupação exclusiva da vida. A educação, na época
A nova linguagem da escola
neoliberal, visa, ao contrário, à formação do assalariadoou, mais
geralmente, do "trabalhador" cuja existência parece se reduzir a
utilizar conhecimentosoperacionaisno exercício de uma profissão
especializadaou de uma atividade julgada socialmente útil. Não tendo
mais por horizonte que o campo das profissõese das atividades
existentes, ela se encerra em um presente ao qual é necessário, custe
o que custar, se adaptar suprimindo a utopia de uma liberação.
Segundo a justa expressão de André Tonel, a época é da escola 'A educação deve ser comíderada como um
seruíço prestado ao mundo económico
desemancipadora"43.
Relatório da Mesa Redonda Européia,
Fevereiro de 1995

Não há educaçãosem ideal humano, sem uma idéia da


excelência humana. São, sem dúvida, pouco numerosos os autores e
amores interessados pelo domínio educativo que questionam
abertamente o famoso tríptico hierarquizado do final da escola
republicana: formar o trabalhador, instruir o cidadão e educar o
homem. Como se poderia, abertamente, instituir como referência a
submissão direta aos imperativos económicos? E, no entanto, os
novos homens" a formar, se se presta atenção aos discursosmais
correntes, são, prioritariamente, os trabalhadores e os consumidores
do futuro. Depois do crente, depois do cidadão do Estado, depois do
homem cultivado do ideal humanista, a industrialização e a
mercantilizaçãoda existência redefinem o homem, como um ser
essencialmente ecanâmico e como um indivíduo essencialmente
privado. Quando se pergunta qual é o "pólo da educação" de hoje,
para retomar a expressãode Durkheimi, quer dizer o ideal ao [nesmo
tempo uno e diverso que resume a "alma" de um sistema educativo, é
necessário, anualmente, se voltar para as categorias económicas que

43 . Cf. ATtdré TONEL, 'Vens I'écok &sémanclpatríce La Pensée,n' 3]8,abdZ-junho 1999 l ÉmileDURKHEIM, Éducütionet sociologia,
PUF, País 1985, P. 50

42 43
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA .4 noç,a iírtgüagem, da escola

permitem pensara pessoahumana como um "recurso humano" e UM 'empresaeducativa" foi desenvolvido desde o fim dos anos 1970,
consumidor a satisfazer2. concomitante a um certo número de colóquios, no curso de trocas
Essaevolução das referências normativas deve ser substituída com os peritos internacionais e os administradores de paísesonde o
no movimento de revalorização da empresa, "motor e modelo da processoestava mais avançado (o Canadá, por exemplo), em certas
sociedade civil" na representação dominante. Em ruptura com os revistas relacionadas ao meio do pessoal de direção e da administração
ideais clássicos da escola, a referência ao mundo da empresa era vista central da Educação nacionais, nas múltiplas obrasde peritagem ou
como trazendo, já prontas para o uso, as soluções radicais para a crise com objetivo formador. Ê suficiente, paradar uma primeira idéia desse
de centralização burocrática e para o conjunto das dificuldades fenómeno, relembrar a inflação galopante do léxico da gestãona nova
introduzidas pela rápida massificação da população escolarizada do linguagem da escola. No desvio dos anos 1980, a pedagogia se toma
meio dos anos 1980. Essareferêncianão somenteserviu de uma "gestão", mesmo uma "gestão mental" e alguns propõem ver no
justificativa à reaproximação dos dois mundos, escolar e económico, professor um "gerente de sua classe"Õ.Saberes, inovação, parcerias,
foi, igualmente, o meio de modificar os parâmetros internos da tudo depende dessalógica que tem a atração das visões totalizantes.
própria escola,seu modo de funcionamento,sua organização,a Esses discursos permitiram colocar, simbolicamente, a instituição
naturezado comando que a governa e até suasmissõesprimordiais3. escolarsob a jurisdição de uma lógica de gestãoestranhaà sua
A instituição escolar não encontra mais sua razão de ser na referência cultural e política antiga mas, também, submetê-la à

distribuição, o mais igualmente possível,do saber, masnas lógicas de pressão de lógicas sociais e económicas que até então Ihe eram

produtividade e rentabilidadedo Inundo industrial e mercantilista. exteriores, favorecendo, assim, a interiorização de novos objetivos e a
Essas lógicas de eficácia que se impõem não são "axiologicamente constituição de novas identidades profissionais.
Essaconversão do sistema escolar às necessidadeseconómicas
neutras", como dizem os gerentes que pretendem conhecer filosofia e
sociologia, elas não são somente técnicas mas, ao contrário, supõe uma hibridação das categorias de inteligibilidade e de

profundamente culturais e políticas. legitimidade.Na intersecçãoda economia e da educação,em uma


A instituição escolar, no seu conjunto, conheceu, como outras zona de recobrimento lexical, palavras de concordância, de
instituições, mascom uma intensidade excepcional, uma verdadeira conivência e de passagem entre as esferas permitiram uma concepção

transferência tecnológica", que preparou as reformas de inspiração homogênea dos campos da economia e do ensino. E, por exemplo, a
liberal4. Todo o léxico que acompanha o "pensamento.gerencial" noção de "aprendizadoao longo da vida", estreitamente associadaàs
pode supostamenteser aplicado à ação educativa em todas as suas de eficácia e performance, ou ainda à de competência, que fazem
dimensões.Essetrabalho de redefinição da instituição escolar como passara lógica económica dentro da lógica escolar em nome de uma

2. C/. sobreesseponto Rkardo PETRELLA, "L'ódmaüon ofcdme & cínq piares", Le Monde diplomaüqw. 5. É na Taoista Éducatíon et mamgement pt4blícaü pelo CRDP de Créteíl que são encontrados, talvez,
otituho 2000.
os traços mais evidentes (h comdtltíção do "referencial" douMna! do gerenciamento educativo. A confhão
3. Jea7i-Fiel're Le Golf amlbou muito bem a penetração dos menus(h modernização gerencíal na escola. Cf. de gêneros está fmcdta & chape na capa da reüsu. O sabcículo, em foram de oximoro, essa reuísm
mean-PíeneLE GOLF, Le myüe & ]'entrejMse,La Décoüuerte, País, ]992, em pardcuZaro capítulo 7. comdmf seH programa: "Les vaiears & !'écok et ['esjMt d'entrepüse" (Os calotes da escola e o espeto de
4. Exemplodessaoperaçãode trad14ção
stste«ádca: um dtrecorde coado em um número da revtsm Éducadon empresa)
et mantagement, aPresenm a.ssimsala míssão= "Gerencíar é levar em conta todos os parâmeüos matedaís e 6. Ahn LOUVEAU, "Á qmnd ]eprc$esseur,manager?»
, Édmadonet managemenc,
no ]0, novembro
humanos, avaliar para atingir a melhor renubílícZackl)osshel, quer dizer o sucessoescolarda maior qmnddacb 1992. Para uma aposição sobredo mo cio a)mo no mzlncioeducaduo,Cf. Marcelle STR00BANTS
& alunos", cartas dos leitores em Éducatíon et management, RP J 9, P.32.
'Autourdesmon "gesdon"et "compétence"",
Rechrcheet Jbrmadon,ng 30, ] 999, P. 6]-64

44 45
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA
,4 noí'a iirlgüagem, da, escola

representação
essencialmente
práticado saberútil e graçasa trabalhador aprende sobretudo a operar as escolhasotimizadas que sãa
categorias mentais homogêneas. A constituição dessascategorias com
esperadasdele, a empresa deve procurar tomar-se uma organização
dupla face, educativa e produtiva, não deve ser negligenciada.A
rlqualificante" ou "que ensina"7. Essaconcepção dá à empresa um
mudança se apega ao fato de se querer pensar de modo contínuo
"ponto de vista" sobre a educação e uma legitimidade para intervir na
aquilo que era até então descontínuo, ou seja, a passagemdo estado
informação
inicial"8. Dessa maneira, vê'se o meio patronal pleitear
de escolarizadoao de ativo.
que o ensino deixe um lugar cada vez maior para as maneiras de ser e
de fazer, para que ele coloque ênfase nas operações, nas atividades, nas
O aprendizado ao longo de toda a vida produções e mobilize todos os aspectos da personalidade. O ensino,
Mascarada pelo debate sempre muito apaixonado entre os renovado segundo as vontades dos chefes de empresa, deve permitir
adeptosda "instrução" e os partidários da "educação", se operou uma ao trabalhador, assimilar os discursos e reproduzi-los em situação de
mutação quando o termo genérico "formação" se lupas corri um interação com outros membros da empresa ou nas relações com os
sentido particular. Certamente, a noção é antiga e suas raízes,que clientes e os fomecedores; aderir a retóricas mobilizadoras, buscar e
evocam a constituição do caráter do ser humano pela ação utilizar novas informações; de serem, assim, capazesde responder às
pedagógica,são profundas. Mas, na utilização recente do termo, a exigências de autonomia controlada que a organização espera do
finalidade profissional parece comandar, de modo teleológico, as assalariado.
etapas que levam à "formação''. O ensino escolar é, cada vez mais, Em íntima ligação com o uso especialdo termo "formação", a
visto como uma "formaçãoinicial", quer dizer,preparatóriaà expressão "aprendizado ao longo de toda a vida" lançada desde os anos
formação profissional e assim, apta a receber, legitimamente, em 197C)e retomada em 1996 pela OCDE, toma-se um dos discursos
feedback" suas injunções, especialmente em matéria dominantes.A nova palavrade ordem exaltadapela OCDE, a
"comportatnental". A escola está presente para assegurarum tipo de Comissão Européip ou Unesco, parece ser muito louvável. Dentro de

acumulaçãoprimitiva de capital humano. A cultura geral não deve uma perspectiva humanista poderia traduzir um avanço na difusão de

mais ser guiada por motivos desinteressados quando, na empresa, não conhecimentos mais amplos a um maior número de pessoas. Em

é mais uma especializaçãomuito restrita que é solicitada, masuma aparência,a idéia central do "novo paradigma"escolaré ao mesmo
tempo sedutorae marcadapela justiça: aprende-sedurante toda a
base de competências necessárias ao trabalhador polivalente e
flexível. existência, o que supõe preparar para si caminhos de aprendizagem
contínua permitindo apeúeiçoamentos, recuperações e retomada de
.'\ "formação inicial", devendo servir à aquisição de uma
estudosP.Além disso, é o que parece sugerir a OCDE: "o aprendizado
cultura" de base orientada em função de motivos profissionais
durante a vida deve responder a vários objetivos: favorecer o
amplamente compreendidos, reclama uma pedagogia governada pelos
imperativos da inserção profissional, da comunicação em grupo, da
apresentação
pessoale, sobretudo,da resoluçãode problemasem
7. C. SAURET, " Les organízatíon.s q a11Êantes, »ocessns de &veloppement &s comPétençes
situação de incerteza. l\4as, não se compreenderia inteiramente, o
professionnelles», Encreprise et personne!, abri! 1989
novo alcance que a expressão "formação" encerra, se não se visse que 8. Cf. LucreT]'\NGUY, " RaüontaZísadon
pédagogtque
et kgtdmítépolida " in Françoíse
ROPEe !ucie
T)'\NGUY(dír), Savoírs et comPétences.
De I'usagede ces notíons (hns !'écoie et I'entrepríse,
a empresa quer ser formadora e busca associar mais estreitamente, L'HaT7natmn,País, 1994,P.23-6]
produção e formação. Uma vezque é no exercício da atividade que o 9. Estar-se-ía
enganado ao acxedttar
em Hmanovülaüradica!.Cf. l.ê ThanhKHÕI, LTrtdmcrte
de
['enseignement,
oP.cít.
, P.21J
46
47
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA .Á n,oí,a itrbgüagem dct escola

