BREVE REVISÃO – BRIEF REVIEW

POSIÇÃO DO VETORCARDIOGRAMA NO DIAGNÓSTICO CARDIOLÓGICO NO SÉCULO XXI
Prof. Andrés Ricardo Pérez Riera Responsável pelo setor de EletroVetorcardiografia da Faculdade de Medicina do ABC Santo André – São Paulo – Brasil

Endereço para correspondência: Sebastião Afonso, 885 CEP: 04417-000 Jardim Miriam – São Paulo - Brazil Phone: (11) 5621-2390 Fax: (11) 5506-0398 E-mail: riera@uol.com.br Conceito: O vetorcardiograma (VCG) não é nada mais que a projeção em um plano (frontal, horizontal e sagital) das alças (alça P, QRS e T) resultantes de unir os extremos dos chamados vetores instantâneos manifestos planares conseqüência da somatória algébrica de múltiplos vetores instantâneos dos potenciais bioelétricos gerados pelo coração durante um ciclo cardíaco.

Conceito de Vetor: trata-se de uma unidade de grandeza com direção ou caminho, sentido ou orientação e módulo, magnitude ou intensidade usada em eletrovetorcardiografia para representar um dipolo ora de despolarização ora de repolarização. Todo vetor possui um inicio e fim denominados respectivamente origem e extremidade. Jamais deveríamos empregar o termo vulgar “cauda” e “farpa”. A vetorcardiografia fundamenta-se no conceito do dipolo único como uma aproximação equivalente originada no coração e que utiliza as chamadas derivações ortogonais corrigidas as que empregam derivações nos três planos do espaço: frontal, horizontal e sagital. A denominação de ortogonais obedece a que são perpendiculares entre sim e corrigidas porque utilizam artifícios técnicos de resistências e múltiplos conexões que corrigem a falta de homogeneidade do campo elétrico do coração.

Posição do VCG em relação ao ECG no diagnóstico cardiológico 1) Fornece informação tridimensional da atividade elétrica e demonstra mais claramente do que o ECG. . a vertical com a letra Y dirigida de baixo para cima. De 100 casos autopsiados com SVE estudados por Abbott-Smith3 o VCG foi capaz de diagnosticar 50% com apenas 11. As derivações do plano sagitais Z seguem no sentidas póstero-anterior sendo sua parte positiva posterior (-900) e a negativa anterior (+ 900 correspondente aproximadamente a derivação V2). Por convenção a do plano horizontal designada com a letra X (eixo das X de esquerda a direita).7% de falsos positivos. 6) Maior correlação com o ecocardiograma que o ECG na determinação da massa do VE5. 2) Proporciona uma melhor idéia do que o ECG de magnitude e direção das forças. V2 e V3). A vertical Y corresponde a unipolar do plano frontal aVF. V1 e V2 ou V1. que certas SVE de tipo sistólica ocasionam no ECG (SVE com QS em V1. e a do plano sagital com a letra Z dirigida de trás para frente.Estas derivações assim como os três planos cruzam-se entre sim em um ponto denominado E formando um ângulo de 900.1800 (direita). 5) Pode esclarece os casos duvidosos de área eletricamente inativa septal ou anteroseptal. na ausência de área eletricamente inativa. Assim. A derivação X corresponde aproximadamente à derivação bipolar DI e a precordial V6 e dá informações sobre a orientação esquerda-direita com a parte positiva em 00 (esquerda) e a negativa em + . Esta derivação fornece informações sobre a orientação inferior-superior sendo a parte positiva inferior (+ 900) e a negativa superior (900). 4) Sensibilidade e especificidade superior que o ECG no diagnóstico da SVE2. De 70 casos autopsiados com SVE o VCG foi capaz de reconhecer 61%. os cometas dos 10 a 20 ms iniciais da alça QRS inscreveram-se sem retardo4. 3) Possui maior sensibilidade do que o ECG na detecção de sobrecargas atriais. da orientação e magnitude das forças em cada momento1.

