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HAZRAT INAYAT KHAN

ENSINAMENTOS

SUFIS

Volume VIII-a
A Mensagem Sufi
UNIVERSALISMO
Sumário

Prefácio

PRIMEIRA PARTE

A História dos Sufis

Sufismo

O Objetivo do Sufi

Os diferentes estágios do desenvolvimento espiritual

A tendência profética

Olhar

Autodisciplina

Controle Físico

Saúde

Harmonia

Equilíbrio

Luta e Resignação

Renúncia

A diferença entre vontade, querer e desejo

SEGUNDA PARTE

A lei da atração

Pares de opostos

Não resistir ao mal

Julgar

O privilégio de ser humano


Nossa parte Deus e nossa parte homem

Homem, a semente de Deus

Evolução

A circulação espiritual através das veias da natureza

Destino e livre arbítrio

Impulso Divino

A lei da vida

Manifestação, Gravitação, Assimilação e Perfeição

Karma e Reencarnação

TERCEIRA PARTE

A vida além-túmulo

O significado místico da ressurreição

O símbolo da cruz

Orfeu

O mistério do sono

Conscientização

Consciência

O dom da eloquência

O poder do silêncio

Santidade

O Ego

O Nascimento da Nova Era

O lado mais profundo da vida

O mecanismo da vida

A fronte sorridente

A magia da vida

Abnegação
O espirito conservador

A formação do caráter

Respeito e consideração

Amabilidade

Ignorar

Conciliação

Otimismo e pessimismo

Felicidade

Vacinação e inoculação

Casamento

QUARTA PARTE

O Amor

O Coração

A qualidade coração

Afinação do coração (1)

Afinação do coração (2)

A alma, sua origem e desdobramento

O desdobramento da alma

O desejo da alma

O despertar da alma (1)

O despertar da alma (2)

O despertar da alma (3)

A maturidade da alma

A dança da alma
Prefácio

Nestes Ensinamentos Sufis, que fazem parte da Mensagem Sufi de Hazrat


Inayat Khan, o leitor encontrará outros dados sobre o pensamento Sufi numa
grande variedade de assuntos.

Embora Inayat Khan tenha realizado palestras, conferências e classes de


estudos sobre Sufismo desde que chegou ao Ocidente trazendo a Mensagem
Sufi em 1910, pouca coisa ficou registrada. Só depois da Primeira Guerra
Mundial é que suas palavras foram cuidadosamente reunidas para uma futura
publicação. Há alguns anos foi encontrada uma pasta no “International
Headquarters of the Sufi Movement” em Genebra, Suíça, contendo material
manuscrito dos anos 1914-1919 e é esse material que constitui este livro,
acrescido de outras palestras que apareceram em diversas publicações Sufis
dos anos vinte.
PRIMEIRA PARTE
A História dos Sufis

O Sufismo nunca teve um primeiro exponente ou uma origem histórica. Existiu


desde o começo dos tempos, porque o homem sempre possuiu a luz que é sua
segunda natureza e a luz no seu mais elevado aspecto pode ser chamada o
conhecimento de Deus, a sabedoria divina, na realidade, Sufismo. O Sufismo foi
sempre praticado e seus mensageiros foram pessoas de grande coração. Assim
pertenceu tanto aos Mestres quanto aos outros.

A tradição diz que Adão foi o primeiro profeta, o que mostra que a sabedoria já
era propriedade do primeiro homem. Sempre houve, entre a raça humana,
alguns que desejavam obter a sabedoria. Procuravam os seres espirituais na
sua solidão, serviam-nos com reverência e devoção e aprendiam com eles a
sabedoria. Somente alguns poucos puderam compreender esses seres
espirituais, mas muitos foram atraídos por suas grandes personalidades. E Ihes
diziam: “Nós vos seguiremos, vos serviremos, confiaremos em vós e jamais
seguiremos outro qualquer” e os Santos respondiam-Ihes: “Meus filhos, nós os
abençoamos. Façam isto, façam aquilo. Esta é a melhor maneira de viver.”
Deram aos seus seguidores preceitos e princípios tais que pudessem
proporcionar-lhes modéstia e humildade. Foi assim que as religiões foram
criadas.

Mas, no decorrer do tempo, a verdade se extraviou. A tendência de dominar


surgiu e com ela o patriotismo da comunidade e o preconceito contra os outros.
Desse modo a sabedoria foi se perdendo gradativamente. A religião foi aceita,
embora com dificuldade, mas a evolução do mundo daquele tempo não permitia
que compreendessem os Sufis. Riam-se deles, eram maltratados e
ridicularizados. Eram obrigados a se afastar do mundo, morando em cavernas
das montanhas e em solidão.

No tempo de Cristo haviam Sufis entre os primeiros que lhe deram atenção e no
tempo de Maomé os Sufis no monte ZAFAH foram os primeiros a responder ao
seu chamado. Uma das explicações do termo SUFI é essa associação com o
monte ZAFAH. Maomé foi o primeiro a abrir caminho para os Sufis na Arábia,
onde tiveram muitos seguidores, entre eles Sadik e Ali.

O Sufismo então expandiu-se até a Pérsia. Mas em qualquer parte onde os Sufis
expressavam livremente seu pensamento, eram atacados pelas religiões
estabelecidas e assim o Sufismo encontrou sua válvula de escape na poesia e
na música. Assim, aconteceu que grandes poetas Sufis como HAFIZ, RUMI,
SHAMS e TABRÈZ, SADI, OMAR KHAYYÀM, NIZAMI, FARID, JAMI, e outros
deram a conhecer ao mundo a sabedoria do Sufismo. O trabalho de RUMI é tão
grande que quem o leu e assimilou aprendeu toda a filosofia nele contida. Seus
poemas são cantados nas assembleias sagradas dos Sufis como parte de sua
devoção. As vidas dos Sufis foram maravilhosas no que toca à piedade e
humanidade.

Foi na Índia que a arte do Sufismo foi levada à perfeição: a Índia tem sido uma
terra espiritual há longos anos. Para os indianos o misticismo era uma ciência e
seu principal objetivo na vida. Foi assim no tempo de MAHADEVA e mais tarde,
no tempo de KRISHNA. Quando o Sufismo encontrou esse solo para lançar a
semente, atingiu a perfeição e muitas pessoas altamente talentosas tornaram-
se seguidores do Sufismo, entre elas KHWAJA MOIN-UD-DIN CHISHTI. A
música teve uma parte importante nas suas vidas e práticas. Nesses Sufis, a arte
da devoção, da idealização, alcançou o mais alto desenvolvimento e suas
consciências atingiram a libertação do plano exterior.

Os tradutores e estudiosos dos poetas persas, embora os admirassem e os


louvassem grandemente, cometeram muitas vezes o engano de não Ihes dar o
devido crédito. Falaram dos poetas como se eles tivessem produzido suas obras
por eles mesmos e não tivessem herdado nada dos ensinamentos do passado.
Mas, a Pérsia, situada entre a Grécia, Egito, Arábia e Índia, ficou sob a influência
de Platão e Sócrates, do Hinduísmo e do Budismo e especialmente de sua
poesia e filosofia. Tudo no universo é influenciado de certa forma por outras
coisas e, desse modo, não se pode dizer que o Sufismo nasceu na Pérsia e que
não existia anteriormente. É um fato inegável que os Sufis existiram no tempo
de Maomé e mesmo anteriormente e que Maomé gostava de conversar e se
aconselhar com eles. Por conseguinte, o Sufismo no curso do tempo absorveu
a influência de muitas religiões e a seu turno também influenciou muitas religiões.
Contudo, poucos dos antigos manuscritos sobreviveram e apesar desses poucos
manuscritos terem perdido muito através de interpretações errôneas, ainda
assim podem ser encontrados traços do antigo Sufismo.

Em tempos muito antigos SÁFA foi fundado, a Fraternidade da Pureza. Sua


doutrina era: conheça-te a ti mesmo e conhecerás Deus. Esses estudiosos do
ser eram Sufis, pois Sufismo é o estudo do ser.

Sufis e Iogues respeitam-se mutuamente, pois a única diferença entre o Sufi e o


Iogui é que o Iogui preocupa-se mais com a espiritualidade e o Sufi mais com a
humanidade. O Iogui pensa que é melhor ser Deus e o Sufi pensa que é melhor
ser homem, porque se se é somente espiritual, há sempre o perigo de cair.
Nosso corpo tem a tendência de cair. Os Sufis dizem que já que as necessidades
e desejos do corpo e suas sensações existem, deve-se satisfazê-las. Dizem que
podemos ter o que se quer ter, mas se não for possível ter o que queremos, não
nos devemos preocupar. Todavia, não há diferença interior entre um Sufi e um
Iogui. Não há diferença na sabedoria. Se parece haver alguma, é apenas uma
diferença de forma.

A alegria está na união. Não está somente no reino espiritual ou no reino


material, está em ambos. Por que juntamos as mãos? Porque onde há dois, a
alegria está no encontro. Os olhos são dois. Quando estão fechados há alegria.
Quando a respiração passa através das duas fossas nasais, o místico sente um
êxtase. Por que as pessoas apertam as mãos umas das outras? Por que as
pessoas se regozijam quando se abraçam? Por que as pessoas procuram a
companhia de um cientista ou de um sábio? Porque uma alma é atraída e unida
a outra alma. A alegria não está apenas na espiritualidade, mas na união do
espiritual e do material.

Não é bom ser um animal, e ser todo angelical também não é bom, porque somos
constituídos de um corpo animal que necessita comer, beber, dormir e cujos
sentidos têm milhares de exigências. Devemos manter os atributos animais
inofensivos e nos descartarmos dos que são perigosos. Não há mal em comer e
beber, mas tirar o alimento do prato do outro quando já temos alimento no nosso
prato, é uma coisa mal feita.

O tema central da vida dos Sufis é a liberdade da alma. Como disse o grande
poeta Sufi persa RUMI: “A alma na terra está numa prisão e permanecerá nela
tanto tempo quanto viver na terra”. O homem pode ou não pode compreender
isto, mas há um profundo anseio em cada alma de se elevar acima da prisão que
a retém, escapar a esse cativeiro. A resposta a esse anseio é a realização
espiritual.

Há dois aspectos dos Sufis: um é chamado “RIND” e o outro “SALlK”. O aspecto


“RIND” está muito bem expressado na tradução de OMAR KHAYYÀM feita por
Fitzgerald: “Ó meu bem-amado, encha esta taça que purifica hoje os remorsos
do passado e os temores futuros. Porque amanhã eu posso ser eu mesmo, com
os 7.000 anos de ontem”. Com isso ele quis dizer: faça o melhor do momento
presente, é agora que podes ver claramente a eternidade, se viveres neste
momento. Mas se conservares o mundo do passado ou o mundo do futuro diante
de ti, não viverás na eternidade, mas num mundo limitado. Noutras palavras, não
vivas nem no passado nem no futuro mas na eternidade. É agora que deves
tentar descobrir a felicidade, que é encontrada quando a alma se liberta.

Este é o tema central de todos os grandes poetas que são chamados de “RIND”.
Suas vidas não se limitaram aos chamados princípios, conhecidos pelos
ortodoxos. São livres de toda espécie de fanatismo, dogmas e princípios
impostos à humanidade. Ao mesmo tempo são homens de alto ideal e grande
moral, de pensamentos profundos e realização avançada. Vivem uma vida de
liberdade neste mundo de encarceramento, onde cada alma é uma escrava.
Há entre os Sufis os “SALlKS” que estudam, meditam e ponderam sobre éticas,
vivendo de acordo com certos princípios. A vida ensina os “SALlKS” e guia-os
no caminho reto. Levam uma vida de piedade e renúncia. O caminho do “SALlK”
é compreender a religião de cada um e segui-la de acordo com o seu ponto de
vista. O “SALlK” faz uso da terminologia religiosa como o ortodoxo e assiste as
mesmas cerimônias, mas para ele sua significação é diferente. Portanto, cada
linha das sagradas escrituras tem um significado especial para o “SALIK”, pois a
vê sob uma luz especial.

Os mais altos e os mais sutis pensamentos a respeito de Deus, do homem e da


vida, podem ser compreendidos somente de acordo com a evolução do homem
e portanto é natural que os Sufis, que são chamados “SALIK”, aceitem a forma
religiosa primeiramente a fim de se colocarem em harmonia com outras pessoas.
Interpretam assim a verdadeira sabedoria encontrada nas religiões.

A maior parte da literatura Sufi é escrita de tal forma, que quem não conhece sua
significação interior e profunda, ficará muito surpreendido. Se pesquisarmos os
poemas de HAFIZ, notaremos que o nome de Deus é raramente mencionado em
qualquer um deles. Se lermos os poemas de OMAR KHAYYÀM, tão apreciados
no mundo ocidental, veremos que ele está sempre falando em vinho, do BEM-
AMADO, de copo e de solidão. Alguém pode perguntar: “Que espécie de
espiritualidade é esta? Ele não fala senão de vinho e copo! Se isso fosse
espiritualidade, que pena seria para a humanidade!” Na verdade, nesses
poemas há pouca expressão devocional. Nos poemas de JAMI não há
absolutamente expressão de devoção, nem nas centenas de outros poetas
Sufis, que são considerados grandes sábios e místicos. Eles receavam que, uma
vez adquirindo o título de seres espirituais, tinham sempre obrigação de parecer
pessoas espirituais, de terem o aspecto de uma pessoa espiritual, de falar como
uma pessoa espiritual e temiam que desse modo pudessem perder sua liberdade
e fossem considerados hipócritas.
Sufismo

Existem três escolas principais de pensamentos filosóficos no Oriente: Sufismo,


Vedantismo e Budismo. A Escola Sufi de pensamentos foi a escola dos profetas
de Beni Israel: Abraão, Moisés, David, Jonas e outros, Zaratustra, Cristo,
Maomé. Esses e outros profetas vieram da parte do mundo que incluía a Síria,
a Arábia, a Pérsia, o Egito e o que é atualmente a Turquia e o sudeste da Rússia.

Sufismo é a antiga escola da sabedoria, da quietude. Dela se originaram muitos


cultos de natureza mística e filosófica. Suas raízes podem ser rastreadas na
escola que existiu no Egito e da qual se originaram todas as outras escolas
esotéricas. Sufismo sempre representou aquela escola e cumpriu seu objetivo
no campo da quietude. Dessa escola Sufi foram criadas quatro escolas: a
primeira foi a Escola Naqshibandi, que se baseava principalmente no
simbolismo, no ritual e no cerimonial. A segunda foi a Escola Qadiri, que
ensinava a sabedoria nos domínios da religião Islâmica existente no Oriente. A
terceira foi a Escola Sohrwardi, que ensinava o mistério da vida através do
conhecimento da metafísica e da prática do autocontrole. A quarta foi a Escola
Chishtia, que representava o ideal espiritual no campo da poesia e da música.
Dessas escolas surgiram muitos ramos que se espalharam pela Arábia, Turquia,
Palestina, Tartária, Turquestão, Rússia, Bokhara, Afganistão, Índia, Sibéria e
outras partes da Ásia.

Nas diferentes escolas Sufis o ideal permaneceu o mesmo, embora os métodos


variassem. O principal ideal de todas as escolas Sufis tem sido alcançar a
perfeição, a mesma perfeição que Jesus Cristo ensinou e consta da Bíblia: “Sede
perfeitos como vosso Pai no céu é perfeito”.

O método Sufi sempre se baseou no aniquilamento do eu, mas que eu? Não o
eu verdadeiro e sim o falso eu, do qual o homem depende e tanto se orgulha,
mencionando-o sempre como se fosse alguma coisa muito especial. Aniquilando
o falso eu o homem faz com que o eu verdadeiro se manifeste no mundo das
aparências. O método Sufi visa ao desdobramento da alma, do eu eterno ao qual
pertence tanto o poder como a beleza.

O Sufismo compreendeu o que está por detrás do ideal de Ahura Mazda e


Shriman, o princípio do bem e o princípio do mal. Podemos encontrar esses
princípios nas palavras de Cristo e no Corão, assim como no Zenda Avesta.
Compreendeu o que existe atrás da idéia dos anjos. Idealizou Deus e o Mestre,
O Mensageiro da Mensagem Divina. Sufismo pode ser chamado de misticismo
Judaico sem omitir a influência do Cristianismo. Pode ser chamado de sabedoria
dos Cristãos sem omitir a sabedoria do Islã, que é encontrada no Sufismo. Pode
ser chamado de lado esotérico do Islã sem negligenciar a influência das filosofias
estrangeiras tais como do Vedanta e do Budismo. Eis a razão do Sufismo ser
tão perfeito e universal.

A adoração dos Sufis pela natureza é devida à influência de Zaratustra. Sua


tendência para o sacrifício foi a lição dada por Abraão. Seu poder miraculoso
deve-se à influência de Moisés, aquele que adverte sobre a aproximação dos
perigos. Sufismo representa o grande previdente do passado: Noé. Sua
independência do asceticismo mostra a influência de Salomão. Sua música
sagrada fala dos cânticos de David. Sua tendência para a renúncia é a lição dada
pelo exemplo do Cristo. A tendência humanista mostrada pelo Sufi é a influência
da personalidade de Maomé. Isso tudo faz do Sufi o discípulo de todos os
Mestres, o seguidor de todas as religiões, o conhecedor de todos os aspectos
da sabedoria. É por isso que o Sufi, a despeito de sua realização espiritual,
mantém-se sociável no mundo.

Alguns dizem: “Acredito só em Moisés” ou “Acredito só em Cristo”. Alguns


afirmam que só acreditam no Vedas ou em outras escrituras antigas, enquanto
que o Sufi não se importa com quem diz as coisas e sim com o que está sendo
dito. Se encontra a Verdade nas palavras de Zaratustra aceita-as. Se vê a
Verdade na Cabala também aceita-as. Aceita as palavras de Cristo e da Bíblia.
Vê a Verdade no Corão. Aceita a Vedanta. Muitos Sufis têm sido grandes
estudiosos do Vedanta. Estudam-no muito mais que certos Hindus. O Sufi vê em
todas as Escrituras uma única Escritura.

Dara, irmão de Aurangzeb, foi um dos primeiros estrangeiros a estudar o


Vedanta e difundiu os conhecimentos nele contidos no reino de Akbar. Nos
domínios de Akbar existiam igrejas Cristãs, sinagogas Judaicas e mesquitas.
Akbar frequentava todas elas. Era uma demonstração de sua visão de Sufi.
Quando o grande poeta Kabir faleceu, tanto os Hindus como os Muçulmanos
chamavam-no de “nosso poeta”. Os Hindus queriam cremar seu corpo e os
Muçulmanos queriam enterrá-lo. Ambas as partes afirmavam que Kabir
pertencia à sua religião.

O Sufi vê a Verdade em todas as religiões, não diz que uma religião não é a sua
religião. Hindus e Muçulmanos visitam igualmente o túmulo dos grandes santos
Sufis. Por exemplo, todos visitam o túmulo do Khwaja Moin-ud-din Chishti, em
Ajmer.

O Sufi vê uma só Verdade em todas as formas. Se convidarem um Sufi para


visitar e fazer preces numa igreja Cristã, prontamente aceita. Se quiserem levá-
lo a uma sinagoga pedindo-lhe que ore como os Israelitas, faz isso com prazer.
Entre os Muçulmanos rezará o Nimaz com eles. No templo Hindu o Sufi vê o
mesmo Deus, o Deus vivo, no lugar do ídolo. No templo de Budha sente-se
inspirado e não se deixa cegar pela idolatria. A verdadeira mesquita do Sufi é o
seu coração onde vive o Bem-Amado, que é adorado tanto pelos Muçulmanos
como pelos Kufrs.

Presentemente o objetivo do Movimento Sufi é trazer um melhor entendimento


entre indivíduos, nações e raças e ajudar os que estão à procura da Verdade.
Seu tema central é a conscientização da divindade da alma humana. Os
ensinamentos Sufis visam a alcançar esse objetivo.

Não foi apenas a incompreensão entre o Oriente e o Ocidente, ou entre Cristãos


e Muçulmanos que trouxe o Sufismo para o Ocidente, foi a incompreensão entre
os próprios Cristãos e os indivíduos em geral. O Sufismo como uma escola veio
do Oriente para o Ocidente, mas o Sufismo como uma mensagem veio do Alto
para a terra. Nesse sentido o Sufismo não pertence nem ao Oriente nem ao
Ocidente. A Escola Esotérica Sufi tem atrás dela a tradição das antigas Escolas
Sufis que existiram em vários períodos da história, mas a Mensagem Sufi tem a
sua própria tradição. Sufismo é mais que uma escola, é a vida propriamente dita,
é a resposta ao clamor de toda a humanidade.

Sufismo é uma religião se as pessoas quiserem aprender religião com o Sufismo.


É uma filosofia se alguém quiser aprender sabedoria com o Sufismo. É
misticismo se alguém quiser ser guiado pelo Sufismo no desdobramento da
alma. O Sufismo, entretanto, está acima de tudo isso: é a luz, é a vida que é o
sustento das almas, e que eleva o ser mortal da mortalidade para a imortalidade.
É a Mensagem do Amor, da Harmonia e da Beleza. É uma Mensagem Divina. É
a mensagem da época. É a resposta ao clamor de todas as almas. A mensagem,
contudo, não está nas palavras, está na luz divina e na vida que cura as almas,
dando a elas a calma e a paz de Deus.

Sufismo não é nem deísmo nem ateísmo, porque deísmo significa crença num
Deus distante no céu e ateísmo significa não crer em Deus. O Sufi crê em Deus,
mas em que Deus? No Deus de quem se separou, no Deus que está dentro e
fora dele. É como está escrito na Bíblia: “Vivemos, nos movemos e temos o
nosso ser em Deus”. Este é um ensinamento Sufi.

O Sufi crê em Deus como o Ser ideal dentro da verdadeira vida, como a
Consciência Coletiva, e também como o Senhor de ambos os mundos, o Mestre
do Dia do Julgamento, o Inspirador do caminho correto, como Aquele de onde
provêm todas as coisas e para Quem tudo retornará.

Na realidade não podem existir muitas religiões, pois só existe uma religião. Não
existem duas verdades, não pode haver dois Mestres. Assim como só existe um
Deus e uma religião, existe somente um Mestre e uma só Verdade. A fraqueza
do homem leva-o sempre a considerar como verdade apenas aquilo a que se
acostumou a pensar como sendo a verdade. Qualquer coisa que não esteja
acostumado a ouvir ou a pensar, amedronta-o. Como acontece com uma pessoa
que está longe do lar, a alma se sente como uma estranha no meio das coisas
a que não está habituada. A jornada para a perfeição significa nos elevarmos
acima das limitações, significa subir tão alto que não vemos apenas o horizonte
de um país ou de um continente, vemos o horizonte do universo. Quanto mais
alto nos elevarmos, mais amplo será o horizonte abrangido pela nossa visão.

O Sufi não prescreve princípios para ninguém, mas isso obviamente não se
aplica à vida comum, onde o fato de uma pessoa não ter princípios leva-a a ser
considerada muito pouco recomendável. Muitos admiram-se como o Sufismo
pode ser seguido se não tem princípios. A resposta é que o que é bom para um
pode não ser bom para outro. Para uma mulher pode ser bom ser freira, ou
sentar-se o dia inteiro numa igreja ou numa mesquita. Para uma outra isso pode
não ser nada bom. Já uma terceira pessoa pode talvez ter vontade de ir a cafés
e restaurantes e pode aprender muito com as experiências que ali tiver.

No Oriente usa-se um turbante em certos lugares. No Ocidente em lugares


semelhantes tira-se o chapéu. Trata-se apenas de princípios opostos. No
Oriente, nos templos Hindus, nas Mesquitas e em outros recintos sagrados, tira-
se o sapato ao entrar. No Ocidente não é permitido entrar num templo sem
sapatos. Se os Brâmanes tivessem que usar sapatos pesados como os
Europeus, poderiam até ficar doentes e se sentirem sempre cansados. Precisam
usar sapatos leves que possam ser tirados facilmente. Os princípios das religiões
foram estabelecidos para satisfazer as exigências da época e dos lugares.

Os povos sempre lutaram por princípios, alegando que se as pessoas aderissem


a certos princípios se tornariam seres superiores, enquanto que outros povos
que aderiam a outros princípios se tornariam inferiores. Para o Sufi, porém, o
bem e o mal não existem: sua única moral é a bondade para com seus
semelhantes. O mundo não pode compreender essa maneira de ser do Sufi,
porque o mundo sempre está desejando ouvir isto ou aquilo sobre princípios, ou
por outra, isto é bom e aquilo é mau. Entretanto, a maneira pela qual olhamos
determinada coisa é que faz dele uma coisa boa ou uma coisa má. Assim, o que
se deve primeiro treinar é o próprio ponto de vista. O Sufi age em todas as
circunstâncias de maneira espiritual. Vê apenas a unidade e uma harmonia. A
religião do Sufi é o amor. Por isso os princípios das diversas religiões nada
representam para ele. Deixa que lutem pelos princípios aqueles que não podem
ver além dos limites estreitos de suas idéias.

Quando a palavra filosofia é mencionada, pensa-se imediatamente na filosofia


Vedanta ou de Platão e Aristóteles. Estes e outros filósofos estudaram o universo
físico, a matéria. Estudaram como o espírito se tornou matéria. Estudaram
metafísica. Nessas filosofias porém não se encontra nenhuma realização,
nenhuma devoção, enquanto que no Sufismo se encontra a idealização de Deus.

Os Sufis crêem também que o homem deve ser encorajado em todas as formas
de adoração, mas a adoração de um ídolo não fará de um Sufi um Kufr, um
descrente, porque o Sufi adora o que está além do ídolo, adora tudo ao mesmo
tempo. Para o mundo pode parecer que o Sufi adora o ídolo, mas na realidade
adora a Deus, Aquele que está em tudo. Idólatra é aquele que diz: “Isto é Deus,
aquilo não é Deus, Deus está neste ídolo e Deus não está em ti”. O Sufi também
tem um ídolo, mas um ídolo vivo. Encontrei certa vez um faquir numa das ruas
de Hyderabad. Disse-me ele: “Por favor, Murshid (Mestre), qual é o caminho para
a rua tal?” Naquela época eu estava estudando filosofia e pensei: “Ele me
chamou de Murshid. Talvez esteja vendo alguma grandeza em mim”. Mas a
seguir eu o ouvi chamar um policial e dizer: “Murshid, por favor, este é o caminho
para a casa tal?” Compreendi que ele usava a palavra Murshid (Mestre) para
todos. Quando comentei isso com meu Mestre, ele me explicou que aquele faquir
havia atingido o estágio “Fanà-fi-Shaikh”. O que atinge este estágio ou grau, vê
seu Murshid ou Mestre em todos e em tudo. Quem já chegou a esse grau de
realização aprende de todos, aprende de qualquer ser, de um velho ou de um
moço, de um tolo ou de um sábio, até de um gato, de um cão, de uma árvore, de
uma pedra. O homem que vê Deus somente num objeto e não em todas as
coisas e seres, é um idólatra. Só quando passamos a ver Deus em tudo é que
realmente vemos Deus.

Sufismo é uma filosofia entre as religiões e é uma religião entre as filosofias. É


uma filosofia entre as religiões devido à liberdade de pensamento do Sufi. É uma
religião entre as filosofias porque o ideal do Sufi é Deus e ele procura Deus na
devoção e na adoração.

Os Sufis foram chamados de Sufis pelos outros, porque nunca deram a si


próprios nenhum nome. Sempre foram indivíduos livres no que diz respeito a
nomes, rótulos, distinções de personalidades. Por isso o mundo os chamava de
Sufis, palavra derivada de “Saf”, que na língua Árabe quer dizer “puro”.
O Objetivo do Sufi

O objetivo da vida do Sufi não é divergir de qualquer religião ou tratar mal


qualquer comunidade. Qualquer que seja a religião – o Cristianismo, o Budismo,
o Judaísmo, o Hinduísmo, ou qualquer que seja a Sociedade – Teosófica, Novo
Pensamento, Ciência Cristã, etc. o Sufi nunca procura ver suas fraquezas ou
falhas que possam existir, apenas procura ver o que há de bom em todos, porque
neste mundo cada ser faz o que lhe parece melhor ou faz aquilo que pensa ser
o melhor. O objetivo do Sufi é o objetivo de todos, isto é, obter o conhecimento
e ao mesmo tempo se harmonizar e se unir com todos, deixando de lado as
diferenças. O objetivo do Sufi, pois, não é ver a dualidade e sim a unidade. Sem
dúvida esse é o objetivo de todas as religiões e esse objetivo vem sendo
reivindicado, de certa forma, claramente nos diferentes estágios da evolução do
mundo.

Deus existe como a inativa perfeita consciência, cuja perfeição está na Sua auto-
suficiência. Deus surge como ativo na manifestação. O Sufi vê nisso também a
unidade de Deus. O Sufi mantém Deus sempre diante dos seus olhos. Qualquer
ato de bondade da parte de amigos, do pai ou da mãe, ele reconhece vindo de
Deus. Vê Deus trabalhando através do pai, da mãe, ou do amigo. Atribui a Deus
a amizade, o amor que sente pelos pais, parentes, amigos ou bem-amada.

Nos poemas dos poetas Sufis há frequentes citações sobre os anéis do cabelo
do Bem-Amado. O poeta vê Deus na figura dos pais ou do amigo. Repete o nome
de Deus a cada respiração e considera cada respiração tão valiosa que nada no
mundo poderá igualá-la. Pode-se perguntar: “Por que repetir o mesmo
pensamento milhares de vezes? Não seria melhor se o pensamento variasse?”.
Somente usando um mesmo pensamento é que uma pessoa pode se unir à sua
origem.

Pode-se também perguntar se os objetivos Sufis têm por finalidade fazer de um


Sufi um curador ou clarividente, comunicar-se com espíritos, explorar o mundo
fenomênico, o desejo de ligar-se a um profeta ou mestre, procurar a presença
de Deus, atingir o céu ou uma religião em particular. A resposta é a seguinte: o
Sufi não objetiva nada dessas coisas.

Muitas pessoas almejaram ter o conhecimento místico para se tornarem


curadores, com o intuito de se curar ou curar os amigos, evitando que tenham
de dispender dinheiro com médicos. Tais coisas podem acontecer na vida de um
Sufi no seu caminho para um objetivo mais elevado. Ele pode encontrar todas
essas coisas na sua jornada, mas permanecer nelas seria o mesmo que
aconteceria a quem tem que ir à estação encontrar-se com um amigo e se detém
no caminho para conversar com um conhecido e se atrasa.

O Sufi procura a presença de Deus? Depende da meditação de qualquer profeta


ou mestre? A resposta é não. O Sufi não procura a presença de Deus porque
onde há uma presença há uma dualidade e na unidade não há nenhuma
presença. O Sufi não procura ligar-se a qualquer mestre para sempre, não tem
desejo de ir para o céu porque vê que o céu está em toda parte.

Logo que a imaginação ajudou uma pessoa a trazer Deus à sua presença, Deus
despertou no seu coração. Deste modo, antes que essa pessoa diga uma
palavra, a palavra é ouvida por Deus. Quando um Sufi reza num recinto nunca
está só, porque está com Deus. Para ele Deus não está no céu mais alto, está
ao seu lado, diante de si, no seu íntimo. Para o Sufi o céu está na terra e a terra
está no céu. Para ele ninguém está tão vivo tão inteligível como Deus. Os nomes
e formas colocados diante da consciência de um Sufi estão cobertos por Deus.
Desse modo, cada palavra que ele profere é uma palavra viva. Não só ela lhe
traz uma bênção, como traz uma bênção para os que estão à sua volta. Esse
tipo de prece é o único e verdadeiro modo de rezar e através da prece, o objetivo
a ser atingido é realizado.

Qual é então o objetivo do Sufi? Ir à procura daquela experiência na qual não


existe experiência alguma no sentido comum da palavra. Há duas tendências: a
tendência para a manifestação que nos trouxe ao mundo de variedades e a
tendência para a inatividade, que nos puxa para trás, para o estado de onde
viemos. A perfeição não está só no não-manifestado nem só na manifestação,
está nos dois.

Dirigindo-se à manifestação a alma agrupou à sua volta, extraídas de todos os


diferentes planos, as vibrações com as quais entrou em contato, desde as
vibrações mais refinadas até as vibrações físicas mais grosseiras, mas nisso
também está a perfeição do Criador. Não poderíamos apreciar o mais elevado
se não houvesse o mais baixo. Não apreciaríamos o que é doce se não existisse
o amargo. Se tudo fosse o que há de melhor, não daríamos valor ao melhor. Se
existisse somente uma cor, não apreciaríamos as outras cores. Lembro-me das
palavras de um poeta: “Senhor, não me deixeis viver num mundo onde a cânfora,
o algodão e o osso são considerados apenas uma coisa branca”. Quanto mais
cores existirem mais sombra haverá, maior será o nosso contentamento. São
criadas mil, cem mil imperfeições para que uma única perfeição seja feita. É
como um artista ao pintar um quadro: tem cores e pincéis, desenha a figura e no
primeiro traço, no centésimo ou no milésimo ele desenha a figura corretamente.

A tarefa do Sufi é remover coberturas. Nossa alma está tão coberta de vibrações
diferentes que ela não pode se ver. O Sufi, por meio de meditações e exercícios,
procura em primeiro lugar se elevar acima do corpo físico e observa o que pode
ver acima do corpo físico. Desembaraça-se depois do plano astral, onde vivemos
nos nossos pensamentos e sentimentos, e vê o que é capaz de conscientizar
além daquele plano. A consciência é uma cortina diante da qual nos postamos
com uma pequena lanterna na mão. O reflexo da lanterna cai sobre a cortina e
separa ou limita uma determinada parte da cortina, que passa então a receber
as impressões.

O Sufi esforça-se na sua auto-realização e chega a ela através do seu divino, do


seu Deus. Através da auto-realização o Sufi toca a verdade, que é a meta final
e o anseio de todas as almas. Não se trata apenas de uma realização, trata-se
de uma felicidade que não há palavras que possam explicar. É uma paz, a paz
que toda alma almeja.

Como o Sufi chega a isso? Praticando a presença de Deus, realizando a unidade


de todo o seu ser, trabalhando consciente ou inconscientemente todos os
momentos do dia, mantendo a verdade diante de sua visão apesar das ondas da
ilusão que constantemente se erguem e desviam seu olhar da verdade absoluta.

Não importa o nome que derem a qualquer seita, culto ou credo, enquanto as
almas se esforçarem em prol desse objetivo, para um Sufi todos eles são Sufis.
A atitude de um Sufi a respeito das diversas religiões é de reverência. A religião
do Sufi é o serviço a ser prestado à humanidade e o único meio de fazer isso é
chegar à realização da verdade.
Os diferentes estágios do
desenvolvimento espiritual

Em Sânscrito há três palavras distintas: ATMA – que significa alma, ou uma


alma, um indivíduo, uma pessoa; MAHATMA – uma alma elevada, um ser
iluminado, uma personalidade espiritual; e PARAMATMA – o homem divino, uma
pessoa auto-realizada, a alma consciente de Deus. É como está escrito no
“Gayan”: “Se quiseres pesquisar o homem, há muito nele a ser explorado”.
Portanto, o homem – refiro-me a todos os homens – tem um campo muito amplo
de desenvolvimento nas esferas espirituais, um campo que uma mente comum
não pode imaginar.

A expressão “homem divino” tem sido especialmente relacionada com o homem


e pouquíssimos percebem que de fato significa homem-Deus. A razão é que
certas pessoas, de inclinação religiosa, separaram de tal forma o homem de
Deus que encheram o vácuo entre o homem e Deus com o que eles chamam
religião, fé que coloca quase sempre um muro divisório entre Deus e o homem,
pois todos os pecados são atribuídos ao homem e toda pureza a Deus. É uma
boa idéia, mas longe da verdade.

Com referência à primeira palavra = ATMA – a espécie humana pode ser dividida
em três categorias principais. Numa categoria está o homem animal, na outra
ele pode ser o homem demônio e já na terceira categoria está o homem humano.
Um poeta Hindustão escreveu: “Há muitas dificuldades na vida, porque, mesmo
para um homem, é difícil ser uma pessoa”.

O homem animal é aquele que só se interessa em alimentar-se, beber e cujas


ações nesse sentido não são diferentes das de um animal, que se contenta em
satisfazer seus apetites naturais. O homem que representa as qualidades
demoníacas é aquele cujo ego torna-se tão forte e poderoso e
consequentemente tão cego, que o senso de gentileza, de justiça e de bondade
está quase extinto. É aquele que obtém prazer causando danos ou sofrimentos
aos outros, é aquele que retribui com o mal o bem que lhe é feito, é aquele cujo
prazer é fazer as coisas erradas. É grande o número dos que pertencem a esta
categoria. Vem a seguir o homem humano, no qual o sentimento está
desenvolvido. Talvez não seja o homem normal do ponto de vista médico, mas
do ponto de vista do místico, começa a transformar-se num ser humano o
homem que mantém equilíbrio entre o pensamento e o sentimento, que está
desperto e sente as necessidades do próximo, que é consciente de tudo que faz
e inteirado do efeito que isso produz nos outros. Noutras palavras, não é fácil
para um homem ser homem. Muitas vezes isso toma toda uma vida.

O Mahatma é uma alma iluminada. Olha a vida de um outro ponto de vista. Pensa
nos outros mais do que em si próprio. Sua vida é dedicada a obras de
beneficência. Não espera elogios ou recompensas pelo que faz para os outros,
não procura glória e não teme censuras. Ligado a Deus de um lado e de outro
lado ligado ao mundo, vive sua vida tão harmoniosamente quanto possível. Por
que trilha ele o caminho da retidão e da piedade? Por que dedica sua vida ao
ensino e pregação à humanidade? Assim o faz porque isso lhe é natural: todo
coração amoroso e iluminado deseja ver os outros partilharem de sua visão de
glória.

Há três categorias de Mahatmas: uma é a dos que se empenham em lutar


consigo mesmo e com as condições com que se defrontam e existem à sua volta.
Por que luta? A resposta é que há sempre um conflito entre a pessoa que quer
se elevar e o vento, que a arrasta para baixo. O vento que arrasta uma pessoa
para baixo é continuamente sentido por quem avança um passo no caminho do
progresso espiritual. Esse vento é o conflito com o ego, é o conflito com os
outros, é o conflito com as condições, são os conflitos que surgem de todos os
lados, até que cada parte do Mahatma seja testada e experimentada, até que
sua paciência seja exaurida e seu ego esmagado. É como se uma rocha dura
fosse transformada numa massa mole. Exatamente como um soldado na guerra
pode receber muitos ferimentos, guardar no coração muitas impressões como
chagas, as mesmas condições prevalecem para este guerreiro, na sua batalha
para conquistar a espiritualidade, pois todas as coisas são contra ele: seus
amigos (não obstante não saberem disso), seus inimigos, as condições, a
atmosfera, o ego. Os ferimentos que ele tem de sofrer e as impressões que
recebe na luta fazem dele uma personalidade espiritual, uma personalidade à
qual é difícil resistir: é irresistível.

A segunda categoria de Mahatma é aquele que aprende a lição pela passividade,


resignação, sacrifício, amor, devoção e compaixão. Há um aspecto do amor que
é como a chama de uma vela: quando soprada, extingue-se. Permanece acesa
somente enquanto não for soprada, não resiste ao sopro. E existe um amor que
é como o sol que nasce, atinge o zênite e então se põe e desaparece. Esse amor
dura mais tempo. Mas há ainda um amor que é como a inteligência divina, que
era, é e será. O fechar e abrir dos olhos não faz desaparecer a inteligência, o
nascer e o pôr-do-sol não afetam a inteligência. Quando esse amor é criado,
resiste aos ventos e tormentas, permanece firme através dos altos e baixos e a
linguagem do homem torna-se diferente. O mundo não pode compreender tal
linguagem. Quando o amor atingiu o Soberano do Amor, é como a água do mar,
que se eleva em vapor, forma as nuvens sobre a terra e depois cai em forma de
chuva. O jorro contínuo de tal coração é inimaginável. Não só os seres humanos,
mas pássaros e animais, podem sentir a influência que dele emana, seu efeito.
É um amor que não pode ser colocado em palavras, é um amor que irradia,
demonstrando seu calor através da atmosfera que cria. A alma resignada do
Mahatma pode parecer fraca a alguém que não a compreenda, pois recebe o
louvor e a censura da mesma forma, aceita tudo que lhe é dado, favor ou
desfavor, prazer ou sofrimento. Aceita com resignação tudo que lhe vier.

Para a terceira categoria dessas almas altamente evoluídas, há a luta de um lado


e a resignação do outro. É o caminho mais difícil, é dar um passo à frente e outro
passo atrás, sucessivamente. Não existe imobilidade no progresso, porque uma
coisa é contrária à outra. De um lado trabalha o poder, do outro lado trabalha o
amor, de um lado o reinado, do outro a escravidão. É como disse num poema o
Imperador Persa Ghasnavi: “Eu, como imperador, tenho milhares de escravos
às minhas ordens, mas desde que o amor inflamou meu coração, transformei-
me no escravo de meus escravos”. Numa mão há atividade, noutra mão há
passividade.

A primeira categoria de Mahatmas pode ser chamada o Mestre, a segunda o


Santo e a terceira o Profeta.

Com o Paramatma chegamos ao mais alto estágio do despertar da consciência.


Uma pessoa comum dá maior importância ao mundo e menor importância a
Deus. O ser iluminado dá maior importância a Deus e menor importância ao
mundo, mas o Paramatma dá, e ao mesmo tempo não dá, importância a Deus e
ao mundo. Ele é o que é. Se alguém lhe disser: “Tudo é verdade”, ele dirá: “Tudo
é verdade”. Se outro lhe disser: “Não é verdade”, ele responderá: “Não é
verdade” e se alguém ainda lhe disser: “Tudo é falso e verdadeiro”, dirá: “Sim,
tudo é falso e verdadeiro”. Sua linguagem torna-se sem nexo e muito enigmática
para uma pessoa comum. É fácil a comunicação com quem fala a nossa língua,
mas tão logo as palavras de alguém são diferentes, sua linguagem torna-se
também diferente. Torna-se uma língua estranha comparada com o linguajar
comum. As palavras nada significam para o Paramatma, apenas o seu sentido
interior. Pode-se até dizer que ele não compreende o sentido, é o próprio sentido.
Passa a ser aquilo que os outros estão procurando.
A tendência profética

A tendência profética existe em toda a manifestação. Existe entre os “djins” e


seres celestiais, em cada parte da natureza, no reino animal e no reino vegetal,
entre os animais e entre os homens.

As minas de diamantes não existiriam se não houvesse uma centelha no


diamante. A centelha de um diamante pode fazer com que qualquer outro átomo
da terra, com o qual entre em contato, se torne um diamante. O mesmo acontece
com o rubi. O diamante quer que tudo se torne um diamante e o rubi quer fazer
de qualquer outro átomo um rubi.

Quanto às plantas, se formos a uma mata virgem onde o homem ainda não
penetrou, não plantou ou semeou, uma relva intocada, podemos ver que onde
existe uma mangueira há muitas outras mangueiras por perto. Se existe uma flor
perfumada, outras flores cheirosas crescem ao seu lado. Se há uma fruta doce,
há centenas de outras frutas doces por perto.

Existem muitos exemplos deste fenômeno entre os animais. Por exemplo muitas
vezes os macacos da Índia saem do seu “habitat” e vão para a cidade, destruindo
os telhados das casas. Há sempre um entre eles que é o líder. Quando o líder
pula, os outros macacos o acompanham. Quando resolve voltar à selva, todos o
seguem.

Nas províncias do norte perto de Nainital e Nepal, aos pés dos Himalaias, existe
uma mata virgem onde vivem elefantes. Os nativos usam diversos meios para
capturá-los e um deles é cavar um fosso e cobri-lo com uma rede, colocando
sobre ela galhos de árvores. Penduram suas redes de dormir nas árvores e ali
ficam alguns dias aguardando os elefantes. Sentem-se à vontade nas árvores.
O clima é agradável. Se por acaso uma manada de elefantes passa por aquele
local e um deles pisa na rede, cai no fosso e não consegue sair. O elefante grita,
mas os outros elefantes têm medo de se aproximar. Ficam olhando de longe. Os
caçadores usam uma espécie de fogo de artifício para espantar os outros
elefantes caso se aproximem.

Numa manada de elefantes há sempre um que caminha na frente. Carrega na


tromba um galho grosso de árvore. Bate com ele no chão antes de dar cada
passo para ver se há um fosso. Se o caminho está seguro ele continua a andar
e os outros elefantes o seguem. O elefante-guia conhece muitos perigos. A
manada tem tanta confiança nele que para onde vai todos o acompanham, o que
prova que o espírito de liderança existe entre os elefantes, assim como a
tendência ao auto-sacrifício. O elefante líder caminha na frente para verificar se
há um fosso e se houver cai nele, salvando os outros elefantes. O líder é muito
cauteloso, mas não ao ponto de deixar de ir a qualquer lugar onde haja perigo.
Em geral, quando um elefante é capturado, é um animal ainda jovem,
inexperiente, que ainda não aprendeu a seguir o líder.

Um Marajá do Nepal possuía um elefante que parecia um líder. Vivia no palácio


real e o Marajá dava ordens para que ninguém o montasse exceto ele. Sempre
que o Marajá Bir Shamsher (era o seu nome) ia à floresta caçar elefantes levava
seu elefante. O marajá deu-lhe o nome de Bijili, que quer dizer relâmpago. Era
um elefante de pequeno porte. Se a caçada fracassava Bijili era levado à mata.
Voltava sempre com outro elefante, tão grande era seu magnetismo. Bijili não
gostava de trazer os elefantes porque tinha uma grande qualidade: a compaixão.
Nunca trazia um companheiro de livre e espontânea vontade, só quando era
obrigado pelos “Mahouts” ou condutores de elefantes. A primeira coisa que fazia
ao se avistar com os companheiros era desviar a cabeça para o outro lado,
provando que até entre os animais existe a tendência à profecia ou a tendência
de avisar antecipadamente.

Notamos muitas vezes essa tendência profética nos pais. Foram forçados a
seguir um certo tipo de disciplina, mas hoje querem que os filhos sejam treinados
da melhor maneira possível, sempre num nível mais elevado. Vemos a mesma
tendência frequentemente numa pessoa que quer livrar o amigo das
experiências indesejáveis que viveu. Só os escolhidos, as almas abençoadas, é
que possuem essa tendência. Não é encontrada em todos os pais ou em todos
os amigos. É uma grande bênção possuir pais e amigos com tal tendência.

Qual o objetivo da missão profética ou vaticinadora? A evolução do homem tem


sido muito grande se comparada com as eras passadas, quando o homem
estava mais perto do estágio dos animais, porque só pensava em comer e beber.
Antigamente o principal objetivo do homem era tirar tudo que desejava dos
outros, sem se importar com as consequências de seus atos, até que com o
decorrer do tempo o homem acordou do seu estado animal.

Os profetas foram enviados especialmente para acordar o homem. Sua função


foi a de um despertador que é usado por quem não consegue acordar sozinho
pela manhã. O papel dos profetas era portanto despertar os que não podiam
acordar sozinhos. Às vezes o profeta estava no papel de um rei, como Salomão.
O profeta José foi enviado quando a beleza era apreciada. Sua aparência, seu
rosto, tudo em José era tão belo que todos os corações se sentiam enternecidos
pelo seu magnetismo.

O Poder Divino tem agido sempre assim: envia o profeta apropriado para cada
época. Quando foi necessário enviar uma pessoa venerável, Jacob foi mandado.
Nele tudo era tão digno de veneração que as pessoas se ajoelhavam
espontaneamente diante dele. Na época em que a música era tocada com fervor
e era muito admirada, veio David. Dotado de belíssima voz, tocava harpa e sua
mensagem foi transmitida em forma de cânticos. Assim, cada profeta veio ao
mundo preparado para ser compreendido pelo povo do seu tempo. A princípio a
inteligência humana ainda não estava inteiramente desenvolvida. Os homens
viviam mais em função de suas pessoas. Os profetas tiveram de renovar as
personalidades dos homens e podiam fazê-lo, porque eram profetas. Quando a
personalidade se coloca diante dos olhos da alma, a alma não enxerga, fica
cega.

Há o seguinte ditado: as palavras do profeta são como um sinete colocado sobre


o segredo de Deus. A finalidade do sinete é justamente proteger o conteúdo do
envelope lacrado. Quando o sinete é destruído, o conteúdo pode ser lido. O
mesmo acontece com as palavras do profeta. O sinete não é o conteúdo, é
apenas um sinete e assim são as palavras do profeta. Chega um dia, porém, na
vida de uma pessoa em que ela é capaz de romper o sinete. Ele pode ser
rompido depois de um mês, de cinco meses ou mais, mas chega o dia em que o
sinete é retirado e nesse dia tudo será revelado, como acontece com o conteúdo
de um envelope lacrado.

Coloquei numa música um verso de um poeta inspirado. Cantava-a com grande


alegria. As palavras tinham um belo significado, mas sempre tinha a impressão
de que o significado das palavras devia ser muito mais profundo do que
aparentava ser. Não conseguia compreender. No fundo do meu coração sentia
que alguma coisa estava lacrada, oculta. Depois de 15 anos, um dia em que
minha mente estava à procura de uma analogia para certa revelação, ouvi uma
voz que transmitiu à minha mente o verdadeiro significado. Minha alegria foi
imensa, porque havia rompido aquele sinete que estava lacrando a revelação há
15 anos. Há uma ocasião oportuna para tudo. Quando chega a hora as coisas
são reveladas. É por isso que, embora de um lado estejamos ansiosos para ter
uma certa revelação, do outro lado precisamos ter paciência para esperar o
momento apropriado da revelação.

Apesar da voz de Deus falar constantemente através de todas as coisas, para


falar aos ouvidos surdos de muitos homens é necessário que Deus fale pelos
lábios de um ser humano. Sempre fez isso em toda a história da humanidade.
Os grandes Mestres do passado foram guiados pelo Espírito-Guia. Viveram a
vida divina na forma de homens. Em outras palavras, suas vestes humanas nada
mais eram que vários casacos usados pelo mesmo ser. Esses casacos eram
diferentes em cada profeta, mas o profeta era sempre o mesmo. Shiva, Buddha,
Rama, Krishna de um lado, Abraão, Moisés, Jesus, Maomé do outro, e muitos
outros conhecidos e desconhecidos da história, na realidade eram a mesma e
única pessoa.
Os que viam esses Seres Iluminados e descobriam que eram Mensageiros,
reconheciam o Mensageiro de Deus em qualquer forma que se apresentassem.
Os que só viam as suas vestes, perdiam-se. Para o Sufi só existe um único e
mesmo Mestre, qualquer que tenha sido o nome que lhe foi dado nas diversas
épocas da história. O Mensageiro é enviado para despertar a humanidade do
sono desta vida de ilusões, guiando o homem até que ele fique sob a proteção
divina. À proporção que o Sufi progride mantendo esse ponto de vista sempre
diante de si, reconhece seu Mestre não só nos seres piedosos como no sábio e
no tolo, no santo e no pecador. Nunca permite que o Mestre, o único Mestre,
aquele que existe, existiu e sempre existirá, desapareça de sua visão.

A fonte da verdade não está oculta no coração de cada homem, seja ele um
cristão, um maometano, um budista ou um israelita? Não somos todos nós parte
da vida que chamamos espiritual ou divina? Se apenas “isto ou aquilo” é o
mesmo que não passarmos “disto ou daquilo”, é nos limitarmos. A bem-
aventurança encontrada na solidão está oculta dentro de cada ser humano. O
homem herdou a bem-aventurança do Pai Celestial. Na terminologia mística é
chamada de Luz Toda-Penetrante. A luz é a fonte e a origem da alma e da mente
do homem.

O Sufi considera tudo que é vida é uma só vida. Considera todas as religiões sua
religião. Se chamarem um Sufi de cristão, ele procura ser um deles, se o
chamarem de muçulmano sente-se como um muçulmano, se o chamarem de
hindu ou judeu, considera-se um deles. Chamem o Sufi pelo nome que quiserem,
para ele isso não tem a mínima importância. Um Sufi não quer ser chamado por
nenhum nome, prefere não ser rotulado. Quem o chama de Sufi? Não é ele
próprio, mas se ele não se chamar por um nome, um outro lhe dará um.

O homem é o objetivo da criação. É o ser que está no grau mais elevado de


evolução e por isso é um homem. Só ele conhece o objetivo para o qual foi
manifestado como homem, sabe a razão de estar no mundo. Gatos e cães nada
sabem. Todos os outros seres manifestados desejam se tornar homens. Os djins
querem se transformar em homens, assim como as rochas, plantas e animais.

Mas foi no homem, tal como ele é, que o Poder Divino quis se manifestar. O
homem que Deus quer não é o homem que apenas come, bebe e dorme como
os animais. Se um homem quer saber como deveria realmente ser, faça uma
comparação com os animais: se come os animais também se alimentam, se
bebe os animais fazem o mesmo, se dorme os animais também. Os animais têm
paixões, ódio e raiva como o homem. Se o homem só possui o que os animais
possuem, não é homem, porque o homem tem a bondade, a compaixão, o poder
da auto-disciplina, do auto-sacrifício, a humildade e outras qualidades. Se
encontramos algumas dessas qualidades nos animais, nos cães, gatos, cavalos
e no gado, como a fidelidade no cão, a obediência e coragem no cavalo, essas
qualidades são reflexos da associação do homem com os animais. Se formos ao
leito de um rio e apanharmos algumas pedras, ficaremos espantados de ver que
algumas delas se assemelham à face do homem. É maravilhoso, o que prova
que tudo na natureza se esforça por parecer com a fisionomia humana.
Evidentemente é um processo da evolução até culminar no homem.

É verdade, só o homem tem o que chamamos de senso de responsabilidade. Os


animais não o têm. Está escrito no Corão: “Nós oferecemos nosso fardo aos
céus, à terra e às montanhas. Todos se recusaram a aceitá-lo, tiveram medo.
Oferecemos então nosso fardo ao homem e ele o aceitou”. Significa que só o
homem aceitou a responsabilidade de suas ações. Continua o “Sura” do Corão:
“Verdadeiramente o homem é cruel e tolo”. É tolo porque tomou para si o que é
de Deus. Muitos homens fogem do casamento por temerem a responsabilidade
de manter mulher e filhos. Eles não pensam que a mulher e os filhos são criação
de Deus e que Deus toma conta do que é seu. A vontade, a força que possuímos
pertencem a Deus. No entanto, não cansamos de dizer “meu” ou “minha” e
achamos que tudo é nosso.

Um vigia trabalha à noite até a manhã seguinte. Não precisamos de despertador


durante o dia porque é dia. Os profetas foram enviados à noite. Vieram com a
mesma mensagem, mas com nomes diferentes. A mesma sabedoria divina foi
colocada em seus lábios. Entretanto, se perguntarmos a um hebreu por exemplo:
“Reconheces Krishna e Rama?” responderá: “Não sei nada sobre Krishna e
Rama, reconheço Moisés, porque está escrito nas Escrituras da minha religião”.
Se perguntarmos a um hindu: “Reconheces Moisés ou Cristo?” responderá:
"Não, reconheço Rama, Krishna, Vishnu e o Vedanta. Você pode ficar com Cristo
e Moisés, eu ficarei com Rama, Krishna e Vishnu”. Alguns preferem a Kabala à
Bíblia, reconhecendo apenas a Kabala. Se perguntarmos a um católico-
apostólico-romano se reconhece outros profetas, dirá: “Só existe uma igreja que
é a minha”. Todos reconhecem o nome, a personalidade, mas não reconhecem
a verdade. Querem conservar Krishna no templo, Cristo na Igreja, Moisés
fechado numa sinagoga. É por isso que existem tantos procurando a Verdade.

Em cada época a mensagem foi revelada sempre com a maior clareza, de


acordo com a capacidade que o mundo tinha de usá-la. Continuou assim até a
última e mais clara revelação, a mensagem de Maomé que, como último profeta,
retirou o sinete. Depois dele nenhum outro profeta será necessário, porque o
mundo já despertou para a compreensão da verdadeira realidade. Este não é o
momento de esperar pela vinda de um outro profeta. Agora é ocasião de
despertar essa verdade dentro de nós. Se tivermos um amigo que já esteja nesse
caminho, este é o momento de lhe pedir conselho.

A tarefa do Sufi não é interferir na religião de ninguém, nem forçar uma crença
em quem quer que seja. O Sufi não diz a ninguém para acreditar numa coisa ou
noutra. O “Murshid” ou Mestre é um amigo, um guia. Aconselha, não força coisa
alguma. Eu não nasci numa família cristã, mas nenhum cristão foi mais tocado
pelas palavras de Cristo do que eu. Se as palavras de Cristo fossem entendidas
corretamente, seriam mais que suficientes para fazer de um homem um santo.
De acordo com a história, Cristo foi crucificado, mas desde que nasceu sua vida
foi uma crucificação. O mundo sempre foi muito grosseiro com a alma dos
profetas. Os corações dos profetas eram demasiadamente sensíveis para
suportar as vibrações do mundo.

Nenhum brâmane estudou a Vedanta com mais interesse do que eu. Se alguém
conhece Brahma conhece Deus e é de fato um brâmane. Se o brâmane
reconhece isso ou não, é outro assunto. O Sufi diz: “Queres saber tudo sobre
inspiração? Queres saber a respeito da revelação? O caminho a seguir é crer
tanto quanto tua inteligência te permite crer, tanto quanto possas alcançar. Não
acredites naquilo que tua inteligência não permite que acredites”.

O Sufi reconhece uma única e mesma sabedoria divina em todas as mensagens


proféticas. Vê o mesmo Ser Infinito em tudo, nas diferentes formas, em todas as
épocas da história da humanidade. É como se tivéssemos retratos do Bem-
Amado em épocas diferentes, aos 12 anos, aos 20, aos 30, ou 40. As fotografias
são diferentes, mas é o mesmo Bem-Amado.
Olhar

Uma pessoa pode ver, outra pode olhar e uma outra pode observar. Essas três
palavras significam a mesma coisa, todavia cada uma sugere uma coisa
diferente. Quando observamos compreendemos algo que estamos vendo,
quando vemos estamos prestando muita atenção a alguma coisa, mas quando
olhamos vemos uma coisa de relance sem necessariamente compreendê-la ou
dela tomar nota. Assim, existem três estados de ver: olhar a superfície de uma
coisa, olhar devidamente uma coisa e olhar uma coisa com verdadeiro espírito
de observação, compreendendo-a ao mesmo tempo.

Cada indivíduo nota as coisas através dessas três maneiras de ver. O que
interessa muito a um homem ele observa com mais argúcia, o que atrai a sua
mente ele olha e toma nota, o que por acaso cai sob seu olhar ele apenas olha.
Há no homem, portanto, três efeitos diferentes produzidos por tudo que vê: um
efeito mais profundo vem do que ele observou atentamente, um efeito claro vem
daquilo que ele viu e um efeito passageiro vem do que seu olhar apenas captou.
Eis a razão de haver videntes, pensadores e os que simplesmente possuem dois
olhos.

Há um outro lado do assunto: quem está andando a pé tem uma determinada


impressão do caminho que está percorrendo. Quem dirige um carro e percorre
o mesmo caminho, tem uma experiência diferente. A experiência de quem viaja
de avião também é diferente. Talvez quem estava andando não fosse capaz de
atingir sua meta tão rapidamente como quem está viajando de carro ou de avião,
mas as experiências que teve, os panoramas que viu e as sensações que sentiu
foram muito superiores às dos outros dois. Nossa mente trabalha exatamente da
mesma maneira. Há um homem cuja mente trabalha na velocidade de um avião,
outro cuja mente trabalha na velocidade de um andarilho e um outro cuja mente
trabalha na velocidade de um automóvel. O que tem a mente trabalhando na
velocidade de um andarilho talvez não reaja tão rapidamente como os outros
dois, mas o que ele pensa é um pensamento eficiente e o que vê enxerga
perfeitamente. É ele que tem introspecção, é ele que compreende a lei oculta
por trás das coisas, porque a atividade de sua mente é normal. Pensar nem
sempre depende da rapidez da mente, às vezes o mais importante é a qualidade
da mente.

Uma pessoa inteligente também pensa rapidamente, mas isso é outra coisa.
Pode haver diferença entre duas pedras, por exemplo, entre um diamante e um
seixo. Ambos são pedras, só que uma é preciosa e a outra não tem valor. Da
mesma forma há duas qualidades diferentes da mente: a do homem que pensa
rapidamente e é inteligente e a do que pensa rapidamente e muitas vezes se
engana. Engana-se porque pensa com rapidez, enquanto que numa outra
pessoa existe a qualidade da mente que, mesmo pensando rapidamente, faz
com que o pensamento seja correto. Porém, o ritmo do pensamento tem muito
a ver com a vida da pessoa. Quando as três pessoas que viajaram pelo mesmo
caminho se encontram, a que andou a pé, viajou de carro ou de avião, e falam
sobre suas experiências, há grande diferença no que dizem. Isso explica por que
pessoas que passaram pelo mesmo tipo de experiência, que viveram sob o
mesmo sol, que nasceram na mesma terra, têm mentalidades tão diferentes. A
razão é que suas mentes trabalham em velocidades diferentes. Suas
experiências são completamente diferentes embora tenham percorrido o mesmo
caminho.

Aquele que vê é o que não só olhou mas viu. E como viu? Controlou o impulso
de andar com excessiva velocidade, resistiu à tentação de ir para a direita ou
para a esquerda e seguiu firmemente na direção do objetivo que desejava
alcançar. Tudo isso ajuda uma pessoa a se tornar um vidente.

Aquele que sabe ver, por exemplo, vê muito mais que um astrólogo, muitíssimo
mais. Não há comparação, contudo aquele que vê não fala sobre o que vê. Se o
fizer, estará agindo exatamente como um astrólogo. Para aquele que vê a alma
das pessoas é uma carta aberta. Se ele divulgasse os segredos dessas almas
sua visão ficaria cada vez mais curta, porque se ele tem um dom este lhe foi
dado por Deus em confiança. Essa confiança espiritual é dada só aos que podem
mantê-la, aos que são capazes de guardar um segredo.

Há muitas interpretações errôneas sobre a palavra vidente. Às vezes pensa-se


que um vidente é um clarividente ou um espírita, mas essas pessoas são tipos
diferentes e não videntes. O vidente não precisa ver o mundo invisível. Há tanta
coisa para se ver aqui neste mundo objetivo e visível! Há tanta coisa que o
homem pode ver neste mundo e que se oculta aos seus olhos! Se ele se
concentrasse durante sua vida inteira na visão de tudo que é para ser visto, teria
mais que o suficiente para pensar. É uma curiosidade infantil da parte de certas
pessoas querer ver algo que ninguém jamais foi capaz de ver. É também vaidade
quando falam que vêem coisas que os outros não podem ver. O mundo visível e
o mundo invisível são um só e mesmo mundo e ambos estão aqui. Quando não
podemos ver o mundo invisível não é porque ele se esconde aos nossos olhos,
é porque fechamos os olhos para ele.

Existe, portanto, vista longa, vista curta e vista mediana. Alguns podem ver muito
além e prever acontecimentos. Outros apenas vêem o que está à sua frente e o
que está mais próximo. Não vêem nada que esteja atrás. Sua visão só alcança
o que está exatamente ao seu lado e só isso os atinge. Uma outra pessoa é
capaz de raciocinar sobre o que vê. Sua visão pode ser chamada de visão
mediana. Raciocina sobre o que vê tanto quanto a razão lhe permite. Não vê
além do seu raciocínio, vai até certo ponto e estaciona, não vai mais além.
Naturalmente se esses três tipos de pessoas se encontram e falam sobre o que
viram, cada uma usará sua própria linguagem. Não será surpresa se uma não
compreender o ponto de vista da outra, poque cada um tem um ponto de vista
de acordo como vê as coisas. Ninguém pode emprestar sua visão a ninguém
para que veja as coisas de maneira diferente.

Se os espiritualistas de todos os tempos sempre ensinaram às pessoas a fé, não


foi porque queriam que ninguém pensasse por si e aceitasse com fé o que lhe
estava sendo ensinado. Se suas intenções fossem essas não teriam sido
espiritualistas. Assim, por mais inteligente que seja uma pessoa, por mais devota
e entusiasta que seja, se não tiver fé, as almas espirituais não poderão lhe
transmitir seus conhecimentos, porque não existe uma coisa chamada
conhecimento espiritual no sentido de aprendizado. Se há alguma coisa que
pode ser transmitida ao discípulo é o ponto de vista e a perspectiva da vida. Se
uma pessoa já tem sua perspectiva própria da vida, não precisa de orientação
espiritual, mas se não a possui, as palavras explicativas não a elucidarão sobre
coisa alguma, porque se trata de um ponto de vista que não pode ser explicado
por meio de palavras.

Por mais que se tente descrever a luz que se viu quando estávamos no topo da
montanha a alguém que nunca subiu até lá, esse alguém recusa-se a acreditar
em tudo que lhe foi descrito. Talvez esse alguém confie numa outra pessoa e
nesse caso pode ouvir suas palavras de orientação. Pode não ver mas ouvirá e
se beneficiará com a experiência de quem viu a luz do topo da montanha.
Entretanto, quem subir ao topo da montanha terá sua própria experiência. Este
assunto ainda tem um outro aspecto: depende da altitude de onde se vê a vida.
Há a visão da pessoa que vê a vida do chão. Sua visão é diferente quando
começa a subir a montanha. Há ainda uma outra perspectiva: quando alcança o
topo da montanha. Quais são esses graus de visão? São graus da consciência.
Quando alguém está observando a vida e diz: “Eu e todo o resto”, é um ponto de
vista. Quando olha todo o resto e se esquece do seu eu, é um outro ponto de
vista. É tão grande a diferença que esses pontos de vista fazem na perspectiva
de uma pessoa que não há palavras que possam explicar.

Alcançar o topo da montanha quer dizer entrar no que se chama “Nirvana”, a


consciência cósmica. A idéia de comunicação com Deus é simbolizada por uma
pessoa que subiu uma parte da montanha e já tem urna idéia. menos limitada e
mais lúcida do “eu” e do “tu”, do “ele” e “ela” e da “coisa” do que a pessoa que
está no chão.

Progresso espiritual é a expansão da alma. Não é sempre desejável viver no


topo da montanha porque o chão também foi feito para o homem. O desejável é
ter os pés no chão e a cabeça tão alta como o topo da montanha. Quem puder
observar a vida de todos os lados, de todos os ângulos, terá uma experiência
diferente de cada ângulo. De qualquer lado que olhar receberá um novo
conhecimento, um conhecimento diferente do anterior.

Finalmente há a questão de olhar e não olhar, o que é compreendido pelos


místicos como ser capaz de olhar quando quiser e ser capaz de contemplar de
cima. Não é fácil uma pessoa olhar do alto, é preciso aprender. Há muitas coisas
que o homem é capaz de olhar e muitas coisas que deve olhar. Muitas delas ele
não deveria olhar e seria melhor não olhar. É uma desvantagem quando não
podemos olhar, mas não há nenhuma desvantagem em não olhar uma coisa que
não deveríamos olhar. Existem tantas coisas que podem ser vistas! Podemos
evitar perfeitamente olhar aquilo que não devemos olhar.

Aquele que se deixa influenciar pelo que vê tem falta de domínio ou mestria.
Embora não queira olhar, não pode deixar de fazê-lo. Quem controla sua visão
vê o que quer ver, não vê o que não quiser ver. Isso é mestria. Assim como em
relação aos olhos é verdade que vemos o que está defronte de nós e não vemos
o que está atrás, também é verdade em relação à mente: a mente vê o que está
diante dela e não vê o que está atrás. Também é verdade que só podemos ver
o que está atrás de nós se virarmos a cabeça. Igualmente é verdade que o que
a mente não pode ver será visto somente quando ela se virar noutra direção. O
que se aprende no esoterismo e no misticismo é fazer com que a mente se vire
da visão exterior para a visão interior.

A seguinte pergunta pode ser feita: que proveito tiraremos disso? Se é proveitoso
descansarmos à noite depois de um dia inteiro de trabalho, também é proveitoso
que nossa mente se volte do mundo de variedades que é o nosso e repouse,
que tenha uma outra experiência que lhe pertence e que é portanto dela, da qual
necessita. Essa experiência é alcançada pelo processo da meditação. Quem é
capaz de pensar mas não é capaz de esquecer, quem é capaz de se locomover
mas não é capaz de ficar em silêncio, quem é capaz de chorar mas não é capaz
de sorrir, essa pessoa não sabe o que é domínio ou mestria. É como se tivesse
uma mão só, como se ficasse de pé numa perna só. Para ter uma experiência
completa da vida é preciso agir e também ficar em silêncio, é necessário ser
capaz de falar e também guardar silêncio.

Existem muitas coisas preciosas na natureza e na arte, coisas que estão acima
de qualquer preço, mas o mais precioso é a introspecção, é sermos capazes de
ver, de compreender, de aprender, de conhecer. É o maior presente que Deus
pode nos dar. Todas as outras coisas na vida são pequenas em relação a essa
dádiva. Se há algo que pode ser feito para enriquecer nossos conhecimentos,
elevar nossa alma às mais altas esferas, permitir que nossa consciência se
expanda até a perfeição, é fazer todo o possível para abrir nossa visão, o sinal
de Deus no homem. A abertura da visão é chamada de desdobramento da alma.
Autodisciplina

No caminho da Verdade a coisa mais importante é a autodisciplina, pois sem ela


nossos estudos e práticas não dão nenhum resultado. A autodisciplina tem
muitos aspectos diferentes. Se estudarmos a vida dos ascetas que viviam nas
montanhas, nas florestas virgens e nos desertos, vemos que ao buscarem a
Verdade muito realmente se esforçaram na prática da autodisciplina. Nenhuma
alma na terra jamais chegará a uma alta realização sem a autodisciplina. Sem
dúvida a autodisciplina amedronta as pessoas que chamamos de mundanas, as
que estão acostumadas a uma vida de conforto, porque quando pensam em
autodisciplina associam-na a seus aspectos mais extremados. No entanto não é
preciso nos refugiarmos nas cavernas de uma montanha, viver numa floresta ou
no deserto, para praticar a autodisciplina. Podemos praticá-la no dia-a-dia.

Há quatro métodos diferentes na prática da autodisciplina. Um deles é o método


físico, a prática de ficar numa mesma posição, sentar numa determinada postura
durante certo tempo. Quando começamos a fazer essas práticas verificamos que
não são tão fáceis como pensamos. Podemos ficar sentados numa mesma
posição sem perceber ou ficar de pé numa determinada posição por certo tempo,
mas logo que conscientemente começamos a fazer essas práticas vemos que
não são tão fáceis. Há várias posições para aquietar as mãos, os pés, os olhos,
a cabeça. Esses exercícios ou práticas ajudam a desenvolver o poder que se
chama autodisciplina.

É evidente que em toda a criação existe a imaginação que dirige cada


movimento. De acordo com a direção dada ao movimento é que uma coisa toma
uma forma. De onde vêm os opostos, o sol e a lua, o homem e a mulher, a dor
e a alegria, o negativo e o positivo? Por que existem diferenças, já que a fonte e
a meta são uma coisa só? As diferenças são motivadas pelas direções. Assim,
pois, o segredo que existe em cada diferença é a direção. É uma atividade, uma
energia, que trabalha numa certa direção que cria uma determinada forma. É por
isso que a maneira como uma pessoa se senta faz diferença. Faz diferença
dormir do lado direito ou do lado esquerdo, se ficamos de pé apoiados nos pés,
se colocamos a cabeça no chão. Os místicos praticam várias posturas durante
muitos e muitos anos e foi assim que acabaram descobrindo as diferentes e
eficientes maneiras de sentar quando praticavam exercícios de respiração.
Fizeram disso uma ciência. Há a postura do guerreiro, do pensador, do
aristocrata, do amoroso, do curador. São posturas diferentes para alcançar
objetivos diferentes. Essas posturas facilitam ao homem aprender a ciência da
direção. Postura nada mais é que direção.

Há um outro aspecto da disciplina do ser humano ligado ao que comemos e


bebemos, evitando certos alimentos e bebidas no nosso dia-a-dia. É uma prática
de viver sem certas coisas, especialmente certas coisas que a pessoa sente que
não pode prescindir. Essa é uma das razões, sem falar nas razões psicológicas
e físicas, que leva alguns adeptos a viver numa dieta de frutas e vegetais.
Durante dias ou semanas vivem sem comer certos alimentos.

O jejum também é um dos métodos para diminuir a densidade do corpo. Quando


uma pessoa conhece a maneira correta de jejuar, quando está sob a direção de
alguém que realmente sabe quando e por que uma pessoa deve jejuar e se
beneficiar com o jejum, muito pode ser alcançado através do jejum. Os cirurgiões
sabem o valor do jejum. Mantêm os pacientes sem qualquer alimento horas e
até dias antes e depois da operação, porque sabem que isso ajudará mais
rapidamente sua recuperação. Os mestres também prescrevem jejum aos seus
discípulos, algumas vezes sem comer carne e outras sem comer pão. Às vezes
prescrevem leite ou frutas, noutras ocasiões recomendam ficarem sem comer
coisa alguma por certo tempo, de acordo com a capacidade e resistência de cada
discípulo. Na verdade eu seria a última pessoa a prescrever um jejum.
Raramente faço isso, dou apenas alguns conselhos a meus discípulos se
querem jejuar. Conheci uma pessoa que tinha ido a um mestre que lhe disse
que, para começar seus exercícios, devia fazer um jejum de três dias. No fim do
primeiro dia o discípulo sentiu tanta fome que deixou a cidade para que não mais
pudesse se encontrar com o referido mestre.

Sempre há um motivo quando um mestre prescreve um jejum. Vivia em Bagdá


um mestre Sufi muito conhecido por suas maravilhosas realizações. Certo dia
recomendou a um jovem discípulo que fizesse uma dieta vegetariana. A mãe do
jovem ouviu falar que desde que o filho começara a visitar o mestre só se
alimentava de vegetais. Foi procurar o mestre e lhe disse o que pensava sobre
o assunto. Chegou justamente na hora em que o mestre estava sentado à mesa.
Viu uma galinha num prato à frente dele. Interpelou-o dizendo: “O senhor está
ensinando seus discípulos a viverem numa dieta vegetariana e no entanto vai
saborear uma galinha”. O mestre destampou o prato e a galinha saiu voando.
Falou: “No dia que seu filho também puder fazer isso poderá comer galinha”.

Há ainda um outro aspecto da autodisciplina: é o hábito de pensar e o de


esquecer. Significa de um lado que a pessoa é capaz de pensar naquilo que
quiser pensar e continuar a fazê-lo e ser capaz de reter aquele pensamento; de
outro lado a pessoa pratica o esquecimento das coisas para que certos
pensamentos não se apossem de sua mente, do mesmo modo controlando os
pensamentos de agitação, de raiva, de depressão, o preconceito e o ódio. Isso
leva à disciplina moral e ao fazer isso a pessoa se torna mestra da sua mente.
Depois de praticados esses três aspectos da disciplina, podemos entrar no
quarto aspecto, um aspecto muito mais elevado. É mais elevado porque, por
meio desse método de disciplina, o homem chega às experiências espirituais.
Essa disciplina consiste em libertar a consciência de tudo que acontece no nosso
meio ambiente. É a experiência dos adeptos que se esforçam durante muitos
anos até atingir esse estágio de libertação. Nas antigas Escolas Sufis e mesmo
hoje há um costume: quando os discípulos entram ou saem da sala de meditação
um deles diz: “Solidão na multidão”. A frase sugere o seguinte: quando estamos
no meio de multidão podemos perfeitamente manter nossa tranquilidade, nossa
paz, e não sermos perturbados pelo que está à nossa volta. Isso é que torna
uma pessoa viva no meio deste vasto mundo e lhe dá possibilidade de progredir
espiritualmente. Não é mais necessário para ninguém se refugiar no deserto,
como fizeram por exemplo muitas almas no passado, se quisermos obter o
desenvolvimento espiritual.

Não há dúvida que isso não é fácil, mas é simples. Inconscientemente todos nós
vivemos essa experiência em menor ou maior escala. Quem está ocupado com
alguma coisa que lhe interessa, ou executando uma tarefa que ocupa toda sua
mente, quase sempre não toma consciência do que se passa ao seu redor. Um
poeta ou um escritor, um pensador, quando inteiramente absorvido no que está
criando, não toma conhecimento do que o cerca. Acontece muitas vezes uma
pessoa estar tão absorvida no que está fazendo ou pensando que nem sequer
pensa no seu corpo ou na sua pessoa. Para tal pessoa só existe aquilo que está
fazendo ou pensando e se esquece de sua própria existência. Este é o estado
que os Sufis chamam de “Fanà”. A tão conhecida palavra “Nirvana” pode ser
compreendida melhor se a analisarmos sob este ponto de vista. “Nirvana” é uma
experiência da consciência; em outras palavras, é a liberdade da alma, é um
estágio em que o ser humano deixa de pensar em si e em tudo que o rodeia.

Alguém pode querer saber se tais práticas não são perigosas. Tudo neste mundo
é perigoso. Se quisermos pensar no perigo, ele está até em comer e beber, em
sair e voltar à casa e em muitas outras coisas. O perigo existe sempre à nossa
volta. Por exemplo, é perigoso andar nas ruas, mas se sabemos nos
desvencilhar dos carros o perigo desaparece, é neutralizado. É perigoso entrar
na água, mas se sabemos nadar não existe o perigo de nos afogarmos. O
segredo do desenvolvimento espiritual está na nossa capacidade de meditar e
de elevar nossa consciência acima das coisas que nos rodeiam.

Logo que nos acostumamos com a prática da autodisciplina verificamos que,


embora a princípio ela pareça ser difícil de sei praticada, à proporção que a
exercemos ela se torna gradativamente mais fácil. Dentro de pouco tempo os
resultados serão maravilhosos.

Quase todos se queixam de que quem Ihes está mais próximo não os ouve.
Dizem sempre que quem está ouvindo não quer ouvi-los. Por meio da
autodisciplina podemos nos elevar acima desse tipo de queixa, porque
começamos a compreender que o nosso ser é que reclama ou que o mal não
está nos outros, está na nossa própria pessoa. Logo que começamos a exercer
pleno poder sobre nossa pessoa, começamos a sentir que atingimos o plano do
domínio, da mestria. É um domínio sobre nosso próprio reino, é um sentimento
de realeza. Consequentemente, quando o homem começa a experimentar esse
fenômeno, tudo para ele passa a ser mais fácil.
Controle Físico

A vida tem dois aspectos: um aspecto que é conhecido e outro que é


desconhecido, sendo conhecido apenas por poucas pessoas. O aspecto
desconhecido da vida é chamado de vida imortal, porque o que prova que
existimos é a experiência através do corpo físico. A vida imortal existe, só que
muitas pessoas a desconhecem porque não têm dela nenhum conhecimento e
não porque o imortal não exista. Tudo que possuímos acaba e desaparece, um
objeto, um ente vivo, um pensamento, uma condição, uma ação ou uma
experiência. Tudo está sujeito a nascimento e morte. Uma coisa composta mais
cedo ou mais tarde se decompõe. Um objeto fabricado acaba se quebrando. O
que foi construído é destruído. O que é visível torna-se invisível.

Tudo isso prova que há uma luta entre o que chamamos de vida e a vida oculta
atrás da vida. Na terminologia Sufi esses dois aspectos da vida chamam-se
“Kazá” e “Kadr”. “Kazá” é o aspecto limitado da vida que está na obscuridade.
“Kadr” vive através de “Kazá”, sendo “Kadr” o aspecto limitado da vida. “Kazá”
fica esperando que caia em sua boca tudo que vier e possa engolir. Os adeptos
e os sábios, os chamados místicos ou Sufis, descobriram a ciência de tirar da
boca de “Kazá” a experiência da vida, o aspecto limitado da vida, o sempre
assimilável aspecto da vida. Se não soubermos reter a experiência vivida ela
cairá na boca de “Kazá”, porque “Kazá” está sempre à espera com a boca aberta,
do mesmo modo que a doença espera para agir quando o homem perde sua
energia. Assim sendo, em todas as diferentes formas “Kazá” está à espera para
assimilar tudo que aparece e nele será fundido.

Pode-se então perguntar: “Como podemos reter uma determinada coisa, como
podemos evitar que ela caia na boca de “Kazá”? A resposta é: pelo controle do
nosso corpo e da nossa mente. É comum ver-se no Oriente um homem levantar
uma pedra pesada com um só dedo. É espantoso. Fica-se pensando como isso
é possível. É possível porque esse homem usou sua força de vontade e com ela
mantém no alto uma pedra pesada. O dedo é apenas um pretexto. Vi pessoas
fazerem experiências no campo do espírito e no campo da matéria. Pulavam
dentro das chamas e saíam ilesos sem que o fogo as queimasse. Vi também
pessoas cortarem os músculos do corpo e refazê-los instantaneamente. Não é
fábula: os místicos conhecem a levitação. Essa experiência tem sido mostrada
a milhares de pessoas na Índia. Não quero insinuar que devemos trabalhar para
obter esse poder, desejo apenas salientar o que pode ser feito através da força
de vontade.
Para instituir o reino da força de vontade sobre o corpo físico, primeiramente
precisa-se exercer o controle sobre o corpo físico. Dizem as Escrituras que o
corpo é o templo de Deus, o que quer dizer que o corpo é feito para ser o templo
de Deus. Um templo não pode ser chamado de templo de Deus se Deus não
está ali entronizado. É natural pois que quando uma alma está deprimida, algo
errado está acontecendo com seu corpo-veículo. Quando um escritor quer
trabalhar e a caneta não está boa, isso o aborrece. Não há nada errado com o
escritor, a caneta é que está defeituosa. Nenhum desconforto vem da alma,
porque a alma é feliz por natureza. A alma é a própria felicidade. A alma se sente
infeliz quando há algo errado com o seu veículo-corpo, que é seu instrumento,
sua ferramenta de trabalho para experimentar a vida. Portanto, cuidar do corpo
é o primeiro e mais importante princípio religioso. A piedade sem esse
pensamento tem pequeno significado. A alma vem ao mundo para vivenciar as
diferentes fases da manifestação, mas não deve perder o rumo e sim
reconquistar sua liberdade original com a aquisição adicional de experiências e
conhecimentos do mundo.

Entre vários tipos de cultura física conhecidos atualmente nenhum ensina o


método ou o segredo de reter ou manter uma ação. Por exemplo, ensinar o
homem a sentar na mesma posição sem se mover, olhar para o mesmo ponto
sem mexer os olhos, ouvir sem ser perturbado por qualquer outro som, ser capaz
de sentir a dureza, a maciez, o calor ou o frio, e ao mesmo tempo manter suas
vibrações equilibradas, ou ser capaz de conservar o gosto do sal, do doce ou do
amargo. Geralmente essas experiências vêm e vão e a pessoa não exerce
nenhum controle sobre a duração do seu prazer ou alegria. Não pode apreciar a
experiência por meio de qualquer de seus sentidos pelo espaço de tempo que
desejaria. Isso depende de causas exteriores e a pessoa não sabe reter ou
manter a experiência como devia. Não compreende que o único meio de
conservar uma experiência é usar o controle.

Há um outro aspecto do assunto. Inteirado inconscientemente de que toda


experiência agradável e alegre não dura muito, o homem fica superansioso. Ao
invés de tentar conservar ou manter a experiência apressa-a e por isso ela logo
acaba. Por exemplo, o hábito de comer apressadamente ou rir antes de terminar
uma frase engraçada é causado pelo fato de a pessoa temer que o prazer ou a
alegria se acabem. Em todas as experiências o homem perde o poder de
conservá-las devido à ansiedade de que o prazer acabe. Outro exemplo: a
grande alegria de acompanhar uma tragédia no teatro é vivê-la plenamente, mas
as pessoas em geral ficam tão excitadas que já no começo da tragédia começam
a derramar lágrimas e depois não têm mais lágrimas para verter. Quando chega
o clímax da tragédia não há mais nenhuma experiência para ser vivida. Ao invés
de guardar cada experiência para não ser tragada pela boca da vida eterna, o
homem atira-a para a vida oculta atrás dele, sem ter descoberto seu segredo.
Os místicos usam posturas para sentar e se manter em pé, adquirem controle
sobre seu sistema muscular e nervoso, o que tem grande efeito sobre a mente.
Em geral perdemos o controle, mas se não tivermos controle sobre nosso
sistema muscular e nervoso jamais teremos controle sobre a nossa mente.
Portanto, controlando nosso sistema muscular e nervoso adquirimos também o
controle sobre nossa mente.

