Você está na página 1de 6

Fundação Cultural Ilha de São Francisco do Sul em parceria com a Secretaria de Educação –

Oficina - PATRIMONIO IMATERIAL

Apresentação e discussão de conceitos

Cultura, memória, identidade, Patrimônio Cultural, Patrimônio Imaterial, educação


patrimonial, mecanismos para salvaguarda do Patrimônio Imaterial (INRC – Inventário Nacional
de Referências Culturais, inscrição em um ou mais de um dos livros de registro) e quais as ações de
apoio e fomento aos bens culturais registrados.

Cultura

A palavra cultura vem do verbo latino colore, que significa cultivar, criar, tomar conta.
Puericultura por exemplo, significa o cultivo da educação para a formação, para o refinamento.
Dessa perspectiva, a cultura era a moral (o sistema de mores ou de costumes de uma sociedade)

De que maneira os humanos se afirmaram como diferentes da natureza, dando origem ao mundo
cultural?
O antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908 - 2009 ), toma dois mitos para explicar a passagem da
natureza à cultura: Édipo e o de Prometeu.
Cultura segundo Marilena Chauí

“Cultura é, pois, a maneira pela qual os humanos se humanizam e pelo trabalho,


desnaturalizam a natureza por meio de práticas que criam a existência social, econômica, política,
religiosa, intelectual e artística. O trabalho, a religião, a culinária, o vestuário, o mobiliário, as
formas de habitação, os hábitos à mesa, as cerimônias, o modo de relacionar-se com os mais
velhos e os mais jovens, com os animais e com a terra, os utensílios, as técnicas, as instituições
sociais (como família) e políticas (como Estado), os costumes diante da morte, a guerra, as
ciências, a filosofia, as artes, os jogos, as festas, os tribunais, as relações amorosas, as diferenças
sexuais e étnicas, tudo isso constitui a cultura como invenção da relação com o Outro”.(Chauí,
2006, p. 113 e 114)

Memória

É por meio da memória que o passado ressurge e ganha significado. A compreensão de


outros tempos e até mesmo a humanização do presente podem ser construídas em função das
memórias. A memória é um elemento essencial que permite o entendimento individual ou coletivo.
Ela mostra o que se é e do que se faz parte.
Mas o que constitui uma memória? Imagens? Sentidos? Para os gregos, segundo Woodcok
(1953, p. 97), a “memória ou mnemosyne era filha do céu e da Terra, mãe das nove musas que
traziam inspiração aos poetas para a recordação dos heróis e seus feitos”.Homero, nos poemas
épicos Ilíada e Odisseia, é um exemplo disso, pelo fato de ter sido inspirado pelas musas.

Identidade

Alinhando a subjetividade e os sentimentos aos lugares, o sujeito está pela identidade do lugar ou
lugares que ocupa no mundo social e cultural. Sobre isso, Hall (2003, p. 12) aponta ainda: “A
identidade então, costura (ou, para usar uma metáfora médica, sutura) o sujeito à estrutura”.

Patrimônio

Patrimônio é uma palavra de origem latina, patrimonium, que significa tudo o que pertence ao pai.
Tudo o que constitua a Pater família. “A família compreendia tudo que estava sob o domínio do
senhor, inclusive, mulher, filhos escravos, bens, móveis e imóveis e animais. Isso tudo era
patrimonium.” O conceito de Patrimônio surge então no âmbito privado do direito de propriedade.
(Funari, 2006, p.11)

Ideia de Patrimônio

A ideia de Patrimônio cultural, é mais recente e surge com a invenção da ideia de nação, no século
XIX.
1) ao conjunto de monumentos, documentos e objetos que constituem a memória coletiva;
2) as edificações cujo estilo desapareceu e cujos exemplares devem se conservados a título de
lembrança do passado da coletividade;
3) as instituições públicas encarregadas de zelar pelo que foi definido como patrimônio da
coletividade: museus, bibliotecas, arquivos, centros de restauro e preservação de monumentos,
relíquias, documentos, edificações e objetos antigos.

