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A filosofia jurídica perante o individualismo e o liberalismo

A ideia de individualismo e liberalismo, ganhou expressão com os escritos de vários autores, como Jonh Locke, Thomas Hobbes, David
Hume, Charles de Montesquieu, Jean-Jaques Rousseau, Voltair e Benjamin Constant, entre outros.

Os autores e os seus contributos no individualismo e liberalismo

JONH LOCKE, nasceu em 29 de Agosto de 1632 em Inglaterra, tendo falecido em 28 de Outubro de 1704
em Inglaterra. Este autor possui a sua escola no empirismo britânico, no contrato social e na lei natural,
teve como interesses principais, a metafísica, a epistemologia, a filosofia política, a filosofia da mente e a
educação. As suas ideias mais notáveis, foram a tabula rasa, a lei natural, o direito à vida, a liberdade e a
propriedade

É considerado o protagonista do empirismo1, tendo este argumentado que a mente seria originalmente, um “quadro em branco” 2, sobre o
qual é gravado o conhecimento, cuja base é a sensação, ou seja, todas as pessoas quando nascem, fazem-no sem saber rigorosamente
nada, sem qualquer impressão ou conhecimento, assim, todo o processo de conhecimento, de saber e do agir é aprendido ao longo da sua
existência através da sua experiência, da tentativa e do erro.
O pensamento deste autor, fundamenta-se sobretudo na noção de governo consentido pelos governados, diante da autoridade constituída e
o respeito pelo direito natural do ser humano, de vida, liberdade e propriedade. O pensamento de Locke, influenciou as várias revoluções
modernas liberais: A revolução Inglesa – Ficou conhecida por “Revolução Gloriosa ou Revolução de 1688”, (esta revolução decorreu entre os
anos de 1688 e 1689, tendo como fundamento, a caída do Rei James II de Inglaterra em 1688 através de uma união de parlamentares com
um exército liderado pelo holandês stadtholder William III de Orange-Nassau, Guilherme de Orange, que, como resultado subiu ao trono
Inglês, como William III de Inglaterra), A revolução Americana – Guerra da independência dos Estados Unidos da América, que decorreu
entre 1775 e 1783, (esta revolução teve inicio com a assinatura do Tratado de Paris, que em 1763, pôs fim à guerra dos sete anos, assim, e
em virtude das batalhas travadas contra o domínio Inglês durante a referida revolução, formou-se um movimento de ampla base popular,
que teve como principal motor a burguesia colonial, que culminou com a independência de treze colónias em 4 de Julho de 1776, passando
1
Movimento que acredita nas experiências como únicas ou principais formadoras das ideias, discordando assim, da noção de ideias natas.
Na ciência o empirismo é normalmente utilizado quando falamos no método cientifico tradicional, o qual defende que as teorias científicas
devem ser baseadas na observação do mundo, em vez da instituição ou da fé. Sendo que outros autores que ficaram ligados ao empirismo,
foram: Thomas Hobbes e David Hume, entre outros
2
Tabula Rasa, do latim “Folha em Branco”

2
os EUA a serem o primeiro país a dotar-se de uma Constituição política escrita) e a fase final da Revolução Francesa – feito histórico que
teve a sua duração entre 05 de Maio de 1789 e 09 de Novembro de 1799, (esta revolução foi um importante marco na História Moderna da
nossa civilização, significou o fim do sistema absolutista e dos privilégios da nobreza, o povo ganhou mais autonomia e os seus direitos
sociais passaram a ser respeitados. Com esta revolução, em França foram criadas três Constituições, a de 1791, que estabeleceu a
monarquia constitucional, a de 1793, que oficializou a republica e a de 1795, que criou o Regime do directório).
Por outro lado o nome de John Locke está intimamente ligado à tolerância3, e na sua obra escrita “Dois tratados sobre o governo” – 1689,
Locke defende que “todos são iguais e que a cada um deverá ser permitido agir livremente desde que não prejudique nenhum outro”. Com
esta fundamentação, deu continuidade à justificação clássica da propriedade privada ao declarar que o mundo natural é a propriedade
comum de todos, mas que qualquer indivíduo pode apropriar-se de uma parte dele ao misturar o trabalho com os recursos naturais.
Outra obra reconhecida de Locke, foi “Ensaio acerca do Entendimento Humano” – 1690, nesta obra, é por ele proposto que a experiência é a
fonte do conhecimento, que depois de se desenvolve por esforço da razão. Outra obra notável de Locke, foi “Pensamentos sobre a
Educação” – 1693.

Locke e a defesa da escravidão

Este autor é considerado pelos críticos, como sendo “o último grande filósofo que procura justificar a escravidão absoluta e perpétua”. Ao
mesmo tempo que defendia que os homens são iguais, Locke defendia a escravidão4.
Locke sustenta a existência da escravidão através do contrato de servidão em proveito do vencido na guerra que poderia ser morto, mas
assume o ónus de servir em troca de viver, ou seja, a questão da escravidão não é relevante no seu pensamento, Locke não defende a
escravidão fundada em raça, mas sim, somente no contrato com o vencido na guerra.
Este autor contribuiu mesmo para a formalização jurídica da escravidão no estado da província da Carolina no EUA, cuja norma
Constitucional dizia “todo o homem livre da Carolina deve ter absoluto poder e autoridade sobre os escravos negros seja qual for a opinião e
religião”.
Em relação a estes factos, não podemos deixar de levar em conta o período histórico em que Locke se encontrava, ou seja, na época a
escravidão era prática comum e reiterada, assim, esta ideia classificava-o como um homem da época.
Temos também que salientar, que a defesa da escravidão não está ligada à grande ideia política central, que une este autor a outros
liberais clássicos: “os direitos naturais do ser humano”. É de referir que a longa trajectória do liberalismo teve o exacto início com Jonh
Locke, e que é notório que as ideologias mudam bastante com o tempo e com as gerações posteriores, é obvio que o liberalismo por si não
detém nenhum vínculo com a defesa da escravidão.

3
Locke pode ser considerado como o marco da democracia liberal com a importância dada pelo seu pensamento à ideia de tolerância,
sendo que o que estava em jogo era a tolerância religiosa, contra os abusos do absolutismo. Todavia o seu pensamento chega aos dias de
hoje, pelo sucesso das democracias liberais que se baseiam nos valores da liberdade e da tolerância, estes valores, são a base dos direitos
humanos como até hoje estão previstos pelas cartas de direitos, assim, podemos afirmar que os valores defendidos por este autor, são até
hoje a base da democracia moderna.
4
Não distinguindo que fosse a escravidão relativa aos negros

2
THOMAS HOBBES, nasceu em 5 de Abril de 1588 em Inglaterra, tendo falecido em 4 de Dezembro de
1679 em Inglaterra. Este autor possui a sua escola no cartesianismo, no mecanicismo e no nominalismo.
Teve como principais interesses, a política, o direito, a filosofia política, a ciência política e a teoria do
conhecimento. As suas ideias mais notáveis, foram o estado da natureza, o contrato social, a soberania e
a bellum omnia omnes.

Thomas Hobbes, na sua obra Leviatã5, explanou os seus pontos de vista sobre a natureza humana e sobre a necessidade da existência de
governos e sociedades. “No estado natural, enquanto que alguns homens possam ser mais fortes ou mais inteligentes do que outros,
nenhum se ergue tão acima dos demais por forma a estar além do medo de que outro homem lhe possa fazer mal”, assim, cada um de nós
tem direito a tudo, e uma vez que todas as coisas são escassas, existe uma constante guerra de todos contra todos6. No entanto o homem
possui um desejo, que é também em interesse próprio, o de acabar com a guerra, e por isso forma sociedades entrando num contrato
social7.
De acordo com Hobbes, tal sociedade necessita de uma autoridade à qual todos os membros devem render o suficiente da sua liberdade
natural, para que a autoridade possa assegurar a paz interna e a defesa comum. Este soberano quer seja um monarca ou uma assembleia,
deveria ser o Leviatã uma autoridade inquestionável
Para Hobbes, os homens só podem viver em paz se concordarem em submeter-se a um poder absoluto e centralizado, ou seja, a Igreja
cristã e o estado cristão formavam um mesmo corpo, encabeçado pelo monarca, que teria o direito de interpretar as Escrituras, decidir
questões religiosas e presidir o culto, criticando mesmo a livre interpretação da bíblia na reforma protestante, uma vez que essa ideia iria
enfraquecer de certa forma o monarca.
Hobbes e o pensamento político
Hobbes quis fundar a sua filosofia política sobre uma construção racional da sociedade, que
permitisse explicar o poder absoluto dos soberanos. Mas as suas teses, publicadas ao longo dos
anos, e apresentadas na sua forma definitiva no Leviatã, de 1651, não foram bem aceites, nem
por aqueles que, como Jaime I defendiam que «o que diz respeito ao mistério do poder real não
devia ser debatido», nem pelo clero anglicano, que já em 1606 tinha condenado aqueles que
defendiam «que os homens erravam pelas florestas e nos campos até que a experiência lhes
ensinou a necessidade do governo.»

5
Teoria política onde mantém no essencial as ideias das suas duas obras anteriores “Os elementos da lei” e “Do cidadão” – obras em que
tratou a questão das relações entre a igreja e o Estado.
6
Bellum omnia omnes
7
Ideia desenvolvida por Jean-Jaques Rousseau

2
A justificação de Hobbes para o poder absoluto é estritamente racional e friamente utilitária,
completamente livre de qualquer tipo de religiosidade e sentimentalismo, negando
implicitamente a origem divina do poder.
O que Hobbes admite é a existência do pacto social. Esta é a sua originalidade e novidade.
Hobbes não se contentou em rejeitar o direito divino dos soberanos, fez tábua rasa de todo o
edifício moral e político da Idade Média. A soberania era para Hobbes a projecção no plano
político de um individualismo filosófico ligado ao nominalismo, que conferia um valor absoluto à
vontade individual. A conclusão das deduções rigorosas do pensador inglês era o gigante
Leviatã, dominando sem concorrência a infinidade de indivíduos, de que tinha feito parte
inicialmente, e que tinham substituído as suas vontades individuais à dele, para que, pagando o
preço da sua dominação, obtivessem uma protecção eficaz. Indivíduos que estavam
completamente entregues a si mesmos nas suas actividades normais do dia-a-dia.
Infinidade de indivíduos, porque não se encontra em Hobbes qualquer referência nem à célula
familiar, nem à família alargada, nem tão-pouco aos corpos intermédios existentes entre o
estado e o indivíduo, velhos resquícios da Idade Média. Hobbes refere-se a estas corporações no
Leviatã, mas para as criticar, considerando-as «pequenas repúblicas nos intestinos de uma
maior, como vermes nas entranhas de um homem natural». Os conceitos de «densidade social»
e de «interioridade» da vida religiosa ou espiritual, as noções de sociabilidade natural do
homem, do seu instinto comunitário e solidário, da sua necessidade de participação, são
completamente estranhos a Hobbes.
É aqui que Hobbes se aproxima de Maquiavel e do seu empirismo radical, ao partir de um
método de pensar rigorosamente dedutivo. A humanidade no estado puro ou natural era uma
selva. A humanidade no estado social, constituído por sociedades civis ou políticas distintas, por
estados soberanos, não tinha que recear um regresso à selva no relacionamento entre
indivíduos, a partir do momento em que os benefícios consentidos do poder absoluto, em
princípio ilimitado, permitiam ao homem deixar de ser um lobo para os outros homens.
Aperfeiçoando a tese de Maquiavel, Hobbes defende que o poder não é um simples fenómeno de
força, mas uma força institucionalizada canalizada para o direito (positivo), - «a razão em acto»
de R. Polin - construindo assim a primeira teoria moderna do Estado.
Deste Estado, sua criação, os indivíduos não esperam a felicidade mas a Paz, condição
necessária à prossecução da felicidade. Paz que está subordinada a um aumento considerável
da autoridade - a do Soberano, a da lei que emana dele.
Mas, mesmo parecendo insaciável, esta invenção humana com o nome de um monstro bíblico,
não reclama o homem todo. De facto, em vários aspectos o absolutismo político de Hobbes
aparece como uma espécie de liberalismo moral. Hobbes mostra-se favorável ao
desenvolvimento, sob a autoridade ameaçadora da lei positiva, das iniciativas individuais
guiadas unicamente por um interesse individual bem calculado, e por um instinto racional
aquisitivo.

2
DAVID HUME, nasceu em 8 de Maio de 1711 na Escócia, tendo falecido em 25 de Agosto de 1776 na
Escócia. Este autor possui a sua escola no empirismo e no iluminismo. Teve como interesses principais, a
teoria do conhecimento, a epistemologia, a ética, a estética, a teologia, a política, a história e a
economia. As suas ideias mais notáveis, foram o cepticismo radical, o problema da indução, o utilitarismo
moral, a refutação do princípio da causalidade e do livre arbítrio.

O legado de Hume, através do seu pensamento, possui ainda uma relevância extraordinária na filosofia actual, com imensa influência em
certas matérias da filosofia:

A causalidade

“Quando um evento provoca um outro evento, a maioria das pessoas pensa que estamos conscientes de uma conexão entre os dois, que
faz com que o segundo siga o primeiro”

Hume questionou esta crença, salientando que se é obvio que nos apercebamos da existência de dois eventos, não temos necessariamente
de aperceber a conexão entre os dois.

Então como havemos nós de nos aperceber desta misteriosa conexão através da nossa percepção?

Hume, negou que possamos fazer qualquer ideia de causalidade que não através do seguinte: “Quando vemos que dois eventos sempre
ocorrem conjuntamente, tendemos a criar uma expectativa de que quando o primeiro ocorre, o segundo se seguirá. Assim, esta conjunção
constante e a expectativa dela são tudo o que podemos saber da causalidade e tudo o que a nossa ideia de causalidade pode inferir. Uma
tal concepção, rouba à causalidade a sua força e alguns “Humeanos” posteriores, como Bertrand Russel, desmentiram a noção de
causalidade no geral como algo parecido com a superstição.

A justificação da nossa crença numa conexão causal e o tipo de conexão que podemos perceber, são problemas que não reúnem uma
solução unânime, assim, a perspectiva de Hume parece ser que nós temos uma crença na causalidade semelhante a um instinto, que se
baseia no desenvolvimento dos hábitos na nossa mente. Uma crença que não pode ser eliminada mas que também não pode ser provada
verdadeiramente por nenhum argumento, quer dedutivo ou indutivo, tal como na questão da nossa crença na realidade do mundo exterior.

2
Da indução
Todos nós cremos que o passado é um guia confiável para o futuro. Por exemplo: as leis da física descrevem como as órbitas celestes
funcionam para a descrição do comportamento planetário até aos dias de hoje. Desse modo presumimos que vão funcionar para a descrição
no futuro também. Mas como podemos justificar esta presunção, o princípio da indução?
Hume sugeriu duas justificações possíveis e rejeitou ambas. A primeira justificativa avançada por Hume é que por razões de necessidade
lógica, o futuro tem de ser semelhante ao passado. Porém, Hume nota que podemos conceber um mundo errático e caótico onde o futuro
não tem nada que ver com o passado ou então, mais submissamente, um mundo tal como o nosso até ao presente, até que certo ponto as
coisas mudam completamente.
A segunda justificação, mais modestamente, apela apenas para a segurança passada da indução: sempre funcionou assim, por isso é
provável que continue a funcionar. No entanto, como Hume lembrou, esta justificação apenas usa um raciocínio circular, justificando a
indução por um apelo que requer a indução para ter efeito.
O problema da indução ainda permanece. A visão de Hume parece ser que nós (como outros animais) temos uma crença instintiva que o
nosso futuro será semelhante ao passado, com base no desenvolvimento de hábitos do nosso sistema nervoso. Uma crença que não
podemos eliminar mas que não podemos provar ser verdadeira por qualquer tipo de argumento, dedutivo ou indutivo, tal como é o caso
com respeito à nossa crença na realidade do mundo exterior.
A teoria empacotada do Eu
Costumamos pensar que somos a mesma pessoa que éramos à 5 anos atrás. Apesar de termos mudado em muitos aspectos, a mesma
pessoa está presente tal como estava presente no passado. Podemos começar a pensar sobre os aspectos que se podem alterar sem que o
próprio (indivíduo) subjacente mude. Hume, no entanto, nega que exista uma distinção entre os vários aspectos de uma pessoa e o
indivíduo misterioso que supostamente transporta todas estas características.
Porque no fundo, como Hume afirma, quando se começa a introspecção, notamos um grupo de pensamentos e sentimentos e percepções e
tudo isso, mas nunca nos apercebemos de uma substância à qual possamos chamar "o Eu". Por isso, tanto quanto podemos dizer, conclui
Hume, “não há nada relativamente ao Eu que esteja acima de um grande pacote de percepções transitórias”. De notar que, na perspectiva
de Hume, não há nada ao qual estas percepções pertencem. Pelo contrário, Hume compara a alma ao povo de uma nação (commonwealth),
que retém a sua identidade não em virtude de uma substância básica permanente, mas que é composto de muitos elementos relacionados
mas em permanente mutação. A questão da identidade pessoal torna-se assim uma questão de caracterizar a coesão frouxa da experiência
pessoal vivida.
A razão prática: Instrumentalismo e Niilismo
A maioria de nós pensa que certos comportamentos são mais razoáveis do que outros. Parece haver qualquer coisa de abstruso em, por
exemplo, comer uma folha de alumínio. Mas Hume negou que a razão tivesse algum papel importante em motivar ou desencorajar o
comportamento. No fundo, a razão é apenas uma espécie de calculador de conceitos e experiência. O que no fundo importa, diz Hume, é
como nos sentimos em relação a esse comportamento. O seu trabalho gerou a doutrina do instrumentalismo, que declara que uma acção é
razoável somente se ela servir os objectivos e desejos do agente, quaisquer que estes sejam. A razão pode entrar neste esquema apenas
como um servo, informando o agente de fatos úteis relativos às acções que servem aos seus objectivos e desejos, mas nunca
condescendendo a dizer ao agente quais objectivos e desejos que ele deverá ter.
Assim, se quiseres comer uma folha de alumínio, a razão te dirá onde encontrar uma folha de alumínio, e não haverá nada de irracional em
a comer ou em o desejar. O instrumentalismo passará a ser uma visão ortodoxa da razão prática em economia, teoria das escolhas
racionais e algumas outras ciências sociais. Mas alguns comentadores argumentam que Hume foi mais além do niilismo, e disse que não há
nada de irracional em deliberadamente frustrar os seus próprios objectivos e desejos ("eu quero comer uma folha de alumínio, por isso
deixa-me selar a minha boca"). Tal comportamento seria altamente irregular, tirando qualquer papel à razão, mas não seria contrário à
razão, que é impotente em fazer julgamentos neste domínio.
Anti-realismo moral e motivação
No seu ataque ao papel da razão no julgamento do comportamento, Hume argumentou que o comportamento imoral não é imoral por ser
contra a razão. Ele primeiro defendeu que as crenças morais estão intrinsecamente motivantes: se acreditares que matar é errado, então
estarás motivado "ipso facto" a não matar e em criticar a matança. Ele lembra-nos de seguida que a razão por si só não motiva ninguém: a
razão descobre os factos e a lógica, mas ela depende dos nossos desejos e preferências quanto à percepção daquelas verdades e se isso
nos motiva. Consequentemente, a razão por si não produz crenças morais. Hume propôs que a moralidade depende ultimamente do

