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DIREITO DAS OBRIGAÇÕES

EXAME 1º SEMESTRE

1. CONTRATO-PROMESSA

1.1 Noção e interesses sujacentes:


O contrato-promessa, segundo o preceituado no art. 410º, nº1 do CC, é a
“convenção pela qual alguém se obriga a celebrar certo contrato”. Pensemos, por ex.,
na hipótese de A, prometer vender a B, e este prometer comprar um prédio rústico
com certa área, por 2.000€, entregando B 500€, como sinal e princípio de pagamento e
devendo a escritura pública ser outorgada no prazo de 3 meses. Estes elementos
negociais conduzem-nos, desde logo, a encarar a questão da estrutura jurídica do
instituto em causa, enquanto de intui a distinção entre uma fase inicial (o próprio
contrato-promessa) e uma concertaçãodefinitiva (o chamado contrato prometido),
bem como esclarecer os interessas justificativos de uma autonomia funcional.
Quanto ao aspecto funcional, há que dizer que os promitentes, desde que se
trate de um contrato-promessa bilateral (criador de uma recíproca obrigação de
declaração), ou o promitente, quando o contrato-promessa seja unilateral [art 411º do
CC, por ex., uma pessoa promete vender sem que a outra prometa comprar), vincula-
se a celebrar um contrato futuro, mas estabelecendo de antemão as bases que hão-de
formar o conteúdo do contrato-prometido. Esta vinculação, in futurum, que pode
abranger as mais diversas espécies contratuais, como a compra e venda, a locação, a
prestação de serviços, etc, gera uma obrigação de prestação de facto jurídico, cuja
enventual natureza pessoal (o carácter intuitu personae) é determinante quanto ao
espaço de aplicação do disposto no art 412º do CC (também o art 830º, nº1, quando se
refere à “natureza da obrigação assumida”).
Mais importante é, contudo, a concessão recíproca ou unilateral de se poder
exigir, em dados termos, o cumprimento voluntário ou judicial da promessa
(problemática da execução específica do contrato-promessa, por força do art. 830º do
CC, toca a questão da coercibilidade da promessa), o que significa que o contrato-
promessa como tal é a génese de um acto devido ou de uma obrigação de contratar.
O contrato-promessa corresponde a uma pluralidade de interesses mais ou
menos contrastantes e que, sob tutela da lei, buscam harmonizar-se. E se é certo que,
tratando-se de contrato-promessa de compra e venda para habitação, releva o
interesse do promitente-comprador, pessoa singular ou colectiva, una ou plural, há
que atentar também (quando o contrato-promessa é bilateral) nos interesses do
promitente-vendedor, de terceiros, titulares de situações jurídicas ou factuais que são
ou podem ser afectados pelas vicissitudes do contrato-promessa ou mesmo nos
interesses mais gerais do tráfico jurídico.
Este conjunto de interesses, que estão na base do contrato-promessa para
habitação e que emanam da generalidade dos contratos-promessa, podem reconduzir-
se, numa certa perpectiva, a um duplo interesse: i) um interesse de mero diferimento
ou dilação do contrato-prometido; ii) e o interesse de as partes não se
comprometerem definitivamente.
Sobre esta dupla motivação: a cada passa, as partes têm uma vontade definitiva no
sentido da celebração de tal contrato-prometido ou definitivo, mas, por razões de
vária ordem, não o podem celebrar, desde logo, pensemos, por ex., nas hipóteses de a
habitação, sobre que recai o contrato, estar inacabada, na falta de requisitos
necessários para o registo da propriedade por parte do transmitente, dificuldades na
obtenção de crédito para a aquisição do imóvel, etc. Em todos estes casos, as partes
são levadas a celebrar um contrato-promessa que exprime realmente uma vinculação
in futurum e, portanto, uma vontade adiada. Trata-se, assim, de um interesse
diferido/adiado por força das coisas ou de circunstâncias alheias à vontade das partes,
não querendo elas, ou não podendo elas, recorrer a outros mecanismos.
Ao lado da vontade definitiva, há, ou pode haver, um interesse de as partes não
se comprometerem definitivamente e de conservarem a designada “faculdade de
arrependimento”, sujeitando-se às consequências resultantes do incumprimento desse
contrato-promessa. Há aqui, nesta segunda vertente, um nítido elemento de
condicionalidade, visto que nos deparamos com uma mera vontade provisória ou
legitimadora de um incumprimento definitivo. Este segundo aspecto é, do ponto de
vista funcional, um vector importante do contrato-promessa, muitas vezes esquecido,
em favor do primeiro interesse, e raciocionando o legislador ou o juiz, como se o
contrato-promessa não tivesse esta dimensão de provisoriedade, refectido no
chamado ius poenitendi (direito de arrependimento no compromisso de venda e
compra).
No cômputo de todos estes interesses têm efectivamente um relevo ,uito
especial os interesses do promitente-comprador, sendo visível na legislação
portuguesa mais recente a tendência para reforçar essa protecção “aquisitiva”, em
nome de razões de mais diversa índole.
Pode-se referir, desde logo, o princípio geral da protecção da parte mais fraca.
O promitente-comprador é, geralmente, a parte mais fraca, e mais fraca no duplo
aspecto que resulta da circunstância de haver no domínio habitacional uma procura
maior do que a oferta e de a relação contratual de exprimir no “encontro” entre um
profissional e um particular. Nos termos em que hoje se processa a celebração de um
contrato-promessa para habitação, muitas vezes sob a forma de adesão, é evidente
que não estamos perante um contrato entre simples particulares, mas entre uma
empresa de média ou grande dimensão e o puro contraente particular ou individual
que quer adquirir uma casa.
Estreitamente ligado com p princípio geral da protecção encontra-se toda a
problemática da protecção do consumidor. Sabendo-se que esta tutela não deve
apenas preocupar-se com os bens de consumo imediato ou com os serviços, a
legislação e a doutrina têm dado uma particular importância à habitação, como
objecto de consumo. A integração dos contratos-promessa relativos à habitação na
área de protecção do consumidor é potenciada numa economia de bem-estar, pois a
habitação própria é uma peça fundamental desse mesmo bem-estar.
A dupla protecção referida traduz-se em diversos aspectos, dos quais será mais
importante realçar o estímulo à aquisição da propriedade habitacional, bem como a
ideia de contrariar a inflação e os institutos especulativos nesta área.

1.2 O princípio da equiparação entre o contrato-promessa e o contrato-


prometido e as suas excepções:

O art. 410º, nº1 do CC consagra, no tocante ao regime o contrato-promessa, o


princípio da equiparação e que se traduz em aplicar ao contrato-promessa “as
disposições legais relativas ao contrato-prometido”. Sendo o contrato-promessa, do
ponto de vista estrutural, um contrato normal, não causa estranheza que ele esteja
submetido aos requisitos essencias de existência e validade (acordo de vontades,
capacidade e objecto) de qualquer contrato, bem como à ordenação jurídica do
contrato cuja celebração é adiada (por ex., a proibição de doação de bens futuros, pela
força do art. 942º, nº1 do CC). O corpo do art. 410º, nº1 abre, no entanto, duas
aberturas no citado princípio da equiparação: a 1ª, no que concerne às questões de
forma; e a 2ª, mais do foro da eficácia, relativa às “disposições que, por sua razão de
ser, não se devam considerar extensivas ao contrato-promessa”.

1.2.1. Os aspectos da forma:

Quanto à forma do contrato-promessa, o CC de 1966 manteve, como princípio


geral o reconhecimento da validade das meras declarações verbais, mas veio exigir
para o contrato-promessa “doc. assinado pelos promitentes”, sempre que o contrato-
prometido tenha de constar de doc. autêntico ou particular (por ex., para a validade do
contrato-promessa de compra e venda de um prédio rústico é bastente um doc.
particular assinado pelos promitentes). O regime do art 410º, nº2 do CC siginifica, no
fundo, uma ampliação do sistema de Seabra embora com um duplo agravamento: a
exigência de duas assinaturas, desde que o contrato-promessa seja bilateral; e de um
doc. escrito que não seja um simples recibo de quitação. O escrito particular deverá
conter as clásulas que as partes reputem de essencias (por ex., uma clásula de reforço-
do sinal ou uma clásula penal sancionadora do incumprimento), podendo integrar
também estipulações acessórias (por ex., sobre o lugar do cumprimento), mas não
devendo os promitentes perder de vista o preceituado em certas disposições (por ex.,
art. 221º, nº2; art. 358º, nº3; art. 351 e art. 394 do CC), relativamente a estipulações
verbai acessórias (não essenciais) posteriores ao doc. exigido (por ex., uma
prorrogação do prazo convencionado para o cumprimento).
O nº3 do art 410º veio completar as exigências formais na sequência da tutela
protectora do promitente-comprador nos contratos-promessa relativos à aquisição de
unidades habitacionais, ao exigir que o doc. escrito (referido no nº2) “contenha o
reconhecimento presencial das assinaturas dos outorgantes, e a certificação, pelo
notário, da exigência da respectiva licença de utilização ou de construção”. E acrecenta
o nº3 que “a omissão destes requisitos não é, porém, invocavél pelo promitente-
vendedor, salvo no caso de ter sido o promitente-comprador que directamente lhe
deu causa”.
Se a falta dos requisitos exigidos no nº2, conduz, em princípio, à nulidade do
contrato-promessa, com eficácia ex tunc (a partir de então) que atingirá o sinal
existente ou a importância correspondente à parte do preço ou até à sua glabalidade,
o nº3 oferece-nos uma figura de invalidade dita mista (nulidade atípica). Como quer
que seja, trata-se de um regime um pouco estranho em relação à ideia clássica da
nulidade do art 286º, mas que é uma pedra toque do aperfeiçoamento da legislação
moderna em deterimento da lógica rectilínea patente na nulidade típica (art.286º).
Deparamo-nos, no fundo, com a ideia de procurar esquemas que permitam ao
aplicador do direito graduar situações, ao mesmo tempo que se releva aquele princípio
que está imanente a toda a ordem jurídica e que é o princípio da conservação. Este
princípio procura aproveitar o mais possível a actividade negocial, nos aspectos de que
as partes lançaram mão, proscrevendo-se, assim, as soluções mais radicais.
Integrantes destas questões de forma e das suas consequências, estão, não
apenas a projecção que o regime do art 227º pode ter na fase contratual (por ex., na
chama relação de nogociações, uma das partes provoca culposamente ou não evita a
nulidade) ou o papel de controlo que o abuso do direito pode ter sobre a parte
pretensamente legitimada, causante da invalidade (o relevo do princípio da proibição
do venire contra factum proprium), mas sobretudo da controversa questão da sorte
jurídica do contrato-promessa bilateral assinado apenas por um dos promitentes.
O debate relativo ao problema equacionado tem sido mantido entre certa
jurisprudência, defensora da nulidade total por vício de forma ou, numa ou noutra
decisão judicial, da convolação automática da promessa bilateral em promessa
unilateral (com o apoio do art 411º) e uma corrente doutrinal dominante (Antunes
Varela e Almeida Costa), com eco em alguma jurisprudência, orientada firmemente
para as soluções conservadoras da redução e da conversão negociais (arts 292º e
293º). Pairam, no entante, certas dúvidas em aceitar a posição dominante, face ao teor
literal do nº2 do art. 410º e à redacção no nº3.
1.2.2. Os aspectos da eficácia:

A especificidade funcional do contrato-promessa ou a normal concessão de um crédito


(recíproco ou unilatral) à celebração do contrato prometido, permite explicar a 2ª das
execpções ao princípio da equiparação. Tendo o contrato-promessa efeitos
meramente obrigacionais, desde que não seja dotado de eficácia real (art 413º do CC),
não se estranhará a inaplicabilidade do conjunto de soluções que exigem uma eficácia
constitutiva ou translativa do contrato [por ex., as normas dos arts. 879º, al.a); 954º,
al.a); 796º, nº1; 886º; 892º; 1405º do CC]. Se nas hipóteses do contrato-promessa de
compra e venda de coisa alheia ou de bens indivisos, o objecto do contrato não é
impossível em si mesmo (a não ser que se verifique uma impossibilidade originária), há
que averiguar, fundamentalmente, o conhecimento ou desconhecimento do
promitente-comprador sobre a alienidade da coisa, bem como o empenho posto pelo
promitente-vendedor na aquisição do objecto prometido-vender, relativamente a um
contrato-promessa de compra e venda de imóveis sem autorização de um dos
cônjuges, já parece decisivo, para efeitos indemnizatórios puros, (a restituição do sinal
existente recairá sobre o casal desde que se considere tal soma como rendimento do
património comum), o grau de vinculação assumido pelo cônjuge promitente.
E nem se diga, que a natureza obrigacional do contrato-promessa (fora do círculo
de aplicação do art. 413º) é infirmada/anulada pela consagração expressa de uma
prática já corrente, traduzida na admissibilidade da tradição da coisa prometida-
vender (traditio). Longe de se ter querido criar um novo contrato real quod
constitutionem (reais quanto à constituição) e como quer que se resolva o problema da
qualificação jurídica resultante da traditio, o lesgislador terá apenas pretendido
projectar o especial favorecimento do promitente-comprador numa situação social
típica, cedendo certas garantias indemnizatórias e de execução específica (cf. art.
442º,nºs 2 segunda parte e 3).
Para se terminar a referência aos aspectos da eficácia, há ainda que dizer que o
incumprimento do contrato-promessa desenvolve uma série de expedientes
(indemnizatórios, executórios e resolutórios puros) que se abrem, em alternativa, ao
promitente lesado, e que são, em grande parte, específicos, se os comprarmos com a
geral dualidade optativa (para o credor adimplente/cumpridor), consequente à
inexecução dos contratos definitivos.