Cultura e hierarquização

Durante o século XVIII, a cultura é o padrão ou o critério que mede o grau de civilização de uma
sociedade. O padrão adotado para medir evolução, foi evidentemente, a Europa capitalista.

A ausência de alguns elementos próprios do Ocidente capitalista, era sinal de falta de cultura ou de
uma cultura pouco evoluída. As outras culturas eram considerada“primitivas”.

Que elementos? Estado, mercado e escrita. O que justificou o colonialismo.

Cultura e diversidade

Cada realidade cultural tem sua lógica interna, a qual devemos conhecer para que façam sentido
suas práticas, seus costumes, concepções e as transformações pelas quais estas passam.

O estudo da cultura, contribui no combate a preconceitos, oferecendo uma plataforma firme para o
respeito e a dignidade nas relações humanas.

Relativismo Cultural

“Relativização é o conceito que designa a atitude intelectual diferente da do etnocentrismo. É o


esforço de compreender a significação dos comportamentos, pensamentos e sentimentos do outro,
nos termos da cultura do outro”. (Rodrigues,1989, p.154.)

Linha do Tempo

1931 - 1ª carta – Carta de Atenas (Conferência sobre a criação da comissão Internacional de


Cooperação intelectual do século XX).
1937 – Criação do SPHAN ( Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) –Presidente
Getúlio Vargas.
1937 – Decreto nº 25/1937 – Lei de tombamento
1945 – Criação da ONU (Organização das Nações Unidas)
1946 – Criação da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a
cultura)
1948 – Lançada a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
1954 / 1956 / 1965 – Conferências em Washington
1972 – Conferência de Estocolmo
1964 a 1967 – Comissão Franceschini – Itália (tutela e valorização / testemunho dotado de valor de
civilização.
1985 – Conferência do México (define que o patrimônio cultural de um povo compreende também
as obras de seus artistas como as criações surgidas na alma popular).
1992 – Eco 92 – Conferência das Nações Unidas para regular a ação do homem, quanto a emissão
de gases, efeito estufa e mudanças climáticas, diversidade biológica, recursos genéticos das
populações indígenas, patrimônio natural etc.
1994 – Carta de Nara (discute e recomenda a busca veracidade – credibilidade das informações
sobre um bem patrimonial). China, Japão e Índia passaram a integrar a comissão de patrimônio.
2000 – Decreto nº 3551/2000 (instrumento jurídico que estabeleceu o registro de bens culturais de
natureza imaterial no Brasil e criou o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial - PNPI )
2001 – criação da medida provisória 2.186-16 que institui o Conselho de gestão do Patrimônio
Genético e define regras para quem quer acessar os recursos genéticos ou conhecimentos
tradicionais associados principalmente a comunidades indígenas na Amazônia.
2003 – Carta de Paris – amadurecidos os conceitos de Patrimônio Imaterial e Patrimônio natural e
Arqueológico.
2010 – Institui no Brasil o Inventário nacional de Diversidade linguística por meio do Decreto 7.387.

Constituição Federal

Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial,
tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória
dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:
I - as formas de expressão;

II - os modos de criar, fazer e viver;

III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas;

IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às


manifestações artístico-culturais;
V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico,
paleontológico, ecológico e científico.
Recentemente, constituiu-se uma nova qualificação ao Patrimônio, a ligada ao intangível, opondo-
se ao patrimônio de pedra e cal.

Patrimônio Imaterial

Os bens imateriais estão relacionados aos saberes, às habilidades, às crenças, às práticas, aos modos
de ser das pessoas.

Inventário Nacional de Referências Culturais - INRC

É um instrumento que possibilita o conhecimento sobre os bens culturais. Uma técnica para o
levantamento dos bens, suas características, sua dinâmica e grau de importância para um
determinado grupo.