Apesar disto. Ex: Área eletricamente inativa inferior associada a bloqueio divisional ântero-superior esquerda ou póstero-inferior esquerdo. Entre as pessoas normais. compararam o desempenho dos critérios de diagnóstico do ECG e VCG em 65 pacientes que foram vítimas de Infarto do miocárdio inferior.001). pode resultar difícil o diagnóstico de infarto quando existe BDASE7. Esta diferença foi altamente significativa (P menor que 0. Estudos mais recentes. 11) Maior sensibilidade para o diagnóstico de múltiplos infartos associados a bloqueios divisionais esquerdos12. a especificidade de 56% e o valor preditivo negativo de 99%13. detectou-se apenas 3 falsos positivos11. 10) Maior sensibilidade do que o ECG para o diagnóstico de infarto inferior9. concluem contrariamente que o VCG não melhora a sensibilidade diagnóstica no infarto diafragmático10. Mesmo assim. Assim. a questão está longe de estar resolvida uma vez que trabalhos mais modernos insistem em afirmar a maior sensibilidade diagnóstica do VCG. Edenbrandt e col. SVE e BDASE8. A monitorização vetorcardiográfica de 169 pacientes foi iniciada 5 minutos antes do início do procedimento e terminada 30 minutos depois da primeira insuflação do balão. 9) Na presença de infarto inferior. Empregando critérios de supradesnivelamento do segmento ST. a sensibilidade do VCG foi de 69% e a do ECG de 43%. em quem se realizará estudos hemodinâmicos e cintilografia com Thalium-201. . 8) Sensibilidade diagnóstica superior em relação ao ECG nos infartos associados a bloqueios divisionais esquerdos.7) Superior que o ECG e o ecocardiograma para o diagnóstico das sobrecargas de câmaras associadas a áreas eletricamente inativas6. 12) A monitorização vetorcardiográfica contínua durante a angioplastia eletiva é um método promisor para a detecção imediata de pacientes com risco aumentado de desenvolver infarto relacionado ao procedimento. o VCG pode brindar informações adicionais que o ECG pode não mostrar como associação com infarto anterior. a sensibilidade do VCG em detectar risco aumentado de IAM relacionado ao procedimento foi de 93%. . comparando-se com 351 pessoas normais.

17) Resulta extremamente promissora a utilização do VCG computadorizado com o denominado modelo TJ-IV. 16) Recentemente. pode permitir o diagnóstico diferencial naqueles casos com extremo desvio a esquerda do SÂQRS no plano frontal (9.13) Elevada sensibilidade na determinação da severidade na estenose aórtica valvar congênita. o VCG é um método de grande utilidade no estudo nas alterações da repolarização durante a pré-excitação ventricular uma vez que nós permite conhecer com elevada sensibilidade o local de origem da via acessoria15.2mV indica estenose leve (<130 mmHg)14.5% dos casos na síndrome de Brugada). Assim. 15) Acurácia diagnóstica geral 15% superior do que o ECG16. Voltagem até 2. Este método mostrou elevada acurácia e grande velocidade de procesamento18. a rlação comprimento e largura da onda T e as áreas espaciais dos vetores. demostramos que a vetorcardiografia pode ser de inestimável valor na síndrome de Brugada. (Assim. Assim. 18) De grande valor na análise das modificações ocorridas após a ablação percutânea com álcool na miocardiopatia hipertrófica forma obstrutiva não responsiva as drogas. divisionais e na pré-excitação ventricular com feixe anômalo em paralelo. o qual permite eliminar os problemas de medições das ondas do QRS. Também o VCG nos permite verificar a ausência de BIRD ou BCRD na presença de síndrome de Brugada17. um vetor máximo no plano horizontal maior que 4mV e um indicador muito confiável de estenose severa (pressão sistólica intraventricular esquerda >200 mmHg). O método permite diferenciar o distúrbio dromótropo ocorrido no território na vía de saída do ventriculo direito ou bloqueio divisional superior ou subpulmonar do ramo direito do BDASE. 14) Em relação às arritmias pode ser superior ao ECG apenas em certas dromótropas: bloqueios de ramo. . O micro infarto septal resultante ocasiona em todos os casos patentes de BCRD. diferentemente da miotomia/miectomia19.

79: 361-369. Circulation. 4) Pipberger HV. 75: 752758. Snyder JR. 35: 536-551. Murphy GP. A vetorcardiografia teve um importante impacto no progresso da eletrocardiografia. a vetorcardiografia deva permanecer no “arsenal” diagnóstico para compreensão dos fenômenos elétricos acontecidos no mundo tridimensional em que estamos imersos. mais nunca foi amplamente empregada na prática diária. 1968. Estes EH Jr. Am Heart J. Cardiovasc Clin 1975. Chou T. Goldman MJ. 1968. A point-score system for the ECG diagnosis of left ventricular hypertrophy. 3) Abbott-Smith CW. Am Heart J. 1967. acreditamos que com a finalidade de ensino e pesquisa. Estes EH Jr. Esperamos não ser “os últimos dos moicanos”. em honra a ciência a vetorcardiografia não pode morrer!!!. Mesmo admitindo que este conceito seja verdadeiro. Am Heart J. Atualmente. A point-score system for the ECG diagnosis of left ventricular hypertrophy. 75: 752-758. muitos poucos centros a empregam no dia-dia. estudos mais recentes assinalam que o VCG e o ECG de 12 derivações possuem capacidade diagnóstica muito similar quando bem empregada à eletrocardiografia20. Vectorcardiographic criteria for the diagnosis of left ventricular hypertrophy. Value and limitations of vectorcardiography in cardiac diagnosis. Cosma J. Correlations of the orthogonal electrocardiogram and vectorcardiogram with consitutional variables in 518 normal men. Littmann D.) 2) Romhilt DW. 6: 163-178. . 1970.Romhilt DW.Conclusões Apesar de todas estas vantagens. Referências 1) Chou TC.