1.3.Contrato-promessa e sinal:

Os autores têm definido sinal como “coisa (normalmente soma pecuniária)


entregue por um dos contraentes ao outro, no momento de celebração do contrato ou
em data posterior, como garantia de cumprimento”. A sua menção (geralmente em
clásula acessória) no contrato-promessa, desencadeou uma certa polémica quanto à
sua função, parecendo, todavia, preferível a ideia de ver no sinal a “liquidação prévia
das perdas e danos resultantes do incumprimento”, configurando-o, assim, com uma
natureza análoga à clásula penal, mas com a diferença de existir um depósito prévio.
Pode-se afirmar que o legislador respeitou essa concepção, ao considerar que “no
contrato-promessa de compra e venda presume-se que tem carácter de sinal toda a
quantia entregue pelo promitente-comprador ao promitente-vendedor, ainda que a
título de antecipação ou princípio de pagamento do preço” (art. 441º) e ao determinar
as consequências do incumprimento, no texto do n.º2 do art. 442º. A presunção
consagrada no art.441º deve considerar-se meramente relativa, podendo assim
provar-se que a quantia foi apenas entregue a título de “antecipação ou princípio de
pagamento”.
Não parecendo inviável que, em alguns contratos-promessa (em que revele
uma mera vontade provisória), 0o sinal continue a outorgar às partes, ou a uma delas,
uma “faculdadede arrependimento” (que pode estar mesmo convencionada), a função
principal do sinal existente parece ter sido “enfraquecida” com a redacção dada aos
arts. 442º, nº2 e 830º, nº1. Na primeira das disposições, o legislador veio acrescentar
ao sinal-liquidação prévia dos danos, uma indemnização pelo valor da coisa, ao tempo
do incumprimendo, desde que haja traditio, e no novo texto do art.830º, nº1, ter-se-á
pertendido um “fortalecimento da garantia de excução” do contrato-promessa,
precludindo-se à presunção (relativa), reterida da existência de sinal, de
“enfraquecimento” dessa mesma garantia.
Refira-se, ainda que, na sequência do que já tinha sido decidido no assento de 7 de
Março de 1947 (“a disposição da segunda parte do art. 1548º tem carácter supletivo”),
o art.442º, nº4 reconhece às partes a possibilidade de cominarem sanções especiais
(por ex., uma clásua penal) para o incumprimento, em atenção, muitas vezes, à
exiguidade/insuficiência de valor do sinal.

1.4. Incumprimento do contrato-promessa e meios de tutela para o


contraente fiel:

O incumprimento do contrato-promessa apresenta-se numa casuística variada, que


vai desde a violação de clásuas contratuais (por ex., de reforço do sinal) ou de
preceitos legais (falta de licença de habitação) até à estrita violação do próprio
contrato-promessa (o promitente-vendedor aliena, por ex., o andar que prometeu
vender, transferindo o direito para um 3º).
Interessando-nos, aqui, apenas o incumprimento imputável (culposo) a um dos
contraentes, vejamos quais são os específicos meios de tutela que o legislador
outorgou, em alternativa, à parte “fiel”.
1.4.1. Garatia de execução específica:

O CC veio admitir a possibilidade de suprimento judicial da vontade do contraente


faltoso, estabelecendo uma execução complusiva, em via específica. O juiz como que
“força” a parte faltosa à celebração do contrato emitindo uma declaração por esse
contraente e aperfeiçoando assim (através dessa sentença constitutiva) o contrato. O
art. 830, nº1 veio consagrar o princípio da execução específica do contrato-promessa.
O legislador, ao dotar de força “potestativa” uma mera pretensão de cumprimento,
introduziu, no entanto, duas importantes limitações ao princípio: a derivada da
existência de convenção em contrário (expressa ou presumida pela existência de sinal
ou cláusula penal, pelo art.830º, nº2) e a relacionada com a “natureza da obrigação
assumida”. A presença de sinal fazia pressupor que as partes, em casa de não
cumprimento, não queriam a execução específica e se contentavam com a
indemnização traduzida na perda do sinal ou não sua restituição em dobro, consoante
os casos.
O legislador entendeu, no entanto, alterar estas soluções, em ordem a reforçar
a protecção dos interesses do promitente-comprador e numa conjuntura socio-
económica sensívelmente diferente (crise económica mundial dos anos 70,
modificações políticas pós 25 de Abril, etc.). No aspecto que agora interessa, as novas
soluções vieram traduzir-se, não apenas em garantias de execução específica, mas
também em garantias indemnizatórias mais completas e a funcionar em alternativa.
Tendo-se mantido, como limite preclusivo da execução específica, a “natureza
da obrigação assumida”, fórmula suficientemente dúctil para permitir a construção de
modelos doutrinários e jurisprudênciais, mas que se pode explicitar, desde já, nas
situações em que o contrato-prometido “não possa ser válida e eficazmente
substituído por uma sentença ou apresente uma índole pessoal que justifique deixar-
se às partes liberdade de facto de não celebrar o contrato definitivo, mantendo-se
assim até ao último momento a possibilidade de não se vincularem definitivamente,
embora incorrendo em responsabilidade por violação do dever resultante do contrato-
promessa”.
É o que acontece, nos contratos de serviços pessoais (trabalho, mandato, etc), na
doação e nos contratos reais quoad constitutionem (reais quanto à constituição).
Parece poder concluir-se prima facie, que o nº1 do art.830º terá afastado a
presunção baseada no sinal ou mesmo a “força” da convenção expressa prévia. Esta
imperatividade ou o “desejo” global de que haja execução específica parece, no
entanto, pôr em xeque a função dos contrato-promessa em que releva o interesse de
condicionalidade e a consequente “faculdade de arrependimento”, mesmo que o
radicalismo dessa interpretação, definida por vários autores, se possa mitigar com o
recurso à execução modificativa.
Antunes Varela, ao invés, é de opinião que o legislador pretende que a parte
fiel possa “recorrer à execução específica, quer haja ou não constituição do sinal, nos
casos de promessa de venda de imóveis para habitação, contanto que, nos termos do
art 442º, nº2, tenha havido entrega do imóvel objecto do contrato-prometido”, não
podendo significar “quer haja, quer não haja convenção em contrário”, pois se assim
fosse isso “constituiria uma derrogação absurda do princípio da autonomia privada”.
Esta interpretação parece, contudo, frustrar o intuito do legislador, a sua
particular intenção de reforçar a posição do promitente-comprador, nos contratos-
promessa para aquisição de undidade habitacionais, atendo designadamente o
desnível existente entre a empresa e o particular leigo. E sendo assim, propendemos
para uma interpretação correctiva do art.830º, nº1, fazendo-o valer apenas, como
autêntica garantia, para aqueles casos em que se faça sentir uma necessidade
proteccionista do promitente-comprador, ou seja, nos tais contratos-promessa de
aquisição de habitação própria, mas não o aplicando ao comum dos contratos-
promessa (por ex., uma promessa de cessão de quotas).
A parte final do nº1, do art.830º, ao permitir a possibilidade de execução
modificativa do contrato, de acordo com os pressupostos do art 437º, introduziu uma
modificação relevante enquanto verdadeiro apelo à aplicação do princípio normativo
da boa-fé, princípio de capital importância para o estabelecimento e processamento
de vinculos obrigacionais fundamentadores de uma verdadeira solidariedade e
cooperação. Mesmo que o artigo se tenha limitado a explicitar o já resultava dos
princípios gerais (do art. 437º), ponto de vista não inteiramente líquido, a sua
relevância patenteia-se e está manifestamente em conexão com a invocação da boa-
fé.
Finalmente, no respeitante à velha querela doutrinal e jurisprudêncial e que
consiste em saber se, no caso em que a lei se contenta com um documento particular
para o contrato-promessa embora seja necessária escritura pública para o contrato
definitivo, não será exigível, para efeitos de execução específica, escritura pública, a
tese menos liberal (mais formalista) é defendida em várias anotações jurisprudênciais,
embora a doutrina e a jurisprudência dominantes se inclinem para a solução oposta
(desnecessidade da escritura para a promessa). Diremos que a orientação minoritária
estava já contra a letra e o espírito da lei, revelado pelos trabalhos preparatórios, e
face às modificações introduzidas (nº3, art 410º), não parece ter qualquer base de
sustentação, pois como acentua Antunes Varela, “a promessa [...] constante de
documento particular com os requisitos mencionados, goza da exequibilidade especial
prevista no art.830º”.

1.4.2. Garantia indemnizatória:

Sempre que o promitente lesado não possa ou não queira recorrer à execução bem
como na hipótese ter havido estrita violação do contrato-promessa continuamos
apenas a falar do contrato com efacácia inter partes, o legislador confere-lhe um
direito de indemnização dos danos resultantes do incumprimento imputável. Qual o
conteúdo deste crédito indemnizatório? Na ausência de sinal ou de convenção
expressa sobre o montante da indemnização (1ª parte do art. 442º, nº4 do CC), a parte
fiel que resolva o contrato poderá pedir uma indemnização pelos danos efectivamente
sofridos e a calcular nos termos dos arts. 562º e ss. De acordo com o preceituado no
nº2, do art.442º, a presença ou a constituição de sinal pré-determina o montante
indemnizatório, embora seja duvidoso que a simples mora (sem conversão em
incumprimento definitivo, do art.808º,nº1 CC) possa desencadear a retenção do sinal
ou o dever da sua restituição em dobro (consoante a fonte do incumprimento).
A parte final do art.442º,nº2 confere, no entanto, ao promitente-comprador de
imóveis para habitação, e em alternativa com a execução específica ou o pedido de
devolução do sinal em dobro, o direito de exigir uma indemnização pelo valor que o
imóvel “tiver ao tempo do incumprimento”, desde que tenha havido “tradição da
coisa” (o promitente-comprador habita já o imóvel ou está na pose da respectiva
chave). Esta solução funciona como autêntico incentivo ao cumprimento, parece dever
ser circunscrita aos promitentes de contrato-promessa para aquisição de habitação
própria, não devendo ser aplicada, por ex., nas promessas de compra e venda de
terrenos rústicos, mesmo havendo tradição.
Há que referir ainda, que o nº3, art.442º, reconhece ao promitente-comprador,
tendo havido tradição, o direito de retenção sobre a “coisa objecto do contrato-
promessa” para garantir “o crédito resultante do incumprimento pelo promitente-
vendedor”. Trata-se de uma garantia não subsumível à ratio do art.754º, aos
contratos-promessa de aquisição de habitação própria.

1.5.Contrato-promessa com eficácia real:

Contrariamente ao previsto no Código de Seabra que consagrava a eficácia meramente


obrigacional do contrato-promessa, o art.413º do CC permite que os contraente
atribuam eficácia real ao contrato, desde que, tratando-se de imóveis ou móveis
sujeitos a registo, a promessa conste de escritura pública, haja a intenção de se
outorgar ao contrato uma eficácia erga omnes e sejam registados os direitos
resultantes da promessa. Perante tais pressupostos, o beneficiário da promessa pode
actuar contra as situações da violação da promessa, constitutivas de direitos (pessoais
ou reais) registados posteriormente ao registo da promessa. De cordo com a doutrina
dominante, o promissário é não só, titular de um direito de crédito, mas também de
um direito real de aquisição que lhe permite recorrer à execução específica e pedir, na
respectiva acção, como pedido cumulativo, a declaração de invalidade do negócio
violador. A omissão no art.413º, de uma norma indêntica à do nº2 do art.421º, que
apelasse directamente para o recurso à execução específica, não parece permitir a
defesa de uma relevância própria do direito real de aquisição (e da seuqela),
concretizada numa acção de reivindicação.
A hipótese da mera recusa de cumprimento não suscita dificuldades especiais,
já que o titular da promessa pode escolher entre a execução específica ou alguns dos
meios de tutela indemnizatória.

2. PACTO DE PREFERÊNCIA:

2.1. Noção:

O art.414º do CC define pacto de preferência. Se A, proprietário de certo prédio


rústico, celebra com B um acordo pelo qual lhe concederá preferência na compra do
terreno, A não se obriga a vender, nem B se obriga a comprar, como no contrato-
promessa bilateral, mas o proprietário assume, apenas, a obrigação de dar prevalência
a B, em igualdade de condições com outros possíveis compradores, no caso de se
decidir vender o prédio. A latitude das situações em que alguém se pode tornar
devedor da preferência permite explicar, por um lado, a relativa incorrecção do termo
escolhido pelo legislador e compreender o teor dos arts.414º e ss como mero relevo
da hipótese mais vulgar de prefeência (a compra e venda), sem que o intérprete ou o
aplicador de direito deixem de aplicar analógicamente essas normas “à obrigação de
preferência que tiver por objecto outros contratos com ela (venda) compatíveis”
(art.423º). Entre este figuram a locação, a sociedade, fornecimento, comodato.
O pacto de preferência, apresentado, tal como o contrato-promessa, vantagens
patentes, implicitamente reconhecidas do Código de Seabra não se confunde com o
contrato-promessa unilateral, com o chamado “pacto de opção”, com a concessão de
exclusivo ou com a preferência enquanto característica particular e típica dos direitos
reais.