2
sentimento, sendo o papel da razão apenas o de preparar o caminho para os nossos sensíveis julgamentos por análise da matéria moral em
questão.
Este argumento contra os fundamentos da moralidade na razão é hoje um dos argumentos pertencentes ao arsenal do anti-realismo moral;
o filósofo Humeano John Mackie argumentou que “para os factos morais serem factos reais sobre o mundo e ao mesmo tempo,
intrinsecamente motivantes, eles teriam de ser factos muito estranhos”. Temos pois todos os motivos para desacreditá-los.
Livre arbítrio vs. Indeterminismo
Todos nós já notamos o aparente conflito entre o livre arbítrio e o determinismo: se as nossas acções foram determinadas há milhões de
anos, como poderá ser que elas dependam de nós? Mas Hume, notou um outro conflito, que torna o problema da livre vontade num denso
dilema: a livre vontade é incompatível com o indeterminismo. Imagine que as suas acções não são determinadas pelos eventos
precedentes, nesse caso, as suas acções serão completamente aleatórias. Em adição, e muito importante para Hume, as acções não são
determinadas pelo seu carácter, as suas preferências, os seus valores, etc. Como é que alguém pode ser responsável pelo seu carácter? A
livre vontade parece requerer o determinismo, porque senão o agente e a acção não estariam conectados do modo necessário por acções
livremente escolhidas.
Sendo assim, quase todos nós acreditamos no livre arbítrio, a livre vontade parece inconsistente com o determinismo, mas a livre vontade
parece requerer o determinismo.
Na visão de Hume, o comportamento humano, como tudo o mais, é causado (causal). Por isso mesmo, se tomamos as pessoas como
responsáveis pelas seus actos, devemos focar a recompensa ou a punição de forma a que eles façam aquilo que é moralmente desejável e
evitem aquilo que é moralmente repreensível.
Razão e sentimento
Segundo Hume, a razão não é antagónica aos sentimentos do qual as duas são intimamente ligadas por associações. De tal maneira que a
primeira, ligados por associações de causa e efeito só tomam sentido quanto estes são ligados pelas paixões.
O problema do ser - dever ser
Hume notou que muitos escritores falam do que deve ser, na base de enunciados acerca do que é. Mas parece haver uma grande diferença
entre enunciados descritivos (o que é) e enunciados prescritivos (o que deveria ser). Hume apela aos escritores que tomem muito cuidado
na mudança do enunciado de um estado para o outro. Nunca sem se dar uma explicação de como o enunciado "deve ser" é suposto seguir
ao enunciado "é". Mas como exactamente é que se pode derivar o "deve" de um "é" ? Essa questão, colocada num pequeno parágrafo de
Hume, tornou-se uma das questões centrais da teoria da ética e costuma ser atribuída a Hume a opinião de que tal derivação é impossível.
(Outros interpretam Hume dizendo que não se pode ir de uma constatação factual a um enunciado ético, mas que se pode fazer sem
atender à natureza humana, isto é, sem prestar atenção aos sentimentos humanos).
G.E. Moore, defendeu uma posição similar com a seu "argumento da questão aberta", que pretendia refutar qualquer identificação de
propriedades morais com propriedades naturais: a chamada "falácia naturalista". Qualquer teórico ético que pretender dar à moralidade um
fundamento objectivo em aspectos mais mundanos da vida real está a lutar por uma causa controversa, no mínimo.
Utilitarismo
Foi provavelmente Hume quem, juntamente com os seus colegas do Iluminismo escocês, avançou pela primeira vez a ideia de que a
explicação dos princípios morais deverá ser procurada na utilidade que eles tendem a promover. O papel de Hume não deverá ser descrito
com exagero, claro; foi o seu compatriota Francis Hutcheson que cunhou o slogan utilitarista "a maior felicidade para o maior número". Mas
foi através da leitura do "Tratado" de Hume que Jeremy Bentham sentiu pela primeira vez a força do sistema utilitário: ele "sentiu como se
escamas tivessem caído dos seus olhos". No entanto, o "proto utilitarismo" de Hume é muito peculiar, da nossa perspectiva. Ele não pensa
que a agregação de unidades cardinais de utilidade será a fórmula para atingir a verdade moral.
Pelo contrário, Hume era um sentimentalista moral e, como tal, achava que princípios morais não podem ser justificados intelectualmente.
Alguns princípios simplesmente são-nos apelativos e outros não o são. E a razão porque princípios utilitaristas da moral são apelativos é que
eles promovem os nossos interesses e os dos nossos companheiros com os quais simpatizamos.
Os humanos são pouco flexíveis a aprovar coisas que ajudam a sociedade-utilidade pública. Hume usou este dado para explicar como ele
avaliava um vasto campo de fenómenos, desde instituições sociais e políticas governamentais até traços de carácter e talentos.

O problema dos milagres

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Uma forma de apoiar a religião é por apelo a milagres. Mas Hume argumentou que no mínimo, os milagres não poderiam conferir muito
apoio à religião. Há vários argumentos sugeridos pelo ensaio de Hume, todos eles à volta do seu conceito de milagre: nomeadamente a
violação por Deus das leis da Natureza. Um argumento é o de que é impossível violar as leis da Natureza. Outro argumento afirma que o
testemunho humano nunca poderia ser suficientemente fiável para contra-ordenar a evidência que temos das leis da Natureza. Outro
argumento, menos irredutível, mais defensável, é que devido à forte evidência que temos das leis da natureza, qualquer pretensão de
milagre está sobre pressão desde o início e precisa de provas fortes para derrotar as nossas expectativas iniciais. Este ponto tem sido
aplicado sobretudo na questão da ressurreição de Jesus, onde Hume sem dúvida perguntaria "o que é que é mais provável ? que um homem
se erga dos mortos ou que este testemunho esteja incorrecto de uma forma ou de outra ?". Ou mais suavemente, "o que é mais provável ?
que o Uri Geller pode realmente fazer dobrar colheres com a sua mente ou que isso seja algum tipo de truque ?". Este argumento é a base
do movimento céptico e um assunto fundamental aos históricos da religião.
O argumento teleológico
Um dos argumentos mais antigos e populares para a existência de Deus é o argumento teleológico - que toda a ordem e "objectivo" do
mundo evidencia uma origem divina. Hume usou o criticismo clássico do argumento teleológico, e apesar do assunto estar longe de estar
esgotado, muitos estão convencidos de que Hume resolveu a questão definitivamente. Aqui alguns dos seus pontos:
1. Para o argumento teleológico funcionar, seria necessário que só nos pudéssemos aperceber de ordem quando essa ordem resulta do
desígnio (criação). Mas nós vemos "ordem" constantemente, resultante de processos presumivelmente sem consciência, como a
geração e a vegetação. O desígnio (criação) diz apenas respeito a uma pequena parte da nossa experiência de "ordem" e
"objectivo".
2. O argumento do desígnio, mesmo que funcionasse, não poderia suportar uma robusta fé em Deus. Tudo o que se pode esperar é a
conclusão de que a configuração do universo é o resultado de algum agente (ou agentes) moralmente ambíguo, possivelmente não
inteligente, cujos métodos possuam alguma semelhança com a criação humana.
3. Pelos próprios princípios do argumento teleológico, a ordem mental de Deus e a funcionalidade necessitam de explicação. Senão,
podemos considerar a ordem do universo, etc, inexplicada.
4. Muitas vezes, o que parece ser objectivo, onde parece que o objecto X tem o aspecto A de forma a assegurar o fim F, é melhor
explicado pelo processo da filtragem: ou seja, o objecto X não existiria se não possuísse o aspecto A, e o fim F é apenas interessante
para nós. Uma projecção humana de objectivos na natureza. Esta explicação mecânica da teleologia antecipou a selecção natural.
Influência de Hume na constituição estadunidense
Como Douglass Adair sugeriu, o livro de David Hume, "Essays, Moral, Political and Literary" terá influenciado directamente James Madison
na formulação da Constituição Americana. No ensaio ali contido "Idea of a Perfect Commonwealth", Hume refuta a ideia de Montesquieu de
que uma grande nação está condenada a ser corrupta e ingovernável. Pelo contrário, afirma Hume, uma nação extensa pode ser, devido à
sua diversidade geográfica e socioeconómica, bem mais estável do que nações pequenas. Hume escreve: "Apesar de as pessoas como um
órgão serem incapazes de governar, caso elas se dispersarem em pequenas unidades (tais como colónias individuais ou estados) elas são
mais susceptíveis de se submeter à razão e à ordem; a força das correntes populares (populismo) e marés é, em grande medida, quebrada".
A elite conspiradora necessitará de passar mais tempo a coordenar os movimentos das várias partes do todo, do que a planear o derrube.
"Ao mesmo tempo, as partes estão tão distantes e remotas que é muito difícil, seja por intriga ou paixão, levá-las a tomar medidas contra o
interesse público." James Madison, que estudara em Princeton, e ali tinha tomado contacto com a obra de Hume, incorporou esta visão no
seu "Notes on the Confederacy", publicado em Abril de 1787, 8 meses antes de ele ter escrito o ensaio defendendo a Constituição, como
parte dos "Federalist Papers”.

2
CHARLES DE MONTESQUIEU, nasceu 18 de Janeiro de 1689 em França, tendo falecido em 10 de
Fevereiro de 1755 em França. Este autor possui a sua escola no iluminismo. Teve como interesses
principais, a política, a história, a economia e a sociologia. As suas ideias mais notáveis, foram o espírito
das leis.

Montesquieu8, defendia a divisão do poder em três: o poder executivo (órgão responsável pela administração do território e concentrado nas
mãos do monarca ou regente); o poder legislativo (órgão responsável pela elaboração das leis, representado pelas câmaras de
parlamentares); e o poder judicial (órgão responsável pela fiscalização do cumprimento das leis e exercido por juízes e magistrados).

Obras, crítica e filosofia de Montesquieu

 Cartas Persas:
Estas foram publicadas em 1721, obra da sua juventude, que consistia num relato imaginário, sob a forma epistolar, sobre a visita de dois
persas, “Rica e Usbeck” a paris durante o reinado de Luís XIV, estas duas personagens escreveram para os seus amigos na Pérsia
descrevendo tudo o que viam em Paris, sendo que, através desta narrativa criticam os costumes, as instituições políticas e os abusos da
igreja católica e do estado Absolutista na França da época.

 O espírito das leis9:


Foi a sua obra mais famosa, tratava-se de uma teoria política inspirada em Jonh Locke e no seu estudo das instituições políticas inglesas.
Obra bastante volumosa, na qual se discute a respeito das instituições, das leis e busca-se compreender as diversas legislações existentes

8
Era a favor da monarquia constitucional
9
L’Esprit des lois - 1748

2
em diferentes lugares e épocas. Esta obra inspirou mesmo os legisladores da Constituição de 179110, e tornou-se fonte das doutrinas
Constitucionais Liberais, que repousam na separação dos poderes legislativo, executivo e judicial.
Esta obra foi proibida em diversos círculos intelectuais e também incluída no Index Librorum Prohibitorum11 da igreja católica, tendo sido
também duramente recriminada pelo Clero francês, na Sobonne e em diversos artigos, panfletos e outros escritos. Mas, toda essa reacção
negativa deu a esta obra uma maior abrangência e repercussão que a que havia sido conseguido pela “Cartas Persas”
O Espírito das Leis, analisa de maneira extensa e profunda os factos humanos com um rigoroso esboço de interpretação do mundo histórico,
social e político, a pertinência das observações e a preocupação com o método permitem encontrar no seu trabalho elementos que
prenunciam uma análise sociológica.

Algumas das principais ideias de Montesquieu expressas nesta obra tão importante

 “As leis escritas ou não, que governam os povos não são fruto do capricho ou do arbítrio de quem as legisla. Ao contrário, decorrem
da realidade social e da história concreta própria ao povo considerado. Não existem leis justas ou injusta, o que existe são leis mais ou
menos adequadas a um determinado povo e a uma determinada circunstância de época e lugar. O autor procura estabelecer a relação das
leis com as sociedades ou ainda, com o espírito daquelas.

O princípio (o que põe os governos em movimento, ou em linguagem filosófica, o princípio motor, que é constituído pelas paixões e
necessidades dos homens) e a natureza (aquilo que faz um governo ser o que é, determinado pela quantidade daqueles que detêm a
soberania) de um governo, Montesquieu descreve-os como sendo o espírito geral de uma sociedade.

Montesquieu com base nestas duas características, distingue três formas de governo:
• Monarquia, a soberania nas mãos de uma só pessoa (o monarca) segundo leis positivas, sendo o seu princípio, a honra.
• Despotismo, a soberania encontrasse também nas mãos de uma só pessoa (o déspota12) segundo a vontade deste e o seu princípio é
o medo
• República, a soberania está nas mãos de muitos (de todos = democracia ou de alguns = a aristocracia 13) e o seu princípio motor é a
virtude

Ao procurar descobrir as relações que as leis têm com a natureza e o princípio de cada governo, Montesquieu desenvolve uma alentada
teoria de governo que alimenta as ideias fecundas do constitucionalismo, pelo qual se busca distribuir a autoridade por meios legais, de
modo a evitar a violência e o abuso de poder de alguns. Tais ideias encaminham-se para uma melhor definição da separação de poderes,
ainda hoje uma das pedras angulares do exercício do poder democrático. Montesquieu admirava a constituição inglesa, mesmo sem
compreendê-la completamente, e descreveu cuidadosamente a separação de poderes em Executivo, Judiciário e Legislativo, trabalho que
influenciou os elaboradores da Constituição dos Estados Unidos da América14.

10
Proclamação da Constituição Francesa de 1791, em Setembro de 1791 foi proclamada a primeira Constituição Francesa que resumia as
realizações da revolução – 1789 e 1799
11
“Lista dos livros proibidos”, foi uma lista de publicações proibidas pela igreja católica, tendo como objectivo inicial, reagir contra o
protestantismo, criado em 1559 no concílio de Trento (1545 – 1563), e ficou sob a administração da Inquisição ou Santo Oficio
12
Qualificação dada à pessoa que governa de forma arbitrária ou opressora
13
É uma forma de governo na qual o poder político é dominado por um grupo elitista
14
É a lei fundamental do país, a constituição estabelece a forma federal do Estado, os órgãos de poder, as suas competências e forma de
funcionamento. Foi discutida e aprovada pela Convenção Constitucional de Filadélfia - na Pensilvânia, entre 25 de Maio e 17 de Setembro de
1787. Naquele ano os Estados Unidos aprovaram a sua primeira e, até hoje, única Constituição. A Constituição exprime um meio-termo
entre a tendência estadista defendida por Thomas Jefferson, que queria grande autonomia política para os Estados membros da federação,
e a tendência federalista que lutava por um poder central forte. O Presidente dos Estados Unidos é eleito pelo período de quatro anos pelos

2
O poder legislativo, convocado pelo executivo, deveria ser separado em duas casas: o corpo dos comuns, composto pelos representantes do
povo, e o corpo dos nobres, formado por nobres, hereditário e com a faculdade de impedir (vetar) as decisões do corpo dos comuns. Essas
duas casas teriam assembleias e deliberações separadas, assim como interesses e opiniões independentes. Reflectindo sobre o abuso do
poder real, Montesquieu conclui que "é preciso que o poder limite o poder" daí a necessidade de cada poder manter-se autónomo e
constituído por pessoas e grupos diferentes.
É bem verdade que a proposta da divisão de poderes ainda não se encontra em Montesquieu com a força que se costumou posteriormente
a atribuir-lhe. Em outras passagens de sua obra, ele não defende uma separação tão rígida, pois o que ele pretendia de fato era realçar a
relação de forças e a necessidade de equilíbrio e harmonia entre os três poderes.
Montesquieu não era um revolucionário. Sua opção social ainda era por sua classe de origem, a nobreza. Ele sonhava apenas com a
limitação do poder absoluto dos reis, pois era um conservador, que queria a restauração das monarquias medievais e o poder do Estado nas
mãos da nobreza. As convicções de Montesquieu reflectem-se à sua classe e portanto aproximam-no dos ideais de uma aristocracia liberal.
Ou seja, ele critica toda a forma de despotismo15, mas não aprecia a ideia de o povo assumir o poder. A sua crítica, no entanto, serviu para
desencadear a Revolução Americana e instaurar a república burguesa.

 Das leis e suas relações com diversos seres:


A lei é natural dos seres e própria deles, a lei deriva da natureza das coisas e não do arbítrio (vontade) de um, assim, Montesquieu foi o
proclamador do Direito em virtude, e com a sua formação e inteligência propôs divisões para o direito na sua essência principal, que nada
mais é que do que prender-se à igualdade e liberdade de cada cidadão.

 O juiz não pode criar leis:


Como já foi supra mencionado, "o Espírito das Leis" de Montesquieu defende a divisão do poder público em três poderes, inspirado no
sistema político constitucional da Inglaterra quando de sua viagem. Essa separação, segundo o autor, é essencial para que haja a liberdade
do cidadão em se sentir seguro perante o Estado e perante outro cidadão, pois se fosse dado a mais de um desses poderes o poder de
legislar e ao mesmo tempo julgar, essa medida seria extremamente autoritária e arbitrária perante o cidadão que estaria praticamente
indefeso, ou seja, estaria à mercê de um juiz legislador.
Montesquieu diz claramente que: "Não haverá também liberdade se o poder de julgar não estiver separado do poder legislativo e do
executivo, não existe liberdade, pois pode-se temer que o mesmo monarca ou o mesmo senado apenas estabeleçam leis tirânicas para
executá-las tiranicamente". Ainda completa: "O poder de julgar não deve ser outorgado a um senado permanente, mas exercido por
pessoas extraídas do corpo do povo, num certo período do ano, de modo prescrito pela lei, para formar um tribunal que dure apenas o
tempo necessário."

cidadãos eleitores num sistema em que os candidatos não ganham directamente pelo número absoluto de votos no país, mas dependem da
apurarão em cada Estado, que manda para uma espécie de segunda eleição votos em número proporcional a sua população para o
vencedor em seu território. Duas casas compõem o Congresso: a Câmara dos Representantes, com delegados de cada Estado na proporção
de suas populações; e o Senado, com dois representantes por Estado. O Congresso vota leis e orçamentos. O Senado vela principalmente
pela política exterior. Um Tribunal Supremo composto por juízes indicados pelo Presidente e aprovados pelo Senado resolve os conflitos
entre Estados e entre estes e a União, garantindo a supremacia da Constituição Federal em relação às Constituições estaduais e às leis do
país. A Constituição dos Estados Unidos prevê um sistema de alterações, por intermédio de Emendas, tendo ao longo dos anos sido
aprovadas um total de 27. As 10 primeiras são designadas por Bill of Rights por conterem os direitos básicos do cidadão face ao poder do
Estado. Não tendo sido consensual a sua inserção no texto original da Constituição, foram apresentadas depois da entrada em vigor da
Constituição.

15
É uma forma de governo em que o poder se encontra nas mãos de apenas um governante e os súbditos são tratados como escravos.

2
JEAN-JACQUES ROUSSEAU, nasceu em 28 de Junho de 1712 na Suíça, tendo falecido em 2 de Julho de
1778 na França. Este autor possui a sua escola no iluminismo, no romantismo e no contratualismo. Teve
como interesses principais, a política, a educação, a literatura, a música e a autobiografia. As suas ideias
mais notáveis, foram a visão de total liberdade no estado de natureza do homem, a vontade geral, a
educação centrada na criança, o amor-próprio, a soberania do povo e a liberdade positiva.