Todo o poder que a vida tem é tirado da respiração. Cada respiração faz com
que sorvamos o ar e por meio da respiração tiramos a vida da vida invisível e
desconhecida e também o poder e a inteligência. Quando conhecemos o
segredo das posturas e tiramos do mundo invisível a energia, o poder e a
inspiração, adquirimos o poder de manter nossos pensamentos, nossas
palavras, nossas experiências, nosso prazer e nossa alegria. Quando alguém
quer saber a causa das tragédias da vida, pode encontrar a resposta numa única
coisa: na limitação. Por isso os místicos sempre tentaram suplantar a limitação,
empregando todos os esforços nos exercícios, nas práticas e estudos. Não há
pior inimigo do homem que o desamparo. Quando alguém se sente
desamparado não há mais alegria nem felicidade.

Além disso, para obter o controle físico precisamos da força do pensamento tanto
quanto das posturas e da respiração. Devemos nos colocar acima do que
gostamos ou deixamos de gostar, que dão motivo a grande fraqueza na vida.
Quando dizemos: “Não posso suportar isto”, “Não posso comer este alimento”,
“Não posso beber esta bebida”, “Não posso tolerar este tipo de coisa” ou “Não
posso aturar o que está acontecendo”, tudo isso demonstra a fraqueza humana.
Quanto maior for a força de vontade mais o homem é capaz de suportar tudo
que surgir na sua vida. Não quer isso dizer que não há o direito de escolha.
Todos podem fazer sua escolha, mas quando o homem se entrega ao seu ego
a vida se torna difícil. Há no homem um falso ego, que os Sufis chamam de
“Nafs”. Esse ego se alimenta da fraqueza humana. Esse ego fica vaidoso quando
o homem diz que não pode suportar uma determinada coisa ou não gosta disto
ou daquilo. Isso é um alimento para o ego, para sua vaidade. O ego pensa “Sou
melhor que os outros” e com esse pensamento o ego se fortalece. Aquele que
sabe discriminar, que sabe distinguir, que sabe escolher e ao mesmo tempo
manter tudo sob controle, aquele que embora aprecie coisas doces bebe uma
taça de líquido amargo, alcançou a mestria.

Os impulsos também enfraquecem o homem, principalmente se ele se entrega


desesperadamente a eles. Por exemplo, talvez alguém tenha um impulso de ir a
um parque, mas ao invés de esperar a hora exata de ir põe o chapéu na cabeça
e sai. Tendo seguido o impulso de imediato já deixou de exercer o necessário
poder sobre si mesmo. Entretanto aquele que subordina seu impulso, que se
controla, que usa o impulso no seu melhor sentido, adquire mestria. Além disso
há a indulgência com o impulso quando se trata de conforto e da conveniência
própria. Se procurarmos seguir sempre o caminho do pequeno, da pequena
resistência, o resultado só pode ser fraqueza. Se, entretanto, encararmos nosso
trabalho, por menor que seja, com seriedade e paciência extremas, adquirimos
um grande poder.

A paciência é uma das melhores virtudes da vida, embora muitas vezes a


paciência seja tão amarga, tão dura, tão insuportável, como a idéia da morte. Às
vezes a pessoa prefere morrer a ter paciência, mas para a raça humana é da
maior importância ter paciência. Ela deve ser desenvolvida em todas as
condições da vida, em todos os passos da vida. Se somos ricos ou pobres, de
alta ou baixa estatura, a paciência é uma qualidade que deve ser desenvolvida.
Ademais, a paciência é que nos leva à tolerância. A paciência é toda-poderosa.
O homem perde a coisa mais valiosa da vida quando não tem paciência. A
resposta às nossas preces quase sempre está ao nosso alcance. A mão da
Providência divina nunca está muito distante. Se perdermos a paciência
perdemos também nossas oportunidades. Assim sendo, a impaciência em todas
as duas formas deve ser evitada. A impaciência faz com que percamos nosso
equilíbrio. Quando não há equilíbrio nada pode ser realizado. Nada lucramos
com a impaciência. Impaciência necessariamente não significa lentidão,
negligência ou preguiça.

Finalizando: o controle físico constrói uma base para o caráter e a personalidade,


o controle físico é uma fundação sobre a qual é construída a realização espiritual.
Saúde

Saúde é um estado de ordem causado pelo funcionamento regular do corpo


físico. O funcionamento do corpo físico depende das condições climáticas, da
dieta, do equilíbrio entre ação e repouso e do estado da mente.

Muitos pensam que uma deformidade física, um desvio da espinha ou uma lesão
no cérebro afetam a mente, mas poucos compreendem que é frequente a mente
causar uma irregularidade na espinha ou no cérebro, advindo daí uma doença.
O ponto de vista comum é considerar uma doença uma desordem física que
pode ser curada com remédios materiais. Há outro ponto-de-vista, o dos que
pensam mais profundamente e dizem que se não tomarmos conhecimento da
doença, se não nos sugestionarmos que estamos doentes e sim muito bem, a
saúde se restaura. Esse ponto-de-vista pode como é natural se tornar exagerado
quando algumas pessoas afirmam que doença é ilusão, que não tem existência
própria, mas o ponto de vista comum pode também se tornar exagerado se a
pessoa pensar que o remédio é o único meio de cura e que a mente tem muito
pouco a ver com a doença que se instala num indivíduo. A opinião das duas
pessoas, da que olha o assunto do ponto de vista comum e da que vê o assunto
do ponto de vista mais profundo, contém argumentos pró e contra. Alguns
chegam ao ponto de dizer que os remédios não devem ser tomados pelas
pessoas de fé e outros alegam que a doença é tão verdadeira como a saúde.
Pode-se chamar facilmente a dor de ilusão quando ela é inexistente, mas quando
há sofrimento é difícil dizer que a dor é uma ilusão.

Se alguém perguntar quem está mais sujeito às doenças, se um espiritualista ou


um materialista, a resposta é que um espiritualista que não segue as leis físicas
está tão sujeito às moléstias como um materialista que também não as segue.
Sem dúvida uma pessoa inclinada à espiritualidade está muito menos sujeita a
contrair uma doença, porque seu espírito se tornou harmonioso devido à sua
espiritualidade, criou harmonia e a irradia. Vive no reino da natureza, afinada
com o Infinito. Não obstante, a vida de um espiritualista no meio do mundo é
semelhante à vida de um peixe na terra. O peixe é uma criatura da água, seu
sustento, sua alegria e sua felicidade estão na solidão. Portanto sua alegria e
felicidade estão na solitude. Um espiritualista colocado pelo destino no meio da
multidão se sente fora do seu lugar. As influências dissonantes das pessoas à
sua volta e o contínuo impacto das impressões que perturbam seus sentidos
mais refinados fazem com que o espiritualista fique mais facilmente sujeito às
doenças do que os que abrem seu caminho na multidão do mundo e permitem
que sejam empurrados para trás.

Uma alma espiritual é uma alma velha de acordo com a terminologia oriental.
Mesmo um jovem de mente espiritualizada mostra possuir a natureza de um
velho, mas ao mesmo tempo espiritualidade é juventude perpétua. Um
espiritualista admira tudo, aprecia tudo, goza tudo plenamente. Portanto, se
alguém diz que o espiritualista é um velho é verdade, se diz que um espiritualista
parece um jovem também é verdade.

Atualmente as pessoas perderam o conceito do que é uma saúde normal, porque


o padrão da saúde normal está abaixo da verdadeira concepção de saúde. Ser
saudável não é apenas ter musculatura, ser verdadeiramente saudável é ter
capacidade de apreciar e gozar plenamente a vida. Ser saudável significa ser
refletido. Quem tem capacidade de sentir profundamente mostra sinal de saúde.
Nada tem de surpreendente se um materialista fica doente, nem é de admirar
que um espiritualista não se sinta bem. O primeiro ficou doente porque perdeu o
ritmo e o segundo porque não conseguiu se manter num ritmo que não era seu.
Se um espiritualista ou um materialista deve viver no mundo, são forçados a
compartilhar das condições gerais, de todos os que estão longe ou perto deles.
Todos nós estamos sujeitos às influências dos que estão ao nosso redor, sejam
elas desejáveis ou indesejáveis. Não podemos fechar os olhos nem o coração
às impressões que incessantemente caem sobre nós. O melhor a fazer é
mantermos uma cuidadosa vigilância sobre tudo que cause irregularidade,
desarmonia e desordem, resignarmo-nos a tudo que tivermos que passar e
sermos corajosos a fim de neutralizar tudo que nos afaste da saúde e da
perfeição.

O Sufi mantém a perfeição da vida aperfeiçoando-se não só espiritualmente


como também em todos os aspectos da vida. O homem que não é capaz de
prover todas as necessidades da vida certamente ignora a verdadeira liberdade
da vida.

Assim como para cada doença existe um remédio, existe uma reconstrução para
cada desastre. Cada esforço feito em prol da reconstrução ou melhoramento das
condições, por menor que seja e de que forma for, é válido, mas o que é mais
necessário compreender é a religião das religiões e a filosofia das filosofias que
é o autoconhecimento. Não podemos compreender a vida exterior se não
compreendermos a nós mesmos. O conhecimento do eu é que permite o
conhecimento do mundo.

O que é saúde? Saúde é ordem. O que é ordem? Ordem é música. Quando há


ritmo, regularidade, cooperação, há harmonia e simpatia. Portanto, a saúde da
mente e a saúde do corpo dependem da preservação dessa harmonia e de
manter intacta essa simpatia que existem na mente e no corpo. A vida no mundo,
especialmente se for vivida no meio da multidão, testa e põe à prova nossa
paciência a cada momento do dia e é difícil preservar a harmonia e a paz, que
são a raiz da felicidade. Vida significa luta com amigos e batalha com inimigos,
vida é dar e tomar todo o tempo e é muito difícil manter a simpatia e a harmonia
que dão saúde e felicidade.

Todo aprendizado e conhecimento é adquirido, mas isso é uma arte divina que
o homem herdou. Absorvido no aprendizado exterior o homem se esqueceu
dessa herança, apesar de ser uma arte conhecida da alma. É seu próprio ser, é
o conhecimento mais profundo do seu coração. Nenhum progresso em qualquer
direção dará a um homem a satisfação que sua alma está buscando, exceto a
arte divina que é a arte de ser, a procura da sua alma. Para ajudar na
reconstrução do mundo a única coisa possível e necessária que deve ser feita é
aprender a arte de ser, é nos tornarmos um exemplo antes de tentar servir à
humanidade.
Harmonia

Harmonia é o que cria beleza. A beleza em si não tem significado. Um objeto é


chamado de belo numa certa ocasião e lugar e pode não ser belo noutra ocasião
e lugar. O mesmo acontece com o pensamento, com a palavra e a ação: o que
é chamado de belo é somente chamado assim numa determinada época e sob
certas condições que tornam belos os pensamentos, as palavras e os atos. Se
alguém quiser dar uma definição verdadeira de beleza, deve dizer que beleza é
harmonia, harmonia numa combinação de cores, harmonia ao projetar um
desenho ou uma linha. Isso é que pode ser chamado de beleza. Um
pensamento, uma palavra ou uma ação que criam harmonia produzem beleza.

De onde vem a tendência à harmonia e de onde vem a tendência à desarmonia?


A tendência natural de toda alma para a harmonia e a tendência à desarmonia é
um estado antinatural da mente ou das ocupações da pessoa. O simples fato da
desarmonia ser antinatural torna-a isenta de beleza. É de tal forma a psicologia
do homem que ele corresponde tanto à harmonia como à desarmonia. Não pode
evitar isso porque o homem é feito assim pela natureza. Corresponde mental e
fisicamente a tudo que lhe acontece, seja harmonioso ou desarmonioso.

O ensinamento de Jesus Cristo “Não resistas ao mal” é uma insinuação para não
corresponder à desarmonia. Por exemplo, uma palavra de bondade, de simpatia
ou um ato de amor e afeto, encontram uma receptividade, mas uma palavra
insultuosa, um ato de revolta ou de ódio, encontram também uma receptividade,
criando uma desarmonia maior no mundo. Se cedermos à desarmonia
permitimos que a desarmonia se multiplique. De onde vem toda essa grande
intranquilidade e discórdia que se vê no mundo? Parece que vêm do fato do
homem ignorar que a desarmonia cria a desarmonia e que ela se multiplica. Se
uma pessoa é insultada sua tendência natural é responder ao insulto com outro
insulto ainda maior. Dessa maneira a pessoa insultada tem a satisfação
momentânea de ter dado uma resposta à altura, mas respondeu à força que veio
da outra pessoa e esses dois poderes – negativo e positivo – criaram ainda maior
desarmonia.

“Não resistir ao mal” não significa receber o mal e trazê-lo para dentro de nós,
significa apenas não devolver a desarmonia que nos foi dirigida, como um tenista
que devolve a bola ao campo adversário com sua raquete. Outrossim não quer
dizer que devemos receber a bola com as mãos abertas.
A tendência à harmonia pode ser descrita como uma rocha no meio do mar.
Batida pelo vento e pelas tempestades a rocha se mantém firme, as ondas batem
nela com toda a força e mesmo assim ela aguenta tudo, deixando as ondas se
arremessarem contra ela. Se lutarmos contra a desarmonia só fazemos
aumentá-la e não lutando não damos combustível para o fogo. Sem combustível
a desarmonia não aumenta e não causa destruição. Não há dúvida que quanto
mais sábios nos tornamos mais dificuldades enfrentamos na vida, porque todo
tipo de desarmonia será jogado diretamente sobre nós, pelo simples motivo de
que de nossa parte não haverá luta. Devemos compreender entretanto que todas
essas dificuldades são uma forma de ajudar a destruir a desarmonia que, de
outro modo, teria se multiplicado. Isso não deixa de ter suas vantagens, pois toda
vez que ficamos firmes quando há uma desarmonia, aumentamos nossa força,
apesar de exteriormente parecer ter havido um fracasso. Entretanto, quem está
consciente do seu poder jamais pode admitir que houve um fracasso. Depois de
certo tempo a pessoa contra quem permanecemos firmes compreenderá que o
que houve foi justamente um fracasso de sua parte.

O Sufi evita todas as ações desarmoniosas. Mantém o ritmo em suas palavras


usando o controle que adquiriu pela paciência, não dizendo uma palavra antes
da hora devida, não dando uma resposta antes que a pergunta seja completada.
Considera discórdia uma palavra contraditória, a não ser no meio de um debate.
Mesmo em certos casos ele tenta resolver o assunto num tom harmonioso. Uma
tendência contraditória num homem resulta, no fim, no desenvolvimento de uma
paixão, até que ele acaba contradizendo até suas próprias idéias se forem
expressas por uma outra pessoa. Para manter a harmonia o Sufi até modula sua
maneira de falar passando de um tom para outro. Em outras palavras, afina-se
com a idéia de quem está falando, procurando ver o assunto em pauta sob o
ponto de vista do outro e não sob seu próprio ponto de vista. Estabelece uma
base para cada conversação com uma introdução adequada, preparando assim
os ouvidos do interlocutor para uma correspondência perfeita. Vigia cada um de
seus movimentos e expressões, como também os dos outros, para criar um
acorde consonante de harmonia entre ele e a outra pessoa.

A obtenção da harmonia na vida leva muito tempo para ser conseguida e requer
um estudo mais cuidadoso do que o treinamento do ouvido e o cultivo da voz,
embora seja adquirida da mesma forma que o conhecimento da música. Para o
ouvido do Sufi cada palavra proferida parece uma nota musical, que é verdadeira
quando é harmoniosa e falsa quando desarmoniosa.

A escala de suas palavras obedece à escala de uma música em tom maior,


menor ou cromático, de acordo com a ocasião. Suas palavras afiadas,
monótonas ou naturais são baseadas na lei da harmonia.

A vida no mundo causa um efeito constantemente desarmonioso e quanto mais


refinados nos tornamos, mais penosa a vida será para nós. Chega um dia que,
por mais bondosa e simpática que seja, pior será a vida para ela. Se ficar
desencorajada acaba afundando, mas se conservar sua coragem verá que no
fim não houve desvantagem alguma, porque seu poder um dia crescerá e
chegará àquele estágio, àquele grau, em que sua presença, sua palavra e sua
ação controlarão os pensamentos, sentimentos e ações dos outros. A seguir seu
ritmo se tornará poderoso e fará com que o ritmo de todos siga seu próprio ritmo.
Isso é o que no Oriente chamam de mente-mestra. Contudo, a fim de ficarmos
firmes contra a desarmonia que vem de fora, devemos primeiramente praticar
ficarmos firmes contra tudo que vier de dentro, do nosso próprio ser. Isso porque
nosso ser é mais difícil de ser controlado do que o dos outros e quando a pessoa
não é capaz de se controlar acaba falhando e é muito difícil manter-se firme
contra a desarmonia de fora.

O que causa desarmonia em nós? A fraqueza, fraqueza física ou fraqueza


mental, mas sempre a fraqueza. Achamos quase sempre que a doença física
causa a desarmonia e as inclinações desarmoniosas. Além disso há muitas
doenças da mente que os cientistas modernos ainda não descobriram. Às vezes
certas pessoas são consideradas saudáveis quando de fato suas mentes estão
doentes e como pouca atenção é dada aos efeitos herdados dos males mentais,
o homem nunca teve oportunidade de notá-los nele próprio. O homem procura
sempre ver as faltas dos outros. Se trabalha num escritório em qualquer boa
posição, em casa ou em qualquer outro lugar, causa desarmonia e ninguém
compreende por que age desarmoniosamente, pois para ser tratado como
insana a pessoa primeiro tem que ser considerada louca.

A causa de todo desconforto e de todo fracasso é a desarmonia e a coisa mais


útil que se pode ensinar na educação moderna é o senso de harmonia.
Desenvolver a harmonia nas crianças e chamar a sua atenção para a harmonia
não é coisa difícil como parece ser. O que é necessário é enfatizar a juventude
sobre os vários aspectos da harmonia nos vários afazeres da vida.
Equilíbrio

Se olharmos o mundo com olhos de vidente vemos que as pessoas que chamam
de sábias e as que chamam de tolas estão muito mais próximas umas das outras
do que em geral parecem estar. Apesar de suas ocupações serem diferentes
são mais parecidas do que em geral aparentam ser diante das condições
desequilibradas da vida.

O equilíbrio raramente é encontrado entre os místicos e outros seres. Quando


nos interessamos por uma coisa é do nosso feitio tirar dela o máximo, tirar cada
vez mais, não fazendo diferença se essa coisa é de caráter espiritual ou material.
Se nos tornamos muito espirituais podemos ficar desinteressados da vida no
mundo, mas se não fôssemos destinados a viver no mundo não teríamos sido
enviados à terra.

Quem vê o bem nos outros, cada vez mais verá o bem. Quem tem tendência
para procurar ver as faltas dos outros, encontrará tantas faltas que por fim, a
seus olhos, o bem lhe parecerá o mal e depois seus olhos se tornam maus. Para
quem correr há muito mais probabilidade de cair do que para quem anda. Por
isso o excesso de atividade termina em queda.

Às vezes uma pessoa que quer falar a verdade age desequilibradamente e diz:
“Falo a verdade”, sem se importar se o ambiente é apropriado e se as pessoas
estão ou não preparadas para ouvir a verdade. No entanto diz: “Falo a verdade
e não me importo de lutar com todo o mundo porque estou dizendo a verdade”.
Para esses casos a lição mais importante a ser aprendida é a lição da quietude.

A própria filosofia que culmina no conhecimento de Deus, que é maior e mais


elevada do que qualquer coisa no mundo, extravia-se quando há falta de
equilíbrio. É por isso que na Bíblia, no Vedanta e no Corão até as verdades claras
são colocadas de uma maneira velada. Se os profetas e mestres tivessem dado
a verdade à humanidade em palavras comuns, o mundo teria seguido uma
direção errada. Tenho muitas vezes notado isso na própria filosofia que, quando
é explicada de maneira comum, é compreendida inteiramente diferente de como
deveria ser.

A tendência da atividade é aumentar e continuar acelerando e com isso o


equilíbrio desaparece. Nossa tendência quando estamos falando é falar cada
vez mais. Nosso entusiasmo é tanto que passamos a falar sem nos importar se
as pessoas querem ou não nos ouvir. Falamos o que realmente não queríamos
falar e depois estranhamos se insultamos esta ou aquela pessoa ou não
sabemos por que razão falamos de nossos segredos. Sa’di, o grande poeta
Persa, escreveu: “Ó inteligente, para que serve tua inteligência se depois te
arrependes?”. O que quer que façamos de bom ou de mal aumentará cada vez
mais em nós. Se num dia pensamos cinco minutos em música ou em poesia, no
outro dia esse pensamento continua por meia hora. Se alguém tiver um pequeno
pensamento de amargura, esse pensamento inconscientemente aumentará até
que nossa mente se enche de amargura. É dessa forma que surge o pecado.
Zaratustra distinguiu três tipos de pecado: o pecado pensamento, o pecado
palavra e o pecado ação. Ter um pensamento de amargura, pensar no mal, é
como se o mal tivesse sido feito. Falar no mal igualmente é como se o mal tivesse
sido feito. Quando alguém comete uma má ação ela se torna uma coisa concreta.

Obtemos o equilíbrio nos nossos pensamentos quando podemos ver as coisas


não só do nosso ponto de vista conforme as idéias e sentimentos em que fomos
treinados, como também sob o ponto de vista que vem de todos os lados. Quem
vê só um lado das coisas não é equilibrado. Suponhamos um homem muito
patriota que vê tudo sob o ponto de vista patriótico e que vai a uma loja e pede
ao dono que lhe venda seus artigos a um preço menor que o tabelado, por
questões de patriotismo. O dono da loja pode ser um homem pobre e mesmo
por uma questão de patriotismo não pode vender sua mercadoria a preço baixo.
É um negociante e só pensa no seu negócio. Não se pode esperar que ele veja
o assunto com os olhos patrióticos do outro. Um pensa somente em patriotismo
e o outro só em negócios. Um outro que é músico diz: “Esses dois são doidos,
só a música tem importância”. Por sua vez o poeta diz: “A poesia é a única coisa
que tem importância no mundo”. Cada um pensa exclusivamente naquilo em que
se empenha. Assim o piedoso pode exagerar na sua piedade a tal ponto que
nele não restará outra coisa senão piedade, a qual por fim se transforma em
hipocrisia.

Pergunta-se: como pode o homem conseguir o equilíbrio? Primeiramente


mantendo o equilíbrio entre a atividade e o repouso, o equilíbrio no dormir e no
acordar. Se uma pessoa acreditar que dormindo muito será uma grande pessoa
e se acostumar a isso, tornar-se-á um monstro e não um homem porque o corpo
que lhe foi dado para experimentar a vida não está sendo usado como devia. Se
uma pessoa não dormir, em poucos dias tem um ataque de nervos. Se jejuar
demais certamente se tornará etéreo, é capaz de ver o outro mundo ou outras
esferas. Se aprender a andar no caminho da inspiração, a inspiração virá.
Contudo os sentidos se tornam fracos e a pessoa não é mais capaz de
experimentar a vida no mundo, vida que nos foi dada para ser vivida.

Na Índia existem místicos chamados “Madzubs”, que chegam ao extremo da


espiritualidade. Seu ser exterior é esquecido a tal ponto que eles deixam
completamente de lado a experiência do mundo. Em tudo na vida o extremismo
é indesejável, seja no bem como no mal. Dormir e acordar, comer e jejuar, ser
ativo e ficar quieto, falar e calar, nisso tudo é que está o equilíbrio.

Um discípulo recebeu de Maomé um exercício para que ele experimentasse o


estado de êxtase. Depois de alguns dias o discípulo voltou trazendo frutas e
flores que ofereceu ao Profeta, agradecendo-lhe com as seguintes palavras: “A
lição que vós me ensinastes foi-me de grande valor. Trouxe-me tanta alegria!
Minhas preces que duravam poucos minutos agora duram o dia inteiro”. Maomé
respondeu: “Fico contente por teres gostado da lição, mas por favor, de agora
em diante para com o exercício”.

O Sufi ensina o equilíbrio através de posturas e movimentos, que abrangem o


controle das ações e a atividade do corpo. Pelos exercícios “Nimaz”, “Wasifa” e
“Zikr” ensina o equilíbrio da mente por meio da concentração. Sentar em casa e
fechar os olhos não é concentração. Enquanto os olhos estão fechados os
pensamentos continuam. O importante é escolher o objeto certo para a
concentração. Através da concentração e da meditação uma pessoa
experimenta o êxtase. Através do controle do seu ser uma pessoa experimenta
o mundo ou os planos mais elevados onde todas as coisas são uma coisa só.
Para isso é necessária a orientação de um “Murshid”, mestre, pois de outra forma
não se consegue o equilíbrio. Ninguém consegue isso por si mesmo e se o
fizesse se ausentaria do mundo, resultando no desligamento da mente e até em
loucura e também em outras consequências desastrosas.

Não existe maior felicidade ou bênção do que o êxtase. O indivíduo está sempre
pensando: “Eu sou o que vejo. Sou esta pequena quantidade de carne e
sangue”, mas no êxtase a consciência se livra do corpo, do confinamento, e
passa a viver sua verdadeira existência, acima das tristezas, das dores e das
amofinações. Essa é a maior alegria que existe. Para viver o estado de êxtase é
precioso manter controle sobre o corpo e os sentidos, através dos quais
experimentamos a vida neste mundo. É preciso ter equilíbrio. É este o mais alto
estado de consciência.

–2–

Não é só a força ou a energia nervosa que permitem ao homem permanecer na


terra. Além da força muscular e da energia nervosa há o equilíbrio. É o equilíbrio
que permite ao homem manter-se em pé e andar sem cair. O homem pode ter
força muscular e energia nervosa, mas se não tiver equilíbrio não se manterá de
pé ou poderá andar. Quando chegamos ao assunto mente, o raciocínio, a
imaginação à longa distância, são os fatores que fazem do homem um ser
pensante? Não, é o equilíbrio. Existem muitas pessoas possuidoras de uma
imaginação tão grande que podem flutuar no ar horas e horas e há outras
possuidoras de uma razão tão poderosa que seus pensamentos dão voltas e
mais voltas e não chegam a lugar algum. Se existe algo que torna o homem
realmente um ser pensante, não é o grande raciocínio ou a imaginação à longa
distância, é o equilíbrio.

Também não é o sentimento profundo do coração nem o viver em êxtase


espiritual que torna um homem iluminado. Uma pessoa pode estar em êxtase,
ter visões, ver fenômenos e não ser um espiritual. Pode ter idéias religiosas,
levar uma vida piedosa, ter ideais elevados e mesmo assim não precisa ser uma
alma iluminada. Isso demonstra que para que o corpo seja mantido como deve
e a mente afinada no diapasão adequado, é necessário o equilíbrio. Se
estudarmos a natureza vemos que tanto o crescimento das plantas como a vida
das árvores, dependem do equilíbrio. Quando pensamos no cosmos e
estudamos as condições das estrelas e planetas, o que compreendemos em
primeiro lugar é que um corpo celeste ampara o outro. Todas as destruições que
ocorrem na natureza, como erupções vulcânicas, enchentes, tremores de terra,
são frutos da falta de equilíbrio. Enquanto a natureza mantiver seu equilíbrio o
abismo no coração da terra permanecerá como está, os homens poderão andar
sobre ele e ele não Ihes causará nenhum dano. As tempestades, fomes, todas
as más condições, as pragas que caem sobre a humanidade, são causadas pela
desordem desse equilíbrio que assegura o bem-estar da humanidade. Isso nos
ensina que o segredo da existência do indivíduo e de todo o cosmos reside no
equilíbrio. Não é exagero dizer que todos os sucessos e todos os fracassos são
causados, os primeiros pelo equilíbrio e os segundos pela falta de equilíbrio. O
progresso e ausência de progresso podem ser explicados como coisas advindas
do equilíbrio e da falta de equilíbrio.

Há uma outra idéia sobre equilíbrio: a vida é movimento e o equilíbrio é o que


controla o movimento, mas acontece que o equilíbrio perfeito controla
demasiadamente o movimento, trazendo-o para um estado de inércia.
Exemplificando: se a força da mão direita fosse igual à força da mão esquerda,
se a perna direita e a perna esquerda fossem iguais, o homem não poderia andar
ou trabalhar. Se cada um dos dois olhos tivessem o mesmo poder de visão, o
homem não poderia ver. Tudo é controlado pelo equilíbrio, mas o equilíbrio
excessivo destrói o equilíbrio, pois o equilíbrio em excesso causa imobilidade do
equilíbrio. É o equilíbrio normal, que não é completo, que forja o sucesso. A arte
também vem do equilíbrio do sentido da linha e da cor. O gênio na ciência nasce
do equilíbrio entre a percepção e a concepção.

O problema principal é como obter equilíbrio e como mantê-lo. No primeiro caso


eu diria que o equilíbrio sendo uma coisa natural precisa ser obtido pelo homem.
A questão é somente saber como manter o equilíbrio e não como obtê-lo. A
influência da vida deste mundo ativo sempre coloca o homem fora do equilíbrio.
Não importa a direção que o homem toma na vida, sempre haverá dificuldades:
não importa quais sejam suas ocupações, negócios, posição, o homem sempre
encontrará dificuldades para manter o equilíbrio. Os Sufis, portanto, encontraram
uma solução para o problema: o homem isolar-se dentro de si mesmo,
adquirindo assim um completo equilíbrio interior. Tenho sempre dito que
equilíbrio perfeito significa destruição da ação. Quando o indivíduo pensa que de
manhã à noite sua vida nada mais é que ação, naturalmente não consegue
manter o equilíbrio, mas se devotar alguns minutos por dia à meditação, ao
silêncio, poderá por alguns momentos tocar nesse equilíbrio. Aí então poderá
manter o equilíbrio na sua vida de maneira natural.

Frequentemente as pessoas cometem o engano de pensar que por meio da


meditação ou do silêncio podem obter sucesso na atividade. Se isso trouxer um
resultado auspicioso é somente porque o equilíbrio na meditação fez com que a
pessoa fosse capaz de manter o equilíbrio necessário para a atividade. A vida
exterior depende das condições interiores do indivíduo. O sucesso ou o fracasso,
o progresso ou a imobilidade, qualquer que seja a condição do nosso ser, vêm
de que estamos experimentando interiormente. Um homem de senso comum
dirá que por esta ou aquela razão uma pessoa foi bem sucedida ou fracassou.
Uma pessoa que tenha clarividência dirá que já que um espírito ou um fantasma
disse isto ou aquilo a situação será pior ou melhor. O astrólogo dirá que pelo fato
de uma estrela estar ou não na nossa casa, estamos experimentando tais e tais
situações. Contudo, de acordo com o Sufi, as condições da vida ao nosso redor
dependem exclusivamente das condições da nossa vida interior. Assim sendo,
o que é necessário, para mudar as condições da vida exterior ou para uma
pessoa se afinar, é trabalhar dentro do seu próprio ser e criar o necessário
equilíbrio. Uma vez perdido o equilíbrio é restabelecido com muita dificuldade.
Em primeiro lugar às vezes é difícil a pessoa manter o equilíbrio na vida diária e
quando acaba o equilíbrio há poucas esperanças de sucesso, felicidade ou
progresso. É como um relógio escangalhado: não funciona se não for
devidamente consertado.

O mesmo ocorre com o estado da alma. Se a pessoa perdeu a saúde, se tornou-


se um esbanjador, se tornou-se um irresponsável, é sinal que perdeu o equilíbrio.
Ficar triste, ocupar-se demasiadamente, ser muito preguiçoso, tudo isso
demonstra falta de equilíbrio. Qualquer coisa a que se dê o nome de excessivo
está sempre fora de equilíbrio.

Equilíbrio é o estado do progresso e da consideração do indivíduo em relação


aos outros. A unilateralidade é falta de equilíbrio. Quando não compreendemos
a idéia alheia é porque há falta de equilíbrio. Outrossim, é difícil indicar
exatamente onde e quando existe o equilíbrio. Por exemplo: as feições do Chinês
são normais na China. As feições Gregas ou Romanas eram normais naquele
tempo e para aqueles povos. O que chamamos de normal é o que é geral, é o
que qualquer um tem. Podemos dizer, portanto, que quando é época de
resfriados e tosses, resfriados e tosses são normais.

Não há dúvida que a vida é difícil para muitos, mas muitas vezes nós a tornamos
mais difícil para nós mesmos. Quando não compreendemos a natureza e o
caráter verdadeiros da vida, criamos nossas próprias dificuldades. Em nossa
vida apenas cinco por cento das dificuldades são causadas pelas condições da
vida e noventa e cinco por cento das dificuldades são causadas por nós mesmos.
Podemos perguntar: de que maneira são elas causadas por nós? Porque não
queremos lutar na vida, detestamos brigar, só queremos harmonia e paz. Deve
ficar entendido que antes de podermos fazer a paz é necessária a guerra e essa
guerra deve ser travada com a nossa própria pessoa. Nosso pior inimigo é nosso
ego, nossas faltas, nossas fraquezas e nossas limitações. Nossa mente é uma
traidora, esconde nossas faltas até de nossos olhos e indica os outros como
responsáveis por nossas dificuldades. A mente está sempre nos iludindo,
mantendo-nos afastados do inimigo verdadeiro e nos jogando contra os outros,
fazendo-nos lutar com eles, fazendo com que pensemos serem eles nossos
inimigos.

Além disso, devemos nos voltar para Deus. À proporção que nos elevamos, mais
alto ficará nosso ponto de vista. Chegará tão alto quanto nossa visão pode
abranger. Desta forma, quando uma pessoa evolui sua visão se torna cada vez
mais ampla e tudo que ela faz toca a nota divina, que é curativa, confortante e
pacificadora para todas as almas.

Equilíbrio é a segurança da vida, não só é segurança da própria pessoa como


também o auxílio que mantém todas as coisas ao nosso redor. Os povos de
Oriente sempre consideraram o equilíbrio a principal coisa que deve ser mantida
na vida e os diversos exercícios que prescreveram, quer em forma de religião ou
em forma de devoção, quer no domínio filosófico quer no psíquico, todos eles
têm o propósito de manter o equilíbrio.
Luta e Resignação

Existem dois caminhos distintos para chegar à meta espiritual, completamente


opostos. Um é o caminho da resignação, o outro o caminho da luta. Sem dúvida
existe resignação no caminho da luta, como também no caminho da resignação
existe luta. Em geral quem trilha o caminho da resignação tem um único
pensamento: ser resignado, ao passo que quem trilha o caminho da luta tem
como objetivo principal lutar. Ambos os caminhos são essenciais. Não é possível
ignorar um dos caminhos ou aceitar apenas um deles. Muitos pensam que
Sufismo quer dizer apenas passividade, o que não é verdade. O Sufi é ativo e
também é passivo. Sufismo é o conhecimento do segredo da vida do homem na
terra, conhecimento do que ele precisa para seu caráter e para suas condições
de vida.

Se refletirmos sobre este princípio, constataremos que há coisas na vida que


não podemos resolver e, portanto, somos obrigados a nos resignar. É fácil nos
resignarmos com as coisas que não podemos resolver mas se em nós há força
para lutar, a resignação é difícil. Aquele que se resigna quando as condições são
fáceis, pode achar que resignação não é uma coisa difícil, contudo, não sabe
realmente o que significa resignação. Por exemplo, um homem de certos
recursos tem pais pobres que querem uma parcela do capital do filho, porque se
consideram necessitados. Apesar disso, o filho não quer se resignar e entregar
o seu dinheiro aos pais, mas se durante a noite ladrões invadirem a sua casa e
levarem toda sua fortuna, ele se resigna, apesar de ter perdido tudo. Esse tipo
de resignação não é virtude. Resignar-se quer dizer resignar-se mesmo quando
se tem força para resistir. Todos os grandes seres reconheceram o valor da
resignação e a pregaram. Cristo disse que se alguém quiser andar com ele uma
determinada distância, ele poderá andar com essa pessoa e ainda mais longe.
O que isso ensina? Ensina resignação. Alguém pode pensar que a resignação é
impraticável e que o mundo, egoísta como é, vai se aproveitar dele. É verdade,
mas se o coração puder suportar o peso da perda, a perda será pequena
comparada com o ganho. Contudo, se a pessoa não estiver contente com o que
fez, seria melhor não ter se resignado.

É muito melhor se uma pessoa puder se resignar, mas nunca deve forçar a sua
natureza. Certa vez um homem pediu emprestado a um outro a capa de chuva,
que lhe foi imediatamente entregue. Depois, o que emprestou a capa ficou muito
aborrecido pelo fato do outro tê-la pedido, porque foi obrigado a sair na chuva e
não gostou de se molhar. Nesse caso teria sido muito melhor se ele tivesse dito
que sentia muito mas não poderia emprestar a capa. Do momento que
emprestou a capa, não podia mais se queixar e devia se sentir feliz por ter se
molhado mas tinha ajudado seu companheiro. Se emprestou a capa, devia tê-lo
feito com todo o coração.

Quem realmente está resignado não dá demonstração. Não é fácil resignar-se.


Quantas pessoas neste mundo estão tentando aprender as belas coisas
espirituais! A resignação, uma coisa tão simples, é miraculosa. Essa virtude não
é apenas bela, é um milagre. Há resignação em tantas pequeninas coisas! Nem
sempre reconhecemos isso, mas é um fato. Quantas vezes as pessoas que
convivem conosco nos pedem para fazer uma coisa que simplesmente
detestamos. Há certas pessoas que nos dizem coisas que não desejávamos
ouvir. Nosso desejo não é calar e sim retrucar veementemente. Sem falar das
pequenas alfinetadas das pessoas com quem nos encontramos no dia-a-dia. Se
não nos resignarmos, ficaremos irritados todo o tempo. Portanto, resignar não é
mostrar fraqueza, a resignação é uma grande força. Com o tempo, quem
aprende a se resignar verifica que é capaz de se resignar até com o frio e o calor,
com os lugares agradáveis ou desagradáveis. Toda essa resignação tem um
significado que nos é benéfico. Devemos criar o hábito de nos resignarmos. A
não-resignação de nossa parte a qualquer tipo de experiência, significa a perda
de uma oportunidade.

Há duas forças em funcionamento: a força individual e a força coletiva. Na


terminologia Sufi uma é “Kazá” e a outra é “Kadr”. Muitas vezes a força individual
não quer se render e é esmagada. Por exemplo, se um homem é chamado para
lutar por seu país e diz que não vai se alistar no exército, torna-se um inútil
perante a nação inteira, por mais belo que seja o seu ideal. Nesse caso ele deve
se resignar com as condições vigentes, pois há um conflito entre uma força
menor (a dele) e uma força maior (a defesa da pátria). A única solução nesse
caso é a resignação.

Naturalmente todas as coisas devem ser compreendidas corretamente. A


resignação pregada de uma forma tola nunca é proveitosa. Um discípulo estava
aprendendo a lição da resignação ministrada por um Mestre. Um dia estava
andando no meio da estrada, absorvido com o pensamento da resignação,
quando um elefante enlouquecido surgiu de um dos lados da estrada. Um
homem prudente advertiu-o para sair do caminho, o que ele não quis fazer
porque estava tentando se resignar com o elefante. Foi brutalmente jogado para
o lado da estrada. Apanharam-no e o levaram à presença do Mestre, que lhe
perguntou o motivo de ter ficado tão ferido. Ouviu a resposta de que estava
praticando a resignação e o Mestre lhe perguntou: “Mas ninguém o advertiu para
que saísse do caminho?” “Sim”, respondeu o discípulo, “mas eu não quis
atender”. “Por que razão” perguntou o Mestre, “você não tentou se resignar com
a pessoa que o advertiu do perigo?” Isso mostra que às vezes belos princípios
são usados com grande desvantagem. Todavia, a resignação tem demonstrado
ser o caminho dos santos, porque desenvolve a paciência no ser humano. O que
é a paciência? É todo o tesouro que existe. Nada é mais valioso que a paciência,
não há maior felicidade que ela.

Há uma história sobre o Profeta Maomé: quando ele estava muito doente e sofria
já há alguns anos, sua visão interior se tornou mais clara através dessa
experiência. Seu sofrimento era tão grande que não podia mais ser suportado
pelos que o rodeavam. Assim, Maomé teve que se refugiar na floresta com Deus,
poupando as pessoas de presenciar sua dor. Como sua visão tinha se aguçado
e os ouvidos do seu coração tinham se aberto, ouviu uma voz que vinha de uma
árvore. “Eu sou o remédio para o seu mal”. O Profeta perguntou: “Chegou a hora
de minha cura?" e a voz respondeu: “Não”. Perguntou o Profeta: “Então por que
motivo eu te tomaria como remédio?” Mais tarde teve ele a mesma experiência.
Ouviu novamente a voz e quando perguntou se era chegada a hora de sua cura,
a voz disse “sim”. Entretanto o Profeta ainda perguntou: “Por que devo eu te
tomar?” Ainda não estava resignado.

Quando pensamos num ideal supremo, podemos achar que ele não seja prático,
especialmente nos dias atuais em que há tantos tratamentos e tantos recursos
mecânicos, mas o meditativo leva em consideração o fato de que grande número
de pessoas arruinou a vida por ter passado de um tratamento para outro e
perdido a paciência e a resignação. Nelas está a cura completa. Nem sempre a
resposta para uma dificuldade é tomar remédio. Às vezes a resposta está na
paciência. Parece que o homem está se tornando cada vez mais impaciente
devido à vida superficial que leva. Não existe sequer resignação pelas pequenas
coisas. No entanto, é muito melhor nos resignarmos do que nos preocuparmos.

Quando lançamos a luz mística sobre este assunto, podemos ver que se nós nos
resignarmos, estabeleceremos uma ligação harmoniosa com o Infinito. Como
podemos aprender a fazer isso? Devemos nos resignar a Deus? Não, trata-se
de uma lição muito mais elevada que precisamos aprender. A primeira lição é
aprender a nos resignarmos com as pequenas dificuldades da vida, não entrando
em choque com tudo que nos for contrário. Se uma pessoa tivesse capacidade
para resolver certas coisas, não precisaria cultivar um grande poder. Só a
presença da própria pessoa seria suficiente para curar. Ela é muito mais preciosa
que o ramo da rosa, porque o ramo tem muitos espinhos e poucas flores.

Resignação é um resultado da evolução da alma, porque é o resultado tanto do


amor como da sabedoria. Essa verdade pode ser vista na vida de uma criança e
na vida dos adultos. Logo que uma criança se sente atraída por um objeto, a
única coisa que compreende é que deseja aquele objeto. Se ele lhe for negado,
a criança não fica contente. No entanto, à proporção que a criança cresce e
evolui na vida, aprende a se resignar. Eis aí a diferença que existe entre uma
alma imatura e uma alma amadurecida no caminho da sabedoria. A alma
amadurecida mostra sua maneira de ser no desenvolvimento do poder da
resignação. O homem de fato possui o livre-arbítrio, mas o poder do livre-arbítrio
é muito pequeno comparado com a vontade toda-poderosa de Deus, que se
manifesta nos indivíduos mais poderosos, nas condições que não podem ser
mudadas e de muitas outras formas. Resignação não significa desistir de alguma
coisa. Resignação significa contentamento na desistência. Ser resignado quer
dizer encontrar satisfação na renúncia.

Renúncia deixa de ser uma virtude quando é o resultado do desamparo e


culmina na insatisfação. A natureza de um ego não evoluído é se ressentir com
tudo que surgir à sua frente na vida, tudo que seja empecilho à obtenção de um
determinado objetivo, mas quando há aceitação e resignação da pessoa diante
de uma dificuldade e ela se sente satisfeita, então colocou-se acima do objetivo,
mesmo sem tê-lo conseguido. Portanto, para uma alma verdadeiramente
resignada, até a derrota é na realidade um sucesso.

Resignação é atributo das almas santas. Resignação é amarga ao paladar mas


doce no resultado. Por maior que seja o poder e a posição de um homem na
vida, ele tem sempre que se defrontar com uma vontade mais poderosa que se
manifesta de diversas formas. Essa verdade é a vontade divina. Se o homem se
opuser à vontade divina pode ser despedaçado. Se se resignar à vontade divina
está abrindo um caminho. A resignação tem a natureza da água: se alguma coisa
obstruir o caminho da água ela toma outra direção. Continua sua trajetória, para
no fim se encontrar com o oceano. É o que fazem as almas santas que trilham o
caminho da resignação, mantendo sempre viva sua própria vontade. Essa
vontade tem o poder de abrir seu caminho. Quem é resignado por natureza,
acaba por se tornar uma fonte de consolo para si próprio e felicidade para os
outros.

Resignação não é necessariamente fraqueza, preguiça, covardia ou falta de


entusiasmo. Resignação é na verdade a expressão do domínio sobre o próprio
ser. A tendência de nos submetermos à vontade de uma outra pessoa ou a
certas condições, nem sempre resulta em desvantagem. Pode às vezes parecer
uma coisa inútil, nada proveitosa, mas no fim a realização dessa virtude traz
grandes benefícios. A falta de força para suportar as coisas é o motivo que leva
as almas a ficarem despreparadas para suportar os sofrimentos e as perdas. Os
que são resignados praticaram a resignação até nas menores coisas da vida
diária. Evitam usar sua força de vontade em coisas inúteis, nas pequenas coisas
que fazem. Resignação é passividade, e muitas vezes ela parece ser uma
desvantagem na vida de uma pessoa ativa que tem um objetivo a realizar.
Contudo, uma atividade contínua, mantida pelo poder e pela energia, muitas
vezes pode acabar em desastre. Toda atividade precisa ser contrabalançada
pela passividade. Devemos ser ativos nos momentos em que a atividade é
necessária e ser passivos quando as circunstâncias exigirem passividade. É
desta forma que obteremos sucesso na vida e a felicidade, coisas que a alma
busca e procura alcançar.
O significado simbólico de Cristo montado num jumento no Domingo de Ramos,
é que o jumento tem uma cruz nas costas, indicando que ele tem que aguentar
o peso de todas as cargas. O jumento mostrou sua resignação submetendo-se
à vontade do Mestre. É este o privilégio daquele que serve: embora humilde, seu
privilégio é servir a Deus.
Renúncia

Renúncia e ascetismo são duas coisas diferentes. Renúncia é a moral Sufi, mas
nem sempre é a moral dos ascetas. O asceta não se casa, não come comida
boa, não usa roupas finas ou não faz coisa alguma agradável. O Sufi pensa que
tudo no mundo é a ele destinado e por isso não precisa abandonar o mundo com
um desejo irrealizado. Não depende de nenhuma dessas coisas e liberta-se
delas. Não se refugia nas montanhas para viver na solidão, vive no mundo. Se
quiser vai para as montanhas mas elas não o retêm para sempre. É muito mais
fácil ser religioso, ser um espiritual, numa caverna nas montanhas do que viver
no mundo, mas o Sufi não tem necessidade de fugir do mundo porque reconhece
e vê a face do Bem-Amado, a face de Deus, em toda parte.

Se um mestre religioso precisasse dizer aos discípulos: “Não deves ouvir música,
não deves assistir a uma peça teatral, não deves comparecer a um baile, não
deves dançar”, talvez um entre mil dos seus discípulos seguisse sua
recomendação e passasse a viver numa floresta. Sem dúvida alguma esse
discípulo encontraria lá muito mais coisas que o ajudariam na busca da
espiritualidade, mas não teria experimentado o mundo e ficaria sempre exposto
às tentações.

É muito mais meritório e muito mais difícil viver no mundo e ao mesmo tempo
ser espiritual, arcar com as responsabilidades da vida, dar atenção aos parentes
e amigos, servir os amigos e inimigos, e ainda ser espiritual. Ser perturbado no
seu ambiente, ser sobrecarregado com responsabilidades e se expor à oposição,
é muito mais duro e de muito maior vulto do que ser um asceta que vive numa
floresta. Ambos processos têm seus perigos. Se uma pessoa abandona o mundo
e sua tendência inata de gozar e experimentar o mundo, pode isso puxá-la para
trás a qualquer momento, como aconteceu com o iogue Mahachandra que era
um grande santo e possuía muitos discípulos. A rainha Mahila levou-o para ser
rei e no mesmo instante caiu da grande altura a que tinha chegado depois de
muitos anos de dura perseverança. O iogue diz que é melhor abandonar o
mundo e o Sufi escolhe viver no mundo usando a renúncia. Prefere experimentar
o mundo servindo a todos e ao mesmo tempo pratica a renúncia.

O sacrifício é menor que a renúncia, embora um sacrifício seja também uma


renúncia. Sacrifício é uma lição que os profetas e mestres ensinaram para que
o homem pudesse aprender a renunciar. A virtude do sacrifício está na boa
vontade com que ele é feito. Renúncia é algo que não nasce como um princípio
e sim como um sentimento.

A renúncia tem uma ação automática sobre o coração do homem, uma ação que
muito poucos realizam porque são poucos os que chegam a esse estágio de
renunciar. Por meio do ato da renúncia uma centelha espiritual se acende na
alma. Quando o homem chega a esse estágio deu o primeiro passo no caminho
da espiritualidade. A centelha produzida na parte mais profunda do coração por
essa ação culmina numa chama, numa tocha, que ilumina a vida da pessoa,
modificando toda a perspectiva da sua vida. O mundo no qual essa pessoa tinha
vivido, sofrido, gozado, aprendido e desaprendido, parece ter mudado logo que
a lição da renúncia foi aprendida.

Renúncia sem dúvida é negação da personalidade, negação daquilo que poderia


ser útil à pessoa. Assim como todas as coisas do mundo podem ser usadas e
abusadas, também o princípio da renúncia pode ser usado e abusado. Entre
muitos significados incorretos que dão à autonegação, está o mais comum que
é a negação dos prazeres e da felicidade que o mundo pode oferecer. Se a
prática da renúncia como um princípio fosse uma coisa tão boa assim, parece
que, nesse caso, não haveria nenhum propósito atrás de toda a criação. Se a
renúncia tivesse sido um princípio, seria muito melhor se a criação jamais tivesse
se manifestado. Portanto, renúncia propriamente dita não é virtude nem pecado,
torna-se uma virtude ou um pecado de acordo com o uso que fazemos dela.

Quando consideramos a renúncia sob o ponto de vista metafísico, vemos que a


princípio serve de uma escada para subir acima de todas as coisas. Faz parte
da natureza da vida no mundo que todas as coisas que nos atraem com o tempo
se transformam em cadeias e também em cargas. A vida é uma jornada eterna.
Quanto mais sobrecarregada de peso é a pessoa, mais dura se torna sua
jornada. Pensem como a alma, cujo constante desejo é ir para a frente, é
diariamente retida pelas cadeias e cada vez mais sobrecarregada. À proporção
que a alma avança sente seus pés presos por grilhões. Quer ir para a frente,
mas a cada passo que dá fica mais desatenta e isso torna o avanço mais difícil.

Foi por essa razão que todos os pensadores e sábios que chegaram à realização
da vida fizeram uso da renúncia como um remédio. A ilustração disso feita pelos
sábios foi a fábula do cão e do pão. Um cão carregando um pão na boca chegou
a um tanque d’água. Quando viu seu reflexo na água pensou que fosse outro
cão. Arreganhou os dentes, latiu e deixou o pão cair. Quanto mais observamos
nossos erros na vida, nossos insignificantes desejos, mais notamos que não
estamos muito longe do cão da fábula. Pensem nas catástrofes dos tempos
atuais e como as coisas materiais do mundo – que estão sempre em mutação e
não são eternas – têm sido sacudidas e como se luta por elas! Isso mostra que
o homem é cego quanto à vida material e não dá atenção às coisas secretas e
ocultas que estão por trás da vida.
Quando tentamos raciocinar sobre a que devemos renunciar e como devemos
praticar a renúncia, devemos nos lembrar que nenhuma virtude deve ser forçada
sobre ninguém que seja incapaz de praticá-la. Uma pessoa a quem se força uma
virtude, que é forçada a renunciar a alguma coisa, não pode fazer uma renúncia,
uma renúncia correta. Nenhuma renúncia ou nenhuma virtude que resultem em
dor é uma virtude. Se traz dor, como pode ser uma virtude? Chamamos uma
coisa de virtude porque ela proporciona felicidade. O que tira a felicidade nunca
pode ser chamado de virtude. A renúncia só pode ser corretamente praticada
por aqueles que a compreendam e são capazes de praticá-la. Por exemplo,
quem está comendo um pão viajando num trem e encontra-se com alguém
faminto e precisando também de comer, se acha que é seu dever dar o pão e
ficar com fome e depois se sente infeliz, seria melhor não dar o pão. Não haveria
nenhuma virtude no seu gesto. Se fez isso uma vez na certa não fará a mesma
coisa novamente, porque sofreu e sua virtude lhe trouxe infelicidade. Esse tipo
de virtude jamais se desenvolveria no seu caráter. Só é capaz de renunciar quem
encontra a maior satisfação em ver o próximo comer seu pedaço de pão do que
ele mesmo comê-lo.

Só quem tem o coração pleno de felicidade, depois de um ato de renúncia, é que


deve renunciar, o que prova que renúncia não é coisa que possa ser aprendida
ou ensinada, vem espontaneamente à proporção que a alma se desenvolve e
quando ela começa a ver o verdadeiro valor das coisas. O vidente começa a ver
de forma diferente tudo que é valioso para os outros. Assim, o valor de todas as
coisas que consideramos preciosas ou não preciosas, está em relação a essa
maneira de olhá-las. Para um é demasiada a renúncia a um centavo, para outro
a renúncia a tudo que possui não é nada. Depende de como olhamos as coisas.
Ficamos assim, acima de tudo a que renunciamos na vida. O homem torna-se
escravo de qualquer coisa a que deixou de renunciar e torna-se um rei daquilo a
que renunciou. O mundo inteiro pode se tornar um império para quem resolveu
renunciar a ele.

A renúncia depende da evolução da alma. Aquele que ainda não se desenvolveu


espiritualmente não pode realmente renunciar. Os brinquedos são preciosos
para as crianças e não significam nada para os adultos. É fácil para os adultos
renunciá-los. O mesmo acontece com os que se desenvolveram espiritualmente:
para eles todas as coisas são fáceis de renunciar.

Como podemos progredir no caminho da renúncia? Tornando-nos capazes de


discriminar entre duas coisas, duas alternativas. Uma pessoa com a natureza do
cão da fábula não pode renunciar. Ama as duas alternativas. É tal a natureza da
vida que, quando há duas coisas à nossa frente, temos que perder uma delas.
Nossa discriminação é que deve decidir a que renunciar e o motivo da renúncia,
decidir se renuncia ao céu em favor do mundo ou renuncia ao mundo em favor
do céu, se renuncia à riqueza pela honra ou à honra pela riqueza, se deve
renunciar às coisas momentaneamente preciosas pelas coisas eternas. A
natureza da vida é tal que sempre nos apresenta duas possibilidades e às vezes
é muito difícil escolher entre elas. É frequente uma coisa estar à mão e a outra
longe do nosso alcance. É um quebra-cabeça, mas temos que saber o que deve
ser renunciado ou então como obter a outra coisa. Outrossim, às vezes falta-nos
o poder da vontade para renunciar e a renúncia requer não só o poder de
discriminar entre duas coisas como também a força de vontade para fazer aquilo
que queremos. Não é fácil para o homem fazer o que quer na vida. A vida é
difícil. Às vezes não podemos renunciar porque nosso próprio ser não nos ouve.
Se nem ao menos escutamos a nós mesmos, é difícil para os outros nos ouvir.

A renúncia pode ser aprendida de maneira natural. Em primeiro lugar devemos


treinar nosso senso de discriminação para poder distinguir entre o que é mais
valioso e o que e de menor valor. Podemos aprender isso fazendo um teste como
fazem com o ouro verdadeiro e o ouro falso: o ouro que dura por pouco tempo e
depois escurece é imitação, o que mantém sempre a cor é o ouro verdadeiro. É
uma prova de que o valor das coisas é reconhecido pela sua constância.
Devemos nos perguntar se não devíamos reconhecer as coisas pela sua beleza.
Na verdade devíamos reconhecê-las por sua beleza, mas devemos também
reconhecê-las por sua durabilidade. Pensem na diferença entre o preço de uma
flor e o preço de um diamante. A flor com toda a sua delicadeza, beleza de cor e
fragrância, tem um preço insignificante quando comparado com o do diamante.
A única razão é que a beleza da flor diminui no dia seguinte enquanto que a
beleza do diamante é duradoura, mostrando uma tendência natural. Não
precisamos aprender isso, porque estamos sempre procurando a beleza e tudo
que é duradouro. Se uma amizade por mais bela que seja não dura, que valor
tem? Que valor têm a posição, as honrarias e outras coisas que não duram?
Entretanto o homem é como uma criança que corre atrás de tudo que o atrai e
que está sempre em mutação, mas ao mesmo tempo sua alma procura a
constância.

Ao aprender a lição da renúncia, podemos estudar só a nossa natureza, o que o


nosso ser mais íntimo almeja e tentar seguir o que ele nos diz. A sabedoria surge
por esse processo de renúncia. Sabedoria e renúncia andam de mãos dadas. O
homem se torna mais sábio pela renúncia e por ser sábio está capacitado a
renunciar. Todas as dificuldades na vida dos seres humanos, em seus lares, as
dificuldades das nações e do mundo em geral, são sempre devidas a
incapacidade do homem em renunciar. A civilização propriamente dita é
realmente um desenvolvimento do senso de renúncia que se manifesta pela
nossa consideração para com os outros. Cada ato de cortesia, de polidez, revela
renúncia. Quando alguém oferece sua cadeira ou faz qualquer outra coisa gentil
e boa para os outros, é renúncia. A civilização, no seu verdadeiro sentido, é
renúncia.

A meta maior e mais alta que cada alma deve alcançar é Deus. Assim como tudo
necessita de renúncia, essa meta mais elevada também precisa da mais alta
renúncia, mas uma renúncia forçada mesmo para Deus não é nem uma renúncia
correta nem uma renúncia verdadeira. Só encontramos a renúncia correta e
adequada nas pessoas que são capazes de fazê-la. Meditem na passagem da
Bíblia que fala de Abraão. Ele estava pronto para sacrificar seu próprio filho. Hoje
o homem está sempre pronto para rir de algumas velhas histórias raciocinando
com seu próprio ponto de vista, mas pensem como muitos pais e mães deram
seus filhos em sacrifício durante a guerra, entregaram os filhos às nações para
defender o povo ou a honra da pátria. Isso prova que nenhum sacrifício é
demasiadamente grande quando se trata do nosso ideal. Há apenas a diferença
do ideal: se é um ideal material ou um ideal espiritual, se é para obter um lucro
terreno ou um lucro espiritual, se é para o homem ou para Deus.

Enquanto a renúncia for praticada visando ao progresso espiritual, é o caminho


certo, mas logo que a renúncia se torna um princípio, há abuso e é mal usada.
O homem de fato deve ser o mestre da vida. Deve usar a renúncia, mas não
deve se submeter a ela. Assim deve ser com todas as virtudes. Quando as
virtudes controlam a vida de um homem, elas se transformam em ídolos e não
são os ídolos que devemos adorar, devemos adorar o ideal que está atrás do
ídolo.
A diferença entre vontade,
querer e desejo

Vontade é o desenvolvimento do querer. Quando dizemos que uma coisa


aconteceu pela vontade divina, significa que houve um comando, um querer que
se desenvolveu numa ação. Quando o querer se desenvolve numa ação torna-
se vontade, vira um comando. Podemos pensar que é apenas nosso próprio
querer, mas na verdade é um querer que ainda está estacionado. É um querer
que ainda não brotou, que está ainda inativo. É como a semente que está na
terra: no momento em que a semente começa a brotar surge a muda que, no
seu processo de desenvolvimento, se torna uma planta. O mesmo acontece com
o querer, que se transforma em vontade. Portanto, querer e vontade são dois
nomes diferentes para uma mesma coisa: o estágio do não-desenvolvimento e
o processo do desenvolvimento.

Desejo é um estágio mais fraco e mais primitivo do querer. Quando uma idéia ou
um pensamento de que gostamos de uma determinada coisa ainda não está
bem claro na nossa mente, quando nossa mente ainda não tomou uma decisão,
isso é um desejo, uma fantasia. Quando se desenvolve mais um pouco é um
querer, tem vida, fica ali e não se desvanece como as nuvens se desvanecem.
Ele é tangível, está ali presente, só que ainda não foi realizado porque, para
chegar à realização, é preciso que se desenvolva.

Há pessoas neste mundo que dizem que a vida inteira só tiveram falta de sorte,
que seus desejos nunca foram realizados. Acreditam piamente que um espírito
antagônico impede que obtenham o que desejam, que Deus está contra elas,
que as estrelas, os astros ou outra coisa qualquer estão impedindo que seus
desejos sejam realizados. Em geral nada disso existe. Em primeiro lugar, Deus
deseja o que nós desejamos. Se o desejo de Deus fosse diferente dos nossos
desejos, como poderíamos adorar um Deus que está sempre contra nós? Além
disso, não há benefício algum em fazer oposição ao desejo do homem e não há
vantagem em se opor ao desejo de Deus. É verdade que podem existir
condições planetárias ou cósmicas que se opõem aos desejos. Lembremo-nos
do ditado: “O homem põe e Deus dispõe”. Deus é colocado no lugar das formas
cósmicas, mas na realidade Deus, com sua misericórdia e compaixão, nunca
quer se opor ao desejo de ninguém. Deixando Deus à parte, até um homem de
bom coração jamais há de querer se opor ao desejo de ninguém. Faria todo o
possível para ajudar que o desejo de uma pessoa se torne uma coisa real.
O que em geral acontece é que está provado que o homem é o seu pior inimigo,
o inimigo de seus próprios desejos, por muitas razões, uma delas é que nunca
está seguro daquilo que deseja. Entre cem pessoas talvez encontremos uma
que realmente sabe o que quer, enquanto que as outras noventa e nove pessoas
não estão certas do que desejam. Um dia pensam que desejam uma coisa, no
dia seguinte não desejam mais aquilo e dessa forma o desejo se desintegra no
meio da sua confusão mental. Há um outro tipo de pessoas: as que adotaram
uma atitude passiva. Essas pessoas dizem que é pecado desejar e no entanto
não podem deixar de ter desejos. Com essa atitude passiva decidem não desejar
e descartam qualquer desejo que surgir. Há um quarto tipo de pessoas: as que
desejam alguma coisa mas, por falta de concentração, não conseguem
transformar seu desejo num querer e assim seus desejos ficam sempre no
estágio primitivo. Por fim temos o quinto tipo de pessoas: as que desenvolvem o
desejo num querer. Vão até aqui e param. Nesses casos o desejo não vai avante
e nunca chega à culminância, que só acontece quando o querer se desenvolve
na vontade.

Este assunto é de grande importância na vida de cada um de nós. Nenhuma


pessoa pode viver no mundo sem desejar alguma coisa e se houver alguém sem
desejo não deve permanecer no mundo, deve evitar a multidão, pois não pode
viver ali. Deve ir para as montanhas, para algum lugar longe do mundo, e mesmo
ali deve virar uma árvore ou uma rocha para poder viver, porque ser um ser vivo
sem desejo não é possível.

Há um provérbio no livro “Gayan” que nem todos compreendem: “Reprimir o


desejo é suprimir um impulso divino”. Os que fazem distinção entre “divino” e
“não divino” certamente cometem o maior dos erros, porque ou tudo é divino ou
nada é divino. A única diferença é a mesma que existe entre a máquina e o
engenheiro. A mente de Deus está trabalhando e ao mesmo tempo o
instrumento, que é a máquina de Deus, está trabalhando. Portanto, o que brota
em nós como um desejo tem em Deus sua origem e assim é um impulso divino.
O homem piedoso tem uma falsa concepção dessa idéia devido ao seu não-
conhecimento desse assunto e faz de Deus um cativo no céu.

Outro provérbio no “Gayan”: “Tudo que cria anseio no coração priva o coração
de sua liberdade”. A verdade é que quando há anseio a pessoa fica atada por
uma corrente, uma corrente que é mais forte que o aço. Desejar é ficar atado.
Isso não é uma moral e sim uma afirmação filosófica. Além do mais ninguém
pode viver sem desejo. Seria melhor se fosse uma rocha. Sem dúvida alguma
se uma pessoa fosse isenta de desejos poderia ter a mesma liberdade da rocha,
mas mesmo a rocha está na espera de um dia em que sentirá desejos. O desejo
de realização da rocha virá com o desenvolvimento dela na forma humana.

A diferença entre as pessoas é de acordo com os seus desejos. Uma pessoa


tem desejos para a terra, outra desejos para o céu. O desejo de uma leva-a ao
auge do progresso espiritual e o desejo da outra leva-a para as profundezas da
terra. O homem é grande ou pequeno, é sábio ou tolo, está na estrada certa ou
na estrada errada, de acordo com seus desejos.

De acordo com os Sufis há “Kazá”, a vontade universal, poder universal, e há


“Kadr”, o poder individual. Certamente poder individual comparado com o poder
universal é como uma gota comparada com o oceano. Não pode ela aguentar a
violência que vem do mar que a destrói, mas a gota sendo da mesma origem do
mar, também possui uma certa força e tem a vontade individual para se manter
firme contra as forças opositoras.

Se quisermos tornar mais clara esta questão da vontade individual e da vontade


universal, temos que ver isso nas pequenas coisas. Um indivíduo que está
andando na rua e diz: “Estou com fome, gostaria de entrar num restaurante e
fazer uma refeição”, mostra vontade individual. Outro que está na rua, vê um
mendigo e diz: “Este homem parece ser tão pobre, posso fazer alguma coisa por
ele. Gostaria de vê-lo mais feliz”, logo que pensa no bem-estar de outra pessoa
sua vontade imediatamente se transforma em vontade universal. A razão é que
a fronteira que limita o pensamento da personalidade, logo que a pessoa se
esquece de si mesma e pensa noutro ser, essa fronteira se desfaz e a vontade
se torna mais forte. Onde os Mestres da humanidade, os que realizaram grandes
feitos no mundo, foram buscar sua vontade? A vontade deles se expandiu
quando eles derrubaram as barreiras do pensamento de suas próprias pessoas.
Isso não quer dizer que o indivíduo deve excluir inteiramente o pensamento de
sua pessoa, que não deve nunca pensar em si, nunca pensar no almoço e no
jantar. A personalidade tem que estar presente, temos que pensar nela, mas ao
mesmo tempo, a fim de expandir para permitir que a vontade cresça, quanto
mais esquecermos de nós mesmos mais recebemos ajuda.

Alguns tomam o caminho da resignação, não fazendo o bem nem para eles nem
para os outros. Sua atitude é pensar que as coisas virão de algum lugar ou que
alguém fará as coisas, que se estiverem com fome alguém aparecerá para
alimentá-los ou ajudá-los. O querer dessas pessoas é inativo, elas não permitem
que seu querer se torne vontade, permanecem no mesmo lugar em que estão,
são pessoas passivas. Não há dúvida que uma passividade e uma resignação
inteligentes podem também trazer resultados maravilhosos, mas muitas pessoas
praticam isso de forma intelectual. Uma das qualidades dos santos é a
resignação em relação a tudo que Ihes aconteça, mas nesse caso eles nem
chegam a ter um desejo. Recebem tudo que Ihes é dado – flores ou espinhos –
da mesma maneira. Estão vendo espinhos e os olham como se fossem flores,
ficam contentes com o elogio ou com a censura, com o que sobe como com o
que desce. Aceitam a vida como ela é. É a maneira inteligente de fazer as coisas.
A maneira não inteligente é dizer que tudo é difícil e que alguém virá para fazer
as coisas. Isso nada mais é que uma espécie de preguiça, não é passividade.
Na Índia contam a história de um homem que estava deitado debaixo de uma
cerejeira e algumas cerejas maduras caíam ao seu redor, mas ele não se mexia
para apanhá-las. Quando viu um homem a uma certa distância da cerejeira
gritou: “Você aí, venha cá, quer colocar uma cereja na minha boca?”
Encontramos muitos iguais a esse homem, que desistem, que não têm
entusiasmo, nenhuma coragem. Agindo assim sua força de vontade se quebra
e por fim se tornam impotentes. Não há comparação entre o espírito de santidade
e o espírito do impotente, embora ambos sejam resignados, mas o último não é
resignado. Quer a cereja na boca se alguém fizer isso por ele. O santo não se
importa se come ou não. Para ele é a mesma coisa.

Outros há que são superansiosos, que querem ver seus desejos realizados
imediatamente. Isso destrói os desejos porque exercem pressão demasiada
sobre eles. É o mesmo que resguardar uma planta do sol e da chuva. É preciso
cuidado porque se a pessoa a resguardar justamente daquilo que a ajudará a
crescer, sem o necessário cuidado, a planta jamais progredirá. O mesmo
acontece com o desejo. Se a pessoa ficar muito ansiosa e ao mesmo tempo
estiver sempre com medo que o desejo não se realize, se estiver em dúvida, com
receio e suspeitas, destruirá seu próprio desejo.

Também há indivíduos que estão dispostos a sacrificar qualquer coisa ou


perseverar quanto for preciso até por um pequeno desejo a que na realidade não
dão tão grande valor assim. Não obstante, dão a ele toda a atenção, dão tudo
que podem para ver tal desejo realizado. Essas pessoas tomam o mesmo
caminho dos Mestres. Terão sucesso e é o sucesso que atrai outros sucessos.
Se uma pessoa é bem sucedida, seu sucesso atrairá mais sucessos, mas se
fracassar seu fracasso atrairá outros fracassos. O mesmo acontece quando a
pessoa está no caminho da realização: cada realização dá à pessoa um poder
maior para avançar e quando a pessoa está no caminho descendente, cada
passo a leva mais para baixo.

Surge a pergunta: qual o desejo e o querer que se deve deixar de lado e qual
deve ser alimentado? Deve-se usar a discriminação. Se não houver
discriminação, o indivíduo pode tomar um caminho errado. A pessoa pode ter
sucesso, mas será um tipo errado de sucesso. Se a pessoa fomentar cada
desejo e querer, acreditando que todos eles devem ser satisfeitos, às vezes isso
dá certo e às vezes não dá. O senso de discriminação deve ser primeiramente
desenvolvido para se compreender o que pode nos levar a uma felicidade
duradoura, a uma paz maior, a uma consecução mais alta. Uma vez que a
pessoa atinge essa discriminação e escolheu um desejo, não o analisará
demasiadamente. Muitos criaram o hábito de analisar tudo o dia inteiro. Se uma
pessoa retém um desejo por dez anos e o analisa diariamente em sua mente,
age contra o desejo. Cada vez vê o desejo sob um novo ponto de vista e tenta
ver o que há com seu desejo. Assim acaba por esmagá-lo de todas as maneiras.
Em dez anos, quando seu desejo se realizaria, ele estaria em pedaços. Há
muitas pessoas intelectualizadas, pessoas que duvidam, que possuem mentes
analíticas, que são as maiores inimigas de seus desejos.

Alguns acham errado uma pessoa expressar seu desejo numa prece, já que
Deus sabe de tudo. Por que deve alguém dizer a Deus que uma coisa devia
acontecer? Deus conhece o segredo de cada coração. Não é egoísmo levar
nosso desejo perante Deus? Se for um bom desejo ele se realizará por si
mesmo. A resposta é que a prece é um lembrete que fazemos a Deus, a prece
é uma canção cantada para Deus, que a aprecia, que a ouve, que é lembrado
de alguma coisa. Mas como pode nossa prece, nossa voz insignificante, alcançar
Deus? Alcança Deus através de nossos ouvidos. Deus está dentro de nós. Se
nossa alma pode ouvir nossa voz, Deus pode também ouvi-la. A prece é a melhor
forma, porque o desejo é expresso de uma bela maneira que se harmoniza com
Deus e resulta num relacionamento mais estreito entre Deus e o homem.

Além disso, nunca se deve pensar muito ou demasiadamente no nosso desejo.


Deve-se sonhar com ele, imaginá-lo, pensar nele, mantê-lo sempre no
pensamento e fazer todo o possível para que ele se realize, mas deve-se fazer
isso com equilíbrio, com confiança, de maneira fácil. Quem pensa com dureza
no seu desejo destrói-o. É o mesmo que superaquecer uma coisa ou molhar
demais uma planta. Ela é destruída justamente por aquilo que deveria ajudá-la
a crescer. Se uma pessoa se preocupar com seu desejo certamente é porque
não tem paciência ou tem medo ou dúvida. Todas essas coisas destroem o
desejo. Um desejo deve ser tratado com tranquilidade, com carinho, com
esperança, com confiança, com paciência. A dúvida é ferrugem para o desejo:
corrói-o. O medo é pior ainda: destrói-o. Quando uma pessoa não usa a
discriminação e não está certa se seu desejo é um desejo correto ou um desejo
incorreto, se ele se realizará ou não, um dia dirá: “Gostaria tanto que meu desejo
se realizasse”, noutro dia diz: “Que me importa se ele se realiza ou não”, depois
de uma semana diz: “Gostaria que se realizasse agora” e depois de um mês:
“Não me importo mais”, e se não se importa é como se ateasse um fogo e depois
o apagasse: toda vez que extingue o fogo ele se acaba e terá que acendê-lo de
novo.

A questão se um desejo é desejável ou não, depende do nosso estágio de


evolução. Uma pessoa cuja evolução é de tal ordem que não tem outro desejo
senão atender suas necessidades do dia-a-dia, não deve pensar que precisa
desejar algo mais elevado. Se seu coração está inclinado para esse tipo de
desejo não deve se preocupar, mas se sente no seu coração “Eu realmente não
posso desejar isso, posso pensar em algo muito mais elevado” então deve
aceitar as consequências. E as consequências são que passará por testes e
experiências com isso tanto melhor.

Há muitas coisas neste mundo que queremos e que precisamos. No entanto não
pensamos necessariamente nelas. Se acontecerem muito bem, se não
acontecerem sentimo-nos desconfortáveis por algum tempo mas esse
sentimento desaparece. Não podemos dedicar nosso pensamento e nossa
mente a essas coisas se estivermos envolvidos e estivermos pensando em algo
mais elevado e mais grandioso do que o que precisamos na nossa vida cotidiana.
Isso escapa de nossas mãos. É por isso que os grandes poetas, pensadores e
santos muitas vezes falharam nas coisas do dia-a-dia. Com o poder que
possuíam poderiam comandar tudo, até trazer dinheiro para suas casas ou dar
ordens aos exércitos para fazer isso ou aquilo. Bastava que dessem uma ordem
de comando. No entanto, não poderiam concentrar suas mentes nessas coisas,
poderiam apenas desejar alguma coisa que estivesse de acordo com sua
evolução.

Assim, pois, cada um deseja algo equivalente à sua evolução. Não poderia
propriamente desejar algo que estivesse abaixo de sua evolução, mesmo se
mandassem fazer. Frequentemente, a fim de ajudar uma pessoa numa
determinada situação, eu lhe digo: “Concentre-se agora neste objetivo especial”,
mas sendo a pessoa muito evoluída pensa com o cérebro, seu coração está em
outro lugar qualquer e assim nunca a coisa se realiza. A pessoa precisa entregar
seu coração, sua mente e todo o seu ser a algo que esteja no mesmo nível de
sua evolução, mas se o objetivo não estiver no mesmo grau a pessoa não pode
dar todo o seu ser, talvez apenas só o seu pensamento. O que é o pensamento?
Pensamento sem sentimento não tem nenhum poder. Se a alma e o espírito não
estiverem por trás do pensamento, ele não tem nenhum poder.

Devemos compreender que nosso desejo mais elevado deve ser separado
daquilo que necessitamos na nossa vida diária. Nunca devemos misturar as
coisas e sim pensar sempre no que precisamos na nossa vida cotidiana como
algo prático. Se é realmente nosso desejo está muito bem. Contudo, devemos
acariciar e manter nosso desejo mais elevado como algo sagrado, algo dado a
nós por Deus para ser tratado com carinho, para ser realizado. Porque na
realização do nosso desejo mais elevado, melhor e mais profundo é que está o
objetivo da vida.
SEGUNDA PARTE
A lei da atração

Os dois grandes princípios da natureza são: a atração do semelhante pelo


semelhante e a atração dos opostos.

Se observarmos a natureza notamos que se houver uma mancha de poeira


numa parede mais poeira ali se acumula. Às vezes é difícil encontrar uma mosca
numa sala, mas se houver uma podemos contar que há outras por perto. Onde
existe uma formiga ou um pardal, outras formigas e pardais estão por perto.
Quando encontramos na floresta um papagaio, é certo que ali vive grande
quantidade de papagaios. Não importa se os cães rosnem e briguem, mesmo
assim apreciam muito mais estar juntos. O coelho não se incomoda de estar
junto dos pardais e nem o jumento quer se associar com as serpentes. Onde há
um grão de trigo, mais trigo cresce e onde encontramos uma pequena roseira,
existem muitas rosas.

Tudo isso é um exemplo de que o semelhante é atraído para o semelhante, para


aquilo com que tem afinidade. É por esta razão que as nações e as raças têm
características e atributos especiais. Durante séculos os povos com
características semelhantes e qualidades semelhantes se uniram, formando
grupos. Os Franceses se assemelham aos Ingleses e são diferentes dos Suíços.
Os Suecos diferem dos Alemães. Para uma pessoa cuja inteligência está
treinada no conhecimento de tipos raciais, não é difícil distinguir de relance um
Belga de um Francês, um Alemão de um Italiano, mesmo se estiverem no meio
da multidão.

As famílias também têm suas semelhanças, que se baseiam no mesmo princípio.


Na Índia, onde se dá grande importância à hereditariedade, este assunto assume
grandes proporções. Cada província, cada distrito, tem suas características
especiais. Um homem de Gujarati sempre gosta de estar com outro Gujarati e
quando dois ou três Marathas se reúnem, há felicidade. Não querem um Panjabi
para Ihes fazer companhia. O mesmo acontece com os Bengalis e Madrassis.
Por que? Porque cada um se sente exultante no seu próprio ambiente.

A primeira razão para a atração do semelhante pelo semelhante é a


consanguinidade. Atualmente a questão do parentesco ou afinidade é muito
pouco levada em consideração. Dificilmente sabemos quem são nossos
parentes e no entanto isso representa um grande vínculo. Quando o sangue é o
mesmo, a forma é feita do mesmo elemento sanguíneo.
Há história de um jovem que se tornou um lutador na corte do Rei da Pérsia.
Ninguém sabia nada sobre seus ancestrais, só o Rei, que havia criado o menino
com grande cuidado. Esse jovem lutador, cujo nome era Kushtam, tornou-se
campeão dos lutadores do seu país e tentava ser campeão mundial, mas o rei
não permitia que se avistasse, e muito menos falasse, com estrangeiros. Lutou
com muitos lutadores e sempre vencia. Naquela época era costume que aquele
que fosse vencido devia reconhecer sua derrota ou então seria morto. Um dia
chegou à cidade, vindo de um outro país, um grande lutador. Ficou combinado
que o jovem deveria lutar com ele. O combate se realizou e o lutador estrangeiro
derrubou Kushtam. Kushtam era muito orgulhoso e não reconheceu sua derrota.
Nesse caso restava ao adversário matá-lo. Quando o jovem lutador sentiu a
adaga entrando no seu corpo e como ainda tinha forças para falar disse ao
adversário: “Mataste-me, mas um dia na certa vais lutar com meu pai e ele te
matará”. O outro perguntou-lhe o nome do pai e ouviu: “Kushtam”. O vencedor
colocou as mãos na cabeça e chorou. Estava alucinado porque viu que tinha
matado seu próprio filho.

Uma atração vem à mente de uma maneira silenciosa, mas nem sempre é clara
porque age através da matéria. A diferença entre espírito e matéria é que quando
a inteligência divina é lançada diretamente é espírito e quando é irradiada
através de um agente denso é matéria. Assim, há inteligência divina tanto no
espírito como na matéria.

Há grande atração entre gêmeos. Presume-se que os gêmeos sejam unidos,


mas nem sempre são unidos como esperávamos. Se são gêmeos no verdadeiro
sentido da palavra, é como se duas almas gêmeas começassem a jornada juntas
e viessem à terra juntas. Esses são os gêmeos mais unidos. Existiram gêmeos
tão unidos que quando um ficava doente o outro também adoecia, se um estava
feliz o outro também se sentia feliz, mesmo se estivesse longe. Mas pode haver
gêmeos que são como duas pessoas que estivessem na chuva e que por acaso
encontraram abrigo no mesmo lugar. É um outro assunto.

Pode também haver duas almas nascidas em países diferentes, educadas por
pais diferentes, e que são atraídas uma pela outra e que se apóiam a vida inteira.
Há exemplos entre amigos que se querem, entre associados. Essas almas
podem estar na posição de patrão e empregado. Podemos chamá-las de almas
gêmeas. São pessoas tão parecidas como se fossem filhas dos mesmos pais e
no entanto não são irmãos ou irmãs. Essas almas são altruístas no seu
relacionamento, pensamentos e idéias. Há uma atração recíproca e às vezes
mostram semelhança até no trabalho.

A segunda razão para a atração do semelhante pelo semelhante é a afinidade


que existe entre o mesmo tipo de ocupação. Um fazendeiro que trabalhou na
sua terra o dia inteiro, gostará à noite de conversar com outro fazendeiro, com
quem poderá falar de colheitas. Não quer sentar-se e conversar com literatos.
Um soldado prefere estar na companhia de outros soldados. Um desportista
prefere estar com outros desportistas e não quer estar no meio de eruditos, em
cuja companhia se sente deslocado. Um apreciador de literatura sempre procura
a companhia de literatos. Um músico gosta de estar entre músicos. Tive
experiência disso. Quando haviam Indianos nos meus concertos, pessoas
muitas vezes da minha província, eu me entristecia quando via que
demonstravam pouca apreciação por minha música, enquanto os músicos
Ocidentais presentes a apreciavam. Talvez os Ocidentais não compreendessem
as palavras que eu cantava e nem conheciam a música, mas por serem músicos,
seu interesse pela música sintonizava-os com a essência da música.

A terceira razão é a semelhança das qualidades ou atributos. Uma pessoa


valente gosta de estar no meio de bravos. Não gostaria de estar no meio de
covardes. Uma pessoa bondosa procura pessoas de bom coração. As pessoas
afetuosas são atraídas pelos afetuosos, não pelas pessoas frias. Um rixento
procura os que gostam de brigar. O semelhante é sempre reconhecido pelo
semelhante. Se dois ladrões estiverem num grupo, um imediatamente
reconhecerá o outro. Se um ladrão viajar de Paris a Nova York é fácil encontrar-
se com outro gatuno. Qualquer um levaria muito tempo para encontrar esse
ladrão, mas um ladrão reconhecerá imediatamente o outro e diz: “Este é um
ladrão, é meu irmão”. Um homem cruel atrai a crueldade de outros cruéis. Se
nós enganarmos alguém, mesmo que seja um pequenino logro, imediatamente
encontraremos outros que nos enganarão, mesmo que o hábito de enganar não
faça parte do nosso caráter. Esta é a explicação para o que chamamos de
punição de nossos pecados. Não é Deus que está nos dando uma certa punição,
é que em consequência da nossa maldade, de nossos maus pensamentos,
atraímos para nós a maldade dos outros. Um pequeno ato de bondade de nossa
parte atrai a bondade alheia. Uma pessoa bondosa encontrará bondade em
qualquer lugar em que estiver, até entre pessoas cruéis. A menor generosidade
de nossa parte atrai a generosidade dos generosos. Se repetirmos o nome de
Deus imprimindo em nossa alma a bondade, a misericórdia e a infinita
benevolência de Deus, criamos essas qualidades em nossa alma e atraímos
para nós a misericórdia, a bondade e a benevolência em qualquer forma e nome
que tiverem que ser usadas.

Além da atração do semelhante pelo semelhante, há a atração de cada um por


seus opostos. Existem duas grandes forças na natureza: a força criativa e a força
que a ela responde – a força receptiva. Podemos chamá-las de força ativa e
força passiva, ou Jelal e Jemal. É possível compreendermos isso pela lei do
ritmo. Em cada ritmo há a batida mais forte e a batida mais fraca. Por exemplo:
no compasso 2-4 contamos um-dois, um-dois. A batida mais forte (um) é a que
tem força suficiente para contrabalançar a outra batida (dois). Vemos a mesma
coisa na forma, em que a convexidade contrabalança a concavidade.
Os representantes dessas duas forças na natureza são o macho e a fêmea.
Enquanto em cada homem algumas qualidades são masculinas e algumas são
femininas e em cada mulher algumas qualidades são femininas e algumas
masculinas, em toda parte há a força, o poder criativo que regulamenta, e há o
poder responsivo ou que responde, que é o poder regulamentado. O homem tem
o poder criativo e quando observamos a mulher vemos que ela é responsiva em
todos os aspectos da vida. Uma mulher pode ocasionalmente ser tão criativa que
o homem passe a ser o responsivo e ela faz dele um escravo, mas normalmente
é o homem que tem o poder criativo, o que faz com que seja o dominante.

Podemos alegar que isso não é uma coisa justa, mas de qualquer forma é o
homem que possui muito mais qualidades magnéticas que devem regulamentar,
enquanto que a mulher, que possui as qualidades responsivas, é a
regulamentada. Esse é o aspecto filosófico da questão, mas quanto ao aspecto
moral, devemos compreender que quem é responsivo precisa de muito maiores
cuidados e que o poder criativo deve dar muita atenção ao responsivo. Até que
uma maior atenção seja dispensada à vida da mulher, não podemos afirmar que
somos realmente civilizados. Quanto ao aspecto social, tenho ouvido muitas
queixas de todos os lados no Ocidente, mas o Oriente também tem muito a
aprender quanto ao tratamento a ser dado às mulheres.

Sabemos que os ouvidos são órgãos receptivos do som. Os ouvidos não criam.
Os olhos são criativos. O nariz percebe o odor e não pode criar. Os lábios e a
boca criam e se atraem mutuamente. Quando os ouvidos escutam um som, os
olhos imediatamente querem ver o que está acontecendo, de onde vem o som.
O nariz pode nos falar do sabor de uma coisa, muito mais cedo e muito mais
exatamente do que o paladar. O nariz quer imediatamente interferir com o que a
boca faz e diz: “Não continua mastigando porque eu não quero” ou “Seja justa,
eu gosto disso”. Vemos também que quando nossa mão direita segura uma coisa
a mão esquerda imediatamente quer fazer o mesmo. Quando nosso pé direito
vai à frente, o pé esquerdo quer segui-lo imediatamente. Quando cruzamos um
braço o outro quer fazer o mesmo. A tendência de uma perna é cruzar com a
outra, apesar da superstição entre os Indianos de que dormir com as pernas
cruzadas dá azar. Todos sabemos disso, mas é muito difícil abandonar esse
hábito, porque quem cruza as pernas faz isso de maneira natural.

Às vezes uma pessoa prefere estar na companhia do seu oposto do que na


companhia de uma que lhe seja semelhante, do seu nível. Quando duas pessoas
que possuem força quase semelhante se encontram, não se harmonizam
imediatamente. Os que estudam a respiração compreendem isso perfeitamente.
Sabem que existe uma respiração mais ativa e uma respiração menos ativa e
que quando as duas ficam iguais, há um estrépito. Se se trata de um grande
cantor e o outro é o professor que está ensinando empostação da voz, os dois
podem entrar em consonância e não haverá competição. Um quer ser ouvido e
o outro ensinar, mas se dois cantores de ópera se encontrarem, raramente
entrarão em acordo e haverá rivalidade.

Um sábio prefere ter um criado tolo e não um criado semi-sábio, o qual


certamente questionará suas ordens. Conta-se a história de um criado que foi
mandado procurar um médico. Foi primeiro aos serviços funerários. Se um sábio
não pode estar na companhia de sábios, prefere ficar no meio dos tolos do que
entre semi-sábios.

Observo com muita frequência que quem tem uma fé simples, pode ser muito
mais inspirado e depois iluminado, ao passo que o intelectual está sempre
raciocinando e não consegue dar um passo à frente. É por isso que os cientistas
e os místicos raramente se harmonizam. O cientista dirá sempre: “Se você sabe
disto eu também, se você é alguma coisa eu também sou”. Às vezes acontece
que há repulsa entre duas pessoas à primeira vista e mais tarde a repulsa se
transforma numa amizade firme, mas nem sempre isso acontece. Os que devem
ser amigos em geral são amigos desde o primeiro instante. No primeiro caso
parece que houve alguma coisa que influenciou a repulsa, mas depois de certo
tempo, depois que a repulsa foi vencida e a pessoa se acostumou com a outra,
as duas podem se suportar facilmente. Encontraram algo de interesse e se
tornam amigas. É o mesmo que nos acostumarmos com o veneno.

Sempre haverá uma sociedade ou uma associação de que gostamos e outras


de que não gostamos. Sempre haverá algumas pessoas que não gostam de nós
e outras que nos apreciam, pois sempre preferimos nosso próprio elemento. Não
há nada de surpreendente nem nada de culposo nisso. É simplesmente a lei da
atração. Contudo, o Sufi procura ser harmonioso com tudo, tornando-se o
elemento de tudo. Cria o elemento ativo dentro dele. Esse elemento é o amor.
Podemos aprender isso lendo a Bíblia que diz que Deus é Amor. O amor é o
único meio de realizar a união da humanidade, que é capaz de estabelecer a
fraternidade universal. As diferenças e distinções são exteriores, mas o homem
é treinado de tal maneira desde que nasce para ver as diferenças e as distinções,
que não vê a Unidade subjacente.

Certas pessoas dizem que o mundo poderia ser unido através de um


regulamento forte. Isso é um engano. O que acontece quando tentamos governar
nossa família com mão de ferro? Ela nunca se une. Só o amor pode unir o
mundo.

É comum ouvirmos certas pessoas dizer: “Somos desta raça. Somos superiores
a vocês. Vocês são inferiores. Nossa religião é superior, a sua é inferior. Nossa
nação é grande, a sua é pequena.” A causa da primeira guerra mundial foi que
todas as nações européias chegaram a um mesmo nível de progresso. Se um
país fabricava um avião ou um bom submarino, o outro fabricava outros artefatos
ainda mais aperfeiçoados. Uma nação era forte, mas as outras queriam ser ainda
mais fortes.
Pares de opostos

Na terminologia religiosa lê-se frequentemente a expressão “pares de opostos”,


referindo-se a Deus e o demônio, o céu e o inferno, o pecado e a virtude. Quando
o homem começa a adquirir o conhecimento, aprende sobre os pares de opostos
e por isso não chega logo ao nível de entender a vida sem os opostos. De um
certo modo a idéia dos opostos é correta. O que não é correto é conceber Deus,
o Todo-Poderoso, tendo uma outra personalidade com o nome de demônio.
Outrossim, um crente que considera Deus Todo-bondade, Todo-beleza, ficará
confuso se lhe for dito que Deus também está em tudo que é mau e diabólico.
Um devoto, cujo objetivo é elevar tão alto quanto possível seu ideal de Deus pela
devoção e pela adoração, ficará embaraçado se alguém lhe disser que tudo que
ele considera vicioso e feio é também uma parte de Deus.

Essa idéia diminui Deus tornando-o limitado, porque cria um poder, senão igual
pelo menos oposto, juntamente com o poder de Deus. Qualquer meio que os
sábios do mundo tenham usado para guiar a humanidade, como essa idéia
limitada de Deus, de que há um outro poder que é de Satanás, ou a idéia de que
Deus é o Todo-poderoso, a sabedoria dos sábios sempre foi usada para que a
humanidade compreendesse a vida de uma maneira mais perfeita. Certamente
quando imaginamos um poder para o errado e o mal e o retratamos com a
personalidade que denominamos diabo, estamos limitando o poder do UM, a
quem sempre chamamos o Onipotente. Todavia, foi desenhado um quadro com
a finalidade de tornar mais compreensível e tangível a distinção entre Deus que
é Todo-bondade e o Senhor do mal. Não somos nós que começamos a
diferenciar os dois, nós não precisamos começar desta maneira, porque a vida
se encarrega de fazer isso por nós. Se não distinguimos entre os dois, se
chegamos diretamente à concepção da Unidade, sofremos uma grande perda
na vida. Só depois de fazermos a distinção entre os dois é que podemos chegar
à idéia da Unidade, que nos eleva acima de todas as coisas. Por exemplo,
quando uma pessoa diz que não olhará para as faltas dos outros e fecha os
olhos, perdeu muita coisa, mas aquele que viu as faltas e assim mesmo se
elevou acima delas, é quem merece fechar os olhos para tudo que é mau.

O objetivo da nossa vida na terra é ver todas as distinções e diferenças sem nos
subjugarmos a elas, pois isso pode nos arrastar para baixo. Devemos prosseguir
elevando-nos acima de tudo isso e ao mesmo tempo vivendo tudo plenamente.
Por exemplo, um homem pode dizer: “Nunca dei um pensamento a quem me fez
bem e nunca me preocupei com o dano que alguém tenha me causado. Sempre
coloquei essa idéia diante de mim e sempre a segui”. Essa pessoa pode ter
avançado, pode ser uma espiritualista, pode ser piedosa, mas muita coisa
perdeu na vida. Mas aquele que recebeu todo o bem que lhe foi dado e
agradeceu profundamente e ao mesmo tempo ficou sentido com o mal que lhe
fizeram, esquecendo-o e perdoando tudo, esse é o que viu o mundo e subiu
acima dele.

Céu e inferno são dois lugares inventados para nossa melhor compreensão. Um
é o lugar onde se é exaltado, onde se é feliz e recompensado, o outro é onde se
é punido. Isso torna as coisas mais fáceis para nós e, todavia, onde é que
experimentamos a infelicidade, a tristeza, o desconforto e onde experimentamos
todos os prazeres, felicidade e alegria? É nesta terra, debaixo do sol que nasce
para todos. Falaram-nos desses dois lugares diferentes porque apenas somos
capazes de vê-los em dois lugares diferentes. Em toda a história da civilização,
os sábios não poderiam ter feito coisa melhor do que tentar tornar as idéias sutis
da vida tão simples e compreensíveis quanto possível para a humanidade. Por
exemplo, se tivessem dito que o mundo do pensamento e o mundo da ação são
diferentes, seria uma verdade, só que ambos pertencem ao mesmo mundo no
qual vivemos. Não é só como a coisa é dita, também é como a vemos.

Há um trecho no “Gayan” que diz: “Eu queria ter o céu ou o inferno, mas não o
purgatório”. É uma expressão metafísica e podemos ver nela ao mesmo tempo
uma verdade filosófica, isto é, que a vida significa dor ou prazer e que a ausência
da dor ou do prazer é a morte. A mesma idéia é expressa em todas as Escrituras.
Tanto o céu como o inferno têm ou dor ou prazer. O que é isento de dor ou de
prazer não pode ser chamado de vida no sentido comum da palavra.

A compreensão de todas essas coisas sob cada ponto de vista é que ilumina
uma pessoa quando se recusa a acreditar nelas ou quando acredita nelas
cegamente. Nossa mente e também nossa situação na vida não podem se
transformar de inferno em céu e de céu em inferno? É aí que vemos a diferença
entre os dois e também sua unidade.

Isto leva-nos à questão do pecado e da virtude. Podemos dizer que pecado e


virtude são padrões do bem e do mal estabelecidos pelos mestres das religiões.
Por esses padrões de moral a ordem é mantida no mundo e quando essa ordem
é destruída há o declínio da religião, causando guerras, fome e desastres. Os
Mensageiros são enviados de tempos em tempos para preservar essa ordem e
são designados controladores espirituais para todas as partes da terra. Em todas
as eras os povos decidiram que uma determinada coisa é pecado e outra é
virtude. Onde quer que os sábios estiveram, agiram acertadamente e no entanto
eram diferentes entre si. Se uma luz maior for lançada sobre este assunto,
embora seja possível ver o pecado sob a luz do pecado e a virtude sob a capa
da virtude, podemos ver muitas vezes que havia um pecado sob a capa da
virtude e uma virtude sob a capa do pecado.
Como os povos das diferentes raças, nações e religiões possuem padrões
próprios do certo e do errado, suas próprias concepções do bem e do mal e seus
próprios ideais sobre pecado e virtude, é difícil discernir a lei que governa esses
opostos. Contudo isso fica claro quando compreendemos a lei das vibrações.
Cada coisa e cada ser parecem estar separados um do outro na superfície da
vida, mas debaixo da superfície do plano total todas as coisas se tornam uma
coisa só. Assim sendo, qualquer distúrbio na superfície que afete a parte mais
íntima da existência, afeta o todo internamente. Portanto, qualquer pensamento,
palavra ou ação que perturbe a paz é errado, mau e é um pecado, mas se trouxer
paz, é certo, bom e é uma virtude. Como a vida se assemelha a uma disputa,
sua natureza se assemelha a uma cúpula. A perturbação da parte mais ínfima
da vida prejudica o todo e volta como uma maldição sobre quem causou a
perturbação. Toda a paz criada na superfície conforta o todo e volta como paz
para quem a criou. Essa é a filosofia que se oculta na idéia da recompensa para
as boas ações e a punição para as más ações dada pelas forças do Alto.

Quando procuraram Jesus Cristo acusando alguém de ter feito uma coisa errada,
o Mestre não podia pensar noutra coisa senão no perdão, porque ele não via
naquele malfeitor o que outros estavam vendo. Distinguir entre o certo e o errado
não é tarefa de uma mente comum e o curioso é que quanto mais ignorante é a
pessoa, mais propensa está a fazer essa distinção. Muitas vezes o ângulo pelo
qual vemos uma coisa é que a torna certa ou errada. Se pudéssemos vê-la de
outros ângulos, aquilo que chamamos de errado chamaríamos de certo. Nem as
pessoas que dizem que julgam pelos resultados à vista podem estar certas de
que houve uma recompensa na punição ou uma punição na recompensa.

Tudo isso prova que a vida é um quebra-cabeça de dualidade. A idéia dos


opostos nos conduz a uma ilusão. O Sufi vendo que essa é a natureza e o caráter
da vida, diz que não é muito importante distinguir entre dois opostos. O mais
importante é reconhecer o Um que está oculto debaixo de todas as coisas.
Naturalmente quando o Sufi chega a essa realização sobe a escada que o levará
à Unidade, a essa idéia de unidade que vem através da síntese da vida, vendo
o Um em todas as coisas e em todos os seres. Pode-se acreditar que o mundo,
que esta humanidade, sempre evoluiu ou pode-se acreditar que tenha avançado
e de novo regredido, ou ainda que está dando voltas e mais voltas em círculo,
ou pode-se ter uma outra crença qualquer, mas em qualquer época em que os
sábios vieram ao mundo, acreditaram sempre na mesma coisa, isto é, que atrás
de toda a vida há unidade e que a sabedoria está na compreensão dessa
unidade. Quando uma pessoa desperta para o espírito da unidade e vê a unidade
atrás de todas as coisas, seu ponto de vista fica diferente e sua atitude se
modifica. Não diz mais ao amigo: “Eu o amo porque você é meu amigo”, diz: “Eu
o amo porque você e eu somos um”. Fala como falaria um místico: “Se você agiu
mal não tem importância, o que importa é corrigir o que está errado”.
Aparentemente certas pessoas são inteiramente felizes quando pecam, mas o
pecado não pode realmente tornar ninguém feliz. Mesmo se houver um certo
prazer momentâneo, o pecado repercute e o eco de uma nota falsa nunca é
agradável a um ouvido musical. Se uma pessoa for realmente feliz com o pecado
que cometeu, podemos ficar certos de que o pecado na verdade era uma virtude
da parte dela e que sua ação nos pareceu pecaminosa devido ao nosso ponto
de vista. Portanto, o Sufi não julga os outros e não presta atenção aos pecados
dos outros durante sua jornada. Se apenas há uma diferença comparativa entre
o bem e o mal, entre o pecado e a virtude, por que então haveria punição para o
pecado e recompensa para o bem? O efeito do bem é por si só uma recompensa,
mas sob o nosso ponto de vista limitado atribuímos esses efeitos a uma terceira
pessoa, a um ideal divino.

As misérias e maldades da humanidade não vêm do bem, mas o bem vem da


maldade e das misérias. Se não fosse pela maldade e pelas misérias, assim
como pelo errado, jamais poderíamos apreciar o que significa o bem e o correto.
A idéia desses dois pólos opostos é que nos capacita distinguir entre essas duas
qualidades. Se reconhecêssemos apenas uma qualidade, chamá-la-íamos
bondade ou maldade e ela permaneceria apenas sendo uma qualidade.
Chamando-as por nomes diferentes ajuda-nos a fazer distinção entre elas.

Pode-se querer saber se, fazendo o mal, as almas podem matar


deliberadamente sua espiritualidade e se vivendo no mal podem perecer, mas
não é assim, essas coisas apenas cobrem as almas com as nuvens da
ignorância, que causam toda sorte de desconforto. O destino da alma não é
perecer.

Muitos ficam ressentidos com Deus por Ihes ter enviado misérias na vida, mas a
miséria sempre fez parte da experiência da vida. Alguns ficam muito zangados
e dizem: “Isto não é justo” ou “Isto não é correto, porque como pode Deus, que
é justo e bondoso, permitir que coisas injustas aconteçam?” Nossa visão é muito
limitada e nossa concepção do certo e do errado, do bem e do mal, é
estritamente pessoal e não de acordo com o plano de Deus. É verdade que
enquanto vemos as coisas dessa maneira elas são assim para nós e para todos
que as virem sob o mesmo ponto de vista nosso, mas vindo de Deus a dimensão
é outra e o ponto de vista se modifica.

Foi por essa razão que os sábios de todas as épocas ao invés de tentar julgar a
ação de Deus, tentaram, digamos assim, deixar de lado seu próprio senso de
justiça momentâneo e aprender apenas uma coisa e essa coisa é a resignação
à vontade de Deus. Assim procedendo atingiram um estágio em que podiam ver
tudo sob o ponto de vista de Deus, mas se tentassem expressar ao mundo esse
ponto de vista, o mundo chamá-lo-ia de loucos. Foi por isso que deram a esses
sábios o nome de “Munis”, que quer dizer “os que guardam silêncio”. Às vezes
perguntam por que as pessoas que fazem o mal e agem de maneira errada, são
bem sucedidas, enquanto outras que fazem o bem não têm sucesso na vida.
Isso não é uma regra geral, a regra é que quem é bem sucedido fazendo o que
é errado, somente tem sucesso através do errado. Se fizer o bem encontrará o
fracasso. Aquele que é bem sucedido fazendo o certo, sempre terá sucesso
fazendo o certo. Falhará se fizer o errado. Além disso, para aquele que se eleva,
tanto o certo como o errado se tornam degraus pelos quais ascende, enquanto
que para aquele que desce, tanto o bem como o mal se tornam degraus para
descer. Não existe nenhum homem no mundo que pode dizer: “Não tenho faltas”,
mas isso não significa que seu destino não seja atingir a sua meta.

É uma grande lástima alguém fazer o certo ou o bem porque deseja progredir ou
se tornar espiritual, pois afinal de contas o que é a bondade? Esse é um preço
muito alto a ser pago pela espiritualidade. O homem que depende da sua
bondade para atingir a espiritualidade, presumidamente tem que esperar por ela
mil anos, porque é como um homem que juntou toda a areia que pôde para fazer
um morro e por ele subir ao céu. Se alguém não é bom por amor à bondade, se
não age certo por amor à justiça e sim para satisfação própria, não tem
significado fazer o correto e não há virtude em fazer o bem. Ser espiritual é não
ser coisa alguma, ser bom é tornar-se alguma coisa; e ser alguma coisa é não
ser nada, enquanto ser nada é ser todas as coisas. A reivindicação de
espiritualidade impede a perfeição natural. O auto-apagamento é uma volta ao
Jardim do Éden.

Não há nenhum risco da pessoa que se esforçou na prática da abnegação se


tornar uma presa de todas as condições da vida, ao contrário, toda a força e toda
a sabedoria residem na perfeição. A ausência da perfeição é a tragédia da vida.
Quem se agarra à sua pessoa é um peso até mesmo para a terra. A terra pode
facilmente suportar o peso das montanhas, mas uma pessoa egoísta é muito
mais pesada. E o que finalmente acontece? A alma não pode suportar essa
pessoa e é por isso que muitos seres cometem suicídio. Cometer suicídio é
justamente como quebrar em pedaços duas coisas que estão ligadas uma à
outra. É separar o que estava destinado a permanecer ligado, propositadamente.
O esquema da natureza era realizar alguma coisa e tendo havido a separação
das duas partes, elas ficaram privadas do privilégio daquilo que o esquema da
natureza tencionava realizar. A reivindicação da personalidade tornou-se tão
pesada sobre a alma, que o desejo da alma é livrar-se dela. Jesus Cristo fez uma
alusão a isso quando disse: “Abençoados os pobres de espírito”. O que quer
dizer pobre de espírito? Quer dizer o ego que se anulou.
Não resistir ao mal

Todos têm curiosidade de saber o que existe atrás da expressão que consta da
Bíblia. “Não resistir ao mal”. Nem sempre é dada uma interpretação correta. Para
interpretar essa expressão é preciso em primeiro lugar explicar o que significa o
mal. Existe qualquer ato ou qualquer coisa em particular que possa ser apontado
como o mal? Não há dúvida que o homem está sempre pronto para fazer isso,
mas nada pode ser um mal se for enquadrado num princípio fixo. Então, o que é
o mal? Mal é uma coisa que está isenta de harmonia, é algo a que falta beleza
e amor e, acima de tudo, é algo que não se coaduna com a harmonização da
vida. O que se coaduna com a harmonização que a vida oferece não pode ser
chamado de mal.

O mal pode ser comparado ao fogo. A natureza do fogo é destruir tudo que está
no seu caminho, mas embora o poder do mal seja tão grande como o poder do
fogo, o mal também é tão fraco, como o fogo. Assim como o fogo não perdura,
mal também não dura. Assim como o fogo se autodestrói, o mal também cria sua
própria destruição. Por que a expressão “Não resistas ao mal”? Porque a
resistência dá vida ao mal e a não-resistência deixa que o fogo se queime e por
fim se extinga. Vemos o mal na forma da raiva, da paixão, da ganância ou na
forma da insubordinação, como também na fraude e na traição, mas a raiz do
mal é sempre uma e mesma raiz: o egoísmo. Numa pessoa talvez o mal se
manifeste na superfície, noutra esta oculto na parte mais profunda do seu
coração.

No Oriente há o seguinte ditado: “Não invoques o nome de Satanás para que ele
não se levante do túmulo”. Uma pessoa imprudente ou irrefletida às vezes incide
no erro de acordar esse demônio até quando está adormecida, porque
desconhece a música da vida. Para viver neste mundo devemos nos tornar
músicos da vida. Nele, no mundo, cada um é uma nota e quando nos sentimos
como tal, temos um instrumento à nossa disposição. O mundo inteiro é como se
fosse uma orquestra e por meio dela uma sinfonia deve ser tocada. Podemos
observar esta mesma lei até nas pequeninas coisas. Muito frequentemente o
maior aborrecimento que temos na vida não é devido às dificuldades da parte do
outros, é devido a nossa falta de compreensão da natureza humana. Se
conhecêssemos a natureza humana compreenderíamos que a primeira e a
última lição é aprender a não resistir ao mal. Porque a resistência transforma-se
num combustível para o fogo. Se dissermos a alguém “Não faça isso”, se
perguntarmos a uma pessoa “Por que fez isto?”, se repreendermos alguém
dizendo “Você fez isto e aquilo”, em todos esses casos a única coisa que fizemos
foi fortalecer o mal, fizemos apenas com que a pessoa se firmasse mais
fortemente na sua falta.

Cada um de nós neste mundo pode ser um bom professor, mas não um
verdadeiro professor, pois um professor verdadeiro é aquele que ensina a si
próprio e quanto mais ensino houver, mais compreenderá que ainda há tanta
coisa para ser aprendida que uma vida inteira não seria tempo suficiente. Quanto
mais aprendemos mais deixamos de tomar conhecimento do mal dos nossos
semelhantes. Não quer isso dizer que o mal seja maior ou menor nos outros,
apenas quer dizer que compreendemos que o inimigo que vemos nos outros está
realmente em nós mesmos. O pior inimigo na vida exterior com que nos
defrontamos está alojado no nosso coração. Isso faz com que nos sintamos
humilhados, mas também nos ensina a verdadeira lição: encontrar em nós
mesmos o mesmo elemento que desejamos deter no outro.

A vida é um lugar onde é preciso que nos movamos com gentileza. O ritmo deve
ser controlado, quer seja no pensamento, na palavra ou na ação. A lei da
harmonia deve ser observada em tudo que fizermos. Devemos saber que mesmo
se andarmos descalços sobre espinhos não estamos livres de acusações, pois
os espinhos nos acusarão de usar brutalidade. Se viver no mundo é uma coisa
tão delicada, pode alguém dizer que adquiriu suficiente sabedoria? Ou alguém é
capaz de pensar que pode viver neste mundo sem dedicar um pensamento a
este problema?

Certa vez perguntaram-me como uma pessoa à testa de um negócio ou de uma


instituição pode se manter dentro da regra de não resistir ao mal. Respondi que
tinha visto pessoas na chefia de certas fábricas que tinham conquistado o
coração de cada pessoa que trabalhava com elas, enquanto havia outros
diretores contra os quais os operários falavam muitas coisas desagradáveis.
Pode ser que estes últimos tivessem conseguido um lucro maior do que os
primeiros citados, mas no fim verificaremos que o lucro dos primeiros foi mais
duradouro o que o ganho dos últimos. Os caminhos da sabedoria e da bondade
não podem ser transformados num princípio restrito a ser seguido pelos homens.
Uma escova nunca pode tomar o lugar de uma faca e, portanto, todos nós temos
que usar cada método e cada atividade de acordo com as circunstâncias. Não
obstante, o pensamento de não resistir ao mal deveria servir sempre como base
de sustentação.

O problema do mal é um grande problema. Muitos não suportam nem ouvir


nenhuma referência sobre o mal, embora eles mesmos estejam se defrontando
com o mal a cada momento de suas vidas. Deixar este problema insolúvel não
ajuda absolutamente nada. Todos estão propensos a julgar, a observar ou tomar
nota do mal nos outros, mas não compreendem que às vezes a superfície de
uma coisa é muito diferente do que está no fundo. Talvez o que pareça ser um
mal tem algo de bom no fundo ou o que parece bom pode conter uma centelha
do mal. E por qual padrão podemos determinar o mal e o bem e quem pode
julgar o mal e o bem de nossos semelhantes? Se alguém quiser julgar
verdadeiramente, que julgue o mal e o bem de si próprio. Ninguém, a não ser
Deus, tem o poder de julgar os outros. O senso de justiça que é dado ao homem,
é para que ele possa julgar suas próprias ações. Foi com esta finalidade que o
senso de justiça foi dado ao ser humano.

Se observarmos a vida veremos que ela nada mais é do que uma luta, quer
individual quer coletivamente. Se parece existir alguma coisa de valor nesta vida,
nada mais é que essa luta, dar e receber bondade, fazer qualquer ato altruístico.
Por mais qualificada que seja uma pessoa no trato da vida, suas qualificações
somente alcançarão um certo ponto e não vão além desse ponto. Mas o que é
realmente exigido é a compreensão da vida, compreender a lei que está
trabalhando atrás da vida. Só essa qualificação é que diminuirá a contínua luta
do homem, pois dar-lhe-á um número menor de coisas para resistir. Dar-lhe-á
mais tolerância em relação às condições naturais dos seres humanos. Logo que
chegamos a essa realização não mais esperamos de ninguém nada que seja
incapaz de dar e nos tornamos tolerantes.

A dificuldade é que cada um de nós exige muito dos outros, em forma de


pensamentos e consideração, de bondade e amor, muito mais do que exigimos
de nós mesmos. O homem deseja do seu semelhante uma justiça e uma
probidade maiores do que ele mesmo pode dar, ou está preparado para dar.
Seus padrões podem ser tão altos que é impossível alguém corresponder,
causando-lhe desapontos. O que em geral acontece é que ninguém consegue
ficar quieto depois do desaponto, surge um ressentimento em forma de oposição
e desse modo a luta da vida continua. Não podemos esperar que um pé de pêra
dê rosas, nem que uma roseira produza jasmim. Cada um de nós se assemelha
a uma certa planta, mas não é igual à mesma planta. Podemos gostar de rosas,
mas nem toda planta dá rosas. Se quisermos rosas devemos procurar a planta
onde crescem as rosas e não ficarmos desapontados se o que vamos encontrar
não é uma roseira. Só desta forma é que podemos acabar com as nossas
decepções.

Quando se diz que uma pessoa é má, significa realmente que na superfície ela
se tornou má. Por mais maléfica que seja uma pessoa ou pareça ser, sua parte
mais profunda não pode ser má, porque bondade é a vida propriamente dita. Se
uma pessoa fosse totalmente má não poderia viver. O simples fato dela viver
demonstra que existe dentro do seu ser uma centelha de bondade. Além disso,
assim como existem vários objetivos também existem diversos tipos de pessoas.
Algumas mostram delicadeza exteriormente e dureza interiormente, outras
mostram muita bondade no íntimo e maldade no seu exterior, outras mostram
dureza no íntimo e delicadeza na superfície, porque existem tantas variedades
de pessoas como existem almas.
Que tipo de educação, que ponto de vista, que atitude na vida é a melhor e
proporciona maior felicidade? É a atitude de não tomar conhecimento da
existência do mal. E não resistir ao mal. Há três maneiras de viver a nossa vida,
vida que pode ser comparada com a luta no mar: as ondas se elevam e caem
continuadamente. A primeira maneira é lutar tanto quanto a vida nos permitir,
mas nesse caso as ondas continuarão a se elevar e baixar, eternamente. Por fim
há o afogamento. O homem que continuar na luta prossegue intoxicado pela luta,
até onde sua energia permitir. Nessa luta ele pode parecer um homem poderoso,
ter vencido os outros, pode parecer ter feito muito mais coisas que os demais,
mas o que isso representa? No fim afoga-se. Vejamos agora uma outra pessoa
que sabe nadar delicadamente na água, que conhece o ritmo do movimento dos
braços e das pernas. Ela nada acompanhando a elevação e a queda das ondas,
não luta. Essa pessoa pode ter esperanças de chegar ao seu destino, se ele
estiver próximo. Se seu ideal não estiver muito distante essa pessoa é capaz de
realizá-lo. Ainda há uma terceira pessoa, a que anda sobre a água. Este é o
significado de Jesus Cristo andando sobre as águas.

A vida é como as ondas, continuamente abrindo seu caminho. Quem se deixar


perturbar pela vida será cada vez mais perturbado, dia a dia. Aquele que não lhe
der muita importância manter-se-á sereno internamente. Quem vê todas as
coisas e não obstante se eleva acima delas, é o que anda sobre o mar. Ninguém
pode alcançar num instante o cume mais alto da vida, da sabedoria. Para isso
uma vida inteira ainda é um curto período. Contudo devemos ter esperanças,
pois quem tem esperança e vê as possibilidades, sobe até o cume, mas quem
não tem esperança não tem pernas para subir a colina da sabedoria, cujo cume
é a meta que todos nós almejamos.
Julgar

Em geral o homem está sempre pronto a fazer um julgamento sem qualquer


restrição e dar imediatamente sua opinião. Nem sequer faz uma pausa para
pensar se está no mesmo estágio da pessoa em julgamento ou se tem direito de
julgar. Sobre o assunto julgamento Jesus Cristo disse: “Quem não tiver pecados
atire a primeira pedra”. O que é uma grande lição.

Para o Sufi, que vê a forma divina em todas as formas, que vê em cada coração
o sacrário de Deus, julgar uma pessoa, qualquer que seja sua posição, ação e
condição, é de um modo geral contra sua religião. Assim, ele procura
desenvolver a filosofia que aprendeu primeiramente através do intelecto.

Em princípio não culpar os outros é uma questão de auto-restrição ou


autocontrole, polidez, bondade, simpatia, graciosidade, é uma questão de atitude
de adorar Deus, o Criador de todos os seres, é uma questão de compreender
que todos são filhos de Deus, os bons e os maus. Se o filho de um casal é
grosseiro na maneira de ser, é polido de nossa parte dizer aos pais: “Esta criança
é grosseira?”

O Pai-Mãe de todos os seres está sempre atento, compreende e sabe o que está
acontecendo no coração de cada um de seus filhos. Ele vê todas as faltas e
méritos antes de nós. Quando julgamos apressadamente fazemos um
julgamento diante do Artista que tudo criou, não atrás dele e sim na sua
presença. Se compreendêssemos isso não seria difícil sentirmos em toda parte
a personalidade de Deus.

Depois de praticarmos com constância a virtude de não julgar, chega um dia em


que vemos a razão oculta em cada falta cometida pelas pessoas que
encontramos. Ficamos mais tolerantes e perdoamos mais. Quando uma pessoa
adoentada faz um espalhafato gemendo e se lamentando, a princípio isso nos
perturba e lhe dizemos que isso não está certo, que isso nos aborrece e que ela
tem um péssimo temperamento, mas nos tornamos mais tolerantes quando
compreendemos a razão atrás do seu comportamento, que não se trata de mau
temperamento e sim de uma doença. Quando não conseguimos ver razão
alguma, ficamos não só severos com a pessoa e também cegos para com a luz
de Deus, cegos para com o perdão, a essência única de Deus que é encontrada
no coração humano.
A diferença que existe entre a justiça do homem e a justiça de Deus pode ser
vista na seguinte comparação: quando as crianças brigam por causa dos
brinquedos, cada uma delas tem sua própria razão. Uma acha um determinado
brinquedo atraente e pensa: “Por que não vou possuí-lo?” A outra diz que o
brinquedo lhe foi dado e pensa: “Por que não devo guardá-lo?” Ambas crianças
têm sua razão e ambas estão certas, mas a justiça do pai é diferente. O pai
conhece a natureza de cada filho e sabe o que deseja extrair da natureza da
criança. É por isso que ele dá os brinquedos às crianças, para extrair algo de
suas naturezas. A criança não sabe nada sobre isso e se fosse mais velha
acusaria o pai de ignorar seus desejos. Não compreende a justiça do pai. Precisa
crescer e atingir um outro estágio para entender. O mesmo acontece com a
justiça de Deus e do homem. A justiça do homem é obscurecida por suas idéias
preconcebidas sobre favoritismo e não-favoritismo e pelo seu saber, que nada
são quando comparados com o conhecimento de Deus.

Se quisermos ter um vislumbre da justiça de Deus, isso só será possível através


da crença constante da justiça de Deus, apesar de todas as provas que parecem
contradizer a justiça de Deus. Se basearmos nosso julgamento nessas provas,
chegaremos à conclusão de que não existe justiça e que tudo funciona
mecanicamente. Idéias como a do Karma e reencarnação podem parecer
satisfatórias, mas persiste o fato de que elas têm raízes em Deus, que está atrás
de todas as coisas. Deus não poderia ser o Todo-Poderoso se cada indivíduo
fosse suficientemente poderoso para fazer funcionar seu próprio Karma. E
mesmo se tudo estivesse funcionando mecanicamente, ainda assim deveria
haver um engenheiro. Esse engenheiro estaria sujeito à máquina? Se Deus
fosse limitado não seria mais Deus. Deus é perfeito em sua justiça, em sua
sabedoria, em seu poder, mas se procurarmos saber a causa de todos esses
acontecimentos que não nos parecem justos, chegaremos a uma pergunta: pode
um compositor dar uma justificativa definida sobre cada nota que colocou na sua
composição musical? Não pode, pode apenas dizer que “foi uma corrente vinda
do meu coração. Tentei manter-me dentro de certas regras da composição, mas
não estou preocupado com nenhuma nota, estou preocupado com o esforço
através do qual o todo da obra foi produzido”.

Há a lei e também há o amor. A lei é um hábito e o amor é um ser. A lei foi criada
e o amor nunca foi criado. Assim, amor é predominante. Assim como Deus está
acima da lei, o amor está acima da lei. Portanto, se quisermos encontrar uma
solução para nossas intermináveis perguntas sobre a razão das coisas serem
assim, será através do estudo da lei. O estudo da lei só aguçará em nós um
grande apetite, nunca trará satisfação. Se há algo que nos pode dar satisfação
é mergulharmos fundo no elemento amor e então compreenderemos que não
existe nada que não seja justo. Nunca mais diremos que uma coisa é injusta.
Este é ponto a que chegam os sábios, ponto que eles chamam de culminância
da sabedoria.
Há o ditado: “Deus perdoa mais do que julga”, mas como sabemos que Deus
perdoa? Em primeiro lugar a justiça foi uma coisa criada, que teve um
nascimento, e o amor nunca foi criado, sempre existiu e existirá eternamente. A
justiça nasceu de um certo sentido do homem, o senso da beleza. À proporção
que esse sentido amadurece o homem começa a procurar a igualdade e não
gosta mais do que é desigual. Para desenvolver esse senso precisamos da
inspiração para tudo que antes existia. A justiça é o resultado daquilo que vemos,
mas não é a mesma coisa com o amor, que é espontâneo e está sempre
presente. É como está escrito na Bíblia: “Deus é amor”. Portanto, enquanto a
justiça é a natureza de Deus, o amor é o próprio ser de Deus. Deus perdoa
porque é o próprio perdão. Deus julga porque sua natureza é julgar.

A justiça advém da inteligência de Deus e a expressão da inteligência divina


neste mundo de ilusão é limitada. Quando o ato de julgar limita as coisas, nossa
inteligência também se torna limitada. Somos tão limitados como são limitados
os objetos defronte de nós. Quanto maior o objeto, maior a nossa visão.

Só existe uma coisa verdadeiramente justa, quando dizemos “Não devo fazer
isso” mas quando uma pessoa diz à outra isto, pode ser que esteja muito
enganada. O místico desenvolve a mente purificando-a por meio da pureza do
pensamento, do sentimento e da ação, libertando-a de todo senso de
separatividade e seguindo só essa única linha de pensamento. Quaisquer
diferenças nos princípios do certo e do errado que as diversas religiões mostram,
referem-se ao fato de que não há dois indivíduos que discordem deste princípio
natural: que cada alma procura a beleza e cada virtude, cada retidão e cada boa
ação, nada mais são do que um vislumbre da beleza.

Assim que o Sufi faz dessa moral sua moral, não precisa mais seguir uma crença
em particular para se restringir a um caminho especial. Pode seguir o caminho
Hindu, o caminho Muçulmano, o caminho de qualquer igreja ou fé, contanto que
trilhe a estrada real que o leva à convicção de que o universo inteiro nada mais
é que uma imanência da Beleza. Nascemos com a tendência de admirar a beleza
em todas as suas formas e não devemos nos deixar cegar pela dependência de
uma determinada linha de beleza.

O perdão não julga porque há no perdão o sentimento de amor. Portanto


qualquer que seja a falta dos nossos semelhantes, logo que perdoamos
verificamos que a felicidade e a alegria que disso resulta são compartilhadas por
nós e a pessoa que perdoamos. A justiça não nos dá essa alegria e felicidade.
Aquele que julga em excesso é infeliz e torna infeliz também a pessoa objeto de
seu julgamento. Aquele que perdoa é feliz. Não guarda rancor no coração. Torna
seu coração puro e livre de rancor.

O homem acusa Deus de ter feito muitas coisas erradas. Muitas vezes não diz
nada sobre isso por respeito e devido à sua atitude reverente, mas se ele
sentisse livre e não coagido faria mil acusações. Não há ninguém que tenha sido
acusado tantas vezes e por tantas coisas como Deus. A razão é que é o nosso
ser limitado que julga, apesar de sua total incapacidade de compreender.
O privilégio de ser humano

A humanidade está tão absorvida pelos prazeres e dores da vida que uma
pessoa dificilmente dispõe de tempo para pensar no privilégio de ser humano.
Sem dúvida alguma a vida na terra tem mais dores do que prazeres. O que o
homem considera prazer custa-lhe um preço tão alto que, se for pesado com a
dor, também se transforma em dor, porque o homem fica tão absorvido com a
vida mundana que não encontra senão dores e mágoas. Enquanto o homem não
mudar sua perspectiva, não lhe será possível compreender o que representa o
privilégio de ser humano.

No entanto, por mais infeliz que seja uma pessoa na vida, se lhe perguntarem
se prefere ser uma rocha ao invés de ser humano, responde que prefere sofrer
como ser humano a ser uma rocha. Qualquer que seja a situação de um homem
na vida, se lhe for perguntado se prefere ser uma árvore, responde que prefere
ser um homem. Embora a vida dos pássaros e animais seja de liberdade,
estando eles livres de cuidados e aborrecimentos e vivem em completa liberdade
nas florestas, ainda assim se perguntarem a um homem se quer ser um deles e
viver na floresta, na certa dirá que prefere ser um homem. O que prova que
quando a vida humana é comparada com os outros vários aspectos da vida, a
vida humana revela sua grandeza e privilégios. Quando não é comparada com
essas formas de vida, faz com que o homem se sinta descontente. Seus olhos
se fecham e ele não vê o privilégio de ser humano.

Além disso, na maioria das vezes, o homem é egoísta e seu interesse repousa
somente no que diz respeito à sua vida particular. Desconhece os
aborrecimentos dos outros e sente o peso de sua vida muito mais do que o peso
da vida das outras pessoas que vivem sobre a terra. Seria bom se um pobre
pudesse compreender que há outros cujas dificuldades são maiores que as suas,
quando está no meio de suas atribulações. A pior pobreza é a autopiedade. Ela
subjuga o homem e ele nada mais vê senão seus aborrecimentos e dores. Acha
que é a pessoa mais infeliz do mundo, muito mais infeliz do que qualquer outra.

Muitas vezes o homem sente satisfação com a autopiedade e o motivo é a


natureza do ser humano que deseja encontrar satisfação no amor. Quando o
homem aprisiona o amor dentro de si, começa a amar a sua pessoa e surge a
autopiedade, porque passa a sentir sua limitação. O amor à própria pessoa
sempre traz o descontentamento, porque o “eu” não foi criado para ser amado,
o “eu” foi criado para amar. A primeira condição do amor é o indivíduo esquecer-
se de si. Ninguém pode amar a um outro e ao mesmo tempo se amar. Quando
uma pessoa diz: “Se você me der alguma coisa eu lhe darei algo em troca”, é
um outro tipo de amor, é algo parecido com uma transação comercial.

O ego do homem é o falso ego, o ego verdadeiro é o ego de Deus, mas o que é
o ego? É parte de uma linha: numa extremidade da linha está o ego de Deus, na
outra extremidade está o ego do homem. O ego do homem é falso porque o
homem o cobriu com ilusões, chamando-o de “eu”. Assim, quando esse ego se
esfacela por força do amor, da sabedoria ou pela meditação, as nuvens que
cobrem o ego se dispersam e o ego verdadeiro, o ego de Deus, manifesta-se.

Ao falar de sua vida Sa’di disse: “Eu não tinha um par de sapatos e precisei andar
descalço sobre a areia escaldante. Pensei que não passava de um miserável. A
seguir vi um aleijado que tinha grande dificuldade de caminhar. Curvei a cabeça
e agradeci aos céus por estar em muito melhores condições do que aquele
aleijado, que não tinha os pés e não podia andar.” Isso prova que não é a
situação do homem na vida que o torna feliz ou infeliz, é a sua atitude em relação
à vida. Essa atitude faz tanta diferença que um indivíduo pode se sentir infeliz
morando num palácio, enquanto outro se sente feliz morando num casebre
humilde. A diferença está apenas no horizonte diante de nossa visão. Um olha
somente as circunstâncias de sua vida, outro olha a vida de muitas outras
pessoas. É, pois, uma diferença de horizontes.

Além disso, existe o impulso que vem do íntimo e que exerce influência em
nossas ocupações. Se existe uma influência do íntimo em constante atividade,
se há descontentamento e insatisfação na vida, seus efeitos se fazem sentir nas
nossas ocupações. Por exemplo, quem está sob a influência de uma doença
nunca pode ser curado pelo médico ou pelos remédios. Quem está sob a
impressão da pobreza, não consegue progredir na vida. Quem pensa que todos
estão contra sua pessoa, que todos o tratam mal e têm dele uma péssima
opinião, encontrará sempre aquilo que pensa em todos os lugares. Muitas
pessoas no mundo que se dedicam a negócios e diversas profissões, ao se
dirigirem ao seu local de trabalho têem, como primeiro pensamento, que não
serão bem sucedidas. Os mestres da humanidade, em todos os tempos em que
vieram à terra, ensinaram aos homens a fé como primeira lição, fé no sucesso,
fé no amor, fé na bondade e principalmente fé em Deus. A fé não pode se
desenvolver a não ser que o homem adquira autoconfiança. É essencial que ele
aprenda também a confiar nos outros. Se não tiver essa confiança, sua vida será
muito difícil. Se tiver dúvidas, se suspeitar de todos que encontrar na vida, não
confiará também em quem estiver ao seu lado, nem mesmo nos parentes mais
chegados. Dentro de pouco tempo desenvolverá tal estado de desconfiança que
acabará desconfiando de si próprio.

A confiança de quem confia noutra pessoa e não confia em si próprio, é inútil, ao


passo que aquele que confia no outro porque confia em si próprio, possui a
verdadeira confiança. Por meio da autoconfiança pode tornar sua vida feliz,
quaisquer que sejam as condições.

Na tradição Hindu há um conceito muito conhecido: o da árvore da realização


dos desejos. Contam na Índia a história de um homem a quem disseram existir
uma árvore da realização dos desejos. Foi procurá-la. Depois de atravessar
florestas e montanhas, chegou a um lugar e deitou-se debaixo de uma árvore
para dormir, sem saber que era a árvore da realização dos desejos. Antes de
adormecer estava tão cansado que pensou: “Que bom seria se eu tivesse uma
cama macia para descansar, uma linda casa com quintal ao redor, uma fonte e
pessoas me aguardando”. Quando abriu os olhos no dia seguinte viu que estava
deitado numa cama macia, havia uma casa com um quintal, uma fonte e gente
à sua espera. Ficou admirado e lembrou-se que antes de adormecer pensara
naquilo tudo. Enquanto prosseguia na sua caminhada, pensava profundamente
naquela experiência. Compreendeu que realmente havia adormecido debaixo da
árvore que estava procurando e que o milagre da árvore se realizara.

A interpretação dessa lenda é em si uma filosofia, isto é, o homem é que é a


árvore da realização dos seus desejos e a raiz dessa árvore está no coração do
homem. Árvores e plantas com seus frutos e flores, os animais com sua força e
poder, os pássaros com suas asas, são incapazes de chegar ao estágio que o
homem pode atingir e é por esta razão que ele é chamado de “homem”, que em
Sânscrito tem a mesma raiz da palavra “mente”.

As árvores nas florestas estão à espera da bênção de sua evolução, dessa


liberdade, dessa liberação, esperam tranquilamente em silêncio e as montanhas
e a natureza inteira parecem estar esperando o desdobramento, cujo privilégio
foi dado ao homem. É por este motivo que as tradições falam que o homem é
feito à semelhança de Deus. Podemos, pois, dizer que o instrumento mais
apropriado de Deus para Seu trabalho é o ser humano, mas sob o ponto de vista
místico, podemos também dizer que o Criador usa o coração do homem para,
através dele, experimentar toda a Sua Criação. Isso prova que nenhuma criatura
na terra é mais capaz de atingir o estado de felicidade, de satisfação, de alegria
ou de paz, do que o homem. É pena que o homem não tenha consciência do
privilégio de ser humano, pois cada momento vivido neste erro de inconsciência
é um desperdício, uma grande perda.

O maior privilégio do homem é ser um instrumento apropriado de Deus e até que


se compenetre disso, deixa de realizar o verdadeiro objetivo de sua vida. Toda
a tragédia da vida do homem está na ignorância desse fato. Do momento que o
homem compreende isso, começa a viver a verdadeira vida, a vida de harmonia
entre Deus e o homem. Quando Jesus Cristo disse: “Procurai primeiro o Reino
de Deus e todas as outras coisas vos serão dadas por acréscimo”, deu esse
ensinamento atendendo ao clamor da humanidade. Alguns homens gritavam:
“Não tenho riqueza”, outros: “Não tenho descanso” ou “Minha situação na vida é
difícil” ou “Meus amigos me aborrecem” ou ainda “Quero uma posição mais
elevada”. A resposta de Cristo a todos foi a acima mencionada.

Pode-se perguntar como é possível o homem compreender isso sob o ponto de


vista prático, científico. A resposta é: as coisas externas não estão ligadas
diretamente a nós e por isso muitas vezes são inatingíveis. Às vezes podemos
atingir nossos desejos, embora fracassemos com frequência, mas se
procurarmos entrar no Reino de Deus, encontramos o centro de todas as coisas,
tanto interna como externamente, pois tudo que existe no céu e na terra está
diretamente ligado ao centro. Só assim somos capazes de alcançar tudo que
existe na terra e no céu e que vem do centro, mas tudo que estivermos
procurando e não esteja no centro pode nos ser arrebatado.

Está escrito no Corão que Deus é a luz do céu e da terra. Além do desejo de
obter as coisas da terra, existe um outro desejo mais secreto inconscientemente
trabalhando a todos os momentos da vida: entrar em contato com o infinito.
Quando um pintor pinta um quadro ou quando um músico canta ou toca, se seu
pensamento for “Esta pintura é minha” e “Isto é execução minha, é minha
música”, esses artistas podem ter uma certa satisfação, mas é como uma gota
no oceano. Entretanto, se ligarem sua pintura ou sua música à consciência de
Deus, se pensarem: “Esta pintura é Tua” e “Esta música é Tua e não minha”,
ligam-se ao centro e suas vidas se transformam na vida de Deus.

Há muitas coisas na vida que podemos chamar de boas e muitas coisas para
admirar, se quisermos adotar essa atitude positiva. É o que pode tornar um
homem contente e dar-lhe uma vida feliz. Deus é o pintor desta bela Criação. Se
não nos ligarmos ao Pintor não podemos admirar Sua pintura. Quando visitamos
um amigo muito querido e admirado, as pequeninas coisas que existem na sua
casa são extremamente agradáveis, mas quando vamos à casa de um inimigo,
tudo que lá existe nos desagrada. Nossa devoção, nosso amor, nossa amizade
por Deus pode fazer da Criação uma fonte de felicidade.

Na casa de um amigo querido um pedaço de pão e um copo de leite é muito


gostoso, mas na casa de uma pessoa de quem não gostamos, os melhores
pratos não têm nenhum sabor. Logo que começamos a compreender as
mansões do Reino do Pai, representadas neste mundo pelas diversas religiões,
raças, nações e, não obstante, estão todas na Casa de Deus, por mais humilde
e difícil que seja a nossa situação na vida, mais cedo ou mais tarde, tornamo-
nos muito mais felizes e, portanto, muito melhores, porque sentimos que
estamos na casa de quem amamos e admiramos. Aceitamos tudo que vier com
amor e gratidão, porque vem de quem amamos.

Parece que o homem caiu no maior dos erros com sua reivindicação de
civilização e progresso. Há séculos que o mundo não chegava ao estado em que
hoje se encontra: uma nação odiando a outra, olhando-se com desprezo.
Chamamos a isso de quê? De progresso ou paralisação? Ou é pior que isso?
Não acham que chegou a hora das almas refletivas acordar do sono e se
devotarem a fazer todo o bem que puderem para a humanidade, a fim de
melhorar as condições do mundo, ao invés de cada pessoa pensar unicamente
em seus próprios interesses?
Nossa parte Deus e nossa
parte homem

Não só nesta era mas também nas passadas eras, a primeira coisa realizada
pelo homem tem sido sua própria limitada existência formada de matéria, que
ele chama de “eu”. Não é sua culpa, porque as religiões foram interpretadas com
a finalidade de dominar o povo, mantê-lo sob as garras dos que compreendiam
seu significado. Os sacerdotes só permitiam que o povo conhecesse muito pouco
da religião e guardavam para eles o essencial. Diziam: “Vocês são seres
medíocres, Deus é demasiadamente elevado para sua compreensão. Nós
podemos nos comunicar com Ele, podemos compreender Deus, mas vocês
devem ficar onde estão”.

Durante toda sua vida Buda lutou vigorosamente contra esse estado de coisas.
Quando alguém lhe falou sobre um espírito, de Deus, ou dava uma
demonstração de uma vida santa, espiritual, ele disse: “Não acredito nisso”. De
certo modo era um extremismo porque levava as pessoas a um outro erro,
levava-as a dizer que não existe Deus nenhum, nenhum espírito.

Outra razão para essa separação era porque havia uma tendência dos que
tinham o mesmo pensamento, a mesma crença ou fé, de se unirem formando
um grupo, uma sociedade, com o fim de encontrar encorajamento para seus
pensamentos. Com isso se separavam do resto da humanidade.

O místico nunca crê com uma crença cega. Na realidade o místico não crê, ele
experimenta. Ele vivencia que ele próprio é o Ser integral. Um poeta Hindustão
disse num verso:

Atrás da face humana Deus estava escondido.


Eu não sabia.
Velei meus olhos e fiquei separado da verdade.
Eu não sabia.

É um verso muito bonito e tem um significado profundo.

Todos nós temos nossa parte Deus e nossa parte homem. O homem é feito de
duas coisas: espírito e substância. O espírito é a parte mais refinada, a
substância a parte mais grosseira. A parte mais refinada, o espírito, tornou-se a
parte grosseira. Uma parte é o exterior e o limitado que podemos ver e a outra
parte é o ser ilimitado.

O eu exterior do homem é composto-dos cinco elementos, mas na realidade é


muito maior e se estende muito além do que geralmente acreditamos. Por
exemplo, quando alguém se coloca diante de um público, parece ter um certo
tamanho, mas quando fala, é tão grande quanto a área que sua voz atinge.
Embora um amigo, ou a pessoa amada, esteja distante milhares de milhas,
sentirá nossa dedicação e nosso afeto. O sentimento está conosco, está onde
estamos, mas se manifesta à distância, o que prova que quanto aos nossos
sentimentos somos ainda muito maiores.

A respiração atinge ainda mais longe. Por meio da respiração podemos enviar
nossos pensamentos para onde desejarmos e somos capazes de conhecer o
pensamento e o estado de qualquer ser. O pensamento de quem deseja realizar
alguma coisa se projeta com o fim de realizá-Ia. O homem é igual a um
telescópio: uma das extremidades contém a parte homem, a existência limitada,
e na outra extremidade está a parte Deus, o Ser ilimitado. Numa extremidade
somos muito pequenos, na outra somos tão vastos que passamos a ser o Ser
integral.

Se cada um de nós é tão grande como o Ser completo, podemos perguntar como
é possível haver lugar para caber todos nós. Existem então diversos Seres
completos ou integrais? Não, não existem. Na nossa ignorância vemos muitos
seres e fazemos distinções, dizendo: “Este sou eu, aquele outro é você, este é
um amigo, aquele outro é um inimigo, gosto de você mas não gosto daquele
outro”. Mas no além-túmulo todos estamos ligados, lá todos somos os mesmos.

O homem tem duas naturezas: “Farishtagi”, a natureza angelical, e “Hayvanat”,


a natureza animal. “Hayvanat” significa o corpo do homem, a parte da sua
natureza que precisa de alimento, bebida, sono e satisfação de todas as suas
paixões. A raiva e o ciúme pertencem à parte animal do homem, assim como o
medo de alguém que lhe seja mais forte e a inveja de alguém que seja melhor
do que ele. Em tudo isso o homem é igual aos animais. “Farishtagi” é a parte da
natureza humana que volta às suas origens. Não é a inteligência do homem. Os
animais também possuem inteligência, embora os animais não possam
perguntar: “De onde vim? Para que finalidade estou aqui?” Quando o homem
sabe isso, quando reconhece sua origem, compreende que é um ser divino. Essa
natureza angelical do homem é demonstrada por sua bondade, seu amor, sua
compaixão e seu desejo de conhecimento. Um grande poeta Hindustão
escreveu: “Nós criamos o homem para sentir. Se não fosse para isso, para nos
louvar basta os anjos do céu”.

Na sua adoração o homem, pensando que glorifica a Deus, na realidade reduz


Deus. Tomamos uma parte do nosso ser e a chamamos de “eu”. Ocupamos essa
parte e a deduzimos de Deus. Lembro-me que meu Mestre quando encontrava
qualquer dificuldade, costumava dizer com um profundo suspiro: “Bandagi
becharegi”, que quer dizer: “Vindo aqui Ele se tornou impotente”.

Que ligação existe entre Allah e Bandeh, entre Deus e o homem, e que ligação
existe entre o homem e Deus? O que chamamos de “eu” é formado pelas
impressões do mundo exterior, do mundo de ilusões, que se abatem sobre a
alma. Uma criança jamais dirá “eu”. Se tem uma coisa nas mãos e alguém a tira,
não se importa. Não faz distinção entre velho e jovem. Quem quer que se
aproxime de uma criança, amigo ou inimigo, para ela é a mesma coisa. O que
ilude a alma é o intelecto, que reconhece as coisas por distinções e diferenças.

Podemos notar que o que chamamos de “eu” não é a natureza verdadeira da


nossa alma, porque nunca somos realmente felizes. Nunca somos felizes, o que
quer que façamos, o que quer que seja nosso, qualquer que seja nosso poder.
Dizemos que isto ou aquilo nos faz infelizes, mas é a distância de Deus que nos
torna infelizes. A alma é infeliz na sua separação.

Um indivíduo nota que seu casaco está muito usado e roto e diz: “Sou um homem
pobre”. Vê que seu casaco é grande e diz: “Sou grande”. Não é ele que é grande,
grande é o seu casaco. Tudo que estiver diante da alma ela reconhece como
“eu”, mas o que é o “eu”? O casaco não é o “eu”, porque quando o casaco é
retirado o indivíduo permanece como ser humano. Quando não estamos vivendo
através dos sentidos, mesmo assim a consciência permanece.

O Sufi por meio da inatividade dos sentidos, através de diversas posturas e


exercícios, cria a quietude e pela repetição do nome de Deus imerge sua
consciência na Consciência Integral, em Deus. Isso foi compreendido pelos
filósofos Gregos e também pelos seguidores do Vedanta. Na sua adoração a
Deus, que se realiza a todas as horas, o Sufi reverencia Deus, curva-se e se
prosterna diante de Deus. Dá a Deus o belo nome de Bem-Amado. Entende que
dizendo “Isto também é Deus”, glorifica a Deus. Não reduz Deus. Com toda
humildade, com toda devoção, ele realiza sua unidade com o Ser mais elevado.

É difícil separar Deus do homem. Na realidade não há separação. A ação de


Deus e a ação do homem são a mesma coisa, só que a ação de Deus é perfeita
e a ação do homem é imperfeita. Por vivermos na terra somos dependentes de
muitas coisas. Em primeiro lugar, precisamos comer. Se o homem não
precisasse comer, não trabalharia, poderia ficar sentado em companhia de
amigos e pensar em Deus ou em outra coisa qualquer. O homem precisa dormir
além de suprir muitas outras necessidades.

Há um verso de Zahir que diz: “Os pesquisadores se perderam antes de Te


procurar”. E o grande poeta Amir escreveu: “Não diz que o homem é Deus pois
ele não é Deus. Não diz que o homem é separado de Deus pois ele não é
separado”.
Não é difícil possuir poderes ocultos ou psíquicos. Ser virtuoso não é difícil, nem
manter a vida pura, mas ser misericordioso, compassivo, ser humano, é difícil.
Deus tem muitos nomes: o Grande, o Todo-Poderoso, o Soberano, mas Ele é
principalmente chamado o Misericordioso e o Compassivo. Nós nunca somos
perfeitos nessas qualidades e nunca seremos. Devemos entrar no nosso quarto
à noite e nos arrepender do que tivermos feito, dos maus pensamentos que
tivemos dos amigos e inimigos. Escreveu um poeta Persa: “Todo o segredo dos
dois mundos está nestas duas frases: Com seus amigos seja carinhoso, com
seus inimigos seja cortês”. Se tivéssemos entendido isso saberíamos que o
mundo nada é. Se tivéssemos reconhecido que o mundo é uma coisa
passageira, por que então não deixar que os outros se divirtam enquanto ficamos
olhando? Por que não deixar os outros usar roupas bonitas, enquanto nós as
admiramos? Por que não permitir que os outros tenham um bom jantar enquanto
nós observamos? Ou ficamos na cozinha fazendo a comida? Por que não deixar
os outros se sentar na carruagem e nós puxá-la e não nós nos sentarmos na
carruagem e deixar que os outros a puxem? Manter a nobreza da nossa vida
significa sermos misericordiosos e compassivos. Entretanto, é tendência de todo
homem tirar dos outros o melhor. Vemos essa tendência até na amizade. Todos
procuram seu próprio divertimento e querem deixar o pior para os outros, mas
se o indivíduo é um dos investigadores de Deus, deve tomar o caminho oposto,
mesmo que seja contrário ao mundo inteiro.

Há três direções: a primeira é a renúncia, o caminho dos santos e dos sábios.


Significa seguir o ideal e aceitar qualquer transtorno, tristeza e maus tratos
resultantes dessa atitude. A segunda é o egoísmo, que significa ser mais egoísta
do que o resto do mundo. A terceira é a maior e a mais difícil. Significa assumir
todas as responsabilidades, todos os cuidados da vida, dos amigos e tudo o
mais, e ser tão altruísta, tão bom quanto possível, ser suficientemente egoísta
para não ser esmagado.

Se alguém der voltas num círculo, na primeira vez anda devagar, na segunda
anda mais rápido, na terceira anda ainda mais depressa, e na quarta, quinta,
sexta ou sétima cai. A primeira vez sente a alegria de rodar, na segunda, na
terceira e na quarta vez experimenta esse prazer com mais intensidade, até que
por fim fica tonto e experimenta a sensação de cair pesadamente no chão. É o
que o universo tem feito noite e dia desde a criação do mundo até hoje. Em cada
atividade há uma intoxicação: queremos fazer cada vez mais tudo que estamos
fazendo, qualquer que seja a ação. Se um homem e um patriota, quer ser cada
vez mais patriota. Um cantor quer cantar cada vez mais, até perder a voz. Se é
um jogador, quer jogar cada vez mais e se gosta de beber ou tomar drogas, quer
fazer isso sempre e sempre, qualquer que seja a bebida ou a droga. Hafiz
escreveu: “Antes do amanhecer o vinho foi derramado. O vinho foi um
empréstimo dos olhos de “Saki”, a doadora do vinho”. “Saki” representa a
manifestação que nos intoxica, de tal maneira que acreditamos que ela é tudo
que existe, até que nos tornamos tão escravizados à intoxicação que não
podemos mais nos libertar.
O homem, a semente de Deus

Existem várias idéias e crenças sobre o parentesco entre Deus e o homem. É


natural que existam várias crenças, porque cada homem tem sua própria
concepção de Deus. Não há nenhuma comparação que possa ser feita entre
Deus e o homem, porque o homem, por sua limitação, pode ser comparado a
um outro ser, mas Deus, por ser perfeito, está acima de qualquer comparação.
Em todas as eras os profetas e mestres tentaram o possível para dar ao homem
uma idéia do ser de Deus, tarefa sempre difícil porque é difícil definir Deus
usando palavras. É o mesmo que tentar colocar o oceano dentro de uma garrafa.
Por maior que seja a garrafa jamais poderá conter o oceano. As palavras usadas
por nós na vida diária são nomes e formas limitadas. A Deus que está acima dos
nomes e formas, damos nomes e formas para servir à nossa conveniência. Se
há uma possibilidade de compreender Deus e Seu Ser, ela só pode ser realizada
se descobrirmos o parentesco que existe entre o homem e Deus. A razão de
dizerem que o homem é a semente de Deus é que essa idéia é, até um certo
ponto, um meio de explicar o parentesco que existe entre o homem e Deus.

Numa árvore existe uma raiz, há uma haste, galhos, folhas e depois nasce a flor,
mas há no coração da flor alguma coisa que fala da história da planta. Pode-se
perguntar se a planta foi criada por amor à flor. Na verdade é a semente no
coração da flor que dá continuidade à espécie da planta. Essa semente é o
segredo da planta, é a sua origem e sua meta. A semente foi o começo e dessa
semente surgiu a raiz. Da raiz veio a muda para a superfície e a muda se
transformou em planta. Depois a semente desapareceu, mas após a vinda das
folhas, galhos e flores a semente apareceu novamente. Reapareceu não como
uma semente, mas como muitas sementes, em multiplicidade. No entanto era a
mesma semente. Em direção a que meta e para que resultado tudo isso
aconteceu? Aconteceu para que a semente viesse novamente como resultado
para que nascesse a planta.

Para o homem que tem uma crença simples e que só acredita na sua própria
idéia, não existe nenhum parentesco entre Deus e o homem, mas para o homem
que deseja compreender esse parentesco, a prova dele deve ser encontrada em
todas as coisas. É a idéia constante da Bíblia e que diz que Deus criou o homem
à Sua imagem. É a mesma coisa da semente, da qual a planta se originou, se
ela dissesse: “Da minha imagem eu criei a semente que surgiu do coração da
flor. Eu apareci como muitas sementes, embora no início eu seja apenas um
grão”.
Novamente essa idéia explica-nos por que se diz que o homem foi feito à imagem
de Deus, quando toda a manifestação e toda a criação veio de Deus. A folha, o
galho e a haste vieram da semente e no entanto não são a imagem da semente,
a imagem da semente é a própria semente. Não somente isto: a essência da
semente é a semente. Naturalmente há uma energia, um poder, uma cor, nas
folhas e na haste, mas ao mesmo tempo todas as propriedades que pertencem
à haste, à flor, às pétalas e às folhas, são encontradas na semente.

Tudo isto mostra que o homem é a culminância de toda a criação e que nele se
manifesta todo o universo. O reino mineral, o reino vegetal e o reino animal, todos
eles estão no ser humano, no espírito do homem. Não só significa que as
diferentes propriedades como a mineral e a vegetal, são encontradas no corpo
físico do homem, mas também que seu coração e sua mente mostram todas as
diferentes qualidades. A mente é como o solo fértil ou o deserto estéril: mostram
amor ou falta de amor, a faculdade produtiva ou a qualidade destrutiva.

Existem diferentes tipos de pedras: há pedras preciosas e existem seixos,


rochas, mas existe ainda no coração hu uma variedade maior de pedras.
Pensem nas pessoas cujos pensamentos e sentimentos mostraram ser muito
mais preciosos do que outra coisa qualquer que o mundo possa oferecer: poetas,
artistas, inventores, pensadores, filósofos, servidores da humanidade,
inspiradores de homens e os benfeitores da humanidade. Nenhuma riqueza,
nenhuma pedra preciosa, diamante ou rubi, pode ser comparada com esses
seres maravilhosos e no entanto a mesma qualidade existe. Há corações que se
assemelham à rocha e se nos jogarmos contra eles seremos estraçalhados. Há
no coração uma qualidade que se assemelha à cera ou à pedra. Existem
corações que se derretem e corações que nunca se derreterão. Existe alguma
coisa na natureza que não seja encontrada no homem? Não há nos sentimentos
do homem, nos seus pensamentos e em suas qualidades o aspecto da água
corrente, de um solo fértil e das árvores frutíferas? Não existe no coração do
homem a imagem da planta e das flores perfumadas? Mas as flores que brotam
do coração humano duram mais tempo. Sua fragrância se espalhará pelo mundo
inteiro e sua cor será vista por todas as criaturas. Como são deliciosos os frutos
que os corações humanos podem produzir! Imortalizam almas e as elevam!

Outrossim, existem mentalidades das quais nada brota exceto o desejo de ferir
e maltratar seus semelhantes, gerando veneno com seus frutos e flores, ferindo
os outros com pensamentos, palavras ou ações. São capazes de ferir mais do
que os espinhos. Mas existem outros seres cujos pensamentos e sentimentos
se assemelham ao ouro e à prata e há outros cujos pensamentos são iguais ao
ferro e ao aço. A variedade que se pode encontrar na natureza humana é tão
grande que todos os objetos obtidos na terra não podem igualá-la.

O homem não só mostra a herança da terra no seu caráter, no seu corpo, nos
seus pensamentos e sentimentos, como também a herança do céu. O homem
está sujeito à influência dos planetas, do sol, da lua, do calor e do frio, do ar, da
água, do fogo, e de todos os diferentes elementos de que é composto o sistema
cósmico. Todos esses elementos são encontrados nos pensamentos,
sentimentos e corpo do homem. Encontramos pessoas com grande vivacidade
representando o fogo e outras frias que representam a água. Há seres humanos
que representam o elemento ar em seus pensamentos e sentimentos. O ritmo
rápido dessas pessoas e sua inquietação mostram possuírem o elemento ar.

O homem não representa o sol e a lua no seu caráter positivo e negativo? A


dualidade dos sexos não representa isso? Em cada homem e em cada mulher
há as duas qualidades: a qualidade solar e a qualidade lunar. Essas duas
qualidades opostas é que dão equilíbrio ao caráter. Quando uma qualidade
predomina e falta a outra, é porque há desequilíbrio em alguma parte.

Se formos mais além no pensamento místico, vamos notar que não só toda a
manifestação visível está presente no homem, como também os anjos, fadas ou
fantasmas, os elementais ou qualquer outro tipo de imaginação do homem
podem ser encontrados em algum lugar na natureza humana. Em todas as eras
os anjos foram representados pela figura humana.

Se tudo que existe na terra e no céu é encontrado no homem, então o que lhe
falta? O próprio Deus disse nas escrituras que Ele fez o homem à sua imagem.
Em outras palavras: “Se tu queres Me ver, serei encontrado no homem”. Quão
irrefletido, portanto, é da parte do homem quando, absorvido pelos seus ideais
elevados, começa a condenar seus semelhantes olhando-os com desprezo! Por
mais inferior, fraco e pecador que seja um homem, há nele ainda a possibilidade
de se elevar bem alto, mais do que qualquer outra coisa em toda a manifestação,
seja na terra ou no céu. Nada pode alcançar a altura a que o homem é destinado.
Portanto, o ponto de vista dos místicos e dos pensadores de todos os tempos
sempre se refletiu em sua maneira de ser: tinham uma atitude respeitosa em
relação a todos os homens.

No exemplo da vida de Jesus Cristo vemos a compaixão, a clemência, a


tolerância, a compreensão que o Mestre mostrou quando um pecador foi trazido
à sua presença. Um homem que mostra desdém por seus semelhantes pode ser
chamado de religioso ou de piedoso, mas não pode verdadeiramente ser
chamado de espiritual ou de sábio, qualquer que seja sua condição. O homem
que não tem respeito pelo ser humano, sua atitude não mostra adoração a Deus.
Aquele que não reconhece a imagem de deus no homem, não viu o Artista que
fez a Criação. Ficou privado dessa visão que é a mais sagrada e a mais santa
das visões. Quem pensa que o homem é terreno, não sabe de onde vem sua
alma. A alma vem do Alto. Deus está refletido na alma do homem. Quem sente
ódio e desdém, qualquer que seja sua crença, fé ou religião, não compreendeu
o segredo de todas as religiões que está no coração do homem. É verdade que
por mais bondoso e virtuoso que seja um indivíduo, por mais tolerante ou
clemente que seja, se não reconheceu Deus no homem, não tocou na religião.

Há um outro lado do assunto. À proporção que o homem evolui encontra as


limitações, os erros e as enfermidades da natureza humana. Para ele é difícil
viver no mundo e enfrentar tudo que lhe aparecer. Outrossim, é muito difícil para
o homem ser fino, dócil, bondoso e sensitivo e ao mesmo tempo ser tolerante.
Surge a tendência de largar tudo e se manter afastado de todos, mas o objetivo
do nascimento do homem na terra não é esse, é encontrar a perfeição que está
dentro dele. Por mais dócil e bondoso que um homem possa ser, se não
descobriu o objetivo para o qual nasceu na terra, não preencheu o objetivo de
sua vida.

Há tantos aspectos diferentes desse objetivo como existem homens no mundo,


mas atrás de tudo isso há um objetivo que pode ser chamado de objetivo de toda
a Criação e esse objetivo se realiza quando o inventor vê sua invenção em
funcionamento, quando o arquiteto constrói a casa que projetou, entra nela e vê
como ficou linda. O objetivo é realizado quando uma peça é produzida e o
produtor a observa. É a realização do seu objetivo. Todo homem parece ter seu
objetivo, mas todos esses objetivos nada mais são do que degraus para atingir
um e mesmo objetivo, que é o objetivo de Deus. Se nossos pequeninos desejos
são hoje atendidos, amanhã surgirão outros desejos. Qualquer que seja o
desejo, quando é atendido, noutro dia aparece outro. É uma prova de que a
humanidade é dirigida para um desejo, o desejo que é o objetivo de Deus, isto
é, a mais completa experiência da vida dentro e fora, o conhecimento mais pleno
da vida acima e abaixo. A amplidão da perspectiva é a seguinte: que ela se torne
tão ampla que tudo possa ser refletido na alma, a alma que é mais vasta que o
mundo inteiro; que a visão possa se tornar tão aguçada que possa sondar as
profundezas da terra e o mais alto dos céus. É nisso que consiste a realização
da alma. A alma que não fizer todos os esforços e sacrifícios possíveis para
chegar a essa realização, não compreendeu o que é religião.

O que é a Mensagem Sufi? É o ensinamento esotérico praticando e trabalhando


no decorrer da vida em direção a essa realização, que é a realização do objetivo
de Deus.
Evolução

Existem dois aspectos da evolução do homem através dos diferentes reinos da


Criação. Um é o aspecto biológico. Vemos que o reino animal nasceu do reino
vegetal em forma de germes, vermes e insetos. À proporção que a matéria
evoluiu e foi usada pelas entidades superiores, evoluiu ainda mais. Entretanto, a
lei da evolução é difícil. A matéria como um todo está evoluindo para um estado
muito melhor e de maior vigor. Veio depois o homem primitivo. A ciência moderna
ainda não conseguiu encontrar o elo entre o homem e o macaco. Muitas raças
surgiram e desapareceram. Mesmo agora muitas raças ainda vivem em regiões
onde a ciência não as descobriu. Não importa se o elo perdido ainda não foi
encontrado. Afinal de contas é tanto uma concepção mística como uma
concepção científica. A diferença é que a ciência fala francamente do assunto,
enquanto o místico fala dele vagamente na forma de belas lendas e poesia. Por
exemplo, na história de Rama e o exército de macacos: a palavra “macaco” era
usada porque não havia outra palavra para o elo perdido.

Entretanto este não é o único processo continuísta. Cada aspecto de um assunto


deve ser apreciado sob um diferente ponto de vista. Se não fizermos isso sob
dois pontos de vista, teremos sempre dificuldade em compreender plenamente
o assunto. Se observarmos o trabalho de um ceramista, notamos que ele
amassa a argila, colora-a e depois molda-a nas diversas peças que deseja
fabricar. Se não tiver à sua disposição as diversas espécies de argila e as cores
necessárias, não começa a trabalhar, evitando assim ter que parar a cada minuto
para procurá-las. Da mesma forma notamos que a matéria vegetal vem do reino
vegetal e que o homem vem do homem.

Se olharmos esta questão sob esses dois aspectos, começamos a compreender


que ambos os processos são necessários. Por exemplo, há o trabalho do
negociante que vende as cores e há o trabalho do artista. A tarefa do negociante
de cores é ter diversas substâncias, misturá-las e produzir a cor desejada pelo
artista. O artista não precisa se preocupar com esse processo, compra do
fornecedor as cores já prontas. Em outras palavras, não é preciso que cada
pessoa passe por todo o aspecto mineral, vegetal e outros da Criação e deste
modo não há motivo para tristezas!

Deus atende nossos desejos em duas ocasiões diferentes. Uma quando nosso
coração está livre de qualquer pensamento e sentimento e se mantém no mais
pacífico e tranquilo dos estados. Nessa ocasião qualquer desejo que temos é
como uma semente plantada no momento apropriado. Se tivermos paciência e
força para esperar e confiar no grande poder de Deus, qualquer que seja nosso
desejo, certamente será atendido. A outra ocasião é quando estamos satisfeitos,
quando nos sentimos muito felizes. Qualquer desejo que temos durante esse
período será atendido, como a chuva que cai do alto na ocasião apropriada e
traz com ela frutos e flores.

Se um de nossos objetivos é o que nossa alma procura e o outro objetivo é


atender as necessidades da vida, é preferível sacrificar as necessidades e
manter o objetivo que a alma procura. Mas há um outro ponto de vista: para nos
tornarmos espirituais não precisamos ser antimundanos. Podemos muito bem
viver no mundo e não ser do mundo.

Tudo na Criação tem opostos. Há o sol e a lua, há o homem e a mulher, há a


noite e o dia. Distinguimos as cores por sua variedade, como também as formas.
Para distinguir alguma coisa deve haver um oposto. Quando não existe o oposto
não é possível distinguir. Deve haver saúde para que possa ser diferenciada da
doença.

Nos tempos antigos muitos tentaram ajudar a imaginação dos que procuravam
a bondade ensinando a acreditarem em Satanás e diziam que Deus era todo
bondade e Satanás todo maldade. A idéia era explicar aos que não podiam
compreender, de onde vinha a maldade. A maldade na realidade é apenas a
sombra da bondade e assim como a sombra não existe, o mal também é não-
existente. O bem está sempre avançando. O que é deixado para trás é o bem
menor. O que é ganho na jornada para a frente é o bem maior. No entanto,
quando comparamos as coisas, chamamos uma de mal e outra de bem. Por isso
o demônio, a quem devemos dar as costas, é chamado de todo-maldade e Deus,
a quem devemos dar a nossa fé, é chamado de todo-bondade. Esse era um
método simples de ensinar os povos daqueles tempos. Na realidade Deus está
acima das comparações, embora, como é natural, Deus seja comparado com
alguma coisa quando o chamamos de bem, como muitos fazem.

O que é a nossa bondade? É uma coisa muito pequena e não é algo pelo qual
possamos julgar Deus.

Há um estágio na evolução da vida do homem em que cada pergunta é


respondida pela vida ao seu redor. O homem pode ter um ser vivo defronte dele
ou pode estar cercado pela natureza, pode estar acordado ou adormecido, mas
a resposta à sua pergunta vem como um eco da sua própria pergunta. Assim
como certas coisas se tornam uma acomodação para o ar e o transforma em
som também tudo se transforma numa acomodação para cada pensamento do
sábio, ajudando o pensamento a ressoar, havendo uma resposta nessa
ressonância. Na verdade a resposta está contida na pergunta. Nenhuma
pergunta tem existência se não tiver uma resposta. A visão limitada do homem
é que faz com ele veja somente a pergunta e não a resposta.
Enquanto todas as coisas têm seus opostos, a verdade é que em cada coisa
existe o espírito do oposto. Existe no homem a qualidade feminina e na mulher
existe o espírito do homem. No sol existe a forma da lua e na lua existe a luz do
sol. Quanto mais perto chegamos da realidade, mais perto estamos da unidade.
A evidência desta realização está no fato de que quanto mais cedo surgir uma
pergunta no nosso coração, vem a resposta como eco de dentro ou de fora. Se
olharmos o que está à nossa frente, a resposta se torna visível. Se olharmos
para trás, a resposta estará atrás. Se olharmos para cima a resposta está à
nossa espera no firmamento. Se olharmos para baixo, a resposta está escrita na
terra para ser vista por nós e se fecharmos os olhos encontramos a resposta no
nosso íntimo. É o mesmo que subir uma montanha cujo nome é “Porquê?”
Quando subirmos a montanha ficamos face a face com o nosso ideal. Não será
o estudo que nos levará a essa realização. Chegamos a ela quando subirmos
acima de tudo que impeça nossa fé de ver a Verdade.
A circulação espiritual através
das veias da natureza

Quando se observa atentamente a natureza da vida de variedades ou


multiplicidade, descobre-se atrás do véu da variedade que só existe uma vida, a
origem e a meta de todas as coisas. Esta vida é que pode ser chamada de
sangue do universo circulando através das veias da natureza. Pode ser chamada
de substância ou espírito. Através dessa vida tudo que é visto e toda a
inteligência são moldados, conservados vivos e trabalham em perfeita ordem.
Conhecemos essa vida como inteligência.

Muitas vezes a inteligência é confundida com o intelecto. É encontrada até na


criação inferior. Pode ser notada na vida das plantas e pode ser sentida até no
coração das rochas. Muitos pensam que intelecto é um desenvolvimento que se
manifesta como mente na vida do homem e que os animais inferiores não
possuem uma mente. Pensam que a mente é um desenvolvimento da matéria e
depende do cérebro. Entretanto, os místicos de todos os tempos, os profetas e
as almas meditativas, dizem que o que foi é e será e que como tudo é a mesma
substância a vida não está sujeita a modificações e nem se desenvolve: Um grau
diferente de evolução é que nos capacita a compreender, dando-nos a sensação
de que a mente é um desenvolvimento proveniente da matéria. Os grandes
seres, as almas meditativas, que viveram no deserto e nas florestas em
comunicação com a natureza que os rodeava, compreenderam essa verdade e
gozavam sempre de harmonia, de uma paz, de uma elevação maior quando e
onde não havia vida visível. A vida é inteligência em toda parte. Quanto mais nos
comunicarmos com a vida, mais sentiremos que até as rochas não estão isentas
de vida e que, através delas, pulsa o sangue do universo. E quando olhamos a
vida sob este ponto de vista, vemos que não existe nenhum lugar e nenhum
objeto que não seja sagrado, que mesmo numa rocha vamos encontrar a origem
e a meta de todas as coisas de forma especial.

Muitas pessoas com experiência da vida das plantas, sabem como elas
correspondem à simpatia de quem vive e trata delas. Está provado que as
plantas respiram. Se a respiração existe na vida das plantas, certamente também
existe inteligência. Certa vez tive oportunidade de ver uma pedra cujo dono a
chamava de pedra mágica. Na realidade era uma pedra comum, só que às vezes
mudava de cor e sombra, especialmente quando determinadas pessoas a
seguravam. Assim, pois, até uma pedra pode ser influenciada pela mente
humana e isso nos ensina que há muito a ser explorado no reino mineral. Não
se trata de uma descoberta recente, isso já era conhecido pelos povos antigos.
Lemos nos poemas Persas de Jelal-ud-Din Rumi, que Deus adormeceu no reino
mineral, sonhou no reino vegetal, tornou-se consciente no reino animal e se
realizou no ser humano.

A vida, entretanto, deve ser vista de uma forma mais pronunciada nos seres
humanos, no intelecto que o homem demonstra possuir, no trabalho que
executa, no magnetismo ou magnetização da atmosfera, na força do
pensamento que exerce, na influência da cura. Embora alguém esteja separado
de outrem, embora não haja nenhuma ligação exterior, mesmo assim a influência
dos pensamentos e sentimentos se faz sentir à distância. Houve muitos casos
semelhantes durante a guerra. Mães esposas de soldados, nos momentos de
sofrimento, doença ou morte de seus entes queridos, tiveram consciência de que
alguma coisa estava acontecendo, sem qualquer aviso exterior. Quantas vezes
pessoas que estão muito ligadas entre si percebem a situação das outras, não
só pelas ondas emitidas pelos pensamentos como também pela esfera dos
sentimentos, o que mostra que existe um corpo e que nesse corpo há uma vida
que circula continuamente como circula o sangue nas veias.

Isso nos dá uma explicação lógica da lei da causa e efeito. Um malfeitor pode
escapar do julgamento terreno, mas não escapa da vida única em que está
vivendo, se movendo e tendo seu ser. Alguém faz um bem a outro. Pode nunca
mais ver esse outro, mas o bem volta para quem o fez, porque existe um único
corpo e uma única vida. Exatamente como acontece com a circulação no corpo
físico, em que a essência de tudo que comemos é absorvida pelo sangue,
também cada um de nossos pensamentos, de nossas palavras e de nossas
ações afetam a vida una.

Há pessoas que às vezes questionam e ridicularizam as superstições.


Perguntam, por exemplo, como alguém pode ler nas cartas o passado, o
presente e o futuro. Essa maneira de ver, assim como a ciência da astrologia e
da cristalomancia, ou ver através de uma bola de cristal, podem ser explicados
pelo fato de existir apenas uma vida, através da qual a circulação está sempre
passando, pulsando. Só há uma música, só há um ritmo. É preciso que o homem
apenas se familiarize com o tema da música, para poder lê-la e compreendê-la.

Uma pessoa pode ler o passado, o presente e o futuro não só por meio das
cartas ou se concentrando na bola de cristal, mas também por muitas outras
maneiras. Se conseguirmos nos comunicar apenas com uma veia desta vida,
entraremos em contato com todas as veias do universo. Certos métodos são
melhores, outros piores, mas podemos chegar à compreensão por qualquer
meio, o que prova que existe uma só vida atrás de tudo. Pode-se ensinar o
homem a ser bondoso, pode ele aprender a retidão, mas essas são virtudes que
lhe são impostas e o resultado de certos ensinamentos. Só se chega à virtude
verdadeira pela compreensão da unidade da vida, unidade que liga o homem
igualmente ao amigo e ao inimigo. Ensinou Jesus Cristo: “Amai vossos inimigos”.
Embora muitas vezes seja difícil amar os amigos, não somos capazes de amar
os inimigos, a menos que compreendamos o segredo da vida atrás de todas as
coisas, a vida una, o que nos desligará do mundo das variedades que cria
continuamente ilusões.

Se chegarmos a essa realização através da religião, da filosofia ou do


misticismo, penetraremos então no segredo da vida e adquirimos um poder
imenso, sem necessidade de milagres. Essa lição é fácil de ser aprendida
intelectualmente, essa verdade pode ser consumida como se come um alimento,
mas isso só não basta. Não é suficiente ingerir a verdade no decurso da vida,
porque a verdade está misturada com fatos e quando a verdade se transforma
em fato, perde sua importância. Absorvidos como estamos pelo mundo de
variedades, esquecemo-nos da verdade. Somos sempre monopolizados pelos
fatos. Eis por que as pessoas que gastam muito tempo em meditação tentam
pensar na unicidade do ser e tentam meditar na verdade final do ser. É um
trabalho idêntico ao de dar corda num relógio: gastamos apenas um minuto para
dar corda num relógio e ele trabalhará o dia inteiro. Assim, um único pensamento
é constante na meditação e o colocamos em tudo que fazemos ou dizemos.
Sempre é usada a mesma verdade.

Quantos danos causa a falta de compreensão! A compreensão dessa verdade!


Todas as catástrofes como guerras, inundações, terremotos, fome, todos os
calamitosos eventos que não podem ser controlados pelo homem, surgem
devido à desordem do corpo do universo. Quando o sangue está desordenado,
tudo corre mal. Embora muitas vezes pareça que o que é prejudicial a uma parte
é benéfico para a outra, no fim vemos que todas as partes sofreram. O efeito
posterior se faz sentir por todo o universo em forma de tensões, dores e toda a
classe de sofrimentos.

Se erguêssemos os olhos deste mundo de ilusões e fitássemos o Alto, pedindo


a Deus que nos conte o segredo e o mistério de Sua criação, ouviríamos em
resposta que cada coisa e cada ser está colocado no devido lugar e que cada
um está ocupado em realizar o trabalho que lhe foi confiado no esquema geral
da natureza. A vida é uma sinfonia e a função de cada um nessa sinfonia é
executar a sua parte na música.

No tempo da guerra, todos foram chamados às armas e colocados onde eram


mais necessários, independentemente de suas profissões, qualificações ou
padrões morais. Se há uma razão para isso é que o mais importante era o motivo
da convocação. Se há algo que traga paz ao pensador, é a compreensão dessa
idéia do que é mais importante. O pensamento de que uma pessoa está sofrendo
devido aos pecados cometidos numa vida anterior pode servir de resposta à
pergunta e ao raciocínio da mente, para que ela não se rebele contra o que lhe
está acontecendo no momento, mas isso dissipará a irritação que o tormento
está causando ao seu coração? Será que a mente dessa pessoa desculpará
Deus por tê-la julgado tão severamente? Ela pode admitir seus erros passados,
mas acreditará em Deus como um Deus de amor e compaixão, como um Deus
misericordioso ou como um Deus perdoador?

Se Deus estivesse separado do homem, se Ele se regozijasse com o sofrimento


do homem, poderíamos culpá-lo. O Sufi compreende que Deus é o sofredor e é
o sofrimento e que ao mesmo tempo está acima de todo sofrimento. Isso pode
ser compreendido se o homem não acreditar apenas em Deus e sim tentar
conhecê-lo. Suponhamos que nossas mãos deixem cair um peso grande em
nossos pés, machucando-os. Nossas mãos não são culpadas? Não, porque as
mãos compartilham também da dor dos pés. Embora pareça que os pés é que
estão machucados, é nosso ser que sente a dor, o nosso ser absoluto. Portanto,
a mão compartilha da dor do pé.

O mesmo acontece com Deus: nossas vidas pertencem a Deus e Ele toma parte
em cada um dos nossos sentimentos de alegria ou de dor, mas ao mesmo
tempo, o ser perfeito de Deus está acima de todas as alegrias e dores do mundo,
deste mundo no qual, assim como nossas limitações são resultado de nossas
imperfeições, também estamos sujeitos a todas as alegrias e sofrimentos, por
menores que sejam.

Muitos perguntam por que o homem sofre e faz sacrifícios a Deus. Quando
terminarem os sofrimentos e os sacrifícios do homem, ele verificará que, embora
tenha começado a fazê-los em intenção a Deus, no fim fez tudo isso em seu
próprio benefício. É o homem insensatamente egoísta que é egoísta, porque o
homem sabiamente egoísta é altruísta. Essa conscientização só é conseguida
por meio da auto-realização. Primeiro o homem deve compreender a si mesmo
e descobrir sua composição. O homem se compõe de espírito e matéria. Seu ser
é composto dos mundos mineral, vegetal e animal e do “jinn” (gênio) e do anjo.
É tarefa do homem equilibrar tudo isso e saber que não foi criado para ser nem
um espiritual nem um anjo, nem um material nem um animal. Quando o homem
atinge o meio ideal de comunicação, seguirá certamente o caminho que lhe foi
designado seguir, o caminho que conduz diretamente à meta. “Estreita é a porta,
apertado o caminho”. Apertado porque cada passo que for dado fora da trilha
conduzirá o caminhante a algum outro caminho. O equilíbrio é a nota-chave da
realização espiritual.

A alma de toda a criação é uma só, a vida atrás de todos esses fantasmas que
se movem constantemente diante do homem é uma só. A meditação sobre essa
verdade e o despertar para essa verdade, trarão harmonia nas condições do
mundo. Quando a alma começa a ver a verdade, renasce. Para essa alma tudo
que para a maioria das pessoas parece verdade é falso e o que parece verdade
a essa alma, nada significa para a maior parte das pessoas. Tudo que à maioria
das pessoas parece importante e precioso na vida, não tem absolutamente valor
algum ou importância para tal alma. Assim, essa pessoa se sente isolada no
meio da multidão que vive num mundo completamente diferente do seu. Imaginai
como seria se vivessem num mundo onde ninguém falasse a sua língua!
Entretanto, essa pessoa pode viver no mundo, porque conhece a sua língua,
embora para ela a vida no mundo seja tão vã como é vão o mundo infantil para
os adultos, onde as crianças brincam com seus brinquedos.

Os profetas e grandes místicos vieram ao mundo em épocas diversas como o


médico que visita o doente para ajudá-lo na sua saúde abalada. Quando os
grandes seres vieram a terra, trouxeram uma nova vida para o mundo e a
colocaram no organismo do universo, ajudando-o a trabalhar uniformemente. Os
Sufis sempre foram místicos. Suas vidas foram devotadas à meditação e práticas
espirituais. O que aprenderam os Sutis através dessas meditações? Aprenderam
a essência de todas as coisas, a unicidade ou unidade das coisas. Pensando
nessa unidade, tornando real essa unidade, vivendo-a, o homem preencherá o
objetivo da vida.
Destino e livre-arbítrio

Frequentemente os que acreditam no destino não acreditam no livre-arbítrio.


Alguns alcançaram sucesso em suas atividades e o identificaram como resultado
dessas atividades. Por isso pensam que se algo existe é a força de vontade, o
livre-arbítrio, e se conseguiram bons resultados foi resultado de seus esforços.
Outros fizeram tentativas e não foram bem sucedidos. Sentem que existe alguma
coisa retendo-os e impedindo-os de obter bons resultados e por isso pensam
que deve haver uma coisa chamada destino colocando-os na retaguarda. Muitos
pensam que ser fatalista é uma forma de preguiça e chamam o destino de
superstição. Outros admitem que o livre-arbítrio é uma concepção, uma idéia, e
que na realidade tudo é governado pelo destino.

A idéia do livre-arbítrio tem um significado e proporciona um benefício especial


na vida. Outrossim, a, idéia do destino e muito profunda. Para uma pessoa que
acredita no destino ou para uma outra que não acredita nele, o destino sempre
exerce uma grande atração. Quem sabe prever o futuro atrai sempre quer o que
crê no destino como o que não crê. O que crê reverencia o que prevê o futuro
com fé, o descrente ouve e segue seu caminho com um sorriso, mas ambos são
atraídos porque existe nisso um dos maiores mistérios. Nossa vida, à qual
devotamos nosso maior interesse, sempre é um segredo e um mistério e esse
mistério é maior do que outra coisa no mundo. Ninguém pode dizer: “Não tenho
interesse em saber algo sobre minha vida, porque tive um passado, tenho agora
este presente e qual será o meu futuro”. Nosso maior desejo é justamente saber.

Quando pensamos no destino surgem logo várias perguntas: existe um plano


feito? Cada ocorrência na vida acontece de acordo com esse plano? Se o plano
é arquitetado, em que bases é arquitetado e por quem? Se é Deus quem faz
plano, até que ponto pode Deus ser chamado de justo quando faz um homem
feliz e outro miserável? Quando faz de um indivíduo um grande homem e de
outro um ser insignificante, permite que um se divirta e torna o outro infeliz,
embora vivam sob o mesmo sol e andem sobre a mesma terra? Se não se trata
de destino e sim da ação do homem, é a ação do passado que resulta na ação
de hoje? Se é isso, em que grau o homem é responsável? Essas perguntas
levam à profundeza do mistério da vida. Logo que essas perguntas são
respondidas, um grande problema filosófico é resolvido.

O místico descobre o segredo da vida aprendendo a fazer um plano de acordo


com o que deseja. Chega a esse estágio primeiramente renunciando ao seu
plano e isto porque sabe que quem não tem poder sobre seu plano o melhor a
fazer é entregá-lo nas mãos de Deus. Quanto mais dependemos do Criador do
plano mais temos capacidade de realizá-lo. É justamente como age a mãe que,
enquanto o filho é pequeno e não sabe andar, segura-o pela mão para ele não
cair. Não deixa a criança andar sozinha. Quando um homem assume
reponsabilidades e chama-as de livre-arbítrio, perde, por assim dizer, a
dependência que tinha de Deus que lhe dava apoio. Torna Deus responsável.
Portanto, quem chega ao estágio de renunciar à sua vontade e substituí-la pela
vontade de Deus, é um religioso. Depois sua livre vontade ou livre-arbítrio se
desenvolve e se transforma na vontade de Deus. Eis aí a diferença entre o
caráter do santo e o caráter do mestre: o caráter do santo é renunciar totalmente
à sua vontade pela vontade de Deus e o caráter do mestre é descobrir a vontade
de Deus no seu livre-arbítrio.

Perguntamos frequentemente: se existe um Deus e se Ele é amor, é bondade e


é misericordioso, por que há tanto sofrimento como se as pessoas estivessem
sendo punidas? Essa pergunta está relacionada com nossa maneira estreita de
ver o assunto. Na realidade, se nossos olhos estivessem abertos e pudéssemos
olhar a vida com mais profundidade, compreenderíamos que não existe o que
chamamos punição. Em todas as coisas há a misericórdia de Deus, mas só
chamamos de misericórdia de Deus o que percebemos e entendemos. O que
não conseguimos ver e compreender consideramos um castigo de Deus. Se os
pais repreendem o filho ou o acariciam, em ambos os gestos há amor da parte
deles, nada mais que amor. É como disse Tagore: “Quando Tu me afinas com
um alto diapasão eu sinto dor, mas sei, Senhor, que a dor tem a finalidade de
me sintonizar com o diapasão certo”.

Quando conseguimos a quietude no meio da agitação e nos tornamos pacíficos


e renunciamos à nossa vontade substituindo-a pela vontade de Deus,
começamos a ver o amor de Deus em todas as coisas e nunca mais pensamos
que Ele pode ser outra coisa senão amor. É por isso que o Sufi não pensa em
Deus somente como o Criador, o Rei e o Juiz, pensa nele como o Bem-Amado,
o Amoroso, o próprio Amor.

Muitos têm uma idéia preconcebida e a conservam, fazendo dela uma parede
que colocam diante dos olhos. Não tentam levar seu pensamento mais além e
se sentem contentes com o que sabem. Sem dúvida o homem nasce com um
plano a ser cumprido na vida, não só em relação aos seus instintos, méritos ou
dádivas, mas nasce também com o plano de como reger a sua vida. Há um
ditado no Oriente: é possível ler a vida de um bebê observando seus pés. Até os
pequeninos pés dos bebês contêm o plano que eles seguirão no decorrer da sua
vida.

Há uma história que lança alguma luz sobre a relação entre o destino e o livre-
arbítrio. Havia um vidente que trabalhava como porteiro na casa de um homem
muito rico. No Oriente há uma crença que quando nasce uma criança anjos
aparecem e escrevem na sua fronte o plano do seu destino. O porteiro era um
homem maravilhoso. Estava na porta da casa quando os anjos chegaram.
“Parem”, disse ele, “onde vão? Sou o dono aqui e vocês só entram se
prometerem me contar o plano”. Os anjos concordaram. Quando a outra criança
nasceu o porteiro ficou também sabendo do plano.

O tempo passou. Os pais das crianças morreram. Tinham sido muito ricos mas
haviam perdido a fortuna por diversos motivos. Os filhos foram obrigados a
deixar a casa e ficaram desabrigados. O velho porteiro assumiu a
responsabilidade das crianças. Quando cresceram cada um foi para um país
diferente. Um dia o velho porteiro achou que era seu dever visitar os jovens. Para
um vidente também é interessante observar a materialização do fenômeno da
vidência que tinha tido como uma visão. Era uma satisfação ver tudo que havia
se passado no plano inferior ser materializado no plano exterior.

Encontrou um dos jovens trabalhando numa cocheira como cavalariço e se


entristeceu. Aproximou-se e disse: “O que está acontecendo não podia ter sido
evitado, era o seu destino ser o que é, mas quero lhe dar um conselho porque
para mim é triste pensar que você, em cujo lar havia tantos cavalos, seja agora
obrigado a trabalhar como cavalariço: eis aqui algum dinheiro, aceite-o e vá para
uma outra cidade trabalhar como treinador de cavalos. Os cavalos dos ricos lhe
serão entregues para treinamento e tenho certeza que terá muito sucesso”.
Perguntou o jovem: “Será que eu não poderia fazer uma outra coisa qualquer?”
“Não”, disse o velho, “este é seu único caminho. Teria sido um cavalariço por
toda a sua vida se eu não lhe tivesse dado este conselho. Nada mais há a fazer,
esta é a única porta que está se abrindo. Faça o que lhe disse e terá muito
sucesso”.

A seguir o velho porteiro foi visitar o outro jovem e lhe perguntou: “Quais são
suas condições de vida?” “Minhas condições” respondeu o jovem, “são as de um
homem que anda pelas florestas caçando pássaros para vender na cidade, mas
consigo muito pouco dinheiro que mal dá para viver”. Naquele tempo havia uma
moda entre os reis: ter um certo pássaro como objeto de estimação. O nome do
pássaro era “Shabaz”, o pássaro-rei. O porteiro disse ao jovem: “Não deve mais
procurar apanhar pássaros de qualquer espécie, procure somente o pássaro
“Shabaz”. Respondeu o rapaz: “Se eu não encontrá-lo não terei dinheiro para
comer e morrerei de fome”. O velho continuou: “Você sabe quem foi seu pai e o
que é você agora?” “Sei”, respondeu o jovem “não tenho tido sorte”. E o velho
retrucou: “Você terá melhor sorte se quiser me ouvir. Não precisa mudar de
profissão de caçador de pássaros, basta caçar o pássaro “Shabaz”, que pode
ser vendido por milhões. É esse o pássaro que deve apanhar”.

Esta história nos faz compreender o que um vidente é capaz de fazer. Um plano
definitivo tinha sido feito para os jovens, mas havia campo para o livre-arbítrio
agir, agir dentro do plano. Se os jovens não tivessem seguido aqueles objetivos
continuariam vivendo miseravelmente. Esta é uma grande lição e os que a
compreendem podem tirar dela grandes benefícios.

“Sa’di”, o grande poeta Persa escreveu: “Cada alma nasce para cumprir um
determinado objetivo e a luz desse objetivo está acesa nessa alma”.

Os Hindus acreditam que uma pessoa nasce com o que chamam de “Karma”,
uma ação do passado ou uma impressão que ela trouxe para a terra como uma
boa ou má influência, ou como algo a ser resgatado. Sem dúvida alguma há
nesta idéia uma certa verdade e podemos ver a evidência dessa verdade com
muita frequência. Por exemplo, quando vemos uma pessoa numa situação em
que é obrigada a servir, como se tivesse um débito a pagar a alguém. Essa
pessoa pode não ter o menor desejo de servir, mas o serviço cai em seus
ombros, o que não poderá evitar. É como se o Poder mais alto determinasse que
assim devia ser. Se faz isso de boa ou má vontade não importa, empregará seu
tempo, usará seu pensamento, sua simpatia e servirá a quem tiver que servir.

Vemos às vezes uma pessoa receber dinheiro, conforto, amor e simpatia


indiferentemente se merece ou não merece, o que vem provar que, apesar de
pelo nascimento existir uma relação entre dar e receber, o homem nasce com
certas obrigações. Isto mostra também que, por mais poderosa e grandiosa que
seja uma pessoa, por melhores que pareçam ser suas condições, se aparecer
uma dificuldade ela não poderá evitá-la, a dificuldade simplesmente aparece. Em
outras ocasiões na nossa vida, apesar de todos os obstáculos, uma porta se
abre e não é preciso fazer muito esforço, tudo corre suavemente. Isso também
mostra que existe um plano e que não são só há qualificações e a inteligência
que nos levam ao sucesso, há ocasiões em que o destino nos leva a uma vida
fácil, ao sucesso, e obtemos tudo que desejamos. Em outras ocasiões vivemos
sem nada disso e não podemos fazer coisa alguma.

É isso algo com que a pessoa nasce ou é efeito das suas ações na terra? Ambas
as coisas. Suponhamos um artista cujo pensamento fosse pintar um
determinado quadro e, enquanto o executava, ficou tão inspirado que recebeu
uma sugestão para modificar o desenho. À proporção que pintava mudou de tal
forma o quadro que ele ficou completamente diferente do que havia
originalmente concebido. Na mesma proporção a vida pode ser modificada pela
ação. Uma ação correta, uma boa ação, criam um poder paralelo, são ações
criativas e podem ajudar muito mais do que o homem imagina.

A pergunta é a seguinte: até que ponto o homem pode ajudar a si próprio? O


homem tem em si dois aspectos: um aspecto é seu ser mecânico. Nesse aspecto
nada mais é do que uma máquina controlada pelas condições, pelas impressões,
pelas influências externas, pelas influências cósmicas e por suas ações. Tudo
funcionando mecanicamente é natural que a vida do homem também se torne
mecânica. Nenhum poder exerce sobre as condições, é como se fosse uma
ferramenta movida pelas influências. Quanto mais pronunciado for este aspecto
no homem, menos evoluído será. É a marca de uma evolução interior.
Entretanto, há um outro aspecto que é criativo, no qual o homem mostra que não
é só uma parte de Deus, está também ligado a Deus porque seu ser mais
profundo é Deus. Ninguém se surpreenda portanto se ouvir histórias de sábios,
mestres, santos e outras pessoas evoluídas cujo comando afetou o cosmos e
sob cuja vontade povos se moveram como eles desejavam. Nada há de
surpreendente nisso. Externamente cada homem tem mais ou menos o mesmo
tamanho, mas nenhum homem é alto como um camelo ou tão volumoso como
um elefante. Exteriormente o homem varia um pouco, mas interiormente não há
comparação no tamanho e assim nenhuma comparação pode ser feita entre a
compreensão de um homem e do outro. Um caminha, outro corre, um voa, outro
rasteja e no entanto todos andam na mesma terra e vivem sob o mesmo sol.
Todos são chamados homens. Não obstante não existe um homem que não
possua uma centelha do poder do espírito, que não tenha possiblidade de alterar
suas condições por meio do seu livre-arbítrio, se se desse ao trabalho de
compreender o que pode ser feito. O que faz do homem uma máquina é a falta
dessa realização.

Quanto ao destino do homem, o que pode mudar sua vida não é somente a sua
ação, mas também o pensamento nos outros seres. Por exemplo, tenho visto
muitos casos em que uma mãe amorosa não estava satisfeita com a conduta do
filho adolescente, não apreciava. É um tipo de coisa que sempre traz sofrimentos
de uma maneira ou de outra. Um filho pode ter muitas qualificações, pode se
tornar um homem capaz, mas se não satisfaz à sua mãe acaba atraindo má sorte
para sua pessoa. Um estudo mais profundo nos faz compreender como as coisas
funcionam, mas desde a infância estamos sumamente absorvidos com nossa
vida e nossos interesses e não pensamos muito como somos afetados pelo
pensamento e sentimento dos que nos rodeiam.

Se um homem rico que tem muitos empregados está descontente com um deles
e lhe fala asperamente ou o insulta, pode não compreender o que está fazendo
naquele momento, mas o sentimento do criado que depende dele e está ligado
ao lugar do seu trabalho, fica ferido. Quando o patrão vai para o escritório tratar
de seus negócios, recebe de volta a ferroada que deu. Naturalmente não
reconhece isso, acha que deu apenas uma ferroada no empregado, mas outra
pessoa a retribui sem que ele saiba que se tratava de uma resposta à sua ação.
Quanto mais pensamos nisso, mais compreendemos como Deus age através de
todos os seres, até mesmo por meio dos animais e pássaros. Quando
acreditamos nisso não podemos deixar de crer no que Buda disse: “A essência
da religião está na não-ofensa”. Não-ofensa não é apenas matar, muitos morrem
sem ter havido morte. Matar não é somente assassinar, um olhar, uma palavra,
um pensamento, podem matar. E é pior que a morte.
Eu tinha isso em mente quando escrevi no livro “Gayan”: “Meus pés descalços!
Pisem gentilmente no caminho da vida para que os espinhos colocados no
caminho não murmurem queixosos que estão sendo esmagados por ti”.

Não há fim para a consideração se começarmos a pensar nela. Se existe uma


religião vamos encontrá-la na consideração. Devemos nos lembrar sempre que
esse sentimento pode ser ferido por um momento de irreflexão. Se existe uma
morada de Deus, é o coração do homem. Se o coração for tocado de maneira
incorreta, causará um efeito no destino. Não compreendemos a que ponto o
destino pode ser modificado pelo sentimento de outra pessoa. Ela pode mudar
o destino muito mais que nosso próprio sentimento. Sempre desejamos o bem
para nós. Ninguém quer ser infeliz.

Outrossim, existem as influências planetárias. Que são essas influências


planetárias? Que relação têm conosco? A resposta é que o homem também é
um planeta e, assim como um planeta está relacionado com um outro planeta,
da mesma forma os planetas estão relacionados com o homem. Como é natural,
uma mudança nas condições de um planeta e o efeito que isso produz, têm
influência sobre a vida do homem. Pode ser perguntado se o homem é realmente
tão pequenino a ponto de ficar sob a influência de um planeta. Externamente
sim. Externamente o homem é tão pequeno como pequena é uma gota no
oceano. Se o planeta é um oceano, então o indivíduo é uma gota, mas
internamente o planeta é uma gota no oceano do homem. É o coração do
homem. O grande filósofo Asic escreveu: “Minha ignorância! No dia que partires
meu coração se abrirá e todo o universo será uma bolha no oceano do meu
coração”.

A limitação, a pequenez e a imperfeição são resultados da ignorância, mas


quando o coração se abre, todo o universo é contido dentro dele e a fonte do
destino se coloca nas mãos do homem com seu segredo e seu mistério. Qual é
então a maneira de acreditar no destino e no livre-arbítrio? A melhor maneira de
crer no destino é pensar que todas as coisas desagradáveis, pelas quais
passamos, são parte do destino e pertencem ao passado. Deste modo ficamos
livres delas. E a melhor maneira de crer no livre-arbítrio é ter sempre na mente
o pensamento de que tudo está para acontecer, tudo que está diante de nós é
resultado do livre-arbítrio. Devemos manter diante de nós como uma
concentração a idéia de que nada de mal nos atingirá, que tudo que é bom para
nós está à nossa frente. É errado pensar que as coisas ruins estão armazenadas
para nós porque o destino preservou o nosso “Karma” e ordenou que soframos
e paguemos de acordo com nosso “Karma”. Aquele que está consciente do
“Karma” terá que pagar um juro alto. Quanto mais consciente do “Karma” mais
alto será o juro a pagar.

Em suma, começamos a compreender que existem dois aspectos da vontade


que agem através de todas as coisas na vida. Quando a pessoa continua
ignorando a vontade divina, naturalmente a vontade humana falha e o indivíduo
encontra dificuldades, porque está nadando contra a correnteza. Do momento
que o homem trabalhar em consonância, em harmonia, com a vontade divina,
as coisas se tornam suaves.

Podemos objetar dizendo que a vida não foi suave para as grandes
personalidades como Cristo. Desde criança surgiram dificuldades na vida de
Jesus Cristo. Seus pais foram obrigados a fugir para o deserto e quando o jovem
Jesus veio para o meio do povo, encontrou dificuldades ainda maiores. Todos
os grandes santos e sábios enfrentaram sérias dificuldades ao longo de suas
vidas. As condições não Ihes foram absolutamente suaves. Mas mesmo assim
trabalharam eles contra o destino, contra a vontade de Deus? Este ponto nos faz
compreender que a vontade de Deus encontra dificuldades no plano material.
Lemos na Bíblia: “Que Tua vontade seja feita na terra como é feita no céu”, mas
não é fácil a vontade de Deus ser feita na terra como é feita no céu.

Esta sugestão contida na Bíblia nos ensina uma grande lição e ela é: existe uma
vontade consciente trabalhando e existe uma vontade inconsciente também
trabalhando, mas o trabalho divino é o consciente. Pode ser que o trabalho divino
encontre dificuldades, porém, ao mesmo tempo, as dificuldades têm em si um
significado. Em outras palavras, o sucesso ou o fracasso do homem nada
significam porque no fim ambos são fracassos. Senão vejamos: se um indivíduo
é bem sucedido e acumula uma fortuna, ou consegue uma alta posição, o que
representa isso no fim? Tudo isso pertencerá a alguém um dia, que arrancará
tudo de suas mãos. Portanto, se temos sucesso ou fracasso na vida, se são
individuais no fim serão um fracasso, enquanto que as coisas divinas, se são um
sucesso ou um fracasso, no fim sempre constituem um sucesso. Não pode ser
de outra forma, este é o único ganho que existe. É como disse Nanak: “O grão
que procura refúgio perto da parte central da moenda é salvo”. Assim é o homem
que se mantém junto de Deus. Tira seu poder e sua inspiração de Deus e quando
sua vida é dirigida por esse poder e essa inspiração, se ele tem dificuldades ou
não, o caminho lhe é sempre suave e o fim é aquele que deveria ser.
Impulso Divino

Quando começamos a refletir sobre o impulso divino, a primeira pergunta é a


seguinte: de onde vem cada impulso? Cada movimento, cada vibração, cada
ímpeto vem de uma fonte. Há uma citação na Bíblia “A Palavra era Deus”. “A
Palavra” significa vibração e vibração quer dizer movimento.

A vibração foi o primeiro ou o aspecto original de Brahma, o Criador. Cada


impulso, cada ação, sobre qualquer plano da existência tem sua origem numa
só fonte. Lê-se no Corão: “Deus é todo o poder e não há outro poder senão o
poder de Deus”. Tudo que é feito é feito através do poder de Deus.

Se todas as Escrituras afirmam a mesma coisa, como Satanás entra neste


contexto e qual o significado atrás do seu poder? Há uma referência sobre um
outro poder, sugerindo um outro poder além do poder de Deus e às vezes o
poder atribuído a Satanás parece ser maior que o poder atribuído a Deus. Para
muitos isto é um enigma. A explicação deve ser encontrada se compreendermos
a metafísica e as leis da natureza. Há uma lei: a lei natural. Tudo que acontece
e é dirigido pela lei da natureza é harmonioso. Os jardins construídos pelo
homem podem superficialmente parecer melhores do que os jardins campestres
feitos pela natureza espontaneamente, mas se os examinarmos com cuidado
notaremos que os jardins feitos artificialmente, com seus belos traçados
geométricos, parecem ser limitados quanto à beleza e harmonia. A inspiração
que recebemos na floresta, nos campos, é muito maior que a recebida dos
jardins feitos pela mão do homem, porque o homem limitou suas possibilidades
de inspiração como limitada é a vida que ele irradia. O homem faz uma lei e
depois descobre que não pode mantê-la em funcionamento. Faz outra lei e
nunca fica satisfeito, porque não levou em consideração as leis de paz e
harmonia da natureza.

Dizem que a natureza é cruel. Pode ser, mas o homem é muito mais cruel que
os animais. Os animais nunca destroem vidas na mesma proporção que os
homens. Toda a crueldade aparente da natureza não se compara com a
crueldade, a ignorância e a injustiça do homem. Disse Jesus: “Que Tua vontade
seja feita”. Muito há a extrair dessas palavras. O homem faz do mundo em que
vive uma coisa diferente do plano de Deus e das leis da natureza e por isso a
vontade de Deus nunca pode ser feita. As palavras de Jesus são uma prece e
sua finalidade é ensinar aos homens que eles próprios é que devem descobrir a
vontade de Deus. Animais e pássaros não precisam descobrir a vontade de Deus
porque são dirigidos pelos impulsos da natureza. Estão mais perto da natureza
que o homem. A vida do homem está muito distante da vida da natureza e cada
um de seus movimentos é penoso. Isso não está sendo compreendido
atualmente. Apesar de todo conhecimento que adquirimos, tornamos a vida cada
vez mais complicada e por isso a luta continua cada vez maior. A vida para os
jovens e velhos, para ricos e pobres, é uma luta difícil, porque nós nos afastamos
cada vez mais do impulso que vem diretamente da fonte de todos os impulsos.

Sob o ponto de vista metafísico, existem ritmos diferentes que descrevem as


condições do homem. Esses ritmos são chamados no Vedanta de “Satva”,
“Rajas” e “Tammas”. “Tammas” é um ritmo caótico, destruidor e cada impulso
que chega ao homem quando ele está no ritmo caótico é seguido de resultados
destrutivos. Qualquer impulso vindo de uma pessoa que vive no ritmo “Rajas”
será realizado. O impulso vindo quando o homem está no ritmo “Satva” é
inspirado e está em harmonia com o ritmo do universo.

A vida ativa do homem deixa-lhe pouco tempo para se dedicar à concentração e


para que sua mente e corpo entrem num estado em que possam experimentar
o ritmo que lhe dá inspiração e conhecimento da vontade de Deus. Essa
experiência é uma resposta à prece de Cristo mencionada acima: “Que Tua
vontade seja feita na terra como é feita no céu”. Criando esse estado na mente
e no corpo, o homem se afina com um determinado diapasão harmonioso e
celestial, no qual a vontade divina será facilmente feita, como é feita no céu.
Somente neste ritmo é que a vontade de Deus pode ser realizada.

Não foi por prevenção contra o mundo que os grandes seres o deixaram e se
retiraram para florestas e cavernas. Refugiaram-se nelas para se sintonizarem
com o ritmo pelo qual poderiam experimentar o estado chamado céu. O céu não
é um país ou um continente, é um estado ou condição no nosso íntimo, só
experimentado quando o ritmo do homem está em perfeitas condições de
funcionamento. Quando compreendemos isso chegamos à conclusão de que a
felicidade é propriedade nossa. O homem é seu próprio inimigo. Procura a
felicidade na direção errada e nunca a encontra. Vive numa constante ilusão e
pensa: “Se ao menos eu tivesse isto ou aquilo seria eternamente feliz”, mas
nunca alcança a felicidade porque persegue uma ilusão ao invés de perseguir a
verdade. A felicidade só pode ser encontrada no nosso íntimo. Quando o homem
se afina encontra tudo que sua alma anseia no seu ser íntimo.

A natureza de cada impulso faz com que ele passe por três estágios. Depois ele
se realiza como um resultado, certo ou errado, benéfico ou maléfico, assim que
brota de dentro. Não há nenhum impulso que no começo seja errado, nenhum
impulso deixa de ter um propósito ou está fora de harmonia, pois na soma total
das coisas cada impulso tem seu objetivo. Nossa limitada perspectiva é que faz
um julgamento. É tão perfeita a justiça atrás de todas as coisas que, no resultado
final, tudo se enquadra nos devidos lugares. Durante o processo do impulso é
que ele se torna certo ou errado, mas não no início nem no fim, porque o começo
tem um objetivo e o fim é a resposta à exigência. Este é um assunto de ordem
metafísica e deve ser estudado de diferentes pontos de vista para evitar grandes
confusões. O homem possui um conhecimento muito pequeno e, no entanto,
está sempre pronto a condenar ou admirar. Fracassa milhares de vezes. Seu
julgamento nem sempre é correto. Todas as grandes almas que se tornaram
iluminadas compreenderam que não deviam julgar e Cristo disse: “Não julgueis”.
Quando o homem compreende o que existe atrás do impulso, passa a usar a
tolerância e fala muito pouco.

O impulso primeiro se eleva do campo do sentimento e nesse campo ou é


fortalecido ou é destruído. O sentimento pode ser de amor ou de ódio, de
bondade ou de amargura, mas qualquer que seja o sentimento, o impulso que
se elevou, ou adquiriu força para avançar ou é destruído. Por exemplo, se
alguém tem um grande sentimento de bondade mas surge o impulso da
vingança, o impulso de vingança é destruído pela bondade antes de chegar a se
materializar. Uma outra pessoa tem uma grande amargura. Se surgir o impulso
do perdão ele será destruído antes de tocar a razão. Nesse caso não é preciso
pedir o julgamento da mente, porque o sentimento de amargura já destruiu o
impulso do perdão. Além disso, se alguém possui um grande sentimento de
rancor e recebe um impulso para fazer um ato de bondade, o impulso de
bondade é destruído antes de atingir o domínio do pensamento, que é o segundo
campo no qual o impulso se eleva. Ou então, se o impulso se eleva e chega até
o domínio do pensamento, o homem raciocina: “Porque razão devo ajudar? Por
que devo servir? Esta pessoa merece? Será um benefício para ela? Está certo?”
Todos esses problemas se situam no campo do pensamento. Em seguida vem
o ritmo da ação. Se a mente destruir o impulso ele não segue adiante, mas se a
mente acolhe o impulso ele entra no campo da ação e se realiza como um
resultado.

Pode-se perguntar como os sábios e pensadores distinguem o impulso divino no


meio dos diversos impulsos que surgem no coração do homem. Em primeiro
lugar devemos compreender o que significa a palavra “divino”. Divino quer dizer
“estado de perfeição”. Esse estado é experimentado por Deus através do
homem. Em outras palavras, quando um homem atinge um estado elevado de
desenvolvimento em que se torna o instrumento perfeito de Deus, quando nada
mais do seu próprio eu existe no caminho do impulso que vem diretamente do
íntimo, esse estado de espírito é que pode ser chamado de perfeito. A coisa mais
preciosa, o que constitui o objetivo da vida do homem, é chegar a esse estado
de perfeição, no qual ele se torna um instrumento perfeito de Deus.

Quando o homem atinge esse estágio, no início começa a realizar Deus apenas
em determinados momentos. Depois, à proporção que vai se desenvolvendo,
essa realização se torna mais constante e permanece mais tempo. Os que
avançam mais ainda, passam a maior parte do tempo nesse estado de
realização. Seus sentimentos e pensamentos não são mais empecilhos para o
impulso divino. O impulso eleva-se livremente e revela o objetivo divino.

As mensagens dos profetas e mestres de todos os tempos sempre tiveram como


objetivo ensinar o homem a alcançar a paz com Deus. A realização do objetivo
da vida está em harmonia com Deus e isso é feito quando distinguimos o impulso
divino dos outros impulsos. Podemos distinguir o impulso divino dos demais
impulsos da mesma forma como podemos distinguir na música a nota verdadeira
da nota falsa, fazendo distinção entre harmonia e dissonância. É apenas uma
questão de treinar o ouvido. Quando o ouvido está treinado, podemos distinguir
a mais leve dissonância. Quanto maior o músico mais é capaz de distinguir a
harmonia e a desarmonia, a nota verdadeira da nota falsa.

Muitos pensam que o que chamamos de certo ou errado, de bom e de mau, é


uma coisa que aprendemos ou adquirimos. É verdade no que diz respeito ao
certo e ao errado instituídos pelo homem, mas toda criança tem uma noção
natural do certo e do errado. A criança sente imediatamente a vibração do
errado. O bebê sente se o que o cerca é ou não harmonioso. O adulto se
confunde e por isso não consegue mais distinguir claramente. O fato do homem
aprender a conhecer as coisas por ele mesmo é um grande avanço no caminho
espiritual. Quando um homem está lucido quanto ao sentimento que está atrás
de cada impulso, deu um passo mais à frente, no caminho espiritual. Depois que
as coisas não deram certo alguns dizem: “Sinto muito”, mas já é tarde. Seus
ouvidos não estavam treinados suficientemente para ouvir a vibração do
impulso.

O impulso divino é um impulso repleto de amor. Dá felicidade e cria a paz. A


dificuldade é que nem todos os homens percebem o início do impulso. A maioria
só vê o resultado do impulso. São como os intoxicados. Com o tempo, como
acontece com o bêbado, as pessoas se tornam confusas e deprimidas e vem a
luta e a competição. Entretanto, o homem não nasceu para isso. A paz, o amor,
a bondade e a harmonia fazem parte do seu ser. Quando o homem se sente
infeliz significa que ele se extraviou, não sabe onde está.

O ser humano anda à procura de fenômenos. Quer milagres, comunicações com


fantasmas ou com espíritos. Procura coisas complexas e no entanto, a coisa
mais simples e mais valiosa na sua vida, é encontrar seu eu verdadeiro.
A lei da vida

Todas as coisas que vêm para uma pessoa, na realidade a pessoa foi quem
chegou a elas. Não quero com isso dizer que uma pessoa não possa fazer uma
determinada coisa, criá-la, obtê-la, merecê-la ou que tal coisa não lhe venha por
uma questão de sorte. O que tiver que vir virá em qualquer das cinco maneiras
mencionadas acima, mas ao mesmo tempo, na realidade o indivíduo é que
chega às coisas. Essas cinco maneiras são setores através dos quais
determinada coisa é obtida, mas quem realiza é o próprio homem. Esta idéia sutil
permanece oculta até que a pessoa adquira introspecção na lei da vida e observe
com clareza seu funcionamento interior. Por exemplo, se uma pessoa diz que
outra obteve uma certa posição, posto, fortuna ou fama por meio do seu próprio
esforço, exteriormente pode ser verdadeiro, mas muitos se esforçam e no
entanto nada conseguem. Além disso, pode-se dizer que todas as bênçãos da
Providência caem sobre uma pessoa porque ela as mereceu, mas a vida nos
mostra muitos exemplos que contradizem este princípio. Muitas pessoas não
merecem o que têm e no entanto conseguiram obtê-las. Em todas os setores da
vida onde aparece o livre-arbítrio parece haver desamparo. Quanto ao que o
homem chama de sorte, há muito também a dizer sobre essa idéia. Uma
introspecção profunda na vida demonstrará que o que parece ser sorte na
realidade não é tal, apenas aparentemente é sorte porque a ilusão faz parte da
natureza da vida.

Cada alma, por assim dizer, está continuamente abrindo caminho, abrindo seu
caminho em direção a um objetivo, às vezes consciente e outras vezes
inconscientemente. O que o homem faz exteriormente é fazer com que a ação
apareça, uma ação que não tem ligação alguma com sua atividade interior, que
é semelhante a uma viagem. Nem todos sabem que estão abrindo seu caminho
mas cada um de nós está abrindo seu caminho. Pode-se não saber se o caminho
é em direção à meta desejada ou se é a uma meta inteiramente oposta jamais
almejada. Entretanto, quando a meta é alcançada no plano físico, a pessoa se
torna consciente e diz: “Não me esforcei para obter isto, isto não foi criação
minha, não mereci, nada fiz para ganhar isto e como é então possível que isso
tenha acontecido?” Se é um objeto que a pessoa desejou talvez credite essa
aquisição a ela própria e tenta acreditar que fez aquilo de qualquer maneira. Se
não é uma coisa que desejou, atribui-a a uma outra pessoa e supõe que por
diversas razões a coisa aconteceu. Na realidade a pessoa chegou ao porto de
destino na viagem que empreendeu. Não pode dizer verdadeiramente que criou
a coisa, que a fez, que a mereceu, ou que viajou na sua direção consciente ou
inconscientemente e chegou até a ela. É por isso que em sã consciência
ninguém, qualquer que fosse sua experiência, jamais abandonou o caminho que
estava trilhando na direção da meta que lhe foi designada.

Não obstante, o mais necessário é ligar a ação externa à viagem interior, porque
a harmonia nessa viagem certamente dá bem-estar e conforto. Isto é que está
explícito quando se diz que o homem deve criar a harmonia dentro do seu ser.
Logo que a harmonia se estabelece, ele começa a ver com maior clareza a causa
de todas as coisas.

Surge a pergunta: de que maneira a harmonia pode ser estabelecida entre a


viagem interior e a ação exterior? O que geralmente acontece é que a pessoa
fica de tal maneira absorvida com sua ação exterior que sua atitude interior fica
obscurecida diante de seus olhos. A primeira coisa necessária é remover o
biombo que oculta a atitude da nossa visão. Cada um de nós é consciente do
que faz, mas nem sempre é consciente da sua atitude interior. Em outras
palavras, cada um sabe o que está fazendo, mas nem todos necessariamente
sabem para onde se dirigem.

Sem dúvida, quanto mais conscientes estamos da nossa ação, menor ela é, pois
embora o pensamento controle a ação, ele apenas dá um ritmo, um equilíbrio, à
vida. Quando comparado com uma pessoa que é capaz de correr mas não sabe
para onde vai, quem está andando vagarosamente mas sabe para onde se
dirige, está numa situação muito melhor.

Há dois aspectos distintos na nossa ação: existe uma ação da vida interior e uma
da vida exterior, o ser interno e o ser externo. O ser externo é a nossa ação
física, o ser interno é a nossa atitude. Ambas podem ser ações do livre-arbítrio,
mas de certa forma ambas mostram ser ações mecânicas ou automáticas. A
ação interior tem grande poder e influencia a ação exterior. Uma pessoa pode
estar ocupada o dia inteiro fazendo uma determinada coisa, mas ao mesmo
tempo sua atitude interior pode estar agindo contra ela e por isso ela jamais terá
sucesso no seu trabalho. Um indivíduo pode merecer uma grande recompensa
por sua ação externa, embora não mereça nenhuma recompensa pela sua ação
interior. Portanto, se essas duas ações são contrárias uma à outra, nada de
construtivo será feito e os resultados desejados não são alcançados. O resultado
verdadeiro, o resultado desejado, vem através da harmonia entre essas duas
atividades.

Existe outro lado metafísico do assunto. Há dois tipos de experiências na vida:


um é a sensação o outro é a exaltação. A ação está ligada à sensação e o
repouso está ligado à exaltação. Ambas têm lugar na nossa vida, embora nossa
vida cotidiana nos mantenha ocupados e nossos interesses nos envolvam no
que chamamos de sensação. Quando falo em sensação refiro-me à experiência
que temos através dos sentidos: olhar as coisas bonitas, ouvir música, apreciar
as linhas e cores, sentir o aroma dos perfumes e viver a vida através do toque,
da delicadeza, da dureza, da quentura e da frieza dos objetos. Nossas
recreações, nossos divertimentos, os meios de conforto e nossas conveniências,
nossos esportes e todas as atividades de manhã à noite, estão todos ligados à
sensação. E a mais importante de todas as experiências, a exaltação, é deixada
de lado. O único meio de exaltação que conhecemos é o repouso e dormir e só
repousamos e dormimos porque não podemos mais ficar em atividade. Muitos
preferiam não repousar de forma alguma, se isso fosse possível. Um amigo meu
de New York disse-me um dia que ficaria muito contente se ao invés de 24 horas
o dia tivesse 28 horas, pois tinha muito a fazer. Os que repousam não fazem isso
por amor ao repouso e também não vão dormir por amor ao sono, mas sim
porque não podem evitar. Nunca pensamos sobre este assunto de máxima
importância na nossa vida. A exaltação é isso que acabamos de descrever e a
sensação é movimento, ação e é isso que preferimos, já que a exaltação é falta
de movimento, ausência de ação. A sensação é criada por um ritmo. É a rapidez
do ritmo que resulta na sensação. Exaltação é uma coisa completamente
diferente, significa bem-estar, repouso, relaxamento. Uma pessoa não se
interessa pelo assunto a não ser que saiba seus resultados e no entanto todos
os profetas, orientadores e mestres de todos os tempos ensinaram a arte de
relaxar, a arte do repouso, em diversas formas, quer em cerimônias religiosas,
quer em práticas secretas ou na forma de prece ou silêncio.
Manifestação, Gravitação,
Assimilação e Perfeição

O ABSOLUTO em seus dois estados – manifestado e não-manifestado – é


inteligência, que pode ser chamada de luz, vida e amor. A forma densa da
inteligência é a luz. Assim como o sol não é somente a fonte da luz dos planetas,
estrelas e também do fogo, da chama, da incandescência e de cada aspecto da
luz, do mesmo modo o Espírito Supremo é a fonte de todos os aspectos da
manifestação. O sol é a centralização de toda radiação onipenetrante.

A luz que se irradia em toda a volta, começou a agir num ponto e dali se tornou
mais radiante, mais incandescente, mais poderosa do que a radiação que foi
deixada no espaço. Essa luz novamente agiu na lua e suas diferentes correntes
passaram a funcionar nos diversos planetas e estrelas. Este é um quadro que
mostra a origem da criação. A luz onipenetrante da inteligência primeiramente
se centralizou, tornou-se o espírito de todo o universo e dali começou a se
manifestar. Assim, pela centralização num ponto, o espírito onisciente se tornou
a fonte da manifestação vista e da manifestação não-vista. É por isto que em
todas as eras o sábio adorou o sol como símbolo de Deus, embora o sol seja
somente o símbolo externo de Deus.

Um estudo aprofundado da formação do sol e da sua influência sobre tudo na


vida, será de grande auxílio na compreensão do Espírito divino. O calor, a luz do
gás, a luz elétrica, o fogo do carvão, o fogo da madeira, a vela, a chama da
lamparina a óleo, todas essas manifestações da luz têm sua fonte no sol. É o sol
mostrando-se em todas essas diferentes formas, embora em geral consideremos
o sol separado de todos os outros aspectos da luz. Da mesma forma, o Espírito
supremo se manifesta em todas as formas, em todas as coisas e seres, no
mundo visível e no mundo invisível e, contudo, se mantém distante como o sol
se mantém longe de todas as formas da luz. Diz o Corão: “Deus é a luz do céu
e da terra”. Na realidade todas as formas, por mais densas que sejam, são até
um certo grau a radiação do Espírito que é todo luz. Todas as diferentes cores
são graus diferentes dessa mesma luz.

O supremo Espírito, a fonte de todas as coisas, tem dois aspectos: o aspecto


audível e o aspecto visível. Em seu aspecto audível o Espírito é a Palavra, que
a Bíblia chama de som. Os Hindus chamam-na de “nada”. Em seu aspecto visível
o Espírito supremo é a luz, em seu aspecto refinado é a luz da inteligência, em
seu aspecto denso é a radiação de todos os objetos. Manifestação é o fenômeno
da luz agindo em três direções. Este é o verdadeiro significado da Trindade. Uma
direção é a luz que vê, a outra é a luz que é vista e a terceira é a luz que mostra
todas as coisas. Em outras palavras, os olhos que vêem, o objeto que é visto e
a luz que permite aos olhos enxergar o objeto. É a única e mesma luz agindo em
três formas diferentes. Há um “Sura” no Corão que diz: “Eu fiz a tua luz e através
da tua luz Eu criei o universo”. Em outras palavras o Espírito Onipenetrante diz
ao seu próprio aspecto centralizado: “Eu primeiro te fiz e de ti fiz todo o universo”.
Esta é a chave de toda a criação.

O processo da manifestação é como a projeção dos raios pelo sol. Por que o sol
projeta seus raios? Porque sua natureza é fazer isso. A mesma resposta se
aplica à pergunta: Por que o Espírito supremo se manifesta? Porque sua
natureza é manifestar-se. Logo que a luz onipenetrante centralizou-se num ponto
e formou o sol, seus raios começaram a ser lançados. Assim como há muitos
raios do sol, também há muitos raios do espírito da inteligência ou, em outras
palavras, da inteligência de Deus, ser verdadeiro. Cada um desses raios é uma
alma. Assim, raio é a manifestação do sol e o homem é a manifestação de Deus.
Os raios se espalham e atingem longas distâncias e, no entanto, permanecem
ligados ao sol.

À proporção que esses raios são projetados, o primeiro plano que atingem é o
plano angelical e o segundo é o plano dos djins (djins é o nome dado pelos
árabes aos espíritos abaixo dos anjos) e o terceiro é o plano físico. Mas será que
esses raios saíram do Espírito supremo para vir para o plano angelical, deixaram
o plano angelical para vir para o plano dos djins, deixaram o plano dos djins para
vir para o plano físico? Não passaram através desses três planos e, enquanto
passavam por eles, receberam tudo que podia ser recebido de cada lugar,
aprenderam tudo que havia para aprender, reuniram tudo que podia ser reunido,
mas eles ainda estão naqueles planos, embora não saibam. São apenas
conscientes do plano onde seus raios abriram seus olhos. Em outras palavras,
se estamos sentados numa sala somente vemos o que está defronte de nossos
olhos e não o que está às nossas costas. Assim, cada alma tem atrás de si o
plano angelical e o plano dos djins, mas diante de seus olhos há somente o plano
físico. Portanto, a alma está somente consciente do plano físico e inconsciente
dos planos fora do alcance de sua visão, embora, mesmo depois de se
manifestar na terra, a alma ainda está ligada às esferas mais altas. Vive em todas
as esferas, mas conhece principalmente só uma esfera, inconsciente das outras
às quais virou as costas. Deste modo, privada da bem-aventurança celestial, a
alma torna-se consciente dos aborrecimentos e limitações da vida na terra. Adão
não foi expulso do Jardim do Éden, ele simplesmente voltou as costas ao Jardim
e isso o levou ao exílio do céu.

As almas que abriram os olhos completamente para o plano angelical e se


interessaram por ele, lá permaneceram e se tornaram habitantes daquele plano
e podem ser chamadas de anjos. As almas que não abriram os olhos
completamente naquele plano passam por ele e, se se interessaram pelo plano
dos djins, lá permaneceram. As almas que foram mais além em direção à
manifestação e alcançaram o plano físico, o chamado ponto final do seu destino,
abriram os olhos no plano físico e se tornaram seres humanos, que é o estado
de despertamento mais vasto que existe.

Falam desses planos como se fossem lugares, mas na verdade são condições.
O que chamamos de lugar também é uma condição. Só porque a condição é
rígida na sua aparência física é que pensamos nela como um lugar, mas na
realidade é uma condição. É por isso que os que compreendem a chamam de
ilusão.

Um indivíduo que deixou a América e foi para a Europa, que foi da Europa para
o Oriente, traz com ele algo da América para a Europa e levou algo da Europa
para o Oriente. Assim também cada alma que vem à terra traz algo do plano
angelical e algo do plano dos djins, mostrando na sua vida no plano físico tudo
o que trouxe desses dois planos da existência, isto é, inocência, amor à beleza,
profunda simpatia, amor ao canto, tendência para a solidão, amor à harmonia,
tudo isso pertencente ao plano angelical. Do plano dos djins trouxe gênio
inventiva, intelectualidade, raciocínio, lei da justiça, amor à poesia e à ciência. É
por isso que se diz de quem mostra qualquer uma dessas qualidades: “Aqui está
um ser angelical” ou “Eis aqui um gênio”.

A alma vestiu um traje interno e um traje externo e são essas roupas que moldam
a alma de um ser humano pertencente ao plano físico. Uma roupa está oculta
debaixo da outra. Pode-se pensar que o traje do plano dos djins seja menor em
tamanho que o traje do plano físico e que o traje do plano angelical é ainda menor
porque está coberto pela roupagem do plano dos djins, mas não é
necessariamente assim. Aos nossos olhos físicos tudo precisa ter um certo grau
de vibração para ser visível aos nossos olhos físicos. As vibrações das roupas
do plano dos djins são tão sutis que nossos olhos físicos não podem vê-las e são
tanto uma vestimenta interna como uma vestimenta externa. Seu tamanho não
precisa ser tão pequeno como pequeno é o corpo físico. Na verdade é
incomparavelmente maior.

O mesmo acontece com o traje que a alma adotou do plano angelical, que não
é necessariamente tão pequeno que possa ser coberto pelas vestes dos outros
dois mencionados planos: ao contrário, é até maior e mais refinado, só que os
olhos deste plano não podem vê-lo. A vibração é mais rápida e nós vemos as
coisas de acordo com o grau de vibração de cada coisa. Se as vibrações são
invisíveis não é porque sejam invisíveis por natureza e sim porque são invisíveis
aos nossos olhos. Já que somos dependentes dos nossos olhos físicos para ver,
o que os olhos físicos não vêem dizemos naturalmente que é invisível. Só é
invisível porque não podemos ver como uma forma. Assim, pois, não é exagero
dizer que o homem é ao mesmo tempo um djin e um anjo, porque passa através
desses dois planos. O homem não sabe disso, mas mostra as qualidades de
cada um desses planos. A qualidade amor no homem, o senso de beleza, a
alegria, a aspiração, todas essas tendências, além da inocência que existe na
natureza humana, vêm do plano angelical. A pureza do rosto de um bebê prova
que ele está chegando do plano angelical. O sorriso de uma criança, sua
afabilidade e sua facilidade de apreciar tudo que é belo, seu amor à vida, todas
essas coisas são sinais das esferas angelicais.

Como a alma permanece mais tempo na terra, perde as qualidades angelicais e


adota novas qualidades. Assim, enquanto um bebê mostra a qualidade angelical,
uma criança mostra a qualidade djin com seu desejo de saber tudo sobre nomes
e formas, fazendo perguntas à mãe e às outras pessoas sobre tudo que vê e
atrai sua curiosidade. E quando um homem já ultrapassou esses estágios parece
que se torna cheio de misérias, preocupações e desamparo.

Vemos em algumas pessoas a predominância da qualidade angelical. São


pessoas boas, caridosas, de coração puro, corretas, virtuosas, amantes da
beleza, sempre inclinadas às aspirações mais elevadas. Se estudássemos a
natureza humana com mais apuro, encontraríamos um grande número de
exemplos de pessoas de natureza angelical. Outrossim, há poetas,
compositores, intelectuais, escritores e inventores que mostram a qualidade dos
djins.

Por que as almas vêm à terra? Por que a criação aconteceu? Qual é o propósito
desta manifestação? Essas perguntas podem ser respondidas com as seguintes
palavras: para satisfação de Deus. Por que Deus não estaria satisfeito sem a
manifestação? Porque Deus é o único Ser e o desejo do Ser é ter consciência
de ser. Essa consciência experimenta a vida através de canais, nomes e formas
e no homem essa consciência de ser atinge sua culminância. Colocando isso em
termos simples: é através do homem que Deus experimenta a vida na sua mais
alta perfeição. Se perguntarmos qual é o dever do homem, se o objetivo é esse,
a resposta é: seu dever mais sagrado é chegar à perfeita consciência que é seu
“Dharma”, sua verdadeira religião. Para cumprir seu dever o homem deve lutar
contra ele próprio, deve passar por sofrimentos e dores, passar por muitos testes
e experiências. Se fizer muitos sacrifícios e praticar a renúncia, alcançará aquela
consciência que é a consciência de Deus, na qual reside toda a perfeição.

Como vimos, se estudássemos a natureza humana mais cuidadosamente,


encontraríamos um grande número de pessoas com uma natureza angélica e
outras que mostram as qualidades dos djins. Entretanto há muitos homens que
mostram as qualidades humanas. Essas qualidades podem ainda ser divididas
em três classes: a qualidade humana, a qualidade animalesca e a qualidade
diabólica, dependendo do grau das vibrações e do ritmo. O ritmo intenso produz
a qualidade diabólica, o ritmo moderado mostra a qualidade animalesca e o ritmo
regular mostra a qualidade humana. A forma do ritmo pode ser assim descrita: a
qualidade humana é móvel, a qualidade animalesca é irregular e a qualidade
diabólica é ziguezagueante.

A gravitação conhecida pela ciência é a gravitação material, que significa que


tudo que pertence à terra densa é atraído para a terra densa. Mas exatamente
da mesma forma, tudo que pertence ao espírito é atraído para o espírito. Portanto
o homem é puxado de ambos os lados, muito mais do que qualquer outra criatura
por estar mais perto do espírito. De um lado a terra exige seu corpo, do outro
lado o espírito solicita sua alma. Se o homem cede à atração do espírito, o
espírito arrasta o corpo para o espírito. Desta maneira o homem está sujeito à
lei da gravidade de ambos os lados, da terra e do céu.

A lei da gravidade é similar à lei que governa a relação entre o sol e seus raios.
O raio nunca deixa o sol: sua tendência é atingir bem longe, retroagir e retornar
ao sol. Em outras palavras, o raio submerge dentro do sol. A inclinação da alma
é a mesma. Por mais que o corpo dependa da terra densa e por mais que a
mente se alegre nas esferas intelectuais, a inclinação constante da alma é voltar
para sua origem. Contudo, uma vez que a manifestação física fala mais alto e a
mente produz seu próprio som, o grito gentil da alma permanece inaudível.

Pelo dito acima vemos que, como a alma passa por diferentes planos ela toma
emprestado de cada um desses planos as coisas que pertencem a eles, ou
sejam: qualidades, tendências, idéias, pensamentos, sentimentos, impressões,
carne, pele, osso e sangue. Mas o que o corpo tomou por empréstimo tem que
devolver quando tiver acabado o trabalho que tinha a fazer. Tudo foi-lhe
emprestado por um certo tempo e para preencher um determinado objetivo.

Quando o objetivo é preenchido e o tempo se esgotou, cada plano pede de volta


o que a alma tomou emprestado. O indivíduo não tem como evitar essa
devolução, é obrigado a fazê-la. Este processo é que se chama assimilação.

Como o homem nasce ganancioso e egoísta, aceita de boa vontade tudo que
lhe foi dado, até com muito entusiasmo, mas tem que devolver o que recebeu e
faz isso de má vontade, chamando essa devolução de morte. Assimilação,
portanto, é devolver à terra a matéria física que usamos neste plano físico. Ela é
assimilada pela terra. A alma fica livre do peso que carregava e começa a
experimentar uma liberdade maior e um maior bem-estar. A morte, portanto, é
somente a maneira de livrar a alma da limitação e de um grande cativeiro.

A morte nada mais é que despir uma vestimenta e entregá-la ao plano de onde
foi tomada por empréstimo, pois não se pode levar a roupa de um plano inferior
para um plano mais elevado. A alma só é libertada quando voluntariamente, ou
compelida, devolve a roupa ao plano do qual tomou emprestado. É isso que
liberta a alma para que prossiga na sua viagem. Depois de sua permanência ali
para devolver a roupa emprestada, a alma prossegue viagem e novamente
devolve suas vestes no outro plano, que são purificadas, a fim de continuar a
sua viagem. Se as pessoas soubessem disso olhariam a vida sob um ponto de
vista diferente e compreenderiam o significado da seguinte moral: não podemos
reter nada do que realmente não nos pertence. Depois do estudo dessa filosofia
compreenderíamos que mesmo nosso corpo não nos pertence, é uma
propriedade que nos foi emprestada e que deve ser devolvida algum dia. Por
isso os sábios renunciam ao corpo antes de serem obrigados a entregá-lo. Todos
os exercícios espirituais dados pelos mestres são praticados com o seguinte
objetivo: começar a renunciar ao corpo desde agora e não ter pena de ter perdido
algo que pensávamos que fosse muito precioso.

Este conhecimento lança também uma luz sobre a questão da morte. A morte
não é realmente morte, é apenas uma fase passageira, é apenas uma mudança,
é como se tivéssemos que mudar de roupa. Talvez pensemos se não nos
tornamos menores com a morte, mas não é assim, tornamo-nos maiores com a
morte e não menores, porque uma vez descartada a roupa física a alma goza de
uma liberdade maior, de uma maior liberação. A limitação do corpo físico é
grande. O corpo físico pesa muito sobre a alma e do momento que a carga do
corpo é retirada a alma se sente mais leve, suas faculdades, tendências,
inspiração, poderes, tudo se manifesta livremente. Portanto, a morte não é uma
perda.

O que causa a morte? Porque ou o corpo, devido à fraqueza, fica impossibilitado


de servir à alma apropriadamente, ou porque a alma terminou sua missão neste
plano e não quer mais o corpo. O corpo agarra-se à alma e a alma segura o
corpo. É o que acontece. Quando o corpo é muito débil perde naturalmente sua
garra sobre a alma e em geral perde cada vez mais o poder de reter a alma, ou
a alma segura o corpo enquanto precisa realizar alguma coisa e quando a alma
vê que não existe mais nenhuma finalidade de reter o corpo, afrouxa sua garra
e gradativamente o corpo sai do controle da alma.

A morte se dá por esse processo. O nascimento é o processo contrário. Os


corpos humanos são a argila necessária para um recipiente adequado para a
alma. A alma precisa, digamos assim, bater na porta do plano físico para que um
corpo lhe seja dado. Esta idéia, esta filosofia, é simbolizada pela figura do
Cupido.

A vida no plano dos djins é mais longa que a vida no plano físico. É a vida que
pode ser chamada de vida do além-túmulo. Também ali chega um dia em que
tudo que foi emprestado do plano dos djins tem que ser devolvido a ele, por não
pertencer à alma. Assim, pois, ninguém pode ter consigo nada além da
substância de um determinado plano. Cada plano tem sua própria substância e
essa substância tem que ser devolvida. É a única maneira da alma se ver livre
daquele plano e se elevar acima dele. Quando a alma voa para um plano mais
elevado deve renunciar até suas qualidades angelicais, que devem ser
assimiladas no plano angelical antes da alma poder se dissolver no Grande
Oceano, o Espírito Supremo. Essa dissolvição é chamada de imersão no
verdadeiro ser.

Há uma coisa muito importante que pode ser aprendida neste processo: cada
alma que está chegando na fonte em direção à manifestação, dá o que trouxe
da fonte às almas que encontram no retorno às suas origens e estas últimas
devolvem tudo aquilo que armazenaram. Essa troca é a causa atrás de várias
condições da vida nas quais nascem os homens ao virem à terra. Um é um
homem inteligente, outro é um homem simplório, um nasce numa família rica,
outro num ambiente pobre, um é saudável, outro é um fraco, um nasce com um
grande objetivo, outro não sabe o que deve fazer. Tudo é determinado, mas por
quê? Porque uma alma que está vindo da fonte coletou toda espécie de coisas
na sua trajetória, das almas que estavam retornando à fonte.

Há um dar e receber nos planos através dos quais a alma tem que passar e esse
dar e receber se processa entre as almas que estão vindo em direção à
manifestação e as que estão retornando da manifestação em direção à fonte. É
como um viajante que, vindo da Ásia para a América, e outro vindo da América
para a Ásia, se encontrassem na Europa e trocassem seu dinheiro e seus
pensamentos, sobrecarregando-os com seus respectivos débitos,
conhecimentos, felicidade ou infelicidade, da mesma forma que experimentamos
nossa vida na terra. Uma alma às vezes toma um caminho sem conhecê-lo que
a leva à riqueza, ao sucesso e outra alma toma um caminho que a leva ao
fracasso, a cometer erros sobre erros. Tudo depende do caminho que tomamos
desde o princípio. Hafiz explica essa idéia de uma maneira poética, dizendo que
cada um tem seu próprio vinho e seu amor é conforme o vinho que possui. Se
vinho é o da felicidade, o vinho da alegria ou da tristeza, o vinho da infelicidade,
da coragem, do medo, da confiança ou da desconfiança, é sob a intoxicação
desse vinho que o homem age, mostrando ao mundo o efeito do vinho.

No intercâmbio entre as almas vindas da fonte para a manifestação e as que


retornam da manifestação para a fonte, uma bebe o vinho do egoísmo, outra o
vinho do altruísmo. Bediz, um poeta Persa escreveu: “Antes da aurora o vinho
foi despejado, o vinho tirado dos olhos do Bem-Amado”. Ao falar na aurora o
poeta se referiu ao nascimento, ocasião em que a alma começa sua viagem do
plano angelical. Os olhos do Bem-Amado significam este mundo que é muito
enganador. A primeira taça que a alma bebe determina sua vida futura.

Muitos crêem que quando o homem atinge uma evolução mais alta fica mais rico
de conhecimentos. Certamente, a evolução mais alta em si mesma é um
conhecimento, mas o conhecimento que o homem adquire das fontes da terra
não é moeda corrente em outros planos. O homem fez muita coisa com o
dinheiro deste plano, que é de pouco valor e limitado como é este nosso mundo.
Sempre me divirto quando alguém vem me falar e diz: “Tenho lido muitos livros
sobre ciência oculta e acho que estou perfeitamente em condições de ser
iniciado”. Imaginem se é possível a leitura de livros sobre a ciência oculta
habilitar alguém a adquirir espiritualidade. A língua do país da espiritualidade é
diferente. O conhecimento intelectual não é moeda corrente no mundo espiritual.
Aprender consiste em desaprender o que aprendemos aqui. A questão da
realização espiritual é coisa inteiramente diferente e deve ser tratada sob um
ponto de vista completamente diverso.

O estado da mente deve ser semelhante ao espelho, que reflete o objeto


colocado diante dele, mas o objeto não está encravado no espelho, apenas
ocupa o espelho enquanto estiver sendo refletido. Do mesmo modo a alma,
devido à experiência por que passa, é coberta com véus. Em outras palavras,
nossas experiências podem iludir a alma, podem cobri-la ou sepultá-la, mas não
podem penetrar na alma. Outrossim, o que chamamos de individualidade é
apenas um estado temporário e logo que a alma acorda não mais dará muita
importância à individualidade, que é feita com as roupas emprestadas dos
diferentes planos. É como uma boneca feita de trapos. Quando compreendemos
isso passamos a dar toda importância à alma, a alma que é real, que, vem do
real e procura o real.

Vem a pergunta final: Qual será o objetivo da criação do homem? Alguma coisa
é ganha com isso? Sim, é uma realização obtida através da experiência da vida.
É uma realização divina quando a experiência levou a alma a uma altura em que
ela não é mais somente uma alma individual e sim uma alma consciente de todos
os planos da existência, consciente da fonte e de todos os planos das limitações.
E quando toda a inspiração e poder latentes no homem estiverem ao seu
alcance, essa realização se chamará perfeição. Essa é a perfeição a que Jesus
Cristo se referiu quando disse: “Sede perfeitos como vosso Pai Celestial é
perfeito”.
Karma e Reencarnação

Há muito mais ênfase na teologia Hindu à doutrina do Karma do que na religião


de Beni Israel. Por teologia Hindu não me refiro somente à Vedântica ou
Bramínica, mas também à Budista. Por religião de Beni Israel não me refiro
apenas à Judaica, mas também à Cristã e Muçulmana. No seu todo a filosofia
Hindu é baseada na doutrina do Karma, mas a moral da religião de Beni Israel é
também baseada no Karma, sendo que a única diferença é que numa a filosofia
é baseada no Karma e noutra na moral.

A palavra Karma significa ação. É mais do que evidente que colhemos o que
semeamos. O presente é o eco do passado, o futuro é o reflexo do presente e,
portanto, é logico que o passado produza o presente e o presente produza o
futuro. Não obstante, na escola Sufi pouco fala-se no assunto e muitas vezes as
pessoas interessadas na doutrina do Karma começam a conjeturar se o Sufismo
opõe-se a essa doutrina. Não há absolutamente qualquer oposição, mas devido
à maneira pela qual o Sufi encara a doutrina do Karma ele não pode fazer outra
coisa senão selar os lábios.

Em primeiro lugar, o que uma pessoa chama de certo ou errado apoia-se apenas
na sua própria experiência. Classifica de certo uma coisa que conhece como
certa, aquilo que aprendeu a chamar de certo. Chama de errado aquilo que
aprendeu a chamar de errado. Desta forma podem existir certas nações,
comunidades e raças que, em suas concepções, divirjam do certo ou do errado.
Uma pessoa acusa outra de uma coisa mal feita apenas baseando-se no que
sabe que é errado. Como sabe se uma coisa está errada? Porque aprendeu
assim, leu sobre isso num livro ou lhe foi ensinado. Há pessoas que olham com
horror, com ódio, com preconceito os atos de outra, de indivíduos, de
comunidades, de nações e raças e, no entanto, não existe nenhum rótulo,
nenhuma marca, não há nenhum sinete sobre as ações que indique se são
certas ou erradas. Este é um aspecto da questão.

Há também outra forma de encarar o assunto. A cada passo no caminho da


evolução humana, o homem muda a concepção de bem e do mal, do certo e do
errado. Como muda? O homem passa a ver mais o errado ou passa ele a ver
menos o errado à medida que evolui? Naturalmente podemos pensar que, em
virtude de nossa evolução, vemos mais o errado, mas não é esse o caso. Quanto
mais evoluímos, vemos menos o errado pois, nesse caso, não é sempre a ação
em si que importa, é o motivo atrás da ação. Muitas vezes uma ação
aparentemente correta pode ser errada devido ao motivo atrás dela. Muitas
vezes uma ação aparentemente errada pode estar certa devido aos motivos
dessa ação. Por isso, embora o ignorante esteja pronto a formar um juízo sobre
a ação de uma outra pessoa, é muito difícil para o sábio formar uma opinião
sobre a ação de outrem.

Sob o ponto de vista religioso, se um homem evolui espiritualmente, vê menos e


cada vez menos o errado a cada etapa de sua evolução. Como pode Deus contar
as faltas pequenas dos seres humanos que sabem tão pouco sobre a vida?
Lemos na Bíblia: “Deus é amor”, mas o que quer dizer amor? O amor significa
perdão, o amor não significa julgar. Quando alguém faz de Deus um juiz cruel,
sentado no trono do julgamento, tendo nas mãos os seres humanos e
perguntando-Ihes sobre suas faltas, julgando-os por seus atos, sentenciando-os
a serem expulsos do céu, então onde está o Deus do Amor?

Algumas pessoas crêem que os acidentes são preparados pelo seu Karma. De
uma maneira isso é verdade, mas não se deve dar ênfase a isto. Se alguém
perguntar por que existe um tambor ou uma trombeta na orquestra, a resposta
será: para que a música possa ser tocada como deseja o compositor. Para nossa
mente talvez seja desagradável, mas o compositor escreveu a música, a qual
exige um tambor ou uma trombeta. Da mesma forma, tudo que nos parece inútil
existe por algum motivo, tudo fazendo parte da sinfonia divina. Perguntamos:
“Por que é assim?” É a nossa mente limitada que faz a pergunta. Na realidade
todas as coisas têm seu lugar e seu objetivo. Alguém perguntou ao Profeta por
gracejo por que os mosquitos tinham sido criados e ele respondeu: “Para que
você não durma a noite inteira e possa devotar algumas horas da noite às
preces.”

Falando sob o ponto de vista filosófico, podemos perguntar se o homem é uma


máquina ou um engenheiro. Se é uma máquina deve, então, viver anos e anos
sujeito a uma espécie de ação mecânica de suas más obras, em cujo caso ele
não é responsável por seus atos e se é responsável por suas ações então ele e
o mestre de seu destino, fazendo do seu destino o que quiser.

A diferença entre o humano e o divino é a diferença entre as duas extremidades


da mesma linha. Uma extremidade representa o limitado, a outra o ilimitado. Uma
representa a imperfeição, a outra a perfeição. Quando analisamos os seres
humanos deste mundo verificamos que nem todos estão na mesma
extremidade. Enchem a brecha entre uma extremidade e a outra. Embora
atualmente o mundo esteja passando por uma fase de exaltação do ideal de
igualdade, acontece que a nobreza da alma, mesmo a sua divindade, é ignorada.
Em cada fase da vida nota-se isso. Existe um voto para todos no estado e
também no lar. É o mesmo em toda parte, mas quando chegamos a
compreender a vida espiritual das coisas, verificamos que, como acontece com
o piano, as notas não são todas iguais. Assim, todas as almas não são
semelhantes. O homem começa a viver como um mecanismo, como uma
máquina, mas pode desenvolver-se e chegar ao estágio de engenheiro. A
restrição do Karma é somente em relação à máquina.

Sem dúvida, toda a alma tem primeiramente que ser uma máquina para mais
tarde transformar-se em engenheiro. Não nos transformamos em engenheiro
logo, de imediato. Chegamos a isso gradativamente e é por este motivo que a
influência do Karma não é a mesma sobre todas as almas. A lei do Karma é
diferente de indivíduo para indivíduo. Determinada coisa pode ser pecado para
uma pessoa e virtude para outra, pode ser correta para uma e errada para outra.
De acordo com esta lei, cada indivíduo tem seu próprio Karma a enfrentar.

Falando deste ponto de vista, diz o Sufi: “É verdade que as coisas vão mal
comigo, é o efeito de minhas ações, mas isso não quer dizer que eu deva me
submeter. Devo resignar-me porque é o resultado de minhas ações passadas,
mas devo construir meu destino pois sou eu o engenheiro”. Esta é a diferença.
Ouvi uma pessoa dizer: “Estive doente tantos anos mas com resignação.
Suportei tudo facilmente porque era o meu Karma e estou pagando”. Assim
fazendo essa pessoa está prolongando o pagamento de seu Karma (que talvez
estivesse programado para 10 anos) para o resto de sua vida. O Sufi, neste caso,
agiria não só como um doente mas também como um médico para si próprio,
dizendo: “As minhas condições são más? É o efeito do passado? Vou curar-me.
O passado trouxe o presente mas deste presente eu vou construir o futuro”. Isto
apenas significa que o Sufi não permite que influências passadas acabrunhem
sua vida. Deseja produzir agora a influência que tornará mais tarde sua vida
melhor.

Há alguma coisa ainda mais essencial em relação a este assunto. Antes de uma
pessoa colocar sobre si a responsabilidade de pagar pelo seu passado, deve
fazer a pergunta: “O que fui no passado?” Se ela não sabe isso, por que deve
assumir tal responsabilidade? Podemos ser responsáveis somente por alguma
coisa que nossa consciência tiver poluído e isto, precisamente, já é uma carga
suficiente para carregarmos na vida. Por que adicionar também a carga do
passado desconhecido?

Quando olhamos a nós mesmos filosoficamente, o que vemos? Quanto mais


acurada torna-se a nossa visão, menos encontramos de nós mesmos. Quanto
mais conscientes da realidade nos tornamos, menos conscientes nos tornamos
do nosso pequeno ser. Assim, todo este fardo de ações passadas é carregado
pelo homem sem que ele jamais seja convidado a fazê-lo. Ele poderia muito bem
tê-lo ignorado. Não o beneficia, apenas dá-lhe uma ligeira satisfação quando
pensa que seus aborrecimentos são justos, mas esta idéia de justiça fortifica seu
desconforto. A dor que poderia ter cessado continua porque ele fortifica a dor.

O principal objetivo do trabalho esotérico é deixar de lado pensamento de nós


próprios: o que fomos, o que somos e que seremos. Ocuparíamos muito melhor
o nosso tempo se pensássemos a respeito da vida como um todo: o que é, o que
teria sido, o que será. Esta idéia produz uma espécie de ponto de vista sintético
e une ao invés de dispersar. É construtiva e o segredo da liberação espiritual
deve ser encontrado nela. Os Bramines, os Vedantistas e os Budistas, que
consideram o Karma como a doutrina mais adiantada, elevam-se acima da idéia
do Karma logo que atingem a idéia do objetivo que é obtido pela espiritualidade,
o que chamam de “Mukti” ou “Nirvana”, pois é um estágio que, a menos que uma
pessoa tenha se elevado acima dessa idéia de Karma, não atingirá o Nirvana.

II – O argumento religioso para a reencarnação é que, desde que nem todos os


homens são dignos de fundir-se diretamente em Deus, reencarnam uma
infinidade de vezes até que sejam purificados e cheguem ao seu destino final,
podendo, assim, pagar todas as penalidades antes de chegarem à presença de
Deus. A resposta é que até o homem, que tem um limitado senso de justiça,
jamais pune qualquer pessoa sem dizer-lhe qual é a sua falta. Como poderia
Deus, o mais misericordioso e justo, fazer uma alma reencarnar na terra com
uma punição sem fazê-la ciente de sua falta?

O argumento científico para a reencarnação nos diz que uma semente, por que
a alma do homem não se readornaria continua milhares de vezes, sempre
produzindo novas sementes. Desta maneira há uma possibilidade de
reencarnação. Assim, pois, se a semente tem força suficiente para retornar como
uma semente, por que a alma do homem não se readornaria com um corpo
humano? A resposta é que mesmo a semente, enquanto não atingir a mais
interiorizada das culminâncias, não terá jamais a capacidade de renascer como
uma semente. Além disso e mesmo assim não pode ser chamada de
reencarnação da semente e sim de regeneração. Outrossim, uma semente
produz muitas sementes e por esta razão não pode ser chamada de encarnação,
pois a natureza da encarnação é coisa que vem de outra e não uma coisa que
se converte em muitas outras coisas.

O mesmo acontece com a alma, que experimenta a vida independentemente,


por intermédio dos cinco elementos e retorna à sua fonte de origem carregando
as impressões do mundo exterior e desfazendo-se delas a cada passo dado em
direção à sua própria essência, o Espírito Universal. A substância terra fica na
terra, a água volta à água, o fogo consome seu elemento nele próprio, o ar
carrega sua propriedade e o éter faz o mesmo. Quando a estrutura dos cinco
elementos se dispersar, a qual, exatamente como o vidro contra o sol estava em
condições de receber o reflexo do espírito, a alma então inicia sua própria
caminhada em direção à fonte original. Depois que a estrutura corporal e astral
se quebra, não há mais possibilidades de individualidade, pois não ficará nada
senão o único Ser.

Pode-se reconhecer a reencarnação de uma pessoa no pensamento de outra


enquanto acordado ou em sonho quando adormecido, pois todos os seres, além
de sua própria imagem mostrada desta maneira, podem se mostrar além de suas
próprias mentes. Podem, portanto, ser chamados de reencarnações. Entretanto,
isso não pode ser perfeitamente justificado porque todo pensamento e sonho
tem nascimento, vida e morte. Assim, mesmo eles podem ser tomados como
individualidades e como um mundo produzido de um só ser.

Há certas pessoas que fingem, ou pelo menos imaginam se lembrar das suas
reencarnações anteriores, mas na maioria dos casos dizem isso por amor à
notoriedade ou apenas para exprimir suas fantasias e decepções. Na Índia não
se ouve muito falar sobre a reencarnação. O povo fala mais a respeito do Karma.
Os Yogues, que se situam entre os expoentes máximos da idéia da
reencarnação, não crêem, por um momento sequer, que a reencarnação é para
eles. Se perguntarem a um Yogue ele dirá: “Não, estou me esforçando para
alcançar o “Mukti”, a salvação. Você é que deseja renascer e, portanto, você
renascerá. Ficaria muito desapontado se não renascesse”. O que ele disse
precisa, entretanto, ser interpretado sob um ponto de vista sutil. O Yogue
emprega a palavra “você” para aquilo que ele sabe que é o eu da pessoa a quem
está se dirigindo. Esta teoria abre um vasto campo de interesse e curiosidade
para a imaginação daqueles que podem ver o mundo objetivo, mas, repetindo,
há sempre algumas pessoas que procuram coisas novas. Esse desejo cresce a
tal ponto que mesmo se um novo Deus aparecesse, elas ainda continuariam
procurando um outro.

Ao observarmos a evolução do mundo, pode parecer que a alma é que, devido


à sua experiência anterior da vida, permite a si própria manifestar-se em
condições melhores do que no passado, mas na realidade tal não acontece. A
evolução do mundo depende da experiência anterior da alma. A razão pela qual
o mundo progride a cada passo da evolução é porque a alma participa das
condições melhoradas em sua marcha em direção da manifestação, ajudando
assim a manifestação a progredir em direção à perfeição.

A reivindicação da verdade sobre a doutrina da reencarnação repousa


principalmente na lei da ação e isto imediatamente apela para o intelecto.
Significa que, se um homem é um gênio em música, é devido à sua passada
experiência, se uma pessoa é defeituosa ou cega de nascença, é uma
penalidade por suas más ações no passado, se uma pessoa é sábia e espiritual,
rica e poderosa, é devido às suas boas ações passadas. Assim, toda alma
fazendo o bem ou o mal colhe os resultados através da reencarnação até chegar
ao seu destino.

Contra esta doutrina pode ser arguido que não é por qualquer falta das pernas
que elas têm que suportar o peso do corpo, nem porque a cabeça agiu melhor
no passado foi ela escolhida como coroa para a forma humana. O mundo é a
corporização do único Ser, de Deus. A explicação pode ser encontrada no que
disse um “dervixe” Persa: “O homem vive na alegria de sua crença em Deus,
não sabendo se Ele é seu amigo ou seu inimigo. É como se, quando o oceano
faz com que suas ondas se levantem alegremente, um galho que boiasse sobre
elas pensasse que fosse apenas por ele que o oceano tinha se elevado e
abaixado”.

Este é o caso com todas as condições na vida. Um indivíduo pode pensar que
fez alguma coisa no passado e que é por isso que é assim hoje, mas é a regra
da justiça de Deus e ele aqui se engana. O Deus, como o oceano, tem muito que
pensar e julgar e, portanto, o levantar e o abaixar são causados pelo “Kaza”, as
ondas do oceano da existência, ou por aquilo que uma alma recolheu de bom ou
de mau na jornada em direção à manifestação.

Os pensadores que ensinaram a doutrina da reencarnação nunca pensaram que


ela fosse compreendida pelo povo em geral. A reencarnação mencionada por
eles era a participação, pela alma fresca descendo para a manifestação, dos
atributos das almas que estão subindo para a sua fonte original, as quais dão
sua carga de impressões às almas de boa vontade que encontram no caminho.
A alma, tendo uma vez se manifestado no corpo, nunca tem poder suficiente
para se manifestar novamente. A idéia da alma reencarnada numa outra forma
é muito pouco verdadeira. Se fosse verdade que a alma reencarna como uma
coisa natural, por que não se reencarna na sua forma original, a qual poderia
facilmente ter recolhido de novo?