2.2. Requisitos de forma e efeitos:

Em sede de formalismo, a remissão contida no art.415º para o disposto no nº2


do art.410º, conduz à exigência de documento assinado pelo devedor da preferência,
desde que este tenha assumido a sua obrigação relativamente a um contrato cuja
validade formal dependa da existência de documento autêntico ou particular.
No caso específico de as partes pretenderem celebrar o acordo com eficácia real (erga
omnes), o art 421º exige uma série de requisitos, análogos aos que o art.413º exige
para o contrato-promessa com tal eficácia. É necessário, assim, que o direito de
preferência se refira a bens imóveis ou a móveis sujeitos a registo, conste de escritura
pública e seja registado [art.2º, nº1, al.g) do Código de Registo Predial]. O nascimento,
para o credor da preferência, de um direito real de aquisição, pode originar, em caso
de violação do pacto, um fenómeno de substituição (do 3º adquirente) com eficácia
retroactiva, resultante de um exercício de uma acção de preferência (cf. art.421º, nº2
e a remissão feita para o disposto no art.1410º), que levanta problemas quanto à
legitimidade passiva e ao âmbito da sentença favorável.
Além da preferência convencional/voluntária, o direito de preferência pode
provir imediatamente da lei, em situações em que se visa uma consolidação de direitos
ou se procura tutelar certos “estados jurídicos”, por razões sócio-económicasn
projectadas, por ex., na crise habitacional.
Se em qualquer das duas preferências (bem como no caso especial da preferência
convencional com eficácia real do art.421º), o obrigado tem de comunicar ao
preferente, judicial ou extrajudicial, o projecto de venda e as clásulas do respectivo
contrato (art.416º) para aquele poder exercer o seu direito, a violação da preferência
voluntária confere ao lesado um mero direito de indemnização dos danos sofridos;
enquanto que o preferente legal, titular de um direito real de aquisição, goza de um
direito potestativo que lhe permite fazer o seu negócio de alienação, através do
recurso à acção de preferência, por força do art.1410º CC.
Para as hipóteses concursais dispõe o art.422º, ao prevê que o direito
convencional de preferência “não prevalece contra os direitos legais de preferência” e
que apenas as referências legais ou convencionais, com eficácia real, podem valer
contra adjudicatário “relativamente à alienação efectuada em execução, falência,
insolvência ou casos análogos”. A ratio desta última limitação é explicada, por alguns
autores, quando, partindo das razões de ordem pública em que os direitos legais de
preferência se baseiam, entendem “dever-se assegurar aos seus titulares a
possibilidade de preferir em execução, i é, que entre os interesses desses titulares e o
dos credores (interessados em ver subir o preço dos bens), devia dar-se àquele a
primazia” e que, relativamente ao direito de preferência com eficácia real, a solução
adversa poderia levar o promitente a “iludir o direito, pois bastaria, para tanto, deixar
executar o prédio ou até concertar a execução com algum credor”.
Refira-se, ainda, que o próprio titular do direito real de aquisição pelo art.421º,
está sujeito à relevância da prevalência, enquanto característica típica dos direitos
reais, tendo os mesmo direitos e obrigações que um qualquer 3º, na hipótese de o
objecto da preferência estar gracado com garantia real registada e surgir um processo
executivo.

2.3. Excepção de não cumprimento do contrato:

A noção encontra-se plasmada no art.428º, nº1. A exceptio non adimpleti


contractus ou execção de inadimplência é, assim, uma faculdade especial de recusar a
prestação, sem consequências moratórias, em consequência da estreita depedência
entre a prestação de uma das partes e a contraprestação da outra. Como efeito que é
o designado sinalagma funcional (diz respeito às vicissitudes ou à vida das obrigações
já constituídas), o pressuposto básico de inovação da exceptio é a presença de um
contrato bilateral ou sinalagmático (por ex., a compra e venda, a locação), em que as
prestações em causa se encontrem (por vontade das partes) ligadas por um nexo
causal reciproco. Esta interdependência está ausente, por ex., no mandato, quando o
mandatário se recuse a entregar certo objecto adquirido em leilão, com o pretexto do
pagamento de despesas efectuadas, mas verifica-se num arrendamento, quanto às
obrigações essenciais de pagamento da renda e de entrega do imóvel arrendado. A
execpção de inadimplência pode ser ainda invocada em situações análogas às
desencadeadas pela estrutura do contrato bilateral, ou seja, em relação às obrigações
de restituir derivadas da declaração de nulidade, anulação ou resolução, bem como
numa “expropriação por utilidade pública, quanto à entrega do preço e à entrega da
coisa expropriada”.
A exceptio é de função meramente dilatória ou suspensiva, destinada, a maior
parte das vezes, a paralisar uma acção de cumprimento ou mesmo uma eventual acção
de resolução, destingue-se, naturalmente, da resolução do contrato, na medida em
que o fundamento típico desta radica num incumprimento definitivo (cf. art.801º, nº2)
ou na recusa peremptória e fundada de uma das partes em aceitar a prestação do
outro contraente (cf. art.808º).
A execpção funciona, ainda, em hipóteses de cumprimento defeituoso ou
parcial (por ex., o comprador pagou apenas 60€ respeitantes a uma compra e venda
de um objecto cujo preço orçava nos 100€), desde que a sua invocação “ não contrarie
o princípio geral da boa-fé, consagrado nos atrs. 227º e 762º, nº2.
Havendo prazos diferentes de cumprimento, não pode recusar-se à
contraprestação o que primeiro estiver obrigado a efectua-la, embora possa invocar a
“exceptio” nos termos do art.429º, coordenado com o disposto no art.780º, relativo à
perda do benefício do prazo.

3. NEGÓCIOS UNILATERAIS:

3.1. Admissibilidade dos negócios unilaterais como fonte de obrigações:

Tem suscitado um amplo debate na doutrina, a problemática relacionada com a


possível apetência vinculativa genérica dos negócios unilaterais. Se a formulação da
questão (podem nascer obrigações por vontade exclusiva do devedor?) pode ser
justificada pela assintonia entre fonte do negócio (um sujeito jurídico) e os seus
reflexos (o elo que pretende estabelecer ou o direito de crédito que pretende
constituir), a resposta que lhe tem sido dada, na base dos valiosos subsídios da analíse
comparatística, permite concluir pela defesa do chamado princípio do contrato. Isto
significa, que só mutuus consensus entre o credor e o devedor pode, em regra,
constituir direitos e obrigações entre ambas as partes, à margem das situações
vinculativas nascidas ex lege (por ex., na gestão de negócios ou no enriquecimento
sem causa).
O disposto no art. 457º do CC é uma consagração, no nosso sistema jurídico, do
princípio da tipicidade ou do numerus clausus dos negócios unilaterais, enquanto fonte
das obrigações. Urge indagar as razões justificativas e colher alguns dados sobre a
extensão do princípio.
Chamando atenção para a própria natureza contratual da doação, incompatível
com uma mera declaração unilateral do doador, a doutrina dominante tem invocado o
princípio invito non datur beneficium (ninguém pode tornar-se credor contra a sua
vontade) para justificar a sua tese. Ao reclamar-se o acordo do destinatário da
declaração, como pressuposto necessário do nascimento do crédito, far-se-ia sentir a
necessidade proteccionista do beneficiário.
Certa doutrina (por ex., Antunes Varela) tem, no entanto, chamado atenção
para a circunstância de que seria bastante o “poder do credor de rejeitar o beneficio”,
como acontece, aliás, com a faculdade que o 3º beneficiário tem de rejeitar a
promessa, pelo art. 447º, nº1 do CC, embora se possa discutir a justiça da solução de
onerar o credor com esse encargo.
Apesar da defesa que alguns autores fazem do princípio da vinculação genérica
dos negócios unilaterais (em nome da autonomia da vontade e da necessidade de se
proteger quem confiou, de boa-fé, na declaração), o regime restritivo da lei parece ser
aquele que melhor protege o declarante contra a sua leviandade ou falta de
ponderação, afasta as dificuldades probatórias, não havendo, ainda, razões
ponderosas, justificativas de uma tutela do tráfico ou de quaisquer expectativas do
beneficiário anteriormente à aceitação, que à lei cumpre salvaguardar.

3.3. Análise dos arts. 457º e 458º:

Constatada a rejeição da relevância genérica dos negócios unilaterais como fonte das
obrigações, há que indagar o alcançe da restrição legal (art.457º) “(...) só obriga nos
casos previstos na lei.”
Sendo problemática a natureza unilateral de certos negócios jurídicos (por ex.,
acto de instituição de uma fundação) e não assumindo esse carácter a proposta
contratual irrevogável, na medida em que o seu destino está dependente do
comprotamento presumível aceitante (arts. 230º e ss), o testamento, a promessa
pública (incluindo os concursos públicos) e os direitos potestativos integrados em
relações contratuais (por ex., a resolução e a denúncia) são as hipóteses mais
significativas de negócios unilaterais vinculativos. E a promessa de cumprimento ou o
reconhecimento de dívida?
Prima facie, o art.458º, nº1, parece romper com o princípio do contrato, nos
casos em que o devedor declare unilateralmente prometer uma prestação ou receber
uma dívida. Trata-se, no entanto, de meros actos causais e não de negócios abstratos,
como os negócios cambiários, presumindo-se a existência e a validade da causa
debendi (causa de endividamento), ou seja, de uma relação fundamental. Tem-se
entendido que a norma do art.458º goza de um cunho processual evidente, não
constituindo os actos em causa fonte das obrigações, mas sim meros comportamentos
declarativos. Quando A declara dever a B 5€, a título mútuo, a fonte da obrigação (ou
do crédito) radica nesta relação fundamental de empréstimo, não carecendo o credor
de a provar, mas competindo ao devedor demostrar a sua inexistência, invalidade,
extinção ou ineficácia. Esta inversão do ónus probatório ou ilisão da presunção pode
verificar-se igualmente nos casos em que a relação fundamental revista uma natureza
extracontratual (pensemos no caso de A reconhecer que deve certa importância a B
por danos causados por uma construção).

3.3. Promessa pública:

A promessa pública como negócio unilateral que é fonte das obrigações, é


considerada pela lei no art. 459º. É o caso, por ex., de alguém prometer alvísseras a
quem encontrar um animal de estimação, um exoval para as crianças que nascerem
em certa data, um prémio para a melhor obra científica, etc.
É requisito fundamental da promessa a publicidade (feita normalmente nos
meios de comunicação social), não sendo contudo necessário o conhecimento da
promessa para se poder exigir a prestação (art.459º, nº2).

4. QUASE CONTRATOS:

É um conceito difícil de perceber, mas podemos enquadrar duas fontes


autónomas de obrigações que têm muita similitude com os contratos.
Quando falamos desta figura, significa que há pelo menos a ideia de que uma
das partes quis intervir, sabendo que iria produzir efeitos de auto-vinculação. Quer na
gestão de negócios quer no enriquecimento sem causa é similar à vinculação dos
contratos propriamente ditos – há uma conduta autodeterminada com efeitos de
auto-vinculação.
A razão de ser deste instituto, do ponto de vista histórico, era defender os
interesses de pessoas ausentes e havia uma intervenção com intuito lucrativo.
Gradualmente, a figura teve uma alteração e passou a ser inspirada por uma ideia de
solidariedade social e é isso que atualmente está por detrás desta figura. Essa
intervenção destina-se sempre a evitar prejuízos, na ausência de outra pessoa. O
legislador teve de regular tendo em conta interesses contrapostos: por um lado,
procura-se não negligenciar a reputação da esfera jurídica do titular contra relações
alheias, ou seja, não ser abusivo; por outro lado, ao justificar os interesses do gestor,
defender em termos razoáveis os seus interesses – teve de realizar despesas, devendo
ser devidamente compensados.
4.1. Gestão de negócios:

4.1.1. Noção e fundamento:

No circulo das fontes legais das obrigações goza de certa relevância a gestão de
negócios, concretizado no art. 464º. Sendo evidente que ninguém deve intrevir na
esfera de interesses alheios sem legitimidade conferida por contrato de prestação de
serviços (por ex., um mandato ou empreitada), por uma procuração ou por poderes de
representação legal (situações ou relações em sentido lato), justifica-se e compreende-
se que, em certas ocasiões, a rigidez desse princípio deva ceder por razões de
autêntica solidariedade social. O instituto é portador de uma nítida compensação de
interesses, pois a utilidade e a oportunidade da intervenção do gestor, que a lei deve
incentivar, dialoga com a necessidade de se sanciornarem as intromissões prejudiciais
ao dono do negócio (dominus negotti).