Defendia que todos os homens nascem livres, e a liberdade faz parte da natureza do homem, tendo inspirado todos os movimentos que
visavam uma busca pela liberdade, sendo de incluir nesses movimentos, as revoluções liberais, o marxismo, o anarquismo, etc…
Foi um dos grandes pensadores nos quais a Revolução Francesa16 se baseou, apesar de esta se apropriar erroneamente de muitas das suas
ideias.
Em virtude do seu romance “A Nova Heloisa” que o mostrou como defensor da moral e da justiça divina, mas apesar de era um
espiritualista e terá por isso e entre outras coisas, como principal inimigo Voltaire, que era outro grande iluminista. Na sua obra
“Confissões”, chega mesmo a responder a muitas acusações de Voltaire.
Ao nível político, expõe as suas ideias através do “Contrato Social”, que será falado mais à frente.

Os Grandes princípios da filosofia Rousseauniana


O estado de natureza humana17
“A definição da natureza humana é um equilíbrio perfeito entre o que se quer e o que se tem. O homem natural é um ser de sensações,
somente. O homem no estado de natureza deseja somente aquilo que o rodeia, porque ele não pensa e, portanto, é desprovido da
imaginação necessária para desenvolver um desejo que ele não percebe. Estas são as únicas coisas que ele poderia "representar". Então,
16
Acontecimentos entre 5 de Maio de 1789 e 9 de Novembro de 1799, sendo que estes acontecimentos alteraram o quadro político e social
da França. Esta revolução é considerada como o acontecimento que deu inicio à Idade Contemporânea, tendo abolido a servidão e os
direitos feudais e proclamou os princípios universais de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, tendo sido da autoria de Jean-Jacques
Rousseau a famosa frase – Liberté, Egalité, Fraternité.
17
Está descrito principalmente no seu livro “Discurso sobre a origem e fundamentos da desigualdade entre homens”

2
os desejos do homem no estado de natureza são os desejos de seu corpo. "Seus desejos não passam de suas necessidades físicas, os
únicos bens que ele conhece no universo são a alimentação, uma fêmea e o repouso".
Além disso, o homem natural não pode prever o futuro ou imaginar coisas além do presente. Em outras palavras, a natureza de si
corresponde perfeitamente ao exterior. No Ensaio, Rousseau sugere que o homem natural não é sequer capaz de se distinguir de outro ser
humano. Essa distinção requer a habilidade de abstracção que lhe falta. O homem natural também ignora o que é comum entre ele e um
outro ser humano. Para o homem natural, a humanidade pára no pequeno círculo de pessoas com quem ele está no momento. A compaixão
não poderia ser relevante fora do pequeno círculo, mas também essa ignorância não permitia a guerra, como os homens não se
encontravam com praticamente ninguém. Homens, se quisessem, atacavam em seus encontros, mas estes raramente aconteciam.
Até então, Rousseau toma posição contra a teoria do estado de natureza hobbesiano. O homem natural de Rousseau não é um "lobo" para
seus companheiros. Mas ele não está inclinado a se juntar a eles em uma relação duradoura e a formar uma sociedade com eles. Ele não
sente o desejo. Seus desejos são satisfeitos pela natureza, e a sua inteligência, reduzida apenas às sensações, não pode sequer ter uma
ideia do que seria tal associação. O homem tem o instinto natural, e seu instinto é suficiente. Esse instinto é individualista, ele não induz a
qualquer vida social. Para viver em sociedade, é preciso a razão ao homem natural. A razão, para Rousseau, é o instrumento que enquadra
o homem, nu, ao ambiente social, vestido. Assim como o instinto é o instrumento de adaptação humana à natureza, a razão é o instrumento
de adaptação humana a um meio social e jurídico.
É justamente a falta de razão que possibilita o homem a viver naturalmente: a razão, ou a imaginação que o permite considerar outro
homem como seu alter-ego (ou seja, como um ser humano também), a linguagem e a sociedade, tudo isso constitui a cultura, e não são
faculdades do estado de natureza. Mesmo assim, o homem natural já possui todas essas características; ele é anti-social, mas é sociável. O
homem é sociável, antes mesmo de socializar. Possui um potencial de sociabilidade que somente o contacto com algumas forças hostis
podem expor”.18

O amor e o ódio
Rousseau contribuiu de forma revolucionária sobre as ideias de amor e ódio: debateu a sexualidade como uma experiência fundamental na
vida do ser humano, a tomada de consciência da importância dos sentimentos de amor e ódio na construção da sociedade humana e no seu
desenvolvimento pessoal, e enfim, essa abertura para o debate moderno sobre a divisão do amor entre amor conjugal e amor passional.
Pode-se atribuir a Rousseau a tentativa de estabelecer, na sociedade do século XVIII, uma nova noção: “a de que a personalidade do
indivíduo, que concerne o tratamento que ele dá aos outros e a sua própria sexualidade, é formada na infância.”

O contrato social
Obra publicada em 1762, propõe que todos os homens façam um novo contrato social onde se defenda a liberdade do homem baseado na
experiência política das antigas civilizações onde predomina o consenso e dessa forma se garantam os direitos de todos os cidadãos, esta
obra é formada por quatro livros:
No primeiro livro “Onde se indaga como passa o homem do estado natural ao civil e quais são as condições essenciais desse pacto”,
composto de nove capítulos, mostra como acontece a passagem do homem natural ao civil e coloca os principais pontos essenciais para
que exista esse contrato. Primeiramente aborda a liberdade natural, nata, do ser humano, como ele a havia perdido, e como ele haveria de
a recuperar. Dessa forma, já no quarto capítulo, Rousseau condena a escravidão, como algo paradoxal ao direito. A conclusão é que,
recuperando a liberdade, o povo é quem escolhe os seus representantes e a melhor forma de governo faz-se por meio de uma convenção.
Essa convenção é formada pelos homens como uma forma de defesa contra aqueles que fazem o mal. É a ocorrência do pacto social. Feito
o pacto, pode-se discutir o papel do “soberano”, e como este deveria agir para que a soberania verdadeira, que pertence ao povo, não seja
prejudicada. Além de uma forma de defesa, na verdade o principal motivo que leva à passagem do estado natural para o civil é a
necessidade de uma liberdade moral, que garante o sentimento de autonomia do homem.
No segundo livro “Onde se trata da legislação”, o autor aborda os aspectos jurídicos do Estado Civil, em doze capítulos. As principais ideias
são desenvolvidas a partir de um princípio central, a soberania do povo, que é indivisível. O povo, então, tem interesses, que são nomeados
como “vontade geral”, que é o que mais beneficia a sociedade. Evidentemente, o “soberano” tem que agir de acordo com essa vontade, o
que representa o limite do poder de tal governante: ele não pode ultrapassar a soberania do povo ou a vontade geral.

18
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Jacques_Rousseau - 1 de Maio de 2010

2
No terceiro livro, que se refere às possíveis formas de governo, que são a democracia, a aristocracia e a monarquia, e as suas
características e princípios. A principal conclusão desse livro é a partir do oitavo capítulo, em que tipo de Estado e que forma de governo
funciona melhor – para Rousseau, a democracia é boa em cidades pequenas, a aristocracia em Estados médios e a monarquia em Estados
grandes. Em contrapartida a essas adequações, no capítulo décimo, o autor mostra como o abuso dos governos pode degenerar o Estado.
Ainda, é destacado
FRANÇOIS-MARIE AROUET, este possuía o pseudónimo de VOLTAIRE, nasceu em 21 de Novembro de
no capítulo nono
que o principal
1694 em Paris, tendo falecido em 30 de Maio de 1778 em Paris. Este autor era filósofo. As suas ideias
objectivo de uma mais notáveis, foram cândido ou O optimismo.
sociedade política
é a conservação da
propriedade de seus membros.
Observando as ideias contidas no livro O Contrato Social, não é difícil entender porque certas pessoas chamam a obra de “a Bíblia da
Revolução Francesa”. Foi grande a influência política das suas ideias na França. A inspiração causadora das revoluções baseia-se
principalmente no conceito da soberania do povo, mudando o direito da vontade singular do príncipe para a vontade geral do povo.

Voltaire foi um entre muitas figuras do iluminismo19, cujas obras e ideias influenciaram pensadores importantes tanto da revolução Francesa
coma Americana.
Este autor foi um pensador que se opôs à intolerância religiosa, intolerância de opinião e outras, existentes na Europa no período em que
viveu. Trata-se de ideias extremamente revolucionárias, que acabaram por fazer com que Voltaire fosse mesmo exilado do seu País de
origem, a França.
Para além de apoiar a liberdade de expressão, este também defendia a criação de leis para toda a população, sendo que o conjunto de
ideias de Voltaire constitui uma tendência de pensamento conhecida entre nós como “Liberalismo”20.
Voltaire foi um teórico sistemático, mas um propagandista e polemista, que atacou com veemência todos os abusos praticados pelo Antigo
Regime. Tinha a visão de que não importava o tamanho de um monarca, deveria, antes de punir um servo, passar por todos os processos
legais, e só então executar a pena, se assim consentido por lei. Se um príncipe simplesmente punisse e regesse de acordo com o seu bem-
estar, seria apenas mais um "salteador de estrada ao qual se chama de 'Sua Majestade'".
As ideias presentes nos escritos de Voltaire estruturam uma teoria coerente, que em muitos aspectos expressa a perspectiva do Iluminismo.
Defendia a submissão ao domínio da lei, baseava-se na sua convicção de que o poder devia ser exercido de maneira racional e benéfica.
19
Juntamente com John Locke e Thomas Hobbes
20
É uma doutrina baseada na defesa da liberdade individual, nos campos económico, político, religioso e intelectual, contra as ingerências e
atitudes coercitivas do poder estatal

2
Por ter convivido com a liberdade inglesa, não acreditava que um governo e um Estado ideais, justos e tolerantes fossem utópicos. Não era
um democrata, e acreditava que as pessoas comuns estavam curvadas ao fanatismo e à superstição. Para ele, a sociedade deveria ser
reformada mediante o progresso da razão e o incentivo à ciência e tecnologia. Assim, Voltaire transformou-se num perseguidor ácido dos
dogmas, sobretudo os da Igreja católica. Sobre essa postura, o catedrático de filosofia Carlos Valverde escreve um surpreendente artigo, no
qual documenta uma suposta mudança de comportamento do filósofo francês em relação à fé cristã, registada no tomo XII da famosa
revista francesa Correpondance Littérairer, Philosophique et Critique (1753-1793). Tal texto traz, no número de Abril de 1778, páginas 87-
88, o seguinte relato literal de Voltaire:
"Eu, o que escreve, declaro que havendo sofrido um vómito de sangue faz quatro dias, na idade de oitenta e quatro anos e não havendo
podido ir à igreja, o pároco de São Suplício quis de bom grado me enviar a M. Gautier, sacerdote. Eu confessei-me com ele, se Deus me
perdoava, morro
na santa religião BENJAMIN CONSTANT, nasceu em 25 de Outubro de 1767 em Lausana (Suiça), tendo falecido em 8 de
católica em que Dezembro de 1830 em Paris. Este autor foi um pensador, escritor e político francês, Foi activo nas
nasci esperando a políticas Francesas como um publicitário e político durante a segunda metade da Revolução Francesa
misericórdia divina entre 1815 e 1830. Ficou conhecido como eloquente orador e um líder da oposição que era conhecida
que se dignará a
como “os independentes”. Escreveu “Sobre a liberdade dos Antigos Comparada com a dos Modernos”.
perdoar todas
minhas faltas, e
que se tenho
escandalizado a Igreja, peço perdão a Deus e a ela. Assinado: Voltaire, 2 de Março de 1778 na casa do marquês de Villete, na presença do
senhor abade Mignot, meu sobrinho e do senhor marquês de Villevielle. Meu amigo."
Este relato foi reconhecido como autêntico por alguns, pois estaria confirmado por outros documentos que se encontram no número de
Junho da mesma revista, esta de cunho laico, decerto, uma vez que editada por Grimm, Diderot e outros enciclopedistas. Já outros
questionam a necessidade de alguém que já acredita em Deus ter que converter-se a uma religião específica, como o catolicismo.
Voltaire morreu em 30 de maio de 1778. A revista exalta-lhe como "o maior, o mais ilustre e talvez o único monumento desta época
gloriosa em que todos os talentos, todas as artes do espírito humano pareciam haver se elevado ao mais alto grau de sua perfeição".
Voltaire introduziu várias reformas na França, como a liberdade de imprensa, um sistema imparcial de justiça criminal, tolerância religiosa,
tributação proporcional e redução dos privilégios da nobreza e do clero.

Benjamin Constant, foi bastante activo nas políticas francesas como publicitário e político durante a segunda metade da Revolução
Francesa21 e entre 1815 e 1830. Durante parte dessa segunda metade, ele teve assento na Assembleia Nacional Francesa, tendo sido um
dos mais eloquentes oradores e um líder da oposição22.
Escreveu "Sobre a Liberdade dos Antigos Comparada com a dos Modernos" em 1819, em que contrapunha a liberdade dos indivíduos em
relação ao Estado ("liberdade de") da liberdade dos indivíduos no Estado ("liberdade em"). Um autor liberal, mais na tradição anglo-saxã do
21
Ver Jonh Locke
22
Conhecida como os Independentes (de esquerda-liberal)

2
que na francófona, ele olhou para a Inglaterra mais do que para Roma antiga visando um modelo prático de liberdade numa sociedade
comercial de proporções imensas. Constant criou uma distinção entre a "Liberdade dos Antigos" e a "Liberdade dos Modernos". A liberdade
dos antigos era participadora, uma liberdade republicana, a qual dava aos cidadãos o direito de influenciar directamente as políticas por
debates e votos em assembleia pública. Para poder suportar esse nível de participação e cidadania era necessária uma obrigação moral
pesada que requeria um considerável investimento temporal e energético. Geralmente, isso requeria uma sub-sociedade de escravos para
fazer muito do trabalho produtivo, deixando os cidadãos livres para deliberar em questões públicas. A Liberdade dos antigos também era
limitada para sociedades relativamente pequenas e homogéneas, nas quais o povo podia reunir-se convenientemente num local para tratar
de questões públicas.
A Liberdade dos Modernos, em contraste, era baseada na possessão de liberdades civis, na regência da Lei, e na liberdade de muita
interferência estatal. A participação directa seria limitada: uma consequência necessária do tamanho dos estados modernos, e também do
resultado inevitável de se ter criado uma sociedade comercial na qual não há escravos mas quase todos têm de ganhar algo em troca de
trabalho. Assim, diferente da primeira os votantes elegeriam representantes, que deliberariam no Parlamento baseados na vontade popular
e salvariam o povo da necessidade de envolvimento político diário.
Cada vez mais, Constant acreditava que no mundo moderno o comércio era superior à guerra. Ele atacou o apetite marcial de Napoleão nos
campos de batalha, alegando não ser liberal e por isso não cabia mais para uma organização social comercial moderna seguir desta
maneira. A Liberdade dos antigos tendia a ser guerreadora, porém um estado organizado pelos princípios da Liberdade dos Modernos
estaria em paz com todas as nações pacíficas.
A distinção entre a Liberdade dos Antigos e a Liberdade dos Modernos é significante de inúmeras maneiras. Primeiramente, a França tentou
replicar a Liberdade dos Antigos durante a Revolução, baseando a suas instituições (tanto o Consulado quanto o Tribuno da plebe) no
modelo da República Romana. Isso trouxe regressão à França, resultando na ditadura pessoal de Napoleão. Constant acreditava que se a
liberdade estava fadada a ser findada nos finais da Revolução, então a Liberdade dos Antigos deveria ser abandonada em favor da prática e
alcançável Liberdade dos Modernos. A Inglaterra, desde a Revolução Gloriosa, demonstrou a praticidade da Liberdade Moderna e a
Inglaterra é uma Monarquia Constitucional. Constant concluiu com seus estudos que a Monarquia Constitucional era melhor adaptada que o
republicanismo para manter a Liberdade dos Modernos. Ele foi instrumental em decretar o "Acte Additional" de 1815, o qual transformou o
restaurado império de Napoleão em uma moderna Monarquia Constitucional. Isso durou somente "cem dias" antes de Napoleão ser
derrotado, mas o trabalho de Constant providenciou meios de se reconciliar a Monarquia com a Liberdade. A Constituição Francesa de 1830
(Charte Française de 1830) podia ser vista como a implementação prática de muitas ideias de Constant: uma monarquia hereditária
existindo conjuntamente com uma Câmara dos Deputados eleita e um Senado Vitalício, com o poder executivo nas mãos de ministros
responsáveis. Desta forma, mesmo sendo eventualmente ignorado na França por causa de suas simpatias Anglo-Saxãs, Constant fez uma
profunda (apesar de indirecta) contribuição às tradições constitucionais francesas.
Secundariamente, Constant desenvolveu uma nova teoria de Monarquia Constitucional, na qual o poder real deveria ser um poder neutro,
protegendo, balanceando e restringindo os excessos dos outros, poderes activos (o executivo, o legislativo e o judicial. Isso foi um avanço
na teoria predominante no mundo inglês, a qual - seguindo a sabedoria convencional de William Blackstone, um jurista inglês do século
XVIII, que dizia ser o Rei o chefe da bancada do executivo. No esquema de Constant, o poder executivo seria acreditado num Conselho de
Ministros (ou Gabinete) o qual, apesar de apontado pelo Monarca, seria o supremo responsável pelo parlamento. Fazendo essa clara
distinção teorética entre os poderes do Monarca (como o chefe de estado) e os ministros (como o Executivo), Constant estava a responder à
realidade política que era aparente na Grã-Bretanha à mais de um século: que os ministros, a não o Rei, são responsáveis - e também que o
Rei "reina mas não governa". Isso foi importante para o desenvolvimento do governo parlamentarista francês e nos outros lugares. Deveria
ser notado, porém, que o Monarca não existe para ser uma figura sem poderes no esquema de Constant: ele deveria ter muitos poderes,
incluindo o poder de fazer apontamentos judiciais, o poder de dissolver a Câmara dos Deputados e invocar novas eleições, o poder de
apontar os senadores vitalícios, e o poder de demitir os ministros - porém ele não poderia governar, fazer política, ou administrar
directamente, já que esses são os poderes dos ministros responsáveis.
Eventualmente, essa teoria foi literalmente aplicada em Portugal (1826) e no Brasil (1824), onde ao Rei/Imperador foi dado explicitamente o
"Poder Moderador" em vez do Poder Executivo.
Outras preocupações de Constant incluíram um "novo tipo de federalismo" - um sério atentado para descentralizar o governo francês pela
devolução dos poderes a conselhos municipais eleitos. Essa proposta frutificou em 1831, quando conselhos municipais eleitos (mesmo com
uma pequena parcela de votantes) foram criados.