Registro dos bens culturais de natureza Imaterial

um bem inventariado e posteriormente oficializado como patrimônio cultural é registrado. O


registro se efetiva por meio de inscrição do bem em um ou mais de um dos seguintes livros:

Livro de Registro dos Saberes – para a inscrição de conhecimentos e modos de fazer enraizados
no cotidiano das comunidades;

Livro de Registro das Celebrações – para rituais e festas que marcam a vivência coletiva do
trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas sociais;

Livro de Registro das Formas de Expressão – para o registro das manifestações literárias,
musicais, plásticas, cênicas e lúdicas;

Livro de Registro dos Lugares – destinado à inscrição de espaços como mercados, feiras, praças e
santuários, onde se concentram e reproduzem práticas culturais coletivas.

Educação Patrimonial

O termo Educação Patrimonial, tradução do Heritage Education – expressão inglesa, surge no


Brasil em meio a discussões sobre a necessidade de se aprofundar o conhecimento a respeito da
preservação do Patrimônio Histórico-Cultural. No ano de 1983 se efetivaram ações acerca da
Educação Patrimonial por ocasião do 1º Seminário sobre o “Uso educacional de museus e
monumentos”, no Museu Imperial de Petrópolis, Rio de Janeiro.(Horta,1999, p. 06)

Mário de Andrade, pesquisador e folclorista, já mencionou nos idos da década de 20 que o ato de
preservar deveria estar aliado ao processo de escolarização. Dizia ele:

“Não basta ensinar o analfabeto a ler. É preciso dar-lhe contemporaneamente o elemento em que
possa exercer a faculdade que adquiriu. Defender o nosso patrimônio histórico e artístico é
alfabetização”.

A Educação Patrimonial consiste em uma proposta interdisciplinar de ensino, voltada para as


questões que envolvem o Patrimônio Cultural. Em sua totalidade significa o ato de mediar, e tal
mediação possibilita a interpretação e apropriação dos bens culturais, o que faz dela um instrumento
de promoção e exercício da cidadania.

Considerações finais

Observação, registro, exploração e apropriação.

Referencial Teórico utilizado e outras indicações de leitura

BEZERRA, Atila. Educação Patrimonial: reflexões e práticas – cadernos temáticos. Edição do


IPHAN. João Pessoa, Paraíba, 2012.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras,
1994.
BRAYNER, Natália G. Patrimônio Cultural Imaterial – para saber. Edição IPHAN. Brasília. DF,
2012.
CAMPBELL, Joseph. Isto és tu: redimensionando a metáfora religiosa. Tradução de Edson Bini.
São Paulo: Landy, 2002.

__________________O poder do mito. 14. ed. Tradução de Carlos Felipe Moisés. São Paulo:
Palas Athena, 1990.

CANCLINI, Nestor. Culturas Híbridas. Tradução de Heloísa Pezza Antrão e Ana Regina Lessa.
São Paulo: Editora da USP, 2006.

CHAUÍ, Marilena. Cidadania cultural: o direito à cultura. São Paulo: Fundação Perseu Abramo,
1989. p. 113 e 114.

CURY, Isabelle (Org.). Cartas patrimoniais. 3. ed. Rio de Janeiro: Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional, 2004.

FUNARI, Pedro Paulo. Patrimônio História e Cultura. Edição IPHAN. Brasília, DF.2006.p.11

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomás Tadeu da Silva.


Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

HORTA. Parreiras Maria de Lourdes, Guia básico de educação patrimonial. IPHAN.1999, p. 06

RODRIGUES. José Carlos. Antropologia e Comunicação – princípios radicais. 1989, p.154.

WOODCOK, Percival G. Pequeno dicionário de mitologia. Nova York: Philosophical Library,


1953.

Patrimônio Histórico e Artístico Nacional IPHAN, http://iphan.gov.br

Constituição Federal Brasileira. 1988. Disponível em:


<http://www.senado.gov.br/sf/legislação/const/>.

Você também pode gostar