4.1.2. Requisitos:

A licitude da intromissão (immissio in alienum) está, no entanto, subordinada à


presença de 3 requisitos:

i) Direcção de negócio alheio: a expressão negócio alheio está aqui desprovida do seu
sentido técnico, significando praticamente assunto, matéria ou interesse alheio, de
natureza não só patrimonial, mas também de índole moral. Constituem, assim, objecto
da gestão, não só negócios jurídicos (o gestor vende a fruta que colheu), ou actos
jurídicos não negociais (o gestor paga uma certa multa ou interpela o devedor do
dominus), mas também actos materiais (o gestor presta auxílio ao vizinho).

ii) No interesse e por conta do respectivo dono: se o apelo ao interesse do dono de


negócio revela a essência do próprio instituto (a solidariedade social), afastando-se as
intervenções conscientes em negócios alheios com proveito próprio (quando o gestor
vende eucaliptos do dominus para se apoderar do preço, estamos perante uma gestão
imprópria de negócios), o segundo sub requisito releva da circunstância de o gestor ter
de agir com intenção de transferir para o dominus, os efeitos ou resultados da
operação.
Este animus aliena negotia gerendi (sem a intenção de atribuir a si próprio os
efeitos da respetiva actuação) está evidenciado, com clareza, nos arts. 465º, al. a) e
466º, nº2 do CC ao prescreverem, respectivamente, que o gestor deve “conformar-se
com o interesse e a vontade, real ou presumível, do dono do negócio” e que a sua
ctuação se considere culposa quando “agir em desconformidade com o interesse e a
vontade, real ou presumível do dono do negócio”. A regularidade da intervenção,
desde que a gestão seja aprovada pelo dominus (o art.469º atribui à aprovação o
sentido de reconhecimento de direitos) ou sempre que o gestor, em caso de juízo
negativo do dono, consiga demostrar a conformidade obejctiva da sua actuação com o
interesse e a vontade do dono do negócio, cria obrigações do dominus para com o
gestor, sendo aquele obrigado, pelo art.468º, nº1, “a reemblosar o gestor (...) do
prejuízo que haja sofrido”. A actuação culposa do gestor, naõ se verificando a hipótese
prevista no art.469º, origina, apenas nos termos do nº2, do art.468º, uma
responsabilidade segundo as regras (mais mitigadas) do enriquecimento sem causa.
Estas mesmas regras podem ser aplicadas, em certas circunstâncias, à chamada gestão
de negócio alheio julgado próprio (por ex., o gestor vende um objecto do dominus
julgando-o seu), segundo o preceituado na 2ª parte do nº1, do art. 472º.
Atente-se, ainda, que não é necessário, nas relações negociais com 3ºs, que o
gestor actue em nome do dominus (gestão representativa), pois poderá intervir em
seu próprio nome (gestão não representativa). O art.471º faz corresponder às duas
situações regras diferentes, mandando aplicar, no primeiro caso, o disposto, para a
representação sem poderes, no art.268º (a eficácia do negócio fica dependente de
ratificação pelo dominus) e, no segundo, “na parte aplicável, as disposições relativas
ao mandato sem representação” (o art.1181º, por ex., prescreve uma obrigação de
transferência dos direitos). Não se pense, contudo, que a ratificação coexiste
necessáriamente com a aprovação da gestão, pois o dominus pode querer ratificar o
negócio, de modo a não prejudicar o 3º, mas desaprovar concomitantemente a
actuação do gestor, assim como poderá aprovar a gestão, reembolsando o gestor, mas
não querer chamar a si os direitos e as obrigações resultantes do negócio.

iii) Falta de autorização: Para dirigir negócio alheio o gestor não deve estar autorizado
pelo dono do negócio ou obrigado para com ele, não havendo assim gestão de
negócios, sempre que existir um poder legal ou voluntário de representação (poder
paternal, tutela, mandato) ou outra causa impositiva da intervenção, como um dever
oficial (como por ex., os depositários judiciais).

5. Enriquecimento sem causa:

5.1. Noção e exemplos:

Já reconhecido em face da legislação anteriro, mas apenas afirmado por esta a


propósito de casos isolados e dispersos, o princípio normativo do não locupletamento
à custa alheia encontra-se hoje expressamente consegrado como fonte geral e
autónoma das obrigações no art. 473º, nº1.
O enriquecimento sem causa ou enriquecimento injusto é, assim, fonte de
obrigações na medida em que, por força de tal princípio, gera uma obrigação de
restituir em que figura como credor o sujeito à custa de quem o enriquecimento se
verificou, e como devedor o beneficiário desse enriquecimento.
Nesta hipótese (que a lei tem directamente em vista quando fala em
“obrigação de restitur”), o enriquecimento sem causa é invocado por via de acção,
para reagir contra um enriquecimento já consumado. Mas poderá sê-lo também por
via de excepção, contra uma pretensão que, a ser satisfeita, redundaria num
enriquecimento injusto do interpelante. Se, por ex., A se obrigou sem causa para com
B e este vem exigir-lhe o pagamento, A poderá excepcionar, em sua defesa, o
enriquecimento sem causa, assim como poderia, se tivesse pago, intentar uma acção
de enriquecimento.
São múltiplas as situações em que o instituto é convocado para neutralizar ou
corrigir as modificações económicas resultantes de uma deslocação patrimonial, com
base na ideia de que o enriquecimento não deve consolidar-se definitivamente no
património em que se produziu quando está em desacordo com a correcta ordenação
jurídica dos bens.
Assim por ex., quando o possuidor faz, à sua custa, obras na coisa possuída que
lhe aumentam o valor, não podendo essas benfeitorias úteis ser levantadas sem
detrimento da coisa, passarão a pertencer ao proprietário, que, todavia, é obrigado a
pagar o seu valor, calculado segundo as regras do enriquecimento sem causa
(art.1273º, nº2).
Sirva também de exemplo a cessão de um crédito não notificada ao devedor. Se
este, no desconhecimento da transmissão, pagar ao cedente, a lei, em tutela da sua
boa-fé, atribui a esse acto plena eficácia liberatória, considerando o devedor
desonerado, apesar de ter pago a quem já não era credor (art. 583º, nº1). Mas, com
isso, cria-se uma situação de enriquecimento à custa do actual credor (o cessionário),
que vê o seu crédito a extinguir-se apesar de não ter sido satisfeito. Daí que sobre o
cedente, que não tem qualquer título legítimo de retenção da prestação efectuada
pelo devedor, recais a obrigação de restituir ao cessionário aquilo com que
injustamente se locupletou à sua custa.
A venda a non domino, quando dotada, excepcionalmente, de eficácia em
relação ao verdadeiro proprietário, poderá igualmente constituir um caso de aplicação
do enriquecimento sem causa. Se, por ex., A vende sucessivamente o mesmo prédio a
B e a C, tendo ambos pago o respectivo preço, mas registanto C em primeiro lugar a
aquisição, prevalece, por aplicação das regras de registo, a segunda transmissão, tendo
C direito a fazer seu o prédio, não obstante ter adquirido de quem já não era
proprietário, pois a primeira transmissão é plenamente eficaz inter partes. Mas desse
modo, com a manutenção dos efeitos da segunda venda, A fica enriquecido (pois
recebe dois preços pela mesma coisa) à custa de B (que fica sem o preço e sem a
coisa). Se não for caso de aplicação da responsabilidade civil, porque, por ex., não
houve culpa de A (o que poderá suceder se uma das alienações for efectuada por
procurador seu), a B mais não restará do que pedir, com fundamento em
enriquecimento sem causa, a restituição daquilo com que A beneficiou
injustificadamente à sua custa.
A própria lei enuncia no nº2, art 473º, a título exemplificativo, 3 grupos de
casos de enriquecimento sem causa, que, não se esgotam neste preceito. O nº2
enuncia, ainda, o campo de aplicação do institudo.
O primeiro grupo refere-se ao pagamento indevido (“o que for indevidamente
recebido”), abrangendo os casos de realização de uma prestação em cumprimento de
obrigação objectiva ou subjectivamente inexistente (a dívida não exista na titularidade
do devedor nem de niguém, ou existia, mas como dívida alheia). As várias hipóteses de
pagamento indevido são contempladas nos arts. 476º a 478º, onde se fixam as
condições do direito de repetição da prestação.
Em segundo lugar, tem o preceito em vista a hipótese de cessação da causa de
prestação (“o que for recebido por virtude de uma causa que deixou de existir”). É o
caso de alguém pagar adiantadamente rendas, vindo entretanto a cessar o contrato de
arrendamento antes do período a que essas rendas se referiam; é ainda o caso de
pagamento do seguro pela perda de uma coisa que posteriormente aperece e é
restituída ao dono.
Por último, contempla o art.473, nº2, a hipótese de frustração da finalidade
visada com a prestação (“em vista de um efeito que não se verificou”), de que constitui
exemplo o pagamento do preço de uma excrusão que não chega a realizar-se. A não
verificação do espoco só poderá, todavia, fundamentar a acção de restituição quando
ele resultava do próprio conteúdo do negócio, sendo desatendidos fins ocultos ou não
acordados. Por outro lado, nos termos do art. 475º, o autor não poderá pedir a
restituição se “sabia que o efeito com ela previsto era impossível, ou se, agindo contra
a boa-fé, impediu a sua verificação”.
De qualquer forma, a aplicação do instituto não se circunscreve a estes casos
particulares, estendendo-se o enriquecimento sem causa, como princípio geral, a
todas as situação em que deêm por comulativamente verificados os seus pressupostos
ou requisitos: um enriquecimento, à custa de outrem, sem causa justificativa, e sem
que a lei faculte ao empobrecido outro meio de ser indemnizado ou restituído .
São estes requisitos que se passará agora a examinar.

5.2. Requisitos:

5.2.1. Enriquecimento:

A aplicação dos arts. 473º e ss pressupõe, em primeiro lugar, um


enriquecimento, que se dá quando alguém experimenta uma melhoria da sua situação
patrimonial. Por enriquecimento entende-se, pois, a obtenção de um valor, um ganho
de carácter pecuniário.
A aquisição dessa vantagem patrimonial poderá ser alcançada por diversas
formas. Umas vezes, processar-se-à por aumento do activo, quer ele resulte do
ingresso de um novo direito (preço da alienação de coisa alheia; objecto da prestação
indevida ou cumprida junto do credor aparente), quer da valorização de um direito já
existente na esfera jurídica do enriquecido (realização de obras, plantaçoes, etc, em
terreno alheio); outras, por diminuição do passivo (pagamento de dívida de outrem na
convicção errónae de estar obrigado a efectua-lo-art.478º). Poderá também constituir
numa poupança de despesas (A presta alimentos a B que, por erro sobre a pessoa,
julga ser seu filho, com isso evitando despesas ao verdadeiro pai), ou ainda numa
intromissão ou ingerência em direito ou bens alheios (lucro por intervenção), sob a
forma de uso ou fruição (instalação em casa alheia), consumo ou de alienação (venda
a non domino).
Resulta claro que o enriquecimento se deverá traduzir num benefício avaliável
em dinheiro, não abragendo vantagens não patrimoniais, satisfações de ordem moral
destituídas de valor económico.
Mas, nesse plano, como proveito de ordem material, o enriquecimento pode
ser concebido de duas distintas maneiras:
i) como enriquecimento real; ou
ii) como enriquecimento patrimonial.
Na primeira prespectiva atende-se exclusivamente ao valor objectivo da coisa
(res) em si, independentemente da utilidade que ela concretamente proporcionou ao
enriquecedor. Na segunda, pelo contrário, o que conta é a incidência da deslocação na
esfera do beneficiário, a forma como satisfez necessidades por ele efectivamente
sentidas, o modo como ela se repercutiu no seu património. Só haverá enriquecimento
se este ficou em melhor situação do que aquela do que de outro modo apresentaria; o
saldo ou diferença para mais traduz o montante desse enriquecimento. O
enriquecimento patrimonial resulta, pois, da comparação entre a situação em que o
património do enriquecido presentemente se encontra (situação real) e aquela em que
se encontraria se não se tivesse verificado a deslocação patromonial que funda a
obrigação de restituir (situação hupotética).

5.2.2. À custa de outrem:

O enriquecimento, para fundamentar uma obrigação de restituir deve ser


obtido à custa de outrem. Qual o exacto sentido deste requisito?
É corrente a afirmação de que a vantagem alcançada pelo o enriquecido deve
corresponder a um prejuízo suportado pelo sujeito que requer a restituição. Este
último empobrece, no sentido de que o seu património passa a valer manos do que
valeria sem o facto gerador do enriquecimento.
E, em boa verdade, é isso que em regra acontece. O mesmo evento que
enriquece uma pessoa produz, como seu inverso, o empobrecimento de outra. Assim,
por ex., mo caso de cessão de crédito não notificada, o pagamento efectuado pelo
devedor ao cedente, ao mesmo tempo que enriquece este empobrece o cessionário.
Do mesmo modo, o consumo de bens alheios, dispensando o consumidor de adquirir
outros em sua substituição, enriquece-o, pois evita-lhe uma despesa, que o verdadeiro
proprietátio, em contrapartida, é obrigado a fazer, nessa medida se empobrecendo.
Mas não é forçoso que assim seja. Ao incremento de um património poderá, na
verdade, não corresponder a diminuição de outro, nem sequer uma simples privação
de um aumento. É o que sucede com a instalação em casa alheia, que o dono manteria
devoluta/desocupada, sem qualquer aproveitamento. Não é de excluir, até, a
hipóteses de o enriquecimento propiciar ao mesmo tempo um ganho ao titular dos
bens: haja em vista a edição de uma obra literária que o autor não estaria disposto a
publicar e que, sendo um êxito de livraria, faz aumentar consideravelmente a procura
de outra obras desse mesmo escritor anteriormente publicadas, com consequente
acréscimo de proventos.
Em casos deste tipo não se poderá falar, em estritos termos patrimoniais, de
um empobrecimento do lesado. Não obstante isso, poderá ainda o enriquecimento
considerar-se obtido à sua custa?
A resposta afirmativa impõe-se, se situarmos o alcance do requisito num plano
especificamente jurídico, que atenda à titularidade dos bens com base nos quais se
obteve o enriquecimento mais do que aos eventuias reflexos patrimoniais negativos
produzidos na esfera do credor da restituição.
É esta a proposta fundamental da chamada doutrina da afectação ou da
destinação dos bens absolutamente protegidos. Todas as vantagens económicas que
uma coisa é susceptível de proporcionar pertencem, de acordo com o seu conteúdo de
destinação, ao respectivo titular, estão-lhe reservadas, ainda que ela não dispusesse a
realizá-las. Se alguém se propria dessas vantagens, desviando-as do seu destinatário,
consegue-as, se não à custa do património deste último, pelo menos a partir de um
bem integrado na sua esfera jurídica. É quanto basta para que se considere o
enriquecimento como obtido à custa de outrem.
Os dois requisitos até aqui analisados - enriquecimento de alguém, obtido à
custa de outrem - dão corpo ao conceito de deslocação patrimonial, suporte
fenomelógico de base material do instituto do enriquecimento sem causa (daí que
certa doutrina designe esses dois requisitos por condições materiais, por
contraposição às condições jurídicas – a ausência de causa justificativa e ausência de
outro meio jurídico).
Fala-se em deslocação patrimonial para aludir ao facto de um valor patrimonail
se encontrar no património do enriquecido quando deveria achar-se na esfera
patrimonial do empobrecido, de tal modo que se justifica que o enriquecimento seja
transferido ou deslocado daquela esfera para esta. O conceito é dotado de suficiente
grau de abstracção para abarcar toda a multiforme tipologia de actos geradores de
situações de enriquecimento, tanto actos jurídicos, negociais ou não, como actos
materiais, provenham eles do empobrecido (pagamento de dívida inexistente), de 3º
(pagamento ao cedente, no caso de cessão não notificada), como do próprio
enriquecido (intromissão em bens alheios).
A expressão não significa, porém, que o enriquecomento resulte sempre de um
acto de atribuição do empobrecido a favor do enriquecido, de uma passagem da
valores de um petrimónio para outro, valores que, por força da restituição, devam
agora reigressar na património de onde indevidamente saíram.
Muitas vezes acontece assim. Mas o modo de aquisição da vantagem
patrimonial e o correspondente mecanismo devolutivo podem não obedecer a essa
estrutura linear, como, por ex., quando o enriquecimento resulta de acto de 3º. É o
que sucede na hipótese do art.478º em que a deslocação patrimonial consiste na
libertação do devedor à custa da prestação efectuada pelo solvens (devedor), sendo
certo que a restituição a cargo do enriquecido deixa intacta essa prestação.