2
A importância dos escritos de Constant sobre a Liberdade dos Antigos dominou um entendimento no seu trabalho. Constant não foi, porém,
nenhum proponente do liberalismo radical. Seu vasto acervo escrito literário e cultural (mais importante a novela Adolphe e suas extensivas
histórias de religião) enfatizou a importância do suicídio e acalorou as emoções humanas como a base para a vida social. Desta forma, em
quanto ele suplicava por liberdade individual como força vital para o desenvolvimento da moral individual e apropriado para a modernidade,
ele sentiu que o egoísmo e o interesse próprio eram insuficientes como parte da verdadeira definição de liberdade individual. No século XX,
outro defensor do liberalismo político, Isaiah Berlin, adaptou a terminologia constantiana para "liberdade negativa" ("liberdade de" ou
"liberdade para") e "liberdade positiva" ("liberdade em").

DESENVOLVAMOS AGORA A IDEIA DO INDIVIDUALISMO E LIBERALISMO, COMO VALORES FUNDADORES DA SOCIEDADE


MODERNA

1. O individualismo

O individualismo remonta ao contrato social,23 e às origens do pensamento democrático, com JOHN LOCKE24, THOMAS HOBBES25 e JEAN-
JACQUES ROUSSEAU26, e a rejeição do poder político legitimado pelo direito dinástico, herança ou pela vontade divina. Consolida-se assim a
concepção de indivíduo como um ser uno, livre e responsável pelos seus próprios actos – o cidadão moderno, célula mínima do Estado
democrático, que lhe garante contratualmente direitos e deveres.

23
Contrato social (ou contratualismo) indica uma classe abrangente de teorias que tentam explicar os caminhos que levam as pessoas a formar Estados
e/ou manter a ordem social. Essa noção de contrato traz implícito que as pessoas abrem mão de certos direitos para um governo ou outra autoridade a fim
de obter as vantagens da ordem social. Nesse prisma, o contrato social seria um acordo entre os membros da sociedade, pelo qual reconhecem a
autoridade, igualmente sobre todos, de um conjunto de regras, de um regime político ou de um governante.

24
foi um filósofo inglês e ideólogo do liberalismo, sendo considerado o principal representante do empirismo britânico e um dos principais teóricos do
contrato social. Locke rejeitava a doutrina das ideias inatas e afirmava que todas as nossas ideias tinham origem no que era percebido pelos sentidos.
Escreveu o Ensaio acerca do Entendimento Humano, onde desenvolve sua teoria sobre a origem e a natureza de nossos conhecimentos. Dedicou-se
também à filosofia política. No Primeiro tratado sobre o governo civil, critica a tradição que afirmava o direito divino dos reis, declarando que a vida política
é uma invenção humana, completamente independente das questões divinas. No Segundo tratado sobre o governo civil, expõe sua teoria do Estado liberal
e a propriedade privada.

25
De acordo com Hobbes, tal sociedade necessita de uma autoridade à qual todos os membros devem render o suficiente da sua liberdade natural, para
que a autoridade possa assegurar a paz interna e a defesa comum. Este soberano, quer seja um monarca ou uma assembleia (que pode até mesmo ser
composta de todos, caso em que seria uma democracia), deveria ser o Leviatã, uma autoridade inquestionável. A teoria política do Leviatã mantém no
essencial as ideias de suas duas obras anteriores, Os elementos da lei e Do cidadão (em que tratou a questão das relações entre Igreja e Estado). Thomas
Hobbes defendia a ideia segundo a qual os homens só podem viver em paz se concordarem em submeter-se a um poder absoluto e centralizado. Para ele,
a Igreja cristã e o Estado cristão formavam um mesmo corpo, encabeçado pelo monarca, que teria o direito de interpretar as Escrituras, decidir questões
religiosas e presidir o culto. Neste sentido, critica a livre-interpretação da Bíblia na Reforma Protestante por, de certa forma, enfraquecer o monarca.

26
Foi um filósofo genebrino, escritor, teórico político e um compositor musical autodidacta. Uma das figuras marcantes do Iluminismo francês, Rousseau é
também um precursor do romantismo. Ao defender que todos os homens nascem livres, e a liberdade faz parte da natureza do homem, Rousseau inspirou
todos os movimentos que visavam uma busca pela liberdade. Incluem-se aí as Revoluções Liberais, o Marxismo, o Anarquismo etc.

2
Possui como pilar, o ensinamento de que os indivíduos constituem a unidade básica de compreensão, juízo e acção na realidade. O
individualismo jurídico significa que as relações de direitos e deveres têm como agente as pessoas humanas, sendo que, as colectividades
não podem possuir direitos ou deveres a não ser pela coincidência desses com os indivíduos que as compõem.
O individualismo é o conceito que exprime a afirmação do indivíduo ante a sociedade e o Estado, liberdade, propriedade privada e limitação
do poder do Estado. A forma de caracterizar o individualismo, é através do conceito de um indivíduo que constitui o valor supremo, assim
teremos o indivíduo que se encontra na sociedade como um todo, caracterizando o holismo, ou seja o indivíduo que não pode ser submetido
a ninguém, sendo as suas regras pessoais que movem a sua existência, ou seja, o homem tudo poderia, desde que tivesse vontade, talento
e capacidade de acção individual. Perante estes factos, somos de constactar que o individualismo, em princípio de opõe a todo o tipo de
forma de autoridade ou de controlo sobre os indivíduos, colocando-se em oposição ao colectivismo, e no concerne à propriedade, assim, o
individualista pode permanecer dentro da sociedade e de organizações que tenham o indivíduo como valor básico – embora as organizações
e as sociedades, contraditoriamente, carreguem outros valores, não necessariamente individualistas, o que cria um estado de permanente
tensão entre o individuo e essas instâncias.
O individualismo é o mais ocidental dos valores. Esta primazia do indivíduo constitui o cerne da herança judaico-cristã.
Quando o indivíduo se encontra na sociedade como um todo, trata-se de holismo e não individualismo. Neste sentido, os dois conceitos
opõem-se.
Da compreensão que exprime a afirmação do indivíduo ante a sociedade e o Estado temos que o individualismo se opõe ao nacionalismo.
Embora seja conceito que permeie a sociedade ocidental, o individualismo não se revelou de um dia para outro no nosso meio, pois "a
configuração individualista de idéias e valores que nos é familiar não existiu sempre nem apareceu de um dia para outro. Fez-se remontar
a origem do "individualismo" a uma época mais ou menos remota, segundo, sem dúvida, a idéia que dele se fazia a definição que se lhe
dava.
Temos, assim, um paralelo entre o indivíduo moderno ocidental e o indivíduo tradicional da antiga sociedade indiana. O termo indivíduo
designa duas coisas ao mesmo tempo: um objeto fora de nós e um valor. O primeiro é um sujeito empírico que fala, pensa e quer, é o
modelo individual da espécie humana, que se encontra em todas as sociedades. O segundo é o ser moral independente, autônomo, não-
social, que representa a ideologia moderna do homem e da sociedade.
Quando o indivíduo constitui o valor supremo, trata-se de individualismo. Nesse caso, o indivíduo não pode ser submetido a ninguém, sendo
as suas regras pessoais que movem a sua existência. Quando o indivíduo se encontra na sociedade como um todo, trata-se de holismo. O
modelo indiano de sociedade é holista, a sociedade moderna ocidental é individualista.
A sociedade ocidental da Idade Média aproximava-se da sociedade holista indiana. Na Idade Média, existia uma sociedade cristã governada
pela supremacia da Igreja. Esta era constituída por um sistema hierárquico espiritual, sendo que o Papa era o representante supremo do
poder. A Igreja era o Estado.
Com o surgimento do Estado moderno, extingue-se a harmonia universal do todo com Deus. Para os modernos, o homem basta-se a si
mesmo e está em relação direta com sua razão e com Deus. O indivíduo é um ser autônomo, integrante de uma comunidade que forma o
Estado, tornando-o o poder supremo.
A ideologia do individualismo funda as suas bases sobre a igualdade e a liberdade. Ao desprezarem a hierarquia social, todos os homens se
tornam iguais e livres perante o Estado. As funções determinadas pela posição social que o indivíduo ocupa são abolidas e,
consequentemente, o Estado não consegue administrar a vida social e individual do homem. Não há referências para se espelhar, a noção
de direitos e deveres se desvanece. O homem moderno abdica de todo sistema de crenças e valores, negligenciando a trajetória de sua
história social para consagrar a satisfação pessoal. Ocorre uma desintegração do indivíduo em relação à sociedade. Ele vive em função das
suas necessidades individuais, de maneira que a existência do outro varia de acordo com sua necessidade.
John Locke e o individualismo liberal
O modelo jusnaturalista de Locke parte do estado de natureza que, pela mediação do contrato social, realiza a passagem para o estado civil.
Na sua concepção individualista, os homens viviam originalmente num estágio pré-social e pré-político, caracterizado pela liberdade e
igualdade, denominado estado de natureza (predominava neste estado uma relativa paz, concórdia e harmonia). Nesse estado pacífico os
homens já eram dotados de razão e desfrutavam da propriedade que, designava simultaneamente. Para Locke, a propriedade já existe no
estado de natureza e, sendo uma instituição anterior à sociedade, é um direito natural do indivíduo que não pode ser violado pelo Estado.
Locke defende que, o estado de natureza relativamente pacífico, não está isento de inconvenientes, como a violação da propriedade que, na
falta de lei estabelecida, de juiz imparcial e de força coerciva para impor a execução das sentenças, coloca os indivíduos singulares em

2
estado de guerra uns contra os outros. Para ele, o contrato social é um pacto de consentimento em que os homens concordam livremente
em formar a sociedade civil para preservar e consolidar ainda mais os direitos que possuíam originalmente no estado de natureza. No
estado civil os direitos naturais inalienáveis do ser humano a vida, a liberdade e os bens estão melhor protegidos sob o amparo da lei, do
que sob um árbitro e da força comum de um corpo político unitário. A passagem do estado de natureza para a sociedade político/civil opera-
se quando, através do contrato social, os indivíduos singulares dão o seu consentimento unânime para a entrada no estado civil; após este
passo ocorre a escolha pela comunidade de uma determinada forma de governo cedendo lugar ao “princípio da maioria” mas, Locke
ressalva que “todo o governo não possui outra finalidade além da conservação da propriedade”.
Para Locke quando o legislativo ou o executivo violam a lei estabelecida e atentam contra a propriedade, o governo deixa de cumprir o fim a
que fora destinado, tornando-se ilegal e degenerado em tirania, formando em estado de guerra; este estado de guerra imposto ao povo pelo
governo configura a dissolução do estado civil e o retorno ao estado de natureza, onde a inexistência de um árbitro comum faz de Deus o
único juiz, expressão utilizada por Locke para indicar que, esgotadas todas as alternativas, o impasse só pode ser decidido pela força. Veja-
se: "... em todos aqueles casos em que não há juiz sobre a Terra, não tem o povo outro remédio além do apelo aos céus.27
É necessário retratar que Locke acha impossível os atuais governantes sobre a Terra obterem qualquer proveito, ou derivem a menor
sombra de autoridade daquilo que é tido como a fonte de todo poder. Ele acha que o poder de um magistrado de um súdito deve ser
distinguido do poder de um pai sobre o filho, de um senhor sobre seu servo, de um marido sobre sua esposa e de um nobre sobre seu
escravo. Desta forma, o poder político é o direito de fazer leis com pena de morte, e conseqüentemente todas as penalidades menores para
regular e preservar a propriedade, e o de empregar a força da comunidade da execução de tais leis e na defesa da comunidade contra a
agressão estrangeira, e tudo isso apenas em prol do bem público.
Um estado de natureza é onde existe perfeita liberdade para ordenar as ações e regular as posses e as pessoas tal acharem conveniente,
nos limites da lei da natureza; neste estado deve ser recíproco qualquer poder e jurisdição.
O estado de guerra é um estado de inimizade 28 e destruição. Desta forma, aquele que tenta colocar outrem sob seu poder absoluto, põe-se
por causa disto num estado de guerra com ele, devendo-se interpretar isto como uma declaração de um desígnio em relação à sua vida. O
estado de natureza e o estado de guerra, estão tão distantes um do outro como um estado de paz, boa vontade, assistência mútua e
preservação está de um estado de inimizade, malícia, violência e destruição mútua.
A nossa ideia de individualismo

O individualismo é essencialmente dualista, pois tem como pressuposto que todas as questões devem ser examinadas apenas do ponto de
vista do indivíduo. Toma por princípio que cada indivíduo é dono de sua vida. Mas a vida não tem um dono. O conceito de domínio só pode
ser aplicado na relação de duas coisas: a dominante e a dominada. Se algo possui uma vida, não pode ser idêntico a esta vida. Que “eu” é
este que possui “minha” vida? Autodomínio é uma contradição em termos, pois pressupõe o dualismo cartesiano entre mente e corpo. O
conceito de que a vida é uma propriedade do indivíduo justifica que a vida, em toda a sua complexidade, seja submetida ao indivíduo. Isto
ignora as relações que estão aquém e além do indivíduo isolado.
A vida não é uma propriedade privada de um sujeito cartesiano. Cada indivíduo existe enquanto parte de uma comunidade, num certo
ambiente. A comunidade não é uma entidade abstracta que domina a vida de todos que pertencem a ela, e também não é uma instituição.
Em todo sistema complexo, a soma das partes não é idêntico ao todo, e por isso uma análise mecanicista de uma comunidade, levando em
conta apenas indivíduos e suas relações, não pode realmente explicar sua dinâmica organizacional. A vida não surgiu do nada e não se
mantém sem trocas equilibradas. Nossa vida surge numa comunidade, é alimentada por ela, e não pode negá-la sem negar a si mesma.
Estamos em continuidade com a comunidade na qual surgimos.
O individualismo vê o indivíduo como a fonte de todos os valores. Tudo tem valor na medida em que serve ao indivíduo, em detrimento do
meio social ou ambiental. Assim, um bem material é visto apenas como o acúmulo do passado de um indivíduo. Um indivíduo sem
propriedades é como um indivíduo sem passado. Isso implica que os bens são gerados apenas pela vida do indivíduo, e não pela existência
de uma dinâmica social e ambiental complexa. Ou ainda que esta dinâmica, de alguma forma, funcione de forma a sempre beneficiar o
indivíduo. Quando a propriedade de um indivíduo é considerada parte dele mesmo, cada indivíduo se torna expansivo. Nessa perspectiva, é

27
Locke, J., Op. Cit,. £167, pag. 535
28
Locke, J., Op. Cit. Cap. III

2
inevitável que se entre num ciclo vicioso de desigualdade e competição, cujo resultado só pode ser o colapso. E de pouco adianta socializar
os bens, pois a lógica do acúmulo ainda permaneceria.
A natureza é vista como algo que só tem valor se transformada em propriedade, em produto para uso exclusivo do homem. Essa é a ideia
por trás do mito segundo o qual Deus fez o homem para ser senhor da terra, e os demais seres vivos foram feitos para servi-lo. Ou seja,
pressupõe o dualismo entre homem e natureza. Mesmo um liberal ateu, ao defender nosso sistema económico, está defendendo premissas
religiosas. Não se trata de atacar a moral cristã ou o jusnaturalismo, mas sim o fundamento dessa premissa básica.
Se não nos podemos apropriar da vida, da propriedade ou da liberdade de outros homens, porque poderíamos apropriar da vida, da
propriedade e da liberdade de outras espécies a não ser julgando o homem como superior? Considerar a produtividade e o direito à
propriedade como uma questão de ética aponta apenas para um moralismo. A maior parte da existência da espécie humana não foi
marcada por esses conceitos, eles são recentes. As regras que definem o funcionamento de tal economia são dependentes de pressupostos
sobre o homem e a natureza, e não existem independentemente de instituições culturais.
Por outro lado existe a ideia da troca justa de produtos. Mas onde quer que a troca seja a favor do acúmulo individual, haverá concentração
de bens nas mãos de poucos, desigualdade e problemas sociais. Todas as espécies que acumulam massivamente têm propriedade comunal,
e, ainda assim elas têm limites de expansão. O que não quer dizer que nós devamos ter propriedade comunal, porque não somos insectos.
Mas estamos fazendo o mesmo ao tentar organizar uma sociedade de massas. A sociedade de massas desrespeita os limites que
naturalmente regulariam a população humana ao meio. Não é exactamente por opção que reproduzimos tal sistema económico expansivo,
mas porque ele é totalitário e mantém instituições especializadas em criar o aumento de nossa dependência.
O direito de proteger bens é uma forma disfarçada de justificar um suposto uso apropriado da força. Só é preciso proteger bens num modo
de acúmulo, e tal protecção deve crescer em função do acúmulo desigual. Uma vez que o acúmulo desigual é crescente, a protecção faz
parte de uma função exponencial retroactiva. Isso significa uma dependência crescente. Será sempre preciso cada vez mais segurança, o
que também gera mais insegurança. A opressão não depende do uso da força contra outros de forma directa. Impor a desigualdade material
pela ameaça do uso da força também é opressão.

O Liberalismo
O liberalismo pode ser visto, como uma doutrina baseada na defesa da liberdade individual, nos campos econômico, político, religioso e
intelectual contra as ingerências e atitudes coercitivas do poder estatal.
O Liberalismo é um conceito que se caracteriza por alguns princípios, dentre os quais o individualismo e o igualitarismo.
Assim, o liberalismo é individualista, defendendo a afirmação do indivíduo ante a sociedade e o Estado; é igualitário, admitindo e garantindo
a igualdade do homem enquanto pessoa; é universalista, defendendo a homogeneidade moral da espécie humana; é optimista,
admitindo o aperfeiçoamento das instituições sociais de cada sociedade. Assim, o liberalismo defende a liberdade como direito
intrínseco de todo indivíduo e toda autoridade é limitada por esse direito.
O liberalismo é uma teoria ou doutrina de liberdade política e de liberdade econômica. Em conformidade com os quesitos anteriores, orienta
a ação do Estado e de qualquer autoridade, visando o bem comum, sem ferir os direitos individuais de cada sujeito.
Não podemos falar em liberalismo sem partirmos das grandes transformações que propiciaram o surgimento do mundo moderno que, no
individualismo, encontrou o seu fundamento. A valorização do homem – promovida pelo humanismo – aliada aos princípios propiciados
pelas mudanças nas concepções religiosas, faz surgir o liberalismo que, por sua vez, prepara o campo fértil para o surgimento da
democracia e também para o desenvolvimento do capitalismo. Antes quase não se valorizava o "indivíduo" pois, na Idade Média, a cultura
era impessoal.
Dentro desse tema, muitos são os aspectos que poderiam ser abordados, partindo-se desse momento da valorização do homem. Podemos,
portanto, partir da contribuição daqueles que desencadearam esse processo, dando-lhe impulso e consistência, até chegar ao ponto de ser
(o liberalismo), em certo momento, confundido com o modelo da própria civilização ocidental. O pensamento de Santo Agostinho é central
para este problema e seu gênio pressentiu o desenvolvimento vindouro.
Quanto à democracia, abandonada e quase esquecida depois da Grécia Clássica, é do liberalismo que ela evolui na Idade Moderna. O seu
aparecimento dá-se entre os puritanos ingleses, devido à necessidade de assegurar a legitimidade de seus representantes e da organização
das suas comunidades.
Esta nova maneira de gerenciar os assuntos internos das seitas e igreja é estendida para a esfera política e aos interesses econômicos,
firmando cada vez mais essa nova doutrina que, a partir daí, muito mais que uma filosofia, passa a assumir o caráter de uma ideologia .

2
Assim, ao mesmo tempo em que se levantam as questões sobre os direitos e garantias do cidadão, impõe-se a necessidade de discutir e
justificar o direito da propriedade. Direito, igualdade e garantias são elementos de fundamental importância para a afirmação da
propriedade. Seus detentores buscam e passam a influir na administração e nos assuntos do Estado. Em oposição ao princípio do Direito
Divino, o Governo passa a ser encarado sob novo ângulo, até chegar ao ponto de ser considerado como representante dos eleitores. Esses
eleitores (inicialmente apenas os proprietários) têm interesse em influir no Governo pois, afinal de contas, são eles que têm algo a perder. E
é a partir daí que se compreende porque a legislação eleitoral se preocupa, no início, com a representação baseada nas posses.
As grandes transformações empreendidas ao final da Idade Média têm como ponto de fundamental importância, como já foi dito, a
valorização do homem. Humanismo e Reforma, principalmente, trazem à luz a pessoa humana, que passa a ser o centro do Universo, em
que busca conhecer esses valores, e onde alcança posição de destaque a discussão do tema da liberdade.

Uma etapa do liberalismo é o seu caráter político. Toma consciência com as obras de Locke e Montesquieu e tem o seu primeiro grande
momento na Revolução Gloriosa (Inglaterra, 1688/89). Esse liberalismo político-jurídico, que tem suas raízes na Inglaterra medieval,
confunde-se com o desenvolvimento das garantias constitucionais da liberdade.
É, no entanto, com John Locke que os temas da liberdade e do indivíduo se corporificam numa doutrina política. Suas obras, sobretudo o
Segundo Tratado Sobre o Governo Civil mostram a "vontade" e a "liberdade" como potências do sujeito, quando "ser livre é poder fazer ou
não fazer o que se quer". Essa liberdade humana aparece como a responsabilidade de cada um, não pela sua vontade, mas pelos seus atos.
Ao tratar do "estado natural" (também utilizado por Hobbes para justificar o absolutismo), Locke o faz para justificar a liberdade. Para ele a
razão, que é a lei natural, ensina toda a humanidade, de que sendo todos iguais e independentes, ninguém poderá prejudicar o outro em
sua vida, saúde, liberdade ou posses. A propriedade aparece aí como um direito decorrente do produto de seu corpo e a obra de suas mãos.
Na justificativa da liberdade e contra a monarquia absoluta, afirma que a sociedade civil, produto do "consentimento livre" de todos os seus
membros, não pode tolerar que alguém dela faça parte, colocando-se à margem ou acima da lei comum. Surge assim uma nova ordem
política liberal com a supremacia do poder legislativo, porquanto é o delegado direto dos membros da comunidade. Mas também este não
pode afastar-se do bem público. O legislativo não pode ser ininterrupto, nem os legisladores devem ser executores das leis votadas, sendo
que eles mesmos estão sujeitos a elas. O executivo deve ser um poder diverso, subordinado ainda assim ao legislativo. Mas o verdadeiro
soberano passa a ser o povo, pois é ele, e não o legislativo, o detentor do verdadeiro poder soberano. O poder é um depósito confiado aos
governantes, em proveito do povo, e não uma submissão irrestrita. Se os governantes agem de maneira contrária ao fim para o qual haviam
recebido a autoridade, o povo pode retirar aquele depósito, isto é, pode retirar aquela delegação, retomando a soberania inicial, podendo
confiá-la a quem apresente melhores condições para exercer o poder. Para Locke não há um contrato de submissão, mas apenas uma
delegação.
Outro aspecto a considerar diz respeito à separação do domínio temporal do espiritual. Sendo a Igreja uma sociedade livre e voluntária não
pode estar sujeita ou atrelada ao governo, pois, "não cabe ao magistrado civil o cuidado das almas", em primeiro lugar porque não parece
que Deus jamais tenha delegado autoridade a um homem sobre outro, ou para induzir outro homem a aceitar sua religião. Em segundo
lugar, o cuidado das almas não pode pertencer ao magistrado civil porque seu poder consiste totalmente em coerção. Isto porque uma coisa
é insistir por meio de argumentos, outra por meio de decretos. Em terceiro lugar, o cuidado da salvação das almas não pode, de maneira
nenhuma, pertencer ao magistrado civil, pois a limitação às leis de cada país levantaria obstáculos no caminho, a ponto de os homens
deverem a sua felicidade eterna ou miséria, simplesmente ao acidente de seu nascimento. Recorrendo a Locke, aprende-se que " `Para
entender o poder político corretamente, e derivá-lo de sua origem, devemos considerar o estado em que todos os homens naturalmente
estão, o qual é um estado de perfeita liberdade para regular suas ações e dispor de suas posses e pessoas do modo como julgarem
acertado, dentro dos limites da lei da natureza, sem pedir licença ou depender da vontade de qualquer outro homem29.
O liberalismo atinge outro aspecto, quando seus princípios são aplicados à economia, embora os fisiocratas já propugnassem por uma
liberdade total (da natureza) mas não dispensavam a necessidade de um Estado forte para garantir as leis da natureza. Não havendo esse
controle, e se cada um seguir apenas o seu interesse, dar-se-ia o que, para Hobbes, seria o caos total, através da luta de todos contra
todos. Aí não haveria lugar para as noções de justo e injusto. Veja-se:
"Portanto, onde não há o seu, isto é, não há propriedade, não pode haver injustiça. E onde não foi estabelecido um poder coercivo, isto é,
onde não há Estado (ius puniendi), não há propriedade, pois todos os homens têm direito a todas as coisas. Portanto, onde não há Estado

29
Locke, J. O segundo tratado sobre o Governo, £4º, pag. 381/382

2
nada pode ser injusto. De modo que a natureza da justiça consiste no cumprimento dos pactos válidos, mas a validade dos pactos só
começa com a instituição de um poder civil suficiente para obrigar os homens a cumpri-los, e também só aí que começa a haver
propriedade30
Locke em a Liberdade e a propriedade
A relação que Locke faz entre “liberdade e propriedade” é que a liberdade faz parte da propriedade (vida, liberdade e bens), ou seja, a
liberdade e propriedade devem estar presentes num Estado para que este não enfrente problemas, assim vivendo de modo pacífico; desta
forma, a “propriedade privada limitada pelo uso”. Para Locke, a propriedade já existe no estado de natureza e, sendo uma instituição
anterior à sociedade, é um direito natural do indivíduo que não pode ser violado pelo Estado; desta forma, o trabalho era o fundamento
originário da propriedade.31
Num Estado Civil, o principal objetivo é garantir a propriedade; assim, os direitos naturais inalienáveis do indivíduo à vida, à liberdade, e à
propriedade constituem o cerne do estado civil; estando melhor protegidos sob o amparo da lei, do árbitro e da força comum de um corpo
político unitário, pois "A ausência de um juiz comum dotado de autoridade coloca todos os homens em estado de natureza; a força sem
direito sobre a pessoa de um homem causa o estado de guerra, havendo ou não um juiz comum.32
O contrato social de Locke é um pacto de consentimento em que os homens concordam livremente em formar a sociedade civil para
preservar e consolidar ainda mais os direitos que possuíam originalmente no estado de natureza. Desta forma ninguém perde sua liberdade
mas, apenas deixa um líder guiá-lo sendo que, a propriedade possui pontos intransferíveis como a vida e transferíveis como os bens.

b) A liberdade por Rousseau

Para este autor, a liberdade natural caracteriza-se por acções tomadas pelo individuo com o objectivo de satisfazer os seus instintos, ou
seja, com o objectivo de satisfazer as suas necessidades. O homem neste estado de natureza desconsidera as consequências das suas
acções para com os demais, ou seja, não tem a vontade nem a obrigação de manter o vinculo das relações sociais. Outra caracteristica é a
sua total liberdade, desde que tenha forças para colocá-la em prática, de forma a obter as satisfações das suas necessidades, de forma a
moldar a natureza.33

O DIREITO DAS COLÓNIAS NORTE-AMERICANAS

Os Framers e os Founding Fathers


1. GUERRA DA INDEPENDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS. Contextualização.
A Guerra da Independência dos Estados Unidos da América (1775 a 1783), também conhecida como Guerra Revolucionária Americana, teve
as suas raízes na assinatura do Tratado de Paris que, em 1763, pôs fim à Guerra dos Sete Anos entre Inglaterra e França. No final do
conflito, o território do Canadá foi incorporado por Inglaterra e neste contexto, as treze colónias representadas por Massachusetts, Rhode
Island, Connecticut, Nova Hampshire, Nova Jérsei, Nova Iorque, Pensilvânia, Delaware, Virgínia, Maryland, Carolina do Norte, Carolina do Sul
e Geórgia começaram a ter seguidos e crescentes conflitos com a Metrópole. O Movimento das colónias foi de ampla base popular, e teve
como principal motor a burguesia colonial, o que levou à independência das Treze Colónias – os Estados Unidos da América – (proclamada
em 4 de Julho de 1776), sendo este o primeiro país a dotar-se de uma constituição política escrita.
As acções militares entre ingleses e os colonos americanos, começam em Março de 1775. No decorrer do conflito (Lexington, Concord e
batalha de Bunker Hill), os representantes das colónias reuniram-se no segundo Congresso de Filadélfia (1775) e Thomas Jefferson,
democrata de ideias avançadas, redigiu a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, promulgada em 4 de Julho de 1776,
dando um passo irreversível para a independência dos Estados Unidos.

30
Hobbes, T., Leviatã, pag. 123/124
31
Locke, J., Op. Cit. Cap. V
32
Locke, J., Op. Cit. £19, pag. 398
33
“O homem realmente livre faz tudo o que lhe agrada e convém, basta apenas deter os meios e adquirir a força suficiente para realizar os
seus desejos”.

2
È então constituído um exército, cujo comando é confiado ao fazendeiro George Washington e os ingleses, lutando a 5.500 km de casa,
enfrentaram problemas de carência de provisões, comando desunido, comunicação lenta, população hostil e falta de experiência em
combater tácticas de guerrilha. Inglaterra, a partir de então, passou a concentrar-se nas disputas por territórios na Europa e nas Índias
Ocidentais e Orientais. Os colonos tinham força de vontade, mas interesses divergentes e falta de organização tanto que das colónias do
Sul, só a Virgínia agia com decisão, no entanto os canadianos permaneceram fiéis a Inglaterra ao passo que os voluntários do exército,
alistados por um ano, volta e meia abandonavam a luta para cuidar de seus afazeres. O curso da guerra pode ser dividido em duas fases a
partir de 1778. Numa primeira fase, a norte, e uma segunda fase desviou as atenções britânicas para o sul, onde grande número de
legalistas podiam ser recrutados.
A paz e a independência do novo país (constituído pelas treze colónias da costa atlântica) foram reconhecidas pelo Tratado de Paris
(também referido como Tratado de Versalhes) de 1783. Apesar das frequentes vitórias, os ingleses não destruíram os exércitos de
Washington ou de Green e não conseguiram quebrar a resistência norte-americana apesar de mais tarde, em 1812 e 1815, ocorrer uma
nova guerra entre os Estados Unidos e Inglaterra, no entanto essa guerra só veio consolidar mais a independência norte-americana.

2. ATRITOS ENTRE INGLESES E COLONOS. As causas que levaram à busca da independência e proclamação de direitos.

A Guerra dos Sete Anos, terminada pela vitória da Inglaterra sobre a França (Tratado de Paris, 1763), deixou a nação vencedora na posse de
ricos territórios no continente americano, já colonizados, sendo reconhecido o seu direito de expandir o seu domínio em direcção ao interior
do continente. Esta possibilidade agradou inicialmente aos colonos, que prontamente se prepararam para explorar e aproveitar novas
terras, mas, para sua grande surpresa, o governo de Londres, por recear desencadear guerras com as nações índias, determinou que
nenhuma nova exploração ou colonização de territórios pudesse ser feita sem a assinatura de tratados com os índios. Foi esta a primeira
fonte de conflito entre os colonos e a Coroa inglesa, no entanto pouco depois, surgiram novos atritos. A Guerra dos Sete Anos, apesar de
vencida pela Inglaterra, obrigou a Coroa a impor medidas restritivas às Treze Colónias. Procurando restaurar o equilíbrio financeiro, e a
metrópole apertava as malhas do pacto colonial com vários actos. Em 1750 foi proibida a fundição de ferro nas colónias, em 1754
proibiram-se a fabricação de tecido e o contrabando, em 1765 foi aprovado um decreto regulamentando a obrigação de sustentar tropas
inglesas em solo americano (prática que pesava muito sobre as finanças coloniais). Foram ainda criadas a Lei do Selo que acrescentou um
imposto de selo sobre jornais, documentos legais e oficiais, etc. e os Actos de Townshend, que procuravam limitar e mesmo impedir que os
americanos continuassem as suas relações comerciais com outras regiões que não a Inglaterra. Em 1773, o Parlamento inglês concedeu o
monopólio do comércio do chá à Companhia das Índias Orientais, da qual muitas personalidades inglesas possuíam acções, e os
comerciantes rebeldes estadunidenses que se sentiram prejudicados disfarçaram-se de índios peles-vermelhas, assaltaram os navios da
companhia que estava no porto de Boston e lançaram o carregamento de chá no mar (Festa do Chá de Boston). Inglaterra reagiu de
imediato com um conjunto de leis que os americanos chamaram de "Leis Intoleráveis" (1774) tais como: fecho do porto de Boston,
indemnização à companhia prejudicada, e o julgamento dos envolvidos, em Inglaterra. As reacções dos colonos foram, de início, exaltadas,
mas pacíficas pois exigiram o direito de eleger representantes para o Parlamento de Londres (para poderem discutir e votar as leis que lhes
diziam respeito), passando depois a actos de boicote às mercadorias inglesas. Esta guerra económica desencadearia motins e forçou o
governo inglês a alguns recuos, que contudo não satisfizeram os colonos. O conflito agravou-se com a presença de tropas enviadas para
conter os protestos e como resposta, em 1774 os representantes das colónias, excepto a Geórgia, enviaram os seus delegados a Filadélfia,
num primeiro Congresso Continental que, a partir daí, embora com divergências no seu seio, foi a voz política dos colonos. Em 1774, houve
o 1º Congresso Continental de Filadélfia, onde se resolveu acabar com o comércio com a Inglaterra enquanto não se restabelecessem os
direitos anteriores a 1763. O mesmo Congresso também redigiu e divulgou uma Declaração de Direitos. Havendo logo depois, um 2º
Congresso que foi reunido em Filadélfia onde se decidiu a criação de um exército que seria comandado por George Washington, fazendeiro
e chefe da milícia Virgínia. Nesse Congresso, apesar de se manterem leais ao rei, os colonos pediram a suspensão das "Leis Intoleráveis" e
firmaram uma Declaração dos Direitos dos Colonos, no qual pediram a supressão das limitações ao comércio e à indústria, bem como dos
impostos abusivos. O rei reagiu, pedindo aos colonos que se submetessem mas estes não se curvaram diante da coroa inglesa e o extremar
das posições levou à criação de milícias, à constituição de depósitos de munições e a um aumento contínuo de tensão que iria irromper em
guerra. Assim sendo, se conclui que o processo de Independência tem o importante antecedente em Setembro de 1774, quando as Leis
Intoleráveis determinaram a convocação do Primeiro Congresso Continental de Filadélfia, de carácter não-separatista. Em 1775, o conflito

2
em Lexington provocou a morte de alguns colonos e eles passaram a organizar-se militarmente. O rei declarou os americanos em rebeldia e
os colonos passaram à revolta aberta. Em 1776, a Virgínia tomou a iniciativa e declarou-se independente, com uma explícita Declaração dos
Direitos do Homem. O Segundo Congresso de Filadélfia, reunido desde 1775, já manifestava carácter separatista. George Washington, da
Virgínia, foi nomeado comandante das tropas americanas e encarregou uma comissão, liderada por Thomas Jefferson, de redigir a
Declaração da Independência. Em 4 de Julho de 1776, reunidos em Filadélfia, delegados de todos os territórios promulgaram o documento,
com mudanças introduzidas por Benjamin Franklin e Samuel Adams.

3. CONSEQUÊNCIAS. Independência dos EUA e proclamação dos seus Direitos por acto revolucionário.

Pela primeira vez na História da expansão europeia, uma colónia tornava-se independente dos países por meio de um acto revolucionário e
fazia-o não só proclamando ao mundo, no documento histórico aprovado no 4 de Julho, o direito à independência e à livre escolha de cada
povo e de cada pessoa ("o direito à vida, à liberdade e à procura da felicidade" que é definido como inalienável e de origem divina), mas
ainda construindo uma federação de estados dotados de uma grande autonomia e aprovando uma constituição política (a primeira da
História mundial) onde se consignavam os direitos individuais dos cidadãos, se definiam os limites dos poderes dos diversos estados e do
governo federal, e se estabelecia um sistema de equilíbrio entre os poderes legislativo, judiciário e executivo de modo a impedir a
supremacia de qualquer deles, além de outras disposições inovadoras. O sucesso norte-americano foi descrito como tendo influenciado a
Revolução Francesa (1789) e as subsequentes revoluções na Europa e América do Sul. Os pensamentos iluministas influenciaram assim o
novo governo americano.
A Guerra da Independência dos Estados Unidos é chamada de revolução por ter instituído, na Constituição de 1787, vigente até hoje, uma
república federal, a soberania da nação, e divisão tripartida dos poderes. Além disso, influenciou as revoluções liberais que aconteceriam na
Europa, como a Revolução Francesa.

4. CRONOLOGIA. Resumo histórico dos passos mais importantes rumo à criação do direito das colónias norte-americanas e
sua independência.
- Além dos conflitos políticos, iniciou-se um movimento contra a carga tributária exercida pelos ingleses sobre a produção de açúcar (Sugar
Act), e sobre a produção gráfica (Stamp Act);
- Além da cobrança excessiva de impostos, os ingleses em 1765 proibiram a abertura de estabelecimentos fabris nas colónias. Isto gerou
uma onda de descontentamento dos colonizadores que para a América do Norte foram fazer fortuna. Iniciou-se então um sentimento de
independência e de nacionalidade dos habitantes da região;
- Os ingleses vendo que a economia das colónias mostrava sinais de enriquecimento e vigor, resolveram forçá-la para baixo com a adição de
novos impostos e sobre-taxas de produção sobre a fabricação de tintas, vidro, papel e principalmente chá;
- Em 1773, devido à alta dos impostos, ocorreu em Boston a revolta do chá. Samuel Adams e John Dickinson fundaram a Sociedade dos
Filhos da Liberdade;
- Em Filadélfia, a 5 de Setembro de 1774, reuniram-se os representantes das treze colónias no chamado, primeiro congresso continental e
foi neste encontro redigida uma declaração de direitos e exigindo o retorno à situação anterior;
- O Parlamento britânico não aceitou as reivindicações das colónias, aumentando desta forma os atritos entre as treze colónias e o governo
central, o que culminou na eclosão da guerra em 1775, em Lexington e Concord;
- Ainda em 1775 ocorreu o segundo congresso continental, e simultaneamente houve a batalha de Ticonderoga, com a vitória dos
anticolonialistas e estes com a moral elevada dos seus combatentes criaram um exército continental;
- Em 4 de Julho de 1776, representantes das 13 colónias reunidos em Congresso, declararam a independência das 13 colónias inglesas do
continente americano;
- No dia 17 de Outubro de 1777, os norte-americanos venceram a batalha de Saratoga e os franceses, poloneses, espanhóis e prussianos,
países antagonistas da Inglaterra, vieram em auxílio aos rebeldes enviando soldados para ajudar na guerra da independência;
- Em 1780, os ingleses foram derrotados na batalha naval de Chesapeake, em 19 de outubro de 1781, o exército inglês, sob o comando de
Lord Cornwallis, rendeu-se em Yorktown;
- Em 17 de Abril de 1783, o capitão britânico, James Colbert, com um grupo de 82 partidários britânicos lançaram um ataque de surpresa
sobre o Forte Carlos, no Arkansas, à beira do rio Arkansas. A invasão de Colbert fora a única acção da Guerra Revolucionária americana no

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estado de Arkansas. Colbert atacou o forte controlado por espanhóis em resposta a decisão de Espanha em tomar partido do lado dos
americanos durante a Revolução; Finalmente, no dia 3 de Setembro de 1783, em Paris, foi assinado o tratado em que os Estados Unidos,
representados por John Adams, Benjamin Franklin e John Jay, tiveram a sua independência reconhecida, formalmente, pelo Reino da Grã-
Bretanha.
5. DECLARAÇÃO DE INDEPENDENCIA DOS ESTADOS UNIDOS. Determinação do Segundo Congresso Continental, 4 de Julho de
1776 (Declaração unânime dos treze Estados Unidos da América ).

