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AVALIAÇÃO DE IMPACTO AMBIENTAL – 2020.

MARCOS PAULO PEREIRA MATOS

AIA: MÉTODOS DE PREDILEÇÃO PARA AVALIAÇÃO DE IMPACTOS E O DIAGNÓSTICO AMBIENTAL

Os métodos e técnicas da AIA, em especial do EIA/RIMA, são procedimentos e protocolos utilizados


para análise, comparação e organização de dados e informações de impactos ambientais que podem
ser causados pela implantação e operação de um empreendimento. São instrumentos formais e
predefinidos, especificamente relacionados com as diferentes disciplinas envolvidas no processo de
avaliação, com o objetivo de identificar, interpretar e prevenir os impactos que podem ser gerados
pela implantação de projeto (FILHO, 1993). Atualmente, existem diversas metodologias de AIA,
sendo que nenhuma delas é aplicada em todos os casos de avaliação, pois cada empreendimento e
ambiente tem suas características e interrelações próprias, portanto é necessária a combinação de
dois ou mais métodos, para realizar a AIA da melhor forma possível, segundo MORAES et al. (2016).
Usualmente os métodos da AIA são classificados de acordo com sua função analítica: Identificação,
Predição ou Interpretação (FILHO, 1993). Nesse texto será dissertado sobre os métodos de AIA
relativos à função de Identificação dos impactos ambientais que serão gerados pela implantação e
operação de um projeto. É importante ressaltar que uma metodologia pode ser classificada em mais
de uma função, pois a mesma pode exercer funções diferentes em AIA’s.

Os métodos identificadores tem o objetivo de listar de forma rápida e preliminar os impactos que
que serão causados pela implantação, operação e posterior fechamento de um projeto,
relacionando as ações do mesmo com os impactos gerados. Ao listar esses impactos, segundo FILHO
(2002), é considerado o tipo de projeto e o ambiente estudado como possível local para o mesmo,
afim de identificar quais são as ações que causarão impactos mais significantes nas condições
ambientais do local escolhido para o projeto. Os principais métodos identificadores são: Métodos
espontâneos (Ad hoc), Listas de controle (Check-list) Matrizes de interação e Sistemas cartográficos
(superposição de mapas).

Segundo STAMM (2003), os métodos espontâneos (Ad Hoc) consistem na formação de grupos de
trabalho com especialistas em diversas disciplinas e áreas do conhecimento relacionadas aos
impactos ambientais gerados pela implantação e operação do projeto proposto, que, com base em
experiências passadas semelhantes, irão elaborar um relatório onde serão relacionados o projeto e
os impactos ambientais decorrentes da implantação e operação, classificando-os em positivos ou
negativos. A utilização do método Ad Hoc é preferencialmente em projetos onde os dados são
escassos, ou em projetos cuja experiência passada é insuficiente para utilização de métodos com
maior sofisticação. Segundo COSTA et al. (2005), a identificação dos impactos se dá via
Brainstorming, onde é feita a caracterização e síntese dos impactos. Segundo STAMM (2003), o
método Ad Hoc mais conhecido é o método Delphi, que consiste em pesquisa feita através de
rodadas de questionários, nos quais os especialistas responsáveis pela avaliação expressam as
impressões sobre os impactos possíveis e sobre os assuntos e questões debatidos e gerados a cada
rodada de questionários. No fim, é elaborado um relatório com as impressões conjuntas do grupo de
especialistas, com os pontos de consenso e onde não houve consenso da equipe.

Segundo MORAES (2016, apud FEDRA, 1991) como vantagens do método Ad Hoc, pode-se ressaltar:
a rápida identificação e estimativa dos impactos ambientais, a apresentação de resultados da AIA de
forma rápida, organizada e de fácil apresentação para o público geral, mesmo com uma possível
escassez de dados sobre o projeto ou meio onde ele será inserido. Como a avaliação é feita de
maneira empírica, baseada nas experiências e não em experimentos e estudos sobre a natureza do
projeto ou do meio, os custos desse método normalmente são mais baixos. Para STAMM (2003),
como desvantagens, pode-se citar: possível subjetividade dos resultados desse método, uma vez que
a qualidade do processo está diretamente ligada a qualidade de avaliação dos membros do grupo de
especialistas e do nível de informação disponível sobre o projeto e o meio. Também é citada a falta
de profundidade dos impactos identificados no resultado da avaliação feita através desse método, o
que se deve à natureza de identificação do método. A profundidade dos impactos está relacionada
aos métodos de predição e significância dos impactos.