5.2.3. Sem causa justificativa:

Em terceiro lugar, é necessário que o enriquecimento à custa de outrem se


apresente desprovido de causa justificativa (ou porque ela nunca existiu, ou porque
entretanto cessou). É justamente a ausência de fundamento para o enriquecimento
que explica que ele seja removido do património onde se produziu.
A exacta determinação deste requisito é tarefa algo espinhosa, tanto mais que
o termo “causa” é utilizado juridicamente em várias acepções. E a dificuldade da
questão é ainda reforçada, neste contexto, pela heterogeneidade das situações em
que pode surgir um enriquecimento.
Daí que o legislador tenha optado por não nos dar uma definição de causa,
remetendo para a doutrina e jurisprudência a explicitação do seu sentido preciso, e
limitando-se a facultar ao intérprete meras indicações auxiliares (é esse o principal
interesse do nº2, art. 473º).
Quanto à diversa natureza do acto de onde o enriquecimento provém, poderá
genericamente dizer-se que este carece de causa quando, segundo a ordenação
jurídica dos bens, deve caber a outrem.
Esta fórmula ampla e elástica contempla adequadamente as várias hipóteses
possíveis, levantando a sua concretização, basicamente, um problema de
interpretação e integração da lei. Em face de um enriquecimento obtido à custa de
outrem, para apurar se ele se fundamenta ou não numa causa justificativa, urge fazer
apelo aos critérios legais definidores de uma correcta ordem ou ordenação dos bens.
É, pois, a partir das valorações do ordenamento que poderemos afeir da justiça da
vantagem auferida pelo enriquecido, e se ela deve, ou não, permanecer no seu
património.

5.2.4. A ausência de outro meio jurídico:

A aplicação do instituto do enriquecimento sem causa depende, por último, da


inexistência de qualquer outro meio jurídico de reacção contra o enriquecimento. O
requisito traduz o carácter subsidiário da acção de restituição com fundamento em
enriquecimento sem causa, encontrando-se expressamente consagrado no art. 474º.
Esta norma prevê 3 tipos de impedimentos ao exercício da acção de enriquecimento.
A lei nega o direito à restituição, por ex., nos casos de prescrição e usucapião,
de aquisição dos frutos pelo possuidor de boa-fé (art.1270º, nº1), na hipótese do
art.475º, etc. Em rigor, poderá dizer-se que na maioria destes casos, o que afasta a
aplicação do enriquecimento sem causa não é o seu carácter subsidiário, mas antes a
existência de causa para o enriquecimento, radicando na causa, justamente, na norma
legal que consolida no património do enriquecido, legitimando-a a aquisição operada.
As regras próprias do enriquecimento sem causa são também naturalmente
afastadas sempre a que a lei atribua outros efeitos ao enriquecimento. É o que
sucede, entre outros casos, com as benfeiturias úteis que possam ser levantas sem
detrimento da coisa (art.1273º), e com a alteração das circunstâncias em que as partes
fundaram a decisão de contratar (art. 437º).
A parte nuclear do preceito é, todavia, constituída pela primeira asserção, onde
nos surge maos impressivamente consagrado o princípio da subsidiariedade: as regras
próprias do enriquecimento sem causa só poderão ser feitas valer quando o
empobrecido não tiver ao seu dispor qualquer outro meio de ser indemnizado ou
restituído. O concurso entre esse outro meio e o enriquecimento sem causa quando a
situação preencher os pressupostos de ambos, não se resolve em alternativa, pois ao
interessado não é permitido optar livremente pela acção que mais lhe convier, sendo
obrigado a lançar de mão do outro instituto, em detrimento do enriquecimento sem
causa. Este tem, pois, carácter subsidiário e residual, constituindo um último recurso
para repor o equilíbrio patrimonial afectado pela deslocação.
Vários são os meios de restituição ou indemnização em face dos quais o
enriquecimento sem causa deve ceder. É, desde logo, o caso da invalidade. Assim, por
ex., quando se celebra uma compra e venda quem vem a ser declarada nula ou
anulada. Ficando sem efeito a transmissão da propriedade, e já tendo o comprador
pago o preço, o vendedor enriquecer-se-ia à sua custa, se a invalidade não acarretasse
automaticamente a obrigação de restituir tudo o que tiver sido prestado à sombra do
acto ferido de invalidade (art.289º, nº1). O próprio regime da nulidade ou
anulabilidade prevê um mecanismo específico de devolução que afasta o
enriquecimento sem causa, atento o carácter subsidiário deste último.
Importa assinalar que é muito diverso, num caso e noutro, o regime a que
obedece a obrigação de restituir. No caso da invalidade, uma vez que o acto foi
celebrado em contrariedade à lei, esta procura destruir todos os seus efeitos directos,
visando a restituição repor o status quo ante, a situação exactamente em vigor à data
da prática do acto viciado. Daí a eficácia retoactiva, ex tunc, da nulidade ou
anulabilidade, medindo-se a restituição pela prestação efectuada, independentemente
do destino que ela veio a ter no património do accipiens (credor), na maior ou menos
vantagem por ele obtida.
Não assim no enriquecimento sem causa. O objecto da restituição não é aqui o
que saiu do património do empobrecido, mas sim o que está a mais no do enriquecido.
E o que está a mais não é o objecto da deslocação, em si, mas o enriquecimento que
ele concretamente propiciou. Por outro lado, a restituição opera apenas ex nunc, sem
efeito retoactivo, procedendo-se a uma avaliação dinamicamente actualista do
enriquecimento, que leve em conta as alterações verificadas até ao momento do
cálculo da obrigação de restituir.
A resolução é outro dos meios que exclui o recurso ao enriquecimento sem
causa. Sendo dotada, em princípio de eficácia retroactiva (art.434º) faz nascer uma
obrigação de restituir em termos análogos aos da nulidade ou anulabilidade (art.433º).
Disso se faz eco o nº2 do art. 801º, quando faculta ao credor, em caso de
incumprimento culposo, exigir ao devedor a restituição por inteiro da prestação que
eventualmente tenha efectuado (a solução deverá ser confrontada com a do art.795º,
nº1, onde, para a hipótese de incumprimento não imputável ao devedor, se manda
restituir “nos termos prescritos para o enriquecimento sem causa”).
A forma como a lei regula as obrigações do dono do negócio para com o gestor
evidencia também claramente a natureza subsidiária da acção de enriquecimento. Na
verdade, só quando as regras específicas da gestão de negócios se não possam aplicar,
quer por falta de um dos seus requisitos essenciais (gestão de negócio alheio julgado
próprio – art.472º), quer por a gestão ter sido exercida de forma irregular, em
desconformidade com o interesse e a vontade, real ou presumível, do dominus
(art.468º, nº2), é o que o dono responde nos termos do enriquecimento sem causa.
O acto gerador do enriquecimento pode também, sobretudo nos casos de
intromissão nos bens ou direitos alheios, causar culposamente um dano ao titular,
constituindo assim o lesante enriquecido na obrigação de indemnizar. A integração
comulativa dos pressuposto do enriquecimento sem causa e da responsabilidade civil
nem sempre levará, porém, ao afastamento total do primeiro, dada a possível
divergência entre o montante enriquecido e o dano.
Na verdade, quando este é inferior ao lucro da intervenção, o mecanismo
indemnizatório não permite ao lesado ser restituído de tudo aquilo com que o outro se
enriqueceu à sua custa, pois a indemniazção não poderá ultrapassar o valor do dano.
Daí que o empobrecido possa invocar o enriquecimento sem causa a título
complementar, para reaver a parte do enriquecimento que excede o dano. Se, por ex.,
A enriquecer em 100€ a custa de , prejudicando-o em 50€, B deverá pedir estes 50€ a
título de indemnização, e o restante com fundamento em enriquecimento sem causa.
A tal não se pode opõe a sua natureza subsidiária, pois nessa parte o lesado não tem
qualquer outro meio de ser restituído.
Diferentemente, quando o dano é superior ou igual ao benefício obtido, a
acção de enriquecimento é, em princípio, precludida pela responsabilidade civil. Pois
nesse caso, ao ressarcir o prejuízo causado ao lesado, a indemnização está, indercta e
reflexamente, a remover a situação do enriquecimento: se A prejudicou em 50€,
enriquecendo-se em igual quantia, o pagamento da indemnização correspondente ao
dano faz sair do seu património um valor idêntico ao que aí ingressara.. Uma vez paga
a indemnização, nada há a restituir, pois em nada o lesante está ainda enriquecido.
Mesmo nestas circunstâncias, todavia, o lesado poderá ter interesse em
apresentar um duplo fundamento para o seu pedido: a responsabilidade civil, a título
principal, e o enriquecimento sem causa, a título subsidiário. Isto não tanto para se pôr
ao abrigo de uma eventual fixação, nos termos do art.494º, da indemnização em
montante inferior ao dano e ao enriquecimento (pois parece dever entender-se que,
em caso algum, pode o juiz reduzir a indemnização a um quantitativo inferior ao do
enriquecimento), mas antes se precaver contra a hipótese de não conseguir provar
todos os pressupostos da responsabilidade civil. Mesmo que isso venha a suceder, o
lesado, sem necessidade de intentar nova acção com essa finalidade, fica sempre
seguro de reaver o enriquecimento do lesante, nessa medida se ressarcindo, pelo
menos, dos prejuízos sofridos.

5.3. Objecto da obrigação de restituir:

Verificados os 4 requisitos, nasce para o enriquecido a obrigação de restituir.