A verdade sobre a teoria da reencarnação pode ser compreendida desta forma:


precisamente a mesma proporção da Consciência que constituiu uma vez uma
alma PODE acontecer formar-se novamente como uma alma, mas em geral não
há tal possibilidade. É tão raro como uma bolha formar precisamente a mesma
bolha de novo, pois em geral a metade, a quarta parte, ou mesmo centenas da
parte da primeira bolha seria produzida ou talvez uma bolha cem vezes maior do
que a primeira. Em cada caso a alma tem de mergulhar na Consciência antes de
estar suficientemente viva para manifestar-se novamente. É por isto que não
podemos chamá-la da mesma alma, pois está inteiramente purificada de suas
condições anteriores. É justamente como acontece com um pingo de tinta:
quando cai no oceano, a água mergulha na água e sua substância tinta vai para
o fundo. Não pode jamais permanecer como um distinto pingo de tinta, mas
torna-se água pura do oceano. Se fosse tirado novamente da água não mostraria
mais sua substância anterior. Tal é a natureza da alma quando mergulha
novamente no oceano da Consciência.

Existem três maneiras de saber a respeito da vida vindoura: saber


intelectualmente pela teoria, saber pelo processo da meditação ou “morrendo
antes da morte” (que é atingir o estado que se experimenta depois da morte),
durante a existência, e saber pela morte.

Aqueles que procuram este conhecimento são de três tipos. Primeiro há o


estudante, que estuda nas fontes autênticas a fim de descobrir alguma teoria
que a sua razão possa aceitar intelectualmente. Em segundo lugar temos o
adepto. Seu caminho é o caminho da meditação. Pela meditação ele desenvolve
aquele estado em que fica como morto, em que pode elevar-se acima da vida do
corpo material, mesmo que seja por um momento, e desta forma ele experimenta
a vida depois da morte, que é o começo do conhecimento da imortalidade. Em
terceiro lugar há as pessoas que desejam se comunicar com os espíritos a fim
de conhecer as condições desses espíritos. Se forem capazes de se comunicar
com os espíritos podem obter conhecimentos deles até um certo ponto.

Uma pessoa da primeira categoria, que tenta intelectualmente descobrir a


doutrina que seja conveniente à sua razão, prontamente concordará com a
doutrina da reencarnação porque esta doutrina explica a vida intelectualmente
de uma maneira que satisfaz a razão. Quando sou perguntado o que tem o Sufi
a dizer sobre a reencarnação, meu silêncio às vezes e meu sim ou não outras
vezes, deixam o assunto vago. Alguns talvez pensem que eu não acredito nela
e que se eu não acredito nela então, naturalmente, os Sufis em geral também
não acreditam. Não é esse o caso. Cada Sufi é livre de acreditar no que sente
ser certo e no que é capaz de compreender. Ele não está preso a qualquer
crença especial.

Ao invés de atormentar-se a respeito dessas crenças o Sufi deseja ir diretamente


à idéia central e quando ele chega lá vê a verdade em todas as coisas, pois o
mistério da vida está em que todas as vezes que você toma nas mãos a lanterna
divina, todas as coisas se tornam claras. Por isso o Sufismo dá liberdade a todos
para acreditar e descobrir as coisas por si mesmos.

Para o meu “sim” havia uma razão e para o meu “não” havia também uma razão,
não por mim mas pela pessoa que me fazia a pergunta. As pessoas do mundo
querem que todas as coisas sejam rígidas, mesmo as coisas que são de
natureza mais bela e que as palavras não podem explicar. É o mesmo que querer
medir a alma ou fotografar o espírito quando alguém descreve o porvir. Não
devem depender das minhas palavras, a auto-realização é o alvo. A crença em
doutrinas é uma pílula para curar doentes. Realmente todas as coisas são
verdadeiras até um certo ponto mas quando comparadas com a verdade final
falham ao provar suas existências. As coisas parecem diferentes sob vários
planos em que as olhamos e quando uma pessoa que está no vale pergunta a
outra que está no alto de uma montanha o que vê dali, ela não pode dizer muito.
O que pergunta deve subir no alto da montanha e ver por si mesmo. Não pode
haver nenhum terreno comum para conversação entre as duas pessoas até que
isso aconteça. O método Sufi é a quietude e o progresso em silêncio, chegando
desta maneira ao estágio onde pode ver por si mesmo. Alguém pode dizer que
é preciso muita paciência. É verdade, o caminho espiritual é para o paciente e a
paciência é a coisa mais difícil que existe.
Se alguém me perguntasse por que eu não digo claramente o que acontece no
porvir, se nós voltamos à terra ou se vamos para outro lugar qualquer, eu diria:
“O que você considera ser eu não considero que você seja, o que você é aos
seus olhos você não é aos meus olhos. Se eu falar de acordo com o que meus
olhos vêem trar-lhe-ei confusão agora mesmo. Você deve desenvolver-se ao
plano em que o vejo. A maneira de você considerar-se é uma maneira elementar,
agora é para você uma realidade, mas chegará o tempo em que você
compreenderá que nada mais era do que imaginação”. Como posso dar minha
opinião a alguém se ela lhe é incompreensível? Por isso o caminho do Sufi é o
silêncio.

O Sufismo não é contra a reencarnação nem contra qualquer doutrina em


particular. Por que havia de ser se é uma religião que veio reconciliar as
religiões? Não é idéia de um Sufi opor-se a qualquer doutrina. Eu nunca falei
contra a doutrina da reencarnação porque não vejo o mal nela mas também não
vejo o bem nela. Quando o objetivo é a realização da unidade da vida, da unidade
de Deus, então a idéia da reencarnação, que é baseada no falso ego, não é
proveitosa. O Sufismo deseja ensinar ao homem o que ele é. Logo que o homem
resolver esta questão não mais precisará perguntar. “O que minhas ações farão
por mim?” É a questão do que é um homem que o Sufismo deseja resolver. Ao
mesmo tempo o que é aparente é diferente do que é escondido. Um homem que
nasce num palácio foi recompensado ou o homem que está talvez morrendo de
fome na rua foi punido?

O que trouxe Cristo? Salvação. O que trouxe Maomé? Najat, salvação. O que
trouxeram os Avatares dos Hindus? Mukti, salvação. Encontramos sempre a
mesma coisa, a salvação. Este é o motivo pelo qual é preferível nos mantermos
afastados da doutrina da reencarnação e conservar diante de nossa visão o ideal
da unidade, o ideal em que estamos unidos e em que reside a realização da vida.

Podemos então, alguém pergunta, alcançar a salvação nesta vida? A evolução


é diferente para cada alma, mas o homem pode geralmente alcançar a salvação
se é sincero e seriamente a deseja e a persegue. Não só Deus é todo-poderoso,
mas o homem tem também uma parte deste poder. A salvação está nas mãos
de Deus, mas também nas mãos do homem. No desejo do homem existe o
desejo de Deus. A coragem do homem é a coragem de Deus e na confiança do
homem existe a confiança de Deus. Quando dizemos, como está escrito na
Bíblia: “Que seja feita a Vossa Vontade” e ao mesmo tempo descobrirmos que
nosso desejo e nossa vontade não estão separados da Vontade Divina, então
nossa vontade será feita também. Se não desejamos a salvação agora não a
alcançaremos, pois é necessário, como diz a Bíblia, bater na porta. A resposta
então virá. Nada há no mundo que o homem não possa alcançar, ao que se
tornar um Califa, um mestre, do reino de Deus. Não há nada que seja impossível.
Sem dúvida há coisas que são difíceis e, no entanto, não há dificuldade que não
possa ser vencida. Se o homem tiver apenas coragem alcançará a fonte de sua
origem.
TERCEIRA PARTE
A vida além-túmulo

É difícil explicar em que consiste a vida no mundo do espírito e não é fácil


encontrar palavras para falar desse mundo, mas é possível ter-se uma idéia dele
se observarmos a vida dos pássaros, que conseguem voar sobre mares e
florestas, montes e vales, em harmonia com a natureza e sempre expressando
sua alegria através do canto. Pode-se também observar a vida do veado, que
vive nos bosques e montanhas, bebe água nas fontes naturais, move-se no
espaço aberto, contempla o horizonte de manhã à noite, usa o sol como um
termômetro e a lua como tocha. E imaginemos agora nossas vidas, a vida dos
seres humanos nas cidades superpovoadas, os dias passados nas fábricas ou
nos escritórios, as noites dentro de casa, longe de Deus, longe da natureza e
distanciados de nossos próprios “eus”, É uma vida inteiramente absorvida na luta
para sobreviver, uma luta que está sempre recrudescendo e nunca tem fim!

O que é purgatório? Na terminologia Sufi chama-se “Nazá”, que quer dizer


suspensão da atividade. Se existe o que chamamos de morte está na ausência
de movimento, na inatividade. É como um relógio que parou e precisa de corda.
Um pequeno movimento faz com que o relógio funcione novamente. Assim
também há o impulso da vida, que rompe através da nuvem da mortalidade e faz
a alma ver a luz do dia depois da escuridão da noite. E o que vê a alma na
radiosa luz do dia? Vê a si mesma, vivendo como outrora com o mesmo nome e
forma e não obstante progredindo. A alma naquela esfera encontra uma maior
liberdade e uma limitação menor do que a que havia experimentado
anteriormente na sua vida na terra. Agora, diante da alma, descortina-se um
mundo que não lhe é estranho e que foi construído durante sua vida na terra.
Aquilo que a alma conheceu como mente, para ela essa mesma mente é agora
um mundo. Aquilo que a alma chamava de imaginação enquanto estava na terra,
é agora diante dela uma realidade. Se aquele mundo é um mundo artístico, foi a
alma que produziu a arte. Se não existe beleza naquele mundo, foi igualmente
culpa da alma que negligenciou a beleza enquanto estava na terra.

O quadro “Jannat”, que mostra o paraíso, as idéias sobre céu, a concepção das
regiões infernais, tudo isso é agora uma experiência real da alma. A alma não é
enviada para um ou outro lugar para ficar entre os muitos que ali estão se
regozijando ou sofrendo pelos seus pecados. Esses reinos são os que as almas
criaram enquanto viveram na terra, justamente como acontece com as criaturas
que constroem seus ninhos para viver durante o inverno. O futuro imediato é o
inverno da alma. A alma passa o inverno no mundo que ela criou para si própria
e ele pode ser agradável ou desagradável. Pode-se querer saber se a alma vive
uma vida solitária no mundo que ela criou. Não. Como poderia a alma ser
solitária? A mente, cujo segredo é conhecido por tão poucas pessoas deste
mundo, essa mente pode ser tão vasta como o mundo e ainda mais vasta do
que ele. A mente pode conter tudo o que existe no mundo e pode até conter tudo
que o universo contém dentro dela. A compreensão do que é a mente amplia
nossa perspectiva na vida. Quando chegamos a esse ponto, a primeira coisa
que acontece é o espanto, mas depois a natureza de Deus se revela, que por si
só é um fenômeno.

Frequentemente as pessoas querem saber que ligação existe entre a alma que
partiu da terra e as almas que ainda se encontram na terra. Não há dúvida que
agora, neste momento, existe uma parede que divide os que estão na terra
daqueles que estão no outro plano. Não obstante, a ligação do coração está
intacta e permanece inquebrável enquanto existir o elo da simpatia. Mas –
pergunta-se – por que aqueles que amam os que partiram da terra não sabem
alguma coisa sobre as condições dos seus entes queridos que estão no outro
lado? Mas suas almas sabem, apenas os véus da ilusão do mundo físico cobrem
seus corações. É por esse motivo que não podem receber os reflexos com
clareza. Para os que partiram da terra e estão do outro lado, é mais fácil entrarem
em contato com os que estão na terra, porque têm um véu a menos.

A alma está sempre numa viagem contínua. Em qualquer plano que esteja está
todo o tempo viajando e nessa viagem tem um objetivo a cumprir, ou muitos
objetivos contidos e escondidos num objetivo.

Quando existem objetivos não realizados na vida de uma pessoa na terra, esses
objetivos são realizados numa viagem posterior ao mundo do espírito, pois nada
que o coração uma vez desejou fica irrealizado. Se não for realizado aqui na
terra, será realizado na outra vida. O desejo da alma é o desejo de Deus. Quer
o desejo seja pequeno ou grande, certo ou errado, ele tem seu momento de
realização. Se esse momento não se apresentou enquanto a alma estava no
plano terráqueo, apresentar-se-á no mundo do espírito.

A alma mostra sua origem divina em todos os planos da existência criando para
ela própria tudo que deseja e criando a realização do desejo do coração, atraindo
e trazendo para si tudo que deseja. A fonte da alma é perfeita, assim como é
perfeita a sua meta. Portanto, mesmo na sua limitação a alma possui a centelha
da perfeição. É tal a natureza da perfeição que nenhum desejo permanece.
Mesmo com a limitação que a alma experimenta na terra, onde vive uma vida de
limitações, seu único desejo é a perfeição. Assim, todo desejo é realizado porque
o Ser Perfeito, mesmo no mundo de variedades, faz todo o possível para
experimentar a perfeição.

As condições do mundo do futuro são muitíssimo parecidas com as condições


do mundo dos sonhos. Nos sonhos nós não nos vemos muito diferentes do que
somos na vida cotidiana, exceto em alguns casos e em certas ocasiões e há
motivos para isso. Entretanto, o poder da alma no mundo do futuro é muito maior
do que o poder que ela possui neste mundo de limitações. Por assim dizer, a
alma amadurece no outro mundo e encontra nela própria o poder que ignorava
durante o tempo que passou na terra, aquele poder de criar e produzir tudo que
deseja. Como os movimentos da alma não são mais cerceados pelo tempo e
pelo espaço, é capaz de realizar e fazer coisas que lhe seria difícil fazer no plano
terráqueo.

Quanto à idéia da reencarnação, quando antigamente os hindus diziam a uma


pessoa má: “Na próxima vez que você nascer virá como um cão ou um macaco”,
queriam dizer àquela pessoa – que não sabia nada da vida do outro lado – que
suas qualidades animalescas voltariam com ela como herança do mundo animal
e que por isso aquela pessoa não reapareceria diante dos amigos como um ser
humano e sim como um animal. Quando diziam a uma pessoa boa: “Suas boas
ações quando você voltar farão de você uma pessoa melhor”, estavam
explicando que ela ainda não conhecia os dois pólos extremos de sua alma e
que nenhuma ação boa se perde. Ao homem que não sabia o que esperar do
mundo do futuro, era um consolo saber que todo o bem que havia feito voltaria.
Nesse sentido a teoria assim explicada era uma verdade.

Apenas existem diferenças de palavras. A alma que vem do alto não tem nome
nem forma, nem qualquer identidade especial. Para a alma não faz nenhuma
diferença o nome que lhe dão. Uma vez que não tem nome, tem justamente de
adotar o nome do casaco que lhe vestem. É essa a natureza da vida. A toga da
Justiça colocada numa pessoa faz dela um juiz. O uniforme de policial colocado
num homem faz dele um guarda, mas nem o juiz nasceu juiz nem o policial
nasceu guarda. Vieram a este mundo sem nome, embora não tenham nascido
sem forma. As distinções e diferenças pertencem ao mundo inferior, não ao
mundo elevado. Por isso o Sufi nunca argumenta sobre a idéia da reencarnação.
A diferença está apenas nas palavras. É necessário ter a precaução de
conservar a porta aberta para as almas que querem entrar no Reino de Deus,
para que não se sintam impedidas de fazer isso por um dogma que Ihes ensina
que, devido ao seu Karma, serão puxadas para trás depois de deixarem o plano
terráqueo. A alma é a centelha de Deus. Embora Deus não seja obedecido na
terra, no céu é todo-poderoso. O mestre Jesus ensinando a prece: “Que venha
o Teu Reino, que Teu desejo seja feito na terra como no céu”, deu a chave para
abrir a porta atrás da qual está aquele segredo do poder onipotente e da
sabedoria perfeita, que eleva a alma acima de todas as limitações.

Finalmente a alma se eleva ao padrão que era o padrão do seu ideal e realiza,
ou acaba, o trabalho que era do seu desejo fazer quando estava na terra. No
mundo do espírito há também dificuldades para fazer e finalizar alguma coisa,
embora essas dificuldades não sejam tantas como na terra. As leis daquele
mundo são diferentes das leis deste mundo de limitações. Lá as almas
encontram em abundância o que aqui é escasso.

Uma bela imagem do mundo do espírito consta de uma história sobre Krishna.
Todas as “Gopis” (camponesas) de Brindaban pediram ao jovem Krishna que
dançasse com elas. Krishna sorriu e disse que dançaria com cada uma na noite
de lua cheia. As “Gopis” se reuniram no vale de Brindaban e um milagre
aconteceu: embora fossem muitas, cada uma dançou com Krishna. Todas
tiveram seu desejo realizado. Eis aí um ensinamento simbólico que significa que
em toda alma o Ser Divino pode ser encontrado.

O mundo do espírito é incompreensível para a mente familiarizada apenas com


as leis do mundo físico. Um indivíduo que na terra é um ser limitado, é um mundo
no mundo do espírito. Aqui uma alma é uma pessoa, lá uma alma é um planeta.
Se considerarmos a impotência que existe neste plano, podemos imaginar bem,
por alguns momentos, a grandeza, a facilidade, a conveniência, o conforto e as
possibilidades do outro mundo. Faz parte da natureza humana o seguinte: o que
é desconhecido do homem nada significa para ele. Um pessimista aproximou-se
de Hazrat Ali e lhe disse: “Realmente existe um mundo do futuro para o qual vós
estais nos preparando, dizendo-nos para nos abstermos das coisas que
desejamos e passemos a viver uma vida de bondade e de piedade? E se não
existir o que chamam de vida do futuro?” Ali respondeu: “Se não existir uma vida
no futuro, eu estarei nas mesmas condições que você, mas se existir essa vida
futura, então eu sairei ganhando e você perdendo”. A vida vive, a morte morre.
Aquele que vive viverá, tem que viver, não há outra alternativa.

A manifestação é um sonho interessante, uma ilusão causada por coberturas


sobre coberturas. A alma é coberta por milhares de véus. Essas coberturas não
proporcionam à alma nenhuma felicidade e sim intoxicação. Quanto mais a alma
é afastada da fonte, maior a intoxicação. De certa forma essa intoxicação ajuda
o objetivo da viagem da alma para sua realização, mas o objetivo da alma é
realizado pelo seu desejo. E o que deseja a alma? Tornar-se sóbria. Como é
obtida essa sobriedade? Tirando os véus que cobrem a alma e que a separam
da sua verdadeira fonte e meta. O que retira da alma os véus da ilusão? A
mudança a que chamam de morte. Essa mudança pode ser forçada contra o
desejo da alma e por isso é chamada de morte. É uma experiência muito
desagradável, é o mesmo que arrancar das mãos de um bêbado uma garrafa de
bebida, o que para ele naquele momento é muito penoso. Ou essa mudança é
feita por vontade própria da alma, quando ela arranca a cobertura que a envolve
e chega à experiência da sobriedade enquanto está na terra, mesmo que seja
apenas num relance. A mesma experiência que a alma embriagada de ilusões
tem depois de milhões e milhões de anos, não obstante é a mesma, exatamente
a mesma.
A primeira experiência é chamada de “Fanà” ou aniquilamento. A realização
última é chamada de “Baqá” ou ressurreição. A alma atraída pelo poder
magnético do Espírito Divino mergulha nele com uma alegria que não pode ser
descrita por meio de palavras, como acontece com um coração que ama e se
entrega nos braços do bem-amado. A intensidade dessa alegria é tão grande
que nada que a alma já tenha experimentado na vida jamais conseguiu torná-la
tão inconsciente do “eu” como naquele instante. Não obstante, essa
inconsciência do “eu” torna-se realmente a verdadeira autoconsciência.

É então que a alma realiza plenamente o “Eu existo”, mas a alma que atinge
esse estágio de realização conscientemente tem a maior de todas as
experiências. A diferença é igual à diferença que existe entre a pessoa que viaja
em direção à meta e aprecia passo a passo cada experiência que lhe surge e se
regozija a cada momento da jornada vendo que se aproxima cada vez mais da
meta – e uma outra pessoa que absolutamente não está consciente da jornada.
O significado místico da
ressurreição

Qual o significado exato da ressurreição de que fala a Bíblia? Ressurreição é


aquele momento depois da morte em que a alma fica consciente de todas as
suas experiências. Como a alma está ligada a tudo no universo, a ressurreição
individual é uma ressurreição universal.

Depois que Cristo ressuscitou da morte disse: “Aquele que crê será salvo”.
Mortos são aqueles que não compreenderam ainda sua imortalidade. Os que
ressuscitam são os que compreendem sua imortalidade. As palavras de Cristo
querem dizer que aquele que tem o conhecimento de Deus, o conhecimento da
imortalidade, jamais morrerá e que os que acreditam em Deus, que é a mesma
coisa que o conhecimento de Deus, nunca morrerão.

Só o homem pode compreender o que é a morte. Os pássaros e animais sentem


que há uma inatividade resultante da morte, ou da falta de vida, mas não
compreendem o que é realmente a morte. Já vi um pássaro ficar ao lado da
companheira morta a tiros e tocá-la com o bico. Ao notar que ela estava imóvel,
sem vida, pendeu a cabeça e morreu antes que o caçador se aproximasse. Vi
também um cão morrer instantaneamente quando percebeu que a companheira,
companheira de toda a sua vida, estava morta. Mesmo assim os animais apenas
sentem a inatividade, a ausência do amigo, não compreendem inteiramente a
verdadeira natureza da morte.

Os Sufis do Oriente costumam construir suas casas ou cabanas perto dos


cemitérios e também nas selvas. É uma maneira de lembrarem que o dia de hoje
é o momento de conquistar a morte para realizarem a imortalidade depois da
morte física. De tempos em tempos, na forma de um homem santo, a
humanidade é despertada para o conhecimento de sua imortalidade.

Se a ressurreição simplesmente significasse que Cristo ressuscitou após a


morte, seria uma história que muitos poderiam acreditar ou não. Se essa história
fosse apenas para ser acreditada, quanto duraria essa crença? Essa lição tem
uma profundidade muito maior: trata-se da ressurreição da vida mortal para a
vida imortal, ou imortalidade. Os que ressuscitaram no único Ser Imortal, em que
não há nenhuma distinção entre marido e mulher, irmão e irmã, pai, mãe e filho,
são os chamados filhos da ressurreição.
Diz a história que quando Maria Madalena e a outra Maria chegaram à tumba
onde Cristo havia sido sepultado, notaram que a pedra que cobria o túmulo tinha
sido removida. Olharam para dentro do túmulo e viram que o sudário que
envolvia o corpo de Cristo estava no mesmo lugar e o pano que cobria sua
cabeça estava também no respectivo lugar. Só o corpo de Cristo havia
desaparecido. A pedra do túmulo é a mesma pedra descrita nos mitos Hindus. O
Senhor Krishna é chamado de “Girwara”, ou “aquele que segura a pedra”,
“aquele que levanta a pedra”. Cada alma individual está oprimida no mundo
debaixo dessa pedra. É a pedra do “eu” exterior. Quando a pedra é levantada, o
homem se eleva à imortalidade. E acima do que o homem se eleva? Acima do
corpo e da mente. O sudário ou a mortalha, o pano que cobria o corpo de Cristo,
ficaram os dois separadamente, simbolizando o corpo e a mente.

Os grandes poetas, os grandes músicos, os grandes escritores, muitas vezes se


elevam acima do corpo físico. Não têm noção de onde estão, se sentados ou
pairando. Perdem-se na imaginação, não têm consciência de sua existência
física, mas não chegam a se elevar acima da mente. Quando a consciência
consegue se elevar acima da mente, acima dos pensamentos, aí então ela se
liberta e atua no seu próprio elemento. A consciência mais elevada pode se
entregar à mente.

A elevação a essa consciência, onde não existe distinções, é o mais alto grau da
ressurreição, mas há outros graus, como acontece com um elevador que não
chega ao 7.° andar sem primeiramente passar pelo 2.°, 3.° e 4.° e demais
andares.

Há a ressurreição em que a contraparte exata do corpo físico anda, senta e faz


tudo que o corpo físico pode fazer. É o que os Sufis chamam de “Alam-e Mithal”.
Há místicos que são verdadeiros mestres dessa ressurreição, de uma maneira
tão completa que são inteiramente independentes do seu corpo físico. Quando
o domínio é completo a morte não existe.

Quando um poeta está escrevendo uma poesia, sua esposa, seu empregado, ou
uma centena de pessoas podem passar diante de seus olhos que ele nada vê.
Nem sabe se alguém passou perto dele. Se o amor que existe numa poesia pode
fazer isso, o que não fará o amor que existe na vida interior, a absorção na vida
interior, que atrai a consciência para o íntimo?

Consta do Evangelho que depois da ressurreição Cristo foi visto muitas vezes
pelos discípulos. É a experiência que tem toda pessoa que praticou a
concentração e meditação. Vê o que guardou na consciência, não só o que viu
internamente mas também o que viu externamente, à sua frente. É a primeira
experiência de todos os místicos. Os discípulos estavam se sentindo perdidos,
pensavam muito em Cristo. Como poderiam então deixar de ver o Cristo?
Cristo disse aos discípulos: “Toquem em mim e vejam. Um espírito não tem
carne e ossos como vocês estão vendo em mim”. A palavra espírito é usada em
muitos sentidos diferentes. É usada para designar um fantasma ou uma alma,
mas na realidade quer dizer essência, o pólo oposto da substância. O espírito na
manifestação é o oposto da matéria, em todos os sentidos.

Tudo que os olhos viram ressuscita nos olhos. Se alguém nos falar de
determinada pessoa, mesmo se já tivéssemos nos esquecido dela, ela se
colocará diante de nossos olhos e podemos vê-la numa casa, num determinado
palácio, num certo lugar onde já a tínhamos visto. Não vemos a pessoa com os
nossos olhos físicos e sim com os olhos que podem ver mais além. Os
materialistas podem dizer que tudo está no cérebro, mas como poderia o cérebro
conter milhares e milhões de coisas e seres? Sem dúvida, se não houver
treinamento, uma pessoa não pode ver o espírito. Entretanto, em sonho nós
podemos nos ver, podemos viver em diferente ambientes, na companhia de
diversas pessoas. Se alguém me disser: “Foi um sonho” eu perguntarei: “Quando
diz você que é um sonho? Quando você acorda e vê o ambiente em que está,
nota o contraste e então diz: “Foi um sonho”. “Porque se não fosse um sonho
tudo estaria aqui comigo, mas tudo no sonho era diferente”. No entanto, se
enquanto você estiver sonhando alguém chegasse e lhe dissesse: “É um sonho”,
você jamais acreditaria.

Ressurreição é nos elevarmos àquela vida real, ao Amigo verdadeiro em quem


podemos confiar acima de todas as coisas e seres, aquele que nunca muda, que
sempre esteve conosco e sempre estará.
O símbolo da cruz

Há muitas pessoas que pensam que o símbolo da cruz surgiu somente no tempo
de Jesus Cristo. Não há dúvida que depois do Mestre Jesus o símbolo da cruz
se tornou mais conhecido. Entretanto, esse símbolo é muito antigo e foi usado
em diferentes épocas. O símbolo da cruz tem diversos significados.

A cruz tem uma linha vertical e uma linha horizontal. Tudo que existe é baseado
nessas duas linhas, que se estendem vertical e horizontalmente, como podemos
ver no formato da folha, que cresce em comprimento e largura.

No seu primeiro significado a cruz é o símbolo da manifestação. Significa


também a jornada em direção ao ideal espiritual. Não existe melhor ilustração
para o ideal espiritual que a cruz.

Sempre que uma pessoa começa a falar ou agir a favor da verdade, encontra
barreiras em seu caminho. Há uma cruz à sua espera no caminho. Falai sobre a
verdade perante a nação e o mundo, e a cruz, a barreira, será colocada em
vossos ombros pela nação ou pelo mundo, na forma de oposição. O outro lado
do mistério é o destino ou a vida de um mestre: a cruz significa o que o mestre
vai encontrar quando der ao mundo a mensagem da verdade.

Há ainda outro grande mistério da cruz, muito pouco compreendido. Fora de nós
há espaço por todos os lados, espaço que pode acomodar, que pode conter,
mas dentro de nós também há espaço, um espaço que se estende numa outra
direção.

Além desses significados simbólicos, a cruz é um símbolo natural que foi sempre
usado pelo homem na sua faculdade artística e raciocínio. A natureza da luz é
espalhar seus raios, quando a luz está no seu estado de perfeição. Se olharmos
o sol, especialmente durante o pôr-do-sol, notaremos linhas que se formam no
firmamento, assim como na terra: primeiro vemos uma linha reta e se olharmos
com mais cuidado, vemos que dessa primeira linha vertical sai uma linha
horizontal que se desdobra. Se observarmos profundamente a luz,
compreendemos que a natureza da luz é formar uma linha perpendicular e uma
linha horizontal. Se é da natureza da luz exterior formar uma cruz, também é da
natureza da luz interior formar uma cruz. A luz exterior é o reflexo da luz interior
e a luz interior é expressa na luz exterior. Assim, podemos ver que a luz interior
não se manifesta somente na luz exterior, a luz exterior é a imagem, a
semelhança, da luz interior.
Podemos também ver, se observamos as formas da natureza, a forma de uma
árvore, de uma planta, de uma flor, as formas dos animais e pássaros, e por fim
a forma mais desenvolvida e acabada do ser humano – que todos têm uma cruz
no seu formato. Se observarmos o formato da cabeça humana, vemos uma cruz.
A forma humana faz lembrar uma cruz. É sempre uma linha horizontal e uma
linha perpendicular, lembrando o símbolo da cruz e não existe nenhuma forma
que não tenha uma linha horizontal e uma linha perpendicular. Esses dois
aspectos diferentes ou diferentes direções é que formam a cruz. Assim sendo,
podemos compreender que nos mistérios da forma se oculta a cruz.

Falemos agora do primeiro mistério que mencionamos acima, isto é, que a


jornada do homem para o progresso espiritual é ilustrada com uma cruz: em
primeiro lugar o ego do homem, o seu eu, é seu inimigo, colocando-se como um
impedimento no seu progresso. Sentimentos como orgulho, presunção,
egoísmo, ciúmes, inveja e desprezo, são sentimentos que ferem os outros e
destroem a vida do homem, enchendo-a de misérias que brotam do sentimento
pessoal de egoísmo: o ego do homem. Quanto mais egoísta é o homem mais
presunçoso é, mais miserável é a sua vida no mundo e mais miserável torna a
vida alheia. Esse ego, ou “Nafs”, é um desenvolvimento natural na vida ou no
coração do homem: quanto mais o homem sabe do mundo, mais egoísta se
torna. Quanto mais compreende e experimenta o mundo, mais avarento se torna.

Ao nascer o homem não traz faltas. O homem nasce com a inocência, com o
sorriso que podemos ver nos bebês. A criança é amiga de todos que dela se
aproximam, está pronta para lançar um olhar amoroso em todos, seja um rico ou
um pobre, um amigo ou um inimigo, é atraída pela beleza em todas as suas
formas e é essa qualidade na criança que atrai as almas. Isso é uma prova de
que a mesma alma que vem ao mundo com tal pureza no coração, com pureza
de expressão, mostrando beleza em todos os seus movimentos, à proporção
que se desenvolve no mundo desenvolve na sua maneira de ser tudo que lhe é
pernicioso e prejudicial e aos outros. É no mundo que a criança, à proporção que
cresce, cria seus “Nafs”. Ao mesmo tempo, existe a bondade na parte mais
profunda do coração do homem, que é a bondade divina, e a retidão que herdou
do Pai Celestial.

A saudade da alegria, do repouso e da paz está sempre presente no homem, o


que prova que no homem há dois aspectos: uma natureza que está no fundo do
seu coração e uma natureza que se desenvolve depois de sua vinda à terra.
Surge então um conflito, uma luta, entre essas duas naturezas, quando a
natureza pertencente à parte mais profunda começa a sentir o anseio por alguma
coisa. Espera receber bondade dos outros, espera ter paz na vida, e quando não
encontra isso surge o conflito.

O homem cria na alma sua própria desarmonia e passa a tratar os outros


desarmoniosamente. Não fica satisfeito com sua própria vida e nem está
satisfeito com os outros, porque acha que tem reclamações em relação aos
outros, embora tudo seja causado por ele mesmo. O que ele dá recebe de volta,
mas nunca se apercebe disso. Pensa sempre que os outros devem lhe dar aquilo
que almeja no fundo do seu ser: amor, bondade, retidão, harmonia e paz, mas
se tiver que dar isso tudo simplesmente não dá, porque vive numa outra vida por
ele criada. Isso e uma demonstração de que em cada homem é criado um ser e
esse ser é o “Nafs”. Verdadeiramente falando, é a mesma concepção de Satã
que vemos em todas as escritura e tradições

Os homens em geral dividem o mundo dizendo que há nele dois estados de


espírito: o de uma pequena parte da humanidade que adora Deus e uma parte
maior que adora Satã, tornando o domínio do espírito de Satã mais vasto que o
domínio de Deus. Se compreendermos o significado da palavra Satã, veremos
que é o espírito do erro que foi coletado e reunido pelo homem depois de sua
vinda à terra, o “Nafs” que age como Satã, levando o homem constantemente a
se extraviar e a fechar os olhos de seu coração para a luz da verdade. Logo que
há uma revolução na vida do homem, logo que ele começa a olhar mais
profundamente para o interior da vida, logo que começa a adquirir bondade –
não apenas recebendo bondade mas dando-a, – logo que começa a apreciar
não só a simpatia dos outros mas mostrando simpatia aos outros, aí então chega
um dia em que o homem começa a ver o espírito Satã como uma coisa à parte
do seu ser verdadeiro, original, constantemente diante dele em conflito com sua
força natural, sua liberdade e inclinação. Nesse dia constata que pode muitas
vezes fazer o que deseja, mas outras vezes esse espírito se apodera dele e não
lhe permite fazer o que deseja. Muitos sentem-se enfraquecidos nessa luta e às
vezes se sentem fortes. O resultado é que ficam gratos e satisfeitos quando se
sentem fortes nessa batalha e quando se sentem fracos, arrependem-se, ficam
envergonhados e querem se modificar.

É essa a ocasião em que uma nova época começa na vida do homem e desse
momento em diante há um constante conflito entre ele e aquele espírito que é
seu ego. É um conflito, é uma espécie de empecilho à sua atitude natural, à sua
inclinação natural de fazer o bem e o correto e ele se defronta constantemente
com aquele espírito que foi criado no seu coração e se tornou parte do seu ser.
É um ser muito sólido e substancial, tão real como ele sente que é real e muitas
vezes é ainda mais real, é algo dentro dele que está no fundo do seu ser,
encoberto. Esse constante conflito entre seu ser verdadeiro original e esse ser,
impede seu progresso espiritual e é representado por uma cruz.

Essa cruz o homem carrega durante seu progresso. São as paixões feias, o amor
ao conforto, a satisfação na raiva e na amargura, que o homem precisa combater
em primeiro lugar e depois de vencer isso vai encontrar uma outra dificuldade,
um inimigo ainda mais sutil, que está na sua mente: a sensibilidade por tudo que
os outros dizem, pela opinião alheia a seu respeito. Fica ansioso para saber a
opinião de todos sobre sua pessoa ou o que falam contra ele, quem está
ofendendo sua dignidade ou posição. Encontra novamente o mesmo inimigo, o
“Nafs”, que toma uma outra posição. A crucificação é quando esse “Nafs” é
combatido, até chegar ao entendimento de que diante da visão de Deus não
existe nenhum eu.

Essa é a verdadeira crucificação. Com ela vem ainda uma outra, que sempre
segue a primeira e que toda alma tem que passar, porque a perfeição e a
liberação de todas as almas dependem dessa outra crucificação. É a crucificação
daquela parte do nosso ser criada por nós e que não é o nosso eu verdadeiro,
embora pareça que no caminho crucificamos nosso próprio ser.

O mistério da perfeição está no aniquilamento, não no aniquilamento do eu


verdadeiro e sim no aniquilamento do falso ego, da falsa concepção que o
homem sempre acalentou no seu coração e que permitiu que o torturasse a vida
inteira. Não é isso que vemos nos nossos amigos e conhecidos? Os que nos
atraem, aqueles a quem amamos e admiramos profundamente, sempre tiveram
uma qualidade realmente que nos atraiu: a personalidade. Não é somente sua
abnegação que nos atrai, mas o que repelimos na vida de nossos semelhantes
nada mais é que a grosseria que vem do “Nafs” ou, digamos assim, a densidade
e dureza do espírito criado pelo homem, ou ego.

Quando Cristo ensinou e pregou: “Abençoados os pobres de espírito, isso é


pouco compreendido. Ele não se referiu à pobreza do espírito divino e sim à
pobreza desse espírito criado pelo homem. Os que são pobres desse espírito
autocriado são ricos no espírito divino. Portanto, podemos chamar o “Nafs” de
espírito da grosseria, mas a melhor palavra para ele é ego.

Sempre existiram duas tendências: uma da sinceridade e a outra da


insinceridade e falsidade. Ambas trabalham juntas. O falso e o verdadeiro
sempre existiram lado a lado na vida e na natureza. Onde há pessoas sinceras
há as insinceras. Em todos os aspectos da vida – numa vida de espiritualidade,
na aquisição de conhecimentos, na arte ou na ciência – encontramos a
sinceridade e a insinceridade. A única maneira de reconhecer o verdadeiro
desenvolvimento espiritual é pela extensão da abnegação, porque embora uma
pessoa pretenda ser espiritual e deseje ser religiosa, piedosa ou boa, não pode
esconder sua verdadeira maneira de ser. Há uma tendência constante do ego
para escapulir, escapando do controle do homem. Se é insincero mostrará sê-
lo. Assim como a imitação do diamante, embora brilhante, é baça quando
comparada ao diamante verdadeiro, e quando testada e examinada mostra que
é uma imitação, também o verdadeiro progresso espiritual deve ser provado pela
personalidade de uma alma. É a personalidade que demonstra se um homem
tocou o reino mais elevado, onde o “eu” não existe.

Um outro e ainda maior mistério da cruz é observado na vida dos mensageiros,


dos profetas, dos seres santos. Em primeiro lugar ninguém entra no reino de
Deus sem que tenha sido crucificado. Num poema do grande poeta Persa Iraqi,
conta ele como chegou ao portão do Bem-Amado e bateu. Uma voz se fez ouvir:
“Não há lugar para mais ninguém nesta casa. Volte para o lugar de onde veio”.
Ele voltou. Depois de muito tempo, após ter passado pelo processo de carregar
sua cruz e ser crucificado. Iraqi voltou, cheio de espírito de abnegação. Bateu na
porta e ouviu a pergunta: “Quem és tu?” Iraqi respondeu: “Somente tu, porque
ninguém mais existe senão tu”. Deus então disse: “Entra nesta casa porque ela
agora te pertence”.

É essa abnegação – quando o pensamento do eu não mais existe, está morto –


que é o reconhecimento de Deus. Encontramos esse espírito em pequena escala
no amante e no bem-amado comuns, quando um ama o outro no fundo do
coração. Naquele que diz: “Eu te amo mas com restrições”, “Eu te amo mas te
dou uma certa quantia e fico com a outra”, “Eu te amo mas quero manter uma
certa distância, nunca chegarei mais perto, somos seres separados”, o amor está
misturado com o eu. Enquanto isso existir o amor não exerceu plenamente suas
funções. O amor executa seu trabalho quando estende suas asas e cobre com
um véu o eu do homem para que não o veja. Esse é o momento em que o amor
se realiza. É o que acontece na vida dos santos: não só amaram a Deus
consagrando suas vidas a Ele, como provaram praticando o auto-esquecimento.
Esse estado de realização do ser é que é chamado de cruz.

Entretanto, essas almas encontram uma cruz em toda parte. Cada um de seus
movimentos é uma cruz, uma crucificação. Em primeiro lugar vivem num mundo
cheio de falsidades, cheio de traições, enganos e egoísmo, em que cada
movimento que fazem, todas as suas ações, tudo que pensam e dizem, provam
que seus olhos e corações estão abertos para coisa diferente daquilo que o
mundo vê. É um conflito constante. É viver no mundo, entre pessoas do mundo,
mas olhando para um lugar diferente. Mesmo se tentassem falar não poderiam.
As palavras não podem expressar uma concepção real da verdade final. É como
se lê no Vedanta: “O mundo é “Maya” e “Maya” significa algo irreal”. Para essas
almas o mundo se torna mais irreal assim que começam a ver o real e,
comparando o mundo com essa realidade, o mundo parece muito mais irreal.
Uma pessoa comum pode imaginar a que ponto o mundo se manifesta aos olhos
desses seres.

As pessoas boas que vivem neste mundo, mas não chegaram ainda à perfeição
espiritual, que são sensíveis, ternas e bondosas, notam como o mundo as trata,
como são mal compreendidas, como o melhor é tirado pelo egoísta, como o
generoso tem que dar cada vez mais, como o que serve tem que servir mais e
mais, como o que ama tem que amar cada vez mais. Com isso tudo, o mundo
ainda não se sente satisfeito. Como a vida para esses seres é dissonante!
Pensemos naqueles que chegaram a esse estágio de realização onde há um
vasto abismo entre o rel e o irreal e que, quando chegam a essa realização, sua
linguagem não é mais compreendida, forçando-os a falar numa linguagem que
não é a sua e dizer coisas diferentes daquilo que estão realizando. É mais que
uma cruz. Não só Jesus Cristo teve uma cruz para carregar, como todos os
Mestres que têm uma mensagem a dar têm sua cruz.

Mas – pode-se perguntar – por que os Mestres da humanidade que vieram ao


mundo de tempos em tempos e tiveram essa cruz para carregar, não se
refugiaram nas florestas, nas cavernas, nas montanhas? Por que ficaram no
mundo? Rumi descreveu com muita beleza a razão disso. Contou por que o
canto da flauta de junco eleva tanto o coração dos homens. Primeiramente
cortaram o junco e o separaram do tronco original. Depois fizeram buracos no
seu coração. Seu coração partiu-se e começou a chorar. O mesmo acontece
com o espírito do Mensageiro, com o espírito do Mestre: carregando e
suportando sua cruz, seu eu torna-se um junco cheio de buracos, possibilitando
ao músico usar seu instrumento para nele tocar sua melodia. Quando tornou-se
nada, coisa alguma, o músico usa-o para tocar sua melodia. Se ainda existisse
alguma coisa, o músico não poderia usá-lo.

Deus fala com todos, não só aos Mensageiros e Mestres, fala aos ouvidos de
cada coração, mas não é todo coração que ouve Deus. A voz de Deus é mais
alta que o trovão e Sua luz é mais clara que a luz do Sol, se o homem ao menos
pudesse ouvir e se pelo menos pudesse ver. Para ouvir e ver o homem precisa
derrubar esse muro, essa barreira, que fez do seu ser. Aí então será
transformado na flauta na qual o Divino Músico pode tocar Sua música de Orfeu,
encantando até os corações de pedra. O homem se erguerá da cruz e entrará
na vida eterna.
Orfeu

Há sempre um significado profundo ligado às lendas dos antigos Gregos, como


também dos antigos Indianos, Persas e Egípcios. Também é muito interessante
notar como a arte dos Gregos, repleta de beleza, tinha um significado muito mais
profundo do que pode mostrar na superfície. Estudando-a encontramos a chave
dessa cultura antiga.

Um exemplo é o significado simbólico da história de Orfeu. Na primeira parte da


história ficamos sabendo que não havia nenhum objeto que uma pessoa
desejasse do fundo do coração que se perdesse para sempre. Mesmo se o
objeto do amor que a pessoa desejasse estivesse no fundo da terra, onde só a
razão pudesse vê-lo, poderia ser alcançado desde que a pessoa o perseguisse
com bastante dedicação.

Outra coisa que aprendemos foi que, a fim de obter um objeto, só o elemento
amor não é suficiente, além do amor precisamos da sabedoria, daquela
sabedoria que desperta a harmonia e se afina com as forças cósmicas,
ajudando-nos a alcançar o objeto desejado.

O sábio de todos os tempos e de todos os países aceita a seguinte verdade:


aquele que possui o conhecimento do som conhece toda a ciência da vida.
Assim, a invocação aos deuses feita por Orfeu significa que ele tinha entrado em
contato com todas as forças harmoniosas que, reunidas, trouxeram-lhe o objeto
que ele desejava obter. Mas a mais fascinante parte da história é o fim, tanto
pelo seu significado como pelo seu conteúdo artístico. Orfeu caminhava e
Eurídice o seguia. Ele tinha sido avisado para não olhar para trás. Se fizesse
isso Eurídice lhe seria arrebatada. O significado disso é o seguinte: o segredo
de todas as coisas está na fé. Se a fé de uma pessoa a acompanha durante
noventa e nove milhas e só falta uma milha para alcançar o objeto, se a pessoa
tiver uma dúvida, apesar do curto percurso que falta para percorrer, não pode
mais esperar obter o objeto desejado.

Aprendemos uma lição, uma lição que pode ser usada em tudo que fizermos na
vida, em cada passo da vida, ou seja, para obter qualquer coisa precisamos da
fé. A menor falta de fé em forma de dúvida estragará tudo que tivermos feito.

“Verdadeiramente a fé é luz, a dúvida é escuridão.”


O mistério do sono

Na vida cotidiana o maior amigo da criança é quem a ajuda a dormir. Apesar dos
brinquedos, bonecos e doces que damos às crianças, é quando ajudamo-las a
dormir que se mostram mais agradecidas. Quando a mãe, com suas mãos
abençoadas, acomoda a criança e a faz adormecer, é um grande benefício para
ela. A criança sente que é a criatura mais feliz do mundo.

Quando os doentes cheios de dores conseguem dormir, sentem-se felizes.


Todos os sofrimentos desaparecem com o sono. Se conseguirem dormir, sentem
que poderão suportar tudo. Se não podem dormir, pedem ao médico que Ihes
dê qualquer coisa para conciliar o sono. Se for oferecido a alguém um palácio
real, todos os divertimentos, todo o luxo, os melhores ambientes, os melhores
pratos e lhe disserem que tudo isso é dado sob a condição de não dormir, esse
alguém dirá: “Não aceito, prefiro meu sono”.

A diferença entre um ser feliz e um ser infeliz, é que o infeliz não consegue
dormir. A tristeza, os cuidados, a ansiedade e as preocupações tiram-lhe o sono,
Por que motivo os indivíduos ingerem bebidas alcoólicas e drogas de toda
espécie? Só para poder dormir. Um homem ao beber álcool começa a sentir um
sono leve porque o álcool é um estimulante. Os pés e as mãos ficam
adormecidos e a língua também. Não consegue falar distintamente, não anda
direito e acaba caindo. O prazer do sono é tão grande para quem quer dormir
que, depois de beber pela primeira vez e sentir-se sonolento, o indivíduo deseja
sempre beber. Faz inúmeros propósitos de nunca mais beber, mas sempre bebe.
Em um de seus poemas escreveu Rumi: “Ó Sono, todas as noites livras o
prisioneiro de seus grilhões”. Quando o prisioneiro dorme não se lembra que está
numa prisão. Sente-se livre. O desgraçado não é mais desgraçado, está
contente, o que prova que a alma não sofre e não fica na miséria. Se assim
fosse, a alma também sentiria o sofrimento ou a miséria quando o corpo
estivesse adormecido. A alma, pois, não sente a miséria do corpo e da mente.
Quando o indivíduo desperta é que a alma pensa que está sofrendo e que é
desgraçada. Tudo isso mostra a grande felicidade do sono. Essa imensa
felicidade é dada ao homem sem qualquer ônus, como tudo que temos de melhor
na vida. Nada pagamos pelo sono, mas pagamos milhares de cruzeiros por jóias,
por pedras preciosas, que não têm nenhum uso indispensável para nós.

O homem não avalia a grande importância do sono porque o benefício do sono


não é coisa que possa ser vista ou tocada. Se o homem está muito ocupado, se
tem negócios em vista que poderão lhe trazer muito dinheiro, dedica seu tempo
de preferência aos negócios em detrimento do sono, porque nos negócios vê
que pode ganhar milhares de cruzados enquanto que não pode ver o que ganha
com o sono.

Passamos geralmente por duas fases quando adormecemos: o sonho e o sono


profundo. O sonho é atividade descontrolada da mente. Quando estamos
acordados, quando nossa mente trabalha sem controle, vemos cenas que
surgem do nosso armazém de impressões. Chamamos isso de imaginação.
Quando controlamos a atividade da mente, chamamos isso de pensamento. As
imaginações que surgem durante o sono chamamos de sonhos. Não chamamos
os sonhos de reais, porque nosso estado de vigília nos mostra coisa diferente,
mas quando não estamos no estado de vigília, as imaginações que chamamos
sonhos são reais.

Comumente, quando estamos num sono profundo, não temos consciência de


coisa alguma. Quando acordamos nos sentimos refrescados e renovados. E o
que fazemos quando estamos profundamente adormecidos? A alma se liberta
das garras do corpo e da mente. Está livre, vai para seu próprio elemento: as
esferas mais elevadas. Aprecia o lugar onde está e sente-se feliz. Experimenta
a plenitude da felicidade, a bem-aventurança e a paz das altas esferas.

Além do sonho e do sono profundo, há as visões. As visões aparecem quando a


alma no sono está ativa nas esferas elevadas. O que a alma vê nas esferas
elevadas a mente interpreta em quadros alegóricos. A alma vê com clareza as
coisas reais. Tudo que a mente recebe da alma como impressões, é mais ou
menos o que a alma vê. Portanto, as coisas são vistas como uma pintura, uma
alegoria, uma parábola. O sábio pode interpretar o que a alma vê, porque
conhece a linguagem das esferas elevadas. Se ele se vê descendo ou subindo
uma montanha, em andrajos ou ricamente vestido, num avião ou num deserto,
sabe o que significa. O ignorante não pode fazer isso. Pensa simplesmente que
foi um sonho, sem a mínima importância.

Numa visão o indivíduo vê tanto o que lhe diz respeito como o que diz respeito
às pessoas em que está interessado. Se está interessado no seu país ou na
humanidade, saberá o que fazer com relação à nação ou à humanidade.

No sonho pode-se ouvir uma voz ou pode-se receber uma mensagem escrita. É
uma visão mais elevada. Os santos e sábios vêem através da visão exatamente
o que vai acontecer ou a situação do momento, porque suas mentes estão
controladas pela vontade. Assim, mesmo durante o sono as suas mentes não
pensam, por um minuto sequer, que podem atuar independentemente de suas
vontades. O que quer que a alma veja é mostrado exatamente como está sendo
visto. Santos e sábios têm visões mesmo acordados, porque suas consciências
não estão aprisionadas no plano terreno. Agem livremente nas esferas mais
elevadas, mesmo quando estão despertos.
Além do sonho, da visão e do sono profundo, os místicos experimentam outros
dois estados que são: o sonho auto-induzido e o sono profundo auto-induzido.
Chegar a isso é o propósito do misticismo. É tão fácil que posso explicá-lo nestas
poucas palavras, mas tão difícil que curvo a cabeça diante daquele que chegou
a esses estados. São conseguidos por meio da concentração e da meditação.

É extremamente difícil manter um só pensamento na mente e deixar a mente


livre de todos os outros pensamentos, de todas as imagens. Mil pensamentos e
mil imagens estão sempre surgindo e desaparecendo. Dominando isso o místico
domina tudo o mais. Acordado pode viver simultaneamente no plano terreno e
nos planos mais elevados. Adormece num plano e desperta num outro plano.
Em geral dizem que os místicos que assim agem são grandes ocultistas, são
psíquicos. Não é o objetivo do místico. Seu objetivo é a verdadeira
conscientização, a vida real que está além: Deus. Quando os místicos alcançam
esse estágio, tudo se abre para eles. A alma se abre para a sabedoria. Todos os
livros, todos os conhecimentos do mundo se tornam inteligíveis.
Conscientização

A pergunta que se faz constante na mente de todos os metafísicos é se a


consciência vê sem olhos ou se precisa de olhos para ver. Se a consciência pode
ver sozinha, sem a ajuda dos olhos, então por que esses olhos foram criados?
Há pessoas que podem ver coisas que estão acontecendo a uma distância de
muitos milhares de milhas e coisas que já aconteceram há muitos anos. Havia
um dervixe em Hyderabad que tinha o hábito de fumar um haxixe muito forte.
Quando deixava a fumaça sair pela boca costumava olhar dentro dela e
respondia qualquer pergunta que lhe fizessem. Se alguém lhe perguntava:
“Onde está agora meu tio?” respondia: “Seu tio? Em Calcutá, perto do bazar, a
segunda casa à esquerda. Seu tio está sentado no seu quarto, o criado está ao
seu lado e seu filho está diante dele”. Respondia a qualquer pergunta que lhe
fosse feita. Sua consciência não tinha diante dela sua pessoa exterior e assim
era capaz de ver através dos olhos de outra pessoa, através dos olhos do tio ou
qualquer outro. Não via a consciência sem os olhos.

Quando estive na Rússia, encontrei-me com um Africano, um homem comum.


Não era um homem que tivesse tido educação. À noite, quando estava
adormecido, sabia o que tinha dito ou feito a qualquer pessoa que tivesse estado
em sua casa. Porque sua alma estava dentro e ao redor da casa e ela via através
dos olhos de quem fosse lá.

A faculdade de ver existe na consciência desde o início. Portanto entre os nomes


de Deus encontramos a palavra Basir, que quer dizer o que Vê, e Sami, o que
Ouve. Basárat, a faculdade de ver, se torna mais exata, quanto mais perto se
aproxima da manifestação. Da mesma forma, a consciência universal vê através
dos olhos de cada ser na terra. Está vendo através dos olhos de um e ao mesmo
tempo através dos olhos dos milhões de seres na terra. O ladrão pode roubar
alguma coisa, escondê-la, carregá-la e pensar que ninguém o está vendo, mas
não pode escapar da vista da consequência dentro dele, vendo através de seus
olhos. Não é que Deus olhe à distância e veja todas as criaturas na terra, ele vê
através dos próprios olhos dos seres. Alguém pode perguntar se Deus não fica
limitado por isso, impotente e dependente, mas se é assim que as coisas
parecem ser para nós, é porque reduzimos Deus a uma parte do Seu ser.
Tomamos uma parte e a chamamos de nossa, nosso eu, enquanto que na
realidade tudo é Deus, o único Ser. Disse um poeta do Hindustão: “O que
chamarei de meu ser? O que quer que eu veja tudo é Tu, corpo, mente, alma,
tudo é Tu. Tu és, eu não sou”.
Os místicos não só vêem no sono o que pode acontecer à distância, como a todo
tempo. Algum tempo atrás vivia em Delhi um místico ou mestre chamado Shah
Alám. Estava cortando o cabelo e olhava-se num pequeno espelho, daqueles
usados na Índia, enquanto o barbeiro trabalhava. Subitamente atirou espelho no
chão, que ficou em pedaços. Os discípulos que o acompanhavam ficaram
atônitos, o barbeiro também ficou espantado, imaginando o motivo do mestre ter
atirado no chão o espelho com tanta violência. Mais tarde ele explicou o que
tinha acontecido. Naquele momento um de seus discípulos estava viajando por
mar da Arábia para a Índia. Uma tempestade caiu sobre o navio em que o
discípulo estava e ele corria grande perigo. O discípulo implorou ajuda do Mestre.
Ele viu o perigo no espelho e salvou-o.

De uma maneira geral uma alma iluminada pode ser consciente de todos os
acontecimentos passados na evolução do homem. Mas este olho que é tão
acomodado coleta dentro de si tudo que vê? E a mente, através da qual o homem
recebe a sua memória, a fonte mais maravilhosa de registros que existe, sempre
relembrando tudo que vê e experimenta por meio da visão? Não, só certas coisas
que deixaram uma impressão mais profunda nela. Se pudéssemos lembrar tudo,
todas as boas e más palavras que as pessoas falaram, toda a lteratura que
temos lido e tudo de tolo e maluco que ouvimos, onde afinal estaríamos? os
seres humanos têm uma mente, um corpo. Sua saúde depende inteiramente do
que colocam dentro de si e expelem. Se não fosse assim, o homem não teria
capacidade de viver. Ele assimila a essência e descarta-se do resto. Do mesmo
modo, aquilo que a pessoa toma do mundo angelical e do mundo dos djins é
apenas a essência, a essência da experiência. Aquele que se recorda de todas
as coisas boas e más do passado não deve ser invejado, pois deve ter tido
muitas experiências de remorso, o que deve ter criado nele amargura. O maior
alívio é esquecer, o mesmo que banhar-se no Ganges. O presente tem tantas
coisas bonitas para nos oferecer! Se quiséssemos poderíamos simplesmente
abrir os olhos para olhá-las e não precisaríamos olhar a beleza do passado. A
beleza está sempre aqui.
Consciência

CONSCIÊNCIA é um produto da mente, o melhor que a mente produz. A


consciência de uma pessoa que vive num determinado país pode ser
completamente diferente da consciência de outra que viva noutro lugar, pois sua
consciência é construída de elemento diferente. Por exemplo, nos tempos
antigos, eram comuns as comunidades de ladrões, que achavam perfeitamente
justificável roubar as caravanas que passavam por seus territórios. Sua moral e
princípios eram de tal ordem que se uma de suas vítimas dissesse: “Dou-Ihes
tudo que possuo contanto que me deixem passar” responderiam: “Não
aceitamos, o que queremos é ver o sangue de suas mãos”. Não deixavam a
vítima partir antes de feri-la. A idéia era a seguinte: “Não aceitamos nada de vós,
não somos mendigos, somos ladrões. Arriscamos nossas vidas na nossa
profissão. Somos homens bravos e, portanto, temos o direito de fazer o que
estamos fazendo”. Os piratas dos mares tinham a mesma idéia. Achavam que
havia virtude na sua profissão. Partindo dessa idéia se intitulavam reis. Quando
eram em pequeno número eram ladrões, quando se tornavam numerosos, eram
reis.

A consciência, portanto, é o que dela fazemos e é a coisa mais linda que um


homem pode fazer. É como o mel feito pelas abelhas. Dentro de nós se agrupam
belas experiências da vida, pensamentos e sentimentos carinhosos, criando uma
concepção do certo e do errado. Quando há oposição há desarmonia. A
felicidade, o conforto na vida, a paz, tudo isso depende do estado da nossa
consciência.

A vida no mundo é construída sobre convenções e idéias que admitimos como


verdadeiras. A consciência é erigida sobre edifício assim construído. As
convenções necessitam de exclusividade para se desenvolver, precisam do
meio ambiente. São elas que causam a diversidade da humanidade. Nenhuma
civilização, por mais avançada que seja, pode evitá-las completamente. O
progresso da civilização cria necessidades desse tipo. Ninguém gosta de admitir
isso, mas todos vivem de acordo com as convenções, quer queiram quer não. O
artista não é convencional porque vive no seu próprio mundo. Quanto maior o
artista mais anticonvencional é, mas o homem comum não pode viver no mundo
e ignorar o convencionalismo.

A melhor forma de compreender a civilização é através do caminho espiritual.


Logo que o homem começa a compreender a moral espiritualista não necessita
mais aprender a moral instituída pelo homem. Ela aflora por si mesma. Quando
o homem começa a levar em consideração, ao lidar com cada pessoa com quem
se defronta, o prazer e o desprazer de Deus, não pode deixar de ficar mais
requintado, qualquer que seja sua posição na vida. Pode viver numa cabana,
mas suas maneiras suplantarão as maneiras de quem vive num palácio. Além
disso, assim que um homem começa a julgar suas próprias ações, a beleza se
desenvolve em sua maneira de ser. Tudo que fizer será justo e belo. Não precisa
mais estudar as convenções do mundo. Entra aí a concepção Sufi de Deus como
o Bem-Amado. Quando essa concepção – que o espírito divino está em maior
ou menor grau em cada um de nós – é usada na nossa vida diária e é levada em
consideração no trato com todos, o homem começa a olhar todas as pessoas
com a maior devoção e respeito, com o mesmo pensamento e consideração que
dispensaria ao Bem-Amado, a Deus.

A vida espiritual ensina ao homem dessa maneira o melhor que existe no


convencionalismo. Quando uma civilização é construída em bases espirituais, o
que vai acontecer, um dia, o convencionalismo no mundo se tornará genuíno e
digno de ser seguido.

A consciência é construída da nata, da fina flor dos fatos e não da verdade, pois
a verdade paira acima de todas as coisas. Nada tem a ver com a consciência.
Entretanto, a compreensão da verdade é como uma fonte que se eleva e se
integra num oceano. O homem chega a um tal grau de compreensão que
compreende que tudo é verdadeiro e tudo é verdade. Sobre a verdade absoluta
não há nada mais a ser dito. Tudo mais é “Maya”, ilusão. Quando vemos esse
assunto sob este ponto de vista, nada é errado e nada é certo. Se aceitamos o
certo temos também de aceitar o errado. A teoria da relatividade de Einstein é o
que os Hindus chamavam de “Maya”, a ilusão causada pela relatividade. As
coisas existem somente porque nós as aceitamos. Aceitamos uma determinada
coisa como certa, boa e bela e uma vez aceita, torna-se parte de nossa maneira
de ser, de nosso eu individual. Se não aceitamos certas coisas elas passam a
não existir. Um engano não é um engano a não ser que o aceitemos como tal.
Assim que aceitamos uma coisa como engano, passa a ser um engano.
Podemos dizer que nem sempre sabemos se se trata realmente de um engano.
Não ficamos sabendo que uma coisa é um engano pelas consequências
dolorosas que ela nos traz? Isso também é aceitação.

Existem dervixes que trabalham contra fatos aceitos como verdadeiros. Por
exemplo, trabalham contra o fato tido como verdadeiro de que o fogo queima.
Pulam dentro do fogo e saem incólumes, sem uma queimadura. Dizem que o
fogo do inferno não é para eles. Se podem provar que o fogo não é capaz de
queimá-los aqui na terra, não haverá fogo para eles depois da morte física.

A melhor maneira de testar a vida é usar a própria consciência como um


instrumento para testar tudo, sentindo se há harmonia ou desarmonia, mas em
nós há uma constante ação e reação da consciência. A razão disso é que o ser
humano tem fases diferentes de existência. Numa fase é menos sábio. É mais
sábio quando mergulha mais profundamente dentro do seu ser. O que faz numa
esfera poderá rejeitar noutra esfera. O homem tem tanto a rejeitar e lutar dentro
dele que tem essa ação e reação mesmo sem entrar em contato com os outros.

Muitas vezes uma pessoa num certo estado de espírito é um demônio e noutro
é um santo. Há estados de espírito e ocasiões em que uma pessoa se exorbita
naquilo que faz. Tem acessos de bondade e acessos de maldade. Essa é a
natureza humana. Assim, pois, ninguém pode dizer que uma pessoa má não tem
bondade, nem que uma pessoa boa não tem maldade. O que mais influencia
nossa consciência é a nossa concepção do certo e do errado e a outra influência
é a concepção dos outros. É por este motivo que o homem não é livre.

Acontece com tudo mais o que acontece com a consciência. Se a consciência


se habituar a governar nossos pensamentos, palavras e ações, torna-se mais
forte. Se não está acostumada a isso torna-se mais fraca e é nada mais que uma
tortura, não é uma controladora.

A consciência é uma faculdade do coração como um todo. O coração se compõe


da razão, do pensamento, da memória e do coração propriamente dito. Na sua
parte mais profunda o coração está ligado à Mente Divina. Assim, no fundo do
nosso coração está uma justiça muito maior que a justiça vista na superfície do
mundo. Assim, surge uma espécie de intuição, de conhecimento, como a luz
interior cai na nossa concepção individual das coisas. Ambos se unem. Na
consciência o próprio Deus está sentado no seu trono de justiça.

O homem condenado por sua consciência é muito mais miserável que um


homem condenado por uma corte de justiça. O homem que tem uma consciência
limpa, mesmo exilado de seu país ou enviado para uma prisão, continua a ser
um leão, embora seja um leão preso numa jaula, pois mesmo dentro de uma
jaula pode existir a felicidade interior. Entretanto, quando a nossa própria
consciência nos despreza, é uma punição muito mais amarga, mais amarga que
qualquer outra punição decretada por uma corte de justiça. Sa’di falou sobre isso
de uma forma muito bonita. Viu o trono de Deus na consciência dizendo: “Permita
que eu confesse minhas culpas só a Ti, para que eu não tenha que me
apresentar diante de ninguém do mundo para me humilhar”.

Assim que aceitamos a humilhação somos humilhados, se pensarmos assim ou


não. Não depende de quem nos humilha, depende de nós. Mesmo se o mundo
inteiro não aceitar a humilhação, não importa, porque nossa mente está
humilhada. Se nossa mente não a aceitar, não tem importância se o mundo
inteiro aceitar. Quando milhares de pessoas se aproximam e dizem que somos
maus, não acreditamos enquanto nosso coração não nos disser que somos
maus, mas quando nosso coração diz “você é mau”, milhares de pessoas podem
dizer “você é bom” que não acreditamos, porque nosso coração continuará
dizendo que não somos bons. Se nos rendermos ninguém nos ajudará.

O melhor certamente é evitar a humilhação, mas se não podemos evitá-la, passa


a ser uma doença que precisa de tratamento médico. O homem sob humilhação
precisa de alguém bastante forte para ajudá-lo, uma mente-mestra que o assista
e supere a situação. Quando uma pessoa está doente nem sempre pode se
ajudar. Pode fazer muita coisa, mas há sempre necessidade de um médico.
Entretanto, quando o sentimento de humilhação penetrou na nossa mente,
devemos aceitá-lo como uma lição, como um veneno necessário. Entretanto
veneno é veneno. O que colocamos dentro da mente cresce. O que não deve
ficar deve ser removido da mente, porque se permanecer crescerá. Todas as
impressões como humilhação, medo, dúvida, crescerão na mente subconsciente
e darão frutos. Chegará um dia em que a pessoa se torna consciente dessas
impressões.
O dom da eloquência

Quando estudamos o reino mineral, o reino vegetal e o reino animal,


simultaneamente com o gênero humano, notamos que não só o homem tem o
dom da eloquência: todos os outros seres possuem o dom da eloquência. A
rocha expressa-se muito pouco; seu poder de expressão é mínimo. Nosso
sentimento para com a rocha é muito pequeno. Golpeamos a rocha, quebramo-
la, fazemos dela uma pedreira e usamos as pedras para diversos fins. Não nos
compadecemos dela absolutamente, porque a rocha não se comunica conosco,
não nos diz nada, exprime muito pouca coisa. Com a planta nossa simpatia é
muito maior. Amamos as plantas, cuidamos delas, regamo-las. Como a planta é
mais expressiva, merece de nossa parte muito mais cuidados. Quanto às pedras
preciosas, há algumas que nos falam mais que outras. Apreciamos mais o
diamante, o rubi, a esmeralda. Pagamos preços altos por essas pedras porque
gostamos de usá-las.

Um animal tem um dom de expressão muito maior que o de uma planta ou de


uma rocha. Os animais estão muito mais perto de nós. O cão quando abana a
cauda, salta ou faz qualquer movimento, quer nos dizer: “Eu te amo”. Gostamos
muito mais de um cão, gostamos também da planta, mas não apreciaríamos ter
a planta perto de nós em cima de uma cadeira e sim que um cão ali estivesse ou
pulasse de vez em quando para cima da cadeira. O gato não pronuncia palavras
como o cão, mas fala conosco da mesma maneira usando a voz. Em todas as
partes do mundo as pessoas elogiam os rouxinóis por sua bela voz, pelo seu
canto expressivo. Existem muitos pássaros nas florestas mas nunca pensamos
por que não cantam. Todos nós conhecemos pássaros canoros e gostamos de
ter um papagaio porque sabe falar.

No Corão está escrito que Alá fez o homem um Khalifa, o chefe da criação, por
seu dom de falar. Só o homem recebeu a dádiva da eloquência. Enquanto alguns
homens são parecidos com uma rocha e outros são iguais a uma planta, ou a
um animal, alguns possuem a qualidade humana. O homem que se assemelha
à rocha não tem expressão, mas tem magnetismo. Tem aquilo que aparenta ter,
nada mais. É como as pedras, por exemplo, como a esmeralda ou o rubi, que
quando desaparecem nada deixam. O homem semelhante à planta não possui
inteligência, tem somente uma certa sensibilidade, uma certa personalidade.
Pode haver nele alguma beleza, ou pode ser como um espinho ou veneno. O
homem que se assemelha a um animal tem sentimentos e paixões, mas não
pode expressá-los. O homem só é um ser humano quando possui o dom da
expressão e pode falar sobre o que sente.

O dom da eloquência é simbolizado pelos Hindus como “Vãk”, a deusa da


palavra. Por que não um deus? Porque aquele que fala reage e é responsivo ao
Criador, o Deus interno. Os Hindus também fazem distinção entre tipos de
homens: o “Rakshasa”, o monstro; o “Manusha”, o homem; e o “Devata”, o
homem que se assemelha a Deus. O monstro é o que não pronuncia palavras e
não tem sentimentos. O homem humano possue sentimentos mas não tem
expressão. O homem que se assemelha a Deus é o que tem eloquência. É a
eloquência que faz do homem o que ele é.

A eloquência existe desde o começo da manifestação. Antes da criação do


homem havia a Palavra, mas nem a rocha, nem a planta e nem o animal podiam
expressar a Palavra. Só o homem podia expressar a Palavra e quando ela era
expressa pelo homem tornava-se a pena com que escreveu o Ser Divino. É por
isso que a criação é aperfeiçoada no homem. Ele é o mais elevado dos seres.
Contudo, é fazer mau uso da eloquência falar ou, através da palavra, magoar ou
ferir o coração e os sentimentos dos outros. Há um ditado Russo: “Uma
linguagem doce é uma espada que conquista o mundo”. A espada tem dois
aspectos: vence e mata. A linguagem também pode vencer e assassinar. A
mesma idéia é expressa no Evangelho: “Abençoados os humildes, pois herdarão
a terra”.

O mundo é como uma cúpula: qualquer coisa falada volta para quem falou. Se
dissermos: “Como é lindo!” essas palavras voltarão para nós. Se dissermos:
“Que estúpido!” o eco responderá: “Que estúpido”. O homem pensa que é uma
pessoa tão importante que pode dizer o que bem entende, mas um dia o eco de
suas más palavras voltará para ele.

Muitas vezes uma pessoa não fala com o amigo com a intenção de feri-lo, mas
sem querer fala-lhe rispidamente, porque sua mente está repleta de más
impressões que ficaram nela armazenadas. É por isso que devemos armazenar
somente as boas impressões e não guardar as más impressões, a fim de que
venha para dentro de nós somente o que é bom.

Há duas maneiras de falar sobre um assunto: uma é ponderar antes de falar e


depois falar usando todo raciocínio que vier à mente. Essa é a maneira de falar
do papagaio. Repete-se o que se aprende, como um papagaio diz certas
palavras porque Ihe foram ensinadas. A outra maneira de falar é depender do
armazém de conhecimentos que está sempre à nossa disposição dentro de nós.
Para fazer uso desses conhecimentos é necessário ter uma flecha. Essa flecha
é o sentimento profundo que transpassa tudo. O conhecimento está sempre
presente, mas se não tivermos eloquência, o conhecimento de nada nos valerá.
É muito fácil achar graça numa pessoa que está na rua toda inclinada para um
lado, toda torta, mas se tivermos um pouco de sentimento, a piedade se instala
em nós. Um profundo sentimento leva à expressão ou ao gesto de piedade e
compaixão.
O poder do silêncio

No Vedanta a respiração é chamada de Prana, vida. A respiração é uma corrente


que liga simultaneamente o corpo, o coração e a alma. É tão importante que,
quando deixa o corpo – este nosso corpo tão amado e cuidado que ao menor
resfriado e tosse é tratado pelos médicos com remédios – não tem mais
nenhuma utilidade. Não se pode conservar vivo o corpo.

Falar é violar a respiração, ou por outra, para falar são precisos muito mais
sopros ou exalações do que seriam precisos se não falássemos. A respiração é
como o arco com que a criança brinca: as voltas que o arco dá dependem da
força da vara que o impulsiona. Quando não há mais força o arco cai. É também
como o tique-taque do relógio. O relógio funciona pelo tempo da corda que lhe é
dada, pode ser 24 horas ou uma semana, mas não trabalha além do tempo
determinado, não importa a corda que lhe dermos. Comparemos a respiração
com o pião. Dá voltas de acordo com a força que lhe é imprimida. Quando acaba
a força, o pião pára e cai. Ao nascer damos nossa primeira respiração. Nossa
vida durará enquanto estivermos respirando. Desperdiçamos muito da nossa
vida falando. O silêncio de um dia significa mais uma semana de vida e até mais.
O falar de um dia significa uma semana menos de vida. O Silêncio é o remédio
para muitos, embora, naturalmente, o homem vivendo no mundo não possa
praticar o silêncio continuadamente, mas pode muito bem vigiar as palavras que
profere, lembrando-se que para cada palavra que diz será premiado com o céu
ou o inferno.

Desde os tempos antigos existem místicos na Índia chamados de “Muni”. Nunca


falam, embora façam toda espécie de trabalhos. Esses místicos sempre viveram
muito mais que nós agora: 300, 500 anos e mais.

Se deixarmos de falar, a nossa respiração não é interrompida, permanece


regular e constante. Os místicos sempre deram grande importância à respiração.
Fizeram do estudo da respiração o principal objetivo de seu treinamento. Os que
conseguiam ser mestres da respiração, adquiriam mestria em suas vidas. Os
que não dominavam a respiração, ficavam sujeitos a toda classe de doenças.
Muitos homens são inconscientemente mestres de suas respirações, como os
boxeadores e lutadores e algumas pessoas que levam uma vida correta.

No nosso tempo somos tão apaixonados pelo ato de falar que, quando uma
pessoa está só em casa, fica inquieta e quer sair, pelo menos para que possa
encontrar alguém com quem falar. Muitas vezes, quando as pessoas estão
sozinhas, falam com os objetos que as cercam. Muitos falam consigo mesmos
quando não têm ninguém com quem falar. Se pudéssemos explicar-lhes, talvez
compreendessem quanta energia perdem com cada palavra falada. O silêncio é
o relaxar da mente e do corpo, é repousante, tem efeito curativo. O poder do
silêncio é muito grande, não só porque o homem ao praticá-lo ganha e preserva
sua energia e vitalidade, como também há muitos benefícios de ordem moral
que podem ser obtidos pelo silêncio.

Muitas asneiras que cometemos são provenientes do falar. Numa semana


cometemos centenas de tolices, a maior parte causada por nossas palavras.
Quantas vezes ofendemos ou ferimos alguém por ter falado demais. Se
tivéssemos ficado calados, não teríamos machucado ninguém.

Há também o exagero. Os visionários, os que gostam de admirar alguma coisa,


têm a tendência de exagerar. Se uma pessoa na rua ouviu falar que um Zepelin
está para chegar (isso aconteceu em Londres na primeira Guerra Mundial),
imediatamente comunicava aos amigos, que ficavam amedrontados. Não dizia
que um Zepelin ia chegar e sim 20 Zepelins. Sentiam certa satisfação. Quando
os visionários se tomam de amores por uma pessoa, dizem que são como o sol
e a luz no céu. É um exagero, não há necessidade de dizer isso.

Ao falar o homem desenvolve também uma tendência à contradição. Não


importa o que esteja sendo dito, adota um ponto de vista oposto. Age como um
boxeador ou um gladiador que quando não tem ninguém para lutar fica
desapontado, tão forte é sua vontade de falar.

Estava certa vez numa recepção em casa de um amigo. Lá estava um senhor


que discutia com todos os convidados de tal maneira que todos já estavam
cansados. Tentei evitar essa pessoa, mas alguém fez as apresentações.
Quando ouviu dizer que eu era um professor de filosofia, pensou consigo: “Está
aí uma pessoa que me interessa”. A primeira coisa que me disse foi: “Não
acredito em Deus”. “Não?” perguntei-lhe, mas o senhor acredita nesta
manifestação e na beleza deste mundo de variedades e que há uma força oculta
que criou tudo isso, não é?” “Acredito nisso, mas por que iria eu adorar uma
personalidade e por que a chamaria de Deus? Acredito, mas não dou o nome
Deus”. Falei então: “O senhor acredita que cada efeito tem uma causa e que
para todas as causas deve haver uma causa original. Chame de causa, eu
chamo de Deus, é a mesma coisa. Há alguns oficiais a quem o senhor
cumprimenta, alguns superiores diante de quem faz uma reverência, por
exemplo, seu pai e sua mãe, alguma pessoa extraordinária que ama e adora,
por quem sente um sentimento de respeito, algum poder diante do qual se sente
indefeso. Como deve ser grande essa Pessoa que criou e controla tudo isso
como é digna de adoração”. Respondeu-me: “Mas eu não chamo essa pessoa
de divindade, chamo de poder universal, uma força que trabalha
mecanicamente, harmonizando tudo.” Quando eu tentava trazer essa pessoa
para um ponto, ela corria para outro. Quando eu ia de encontro ao seu ponto de
vista, pulava para outro, até que resolvi desistir, pensando nas palavras de
Shankaracharya: “Todas as coisas impossíveis podem se tornar possíveis,
exceto trazer a mente de uma pessoa tola ao ponto da verdade”.

A tendência à contradição pode crescer tanto que, quando certas pessoas


ouvem suas próprias idéias expostas diante delas, tomam imediatamente o
ponto de vista oposto, porque o que querem é se colocar em posição de poder
discutir. Há um ditado Persa: “Ó silêncio, tu és uma beatitude inestimável, cobres
as tolices do tolo e inspiras o sábio”.

Quantas coisas tolas dizemos só pelo hábito de falar! Quantas palavras inúteis
dizemos! Se somos apresentados a alguém, é preciso dizer alguma coisa, se
não falarmos pensam que somos indelicados. Tem início então aquela conversa:
“Que bonito dia, não acha? Está um pouco frio, não é?” ou então falamos
qualquer outra coisa sobre o tempo. Falar sem motivo, com o tempo torna-se
doença, porque a pessoa não pode mais viver sem encher a cabeça dos outros
falando de coisas absolutamente desnecessárias. Não consegue mais viver um
minuto sequer sem falar. Apaixona-se tanto pelo ato de falar que muitas vezes
conta toda a história da sua vida a um simples estranho, impede-o de falar,
apesar do estranho estar muito caceteado e gostaria bem de dizer: “Que me
importa tudo isso que você está contando?” Há até pessoas que revelam
segredos que mais tarde vão se arrepender de ter contado.

Sob o mesmo fascínio, o homem mostra impaciência em pronunciar as palavras,


mostra orgulho e preconceito. Mais tarde se sente triste por ter falado. A falta de
controle no falar é responsável por tudo isso. Muitas vezes a palavra é muito
mais apreciada que todos os tesouros do mundo, mas a palavra também pode
levar o homem a “passar pelo fio da espada”.

Existem maneiras diferentes de receber inspiração, mas a melhor é o silêncio.


Todos os místicos guardam silêncio. Durante minhas viagens pela Índia, todos
os grandes seres que encontrei mantinham silêncio pelo menos por algumas
horas e alguns por 24 horas.

Em Hyderabad havia um místico chamado Shah Khamush. Era chamado assim


por causa do seu silêncio. Khamush quer dizer silêncio. Foi um jovem muito
inteligente e enérgico. Um dia foi ao encontro do seu Murshid (mestre) e, como
de costume, tinha alguma pergunta a fazer-lhe, como era natural num discípulo.
O Murshid estava sentado em êxtase e como não queria falar com ele disse:
“Fique calado”. O jovem ficou muito impressionado, pois jamais havia escutado
o Murshid dizer tais palavras. Era sempre muito bondoso, paciente e pronto a
responder suas perguntas. Recebeu aquilo como uma lição que bastava para
toda a vida, porque era uma pessoa inteligente. Voltou à casa, não falou com a
família, nem com os pais. O Mestre vendo-o assim, não falou mais com ele.
Durante muitos anos Shah Khamush não falou. Seu poder psíquico se tornou
tão grande que era bastante olhar para ele para alguém ficar inspirado. Inspirava
para onde olhasse. Onde lançasse o olhar, curava.

Há intoxicação na atividade. Hoje em dia a atividade tem aumentado de tal forma


que de manhã à noite nunca há repouso, devido às nossas ocupações diárias
que nos mantêm em constante movimento. À noite estamos tão cansados que
só queremos dormir. Na manhã seguinte recomeçam as mesmas atividades.
Levando esse tipo de vida, muito deixa de ser aproveitado, é destruído. O
homem está tão ansioso com seus prazeres que não pensa na vida que aí está
para ser usufruída. Cada pessoa devia gelo menos tirar uma hora por dia para
ficar em silêncio e quieta!

Depois que falamos no silêncio vocal, vamos dizer algo sobre o silêncio no
pensar. Muitas vezes uma pessoa está sentada, quieta, sem falar, mas todo o
tempo seus pensamentos estão correndo de um lado para o outro na mente. Sua
mente não quer receber os pensamentos, mas eles entram de qualquer maneira.
A mente é para os pensamentos como um salão de baile para os dançarinos: o
que querem é rodopiar pelo salão dançando. Um pensamento pode ser tão
interessante, tão importante, que afugenta todos os outros pensamentos.

Quando os pensamentos são silenciados, vem o silêncio do sentimento. Não


devemos falar mal das pessoas, não deve existir em nossa mente nenhum
pensamento contra nossos semelhantes. Se houver um pensamento por menor
que seja contra uma pessoa em nosso coração, essa pessoa sente. Sente que
existe amargor contra ela no nosso coração. É o que acontece com o amor e a
afeição.

Abstrato quer dizer existência acima do mundo, onde todas as formas de


existência se fundem, onde todas se encontram. O abstrato, pois, tem um som.
Quando esse som também é silenciado e nós nos elevamos acima dele,
alcançamos o mais alto estado chamado “Najat”, o Eterno. Certamente é preciso
um grande esforço para atingirmos esse estado.
Santidade

Às vezes indagamos: o que significa a palavra “santo”? Muitos acham que santo
significa espiritual, pio, puro, religioso, mas nenhuma dessas palavras pode
verdadeiramente explicar o significado de santo. Santo é um grau acima de pio.
Pio é aquele que chegou à realização de Deus, santo é aquele que chegou à
auto-realização. O primeiro passo na direção da auto-realização é a realização
de Deus. Não é através da auto-realização que o homem realiza Deus.

Santidade é a centelha da divindade no homem. Devemos lembrar que nenhuma


alma é privada dessa centelha divina. Essa centelha é a luz propriamente dita.
Embora essa luz também exista na criação inferior, entre os animais e pássaros,
nas árvores e plantas e em qualquer forma de vida, é no homem que a centelha
divina se transforma numa chama. A princípio essa luz fica sepultada no coração
do homem, mas logo que a centelha divina começa a brilhar no coração do
homem, ele mostra o sinal da santidade. É por isso que a santidade não é uma
herança humana, é herdada de Deus por todas as almas. Entretanto, a santidade
se manifesta somente quando o coração do homem se abre, quando se eleva
da centelha divina uma língua de fogo que ilumina o caminho do homem na
jornada da vida em direção à meta espiritual. A falta de compreensão disso é
que tem levado o homem a aceitar apenas um determinado Mestre em quem
amigos ou ancestrais reconheceram a divindade e a rejeitar um outro Mestre ou,
toda aparência de santidade. A santidade não pertence a uma determinada raça,
nem a uma comunidade ou família. A santidade se manifesta de forma natural
na vida de algumas pessoas. Na vida de outras pessoas a santidade precisa ser
aprofundada, cavada. O fogo está em cada um de nós, mas enterrado. Precisa
ser trazido à superfície. Algumas vezes é preciso soprar para ajudar a chama a
se elevar.

Santidade tem diversos significados de acordo com sua conexão. A santidade


religiosa é a moralidade, a santidade filosófica é a verdade, a santidade espiritual
é o êxtase, a santidade mágica é o poder, a santidade poética é a beleza e a
santidade lírica é o amor.