Segundo COSTA et. al (2005), as listagens de controle consistem na identificação e enumeração dos
impactos ambientais que serão decorrentes da implantação e operação de um projeto. Os impactos
serão relacionados e categorizados em positivos ou negativos, conforme o tipo de modificação que
esse impacto causará ao meio onde o projeto será inserido. A identificação e categorização desses
impactos se dará posteriormente a um diagnóstico ambiental, que contemplará os meios que
constituem o meio ambiente, como físico, biológico, socioeconômico, etc. As listagens de controle
são o método identificador mais utilizado nos processos de AIA. Segundo STAMM (2003), o método
das listas de controle pode se dividir em 5: simples, descritivas, escalares, questionários e
multiatributivas. Assim, as listas variam desde uma simples listagem onde são indicados fatores
ambientais até a incorporação de efeitos ambientais identificados, facilitando a escolha e execução
dos métodos de predição de impactos, segundo FILHO (1993). Como vantagens da utilização desse
método, FILHO (1993) elenca: a facilidade de compreensão do resultado da análise, possibilidade de
identificar quase todas as áreas que serão impactadas pelo projeto, caráter interdisciplinar do
método e a necessidade de poucos dados. Como desvantagens, pode-se citar: a não categorização
dos impactos em diretos ou indiretos, não observa as interações entre o impacto e o meio onde o
projeto será implantado, assim os efeitos ambientais na dinâmica do meio não são devidamente
observados. Segundo COSTA et. al (2005), as listas de controle podem incorporar, de forma limitada,
escalas de valores e ponderações, assim exercendo uma função de método de significância.

Segundo CREMONEZ (2014), o método das matrizes de interação consiste em uma listagem de
controle bidimensional, onde são relacionados os fatores e impactos ambientais relacionados às
ações de implantação do empreendimento. O método das matrizes surgiu da necessidade de suprir
as deficiências encontradas no método das listas de controle. A eficiência do uso das matrizes se
baseia na identificação dos impactos diretos, e, embora possam incorporar técnicas de avaliação e
significância do impacto, são mais utilizadas com função de identificação. Segundo FILHO (1993), o
método constitui-se principalmente da identificação das interações e impactos mais significativos,
assim explicitando as relações de causa x efeito no meio. Um dos modelos de matriz de interação
mais utilizados é a matriz de Leopold. Segundo COSTA et. al (2005) e STAMM (2003), essa matriz
consiste em uma tabela de 88 fatores ambientais (que são as linhas da tabela) por 100 ações do
projeto (que são as colunas da tabela). Assim, são possíveis 8800 combinações diferentes de
interações entre fatores e ações do projeto. Após assinalar todas as interações que se aplicam ao
projeto que está sendo avaliado, é estabelecido em uma escala de 1 até 10 a magnitude e a
importância de cada impacto assinalado, e o mesmo é classificado como positivo ou negativo. O uso
da escala para magnitude tem caráter objetivo, e caracteriza o grau de alteração causado pelo
impacto no fator ambiental observado. Já o uso da escala para representação da importância do
impacto tem caráter mais subjetivo, pois envolve a atribuição de uma ponderação (ou seja, um peso
relativo) ao fator ambiental que será afetado. Segundo MORAES (2016, apud SÁNCHEZ, 1991), a
vantagem do uso das matrizes de interação é a possibilidade de comparação de diversas alternativas
de intervenção no projeto, como alternativas tecnológicas ou de localização, abrangendo todos os
aspectos possíveis do meio. CREMONEZ (2014) acrescenta: a facilidade de compreensão da avaliação
feita através desse método, a acomodação de dados qualitativos e quantitativos, a boa qualidade de
informação para estudos posteriores e a natureza interdisciplinar. Como desvantagens, MORAES
(2016, apud SÁNCHEZ, 1991) e CREMONEZ (2014) citam: a subjetividade na valoração da magnitude
dos impactos, uma vez que a base dos cálculos para a valoração; a não identificação de impactos
indiretos; a não apresentação de características temporais; não apresentam os aspectos da dinâmica
do meio onde o projeto será inserido.

A superposição de cartas (ou sistemas cartográficos) é um método de AIA que pode exercer as 3
funções analíticas, ou seja, identificar, prever, avaliar a significância, além de comunicar os impactos
ambientais que podem ser gerados pelo empreendimento. Segundo PIMENTEL (1992), esse método
consiste na elaboração de uma série de cartas temáticas, para cada fator ambiental será elaborada
uma carta, onde os dados serão apresentados e categorizados. Após a elaboração, essas cartas são
superpostas (compiladas) para reproduzir a síntese da situação ambiental da área geográfica de
interesse para o projeto, desde sua área de implantação até sua área de influência. Segundo STAMM
(2003), inicialmente o método era realizado com a superposição dos mapas impressos em
transparências, e a intensidade da cor representava a intensidade um determinado impacto em uma
área. Atualmente, com o avanço das tecnologias relacionadas às áreas de computação e satélites,
esse método ficou mais eficiente, rápido e simples, manipulando muitas informações com um nível
de precisão considerável. Segundo FILHO (1993), o uso mais comum do método da superposição das
cartas é no planejamento e ordenamento espacial, pois propicia a identificação de possibilidades do
ambiente. Um exemplo de uso desse método é o Método GIS (Geographic Information System),
onde a área de estudo é dividida em células, onde cada célula possui uma gama grande de
informações, possibilitando melhor caracterização dos impactos e a relação com o meio, segundo
CREMONEZ (2014). Como vantagens do uso desse método no processo da AIA, FILHO (1993) elenca:
a extrema objetividade no processo de avaliação e na apresentação dos resultados; capacidade de
representação espacial dos impactos no meio, facilitando a comparação de alternativas de projeto.
Como desvantagens, CREMONEZ (2014) cita: a difícil integração de impactos de ordem
socioeconômica, não considera a dinâmica do sistema ambiental.