Levante-se o difícil problema de determinação do objecto dessa obrigação. Quais os
critérios que deverão presidir à fixação da medida da restituição?
Rege na matéria o art.479º, onde se estabelece o que é princípio comum a
outras formas de restituição ou indemnização – o primado da restituição em espécie:
sempre que possível, é a própria coisa ou bem deslocado que deverá ser devolvido; se
tal for impossível, restitui-se-à então o valor correspondente a “tudo quanto se tenha
obtido à custa do empobricido”. As duas modalidades poderão até conjugar-se no
mesmo caso, como sucederá quando o enriquecido consumiu 10 das 20 garrafas
destinadas ao empobrecido: deverá restituir as 10 que conversa em seu poder, e
simultaneamente prestar o valor do enriquecimento propiciado pelas que consumuiu.
A fórmula legal indicativa do quantum da restituição – “tudo quanto se tenha
obtido à custa do empobrecido” – remete de novo para dois elementos definidores,
nos termos do art.423º, do campo de aplicação do instituto: o enriquecimento à custa
do requerente. Pressupostos da obrigação de restituir, tais elementos são ao mesmo
tempo factores determinantes da medida de restituição. É nesta nova prespectiva que
se irá analisá-los.
Quanto ao enriquecimento, deverá ser avaliado e, termos patrimoniais, ou seja,
tendo em conta a diferença entre a situação real e actual do património do
enriquecido e a situação em que eçe estaria se não fosse a deslocação patrimonial.
Não qie a lei o diga expressamente, como o faz, na responsabilidade civil, em relação
ao dano (art.562º). Mas esse é o melhor entendimento, se considerarmos que só assim
se poderá cumprir a função específica do instituto, repondo-se o património do
enriquecido na mesma situação em que estaria sem o enriquecimento, e que, por
outro, é essa a interpretação que melhor de amolda ao teor do art.479º, nº2. Na
verdade, “o locupletamento é aí concebido como grandeza variável e essencialmente
dinâmica, e a medida da obrigação de restituir não pode exceder, em princípio, a do
locupletamento existente à data da verificação de algum dos factores referidos nas
duas alíneas do art.480º, embora seja maior o valor objectivo das vantagens reais que
o devedor obteve.
À luz desta concepção patrimonial de enriquecimento, a obrigação de restituir
vai ter como limite o locupletamento efectivo e actual: efectivo, porque o que releva
não é o valor objectivo da coisa ou bem obtido, em si mesmo considerado, mas antes a
forma como ele se vai repercutir no património do enriquecido, a utilidade que este
concretamente retira da deslocação; actual, porque o enriquecimento é medido pela
situação existente à data da verificação de algum dos factos (o que primeiramente
ocorrer) referidos no art. 480º (por remissão do nº2, do art.479º) a citação judicial
para a restituição, ou o conhecimento da falta de causa do enriquecimento ou a falta
do efeito que se pretendia obter com a prestação. O que deve ser estituído não é
aquilo com que o beneficiário se enriquece. No momento da deslocação patrimonial,
mas sim aquilo com que ele presentemente ainda se encontra enriquecido. Só o
enriquecimento efectivo que ainde perdure (e na exacta medida em que perdura) será
objecto da restituição.
Sendo assim, representando o enriquecimento patrimonial uma grandeza
essencialmente contigente e variável, é bvio que o seu montante não pode coincidir
com o valor objectivo da aquisição, ficando aquém ou além deste.
Essa divergência pode verificar-se logo à partida, no próprio momento da
deslocação, pois no enriquecimento vão influir factores subjectivos respeitantes às
características particulares do património do enriquecido. Assi, no caso de uso ou
consumo de um bem alheio, o enriquecimento dependerá, na sua existência e no seu
montante. Não do preço de utilização ou aquisição desse bem, e sim das despesas que
o enriquecido seria efectivamente obrigado (ou estaria disposto) a fazer e, desse
modo, poupou. No ex, de escola do consumo, por engano, de whisky destinado a
outrem, cujo o preço é de 1.000€ (enriquecimento real), o enriquecimento efectivo do
consumidor será unicamente de 800e, se for essa a quantia que ele dependeria na
aquisição do whisky, de qualidade inferiro, que normalmente consumia. E poderá ser
nulo, se ele, ainda que apreciador, se não pudesse dar ao luxo, por absoluta
impossibilidade económica, de adquirir uma tal bebida. Em tal caso, o beneficiário não
poupa qualquer despesa, o seu património não fica em melhor situação, logo, não há
qualquer enriquecimento.
Por outro lado, entre o momento da aquisição da vantagem e o da
determinação do objecto da restituição poderão ocorrer diversas vicissitudes
susceptíveis de alterar, para mais ou para menos, a situação patrimonial do obrigado a
restituir. Os bens adquiridos podem ter-se valorizado ou, pelo contrário, diminuído de
valor, podem ter propiciado a obtenção de novos benefícios, podem ter perecido, e
pode até o enriquecimento ter-se entretanto diluído totalmente, sem deixar qualquer
rastro, porque, por ex., o enriquecido alienou gratuitamente os bens, gastou as somas
obtidas em despesas supérfulas, de pura delapidação, que de outro modo não teria
efectuado, etc. Todos esses factores subsquentes à deslocação patrimonial são
contabilizáveis para efeito do cálculo do enriquecimento, uma vez que a restituição
não opera retroactivamente.
O quantitativo assim alcançado representa uma valor ilíquido, a que há que
deduzir os eventuais danos e despesas relacionados com o enriquecimento. Só o saldo
traduz a melhoria da situação patrimonial do enriquecido, numa palavra, o seu
enriquecimento.
A fixação do montante do enriquecido, nos termos atrás exposto, não nos dá,
desde logo, a medida da restituição, pois o enriquecimento funciona apenas como
limite máximo da obrigação de restituir: esta não tem por objecto tudo aquilo que se
obteve, mas sim “tudo quanto se tenha obtido à custa de empobrecido”.
A restrição introduzida por eta última parte da expressão obriga-nos a
relacionar o enriquecimento com a esfera do empobrecido, por forma a apurarmos se
ele foi todo obtido a expensas do lesado – hipótese em que deverá ser integralmente
restituído ou apenas em parte – hipótese em que só deverá ser restituída parecela
correspondente.
Muitas vezes, na verdade – sobretudo nos casos de uso ou consumo de bens
alheios – o lucro da intervenção resulta da conjugação de uma complexa série de
elementos causais, nem todos procedentes da esfera do empobrecido. Para esse lucro
poderão também ter concorrido factores próprios do enriquecido, tais como as suas
qualidades pessoais, bens da sua titularidade, etc. Há assim que determinar qual a
parte do enriquecimento que deve ser imputada à deslocação, qual a contribuição
relativa que os bens usurpados tiveram na produção do acréscimo patrimonial, pois só
nessa pare se poderá dizer que o enriquecimento foi obtido à custa de outrem, lhe
pertencia, segundo a correcta ordenação jurídica dos bens.
Se, por ex., um empresário se propria de uma matéria prima alheia, inserindo-a
no processo de produção dos bens que fabrica, não terá de restituir todos os
proventos assim arrecadados, pois, em parte, eles resultam de factores pertencentes
ao enriquecido (a sua organização empresarial), que nenhuma ligação apresentam
com o bem ou o direito violado, não sendo, nessa medida, o resultado do emprego
desse bem. Do mesmo modo, se um corredor de automóveis utiliza uma viatua
pertencente a outrem para aparticipar numa competição que acaba por vencer,
ganhando o correspondente prémio, há que averiguar qual a participação relativa das
qualidades do veículo e da especial aptidão do automobilista na obtenção desse
resultado.
A aplicação deste critério ao caso das benfeitorias realizadas pelo possuidor
não suscita especiais dificuldades. Tanto na hipótese de as obras terer custado 70€,
valorizando em 50€, como, na inversa, de terem custado 50€ valorizando em 70€, é
sempre 50€ o que o proprietário tem de restituir: no primeiro caso, por ser esse o
montante do enriquecimento (limite máximo da obrigação de restituir); no segundo,
porque a mais valia resultará de factores atinentes ao próprio prédio, não sendo
obtida à custa do possuidor.
O regime da restituição até aqui exposto, deixa no entanto, de aplicar-se, a
partir do momento em que o enriquecido tenha sido citado judicialmente para a
restituição, ou tenha conhecimento da falta de causa do seu enriquecimento ou da
falta do efeito que se pretendia obter com a prestação. A obrigação de restituir sofre
então um agravamento, passando o enriquecido a responder também, nos termos do
art.480º “pelo perecimento ou deterioração culposa (...) a que o empobrecido tiver
direito”.
Verificado algum dos factores enunciados nas duas alíneas do art.480º, o ter
enriquecido deixa de estar de boa-fé, cessando assim de ter justificação o regime, mais
suave, a que, em geral, está submetido o enriquecimento sem causa, expresso,
nomeadamente, nas limitações estabelecidas pelo art.479º para a obrigação de
restituir.

6. EXTINÇÃO DOS CONTRATOS:

A relação jurídica validamente surgida de um contrato é susceptível de


extinguir-se por resolução, revogação ou denúncia. Estas figuras representam
excepções ao princípio da irretractibilidade da relação contratual baseadas em
fundamentos supervenientes. Daí que se diferenciem das situações de inexistência, de
invalidade (nulidade e anulabilidade) e de ineficácia. Estas atinguem o próprio negócio
jurídico de onde a relação emerge, impedindo que produza os efeitos normais,
respectivamente, porque nem sequer se verifica a aparência ou o suporte material que
corresponde à noção dele, por falta de irregularidade de um dos seus elementos
internos, ou a mercê de alguma circunstância extrínseca.
Define-se a resolução como o acto de um dos contraentes dirigido à dissolução
do vínculo contratual, em plena vigência deste, e que tende a colocar as partes na
situação em que teriam se o contrato não se houvesse celebrado. É comum aos
contratos de prestações instantâneas e aos contratos duradouros. Essa faculdade
deriva da lei ou de convenção das partes (arts.432º, nº1).
Existe, portanto, duas modalidades de resolução: a legal e a convencional. A
última pode ser estipulada ao mesmo tempo que o contrato a que se reporta, ou em
momento posterior. Por outro lado, a resolução efectiva-se extrajudicialmente, através
da declaração à contraparte (art.436º, nºs 1 e 2) ou mediante recurso ao tribunal
(art.1047º). Em regra, exige-se que o autor invoque e prove o fundamento da
resolução (ex.: arts.801º, nº2; e 802º,nº1), mas pode ela ficar à discricionaridade das
partes (ex.: arts. 927º e ss). Contudo, quer na resolução legal, quer na convencional, só
tem o direito de resolver o contrato a parte que esteja em condições de restituir o que
haja recebido do outro contraente, excepto quando a impossibilidade resulte de
circunstâncias a este imputáveis (art.432º, nº2).
A propósito da resolução legal, importa referir a designada condição resolutiva
tácita; é a condição imprópria que se entende incerta, por força da lei, em qualquer
contrato sinalagmático ou com prestações recíprocas, segunda a qual, se uma das
partes não cumpre, pode a outra resolve-lo. O CC acolhe-a dentro de limites restritos.
Funciona quando houver inadimplemento definitivo do contrato imputável ao
devedor, que se verifica nos seguintes casos: impossibilidade definitiva da prestação
(art.801º, nº1), perda de interesse do credor na prestação, resultate de mora, ou
decurso de um termo fixado como essencial (atr.808º,nº1).
A resolução produz, em princípio, os mesmos efeitos da invalidade do negócio
(art.433º). Ressalvam-se, todavia, os aspectos mencionados no nº1 e nº2 do art.434º e
nos nºs 1 e 2 do art.435º.
Da resolução se diferenciam a revogação e a denúcia do contrato. Estas
extinguem a relação contratual apenas para o futuro.
A revogação consiste na destruição do vínculo contratual mediante uma
declaração dos contraentes oposta à primitiva que lhe deu vida. Ao lado da revogação
que resulte de comum acordo das partes, admite-se a que seja feita apenas por uma
delas. Mas, ainda quando se trate de revogação unilateral, o instituto não se confunde
com a resolução, visto que opera ex nunc.
A faculdade de revogação existe relativamente a negócios cujo processo se
encontra em curso, como no contarto a favor de 3º, salvo estipulação contrária, antes
de o beneficiário manifestar a sua adesão, ou durante a vida do promissário, quando a
promessa deva ser cumprida após a morte dele (art.448º), no mandato de crédito, até
que este seja concedido (art.629º, nº2), e na doação ainda não aceita (art.969º). E
existe, do mesmo modo, em relação a negócios já consumados, mas ressalvando-se os
efeitos jurídicos anteriores, como acontece na revogação das doações por ingratidão
do donatário (art.970º; cfr. os arts. 978º e 979º). Por outro lado, a lei, tanto confere a
faculdade de revogação com a independência de quaisquer pressupostos, referentes
às partes (art.406º, nº1) ou ao revogante (arts.265º, nº2; 448º, nº1; 969º, nº1 e 1170º,
nº1), como a vincula a determinados fundamentos (arts.970º; 974º e 975º), ou, pelos
menos, considera estes relevantes (arts.265º, nº3 e 1170º, nº2).
Quanto à denúncia, esta analisa-se na manifestação da vontade de uma das
partes, em contratos de prestações duradouras, dirigidas à sua não renovação ou
continuação. Apresenta, assim, duas características: é exclusiva dos contratos com
prestações duradouras; e deve fazer-se para o termo do prazo da renovação deste,
salvo tratando-se de contratos por tempo indeterminado.
A nossa lei também não disciplina a referida figura emtermos gerais, mas
apenas para certos casos. Umas vezes o denunciante pode exercer essa faculdade ad
libitum [à vontade] (arts.629º, nº2 e 1054º), embora, porventura, com observância de
prazo (art.1055º), ao passo que, outras vezes, se exigem fundamentos estritamente
indicados.
Deve admitir-se a denúncia sem uma específica causa justificativa nos contratos
de duração indeterminada. Esta livre denunciabilidade decorre da tutela necessária da
autonomia dos sujeitos, que fica comprometida por um vínculo demasiado longo. É
uma imposição de ordem pública (art.280º, nº2). Torna-se indispensável, todavia, um
aviso prévio, cuja antecedência adequada se apura, tendo em conta as circunstâncias
de cada situação concreta, com o objectivo de evitar à contraparte desvantagens não
razoáveis.

7. CLASSIFICAÇÃO DOS CONTRATOS:

7.1. Contratos unilaterais e contratos bilaterais:

O critério de distinção entre contratos unilaterais ou não sinalagmáticos e


bilaterais ou sinalagmáticos reporta-se ao modo como se destribuem as obrigações
resultantes do negócio: os primeiros geram obrigações apenas para uma das partes
(ex.: doação, mútuo), ao passo que dos segundos derivam obrigações recíprocas a
cargo de ambas (ex.: compra e venda, locação).
Torna-se necessário acentuar que nos contratos bilaterais as obrigações das
partes se encontram numa relação de correspectividade e interdepência. Existe entre
elas um nexo ou sinalagma, significando que a obrigação de cada uma das partes
constitui a razão de ser da outra. O nexo refere-se ao momento da celebração do
contrato, e só surge a obrigação de um dos contraentes se surgir a do outro, deste
modo fala-se em sinalagma genético. Por ex., se A e B celebram um contrato em que B
se compromete, mediante certa retribuição, à prática de um facti ilícito, a invalidade
da obrigação de B impede o nascimento da obrigação de A. Trata-se, porém, de
sinalagma funcional, se a contrapartida ou reciprocidade das prestações se manifesta
e releva durante a vida do contrato, ou seja, a execução por uma das partes encontra-
se condicionada à execução pela outra.