“Quando, no decurso da História do Homem,


Se torna necessário a um povo quebrar os elos políticos que o ligavam a um outro e assumir, de entre os poderes terrenos, um estatuto de
diferenciação e igualdade ao qual as Leis da Natureza e do Deus da Natureza lhe conferem direito, o respeito que é devido perante as
opiniões da Humanidade exige que esse povo declare as razões que o impelem à separação. Consideramos estas verdades por si mesmo
evidentes, que todos os homens são criados iguais, sendo-lhes conferidos pelo seu Criador certos Direitos inalienáveis, entre os quais se
contam a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade. Que para garantir estes Direitos, são instituídos Governos entre os Homens, derivando
os seus justos poderes do consentimento dos governados. Que sempre que qualquer Forma de Governo se torne destruidora de tais
propósitos, o Povo tem Direito a alterá-la ou aboli-la, bem como a instituir um novo Governo, assentando os seus fundamentos nesses
princípios e organizando os seus poderes do modo que lhe pareça mais adequado à promoção da sua Segurança e Felicidade (...) Não
deixámos de dar a devida atenção aos nossos irmãos britânicos. De tempos a tempos, avisámo-los das tentativas por parte dos seus corpos
legislativos para estender uma jurisdição injustificável sobre nós. Lembrámos-lhes as circunstâncias da nossa emigração e colonização
deste território. Apelámos à sua justiça e magnanimidade inerentes, rogando-lhes que, face à origem comum que nos une, negassem estas
usurpações, pois estas haveriam inevitavelmente de conduzir à extinção das nossas relações e ligação. Não deram igualmente ouvidos à
voz da justiça e da consanguinidade. Temos pois que reconhecer a necessidade da nossa separação, pelo que os consideraremos, tal como
o resto da Humidade, Inimigos na Guerra, Amigos na Paz. Assim sendo, nós, Representantes dos ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, reunidos
em Congresso Geral, suplicando ao Juiz Supremo do mundo pela rectidão das nossas intenções, em nome e com a autoridade que o nobre
Povo destas Colónias nos conferiu, anunciamos e declaramos solenemente que estas Colónias Unidas são e devem ser por direito ESTADOS
LIVRES E INDEPENDENTES; que ficam exoneradas de toda a Fidelidade perante a Coroa Britânica e que qualquer vínculo político entre elas e
o Estado da Grã-Bretanha é e deve ser totalmente dissolvido; e que, na qualidade de ESTADOS LIVRES E INDEPENDENTES, assiste-lhes toda
a competência para declarar Guerra, assinar a Paz, contrair Alianças, estabelecer Relações Comerciais e levar a cabo quaisquer decisões ou
acções, tal como compete aos ESTADOS INDEPENDENTES. E para sustentação desta Declaração, confiando plenamente na protecção da
Divina Providência, empenhamos mutuamente as nossas Vidas, os nossos Bens e a nossa Honra sagrada.”

Pela primeira vez na História da expansão europeia, uma colónia tornava-se independente por meio de um acto revolucionário e fazia-o não
só proclamando ao mundo, no documento histórico aprovado em 4 de Julho, o direito à independência e à livre escolha de cada povo e de
cada pessoa ("o direito à vida, à liberdade e à procura da felicidade" é definido como inalienável e de origem divina), mas ainda construindo
uma federação de estados dotados de uma grande autonomia e aprovando uma constituição política.

6.PAIS FUNDADORES DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA.


Os Framers e os Founding Fathers.
Os Pais Fundadores dos Estados Unidos da América são os líderes políticos que assinaram a Declaração de Independência ou participaram
da Revolução Americana como líderes dos Patriotas, ou que participaram da redacção da Constituição dos Estados Unidos da América onze
anos mais tarde. Durante a Guerra da Independência, os Pais Fundadores opuseram-se aos Lealistas, que apoiavam a monarquia britânica e
eram contra a independência (grande parte dos Lealistas permaneceram nos EUA após 1783 e apoiaram o novo governo). Alguns autores
fazem uma distinção entre os Fundadores, que assinaram a Declaração de Independência em 1776 ou participaram da Revolução, e os
Criadores, que redigiram a Constituição em substituição aos Artigos da Confederação, em 1787. Quanto à sua religião, alguns delegados
não possuíam religião. Três eram católicos, 28 da Igreja Episcopal dos Estados Unidos da América, oito presbiterianos, sete
congregacionalistas, dois luteranos, dois reformados neerlandeses e dois metodistas. Foram vários, os Signatários da Declaração da
Independência, de entre os quais, constam como nomes mais sonantes e sobejamente conhecidos, Samuel Adams, John Adams, Benjamin
Franklin, Thomas Jefferson, Alexander Hamilton, James Madison.

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7. JOHN ADAMS
Situando o autor no tempo, este nasceu em 30 de Outubro de 1735, em Boston, foi o 2º Presidente dos EUA, mandato que durou de 4 de
Março de 1797 até 4 de Março de 1801, tendo sido precedido por George Washington e sucedido por Thomas Jefferson, que havia sido seu
Vice-Presidente. A sua profissão natural foi a de advogado tornando-se depois político. Foi o primeiro vice-presidente dos Estados Unidos
(1789 - 1797) e o segundo Presidente deste país, de 1797 a 1801.

Foi delegado no primeiro e no segundo Congresso continental. Adams chegou à proeminência nas fases iniciais da Revolução Americana.
Como delegado de Massachusetts para o Congresso Continental, ele desempenhou um papel de liderança que consistiu em convencer o
Congresso a aprovar a Declaração de Independência dos Estados Unidos, em 1776. Ocupou cargos diplomáticos em França e nos Países
Baixos durante a guerra de independência e participou da elaboração do tratado de paz. Retornou ao país e foi eleito vice-presidente de
George Washington. John Adams demonstrou-se contrário aos conflitos entre os ingleses, os franceses revolucionários e os federalistas
americanos, dando fim à guerra no mar e incentivando a convenção de 1800 que proporcionou o reatamento das relações entre França e
Inglaterra. Um facto curioso é que, John Adams e o seu amigo, Thomas Jefferson (também ex-presidente e participante da Declaração da
Independência) morreram na mesma data, 4 de Julho de 1826, sendo que, nesse dia eram comemorados os 50 anos da independência. Com
a evolução dos primeiros jornais políticos, os ingleses começaram a falar sobre um novo fenómeno, por eles denominado de opinião pública.
No início do século XVIII, os jornalistas/tipógrafos passaram a formular a teoria da livre expressão e da imprensa livre. O significado de uma
imprensa livre nos estados unidos começou a ganhar forma nesta época. O pensamento de Adams incluía a ideia de que “Nenhum governo
pode funcionar sem censura, e onde a imprensa é livre, nenhum ficarà jamais sem censores” logo o seu pensamento assentava numa ideia
de o povo poder censurar quem governa. Ao longo dos duzentos anos seguintes a noção de uma imprensa funcionou como bastião da
liberdade e acabou absorvida pala doutrina legal americana. Assim sendo conclui-se que alguns reflexos do seu pensamento, estão nos dias
de hoje bem presentes e associados à ideia de democracia, tais como o direito à informação, liberdade de imprensa, livre acesso dos
cidadãos à informação.

8. SAMUEL ADAMS
Samuel Adams nascido em Boston, a 27 de Setembro de 1722 foi um político dos Estados Unidos da América, considerado um dos Founding
Fathers do seu país. Foi governador de Massachusetts e era primo de John Adams, o segundo presidente dos Estados Unidos. Foi o grande
promotor da independência, tanto que é possivelmente a ele que se deve a constituição do Tea Party, de Boston, que lutou para derrubar o
monopólio do chá, detido pela metrópole britânica. A perseguição que lhe moveram deu origem à primeira escaramuça da Guerra da
Independência, tendo Samuel Adams prestado valorosos serviços à causa das colónias rebeldes. Samuel Adams foi mais eficiente do que
qualquer outro popularizador das ideias que inspiraram a revolução americana. Ele compreendia claramente a perene ameaça à liberdade:
“Ambição e sede de poder acima da lei são paixões predominantes nos corações da maioria dos homens em todas as nações, combinando
as piores paixões do coração humano e os piores projetos da mente humana numa aliança contra as liberdades da humanidade.” O poder
político, dizia ele tambem, é “sabidamente de natureza intoxicante, intoxicante demais, e sujeito a abusos.” O historiador Thomas Fleming
observou que “sem Samuel Adams, de Boston, talvez a revolução americana nunca tivesse acontecido. A sua habilidade para combinar
agitação e propaganda colocava os britânicos constantemente na defensiva. Ele criou comitês de correspondência para ligar as colónias, e
foi o principal organizador da Boston Tea Party [festa do chá de Boston]”. Após frequentar a Boston Latin School, o jovem Sam estudou os
filósofos do direito natural John Locke e Samuel Pufendorf em Harvard. num debate, ele defendeu a resposta positiva à questão de “se é
legal resistir ao supremo Magistrado, se a comunidade não puder ser preservada de outra maneira.” Na política esteve sempre envolvido e
em 1756 foi eleito colcetor de impostos. O seu comportamento conciliador era muito popular com os contribuintes, aos quais ele escutava
com simpatia quando pediam adiamentos das cobranças, mas ele não colectava tudo o que era devido. Os habitantes da cidade gostavam
tanto de Sam que o reelegeram com entusiasmo. Quando surge, o Stamp Act (1765), que tributou todos os jornais, panfletos, almanaques,
diplomas universitários, licenças, contratos, baralhos e dados, Adams formou um grupo de resistência aos impostos chamado de Filhos da
Liberdade. Esse grupo encontrava-se num escritório no segundo andar da destilaria Chase and Speakman. O prédio ficava em Hanover
Square, próximo à Árvore da Liberdade – um enorme carvalho que havia sido plantado, significativamente, em 1646, três anos antes da
execução do rei britânico, Carlos I. Adams tornou-se o mais eletrizante defensor da liberdade. Adams foi eleito para a Câmara de
Representantes de Massachusetts e ajudou a aprovar as Resoluções de Massachusetts contra o Stamp Act. Sam encorajou John Adams a
entrar na luta política. O biógrafo Page Smith relatou que com o seu primo Samuel, ele havia aprendido a julgar os homens em termos de

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confiabilidade futura, a medir a sua ortodoxia e a avaliar a sua firmeza. A revolução americana foi uma luta por liberdade em que Sam
Adams teve um papel-chave nela. Foi ele o grande impulsionador da luta pela aprovação da tributação no Parlamento.
9. BENJAMIN FRANKLIN
Nascido em Boston, a 17 de Janeiro de 1706, foi um jornalista, editor, autor, maçom, filantropo, abolicionista, funcionário público, cientista,
diplomata, e inventor americano. Foi um dos líderes da Revolução Americana, conhecido pelas suas citações e experiências com a
electricidade. Religioso, calvinista, é ao mesmo tempo uma figura representativa do iluminismo. Correspondeu-se com membros da
sociedade lunar e foi eleito membro da Royal Society.

Em 1771, Franklin tornou-se o primeiro Postmaster General (ministro dos correios) dos Estados Unidos. Num espaço de poucos anos ele fez
descobertas sobre a electricidade que lhe trouxeram uma reputação internacional. Franklin identificou as cargas positivas e negativas e
demonstrou que os raios são um fenómeno de natureza eléctrica. Franklin tornou esta teoria inesquecível através da experiência
extremamente perigosa de fazer voar uma pipa durante a trovoada, a um de Outubro de 1752. Franklin, nos seus escritos, demonstra que
estava consciente dos perigos e dos modos alternativos de demonstrar que o trovão era eléctrico. O seu mais notável serviço à política
doméstica consistiu na reforma do sistema postal, mas ganhou fama especialmente como estadista, com os seus serviços diplomáticos e na
ligação das colónias com a Grã-Bretanha e mais tarde com a Rússia. Também esteve envolvido na criação do primeiro corpo de bombeiros
voluntários dos EUA, a primeira biblioteca pública gratuita e muitos outros empreendimentos cívicos. Após o seu retorno de França em
1785, ele tornou-se um abolicionista da escravatura, tendo-se tornado presidente da Sociedade promotora da abolição da escravatura e da
libertação dos negros ilegalmente retidos em cativeiro.
10. THOMAS JEFFERSON
Thomas Jefferson nasceu em Shadwell, a 13 de Abril de 1743, foi um advogado e político dos Estados Unidos, terceiro presidente dos EUA de
1801 a 1809. Além de estadista, Jefferson foi também filósofo político, revolucionário, proprietário agrícola, arquitecto, arqueólogo, autor e
um espírito elucidativo do Iluminismo.

A visão de Jefferson para os Estados Unidos era a de uma nação agrícola de pequenos proprietários lavradores, em contraste com a
alternativa proposta por Alexander Hamilton, que desejava uma nação de comércio e da manufactura. Jefferson era um grande crente na
singularidade e do enorme potencial dos Estados Unidos. Como muitos donos de terra do seu tempo, Jefferson possuía escravos. Jefferson
foi o único vice-presidente americano a ser eleito para a presidência e a ter servido dois mandatos plenos. O retrato de Jefferson aparece na
nota de 2 dólares. Os princípios políticos de Jefferson foram também fortemente influenciados por John Locke, particularmente em relação
ao princípio da inalienabilidade dos direitos, da soberania popular e em especial, da limitação do poder do Estado e da divisão tripartida do
poder.
11. ALEXANDER HAMILTON
Ele foi o primeiro Secretário do Tesouro dos Estados Unidos da América. Estabeleceu o First Bank of the United States e teve influência no
desenvolvimento das bases do capitalismo americano. Morreu em 1804 num duelo com o então vice-presidente Aaron Burr. Alexander
Hamilton é algumas vezes considerado o patrono da escola americana de filosofia económica que, de acordo com certos historiadores,
dominou a política económica dos Estados Unidos desde 1861. Ele apoiou firmemente a intervenção do governo nos negócios, tal como
Jean-Baptiste Colbert na França. Hamilton opôs-se às ideias britânicas de livre-comércio, as quais ele acreditava serem inclinadas a
beneficiar os poderes coloniais/imperiais, em favor do proteccionismo dos Estados Unidos, que ele acreditava que iria ajudar a desenvolver
a emergente economia da jovem nação.
12. JAMES MADISON
James Madison, advogado e político, foi o quarto Presidente dos Estados Unidos, entre 1809 e 1817 e tambem co-autor, juntamente com
John Jay e Alexander Hamilton, de O Federalista, sendo visto por alguns como o "Pai da Constituição Americana", já que contribuiu na sua
elaboração. Em 1788, Madison foi responsável por ter escrito mais de um terço das Monografias Federalistas, e ainda o mais influente
comentário sobre a Constituição. Elaborou muitas leis básicas, e foi responsável pelas dez primeiras emendas à Constituição. Tal como um
político teórico, ou mais distintivo, Madison acreditava que eram necessários "freios" e "contrapesos" para limitar os poderes de interesses
especiais na nova República, que Madison chamou facções. Ele acreditava firmemente que a nova nação devia lutar contra a corrupção e a
aristocracia, e estava profundamente empenhado em criar mecanismos que garantissem o republicanismo nos Estados Unidos. Faleceu em

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Montpellier, em 28 Junho de 1836, sendo o último "pai fundador da nação" a morrer. Madison está sepultado no Cemitério da Família
Madison, em Montpellier.