Existem muitas histórias sobre indivíduos santos que vivem em cavernas nos
Himalaias. Há muitos livros sobre o assunto. Sem dúvida as almas que chegam
a uma realização mais elevada se sentem naturalmente propensas a fugir do
mundo e de suas lutas, procurando um lugar onde ninguém possa encontrá-las,
mas existem pessoas extremamente meditativas que se encontram no meio da
multidão. Vi seres iluminados usando muitos disfarces: mendigos, homens ricos,
pobres, reis, religiosos ou pessoas que nada tinham de religiosidade. As
vibrações espirituais emanavam constantemente de todos esses seres e a
fraternidade universal que inspira de maneira natural a alma consciente do seu
eu, podia ser vista na vida diária desses seres.

Durante nove anos da minha vida viajei pela Índia, do norte ao sul, de este ao
oeste, em peregrinação para estar com essas almas santas e nunca entrou na
minha mente o pensamento de que esses santos pertenciam a uma determinada
religião ou outro nome qualquer. Os Hindus se curvam diante da sua Divindade,
os Muçulmanos proclamam o seu Senhor, os Parsis adoram o fogo, mas os
devotos procuram os lugares sagrados onde vivem os homens santos. O Deus
dos devotos fala através dos lábios do homem santo, enquanto o Deus dos
ortodoxos se oculta na teoria, o Deus dos idólatras está oculto no relicário e o
Deus do investigador intelectual se perde na obscuridade. O amor da realização
espiritual que nasceu no meu coração manteve-se sempre na procura desses
seres sagrados durante toda a minha vida. Quem busca encontra e eu encontrei
as almas que procurava. Encontrei essas almas não só no coração da floresta
ou nas cavernas das montanhas, como também no meio da multidão.

Perguntam se a santidade de um homem pode ser reconhecida por suas ações.


A resposta é: a santidade pode ser vista nas suas ações, mas quem pode julgar
as ações de uma pessoa? Até para um sábio é difícil julgar o ato do pior pecador.
Quem senão um tolo estaria disposto a julgar um homem santo? Sem dúvida
alguma a santidade pode ser identificada como bondade, não obstante ninguém
pode fixar um padrão de bondade, porque o que é bom para um pode não ser
bom para outro. Muitas vezes o que é veneno para um é remédio para outro. A
bondade é uma coisa peculiar a cada pessoa. Se quisesse, a pior pessoa do
mundo poderia acusar a melhor pessoa do mundo de falta de bondade, porque
até hoje a bondade de um homem não foi capaz de satisfazer a todos. Jamais
satisfará. Santidade é bondade, mesmo que não esteja dentro dos padrões de
bondade do mundo. Santidade é uma fonte de luz em constante elevação, é um
fenômeno propriamente dito. Santidade é iluminação e iluminadora. Não há
melhor prova da luz do que ela própria. Santidade não precisa de nenhuma
reivindicação, não necessita de nenhum patrocínio, de nenhuma publicidade,
Santidade se auto-reivindica, se autopatrocina, a luz é a sua publicidade.

Muitas pessoas há no mundo que parecem confusas com o falso e o verdadeiro,


mas chegará um dia em que o homem começará a distinguir sem dificuldade o
falso do verdadeiro. O que é falso não resiste por muito tempo a todos os testes,
testes esses que surgem de todos os lados. O ouro verdadeiro resiste a todos
os testes. O mesmo acontece com a verdadeira santidade.

Santidade é suportar, conhecer, perdoar, compreender. Entretanto a santidade


está acima de todas as coisas, está além de todas as coisas. Santidade é
inquebrantável, inabalável. Quando a santidade atinge a perfeição é beleza,
poder e divindade.
O Ego

A palavra Sufi “Nafsaniat” exprime a cegueira do ego pessoal. A primeira coisa


que ele fez foi eclipsar a alma quando o homem provou do fruto proibido, como
é contado na história de Adão e Eva. No começo de sua vida na terra o homem
tirou seu sustento do reino vegetal. Nem por um momento sequer parou para
pensar se as plantas, as flores e os frutos tinham uma vida interior e lhe pediam
o amor que ele, o homem, exige de todos à sua volta.

A cegueira do homem aumentou quando passou a roubar do bezerro e desfrutar


o leite da vaca, o alimento que a natureza deu aos bezerros. À proporção que a
cegueira do homem se tornou mais aguda, o ego cresceu mais ainda de uma
forma tirânica. Começou a sacrificar a vida dos pássaros e dos animais para
satisfazer suas fantasias e apetites. Foi assim que o homem passou a sustentar
seu físico, com coisas injustamente acumuladas, tecendo um véu tão denso que
cobriu seus olhos, tornando-o egoísta e sensual, a ponto de considerar como
únicos objetos de sua vida a satisfação de suas paixões e apetites e a obtenção
do conforto e da grandeza. Desceu assim de sua posição de homem para a
posição de animal e desceu do nível de animal para o nível de demônio. Ao
atingir esse estágio nem Deus nem a virtude permaneceram nele. Um dos
mandamentos de Cristo, amarmos os nossos inimigos, deixou de ser obedecido
pelo homem, pois ele não era mais capaz de amar seu vizinho ou seu
companheiro se houvesse o interesse próprio.

Esse aspecto da involução é o causador das enchentes, das erupções


vulcânicas e outros desastres, como a perda por exemplo do navio “Titanic” e a
revolta atual da sociedade. O homem considera a civilização como aquilo que os
Hindus antigos chamavam de “Kaliyug”, ou a Idade de Ferro. O que os antigos
chamavam de “Krita Yug”, a Idade do Ouro, o homem hoje chama de barbarismo,
o que prova o quanto endureceu o coração humano. Atualmente a palavra de
um homem não é mais uma carta de fiança. É preciso um contrato assinado.
Uma polidez artificial tomou o lugar do amor e o artificialismo substituiu a
verdade. As máquinas tomaram o lugar da bravura pessoal. A religião e a moral
foram substituídas pelos sindicatos. A investigação material tomou o lugar da
realização da vida.

O homem não consegue mais distinguir a diferença entre uma alegria passageira
de uma paz duradoura. O mundo objetivo é tão concreto aos olhos do homem
que ele não pode ver mais nada além. Quer ver realizados os resultados
materiais de seus esforços, mesmo à custa de sua vida. Até o chamado do céu
deixa de atrair o homem para o infinito.

Há um ditado: “A carga de pecado acumulada mais cedo ou mais tarde esmaga


o carregador”. Todo criminoso é caçado pelo aspecto odioso do seu crime. Não
devemos ficar surpresos se nenhuma nação ou raça deixou de se envolver na
atual revolução mundial, direta ou indiretamente, num menor ou maior grau.
Nenhum canto do mundo escapou dessa terrível contingência. Cada raça e cada
religião tem pago seu tributo. Sabemos assim que a catástrofe da história
moderna abrange a humanidade em geral. É um processo de limpeza, com o
objetivo de inaugurar um período ideal de paz, que só será possível se, ao invés
da vontade do homem, o objetivo de Deus for preenchido.
O Nascimento da Nova Era

É claro, e pode ser bem entendido, que a nova era não será pior, porque o pior
já aconteceu. Não deve acontecer nada mais de ruim. A pior situação é o término
de um ciclo. O novo ciclo necessariamente deve começar melhor. Se olharmos
para trás e usarmos nossa visão aguda, vendo as coisas sob um verdadeiro
espírito de justiça, é claro que o mundo tem ido de mal a pior em matéria de
egoísmo, quer em termos individuais, como de comunidades, de nações e raças.
Não existe uma religião no mundo cujos seguidores não se tenham revoltado
contra seus líderes. A religião vem perdendo gradativamente o sentido da
Verdade e tem sobrevivido apenas no nome. Assim, pois, não podemos mais
deixar de nos conscientizarmos dos nossos pecados no passado.

Se analisarmos as distinções entre as raças, notamos que o ódio que uma raça
nutre pela outra, tem sempre aumentado com a civilização. O preconceito de cor,
a distinção de classes, as diferenças entre Ocidente e Oriente, a dominação de
um sexo sobre o outro, ainda não desapareceram. Ao contrário, estão
aumentando.

Em qualquer direção para onde olhamos – para a prosperidade do comércio,


para o grande progresso da educação, da arte e da ciência – vemos em toda
parte a desmoralização do mundo, culminando com o desaparecimento do ideal
amizade e o relacionamento pessoal. O progresso educacional é negligente. A
única coisa de valor na vida, o conhecimento do objetivo da alma, não é cogitada.
O sistema de educação tem levado o homem ao egoísmo no seu mais alto grau
e a extorquir o melhor de seus semelhantes. A arte perdeu a liberdade que a
graça e a beleza sempre lhe deram, porque sua remuneração depende da
aprovação de pessoas insensíveis e cegas. A ciência degenerou-se
simplesmente porque os cientistas têm se limitado às suas perspectivas no
mundo objetivo e negado a existência da vida além da percepção. Na ausência
de um ideal mais elevado, a constante luta atrás de invenções materiais vem
levando o homem a construir tantos artefatos, que o mundo hoje vive sob cerrado
fogo. Os que vivem sob a magia da destruição não se apercebem de tudo isso e
não tomarão nenhum conhecimento até que as nuvens da escuridão se
dissipem, seus corações se purifiquem e suas mentes se recuperem dessa
tremenda intoxicação, que impede o homem de pensar e compreender.

Na nova era as raças se misturarão cada vez mais, dia após dia, e culminarão
numa só raça universal. As nações desenvolverão um espírito democrático e
derrotarão todo elemento que pretender jogar uns contra os outros. Haverá
aliança de nações, até chegarmos a uma aliança mundial de nações, quando
então nenhuma nação será oprimida por outra e todas as nações trabalharão em
harmonia e liberdade em prol da paz comum.

Na nova era a ciência investigará os segredos da vida invisível e a arte copiará


rigorosamente a natureza. As pessoas de todas as classes serão vistas em toda
parte. O sistema de castas desaparecerá e as comunidades perderão sua
exclusividade, misturando-se. Seus seguidores serão tolerantes uns com os
outros. Os seguidores de uma religião poderão rezar e oferecer suas preces às
outras, até que a Verdade essencial se torne a religião do mundo inteiro e a
diversidade de religiões desapareça.

A educação culminará no estudo da vida humana. O saber será desenvolvido


nessa base. O comércio tornar-se-á cada vez mais universal e será conduzido
baseado num lucro comum. O trabalho ficará lado a lado com o capital, em pé
de igualdade.

Os títulos terão pouca importância. Os sinais de honorabilidade tornar-se-ão


proeminentes. O fanatismo das fés e crenças tornar-se-á obsoleto. Os rituais e
cerimoniais serão um jogo, um divertimento. As mulheres serão cada vez mais
livres em todos os aspectos da vida. As mulheres casadas serão chamadas
pelos seus próprios nomes. Os filhos e filhas serão chamados pelo nome de suas
cidades, metrópoles ou nações e não por seus nomes de família. Nenhum
trabalho será considerado servil. Nenhuma posição na vida será humilhante.
Todos se ocuparão de seus próprios negócios e conversarão uns com os outros
sem necessidade de apresentação. Marido e mulher serão como companheiros,
independentes e separados. As crianças seguirão suas inclinações. O
empregado e o patrão serão um só nas horas do trabalho. Será abolido o
sentimento de superioridade e inferioridade entre as pessoas. A medicina abolirá
o uso da cirurgia e o serviço de cura substituirá a medicina. Surgirão novas
formas de viver. A vida de hotel prevalecerá sobre a moradia em casas.
Rancores contra parentes, queixas contra empregados, desavenças com os
vizinhos deixarão de existir. O mundo continuará melhorando em todos os
aspectos da vida, até o dia do “Gayamat”, quando toda conversa fútil cessará e
em toda parte será ouvido o brado “Paz, Paz, Paz”.
O lado mais profundo da vida

Nestes tempos modernos uma vida intelectual ou uma vida de trabalhos manuais
é considerada uma vida normal. Um homem prático é considerado um homem
de bom senso e o bom senso não vai além de suas fronteiras limitadas. Um
homem prático é aquele que sabe melhor como resguardar seus interesses
materiais na contínua luta da vida. Alguns chamam o bom senso de positivismo,
acreditando somente em tudo que pode provar ser real aos sentidos e em tudo
que pode ser percebido, sentido e experimentado pela mente. Por esta razão,
apesar do grande e incessante progresso no mundo material, nós fechamos as
portas para um outro mundo do progresso, no qual só podemos entrar abrindo a
porta para o lado mais profundo da vida. O homem, por sua forma e traços, pela
sua constituição física, olha para um lado e cobre o outro lado com sua própria
personalidade. O homem vê o que está à sua frente, mas não o que está atrás.
Como é feito assim pela natureza, não pode olhar para o lado mais profundo da
vida, ficando absorvido na vida da superfície.

Hoje parece haver maior necessidade da vida interior como nunca. É a


qualidade-cérebro que é desenvolvida nos dias atuais, mas é a qualidade-
coração que precisa ser desenvolvida, a fim de trazer equilíbrio na vida. A vida,
assim equilibrada pode então ser preparada para a cultura interior ou vida
espiritual. Muitos consideram que o sentimento é uma coisa inteiramente sem
importância, algo que deveríamos conservar à parte do tema central da vida, que
hoje é a intelectualidade. Ninguém que tenha dispensado um pensamento à
parte mais profunda da vida negará, por um minuto sequer, o poder e a
inspiração que surgem quando o coração se acende. Uma pessoa que possui a
qualidade-coração não precisa ser ingênua, não precisa se descartar do
intelecto, a qualidade-coração produz um perfume no intelecto como a fragrância
numa flor. Os princípios morais aprendidos através da lógica são princípios
morais secos – como uma fruta sem suco ou uma flor sem fragrância. A
qualidade-coração produz naturalmente virtudes que ninguém pode ensinar.
Uma pessoa amorosa, uma pessoa cujo coração é compassivo, ensina
princípios morais através de sua própria pessoa. O equilíbrio entre o pensamento
e o sentimento é que prepara o solo para a semeadura da semente da vida
interior.

Há três passos a serem tomados a fim de seguir a vida espiritual. O primeiro


passo é o conhecimento da natureza e caráter do homem. Um pesquisador dá
seu primeiro passo no caminho da verdade quando é capaz de compreender
seus semelhantes plenamente e encontrar a solução para cada um dos
problemas a eles ligados.

O segundo passo é a introspecção na natureza das coisas e seres, é


compreender a causa e o efeito e ser capaz de descobrir a razão da razão e a
lógica da lógica. Quando uma pessoa é capaz de ver o lado bom do lado mau e
o lado mau do lado bom, quando é capaz de ver o lado mau do lado certo e o
lado certo do lado mau, deu o segundo passo no caminho espiritual.

O terceiro passo é a elevação acima das dores e prazeres da vida, é estar no


mundo e não ser do mundo, viver e ao mesmo tempo não viver no mundo. Tal
pessoa se torna uma morta-viva, uma pessoa morta vivendo para sempre. A
imortalidade não deve ser procurada no além-túmulo. Se tiver que ser obtida
deve ser no decorrer da nossa vida. Neste terceiro estágio de desenvolvimento
devemos ser capazes de alcançar a felicidade, o poder, o conhecimento, a vida
e a paz dentro de nós, independentemente de todas as coisas exteriores.

O conhecimento espiritual que tem sempre sido procurado pelas almas


despertadas, será sempre procurado por elas. Nas eras passadas os
pesquisadores procuravam um guia para conduzi-los no caminho espiritual, um
guia que os iniciava nos mistérios do lado mais profundo da vida. Do momento
que o segredo era revelado, não mais constituía um segredo para esses
pesquisadores. O homem que não acordou para o lado mais profundo da vida,
não experimentou ainda a vida plenamente, viu apenas um lado da vida, talvez
o lado mais interessante, mas o menos real. Aquele que experimentou ambos
os lados da vida, a vida exterior e a vida interior, certamente preencheu seu
objetivo na terra.
O mecanismo da vida

Quando falo no mecanismo da vida refiro-me ao nosso meio ambiente. Muitos


sabem que o mecanismo da vida tem muito a ver com o sucesso e o fracasso do
indivíduo, mas nem todos pensam suficientemente sobre o assunto, procurando
saber até que ponto nossa vida é afetada. Os místicos sempre ensinaram que
devemos nos tratar como se fôssemos enfermos e nos curar de nossas
fraquezas mas, sob o ponto de vista prático, devemos levar em consideração
também as condições de vida. Este ponto de vista tem apoio nas palavras de
Jesus Cristo. Não devemos nos surpreender se o homem não puder realizar na
vida o que deseja tão depressa como queria. Até para o Criador isso é difícil. Foi
para ensinar esta filosofia e este segredo que Cristo disse: “Que a Tua vontade
seja feita na terra como é feita no céu”. O que quis dizer foi: “Tua vontade é
facilmente feita no céu e meu desejo é que os homens ajudassem que ela fosse
feita na terra tão facilmente como é feita no céu”.

Se alguém tivesse que nadar e atravessar o mar, precisaria de muita coragem,


grande perseverança e fé inabalável, mas mesmo assim ainda não saberia
quando chegaria ao seu destino. Quando tomamos um navio a viagem torna-se
mais fácil. Assim sendo, não precisamos esgotar nossa fé e perseverança a tal
ponto, pois existe um mecanismo à nossa disposição para alcançarmos o nosso
objetivo. O mecanismo, portanto, é muito necessário para alcançar qualquer
objetivo. Se alguém quiser ter conforto no lar precisa de um mecanismo, se tem
um negócio ou uma indústria, necessita de uma certa organização para melhorar
as condições de funcionamento. Num Estado o governo cuida do objetivo de
manter a ordem e a paz. Quando está frio precisamos de roupas quentes e
quando é verão precisamos nos cercar de um ambiente diferente, refrescante.

Esta idéia é fácil de ser compreendida, mas o difícil é criar o mecanismo correto,
porque, em primeiro lugar, há muitas pessoas que não mantêm na mente
claramente o seu objetivo. Vivem dia após dia sem saber o que realmente
querem, cada dia, pensam de uma maneira diferente e isso priva-as do
mecanismo que só pode ser criado depois que o homem souber qual é o seu
objetivo na terra. Às vezes, devido a um entusiasmo exagerado, por uma
intromissão no mecanismo, estragamos o esquema e desbaratamos o próprio
objetivo. Outras vezes, quando o mecanismo não corresponde ao objetivo,
ficamos inferiorizados quanto ao objetivo que tínhamos em mente.
Não podemos nunca dizer que sabemos o suficiente sobre este assunto. Se
quisermos nos submeter a um tratamento, precisamos apenas do nosso
conhecimento, mas para estabelecer um mecanismo temos que lidar com muitas
pessoas de naturezas diferentes, precisamos ter muito mais conhecimentos da
natureza humana e da vida. Muitas pessoas me procuraram dizendo: “Tenho
conseguido me conduzir como me ensinaram e sou capaz de manter uma
concentração e uma meditação como me foram prescritas, mas minha meta está
longe de ser alcançada”. O que falta nem sempre é o exercício ou o auto-
treinamento, o que está faltando é o mecanismo apropriado. Por exemplo, se
alguém diz: “Fui capaz de me disciplinar e posso agora meditar perfeitamente
bem. Vou agora me sentar num porto de mar e meditar, fixando o pensamento
na idéia de que estou numa cidade da outra margem do mar”. Será que essa
pessoa chegará lá? Se uma pessoa que chegou à auto-disciplina meditar e
pensar: “Toda a fortuna que está no banco virá para as minhas mãos”, será que
ela virá? Mesmo se essa pessoa continuar meditando sobre o banco durante
cem anos, não terá sucesso nenhum na obtenção dessa fortuna.

Neste mundo objetivo precisamos de um mecanismo objetivo para poder criar


determinados resultados. Se as pessoas que estão no caminho espiritual não
podem ver este lado do assunto, isso apenas prova que têm falta de equilíbrio
apesar de sua bondade e espiritualidade. O homem prático, pois, tem boas
razões para rir da pessoa que possue uma mentalidade mística. Por isso a tarefa
do Movimento Sufi não é só guiar almas para um ideal mais alto, é também dizer-
lhes que mantenham os olhos abertos no caminho, a fim de que possam ver para
onde estão se dirigindo. Os Sufis devem dar o exemplo, para que os que não
têm nenhuma crença nas idéias espirituais possam crer, mostrando-lhes
equilíbrio em suas vidas. Um indivíduo pode muito bem tomar conta de si e
meditar sobre sua saúde, mas o ambiente em que vive pode ser a causa de uma
doença e isso não pode ser ajudado. Não se trata de falta de espiritualidade da
parte da pessoa, é falta de materialismo. Não é uma prova de que devemos
equilibrar as duas coisas? Ninguém pode sentir-se exaltado se souber que se
tornando um homem espiritual flutua no ar num ato de levitação e não é melhor
que um balão. O homem que consegue ficar firme na terra é quem realizou
alguma coisa. Não podemos dizer de cada homem que ele se mantém firme nos
próprios pés. Nada é pior no mundo do que ser dependente e se a espiritualidade
torna o homem mais dependente ou, em outras palavras, coloca-o à mercê de
outras pessoas nas coisas práticas da vida, nesse caso a espiritualidade não é
desejável. Espiritualidade é domínio tanto material como espiritual, é sermos
capazes de nos conduzir e nos habilitar a manter um mecanismo adequado na
vida.
A fronte sorridente

Quando falo em fronte quero me referir à expressão de uma pessoa, de cuja


expressão dependa sem dúvida sua atitude na vida. A vida é a mesma para um
santo ou para Satanás. Se suas vidas são diferentes é unicamente por causa de
suas perspectivas na vida. A mesma vida é transformada por um em céu e por
outro em inferno.

Há duas atitudes: para um tudo é errado, para outro tudo é certo. De manhã à
noite nossa vida no mundo é cheia de experiências, boas e más, o que pode ser
distinguido pelos diversos graus das experiências. Quanto mais estudamos o
mistério do bem e do mal, mais constatamos que realmente não existe uma coisa
chamada bem e mal. As coisas nos parecem ser chamadas boas ou más devido
à nossa atitude e condições.

É fácil para um homem ingênuo dizer o que é bom ou o que é mau, o que é justo
ou o que é injusto. Por isso e difícil para um sábio fazer tais afirmações. De
acordo com sua perspectiva da vida cada um de nós transforma as coisas más
em coisas boas e as coisas boas em coisas más, porque cada um tem seu
próprio grau de evolução e raciocínio. Às vezes uma coisa é mais sutil que
outras, mas é difícil fazer um julgamento. Houve uma época em que a música de
Wagner não era compreendida. Mais tarde Wagner foi considerado um dos
maiores músicos. Às vezes as coisas são boas, mas nossa evolução não nos
permite vê-las como tal. O que um considerou bom há alguns anos atrás, pode
não parecer bom depois do progresso havido na sua evolução. Uma criança
aprecia muito uma boneca e mais tarde vem a apreciar a obra dos grandes
escultores.

Isto prova que a cada passo e grau de evolução a idéia do homem sobre o bem
e o mal se modifica. Quanto mais pensamos sobre isto mais compreendemos
que não existe uma coisa chamada certo ou errado. Se há o certo tudo é certo.
Sem dúvida há uma fase em que o homem é escravo do que faz de certo ou de
errado, contudo, há outra fase em que ele é o mestre. Essa qualidade de mestre
ou mestria vem da compreensão de que o certo e o errado são produtos da
atitude do homem na vida. Nesse estado de mestria o certo e o errado, o bom e
o mau, passam a ser escravos do homem, porque ele sabe que está nas suas
mãos o poder de transformar uns nos outros.

É a abertura de uma porta para um outro mistério da vida, que nos mostra que,
assim como em cada coisa há dualidade, também existe dualidade em cada
ação. Em todas as coisas justas está oculta uma coisa injusta e em cada coisa
má existe algo de bom. Começamos a ver como o mundo reage a todas as
nossas ações: uma pessoa só vê o bom e a outra só vê o ruim. Na terminologia
Sufi essa atitude singular é chamada de “Hairat”, confusão. Enquanto que para
a média das pessoas o teatro, o cinema e as lojas são lugares interessantes,
também para o Sufi a vida é interessante, uma constante visão de confusão e
perplexidade. O Sufi não pode explicar isso ao mundo porque não existem
palavras apropriadas.

Podemos comparar qualquer alegria com a alegria da atitude de receber tudo


serenamente, pacientemente e facilmente? Todas as outras alegrias vêm de
fontes externas, mas essa felicidade é propriedade nossa, individual. Quando
alcançarmos esse sentimento, ele se expressará não por meio de palavras mas
por meio da “fronte sorridente”.

Há ainda um outro lado deste assunto: o homem fica feliz ao ver a pessoa
amada, que admira e respeita. Se franze a testa para alguém é porque não o
admira e respeita. O amor é a essência divina no homem e é um amor que
devemos dar somente a Deus. No amor humano começamos a descobrir o
caminho do amor divino, como a lição da vida do lar é aprendida pela menina
quando brinca com as bonecas. Aprendemos a lição do amor amando uma
pessoa, um amigo, um pai, mãe, irmão ou irmã, um professor, mas o amor é
usado erroneamente se não for desenvolvido e espalhado continuamente. A
água de um tanque pode ficar ruim, mas a água do rio permanece pura porque
está fluindo, progredindo. Assim, através do amor sincero dado a uma pessoa
podemos chegar à planta do amor e fazê-la crescer e, ao mesmo tempo, fazê-la
se espalhar.

O amor terá feito sua tarefa quando o homem se tornar todo amor – na atmosfera
que irradia, na sua expressão, em cada um de seus movimentos. Como pode
um homem amar uma pessoa e rejeitar outra? Seu semblante e sua presença
se tornam uma bênção. No Oriente, quando uma pessoa fala de Santos ou de
Sábios não é devido aos milagres que realizam, é porque suas presenças e suas
fisionomias irradiam vibrações de amor e esse amor se expressa em tolerância,
perdão, respeito, no não-conhecimento das faltas de seus semelhantes. Sua
compaixão cobre os defeitos dos outros como se fossem seus próprios defeitos,
esquecem seus interesses em prol dos de seus irmãos. Não dão importância às
más condições em que se encontram, sejam elas elevadas ou humildes. Suas
frontes são sorridentes. Diante de seus olhos cada homem é a expressão do
Bem-Amado, cujo nome repetem constantemente. Vêem o divino em todas as
formas e seres.

Uma pessoa religiosa tem uma atitude religiosa num templo e o Sufi também tem
uma atitude religiosa diante de todos os seres, pois para ele cada ser é o templo
do divino. O Sufi, pois, está sempre diante de seu Senhor. Se um empregado,
um mestre ou um inimigo estiverem diante de um Sufi ele se considera na
presença de Deus. Para o homem que pensa que Deus está no alto, no céu, há
um grande abismo entre ele e Deus, mas para aquele que tem Deus sempre
diante de si, tem Deus sempre à sua frente, está sempre na sua presença e sua
felicidade é infinita.

A idéia do Sufi é que, por mais religiosa que uma pessoa possa ser, não será
coisa alguma sem o amor. É a mesma coisa que acontece com quem estudou
milhares de livros. Sem o amor não aprendemos nada. O amor não está na
reivindicação do amor. Quando o amor nasce ouvimos a sua voz, que é mais
alta que a voz do homem. O amor não precisa de palavras; as palavras são
inadequadas para expressar o amor. Uma das pequenas formas em que o amor
se expressa é no que denominamos de “Fronte Sorridente”.
A magia da vida

Algumas vezes ficamos pensando por que motivo Deus fez o homem tão fraco,
quase sempre sujeito a enfermidades. Achamos até que é uma grande injustiça
de Deus. Mas não é e esse assunto está muito bem explicado numa das histórias
das Noites Árabes.

Um rei tinha um criado que era um grande beberrão. Querendo se divertir, o rei
recomendou aos outros criados que dessem ao homem uma grande quantidade
de bebida e depois que ele estivesse completamente adormecido o colocassem
no leito real. Como era o costume, ao raiar do dia entraram no quarto do rei
músicos tocando e 10 ou 12 jovens cantavam para acordar o rei.

Ao acordar o criado pensou: “O que me aconteceu? Na noite passada era um


criado e agora eu estou na cama do rei. Tudo aqui tem o ar da realeza! Sou um
criado ou sou um rei?” Olhou para as jovens. Todas se curvaram chamando-o
de Majestade.

O criado se levantou, saiu e foi para o “Durbar”, a sala do trono. Sentou-se no


trono e todos os vizires se aproximaram, curvando-se diante dele e lhe prestaram
homenagens. Pensou: “Devo ser um rei. Se tivesse sido um rei apenas no quarto
era de estranhar, mas também aqui todos se curvam e me chamam de
Majestade”.

Durante o dia inteiro desfrutou o criado a realeza, mas à noite apareceu sua
mulher. Na noite anterior, quando o marido não voltou para casa, ela pensou que
talvez ele estivesse caído bêbado em algum lugar e procurou-o por toda parte.
Quando viu que não conseguia encontrá-lo, resolveu ir ao palácio. Ninguém
impediu-a de entrar, porque o rei havia dado ordens nesse sentido. Quando o
marido viu a esposa, olhou-a como se fosse a própria morte e pensou: “Não
posso ser um rei, porque se fosse minha esposa não estaria aqui. Tenho que ir
com ela”. Perguntou a esposa: “O que você está fazendo aqui? Você não voltou
ontem para casa, fiquei sem ter o que comer e quando acaba você estava aqui
se divertindo. Vai voltar comigo”. O criado respondeu-lhe: “Não a conheço e peço
que vá embora”. Mas a esposa não se conformou e lhe disse: “Você é meu
marido e virá comigo”. Arrastou-o enquanto ele repetia: “Eu sou um rei, eu sou
um rei”.

É uma demonstração de que a situação em que nos encontramos é que nos faz
crer que somos uma coisa ou outra. Tudo que a alma experimenta ela acredita
que é. Se a alma vê o “eu” exterior como uma criança crê: “Eu sou uma criança”.
Se vê o “eu” exterior como um velho, crê: “Sou um velho”. Se vê o “eu” exterior
num palácio acredita: “Sou rico”. Se vir esse “eu” numa choupana crê: “Sou
pobre”. Na realidade, porém, trata-se apenas do “eu sou”.

Essa a magia da vida, que enfeitiça o homem. Hafiz disse: “Antes de nosso
nascimento Tu nos destes um gole de vinho” e Jami escreveu: “Ó Sábio, doador
do vinho, desculpa-me, é minha juventude. Algumas vezes eu abraço a garrafa
de vinho e a beijo e às vezes atiro-a longe”. Assim somos todos nós. A boneca
da criança às vezes é abraçada e beijada. Noutra ocasião é jogada ao chão e
quebrada. A criança apanha outro brinquedo. Em certas ocasiões dizemos que
uma pessoa é nossa amiga, noutras dizemos que é nossa inimiga. Às vezes
dizemos que gostamos de uma nação, de uma raça, e noutras vezes achamos
que são nossas inimigas. Mudamos de acordo com nossa infantilidade.

O homem, no seu sonho enquanto vive na terra, está sempre correndo atrás de
nuvens passageiras. Quando acorda? Quando chega a esposa. E o que significa
a esposa? A esposa é o aniquilamento ou a destrutibilidade da natureza. Quando
a esposa vem como morte, o homem vê que tudo que ele possuía e tudo que
dizia ser seu, terá que deixar para trás: nome, fama, bens. Tudo é para os que
vivem e para ele só existe o túmulo. Não poderá levar nada com ele.
Compreende então que nada dessas coisas pode lhe dar paz e satisfação
duradouras. Passa a procurar algo que lhe dê paz e satisfação.

Aí entra a questão do seu ego, de sua consciência. Há um ditado Hindustão: “A


humildade do sábio não se perde. A semente cai no pó para ser transformada
em planta”. Quando o homem sábio se humilhou no pó, o pó fará com que ele
floresça. Isso não quer dizer mestria ainda, embora seja uma preparação para
atingir graus mais elevados.

Está escrito no Corão: “Mutu kubla anta Mutu”, que quer dizer: morrer antes da
morte. O Sufi morre antes da morte e vive na vida aquilo que será sua condição
depois da morte, em outras palavras, convida sua esposa a visitá-lo (a morte) e
lhe dá as boas-vindas em seu reinado (a vida terrena), para que não seja
arrastado pela esposa e possa apreciar a vida com ela, apreciar a vida com sua
esposa na terra. Em outras palavras, torna-se um morto-vivo.

Quando o homem compreende intelectualmente que toda manifestação veio de


um só Ser, sua tendência é pensar: “O que devemos cultuar, o que devemos
adorar, se nós próprios somos tudo? O que devemos temer?” Entretanto, o
homem esquece-se de sua própria pessoa. Se o homem é constituído de muitos
diferentes órgãos, átomos e planos e ao mesmo tempo é uma pessoa, porque
não seria o ser Integral uma pessoa? Intelectualmente sabemos que todos nós
somos um. Entretanto, não suportamos o insulto de ninguém. No momento de
sermos insultados não mais nos lembramos que quem está nos insultando é
igual a nós mesmos, que somos uma só pessoa. Culpamos sempre aquele que
nos faz mal e não paramos para pensar que ele é o mesmo que nós mesmos.
Sendo assim, devemos culpá-lo?
Abnegação

A ABNEGAÇÃO, chamada “ENKESAR” pelos Sufis, não só embeleza a nossa


personalidade, dando graça às nossas palavras e maneiras, como nos dá
também dignidade e poder juntamente com um espírito de independência, sinal
de um verdadeiro sábio. É a abnegação que muitas vezes produz no nosso
espírito a humildade, fazendo desaparecer a intoxicação que cobre a alma de
nuvens. A independência e a indiferença, que são as duas asas que permitem o
vôo, brotam do espírito de abnegação. Do momento que o espírito de abnegação
começou a brilhar no coração do homem, ele mostra nas suas palavras e nos
seus atos uma nobreza que nenhum poder ou riqueza da terra podem dar.

Existem muitas idéias que intoxicam o homem, muitos sentimentos que agem na
alma como o vinho, mas não há vinho mais forte do que o vinho da abnegação.
A abnegação dá um poder e um orgulho que nenhuma posição no mundo pode
dar. Querer tornar-se alguma coisa é uma limitação, o que quer que queiramos
ser. Mesmo se um indivíduo fosse chamado de rei do mundo, ele não seria
imperador do universo. O mestre da terra ainda é escravo do céu. O homem
abnegado é aquele que não é ninguém e no entanto é tudo.

O Sufi, portanto, toma o caminho do “nada ser” ao invés de “ser alguma coisa”.
É este sentimento de inexistência que transforma o coração humano numa taça
vazia na qual o vinho da imortalidade é derramado. É esse estado de bem-
aventurança que toda alma que procura a verdade anseia alcançar. É fácil ser
erudito e não é muito difícil ser sábio; está ao nosso alcance nos tornarmos bons,
mas há uma realização que é maior e mais alta do que todas essas coisas: é
não ser nada. Para muitos pode parecer aterrorizante a idéia de se tornar nada,
porque é tal a natureza humana que o homem anseia agarrar alguma coisa e o
eu se agarra à sua personalidade, à sua própria individualidade. Logo que nos
elevamos acima disso, subimos o Monte Everest, atingimos o ponto onde acaba
a terra e começa o céu.

O objetivo do Sufi é cobrir por meio do pensamento de Deus seu eu imperfeito


até de seus próprios olhos e no justo momento em que Deus está defronte dele
e não o seu eu, para o Sufi é o momento da perfeita bem-aventurança. Meu
mestre, Abu Hashim Madani, certa vez disse que só existe uma virtude e um
pecado para a alma que está no caminho: virtude quando a alma está consciente
de Deus e pecado quando não está. Nenhuma explicação pode descrever com
mais clareza a verdade dessas palavras, exceto a experiência do contemplativo
que, quando está consciente de Deus, é como se uma janela dando para o céu
se abrisse. Para quem está consciente do eu, a experiência é oposta. Assim,
toda a tragédia da vida é causada porque somos conscientes do eu. Toda a dor
e toda a depressão é causada por isso. Qualquer coisa que concorra para
desaparecer o pensamento do eu ajuda, até um certo ponto, a aliviar o homem
da dor, mas a conscientização de Deus é a única coisa que dá um alivio perfeito.
O espírito conservador

Existem dois pontos de vista à nossa disposição sobre todas as coisas do


mundo: o ponto de vista liberal e o ponto de vista conservador. Cada um deles
dá ao indivíduo uma sensação da satisfação porque há uma certa dose de
virtude em ambos os pontos de vista.

Quando uma pessoa olha para a sua família sob o ponto de vista conservador,
toma consciência do orgulho da família e age em todos os sentidos para
salvaguardar a honra e a dignidade de seus ancestrais. Segue o cavalheirismo
dos seus antepassados e vendo o assunto sob o ponto de vista conservador,
defende e protege os que pertencem à sua família, mereçam ou não mereçam.
Assim agindo ajuda a manter acesa uma chama que foi acesa talvez há muitos
anos, segurando-a nas mãos no decorrer de sua vida como uma tocha guiando
seu caminho. Quando uma pessoa olha seu país sob o ponto de vista
conservador, tem um sentimento de patriotismo que, no mundo moderno, é um
substituto da religião. O patriotismo, indubitavelmente é uma virtude pois
passamos a considerar a nação como uma só família. Não zelamos só pela
nossa família, mas pelos filhos de toda a nação. Quando surgir a ocasião de dar
a vida pela nação para defendê-la, todos os homens se apresentarão para
salvaguardar a dignidade e a honra do seu povo.

O espírito conservador é o espírito individualizado, o tema central de toda a


criação. É o espírito do bem funcionando como o sol, mas para esse espírito
bastaria somente a luz toda penetrante. É o poder dessa luz trabalhando na
natureza que mantém os ramos juntos no tronco e um número grande de folhas
reunidas num único ramo. Ainda é este espírito trabalhando no corpo humano
que mantém juntos os pés e as mãos, mantendo o homem como uma entidade
individual. Entretanto, há sempre o perigo de haver uma congestão se esse
espírito for aumentado. Quando há um excesso de orgulho de família o homem
vive apenas dentro desse orgulho e se esquece do seu dever para com a
humanidade, deixando de reconhecer que há coisas que o unem aos seus
semelhantes fora da limitação do seu círculo familiar. Quando essa congestão
se produz numa nação, o resultado é uma série de desastres, como guerras e
revoluções acompanhadas de violência e destruição. O pesadelo por que passou
a humanidade ainda recentemente foi consequência da congestão mundial
produzida pelo excesso desse espírito.
Isso tudo vem provar que a virtude é uma coisa e o pecado outra. A mesma coisa
que um dia foi virtude pode se transformar em pecado. A virtude ou o pecado
não são ações, são condições, são atitudes que nos instigam a fazer um
determinado ato. A consequência de uma ação é que faz da ação um pecado ou
uma virtude. Vida é movimento, morte é a paralisação do movimento. A
congestão paralisa o movimento, a circulação põe o movimento a funcionar. O
espírito conservador é útil enquanto estiver em movimento. Em outras palavras,
enquanto estiver se ampliando. Se uma pessoa orgulhosa de sua família e
depois de cumprir seu dever para com seu povo, der o passo seguinte que é
ajudar seus concidadãos e der o terceiro passo que é defender seu país – está
em franco progresso. Ambas as coisas, o orgulho da família e o patriotismo são,
sem dúvida alguma, virtudes porque levaram o indivíduo que estava fazendo
uma coisa a fazer outra coisa melhor.

A congestão surge quando a pessoa está absorvida com seus próprios


interesses. Se está muito envolvida com sua família, com o orgulho da família e
seus interesses particulares a ponto de ninguém mais no mundo existir para ela,
exceto seu povo, seu patriotismo se transformou num véu que cobre seus olhos,
tornando-a cega e impedindo-a de servir tanto ao próximo como a si mesma. Há
uma ilusão de lucro no egoísmo, mas no fim o lucro obtido através do egoísmo
não tem nenhum valor. A coisa principal a ser considerada é a vida e a verdadeira
vida é a vida interior, a realização de Deus, a consciência do nosso espírito.
Quando o coração se torna consciente de Deus é como uma bolha que volta ao
mar. O homem espalha e amplia as ondas do seu amor quer para o amigo quer
para o inimigo. Espalhando seu amor cada vez mais atinge a perfeição.
A formação do caráter

Caráter, podemos dizer, é um quadro com linhas e cores que pintamos dentro
do nosso ser. É maravilhoso notar como a tendência à formação do caráter brota
na infância, precisamente como vemos num pássaro o instinto para construir seu
ninho. Uma criança começa prestando atenção em todas as coisas que vê nos
adultos e depois imita tudo que gosta mais e tudo que a atrai. Através disso
compreendemos que quando estamos absorvidos com nossas pessoas não
temos tempo para a formação do caráter porque não temos tempo disponível
para pensar nos outros. Por exemplo, se até os grandes atores quando estiverem
no palco não se esquecerem de suas pessoas, não poderão representar. Se o
músico não puder se esquecer de sua pessoa enquanto estiver tocando, não
tocará bem. Como acontece com todas as coisas, também a tarefa da nossa
construção depende inteiramente de conseguirmos esquecer nossas pessoas.
Aí está a chave da vida. Encontrei pessoas que se distinguiram na arte, na
ciência, na filosofia, na religião e em outros campos e verifiquei que todos
chegaram à culminância por meio de uma qualidade: a qualidade do auto-
esquecimento. Vi também pessoas com grandes qualidades mas que não
puderam trazer o melhor para suas vidas porque não possuíam essa qualidade.

Lembro-me de um músico que tocava a “Vina”, um artista maravilhoso, que


costumava tocar e estudar durante muitas horas, mas sempre que tinha que
tocar diante do público tornava-se autoconsciente: a primeira coisa que vinha ao
seu pensamento era sua pessoa. Quando isso acontecia todas as impressões
das pessoas que estavam na platéia caíam sobre ele. Pegava a “Vina”, cobria-a
e saía. Entretanto, ouvi Sarah Bernhardt recitando apenas a letra da
“Marselhesa”. Quando ela entrou no palco e começou a recitar, imediatamente
conquistou o coração de todos porque naquele momento (foi durante a guerra)
não estava ali a Sarah, mas a própria França. O que lhe permitiu ser a França
foi seu poder de concentração, tendo se esquecido completamente de sua
pessoa.

A formação do caráter é uma coisa muito maior e muito mais importante que a
construção de uma casa, de uma cidade, de uma nação ou de um império. Pode-
se perguntar por que razão este assunto é tão importante, já que se trata
unicamente da construção da nossa insignificante personalidade. Muitos
construíram um edifício ou uma nação e desapareceram e deixaram poucas
recordações. O Taj Mahal é um dos monumentos mais maravilhosos do mundo.
Todos que o visitam, artistas, arquitetos, etc., demonstram grande admiração por
essa obra, mas isso é tudo, ninguém se interessa por quem o construiu nem se
comove com a dor do construtor.

Até hoje os Hindus repetem muito cedo pela manhã o “Ram, Ram”, os Budistas
invocam o Senhor Buda e os Cristãos o Cristo. Por quê? Simplesmente por
causa da personalidade desses homens santos, do magnetismo que possuíam.
As palavras que Cristo pronunciou há tantos anos até hoje são lembradas,
simplesmente devido à personalidade de quem as proferiu. Não se trata porém
só de espiritualidade: existiram muitos “Madzubs”, homens muito espiritualizados
e unidos a Deus, que desapareceram da terra. Ninguém se lembra mais deles.
Não se trata de piedade: há muitas pessoas piedosas sentadas nas mesquitas
e nas igrejas rezando seus rosários. A piedade que sentem é por elas mesmas.
Não podem mover o mundo. Assim, se não se trata de espiritualidade e de
piedade, o que é então? É o desenvolvimento do humanismo dentro da própria
pessoa.

Esse desenvolvimento diz respeito à nossa inteligência, ao nosso coração e à


nossa mente. Diz respeito à inteligência porque se tivermos amor e não tivermos
inteligência para saber o que dá prazer ao Bem-Amado, podemos ser um grande
amoroso, mas não tiramos nenhum proveito do nosso amor. Diz respeito ao
coração porque se tivermos inteligência e não tivermos sentimento e compaixão,
podemos nos expressar polidamente, nossas maneiras podem ser educadas,
mas se houver amargura interior, se não sentirmos o que estamos dizendo, seria
melhor não ter falado absolutamente nada. Diz respeito à mente porque se
tivermos inteligência e sentimento e não tivermos consideração, atenção e
nenhum senso do que é apropriado, não passamos de ignorantes. Um indivíduo
pode estar muito familiarizado com as maneiras e o decoro dos países europeus,
mas se for mandado para a corte de um soberano oriental, ficará bastante
embaraçado. Uma pessoa pode conhecer a etiqueta de uma corte Indiana, mas
se for para a Europa não conhece nada a respeito das maneiras ocidentais.

É um grande privilégio sermos humanos, porque podemos desenvolver nosso


humanismo e sermos humanos no campo mental, na realidade tão humanos
como somos na forma. O privilégio está em sermos homens, o ideal de Deus.

O ideal não está na rocha, que não sabe se é um rei ou um mendigo, um santo
ou uma pessoa má que está diante dela. Não são os anjos, que não têm um
coração para sentir pelos outros; eles sentem o louvor de Deus, louvam a Deus.
Ao homem é que foi dado um coração.

Um poeta do Hindustão escreveu: “Para se tornar um “Nabi”, um santo ou um


profeta, um “Ghauth”, um “Quth” é muito difícil. O que posso eu então vos dizer
de suas vidas já que é difícil para o homem se tornar humano?” Na verdade
chegar aos diversos graus espirituais é muito difícil. Precisamos primeiramente
nos tornar humanos. Ser anjo não é muito difícil, ser materialista é muito fácil,
mas viver no mundo no meio de todas as dificuldades e lutas da terra e ao
mesmo tempo ser humano, isso é muito difícil. Se conseguirmos ser humanos
nos tornamos uma miniatura de Deus na terra.
Respeito e consideração

Há uma virtude que o Sufi chama de “Muruat”. É uma virtude demasiadamente


delicada para ser expressa por meio de palavras. Significa abster-se de certos
atos que impliquem falta de respeito para com os outros, quer em consideração
por sua idade, pela posição que ocupam ou por bondade ou piedade. Os que
praticam essa virtude não o fazem somente com as pessoas importantes ou
piedosas. Quando essa qualidade se desenvolve numa pessoa manifesta-se no
seu comportamento em relação a todos.

“Muruat” é o oposto de grosseria. Não é necessariamente respeito, é algo mais


delicado que respeito, é uma combinação de consideração e respeito. Essa
virtude quando plenamente desenvolvida, pode ser tão intensa que até uma
pessoa que não cultue a consideração e o respeito tenta ser paciente quando
não vê essa virtude noutro indivíduo. Quando o homem chega a esse estágio,
cessa a maneira de ser humana e começa a maneira santificada de ser. O
homem não nasce no mundo apenas para comer, beber e se divertir. Nasce para
que o caráter humano seja aperfeiçoado. A maneira de realizar esse
aperfeiçoamento é através da meditação profunda e da consideração. De outra
forma, apesar de todo o poder que o homem possua, sua posição, sua riqueza,
seu saber e todas as boas coisas da vida, ele continuará pobre se lhe faltar a
riqueza da alma que se manifesta através das boas maneiras.

Toda a beleza que nos rodeia é algo que está fora de nós. A única beleza
fidedigna deve ser procurada e desenvolvida no nosso próprio caráter. Um
indivíduo pode não mostrar falta de “Muruat” nas palavras que pronuncia, mas
mostra ausência dessa virtude no olhar. Ninguém precisa usar palavras para
mostrar que é uma pessoa rude: no olhar, na entonação da voz, na maneira de
ficar em pé, na maneira de fechar uma porta, ao sair de uma sala, tudo isso
mostra seus sentimentos. Mesmo que não fale, pode fazer a porta falar. Não é
uma coisa fácil controlar-se quando a mente está descontrolada.

As idéias delicadas são muito difíceis de ser aprendidas e praticadas na vida. E


hoje muitos se questionam se elas não constituem uma forma de fraqueza.
Todavia, algo que pode ser praticado somente pelo autodomínio, nunca é uma
fraqueza. Não causa nenhum prejuízo, mesmo se a atenção ou a consideração
forem dadas a alguém que não as merece. Se essa maneira de agir não trouxer
nenhum lucro, nem por isso deixará de ser um exercício ou uma prática. É a
prática que torna um homem perfeito.
Amabilidade

Logo que a alma toca o reino interno – que é o seu reino divino – sua nobreza
verdadeira se manifesta em forma de amabilidade. Os Sufis chamam a
amabilidade de “Khulk”. Os reis e os integrantes das famílias aristocráticas eram
treinados para serem amáveis, corteses, mas a amabilidade é uma qualidade
que nasce no coração do homem, o que significa que todas a almas mostram
uma maneira aristocrática de ser desde o instante que tocam o reino interno.
Assim sendo, a verdadeira aristocracia é a nobreza da alma, quando a alma
começa a expressar aquela amabilidade que pertence ao próprio Deus em cada
sentimento, pensamento, palavra e ação. Amabilidade é uma coisa
completamente diferente da atitude protecionista, ou protetora, que é uma
maneira incorreta. Uma pessoa amável antes de expressar esta nobre atitude,
tenta escondê-la até de seus próprios olhos.

A razão por que as grandes personalidades, as pessoas verdadeiramente


nobres, são amáveis é que são mais sensíveis às ofensas e prejuízos vindos das
pessoas imaturas e por bondade tentam evitar fazer a mesma coisa com os
outros, por mais baixa que seja a posição deles.

Há uma grande verdade no que Cristo disse no Sermão da Montanha:


“Abençoados os humildes, pois eles herdarão a terra”. Esta sempre será uma
verdade, em qualquer período e qualquer que seja a evolução do mundo. Se o
regime for aristocrático ou for democrático, o valor da nobreza de caráter, que
se expressa pela amabilidade, sempre se imporá. É fácil usar a palavra
amabilidade ou cortesia, mas é muito difícil praticá-la ao longo da vida, porque
nunca tem fim aquele pensamento do que devemos fazer em cada ato da vida
para atingir o que chamamos de amabilidade. É preciso usar o julgamento e o
senso de honestidade, é preciso pesar e medir tudo o que fazemos e além disso
é necessário ter um senso delicado da arte e da beleza, porque no
aperfeiçoamento da personalidade atingimos o grau mais alto da arte.
Verdadeiramente falando o desenvolvimento da personalidade é a forma mais
elevada da arte que existe. O Sufi considera o cultivo dos atributos humanos, em
cujo cultivo reside a realização do objetivo da sua vida, sua religião.

Certa vez um jovem mostrou impaciência com o pai, que não ouvia mais com
clareza e que lhe pediu duas ou três vezes que repetisse o que estava falando.
Notando a expressão irritada estampada no rosto do filho, disse o pai: “Lembra-
se, meu filho, que quando você era pequenino um dia me perguntou o nome de
um certo pássaro e eu lhe disse que era um pardal? Você talvez tenha me
perguntado umas cinquenta vezes o nome daquele pássaro e eu tive a paciência
de dizer o nome dele todas as vezes, sem me irritar ou me sentir incomodado.
Sentia-me feliz por poder transmitir tudo o que sabia. Agora que não consigo
mais ouvir bem, você podia ao menos ter paciência comigo e repetir duas vezes
aquilo que eu não consegui ouvir da primeira vez”. Ter paciência é a coisa mais
necessária para se aprender as maneiras nobres da vida, às vezes ter paciência
em forma de tolerância e às vezes em forma de perdão.

Quando lidamos com pessoas sem educação, devemos ter em mente que a
verdadeira civilização quer dizer progresso. Os que não são educados deveriam
ser educados para poderem compreender melhor a vida. Só há duas
possibilidades: ou seguir em frente ou caminhar para trás. A pessoa ou começa
a pensar como os não educados ou começa a ajudar os mal-educados a
avançar. Devemos segurar os mal-educados pelas mãos e levá-los com
amabilidade na direção das idéias mais belas.

Uma vez na Índia eu estava parado perto de um templo Hindu, onde na porta
estavam dois guardiões que tomavam conta do templo. Eram da raça Afgã,
orgulhosos, toscos e rígidos na sua maneira de ser e no entanto, na expressão
de seus rostos via-se honestidade e bondade. Passei muitas vezes por eles e
todas as vezes eles me ignoravam tanto na entrada como na saída do templo,
embora sempre mantivessem cuidadosamente aquela atitude convencional de
polidez. Um dia um deles se dirigiu a mim com uma mensagem do seu mestre e
eu polidamente me levantei do banco em que estava sentado e o recebi com
toda a cordialidade. Desde esse dia, cada vez que eu passava era acolhido com
sorrisos e cordiais boas-vindas. Nunca mais fui ignorado. Isso aconteceu porque
foi mostrada àquele homem uma maneira de ser bem educada sem ferir seus
sentimentos, o que lhe deu prazer e fez com que ele pensasse que devia retribuir
a polidez que havia recebido.

Forçar uma virtude em alguém é orgulho, deixar uma pessoa ver a beleza das
boas maneiras é educação. Devíamos considerar como nossa tarefa sagrada
nos aproximarmos das pessoas que precisam de aperfeiçoamento com
bondade, porque através dela a cultura e a beleza se desenvolvem nas pessoas
e esse desenvolvimento será partilhado tanto por elas como por nós.
Ignorar

Há uma tendência que se manifesta gradativamente numa pessoa à medida que


avança no caminho espiritual. Essa tendência é ignorar, ou deixar de tomar
conhecimento. É o que os Sufis chamam de “Darguza”. Às vezes essa tendência
pode parecer negligência, mas negligência não é deixar de tomar conhecimento,
não é ignorar, negligência é não olhar. Em outras palavras, ignorar ou não tomar
conhecimento pode ser explicado como a ação de uma pessoa quando se eleva
acima das coisas. Para não tomar conhecimento o homem precisa se elevar.
Quem se deixa subjugar pela vida, nunca poderá deixar de tomar conhecimento
de certas coisas, mesmo que queira. Não tomar conhecimento é uma forma de
cortesia, ou por outra, é olhar e ao mesmo tempo não olhar, é ver e ao mesmo
tempo não prestar atenção naquilo que está vendo, é não se deixar ferir, magoar
ou perturbar com as coisas, nem mesmo se importar com elas. É um atributo da
nobreza de caráter, é a marca das almas que estão sintonizadas com uma nota
mais alta.

A seguinte pergunta pode ser feita: “Será uma coisa prática?” Talvez nem
sempre seja uma coisa prática, mas no fim mostrar-se-á prática da mesma
maneira. Aquele que deixa de tomar conhecimento compreende a sua
praticabilidade. Talvez somente a compreenda no fim depois de se defrontar com
inúmeras desvantagens, mas tudo está bem quando acaba bem.

Em geral deixar de tomar conhecimento ou ignorar custa menos que prestar


atenção em coisas que teria sido melhor não prestar atenção. Há coisas na vida
que têm importância e há coisas que não têm importância. À medida que o
homem avança na vida nota que há muitas coisas que não têm importância e
que ele poderia muito bem ter deixado de tomar conhecimento. Aquele que
presta atenção a tudo que atravessa seu caminho, perde tempo na viagem que
tem de empreender e que leva a vida inteira para ser concluída. Se uma pessoa
enquanto estiver subindo a montanha da vida – cujo objetivo é chegar ao topo –
se preocupar com tudo que surgir à sua frente, nunca será capaz de chegar ao
alto da montanha. Está sempre se preocupando com tudo que está se passando
no sopé da montanha. Depois que tal pessoa chega à conclusão de que a vida
na terra dura somente alguns poucos dias, não mais se preocupará com as
pequenas coisas e só se preocupará com as coisas que realmente têm
importância. Se se esforçar nas pequeninas coisas, perderá a oportunidade de
realizar na vida grandes coisas. Quem se preocupa com pequenas coisas é
pequeno. A alma que pensa em grandes coisas é grande.
Não tomar conhecimento ou ignorar é a primeira lição do perdão. Essa tendência
brota do amor e da compaixão, pois quando uma pessoa tem ódio presta atenção
em todas as pequenas faltas do seu semelhante, mas quando ama, naturalmente
não toma conhecimento das faltas de quem ama. Tenta sempre transformar as
faltas do bem-amado em méritos. A vida tem infinitas coisas que mostram beleza
e tem um sem-número de coisas que mostram feiúra. Os méritos não têm fim e
não há fim para as faltas. As perspectivas do homem na vida são de acordo com
sua evolução.

Quanto mais a pessoa se eleva mais vasto se tornará seu horizonte. A tendência
à compaixão, que é uma tendência analítica de pesar, de medir e de prestar
muita atenção em tudo, proporciona ao homem o desejo de ignorar ou não tomar
conhecimento. Disse Jesus Cristo: “Não julgueis para não serdes julgados”.
Quanto mais se pensa nesta lição, mais fundo ela penetra no nosso coração. O
que aprendemos com ela é tentar não tomar conhecimento de tudo aquilo que
não se coaduna com as nossas idéias de como devem ser as coisas na vida, até
que cheguemos a um estágio de realização em que toda a vida nos parece ser
uma visão sublime da imanência de Deus.
Conciliação

Qualquer esforço no desenvolvimento da personalidade ou na formação do


caráter, deve ser feito não com o intuito de provar que somos superiores aos
outros, mas com o intuito de nos tornarmos mais agradáveis àqueles que nos
rodeiam e àqueles com quem entramos em contato. Conciliação ou “Ettefaq” na
terminologia Sufi, não é apenas a moral do Sufi, é a sua característica. Não é
uma virtude aprendida e praticada facilmente, pois necessita não só de boa
vontade como de sabedoria. O diplomata precisa de grande talento para chegar
aos resultados desejados nos acordos. O desacordo é uma coisa fácil, o acordo
uma coisa difícil. Entre as criaturas inferiores encontramos frequentemente o
desacordo, o que confirma que é difícil o acordo, porque requer uma visão mais
ampla, que é o verdadeiro sinal de espiritualidade do homem. A estreiteza de
visão torna pequeno o horizonte do homem. Quem tem uma visão estreita não
concorda facilmente com outra pessoa. Há sempre um ponto onde duas pessoas
podem se encontrar, apesar de seus pensamentos diferentes, mas esse ponto
de encontro deve ser procurado bem longe e nem sempre o homem está
disposto a ir muito longe para chegar a um acordo. Muitas vezes sua paciência
não lhe permite ir um pouco mais longe para encontrar seu semelhante. O que
geralmente acontece é que cada um quer ir ao encontro do outro mas sem sair
de onde está e não há boa vontade de nenhuma das partes em dar o primeiro
passo para a distensão.

Isso não quer dizer que uma pessoa para se tornar um verdadeiro Sufi, deve se
descartar de suas idéias para ficar de acordo com uma outra pessoa. Não há
benefício em concordar sempre com todos os pensamentos que surgirem da
parte dos outros e também não há benefício em apagar do coração as próprias
idéias. Isso não é conciliação.

O homem capaz de ouvir um outro homem, é capaz também de se fazer ouvir.


Aquele que concorda com o outro sem dificuldade, terá o poder de fazer com
que um outro concorde prontamente com ele. Se assim proceder, realmente
lucra, apesar da perda aparente que pode muitas vezes ocorrer. Quando o
homem é capaz de ver as coisas pelo seu próprio ponto de vista e também pelo
ponto de vista do outro, tem uma visão completa e um discernimento claro. Vê,
por assim dizer, com os dois olhos.

Sem dúvida alguma a fricção produz a luz, mas luz é um acordo entre os átomos.
É estimulante pensar que duas pessoas que têm suas próprias idéias, podem
discutir sobre elas. Isso não tem muita importância porque chegarão a um
acordo. Mas quando alguém discute pelo simples prazer de discutir, não há
nenhum objetivo na discussão e essa pessoa não ficará satisfeita com a
conciliação. As palavras são usadas como meio de produzir a discórdia, as
razões se transformam em combustível para o fogo. Mas a sabedoria está onde
a inteligência é flexível. Aí então o homem passa a compreender todas as coisas,
tanto o errado no certo como o certo no errado. O homem que atinge o
conhecimento perfeito elevou-se acima do certo e do errado. Conhece-os e
todavia não os conhece. Pode dizer muito, mas o que pode dizer? Para ele é
fácil conciliar cada coisa e todas as coisas, tudo.

Há uma história de dois Sufis que se encontraram depois de muitos anos, tendo
trilhado caminhos separados. Ficaram contentes em se encontrar depois de
muitos anos de separação, pois eram “mureeds” (discípulos) do mesmo
“Murshid” (Mestre). Um disse ao outro: “Conte-me por favor sua experiência.
Depois de todos estes anos de estudos e de exercícios Sufis, eu aprendi uma
coisa: conciliar-me com os outros. Posso fazer isso agora e muito bem. Por favor,
conte-me o que aprendeu”. E o outro falou: “Depois de todos estes anos de
estudos e prática do Sufismo, aprendi a governar a vida. Tudo que existe no
mundo é meu é eu sou o dono. Tudo que acontece, acontece por minha
vontade”. Nesse instante chegou o “Murshid” (Mestre), do qual os dois eram
discípulos e ambos falaram de suas experiências durante as viagens
empreendidas. O “Murshid” então disse: “Ambos estão certos. No caso de um
de vocês houve a auto-renúncia no correto significado da palavra, que o
capacitou a se conciliar com todos. No caso do outro, de sua vontade nada ficou.
Se houve uma vontade foi a Vontade de Deus”.
Otimismo e pessimismo

O otimismo representa o fluir espontâneo do amor. Otimismo representa


confiança no amor. Isso significa que o amor confiando no amor é otimismo. O
pessimismo surge de um desapontamento, de uma má impressão, que termina
num obstáculo no caminho. O otimismo cria uma atitude esperançosa na vida,
enquanto que o pessimismo faz com que o homem só veja seu caminho. Não há
dúvida que muitas vezes o pessimismo mostra consciência, habilidade, e
inteligência e pode também mostrar experiência. Mas a consciência sozinha
nunca será suficiente para sobrepujar as dificuldades encontradas na vida. A
confiança é que resolve os nossos problemas. Os sábios compreenderam que a
inteligência não chega muito longe, vai até uma certa distância e não vai adiante,
pois a inteligência é um conhecimento que pertence à terra. Quanto à
experiência, o que é a experiência do homem? Temos sempre muito orgulho de
nossas experiências, até notarmos a vastidão do mundo. Em cada linha de
trabalho ou pensamento, não há um momento em que a experiência não seja
necessária, mas quanto mais longe o homem caminha na experiência, mais ele
vê quão pouco sabe.

O efeito psicológico do otimismo é tal que ajuda o homem a alcançar o sucesso,


e foi pelo espírito do otimismo que Deus criou o mundo. O otimismo vem de
Deus, o pessimismo nasce no coração do homem. Por menor que seja a
experiência de vida de um homem, ele aprende que “se eu fizer isto, não haverá
possibilidade de sucesso”, “aquilo é improvável”, “isto não é correto”. O otimista
não se importa se no fim a coisa não der certo, tenta a sorte. O que é a vida? A
vida é uma oportunidade. Para a pessoa otimista essa oportunidade é uma
promessa, enquanto que para o pessimista essa oportunidade não existe. Não
que o Criador faça o homem perder a oportunidade: é o próprio homem que
fracassa por não segurar a oportunidade.

Muitas pessoas prolongam uma moléstia abandonando-se a pensamentos


pessimistas. Muitas vezes notamos que aqueles que sofreram durante muitos
anos de uma certa doença, essa doença torna-se tão real para eles que sua
ausência parece antinatural. Eles acreditam que a doença é a sua natureza e
desconhecem a ausência da doença. Desse modo conservam a doença dentro
do seu próprio ser. Ainda mais, há pessoas pessimistas que pensam que a
miséria é a destinação de suas vidas, que nasceram para serem miseráveis, que
não podem ser outra coisa senão infelizes, que o céu e a terra são contra eles,
mas eles próprios é que são a sua miséria, o pessimismo pertence a eles. A vida
do homem depende do objeto de concentração. Assim, se ele se concentra em
sua miséria, só pode ser miserável. Uma pessoa que tem um determinado hábito
que desaprova, pensa às vezes que é fraca diante desse hábito porque ele faz
parte de sua natureza, mas nada faz parte da natureza do homem, exceto o que
ele constrói para ele mesmo. Assim, como a natureza inteira é criação de Deus,
também a natureza de cada indivíduo é feita por ele mesmo. Assim como o Todo-
Poderoso tem o poder de mudar a Sua natureza, o indivíduo é capaz de mudar
a sua própria natureza. Entre todas as criaturas do mundo, o homem é o que
tem mais direito de ser otimista, porque o homem representa Deus na terra, Deus
como Juiz, como Criador, e como Senhor de toda a Criação. O homem é dono
de sua vida, de seus próprios assuntos, se ele souber e se convencer disso.

O homem otimista ajudará outro que está se afogando no mar do medo e do


desapontamento; enquanto que se alguém estiver doente ou deprimido e se
aproximar de um pessimista, o pessimista o empurrará para baixo e o fará
mergulhar nas profundezas juntamente com ele. Do lado do otimista, está a vida,
do lado do pessimista, está a morte. Um sobe ao topo da montanha, o outro
desce às profundezas da terra. Não há maior ajuda na tristeza ou na desgraça,
quando uma situação na vida parece sem saída, do que o espírito de otimismo,
quando a pessoa sabe que tudo acabará bem. Não há exagero em dizer que o
verdadeiro espírito de Deus vem em auxílio do homem na forma do espírito de
otimismo.

Não importa quão dura seja a situação na vida. Por maiores que sejam as
dificuldades, todas elas podem ser sobrepujadas, mas o espírito pessimista de
uma pessoa pesa e empurra-a para baixo quando ela já está num péssimo
estado de espírito. É preferível a morte do que sermos arrastados à miséria por
um espírito pessimista. A maior recompensa que pode haver no mundo é o
espírito de otimismo e a maior punição que pode ser dada ao homem por seu
pior pecado, é o pessimismo.

Verdadeiramente, aquele que está cheio de esperança será bem sucedido na


vida.
Felicidade

A felicidade depende das circunstâncias ou da nossa perspectiva da vida? É uma


pergunta feita com muita frequência e difícil de responder. Muitas pessoas com
algum conhecimento filosófico, dirão que este mundo material é uma ilusão e
suas condições, um sonho, todavia haverá bem poucos que acreditem nisso.
Conhecer uma coisa teoricamente, é diferente de praticá-la. É muito difícil elevar-
se acima do efeito produzido pelas condições. Não há dúvida que há apenas
uma coisa que nos ajuda a nos elevarmos acima das condições: é uma mudança
da nossa perspectiva da vida. Essa mudança é possível se modificarmos nossa
atitude.

A felicidade é um estado florescente da alma. Uma criança que é criada mal-


educada, agressiva e destruidora, atrairá o mesmo poder e tudo isso lhe
acontecerá mais cedo ou mais tarde. O que a criança emite, recebe de volta.
Quantas pessoas têm conhecimento desse fato? Nunca pensam que podem ser
feridas com suas próprias palavras, suas próprias ações, pensamentos ou
sentimentos. Continuam e chegará o tempo em que tudo isso Ihes será
devolvido, expulsando-as da terra da felicidade.

Em Sânscrito, a vida no mundo é chamada “Sansara”. É imaginada como a vida


num nevoeiro. Pensa-se, diz-se, faz-se, e sente-se, e todavia, todo o tempo não
se sabe completamente por que. Se já se sabe de uma razão para isso, existe
outra razão oculta que ainda não se conhece. Muitas vezes, as condições na
vida dão a impressão de cativeiro, muitas vezes parecem como se tivéssemos
que andar entre o rio e o precipício. Assim, para elevar-se acima das condições,
é preciso ter asas e ninguém as possui. Duas asas estão atadas à alma; uma é
a independência, a outra, a indiferença. É preciso uma grande dose de sacrifício
antes de se poder sentir independente na vida, e a indiferença é contra a nossa
natureza de amor e compaixão. É como se se tivesse de cortar o coração em
dois, antes de se poder praticar a indiferença através da vida. Não há dúvida que
quando a alma é capaz de abrir suas asas, o homem afasta para longe as
condições de vida e se eleva acima de todas as condições que o tornam cativo.

Não há dificuldade que não possa ser sobrepujada mais cedo ou mais tarde, mas
mesmo quando conseguimos alguma coisa que desejávamos na vida, sempre
permanece algo que parece estar incompleto. Assim a pessoa vai de uma coisa
a outra, até obter tudo que deseja. O objeto dos seus desejos vai se multiplicando
e nunca haverá um fim. Quanto mais tiver que fazer na vida, mais dificuldades
encontrará e se se afastar da vida do mundo, sua vinda à terra não terá nenhum
propósito. Quanto mais importante for a tarefa, mais difícil é a sua realização.

E assim, a tarde segue-se ao dia e isso continuará eternamente. Para um Sufi,


portanto, não é apenas necessário ter paciência para suportar todas as coisas,
para aliviá-lo momentaneamente das dificuldades e dores, mas também ver as
coisas de um certo ponto de vista. Muitas vezes é a perspectiva que muda toda
a vida de uma pessoa. A perspectiva transforma o inferno em céu, pode fazer
das tristezas, alegrias. Quando uma pessoa vê as coisas sob certo ponto de
vista, sente cada pequena alfinetada como se fosse a ponta de uma espada
atravessando seu coração, mas quando vê a mesma coisa de um ponto de vista
diferente, o coração torna-se à prova de ferroadas. Nada pode atingi-lo, todas as
coisas que lhe são atiradas são como pedras atiradas no chão, não atingem o
coração.

Qual é a significação de caminhar sobre as águas? A vida pode ser simbolizada


pela água: há aquele que se afoga na água, há outro que nada, mas há ainda
um terceiro que caminha sobre ela. Aquele que é tão sensitivo que a cada
alfinetada fica infeliz dia e noite, pertence à primeira categoria, a dos que se
afogam. Aquele que recebe e devolve, fazendo da vida um jogo, é um nadador;
não se importa de receber uma pancada, pois sente satisfação de ser capaz de
devolver uma pancada com duas pancadas. Mas aquele a quem nada pode
atingir está no mundo e, todavia, está acima do mundo. É o que pode caminhar
sobre as águas. A vida está sob seus pés, quer as alegrias como as tristezas.
Verdadeiramente, independência e indiferença são as duas asas que permitem
à alma voar.
Vacinação e inoculação

A teoria que se oculta atrás da vacinação e da inoculação é a mesma teoria


ensinada como Hatha Voga por Shiva, ou Mahadeva, como ele era comumente
chamado. Conta-se que Mahadeva costumava ingerir veneno para superar seus
efeitos. De todos os místicos Mahadeva foi o mais ousado. É representado com
uma serpente à volta do pescoço. Significa que, se uma pessoa é capaz de fazer
amizade com uma serpente, a ponto de viver com ela permanentemente à volta
do pescoço, é também capaz, sem dúvida alguma, de se sentar sem qualquer
constrangimento diante de quem não gosta. A raiva simplesmente deixou de
existir, assim como o preconceito e o nervosismo que poderia sentir diante de tal
pessoa. Quando a alma conseguiu se colocar acima da luta que empreende
contra tudo que a amedronta e a faz fugir temerosa, conquistou a vida. Tornou-
se dona ou mestra da vida. Atingiu o reino de Deus.

Não há dúvida que os processos ou métodos adotados por Shiva ou Mahadeva,


foram extremados e ninguém hoje em dia poderia recomendá-los aos seus
discípulos sem ser considerado pelo mundo como mentalmente insano.

É o que aconteceu com a vacinação. Quando foi instituída houve muita oposição.
Havia muitos preconceitos contra sua utilização. No entanto há muita coisa que
pode ser vista por trás do princípio que rege esses métodos. Eles nos levam a
uma realização mais elevada da vida e nos fazem compreender que até o que é
chamado de morte pode ser portador da vida se for colocado numa taça e nos
dado a beber. Se absorvermos o elemento destrutivo do nosso corpo ele se
tornará à prova de destruição. A destruição não será mais uma destruição:
integra-se à nossa natureza. Esse é o ponto de vista místico em relação ao
processo chamado destruição.

A morte só é morte enquanto o homem não se familiariza com ela. Quando


absorve a morte, torna-se mestre ou dono da morte. Essa foi a mensagem de
Jesus Cristo. Do princípio ao fim de suas pregações falou sobre a vida eterna. O
mistério de sua mensagem só é mistério enquanto o homem não absorve a
morte. Quando a absorve chega à vida eterna.

Certas pessoas gostam de afirmar: “Não quero nem tocar em vinagre porque
arruína minha saúde”. “Não suporto creme, não consigo digeri-lo”. “Não consigo
usar açúcar no chá, não gosto”. Para essas pessoas tudo isso é veneno.
Pensando e falando dessa maneira transformam essas coisas em substancias
estranhas ou repulsivas à sua natureza. Acabam, por ficar subjugadas ao seu
poder, submetem-se a elas, e com o tempo tudo isso passa a dominá-las. O
processo de Shiva consistia em trabalhar sempre para reagir às próprias
fraquezas. Embora as considerasse fraquezas e não como pertencentes à sua
própria natureza, agia como se tudo pertencesse à sua natureza. Absorvia tudo
que fosse estranho à sua natureza, para que nenhuma situação pudesse surgir
e o levasse a se submeter. Os encantadores de serpentes ao fazer com que elas
os mordam de vez em quando, acostumam-se com o veneno. Era o processo ou
método de Shiva, isto é, fazer um colar da morte. Pode-se chegar com isso a
extremos, mas é uma lei que deve ser estudada profundamente e que é
excelente para nosso conhecimento. Ensina-nos a ver tudo que deve ser
encontrado dentro de nós, ver toda a destruição, fonte do medo, da dor e da
decepção.
O casamento

O casamento é a mais sagrada das coisas sagradas. Em primeiro lugar, não é


um contrato nem um negócio. Se olharmos o casamento sob o ponto de vista
mais elevado, ele parece ser o preenchimento da vida.

Do ponto de vista físico, a vida que é cheia de lutas e contestações, pode ser
enfrentada com maior energia, maior coragem e maior capacidade, quando duas
forças harmoniosas se unem. Há um ditado de um poeta Persa: “Quando dois
corações se unem, tornam-se tão poderosos que removem montanhas”. A vida
é uma luta constante. É necessário que sejamos fortes e poderosos para
podermos enfrentar essa batalha. Quando dois corações estão unidos, sua
capacidade aumenta, tornam-se mais poderosos e plenamente abençoados.

Examinando o casamento sob o ponto de vista mental, toda pessoa embora


sábia, corajosa e poderosa, ainda carece de alguma coisa. Todo indivíduo
apesar de tudo que possui ainda tem defeitos. Precisa de algo melhor além dos
méritos. Precisa de convicção nos momentos de dúvida, nas horas de confusão
uma pequena luz, nos momentos de ansiedade necessita de apoio de outra
fonte, nas crises de tristeza precisa de uma palavra de consolo, de felicidade.
Mesmo se levarmos em conta o que um indivíduo possui – riqueza, poder, nível
social, posição – nada disso equilibrará sua vida, porque se há uma coisa que
pode equilibrar sua vida é uma outra alma que lhe dará aquilo que lhe está
faltando na ocasião da necessidade. Por conseguinte, sob o ponto de vista físico,
o casamento é um poder, uma força, e sob o ponto de vista mental o casamento
mantém o equilíbrio.

Há finalmente o ponto de vista espiritual do casamento. Entre os povos antigos,


os sábios davam uma resposta à sempre repetida pergunta: “Por que foi criado
o mundo?” dizendo que Deus sentiu-se só e por isso criou o mundo. Não importa
quantos raios de luz de sabedoria possamos lançar sobre a vida. Receberemos
sempre esta única e mesma resposta para a criação como motivo pelo qual foi
criado o mundo: se algo existe é somente um único Ser, é Deus. Por
conseguinte, toda a manifestação criada por Deus, é Deus. Se Deus criou o
mundo foi apenas porque se sentiu só. É a mesma idéia encontrada
simbolicamente na crença dos povos antigos, isto é, que Eva foi criada da costela
de Adão. Significa que este mundo foi criado da substância do próprio Deus, é a
própria manifestação de Deus. Ele desejou ver para acabar com a monotonia de
ser só. Se foi necessário a Deus criar alguma coisa e colocá-la diante dos seus
olhos para afastar a monotonia de ser só, é natural que cada ser humano tenha
igual inclinação. Mas a que leva essa inclinação? Leva a uma perfeição maior,
porque o homem é limitado, embora poderoso, grande, sábio e instruído. Para
se tornar maior o homem precisa se transformar numa outra pessoa.

O primeiro passo para que o ser humano se torne outra pessoa é o casamento.
Aquele que a princípio pensou que teria prazer, conforto, felicidade na vida e
usufruiria tudo isso sozinho, do momento em que se casa pensa primeiro na sua
esposa, como poderá lhe dar conforto, porque não pode mais gozar a vida sem
ela.

Quando o ser humano vê as coisas sob este prisma, sua consciência começa a
mudar. Ela se eleva, expande-se e se torna fonte de todas as revelações e
deleites. Por quê? Porque sem essa expansão o homem não desperta para o
espírito de Deus. Essa expansão remove o que existe entre seu ego ilimitado e
eleva o homem gradativamente a um estágio onde se apercebe do Ser Único,
que é a fonte e a meta final, a essência de seu próprio ser. É como disse Rumi:
“Quer tenhas amado os homens, quer tenhas amado a Deus, se amaste bastante
por fim serás levado à presença do Amor Supremo”.

Portanto, sob o ponto de vista espiritual o casamento é um passo à frente no


caminho da perfeição, caminho pelo qual é alcançado o verdadeiro objetivo da
vida.
QUARTA PARTE
O Amor

NA REALIDADE sabedoria é amor e amor é sabedoria, embora numa pessoa a


sabedoria predomine e noutra predomine o amor. O homem de coração frio
nunca é sábio, nem uma pessoa que tenha realmente calor em seu coração é
um tolo. Todavia, ambas essas qualidades são distintas e separadas. É possível
uma pessoa ser amorosa e não ter sabedoria. Pode também acontecer uma
pessoa ser sábia e lhe faltar o sentimento do amor, mas ninguém pode ser sábio
se não tiver amor no coração e ninguém pode ser verdadeiramente amoroso se
a sabedoria não tiver ainda iluminado seu coração, pois o amor provém da
sabedoria e a sabedoria provém do amor.

É muito difícil dizer o que é o amor e de que modo deveríamos amar. Amar é
abraçar as pessoas, correr atrás delas, dizer-lhes coisas agradáveis? Ninguém
acha fácil mostrar seu amor. Há pessoas que ocultam o amor no coração, em
outras o amor brota das palavras. O amor de certas pessoas altera toda a
atmosfera e o amor de outras é como uma centelha oculta numa pedra. É muito
difícil julgar quem tem amor e quem não o tem. Há o amor que parece surgir
como um estalo, gritando: “Eu sou amor”. Esse amor incendeia e se apaga. Há
o amor que se assemelha a uma centelha num cristal da rocha e que nunca pode
se manifestar. Se você segurar a pedra terá a sensação de frio, mas a centelha
lá está, firme e durável. Daí a dificuldade, de julgar.

No Oriente há a estória muito conhecida de um homem chamado Hakim e de


uma princesa conhecida por sua grande beleza. Muitos amavam-na e queriam
casar-se com ela, mas ela tinha exigido uma condição: seria aceito aquele que
trouxesse uma determinada pérola que ela ansiava possuir. Havia um
apaixonado da princesa, que a amava talvez mais que qualquer outro, mas que
não tinha possibilidade de conseguir a tal pérola. Esse apaixonado encontrou-se
um dia com Hakim. O trabalho de Hakim era percorrer terras, viajava de país a
país, fazendo o que podia para quem precisasse de seus serviços. O jovem
amoroso contou-lhe sua infelicidade e Hakim consolou-o dizendo: “Continue
perseverando na conquista de seu amor, ainda que seja muito difícil, e lembre-
se que seguirei meu caminho procurando trazer paz a seu coração e
encontrando a pérola que está procurando”. Hakim partiu à procura da pérola. A
estória conta as dificuldades que Hakim teve para obter a pérola. Por fim
conseguiu-a e levou-a ao palácio. A princesa ficou tão impressionada com Hakim
que declarou que o desejava para marido, mas Hakim falou-lhe da promessa
que fizera ao amigo, que a amava muito. Ele, Hakim, era um amoroso daqueles
que estavam em dificuldade, dos necessitados.

Essa estória tem a seguinte explicação: a princesa representa Deus e a pérola


é o conhecimento de Deus. O amoroso na estória é o que ama a Deus mas não
quer ter a preocupação de obter a pérola. Mas havia alguém, Hakim, preparado
para cavar mais fundo, mesmo que não fosse em proveito próprio e sim para o
benefício dos outros, e obter o conhecimento para transmiti-lo aos seus
semelhantes. Vemos, pois, que há dois tipos de trabalhadores: um tipo dos que
trabalham para si próprios e outro tipo, num nível mais alto, daqueles cuja tarefa
é fazer o trabalho para os outros, levando à vida de seus semelhantes a bem-
aventurança que necessitam.

Pode-se perguntar: por que quando o amor cresce as dificuldades aparecem de


todos os lados? É porque antes de alguém sentir amor, estava
inconscientemente ligado apenas à origem, à fonte, e quando o amor despertou
no plano físico, esse alguém ficou preso a uma outra pessoa na terra. É como
Adão e Eva sendo expulsos do Jardim do Éden. Esse fato faz com que as
influências trabalhem contra uma pessoa. Até mesmo o trono de Deus é
sacudido pela explosão do amor, porque uma sincera ligação na terra, que é
muito poderosa, faz com que qualquer outra influência seja automaticamente
puxada e empurrada, causando uma comoção no mundo do coração. A alma do
homem é felicidade, todavia o homem não é realmente feliz porque passou a se
ocupar com o mundo das aflições. Só o amor pode dar a felicidade de que falam
as lendas, a felicidade que está acima de todos os prazeres do mundo mortal.
Os que, consciente ou inconscientemente, vêem ou sentem a felicidade vivida
pelo amado e a bem-amada, reagem, sabendo ou desconhecendo, contra o
mundo dos desgostos.

O amor de Deus está em toda parte na natureza, todavia, vemos ao nosso redor
a destruição, a miséria e as desigualdades. Trata-se de diferença de foco. Se
focalizarmos nossa mente em tudo que é bom e belo, veremos o amor de Deus,
a despeito de toda a fealdade que possa existir na natureza, especialmente na
natureza humana. Se fizermos isso, estenderemos uma capa ou uma coberta
sobre a fealdade da vida. Se armazenarmos todas as coisas belas dentro de nós,
seremos capazes de suprir a falta de beleza em qualquer lugar usando o
suprimento de beleza que temos dentro de nosso coração. Mas se focalizarmos
nossa atenção sobre a fealdade, ela crescerá em nós e chegará um tempo em
que não seremos mais capazes de ver a beleza. Para cada lugar que volvermos
os olhos só veremos crueldade, maldade, perversidade e fealdade.

Pode-se perguntar: se focalizarmos nossa mente só na beleza, não haverá o


perigo de fecharmos os olhos para a fealdade e o sofrimento, que talvez
pudéssemos aliviar? A resposta é: para ajudar o pobre é preciso ser rico e para
afugentar o mal é preciso possuir o bem em grande profusão, é necessária a
bondade. Essa bondade deve ser obtida como o dinheiro é obtido, acumulando-
o. Essa aquisição é feita se acumularmos bondade onde quer que a achemos.
O que acontece é que o homem se agita quando vê abundância de bondade.
Sendo pobre de bondade, não sabe como acumulá-la e é empurrado na direção
do mal. Ainda que possa inconscientemente desenvolver em seu próprio caráter
um desejo ardente de bondade que vê, isso não o ajuda na sua agitação.
Procurando o mal é apenas mais uma pessoa no rol dos perversos.

Quem mantém os olhos focalizados para a beleza, com o tempo armazenará o


bem. Recebe as mesmas impressões que os outros estão recebendo, mas o
resultado é diferente. Além disso, não se ajuda a quem precisa por meio da
crítica, pelo julgamento e olhando a perversidade com desprezo. Quem está
pronto a revelar, a perdoar e a tolerar com paciência todas as desvantagens que
encontra, esse é o que pode realmente ajudar.