desabrocharpessoal;enriqueceros lazeres(em particular durante a Presume-se que a escola inicial dote o jovem de um "pacote de
aposentadoria); reforçar os valores democráticos; encorajar a vida competências de base" segundo a expressãoempregada pela Comissão
coletiva; manter a coesão social e favorecer a inovação, a produção e Européia e ela deve sobretudo se consagrar a "aprender a aprender'
o crescimento económico"io.
tiPO de quadro geral sem substância muito definida. O conteúdo desse
As evoluções económicas,quer se tratem da saberé remetido em essênciaaos costumes produtivos ulteriores, de
intemacionalização das trocas ou das novas organizações do trabalho, acordocom uma lógica instrumental do saber.
conduziriam, ao mesmotempo, a um progressosocial e cultural. Com
A Comissão Européia, a OCDE ou o ERT não estão alheios a
essa retórica generosa, o capitalismo flexível se apresenta
certarepresentação
do quedeveriaser a culturaescolare têm
voluntariamente como, cada vez mais, "libertador". Essanoção seria,
intenção de influenciar quando a ocasião Ihe é dada. O importante
assim, o eixo de uma reconstrução do sistema global de ensino, a qual
não é a quantidade e a qualidade dos conhecimentos adquiridos,
implicaria em parceria; na formação inicial adaptada à formação
ainda mais que essespodem ser inúteis e mesmo um estorvo. O
contínua; na validação das experiênciasadquiridas por unidades
essencial repousa na capacidade do trabalhador de continuar, durante
capitalizáveisii. Suporia, igualmente, uma redefinição do papel dos
toda sua existência, a aprender o que Ihe será útil profissionalmente.
poderespúblicos e uma nova repartição das funções entre Estado
Essacapacidade de "aprender a aprender" não pode ser separadade
central e coletividadesterritoriais como entre secarpúblico e secar
outras competências profissionais e das relações mantidas com outra
privado.
A expressão e a idéia são em realidade profundamente pessoano grupode trabalho.Criatividade,desembaraço
no grupo,
manejo dos códigos de base,são outras dessasfaculdades permanentes.
aml)ivalentes. Tanto a proposição de não limitar a educação apenasao
Em outros termos, as análises convergentes dos meios industriais e das
início da vida é rica em perspectivas
democráticas,
quanto é
esferaspolíticas consistem em pensar que a escola deve fornecer as
necessáriose interrogar sobre o sentido real do empregoque dela
fazem a OCDE, a Comissão Européia e os diferentes govemos ferramentas suficientes para que .o indivíduo tenha autonomia
ocidentais e sobre as políticas que dela decorremi2. A significação que necessária para uma autoformação permanente, para uma "auto-

as esferasdirigentes propõem é claramente utilitarista. A ordem dos aprendizagem" contínua. A escola deve, em função disso, abandonar
objetivos não pode, com efeito, enganar: o esforçode conhecimento tudo o que se pareçacom uma "acumulação"de saberessupérfluos,
é exigidopor razõesde interessepessoale de eficáciaprodutiva. A impostos, aborrecidos.
Comissão Européia situa a aposta sem subterfúgios: trata-se de fazer da Nessa perspectiva, o "lide long leaming", prepararia menos
Europa "a economia do conhecimento mais competitiva e mais para o "diploma" o qual permitia o acessoao empregoe a fazeruma
dinâmica do mundo", o que passapela constituição de uin "espaço carreira, do que para as competências de base comercializáveis
europeude educaçãoe de formação ao longo de roda a vida"i3. (marktable skills,) permitindo a adaptação permanente do assalariado
às transformações económicas e às necessidadesdo mercado. Não é

iO. OCDE, Alpendre à toüt âge,]995, P. 15


muito difícil perceberque em uma economiaonde, diz-se,o
11 . Píeme LADERRIERE, L'Enseigmmenc; Hne ré/arma tmposstble? Antalyse comparóe, L'Hamurtan, País, assalariado permanente está condenado a desaparecer, o trabalhador
1999, 0.17.
12. Cf. sobeesseponto,avesBAUNAy e AnnÍeCLAVEL (coord.),Torceh víeDoerappreridre.
un slogan deve ser capaz de se reciclar o mais facilmente e o mais rapidamente
otl un uédtabiedroít tour tontas et tour teus?, Nouveaux Regatas/S)Zkpse,
Pa7ü, 2002. possível. A noção de "aprendizagem ao longo de toda a vida" permite,
13. Comunicação da COMMIUNAUTÉ EUROPÉENNE, "Réalíserum e sPaceeuroPéend' édacaüon et
& formatíon tour au lona de [a uíe», 21 de novembrock 200i assim, articular, de maneira sintética, a elevaçãodo nível de

48 49
MP'

A ESCOLANÂO É UMA EMPRESA ,4 noç'a linguagem da escola

competência do assalariadoe a flexibilidade dos modos de aquisição


possíveis:ao lado da educação formal (a escola), existe uma educação
dos saberes correspondentes às rápidas mutações tecnológicas e formal? (a experiência profissional) e uma educação informal (a
económicas do capitalismo moderno.
experiência social), que compõem uma "lifewide learning", um
Se o objetivo permaneceessencialmente
económico,os 'aprendizado que engloba todos os aspectosda vida'
diferentes textos de referência desse "espaço da educação e da os mundos familiares, locais e profissionais devem ser
formação ao longo de toda a vida" dão uma definição muito ampla da interpretados,por exemplo, reforçando "a iniciação prática ao
expressão,incluindo a plenitude pessoal,a cidadania aviva, a trabalho nos programasordinários" e multiplicando as ofertas de
integração
sociale não somentea inserçãoprofissionale a formação para os assalariadosque já estejam com uma ocupação. Em
performance no trabalho. Nuasde que vale essaretórica, geralmente uma palavra, a via proposta, dita "sistêmica", é aquela da flexibilização
confinadaaosfins de parágrafoou notas de rodapé,se o objetivo do sistemade formação, de sua não-especialização e de sua integração
principal é tão claramente predominante? A política educativa da em um "processo" contínuo de adaptação a situações complexas e
Comissão Europeia está, na realidade, subordinada a objetivos de mutantes. Na "sociedade cognitiva" não pode mais existir lugar
adaptação da mão-de-obra às novas condições do mercado de
separadodo mundo profissional, exclusivamente consagradoaos
trabalho, como mostra o Mlemorando sobre a Educação e a Formação saberes acadêmicos. Na verdade, não existe mais lugar "gratuito"
ao Longo de Toda a Vida (30 de outubro de 2000) que coloca independente da categoria totalizadora da aprendizagem,não pode
deliberadamente a educação e a formação ao longo de toda a vida em
havermais do que "pontes", "redesde aprendizado","rotas flexíveis",
uma lógica de emprego. parcerias",e todas as formas de interpenetração facilitadas pelo uso
O novo paradigmaestá repleto de perigos: de confusão de das novas tecnologias.
lugares, de dissolução de conteúdos e de empobrecimento cultural,
Esse"novo paradigma" quer responsabilizar os cidadãos por seu
quando é interpretado na lógica restritiva do capital humano. Supõe- dever de aprender. Nesse sentido, mais do que uma resposta às
se, com efeito, que toda a estrutura da educação se recomponha a
necessidadesde autonomia e de expansão pessoal,é uma obrigação de
partir dessanoção. A concepção conduz a colocar no mesmo plano,
sobrevivência no mercado de trabalho que comanda essa forma
múltiplas "formas de aprendizagem permanente" que devem se
pedagógica da existência. Assim, autodisciplina e auto-aprendizado se
articular, mesmose subjugar,de modo ao mesmotempo leve e
completam.Se os indivíduos não são mais capazesde "gerenciara
complexo, a uma "estrutura de oferta de formação" diversificada14.
incerteza" e de "assegurar sua empregabilidade" em uma sociedade
Essacombinação passapela abertura da escola em direção ao exterior
onde o risco de marginalizaçãoé cada vez maior, a eficácia global da
e a conduz a construir "parcerias"múltiplas e duráveiscom outros
economia será diminuída. Os custos *gerados por uma fiação
interventores: famílias, coletividades locais, empresas,todas,
demasiadamentegrande da população, economicamente inútil,
instâncias consideradascomo "organizaçõesaprendizes".Segundo o
sobrecarregarãoas contas sociais e as taxas fiscais. Além disso, a
Memorando europeu, diversos modos de aquisição de saberessão
expansão pessoal não é "gratuita", ao contrário, é vista como fonte de
ganho para a empresa e a sociedadetS. Trata-se de permitir aos

14. A OCDE jó tinhaavançadomfspersPectíuas.


"É (dmítidoqw a aprendizagem
de desenvoZua
em
múldpios contextos, formais e infa7Tnafs",OCDE, Anlalyse despolídqms d'éducadon, 1997 15. OCDE, Am!)se despoZÍdques
d'édtzcatíon,
] 997

50 51
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA ,4 rloç,a linguagem da esgota

indivíduos se "garantir contra o risco" a que se expõem, cada vez mais, humano tem de criar e explorar os conhecimentos de maneira eficaz
no mercado de trabalho ao satisfazer as expectativas das empresaseH
e inteligente, em um ambiente em perpétua evolução."
matéria de inovação e criatividadei6. Essasaparentes banalidades não devem ocultar o conceito que
Efetuado dentro e fora das instituições, o aprendizado ao longo
as trama: uma oferta diversificada ao mesmo tempo em seus
da vida estápor toda parte e em nenhuma, ele se confunde com a vida
conteúdos, seus níveis e seus métodos deve responder às demandas
de um eterno aprendiz "responsabilizado"por seu dever contínuo de
individuais. Longe de estabelecer garantias coletivas no quadro das
aprender17. AÍ está o coração de uma estratégia desreguladora que
instituições, essavisão da formação quer ser,fundamentalmente, não-
coloca no mesmo plano, instituições escolares, empresas,
institucional. E o indivíduo "responsabilizado",quer dizer, consciente
aprendizados em domicílio e associaçõesem uma noção genérica que
dasvantagens e dos custos do aprendizado que deve fazer as melhores
pretende, em nome das necessidades
do indivíduo e da lógica da escolhasde formação para seu próprio bem. Isso supõe que, para
demanda, criar um vasto mercado da educação no qual ofertas e
escolherde modo lúcido, o que ele deve aprender,ele sejabem
financiamentos seriam, cada vez mais, numerosos e diversificadosi8.
informado pelas "agências de orientação". Elas liberarão sua
Os textos da Comissão Européia e em particular o Memorando
motivação, Ihe fomecerão informações pertinentes e Ihe "facilitarão a
sobre a educação e a formação, são muito reveladores desse processo
tomada de decisão"i9. (1)uanto aos professores, eles se tomarão "guias,
individualista. No quadro de uma vida mais arriscada e mais aberta às
tutores e mediadores" que deverão acompanhar os indivíduos isolados
escolhas individuais, o indivíduo é colocado perante suas
no seu processo de formação.
responsabilidades de "aprendiz". Não é o caso para uma instituição de
educação a obrigar nem mesmo construir um curso, são os indivíduos
O uso estratégico das competências
que constroem,planificam e escolhemsegundosua vontade e seu
As palavras não são neutras mesmo quando elas pretendem ser
interesse pessoal compreendendo: "A vontade individual de aprender
somente técnicas, operatórias, descritivas. Não é sem importância a
e a diversidadede oferta, tais sãoas condiçõesindispensáveisa um
substituição da palavra "competência" por "conhecimento"
trabalho bem-sucedido de educação e de formação ao longo de toda a
Certamente a palavra "competência" em si mesma,tomada fora das
vida", destacao texto. Ele se faz ainda mais claro: "No seio das
relaçõesque mantém com suasvizinhas habituais ou com aquelasque
sociedadesdo conhecimento, o papel principal é dado aos próprios
substitui e fora do contexto da ação social, não está em questão.
indivíduos". O favor determinante é essa capacidade que o ser
Percebendo objetivos tão vastos quanto "aprender a ser", "aprender a

fazer","aprendera viver em grupo" além do objetivo de "aprendera


conhecer"ZO, poder-se-ia ainda ler essas expressões segundo as
! ó. Cf. COMISSTON EUROPEENNE, Rapport Reifers, Accompür !' Europe par !' éducadon et h
fnrmaHon,1991
, p.270
17. Como indicaa OCDE, essanoção"está em deqtlação com as necessidades
engeMradmpeias
mutaçõesqlíe tramformam profnrtdamente os pares da OCDE, as andaisse atem a fenómenos tais como 19. O Memora71doda ComfssM Ettropéia compara o o/kío de odentctdor ao do conetor da bolsa: "0 futuro
os pe'díodosconthuos ck crescimento económico, a ínouação tecnológica, a íntemacionaZízação, a papel dos pro$ssíonalsde orientação e do conselho po&da ser descrito como um papel de "corretagem
desregulamentaçãodos mercados,a evoluçãodemográ$cae o impuro das nota ecoítomias", in Aml)se des Gtmrdanciopesentes no esPáítoos interessesdo cZíena, o conetor em orientação" é capaz& eiq)har e de
poZítÜaesd'éducadon,.1997. aüpmr um oito kque de in#Wões que o q14dama ücfdr o melhor caminho a seguir no aturo"(p.33)
18. O Memorando sobre a educaçãoe a fonnação ao !ongo de toda a vida & o tltbro de 2000 laia de 20. São os "qmtro pÍhres cia educação" segundoo rehtóào à Unesco da Comissão íntemacíonal sobrea
'osmose"entre os secoresde emfno /amais, Mo /orrnais e inÍmais(esse tíldmo se conhn& com "a vida educaçãopara o século XXI, presidi(h por Jacques DELORS (L'Educador, un Erésmest cacho deüm
cotídíam") adie Jacob,País, 1996)

53
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA .4 Roga linguagem da escola

perspectivas humanistas mais tradicionais. Poder-se-ia mesmo manter Poder.se-ia, igualmente, sustentar que a noção, quando visa a
que a "entrada pelas competências" permite remeter ao domínio associaro conhecimento à prática, recoloca em questão a divisão,
jurídico no qual o termo implica uma ligação muito definida entre os freqüentemente, muito rígida entre o "abstrato" e o "concreto'
poderes e os status. No entanto, o sucesso atual do termo só se atém divisão na qual se fundem a triagem escolar e a distribuição dos
de muito longe a uma reativação dos ideais de Erasmo ou de Rabelais empregos.Miasela se inscreve, sob outro ponto de vista, no conjunto
e tem bem pouco a ver com uma consolidaçãodos direitos dos das ferramentas de avaliação e de remuneração, de controle e de
vigilância à disposição dos empregadores que buscam racionalizar da
assalariados.C) emprego estratégico que dele é feito tanto na empresa
maneiramais justa sua mão-de-obra,concebida como "estoquede
quanto na escolaé inseparávelda nova "gestãode recursoshumanos'
competências". A "competência" como lembram Françoise Ropé e
na qual a escola tem o papel inicial. Esse uso é mesmo
Lucie Tanguy, designa um conhecimento inseparável da ação, ligado
preferencialmente destinado a questionar as tarefas tradicionais da
a um savoir'faireque dependede um saberprático ou de uma
escola, a transmissãode conhecimentos e a formação intelectual e
faculdade mais geral, que o inglês designa pelo termo "agency". [)essa
cultural no sentido mais amplo do termo.
maneira, designa-secapacidadeem realizar uma tarefa com ajuda de
Essanoção de "competência" é a aposta dos debates numerosos
ferramentasmateriais e/ou de instrumentos intelectuais. Um
e possivelmente embaralhados nos quais não entraremos21.A noção é operador, um técnico, um homem de arte possuem competências
polissêmica (tem um sentido em direito, em lingüística, em psicologia profissionais.
Nessesentido,a competênciaé aquilo pelo qual o
cognitiva) e se presta então a múltiplos usos sociais, o que reforça sua indivíduo é útil na organizaçãoprodutiva.
evidência e sua aparente neutralidade. A dificuldade prende-seaqui A noção teria mais fortemente pertinência nos dias anuais,
ao fato de que o termo pode designar realidades variadas, tanto quandoas transformaçõesdo trabalho, em particular com a difusão
encerrar incontestáveis progressosdemocráticos quanto conduzir a das novas tecnologias de informação, rompem a antiga ligação entre
verdadeiros retrocessos."Noção encruzilhada" para alguns, "atrativo um ofício, uma especialidadee um diploma ou, ainda, permitem
estranho" para outros, a competência permite por exemplo que os transcender a oposição antiga entre trabalhadores intelectuais e
assalariados tenham reconhecidos alguns savoir-paire não operadores de máquinas. Tudo isso tem sua porção de verdade, mas o
sancionados por diplomas, que os empregadores não estão, uso predominante que determina seu significado principal e sua
espontaneamente,prontos a :reconhecer.Certos sindicatos são eficácia simbólica se acém a considerações estratégicas. No contexto
favoráveis à valorização e à validação de competências profissionais anual,a noção está no princípio dos discursosque constroemas
quando não foram reconhecidassocialmente pela tradução simbólica relações de força entre grupos sociais. A competência está
atravésde um diploma ou de um outro título. Uma grandeparte da estreitamente conectada com a exigência de eficácia e de
qualificação profissional, quando não foi sancionada flexibilidade solicitada aos trabalhadores na "sociedade da

institucionalmente, não encontra, efetivainente, no empregadorseu informação"


justo reconhecimento nem suaretribuição correspondente. No campoeconómicoe profissional,se a noçãode
"competência" vem, assim, cada vez mais, substituir a noção de
qualificação, issose prende a que, na antiga sociedadesalarial, a
21 . E üma (!as noçõesdúbzm, cuja palidezfavorece o mo grandioso qw é feito por agenns d]uersos. r. . .] qualificação funcionava como uma categoria imediatamente social à
É Ímçoso reconhecer qm a plmacldade desse temo é um elemento ü fuga sacia! de qw ek se reuesle e dm
idéias qae ek çeícula". escrevemF. SOPÉ e L. l:âNGUY, oP. cít. , p. 14 qual estavaatreladoum conjunto de garantiase direitos.Desdea

55
54
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA .4 noç'a Zirlguagem dcl escola

Liberação, ela estava codificada em gradespor acordosnacionais ou espaçopara as direções na apreciação da eficácia de seu pessoale que
particulares, definida em referência a diplomas e constituía a base das a evoluçãodas tecnologiaspermite medir muitas vezesmais
remunerações. Esse reconhecimento da qualificação nas convenções estreitamente os rendimentos efetivos dos empregados. A
coletivas equivalia a uma formalização coletiva dos julgamentos competêncianão é validada por um título permitindo fazervaler de
sociais sobre o valor das pessoase dos trabalhadores, por intermédio modo seguro e estável seu valor, ela justifica, antes de tudo, uma
de um estadodetentor,graçasao sistemaeducativo,da avaliação avaliaçãopermanente no quadro de uma relaçãonão igualitária entre
legítima22.A qualificação certificada por um diploma dava, assim,ao o empregador e o assalariado.
Estado educador uma função de garantia, em última instância, do Passa-se,assim, de um sistema onde o julgamento sobre o valor
valor pessoal.Issodava uin poder àsvezesmuito grande aosveredictos de uma pessoaera atividade de uma instituição pública, para um
escolares,o que a sociologia crítica de Pierre Bourdieu salientou sistemaonde a avaliação pertence, mais diretamente, ao jogo do
abundantemente. mercadode trabalho. O mercadose toma assim,no lugar do Estadoa
Mas essa sociedade salarial se desfaz, as dimensões instância mediadora vista como responsável por fixar os valores
institucionais e coletivas das relaçõessalariais se decompõem.A profissionais dos indivíduos.
função mediadora do Estado é questionada em nome de uma maior [)efinida como uma característica individua], a categoriade
transparência
do mercadoe de umamaiorindividualização
das "competência" participa da estratégia de individualização perseguida
relações sociais. A contestação que contém implicitamente a
pelas novas políticas de gestão de "recursos humanos". Qualidade
pessoalreconhecida em um dado momento, ela não suporta nenhum
promoção da noção de competência se inscreve nessatendência. C)
direito, não liga o trabalhador a nenhum grupo, a nenhuma história
patronato mantém doravante um discurso de desconfiançacom
coletiva, ela tende preferencialmente a seu isolamento e despedaça
relação ao título escolar. Segundo ele, o diploma congela a hierarquia
seu percurso profissional. O empregador não compra mais somente
profissional, bloqueia a mobilidade e a atualizaçãoconstante dos
um serviço produtor com uma duraçãodefinida, nem mesmouma
savoir-paire, prejudica a avaliação e a recompensa dos resultados
qualificação reconhecida dentro de um quadro coletivo como no
efetivos.
tempo da regulação fordista de pós-guerra, ele compra sobretudo um
Denunciando apenaso efeito de "casta" do diploma -- que, 'capital humano", uma "personalidade global" combinando uma
paradoxalmente, diz respeito particularmente às direções das grandes qualificação profissional stritu sensu, um comportamento adaptado à
empresas masesquecendomuito facilmente quanto o diploma pode empresaflexível, um gosto pelo risco e pela inovação,um
ser um meio de resistência ao arbítrio patronal para os trabalhadores engajamento máximo na empresa, etc
da base ou do meio da escala,os chefesde empresaquerem fazer da Como mostraramLuc Boltanski e Êve Chiapello, o
competência" uma ferramenta permitindo a análise fina da gerenciamentomoderno introduz na relação salarial a dimensão
empregabilidade, a vigilância constante da mão-de-obra e a empresa 'pessoal",retornando assim em seu benefício o que havia sido
mais fechada no trabalho. Essaferramenta de poder é ainda mais evidenciado contra Q taylorismo, a preocupação com o fator
utilizada quando as relaçõesde força na empresadeixam um grande humanoZ3. Essa "personalização" reúne uma tendência à
desmaterialização da produção que modifica todas as atividades e as

22. Cf. DaníelkCOL.qRD}'N, La gestíondescompétences,


PUF, País, 1996,p. 57 23. Luc BOI.TMSKI e Êve CHIAPELLO, Le Noavel Esprít dti capíulisme, Gailimard, Paras, 1999

57
A ESCOLANÀO É UMA EMPRESA
.4 noç,a ZÍrLguagem dcb escola

aproxima de serviços nos quais são as pessoasque são diretamente iniciativa -- essasqualidades e outras competências "genéricas" são,
fornecedoras de satisfação e não produtos fornecidos pelos agora, essenciais para assegurar a competitividade das empresas' Ora,
trabalhadores.
essatendência corresponde, sob outro ponto de vista, à evolução pela
qual a pedagogia passa.Numerosos docentes desejam abandonar a
Apedagogia das competências tradiçãoque consisteprincipalmente em transmitir conhecimentoa
Por trás dessasubstituição da qualificação pela competência, se seusalunos e preferem fazê-los aprender a refletir e a aprender por si
joga a substituição de uma validação do valor pessoalpelo Estado, por mesmos.Felizmente, para essesdocentes e seus alunos, deixar os
um "mercadodo valor profissional"maisflexível e maistransparente. jovenstomar iniciativas e decisõesna sala de aula constitui olha
A contradição não é no entanto levantada: é necessáriauma norma excelente preparaçãopara o modemo mundo do trabalho. E verdade
geral que torne visível a competência,que assegureuma "medida que os professores não estão todos dispostos a enfatizar essasatitudes,
comum", f\unçãoque justamente a certificação escolar preenche. Na assimcomo muitas empresasnão sabem,ainda, utiliza-las. Mas as
medida em que não se pode dispensar totalmente o sistema educativo, empresasque têm as políticas mais avançadas em matéria de recursos
a tendência consisteem introduzir na escolaa "competência lógica" e humanos,caminham, freqüentemente, no mesmo sentido que as
combinar assima marca do sistemaeducativo e a determinação mais escolasque desenvolvem programas de estudos mais inovadores"24. O
rígida da formação da mão-de-obra pelas empresas que delas se Memorando da ComissãoEuropéia, já citado, diz a mesmacoisa.os
utilizam. docentes solicitados a se tomarem "guias, tutores e mediadores do
Seria necessário, então, que a escola passassede uma "lógica de aprendizado" deverão se adaptar a demandas de indivíduos e de grupos
conhecimentos" para uma "lógica de -competência". E suficiente pluriculturais, os mais variados, o que supõerever completamente os
lembrar aqui aspropostas mantidas pelos peritos da OCDE, da Mesa objetivos e métodos de ensino.
Redonda Européia ou da Comissão Européia para se perceber a Nos EstadosUnidos, uma comissãocompostapor dirigentes
importância dada a essamutação pedagógica. zâ.C)CDE, por exemplo, económicos e educativos, o SCANS (Secretary's Comission on

alia a lógica gerencial e a nova pedagogiade maneira particularmente Achieving NecessarySkills) redigiu em 1991 uln relatório intitulado
explícita: "Quando os professores começaram a colaborar com as "C) que o mundo do trabalho espera da escola" ("What Work Requires
empresas,descobriramuma outra razãoimportante para não mais from School"). Nessedocumento, cinco competências fundamentais
desconfiardo mundo dos negócios:os objetivos dos dois parceiros são esperadas dos futuros assalariados, concementes à geração de
eram, freqüentemente, muito mais próximos do que um ou outro recursos,
ao trabalhoem equipe,à aquisiçãoe utilizaçãode
pudesse imaginar. Supôs-se, durante longo tempo, que havia um informação, à compreensão das relações complexas, ao uso de diversos
conflito inevitável entre a finalidade precisa de preparar uma criança tipos de tecnologias. Nesse, como em outros textos, a escola recebe
para o trabalho e o objetivo de cultivar seu espírito. Na medida em por missãoprincipal dotar os futuros trabalhadoresde atitudesque
que as empresastêm necessidadede trabalhadores com qualificações possam transpor contextos profissionais variáveis: "ler, escrever,
técnicas ligadas a tarefas específicas,esseconflito é sempre muito real. contar" são competências indispensáveispara comunicar mensagens.
Porém, cada vez mais, as qualidades mais importantes exigidas no
mundo do trabalho e aquelasque as empresasquerem encorajar as
escolasa ensinar, são de ordem mais geral. A adaptabilidade,a 24. Centro para a pesquka e a inovaçãono emfno (CEEI) , Écoks et enrreprfses:t n 70uçeau partenaHat
faculdade da comunicação, a de trabalhar em equipe, de mostrar OCDE,1992,p.ll

58 < q
m'

A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA ,4 Roga Zírtguagem da escola

Se "refletir" é uma competência importante, é para melhor "resolver múltiplas. Hervé Boillot assinala que "os saberes disciplinares são
problemas" e ter meios de aprender a aprender. As qualidades morais assim decompostos em uma multiplicidade de fitos e de operações
adquiridas devem permitir se integrar em um grupo. Trata-se de mentais que, para o aprendiz, significa identificar e dominar, quer
incutir um "espírito de empresa"que um relatório da OCDE define dizer,poder reproduzir em situação". A aprendizagemtem por objeto
como a aquisição de "certas disposições, atitudes e competências do a aquisição de competências cognitivas, de competências
indivíduo; criatividade, iniciativa, aptidão para a resoluçãode fragmentadasque servem de suporte à determinação pedagógicade
problemas,flexibilidade, capacidadede adaptação,exercício de objetivos. Essesdescrevem, de maneira detalhada, as tarefas a cumprir
responsabilidades, aptidão ao aprendizado e à reciclagem"Z5. que mobilizem essascompetências às quais, para as necessidadesde
[)esde que a "competência profissiona]" não é redutíve] apenas avaliação, deve poder corresponder, a cada vez, um comportamento
aos conhecimentos escolares mas depende de "valores observávelZ6
comportamentais" e de "capacidadesde ação", a escola é intimada a Além do ensino técnico e profissional, são todas as vias de
adaptar seusalunos aos comportamentos profissionais que lhes são ensino que são "reformatadas" segundo a "lógica da competência'
reclamados mais tarde. Muitos administradores e criadores de Algumas grandesdatas marcam essageneralização.Se já o relatório
programas se lançaram com zelo nessatarefa de "modernização" dos Bourdieu-Gros de 1989 (Princípio para uma Reflexão sobre os

conteúdose dos métodosde ensino.O ensino técnicofoi Conteúdos do Ensino) se aventurava em desenvolver a idéia de uma
particularmente afetado por essamaneira de conceber as missõesda "tecnologia intelectual" sob forma de "ferramentasde pensamento"e
escola. As comissõesprofissionaisconsultivas, que reúnem de métodos separados dos conteúdos, é sobretudo a criação do
representantesdo mundo escolar e do mundo industrial, receberama Conselho Nacional dos Programas, em seguida à grande consulta de

função de estabelecer referenciais de formação a partir de referências 1989 que marca uma virada. O regulamento dos programas publicado

de cargos, fundamentadas nos recenseamentos finais e exaustivos das no Jornal Oficial de 6 de fevereiro de 1992, formula a nova doutrina
da matéria, como mostrado por L. Tanguy. Os conhecimentos são
competências teóricas, comportamentais e práticas, requeridas. Não é
reinterpretados no léxico das competências, dos objetivos, das
que os saberessejam suprimidos, a tendência é de não ver neles mais
avaliações, dos contratos. Ele redefine o programa escolar como uma
do que ferramentas ou um estuque de conhecimentos operatórios,
soma de "competências terminais exigíveis no final do ano, de ciclos,
mobilizáveis para resolver um problema, tratar uma informação,
ou de formação, às quais associa as modalidades de avaliação
realizar um projeto.
correspondentes"Z7
A competência, que presumidamentepermite levar em conta
O Relatório Faroux retomou essaidéia propondo instituir um
uma situação concreta, não pode ser descrita e julgada sem as .tarefas
referencial nacional de competências associadoa uma bateria de
prescritas observáveis e objetiváveis segundo critérios precisos. A
provas, "verdadeira armadura" de instrumentos de medida, pouco
avaliação, se possível em situação operacional, torna-se
dispendiosos em tempos de correção. Na escola primária são impostas
verdadeiramente, o centro do processo de aprendizado e impulsiona a
cademetas de competência que aprisionam a atividade docente
decompor os saberes em tarefas separadas e em realizações e operações

27. Citadopor L. T)'\NGUY. oP. cic., P.33


25. Ibid., P. 30. C/. no mesmoespeto,COMISSION DES COMMUNAUTÉS EUROPÉENNES 26. Herué BOILLOT, «in «&mocvadzatíon» : simalacreet démocrade»
, in J. PLANTIER (dtr.)
Livre bZanc, Ensetgner et app'entre vens h socíété cognítíve, ] 995, P. 3 J e sq. Commenc ensefgner?Les díkmmes & b cultura et ü h péchgogie,L'Harmatmn, País, 1999, P. 56

60 61
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA .4 n,oí'cl [íngücbgem, dcl escola

dentro de prescrições restritas. Desde o maternal, a avaliação modifica os saberese os savoir-faire em elementos isoláveis analiticamente e,
o olhar dos professores e seu trabalho com as crianças. Durante os no final das contas, por colocar em pedaços o "aprendiz", segundo os
anos 1990, os boletins trimestrais e ascademetas escolares introduzem diversosregistrosde competência que se acredita poder distinguir na
a "lógica competência" nos julgamentos e veredictos escolares.Mais avaliação.Essa"lógica da competência", dando mais prioridade às
amplamente, os grandes programas de avaliação trazidos pela OCDE qualidadesdiretamente úteis da personalidade empregáveldo que a
apelam para essanoção de competências sociais na "vida real", a partir conhecimentos realmente apropriados, mas que não seriam
das quais os governos são convidados a julgar e a corrigir os sistemas necessariamente e imediatamente úteis economicamente, comporta
educativosZ8. um sérioriscode desintelectualização
e de desformalização
do
Os programas mudam de significado e se transformam em guias processo de aprendizagem.
prescrevendo objetivos detalhados e explicitados, chegando, por vezes A pedagogia das competências, supostamente, segundo seus
até a indicar o tempo que corresponde a cada um e as diversas etapas promotores,
respondeao imperativogeral de controle fino e de
que cada lição deve seguir.A elaboraçãode referenciais sobre o avaliação rigorosa segundo normas idênticas para todos, eliminando,
modelo da formação contínua foi sistematizadana formação inicial portanto, o que poderia serum traço de classeou um código implícita
com a criação dos bacs'k profissionais em 1985. Desde então, foi do meio social. No entanto, introduzir a noção de competência na
aplicada a todas as disciplinas e todos os níveis. Esse método que escolanão contribui, necessariamente, para melhorar a relação com a
consiste em analisar detalhadamente os conteúdos ensinados e a saber das crianças de famílias populares: tais competências são, com
traduzi-losem "savoir-paire"e em "competências"participa de uma efeito, sejam muito especializadas, perdendo então todo o sentido
padronização pedagógica que é, supostamente, fonte de eficácia. intelectual, sejam muito amplas (saber tomar a palavra, trabalhar em
Referenciaisde diferentes disciplinas, tipos de exercícios propostos equipe...) o que as envia novamente a maneiras de ser implícitas, a
aos estudantes, sistemas de avaliação, critérios de julgamento nos competências socialmente herdadasZ9. Uma das contradições
boletins e cademetas, conteúdos de diplomas, todas essasferramentas pedagógicasda nova ordem escolar está nisso: como mobilizar a
escolares subordinadas à categoria de competência, ao mesmo tempo atividade intelectual dos estudantes,desvalorizandoas disciplinas
ern que tornam técnico, taylorizam e burocratizam o ensino, científicas e culturais e deixando pensar que a experiência prática,
estabelecem, de modo progressivo e quase automático, uma coerência espontânea e "informal", os engajamentos associativos ou as boas
com o mundo das empresaspara definição dos perfis de cargos e das intenções caritativas são da mesma ordem que os estudos escolares e
listas de competências construídas para selecionar, recrutar, formar a educação física e cultural que eles proporcionam30?
mão-de-obra. Em suma, ela permite articular racionalmente a "gestão Examinámosaqui apenasalgumasdas maneirasde falar dos
dos fluxos escolares'' com a gestão de recursos humanos na empresa. reformadores "mudemos" . Outras noções, mais clássicas,são objeto de
Esse ensino às migalhas utiliza todas as novas tecnologias de
avaliação que, sob pretexto de racionalização,terminam por recortar

29. BemardCHARLOT, "Le raPPortaa saçoir",in meanBOURDON e Claz4deTHÉLOT


(dr.),
28. Cf. o rehtórÍo do Programa InEerTtmÍonaipara o acompaTthamenco
dm conquistas dos alunos (PISA Éduacadon et formadoTI, CNRS, País, 1999, P. 33-34
ProgrammeInremacíomtpolir k saivi desacqutsdesêlêves), Knowkdge and Skílk Ím LfÍe, publícdo em 30. Essa equívabncia/alacfosa Íakamente equalizadora, preside a imtalação do novo sistema & créditos das
&zemho cb 2001 e sala artáZíse em Noaueaux Regards, no ]6, tnvemo 2002. ünídaüs de emlno badzado por pack Lang, o antigo ministro da Edz4caçã071ací071a!(daFraTtça), o "euro
anota tradutor; bac signl#ca baccahuréat, exame nacional a qHesão submecicíosos esüzdantesno $m do üs Un versíciaüs". CÍ. Emmanm! DAVIDEN KOFF, "L' níçers té#ançaíse entre en classeeuroPéeri71e
secullürío (na trança) e que dú acessoa U7títersicia& b ministra crie um s)stême fnvorabk aux écMnges", Lfbéradon. 24 de abril de 2001

62 63
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA

CAP Í TUL0 4

mutações igualmente significativas. Seria necessário, por exemplo, se


interrogar sabre o destino de um termo como "serviço" para revelar os
A ideologia da proa-ssionalização
desvios e deslizes que sofre na nova ortodoxia. Se, por um lado se faz
uma concessãode que o financiamento do sistema escolar deva
permanecer público, é para logo afirmar que sua missãode "serviço
público" o obriga a se tomar uma empresa assegurandourn "serviço
de formação para cliente/-usuário que formulam uma demanda a ser
satisfeita. Mas, defini-la como um "serviço" prestado aos indivíduos é,
'A época onde a fomtação inicia! era
muitas vezes,analisar sua destinação em termos de capital humano. üm te7'ritóHo proibido para a empresa
Daí uma posturainsustentáveldos reformadores"modemistas"de está temLlnach. Saibamos

esquerda que, depois de quase vinte anos, acreditam que, importando extrair todas as conseqüêncías

essascategoriasdo mundo da empresae da teoria liberal, defenderão CNPF. Jornadas de Deauville