1 – Introdução
Maquiavel faleceu sem ter visto realizados os ideais pelos quais se lutou durante toda a vida. A carreira pessoal nos negócios públicos tinha
sido cortada pelo meio com o retorno dos Médici e, quando estes deixaram o poder, os cidadãos esqueceram-se dele, "um homem que a
fortuna tinha feito capaz de discorrer apenas sobre assuntos de Estado". Também não chegou a ver a Itália forte e unificada.
Deixou porém um valioso legado: o conjunto de ideias elaborado em cinco ou seis anos de meditação forçada pelo exílio. Talvez nem ele
mesmo soubesse avaliar a importância desses pensamentos dentro do panorama mais amplo da história, pois " especulou sempre sobre os
problemas mais imediatos que se apresentavam". Apesar disso, revolucionou a história das teorias políticas, constituindo-se um marco que
modificou o facto das teorias do Estado e da sociedade não ultrapassarem os limites da especulação filosófica.
O universo mental de Nicolau Maquiavel é completamente diverso. Em São Casciano, tem plena consciência de sua originalidade e trilha um
novo caminho. Deliberadamente distancia-se dos " tratados sistemáticos da escolástica medieval" e, à semelhança dos renascentistas
preocupados em fundar uma nova ciência física, rompe com o pensamento anterior, através da defesa do método da investigação empírica.
Maquiavel nunca chegou a escrever a sua frase mais famosa: "os fins justificam os meios". Mas com certeza ela é o melhor resumo para sua
maneira de pensar. Seria praticamente impossível analisar num só trabalho, todo o pensamento de Nicolau Maquiavel , portanto, vamos
analisá-lo baseados nessa máxima tão conhecida e tão diferentemente interpretada.
Ao escrever O Príncipe, Maquiavel expressa nitidamente os seus sentimentos de desejo de ver uma Itália poderosa e unificada. Expressa
também a necessidade (não só dele mas de todo o povo Italiano) de um monarca com pulso firme, determinado, que fosse um legítimo rei e
que defendesse seu povo sem escrúpulos e nem medir esforços.
Em O Príncipe, Maquiavel faz uma referência elogiosa a César Bórgia, que após ter encontrado na recém-conquistada Romanha, um lugar
assolado por pilhagens, furtos e maldades de todo tipo, confia o poder a Dom Ramiro d'Orco. Este, por meio de uma tirania impiedosa e
inflexível põe fim à anarquia e se faz detestado por toda parte. Para recuperar sua popularidade, só restava a Bórgia suprimir seu ministro.
E um dia em plena praça, no meio de Cesena, mandou que o partissem ao meio. O povo por sua vez ficou, ao mesmo tempo, satisfeito e
chocado.
Para Maquiavel, um príncipe não deve medir esforços nem hesitar, mesmo que diante da crueldade ou da trapaça, se o que estiver em jogo
for a integridade nacional e o bem do seu povo.
Para Maquiavel, como renascentista que era, quase tudo que veio antes estava errado. Esse tudo deve incluir os pensamentos e as ideias de
Aristóteles. Ao contrário deste, Maquiavel não acredita que a prudência seja o melhor caminho. Para ele, a coerência está contida na arte de
governar. Maquiavel procura a prática. A execução fria das observações meticulosamente analisadas, feitas sobre o Estado, a sociedade.
Maquiavel segue o espírito renascentista, inovador. Ele quer superar o medieval. Quer separar os interesses do Estado dos dogmas e
interesses da igreja.
Maquiavel não era o vilão que as pessoas pensam. Ele não era nem malvado. O termo maquiavélico tem sido constantemente mal
interpretado.
"Os fins justificam os meios". Maquiavel, ao dizer essa frase, provavelmente não fazia ideia de quanta polémica ela causaria. Ao dizer isso,
Maquiavel não quis dizer que qualquer atitude é justificada dependendo do seu objectivo. Seria totalmente absurdo. O que Maquiavel quis
dizer foi que os fins determinam os meios. É de acordo com o seu objectivo que você vai traçar os seus planos de como atingi-los.
A contribuição de Nicolau Maquiavel para o mundo é imensa. Ensinou, através da sua obra, a vários políticos e governantes. Aliás, a obra de
Maquiavel entrou para sempre não só na história, como na nossa vida quotidiana actual, já que é aplicável a todos os tempos.
É possível perceber que "Maquiavel, fingindo ensinar aos governantes, ensinou também ao povo". E é por isso que até hoje, e
provavelmente para sempre, ele será reconhecido como um dos maiores pensadores da história do mundo.
1.1. O Pensamento Político em Maquiavel
Com Maquiavel a política atinge a maioridade e é concebida enquanto esfera autónoma da vida social. A política deixa de ser pensada a
partir da ética e da religião. Neste sentido, Maquiavel representa uma dupla ruptura: com os clássicos da antiguidade greco-romana e com

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os valores cristãos medievais. A política deixa de ser pensada apenas no contexto da filosofia e constitui-se enquanto campo de estudo
independente, com regras e dinâmica livres de considerações privadas, morais, filosóficas ou religiosas.
Em Maquiavel, a política identifica-se com o espaço do poder, enquanto actividade que na qual se assenta a existência colectiva e que tem
prioridade sobre as demais esferas da vida humana. A política funde-se com a realidade objectiva, com os problemas concretos das relações
entre os homens: deixa de ser prescritiva — em torno de uma abstracção moral e ideal — e passa a ser vista como uma técnica, com leis
próprias, atinente ao quotidiano dos indivíduos.
Para Maquiavel a política deve preocupar-se com as coisas como são, em toda sua crueza, e não com as coisas como deveriam ser, com
todo o moralismo que lhe é subjacente. Ao libertar a política da moral religiosa, Maquiavel explicitou seu carácter terreno e transformou-a
em algo passível de ser assimilado pelos comuns dos mortais.
Isto teve um preço. Não foi por acaso que o seu nome se tornou adjectivo de coisa má. Maquiavelismo passou a ser sinónimo de uma
prática política desprovida de moral e de boa fé, um procedimento astucioso e maldoso. De facto, o florentino nada mais fez do que
demonstrar a hipocrisia da moral da sua época, isto é, mostrar como, por trás de uma moralidade que justificava a dominação dos senhores
feudais e da senhora feudal, a Igreja Católica, a política era cruel e friamente praticada através de meios nada cristãos: traições,
assassinatos, guerras etc.
A política explicitada e descrita na sua obra com dezenas de exemplos retirados da história assemelha-se mais ao inferno dantesco do que
ao paraíso prometido aos pobres camponeses, desde, é claro, que eles se conformassem com a exploração e a situação de miséria em que
viviam. Ontem como hoje a recompensa ao conformismo está no pós-morte, no além.
1.2. Ética e Política
Até que ponto a política é compatível com a ética? A política pode ser eficiente se incorporar a ética? Não seria puro moralismo exigir que a
política considere os valores éticos?
Quando se trata da relação entre ética e política não há respostas fáceis. Há mesmo quem considere que esta é uma falsa questão, por
outras palavras, que ética e política são como a água e o vinho: não se misturam. Quem pensa assim, adopta uma postura que nega
qualquer vínculo da política com a moral: os fins justificam os meios.
Esta concepção sobre a relação ética e política desconsidera que a moral também é um factor social e como tal não pode restringir-se ao
santuário da consciência dos indivíduos. Por outras palavras, embora a moral se manifeste pelo comportamento do indivíduo, expressa uma
exigência da sociedade (um exemplo disso é a adopção dos diversos "códigos de ética"). Ou seja, não leva em conta que a política nega ou
afirma certa moral e que, em última instância, a política também é avaliada pelo comportamento e entendimento moral das pessoas. Aliás,
se a política almeja legitimidade não pode, entre outros factores, dispensar o consenso dos cidadãos — o que pressupõe o apelo à moral.
Há também os que, ingenuamente ou não, adoptam critérios moralizantes para julgar os actos políticos. Por conseguinte, condicionam a
política à pureza abstracta reservada ao espaço ‘sagrado’ da consciência individual. Estes imaginam poder realizar a política apenas pelos
meios puros.
O moralismo abstracto concentra a atenção na esfera da vida privada do indivíduo. Portanto, aprisiona a política à moral intimista e
subjectiva deste. Ao centrar a atenção na esfera individual, o moralista julga o governante tão-somente por suas virtudes e vícios,
enfatizando suas esperanças na transformação moral dos indivíduos.
Ao agir assim reduz um problema de teor social e colectivo a um problema individual. No limite, chega à conclusão de que as questões
sociais podem ser solucionadas se convencermos os indivíduos isoladamente a contribuírem, por exemplo, dividindo sua riqueza com os
desafortunados.

O resultado é catastrófico: o moralista angustia-se porque a política não se enquadra nos seus valores morais individuais e acaba por
renunciar à própria acção política. Dessa forma, contribui objectivamente para que prevaleça outra política.
De um lado o ‘realismo político’; de outro, o moralismo absoluto. Nem tanto mar, nem tanto à terra. A política e a moral, embora expressem
esferas de acção e de comportamento humano específicas e distintas, são igualmente importantes para a acção humana no sentido da
transformação social.
Política e moral são formas de comportamento que não se identificam (a primeira enfatiza o colectivo; a segunda o indivíduo). Nem a
política pode absorver a moral, nem esta pode ser reduzida à política. Embora sejam esferas diferentes, há a necessidade de uma relação
mútua que não anule as características particulares de cada uma. Portanto, nem a renúncia à política em nome da moral; nem a exclusão
absoluta da política.

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Mas, ainda fica a pergunta inicial: é possível a ética na política? Para uma resposta mais abrangente é preciso analisar as diferenças entre
ética e moral (conceitos que usamos de forma indistinta).
1.3. Ética e moral
No nosso quotidiano enfrentamos problemas morais e éticos. Por exemplo: devo cumprir a promessa que fiz ao meu amigo, embora venha a
perceber que fazê-lo me causará prejuízos? Devo dizer sempre a verdade, ou há ocasiões em que a mentira não se torna apenas necessária
como será benéfica ao meu interlocutor? Devo persistir numa acção, que moralmente é valorada como boa, mas cujas consequências
práticas são extremamente prejudicais a outrem? Se cumpro ordens posso ser julgado do ponto de vista moral? Se meu amigo colabora com
o inimigo devo denunciá-lo?
A questão ética é, portanto, uma questão prática que extrapola a política - no sentido restrito da política institucional. É interessante como
se exige ética na política e, muitas vezes, no âmbito da vida privada, procedemos de forma anti-ética. Aliás, determinados casos políticos
onde se alardeia a exigência da ética, nada têm a ver com esta: são, em suma, meros casos de polícia.

Esta relação directa com a realidade dos indivíduos contribui para o entendimento comum que assemelha a ética à moral e toma uma pela
outra. Um bom exemplo desta confusão conceitual está na expressão já consolidada no vocabulário de diversas profissões: os códigos de
ética. Na verdade são normas, regras procedimentos, que configuram, digamos, um código de moral. Observemos que mesmos os partidos
políticos têm os seus códigos de ética!
Ética tem origem no grego ethos, que significa modo de ser. A palavra moral vem do latim mos ou mores, ou seja, costume ou costumes. A
primeira é uma ciência sobre o comportamento moral dos homens em sociedade e está relacionada com a Filosofia, isto é, pergunta-se
sobre a fundamentação última das questões. A sua função é a mesma de qualquer teoria: explicar, esclarecer ou investigar uma
determinada realidade, elaborando os conceitos correspondentes. A segunda, como define o filósofo VÁZQUEZ (1992), expressa "um
conjunto de normas, aceites livre e conscientemente, que regulam o comportamento individual dos homens".
O campo da ética é diferente da moral: enquanto tal, não lhe cabe formular juízo valorativo, mas sim explicar as razões e proporcionar a
reflexão. A moral pressupõe regras de acção e imperativos materializados em realidades históricas concretas. A moral antecede à própria
ética, é normativa e manifesta-se concretamente nas diferentes sociedades enquanto resposta às suas necessidades. A sua função consiste
precisamente em regulamentar as relações entre os indivíduos, e entre estes e a comunidade, contribuindo para a estabilidade da ordem
social.
A moral não é natural. Pelo contrário, resulta da acção do homem enquanto ser social, histórico e prático. Como facto histórico, a moral
corresponde aos diversos estágios da evolução da humanidade. A ética acompanha este desenvolvimento sem se reduzir à moral. No
entanto, ambas acabam por se confundir porque a ética parte de situações concretas, isto é, dos factos e consequentemente da existência
da moral.
Explicitadas as relações e diferenças entre ética e moral, retomemos o fio à meada: é possível a ética na política? Se seguirmos o itinerário
da política, dos gregos à modernidade, verificaremos que não há resposta simples nem única. Por um lado, a exigência da ética enquanto
componente da política expressa o desejo da sua moralização. Como a moral é essencialmente uma forma de comportamento relacionada
com a consciência individual, os seus critérios chocam-se com a esfera da política enquanto actividade colectiva. A política pressupõe ainda
confrontos e conflitos entre interesses de grupos opostos e antagónicos, o que potencializa ainda mais o choque com os imperativos morais
do indivíduo.
Na política não é apenas o interesse individual que está em jogo, mas também os interesses de grupos e colectivos expressos pelas acções
dos indivíduos. É verdade que muitas vezes aquilo que aparece como algo pertinente à colectividade, de facto mascara o interesse pessoal
e carreirista do político que, na busca de votos, faz o discurso do bem comum.
Mas, mesmo este político está preso aos interesses dos grupos que financiam a sua eleição e, de certa forma, precisa de mediatizar o seu
interesse egoísta com aquele do grupo social do qual faz parte ou do qual depende financeiramente para dar voos políticos mais altos. Além
do mais, nem que se resuma à mera retórica, ele tem necessidade de aparentar ser o que de facto não é: um defensor dos anseios
colectivos e do bem-estar social da colectividade.
Por outro lado, a moralização da política levanta uma antiga problemática: a relação entre o público e o privado. Foram os gregos na
antiguidade que inventaram o espaço da política enquanto expressão da vontade colectiva, isto é, enquanto esfera da acção humana que
submete a vontade arbitrária e privada do poder pessoal do governante às instituições públicas. Dessa forma, cunharam a distinção entre a

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autoridade pública — expressão do colectivo — e autoridade privada — identificada com o déspota, o chefe de família. A condição da
política é justamente a ausência do despotismo.

2 Maquiavel e a sua obra


2.1. O Príncipe
Maquiavel não introduziu as práticas amorais na política. A despeito de toda a moralidade, o ‘maquiavelismo’ que lhe imputam já se fazia
sentir antes de escrever a sua obra mais polémica: O Príncipe. Quem ler este livro sem levar em consideração e estudar minuciosamente o
contexto histórico no qual ele escreveu, não aprenderá nem fará justiça ao seu autor.
Com Maquiavel cai por terra a falácia da política enquanto busca da justiça, do bem comum etc. A fraseologia cristã-medieval fundada na
moral religiosa mascara o fundamento da política e do Estado: a manutenção do poder político em torno das classes dirigentes em cada
época histórica. Conquistar e manter o poder: eis, em síntese, a finalidade essencial da política. É neste sentido que Maquiavel cunha a sua
famosa e mais polémica frase: "Os fins justificam os meios”.
Muito já foi dito e escrito sobre esta afirmação. E ela permanece actual. Em primeiro lugar, é difícil não reconhecer que há uma relação
entre os fins e meios. Como diria um revolucionário russo: "É preciso semear um grão de trigo se se quiser obter uma espiga de trigo".
Há uma relação dialéctica entre fins e meios, no sentido de que há uma interdependência entre ambos. O problema é o que a afirmação
maquiaveliana encerra em si: o que se pode e o que não se pode fazer para atingir determinado fim? Se o fim é justo, justificam-se todos os
meios?
Esta questão não pode ser satisfatoriamente respondida sem equacionarmos outra que se coloca à priori: o que justifica o fim? Ora, a
realidade social na qual vivemos está longe de se assemelhar ao paraíso ou à harmonia positivista da ordem e progresso.
Por outro lado, este século, se pensarmos filosoficamente e não apenas do ponto de vista tecnológico, enterrou a ilusão positivista — mas
também iluminista e a leitura evolucionista marxista — de que a humanidade marcharia sempre numa direcção progressista. Duas guerras
mundiais, o nazismo, o fascismo, o estalinismo, as ditaduras de esquerda e de direita etc., negam qualquer ideia no sentido de uma
evolução linear positiva.
Mesmo de um ponto de vista essencialmente capitalista, o progresso é um fracasso pois toda a riqueza produzida com o desenvolvimento
tecnológico está cada vez mais concentrada nas mãos de poucos, aumentando o fosso entre ricos e pobres — e não é preciso ser marxista
para verificar que a miséria aumenta no mundo, que a desigualdade cresce e que as mazelas sociais atingem até mesmo os países mais
poderosos.
Assim, a questão dos fins está relacionada à questão política-social. Porém, se entendemos a política enquanto conflito de interesses entre
grupos e classes sociais, a justificação dos fins diz respeito às opções que fazemos quanto ao projecto político. Evidentemente adoptar uma
ou outra opção justificará este ou aquele fim. Numa sociedade onde impera a desigualdade e as relações de dominação e exploração entre
as classes e grupos sociais, os fins não são universais, como também não o é a moral.
Justificado o fim pelo projecto social que assumimos, podemos então discutir se os fins justificam os meios. Há uma tradição, que começa
com o próprio Maquiavel, que responde afirmativamente (quanto a este é preciso esclarecer que ele se refere ao Estado e não aos
procedimentos morais individuais).
Esta análise coloca-nos diante de problemas concretos. Partindo do pressuposto que os fins procurados são diferentes, poderá a direita e a
esquerda utilizar os mesmos meios? Quem luta pela liberdade pode usar recursos ditatoriais, repressivos? Quem respeita a vida humana
pode adoptar procedimentos de tortura, assassinatos, etc., em nome do objectivo político? O que diferencia uma ditadura de esquerda de
outra de direita? O terrorista que luta pela liberdade de seu país justifica os meios que utiliza e que, invariavelmente, vitima inocentes?
Os fins justificam os meios, é verdade. Mas apenas na medida em que estes meios não entram em contradição com os fins almejados. Quer
dizer, nem tudo é permitido! Só é aceitável aquilo que contribui para que se atinja o fim e que não represente a negação deste. Toda a
experiência do ‘socialismo real’ expressa a comprovação histórica de que não basta proclamar certos fins — por mais justos que sejam — é
preciso encontrar os meios adequados.
Não se constrói uma nova sociedade utilizando os mesmos recursos predominantes na velha estrutura social. Os marinheiros de Kronstadt,
os camponeses da Ucrânia e os trabalhadores oprimidos por um Estado e um partido que governou ditatorialmente em seu nome que o

2
digam. Neste caso, os fins já são outros e muito diferentes dos enunciados. Dialecticamente, os meios também mudaram e justificam-se
pelos fins ora em pauta. Maquiavel tinha razão...
3 Maquiavel nos dias de hoje
Maquiavel escreveu a sua obra mais famosa, "O Príncipe", em 1513. Foi um livro que provocou uma grande controvérsia no início do século
XVI. O livro narra a história de um príncipe que tinha que manter o controle sobre o seu território a qualquer custo quer através de fraude,
suborno ou de qualquer outro meio.
Naturalmente, a maioria dos líderes no mundo de hoje não admitem um pensar ou um comportamento maquiavélico, e talvez eles nem
tenham consciência de que estão a praticar sua filosofia. O filósofo italiano teve uma grande visão sobre o funcionamento interno da
liderança e do poder, patente, ainda hoje, nas salas de reuniões e nas salas de guerra.
Maquiavel, se ainda fosse vivo, teria de aprovar a adopção pelos E.U.A. do Ato Patriota. Maquiavel teria aprovado uma grande presença
militar nas fronteiras e aeroportos como meio de controlo. Certamente teria aprovado as polémicas escutas telefónicas da NSA e
conscientemente o vazamento de informações da CIA.
No auge de sua vida, Maquiavel serviu como secretário da aristocracia Medici.
4 Conclusão
O presente trabalho tem como objectivo apresentar uma síntese do pensamento político de Maquiavel. Pretende-se demonstrar e elucidar a
sua teoria política bem como a sua concepção de Estado.
O enfoque teórico que dá sustentação ao trabalho baseia-se na principal obra do autor, O Príncipe, além de leituras complementares de
comentadores de suas obras no que tem de específico sobre o referido assunto. A análise que, em geral, se faz da teoria política de
Maquiavel, é na nossa opinião errada por acusar o autor de ser defensor de um regime de governo despótico. Na verdade, o que ensina
Maquiavel, é que um governo é sempre determinado pela realidade dos factos. A acção política do príncipe deve basear-se na imposição
dessa verdade.
Maquiavel foi um dos grandes responsáveis pela noção moderna de poder. A ele também se deve a renovação do sentido e da relação entre
ética e política. Por isso, a teoria política de Maquiavel tem suscitado, ao longo do tempo, uma série de discussões, principalmente pela
interpretação precipitada que inúmeras vezes se fez do seu pensamento. Maquiavel foi sempre - e ainda é - compreendido como alguém
imoral e desprovido de quaisquer valores. Por essa razão a perspectiva do termo maquiavélico é sempre pejorativa.
Maquiavel, fugindo da tradição, que considera a tendência do homem para a vida em sociedade e o bem viver como naturais, sublinha que,
ao contrário, os homens tendem sempre à divisão e à desunião. Deriva daí uma tensão social, marcada pelo conflito de desejos entre dois
grupos sociais distintos, o povo, que deseja não ser oprimido pelos grandes, e os grandes que, inversamente, desejam oprimir e dominar o
povo.
A política, para Maquiavel, é marcada, então, não pelo ideal cristão de unidade entre os homens, mas por algo que é próprio do homem, a
constante luta pelo poder. É por este motivo que os homens mentem, matam e se julgam acima dos princípios morais.
A obra “O Príncipe” é, nesse sentido, uma reflexão sobre o poder político que permeia o Estado. Todo Estado é, fundamentalmente,
constituído por uma correlação de forças, fundada na dicotomia que se estabelece entre o desejo de domínio e opressão, por parte dos
grandes ou poderosos, e do desejo de liberdade, por parte do povo, que, em síntese, compõe as relações sociais.
O poder exercido pelo príncipe está directamente relacionado com o novo modo céptico com que Maquiavel encara o ser humano. A sua
concepção de poder inaugura uma nova ética: laica, prática, em que o poder político é dissociado.