Deve-se amar pelo amor ao amor e não pela correspondência ao amor. Quando
se serve, deve-se servir pelo amor de servir, não pelo reconhecimento ou
qualquer apreciação. A princípio, quem age desse modo, parece um perdedor,
mas no fim será o vencedor, pois viveu no mundo e manteve-se acima do mundo,
o mundo não o atingiu. Entretanto, se alguém perguntar se se pode separar
ciúme de amor, é o mesmo que perguntar se alguém pode separar a sombra do
corpo. Onde houver amor humano, haverá ciúme.

Ademais, a tendência de duvidar, a tendência ao pesar, a tendência ao medo,


suspeita, confusão, de onde vem tudo isso? Vem do pensamento de que sempre
se deve obter alguma coisa em troca do que se dá, vem da ansiedade pelo que
o outro dará em retribuição ao que está recebendo. Esse pensamento está
oculto. Falando na dúvida, o que é a dúvida? A dúvida que ronda a alma é como
uma nuvem que passa diante do sol, impedindo sua luz de brilhar. O altruísta
tem boas razões para ter confiança. Vê através da nuvem e diz: “Que importa se
não for recompensado? Não me incomodo, sei o que faço: servir. Nisso está
minha satisfação, o que desejo é servir. Nada espero em troca. E aí que termina
meu dever”. O altruísta é um abençoado por ser um conquistador e venceu sua
batalha.

O homem duvida por não ter conhecimento da justiça divina. Sempre está a
indagar se recebeu a porção que lhe cabia ou se um outro a teve, ou ainda se
um terceiro recebeu melhor parte do que ele. Se pelo menos olhasse para cima
e visse o Juiz Perfeito, o próprio Deus, compreenderia que Sua justiça é tão
grande que no fim cada porção é igual e constante! Desigualdade é apenas uma
questão de começo, não de fim. Se o homem pudesse compreender a justiça de
Deus, seria corajoso, confiaria e não se preocuparia com a recompensa, pois se
um homem não retribuir a outro homem, Deus se encarregará da recompensa,
que é mil vezes maior que aquilo que foi dado.
Muitas vezes uma pessoa não pode dar o amor que um amigo exige e chega até
a se esquecer dos próprios amigos, tão absorvido está em seu trabalho e
ocupações. É falta de caridade? Surge então a pergunta: que é trabalho e que é
ocupação? Há trabalhos e ocupações da mais alta qualidade que requerem
atenção total de uma pessoa, exigem sacrifício. Isso não é falta de caridade.
Todos gostam de amar e se alguém consegue amar e ser amado é o que há de
melhor.

Quem quer ajudar o próximo não se esconde, faz o possível para aparecer.
“Levanta bem alto a tua luz”, assim está escrito. Tudo que está dentro de nós
deve ser trazido para fora e se as condições nos fazem esconder, rompemos
com as condições. Essa é a luta.

Se existe um poder de grande atração é o poder do amor. A pergunta que deve


ser feita é: há alguma coisa que se ame mais do que as coisas comuns da vida?
Se houver, lutemos por ela.

O amor pode tomar muitas formas, até mesmo a forma da indiferença. Lembro-
me que uma vez fui à casa de um médico em consulta para um parente. Era um
médico Indiano que usava um método muito antigo de escrever suas receitas.
Levava nisso aproximadamente dez minutos. Indicaram-me uma pequena sala
onde umas 15 a 20 pessoas já estavam esperando. Sentei-me entre elas. O
médico continuou a escrever as receitas para cada um que chegava. Quando
terminou de receitar para todos os que haviam chegado antes de mim, começou
a receitar para os que chegaram depois de mim. Pensava eu que sendo o médico
um amigo da minha família, deveria ter me atendido em primeiro lugar, mas ele
continuou a receitar até que viu que não havia mais ninguém na sala. Fui o último
a ser atendido. Finalmente dirigiu-se a mim: “Agora diga-me o que deseja”. Eu
lhe disse e começou a escrever a receita sem nenhuma pressa. Quando eu ia
me retirando ele então falou: “Espero que tenha compreendido que eu não quis
atendê-lo enquanto todos os pacientes estivessem aqui, queria atendê-lo com
vagar”. Ele me tinha feito um favor e deu-me um bom exemplo de amor na forma
de indiferença.

Se alguém ama verdadeiramente uma pessoa, acaba por amar a todos. Aquele
que diz “Gosto de fulano, mas odeio sicrano”, não sabe o que é amor, porque o
amor não é limitado, o amor é divino, portanto ilimitado. Se deixarmos o elemento
amor entrar dentro de nós, estamos nos abrindo ao elemento divino. Quando a
fonte do amor começa a se altear no nosso coração, a realização divina se
elevará como uma fonte. Os grandes santos que amaram até os pequeninos
seres, chegaram à divina realização sem grandes estudos ou meditações.
Aprenderam com o amor.

O amor é divino desde que começa e em todos os seus aspectos. Disse Rumi:
“Se no caminho do amor você ama uma pessoa ou ama a Deus, no final chegará
à presença do Soberano do Amor”. O amor é um conquistador que no fim
conquistará sempre. O amor não conquista apenas aquele que amamos. A
conquista do amor é penetrante e no final nada lhe resiste. Nunca perdemos
nada se dermos amor e bondade. O amor é um elemento que nunca é diminuído,
o amor é um tesouro divino.

Quando fazemos uma pausa e pensamos se uma pessoa merece ou se é indigna


de merecer, confinamos nosso amor dentro de um canal ou de uma passagem
estreita, mas quando permitimos que o sentimento amor flua, ele se desenvolve
num fluxo constante, transborda, escorre. Trabalha e segue seu próprio destino,
sem qualquer interferência de nossa parte.
O Coração

De um ponto de vista místico, a personalidade é formada ao redor do coração.


Para um materialista, o coração é um pedaço de músculo escondido no peito,
enquanto que para o místico o coração é o centro do ser humano, ao redor do
qual é formada a personalidade. Consciente ou inconscientemente, o homem
ama a palavra “coração” e se pedíssemos a um poeta abandonar essa palavra
e escrever seus poemas sem ela, ele nunca ficaria satisfeito e nunca satisfaria
os outros. Poucos pensam nisso e no entanto os poetas que mais sensibilizaram
a humanidade foram os que mais usaram a palavra “coração”. O que é o
homem? O homem é o seu coração. Um coração morto significa um homem
morto, um coração vivo significa um homem vivo.

Os homens andam à procura de prodígios, surpresas e fenômenos de todas as


espécies, todavia, os maiores fenômenos, as maiores surpresas e os grandes
prodígios se encontram no coração do homem. Se há alguma coisa que possa
afinar o homem com o tom mais elevado, algo que possa afinar as cordas da sua
alma com a nota certa, é a sintonização do coração. Aquele que não entrou em
contato com seu coração não alcançou Deus. As pessoas podem ser parentes,
amigos, sócios, colaboradores e se sentirem completamente separados. A
proximidade não torna as pessoas realmente amigas. Só há um meio de
aproximação com os amigos: o caminho do coração. Se existe alguma coisa
mais maravilhosa no céu e na terra, é o coração. Se quisermos procurar um
milagre em algum lugar, vamos encontrá-lo no coração. Quando Deus afinou o
coração, o que não será encontrado dentro dele?

O Nizam de Hyderabad escreveu: “Se soubéssemos como é grande o coração!


Ele acomoda dentro de si o céu e a terra, todo o mar e toda a terra”. A grandeza
e a pequenez dos homens não depende de coisas exteriores. Qualquer que seja
a classe ou posição do homem, se seu coração não for grande ele não será
grande. Se seu coração for grande, permanecerá grande sob todas as
circunstâncias. O que faz uma pessoa grande ou pequena é o coração.

Os corações podem ser de diferentes espécies: há o coração de ouro, o coração


de prata, o coração de cobre e o coração de ferro. O coração de ouro mostra sua
cor e beleza. É precioso e ao mesmo tempo brando. O coração de prata mostra
qualidades inferiores se comparadas com as qualidades do coração de ouro.
Todavia, as moedas são feitas de prata. A prata é util. Do coração de cobre são
feitos os centavos e os centavos são muito úteis na vida diária, são mais usados
que as moedas de ouro ou de prata. O cobre é forte e duro. São necessárias
muitas marteladas para moldá-lo e fazer alguma coisa com ele. Vejamos o
coração de ferro: o ferro precisa ser levado ao fogo antes que alguma coisa seja
feita com ele. Quando o ferro está incandescente, chegou o momento de
trabalhar com ele. O ferreiro precisa estar sempre alerta. Assim que o fogo
começa a inflamar-se o ferro deve ser trabalhado. Se isso não for feito, o ferro
esfria.

Além desses aspectos, há o coração de pedra e o coração de cera. O coração


de pedra tem que ser quebrado, precisa ser cortado, nada penetra nele. O frio,
o calor, o fogo, o sol ou a água têm pouco efeito sobre o coração de pedra. Mas,
quando o coração é de cera, derrete-se logo que o sol lhe cai em cima. Quando
aquecido, pode ser moldado da forma que se desejar. Há também o coração de
papel, que flutua como um papagaio ao vento: para o norte, para o sul, para leste
e oeste. Pode-se controlá-lo enquanto a corda for suficientemente forte para
segurá-lo, mas quando não houver vento, ele cai.

São esses exemplos suficientes? Não, há inúmeros corações, cada um diferente


em qualidade. Uma vez que começamos a distinguir as qualidades do coração,
começaremos a ver milagres, fenômenos vivos, a cada instante de nossa vida.
Há alguma coisa que possa ser comparada ao coração? Ele morre e vive
novamente, é rasgado e remendado, é quebrado e reconstituído, pode se elevar
e cair, e depois de cair elevar-se outra vez, depois de elevar-se cair
instantaneamente. Há um coração que pode se humilhar, outro que pode ansiar,
outro que pode correr, um outro que pode voar e não obstante não podemos
limitar a ação do coração. Não podemos imaginar quanto o coração pode ser
iluminado e obscurecido num momento! É como entrar num labirinto e depois de
estar dentro dele não poder sair. O coração pode ser confusão e pode ser
paraíso, pode ser o próprio céu. Se quisermos saber onde podemos ver a alma
se manifestar, é só olhar o coração. Onde está o paraíso, onde está o céu, onde
está o amor, onde está Deus? Podemos responder a cada uma dessas
perguntas dizendo: no coração do homem.

Imaginemos: que coisa mais maravilhosa e ao mesmo tempo tão absurda! Se


chamarmos o coração de centelha de fogo, veremos seus aspectos diferentes,
tais como compaixão em forma de calor, aspiração em forma de fogo, afeição
em forma de incandescência, devoção em forma de chama, paixão em forma da
fumaça que cega os olhos. O que nos dá coragem para permanecer firmes no
campo de batalha representado pela luta através da vida, para suportar tudo que
aparece, o que nos dá forças para ter paciência? O coração. Se o coração falha,
falhamos. Se o coração se eleva, elevamo-nos.

Quando o coração é dirigido para um ideal, um objetivo, um ponto, desenvolve-


se. Quando é instável, vai de um ponto a outro, enfraquece-se, porque o
elemento fogo do coração se extingue. A pequena centelha se incendeia quando
é soprada por nós e, todavia, o fogo é apagado pelo sopro. Por quê? Porque o
homem quando sopra a centelha dirige o ar para um único ponto, ao passo que
o vento, soprando em todas as direções, extingue o fogo.

Quando o homem diz: “Amo a todos” pode-se estar certo que não ama ninguém,
mas quando diz “Amo minha mãe, meu pai, meu filho ou minha filha, minha irmã,
meu amigo ou minha amada”, está dando o primeiro passo no caminho do amor.
Mas ninguém pode reivindicar o amor e ao mesmo tempo conhecer o amor. Do
momento que se sabe o que é o amor, perde-se a reivindicação. Antes de se
dizer “eu amo” é preciso que se seja capaz de mostrar esse sentimento saltando
dentro do fogo e extinguir-se nele.

Diz o poeta Hindu: “A primeira iniciação na ordem dos amorosos é tornar-se


nada”. Outro poeta disse: “Ó amor, ensinaste-me primeiramente a lição que
muitos aprendem no final”. Quando alguém diz: Se fores bom para mim serei
bom para ti, respeitar-te-ei” é uma proposta comercial. Quando uma pessoa diz:
“Como gostaria se alguém gostasse de mim”, incorre num grande equívoco, pois
jamais será amado, pode esperar uma eternidade. O amor nunca pede para ser
amado. O amor é mais independente do que qualquer outra coisa e é o amor
que torna uma pessoa independente.

Há o amor que se assemelha a um bebê. Deve ser tomado nos braços, não fica
de pé sozinho e se não for levantado grita. Não tem maturidade, não está
desenvolvido, ainda não é amor. E há ainda o amor que é como uma criança que
ainda não aprendeu a caminhar. Esse amor também não é desenvolvido. Há o
amor que se mantém com os seus próprios pés e caminha sozinho. É um amor
independente e pode-se depender dele.

O amor mostra suas qualidades pela constância. Onde não há constância não
há amor. As pessoas não compreenderam corretamente o significado do amor:
o verdadeiro significado do amor é a vida propriamente dita. O sentimento de
estarmos vivos, isso é que é o amor.

Então, o que é o amor? Amor é Deus e Deus é amor. Enquanto estivermos


envolvidos com ações e pensamentos egoístas, não compreenderemos o amor.
Amor é sacrifício, amor é serviço. O amor se expressa na consideração que
damos ao prazer e desprazer do bem-amado. Esse amor pode ser visto em todos
os aspectos da vida, uma vez que seja compreendido. É o amor por aqueles que
dependem de nós, por aqueles com quem estamos em contato em cada aspecto
da vida, é o amor pelos pais, pelos de nossa raça, pela humanidade. Esse amor
pode ser ampliado e ser dado a cada pequena criatura, ao menor inseto que tem
vida. Assim, a gota d’água torna-se oceano, o homem limitado pode se expandir
por meio do amor. Quanto mais a compaixão se expande, mais se volta em
direção ao céu, até que o homem se torne tão grande como o Absoluto.
Os Sufis, ao invés de ensinarem a lição da indiferença, ensinaram a lição do
amor e da compaixão, chamando esse ensinamento de cultura do coração, que
na terminologia Sufi é chamado de “Suluk”, que quer dizer a maneira divina, a
maneira carinhosa, amorosa. Quando uma maneira refinada é dirigida pela
qualidade coração, torna-se maneira amorosa, a maneira de Deus e dela
nascem todos os atributos como gentileza, tolerância, bondade, perdão,
misericórdia e compaixão. Os grandes mestres e santos não se tornaram
mestres e santos por seus milagres, seus prodígios, o que mais se distinguia
neles era a maneira amorosa.

Leiamos a vida dos profetas. Olhemos como Jesus Cristo tratava todos que o
procuravam. Quando os pecadores eram condenados e expulsos da sociedade
e eram levados à presença do Mestre, ele os levantava com sua compaixão.
Ficava do lado dos acusados. Os pescadores que estavam junto ao Mestre
nunca o compreenderam. Até mesmo os mais letrados não podiam compreendê-
lo. Todavia, o Mestre conviveu com eles e finalmente conquistou seus corações.
Conquistou-os por sua maneira amorosa. Pensemos no Profeta Maomé, cuja
filha bem-amada foi morta por um árabe diante de seus olhos. Quando o árabe
disse: “Não a matei de propósito. Vós me perdoais?” O Profeta imediatamente o
perdoou. Quando Maomé tornou-se conquistador e juiz, seus inimigos, que o
haviam maltratado e expulsado do país, foram trazidos enfileirados à sua
presença e lhe perguntaram: “O que vais fazer de nós?” Respondeu o Profeta:
“Sois meus irmãos, Deus vos perdoará”. Pensemos também na compaixão de
Buda para com o menor dos insetos.

Para termos êxito no caminho espiritual, o estudo é secundário e os poderes


mágicos não são importantes. O primeiro e mais importante princípio é o cultivo
das qualidades do coração e só há um caminho para cultivar a qualidade-
coração: ser cada vez mais altruísta a cada passo dado, pois o que impede
adquirirmos a maneira amorosa é o pensamento do ego. Quanto mais se pensa
no ego menos se pensa nos outros, até que no fim da jornada vemos o nosso
ego surgir à nossa frente como um gigante, um gigante que será o mais forte.
Mas, no primeiro passo que dermos no caminho espiritual, se lutarmos com esse
gigante, só podemos conquistá-lo pela força do amor.

O amor é a corrente d’água que quando se eleva cai novamente como uma fonte,
cada gota formando uma virtude. As virtudes ensinadas nos livros não possuem
o mesmo poder que as virtudes que brotam naturalmente da fonte do amor, da
profundeza do coração, que são o próprio amor. Há um ditado Hindu: “Não
importa a riqueza que possuís. Se não possuís o tesouro da virtude, a riqueza
nada valerá”. As verdadeiras riquezas são a sempre-crescente fonte do amor,
de onde provêm todas as virtudes.
A qualidade coração

Há pessoas que vêem a vida com o cérebro ou com o que chamam cabeça. Há
pessoas que vêem a vida com o coração. Há uma grande diferença entre esses
dois pontos de vista. A diferença entre essas pessoas é tão grande que uma
coisa que uma vê na terra a outra vê no céu, uma vê uma determinada coisa
pequena, a outra a vê grande, uma vê uma coisa limitada e a outra vê ilimitada.
Esses dois tipos de pessoas são pólos opostos. Ninguém admite estar vendo as
coisas com a cabeça. Todos dizem que vêem a vida com o coração. O mais
evoluído dos seres humanos ainda diz: “Ainda não aprendi a ver a vida com o
coração. Gostaria de saber fazê-lo, bem gostaria de aprender”.

Dizem que os emocionais e os devocionais vivem nas nuvens e os que agem


com a razão e a lógica têm os pés no chão. É verdade. Vejamos: os anjos
caminham nas nuvens. Portanto, se a alma possui a qualidade angelical, sua
esfera de ação só pode ser nas nuvens e não na terra. Pode-se perguntar: “E o
lugar da praticabilidade, onde está ela na terra?” Mas o que é praticabilidade, ou
aquilo que chamam de coisas práticas, e tudo que uma pessoa tanto aprecia?
Quanto tempo duram? Quanto valem? Não há dúvida, e é verdade: o homem
nasceu na terra para aguentar o peso do seu corpo físico, prover suas
necessidades, ter um teto sobre a cabeça e um pedaço de pão para comer. Mas
se acreditar que é nisso tudo o que deve pensar, está cometendo um grande
erro, devotando toda a vida ao que chamam de praticabilidade ou uma vida
prática, sem jamais pensar no tesouro celestial oculto no seu coração.

O coração do homem assemelha-se à água. Ou está gelada, é neve ou gelo, ou


é água em seu estado líquido. Quando a água está gelada vira um cristal, quando
é líquida está em condições de escorrer. É natural a água escorrer. Assim, a
água tem usos específicos: a salgada, é usada para uma coisa e a doce para
outra. O mar que está muito contente com o que é, que é indiferente a tudo, é
constituído de água salgada, porque não depende de coisa alguma. Dá saúde,
felicidade e prazer aos que o procuram, porque não pede nada a ninguém.
Levanta e abaixa suas ondas dentro do seu próprio elemento, é independente e
é imenso. Mostra dessa forma sua perfeição. Mas apesar dessa perfeição e
dessa independência, sua água não é doce. O ascético, que fechou seu coração
com a perfeição de Deus e com a realização da verdade, é como o mar:
independente e indiferente a tudo. Sua presença cura as pessoas, seu contato
dá-lhes alegria e, paz e no entanto sua personalidade não é interessante, é como
a água salgada.
Quando o mar está calmo, a navegação é um prazer. Quando o mar está agitado,
não há pior doença que o mal do enjôo. É através da tranquilidade, da calma e
da paz, que a mente poderosa, a mente daquele que tocou a perfeição, se abre
para qualquer um, como o mar se acalma para os que nele navegam com o
coração aberto. Navios e barcos deslizam sobre o mar. Os que viajam gostam
das viagens por mar. Mas se o mar está agitado pelos ventos e tempestades, é
também perfeito no incômodo que causa aos navegantes, aos barcos ou navios.
Da mesma forma a mente do sábio pode causar efeito sobre todas as coisas na
natureza. Pode causar erupções vulcânicas, desastres, revoluções e outras
coisas, se sua tranquilidade for perturbada. Cientes dessa qualidade do coração
e conhecendo os enormes poderes de um homem que tocou a divina perfeição,
os povos do Oriente dão grande apreço ao prazer e desprazer do sábio.
Acreditam que aborrecer um sábio é o mesmo que aborrecer a natureza em seu
todo, que perturbar sua tranquilidade significa estremecer ou abalar todo o
universo. Comparando isso com uma tempestade no mar, esta última é coisa
insignificante. O coração que tocou a perfeição, uma vez perturbado, pode
perturbar todo o universo.

A água do rio é doce. É doce porque é atraída para o mar, porque está ansiosa
para chegar ao mar. O rio representa a qualidade amor, uma qualidade à procura
do objeto amado. Um coração que ama a Deus e a perfeição de Deus, pode ser
comparado ao rio que procura o mar. É por isso que a personalidade do homem
que busca é mais agradável que a personalidade do homem que se contenta
com o que sabe.

Há um certo perigo em viajar no rio, há uma grande alegria em nadar no rio, há


um lindo cenário a ser admirado se olharmos as margens do rio. O mesmo
acontece com a personalidade semelhante ao rio: a contínua corrente que flui do
seu sentimento de solidariedade significa que a solidariedade é uma coisa viva.
Assim como o rio ajuda as árvores, as plantas e o solo em sua trajetória, existe
também essa ajuda da parte de quem é bom e compassivo, cujo sentimento
possui grande liquidez. Para onde se dirige carrega consigo a influência que
alimenta e ajuda as almas a florescer e progredir.

Às vezes encontramos uma pequena corrente de água muito mais bela e digna
de ser admirada. Exprime modéstia, finura de caráter, beleza, porque sua água
é pura. A pequenina corrente expressa a natureza de um coração inocente, o
coração que não pode deixar de ser solidário e amoroso com todas as
experiências do mundo que fizeram com que a água se tornasse amarga. As
experiências amargas não tocaram essa água e ela permanece pura e cristalina.
Inspira poetas, eleva o compositor, mata a sede do sedento, é modelo ideal para
o pintor. Com sua modéstia possui pureza e sua pureza tem vida.

Há também a água do pequeno lago. Às vezes é lamacenta, às vezes é suja,


devido à estreiteza e tamanho do lago. O coração estreito também tem lama. Por
sua estreiteza e por não ser bastante fundo, todos os elementos da terra
invadem-no e lhe tiram a pureza. E há ainda a água do grande lago, onde
crescem os nenúfares ou lírios-do-brejo, onde nadam os peixes, onde o sol se
reflete e onde o luar proporciona uma visão belíssima, onde gostaríamos de nos
sentar e olhar porque esse grande lago expressa a qualquer um que saiba ver a
natureza liquidificante do coração, o coração que não está gélido, o coração
semelhante à água. É quieto, calmo. Se sentarmos perto desse lago nosso
coração ficará tranquilo. Havendo tranquilidade no nosso coração ficará
tranquilo. Havendo tranquilidade no nosso coração, podemos ver nele nosso
reflexo.

A água da nascente é mais curativa e mais inspiradora, porque vem do alto e


corre encosta abaixo. Esse é o caráter da mente inspirada. O coração que, como
uma nascente, derrama água em forma de inspiração na poesia, na música, ou
em outra forma qualquer, possui beleza, tem a qualidade curativa. Pode fazer
desaparecer todas as preocupações e ansiedades, dificuldades e
aborrecimentos, dos que a procuram, como a água da nascente. Não só inspira
como cura.

Há também a fonte, cuja água sobe e desce em milhões de gotas. É feita pelo
homem, da mesma maneira que a personalidade, que também é criação do
homem. Quando o homem fez de si uma personalidade, o sentimento que se
eleva do coração através dessa personalidade é como uma fonte. Cada gota que
dele cai toma a forma de uma virtude.

A água que se eleva do mar em direção ao firmamento em forma de vapor,


representa a aspiração do coração. O coração que aspira as alturas, que deseja
alcançar o alto, tem a qualidade do vapor. É o coração do devoto, do que está
sempre consciente na procura do ideal mais alto, que toca os princípios mais
elevados. Esse coração inspirador toma a forma das nuvens e derrama água
como a chuva, trazendo a beleza celestial na forma de arte, poesia, música, ou
tudo que é bom e belo.

Há corações que estiveram expostos ao fogo por longo tempo. Deles vem uma
água sulfurosa que purifica e cura, pois esses corações passaram pelo fogo, por
sofrimentos.

Há corações com muitas qualidades diferentes, como a água que contém


diferentes substâncias químicas: os que sofreram, os que a vida ensinou a ser
pacientes, os que contemplaram. Todos representam uma ou outra espécie de
água que cura, o mesmo fazendo suas personalidades. As pessoas que
passaram por experiências profundas de qualquer tipo, por sofrimentos, agonia,
amor, ódio, solidão, associações, sucessos, fracassos, todas possuem uma
qualidade especial, qualidade que tem um uso especial para os outros. Quando
se chega a essa compreensão, chega-se também à conclusão de que, qualquer
que seja o destino de nossas vidas, nosso coração preparou uma substância
química através da tristeza e da dor, uma substância química destinada a um
determinado objetivo para a humanidade, que só pode ser dada se mantivermos
o coração desperto e aberto. Uma vez fechado o coração, uma vez congelado,
o homem não está mais vivendo. Não importa o que passou na vida, pois até o
pior veneno pode ter algum uso. Não há ninguém, por mais perverso que seja,
que não tenha uma utilidade, se compreender que a primeira condição para se
tornar útil à humanidade é abrir o coração.

Quanto à realização espiritual, é algo que nunca poderá ser absorvido pelo
cérebro. É recebida somente através do coração. Vejamos duas pessoas que
estejam ouvindo os ensinamentos de um Mestre: uma ouve com o coração, a
outra com o cérebro. A que ouve com o cérebro pensará: “Isso é mesmo assim
ou não?” ou: “Se é assim, como é? Como pode ser? E se é assim, por que é
assim?” Os “porquês” nunca terão fim. A outra pessoa que ouve com o coração
tem atitude diferente. A lógica e razão estão à sua disposição, mas não a
perturbam. Seu coração está aberto, ouve o coração. É tão admirável a
qualidade coração que o que cair dentro de um coração aberto instantaneamente
se revela. Quando alguém lhe diz “Não consigo compreender-te” é o mesmo que
dizer: “Meu coração está fechado para ti”. Não há nenhuma outra razão para
uma pessoa não compreender outra. Quando, entretanto, alguém diz que
compreendeu tudo, quer dizer que seu coração estava aberto. Eis a razão da
pessoa ter compreendido.

Assim, portanto, a compreensão não depende da cabeça, depende do coração.


Com a ajuda da cabeça pode-se tornar mais claras as coisas, torná-las
inteligíveis e expressá-las melhor, mas a compreensão deve vir do coração, não
da cabeça. Aliás quem usa apenas a cabeça está sempre dizendo: “Isso deve
ser assim porque eu penso assim”, enquanto que quem possui a qualidade
coração diz: “Isso é assim porque acredito que seja assim”. Aí está a diferença.
Em uma pessoa há dúvida, na outra há convicção.

Existe no idioma Árabe uma palavra muito difícil de ser traduzida: “Iman”. Não é
exatamente fé ou crença. A palavra que mais se aproxima de “Iman” é convicção,
uma convicção que não será mudada de forma alguma, uma convicção que não
vem do exterior. Estamos sempre à procura da convicção, mas não há nada
capaz de convencer. Ninguém convence ninguém. Convicção é algo que vem do
próprio coração e está situada acima da fé e da crença. Crença é o começo,
desenvolve-se como fé e culmina na convicção.

Realização espiritual nada mais é que convicção. Um homem pode pensar sobre
as melhores doutrinas ou sobre as idéias mais elevadas que existem, mas
mesmo assim ainda pensará: “Talvez seja assim”. Há sempre um “talvez”. Outro
não usa a palavra “talvez” e não a usa porque não pensa nela. Não dirá “Pode
ser assim” sabemos que é assim. Quando se chega ao estágio em que o
conhecimento da realidade se transforma em convicção, nada no mundo será
capaz de modificá-lo. Se há algo que deve ser conseguido, é essa convicção
que nunca será encontrada no mundo exterior. Vem do fundo do coração de
cada um.
Afinação do Coração (1)

Ninguém pode ser chamado de desamoroso neste mundo e também não se


pode dizer que todas as pessoas são cheias de amor. Ou o fogo queimou e
transformou em cinzas ou o coração tem a centelha do amor em sua parte mais
profunda, como a pedra que tem uma centelha de fogo mas dificilmente aparece.
Pode-se perguntar se não é fraqueza ser compassivo. O indivíduo compassivo
é o que cede, ao passo que o não-compassivo guarda tudo para si. Vemos que
o que cede é sempre o mais poderoso, muito mais que aquele que pensa que
não deve ceder. Muitas vezes uma pessoa não cede por medo, dúvida, ou falta
de confiança. Às vezes é o bravo e o corajoso que cede. Ceder nem sempre é
uma fraqueza, embora seja fraqueza em alguns casos.

Às vezes subestima-se o sentimento ao compará-lo com a razão. É um erro, pois


onde existe um sentimento verdadeiro ele é muito mais forte, muito mais
poderoso que a razão. O homem que vai de uma razão à outra razão, que
procura mais tarde uma outra razão, às vezes é muito fraco. Além disso, o
homem que vive da razão não tem magnetismo de espécie alguma, só tem
razão. Pode arguir, discutir, falar muito, mas não atrai. O homem que tem
sentimento possui um forte magnetismo, atrai sem usar palavras, porque dentro
dele há algo vivo. Encontramos no homem de sentimentos o elemento divino, a
qualidade coração.

Certa vez um homem procurou o grande poeta persa JAMI e lhe perguntou se
queria tomá-lo como discípulo e ensinar-lhe a verdade espiritual. Jami
perguntou-lhe: “Já amou em sua vida?” e o homem respondeu que nunca havia
amado. Jami então lhe disse: “Volte e ame. Que seu coração se afine. Primeiro
se derreta. Depois venha me procurar e eu lhe mostrarei o caminho espiritual”.

A simpatia, a compaixão, é a principal qualidade a ser cultivada no


desenvolvimento da faculdade espiritual, mas se alguém me perguntar o que
quero dizer quando falo em compaixão, direi que é uma coisa que não posso
explicar. As palavras que usasse seriam apenas nomes, diferentes aspectos de
uma e mesma coisa. O que chamam de gentileza, de humildade, de apreço, de
gratidão, de serviço, na realidade é amor. E o que é amor? Amor é Deus.

Um diz: “Já fui um amigável e um amoroso”. Se perguntarmos a essa pessoa por


que deixou de ser assim, dirá: “Cavei e encontrei lama”. Qualquer lugar que
cavarmos encontraremos lama. O que é preciso é cavar muito fundo até
encontrar a água. Se não cavarmos até chegar à água encontraremos só lama.
Os que se desapontam com a natureza humana, tornam o coração frio devido
aos desapontos, sofrem uma grande perda. Ouvi de alguém um dia: “Perdi um
amigo e desde então perdi também a compaixão” e eu lhe disse: “A sua primeira
perda, a do amigo, não foi muito grande, mas não posso deixar de lamentar a
segunda perda porque ao perder o amigo devia ter conservado a compaixão”.

Para um Sufi existem cinco diferentes aspirações, aspirações que deve alcançar
na procura da espiritualidade. São elas: procurar o conhecimento, procurar a
vida, procurar a felicidade, procurar a paz e procurar um ideal. Todas as cinco
aspirações só são encontradas no coração do homem. Assim sendo, só quando
o coração estiver afinado num certo diapasão ou timbre, é que a procura deve
ser iniciada.

Alguém poderá dizer: “Estou à procura do conhecimento”, mas existem duas


espécies de conhecimento: o conhecimento dos nomes e formas, em outras
palavras, o conhecimento dos fatos. Há diferença entre fato e verdade. Na nossa
linguagem cotidiana confundimos muitas vezes essas duas palavras. Trocamos
verdade por fato e fato por verdade. O outro conhecimento é o conhecimento
superior, é a procura do conhecimento elevado. Não devemos alcançá-lo da
mesma forma que adquirimos o conhecimento exterior dos nomes e formas.
Adquirimos o conhecimento exterior por meio da leitura e adquirimos o
conhecimento interior pelo desaprender. O conhecimento interno só é adquirido
quando o coração estiver afinado no devido diapasão ou timbre. Nos criminosos,
nas pessoas repulsivas, em todos os que trabalham para o próprio fracasso,
notamos que eles não possuem a qualidade coração. Quando não há a
qualidade coração, surgem certas tendências que rebaixam o indivíduo. Por
mais qualificado que seja um homem, por maior que seja sua inteligência, por
melhor que seja sua profissão, tudo isso não terá valor se não possuir a
qualidade coração. Não progredirá. Não pode ser de outra maneira.

O conhecimento interior está acima das palavras. Tentar expressar esse


conhecimento por meio de palavras, seria o mesmo que tentar colocar o mar
dentro de uma garrafa. É impossível, portanto, explicar com palavras o
conhecimento interior. É algo que nós só podemos compreender depois que
tivermos afinado nosso coração no devido diapasão. Como pode alguém explicar
o significado de uma nota alta? Não pode. É preciso primeiro cantar para depois
descobrir o significado da nota. Quando a nota for produzida por nós, sabemos
então o que ela significa. Assim também o conhecimento interior é adquirido pela
afinação do coração, para que o próprio coração fique sabendo o que é esse
conhecimento. Muitos já tentaram descrever o conhecimento interior dizendo
que eles próprios estão com Deus, que são uma parte de Deus ou até que são
Deus, mas tudo isso não passa de expressões insolentes. Por que tentar
expressar com palavras o que não pode ser expressado? Deixando de lado o
conhecimento interior, como explicar sentimentos tão profundos como gratidão,
simpatia, admiração, respeito? As palavras somente limitariam esses
sentimentos.

É imensa a força da qualidade coração. A galinha, quando está com seus


pintinhos, não hesita em lutar até com um elefante na defesa de sua prole. Seu
coração cheio de amor por seus pintos lhe dá tal força que ela nem sequer nota
o tamanho do elefante. Sua confiança na própria força é muito maior que a força
do elefante.

Os que realizaram grandes feitos, os que acharam que suas vidas pouco valiam
diante de um grande ideal, não pensaram com o cérebro, sentiram seus
corações. A qualidade amor é que dá coragem e bravura, não o cérebro. Assim,
pois, se alguém quiser procurar a força divina do Deus Todo-Poderoso, deve
procurá-la dentro do próprio coração

Fazemos também confusão entre prazer e felicidade. Às vezes chamamos o


prazer de felicidade e a felicidade de prazer. Neste mundo são muito poucos os
que sabem o que é felicidade. O prazer é a sombra da felicidade. O prazer
depende de coisas fora de nós. A felicidade pertence à qualidade coração, o
prazer pertence ao mundo exterior. A distância entre prazer e felicidade é tão
grande quanto a que existe entre a terra e o céu. Enquanto o coração do homem
não estiver afinado no seu devido diapasão, ele não será feliz. O sorriso que vem
do interior e que aparece no rosto de um homem, na atmosfera que o rodeia,
pertence à felicidade. Podem tirar de um homem o lugar que ocupa na
sociedade, pode perder a fortuna, mas jamais poderão arrancar-lhe a felicidade
interior. O sorriso do coração depende da afinação do coração. O coração
precisa ser afinado naquele diapasão em que vive.

A paz é a quarta aspiração. A paz é o anseio da alma, mas não se trata da paz
oriunda do repouso ou do conforto. A paz está muito acima dessas coisas. Paz
é algo que dá alívio a cada átomo do nosso corpo e mente quando estamos
fatigados. Paz é uma espécie de alívio, é uma espécie de elevação. Não pode
ser comparada com qualquer experiência terrena. É como ser elevado às esferas
superiores. É nessas esferas elevadas que o homem realmente experimenta a
paz. E de onde ela vem? Vem dessa afinação do coração.

O ideal é a quinta aspiração. Também precisamos da qualidade coração para


chegarmos ao ideal. Se o homem não tiver coração, não será com o cérebro que
criará um ideal. O coração é que tenta alcançar o ideal. Disse Cristo: “Procurai
primeiro o reino de Deus e todas as outras coisas vos serão acrescentadas”. Se
o homem entrar em sintonia com o ideal de Deus, ficará tão afinado que achará
um meio de abrir o coração para todas as pessoas que encontrar, criará uma
ligação com todas as coisas e condições e chegará então à união com o
Absoluto.
Assim, pois, os cinco aspectos da realização espiritual são alcançados por meio
da afinação do coração. O que é realmente essa afinação do coração? Quando
uma corda do violino se solta, não soa como deveria soar. Portanto, deixa de
preencher a finalidade para a qual foi colocada no violino. A corda é usada com
essa finalidade e para isso deve estar afinada no devido diapasão. O mesmo é
necessário para o coração. O coração precisa de um certo despertar, de uma
certa dose de vida, o que só é obtido pela compaixão. Quando no coração não
existe compaixão, o coração age da mesma forma que a corda solta do violino.

Muitas pessoas podem objetar e perguntar: “Nosso coração também não


depende do ambiente em que vivemos, das circunstâncias da vida? Se o
ambiente que nos rodeia não é agradável, como torná-lo agradável?”. É verdade,
o primeiro estágio do nosso desenvolvimento depende muito da atmosfera e das
circunstâncias de nossas vidas, mas não há nada no mundo que o homem não
possa tentar melhorar. Há muitas coisas que podemos fazer para ajudar a
melhorar, se quisermos tentar. Algumas vezes é difícil, mas em geral pensamos
que é difícil quando na realidade não há tal dificuldade. A maior dificuldade é a
falta de paciência. Quando a paciência se esgota, nada pode ser melhorado e
as coisas acabam ficando nas mesmas condições. Quando, porém, queremos
melhorar nosso ambiente, sacrificamos tudo para conseguir nosso intento e as
coisas começam a melhorar. Em geral, sempre esperamos dos outros muito
mais que eles podem nos dar. Isso nos torna impotentes e também dependentes.
Quando alguém se torna tão independente que sem a ajuda de ninguém
consegue manter seus sentimentos intocáveis, é como o sol, que aquece sem
combustível. É nisso que o sol difere da lamparina, que precisa de óleo para dar
luz. Quando acaba o óleo, a luz da lamparina se apaga.

A relação entre o coração e as condições do mundo exterior é de tal monta que


o estado do coração influencia os negócios da vida. Quando o coração está fora
de sintonia, tudo anda mal, todo o ambiente fica desafinado. Certa vez ouvi de
uma senhora o seguinte: “Tive muito azar durante esta semana: perdi e quebrei
muitos objetos. Tudo se esfacelava ou era destruído”. Disse-lhe: “Alguma coisa
estava errada com a senhora. Estava fora de sintonia. Especialmente naquela
semana algo alterou e influenciou seu ritmo”. Ela pensou sobre o assunto e
descobriu que foi justamente o que havia acontecido.

Quanto mais nos aprofundamos no estudo da vida, mais compreendemos a


influência do coração tanto no fracasso como no sucesso, na ascensão ou na
queda, nas condições favoráveis e desfavoráveis da vida. Logo que o coração
for afinado, as condições da vida melhoram e a má sorte desaparece. O
raciocínio errado, o cansaço, o desaponto entre as pessoas, tudo que não anda
bem, as perdas, tudo isso desaparece assim que há a afinação do coração. É
muito difícil manter afinado um instrumento delicado como um violino. O coração
é um instrumento incomparavelmente mais delicado que um violino. É o
instrumento tocado pela alma, pelo espírito. O coração serviu de modelo à harpa.
Os pintores antigos colocavam nas mãos dos anjos uma harpa ou alaúde.
Simbolicamente os anjos representavam o coração, a qualidade coração.

O motivo do coração influenciar nossa vida, é porque o coração é como a


semente que faz a planta crescer e desenvolver. O coração é aquela semente
que chamamos de “eu”. O pensamento, a palavra, a ação, como os frutos e as
flores, são produtos do coração. O que o coração produz é aquilo que já existia
dentro dele. Por exemplo, ninguém pode esconder sempre seus sentimentos.
Pode brincar de amigo, de corajoso, pode, se quiser, brincar durante um certo
tempo, mas não sempre, porque o que está no coração tem que ser expresso
agora ou mais tarde em forma de ações ou palavras, pelos lábios, pela atitude
ou pela atmosfera que a pessoa irradia. O coração jamais deixa de se expressar,
de uma forma ou de outra. E o que expressa? O que tem, o que é. Uma pessoa
pode ser nossa inimiga ferrenha e durante muito tempo esconder de nós seu
sentimento, mas mais cedo ou mais tarde acaba por se revelar. Outra pessoa
pode ser nossa amiga e querer mostrar indiferença de uma maneira ou de outra,
mas seu amor acaba por se revelar. Se alguém tem algo contra nós ou se nos
admira, tanto uma coisa como a outra não ficará escondida. Fecha os lábios, não
fala, nada demonstra pela atitude, nunca diz nada, mas se revelará até pelo
olhar, pela expressão e pela atmosfera que irradia. O coração fala mais alto que
as palavras.

Nosso coração está também muito ligado às pessoas que encontramos na vida,
a tal ponto que na indústria, no comércio, na profissão, na ciência, na política e
na vida doméstica, em qualquer aspecto da vida, as pessoas com quem
entramos em contato são afetadas e influenciadas pelo estado do nosso
coração. Se o coração do homem estiver desafinado, quer esteja ele no
escritório, na fábrica, em casa, entre os amigos, no clube, em sociedade, tudo
que disser ou não disser, tudo que fizer, estragará o ambiente. O segredo do
magnetismo, portanto, o mistério da atração que uma pessoa exerce pode ser
compreendido pelo estudo do coração. Sentimo-nos muitas vezes
desconfortáveis na presença de uma pessoa, ou a presença de alguém nos atrai
sem que tenha pronunciado uma só palavra. A sensação é que a pessoa é nossa
conhecida de longa data, é como se tivéssemos sido sempre amigos, embora
jamais a tenhamos visto. Se estamos afinados, ficamos afinados com todos, mas
se nosso coração estiver desafinado, todos ficarão desafinados com a nossa
presença. Eis aí o mistério da atração e da repulsão.

É comum vermos uma pessoa um dia atrair e talvez depois de uma semana, um
mês ou um ano, não mais atrair e sim repelir. A razão da pessoa ter atraído é o
que naquele momento seu coração estava afinado e depois de um certo tempo
seu coração novamente desafinou. É por esse motivo que uma pessoa que atrai
agora, torna-se repulsiva numa outra ocasião. Por não compreender a razão
dessa alteração, põe a culpa nos outros. A natureza humana é tão complexa,
que a coisa que o homem vê por último é a própria pessoa, especialmente se
ele está sempre culpando os outros. Ocupado em colocar a culpa em todo o
mundo, jamais pensará em si, que a culpa é dele próprio.

Se nos aprofundarmos mais neste assunto, veremos que há afinação do coração


não só nos seres humanos, como também na natureza, na atmosfera, no tempo,
no clima. Até as flores sentem essa afinação. Há pessoas que seguram flores
nas mãos por muito tempo, enquanto outras logo que tocam numa flor ela
murcha. O fato da flor fenecer significa que ela entrou em desafinação. Sabemos
da história de muitos sábios do Oriente que depois de terem deixado um lugar
em que repousavam e viviam em paz, onde estiveram sentados por muito tempo,
na sombra de uma árvore ou num lugarejo qualquer, voltaram após dez anos e
encontraram o lugar em péssimo estado. Assim que voltaram, o solo do lugar
tornou a ser fértil e tudo floriu. O que isso significa? Esses sábios estavam
completamente afinados.

Quando começamos a pensar mais um pouco sobre a natureza humana e


estudá-la mais profundamente, verificamos que não existe criatura mais egoísta
que o homem. Com toda a inteligência e bondade de que é dotado, o homem é
a criatura mais injusta e irrefletida que existe. Não usa a reflexão, não tem
consideração com os sentimentos de seus semelhantes, de um parente que
depende dele, de alguém que espera algo dele, que cuida dele, ou com uma
pessoa que confia na sua palavra. O homem tem sempre seu motivo, sua
conveniência, sua alegria, diante de si e tudo o mais coloca de lado. Entretanto
ele é vítima de sua falta de consideração, embora não saiba que esta é
realmente a causa de seu fracasso, de sua má sorte, de suas dificuldades, de
seus problemas ou de outras coisas que venha a enfrentar.

Há tantas dívidas a serem pagas na vida! Não são só dívidas de dinheiro, há


outras obrigações a pagar com as pessoas que nos rodeiam, obrigações para
com os que justa ou injustamente, tola ou sabiamente, esperam alguma coisa de
nós, um pensamento, consideração, amor, serviço, obrigações para com amigos
e conhecidos, obrigações para com estranhos. A vida moderna exige muito
trabalho de nossas mentes e a cada dia nos tornamos cada vez mais sem
consideração, cada vez menos refletidos. As influências desconhecidas que se
abatem sobre nós e trazem modificações à nossa vida são de tal ordem que
colocamos a culpa nesta ou naquela pessoa, nas estrelas, nos planetas, em
muitas outras coisas, mas na realidade tudo isso faz parte do reino do coração.
Nosso dever, nosso interesse, nossa virtude neste mundo é sermos pessoas que
saibam refletir. Devemos refletir sobre cada palavra proferida, sobre cada
pensamento que vier à nossa mente, cada sentimento, devemos pensar na
influência que nossas atitudes terão sobre os outros e se estamos dando prazer
a todos. Se há o que chamamos religião ou espiritualidade, seu sinal pode ser
visto nessa maneira de ser.
Há ainda um estágio mais elevado do nosso desenvolvimento: a atitude de seguir
em frente e simpatizar com tudo que encontrarmos, o que se adquire por meio
da compreensão. Quanto mais compreendermos a natureza humana, mais
compassivos seremos. Precisamos ter compaixão com todos e também com os
que não merecem. A compaixão, simbolizada pela água, com o tempo se
espalha, expande-se como a água do oceano. Transforma-se numa fonte eterna,
a água se elevando e abaixando. Querendo ensinar isso, o sábio da Índia fez do
rio Ganges e do rio Jumna lugares de peregrinação e chamou-os de rios
sagrados. Esses dois rios nascem no mesmo lugar, no topo do Himalaia. Lá se
dividem em dois grandes rios. O lugar onde se unem novamente, tornando-se
um só rio, fica perto de Allahabad e é um lugar de peregrinação. Os que lá vão
são purificados de todos os pecados.

A simbologia desse fato é a seguinte: a água que brota no topo do Himalaia é


como se fosse uma fonte de amor que nasce no coração. O que nasce do
coração é o primeiro lugar de peregrinação. Essa água depois forma os rios
sagrados Ganges e Jumna. O lugar do encontro desses dois rios chama-se
Sangam, que quer dizer simpatia, compaixão. O lugar onde o rio alcança o mar
é chamado “Unidade com Deus”. É uma bela representação do quadro da vida,
essa forma simbólica. Se interpretarmos essa simbologia corretamente,
podemos fazer a peregrinação ao Ganges no lugar onde estamos ou em
qualquer outro lugar. O rio sagrado significa a compaixão que brota do nosso
coração. Alcançar Deus significa a perfeição, a realização espiritual.
Afinação do coração (2)

Espiritualidade não é necessariamente intelectualidade, nem ortodoxia (doutrina


religiosa tida como verdadeira) e muito menos ascetismo. Tanto a ortodoxia,
como a busca intelectual da verdade, são caminhos diferentes seguidos pelo
homem para chegar à meta espiritual. Mas caminho não é meta. Se quisermos
encontrar uma definição para espiritualidade, podemos dizer que espiritualidade
é afinação do coração.

Na nossa era materialista, a qualidade-coração é a grande ausente, está


esquecida. Grande valor é dado à lógica e à razão. Se alguém dialogar conosco,
exigirá que argumentemos com a razão. Quer que sejamos lógicos. Não há lugar
para o idealismo e para o sentimento. Eis o motivo para a humanidade estar se
afastando cada vez mais da realização espiritual. A principal e melhor qualidade
para essa realização – a qualidade coração – é ignorada e essa ignorância faz
da qualidade-coração uma coisa morta. Se um poeta reside numa cidade onde
ninguém entende a poesia, se um pintor mora onde ninguém aprecia a pintura,
se um genial inventor não tem oportunidade de mostrar suas invenções, seu
talento e qualificações se embotam e por fim desaparecem; o mesmo acontece
com a qualidade-coração: se não for exercitada, se não tiver oportunidade de
desenvolver-se, se for ignorada, embota e finalmente se extingue. Há uma
canção que exprime bem essa idéia, cuja letra diz: “A luz de toda uma vida morre
quando acaba o amor”. Acabando o amor, o que resta? Não haverá mais sinal
de vida. O que restar será expresso, mas intelectualmente, prevalecendo o
egoísmo. Viver neste mundo é difícil, porque o egoísmo está aumentando
assustadoramente.

Na natureza humana, fazendo parte dela, existe uma certa nobreza, uma certa
delicadeza e uma certa independência. Há um certo ideal, uma certa finura, uma
certa maneira de ser. Tudo isso fica embotado se a qualidade-coração não for
desenvolvida pelo homem.

Viajei muitos anos. Vi pessoas empenhadas na busca da verdade. Com grande


tristeza notei que, embora muitas pessoas estivessem interessadas em assuntos
transcendentais, ainda argumentavam e perguntavam: “Acredita naquilo que eu
acredito?” Ou então afirmavam: “Minha crença é melhor que a sua”. Usavam
sempre o intelecto e no entanto não é preciso usar o intelecto na busca de Deus.
O caminho para chegar à espiritualidade não é o intelecto, o caminho é a
afinação do coração.
Pode ser dito que é verdade, mas existem muitas pessoas plenas de emoção e
afeto e no entanto os motivos nem sempre são amorosos. Podem parecer
amorosos externamente, mas o que se vê com frequência é que, quanto mais
emotiva é uma pessoa, menos amorosa é, porque seu amor é instável: num dia
seu amor está nas alturas, noutro dia no chão. Os emotivos são impulsionados
pelas emoções, assemelham-se às nuvens, que um dia deixam o céu claro e
noutro dia cobrem-no completamente O homem não deve ficar à mercê das
emoções. Emoção não é amor. A natureza-sentimento e a natureza-compaixão
é que devem ser desenvolvidas.

Especialmente no mundo ocidental, há uma falsa concepção de força da


personalidade. Muitos compreendem essa força de maneira incorreta. Sob o
disfarce de força nada mais fazem que endurecer o coração. Não são poucos os
que pensam que não é natural um homem ser tocado ou movido por algo
tocante. Ao contrário, o que não é natural é uma pessoa não ser tocada ou
movida por alguma coisa tocante. É um indício de que não está ainda no reino
humano. Ser humano e não ser tocado significa apenas que os olhos do coração
estão fechados, os ouvidos fechados e o coração morto, sem vida.
Compreendem de forma incorreta um princípio muito elevado, princípio esse que
consiste em sentir e ao mesmo tempo ser muito fortes, ter bastante força para
ocultar nossos sentimentos. Não quer isso dizer que não devemos ter
sentimentos. Um homem sem sentimentos é um homem sem vida.

Embora alguém tenha grandes estudos de psicologia, teórica e praticamente,


por meio dela não chegará à espiritualidade. Espiritualidade não pertence ao
campo da intelectualidade. Uma coisa nada tem a ver com outra. No que se
refere à espiritualidade, a intelectualidade só é útil se um intelectual puder
expressar melhor a inspiração espiritual.

Pode-se perguntar: “É uma coisa natural chegar à espiritualidade? Ela não vem
sem qualquer esforço de nossa parte? Se a espiritualidade não é uma coisa
natural, qual é a utilidade em atingi-la?” Respondo dizendo que espiritualidade
não é apanágio apenas dos seres humanos. Destina-se também à criação
inferior, a todos os seres, mas é preciso compreender que essa espiritualidade
não é no sentido que em geral a compreendemos, é uma espiritualidade no
sentido de afinação com o diapasão ou timbre natural. Até os pássaros têm seu
momento de exaltação. Quando o sol se põe, ao nascer do sol, na alvorada, ao
luar, em todos esses momentos, pássaros e animais sentem-se exaltados.
Cantam, dançam e se acomodam nos galhos das árvores em estado de
exaltação. Sentem diariamente essa alegria maravilhosa. Se formos mais além,
se tivermos olhos para ver a vida nas formas em que outros podem não vê-la –
a vida que está na rocha ou na árvore – notamos que há ocasiões em que até
as árvores estão em pleno estado de êxtase. Quem vive uma vida natural, quem
tem as portas do coração abertas, cuja alma está em contato com a natureza,
vê que a natureza canta, dança e se comunica. Não é apenas lenda ou estória
do passado, os santos falarem com as árvores. É uma verdade. A mesma
comunicação persiste hoje, como antigamente. A natureza das almas é sempre
a mesma. As almas continuam as mesmas, o que acontece é que os homens se
tornaram descrentes, não depositam mais confiança na vida. Tornam-se
materialistas, fecharam os olhos para o que está diante deles. As almas hoje
podem tornar-se santas e sábias como antigamente. As estrelas não continuam
sendo estrelas? Comunicam-se hoje da mesma forma com todos que podem
compreendê-las O homem contudo, dá as costas à natureza. Vivemos num
mundo artificial. Não só estamos nos transformando em materialistas como
estamos nos convertendo na própria matéria.

Os Sufis, no decorrer dos séculos, os místicos da Índia, da Pérsia, do Egito,


sempre levaram em consideração a necessidade de despertar a qualidade-
coração, o essencial na vida. Todas as virtudes que um sacerdote possa ensinar
e prescrever, todas as virtudes ensinadas a alguém para serem praticadas na
vida, aparecem de forma natural quando o coração se abre. Ninguém precisa
aprender virtude. A virtude é propriedade do homem. Quanto tempo durarão as
virtudes ensinadas? Se a virtude existe, deve surgir espontaneamente.

Espiritualidade é uma faculdade natural. Se os animais e pássaros podem sentir


exaltação espiritual, por que não o homem? Entretanto o homem não vive uma
vida natural. A nossa civilização nada mais tem feito senão afastar o homem
cada vez mais da natureza e da vida natural, respirando ele uma atmosfera
artificial, contrária às influências climáticas. Comemos alimentos manufaturados
e fazemos dos alimentos naturais coisa diferente daquilo que a natureza criou.

O mais importante é saber como tirar o melhor proveito de nossa existência,


como aproveitar melhor essa grande oportunidade que está diante de nós. Cada
momento não aproveitado, perdido, é lamentável, porque um momento é
incomparavelmente mais valioso que a perda de qualquer importância em
dinheiro. Quando o homem chega a essa compreensão, chega também à
conclusão de que, embora pensasse que antes estava progredindo, estava na
realidade dando voltas no mesmo labirinto. Se ao menos tivesse encontrado a
porta de saída, que o sábio chama de realização espiritual, como seria bom. Por
mais instruído que seja o homem, por mais que tenha reunido ou realizado, por
mais poder e posição que tenha alcançado, verá que nada disso é duradouro.
Só existe uma coisa duradoura: a realização espiritual. Sem ela nunca haverá
satisfação, somente insatisfação, uma sensação de desconforto. Nenhum
conhecimento, poder, posição ou riqueza pode dar a satisfação que dá a
realização espiritual.

Nada há mais fácil e nada há mais difícil no mundo que a realização espiritual.
Difícil porque a tornamos difícil, fácil porque na realidade é a coisa mais fácil de
ser obtida. O homem é obrigado a comprar e pagar tudo de que precisa. Paga
até a água que consome, mas não precisa pagar nenhuma taxa para obter a
realização espiritual. Ela está à nossa disposição, é nossa, é o nosso próprio ser.
No dia que descobrirmos o que é o nosso ser, chegaremos à realização
espiritual. No entanto, o que o homem dá mais valor é o que consegue obter com
dificuldade. O homem ama as coisas complexas. Se faz uma coisa grande e
complicada, diz: “Fiz uma coisa de valor”. Se a coisa é simples, não é valiosa.
Assim, os povos antigos, que conheciam a natureza humana, recomendavam ao
candidato à realização espiritual: “Se queres chegar à realização espiritual, dá
cem voltas ao redor do templo, durante 10 anos, todas as tardes. Vai ao Ganges.
Receberás então inspiração”. O mesmo deveria ser feito com pessoas que nunca
se satisfazem com uma simples explicação da verdade e querem coisas
complexas. Muitas vezes ouvimos alguém dizer: “Já tive um sentimento muito
profundo, mas esse sentimento desapareceu, perdeu-se. Não tenho
sentimentos”. É uma prova de que realmente algo está morto dentro dessa
pessoa. Não sabe disso. Alguma coisa muito grande e importante morreu dentro
dela, porque foi afetada em seu amor, em sua bondade. Talvez quem assim se
expresse encontrou-se com as más qualidades da natureza humana. Daí seu
desaponto. Seu coração sensível bebeu a taça de veneno e morreu. Outros,
deixando de usar seu senso de equidade, a aguda percepção dos defeitos
humanos e usando sua tendência de criticar, começam a odiar, antes mesmo de
amar, permitindo que o ódio venha em primeiro lugar, não dando nenhuma
oportunidade ao amor.

O imprescindível é desenvolver a natureza-compaixão e mantê-la em gradativo


crescimento. Assim como é difícil ao estudante de canto fazer os exercícios de
vocalização, necessários para aprimorar a voz, também é difícil ao homem
exercitar sua natureza-compaixão. Enquanto estiver em processo de
desenvolvimento, há o risco de estragar sua faculdade compassiva. Em outras
palavras, quanto mais amorosa a pessoa, mais oportunidade tem de se
desapontar. Quanto maior o amor, maior a fragilidade do coração. Tornando-se
cada vez mais suscetível, seu coração pode até se partir a qualquer instante.
Aquele que trilha o caminho da compaixão, deve tomar muito cuidado para que
seu caminho não seja bloqueado. Surgirão inúmeras tentativas de bloqueio. Só
a autoperseverança é que manterá desobstruído o caminho.

Não havendo desenvolvimento da natureza-compaixão, haverá um bloqueio na


mente e no corpo. No corpo físico existem centros nervosos que são despertados
pelo desenvolvimento da compaixão. Se esse desenvolvimento não se realizar,
os centros permanecerão fechados. É por este motivo que um açougueiro é
menos intuitivo que qualquer outra pessoa. Tudo que mantém o homem afastado
da compaixão, priva-o da intuição, pois é nos centros delicados internos que a
compaixão se desenvolve e a vida se torna plena. A ausência da compaixão faz
desaparecer a vida.

A mesma coisa acontece com a mente. Quando o coração não é compassivo,


falta alguma coisa na mentalidade humana. O que abre o coração é a
compaixão. Os Sufis usam uma espécie de remédio para combater essa doença:
a prática de uma arte que chamam de “Zikr” ou “Mantram”. Praticando essa arte
especial de maneira correta, os centros internos delicadíssimos são ativados por
meio de vibrações. Pela repetição de certas palavras místicas, esses centros
começam a vibrar. É muito frequente, depois de certo tempo fazendo esses
exercícios ou práticas, o praticante se sentir inteiramente diferente,
especialmente se um pensamento for mantido na mente no decorrer do
exercício. A concentração é simultaneamente desenvolvida. É uma ajuda à
natureza-amor ou à natureza-compaixão, para que se aprofunde ou se
centralize. Quando o fluxo começa a jorrar, uma atmosfera é criada, a atmosfera
espiritual. Tudo isso vem do desenvolvimento da natureza-sentimento do
homem.

Durante minha peregrinação junto aos homens santos da Índia, a presença de


alguns era muito mais iluminadora do que se lêssemos um livro durante toda a
vida ou se tivéssemos discutido cem vezes qualquer problema. Esses santos
não precisam dizer uma só palavra. Transformaram-se em luz viva, são fontes
de amor. Assim como na doença há infecção, na realização espiritual também
há infecção. O homem que atingiu a realização espiritual sente-se elevado, pleno
de alegria, êxtase, felicidade, iluminação. Sem dúvida há pessoas mais
impressionáveis que outras. A influência atinge mais certas pessoas que outras.
Tudo depende do indivíduo. Lembro-me de uma senhora que me revelou:
“Desde que o Senhor chegou meu marido tem sido mais atencioso comigo”. Oito
dias depois de ter deixado a cidade, ela me escreveu dizendo que o marido tinha
voltado à sua atitude anterior. O tipo da pessoa faz grande diferença. Sabemos
que o efeito do fogo é diferente na pedra, no ferro, na cera, no papel, no tecido,
no algodão, em cada material. Portanto, em cada pessoa o efeito de uma
personalidade espiritual é diferente.

Encontrei-me certa vez com um homem muito instruído, formado em filosofia,


com muitos diplomas. Conversamos sobre a parte mais profunda da vida. Ficou
muito interessado no que lhe disse. Falou-me do seu grande apreço. Pensei
então que se eu lhe falasse de meu Mestre, seria muito mais interessante para
ele. Contei-lhe que havia naquela cidade um homem maravilhoso. No mundo
inteiro não encontraríamos um igual. “Tal pessoa existe?”, perguntou-me ele
“Gostaria imensamente de conhecê-lo. Onde mora?” Disse-lhe que morava num
certo bairro da cidade e ele me respondeu: “Interessante, também moro nesse
bairro. Onde é a sua casa?” Dei-lhe o nome e o endereço. Confidenciou-me
então: “Conheço essa pessoa há 20 anos e o Senhor agora vem me falar dele!”
Pensei comigo mesmo: “Mesmo se levasse cem anos ele jamais seria capaz de
conhecer aquele Mestre”. Era uma pessoa instruída, mas que não estava ainda
apta a conhecer um Mestre. Se o homem não estiver suficientemente evoluído,
não poderá compreender e apreciar seus semelhantes. Não poderá
compreender as grandes almas. Pode sentar-se ao seu lado, falar-lhes, entrar
em contato com elas a vida inteira. Simplesmente não as verá. Entretanto para
outros que estão prontos para a compreensão, basta um só momento. O filósofo
de quem vos falo conhecia o Mestre há 20 anos, mas realmente não o conhecia.
Quanto a mim, na primeira vez que vi o Mestre, tornei-me seu discípulo. O
filósofo era instruído, um grande intelectual, mas viu o Mestre com o cérebro, ao
passo que eu o vi com o coração.

O primeiro princípio a ser lembrado no caminho da compaixão é fazer o máximo


para dar prazer aos que amamos e as pessoas com quem entramos em contato,
mas não devemos esperar o mesmo de quem amamos e dos que encontramos
na vida. Precisamos compreender que o mundo é o que é. Não podemos mudá-
lo. A única coisa que podemos fazer é nos modificar. Os que querem que os
outros façam o que eles próprios desejam, sempre ficarão desapontados. Essas
almas queixar-se-ão constantemente. Dia após dia, mês após mês, sempre a
reclamar. Não passará um dia sem haver queixas. Queixar-se-ão dos seres
humanos ou do clima. Se não se queixarem disso, reclamarão da própria
situação. Se não tiverem mais nada a reclamar, começarão a queixar-se de si
mesmos.

Esse tipo de pessoa deve se lembrar que a autopiedade é a pior forma de


pobreza. Não há muita esperança para quem leva a vida a se queixar, achando
sempre que seu pobre “eu” está sendo esmagado, esquecido, abandonado,
maltratado por todos, pelos planetas e até por Deus. É um exilado do jardim do
Éden. O homem que contudo diz: “Conheço a natureza humana, não espero
coisa melhor”, “Vou apenas tentar apreciar todas as pequeninas coisas que me
forem concedidas, é preciso sempre agradecer e dar aos outros tudo que puder”,
está assumindo a melhor atitude, capaz de ajudá-lo a desenvolver sua natureza-
compaixão. Aquele que coloca a justiça em primeiro plano ela poderá lhe causar
cegueira. Falará sempre de justiça, mas jamais a conhecerá realmente. Aquele
porém, que mantiver a justiça no último plano, a luz da justiça estará sempre no
seu caminho. Só usará a justiça com sua própria pessoa. Se não agir
corretamente com os outros se recriminará. Se os outros não agirem de maneira
correta com ele, dirá também que é justiça. Para quem é justo, tudo é justo. Para
o injusto, tudo é injusto. O que fala muito sobre justiça está muito longe dela. Por
isso fala sempre nela.

Sendo assim, pergunta-se: “Não há recompensa na compaixão, já que ela só


nos traz desapontos, não é mesmo?” A recompensa da vida é a própria vida. Um
indivíduo pode estar doente ou muito infeliz, triste, mas se lhe perguntarem:
“Quer ser transformado numa rocha?”, responderá imediatamente: “Não, prefiro
viver e sofrer”. A recompensa da vida, pois, é viver. A recompensa do amor é o
próprio amor. Amar é viver. O coração que está fechado para todos, está fechado
para o próprio ser.
A diferença entre o amor humano e amor divino é a mesma entre treinamento
militar e a guerra. É preciso conhecer o fenômeno do amor neste plano de
existência para se preparar para amar a Deus, o único que merece amor. Aquele
que diz: “Odeio os seres humanos, mas amo a Deus”, não sabe o significado do
amor. Não se exercitou e, como o soldado não treinado, não tem utilidade
alguma. Se uma pessoa amorosa ama um ser humano ou ama a Deus, não
mostra nenhum traço de ódio. Aquele que tem ódio dentro de si, não ama nem
ao homem nem a Deus, pois o ódio é um sinal de que seu coração está fechado.

Não é uma pena o que ocorre hoje entre as nações mais civilizadas? Uma nação
agindo contra a outra, a total falta de confiança e o medo constante de uma
guerra? É constrangedor pensar que a humanidade, embora pareça estar
progredindo, está atualmente retrocedendo de maneira assustadora. O mundo
evolui ou retrocede? O que falta não é intelectualidade. Todos os dias os homens
inventam grande número de artefatos engenhosos. O que falta então? A
qualidade-coração. Parece que essa qualidade está sendo sepultada cada vez
mais na parte mais profunda do ser humano. O homem verdadeiro está sendo
destruído e a parte falsa de seu ser cada vez mais se projeta. Condições
melhores só poderão ser criadas pelos homens que compreenderem que só pelo
desenvolvimento do coração poderão realizar condições ideais.

Muitas vezes ouvi de pessoas que vieram me visitar, o seguinte: “Tudo o que o
Senhor diz é muito interessante, muito bonito, também eu gostaria que o mundo
mudasse, mas quantos pensam como o Senhor? Como poderíamos conseguir
essa modificação? Como executá-la?”

Apresentavam esses argumentos pessimistas e eu lhes respondia: “Se alguém


chegar a um país com um pequeno resfriado ou gripe começa a espalhá-lo. Se
uma coisa tão prejudicial pode ser espalhada, não acham que também podem
ser espalhados um pensamento de amor, a bondade, um gesto de boa vontade
entre todos os homens? Devemos pois, saber que existem germes refinados de
boa vontade que poderemos passar de uma pessoa a outra, germes de amor e
bondade, o sentimento de fraternidade, o desejo de evolução espiritual... Seus
resultados serão maiores que qualquer outro. Se todos nós adotarmos esse
ponto de vista otimista, se todos contribuirmos com nossa pequena parcela,
realizaremos grandes coisas.”

Existem muitas pessoas boas, amorosas e magnânimas que dão seu coração a
todos que encontram. Serão elas espiritualistas? Eis um assunto muito
importante a ser compreendido. Como resposta eu diria que tais pessoas estão
muito perto da realização espiritual. São espiritualistas, mas inconscientes. Não
são portanto espiritualistas conscientes. Muitas vezes encontramos uma mãe,
um pai ou uma criança em que vemos uma tendência profunda para o amor. O
amor flui de seus corações, são fontes de amor e não obstante, nunca ouviram
em suas vidas uma só palavra sobre religião ou misticismo. Isso não tem
importância. Aliás, o que são esses nomes? Nada, apenas rede para apanhar
peixes e as pessoas podem ficar presas nelas muito tempo. Às vezes há grandes
nomes com pequenos significados, mas muitos se valhem de nomes para
comercializá-los, como são comercializadas as belas coisas. Às vezes é um
subterfúgio da parte dos pseudo-espiritualistas para satisfazer a curiosidade
humana e até criar sensacionalismo no mundo espiritual. E no entanto a verdade
é simples. Quanto mais simples a pessoa, mais procura a simplicidade, mais
perto está da verdade.

A qualidade devocional precisa ter pelo menos uma pequena direção. Essa
direção permitirá sua expansão A qualidade-amor assemelha-se à água. A
tendência da água é expandir-se, espalhar-se. A tendência da qualidade-amor é
a mesma, mas se o homem não for bem dirigido, se não chegar ao
autoconhecimento, a qualidade-amor torna-se limitada e não pode aprofundar-
se dentro dele. Essa qualidade-amor precisa aprofundar-se antes de se
espalhar. Se não se aprofundar, vai acontecer o que acontece com as pessoas
que se dispõem a amar todos os seres humanos: odeiam seus semelhantes
antes de amá-los, porque não há nelas profundidade Sem essa profundidade
não têm a necessária força de atração que deveriam ter.

Por esse motivo os Sufis sempre tiveram em consideração a cultura do coração


como cultura espiritual. Essa cultura é a afinação do coração. Afinar significa
modificar o diapasão ou o timbre da vibração, para que seja atingido um
determinado diapasão, ou seja, o diapasão natural do homem. Quando o homem
chega a esse diapasão, passa a sentir a alegria e o êxtase da vida, o que lhe
permite dar aos outros com sua presença, porque seu ser está afinado. Quando
um instrumento está perfeitamente afinado, não é preciso tocar uma música
inteira para constatar sua afinação. Basta tocar uma nota. Logo se sente o
grande magnetismo do instrumento. Se um instrumente devidamente afinado
pode ter esse magnetismo, o magnetismo do coração humano afinado é
infinitamente maior. Rumi escreveu: “Se você amou um ser humano ou amou a
Deus, se esse amor foi intenso, será por fim levado à presença do Supremo
Amor”.
A alma, sua origem e
desdobramento

Observando a vida e seu processo de desenvolvimento sob o ponto de vista


místico ou sob o ponto de vista científico, notamos que existe uma única vida
que se desenvolve por meio de fases diferentes. Em outras palavras, existe uma
só substância vital, quer a chamemos de energia, inteligência, força ou luz, Deus
ou Espírito. Essa substância vital abre caminho através dos aspectos mais
densos da natureza, até alcançar os aspectos mais refinados. Por exemplo, se
estudarmos o reino mineral, notamos que há nele uma vida que abre caminho
em direção ao aspecto exterior. Sabemos que surgem do reino mineral
substâncias como o ouro, a prata e pedras preciosas, mostrando que há um
processo pelo qual a matéria se torna cada vez mais refinada e evidenciando
que o Espírito possui tal radiação, tal inteligência e tal beleza, que se manifesta
até nas pedras preciosas.

Este é o ponto de vista científico. Se, contudo, adotarmos o ponto de vista


místico, notamos que, se estivermos entre as rochas, se ficarmos silenciosos
nas montanhas, se nos quedarmos em solidão, começamos a nos sentir num
estado de elevação, numa sensação de paz, numa espécie de união com as
rochas, montes e montanhas. O que quer isso dizer? Quer dizer que o espírito
que em nós habita, está sepultado numa escala menor nas rochas e também
dentro de nós, mas é o mesmo espírito. Eis o motivo de nos sentirmos tão
atraídos pelas montanhas, embora elas não tenham o mesmo tipo de vida que
os seres humanos. Somos nós os atraídos pelas montanhas, não as montanhas
por nós. Ademais, o que poderíamos transmitir às montanhas? Somente nossa
inquietude, discórdia, falta de harmonização, limitações E as montanhas, o que
podem nos transmitir? Harmonia, paz, calma, senso de paciência e tolerância.
Elas nos inspiram, porque nos dão idéia de que esperam, há milhares de anos,
sua elevação, que virá através da evolução da natureza, isto é, da rocha à planta,
da planta ao animal, do animal ao homem. O desdobramento gradual do espírito
está sepultado em todos esses diferentes aspectos da natureza. Cada passo
dado à frente pelo espírito – da rocha à planta, da planta ao animal e do animal
ao homem – faz com que ele se expresse mais livremente, sendo, portanto,
capaz de se movimentar com mais facilidade, maior liberdade.

Por fim o espírito acaba por encontrar, provando que existe um único objetivo
trabalhando através de toda a criação. As rochas estão cumprindo seu destino
como o homem cumpre o seu, as plantas crescem na direção da mesma meta
do homem. Que meta? O desdobramento. O espírito está sepultado e quer sair
de onde está. Há um novo desdobramento, há uma abertura maior a cada passo
da evolução. Disse Darwin que o homem veio do animal. Naquele tempo poderia
parecer que se tratava de uma nova descoberta científica, mas não se tratava
disso, pois um poeta Persa, que viveu 700 anos antes de Darwin, já havia dito
em termos poéticos e em estilo religioso, que Deus dormia na rocha, sonhava na
planta, acordava no animal e se realizava no homem. Há 1.500 anos, o Profeta
Maomé disse a mesma coisa no Corão: “Primeiro surgiu a rocha, depois os
animais e deles é que foi criado o homem”.

O místico vê o desenvolvimento da vida material da rocha à planta, da planta ao


animal e do animal ao corpo físico do homem. Esse é um dos aspectos, apenas
um deles. Há outros: o Espírito Divino, a Luz, a Inteligência, a Consciência Total.
Um faz a terra, o outro o céu. É o sol, o Espírito Divino que brilha e projeta seus
raios. Cada raio é uma alma. Assim, dizer que o homem descende do macaco,
não é verdade. Seria degradar o mais belo espécimen da natureza criado por
Deus, o homem, dizer que ele é um desenvolvimento da matéria. Trata-se de
uma concepção materialista, limitada. A alma vem diretamente do Espírito
Divino. É a própria inteligência, é a consciência que conhecemos, porque nunca
experimentamos a existência pura da nossa consciência. O que sabemos sobre
nossa consciência é aquilo de que temos consciência. Portanto, o que realmente
sabemos sobre consciência é a palavra consciência.

Não há diferença entre inteligência e consciência. Chamamos a inteligência pura


de consciência quando essa inteligência é consciente de alguma coisa.
Entretanto, somos conscientes de quê? Daquilo que está diante de nós. Não
somos só o que vemos. Somos um ser consciente e não aquilo de que somos
conscientes. O erro está em nos identificarmos com o que vemos e na realidade
não nos vemos como realmente somos. Assim, como é natural, o homem chama
seu corpo de “meu eu”, simplesmente porque não se conhece. Como ainda não
conseguiu se encontrar, identifica-se com seu corpo, mas na realidade o homem
não é o seu corpo. O homem é uma alma. O corpo é algo que o homem possui,
é sua ferramenta, é o instrumento com que experimenta a vida, mas o corpo não
é o homem. Como o homem se identifica com o corpo, é muito natural que diga
“Eu vivo”, “Eu morro”, “Eu sou feliz”, “Eu sou infeliz”, “Eu caí” ou “Eu me elevei”.
Todas as condições do corpo físico limitado e mutável do homem leva-o a
pensar: “Eu sou esta ou aquela condição” e desta forma o homem perde a
consciência do aspecto do seu próprio ser, em constante mutação.

A alma é um raio. Para experimentar a vida, a alma traz com ela um instrumento
e possui veículos que se chamam corpo e mente. Assim, ao invés de falarmos
em espírito, poderíamos dizer: a alma e seus dois veículos chamados corpo e
mente. Por meio do corpo a alma experimenta as condições do mundo exterior
e, através da mente, a alma experimenta as condições do mundo interior. A alma
experimenta duas esferas: a esfera física e a esfera mental. A esfera física
através do corpo e dos cinco sentidos. A esfera mental através da mente.

Quando, de acordo com o ponto de vista místico, meditamos sobre a evolução


do mundo, verificamos que o homem não veio da planta, do animal, da rocha. O
homem tomou seu corpo (seu instrumento físico) da rocha, do animal, da planta,
mas o homem propriamente dito veio diretamente do Espírito. Está diretamente
unido ao Espírito. O homem está e sempre estará acima do seu corpo, seu
instrumento físico, que tomou emprestado da terra. Em outras palavras, o
homem não é um produto da terra, é um habitante dos céus. Seu corpo é que é
um empréstimo da terra. Tendo esquecido sua origem, a origem de sua alma, o
homem pensa que sua origem é a terra. A terra é apenas a origem do seu corpo,
não de sua alma.

Surge por conseguinte a pergunta: O que significa o desdobramento natural da


alma para atingir a realização espiritual? Espiritualidade à parte, cada estágio da
vida do homem: infância, o período da infância à meninice, da meninice à
juventude, da juventude à meia-idade, cada passo que o homem dá à frente,
adquire uma nova consciência. Há uma consciência diferente na meninice, se
quisermos compará-la com a consciência da infância. A juventude é uma
consciência completamente diferente, se comparada com a consciência da
meninice. Desta forma, não importa o estágio da alma na vida, se sabe ou não
sabe, ela passou por muitos desdobramentos diferentes. Cada desdobramento
lhe deu uma consciência nova. Sempre haverá experiências como fracassos nos
negócios, infortúnios, doenças, reveses na vida ou um caso de amor mal
correspondido, finanças abaladas, questões de ordem social, etc. Muitos
reveses sofre o homem, mas dentro dele uma concha se parte e nasce uma nova
consciência. Poucos são os que vêem nessas coisas um desdobramento. Raros
são os que Ihes dão essa interpretação, mas é isso precisamente o que ocorre:
um desdobramento. Entre nossos conhecidos quantas vezes vemos uma pessoa
desinteressante, de caráter bastante desagradável, por quem nunca sentimos
nenhuma atração e depois que sofreu um golpe, uma tristeza profunda ou outra
experiência qualquer, desperta com uma nova consciência. A partir daquele
momento, a pessoa começa a nos atrair, porque passou por uma espécie de
processo que a modificou.

O desdobramento espiritual é a meta final da humanidade. Surge quando o


homem começa a ser mais pensativo. Logo que se lembra ou compreende esse
anseio da alma, consciente ou inconscientemente, surge-lhe o seguinte
pensamento: “Será que tudo que tenho a fazer na vida é ganhar dinheiro, atingir
um bom nível de vida ou posição? Se isso for tudo que tenho a fazer, nada mais
é que um jogo. Estou cansado desse jogo. Preciso pensar em mais alguma
coisa. Há algo mais a ser atingido”. É o começo, o primeiro passo dado pelo
homem no caminho espiritual. Assim que der esse primeiro passo, suas
perspectivas se modificam, seu senso de valores será diferente. As coisas a que
dava grande importância, tornam-se menos importantes. Coisas que lhe
tomavam muito tempo, deixam do preocupá-lo. Nasce dentro dele uma espécie
de indiferença. Nunca mais o pensador encara seu dever da mesma maneira,
porque ficou realmente mais consciente. Uma harmonia maior se estabelece,
porque passa a ter pena dos outros.

Ao dar um passo mais à frente, o homem fica perplexo. Começa a indagar


espantado: “Para que tudo isso? É muito barulho por tão pouco”. Conheci um
sábio na Índia. Eu sabia que era um homem muito profundo, que havia chegado
a um alto estágio de elevação espiritual. Ria não sei por quê. Tentei descobrir o
motivo de seu riso. Fiquei ali de pé, olhando à volta, esperando poder ver alguma
coisa. Vi pessoas se acotovelando, fazendo barulho. Para quê? Não era motivo
para rir? Cada uma daquelas pessoas, de acordo com o seu ponto de vista,
considerava-se a pessoa mais importante. Quando uma pessoa empurra as
outras é porque acha que o que tem a fazer é muito mais importante. Não é o
retrato da vida? Essa é a maneira de ser evoluído e do não evoluído. A que
chegam eles? A nada. Saem do mundo de mãos vazias. Vieram ao mundo sem
nada e saem dele sem coisa alguma.

Tal visão causa perplexidade à alma. O sábio não fica orgulhoso quando ri dos
outros, mas não pode evitar de achar graça. Ele também ri de si próprio, tanto
quanto ri dos outros.

O homem dá um outro passo à frente quando chega a uma compreensão que


altera suas perspectivas e sua maneira de ser. Em geral acontece o seguinte: de
manhã à noite o homem reage contra tudo, contra o bem e o mal. Só que vê
muito raramente o bem e sempre vê as coisas más ou encontra-se com pessoas
nervosas, excitadas, dominadoras ou egoístas. Recebe o efeito dissonante de
todos. Assim, sem saber, sua reação constante será o menosprezo, o ódio ou o
desejo de sumir. Será seu sentimento constante. Se tem o hábito de dizer: “Não
gosto”, “Detesto”, muito breve estará dizendo isso de manhã à noite a todos que
encontrar no seu caminho. Expressará essa reação com palavras, pensamentos,
sentimentos e ações.

Ao atingir esse terceiro estágio da compreensão, o indivíduo passa a entender e


não mais reagirá. Não haverá mais reação, porque chegou à compreensão. A
reação será totalmente suprimida. É o que acontece com um barco que está
ancorado: está estável. O homem também se estabiliza e passa a transmitir
tranquilidade, causando um efeito na personalidade alheia. Não é mais impelido
ao sabor do vento que sopra. Fica em cima da água, como se fosse um navio
pesado e não como um pequeno bote, que se move a cada onda. Essa é a
estabilidade que o homem atinge ao chegar ao terceiro estágio do
desdobramento da alma. Está pronto para tolerar e compreender tanto o sábio
como o tolo.
É um fato indiscutível: o tolo discorda mais que o sábio. Em geral pensa-se que
o tolo sabe mais que o sábio. O sábio concorda quer com o tolo quer com o
sábio. O sábio está pronto a compreender todos os pontos de vista. Tem idéias
próprias, tem seu modo de ver as coisas, mas é também capaz de ver as coisas
sob o ponto de vista dos outros. Isoladamente um olho não tem uma visão
completa. Assim, pois, o sábio pode ver as coisas sob dois pontos de vista. Se
não tivermos controle sobre nossos pensamentos e idéias preconcebidas, se
não ficarmos em silêncio, se não quisermos ver as coisas sob o ponto de vista
dos outros, cometemos um grande erro. A tendência desse terceiro estágio é
levar o homem a compreender todas as pessoas que encontrar.

Há ainda um quarto estágio do desdobramento. Nesse estágio o homem não só


compreende como tem compaixão. Não pode deixar de ter pena, porque chegou
à conclusão de que a vida neste mundo nada mais é que uma limitação. Todos
têm limitações, quer sejam ricos, quer estejam em posição elevada ou vivam em
péssimas condições. Há sempre limitações qualquer que seja a situação. É uma
grande tragédia. Todos, pois, têm problemas e quando o homem começa a ver
que todos têm um certo tipo de problema ou um fardo a ser carregado na vida,
não pode deixar de sentir pena. A tendência de ajudar se desenvolve, quer
sempre ajudar a todos. Naturalmente, devido a essa tendência à compaixão, o
homem procura ver os pontos favoráveis de cada um. Se olharmos para um
indivíduo sem o sentimento de compaixão, só encontraremos nele os pontos
fracos.

Ao avançar um pouco mais, quando o homem dá mais um passo à frente, abre-


se o caminho da comunicação. Assim, como existe comunicação entre duas
pessoas que se amam, também existe, da parte de quem atingiu o
desdobramento da alma, compaixão para com todos, porque a alma está tão
desperta que se comunica não só com todas as pessoas, como com todos os
objetos, os quais começam a se revelar, falando de sua natureza, caráter e
segredo. Para essa alma todos os homens são um livro aberto. Ouvimos sempre
falar de santos e sábios que falavam com rochas, plantas e árvores. Não são
histórias, são fatos reais. Essa comunicação é uma realidade.