8 de outubro de.2990
melhor o serviço público em face da extensão da lógica de mercado.
O balanço pode ser estabelecido: essaimportação antes solapou os
fundamentos simbólicos e morais da instituição escolar do que os
consolidou. Compreende-se, inversamente, que as concepções Repete-se, freqüentemente, como uma evidência, que os dois
"modemas" do serviço público, respondendo apenas aos critérios de mundos, da economia e da escola enfim se descobriram e é possível
eficácia e rentabilidade, sejam altamente apreciadaspelos aos poucos sobrepujar seus preconceitos. Além dos estereótipos
ultraliberais, que nela vêem uma propedêuticanecessáriaà gestão idílicos do "reencontro" e do "casamento da razão", importa
privada, senãode toda a escola, pelo menos de suasatividades e de compreender a natureza da profissionalização da escola que está em
seus segmentos mais rentáveis. Esse raciocínio enviesado, que curso. A confusão das linguagens económica e educativa facilitou a
pretendea objetividadee a eficácia,facilitou a transformação
do implantação de uma ideologia poderosa na França que, bem antes das
sistema educativo em um apêndice da máquina económica tornando palavras de ordem da Comissão Européia, do ERT, do CNPF depois do
naturais as novas finalidades que Ihe são atribuídas. MEDEF que querem colocar a escola a serviço da economia,
influenciou a evolução das estruturas mas, sobretudo, começou a
transformar a representação da função da escola.
A profissionalização é um dos embasamentos da nova ordem
da escola. Se a tendência é antiga e se apega à forma das sociedades
salariais, o neoliberalismo se apresenta hoje como uma radicalização
dessalógica. O fenómeno mais significativo dependedo fato de que
todos os níveis e todos os cursos, e não somente seusanos terminais,
nem somente os cursos profissionais e tecnológicos, são atingidos por
essa finalização. A profissionalização tomou-se um imaginário que
gostaria de reinterpretar todos os ates e todas as medidas pedagógicas
em função de um fim único. Essaideologia, que transforma a política

64 65
WÍ'
\

A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA .4 ideologia dapr($ssiortaiizaçâo

educativa em uma política de adaptação ao mercado do trabalho, é Essa nova ideologia escolar pretende responder a um
uma das principais vias de perda de autonomia da escola e da verdadeiro problema em uma economia tnoderna, a formação da mão-
universidade. Sem dúvida, ela geralmente se apresentou como uma de.obra. [)esde os anos 1960, a prob]emática da inserçãosocia]
via de modemização do sistema escolar e mesmo como a via régia de começou a levar a melhor no ensino sob a visão da integração política
sua democratização. Mas ela constituiu sobretudo uma reabilitação da dos futuros cidadãos.Como assinala,justificadamente,Bemard
empresa, quando não, estigmatiza a educação públicas Charlot: "A escola da Terceira República devia integra-los ao corpo
A França não é um caso à parte. Em todo o ocidente desdeos da nação evitando, ao mesmo tempo, abalar sua dependência social.
anos 1980, o objetivo foi de reaproximar ou de "casar" a escola com o A escola que se instala nos anos 1960 não pensa mais nem em termos
mundo económico, por uma operaçãode hibridação generalizada.A de dependência social (todos os cursos são, pelo menos em direito,
universidade foi sem dúvida a mais exposta a essatendência. Ao invés abertos a todos), nem em termos de integração, mas em termos de
das críticas formuladas em Maio de 68 denunciando as ligações inserção, que se torna a palavra mestra. A escola deve inserir o jovem
perigosas entre a universidade e o capitalismo, a situação económica, em uma sociedade onde a classe assalariada se generalize, onde os
a penúriade empregoe a conjunturaideológicados anos1980 ofícios, repousando na posse de um património (agricultura,
contribuíram amplamentepara banalizar a idéia segundoa qual a comércio....) se rarefazem e onde o nível de inserção profissional e
universidade devia estar estreitamente subordinada às necessidades social dependem, cada vez mais, do nível escolar atingido"4
económicas de mão-de-obra. Desde 1984, a lei Savary sobre o ensino De fato, a profissionalização dos estudos é uma dimensão sem
superior dava, assim, o status de EstabelecimentoPúblico com dúvida incontornável em nossas sociedades. A escola prepara para o
Caráter Científico, Cultural e Profissional (EPSCP) aos ofício e o sucessoescolar parece sempre garantia de sucessosocial e
estabelecimentos superiores e integrava explicitamente sua missão na profissional. A maior parte das famílias, em todos os meios , sustenta
política do empregos a escolarização de suas crianças na esperança do "bom ofício" que,
Nos últimos20 anos,o consenso
em favor de uma tal presumidamente, deve se encontrar ao fim de uma escolaridade
orientação parece muito amplo. Assim, quando a Comissão Européia completada. A.lém disso, o imperativo da profissionalização da escola
afirma que "a escola e a empresa são locais de aquisição de saberes pode se apoiar em uma angústia social massiva, em um período de
complementares, que é necessárioaproximar"3, parece tratar-se de desemprego crescente. Um dos argumentos mais freqüentemente
uma
uma asserção
asserçãoperfeitamente
perfeitamente inocente
inocente e
e evidente.
evidente. Aquele
Aquele que
que ainda
ainda 11 repetido pelos "realistas"
repetido pelos "realistas"para
para "aproximar
"aproximar a escola
escolae a empresa"
empresa"foi,
foi, ao
ao
ousa
ousase
se perguntar
perguntarse essegênero
se essegênerode
de proposta
propostanão
não tende
tende a
a colocar
colocar no
no ll longo dos
longo dos anos
anos 1980,
1980, aa alta
alta taxa
taxa de
de desemprego
desempregodosdos jovens.
jovens. Esse
Esse
mesmo
mesmo plano
plano dois
dois "ambientes"
"ambientes" com
com lógicas
lógicas muito
muito diferentes
diferentes ou,
ou, ll argumento
argumento convenceu ainda mais
mais porque, segundo os estudos
mesmo,
mesmo, a
a submeter um ao
submeter um ao outro,
outro, arrisca
arrisca fortemente passarpor
fortemente passar por um
' ll estatísticos, o risco do desemprego cresce efetivamente quando não se
estatísticos,
conservador,
conservador,um
um elitista
elitista ee um
um nostálgico.
nostálgico. l é ou é pouco diplomado. Isso explica, em parte, o aumento
aumento de
l demanda de escolarização e profissionalização dos estudos, por parte

Z
1 .. CÍ.
cí. sobre
sobre esse
esse ponto,
ponto, mean-Píeme
mean-Pide OBIN,
OBiN, la/ace
LajKe cmlüe
cachée ü
de hfnmmtzon
hlormation professfonTielle,
proáessionwb, Hachette,
Hackrn. Para
País, l
1995.
r99.5 l
2. Cf. R.
2. Cf. R. BOURDONCLE,
BOURIX)NCLE, "Professíon et professfonnalfsadon",
"Profession et pafessionnaümtion", ínin Rechrck
Rechack et »cÓess-«.naIF:afim
et pro$essíonnaltsadon .l
reZacórios
rezar(hosWra DRED,
para DRED, MIEN,
MEN, junho
junhode .1992
1992. i l
3. COMMISS10N
3. COMMISSION DES
DES COMUNAUTÉS
COMUNAUTÉS EUROPÉNES, OP.
EUROPÉNES, op. cít.
cíC.,. P.60
P.60. 1 1 4.
4. Bemard
Benurd CHARLOT,
CHARLOT, L'École
L'École et
et kk aTHtofre,op.
KTritofre.oP. cít.
cir. ,P.31
,p.31.

66 67
@w'

A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA ,á ideolo@a da pro$ssiorLüiízcbçõo

das famílias e dos alunos. O pressuposto da tese oficial é, portanto. servir as empresas com mão-de'obra "adaptada". E possível, então, se
discutível. Ela sustenta que o emprego não falta, que há mesmoUU interrogar sobre o seguinte paradoxo: enquanto o "técnico" como
excessode ofertas de emprego.O que faltaria seria a qualificação currículo que leva ao emprego, continua a ser desprezado,enquanto
adequada para os ocupar. A escola é, em decorrência, acusadade seuensino específicoé marginalizado ou ignorado, ele setomou uma
prepararmal paraa vida profissional,
de estarmuito afastada
das espéciede "chefe geral" sobre o qual deveriam se calcar todas as outras
preocupações do emprego. A política seguida pelos poderes públicos a formasde saberese de estudos,pelo próprio fato de estar
partir dos anos 1970 seguirá, então, uma lógica de melhoramento da estreitamente articulado ao "profissional", segundo a máxima
formação dos jovens que demandam emprego, sob a forma de estágios propostapor Reger Faroux de acordo com a qual toda formação deve
e outros "pactos para emprego", enquanto a política social e urbana serprofissionalizanteÓ
tentará remediar uma "socialização enfraquecida"
Como nós havíamos tido a ocasião de relembrar, o objetivo da A escolaenglobada
escola republicana se desviou segundoo tríptico do homem, do Essa interpretação dos objetivos da escola tem um alcance
cidadão e do trabalhador. Uma das principais reivindicações dos geral, ao mesmo tempo moral e político. Segundo os advogados dessa
movimentos sindicais, associativose políticos progressistasfoi, e mutação,
a escolaé, doravante,
incapazde assegurar
suaobra
ainda permanece, aquela de uma educação geral, verdadeiramente formadora sem o socorro da empresa. Desde 1988, Yves Cannac,
completa, não negligenciando nem a inserção nem a protnoção antigo funcionário e homem de negócios,o diz sem rodeio nas
profissionais. Esses movimentos, se desconfiam, legitimamente, dos
Jomadasde Deauville do CNPF, as quais vão consagrara noção de
modos de exploração dos jovens aprendizes por patrões pouco 'empresaformadora": "Hoje em dia é o mundo do ensino que chama
escrupulosos, não esquecem que muitos dos jovens dos meios a empresa. E ele que pede à empresa para aconselha-lo e ajuda-lo.
popularesdevem recebera qualificação profissional a mais sólida Como, em nome do que, poderíamos recusar ajuda e conselho?" O
possível no âmbito escolar, para ter mais trunfos no mercado de mesmo Yves Cannac define assim a nova missão "salvadora" da
trabalhos. Além disso, na tradição mais constante do movimento empresa:"No fundo, se tomamos uma certa distância, é patente que a
operário, o trabalho e a técnica são vistos como fontes importantes de escola republicana não está apta a manter sozinha, mesmo
cultura, tempo demais esquecidospor uma concepçãoidealista do aproximativamente, sua promessa de desenvolvimento das aptidões
conhecimento. de cada um e de igua]dade de chance para todos.[...] O remédio para
Essareivindicação, que na época se voltou contra uma visão essasituaçãoprejudicial para todos deve ser procuradona empresa
etérea da educação herdada do desprezo aristocrático pelo trabalho, é, pelo menospor causatanto de seusvalores quanto de seusmeios"7.A
hoje em dia, recuperada pelos mantenedores da escola neoliberal que OCDE diz a mesma coisa nos seus relatórios que convidam ao
fazem da inserção profissional o principal fundamento da reforma que desenvolvimento de parcerias: "C) ensina colocado sob a influência
eles desejam. Mas eles não o fazem para promover o valor do trabalho, exclusiva do Estado apresentou carências graves, notadamente na
para melhor defender a dignidade dos "profissionais", mas para melhor

5. CÍ. ChaTtm! NICOLE-DRANCOURT e Laurence ROULLEAU-BERGER, Les Jet4neset k cravaít, 6. RogarFAROUX, tour ]'éco]e,CaZmann-].,évy,
País, ]99ó, P. 23
i 950-2000, PUF.País, 200/ 7. CÍ. o rehtódo em Éducaüon-Economíe,ng ]O, marçode /99] , P. 15 et sq