A FILOSOFIA DO DIREITO NO PENSAMENTO MODERNO

O Pensamento Germânico de Kant-


IMMANUEL KANT

I. ETIMOLOGIA

2
No Dicionário da Língua Portuguesa34 encontra-se a seguinte asserção:
- Kantismo, s. m. sistema filosófico de Kant que patenteia no conhecimento modalidades a priori, que não resultam da experiência, mas são
condições dela. Cf. criticismo, relativismo.
II. O FILÓSOFO

Immanuel Kant (1724-1804), filósofo e professor universitário alemão, nasceu em Königsberg e deixou um legado de várias obras
fundamentais para a história do pensamento humano.

É considerado como o último grande filósofo dos princípios da era moderna, seguramente um dos seus pensadores mais influentes.

Depois de um longo período como professor secundário de geografia, começou em 1755 a carreira universitária, ensinando Ciências
Naturais.

Em 1770 foi nomeado professor catedrático da Universidade de Königsberg, cidade da qual nunca saiu.
Operou na epistemologia uma síntese entre o Racionalismo continental, onde impera a forma de raciocínio dedutivo e a tradição empírica
inglesa, de David Hume, John Locke, ou George Berkeley.

Torna-se famoso, sobretudo pela elaboração do denominado idealismo transcendental: todos nós trazemos formas e conceitos a priori,
aqueles que não vêm da experiência, para a experiência concreta do mundo, os quais seriam de outra forma impossíveis de determinar.

A filosofia da natureza e da natureza humana de Kant é historicamente uma das mais determinantes fontes do relativismo conceptual que
dominou a vida intelectual do século XX.

No entanto, é muito provável que Kant rejeitasse o relativismo nas formas contemporâneas, como por exemplo o Pós-modernismo.

III. A OBRA

A obra de Kant é o sustentáculo e a génese da moderna filosofia, deixando o autor uma prolífera produção de pensamento, destacando-se
na sua bibliografia as edições:

- Crítica da Razão Pura (1781)


- Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785)
- Crítica da Razão Prática (1788)
- Crítica da Faculdade de Julgar (1790)
- A Religião nos Limites da Simples Razão (1793)

A sua moral lançou as bases de uma ética da pessoa - nenhum homem pode ser instrumento ou objecto.

Alguns dos princípios que preconizou viriam a constituir marcos na evolução e consagração dos Direitos do Homem, com o advento do
respeito da dignidade da pessoa humana a vingarem na contemporaneidade após o seu desaparecimento.

34
() Dicionário da Língua Portuguesa - Dicionários Editora. Porto: Porto Editora, 6.ª Edição, 1984.

2
O seu Projecto de Paz Perpétua(35), alicerçado na ideia da criação de uma “Sociedade das Nações” veio a gerar, na sequência da I Grande
Guerra Mundial, a organização com o mesmo nome, precursora da actual Organização das Nações Unidas (ONU).
O debate que a obra de Kant suscita constitui uma fonte inesgotável de estudo, quer da área do conhecimento específica da Filosofia, quer
do Direito, uma vez que a influência do pensamento germânico para a história global do pensamento foi imensa, tendo as teorias kantianas
sido decisivas no nascimento do idealismo alemão, e este no desenvolvimento do pensamento moderno.

IV. DOUTRINAS
O pensamento de Kant é decisivamente influenciado pelo Pietismo, um movimento de índole religiosa que valorizava a interioridade, o
sentimento místico, em contraponto aos rituais e práticas religiosas estabelecidas.

O sistema de Kant teve como ponto de partida, as correntes filosóficas que até então predominavam, o Racionalismo (de Descartes, Leibniz
e Espinoza) e o Empirismo (de Bacon, Hume e Locke).

Os primeiros defendiam que a procura da verdade deveria ser feita sem a intervenção dos sentidos, visto que estes adiavam e
comprometiam o processo de conhecimento, pois mascaravam a verdade. Consequentemente, o conhecimento só poderia ser conseguido
através de uma faculdade, a Razão.

Os segundos consideravam que na procura do conhecimento havia que atender à experiência. Assim, quanto mais próximo dos sentidos e
mais afastado da razão, mais correcto seria o conhecimento.

É neste contexto que se centra Kant, procurando o confluir destas doutrinas e encontrar uma resposta que permitisse chegar ao verdadeiro
conhecimento.

Kant tem no Racionalismo Iluminista inspiração determinante, no que representa de valorização da razão e rejeição de qualquer tipo de
autoridade exterior a ela, o que não o impede de considerar:

“Confesso francamente: foi a advertência de David Hume que, há muitos anos, interrompeu o meu sono dogmático e deu às minhas
investigações no campo da filosofia especulativa uma orientação inteiramente diversa”(36).

Havia, então, que encontrar um denominador comum ao entendimento e à razão: o A priorismo.

Não deixando de ter em conta o papel do conhecimento empírico como forma e fonte de entendimento do mundo, o conhecimento a priori é
definido como o conhecimento que é adquirido independentemente de qualquer experiência. É um conhecimento que se alcança pelo
conteúdo dos próprios conceitos.

Sem resvalar para os extremos opostos das correntes que dominaram o pensamento no período histórico que o antecedeu, faz aparecer as
sua três críticas:

- Crítica da Razão Pura;

- Crítica da Razão Prática;

- Crítica da Faculdade de Julgar.

35
() Projecto de Paz Perpétua (1795), única obra directamente política do autor.
36
() KANT, Immanuel – Prolegómenos a toda a Metafísica Futura. Lisboa: Edições 70, p.17.
– Crítica da Razão Pura, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 5ª edição, p.73

2
Na Razão Pura, Kant encontrou dados dos sentidos, para o entendimento poder unificar em conceitos, objectivamente sobre a natureza.

Na Razão Prática, encontrou a razão para formular conceitos sobre a liberdade e na faculdade de julgar, procurando conciliar os conceitos
de natureza e de liberdade.

A Razão Pura define-se como um agrupamento de conceitos puros a priori, que unificam os fenómenos da experiência possível ─ “Todo o
conhecimento humano começou com intuições, passou daí aos conceitos e terminou com ideias.” ─ enquanto que a Razão Prática deverá
entender-se como uma abrangência dos princípios puros, do exercício da razão prática na área da Moral e do Direito.

Não é possível dissociar a filosofia jurídica kantiana da Crítica da Razão Prática e, consequentemente, da Fundamentação da Metafísica dos
Costumes.

Contudo, dado que a Razão Prática é a dimensão ética da razão, torna-se igualmente indissociável da Crítica da Razão Pura.

É a Dialéctica Transcendental que, pelo pensamento, unifica as ideias da razão: Alma, Mundo e Deus. Estas são realidades incognoscíveis,
por inacessibilidade na ordem fenoménica, conduzindo a razão a um conflito consigo mesma, fazendo-a cair em paralogismos e
consequentes antinomias, só ultrapassáveis pela ordem numénica.

Sendo as ideias transcendentais carecidas de representação objectiva, são fonte do uso prático da razão, sem dependerem de nenhum
factor exterior mas só da sua própria força interna, admitindo o homem como causa livre capaz de iniciar uma acção, sobrepondo-se, assim,
o sujeito moral ao sujeito cognoscente.

Transcendental significa em Kant o “a priori”, o que tem por função tornar possível o conhecimento, uma função unificante sem realidade
substancial, que se define como uma relação.

V. A MORAL KANTIANA

A ética Kantiana parte de uma crença básica exposta na obra Fundamentação da Metafísica dos Costumes: a boa vontade é a única coisa
absolutamente boa em si mesma, ou seja, a bondade de uma boa vontade não deriva da bondade dos seus resultados, contrariamente às
outras qualidades humanas que são avaliadas em virtude dos efeitos que provocam, pelos resultados do seu uso.

A boa vontade é a vontade que age com uma única intenção: cumprir o dever pelo dever.

Por outro lado, só em liberdade é possível o exercício da moral, o dever pelo dever, imperativo categórico,

Deixam-nos Manuel Tavares e Mário Ferro(37) que:

“O conceito de Liberdade para Kant é a chave da explicação da autonomia da vontade. Nesta óptica a vontade livre identifica-se com a
vontade autónoma, com a lei moral e, em última análise, com a razão pura prática.”

E é o seguinte o postulado da razão prática, que fornece ao Homem a lei universal a que Kant chama lei moral: ”Age de tal modo que a
máxima da tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal”(38).

37
() TAVARES, Manuel e FERRO, Mário – Conhecer os Filósofos de Kant a Comte. Lisboa: Editorial Presença, 8ª edição, 2001, p.55.
38
() KANT, Immanuel – Crítica da Razão Prática. Lisboa: Edições 70, p.42.

2
No entanto, a liberdade manifesta-se no mundo fenoménico da natureza, ou seja, no mundo da necessidade, logo em negação à própria
liberdade.

É neste contexto que surge a Crítica da Faculdade de Julgar, conciliando o aparentemente inconciliável; a natureza deixa de ser o resultado
dado pelas categorias do entendimento e passa a ser pensada como finalidade.

A Crítica da Faculdade de Julgar, sendo cronologicamente a terceira, é, enquanto tentativa de sistematização da forma de pensar e de agir
dos homens, a primeira.

VI. MORAL e DIREITO

Em Kant, o fundamento moral do Direito, como o fundamento moral do dever, é o respeito absoluto pela pessoa humana, encarada sempre
como fim e nunca como meio.

A consciência moral é então legisladora e o seu carácter formal garante a sua universalidade e autonomia da vontade livre, tendo como
principal preocupação delimitar e caracterizar os conceitos do Direito e da Moral.

A doutrina do Direito encontra-se na efectivação da razão prática, que proporciona os princípios básicos de sustentação a uma metafísica
dos costumes.

Ao justificar esta metafísica, Kant afirma:

"Se um sistema de conhecimento a priori por puros conceitos se chama metafísica, uma filosofia prática, que não tem por objecto a
natureza, mas a liberdade do arbítrio, pressuporá e requererá uma metafísica dos costumes”(39).

Logo, os princípios reguladores da moral partem do próprio sujeito, imbuídos de total objectividade, já que estes não provêm da
sensibilidade, mas antes da vontade a priori da razão, o que permite a sua universalidade, pelo que ao agir eticamente o homem agirá por
toda a humanidade.

Quer a Moral quer o Direito serão regulados por um tronco comum, a Liberdade, existindo, assim, uma dupla legislação que actua sobre o
homem, enquanto consciente de sua própria existência e liberdade: uma legislação interna e uma legislação externa.

A primeira diz respeito à Moral (ética no sentido estrito), obedecendo à lei do dever, de foro íntimo, enquanto a segunda nos revela o
Direito, com leis que visam a regulação das acções externas.

A primeira distinção, ou o primeiro distintivo destas duas ordens normativas e do qual, de certo modo, os restantes decorrem, parece
encontrar-se nos diferentes pontos de vista com que cada uma delas valora a conduta humana, pois que, enquanto a moral a considera de
um ponto de vista absoluto e radical, no sentido que tem para a vida do sujeito, ao direito apenas importa o alcance ou a dimensão social
dessa mesma conduta, sendo, portanto, relativo e não já absoluto o seu ponto de vista.

A ordem que o Direito visa instituir, porque referida a valores, princípios ou ideias, não é uma ordem neutra ou indiferente, mas uma ordem
justa, uma ordem concreta, definida a partir do princípio ou valor “justiça”, que é precisamente, aquele que dá sentido e conteúdo ao
Direito na sua essencial dimensão axiológico-cultural.

39
() KANT, Immanuel – Fundamentação da Metafisica dos Costumes. Porto: Porto Editora, 1995.

2
Partindo da Justiça como princípio, valor ou ideal, o Direito é o meio de que o homem se serve para alcançar uma adequada ordenação da
sua conduta social, com o fim de coordenar o exercício da liberdade de cada um com a liberdade dos restantes, realizando deste modo, o
bem comum da sociedade política.

Para Kant, o Direito é “o conjunto das condições pelas quais o livre-arbítrio de um pode harmonizar-se com o de outro segundo uma lei geral
de liberdade”(40), definição que deriva da ideia de autonomia da vontade e transcreve a própria fórmula da Declaração dos Direitos do
Homem, de 1789.

O verdadeiro critério a usar na distinção entre Moral e Direito será a razão pela qual a legislação será obedecida, ou seja, a conduta humana
em mera concordância com a norma prende-se com o plano jurídico da legalidade, enquanto que a mesma conduta em total concordância
com os valores internos, depurados das inclinações naturais estará forçosamente no plano moral, na conduta ditada pelo dever, pois a
liberdade só se efectiva pelo homem quando este abandona aquilo que possui de natural ou sensível, uma vez que o âmbito da natureza é o
da necessidade e, enquanto tal, oponível ao da liberdade,.

“O imperativo categórico não se fundamenta em nenhum interesse, é incondicionado. Ora uma lei que se impusesse do exterior à vontade
implicaria, necessariamente, um interesse sob a forma de atracção ou de coacção e apresentar-se-ia como imperativo hipotético. Ao
contrário, uma vontade soberana, legisladora é, necessariamente, desinteressada, quando se submete à lei que ela mesma institui. O
conceito de imperativo categórico envolve (…) a ideia de uma vontade legisladora universal.”

Portanto, é legítimo afirmar que o Direito, bem como o dever, têm a sua estrutura assente na liberdade, conceito a priori da razão pura,
sendo que a diferença entre um e outro consiste no facto de na moral a força ser interna, oriunda da própria razão pura prática, isto é, tem
como princípio fundamental o imperativo categórico, enquanto postulado da razão prática.

“O dever é a necessidade de realizar uma acção por respeito pela ordem moral”.

Já no Direito essa força é externa e visa a garantia da liberdade do outro, ou seja, as suas normas têm como regra um dever exterior, poder
de uma autoridade investida pela ideia da coação como nota essencial.

É através da faculdade de coacção que o Direito afasta os entraves à liberdade e, assim sendo, tal faculdade está em conformidade com o
Direito, pois a finalidade deste consiste em assegurar a própria liberdade, já que o mesmo se funda no respeito mútuo das liberdades.

Daí a formulação do princípio de todos os direitos provenientes do Direito - “Age exteriormente de tal modo que a tua liberdade possa estar
de acordo com a liberdade dos outros segundo uma lei geral de liberdade para todos”(41).

O Direito visa, então, assegurar o desenvolvimento da pessoa humana pelo estabelecimento de regras que regulem as relações essenciais
da sociedade, de forma a garantir a convivência harmoniosa entre os seus membros dirimindo os interesses conflituantes de que os
mesmos possam ser portadores, sem esquecer as implicações exteriores impostas pela moral, pois certo é que o Direito só aprecia acção
enquanto projectada no plano social.

Foi sobre o direito de propriedade que recaíram as principais reflexões jurídicas de Kant, o qual defendia a repartição entre os indivíduos do
uso da terra, originariamente posse comum de todos os homens, pois o uso comum desta originária o conflito devido a pretensões opostas.

40
() TOUCHARD, Jean – História das Ideias Políticas. Lisboa: Publicações Europa-América, vol.5, p.53.
41
() KANT, Immanuel – Fundamentação da Metafisica dos Costumes. Porto: Porto Editora, 1995, p. 85.

2
Citando Manuel Tavares e Mário Ferro(42):

“O Direito de propriedade é, para Kant, o direito mais importante. Originariamente todos os homens possuem em comum a terra e
pretendem fazer uso dela; mas, devido ao conflito das pretensões opostas, esse uso comum torna-se impossível se não se verificar uma
repartição entre os indivíduos.”

Tal repartição implicaria, necessariamente, o estabelecimento de convenções mútuas, logo a propriedade só seria definitiva por sanção da
lei no estado social, já que no estado de natureza a posse seria provisória.

VII. VISÃO DO DIREITO INTERNACIONAL

À semelhança do Direito Civil, também o Direito Internacional deverá reger-se pelo mesmo princípio, pois sendo cada nação soberana e
portanto autónoma, é dever dos povos procurar estabelecer relações jurídicas entre as várias nações, de forma a superar os inúmeros
conflitos que surgem entre elas, evitando as guerras e desta forma alcançar a paz perpétua, também ela um dever.

“A razão não nos diz que a guerra deve desaparecer um dia, mas diz-nos que devemos proceder como se a guerra devesse desaparecer.”

Subjacente, está a ideia de republicanismo, na concepção Kantiana “… a única plenamente conforme aos direitos do homem, mas também
a mais difícil de estabelecer e conservar”(43), assente nos três princípios fundamentais:

- Liberdade
- Igualdade
- Independência

Deste modo, há que determinar quais as condições necessárias e suficientes para que os povos aspirem a alcançar essa paz:

- Nenhum Estado, independentemente das suas dimensões, poderá ser ocupado por outro, seja qual for o motivo da ocupação;
- Abolição dos exércitos permanentes;
- Proibição de intervenções armadas na politica interna;
- Os Estados deverão ser republicanos de forma a garantir a liberdade e igualdade entre os seus cidadãos;
- Constituição de uma Assembleia Federal, a qual terá como objectivo dirimir os vários diferendos entre os Estados.

*
* *

Em suma, cabe ao Direito garantir a liberdade do outro, seja esse outro uma nação ou um indivíduo, até porque “o Direito constitui, para
Kant, a única forma concebível de uma aproximação eticamente fundamentada à praxis política – o Direito não deve ser jamais adaptado à
Política, mas pelo contrário, é a Política que deve adaptar-se ao Direito.”(44)

42
() TAVARES, Manuel e FERRO, Mário – Conhecer os Filósofos de Kant a Comte. Lisboa: Editorial Presença, 8ª edição, 2001, p.63.
43
() BERTEN, André, in Filosofia Kantiana do Direito e da Política, Seminário Internacional, coord. SANTOS, Leonel Ribeiro dos e ANDRÉ, José Gomes .
Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2007, p.20.
44
() KANT, Immanuel – Fundamentação da Metafisica dos Costumes. Porto: Porto Editora, 1995, p.109.

2
CONCLUSÃO

Concluímos, que através do estudo aprofundado destes temas, adquirimos um enorme e elevado contributo fundamental para os nossos
conhecimentos sobre filosofia do direito.
De facto, sendo a filosofia do direito, uma cadeira tão importante no Direito dos dias de hoje, todos nós passamos a dominar melhor,
matérias de tão relevante importância.
A aprovação da Tributação pelo parlamento, a representação democrática, a independência dos tribunais, a separação dos poderes, a
liberdade, o direito à informação, a liberdade de imprensa, o direito à vida e à procura da felicidade e o direito à propriedade privada, são
direitos, cuja transposição para o direito vigente, decorrem com grande influência do pensamento de todos os autores indicados neste
trabalho.
Assim sendo, finalizamos com a esperança que este trabalho, embora simples e sintético, transmita correctamente uma visão global sobre
como foram os primeiros grandes passos no mundo filosófico, que tanto contribuíram para o direito actual.

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