7.2. Exceção de não cumprimento do contrato ou exeptio:

A mencionada reciprocidade e interdepência das obrigações, que se verifica nos


contratos bilaterai, tem consequências. Uma delas reconduz-se à excepção de não
cumprimento do contrato (“exceptio non adimpleti contractus”), disciplinada nos atrs.
428º a 431º do CC.
Este instituto opera nos casos de descritos no nº1 do art.428º e também nos
casos de incumprimento parcial ou defeituoso, tendo-se em conta, todavia, o princípio
da boa-fé (art.762º, nº2). Daí resulta a exigência de uma apreciação da gravidade da
falta, que não pode mostrar-se insignificante, bem como se impõe a regra da
adequação ou proporcionalidade entre a ofensa do direito de excipiente e o exercício
da excepção.
Acresce que este meio defensivo não pode ser afastado através de garantias
(art.428º, nº2). De outro modo frustrava-se a finalidade da exceptio, manifestamente
inspirada pelo sinalagmatismo funcional, que visa assegurar a realização simultânea de
obrigações correspectivas.
O referido conceito da excepção de inadimplemento baseia-se no texto da lei,
que reclama a inexistência de prazos diferentes para o cumprimento das prestações
(art.428º, nº1). Este pressuposto carece, todavia, de interpretação exacta. Com efeito,
o seu verdadeiro sentido é o de que o excepcionante não se encontre obrigado a
cumprir antes da contraparte. E, assim, a diversidade de prazos apenas obsta à
invocação da exceptio pelo contraente que primeiro deve efectuar a sua prestação,
mas já nada impede o outro de opô-la.
Além disso, a regra de que a exceptio pressupõe não estar o contraente que
dela se prevalece obrigado a cumprir primeiro é afastada em certos casos. Tal sucede
sempre que, depois da celebração do contrato, se verifica, quanto ao outro
contraente, algumas das circunstâncias que importam a perda do prazo (art.429º).
Ocupam-se da perda do benefício do prazo os arts. 780º a 782º e art.934º. Aliás, neste
quadro específico, a exceptio pode ser evidata mediante cumprimento simultâneo ou
através de garantia do cumprimento, o que também se opõe à norma geral do nº2 do
art.428º. Justifica-se o segundo termo da alternativa, pois agora não se cuida
propriamente de compelir à execução simultânea das obrigações sinalagmáticas, mas
de assegurar uma das partes contra o risco de não obter a contraprestação que lhe
cabe.
Encontrando-se prescrito um dos direitos, nem por isso o respectivo titular
deixa de poder valer-se da excepção de não cumprimento, salvo quando se trate de
prescrição presuntiva (art.430º). Opera-se aqui um desvio aos princípios da prescrição,
em favor da relevância atribuída ao sinalagmatismo que liga as obrigações das partes.
O facto das prescrições presuntivas se fundarem na presunção do cumprimento
justifica a restrição estabelecida a seu respeito.
A excepção de não cumprimento é também oponível aos 3ºs que vierem
assumir os direitos e obrigações contratuais de qualquer das partes (art.431º). Isto,
tanto no caso de transmissão mediante acto entre vivos como de transmissão por
morte.

7.3. Contratos gratuitos VS. Contratos onerosos:

Os contartos são gratuitos, a título gratuito ou lucrativo e onerosos ou a título


oneroso, consoante originem, de acordo com a intenção das partes, vantagens para
uma só delas ou para as duas. Deve reconhecer-se uma coicidência entre contratos
unilaterais e gratuito, assim como entre contratos bilaterias e onerosos. Admite a
doutrina maioritária a possibilidade de contratos unilaterias a título oneroso,
apontando-se o caso do mútuo retribuído (art.1145º); e como contratos bilaterais
parcialmente onerosos é o caso da doação modal ou com encargos (art.963º).
Os contratos gratuitos distinguem-se dos onerosos considerando as atribuições
de vantagens que os mesmos envolvem, ou seja, com base no conteúdo e finalidade
do negócio.
Da distinção entre contratos onerosos e gratuitos deviram significativas
consequências práticas, como por ex., nos seguintes domínios, em que a classificação
releva: efeitos da declaração de invalidade do negócio (arts.289º, nº2 e 291º, nº1),
enriquecimento sem causa (art.481º, nº1), requisitos sobre a impugnação pauliana
(arts.612º, n1 e 613º, nº1, al.b)), etc. Em muitos outros aspectos actua a destrinça
entre contratos onerosos e gratuitos mormente quando haja que operar-se com o
intuitus personae.
A gratuitidade ou onerosidade de um contrato, que verdadeiramente se refere
às respectivas atribuições patrimoniais, pode ser encarada em relação às partes ou a
3ºs.

7.4. Contratos comutativos VS. Contratos aleatórios:

Os contratos a título oneroso, por sua vez, subdividem-se em comutativos e


aleatórios. Em relação aos primeiros, as vatagens de cada uma das partes podem ser
apreciadas no momento da celebração do contrato, visto que as correspondentes
atribuições patrimoniais derivam logo, necessáriamente, desse facto; ao passo que,
nos contratos aleatórios, as partes – ambas ou uma só – correm uma possibilidade de
ganho ou de perda, pois os respectivos efeitos (mas não os contratos em si) dependem
de um acontecimento futuro incerto, quanto à sua verificação, ou, pelo menos, quanto
à data desta.
Entre contratos aleatórios se contam o de renda vitalícia (arts.1238º e ss), os
jogos e aposta (arts.1245º e ss), o de seguro (arts.425º e ss). A aleatoriedade pode
derivar da natureza do contrato ou da vontade das partes.

7.5. Contratos reais:

Não sendo a única fonte das obrigações, o contrato é a mais importante entre
todas elas. Mas o contrato não se limita a constituir, modificar ou extinguir relações de
obrigação. Dele nascem também relações de família ( artigos 1576º e 1577º CC) e
direitos sucessórios ( artigos 1700º e ss. CC ), e dele podem nascer ainda direitos reais
(contratos reais).
Expõe o artigo 408º CC que “a constituição ou transferência de direitos reais
sobre coisa determinada dá-se por mero efeito do contrato ” (princípio geral da
consensualidade). Isto significa que, apesar do contrato ainda não ter produzido todos
os seus efeitos, a coisa transmite-se mesmo assim.
Assim, se A vender a B certa coisa móvel ou imóvel, o contrato imporá ao
vendedor a obrigação de entregar a coisa ( artigo 879º CC). Mas, ao mesmo tempo,
por força do preceito basilar contido no artigo 408º CC, a celebração do contrato
transfere desde logo, do vendedor para o comprador, o domínio sobre a coisa.
Suponhamos, para realçar o interesse prático da solução, que A vendeu certo
móvel a B no dia 1 de Novembro, devendo a coisa ser paga e entregue no dia 5 desse
mês, porque B só nesse dia a pode receber ( artigo 796º, nº 1 e 2 CC). Se no dia 3 um
terceiro (C) a furtar, danificar ou vender (porque a tinha em seu poder) a D, quem
pode reivindicar o móvel de D ou exigir de C a reparação do dano é B e não A.
Aos contratos com semelhante efeito dá a doutrina o nome de contratos com
eficácia real ou, mais simplesmente, de contratos reais.

a) Sistema português VS. sistema alemão:

São três as principais diferenças existentes entre os regimes (opostos) da eficácia


real e da eficácia meramente obrigacional dos contratos de alienação ou oneração de
coisa determinada:
 Na solução germânica, o contrato de alienação, não dispensando um ato posterior
de transmissão da posse e de transferência do domínio, mercê da sua eficácia
meramente obrigacional, torna o adquirente um simples credor da transferência da
coisa, com todas as contingências próprias do carácter relativo dos direitos de
crédito;
 Quanto ao problema do risco, no sistema da translação imediata (sistema
português), o risco do perecimento da coisa passa a correr por conta do adquirente,
antes mesmo do alienante efetuar a entrega (artigos 408º, nº1 e 796º, º1 CC ), uma
vez que os direitos reais se transferem por mero efeito do contrato, ao invés do que
sucede com a outra orientação (sistema germânico). Mas, se a coisa, por qualquer
circunstância, só depois da conclusão do contrato se transferir para o adquirente,
somente a partir deste momento posterior o risco passa a correr por conta dele;
 A nulidade ou anulação do contrato de alienação tem como consequência, no
regime tradicionalmente aceite entre nós, a restauração do domínio na titularidade
do alienante, ao contrário do que sucede nos atos de transmissão do direito
germânico, visto que este, além da separação entre os dois momentos assinalados,
imprime ainda caráter abstracto ao ato de transmissão do domínio.

b) Reserva de propriedade (pactum reservati dominii ):

O princípio da transferência imediata do direito real constitui, como vimos, a


regra dos contratos de alienação de coisa determinada (artigo 408º, nº1 CC ); mas não
se trata de um princípio de ordem pública. É uma pura regra supletiva - e não
imperativa - que as partes podem afastar, por exemplo, mediante o estabelecimento
de uma cláusula de reserva da propriedade.
A reserva da propriedade, prevista no artigo 409º CC , consiste na possibilidade,
conferida ao alienante de coisa determinada, de manter na sua titularidade o domínio
da coisa até ao cumprimento (total ou parcial) das obrigações que recaiam sobre a
outra parte ou até à verificação de qualquer outro evento.
Trata-se de uma cláusula que, naturalmente, há de convir, por excelência, às
vendas a prestações e às vendas com espera de preço.
Se reservar para si a propriedade da coisa até ao cumprimento das obrigações
da outra parte ou à verificação de qualquer outro evento, é sinal de que a alienação é
feita sob condição suspensiva - e não sob condição resolutiva.
Para que tenha efeitos em relação a terceiros, tratando-se de coisas imóveis ou
de coisas móveis sujeitas a registo, é necessário que o direito emergente da cláusula
tenha sido inscrito no registo (artigo 409º, nº2 CC ). Este artigo apresenta uma lacuna
no que diz respeito às coisas móveis não sujeitas a registo e, por isso, se a lei nada diz,
ou melhor, nada impõe a respeito destas, então estas são oponíveis a terceiros, nada
se exigindo às partes.
Tendo a alienação por objeto coisas móveis não sujeitas a registo, a reserva
vale, mesmo em relação a terceiros, por simples convenção das partes. A solução pode
lesar as compreensíveis expectativas, dos credores do adquirente e dos próprios
subadquirentes, que suponham, por exemplo , na ignorância da cláusula, pertencerem
desde logo ao adquirente as mercadorias por ele compradas, que se encontrem em
seu poder; mas explica-se principalmente pelo intuito de facilitar a concessão de
crédito ao adquirente e ainda pela possibilidade que, em regra, não faltará a um
contraente prudente e cauteloso de conhecer a real situação das coisas. Aliás, só
mediante esta cláusula ou a reserva da resolução do contrato, o vendedor poderá
recuperar o domínio da coisa vendida, depois de efetuada a entrega dela, com
fundamento na falta de pagamento do preço, dada a disposição excecional do artigo
886º CC .
Os contratos com eficácia real (quod effectum) são distintos dos contratos com
mero efeito obrigacional (quod constitutionem) também em termos de efeitos. Esta
distinção baseia-se no seguinte:
Nos contratos quod effectum os efeitos produzem-se imediatamente após o
consenso (por exemplo: contrato de compra e venda). Já nos contratos quod
constitutionem os efeitos não se produzem de imediato; é necessária a entrega da
coisa para a constituição do contrato (para que este seja válido) - por exemplo: mútuo,
depósito, comodato, penhor (...);
Assim, nos contratos reais quod effectum o sujeito possui um direito mais forte
do que aquele que possui nos contratos com mera eficácia obrigacional.
Nos primeiros, o credor tem um conjunto de mecanismos que lhe são
atribuídos pelos direitos reais, o que leva a que este tenha uma posição menos
precária do que quando só tem direito à prestação, uma vez que ele passa a ser, desde
logo, titular do direito real (proprietário).
Por outro lado, nos contratos reais quod effectum, em caso da declaração de
invalidade do negócio jurídico, opera-se a restauração do domínio da titularidade do
direito real no alienante, ao contrário do que acontece nos contratos reais com mera
eficácia obrigacional, em que não há qualquer transferência de direitos.
São contratos reais quod effectum todos aqueles que passam pela transferência
de um direito real, tendo que incidir sobre coisa específica e determinada; os restantes
são contratos com mera eficácia obrigacional.

7.6. Contratos típicos e atípicos; tipicidade legal e social:

Diz-se contrato, o acordo vinculativo, assente sobre duas ou mais declarações


de vontade, opostas mas perfeitamente harmonizáveis entre si, que visam estabelecer
uma composição unitária de interesses.

a) Contratos típicos ou nominados:

Dizem-se contratos típicos (como a compra e venda, a doação, a sociedade, a


locação, o mandato, o depósito, a empreitada ou a transação) os que, além de
possuírem um nome próprio que os distingue dos demais, constituem objeto de uma
regulamentação legal específica.
E a disciplina específica traçada na lei para cada um deles obedece, pelo menos,
a um tríplice objetivo do legislador:
i) Porque se trata de acordos negociais mais vulgarizados na prática, a lei
pretende auxiliar as partes e os tribunais, fixando subsidiariamente a disciplina jurídica
aplicável aos pontos em que, não obstante a importância que revestem, as convenções
dirigidas pelas partes são omissas com relativa frequência;
ii) A lei aproveita o esquema negocial típico de contrato típico para, a propósito
do conflito de interesses particulares subjacente a cada um deles, fixar as normas
imperativas ditadas pelos princípios básicos do sistema;
iii) Na disciplina de cada contrato típico figuram ainda normas dispositivas, que
constituem o núcleo de longe mais numeroso das disposições reguladoras desse
contrato, em larga medida inspiradas na vontade presuntiva das partes.

b) Contratos atípicos ou inominados:

São aqueles em que as partes, ao abrigo do princípio da liberdade contratual -


artigo 405º, nº1 CC - criam fora dos modelos traçados e regulados na lei. Através deste
princípio, a lei permite não só a criação de contratos diferentes dos previstos no CC,
mas também a inclusão, nos contratos previstos, das cláusulas que melhor
aprouverem aos interessados.