Todos os ensinamentos dados pelos grandes profetas e mestres, são


interpretações do que viram. Interpretaram com suas próprias palavras o que
leram no manuscrito da natureza, o que ouviram das árvores, das plantas e das
rochas. Será que só naqueles tempos as coisas falavam com esses seres? Não,
a alma humana será sempre capaz de receber a bênção dessa comunicação, se
o homem compreender que isso é possível. Logo que os olhos do coração do
homem se abrirem, começa ele a ler através de cada folha, de cada árvore, como
se estivesse lendo uma página do Livro Sagrado.
O desdobramento da alma

O objetivo da vida é realizado com o desdobramento da alma. Esse


desdobramento não existe apenas nos seres humanos. É realizado durante a
vida da alma na terra. Esse desdobramento ocorre também com a criação inferior
e até com objetos de várias espécies. As nuvens se acumulam e o objetivo dessa
acumulação pode ser visto quando começa a chover. O desdobramento do
acúmulo de nuvens é que resulta em chuva. O objetivo não está no acúmulo das
nuvens, o acúmulo foi apenas um preparativo para a chuva. Vemos a mesma
coisa na natureza: ela trabalha o ano inteiro e na estação apropriada as árvores
dão seus frutos. Não só os seres humanos aguardam e se deleitam com a
contínua atividade da natureza cuja realização culmina na primavera: também
os pássaros e animais.

Aprendemos assim, que cada ser e objeto trabalha para esse desdobramento,
que é a realização do seu objetivo. Sa’di escreveu: “Cada ser foi criado na terra
para preencher um determinado objetivo. A luz desse objetivo está acesa no seu
coração”.

Entretanto, atrás dos diferentes objetivos que trabalham através de cada


indivíduo, parece haver um objetivo: o desdobramento da alma. Sabendo disso,
os antigos Hindus mantinham esse ideal diante deles em todas as etapas da
vida. Não eram só os pesquisadores da verdade que procuravam o
desdobramento da alma. O artista, o cientista, o homem culto, o industrial, o
comerciante, todos acreditavam que através do exercício de suas ocupações,
poderiam alcançar essa meta. A grande tristeza de hoje é que os homens estão
tão segregados em suas diferentes ocupações que perderam o fio que une a
humanidade num só elo, que impulsiona e traz benefícios para o todo. Quando
o cientista está firme e fortalecido em suas funções, o artista está absorvido em
sua esfera de ação, o industrial em seu mundo e o comerciante em seus
negócios, é natural que suas almas não se comuniquem entre si com a finalidade
de conseguirem uma força associativa capaz de trazer uma melhoria para todos.

Embora em todo o mundo prevaleça atualmente uma degenerescência causada


pelo materialismo extremado, ainda não é muito difícil encontrar modelos de
personalidade exemplares em todos os estágios da vida, personalidades que
desejam chegar à meta desejada. Rabindranath Tagore traduziu para o inglês
um livro de versos de Kabir. Kabir era um homem sem cultura, um tecelão desde
menino, cujo sustento dependia do seu trabalho. Kabir, entretanto, vivia numa
procura contínua do desdobramento da alma e chegou à sua meta. Contou então
suas experiências numa linguagem comum e simples e seu livro é considerado
hoje uma escritura sagrada.

Isso nos leva a pensar como é possível a um cientista através de seus estudos
científicos, ou um artista através de sua arte, um comerciante através de seus
negócios, chegar à verdade central que interessa a todas as almas. Quando
olhamos a humanidade, vemos que não podemos apenas dividi-la em diferentes
raças e nações. Podemos dividi-la também em pessoas com diferentes tipos de
ocupação. Na presente era em que impera o materialismo, a única coisa que une
os homens é o interesse material, mas quanto tempo podemos ficar unidos por
um interesse material? Uma amizade formada no materialismo não é uma
amizade duradoura, nem os amigos assim constituídos podem contar uns com
os outros. É o sacrifício que torna os homens amigos e leva-os à cooperação
mútua. No sacrifício é que está o sinal da espiritualidade. Nós, entretanto, não
nos unimos mais no sacrifício. Nossa união se baseia naquilo que podemos
lucrar, de uma forma ou de outra. É muito triste ver que para nos unirmos
estamos caminhando aceleradamente para um ideal inferior, que jamais será
realmente um núcleo central de união. Só o ideal elevado une. Seguindo esse
ideal podemos ter esperanças de nos unirmos.

Como definir o desdobramento da alma? A alma assemelha-se à rosa. Assim


como a roseira dá flores, a alma também se desdobra. Para que a roseira
floresça, cinco coisas são necessárias: solo fértil, luz solar, água, ar e espaço.
Essas cinco coisas também são necessárias para o desdobramento da alma.
Assim como é necessário um solo fértil para que a roseira cresça, é
imprescindível educar o homem para o ideal espiritual desde o momento de seu
nascimento. Quando uma criança é privada dessa educação tão importante na
infância não existe o solo fértil em que deve crescer, como acontece com a raiz
da rosa se for privada desse solo. Recordo-me de ter encontrado muitas pessoas
com todas as possibilidades e tendência para as coisas espirituais e sublimes e
que ao mesmo tempo tinham medo da terminologia em que esses assuntos são
expressos. O que isso quer dizer? É um indício de que na infância algo Ihes
havia sido negado e depois, ao se tornarem adultos, embora sentissem desejo
de conhecer os assuntos espirituais, embora quisessem isso, tinham medo
quando os viam expressos numa forma a que não estavam habituados.

Existe ao menos uma alma que, embora materialista, não queira se desdobrar?
Não existe. Todas as almas nasceram para se desdobrarem. Essa é a tendência
inata da alma, não pode ser evitada, contudo, se a alma for privada das
condições adequadas e corretas, cessa seu desenvolvimento. Encontrei
frequentemente pessoas que não acreditavam em nenhuma religião, não
professavam nenhuma crença, nem aderiram a qualquer ritual espiritualista e,
no entanto, descobri nelas grandes qualidades espirituais.
A água que alimenta a rosa é o elemento amor. Se esse elemento não estiver
presente na vida do homem, ele ficará para trás, por maior que seja seu
conhecimento intelectual e seu desejo de procurar a verdade. Infelizmente, na
vida cultural o elemento amor parece às vezes faltar. Um homem letrado dirá
que no mundo da razão não há mais lugar para esse elemento e assim cria uma
separatividade entre o conhecimento exterior e o ideal religioso chamado de
amor à Deus.

Em que consiste a parte do sol na vida de um homem, quando comparada com


a parte que cabe ao sol no crescimento da rosa? A inteligência. Nem todos
parecem ser inteligentes, mas a alma é inteligência. Quando a inteligência está
coberta pela névoa das impressões, das idéias terrenas, ela se afoga, fica
sepultada sob alguma coisa. Quando a inteligência fica a descoberto, brilha
como o sol. A missão de Buda foi chamar a atenção principalmente para essa
finalidade. Tudo que Buda ensinou aos discípulos foi que descobrissem essa
inteligência pura, que está acima de todo raciocínio e é a essência de toda a
razão.

O papel do ar no crescimento da alma é o seguinte: o ar é o símbolo da


inspiração, que vem do coração quando ele está preparado. A alma é levada ao
seu desdobramento, não pelo estudo vindo do mundo exterior, mas pelo que
aprende por meio da inspiração.

O espaço necessário à volta da roseira para que ela possa crescer, significa
simbolicamente uma vasta perspectiva na vida. Podemos viver cem anos, mas
se nossa perspectiva for estreita, jamais veremos a luz. Para ver a vida
claramente, a perspectiva deve ser grande, extensa. É preciso lutar bravamente
para tornar nossa perspectiva vasta, pois o caráter de nossa vida no mundo é de
tal ordem, que nos arrasta para o fundo e nos coloca numa situação em que não
podemos ter outra coisa senão uma perspectiva estreita. Um grande homem não
é grande por seus méritos, suas qualidades ou reputação. A prova mais
convincente que um homem pode dar de sua grandeza é sua vasta perspectiva.
Como é maravilhoso notar como, mesmo inconscientemente, as pessoas que
chegaram a esse estágio trilhando caminhos diferentes, automaticamente
começam a mostrar uma larga perspectiva na vida! O que fertiliza a planta e faz
as rosas florescerem é simbolicamente representado pelo ensinamento dado
pelos grandes mestres da humanidade.

Como podemos reconhecer esse desenvolvimento da alma, no qual se realiza o


objetivo da vida? Quais as indicações e sinais? A alma torna-se uma rosa e
começa a mostrar a qualidade-rosa. Assim como a rosa tem muitas pétalas
agrupadas, do mesmo modo o homem que atingiu o desdobramento da alma
começa a mostrar muitas qualidades diferentes. Essas qualidades emitem uma
fragrância em forma de personalidade espiritual. A rosa tem uma bela estrutura
e a personalidade que passou pelo desdobramento da alma também tem uma
linda estrutura, que se evidencia pelas suas maneiras, pelo trato com os outros,
pelo falar, pela ação. A atmosfera do ser espiritual impregna o ar, como o
perfume da rosa.

A rosa tem sementes no seu âmago. As almas evoluídas também têm em seus
corações a semente do desenvolvimento, que produz muitas rosas. A rosa
floresce e fenece, mas a essência extraída da rosa vive e conserva a fragrância
que ela tinha em sua plena florescência. As personalidades que tocam o plano
da consciência vivem um certo tempo mas deixam a sua essência, como a
essência extraída das rosas viverá milhares e milhares de anos, sempre
conservando a mesma fragrância, dando o mesmo prazer que a rosa deu um
dia.
O desejo da alma

O desejo da alma é andar sempre no caminho reto, nunca andar pelo caminho
das trevas. O homem não gosta de ficar às escuras sem uma vela ou uma luz
qualquer. Todos nós apreciamos uma boa luz, o que demonstra que o desejo da
alma é ter luz.

O que falta ao homem é o conhecimento dos prazeres elevados, pois o que


conhece são apenas os prazeres momentâneos. Experimentando um prazer
momentâneo que dura apenas alguns minutos ou dias, há um preço a pagar e o
pagamento, por exemplo, pode levar dez anos. O homem descobre que esse
prazer momentâneo não é o que realmente deseja, deseja realmente uma coisa
melhor, de maior duração. Procura essa coisa melhor e se volta para o
misticismo, mas o misticismo talvez não seja para ele. Pode estar despreparado
para trilhar o caminho do misticismo. Volta-se então para a religião, mas os
dogmas e rituais da religião não o satisfazem completamente. Se é um devoto
pode se sentir satisfeito, mas se não for, não ficará feliz.

O trabalho do Sufi é ajudar os que buscam esse algo mais. Em primeiro lugar é
necessário o melhoramento da saúde física. Muitas vezes a fraqueza ou doença
do corpo é a causa das péssimas condições da mente e da alma. Uma pessoa
muito fraca, embora inteligente, cederá facilmente a uma pessoa forte se ela se
dirigir à pessoa fraca em voz de comando.

Em nossa preferência pelos elementos de origem animal, vamos ao ponto de


não indagar se o animal do qual estamos ingerindo a carne, estava em boas
condições ou quais as qualidades da carne, embora isso possa nos prejudicar.
Vemos que as plantas alimentadas com certas substâncias adquirem
determinadas qualidades. Assim é com os animais e peixes e assim também é
com os seres humanos. Basta olhar para as condições de um Brâmane, que só
se alimenta de vegetais e apenas determinados vegetais e jejua bastante. Sua
inteligência é muito clara.

Vemos que o efeito do ópio e do álcool é tão forte que as pessoas mais
inteligentes se tornam fracas quando os usam. Mesmo o chá e o café têm seus
efeitos. Há muitos Sufis que ao fazerem certas práticas espirituais, não comem
absoluta mente nada, não em obediência a certos princípios e sim para que seu
corpo se torne um instrumento adequado.
Os fundadores das diversas religiões sempre prescreveram o que devia ser
comido e o que devia ser evitado, pois sabiam o efeito dos diferentes alimentos.
Sobre a questão do vegetarianismo e do sacrifício de animais, há duas coisas a
serem consideradas: uma é não fazer sofrer. É uma tendência humana ferir,
danificar, e o homem a herdou da criação inferior. Essa tendência predispõe o
homem a matar criaturas indefesas e usá-las como alimento, a despeito de todos
os vegetais, cereais, frutos e nozes que existem e que a natureza criou para seu
sustento. A outra coisa a ser considerada é a purificação do sangue, a saúde
dos músculos. Para a pureza do corpo em geral uma dieta de vegetais é
preferível ao uso da carne. Ao mesmo tempo, o treinamento do Sufi é um
treinamento espiritual e assim como o médico vê em cada caso o que é melhor
para uma determinada pessoa, o mestre prescreve aos discípulos o que é melhor
para a alma. Talvez para algumas pessoas a dieta vegetariana não seja
suficiente e adequada. Para tais pessoas a carne pode ser um remédio. Assim,
os Sufis não fazem tais restrições e para eles não existe o dogma do
vegetarianismo, pois a necessidade de cada indivíduo está de acordo com sua
saúde.

Nos tempos antigos os pastores tinham o hábito de enrolar alguns animais do


rebanho em peles de tigre, para protegê-los dos animais ferozes, quando os
transportavam em campo aberto. Quando uma pessoa bondosa vive neste
mundo, onde existem tantas naturezas diferentes, é mais difícil para ela viver
entre as vibrações grosseiras do que outras pessoas, que talvez sejam mais ou
menos da mesma categoria. Quando alguém morre jovem, frequentemente se
ouve dizer que era uma boa pessoa. Geralmente há nisso alguma verdade.
Muitas almas que vêm à terra, tendo vindo de lugares bons e belos, não podem
suportar a grosseria vulgar da natureza humana.

De fato o que é dieta? Dieta não é para a alma, é somente para o corpo. E o que
é o corpo? O corpo é uma capa, um cobertor. Se o corpo for coberto com uma
armadura, poderá suportar a luta da vida. Foi por essa razão que os grandes
seres também se permitiam tomar parte na alimentação à base de carne, que na
realidade é destinada à maior parte dos homens.

Vamos falar sobre o melhoramento da mente. No momento atual grande atenção


é dispensada à saúde física. Na verdade essa atenção não é a ideal, pois é dada
apenas sob o ponto de vista físico. Muito poderia ser feito levando-se em
consideração o ponto de vista místico. Os médicos nos falam de diversas
doenças do corpo e como devemos nos resguardar contra elas, mas falam muito
pouco sobre as doenças da mente e das faltas que com tanta facilidade vemos
nos outros e não em nós.

Enquanto somos jovens nossos pais nos advertem sobre nossas faltas, embora
encontremos no mundo poucos pais perfeitos. Mas mais tarde, ninguém nos
adverte sobre nossas faltas. As pessoas apenas pensam: “Como fulano é
desagradável, não gostaria de me ligar a ele”. Nós mesmos não vemos as
nossas faltas. Estamos o tempo todo apontando as faltas dos outros. Nossas
faltas podem crescer tanto que, quando envelhecemos, nossos filhos não mais
desejam nossa companhia e os amigos desaparecem. Enquanto dura a
juventude há um certo magnetismo, uma certa parcela de encanto que encobre
nossos defeitos. Ricos ou pobres podem encobrir suas faltas, mas um
empregado, um serviçal, estará sempre atento esperando uma oportunidade
para denunciá-las

Não devemos olhar as faltas dos outros, não vamos pensar que uma pessoa é
estúpida ou desagradável, vamos olhar para nós mesmos. Se cada um de nós
estiver ocupado com seus próprios antecedentes sombrios, terá bastante para
se ocupar. Depois disso é que surge para cada um de nós o melhoramento da
alma. A alma é a faculdade de conhecer. No seu aspecto coletivo pode ser
chamada consciência, enquanto que no seu aspecto limitado é a inteligência de
cada ser individual. O desejo da alma é conhecer ou saber. A alma é muito
inquisitiva. Quando vê o mar, deseja saber o que é o mar, de onde vem. Vê uma
árvore e deseja saber o que é a árvore, quais são seus frutos, seu paladar.
Somos todos iguais. Queremos saber alguma coisa sobre cada nova flor que
temos oportunidade de encontrar. Quando a alma é ativa deseja saber que
ciência pode aprender, que linguagem, que música. Deseja saber tudo sobre
história e geografia. Quer ler jornais para ficar sabendo o que se passa em outras
partes do mundo. O corpo fica ofuscado diante da consciência.

A alma pode ter conhecimento de muitas coisas, mas nunca ficará satisfeita se
não conhecer a si própria, o que é e de onde vem. Esse é o segredo do
conhecimento. O mundo está sempre correndo atrás do conhecimento das
coisas exteriores, mas a alma precisa do conhecimento de si mesma. Quando o
homem chega a esse conhecimento, Deus fica orgulhoso, sente orgulho daquele
que, embora sendo um homem, chegou à realização de Deus.
O despertar da alma (1)

Da infância à juventude e da juventude à maturidade há um processo de


despertar. Durante esse período de desenvolvimento nossos pontos de vista e
nossas perspectivas da vida sofrem sempre diversas modificações. Notamos
que muitas vezes quando somos acometidos de uma doença e passamos por
grandes sofrimentos, ao terminarem, todas as nossas perspectivas da vida se
modificam. Às vezes acontece também a uma pessoa que viajou voltar
aparentemente muito mudada. Outrossim, acontece frequentemente a uma
pessoa uma mudança súbita de perspectiva depois de ter feito uma nova
amizade, tornar-se aluna de um professor ou contrair matrimônio. Há até casos
em que a mudança no desenvolvimento é tão marcante que dizemos que
estamos diante de uma pessoa completamente diferente

Podemos dividir essas mudanças ou desenvolvimento em três classes: a


primeira está ligada ao desenvolvimento físico, a segunda ligada ao
desenvolvimento mental e a terceira ligada ao desenvolvimento da alma. Embora
alguns não queiram admitir, há indivíduos que podem coletar experiências na
infância e naqueles momentos toda sua perspectiva da vida se modifica. Um dos
resultados desejáveis é o amadurecimento. O propósito de cada objetivo na vida
é amadurecer e desenvolver. Portanto, no despertar da alma devemos
reconhecer que nesse despertar está a realização da nossa perspectiva da vida.

O primeiro sinal do despertar da alma se assemelha ao nascimento de uma


criança. Desde o momento do nascimento a criança começa a se interessar
pelas coisas, a ouvir tudo, qualquer som emitido, a ver tudo: cores, luz ou
qualquer outra coisa. Do mesmo modo, uma pessoa cuja alma esteja
despertando, acorda para tudo que vê e ouve. Comparada com essa pessoa
todas as outras parecem ter os olhos abertos mas não enxergam, parece que os
ouvidos estão abertos mas não ouvem. Embora existam muitos indivíduos com
os ouvidos abertos, raramente encontramos um que ouça. Embora encontremos
muitos com os olhos abertos, é raro encontrarmos um que veja. É por isso que
a visão natural da alma despertada é chamada de clarividência e a audição
natural da alma despertada é chamada de clariaudiência. A palavra inglesa
“seer” (vidente) insinua que o vidente tem olhos mas são olhos que realmente
enxergam.

Do momento que a alma despertou, a música passa a atraí-la, a poesia


sensibiliza-a, as palavras comovem-na, a arte tem uma influência enorme sobre
ela. Essa alma não é mais uma alma adormecida, é uma alma despertada que
começa a apreciar a vida na sua mais ampla dimensão. É este despertar da alma
que é mencionado na Bíblia: “A não ser que a alma nasça de novo não entrará
no Reino do Céu”. A razão é que a alma para nascer de novo ou renascer precisa
despertar depois de vir à terra. “Entrar no reino do céu” significa entrar no mundo
no qual estamos agora vivendo, o mesmo reino que se transforma em céu logo
que nosso ponto de vista se modifica. Não é interessante e maravilhoso pensar
que a mesma terra sobre a qual caminhamos é para um terra e para outro céu?
É ainda mais interessante notar que só nós podemos mudar a terra em céu. Essa
mudança se faz não por meio de estudos ou por outro meio qualquer e sim
através da mudança do nosso ponto de vista Conheci pessoas que estavam à
procura da verdade. Estudaram em livros escritos sobre a verdade e até
escreveram livros sobre filosofia e teologia. Estavam no mesmo ponto em que
começaram, o que prova que todos os esforços feitos exteriormente são
paliativos. Só há uma coisa que nos coloca face a face com a realidade: o
despertar da alma.

Toda a tragédia da vida, todas as misérias e desarmonias são causadas pela


falta de compreensão e a falta de compreensão vem da ausência de penetração.
Quando não olhamos a vida sob o ponto de vista pelo qual ela deve ser vista, o
desapontamento aparece, porque não podemos ver o que está acontecendo.
Não é o mundo exterior que deve nos ajudar a compreender melhor as coisas,
somos nós que devemos nos ajudar.

A seguir vem um despertar mais avançado, uma continuação do que chamamos


despertar da alma. O sinal desse despertar é mostrado quando a pessoa projeta
uma luz, a luz de sua alma, sobre cada criatura e cada objeto e, sob essa luz, vê
as pessoas, os objetos e as condições. É a própria alma da pessoa que se
transforma numa tocha nas suas mãos, é sua própria luz que ilumina seu
caminho. É o mesmo que dirigirmos um farolete para todos os cantos escuros
que não podem ser vistos a olho nu: os cantos se tornam nítidos porque foram
iluminados. É lançar a luz sobre problemas que não podem ser compreendidos
e que existem, vivendo as pessoas e as condições através de um raio X. Através
desse raio X, que é a nossa própria luz, vemos claramente o que antes era um
enigma.

Logo que a vida se torna nítida para a alma despertada, a vida mostra outra face
da manifestação, que consiste no seguinte: cada aspecto da vida se comunica
com a pessoa cuja alma foi despertada. A vida é comunicativa, a alma é
comunicativa, mas não há comunicação até que a alma seja despertada. A alma
começa a se comunicar com a vida imediatamente após ser despertada. Quando
jovem meu grande desejo era visitar os santuários dos santos e dos grandes
mestres, mas embora quisesse muito ouvir alguma coisa deles e fazer-lhes
perguntas, reprimia minhas perguntas e me sentava silenciosamente diante
deles. Sentia grande alegria ao fazer isso e recebia uma bênção muito maior
sentando-me em silêncio do que se discutisse, arguisse ou falasse com aqueles
seres, porque sentia que havia uma comunicação muito mais gratificante do que
se discutisse como muitos faziam, que nem sabiam o que estavam discutindo.
Eram momentos de grande comunicação, repousantes, que transmitiam poder e
inspiração, que nos permitiam ver a vida sob uma luz melhor.

As pessoas despertadas se transformam em luz-guia, não só para elas como


para os outros. Através da sua luz, muitas vezes, sem o saber, suas presenças
ajudam e os problemas mais difíceis se tornam fáceis. Isso nos leva a
compreender que o homem é luz como falam as Escrituras, uma luz cuja origem,
cuja fonte, é divina. E quando essa luz é acesa a vida se torna completamente
diferente. Além disso, quando a alma é despertada é como se a pessoa se
levantasse no meio da noite entre centenas e milhares de outras profundamente
adormecidas. Ela pode estar em pé ou sentada no meio daquelas pessoas,
olhando-as, ouvindo-as falar sobre suas tristezas e miséria, sobre suas
condições, centenas delas se remexendo no seu sono e sonhos. Contudo, tal
pessoa não está acordada para os estados ou condições daquelas pessoas,
apesar de estar no meio delas. Podem ser amigos ou parentes, conhecidos ou
inimigos, seja qual for o seu relacionamento com eles, mas aquela gente sabe
muito pouco sobre essa pessoa porque cada um está absorvido com seus
próprios problemas. Essa alma despertada no meio de toda aquela gente pode
ouvir a todos, pode ver tudo, pode saber tudo que aquelas pessoas estão
pensando e sentindo, mas ninguém entende sua linguagem. Essa alma não pode
explicar a ninguém seus pensamentos, não pode esperar que ninguém
compreenda seus sentimentos. Essa alma se sente só e, no entanto, sem dúvida
alguma, tem na sua solidão o sentido da perfeição. A perfeição é sempre
solitária.

Quando dizem que depois da descida do Espírito Santo os Apóstolos passaram


a entender todas as línguas, isto não diz respeito às diferentes línguas faladas
no mundo. Conheci um homem em Roma que falava 36 idiomas, o que não o
tornou um espiritualista. Os Apóstolos passaram a conhecer a língua da alma.
Existem muitos idiomas diferentes falados em diversos países, mas são
inúmeras as línguas faladas por cada indivíduo em particular, uma língua própria.
O que nos ajuda a compreender uma outra idéia de grande relevância: a
linguagem falada exteriormente só serve para as coisas e sentimentos
exteriores, mas existe uma língua interior, íntima, uma língua que pode ser
compreendida pelas almas despertadas. É uma língua universal, cheia de
vibrações, a língua do sentimento, a língua que toca os nossos sentidos mais
íntimos e profundos. O calor e o frio são sensações diferentes chamadas por
nomes diferentes em diversos países e, no entanto, são e sempre serão as
mesmas sensações: O amor e o ódio, a bondade e a maldade, a harmonia e a
desarmonia, são chamados por nomes diferentes em diversos países, mas são
os mesmos sentimentos em qualquer parte.
Quando sabemos que, para conhecer o pensamento de uma pessoa,
dependemos do que ela fala, podemos falhar se tentarmos compreendê-la,
porque talvez não entendamos a sua linguagem. Se porém pudermos nos
comunicar com uma pessoa de alma para alma, certamente compreenderemos
o que ela quer dizer, pois antes da pessoa dizer uma palavra já a pronunciou
intimamente. A palavra falada no íntimo da pessoa chega a nós antes de ser
pronunciada exteriormente. Portanto, antes da palavra ser dita ela foi expressa,
antes dos pensamentos serem formados o sentimento se expressou, o que nos
prova que um sentimento cria um pensamento e o pensamento se expressa por
meio de palavras. Mesmo antes de um sentimento se manifestar ele pode ser
captado se estivermos em comunicação com a alma. O que pode ser chamado
de comunicação é a comunicação com o ser íntimo de outra pessoa, mas quem
pode se comunicar desta maneira? Aquele que sabe se comunicar com seu
próprio ser. Em outras palavras, aquele que está despertado. A personalidade
de uma alma despertada é diferente de qualquer outra personalidade. É mais
magnética, porque pertence a uma pessoa viva que possui magnetismo. Um
cadáver não possui magnetismo. Quem pode proporcionar alegria é quem está
vivo, portanto, é a alma despertada que é alegre.

Não pensem em momento algum, como muitos, que um espiritualista é uma


pessoa triste, seca, com fisionomia carrancuda. Espírito é alegria, espírito é vida.
Quando o espírito despertou, toda a alegria e prazer que existem se manifestam.
Assim como o sol quando surge dispersa a escuridão, a luz espiritual também
dispersa todas as preocupações, ansiedades e dúvidas. Se o despertar espiritual
não fosse tão precioso, que valor haveria em procurá-lo na vida? É um tesouro
que ninguém pode nos roubar, é uma luz que brilhará para sempre e nunca se
extinguirá. É isto o despertar espiritual e é isto a realização do objetivo da nossa
vida. Certamente as coisas às quais costumamos dar valor na vida e
considerávamos importantes, tornam-se menos importantes, perdem seu valor,
e as coisas belas podem perder o colorido. É o mesmo que ver um palco à luz
do dia: os castelos, os cenários que à noite eram lindos, à luz do dia vemos que
pouco significam ou nada significam. O nosso despertar põe fim à escravidão a
que todos estamos sujeitos porque o homem despertado é o mestre das coisas
do mundo. Não há necessidade de renunciar às coisas. O otimismo se
desenvolve com naturalidade, mas deve ser um otimismo de olhos abertos. O
poder é aumentado de forma natural, o poder de realizar e prosseguir fazendo
as coisas até serem conseguidas, por mais insignificantes que sejam.

É muito difícil julgar uma alma despertada. Essa designação é usada no Oriente.
Não há nada que prove exteriormente a condição de alma despertada. A melhor
maneira de reconhecer uma alma desperta é nós próprios nos despertarmos,
mas não há ninguém neste mundo que tenha a presunção de dizer que está
despertando quando ainda está adormecido, justamente como uma criança que
coloca um bigode para mostrar que já é um adulto. Podemos ter pretensões
sobre muitas outras coisas, mas não de ser uma alma despertada. A verdade
não é ensinada, a verdade é uma descoberta individual. O conhecimento da
verdade não pode ser comparado com o conhecimento das formas ou idéias. A
verdade está acima das formas e idéias. O que é a verdade? A verdade é a
verdade. É ela mesma, a verdade é o nosso ser.

Vemos frequentemente pessoas fazer grandes esforços em vão para acordar um


amigo ou um parente próximo a quem amam, esquecendo-se em primeiro lugar
de procurar saber se essas pessoas estão acordadas. Às vezes estão muito mais
acordadas do que a pessoa que as quer acordar. É possível que estejam fazendo
uma tentativa inútil. Outro ponto a considerar é: é possível que uma pessoa
adormecida precise do sono. Despertá-la nesse caso seria um pecado e não
uma virtude. Só temos permissão de dar a mão a quem esteja se remexendo no
seu sono, a quem deseja ser acordado. Só neste caso é permitido estender a
mão. E isso chama-se iniciação. Sem dúvida a orientação de uma pessoa
habilitada que esteja familiarizada com o caminho é como dar a mão a quem
deseja viajar exteriormente, interiormente, porém, há o Mestre, que tem dado e
sempre dará às almas despertadas a mesma Mão que lhe foi estendida pelos
sábios e mestres de todos os tempos, numa iniciação mais elevada.

Verdadeiramente, aquele que procura encontrará mais cedo ou mais tarde o que
procura se permanecer firme no caminho até chegar ao porto de destino.
O despertar da alma (2)

As palavras “acordar” e “dormir” nos são muito familiares porque as usamos para
expressar diferentes estados da existência. Na realidade, entretanto, quando
olhamos essas palavras sob o ponto de vista da alma notamos que estamos
acordados e adormecidas ao mesmo tempo. Por exemplo, quando olhamos uma
determinada coisa, quando a estamos olhando com a nossa mente inteiramente
absorvida, nesse preciso momento não ouvimos nada. Quando ouvimos alguma
coisa e estamos absorvidos no que estamos escutando, quando nosso sentido
auditivo está fixado no que ouvimos, não estamos vendo nada, embora nossos
olhos estejam abertos, o que prova que quando um sentido está inteiramente
despertado os outros sentidos estão adormecidos. Da mesma forma a mente
está ausente quando experimentamos uma sensação através do corpo físico.
Quando temos uma sensação estamos vivenciando algo através da mente que
o corpo não participa. Quanto mais observamos o ato de dormir e o ato de
acordar sob o ponto de vista psicológico, mais nos convencemos de que esses
atos não são o que comumente compreendemos que sejam ou o que as palavras
dormir e acordar querem dizer no sentido comum da palavra. Passamos a
compreender que em cada momento do dia e da noite estamos tanto
adormecidos como acordados, simultaneamente. Outrossim, quando alguém
está adormecido e sonha, está acordado para o mundo dos sonhos e
adormecido para o mundo exterior. Está adormecido para um mundo e acordado
para o outro mundo.

De acordo com os místicos, existem cinco estágios da consciência. Um deles


abrange nossas experiências através dos sentidos. Nesse estágio nossos olhos
estão aparelhados para ver, nossos ouvidos prontos para ouvir. Estamos
acordados para o mundo exterior. É o único aspecto da vigília que reconhecemos
como tal, mas há ainda quatro outros aspectos além deste. O segundo aspecto
é quando uma pessoa está adormecida mas está experimentando a vida
exatamente como se a estivesse vivendo no plano físico. É o estado do sonho.
Chamamos sonho só quando acordamos e vemos que esse estado de sonho
desapareceu. No momento em que estamos sonhando esse estado é tão real
como real é o estado em que nos achamos no mundo físico. Nada falta no sonho
que não seja encontrado aqui. Enquanto estamos sonhando nunca pensamos
que se trata de um sonho, mas muitas coisas que não podemos encontrar no
plano físico podemos encontrar no estado de sonho. Todas as limitações, tudo
que nos falta na nossa existência, é suprido no estado do sonho. Tudo que
apreciamos, tudo que gostaríamos de ser e tudo de que necessitamos na nossa
vida é mais fácil de ser encontrado no sonho do que no estado de vigília. Ao
acordar retornamos à nossa vida no plano físico e chamamos uma coisa de real
e outra de sonho, dizendo que o sonho é uma imaginação fora da realidade.
Pensamos que estamos acordados só neste plano físico e que só isso é real.
Mas vem a pergunta: o ontem é tão real como o hoje? Tudo que nos aconteceu
desde que chegamos à terra é passado, tudo é o ontem, só o momento presente
não é um sonho. Então o que é? Reconhecemos o que vimos no sonho apenas
como um sonho, mas tudo que é passado, nada mais é na realidade que um
sonho. O “hoje”, o “agora” nos dão o sentido da realidade e para nós o que é real
é o que estamos vivendo no presente momento. O que não estamos
experimentando, aquilo de que não temos consciência, não existe para nós
agora.

Assim sendo, cada um de nós tem a sua vida própria e seu próprio mundo. Nosso
mundo é aquele de que temos consciência e cada um tem seu céu e seu inferno
feitos por nós mesmos. Vivemos no mundo em que estamos acordados e
estamos adormecidos no mundo no qual ainda não acordamos. Estamos
adormecidos para a parte da vida que desconhecemos.

Uma outra experiência é a do homem que vive no mundo da música, que ama a
música, o apreciador para quem a música é uma linguagem, cujos pensamentos
e imaginação estão nas composições musicais. Ele vive sob o mesmo sol que
brilha para todos e, no entanto, seu mundo é diferente. Beethoven, que ficou
surdo e portanto impossibilitado de ouvir música, gostava de ler as partituras
musicais. Era sua maneira de tocar música. Talvez homens com seu sentido
auditivo perfeito não ouviam música tão bem como Beethoven. A alma de
Beethoven era musical e a música era o seu ser.

Há, portanto, o tipo de experiência que vivemos através dos sentidos, dos nossos
quatro sentidos. Se onde estamos é um mundo, um plano da existência, existe
a outra existência vivida no sonho, que também é um mundo, um mundo
diferente com leis diferentes. Os que consideram o sonho apenas sonho, nada
sabem da importância, da grandeza e da maravilha que é o sonho. O plano do
sonho é mais maravilhoso do que o plano físico, porque o plano físico é
grosseiro, limitado e pobre e está sujeito à doença e à morte, ao passo que o
plano do sonho é melhor, mais puro e nele nossa liberdade é muito maior.

O terceiro estágio da consciência se situa entre o espírito e a matéria. Nesse


estágio é que experimentamos o sono, o estágio que chamamos de sono
profundo, durante o qual nem sequer sonhamos. Pouco se fala desse estágio e
poucos pensam nele. Logo que uma pessoa estuda o assunto do sono, descobre
que o sono é a maior maravilha do mundo. É um fenômeno vivificante. O repouso
e a paz, a vitalidade e o vigor, a inteligência e a vida que o homem adquire
durante o sono estão acima de qualquer explicação. No entanto, o homem é tão
ingrato e nunca agradece essa experiência que lhe é oferecida todos os dias.
Quando perdemos o sono é que notamos como somos infelizes e então nada do
mundo pode nos satisfazer: nem riqueza, nem conforto, nem lar, nem posição,
nada no mundo pode substituir a experiência do sono, tão simples, que nada
significa e ao mesmo tempo é tudo.

Quanto mais estudamos o fenômeno do sono profundo mais compreendemos o


mistério da vida. Esse estudo nos leva à chave do mistério da vida, porque é
uma experiência que divide nossa consciência espiritual entre o mundo físico e
o mundo espiritual. É uma barreira entre duas experiências: uma neste mundo e
a outra que é atingida pela realização espiritual. O grande poeta Persa Rumi
escreveu o seguinte sobre o sono: “Ó sono, tornas o rei inconsciente do seu
reino, fazes com que o sofredor esqueça seus males e os prisioneiros se sintam
libertos quando estão adormecidos”. Todas as dores, toda a tragédia da vida,
todos os sofrimentos e agitações, tudo isso é lavado e desaparece quando
vivemos no estado do sono profundo.

É uma grande pena que a vida mecanizada e artificial que vivemos hoje neste
mundo nos prive da experiência natural do sono profundo. Nosso primeiro erro
é viver confinados em cidades muito populosas, amontoados, além do grande
número de carros, trens, bondes e casas com suas histórias vividas pelas
pessoas que nelas moraram, tudo isso debaixo de grande trepidação e agitação.
Somos hoje uma raça que não tem consciência do conforto, da bem-
aventurança, da paz dos povos antigos que viviam com simplicidade no meio da
natureza, longe do nosso tipo de vida atual mecanizado e artificial. Estamos
muito distantes dos antigos métodos e nos habituamos ao nosso estilo de vida
atual. Não conhecemos outro conforto senão o conforto que podemos gozar
neste tipo de vida que levamos. Ao mesmo tempo isto prova que a alma é capaz
de alcançar maior conforto, maior prazer e alegria, maior paz, repouso e bem-
aventurança ao viver de maneira natural.

Os três estágios da consciência – físico, mental e sono profundo – nada mais


são, cada um deles, do que uma experiência da alma no estado de vigília, mas
quando uma pessoa está acordada exteriormente está adormecida no mundo
interior e quando está adormecida no mundo interior e está adormecida
profundamente, está acordada no mundo interior, acordada tanto na terra dos
sonhos como no mundo físico.

Quando fitamos uma luz muito brilhante e ela se apaga, só vemos escuridão,
mas na realidade a escuridão não existe, parece existir. Se não houvesse antes
a luz brilhante não haveria escuridão, haveria alguma luz. O contraste deu a
impressão de escuridão. O mesmo acontece com a nossa experiência no sono
profundo. É uma experiência de um tipo mais sutil e fora do comum, porque
nossa consciência está tão acostumada com as experiências rígidas do mundo
físico, que quando estamos num outro estado de consciência a experiência é
muito refinada para ser percebida e trazida para o mundo físico.
Toda experiência pode se tornar inteligível pelo contraste. Se não fosse a linha
reta não poderíamos falar em alto e baixo, direita e esquerda. É a linha reta que
faz com que reconheçamos as outras linhas como sendo linhas. Se o sol não
existisse não poderíamos falar de sul, norte, este e oeste. Portanto, para cada
concepção deve haver um objeto enfocado que sirva de referência para
podermos comparar nossa concepção. Quanto ao sono profundo, nada existe
na existência física que possa ser comparado com ele. Portanto, a experiência
do sono profundo continua sendo uma grande satisfação, uma alegria, um poder
de elevação, que nos vitaliza e nos dá energia e entusiasmo. Evidentemente
recebemos muito dessa experiência. Não saímos dela com as mãos vazias,
lucramos muito, lucramos aquilo que não obtivemos no plano físico. Obtivemos
algo que não podemos interpretar na nossa linguagem cotidiana, algo mais
precioso, mais valioso, mais vitalizante do que qualquer outra coisa que exista
nos planos físico e mental.

Há ainda um outro plano mais elevado ou uma experiência da consciência


diferente das experiências que todos nós mais ou menos conhecemos e essa
quarta experiência é a do místico. É uma experiência em que se vê sem a ajuda
dos olhos, em que se ouve sem o auxílio dos ouvidos e através da qual se vive
num plano sem a ajuda do corpo físico. Nessa experiência somos capazes de
viver da mesma maneira que se vive no corpo físico mas, ao mesmo tempo, vive-
se independentemente. Logo que o homem passa por essa experiência começa
a acreditar na vida depois da morte, pois essa experiência nos leva à convicção
de que, quando o corpo físico se desliga da alma, a alma continua a existir, que
a alma independe do corpo físico e é capaz de ver, viver, experimentar e atuar
com mais liberdade e plenitude. Por isso esse estágio da experiência é chamado
de consciência do místico.

Os seres humanos se amedrontam quando ouvem falar em “Nirvana” ou “Mukti”.


“Nirvana” quer dizer nada, coisa alguma. Todos querem ser alguma coisa,
ninguém quer ser nada ou coisa alguma. Há centenas e milhares de indivíduos
interessados na filosofia Oriental, mas quando se trata de se tornar nada acham
uma coisa muito difícil e não podem conceber a idéia de ser nada. Consideram
essa idéia aterrorizante e não querem pensar que um dia serão nada. Não
sabem que a solução deste problema é que transformará o homem num ser. O
que o homem acredita ser é um indivíduo mortal que um dia morrerá. Se o
homem souber o que realmente é, não pensará mais naquilo que um dia pensou
ser.

“Nirvana”, portanto, é o quinto tipo de consciência. É uma consciência


semelhante à da pessoa que está num sono profundo. Entretanto, no sono
profundo estamos adormecidos exteriormente, isto é, adormecidos no nosso
corpo físico. O corpo mental está também adormecido. No estado de “Nirvana”
ou no mais elevado grau da consciência, porém, estamos conscientes de tudo,
tanto através do corpo físico como através da alma. Durante essa experiência a
pessoa vive em plenitude, porque a consciência fica dividido igualmente e ao
mesmo tempo permanece consciente do estágio mais elevado.

Concluindo, o que significa despertar a alma? Despertar o corpo significa ter


sensações, despertar a mente significa tornar a mente autoconsciente.
Normalmente o homem é consciente de seus negócios, de suas condições de
vida, de seu corpo e da sua mente, mas não é consciente de sua alma. Para nos
tornarmos conscientes da nossa alma é preciso trabalharmos de uma certa
maneira, porque a alma se torna consciente de sua existência. A alma
trabalhando através de seus veículos – corpo e mente – tornou-se inconsciente
da sua própria liberdade, de sua própria beleza.

O primeiro estágio do despertar da alma é um sentimento de insatisfação contra


tudo que conhecemos, contra todo conhecimento que adquirimos através da
ciência, da arte, da filosofia ou da literatura. Chegamos a um estágio em que
sentimos que existe algo mais que precisamos saber e que os livros, os dogmas
e as crenças não podem nos ensinar, algo mais elevado e maior que as palavras
não podem explicar. O homem quer saber sobre esse algo mais e isso não
depende da idade. Uma criança pode ter essa tendência ou talvez um homem
que esteja numa idade avançada. Depende da alma. É por isso que no Oriente
chamam uma criança de alma velha se ela começa a demonstrar essa tendência
de saber sobre o algo mais, quando ela não está mais satisfeita com o
conhecimento dos nomes e formas.

A seguir vem o segundo estágio, que é um estado de confusão, de perplexidade.


Imaginem uma pessoa evoluída que apesar disso está mais confusa do que uma
outra não-evoluída! É justamente isso que acontece, porque nesse estágio a
pessoa começa a ver que as coisas não são como pareciam ser e são como
realmente são, o que causa uma espécie de conflito. A pessoa são sabe se deve
chamar uma coisa de boa ou de má, se deve usar a palavra amor ou a palavra
ódio. Chega uma ocasião em que tudo que a pessoa aceitou mentalmente, tudo
em que acreditou, agora parece ser justamente o oposto do que parecia ser
anteriormente: seus amigos, parentes, os que amou, tudo, riqueza, posição, o
que desejou obter, tudo mudou na aparência e muitas vezes parece ter se
transformado em coisa inteiramente oposta.

Certa vez em Chicago uma senhora veio me visitar. Estava trêmula, num estado
de espírito muito tristonho. Contou-me que havia sofrido um acidente: a casa em
que morava pegou fogo e ela tinha sido forçada a quebrar uma janela para se
salvar. Feriu a mão e isso a aborreceu muito. Quando me disse que não fora o
fogo a causa do seu aborrecimento, perguntei-lhe o que havia sido e ela me
respondeu: “Foi a maneira como todos os amigos e vizinhos, a quem tanto
amava e apreciava, agiram quando o fogo começou. Impressionou-me tanto que
o mundo para mim agora é diferente”. O que isso quer dizer? Que a amizade, o
parentesco, o amor ou a devoção podem não ser mais os mesmos ou o que
pareciam ser quando chegar o momento de serem postos à prova. Chega um
dia em que nossa consciência muda, nossa perspectiva na vida também muda
e essa mudança se dá logo que nossa alma abriu os olhos. Desde esse momento
toda nossa vida se modifica. Continuamos a viver no mesmo mundo e ao mesmo
tempo não vivemos nele. Ele se converteu num mundo inteiramente diferente.

O estágio seguinte depois da confusão e da perplexidade é o estágio da


compaixão, da simpatia. Começamos a apreciar muito mais as coisas e nos
simpatizamos cada vez mais, porque desde então, quando andávamos sobre
espinhos, não os sentíamos, mas neste estágio começamos a sentir os
espinhos. Vendo que os outros estão caminhando também sobre os mesmos
espinhos, esquecemos nossa dor e nos compadecemos deles. Os seres
evoluídos se tornam simpatéticas, desenvolvem uma tendência natural para
extravasar. Todos temos que passar por aborrecimentos, sofrimentos e
limitações, todos temos que enfrentar as mesmas dificuldades. Isto não acontece
somente com as pessoas boas, as más têm dificuldades ainda maiores. Vivem
no mesmo mundo com sua maldade, têm um grande peso a carregar. Se
pudermos chegar a essa compreensão, tornamo-nos naturalmente pessoas que
sabem perdoar, simpatéticas e compassivas.

À proporção que avançamos no processo do desvelamento da alma, chegamos


finalmente ao estágio da revelação. A vida começa a se revelar e se torna
comunicativa. A alma evoluída sentirá as vibrações de cada alma e de cada
condição. Cada alma e cada objeto no mundo revelarão sua natureza e caráter.
O despertar da alma (3)

O dia e a noite não são condições do sol, são condições próprias do dia e da
noite. O sol não se levanta nem se põe, essa concepção é simplesmente nossa.
Para nós é mais conveniente falar no nascer-do-sol e no pôr-do-sol. Se existe
uma coisa que se levanta e se põe é o mundo e não o sol. Quando o mundo se
coloca contra o sol é noite e quando o mundo se volta para o sol é dia.

Acontece o mesmo com o despertar da alma. A alma está sempre desperta, mas
o que significa estar despertado para uma coisa? Uma pessoa pode olhar com
os olhos abertos, mas o que está olhando? Está olhando para cima, para baixo
ou para os lados? Somos somente conscientes da direção em que estamos
olhando.

É por isso que falar no despertar da alma é pura conveniência. Qual é a parte do
homem que pode ser chamada de alma? A alma não é o nosso corpo. Então o
que é a alma? É algo que está além do corpo e acima da mente. A alma é
consciente e ao mesmo tempo sua consciência não é o que compreendemos
que seja uma consciência, pois a palavra “consciência” sugere consciência de
alguma coisa. Embora nem todos saibam o que significa consciência, cada um
de nós sabe que é uma pessoa consciente. Por exemplo, um espelho no qual
uma coisa é refletida não é só um espelho, é um espelho com um reflexo, o que
significa que a superfície do espelho está ocupada, não está vazia. Quando
falamos de consciência não pensamos na consciência original de uma coisa.
Logo que distinguimos a consciência daquilo que estamos conscientes,
separamos as duas coisas, como separamos o espelho daquilo que está sendo
refletido no espelho.

Ao chegarmos a essa realização concluímos que a alma do sábio e do tolo, do


pecador e do virtuoso é uma e mesma alma. A maldade do mau e a bondade do
bom, a ignorância do tolo e a sabedoria do sábio, são coisas separadas da alma
e a alma é consciente disso. Quando uma outra pessoa é consciente disso, ela
pode dizer: “Aqui está uma alma sábia” ou “aqui está uma alma ignorante”, mas
a alma é a mesma. A alma não é ignorante ou sábia, má ou virtuosa, é aquilo
que é refletido nela. Outrossim, sabemos que se um elefante se olhar num
espelho, o espelho não passará a ser um elefante, mas podemos ver o elefante
no espelho. Contudo, se um homem não souber o que é um espelho dirá: “Aqui
está um elefante”, embora só haja o reflexo do elefante no espelho. O espelho é
apenas espelho quando está livre de qualquer reflexo. Logo que o que está
sendo refletido no espelho é retirado, o espelho torna a ser apenas um espelho.

O mesmo acontece com a alma. O homem torna a alma infeliz, má, ignorante,
sábia ou iluminada porque está consciente dessas condições. A alma não é nem
uma coisa nem outra, é apenas alma. Essa concepção errada da alma cria
enormes dificuldades.

Se a alma é consciente, o que é então? A melhor explicação que pode ser dada
é que a alma é a essência de todas as coisas, a alma é vida, mas não vida no
sentido que damos à vida. A vida que entendemos como vida é apenas uma
sugestão de vida. A alma é a verdadeira vida, a vida real. Dizemos que aquele
que se move, vê, ouve e age é um ser vivo, mas o que está vivo na pessoa é a
alma. A alma não é vista. A vida também não é vista. A vida tocou, atingiu a
pessoa e, ao ver o efeito desse toque, dizemos: “Esta pessoa está vivendo, é a
vida”, mas o que vemos é apenas uma sugestão da vida que aparece e
desaparece nas criaturas, porque a vida verdadeira vive, nunca morre.

Temos o mesmo problema com a inteligência e a consciência. Sabemos que a


inteligência é uma coisa inteligente. Há diferença entre inteligência e o que é
inteligente. Inteligência na qual uma certa consciência é refletida se torna
inteligente, contudo, a inteligência não precisa conhecer, da mesma forma que
a consciência não precisa ser consciente de coisa alguma, porque ela é a
faculdade de conhecer, saber. Se colocarmos uma pessoa num quarto escuro
mas que tenha quadros com cores vivas e belas, ela não poderá ver nada. Seus
olhos estão abertos, sua visão é perfeita, porém o que está diante dela não é
refletido na sua visão por falta de luz. Ela tem uma boa visão, mas nada é
refletido nela. O mesmo acontece com a consciência e assim também com a
inteligência, a inteligência que é consciência e a consciência que é a alma.

A ciência moderna diz que há um despertar gradativo da matéria em direção à


consciência e que a matéria se torna plenamente inteligente no homem. O
místico não nega isso. De onde vem a matéria? O que é matéria? Não há dúvida,
matéria é inteligência. Matéria é apenas um processo. Assim, se a inteligência
se manifesta no homem, é o desenvolvimento da matéria. Mas a inteligência que
é inteligente começa com inteligência e termina na inteligência. Espírito é a
origem e a alma de todas as coisas. Se na matéria não tivesse o espírito, a
matéria não despertaria e não se desenvolveria. A vida se desdobra na matéria,
descobre-se, realiza a consciência que, por assim dizer, estava sepultada na
matéria há milhões de anos. Por um processo gradativo o espírito se realiza
através dos reinos vegetal e animal e se desdobra no homem. Depois reassume
sua condição original. A única diferença é que nesse acabamento há uma
variedade na realização do espírito que se manifesta no homem. Há um grande
número de seres, milhões, bilhões, mas sua origem é o Único Ser. Portanto, o
espírito é um quando não manifestado e é muitos no reino da manifestação; a
aparência deste mundo é a variedade. A primeira impressão que o homem tem
é de que existem muitas vidas e isso leva ao que chamamos de ilusão, que
mantém o homem ignorante do ser humano. Ele não sabe a raiz de sua origem,
o estado original do seu ser. Ele está todo o tempo sob a ilusão do mundo de
variedades, que o mantém absorvido, interessado e ocupado e, ao mesmo
tempo, na ignorância de sua verdadeira condição, pois enquanto estiver
adormecido numa parte da vida e acordado na outra, está adormecido na parte
inferior e acordado na parte exterior.

Pode-se perguntar como podemos ser acordados para essa vida interior, o que
é que nos acorda e quando é necessário sermos despertados. A resposta é: a
criação foi feita para ser despertada, mas esse despertar é principalmente de
dois tipos. Um deles é chamado de nascimento, o nascimento do corpo físico,
quando a alma acorda numa condição em que se sente limitada na esfera física,
no corpo físico, e por isso o homem se torna um prisioneiro. O outro despertar é
acordar para a realidade, o que é chamado de nascimento da alma. Um
despertar é para o mundo de ilusão, o outro para o mundo da realidade.

Devemos, entretanto, saber que há ocasião para tudo e quando não damos
atenção a isso cometemos um erro. Se acordamos alguém às duas horas da
madrugada, interrompemos seu sono. Todos devem dormir a noite inteira,
precisamos do sono. Por não saberem disso certas pessoas frequentemente
tentam acordar os outros: esposa, marido, amigo, parentes, filhos. Em geral as
pessoas ficam ansiosas para acordar os outros porque se sentem sós e pensam:
“Fulano está tão perto de mim, pode também ficar acordado como eu”. É o que
acontece também com os que fumam e bebem: gostam que os outros façam a
mesma coisa. Também é maçante para quem está num estado de euforia ver
que os outros não aderem ao espírito de brincadeira. Portanto, como é natural,
o desejo e a tendência de quem desperta para a vida mais elevada, para a
realidade, é acordar os outros. Não pode evitar de fazer isso, é uma coisa
natural. Se não fosse natural diria: “Estou experimentando este estado de ser,
estou apreciando. Não é o bastante? Por que preciso me preocupar com os
outros que se postam diante de mim como muros de pedra?” Tais pessoas
mourejaram a vida inteira, foram exiladas, esfoladas, martirizadas, crucificadas
e quando acordaram numa certa esfera onde gozaram de harmonia e paz,
querem que os outros também vivam e gozem desse estado de ser. Entretanto,
é frequente ficarmos muito impacientes e até irracionais e querermos acordar os
outros antes do tempo.

Noutro dia fiquei emocionado ao assistir a uma peça na qual um pesquisador da


Luz pronunciava uma Palavra, a Palavra Sagrada, e morria. O mais notável foi
que havia um sábio na platéia que assistia à peça e disse: “Ele viu o além e
morreu” (Inayat Khan refere-se à peça “THE DYBBUK”).
O que significa a morte? Morte significa retornar. A alma está sempre acordada
e portanto está sempre viva, mas pode se voltar de um lado para o outro. Se
ouve uma bela voz vinda de trás e quer ouvi-la, volta-se. Do mesmo modo,
quando a alma é atraída para uma determinada esfera para a qual estava
adormecida, isso é chamado de acordar.

Notamos que a ocasião da natureza despertar é a primavera. A natureza


adormece durante todo o inverno e desperta na primavera. Há uma ocasião para
o mar despertar. Quando o vento sopra trazendo boas novas como se falasse
com o mar para ele acordar do seu sono, as ondas se alteiam. Tudo isso mostra
a luta, indica que alguma coisa tocou a alma, ela se sentiu preocupada, inquieta,
fazendo com que desejasse a liberação, sentir-se solta. Cada átomo, cada
objeto, cada condição e cada ser vivo tem um tempo para despertar. Às vezes
esse despertar é gradual, às vezes é súbito. Para certas pessoas esse despertar
vem por ocasião de um grande choque ou desaponto, ou porque seus corações
se despedaçaram devido a uma coisa que Ihes aconteceu repentinamente. O
acontecimento pode parecer uma coisa cruel mas, ao mesmo tempo, o resultado
foi um súbito despertar, que trouxe uma bênção que nenhuma palavra pode
explicar. Houve uma modificação na perspectiva, a introspeção se aprofundou.
Surgiu a alegria, a quietude, a indiferença e a liberdade e nossas atitudes
mostram grande compaixão. Quem nunca pode perdoar, quem usa o
revanchismo, quem se sente facilmente desgostoso, quem mede e pesa tudo,
quando sua alma é despertada num instante se torna diferente. Mahmud
Ghasnavi, o imperador-poeta da Índia disse usando belas palavras: “Eu, o
imperador, tenho milhares de escravos que aguardam minhas ordens, mas logo
que o amor brotou no meu coração eu passei a considerar-me o escravo de
meus servidores”.

Toda nossa atitude se modifica. Resta apenas uma pergunta: para que nós
despertamos, em que esfera, em que plano, para que realidade? Às vezes,
depois de termos cometido um erro, devido a uma perda ocasional derivada
desse engano, nossa perspectiva se torna diferente. Nos negócios, na profissão,
na vida social, uma certa experiência como um golpe quebra algo dentro de uma
pessoa e, depois de ocorrer essa ruptura, surge uma nova luz, uma nova vida.
Entretanto, não é correto despertar ninguém por engano, só na hora certa. Sem
dúvida é frequente o despertar vir através de um golpe, de uma grande dor, mas
não é preciso esperar por eles, já que a vida tem diversos golpes armazenados
para todos nós e não é necessário irmos à sua procura.

Para se ter uma idéia clara sobre o despertar, devemos considerar o estado que
chamamos de sonho. Muitos dão pouca importância aos sonhos. Se alguém diz:
“Fulano é um sonhador” significa que ele não está consciente de coisa alguma.
Existe algo que podemos chamar de sonho? O verdadeiro significado de sonho
é o passado; o ontem também é um sonho, é a mesma coisa da experiência da
noite: passado. Quando uma pessoa está sonhando, será que acha que é uma
coisa sem importância, será que dá ao sonho um valor menor que dá ao que
está lhe acontecendo na vida diária naquele momento? Considera isso como um
sonho quando desperta numa outra esfera, embora na esfera do sonho ela não
chama isso de sonho. Se perguntarem a uma pessoa que estava sonhando:
“Como foi a sua experiência de ontem?” ela dirá: “Foi um sonho”. Outra pergunta:
“E sobre a vida diária?”, “Tudo foi um sonho”.

Quanto mais pensamos neste assunto, quanto mais lançamos um olhar para o
além-túmulo, mais compreendemos o que é o além-túmulo, que o que está atrás
do véu da morte é um despertar numa outra esfera, numa esfera tão real como
esta em que estamos, ainda mais real. O que é real? É a alma, a própria
consciência que é real. O que é passado é um sonho, o que está para vir é
esperança. O que experimentamos parece real, mas é apenas uma sugestão. A
alma é real e seu objetivo e realizar-se. Sua liberação, sua liberdade, sua
harmonia, sua paz, dependem de seu próprio desdobramento. Nenhuma
experiência externa pode fazer a alma realizar o real.

Por que não podemos ver a alma como podemos ver o corpo? Podemos
compreender pelos pensamentos que temos uma mente, porque o pensamento
se manifesta em nós na forma de um quadro mental. Mas por que não vemos a
alma? A resposta é: assim como os olhos não podem se ver, acontece o mesmo
com a alma: ela é a própria visão e, portanto, tudo vê. Do momento que fecha
os olhos para tudo que vê, sua própria luz faz com que ela se manifeste à sua
visão. É por essa razão que as pessoas seguem o caminho da meditação, o
caminho pelo qual entram em contato com seus seres. Concebem a
independência e a continuidade da vida, que é a vida imortal, entrando em
contato com suas almas.

Quanto aos que vêm a este mundo em condições miseráveis, enquanto outros
vêm em condições vantajosas, nada tem a ver com a alma propriamente dita, é
algo que a alma carregou consigo como a carga do camelo, que está nas suas
costas e não no camelo.

A primeira coisa que acontece ao homem no seu despertar espiritual e o


levantamento do véu, o que significa o levantamento de uma condição aparente.
Não vê mais cada condição como aparenta ser; vê atrás de cada condição seu
significado mais profundo. Em geral o homem tem uma opinião sobre tudo que
aparece no seu caminho. Não espera um segundo para ver as coisas
pacientemente, forma logo uma opinião sobre uma pessoa ou cada ação que vê.
Se a opinião é certa ou errada não se importa, quer formar uma opinião sem
saber o que há atrás dos procedimentos de cada um. Deus leva um tempo
enorme pesando e medindo nossas ações, mas o homem leva muito pouco
tempo para julgar! Quando, porém, o véu da razão é levantado,
instantaneamente chegamos à causa. Não somos despertados para o que há na
superfície e sim para o que está abaixo dela.
Vem a seguir um outro passo no processo-despertar, quando vemos não apenas
a causa, mas chegamos à realização do ajustamento das coisas, como acontece
com cada atividade da vida: pode parecer certa ou errada mas se ajusta por si
mesma. Na ocasião em que chegamos a essa condição, já perdemos muito do
nosso falso ego e foi isso que nos levou a essa condição, pois quanto mais
somos conscientes do nosso falso ego, mais somos afastados da realidade.
Essas duas coisas não podem viver juntas. Ou é escuridão ou é luz. Se há luz
não há escuridão. Quanto mais a concepção falsa do eu for apagada, mais luz
haverá. Por este motivo é que uma pessoa que trilha o caminho, vê a vida mais
claramente.

Outra forma de despertar é acordar o eu verdadeiro. Começamos a ver o que


significam nossos pensamentos, o que significa o certo ou o errado. Então
começamos a pesar tudo que brota dentro de nós. Quanto mais avançados, mais
vemos atrás das coisas, mais nos ligamos a todos os planos da existência, não
vivendo somente na superfície da vida. É um novo tipo de despertar. Portanto,
uma pessoa só precisa ser despertada para o outro mundo, não precisa ir para
lá. Não precisa experimentar o que é a morte, pois pode criar um estado, uma
condição na qual se eleva acima da vida. Aí então chega à conclusão de que
existem muitos mundos num só mundo, fecha os olhos para as dimensões do
mundo exterior e encontra dentro do seu próprio ser, dentro do seu coração, o
centro de todos os mundos. A única coisa necessária é se virar, não despertar,
virar.

O homem está se tornando um ser inerte, estagnante, porque se ligou a este


mundo no qual nasceu e pelo qual se interessou. Se ele puder tornar sua alma
mais flexível e desse modo tornar-se capaz de se afastar de tudo isso, poderá
experimentar tudo o que tem sido dito nos vários planos dos diferentes mundos
que, na realidade, são diferentes planos da consciência. Só se o homem for
capaz de tornar sua alma flexível, de fazer sua alma virar, descobrirá todo o
mistério dentro de si.

Os Sufis distinguem quatorze planos da existência que chamam de


“CHOUDATABAQ”. É uma concepção mística. Esses planos são a expressão
dos quatorze estados diferentes da consciência experimentados com o auxílio
da meditação, o mais baixo deles sendo chamado de “PATALOKA”. Na
experiência desses quatorze planos, o plano dos djins e o plano angelical são
também tocados.

Não precisamos nos acordar para cada plano em particular. Devemos despertar
para cada plano à proporção que vamos andando na jornada da vida. O
necessário é estarmos amplamente acordados na vida e ver o que nos é
solicitado pelo amigo, vizinho ou estranho, que estão viajando conosco,
tornando-nos cada vez mais plenos de consideração e observando o que
esperam de nós. E perguntar-nos: prejudicamos essas pessoas ou as servimos?
Temos sido bondosos com elas ou as ferimos? Isso porque tentamos obter o
que não possuímos e, assim fazendo, temos muitas vezes a tendência de
esquecer quem repelimos e com quem fomos indelicados. Aquele que observa
estas regras diminui seus erros de mil para cem! Não quer dizer que será uma
pessoa sem defeitos, mas poderá evitar noventa e nove enganos dos mil, o que
é muita coisa.

Entretanto, nenhuma ação, por melhor que pareça ser, é uma virtude a não ser
que seja feita de boa vontade, porque na maneira voluntária de fazermos as
coisas, mesmo num sacrifício, expressamos o sopro da liberdade. Uma virtude
forçada ou exigida de nós ou de alguém, não é virtude. Perde a beleza.

Um poeta Sufi mostrou onde está a solução deste problema quando disse: “É
você, é você mesmo que se tornou cativo e é você mesmo quem deve tentar se
libertar”.
A maturidade da alma

A maturidade da alma pode ser simbolizada pela menina que ao crescer não dá
mais importância às suas bonecas. Não significa que não tivesse amor ou
sentimento às bonecas, é que seus sentimentos e desejos mudaram. Com a
maturidade sua consciência desenvolveu-se e como resultado desse
desenvolvimento, todos os brinquedos, bonecas e as várias coisas às quais ela
se acostumara a dar importância, tornaram-se desinteressantes.

Essa maturidade não depende de uma determinada idade. Depende daquilo que
cerca a pessoa. É justamente como acontece com o fruto que amadurece
quando colocado num lugar aquecido. O ambiente ajuda a amadurecer a alma.
Não obstante, o ideal é o fruto amadurecer na árvore, pois aí é o lugar próprio
para o amadurecimento. As diversas tentativas para fazer a alma amadurecer
podem ajudar, embora seja como acontece com a fruta, que não está mais na
árvore, e sim num lugar aquecido.

Há pessoas que pensam que se renunciarem ao mundo chegarão à maturidade


da alma. Há outros que pensam que podem alcançar esse objetivo, infligindo-se
toda espécie de tormentos e sofrimentos. Frequentemente as pessoas me
perguntam se alguma espécie de sofrimento ou tortura, pode ajudar a
amadurecer sua alma. Eu Ihes digo que se desejam se torturar eu Ihes posso
dar milhares de modos de fazê-lo, ou elas mesmas podem pensar em milhares
de coisas, mas tanto quanto eu saiba isso não será necessário. Se alguém
deseja se torturar por amor à tortura, pode fazê-lo, mas não para atingir a
perfeição espiritual.

Assim como o fruto amadurece de uma maneira natural, nossa alma deve
também amadurecer de forma natural. Não é preciso ficarmos desapontados ou
desanimados conosco e a respeito daqueles que nos cercam e nos são tão
queridos, ou preocupar-nos com nosso marido, esposa, mãe ou pai, porque não
encaram os assuntos espirituais da mesma maneira que nós. Em primeiro lugar,
nenhum homem, por mais sábio e piedoso que seja, tem o direito de julgar outra
alma. Quem sabe o que está escondido atrás de cada ação, aparência, palavras
ou maneiras? Ninguém. E quando uma pessoa começa a perceber o que está
escondido na alma humana, a despeito de todas as aparências sentirá respeito,
um respeito à humanidade, pois compreenderá que na parte mais profunda de
cada alma está Aquele a quem se deve adorar.
Ninguém conhece a religião interior de uma pessoa, sua concepção interior.
Encontraremos muitas almas verdadeiras cujos corações estão enclausurados
numa espécie de concha dura e ninguém sabe que a verdadeira essência de
Deus está em seus corações, porque a concha exterior é tão dura que não
chegamos a notá-la. Por isso disse um Sufi da Pérsia: “Convivi com homens
piedosos e santos e muitas vezes me decepcionei. Estive entre os que eram
menosprezados pelos outros e entre eles encontrei almas verdadeiras”. É fácil
censurar, é fácil desprezar alguém, mas é difícil realmente conhecer quão
profunda é a alma de um ser humano.

Não há dúvida que há sinais de maturidade, mas quem os conhece? Como


reconhecê-los? Os sinais de maturidade são como a sutileza que se vê entre os
jovens enamorados e a alma para amadurecer deve despertar uma paixão pelo
incompreensível, por aquilo que toda a alma anseia.

A vida na terra é justamente como as viagens de Gulliver, onde todas as pessoas


pareciam pertencer a um mundo diferente. Eram seres de tamanhos diferentes.
O viajante vê diante de si, um grande número de crianças e almas bêbadas. Há
um ditado do Profeta Maomé: após a morte, no Dia do Julgamento, aparecerá
um ser com forma de feiticeira. O homem ficará amedrontado com a visão dessa
feiticeira, e gritará: “Ó Senhor que horrível visão! O que é isso?” Receberá a
resposta dos anjos: “Isto que está vendo é o mundo, o mundo que atraiu você
através da sua vida, o mundo que você venerou, adorou e estimou como coisa
de maior valor e que foi tudo que você desejou, é o mesmo mundo que está à
sua frente agora”. Todos os desejos dos homens, relacionados com riqueza,
posição, nível social, honras, ou prazeres, tudo isso desaparece com a
maturidade da alma. Todas as reivindicações de amor tais como: “Sou seu irmão,
ou irmã, ou seu filho ou sua filha”, significam muito pouca coisa para a alma
amadurecida. Uma alma amadurecida não precisa esperar pelo dia em que
depois da morte verá o mundo na forma de uma feiticeira. Vê isso agora. Logo
que a alma amadurece vê a irrealidade do mundo que o homem sempre
considerou real. Todas as palavras usadas na linguagem diária, tornam-se sem
sentido.

Para a alma que despertou, todas as distinções relacionadas com crenças, seitas
e comunidades, significam pouco. A experiência da alma amadurecida é como a
experiência do homem que está assistindo a um espetáculo no palco à noite e
pela manhã vê o mesmo palco à luz do sol e percebe que os palácios, os jardins
e as roupas dos personagens eram irreais.

Quando a alma chega a esse estágio, a essa maturidade, o que acontece? É o


mesmo que acontece quando uma pessoa cresce: toma o caminho correto ou o
caminho errado. Sua reação a essa realização da vida tem três aspectos. Uma
reação é quando responde a cada apelo de amor, atenção e respeito, dizendo:
“Não acredito em você, tenho sofrido muito. Compreendo suas reivindicações.
Não pertenço a você. Não quero ouvir nada”. Sobre o que a atrai, essa pessoa
pensa: “Você é uma tentação. Vá embora, deixe-me. Desejo ficar só. Sei o que
você é”. Desse modo ela se torna cada vez mais indiferente ao mundo e isola-
se na multidão. Sente-se solitária. Vai para uma caverna na montanha ou
interna-se na floresta. Foge do mundo e vive a vida de um asceta, em guerra
com o mundo, embora em paz com Deus.

Há um outro aspecto dessa reação: é quando o homem que compreende a


realidade de todas as coisas, torna-se mais compassivo com seus semelhantes.
É este homem que pela compaixão sacrifica seu amor pela solidão, seu prazer
em se isolar e vive no meio da multidão, entre aqueles que não o compreendem,
tentando continuamente compreendê-los, de manhã à noite. E quanto mais ele
progride no caminho, mais seu amor se desenvolve. Lamenta-se da irrealidade,
da falsidade da vida, mas permanece no mesmo lugar, no meio da vida. Seu
trabalho é ajudar os que se desapontam com os resultados de todas as
experiências que tiveram com seu amor e devoção. Para tais pessoas cada
desapontamento, cada mágoa é uma surpresa, um choque, alguma coisa que
de repente desaba sobre elas, enquanto que para o homem compassivo, tudo
isso é normal, faz parte da natureza da vida. Ele está firme ao lado dos
desapontados confortando-os, dando-lhes força. No campo da religião, por
exemplo, se acontece estar entre aqueles que têm uma certa crença ou dogma,
coloca-se acima da crença ou do dogma, mas ficará ao lado dos seus
semelhantes, no que diz respeito a essas crenças ou dogmas especiais. Não se
considera diferente ou acima deles. Se, estiver no mundo dos negócios, em
alguma indústria, no setor mundano, embora não vise nenhum proveito
permanecerá ao lado dos outros, a fim de manter a harmonia. Desse modo,
sacrificará até a sua vida, usufruindo tudo que faz e ao mesmo tempo não Ihes
dando maior importância.

Qual é o comportamento do ator no palco? Se representa um rei, não ficará


orgulhoso de seu reinado, se representa um servo, não se impressiona com isso,
pois sabe e compreende que nem suas roupas de rei, nem as de servo fazem
dele um rei ou um servo. Ele será sempre ele mesmo. Na realidade são tais
almas que vêm para salvar o mundo. São como os irmãos mais velhos da
humanidade que vêm para ajudar os mais moços. Para eles não há sentimento
com relação à posição, título ou grau espiritual. São unos com todos e participam
de suas tristezas e alegrias.

Mas, há uma terceira reação sobre uma alma. É o seguinte pensamento: “Se
tudo que toco, tudo que vejo e tudo que percebo são irreais, tenho que procurar
da melhor maneira possível aquilo que é real”. Tal pessoa é um guerreiro, pois
tem à sua frente uma batalha na qual tomará parte. E qual é essa batalha? É a
busca da verdade. É como uma pessoa nadando, abrindo seu caminho. A cada
golpe que dá, a cada esforço no sentido de avançar, as ondas vêm e a puxam
para trás. Do mesmo modo, a vida é uma contínua batalha para o pesquisador
da verdade.

Mesmo em coisas que parecem cobrir a verdade, o pesquisador pode ser iludido.
Há uma coisa muito simples que ele tem a considerar. Cristo disse: “Eu sou o
caminho e a verdade...” Isso mostra que há duas coisas: há o caminho e há a
verdade. O caminho pode levar a pessoa ao objetivo, mas o caminho pode
também tornar-se para ela um labirinto. Isto mostra como devemos ser
cautelosos, pois mesmo o caminho que parece conduzir à verdade pode nos
confundir. Na realidade a vida é um labirinto, um contínuo quebra-cabeças e é
por amor que o homem penetra nela. Até o pesquisador da verdade faz isso,
porque faz parte do seu caráter entrar primeiro no labirinto. Se uma pessoa que
conhece a verdade procurar um pesquisador e lhe disser: “Aqui está a verdade”,
ele dirá: “É inacreditável! Encontrar a verdade logo no primeiro passo! Como é
possível? São precisos muitos anos antes que eu alcance a verdade. Uma vida
não é tempo suficiente, devo viver mil vidas a fim de chegar à verdade! “Mas,
verdadeiramente, para aqueles que amam os quebra-cabeças, até mil vidas não
são suficientes. Além disso, os homens não estão preparados para aceitar a
verdade simples e crua, não estão acostumados a ela. Quando alguém ouve a
verdade diz: “É demasiadamente simples. Quero uma coisa que não posso
entender”.

Na realidade a verdade é muito simples. O homem é que a torna difícil. Precisa


obter todos os outros aspectos do conhecimento do exterior, mas a verdade é
algo que está dentro do próprio homem. É algo que está muito perto de nós,
embora imaginemo-lo afastado. É alguma coisa que está no íntimo, embora
imaginemos que esteja do lado de fora. É o próprio conhecimento que desejamos
adquirir. Desse modo o pesquisador está engajado numa batalha contínua:
batalha com ele mesmo, batalha com os outros, e batalha com a vida. E ao final
da jornada ele sempre descobre que viajou porque era seu destino viajar, e
também descobre que seu ponto de partida é o mesmo que sua meta final.
A dança da alma

Há um momento na vida de uma criança em que ela ri sozinha, move os


pequeninos pés e pernas como se dançasse, trazendo deleite aos que a
observam, criando vida na atmosfera. O que é isso que repentinamente brota no
ser, no coração da criança ignorante das dores e prazeres da vida, dando
expressão aos seus olhos e inspirando seus movimentos e sua voz?
Antigamente o povo dizia: “É a vinda do espírito”. Pensavam que havia um anjo
ou uma fada falando à criança. Mas, na realidade, é a alma que nesse momento
se eleva em êxtase, fazendo todas as coisas dançarem. Há muitas experiências
deliciosas na vida, mas alegria é uma coisa muito maior e mais profunda do que
o deleite. Brota do mais íntimo do ser e não pode haver uma melhor descrição
do explodir da alegria do que chamá-la de dança da alma.

Na vida de cada pessoa, estejam elas em sofrimento ou felizes, sejam sábias ou


tolas, há momentos em que começam a cantar e agir. A alegria pode ser
expressa por um sorriso, pode até ser expressa por lágrimas, mas em todos
esses aspectos é a dança da alma. Essa bênção do céu não é apenas para a
espécie humana, surge para todos os seres. Os homens vivem num mundo
artificial, mas frequentemente Ihes é dada a oportunidade de ver a beleza da
natureza. Esse êxtase deve ser procurado nas florestas, no deserto, onde os
grandes iogues, sábios, santos, videntes e profetas, recebem sua inspiração.
Pode-se ver isso no que no Oriente chamam a dança dos pavões: os pavões
expressam o impulso da alegria inspirados e abençoados pela sublime beleza
que os rodeia. Os pássaros e todos os animais têm seus momentos de alegria e
pode-se sentir isso nas suas vozes, nos seus cantos, mas sua maior expressão
está nas danças que executam. A quase totalidade dos animais têm momentos
em que as bênçãos do céu descem sobre eles. Respondem com a dança.

Essa bênção é revelada em cada aspecto da vida, mesmo nos objetos


inanimados, tais como árvores e plantas. Até na primavera vemos essa vida
brotando. As flores e as plantas são apenas diferentes expressões de uma só
vida, fonte de toda a harmonia, beleza e alegria. Alguém pediu ao Profeta Maomé
uma definição de alma e ele respondeu com uma frase: “A alma é uma ação de
Deus. Nada pode ser mais expressivo”. Assim sendo, a alegria é a ação da vida
interior ou divina. Quando se mostra em qualquer uma de suas formas é a reação
à ação de Deus. É isso que se pode chamar de dança da alma, que inspirou
todos os grandes músicos e poetas. Por que a música de Beethoven ou de
Wagner e as palavras de Shakespeare viveram tanto tempo e continuadamente
nos dão tanta alegria e inspiração? Por que motivo todas as músicas e poesias
não causam o mesmo efeito? Porque poesia é uma coisa e dança da alma outra.
A dança da alma está além da mera poesia. Quando a música se expressa como
a dança da alma, torna-se algo mais elevado que a música. O homem está
acostumado ao conhecimento exterior, desejando aprender e compreender ora
uma coisa ora outra. A beleza, entretanto, não é compreendida assim tão
naturalmente, porque a beleza está acima do conhecimento. Seu objetivo é
preparar o homem para expressar sua alma.

Quantas vezes confundimos essas duas coisas: inspiração e educação!


Educação é a preparação para a inspiração. Prepara a mente para ser um meio
melhor de expressão, para o florescimento natural que está no nosso coração.
Quando a educação se torna um “hobby” e a inspiração é esquecida, a alma fica
sufocada. Onde não há vida o homem é mecânico, irreal: pode escrever poesia,
compor música e pintar quadros, mas tudo será sem vida, pois ele mesmo é uma
máquina. É a alma propriamente dita que é vida, conhecimento e beleza.

Kalidasa foi o poeta mais instruído da idade ou era Sânscrita, mas não recebeu
nenhum tipo de educação. A linguagem de Khabir, outro poeta da Índia, era
muito vulgar e no entanto, mesmo aqueles que davam importância à delicadeza
e convenções da língua Hindi, ao ouvirem as palavras de Khabir, esqueciam
todas as convenções, porque a poesia dele comunicava vida, espalhava-se
sobre a alma, era espírito. Sua gramática apresentava erros mas, apesar disso,
seus versos causavam grande impressão, porque as palavras tinham vida e
faziam a alma dançar. O objetivo da vida é tornar o homem mais vivo, para
permitir à alma viver mais intensamente. Essa é a lição dada por Cristo quando
nos disse para levantarmos bem alto a nossa luz. Isso significa permitir que a
alma se expresse. Não importa qual seja a nossa vida e a nossa busca. Para
preenchermos o objetivo da vida não precisamos estar num templo ou numa
igreja. Qualquer que seja nosso objetivo no campo espiritual, podemos alcançá-
lo tão bem quanto um padre ou um clérigo, que vivem glorificando o nome de
Deus. Nosso trabalho terá de ser a nossa religião, qualquer que seja nossa
ocupação. A alma deverá expressar-se em cada aspecto da vida e então,
seguramente, preencherá seu propósito. A vida surge naturalmente na alma se
soubermos abrir o nosso ser para que o espírito se eleve.

Há uma velha história da Índia que expressa essa filosofia. O céu ou o paraíso
é chamado “Indraloka”, onde o Deus Indra é rei e onde há Peris, que são anjos
ou fadas, cuja função é dançar diante de Indra. Uma fada de Indraloka desceu à
terra e amou um ser terreno. Pelo poder de sua magia levou esse ser terreno
para o paraíso, mas quando esse fato chegou ao conhecimento de Indra, a fada
foi banida do paraíso e os amantes separados.

Essa lenda simboliza a alma humana. Originalmente o Peri, que representa a


alma, pertencia a Indraloka, o reino de Deus, a esfera cheia de paz, alegria e
felicidade. A vida nada mais é do que alegria. É uma dança. A vida e o amor vêm
de Deus e elevam as almas até que principiem a dançar. Na sua condição de
pureza, a alma é alegria. Quando está sem alegria houve alteração na sua
condição natural. Depende então dos nomes e formas da terra e é privada da
dança chamada dança da alma. Nisso repousa toda a tragédia da vida. A ira do
Deus Indra simboliza a quebra da lei, que diz que o mais alto amor tem de ser
só para Deus. É natural que a alma seja atraída para o espírito e que a verdadeira
alegria de cada alma repousa na realização do espírito divino.

A ausência dessa realização mantém a alma em desespero. Na vida de cada


poeta, pensador, artista ou cientista, surgem momentos em que as palavras e
idéias Ihes são transmitidas. São dadas naquele justo momento e não em outro.
Esse é o momento em que inconscientemente a alma tem oportunidade de
respirar. Os homens usualmente não permitem que suas almas respirem: a porta
é fechada na vida na terra. Os homens fecham essa porta por ignorância.
Deixam-se absorver por coisas de muito pouca importância. Assim, quando a
porta se abre e a alma consegue respirar, mesmo que seja num único movimento
de respiração, ela se torna viva naquele único e simples momento. O que disso
emerge é beleza e alegria, fazendo o homem expressar-se em cânticos e
danças. Desse modo a beleza do céu vem à terra.

As coisas que a mente do homem capta são sempre coisas vivas. Os poemas
de Rumi viveram durante 800 anos e continuam ainda vivos. Trazem alegria e
êxtase toda a vez que são cantados ou declamados. Sua vida é eterna e
expressam uma beleza perpétua, o que acontece devido ao poder de Deus. É
um engano a presunção do homem em achar que é possível produzir tais obras
por meio de estudos. É impossível. É o poder de Deus, vindo do alto que produz
a perfeição, a beleza. O homem nunca pode fazer a alma dançar, mas pode
transformar-se num instrumento adequado para a expressão da alma. A
pergunta é: de que modo pode fazer isso?

A alma é o espírito de Deus. O espírito de Deus vive dentro do relicário do


coração. Esse relicário pode ser fechado ou aberto. Há muitas coisas na vida
que o abrem e muitas que o fecham. As coisas que fecham o coração são
aquelas contrárias ao amor, à tolerância e ao perdão, como a frieza, o amargor,
a má vontade e o forte senso de dualidade. O mundo está mais conturbado
atualmente do que antes. De muitos modos o homem parece ir de mal a pior e
apesar disso pensa que está progredindo. Não é falta de organização ou de
civilização. O homem tem ambas as coisas. O que lhe falta é a expressão da
alma. Ele fecha a porta a seu semelhante, fecha o relicário do seu coração e
fazendo isso afasta Deus de si e dos outros. Uma nação coloca-se contra outra
nação, uma raça contra a outra, uma religião antagoniza outra religião. Por essa
razão, mais do que nunca há a necessidade da vivência dessa filosofia. Não quer
dizer que todas as religiões devem ser uma, nem todas as raças. Isso nunca
poderá acontecer. O que é necessário é o progresso indivisível e fazermos de
nós mesmos exemplos de amor e tolerância.

Isso não virá apenas se falarmos, discutirmos e argumentarmos sobre o assunto,


mas pela auto-realização, fazendo de nós mesmos exemplos do que deve ser
um homem, dando amor, aceitando amor e mostrando nas nossas ações
gentileza, consideração e o desejo de servir em nome de Deus. Toda a
Humanidade pode se unir em Deus, sobrepondo-se a esses estreitos limites das
raças e credos. É como bem expressa a frase: “Eu penetrei no nada e desapareci
e vejam só, vi que estava completamente vivo”.

Todos que realizam o segredo da vida compreendem que a vida é uma só, mas
que existem dois aspectos: o aspecto como vida imortal, onisciente e silenciosa,
e o aspecto como vida mortal, ativa e manifestada na multiplicidade. A alma que
é do primeiro aspecto, a vida imortal, fica iludida, desamparada e aprisionada
quando experimenta a vida em contato com a mente e o corpo, que são do
segundo aspecto, a vida mortal. A gratificação dos desejos do corpo e as
fantasias da mente não bastam aos propósitos da alma, que é a experiência do
seu próprio fenômeno no visível e no invisível, mas cuja tendência é ser ela
própria e nada mais. Quando a ilusão faz com que a alma se sinta desamparada,
mortal e aprisionada, ela se sente fora do seu lugar. Essa é a tragédia da vida,
que mantém o forte e o fraco, o rico e o pobre, eternamente insatisfeitos,
constantemente buscando alguma coisa que não sabem o que é. O Sufi
percebendo isso, toma o caminho do aniquilamento e, com a orientação de um
Mestre no caminho, vê ao final da jornada que o destino era ele próprio.

É como disse Iqbal: “Vaguei à procura de mim mesmo. Eu fui o viajante e o ponto
de chegada, o destino”.

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