Pode-se observar, mediante esse texto dissertativo e o da 3º avaliação, como existe uma grande
diversidade de métodos para realização da AIA. Mesmo dentro de uma mesma função analítica,
como a de identificação, existem diferentes métodos, cada um com suas vantagens e desvantagens.
É justamente com base nas diferenças, vantagens e desvantagens que é possível escolher a
combinação dos métodos mais adequados para um processo de AIA específico à natureza do projeto
e do meio onde ele será inserido, tendo em vista que cada projeto terá uma relação e impactos
diferentes em sua relação ao meio.
REFERÊNCIAS

COSTA, M.V.; CHAVES, P.S.V; OLIVEIRA, F.C. Uso das Técnicas de Avaliação de Impacto Ambiental
em Estudos Realizados no Ceará. In: XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Anais.
Rio de Janeiro, 2005. Disponível em:<
http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005/resumos/r0005-1.pdf>. Acesso: 27 abr. 2021.

CREMONEZ, F. E. et al. Avaliação de impacto ambiental: metodologias aplicadas no Brasil. Revista


Monografias Ambientais - REMOA, Santa Maria, v. 13, n. 5, p. 3821-3830, nov./2014. Disponível em:
https://periodicos.ufsm.br/remoa/article/view/14689. Acesso em: 30 abr. 2021.

FEDRA, Kurt; WINKELBAUER, Lothar; PANTULU, Vedurumudi R. Expert systems for environmental
screening. An application in the lower Mekong basin. 1991.

FILHO, S. S. A. Documentos de Política: Os Estudos de Impactos Ambientais no Brasil: Uma análise


de sua efetividade. 18. ed. Brasília: Serviço Editorial, 1993. p. 11-82. Disponível em: <
https://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/25899?
mode=full&submit_simple=Mostrar+registro+completo+do+item>. Acesso em 25 abr. 2021.

FILHO, S. S. A. AVALIAÇÃO AMBIENTAL ESTRATÉGICA - UMA ALTERNATIVA DE INCORPORAÇÃO DA


QUESTÃO AMBIENTAL NO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO. 2002. 247 f. Tese de Doutorado –
Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2002. Documento eletrônico, disponível em: <
http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/285605/1/AgraFilho_SeverinoSoares_D.pdf>.
Acesso: 24 abr. 2021.

MORAES, CIRO D. DE; D’AQUINO, C. DE A. Avaliação de impacto ambiental: uma revisão da


literatura sobre as principais metodologias. 5º Simpósio de Integração Científica e Tecnológica do
Sul Catarinense – SICT-Sul. Universidade Federal de Santa Catarina/Programa de Pós-Graduação em
Energia e Sustentabilidade. 2016. Disponível em:
<https://labhidrogeo.paginas.ufsc.br/files/2016/08/AIA-UMA-REVIS%C3%83O-DA-LITERATURA-
SOBRE-AS-PRINCIPAIS-METODOLOGIAS.pdf> Acesso: 25 abr. 2021.

PIMENTEL, G.; PIRES, S.h.. METODOLOGIAS DE AVALIAÇÃO DE IMPACTO AMBIENTAL: APLICAÇÕES E


SEUS LIMITES. Rev. Adm. púb.,, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 56-68, jan./1992. Disponível em:
<http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rap/article/download/8812/7568/19180#:~:text=A
%20superposi%C3%A7%C3%A3o%20de%20cartas%20%C3%A9,ambiental%20de%20uma
%20%C3%A1rea%20geogr%C3%A1fica.>. Acesso em: 01 mai. 2021.

SANCHEZ, L.E. Avaliação de Impacto Ambiental: conceitos e métodos. São Paulo: Oficina de textos,
2013.

STAMM, H. R. MÉTODO PARA AVALIAÇÃO DE IMPACTO AMBIENTAL (AIA) EM PROJETOS DE GRANDE


PORTE: ESTUDO DE CASO DE UMA USINA TERMELÉTRICA. 2003. 265f. Tese de Doutorado -
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2003. Documento eletrônico, disponível em:
<https://repositorio.ufsc.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/85357/191340.pdf?
sequence=1&isAllowed=y>. Acesso: 25 abr. 2021.

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