7.7. c) Contratos mistos:

Diz-se misto o contrato no qual se reúnem num só contrato elementos de dois


ou mais negócios, total ou parcialmente regulados na lei - artigo 405º, nº2 CC . Assim,
em lugar de realizarem um ou mais dos tipos ou modelos de convenção contratual
incluídos no catálogo da lei (contratos típicos), as partes, porque os seus interesses o
impõem, celebram por vezes contratos com prestações de natureza diversa ou com
uma articulação de prestações diferente da prevista na lei, mas encontrando-se todas
elas compreendidas em espécies típicas diretamente reguladas na lei.
Por exemplo: A cede uma locação a B, mediante uma renda global, um prédio
urbano para habitação e um prédio rústico para exploração agrícola - misturam-se no
contrato celebrado elementos do arrendamento para habitação com elementos do
arrendamento rural.

Modalidades do contrato misto:

A conjugação de elementos contratuais heterogéneos dentro da mesma


espécie, própria dos contratos mistos, pode operar-se por diversas formas. Essa
distinção é feita em três modalidades possíveis:
i) Contratos combinado: uma das partes fica adstrita a duas ou mais prestações
principais integradoras de contratos (típicos ou nominados) diferentes, enquanto a
outra se vincula a uma contraprestação unitária. Por exemplo : artigo 74º RAU - a
locação de uma casa mobilada em que o senhorio fica vinculado a duas prestações:
faculdade de gozo do imóvel e de mobília, e o arrendatário apenas fica vinculado a
pagar a renda.
ii) Contratos acoplados ou de tipo duplo : à prestação única de cada uma das
partes corresponde uma contraprestação característica de um contrato de tipo
diferente. Assim, o conteúdo total do negócio jurídico revela-se como sendo ao
mesmo tempo de dois contratos nominados. Por exemplo: A arrenda a B uma casa
para habitação num prédio (contrato de arrendamento) em troca de vigilância deste
(contrato de trabalho).
iii) Contratos mistos em sentido estrito : aqueles em que se utiliza um certo tipo
de contrato como meio ou instrumento para a prossecução de um fim diferente
daquele que lhe é próprio. Por exemplo : doação mista, a qual é na maior parte das
vezes um contrato de compra e venda - A vende a B a casa X, que vale 15.000 € por
apenas 5.000€, o que faz com que a compra e venda permita ao alienante proceder a
uma doação no valor excedente (10.000 €) beneficiando-o.
Regime dos contratos mistos:

A fixação do regime destas espécies contratuais híbridas tem dado lugar a


muitas hesitações na jurisprudência e a largas divergências de orientação na doutrina.
A doutrina distingue, assim, 3 orientações distintas:
 Teoria da absorção: alguns autores procuram saber qual seja, entre as diversas
prestações reunidas no contrato misto, a predominante dentro da economia do
negócio, para definirem pela prestação principal. Esse tipo contratual
preponderante absorveria assim os restantes elementos na qualificação e na
disciplina do negócio. Isto é, há que determinar o elemento predominante e, uma
vez delimitado, tal elemento será aplicável a todo o regime próprio do contrato tipo
a que esse elemento se reporta. Por exemplo: no contrato de arrendamento da
casa mobilada, o elemento principal é o arrendamento da casa, logo aplicar-se-ia a
esse contrato o regime do arrendamento.
Crítica: inexistência de um elemento predominante; ou mesmo quando haja
pode conduzir a resultados injustos.
 Teoria da combinação : é uma reação à teoria anterior, com o fundamento que
nem sempre é possível determinar o elemento principal do contrato. Assim, os
defensores desta teoria sustentam que se aplicam aos vários elementos as normas
dos diversos tipos contratuais. Tentam harmonizar ou combinar na regulamentação
do contrato, as normas aplicáveis a cada um dos elementos típicos que o integram.
Por exemplo: se é uma empresa transportadora que, além do transporte, se
incumbe do encargo de cobrar do destinatário o preço da mercadoria entregue,
estará a primeira prestação submetida ao contrato de transporte, enquanto que
para a segunda vale naturalmente o regime do mandato.
Crítica: a solução por vezes é insuprível na aplicação prática; pode haver conflito de
normas.
 Teoria da aplicação analógica : para os defensores desta teoria, os contratos
mistos, não obstante se aludir a eles no artigo 405º, nº2 CC , são espécies omissas
na lei, apelando assim para o poder de integração das lacunas do negócio que o
sistema confere ao legislador. É ao juiz, de harmonia com os princípios válidos para
o preenchimento das lacunas, que compete definir o regime próprio de cada
espécie.

Mas qual das teorias se deve adoptar?

O intérprete não deve entregar-se a nenhuma delas para não correr o risco de
cair em puro conceitualismo lógico-formal, que leva à inversão da ordem real dos
valores servidos pelo direito.
O primeiro passo a dar, na resolução de qualquer problema de regime
suscitado por um contrato misto, consiste em saber se na lei há alguma disposição que
especialmente se lhe refira. Pode suceder que, além da disciplina completa de cada um
dos contratos típicos, a lei fixe ainda critérios para a regulamentação dos contratos
que reúnam em si elementos pertencentes a dois ou mais desses negócios típicos.
É o que se verifica para a locação com vários fins, estabelecendo o artigo 1028º
CC algumas regras que, embora partam da ideia básica da combinação, não deixam de
introduzir-lhe limitações fundadas na vontade real ou presumível dos contraentes ou
na finalidade global do contrato. Assim, prevendo a hipótese, relativamente vulgar, de
uma ou mais coisas serem locadas para fins diferentes, manda o nº1 aplicar, em
princípio, a cada um dos fins (habitação, exercício de certo ramo de comércio, etc.) o
regime legal que lhe compete. É a consagração, na área da locação com pluralidade de
fins, da teoria da combinação como regime regra.
Consequentemente, a nulidade, a anulabilidade e a própria resolução do
contrato relativa a um dos fins, não afeta a parte restante da locação, salvo se não for
possível fazer sem arbítrio a discriminação das coisas ou das partes da coisa
correspondentes às várias finalidade ou se estas finalidades forem solidárias entre si.
Acrescenta o nº3 que, se um dos fins for principal e os outros subordinados,
prevalecerá o regime correspondente ao fim principal; os outros regimes só são
aplicáveis na medida em que não contrariem o primeiro e a aplicação deles se não
mostre incompatível com o fim principal. Aqui se consagra - SÓ para os casos
excecionais dos arrendamentos mistos em que haja a notória subordinação de um dos
fins a outro da locação - a teoria da absorção.

E na falta ou insuficiência de disposições especiais, ou seja, na grande


generalidade dos casos de contrato misto?

Sempre que o contrato misto se traduza numa contraposição de elementos


pertencentes a contratos distintos, como sucede, respetivamente, nos contratos
combinados e nos contratos de tipo duplo, deve, em princípio, aplicar-se a cada um
dos elementos integrantes da espécie a disciplina que lhe corresponde dentro do
respectivo contrato (típico). É esse o critério geral enunciado pelo artigo 1028º CC , a
propósito da locação com vários fins, e que deve, como regra, considerar-se extensivo
aos contratos mistos em geral.
Assim, se A se obriga a prestar a sua atividade, sob autoridade e direção de B, e
este lhe cede em troca o gozo temporário de certo imóvel, deve aplicar-se à primeira
prestação o regime do contrato de trabalho e à segunda o da locação.
d) Distinção do contrato misto da junção, união ou coligação de contratos:

O contrato misto distingue-se, pela sua natureza, quer da simples junção, quer
da união ou coligação de contratos.
Na junção de contratos o vínculo que prende os contratos é puramente exterior
ou acidental, provindo do simples facto de terem sido celebrados ao mesmo tempo e
entre as mesmas pessoas ou de constarem do mesmo título. Por exemplo: A manda
consertar um relógio e, ao mesmo tempo, compra outro relógio no mesmo relojoeiro.
Já na união ou coligação de contratos sucede que os contratos, mantendo
embora a sua individualidade, estão ligados entre si segundo a intenção dos
contraentes por um nexo funcional que influi na respetiva disciplina. Já não se trata de
nexo exterior ou acidental, mas de um vínculo substancial que pode alterar o regime
normal de um dos contratos ou de ambos eles, por virtude da relação de
interdependência que eventualmente se crie entre eles
A relação de dependência (que pode ser bilateral ou unilateral) assim criada
entre os dois ou mais contratos pode revestir as mais variadas formas:
 Pode um dos contratos funcionar como condição ou motivo do outro - por
exemplo: A encomenda refeições no restaurante de B, mas só as quer se B lhe
puder reservar aposentos num hotel próximo.
 Pode a opção por um ou outro estar dependente da verificação ou não
verificação da mesma condição - por exemplo: C convenciona com D comprar-lhe
ou arrendar certo prédio, optando pela primeira ou pela segunda alternativa
consoante venha a ser colocado na respetiva localidade a título efetivo ou em
regime de simples interinidade.
 Pode constituir um deles a base negocial do outro - por exemplo: E, beneficiado
na partilha que efetuou com F, arrendou a este um dos prédios integrados na massa
comum de bens, por uma renda excecionalmente baixa.
No contrato misto, pelo contrário, há a fusão num só negócio de elementos
contratuais distintos que, além de perderem a sua autonomia no esquema negocial
unitário, fazem simultaneamente parte do conteúdo deste.

8. CONTRATO E TERCEIROS

8.1. Contrato a favor de terceiros:

Diz-se contrato a favor de terceiro aquele em que um dos contraentes


(promitente) se compromete perante o outro (promissário) a atribuir certa vantagem a
uma pessoa estranha ao negócio (destinatário ou beneficiário). Em regra, a vantagem
que o 3º obtém consiste numa prestação (art.443º, nº1), mas não se exclui que
apresente outro alcance. A lei admite, ainda, que se utilize a categoria contratual para
a remissão de dívidas ou cedências de créditos, bem como para a constituição,
modificação, transmissão ou extinção dos direitos reais (art.443º, nº2).
O que se exige é que o promitente e o promissário actuem com intenção de o
contrato produzir os efeitos de uma atribuição imediata, e não apenas reflexa, ao 3º.
Além disso, o promissário deve ter na promessa um interesse digno de protecção
jurídica, de natureza patrimonial ou não patrimonial. (art.443º, nº1).
O contrato em analise caracteriza-se pelo facto de o promissário agir em nome
próprio; e também pelo facto de o 3º não ser um simples destinatário da prestação,
antes adquirir um direito de crédito ou um direito real autónomo.
Os contratos a favor de 3ºs são muito frequentes. Ex.: A faz um seguro de vida
a favor de B; C doa um prédio a D, com o encargo de o donatário realizar uma
prestação em proveito deE; F contrata com G que este pague a H uma quantia que
deve a F, a fim de F, por sua vez, se exonerar de uma dívida que tem para com H.
Em qualquer das referidas hipóteses, o beneficiário, visto que não é contraente,
tem apenas o direito à prestação prometida. Todos os outros direitos e obrigações
resultantes do contrato não o afectam, mas dizem unicamente respeito ao promissário
e ao promitente.
No comum dos contratos existe uma relação linear entre as partes. Ao invés, o
contrato a favor de 3º configura-se triangularmente, visto que, além do promissário e
do promitente, existe o beneficiário.
Chama-se relação básica ou de cobertura a que se estabelece entre o
promitente e o promissário e que serve de suporte ao direito do 3º. Tal relação define
os direitos e deveres recíprocos dos contraentes (promitente e promissário), não se
circunscrevendo ao momento da celebração do contrato (art.444º, nºs 1 e 2). Nessa
mesma relação se alicerçam as conexões entre o promitente e o 3º beneficiário
(art.449º).
Por outro lado, é denominada relação de atribuição o vínculo que liga o
promissário ao 3º. Nela se encontra o objectivo visado pelo promissário com o
contrato (ex.: extinguir uma dívida).

8.2. Contrato para pessoa a nomear:

Uma outra modalidade contratual no interesse de 3º que o CC reconhece é o


contrato para pessoa a nomear (arts.452º a 456º). O contraente, que age em nome
próprio, atribui depois a um 3º a titularidade do contrato.
Existe, com efeito, um contrato para pessoa a nomear quando um dos
interveniente se reserva a faculdade de indicar posteriormente outra pessoa que
assume a posição de parte, por ele ocupada, na relação contratual (art.452º, nº2). De
acordo com este preceito, por ex., não será lícito um contrato para pessoa a nomear
na esfera dos negócios familiares ou quanto aos negócios celebrados intuitu personae,
como a doação.
Neste tipo de contratos, e nos termos no nº1 do art.455º, a pessoa nomeada
adquire retroactivamente todos os direito e assume todas as obrigações do contrato, a
partir da realização dele.
O contrato para pessoa a nomear apresenta-se, ao mesmo tempo, como um
contrato concluído em nome próprio e em representação de um 3º a indicar, ficando
dependente da ulterior designação que o contrato definitivo se reconduza a uma ou
outra hipótese. De resto, haverá que interpretar o contrato para se apurarem os
termos exactos em que o estipulante originário se obrigou e a sua consequente
responsabilidade.
Por aqui se vê que o contrato para pessoa a nomear se diferencia do contrato a
favor de 3º. Pois, uma de duas: ou se dá uma nomeação válida e o contrato é havido
como celebrado pelo nomeado, não tendo efeito quanto ao estipulante originário; ou
não ocorre uma nomeação eficaz, e, então, trata-se de um contrato em nome próprio,
cujos efeitos se produzem na pessoa do estipulante. Pelas mesmas razões, também o
contrato para pessoa a nomear se não analisa num simples caso de representação de
um dominus a designar posteriormente.
O contrato em exame é sobretudo usado na compra e venda. A sua utilidade
prática reside no facto de, muitas vezes, ao celebrar-se um acordo contratual, haver a
necessidade de não tornar de imediato conhecida a pessoa do verdadeiro interessado,
que assumirá as obrigações e adquirirá os direitos dele nascidos.