68 69
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA .4 ideologia da prc$ssionaiízação

preparação dos alunos para a vida aviva"8. A base do raciocínio é o Alto Comitê não é somenteuma instância de observação,de
simples:se não se pode mais conceberuma escolacomo uma ilha estudos e de previsões, necessária para compensar a miopia do
separada
da sociedade
e da economia,
é precisoaceitarque as mercado quanto aos empregos futuros. Pela sua própria finalidade,
empresascontribuam na definição do conteúdo e dos métodosde tende a desenvolver o mundo escolar na lógica económica
eosinoE' construindo, entre outras instâncias e outros lugares,o novo ideal
Segundo os defensores da integração completa da escola nessa normativo para se impor ao sistemaeducativo.
lógica económica, a intervenção das empresasse tornou possível a As publicações do Alto Comitê, fornecendo, freqüentemence,
partir do momento em que os professores abandonaram, quase em uma apresentação idealizada da empresa, parecem feitas para
toda parte, sua prevenção "ideológica" com respeito à empresa e justificar o imperativo da adaptação às necessidades das empresas. O
compreenderam, com a ajuda do desemprego, que eles tinham por argumento parte de algumasevidências e tira conclusõesunilaterais:
missão adaptar a oferta de mão-de-obra à demanda: "0 capitalismo e se três jovens em quatro têm por destino a empresa, conviria prepará-
a empresa, fora de moda nos anos 1960, se tornaram respeitáveis nos los, e mesmopré-adapta-loso mais cedo possível.Nenhuma outra
anos 1980. Quanto aos professores,o desempregoque os tnaltratou dimensão da personalidade diferente da atividade profissional saberia
nos anos 1980 lhes deu uma razãosuplementarpara admitir as dar importância ou, mais exatamente, nenhum tipo de emancipação
prioridades, assim como as críticas, dos empregadoressobre as intelectual saberia se destacar sobre a finalidade profissional. A
insuficiências do ensino" io. A antiga primeira ministra Edita Crésson necessáriaprofissionalização dos estudos que se pode deduzir e que se
podia declarar na tribuna da AssembléiaNacional em maio de 1991, apresentasob o exterior do bom senso,em uma sociedadesalarial,
no seu discurso de posse: "Eu desejo encorajar, desdê~o colégio, a não é mais, então, uma finalidade, entre outras, da escola,ela tende
abertura real ao mundo das empresas' a se tornar uma representaçãodogmática e exclusiva, que não quer
Nessesúltimos anos, certas instâncias tiveram igualmente um ver nos alunos maisdo que futuros trabalhadores a formar segundoas
necessidades da economias l
papel no mínimo ambíguo, como o Alto Comitê Educação-
Economia. Essainstância (rebatizadaanualmentecomo Alto Comitê Em todos os paísescapitalistas,os desejosdo patronato e de
Educação-Economia-Emprego) instalada por René Monory em 1986 suasorganizaçõestêm o mesmo sentido: determinar de maneira mais
recebeu por missão reaproximar o sistema educativo e o mundo da precisa o conteúdo das formações a fim de dispor de uma mão,de,obra
empresa. Reagrupando administradores e representantes do mundo mais "empregável" e mais capaz de utilizar as ferramentas técnicas

económico e social, ele teve um grande papel no objetivo de levar mais modemas. Na França, para se "adaptar" ao mercado de trabalho,
80% de uma faixa etária ao "baccalauréat#",em particular com a em um contexto de incerteza exacerbada e na ausência das previsões
criação, seguida de expansão, dos "baccalauréats#" profissionais. Mas anteriormente fomecidas pelo Plano, a estratégia consistiu em

ri ER]
8.('enfio para aPesqui sa e a {nouaçãono emfno (CERA) , Écoies ecenfrepdses: um nouLeau Fartar adat
IJ . No mesmo esPi'hto,Jacques l.,esourne 7tão hesím em assimíhr os quzatorzemilhões cZecHanças e de
OCDE, 1992,P. 7.
jovens escohdzadosa atei,'ospotenciais: "Se se considera os alunos e esttldantescomo atívos qw ü'abaixam
9.Ibid., P. 9-10.
para se/armar, o sistema educativo emprega 14,5 mfhões de pessoa em uma popukição agua ampla(z(h&
iO. Ibid.,P. IO
35 milhões de pessoas,oa seja 4/ %! ", in Jacqaes LESOURNE, Le Modêk #ançals, Odíle Jacob, Paras,
# Asma.s do üadator, por não eüsdr equÍualente em l)ortugttês . 1998,P. 162-163

70 71
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA ,4 ideologia da prc$ssion,aiização

reforçar,tanto nos cursoscomo na pedagogia,o lugar dos falamos anteriormente. .A.s instâncias encarregadas de gerir a
profissionais" com enfoque direto nas evoluçõesdos mercados e das articulação emprego/formação (em particular o secretariado das

técnicas. A solução mais freqüentemente avançada, retomada por comissõesprofissionais consultivas) se lançaram na construção de
exemplo no relatório Faroux, remete a uma co'educaçãoescola- 'referenciais de emprego", aplicando à formação, a lógica das
empresapara o conjunto dos caminhos profissionais. Assistiu-se, desse situações de trabalho, em detrimento das coerências disciplinares.
modo, a uma reaproximação mais estreita que se manifestou, entre Como salientaCatherine Agulhon, "há finalizaçãoda formaçãoe
outras, pela instauração de procedimentos de "consulta" a fim de instrumentalização dos saberes" em uma perspectiva estritamente
definir o conteúdo dasformaçõese o tipo de diplomase multiplicar, operacionallZ
em nível tanto local como nacional, ações de "parceria" entre

empresas e estabelecimentos de formação profissional (sociedades,


A reviravolta
regionalização dos programas de formação profissional, definição das Como explicar a reviravolta do discursooficial que se pâs a
formações nas comissões profissionais consultivas, atividade do A Ito pregar a profissionalização de todos os tipos de curso?Essatendência
Comitê Educação-Economia, etc.). Igualmente se viu multiplicar o à profissionalizaçãoda escola não é nova, mas havia encontrado, até
númeroe o tipo de estágios
de formação,de inserçãoe de o fim do século 20, seus limites na aspiração a fazer da escola a fábrica
requalificação dos jovens nos locais de trabalho. Em outros termos, se do homemmorale do cidadão.Na Fiança,a tendênciaque
instalou, progressivamente, uma "partilha do poder pedagógico' prevaleceuhistoricamentefoi a de uma escolarização
dos
segundoasaspiraçõesexpressashá muito tempo pelo patronato. aprendizados profissionais, testemunho da primazia dos interesses
A escolhadecisivafoi feita no início dos anos 1980 pela gerais sobre as estritas necessidades económicas e individuais. Aqueles
generalização
da alternânciana formaçãoprofissional.Não é que que denunciam a escola de Ferry como uma "escola burguesa",
tenha havido uma completa novidade. N'laso ensino alternado esquecem,freqüentemente, que uma grande parte do patronato de
concernia, até então, aos cursos de escolarização destinados aos setorescom forte utilizaçãode mão-de-obra,na área têxtil ou de
alunosem situaçãode fracasso
escolar.Daí em diante, são as construção em particular, só aceitou a escolarização, mesmo primária,
formações qualificantes que obedecem a esse princípio. C)s com a mais extrema repugnância, criticando o "esvaziamento da mão-
baccalauréats'K"profissionaissão seu melhor exemplo, posto que as de-obra" e reclamando a volta ao mercado de uma força de trabalho
formaçõesque levam a ele, alternam períodospassadosna empresae dócil e adaptada às suasnecessidades,que ele não encontrava na saída
períodospassadosno liceu, da mesmamaneiraque as classesde da escola primária
técnicos de nível superior e de IUT que sistematizamos estágiosem Em 1910, Villemin, presidente da Federação Nacional da
empresas. Além disso, o aprendizado se ampliou para novos cursos e Construção e dos Trabalhos Públicos, desejava a criação de escolas
ciclos de estudos,sem esqueceras múltiplas iniciativas locais organizadase financiadas pelas indústrias em função de suas
consistindo em enviar colegiais em estágioscurtos para "descobrir o necessidades:por esseaprendizado, o operário "não terá um excedente
mundo da empresa
As adaptações necessárias de diplomas às mutações
profissionais se fizeram, muitas vezes, de modo muito mecânico, a
12. Cf. Cathedne AGULnOWI "Les reladon.sJommdori-emploí: um qtzêtesafes/in?» in FrançoísCARDO
partir dos anos 1980, seapoiando na "lógica da competência" de que eAndré CHAMBON (coo'rd.), MátamoOlmses
de h /armador, L'Harmatun,Parti, 1997,P, 35

72
r'
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA .,4ideoZogícb
dapro$ssioncbiização

de bagagemteórica; porqueé isso que nós tememosver dar aos das aprendizagens profissionais, afirmando que ela devia repousar em
operários", uma vez que essaformação geral impele o operário a "se dois pilares da formação geral e da formação técnica de alto nível,
evadir de sua situação"13. Por suas divisões e sua profunda adquirida fora do atelierlS
desconfiança em relação à escola, o patronato francês se encontrou na A linha mestra que comandou essa política repousa no idea[
incapacidade de instituir um ensino profissional digno dessenome, e humanista da escola que emancipa, o qual se reconhece por seus
as tentativas de imitar o modelo alemão de formação por altemância ascendentes, tanto [)iderot quanto Condorcet. As Luzes devem
falharampor falta de mobilizaçãoe de estruturaçãosuficientedas libertar das ligaçõesde dependênciapessoalo que explica que, na
empresas. Foi o Estado que assegurou a formação profissional doutrina republicana, a preocupaçãocom a cultura geral e a retomada
indispensável em um mundo económico dominado por muito tempo
dos princípios científicos sejam sempre reafirmadas,apesardas
por pequenos patrões, freqüentemente rotineiros e "com visão de acusações regulares do "enciclopedismo". A.ssim, Hippolyte Luc,
curto prazo". Apesar dos temores e das recusas dos meios patronais, do
diretor de ensino técnico a partir de 1933, dizia que era necessário,ao
operariado e da pequenaempresaque viram semprecom maus olhos lado da preocupação"da utilidade e da utilização", sustentar o "ideal
a ingerência do Estado na formação e na certificação das aptidões imperioso da cultura"tÕ
profissionais, é a idéia "bem francesa" da escolarizaçãoda formação Essaconcepção se chocou com os interessesdas meios políticos
profissional, como a qualificava pejorativamente, um patrão do início
e industriais sustentadospelo Ministério do Comércio que, favorável
do século, que se impôs, muito diferente do modelo alemão em certa medida à escolarização da formação profissional, pretendia,
construído sobre o princípio da altemância. no entanto, restringir a parte da cultura geral vista como uma perda
A. missão republicana da escola-consistindo em assentar a
de tempo e de eficácia. O essencial era a formação de uma aristocracia
República na difusão dos saberes,deixou sua marca no ensino profissional compreendendo os "suboficiais do exército do trabalho"
profissional, da forma com que ele foi estruturado no final do século capaz de dar à indústria francesa uma mão-de-obra tão qualificada
19. Foi nessaépoca que um debate opas os reformadores republicanos quantoaquelade que dispunham,
na época,a Alemanhae a
e os industriais liberais, um debate que, de resto, nunca cessou Inglaterra. Segundo essaconcepção, o imperativo da concorrência
Inteiramente. Para os primeiros, formar um operário qualificado não económicadevia primar nos objetivosde um ensino técnico
dispensava fazê-lo um bom cidadão. Como dizia Ferdinand Buisson, 'autónomo, descentralizado e elitista", com o Estado se contentando
"uma escola profissional não é, antes de tudo, um estabelecimento com o papel de "engenheiro conselheiro da iniciativa privada
industrial,é, antesde tudo,um estabelecimento
de educação
e de segundo uma fórmula do diretor geral do ensino técnico em 1925i7. E
instrução"i4. Em um relatório sobre as escolas de aprendizes em 1871, o que justificou a presençados representantesda profissãonos júris
C)ctaveGerard, inspetor geral e diretor de ensino primário da região
(nas bancas) e nos corpos de inspeção, presença que foi sempre um
de Seine, havia formulado essadoutrina republicana de escolarização princípio da organizaçãodo ensino técnico a fim de dar conta das
necessidadeseconómicas, incluindo regionais.

13. Citado em Guy BRUCY. Htstoire &s dfplõmes de I'enseignement technÜue ec poÉessiom1(1880,
!5. CÍ. , Guy BRUCY, Histofre üs diplõmes de I'ensefg7iementtechnique et proÍessfone!, oP. cft. , P. 29 et
1965) , BeZín, País, 1998, P.56.
sq
14 . Citado por PaMce PELPEL e Víncent TROGER, Htstoíre de !'enseignementtechnÜue , Hackta, País, 16. Citado por PaMce PELPEL e Vlncent TROGER, oP. cít. , P. 7]
1993,D.49. 17. Ibid., P. 55.

74 75
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA
.4 ideologia da.pro/issionaZizaçâo

C) ensino técnico não cessoudepois de viver na tensão entre a


da padronização dos empregos e das qualificações e de seu
lógica económica da adaptaçãoe a preocupaçãorepublicana de
relacionamento, sob a égide do Estado organizador. Essadupla
emancipação do cidadão, entre duas concepções da formação mas
colocação, profissional e escolar,que começou desdeo período antes
também duas concepçõesda relação salarial, tendo por aposta o da guerra, se acelerou e generalizou durante o período de crescimento
domínio ou não de um ofício reconhecido por uma certificação
fordista. A hierarquia no traí)alho vai, cada vezmais, correspondera
independente do empregador. Os fatos se impuseram além das
diferentes níveis de formação, certificados pela instituição escolar.
divergências de representações:diante das carências do patronato
A reforma Berthouin de 1959 faz da inserção profissional um
francês em matéria de formação profissional, o Estado não parou de
imperativo declarado.As reformasdos ciclos curtos, do colégio
promover e de enquadraro ensino técnico e profissional, com mais ou
único, da formação pós-"baccalauréat", guiadas por imperativos
menos felicidade.
económicos e elaboradas cona untamente pelo patronato e o govemo,
Mesmo se até a 2a Guerra Mundial uma ampla autonomia foi
visam reforçar a formação geral dos futuros operários qualificados e
dada aos estabelecimentos, às profissões e às municipalidades para
dos técnicos. Essaambição de relevar o nível dos ativos está
responderemàs necessidades
locais, o Estado por intermédio dos fundamentada em uma idéia da necessária polivalência dos futuros
professorese dos diretores dos estabelecimentos manteve sempre um trabalhadores, idéia partilhada amplamente pelos administradores e
papel poderoso nessedomínio. [)e fato, foi constituído um sistema de
os representantesdos setores mais modernos do patronato. A
ensino diverso e hierarquizado, desdeas grandes escolasformadoras
adaptabilidade tecnológica e mesmo social toma-se, pouco a pouco,
dos dirigentes e engenheiros, passandopelo ensino técnico um tema dominante.
intermediário fornecido nas escolasprofissionais, até a organização do
Durante os anos 1970, vê-se melhor ainda aparecer nos
ensino técnico elementar destinado aosoperários e empregados.
discursospatronais e governamentais todos os temas que passarão,
Clom a modernização do capitalismo de pós-guerra,
parcialmente, pelos fatos: ao lado do aumento quantitativo do
especialmente na época paulista, é todo o sistema escolar que será número de alunos e da criação de um "colégio único" em nome da
solicitado pelo imperativo do desenvolvimentoindustrial e que adaptabilidade da mão-de-obra pela polivalência", assiste-se à
cotneçaráa se transformar,muito mais diretamente, em função das promoção de um "ensino alternado" e, mais amplamente, de uma
necessidades económicas explicitadas e sistematizadas pelo Plano. É a
"abertura para a vida"; à presença mais influente dos representantes
época onde novas ferramentas estatísticasde previsão (os níveis de
das empresasnas instâncias de consultoria e de avaliação da educação
saída do sistema escolar, por exemplo) permitem estabelecer, nacional; à definição de um cartão escolar em função das necessidades
antecipadamente, as distribuições de alunos nos diferentes tipos de locais de mão,de-obra. Assim, desde o fim dos anos 1960 e durante a
classes,compreendendo inclusive os cursos especiais,em função das
década seguinte, uma estratégia de adaptação mas estreita com a
previsões econâmicas18. Esseperíodo, considerado por alguns como estrutura previsível de empregos,se instalou, relativamente velada,
"idade de ouro" do ensino técnico e profissional, é o da normalização,
atrás de um discurso suavizante sobre a escola única, a igualdade das
chances,a diversidade das atitudes e o desabrochar da criança
segundo seus gostos. Em uma palavra, a doutrina clássica da
18. Cf. As andisesde BemardCHARLOT e& Madekim FIGEAr. L'Écok aux encheres,
Payot,País, escolarizaçãodo ensino profissional começou a se transformar em um
1979,P. 62 etsq. discurso sobre a profissionalização da escola, a qual se tomou um
76 77
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA ,4 ideoiogícl da,prol/EssíorLaiízação

imperativo maior e uma das principais linhas mestrasde todas as dos jovens de classes populares ao secundário e o peso do fracasso
escolar sobre elesnZI
reformas a partir de então.
A lei qüinqüenal de 1993 previu, explicitamente, um "direito

A profissionalização para todos à experiência de iniciação profissional destinado a desviar os jovens


como nova ideologia do ensino geral e a equilibrar os fluxos entre esseensino e o ensino
C) novo dogmaimpõe uma universalização
do modelo profissional". Essavisão profissional, quando se aplica ao colégio, por
profissionalque se torna, pouco a pouco, a norma da escola.Essa exemplo, longe de ampliar o campo dos conhecimentos, engendra
oscilação é, por outro lado, apresentada freqtlentemente pelos altos confusõesmuito lamentáveis que fazem, por exemplo, com que, no
funcionários da Educaçãonacional ou pelos jornalistas como a maior discursodominante, a cultura técnica em vez de ser um meio de
inteligência do mundo modems se torne uin modo de orientar os
revolução da escola nas últimas décadas.Trata-se, doravante, de
alunos em direção às vias profissionais.
pensaro ensino na sua totalidade em termos de saídasprofissionaise
mesmo,mais longe, de pensartoda a educaçãocomo um simples A reivindicação em favor da profissionalização não cessa de
momento em uma formação contínua "do berço à tumba", segundo a refjetir contradições. De um lado, cresce-sede bom grado em direção
fórmula muitasvezesempregadanas publicaçõesda OCDE ou da a uma especializaçãoestreita e precoce das formaçõesquando, de
Comissão Européia. outro, se quereria questionar as correspondências entre diplomas e

Assim que o ministro Christian Beullac introduz as empregos em nome de uma profissionalização generalista e, de certo

seqüências educativas em empresa" em 1979, ele as instala para todos modo, mais comportamentalistado que técnica. Com efeito, uma
os alunos dos liceus e dos colégios e nãó somente para os alunos das fração do patronato, sob o pretexto de que a instabilidade do novo
seçõesprofissionais.Aos olhos dessehomem vindo da empresa,essa capitalismo não permite mais a previsão das especializações
última é vista como um lugar de formação universal, permitindo profissionaiscomo se tentava fazer durante as Trinta Gloriosas,
combinar a preocupaçãoigualitária com a da eficácia. Dez anos mais pretende fazer da relação com a empresa, não uma questão de escolha
tarde, a lei de orientação de 1989 retoma a idéia de alternância para profissional particular, mas um processo de aclimatação a valores e a
todos, mesmo se ela só a toma obrigatória para as formações comportamentos esperados de todos os "colaboradores" da empresa.
tecnológicas e profissionaisi9. A posição de Edith Cresson em 1991, A palavra "profissionalização"muda então de sentido. Ela nãa

vinda igualmente dos meios empresariais,será mais nítida ainda: "A remete mais a uma especializaçãoarticulada a um posto, mas a
alternância deve, igualmente, ser generalizada.A mistura do tempo 'atitudes" e a "socialização" na empresa. Para alguns, a hora seria a de

passadono estabelecimento de formação e na empresa, deve tomar-se um profissionalismo de operadores que só poderia ser adquirido
a regra e isso para todas as formações, sejam elas profissionais, técnicas 'dentro" da empresa.Não se trataria mais, com efeito, de visar a
ou gerais"ZO. Essa nova doutrina encontra seu pretexto na "chegada
qualificações determinadas para empregos repertoriados, mas de
preparar o futuro trabalhador para situaçõesprofissionais muito

19. Em seu artigo 7, f multa a obrigaçãofeira ao sbtema escolar& fornecer a todos os alunos, seja quíalÍm
o núiel de emíno adngüo, uma formação pro/íssí(ma! antes de ruía saúü do sistema escolar.
20. Édtch CRESSON, "Le &veloppe77tent de I'altemartce et ü !'aprenúsage dons k pogram77te Maügnon' 21. Made-Cht4de BETBEDER, "Um colide /onTladon de i'espüt cd@m Écoks et encrepdses
At4ü'ement,ne1 18, janeiro de 1991 , P. 172.
Éducadon-Économie,
Re 13, &zemho & 199]

78 79
A ESCOLA NÃO É UMA EMPRESA ,âideologia da pro/issionaiízaçõo

evolutivas". Daí o sentido da formação não só em empresa mas para muito simples de fazer com que os professores acessem essa"cultura de
a empresa. Como dizem F.Dalle e J. Bounine, tratar-se-ia de "aprender empresa",que consiste em impregna-los da ideia de prometojá que a
a empresa" e não de aprender uin ofícioZZ. A maior parte dos alunos empresa modema se define, essencialmente, por essa noção.
deverá "aprender a viver em uma comunidade mais ou menos ampla, O termo "empresa"não é sinónimo de "executarum desenho"?
com estruturashierarquizadas,
cuja atividade é subentendidapela Para a OC[)E, igua]mente, a pedagogia do projeto aparece como o
persecuçãode uin objetivo de realização:produzir e vender mais, melhor aprendizado da empresa: "Um empreendimento pode ser toda
aumentar o lucro, ampliar a fatia de mercado,criar novos produtos"z3. a forma de operação ou de projeto e não somente um negócio
Essaprofissionalização da educação como um todo atém-se a comercialZÓ.
Essejogo de palavrasé bem feito para naturalizar a
um duplo imperativo formulado pelas empresas desde os anos 1 980: de realidade económica: "visitas de empresas bem preparadas, estágios
um lado o conhecimento deve estar no centro da reorganizaçãodo mesmo curtos [...] podem iniciar os professores na estratégia da

trabalho, o que passapelo aumento do nível escolar de todos os mudança e dar consistência ao conceito de "projeto" que se utiliza
assalariados,enquanto de um outro lado, uma maior eficácia e uma bastante atualmente no sistema educativo sem que a lógica e os
inalar "flexibilidade" são esperadas dos assalariados. procedimentos correspondentestenham sido realmente ensinados.A
Se todo ato pedagógico deve ser orientado pelo fim da inserção palavra "projeto" não é quase sinónimo da palavra "empresa?"27
na empresa, é necessário, logicamente, começar pelos professores, De modo complementar, o direito a uma informação sobre a
formando-os no espírito de empresa, em grausdiversos segundo sua orientação, prevista pela lei de orientação de 1989, se transformou em
implicação no fato "empresa"24.
Quer eles ensinem uma disciplina uma injunção feita aos alunos de elaborar, o mais cedo possível, um
tecnológica ou geral, não é o conteúdcrdossaberesque deve importar "projeto de orientação escolar e profissional" de sorte que nenhum
para os professores, mas a percepção e a avaliação da utilidade delespossaignorar,hoje em dia, qual é o sentidoúnico da
profissionaldos cursos,das disciplinase dos métodos,aosolhos das escolaridade. Essa coação, que alguns dentre os responsáveis pela
exigências requeridas pelo mundo económico. Para alguns autores orientação escolar qualificam anualmente de "terrorista", tem

são, de resto, os professoresdas disciplinas que tirarão o maior precisamente,por princípio, destruir todo desejo subjetivo sob os
proveito dessa preocupação constante da finalidade profissional, imperativos pesadosda "escolha de uma profissão", negando assim
colocando enfim em relaçãosuasabstraçõesmais au menos vãs com a tudo o que uma tal elaboraçãotem de complicado e de não linear.
verdadeira realidade", com apenaso concreto da vida económica: "0
ensino fundamental da leitura, da escritura e do cálculo deverá ser O casoda universidade
tratado diferentemente: os assalariadosdeverão ser capazesde ler Com o ensino técnico e profissional, a universidadeé muito
manuais e de compreender as fichas técnicas e não somente ler livros diretamente afetadapor essaideologia. Nessedomínio, igualmente, a
e compreender a álgebra"25.Segundo Daniele Blondel, há um meio pendência à obra não pode ser separada do campo político e social nos
quais se desenvolve. os Estados Unidos constituem ainda o caso que
permite melhor compreender a evolução na França. O modelo da
22. FrançoisDALLE emean
BOUNINE, L'Éducaúonen entrejMse,
Odtk Jacob,PaM, ] 993, P. 14.
23. Daniêk BLONDEL. "Fonmr des en.selgnants",Écoks e entrepdses, oP. cíc. , P. 47
24. 1bü.,P.48
25. Centro para a pesquisae a fnovaçM no emfno (CERA) , Écoleset enereprües:um noubeaa parEenadat, 26.Ibid.,P. 30.
OCDE, i992, P. 27. 27. Daníêk BLONDEI,, artigo cltctdo, P. 49

80 81
A ESCOL:ANÃO É UMA EMPRESA .4 nova linguagem da escola

profissionalizaçãoteve, até hoje, um papel essencialna impulsão da humanas, começaram a contestar nos campa nos anos 1960 em nome
universidade americana28.Ela foi, efetivamente, desde sua criação, da luta contra a alienação da universidade e da subordinação do saber
submetidaao modelo instrumentaldo sabera "serviçoda unicamente aos interesseseconómicos do big business,crítica que se
comunidade". Tanto no desenvolvimento da sociedade industrial propagou na Europa no fim dos anos 1960 e início dos anos 1970.
como na difusão de uma ideologia pragmatista, a concepção Essa ideologia instrumental da universidade terminou, no
dominante Ihe atribuía uma dupla função de formação profissional e entanto, por se impor na Françapor níveis sucessivos,em nome da
de produção de conhecimentos úteis às empresasZ9. democracia,do emprego e da modernidade33.[)o re]atório Laurent de
Em 1963 o economista americano Clark Kerr, então presidente 1995 ao relatório Attali, passandopelo Plano Universidades 2000 e
de Berkeley, teorizava o flm da universidade como lugar autânotno e pela multiplicação recente das licenças profissionais34, é a mesma
unitário de sabere anunciava a emergênciade uma "multiversidade' representação que se aplica com perseverança e que transforma, cada
que justaporia as formações profissionais e dos centros de pesquisasem vezmaisprofundamente,
a missãoda universidade,
a qualnão
outra relação a não ser administrativa, uns com os outros30.Não sem encontra mais outras razõeslegítimas a não ser o fim profissional dos
humor, esseautor via na universidade americana "uma série de escolas estudantes, o benefício que as empresas podem tirar das pesquisas e a
e de departamentos reunidos por um sistema comum de calefação", formação que podem receber os assalariados,especialmente aqueles
ou, melhor ainda, como "uma série de empreendedores individuais de do vasto continente terciário.
ensino, agrupadospelo fato de reivindicar estacionamentosem A lei Savary de 1984 preparou a virada ao afirmar que a
comum"31.Seria dizer, ein termos mais sociológicos,que a universidade devia contribuir para a "política de emprego"
universidade"aberta para a vida" devia ser concebidacomo um Suprimindo muito sintomaticamente o Doutorado de Estado,
decalque, o mais exato possível, da divisão económica e técnica do diploma julgado muito pouco eficaz profissionalmente, ela indicou o
trabalho, que ela devia ser composta de células onde cada uma não é caminho a seguir.Mais recentemente,o Relatório Attali salientou
mais do que um apêndice externalizado do tronco, até da empresaque que "todo estudante deverá ser asseguradode poder deixar o ensino
utiliza seusserviços de pesquisa e sua produção de mão-de-obra. C. superior com um diploma com valor profissional, seele estápronto a
Kerr dizia bem: a nova universidadeamericananão é, na verdade, envidar os esforços necessáriospara obtê-]o. [...] A preparação para a
nem públicanem privada,nem desvinculada
da sociedadenem vida profissionaldeve se tornar um dos eixos principais do projeto
totalmente inserida. Ela tomou-se uma "loja de conveniência para o pedagógico de todo estabelecimento de ensino superior"35. Sempre
grande público"32. E precisamenteessaevolução que os estudantes, segundo esse texto, a universidade deverá relacionar
especialmente aqueles engajados nos cursos de literatura e ciências sistematicamente a formação e sua finalidade, no modelo das grandes
escolas. Em decorrência disso, é a organização completa dos cursos
que é comandadapela idéia de que todo diploma universitárioé um

28. AhÍn RENAUT, l.,esréuoZutíons& !'uníversité, Essassur h mo&mtsatíon de Zacultura, caZmann-l.Zuy,


Paras, 1995.
33. O qm Íaz Alaín Renaacdizer qm "a trança descobrea Amédca" qmndo a universidadeÍaz cb ímerção
29. Cf. Mick] FRETTAG. Le mufage de ]'unltersitá, oP. dc. , P. 4]
30. Cf. Chrk KERR, Méumo@hose de !'Uníve sine, Édídons ouiMêres, País, 1967 (o Mula a77teHcano
á prc#bsionia!
seu/im pdnclpa!,aü exclusivo
(Les Ré aludo & I' zínítersitá,oP.cit. , P. 204)
mab eü)qMnn; Th uses of the Uníversíty 34. Uniçersítás2000, Quelk uní ersítápoHr demafn?,Sorbonne26-29 de junho de 1990. La
311bÜ.,P. 27-28. DocuTmnmdon Êançafse,País,] 991
32. Ibid., P. 15. 35. Jacqms AMAI, Pot4r um modêle euroPéen d'enseígnemenr suPédezzr, oP. cíc. , P. 5

82 83
A ESCOLANÀO É UMA EMPRESA .4 ideoZogicb dü pr($sstonaltzação

diploma profissional36.Não há mais fronteira entre uma licença geral Numerosos, à esquerda, foram os que viram na massificaçãoda
e uma licença profissional: "0 titular da licença adquirirá urn coito de ensino o meio de quebrar o que eles chamam "o modelo cultural
conhecimentos
de basee uma capacidade
de análisee de dominante"próprioà elite intelectuale burguesa
e de introduzir
questionamento profissionalmente utilizáveis"37. Mais ainda, a outras dimensões, ao mesmo tempo práticas e cognitivas, mais aptas a
licença profissional não é um diploma como os outros, é, doravante, fazer os jovens dos meios populares terem sucesso.E nessesentido que
o modelo de todo diploma universitário. seria necessário introduzir de pleno direito e estender o ensino de uma
A universidade deve se tomar o motor da Educação ao longo cultura técnica desdeo colégio e em todos os cursosdo ensino em
de toda a vida. A licençaprofissionalrespondea esseobjetivo", geral, que seria necessáriodesenvolveros cursostecnológicose
sustentao Ministério da EducaçãoNacional. Não se saberiadizer profissionais
e dotar os alunosde qualificações
sólidas,lhes
melhor. A. desregulamentaçãoque ela introduz, a dependência com permitindo se defender no mercado de trabalho e no emprego.
relação aos interesseslocais dos empregadorese das coletividades, o Essaargumentação não é desprovida de fundamento, e não
lugar dos "profissionais"no ensino superior,delineiam o futuro teria certamente havido o alongamento da duração média dos estudos
previsível da universidade se poderosas contratendências não no século 20 e, mais recentemente, a progressãodo número de
surgirem nos próximos anos. Mesmo o Relatório Faroux, no entanto, bacharéis, sem o crescimento dos cursos em questão. Além do mais,
pouco suspeito de idealismo desinteressado, havia denunciado esse permanece,como referido acima, muito caminho a percorrer para
adequacionismo" que tinha chegado, segundo o autor, a uma espécie reconhecer o valor intelectual e formador dos conhecimentos
de superadaptação da escola à divisão do trabalho. "A escola técnicos e dos domínios práticos que estão ligados aos diversos
desenvolveu, nos últimos trinta anos, sua oferta de formações campos profissionais, na mesma medida em que um dos grandes
profissionais e especializadas mais de 600 diplomas a um ponto tal favoresde crise do ensino francês se atém a essedesprezono qual é
que se pode recriminá-la não por ser excessivamentefechada às tido o ensino técnico e profissional, desprezoa relacionar com a
demandas dos ramos profissionais mas de lhes ser permeável.38" dominação à qual foi submetida a classe operária e à ausência de
Permanece a questão de saber se a universidade é feita para reconhecimento de suasqualificações e de seustrabalhos. Em função
distribuir uma formação muito especializada e estreitamente ajustada
dessedesprezo,os jovens pagam muito caro a condição operária de
às necessidades imediatas das empresas,então sem grande horizonte
seuspais, inclusive quando eles querem dela se afastar39
temporal ou, ao contrário, se ela não estaria mais no seu papel, Há no entanto uma confusão a evitar: defender a necessidade
dotando os alunos por ela acolhidos, anualmente,de uma formação
de uma cultura técnica para todos não significa a subordinaçãoàs
geral,permitindo-lhes uma maior autonomia na vida. Os "herdeiros",
exigências das empresasem matéria de profissionalização. Além disso,
como se sabe, encontraram refúgio em outros lugares,precisamente
muitas técnicas e saberes ditos tecnológicos não têm apenas
nas classespreparatórias e nas grandes escolas onde não se regateia
destinaçãoprofissional,mas têm ou podem ter hoje em dia um uso
sobre os conteúdos culturais mais exigentes e os mais amplos.
social muito mais extenso como mostra o exemplo da informática. Por
deslocamentos sucessivos chega-se rapidamente, no entanto, a
36.1bd., P.27. confundir cultura técnica e fim profissional.O risco é real, com a
37. 1bÜ., P. 28.
38. RegerFAROUX, oP. cic., P. 109. É que, efeüuamenn
essasuperespecialização
/hto da vontaü de
'colar" às demarldas das empresas, povocou 7naís di/ícukicuíe no nessa m emprego do que /bdlÍda&s (d. 39. CÍ. ScépMne
BEAUD, 80% du bac...etaPêi Les enÍants de h &mocradsadon scolalre,La
P.]13) Découverte, País, 2002

84 85
A ESCOLANÃO É UMA EMPRESA

difusão dessaideologia, de reduzir o ensino geral e profissional apenas


às competências úteis às empresas,de negar o valor da cultura técnica
e mesmo muitos dos seus usos sociais, e de obedecer, assim, a um
utilitarismo que impede os jovens de achar o menor interesse no que
parecenão ser vendável no mercado de trabalho. A ilusãoconsistiria
em crer que a profissionalização
tal como é levadaconstitui uma
estratégia democrática em si mesma.
Se é verdade que a educação nacional estaria enganada em
deixar o seu lugar para um sistemade formaçãoprivada onde
reinariam escolhasarbitrárias, desigualdadessociais e todas as
limitações inerentes a uma formação orientada segundo as
necessidades muito imediatas das empresas, não é suficiente, para
resistir à onda neoliberal,que o serviçopúblico vá na frente dos PARTE ll
desejos das empresas, profissionalizando todas as formações e todos os
níveis. A questão, compreende-se, além-se à capacidade que tem a A escola sob o dogma
instituição escolarde definir o campodos saberese a organizaçãodos do mercado
estudos que qualificam autenticamente os futuros assalariados, sem
abdicar de visõesculturais mais amplas. Isso.supõeque a instituição
seja suficientemente forte para não obedecer às demandas e às
restrições avançadas pelas empresas, cuja lógica é necessariamente
diferente, senão oposta à da escola.
O perigo de obedecer a essa lógica do rendimento e das

competências que as empresasquerem impor, é ainda maior quando


nós temos que tratar com um capitalismo cada vez mais instável, no
qual os ciclos económicos, mas também os ciclos de emprego e as
ondas tecnológicas", determinam flutuações dificilmente previsíveis
das demandas das empresas em matéria de "competências". Defender
a universalidade das certificações expedidaspela escola é necessário
para resistir à fragmentação,acrescidapor uma oferta de formação
profissional. Mias é necessáriotambém defender a autonomia da
escola em face de um neoliberalismo que considera que todas as
instituições, inclusive as públicas, devem ser colocadasa serviço da
máquina económica em detrimento de qualquer outra finalidade.

86

Você também pode gostar