43: 547-558. Grissom RL.91:699-704. O'Rourke RA. On-line vectorcardiography during elective coronary angioplasty indicates procedure-related myocardial infarction. Pg: 44. Bancroft WH Jr. Vectorcardiographic. 14) Ellison and Restieaux. 6) Vine DL. Erickson CC. J Electrocardiol 1980. 1971. Desser KB. Circulation. Starling MR. Lindvall B. Brooks HL. Albrechtsson U. 10) Lui CY. Sylven C. electrocardiographic. Hamby R.20:241-246. A method for Estimating severiry. Circulation 1981. 12) Benchimol A. 13) Jensen J. Hilsenrath J. Comparative accuracy of electrocardiographic and vectorcardiographic criteria for inferior myocardial infarction. Dodge HT. Coron Artery Dis. 2000 . Advances in clinical vectorcardiography. Braga JMS. Tristani FE. Luna Filho B. Crawford MH. Comparison of the vectorcardiogram with the electrocardiogram in the prediction of left ventricular size.5) Bocanegra Arroyo J. Am Heart J 1976.Recognition of myocardial infarction complicated by left anterior hemiblock: a diagnostic dilemma.Vectorcardiogram more sensitive than 12-lead ECG in the detection of inferior myocardial infarction. 11:161-169. 8) Mehta J. Buell JC. Hurst DC. Lack of superiority of the vectorcardiogram over the electrocardiogram in detecting inferior wall myocardial infarction regardless of time since infarction. Lundin P. J Electrocardiol 1987 .13:93-98. Am J Cardiol 1975. and angiographic correlations in apparently isolated inferior wall myocardial infarction.10:551-559. Smedresman P. 7) Khair GZ. Ornato JP.63:1025-1029. Finchum RN. Pfeferman A. Pahlm O.36:76-86. Estado de São Paulo.: Análise crítica do electrocardiograma e do vetocardiograma no diagnóstico da hipertrofia ventricular esquerda. Lyttkens K. Eriksson SV. Hoffman I. 1972. Vectorcardiography in congenital Heart disease. 1994. Clin Physiol 1990 . 9) Hurd HP 2nd. Dlabal PW. . 11) Edenbrandt L. 4:353-360. Rev Soc Cardiol.

Fortunato de Cano S. 2001. A hundred years of progress in electrocardiography. Intern Med.81.simposiobrugada. Guidelines for prevention of sudden death VIRTUAL SYMPOSIUM ABOUT THE BRUGADA SYNDROME: TEN YEARS OF HISTORY: 1992/2002) www. Jue X. Yanagawa T. Saito H. .) 18) Guo X.15) Sawada K. 20) Rautaharju PM. Schapachnik E. 2002 . Significance of electrocardiogram in the Brugada Syndrome and in other arrhtmogenic entities. Inc. J Tongji Med Univ. A. Futura Publishing Company. Inaba-Sato F. Cano MN. Wang Z. Hirai M.Spatial ventricular gradient in patients with WolffParkinson-White syndrome in comparison with normal subjects: vectorcardiographic evidence for significant repolarization changes due to preexcitation. Ruan Y.34:738-743. 19) Riera AR. Gimenez VM. 17) Pérez Riera AR. Agetsuma H. Hayashi H. Chaper 3 pg48-49.com. de Padua Fleury Neto LA. Cano MN. Armonk. 16) Bayés de Luna. Vector electrocardiographic alterations after percutaneous septal ablation in obstructive hypertrophic cardiomyopathy. 4:60-71.79:466-475. Sousa JE.2: The rise and decline of vectorcadiography. de Cano SJ. A Textbook 2nd Update Edition. Ichihara Y. 1995. 1998.ar. Model TJ-IV computer-assisted vectorcardiogram analysis system. Clinical Electrocardiography. NY. Possible anatomic causes. Arq Bras Cardiol. Sano H. Tomita Y.21:21-22. Can J Cardiol 1998.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful